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Modificação Objetiva do Contrato

Facto do Príncipe

Alexandre Ferreira Severino Nº 27915


Turma A Subturma 1
Disciplina: Direito Administrativo III
Regência: Professora Dra. Maria João Estorninho
Assistente: Professora Dra. Sara Younis Augusto Matos
Alexandre Ferreira Severino nº 27915 Administrativo III Facto do Príncipe

Índice

Introdução ......................................................................................................................... 3
1. Facto do príncipe nos diferentes ordenamentos jurídicos europeus Error! Bookmark
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1.1 Ordenamento jurídico francês e o fait du prince .... Error! Bookmark not defined.
1.2 Ordenamento jurídico espanhol e o hecho del principe .......................................... 6
1.3 Ordenamento jurídico italiano e o facto do príncipe .............................................. 6
2. O paradigma nacional no que concerne à figura do facto principe .............................. 7
2.1 Suum cuique tribuere .............................................................................................. 8
3. Receção da figura do facto do príncipe no Código dos Contratos Públicos............... 10
4. Distinção da figura do fait du prince de outras figuras afins ..................................... 12
4.1 O facto do príncipe e os poderes de conformação da relação jurídico-contratual 12
4.2 O facto do príncipe e a teoria da imprevisão ........................................................ 12
5.Conceção útil e pragmática da teoria do facto do príncipe.......................................... 14
6. Hipótese real de uma eminente situação de facto do príncipe .................................... 17
7. A tutela do cocontratante da Administração aquando da modificação do contrato do
administrativo por facto do príncipe ............................................................................... 18
7.1 A reposição do equilibrio financeiro do contrato artigo 282º CCP ...................... 18
7.2 Facto do príncipe praticado por entidade à relação jurídica contratual ................ 18
8. Conclusão ................................................................................................................... 19
9. Bibliografia ................................................................................................................. 20

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Introdução
Um pequeno passo na busca de algo maior.
O tema que propus aprofundar prende-se com a modificação objetiva do contrato
por fait du prince. Esta figura surge na ordem jurídica francesa por criação jurisprudencial
no séc.XX através das “mãos” do Conceil d’Etat. Cabe por isso mesmo fazer uma breve
referência aos acórdãos onde pela primeira vez se começou a falar na modificação dos
contratos administrativos.

Acórdão Compagnie Nouvelle du Gaz de Deville-Lés-Rouen de 10 de janeiro de 1902:


Este acórdão ficou marcado pelo facto de o Estado ter dado o primeiro passo na
admissibilidade da mutabilidade dos contratos administrativos.

No que concerne à análise do acórdão, havia sido concedido em 1874 um


privilégio exclusivo de iluminação por gás à empresa Compagnie Nouvelle du Gaz, no
entanto á medida que o tempo passava a iluminação sob forma elétrica desenvolvia-se
com mais vigor e como tal o município de Deville-Lés-Rouen tentou persuadir a
Compagnie Nouvelle a fornecer a iluminação elétrica. A empresa não aceitou a proposta
pelo que o município decidiu contactar com uma empresa de iluminação elétrica. Perante
tal atitude a Compagnie Nouvelle exigiu uma indemnização pelo dano sofrido como
resultado da violação da concessão.

O Conceil d’ Etat considerou que apesar do contrato de concessão atribuir o


monopólio de exploração da iluminação por gás, tal não seria sinónimo de monopólio de
exploração de iluminação. Neste sentido o Conceil d’Etat acaba por considerar que existe
da parte do contraente publico um poder de modificação unilateral do contrato de modo
a facilitar a prossecução dos interesses da administração que são reflexo do interesse
público. Sendo que nessa eventualidade o cocontratante, neste caso, a companhia de gás,
teria direito a uma contrapartida, concedida em forma de indemnização de modo a
restaurar o equilíbrio financeiro do contrato.

Acórdão Compagnie Generale d’ eclairage de Bordeux de 30 de Março de 1916:


Neste acórdão o Conceil d’Etat elaborou a chamada teoria da imprevisibilidade
que permite garantir a durabilidade dos contratos administrativos quando se verifiquem
alterações incalculáveis desde logo na economia do contrato, adquirindo proporções que
a partes não poderiam prever.

A companhia de iluminação, parte no contrato de concessão celebrado com o


município de Bordéus, reclamou ao mesmo o facto de o preço do carvão se encontrar
cinco vezes mais caro desde o momento em que o contrato havia sido assinado, fruto da
1ª Guerra Mundial.

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O Conceil d’ Etat fixou desde logo que o risco da variação dos preços das
matérias-primas seria da responsabilidade da companhia de iluminação, fruto das
circunstancias económicas próprias do risco de mercado. No entanto atendendo ao caso
o Conceil d’Etat acabou por considerar que fruto da impossibilidade de prever o aumento,
que ultrapassou limites extremos, do preço do carvão, a compagnie generale d’ eclairage
não poderia ser responsabilizada por não lhe ser possível assegurar o funcionamento do
serviço, nas condições originalmente estabelecidas.

Ficou então decidido que a companhia deveria continuar a prestar o serviço, no


entanto teria o direito a ser indemnizada pelas consequências pecuniárias da situação de
força maior que se gerou e que excedeu em larga escala o risco económico do contrato.

Aquilo que se extrai de ambos os acórdãos tendo em conta o objetivo que se


pretende alcançar neste trabalho, é o facto de os mesmos apenas servirem de ponto de
partida naquela que é a procura por um sentido útil e pragmático da figura do fait du
prince e que, antecipando, se distingue dos fenómenos em análise nos respetivos acórdãos
configurando os mesmos apenas e só um “parente” próximo daquela que é a modificação
objetiva do contrato por FAIT DU PRINCE.

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O Facto do Príncipe
1. Diferentes ordenamentos jurídicos europeus
A figura do facto do príncipe é alvo de diferentes conceções quer a nível europeu
quer a nível interno, nos diferentes Estados. Neste sentido cumpre desde logo estabelecer
aquele que é o paradigma europeu em relação a figura em apreço de maneira a que, de
forma mais clara, se consiga perceber o porquê da necessidade que se procura satisfazer
neste trabalho e que consiste em atribuir a figura do facto do príncipe um conteúdo útil e
pragmático dirigido essencialmente para a vida prática, deixando de lado o plano teórico
que apesar da grande importância de que é dotado, poderia levar e levaria certamente,
como irá ser fácil de perceber, a que se considerasse esta figura como algo indeterminado
incerto e pouco proveitoso quando chamado à colação.

1.1 O ordenamento jurídico francês e o fait du prince:


É manifesta uma certa tendência da doutrina francesa para reconhecer um amplo
sentido da figura do fait du prince, neste albergando uma multiplicidade de hipóteses,
sem que se verifique um perfil comum entre estas. Sendo que autores como Benoit,
Badaoui, Moderne e Devolvé afirmam claramente que o fait du prince se traduz numa
palavra indefinível que não corresponde a uma categoria individualizada, ( proponho-me
a demonstrar o contrário).

Badaoui sustenta que o fait du prince tanto pode ser praticado pelo contraente
público como por outras entidades publicas estranhas á relação contratual.

A doutrina maioritária francesa envergando um modelo intermédio, limita o fait


du prince aos casos em que o ato perturbador do contrato é praticado pelo contraente
publico, sendo que as medidas emanadas por outras entidades publicas não constituem
hipóteses de fait du prince dado o facto de esta doutrina considerar as mesmas incluídas
na álea económica do contrato. No que concerne as medidas levadas a cabo pelo
contraente público, a doutrina maioritária inclui todas as medidas praticadas sobre o
contrato desde que sejam medidas gerais, tais como atos legislativos, regulamentos do
governo ou por outro lado quando se trate de medidas particulares como os poderes
exorbitantes. Exclui por isso deste campo as medidas indiretas de caracter fiscal ou
económico remetendo-as para a teoria da imprevisão.

Benoit defende uma conceção restritiva de fait du prince afirmando só caber no seu
âmbito as operações materiais com repercussões sobre o contrato praticado pelo
contraente publico numa qualidade distinta da de contratante.

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No que concerne as consequências advenientes da verificação de uma situação de


fait du prince a doutrina francesa é praticamente unanime ao afirmar que existe um direito
a uma indeminização integral do cocontratante lesado, que inclui tanto os danos
emergentes como os lucros cessantes sendo que a divergência doutrinária surge no
momento de fundamentar esta mesma indeminização.

Por um lado existem autores que a justificam no principio do equilíbrio financeiro


do contrato , outros invocam as responsabilidade objetiva do contraente publico.
Badaoui de acordo com aquela que é a sua conceção subjetiva do fait du prince
entende ser necessário fazer uma destrinça. Estar-se-á diante de responsabilidade
contratual quando o ato é praticado pelo contraente publico e extracontratual quando o
ato é praticado por uma entidade pública terceira face a relação jurídico contratual.

1.2 O ordenamento jurídico Espanhol e o hecho del principe:


Em Espanha um dos princípios tradicionais é o principio do “riesgo y ventura”
segundo o qual se reconhece que a obrigação do cocontratante é em regra uma obrigação
de resultado e não de meios o que determina que as vicissitudes da execução do contrato
sejam salvaguardadas pelo mesmo, libertando a administração desse encargo ou seja o
risco encontra-se sempre do lado do particular.

No entanto existem exceções a este principio, face a necessidade de garantir o


equilíbrio financeiro do contrato, nos termos das quais se entende que em todos os
contratos está pressuposto um calculo, uma equivalência honesta entre o que é acordado
em beneficio do cocontratante e o que deste se pode exigir. É nesta lógica que surgem na
ordem jurídica espanhola uma série de garantias do equilíbrio financeiro do contrato de
entre as quais o “hecho del principe”.

A doutrina espanhola é consensual ao afirmar que o facto do príncipe se


materializa num ato de caracter imperativo, extracontratual e indireto que não determina
qualquer alteração aos elementos essências do contrato cujo conteúdo se mantem
formalmente inalterado mas que implica uma simples alteração externa das condições de
execução do mesmo modificando-o ou extinguindo-o de forma indireta ( através de
medias fiscais, económicas ou sociais). Os autores defendem ainda estarmos diante de
uma medida geral e imprevisível que não poderia ter sido prevista aquando da celebração
do contrato. Esta conceção objetiva do facto do príncipe leva a querer que a doutrina
espanhola reconduz a figura á chamada Teoria da imprevisão.

Quanto as consequências a doutrina entende que o cocontratante terá direito a uma


indeminização devido ao ato de autoridade com fundamento no equilíbrio financeiro do
contrato.

Não é possível deixar de mencionar o facto de o “hecho del principe” no


ordenamento jurídico espanhol ser visto enquanto ultima rácio, apenas se recorrendo a
este quando mais nada aproveite o cocontratante reduzindo-se assim o âmbito de
aplicação do mesmo e o préstimo deste mecanismo.

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1.3 O ordenamento jurídico Italiano e o facto do Príncipe:


A teoria do facto do príncipe é quase desconhecida em Itália fruto da escassa
influencia do modelo francês do contrat administratif. Em Itália vingou a tese da
inaceitabilidade dos contratos de direito público, sendo que o poder administrativo apenas
seria exercido através de um ato impositivo unilateral. Os contratos celebrados pela
administração eram idênticos aos celebrados pelos particulares e por isso, meros contratos
de direito privado. No entanto a realidade é que mesmo o próprio ordenamento jurídico
italiano acaba por reconhecer que a Administração quando contrata, encontra-se
vinculada a prossecução do interesse público de acordo com as atribuições que lhe são
fixadas por lei ou pela Constituição. Neste sentido nunca haverá uma perfeita equiparação
entre a Administração e o particulares. Assim fruto desta posição da Administração é
possível encontrar pequenas manifestações daquele que é o entendimento sobre a figura
do facto do príncipe no ordenamento jurídico italiano, nomeadamente quando a
Administração decide revogar o ato deliberativo de adjudicação pondo termo ao processo
de formação dos contratos ou quando se verifiquem alterações legislativas que
determinam a modificação ou extinção do contrato.

2. O paradigma nacional no que concerne à figura do FACTO DO


PRÍNCIPE.
A ordem jurídica portuguesa sofreu uma enorme influencia francesa no que
respeita a esta matéria dado o facto de o direito administrativo português se reger pelo
modelo francês do contrat administratif. No entanto em Portugal a figura do facto do
príncipe não teve a sua origem na jurisprudência, surgindo antes como construção
doutrinária sempre ligada de forma estreita com a extinção e resolução do contrato e
respetiva forma de tutela do cocontratante lesado.
São três as principais tendências no que toca ao entendimento desta figura no
âmbito da ordem jurídica nacional:

 Facto do Príncipe num plano estritamente contratual: apenas se


enquadram na figura do facto do príncipe os atos emanados pelo contraente
publico através do uso de prerrogativas de autoridade, em especial o poder de
modificação unilateral do contrato por motivos de interesse publico, ficando
de fora as medidas adotadas pelo legislador, sendo as mesmas remetidas para
a teoria da imprevisão.
 Facto do Príncipe numa visão extracontratual: apenas se englobam nesta
conceção as medidas adotadas no plano exterior do contrato, praticadas por
pessoas coletivas de direito publico alheias ao contrato e pelo contraente
publico fora do seu papel enquanto parte da relação jurídico-contratual.
 Teoria Mista do Facto do Príncipe: esta teoria entende que se enquadram na
figura do facto do príncipe tanto os poderes de conformação contratual, ( poder
de modificação unilateral e de resolução), como também as medidas

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legislativas e as que o contraente publico adota ao abrigo de poderes gerais


que titula, quando tais medidas se reflitam no contrato, determinando o seu
agravamento ou extinção.
A verificação da figura do facto do príncipe teria como consequência o
originar de um direito indemnizatório a favor do cocontratante lesado, tal
indeminização teria um caracter integral abrangendo não só os danos
emergentes como também os lucros cessantes.

2.1 Suum Cuique Tribuere.


Dar a cada um o que lhe pertence.
Cabe estabelecer quais as posições dos autores que de uma ou de outra forma,
marcam a atualidade do Direito Administrativo, no que concerne a figura do facto do
príncipe.

Começando desde logo pela opinião dos Professores Drs. Freitas do Amaral e
Viera de Andrade cumpre referir que ambos entendem que a figura do facto do príncipe
diz respeito apenas e só aos atos politico-legislativos do poder soberano. No que concerne
as suas consequências apenas faria sentido falar numa indemnização integral quando o
contraente publico é o Estado. Nos restantes casos terá de dar lugar a uma indemnização
pelo sacrifício na medida em que esta implica uma compensação pelos prejuízos e não
uma reparação integral dos danos.

O Professor Dr. Melo Machado distingue-se dos demais na medida em que


apresentou um novo conceito de contrato administrativo que se afasta da noção
tradicional de contrato, com origem no Direito Romano, procurando não obstante manter
e respeitar a maior parte das grandes linhas da noção contratual mas adequando-as ao
facto de o regime dos contratos sujeitos a um regime de Direito Publico se caracterizar
pelo poder de a administração introduzir modificações exigidas pelas conveniências do
interesse publico. Assim nesta lógica o autor entende que o fundamento da figura do facto
do príncipe reside na especial natureza das obrigações existentes, cuja singularidade,
radica não na flexibilização do vinculo obrigacional mas na maior indeterminação do
objeto da obrigação. Quando ocorre uma situação de “ facto do príncipe” o cocontratante
obriga-se a efetuar uma prestação determinável que surge somente após a celebração do
contrato e apenas e só durante a sua execução e que para além disso tem a sua origem
num ato da outra parte, o contraente publico.

No que concerne ao Professor Dr. Marcello Caetano numa primeira fase do seu
pensamento verificava-se uma grande preocupação em enfocar a manutenção da natureza
contratual dos contratos sujeitos a um regime de Direito Administrativo, face ao conflito
da proclamação de um poder de modificação unilateral dos contratos administrativos com

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base no principio da força obrigatória dos contratos. No entanto o autor, em determinado


momento, passa a afirma que a administração dispõe de um vasto poder de modificação
unilateral das prestações e condições de execução dos contratos administrativos e que
esse poder constitui uma prerrogativa característica do seu regime jurídico. Neste sentido
é possível afirmar que o Professor Marcello Caetano sustentava uma ampla conceção do
poder de modificação unilateral fundado na necessidade de adaptação as exigências
mutáveis do interesse publico, poder esse que era designado pelo autor, devido a
influência francesa como “ fait du prince”. Segundo a sua conceção tal poder abrangia:

 A modificação das obrigações contratuais fruto das modificações das


circunstâncias da execução do contrato;
 As modificações resultantes de um ato soberano através da alteração de uma lei
ou regulamento ou ato administrativo;
 As modificações que tinham a sua origem em atos praticados pela autoridade
contratante ou por uma pessoa coletiva estranha a relação jurídico-contratual.

No que concerne as consequências advenientes da ocorrência de uma das três


situações expostas, todas elas fariam emergir uma obrigação de indemnização pelos
prejuízos sofridos com fundamento no principio do equilíbrio financeiro do contrato e no
principio da interdependência dos interesses empenhados no contrato, que faz com que
nenhuma das partes possa procurar obter uma vantagem não lhe sendo imposta uma
obrigação de compensar a outra parte. O Professor Marcello Caetano considera esta
indemnização como uma especificidade dos contratos administrativos não a enquadrando
no quadro geral da responsabilidade extracontratual.

Em relação á opinião sufragada pelos Professores Drs. Marcelo Rebelo de Sousa e


André Salgado Matos ambos sustentam que a figura do facto do príncipe se consubstancia
num ato jurídico de carater geral e como tal estranho a relação jurídico-contratual. Neste
sentido entendem que o risco de uma redefinição legislativa ou regulamentar corre sempre
por conta da administração ainda que o facto normativo, modificativo ou extintivo, em
causa não lhe seja imputável. A afirmação de que a autoridade contratante tem o dever de
estabelecer o equilíbrio financeiro quando estão em causa atos praticados por entidades
estranhas a relação contratual equivale a sustentar uma conceção amplíssima do fait du
prince.

A Professora Dra. Maria João Estorninho entende que a figura do fait du prince
está ultrapassada, preconizando o abandono desta construção doutrinal e jurisprudencial.
O poder de a administração contratante impor a modificação unilateral do contrato ou das
condições de execução já tinha consagração legal no artigo 180º do CPA e deve ser
claramente distinguida das situações em que se verifica um agravamento contratual que
fruto de atuações publicas de carater geral que tem efeitos sobre o contrato pese embora
o não tenham diretamente por objeto. As repercussões de atos externos ao contrato devem
ser reconduzidas consoante os casos à teoria da responsabilidade por atos da função
legislativa ou à teoria da imprevisão em sede de responsabilidade contratual.

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No que diz respeito à opinião do Professor Pedro Gonçalves cumpre fazer


referência ao facto do autor ser responsável pela divulgação de um entendimento
restritivo da teoria do fait du prince, diferenciando-a claramente do poder de modificação
unilateral do contrato.

O poder de modificação do contrato ou o “ius variandi” consubstancia-se no poder


que a administração tem de, por razões de interesse publico, determinar a modificação do
conteúdo das prestações ou das condições e termos do contrato, tendo como contrapartida
o dever de restabelecimento do equilíbrio económico-financeiro do contrato.

No que concerne ao facto do príncipe este designa tão somente as medidas gerais
que resultam de uma atuação exterior ao contrato administrativo mas que causam uma
perturbação significativa da sua equação económico-financeira. O autor começa por
integrar no campo de aplicação da teoria do fait du prince todas as medidas gerais
adotadas quer pela autoridade contratante quer por outra entidade publica terceira face ao
contrato.

Neste sentido o autor acaba por distinguir no que concerne as consequências de tais
atos as situações e que os mesmos sejam praticados pelo contraente publico, dando
origem a uma indeminização pelos lucros cessantes e danos emergentes e as situações em
que os atos advenham de uma entidade estranha ao contrato, dando neste caso apenas
direito ao cocontratante o direito a requerer a modificação do contrato nos termos do
artigo 437º CC.

Em suma o autor acaba por defender uma conceção ampla mitigada do fait du prince
uma vez que por um lado engloba as medidas levadas a cabo pelo contraente publico ou
por outras entidades administrativas ou legislativas mas por outro lado não atribui aos
atos praticados por estas a consequência típica inerente à teoria do facto do príncipe, (
reposição do equilíbrio financeiro do contrato).

3. Receção da figura do Facto do príncipe no Código Dos Contratos


Públicos.
Uma consagração nebulosa e enigmática da figura do facto do príncipe
Em 2008 com a entrada em vigor do código dos contratos públicos, verificou-se
a consagração da teoria do facto do príncipe naquela que é a sua aceção restrita nos termos
do artigo 314 nº1 al a) CCP. Verificou-se uma fusão no mesmo preceito de pressupostos
típicos da teoria e do instituto da imprevisão que vieram esbater a delimitação entre os
diferentes institutos criando desta forma sérias duvidas sobre o conteúdo e alcance da
teoria do fait du prince.

Verifica-se por isto mesmo aquela que é a tendência, já espelhada na vigência do


CPA, de reconduzir a teoria, por regra, à adoção de medidas no exercício de poderes
normativos gerais. Tal não seria de facto prejudicial pois a ser assim o cerne e o critério
distintivo do instituto do facto do príncipe do instituto do “ius variandi” estaria
encontrado.

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No primeiro caso estariam em causa modificações diretas das obrigações


contratuais de natureza quantitativa fruto da pratica de atos administrativos individuais e
concretos da autoridade contratante. No segundo caso estaríamos perante medidas gerais
de índole narrativa que não sendo expressamente e intencionalmente dirigidas á
modificação do contrato porquanto resultarem do exercício do poder publico geral
estranho a relação jurídico-contratual, acabam por ter impacto ou reflexo no contrato.

Assim tudo se baseia num critério de forma: ato individual e concreto vs ato geral
e abstrato. Parece evidente que o critério de forma por si só não é suficiente para traçar
uma fronteira entre os dois institutos até porque mesmo o critério de forma apresenta
duvidas na medida em que se afigura controvertido saber desde logo se as designadas
medidas gerais ou normativas se circunscrevem a medidas que relevam do
desenvolvimento da função politica e legislativa ou se também se encontram abrangidas
medidas adotadas no exercício da função administrativa, de natureza normativa, como os
regulamentos.

Segundo o disposto no artigo 314 nº1 CCP o facto do príncipe seria concebido
como uma decisão do contraente publico adotada fora do exercício dos seus poderes de
conformação contratual que provocaria uma alteração das circunstancias em que as partes
fundarão a decisão de contratar.

Assim se o efeito produzido se reconduz a uma mera alteração das circunstancias


o que estará em causa é uma situação em que as medidas adotadas se repercutiram nas
condições externas de execução do contrato, tornando-o mais oneroso ou mesmo
impossibilitando a prestação do cocontratante privado, sem no entanto afetar diretamente
as obrigações contratuais.

Posto nestes termos aquilo que temos no Código de 2008 e que passou para o
Código de 2018, é uma teoria da imprevisão “mascarada” de facto do príncipe algo que
se deve, aparentemente, ao Professor Dr. Mário Aroso de Almeida no decurso do
procedimento de elaboração do código dos contratos públicos de 2008.

No seu entender o fait du prince para ter operatividade na ecomimia do regime


aplicável nesta matéria deve ser normativamente enquadrado, independentemente de
considerações doutrinais, no instituto da alteração das circunstancias anormais e
imprevisíveis sem portanto se confundir com as situações de exercício pelo contraente
publico, do poder que o código lhe confere de modificação unilateral do contrato por
razões de interesse público.

Assim a preocupação centrou-se na distinção da teoria do facto do príncipe do


chamado “ius variandi” tendo, se olvidado os responsáveis pela elaboração do CCP de
proceder a distinção da teoria do fait du prince da teoria da imprevisão que, como já foi
demonstrado e irá ser aprofundado, não se confundem.

É esta a receção que a ordem jurídica portuguesa atribuiu a teoria do facto do


príncipe e é com ela que se tem de trabalhar, no entanto tal não implica um conformismo
para com a factualidade, cabe procurar fazer a destrinça que permita atribuir à teoria do

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facto do príncipe o sentido pragmático e útil, delineando rigorosamente os contornos que


esta figura tem de assumir não se pretendendo ao invés e á moda francesa encaixar tudo
no mesmo cesto.

4. Distinção da figura do fait du prince de outras figuras afins.


A figura do facto do príncipe é muitas vezes caracterizada ou reconduzida a
fenómenos que na realidade não espelham a essência que esta pretende demonstrar.
Naquela que é a procura por um sentido estritamente pragmático do fait du prince cabe,
depois de conhecidos os vários entendimentos em relação a este, distingui-lo de outras
figuras tais como os poderes de conformação da relação jurídico-contratual e a teoria da
imprevisão.

4.1 O facto do príncipe e os poderes de conformação da relação jurídico-


contratual
Cumpre distinguir nesta sede a figura do facto do príncipe das chamadas
“prerrogativas de autoridade” que visam permitir ao contraente público adequar o
contrato ás necessidades de interesse público que apenas se manifestaram já no período
de execução do mesmo, nomeadamente através da resolução unilateral do contrato ou da
sua modificação unilateral.

Ora se é verdade que, como referem os Professores Doutores Marcelo Rebelo de Sousa
e André Salgado de Matos, “o facto do príncipe pode suscitar problemas idênticos àqueles
que decorrem do exercício dos poderes de modificação e resolução unilateral do
contrato” tal não quer dizer que estejamos a falar das mesmas figuras.

O facto do príncipe diferencia-se dos poderes de conformação em termos funcionais,


materiais e teleológicos tal como proposto pelo Professor Vilhena de Freitas.
Assim enquanto que os poderes de conformação advêm sempre do contraente público,
o facto do príncipe pode ser “provocado” por um ente diferente do contraente público,

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para além disso os poderes de conformação dizem respeito a atos administrativos


exercidos no âmbito da função administrativa, já o facto do príncipe é tendencialmente
resultado de um ato normativo, assim os primeiros pressupõem sempre um ato individual
e concreto, já os segundos manifestam-se essencialmente através de atos de carater geral
e abstrato.

Por ultimo enquanto que os poderes de conformação operam a partir do interior do


contrato incidindo diretamente no mesmo o facto do príncipe reconduz-se à pratica de um
ato à margem do contrato que terá repercussões sobre este. Tal como referem os
Professores Doutores Marcelo Rebelo de Sousa e André Salgado de Matos “o facto do
príncipe tem impacto no contrato mas não o tem por objeto”.

4.2 O facto do príncipe e a teoria da imprevisão


A teoria da imprevisão tem a sua origem na clausula rebus sic stantibus formulada por
Bártolo, no entanto como refere o Professor Doutor Sérvulo Correia, se “ no âmbito
jurídico-privado, a alteração das circunstancias podia ser solucionada através da pura e
simples desvinculação contratual”, “ tal hipótese seria insustentável nos casos em que o
contrato se destina ao exercício regular e contínuo de uma tarefa de interesse geral”

É nesta lógica que em 1916 surge, aquando do acórdão Compagnie génerale d’eclairage
de Bordeux, a chamada teoria da imprevisão. No entanto não é possível confundir ou
aglutinar o facto do príncipe e a teoria da imprevisão numa só figura. O facto do príncipe
distingue-se desde logo no que concerne á fonte de onde provém, na medida em que
enquanto este tem sempre origem num ato de poder, a alteração das circunstâncias pode
decorrer de um conjunto vasto de fontes, sejam elas naturais, jurídicas ou económicas.

Para além disso no que concerne a teoria da imprevisão, só relevam as circunstancias em


que as partes basearam a decisão de contratar. No caso do facto do príncipe, o mesmo
opera independentemente de saírem prejudicadas as circunstancias determinantes da
decisão de adjudicar ou outras que não assumam a mesma relevância. Na opinião do
Professor Doutor Melo Machado, “sucede que está somente em causa garantir o
cocontratante contra o risco de produção de prejuízos anormais e imprevisíveis
resultantes de uma flutuação extraordinária das condições económicas independentes de
uma atuação administrativa”.
O Professor Doutor Marcello Caetano entende que “ o facto imprevisto diz respeito a
factos estranhos à vontade dos contratantes que tornam a execução do contrato mais
onerosa para uma das partes do que caberia no risco normalmente considerado,
constituindo encargos excecionais suportados por efeito exclusivo de uma modificação
das circunstâncias económicas ou técnicas, de mercado, imprevisível a data da celebração
do contrato administrativo.

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5. Conceção útil e pragmática da teoria do facto do príncipe.


A delimitação necessária e imprescindível da Teoria do Facto do Príncipe
O principal objetivo desta pesquisa foi sempre o de elaborar uma construção
precisa e rigorosa da figura do fait du prince, englobando nesta hipóteses jurídicas que
sejam dotadas de um grau de homogeneidade tal que permita estabelecer um regime
essencialmente comum. De outra forma não poderia ser senão cair-se-ia nas criticas
apontadas pela doutrina, que muitas vezes alerta para o risco do facto do príncipe se
consubstanciar num conceito indefinível dotado de pouca ou nenhuma utilidade fruto das
múltiplas hipóteses que lhe são imputadas.

A primeira ideia que deve ficar assente é a de que o facto do príncipe integra
apenas atos lícitos do poder, praticados no plano exterior a relação jurídico-contratual
pelo contraente publico no exercício de poderes gerais que titula ou por um ente publico
terceiro ao contrato e que determinam uma tutela jurídica acrescida ao cocontratante
lesado.

Posto nestes termos levaria e levou a que se entendesse que o facto do príncipe se
consubstancia num ato licito de poder que por qualquer forma afeta a relação jurídico-
contratual administrativa, levando à sua modificação ou extinção. O facto do príncipe
seria fruto de atos jurídicos praticados por entidades publicas no exercício de poderes de
autoridade, havendo até quem entendesse que em bom rigor se deveria incluir nesta
conceção também as entidades privadas no exercício de poderes públicos. Entender assim
a teoria do fait du prince levaria a que mais uma vez se acertasse em cheio com a seta no

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“calcanhar de Aquiles” desta figura, dotando-a de uma acentuada heterogeneidade


impeditiva de qualquer esboço de um regime comum.

5.1 Um sentido preciso e aprimorado da figura do facto do príncipe


O facto do príncipe apenas integra os atos de poder praticados no plano exterior
à relação jurídico contratual pelo contraente publico no exercício de poderes gerais que
titula ou por um ente publico terceiro e que produzam efeitos diretos e especiais sobre um
contrato administrativo que determinem a tutela acrescida do cocontratante lesado.

Assim esta figura caracteriza-se, por oposição quer aos poderes de conformação
da relação jurídico-contatual quer ao instituto das alterações das circunstancias, devido
ao facto dos atos de poder se localizarem num plano extracontratual e para além disso
serem dotados de uma incidência direta e especial sobre o contrato administrativo.

5.1.1 Plano Extracontratual:


O facto do príncipe caracteriza-se antes de mais por decorrer de um ato de poder
exterior ao contrato, ou seja, um ato de poder que não se enquadra na relação
sinalagmática que o particular estabeleceu com a administração mas sim no quadro de
poderes gerais da administração ou no quadro de poderes de que a entidade é dotada no
âmbito de outras funções do Estado.
Contraente publico no uso de poderes extracontratuais: a administração quando
contrata não se reduz por isso mesmo ao estatuto de mero particular mas antes transporta
para o interior do contrato a autoridade que geralmente lhe está associada. Os entes
públicos quando contratam com os particulares não alienam nem podem alienar os
poderes e as competências que detêm para levar a cabo as diversas atribuições que a lei,
na mediada em que se trata de poderes públicos que por si só são irrenunciáveis.

Como refere Ana Gouveia Martins “A administração não pode ficar sequestrada
dos seus poderes normativos, legais e regulamentares pelo simples facto de o exercício
do poder afetar ainda que indiretamente uma relação contratual na qual é parte, sob pena
de tal corporizar uma inadmissível renuncia genérica de poderes públicos”

Exemplificando, estaremos perante uma situação de facto do príncipe quando um


município que celebrou com um particular um contrato de gestão de transporte marítimo
de passageiros, aprova um regulamento onde é determinado que parte da área por onde a
embarcação passava fica interdita, fruto de se destinar agora a uma área exclusiva para
pesca e como tal proibida a embarcações de transporte de passageiros.

Já não consubstanciará uma situação de facto do príncipe a situação em que o


município dotado dos seus poderes de conformação decide alterar o itinerário destinado
ao transporte de passageiros por via marítima previamente estabelecido.
Ente publico distinto do contraente publico: para que seja possível determinar
quando é que um ente publico pratica um ato denominado de facto do príncipe cumpre à
priori determinar quando é que se está perante um ente público e quando é que ao invés
já se estará a falar de outro ente público distinto.

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O critério mais simples será o da personalidade jurídica sendo que gozam da


mesma o Estado, os Institutos Públicos, as entidades públicas empresariais (E.P.E), as
Associações Públicas, as Autarquias locais e as Regiões Autónomas.

Nestes termos não se verificará um facto do príncipe imputável a um ente publico


estranho ao contrato quando por exemplo um regulamento aprovado por um ministro gera
a modificação de um contrato celebrado por outro ministro ou por uma direção geral.
Estamos neste âmbito diante de unidades funcionais que fazem parte da estrutura interna
do mesmo ente público.

No entanto parece estranho que quando uma lei da Assembleia da República afeta
a continuação de um contrato administrativo celebrado pelo Governo se considere ser o
ato praticado pelo contraente público. Cabe considerar nestes casos que estamos perante
órgãos específicos que são autónomos e previamente incumbidos pela Constituição da
República Portuguesa de uma função estatal e que nessa medida devem ser considerados
para efeitos de aplicação da teoria do fait du prince como não integrando o mesmo ente
público, na medida em que se revela impossível reduzir tais órgão a meras unidades
funcionais.

Deve ser tida em conta a singular posição que o sujeito publico ocupa, os
conhecimentos privilegiados que detêm e bem assim a particular relação de confiança que
se estabelece com o cocontratante.

5.1.2 Interferência Direta e Especial:


Para além da natureza extracontratual da teoria do facto do príncipe, junta-se também
o impacto direto e especial no contrato administrativo. Neste sentido apenas estaremos
diante de um fait du prince quando o ato de poder impenda direta e especialmente sobre
o contrato afetado, alterando os seus termos e o seu equilíbrio financeiro e económico.

Interferência Direta: quando as medidas tomadas num plano extracontratual


operam diretamente sobre o contrato, isto é, situações em que a modificação do contrato
ocorre logo num primeiro momento como consequência imediata do ato de poder.
Distingue-se deste modo dos casos em que o ato de poder opera á priori sobre as
circunstâncias económicas, fiscais, sociais , laborais e só num segundo momento é que
fruto da onerosidade acrescida da posição do cocontratante se verifica a modificação ou
extinção do contrato. Existem duas formas que permitem eficazmente averiguar a
incidência direta do ato de poder na relação jurídico-contratual e que são:

a) Caducidade prematura: a extinção do contrato ou clausula contratual afetada


verifica-se independentemente de qualquer manifestação de vontade das partes,
pela mera ocorrência do facto extintivo. Não se verifica uma necessidade de ato
formal de resolução.
b) Invalidade superveniente: estaremos neste caso perante uma situação em que
um contrato que reunia num primeiro momento todos os requisitos de que
dependia a sua validade, acaba por num segundo momento padecer de um vicio

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por se encontrar em oposição com uma lei que se insere no quadro legal
superveniente.

Interferência Especial: traduz-se no ultimo requisito que integra a figura do facto do


príncipe e diz respeito ao modo como tais atos incidem sobre a esfera jurídica do
cocontratante, em face dos demais administrados. Trata-se aqui de atos que se
caracterizam pela sua anormalidade e especialidade na medida em que escapam à regra e
não geram um efeito normal e comum em todos dos administrados incidindo de modo
especial sobre a esfera jurídica do cocontratante lesado pelo ato de poder.

Na realidade só atendendo a um caso concreto é que é possível determinar se se


verificou um real prejuízo de um numero restrito de sujeitos, no entanto, verificam-se
diretrizes que permitem identificar um ato deste tipo.

a) Critério do numero de sujeitos afetados: verifica-se especialidade quando o ato


de poder apenas afete um individuo ou um grupo restrito de indivíduos.
b) Critério comparatístico: deve confrontar-se os encargos acrescidos do
cocontratante ou do grupo de cocontratantes lesados e os encargos impostos aos
administrados em geral. Assim haverá especialidade sempre que o ato de poder
incida sobre aquele ou aqueles colocando-os numa situação de desigualdade em
relação à generalidade.

6. Hipótese real de uma eminente situação de facto do príncipe


Terceira Travessia do Tejo (TTT).

Em 1994, o Estado português celebrou com a Lusoponte um contrato de


concessão das travessias rodoviárias do Tejo, com término em março de 2030, nos termos
do qual as partes estabeleceram uma clausula de exclusividade, a favor da concessionária,
para explorar qualquer travessia rodoviária sobre o rio Tejo a jusante de Vila Franca de
Xira. Em abril de 2008 o Governo anunciou a decisão de lançar um concurso público
internacional para uma terceira travessia do Tejo, com componente rodoviária, no
corredor Chelas-Barreiro. Cumpre referir que chegou a existir um concurso lançado, no
entanto o mesmo foi suspenso em 2011, por causa da degradação da situação económica
do país. Não obstante existem investidores interessados em avançar com o projeto já
desde 2012.
Ora como bem se compreende, caso se realize de facto esta pretensão de contruir
uma terceira travessia do Tejo, a clausula de exclusividade acordada com a Lusoponte
ficará inevitavelmente comprometida. Se o Governo levar avante esta ideia e aprovar por
decreto-lei as bases da concessão da terceira travessia do Tejo sairá direta e especialmente
afetado o contrato celebrado pelo Governo-administração verificando-se nessa
circunstancia um facto do príncipe.

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Estar-se-á claramente diante de uma medida geral que não tendo o contrato
celebrado pelo Governo com a Lusoponte por objeto, terá sobre o mesmo um impacto
determinante. Estaremos perante uma medida praticada pelo Governo, num plano
extracontratual, para lá das prerrogativas que titula enquanto contraente público, ao
abrigo dos seus poderes gerais de soberania politico-legislativos.
Nestes termos cumpre referir que ao abrigo do artigo 314º nº1 al a) CCP o Governo
enquanto contraente público terá de satisfazer o direito à reposição do equilíbrio
financeiro do contrato do qual a Lusoponte passará a ser titular.

7. A Tutela do cocontratante da Administração aquando da


modificação do contrato administrativo por facto do príncipe.
Como já foi deixado claro, quando me refiro a facto do príncipe, estão em causa
atos de poder que não se enquadram na álea ordinária do contrato, mas antes emergem da
álea pública extracontratual extraordinária. Como tal os prejuízos que o particular venha
a sofrer na decorrência de um ato do “Príncipe” não integram aquele conjunto de riscos,
considerados no momento da celebração do contrato, que devem ser suportados por cada
parte, deles podendo resultar um maior ou menor lucro. Neste âmbito estamos perante
prejuízos que tem por fonte atos de poder lícitos e imprevisíveis, levados a cabo pelos
poderes públicos, num plano externo ao contrato e cujos efeitos não são comuns a todos
os administrados, mas antes se fazem sentir de modo direto e especial sobre a esfera
jurídica do cocontratante, numa interferência que ultrapassa o limite razoável e que o
particular lesado não deve suportar por si próprio.

Resulta nestes termos, do facto do príncipe, um dever de compensação a favor do


cocontratante, o qual há de ser imputado ao ente público que pratica o ato de poder,
afastando-se deste modo disposição do artigo 314 nº3 CCP que, no meu entendimento,

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apenas diz respeito às situações de alteração anormal e imprevisível das circunstâncias


reconduzíveis à teoria da imprevisão.

7.1 A reposição do equilíbrio financeiro do contrato artigo 282 CCP.


A jurisprudência e a doutrina são unânimes ao impor ao ente público o dever de
restabelecer o equilibro financeiro do contrato. No entanto o Professor Doutor Mário
Aroso de Almeida entende que esta solução não pode ser adotada independentemente da
entidade que pratica o facto do príncipe ser o próprio contraente público ou ao invés outro
ente público terceiro à relação contratual. Estar-se-ia a admitir situações em que uma
Autarquia Local seria obrigada a repor o equilíbrio financeiro do contrato fruto de um ato
levado a cabo, por exemplo, pelo próprio legislador. Neste sentido o ilustre professor
entende ser mais adequado circunscrever o dever de reposição do equilíbrio financeiro do
contrato decorrente de facto do príncipe às situações em que a quebra desse equilíbrio
resulte de medidas imputáveis ao próprio contraente público. Só nesse caso se justifica
onerar o contraente público no dever de repor o equilíbrio financeiro do contrato.

7.2 Facto do príncipe praticado por entidade terceira á relação jurídica


contratual.
Na sequência do que foi dito no ponto anterior cumpre referir neste âmbito que
nestas situações o contraente privado não tem direito a reequilíbrio financeiro do contrato,
estão em causa situações em que uma das partes se vê confrontada com dificuldades
decorrentes de um ato de poder emanado de uma entidade terceira ao contrato pelo que,
seguindo a lógica do artigo 314 nº2 CCP, e adotando a interpretação do mesmo oferecida
pelo Professor Doutor Mário Aroso de Almeida cumpre admitir que nestas situações terá
de existir uma partilha entre as partes dos efeitos decorrentes do ato de poder, assistindo-
se a uma modificação segundo critérios de equidade ou a uma compensação financeira da
parte onerada pela alteração ocorrida.

Conclusão
Com origem em França, a verdade é que as interpretações doutrinarias e
jurisprudenciais da figura do facto do príncipe são as mais variadas, tendo todas elas,
como espero ter deixado claro, os seus pontos de contacto e as suas diferenças.

A fronteira entre a figura do facto do príncipe e a teoria da imprevisão é subtil,


não há como negar que ambas partem de uma ideia base que se consubstancia no facto de
em determinadas situações nenhuma das partes envolvidas na relação jurídica contratual
seja responsável pelas perturbações sofridas pelo contrato. No entanto não são a mesma
coisa, não se podem conjugar, ao contrário daquela que foi a orientação do legislador,
ainda que de certa forma caiba admitir que a tutela do cocontratante terá de ser
necessariamente semelhante em ambas as situações.

Nesta exposição o principal objetivo foi demonstrar como ainda existe espaço para
esta figura no ordenamento jurídico português de uma forma autónoma. Não cabe atribuir
ao facto do príncipe um caracter obsoleto, mostra-se mais vantajoso encarar a figura de
uma perspetiva pragmática dotada de um interesse próprio e de utilidade para os juristas.

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Cumpre ainda assim deixar uma nota, numa perspetiva utópica das relações intra-
administrativas, no sentido de se apelar a um esforço comunicacional entre os diferentes
sectores da administração pública portuguesa de modo a que a politica comum levada a
cabo por todos eles permita que, cada vez mais, se assistam a menos situações que levem
a aplicação do instituto do facto do príncipe porque apenas e só nessa medida é possível
admitir que a figura do facto do príncipe se torne num instituto desatualizado. Até la
nunca deixará de ser necessária a individualização, conceptualização e adoção desta
figura, para que de forma mais correta se permita conjugar os interesses em jogo no
âmbito de qualquer relação jurídico contratual pública. Não se entendendo o problema
nestes termos, estar-se-ia a dotar os contratos públicos de um caráter pouco atrativos para
os particulares, fruto do grande risco que seria contratar com a administração pública.

Em ultima análise ficaria em risco a satisfação das necessidades gerais de interesse


público, primordial função a cargo da Administração Pública.

Bibliografia
CLAUDIA DE MOURA ALVES SAAVEDRA PINTO, O Facto do príncipe e os Contratos
Administrativos, Almedina, Coimbra, 2013;

DIOGO FREITAS DO AMARAL, Curso de Direito Administrativo, vol. I, Almedina, Coimbra,


2006;

ESTUDOS EM HOMENAGEM AO PROF. DOUTOR SÉRVULO CORREIA, vol. II, Coimbra


Editora, Coimbra, 2010;

JOSÉ CARLOS VIEIRA DE ANDRADE, Lições de direito administrativo, 4ª edição, imprensa da


Universidade de Coimbra, 2016;

MÁRIO AROSO DE ALMEIDA, Teoria geral do Direito Administrativo, Almedina, Coimbra, 2016;

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MARCELO REBELO DE SOUSA, ANDRÉ SALGADO DE MATOS, Contratos Públicos - Direito


Administrativo, tomo III, Dom Quixote, 2009;

MARCELLO CAETANO, Manual de Direito Administrativo, 10ª edição, vol. II, Almedina,
Coimbra, 2013;

PEDRO COSTA GONÇALVES, A Concessão de Serviços Públicos, Almedina, Coimbra, 1999;

(TESE DE DOUTORAMENTO EM DIREITO) ANA GOUVEIA E FREITAS MARTINS, Contributo


para uma desconstrução dogmática da teoria do facto do príncipe, 2012.

Jurisprudência
Acórdão do Conseil D’Etat, 10 de janeiro de 1902, Compagnie nouvelle du gaz
de Deville-lès-Rouen;

Acórdão do Conseil D’Etat, 30 de Março de 1916, Compagnie Générale


d’éclairage de Bordeaux.

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