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A DINÂNICA DOS LUGARES: REVOLUÇÃO E BÁRBARIE.

A Emergência do Período Popular da História.*

Maria Adélia Aparecida de Souza


Professora Titular da USP
Professora Convidada do Programa de Pós Graduação de Geografia UFRN
Campinas, maio de 2009.

Autoridades desta Universidade Federal do Rio Grande do Norte que


teve a amabilidade de acolher este ENCONTRO COM O PENSAMENTO DE
MILTON SANTOS, prezados colegas desta Universidade e de todas as outras
do Brasil, da América Latina e da Europa, aqui presentes, senhoras e senhores,
funcionários e estudantes potiguares, nordestinos e de todas as partes do Brasil
e da América Latina, que para aqui vieram.
É um privilegio e uma honra ter sido convidada a proferir esta
conferencia de encerramento deste belíssimo Encontro com o Pensamento de
Milton Santos e constatar, pela primeira vez, a magnitude que ele teve aqui no
Rio Grande do Norte. Fico emocionada em ver o entusiasmo e o interesse de
todos no conhecimento dessa magistral obra de Milton Santos.
Meus agradecimentos aos alunos e pesquisadores da Base de Pesquisa
nossos alunos, Jane, Pablo Aranha, Pablo Guimarães, Paulo Emilio, Markelly,
Luciana, Curioso, Belo, Diego, Iaponi, Jaqueline, Giovana e, claro, a Elaine
secretária da Pós-graduação que tanto nos ajudaram nesta caminhada. E
também a Alfredo Carvalho que se deslocou de Arapiraca em Alagoas e de
Pernambuco, juntamente com seus alunos, para nos ajudarem nesta prazerosa
tarefa de organização do Encontro.

*
Texto da Conferencia de encerramento do VIII Encontro Nacional e I Encontro Internacional com o
Pensamento de Milton Santos. Natal, 13 a 15 de maio de 2009.
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Eles são os reponsáveis pela beleza deste Encontro, sob a batuta do


maestro Aldo Dantas. A dedicação e delicadeza, além da coragem com a qual
enfrentaram esta imensa tarefa e este enorme desafio de acolher a todos nesta
belíssima Natal, merecem, desde logo, nossos aplausos e nossos
agradecimentos.
Se me permitem, quero dedicar estas reflexões a todos os estudantes
aqui presentes. Tenho certeza de que encontraram neste Encontro uma estrada
longa e fértil de boas idéias e inspirações para seu trabalho de geógrafo e
mesmo de cientista social de todas as disciplinas, na instigante e
revolucionária obra de Milton Santos.
O Tema escolhido para este nosso Encontro – LUGAR/MUNDO:
Perversidades e Solidariedades é um convite a um enorme desafio
relacionado ao conhecimento geográfico do mundo do presente e um
fascinante convite ao pensar a geografia do dito mundo globalizado.
Este tema do Encontro e o desta minha conferência colocam em
processo um diálogo multidisciplinar na busca de uma transdisciplinaridade
que tem no território usado e, por conseqüência, no lugar – pois é nele que o
território se dá pelo uso – seu ponto de convergência. Território usado 1,
sinônimo de espaço banal, espaço de todos os homens e mulheres, de todas as
instituições e de todas as organizações. Usos que se dão como vida social,
coletiva, através das solidariedades que se gestam nos aconteceres que
qualificam e calibram os lugares2.
Trata-se, sem dúvida, de um novo olhar sobre o espaço do homem,
sobre a Geografia Humana em sua expressão mais pura.

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Território usado, significado que se contrapõe àquele de território, que contém a idéia de espaço palco,
espaço inerte. O território usado é ativo, pois dinamizado pela vida dos lugares e todas as suas contradições,
expressas nas reações e resistências aos aconteceres que neles se dão.
2
Lugar, espaço do acontecer solidário, na definição proposta por Milton Santos.
3

Território usado e lugar, expressos pela existência e pelas


circunstâncias, como nos ensinam Sartre e Simone de Beauvoir, mestres da
nova racionalidade da existência, da política e da emoção, ingredientes
essenciais da liberdade. Lugar que dá sentido a existência da vida das pessoas,
das organizações, da História. A História se dá concretamente nos lugares.
Na proposta de Milton Santos o lugar se dá então como PRESENTE,
como objetivação da Geografia, como ATUALIDADE, ou seja, como passado
e presente. Para os geógrafos, espaço como presente que absorve o passado
como forma visível e como paisagem.
Território usado e lugar, criadores dessas circunstâncias que vão além
fronteiras – a batalha infinda entre a revolução e a barbárie, aqui considerados
como pares dialéticos, animadores desta reflexão na perspectiva de uma
Geografia Renovada, como costumo designar, pois se constitui numa releitura,
sempre, da obra de Milton Santos.
Razão e emoção, planos existenciais da sociedade, possibilitando usos e
abusos no território. Criando novas racionalidades e contra-racionalidades,
mas jamais a barbárie. A nova racionalidade no uso do território tem a ver com
a nova noção de limite e, evidentemente, com a dinâmica dos lugares e o
conceito de região, outrora fundamento da Geografia.
Hoje, no entanto esta nova racionalidade precisa lidar com a emoção,
pela inserção do futuro em nosso cotidiano e de um limite perceptível apenas
por ela. Impossível lidar com racionalidade, mesmo na ciência, quando se trata
de refletir sobre o futuro. Para isto não há racionalidade possível, na
perspectiva deste mundo voraz e inesperado. Apenas a ação da emoção pode
envolver o futuro, o seja, estar preparado para encará-lo, pois ele chega cada
vez de forma mais rápida. Eis um significado importante da globalização.
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Não se trata aqui de uma Geografia da Percepção, coisa que não existe
na nossa perspectiva epistemológica, mas da percepção das materialidades
territoriais fundamentais a existência humana, pela emoção. Sei o que quero,
sei de que preciso e sei também que hoje isto é inatingível. Mas acredito que
seja possível obtê-lo. É esta força alimentada exclusivamente pela capacidade
de acreditar no futuro, que aqui denomino de razão emocional, ingrediente
maior da nova razão prática, não mais tão diretamente associada a razão
material. Este é também o fundamento da nova POLITICA.
Assim se descobre a liberdade, para além da racionalidade, para além
dos limites territoriais, geográficos. Assim se constrói a liberdade, grande
lição que a obra de Milton Santos nos dá com este diálogo entre a revolução e
a barbárie no seu tratamento pela disciplina geográfica.
O território usado, campo minado pela existência, tanto suporta
emoções radicais propiciadas pela guerra, quanto a radicalidade do afeto, do
sensível, da existência, propiciadas pelas solidariedades gestadas,
especialmente no campo da sobrevivência, pela grande maioria de homens
vivos no Planeta. O que conhecemos nós os geógrafos hoje sobre a construção
dos lugares, dos aconteceres e das solidariedades no mundo pobre?
Emoção e comunicação elementos centrais na configuração dos lugares
no mundo de hoje, esse espaço do acontecer solidário sedimentado pela
cultura, manifesto pela saudável e corajosa coexistência que dignifica os
homens pobres e lentos do planeta, que à partir dos lugares, pela emoção,
constroem o futuro do mundo e processos ainda bastante desconhecidos das
ciências humanas e sociais.
Para elas um duplo desafio se apresenta: primeiro ter a coragem para a
produção de novos paradigmas e segundo aventurar-se no conhecimento do
mundo novo. Sabemos todos que são poucos os colegas que hoje se atrevem a
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enfrentar esses desafios e também se aventurarem no “perigoso” trabalho de


campo requerido pelos temas centrais de preocupação da sociedade
contemporânea. Velhos temas que preocupam a humanidade, mas que
alcançaram dimensões extraordinárias desafiando, portanto, nossa imaginação:
o desemprego, a fome, a violência, a segurança pública, enfim a busca
incessante de uma justiça socioespacial.
Como diria Milton Santos, neste sentido, ter a coragem de buscar
“renascer através da coragem civil de que falara Wright Mills, o homem como
projeto de Sartre, o individuo disposto a utilizar plenamente a sua vocação de
liberdade”. Isto, claro, depende de cada um, da liberdade interior de que cada
um é capaz de usufruir conduzindo-o a uma ação, disposto a enfrentar
barreiras. Disposto a ser livre.
Modo geográfico de, juntamente com todos aqueles que aqui
trabalharam nestes dias do Encontro, buscar as convivências no diverso, ali
onde a revolução se constrói no plano das idéias que se faz semente de um
projeto generoso de futuro para a humanidade. Esta é uma tarefa da qual os
geógrafos sempre tem participado com seu saber.
Tanger o futuro superando territórios, barreiras sociais, políticas e
econômicas.
Como se vê por esta breve introdução, a instigante obra de Milton nos
coloca, quando bem compreendida, em cheio no campo do pensar, da política,
do presente e do futuro. Ou não seriam os problemas imensos que a
humanidade atravessa hoje passível do estudo geográfico?
Imagino o que os geógrafos poderiam dizer sobre a polêmica gripe
suína que às portas de uma pandemia, assusta o mundo todo. Ou isto não seria
um tema de interesse do geógrafo e da geografia.
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Não seria esse um grito do território, pois ela tem origens detectadas e
bem específicas segundo artigos de jornalistas e intelectuais críticos
inconformados com a unanimidade da mídia e sua tentativa de despolitizar e
abafar o processo de compreensão desse novo “evento” 3 cujo significado se
aplica em cheio a dimensão LUGAR/MUNDO suscitada pela discussão
central deste nosso Encontro?
Outros exemplos intrigantes de eventos e processos que caracterizam
estes tempos presentes são também objeto de estudos geográficos. Poderíamos
citar alguns, que dizem respeito à dinâmica dos lugares e da vida cotidiana,
como por exemplo: o mundo virtual e o uso do território revelando a
esquizofrenia do lugar (das lanhouses e da subserviência especialmente dos
jovens ao computador...), a mercantilização do corpo, a servidão ao dinheiro
puro pelo consumo desvairado e o uso do território.
Como podemos estudar os shoppings, esses objetos técnicos, fora da
usual perspectiva antropológica, sociológica ou econômica, reforçando a sua
compreensão geográfica, desvendando através do método a indissociabilidade
contraditória entre sistema de objetos e ações, portadores de aconteceres
perversos e segregadores? Que método construir para, além dos usuais
esquemas analíticos, compreender esse objeto, templo do mais terrível dos
fundamentalismos contemporâneos – o CONSUMO - , simbiose perfeita entre
a realização LUGAR/MUNDO, no presente?
Lugares novos que se forjam exigindo um esforço intelectual maior, por
exemplo, dos geógrafos urbanos que insistem em conhecer a urbanização com

3
“Um evento é o resultado de um feixe de vetores, conduzido por um processo, levando uma nova função ao
meio preexistente. Mas o evento só é identificável quando ele é percebido, isto é, quando se perfaz e se
completa. E o evento so se completa quando integrado ao meio.” (SANTOS, 1996: 76 e 77). Fomos sempre
ensinados a limitar o conceito de evento a simples funcionalidade, tão cara aos geógrafos urbanos, aos
urbanistas e suas razões simplesmente funcionalistas.
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suas tipologias obsoletas que não resistem a voracidade e a velocidade do


mundo de hoje.
E o que teriam os geógrafos a dizer sobre a crise mundial? Esta crise
que se apresenta aos olhos do mundo como sendo verdadeiramente global?
Crise séria sim do sistema financeiro internacional – logo das empresas
transnacionais e seus associados – colocando a nu a imoralidade do
funcionamento do dito terciário e quaternário mundiais, com implicações no
uso do território e na dinâmica dos lugares.
Não poderia isto ser denominado também de revanche do território,
uma contra-racionalidade manifesta pelo funcionamento do uso habitacional,
voraz, empreendido pelo sistema financeiro americano de financiamento da
casa própria com todas as intermediações estratégicas por ele definido? Isto é,
então, apenas um assunto de economistas e financistas? Porque não somos
chamados a emitir opiniões sobre o funcionamento do mundo, quando o
estudamos desde que somos disciplina acadêmica, há mais de um século?
Sendo o território usado uma categoria ativa de análise social, ele reage a
crises. O que temos a dizer sobre isto? Estamos epistemologicamente
preparados para as análises do espaço geográfico do presente, sintonizados
com a pressa em que o mundo se dá?
E, no Brasil, que explicações geográficas temos para a crise, quando
hoje, aqui, esses mesmos setores florescem, por uma decisão política do
governo, impondo uma outra racionalidade ao uso do território, com sérias
implicações na vida das cidades? Lá a crise habitacional gerando como um
jogo de dominó uma dita crise mundial, porém aqui, a economia ainda não
entrou em derrocada. Sociedade e territórios resistentes à tsunami do
capitalismo mundial, cujo movimento insiste em não se dirigir para o
Atlântico Sul, mas apenas para o Leste do Atlântico Norte!
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O Plano de Habitação, recentemente lançado pelo governo brasileiro,


constituinte do PAC – Plano de Ação Concentrada, independentemente do
projeto político que ele carrega, bem como tantos outros projetos que ele
contem resultam na implementação de racionalidades ao uso do território
brasileiro, à dinâmica dos lugares, pois eles implicam na intensificação e
ampliação do meio técnico, científico e informacional. Alguns de nós,
inclusive manifestaram-se sobre isto neste Encontro, com auspiciosos
esclarecimentos sobre o uso do território brasileiro pelos sistemas de fluidez.
É no âmago destas questões contemporâneas que a Geografia busca
seus temas de reflexão, como uma disciplina preocupada com o
desvendamento do presente numa perspectiva de participar da discussão sobre
a construção do futuro.
A obra de Milton Santos nos coloca em cheio nessa discussão com as
proposições metodológicas que nos traz.
Voltemos à dinâmica dos lugares, aos eventos e ao alargamento dos
contextos, como dizia o Mestre, para inserir a discussão sobre a revolução
versus barbárie.
Falamos, portanto, em tempos ditos de globalização, tempo de ação das
empresas amparadas pelo Estado, tempos da voracidade do dinheiro puro, do
mercado global e da exacerbação do consumo. Precisamos examinar os
territórios, as geografias que surgem dessa nova dinâmica do mundo, Para
muitos, vivemos as vésperas do apocalipse e da barbárie. Para outros como
nós, uma outra racionalidade, um mundo de resistência que se forja nos
lugares, à partir dos debaixo. Já iniciamos um processo de vida pautado na
existência de uma outra globalização, de luta contra o globalitarismo.
Mas que argumentos temos para defender estas idéias?
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O que me estimulou a esta reflexão é minha perplexidade diante


especialmente de alguns intelectuais da esquerda que animados com a crise,
mas desprovidos de método capaz de compreender a dinâmica do mundo do
presente onde a observação sobre o território usado e a dinâmica dos lugares,
espalham o conceito de barbárie para caracterizar estes tempos de crise.
A Geografia permite um outro olhar sobre o presente e o surgimento de
um processo que à partir dos lugares, da natureza dos seus aconteceres sejam
eles quais forem homólogos, complementares ou hierárquicos e das
solidariedades que se forjam revelam usos distintos do território e a
possibilidade que efetivamente existe, da maioria não ter sido seduzida pela
voracidade do presente. Como conseqüência exercita sua disponibilidade, a
partir do lugar onde vivem segregados, desempregados, escolhendo aquilo que
lhes interessa adquirir ou usurpar, oferecidos pela modernidade e, dar a tudo
isto, um novo sentido. Isto nos sugere a generosidade da construção também
de uma compreensão fundamentada fora da ética burguesa, incorporar aqui o
significado daquilo que Milton Santos denominava de flexibilidade tropical.4
Começam por definir seus territórios, não sendo todos eles, nem a
maioria, subalternos a marginalidade ou ao narcotráfico como propugnam
analistas apressados, criminógenos de toda ordem. Os pobres do mundo criam
as especificidades de seus lugares – caso contrário para que serviria a cultura –
definem normas, códigos éticos, novas solidariedades, das quais nós os pobres
mortais da classe média e alta estamos completamente alijados e mais,
apavorados com a possibilidade dessa existência.
Em seus lugares, nos lugares dos pobres a informação chega, a
comunicação se dá, mas os valores são outros. Aí está o fundamento daquilo
que Milton Santos denominou de Período Demográfico ou Período Popular da
4
A flexibilidade tropical é o processo através do qual
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História, conceito que prefiro usar, malgrado os cuidados tidos por Milton,
quanto a sua utilização. Mas é realmente disto que se trata. A maioria
crescente do mundo, por razões diversas, tomarem consciência de que também
são sujeitos da história, que tem direitos ao uso do território, que possuem
identidades a serem territorial e localmente defendidas!
Tudo indica não haver espaço para a subjetividade exacerbada – o uso
do território e a dinâmica do lugar não o permitem – mas forçando ainda que
de forma violenta por vezes, a experiência da convivência no diverso.
Na pobreza, por mais que a sociologia tenha insistido, não há
homogeneidade, mas ela implica necessariamente na sociodiversidade,
atributo deste período técnico, científico e informacional.
Mas não é a sociologia quem nos ajuda a compreender este novo
processo, mas sim a filosofia, especialmente a Filosofia das Técnicas tão cara
ao nosso homenageado. As tragédias humanas geradas pela pobreza unem os
pobres e, por mais contraditório que isto possa parecer, definem novas
solidariedades, constrói lugares que assustam os donos do mundo do presente!
Esta contemporaneidade, também chamada de modernidade trouxe um
novo conceito e modo de viver, mas não deixou fechada, acabada, as
possibilidades de como utilizá-la e quem tem o direito de usar suas benesses.
Daí o conceito de pós-modernidade não se aplicar jamais ao raciocínio
5
geográfico. Caso contrário como explicaríamos as rugosidades? Como
justificaríamos a denominada Geografia Cultural? A legitimação das classes
sociais, em seu processo de apropriação dos benefícios trazidos pela
modernidade é que se transforma neste tempo presente. Cada vez mais a
classe média que durante um século legitimou a modernidade começa, enfim,

5
rugosidade conceito forjado por Milton Santos
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a tomar consciência do seu processo de empobrecimento e inacessibilidade as


benesses crescentes da modernidade de hoje, do tempo presente.
E, é nesta perspectiva da resistência a partir dos lugares, pelas práticas
cotidianas especialmente nas periferias do mundo, como sempre alheias a tudo
o que é de ponta relativamente ao acontecer do modo de produção vigente,
que a barbárie é rechaçada.
Não se pode chamar uma outra forma de vida, um outro modo de vida
que aliás diz respeito a maioria do mundo, de barbárie. Esses territórios
“bárbaros” agitam-se, pois onde vivem os pobres, em um território ativo, a
resistência se dá, cotidianamente para sobreviver. Não seria este, em nosso
pais o motivo central da ação do MST – Movimento dos Sem Terra e tantos
outros movimentos pautados na luta ao direito de uso do território?
Esta é uma potencialidade e uma vantagem comparativa imensa,
desculpem-me os economistas, para a construção de um novo paradigma
civilizatório 6 centrado na nova racionalidade do mundo que é política e não
mais apenas econômica.
É nesta perspectiva que temos o verdadeiro embate entre um novo
conceito de revolução, à partir dos de baixo, fundamentado na prática política,
pois em uma forma particular de receber e lidar com informações que lhes
chegam pelos meios técnicos disponíveis e transformar tais informações em
um sistema de comunicação novo e que lhes diz respeito. Com isto os pobres
refundam a política, a partir dos seus lugares.
Estes processos se apóiam na criatividade como um processo coletivo –
daí a importância da flexibilidade tropical – de salvação da vida, seu maior
valor ético, bem distante daquele propugnado pela ideologia do mercado
global, este valor maior da classe média e das elites.
6
Edgar Morin nos alerta para a necessidade de construção de um novo
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As práticas culturais de toda ordem, realizadas pelos homens pobres e


lentos do planeta, nos lugares onde vivem, como diria Milton Santos, se
constituem numa ação resistente, revolucionária.
O uso da técnica, da informação e da comunicação disponíveis lhes
permite criar uma teoria própria, uma compreensão de mundo, ainda quase
que solitariamente. É aqui que emerge a importância do intelectual público,
idéia sobre a qual nosso homenageado tanto insistiu em seus últimos anos de
vida, estimulando-nos a nos preparar para esta grande aliança com os pobres
do planeta.
Um outro mundo é sim possível e ele se forja nos lugares, na discussão
e resistência sobre os processos de uso do território e sua apropriação, aliada a
possibilidade que todos hoje podem ter de conectar-se com o mundo pela
disponibilizaçao cada vez maior dos sistemas técnicos, especialmente
daqueles relacionados a difusão planetária da informação e da comunicação.
Estes são ingredientes da REVOLUÇAO não da barbárie.
E a Geografia, está preparada para todos estes desafios?
Quem viver, verá.