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ORGANIZADORES

Caroline Kraus Luvizotto


Célio José Losnak
Danilo Rothberg

Mídia e
Sociedade
e m t rans f or m a ç ã o
Editora Unesp
Praça da Sé, 108
CEP 01001-900 - São Paulo, SP
www.editoraunesp.com.br
feu@editora.unesp.br

Mídia e sociedade em transformação 2016


Conselho Editorial
Fernando Oliveira Paulino (Universidade de Brasília)
Rogério Christofoletti (Universidade Federal de Santa Catarina)
Silvana A. B. Gregório Vidotti (Universidade Estadual Paulista)
Stuart H. Davis (Texas A&M International University)

Projeto gráfico, capa, fotografia, diagramação e produção gráfica


INKY DESIGN | Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação | Unesp
Alexandre Santana Furlan, Cassia Leticia Carrara Domiciano,
Daniela Brüno Pereira, Fernanda Henriques, Roberta Kimie Morine,
Thiago Pestillo Seles

M573 Mídia e sociedade em transformação / Caroline Kraus Luvizotto,


Célio José Losnak, Danilo Rothberg (orgs). - São Paulo, SP:
Cultura Acadêmica, 2016.
268 p.
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-7983-748-7
978-85-XXXX-XXX-X

1. Mídia digital. 2. Mudança social. 3. Comunicação. I. Luvizotto,


Caroline Kraus. II. Losnak, Célio José. III. Rothberg, Danilo. IV.
Título.
CDD: 302.23
ORGANIZADORES

Caroline Kraus Luvizotto


Célio José Losnak
Danilo Rothberg

MÍ D I A E
SO C I E D A D E
E M T R A N S F O R M A Ç Ã O
Sumário

Apresentação
Parte 1
13 Consumo midiático
midiático ee consumo
consumomidiatizado:
midiatizado: a
aproximações
proximações eediferenças.
diferenças.Uma
Uma contribuição
contribuição teórico-
-metodológica
-metodológica
Eneus Trindade e Clotilde Perez

29 A função social da comunicação pública: extensão


universitária e habilidades executivas civis
Heloiza Helena Matos e Nobre e Guilherme Fráguas Nobre

49 Comunicação pública digital da ciência para a demo-


cracia: um campo em construção
Danilo Rothberg e Aline Cristina Camargo

Parte 2
69 O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
diversidade de sistemas na radiodifusão
Renan Milanez Vieira e Carlo José Napolitano

87 As prisões do “mensalão” e a construção do mito


barthesiano
Murilo Cesar Soares e João Guilherme D’Arcadia

101 A morte do missionário: a identidade do comentador


de notícia no webjornalismo
Claudio Bertolli Filho e Ana Carolina Biscalquini Talamoni
Parte 3
127 Underground no O PASQUIM: uma experimentação
histórica de jornalismo
Célio José Losnak e Giuliana Chorilli

149 Por um percurso da noticiabilidade à estética


jornalística
Marcos Paulo da Silva

167 Mundo multipolar, mídia multipolar


Antonio Ribeiro de Almeida Junior e Thales Novaes Andrade

Parte 4
185 Manifestações pró-impeachment Dilma
Rousseff e comunicação política no Twitter
Teresinha Maria de Carvalho Cruz Pires

207 Movimentos sociais, ativismo e participação


na sociedade da informação
Caroline Kraus Luvizotto e Daniele Ferreira Seridório

225 Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpre-


tando estruturas de mercado de mídia como legado
autoritário
Juliano Domingues da Silva

245 Juventude e cidadania: a ação de Isadora


Faber para além do Facebook e do Participatório
Maximiliano Martin Vicente, Mayra Fernanda Ferreira
e Vinicius Carrasco

263 Sobre os Autores


Apresentação

A dinâmica social contemporânea e a produção incessante de


informação e conhecimento suscitam novos olhares sobre as trans-
formações na apropriação das mídias pelos diversos setores sociais.
Observam-se reflexões sobre como as mídias passam a figurar nos
cenários políticos, sociais, econômicos e culturais, nas dimensões
nacional e transnacional. Verificam-se processos que se caracteri-
zam, muitas vezes de forma paradoxal, por fenômenos como tran-
sitoriedade e permanência, apresentando questões inéditas e outras
recorrentes na história das mídias.
Este livro expõe diferentes perspectivas sobre a relação entre mí-
dia e sociedade, contribuindo para a compreensão da comunicação
midiática no fortalecimento da democracia em um contexto de in-
vestigação marcado por ambiguidades, contradições e desafios. Os
treze textos apresentados se dividem em quatro partes.
Na primeira parte, estão em jogo tensões que atravessam o es-
paço da comunicação de modo singular, caracterizando-o como lo-
cal privilegiado de constituição da experiência contemporânea dos
direitos de cidadania. Três textos exploram a temática de maneira
diversificada.
Eneus Trindade e Clotilde Perez identificam as aproximações e
diferenças entre o consumo midiático e o consumo midiatizado, ob-
servando as especificidades das ordens do midiático, dos meios e da-
quilo que se percebe como fenômeno da midiatização da vida social.
Heloiza Helena Matos e Nobre e Guilherme Fráguas Nobre pro-
põem que a comunicação pública pode engendrar consequências
com potencial desestabilizador e trazem uma contribuição para pen-
sar o papel das habilidades civis para a vida em sociedade.
Danilo Rothberg e Aline Cristina Camargo indicam como a co-
municação pública digital sobre produção de ciência e tecnologia
assume papel central no fortalecimento da cidadania, se considerada
sua contribuição ao atendimento do direito à informação.
Na segunda parte, os critérios de produção da notícia e sua cir-
culação social são o ponto de convergência de três textos, que bus-
cam compreender o contexto mais amplo de inserção da informação
jornalística.
Renan Milanez Vieira e Carlo José Napolitano analisam a noti-
ciabilidade na cobertura do jornal O Estado de S. Paulo acerca do
canal segmentado Record News, identificando os valores-notícia
presentes e a possível influência de veículos concorrentes.
Murilo Cesar Soares e João Guilherme D’Arcadia apresentam
uma análise de enquadramento jornalístico das primeiras prisões
dos condenados do “mensalão” no âmbito da ação penal 470, valen-
do-se de referências teóricas como a noção de mito, linguagem que
naturaliza a história.
Claudio Bertolli Filho e Ana Carolina Biscalquini Talamoni en-
focam comentários postados por leitores de um portal de notícias
sobre a morte de um religioso pertencente a uma denominação pen-
tecostal, tomando-os como meio de reconhecimento de identidades.
A terceira parte, com três textos, elege o jornalismo como opera-
dor de sentido que descortina determinadas compreensões da expe-
riência histórica, ao mesmo tempo que obscurece outras.
Célio José Losnak e Giuliana Chorilli analisam O PASQUIM, a
fim de identificar historicidades do periódico alternativo nas inter-
faces entre ditadura, movimentos políticos e imprensa, nas tensões
entre tendências dominantes do jornalismo e experiências autôno-
mas e insurgentes.
Marcos Paulo da Silva se debruça sobre o percurso que se esten-
de da caracterização da seleção noticiosa ao reconhecimento da dis-
seminação do jornalismo como modalidade de narração do mundo
e padrão estético-expressivo pavimentado na experiência cotidiana.
Antonio Ribeiro de Almeida Junior e Thales Novaes Andrade
avaliam como a cobertura jornalística de controvérsias da geopolíti-
ca global tem sido influenciada por grupos econômicos e interesses
estratégicos na mídia ocidental, incluindo o cenário brasileiro.
Os quatro textos da última parte buscam associações entre qua-
lidade das mídias e consolidação democrática, desenvolvendo pers-
pectivas abrangentes e inovadoras.
Teresinha Maria de Carvalho Cruz Pires analisa a comunicação
digital planejada pelo governo de Dilma Rousseff e o Partido dos
Trabalhadores para lidar com as manifestações de oposição de 15
de março de 2015, de forma a refletir sobre a expressão da opinião
pública.
Caroline Kraus Luvizotto e Daniele Ferreira Seridório buscam
a compreensão sobre como os movimentos sociais e o ativismo se
configuram na sociedade contemporânea, avaliando fatores como a
influência da cultura política e da configuração de mídia.
Juliano Domingues-da-Silva aborda a associação entre concen-
tração de mídia, estrutura de mercado e legado autoritário, em uma
reflexão focada sobre o problema de como a concentração de mídia
se relaciona com a qualidade da democracia.
Maximiliano Martin Vicente, Mayra Fernanda Ferreira e Vini-
cius Carrasco desenvolvem uma análise crítica sobre iniciativas de
protagonismo juvenil na internet que podem fortalecer o exercício
de cidadania na sociedade brasileira contemporânea.
Esperamos que, com essa multiplicidade de perspectivas, o livro
traga uma contribuição ao avanço do conhecimento no campo disci-
plinar da comunicação, e desejamos uma boa leitura.

Os organizadores
1
PARTE
13

Consumo midiático e
consumo midiatizado:
aproximações e
diferenças.
Uma contribuição
teórico-metodológica1 INTRODUÇÃO

Eneus Trindade
A partir de abordagem con-
ceitual cujo objetivo é re-
fletir sobre as dimensões da
Clotilde Perez presença midiática na constru-
ção dos vínculos de sentidos
entre as expressões das marcas,
produtos e serviços e seus con-
sumidores, busca-se a análise
dos indicadores de gradientes
destas dessas interações nos
contextos da comunicação
midiatizada, que ajudariam a
explicar os processos de midia-
tização do consumo nos vários
setores da vida material, con-
forme os postulados históricos
de Braudel (1970) e de suas di-
mensões táticas e estratégicas
no cotidiano (DE CERTEAU,
1994; DE CERTEAU; GIARD;
MAYOL, 1997).
O capítulo identifica as
aproximações e diferenças entre
14
o consumo midiático e o consumo midiatizado, observando as espe-
Mídia e Sociedade em Transformação

cificidades das ordens do midiático, dos meios e daquilo que se faz


perceber como fenômeno da midiatização da vida social, dentro de
uma tradição teórica brasileira sobre este conceito (BRAGA, 2006;
FAUSTO NETO; SGORLA, 2013; entre outros autores estrangeiros).
Fundamenta, ainda, a discussão sobre a natureza triádica da
marca: relacional, semiótica e evolutiva (BATEY, 2009; SEMPRINI,
2006; PEREZ, 2004; GOBÉ, 2002), como parâmetro primordial para
o entendimento do papel das marcas na midiatização do consumo.
A reflexão contribui para os estudos da comunicação, na interface
com o consumo, que têm privilegiado nos últimos anos a discussão
do consumo midiático, em detrimento de outras discussões que se
referem às lógicas midiatizadoras utilizadas pelo sistema publicitário
na comunicação simbólica das marcas na vida material.
Trata-se de uma abordagem conceitual que tem como objetivo
refletir sobre as dimensões teóricas da presença midiática na for-
mação dos hábitos, atitudes e comportamentos de consumo e na
construção dos vínculos de sentidos entre as expressões das mar-
cas, produtos e serviços e seus consumidores (TRINDADE; PEREZ,
2012). Esse caminho nos levará à observação e análise dos possíveis
gradientes dessas interações como contextos da comunicação midia-
tizada discutida por Braga (2012), que ajudariam a explicar os pro-
cessos de midiatização do consumo nos vários setores da vida mate-
rial, conforme os postulados históricos de Braudel (1970), e de suas
dimensões táticas e estratégicas no cotidiano (DE CERTEAU, 1994).
Desse modo, o texto busca apresentar, em sua abordagem meto-
dológica, as aproximações e diferenças entre o consumo midiático e
o consumo midiatizado, observando as especificidades das ordens do
midiático, dos meios e daquilo que se faz perceber como fenômeno
da midiatização da vida social, dentro de uma tradição teórica bra-
sileira sobre este conceito (BRAGA, 2006; FAUSTO NETO, 2010;
FAUSTO NETO; SGORLA, 2013; entre outros autores, como COUL-
DRY; HEPP, 2013). O resultado da reflexão almeja contribuir para os
estudos da comunicação, na interface das pesquisas sobre consumo,

1
Este capítulo corresponde à revisão e à ampliação do texto “Dimensões do consumo
midiatizado”, originalmente apresentado no II Confibercom, no GT de Publicidade, reali-
zado na Universidade do Minho em Braga-Portugal, em abril 2014.
15
mídia e cultura, que têm privilegiado nos últimos anos a discussão do

Uma contribuição teórico-metodológica1


Consumo midiático e consumo midiatizado: aproximações e diferenças.
consumo midiático. Isto é, dos usos dos meios na vida cotidiana, ainda
que na sua diversidade galopante, em prejuízo de outras discussões
não menos importantes e que são o nosso foco de interesse, que se
referem às lógicas midiatizadoras utilizadas pelo sistema publicitário
na construção, promoção e institucionalização simbólicas das marcas,
produtos e serviços na vida material/cultural cotidiana.
Tal interesse vislumbra a compreensão da mediação cultural e
identitária do consumo a partir do entendimento das marcas como
construções simbólicas, com forte carga emocional, sensorial e de na-
tureza essencialmente midiática. A marca contemporânea se constitui
e se sustenta no exercício triádico das dimensões relacional, semióti-
ca e evolutiva (BATEY, 2009; SEMPRINI, 2006; PEREZ, 2004; GOBÉ,
2002). Relacional no sentido que se constrói com as pessoas, os con-
sumidores e os diferentes públicos em um diálogo constante, confun-
dindo as instâncias tão marcadas no passado recente da produção e da
recepção. A marca é mediação e não mais uma propriedade de uma
empresa simplesmente, conceito que fundamentou a prática e a dis-
cussão das marcas, principalmente no âmbito da gestão e também do
direito, fundamentalmente nas legislações de propriedade.
É semiótica porque produz, veicula e projeta sentidos por meio
de narrativas, mitos, ficções e mundos possíveis comunicados e com-
partilhados pelo sistema publicitário, em todas as suas expressões
(nome, logotipo, símbolo, slogan, embalagem, mascote...). E os con-
sumidores, ao tomarem contato com as marcas nos diferentes rituais
de consumo (TRINDADE; PEREZ, 2014; MCCRACKEN, 2003), vi-
venciam, ainda que parcialmente, esse mito (HOLT, 2005).
É evolutiva porque deve estar em constante crescimento, se-
guindo um preceito constitutivo da semiótica de Charles Peirce
(1977) de que todos os signos crescem, mas também porque pre-
cisam lidar com sua esquizofrenia constitutiva de se manter pere-
ne e se atualizar (PEREZ, 2007). O princípio do crescimento/evo-
lução encontra convergência ainda nas referências à marca como
sistema complexo, com tendência natural à entropia explorada
mais no âmbito da gestão de marcas (AAKER, 1991; KELLER,
1997) e no que se refere à comunicação. Esses posicionamentos
teóricos são imprescindíveis na medida em que buscamos a pro-
posição de uma teoria dos vínculos de sentidos entre marcas e
seus consumidores, considerando os gradientes interacionais
desses contextos comunicacionais.
16
A MIDIATIZAÇÃO DO CONSUMO: A DIMENSÃO TEÓRICA
Mídia e Sociedade em Transformação

Recentemente, Nick Couldry e Andreas Hepp (2013) publica-


ram um artigo e organizaram uma edição da revista Communica-
tion Theory, editada pela International Communication Association
(ICA), referente ao tema da midiatização, apontando alguns aspec-
tos aqui resgatados.
O termo midiatização tem sua formulação conceitual de forma
mais contundente, como hoje o compreendemos, na década de 1980.
Isso não significa dizer que ignoramos o uso do termo até então, que
manifesta registros desde a primeira metade do século XX. Mas é só
no final do século XX que pesquisadores do campo comunicacional
começam a perceber e redirecionar, no âmbito teórico, o estudo dos
meios para a análise da presença dos media na organização e nas
diversas práticas (culturais, sociais, políticas econômicas) cotidianas,
devido ao espalhamento e à diversidade dos dispositivos comunica-
cionais, de seus conteúdos e linguagens híbridas e de suas platafor-
mas expressivas e experienciais (COULDRY; HEPP, 2013, p. 191).
A midiatização vem, então, em uma esteira evolutiva do pensa-
mento comunicacional que se associa à eclosão de outros conceitos no
cenário mundial, cuja discussão, que passou por vários autores, visava
orientar e alargar o espectro teórico dos estudos comunicacionais para
o entendimento dessa presença midiática na vida cotidiana, a saber:
medium, media, mediação, lógica medial e midiatização (BASTOS
apud MATTOS; JANNOTTI JR.; JACKS, 2012, p. 53-77), cujos sen-
tidos queriam ir além do repertório tradicional de pesquisas restritas
às abordagens da análise textual dos media, ou do estudo da economia
política da produção dos media, ou ainda, dos estudos da audiência e
da recepção dos meios. (COULDRY; HEPP, 2013, p. 192).
Tal percurso evolutivo, na leitura dos autores, permitiu a configuração
de duas tradições de estudos sobre a midiatização: a perspectiva institu-
cionalista e a socialconstrutivista. A primeira entende os media como or-
ganismos com certa independência institucional, que possui suas próprias
lógicas e regras. Midiatização nesse sentido seria o processo que concerne
a adaptação de diferentes campos ou sistemas sociais a essas regras ins-
titucionalizadas pelos meios, a exemplo da midiatização da política e da
religião. Já a segunda perspectiva refere-se à construção comunicativa da
realidade dada pelo conjunto dos media, buscando compreender como
tal articulação se manifesta nos processos midiáticos e quais suas conse-
quências para a vida social. (COULDRY e HEPP, 2013, p. 196).
17
Essas tradições parecem caminhar para a convergência, pois não

Uma contribuição teórico-metodológica1


Consumo midiático e consumo midiatizado: aproximações e diferenças.
há construção social de realidades que não envolvam instituições.
Ademais, percebe-se que tais perspectivas vêm sendo amplamente
aplicadas aos estudos da circulação da informação jornalística e da
presença dessa lógica midiática na vida política, econômica, religiosa e
nas demais instituições sociais e culturais, mas não se discute na cena
mundial a presença midiática no consumo, na perspectiva aqui trata-
da, isto é, a midiatização do consumo. Até o momento, não temos re-
gistro desse tipo de olhar teórico nas relações comunicação/consumo.
O que se tem percebido, ao menos no que se refere ao contexto
brasileiro, é a apropriação do termo consumo associado ao termo
midiático, isto é, o consumo midiático. Essa concepção diz respeito à
renovação dos estudos de recepção frente às perspectivas da midia-
tização, que busca ressignificar a pesquisa em recepção por perceber
que a investigação dos públicos sobre meios isolados passa a fazer
menos sentido na atualidade, já que o conjunto de usos de dispositi-
vos midiáticos passa a ter uma dimensão de maior relevância social.
Assim, no lugar da recepção dos meios, parece ascender o estudo
dos consumos midiáticos. (MONTUFÀR, 2011; JACKS et al., 2011;
TOALDO; JACKS, 2013.)
Por outro lado, essa perspectiva, com a qual temos total identifi-
cação, não tem contemplado as ações do sistema publicitário que, por
meio das várias expressões das marcas, passam a interagir com o con-
sumidor dentro de uma perspectiva que se alinha também à ideia de
midiatização como mediação principal para entender os fenômenos da
comunicação na atualidade (BRAGA apud MATTOS; JANNOTI JR.;
JACKS, 2012, p. 51-52).
Essa segregação leva à diferenciação do que aqui denominamos de
estudos do consumo midiático (que se aproxima dos estudos da recepção,
mas não se limita a eles), e de estudos do consumo midiatizado, que bus-
cam compreender as formas de presença e consequências das atuações do
sistema publicitário (via marcas de empresas, produtos e serviços) na vida
cotidiana, entendendo a marca em sua função midiatizadora.
Nesse aspecto, torna-se oportuno caracterizar brevemente o sen-
tido de midiatização nas escolas brasileiras e de como a conceituação
de midiatização se aplica como lugar teórico da articulação de fenô-
menos da comunicação e consumo.
A midiatização no Brasil tem sua maior identificação no contexto
dos pesquisadores do Programa de Pós-graduação em Comunicação
da Universidade do Vale do Rio Sinos (São Leopoldo – Rio Grande do
18
Sul). Entre eles, destacamos o trabalho de Braga (2006 e 2012), Fausto
Mídia e Sociedade em Transformação

Neto (2010) e Fausto Neto e Sgorla (2013). Tais autores estão ligados
à tradição socialconstrutivista do termo midiatização, trazendo ao ce-
nário brasileiro uma contribuição importante, mas nenhum deles es-
tuda o consumo midiatizado, como iremos propor mais adiante.
Para Braga (2006), em sua influência dada a partir de Berger e
Luckmann (1967), a midiatização é um processo que ainda não se
consolidou, mas que visa a implementação de processos culturais de
referência, a exemplo do que significa(ou) a comunicação escrita e
sua consolidação para o sentido de acesso e participação da/na cul-
tura letrada. As novas mídias também seriam capazes de construir
realidades, mas suas regras e lógicas ainda não estariam consolidadas
como práticas culturais de referência (talvez nunca estejam), embora
já se perceba os sinais de novas práticas culturais midiatizadas. Para
Braga (2012), tais práticas culturais midiatizadas se dariam como
contextos da comunicação/interação, reveladoras de gradientes de
intensidades, qualidades que modulariam as lógicas da força comu-
nicativa na construção das realidades.
Já Fausto Neto e seus colaboradores têm influência da concepção
de midiatização de Eliseo Verón (1997), buscando no âmbito dos
fenômenos do jornalismo e da midiatização das religiões oferecer
caminhos teórico-metodológicos para o estudo da midiatização, so-
bretudo aqueles manifestados pelos fenômenos da circulação midiá-
tica. Estes aproximam emissão e recepção, tornando evidente a zona
de contato entre esses polos, em seus vestígios nas redes digitais, nas
experiências de interação digital e presencial, permitindo experi-
mentar a compreensão de estratégias dos usos midiáticos estudados
caso a caso, suas regras e suas lógicas, bem como os confrontos de
sentidos da interdiscursividade gerada nas zonas de contato nos pro-
cessos de circulação midiáticos.
Essas contribuições tornaram-se nosso objeto de interesse no
campo comunicacional, tendo em vista o espaço profícuo que as re-
lações comunicação e consumo podem oferecer, a partir dessa pers-
pectiva teórica, para o entendimento de seus fenômenos.
A comunicação de marcas via ações estratégicas do sistema publi-
citário gera práticas de referências culturais de consumo, cujo objeto
de verificação é o contexto das interações entre marcas e consumi-
dores. McCracken (2003, p. 99-101), a partir do olhar antropológico
sobre o consumo, sinaliza o papel dos sistemas publicitários e da moda
na transferência de significados, valores e sentidos dos bens de consu-
19
mo nas culturas para a vida dos consumidores.

Uma contribuição teórico-metodológica1


Consumo midiático e consumo midiatizado: aproximações e diferenças.
Assim, consumidores e marcas na circulação midiática de suas
interações têm suas zonas de contatos específicas, estratégias de usos,
regras e lógicas que precisam ser estudadas. A cultura midiatizada
do consumo ganhou, então, os contornos de sua formação teórica
que a seguir será aprofundada.

DOS RITUAIS DE CONSUMO AOS GRADIENTES DE INTERAÇÃO: A


DIMENSÃO METODOLÓGICA

Percebe-se, com auxílio do antropólogo Grant McCracken (2003),


que essas operações dos sistemas (publicitário e da moda) dependem
de um olhar semiodiscursivo e antropocultural para sua compreensão.
Por meio desse olhar, é possível compreender gradientes dados nas
articulações dos rituais de consumo que favoreçam as práticas de con-
sumo no plano das relações pessoa-objetos de consumo.
Isso posto, dentro da lógica de uma presença midiática na vida
social, podemos afirmar que McCracken (2003, p. 100), na sua con-
dição de antropólogo e, portanto, circunscrito a uma perspectiva de
abordagem cultural sobre os fenômenos de consumo, indicializa a
midiatização do consumo por meio do sistema publicitário, uma vez
que, na visão desse autor, o mundo culturalmente construído trans-
fere significados e valores para os bens de consumo. Estes, por sua
vez, são difundidos e incorporados entre os consumidores por meio
das ações do sistema publicitário de difusão das marcas, o que inclui
todas as expressões das marcas (PEREZ, 2004) e possibilidades de
formatos de publicização (CASAQUI, 2011), não se restringindo à
publicidade em si, mas envolvendo todo o conjunto de ações de cir-
culação de sentidos (FAUSTO NETO, 2010) das marcas no ambiente
social, sobretudo com seus vestígios de interação entre emissores e
receptores nas mídias digitais e nas crescentes ações presenciais, pri-
vilegiando a relação com a rua, o bairro e a cidade, principalmente
nas metrópoles ocidentais.
Essa perspectiva de compreender os rituais de consumo como
articuladores de práticas simbólicas que mudam em função das ne-
cessidades das cenas sociais vividas cotidianamente, isto é, que cada
conjunto de propriedades simbólicas em um dado rito, permite o
abandono dessas práticas em função de outras com um novo fim
social e, assim, sucessivamente. Isso, em certo sentido, é algo que já
estava contido nas definições de ritos de passagens em Van Gennep
20
(2011) e Victor Tuner (1974), mas talvez não contemplando a velo-
Mídia e Sociedade em Transformação

cidade e carga de fluxos simbólicos que se operam na midiatização


dos consumos contemporâneos, pois o consumo adquiriu um novo
patamar de sentidos nas suas possibilidades de manifestar uma nova
instância da limiaridade cultural com seus gradientes. (TRINDADE;
PEREZ, 2014, p. 158).
Tal constatação permite trazer a cena da discussão antropológica
para a problemática da comunicação e consumo, pois as representações
dos rituais de consumo, como novos e importantes limiares culturais da
vida cotidiana, são indicadores de transformações simbólicas necessá-
rias aos movimentos de sentidos com finalidades sociais distintas frente
às situações vivenciadas.
Assim, parece-nos oportuno apontar, a partir de Foucault (2012) e
Agamben (2010), que a definição de rituais de consumo também dia-
loga com a possibilidade de sua compreensão como dispositivo midi-
ático. Para Foucault, grosso modo, o “dispositivo tem, portanto, função
estratégica dominante” (FOUCAULT, 2012, p. 365), pois articularia com
propósitos hegemônicos à construção de uma finalidade social que se
traduz em um conjunto de signos, discursos, instituições, organizações,
edificações arquitetônicas, proposições regulamentares, leis, resoluções
administrativas, formulações científicas, proposições filosóficas, morais,
filantrópicas, entre outros aspectos.
E na perspectiva de atualizar a discussão sobre dispositivo em Fou-
cault, Agamben (2010, p. 40-41) define dispositivo como,
[...] chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que te-
nha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determi-
nar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as con-
dutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente,
portanto, as prisões, os manicômios, o Panóptico, as escolas, a
confissão, as fábricas, as disciplinas, as medidas jurídicas etc.,
cuja conexão com o poder é num certo sentido evidente, mas
também a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultu-
ra, o cigarro, a navegação, os computadores, os telefones celula-
res e – por que não – a própria linguagem, que talvez seja o mais
antigo dos dispositivos, em que há milhares e milhares de anos
um primata – provavelmente sem se dar conta das consequên-
cias que se seguiriam _ teve a inconsciência de se deixar capturar.

Nesse sentido, como discutido em Trindade e Perez (2014, p. 165-


166), a nossa definição de rituais de consumo remete a uma perspec-
tiva transdisciplinar que tanto manifesta a dimensão antropológica
21
de sua compreensão, quanto considera a dimensão comunicacional

Uma contribuição teórico-metodológica1


Consumo midiático e consumo midiatizado: aproximações e diferenças.
de seus novos horizontes de exploração teórica, como dispositivos.
Tais reflexões são geradoras dos seguintes norteamentos deontológi-
cos de estudos disciplinares e interdisciplinares.
Do ponto de vista antropológico, os rituais de consumo opera-
riam no entendimento das relações pessoa-objetos de consumo, limi-
tando-se à compreensão de como tais rituais em nível microssocial
realizam mecanismos de transferências de significados voltados à
manutenção, resistência e/ou transformação das práticas simbólicas
daquele sistema cultural estudado, identificando as especificidades
e tipologias dos rituais de consumo de cada setor da vida material.
Já a dimensão comunicacional busca perceber o ritual de con-
sumo como dispositivo articulador dos sentidos dos produtos/mar-
cas na vida das pessoas, portanto, a presença do sistema publicitário
é constitutiva nessa relação de consumo. Existiriam, portanto, três
pontos de partida complementares à investigação desses dispositi-
vos, a saber: os rituais de usos e consumos midiáticos, observados
nos uso e consumos dos dispositivos marcários em seus pontos de
contato com os consumidores; os rituais de consumo representados
pelas mensagens das marcas nas manifestações do sistema publici-
tário e aqueles referentes aos rituais de consumo em si, vivenciados
no contato das pessoas com os produtos/serviços e suas respectivas
marcas. Essa perspectiva, somada às possibilidades de sistematiza-
ção e identificação dos tipos de rituais em cada setor da vida mate-
rial, pode ganhar um desdobramento específico na comunicação na
compreensão das ritualidades de consumo específicas de cada marca
com seus consumidores, que também sinaliza para as estratégias e
táticas comunicativas, bem como para os gradientes que dão forças
aos vínculos de sentidos entre as marcas e consumidores. Assim, tor-
nam-se fundamentais o retorno às ideias da história do cotidiano de
De Certeau (1994, 1997), com suas estratégias e táticas, e a história
da vida material (BRAUDEL, 1970), como lugar de organização que
mediaria conexões com a história econômica e mercantil, fazendo
sentido na vida das pessoas, como propostas norteadoras para o es-
tudo desses dois âmbitos da vida no consumo, embora reconheça-
mos que há especificidades epistemológicas nos olhares históricos
dos dois autores, que aqui não cabe o aprofundamento.
As reflexões anteriores, na perspectiva interdisciplinar, sugerem
a existência de vínculos e rituais comuns ou gerais das categorias de
um dado setor da vida material e vínculos específicos das marcas
22
dentro de um mesmo setor. Tal demanda implica a verificação por
Mídia e Sociedade em Transformação

meio de dois esforços de pesquisa empírica, que devem correr enca-


deados ou paralelamente: o estudo das representações ritualísticas
do consumo e nas mensagens e dos modos de presença das marcas
nos rituais de consumo, vivenciados no cotidiano dos indivíduos em
uma dada realidade sociocultural e temporalidade.
Esses estatutos deontológicos e metodológicos nos mostram for-
tes possibilidades de caminhos para a compreensão das lógicas de
sentidos da midiatização da comunicação publicitária nas socieda-
des de consumo.

AS MANIFESTAÇÕES EMPÍRICAS DO SISTEMA PUBLICITÁRIO: CON-


SIDERAÇÕES FINAIS

Diante do quadro teórico-metodológico delineado, torna-se


importante esclarecer o leitor sobre o que pode ser considerado
como corpus empírico do sistema publicitário para compreensão
dos processos de midiatização. Nesse sentido, destacaremos, a títu-
lo de conclusão, sem a pretensão de esgotar o assunto, três aspectos:
1) Refere-se ao alargamento dos formatos, conteúdos e plata-
formas, isto é, à publicização como trata Casaqui (2011), perceben-
do que a publicidade hoje tem suas fronteiras esfumaçadas frente
às outras possibilidades de ações promocionais. A publicidade não
é só aquela restrita aos formatos tradicionais de anúncios e comer-
ciais, abrangendo novas ações que contemplam a participação, co-
laboração e interações com os consumidores. Um exemplo dessa
expansão são os conteúdos de marca, muito utilizados sob a forma
audiovisual ou ainda os advergames;
2) Nesse sentido, o segundo aspecto percebe que as tecnolo-
gias de comunicação e informação favorecem a interação, parti-
cipação e colaboração em muitas modalidades (SHIRKY, 2011) e
com gradientes de interações distintos, que precisam ser mapea-
dos caso a caso, para que se depreendam os limites dessas estra-
tégias e se identifique suas regras e lógicas mais recorrentes ou
diferenciadas em um dado setor da vida material ou marca. Esses
gradientes de interação também podem ser percebidos de acordo
com as dimensões de midiatização de perspectiva institucionalis-
ta de Stig Hjarvard (2012, p. 66-67) como midiatizações diretas
(quando transformam a prática cultural) e indiretas (quando não
23
há transformação substancial da prática cultural, mas há manu-

Uma contribuição teórico-metodológica1


Consumo midiático e consumo midiatizado: aproximações e diferenças.
tenção da lógica hegemônica contida no dispositivo midiático);
3) E, por fim, a tecnologia também modula o social por uma nova
lógica matemática, não aquela do cálculo da transmissão da infor-
mação ponto a ponto, mas sim uma matemática algorítmica. Já que
as plataformas digitais de interação são constituídas em algoritmos
que, ao serem previamente concebidos, definem as lógicas, regras e o
conjunto de possibilidades de interfaces nas interações, por calcular
recorrências e direcionar possibilidades de sentidos. Os algoritmos,
nas suas finalidades sociais de interação, tomam uma dimensão social
de dominância e semântica ou de websemântica, pois quem estrutu-
ra o algoritmo estruturará os tipos e graus e condições de interação
com seus significados atrelados em rede, como também seus filtros,
as possibilidades de ações dos usuários, atingindo um espectro amplo
da vida social midiatizada pelos dispositivos digitais, incluindo-se, aí,
os consumos midiáticos e o consumo midiatizado. O poder está com
quem sabe programar. Ver, sobre esse aspecto algoritmo e de uma web
semântica da vida midiatizada pelo digital, publicações que não ver-
sam sobre o consumo midiatizado no sentido aqui tratado, mas que
podem ter seus olhares teóricos aplicados ao estudo do universo do
sistema publicitário e seu papel midiatizador na vida do consumo
(SAAD; BERTOCCHI, 2012; LÉVY, 2011; FREIRE, 2015).
Esses aspectos nos direcionam para uma série de novos fenôme-
nos empíricos das marcas em suas formas de publicização (o sistema
publicitário em suas ações nas circulações midiáticas das marcas),
que valorizam a experiência, a sensorialidade, o acontecimento, e
apontam para os usos das mídias tradicionais e da crossmedia, bene-
ficiando-se das interações nas redes digitais, como já discutimos em
Hellín, Trindade, Souza e Mauro (2014). A marca e suas expressões,
e não apenas os formatos publicitários tradicionais, expandem-se,
tornando-se grandes protagonistas do consumo midiatizado, e se fir-
mam como elementos midiatizadores. E esse alargamento é também
consequência da própria expansão da mídia, como problematizada
por Jenkins, Ford e Green (2013).
São nessas expressões que parecem residir os desafios contemporâ-
neos dos estudos da comunicação e consumo no âmbito das culturas, que
aqui buscamos delinear em um percurso de âmbito teórico em direção
ao empírico sobre a midiatização do consumo e suas possibilidades de
pesquisas para entender vínculos possíveis entre marcas e consumidores.
24
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Mídia e Sociedade em Transformação

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29

A função social
da comunicação
pública: extensão
universitária
e habilidades
executivas civis INTRODUÇÃO

Heloiza Helena Matos e Nobre


A literatura sobre a educação
para a cidadania1 , repleta
de exemplos de como exercitar
Guilherme Fráguas Nobre na prática a relação dos jovens
com a sociedade onde vivem,
proveu a chave para perguntar:
e a educação para a comunica-
ção pública? Mais: como incen-
tivar práticas de comunicação
pública para todos os cidadãos
(crianças, jovens e adultos)? A
evolução natural foi pensar na
extensão universitária como
modelo de trabalho, em parale-
lo ao ensino e à pesquisa, dado
que urgia capacitar cidadãos
para a vida em comunidade.
30
Participation in public life requires sufficient civic skills. Civic
Mídia e Sociedade em Transformação

skills include the abilities to communicate with elected officials,


organize to influence policy, understand and participate in one’s
polity, and think critically about civic and political life. One
source of civic skill development is civic education coursework,
often provided in high school or college. (COMBER, 2005, p. 1).
……………………………………………………………………
La ciudadanía implica ejercicios de derechos, pero también de-
sarrollo de capacidades y responsabilidades. Capacidades para
entender, dialogar con, disentir de, criticar a, desmontar y cons-
truir el poder desde el espacio público. (CASTAÑEDA; MA-
DRID, 2001, p. 27).
A extensão universitária é então apresentada sob um tríplice pris-
ma: transferência de conhecimento, capacitação técnica e qualificação
cidadã. Em resumo: saber, fazer, e ser capaz de julgar se este saber/
fazer trarão benefícios ou prejuízos desde um prisma público. Não é
uma tarefa simples. Ademais, o artigo propõe que a comunicação pú-
blica pode, enquanto ferramenta, engendrar consequências desestabi-
lizantes – nem sempre conscientes, intencionais ou previsíveis. Cabe-
ria, então, evitar esse “lado escuro da força”2 latente na técnica.
O artigo está estruturado em dez seções, além desta introdução
e da conclusão. A primeira seção aborda sucintamente a comunica-
ção pública como objeto de pesquisa e ensino, enquanto a segunda
seção a vê como vetor de extensão universitária. A terceira seção
mostra como “agir é comunicar” e, vice-versa, como “comunicar é
agir”. A quarta seção lida com as habilidades parlamentares civis (a
comunicação verbal pública), enquanto que a quinta seção intro-
duz as habilidades executivas civis (a comunicação performática
pública). A sexta seção chama a atenção sobre o risco potencial da
comunicação pública, que trabalha na tensão entre o conflito pre-
sente e a paz no futuro. A sétima seção aborda justamente o “lado
escuro da força” na comunicação pública. A oitava seção reputa à

1
Para a educação para a cidadania, ver, por exemplo, Moledo e Rego (2009). Os autores
apresentam a obra esclarecendo que a educação para a cidadania, em uma perspectiva
intercultural, não nos deixa esquecer que boa parte do sentido moral da cidadania vem
buscando uma consciência maior da pluralidade cultural nos países e no mundo global.
(p. 18-19).
Para o “lado escuro da força” aplicado ao capital social, ver Schuman e Anderson (1999).
2
31
extensão o desafio de equilibrar inevitáveis conflitos com coesão

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
social. A nona seção fornece pistas acerca da forma que poderia as-
sumir a extensão universitária em comunicação pública, e a décima
seção versa sobre a função social da comunicação pública.

COMUNICAÇÃO PÚBLICA

Nos últimos 20 anos, a comunicação pública tem recebido am-


pla atenção da pesquisa e do ensino. Dentro e fora do Brasil, ela
tem motivado os pesquisadores a debaterem e a publicarem sobre
o assunto – em grande parte em um esforço de definição do fenô-
meno. Do ponto de vista do ensino, a comunicação pública tem
estimulado a oferta de cursos de graduação, mestrado e doutorado
especialmente dedicados ao tema. Sobretudo no exterior.
Do ponto de vista da pesquisa, é possível perceber distintas
visões sobre a responsabilidade do Estado e/ou Governo na con-
dução da comunicação pública. No Brasil, observam-se duas cor-
rentes distintas: uma mais antiga, que segue a linha europeia, para
quem a comunicação pública é uma ferramenta da comunicação
do Estado e do Governo (como um serviço público de informação
e ouvidoria); e outra mais recente.
No Brasil, a produção científica sobre a comunicação governa-
mental se deu, inicialmente, no período da ditadura militar, e a res-
ponsabilidade do planejamento e da execução da tarefa foi assumida
pelo governo autoritário em suas diversas instâncias. Outras contri-
buições acerca das mudanças históricas na perspectiva da comunica-
ção pública brasileira podem ser encontradas em Matos (2013), Mar-
tins, Brandão e Matos (2003), Brandão (2006) e Bucci (2015).
Na sequência, do período da redemocratização à Constituição
de 1988, ressalta-se a participação dos atores da sociedade civil
como essenciais no processo político e na redefinição da comuni-
cação pública. Na Franca, a sistematização da comunicação pública
foi acompanhada por Ollivier-Yaniv (2000), Libois (2002) Miège
(1989), Paillard, (1993), Sellier, (2006) Zémor (1995, 2003, 2007),
Matos (2009), entre outros.
No Brasil, a reunião de contribuições de pesquisadores brasi-
leiros, latino-americanos, franceses e italianos dá-se em Kunsch
(2011), Duarte (2007), Oliveira (2009) e Matos (2013).
O aporte da comunicação organizacional na comunicação pública,
relacionada com as novas exigências da cidadania, a encara como um
32
recurso administrativo gerenciável, em uma perspectiva institucional
Mídia e Sociedade em Transformação

e de mercado, onde a organização, assim como o governo, precisa ser


eficiente e apresentar resultados satisfatórios (incluindo os imperati-
vos de transparência, accountability e de responsabilidade social, vi-
sando a uma aproximação entre mercado e comunicação pública).
Afeita às teorias da complexidade de Edgard Morin, a busca
de aproximação entre Estado e mercado tem proposto uma visão
mais participativa, no sentido de entender a comunicação pública
pela mobilização e engajamento de vários setores da sociedade no
processo. Assim, o foco deixa de estar na exclusividade da relação
Estado-sociedade, apresentando o processo como um atributo de
todos os agentes comunitários: civis, religiosos, militares, patro-
nais, sindicais, etc.
Do ponto de vista do ensino, podem-se citar alguns progra-
mas universitários dedicados à comunicação pública. Dentro os
quais: no nível de doutorado, o da Georgia State University (www.
gsu.edu); no nível de mestrado, o da London School of Economi-
cs and Political Science (www.lse.ac.uk); no nível de graduação, o
da University of Technology Sydney (www.uts.edu.au). No Cana-
dá, a Université Laval oferece todas as opções (www.ulaval.ca). No
Brasil, vale mencionar as especializações lato sensu oferecidas pela
Universidade de São Paulo, pela UNA, em Minas Gerais, e pela
METROCAMP, em Campinas (agora descontinuada).
Para além da necessária pesquisa teórica (acerca dos conceitos)
e do ensino de comunicação pública, reside sua razão comunitária:
para que serve, na prática, a comunicação pública? Reformulan-
do-se: como os cidadãos reais podem dela se servir? Breve: qual a
função social da comunicação pública?

A UNIVERSIDADE E OS COMUNICADORES PÚBLICOS


A comunicação pública tem sido objeto de vasta pesquisa cien-
tífica já há algum tempo, mas o ensino da comunicação pública
ainda está em seus primórdios – com cursos e disciplinas esparsos
no espaço e no tempo, e com notáveis descontinuidades. Entretan-
to, a comunicação pública como objeto de extensão universitária
no Brasil praticamente inexiste3.
Ainda mais escassas são as abordagens mais práticas, no sentido
de capacitação ‘profissionalizante’ em cidadania comunicacio-
nal, quando o enfoque seria o “treinamento de comunicadores
33
públicos” ou o “treinamento de comunicadores políticos”. (MA-

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
TOS; NOBRE, 2015).
Vale notar que são coisas diversas: pesquisa, ensino e extensão. A
extensão, enquanto ponte entre universidade e sociedade, quando a
academia vai à polis e vice-versa, é o próximo passo para a comuni-
cação pública. Trata-se de transferência de conhecimento aplicável,
capacitação técnica, e qualificação de quadros comunitários.
Porque, si la universidad no fuese un buen lugar para el cultivo
y la práctica de virtudes cívicas (…), ¿cómo sería posible prestar
atención a los discursos (…) acerca de la imprescindible conexi-
ón de las universidades con el entorno, con la vida comunitaria
(…)? (S)e trata de que las personas asuman su rol de ciudadano.
Por lo tanto, la preparación para el mundo del trabajo y la forma-
ción para una ciudadanía activa se presentan como (…) objetivos
clave para la formación universitaria. A veces se presentan como
enfrentados al interpretar la tercera misión de las universidades
(su compromiso social) en dos claves diversas: una podríamos
decir más economicista y otra que mira más a aspectos cívico-
sociales. La primera enfoca más a la innovación empresarial que
desde la universidad se puede impulsar, mientras que la segunda
apunta más al compromiso o servicio a la comunidad (…). (NA-
VAL et al., 2011, p. 81).
A extensão visa informar, capacitar e qualificar. Caberia à aca-
demia explicar (traduzir) a comunicação pública para os cidadãos,
mostrando como dela podem se servir em sua vida diária, habilitan-
do-os em tais usos alternativos, e, acima de tudo, qualificando a polis
para este conhecimento e esta técnica.
Qualificação implica, neste contexto, um juízo ético e moral4 acerca
deste saber (conhecimento) e deste fazer (técnica). Juízo ético e moral
quer dizer, simplesmente, avaliar o “bem e a conveniência” que cada

3
Vale mencionar a atuação de Bernardo Kucinski, que informa ministrar “curso de
extensão pioneiro sobre comunicação pública” na ECA/USP (www.kucinski.com.br).
4
Toda cultura e cada sociedade institui uma moral, isto é, valores concernentes ao bem
e ao mal, ao permitido e ao proibido e à conduta correta e à incorreta, válidos para
todos os seus membros. [...] No entanto, a simples existência da moral não significa a
presença explícita de uma ética, entendida como filosofia moral, isto é, uma reflexão
que discuta, problematize e interprete o significado dos valores morais. [...] A filosofia
moral ou a disciplina denominada a ética nasce quando se passa a indagar o que são,
de onde vêm e o que valem os costumes.” (CHAUÍ, 2008, p. 310).
34
ação (simbólica ou material) pública pode desencadear. Em resumo: o
Mídia e Sociedade em Transformação

certo ou o errado, o benefício ou o prejuízo – do ponto de vista público.


En la universidad se forman ciudadanos, ya que incluso una
formación personal preocupada por la excelencia académica y
profesional está incompleta si no va acompañada del desarrollo
de un conjunto de competencias próximas a la formación en va-
lores democráticos propios de una ciudadanía activa y preocu-
pada por la inclusión social (…). El universitario debe ser capaz
de implicarse en ese mismo mundo, debe saber comprometerse
en proyectos de ciudadanía activa y debe atreverse a cambiarlo
y transformarlo. Esa es la razón por la que el aprendizaje cívico
debe serlo, fundamentalmente, de competencias (…). (NAVAL
et al., 2011, p. 82).
Saber “como fazer” e ter o “poder de fazer” devem se guiar pela
ética e moral da polis: é certo e trará benefício para a comunidade?
Aqui, a comunicação pública torna-se uma pedra de toque filosófi-
ca: se é certo e/ou benéfico segundo os parâmetros da comunidade,
saiba-se e faça-se! Comunique-se publicamente.

COMUNICANDO PUBLICAMENTE

A comunicação pública tem muitas facetas, algumas imperfeitas


(como seu potencial negativo, conflitivo e desagregador), mas todas
são igualmente relevantes. Expressar-se em público é relativamente
complexo, pois os significados sociais colaterais concorrem (dispu-
tam em paralelo) com o que é dito, por quem é dito, como é dito, e
com qual objetivo. Ou seja, quando se comunica, o contexto interfe-
re e modifica o que “dizem ou querem dizer” os agentes.
Por exemplo, há muita carga de comunicação pública no ato de
um monge atear fogo ao próprio corpo, no monólogo de uma mulher
negra que grita para a fila de frente à tropa de choque, no parar silente
de um chinês frente a um tanque de guerra, no desespero de um pai
que abraça o corpo do filho afogado na travessia do Mediterrâneo.
Estes casos ilustram como silêncios, monólogos e até falas
desconexas podem comunicar com clareza, e como o contexto é
que determina a relevância pública do fato. Mostram, igualmente,
que o papel da comunicação pública não se restringe ao “proces-
so parlamentar” (como diálogo para o consenso); vai além, para
denunciar, protestar, acusar, defender, proteger, reivindicar, etc.
(funcionando como uma cacofonia para o dissenso).
35
Este caráter da comunicação pública é determinante de sua

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
função social: ela é uma ferramenta de empoderamento do cidadão
para a ação. Se importante enquanto “processo parlamentar”, a co-
municação pública é também um vetor “executivo”: pois, às vezes,
agir é a forma de falar por todos e para todos.
Democratic citizens have to acquire civic competence, that is,
they have to articulate their private interests in terms of the com-
mon good. Since the common good is always concrete it requi-
res (…) a specific community. (…) Citizens are also supposed to
have certain technical skills even to be able to act as citizens at
all. (GABRIEL; KEIL, 2013, p. 187).
Eis onde a comunicação pública se encontra com a extensão:
a academia capacita os cidadãos da polis para se expressarem (por
atos ou palavras), com consciência e critério. Esta busca de (novo)
equilíbrio entre falar (processo parlamentar) e fazer (processo exe-
cutivo) é tanto espontânea quanto motivada, razão de ser da exten-
são em comunicação pública.

HABILIDADES PARLAMENTARES CIVIS

Cidadãos expressando-se livremente por palavras na esfera pú-


blica é a face mais visível da comunicação pública. Deste “mercado
simbólico” fazem parte a fala, a conversação, o diálogo, o debate, a
deliberação, etc. Cada um destes implicaria, para efeitos didáticos,
um fenômeno exclusivo e diferente dos demais – embora, na práti-
ca, existam áreas cinzentas que se sobrepõem.
Toda argumentación requiere de una etapa previa de reflexión,
de revisión y organización cuidadosa de las razones e ideas que
se pretende probar o defender. Sólo así puede haber eficacia
en el diálogo, el debate o la discusión. Esta eficacia es posible
lograrla, además, sólo si se dedica tiempo a la deliberación (del
latín deliberare: considerar atenta y detenidamente los pros y
contras) y, si fuese el caso, a sustentar la razón o sinrazón de
los votos antes de emitirlos y adoptarlos. (…) El enjuiciamien-
to se realiza comparando las ideas para conocer y determinar
sus relaciones, distinguir entre el bien y el mal, lo verdadero y
lo falso, lo oportuno y lo impertinente. (CASTAÑEDA; MA-
DRID, 2001, p. 21).
O falar é a expressão assimétrica entre os agentes, quando um
dos indivíduos é mais ativo que o outro – que pouco ou nada par-
36
ticipa, embora esteja presente. A imagem da mulher negra que
Mídia e Sociedade em Transformação

esbraveja com os policiais da tropa de choque (que permanecem


calados) é bem explicativa. O falar traz, portanto, uma carga de
unilateralidade artificial, dado que existe quórum para o diálogo,
mas alguém opta por se abster em parte ou no todo. O falar é, en-
tão, compreendido como expressão monológica que busca, sem
encontrar, o diálogo.
A conversação é (no que pese o aparente paradoxo) um falar bi-
lateral ou multilateral, por assim dizer, onde os agentes se engajam
em uma troca mais equilibrada de parte a parte. A conversação é
espontânea na origem e enquanto processo, visto que sua condução
está a cargo de todos e de ninguém – em específico. Suas regras são a
da civilidade, que toma a forma de uma cultura prévia e tacitamente
adquirida pelos cidadãos. As reuniões ao redor da mesa do bar, do
restaurante e da casa são pródigas em conversações.
O dialogar é um estágio evoluído de conversação, onde se per-
de parte da espontaneidade que dá origem ao intercâmbio. Ou seja,
o diálogo nasce geralmente de uma ação motivada e consciente das
partes. O diálogo é mais formal (em atmosfera ou ambiente) e for-
malizado (em suas regras processuais) e possui um objetivo expres-
so (não tácito) de mútua expressão e atenção – em uma busca para
entender e fazer entender. Isto é, o diálogo é um exercício do ca-
nal de comunicação (“você está ouvindo e me entendendo?”) e um
teste da boa-fé dos interlocutores, mas não tem, necessariamente,
como meta a atingir o convencer, por exemplo.
O debater, por sua vez, é um diálogo engajado e artificial, por-
que planejado e regulado: tem sua origem provocada, é conduzido
segundo regras informadas e aceites, e possui uma meta a atingir
(o entendimento, o convencimento, o consenso). O debate é um
teste de performance e de produtividade da comunicação e envolve
um espírito de enfrentamento. Os agentes apresentam ideias que
concorrem umas contra as outras, esgrimindo argumentos entre
si para decidir pelo melhor. O embate é geralmente presidido por
outrem (o mediador), e nem sempre o melhor argumento (de um
ponto de vista técnico) vence. E, às vezes, a arte e o valor dos movi-
mentos se sobressaem às partes e ao resultado final, pois um deba-
tedor brilhante pode perder na votação final.
O deliberar institucionaliza a política dentro do debate, pois
deliberar visa a governar efetivamente. Deliberar é um tipo de
debate cujo resultado final, o argumento eleito, outorga poder de
37
ação sobre todos. Isso é fundamental: o debate está circunscrito

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
ao linguístico, ao passo que a deliberação se estende igualmente
ao mundo material, físico, extralinguístico. A deliberação5 visa a
transformar a comunidade, a governar a polis. Como no Congresso
Nacional, senadores e deputados debatem e deliberam: comunicam
e decidem por um curso de ação proposto, e o fazem pelo voto –
elegendo uma dentre as opções argumentativas apresentadas.
As referidas zonas cinzentas existem e proporcionam alterna-
tivas híbridas. Por exemplo: entre falar e conversar, existiria um
meio termo onde os silêncios comunicam, e as conversas, não; en-
tre conversar e dialogar, haveria um meio termo onde a informa-
lidade distancia e ter regras não estressa; entre dialogar e debater,
um meio termo onde ter meta não aprisiona e vencer não liberta;
por fim, entre debater e deliberar, um meio termo onde participar
está acima de vencer e vencer não implica submeter os vencidos.

HABILIDADES EXECUTIVAS CIVIS

Uma face menos visível da comunicação pública dá-se por atos,


quando, para além da conversação, o corpo todo é que é o veículo
de expressão dos cidadãos. Corpos juntos ou separados, estáticos
ou em movimento, mas corpos com carga expressiva e que comu-
nicam publicamente. Essa comunicação performática, não verbal
e não oral, visa igualmente o tema e a relevância públicos – e se
insere no jogo de poder na polis.
Expressões públicas tomam a forma de manifestação, passeata,
performances; e, aliadas ou não à vertente oral-verbal, podem ser
usadas para protestar, denunciar, acusar, e assim por diante. Por
exemplo: mulheres que se despem contra a violência de gênero, ati-
vistas que se fingem de mortos em referência a chacinas, uma pes-
soa que se acorrenta à porta do hospital em busca de atendimento,
civis que bloqueiam uma estrada contra a insegurança viária.
Ainda que estes exemplos fossem executados em silêncio,
como quando pessoas se amordaçam contra a censura, ainda assim
configuram comunicação pública: são atos que geram fatos comu-
nicativos que querem mudar a vida em comunidade. Esse agir para
intervir nos rumos da polis possui uma carga expressiva intencio-

5
Sobre a relação entre comunicação pública e deliberação, ver Nobre (2011).
38
nal, levado a efeito na esfera pública. Essa comunicação que quer
Mídia e Sociedade em Transformação

governar diferentemente (de maneira diversa) é a face executiva da


comunicação pública. Executiva porque levada a efeito, realizada.
Uma questão interessante seria perguntar até que ponto a face
parlamentar e a face executiva da comunicação pública contribuem
para a convergência social. Sim, porque só há comunicação se hou-
ver convergência de significados6; e só se lhe pode adjetivar como
pública se promover a convergência comunitária. Breve, dos sabe-
res e fazeres sociais. Todavia, não é trivial nem está claro o quanto
as falas, as conversações, os diálogos, os debates e as deliberações
fazem convergir significados (por definição, imateriais).
Por outro lado, promover a convergência dentro da comunida-
de pressupõe gerenciar conflitos, buscar uma convivência pacífica,
promover a coesão social7. Contudo, parte da comunicação pública
tem justamente o efeito contrário: interações verbais (face parla-
mentar) ou performáticas (face executiva) podem redundar em de-
sacordo, em ressentimento, em desejo de vingança, em escalada de
sabotagens, etc.; ainda que as pessoas tenham entendido os signi-
ficados, podem não aceitar as regras, os vencedores, suas decisões.
A exemplo do que ocorre com o capital social8, a comunicação
pública tem um “lado escuro da força” em potencial. Um saber ou
um fazer pode ser legal e legitimamente expresso na esfera pública,
preenchendo os requisitos de sintonia semântica entre os agentes,
e, então, qualificar-se como comunicação pública segundo os crité-
rios de “mútuo entendimento” e “relevância pública”.
Todavia, à luz do critério de “convergência social”, um saber ou
um fazer que promova o conflito e a ruptura na comunidade, ainda
que legais e legítimos e expressos na esfera pública, não pode ser
chamado de comunicação pública. É comunicação e é pública, é

6
Nobre e Nobre (2013, p. 22) associaram a comunicação pública com a convergência
do entendimento, e a comunicação política com a convergência da ação. A questão
agora é: e se tais convergências (saber e fazer) conduzirem à ruptura social em um
momento posterior?
7
Um dos objetivos específicos de García (2008) é justamente uma “Reflexión en torno a
la contribución de la comunicación pública a la convivencia y la cohesión social”.
8
The bias has since become stronger as Putnam and others have recommended social
capital and its twin, social trust, as a solution for current problems, as if social capital
had no downside. Yet there are several distinctly negative aspects of social capital that
these analyses miss.” (PORTES; LANDOLT, 1996)
39
legal e é legítima, mas não será comunicação pública. Este “novo”

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
critério aporta um caráter moral (diferente de ética) para as inte-
rações cívicas: uma questão de princípios humanos, não de regras
concertadas pela razão.

DIVERGINDO PARA CONVERGIR

A face executiva da comunicação pública apresenta uma série


de desafios de ordem prática. Da mesma forma que será sempre
difícil (quiçá impossível) determinar o grau exato da convergência
de significados entre os agentes, o mesmo vale para a convergência
comunitária. Alguns saltos qualitativos importantes foram dados
através de conflito e ruptura social, como por exemplo: fim da es-
cravidão, direitos civis de negros e mulheres, situação dos imigran-
tes ilegais, independência de ex-colônias e ex-repúblicas soviéticas,
direitos civis dos homossexuais, etc.
Há uma tensão constante entre “divergir consigo hoje” para
“convergirmos todos amanhã” – do ponto de vista da comunidade
como um todo, e para além do conteúdo propagandístico veicula-
do de parte a parte. Isso é importante, pois o partido instalado no
poder vai sempre argumentar contra os baderneiros, os delinquen-
tes, os anarquistas, os criminosos, os terroristas. E, de um ponto
de vista histórico, ainda que os saberes e fazeres de um Zumbi dos
Palmares, de um Gandhi, de um Martin Luther King fossem dis-
ruptivos e até ilegais, eram de fato comunicação pública.
Daí que os conflitos sejam inevitáveis e normais, e que seja ne-
cessário criar mecanismos para sua gestão; e que a conveniente paz
social de longo prazo, mais justa e igualitária, possa depender da
escalada de rupturas no curto prazo. A comunicação pública (em
suas faces parlamentar e executiva) é o que põe em movimento a
roda da fortuna social, às vezes pagando o alto preço da (aparente)
contradição interna. O que é justo e bom para a comunidade vê-se
mais claramente ex-post do que ex-ante.

O “LADO ESCURO DA FORÇA” NA COMUNICAÇÃO PÚBLICA

A comunicação pública não tem sido, até onde se sabe, objeto de


disputa acerca de seus efeitos. Ou seja, a possibilidade de que a co-
municação pública possa engendrar algo além de concórdia e bene-
fício público é algo estranho ao debate sobre o tema. Isso é natural e
40
foi igualmente observado com o capital social, que foi analisado mais
Mídia e Sociedade em Transformação

tarde em seu lado negativo, e que, até então, focava “exclusively on


the positive effects of community participation without considering
its possible negative implications.” (PORTES; LANDOLT, 1996). A
seguinte definição ajuda a entender o porquê disso:
O objeto da comunicação pública, isto é, seu motivo de ser, é o
assunto público de interesse público. O público-alvo da comunica-
ção pública é, a princípio, todo cidadão que vive em sociedade. (...)
Por fim, o objetivo da comunicação pública é único: promover o
bem estar dos indivíduos vivendo em sociedade. (NOBRE, 2008).
De modo geral, a comunicação pública tem sido sempre asso-
ciada à promoção do bem-estar social. Por outro lado, é possível
imaginar cidadãos se expressando nas diferentes esferas públicas
acerca de assuntos públicos que possuam interesse e relevância
públicos, e promover, contraditoriamente, mal-estar e desajusta-
mento social. Por exemplo, minorias ou grupos de interesse que se
sintam injustiçados podem vir a público para protestar, reivindicar,
etc., gerando desequilíbrio relativo (no espaço e no tempo, e nas
relações econômicas e políticas).
Nesse sentido, a história está repleta de exemplos de grupos
mais ou menos articulados que se preparam tecnicamente para
exercer seu papel de comunicador público: com discurso coerente,
com roupas ou disfarces e cartazes adequados a suas demandas e
necessidades, com dinâmicas ensaiadas (palavras de ordem, músi-
cas de protesto, coreografia), com circuitos planejados para movi-
mentação. Dentre tais grupos pode-se citar: sindicatos, movimento
dos sem-terra e dos sem-teto, Greenpeace, WWF, movimentos se-
paratistas (e.g. IRA e ETA), FEMEN, BlackBlocs e outros.
Conquanto muito do que fazem qualifique-se como comunica-
ção pública, a verdade é que sua atuação acaba gerando atrito, dis-
cussão, discórdia, agressões, enfim, mal-estar social – pelo menos
no curto prazo. Daí que é possível dizer que a comunicação pública
(em ambas vertentes parlamentar e executiva) pode, sim, produzir
resultados nefastos e desagregadores na comunidade. Uma con-
tradição, até certo ponto, visto que, no longo prazo, tem que ser
obrigatoriamente benéfica e agregadora. Esse aparente paradoxo
deve-se à tensão entre o “direito à expressão” e o “direito ao contra-
ditório”, nem sempre desprovido de conflito e enfrentamento.
41
EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA9 E COMUNICAÇÃO PÚBLICA

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
Saari (2010) propõe dezesseis habilidades parlamentares neces-
sárias para capacitar líderes comunitários. Cada pessoa precisaria
saber: receber uma moção de início ou de encerramento de deba-
te; levantar um ponto de ordem; dirigir um apelo para a decisão da
mesa; receber uma moção que suspende as regras; receber uma mo-
ção de objeção à apreciação de uma questão; dirigir uma solicitação
de informação; receber uma moção para análise mais aprofundada
dos fatos ou para atender a assuntos mais urgentes; fazer andar a
pauta; receber uma moção e encaminhá-la para um comitê; receber
e modificar uma moção e/ou suas emendas; receber e submeter uma
moção à apreciação; receber uma moção para votar a questão origi-
nal; receber uma moção de reconsideração; receber uma moção que
rescinde a ação prévia; permitir a membros da mesa a participarem
do debate; convocar nova votação sobre a questão.
O autor se baseia claramente no processo parlamentar oficial,
que regula a atividade de deputados e senadores eleitos. Contudo,
seria interessante adaptar tais protocolos para a atividade civil, tra-
duzindo os jargões e simplificando o entendimento da importância
de cada fase em particular. Isso vale para as habilidades parlamen-
tares civis e também para as habilidades executivas civis.
O primeiro passo da extensão é a transferência de conheci-
mento aplicável à realidade de cada cidadão. Aqui, ressalta-se o
valor simbólico dos atos públicos, do expressar-se (individual e
coletivamente) em público. Explicar e ilustrar como exemplos da
história recente, dentro e fora do país, contribuíram para mudar
positivamente realidades injustas e perpetuadoras de desigualdade.
O segundo passo da extensão é a capacitação técnica para agir en-
quanto agente social, quando mobilizar e engajar outros cidadãos
torna-se fundamental – como o é lidar com as novas tecnologias
de informação e comunicação, e com os profissionais da imprensa.
“In this closing data essay, we contend that chief among the re-
pertoire of civic competencies required for political socialization is

9
Naval et al. (2011, p. 83) abordam a extensão universitária da formação ético-cívica
enquanto um compromisso social.
42
communication competence.” (SHAH; McLEOD; LEE, 2009, p. 102).
Mídia e Sociedade em Transformação

O terceiro passo da extensão é a qualificação ético-moral dos


cidadãos, para que empenhem as habilidades recém-adquiridas
para a promoção da paz e da coesão social. Como toda técnica ou
ferramenta, o saber e o fazer da comunicação pública poderiam ser
usados para escalar conflitos e promover rupturas na comunidade –
ainda que as intenções fossem as melhores possíveis (por exemplo,
defender uma minoria). Daí que adquire relevância um juízo crítico
para julgar meios e fins, evitando maquiavelismos e oportunismos.

DANDO FORMA À EXTENSÃO EM COMUNICAÇÃO PÚBLICA: TREINAMENTOS

Pode-se recorrer a uma série de atividades na extensão univer-


sitária, de modo a transferir conhecimento aplicável, a capacitar
tecnicamente para atuar e a qualificar os quadros civis da socieda-
de. Workshops, jogos, esportes, trabalhos em equipe (competições),
performances, dramaturgia (role playing, encenações), simulações,
interações musicais, exercícios variados, etc. Para este artigo, inte-
ressa especialmente o treinamento, que pode envolver, em alguma
medida, uma ou mais das atividades citadas anteriormente.
É relativamente simples encontrar na internet treinamentos
voltados à capacitação de cidadãos para os mais diferentes aspectos
da vida social. Por exemplo: capacitação de cidadãos para fazerem
lobby junto às autoridades locais10; treinamento de cidadãos para
enfrentarem emergências e desastres naturais11; habilitação de cida-
dãos para interagirem com candidatos à presidência da república12;
treinamento de cidadãos para participarem na busca de soluções
nas comunidades em que vivem13; treinamento de trabalhadores
para se engajarem civicamente14; treinamento para que cidadãos
se tornem observadores de eleições15; treinamento de cidadãos em
técnicas de primeiros socorros16; treinamento de cidadãos para re-
gistrarem atuações ilegais de policiais17; treinamento de cidadãos
para lidar com comportamentos antissociais18; treinamento de
como engajar grupos civis marginalizados19; treinamento de cida-
dãos para agir em projetos sociais de sua comunidade local20; etc.
Os treinamentos que visam à capacitação comunicacional en-
volvem a aquisição das seguintes habilidades, dentre outras: “liste-
ning skills, influence skills, responding to conflict, [...] assertiveness
skills, negotiation, facilitation, [...] public speaking, [...] speaking
skills”21, interacting skills. Algumas associações existem, inclusive,
43
com o único propósito de promover tais habilidades comunicacio-

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
nais na sociedade civil, como, por exemplo, a ToastMasters (www.
toastmasters.org), a PowerTalk (www.powertalkinternational.com)
e a Association of Speakers Clubs (www.the-asc.org.uk).
Pensar em atividades de extensão universitária, no geral, e em
treinamentos, no particular, que cumpram a tríplice missão da ex-
tensão para a comunicação pública é, contudo, um desafio. Na ver-
tente parlamentar da comunicação pública, Matos e Nobre (2014)
sugeriram criar oportunidades de interações reais entre autorida-
des e cidadãos, simular a participação em conselhos, estruturar
debates e processos deliberativos, propor exercícios de mútua sa-
batina, utilizar o modelo das Nações Unidas para encenar sessões
plenárias, emular candidaturas a processos eleitorais, e outros.
Na vertente executiva da comunicação pública, é fundamental
pensar em ações concretas sobre a realidade material – para além
da instância verbal. Algumas possibilidades incluiriam a participa-
ção em manifestações públicas (passeatas), o trabalho voluntário
em projetos sociais não remunerados (imigrantes), o alistamento
em movimentos sociais de defesa de direitos civis (LGBTTT), o
combate a problemas de saúde (dengue), performances denuncia-
tórias (Grupo FEMEN), instalações artísticas (cruzes na grama do
Congresso Nacional), etc. Todos eles poderiam, teoricamente, ser
conduzidos em silêncio, e ainda assim integrariam o rol da comu-
nicação pública – com efetiva carga expressiva na esfera pública.

10
www.citizensuk.org/training
www.governor.ny.gov/news/governor-cuomo-launches-citizen-preparedness-corps-training-program
11

12
www.tinyurl.com/orc4usk
13
www.tinyurl.com/nwzmuqq
www.mncampuscompact.org/wp-content/uploads/2013/05/workforce-development-and-CE.pdf
14

15
www.eces.eu/posts/diplocat
www.patch.com/california/ranchobernardo-4sranch/lifeguards-firefighters-training-citizens-cpr
16

17
www.tinyurl.com/oongldo
www.thersa.org/about-us/media/2012/08/training-citizens-to-respond-to-anti-social-behaviour/
18

19
www.cardboardcitizens.org.uk/training-consultancy
20
www.britishcouncil.org/active-citizens/how-active-citizens-works
21
www.inspironconsulting.in/index.php/training/corporate-training/communication-skills-training
44
A FUNÇÃO SOCIAL DA COMUNICAÇÃO PÚBLICA
Mídia e Sociedade em Transformação

Encarar a comunicação pública como objeto de extensão uni-


versitária, e não apenas de pesquisa e ensino, remete a uma sé-
rie de questões parcialmente inéditas. Inicialmente, é um avanço
considerar a comunicação pública como uma habilidade técnica
transferível. Em segundo lugar, é interessante pensar na comu-
nicação pública como uma ação civil e vice-versa: as interações
parlamentares civis como ação pública, e as ações executivas civis
como dotadas de carga expressiva na esfera pública. Isso eleva a
comunicação pública a um novo patamar: a de ser um dos pilares
da vida civil (inter civis), algo independente de Estado e mercado.
Ou seja, a comunicação pública pode atuar e propor questões não
apenas relacionadas às proposições das políticas públicas, mas
outras questões percebidas e propostas pelos cidadãos; da mesma
forma, questões essenciais sobre mobilidade, segurança e susten-
tabilidade podem ser propostas pelos cidadãos.
De outro ponto de vista, evidencia-se a função social da co-
municação pública: gerir conflitos e promover a paz e a coesão so-
cial. Propor que a comunicação pública possua um potencial de
promover conflitos e conduzir à ruptura comunitária, a exemplo
do “lado escuro” do capital social, parece ser igualmente original.
O que conduziu, necessariamente, a propor critérios ético-morais
para o uso dos saberes e fazeres da comunicação pública. E a incluir
a qualificação ético-moral dos cidadãos submetidos à capacitação
como conteúdo obrigatório da extensão universitária.
Assim, a capacitação de civis em habilidades (parlamentares e execu-
tivas) da comunicação pública estaria na base da formação de cidadãos.
Esse falar e fazer comunitário há de servir aos pares (gens), e objetiva
que os cidadãos convivam entre si (inter civis). Além de ter a comunica-
ção pública como objeto de pesquisas e ensino, caberia à universidade
oferecê-la como vetor de extensão – na interface entre academia e polis.
Isso traria para primeiro plano o caráter prático da matéria, aplicável às
diversas situações do cotidiano das pessoas comuns.

CONCLUSÃO

O artigo introduziu a comunicação pública como vetor de ex-


tensão universitária, reconhecendo seu poder (enquanto ferramen-
45
ta técnica) para gerar tanto resultados positivos quanto negativos –

extensão universitária e habilidades executivas civis


A função social da comunicação pública:
a depender do uso que se lhe faça. Daí ter priorizado a qualificação
(ético-moral) como a pedra de toque para lidar com os saberes e
fazeres da comunicação pública. Doravante, a comunicação públi-
ca tem que contribuir para a convivência pacífica em comunidade e
para a promoção da coesão social – não bastando preencher apenas
os requisitos de “relevância e expressão públicas”.
Mas o artigo também reconheceu a dificuldade implícita a esse
julgamento ético-moral, visto que algumas rupturas (em uma visão
de curto prazo) são necessárias para atingir níveis maiores de jus-
tiça e equidade sociais (em uma visão de longo prazo). Seja como
for, o enfoque escolhido foi o de capacitação dos cidadãos para a
vida com seus pares (inter civis), em uma tentativa intencional de
propor outras formas de relacionamento e debate envolvendo o Es-
tado, o governo, o mercado, as corporações etc. Enfim, um esforço
um tanto artificial, mas certamente benéfico para pensar o papel
das habilidades civis para a vida em sociedade.

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Comunicação pública
digital da ciência
para a democracia:
um campo em
construção INTRODUÇÃO1

Danilo Rothberg
A comunicação pública se
constitui no Brasil nas três
décadas posteriores à redemo-
Aline Cristina Camargo cratização em direções comple-
xas, que têm sido objeto de pes-
quisas de campos disciplinares e
convergências interdisciplinares
sob perspectivas diversas. Com
a popularização do acesso à in-
ternet, a dinâmica de expansão
das dimensões comunicativas da
vivência democrática determi-
nou uma dramática renovação
dos modos potenciais de exercí-
cio dos direitos civis e políticos,
sobretudo por meio do crescente
atendimento do direito à infor-
mação sobre formulação, execu-
ção e avaliação de políticas públi-
cas. No contexto, a comunicação
pública proveniente de governos
eleitos passa a se projetar no am-
biente on-line como fonte cada
vez mais relevante para o apro-
fundamento da cidadania.
50
Cada área de gestão pública tem recebido demandas diferencia-
Mídia e Sociedade em Transformação

das e serve a distintos perfis de usuários da informação. Enquanto


saúde e educação enfrentam, por exemplo, elevadas exigências tanto
de clareza da informação sobre acesso a direitos quanto de interativi-
dade e retorno rápido diante de necessidades imediatas expostas nas
redes sociais por beneficiários de serviços públicos, outras áreas não
são necessariamente levadas a perseguir diretrizes tão influenciadas
pela natureza da oferta de benefícios no curto prazo.
É o caso, por exemplo, de ciência e tecnologia (C&T), em que o
aparente distanciamento entre a sociedade em geral e as prioridades
de programas de pesquisa, seus impactos sociais e riscos ambientais
tende a contribuir para o ocultamento das relações políticas que a ca-
racterizam como área de gestão pública. As imagens da ciência e do
cientista como entes superiores e guiados por suas próprias lógicas,
desconectados das preocupações cotidianas, ainda podem agravar a
desatenção pública a essa área.
Este texto indica como a comunicação pública digital sobre pro-
dução de ciência e tecnologia com fundos públicos assume papel
central no fortalecimento da cidadania, se considerada sua contri-
buição ao atendimento do direito à informação sobre como os pes-
quisadores e as instituições que sustentam suas pesquisas têm se
orientado para a resolução de demandas sociais. No cenário aqui
construído, aportes das ciências da comunicação e da sociologia da
ciência são articulados na construção de um raciocínio específico,
com o objetivo de indicar qualidades da comunicação digital de ci-
ência e tecnologia a ser praticada como fonte de informação capaz de
ampliar a vigilância democrática sobre as políticas da área, tornando
os pesquisadores mais responsáveis pelas prioridades que elegem em
seus programas de investigação.

1
Este trabalho se beneficia de reflexões trazidas por Aline Cristina Camargo na disserta-
ção de mestrado “Comunicação pública, cidadania e internet: a popularização da ciên-
cia nos portais eletrônicos de governo”, realizada com orientação de Danilo Rothberg no
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faac/Unesp e apoiada por bolsas de
mestrado no país e pesquisa no exterior da Fapesp, pelas quais agradecemos (Proces-
sos 2013/01819-3 e 2014/13042-6). Agradecemos também ao professor Joseph Dean
Straubhaar (University of Texas at Austin) pela orientação na bolsa Bepe/Fapesp. As
opiniões, hipóteses e conclusões ou recomendações expressas neste material são de
responsabilidade dos autores e não necessariamente refletem a visão da Fapesp.
51
No percurso do texto, em primeiro lugar são revisadas conceitu-

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
ações correntes sobre comunicação pública no âmbito das demandas
contemporâneas da democracia brasileira, em particular com o foco
em ciência e tecnologia. Em segundo lugar, aspectos dos Estudos
CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) são retomados a fim de in-
dicar a relevância de tal linha de investigação para a definição de ca-
racterísticas da comunicação pública de ciência que busque o aten-
dimento do direito à informação sobre políticas públicas da área. Em
terceiro lugar, são trazidas considerações sobre governo eletrônico e
democracia digital, tidos como sustentáculos de realização da comu-
nicação pública democrática de C&T. Considerações finais sinteti-
zam a contribuição do texto.

COMUNICAÇÃO PÚBLICA E DEMOCRACIA

O conceito de comunicação pública, ainda em consolidação,


pode ser caracterizado de cinco maneiras: “praticada na esfera pú-
blica; realizada pelo terceiro setor; realizada por meio da radiodi-
fusão pública; praticada pelo setor público e realizada pelo próprio
Governo” (DUARTE; VERAS, 2006, p. 25).
A primeira fixa espaços de circulação de ideias. A segunda vem
de iniciativas privadas com finalidade pública, que trabalham em
paralelo com o Estado e representam a sociedade civil. A terceira
é exercida através de emissoras de rádio e TV geridas por estrutu-
ras estatais para o atendimento do direito à informação. A quarta é
articulada por autarquias e fundações públicas. A quinta refere-se à
atuação de governos, através de instâncias de gestão pública.
Nesta última dimensão, atribui-se responsabilidade ao Estado
para a disseminação de informações sobre ações e políticas públicas
para promover transparência de gestão e accountability, entendida
como responsabilização de governos perante as políticas que dese-
nham e executam.
De acordo com Duarte (2009), a comunicação pública pode ser impor-
tante para: identificar as necessidades da sociedade; deliberar diretrizes para
uma ação pública; garantir a qualidade na elaboração de políticas públicas;
nortear a gestão pública eficiente; dar oportunidade para que os cidadãos
possam participar do processo de construção de políticas; assegurar plu-
ralidade nas discussões públicas; incitar a prática da cidadania; melhorar o
desempenho dos ofícios públicos; e contribuir para a análise do desenvolvi-
mento das ações públicas que se relacionam às demandas coletivas.
52
Brandão (2009) aponta como funções da comunicação pública:
Mídia e Sociedade em Transformação

a) informar (levar ao conhecimento, prestar conta e valorizar); b)


ouvir as demandas, as expectativas, as interrogações e o debate pú-
blico; c) contribuir para assegurar a relação social (sentimento de
pertencer ao coletivo, tomada de consciência do cidadão enquanto
ator); d) acompanhar as mudanças, tanto as comportamentais quan-
to as da organização social. Segundo Matos (2009, p. 127), a “inclu-
são da comunicação na ação pública é um critério da democracia: a
boa comunicação de instituições públicas requer transparência, qua-
lidade nos serviços oferecidos e respeito ao diálogo”.
Matos (2006) aponta que a visão de comunicação pública ligada
à propaganda e marketing político no contexto do regime militar
de 1964-1985 sofreu mudanças, e a comunicação pública passou a
se desvincular do papel exclusivo de comunicação entre governo e
população, passando a repercutir as transformações políticas, sociais
e econômicas do país. No contexto da redemocratização, a tendência
dominante do marketing como linguagem da comunicação política
cedeu lugar à presença de grupos sociais com vários níveis de orga-
nização e capazes de encontrar espaços e mídia para a manifestação
de diferentes vozes.
Para Brandão (2006, p. 11), “a restauração da democracia e o con-
sequente crescimento de novas formas de vivências democráticas des-
pertaram a necessidade de informação voltada para a construção da
cidadania”. Neste novo contexto, a própria noção de cidadania sofre
mudanças e começa a ser entendida de forma menos passiva e mais
participativa, “apreendida como o livre exercício de direitos e deveres”.
Para que os diversos atores sociais tenham espaço efetivo no pro-
cesso comunicativo, é preciso criar canais de discussão e deliberação
capazes de viabilizar a formulação coletiva de demandas: “a comu-
nicação pública exige a participação da sociedade (...) não apenas
como receptores da comunicação do governo e seus poderes, mas
também como produtores ativos do processo” (MATOS, 2011, p. 52).
A comunicação pública inclui, de acordo com Duarte (2009): a) com-
promisso em privilegiar o interesse público em relação ao interesse indi-
vidual ou corporativo; b) centralizar o processo no cidadão; c) tratar co-
municação como um processo mais amplo que informação; d) adaptação
dos instrumentos às necessidades, possibilidades e interesses dos públicos.
A comunicação pública exerce importante papel no processo
de responsabilização do poder público, em que a visibilidade está
associada à credibilidade, seja do ator ou do processo político: “o
53
Estado cumpre os princípios da comunicação pública regida pelo

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
interesse público ao informar, explicar, disponibilizar, treinar, ha-
bilitar, ouvir e contribuir para o exercício da cidadania” (WEBER,
2011, p. 105).
Especificamente no campo da comunicação pública em C&T,
cabe indicar, conforme Caldas (2004, p. 30), que “o avanço científico
e tecnológico brasileiro não é acompanhado, na mesma velocidade,
de uma mudança cultural sobre o papel estratégico, econômico e so-
cial que a C&T ocupa na melhoria da qualidade de vida”.
De acordo com Barbosa (2011, p. 163), a comunicação pública
de C&T deve atender a três requisitos: “prestação de informações,
informação significativa e participação”, de forma a situar-se na in-
tersecção entre transparência, direito à informação e participação
política. “Não basta disponibilizar documentos (e) digitalizar rela-
tórios”, salienta Barbosa (2011, p. 166); “é necessário dar sentido às
informações, conectá‐las, ordená‐las”.
Para Dagnino, Lima e Neves (2008), o problema da comuni-
cação pública da ciência envolve três níveis de ignorância: 1) ig-
norância de base, ou a falta de conceitos fundamentais sobre C&T
que deveriam fazer parte da educação básica dos indivíduos; 2)
ignorância do que está acontecendo, ou falta de informação sobre
assuntos atuais da ciência que exigem acompanhamento constante;
3) ignorância das implicações, que envolve uma incapacidade de
contextualizar os assuntos científicos em suas dimensões políticas,
legais, éticas e sociais.
Uma das críticas que Lewenstein e Brossard (2009) apresentam
à comunicação da ciência diz respeito à falta de clareza nas pró-
prias ações de incremento da compreensão pública sobre ciência.
Não haveria sequer um consenso sobre os objetivos da ampliação
de tais conhecimentos e qual estratégia de comunicação deveria ser
aplicada, considerando-se a prática nos âmbitos de quatro modelos
possíveis: déficit cognitivo; contextual; expertise leiga; participati-
vo ou democrático. Estes modelos se orientam, em seus extremos,
segundo Lewenstein e Brossard (2009), por duas tendências: pro-
cessos de comunicação em uma única via, desde os cientistas até
a sociedade, em que o objetivo é a divulgação de informações; e
processos comunicativos que propõem diálogos, nos quais a parti-
cipação e a postura ativa do público são o foco.
O modelo de déficit cognitivo refere-se à “transmissão linear de
informações de especialistas ao público” (LEWENSTEIN e BROS-
54
SARD, 2009, p. 33). Perfis e necessidades do receptor não são efe-
Mídia e Sociedade em Transformação

tivamente considerados. Este modelo busca a popularização da ci-


ência sem considerar a resposta do público, em uma visão de que o
conhecimento científico é superior em relação ao da comunidade. O
modelo pode propagar a mitificação da ciência e permitir um distan-
ciamento entre as expectativas do emissor e as do receptor, segundo
a revisão de Rothberg e Resende (2013).
O modelo contextual “reconhece que as pessoas não respon-
dem simplesmente como recipientes vazios à informação, mas sim
processam informações de acordo com os esquemas sociais e psi-
cológicos que foram moldados por suas experiências anteriores, o
contexto cultural e as circunstâncias pessoais”, definem Lewenstein
e Brossard (2009, p. 3).
Apesar do avanço, Rothberg e Resende (2013, p. 70) lembram
que “o modelo contextual também é baseado na noção de comuni-
cação unidirecional e preserva a concepção de ciência como forma
de conhecimento verdadeiro e superior”. O modelo contextual reco-
nhece a capacidade dos sistemas sociais e representações da mídia
de diminuir ou aumentar a preocupação pública sobre questões es-
pecíficas. Lewenstein e Brossard (2009) apontam que as críticas ao
modelo contextual indicam que ele pode ser usado como ferramenta
para manipulação de mensagens a fim de atingir objetivos particula-
res; assim, o objetivo não seria o entendimento, mas sim o consenti-
mento sobre prioridades de C&T.
O modelo de expertise leiga, de acordo com Lewenstein e Bros-
sard (2009), reconhece limitações da informação científica e o co-
nhecimento potencial de públicos específicos, destaca a natureza
interativa do processo científico e considera o cidadão como sujeito
político, capaz de participar das esferas de decisão. Neste modelo, o
conhecimento local é privilegiado e considerado pelos comunicado-
res como um insumo que pode motivar, ao lado do conhecimento
especializado, o engajamento político.
Segundo Lewenstein e Brossard (2009), o modelo participativo
ou democrático cria mecanismos para envolver os cidadãos com a
ciência em três níveis. O primeiro incentiva a interação entre cida-
dãos e cientistas; o segundo empodera os cidadãos; e o terceiro ofe-
rece potencialidades para que eles exerçam influência sobre as prio-
ridades de pesquisa.
Rothberg e Resende (2013, p. 70) consideram que o modelo de
participação pública “busca a difusão de informações como subsídio
55
à participação em processos de formulação, execução e avaliação de

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
políticas públicas que envolvam gestão e aplicação de ciência e tec-
nologia”. Para Sousa et al. (2011, p. 18), o modelo de participação
pública parte do compromisso com a democratização da ciência e da
tecnologia, “pressupondo, como condição necessária para o desen-
volvimento dessas atividades, a valorização do diálogo entre cientis-
tas e não cientistas”.
Tem-se aqui a hipótese de que a disponibilização de informa-
ções de qualidade é um primeiro passo, sem o qual se torna mais
difícil o engajamento político e a participação: “o cidadão político
é mais que somente um membro da comunidade oficialmente re-
conhecido, mas um constituinte potencialmente ativo de um corpo
político, capaz de exercer influência democrática sobre seus com-
panheiros cidadãos, assim como sobre o Estado político”, segundo
Coleman e Blumler (2009, p. 4).
Esta concepção normativa encontra, no campo da sociologia da
ciência, respaldo dos Estudos CTS (Ciência, Tecnologia e Socieda-
de), que projetam uma perspectiva multidisciplinar segundo a qual
as visões dos cidadãos precisam ser incluídas nos processos de for-
mulação, execução e avaliação de políticas públicas, em particular na
área de ciência e tecnologia, para o exercício integral da cidadania.
Este é o foco da próxima seção.

ESTUDOS CTS E COMUNICAÇÃO DA CIÊNCIA

Os Estudos CTS se originaram nos anos 1960 a partir do ques-


tionamento da imagem do desenvolvimento científico-tecnológico
como fenômeno autônomo, independente de influência social, polí-
tica, econômica ou cultural.
Bazzo, Linsingen e Pereira (2003, p. 119) definem os Estudos
CTS como campo “constituído pelos aspectos sociais da ciência e da
tecnologia, tanto no que concerne aos fatores sociais que influem na
mudança científico-tecnológica, como no que diz respeito às conse-
quências sociais e ambientais”.
Os Estudos CTS definem um campo de trabalho recente e heterogê-
neo, de caráter crítico à imagem clássica de C&T como um processo linear
de desenvolvimento. A partir da década de 1950, a cada vez mais visível
destruição ambiental sustenta o questionamento da relação supostamente
direta entre resultados de pesquisa de C&T e benefícios econômicos e so-
ciais. A autonomia e neutralidade da ciência são postas em xeque.
56
O modelo linear de desenvolvimento apostava na ligação direta
Mídia e Sociedade em Transformação

entre C&T e desenvolvimento, com a suposição de que as instâncias


decisórias do poder público podem formular políticas adequadas de
forma racional e objetiva a partir de informações científicas. Mas,
segundo os Estudos CTS, C&T não podem ser as únicas questões
consideradas na formulação de políticas: “a cientificação da política
é perigosa, pois reduz os problemas sociais a problemas de controle e
manipulação técnica, contribuindo para o declínio da arena pública
como uma instituição política”, advertem Hayashi, Hayashi e Furni-
val (2008, p. 37).
Os Estudos CTS, segundo Santos e Ichikawa (2004, p. 242),
“consideram prioritária a necessidade de controle público da ciên-
cia e da tecnologia e promovem diversos mecanismos democráti-
cos que facilitam a abertura dos processos de tomada de decisão à
participação dos cidadãos”.
A ciência é uma atividade humana como qualquer outra, imer-
sa em um contexto social e a ele vinculada. Ela é realizada “por gru-
pos de pessoas, para grupos de pessoas”, indicam Hayashi, Hayashi
e Furnival (2008, p. 38). Em consonância com esta ideia de cons-
trução social, a produção de conhecimento científico é vista como
“resultado de um processo de criação e interpretação pessoal, e não
simplesmente uma revelação ou descoberta da realidade”.
Silveira e Bazzo (2006, p. 80) apontam que os Estudos CTS
buscam caracterizar C&T não como um processo ou atividade
autônoma, que segue uma lógica interna de desenvolvimento em
seu funcionamento, “mas como um processo ou produto ineren-
temente social, em que os elementos não técnicos como: valores
morais, convicções religiosas, interesses profissionais, pressões
econômicas, entre outros, desempenham um papel decisivo em
sua gênese e consolidação”.
Assim, torna-se essencial que as sociedades não só busquem o
desenvolvimento econômico e o fortalecimento de seus mercados,
mas também o equilíbrio entre tais metas e o desenvolvimento sus-
tentável na busca por avanços sociais.
Para Santos e Ichikawa, o “enfoque CTS é considerado como um
ponto de ruptura frente à noção de C&T como atividades autônomas
que seguem sua própria lógica de desenvolvimento, guiadas por uma
força endógena que as orienta na direção da verdade” (2004, p. 241).
Pode-se sustentar aqui que a pesquisa em comunicação desen-
volvida sob a influência dos Estudos CTS não se limita a estudar
57
como se dá a transmissão de um conteúdo ao receptor, porque con-

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
sidera que a informação científica não deve ser vista como produto
acabado, mas sim como vetor de mudança social, em processos que
devem ser objeto de escrutínio democrático. Para Sousa, Berbel, Ro-
thberg e Hayashi (2011, p. 15), a partir do olhar dos Estudos CTS, a
comunicação da ciência pode atribuir status distintos para emisso-
res, receptores e demais elementos que influenciam a mediação de
significados na relação comunicativa existente no âmbito da política
democrática: “se em um ponto inicial o receptor é tido como sujeito
passivo e manipulável, repositório vazio à espera de conteúdos ple-
nos e unívocos, no ponto final admite-se que as perspectivas dos in-
divíduos precisam ser incluídas no próprio processo de formulação
de políticas públicas de ciência e tecnologia”.
A divulgação científica coloca-se no contexto da educação cien-
tífica e tecnológica e alia-se ao ensino formal na “construção de uma
sociedade alfabetizada científica e tecnologicamente, capaz de re-
fletir criticamente e atuar a respeito dos assuntos de C&T em seu
contexto” (BAZZO; VALERIO, 2006, p. 3-4). Os autores apontam a
crescente inserção e impacto das inovações científicas/tecnológicas
no âmbito social, nos termos de uma “onipresença da C&T em nosso
cotidiano, conferindo novos significados para os sentimentos e va-
lores humanos, numa mostra do que parece ser a característica mais
marcante de nossos dias”.
De acordo com as características apontas por Hayashi, Hayashi,
Furnival (2008, p. 49) em relação à pesquisa, os Estudos CTS trazem
uma “alternativa à reflexão tradicional em filosofia e sociologia da
ciência, promovendo uma nova visão não essencialista e contextu-
alizada da atividade científica como processo social”, e alicerçam a
necessidade de criação de mecanismos democráticos que facilitem a
abertura de processos de tomada de decisão em questões referentes
a políticas de C&T.
Sousa et al. (2011, p. 36) sugerem que a comunicação da ciência,
sob a influência dos Estudos CTS, deveria ser “realizada com aten-
ção sobre as repercussões das decisões implícitas em determinadas
escolhas de políticas científica e tecnológica, com contexto e profun-
didade sobre os antecedentes que justificam certas opções, alternati-
vas possíveis, conflitos envolvidos e meios de negociação, resultados
esperados, custos e retornos devidos”.
Dagnino, Lima e Neves (2008, p. 4) salientam que “a criação de
condições para a participação social nos processos de tomada de
58
decisão acerca da C&T depende da existência de um sistema edu-
Mídia e Sociedade em Transformação

cacional que favoreça o desenvolvimento de capacidades cognitivas


e promova uma mudança de visão sobre a natureza do fenômeno
científico-tecnológico, bem como de seus produtos”.
É preciso que os conteúdos científicos e as informações sobre
ciência e tecnologia de uma maneira geral sejam democratizados a
partir de abordagens metodológicas que não só permitam e facili-
tem a compreensão da C&T, mas também a percepção do cidadão
como ator social importante no processo de criação, implementação
e avaliação de políticas públicas que visem à participação pública e à
inclusão social a partir da democratização do conhecimento de C&T
(DAGNINO; LIMA; NEVES, 2008).
Burns, O’Connor e Stocklmayer (2009) propõem que a comu-
nicação científica deve ter como objetivo o aumento da consci-
ência pública sobre a produção científica, através da construção
de respostas adequadas de reconhecimento dos cidadãos como
atores sociais ativos no processo de formulação e avaliação de po-
líticas públicas de C&T.
Caldas (2004, p. 60) sublinha que o “crescente interesse do ci-
dadão comum pela ciência e a ampliação do espaço nos meios de
comunicação a assuntos dessa natureza não são, porém, acompa-
nhados por uma reflexão crítica da produção científica e tecnológica
do país”. A mídia se limitaria a tratar os resultados da ciência como
produto acabado, desvinculado de seu contexto social. Os meandros
da política científica, que revelam os aspectos sociais do desenvolvi-
mento científico-tecnológico, permaneceriam ocultos.
Os Estudos CTS indicam, finalmente, que a educação e a comu-
nicação devem contribuir para motivar a sociedade na busca de seu
direito à informação relevante sobre as ciências e as tecnologias, com
a perspectiva de que possa utilizá-la ao reconhecer que valores de-
mocráticos justificam sua participação no processo decisório.
No cenário contemporâneo do direito à informação, destacam-
-se as leis específicas sobre a matéria, como a brasileira 12.527/2011,
e os diferenciais trazidos por suportes tecnológicos nos âmbitos de
sistemas e práticas de governo eletrônico e democracia digital, capa-
zes de alçar a comunicação pública à esfera digital, com uma expan-
são decisiva de seu escopo. Este é o tema da próxima seção.
59
DIREITO À INFORMAÇÃO, DEMOCRACIA DIGITAL E COMUNICAÇÃO

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
No Brasil, a aprovação da Lei de Acesso à Informação (lei 12.527,
de 18 de novembro de 2011) avança na consolidação da democracia
ao possibilitar a ampliação da participação cidadã e fortalecer os ins-
trumentos de controle da gestão pública.
A legislação sobre a matéria, já existente em ao menos 100 países
(MENDEL, 2009; DARBISHIRE, 2014), situa-se em um percurso de
crescente reconhecimento da relevância do que se considera como
cidadania informada, capaz de estimular “o que se espera que sejam
melhores decisões, contribuindo para o processo político”, segundo
Froomkin (2004, p. 4), com potencial para conferir integridade ao
processo decisório: “o único processo de tomada de decisão que é
significativamente aberto a todos é capaz de tomar decisões que po-
dem ser consideradas legítimas”.
A disponibilização de informações oficiais não constitui diá-
logo, mas tem capacidade de melhorá-lo: “no processo de delibe-
ração, a informação desempenha um papel central. A igualdade
de acesso à informação e o uso de um meio de acesso ilimitado
são fundamentais para uma prática mais eficaz de discurso”, aponta
Gimmler (2001, p. 31).
Embora o exercício do direito à informação não dependa, na-
turalmente, das tecnologias de comunicação, elas podem prover
suportes decisivos para sua expansão e são, inclusive, citadas por
leis como a brasileira, que, em seu artigo 8º, determina que é “de-
ver dos órgãos e entidades públicas promover, independentemente
de requerimentos, a divulgação em local de fácil acesso, no âmbito
de suas competências, de informações de interesse coletivo ou geral
por eles produzidas ou custodiadas”, incluindo “dados gerais para o
acompanhamento de programas, ações, projetos e obras de órgãos
e entidades” (inciso V). Para este propósito, “os órgãos e entidades
públicas deverão utilizar todos os meios e instrumentos legítimos
de que dispuserem, sendo obrigatória a divulgação em sítios oficiais
da rede mundial de computadores (internet)” (§ 2, BRASIL, 2011).
Ao mesmo tempo em que facilitam a circulação de informa-
ções, os sistemas de democracia digital abrem a possibilidade de que
consultas e audiências públicas, fóruns deliberativos e a atuação de
comissões parlamentares se tornem permeáveis a pressões e influên-
cias exercidas por meio de canais de participação eletrônica. Witsch-
ge (2004, p. 109) salienta que a tecnologia carrega o potencial para
60
a superação de uma visão em que a democracia estaria restrita a um
Mídia e Sociedade em Transformação

processo de expressão de preferências genéricas por plataformas po-


líticas e seu registro em uma votação, de modo a transformá-la em
um “processo que cria um público”, no qual “os cidadãos se juntam
para falar sobre problemas coletivos, metas, ideais e ações”.
Desta forma, a comunicação pública no âmbito da democracia
digital deve se orientar por estratégias para a “troca livre e aberta
de informações e argumentos, assim como a expressão de diferentes
vozes no debate”. Dijk e Hacker (2000, p. 4) apontam efeitos da de-
mocracia amparada pela utilização das tecnologias, ou democracia
digital: a) as tecnologias aumentam a escala e a velocidade do for-
necimento de informações; b) a participação política on-line pode
ser mais fácil, uma vez que certos obstáculos, como apatia, timidez,
e falta de tempo, podem ser reduzidos; c) a comunicação mediada
por computador cria novas formas de organizar grupos específicos
para discussão, diminuindo custos; d) a internet permite que novas
comunidades políticas surjam sem intervenção do Estado; e) o siste-
ma de hierarquia política torna-se mais horizontal, permitindo que
os cidadãos tenham mais voz na criação de agendas para o governo.
Noveck (2004) aponta um cenário em que as tecnologias podem
ser um trunfo para a democracia, por oferecerem a possibilidade de
a disseminação de informação ancorar a deliberação.
Segundo Noveck (2004), a deliberação deve: a) ser livre: não pode
haver restrição do discurso que dificulte ou iniba a participação; b) ser
autônoma: os participantes devem ter controle sobre o processo de de-
liberação; c) ser transparente: a estrutura e as regras do espaço devem
ser públicas; d) ser igualitária: os participantes não precisam negar suas
singularidades, mas atributos individuais não devem ser traduzidos em
maiores ou menores possibilidades de serem ouvidos; e) ser plural: para
garantir que tudo que valha a pena será ouvido é preciso garantir que os
diferentes pontos de vista sejam expressos de maneira clara; f) ser inclusi-
va: um fórum deliberativo deve ser inclusivo e aberto a todos os membros
da comunidade relevante; g) possuir regimes de informação: os partici-
pantes precisam ter tempo e recursos para se informar, incluindo acesso
a uma ampla variedade de pontos de vista; h) eleger a dimensão pública
como esfera de interesses coletivos: ao pensarem como membros de uma
comunidade, os participantes passam a articular lógicas para servir não só
a si, mas também ao que eles consideram ser os interesses da comunidade
em geral; i) dispor de regimes de moderação eficaz: a exemplo dos méto-
dos presenciais, a conversação on-line deve ser regrada.
61
Assim, a implementação de sistemas que incluam o público nos

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
processos governamentais significa uma mudança nos objetivos de
governo eletrônico. Na verdade, isso significa que se deslocam da
entrega on-line de serviços públicos e informações (governo ele-
trônico), para a governança eletrônica, que busca o envolvimento
do público em linha direta no governo. “Ao invés de ser apenas um
meio para agilizar serviços, reduzir custos e aumentar a eficiência do
governo, o desenvolvimento de ferramentas de engajamento cívico
foca no papel do público no processo político” (LBJ SCHOOL OF
PUBLIC AFFAIRS, 2011, p. 6).
De acordo com o modelo de Baum e Di Maio (2000), revisado
por Backus (2001), a primeira fase em direção à governança eletrô-
nica é marcada pela presença na web e o fornecimento de informa-
ções de qualidade ao público. Na segunda fase, a interação entre o
governo e o público é estimulada com várias aplicações. As pessoas
podem fazer perguntas por e-mail e são capazes de baixar formulá-
rios e documentos. Na terceira fase, a complexidade da tecnologia
aumenta. Transações completas podem ser feitas, como pagamento
de impostos, renovação de licenças e votação on-line.
Na quarta fase, sistemas de informação são integrados, e o público
pode obter serviços em um balcão virtual. Um ponto de contato para
todos os serviços é o objetivo final. “O aspecto complexo para alcançar
este objetivo é, principalmente, no lado interno, por exemplo, a neces-
sidade de mudar drasticamente a cultura, processos e responsabilida-
des dentro das instituições de governo”, segundo Backus (2001, p. 17).
De acordo com a Unesco (2005), a governança eletrônica se es-
tende para além da prestação de serviços mediados por via eletrô-
nica para os sistemas e as inter-relações que governam a sociedade,
atingindo a ideia de aplicação das tecnologias para garantir envolvi-
mento de cidadãos, instituições, organizações não governamentais e
empresas privadas no processo de tomada de decisão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este texto articulou perspectivas teóricas em três direções
distintas, englobando comunicação pública, estudos sociais da
ciência e democracia digital para a construção de um raciocínio
específico, que se coloca como contribuição às considerações
normativas sobre o papel da comunicação pública digital de ci-
ência e tecnologia para o fortalecimento da democracia.
62
A comunicação pública foi caracterizada em seu contexto sin-
Mídia e Sociedade em Transformação

gular de construção no Brasil, em que a redemocratização, a des-


peito das três décadas de avanços, ainda traz desafios importantes,
aprofundados por desdobramentos recentes como a adoção de um
novo regime de acesso à informação e a popularização das tecno-
logias de informação e comunicação. Se a comunicação oficial foi
associada por força de uma trajetória política peculiar à divulgação
publicitária de realizações de governo, no contexto democrático
deve ser submetida a exigências diferenciadas, que determinam sua
produção como vetor de transparência e responsabilização de go-
vernos pelas políticas que formulam e executam, além de meio de
disseminação de informações que incentivem e viabilizem a parti-
cipação na própria produção da decisão pública.
Os estudos sociais de ciência e tecnologia foram revisitados com
ênfase sobre a convergência interdisciplinar CTS, da qual, apesar
de sua complexidade e pluralidade, podem ser inferidas linhas ge-
rais para a comunicação pública de C&T para a democracia. Como
características centrais dessa abordagem, está a consideração da ci-
ência como um processo sujeito a escrutínio democrático, que não
se sustenta como neutro ou baseado em uma suposta autoridade
absoluta e, assim, não pode pretender a estar acima ou fora das
esferas de tomada de decisão. Afirma-se, sob os Estudos CTS, o
compromisso da popularização da ciência com a disseminação de
informações que favoreçam a compreensão de C&T como ativida-
des que possuem prioridades a serem decididas democraticamente,
além de impactos a serem avaliados de forma aberta e participativa.
A democracia digital foi abordada em suas relações com as
inovações trazidas pelos novos regimes de acesso à informação,
que, inclusive no Brasil, determinam a utilização da internet como
suporte para a circulação de subsídios que facilitem a avaliação
de programas e ações de governo. A disponibilidade de informa-
ção em portais web oficiais é tida, no contexto, como pressuposto
para a expansão do diálogo e da deliberação, dimensões da parti-
cipação política na produção de decisão pública. A comunicação
pública explorada por tecnologias de democracia digital deve se
posicionar como fonte de informação sobre o desempenho de po-
líticas públicas e meio de acesso a vias institucionais de abertura
dos processos decisórios.
Estas três perspectivas se conectaram aqui com o propósito de su-
gerir, em um percurso em construção, um lugar da comunicação pú-
63
blica digital de ciência e tecnologia para a democracia na contempora-

um campo em construção
Comunicação pública digital da ciência para a democracia:
neidade, qual seja, o de contribuir para transformar uma dimensão da
vida pública usualmente situada fora do contexto democrático, por ser
historicamente considerada neutra e superior, em um campo que deve
ter esmiuçada sua contribuição à busca por igualdade e justiça social.

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66
2
PARTE
69

O direito à
comunicação, as
relações midiáticas
e a diversidade
de sistemas na
radiodifusão INTRODUÇÃO

Renan Milanez Vieira


O presente texto corresponde
à divulgação de resultados
parciais obtidos com pesquisa
Carlo José Napolitano de mestrado em andamento1
que visa analisar a noticiabili-
dade na cobertura do jornal O
Estado de S. Paulo acerca do ca-
nal segmentado Record News,
identificando os valores-notícia
que estiveram presentes e se a
concorrência interferiu nesse
processo. Os principais referen-
ciais teóricos da pesquisa com-
preendem as obras de Traqui-
na (2012, 2013) e Wolf (2012),
trabalhando com princípios da
abordagem do Newsmaking. A
metodologia para cumprir ao
que foi estipulado é a Análise de
Conteúdo. Por hipótese, acre-
dita-se que as disputas entre os
meios influenciaram na cons-
trução noticiosa, evidenciando
70
as competições e conflitos por conta do lançamento de uma emissora
Mídia e Sociedade em Transformação

focada no jornalismo. Entretanto, existem mais abordagens relevan-


tes, como a sua potencial contribuição para a promoção da variabili-
dade de informações. Os resultados até então alcançados confirmam
isso e demonstram que abordar as relações midiáticas leva à pon-
deração sobre as disposições legais e constitucionais que regulam a
atividade da comunicação social. Este texto em específico aprofunda
o último ponto e, para isso, expõe uma interpretação sobre o Direito
à Comunicação e apresenta um panorama histórico do tratamento
dado a esse elemento nas Constituições existentes ao longo do século
XX, além de analisar minuciosamente o que está em vigor no docu-
mento jurídico atual. Em seguida, busca-se indicar de que forma o
cenário econômico da radiodifusão brasileira foi construído e como
as modalidades privada, pública e estatal são exploradas a favor da
diversidade de conteúdo.

O DIREITO FUNDAMENTAL À COMUNICAÇÃO

O direito à comunicação corresponde a um conceito que


começou a ser utilizado no final dos anos 60, compreendido
por um conjunto de normas que regulamentam esse ramo da
atividade econômica. No Brasil, os seus princípios básicos es-
tão previstos na Constituição Federal brasileira de 5 de outu-
bro de 1988, a qual, em linhas gerais, pode ser definida como
o documento jurídico que estrutura a organização do Estado,
correspondendo à sua lei fundamental. Dessa forma, pode-se
deduzir que nesse documento, além das regras relacionadas à
organização do Estado, também estão presentes orientações que
norteiam as atribuições e finalidades dos veículos de informa-
ção. Uma possível definição para o termo direito à comunicação
pode ser assim estabelecida: trata-se de

1
A pesquisa “Diversidade de conteúdo midiático, relação entre os meios e a concorrên-
cia: os valores-notícia na cobertura do jornal O Estado de S. Paulo sobre o canal Record
News” está sendo realizada junto ao Programa de Pós-graduação em Comunicação da
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP de Bauru/SP. Orientação:
Prof. Dr. Carlo José Napolitano. Segue em etapa de desenvolvimento na presente data
(agosto de 2015).
71
uma disciplina jurídica, pertencente ao ramo do direito públi-

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
co (tendo em vista o interesse coletivo/social dessas regulamen-
tações jurídicas) que tem por objetivo estudar os princípios e
regras, através da identificação, da interpretação, da crítica, da
sistematização e da indicação de possíveis aplicações das normas
que regem as variadas relações jurídicas que envolvem os meios
de comunicação social e suas atividades. (NAPOLITANO; VAN-
ZINI, 2014, p. 131)
O esforço desses pesquisadores consistiu em demonstrar a plu-
ralidade de interpretações atribuídas pelos cientistas ao referido ter-
mo, enfatizando o desafio em se alcançar uma delimitação que seja
consensual. O que há de comum em todas as abordagens investi-
gadas é a compreensão da relação íntima existente entre o direito à
comunicação e os direitos humanos.
A teoria jurídica nacional engloba as garantias humanas a partir
de diversas nomenclaturas, dentre as quais: direitos fundamentais, hu-
manos, subjetivos públicos e outras. Destas, é válido citar a escolha da
primeira opção pelo legislador constituinte de 1988 e, portanto, será
também a utilizada neste texto. Esses direitos, conforme o momen-
to e a maneira de concretização, são passíveis de serem classificados
em três categorias: primeira, segunda e terceira geração. É pertinente
colocar uma ressalva ao esclarecer que, entre esses itens, há uma rela-
ção de complementaridade, ao contrário da possível interpretação de
superação ou substituição que o termo geração possa trazer. Contudo,
trata-se de uma expressão consagrada e usual. Quanto às noções, os
primeiros concentram os direitos políticos e civis, correlacionados ao
direito à liberdade dos cidadãos perante os poderes do Estado. Já os
segundos têm sua essência conectada às matrizes econômicas, sociais
e culturais e, dessa forma, são medidas que determinam a igualdade
de maneira efetiva às pessoas, a fim de evitar a subordinação e a ex-
ploração entre os homens. Finalmente, os terceiros norteiam-se nos
valores de solidariedade e fraternidade, visando o equilíbrio, o desen-
volvimento e a paz entre os povos. Uma de suas características a se
destacar corresponde à sua historicidade, ou seja, eles são produtos de
conquistas ao longo da evolução humana.
A partir desse atributo, é possível enquadrá-los como fruto dos
anseios sociais, do repertório cultural e de uma mentalidade exis-
tente numa época. O modo pelo qual a mídia era encarada em um
espaço de tempo incide na construção de sua regulação. O caráter
de aprimoramento permite que se almeje cada vez mais a represen-
72
tatividade, levando ao viés construtivista das leis sempre que novos
Mídia e Sociedade em Transformação

fenômenos emergirem ou quando uma classe ou um grupo não se


sentir amparado, representado.
Jambeiro (2009) realizou um estudo de caráter histórico sobre o
tratamento dado à questão da Comunicação nas Constituições brasi-
leiras do século XX, mais precisamente a partir da de 1934, com o ad-
vento do constitucionalismo social-democrático entre nós. Com esse
amplo objeto de estudo, o autor objetiva identificar a abordagem dada
a esse tema em cada período, destacando avanços e problemáticas.
Os aspectos normativos em 1934, período de institucionaliza-
ção da Segunda República, demonstravam diretrizes referentes às
concessões, à liberdade de expressão, à restrição de propriedade, às
condições de trabalho e às limitações aos parlamentares. O primeiro
item dispunha que competia à União a exploração de serviços de
radiocomunicação e o estabelecimento de regras para a outorga de
permissões a terceiros, havendo preferência para os estados da fede-
ração, e estes também tinham a possibilidade de legislar sobre essa
matéria a partir de determinados limites, de acordo com a lei federal
da época. Com relação ao segundo, ficou assegurada a livre manifes-
tação do pensamento, à exceção de quando proferida em espetáculos
e diversões públicas, vedando-se o anonimato. Já o terceiro pode ser
retratado conforme uma tentativa de garantir reserva de mercado
para a mão de obra nacional, evitando-se, assim, influências exter-
nas. O seguinte tratava de garantias de estabilidade, férias e aposen-
tadoria para os redatores e demais empregados midiáticos, além da
cota de funcionários de nacionalidade brasileira. E o último restrin-
gia aos políticos propriedade em organizações desse ramo (JAMBEI-
RO, 2009). Trata-se de um documento que apontava o papel direto
do Estado na execução e regulação desses serviços.
A Constituição de 1937, período do Estado Novo, mantém em
muitos pontos o que estava presente na anterior, tais como o papel
da União na exploração de serviços de correios, telégrafos e radioco-
municação (os dois últimos seguiam com a possibilidade de conces-
são), sua competência privativa para legislar sobre o tema, podendo
os estados sob algumas condições contribuir na complementarida-
de de leis e as proibições aos membros do Parlamento na posse ou
participação societária de empresa concessionária. As mudanças
ocorreram, por exemplo, na inviolabilidade de correspondência e de
domicílio, que estavam resguardadas, entretanto, com exceções per-
mitidas por lei nesse período. O direito à expressão do pensamento
73
estava mantido com prescrições de defesa ao interesse coletivo e à

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
defesa nacional. A imprensa recebeu diretrizes próprias que nortea-
vam o caráter público de sua função, a obrigatoriedade de comuni-
cados do governo, o direito gratuito de resposta, dentre outros. Man-
tinha-se a regra para o seu controle por brasileiros e porcentagem
mínima destes nesses serviços (JAMBEIRO, 2009).
As diretrizes específicas em 1946, período de restauração da de-
mocracia, mantinham a competência exclusiva da União na radio-
difusão, seja diretamente ou atribuindo exploração a terceiros, e a
proibição de deputados e senadores de terem relação com as conces-
sionárias. A manifestação do pensamento era livre, salvo em espetá-
culos e diversões públicas, recomendando-se a restrição para proferir
propaganda de guerra ou preconceitos quanto à raça ou classe, por
exemplo. Havia itens que definiam a não permissão ao anonimato e
concediam garantias de resposta. As referidas normas vigoraram em
um período marcado por grandes movimentações políticas, abran-
gendo os governos de Dutra, Vargas, Kubitschek, Quadros e Goulart
(JAMBEIRO, 2009).
A Constituição de 1967 é caracterizada no nível político pelo
surgimento do Regime Militar no Brasil e, em termos tecnológi-
cos, pela chegada de um novo veículo: a televisão. A ascensão dos
militares leva a um cenário social e político marcado dentre vários
fatores por um autoritarismo que implicaria na composição desse
documento, que embora não tenha modificado dispositivos como a
exclusividade da União em estruturar, explorar ou conceder a tercei-
ros serviços sonoros e de sons e imagens, alterou significativamente
outros pontos. Por exemplo, a possibilidade do Congresso em reor-
ganizar a estrutura e o funcionamento da mídia segundo o interesse
do governo vigente e na luta contra a subversão e a corrupção. Isso
significava, em outras palavras, que a liberdade dos veículos poderia
ser ameaçada com a possibilidade de censura (JAMBEIRO, 2009).
Se forem desconsiderados os eventos e contextos históricos
existentes em cada época, pode-se ressaltar algumas características
comuns no tratamento jurídico aplicado a esse assunto. A primeira
delas corresponde à responsabilidade estratégica do Estado, com sua
exclusividade para gerenciar esse campo.
Já a segunda leva a reconhecer que o princípio da liberdade de
expressão e as respectivas ações de propagação de informação, seja
em nível individual ou coletivo, são bases para a construção de uma
nação democrática. Ademais, destacam-se regras como a exigência
74
de que somente indivíduos de nacionalidade brasileira sejam pro-
Mídia e Sociedade em Transformação

prietários dos meios2. É oportuno ser enfatizado novamente a preo-


cupação encontrada nas diretrizes de 1934 em resguardar condições
trabalhistas para os profissionais desse setor. Finalmente, um item
complexo situa a restrição a políticos na posse de empresas conces-
sionárias. Tal medida pode ser explicada por conta da natureza pú-
blica desse cargo e do seu papel estratégico para outorgar emissoras.
Para se compreender o contexto de surgimento da Constituição
de 1988, é preciso levar em conta o fim do Regime Militar, a defini-
ção do período de transição, que levou à instauração da democracia
no Brasil e trouxe esse texto jurídico, o qual está em vigência atual-
mente. Conforme Jambeiro (2009), sua composição foi realizada por
uma Assembleia Nacional Constituinte durante 613 dias, a contar
de 1 de fevereiro de 1987 a 5 de outubro de 1988, organizando suas
ações da seguinte forma:
foi escrita pela totalidade dos 559 membros do Parlamento Na-
cional (compreendendo o Senado Federal e a Câmara dos Depu-
tados), que se dividiram em oito comitês, todos delineados para
refletir o peso proporcional de cada partido político ali repre-
sentado. Cada comitê, por seu turno, foi dividido em três subco-
mitês. A tarefa de integrar e harmonizar o previsível e frequen-
temente conflitivo conteúdo de todos os 24 grupos foi entregue
ao Comitê de Sistematização, constituído de 93 parlamentares
oriundos de todos os partidos com representação na Constituin-
te. Grupos sociais que se sentissem marginalizados ou não de-
vidamente representados poderiam submeter propostas formais
para o estágio final de deliberação, por meio de petições assina-
das por no mínimo 30 mil eleitores. (JAMBEIRO, 2009, p. 145)
Dessa estruturação, a Comunicação Social ficou arranjada na co-
missão de número 8, a qual englobava também mais assuntos. Com
as subdivisões, definiu-se seu lugar na subcomissão 8B, junto à pauta
de ciência e tecnologia. Os resultados finais desse trabalho levaram-
-na da mesma forma ao Título VIII (Da Ordem Social). O que é
pertinente se enfatizar no texto final da Constituição de 1988 é que
existem muitas possibilidades de se encontrar pontos com potencial
a serem relacionados às práticas midiáticas. Como um exemplo de

2
Essa regra somente foi flexibilizada com a Emenda Constitucional n. 36/2002.
75
interpretação, tem-se as atribuições de natureza individual, relacio-

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
nadas à liberdade de expressão, de opinião, de informação, dentre
outras, previstas no artigo 5º, no título II. No espaço onde se descreve
o papel do poder público, há o artigo 21, que detalha a competência
da União para explorar os serviços de rádio e tevê, os quais somente
entram em operação com uma concessão. No já mencionado título
VIII, encontra-se o capítulo V, estruturado de maneira específica às
atividades empresariais. Ademais, destaca-se que muitas vezes esse
documento contém regras gerais, exigindo em alguns casos a com-
plementaridade, que fica a cargo da legislação infraconstitucional.
Em razão de as temáticas e o objeto da pesquisa de mestrado
englobarem as relações corporativas, convém analisar minucio-
samente o teor da regulação destinada a elas e, ao mesmo tempo,
recorrer a mais fragmentos quando for necessário.
O caput do artigo 220 diz: “A manifestação do pensamento, a
criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo
ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o dispos-
to nesta Constituição.” (BRASIL, 1988). Em outras palavras, essa
diretriz expressa garantias para que novas ações e tudo aquilo
decorrente possam ser desenvolvidos, dentro dos parâmetros e
limites legais. Nesse ponto, fica estabelecido o princípio geral da
liberdade de comunicação social (WIMMER, 2008).
Já os seus parágrafos 1º e 2º podem ser traduzidos como meca-
nismos de defesa ao vedar a censura política, ideológica e artística
e impossibilitar o surgimento de leis que provoquem limitações à
plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo,
podendo ser conectados a alguns princípios presentes no artigo
5º, que contemplam determinações sobre a livre manifestação do
pensamento, vendando o anonimato; assegurando direito de res-
posta e outros recursos de proteção; afirmando que a intimidade,
a vida privada, a honra e a imagem das pessoas são invioláveis;
garantindo indenizações em caso de violação; regulando con-
dições para que todos possam exercer qualquer trabalho, desde
que tenham as qualificações exigidas; assegurando o acesso à in-
formação e o sigilo de fonte quando fundamentais ao exercício
profissional. Todo esse aparato outorga aos meios de comunica-
ção premissas imprescindíveis para si e para a sociedade: poder
informar abertamente tudo aquilo que for de interesse público e
garantir formas para que o diálogo plural esteja assegurado.
76
O § 3º determina competências à lei federal para regular a clas-
Mídia e Sociedade em Transformação

sificação quanto às diversões e espetáculos públicos e estabelecer re-


cursos para que o receptor possa se defender do conteúdo midiático
que infringir os princípios recomendados pela legislação. Já o § 4º
complementa restrições à propaganda comercial de tabaco, bebidas
alcoólicas, agrotóxicos, medicamentos e terapias e exige, quando ne-
cessário, relatar os riscos pelo seu uso.
O § 5º reforça a ideia presente no artigo 220 ao afirmar que os
meios não podem ser objeto de oligopólio ou monopólio, ou seja, é
importante estimular a pluralidade e a diversidade para as mídias. E
o § 6º libera a exigência de licença de autoridade para as publicações
dos veículos impressos.
O artigo 221 instaura uma série de princípios que devem nor-
tear a programação das emissoras de rádio e televisão, baseados na
preferência por obras com finalidades educativas, artísticas, culturais
e informativas, que promovam a cultura nacional, principalmente
através de produções independentes, valorizando a regionalização
e o respeito aos valores éticos e sociais das pessoas e da sociedade.
O artigo 222, §§ 1º, 2º, 4º e 5º abordam tópicos sobre o controle
administrativo. Citam que a propriedade de empresas na área de co-
municação está restrita a brasileiros natos ou naturalizados há mais
de dez anos ou pessoas jurídicas com sede no país, subordinadas,
portanto, às normas nacionais. Delimitam que 70% do seu capital
deve estar sob controle de pessoas que se encaixem no primeiro per-
fil, tornando-se responsáveis estratégicos na gestão, na definição do
teor a ser veiculado, como também na parte editorial. Rege que qual-
quer mudança de controle societário deve ser informada ao Con-
gresso Nacional e, finalmente, delega à lei complementar disciplinar
a participação de capital estrangeiro dentro dos 30% previstos.
O § 3º é decorrência das tecnologias digitais e estipula que os
meios eletrônicos devem seguir o que rege a Constituição nas dire-
trizes de conteúdo referidas e declara a preferência a profissionais do
nosso país para sua produção local.
O caput do artigo 223 legitima a competência do Poder Executi-
vo para outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para
rádios e tevês, observando o princípio da complementaridade dos
sistemas privado, público e estatal. Seus parágrafos esclarecem os
processos para apreciação do ato e fixam os requisitos para ocorrer
a eventual não renovação e o cancelamento das duas primeiras cate-
gorias, além do seu período de vigência. Por fim, estipula-se que as
77
duas ações só terão valor legal após deliberação do Congresso Nacio-

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
nal, sob formas específicas. Vale ressaltar que essa matriz de radiodi-
fusão, com as três modalidades, foi introduzida pelo senador Artur
da Távola, na época deputado constituinte (LIMA, 2011).
Finalizando, o artigo 224 autoriza a instituição do Conselho de
Comunicação Social, com função auxiliar ao Congresso através de
lei. Conforme Vicente (2009), o surgimento desse órgão remete aos
eventos que reivindicavam a democratização midiática durante os
anos 1980. Contudo, as competências delegadas a ele destoaram-se
da sua concepção original, a qual, em projeto, pleiteava a instaura-
ção de um conselho independente e com poderes que permitissem
regular o setor. Embora estivesse previsto no texto constitucional,
sua regulamentação foi aprovada no ano de 1991 e sua instalação
somente ocorreu efetivamente em 2002. Com relação à sua real ati-
vidade, fixou-se a realização de pareceres, recomendações, estudos e
mais aquilo que for encaminhado dentro da temática que o confere.
Um dos mais recentes registros de atividade do CCS está datado no
ano de 2006, com sua última eleição. Isso, obviamente, prejudicou
seu trabalho de assessoria, como também dificultou a participação
da sociedade nas decisões.
Portanto, ao longo dessas explanações, é possível apontar dois
grandes núcleos que expressam o que dispõe a Constituição acerca
da comunicação. As ações legais e negociais realizadas pela socieda-
de na estruturação de novos meios são bem-vistas e vão ao encontro
do que diz o artigo 220. Ao mesmo tempo, estão asseguradas as li-
berdades de informação jornalística e de expressão, isto é, conforme
essas duas premissas é que se concentram a meta dos veículos em
reportar à sociedade tudo aquilo que for de relevância.
Surge, então, uma consideração: com o lançamento de uma nova
emissora, quais são os possíveis acontecimentos a se deduzir. O mais
previsível está direcionado a ponderar a respeito da concorrência,
algo esperado principalmente entre as organizações de cunho comer-
cial. O surgimento de uma proposta de criação de um novo veículo
leva os concorrentes a se articularem para fazer frente a um novo
integrante. Essa é a essência capitalista, em que cada ramo disputa a
preferência do consumidor na busca do lucro e da sua manutenção.
Não obstante, a competição apresenta outras facetas. Ela instiga
o aperfeiçoamento do respectivo segmento, aquece a economia com
a contratação de mais profissionais, resulta em mais jornalismo e
promove o fortalecimento da democracia. Em outras palavras, todos
78
esses itens refletem o princípio da diversidade de conteúdo, conec-
Mídia e Sociedade em Transformação

tado aos atributos de heterogeneidade e variabilidade das informa-


ções. Quanto mais veículos houver, maior será a chance de que seto-
res minoritários e outras vozes possam ser consultadas e veiculadas
pela mídia, ou seja, a representatividade crescerá e a população terá
à disposição outras angulações para a construção de seu repertório
acerca dos fatos reportados. A importância de tal lógica na legislação
interna está de acordo com o que é previsto e recomendado mun-
dialmente (NAPOLITANO, 2007).
Em um segundo patamar, tendo já consolidado o anterior, exis-
tem as noções de pluralismo das fontes e das informações. A primei-
ra é consequência da complementaridade de sistemas. No caso dos
meios de sons e imagens, consiste em verificar se a matriz privada,
pública e estatal são devidamente utilizadas. Já a segunda é decor-
rência da aplicação dos princípios fundamentais de programação,
orientados pelos artigos 221 e 222, parágrafo 3º, os quais asseguram
a veiculação daquilo que é relevante para o país, de interesse nacio-
nal (WIMMER, 2008).
Por conta de tudo isso é que o fortalecimento midiático através
dos três conceitos – público, privado e estatal – traz ganhos para os
mais variados setores da sociedade e, ao mesmo tempo, corresponde
àquilo expresso na Constituição. Nesse contexto, justifica-se também
investigar se na cobertura de O Estado de S. Paulo sobre o canal Re-
cord News todas essas discussões foram apresentadas. Seguidamen-
te, para compreender melhor essas relações empresariais, faz-se ne-
cessário investigar as bases nas quais o campo audiovisual emergiu,
de que forma está estruturado e quem participa diretamente dele.
E ainda, no caso da televisão, será que cada uma das modalidades
definidas está sendo explorada?

O CENÁRIO ECONÔMICO E A DIVERSIDADE NA RADIODIFUSÃO

As atividades de comunicação social em nível corporativo po-


dem ser descritas segundo arranjos organizacionais que exploram
um ou mais suportes na produção de informações à sociedade. Den-
tre as matrizes existentes, há aquelas que não demonstram restrições
de exploração, como o impresso, que não tem no insumo papel um
limitador para a criação de novos veículos. Na mesma linha estão as
mídias digitais, pois a estrutura em rede não será um empecilho para
a multiplicação de sites e portais.
79
Já o espaço pelo qual trafegam as ondas de rádio e televisão é

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
limitado e, por conta dessa questão, é que se situa o papel estraté-
gico do Estado na fundamentação legislativa, na determinação das
entidades que podem usufruir do campo e na sua atuação direta,
transformando-se em produtor de conteúdo, ou indireta, autorizan-
do instituições para essa finalidade.
A opção de regulação pelo Estado brasileiro, historicamente, se-
guiu o modelo norte-americano. A escolha dessa matriz tem suas
raízes no livre mercado e pode ser caracterizada substancialmente
a partir de um empreendimento privado com uma estrutura jurídi-
ca presente. A base que sustenta esse sistema nasce com a Primeira
Emenda, fundado principalmente na premissa da liberdade de expres-
são. Inicialmente, o grande aumento no número de rádios e o uso da
frequência para fins publicitários tornaram-se um problema e exigiam
a regulação. Para organizar o mercado e levar à igualdade no serviço,
partiu-se do conceito de Interesse Público como critério, norteando-se
conjuntamente por fatores de ordem técnica e de conteúdo a ser for-
necido. Uma tática para garantir a multiplicidade de vozes e fugir do
problema do monopólio corresponde ao modelo de outorga de forma
descentralizada, num processo chamado localismo, que levou à pulve-
rização de poder, trazendo consequentemente a desejada diversidade
de produção. Contudo, fenômenos como a concentração de proprie-
dade gradualmente prejudicaram essa tática. Em síntese, ainda que o
caminho comercial tenha sido o escolhido nos EUA, evidencia-se uma
base regulatória de significativa autonomia por meio do Communica-
tions Act de 1934 e da Federal Communications Commission (FCC)
(SANTOS; SILVEIRA, 2007; RAMOS, 2007).
Por outro lado, a matriz britânica destoa-se ao incidir maior
responsabilidade ao Estado, tornando-o mais do que um legislador,
elevando o rádio e a tevê à qualidade de um serviço público. Um
exemplo que concretiza essa filosofia está na British Broadcasting
Corporation – a BBC. A emissora norteia-se no ideal de utilidade
pública e para isso tem no governo o responsável pela organização da
rede, pela parte financeira e pela definição das demandas, delegando
ao setor privado a execução do trabalho. Ademais, a instituição é de
característica independente, ou seja, apresenta isenção. Quanto às
atribuições, ficou definida a promoção da pluralidade cultural por
programas educativos, levando dessa forma a um conteúdo consi-
derado um direito ao povo inglês. Com o Television Act, em 1954,
instaurou-se um sistema dual, ou seja, adicionou-se uma opção mer-
80
cadológica visando estimular a competição. Em 1955, nascia a ITV –
Mídia e Sociedade em Transformação

Independent Television – considerado o primeiro canal concorrente


(SANTOS; SILVEIRA, 2007).
Dessa forma, a partir dos dois paradigmas mencionados, consta-
ta-se que a diferença entre eles está em encarar a maneira pela qual a
máquina estatal recorreu a estratégias para fundamentar a igualdade
em um campo que é por natureza limitante. A técnica americana
optou em delegar a terceiros a permissão de uso dessa mídia, con-
tudo foi no aparato jurídico que se concentraram os mecanismos de
defesa para instaurar a representatividade. Já a Inglaterra projetou
uma arquitetura complexa, em que a colaboração articulada foi o
segredo para construir a BBC. Até mesmo quando os veículos co-
merciais surgiram, o rigor e a preocupação com a vontade nacional
estavam assegurados.
As empresas produtoras de programas eram escolhidas pela au-
toridade de controle, e seus contratos não seriam renovados se
fosse verificado um resultado negativo dos programas contra-
tados. Outra disposição adicional requeria que uma proporção
adequada dos programas fossem de origem britânica, o que im-
pedia o predomínio da programação americana. Não se podia
incluir nos programas nada que fosse lesivo ao bom gosto e à
decência, suscetível de fomentar, incitar ao delito, conduzir à
desordem ou ofender a sensibilidade do público. Alguns anos
depois, a BBC manifestou a aceitação voluntária de tais princí-
pios de boa conduta. (SANTOS; SILVEIRA, 2007, p. 72, grifo do
autor).
Já o nosso país optou por um caminho que inicialmente se pare-
ce muito com o americano. Existem dois princípios que descrevem
as características aqui presentes. O primeiro deles refere-se à opção
feita, na década de 30, em estruturar um sistema de radiodifusão que
privilegia a sua exploração majoritariamente pela iniciativa privada.
Já o segundo diz respeito à precariedade da regulação em algumas
questões. A principal base é o Código Brasileiro de Telecomunica-
ções de 1962, o qual foi fragmentado pela Lei Geral de Telecomuni-
cações, do ano de 1997 (LIMA, 2011).
As escolhas realizadas e a questão referente à necessidade de orienta-
ção para fundamentar o mercado fez com que apenas um dos ramos pre-
vistos na Constituição fosse trabalhado amplamente, e devido a este fun-
dar-se na lógica do lucro e em princípios capitalistas, é natural presumir
que suas transações poderiam levar à pouca variabilidade de emissores.
81
A partir desses fatos é que se constata a presença da concentração

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
de propriedade nos meios. As movimentações econômicas fizeram
com que esse fenômeno se desdobrasse na concentração horizontal,
que abrange a oligopolização ou monopolização resultante em uma
mesma área do setor, e a vertical, ocorrida quando se integram as di-
ferentes etapas das cadeias de produção e distribuição (LIMA, 2004).
Muitas dessas atividades ocorrem geralmente na busca pela ma-
ximização de lucro e pela procura de fazer frente à competitividade
externa e interna. Outra possibilidade se dá por conta do desenvol-
vimento tecnológico e pela instauração de novos segmentos. Se uni-
camente as mesmas empresas se expandem para estes, alcança-se a
ideia de propriedade cruzada, que engloba nada mais do que a pre-
sença de um conglomerado nos mais variados nichos: TV aberta,
paga, rádio, revistas, jornais, sites, portais (LIMA, 2004). Embora
seja válido constatar uma organização ampliando seus negócios, há
de se mencionar a importância em se defender a heterogeneidade a
partir do momento que novas modalidades emergem.
Por fim, quando ocorre a reprodução em áreas regionais, cons-
titui-se o monopólio em cruz (LIMA, 2004). Com um cenário em
que se consolida a predominância da iniciativa privada e esta tem
chances de se movimentar conforme as maneiras descritas, convém
apontar quem são atualmente os atores e quais são os seus papéis.

ATORES INFLUENTES PARA A REGULAÇÃO DO SETOR

Sem qualquer sombra de dúvida, o Estado é um elemento deter-


minante para a regulação do setor, uma vez que o Poder Executivo
tem condições de tomar a iniciativa na formulação das diretrizes.
Ademais, é importante mencionar que outros poderes, como o Le-
gislativo, têm papel fundamental nessa meta, bem como o Judiciário,
que inevitavelmente será chamado para dirimir conflitos relaciona-
dos às políticas públicas de comunicação.
As empresas privadas correspondem ao segundo conjunto, sub-
divididos em: grupos de radiodifusão e de impresso, representados
por entidades como a Associação Brasileira das Emissoras de Rá-
dio e Televisão (ABERT), a Associação Brasileira de Radiodifusão
(ABRA), a Associação Brasileira de Radiodifusão, Tecnologia e Tele-
comunicações (ABRATEL), a Associação Nacional de Jornais (ANJ)
e a Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER); as empre-
sas de telefonia, com interesse no mercado de conteúdo audiovisual
82
e as indústrias eletrônicas, com papel ativo por conta da necessidade
Mídia e Sociedade em Transformação

tecnológica devido à transição para a televisão digital (LIMA, 2011).


O outro conjunto de atores é representado por organizações da
sociedade civil, o Ministério Público e entidades da mídia pública.
Destacam-se a atuação do Fórum Nacional pela Democratização da
Comunicação (FNDC), uma organização de ordem nacional, lide-
rada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), com parti-
cipação da Federação Nacional dos Trabalhadores em Emissoras de
Rádio e Televisão, da Associação Brasileira de Radiodifusão Comu-
nitária, da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação e
do Conselho Federal de Psicologia, dentre outras. Sua composição
engloba áreas representativas e estratégicas nesse campo e tem um
histórico de anos de luta. Ressalta-se igualmente o trabalho realizado
pelo Coletivo Intervozes, surgido em 2002, ligado à campanha CRIS
Brasil (Communication Rights for the Information Society) (LIMA,
2011; RAMOS, 2007).
A partir desse relato, é possível esquematizar os representantes
com as seguintes aspirações. De um lado, o setor comercial está rela-
tivamente representado, com condições de defender suas bandeiras.
Por outro, existe uma série de instituições e membros minoritários que
almejam a promoção de mais igualdade na radiodifusão. Num meio
termo, há os órgãos públicos, atuando enquanto legisladores, interme-
diadores e potencialmente produtores. Dessa forma, as atuais medidas
contemporâneas estariam indo ao encontro de quais anseios?
Algumas regras resultaram na estruturação de condições para a
chegada de atores externos, como a Lei 8.977 de janeiro de 1995 – Lei
do Cabo – que possibilitou a participação estrangeira em até 49% do
capital das concessionárias, a Emenda Constitucional nº 8, de agos-
to de 1995, que rompeu o monopólio estatal das telecomunicações
(LIMA, 2004) e a Emenda Constitucional nº 36/2002 que abriu o capi-
tal societário das empresas de comunicação para o capital estrangeiro.
Menciona-se a definição pelo modelo japonês para a TV Digital,
que atualmente está em fase de implementação no país. As tentativas
e os estudos para que se pudesse desenvolver uma Lei Geral de Co-
municação Eletrônica de Massa, a qual está em desenvolvimento, sem
resultados conclusivos, restando acompanhar seus desdobramentos
atuais. O lançamento, em maio de 2010, do Plano Nacional de Banda
Larga (PNBL). Uma medida que proporcionou resultados palpáveis
diz respeito ao nascimento da Empresa Brasil de Comunicação, criada
pela Lei 11.652 de 7 de abril de 2008, que trouxe consigo a TV Brasil,
83
uma emissora que institucionalmente se classifica pública. Dois dos

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
princípios listados que definem a sua essência relatam a autonomia em
relação ao Governo Federal para estabelecer a produção, programação
e distribuição de conteúdo, e a participação da sociedade civil no con-
trole para assegurar os princípios que o delimitam, respeitando-se a
pluralidade brasileira (BRASIL, 2008; LIMA, 2011).
Sem dúvida, essa última ação listada contribuiu para se alcan-
çar a complementaridade expressa na legislação, trazendo concre-
tamente alternativas. No entanto, há muito para se fazer a fim de se
alcançar um equilíbrio maior que some ao que já se existe, e isso
pode ser evidenciado quando se analisa a consagrada estrutura de
redes de televisão.
A grosso modo, é possível esboçar esse sistema, em nível nacio-
nal, a partir de cinco grandes organizações – Rede Globo, SBT, Rede
Record, Rede Bandeirantes e RedeTV!. Com abrangência relativa-
mente menor, existem também a TV Gazeta de São Paulo, a CNT e
a Record News, consideradas de cunho mercadológico. Além delas,
há outras que podem ser classificadas independentes. De orientação
pública, tem-se a TV Cultura e a TV Brasil. Com viés estatal, men-
ciona-se a TV Câmara, a TV Senado e a TV Justiça.
Segundo esse quadro, convém mapear as possibilidades que os
canais locais apresentam. Muitos deles definem se afiliar às maiores
empresas na busca de garantias para alcançar um bom retorno finan-
ceiro, e, para estas, instituir essa relação permite um alcance maior
de sinal, e essa é uma necessidade por conta da extensa dimensão
territorial brasileira.
Por sua vez, há as que apresentam essência educativa e optam
pela parceria com uma das duas possibilidades dessa natureza. As-
sim, devido a essa lógica, ocorre uma reprodução de um padrão com
condições de estruturar uma unidade nacional, mas que tem, en-
quanto desafios, de explorar a regionalização a favor da representati-
vidade e dos interesses locais.
Ademais, se for levado em conta o número de emissoras, é de
fácil constatação que há uma predomínio maior da modalidade co-
mercial do que das demais. Para fazer frente a um campo em que
uma parcela está amplamente fortalecida, desenha-se duas possibi-
lidades: instigar a concorrência para o nicho majoritário conforme
um subsídio para a diversidade de conteúdo e desenvolver ainda
mais os outros dois ramos existentes a fim de que se possa alcançar a
tão almejada pluralidade de emissores.
84
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mídia e Sociedade em Transformação

Assim, pensar em políticas públicas a favor da diversidade de


conteúdo requer inicialmente considerar quais são os atributos que
estão conectados à ideia de Comunicação. Pensar nesse valor requer
compreender que ele se desmembra na valorização de atitudes par-
ticipativas, que somente apresentam significância quando os mais
variados grupos se sentem representados, e para isso é fundamental
promover o diálogo e a cooperação mediada.
É por conta disso que alguns elementos apresentam uma relação
complexa nesse campo do conhecimento. Quanto mais pluralidade
existir, mais oportunidades a população terá para se expressar e para
ser informada. Quanto maior a segmentação e a regionalização, mais
chances haverá para que a mensagem seja efetiva para as pessoas. E
quanto maior a concorrência, mais poderá ser instigado ao aperfei-
çoamento de qualquer pilar midiático.
Por essa concepção se entende que todos os setores da sociedade
têm condições de contribuir para esse objetivo. O Estado, além de
orientar e estruturar as práticas e a igualdade social, tem em mãos
dois recursos fundamentais para esse processo: estimular e aprimo-
rar cada vez mais as emissoras de cunho estatal e público, inclusive
buscando mecanismos para regionalizar os seus programas. Nesse
caso, o modelo de redes e de afiliação pode soar uma estratégia.
Compreender as múltiplas facetas presentes na concorrência
corresponde ao desafio para a iniciativa privada. Isso porque o cres-
cimento das organizações depende das suas ações internas e daquilo
que ocorre externamente. Se as instituições, a mão de obra, as dire-
trizes e o mercado estão fortalecidos e bem estruturados, certamente
tudo isso se converterá positivamente. As empresas não estão iso-
ladas do mundo e ainda que a lógica do lucro seja a premissa, toda
forma de desenvolvimento de novas atividades precisa ser encarada
enquanto algo necessário.
O engajamento da população, com suas próprias reivindicações
ou com eventual adesão aos movimentos já citados, é um poderoso
instrumento de mobilização para despertar a atenção dos poderes
Executivo, Legislativo e Judiciário de que é preciso valorizar o que
existe e o que deve ser repensado na legislação. A notícia sobre mí-
dia, nesse contexto, é um elemento que resplandece todas as discus-
sões proferidas e tem potencial para incentivar a sociedade a pensar
em formas para torná-la cada vez mais democrática.
85
Portanto, o princípio de complementaridade expresso na Cons-

diversidade de sistemas na radiodifusão


O direito à comunicação, as relações midiáticas e a
tituição descreve como requisito o comprometimento e a atuação de
cada parcela social para que seja instigado mais o fortalecimento do
modelo comercial e que as demais matrizes pública e estatal sejam
expandidas e ganhem presença nas mais variadas regiões. Embora
ainda haja muito para se fazer, a implementação do sistema digital
está começando a contribuir para isso. Consequentemente, existem
mais medidas a se destacar.
O ramo da televisão por assinatura recebeu grandes avanços com
a promoção de conteúdo nacional graças à Lei da TV Paga (12.485,
de 12 de setembro de 2011). Convém analisar minuciosamente o
teor dessa diretriz e visualizar de que forma ela auxilia para a demo-
cratização das comunicações. Haveria nela algo que se relaciona a
canais segmentados nacionais, como a Record News? Investigar isso
e o histórico dos veículos que compõe o objeto e a temática dessa
pesquisa são tópicos a serem abordados em outra etapa da pesquisa.

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Jannini. 6. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.
87

As prisões do
“mensalão” e a
construção do mito
barthesiano INTRODUÇÃO

Murilo Cesar Soares


E ste artigo apresenta uma
análise de enquadramen-
to dos jornais O Estado de S.
João Guilherme D’Arcadia Paulo e Folha de S. Paulo na se-
mana subsequente às primeiras
prisões dos réus condenados na
ação penal 490, entre os dias
16 e 22 de novembro de 2013,
resultantes do processo conhe-
cido como “mensalão”. Foram
analisadas 49 reportagens dos
dois periódicos, que passam a
ser chamados de OESP e FSP1.
Uma das referências teóricas
que balizaram o trabalho foi a no-
ção de mito, do modo como foi
formulada por Roland Barthes. Na
conhecida abordagem, ele explica
que o mito é “uma fala despolitiza-
da” (2001, p. 162), uma linguagem,
um modo de dizer peculiar aos
meios de comunicação, que natu-
ralizam a história, simplesmente ao
falarem dos acontecimentos histó-
ricos de uma certa maneira.
88
No entanto, Barthes não preconizou um método de investigação
Mídia e Sociedade em Transformação

dos mitos, adotando, ao invés disso, uma abordagem ensaística de


cunho literário, sob a forma de crônicas da vida e da cultura moder-
nas, já que seus textos eram publicados pela imprensa. Procurando
incorporar o conceito de mito à nossa análise, procuramos examinar
as matérias jornalísticas por meio de procedimentos da análise de
enquadramento, por considerá-la próxima das intenções críticas de
Barthes, na medida em que se trata de uma abordagem que busca
verificar sentidos e conotações implícitas na cobertura jornalística,
os quais nem sempre são visíveis ao leitor, embora possam ser ob-
servados nas preferências lexicais, expressões, insinuações, ironias
do texto, que sancionam uma interpretação mais do que outra e sa-
lientam certos aspectos dos fatos, deixando outros em segundo pla-
no. As principais contribuições de Goffman (1974), Entman (1991),
Gamson (1998) e Scheufele (1999) formam o arcabouço teórico que
define a análise de enquadramento enquanto um método possível e
eficiente de analisar percursos jornalísticos e comparar trajetos edi-
toriais dos veículos de comunicação.

O CASO

O “escândalo do mensalão”, assim denominado pelo denuncian-


te e referido pela imprensa, foi um suposto esquema de pagamentos
recorrentes de propinas para deputados federais no primeiro manda-
to do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006). O caso foi
denunciado pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) em
entrevista à FSP em junho de 2015. As declarações tiveram consequ-
ências políticas desgastantes para a condução do governo do PT, cujas
atitudes moralizadoras que o alçaram ao poder, aos poucos, passaram
a se turvar. Ao mesmo tempo, os desdobramentos políticos do “es-
quema”, sobretudo nas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI),
foram amplamente midiatizados. Para Miguel e Coutinho (2007, p.
12), “entre os fatores que explicam a importância adquirida pela crise

1 O artigo apresenta alguns resultados da pesquisa “Das ideias de Roland Barthes


à teoria do enquadramento: Análise de uma cobertura política”, apresentada como
dissertação de mestrado do programa de pós-graduação da Universidade Estadual
Paulista (Unesp).
89
está ação dos meios de comunicação de massa”. Lima (2006) escreveu

As prisões do “mensalão” e a construção do mito barthesiano


que a cobertura do evento criou um enquadramento de “presunção de
culpa” dos principais envolvidos no esquema.
A presença marcante dos meios de comunicação também pode
ser vista no julgamento dos envolvidos, iniciado em agosto de 2012.
Para Araújo (2013, p. 11), foi “um dos mais complexos julgamentos
da história do País e, seguramente, o mais midiatizado, com todas as
sessões transmitidas, em direto, pela televisão”. O grupo de réus era
predominantemente composto por políticos de relevo do governo e
do PT, como o ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado José Genoi-
no (PT-SP), além de políticos da chamada “base aliada” do governo
e de empresários que teriam operado ou financiado o pagamento das
mesadas. Para o julgamento, o Supremo Tribunal Federal realizou 69
sessões que duraram 300 horas. Ao todo, 25 pessoas foram condena-
das por crimes como formação de quadrilha, corrupção ativa e lava-
gem de dinheiro. Destas, 12 tiveram o mandado de prisão expedido
pelo então presidente do STF, Joaquim Barbosa, no dia 15 de novem-
bro de 2013 – feriado de Proclamação da República. Foi a cobertura
que se sucedeu a essa data simbólica que serviu de objeto para este
estudo, cujo recorte proveniente da análise de enquadramento será
apresentado nas próximas páginas. Para essa exposição, iniciaremos
nossa análise dos enquadramentos construídos por meio das prin-
cipais referências lexicais que apareceram nos textos, procurando
eventuais padrões e sentidos.

OS RÉUS

Neste item, analisamos a forma pela qual os dois jornais fizeram


referências aos réus presos naquela semana, quantificando as prin-
cipais ocorrências de cada termo encontrado nos periódicos. Em
seguida, adotaremos o mesmo procedimento para designar como o
presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, e seus colegas de Cor-
te, foram retratados.
É comum que os sentenciados sejam referidos por seus nomes ou
sobrenomes, mas estes não foram considerados, uma vez que pouco
contribuem para a análise pretendida. Observa-se que os dois jornais
utilizam com maior frequência o termo “condenados” para se referi-
rem aos réus – a palavra réu, a propósito, é pouco utilizada, embora
fosse a juridicamente adequada. Isso porque, a despeito de efetiva-
mente terem sido condenados, a ação não havia terminado quando
90
da divulgação das penas, razão pela qual os acusados seguiam sendo
Mídia e Sociedade em Transformação

réus que apresentaram recursos contra a decisão inicial (“embargos


infringentes”). Chama a atenção, a propósito, a recorrência da pala-
vra “condenados” nos dois periódicos, que coincidiram também no
número de matérias destinadas à cobertura naquela semana. Essas
expressões foram agrupadas no Quadro 1.

Folha de S. Paulo O Estado de S. Paulo


Condenados (51), ex-ministro (23), Condenados (44), deputado/ex-
deputado/ex-deputado/deputado deputado/deputado licenciado (17),
licenciado (12), petistas (24), presos (20), companheiros (4), ex-ministro (12),
réus (10), ex-presidente do PT (16), operador do esquema (5), preso (8), réus
delator do esquema (3), integrantes da (7), ex-presidente do PT (8), petistas (15),
antiga cúpula do PT/antigos dirigentes do detentos/detidos (3), delator (2),
PT (6), detidos (2), detentos (3), considerado chefe da quadrilha (1), réus
procurado (2), companheiros (3), ilustres (1), principais protagonistas (1),
fundador do PT (2), operador do esquema militante (1), delator do mensalão (1),
(1), figuras políticas importantes (1), mentor do mensalão (1), envolvidos no
integrantes do núcleo operacional (1), mensalão (1), “rei da cela” (1), o mais
envolvidos no esquema (1) graduado dos petistas (1)

Quadro 1 – Referências aos sentenciados presos no esquema do mensalão.


Fonte: os autores do capítulo.

Os dois jornais manifestam confiar na interpretação da Jus-


tiça a respeito da participação de cada um dos envolvidos. Isso
porque são comuns expressões extraídas dos autos (como “ope-
rador do esquema”, “integrante do núcleo político”), sem que
essas categorias venham acompanhadas de algum adjetivo que
colocasse as acusações como prováveis, como, por exemplo, “su-
posto operador do esquema” ou “acusado de integrar o núcleo
operacional”.
Há persistente referência ao partido dos principais nomes apon-
tados no processo – o Partido dos Trabalhadores. Nos dois jornais,
as palavras e expressões “petistas”, “filiados ao PT”, “companheiros
de partido” e “ex-presidente do PT”, em referência explícita a José
Genoino, aparecem várias vezes. A relação que os periódicos fazem
entre os réus e os partidos não se repete entre os demais agentes po-
líticos presos, de outras legendas. Há, portanto, uma repetida ligação
da condição atual destes personagens – agora presos – ao PT e à
legenda do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente
Dilma Rousseff.
91
Na FSP, foram 46 as referências diretas ao partido nas men-

As prisões do “mensalão” e a construção do mito barthesiano


ções aos condenados presos. Em OESP, foram 23 as associações
entre os réus e o PT, sugerindo uma vinculação implícita do par-
tido com o processo.

REFERÊNCIAS AO PRESIDENTE DO SUPREMO

Ao contrário do período noticioso do julgamento do mensalão,


em 2012, as prisões, em 2013, foram sentenciadas apenas por um
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Joaquim
Barbosa. Em razão disso, este trecho separa as inúmeras ocorrências
de referências ao ministro das raras menções a seus colegas da Corte.
Por ter determinado a prisão de parte dos condenados, o presi-
dente do STF também centralizou a repercussão jurídica a respeito
da sentença. Na semana subsequente à ordem, foi muito mais citado
que seus colegas de Corte que contribuíram para a estipulação das
penas. As referências ao presidente da Corte, entretanto, são em me-
nores quantidade e diversidade que as relatadas para os envolvidos
nos crimes (Quadro 2).

Folha de S. Paulo O Estado de S. Paulo


Presidente do STF/Presidente do Supremo Presidente do STF/Presidente do Supremo
(19), ministro (2), relator do mensalão (1) (21), presidente da Corte (2), presidente
do tribunal (1), ministro (1)

Quadro 2 – Referências ao presidente do STF, Joaquim Barbosa.


Fonte: os autores do capítulo.

Diferentemente das menções aos condenados no processo do


“mensalão”, as referências ao ministro Joaquim Barbosa são sempre
precedidas do posto que o presidente da Corte ocupa, sem nenhuma
outra alusão ao magistrado que denote juízos interpretativos.
As categorizações que os dois jornais fizeram ao expedidor dos
mandados de prisão, já em menor quantidade, são também precisas
e objetivas. Os periódicos buscaram poucos termos para diversificar
ou qualificar o ministro e, na ausência de termos que pudessem se
referir a ele, preferiam adotar o corriqueiro expediente de se referir
ao personagem por seu sobrenome (Barbosa), sistematicamente uti-
lizado pelos jornais, mas não computado porque não constitui uma
referência visada nesta análise.
92
Os dois jornais recorrem praticamente às mesmas denomina-
Mídia e Sociedade em Transformação

ções para se referir ao presidente do STF, não havendo diferenças


substanciais a serem apontadas – diferentemente das alusões aos
réus dos processos, que demonstraram ser mais variadas.

A DENÚNCIA

Este item de observação busca identificar como os dois jor-


nais situam o fato da denúncia que desencadeou a ação penal
470 – o pagamento de propina para manutenção aos partidos
da chamada “base aliada” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, batizado de “escândalo do mensalão”.
O que importa neste ponto são as denominações que os pe-
ríodos declinaram para o processo e o desencadeamento políti-
cos do “mensalão”, que podem ser lidas no Quadro 3.

Folha de S. Paulo O Estado de S. Paulo


Mensalão (61), esquema (16), escândalo Mensalão (56), esquema (6), escândalo
(3), corrupção de parlamentares (1), (4), Mensalão (maiúsculo) (2), caso (1),
episódio (1) episódio (1)

Quadro 3 – Referências ao delito objeto da condenação (terminologia política).


Fonte: os autores do capítulo.

Cumpre observar que, desde que foi nominado em 2005, o


alegado pagamento de propina a deputados é sistematicamen-
te referido pelo termo “mensalão” – espécie de palavra-slogan
propagada pela imprensa, desde as primeiras denúncias até à
prisão dos envolvidos. FSP e OESP não só coincidem no nú-
mero de reportagens dedicadas ao assunto ao longo da semana,
como também praticamente se igualam na quantidade de vezes
em que se referem ao caso como “mensalão”, como a sequência
de acontecimentos ficou conhecida.
Os diários somados em uma semana de cobertura utilizaram
o neologismo por 117 vezes ao se referirem ao caso ou a seus
desdobramentos jurídicos e políticos – média de 16 ocorrências
por edição, somadas às ocorrências em FSP e OESP. Em OESP,
a palavra mensalão é veiculada com letra maiúscula, em uma
reportagem específica do dia 18 de novembro. As palavras “es-
quema” e “escândalo” aparecem com muito menor frequência,
como forma de se referir ao caso, indicando a importância do
93
processo de focalização lexical sofrido por “mensalão”, um tipo de

As prisões do “mensalão” e a construção do mito barthesiano


palavra-síntese do caso, a um tempo “mediático” e zombeteiro.

REFERÊNCIAS AO PROCESSO

Neste item, o estudo apresenta as inserções a respeito do des-


dobramento jurídico do caso, identificando a maneira como os jor-
nais retratam a ação penal 470. A intenção é comparar quantitativa
e qualitativamente com as ocorrências do tópico anterior, no qual
se verificou de que forma os desdobramentos políticos do episódio
foram manifestados na cobertura (Quadro 4).

Folha de S. Paulo O Estado de S. Paulo


Processo (7), recurso (7), autos (2), Processo (17), embargos (4), sentença (3),
embargos (1), cartas de sentença (4), dossiê (2), recurso (2), aceitação da
ordem do Supremo (2), dossiê (2), ação denúncia pelo STF (1), ação penal (1)
penal (1)

Quadro 4 – Referências à ação penal 470 (terminologia jurídica).


Fonte: os autores do capítulo.

A nomenclatura adotada para se referir ao “esquema” do


“mensalão”, descrita no tópico anterior, é mais genérica que os
termos utilizados pelos jornais para detalhar o encaminhamen-
to jurídico do caso, com poucos termos utilizados para se re-
ferir ao processo, aos detalhes do julgamento ou das cartas de
sentença que determinaram a prisão dos envolvidos. O Quadro
4, relativo ao processo, destaca o emprego dos termos jurídicos
neutros, como “processo”, “recurso” e “embargos”, tendo, por-
tanto, um caráter mais técnico.

AS PENAS

Apesar da apresentação de recursos (e o julgamento dos


embargos, em 2014), até o momento deste estudo nossa análise
se encerra com a prisão dos envolvidos. No Quadro 5, regis-
tram-se palavras e expressões que apresentam ao leitor as pu-
nições e os cumprimentos das sentenças, bem como aspectos
da condição dos réus na prisão, que, mais adiante, constituirão
um tópico específico de análise.
94
Folha de S. Paulo O Estado de S. Paulo
Mídia e Sociedade em Transformação

Pena (31), prisão (28), regime (19), Prisão (31), regime (21), pena (15), prisão
trabalho fora da prisão (4), penas domiciliar (10), algemados/algemas (3),
alternativas (3), execução penal (3), prisão com saída regrada (1), confisco de
algemados/algemas (3), primeira noite na bens (1), pagamento de multa (1),
cela (1), integrantes do sistema prisional detenção (1), ainda no conforto do lar (1),
(1), vestidos com uniformes brancos (1), abandono por quem considerava amigo
banho frio, beliche com colchão de (1), know how para receber réus ilustres
espuma, almoço servido em marmita (1), (1), passaporte apreendido (1), processo
regime mais rígido que o determinado (1), de cassação (1), primeira noite sem
perda automática do mandato (1), custou o liberdade (1), sob custódia (1), impressão
mandato, agora a liberdade (1) de estar em um quartel (1), bloqueio de
aposentadoria (1)

Quadro 5 – Referências às sanções impostas aos réus da ação penal 470.


Fonte: os autores do capítulo.

Em maior quantidade, as sanções impostas aos réus são referidas


na linguagem jurídica, mas há diversos qualificadores e expressões
que denotam a condição dos presos. Em ambos os jornais, as maté-
rias destacam os aspectos de desconforto e as perdas sofridas a partir
do momento em que se viram encarcerados, sugerindo um enqua-
dramento de interesse humano.

A CONSONÂNCIA DAS NARRATIVAS

A semelhança nas coberturas da FSP e de OESP é notável dos


pontos de vista quantitativo e qualitativo. Na semana que sucedeu
as prisões, nenhum dos dois jornais noticiou algum fato ou des-
dobramento que também não esteja contemplado no outro – com
pequenas diferenças quanto ao destaque dedicado para cada maté-
ria. Em ambos os periódicos, as prisões e seus desdobramentos só
não foram manchete em um dia entre os sete analisados. Das sete
edições escolhidas para esta análise, quatro tiveram os mesmos as-
suntos abordados na manchete nos dois diários. Há também uma
linha editorial bastante semelhante comparando FSP e OESP. Essas
características serão aqui chamadas de desenvolvimento narrativo
– que representa os estágios pelos quais os jornais avançaram entre
o primeiro e o último dia analisado.
As narrativas dos dois jornais nos dizem que os réus se entrega-
ram sem resistência, julgam-se presos políticos e receberam pequena
solidariedade de correligionários (16/11). Em seguida, foram inse-
ridos no sistema prisional brasileiro, com parcas acomodações em
vista das que desfrutavam (17/11) e, no caso de José Genoino, não
95
conseguia a liberdade mesmo diante de seu estado de saúde (toda a

As prisões do “mensalão” e a construção do mito barthesiano


cobertura). O desenvolvimento narrativo, no caso dos réus, vai da
surpresa causada pelos mandados de prisão no feriado de Procla-
mação da República à consolidação de seus novos papéis sociais, de
presidiários – o que coaduna com a ideia de que os mitos conduzem
à pacificação das crises institucionais.
No plano da autoridade, a evolução narrativa é menos detalha-
da, dizendo que apenas Joaquim Barbosa detinha o poder para sen-
tenciar as prisões e que, a despeito até mesmo de eventuais ques-
tionamentos dos colegas de Corte, seus atos são inquestionáveis.
Há pelo menos duas grandes coberturas paralelas à principal – que
é a prisão dos réus. Uma delas, que permeia todas as edições de 16 a 22
de novembro, traz os desdobramentos da fuga do ex-diretor do Banco
do Brasil. A outra, de interesse humano, destaca a rotina dos presos.
Sobre essa última cobertura, é necessário salientar que FSP e
OESP se baseiam em apurações com fontes não reveladas, já que os
repórteres dos dois periódicos não tiveram, evidentemente, acesso
aos presídios em Brasília e em Belo Horizonte, para onde foram
encaminhados os detentos. A gama de informações trazidas a res-
peito da rotina no cárcere (liderança de José Dirceu, depressão de
José Genoino, refeições, livros, etc.) é coletada por meio de fontes
anônimas ou reveladas superficialmente, procedimento também
conhecido como apuração “em off ”.
É evidente também a adoção, por ambos os diários, de uma nar-
rativa que reconhece a controvérsia ao reportar os pontos de vista
dos réus com vistas a deixar claro que se tratava de uma versão, e não
de um fato. O mesmo procedimento não foi adotado para ouvir o
que tinha a dizer o presidente do STF, Joaquim Barbosa, a respeito da
decisão de expedir os mandados de prisão no feriado e não estabe-
lecer o regime das penas, questionada pelo ministro da Justiça, José
Eduardo Cardozo. FSP e OESP, a propósito, não demonstram nem
sequer ter tentado ouvir Barbosa (ou sua assessoria) a esse respeito.
O desenvolvimento da narrativa, portanto, é muito semelhante
nos dois jornais, e pode ser sistematizado da seguinte forma: a) os
réus se entregam em cumprimento a mandado de prisão expedido
em feriado nacional. Um deles foge; b) o procedimento determinado
pelo ministro Joaquim Barbosa causa revolta entre correligionários,
mas alta cúpula do governo evita o assunto; c) presos têm menos
conforto que na vida que levavam, mas famílias de demais detentos
questionam supostas “regalias”; d) Pizzolato é considerado foragido
96
da Justiça; e) Presidente Dilma Rousseff e outros petistas demons-
Mídia e Sociedade em Transformação

tram preocupação com a saúde de José Genoino; f) Congresso “desa-


fia” STF e leva a plenário decisão sobre cassação de Genoino; g) uma
hierarquia é estabelecida na rotina do cárcere; h) Genoino é liberado
temporariamente para tratamento fora da prisão.
Ao final daquela semana, os dois periódicos abordaram os mesmos
assuntos, ainda que não nas mesmas edições. A semelhança no relato
dos acontecimentos sinaliza para um enquadramento comum nos dois
principais jornais do estado de São Paulo. A busca pela diferenciação (e,
portanto, pelo leitor), ao menos neste caso, não foi buscada por meio de
reportagens exclusivas – que usualmente marcam a concorrência jor-
nalística. O desenvolvimento narrativo foi o mesmo e FSP e OESP se
diferenciaram apenas pelo conteúdo analítico-opinativo.
A condução uníssona do assunto – sem diferenciações no plano
editorial – cria um efeito de consonância. Como os fatos são abor-
dados praticamente da mesma forma – inclusive com o mesmo des-
taque e em edições coincidentes – há pouco ou nenhum espaço para
diálogo na produção de conteúdo. Em outras palavras, uma publica-
ção valida o que a outra reportou, criando, dessa vez, uma paralisa-
ção do debate público. Se uma das características do mito é sua blin-
dagem ao questionamento, ao operarem em sincronia na cobertura
de um evento político dessa significância, FSP e OESP transformam
o episódio em mito, naturalizando-o.
A diversidade de informações é um pilar da formação do debate
plural e democrático, de modo que o excesso de semelhanças (inclu-
sive no âmbito quantitativo) cria uma espécie de tipo de cartel in-
formativo – não oferece um contraponto aos leitores, recomendado
para a análise equilibrada de episódios controvertidos.
A consonância dos jornais não resulta apenas pela escolha das
mesmas palavras e expressões, e nem propriamente pelo agenda-
mento que os veículos de comunicação estabelecem, mas principal-
mente por opções de abordagens editoriais e narrativas semelhantes.
Trata-se de uma convergência hegemônica, ou ao menos edito-
rial, que pode ser motivada por intencionalidades consonantes ou,
simplesmente, pela relação entre jornalistas das duas empresas ao
trocarem informações ou ao adotarem estilos e ênfases semelhan-
tes como resultado da competição.
Como sinaliza Habermas (1984, p. 184), no caso da esfera pú-
blica midiatizada, “o consenso na questão torna-se grandemente su-
pérfluo, devido ao consenso no procedimento”. É possível deduzir
97
que os dois periódicos adotaram, a menos no recorte estudado, cer-

As prisões do “mensalão” e a construção do mito barthesiano


to “consenso de procedimento”, que, ao final, recria o “consenso na
questão”, sedimentando, em última análise, o senso comum, figura
elementar dos estereótipos e solo onde floresce o mito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O leitor interpreta os acontecimentos, geralmente, com base nas


representações do jornalismo. Para Zelizer (1992), “há uma relação
de igual para igual entre o que os jornalistas dizem e aquilo em que a
audiência acredita”: os profissionais da imprensa são os “porta-vozes
preferenciais da história”, o que implica em dizer que suas falas se
perpetuam como referências históricas.
Como não seria econômico explicar à exaustão o que significou
o “mensalão”, a cada vez que o termo é citado, os jornais optam por
aderir o novo verbete a prováveis sinônimos. Aos poucos, “mensalão”
se cristaliza como o mesmo que “corrupção”, “propina”, etc., tornando-
-se uma palavra-slogan. Dessa forma, os jornais criam uma economia
de significado (característica do mito, na formulação barthesiana) que
age em favor da economia de tempo (desnecessidade de explicação
do termo) e – pode-se supor – das escolhas editoriais dos periódicos.
O termo “mensalão” – um neologismo usado pelo deputado Rober-
to Jefferson para denunciar um esquema de pagamento de propina para
manutenção de apoio de parlamentares de partidos aliados ao longo dos
nove anos que sucederam as primeiras denúncias – se tornou um signo
de um conjunto de denúncias, autônomo, tornando-se sinônimo de cer-
tas práticas de corrupção, dispensando esclarecimentos.
No período estudado, essa naturalização do signo fica evi-
denciada na medida em que os dois jornais se valem do termo para
explicar suas consequências (as prisões dos envolvidos), sem esclare-
cer as circunstâncias que motivaram as sanções. Barthes chama esse
tipo de despreocupação pelo contexto de omissão da história, um
dos operadores retóricos do mito.
Verificamos que a imprensa manteve sua tendência de re-
afirmação da ordem e das instituições constituídas ao designar a
autoridade (o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro
Joaquim Barbosa) de maneira sóbria e menos diversificada que a de-
signação dos réus. Essa opção criou um enquadramento favorável à
autoridade em detrimento dos condenados, sempre representados
de maneira declaratória nas reportagens.
98
A nítida predileção pela cobertura dos eventos ligados aos réus
Mídia e Sociedade em Transformação

do PT (José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares) parece querer


confirmar que o partido, conhecido pela defesa da ética, perdeu essa
aura ao chegar ao poder. A prisão dos petistas, como foram prefe-
rencialmente chamados os três réus com maior cobertura naquela
semana, encerraria um caso que minou uma das principais bandei-
ras do partido – no entendimento dos periódicos.
A repetição sistemática de representações conhecidas fomenta
o estabelecimento de estereótipos. A recorrente associação entre os
réus e o PT, entre o STF e a justiça máxima, instaura um ritual cole-
tivo de punição. A cobertura, a propósito, se contrapõe à distorção
conhecida da Justiça brasileira de preservar agentes políticos de pu-
nições para reapresentar o caso do “mensalão” como um episódio
diferenciado, no qual houve punição, em oposição à impunidade.
Observamos, ao lado dessa narrativa, o detalhamento de ocorrên-
cias periféricas à principal, notadamente as de interesse humano, com
ampla cobertura da vida dos réus na prisão. Houve constantes tentativas
de identificação entre leitor e narrativa, quer seja por características po-
sitivas, quer seja por características depreciativas. O enquadramento de
interesse humano, evidenciado na descrição da vida dos réus na prisão,
reitera outro componente próprio ao jornalismo, que é a tendência à
personificação e a ficcionalização das histórias, assemelhando os relatos,
do ponto de vista narrativo, aos textos literários.
A narrativa de crime e castigo fica clara no noticiário, estabele-
cida como uma relação de causa e consequência no âmbito jurídi-
co, recebendo uma carga de dramaticidade na redação jornalística,
aproximando a abordagem das formas estilísticas da literatura, que
Michael Schudson considera uma das marcas culturais da notícia.
Assim, por exemplo, a entrevista com o pai de Henrique Pizzolato,
na FSP, tem elementos de dramaticidade, que buscam a identifica-
ção com o público-leitor. O texto tem alta carga afetiva, demonstra o
desconsolo do pai com a prisão e a fuga do filho (“Meu filho fugiu”,
é o título da reportagem), e contribui pouco para o entendimento do
caso (os antecedentes da prisão), mas muito para estabelecer uma
relação emocional entre envolvidos e o leitor, por meio de um en-
quadramento de interesse humano.
Barthes detalha que a função do mito é “evacuar o real”, ou seja,
descaracterizar o fato enquanto um evento histórico e transformá-lo
em uma segunda fala, não irreal, mas reapresentada. A carga ficcio-
nal de um texto jornalístico naturaliza os fatos por meio de uma con-
99
cessão estética. Reporta – na condição de “recorte da verdade” – uma

As prisões do “mensalão” e a construção do mito barthesiano


construção dramatúrgica intencional. Cabe ao repórter e às definições
editoriais do veículo a dosagem entre o texto racional e o texto emo-
cional, ou seja, entre a construção factual-informativa e a ficcional.
Por fim, destaca-se outra atitude recorrente da imprensa obser-
vada nesta análise: a ratificação da ordem, a legitimação das decisões
emanadas dos organismos institucionais. Por se tratar de empresas
que têm como audiência preferencial leitores das classes médias,
tradicionalmente mais conservadores, os veículos de comunicação
atendem às suas principais demandas sociais com relação às insti-
tuições e ao respeito à legalidade, a suas normas e determinações. O
papel de reforço das normas sociais fica saliente nessa abordagem,
sublinhando um papel de reforço das normas sociais, que os sociólo-
gos funcionalistas Lazarsfeld e Merton (2002) destacaram como uma
das funções principais dos meios de comunicação.
Barthes, adotando outra chave analítica, destacou a tendência do
mito de reapresentar os acontecimentos de forma naturalizada, sem
composição histórica, como se ficassem encantados. A cobertura
que analisamos corrobora, assim, a hipótese de Barthes de que os
signos que constituem a fala mediática se convertem no significante
do mito.

REFERÊNCIAS
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100
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Mídia e Sociedade em Transformação

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ZELIZER, Barbie. Covering the body: the Kennedy assassination, the me-
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101

A morte do
missionário:
a identidade
do comentador
de notícia no
webjornalismo

Claudio Bertolli Filho


O relacionamento inicial en-
tre o jornalista e as máqui-
nas comprometidas com a pro-
Ana Carolina Biscalquini fissão do comunicador nunca
Talamoni foi harmonioso, refletindo as
reticências sociais frente às ino-
vações que prometem alterar o
ritmo do cotidiano individual e
coletivo. Da mesma forma que
Mário de Andrade, ao receber
de presente uma máquina de
escrever do seu editor, bradou
contra a engenhoca, temendo
que a mesma poderia mecani-
zar a sua capacidade de redigir,
os jornalistas de meados da dé-
cada de 1980 se mostraram ar-
redios quando foram instalados
os terminais de computador nas
redações.
A empresa pioneira nesse
processo foi a proprietária da
Folha de S. Paulo; o desconfor-
102
to demonstrado pelos jornalistas naquela época foi alimentado por
Mídia e Sociedade em Transformação

inúmeras razões: da dispensa dos antigos revisores dos textos ao re-


ceio de que as matérias seriam “engessadas” devido ao uso, que se
tornou obrigatório, dos programas computacionais que estipulavam
previamente e sem chances de negociação com o editor a extensão
e a localização na página do jornal da matéria a ser redigida. As re-
ticências iniciais sobre a adoção da nova tecnologia coagiram mui-
tos jornalistas a não se empenharem em lidar com um mínimo de
precisão com o novo instrumento de trabalho; os leitores da Folha
daquele período lembram-se até hoje da quantidade de erros de di-
gitação, de localização de fotos e de diagramação com os quais se de-
frontavam diariamente, chegando a serem computadas mais de uma
centena de imprecisões em uma mísera página do impresso.
O rancor demonstrado pelos jornalistas em relação aos computa-
dores foi declarado, sendo um dos motivos alegados para a deflagra-
ção de uma greve no mesmo período. O fato repercutiu nas demais
empresas jornalísticas, sendo que até o final de 1987 apenas quatro
diários brasileiros – que além da Folha eram O Globo, o Diário Cata-
rinense e A Tribuna, esta última sediada na cidade de Santos – haviam
informatizado totalmente suas redações (SILVA, 2005, p. 82).
Apesar da repulsa inicial, a adoção das novas tecnologias de in-
formação e comunicação foi acelerada a partir de 1990, acarretando
em curto período de tempo um extenso conjunto de alterações não
só na profissão do jornalista, mas em praticamente todos os setores
de atividades, do econômico e político ao cultural e às dinâmicas
das relações sociais. Essa contingência tem favorecido o afloramen-
to e consolidação da “sociedade em rede” como estratégia não de
centralização do conhecimento e da informação sobre o universo
físico e social, mas sim a disseminação, (re)alimentação, expansão
e maior complexidade desse mesmo conhecimento. A partir dessa
nova situação, acredita-se que o crescente fluxo de informações está
contribuindo para a constituição de sistemas de governo e formações
sociais mais impregnados do espírito democrático, inclusive no refe-
rente à tolerância coletiva frente aos “outros”, isto é, aqueles que são
percebidos segundo algum crivo como “diferentes”.
Em compasso acelerado, a adoção do computador como instru-
mento institucional e também pessoal conectado à rede e a implan-
tação, em 1991, da World Wide Web (WWW) viabilizou novas estra-
tégias de articulação entre os sujeitos sociais e destes com realidades
próximas ou distantes tanto no espaço quanto no tempo, as quais
103
passaram a ser não só amplamente conhecidas como também con-

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
tinuamente ressignificadas. Nessa cirurgia, constituiu-se um novo
tempo cultural rotulado como cibercultura, a qual foi definida como
um novo conjunto de práticas e representações que têm ganhado flu-
ência em virtude da cada vez mais imperante presença das tecnolo-
gias de informação e comunicação no cotidiano (RÜDIGER, 2003).
O tônus central da cibercultura constitui-se na renovada possi-
bilidade de interatividade entre os sujeitos sociais, em muito libera-
dos das barreiras tradicionais que viabilizavam ou que inibiam os
diálogos mais amplos. Classe social, grau de instrução, etnia, gênero
e idade, dentre outros crivos, foram relativizados, inclusive pela pos-
sibilidade de se declarar, omitir ou mentir sobre a identidade dos
conectados na rede. Em uma fase da história ocidental na qual o
Estado desponta como uma instituição fragilizada e em larga escala
incapacitada para solucionar os problemas cotidianos dos cidadãos
(GIDDENS, 1991), ganhou força a necessidade e a possibilidade de
cada um posicionar-se publicamente, defender visões de mundo e
interesses que se abatem sobre toda a sociedade ou dissertar sobre
temas de interesse exclusivo de grupos restritos. Assim, a internet
comporta uma importância surpreendente na esfera dos debates
sociais e, no mesmo compasso, tornou-se o canal apropriado para
a exposição e discussão pública de questões íntimas, relativizando,
inclusive, as fronteiras tradicionais entre o público e o privado.
A comunicação mediada pelos computadores constitui-se em
um território que comporta discussões de todo gênero, mobili-
zando as atenções de um crescente número de pessoas conectadas
à WWW. A partir disso, a internet passou a ser entusiasticamente
avaliada como o espaço público característico da modernidade
tardia (GARCÍA CANCLINI, 2007) ou como uma das áreas des-
tacadas que compõem a tribuna popular (CASTELLS, 2013). Nas
redes sociais, é possível tratar de qualquer assunto, mobilizando
grandes agrupamentos humanos e articulando demonstrações
públicas de insatisfação, como aquelas que, em escala planetária,
principiaram nos primeiros anos desta década, tendo como foco
inicial as nações norte-africanas.
Enquanto elementos fundantes da modernidade tardia, a ciber-
cultura e seus tecnosuportes suscitam debates que, para utilizar os
rótulos propostos por Umberto Eco (2008), permitiram a organiza-
ção de grupos corporificados por “apocalípticos” e por “integrados”,
como admite Lemos (2010). No rol das discussões, constitui-se a
104
“cultura da segurança” – que avalia as inovações tecnológicas como
Mídia e Sociedade em Transformação

instrumentos de aprimoramento do homem, das sociabilidades e das


relações engendradas com o meio ambiente – e, em sentido com-
plementar, a “cultura do risco” – que percebe as inovações recentes
como potencialmente danosas e desafiantes para o destino da huma-
nidade. Ambos os polos incorporam mais um elemento definidor do
tempo presente e compõem a pedra angular da “sociedade reflexiva”
(GIDDENS; BECK; LASH, 1997).
A nova dinâmica cultural repercute em todas as esferas, inclu-
sive nos processos de elaboração e consumo dos produtos midiáti-
cos, exigindo novas definições para a análise das notícias e de seus
personagens diretamente envolvidos – o jornalista e os leitores das
matérias jornalísticas. Nesse encaminhamento, o objetivo deste texto
é focar uma das confluências entre a cibercultura e o jornalismo, o
qual aqui será denominado webjornalismo. A abrangência do tema
aconselha um recorte mais fino, destacando-se neste momento a
análise da identidade dos leitores que assumem a tarefa de comentar
as notícias veiculadas em um portal noticioso. Alerta-se para o fato
de ter sido adotado o termo “comentador” e não “comentarista” de
notícia para impedir a possível confusão entre o personagem que
tem como tarefa na redação comentar as notícias (comentarista) e
os leitores que se dispõem por vontade própria a discorrerem sobre
o que leem nas telas das máquinas computadorizadas (comentador).
A opção por centrar o estudo na figura do comentador deve-se,
sobretudo, à circunstância de este ainda despertar escassa atenção
por parte dos estudiosos nacionais, ao contrário do objeto represen-
tado pelos jornalistas profissionais que atuam no território ciber. Por
óbvio, a figura do antigo “profissional da imprensa” não pode ser
preterida na análise, constituindo um dos tópicos preliminares para
então ocorrer o enfoque da atuação dos leitores.
O corpus eleito para o desenvolvimento da pesquisa tem como
ponto inicial uma matéria veiculada no início da madrugada de 22
de fevereiro de 2015 pelo portal de notícias do Universo OnLine
(UOL), vinculado ao grupo proprietário do jornal Folha de S. Paulo.
A notícia versa sobre a morte repentina, no final da noite anterior,
de um religioso pertencente a uma denominação pentecostal e que
se tornou tema instrutor de 32 comentários de leitores, todos eles
produzidos e publicados no mesmo dia. Destaca-se que uma das ca-
racterísticas do UOL, assim como de muitos outros sites e portais, é
a rápida mutabilidade. Em consequência, os autores empenharam-se
105
em acompanhar as sucessivas atualizações do texto noticioso no de-

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
correr daquele dia, assim como registrar os comentários suscitados
pela notícia. Quem acessar agora a mesma notícia irá encontrar a
versão da última atualização e também constatar que uma parcela
dos comentários invocados neste estudo não mais se encontra dis-
ponível para leitura.

O WEBJORNALISMO E SUAS CONDICIONANTES

Os pesquisadores dessa nova forma de exercício do jornalismo


ainda se mostram reticentes em adotar uma terminologia uniforme
para designar o jornalismo veiculado pela internet, o qual tem sido
invocado conforme a característica que se busca destacar no âmbi-
to do ecossistema digital. Assim, são arregimentados como sinôni-
mos uma profusão de termos para nomear o mesmo objeto, sendo
os principais deles jornalismo on-line, jornalismo digital, jornalismo
virtual, ciberjornalismo, jornalismo eletrônico, jornalismo multimí-
dia e, por fim, webjornalismo. Adota-se aqui a última referência não
só porque se registra uma maior tendência de uso dessa designação
pelos pesquisadores brasileiros como também porque ela se refere
objetivamente à web e não à rede de computadores como um todo,
apesar de a primeira constituir-se em parte da segunda (MIEL-
NICZUK, 2003, p. 44).
O webjornalismo comporta uma série de condicionantes que
formata as tarefas e os novos papéis do jornalista e do leitor das ma-
térias noticiosas. A primeira e mais exaltada delas constitui-se na in-
teratividade possibilitada pela Web 2.0; a recorrência a esse conceito
tem sido implementada sob amplo escopo e tem gerado confusões
interpretativas em série, pois se aventa a hipótese de haver interação
entre os usuários e as máquinas, entre as máquinas, entre os homens,
entre estes e os conteúdos noticiosos e, finalmente, entre os conteú-
dos das notícias. Tal abrangência é criticada pelos cientistas sociais
que rejeitam a possibilidade de haver interação entre não viventes,
como as máquinas e os produtos jornalísticos. De qualquer forma, o
webjornalismo ganha concretude a partir de um conjunto complexo
de processos interativos, os quais vêm se ampliando em consequ-
ência do aprimoramento das ferramentas interativas e dos sites de
colaboração do internauta (LIMA, 2015).
A interação instrumentalizada pelo uso de computadores co-
nectados à rede é apropriadamente denominada de “quase-inte-
106
ração mediada”. Por tal designação, entende-se, dentre outros ele-
Mídia e Sociedade em Transformação

mentos, a fluidez de uma operação que implica na separação dos


contextos apresentados, a disponibilidade estendida no tempo e no
espaço, a limitação das possibilidades de “deixas” simbólicas e a
veiculação de conteúdos destinados a serem consumidos por um
número indefinido de receptores, os quais, vale destacar, também
são potencializados para atuar como emissores (THOMPSON,
2002, p. 80).
O novo contexto comunicacional tem resultado também em sig-
nificativas transformações da prática do métier dos jornalistas. Os
textos por eles produzidos fogem do formato daqueles elaborados
para o meio impresso, ora necessitando serem mais concisos, ora
mais extensos. A plataforma multimídia permite que a mensagem
seja construída a partir do uso de várias semioses, pois não só a pro-
dução escrita pode ser “linkada” a várias outras peças congêneres
através de uma rede semântica, como também é possível associar o
texto a imagens estáticas ou em movimento e sons, sendo cobrado
do web jornalista um ritmo e velocidade de trabalho desconhecidos
no período anterior ao advento dos computadores. Isso resulta no
enfrentamento de maiores riscos no exercício do jornalismo, pois
se alargam as oportunidades de ocorrência de erros não só na es-
crita como também na apresentação e interpretação dos fatos que,
de regra, são corrigidos ou mesmo negados no decorrer de poucas
horas, às vezes poucos minutos, suscitando embaraços para o mais
acalentado patrimônio dos comunicadores: a credibilidade junto aos
leitores e mesmo frente aos seus pares, por mais que estes últimos
estejam inteirados sobre as novas condições de trabalho do jornalista
(CHRISTOFOLETTI, 2007).
Sob essas condições, que foram ganhando densidade no decorrer
do tempo, o webjornalismo tem como marco inicial o ano de 1992,
quando o impresso Chicago Tribune disponibilizou sua versão vir-
tual, o Chicago Online, para a qual o leitor podia encaminhar men-
sagens pelo correio eletrônico e realizar compras por computador
(CARVALHO, 2014). No contexto brasileiro, em 1995, o Jornal do
Brasil foi a primeira empresa jornalística a patrocinar a criação de
um site noticioso, disponibilizando o mesmo conteúdo que vendia
sob o formato impresso. No ano seguinte, o jornal Folha de S. Paulo
inaugurou o portal UOL, mas, diferentemente do Jornal do Brasil,
atualizava os conteúdos várias vezes por dia. No decorrer dos anos,
com a adoção de tecnologias cada vez mais aperfeiçoadas, o UOL e
107
os demais sites de notícias empenharam-se na produção de conteú-

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
dos para o ambiente virtual e, ainda mais com a disponibilização de
novas ferramentas tecnológicas, viabilizou uma interação mais plena
com seus leitores. No caso do UOL, os leitores passaram a poder co-
mentar as notícias a partir de 2010, e tal possibilidade tem sido cons-
tantemente aprimorada mediante reformulações periódicas, sendo
que a última delas ocorreu em maio de 2015.

UM NOVO TEMPO PARA OS LEITORES

No mesmo compasso que o jornalista, o leitor tem se confronta-


do com uma nova experiência em relação ao texto noticioso. A lei-
tura linear induzida pelo texto impresso foi colocada de lado, pois o
hipertexto e os recursos multimidiáticos favorecem o engendramen-
to de novas estratégias de seleção e ordenação dos conteúdos a serem
consumidos, já que se dispõe de um número praticamente ilimitado
deles, além de alternativas de personalização da experiência de lei-
tura do rol de matérias apresentadas na tela do computador. Nesse
processo, os princípios inovadores que regem o ato de consumo de
uma notícia, tendo como pano de fundo a interatividade propiciada
pela cibernética, constituem-se na efemeridade e mutabilidade dos
conteúdos que modulam um perene “vir a ser” da informação, a po-
tencial colaboração entre jornalistas e leitores e a ampla partilha de
dados (SANTAELLA, 2004, p. 166).
Em um cenário pautado por múltiplas inovações, as fronteiras
entre a prática do jornalista e a prática do leitor apresentam um
certo grau de diluição, originando situações nas quais aquele que
consome o produto midiático pode tornar-se um agente que con-
corre com o próprio jornalista. Isso se dá em várias frentes, sen-
do uma delas a possibilidade de o leitor chamar para si a tarefa
de selecionar as matérias que julga importantes e indicá-las para
outras pessoas através dos mecanismos de compartilhamento de
informações, tarefa que ganha sentido e importância em um con-
texto comunicacional no qual a contínua expansão do número de
produtos jornalísticos, muitos deles conflitantes entre si, carece de
novos filtros indicadores do textos que merecem ser lidos. Com
isso, emergiu a figura do gatewatcher que, como prolongamento do
tradicional gatekeeper instalado nas salas de redação, tem se torna-
do figura central de comunidades virtuais, contando com milhares
de amigos no Facebook e seguidores no Twitter.
108
Em escala planetária, a atuação do gatewatcher tem chamado
Mídia e Sociedade em Transformação

a atenção, levando alguns deles a ganhar mais notoriedade pública


que os próprios jornalistas profissionais. Um pesquisador desse novo
personagem que surgiu no bojo da cibercultura o definiu como uma
espécie de “analistas de mercados financeiros que aconselha os seus
seguidores/amigos a investirem sua atenção neste ou naquele tema,
publicando os links para as notícias” (CANAVILHAS, 2010, p. 5).
Além do compartilhamento de notícias, outra possibilidade ofe-
recida para o leitor dos portais refere-se à composição e compar-
tilhamento de comentários. Se inicialmente o foco a ser debatido
restringia-se às notícias, os leitores ampliaram sua participação, ana-
lisando também as qualidades dos textos e os possíveis motivos que
levaram o jornalista e a empresa jornalística a incorporar um deter-
minado enfoque aos eventos.
A atuação do leitor como comentarista não é recente, contando
com uma longa história no território dos textos impressos. Apesar
do conflito de informações, acredita-se que o primeiro jornal que
instituiu uma seção dedicada ao acolhimento das opiniões do leitor
foi o The New York Times, em 18 de setembro de 1851, cinco dias
após a publicação do primeiro número do diário (FONSECA RIBEI-
RO, 2014). A partir de então, a maior parte dos jornais do planeta
adotou o mesmo procedimento, apesar de, no decorrer do tempo,
muitos deles tenderem a publicar as missivas assinadas por leitores
ilustres (inclusive para mostrar a todos que a elite lê o jornal) ou de
porta-vozes de instituições, empresas ou personalidades que haviam
sido criticadas nas páginas do impresso, e isso principalmente para
evitar que, por ordem judicial, os criticados ganhassem o direito de
resposta. Frente a isso, tornou-se corriqueira a exclusão dos comen-
tadores comuns, os quais foram condenados ao quase silêncio.
A perenidade das seções destinadas ao pronunciamento dos
leitores instigou a busca por uma definição acadêmica de comentá-
rio. A maior parte delas, comprometida com os conteúdos virtuais,
não se afasta do óbvio, como, por exemplo, aquela que esclarece co-
mentário como sendo um “espaço potencialmente deliberativo que
permite a expressão de opinião acerca de um determinado tema,
através da reação a uma peça noticiosa” (TORRES DA SILVA, 2013,
p. 82). Não visando unicamente os produtos virtuais, outras noções
mais consistentes foram elaboradas, dentre elas a de autoria de Eni
Orlandi (2001, p. 83):
109
O comentário não se limita só a uma questão formal, de repeti-

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
ção, mas de formulação, portanto tendo a ver com autoria (fun-
ção e sujeito). O sujeito por sua vez não (re)formula apenas um
sentido superficial, ele entra em relação com o corpo da lingua-
gem, com o acesso ao acontecimento, ele desliza. (...) A noção de
comentário em Foucault inscreve-se nos processos de disciplina-
rização do discurso e na domestificação da diferença.
Essa definição de comentário interfere também no sentido da
atuação daquele que elabora comentários sobre as matérias jorna-
lísticas. Ao buscar ressignificar a notícia e, cada vez com maior fre-
quência, avaliar o produto jornalístico, ele é um colaborador ativo
na produção de sentido do texto noticioso e também na avaliação
do jornal impresso ou do portal de notícias. Em decorrência, tam-
bém como herança das análises orquestradas no período anterior
ao advento do webjornalismo, avalia-se que o comentário assinado
pelo leitor se integra ao gênero do jornalismo opinativo, o qual in-
clui, além deste, o editorial, o artigo, a crônica e a opinião ilustrada
(MELO, 1994, p. 61).
A reatividade, isto é, a forma como os leitores reagem a um de-
terminado conteúdo jornalístico, ganhou novas dimensões com a
disponibilidade das caixas de comentários apresentadas no final da
maior parte das matérias constantes nos portais. Sob o manto do
anonimato público (não para as empresas da mídia, que exigem a
declaração da identificação civil do leitor, preservando-a, porém, sob
sigilo), os comentários virtuais são avaliados como os sucedâneos
da seção “cartas dos leitores” constantes nas publicações impressas,
mostrando-se bem mais liberais que estas tanto em relação ao espaço
disponível para a elaboração do texto quanto na linguagem utilizada
na composição das mensagens.
O aprimoramento das possibilidades de interação virtual e a am-
pliação da mobilidade, com a disponibilização dos tablets e smar-
tphones, favoreceram o acesso imediato às matérias jornalísticas, as-
sim como a pronta elaboração e envio de respostas dos leitores frente
aos conteúdos noticiosos. A rapidez da ação imposta aos jornalistas
contaminou os leitores-comentadores, os quais também incorrem
em múltiplos erros em suas mensagens, desde falhas na leitura da
matéria e imprecisões de escrita até o oferecimento de informações
não intencionalmente deturpadas. Além disso, muitos comentários
são compostos e compartilhados no “calor da hora”, permitindo que
110
transpareça a irritação ou indignação do comentador e, em alguns
Mídia e Sociedade em Transformação

casos, o uso de palavras agressivas. Por mais que os portais se sirvam


de filtros para identificar e impedir a publicação de comentários des-
temperados, uma parte deles consegue superar a censura institucio-
nal e acaba sendo compartilhada.
Tomando-se como exemplo o comportamento dos leitores das
notícias veiculados pelo UOL, percebe-se que, com uma certa cons-
tância, os comentários visam o jornalista que assinou uma determi-
nada matéria, taxando-o de “estagiário” porque houve a avaliação
de que o texto contém imprecisões, não esclarece suficientemente o
fato explorado, o título conferido à matéria não apresenta coerência
com o conteúdo vinculado ou porque supostamente o jornalista está
comprometido com algum interesse político-partidário ou empresa-
rial. Mais ainda, a própria informação é corriqueiramente colocada
em causa como insuficientemente importante para constar da pau-
ta, sobretudo quando versa sobre a vida particular de personagens
públicos, especialmente quando o personagem focado é um artista
popular. Sobre essas matérias, frequentemente são direcionadas iro-
nias, sendo a mais reprisada delas o rótulo de “notícias que vão mu-
dar o mundo”, expressão que ganhou gosto público ao ser adotada
como título de uma das seções constante do blog Kibe Loco. No âm-
bito do UOL, uma matéria que informava sobre a presença do cantor
Chico Buarque na praia de Copacabana ao lado de sua namorada
foi avaliada por uma legião de comentadores que não só digitaram o
bordão mencionado acima como também enviaram mensagens que
diziam “E eu com isso?” e “Ah, é ???”.
O texto gerado por um jornalista pode também servir de pre-
texto para que os leitores derivem suas observações para eventos e
situações inesperadas. Assim, uma notícia sobre o fracasso do time
brasileiro na Copa do Mundo de futebol ocorrida em 2014 contou
com muitos comentários que versaram sobre o desatino e a corrup-
ção endêmica que assola a administração pública federal. O próprio
evento noticiado foi relegado a segundo plano, imperando as críti-
cas ao governo petista como subtema privilegiado nas discussões.
Nesses casos, o desvio dos comentários em relação ao teor central
das notícias aponta para a substituição do assunto explorado pelo
jornalista por outro de interesse imediato da sociedade ou de alguns
grupos que a compõem.
Os jornalistas tendem a não responder as críticas que lhe são
endereçadas pelos seus leitores, reprisando no webjornalismo (mas
111
nem tanto nos blogs) o comportamento que historicamente tem-se

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
registrado em relação aos jornais impressos (WOLF, 2001, p. 246;
GOLDBERG, 2010). Um diálogo indireto ocorre somente quando os
leitores apontam erros crassos dos comunicadores, sobretudo de re-
dação, que rapidamente são discretamente corrigidos. Não obstante,
percebe-se um certo esmaecimento dos papéis clássicos atribuídos
aos jornalistas e aos leitores; na rede, os papéis tendem a se confun-
dir, assim como a matéria jornalística deixa de ser apenas o produto
gerado pelo jornalista, passando a ser este somado aos comentários
elaborados pelos leitores-comentadores.
Antes de ser realizada a análise conteudística de um bloco de
comentários, é importante questionar por que as pessoas se predis-
põem a empenhar algum tempo – curto ou longo, não importa – do
seu cotidiano na redação e envio de mensagens sobre ou a partir
das notícias veiculadas pelos portais. Os motivos são vários e é pra-
ticamente impossível verificá-los empiricamente dado ao fato de os
gerenciadores dos portais não fornecerem informações sobre a real
identidade dos comentadores.
O mais corriqueiro na bibliografia constitui-se na afirmação se-
gundo a qual a seleção e compartilhamento de notícias e a decisão
de recorrer à caixa de comentários correspondem ao intento do cida-
dão-leitor de expressar suas opiniões e interagir com outros leitores.
Dessa forma, o comentador não só enriquece a sua própria existên-
cia mediante a troca de opiniões, como também concorre para o for-
talecimento do espírito democrático de uma sociedade (FONSECA
RIBEIRO, 2014; SHOEMAKER et al., 2010). Com isso, firma-se o
suposto de que o consumo de um produto elaborado no âmbito da
comunicação massiva não implica em sua aceitação passiva, mas sim
como etapa inicial de um processo que se desdobra em questiona-
mentos, verificação das possibilidades de encaixe do teor da notícia
no conjunto de experiências individuais e grupais e no trabalho de
ressignificação da informação. É a partir desse conjunto de opera-
ções que ocorre a (re)construção da identidade cidadã (GARCÍA
CANCLINI, 2008).
Apesar de não se negar a validade dessas ponderações, outros
elementos podem ser elencados como incitadores da metamorfose
do leitor em comentador. Acredita-se que, ao ser posto em funcio-
namento, um portal de notícias assume a defesa de um conjunto de
valores que lhe confere uma identidade midiática própria e que os
leitores-comentadores compactuam ativamente com essa identida-
112
de, aceitando parcialmente os valores da empresa de comunicação
Mídia e Sociedade em Transformação

ao mesmo tempo que se empenham em declarar e fazer aceitas as


opiniões que julgam serem suas. Tanto a cooptação quanto o conflito
entre os usuários e a empresa de comunicação dá sentido a um mo-
vimento essencialmente dialético que adequa o portal ao seu cliente
e este ao portal. Nesses termos, sela-se o “contrato comunicacional”,
no qual as partes envolvidas compactuam porque estão imersas em
uma mesma dimensão da cultura (LOPES, 2004, p. 42).
Claro está que essa identidade compartilhada não implica em ho-
mogeneidade de posicionamentos. São frequentes as críticas dos co-
mentadores endereçadas aos jornalistas e às empresas patrocinadoras
dos portais de notícias, da mesma forma que, mesmo não publicamen-
te, os comunicadores criticam os posicionamentos dos seus leitores.
A questão identitária coloca-se também no plano da interação
que ocorre entre os comentadores de notícias. São frequentes os
comentadores que repetem uma mesma mensagem várias vezes no
decorrer do período temporal no qual uma matéria é exposta com
destaque, principalmente quando fica alocada na página de abertu-
ra do portal. Registra-se também que, para reivindicar com vigor
uma autoidentidade, é premente a existência de um “outro”, aquele
que incorpora a alteridade (CUCHE, 1999, p. 176). São comuns as
mensagens dedicadas em responder a outros comentários, como é
frequente que o dialogismo instaurado pela diferença de opiniões
descambe para observações inflamadas e agressivas. Um exemplo
dos dias de hoje – este texto está sendo produzido em abril de 2015,
quando o Estado brasileiro vivencia uma crise institucional –, rela-
ciona-se com a recorrência de comentários acerca das circunstâncias
ideais para se pedir ou não o impeachment da presidente Dilma.
A frequência com que um leitor se traveste de comentador
também é um indício da constituição da identidade individual. A
circunstância de o webjornalismo, incluindo a caixa de comentá-
rios, tornar-se possível mediante a utilização de uma plataforma
que se transformou em “janela para o mundo” permite a pondera-
ção de que tal janela conta com mão dupla, não só apresentando o
mundo para o leitor, mas permitindo também que este se apresen-
te potencialmente para todos os sujeitos que estejam conectados à
rede. Nesse sentido, a confluência de posicionamentos e interesses
favorece a constituição de uma identidade comunitária que torna
imediata a detecção dos “desviantes”, aqueles que confidenciam
opiniões diferenciadas, permitindo sua reprovação pelos demais
113
comentadores. Assim, o ato de comentar notícias pode ser entendi-

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
do como um exercício de afirmação de identidades e consolidação
de laços virtuais de solidariedade, fenômeno ainda escassamente
focado nos estudos do campo da comunicação.
Outros elementos incitadores da produção de comentários po-
dem ser localizados no plano das subjetividades, sem contudo afas-
tar-se da questão identitária. Um dos autores deste texto casualmen-
te travou contato com um professor aposentado que se declarou
orgulhoso por ser “um comentador voraz de notícias”, acrescentando
redigir e encaminhar “até vinte” comentários em um único dia, sen-
do que personagens como estes têm sido classificados, não sem um
risco de recorrência a uma terminologia inexata, como “comentado-
res profissionais” e “verdadeiros profissionais da escrita” (FONSECA
RIBEIRO, 2014, p. 14). Instado a explicar as razões que o levam a
empenhar uma parcela considerável do seu tempo na elaboração e
disseminação de comentários, o velho docente justificou-se:
Desde que me aposentei, eu tenho bastante tempo livre para fa-
zer o que quero. E escrevo por dois motivos: o primeiro é matar
o tempo, principalmente de noite, quando sinto mais solidão. O
segundo é porque escrevo, envio e, quando é publicado nos sites
que frequento, mando o link da notícia para meus amigos. Isto
me dá prestígio (...) prova que aposentado não está desligado do
mundo, pelo contrário, eu estou vivo, penso e participo de tudo
A fala do professor demonstra que são muitos os motivos que
coagem uma pessoa a desempenhar a função de comentador de notícias.

A NOTÍCIA SOBRE A MORTE DE UM PASTOR E SEUS COMENTADORES

David Martins Miranda, o missionário que em 1962 criou a Igre-


ja Pentecostal Deus é Amor, faleceu subitamente aos 78 anos no final
da noite de um sábado, 22 de fevereiro de 2015. Miranda emblema-
va uma das alas mais discretas das igrejas que foram colocadas em
funcionamento a partir da década de 1950, não podendo ser iguala-
do em popularidade e críticas a outros líderes religiosos que se inti-
tulam pastores, missionários, apóstolos ou bispos, como o também
pentecostal Silas Malafaia, do ministério Vitória em Cristo (ligada à
Assembleia de Deus), e os neopentecostais Edir Macedo, da Igreja
Universal do Reino de Deus, e Valdemiro Santiago, da Igreja Mun-
dial do Poder de Deus. Sem explorar com intensidade o meio televi-
sivo, mas contando com uma vigorosa rede de emissoras de rádio, a
114
Deus é Amor é avaliada como a quinta principal instituição religiosa
Mídia e Sociedade em Transformação

do país, contando com 22 mil templos localizados no Brasil e com


filiais espalhadas em outros 136 países.
O UOL noticiou a morte de David Miranda no início da ma-
drugada do domingo, em uma nota que apenas informava que o
fundador da Deus é Amor havia falecido. Duas horas depois, um
comentador que usou o pseudônimo O Bruxo enviou a seguinte
mensagem: “Quem é esse cara, coloca a foto dele”1 . Demorou pou-
cos minutos para o portal incluir uma foto de tamanho médio do
morto, e, a partir de então, atualizou diversas vezes a matéria naquele
domingo, acrescentando ao texto inicial que o óbito se dera por in-
farto, o local onde seria realizado o velório e que o enterro se daria na
terça-feira seguinte, abrindo espaço também para retratar o lamento
de uma das filhas do religioso, a também pastora Débora Miranda
(CAMARGO, 2015).
Na sua forma final, o texto jornalístico foi construído com ape-
nas 311 palavras, o que espelha a reduzida importância que o UOL
dispensou ao religioso e à sua morte. Apesar de avaro em palavras,
desde as atualizações iniciais, a matéria empenhou 36 palavras para
informar que, em 2004, a Deus é Amor chamou a atenção públi-
ca por ter inaugurado o “gigantesco Templo da Glória de Deus”, na
Avenida do Estado, na cidade de São Paulo, com capacidade para
acomodar 60 mil fiéis.
Nessa rota, é necessário ressaltar que as matérias jornalísticas
se constituem em textos culturais que adotam e disseminam um
conjunto de valores e representações que conferem identidade ao
veículo de comunicação, atraindo ou afastando os leitores em po-
tencial. As reformas ocorridas na Folha de S. Paulo a partir de me-
ados da década de 1980 não se restringiram à informatização das
redações, englobando também um novo design inspirado no jornal
norte-americano US Today e em uma nova estratégia de avaliação
dos fatos. A partir de então, a Folha passou a reclamar para si a
função de porta-voz privilegiada da modernidade tardia (o jornal
preferia falar em pós-modernidade) no contexto nacional, posicio-

1
A transcrição dos textos dos comentadores será literal, inclusive com as abreviações e
imprecisões constantes nos textos.
115
namento que também impregnou seu portal de notícias (SILVA,

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
1991; FOLHA DE S. PAULO, 2003).
Tanto a Folha quanto o UOL nutrem a tendência de se mostra-
rem sóbrios e respeitosos ao apresentar notícias e análises sobre os
princípios religiosos de qualquer confissão, sobretudo as chamadas
“confissões históricas”, como o catolicismo apostólico romano, o is-
lamismo e o credo hebraico. No entanto, quando o foco da notícia
são as instituições religiosas, tal postura mostra-se reticente, espe-
cialmente em relação às igrejas mais populares, neopentecostais e
algumas pentecostais. Acusações, veladas ou não, referem-se à ex-
ploração econômica dos fiéis mediante a imposição de dízimos e
doações para não só enriquecer alguns de seus líderes, mas também
para que estes deem vazão a projetos megalomaníacos, citando-se
como evidências o Templo da Glória de Deus de David Miranda, o
Templo de Salomão de Edir Macedo e ainda a implantação de redes
de canais de televisão propostas por Silas Malafaia e Valdemiro San-
tiago. A referência ao megatemplo da Deus é Amor no obituário de
seu fundador pode ser entendida como uma informação que con-
templa a face criticável do falecido e da instituição que ele liderou
por mais de meio século.
Ainda na madrugada de domingo, iniciou-se a sequência de co-
mentários que, refletindo o destaque que o UOL concedeu ao fato,
atraiu um número relativamente reduzido de comentadores. No to-
tal, no transcorrer daquele dia, apenas 19 leitores discorreram sobre
o assunto, compondo 32 comentários, já que um mesmo comenta-
dor produziu mais de um texto, sendo que esse total não computou
as cópias que foram postadas duas ou três vezes. Destaca-se que nos
dias seguintes não foram registrados novos comentários, inclusive
porque o UOL não se reportou mais ao assunto, deixando de infor-
mar sobre o velório e o sepultamento do corpo de Miranda.
Pelos motivos já expostos, é praticamente impossível traçar o
perfil dos comentadores, mas pelos nomes ou nicknames adotados,
deduziu-se que 15 deles eram do sexo masculino e um do sexo femi-
nino, enquanto que foi impossível avaliar três outros. Rastreando a
atividade dos 19 comentadores no portal do UOL, constatou-se que
cada um, em média, já havia composto mensagens sobre 1.138 outras
matérias, sendo que alguns deles desempenhavam avidamente essa
tarefa. El Bajulador já havia comentado 6.036 notícias nos últimos
três anos, enquanto que Sanção (que também assina Sanção) havia
escrito sobre 3.138 matérias jornalísticas no mesmo período, poden-
116
do ser qualificados como “comentadores profissionais”. Se sete dos
Mídia e Sociedade em Transformação

indivíduos que postaram comentários sobre a morte de Miranda já


haviam escrito mais de mil observações sobre notícias, apenas cinco
eram autores de menos de uma centena de comentários. Ressalta-se,
ainda, que apenas um dos comentadores estava principiando nessa
atividade, pelo menos no âmbito do UOL.
É importante registrar que dos 32 comentários, 25 (78%) criti-
caram as ações do falecido, seis (19%) voltaram-se para subtemas
que não se referiam diretamente ao missionário, e apenas um co-
mentário (3%) demonstrou simpatia pelo falecido e sua obra. Ain-
da mais, dentre as possibilidades interativas entre os leitores, existe
a de avaliação dos comentários; neste caso, foram registradas 136
avaliações, sendo que 127 (93%) delas consideraram positivo o teor
das mensagens, enquanto que as nove (6%) restantes classificaram-
nas como negativas. Destas últimas, cinco foram endereçadas ao
único comentário favorável a David Miranda, e as demais, a um
comentário que enveredou para a negação da existência do paraíso.
O internauta dispunha também da oportunidade de denunciar a
matéria como peça veiculadora de preconceito ou discriminação,
mas nenhum deles se serviu desse recurso.
Estabelecido o pano de fundo dos comentários, cabe agora a aná-
lise de conteúdo do corpus assumido para a realização da pesquisa.
Todos os que se referiram diretamente ao missionário, com exceção
de um comentador, adotaram um tom ácido, reconhecido por um
deles com a seguinte afirmação: “eu, Sansão, declaro-me além do li-
mite do MODERADO , hiii, hi, hi”2 (Sanção).
O primeiro e mais importante recorte alimentado pela notícia
por parte dos comentadores foi associar a figura do morto ilustre
com o propósito religioso de explorar os agrupamentos humanos
que foram classificados como “miseráveis” e/ou “ignorantes”, evi-
tando com isso levar em consideração qualquer positividade da fé
e da religiosidade, pelo menos no âmbito da igreja Deus é Amor e
algumas outras organizações próximas a ela. Para os comentadores,
aderir à igreja do missionário Miranda era uma atitude circunstan-
ciada pela pobreza e pelo pretensamente escasso capital cultural das
camadas subalternas.

As palavras grafadas em caixa alta constam no original dos comentários aqui reproduzidos.
2
117
A caracterização estigmatizada dos fiéis desdobrou-se na qua-

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
lificação do missionário da Deus é amor. Nos comentários, Davi
Miranda foi repetidamente qualificado como “empresário da fé”,
“explorador dos inocentes”, “estelionatário” e “pilantra”, e sua morte
comemorada de diferentes formas, como “menos um para sugar o
sangue dos inocentes” (Alvinegro Imponente) e um indivíduo que
“construiu 11 mil templos não com seu dinheiro, mas achacado dos
que acreditavam nas mentiras dele” (Ronaldo).
Em continuidade, Miranda foi enquadrado no grupo de religio-
sos cujo ramo de atuação era a exploração dos crédulos, concluindo-
se que “infelismente [sic] todas as igrejas estão infestadas de picare-
tas estelionatários” (Mané) e que, por isso, um comentador enfatizou
“duvido que [a Deus é Amor] tenha filiais (...) na Alemanha e no
Chile, pois lá as igrejas também pagam imposto de renda” (Ronal-
do). Até mesmo os lamentos da filha do pastor foram ironizados:
“um amor de pessoa para a diretora financeira da entidade” (Tocan-
do em Frente), já que Débora Miranda ocupava um papel destacado
na hierarquia da igreja, sendo responsável pelo gerenciamento eco-
nômico da entidade.
Atribuída uma identidade negativa ao morto, os comentários
passaram a discorrer sobre o encaminhamento da alma do missioná-
rio: “Finda o ciclo deste grande empresário da fé. Tal qual Edir Ma-
cedo fez imensa fortuna à custa do desconhecimento humano. (...)
Quanto ao paraíso, ele já o viveu” (Jupteriano). Assim, só lhe restava
o inferno como destino: “o diabo está em festa” (Rocha); “o tinhoso
já está armando a cama para o próximo. Edir Macedo! Kkkkkkkk”
(Caboclo Bizarria); “foi recolhido pelo capeta, mais conhecido como
tinhoso, ao seu devido lugar!!! (Idem); “o tinhoso o aguarda” (Ada-
maski Rostóv), “foi ter com o diabo” (Nena) foram algumas das pon-
tificações. No inferno, “este vai prestar conta para valer” (Figueiredo)
inclusive porque, asseveraram vários comentadores, ele será punido
com a fome e com a obrigatoriedade de pagar dízimos, condições
que, quando vivo, ele teria imposto aos seus seguidores.
Outra dimensão abordada pelos leitores-comentadores referia-
se ao vácuo aberto pela morte do líder de uma igreja popular. As res-
postas para essa questão também fluíram para uma única conclusão,
sintetizada nos seguintes termos: “Logo logo outro pilantra toma o
lugar dele e assume a mamata de explorar os seus fiéis inocentes”
(Ronaldo). Outro comentador afirmou o seguinte:
118
Morreu, mas infelizmente é igual a traficante e logo vai ter outro
Mídia e Sociedade em Transformação

oportunista para continuar a pedir grana para o “SENHOR”, no


caso o próprio. Enquanto qualquer pessoa precisa acreditar em
outra, vai ter este tipo de gente pregando para viver nas costas
dos outros (Tocando em Frente).
Como já foi assinalado, os comentários instruídos por uma de-
terminada notícia tendem a extrapolar o teor central da própria ma-
téria jornalística, derivando para o enfoque de assuntos correlatos. O
corpus visitado não se afastou dessa regra. Dois foram os subtemas
invocados pelos comentadores: as relações espúrias entre religião e
política e a existência ou não do paraíso segundo os termos propos-
tos pelo cristianismo.
Sobre as articulações entre a Igreja e os líderes religiosos com
o Estado, a dimensão adotada foi a de um conluio ilícito, premissa
sintetizada em um dos comentários:
Igreja e estado são parceiros num negócio chamado povo. A lei
protege a igreja e seus bispos de qualquer ação por parte do go-
verno. O dinheiro sujo é lavado nos cestos de dizimo. (...) A
igreja está envolvida no estado paralelo, diretamente, está en-
volvida na lavagem de dinheiro. Antes o pastor virava vereador,
agora vira senador. A igreja e o estado não me enganam mais.
(VampirishV).
Outro comentador apoiou e também complementou a obser-
vação acima:
Xii mais um para ser canonizado, virar estatua [sic] e distrair o
povo, enquanto os políticos... nadam de braçadas. Pobre republi-
queta. Povo no curral, povo “feliz”. Quantas gerações vão ter que
passar, para isto aqui virar um país????? (El Brigador).

A afirmação segundo a qual a alma do missionário Miranda teria


como destino o inferno pelos “desvios” cometidos em vida derivou
para a produção de comentários sobre o paraíso, resultando em co-
mentários inflamados que garantiram a dialogia mediada pelas má-
quinas computadorizadas. No rol das ponderações, um comentador
deu início aos debates sobre essa questão com a seguinte observação:
“Cristo disse, dai de graça o que recebeste de graça, mas esta gente
teima em ficar ricos. Será que vão mesmo para o ilusório paraíso??”
(M. Valvemark SP).
A resposta a este comentário não tardou:
119
O paraíso existe em nossas consciências a respeito de nossas

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
ações às quais terão julgamento final por NÓS mesmos. NÓS
criamos este Universo em concordância, portanto todos somos
DEUSES assemelhados. FOMOS traídos e estamos ainda... RE-
LIGAR é a tentativa. No sentido religioso. Desejo que todos rea-
lizem seus sonhos e quanto aos traidores, ainda teremos muitas
batalhas! (Celito Medeiros).

A defesa da existência de um paraíso, mesmo que em “nossas


consciências”, alarmou alguns comentadores. O autor da observação
que inaugurou o debate replicou com a seguinte anotação: “Paraí-
so!!! Estou esperando alguém voltar de lá para me dizer se realmen-
te ele existe. Por enquanto o único Paraíso que conheço é o bairro
do Paraíso na região central de São Paulo!!” (M. Valvemark SP). O
confronto de ideias chamou a atenção de outros visitantes da caixa
de comentários; um deles retrucou: “Para o argumento do ‘moço’
que duvida da existência do Paraíso. Estou esperando alguém voltar
de Marte para confirmar sua existência!” (Vasconcellos). Valvemark
não esmoreceu frente às críticas a ele endereçadas e replicou mais
uma vez: “Caro Vasconcellos Jé Ruéla!! Por incrível que pareça, Mar-
te temos a certeza que existe, pois foi comprovada. Agora Paraíso,
ninguém voltou para dizer, Mané!!”.
Agressividade verbal e ironia no processo de interação apon-
tam para a consolidação de identidades inclusive no espaço vir-
tual. A postura quase que uniforme na tarefa desqualificadora do
religioso morto foi mantida, mas quando as observações ruma-
ram para subtemas, ocorreu a ruptura da uniformidade de posi-
cionamentos.
Apesar disso, acredita-se que o principal confronto entre os co-
mentadores ocorreu quando se deu o pronunciamento do único in-
ternauta que se mostrou, mesmo que timidamente, simpatizante do
criador da igreja Deus é Amor, podendo ser definido como o polo
de alteridade necessário para a reiteração da identidade grupal. A
mensagem destoante foi a seguinte:
[o pastor Miranda] foi trabalhador no Evangelho por muitos
anos. Quanto ao seu Galardão e a Vida Eterna pertence a Deus
dar-lhe, portanto, não é próprio para nós fazermos alguns co-
mentários. E lembremos que não temos também propriedade
alguma para fazermos julgamentos: “com a medida de julgares,
serás julgado” (Reizinho).
120
O rompimento da linha interpretativa até então assumida pelos
Mídia e Sociedade em Transformação

comentadores fez com que a anotação de Reizinho não fosse exata-


mente contestada, mas sim desqualificada e ironizada. A resposta
imediata deu-se com as seguintes palavras:
Ô Reizinho, é a primeira vez que vc. aparece por aqui?? e ainda
vem para defender um dos manipuladores da massa ignóbil?? Se
liga... vc deve estar com a cabecinha bem feitinha ... ou trabalha
na organização??? (El Brigador)
Intimidado e provavelmente inexperiente no território dos co-
mentários virtuais, Reizinho não respondeu às múltiplas interroga-
ções impostas por seu crítico. Deixando claro o posicionamento do
grupo aproximado pela notícia analisada, o comentário favorável ao
missionário falecido foi alvo de uma avaliação positiva e cinco nega-
tivas, enquanto que a réplica de El Brigador foi objeto de oito avalia-
ções positivas e nenhuma negativa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Escrever sobre si e sobre o mundo constitui-se em um dos atos


firmadores da identidade e, ao constatar que seus valores e posi-
cionamentos expressos publicamente são aceitos por outros, faz o
indivíduo sentir-se pertencente a uma comunidade de interesses.
A análise dos comentários sobre a morte do pastor David Miranda
abriu-se como mais uma oportunidade de os leitores do UOL exerci-
tarem estratégias identitárias, assim como apresentarem-se afinados
com o próprio portal de notícias.
A aversão anunciada em relação ao religioso e sua Igreja não
pode ser creditada apenas à circunstância de os comentadores serem
ateus ou renegarem a Deus é Amor. Duas semanas após a morte do
pastor, o UOL informou através de múltiplas e extensas matérias a
morte da poetisa, cantora de música caipira e apresentadora de pro-
grama de televisão Inezita Barroso; o fato foi assunto explorado por
um número significativo de comentadores que, em coro, adotaram
um tom reverente em relação à falecida, mesmo que vários deles re-
jeitassem a importância da música “de raiz”. Assim, não compactuar
com o que foi realizado em vida por um personagem não implica
automaticamente em destrato para com sua morte.
David Miranda, como todo vivente, contou com simpatizantes e
antagonistas. Se na tela do UOL ele foi execrado, nas mensagens pos-
121
tadas no domingo invocado neste texto no portal da Deus é Amor e

a identidade do comentador de notícia no webjornalismo


A morte do missionário:
nas páginas do Facebook de seus seguidores, ele foi aclamado como
“homem de Deus” e “meu pai na fé” que, morto, “está com o pai” e
“já se encontra no seio de Abraão”. Nesses termos, focar os comentá-
rios realizados no contexto do webjornalismo e no ambiente virtual
como um todo se torna um importante instrumento para o (re)co-
nhecimento das identidades contemporâneas, condição que os cam-
pos da Comunicação e das Ciências Sociais não podem deixar de
contemplar como privilegiado tema de inquirição.

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3
PARTE
127

Underground no
O Pasquim: uma
experimentação
histórica de
jornalismo1 Este texto analisa a coluna
Underground, de Luiz Carlos Ma-
ciel, publicada no O PASQUIM
no período de maio de 1970 a
Célio J. Losnak fevereiro de 1972. O viés de abor-
Giuliana Chorilli dagem é identificar historicidades
do periódico alternativo nas in-
terfaces entre ditadura, movimen-
tos sociais e imprensa, nas tensões
entre tendências dominantes do
jornalismo e experiências autô-
nomas e insurgentes, nos anos
1960 e 1970, suscitadas por movi-
mentos culturais de contestação,
experimentais e contraculturais.
A coluna Underground se nutria
de tendências e debates políticos e
culturais internacionais, dialoga-
va com movimentos críticos aos
saberes consolidados, racionais e
à moral tradicional e alimentava
propostas irreverentes, conside-
radas libertadoras para além da
política partidária, estava orga-
nicamente interligada ao jornal
semanal e revela uma proposta
particular de jornalismo.
128
O PASQUIM E SEU TEMPO
Mídia e Sociedade em Transformação

Abordar a trajetória do O PASQUIM demanda uma problema-


tização abarcando alguns condicionantes históricos. Um deles se re-
fere à imprensa alternativa, expressão cunhada pelos próprios atores
envolvidos na produção periódica. O rótulo do alternativo abarcou
publicações variadas, sob diferentes orientações, com objetivos ligei-
ramente matizados e em espectro que variou no tempo e nos perfis
editoriais entre 1964 e a primeira metade da década de 1980. Apesar
da diversidade, Kucinski (1991) destaca o viés de oposição à Dita-
dura Militar com ênfases específicas e interfaces tênues entre eles,
ora denunciando práticas autoritárias e violentas, ora discutindo a
política econômica, alguns representando programas partidários e/
ou reportando as condições de vida e de trabalho dos segmentos po-
pulares, outros discutindo direitos de minorias, além daqueles que,
sintonizados ao movimento contracultural, centravam-se na “crítica
dos costumes” e na intenção de “ruptura cultural”2.
Segundo Kucinski, as publicações tinham referências no tema do
nacional-popular, que tomara corpo nos anos 1950, e nas orienta-
ções marxistas mais difundidas nos anos 1960. O norte era a política
voltada para discutir a atuação do Estado, o fortalecimento econô-
mico autônomo do país, a ampliação dos direitos políticos e sociais,
a organização de grupos de vanguarda política e a organização autô-
noma dos segmentos populares, operários e camponeses3. No plano
cultural, a contracultura era uma das referências para alargar as re-
gras de comportamento e moral dos jovens e tencionar a arte diante
de novas formas de expressão no cotidiano.
Embora essa produção impressa estivesse inserida nas relações de
mercado e dependesse de subsídios oriundos de leitores, anunciantes

Este artigo é dedicado à Fabia Renata de Oliveira, que nos abriu as portas para
a Underground.
1
Este texto parte de uma pesquisa de iniciação científica financiada pela FAPESP
(CHORILLI, 2012).
2
O autor divide os jornais em dois grupos. Um é constituído de objetivos políticos e revo-
lucionários, orientados por tendências partidárias; no livro, o destaque vai para Opinião,
Movimento e Em Tempo. O outro grupo seria movido por interesses jornalísticos, e o
destaque do autor vai para O Pasquim, Versus, Coojornal e Reporter.
3
Alguns se apresentavam no viés leninista como instrumento de partido.
129
e até financiamentos extras, a atividade fim era ser ator político. O

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


lucro era uma questão secundária. O desejo de mudar animava inú-
meros jornalistas a criarem veículos e a tentarem manter-se mesmo
diante dos perigos postos pelos militares, pelas carências orçamentá-
rias e pela raridade de anunciantes4. O ideário anticapitalista espraia-
do entre profissionais e jovens aproximava redatores e leitores, “in-
telectuais, jornalistas e ativistas”, na busca por um novo futuro, pela
abertura de “um espaço público alternativo” (Idem, p. XXII)5.
Um das questões em jogo nessa tendência para criar jornais al-
ternativos insere-se no contexto histórico da imprensa do período,
e aqui destacamos dois aspectos importantes. Um deles é a atuação
dos jornais desde o mandato do presidente João Goulart. Naquele
momento, os periódicos posicionaram-se contra as diretrizes go-
vernamentais e diagnosticavam a iminência de um crescente perigo
comunista. O ápice dessa tendência ocorreu nos primeiros meses
de 1964, quando os segmentos médios e a burguesia clamaram pelo
golpe, apoiaram a ação dos militares e a imprensa demonstrou ser
ator entusiasta dessas propostas. Jornalistas e empresários atuaram
na luta contra a suposta ameaça comunista em grandes veículos pau-
listas, tais como O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo (AQUINO,
1999; DIAS, 2010; LOSNAK, 2005), e cariocas, por exemplo, o Jornal
do Brasil e o Correio da Manhã (CHAMMAS, 2012).
Posteriormente, as fraturas foram surgindo, as dúvidas e dissi-
dências gradativamente reposicionavam os jornais à medida que as
restrições censórias se intensificavam (AQUINO, 1999). Censuras in-
terna e externa mesclavam-se e conviviam nas redações, suscitavam
estratégias criativas de insubmissão – mesmo que muitas vezes quase

4
Kucinski afirma que inúmeros periódicos tiveram vida curta. Apenas vinte e cinco circu-
laram por até cinco anos. Dentre os cento e cinquenta pesquisados, “uma em cada dois
não chegava a completar um ano de existência. Vários ficaram apenas nos primeiros
dois ou três números” (Idem, p. XXIV). Do total, apenas O PASQUIM teria sobrevivido
durante a segunda metade dos anos 1980 e circulado até 1991 (JAGUAR; AUGUSTO,
2006).
5
Em abordagem mais ampla, Moreira (1986) insere a imprensa alternativa no movimen-
to cultural alternativo dos anos 1960 e 1970 que adquiria variadas denominações. “Ser
alternativo no início da década de 1970”, afirma ela, “significava produzir fora da zona
de influência direta do Estado ou à margem do aparato industrial que cercava qualquer
produto...” (Idem, p. 30). A tendência opunha-se à ditadura e, portanto, à cultura oficial,
mas também se opunha à “cultura oficial de esquerda” dirigida pelo CPC da UNE.
130
imperceptíveis pelos leitores – e, por outro lado, aceitação, autocen-
Mídia e Sociedade em Transformação

sura e subterfúgios para manutenção dos negócios ou ainda sintonia


aos discursos governamentais (SMITH,1999; KUSHNIR, 2004). Sair
dessas redações e criar espaços mais livres de atuação político-profis-
sional era um dos objetivos dos jornalistas que buscavam novas ex-
periências, muitas vezes sem sair do emprego estável e claustrofóbico
das redações tradicionais, apenas colaborando ocasionalmente.
A segunda questão em jogo era a insatisfação dos profissionais
com a estrutura rígida que a imprensa consolidava naqueles anos
de 1960 e 1970. Sair das redações tradicionais era um meio de bus-
car novas experiências profissionais alternativas. Ribeiro (2007) de-
monstra a intensificação das transformações do jornalismo nos anos
1950. A edição de “Regras de Redação do Diário Carioca”, em 1950,
simbolizou a sistematização institucional do chamado jornalismo
moderno. Essa implantação programática passou também pela pa-
dronização do texto usando o lead, a revisão e adaptação pelo co-
pidesque, a formatação de um texto objetivo e impessoal, sem adje-
tivos, banindo a polêmica, os recursos literários e os elementos que
marcariam a autoria do redator6. A opinião deveria estar relegada ao
editorial e às colunas, incluindo a crônica, mesmo assim sem doutri-
nas, com comedimento.
Observadas pela perspectiva atual, é possível afirmar que as mu-
danças ocorridas na imprensa a partir do início da década de 1980
foram muito mais profundas e impactantes na autonomia do proces-
so de trabalho dos jornalistas (ABREU, 2002; SILVA, 1991; SILVA,
1988) do que aquelas dos anos 1960 e 1970. Entretanto, para os ato-
res do período, as mudanças eram vividas no limite. Era como se os
profissionais estivessem à beira da ruptura e sentissem necessidade
de buscar alternativas de distensão.
Em diversos vieses, a revolução estava na ordem do dia. Ridente
(1993, p. 79) afirma que o “debate político e estético” foi marcado
pela ideia de revolução política, econômica, cultural e pessoal, prin-

6
Silva (1991) mapeia profissionais que atuaram nos EUA e depois implantaram algumas
técnicas no Brasil, tais como Pompeu de Souza e Danton Jobim, no Diário Carioca, e Al-
berto Dines, no Jornal do Brasil. As mudanças do Jornal do Brasil durariam vários anos;
o momento inicial ocorreu em 1956-57, posteriormente, em 1961, era iniciada uma
nova fase sob coordenação de Alberto Dines que, por exemplo, introduziu as editorias
(FERREIRA, 1996; ABREU, 2002).
131
cipalmente entre 1964 e 1968. “Rebeldia contra a ordem e revolução

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


social por uma nova ordem” orientaram as reflexões e práticas nos
“movimentos sociais”, nas “manifestações artísticas e nos debates
estéticos”. A miríade percorria diferentes referenciais, tais como Re-
volução Cubana, Maio Francês, movimento hippie e contracultura,
redirecionando os costumes, e contribuiu para a formação de uma
“massa política crítica” (p. 86) entre os setores intelectualizados que
alimentou em significativa diversidade “o impulso para o debate, a
luta, a ação criativa” (p. 104)7.
O PASQUIM é um agente importante surgido nesse contexto
político-cultural e considerado a primeira publicação alternativa de
destaque do período. Iniciado em 26 de junho de 1969, por um gru-
po de desenhistas e jornalistas, com alegado objetivo lúdico-político,
distante das questões partidárias, foi espaço de experimentação, a
partir de trajetória profissional anterior dos envolvidos e com algu-
mas afinidades8.
A obra clássica sobre o jornal é o livro de José Luiz Braga (1991),
abarcando o período entre o lançamento, em 1969, e dezembro de
19829. Braga faz ampla e meticulosa análise do veículo e o mapeia,
identificando periodizações a partir das mudanças editoriais, arti-
culadas às transformações da conjunta política e social do país, e
demonstra haver significativa variação de temas, abordagens e ad-
ministração em todo o seu período de existência.
A primeira fase é denominada pelo autor de dionisíaca, indo do
primeiro número até o momento da prisão de parte do grupo no

7
E o anticapitalismo (historicista e vanguardista) foi incorporado e reelaborado pela
indústria cultural (RIDENTE, 1991, p. 101). Dentre os vanguardistas, destacam-se os
tropicalistas, um segmento do Cinema Novo, o Teatro Oficina, Hélio Oiticica, os irmãos
Campos e o neoconcretismo que se mantinham em constante tensão com os partidá-
rios da linha nacional-popular.
8
Há versões diferentes para o processo de criação, principalmente em torno do pro-
tagonismo dos atores. A equipe inicial que decidiu pela abertura teria sido composta
por Jaguar e Tarso de Castro, que convidaram Sérgio Cabral, Claudius, Carlos Prosperi.
Todos eram sócios com 10% cada um. Os dois últimos trabalharam com o projeto gráfi-
co (JAGUAR; AUGUSTO, 2006). Metade do negócio pertencia à Distribuidora Imprensa,
empresa proponente do jornal. Na versão de Luiz Carlos Maciel, ele também teria
participado das reuniões iniciais.
9
Jaguar afirma que o periódico circulou até 1991, 11 de novembro de 1991 (JAGUAR;
AUGUSTO, S., 2006, p. 8).
132
final de 197010. A partir da libertação e reorganização da direção,
Mídia e Sociedade em Transformação

principia a segunda fase, denominada de a “longa travessia”, inicia-


da na edição 80, de janeiro de 1971, e finalizada na edição 300, de
março de 1975, momento de suspensão da censura prévia. Para o
autor, essa segunda fase não é homogênea e ele a subdivide em duas.
A primeira compreenderia o período de janeiro de 1971 a setembro
de 1972, fase de direção do Sérgio Cabral e de início da reorganiza-
ção administrativa e financeira do grupo. A segunda ocorreria entre
setembro de 1972 e março de 1974, sob a direção e edição de Millôr
Fernandes, período de consolidação do periódico11. Como a coluna
Underground de Maciel perdura de meados de 1970 até o início de
1972, nós nos limitaremos a explicitar aspectos gerais mais significa-
tivos e, especialmente, desse período.
Inicialmente, o jornal pretendia ser crítico aos costumes, em
viés humorístico, coloquial e intimista, com referencial cultural dos
moradores e frequentadores de Ipanema, voltado para intelectuais,
jovens, artistas e profissionais liberais, particularizado no cultuado
charme carioca e na enaltecida capital cultural do Brasil. Por isso,
ele surgiu com um “jornal de bairro”, mas extrapolou todas as inten-
ções e previsões em abordagem da moral, uniu política e sexo, no-
tabilizou-se por posicionamento “visceral” de expressão da emoção
e do afetivo em contraposição ao cerebral e lógico (BRAGA, 1991, p.
217-19)12. Já nos primeiros meses, notabilizou-se pelo perfil humo-

10
A prisão ocorreu em 1º de novembro de 1970, momento em que estava sendo
rodada a edição 72, e teria durado até o fim de dezembro. Naquele momento, foram
presos Ziraldo, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel, Paulo Garcez, Haroldinho e Jaguar. As
informações são desencontradas, mas tudo indica que os números de 73 a 77 foram
produzidos de maneira improvisada e com alguns colaboradores, a edição 78 já fora
feita pela equipe libertada e lançada em 30 de dezembro de 1970. O número 80 já era
dirigido por Sérgio Cabral, com a saída de Tarso de Castro.
11
Sérgio Cabral permaneceu na direção e no grupo até dezembro de 1971. No início de
1972, Jaguar assumiu a presidência e Ziraldo e Henfil passaram a ser vice-presidentes.
A Underground foi publicada até a edição 135, de fevereiro de 1972. Depois disso,
Maciel continuou a colaborar ocasionalmente com o periódico. Essa fase denominada
de “longa travessia” se caracterizaria por intensificação do jornalismo com maior partici-
pação de ampliação de profissionais da informação.
12
Importante observar que, desde o início, ele parte de uma proposta empresarial lança-
da pela Distribuidora Imprensa e que detinha inicialmente 50% da propriedade do jornal.
133
rístico-político13, de oposição à ditadura14. Com o tempo, foi sendo

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


reelaborado de acordo com desafios financeiros, políticos e do mer-
cado jornalístico, inspirou inúmeros outros periódicos e foi referên-
cia para mudanças da grande imprensa (BRAGA, 1991).
Para Buzalaf (2009), o sucesso do O PASQUIM precisa ser interpre-
tado como decorrência da capacidade do jornal em expressar a cultura
da geração dos anos 1960. Ele veiculava o discurso de segmentos dessa
geração, intelectuais e jovens da classe média que careciam de novos
produtos midiáticos de identificação. Paradoxalmente, o segmento so-
cial mais criticado pelo jornal seria a classe média, por ser considerada
importante pilar de sustentação política do regime militar.
No âmbito jornalístico, a organização da produção do O PAS-
QUIM foi definida de “patota”, uma formação grupal constituída de
relações profissionais horizontalizadas, sem hierarquia e divisão do
trabalho tradicionais, permeada por forças de atração e similaridade,
com a atribuição do trabalho oriunda de preferências e inclinações
pessoais. A pessoalidade seria um dos elementos definidores do jor-
nal. Com sonoridades próprias e multifacetadas perspectivas auto-
rais, emergiam inúmeras vozes. Apesar da ocorrência de conflitos,
contrastes, solidariedade e competição, o ambiente era “carregado de
emoção, de marcas afetivas” (BRAGA, 1991, p. 181)15.
A identidade do veículo foi trabalhada pelos seus profissionais
como expressão do improviso, diversão, amizade e prazer. Kucinski

13
É comum o jornal ser caracterizado por lançar mão do humor. Almeida (2006, p.
33-34) prefere o conceito de derrisão para valorizar o impacto social, político e cultural
das capas. Derrisão está além do riso, que funde “indiferença e desdenho”, ridiculariza,
menospreza, buscando a contestação, a oposição à ordem.
14
Braga (1991, p. 214-15) elenca alguns elementos que são reveladores do posiciona-
mento de oposição do O PASQUIM à ditadura: evidenciar as contradições do governo;
estruturar-se numa ordem em defesa da igualdade e da autonomia, e alternativa à
ordem política da obediência cega e com hierarquia rígida; contra o planejamento gover-
namental, praticavam a criação improvisada; a uma concepção utilitária do trabalho e
fundada no dever e no sacrifício, o grupo propunha o “exercício lúdico motivado pelo
gozo”; à “lógica da eficiência, a produção da patota contrapõe valores humanos como a
amizade, a irritação, a simpatia”.
15
Braga identifica a oralidade dos textos não como transcrição da fala, mas por um tipo
de escrita que permitia maior expressividade e eficácia informativa sem as normas do
texto vigente nas redações tradicionais.
134
(1991) reproduz essa ideia enfatizando que a “patota” era uma or-
Mídia e Sociedade em Transformação

ganização do trabalho regada a álcool e fraternidade de amigos em


constante interação lúdica e rebelde. Por outro lado, há inúmeros
depoimentos dos jornalistas mencionando problemas administrati-
vos, descontroles e desfalques financeiros, desencadeando conflitos,
fraturas, defecções e alterações na liderança. Em contraponto, per-
maneceu na memória até 2006 (JAGUAR; AUGUSTO, 2006) a ima-
gem da confraria que se divertiu, trabalhou e produziu, mantendo a
harmonia, a despeito dos problemas fraticidas16.
Braga (1991) classifica os textos produzidos como de comentário,
análise e opinião, “artigos de autor” com intencional afastamento da
objetividade e perpassando elementos ensaísticos. Segunda ele, não
havia notícia e nem editorias, ou uma estrutura redacional definido-
ra de páginas específicas para determinados assuntos, embora hou-
vesse produções com caraterísticas de colunas. Também não eram
publicadas reportagens. Apesar disso, o viés jornalístico costurava o
impresso, com ênfases na atualidade dos temas, na concretude deles,
no perfil acessível voltado para o grande público, na confiabilidade
da informação, que seria dada pela “imagem do jornalista”, ou seja, a
respeitabilidade elaborada pela reputação do profissional apresenta-
da pelos próprios textos e pelo grupo.
Dentre a longa análise de Braga (1991), destacamos mais dois as-
pectos jornalísticos. A frase-lema era uma característica importante,
mudava a cada número, marcava a opinião sobre a realidade política
e estava no âmbito do humor, que possibilitava um olhar autoirôni-
co, o distanciamento da conjuntura e posicionamento crítico sobre
ela, explorando referências ao contexto e ao próprio jornal e a utili-
zação de temas lugares-comuns para jogar ludicamente com a au-
torreferência e autocrítica. O desenho era importante, qualitativa e

16
Décadas depois, permanece na memória o glamour do desregramento e a irreverên-
cia mesmo diante do descalabro financeiro. “No fundo, o Pasquim não passava de um
Hebdo anarquista, misto de Haraquiri e Village Voice. E, acima de tudo, anárquico – em
todas as suas instâncias, inclusive na vigilância aos que administravam a empresa,
uma sucessão inesgotável de larápios e aldrabões. Enquanto estes agiam (demais
ou de menos), a redação e agregados curtiam e regiam a boemia ipanemense [...]”
(JAGUAR; AUGUSTO, 2006, p. 11). Braga entende esses posicionamentos como a au-
toironia, uma maneira de rir de si mesmo. É possível concordar, mas parece que, além
disso, essas práticas assemelham-se a estratégia de marketing, elaborando a imagem
do grupo com boa reputação de rebeldia e irreverência.
135
quantitativamente, e estava disseminado em quase todas as páginas,

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


produto da integração entre imagem e escrita.

O JORNALISMO DE LUIZ CARLOS MACIEL


NA COLUNA UNDERGROUND17

Underground é obra do jornalista Luiz Carlos Maciel, que co-


meçou a trabalhar no O PASQUIM desde o início e escreveu alguns
textos sobre contracultura até a abertura da coluna na edição de nú-
mero 48, lançada em 22 de maio de 1970. Maciel é gaúcho e nascido
em 1938, cursou Filosofia em Porto Alegre, permaneceu dois anos
em Pittsburgh, nos EUA, estudando direção teatral, onde entrou em
contato com a produção da geração beat e os debates sobre o cer-
ceamento de Cuba18. Morou em Salvador, trabalhou com Glauber
Rocha e ensinou teatro. Foi para o Rio de Janeiro, em 1964, e atuou
por anos como copidesque e redator da revista Fatos & Fotos.
Em seu livro de memórias, Maciel (1996) narra a convivência
com Glauber Rocha, José Celso Martinez e Caetano Veloso para
compor o trio simbólico do tropicalismo e constrói uma narrati-
va articulando os acontecimentos e opções de vida orientados por
“identidades de propósitos e espíritos” comuns àquela geração que
marcaria o perfil do O PASQUIM e da Underground19. Defende a
tese de aproximação entre tropicalismo e contracultura por serem
expressões das condições históricas “psicológicas, subjetivas” em que

17
Na ausência de uma categoria mais apropriada, optamos por denominar essa parte
do O PASQUIM de coluna devido à sua marca autoral. É uma produção que não se
encaixa bem nas categorias de gênero jornalístico e o termo não tem pretensões con-
ceituais por riscos de simplificar uma produção híbrida e heterodoxa.
18
A geração beat (beatniks) era anti-intelectual, escrevia e vivia sob o efeito de álcool e
drogas, buscando aventura desmedida, defendia o cotidiano regido pela sensorialidade,
ludicidade e o desprezo pela carreira e rendimento regular. A polêmica nos EUA em
torno da Cuba comunista sensibilizou Maciel a se interessar pelo marxismo, ainda que
não o tenha incorporado como referência de doutrina política.
19
O autor atribui à geração dele a preocupação com duas questões, articulando
rebeldia política e rebeldia existencial (MACIEL, 1996, p. 15): a) “a busca da liberdade
individual e a felicidade pessoal”, centrada no indivíduo e no afetivo; b) “a busca revolu-
cionária por uma sociedade mais justa e humana”, voltada para a questão histórica. Em
1995, momento de redação do livro, ele reconhece que a força de impulsão daqueles
jovens vinha da mescla de romantismo e ingenuidade, permeados pela sensação/cren-
ça de coragem e desejo de ser herói (Idem, p. 73-85).
136
a juventude voltava-se para a rebeldia em relação às gerações ante-
Mídia e Sociedade em Transformação

riores, a necessidade da “experiência da expansão da consciência” e


da liberdade contra as estruturas de poder (p. 270)20.
Maciel afirma ter sido influenciado, ainda nos anos 1950, pelo exis-
tencialismo, com ênfase em Jean Paul Sartre, Albert Camus e Martin
Heidegger. Nos EUA, conheceu obras de Karl Max e, posteriormente,
de Georg Lukács. Nos anos 1960, e particularmente na coluna Un-
derground, citava autores, artistas e ativistas considerados referências
para expressar as polêmicas e novas propostas daquele tempo. Des-
tacam-se os autores da geração beat e pensadores de várias áreas, tais
como Norman O. Brown e Herbert Marcuse, Wilhelm Reich, Aldous
Huxley, Thimothy Leary e R. Laing (MACIEL, 1987; 1996)21.
Maciel (1996) conta que a iniciativa de criar a coluna com duas
páginas foi do editor Tarso de Castro, oferecendo-a ao autor, tratan-
do do polêmico tema da contracultura e propondo o nome22. O jor-
nalista estava familiarizado com a pequena imprensa independente
produzida nos EUA e na Europa, defendendo e divulgando o ideário
contracultural. O autor cita René Barjavel conceituando a cultura un-
derground como aquilo que “está debaixo da terra, antes do começo
e depois do fim, antes do nascimento e depois da morte”23. Segundo
esse pensamento, a insatisfação com o estabelecido é latente, emer-
ge em determinados momentos, renova-se e busca o renascimento.
Ainda que neutralizada e derrotada, como ocorreu no período, sen-

20
Para Roszak (1972), a contracultura surgiu no contexto da sociedade regida pela
tecnocracia e em fase altamente industrializada, administrada tecnicamente por meio
da racionalização e planejamento. Nela, os indivíduos deveriam submeter-se a rígidas
estruturas de funcionamento e comportamento voltadas para o trabalho produtivo, o
controle do desejo e a satisfação fruída por meio do consumo. O movimento rebelde
apresentava inúmeros vieses, do flower power, psicodelismo e hippies ao apoio a mo-
vimentos políticos como Gay Power e Women’s Lib, ou Black Panthers (MACIEL, 1987,
1978, 1996; ROSZAK, 1972; PEREIRA, 1992).
21
Marcuse e Brown são trabalhados por Roszak (1972) como importantes mentores dos jo-
vens rebeldes da contracultura. Segundo ele, ambos partem das interpretações freudianas,
incorporam o romantismo do jovem Marx, mas conceituam a alienação como fenômeno
psíquico. Para Marcuse, a libertação viria com a eliminação da “exploração psíquica” e
a “dessublimação repressiva”, que eram mantidas pelo consumo e erotismo da mídia.
Para Brown, a libertação viria pela criação de um “senso erótico de realidade”, findando a
oposição entre vida e morte, emergindo um “ego dionisíaco” e buscando apoio no universo
mágico, como, por exemplo, no misticismo tibetano (ROSZAK, 1972, p. 106-107).
137
do incorporada pela sociedade de massas, pela mídia e transformada

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


em mercadoria, novas vertentes de contracultura podem surgir, não
da mesma maneira, mas ainda subvertendo os valores dominantes
(MACIEL, 1978; OLIVEIRA, 1998).
A seção é apresentada pelo título fragmentado em duas partes
diferenciadas graficamente (UN DERGROUND) com fontes grandes
e leves abrangendo duas páginas. Junto ao título, há uma composição
retangular com a figura do Rato Sig fumando24, pelo contexto supon-
do ser um cigarro de maconha, e a fumaça em movimento ligando a
dois desenhos, à direita e à esquerda, de características psicodélicas25.
Por quase todo o período, a coluna preenche duas páginas con-
tíguas e abertas contornadas por faixas formadas por desenhos de
tons florais e contraculturais, criando um quadro fechado. Obser-
vado pelo leitor, esse quadro amplo permite o olhar em movimen-
to entre letras, fotos e desenhos, demarcando espaço específico e
diferenciado dentro do jornal. O trabalho com as fontes explora
tamanho, tipo e traços, compondo desenhos, e, somados às faixas
de contorno das páginas, oferece fruição imagética ao leitor como
instância de expressão importante além do verbal. Braga (1991,
p. 158) qualifica O PASQUIM como um “jornalismo gráfico”, pois
segundo ele cada página é “uma unidade gráfica de objeto visual”.
Como algumas outras partes do impresso, a coluna se alimenta de
linguagem de revista, mesclando informação e distensão, ao mesmo

22
Maciel rememora que embora a proposta fosse fundamentada no conhecimento que
ele tinha sobre o assunto, ficara perplexo pela polêmica que desencadearia. Para a es-
querda, o tema era considerado alienação, o desbunde era entendido como importação
de uma cultura norte-americana e fuga da luta política. A direita e os militares conside-
ravam a contracultura imoral e desagregadora da sociedade.
23
Imprensa Underground. Underground. PASQUIM. Rio de Janeiro, 24-30 jun. 1971, ed. 103.
24
O Rato Sigmund era usado como símbolo do O PASQUIM e fora criado por Jaguar e
Ivan Lessa como personagem de uma HQ lançando a cerveja Skol (JAGUAR; AUGUS-
TO, 2006).
25
Esse cabeçalho, que nem sempre permanece no alto da página, foi alterado apenas
na edição n. 131 (de 04-10 jan. 1972), com fonte arredonda e estilizada, de tamanho
padronizado e contendo na linha de baixo uma imagem espelhada toda em preto, por-
tanto, são duas linhas paralelas e contíguas e invertidas, uma de fundo branco e outra
totalmente preta. Quanto ao retângulo contendo o ratinho e os desenhos, foi extinto na
mesma edição.
138
tempo que buscava inserir elementos que delineariam a experimen-
Mídia e Sociedade em Transformação

tação artística em mídia jornalística26.


Algumas palavras nos textos são impressas em negrito para su-
blinhar expressões em inglês e reforçar teses e questões do movi-
mento contracultural. Há recurso da fotografia, desenho, caricatura
e quadrinho, objetivando a ilustração, a informação, a composição
de alguma ideia ou sensação valorizada pelos princípios da coluna
ou ainda provocações reflexivas e enigmáticas. Da mesma maneira
que em todo O PASQUIM, o desenho não é secundário e nem apenas
ilustração, é um texto tão importante quanto o escrito, e ambos estão
em intenso diálogo (BRAGA, 1991).
Seguindo o principio do periódico, Maciel funde forma e con-
teúdo, estabelecendo composição gráfica variável na formação das
páginas, ora flertando, ora afastando-se das formatações correntes da
grande imprensa, embora seja recorrente a presença de colunas justi-
ficadas conforme as utilizadas nos jornais. Algumas vezes é possível
encontrar uma página inteira constituída de quatro colunas contí-
nuas de cima a baixo com texto, por exemplo, de Maciel dedicado à
morte de Jimi Hendrix, em contraposição à outra página com o título
JIMI, tendo abaixo uma grande fotografia do guitarrista trabalhada
graficamente e, ao lado, o poema de Capinam dedicado ao músico e
redigido logo depois do falecimento27. Durante toda a publicação, a
estrutura básica e constante é de quatro colunas que podem ser in-
terrompidas, fragmentadas ou suprimidas para inserção de imagem.
A publicação de poemas lança mão de diagramação variada, ex-
plora visualidade da formatação de coluna não justificada28, mas é
mantido alinhamento às quatro colunas padrão, ou a multiplicidade
de recursos gráficos, como no caso do poema neoconcreto de Hélio
Oiticica, Subterrânea, que homenageia a coluna e busca tematizar a
cultura underground na América Latina29.

26
Braga (1991, p. 130-31) argumenta que O PASQUIM é jornal de interesse geral,
informativo e interpretativo, e não revista cultural. Os pontos destacados por ele para
defender essa tese são: aborda “problemas sociais concretos, em uma perspectiva
política“; apresenta a atualidade; texto adaptado para o grande público.
27
MACIEL, L. C. JIMMI. Underground. PASQUIM. Rio de Janeiro, 30 set/06 out. 1970, ed. 67.
28
Um exemplo é o poema de Capinam abordando a vida de Jimi Hendrix: JIMI. Under-
ground. PASQUIM. Rio de Janeiro, 30 set./06 out., 1970, ed. 67.
29
Subterrânia. Underground. PASQUIM. Rio de Janeiro, 07-13 out., 1970, ed. 68. Na
mesma página o título está grafado de duas maneiras: subterrânea e subterrânia.
139
A posição da coluna no jornal também não é fixa. Ela é encon-

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


trada no início da publicação, no meio ou entre as últimas páginas.
Principalmente no início, não havia preocupação por parte do grupo
de uniformizar a organização dos assuntos e colunas em todos os
números. A disposição para a improvisação possibilitava certa origi-
nalidade e dialogava com o jornalismo planejado e padronizado que
se expandia pela grande imprensa. Braga (1991, p. 19) afirma que há
“certa dispersão de assuntos e formulações e que à primeira vista pa-
recem uma acumulação de coisas independentes entre si”. Por outro
lado, adverte para a existência de “coerências de formas”, de “regras
de organização” e recursos que reúnem os elementos e “reduzem o
isolamento” do espaço, resultando “em um estilo do jornal”. Nessa
perspectiva, na coluna também fica nítida a sua estrutura, especifi-
cidade e lógica interna, criando familiaridade do leitor com a forma
expressiva que se mantém número a número.
Além do nome da coluna, algumas vezes aparece o título do tex-
to de duas formas. Uma é sem destaque, com tipos do tamanho do
corpo e apenas em negrito. A outra forma é o recurso da manchete,
chamando a atenção do leitor com nomes e palavras, recursos de
corte máximo do texto, além das manchetes tradicionais, desbastan-
do os excessos e afinando-se à concisão verbal praticada pela orali-
dade da contracultura. Como exemplo, podemos citar: JIMI, sobre
a morte de Jimi Hendrix; Hippies retrata Ken Kesey, um hippie que
formou um grupo e se destacou por realizar manifestações públicas
e abertas usando LSD30; Richie aborda a vida do músico Richie Ra-
vens31; Woodstock comenta o filme sobre o festival de mesmo nome32.
Outras vezes, Maciel lança mão de recursos didáticos para su-
gerir o conteúdo, em A Nova Família em Julgamento33; para abordar
a chamada revolução sexual, sugere uma polêmica, Sem Sexo34, ou
cria uma palavra ao unir os nomes de dois entrevistados, Bechmalina
(Julian Bech e Jucith Malina)35. Nem sempre os títulos estão no alto

30
Hippies. Underground. PASQUIM. Rio de Janeiro, 21-27 out. 1970, ed. 70. A partir
desse ponto, para facilitar a leitura das notas, simplificaremos a citação dos textos
mencionados da coluna (U.P.) sem citar cidade e data complementar.
31
Richie. U.P. 28 out. 1970, ed. 71.
32
Woodstock. U.P. 04 nov. 1970, ed. 72.
33
A Nova Família em Julgamento. U.P. 25 jun. 1970, ed. 53.
34
Sem Sexo. U.P. 18 jun. 1970, ed. 52.
140
da página, podem aparecer no meio dela ou embaixo da matéria, qua-
Mídia e Sociedade em Transformação

se no pé da folha. Quando há vários textos, a diagramação estipula


apenas o título em negrito com mesma fonte e tamanho do corpo do
texto. A estratégia mais original e que se afasta do jornalismo cotidia-
no são palavras em caixa alta, normalmente na segunda página, que
exploram a ludicidade da oralidade, buscam se aproximar de sínteses
poéticas concretas e são elaboradas como desenhos gráficos que não
se repetem, e a maioria remete ao vocabulário da língua inglesa. Como
exemplo, temos OPOPOP, BOMBAH, SCHYZO, JOHNYOKO, MA-
NHE, SIRALF, ARGH, CUTCUT, SOCK, POWER, GANG, OOF,
FREAKFREAK, e apenas uma em minúscula, appr. Muitas delas fa-
zem relação com o conteúdo do texto, de maneira direta ou indireta,
e outras, não, parecendo provocações enigmáticas que quebram a or-
dem racional da temática da página e propõem ludicidade na leitura.
Com o tempo, esse recurso vai escasseando.
Há textos mais formais e outros permeados por expressões orais,
neologismos e gírias, muitas vezes misturas de vocabulários e de sin-
taxe, frases longas e curtas, expressões formais e típicas da coloquia-
lidade36. Coloquialidade verbal e informalidade comportamental
orientam a produção textual e contribuem para a dessacralização da
imprensa. Os objetivos de quebrar normas, demonstrar irreverência
e aflorar a ludicidade e a descontração definem particularidades do
O PASQUIM e, mais profundamente, da coluna. Nessa perspectiva, o
vocabulário é um elemento importante como recurso do jornalismo
de Maciel. As palavras e expressões buscam apresentar ao leitor o
movimento contracultural no plano da linguagem, pois informar é
também transmitir ao público as formas de comunicação, interagir
com os iniciados segundo códigos já compartilhados e criar ou re-
forçar laços de pertencimento. Destacam-se alguns exemplos: “cur-
tição” e “curtindo” para designar momentos tranquilos e prazerosos;
“barra pesada” para significar situação de dificuldade ou perigosa;
“cortando o bode” expressando momentos de relaxamento; “um cara
da pesada” referindo-se a alguém entendido e competente em deter-

35
Bechmalina. U.P. 13 ago.1970, ed. 60.
36
Sérgio Augusto afirma que Maciel teria inventado ou popularizado expressões como
“barato”, “curtir”, “sarro”, da mesma maneira em que o jornal também explorou diver-
sas gírias (JAGUAR; AUGUSTO, 2006).
141
minado assunto; “amarrado num som”, apreciando uma boa música;

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


“curtindo um tremendo barato”, fruindo o efeito de alguma droga;
“aplicado”, estar sob o efeito de drogas; os sinônimos “bode”, “onda
ruim” e “bad trip”, remetendo a sentimentos ou efeitos ruins cau-
sados por uma droga; “puxar um ronco”, dormir; há palavras que
dispensam explicações, considerando a popularização ocorrida nas
décadas seguintes, tais como, “curtição”, “bicho”, “rango”, “ligado”,
“grilo”, “desbunde”, “amizade”.
Abordando a questão de gêneros de texto, a coluna apresenta
uma miríade de perspectivas, algumas delas além dos modelos de-
finidos pelos manuais. O jornalista utiliza entrevistas com introdu-
ção e transcrição de perguntas e respostas37, ou uma apresentação
do entrevistado com comentários sobre ele e trechos de falas entre
aspas38, poemas de Maciel ou de outros autores39, comentários e re-
senha de livros ou indicação deles40, dicas sobre músicas e discos41,
reprodução de material com viés documental42, textos que misturam

37
Por exemplo: reprodução de uma entrevista realizada por duas jornalistas norte-ame-
ricanas, não identificadas, com o líder hippie Louis H. Rapoport de São Francisco (U.P.
20 ago. 1970, ed. 61), entrevista de John Lennon por Robin Blackburn e Tariq Ali para
a revista Ramparts (U.P. 22 jul. 1971, ed. 107), entrevista de Baby Consuelo e de os
Novos Baianos por Glauber Rocha (U.P. 08 abr. 1971, ed. 92).
38
Richie Havens. U.P. 28 out. 1971, ed. 71.
39
Poemas de Jorge Mautner (U.P. 10 jun. 1971, ed. 101), de L. C. Maciel (U.P. 16 nov.
1972, ed. 124), letras de Gilberto Gil e de Caetano Veloso (U.P. 04 jun. 1970, ed. 50).
Ainda podem ser encontrados versos de autores destacados como Wally Sailormoon
(ed. 113), Rogério Duarte (ed. 124), Hélio Oiticica (eds. 68 e 95), Capinam (ed. 67).
40
Por exemplo, de autoria de Maciel: sobre Hermann Hesse e algumas de suas obras
(U.P. 17 ago. 1971, ed. 111), comentário sobre o livro de Norman O’Brown (Vida contra a
Morte – I. U.P. 31 ago. 1971, ed.113; Vida contra a Morte – II. U.P. 14 set. 1971, ed.115;
Vida contra a Morte – III. U.P. 21 set. 1971, ed. 116; Vida Contra a Morte – IV. U.P. 28
set. 1971, ed. 117), uma resenha do livro Beyond Theology, de Allan Watts, criticando a
teologia cristã (Além da Teologia. U.P. 03 jun. 1971, ed. 100).
41
Lançamentos de discos, atuação de músicos, comentários sobre eles e até um núme-
ro exclusivo com letras de músicas dos Beatles e reproduções de algumas ilustrações
do livro Beatles Illustrated Lyrics (U.P. 10 ago. 1971, ed. 110).
42
Cursos da Anti-universidade de Londres – III Semestre de 1968 (U.P. 02 jul. 1970, ed.
54); relato de Thymoty Leary sobre sua estada na prisão (LEARY, T.; NOTES, Jail. De um
diário de prisão. U.P. 04 jan. 1972, ed. 131), extrato de um folheto da organização Free
dando dicas de como proceder diante de efeitos ruins da droga (Cortando do bode. U.P.
18 jun. 1970, ed. 52), reprodução da ficha criminal de Leroy E. Cleaver, um dos líderes
do Black Panther Party, distribuída pelo FBI (U.P. 21 jan. 1971, ed. 81). Além de inúme-
ros trechos de livros e artigos de conhecidos intelectuais e artistas.
142
comentários e explanação sobre um determinado tema ou autor,
Mídia e Sociedade em Transformação

incluindo reproduções de trechos do original, visando o esclareci-


mento e formação do leitor43, reportagem com narrativa em que o
autor participou dos acontecimentos44. Há charges, cartuns, quadri-
nhos, fotografia e os desenhos gráficos dialogando com o conteúdo
e acrescentando questões45. Nos casos dos colaboradores, Maciel às
vezes introduz o tema e o autor para depois inserir o produto, que
pode ser uma reprodução de algo publicado em outra mídia/veículo
ou especialmente encomendado para a coluna46.
As caracterizações, exemplos e citações apresentadas até aqui
indicam o âmbito temático tratado por Maciel na Underground. A
coluna visava a informação do leitor para as novidades nacionais e
internacionais das tendências, teorias e saberes da tendência que
mudaria o mundo, por meio das transformações psíquicas e éticas
ocorridas no nível individual e que eram compartilhadas por gru-
pos que se formavam em torno da potencialização de propostas que
adquiriam a dimensão política da mudança social, entretanto dis-
tante da via partidária, dos movimentos sociais tradicionais e da
tomada do Estado.
A produção jornalística de Maciel possibilitava ao leitor tomar
conhecimento sobre a antipsiquiatria, o zen-budismo e outras cul-
turas religiosas orientais, o psicodelismo e uso do LSD, as práticas
de vida comunitária, lemas e propostas do movimento hippie, lan-
çamentos artísticos, passando pela literatura, música e teatro, livros
e textos considerados referenciais para a contracultura, troca de

43
Por exemplo: menção ao livro clássico do taoísmo Tao Te Ching (Tarefas Adiadas. U.P.
30 nov. 1971, ed. 126); informações sobre o Zen-budismo (Zen. U.P. 13 ago. 1970, ed.
60); apresentação de Wilheim Reich (U.P. 27 ago. 1970, ed. 62); discussão sobre a rela-
tividade da normalidade psíquica na atualidade a partir das teses do psiquiatra Ronnie
Laing (U.P. 21 jan. 1971, ed. 81); sobre Martin Heidegger (U.P. 08 jul. 1971, ed. 105).
44
Por exemplo: dois textos de Antonio Bivar como público em dois festivais de música
ocorridos na Inglaterra, na Ilha de Wight (BIVAR, A. WIGHT. U.P. 17 set. 1970, ed. 65) e
outro na cidade de Bath (BIVAR, A. Bath. U.P. 23 jul. 1970, ed. 57).
45
Destacamos os seguintes autores de traços: Tomi Ungerer (eds. 53, 63), Guidacci
(eds. 91 e 122), If (ed. 93, 103, 129), Rodolfo Mesquita (eds. 95, 100, 109, 113, 128),
Altan (eds. 97, 111, 135), Emil (eds. 98, 119, 131, 132), Zé Luco (eds. 131, 132, 133,
134, 135), Ivan (eds. 131, 134), Luís Carlos Maciel (ed. 80).
46
Por exemplo: texto de um psiquiatra paulista explicando os efeitos do LSD: HADDAD,
J. A. Verdades sobre o LSD. U.P. 18 jun. 1970, ed. 51.
143
experiências sobre sociabilidades, valores, linguagem, descobertas

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


e regras do estilo de vida jovem e contestador, os acontecimentos
significativos que exprimiam o desejo da transformação e os novos
movimentos políticos voltados para a emancipação das minorias.
Um exemplo de intimidade entre redator e leitores, e de efetiva
representatividade do profissional que veicula conteúdo de interesse
do público, propiciando interação entre ambos, é a presença de car-
tas dos leitores e comentários de Maciel. Em duas edições, o debate
é sobre antipsiquiatria, e são reproduzidos trechos de cartas de ex-
pacientes e doentes, alguns com nomes e cidades de origem, relatan-
do suas experiências de violência do eletrochoque e da sensação de
incompreensão de seus problemas47. São curtíssimas reportagens, de
um parágrafo, mesclando relato de fatos e de sensações na perspec-
tiva dos envolvidos, pessoas comuns e anônimas que compartilham
seus pontos de vistas em público, com o objetivo de alimentar o de-
bate crítico contra os métodos tradicionais da psiquiatria, e encon-
tram na coluna um espaço de expressão.
Leitores têm trechos de suas cartas publicadas onde manifestam
interesse em formar comunidades alternativas e buscam orientações
e parceiros. Maciel reproduz, cita, comenta e deixa claro que ele é
apenas um mediador dos interessados. Elenca nomes de pessoas e
suas localizações para que elas se comuniquem por via autônoma,
tecendo uma rede em torno da publicação que os aproxima48. O jor-
nalista comenta a impossibilidade de citar todas as cartas na coluna,
pois o número crescia, mas ele se compromete a responder a todos49.
São impressos também trechos de indagações, tais como sobre efei-
tos da maconha em uma grávida e um esquizofrênico interessado em
experimentar a terapia do LSD50.
Embora a presença dos leitores nas páginas impressas não tenha
permanecido por muito tempo, e há menção de que o tema das co-
munidades e comentários explícitos ao uso de drogas tenham sido
censurados, a coluna revelava ser a experimentação de um espaço

47
U.P. 28 mai. 1970, ed. 49; U.P. 04 jun. 1970, ed. 50
48
U.P. 09 jul. 1970, ed. 55; U.P. 09 jul. 1970, ed. 55.
49
U.P. 13 ago. 1970, ed. 60.
50
U.P. 09 jul. 1970, ed. 55.
144
público de expressão, debate e reflexão entre o profissional, leitores,
Mídia e Sociedade em Transformação

colaboradores/leitores e de interação entre leitores, mediados pelo


jornalista, ainda que voltado para um restrito grupo social.
Mas nem tudo parece tão alternativo. Também há publicidade
nas páginas da Underground. Não estão em todas, mas ali em faixa
vertical, na extrema direita, eventualmente aparecem propagandas
que variam com o tempo e, quando estão presentes, o conteúdo da
coluna apresenta-se reduzido51. A indagação que fica é: qual elemento
seria determinante, a ausência de fôlego do colunista ou a premência
do subsídio financeiro? O primeiro anúncio identificado é da Edito-
ra Vozes, que utiliza um trocadilho no alto para chamar atenção52,
com humor típico do jornal, e depois apresenta longo texto contendo
muita informação sobre autores de livros do catálogo e temáticas53. A
linguagem da escrita e dos desenhos sugere que a própria equipe do
O PASQUIM criou as propagandas, porque a maioria delas explora o
humor e elementos irreverentes ou da moda jovem do período. Por
exemplo, no anúncio da Universidade Mackenzie, há a figura de um
jovem, barba por fazer e com um cigarro na boca e cabelo relativa-
mente longo, irregular, caído sobre o rosto e cobrindo os olhos54.
Para finalizar. A produção da coluna apresenta irregularidade
no decorrer da sua trajetória. Foi parcialmente interrompida du-
rante a prisão de Maciel e veiculada por colaboradores. No ano de

51
Braga (1991, p. 175) afirma que publicidade não era um problema para O PASQUIM.
Em todo o período de existência da publicação, o perfil da propaganda se concentrava
em editoras/livrarias/jornais/revistas (18,3%), roupas/boutiques/cabelereiros/perfu-
mes (14,03%), restaurantes/bares/bebidas (11,17%), teatro/shows (9,85%) voltados
para o segmento da classe média “jovem profissional de nível universitário”.
52
“Se V. ainda acha que o brasileiro só é bom de bola, está atrasado. Nós provamos
que também é bom da bola” (U.P. 18 jun. 1970, ed. 52). Os anúncios vindouros também
utilizarão recurso humorístico e, às vezes, gráfico para se apresentar. Outra questão
reveladora da publicidade é o encolhimento do conteúdo da coluna.
53
Posteriormente, aparecerão o Centro de Psicologia Aplicada (CEPA), escola de inglês
e de aviação, faculdades Mackenzie de São Paulo, desodorante, lançamento de filme,
lojas de roupas (boutique), revendedora autorizada paulistana da Volkswagen, Almana-
que do Jaguar, hotel, piteira. O destaque irônico fica para o “no-cigar”, um remédio para
abandonar o hábito de fumar que é apresentado pela frase “não se suicide lentamente”
(U.P. 04 jan. 1972, ed. 131). O humor disfarça a preocupação com saúde e a morte
num veículo e numa coluna extremamente dionisíacos.
54
“Tem uns caras aí que pensam que o barato do MACKENZIE é.....”, Anúncio de abertu-
ra de cursos de Desenho e Plástica, Desenho Industrial e Comunicação Visual (U.P. 04
nov. 1970, ed. 72).
145
1971, apresenta alguns números com apenas uma página, inúmeros

Underground no O PASQUIM: uma experimentação histórica de jornalismo


exemplares com publicidade e, portanto, restringindo conteúdo. Em
anúncio da Flor da Mal, Maciel comenta que a Underground seria
substituída pelo novo jornal genuinamente contracultura e de viés
antijornalístico55. Meses depois, em outra menção ao novo jornal, o
autor assume que “esta seção de Underground, aqui n’O PASQUIM –
sejamos francos – já era. Tenho a sensação de que minha tarefa pes-
soal, por aqui, está mais ou menos terminada, cumprida ou não”56.
Não há menções ao motivo da finalização da coluna, entretanto, ape-
sar de não citar a fonte, Barros (2007, p. 76) afirma sobre a existência
de conflitos internos, como, por exemplo, a direção do O PASQUIM
teria cessado o pagamento da remuneração do jornalista, seria into-
lerante ao desbunde da coluna e de seu autor e, com a insistência de
ele permanecer trabalhando mesmo sem salário, demitiram-no. Os
dois últimos números da coluna foram redigidos por Jorge Mautner.
O importante a destacar dessa informação é o indício da tese de que
o glamour libertário do periódico se manifestava mais na imagem
veiculada do que nas regras correntes nos bastidores da redação.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da conceituação de Piza (2004), é possível definir a pro-


dução da Underground como jornalismo cultural porque abrange as
artes, o segmento intelectualizado, a cultura de massa e, principal-
mente, o comportamento em torno de novos valores centrados em
jovens e experiências sociais rebeldes e transgressoras. Abarcando o
informativo (nota, reportagem, entrevista, resenha, reprodução de
livros, poemas e documentos) e o opinativo (comentário, crítica) em
seus variados matizes, Maciel apresentava uma pauta não contem-
plada pela grande imprensa ou a tradicional.

55
U.P. 01 jul. 1971, ed. 104. Flor do Mal teria sido idealizado por Maciel, era dirigido por
ele e por Tite de Lemos, Rogério Duarte e Torquato Mendonça. Um tabloide semanal,
com viés experimental, contracultural e literário, cultuado em segmentos artísticos e
underground, sobreviveu durante cinco números publicados no segundo semestre de
1971. Outra produção do jornalista foi Rolling Stone. Uma versão brasileira da revista
norte-americana de mesmo nome, impressa durante um ano, entre 1972 e 1973,
tratava de música, particularmente o rock and roll, e contracultura. Maciel foi designado
editor para abrir e conduzir a revista (BARROS, 2007).
56
U.P. 14 set. 1971, ed. 115.
146
Considerando os temas da contracultura abordados, a linguagem
Mídia e Sociedade em Transformação

escrita transitando entre a formal e a coloquialidade das ruas, a re-


produção de documentos e textos originais sem a simplificação para
o leitor, com linguagem visual gráfica e iconográfica experimentais,
a interação com os leitores e a sua inserção no O PASQUIM, além de
serem um exemplo de imprensa alternativa, têm a especificidade do
jornalismo contracultural circulando pelo universo autodenomina-
do de underground.
Chorilli (2012) defendeu que a coluna não se enquadraria nos
modelos correntes de jornalismo e, por isso, poderia ser considerada
como contrajornalismo. E, em entrevista com Maciel, ele concordou
com a caracterização. O conteúdo é plural, não defende a normati-
vidade, abriga a coparticipação dos leitores, embora o jornalista te-
nha experiência no assunto, exclui a existência de hierarquia entre
ele e o público. Parte significativa das regras consolidadas na grande
imprensa, ou ainda mercadológica, moderna e empresarial, não era
praticada por Maciel.
Ele entreabriu uma brecha, ainda que efêmera, entre as diversas
possibilidades de jornalismo do seu tempo. A flexibilidade do reda-
tor e da editoria em trabalhar os temas da contracultura de maneira
experimental, imbricando-o a movimentos com preocupações de
manifestações estéticas do comportamento, particulariza essa pro-
dução impressa como um pulsante jornalismo avesso às tendências
do período e que, de tão visceral que era, feneceu simultaneamente
ao esmaecimento da cultura underground.

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149

Por um percurso da
noticiabilidade à
estética jornalística1 PARA SITUAR O DEBATE

Marcos Paulo da Silva


D esde a gênese do jornalis-
mo, teóricos e pensadores
de diferentes áreas do conhe-
cimento têm traçado reflexões
a respeito dos princípios que
levam determinados assuntos
e acontecimentos – no amplo
conjunto do corpo social – a
receberem valorações diferen-
ciadas, sendo estampados nas
páginas dos jornais. Nesse sen-
tido, a existência de critérios
de noticiabilidade como parâ-
metros norteadores da prática
jornalística divide opiniões
sobre sua abrangência e sis-
tematização – seja no âmbito
teórico-conceitual ou no pró-
prio contexto das redações
profissionais.
Conforme alerta Nelson
Traquina (2008, p. 62), diversos
estudos sobre o jornalismo de-
monstram que os profissionais
da área têm uma enorme difi-
culdade para explicar o que é
notícia e quais são seus critérios
150
noticiosos para além de respostas vagas do tipo “o que é importante”
Mídia e Sociedade em Transformação

ou “o que interessa ao público”. Como forma de ilustrar a nebulosi-


dade do campo, Shoemaker e Cohen (2006, p. 7), em sentido seme-
lhante, sugerem o simples exercício de se questionar um jornalista a
respeito de uma definição básica para os conceitos. É bem provável,
apostam os autores, que a resposta apresentada não culminará em
uma definição suficientemente clara, mas, por outro lado, o inqui-
rido terá possivelmente na manga um argumento bem caracterís-
tico de seu grupo profissional: “eu sei o que é uma notícia quando
eu vejo uma notícia”. Entretanto, embora diferentes autores tenham
procurado atribuir um sentido crítico a essa questão, talvez venha do
teórico britânico Stuart Hall (1981b, p. 234)2 uma das mais lúcidas
leituras para o impasse: os critérios de noticiabilidade, por constitu-
írem modalidades de “estoques de conhecimento” compartilhados
profissionalmente, representam uma das mais opacas estruturas de
sentido da experiência moderna e não se fazem transparentes nem
aos próprios jornalistas.
A escassez de formulações teórico-conceituais precisas para a
seleção noticiosa resulta, portanto, numa espécie de “deriva” em
que todos – jornalistas e teóricos – parecem saber do que se trata,
mas que, ainda assim, raramente há fôlego para problematizações
mais consistentes sobre o assunto. Nesse turbilhão de pontos de
interrogação, Nelson Traquina (2008, p. 63), uma vez mais, é res-
ponsável por uma tentativa de definição concisa para a ideia de no-
ticiabilidade: trata-se de um agrupamento de critérios e operações
que fornecem a um acontecimento a aptidão de merecer tratamen-
to jornalístico; isto é, de possuir valor como notícia. Tal definição,
no entanto, índice de um conjunto mais amplo de elaborações con-
ceituais sobre o assunto, não é suficiente para eliminar do campo
algumas de suas principais indagações: como ocorre a definição de
tais parâmetros ou, em outros termos, como os eventos cotidianos,
de fato, tornam-se notícia?

1
Uma versão preliminar deste capítulo foi apresentada no XIII Encontro Nacional de
Pesquisadores em Jornalismo (SBPJOR), realizado em novembro de 2015 em Campo
Grande (MS).
2
Apesar de ser tido como britânico, Stuart Hall nasceu na Jamaica no período em que a
ilha caribenha era ainda considerada colônia da Inglaterra.
151
Nesse cenário, a delimitação teórico-conceitual da noticiabilida-

Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


de carece de complementação a partir do aprimoramento dos cri-
térios – e dos tensionamentos – que antecedem e marcam a seleção
noticiosa. Em última instância, não basta questionar o porquê de as
notícias se caracterizarem do modo como se caracterizam (tampou-
co se existem parâmetros objetivos para isso), mas – ainda além –
quais os motivos que levam determinados assuntos a receberem a
valoração de notícia em detrimento de outros. Assim, o propósito
deste capítulo, calcado na sistematização de algumas reflexões sobre
o tema, é percorrer mais um trecho desse sinuoso percurso, que vai
da caracterização da seleção noticiosa ao reconhecimento da disse-
minação do jornalismo como modalidade de narração do mundo,
compreendida como padrão estético-expressivo pavimentado na ex-
periência cotidiana moderna.

UM OLHAR RETROSPECTIVO
Quando observados sob uma ótica histórica, são inúmeros os
estudos clássicos que reconhecem a existência de parâmetros de no-
ticiabilidade como princípios responsáveis por retirar o peso da es-
colha noticiosa de uma perspectiva substancialmente subjetiva dos
jornalistas. Entre eles, destacam-se obras como a famosa tese do eru-
dito alemão Tobias Peucer, elaborada ainda no século XVII e con-
siderada o primeiro registro acadêmico sobre o assunto no mundo
ocidental3, e a tipologia de fatores de noticiabilidade apresentada na
década de 1960 pelos pesquisadores dinamarqueses Johan Galtung e
Mari Holmboe Ruge (1965) – abordagens representativas, cada uma
em seu contexto, que colocam em relevo a noção de “desvio” (aquilo
que rompe com uma ordem preestabelecida) como padrão clássico
da seleção de notícias.
Outras sistematizações mais recentes e também respaldadas
pelos estudos acadêmicos do jornalismo auxiliam na tarefa de in-

3
A tese de Tobias Peucer foi traduzida para a língua portuguesa por Paulo da Rocha
Dias e publicada na Revista Comunicação e Sociedade, da Universidade Metodista de
São Paulo. Ver: Peucer (2000). O estudo também tem suas principais ideias sistemati-
zadas no texto Tobias Peucer: o progenitor da Teoria do Jornalismo, de Jorge Pedro Sou-
sa, publicado no Brasil pela Universidade Federal de Santa Catarina. Ver: Sousa (2004).
152
troduzir novas diferenciações à discussão. O sociólogo norte-a-
Mídia e Sociedade em Transformação

mericano Herbert Gans (2004)4 , por exemplo, atribui a existência


de critérios noticiosos a aspectos de natureza ideológica que são
compartilhados pelos profissionais no interior das salas de reda-
ção. Já os europeus Mauro Wolf (2003) e Nelson Traquina (2008)
argumentam que os valores relacionados à seleção das notícias (os
denominados valores-notícia) perpassam todo o processo da prá-
tica noticiosa: da seleção dos eventuais acontecimentos noticiáveis
à elaboração de suas narrativas. Novos componentes são também
acrescentados ao debate por Pamela Shoemaker (1996). A pesqui-
sadora norte-americana sugere que a compreensão da noticiabili-
dade passa por dimensões teóricas mais abrangentes, a exemplo do
próprio “desvio” e da “significância social”. Além disso, o conceito
de notícia é interpretado por ela e seus colegas a partir de constran-
gimentos e rotinas que são engendrados numa complexa hierar-
quia de influências (SHOEMAKER; REESE, 1996; SHOEMAKER;
COHEN, 2006; SHOEMAKER et al., 2010).

PARA AVANÇAR NA QUESTÃO

Em que pese os importantes progressos teórico-conceituais rela-


tados, todavia, sustenta-se aqui a necessidade de inclusão da proble-
mática da noticiabilidade no interior de uma reflexão mais ampla que
objetiva dimensionar a narrativa noticiosa como um dos elementos
estético-expressivos mais consistentes na sustentação da experiência
cotidiana moderna (SILVA, 2013a). A notícia – o mais significativo
modo de expressão da prática jornalística – passa a ser entendida, as-
sim, como um tipo peculiar de “narrativa híbrida” que se refere tanto à
singularidade dos acontecimentos que compõem a realidade cotidiana
em sua imediaticidade quanto – e, sobretudo – aos elementos simbó-
licos presentes no senso comum e na vida cotidiana (FARO, 2011).
Em reflexões recentes e complementares, procurou-se problematizar
alguns aspectos específicos desse modo de olhar para a questão5. Algu-
mas dessas leituras podem ser sistematizadas em três pontos principais:

4
O livro Deciding what’s news: a study of CBS Evening News, NBC Nightly News, Newswe-
ek and Time, de Herbert J. Gans, foi originalmente publicado em 1979 e tornou-se uma
das referências para os estudos sobre jornalismo no contexto norte-americano. Utiliza-
se neste trabalho a edição ampliada comemorativa ao 25o aniversário da publicação
original. Ver: Gans (2004).
153
I – A compreensão dos critérios noticiosos como dissonâncias/

Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


paradoxos cotidianas(os) (SILVA, 2014a). Por essa leitura, uma
ressalva introdutória se faz necessária: é preciso admitir que mui-
tas das formulações clássicas de critérios de noticiabilidade e/ou
de valores-notícia (classificações, categorizações e interpretações,
aliás, que muitas vezes observam os dois conceitos como sinôni-
mos) são factíveis e metodologicamente verificáveis a partir de
variáveis quantitativas e qualitativas estabelecidas no plano empí-
rico6 . Configuram, por conseguinte, compartimentações do con-
ceito de notícia – e de noticiabilidade – operacionalizáveis a partir
de um vértice de observação predominantemente utilitário para o
fenômeno jornalístico. A esse respeito, pouco resta a se questionar
no plano teórico-metodológico para além do reconhecimento de
sua operacionalização empírica (SILVA, 2014a, p. 2-3)7 .
Reconhece-se como pressuposto, contudo, a inevitabilidade de
um aprofundamento das mesmas formulações com base na com-
plexidade do fenômeno de seleção noticiosa. Em outros termos, a
partir dessa leitura, propõe-se uma reflexão sobre a configuração
expressiva dos itens noticiosos baseada em uma compreensão sob
um prisma antropológico para a atividade jornalística. Busca-se,
em suma, amparo em uma leitura tipicamente geertziana para a
concepção de cultura como o conjunto de “produção simbólica
tecida pelos próprios homens” (GEERTZ, 1989) e, por consequ-
ência, da prática noticiosa como um dos teares que ajuda a tecer
tal trama no cotidiano (SCHUDSON, 1978; 20038 ; BERTOLLI
FILHO; TALAMONI, 2011).

5
As reflexões aqui sistematizadas são decorrências do trabalho no âmbito da Universi-
dade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) no Grupo de Pesquisa Cotidiano e Noticia-
bilidade, cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq); do projeto de pesquisa Cotidiano e noticiabilidade na imprensa sul-mato-gros-
sense: interfaces entre jornalistas, assessores e público, cadastrado na Pró-Reitoria de
Pós-Graduação, Pesquisa e Inovação (PROPP/UFMS); e da disciplina Cotidiano, Estética
Jornalística e Noticiabilidade, oferecida desde 2014 no Programa de Pós-Graduação em
Comunicação, iniciativas sob responsabilidade do autor deste artigo.
6
Ver, por exemplo, as classificações Wolf (2003) e Traquina (2008), dentre outras, mais
tarde sistematizadas por Silva (2005).
7
Estudos de naturezas distintas comprovam a aplicabilidade operacional das pesqui-
sas de critérios noticiosos com base em levantamentos quantitativos. Nesse sentido,
consultar, por exemplo, o caso significativo do estudo de Shoemaker e Cohen (2006) a
partir de um levantamento quantitativo sobre noticiabilidade em dez países de diferen-
tes continentes.
8
Perspectiva assumida pelo sociólogo norte-americano desde o final dos anos 1970 em
sua clássica análise sobre a história dos jornais norte-americanos.
154
Por conseguinte, compreende-se que adiante de um entendi-
Mídia e Sociedade em Transformação

mento operacional para a noticiabilidade a partir de parâmetros


e categorias factíveis de verificação empírica no plano metodoló-
gico, o olhar para o fenômeno deve perpassar três conceitos ca-
ros ao campo de estudos da cultura: as concepções de cotidiano,
senso comum e hegemonia. Os critérios noticiosos que orientam
a produção jornalística que chega à contemporaneidade passam
a ser observados, então, como reconfigurações simbólicas – no
plano expressivo – das dissonâncias cotidianas presentes na ma-
terialidade do plano fenomênico (SILVA, 2014a).

II – A compreensão do conceito bourdieusiano de habitus


como chave-explicativa nos processos de inscrição cultural
dos elementos dissonantes da regularidade cotidiana na práxis
jornalística (ou seja, daqueles elementos considerados “noti-
ciáveis”) e de atribuição de um sentido hegemônico às notícias
(SILVA, 2013b). Por essa leitura, o processo de inscrição cultural
dos critérios noticiosos – longe de constituir um mero decalque
operacional na prática jornalística cotidiana – é dotado de com-
plexidade e passa pela projeção no plano empírico de diferentes
componentes simbólicos compartilhados socialmente (dentro e
fora das salas de redação). É nesse ponto que se reveste de pro-
pósito a aplicação da concepção de habitus de Pierre Bourdieu.
O conceito proposto pelo sociólogo francês representa, assim,
uma importante ferramenta para explicar o modo como os pa-
drões culturais intrínsecos na sociedade – entenda-se aqui, so-
bretudo, os sentidos de “operacionalização da existência” e de
“domesticação do acaso” (BIRMAN, 2010; LUCKÁCS, 2010)
oriundos de um padrão hegemônico de racionalidade instru-
mental (ADORNO; HORKHEIMER, 1985) – são transcodifica-
dos e disseminados na prática noticiosa. Reconhece-se a exis-
tência dos critérios de noticiabilidade como um tipo peculiar de
representação simbólica incorporada ao habitus do campo jor-
nalístico; um modo particular de “social incorporado”, ou, nas
palavras do próprio Bourdieu (1974, p. 201), de “interiorização
de complexas estruturas objetivas presentes numa sociedade”.
Nesse cenário, ao menos quatro questões teóricas merecem ser
situadas: 1) a disseminação social da atividade noticiosa em con-
sonância com a ideia aristotélica de “senso comum” – ou doxa;
2) a relação entre tal “ordem simbólica comumente consensual”
– intrínseca e extrínseca ao campo – e os processos simbólicos –
aparentemente contraditórios – de uniformização do conteúdo
noticioso; 3) os mecanismos de autolegitimação e autopreserva-
ção do jornalismo que viabilizam tais operações; e, por último, 4)
155
a disseminação social desses mecanismos a partir de representa-

Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


ções simbólicas incorporadas ao habitus do campo jornalístico.
Admite-se, assim, sobretudo em termos de problematização, que
tais pontilhamentos teóricos apresentam-se como chaves-expli-
cativas alternativas e viáveis para o entendimento dos processos
de seleção noticiosa quando comparados ao enquadramento au-
tomático do conteúdo noticioso em categorias delimitáveis de
critérios de noticiabilidade (a raridade, a proximidade, o inedi-
tismo, o impacto, o conflito, o escândalo, a catástrofe, entre tan-
tos outros) (SILVA, 2013b, p. 81-82).

III – O dimensionamento da narração jornalística como um


dos elementos estético-expressivos mais consistentes na sus-
tentação da experiência cotidiana moderna (SILVA, 2015).
Por essa leitura, a construção da narração noticiosa é compreen-
dida a partir de processos complementares que envolvem a pré-
via seleção de acontecimentos noticiáveis estabelecidos no plano
pragmático e a posterior instituição de uma narração que pro-
porciona a racionalização desses eventos no plano expressivo9 .
Reconhece-se a existência de um processo de hibridização entre
“ritmos preexistentes” oriundos da vida cotidiana e a dissemina-
ção social de padrões estético-expressivos hegemônicos.
Reveste-se de pertinência, nesse cenário, a metáfora proposta por
Muniz Sodré entre a prática jornalística e a pontuação rítmica de
uma composição musical: “os microaspectos do fato, como as no-
tas, fluem ritmicamente dentro de uma ‘métrica’, que é a tempo-
ralidade marcada como ‘o cotidiano’” (SODRÉ, 2009, p. 92). Essa
pontuação rítmica, por sua vez, é entendida a partir de intervalos
cíclicos diferenciados, o que leva toda notícia a ter “um ciclo cuja
duração varia, na prática, de acordo com o valor jornalisticamen-
te atribuído ao fato” (Idem, p. 94) – perspectiva na qual também
deve ser engendrada a questão da noticiabilidade.
O fio condutor apresentado nessa leitura ainda encontra res-
sonância nas reflexões de Michael Schudson (2003) sobre a
natureza expressiva das notícias. Ao admitir que as notícias
se incorporam a um modelo hegemônico de senso comum, o
autor argumenta que os parâmetros de seleção de eventos no-

9
Sobre o trânsito simbólico de acontecimentos jornalísticos do plano pragmático ao pla-
no expressivo, ver as reflexões de Gomes (2009), no horizonte da Filosofia, e de Koch
(1990), no horizonte da Semiologia.
156
ticiáveis se relacionam com a própria expressão estética dos
Mídia e Sociedade em Transformação

elementos noticiosos – peculiaridade que leva o sociólogo nor-


te-americano, sem escapar de controvérsias, a caracterizar as
notícias como “narrativas”10. Dessa maneira, para além de seu
conteúdo, o modo como a narração jornalística se institui so-
cialmente como “formato” pode levá-la a ser responsável por
diferentes atribuições simbólicas disseminadas socialmente – a
exemplo daquelas que concedem aos jornalistas e suas fontes
o estatuto de experts nos acontecimentos sobre os quais estão
debruçados (SCHUDSON, 2003, p. 185). Nessa leitura, portan-
to, concorda-se com Schudson (2003) no pressuposto de que
os processos de seleção dos acontecimentos e de construção da
narração noticiosa não se desvinculam, eles mesmos, do plano
estético-expressivo que configura o jornalismo enquanto pro-
dução cultural.
Ademais, como mencionado acima, entende-se que a narração
jornalística constitui uma espécie de narrativa híbrida que se re-
fere, conforme sugere Faro (2011), a dois espaços simultâneos de
percepção: o primeiro deles vinculado à questão da “informação
propriamente dita, dotado de uma forte carga de objetividade
cujo apelo e resposta remetem a essa estrutura lógica da cog-
nição”; e o segundo atrelado à “identidade imaterial no plano
simbólico”, componente que diz respeito à complexidade da vida
cotidiana (FARO, 2011, p. 107). Em outros termos, trata-se do
reconhecimento de um jogo dialético de construção social da
realidade, ou seja, da compreensão do jornalismo como uma ati-
vidade cultural que somente encontra legitimidade e respaldo ao
transcodificar e disseminar elementos culturais – entre eles, os
tais “ritmos pré-existentes” – vigentes no mundo social (SILVA,
2015, p. 8-9).

10
Nesse sentido, por exemplo, Walter Benjamin, em um de seus clássicos – O narrador:
considerações sobre a obra de Nikolai Leskov –, nota preliminarmente que, no século
XX, a informação rompe com a narrativa; posição que, à frente, seria seguida por Theo-
dor Adorno. O rompimento das formas narrativas, aliás, seria, nesta perspectiva teórica,
um dos “traços distintivos” da modernidade tardia. Para detalhes sobre tal posição na
obra do autor alemão, ver: Benjamin (1994).
11
A discussão apresentada nos próximos dois itens foi previamente abordada na tese de
doutorado A construção cultural da narrativa noticiosa: noticiabilidade, representação
simbólica e regularidade cotidiana e, de modo mais específico, no capítulo Seleção noti-
ciosa, critérios de noticiabilidade e valores-notícia, redigido no processo de amadureci-
mento das reflexões aqui trabalhadas. Para detalhes, ver: Silva (2013a) e Silva (2014c).
157
CONCEITOS DISTINTOS PARA UMA PROBLEMÁTICA SEMELHANTE11

Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


O avanço das reflexões pretendidas neste texto passa pela com-
preensão da concepção de noticiabilidade com um constructo de or-
dem eminentemente cognitiva, conforme argumentam Shoemaker
e Cohen (2006). Antes de caminhar por esse sentido, todavia, como
forma de situar a problemática da seleção noticiosa em um contexto
mais amplo e complexo (SILVA, 2014c, p. 72-74), merecem ser des-
tacadas as tentativas de se estabelecer demarcações claras para as no-
ções de noticiabilidade e de valor-notícia, bem como para o vínculo
que se situa entre elas no plano teórico-conceitual.
Tome-se inicialmente nesse percurso a ideia de noticiabilidade
tal como é descrita por Gislene Silva (2005):
Todo e qualquer fator potencialmente capaz de agir no processo
da produção da notícia, desde características do fato, julgamen-
tos pessoais do jornalista, cultura profissional da categoria, con-
dições favorecedoras ou limitantes da empresa de mídia, quali-
dade do material (imagem e texto), relação com as fontes e com o
público, fatores éticos e ainda circunstâncias históricas, políticas,
econômicas e sociais. (SILVA, 2005, p. 96).
Após uma revisão bibliográfica crítica sobre o tema, a autora
defende ser “reducionista” o ato de restringir a descrição da noti-
ciabilidade aos elementos pelos quais “a empresa jornalística con-
trola e administra a quantidade e o tipo de acontecimentos” que se-
rão noticiados ou àqueles “que demonstram a aptidão ou potencial
de um evento para ser transformado em notícia”. De acordo com a
argumentação da autora, a concepção deve ser definida a partir de
critérios que repousam em pelo menos três instâncias: a) na origem
dos fatos, levando em consideração os “atributos próprios ou carac-
terísticas típicas que são reconhecidos por diferentes profissionais e
veículos da imprensa” (valores-notícia); b) no tratamento dos fatos,
com foco na “seleção hierárquica” (que ultrapassa os limites dos va-
lores-notícia) e nos “fatores inseridos dentro da organização, como
formato do produto, qualidade do material jornalístico apurado,
prazo de fechamento, infra-estrutura e tecnologias”, além de suas
influências “extra-organizacionais”; e, finalmente, c) na visão dos fa-
tos, com base em “fundamentos éticos, filosóficos e epistemológicos
do jornalismo, compreendendo conceitos de verdade, objetividade,
interesse público, imparcialidade que orientam inclusive as ações e
intenções das instâncias ou eixos anteriores” (SILVA, 2005, p.96-97).
158
Torna-se clara, nesse cenário, uma primeira distinção entre
Mídia e Sociedade em Transformação

a concepção mais ampla de noticiabilidade e o entendimento dos


valores-notícia como parâmetros que orientam a seleção primária
dos acontecimentos. Tal distinção, por sua vez, coloca também em
evidência a especificidade da ideia de seleção – noção que, em seme-
lhante processo de sobreposição conceitual, é muitas vezes tratada
como sinônimo de valor-notícia. O equívoco se estabelece, confor-
me argumenta Silva (2005, p. 97), com base na opção metodológica
de uma parcela significativa dos estudos sobre noticiabilidade de fo-
car inicialmente somente nas características intrínsecas dos eventos,
resultando posteriormente na inevitável verificação de que “a sele-
ção prossegue no trajeto do tratamento dos fatos dentro da redação”.
Desse modo, aspectos que dizem respeito a etapas específicas do fe-
nômeno mais abrangente da noticiabilidade são colocadas em um
mesmo patamar conceitual, levando duas ideias distintas a receber a
interpretação de equivalentes. Como diferenciação, por conseguinte,
a autora sugere que os valores-notícia devem ser sempre atrelados
às “características do fato em si”, enquanto a seleção se estende no
interior da redação, “quando é preciso não apenas escolher, mas hie-
rarquizar” (SILVA, 2005, p. 98).
É nesse ponto que mais uma distinção conceitual ganha corpo:
a diferença entre valores-notícia e critérios de noticiabilidade. Em-
bora sob uma ótica operacional as concepções sejam colocadas em
posições bastante próximas, Gislene Silva enfatiza a importância de
demarcar a divergência de amplitude que existe entre elas:
Ora, ao tratar jornalisticamente os fatos na produção material da
notícia, a seleção e hierarquização recorrem sim aos valores-no-
tícia. Mas estes agem aqui apenas como uma parte do processo,
pois nessas escolhas sequenciadas entrarão outros critérios de
noticiabilidade, como formato do produto, qualidade da ima-
gem, linha editorial, custo, público-alvo etc. Valores-notícia, as
características do fato em si, em sua origem, são somente um
subgrupo de fatores agindo juntamente com esse segundo con-
junto de critérios de noticiabilidade, relacionados agora ao trata-
mento do fato. (SILVA, 2005, p.98).
Trata-se, por conseguinte, de procedimentos hierárquicos imbri-
cados no processo mais amplo da produção da notícia. Em que pese
a efetividade dos argumentos utilizados pela pesquisadora brasilei-
ra na tarefa de diferenciar os conceitos de modo a evitar lacunas,
contudo, é preciso admitir que eles não esgotam as possibilidades
159
de abordagem para tais categorias. Faz-se necessário, assim, o seme-

Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


lhante exercício epistemológico de reconhecer que as concepções de
noticiabilidade, valores-notícia e seleção noticiosa recebem delinea-
mentos a partir de distintas ancoragens teórico-conceituais.

A NOTICIABILIDADE COMO CONSTRUCTO DE NATUREZA COGNITIVA

Em outro contexto, Pamela J. Shoemaker e Akiba A. Cohen in-


terpretam a noticiabilidade de uma maneira que também a diferen-
cia das simples características primárias que particularizam um de-
terminado evento. Entretanto, os autores compreendem a concepção
como um constructo de ordem eminentemente cognitiva – ou seja,
por essa ótica, a noticiabilidade irá sempre dizer respeito a julgamen-
tos individuais – de jornalistas ou não – projetados sobre os acon-
tecimentos do mundo fenomênico (“nós avaliamos continuamente
a noticiabilidade das coisas em nosso mundo”, frisam os autores).
Além disso, Shoemaker e Cohen (2006, p. 342-343) admitem a im-
possibilidade de um evento atribuir a si próprio o estatuto de no-
ticiável, pois, teoricamente, deverá haver sempre consenso entre as
pessoas para que o fato possa receber aspectos de noticiabilidade su-
ficientes para atingir os diferentes aspectos de suas realidades sociais.
A pesquisadora norte-americana e seu colega israelense cons-
troem tais conclusões por meio dos resultados de um estudo que
congrega grupos focais e análise de conteúdo em dez países de dife-
rentes continentes. De acordo com o levantamento, embora exista,
de modo geral, uma forte concordância individual entre jornalistas
e membros da audiência sobre a noticiabilidade de eventos dentro
de suas respectivas realidades, por outro lado, são localizadas ape-
nas fracas ou negativas relações entre as opiniões extraídas dos gru-
pos focais (independentemente de suas categorias profissionais) e o
conteúdo noticioso que de fato integra os veículos de comunicação
nos países analisados. Logo, a noção de noticiabilidade não se ajusta
automaticamente à ideia de proeminência na mídia (SHOEMAKER;
COHEN, 2006, p. 351-353)12 .
Da mesma forma, a existência de distintas percepções sobre a
noticiabilidade em diferentes recortes geográficos explica-se pela
maneira como as próprias realidades sociais se diferenciam entre
si. A noticiabilidade deve ser interpretada, assim, como a medida
pela qual as informações sobre um evento tocam as várias partes que
compõem a realidade social de uma pessoa; isto é, baseado no modo
160
como um acontecimento se conecta a uma determinada realidade,
Mídia e Sociedade em Transformação

ocorre o entendimento do mundo por parte das pessoas envolvidas


nessa dinâmica interpretativa – possibilidade que concede também à
noticiabilidade o estatuto de uma construção sociocultural.
Em posição complementar, Shoemaker e Cohen (2006, p. 335-
337) defendem que as ideias de noticiabilidade e notícia não podem
ser interpretadas como noções equivalentes, uma vez que represen-
tam constructos distintos no plano teórico-conceitual: enquanto a
noticiabilidade, tal como observado, é definida no nível individual
de análise e leva em consideração a questão da saliência pessoal que
um evento provoca, a notícia consiste em um artefato social com-
plexo formatado por fatores como as rotinas profissionais da prá-
tica jornalística, as características organizacionais das empresas de
comunicação e as influências das diferentes instituições sociais en-
volvidas no processo, além de variáveis macrossociais como valores
culturais e ideologia – conforme ilustra a Figura 1 13:
Em suma, significa reconhecer que qualquer pessoa, indepen-
dentemente do estatuto de jornalista, pode atribuir juízos de noticia-
bilidade aos eventos que compõem sua realidade; porém, somente
os eventos que respondem aos critérios compartilhados no âmbito
da prática profissional do jornalismo serão admitidos fundamental-
mente como notícias. Os valores-notícia, nesse cenário, são vistos
como os aspectos da noticiabilidade imbricados nas rotinas jornalís-
ticas – ou seja, constituem os critérios de noticiabilidade utilizados
no interior das rotinas profissionais para selecionar os fatos que se-

12
O levantamento de critérios de noticiabilidade desenvolvido por Shoemaker e Cohen
(2006) em dez países de diferentes continentes serve atualmente de parâmetro para
o projeto de pesquisa Cotidiano e noticiabilidade na imprensa sul-mato-grossense:
interfaces entre jornalistas, assessores e público, em desenvolvimento no âmbito da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). O projeto objetiva dimensionar as
reflexões teóricas sobre as dinâmicas de seleção e de compreensão das notícias para
a realidade sul-mato-grossense, apresentando como recorte empírico as relações entre
cotidiano e noticiabilidade em quatro cidades: Campo Grande, Corumbá, Dourados
e Três Lagoas. Do ponto de vista metodológico, sobretudo em relação aos aspectos
referentes à coleta de dados empíricos, a pesquisa segue um desenho estrutural similar
ao estudo de Shoemaker e Cohen (2006) – notadamente, a utilização de técnicas da
análise de conteúdo para o estudo de jornais e de procedimentos qualitativos (grupos
focais e entrevistas) para o estudo dos atores envolvidos nas dinâmicas de produção e
de compreensão das notícias. Para detalhes, ver: Silva, 2014b.
13
Essa concepção de notícia admitida por Shoemaker e Cohen (2006) foi anteriormente
trabalhada por Shoemaker e Reese (1996).
161
rão efetivamente noticiados – em uma linha mais próxima ao debate

Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


estabelecido por Herbert Gans (2004) sobre os “valores ideológicos”
compartilhados nas salas de redação. Todas as concepções citadas
culminam, finalmente, na dinâmica da seleção noticiosa propria-
mente dita.

Figura 1 – Modelo hierárquico de influências sobre o conteúdo


noticioso segundo Shoemaker e Reese.
Fonte: Modelo gráfico adaptado de Shoemaker e Reese, (1996, p. 64).

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões aqui presentes recaem, acima de tudo, na tentati-


va de sistematizar algumas leituras (empíricas e ensaísticas) que
têm sido elaboradas no contexto da Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul (UFMS): no Grupo de Pesquisa Cotidiano e Noti-
ciabilidade, cadastrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq); no projeto de pesquisa Cotidiano
e noticiabilidade na imprensa sul-mato-grossense: interfaces entre jor-
nalistas, assessores e público, cadastrado na Pró-Reitoria de Pesquisa,
Pós-Graduação e Inovação (PROPP/UFMS); e na disciplina Cotidia-
no, Estética Jornalística e Noticiabilidade, oferecida desde 2014 no
Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMS. Dada a
natureza contínua das reflexões, por conseguinte, não se pretende
neste espaço esgotar a complexidade que o tema apresenta.
Alguns pontos, no entanto, merecem ser sublinhados. Primeira-
mente, o reconhecimento da concepção de noticiabilidade como um
162
constructo de natureza substancialmente cognitiva. Nessa contextu-
Mídia e Sociedade em Transformação

ra, sob risco de ter sua complexidade demasiadamente abreviada,


entende-se que a concepção de noticiabilidade não deve ser interpre-
tada fora dos tensionamentos – intrínsecos e extrínsecos – do cam-
po jornalístico e dos elementos simbólicos incorporados às rotinas
profissionais inerentes a este (nesse caso, numa leitura tipicamente
bourdieusiana para o fenômeno); segundo aspecto a ser sublinha-
do. Por fim, como terceiro aspecto, compreende-se a concepção de
noticiabilidade no interior de um processo mais amplo, instituído
no plano estético-expressivo. Admite-se, nessa leitura, o pressuposto
de que nenhum padrão estético-expressivo se dissemina socialmente
caso não encontre respaldo em padrões culturais mais amplos e he-
gemônicos pavimentados na experiência cotidiana14.
Reconhece-se, portanto, como outrora debatido (SILVA, 2015, p.
14) e aqui reproduzido, que a abordagem jornalística dos fatos que
constituem dissonâncias na regularidade que configura a vida coti-
diana (fatos, esses, dotados de noticiabilidade) lança mão, no plano
estético-expressivo, de um processo de racionalização e de abstra-
ção do tempo a partir de seu fracionamento. Ou melhor, conforme
sintetiza Sodré (2009, p. 85) ao recuperar as reflexões do sociólogo
alemão George Simmel: “a determinação do tempo abstrato pelos
relógios como a do valor abstrato pelo dinheiro fornece um esquema
de divisões e de medidas extremamente apuradas e seguras”. Con-
sidera-se, então, que a própria divisão dos jornais tradicionais em
seções e cadernos específicos – métrica e cronologicamente segmen-
tados, caracterizados por regularidades temporais próprias (diários,
semanais, quinzenais, etc.) – ajuda a compreender o particular sen-
tido hegemônico de regularidade da vida cotidiana disseminado no
plano estético-expressivo pela prática noticiosa. É nesse cenário que
a discussão sobre a concepção de noticiabilidade também se enqua-
dra. Trata-se de mais uma parada no longo percurso de reflexões que
o tema carece.

14
Ver nesse sentido as interessantes reflexões de Franco Moretti (2009) sobre a disse-
minação social dos romances novecentistas europeus em consonância com os padrões
culturais que respaldavam a vida cotidiana da ascendente burguesia do período.
163
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Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


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Por um percurso da noticiabilidade à estética jornalística


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167

Mundo multipolar,
mídia multipolar PRIMEIRAS CONSIDERAÇÕES

Antonio Ribeiro
A anarquia reina nas relações
entre os Estados (JACK-
SON; SORENSEN, 2010), ma-
de Almeida Junior nifestando-se de modo contun-
Thales Novaes Andrade dente em nosso cotidiano. Por
exemplo, as informações que
recebemos tornam-se, cada vez
mais, propaganda geopolítica
(McCHESNEY, 2008; HER-
MAN; CHOMSKY, 2003). A
distorção dos fatos é intensa e
imensa. Uma glamourização da
guerra é administrada de modo
sistemático pelos grandes meios
de comunicação do ocidente e
do Brasil1 . O império norte-a-
mericano e seus parceiros euro-
peus mentem de modo descara-
do e sistemático sobre fatos da
maior relevância para a vida das
pessoas (ROBERTS, 2015).
A quase totalidade da mídia
ocidental, e também a brasilei-
ra, não desafia os discursos pro-
feridos pelos donos do poder
em Washington (ROBERTS,
2015). Do mesmo modo, a aca-
demia ocidental silencia sobre
os problemas (CHOMSKY,
2004, p. 48-55; CHOMSKY,
168
2015; COHEN, 2015; THE US FOREIGN POLICY ACTIVIST CO-
Mídia e Sociedade em Transformação

OPERATIVE, 2015).
A academia brasileira não faz muito melhor e, de modo geral,
ignora (nos vários sentidos da palavra) as questões geopolíticas em
curso. Grande parte do chamado movimento pacifista permanece
perfeitamente apática diante de situações alarmantes. Os direitos hu-
manos são invocados como armamentos contra os designados como
inimigos do império norte-americano2 . Aqueles que denunciam os
problemas e relatam fatos expõem-se a retaliações que têm origem
em grupos política e economicamente poderosos.
Neste momento, somos ameaçados pelo confronto, potencial-
mente mortal, entre dois poderosos blocos de países. De um lado,
a OTAN e o Japão, liderados pelos EUA, e do outro lado, a Rússia
e seus potenciais aliados (COHEN, 2015; MEASHMAYER, 2015;
BULLETIN OF THE ATOMIC SCIENTISTS, 20153). Alvo das hos-
tilidades norte-americanas4 , europeias e japonesas, a China tem se
posicionado favoravelmente à Rússia, inclusive fechando grandes
acordos comerciais e políticos com aquele país5 . Em maio de 2015,
durante as comemorações dos setenta anos da vitória sobre os na-
zistas, soldados chineses desfilaram em Moscou ao lado de soldados
russos, indianos e de vários outros países6 . Foi a primeira vez que
isto ocorreu. No início de setembro de 2015, nas celebrações pela

1
Consciente ou inconscientemente, muitos brasileiros desejam que o Brasil e os brasi-
leiros venham a ser aceitos como parte do “Ocidente”. Mas, de fato, este desejo precisa
ser analisado e devidamente descartado.
2
http://www.intrepidreport.com/archives/16162.
3
O Bulletin of the Atomic Scientists mantém um relógio que avalia os riscos de apoca-
lipse. Em 2015, este relógio foi colocado a apenas três minutos da meia-noite ou da
catástrofe. Em poucos momentos na história recente, o relógio esteve tão perto da
meia-noite. http://thebulletin.org/
4
A natureza destas disputas pode ser percebida no documento: Revising U.S. grand
strategy toward China. http://carnegieendowment.org/files/Tellis_Blackwill.pdf
5
Os artigos a seguir mostram isto:
1) http://www.bloomberg.com/news/articles/2014-11-10/russia-china-add-to-
400-billion-gas-deal-with-accord
2) http://www.presstv.ir/Detail/2015/01/03/391370/Russia-and-China-mock-divide-
-and-rule
6
http://edition.cnn.com/2015/05/09/europe/russia-victory-day-celebration/
169
vitória sobre os japoneses na Segunda Guerra, soldados russos e de

Mundo multipolar, mídia multipolar


nove outras nações desfilaram em Pequim7 .
Durante as últimas décadas, os Estados Unidos da América
(EUA) têm perdido importância econômica e, hoje, apresentam um
alto nível de endividamento (aproximadamente um ano do PIB). A
crise econômica tem sido apontada como um importante motivo
para a agressividade militar dos EUA (ROBERTS, 2015)8 .
O objetivo deste texto é indicar que essas controvérsias têm sido
mal representadas na mídia ocidental e também na mídia brasileira.
Em lugar de traçar um panorama abrangente destas controvérsias,
este texto é modesto, procurando apenas mostrar que investigações
muito mais extensas e discussões amplas precisam ser realizadas,
dada a enorme complexidade e importância desses assuntos.

UMA FICÇÃO IMPENSÁVEL

Para entender a situação atual, façamos um pequeno exercício


de imaginação.
Durante o colapso dos EUA em 1991, por meio de múltiplas ale-
gações e por pressão da União Soviética, o Texas separou-se dos EUA
e se tornou um Estado independente. Até 2014, o Texas vinha man-
tendo relações muito próximas com os Estados Unidos. Havia múl-
tiplos laços econômicos e comerciais. Na verdade, os sistemas indus-
triais eram profundamente interdependentes, inclusive em aspectos
militares. No entanto, depois da expansão do Pacto de Varsóvia que
incluiu países da América Central, a União Soviética patrocinou um
golpe de Estado no Texas, substituindo um governante pró-Washin-
gton, mas democraticamente eleito, por um grupo de radicais pró-
Moscou.
Agora a entrada do Texas no Pacto de Varsóvia tornou-se uma
proposta em debate, e Moscou está treinando forças militares texanas
para suprimir os revoltosos pró-EUA. Como reação aos incidentes

7
http://www.rt.com/news/313073-beijing-parade-russia-japan/
https://www.rt.com/news/314176-china-military-parade-wwii/
http://www.bbc.com/news/world-asia-china-34125418
8
http://www.paulcraigroberts.org/2015/05/11/war-threat-rises-economy-declines-paul-
craig-roberts/
170
no Texas, os EUA incorporaram parte do território texano e deixa-
Mídia e Sociedade em Transformação

ram claro que não aceitarão a entrada do Texas no Pacto de Varsóvia.


A imprensa hegemônica, pró-Soviética, responsabiliza os EUA pe-
los problemas e fala em agressão norte-americana. A imprensa pró-
Moscou alega que há tropas dos Estados Unidos em território texa-
no. Coisa que os Estados Unidos negam. A União Soviética e seus
aliados estabeleceram um conjunto de sanções econômicas contra
os EUA. O congresso soviético aprovou uma lei destinando recursos
financeiros para patrocinar o novo governo do Texas, propaganda
antiamericana, e outros elementos para “conter a agressão norte-a-
mericana”. Há uma discussão na União Soviética sobre o envio de
armas letais para os texanos. Os norte-americanos reagem patroci-
nando propaganda antissoviética. Tudo isto tem sido chamado de
uma “Nova Guerra Fria”.

UMA REALIDADE IMPENSÁVEL

Se olharmos o que tem ocorrido no leste europeu e especial-


mente na Ucrânia9, com as devidas adequações, esta impensável
ficção está efetivamente ocorrendo. Rompendo com aquilo que ti-
nha sido acordado durante a reunificação alemã10 , a OTAN expan-
diu-se para o leste, incorporando vários países antes pertencentes
ao Pacto de Varsóvia (Polônia, República Tcheca, países bálticos,
entre outros).
Parece haver documentação suficiente para demonstrar o patro-
cínio dos EUA ao golpe dado contra o presidente eleito da Ucrânia
Víctor Yanukovych, que era pró-Moscou11 . A imprensa ocidental
tem ignorado intencionalmente os grupos neonazistas que atuam no
novo governo ucraniano. As atrocidades cometidas por estes grupos
e pelo restante do governo da Ucrânia também têm sido ignoradas.
A incorporação da Crimeia pela Federação Russa foi anunciada
pela imprensa ocidental como uma “agressão russa” e como “ane-
xação” da Crimeia. Na grande mídia, pouquíssimos se lembraram
de dizer que a população da Crimeia fez um plebiscito para decidir

9
Conn Hallinan produziu uma boa avaliação do que ocorreu na Ucrânia em: https://
zcomm.org/znetarticle/ukraine-to-the-edge/
10
http://www.spiegel.de/international/world/nato-s-eastward-expansion-did-the-west-
-break-its-promise-to-moscow-a-663315.html
171
sobre sua solicitação de incorporação à Federação Russa12 . Também

Mundo multipolar, mídia multipolar


não houve grande esforço em dizer que a Crimeia fez parte da Rússia
durante séculos e foi transferida para a Ucrânia durante o governo
de Nikita Krushchev em 1954, quando a Ucrânia e a Rússia eram
partes da União Soviética. A mesma desatenção ocorreu em relação
ao fato de que a maioria da população da Crimeia fala russo e/ou tem
origem cultural russa13 .
Os Estados Unidos e a União Europeia estabeleceram sanções
econômicas contra pessoas, empresas e bancos russos. A Rússia
retaliou estabelecendo sanções sobre produtos agrícolas europeus.
Houve também um ataque à moeda russa, cujo objetivo era causar
o colapso econômico da Rússia. No final de julho de 2015, os EUA
anunciaram uma nova rodada de sanções econômicas contra a Rús-
sia14 , aumentando ainda mais as tensões entre os dois países.
O Senado dos EUA aprovou a resolução S.2277, estabelecendo
uma série de medidas para “conter a agressão russa”15 . Entre estas
medidas, podemos destacar o fortalecimento da OTAN e o patro-
cínio de programas de televisão em russo. A nova estratégia militar
dos Estados Unidos, publicada em 2015, coloca em segundo plano as
organizações terroristas e propõe que os Estados revisionistas são a

11
Parte dos argumentos neste sentido é estabelecida a partir de uma conversa telefô-
nica interceptada entre Victoria Nuland (Assistente do Secretário de Estado dos EUA)
e Geoffrey Pyatt (Embaixador dos EUA na Ucrânia no momento do golpe de Estado),
conforme publicado na internet e reproduzido pela BBC (http://www.bbc.com/news/
world-europe-26079957). No entanto, há muito mais, como, por exemplo, a presença
de políticos norte-americanos de primeiro escalão na Ucrânia. Dois casos notórios são
o Senador John McCain e o Vice-Presidente Joe Biden (http://www.bbc.com/news/
world-europe-30141772). Ou a presença de tropas do grupo mercenário Blackwater
(http://www.telesurtv.net/english/news/Blackwater-Mercenaries-Spotted-in-East-Ukrai-
ne-20150421-0042.html). Há ainda informações que reforçam este argumento no site:
http://www.washingtonsblog.com/2014/12/head-stratfor-private-cia-says-overthrow-
-yanukovych-blatant-coup-history.html.
12
O artigo de Rick Feinberg para o Huffington Post é um destes raros casos de reflexão
sensata (http://www.huffingtonpost.com/american-anthropological-association/crimea-
-russian-aggression_b_5105991.html).
13
Uma avaliação dos motivos para a incorporação da Crimeia como parte da Ucrânia
encontra-se em http://www.wilsoncenter.org/publication/why-did-russia-give-away-cri-
mea-sixty-years-ago.
14
http://www.rt.com/shows/boom-bust/311321-russian-sanctions-Ukraine-Crimea/
15
https://www.congress.gov/bill/113th-congress/senate-bill/2277/text
172
principal ameaça aos EUA, com especial destaque para a Rússia16 . A
Mídia e Sociedade em Transformação

OTAN tem posicionado equipamentos e tropas em países que fazem


fronteira com a Rússia, obrigando o país a constituir contramedidas
apropriadas.
Existem várias acusações apontando para a atividade de ONGs
patrocinadas pelos EUA com a finalidade de desestabilizar a política
dentro da Federação Russa17 .

A ORDEM MUNDIAL UNIPOLAR

Depois do colapso da União Soviética e da criação de diversos


Estados autônomos, em lugar de reduzir seu orçamento militar, os
EUA fizeram o contrário, expandindo os recursos à disposição dos
militares.
Quando ocorreram os atentados de 11 de setembro de 2001, as coi-
sas ficaram ainda mais explícitas. Nas palavras de Chalmers Johnson:
Os norte-americanos gostam de dizer que, como resultado dos
ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 contra o World
Trade Center e o Pentágono, o mundo mudou. Seria mais preciso
dizer que os ataques produziram uma mudança no pensamento
de alguns de nossos líderes, que começaram a ver nossa repúbli-
ca como um genuíno império, uma nova Roma, o maior colosso
da história, não mais limitado pela lei internacional, pelas preo-
cupações dos aliados, ou por qualquer constrangimento no seu
uso de força militar. (JOHNSON, 2004, p. 3)18
Este comportamento está vinculado à perspectiva de construção
e manutenção de uma ordem mundial unipolar, na qual os EUA se-
riam uma “nova Roma”. Isto fica claro também a partir da definição
dada pela chamada doutrina Wolfowitz.

16
http://news.usni.org/2015/07/02/document-2015-u-s-national-military-strategy;
http://foreignpolicy.com/2015/07/06/how-to-read-the-new-national-military-strategy/.
17
A atividade de ONGs pró-EUA dentro da Rússia pode ser avaliada a partir de um artigo
publicado no Pravda: http://english.pravda.ru/russia/politics/29-07-2015/131523-rus-
sia_ned-0/.
18
“Americans like to say that the world changed as a result of the September 11, 2001,
terrorist attacks on the World Trade Center and the Pentagon. It would be more accurate
to say that the attacks produced a dangerous change in the thinking of some of ours
leaders, who began to see our republic as a genuine empire, a new Rome, the greatest
colossus in history, no longer bound by international law, the concerns of allies, or any
constraints on its use of military force.” (JOHNSON, 2004, p. 3).
173
Nosso primeiro objetivo é prevenir a emergência de um novo

Mundo multipolar, mídia multipolar


rival, no território da antiga União Soviética ou em outro lugar,
que coloque uma ameaça sobre a ordem como a colocada anti-
gamente pela União Soviética. Esta é a consideração dominante
subjacente à nova estratégia de defesa e requer que nos esforce-
mos para prevenir qualquer poder hostil de dominar uma região
cujos recursos possam, sob um controle consolidado, ser sufi-
cientes para gerar um poder global.19
A doutrina Wolfowitz corresponde exatamente ao período uni-
polar que ocorreu depois do colapso da União Soviética. Foi um
breve momento de hegemonia dos EUA. O mundo estava unipolar.
Os resultados desta unipolaridade podem, no entanto, ser avaliados.
Ocorreram diversas intervenções capitaneadas pelos EUA: Kosovo,
Iraque (1991 e 2003), Afeganistão, Líbia, Sudão, Somália. Basta uma
olhada na internet para perceber que o número de ações militares
norte-americanas neste período é grande. Nos casos que citamos,
elas foram catastróficas, envolvendo destruição de infraestrutura,
desarticulação da administração burocrática do Estado, violações
das leis internacionais, graves violações de Direitos Humanos e ver-
dadeiros crimes contra a humanidade. Além das ações militares rea-
lizadas, ocorreram também ameaças constantes contra alguns países,
como, por exemplo, o Irã e a Coreia do Norte. O suposto progra-
ma nuclear iraniano é o motivo para as pressões sobre aquele país.
No caso da Coreia, é a posse de armas nucleares o motivo para as
tensões. No entanto, os EUA discutem abertamente o futuro de seu
arsenal. Vários grupos pressionam para que novas armas nucleares
sejam pesquisadas e produzidas, como podemos perceber no discur-
so do Projeto Átomo (Project Atom)20 . No caso da OTAN, também
estão ocorrendo mudanças de suas políticas nucleares21 .

19
“Our first objective is to prevent the re-emergence of a new rival, either on the territory
of the former Soviet Union or elsewhere, that poses a threat on the order of that posed
formerly by the Soviet Union. This is a dominant consideration underlying the new regio-
nal defense strategy and requires that we endeavor to prevent any hostile power from
dominating a region whose resources would, under consolidated control, be sufficient to
generate global power.” (http://www.globalresearch.ca/americas-pursuit-of-empire-wa-
shingtons-post-cold-war-hegemonic-project/5457089).
20
http://csis.org/files/publication/150601_Murdock_ProjectAtom_Web.pdf.
21
http://www.globalresearch.ca/us-nato-powers-intensify-preparations-for-nuclear-war-in-
-response-to-russian-aggression/5458679
174
Hoje, a emergência da China, da Rússia e de outras nações, in-
Mídia e Sociedade em Transformação

clusive do Brasil, coloca em xeque essa unipolaridade. Há um grave


confronto em andamento pela definição das forças geopolíticas pre-
dominantes e da forma de funcionamento das relações internacio-
nais. É bom ter claro, porém, que não se trata de um confronto seme-
lhante ao que ocorreu durante a Guerra Fria, pois as divisões entre
as nações estão ocorrendo em campos completamente distintos. Não
existem disputas sobre diferentes propostas de organização da socie-
dade. A fonte dos conflitos é a possibilidade de nações tomarem suas
decisões de modo independente das políticas norte-americanas.
Com o apoio da União Europeia e do Japão, os Estados Unidos
pretendem manter a situação unipolar. Como a França, países que
pareciam ser independentes passaram a agir de acordo com as ins-
truções de Washington, mesmo quando isto implica em contrariar
os próprios interesses. Um evidente exemplo disto é a retenção pela
França de duas embarcações da classe Mistral22 encomendadas e pa-
gas pela Rússia23 .
O mundo unipolar implica em uma desfiguração dos organismos
internacionais e sua transformação em mecanismos de imposição da
ordem unipolar. Em síntese, no mundo unipolar, os organismos in-
ternacionais não devem ser locais de negociação internacional para
encontrar soluções pacíficas para as questões que implicam séria di-
vergência, mas, em última instância, locais de legitimação da impo-
sição dos interesses norte-americanos.
Entre estes organismos, a ONU ocupa um papel de destaque.
Nas últimas décadas, as decisões da ONU que contrariam os interes-
ses dos EUA têm sido abertamente desafiadas por aquele país. Isto
ocorreu na decisão sobre a invasão do Kosovo e repetiu-se com a
invasão do Iraque. As decisões do Conselho de Segurança da ONU
são gravemente afetadas por esta descaracterização dos organismos
internacionais24 .

22
Porta-helicópteros
Ao fazer isto, a França contraria seus interesses comerciais para atender às pressões
23

dos EUA. As consequências para a França vão muito além dos custos destas transa-
ções, pois está em jogo sua credibilidade como fornecedor de equipamentos bélicos.
Sobre o tema da retenção destas embarcações, ver, por exemplo, http://www.bbc.com/
news/world-europe-29060398.
24
http://www.nzherald.co.nz/world/news/article.cfm?c_id=2&objectid=3098577
175
INFORMAÇÃO GEOPOLÍTICA EM GRANDES VEÍCULOS

Mundo multipolar, mídia multipolar


DE COMUNICAÇÃO

Manter uma agência internacional de notícias custa caro, pois é


necessário manter um grande número de equipes de reportagem ao
redor do mundo. Por isto, muitos veículos de comunicação que pu-
blicam notícias sobre questões internacionais não o fazem a partir de
suas próprias equipes. Eles compram informações de agências inter-
nacionais. Um resultado disto é a concentração de poder nas mãos
de um pequeno grupo de agências de notícias internacionais. Outro
resultado é a repetição destas notícias pelo fato de serem distribuídas
mundialmente pelas grandes agências (FORDE; JOHNSTON, 2013).
Durante as últimas décadas, o Brasil diversificou suas relações
econômicas com os países estrangeiros. Para o Brasil, os EUA dei-
xaram de ter a importância econômica do passado, embora este país
ainda seja um dos maiores parceiros comerciais do Brasil. Houve um
crescimento extraordinário das relações com a China e com o Mer-
cosul. Bastaria este motivo para se pensar que o Brasil deve defender
um mundo multipolar, mas há muitas outras razões para isto. Antes
de tudo, o Brasil precisa defender sua própria soberania, que fica-
rá bastante ameaçada no caso de uma derrota da proposta de um
mundo multipolar. Esta soberania brasileira está claramente definida
como o primeiro fundamento da República no artigo 1º da Consti-
tuição Federal.
Os veículos de comunicação brasileiros deveriam, em primeiro
lugar, informar com o máximo de isenção possível. Claro, isenção
completa não existe e, quando aparece no discurso, geralmente serve
para encobrir descaradas parcialidades. Em segundo lugar, eles de-
veriam levar a sério os interesses brasileiros no cenário internacio-
nal. Não é isto que podemos perceber pela cobertura dos eventos na
Ucrânia e dos assuntos geopolíticos de um modo geral.
O fato é que os veículos de comunicação brasileiros cobrem mal
as questões geopolíticas. O espaço dado a estas notícias é pequeno e,
quase sempre, a qualidade da cobertura é baixa. Assim, o povo bra-
sileiro permanece ignorando as questões geopolíticas e percebe de
modo deficiente a importância delas para o seu bem-estar.
Na maior parte do tempo, os grandes veículos de comunicação
brasileiros têm se posicionado por um mundo unipolar, favorecendo
os interesses norte-americanos. Esta forma de entendimento e propa-
ganda difere do posicionamento do governo do PT e do papel do Bra-
176
sil como membro dos BRICS25 . Entre outras coisas, esta é uma imensa
Mídia e Sociedade em Transformação

fonte de tensão entre o governo do PT e a opinião pública que, até aqui,


segue as avaliações emitidas pelos grandes veículos de comunicação.
Na grande mídia nacional, o discurso norte-americano sobre a
agressão russa contra a Ucrânia passa praticamente sem contestação.
Putin é demonizado de modo escandaloso. Os fatos mais banais são
completamente distorcidos, contrariando as necessidades de infor-
mação da população e as mais básicas pretensões brasileiras por so-
berania nacional.

O CASO DO VOO MH 17 DA MALAYSIAN AIRLINES

A condenação da Rússia e de Putin pela queda do voo MH 1726


foi feita antes de qualquer investigação séria e tomou conta da im-
prensa ocidental e também das notícias brasileiras. Há fatos muito
preocupantes, no entanto. Como se trata de uma área em guerra,
certamente os EUA a monitoram com satélites, mesmo assim, ne-
nhuma imagem de satélite foi liberada por aquele país. O governo
de Kiev também não liberou as comunicações entre os controlado-
res de voo ucranianos e os tripulantes do avião derrubado. A Rússia
forneceu imagens mostrando a presença de um caça ucraniano nas
proximidades do voo MH 17. No dia 30 de julho de 2015, a Rússia
vetou uma resolução do Conselho de Segurança da ONU solicitando
um tribunal para o caso do voo MH 1727 .
Tudo isto demonstra que não se trata de analisar friamente os
fatos, mas de utilizar um evento para demonizar um inimigo. Ao
que parece, os fatos apontam em outra direção, levando a crer que o
avião foi derrubado por um caça ucraniano28 .
Analisemos um caso concreto da cobertura da mídia ocidental.

Sobre os BRICS, leia a declaração do VII BRICS Summit que ocorreu em UFA, Federa-
25

ção Russa: http://mea.gov.in/Uploads/PublicationDocs/25448_Declaration_eng.pdf.


26
O avião da Malaysia Airlines foi derrubado na Ucrânia no dia 17 de julho de 2014.
http://www.rt.com/news/311109-russia-veto-un-tribunal-mh17/; https://www.youtu-
27

be.com/watch?v=D_7dlG7qPio.
28
Uma avaliação sensata dos fatos sobre o caso do voo MH 17 foi escrita por Paul Craig
Roberts e se encontra disponível no site do Russia Today: http://www.rt.com/op-edge/
310103-mh17-russia-tribunal-media/.
Há um documentário feito pelo Russia Today sobre a queda do voo MH 17: https://www.
youtube.com/watch?v=D_7dlG7qPio.
177

Mundo multipolar, mídia multipolar


Capa da Newsweek de 1º de agosto de 2014

Esta capa da revista Newsweek seguiu-se à matéria Os equívocos


de Putin na Ucrânia fizeram dele um pária, publicada pela mesma
revista no dia 22 de julho de 2014. A capa mostra Vladimir Putin,
presidente da Federação Russa, observando uma explosão nuclear.
Podemos ver o “cogumelo nuclear” refletido nas duas lentes dos ócu-
los escuros no rosto de Putin. A capa traz a expressão “O PÁRIA”
(“THE PARIAH”), acompanhada da frase “DENTRO DA BOLHA
À PROVA DE BALAS DO INIMIGO NÚMERO UM DO OCIDEN-
TE” (“INSIDE THE BULLET-PROFF BUBBLE OF THE WEST’S
PUBLIC ENEMY NUMBER ONE”).
De acordo com o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa,
pária: [do tâmil pareyian, ‘tocador de bombo’.] S.m. 1. Filos. No
sistema hindu de castas, a mais baixa, constituída pelos indivídu-
os privados de todos os direitos religiosos ou sociais, quer pelo
seu nascimento, quer pela sua exclusão da sociedade bramânica;
178
sudra.(...) 2. Hindu pertencente a qualquer das castas inferiores.
Mídia e Sociedade em Transformação

3. Fig. Homem excluído da sociedade (...) (FERREIRA, 2009, p.


1495)29
A palavra pária remete, portanto, à ideia de uma exclusão neces-
sária, de uma inferioridade insuperável. Assim, Putin é alguém que
deve ser excluído devido à sua conduta reprovável. Este veredito ex-
cludente é emitido antes de qualquer investigação, levantamento de
evidências ou julgamento. Na verdade, é emitido como parte de uma
campanha massiva de propaganda contra Putin e contra a Rússia.
A frase “dentro da bolha à prova de balas do inimigo número um
do Ocidente” reconhece que Putin precisa ser muito protegido para
não ser morto. Ele também é classificado como “inimigo número um
do Ocidente”, portanto, um inimigo mais temido e priorizado do que
o terrorismo e os terroristas.
Putin observando uma explosão nuclear de óculos escuros su-
gere que ele trata estes assuntos como quem passeia ao sol, como
quem está tranquilamente fora do trabalho, sem qualquer seriedade
e, portanto, de modo irresponsável. No entanto, quando lemos os
discursos de Putin, publicados em inglês no site do Kremlin30 , per-
cebemos que este não é definitivamente o caso. Os discursos fazem
uma análise profunda da situação internacional, apontando uma
série de problemas nas políticas externas dos EUA e dos países da
União Europeia, mostram evidências de práticas ocidentais extrema-
mente problemáticas e predatórias em relação aos países periféricos
e também em relação à Rússia, expõem a degeneração dos organis-
mos internacionais, entre outras coisas.
Esta matéria e esta capa aparecem antes que qualquer investiga-
ção da queda do avião tenha sido concluída ou mesmo iniciada, pois
o avião cai no dia 17 de julho de 2014 e a matéria é publicada no dia
22 de julho de 2014, portanto, apenas cinco dias depois da queda. As
equipes de resgate e investigação ainda não estavam no local. Houve
muita demora nestes trabalhos, pois o local da queda era uma área

29
O Oxford Advanced Learner’s Dictionary dá a seguinte definição de pariah: “[…] a
person who is not acceptable to society and is avoided by everyone (syn) outcast” (uma
pessoa que não é aceitável para a sociedade e é evitada por todos). Este sentido cor-
responde ao sentido figurado da palavra pária na língua portuguesa.
30
http://en.kremlin.ru/
179
em que estavam ocorrendo combates31 . A condenação de Putin e da

Mundo multipolar, mídia multipolar


Rússia ocorreu com base apenas nas alegações do governo norte-a-
mericano e do governo golpista instalado em Kiev. Analisemos agora
um caso da imprensa brasileira.

Capa da revista Veja de 23 de julho de 2014.

Nesta capa, Putin aparece com óculos de sol assistindo ao lança-


mento de um míssil. A manchete é “A CULPA DE PUTIN”, acom-
panhada pelas seguintes afirmações: “283 passageiros de um Boeing
foram mortos nos céus da Ucrânia por um míssil russo na mais forte
ameaça à paz mundial neste século”.

31
https://www.rt.com/shows/documentary/273670-malaysia-airlines-flight-crash/
180
Portanto, antes mesmo do início das investigações, “a culpa de
Mídia e Sociedade em Transformação

Putin” já estava estabelecida e publicada. As explicações definiam


um míssil russo como o autor das mortes. Interessante notar que não
se faz menção aos movimentos de resistência na Ucrânia, “a culpa de
Putin” nem precisa ser compartilhada. Pior ainda, a imagem da capa
sugere que Putin tenha assistido pessoalmente ao lançamento do
míssil que derrubou o avião. Se isto é jornalismo sério, então todos
os manuais de redação jornalística precisam ser reescritos.

COMENTÁRIOS FINAIS

As discussões tratadas acima evidenciam que a geopolítica in-


ternacional continua fortemente marcada por vieses ideológicos e
nacionalistas e influenciada por grupos econômicos e interesses es-
tratégicos. O intuito desse texto não é esgotar as discussões sobre o
cenário político e econômico contemporâneo e nem simplificar as
tendências em curso em torno dos possíveis conflitos entre as gran-
des potências.
Acreditamos que é possível perceber que os grandes veículos de
comunicação brasileiros continuam reverberando fontes e temáticas
construídas pelos grupos hegemônicos. Apesar das grandes trans-
formações tecnológicas e comunicacionais das últimas décadas, ain-
da temos a influência preponderante das agências de notícias inter-
nacionais pautando o noticiário dos grandes grupos brasileiros.
O caso que apresentamos, envolvendo as matérias relacionadas
ao presidente russo Vladimir Putin e sua imagem em matérias da
Newsweek e Veja, é ilustrativo da forma com que setores da mídia
tradicional constroem o debate público envolvendo disputas estraté-
gicas entre grandes potências.
As formas de imitação e reprodução de versões sobre fatos de re-
percussão mundial e estratégica são indicativos da incapacidade dos
grandes veículos nacionais de formularem uma agenda de discussão
autônoma sobre fatos de alta controvérsia. Um padrão de construção
de etiquetas discursivas envolvendo exclusão (párias) e punição (cul-
pa) demonstra a postura pouco reflexiva e altamente comprometida
dos grandes grupos de mídia em se tratando de determinados even-
tos da conjuntura internacional.
O retorno a um contexto ideológico de Guerra Fria, em que
ocorria a desconstrução da imagem do bloco socialista de forma cla-
ramente ideológica e parcial, não condiz com o momento atual em
181
que são possíveis formas descentralizadas e globais de circulação de

Mundo multipolar, mídia multipolar


informações. Os grandes grupos de comunicação e o público preci-
sam se atentar para isso.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa. Disponível em http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.ht-
m,acessado em 21/set/2015.
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Cuban missiles crisis. Disponível em https://www.youtube.com/watch?-
v=vWzHhW_qNiM, acesso em 09/jul/2015.
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der econô-mico no uso da mídia. São Paulo: Futura, 2003.
Constituição da República Federativa do Brasil. Disponível em http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ConstituicaoCompilado.htm,
acessado em 21/set/2015.
FERREIRA, Aurélio B.H. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa.
Curitiba, Editora Positivo, 2009.
FORDE, Susan; JOHNSTON, Jane. The news triumvirate: public relations,
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JACKSON, Robert H.; SORENSEN, Georg. Introdução às relações inter-
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McCHESNEY, Robert. The political economy of media: enduring issues,
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MEARSHEIMER, John. The West Blew It Big Time and Irreversibly En-
dangered European Security (2015). Disponível em: https://www.youtube.
com/watch?-v=rKwKW7gDdeg. Acesso em: 9 jul. 2015
THE US FOREIGN POLICY ACTIVIST COOPERATIVE. In the study of
Peace, American university is lacking. Disponível em: http://www.coun-
terpunch.org/2015/04/22/in-the-study-of-peace-american-university-is-
-lacking/. Acesso em: 28 jul. 2015.
182
4
PARTE
185

Manifestações
pró-impeachment
Dilma Rousseff e
comunicação política
no Twitter1 Entender o que democracia
significa é entender a batalha
que se trava nessa palavra: não
simplesmente o tom de raiva
ou desprezo que pode afetá-la,
Teresinha Maria de mas, mais profundamente, os
Carvalho Cruz Pires 2 deslocamentos e as inversões
de sentido que ela autoriza ou
que podemos nos autorizar
a seu respeito. (Jacques Ran-
cière, 2014).

INTRODUÇÃO3

Q uinze de março de 2015.


Entre 1 milhão e 1,4 milhão
de brasileiros, segundo fontes
noticiosas, em pelo menos 152
municípios, incluindo todas
as capitais, foram as ruas ten-
do como alvos bem precisos o
governo federal e seu partido.
Os manifestantes expressavam
seu descontentamento com os
rumos da economia no país;
reivindicavam o impeachment
da presidente Dilma Rousseff e
186
acusavam o Partido dos Trabalhadores (PT) de ser responsável pelo
Mídia e Sociedade em Transformação

escândalo de corrupção na Petrobras envolvendo políticos e grandes


empreiteiras do país. Em termos políticos e acadêmicos, a novidade é
tanto a ocupação dos espaços públicos por manifestantes com perfil
mais conservador quanto o expressivo número de participantes. No
âmbito deste artigo, interessa-nos tratar do envolvimento do princi-
pal partido de oposição, o Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB) nesse evento e do modo como o governo federal ao longo do
processo tomou-o como adversário. Em outros termos, recorrendo
a Champagne (1996, p. 72), a intenção é demonstrar a presença de
“uma verdadeira instrumentalização da manifestação na medida em
que esta se torna um meio racional para exercer pressão nos espaços
institucionais de poder”.
No que se refere ao âmbito comunicativo, a intenção é descrever
e analisar a comunicação digital planejada pelo governo para enfren-
tar essa ação política no dia da manifestação, mais especificamente,
o discurso político do governo e do PT no Twitter. Nesse sentido, o
corpus é constituído por um documento creditado ao então ministro
Thomas Traumann, da Secretaria de Comunicação Social da Presi-
dência da República – produzido em off e com um lócus determina-
do de destinação: a presidente e seus ministros, os dirigentes do PT
e os assessores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – , que, no
entanto, foi publicado na íntegra no dia 17 de março pelo jornal O
Estado de S. Paulo. Esse documento, elaborado no dia 16 de março,
foi estruturado em três partes (“Onde estamos”; “Como chegamos
até aqui” e “Como virar o jogo”)4 e tinha como finalidade apresen-

1
Uma primeira versão deste artigo intitulada Manifestação de rua e os novos modos
de produção da opinião pública. Brasil Março 2015 foi apresentada no IV Congreso
Internacional de Estrategias de Comunicación Política y Campaña, realizado na Univer-
sidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, de 17 a 19 de setembro de 2015, Área
1 “Comunicação de Governo”, Mesa 3 “Comunicación política en tiempos de crisis: el
segundo mandato de Dilma Rousseff”.
2
Professora doutora do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social, “Inte-
rações Midiáticas”, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
E-mail: pires@pucminas.br
3
Gostaria de agradecer ao Caio Cesar Oliveira pela grande contribuição na compreen-
são da lógica de funcionamento do Twitter, à Nayla Lopes pelas pertinentes sugestões
na qualidade de comentarista do artigo, à Maria Céres Castro, Milton Rego Mozahir
Bruck e Ana Maria Oliveira pelas ricas sugestões, e ao Sérgio Pires pelas interlocuções
ao longo do processo de elaboração do texto.
187
tar um balanço da manifestação ocorrida no dia anterior. Nele são

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


reveladas as dificuldades e desafios do governo tanto em termos da
construção de seu discurso político em uma circunstância de crise
política – “de caos político” – quanto em relação ao uso das mídias
sociais para “guerrilha política”.
A partir de uma análise de conteúdo desse rico documento,
identificou-se que o governo havia produzido material de comuni-
cação para ser veiculado nas mídias sociais no dia da manifestação.
Com base nessa informação, foi dada ênfase na constituição do cor-
pus a partir de um minucioso processo manual de seleção utilizando
a ferramenta de busca avançada do Twitter com a hashtag #Meno-
sÓdioMaisDemocracia. Desse modo, foram selecionados tuítes pos-
tados por três perfis: Dilma na Rede, PT Brasil e Agência Brasil, no
horário entre 11 e 17 horas, intervalo esse de pico das postagens,
conforme informação fornecida pela empresa Scup (2015). No total,
foram selecionados 17 para análise, considerados significativos da
estrátegia discursiva adotada naquele dia. Uma pré-observação des-
se material evidenciou sua natureza dialógica com discursos e fatos
políticos que ocorreram entre os meses de outubro e novembro de
2014 – segundo turno da campanha eleitoral e período subsequente.
Em vista disso, foi necessária uma pesquisa documental em jornais
de modo a elaborar uma narrativa que apresentasse de modo crono-
lógico e coerente como o termo impeachment, associado à presidente
Dilma Rousseff, surge e passa a organizar o debate público. Tal re-
constituição das ações e dos discursos políticos são apresentadas no
tópico intitulado O impeachement como luta política e simbólica. No
tópico Disputando sentidos sobre o impeachment: embates discursivos
em “tempo real” no Twitter, de início, é apresentada a hashtag #Me-
nosÓdioMaisDemocracia – escolhida pelo governo para divulgar
sua comunicação política – bem como seu modo de circulação nas
mídias sociais no dia da manifestação. Na sequência, são analisados
os tuítes selecionados.
Do ponto de vista acadêmico, cabe sublinhar a relevância do aces-
so àquele documento reservado do Palácio do Planalto em termos de
riqueza de informações e diagnósticos sigilosos – que, de outro modo,

4
Uma versão na íntegra deste documento está disponível em: http://www1.
folha.uol.com.br/poder/2015/03/1604299-em-documento-interno-planalto-diz-
-que-comunicacao-e-errada-e-erratica.shtml.
188
dificilmente seriam obtidos – sobre as estratégias de construção de
Mídia e Sociedade em Transformação

imagem pública política da presidente da República, Dilma Rous-


seff, em um momento de crise política, e, de modo mais específico,
por ocasião de uma manifestação de rua. Morán (2005) e Magalhães
(2013) assinalam como um campo das Ciências Sociais denominado
Sociologia das Manifestações ainda é pouco explorado na Europa –
com exceção da França – e no Brasil, respectivamente. No âmbito das
Ciências Políticas, em específico no campo dos estudos de Comunica-
ção Política, pode-se dizer, também, que as pesquisas sobre estratégias
de construção de imagem pública política em campanhas eleitorais já
se encontram consolidadas em termos de referenciais teóricos e meto-
dológicos. Entretanto, como bem salientam Mundim e Tomaz (2007,
p. 133), o mesmo não se pode dizer sobre o estudo das “dinâmicas
comunicativo-discursivas que se desenvolveram em [outros] períodos
específicos”. Posto isso, acredita-se que a reflexão, ora proposta, pos-
sa trazer uma contribuição para futuras pesquisas que se situarem na
interseção desses dois campos: manifestações de rua e comunicação
política em momento de crise política.
Para além dessa possibilidade de avançar nessas duas linhas
de estudo – sociologia das manifestações e comunicação política e
manifestações –, cabe destacar que o documento viabiliza também,
como se verá adiante, uma reflexão sobre manifestações e teoria de-
mocrática. As manifestações do dia 15 de março, ao colocarem em
questão, de modo singular, a legitimidade do processo eleitoral de
2014, faz com que o governo organize seu embate discursivo opondo
dois modos de expressão da opinião pública: o sufrágio universal x
manifestação de rua. Estabelecendo, assim, como par antinômico:
democracia x ódio. Por fim, ressalta-se que a reflexão desenvolvida a
seguir inscreve-se no quadro de pesquisas da autora, que têm como
objeto de estudo, desde 2009, os discursos políticos, midiáticos e ins-
titucionais do e sobre o lulismo, aqui entendido, sobretudo, como
sugere Ricci (2013), como um modelo de gerenciamento do Estado e
de governabilidade política que se evidenciou a partir de 2002, mea-
dos da primeira gestão de Luís Inácio Lula da Silva.

O IMPEACHMENT COMO LUTA POLÍTICA E SIMBÓLICA

Como se verá adiante, a manifestação do dia 15 de março pró-


-impeachment é interpretada pelo governo Dilma Rousseff como
“um terceiro turno” eleitoral – um golpe na democracia – mais uma
189
tentativa de reversão por parte do PSDB, de Aécio Neves e de sua

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


militância, do resultado obtido nas urnas, nesse momento por meio
da legitimação de um outro modo de expressão da opinião pública:
a manifestação de rua. Posto isso, considera-se que não é possível o
entendimento do discurso político governamental que circulou nas
mídias sociais – no caso, em exame no Twitter – no dia da manifes-
tação sem a percepção de seu caráter marcadamente dialógico com
as construções discursivas caracterizadas fortemente pela polariza-
ção política que marcou o segundo turno da disputa presidencial de
2014. Nesse sentido, a seguir a proposta é tratar dos embates políti-
cos e discursivos (simbólicos) que antecederam as manifestações do
dia 15 de março de 2015.
No dia 23 de outubro de 2014, quinta-feira, às 20h19 – véspe-
ra do último dia do Horário Gratuito Político Eleitoral (HGPE) do
segundo turno no rádio e na televisão – passa a circular a versão
on-line5 da revista brasileira Veja, com uma “reportagem bomba”.
Em sua capa, são estampados os rostos da presidente Dilma Rousseff
e do ex-presidente Lula entremeados pelos dizeres: “Petrolão. O do-
leiro Alberto Yousseff, caixa do esquema de corrupção na Petrobrás,
revelou à Polícia Federal e ao Ministério Público, na terça-feira pas-
sada, que Lula e Dilma Rousseff tinham conhecimento das tenebro-
sas transações na estatal”. Minutos depois, às 20h57, o colunista da
revista, Felipe Moura Brasil, publicava em seu blog o post intitulado
“Capa-Bomba da Veja! Dilma e Lula sabiam de tudo”:
Conheça, nesta edição de VEJA, os detalhes do depoimento que
Alberto Youssef prestou às autoridades. E se essas autoridades
não agirem até domingo, se o impeachment não sair a tempo,
a população brasileira precisa se dar conta da dimensão des-
sa bomba para ao menos despachar essa gente pelo voto. Que
Aécio Neves (PSDB) faça bom uso dela. O Brasil não pode mais
ficar à mercê de tanta roubalheira, de tanto cinismo, de tanta vi-
garice. (BRASIL, 2014, grifos nossos).
Desse modo, a palavra impeachment, associada à presidente Dil-
ma Rousseff, é posta em circulação no espaço público, e, como bem
sugere Krieg-Planque (2010, p. 13), tal emergência pode ser vista, de

5
No dia 24, a edição impressa da revista se esgotou e uma segunda tiragem foi posta
em circulação no sábado, dia 25 de outubro.
190
modo exemplar, “ao mesmo tempo, [como] instrumento e o lugar (e
Mídia e Sociedade em Transformação

não apenas a origem ou a consequência) das divisões e das junções


que fundam o espaço público”6 . Nas palavras do colunista, a expli-
citação de seu partidarismo: que a denúncia de Veja desencadeasse
um processo de accountability junto à Polícia Federal e ao Ministério
Público no sentido de uma suspensão do pleito eleitoral e, caso isso
não ocorresse, caberia à população brasileira “se dar conta da di-
mensão dessa bomba para ao menos despachar essa gente pelo voto”.
Também chama a atenção a recomendação feita a Aécio Neves: fazer
bom proveito da denúncia.
No dia seguinte, dia 24, ressalta-se a rapidez com que pelo me-
nos quatro significativas ações políticas desencadearam-se a partir
desse episódio: diversos veículos publicaram matérias nas quais os
jornalistas convocavam juristas e especialistas a conjecturarem sobre
a possibilidade de um impeachment caso a denúncia fosse comprova-
da; a utilização por Dilma Rousseff de seu último HGPE para refutar
as denúncias; a centralidade conferida ao fato pelo candidato Aécio
Neves (PSDB) no último debate transmitido pela Rede Globo7 ; pe-
dido de direito de resposta contra a editora Abril, que edita a revista
Veja, impetrado pelo PT e a coligação “Com a Força do Povo” no
Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na madrugada do dia 25 de ou-
tubro, a sede da editora Abril, localizada na zona oeste de São Paulo,
amanhece pichada por militantes petistas com os dizeres “Fora Veja”
e “Veja Mente” após um protesto contra a publicação da reportagem
de capa da revista.
No âmbito deste artigo, interessa-nos destacar como no dia 24 as
respostas de Dilma Rousseff se limitavam a alertar a população acer-
ca da tentativa de a Veja, juntamente com outros setores, “parceiros
ocultos”, tentar influir da decisão dos eleitores. Como exemplo, res-
salta-se o seguinte trecho de sua fala no HGPE:

6
Toma-se, no âmbito deste artigo, o termo impeachment como uma “fórmula discursiva”
no sentido formulado pela autora. Como uma palavra que permite visualizar, a partir do
modo como circulou na cena pública, “a forma como diversos atores sociais (homens
e mulheres políticos, militantes de associações, representantes sindicais, dirigentes de
empresas, comunicadores, jornalistas, profissionais, intelectuais...) organizam, por meio
dos discursos, as relações de poder e de opinião”. (KRIEG-PLANQUE, 2010, p. 9).
7
O tucano fez a primeira pergunta e questionou Dilma sobre o escândalo de corrupção
na Petrobras: “A senhora sempre diz que não sabe de nada. De quem é a responsabili-
dade por tantos desvios da Petrobras?”.
191
[...] não posso me calar frente a este ato de terrorismo eleitoral

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


articulado pela revista Veja e seus parceiros ocultos. [...] Sem
apresentar nenhuma prova concreta e mais uma vez basean-
do-se em supostas declarações em pessoas do submundo do
crime a revista tenta envolver diretamente a mim e ao presidente
Lula nos episódios da Petrobras que estão sob investigação da
Justiça. (IGLESIAS, 2014, grifos nossos).
Cabe sublinhar nessa fala de Dilma Rousseff seu argumento de
que a revista Veja não apresentava nenhuma prova concreta e basea-
va-se em supostas declarações de pessoas não idôneas – “pessoas do
submundo do crime”, não se baseando, portanto, em dados ou fatos,
como queria Hannah Arendt (1992) ao definir a opinião, ou a verda-
de factual, ambas relativas ao terreno da vida social. Apoiando-se na
autora, Castro (1993) ressalta de modo pertinente: “um tipo de ver-
dade muito especial e que, diferentemente das verdades filosóficas e
racionais ‘é política por natureza’ e pertence ao mesmo domínio que
a opinião”.
No dia seguinte, dia 25 de outubro, em entrevista coletiva em
Porto Alegre, onde encerrava sua campanha eleitoral, a presidente –
informada acerca de uma petição on-line que já teria coletado mais
de 650 mil assinaturas pedindo o seu impeachment –estabelece, pela
primeira vez, uma associação entre esse termo e golpe:
Eu quero aqui manifestar meu repúdio a esse tipo de processo
que é um processo golpístico [sic], que não se coaduna com uma
situação democrática. Eu quero dizer aqui que eu tenho uma
vida inteira que demonstra o meu repúdio à corrupção. Eu não
compactuo com a corrupção e quero que provem que eu com-
pactuei com a corrupção. (PRAZERES, 2014)8.
No dia 27 de outubro, o resultado da eleição presidencial é oficia-
lizado: o candidato a presidente pelo PSDB, Aécio Neves, teve 51 mi-
lhões de votos (48,36%) contra 54,5 milhões (51,64%) da presidente
Dilma Rousseff, reeleita pelo PT. Três dias depois, dia 30 de outubro,
o coordenador jurídico da campanha do candidato derrotado Aécio
Neves, deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), entrou com um
pedido de auditoria a fim de que se examinasse a “lisura” do pleito

8
Sobre as estratégias adotadas na campanha presidencial de Dilma Rousseff de 2010
para lidar com o tema da corrupção, ver Teles e Pires (2014).
192
eleitoral. De modo interessante, uma matéria publicada pelo portal
Mídia e Sociedade em Transformação

G1 informava que “o texto protocolado diz que a confiabilidade da


apuração e a infalibilidade da urna eletrônica têm sido questionadas
pela população nas redes sociais” (PSDB PEDE..., 2014). No dia 4 de
novembro, o plenário do Tribunal Superior Eleitoral recusa o pedido
do PSDB, mas libera o fornecimento de dados e acesso a programas
e arquivos eletrônicos usados no processo. Com as informações em
mãos, o PSDB poderia fazer sua própria auditoria.
Em 7 de novembro, o então ministro da Fazenda Guido Man-
tega informa sobre a redução dos subsídios dados pelo BNDES nos
empréstimos. No dia 27 de novembro, o Palácio do Planalto fez o
anúncio do nome de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda. E
no dia 29 de novembro, a presidente Dilma Rousseff envia ao Con-
gresso medidas provisórias que tornava mais rigoroso o acesso da
população a uma série de benefícios previdenciários: o seguro-de-
semprego, pensão por morte, auxílio doença e abono salarial. Tais
desdobramentos desenharam um cenário complicado, conforme o
precioso relato do então ministro-chefe da Secretaria de Comunica-
ção da presidência, Thomas Traumann:
Pesquisa feita pela FGV [Fundação Getúlio Vargas] no último
dia do segundo turno de 2014, com base em amostra de mais
de 600 mil tuítes, mostrava as redes sociais brasileiras divididas,
com leve vantagem para o campo pró-Dilma. A partir de no-
vembro, as redes sociais pró-Dilma foram murchando até serem
quase extintas. Principal vetor de propagação do projeto dilmista
nas redes, o site Muda Mais acabou. Os robôs que atuaram na
campanha foram desligados e a movimentação dos candidatos
do PT foi encerrada. Mas o movimento mais impressionante
ocorreu entre os militantes, os apoiadores da candidatura de Dil-
ma. Pesquisa da FGV mostrou que, a partir do final de novembro
– com o anúncio de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda
e as primeiras medidas do ajuste – a militância orgânica dilmista
começou a parar de defender o governo. Houve um soluço pró-
Dilma nas redes sociais no dia da posse, mas a pesquisa da FGV
é afirmativa: houve um descolamento entre o governo e a sua
militância. (TRAUMANN, 2015, grifos nossos).

Importa ressaltar como esse descolamento entre governo e mili-


tância foi aferido por meio de um monitoramento das mídias sociais,
no qual se constatou “a mágoa dos eleitores de Dilma” basicamente
relacionada com o descompasso entre o seu discurso eleitoral e os
193
ajustes econômicos implementados pela equipe econômica da pre-

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


sidente. Também é importante mencionar o papel imputado à te-
levisão na desconstrução da imagem pública política de Dilma – o
“massacre nas TVs com as denúncias de corrupção na Petrobrás”:
A ausência de agendas públicas da presidenta da eleição ao car-
naval, a mudança nas regras do seguro desemprego e pensão por
morte, o desastrado anúncio de cortes do FIES, o aumento nos
preços da gasolina e energia elétrica e o massacre nas TVs com as
denúncias de corrupção na Petrobrás geraram entre os dilmistas
um sentimento de “abandono” e “traição”. Constata-se hoje nas
redes uma mágoa dos eleitores de Dilma, registradas em frases
como “votamos nela e a política econômica é do Aécio”, “não
tinha como ela não saber dessa corrupção toda na Petrobrás”,
“ela disse que a vaca não ia tossir, mas tossiu”, “ela mexeu nos
direitos dos trabalhadores”, “na hora de pedir voto ela aparecia e
agora sumiu”, “ela disse que ia segurar a conta de luz e soltou” etc.
(TRAUMANN, 2015).
Para além da militância, problemas com a base aliada e o pouco
alcance da comunicação oficial também são apontados:
As páginas dos deputados e senadores do PT pararam de de-
fender o governo. Hoje, por exemplo, a página do deputado
Jean Wyllys, do PSOL, tem um peso na defesa do governo
maior que quase toda a bancada federal. É sintomático que a
principal página do Facebook pró-Dilma não oficial, a Dilma
Bolada, começou a perder fãs em fevereiro, o que pode signifi-
car uma situação de quebra de imagem. Apenas as páginas ofi-
ciais Portal Brasil/Blog do Planalto/ Facebook da Dilma e o site
do PT seguem defendendo o governo, mas suas mensagens não
conseguem ser reverberadas fora da sua corrente de seguidores.
Ou seja, o governo e o PT passaram a só falar para si mesmo.
(TRAUMANN, 2015).
Diferentemente do governo – que após as eleições encerrou a
produção de conteúdos nas mídias sociais, desativando seus robôs
na rede e teve problemas com sua militância –, a oposição, na ava-
liação de Traumann, mesmo com a derrota nas urnas, deu sequência
às suas ações para tentar reverter o resultado eleitoral, produzindo
conteúdos antiDilma e continuou contando com o apoio da mídia
tradicional:
[...] A tática do PSDB foi exatamente a oposta. Cerca de 50
robôs usados na campanha de Aécio continuaram a operar
194
mesmo depois da derrota de outubro. Isso significou um flu-
Mídia e Sociedade em Transformação

xo contínuo de material antiDilma, alimentando os aecistas e


insistindo na tese do maior escândalo de corrupção da histó-
ria, do envolvimento pessoal de Dilma e Lula com a corrupção
na Petrobrás e na tese do estelionato eleitoral. Tudo com su-
porte avassalador da mídia tradicional. (TRAUMANN, 2015,
grifos nossos).
No âmbito deste artigo, interessa-nos destacar como o então mi-
nistro Thomas Traumann traz para a cena pública essas informações
de que o PT – até as eleições – e o PSDB – durante a campanha
e depois – fizeram uso dessa estratégia publicitária. De modo inte-
ressante, Fábio Malini, em entrevista concedida à jornalista Natália
Viana da Agência Pública, sublinha a presença da emoção na pauta
política gerada a partir desse expediente de utilização de robôs e de
sua consequente velocidade de publicações:
Quando a velocidade aumenta, mil tuítes a cada minuto, isso só
vai aumentando o nível de ansiedade em torno daquele tema.
Isso provoca no usuário essa movimentação toda na timeline
cria um efeito imediato, provado em estudos do próprio Face-
book, de criar um engajamento maior. A gente está vivendo uma
experiência política que é nova na nossa experiência moderna: a
emoção na pauta política. (VIANA, 2015a).
No entanto, Malini (2013) lembra de modo oportuno que a pre-
sença de robôs na política é prejudicial à democracia: “É o poder do
mais forte, aquele que tem dinheiro para gerar a detratação do opo-
nente, para criar campanha e tendência”. (VIANA, 2015a). Reside aí
a grande repercussão que o vazamento do documento de Traumann
gerou. A mídia tradicional, sem mencionar as referências de Trau-
mann ao uso de robôs também pela oposição, deu ênfase à presença
de uma guerra suja – financiada com recursos públicos – praticada
pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT)9. Posto isso, dados
comparativos entre o alcance obtido pelo governo e pela oposição
nas mídias sociais são apresentados: “Em fevereiro as mensagens/
textos/vídeos oposicionistas conseguiram a capacidade de atingir 80
milhões de brasileiros. As páginas do Planalto mais as do PT, 22 mi-
lhões.” E conclui-se:
Ou seja, se fosse uma partida de futebol estamos entrando em
campo perdendo de 8 a 2. De um lado, Dilma e Lula são acusa-
dos pela corrupção na Petrobrás e por todos os males que afetam
o País. Do outro, a militância se sente acuada pelas acusações e
195
desmotivada por não compreender o ajuste na economia. Não é

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


uma goleada. É uma derrota por WO10 . (TRAUMANN, 2015).
Como bem aponta Lavareda (2009, p. 126) mencionando Bruce
Henderson, em termos de marketing político, “estratégia é a com-
petição refletida, calculada, planejada, na qual, ‘as diferenças entre
você e seu competidor são a base de sua vantagem’11”. Na avaliação
de Traumann, o governo apresentava-se em franca desvantagem
com relação ao adversário. Em vista disso, buscou, nos dias 8 e 15 de
março de 2015, coordenar suas ações com outras forças políticas que
apoiavam o governo:
As responsabilidades da comunicação oficial do governo federal
e as do PT/Instituto Lula/bancada/blogueiros são distintas. As
ações das páginas do governo e das forças políticas que apoiam
Dilma precisam ser muito melhor coordenadas e com missões
claras. É natural que o governo (este ou qualquer outro) tenha
uma comunicação mais conservadora, centrada na divulga-
ção de conteúdos e dados oficiais. A guerrilha política precisa
ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada
por soldados fora dele. Essa coordenação por si só não vai mu-
dar o humor do eleitor dilmista. Mas como mostraram as ações
conjuntas no dia 8[de março] e no dia 15 [de março], são um
início. (TRAUMANN, 2015, grifos nossos).
Em um outro trecho do documento de Traumann, é possível
apreender quais características que a comunicação deveria ter para al-
cançar maior eficácia: “o Facebook, o Twitter, o G+, etc., são espaços

9
No dia 18 de março, o líder da oposição, deputado Bruno Araújo (PSDB-PE), e os de-
putados Nilson Leitão (PSDB-MT) e Elizeu Dionizio (SD-MS) protocolaram requerimento
para solicitar convocação do então ministro-chefe da Secom para que ele esclarecesse
supostas contratações de robôs e financiamentos de blogs para favorecer o governo fe-
deral. Na ocasião, o líder da oposição justificou assim o seu pedido: “É inadmissível que
um órgão oficial se utilize dessa prática e envolva recursos públicos para o pagamento
de blogueiros, crackers ou hackers a serviço do governo, ou ainda, que os incentive a
publicar matérias favoráveis ao governo e contrárias à oposição.” (JUNGBLUT, 2015). No
dia 25 de março, como resposta direta ao vazamento do documento, Thomas Traumann
pede exoneração do cargo e, no dia seguinte, é publicada sua demissão no Diário
Oficial da União.
10
“Abreviação em inglês de walkover, que significa alguma coisa que foi conquistada
muito fácil, muito usada em esportes, quando o oponente não comparece e é dado
como derrotado”. (Dicionário Criativo).
HEDERSON, Bruce. The essential of strategies. Harvard Business Review, nov./dez.
11

1989, p. 139-143.
196
privilegiados para o ataque, a zombaria e a propagação de palavras
Mídia e Sociedade em Transformação

de ordem. É um espaço onde o convencimento, o diálogo, a troca de


ideias até existe, mas é lenta e geralmente se prega para convertidos” .
Por fim, cabe informar sobre duas ações que foram protagoni-
zadas pelo presidente do PSDB, senador Aécio Neves, às vésperas
da manifestação. No dia 11 de março, é publicada na imprensa uma
nota assinada por ele em conjunto com os líderes do partido no Se-
nado e na Câmara, Cássio Cunha Lima e Carlos Sampaio, informan-
do sobre sua adesão e apoio aos protestos contra a presidente Dilma
Rousseff. Dessa nota, ressalta-se o seguinte trecho:
[...] O PSDB repudia a atitude daqueles que, em nome de seus
interesses partidários, cerceiam e deturpam o direito à livre ma-
nifestação, e tentam convencer a população de que a crítica aos
governantes se confunde com atentados contra a ordem institu-
cional e o Estado de Direito.
Na mesma linha, no dia 13 de março, Aécio Neves posta um ví-
deo de 26 segundos no YouTube12 , convocando a população para
a manifestação e buscando se contrapor aos argumentos do gover-
no de que o evento significava um “terceiro turno eleitoral” ou uma
tentativa de golpe. Do texto que acompanha tal vídeo, destaca-se o
trecho no qual Aécio explicita a presença de uma disputa discursiva
entre oposição e governo pelo sentido da palavra democracia:
“O próximo domingo, dia 15, vai ser lembrado para sempre
como o Dia da Democracia, o dia em que os brasileiros acordaram e
foram pra rua, para dizer ‘chega de tanta corrupção’, ‘chega de tanta
incompetência’, ‘chega de tanta mentira’.”
A seguir, são examinados conteúdos que foram postados no
Twitter por três perfis alinhados com o governo que partiram para
“o ataque e a propagação de palavras de ordem”. São eles: Dilma na
rede, PT e Agência PT.

12
Até o dia 27 de setembro de 2015, o vídeo contabilizava 44.723 visualizações, tendo
sido curtido por 436 usuários e não curtido por outros 266.
13
No original: “Hashtags are another important feature of the Twitter platform. They allow
users to annotate tweets with metadata specifying the topic or intended audience of a
communication. [...] Each hashtag identifies a stream of content, with users’ tag choices
denoting participation in different information channels.”
197
DISPUTANDO SENTIDOS SOBRE O IMPEACHMENT: EMBATES

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


DISCURSIVOS EM “TEMPO REAL” NO TWITTER

No dia 15 de março, a palavra de ordem do governo ganhou a


forma de uma hashtag: #MenosOdioMaisDemocracia. De acordo
com Conover et al. (2011, p. 90), hastags
são ferramentas muito importante no Twitter. Elas permitem
que as pessoas postem seus tuítes em uma escala maior, especifi-
cando o tópico ou o público o qual pretende alcançar. [...] Cada
hashtag identifica um fluxo de conteúdo, com usuários partici-
pando em diferentes canais de informação.13
Um estudo realizado pelo Scup (2015) monitorou as redes so-
ciais no decorrer das manifestações do dia 15 de março. Com base
no acompanhamento realizado desde o dia 9 de fevereiro de 2015,
constatou que, pela primeira vez até aquela data, as menções favo-
ráveis à presidente Dilma tinham sido equivalentes às desfavoráveis,
nos mais de 115 mil posts coletados. Diz o relatório que tal recupera-
ção havia sido impulsionada pela hashtag #MenosÓdioMaisDemo-
cracia, que fora citada mais de 35 mil vezes durante todo o dia, sendo
que o maior número de postagens favoráveis à presidente Dilma
Rousseff situam-se entre as 11 e 13 horas.
Nessa figura, importa ressaltar como o maior número de posta-
gens favoráveis à presidente Dilma Rousseff situam-se entre as 11 e
13 horas. Em seu documento, Thomas Traumann (2015) nos auxi-
lia na compreensão do porquê as menções positivas passam a cair
a partir das 13 horas: “No domingo houve uma disputa equilibrada
até a PM [Polícia Militar] falar em um milhão na Paulista”. Como se
verá adiante, essa informação sobre o número de manifestantes, no-
ticiada com destaque pela Rede Globo nesse horário, foi motivo para
uma intensa batalha discursiva nos perfis selecionados para exame.
De acordo com Champagne (1996), são três os modos legítimos de
expressão da opinião pública: o voto, as sondagens e as manifesta-
ções de rua. Albuquerque (1993), na mesma linha que Champagne,
ressalta que: No caso do voto e das sondagens, é atribuída a uma
dada amostra o valor de substituto adequado (e suficiente) da opi-
nião geral da população. No caso das sondagens, essa operação é ga-
rantida pela legitimidade estatística (científica) dos procedimentos
empregados; no caso das manifestações públicas, por outro lado, o
seu caráter é o seu valor de espetáculo – o modo como elas se deixam
198
apreender pela cobertura das media é que legitimam tal substituição.
Mídia e Sociedade em Transformação

Nesse sentido, o autor apõe representação versus simulação.


No relatório apresentado pelo Scup, uma outra informação nos
é importante: “No Twitter, além do uso da hashtag favorável a pre-
sidenta, destacou-se também o alto número de retweets (51%) e a
quantidade de mensagens postadas por influenciadores (28%), perfis
com mais de 500 seguidores” (SCUP, 2015). Conover el al. (2011, p.
90) consideram o retuíte e as menções como duas redes de comuni-
cação política do microblog Twitter:
Os retweets aparecem como uma forma de apoio ao que já foi
dito, permitindo indivíduos de retransmitir um conteúdo gera-
do por outros usuários, fazendo assim com que o conteúdo seja
visualizado por mais pessoas (BOYD; GOLDER; LOTAN, 2008).
A função de mencionar permite que alguém se dirija a alguém
específico através do feed público, ou para se referir a alguém
na terceira pessoa (HONEYCUTT; HERRING, 2008). Esses dois
meios de comunicação – retuítes e menções – servem a objetivos
diferentes e complementares, agindo juntos como um mecanis-
mo primário para interação de usuário para usuário na platafor-
ma do Twitter .14
Nos perfis selecionados, observa-se o recorrente recurso a essas
duas estratégias de comunicação política, tanto no sentido de dotar
de maior visibilidade determinados conteúdos – rede de retuítes –
quanto facilitando a conexão com outros perfis.
Há que se ressaltar também que a movimentação na rede conse-
guiu fazer como que a hashtag #MenosOdioMaisDemocracia, no dia
15 de março, chegasse aos trending topics do Twitter no Brasil e quin-
to lugar no Twitter mundial, ganhando repercussão na imprensa tra-
dicional. Nesse sentido, de modo apropriado, Cardon (2012, p. 30)
assinala sua potência em termos de envolvimento dos internautas:
Enfim, com a “Web em tempo real” da qual o Twitter é a aplicação
máxima, se desenvolve uma nova métrica de visibilidade que con-

14
No original: “Retweets act as a form of endorsement, allowing individuals to rebroa-
dcast content generated by other users, thereby raising the content’s visibility (boyd,
Golder, and Lotan 2008). Mentions function differently, allowing someone to address a
specific user directly through the public feed, or, to a lesser extent, refer to an individual
in the third person (Honeycutt and Herring 2008). These two means of communication –
retweets and mentions – serve distinct and complementary purposes, together acting as
the primary mechanisms for explicit, public user-user interaction on Twitter”.
199
sagra a rapidez de circulação na informação como nova medida.

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


A aceleração dos fenômenos de viralidade na internet atribui cada
vez mais importância às ferramentas que propõem um quadro de
bordo que supervisiona em tempo real os sujeitos das conversas
casuais (trending topics). Assim, tais medidas virais entram em
competição com outros tipos de classificação para envolver os in-
ternautas em uma busca do imediato e da novidade.
Nessa perspectiva, é interessante a conclusão a que chegou a em-
presa de monitoramento e intervenção digital Interagentes: “A lógica
de disputa entre hashtags é similar à lógica panfletária: cada lado usa
os recursos que tem a fim de ocupar mais espaço”. (VIANA, 2015b).
Entretanto, como assinala de modo apropriado Malini e Antoun
(2013, p. 214): “A hashtag cria um regime de atenção cujo principal
motor reside na capacidade da tag ser controversa e inconclusa, po-
rém influente”. Nesse sentido, ocorre-nos que a hashtag #MenosO-
dioMaisDemocracia tornou-se influente por duas razões. Primeiro,
pela natureza polêmica de seu estilo discursivo, que evidencia um
“conflito aberto com o discurso adverso que rejeita, refuta ou ridi-
culariza” (WINDISCH, 1986). E, em segundo lugar, por condensar o
argumento adotado pelo governo em defesa da tese de que as mani-
festações do dia 15 de março seriam expressão de um ódio à política
de inclusão social implementada pelo lulismo.15 Nesse sentido, são
esclarecedoras as colocações feitas por Renato Janine Ribeiro – ex-
ministro da Educação do segundo governo de Dilma Rousseff – na
apresentação da edição brasileira do livro O Ódio à Democracia, de
Jacques Rancière, publicado em 2014:
Nos últimos anos, o Brasil se tornou um exemplo de inclusão so-
cial, com dezenas de milhões de pessoas saindo da pobreza e da
miséria para terem uma vida melhor. Em que pese a inclusão ter
ocorrido sobretudo pelo consumo – mais do que pela educação
–, ela mudou o país. Hoje, ninguém disputa o Poder Executivo
atacando os programas de inclusão social. Eles se tornaram
um consenso junto à grande maioria dos eleitores. Entretanto,

15
Os elementos constitutivos desse discurso político que articula igualdade x pobreza
foram tratados pela autora no artigo intitulado Em defesa da “igualdade de oportunida-
des”: o discurso político eleitoral de Dilma Rousseff na campanha presidencial de 2010
(PIRES, 2012).
200
um número expressivo de membros da classe média os des-
Mídia e Sociedade em Transformação

qualifica, alegando diversos pretextos. Para eles, o Brasil era


bom quando pertencia a poucos. Assim, quando os polloi – a
multidão – ocupam os espaços antes reservados às pessoas de
“boa aparência”, uma gritaria se alastra em sinal de protesto. O
que é isso, senão o enorme mal-estar dos privilegiados quando se
expande a democracia? Democracia é hoje um significante po-
deroso, palavra bem-vista e que agrega um número crescente de
possibilidades, indo da eleição pelo povo até a igualdade entre
parceiros no amor. Mas essa expansão da democracia incomo-
da. Daí, um ódio que domina nossa política, tal como não se
via desde às vésperas do golpe de 1964, condenando medidas
que favorecem os mais pobres como populistas e demagógi-
cas. (RIBEIRO, 2014, grifos nossos).
A seguir, busca-se demonstrar como a comunicação política em
apoio à presidente Dilma Rousseff, na manifestação do dia 15 de
março, fundamentou-se nesses argumentos formulados por Ribeiro
e foi estruturada em dois eixos: defesa da política de inclusão social
implementada pelo governo e do pleito eleitoral de 2014 como ex-
pressões da democracia e a manifestação do dia 15 de março pelo
impeachment da presidente como expressão de um ódio derivado da
expansão da democracia brasileira conquistada por meio das políti-
cas públicas de combate a pobreza.

A COMUNICAÇÃO POLÍTICA NO TWITTER

Duas campanhas diferentes foram veiculadas no Twitter, a partir das


12 horas, anunciando os investimentos feitos por Dilma Rousseff nas áre-
as de emprego e renda, saúde, educação, transporte urbano e moradia.
No perfil Dilma na Rede, no intervalo das 12h33 e 15h07, foram
veiculadas cinco peças em um mesmo formato (Figura 1).
Em relação às outras quatro peças, essa foi a que obteve maior
número de retuítes e curtidas: 248 e 162, respectivamente. Nas outras
peças, foram anunciados os seguintes investimentos: 2,1 milhões de
moradias entregues pelos Programas Minha Casa Minha Vida PAC2
(12h33); 151 bilhões investidos em mobilidade urbana (12h47); 14,5
mil profissionais ampliaram o atendimento médico para mais 50 mi-
lhões de pessoas (13h14) e 51 escolas em tempo integral (15h07).
A outra campanha foi veiculada no perfil PT Brasil a partir das
12h15. No intervalo de 1h10, foram veiculadas quatro peças nas
quais se comparava os investimentos feitos pelo governo Dilma
201

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


Figura 1 – Reprodução do tuíte Expan-
são do Ensino Público Superior.
Fonte: @dilmanarede, às 13h38.

com aqueles feitos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso


(PSDB) – antecessor de Luís Inácio Lula da Silva (Figura 2).
Esta foi a peça que obteve maior número de retuítes e de curti-
das, respectivamente 223 e 130. Diferentemente da campanha veicu-
lada no perfil Dilma na Rede, chama a atenção a opção estratégica de
propagar duas outras palavras de ordem – #SemMotivoParaImpea-
chment e #DilmaFica – e, ao mesmo tempo, veicular uma outra cam-
panha na mesma linha daquela veiculada no perfil Dilma na Rede,
propagando os investimentos feitos pela presidente. As outras três

Figura 2 – Reprodução do tuíte das


campanhas do PT.
Fonte: @PT Brasil
202
peças foram: Educação (FHC: 37,6 bilhões e Dilma: 116,1 bilhões),
Mídia e Sociedade em Transformação

às 12h30 minutos; aumento real do salário mínimo calculado em


litros de gasolina (FHC: 100 litros e Dilma: 238,8 litros), às 13 horas,
e, em número de cestas básicas (FHC: 1,49 e Dilma: 2,22), às 13h25.
De modo interessante, nesse perfil PT Brasil observa-se o traba-
lho coordenado pela Secom – preconizado no documento por Tho-
mas Traumann – no sentido da produção de conteúdos para serem
divulgados por outros órgãos que não a Secretaria. Nesse sentido,
além das quatro peças, foi postado um tuíte às 13h57 (com 53 retuí-
tes e 46 curtidas) que reproduzia o título de um post do Blog do Pla-
nalto, da presidência da República, bem como fornecia o link para
acesso16 . Cabe informar que o usuário só tomaria conhecimento de
que se tratava de um post do referido blog se acessasse o link. O
post intitulado Governo defende caráter pacífico e democrático das
manifestações foi postado no dia 14 de março, às 20h52, e reprodu-
zia trechos de uma entrevista com o ministro da Secretaria-Geral da
Presidência da República, Miguel Rossetto, postada no YouTube. De
modo interessante, observa-se que no texto que acompanha o vídeo
no YouTube o trecho destacado em negrito na citação abaixo é supri-
mido da fala do ministro reproduzida no blog:
Nós temos que rejeitar toda e qualquer manifestação de seto-
res autoritários, reacionários do nosso país, que não conse-
guem conviver no ambiente democrático. Falar em impeach-
ment hoje é desrespeitar a democracia brasileira, é desrespeitar o
processo eleitoral democrático do nosso país.
No que se refere ao perfil da Agência PT, foram identificados oito
tuítes postados entre 13h08 e 16h52 que remetiam a matérias produ-
zidas pela própria Agência PT. Como pode se observar, três reme-
tiam a matérias que tratavam da parcialidade da cobertura televisiva
que a Rede Globo e Globo News estavam realizando, cobertura essa
que desempenhou um papel central na legitimação dos protestos.
“Após ser flagrado no Rio, Aécio justifica ausência em protestos”
(13h08)
Manifestantes ateiam fogo em sede do PT em Jundiaí (13h34)

16
O link de acesso no tuíte: http://bit.ly/1DnWeGX. Endereço do post no blog: http://
blog.planalto.gov.br/governo-defende-carater-pacifico-e-democratico-das-manifestaco-
es/. Endereço do vídeo no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=S95yKFYUp4M.
203
“Em atos contra o governo, militantes defendem a democracia”

Manifestações pró-impeachment Dilma Rousseff e comunicação política no Twitter1


(13h48)
“Com cobertura parcial, mídia enfatiza oposição ao governo Dil-
ma” (14h45)
“Datafolha: Protesto reuniu 210 mil em SP” (15h03)
“CNBB nega autoria de convocação pelo impeachment (15h13)
“Protestos expõem golpistas e separatistas (15h24)
“Globo e PM tucana tentam superfaturar público de ato em SP”
(16h52)
Esses textos eram acompanhados por hashtags adicionais, além
da #MenosOdioMaisDemocracia: #RespeiteOVoto; #RespeiteADe-
mocracia e #EspalheAVerdade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De início, importa ressaltar como o caso examinado possibilita


uma reflexão sobre a lógica e as estratégias – políticas e comuni-
cacionais – do jogo político. Como assinala Edelman, citado por
Miguel (2000, p. 60): “o elemento crítico nas manobras políticas ‘é
a criação de sentido: a construção de crenças sobre o significado
de eventos, de problemas, de crises, de mudanças políticas e de lí-
deres’”. Como visto, presenciou-se, como apontado por Rancière,
mencionado na epígrafe, a batalha que se trava nessa palavra demo-
cracia, seus deslocamentos e inversões. A comunicação do governo
foi no sentido de construir um discurso que desse um determinado
sentido àquela manifestação do dia 15 de março como uma tenta-
tiva de golpe à democracia brasileira na medida em que colocava
em questão a legitimidade do processo eleitoral de 2014 em con-
traposição ao argumento da oposição de que o expressivo número
de participantes presentes naquela manifestação – “Dia da Demo-
cracia” – deveria ser considerado, também, como modo legítimo de
expressão da opinião pública.
Pelo exposto, percebem-se ainda várias novidades: a manifes-
tação de rua como um modo de expressão da opinião pública rele-
vante na contemporaneidade e, em específico no caso brasileiro, a
emergência nas ruas de manifestantes de perfil mais conservador; e
o recurso a robôs e perfis fakes como estratégias de visibilidade no
âmbito da política. Novidades essas que se apresentam como desa-
fios tanto para os políticos quanto para os estudiosos de comunica-
ção política.
204
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207

Movimentos
sociais, ativismo
e participação
na sociedade da
informação

Caroline Kraus Luvizotto


A dinâmica social contempo-
rânea encontra-se traciona-
da pela participação dos sujei-
Daniele Ferreira Seridório tos em movimentos e projetos
político-sociais que se configu-
ram em fontes de inovação e
matrizes geradoras de saberes
de caráter democrático e cida-
dão, justificando a realização de
análises que privilegiem o foco
sobre as redes de articulações e
de comunicação estabelecidas
pelos sujeitos em sua prática co-
tidiana. O estudo de tais redes
torna-se, assim, essencial para
compreender os fatores que
contribuem para desencadear
aprendizagens e o surgimento
ou a intensificação de valores
de cultura de participação. Este
texto apresenta uma reflexão
sobre a participação política
e social na internet, buscando
compreender como os atores
sociais organizados em movi-
208
mentos sociais, ou suas ações ativistas, articulam-se na sociedade
Mídia e Sociedade em Transformação

contemporânea, a sociedade da informação.


A participação é uma ação social coletiva que possui em sua gê-
nese uma série de características, dentre as quais podemos destacar
suas estratégias de ação, sua organização, a historicidade, os laços
e identidades compartilhadas. Essas características, somadas a um
projeto de sociedade, é que levam os atores sociais a se aproximarem
dessas ações coletivas e atuarem ativamente ou ocasionalmente junto
aos movimentos sociais, aos espaços de deliberação política e aos
mais diversos contextos onde se faz necessária uma ação democrá-
tica e cidadã.
Muitas ações de caráter político-social se fortaleceram e se po-
tencializaram à medida que a internet deu suporte a elas, utilizando
sua arquitetura em rede para disseminar informação e promover a
discussão coletiva. A partir dessa ferramenta, foi possível propor e
organizar ações e ampliar os canais de participação. Pereira (2011,
p. 16) explica que o potencial da internet concentra-se em “atingir
indivíduos que, a princípio sem vinculações políticas às instituições
clássicas de organização da sociedade civil, estejam dispostos, desde
que sejam ‘devidamente’ convencidos, a participar de ações específi-
cas de protesto, cybernéticas ou não, que tenham alguma identidade
com seus interesses e percepções de mundo”. Devemos destacar aqui
que esse engajamento ou vinculação baseia-se fundamentalmente na
liberdade do militante “não formal de se envolver quando quiser e
onde quiser, sem os altos custos da participação formal”. O autor sa-
lienta, ainda, que as ciberações poderão ou não se desdobrar em uma
participação fora da internet, “mas não se trata de um pressuposto
exigido pelos movimentos, sendo que a não participação não acarre-
ta alguma forma de sanção”.
Portanto, compreende-se a importância fundamental da internet
como ferramenta para disseminação de conteúdos informacionais
de caráter político e social, bem como como suporte para organizar
ações coletivas.
Pode-se afirmar que as ações coletivas são sadias dentro de um
ambiente político e social plural como o brasileiro e projetam ato-
res políticos que passam a exigir do poder público a efetivação de
direitos civis, políticos e sociais garantidos por lei. Trata-se de um
componente advindo do amadurecimento das democracias. “A mu-
dança no entendimento da organização e ação dos coletivos sociais
ocorreu, em grande parte, em decorrência das transformações no
209
cenário político internacional”, destaca Machado (2007, p. 254), que

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


salienta a intensificação de forças verificada quando, “com o fim da
guerra fria e o surgimento da simbiose entre democracia ocidental
e capitalismo, os movimentos sociais passaram gradualmente a ser
considerados atores sociais importantes para a promoção dos direi-
tos civis e da cidadania”.
A sociologia clássica confere complexidade ao estudo de ações
sociais coletivas. Segundo Weber (1978, p. 139), por ação social deve
ser entendida toda ação “com sentido próprio, dirigida para a ação de
outros”. O sentido é atribuído pelo ator à ação, que o leva a escolher
princípios, procedimentos e finalidades. A ação social difere de todas
as outras formas de ação porque seu agente tem consciência daquilo
que escolhe, e as ações podem ser apreciadas conforme o grau de
consciência do agente sobre seu significado. Identidades comparti-
lhadas podem fortalecer o sentimento de pertencimento, que tende-
ria a encorajar a participação. A complexidade se coloca quando se
busca compreender a complicada relação entre movimentos sociais,
identidade e participação. Peruzzo (2013) destaca que tais ações in-
dicam a existência de uma organização coletiva que implica identi-
dades compartilhadas e estratégias de mobilização e comunicação.
Atualmente, parte significativa dos movimentos e grupos po-
lítico-sociais articula suas ações por meio da internet, passando a
configurar o chamado ativismo social on-line. A infraestrutura de
conectividade em rede, característica da web atual, revela-se um
aparato tecnológico que permite a comunicação de atores sociais no
processo de criação, organização e disseminação de suas demandas
políticas e sociais.
Essa estrutura possibilita a articulação dos atores sociais de
modo inter e correlacionado. O novo paradigma tem, segundo Cas-
tells (2006, p. 108-109), certas características essenciais: “a informa-
ção é sua matéria-prima, os efeitos das novas tecnologias têm alta pe-
netrabilidade, predomínio da lógica de redes, flexibilidade, crescente
convergência de tecnologias”.
Os recursos da web 2.0 facilitaram a criação e a circulação de
conteúdos aos usuários da internet, que podem atuar como leito-
res, autores, produtores e editores de conteúdo informacional mul-
timídia. O usuário não é mais pensado como agente passivo, mas
como desenvolvedor de conteúdo. A segunda geração de ferramen-
tas on-line potencializa as formas de publicação, compartilhamento
e organização de informações, além de expandir os espaços para a
210
colaboração entre os participantes. Reforça a promessa de criação de
Mídia e Sociedade em Transformação

inteligência coletiva, ou construção coletiva do conhecimento. Por


meio da interação, comunidades formadas em torno de interesses
específicos poderão apoiar uma causa, discutir temas individuais ou
de relevância coletiva, levar a opinião pública à reflexão e disseminar
informações políticas e sociais (VALENTE; MATTAR, 2007).
As ferramentas web 2.0 estão organizando e fomentando o de-
senvolvimento de novas redes sociais virtuais à medida que são re-
duzidos os custos da mobilização de atores sociais. A ação política
através das tecnologias “torna-se mais barata, rápida e por consequ-
ência mais acessível a grupos que não fazem parte do sistema polí-
tico institucionalizado”, segundo Pereira (2011, p. 14). As redes que
integram essa lógica possuem potencial articulador e mobilizador
e, segundo Scherer-Warren (2006, p. 115), “por serem multiformes,
aproximam atores sociais diversificados – dos níveis locais aos mais
globais, de diferentes tipos de organizações – e possibilitam o diálo-
go da diversidade de interesses e valores”.
Essas ferramentas estão redesenhando e redefinindo a criação e
a disseminação do ativismo social on-line, criando novas e interes-
santes oportunidades de transmissão, mais personalizadas, sociais
e flexíveis, com um caráter de compartilhamento de informações.
Por meio da internet, pode-se ultrapassar a censura ideológica e as
políticas editoriais dos meios de comunicação tradicionais, como a
televisão, o rádio e a mídia impressa. Com as novas TIC (Tecnologias
de Informação e Comunicação), espera-se disseminar os conteúdos
informacionais com o máximo de intercâmbios, buscando a intera-
ção, o apoio, as críticas, as sugestões que, no caso do ativismo social,
traduz-se em expressar por meio de seus atores, da forma mais di-
versa e abrangente possível, a luta pela concretização da cidadania
(MORAES, 2000).
Na sociedade contemporânea, conhecida como sociedade da in-
formação, a organização dos atores sociais em comunidades e redes
sociais virtuais “tem permitido que o ativismo político se organize de
maneira que se superem constrangimentos temporais, financeiros,
espaciais, ideológicos e identitários, colaborando para a ampliação
das atividades a níveis antes poucas vezes imaginados” (PEREIRA,
2011, p. 19). Este cenário onde a informação e a comunicação tem
papel decisivo é produzido a partir da articulação em redes sociais
virtuais, que ligam pessoas e movimentos sociais, e pode ter um ca-
ráter marcadamente democrático. Caracterizar e compreender essa
211
sociedade é fundamental para refletir sobre a participação política e

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


social on-line.

COMUNICAÇÃO, INTERNET E A SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO

As mudanças sociais ocorridas nas três últimas décadas, espe-


cialmente, foram ocasionadas pela severa inserção das tecnologias
informacionais na sociedade. Essas têm ocasionado a propagação da
informação e da comunicação de uma forma bastante dinâmica e
têm ainda suscitado a conexão da sociedade por meio de uma gran-
de rede. Por esse motivo, alguns estudiosos apontam a informação
como matéria-prima dessa sociedade. Assim, é possível citar Castells
(2006, p. 21) quando afirma que “a geração, processamento e trans-
missão de informação torna-se a principal fonte de produtividade e
poder”.
A informação sempre foi insumo fundamental para o relacio-
namento interpessoal, porém, foi na Revolução Industrial e Urba-
nização que a informação adquiriu caráter de necessidade. Com o
desenvolvimento da imprensa e, mais tarde, das tecnologias digitais,
ela passou, então, a agregar valor material e a protagonizar a revolu-
ção informacional.
Para chegarmos ao padrão WWW que utilizamos atualmente,
diversos estudos foram necessários, mas restritos ao eixo Estados
Unidos/Europa. Portanto, o contexto da Guerra Fria influenciou
fortemente o desenvolvimento da internet. A revolução da tecnolo-
gia da informação dependeu fortemente de um conjunto de circuns-
tâncias atrelado ao triunfo norte-americano (CASTELS, 2008). Para
Akutsu e Pinho (2002), dois fatores centrais guiam o desenvolvimen-
to desse estágio, a comunicação e a computação. Vivemos a supera-
ção da era industrial, em que os produtos industrializados guiavam
a ordem econômica global; agora, a informação é a força motriz do
desenvolvimento. O modo de produção é a criação e processamento
de informação, porém, isso não significa que a indústria e a agricul-
tura não existam na mesma sociedade (STRAUBHAAR; LA ROSE,
2004). A informação e a comunicação são agora setores-chaves do
desenvolvimento, estando intrinsecamente ligadas às outras formas
de produção.
Neste texto, o termo sociedade da informação é utilizado prin-
cipalmente para se referir a uma demarcação temporal, ou seja, um
período histórico a que nos reportamos, assim como também a um
212
paradigma inegavelmente instaurado e aceito pela maioria dos cida-
Mídia e Sociedade em Transformação

dãos. A necessidade de compreender melhor esse paradigma se deve


ao fato de que, concomitante às mudanças na sociedade, ocorreu um
processo de criação, expansão e ressignificação de movimentos so-
ciais e do ativismo com forte presença e importância da comunica-
ção, tendo em vista o desenvolvimento e fortalecimento das tecnolo-
gias da informação e comunicação.
De acordo com Werthien (2000), a expressão sociedade da infor-
mação tem sido utilizada como substituta do conceito complexo de
“sociedade pós-industrial” e como forma de conceituar um “novo pa-
radigma técnico-econômico” pautado na disseminação da informa-
ção proporcionada pelas novas tecnologias de comunicação em rede
e colaborativa. Nesse sentido, Werthien (2000) explicita que as trans-
formações em direção a essa sociedade, ainda que em estágio mais
avançado nas economias mais desenvolvidas, também se configuram
como dominantes em países menos industrializados, caracterizando
mais intensamente o paradigma da tecnologia da informação.
Castells (2008) destaca a penetrabilidade dos efeitos das novas
tecnologias. Tal penetrabilidade se deve ao fato de que a comunica-
ção é uma característica inerente ao ser humano e que esta estaria
moldada pelos meios tecnológicos. A organização da rede também
é característica dessa sociedade, ou seja, uma lógica que parece pro-
pícia à comunicação coletiva. Essa lógica organiza a comunicação
de forma que a mantenha flexível. Flexibilidade, inclusive, é outra
característica descrita por esse autor. Sobre isso, ele afirma que os
processos são passíveis de reversão sem a destruição do que já está
feito, o que pressupõe a constante capacidade de reorganização do
sistema em rede. Por fim, destacamos a convergência de tecnologias
específicas para um sistema altamente integrado. Nesse caso, a inte-
gração das tecnologias nas várias áreas do saber configuram-se como
constantes para a produção de conhecimento (LUVIZOTTO; CAR-
NIEL, 2013).
Apontamos a internet, rede de comunicação interligada por
computadores, e outras tecnologias da informação em escala mun-
dial como itens primordiais no estabelecimento desse paradigma de
sociedade da informação, visto que essa rede é a grande responsável
pela interligação e disseminação do processo comunicativo entre as
nações, e não se trata de ato falho ou hipérbole fazer essa afirmação,
visto que até as nações menos desenvolvidas, ainda que em menor
proporção, têm acesso à rede.
213
Os aparatos tecnológicos estão colocados em um contexto po-

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


lítico, social e econômico mais importante que a tecnologia em si.
De acordo com Straubhaar e LaRose (2004, p. 25), imaginamos
como tecnologia as ferramentas, mas na verdade são os complexos
arranjos que elas criam – ou que a sociedade cria para esses apa-
ratos – que são as tecnologias. Então, percebemos que apesar das
tecnologias, o desenvolvimento econômico e as relações sociais e
políticas são fundamentais para determinar os usos – técnicos e
sociais – das ferramentas.
Podemos discutir como os meios de comunicação são utilizados
nos contextos político e social. Para Akutsu e Pinho (2002, p. 724), o
crescente uso da internet cria “uma oportunidade ímpar para que o
governo crie novos serviços, com melhor qualidade e menor custo,
e para que a sociedade possa participar de uma forma mais efetiva
na gestão governamental”. Para esses autores, a informação não é so-
mente um conceito, mas é também carregada de ideologia. Enquan-
to isso, Straubhaar e LaRose (2004, p. 50) afirmam que a informação
pode estar sendo tratada somente como commodity de valor comer-
cial, sem considerar o seu caráter de recurso público.
Cabe discutir se os fluxos de informação estão realmente descen-
tralizados, ou se, assim como na mídia chamada tradicional, ainda
algumas empresas controlam a visibilidade do espaço midiático.
Apesar das divergências entre autores entusiastas dos meios
tecnológicos e dos apocalípticos, “há razoável concordância com a
possibilidade de participação do cidadão na vida pública, utilizan-
do-se a internet para o aperfeiçoamento da democracia” (AKUTSU;
PINHO, 2002, p. 729). É importante reconhecer que estamos diante
de meios de comunicação que possibilitam a interação e a produção
mútua de conteúdo. No contexto político, é preciso destacar iniciati-
vas de campanhas legislativas e consulta de construção participativa,
como foi o caso, no Brasil, do Marco Civil da Internet.
Tanto os governos como os cidadãos podem buscar a mídia pro-
porcionada pela internet para divulgar informações e reivindicar po-
sicionamentos e ações. Além da problemática já discutida, três princi-
pais eixos influenciam na eficiência desse processo: a inclusão digital;
a disposição dos agentes políticos; e a disposição dos cidadãos.
O problema da inclusão digital no Brasil não foi superado. Em-
bora dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) tenham mostrado que, em 2013, 49,4% dos brasileiros1 aces-
saram a internet, o questionário2 de coleta revela que para responder
214
“sim” o cidadão poderia ter acessado a internet uma única vez nos úl-
Mídia e Sociedade em Transformação

timos três ou doze meses, e esse acesso poderia ter ocorrido em casa,
local de trabalho, escola ou qualquer outro local. Portanto, é preciso
questionar se um acesso único é inclusão digital, principalmente em
um recorte temporal muito grande para a internet.
A mesma pesquisa – a Pesquisa Nacional por Amostra de Do-
micílios 2013 (Pnad) – apontou que 48% dos lares brasileiros tem
acesso à internet, 88,4% através do microcomputador, 53,6% tam-
bém pelo celular e 17,2% por tablets. Porém, não se discute qual é
o uso que as pessoas fazem da internet, se são adeptas da discussão
política, se buscam por informações da sua cidade ou se só usam
esses meios como forma de entretenimento.
Tendo problematizado a sociedade da informação e a internet,
partimos para a discussão sobre como a participação política e social
se dá no ambiente digital.

PARTICIPAÇÃO NA ERA DIGITAL

Ambientes de conversação e discussão tornaram-se um impor-


tante objeto de pesquisa, já que além de espaços de comunicação,
revelam traços e dinâmicas sociais. O conceito de participação é an-
terior à internet, mas as próprias possibilidades técnicas desse meio
ampliaram o debate e fizeram surgir novos ambientes de discussões
e metodologias de análise.
A participação e suas modalidades mudam de acordo com a
possibilidade de atingir diferentes sujeitos sociais que se identifi-
cam com determinada causa, ou simplesmente têm consciência de
seu papel como cidadão e a necessidade de participar. Dessa forma,
abordaremos os conceitos de participação antes e depois da internet,
especificamente, com o advento da web 2.0.
Bourdieu (2011, p. 202-203) destaca como particularidade do
campo político o fato de que ele nunca pode se autonomizar comple-
tamente, pois os leigos – que não fazem parte daquele campo – têm,
de alguma forma, a última palavra nas lutas que ocorrem naquele
campo. Numa democracia, essa última palavra pode ser relacionada
às eleições, por exemplo.

1
Considerando população com 10 ou mais anos de idade.
2
Fonte: ftp://ftp.ibge.gov.br/Acesso_a_internet_e_posse_celular/2013/questiona-
rio2013.pdf.
215
Então, o campo político está – de certo modo – aberto a ações

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


externas que podem refletir nas lutas de poder que ocorrem inter-
namente. Bourdieu reconhece, inclusive, que é preciso criar novos
mecanismos de manifestação, evitando, assim, que o campo se feche
em si e não reproduza os interesses daqueles que o perpetuam.
Bourbieu (2011, p. 196) aponta como condição para participar do
campo político o tempo livre e a educação – sendo que participar aqui
adquire o sentido de entrar nesse microcosmo. Em sua análise da cul-
tura da participação, Shirky (2011) também aponta o tempo livre como
insumo fundamental da participação – aqui a participação é analisada
principalmente através das mídias. “A conexão da humanidade nos
permite tratar o tempo livre como um recurso global compartilhado e
também definir novos tipos de participação e compartilhamento que
se valem desse recurso” (SHIRKY, 2011, p. 30).
Para Shirky (2011), a cultura da participação nasce quando os
cidadãos, cientes de seu tempo livre, também possuem os meios, as
motivações e a oportunidade para participar. Os meios podem ser as
mídias, e no caso que discutimos aqui, a internet.
Participação tem um sentido amplo, ela pode ser cultural, social
ou política. Shirky (2011, p. 25) afirma que participar é “agir como se
sua presença importasse, como se, quando você vê ou ouve algo, sua
resposta fizesse parte do evento”. Para Bordenave (1983, p. 23) “par-
ticipação é fazer parte, tomar parte ou ter parte”. Para ele, de nada
adianta “fazer parte” sem “tomar parte”, como por exemplo alguém
que faz parte de um grupo, mas não toma parte de suas decisões. A
participação está ligada à atividade e ao engajamento. A participa-
ção seria inata ao ser humano devido às suas necessidades criativa
e racional, e a democracia seria um estado da participação (BOR-
DENAVE, 1983). Para Demo (1996, p. 19-20), “participação supõe
compromisso, envolvimento, presença em ações por vezes arriscadas
e até temerárias”. Nesse sentido, podemos afirmar que o exercício da
cidadania passa diretamente pela participação de um povo e suas
demandas.
Mantilla (1999) vê a comunicação política como uma ação mul-
tidimensional, já que além do caráter ideológico e político também
possui fatores econômicos e sociais. A autora destaca algum deles,
como a educação, sexo, idades, a comunidade em que o indivíduo
vive e a cultura sociopolítica.
Jenkins e Carpentier (2013) enfatizam que um olhar criterioso
é essencial para definir o que é participação política, uma vez que
216
algumas discussões e ações acabam sendo menos participativas que
Mídia e Sociedade em Transformação

outras. Carpentier parte da corrente da Ciência Política em que uma


ação só pode ser considerada como participação política quando há
disputa de poder. Para o autor, a participação política “completa”3 é
quando o jogo de poder ocorre em igualdade. Carpentier enxerga,
contudo, um limite de práxis em sua visão normativa.
Para utilizar a internet como meio de participação, o cidadão
deve ter acesso à rede, tempo livre e a aptidão para se expressar.
Além disso, deve ter um objetivo claro, já que, como Habermas
(2012) identifica no agir comunicativo, os indivíduos se comunicam
para chegar ao entendimento.
É possível notar que as gerações atuais exercem parte de seus
direitos expressivos por meio da internet. A web 2.0 serve de grande
atrativo para a articulação dos movimentos sociais, pois nela é pos-
sível a interação coletiva por intermédio de comunidades formadas
em torno de interesses específicos, dar apoio a causas, além de discu-
tir temas individuais ou temas de relevância coletiva, levando, assim,
a opinião pública à reflexão e a disseminar informações políticas e
sociais (LUVIZOTTO, 2015).
Com a internet, as formas de comunicação e consumo de in-
formação se modificaram, deixando de ser unilaterais – marca dos
meios de comunicação de massa – e passando a ser mais participati-
vas e democráticas. Mesmo que de maneira limitada, considerando
os problemas de acesso à rede, acessibilidade, usabilidade e conheci-
mento do usuário, a internet possibilita participação e interação en-
tre os indivíduos, sendo uma forma de comunicação rápida, prática
e sem barreiras geográficas. Esse ambiente on-line modificou a ma-
neira como sujeitos e grupos sociais manifestam as suas demandas
políticas e sociais. Nesse contexto, surge o ativismo, que ganha espa-
ço privilegiado na internet, e a atuação dos movimentos sociais passa
a ser mais abrangente, ocupando os espaços on-line (na internet) e
off-line (nas ruas).

ATIVISMO E MOVIMENTOS SOCIAIS: A IMPORTÂNCIA DA INTERNET

Entendemos o ativismo como tomar parte de uma ação objeti-


vando uma transformação social, participar, atuar, discutir, delibe-

3
Tradução livre para “full political participation”.
217
rar e executar ações defendendo uma ideia, uma causa ou ideologia.

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


Essa ideia pode ser política, social, religiosa ou de qualquer caráter
de cunho identitário. Dessa forma, existem várias ideias que podem
motivar uma ação ativista, como a causa ambientalista, feminista, o
movimento negro, o movimento LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexu-
ais, Travestis e Transexuais), o ativismo jurídico, o anticapitalismo,
entre outras. Para Mansbridge (1990, p. 229), “ativistas são aqueles
que participam da vida pública para além dos momentos eleitorais.
Aqueles que se identificam com um movimento social, que se envol-
vem com as suas causas e que os apoiam efetivamente.”
A atuação dos movimentos sociais, que Gohn (2003, p.13) define
como “ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que
viabilizam formas distintas de a população se organizar e manifestar
suas demandas”, é uma das formas de ativismo. As ações dos movi-
mentos sociais podem se manifestar na forma de protestos, greves,
manifestações, ocupações de espaços públicos ou privados, podendo
usar ou não de violência. Para Young (2001, p. 672), “mais do que o
acordo entre aqueles que apoiam as estruturas de poder existentes é
necessário confrontá-los em espaços públicos através de manifesta-
ções públicas, como passeatas, boicote e outras ações diretas”. Os tra-
balhos pacíficos realizados por organizações sociais como associa-
ções civis, ONGs estruturadas ou grupos que lutam e trabalham por
uma causa, sem necessariamente serem parte de algum movimento
social, também são formas de ativismo.
Refletindo sobre mobilização social, destacamos Scherer-War-
ren (2006), que apresenta uma organização da sociedade civil mobi-
lizada em três níveis:
• O primeiro nível – associativismo local: movimentos comu-
nitários e as próprias ONGs que lutam por “causas sociais ou cultu-
rais do cotidiano” (Idem, p. 110). Como exemplo desse nível, a autora
destaca os núcleos dos movimentos sem-terra, sem-teto, piqueteiros,
empreendimentos solidários e associações de bairro.
• O segundo nível – organizações interorganizacionais: “fó-
runs da sociedade civil, as associações nacionais de ONGs e as redes
de redes” (Idem, p. 111), que se articulam para empoderar a socie-
dade civil. Nesse nível, ocorre a mediação necessária para parcerias
mais institucionalizadas entre a sociedade e o Estado.
• O terceiro nível – mobilização na esfera pública: a articula-
ção de todos esses atores sociais que buscam algo além da organi-
zação institucional conciliatória e partem para grandes manifesta-
218
ções, tendo em vista visibilidade midiática e exercer pressão política
Mídia e Sociedade em Transformação

(Idem, p. 111). Como exemplo do terceiro nível, temos a Marcha das


Vadias, a Parada do orgulho LGBTT, e as próprias manifestações de
junho de 2013 no Brasil em um nível ainda mais extremo.
Os recursos e ferramentas tecnológicas de informação foram
aprimorados rapidamente, democratizando de maneira inédita o
acesso à informação. Com o advento da internet e as ferramentas da
web 2.0, a informação deixa de se concentrar na mídia de massa e
nos grandes conglomerados midiáticos e oferece a possibilidade de
produção, seleção e interação aos seus usuários, gerando novos con-
teúdos e fontes de informação. Hoje, ONGs, movimentos sociais e
ativistas podem propagar suas ideias para todo o mundo, oferecendo
a informação à sua maneira. Agências de notícias alternativas e inde-
pendentes surgem para contestar as versões da imprensa tradicional,
como é o caso da mídia NINJA, Jack Mídia Independente e diversos
blogs e websites contra-hegemônicos.
Rigitano (2004, p. 3) destaca que os ativistas utilizam a rede
mundial de computadores para “poder difundir informações e rei-
vindicações sem mediação, com o objetivo de buscar apoio e mobili-
zação para uma causa; criar espaços de discussão e troca de informa-
ção; organizar e mobilizar indivíduos para ações e protestos on-line
e off-line”. A esse tipo de ativismo denominamos ativismo digital ou
on-line. Ou seja, o ativismo on-line ocorre da apropriação das fer-
ramentas disponíveis na internet para articulação, organização, dis-
cussão e comunicação entre os ativistas na defesa de suas demandas.
A internet e suas ferramentas comunicativas possibilitam uma
nova compreensão e sentido para a participação, para a democracia,
para o ativismo e para as identidades coletivas. A partir das ferra-
mentas web 2.0, caracterizadas pela interação e colaboração, é pos-
sível participar de ações sociais coletivas de modo on-line e off-line
(ROTHGERG, et al., 2014): on-line, uma vez que a estrutura de co-
nectividade da internet permite derrubar a barreira do tempo e do
espaço, possibilitando a qualquer ator social se manifestar e deliberar
sobre os mais diversos assuntos e contextos sociais. É possível fazer
parte de grupos virtuais que possuam uma motivação, uma iden-
tidade coletiva, e ali se autorrepresentar, discutir, propor, aprender
e organizar ações. Off-line, uma vez que, fazendo parte de um gru-
po social com vínculo identitário, o ator pode postar vídeos, fotos e
todo tipo de conteúdo informacional em tempo real e tornar público
aquele momento que somente os participantes off-line teriam condi-
219
ções de conhecer, mas com o uso da internet passa a ser de domínio

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


público, instrumentalizando a participação político-social.

À GUISA DE CONCLUSÃO

Os meios de comunicação atuam como mediares entre esfera


pública e esfera política, divulgando informações governamentais,
sendo vigilantes do trabalho do governo e dando visibilidade aos
problemas e requerimentos dos cidadãos. Contudo, em um contexto
em que prevalece o jornalismo comercial, e no qual a propriedade
dos meios massivos é concentrada em poucos indivíduos, essa situ-
ação não se concretiza.
Esse é o cenário do setor de comunicação no Brasil, que carece
de leis que regulamentem economicamente os meios de comunica-
ção e ainda convive com o coronelismo eletrônico, onde políticos são
proprietários ou têm alguma relação direta com empresas de radio-
difusão. Bezerra (2008, p. 416) acredita que a mídia comercial “evo-
luiu em direção às características de qualquer segmento do mercado
econômico, com interesses e características próprios” e se apresenta
como um mercado da informação vigoroso e altamente competitivo
e “permanece errático em termos de pluralidade de fontes e de espa-
ço para vozes dissonantes”.
Os chamados meios tradicionais – meios impressos, rádio e te-
levisão – estariam, então, a serviço de seus proprietários e patroci-
nadores. O surgimento da internet trouxe nova perspectiva, uma vez
que sua estrutura descentralizada e em rede pode (re)conectar atores
políticos e sociais, dando voz aos silenciados pelos meios de massa.
De acordo com Castells (2008, p. 44), isso é possível porque a inter-
net se caracteriza como “uma arquitetura de rede que, como queriam
seus inventores, não pode ser controlada a partir de nenhum centro
e é composta por milhares de redes e computadores autônomos com
inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas”.
Com as ferramentas da internet, os receptores passaram a in-
teragir e a produzir material midiático, além disso, os dispositivos
móveis estenderam a territorialidade da conectividade. “As novas
tecnologias parecem caminhar para uma forma de onipresença, mis-
turando-se de maneira mais radical e quase imperceptível ao nosso
ambiente cultural [...]” (LEMOS, 2008, p. 17).
No âmbito conceitual da comunicação, a internet foi inicialmen-
te vista pelos teóricos mais otimistas como um divisor de águas na
220
relação cidadão e governante. “A emergência das novas TIC levou
Mídia e Sociedade em Transformação

especialistas a retomarem o debate sobre novas perspectivas para a


democracia” (BEZERRA, 2008, p. 2).
De acordo com Gentilli (2002, p. 36), a democracia pode se
democratizar, ou seja, tornar-se cada vez mais democrática. Nesse
sentido, questionamos se a internet como meio de comunicação de
aproximação entre cidadão e governantes – ou de organização de
indivíduos e movimentos sociais – é necessária e quais são suas po-
tencialidades nesse processo.
Neste capítulo, abordamos a participação na internet e procura-
mos entender como os movimentos sociais e o ativismo se configu-
ram na sociedade contemporânea, a chamada sociedade da informa-
ção. O que percebemos é que não basta que as ferramentas existam
para efetivar a participação política e social on-line. A cultura polí-
tica e a configuração do mercado midiático influenciam sobre como
os atores se colocam e agem como cidadãos.
A sociedade da informação reproduz, em parte, a concentração
midiática dos meios tradicionais, e a informação que adquire maior
fluxo e credibilidade na rede ainda advém de portais e sites mantidos
por oligopólios. Ademais, por mais que exista a possibilidade maior
de produção de conteúdo e de interação por parte do usuário, este
ainda pertence às classes mais altas da população.
As condições de acesso e a inclusão digital na questão da litera-
cia – ou seja, se os usuários usam criticamente a internet – limitam,
ainda, as potencialidades que existem na internet. Mesmo que esses
processos continuem no âmbito do potencial – não ocorrendo de
fato – é preciso discuti-los para vislumbrarmos um futuro mais de-
mocrático e inclusivo.
Contudo, nesse momento de transição, devemos analisar empiri-
camente experiências a partir das teorias existentes, para podermos
perceber em que aspectos a comunicação mediada na internet pode
configurar-se como participação política e social. Assim, a partir dos
dados, novas teorias podem emergir e também novas plataformas de
interação mais apropriadas a essa configuração.
Os ambientes informacionais digitais devem ser pensados e pro-
gramados de maneira que auxiliem as interações entre os sujeitos.
Portanto, além de permitir a livre conversação entre usuários, elas
devem fornecer ferramentas que auxiliem no processo de partici-
pação, sendo ambientes adequados para que movimentos sociais e
ativistas exponham suas demandas e ampliem seu alcance e as dis-
221
cussões. Essas ferramentas relacionam-se intimamente com a arqui-

Movimentos sociais, ativismo e participação na sociedade da informação


tetura do site e com a informação disponibilizada para fomentar o
debate, já que o participante também precisa ter acesso a informa-
ções que permitam a crítica e a tomada de decisão. As tecnologias
da web 2.0 auxiliarão o processo de participação política e social e
estarão à serviço dos movimentos sociais e ativistas se forem utiliza-
das em sua totalidade, usando todo o potencial das ferramentas de
interação e construção coletiva do conhecimento. Porém, nada disso
terá efeito sobre a participação se não houver a disposição e a mobi-
lização do cidadão em participar.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à PROPe (Pró-Reitoria de Pesquisa da UNESP


– Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”) e à
FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)
pelo apoio e financiamento das pesquisas Participação, deliberação
online e internet: o potencial do VotenaWeb e Deliberação on-line e
participação política na sociedade da informação: o potencial do web-
site Vota na Web, respectivamente.

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225

Mídia concentrada,
democracia
fragilizada?
Interpretando
estruturas de mercado
de mídia como legado
autoritário INTRODUÇÃO

Juliano Domingues-da-Silva O presente capítulo apresen-


ta uma reflexão em torno,
fundamentalmente, da relação
entre concentração de mídia,
estrutura de mercado e legado
autoritário. Tem-se como pano
de fundo, portanto, a associa-
ção entre diversidade de mídia
e qualidade da democracia.
Como linha condutora,
parte-se do seguinte pressu-
posto amparado teoricamente:
países mais democráticos são,
também, aqueles que apresen-
tam mais diversidade de mídia.
Nesse sentido, o argumento
aqui desenvolvido se propõe a
oferecer uma possível resposta
à pergunta: como concentração
de mídia se relaciona com qua-
lidade da democracia? Tendo-
se em mente sobretudo o am-
226
biente latino-americano, defende-se a seguinte hipótese: mercados
Mídia e Sociedade em Transformação

concentrados ou pouco competitivos em termos de mídia são refle-


xo, em grande medida, de políticas regulatórias cuja gênese e desen-
volvimento são fortemente influenciados por legados autoritários.
Para verificar a pertinência dessa hipótese, a reflexão segue três
etapas principais, pautadas por ampla revisão bibliográfica tanto de
aspectos teórico-conceituais quanto de evidências empíricas:
I. No primeiro momento, faz-se uma distinção entre políticas de
mídia guiadas por interesses de mercado (market model) e por
interesse público (public sphere model).
II. Em seguida, verifica-se a associação entre estruturas de mer-
cado originadas desses modelos e o fomento de ambientes de
diversidade ou de concentração de mídia.
III. Por último, observa-se a relação entre estruturas pouco com-
petitivas em termos de mercado de mídia e fragilidade demo-
crática, resultado de políticas setoriais marcadas por legados
autoritários.
Ao fim, conclui-se que a ideia de diversidade está positivamente
associada à concepção de mercado competitivo. Essas duas caracte-
rísticas, por sua vez, estão correlacionadas a democracias robustas.
Ao mesmo tempo, concentração de mercado e baixa competitivida-
de estão associadas a contextos autoritários ou frágeis do ponto de
vista democrático. Daí, infere-se que a regulação de mídia guiada
pelo modelo de mercado (market model) incentiva a concentração.
Entende-se que tal perspectiva pode ser aplicada à interpretação
do cenário latino-americano de políticas de comunicação. Embora
se verifiquem significativas mudanças legais em curso em determi-
nados países da região, observa-se a predominância de estruturas
de mercado de mídia moldadas por interesses de mercado em de-
trimento de princípios guiados pelo interesse público. Este quadro,
por sua vez, pode ser atribuído a legados autoritários herdados pelas
emergentes democracias latino-americanas.

CONCENTRAÇÃO, MERCADO E INTERESSE PÚBLICO

A reflexão aqui desenvolvida parte do pressuposto segundo


o qual a forma como mercados de comunicação se estruturam
e operam está associada diretamente ao debate sobre qualidade
da democracia, especialmente em democracias emergentes (HA-
DLAND, 2015). Ao mesmo tempo, entende-se que a ação regu-
227
latória do Estado, fruto da interação estratégica entre governos e

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
demais atores presentes na arena de disputa por recursos, desem-
penha papel fundamental no processo de modelagem de sistemas
de mídia.
Assim, países mais democráticos seriam, também, aqueles com
maior diversidade em termos de meios de comunicação (SILVA;
ZAVERUCHA; FIGUEIREDO FILHO; ROCHA, 2015; DOMIN-
GUES-DA-SILVA; BARROS, 2014; BAKER, 2007). Por outro lado,
a concentração desse setor nas mãos de poucos proprietários, seja
por meio de monopólio governamental ou de oligopólio empresa-
rial (DJANKOV et al., 2001) representaria um prejuízo ao interesse
público e, por conseguinte, ao funcionamento de regimes democrá-
ticos (BAKER, 2007; BUCKLEY, 2007). Investigações empíricas con-
firmam essa associação negativa entre concentração de mercado de
mídia e qualidade da democracia (SILVA; ZAVERUCHA; FIGUEI-
REDO FILHO; ROCHA, 2015).
Definir concentração, porém, não é tarefa simples, uma vez que
se trata de um processo complexo e multifacetado, sobre o qual in-
cidem inúmeras variáveis (BECERRA, 2015; MASTRINI; BECER-
RA, 2011). Entretanto, pode-se interpretá-lo em função do impacto
provocado pelas empresas sobre determinado setor da economia, as
imperfeições e assimetrias dele originadas, bem como suas origens
políticas. Investigar concentração é investigar estrutura de mercado
e suas consequências, levando-se em conta o tipo de produto ofere-
cido, custos para o consumidor e barreiras à entrada de novas firmas
no cenário.
Nesse sentido, investigar estrutura de mercado em comunicação
é, também, investigar qualidade da democracia. Conforme destaca
Ward (2005, p. 3), “A diverse range of free media outlets, providing
a range of views and opinions is seen as indispensable to the healthy
maintenance of a democratic society”. Ao analisar o cenário de mídia
nos EUA, Alemanha e Holanda, Smith e Tambini (2012, p. 40) des-
tacam a existência de fortes evidências empíricas nesse sentido: “[...]
there is evidence that multiple source can reduce the risk of media
misinformation and abuse of power and, at least in certain contexts,
result in a more varied and diverse media sector”. Cooper (2003, p.
6), ao analisar o cenário de concentração de mídia nos EUA, ressal-
ta: “Concentration of media ownership reduces de diversity of local
reporting and gives dominant firms in local markets an immense
amount of power to influence critical decisions”.
228
O fenômeno da concentração versus pluralismo/diversidade em
Mídia e Sociedade em Transformação

termos de mídia não é novo. Ele se confunde com o surgimento dos


próprios veículos de comunicação, como nos lembra Noam (2008,
p. 145): “It has been part and parcel of historic discussion of me-
dia”. Nos EUA, Benjamin Franklin é considerado um dos primeiros
magnatas do setor no século XVIII (ISAACSON, 2003 apud NOAM,
2008). Todavia, é justamente nos EUA, onde a mídia sempre foi con-
trolada por empresas privadas, que o debate sobre concentração tem
origem. Isso ocorre no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, com
o livro Who owns media, de Compaine, em 1979, e, em 1983, com a
publicação The media monopoly, de Bagdikian (CMPF, 2013). É tam-
bém nos anos 1970 que a área communications policy emerge como
subcampo da grande área policy analysis (GARCIA; SURLES, 2007).
Na Europa, apesar de mais recente se comparado aos EUA, o campo
de debate sobre concentração e diversidade de mídia também está con-
solidado. Ele se encontra amplamente amparado por evidências de que o
mercado de mídia tende à concentração, conforme estudo do Centre for
Media Pluralism and Media Freedom (CMPF, 2013). A pesquisa apre-
senta uma série de dados nesse sentido, com destaque para o mercado
de TV, cuja operação requer alto investimento. Questões dessa natureza
estão inseridas no campo de análise de política de mídia, cuja investi-
gação, segundo Napoli (2007), deve levar em conta três aspectos fun-
damentais: conteúdo, estrutura e infraestrutura. Para os fins da reflexão
aqui empreendida, entende-se que problematizações sobre diversidade
tendem a melhor se adequar ao campo da estrutura, assim conceituada
por Napoli (2007, p. 12): “Structures refers to policymaking directed pri-
marily at influencing the structural elements of media markets, such as
competitive conditions, ownership patterns, and related dimensions of
the characteristics of content providers”. Ao longo deste texto, o tema da
diversidade é analisado sob essa perspectiva.
Pode-se afirmar que a estrutura de mercado é, fundamentalmen-
te, resultado direto de políticas regulatórias. Na área de estudo de
política de mídia, uma infinidade de temas se relacionam e estabele-
cem imbrincados diálogos, dentre os quais se encontram questiona-
mentos referentes à regulação. Essa dimensão diz respeito, sobretu-
do, ao impacto das interações entre grupos de interesse da indústria,
entidades da sociedade civil organizada e policymaking (NAPOLI,
2007). Parte-se do pressuposto segundo o qual se tem mais ou me-
nos diversidade – e, por conseguinte, mais ou menos democracia – a
depender do desenho dessas políticas.
229
Investigações com esse perfil compõem um sólido corpo de pes-

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
quisas classificado por Napoli (2007, p. 4) como “economic-and-le-
gally-grounded analyses”. Ele refletiria a tensão entre o que o autor
chama de “economic policy objectives” – corrente marcada pelos
princípios de competição, satisfação do consumidor e eficiência – e
“political/cultural policy objectives” – em que predominam os prin-
cípios de diversidade de pontos de vista e atendimento a minorias e
comunidades locais. Just (2009) afirma que essa tensão pode ser ilus-
trada por meio do conflito entre escolas de pensamento dicotômicos:
market liberalism versus social liberalism; efficiency-oriented model
versus democracy model; modelos centrados na concepção market
economic versus modelos marcados pela ideia de social values.
Essa disputa entre escolas também é objeto de reflexão de Rice
(2008), a partir de duas categorias analíticas. O autor sugere que a
análise sobre regulação de mídia – incluindo, obviamente, a radio-
difusão – tende a assumir uma perspectiva baseada em princípios
relacionados ao mercado (market model) ou à ideia de esfera pública
(public sphere model). Puppis (2009) também apresenta uma distin-
ção entre enfoques regulatórios. Para ele, a peça central desse de-
bate é, justamente, a diversidade. As abordagens apresentadas pelos
dois autores se assemelham quanto às suas características e, assim,
seguem roteiro da tensão prevista por Just (2009).
Interpretações vinculadas à perspectiva market model entendem
mídia como um mercado qualquer, sem distinção em relação a de-
mais empreendimentos, marcado pela competição comercial. Ao se-
guir a lógica de mercado, firmas desse ramo devem ter como objetivo
maximizar recursos e receitas, minimizar custos e riscos, proteger-se
contra concorrentes e buscar novas audiências, de modo a satisfa-
zer seus proprietários-investidores e evitar a falência. Intervenções
governamentais não são bem-vistas, e o público é visualizado como
consumidor. Interpretações vinculadas à perspectiva da esfera pú-
blica, por outro lado, entendem mídia como elemento influenciador
dessa esfera (BUCKLEY, 2007).
Ressalte-se que, nesse contexto, a concepção de esfera pública
inclui não somente noções de interesse público e democracia, mas
também o contínuo diálogo público, conforme sugere Habermas
(ROSE, 2008). Trata-se, assim, de algo a ser analisado a partir de
princípios como diversidade, localismo, liberdade de expressão e de
imprensa, sem perder de vista a escassez dos recursos para trans-
missão (espectro eletromagnético). Essa perspectiva também leva
230
em conta a relevância da mídia como ferramenta de monitoramento
Mídia e Sociedade em Transformação

do poder estatal e como fonte de informação para o cidadão – ou,


nas palavras de Rice (2008, p. 21), “[...] access to information for an
informed citizenry necessary for democracy [...]”. Assim, há uma de-
manda por intervenções governamentais que garantam diversidade
de mídia e em que o público é visualizado como cidadão.
Na categoria esfera pública, também podem ser incluídos o que
Napoli (2007) chama de princípios normativos para políticas de mí-
dia: liberdade de expressão, interesse público e mercado de ideias.
Parte-se do princípio de que a promoção desses princípios estaria
associada a uma determinada estrutura de mercado de mídia. Esse
pressuposto está presente não apenas em teorias normativas da de-
mocracia e da mídia (BAKER, 2009). Ele já havia sido destacado
pela Unesco em seu relatório Mcbride, conforme destaca Rebouças
(2003). Suas recomendações mais contundentes diziam respeito, jus-
tamente, à relação negativa entre democratização da comunicação e
a ênfase a questões comerciais em lugar das sociais.
Essa preocupação se encontra explícita, também, em documen-
tos da Federal Communication Commission (FCC), órgão regula-
dor dos Estados Unidos, e do Office of Communications (Ofcom),
órgão independente regulador do setor de comunicação no Reino
Unido. A propósito, o Ofcom propõe uma espécie de equilíbrio en-
tre a concepção de consumidor e de cidadão que pode ser resumida
como citizen-consumer – embora, na prática, a parcela “cidadão”
termine em desvantagem (LIVINGSTONE; LUNT; MILLER, 2007;
SMITH; TAMBINI, 2012).
Nesse sentido, o Ofcom entende pluralismo e diversidade de mí-
dia da seguinte forma: “[...] as preventing any one media owner or
voice from having too much influence over public opinion and the
political agenda” (CMPF, 2013, p. 24). De acordo com definição do
Ofcom, essa diversidade pressupõe a disponibilidade de diferentes
pontos de vista tanto entre empresas distintas (classificada como di-
versity across/between media enterprises), quanto dentro da própria
empresa, ao longo da sua programação (denominada como diversity
within media enterprises).
Estudo do Centre for Media Pluralism and Media Freedom des-
taca categoricamente: “[...] media pluralism and media freedom are
inevitably related to the positive impact that they have on the func-
tioning and sustainability of the democratic system” (CMPF, 2013,
231
p. 24). Entretanto, empiricamente, observa-se a predominância do

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
modelo de mercado no campo da mídia em detrimento do modelo
da esfera pública (NAPOLI, 2007; LIVINGSTONE; LUNT; MILLER,
2007; LIVINGSTONE; LUNT, 2007; RICE, 2008; PUPPIS, 2008).
Como consequência dessa predominância, verifica-se a concentra-
ção não apenas de altos índices de audiência em poucas fontes de
informação, mas também dos processos de produção e distribuição
desse conteúdo: “So the commercial media system is potentially
(some say inherently) a threat to diversity, the marketplace of ideas,
and free speech” (RICE, 2008, p. 21).
Horwitz (2007) também destaca esse efeito. O ponto central da
sua reflexão é a concepção de “diversidade de vozes”, analisada a par-
tir da investigação da origem e da lógica das regras de propriedade
de mídia nos Estados Unidos. O autor observa que, embora as em-
presas de mídia venham se tornado cada vez maiores e poderosas,
as regras relacionadas à preservação da competição no setor têm
sido ou consideradas inconstitucionais pela suprema corte ou alvo
de flexibilização por parte da Federal Communication Commission
(FCC). Esse movimento representaria uma ameaça à diversidade de
vozes. Mas o que seria “diversidade” em termos de mídia? Horwitz
(2007) questiona: número de proprietários de empresas de mídia?
Número de fontes que oferecem produtos midiáticos? Número de
diferentes perspectivas retratadas em determinado conteúdo? Nú-
mero de audiência?
Tratam-se, estas, de questões em aberto, para as quais não há
respostas absolutas objetivamente mensuradas (COMPAINE, 2008).
Nesse sentido, cada caso é um caso, de modo que a adoção de con-
ceitos e dados para se medir concentração e diversidade de mídia
deve levar em conta, sobretudo, as especificidades do contexto em
análise. Esta é uma recomendação do Centre for Media Pluralism
and Media Freedom (CMPF, 2013, p. 30). Entende-se que o contexto
é, basicamente, a estrutura do mercado em foco.

DIVERSIDADE E ESTRUTURA DE MERCADO

A preocupação quanto às diversas dimensões do debate sobre


diversidade – sobretudo em relação à ideia de diversidade de pontos
de vista – justifica-se diante da possibilidade da estrutura de mer-
cado. A depender do seu formato, o mercado possui o potencial de
suprimi-las ou incentivá-las.
232
Conforme destaca Wildman, “is widely accepted that ownership
Mídia e Sociedade em Transformação

structure does influence viewpoint diversity and policy has gene-


rally reflected a presumption that viewpoint diversity increases with
outlet diversity” (WILDMAN, 2007, p. 160-161). Esse pressuposto,
amparado empiricamente, está previsto não apenas em investigações
que têm como objeto diversidade em termos de conteúdo noticioso
(ALEXANDER; CUNNINGHAM, 2007; BARDACH, 2008; BLI-
DOOK, 2009). Mitchell e Malhorta (2008), por exemplo, ressaltam o
pouco espaço destinado ao jornalismo em redes de TV aberta, como
NBC, ABC e CBS. Entretanto, isso não fragiliza a análise empreen-
dida pelas autoras sobre mudanças em padrões de propriedade de
mídia e seus impactos em relação a princípios democráticos.
Ao também analisar concentração de audiência, Yim (2003 apud
WILDMAN, 2007) confirmou a seguinte hipótese: à medida que o nú-
mero de empresas a ofertar conteúdo aumenta, a audiência tende a se
desconcentrar, fracionando-se entre as fontes disponíveis no mercado.
Compaine (2008), com base em análise de audiência como um todo –
não apenas aquela referente a conteúdo noticioso – chega a conclusão
semelhante: “Those niches, meanwhile, can aggregate into significant
numbers” (COMPAINE, 2008, p. 184). No mesmo sentido, Cooper
(2003) destaca os aspectos positivos relacionados à diversidade em
termos de fontes, estrutura de mercado e pontos de vista: “When me-
dia outlets are numerous, they are also more accessible. (...) Simply
put, ownership dictates viewpoint” (COOPER, 2003, p. 62).
Ao mesmo tempo, Alexander e Cunningham (2007) chamam
atenção para uma distinção relevante: diversidade de fontes (número
de empresas no mercado) não necessariamente significa diversidade
de pontos de vista (variedade em termos de perspectiva sobre um
mesmo objeto). Nesse sentido, os autores sugerem que o conceito de
diversidade de fontes vá além e englobe não somente o número de
firmas, mas também os interesses que norteiam seu comportamento.
Se a presença daquilo que Alexander e Cunningham (2007) chamam
de extra-media interests é identificada, cabe à autoridade reguladora
garantir condições para o desenvolvimento de um mercado minima-
mente competitivo, de modo a fomentar diferentes pontos de vista.
A análise empírica desenvolvida pelos autores leva em conta a va-
riável estrutura de mercado, cuja competitividade é mensurada por
meio do índice Herfindahl-Hirshman (HHI) aplicado à participação
de cada firma no setor. A investigação parte da hipótese segundo
a qual há uma associação negativa entre concentração e diversida-
233
de. Os testes levados a cabo por Alexander e Cunningham (2007)

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
confirmaram essa hipótese: quanto mais concentrada a estrutura de
mercado, menos diversidade – o que sugere “estrutura de mercado”
como variável relevante em estudos da área.
Outro achado da pesquisa diz respeito à densidade populacional
como variável adotada. Os dados indicaram que quanto mais densa
a população, mais baixo o grau de diversidade. As conclusões dos
autores reforçam o pressuposto inicial por eles apresentados, o qual
destaca o papel normativo relevante a ser desempenhado pelas au-
toridades regulatórias no sentido de procurar garantir um mínimo
de competitividade capaz de se refletir em promoção da democra-
cia representativa. Alexander e Cunningham (2007, p. 94) afirmam:
“This findings implies that regulatory policy designed to protect and
encourage competition simultaneously helps satisfy a second policy
objective: diversity”. A ideia de diversidade pode ser diretamente as-
sociada, portanto, à concepção de mercado competitivo. Em outras
palavras, competitividade tende à diversidade.
Os resultados desse tipo de investigação podem ser associados
a graus mais ou menos robustos em termos de ideais democráticos.
Conforme destaca Goodman (2007), mesmo que não demande di-
versidade em termos de mídia, é importante que a audiência seja ex-
posta a ela. Em tese, políticas públicas voltadas para o setor de mídia
devem ter como objetivo final a preservação da diversidade (COM-
PAINE, 2008). Trata-se daquilo que Mauersberger (2011) classifica,
em contexto de democratização, como regulação guiada por objeti-
vos – ou regulatory goals. Nesse caso, a questão da diversidade como
fim passa pelo debate sobre estrutura de mercado.
Entretanto, este não se trata, ressalva o autor, de modelo regula-
tório predominante no contexto da América Latina, onde se percebe
um viés menos focado em diversidade e mais preocupado com opor-
tunidades de mercado. “The right to and the freedom of expression
are usually guaranteed in national constitutions, but this has not fou-
nd its way into media-specific regulation” (MAUERSBERGER, 2011,
p. 9). A regulação guiada por objetivos assentados em princípios de-
mocráticos seria algo previsto apenas formalmente.

CONCENTRAÇÃO COMO LEGADO AUTORITÁRIO

Conforme destacado até aqui, diversidade de mídia está asso-


ciada a democracias robustas. Ao mesmo tempo, estruturas oli-
234
gopolizadas de mercado estão relacionadas a baixa competitividade
Mídia e Sociedade em Transformação

(McGUIGAN; MOYER; HARRIS, 2006). Esta, por sua vez, é caracte-


rística de cenários de concentração, os quais estão associados a con-
textos autoritários ou frágeis do ponto de vista democrático.
Aos legisladores e formuladores de regulação, cabe o desafio de
identificar o que vem a ser diversidade e operacionalizar esse elemento,
de modo a torná-lo efetivo por meio de dispositivos legais (WILDMAN,
2007). Isso ocorre através de políticas públicas. Cabe à regulação gover-
namental promover a esfera pública no sentido habermasiano (CMPF,
2013), isto é, um espaço social aberto, em que a opinião pública é cons-
truída por meio da troca de informação e opinião. Não seria uma preo-
cupação do mercado incentivar esses aspectos (SZECSKO, 1986).
Conforme destaca McChesney (2008), se em um determinado
cenário de mídia se verificar mais ou menos diversidade, não parece
razoável atribuir culpa aos empresários do setor. “They are following
what is rational for them to do, what the current market mechanism,
shareholders, and policies media reward them for doing” (McCHES-
NEY, 2008, p. 34). Além disso, mercados de mídia não surgem como
resultado natural de um mercado livre. Esse pressuposto, de acordo
com McChesney, não passa de um mito. Mercados de mídia devem
ser entendidos, segundo o autor, como fruto de subsídios, políticas
e decisões explícitos e seletivos. As perguntas centrais para se des-
vendar esse processo de estruturação de mercado são: “who are the
policies going to be made for, how are they going to be made, and for
whose interests are they going to be made?” (McCHESNEY, 2008,
p. 35). Características em termos de grau de diversidade ou concen-
tração estariam, portanto, diretamente relacionadas ao modo como
esse mercado está estruturado, ao atendimento de determinados in-
teresses em detrimento de outros.
Evidências históricas indicam que uma vez definida essa estru-
tura, dificilmente ela é reformada – o que sugere uma tendência à
continuidade neste setor, baseada na ideia de path-dependence1 . E a

1
O fenômeno path-dependence pode ser assim conceituado: “Clearly, in any conception
of institutions, the cost of change whether formal or non-formal and whether financial or
organizational must be part of what an institution confers. Equally, the political costs of
trying to disturb the status quo are far greater where the struggle involves many actors
with diverse preferences rather than only a few with homogeneous preferences. So, any
system that makes decision-making difficult tends toward the preservation of existing
institutions. But none of this is absolute” (RHODES; BINDER; ROCKMAN, 2008, p. XV).
235
forma como um mercado se estrutura, por sua vez, pode ser direta-

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
mente associada ao modelo regulatório adotado por meio de políti-
cas públicas setoriais.
A preponderância de interesses voltados para o mercado re-
fletidos em políticas regulatórias é uma característica do mercado
latino-americano, com uma especificidade: no continente, a forma-
ção de oligopólio é resultado, em grande medida, da íntima relação
entre políticos conservadores e empresários, consolidada em perí-
odos ditatoriais (BECERRA; MASTRINI, 2009; MAUERSBERGER,
2011; DOMINGUES-DA-SILVA, 2011). Mauersberger (2011) des-
taca, porém, o esforço de governos da Argentina, Chile e Uruguai
no sentido de superar o que ele considera barreiras ao processo de
redemocratização: “Although the regulatory foundation from mili-
tary times still in force, there have been important changes toward
improving the exercise of the right to communicate” (MAUERS-
BERGER, 2011, p. 13).
Mauersberger (2011), ao analisar os casos do Uruguai, Argentina
e Chile, insere a investigação sobre política regulatória de radiodifu-
são no contexto mais amplo do processo de redemocratização. As-
sim como Zaverucha (2000; 2005) quanto às relações civis-militares,
Mauersberger considera a mídia como parte relevante do processo
– inacabado e frágil – de consolidação democrática. O autor defende
que, na América Latina, o processo de democratização não chegou
à mídia – o que tornaria, a princípio, os casos em questão como en-
quadráveis na classificação de autoritarismo competitivo (LEVIT-
SKY; WAY, 2010) ou de democracias fragilizadas (ZAVERUCHA,
2000; 2005). A censura governamental acabou substituída pelo que
Mauersberger chama de censura econômica, propiciada pela forma-
ção de conglomerados, resultado de uma aliança entre elites eco-
nômicas e políticos conservadores. O cenário latino-americano se
caracteriza, portanto, pela baixa competitividade e pela homogenei-
zação de conteúdo.
Entende-se que esse aspecto do contexto latino-americano se
enquadra no conceito de legado autoritário, desenvolvido por Ce-
sarini e Hite (2004). Tratam-se de características culturais, sociais e
políticas herdadas do regime autoritário por países redemocratiza-
dos. Este tipo de legado está inserido no contexto teórico de mode-
los de democracia enquanto substância2 (DOMINGUES-DA-SIL-
VA; BARROS, 2014) e pode se manifestar por meio de instituições
formais ou informais3 . Considera-se que a aproximação entre essa
236
conceituação e o cenário apontado como característico da América
Mídia e Sociedade em Transformação

Latina em termos de sistema de mídia ocorre de forma ainda mais


clara quando se leva em conta aquilo que Cesarini e Hite classificam
como “legacies as social and political actors and forces”:
What are broadly conceived as sociological approaches to demo-
cracy and democratization tend to identify authoritarian legacies
in the lingering power and influence of specific social classes,
groups, coalitions, or network associated with previous nonde-
mocratic regimes under the new posauthoritarian democracies
(CESARINI; HITE, 2004, p. 10).
Elites econômicas e grandes proprietários de terra são apontados
pelas autoras como barreiras a processos de desenvolvimento e mo-
dernização em países latino-americanos pós-autoritários. A manu-
tenção das relações de poder por meio da preservação de instituições
autoritárias formais ou informais seria uma questão de sobrevivên-
cia para esses atores conservadores e tradicionais. Isso explicaria não
somente o direto envolvimento deles em processos de redemocrati-
zação, sob pretexto de garantir a estabilidade, mas também a preser-
vação de determinadas estruturas, as quais podem ser classificadas
como legados autoritários.
Essas características herdadas de períodos autoritários se mani-
festam nos mais diversos campos da sociedade e das mais diversas
formas, das relações civis-militares a políticas econômicas setoriais.
Observa-se, com esse conceito desenvolvido por Cesarini e Hite,
uma chave-explicativa relevante para se investigar mercado de mídia
em países da América Latina. A depender do poder exercido pelos
atores e instituições classificados como legados autoritários, o Estado
pode se ver tolhido quanto à sua capacidade de efetivar seus objeti-
vos por meio de políticas públicas.
Conforme destaca Tilly (2013), uma das principais característi-
cas de regimes democráticos é a capacidade de o Estado implemen-
tar as suas decisões políticas: “Nenhuma democracia pode funcionar
se o Estado não possui capacidade de supervisionar o processo de

2
Sobre o debate acerca de democracia enquanto substância e enquanto procedimento,
cf. Held (1987) e Macpherson (1978).
3
A respeito do conceituo de instituições formais e informais, cf. Parsons (2010) e Levit-
sky e Helmke (2006).
237
decisão democrática e de pôr em prática os seus resultados” (TILLY,

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
2013, p. 29). Dessa forma, legados autoritários podem colocar em
xeque essa capacidade. Considera-se como possível, assim, o diálogo
teórico entre a concepção de legado autoritário e a capacidade do
Estado, assim conceituada:
Capacidade do Estado significa a extensão na qual as interven-
ções dos agentes do Estado em recursos, atividades e interco-
nexões pessoais não estatais existentes alteram as distribuições
existentes desses recursos, atividades e conexões interpessoais,
bem como as relações entre aquelas distribuições (TILLY, 2013,
p. 30).
Quanto maior a capacidade do Estado, maior seu potencial de
agir e, assim, afetar significativamente a vida dos cidadãos presentes
na arena relacionada aos recursos em jogo. Ao mesmo tempo, quan-
to menor a capacidade do Estado, menor também essa influência,
mesmo que se tente mudar o estado atual de coisas. O conceito de
capacidade de Estado é utilizado como ferramenta analítica para se
compreender políticas regulatórias, conforme evidenciam os traba-
lhos de Melo, Gaetani e Pereira (2005), sobre regulação do setor de
telecomunicações no Brasil, e de Amengual (2012), a respeito de re-
gulação de relações trabalhistas na Argentina.
Como a capacidade de agir está relacionada à capacidade de mo-
bilizar recursos, atividades e conexões, pode-se inferir que continui-
dade ou mudança estariam associadas à maior ou menor capacidade
de Estado. Frente a determinados atores e instituições defensores da
manutenção, o Estado pode se mostrar incapacitado em efetivar mu-
danças significativas, a depender do poder de pressão desses atores.
O mesmo pode ser dito em relação a uma situação hipotética em que
o Estado se veja diante de determinados atores e instituições defen-
sores da mudança do estado atual de coisas. Quanto mais democráti-
co um país, espera-se que maior seja sua capacidade de Estado, uma
vez que processos de democratização interagem, intimamente, com
a capacidade de Estado.
A capacidade de Estado pode estar negativamente associada à
presença de legados autoritários, os quais representam barreiras a
ações promotoras de democracia. No campo específico de comuni-
cação, essa associação parece uma hipótese razoável para se tentar
compreender o processo de inércia legal ou de regulação favorável
a determinados atores, em detrimento de outros que reivindicam
238
maior democratização por meio de políticas públicas setoriais. En-
Mídia e Sociedade em Transformação

tretanto, parte da literatura recente voltada à análise da arena de


disputa por recursos comunicacionais tende a apontar mudanças
significativas quanto à correlação de forças e seu impacto em proces-
sos de modelagem de sistemas de mídia (cf. MARTENS; VIVARES;
McCHESNEY, 2015).
Tais modificações tendem a ser vistas como incentivo ao apro-
fundamento da democracia em termos de mídia, creditadas a ini-
ciativas governamentais em países como Venezuela (BROQUEN,
2015), Equador (CERBINO; RAMOS; MALUF; CORYAT et al.,
2015), Argentina (SEL; GASLOLI, 2015) e Brasil (MATOS, 2015).
Por outro lado, o conflito entre meios de comunicação e governos na
histórica recente desses países também tem sido interpretado com
ressalvas quanto às reais motivações de seus líderes políticos (cf.
SORJ, 2010). Independentemente do viés interpretativo, entende-se
como necessário o seguinte alerta: “The media are not democratic by
nature. They serve dictatorships as happily as they flourish in demo-
cracies” (VOLTMER, 2013 apud HADLAND, 2015, p. 24).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente capítulo procurou abordar a relação entre concen-


tração de mídia, estrutura de mercado e legado autoritário. A partir
da reflexão desenvolvida, é possível afirmar que a ideia de diversida-
de está associada à concepção de mercado competitivo. Em poucas
palavras, mercados em que se observa pouca competitividade entre
firmas tendem a apresentar baixo grau em termos de diversidade de
mídia.
Além disso, a concepção de diversidade de mídia pode ser ana-
lisada teórica e empiricamente a partir de inúmeras dimensões – di-
versidade de firmas, programação, pontos de vista, fontes, conteúdo,
audiência, etc. –, a depender da aderência ao contexto investigado.
Diversidade de mídia e mercados competitivos, por sua vez, estão
associados a democracias robustas, ao mesmo tempo em que con-
centração de mercado e baixa competitividade estão relacionadas a
contextos autoritários ou frágeis do ponto de vista democrático.
Nesse contexto, está inserido o cenário latino-americano. Embo-
ra parte da literatura ressalte mudanças regulatórias, ele apresenta,
predominante e historicamente, uma estrutura de mercado de mí-
dia moldada por interesses de mercado em detrimento de princípios
239
guiados pelo interesse público, o que pode ser creditado ao legado

estruturas de mercado de mídia como legado autoritário


Mídia concentrada, democracia fragilizada? Interpretando
autoritário do continente.

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245

Juventude e
cidadania: a ação de
Isadora Faber para
além do Facebook e
do Participatório INTRODUÇÃO

Maximiliano Martin Vicente


F alar da juventude brasileira
é propor um diálogo com
mais de 66.500 milhões de jo-
Mayra Fernanda Ferreira vens de 15 a 29 anos1 (IBGE,
Vinicius Carrasco 2011). É compreender que os
adolescentes são as pessoas en-
tre 12 a 18 anos de idade, segun-
do o Estatuto da Criança e do
Adolescente (BRASIL, 1991),
e que os jovens têm entre 15 e
29 anos, conforme o Estatuto
da Juventude (BRASIL, 2013a).
Mais que lidar com índices,
nomenclaturas e faixas etá-
rias, além das questões legais,
de direitos e deveres, precisa-
mos pensar na atuação desses
cidadãos em espaços públicos,
que na contemporaneidade se
colocam em ambientes on-line
e off-line. A proposta do texto
reside, justamente, em decifrar
alguns dos comportamentos
desses jovens e sua relação com
a sociedade.
246
Considerando a autonomia inerente a adolescentes e jovens, re-
Mídia e Sociedade em Transformação

conhecer o potencial desses cidadãos é lhes garantir espaços para a


valorização de sua participação a fim de que suas vozes sejam ouvi-
das, seus interesses, representados, e suas demandas, atendidas, des-
de que se respeitem a questão central da cidadania, que consiste em
averiguar
de que modo os cidadãos se fazem visíveis no espaço mediático,
de analisar as representações que os meios constroem da partici-
pação social das pessoas e como se auto-representam nessa nova
maneira de exercitar sua participação na regulamentação social
(VICENTE, 2009, p. 77).
Ao entender, portanto, que a mídia digital compreende sites, por-
tais e redes sociais digitais como um desses espaços de representação
e manifestação da juventude, nossa proposta de análise é mostrar
como os espaços comunicacionais e suas ferramentas são utilizadas
pelos jovens na sua participação cidadã. O norte deste estudo é o
exemplo da cidadã Isadora Faber, que aos 13 anos se manifestou em
prol da qualidade da educação na rede pública de ensino em Floria-
nópolis em uma página no Facebook e conquistou adeptos (leia-se
curtidas, repercussão nas mídias tradicionais e em eventos no Brasil
e no exterior) e também desafetos, como a Secretaria Municipal de
Educação, ao sair das postagens virtuais para ações concretas em sua
escola e, consequentemente, em escolas pelo País afora, como vere-
mos mais adiante.
Nessa perspectiva, pretende-se situar o caso do “Diário de Clas-
se” de Isadora como um exemplo de protagonismo, de cidadania em
prol da educação e da valorização da juventude. Em paralelo, apre-
sentamos a proposta do Observatório Participativo da Juventude – o
Participatório – que, em tese, visa exatamente ser um espaço de ex-
pressividade dessa mesma juventude de Isadora, adepta do ambiente
digital e aberta ao diálogo e às trocas para uma maior intervenção

1
Os dados apresentados não incluíram a faixa etária dos 12 a 14 anos, uma vez que os
indicadores do IBGE (2011) trazem números referentes à população de 10 a 14 anos,
correspondendo a 17.192 milhões de pessoas. Tendo em vista não ser possível ter
em mãos a precisão do dado que contempla a faixa etária em estudo neste trabalho,
optamos por desconsiderar esse número na somatória apresentada. Vale ressaltar que
a análise do IBGE apresenta a divisão por faixas etárias, a saber: 15 a 19 anos (17.192
milhões de pessoas); 20 a 24 anos (16.027 milhões de pessoas); e, 25 a 29 anos
(16.292 milhões de pessoas).
247
social. Acredita-se que, enquanto uma política pública, assim como

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
as leis que regem direitos e diretrizes para adolescentes e jovens, o
Participatório seja um alicerce para a valorização juvenil e um espa-
ço no qual ela possa exercer, livremente, seu protagonismo.
Com os apontamentos resultantes do debate aqui iniciado, pre-
tende-se articular reflexões a fim de apresentar um contexto emer-
gente para a juventude conectada e até mesmo questionamentos
acerca de um exercício de cidadania que pode ter o jovem como um
agente social crítico, participativo e eficaz.

QUEM É E O QUE FAZ ISADORA FABER?

“Eu Isadora Faber, estou fazendo essa página sozinha, para mos-
trar a verdade sobre as escolas públicas. Quero melhor não só pra
mim, mas pra todos.” Esse trecho foi extraído da página do Facebook
na qual a adolescente, desde 11 de julho de 2012, iniciou suas ativi-
dades on-line para mostrar a situação de sua escola, a Escola Básica
Municipal Maria Tomázia Coelho, em que estudou durante todo o
Ensino Fundamental em Florianópolis, no estado de Santa Catarina.

Figura 1 – Página do “Diário de Classe” no Facebook.


Fonte: www.facebook.com/diariodeclasse.
248
Nos primeiros meses com a página no ar, com o apoio de uma
Mídia e Sociedade em Transformação

colega também de 13 anos, a garota registrou em fotos e vídeos como


estava a infraestrutura da escola e o comportamento de alunos e
professores durante as aulas, além de fazer postagens reivindicando
melhorias e questionando como era investido o dinheiro que a Se-
cretaria Municipal e o governo estadual destinavam à escola pública.
De 11 de julho a 26 de agosto de 2012, a página conquistou mais de
1.500 seguidores, que interagiam com os conteúdos, curtindo e/ou
comentando. Essa repercussão on-line teve impactos no real, visto
que algumas melhorias já estavam em implantação na escola, como
troca de maçanetas e conserto de ventiladores.
O “Diário de Classe” viralizou, e a mídia local, seguida pela na-
cional e até internacional, destacou o caso de Isadora com entrevistas
com a menina e seus pais. Ao comentarem que havia professores,
alunos e a direção da escola incomodados com as postagens, a reper-
cussão aumentou, assim como cresceu o apoio País afora. “No final
da noite [27 de agosto de 2015], mais de 35 mil pessoas já tinham
curtido a página, por causa de tanta divulgação feita pelos jornalis-
tas” (FABER, 2014, p. 81). Essa exposição fez com que a Secretaria de
Educação de Florianópolis se manifestasse e assumisse providências
para resolver os problemas da escola de Isadora. Segundo nota da
assessoria de imprensa, a Secretaria defende, pelo menos em teoria,
a liberdade de expressão, tendo como missão
promover educação de qualidade que contribua para o exercício
pleno da cidadania, o município proporciona o estabelecimento
de relações democráticas e participativas. [...] Os alunos têm que
saber que a participação deles é fundamental para preservar um
bem público (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO, 2012 apud FA-
BER, 2014, p. 85).
Enquanto um espaço público educativo, é fundamental que haja
esse reconhecimento e, consequentemente, incentivo às políticas pú-
blicas. No entanto, mesmo tendo conseguido algumas conquistas e
depois de ter alcançado a projeção já descrita, o caso de Isadora conti-
nuou, e mais denúncias foram feitas pela adolescente, destacando seu
protagonismo incansável para resolver questões como: por que a es-
cola não tinha um Conselho de Pais e por isso não recebia uma verba
maior do governo? Além disso, a jovem incentivou outros adolescen-
tes a fazerem um diário sobre suas escolas e se tornou palestrante em
eventos no Brasil para contar sua experiência em prol da educação.
249
Assim como está no discurso da Secretaria de Educação, os jor-

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
nalistas também reverberaram o exercício de cidadania promovido
por Isadora. Uma das manchetes ressalta “Pequena grande cidadã” e
no exterior “Brazil’s school flaws highlighted by citizen activism”2 .
Os pais da garota também destacam seu papel social e apontam que
“ela não é cordeirinho, ela pensa, questiona e pergunta sim senhor.
Ensino a todas as minhas filhas que liberdade de expressão é fun-
damental. Quem pensa questiona, e se não se convence, questiona
novamente, não sendo suficiente, reivindicam seus direitos” (MEL
FABER, 2012 apud FABER, 2014, p. 130). Vale pontuar que os pais
foram criticados e até mesmo se chegou a cogitar que eles seriam os
autores das postagens e que manipulavam a filha para terem desta-
que na sociedade e se beneficiarem do que ela estava conquistando,
como cursos de idiomas e viagens para participar de eventos e pro-
gramas de televisão.
Considerando a autonomia com que Isadora lutou pelas melho-
rias, é inegável que muitas mudanças só foram possíveis, em tão cur-
to período de tempo, devido à visibilidade conquistada no universo
on-line. Porém, a garota saiu da página do Facebook e debateu junto

Figura 2 – Homepage da ONG Isadora Faber.


Fonte: www.ongisadorafaber.org.br.

2
Traduzindo: “Falhas escolares do Brasil destacadas pelo ativismo cidadão”. Publicação
do Jornal International Student Magazine na Irlanda.
250
a diretores, professores e pais questões envolvendo a problemática
Mídia e Sociedade em Transformação

educacional. Conseguiu modificar uma realidade precária da escola


local e suscitou práticas semelhantes que também redundaram em
lutas pela educação. Um exemplo são as iniciativas que ela atualmen-
te coordena on-line e off-line. O “Diário de Classe” continua sendo
atualizado. Em 20 de junho de 2013, Isadora inaugurou sua ONG
para ampliar os trabalhos na área educacional.
Recentemente, visando a defesa da educação como um direito
de todos, foi inaugurado o site “Diário das escolas” para que “você
que também se sente indignado com o atual panorama da educação
brasileira tenha a oportunidade de se manifestar e denunciar o des-
caso com nossas escolas, sejam elas municipais, estaduais, federais
ou privadas” (FABER, 2015).

Figura 3 – Homepage “Diário de escolas”.


Fonte: www.diariodasescolas.com.br.

Tanto o trabalho da ONG como o “Diário das escolas”3 não


visam substituir a atuação do poder público e órgãos da educação
competentes. Esses exemplos dialogam com nossa proposta de apre-
sentar como a participação jovem pode representar um impacto jun-

3
Não é objetivo deste trabalho apresentar uma análise das ações da ONG Isadora Faber
nem da recém-iniciativa do “Diário das escolas”, mas pontuá-las como exemplo de um
exercício a priori com motivos cidadãos. Em pesquisas futuras, pretende-se aprofundar
esse debate com teoria e metodologia pertinentes à problemática.
251
to à sociedade e ao poder público, mesmo que seja apenas como um

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
incentivo ao debate. Debate, este, já sabido pela Secretaria Nacional
de Juventude?

A INICIATIVA DO PARTICIPATÓRIO

Segundo o próprio site4 , o Observatório Participativo da Juventu-


de – Participatório –, vinculado à Secretaria Nacional de Juventude,
é um espaço virtual interativo voltado à produção do conhecimen-
to sobre/para a juventude brasileira, com participação e mobiliza-
ção social. Criado em 5 de agosto de 2013, o projeto é caracterizado
como “um híbrido entre o formal da academia e a fluidez das redes”.
O nome foi escolhido por mesclar as diretrizes principais do projeto:
participação social e observatório.

Figura 4 – Homepage do Observatório Participativo da Juventude.


Fonte: www.participatorio.juventude.gov.br.

Inspirado nas redes sociais, o Participatório pretende promover


a participação, a produção do conhecimento, a mobilização e a di-
vulgação de conteúdos focados nos temas ligados às políticas de ju-
ventude e correlatos. Além disso, sua proposta envolve a integração

4
O Observatório Participativo da Juventude – Participatório está inserido no Portal da
Juventude no endereço: http://participatorio.juventude.gov.br
252
com as redes sociais digitais e blogs, de forma que os diálogos que
Mídia e Sociedade em Transformação

estão ocorrendo nesses outros espaços possam alimentá-lo e vice-


versa. Dessa maneira, foi “concebido”, em tese, para
alargar os canais de comunicação e mobilização, com foco na
ampliação da capacidade de articular o conjunto de ferramentas
que viabilizam e potencializam o diálogo com os movimentos
sociais e a sociedade, as relações interministeriais, parlamentares
e com outras esferas de governo (BRASIL, 2015b).
São objetivos do Participatório, segundo o texto oficial:
a) Produzir conhecimento em rede

Ambiente para construção e produção do conhecimento em per-


manente processo de elaboração. Um espaço de articulação de
saberes envolvendo a juventude, instituições de pesquisas, ob-
servatórios e grupos de pesquisa, gestores, ativistas, estudiosos,
no Brasil e no exterior, ligados a questões, dilemas e políticas
públicas de juventude.

b) Promover a participação em ambientes virtuais

Integrado à estratégia de participação social como método de


governo, o Participatório, além de promover a construção do
conhecimento sobre a Juventude brasileira, é um ambiente de
comunicação entre pessoas. Um espaço para o diálogo, o debate
e a interação de jovens, gestores, pesquisadores e demais formu-
ladores das políticas de juventude.

c) Mobilizar e disputar valores da juventude

Espaço para disseminação de campanhas com relevância e po-


tencialidades de absorção de conteúdo e valores relacionados aos
temas que já estejam circulando pelas redes e ambientes sobre
juventude. O espaço virtual tem uma articulação entre o debate
e a mobilização presencial, ampliando e potencializando: valo-
res, debates, eventos, atividades, que a Secretaria e seus parceiros
venham a realizar. Um debate pode ser transmitido ao vivo pela
web, provocando a repercussão nas mídias sociais. (BRASIL,
2015b).
A proposta prevê a participação de jovens, redes, coletivos, mo-
vimentos sociais, gestores, pesquisadores, parlamentares, todos que
queiram contribuir e se integrar às discussões propostas. O texto da
253
portaria n. 42 (de 2 de agosto de 2013), que instituiu o Observatório,

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
destaca que o que for debatido poderá auxiliar, por exemplo, para o
aperfeiçoamento ou a criação de políticas públicas, legislação, pro-
dução de conhecimentos e outras questões relevantes para a juventu-
de brasileira. Ainda segundo a portaria, os recursos humanos, tecno-
lógicos, logísticos e orçamentários para a implantação, manutenção
e operacionalização do Participatório serão disponibilizados pela
Secretaria Nacional de Juventude da Secretaria-Geral da Presidência
da República (BRASIL, 2013c). Nesse sentido, o Governo brasileiro
volta parte de suas ações para a juventude5 , considerando que “o
segmento juvenil é estratégico para o desenvolvimento nacional e
para a construção de políticas públicas que assegurem a autonomia e
o direito dos nossos jovens” (BRASIL, 2011).
Com essa proposta participativa, na plataforma oferecem-se re-
cursos on-line para fomentar a comunicação e a interação entre os
atores sociais jovens ou não que tenham como causa a juventude.
Entre os conteúdos disponíveis no Participatório, estão:
Boletins Temáticos: boletins bimestrais, produzidos em parceria
com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), com
análise de dados sobre temas específicos que tem impacto sobre
a juventude (educação, trabalho, cultura, saúde, dentre outros).
Revista Eletrônica Juventude e Políticas Públicas: revista ele-
trônica técnico-científica com seleção pública de trabalhos, de
tiragem semestral.
Biblioteca Digital: reúne em um único local virtual a produção
bibliográfica da SNJ, do CONJUVE e também de repositórios de
Universidades sobre juventude. Desenvolvida em Dspace.
Centro de Documentação e Pesquisa sobre Juventude e Polí-
ticas Públicas (CEDOC-PPJ): Espaço de referência para docu-
mentação do acervo da SNJ e do CONJUVE, aberto à visitação

5
Vale ressaltar, ainda, como iniciativa do Governo a realização das Conferências da
Juventude, em nível territorial, municipal, estadual e nacional. Em 2008 e 2011, foram
realizadas as primeiras edições da Conferência. A 3ª está em andamento desde maio
deste ano com o objetivo de ser “um amplo processo de debate e participação sobre o
que a juventude quer para o Brasil” (BRASIL, 2015). Embora reconheçamos o potencial
das conferências para a agenda jovem do país e até mesmo para o que se defende nes-
te trabalho, não dirigimos nossa análise para as conquistas e os limites de tais debates,
temática que pode ser contemplada em estudos futuros.
254
do público. Também pode ser acessado virtualmente, por meio
Mídia e Sociedade em Transformação

de nossa Biblioteca Digital.


Rede de Pesquisadores de Juventude: espaço para divulgação
sobre pesquisas em desenvolvimento e articulação de pesquisa-
dores, intuições, observatórios que trabalham com as temáticas
juventude e políticas públicas.
Dados e Indicadores: Informação pública para pesquisa com
interface para gerar gráficos e mapas de forma fácil. (BRASIL,
2015b).
Esses conteúdos visam fornecer informações atualizadas e con-
textualizadas sobre a juventude brasileira. O portal conta com 146
participantes e 101 pesquisadores na Rede de Pesquisadores de Ju-
ventude. Já a página no Facebook tem 6.473 curtidas6 . No entanto,
uma observação empírica mostra que o portal retirou espaços exis-
tentes no menu original, em 2013, como atividades, comunidades e
blog, os quais continham manifestações de jovens sobre temáticas
de seu interesse, conforme apontam análises de Luvizotto, Rothberg
e Vanzini (2014) e Carrasco (2014). Na rede social digital, observa-
se uma atualização e uma participação mais ativa. Recentemente, o
debate sobre a redução da maioridade penal contou com postagens e
até uma campanha com a hashtag # ReduçãoNãoÉSolução!.

Figura 5 – Facebook do Observatório Participativo da Juventude.


Fonte: www.facebook.com/participatorio.

6
Dados retirados em consulta no dia 14 de julho de 2015.
255
Além disso, um dos estudos citados acima aponta que o portal

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
surge como um outro espaço para a juventude que foi às ruas em
junho de 2013, sistematizado pelo poder público.
A comunicação pública digital exerceria o papel de catalisar e
organizar a expressão política juvenil, afastando assim o risco de
manifestações não submissas, por meio da oferta de canais ale-
gadamente permanentes e confiáveis [...] Ou seja, ao propor um
método supostamente organizado de canalizar a participação
política e acolher o desejo de influenciar os rumos das políticas
públicas que importam aos jovens, o Participatório poderia aju-
dar a esfriar a insatisfação que tomou as ruas. (LUVIZOTTO;
ROTHBERG; VANZINI, 2014, p. 229).
Nessa perspectiva, o Participatório possibilitaria uma manifes-
tação dos jovens sob a tutela do Estado, o que a nosso ver poderia
impactar na livre expressividade e até mesmo no direito à liberdade
de expressão e acesso à informação. Embora a proposta seja possibi-
litar o acesso a informações pertinentes aos jovens e propiciar canais
informativos e dialógicos, tal juventude poderia se circundar apenas
nesses meios e perder os espaços das ruas e das demais mídias so-
ciais, como a atividade provocativa do “Diário de Classe” de Isado-
ra Faber. Considerando esses apontamentos é que se torna legítimo
indagar como validar um protagonismo cidadão jovem em meio ao
acesso, produção e difusão de informações em plataformas virtuais
on-line e também nos espaços públicos off-line.

PARTICIPAÇÃO, CIDADANIA E JUVENTUDE

A Pesquisa Nacional sobre Perfil e Opinião da Juventude Brasi-


leira 2013 aponta os resultados de um estudo realizado entre abril e
maio de 2013 por duas consultorias privadas contratadas pela Secre-
taria-Geral da Presidência, ouvindo 3.300 brasileiros com idade entre
15 e 29 anos, em 187 municípios em todos as unidades da federação.
O objetivo dessa pesquisa era “conhecer suas [dos jovens] realidades,
questões, opiniões e demandas, além dos dados estatísticos que reve-
lam o quadro geral da população juvenil no Brasil” (BRASIL, 2013d).
Os dados obtidos apontam que pouco mais de 54% dos jovens
considera muito importante a “percepção do grau de importância
da política”. Já em relação à participação política, a maioria dos
entrevistados respondeu “não gosto de política, não me envolvo”
256
(38%), o que reforça certa apatia com relação ao tema. O levanta-
Mídia e Sociedade em Transformação

mento ainda mostrou que 67% dos entrevistados viam a corrupção


como um dos problemas que mais incomodam no Brasil, seguido
pelo poder dos traficantes, mencionado por 46% dos entrevistados.
Quarenta e três por cento dos jovens apontaram a violência e a se-
gurança como problemas que mais os preocupavam. Mais de 90%
deles também citaram saúde, educação, desemprego e respeito aos
direitos humanos como desafios que precisam ser enfrentados no
País. A necessidade de melhorar a saúde foi destacada por 99% dos
jovens ouvidos, e a educação ficou em segundo lugar, apontada por
98% dos entrevistados.
Com relação às impressões sobre a administração pública, 53%
dos entrevistados afirmaram que os governos no Brasil conhecem
as necessidades dos jovens, mas não fazem nada a respeito. Outro
dado interessante é que 44% dos entrevistados sugeriram a criação
de políticas de apoio à juventude. Além disso, 91% dos jovens en-
trevistados acreditam no poder que têm de mudar o mundo, e 21%
julgam positiva a liberdade de expressão no Brasil. A respeito do en-
gajamento on-line, 34% acreditam que podem melhorar o Brasil a
partir da atuação na internet, opinando sobre assuntos importantes
e/ou cobrando os políticos. Para garantir, então, esse espaço de atu-
ação, articulado com a pretensão a políticas públicas de juventude, o
Participatório está em atividade.
No entanto, observa-se que não é estar em atividade que implica
em uma participação e uma ação efetiva dos e para os jovens. Os
números atuais apresentados pelo portal não apontam um engaja-
mento e um debate efetivos, apesar de toda a promessa e potencial
que representavam inicialmente. É provável que tenha havido um
“esfriamento” nessas questões após as manifestações de 2013 e a atu-
ação significativa dos jovens, uma vez que 53% dos que participaram
da manifestação em São Paulo no dia 17 de junho tinham menos de
25 anos (SECCO, 2013). Na época, delegou-se aos jovens a bandeira
das causas em prol do Brasil, indo do transporte público gratuito à
defesa dos direitos de igualdade social.
Nessa mesma defesa, desde 2012, Isadora busca uma melhora na
educação do País. O questionamento dessa juventude ativa é seme-
lhante. É uma luta por um Brasil de qualidade, de justiça e igualdade.
Um Brasil cidadão.
Reservar mais verbas para saúde, educação ou habitação, apesar
de ser uma questão política, pode variar dependendo do grau
257
de mobilização social. A mobilização e a luta podem alterar a

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
dimensão de um desses direitos trazendo mais benefícios para
a sociedade o que não deixa de ser um ganho de cidadania. [...]
sem essa participação [a popular], as necessidades e expectati-
vas humanas se satisfarão de um modo incompleto beneficiando
mais um grupo do que outro. (VICENTE, 2009, p. 75).

Em prol dessa cidadania, reconhecer o protagonismo dos jovens


em manifestações de cunho democrático, como fez Isadora, é mais
que urgente, pois, como afirma Gohn (2011, p. 346), “lutas pela edu-
cação envolvem lutas por direitos e fazem parte da construção da cida-
dania. O tema dos direitos é fundamental, porque dá universalidades
às questões sociais, aos problemas econômicos e às políticas públicas,
atribuindo-lhes caráter emancipatório”. Essa universalidade e emanci-
pação são instrumentos para o fortalecimento da democracia.
Na sociedade brasileira democrática, tais direitos precisam estar
assegurados e, quando não, é preciso que haja ações, de movimentos
sociais organizados ou não, para garanti-los. Independentemente de
quem protagoniza essas ações, o crucial está no processo e na contri-
buição delas. Esse processo pode contar, ainda, com as ferramentas
de comunicação enquanto canais de produção e difusão de conteú-
dos, especialmente quando colocam os cidadãos para se expressarem
por si, visto que, como já ressaltava Freire (2002), ninguém deve as-
sumir a voz do outro.
Como uma porta-voz de seus próprios direitos, Isadora Faber se
apropriou de uma rede social digital, construiu discursos e os propa-
gou. As postagens no “Diário de Classe” não eram mero denuncismo,
eram reinvindicações e depois se tornaram ações concretas, sem ig-
norar os desabafos e as provas policiais devido às pressões e opressões
que a adolescente sofreu. Questiona-se recorrentemente o potencial
da comunicação na mídia digital por causa de seu alcance, instanta-
neidade e credibilidade. Isadora provou que é possível utilizar – e bem
– um meio de comunicação e provocar transformações no “mundo
real”, independentemente da idade e da escolaridade. O “normal” seria
que uma jovem de 13 anos estivesse preocupada com outras questões
que não o melhoramento da escola e da educação do país.
A partir de uma migração do on-line para o off-line, e até mesmo
vice-versa, como propôs a Secretaria Nacional da Juventude com o
Participatório, o importante é que a ação se torne concreta e efetiva,
que seus impactos sejam mensuráveis, como a reforma da quadra
da escola de Isadora. Mesmo que os resultados não atinjam o nível
258
almejado ou esperado, já representam um incentivo à participação,
Mídia e Sociedade em Transformação

porque se reconhece o valor e o potencial de ações de mobilização e


expressividade, ou melhor, da liberdade de expressão.
O direito à participação implica aceitar o desafio de criticar e
transformar os obstáculos culturais, políticos, econômicos ou
sociais, para que a participação tenha o sentido moral de direito
ao desenvolvimento humano. [...] Pressupõe o desenvolvimento
da capacidade de dialogar, comunicar e incidir tanto no âmbito
político como em todas as esferas da vida. (KLAINER; LÒPEZ;
PIERA, 2004, p. 161).
Desse modo, articular juventude, cidadania e participação per-
passa ainda a educação, porque mesmo em ambientes não formais
de ensino é possível desenvolver as habilidades e as competências
para se compreender seu papel social e sua interpretação inteligente
a respeito das informações disponíveis no mundo social (BELLUZ-
ZO, 2007). Somado a isso, os canais de acesso, produção e difusão
dessas informações precisam ser apropriados, em um processo de
educação para mídia, a fim de garantir a leitura crítica dos meios de
comunicação, já que, conforme aponta Tapscott (1999), a mídia di-
gital pede pela participação ativa, informada e inteligente do usuário.
Tendo em vista os dados do perfil da juventude brasileira (BRA-
SIL, 2013d), percebe-se a emergência da utilização da internet como
um espaço participativo para questões sociais, o que pretende ser o
Participatório. Isadora não contou a priori com o apoio público e
sequer político para sua demanda participativa e reivindicatória. Há,
então, um descompasso entre possibilidades, interesses e demandas?
Pode-se dizer que sim. Os jovens buscam participar, e a internet seria
um desses canais. Os órgãos públicos até já demonstram interesse
por identificar esse perfil e sentiram a necessidade informacional e
comunicacional dos jovens. Não há ainda um diálogo efetivo que en-
volva esses jovens, os gestores públicos e quem mais se interessa pela
questão da juventude. Há diálogos pontuais como o caso de Isadora.
Ela ultrapassou as fronteiras do Facebook, e seu “Diário de Classe”
se expandiu, não apenas em uma organização não governamental,
mas na melhoria de uma escola pública e de outras que se viram na
necessidade (e, por que não, com a pressão estudantil) de assegu-
rar uma educação de mais qualidade. Uma conquista cidadã dentre
muitas ainda possíveis.
259
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Facebook e do Participatório
Juventude e cidadania: a ação de Isadora Faber para além do
Debater o potencial da juventude brasileira é um desafio e tam-
bém uma tarefa de grande complexidade devido ao perfil dos indiví-
duos que estão entre 12 e 29 anos de idade, em um país marcado por
nuances democráticas, mas longe ainda de garantir direitos e deveres
substanciais a todos os segmentos sociais. Entre esses direitos, ado-
tamos como foco o acesso às informações e a liberdade de expressão,
os quais possibilitam, a nosso ver, uma maior participação dos jo-
vens em questões referentes às suas demandas, como a educação de
qualidade, em especial no sistema público.
Além dessa dimensão, torna-se imprescindível nesse País de-
mocrático a existência de instrumentos de cidadania que assegu-
rem essa participação dos atores sociais, dentre os quais está uma
juventude que se torna mais crítica e ativa, principalmente devido às
apropriações dos meios de comunicação, como a mídia digital e suas
ferramentas interativas. Ao fomentar a interação e o diálogo entre
esses atores, seria possível garantir mais espaços de expressividade
que se transformem em palco de discussões e ações concretas.
Em meio a políticas públicas, propostas por uma Secretaria Na-
cional de Juventude, está em discurso a preocupação com as deman-
das dos jovens e com a sua participação em um processo democrá-
tico de construção de políticas para essa mesma juventude. Um dos
mecanismos foi apresentado aqui com o Observatório Participativo
da Juventude – o Participatório –, cuja nomenclatura já denota sua
proposta. No entanto, ainda não se consolidaram ações efetivas so-
bre e com a juventude. A elaboração de um estatuto, a realização
de pesquisa sobre o perfil da juventude, a consulta às opiniões dos
jovens são, sim, ações positivas, porém ainda distantes de valorizar
uma juventude cidadã, atuante por si, sem quaisquer obstáculos à
sua manifestação.
Diante de um ato corajoso, sem grandes pretensões iniciais, a
iniciativa pontual de Isadora Faber com o “Diário de Classe” mostra
que é possível participar da realidade de uma escola, de uma cidade,
de um país, em prol de uma demanda coletiva, a educação. Essa ação
de Isadora é, a nosso ver, uma expressão de cidadania. É demonstrar
que é possível se apropriar do on-line e repercutir on e off-line. É
incentivar mais ações de jovens que lutam por interesses que não
são individuais, são coletivos. É provocar políticas públicas. É um
260
verdadeiro exercício de educação libertária e de ação-reflexão-ação
Mídia e Sociedade em Transformação

(FREIRE, 2002). Esse é apenas um exemplo, mas denota um poten-


cial. Exige que mais “Participatórios” sejam criados e principalmente
sejam transparentes e efetivos para uma juventude inquieta, sonha-
dora e cidadã.

REFERÊNCIAS
BELLUZZO, Regina Célia Baptista. Construção de mapas desenvolvendo
competências em informação e comunicação. 2. ed. Bauru: Cá Entre Nós, 2007.
BRASIL. SECRETARIA NACIONAL DE JUVENTUDE. 3ª Conferência Na-
cional da Juventude: as várias formas de mudar o Brasil. 2015. Disponível
em: <http://juventude.gov.br/profile/conferencia>. Acesso em: 14 jul. 2015.
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plementariedades. In: ______. (Org.). Comunicação e cidadania. Bauru:
EDUSC, 2009, p. 71-88.
263

Sobre os autores

ALINE CRISTINA CAMARGO


Jornalista. Mestre em Comunicação pela UNESP – Universidade Es-
tadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Agente Local de Inovação
no Sebrae e Bolsista de Extensão do CNPq.

ANA CAROLINA BISCALQUINI TALAMONI


Psicóloga e pedagoga, docente no curso de Ciências Biológicas do
Campus Experimental do Litoral Paulista da UNESP – Universidade
Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de São Vicente.

ANTONIO RIBEIRO DE ALMEIDA JUNIOR


Doutor em Sociologia pela FFLCH-USP. Docente do Programa de
Pós-Graduação Interdisciplinar em Humanidades, Direitos e Ou-
tras Legitimidades (USP). Professor Associado do Departamento de
Economia, Administração e Sociologia da ESALQ/USP.

CARLO JOSÉ NAPOLITANO


Doutor em Sociologia pela UNESP. Docente do Departamento de Ci-
ências Humanas e do Programa de Pós-graduação em Comunicação
da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP – Univer-
sidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Bauru.

CAROLINE KRAUS LUVIZOTTO


Socióloga. Doutora em Ciências Sociais pela UNESP. Docente do
Programa de Pós-Graduação em Comunicação e do Departamento
de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comuni-
cação, UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho”, Campus de Bauru.
264
CÉLIO JOSÉ LOSNAK
Mídia e Sociedade em Transformação

Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo – USP.


Docente do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de
Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP – Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Bauru.

CLAUDIO BERTOLLI FILHO


Cientista social e historiador, docente do Programa de Pós-Gradua-
ção em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comu-
nicação e do Programa de Educação para a Ciência da Faculdade de
Ciências, UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesqui-
ta Filho”, Campus de Bauru.

CLOTILDE PEREZ
Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comuni-
cação e do Curso de Publicidade e Propaganda da Escola de Comu-
nicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP. Livre-Docente
em Comunicação pela USP.

DANIELE FERREIRA SERIDÓRIO


Jornalista. Mestranda no Programa de Pós-graduação em Comuni-
cação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP
– Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus
de Bauru. Bolsista da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do
Estado de São Paulo.

DANILO ROTHBERG
Doutor em Sociologia pela UNESP. Docente do Departamento de
Ciências Humanas e dos programas de pós-graduação em Comuni-
cação (Faac) e Educação para Ciência (FC) da UNESP – Universi-
dade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Bauru.

ENEUS TRINDADE
Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comuni-
cação e do Curso de Publicidade e Propaganda da Escola de Comu-
nicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP. Livre-Docente
em Comunicação pela USP.
265
GIULIANA CHORILLI

Sobre os autores
Jornalista (FAAC-UNESP). Trabalha como assessora de comunica-
ção corporativa. Foi bolsista FAPESP com pesquisa de IC. É aluna
do curso de pós-graduação lato sensu em Cinema e Documentário
da FGV-SP.

GUILHERME FRÁGUAS NOBRE


Doutor em Ciências da Comunicação (ECA-USP). Pós-doutorando
em Comunicação na Escola de Comunicações e Artes da Universi-
dade de São Paulo – USP.

HELOIZA HELENA MATOS E NOBRE


Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação (ECA-USP). Docen-
te do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – USP.

JOÃO GUILHERME D’ARCADIA


Jornalista. Mestre em Comunicação pela UNESP – Universidade Es-
tadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”. Docente das Faculdades
Integradas de Jaú.

JULIANO DOMINGUES-DA-SILVA
Jornalista (UNICAP), cientista social (UFPE), mestre e doutor em
Ciência Política (UFPE). Professor e coordenador do Curso de Jor-
nalismo da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

MARCOS PAULO DA SILVA


Doutor em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São
Paulo (UMESP). Docente do Curso de Jornalismo e do Mestrado
em Comunicação da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
(UFMS).

MAXIMILIANO MARTIN VICENTE


Doutor em História pela USP. Docente do Departamento de Ciên-
cias Humanas e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da
Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP – Univer-
sidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Bauru.
266
MAYRA FERNANDA FERREIRA
Mídia e Sociedade em Transformação

Jornalista. Mestre em Comunicação pela UNESP. Doutoranda no


Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Faculdade de Ar-
quitetura, Artes e Comunicação, UNESP – Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Bauru. Docente da
Universidade Sagrado Coração (USC).

MURILO CESAR SOARES


Doutor em Ciências da Comunicação (ECA-USP). Docente do De-
partamento de Ciências Humanas e do Programa de Pós-graduação
em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunica-
ção, UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Fi-
lho”, Campus de Bauru.

RENAN MILANEZ VIEIRA


Jornalista. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Comuni-
cação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação, UNESP
– Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus
de Bauru.

TERESINHA MARIA DE CARVALHO CRUZ PIRES


Doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Ja-
neiro. Docente do Programa de Pós-graduação em Comunicação
Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

THALES HADDAD NOVAES DE ANDRADE


Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP. Professor associado do
Departamento de Ciências Sociais e docente do Programa de Pós-
Graduação em Ciência Política da Universidade Federal de São Car-
los – UFSCAR. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq.

VINICIUS MARTINS CARRASCO DE OLIVEIRA


Jornalista. Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Gradua-
ção em Comunicação da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comuni-
cação, UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho”, Campus de Bauru.
Aline Cristina Camargo • Ana Carolina Biscalquini Talamoni •
Antonio Ribeiro de Almeida Junior • Carlo José Napolitano •
Caroline Kraus Luvizotto • Célio José Losnak • Claudio Bertolli
Filho • Clotilde Perez • Daniele Ferreira Seridório • Danilo
Rothberg • Eneus Trindade • Giuliana Chorilli • Guilherme
Fráguas Nobre • Heloiza Helena Matos e Nobre • João
Guilherme D’Arcadia • Juliano Domingues-da-Silva • Marcos
Paulo da Silva • Maximiliano Martin Vicente • Mayra Fernanda
Ferreira • Murilo Cesar Soares • Renan Milanez Vieira •
Teresinha Maria de Carvalho Cruz Pires • Thales Novaes
Andrade • Vinicius Carrasco