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Equilíbrio

Impossível

Marco Antônio Struve


1998
Equilíbrio Impossível

Eu vou correndo...

Eu vou correndo
Para as estrelas
Correndo pela Lua
Correndo sobre o mar
Da meia noite
Sob o sol
Do meio dia.

Mas não vi
Pelo caminho
A Lua dos astronautas
Apaixonados
Nem as conchas
As estrelas do mar brilhando
Nem o joão-de-barro
Que mora em frente
Da minha janela
Cantando o sol.

Sigo ocupado demais


Correndo para as
Estrelas.

Marco Antonio Struve Página 2 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Talvez não haja mais... ( Escrever)

Talvez não haja mais


O que escrever.
Menos ainda
O que rimar

Talvez não haja mais


Por quem se apaixonar,
Nem por-do-sol, mar
Olhar, estrelas, cais.

Talvez não haja mais


Com o que preencher
Uma branca folha de papel:

Quem sabe algumas casas enxaimel.


Um pouco do verde antigo,
Um rio, uma ponte,
Algumas lembranças.

( Indaial, 13/11/97)

Marco Antonio Struve Página 3 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Recolher as palavras... (Ler)

Recolher as palavras
Esparsas pelas folhas
E formar um sonho.
Um filme.
Um quadro novo,
De cores novas.
Palavras novas.
Sentir novas vidas
Novos olhos
Para ver novas palavras
E outras palavras
Escritas.

Caçar sentimentos
Diversos
Escrever um verso
No reverso do papel
Azul da tela
Dos teus olhos
E ler estrelas
E recolhe-las
Em novas palavras
Numa outra folha de papel.

(Indaial, 13/11/97)

Marco Antonio Struve Página 4 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Agora

Não quero a manhã


Tenho pressa.
Sou agora.
Amanhã não existe
Amanhã será tarde.
Quero o verso repente
E a rosa.
Quero o sol mais triste
Quero o sal que arde
No tempo presente
E a rosa
Que nasce cada manhã
Num verso
Que o poeta estragou.
Quero a hora
Espora
Que o tempo cravou me
Com ponteiros dourados.
Tenho pressa.
O tempo acabou-se.

( Indaial,13/11/97)

Marco Antonio Struve Página 5 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

O Limite do Impossível ( Pintar)

(Para o grande pintor J. Nunes)

O que é que digo:


A luz se acabou
Na minha mão
Para nascer de novo
Em outras cores.

Girassol suspenso no ar
E quantas assas partidas.
Desligo meus olhos.
O girassol flutua
Embrulhado num jornal
De Domingo.

Pelas pupilas do gato


Vejo o rio.
Pressinto o mundo.
O boi se alimenta do azul
No meu retrato.
Persigo o quase perfeito.
Sigo o traçado
Do ontem que se desmancha
Num mar de cacos de vidros.
Estou neste navio que quer ficar no cais
Como magnólias ao luar.
Não me conte o negro
E as formas impuras
De um cadáver triste.

Foi-se o equilíbrio
Impossível
E o diamante indócil.

Dou-lhes o que não tive:


As formas das cores

Marco Antonio Struve Página 6 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

E os cavalos alados
Que cegos vemos agora
Sobre o sol
Que já não existe.

E o trem na estação
Vendo o céu fugir
Escorrendo do pincel
Correndo pelo pelo chão.
O horizonte esta contido
Neste ar sem matéria.

Esta decidido:
Fecharei as janelas e frases
Que não me servem mais
Mas guardarei a esperança
Do traço...

(Indaial,13/11/97)

Marco Antonio Struve Página 7 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Estranha Desordem

Sou um jogo de espelhos


E todas as imagens do olhar.
Vivi uma vida estranha e rápida,
Como as pessoas olhando umas às outras.
Recolhendo detalhes em guardanapos
E folhas voando ao vento,
Na estranha desordem das tempestades,
Escadas rolantes e lanchonetes.

Eu queria tocar a musica


Das andorinhas,
Mas haviam sempre as coisas concretas,
Os números,
As somas das frações
Da luz no meio da sala.
Eu queria o silencio.
Eu queria que os sons me chegassem
Como um barulho de água,
Como um murmúrio de asas abertas,
Mas havia sempre o choro das crianças
E a fumaça dos cigarros
Vagando pelo meio da sala
E o vinho bebido nas taças
Para embaraçar as pessoas,
As gaivotas de cristal e o vento.

( Indaial,14/11/97)

Marco Antonio Struve Página 8 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Valsa da Esquina

( Ao Sábia que canta toda


manhã na minha janela )

Só um pássaro
Pousado num fio de luz
Ilumina a cidade
E canta
A partitura
Que se repete sempre
E não termina nunca

E subitamente,
Atento a essa beleza
O sol desperta.

(Indaial, 15/11/97)

Marco Antonio Struve Página 9 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Andorinhas...

Andorinhas
Nos aguaceiros de verão
Traçam elipses oblíquas
E desaparecem
No céu que escurece
Abraçado à minha alma.

Longe do longe
Estás sempre em despedida
E eu,
Sempre atrás do teu aceno,
Nos suspiros do vento
Despejo minhas lágrimas

(Indaial, 15/11/97)

Marco Antonio Struve Página 10 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Tenho os olhos cansados de paisagens... (ler)

Tenho os olhos cansados de paisagens


E os ouvidos repletos
De musicas não ouvidas
E risos não ridos
E histórias não contadas.

Tenho o peso das paginas lidas


E o cansaço de quem já viveu,
Ou morreu,
Milhares de outras vidas
E bebeu todas as taças de vinho
E talvez ainda esteja bêbado de amor.

Tenho esta angústia


Dos que sentem a paz
Dos dias de chuva,
Dos gestos simples,
E a imensa alegria da vida
Virando a página.

(Indaial, 15/11/97)

Marco Antonio Struve Página 11 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Talvez o vento saiba dos meus passos... (Amar)

Talvez o vento saiba dos meus passos,


Tanto quanto tu e as areias desta praia
Que conservam sobre ela vagos traços
De tudo que meus olhos mal recordam.

Talvez tu saibas dos meus passos,


Tanto quanto as ondas
Cujas cristas não transportam
Senão o sal que escorre dos meus braços.

Talvez o vento saiba dos teus passos,


Mais que aquilo que ficou esparso sobre a cama
Desfeita nos quartos de motel

E nos beijos e caricias nas areias frente ao mar.


Talvez se lembre o vento a duração dos abraços
E a cálida intenção de um coração em pedaços.

(Indaial, 15/11/1997)
(Indaial, 30/12/1997)

Marco Antonio Struve Página 12 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Despedida (amar)

Que não se percam nunca


Os dias construídos
De luz e cor.

Nem se lamentem as águas


Que lavaram espantos
Em movimentos vivos

Um pedaço de ti
Guardei aqui
Eterno direito
De amor e de nós.

(Indaial, 15/11/1997)

Marco Antonio Struve Página 13 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Espalho letras e palavras...

Espalho letras e palavras


Pelas folhas brancas do papel
Na esperança de colher
Frases e poemas novos
Confiante como o semeador
Que espalha suas sementes
Pelos campos,
Na certeza da próxima colheita.

Não planto a utilidade das batatas


Ou a beleza da couve-flor
Revolvo com meu arado
A veia livre da canção,
Recolho o vôo dos pássaros
Nos campos de arroz
E as alamandas amarelas
No muro da minha casa.

Não colho a doçura da beterraba


Ou o azedo das laranjas,
Extraio o amarelo das cenouras
E o vermelho das papoulas
Para pintar um novo sol,
Escolho o sábia, por meu cantor,
Algum azul e uma estrela perdida
Para colorir meu dia e meu céu.

Indaial 03/01/98

Marco Antonio Struve Página 14 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Eu estou aqui sentado...

Eu estou aqui sentado vendo o sol se pôr


Tentando escolher o nome das cores
E desvendar a diferença dos tons de laranja
Com que o céu esta se tingindo.
Coleciono as 16 milhões de cores deste dia
No meu coração e nas minhas retinas
Amanhã não serão mais as mesmas cores
As mesmas nuvens, as mesmas andorinhas
Nada mais foi igual ao pôr-de-sol de hoje,
Amanhã recolha o seu. Este aqui foi meu.

Indaial 03/01/98

Marco Antonio Struve Página 15 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Solto a voz...

Solto a voz no chuveiro


Já não posso parar
Até que um Pavarotti apavorado
Vem correndo me avisar
Que José saiu as carreiras
Num plácido Domingo de sol
Para não me ouvir cantar.

Me perdoem Rossini e Verdi


Vou continuar assassinando notas
E canções apaixonadas.
Se ao menos pudesse
Negar esta paixão desafinada
Destinada a morrer alagada,
Afogada no chuveiro.
Mas a musica sai de mim predestinada
A ser emoção, e só, mais nada.

Indaial, 03/01/98

Marco Antonio Struve Página 16 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Olho de novo teus olhos...

Olho de novo teus olhos castanhos


Tuas unhas vermelhas, da mesma
Cor do batom, nos teus lábios.
Olho de novo teu sorriso inocente.

Ouço de novo o teu riso de criança


Se divertindo com tudo e espalhando
Aquela alegria que não se apaga,
Não se recolhe como o sol no fim do dia.

Queria poder rir este teu riso gostoso


Esse teu riso menina, teu riso mulher.
Mas só posso rir com teus risos

Só posso rir com teus lábios vermelhos


Quando não vejo teus olhos castanhos
E sinto tuas unhas vermelhas cravadas no beijo

Indaial,03/01/98

Marco Antonio Struve Página 17 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Alguma poesia

Eu tenho tantas mortes


Que por isso não morro
Tão facilmente como os dias
Que se acabam nas montanhas.

Eu tenho tantos cortes


Que uso os versos para cicatrizar
Feridas e despedidas
Que doem hora após hora,
Dor após dor,
Sol após sol,
Marcando meu tempo,
Compasso de estrelas,
Com o passo das esferas,
Com passos de mar
E passos na areia.

Eu tenho tantos amores


Que por isso vivo
De esperanças e alegrias
E olho o mar
Com seu silencio vazio
E seu tempo implacável,
De tantas coisas que tive
E não tenho mais
Sobrou um vago olhar
E alguma poesia
Dispersa em folhas de jornais.

Indaial 10/01/98

Marco Antonio Struve Página 18 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Eu deveria escrever poemas...

Eu deveria escrever poemas concretos


Com temas corretos e definidos
Mas o coração insiste em atravessar,
Desregrar os temas e os tempos.
Colocar-se entre as temas cotidianos
E as obrigações protocolares.
Me deixando apenas o silencio
De uma folha de papel
E o barulho da chuva que cai.

Indaial. 10/01/98

Marco Antonio Struve Página 19 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Notícia

Músico morre em silencio


Ao lado da banca de jornal
Em plena Sexta feira de temporal
Na cidade maravilhosa
Sob o olhar do Cristo Redentor.

A música calou-se mais triste,


O dia ficou mais silencioso
A chuva choveu mais forte e lavou o sangue
Espalhado pelas notas
Nas pautas desenhadas pelo chão.

Indaial, 10/01/98

Marco Antonio Struve Página 20 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Sonho

Ao despertar trago as marcas


Das noites rabiscadas em sonhos.
Trago a lembrança de outros mundos,
Trago a tatuagem estampada na pele
Fina da língua em forma de estrela,
Em forma de espada, coração.

Trago os cemitérios e os mistérios


Na escuridão da luz apagada.
No soluço das lágrimas afogadas
Pela raiva que se espalha
Que se espalha no meu olhar

Trago a insônia que maltrata


Os corações desenhados no papel,
A dama de copas e o rei de espadas
E as chamas apagadas
Em nosso rosto.

Indaial 12/01/98

Marco Antonio Struve Página 21 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Notícia II

Ouvi falar de morte,


Mas não acreditei
Na possibilidade de tanto ódio,
Tanto sangue desperdiçado,
Entre irmãos de pátria.
Não é fácil viver entre os insanos
Mais difícil é ver tudo imóvel,
Impotente espectador televisivo,
Estarrecido ante o horror inumano
De assassinatos fratricidas, e
Gritos de almas dilaceradas,
Dor e mães com filhos e vidas
Despedaçadas.

Indaial, 13/01/98

Marco Antonio Struve Página 22 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Tempestade

Vento sul
Que corre sobre minha pele
Trazendo outra esperança
Nova,
Trazendo outro silêncio
Agudo,
Trazendo outra lua
Clara.

Vento sul
Que passa sobre minha pele
Trazendo o perfume das
Tangerinas, e
O dourado sol de primavera e
O brilho das auroras.

Vento sul
Que corre sobre minha pele
Deixa-me minha recordação,
Esta cativa ave
Que desenha minha vida
Como o sábia
Desenha o sol da manhã.

Indaial 19/01/98

Marco Antonio Struve Página 23 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Paisagem

A manhã se espalha docemente


Junto com a brisa do mar.

Sob as árvores
A barraca insuflada como
Um veleiro pronto a zarpar
Contempla a paisagem.

Um silêncio ondulado.
Um grupo de formigas
Agitadas conspiram
Ataques e revoluções.
Uma abelha caminha
Tranqüila de flor e flor.
Um caracol suspira e se
Afasta aturdido e inquieto
Desta confusão
De latas de cerveja e
Restos de carvão,
Enquanto alguém reclama
Da dureza do colchão,
Dos sapos e mosquitos,
Esses pobres cantores noturnos, e
Do ronco dos vizinhos, e
Da bebida bebida demais, e
Ria o riso gostoso dos amigos
Despertados pelo calor do sol
Em uma manhã sem chuva, e
O cheiro doce da relva
Inda molhada de orvalho.

O caracol suspira e
Afasta-se lentamente
Olhando a paisagem,
Inquieto e aturdido,
Vai acampar noutro lugar.
Indaial 20/01/98.

Marco Antonio Struve Página 24 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Dúvidas

Um vago tremor de estrelas


E a dor de minha tristeza
Vão molhando as recordações
Que a aurora vem portando
Em suas cores e dúvidas.

Se o coração nos engana


Como confiar ao amor
A nossa vida? Quem há
De consolar-nos desta dor?

Se o azul é um sonho,
Que será da esperança
Dos poetas? Quem há
De defende-los das flechas
Do coração? Quem irá
Lembrar-se das coisas das
Quais ninguém mais se recorda?

Se a morte é a morte
Que será dos poetas? E
Das coisas esquecidas?
Quem se lembrará da primeira aurora
E do calor da palma de minha mão?

Indaial, 20/01/98

Marco Antonio Struve Página 25 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Canção da tarde.

Vou a caminho da tarde


Deixando
Um silêncio despedaçado
Por risadas de sonhos novos
E brilhos de estrelas
Carregados de sol.

Vou levando novas canções


Por companheiras de viagem
E algumas lembranças
Antigas, dispersas
Em folhas de cadernos
Com desenhos coloridos

Conservo toda a esperança


E o brilho do olhar.
Hoje sinto no coração
O sonho das estrelas
E minha canção de
Possíveis infinitos.

Indaial, 21/01/98

Marco Antonio Struve Página 26 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Cigarra

Cigarra, estrela sonora,


Sobre as campinas.
Ilumina o verão
Com o som da tua voz.

Amiga das aves canoras,


Das rãs e obscuros grilos,
Alegra o trabalho das formigas,
Envolve com teu canto
Um ar branco dormente
E todo o peso do azul.

Queria como tu
Poder morrer de cantar
Rimas alegres,
A esperança imensa,
O mar que amo tanto,
O vento que desejo,
O sonho e o tempo,
A persistência em meu coração
E o prenuncio
De uma chuva de verão.

Indaial, 21/01/98
(38 °C à sombra)

Marco Antonio Struve Página 27 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Amanhã

Eu sempre fui intranqüilo.


Sozinho com meu amor desconhecido,
Eu dizia nas noites a tristeza
Do meu amor ignorado.

Que tristeza tão séria e comovida.

Sem nova paixão, sem prantos


Se recorda doce o coração
Dos dias já distantes.

Quem será que colhe os sorrisos


Que eu punha em teus lábios?
Quem oculto em teus sonhos
Vela o impenetrável romance
Entre o morro azul
E a lua de maio?

Eu preso pela fina teia do tempo


Passei pelo jardim e perdi meu anel.

Ela não era mais um enigma,


Uma mulher que adivinho
Sobre meu leito intacto.

Cheguei a linha onde cessa


A nostalgia. Se acaba tudo.
Mas fica a razão, a lembrança e
Uma estrela na tarde.

Indaial, 22/01/98

Marco Antonio Struve Página 28 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Manhã

Amanhece depois da chuva noturna.


Uns poucos tímidos raios de sol e
O canto de algumas aves no telhado.

Choveu aquela chuva mansa, silenciosa,


Sem tormentas nem ventos, pacifica,
Com um vago segredo de ternura,
Que derrama vida sobre as flores
E na alma alguma tristeza do que não se sabe.

A ilusão inquieta de uma manhã nova,


E o otimismo convertido em diamantes
Nos cristais turvos, nas gotas mortas.
Olhos de infinito que fitam com o sagrado
Espírito dos mares o azul e o branco
Que lhes serviram de matéria, como
Poetas que viram e contaram
O que a multidão dos rios não sabe, e
A alma adormecida da paisagem.

Tenho o verde do horizonte


E um coração que corre para contemplá-lo.
Não poderei queixar-me.

Indaial, 23/01/98

Marco Antonio Struve Página 29 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Soneto

Trazes na boca tua melancolia e


A paixão faminta de beijos de fogo
Fiando nos lábios canções de ninar,
Mulher esbelta, maternal e ardente.

O cálice de teu ventre infecundo


Floresce como rosas vivas, fruto dos beijos
Cheios de silencio como a noite
E o ritmo das espumas sobre tua alma.

Ninguém mais beijará tuas coxas em brasa


E a brancura dos teus seios, alva via láctea,
Como um incendiário cheio de desejos.

És o espelho de um coração sem esperança


E a tristeza imensa que flutua em teus olhos
Ao sentir o peito já cansado e exausto do amor.

Indaial, 23/01/98

Marco Antonio Struve Página 30 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

O Beijo

Junta tua boca vermelha com a minha.


Quero que a noite fique em teus olhos e
Tua boca seja a luz para minha morte,
Quando morrer o último beijo do meu lábio.

Pinta com tua boca um céu de amor.


Oferece-me teu corpo, o divino alimento, e
O rumor de teus seios, arroio claro,
Fonte serena, caricia orvalhada.

Eu tenho sede de aromas e sorrisos.


Sede de cantares novos e sem amores mortos.
De sentir na carne o calor de teus olhares.

Eu tenho medo das folhas mortas e tristes,


Então amar-te-ei outra vez, sem culpa.
Perfurando com risos a paz da noite tranqüila.

Indaial, 24/01/98

Marco Antonio Struve Página 31 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Noturno

A luz da aurora leva nostalgias,


A tristeza da alma
E o sonho das distâncias.
A noite levanta seu negro véu
E revela o imenso cume estrelado.

A lua adormecida deixa a alvura


Serena de seu manto
Tradeado de estrelas,
Tristeza imensa que flutua,
Peregrina celeste.

A ponte com a lua rendida a seus pés,


Com o sol escondido no peito,
Vai cantando com ritmos novos,
A visão que ela teve dos tempos,
Nas noites distantes como esta,
Sem ruídos nem ventos,
Pelos turvos caminhos do sonho.

Os grilos reforçam suas cordas.


Os cães dão latidos na noite.
Os meninos já estão adormecidos
E o homem segue contando suas histórias.

Indaial, 25/01/98.

Marco Antonio Struve Página 32 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Sonho

O rio se enche de estrelas apagadas.


Sai do monte a lua com sua cara gordona.
A ponte vai dormindo, sorrindo.
Uma estrela rosada torna ridículo o horizonte.

Observo tudo cansado de ser poético.

A rã começa a cantar no rio.


Eu vôo para minha casa,
Perco-me por aquelas montanhas
Cheias de uvas verdes nas parreiras
E o doce luar de janeiro,
Na paz da noite tranqüila,
Um astro de brilho intenso.

Encontrei na manhã seguinte


Meu copo cheio de estrelas afogadas
Cravando punhais no rio.
Todos os olhos estavam abertos
E as palavras ceifavam flores
Enquanto rãs faziam bolhas de sabão.

Já é de noite. Sem nenhum vento.


Gotas claras de lua
Coalhadas de ilusão e aço afiado
Como um relógio louco cantam horas antigas.

Meus dedos desfolham o luar


Sob o claro sol do meio dia

Desperto ante a solidão


E os olhos abertos da manhã.

Indaial, 26/01/97

Marco Antonio Struve Página 33 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Os mosquitos...

Os mosquitos,
Líricos navios fantasmas,
Voam na calma do ar.
A lua, flor dos ventos,
Dispersa suas pétalas
Sobre os velhos telhados.

Os ritmos se curvam
Ante a chuva. As árvores
Meditam como estátuas
A tristeza das horas paradas
E o ruído dos pássaros.

Na tarde cativa pelas nuvens


Sobre piras de silêncio,
O sol se esconde dolente
Para cair sobre as lousas frias
Em busca de sua gloria de fogo.

O ruído da chuva nos faz amar


A manhã eterna e a flor.

Dormirei tranqüilo
Ao doce sabor do vento.

Indaial 26/01/98

Marco Antonio Struve Página 34 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Azul...

Manchadas de luas, tuas folhas talvez


Percam a ilusão da primavera.
Eu sou todo de estrelas derretidas
E transparências de ritmos invisíveis.
Sou incendiário de cantos envoltos em azul.
Finjo tristezas da tarde em cantos desprendidos
E me coagulo em incertezas e luz.
Tenho a amargura solitária em meu destino
E um coração adormecido nos crepúsculos.

Felizes os que nascem mariposas


E têm a luz do luar em seus vestidos.
Eu me dissolvo no sol e no pó do caminho.
Quisera fazer novas canções e versos
Como fazem mel as abelhas,
Sereno e simples sobre as flores.

Tenho a molhada tristeza da paisagem em que


Descansam as estrelas sobre o azul,
Porque minha esperança se adormece
E os olhos se fecham compreendendo
Todo o azul impossível,
Azul de corações e de força,
Azul de rios e de mãos
O azul de mim mesmo.

Marco Antonio Struve Página 35 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Aprendi os segredos de melancolia...

Aprendi os segredos de melancolia


Com que a água envolve as coisas paradas.
Diz-me em que remanso poderei abandoná-la
Como se abandonam as paixões velhas.

Eu só pergunto pela minha incerteza,


Talvez medites no inútil chorar do poeta,
Minha grande dor, a mesma dor das estrelas
E das palavras suaves do vento.

Lanço minhas redes na água clara.


Minhas lagrimas correm sobre as águas.
Quero sondar a fonte da minha vida.

Lanço outra vez as redes sobre minha vida,


Redes feitas de fios de esperança e nós de poesia.
Tiro uma canção antiga de paixões adormecidas.

Indaial, 26/01/98

Marco Antonio Struve Página 36 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Guarda para ti teu céu azul ...

Guarda para ti teu céu azul


Que eu pedirei emprestado
O coração de algum amigo.
Não chega minha dor
A teus ouvidos?

Enquanto todos os meus sonhos


Se enchem de orvalho
E olhos pensativos
Darei tudo aos demais
E chorarei minha paixão
Com um velho rumor
De nostalgias e sonhos.

Minha alma esta madura


Faz muito tempo e
Caem sobre meus pensamentos
Recordações vazias
De prantos e
Migalhas de beijos.

Aqui te deixo
Meu coração antigo
Vou pedir outro novo
A algum amigo.

Indaial,26/01/98

Marco Antonio Struve Página 37 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Busco o azul esmola...

Busco o azul esmola


Do céu moribundo
Fitando o sol poente
E um cêntimo de estrelas.

Já se dissolveu o sol
Na copa do monte.
É hora de partir
Esses olhos murchos
De artista fracassado
Que fitam a tarde
Desmaiada
Com um fulgor humano.

O fantasma indeciso
Da tarde partiu o horizonte,
Ecos de uma voz
Que vem de longe
Como uma corrente
De sombras após
Fitar as estrelas.
As ruas já estão vazias,
Os montes apagados
E os caminhos desertos.

Indaial,26/01/98

Marco Antonio Struve Página 38 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Eu saio nu pelas ruas...

Eu saio nu pelas ruas,


Despido de versos
Perdidos,
Buscando essa luz musical
Que percebe
O espirito das estrelas
E minha alma antiga de menino.

Quem me ensinou o caminho


Dos poetas?
A noite quieta. O arroio claro.
O rio que corre sereno.
A ponte coberta de luzes.
Os olhos vivos. O céu azul.
A dor dos amores e o
Sonho das distâncias.
Os grilos, cigarras e sapos.
Uma juventude de brisas
Loucas sobre o rio
Dando voltas pelo mundo.
A noite profunda da meia-lua.
A estrela mais antiga.
O som de um sino partido
E a antiga dor da poesia:
A dor da alegria.
A dor da verdade.
A dor da mentira.

Indaial,27/01/98

Marco Antonio Struve Página 39 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Gaivota

Compro estrelas de sonho.


Troco um pouco do teu sol
Pela minha lua inquieta,
Girassol maravilhado
Com a estrela que se
Esconde no céu.

Escorro pela janela


Desenhada entre nuvens
E o sal marinho
No teu dorso, branca gaivota
Com pequenos olhos
Brilhantes de céu.

Sinto o som das ondas


Que se movem ao sabor
De teu olhar de infinito
Sob o qual me deito
Na esperança de um belo
Dia de sol.
Encantado como o sol
Encanta o girassol,
Meu olhar se prende
Nas tuas delicadas penas
Que no céu se deslocam
E choro de saudade
Porque carrego-te comigo
No vento quente e livre.

Indaial,28/01/98

Marco Antonio Struve Página 40 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

La fora o vento bate nas portas

Lá fora o vento bate nas portas,


Aqui dentro o silêncio recolhe as folhas
Das ilusões antigas e sonhos não concluídos
Que vagueiam sem amarras dentro de mim.

As lembranças não são mais as mesmas


Que eu tinha memorizado. Mas as mentiras,
As mentiras são as mesmas com que me enganei
Quando fingi que não entendia a verdade.

Estou cansado das verdades dos telejornais.


Tenho um grito forte mas que não me basta.
A inverdade que me corrói não faz sentido.

Hoje sei que tenho apenas o que me restou,


Me despeço da verdade. Repito as mesmas
Frases, as mesmas rimas de dias atrás.

Indaial, 28/01/98

Marco Antonio Struve Página 41 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Tempo

Querer do tempo
O que ele não leva.
Saber do tempo
As marcas que deixa.
Perenidade fugaz.
A eternidade
É feita de pássaros
Pedras imóveis e
Não precisar de relógios
Para contemplar
O passado invisível
Que me escapa
Das mãos.

Indaial, 28/01/98

Marco Antonio Struve Página 42 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Teu corpo

Mil desenho te formam.


Abraço-te.
Sorvo o instante
De nossa impossível união
E retiro-me
Com meu corpo marcado pelo teu.

Teu corpo são caminhos


Por onde navegam
As canoas de minha imaginação.
Teu corpo detêm meu passo.
Um desconhecido passa.
Recuo alguns passos
Examino-te
Com um olhar distraído.
Ele terá reparado?
Retiro-me indiferente.
Retomo devagar o passo.
Olho-te de novo.
O que teria me detido
E feito escrever
Estas coisas?

Indaial,28/01/98

Marco Antonio Struve Página 43 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Durante a noite...

Durante a noite
Vejo o tempo passar
Contando estrelas.

Foi ilusão amar-te assim


Sem perceber
Que teu amor é falso,
É carne, é só prazer.

E agora
Se eu te dissesse
Que encontrei
A solidão do equilíbrio
Perfeito,
Que sou espaço
Onde mundos acontecem
E que amo assim
Sem fazer alarde?
Também eu já não acredito.

Mas vivi tempo demais


Perto da solidão,
Desaprendi o silêncio.

Indaial,28/01/98

Marco Antonio Struve Página 44 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Chuva

Eu sinto a nostalgia de minha infância intranqüila,


Minhas ilusões, as horas passadas como esta
Contemplando a chuva com tristeza.
Acabaram-se minhas histórias.
Hoje medito, confuso, sobre a água adormecida
Nas poças onde gotas se cravam.
Toda a paisagem da minha janela se transforma
Num ruído de idéias e cadencias de folhas
Com aroma de terra molhada e insetos

Eu sinto na água algo que me estremece


Como o vento que agita as ramagens.
Torna a chover
O vento vem trazendo as sombras,
O resumo de um céu de verão.
Aproximei-me para ouvir o canto da chuva
Mas meu coração não entende nada.

Indaial, 28/01/98

Marco Antonio Struve Página 45 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

As aves lá fora

As aves lá fora
E eu enclausurado
Na minha sala
Fico assim com a quietude
Dos atos empurrados
Escrevendo nas agendas
Para desinfetar
O coração da estupidez
Que trago em mim.

Voar com que assas,


Se o que me cativa é o passado,
O nada que surge e me devora
Molhado de suor?

Fico assim esperando o ar fresco,


Fingindo que estou vivendo
Do meu próprio versejar
Cautelosamente inconseqüente
Escondendo o coração
Choroso de alguma saudosa paixão

La fora as aves
E aqui esse vazio não sei de que.

Indaial,29/01/98.

Marco Antonio Struve Página 46 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

O silêncio ante o céu...

O silêncio ante o céu estrelado


Possui a flor, o inseto
E as águas do mar.

O silêncio profundo da vida


Ensina à rosa
A ser todo o canto lunar
Dentro da alma inquieta.
Todo o eco das estrelas
Ante o largo crepúsculo.
Todos os olhares
Sob o peso da sombra
Das folhas trêmulas ao vento.

Mil abelhas campesinas


Zunem ante o débil céu que resta,
O alfabeto de auroras e estrelas,
Nas entranhas de uma colmeia
De ouro vivo.

O segredo das ondas


Acende o farol,
Estrela branca de longas raízes
E braços profundos de mar
Cheio de névoas e palavras.

Meu coração é um brotar


De estrelas invisíveis
E canções de amar
Que eu sinto
Como um vento marinho
Que agita minha alma
Em um céu sem manchas.

Indaial,02/02/98

Marco Antonio Struve Página 47 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Paisagem

Há um céu fundido
E uma chuva escura
De luzes apagadas.

A beira do rio
Está carregada
De gritos
De pássaros cativos
Chorando por coisas
Distantes,
Longas cordas
De viola
Vibrando ao vento.

Ouve o silêncio
Resvalando por
Vales e ecos
E os passos
De uma moça morena
Cruzando uma branca
Ponte de névoa
Que interroga a lua:
"Quem recolherá
tua dor de cal
e as espirais de pranto
que pelo ar ascendem?"

As montanhas olham
Um ponto distante.
A ilusão da aurora
Na terra quieta
De noites imensas.

Pelas ruas,
Homens embuçados
Tem um tremor
De cordas em tensão

Marco Antonio Struve Página 48 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Que se partiram
Deixando nada mais
Que o silêncio
Aberto ao duro ar
Da corrente do rio
Que não olha nunca
Para trás.

A cidade espreita
Longos ritmos
E se enrosca
Sob o arco de céu
E estrelas de cristal,
Em um marulho
De tons quebrados
Pelos últimos ecos.

Agora sua melodia


Dorme
Atrás de um sorriso
Ameaçando o vento
E a chuva escura.

Indaial, 02/02/98

Marco Antonio Struve Página 49 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Primavera

Ignoro minha inexistência


E teu destino.
De ti colhe-se a inocência
E meu desatino.
A palavra permanece
Folha seca
Na árvore de verde rebento.

Tudo isso é esquecimento.

Uma única esperança


De que algo nos resta
Desta primavera ainda tímida:
Um cheiro de terra,
A cidade de casas ruidosas,
O sol que vai mais alto,
As encostas com todas as cores,
E o prenuncio das primeiras flores,
Uma grande claridade,
Algumas nuvens grandiosas
E o canto das cigarras.

Indaial,03/02/98.

Marco Antonio Struve Página 50 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Passeio Matinal

Os bois vão suspirando pelos campos


Ébrios de luzes a ruminar seus prantos
Nestas manhãs de névoas e verão.
Agora vou eu neste campo. Uma rosa na mão.

Como se agradam os pássaros


Que se aninham nos verdes claros
Dos galhos indecisos chorando orvalho?
Sentei-me num claro remanso de silencio

Um menino se aproxima galopando


Enquanto a luz fixa o dourado das laranjas.
Uma árvore grande se abriga do sol.

Janeiro segue alto em meus olhos.


Brisas vão se arrastando lentas.
Os grilos cantam sob as flores.

Indaial, 09/02/98

Marco Antonio Struve Página 51 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Poema Meio Bêbado

Eu bebi o suficiente
Para não dirigir,
Mas não o suficiente
Para não poder voar,
Ouvir o coaxar de sapos,
Ver a silhueta da ponte,
Velha dama imponente,
Desenhada em micro lâmpadas
No horizonte.

Bebi o suficiente
Para ver bruxas de
Pernas deslumbrantes, e
Amigos, e Caravelas
Com Reis dos Mares, e
Navios indo formar a
Raça Brasil.

Bebi o suficiente
Para não dirigir,
Mas o suficiente para sonhar
Na madrugada.

Tudo que vivi hoje


Não foi imaginário,
Foi emoção e vida,
Olhada com olhos distantes
E um tonto coração.

Praia de Sambaqui - Florianópolis, 06/02/98.

Marco Antonio Struve Página 52 25/10/2010


Equilíbrio Impossível

Cenário

O dia ia amanhecendo.
Nenhum galo cantava ainda
E o silêncio ia levando
Seus bêbados e bruxas
Pela rua.

O vento crespava o mar.

Já posso ver na clara lua


Os homens que saem à pesca.

O tempo e o vento sul


Esculpem formas estranhas
Sobre as paredes
dos velhos fortes e casarões

Na areia grossa
Escombros de árvores
Abrigam o canto dos pássaros.
Os brejos estão coalhados de sapos e
Rãs, cantores noturnos,
Afinados seresteiros.

Os homens deste lugar vieram do mar


E estão mais ligados ao mar
Do que a terra.
São cheios de crenças e histórias...
Vêem bruxas revoando
Em noites de lua plena
A cata de criancas sem batismo
Para embruxar.
E seus olhos são cheios de mar

Os homens deste lugar


São feitos de águas e lutar.

Praia do Sambaqui - Florianópolis 07/02/98.

Marco Antonio Struve Página 53 25/10/2010

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