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[Resumos – Carlos Eugênio S.

Negreiros] 1

Cap. 2 Bases da nova ordem mundial de pós-guerra


José A. Michelena

Fatores na formação do bloco capitalista:

• Advento dos EUA como país imperialista hegemônico;


• Decadência dos antigos impérios coloniais;
• Integração das economias dos países do bloco;
• Expansão e consolidação da influência soviética na Europa Oriental;
• Nivelamento do equilíbrio de poder mediante o poderio atômico.

Advento dos EUA como país imperialista hegemônico

• 1945 – 67 = período de hegemonia absoluta


• Única potência relativamente beneficiada pela guerra -> único país situado fisicamente fora da zona
de combate & economia de guerra recuperou o país da Grande Depressão.
• Crescimento do capital financeiro -> modernização do parque industrial.
• Burguesia norte-americana precisava apoiar e fortalecer a burguesia da Europa:
o Por causa da ameaça de tais países abandonarem o capitalismo devido ao movimento
socialista;
o Concentração de capitais fazia com que os grupos mais poderosos quisessem a projeção
política americana no exterior -> colocação de capitais e produtos.
o Estabilidade da Europa e as oportunidades de investir e de comerciar -> aumentavam o
poder global do bloco capitalista e o próprio poder dos EUA.
• Grandes centrais sindicais norte-americanas concordavam com a política expansionista -> ela
ajudaria a manter um alto índice de emprego.
o “Esse consenso [...] chegou a uma forma mais mobilizadora de apoio com a mitologia da
superioridade do american way of life (estilo de vida americano), o que criava as condições
culturais para a maior aceitação, por parte do resto do mundo capitalista, da hegemonia
norte-americana”.
• Lei de Empréstimos e Arrendamentos, de 1941 -> as nações aliadas se converteram em devedoras
dos EUA.
• 1943 -> UNRRA -> primeira organização internacional de ajuda econômica aos povos libertados, com
os EUA como maior contribuinte.
• 1947 -> Plano Marshall -> programa de reconstrução financiado pelos EUA -> marcou a divisão real
dos dois blocos ao excluir a URSS e os países de Europa Oriental.
• Aumento do volume das inversões norte-americanas no mundo:
o 13,7 bilhões de dólares (1945) -> 60,8 bilhões (1965).
• Características dos investimentos estrangeiros = transcontinentalização & preferência pelas zonas
capitalistas adiantadas.
o Países capitalistas adiantados = investimentos no setor fabril;
o Países subdesenvolvidos = setores extrativos, especialmente o petrolífero.
o “[...] o grosso das inversões, tanto no mundo capitalista desenvolvido quanto no
subdesenvolvido, foi realizado pelas grandes corporações transnacionais”.
• Controle maior das finanças internacionais = expansão dos bancos & dólar como moeda mundial
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Decadência dos antigos impérios coloniais

• Pós Segunda Guerra = desmembramento dos grandes impérios: britânico, francês, holandês...
• Decadência desses impérios = abertura de novas oportunidades para expandir o comércio norte-
americano & preencher o “vazio de poder”.

A integração econômica da Europa

• “[...] processo de integração de suas economias [dos países europeus] para desenvolver as
oportunidades de cada um, ampliando o mercado e manipulando as tarifas de forma que pudessem
gerar grandes empresas em condições de competir com as norte-americanas”.
• Avanço do processo de integração na Europa = Avanço da integração da Europa com setores da
economia dos EUA.

Poderio atômico

• Extensão e consolidação da influência soviética na Europa + tendência pró-socialista de alguns


movimentos de libertação da Ásia = vistos como uma “ameaça ao mundo livre”.
o A percepção de tal ameaça e a preparação militar para repeli-la teve efeito sobre o
desenvolvimento científico e tecnológico e sobre a economia dos EUA.
 Gastos bélicos e a corrida armamentista compensaram as depressões econômicas e
ajudaram a desenvolver uma indústria dinâmica.

Cap. 3 A formalização do bloco capitalista


José A. Michelena

A ameaça comunista

• “[...] o processo de integração dos países capitalistas num bloco de poder foi perfeitamente
estimulado pela percepção – por parte da burguesia e dos administradores do bloco – da chamada
ameaça comunista”.
• Doutrina Truman -> para a maioria da população dos EUA e da Europa Ocidental, e para sues setores
dirigentes, a doutrina justificava as decisões políticas e militares que estavam sendo tomadas para
consolidar o bloco.
• Temores dos governos ocidentais de que a URSS invadisse a Europa -> países sentiram a necessidade
de unificar suas forças & de comprometer os EUA com a defesa -> criação de uma força
multinacional = Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em 1949.
o Seu papel, desde o início, não foi principalmente militar, mas político e ideológico.

O desenvolvimento nuclear

• 1952-53 = EUA e URSS chegam ao ponto de desenvolvimento nuclear com capacidade dissuasiva
recíproca -> dirigentes europeus começam a duvidar do compromisso norte-americano de ir à
guerra nuclear pela Europa.
• 1956-57 = situação de “mútua superioridade” levou à redução das tensões na Europa e o respeito
recíproco das respectivas zonas de equilíbrio das grandes potências.
• Nova fase da Guerra Fria = “Coexistência Pacífica”.
o União Soviética -> revisão de sua doutrina internacional.
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 Efeito indireto = redução da percepção da ameaça militar comunista, tanto da parte


da burguesia europeia, como de governantes e chefes militares das potências
capitalistas.

Alguns acordos político-econômicos na formação do Bloco Capitalista

• 1943 = Administração das Nações Unidas para Ajuda e Reabilitação (UNRRA).


• Agências especializadas -> importantes na institucionalização e proteção dos interesses econômicos
do bloco:
o 1944 = Banco Internacional para a Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) -> surgiu na
Conferência de Bretton Woods.
 Cooperar na reconstrução e desenvolvimento dos países membros, mediante
investimentos de capital; promover o crescimento equilibrado do comércio mundial
-> tudo com o propósito de assegurar a transição da economia de guerra para a
economia de paz.
o Fundo Monetário Internacional (FMI) -> também veio de Bretton Woods.
 Contribuir para a criação de um sistema monetário internacional estável; promover
a cooperação em problemas monetários; facilitar a expansão do comércio mundial.
• 1947 -> Plano Marshall -> plano de reconstrução da Europa.
o Países socialistas opuseram-se ao plano.
o “Também em outros setores europeus o Plano Marshall provocou críticas e desconfianças
pela possível perda de autonomia e independência política, implícita no caráter direto dos
créditos concedidos – quer dizer, pela inexistência de mediação de uma organização
internacional”.
• 1960 = Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)
o Crescimento econômico e emprego, e um crescente padrão de vida nos países membros.
• Outros esforços que contribuíram para a unidade europeia:
o Comitê Internacional dos Movimentos para a Unidade Europeia (1947) -> Congresso da
Europa (1948) -> Conselho Consultivo da Organização do Tratado de Bruxelas -> Conselho da
Europa (1949).
• 1951 = Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA)
o Criar um mercado único para o carvão, o ferro e o aço / eliminar as barreiras ao comércio
livre e competitivo / evitar as forma discriminatórias de preços.
• 1958 = Comunidade Econômica Europeia (CEE)
o Estabelecer um mercado comum europeu / unificar as políticas econômicas dos Estados
membros / facilitar a livre circulação de pessoas, serviços e capitais.

Pactos e alianças militares

• 1949 - OTAN
• 1951 - ANZUS / Pacto do Pacífico Sul = EUA, Austrália e Nova Zelândia.
• 1954 – OTSEA / Tratado da Ásia Sul-Oriental = defender os Estados dessa região contra a “agressão
comunista” -> membros: FRA, GBR, Filipinas, Austrália, NZE, EUA, Paquistão e Tailândia.
• 1955 – OTCEN (Organização do Tratado Central) / Pacto de Bagdá -> Iraque, Turquia, Reino Unido,
Irã e Paquistão. Iraque se retirou em 1958.
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• Liga Árabe (“espírito islâmico” como um dos fatores de integração) X Israel (novo, moderno e
representante do bloca capitalista no Oriente Médio).

CAP. 8 A formação do bloco socialista


José A. Michelena

“A etapa da formação do bloco soviético foi iniciada simultaneamente com a II Guerra Mundial, encerrando-
se quando de sua formalização por intermédio do Pacto de Varsóvia”.

Expansão durante a guerra

• Com o início da guerra, a política URSS foi de tentar manter-se fora do conflito. Entretanto, a invasão
germânica obrigou a União Soviética a aderir à Grande Aliança e a participar plenamente da
conflagração.
• A URSS também buscava apoio e tentava ampliar sua influência no mundo, especialmente na Europa
Oriental -> atuação dos partidos comunistas locais.
• Durante a guerra = objetivo geral de derrotar o nazismo, o fascismo e o imperialismo japonês
superou os problemas internos.
• Terminada a guerra = surgiram tensões entre os dirigentes soviéticos e líderes de movimentos
comunistas de resistência.
o “Eram tensões relacionadas com o grau de desenvolvimento atingido pelos partidos
comunistas, no curso da luta”.

Constituição do bloco soviético

• Motivo dos conflitos = contradição entre: interesses gerais da União Soviética & interesses
particulares dos movimentos de resistência.
• Formação do bloco soviético:
o Forças integradoras: identificação da URSS como cabeça e orientadora do socialismo; laços
entre a elite da burocracia soviética e as burocracias dos partidos comunista nacionais;
necessidade de derrotar as potências nazifascistas; ameaça capitalista durante a Guerra Fria;
expansão do campo socialista.
o Forças desintegradoras: tensões relacionadas com a autonomia relativa dos diversos
movimentos revolucionários.
 “Quanto mais nacionalistas fossem as políticas dos PC, maiores suas possibilidades
de obter apoio das massas, sendo maiores também as possibilidades de se atritarem
com a URSS, por causa das tentativas da elite soviética de controlar as lideranças dos
partidos nacionais e de ditar-lhes a linha do movimento”.
 O grau da pressão exercida pela URSS para reduzir a autonomia relativa dos PC
locais relaciona-se com a posição geopolítica estratégica de cada país em relação aos
dois blocos.

China

• Kuomintang = Partido Nacionalista Chinês, fundado por Sun Yat-Sen, que tomou o poder em 1912,
após a queda do último imperador da China.
• 1921 – fundação do Partido Comunista Chinês
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• “A política soviética [...] baseava-se no critério de que a China não estava preparada para o
socialismo, devendo primeiramente passar pelas etapas de uma revolução democrático-burguesa”.
o URSS a favor da ideia de ser construído o comunismo num só país.
• 1925 – Chiang Kai Chek lidera o Kuomintang -> inicia uma luta para eliminar a influência do PCC
sobre seu partido.
• 1937 – Japão ataca a China -> PCC adota a “política de Frente Única anti-japonesa” & nova aliança
com o Kuomintang -> direção da luta com Chiang Kai Chek.
• Essa aliança durou até o fim da Segunda Guerra, em 1945. Durante esse período, as diferenças entre
os dirigentes da URSS e do PCC diminuíram.
• Terminada a guerra, o PCC quis partir para a tomada definitiva do poder.
• 14/08/45 = Tratado entre China e URSS -> soviéticos reconheceriam o governo de Chiang Kai Chek
como o governo central da China.
• “Na prática, os comunistas ignoraram as intenções políticas soviéticas, romperam com Chiang Kai
Chek em 1945, intensificaram a guerra contra este até derrotá-lo em 1949, tomando o poder,
mesmo contra dos desejos e intenções políticas dos dirigentes soviéticos”.

Europa Oriental

O processo de incorporação dos países dessa região ao bloco soviético apresenta uma série de passos que
constituem um padrão mais ou menos comum a todos eles:

• Após a Segunda Guerra, as minorias comunistas, que participavam das Frentes de Resistência,
apoiaram-se no exército soviético para transformar aquelas organizações em Frentes Patrióticas.
• Essas frentes foram substituídas por governos provisórios em que os dirigentes comunistas
assumiram postos importantes.
• Através de sua influência nesses governos provisórios, os Partidos Comunistas pressionaram para
que se processasse a reforma agrária e a nacionalização das indústrias.
• Também foram postas em prática uma série de medidas para desalojar do governo os partidos
burgueses e estabelecer o predomínio da coalizão socialista-comunista.
• Chegaram a ser constituídos governos exclusivamente pró-soviéticos, com o controle das ordens e
atividades religiosas, a abolição e proibição legal de outros partidos ou a repressão aos mesmos ->
consolidação do aspecto autoritário do modelo soviético.
• Iniciou-se a coletivização da agricultura e a coordenação e planejamento suprarregional da
economia.

1947 = criação do Kominform -> escritório de informação para coordenar as atividades dos diversos PC /
criação do Comecon -> Conselho de Ajuda Econômica Mútua, para a colaboração e o planejamento
econômico a nível interestatal.

1955 = assinatura do Pacto de Varsóvia.

A Tecnodemocracia
Maurice Duverger

• Baseia-se “nas grandes empresas de direção coletiva, que planificam suas atividades e impõem seus
produtos pela publicidade e o mass media”.
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• “Exige que os governos assegurem o controle geral da produção, do consumo e das trocas, por meio
de diferentes intervenções e incentivos”.
• “Confronta partidos de massas, disciplinando seus adeptos e seus líderes que eles integram numa
ação coletiva”.
A nova oligarquia

• Reúne os donos dos instrumentos de produção e seus fideicomissos + técnicos, administradores,


organizadores...
• Estrutura da nova oligarquia -> técnicos / administradores / cientistas fazem parte dela e têm um
lugar importante.
o Tecnoestrutura -> para John K. Galbraith, a tecnoestrutura substitui o empresário capitalista
pelo empresário tecnocrata & grandes firmas só podem ser dirigidas coletivamente, porque
sua direção exige uma soma de informações complexas.
o Cooptação de homens cujo conhecimento e atitude são necessários à empresa.
 “A meritocracia tomaria o lugar da plutocracia, substituindo a concorrência do
liberalismo clássico por um outro tipo de competição, baseada na planificação e na
previsão”.
• A tecnoestrutura não suprime o poder dos capitalistas em proveito dos técnicos -> ela permite aos
capitalistas disporem do conjunto das informações necessárias para administrar com conhecimento
de causa.

A nova oligarquia e o Estado

• “A nova oligarquia depende muito mais do Estado do que a antiga”.


o Neocapitalismo exige um Estado forte e ativo, capaz de regularizar o funcionamento da
economia e mater as condições necessárias ao crescimento.
o Progresso técnico depende mais o Estado do que da engenhosidade privada.
• Firmas -> precisam que o Estado garanta a regulação do conjunto da economia -> “mantendo o
consumo quando as ameaças de recessão se fazem sentir, contendo-as quando a ameaça
inflacionária for muito grande”.
o Intervenção também no plano internacional para ajudar as empresas do país a
reconquistarem os mercados do exterior e obterem matérias primas.
• Política -> conluio das municipalidades e das empresas de serviço público <- exemplo ->
financiamento de campanhas eleitorais.
• Controle da oligarquia sobre o Estado -> objetivo de ambos = expansão econômica
o “A expansão tende a se tornar o mito principal de todas as sociedades humanas”.
o Esse mito obriga os homens políticos a apresentarem um sucesso econômico aos seus
eleitores -> sucesso depende das grandes empresas privadas (oligarquia).
• Poder da oligarquia econômica é reforçado por sua concentração -> as grandes empresas industriais
e financeiras são cada vez menos numerosas e cada vez mais fortes.
o O Estado também se concentra, através da ascensão do executivo, do desenvolvimento do
poder presidencial e do crescimento dos grandes partidos.
o Porém, “a concentração do poder econômico é mais forte e mais rápida do que a do poder
político” -> porque a “oligarquia industrial e financeira é mais estável do que a influência dos
políticos, cuja reeleição, em vista da pluralidade dos partidos, nunca é garantida”.
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Controle sobre o povo

• Elementos da tecnodemocracia que tornam o controle mais difícil do que na democracia liberal = fim
das restrições ao direito de voto; desenvolvimento de partidos de massa e organizações sindicais;
declínio das religiões.
• Elementos que facilitam o controle da oligarquia = gosto dos cidadãos ocidentais às liberdades
políticas, mesmo parciais e limitadas; êxitos materiais do capitalismo; homogeneização das
condições de vida.
o “Difunde-se a ideia de que se o capitalismo não satisfaz, o socialismo atual satisfaz ainda
menos: tal ideia favorece evidentemente a integração na tecnodemocracia”.

Os novos meios de controle

• Grande imprensa, rádio, cinema, televisão -> controle do mass media.


• Moda / Publicidade

Um crescimento econômico sem precedentes – As bases do modelo (1945 – 1973)


J. Martínez Martín

Um crescimento econômico espetacular (1945 – 1973)

• Taxas médias anuais do PIB foram maiores, em todos os países desenvolvidos, do que em qualquer
outra época -> média global de 4,9 (Imperialismo 2,5 e Entre guerras 1,9).

Revolução Keynesiana

• Etapa de prosperidade entre 1951-73.


• “J. M. Keynes apresentou em suas teorias uma ação estatal para estimular a demanda e multiplicar a
produção, a renda e o emprego” -> intervenções públicas como parte importante, para corrigir
falhas do mercado.
• Intervenção do Estado para expandir o capitalismo com medidas de política econômica; como
produtor e consumidor, como provedor de bens e serviços públicos aonde não chega a iniciativa
privada = Estado de Bem-Estar:
o Criação de infraestrutura -> estradas, redes de água...
o Nacionalização de empresas não rentáveis -> água, gás, luz...
o Financiamento da pesquisa científica e tecnológica;
o Subsidiando setores como habitação, saúde, transportes e lazer -> trabalhador irá gastar
menos aqui e mais com o consumo;
o Política trabalhista e salarial;
o Defesa da competição e incentivando a empresa privada;
o Política exterior com proteção e expansão de empresas, ampliação de mercados...
• “Ou seja, uma intervenção reguladora do funcionamento global do sistema econômico, orientada a
impulsionar a expansão econômica e mantê-la” -> aumentou o orçamento do Estado e do gasto
público.
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O novo aparato produtivo - a produção em massa

• Aplicação da energia atômica / avanço da eletrônica e da petroquímica / corridas espacial e


armamentista
• Generalização da produção em massa e dos mecanismos semiautomáticos e automáticos /
computadores
o Aumento no investimento em equipamentos, aumentando a mecanização, reduzindo custos
e substituindo o homem pela máquina.
• Processo de terceirização das economias desenvolvidas.
• Crescimento da demanda energética: petróleo, carvão, gás natural, energia elétrica -> devido ao
baixo custo, inaugurou-se a época da energia barata.
o O petróleo “era abundante, barato – menores custos de extração e transporte que o carvão
–, de superior rendimento calorífico, e era ao mesmo tempo matéria-prima da petroquímica,
com uma ampla gama de produtos de elevado consumo nos países industrializados”.
 Sua produção e distribuição eram controladas pelas sete irmãs.
o Expansão econômica acompanhada de forte crescimento da população mundial.
 “Produziu-se um fluxo migratório cujo destino era os países industrializados, em
uma transferência de mão-de-obra a nível mundial. A taxa de população ativa
aumentou nos países desenvolvidos, sobretudo no setor industrial”.

Mercado mundial, comercialização e consumo

• Transformação nas diretrizes de consumo:


o Existência de oferta ampla e diversificada;
o Estímulo da demanda, produzindo novas necessidades -> publicidade;
o Nova distribuição espacial das condições de vida, com separação dos centros de trabalhos,
da habitação e lazer -> necessidade de transporte, construção de estradas e indústria
automobilística;
o Mais horas dentro de casa, com objetos orientados para a comodidade e o bem-estar;
o Financiamento do consumo = aumento da produtividade elevou os salários / barateamento
de produtos primários deslocou gastos para outras áreas / cobertura estatal na educação,
saúde, habitação / créditos para o consumo privado -> compra a prazo.

Concentração empresarial, internacionalização do capital e da produção – as multinacionais

• Grande absorção de recursos ao redor de grandes bancos.


• Multinacionais & Corporações Transnacionais:
o Ligadas ao processo de crescente grau de concentração e centralização, no contexto de
internacionalização do capital;
o Os resultados das filiais não alteram o resultado global da multinacional;
o Tecnologia de ponta;
o Fortes recursos financeiros;
o Domínio dos mercados onde atuam;
o Fluxo crescente de saída de capital dos países desenvolvidos;
o Atuam nos setores econômicos básicos -> 1970 = química, transporte e maquinário.
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Capitalismo, prosperidade e bem-estar social


Enrique S. Padrós

A saída da segunda guerra mundial

• Dificuldade das potências europeias para manter seus impérios:


o Contradição: apelos da metrópole às colônias em nome da democracia e liberdade;
o Falta de condições materiais para restabelecer a relação colônia-metrópole;
o Penetração econômica americana nas colônias durante a guerra;
o Pressão política de EUA e URSS contra a manutenção da ordem colonial:
 EUA -> contra os mercados fechados;
 URSS -> identificada com os movimentos revolucionários e procurando novos
espaços econômicos.
• Dilema da economia americana: como evitar uma crise de superprodução no fim da guerra? Como
adequar os altos índices de produtividade de 1939-45 com a realidade do pós-guerra?
o Evitar a falência das economias europeias;
o Comprar estoques de alimentos dos agricultores americanos para manter o lucro -> usar
cotas de alimentos como ajuda humanitária;
o “As economias europeias deviam seguir as recomendações americanas de flexibilizar seus
mercados e suas políticas econômicas”.
• 1944 -> Bretton-Woods
o Dólar = moeda internacional e conversível em ouro;
o Livre conversibilidade das moedas nacionais;
o Criação do FMI e BIRD (Banco Mundial)
• Enorme transferência de ouro para os EUA -> “padrão de câmbio ouro”.
• 1948 -> Doutrina Truman & Plano Marshall
o Reconstruir a sociedade capitalista global / recompor a economia europeia / integrar o
Ocidente europeu à economia americana
o Para Moscou, o plano intervinha nas economias nacionais limitando a soberania de projetos
estratégicos de desenvolvimento, produzindo a inviabilidade de projetos socialistas no Leste
Europeu.
o Japão -> Plano Dodge.
o Europa perdeu a primazia mundial dentro do capitalismo.
• Europa = Reconstrução + Integração
o 1948 – OECE (OCDE) -> Cooperação e Desenvolvimento Econômico -> distribuir a ajuda do
Plano Marshall;
o BENELUX -> eliminação de taxas alfandegárias e restrições comerciais e monetárias.
o 1951 – CECA -> Carvão e Aço.
o 1957 – Europa dos Seis (FRA, BEL, HOL, ALE, LUX e ITA) -> Tratado de Roma -> Comunidade
Econômica Europeia (CEE):
 Livre circulação de produtos agrícolas e industriais / taxas alfandegárias comuns
ante terceiros
 ING -> não queria abrir a Commonwealth -> fora da CEE e CECA

Demografia, economia, política e cultura – desenvolvimento do progresso material e social


[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 10

• A interação mercado-Estado produziu a economia mista -> “O Estado planejava, racionalizava e


orientava a produção. Comprometia-se com a previdência social e garantia o pleno emprego,
afastando o clima de instabilidade” = Estado de Bem-Estar Social.
• Mas como se explica o crescimento do pós-guerra?
o Organização do trabalho -> fordismo;
o Exportação da concepção de mercado massificado com setores de trabalhadores industriais
e agrícolas.
 “A transformação do trabalhador em um consumidor de produtos até então
inacessíveis, através de aumento salarial, criava uma sensação de melhoria material
e esvaziava pressões sociais gerais”.
o 1936 -> Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de John Maynard Keynes -> defendia
o estímulo da demanda e o aumento da produção, da renda e do emprego através da
intervenção do Estado.
o Demografia -> baby boom = após 1946, muitos governos estimularam o crescimento da
natalidade; a partir dos anos 60:
 Verificou-se uma retração em diversos países desenvolvidos -> medo da
superpopulação; generalização de métodos contraceptivos; temor de problemas
econômicos.
 Terceiro Mundo registrou crescimento permanente -> redução da taxa de
mortalidade; aumento da expectativa de vida; urbanização.
o Segunda Revolução Agrícola na Europa e Japão;
o Pesquisa científica & Avanços tecnológicos produzidos.
• Principais países capitalistas envolvidos na reconstrução:
o EUA -> 3 orientações: organizar a economia capitalista em volta da sua liderança e interesses
/ abrir os impérios coloniais e as metrópoles europeias aos seus investimentos e comércio /
derrotar a onda revolucionária anticapitalista.
 Política exterior -> vínculos entre interesses econômicos & militar-estratégicos.
 Truman (1945-53) = economia de paz; Guerra da Coreia (1950-53), caça às bruxas
macarthista.
 Eisenhower (1953-60) = inflação, conservadorismo.
• Kennedy e Johnson (1961-68) = democratas, ações keynesianas.
o Europa Ocidental -> “A rápida deterioração das relações entre EUA e URSS, o receio do
comunismo e a expectativa de melhoria do nível de vida dos trabalhadores acabaram
isolando a esquerda em cada país”.
 1949 -> divisão territorial = República Federal da Alemanha (RFA – capitalista) /
República Democrática da Alemanha (RDA – socialista).
 França -> Partido Comunista, Socialista e o Movimento Republicano Popular
(democrata-cristão); Constituição de 46 (executivo fraco); De Gaulle e Constituição
de 58 (executivo forte); independência da Argélia (1962).
 Grã-Bretanha -> derrota de Winston Churchill (1945); Clement Attle, trabalhista,
venceu com um programa de amplas reformas sociais e nacionalizações;
conservadores voltam ao poder em 51; trabalhistas voltam ao poder em 64.
 Itália -> plebiscito de 1946 rejeita a Monarquia; organiza-se a Reconciliação Nacional
liderada pela democracia-cristã; socialistas e comunistas são expulsos do governo;
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milagre dos anos 50; país muito desigual em termos socioeconômicos e regionais =
Norte industrial e Sul agrário.
o Japão -> até 1951 o general MacArthur administrou o país como território ocupado;
interesses dos EUA = destruição do poder militar, desmilitarização da sociedade e
reconversão industrial, democratização do país e limitação do poder do imperador; mão-de-
obra barata, contenção do gasto público, poupança do Estado e da população = milagre
japonês; governo do Partido Liberal-Democrático.
• Implicações sociais da reestruturação:
o Mecanização da agricultura -> diminuição do campesinato e estímulo à urbanização; no
Terceiro Mundo produziu o êxodo rural;
o O custo social da mão-de-obra europeia, protegida pelo Estado de bem-estar, estimulou a
transferência de empresas para a periferia; gradual acomodação social, perda de
solidariedade e combatividade entre os operários com capacidade de consumo nos países
desenvolvidos;
o Ascensão da mulher -> permaneceu a desigualdade social; pílulas anticoncepcionais;
modificação na concepção tradicional da família e da relação entre os sexos;
o Universalização da alfabetização e do ensino fundamental.
 “Gerações mais conscientes, críticas, exigentes e mais bem instrumentalizadas
surgiram deste processo. Por isso 1968 foi o ano da explosão estudantil”.
o Crise no sentimento religioso -> eleição de João XXIII em 1958 iniciou uma fase de abertura
aos problemas sociais -> Concílio Vaticano II (1962-65) estabelecia as bases para uma
orientação mais sensível à situação dos setores pobres e terceiro-mundistas.
• Ciências econômicas -> Keynes, Galbraith...
• Filosofia -> Sartre, Althusser, Marcuse...
• Pintura -> Miró, Dali, Kandinsky...
• Pop art
• Música -> Elvis Presley, Beatles, Jimi Hendrix...
• Literatura -> Orwell, Hemingway, Neruda...
• Cinema -> Welles, Godard, Buñuel, Bergmann...

O projeto socialdemocrata para a humanização do capitalismo

• Partidos políticos de orientação socialdemocrata participavam dentro dos limites da legitimidade do


Estado burguês, através do jogo eleitoral e do sistema de alianças políticas. No governo,
introduziam algumas reformas de caráter social, e no parlamento, defendiam-nas.
o Defendiam programas de moradia popular, luta contra o desemprego ou pensão para
idosos.
o “Pensavam que, se não eliminavam as contradições do capitalismo, ajudavam a combater as
tensões mais visíveis”.
• A solução para o funcionamento da tese keynesiana & objetivos da socialdemocracia era aumentar
o consumo, com um compromisso entre capitalistas e trabalhadores:
o Capitalistas -> direcionariam parte dos seus lucros às atividades produtivas (criando mais
empregos) e distribuiriam melhor a riqueza;
o Trabalhadores -> aceitariam as regras do funcionamento do sistema e reconheceriam a
propriedade privada do capital.
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• Críticas -> esse compromisso não eliminou as contradições estruturais do capitalismo e fortaleceu o
capital.

Os desequilíbrios do sistema e as premissas da revolução da informação

• Início dos anos 70 -> declínio do domínio americano


• Recuperação europeia + milagres japonês e alemão -> indústria mais moderna, aquisição e
reprodução de tecnologia avançada, especialização em setores produtivos específicos, vantagem de
não ter maiores ônus com a segurança militar.
• Declínio do fordismo -> ascensão do toyotismo:
o “Através de um rigoroso controle de qualidade e obrigando o operário a realizar múltiplas
tarefas, o toyotismo vinculou a estabilidade do emprego e o salário à situação financeira da
empresa”.
• Alto-custo da mão-de-obra levou à expansão das empresas multinacionais ao Terceiro Mundo.
• Derrota americana no Vietnã.
• Luther King, Malcom X, Black Power, Black Panthers
• 1971 -> desvalorização do dólar em relação em ao ouro em quase 10% = exportações americanas
ganham competitividade.
o Depois, decretou-se o fim da paridade fixa e da livre conversibilidade do dólar em relação ao
ouro e às demais moedas -> dólar flutuante de acordo com as leis do mercado.
• 1973 -> Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OPAEP) = em represália à reação
israelense na Guerra do Yom Kippur, contra a Síria e o Egito tomam as seguintes medidas:
o Redução de 5% do fornecimento de petróleo;
o Aumento de 70% no preço do barril;
o Imposição do embargo total aos países que apoiavam Israel, principalmente EUA.

A construção da democracia popular


Mark Mazower

O estabelecimento do controle político

• O movimento comunista não cresceu no período entre guerras por causa da repressão do Estado e
da indiferença de parte da população -> na libertação, os PC eram pequenos na maioria dos países.
o “A hegemonia soviética viu-se realmente ameaçada não por organizações militares, e sim
pelos diversos partidos que ressurgiram depois da ocupação”.
• Agora era preciso operar na Europa oriental a transição da pequena organização conspiradora, que
lutara na oposição, para um partido capaz de exercer o poder.
• Depois da libertação, justiça social & eficiência econômica eram prioridades -> mais importantes que
a volta/criação de uma democracia “burguesa” ou de partido.
o O comunismo opôs a promessa de industrialização à estagnação capitalista do entre guerras
-> ele apontou um caminho de desenvolvimento através da democracia popular.
• “Os poloneses resistiram à dominação russa mais que ninguém; infelizmente para eles, nenhum
outro país da Europa oriental era tão importante para a União Soviética quanto a Polônia, sobretudo
enquanto não se decidia o destino da Alemanha, e a opinião pública pouco significava para
Moscou”.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 13

• Modelo adotado na Europa oriental:


o Governo de coalizão, com o Partido Comunista prevalecendo;
o Marginalização e repressão dos partidos e grupos dissidentes, excluídos da coalizão;
o Eleições com ampla maioria de votos para a Frente de Governo.
 “Os políticos liberais, católicos e camponeses hesitavam entre e oposição total e
algum tipo de acomodação à nova ordem. Os que defendiam a intransigência
depositavam suas esperanças na eclosão de uma Terceira Guerra Mundial, e com
isso muitos aguardaram indefinidamente uma salvação operada pelo Ocidente”.
• A independência do Judiciário nos países foi aniquilada praticamente de imediato, por decretos que
subordinavam os juízes ao Ministério da Justiça.
• A cultura, educação e os meios de comunicação estavam sob o domínio de Moscou.
o Até 1949 a censura foi imposta até que toda a produção literária e jornalística estivesse
submetida ao partido.
• Inteligência militar -> subordinada ao GRU (serviço secreto soviético) / Controle da segurança
interna -> domínio da KGB.

Rumo ao stalinismo

• 1947 -> Pax Sovietica = fundação do Cominform -> mudança na política soviética do gradualismo
para a militância, da aceitação dos caminhos nacionais divergentes rumo ao socialismo para uma
insistência na uniformidade do bloco.
o “No planejamento econômico, na política, na arquitetura – em todos os setores crescia mais
e mais a subserviência a Moscou”.
• 1948 -> Iugoslávia = ruptura entre Stalin e Tito -> iugoslavos não aceitaram que o Kremlin
controlasse seus assuntos internos como estava fazendo em toda a região.
o Iugoslávia expulsa do Cominform & lideranças de outros países fizeram de tudo para não ser
acusadas de defender um “comunismo nacional”.
• “Consumada a ruptura, Stalin impôs sua autoridade no resto do bloco com maios rigor ainda. Nos
cinco anos seguintes, até sua morte, a região sofreu uma onda de julgamentos exemplares, terror
policial e industrialização forçada – de stalinismo, em suma”.
o “As vítimas desse período chegaram a dezenas, se não a centenas de milhares”.
• Modelo para o desenvolvimento da Europa oriental -> industrialização compulsória da União
Soviética da década de 1930 por meio dos planos quinquenais.
o Para financiar o crescimento interno, era preciso sacrificar o setor agrícola e o consumo, mas
isso só era possível com a coerção do Estado.
• 1948-51 -> a maioria dos países havia recuperado os níveis de produção do pré-guerra e a
nacionalização colocara a indústria nas mãos do Estado.
• “O uso de um padrão soviético intensivo de mão-de-obra fazia sentido numa região de capital
escasso e m.d.o. relativamente farta, mas levou os países do Leste europeu a privilegiar indústrias
baseadas em tecnologias obsoletas”.
• Controle da terra pelo Estado = desastre -> a produção agrícola mal chegava aos níveis do pré-guerra
-> rebeliões de camponeses.

Reformar o comunismo?
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 14

• A coletivização sofreu ataques, desaparecendo na Polônia e Iugoslávia, p.ex. -> encolhimento do


“setor socialista” nesses países, além de baixa nos impostos e nas cotas de produção agrícola fixadas
pelas autoridades.
• Nos outros países, os “pequenos Stalin” foram derrubados, mas alguns só substituídos.
• Polícia secreta -> principal instrumento de poder-> caiu em descrédito.
• “Desestalinização”
• Nova intelligentsia começava a dominar a máquina do partido, expulsando os heróis do pré-guerra.
o “Pragmáticos, e não ideólogos, esses indivíduos reconheciam que cabia a cientistas,
administradores e peritos iniciar as reformas [...] acreditavam que as respostas à vida
moderna estavam na ciência, no progresso tecnológico e no Estado gerido por
especialistas”.

A nova sociedade

• Modelo comunista -> visava às necessidades da produção econômica


o Incentivos ao trabalho feminino & descaso como os velhos e com a população rural.
• Crônica escassez de bens de consumo -> ter acesso a produtos escassos era uma das principais
razões de adesão ou colaboração com o partido.
o “Se de repente houvesse abundância de recursos, o partido perderia um de seus esteios
mais importantes. Em outro nível, porém, a falta de bens de consumo em particular anulava
a principal justificativa de sua liderança – sua capacidade de superar o Ocidente em termos
materiais”.
o Escassez -> descontentamento popular contra a corrupção, favoritismo nos meios
partidários e subserviência nacional aos interesses econômicos dos soviéticos.
o “Enquanto a Europa ocidental recebia capital de sua superpotência, a Europa oriental via
desaparecer dinheiro e mercadorias através de requisições, barganhas escusas e empresas
conjuntas controladas pelos soviéticos”.
• Apesar das reformas, o crescimento no Leste europeu caiu nos anos 1960 -> crescimento registrado
desde a guerra devia-se ao uso maciço de m.d.o, e não a melhorias na produtividade, como no
mundo capitalista.
• 1956 -> dissolução do Cominform.

O mundo socialista: expansão e apogeu


Daniel A. Reis Filho

• Três períodos:
o 1945 – 53/54 = tempo da expansão e da supremacia do socialismo soviético -> do fim da
Segunda Guerra ao fim da guerra civil na Coreia e no Vietnã contra o colonialismo francês &
morte de Stalin em 1953.
o 1953 – 75 = apogeu do socialismo e aparecimento de várias crises -> guerra do Vietnã contra
os EUA.
o 1975 – 85 = socialismo desenvolvido -> termina com a perestroika

Expansão e supremacia do monólito soviético


[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 15

• Nesse período receberam “maior prioridade, em termos de investimento, e os maiores cuidados, em


pessoal e demais recursos”: indústria de armas e munições, de máquinas e de bens intermediários, a
produção de energia e a construção de vias de transporte.
• Economia de comando, mobilizada: estatização geral das atividades, planejamento centralizado,
proliferação de agências centrais de controle, ditadura política...
o “Era preciso se defender da Guerra Fria, cujos perigos rondavam. Mais uma vez, os cintos
deveriam ser apertados... e as consciências e vontades, mobilizadas”.
• Anexação de territórios à URSS: Estados Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia), parte oriental da
Polônia e uma porção da Romênia, transformada em República Soviética da Moldávia.
• Europa central (POL, TCH, RDA, HUN, ROM, ALB, BUL, IUG) -> organizar governos de união nacional,
com ampla participação, inclusive de comunistas e socialistas. Depois, eleições livres teriam lugar,
com cada povo definindo seu futuro.
o Com a Guerra Fria, “sociedades extremamente diversificadas, historicamente constituídas
em suas especificidades políticas, linguísticas, religiosas e culturais, tiveram que entrar num
molde único, rígido e centralizado, o modelo soviético”.
o “A repressão cuidou das oposições à maneira soviética, com direito a grandes processos
públicos, torturas e confissões. Nasciam as democracias populares, que nunca foram
democráticas, tampouco populares...”.
• 1945 -> comunistas vietnamitas, liderados por Ho Chi Minh, proclamam a independência nacional.
• Lutas de libertação nacional na Ásia Oriental = Birmânia, Filipinas, Malásia -> derrotadas / China,
Vietnã, Coreia -> caíram na órbita do socialismo soviético.
o Aliança com a URSS -> empréstimos, assessores, importação de modelos de organização
política e econômica incompatíveis com a diversidade e com a especificidade.
• Iugoslávia -> comunistas iugoslavos e os vários povos que constituíam a federação, sob a liderança
de Tito, recusaram as ambições soviéticas -> socialismo auto gestionário.

Apogeu e crises do socialismo monolítico

• 1953 -> morte de Stalin


• Reorientações na política internacional criaram condições para:
o Fim da Guerra da Coreia (53); fim da guerra do Vietnã contra o colonialismo francês,
reconhecendo no norte a independência da República Democrática do Vietnã (54);
reconciliação com a IUG (55); visita de N. Kruchev aos EUA em 1959.
• Mudanças no plano interno:
o Processo geral de institucionalização da revolução na sociedade soviética = afirmação da
supremacia do PC; ênfase no caráter coletivo da direção política; legalidade socialista;
eliminação ou subordinação de organizações que haviam ganho autonomia dentro do
Estado -> polícia política, assessoria particular do ditador.
o Processo de liberalização dos controles e da repressão = anistia para os presos políticos e
comuns, afrouxamento dos controles sobre os meios de comunicação, anúncio de políticas
descentralizantes e democratizantes.
• Desenvolvimento econômico:
o Conferir maior atenção às necessidades das pessoas comuns: habitações populares,
transportes coletivos, saúde e educação, agricultura...
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 16

o Reajustes de preços, política de incentivos, créditos para a expansão da indústria química,


política de desbravamento de terras virgens...
• “O XX Congresso do Partido Comunista, realizado em fevereiro de 1956, consagrou todas estas
mudanças de rumo, consolidando o clima de degelo”.
o Leitura do documento com denúncias contra Stalin, por Kruchev.
• Socialismo com manteiga.
• Entretanto, as promessas não se concretizavam -> “A superpotência era conseguia enviar foguetes à
Lua, mas não era capaz de alimentar o próprio povo”.
• Itália -> comunistas passaram a defender um perfil e rumo próprios para o socialismo nos países
capitalistas avançados: a evolução haveria de ser gradual, pacífica e baseada nas instituições
democráticas = Eurocomunismo.
• Queda de Kruchev em 1964.

O socialismo desenvolvido – força e fraqueza de um sistema

• Socialismo desenvolvido X socialismo realmente existente


• Novo secretário-geral: Brejnev.
• “Em prol da estabilidade, esvaziaram ou simplesmente revogaram as políticas reformistas
democratizantes e descentralizantes propugnadas por N. Kruchev” -> nova Constituição.
• 1975 -> fim da guerra do Vietnã -> vitória dos nacionalistas, hegemonizados pelos comunistas,
apoiados pela URSS.
• África -> movimentos de libertação nacional = Angola (MPLA) e Moçambique (FRELIMO) -> aliados
da URSS.
• América Latina -> revolução cubana
o Afirmaria sua autonomia ao longo dos anos 60.
o Morte de Che Guevara em 67 + fracasso do projeto da grande zafra = “alinhamento político
e diplomático com a URSS tendeu a se estabilizar, com a prevalência de aspectos centrais do
modelo soviético (partido único, plano centralizado, estatização geral da economia...)”.
• Europa Central -> permanecia uma situação instável = lutas por autonomia (ALB, HUN e ROM;
Primavera de Praga em 68).
• China e fracasso (?) das propostas maoístas -> morte de Mao em 1976.
• Apesar das contradições no campo socialista, a URSS era uma superpotência:
o Grande fornecedora de petróleo para a Europa Ocidental / potência naval mundial /
crescente processo de urbanização / qualificação da mão-de-obra
• Queda nos indicadores econômicos: crescimento industrial, agricultura, produtividade e
investimentos.

Três pistas para tentar entender Maio de 68


Francisco F. Buey

Três pistas possíveis para tentar reconstruir aquela história:

• 1º = Guy Debord (1988): “Nesses últimos vinte anos não há nada que fora coberto por mais mentiras
induzidas que a história de maio de 1968”.
o A direita política da época reduziu a interpretação dos fatos a um grande complô anarco-
marxista, a uma grande conspiração;
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 17

o Para o gaullismo, que saiu fortalecido, os acontecimentos foram uma “crise de civilização” e,
então, era preciso reforçar a “nossa civilização”;
o Para os grupos marxistas, os fatos eram uma crise internacional do capitalismo tardio que,
apesar da derrota de maio, seguiria apodrecendo.
• 2º = Maio/junho de 68 não foi uma grande festa lúdica, mas o grande susto -> um grande protesto
estudantil que acabou se convertendo em um grande susto para a maioria.
o Assustaram-se os burgueses (propriedades), pequenos burgueses (privilégios), De Gaulle,
partido socialista (achava que a época das revoluções já tinha passado), partido comunista
(falava em revolução, mas não nessa), sindicatos, intelectuais e profissionais.
o Do grande susto saiu a vitória da direita nas eleições, que estava a favor da ordem e do
Estado, mas também do Estado de bem-estar, das reformas sociais e culturais, de uma
reforma progressiva da universidade...
o Estudantes rebeldes se despediram com a frase célebre: “É só o começo. A luta continua” ->
mas maio de 68 foi realmente um começo ou o final de uma época?
o De 68 saiu o individualismo contemporâneo -> é filho daqueles que venceram os estudantes
e trabalhadores rebeldes.
• 3º = Os movimentos sociais novos, críticos e alternativos, tiveram sua origem no maio francês de 68
-> afirmação errada.
o Duas características que aparecem em quase todos os movimentos estudantis da época:
 Antiautoritarismo = não só no sentido da crítica à autoridade da família, do Estado,
das igrejas e do mandarinato nas universidades, mas também como autonomia
radical em relação aos partidos políticos.
 Anti-imperialismo = oposição aos dois modelos socioeconômicos cristalizados
durante a Guerra Fria.
o Esses traços passariam, já nos anos 70, à crítica feminista do patriarcado, à crítica ecologista
da sociedade industrial e produtivista e à crítica pacifista da estratégia militar do terror.
o Origens do feminismo, ecologismo e pacifismo = universidades norte-americanas,
manifestações britânicas contra a guerra, discursos de Luther King e na Universidade Livre
de Berlim.
o O slogan do maio francês “A imaginação no poder” não tem nada a ver com pacifismo,
protesto lúdico e meio-ambientalismo:
 “Queremos que a revolução que começa liquide não somente a sociedade capitalista
mas também a sociedade industrial. A sociedade da alienação desaparecerá da
história. Estamos inventando um mundo novo original. A imaginação no poder”.

As três dimensões de 1968


Charles-André Udry

• 1º = Institucional -> uma conjunção excepcional no tempo dos conflitos e crises à escala mundial e
uma escalada das lutas estudantis quase universais:
o Frente Nacional de Libertação no Vietnã; estudantes na Polônia reprimidos violentamente
pelo PC; Primavera de Praga; maio de 68 na França; lutas estudantis na Itália; ocupações
universitárias na Espanha; estudantes na Cidade do México; manifestantes contra a guerra
nos EUA.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 18

• 2º = mudança que ocorre no ritmo e na amplitude das lutas operárias e democráticas -> FRA, ITA,
ESP e em menor grau na GBR.
• 3º = surgimento ou reforço de organizações políticas, principalmente na Europa, mas também na
América Latina e Japão, que se situam na extrema esquerda do tabuleiro político & relançamento do
movimento sindical, por trás dos partidos de esquerda tradicionais.

A democracia ocidental reprime e bombardeia

• EUA -> combate pelos direitos civis dos negros, no início dos anos 60
o Rebelião dos negros, sobretudo de 1964 a 67.
o 1965 -> Malcom X é assassinado -> ele representava a ala mais radical e mais politizada do
movimento negro.
o 04/04/1968 -> assassinato de Martin Luther King.
• Golpe de estado militar na Indonésia, em outubro de 1965 -> alegou-se uma tentativa de golpe de
estado do Partido Comunista (PKI), dirigido por Aidit.
o PKI era o maior partido comunista fora do “bloco socialista”.

Uma outra forma de excelência humana – definindo contracultura


Ken Goffman e Dan Joy

O que é hip?

• Movimento hippie -> fazia experiências com drogas que expandiam a consciência e era ligado ao
movimento da Nova Esquerda/pacifista.
o Também “se dedicava a desafiar a autoridade, acabar com o imperialismo e a guerra e a um
mal definido comunalismo”.
• Webster’s New World Dictionary -> contracultura = uma cultura como estilo de vida que é oposto à
cultura dominante.
o Grupos que se opõem a aspectos de nossa cultura que são mais ou menos dominantes
podem ver a si mesmos como contraculturais.

“Contracultura” é questionável

• Contracultura é “afirmação do poder individual de criar sua própria vida, mais do que aceitar os
ditames das autoridades sociais e convenções circundantes, sejam elas dominantes ou subculturais”.
• Característica fundamental -> liberdade de comunicação.
• “Os movimentos contraculturais, não importa quão diferentes uns dos outros possam parecer,
surgem de diferentes combinações dos mesmos princípios e valores”.

Princípios definidores da contracultura

• “As contraculturas afirmam a precedência da individualidade acima de convenções sociais e


restrições governamentais”.
o Estímulo, encorajamento e defesa da expressão pessoal, no que diz respeito à liberdade de
opinião, crenças, aparência pessoal, sexualidade etc...
o Rejeição àquelas expressões de individualidade que oprimem os outros.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 19

o Individualismo não é avareza, egoísmo, egocentrismo. É o conselho socrático de “conhece-te


a ti mesmo”.
• “As contraculturas desafiam o autoritarismo de forma óbvia, mas também sutilmente”.
o “[...] todas desafiam o autoritarismo mais sutil exercido por sistemas de crenças rígidos,
convenções amplamente aceitas, paradigmas estéticos inflexíveis e tabus explicitados ou
não”.
o “o revolucionário contraculturalista não quer estabelecer um regime autoritário alternativo
no lugar do antigo, e sim buscar crescente liberdade e fortalecimento democrático para o
maior número de pessoas”.
• “As contraculturas defendem mudanças individuais e sociais”.
o Processo camaleônico de perpétua transformação na identidade pessoal, nos interesses e
nos objetivos almejados -> uma filosofia em um estilo de vida com contínua transformação,
com sistemas de valores, percepções e crenças mutáveis.
o Algumas mudanças não são contraculturais por natureza.
• Princípios contraculturais -> expressos de acordo com parâmetros estabelecidos pelo momento
histórico.

Características quase universais da contracultura

• “Rupturas e inovações radicais em arte, ciência, espiritualidade, filosofia e estilo de vida”.


o Contraculturas -> movimentos de vanguarda transgressivos -> seu apego à mudança e à
experimentação leva à ampliação dos limites da estética e das visões aceitas.
• “Diversidade”.
• “Comunicação verdadeira e aberta e profundo contato interpessoal, bem como generosidade e a
partilha democrática dos instrumentos”.
o Comunicação aberta = elemento de multiplicação de comunidades contraculturais.
o Comunicação intelectual -> fundamental para a formação de contraculturas.
o Uso criativo de meios de comunicação ou de espaços públicos estimulou a formação de
contraculturas.
• “Perseguição pela cultura hegemônica de subculturas contemporâneas”.
o Depois da perseguição normalmente vem a eliminação.
o “O grau em que uma determinada cultura foi ou é perseguida depende em grande medida
do nível em que aquele movimento pratica o ativismo social explícito e do grau de difusão
de sua mensagem”.
o Quando a perseguição fracassa, a cultura dominante tende a assimilá-la, sutilmente
enfraquecendo, distorcendo, tornando-a mercadoria de consumo de massa.
• “Exílio ou fuga”.

As personalidades dos contraculturalista

• “A brincadeira contracultural representa a recusa antiautoritária a levar muito a sério qualquer


pessoa, ideologia ou código de comportamento”.
• Estilos de vida libertinos tendem a produzir resultados ambíguos.
o Liberdade pode produzir um irresponsável descaso para consigo mesmo e os outros.
• “A intensidade da experiência deve ser privilegiada em detrimento da saúde e da longevidade?”.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 20

Contracultura e drogas em perspectiva

• Uso de drogas -> questão polêmica


• “Por definição, a contracultura luta pela liberdade, enquanto o vício em drogas é um tipo de
escravidão”.
• Longo histórico sobre a utilização de plantas psicoativas.
• Estados alterados de consciência algumas vezes podem ajudar as pessoas a conceber verdades
alternativas ou deixá-las abertas a múltiplas perspectivas.

A contracultura ainda é contra?

• Hoje várias liberdades são permitidas e estão disponíveis a um enorme número de pessoas.
• Conservadores afirmam quem em uma sociedade de massa as pessoas precisam de regras e códigos
-> a falta de uma ideologia social definida e inflexível seria responsável pela anomia social e a
decadência, o uso de drogas, abusos sexuais...
o Embora seja possível relacionar muito outros fatores que são igualmente responsáveis por
todo esse comportamento, não se pode negar que a liberdade desempenha um importante
papel em todo esse “caos”.

Quando você muda a cada novo dia – A contracultura jovem, 1960 – 1967
Ken Goffman e Dan Joy

E no princípio era um homem de estado alterado

• 1960 = o democrata John F. Kennedy assume a presidência, no lugar do general republicano Dwight
D. Eisenhower.
o Iniciou seu governo aumentando os gastos militares e os testes de bombas nucleares.
o “Kennedy era um a espécie de presidente sexo-e-drogas”.
o JFK estava um pouco sintonizado com a nascente geração de jovens idealistas -> “Ele era
simpático ao movimento pelos direitos civis (embora lento para agir) e, pouco antes de seu
assassinato, mudou sou postura de confronto com a União Soviética, defendendo o
desarmamento e a negociação”.
o Discurso em 1963: “Se não podemos dar um fim a nossas diferenças, pelo menos podemos
ajudar a fazer do mundo um lugar seguro para a diversidade. Pois, em última instância,
nossa semelhança mais básica é que todos habitamos este pequeno planeta”.
• 2 acontecimentos no início da década de 60 representaram o verdadeiro início da formação
contracultural:
o 1962 -> Universidade de Harvard, por pressão da CIA, demite dois professores ligados a
pesquisas com drogas psicoativas;
o No mesmo ano, um grupo de estudantes universitários define uma nova política de
esquerda pós-comunista, baseada em “democracia participativa”, identidade individual,
ativismo e alienação jovem.

Eles adorariam te deixar “ligado”

• Em 1960, Timothy Leary era professor de psicologia de Harvard. Em férias no México, experimentou
alguns cogumelos psilocibinos, que o deixaram impressionado.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 21

o “Leary retornou a Harvard determinado a conduzir experiências sobre o potencial


psicoterapêutico dessa substância. Ele criou um projeto de pesquisa sobre a psilocibina em
Harvard”.
o Leary se juntou à pequena mas crescente lista de pesquisadores psicológicos que
enfatizavam o potencial curativo dessas substâncias, como o LSD.
• Além das experiências de Leary, Harvard era um centro para experiências da CIA com alucinógenos -
> LSD.
• Alguns meses depois, a universidade demitiu Leary e outro professor.

Irmãos de esquerda

• 1960 -> organização universitária liberal de esquerda = Estudantes para uma Sociedade Democrática
(SDS) -> Nova Esquerda.
o Para eles, o sistema soviético não precisava ser levado a sério, nem como inimigo, pois era
um dinossauro velho e obsoleto.
o Seus membros, a maioria brancos, escolheram a luta pelos direitos civis dos negros como
compromisso existencial e símbolo de seu ativismo.
o Eles foram até o sul dos EUA para ajudar a desafiar a segregação racial -> “Juntamente com
os ativistas negros e cidadãos negros locais, eles eram ofendidos, ameaçados com armas,
agredidos pela polícia, colocados atrás das grades, e dois deles foram mortos” -> Mas
venceram.
o 1963 -> JKF enviou ao Congresso um projeto de lei de direitos civis, que se concentrava
basicamente no fim da segregação em escolas, restaurantes e hotéis.
o 22/11/63 -> JFK é assassinado, em Dallas.

Construindo o hippie perfeito, 1964 – 1967

• Graças a algumas tendências contraculturais antiautoritárias da década de 50, os anos 60 assistiram


a evolução de uma revolução cultural:
o 64 -> o filme Dr. Fantástico ou: como eu aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba,
de Stanley Kubrick, era contra establishment militar e político dos EUA.
o Bob Dylan, com canções de protesto, como “Masters of War” e “The Lonesome Death of
Hattie Carrol”.
o Algo sutilmente antiautoritário vinha das sitcoms da TV, que retratavam o representante da
autoridade como um palhaço -> A Feiticeira; Jeannie é um gênio; Guerra, sombra e água
fresca.
o Inglaterra -> alguns jovens, a maioria deles da classe operária e muitos nascidos durantes a
guerra, estavam vivendo nos escombros de um império decadente construído sobre fortes
distinções de classe. Combinando ritmos americanos e ingleses, eles desenvolveram um som
próprio: The Beatles e Rolling Stones.
 Embora eles “partilhassem a incipiente sensação de insatisfação jovem que
permeava sua cultura, eles não estavam ali para “subverter o paradigma
dominante” ou qualquer coisa assim. Os roqueiros queriam apenas se divertir
tocando a música que adoravam, conseguir algum dinheiro e se dar bem com as
gatas”.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 22

Uma curta viagem de familiarização

• Para os hipsters, em 65 a bomba era mais um fato da vida -> agora eles falavam do amor, da
comunhão e do êxtase.
• Em 66, todo esse carnaval começou a preocupar as autoridades, principalmente nos EUA.
o “De acordo com os padrões sociais vigentes, alguma coisa imprópria estava acontecendo,
mas como o LSD [...] ainda era legal, não havia muito que se pudesse fazer”.
o Então a imprensa e os políticos começaram a se mobilizar.
• Por todo o país, estados começaram a aprovar leis proibindo o LSD.
o “Leary chamou a isso de a quinta liberdade, o direito de um ser humano controlar seus
próprios estados de consciência. Em uma sociedade livre, o Estado não pode impedir as
pessoas de alcançarem qualquer estado mental, desde que essas pessoas não se metam
com as outras”.
• Outro grupo -> diggers:
o Discordavam que a consciência psicodélica, em si e por si mesma, iria produzir uma
sociedade legal, excitante, liberada. Eles também não gostavam dos novos-esquerdistas e
suas manifestações.
o “As pessoas deveriam ser atuantes, renovando suas próprias vidas e sua cultura”.
o As mudanças radicais seriam produzidas a partir de uma ação local, nas ruas, no aqui e
agora.
• 1966 -> Human Be-In = encontro para festejar e divulgar a crescente cultura hippie, em São
Francisco.
o A mídia nacional exibiu imagens da festa para todo o país, fazendo com que diversos jovens
vissem o Be-In como mais divertido que a universidade, o trabalho e a aposentadoria.
• Hipster x Hippie = Evolução:
o 1940 -> hipsters negros chamavam hipsters brancos de hippies;
o 1950 -> hipsters brancos chamavam hipsters poseurs de hippies;
o 1960 -> seguidores de Timothy Leary, de elite, chamavam os “pobres” que os seguiam de
hippies.

Uma viagem mágica miserável

• Influência hippie: alguns analistas achavam que eles representavam um futuro em que os avanços
tecnológicos eliminariam a miséria humana e a necessidade de fazer trabalhos chatos -> “Deixe a
máquina fazê-lo” era a resposta hippie à ética de trabalho.
• “Journey to the Center of the Mind”; “Hot Smoke and Sassafras”.
• Musical Hair.
• As lojas de departamento vendiam incense, camisas indianas, colares e sandálias.
• 1950-60 -> programa MK-ULTRA = experiências da CIA sobre a eficiência do LSD e testes em agentes.
Havia a ideia de que russos e chineses também estariam testando.

Esquecidos: irreverência e fuga entre os políticos, 1964 – 1967

• Mesmo quando Lyndon Johnson aprovou no Congresso a legislação de direitos civis de JFK e a
explícita segregação racial se tornou ilegal, os negros teriam que enfrentar toda uma teia de poder
econômico e social racista.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 23

• Cansados do papel de suplicantes, os jovens radicais negros começaram a estudar história africana e
americana, adotando uma tradição do nacionalismo negro que remontava ao início do século XX, de
Du Bois e Marcus Garvey.
• 1966 -> Califórnia -> Newton e Bob, dois jovens estudantes negros influenciados pelas ideias
políticas do movimento Black Power.
o “Como todas as comunidades negras espalhadas pelos EUA naquela época, Oakland era
policiada por uma força inteiramente branca. O racismo e a brutalidade eram mais uma
regra que uma exceção”.
o Newton estudou a Constituição e a Declaração de Direitos e concluiu que os afro-
americanos podiam usar armas e policiar a polícia -> Newton e Bob formaram o Partido
Pantera Negra para Defesa Pessoal, e armados com rifles, começaram a seguir a polícia de
Oakland para garantir que ela estava fazendo seu trabalho corretamente.
• 1967 -> ano do hippie; 10% da pop. entrevistada se opunham à guerra do Vietnã; Nova Esquerda em
crise.
• Marcuse -> a classe operária de esquerda fora comprada pela riqueza material e submetida a uma
lavagem cerebral pelos meios de comunicação, e já não era capaz de desafiar o sistema.
o “O capitalismo tinha desenvolvido suas habilidades de cooptação e podia absorver todas as
formas de rebelião e mesmo aparente revolução”.
o Marcuse era contra o capitalismo e a tecnocracia -> a guerra não é só barbárie, mas uma
imposição de ciência, tecnologia e dominação.
• Jovens dos anos 60 = paradoxo entre Tecnologia como libertadora da necessidade material e do
trabalho tedioso X Tecnologia como máquina terrível a serviço do poder.

Selvagens nas ruas – a contracultura jovem, 1968 – 1972


Ken Goffman e Dan Joy

Contrarrevolução

• Embora grande parte da repressão fosse uma reação natural de agentes da lei às provocações,
também estava em ação um grande programa secreto do governo dos EUA para espionar, enquadrar
e até assassinar radicais e/ou hippies.
o O programa COINTELPRO = “com o governo Nixon assumindo o poder, aproximadamente
250 mil novos-esquerdistas, líderes hippies e até mesmo democratas liberais, além de astros
do rock e outras personalidades, foram sujeitados a um programa de estrita vigilância pelo
FBI”.
• Início de 1968 -> “Entre esquerdistas, e mesmo entre alguns hippies, a nova palavra era revolução...
por quaisquer meios que fossem necessários, e ela deixou de ser sussurrada para ser gritada”.

Rumo à revolução

• A primeira manifestação dessa nova postura foi na França, em maio -> “começou com uma tentativa
da polícia de Paris de encerrar um encontro de estudantes que planejavam protestos contra a
Guerra do Vietnã, sob o pretexto de que extremistas de direita poderiam atacar a reunião”.
• A intervenção da polícia atraiu uma multidão de estudantes -> sua luta por direitos tinha o apoio do
público em geral: professores, funcionários de universidades, militantes operários... Cerca de dez
milhões de trabalhadores entraram em greve.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 24

o Manifestantes queriam que o governo nacional de Charles De Gaulle renunciasse.


o Frases de protesto: “Todo poder à imaginação”; “Seja realista. Peça o impossível”.
• Maio de 68 foi desmontado por uma combinação de forças:
o “Cerca de um milhão de direitistas radicais, incluindo muitos neonazistas, tomaram as ruas
em uma contrarrevolução”.
o O Partido Comunista conseguiu para os trabalhadores as concessões habituais: salários mais
altos, férias maiores, novos benefícios.
• “o establishment francês nunca mais tentou impedir que estudantes organizassem encontros ou
manifestações legítimas”.
• EUA -> SDS encontrou ligações da Universidade de Colúmbia com a máquina da Guerra do Vietnã.

O apocalipse de Abbie

• Abbie Hoffman -> YIPPIE! = Youth International Party, “uma tentativa de unir as contraculturas
hippie e da Nova Esquerda em uma única força”.
• 1968 -> “Festival da Vida” na Convenção Nacional do Partido Democrata em Chicago = uma
“alternativa ao festival de morte que estava sendo patrocinado pelo Partido Democrata, que ainda
administrava a Guerra do Vietnã”.

Com a boca no mundo

• 1969 -> posse do republicano lei-e-ordem Richard Nixon -> aumentaram as condições para a guerra
cultural e o conflito político, assim como cresceu a guerra no Vietnã.
o “guerra às drogas” -> uma lei “sem bater”, que permitia que a polícia invadisse as casas de
suspeitos de posse de drogas sem aviso.
• 1968-69 = grandes revoltas de jovens em praticamente todos os países de Europa Ocidental /
México / Japão / Tchecoslováquia comunista.
• A maior parte do esforço do COINTELPRO do FBI era dirigido contra os Panteras Negras -> todos os
diretórios tinham sido fortemente infiltrados com agentes.
o “os Panteras Negras de Oakland eram em grande medida parte do triângulo contracultural
da Bay Area, que incluía os freaks radicais de São Francisco e os radicais de Berkeley”.

Não precisamos de um homem do tempo. Na verdade, não precisamos de homes!

• “Na primavera de 1969, a maioria dos americanos se opunha à guerra, mas eles gostavam ainda
menos da esquerda freak”.
• Condenação dos Sete de Chicago por conspiração.
• Convenção nacional da SDS em junho de 1969 -> 3 facções lutavam para controlar a organização:
o RYM (Movimento Jovem Revolucionário) = grupo controlado pela organização nacional e
apoiado pelos Panteras Negras -> slogan: Tragam a guerra para casa! -> weatherman.
o RYM II
o Partido Trabalhista Progressista = corrente maoísta bastante rígida, que acabou
conquistando a liderança do SDS.
• “Ao longo de toda a década de 1960, a maioria das mulheres na cultura da Nova Esquerda era
tratada como cidadãs de segunda classe, afastadas das discussões para tomada de decisões [...]
relegadas a preparar café e mimeografar panfletos”.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 25

o Em 1969 as mulheres se revoltaram, ocupando escritórios dos movimentos e jornais


alternativos.
o A maioria dos homens percebeu que as mulheres estavam certas e tentaram corrigir o
desequilíbrio.
o A vanguarda do movimento das mulheres exigia a completa separação dos homens da Nova
Esquerda.
• Anos 70 -> “à medida que persistia a hostilidade feminista contra a sexualidade masculina, a
esquerda se tornou um dos poucos espaços na sociedade americana em que as pessoas eram tensas
acerca da sexualidade”.
• 1969 -> “As atividades homossexuais ainda eram ilegais, portanto os gays estavam sujeitos a
constante assédio e mesmo prisão simplesmente por serem sexualmente ativos”.
o Depois de uma operação policial em um bar gay, irrompeu uma revolta.
o “A revolta deu início a uma nova era, com organizações de libertação gay sendo formadas e
afirmando seu direito a “sair do armário” e ocupar o espaço como seres humanos com
tantos direitos quanto qualquer outro”.
o Os líderes da Nova Esquerda, a maioria heterossexual, foram novamente sacudidos pela
emergência de um grupo oprimido.
• Verão de 69 -> Woodstock.

Um golpe e um gemido

• 30/4/1970 -> Nixon ampliou a guerra enviando vinte mil soldados americanos para o Camboja,
gerando uma nova onde de protestos.
• Com as férias de verão, a revolução nunca voltou.
o “Afinal, as grandes massas de jovens hip, embora odiassem a guerra e as reações exageradas
das autoridades governamentais, não tinham o tipo de dedicação à completa mudança
social que o núcleo da contracultura tinha”.
o À medida que 1970 se transformava em 71, os estudantes pararam de participar de
protestos em massa.
o Outro fator de desmobilização -> no início dos anos 70, a quase maioria dos principais
defensores da revolução estavam na cadeia, sob julgamento ou no exílio.
• 1972 -> eleição presidencial = se a contracultura não conseguia derrubar o governo e fazer do
mundo um lugar diferente, talvez fosse melhor tomar o Partido Democrata e mudar o sistema por
dentro.
o Mas a América não deixaria os hippies tomarem conta do país -> reeleição de Nixon.

1968: rebeliões e utopias


Marcelo Ridenti

Guerra do Vietnã e suas repercussões em 1968

• 1968 -> Guerra do Vietnã -> Ofensiva do Tet = a partir de 30 de janeiro, por ocasião dos feriados do
Ano Novo lunar (Tet), os comunistas do Vietnã do Norte atacaram o Vietnã do Sul e as forças
americanas.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 26

o Comunistas perderam de 30 a 40 mil homens -> mas foi uma vitória política, pois “a ousadia
da ofensiva e as baixas americanas provocaram impacto no governo e na opinião pública dos
EUA”.
o O Vietnã dividira-se me dois após a libertação do jugo colonial francês = capitalista /
comunista.
o Desde o início dos anos 60, os EUA passaram a mandar conselheiros militares ao Sul.
o Um suposto ataque a dois destroieres americanos no Golfo de Tonquim, em 64, serviu para
justificar o envolvimento militar direto na guerra.
 “Enquanto soviéticos e chineses forneciam armas e apoio logístico aos comunistas,
os americanos resolveram intervir diretamente na guerra, enviando tropas”.
o Americanos estavam no Vietnã para impedir a queda do governo capitalista, ameaçado
pelos guerrilheiros comunistas da Frente Nacional para a Libertação do Vietnã do Sul ->
Vietcongues.
o Só voltaram para casa em 1973, derrotados militar e moralmente, com 57 mil mortos em
combate.
• Anos 50 -> crescimento do movimento pelos direitos civis dos negros -> pastor Martin Luther King,
grande orador e pacifista, teve seu auge político nas grandes manifestações negras no Alabama, em
63.
o Ganhou o Nobel da Paz em 64 e ajudou na conquista das leis de 1964-64, que garantem
formalmente aos negros os mesmos direitos civis de qualquer cidadão americano.
• 1968 -> surgimento de vários grupos radicais negros -> black power -> passavam a ser contestadas as
propostas de Luther King, de integração racial e de não-violência.
o “Apesar das divergências, tanto os adeptos de King como os black power posicionavam-se
contra a Guerra do Vietnã, até porque os negros estavam na linha de frente nos campos de
batalha”.
• 1968 -> eleições presidenciais nos EUA:
o Partido Republicano, mais conservador, indicou Richard Nixon, que “prometia defender o
sonho americano para agradar à maioria silenciosa, chocada com as ondas de rebeldia que
invadiam as ruas e com as mudanças de comportamento da juventude e das minorias,
especialmente dos negros”.
o Partido Democrata indicou Hubert Humphrey.
• Guerra do Vietnã -> também se articulou em torno dela o movimento de contracultura, pregando
paz e amor, convocando o jovem para que “faça amor, não faça guerra”.
o “O amor livre e as drogas seriam liberadores de potencialidades humanas escondidas sob a
couraça imposta aos indivíduos pelo moralismo da chamada sociedade de consumo”.
• 1968 -> não foi o ápice do movimento estudantil nos EUA -> foi um momento significativo das lutas
que se articulavam em torno do combate à Guerra no Vietnã e ao serviço militar obrigatório.
o Os jovens “jamais conseguiram romper o isolamento dos campi universitários, tendo sido
sempre vistos à distância e com desconfiança pelo restante da população”.

1968 estudantil e operário na França

• A crise gerada pela guerra da Argélia levou a centro-direita ao poder, em 1958, sob o comando do
general De Gaulle -> a partir daí o Executivo ganhou força (Quinta República), com a entrada em
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 27

vigor da nova Constituição, que dava poderes maiores ao presidente, em detrimento do poder
Legislativo.
• 22/03/68 -> estudantes ocuparam a Universidade de Nanterre, em protesto contra a prisão de seis
estudantes do Comitê Vietnã Nacional -> esse dia costuma ser caracterizado como o marco inicial do
movimento que se estenderia até junho.
• Maio -> polícia ocupa a Sorbonne -> enfrentamentos com estudantes no Quartier Latin (bairro
universitário em Paris).
o “O movimento de maio inaugurava novo estilo de ação e manifestação, fora de partidos ou
sindicatos, recusando qualquer tipo de tutela política”.
• 13/05 -> Greve de 24 horas -> 20/05 -> 10 milhões de trabalhadores em greve + todo o sistema
universitário.
• 30/05 -> De Gaulle dissolveu o Parlamento e convocou eleições gerais.
o A maioria silenciosa foi às ruas apoiar o presidente, fazendo manifestações de centenas de
milhares de pessoas.
o A direita francesa venceu as eleições.

1968 no Brasil

• 31/03/1964 -> golpe militar


• 1965 -> regime extingue os partidos constituídos -> Arena e MDB.
o Fora do campo institucional, vários grupos combatiam a ditadura e organizavam
movimentos populares: PCB, Ação Popular, PC do B, Polop, ALN e VPR.
• Devido à repressão, a “principal fonte de recrutamento de militantes estava no meio estudantil,
berço do único movimento de massas que se rearticulou nacionalmente nos primeiros anos do pós-
64”.
• 1968 -> manifestações de estudantes:
o Por um lado, reivindicavam ensino público e gratuito para todos, uma reforma que
democratizasse o ensino superior e melhorasse sua qualidade, com maior participação
estudantil nas decisões, mais verbas para pesquisa...
o Por outro lado, contestavam a ditadura e o cerceamento às liberdades democráticas.
• Junho -> movimento atinge seu ápice em todo o país, com greves, ocupações de faculdades,
passeatas...
• 15/10/68 -> polícia prende todos que estavam no Congresso da UNE, em Ibiúna -> fim do
movimento estudantil de 68.
• Setores artísticos críticos da ordem estabelecida estavam divididos em dois grandes campos:
o Nacionalistas = usavam uma linguagem brasileira, na luta pela afirmação de uma identidade
nacional-popular quase socialista;
o Vanguardistas = sintonia com as vanguardas europeia e americana, com a contracultura.

Outros 1968s

• México -> PRI conduzia um sistema político autoritário, fechado e corrupto -> setores das classes
médias opositoras conseguiam conviver com ele devido à autonomia da Unam -> quando a polícia
ocupou a universidade, houve protestos e uma greve.
o Às vésperas dos Jogos Olímpicos, o governo, juntamente com a CIA, mandou a polícia abrir
fogo contra os manifestantes na Praça das Três Culturas, em Tlatelolco.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 28

• Igreja Católica -> realizou, na Colômbia, a Conferência Episcopal Latino-Americana = a favor dos
pobres e pela defesa dos direitos humanos.
• Tchecoslováquia -> reformados Alexander Dubcek foi escolhido primeiro-secretário do PC -> iniciou
o socialismo democrático -> o país conheceu extraordinário florescimento cultural e político -> em
agosto, tropas do Pacto de Varsóvia, lideradas pelas forças armadas da União Soviética, invadiram a
TCH para recolocar no poder gente de sua confiança = Primavera de Praga.

Conclusão

• Meios de comunicação -> informaram os agentes sociais das agitações que se iam sucedendo pelo
mundo “porque estavam dadas as condições para que as notícias recebidas tivessem repercussão e
as informações incorporadas colaborassem na construção de novas ações criativas, política e
culturalmente”.
• Condições materiais compartilhadas pelas diversas sociedades em que houve o florescimento
cultural e político de 68:
o Crescente urbanização / consolidação de modos de vida cultura das metrópoles / aumentos
quantitativo das classes médias / acesso crescente ao ensino superior / peso dos jovens na
pirâmide etária
• Características dos movimentos libertários de 68 no mundo:
o Inserção numa conjuntura internacional de prosperidade econômica / crise no sistema
escolar/ propostas revolucionárias alternativas ao marxismo soviético / recusa de guerras
coloniais ou imperialistas / negação da sociedade da consumo / aproximação entre arte e
política / mudanças comportamentais

Um novo período de revoluções no Terceiro Mundo


F. Halliday

Ondas revolucionárias

• 1º onda -> a primeira Guerra Fria esteve acompanhada da criação de regimes pós-capitalistas tanto
na Europa como no Extremo Oriente -> foi uma consequência do enfraquecimento dos Estados pela
guerra e do papel desempenhado na luta contra o fascismo pelo Exército Vermelho e pelos partidos
comunistas.
o Novos Estados pós-capitalistas na Europa Oriental = Iugoslávia e Albânia (movimentos
nacionalistas e revolucionários); ALE, HUN, ROM, BUL, POL, TCH (imposição desde cima da
autoridade comunista) -> Democracias Populares.
o Grécia -> impediu-se tal mudança mediante a contrarrevolução armada, frente à posição
inicialmente poderosa dos comunistas locais.
o Extremo Oriente -> China, Coreia e Taiwan.
 “Em nenhuma destas conseguiram os revolucionários colocar todos seus territórios
nacionais sob seu controle. Taiwan, Coreia do Sul e Vietnã do Sul permaneceram sob
autoridade capitalista”.
• Após um período de estabilidade no Terceiro Mundo, os países colonialistas empreenderam o
processo de descolonização, enquanto que dezenas de novos Estados conseguiram a independência
a partir dos anos 50 em diante.
• 2º onda -> final dos anos 50 e início dos anos 60 -> Ibero-América, Oriente Médio e África.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 29

o Revolução Cubana (1959); Independência da Argélia (1962).


o 1969 -> golpes levaram ao poder regimes mais radicais que os governos anteriores: Iêmen
do Sul, Somália, Líbia e Congo-Brazzaville.
 Único caso de tomada revolucionária do poder= Iêmen do Sul -> durante doze anos
(1962-74).
o 1965 -> Indonésia = contragolpe direitista derrota o PKI.

Evoluções dos anos setenta

• 3º onda -> revolução na Etiópia (1974), o terceiro estado mais povoado da África -> destronamento
de Haile Selassie e ruptura dos laços militares com EUA (1977).
• 1974 -> Revolução dos Cravos, em Portugal -> queda do fascismo -> triunfo de guerrilhas em seis
países africanos = Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé + Zimbábue.
• Guerras do Vietnã, Laos e Camboja acabaram em 1975 com a queda dos regimes pró-EUA
respectivos, depois de três décadas de conflito.
o “Marcou a derrota de duas estratégias imperiais alternativas: a intervenção direta de forças
estadunidenses (1965 – 1973) e a doutrina Nixon de delegar o papel de linha de frente no
Vietnã a tropas locais e outras asiáticas (1973 – 1975)”.
• Intervenção soviética no Afeganistão (1979) -> uma tomada de poder em um golpe militar
esquerdista, sob o controle de um partido comunista.
o “No Afeganistão, a tentativa errônea do governo comunista para implantar reformas desde
cima, de modo precipitado [...] conduziu à crise que produziu a intervenção soviética de
dezembro de 1979”.
• Crise dos reféns em Teerã (1979) -> uma insurreição massiva de base, sob a liderança do clero
islâmico ultraconservador.
o Tomada da Embaixada americana em Teerã por militares islâmicos, que mantiveram os
diplomatas até janeiro de 1981.
• 4 focos geográficos de levantes: Chifre da África, sul da África, Indochina e Ásia Central.
o 5º = América Central -> Cuba, Tratados do Canal do Panamá (1976-78), triunfo do
movimento sandinista na Nicarágua (1979) e insurreição do New Jewel Movement em
Granada.

A diversidade de revoluções

• 4 revoluções onde os partidos comunistas desempenharam o papel dirigente = Vietnã, Camboja,


Laos e Afeganistão.
• Irã = era dominante as organizações e a ideologia do populismo religioso de extrema direita.
o A revolução se produziu exclusivamente nas cidades -> a primeira do Terceiro Mundo nessa
forma.
• Vietnã, Laos, Camboja e Nicarágua = partidos socialistas revolucionários conseguiram o poder e se
dedicaram a aplicar seu programa.
• Angola, Moçambique e Etiópia = forças nacionalistas radicais mais avançadas.
• 3º onda -> surgiu contra alguns dos últimos exemplos das velhas ordens coloniais e pré-capitalistas.
• Derrotas dos EUA:
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 30

o Vietnã / Angola (apoio de forças cubanas com proteção soviética) / Irã (queda do xá e
detenção dos reféns) / Nicarágua (presença de Somoza, aliado dos americanos, e desejo de
construir um segundo canal , não resistiu à revolução).

Implicação soviética: mito e realidade

• Ocidente acusa a URSS de aventureirismo e agressão no Terceiro Mundo, além de possuir


superioridade militar.
• A URSS teve uma parte significativa na nova onda de levantes no Terceiro mundo, proporcionando
assistência militar para forças guerrilheiras e dando proteção estratégica a estados revolucionários,
após se estabelecerem.
o Tal capacidade dependeu mais de algo fora do controle da URSS = a evolução interna das
situações políticas de cada país e a resposta dos EUA a essa evolução.
• Núcleo da “ameaça soviética” = Oriente Médio -> Israel e o petróleo.
o “Quase tão certo como a Europa nos anos quarenta, o Golfo proporciona a fonte crítica de
conflito entre os EUA e a União Soviética”.

Cap. I – A primeira recessão generalizada da economia capitalista internacional desde a 2º Guerra


E. Mandel

• 1974-75 -> economia capitalista internacional conheceu sua primeira recessão generalizada desde a
2º Guerra -> é a única, até então, a atingir simultaneamente todas as grandes potências
imperialistas.
• 1948-68 -> dessincronização do ciclo industrial tinha reduzido a amplitude das recessões.
• Toda queda da produção e da demanda internas dos países atingidos por uma recessão foi
compensada por uma expansão das exportações para os países que escaparam da crise.
o Em 1974-75 a “sincronização internacional dos movimentos conjunturais nos principais
países imperialistas amplificou o movimento de retração da atividade econômica”.
• Depois de 1945 -> a técnica principal utilizada pelos governos burgueses para tentar “controlar” o
ciclo foi a política de expansão e controle sucessivos do crédito.
o “para frear a amplitude das crises periódicas contínuas de superprodução que vinham
ocorrendo havia 25 anos, aplicaram a expansão do crédito e a expansão monetária”.
o Como o Estado, o Banco Central e a moeda capitalista continuam nacionais, esses ciclos de
crédito também foram nacionais e dessincronizados no plano internacional.
o Técnicas anti-crise eram inflacionárias -> inflação acelerou em todos os países imperialistas,
cujos governos foram obrigados a aplicar políticas anti-inflacionárias -> daí um impulso à
sincronização internacional do ciclo industrial.

Cap. II – A amplitude da recessão de 1974/75

• “Em 1975, a produção industrial e o Produto Nacional Bruto recuaram com a relação ao ano anterior
em todos os grandes países imperialistas”.
• Inverno de 1975-76 -> desemprego atingiu ponto máximo, com cerca de 17 milhões de
desempregados.
• Dois motivos para o desemprego ter sido maior que a queda da produção:
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 31

o Atividade industrial dos países imperialistas continua marcada pela terceira revolução
tecnológica -> introdução de técnicas de produção semiautomáticas e automáticas.
o Para reconstituir o exército industrial durante o período de expansão, o capital tinha
incorporado mulheres, jovens e imigrantes -> mal pagos, eram aptos a serem expulsos do
processo de produção logo que a conjuntura mudasse -> tal expulsão aconteceu em 1974-
75.

Cap. III – A contração do comércio mundial

• Durante vinte anos, as exportações dos países capitalistas tinham crescido mais rapidamente do que
a produção industrial -> em 1975, pela primeira vez desde o começo da longa fase de expansão
econômica, o volume das exportações diminuiu.
• A contração do comércio mundial não coincidiu com o começo da recessão generalizada.
• A retração no volume do comércio mundial resulta da interação de três fatores:
o Ela é produto da recessão nos países imperialistas, pois as quedas na produção e no
emprego reduzem a demanda global por bens de consumo;
o Ela é produto indireto da recessão, pois os países exportadores de matérias-primas veem
seus recursos em dívidas reduzidos pela queda do volume e dos preços das exportações.
o Ela é produto de uma política de redução das importações e de uma volta “disfarçada” ao
nacionalismo econômico e ao protecionismo.

Cap. IV – Uma crise clássica de superprodução...

• A recessão generalizada de 1974-75 é uma crise clássica de superprodução & a conclusão de uma
fase típica de queda da taxa média de lucros.

A crise contemporânea e as tendências naturais do sistema para superá-la


Samir Amin

• Estados de equilíbrio -> Modalidades de 1984


o “1984 restabelece uma correspondência perfeita entre as forças produtivas perfeitamente
socializadas e as relações de produção perfeitamente dominadas pela alienação mercantil”.
• Contradição entre a crescente socialização das forças produtivas & renovação das relações de
produção capitalistas -> foi superada pela centralização do capital que, assim, adquire um caráter
“abstrato” e pela paralela destruição progressiva dos modos de produção pré-capitalistas.
• Empresa do burguês individual -> sociedade anônima -> monopólio.
• 1984-A
o Divisão internacional do trabalho = centro -> novas indústrias / periferia -> indústrias
“clássicas”, “poluentes”.
o Novas indústrias -> durante a fase de arranque, exigem uma força de trabalho altamente
qualificada, relativamente mais numerosa; depois, graças à automatização, quase não exige
mais mão-de-obra.
o Cidadãos do centro estariam ocupados em atividades parasitárias -> a periferia forneceria os
produtos agrícolas e industriais “clássicos” à sua manutenção.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 32

o As mercadorias produzidas pela periferia são mercadorias mundiais produzidas pelos mais
modernos meios -> é errado dizer que a remuneração do trabalho na periferia fosse inferior
porque seu nível de desenvolvimento das forças produtivas seria atrasado.
o As indústrias “clássicas” não seriam igualmente distribuídas entre todas as regiões da
periferia -> sub-imperialismo.
 “Os países sub-imperialistas importariam capitais e tecnologia do centro,
exportariam os produtos das indústrias “clássicas””.
 Concentração das indústrias “clássicas” + elevada taxa de exploração do seu
proletariado = burguesias sub-imperialistas beneficiar-se-iam de parte do excedente
suficiente para assegurar o equilíbrio econômico e político do sistema.
• 1984-B
o Exclui toda e qualquer divisão internacional do trabalho;
o Indústrias novas e “clássicas” estariam concentradas no centro;
o Periferia seria marginalizada.
• 1984-A é mais natural porque “a expansão desigual do capitalismo através do mundo foi uma
tendência permanente do sistema, o meio pelo qual ele superou historicamente a sua contradição
imanente”.
o A evolução de 1984-A dá-se “na rigorosa igualdade de produtividades, na total
modernização das produções da nova periferia mas também na paralela manutenção de
uma diferença nos salários reais”.
• A transição do atual modelo de acumulação para o modelo de 1984 implica uma enorme massa de
investimentos para o estabelecimento das novas indústrias. Quem vai financiar estes investimentos?
O proletariado do centro e/ou o da periferia?
o Burguesia forte -> dispõe de uma zona de influência para lançar as dificuldades de transição
-> 1984-A.
o Burguesia fraca -> transfere o peso da transição para seu próprio proletariado -> 1984-B.

A guinada conservadora
Agustin Cueva

• “Se algo ocorreu na última década como consequência da crise do capitalismo, não foi senão uma
verdadeira redistribuição regressiva da renda em praticamente todos os países do Ocidente; longe,
pois, de ter havido um nivelamento das classes ou a redistribuição progressiva da riqueza”.
• 1979-84 -> PIB = Comunidade Econômica Europeia cresceu 5,6% / EUA 10,4% / Japão 21,7%
• Desemprego na Europa Ocidental -> 3% em 1971 – 12% em 1986 (mais de 17 milhões de
desempregados).
• “O êxito do capitalismo não parece, pois, traduzir-se por grandes resultados econômicos de ordem
geral, mas por ressonantes triunfos da burguesia como classe, tanto a nível propriamente político
quanto ideológico”.
• Constante deterioração da força sindicalizada na Europa Ocidental.
o Retrocesso político e social da classe operária faz parte de uma mudança na economia
ocidental, cuja ênfase se desloca progressivamente do trabalho para o capital.
o Dentro desse deslocamento tem-se a flexibilidade do trabalho = série de propostas políticas
que incluem cortes nos salários reais, desigualdades econômicas crescentes, aumento da
insegurança no emprego e redução dos benefícios sociais.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 33

• Triunfo da burguesia na Europa Ocidental sobre “sua” classe operária e sobre uma intelectualidade
até então “desgarrada”.
• Direita:
o Considera a diversidade do mundo e as desigualdades relativas como um bem.
o Considera a homogeneização progressiva desse mundo como um mal.
• Fobia anticomunista -> acontece quando os comunistas europeus estão em plena retirada, se
deslocando para o “centro”, para posições próximas à socialdemocracia.
• Temos um “profundo movimento de todo o espectro político, ideológico e cultural do Ocidente para
a direita: eis aí o grande triunfo da burguesia imperialista”.
• 1974-79 -> conservadorismo cada vez mais beligerante.
o 1979 -> Margaret Thatcher, a Dama de Ferro.
o EUA -> Jimmy Carter opera uma profunda guinada na política exterior, uma “segunda guerra
fria” -> 1980 -> Ronald Reagan.
• Como explicar mudanças tão bruscas em um lapso de tempo relativamente tão curto?
o Crise do mundo capitalista a partir da recessão em 1974-75.
o Elevação dos preços do petróleo.
o O imperialismo tem a impressão de que a estrutura econômica do mundo voltou atrás ->
pela primeira vez na história do capitalismo, a tendência à deterioração dos termos de
intercâmbio está a favor de determinados países subdesenvolvidos.
o Transformações em detrimento do imperialismo = triunfo de movimentos e partidos
revolucionários do Vietnã, Camboja, Laos, Angola, Moçambique, Etiópia, Irá, Nicarágua...
 Europa assiste a isso com certa sensação de impotência, como um poder mundial de
segunda, incapaz de “manter a ordem” em sua esfera “natural” de influência: África
e Oriente Médio.

Fundamentalismo
Martin N. Dreher

• Início do uso do conceito -> grupos de cristãos protestantes conservadores deram a si mesmos essa
designação, no início do XIX, nos EUA.
o “Os fundamentalistas viam-se como contraofensiva a um modernismo que, assim diziam,
havia se apossado do mundo protestante”.
o Contraofensiva a uma Teologia que estava interpretando conteúdos da fé, especialmente os
textos bíblicos, a partir de uma perspectiva histórico-crítica.
o “Fundamentals eram os conteúdos de fé, verdades absolutas e intocáveis, que deveriam
ficam imunes à ciência e à relativização por meio do método histórico”.
• 2 aspectos do movimento fundamentalista:
o Oposição e reação contra transformações da religião, determinadas pela Modernidade.
 “O fundamentalista quer defender sua verdade religiosa, que se vê ameaçada pelos
poderes da Modernidade, designados de pluralismo, relativismo, historicismo e
destruição de autoridades”.
 Busca-se uma reislamização do mundo islâmico; uma recristianização do mundo
ocidental.
o Relação entre política e religião.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 34

 Fundamentalistas cristãos acham que a política deveria ser cristã -> exigiam que o
Estado defendesse, nas escolas públicas, sua concepção bíblico-fundamentalista do
ser humano.
• Investida sobre a política em nome da religião -> é um aspecto central dos movimentos de
renovação religiosa que começaram a se formar desde a década de 70 -> para caracterizá-los
passou-se a usar o conceito de fundamentalismo
o 1979 -> aiatolá Khomeini proclamou uma república islâmica.
 Uma reislamização do mundo islâmico contra a Modernidade ocidental trazida pelo
colonialismo europeu.
• Não conseguiremos entender a situação do mundo atual se não reconhecermos que a religião
também é um fator do processo histórico.
o Essa é uma constatação estranha para a tradição iluminista ocidental, pois “o surgimento de
movimentos fundamentalistas evidencia que a história da Modernidade segue um curso
diferente do que o propalado pelo culto à razão”.
 “A razão ilustrada tinha certeza do progresso, da evolução, assegurava que a religião
atrapalhava o ser humano na realização de seu verdadeiro destino”.
o Movimentos fundamentalistas = são a comprovação de que verdades religiosas podem
voltar a dominar o ser humano.
• Importância cultural dos movimentos religiosos:
o São expressão autêntica da cultura de nossos dias.
o Fundamentalismo surge em sociedades seculares ou que estão começando a se secularizar.
• Modernidade está baseada em fundamentalismos:
o Fé na História -> história do progresso do mundo;
o Fé na Ciência -> crença popular;
o Fé na Política -> messianismo político.
• “A visão de história do fundamentalismo olha para o tempo em que se vivia de acordo com a
vontade de Deus”.

Balanço do neoliberalismo
Perry Anderson
(resumo do Mateus Meireles e Marcos Naybert)

ORIGENS DO NEOLIBERALISMO
 Distinto do liberalismo clássico do século XIX.
 Nasceu após a II Guerra Mundial, nos países da Europa e América do Norte onde imperava
o capitalismo, como reação teórica e política ao Estado intervencionista e de bem-estar.
 Friedrich Hayek – O Caminho da Servidão (1944): texto de origem. Ataque a qualquer
limitação dos mecanismos do mercado por parte do Estado, denunciadas como ameaça à
liberdade – econômica e política.
 Alvo de Hayek era o Partido Trabalhista inglês, então o partido que possuía mais chances
de vencer as eleições gerais. Para o economista, a socialdemocracia moderada da Inglaterra
conduziria ao mesmo desastre do nazismo alemão: a servidão moderna.
 Sociedade de Mont Pèlerin (1947): Participantes – Milton Friedman, Karl Popper, Lionel
Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de
Madariaga, etc – eram opositores tanto do Estado de bem-estar como do New Deal dos EUA.
Objetivo: “combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um
outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras (...)” (p. 10).
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 35

 Neoliberais argumentavam que o igualitarismo (relativo) do Estado de bem-estar destruía


a liberdade individual e a concorrência e que a desigualdade era um valor “positivo” e
“realidade imprescindível” para as sociedades ocidentais. Problema: o capitalismo do século
XX estava em sua “idade de ouro”, e o crescimento era muito rápido. Até 1973, o
neoliberalismo existiu apenas na teoria.
 Crise do capitalismo avançado (1973): baixas taxas de crescimento + baixas taxas de lucro
+ altas taxas de inflação exigiram novas soluções. Para os neoliberais: “raízes da crise (...)
estavam (...) no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do
movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas
pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado
aumentasse cada vez mais os gastos sociais” (p. 10).

O PROGRAMA NEOLIBERAL
 Estabilidade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo:
a) Disciplina orçamentária.
b) Contenção de gastos sociais.
c) Restauração da taxa “natural” de desemprego: desemprego estrutural.
d) Reformas fiscais para incentivar agentes econômicos: redução de impostos sobre os
grandes rendimentos e sobre rendas.
 Projeto neoliberal levou toda a década de 1970 para tornar-se hegemônico. Até 1979, a
maioria dos países da OCDE (Organização Europeia para o Comércio e Desenvolvimento)
aplicava soluções keynesianas à crise.
 Eleição de Thatcher (1979): “primeiro regime de um país de capitalismo avançado
publicamente empenhado em pôr em prática o programa neoliberal” (p. 11).
- 1980: Reagan (EUA)
- 1982: Kohl (Alemanha)
- 1983: Schluter (Dinamarca)
 Norte da Europa Ocidental: quase todos os países (exceto Áustria e Suécia) viraram à
direita. Para além da crise econômica, onda de direitização teve um fundo político.
 Sul da Europa Ocidental: países com governos previamente conservadores tiveram, pela
primeira vez, governos de esquerda (euro-socialistas).
 Segunda Guerra Fria (1978): intervenção soviética no Afeganistão + decisão dos EUA de
incrementar nova geração de foguetes nucleares na Europa Oc.  combate ao comunismo
fortaleceu poder de atração do neoliberalismo político  consolidando predomínio da Nova
Direita na Europa e América do Norte.
 Anos 1980: “triunfo mais ou menos incontrastado da ideologia neoliberal nesta região do
capitalismo avançado” (p. 12).

OS GOVERNOS NEOLIBERAIS
 No Norte da Europa Ocidental, os governos de direita – amiúde com fundo católico –
praticaram um neoliberalismo mais cauteloso que as potências anglo-saxônicas:
+ ênfase na disciplina orçamentária
+ reformas fiscais
- cortes de gastos sociais
- enfrentamentos deliberados com sindicatos
INGLATERRA ESTADOS UNIDOS
(Margaret Thatcher, 1979-1990) (Ronald Reagan, 1981-1989)
- além de pioneiro, o mais sistemático e mais - quase não havia Estado de bem-estar de
ambicioso de todos os governos neoliberais tipo europeu
de capitalismo avançado - prioridade neoliberal foi competição militar
- contraiu emissão monetária com a URSS como estratégia para quebrar
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 36

- elevou taxas de juros economia rival


- baixou impostos sobre altos rendimentos - reduziu impostos a favor dos ricos
- aboliu controles sobre fluxos financeiros - elevou taxas de juros
- estimulou desemprego massivo - dissolveu única greve séria de sua gestão
- sufocou greves (controladores de voo)
- criou nova legislação anti-sindical - déficit público aumentou: corrida
- fez corte de gastos com bem-estar social armamentista (“keynesianismo militar
- estabeleceu amplo programa de disfarçado”)
privatização (habitação pública, e
posteriormente indústrias básicas – aço,
eletricidade, petróleo, gás, água)
 No Sul da Europa Ocidental, todos os governos euro-socialistas se apresentaram como
alternativa progressista, baseada em movimentos operários ou populares, aos outros países,
tentando em vão recriar um equivalente à socialdemocracia do pós-guerra durante os anos de
ouro.
FRANÇA ESPANHA
(François Mitterrand, 1981-1995) (Felipe Gonzáles, 1982-1996)
- esforçou-se para diminuir inflação, - não fez nenhuma política redistributiva
aumentar a redistribuição, pleno emprego e - política econômica monetarista
proteção social - favorável ao capital financeiro
- em 1982-1983 foi forçado à ortodoxia - privatizante
neoliberal pelos mercados financeiros - recorde de desemprego (20%)
internacionais: prioridade à estabilidade
monetária; contenção do orçamento;
concessões fiscais aos capitalistas; abandono
do pleno emprego
- desemprego era mais alto no final dos 1980
que na Inglaterra
 Na Austrália e na Nova Zelândia, o mesmo padrão assumiu proporções dramáticas:
sucessivos governos trabalhistas executaram neoliberalismo radical. Nova Zelândia foi
provavelmente o mais extremo, desmontando o Estado de bem-estar mais completamente
que Thatcher.
 Estas experiências demonstraram hegemonia da ideologia neoliberal no mundo do
capitalismo avançado. Inicialmente, a socialdemocracia era inimiga do neoliberalismo, que só
era propagado pela direita radical; depois, governos socialdemocratas se mostraram os mais
resolutos em aplicar as políticas neoliberais.
 Excetuando Suécia, Áustria e Japão, em todos os demais países da OCDE o neoliberalismo
triunfou ao final dos anos 1980.

O NEOLIBERALISMO CUMPRIU SUAS PROMESSAS?


[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 37

ÊXITOS FRACASSOS
- deteve inflação: em toda a OCDE, caiu de - não houve mudança na taxa de crescimento
8,8% para 5,2% entre anos 1970 e 1980, (maior objetivo); MOTIVO?  apesar de
mantendo a tendência até 1995 todas as políticas, taxa de acumulação caiu
- lucros subiram: nos anos 80, taxa de lucro em relação aos níveis médios dos anos 1970
na OCDE aumentou 4,7%, sendo maior na - recuperação dos lucros não levou a
Europa Ocidental (derrota do movimento recuperação dos investimentos:
sindical, com cada vez menos greves e desregulamentação financeira criou maiores
contenção salarial) condições para a inversão especulativa do
- crescimento do desemprego: na OCDE, era que produtiva (explosão dos mercados de
de 4% nos anos 1970 e duplicou nos 1980 câmbio diminuiu comércio de mercadorias
- grau de desigualdade aumentou: impostos reais mundo afora)
sobre salários mais altos caíram 20% nos anos - peso do Estado de bem-estar não diminuiu
1980; valores das Bolsas subiram 4 vezes muito: desemprego exigiu maiores gastos
mais rápido que salários sociais; aumento demográfico dos
aposentados elevou os gastos com pensões
- na nova recessão de 1991, a dívida pública
de quase todos os países ocidentais subiu de
forma alarmante; endividamento privado
(famílias e empresas) chegou a níveis sem
precedentes desde a II Guerra
- indicadores ruins: 38 milhões de
desempregados em meados da década de
1990
 Reação não ocorreu: neoliberalismo teve “segundo alento”. Por quê?
- êxitos eleitorais: Major na Inglaterra (1992); derrota dos social-democratas na Suécia
(1991); desgaste do socialismo na França (1993); ascensão de Berlusconi na Itália (1994);
continuidade de Kohl na Alemanha.
- nova onda de privatizações nos anos 1990: Alemanha, Áustria, Itália.
- comportamento de partidos e governos formalmente opositores ao neoliberalismo:
Bill Clinton (EUA) seguiu parâmetros neoliberais (redução déficit; repressão da delinquência).
- vitória do neoliberalismo na Europa Oriental e ex-URSS: capitalismo que venceu foi
o simbolizado por Reagan e Thatcher (Balcerovicz na Polônia; Gaidar na Rússia; Klaus na Rep.
Tcheca).
 Neoliberalismo nos regimes anteriormente comunistas: privatizações mais amplas e
rápidas; quedas de produção e graus de desigualdade muito mais drásticos e brutais.
Vaclav Klaus: “O sistema social da Europa ocidental está demasiadamente amarrado
por regras e pelo controle social excessivo. O Estado de bem-estar, com todas as suas
transferências de pagamentos generosos desligados de critérios, de esforços ou de méritos,
destrói a moralidade básica do trabalho e o sentido de responsabilidade individual” (p. 18).
 Reações populares: vitória de partidos ex-comunistas na Polônia, Hungria e Lituânia. Não
obstante, a prática dos governos não se distinguiu dos declaradamente neoliberais (deflação,
desmontagem de serviços públicos, privatizações, crescimento de capital corrupto,
polarização social, etc).
“O dinamismo continuado do neoliberalismo como força ideológica em escala mundial está
sustentado em grande parte, hoje, por este ‘efeito de demonstração’ do mundo pós-
soviético.” (p. 19)

IMPACTO DO NEOLIBERALISMO EM OUTROS LUGARES


 América Latina:
- terceiro grande cenário das experimentações neoliberais
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 38

- testemunha da primeira experiência neoliberal sistemática do mundo (Chile)


CHILE BOLÍVIA
(Pinochet, 1973-1990) (Hugo Banzer Suárez, 1971-1978; Victor Paz
- pioneiro do ciclo neoliberal contemporâneo Estenssoro, 1985-1989)
- desregulação - Jeffrey Sachs: “tratamento de choque”
- desemprego massivo começou no governo Banzer e foi aplicado
- repressão sindical imperturbavelmente no governo Estenssoro
- redistribuição de renda em favor dos ricos - não havia movimento operário poderoso a
- privatização de bens públicos (exceto ser combatido
Codelco) - prioridade: conter hiperinflação
- inspiração teórica mais norte-americana - governo Estenssoro herdou partido
que austríaca (Milton Friedman) populista da revolução de 1952: América
- nos anos 1980 cresceu a um ritmo muito Latina iniciou variante neoliberal
rápido: neoliberalismo teve continuidade “progressista” posteriormente difundida
política pós-Pinochet entre os governos euro-socialistas
LIÇÕES:
- conselheiros de Thatcher incorporaram
exemplo chileno: experiência-piloto para o
neoliberalismo do Ocidente avançado
- democracia em si mesma nunca havia sido
um valor central do neoliberalismo: “A
liberdade e a democracia (...) podiam
facilmente tornar-se incompatíveis, se a
maioria democrática decidisse interferir com
os direitos incondicionais de cada agente
econômico de dispor de sua renda e de sua
propriedade como quisesse” (p. 20)

 Virada continental: México (Carlos Salinas de Gortari, 1988-1994); Argentina (Carlos


Menem, 1989-1999); Venezuela (Carlos Andrés Perez, 1989-1993); Peru (Alberto Fujimori,
1990-2000).
 México, Argentina e Peru: concentração de poder no Executivo foi condição para a
deflação, desregulamentação, desemprego e privatizações; governos registraram êxitos
impressionantes a curto prazo.
 Venezuela: autoritarismo não foi factível (democracia partidária mais contínua e sólida,
único país a escapar de ditaduras e regimes oligárquicos depois de 1950). Fracassou.
 Não somente os regimes autoritários puderam impor com êxito o neoliberalismo no
continente: na Bolívia o trauma da ditadura, além da hiperinflação, induziram o povo a aceitar
democraticamente as políticas econômicas.
 Neoliberalismo encontrará mais ou menos resistência aos seus projetos na América Latina
do que na Europa? Seria o populismo ou obreirismo da América Latina um obstáculo mais
fácil ou mais difícil para a realização do neoliberalismo do que a social-democracia reformista
ou o comunismo?
- resposta dependerá do destino do neoliberalismo fora da América – Índia, Japão

La gran contienda em los años ochenta: la segunda guerra fría hasta 1985
Fred Halliday

O “unilateralismo” estadunidense na prática

• 1981 -> Reagan adotou uma série de novas medidas:


[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 39

o Aumento do gasto militar;


o Melhora nos mísseis estratégicos -> Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI) = um “escudo
defensivo” que destruiria os mísseis inimigos.
o Terceiro Mundo:
 Granada -> “vitória” americana, depois da cisão do New Jewel.
 Líbano -> tropas foram retiradas após sofrer fortes baixas e sem conseguir dominar
as milícias libanesas opositoras.
 Nova doutrina Reagan para aumentar a pressão sobre os estados opostos aos EUA -
> apoio às guerrilhas direitistas; envio de armas e ajuda financeira a movimentos
contrarrevolucionários = contras (Nicarágua), UNITA (Angola), Mujahidin
(Afeganistão) e coalização guerrilheira no Camboja.
 A doutrina teve apoio das forças americanas, que construíram instalações militares
avançadas na América Central; e se romperam contatos financeiros e comerciais
com esses países, além de decretarem-se embargos contra Nicarágua e Líbia.
 3 objetivos da doutrina Reagan: (1) enfraquecer e desorganizar os novos estados
revolucionários, aumentando assim o descontentamento popular; (2) alentar as
forças contrarrevolucionárias; (3) exercer pressão para que esses estados reduzam
seus vínculos com a URSS.
o Política exterior -> unilateralismo = a busca americana de seus próprios objetivos de política
exterior, sem levar em conta os interesses de seus aliados e as limitações impostas por
outros estados.

Uma relativa estabilidade

• A característica dominante da primeira parte da Segunda Guerra Fria era uma relativa estabilidade
nas relações Leste-Oeste & uma consolidação de posições das duas superpotências.
o 1980-85 -> Dentro dos países capitalistas desenvolvidos produziu-se a confirmação dos
governos direitistas existentes.
• Consolidação da segunda Guerra Fria -> tentativa de reduzir as consequências da segunda Guerra
Mundial = políticas salariais e de assistência social, ajuda da URSS para derrotar o nazi-fascismo e
substituição do colonialismo pelas independências.
o Administração Reagan e seus aliados na Europa pretendiam usar a recessão, o
anticomunismo e a amnésia histórica para impor um novo conjunto de valores e políticas.
o Essa estratégia foi prejudicada por que: Reagan não conseguiu restringir o aborto; EUA
tinha que respeitar o acordo SALT II; maior ativismo no Terceiro Mundo.

O bloco soviético: uma nova liderança

• 1982 -> morre Brezhnev, chefe do partido durante 18 anos.


• 1984 -> morre seu sucessor, Yuri Andropov.
• 1985 -> morre seu sucessor, Chernenko.
• 1985 -> eleição de Gorbatchov como secretário-geral.
o Propostas sobre controle de armamentos com o Ocidente; desenvolvimento das relações
diplomáticas com uma ampla série de países -> “Altos funcionários soviéticos ressaltaram
que a URSS estava agora interessada em desenvolver relações com todos os países, grande e
pequenos”.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 40

• Elemento chave na resposta soviética à segunda guerra fria -> um processo de consolidação do
bloco.
o Na Europa Oriental, a oposição polonesa dirigida pelo Solidariedade foi solucionada depois
da imposição da lei marcial em 1981.
o Intensificou-se a integração econômica, através do Comecon, mediante o desenvolvimento
da rede energética nuclear.
o Terceiro Mundo:
 Pressão sobre as guerrilhas contrarrevolucionárias;
 Precaução interna -> por um lado, ações precipitadas podem fazer a população se
voltar contra e oferecer uma oportunidade de intervenção ocidental; algumas forças
sociais locais podem mudar para o lado ocidental.
 Manter a unidade dentro dos núcleos revolucionários, e não permitir que disputas
internas prejudiquem o desenvolvimento da sociedade ou leve à contrarrevolução.
• 1985 -> Novo programa do partido:
o Assuntos internos -> as perspectivas de superar o Ocidente foram abandonadas, para uma
ênfase na necessidade de um desenvolvimento “acelerado” da economia, no âmbito do
progresso científico e técnico.
o Assuntos externos:
 Abandono da ideia de conseguir a unidade dos partidos comunistas sob a liderança
soviética -> internacionalismo proletário agora é “tanto a solidariedade
revolucionária como o reconhecimento da total independência e igualdade de cada
partido”.
 Terceiro Mundo -> apoio aos “países novamente livres”, mas a ajuda seria limitada,
e que os países tinham que se basear em seus próprios esforços.

As relações sino-soviéticas

• 1982 -> Brezhnev e o secretário-geral Hu Yao-bang -> 5 questões que dividiam China e URSS:
o Delimitação da fronteira / estacionamento de tropas na fronteira / relações entre partidos /
Afeganistão / Indochina
 Chineses eram contra a tomada comunista do poder em Cabul em 1978 e haviam
começado a enviar armas às guerrilhas, pelo Paquistão.
 Para Hu Yao-bang, a presença soviética no Afeganistão era uma ameaça à segurança
da China.
 Indochina -> uma zona do mundo onde a China pode exercer a influência de uma
grande potência.
o Russos -> insistiam em seu direito a continuar criticando aspectos da política exterior
chinesa que consideravam estar em contradição com os princípios socialistas;
o Chineses -> continuaram seus ataques contra o “hegemonismo” e o “expansionismo”
soviético.
o Tinham uma opinião igual em relação à Polônia -> os chineses não mostraram simpatia pelo
Solidariedade.
o Questão da Coreia -> enquanto a China melhorou gradualmente as relações com a Coreia do
Sul, a URSS conseguiu influências no Norte.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 41

• “[...] desde meados dos anos sessenta: os russos desejam uma reconciliação mais que os chineses.
Enquanto que os chineses proclamaram por longo tempo que a Rússia era um país capitalista, os
russos sempre classificaram a China como um socialista, embora deformado”.

Quebra no movimento a favor do desarmamento

• Período inicial da segunda Guerra Fria -> coincidiu com o surgimento de um importante movimento
popular contra as armas nucleares na Europa Ocidental e nos EUA.
o EUA -> congelamento nuclear = que o país se esforçasse em negociar com a URSS sobre
interrupção de provas, produção e futura implementação de armas nucleares.
• Por que o movimento pacifista cresceu nos anos 1980?
o Proposta de instalação de novos mísseis de alcance médio por parte da URSS e OTAN (medo
de guerra nuclear);
o Razão mais profunda: econômica. “Mientras que los servicios sociales se reducían y el
desempleo aumentaba, se gastaba más dinero em armas”.

A ‘New Right’ nos anos 80 e 90


Israel Sanmartín Barros

• Cinco pontos da New Right:


o 1 – O ator principal da sociedade é o indivíduo: o bem estar individual é o que move a
economia. A demanda dos consumidores determina as ofertas que os empresários
proporcionam.
o 2 – O livre mercado é a estrutura mais confiável e flexível para regular a oferta e a demanda
através do mecanismo de preços.
o 3 – O progresso se atinge através do esforço individual, da competição e da atividade
empresarial.
o 4 – O individuo também é um homem moral com consciência, vontade e razão. Frear seus
esforços econômicos seria minar sua liberdade.
o 5 – O Estado deve permanecer fora do mercado.
• Neoconservadorismo -> se diferencia da New Right porque é mais sociológico que filosófico e se
desenvolveu na Alemanha e nos EUA, não na Inglaterra.
o Opõe-se a quase todas as formas de socialismo e se define por seu distanciamento do
liberalismo norte-americano.
o Tem um entusiasmo moderado pelo capital democrático liberal e considera a economia de
mercado uma condição necessária, mas não suficiente, para alcançar uma boa sociedade.
o O crescimento econômico é necessário para a estabilidade social e política.
o Crê na intervenção moderada do governo na economia e se opõe aos liberais norte-
americanos por sua atitude permissiva em questões morais e de costumes.

O caso estadunidense (1980-1992)

• Liberal -> dois significados:


o Âmbito político = os liberais são aqueles que pedem uma maior intervenção do Estado para
compensar as injustiças geradas e reproduzidas pelo mecanismo do livre comércio.
o Âmbito econômico = os liberais são os defensores do livre mercado.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 42

• “[...] a New Right representa o conservadorismo político e o liberalismo econômico levado até as
máximas consequências”.
• Ronald Reagan -> primeiro presidente conservador que se proclamava publicamente como tal ->
pretendia uma reforma política conservadora para modelar a função do governo na vida norte-
americana.
o Pretendia romper, em relação à política econômica, o consenso existente desde o fim da
Segunda Guerra = a aplicação da política econômica keynesiana.
• Alguns pontos de seu programa:
o Redução de impostos / aumento nos gasto de defesa / redução das limitações ecológicas
sobre a produção de energia / restauração da vitalidade da livre iniciativa
o O programa tratava de reestruturar a economia, limitando os poderes da administração
central a favor das leis do mercado e da livre empresa.
o Forte pensamento anti-estatalista e contrário ao Estado de bem-estar.
• Principais mudanças estruturais da administração Reagan:
o Perda da liderança no campo industrial / recuo na indústria manufatureira, aumentando a
importação de manufaturas, gerando desequilíbrio na balança de pagamentos / incremento
no setor terciário / aumento das fusões e das comprar entre empresas.
• Criação de 15 milhões de postos de trabalho entre 1980-89, devido aos baixos salários que
requeriam os novos empregos no setor de serviços.
• Lado mais agressivo na administração Reagan -> especialmente na América Latina -> conceito de
Interesse Nacional = uso de força e de negociação política e cooperação econômica.
o Doutrina Reagan = estratégia agressiva de contrarrevolução cujo propósito era “a derrubada
dos regimes anti-imperialistas radicais do Terceiro Mundo através da pressão econômica, o
fornecimento de armas a regimes amigos e guerrilhas direitistas, e o uso da força nos
chamados conflitos de baixa intensidade”.
o Esse apoio americano a tropas antimarxistas deteria o expansionismo soviético e aceleraria a
revolução democrática.
• Política interior -> rigidez a respeito da maioria das questões morais e sociais; defesa de maiores
poderes policiais contra criminosos suspeitos; oposição à Emenda para a igualdade de direitos;
reforço da defesa nacional contra os soviéticos (o “império do mal”).
• Política social -> desmantelamento do Estado de bem-estar:
o Deslegitimação das demandas da classe trabalhadora e dos sindicatos;
o Manipulação da política fiscal para fazer com que as demandas da classe trabalhadora sejam
incompatíveis com a racionalidade econômica e com o Interesse Nacional.

O caso britânico (1979-1998)

• 1979 - Margaret Thatcher -> líder do Partido Conservador e primeira–ministra da Grã Bretanha.
o “A Dama de Ferro se propunha aplicar seu plano de redução de impostos e aumento no
orçamento destinado à defesa, lei e ordem”.
• Defendeu a independência do individual frente ao Estado e pela não intervenção do governo na
economia & defendeu reduções nos gastos públicos.
• A coalizão de Thatcher ganhou três eleições seguidas com base na redução do poder dos sindicatos e
redução dos impostos diretos.
• Política exterior:
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 43

o Ofereceu ajuda para a independência da Rodésia (Zimbábue);


o Guerra das Malvinas;
o Boas relações com Gorbatchov e Reagan.

A Nouvelle Droite francesa

• Foi uma tendência especificamente intelectual com pretensões de renovação político-filosóficas.


• Condenava o “modelo americano” e a xenofobia francesa; reivindicava a liberdade de costumes e se
interessava pela ecologia.
• Defendia que a Europa representasse uma Terceira Via, frente ao socialismo da URSS, o liberalismo
e a forma de vida estadunidense, e a direita clássica europeia.

Tubarões e delfins: a falência do comunismo


Mark Mazower

A crise econômica mundial e o Leste europeu

• 1950-60 = crescimento espetacular na Europa.


• Final dos anos 60 e começo dos 70 = crise da economia mundial
o Europa Oriental -> queda no crescimento do pós-guerra.
• Modelo assistencial comunista: “Reformas destinadas a aumentar a eficiência ameaçavam a
igualdade de renda, e a obstrução da mobilidade social levava o proletariado a enfurecer-se mais e
mais com os privilégios e mordomias de uma elite relativamente abastada de administradores,
profissionais liberais e técnicos”.
o Os benefícios concedidos pelo Estado deixavam de serem direitos sociais universais para se
transformar em privilégios do partido.
• Produtividade em declínio + falência das velhas indústrias pesadas + inflação + longas filas +
prateleiras vazias...
• Década de 80 -> poluição = lembrete assustador da fracassada tentativa comunista de dominar a
natureza.
o “A Europa oriental se transformara num desastre ecológico, com rios morrendo e florestas
áridas, cidades sujas, monumentos em ruínas e pessoas doentes”.
• Obsessão pela indústria pesada criara um vasto operariado do qual o regime se levantava como
porta-voz.
o Não era possível ajustar a economia por meio da deflação ou do desemprego maciço -> em
vez de tirar os trabalhadores do emprego, deixaram que os consumidores continuassem
sofrendo com a escassez e a má qualidade dos produtos.
• Dilema crucial nos anos 80 = a transformação econômica.
• Experiência húngara -> Novo Mecanismo Econômico (1968), de János Kádár.
o Descentralizou o comércio com o mundo exterior e estabeleceu medidas para aumentar a
eficiência e a produtividade.
• Tomada de empréstimos do ocidente:
o Os mercados financeiros transnacionais da década de 70, repletos de petrodólares, viam a
Europa oriental como uma área negligenciada no tocante a investimentos.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 44

o As elites comunistas viam o capital ocidental como um meio de comprar a opinião pública e
retardar o duro impacto da mudança estrutural sobre a economia.
o Consequência -> dívida em moeda forte cresceu rapidamente em toda a Europa oriental.
• “A rígida estrutura de economias comandadas tornava mais fácil usar créditos estrangeiros para
alimentos e bens de consumo que adquirir tecnologia estrangeira e empregá-la corretamente”.

O partido atrofiado

• Principal tendência política de boa parte das duas últimas décadas do comunismo = “o lento declínio
de um partido que acreditara em si mesmo e sua substituição por outros órgãos de governo –
funcionários públicos no aparato estatal, militares e os velhos “pequenos Stalin””.
• O perigo do poder individual estava em encorajar a criação de dinastias, especialmente nos Bálcãs ->
Romênia -> Ceausescu.
o Elites comunistas tentavam recuperar alguma popularidade cultivando as aspirações
nacionais -> comunismo nacional como estratégia para manutenção do poder.
• Fuga de milhões para o ocidente -> rejeição do sistema social.
o Além dos governantes da Europa Oriental, seus opositores, a Igreja, intelectuais e
reformadores do partido preferiam ficar e lutar por mudanças em seu próprio país.
• A presença de agentes de segurança e de informantes era um fator de enfraquecimento da
oposição.
• Fonte de oposição ao comunismo potencialmente forte: o Ocidente.
o Mas os governos ocidentais nunca contestaram seriamente a dominação comunista do Leste
europeu, porque poucos acreditavam na possibilidade e/ou conveniência de implantar-se
uma democracia pluripartidária em curto prazo.

A evolução da política soviética

• Anos Brejnev -> estagnação e conservadorismo ideológico.


o Sucessor: Yuri Andropov.
• Fatores que incentivaram novas atitudes com relação ao Leste europeu:
o Região se tornara um fardo econômico / Comecon não conseguiu criar um círculo virtuoso
de maior produtividade e riqueza / sustento de centenas de milhares de soldados também
estava exaurindo e economia.
• 1985 -> Gorbachev:
o “Sua prioridade era interna – enfrentar o desafio econômico da União Soviética,
substituindo o modelo de crescimento stalinista (desenvolvimento extensivo baseado na
indústria pesada) por um mais moderno, com nova tecnologia e alta produtividade”.

A crise de 1989

• 1988 -> Estônia proclama sua soberania como república autônoma -> a 1ª a fazer isso na União
Soviética
• 1989 -> frentes populares derrotam o partido nas eleições para o novo Congresso dos
Representantes do Povo, da União Soviética -> começam a passar das reivindicações de “autonomia”
para as de plena independência.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 45

• Polônia -> governo de Tadeus Mazowiecki foi o primeiro da Europa oriental com um líder não
comunista desde a década de 40.
• Políticos pós-comunistas precisavam elaborar as novas regras:
o “[...] as normas políticas e constitucionais da Europa ocidental eram levadas para a Europa
oriental e chocavam-se com realidades sociopolíticas e lembranças históricas divergentes”.
o Era difícil “fundar partidos políticos num contexto em que o comunismo contaminara a
própria noção de partido político”.
 Surgiram as Frentes de Salvação, o Solidariedade -> qualquer iniciativa que evitasse
a temida denominação.
• Elaboração de novas constituições -> esbarrou a princípio na incerta situação legal criada pela
abdicação dos comunistas ao poder -> quem tinha legitimidade para isso em 1990?
o Romênia e Bulgária se apressaram e elaboraram novas constituições.
o Novas constituições omitiram-se em relação aos direitos das minorias.
• “Ao desmantelar-se o aparelho de terror comunista, os europeus do Leste tinham de decidir quem
seria punido e quem receberia recompensas”.
o Em geral houve pouca caça às bruxas.
• “De modo geral, os recém-libertados europeus orientais tinham um sonho: temendo o isolamento,
não viam a hora de se reunir à Europa”.
o Sob a direção de economistas, consultores, contabilistas e advogados ocidentais, a
privatização implantou-se na região.
o Resultado = queda de 20% a 40% na produção industrial / aumento do desemprego / maior
migração de trabalhadores.

O fim da URSS e do “bloco socialista”


Robério P. Rodrigues

• Primeira manifestação de crise futura -> desaceleração das taxas de crescimento econômico.
o 1960 -> primeiros sinais de sérias contradições no terreno da economia;
o 1971 -> instala-se uma dinâmica de sucessivas quedas no ritmo de crescimento.
 “a queda na taxa de crescimento foi constante, de plano quinquenal em plano
quinquenal, do início dos anos 70 até o final dos anos 80”.
• Desaceleração do crescimento econômico -> seguida de uma redução dos gastos em consumo.
• Quase estagnação da produção agrícola:
o Principalmente de cereais -> a URSS era dependente de importações massivas dos países
capitalistas.
 As longas filas de espera em frente às lojas de víveres e mantimentos.
• “Apesar do isolamento e do embargo imposto ao país para produtos de alta tecnologia, na década
de 80 a ex-URSS já era relativamente dependente do mercado mundial, especialmente em
alimentos, ração animal e máquinas avançadas”.
• Redução no valor líquido das exportações -> limitou a capacidade de importação, acentuando a
escassez de bens de consumo e produtos agrícolas.
o Também não garantiu os recursos necessários à continuidade da importação de máquinas
modernas para a renovação do parque produtivo.
o Aumento das exportações, mesmo com redução no valor -> desviou os recursos energéticos
e matérias-primas necessários aos novos investimentos na economia interna.
[Resumos – Carlos Eugênio S. Negreiros] 46

• Ingredientes explosivos que estiveram na base da crise que desintegrou a URSS = escassez de
alimentos, bens de consumo e energia e estagnação do crescimento econômico.
o Outro fator: “Para os países do leste e também para a ex-URSS, a maior dificuldade na
obtenção de financiamento bem como a estrondosa elevação dos juros não só dificultou as
importações, como elevou rapidamente sua dívida com o exterior e os encargos a pagar em
dólares”.
o Outro fator: nova escalada da pressão armamentista desencadeada pelo governo Reagan e
seu programa “Guerra nas Estrelas”.
 “O complexo militar-industrial desviava dos demais setores o melhor que tinha a ex-
URSS em termos de potencial industrial, humano e tecnológico, agindo como um
grande buraco negro na economia, absorvendo a maior parte dos recursos e da
capacidade criativa do país”.
• URSS desenvolveu tecnologias de ponta em várias áreas a partir de sua indústria espacial e de defesa
-> esses conhecimentos não eram compartilhados com o conjunto da economia -> demais setores
acumulavam um atraso tecnológico.
• “Apesar da ex-URSS ser uma economia industrializada, seus produtos não apresentavam condições
de competitividade no mercado mundial, dada à sua baixíssima qualidade”.
• Expansão gradual de novos contingentes de trabalhadores incorporados à produção & fácil
disponibilidade de reservas energéticas e de matérias-primas -> pilares do modelo extensivo de
crescimento que foram desaparecendo.
o Era preciso uma mudança do modelo de crescimento extensivo para um modelo alternativo
de crescimento, intensivo em tecnologia e informação, que aumentasse a produtividade, a
qualidade dos produtos e a satisfação de sua população.
• Capitalismo -> a concorrência exerce o papel de modernização
o Isso não acontecia nas empresas soviéticas na fase descendente da economia, poupadas de
qualquer concorrência e acomodadas no cumprimento das metas dos “planos”.
• Qual a explicação para que o dinamismo tenha desaparecido?
o Redução das taxas de crescimento, limitando os investimentos / Drenagem de recursos para
as necessidades de defesa / Gestão burocrática da economia / Regime político ditatorial /
Repressão política / Controle de informações.
• “Apesar de o estado soviético ter se fundado sob a bandeira da planificação, persistia a
desarticulação entre setores, a defasagem entre oferta e demanda para a maioria dos produtos, a
ineficiência, a escassez de produtos de consumo básicos, ou seja, o disfuncionamento geral da
economia, causado pela gestão burocrática”.
• Golpe final -> movimentos separatistas e as mobilizações democráticas que se expressaram através
deles.
ANEXO

Presidentes americanos:

Harry S. Truman (1945-1953) Líderes da URSS:


Dwight D. Eisenhower (1953-1961)
John F. Kennedy (1961-1963) Josef Stalin (1924-1953)
Lyndon Johnson (1963-1969) Nikita Khrushchov (1953-1964)
Richard Nixon (1969-1974) Leonid Brejnev (1964-1982)
Gerald Ford (1974-1977) Yuri Andropov (1982-1984)
Jimmy Carter (1977-1981) Konstantin Chernenko (1984-1985)
Ronald Reagan (1981-1989) Mikhail Gorbachev (1985-1991)
George Bush (1989-1993)