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Rafael Rocha Daud


Sigmund Schlomo Freud

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Autor
Rafael Rocha Daud*

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Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial deste trabalho, seja por meio
eletrônico ou impresso, inclusive fotocópias sem prévia autoriazação e consentimento da editora.

Sobre o Autor
Rafael Rocha Daud é psicanalista e escritor, bacharel em Direito pela USP e Mestre em
Psicologia Social pela PUC-SP com uma dissertação sobre os fundamentos para um diálogo entre
Direito e Psicanálise. Também tem debatido em cursos e grupos de estudo as aproximações
entre a psicanálise e a literatura, Dostoiévski em especial. E-mail: rrdaud@gmail.com

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Índice
Introdução...........................................................................................4

Capítulo 1
FREUD E SUA AUTOANÁLISE .......................................................................... 22

Capítulo 2
A NOVIDADE MAIS ANTIGA DO MUNDO: INTERPRETAR OS SONHOS ..... 30

Capítulo 3
OS MECANISMOS DOS SONHOS ..................................................................... 38

Capítulo 4
A REALIZAÇÃO DE DESEJOS .......................................................................... 48

Capítulo 5
FREUD E O DESAFIO DA GUERRA.................................................................. 58

Capítulo 6
ALGUÉM ALÉM DO EU ...................................................................................... 70
Sigmund Schlomo Freud

INTRODUÇÃO
4
Q
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uando o criador da psicanálise, Sigmund


Freud, viu aproximar-se o final do século
XIX, estabeleceu para si que escolheria
aquela data, de resto completamente
arbitrária, para oferecer ao mundo o
que considerava sua obra mais importante até então: A
Interpretação dos Sonhos.
Embora houvesse concluído a redação do livro
em 1899, e sua primeira edição tenha sido impressa
nesse ano, Freud solicitou que fizesse imprimir no
frontispício o ano 1900. Tratava-se de marcar, com
o número redondo, a convicção que tinha então de
que essa obra significaria o início de uma nova época.
Freud estava, a um tempo, certo e errado. Errado,
porque essa primeira edição vendeu pouco, e
demorou até que sua importância fosse reconhecida.
Mas também estava cer to porque, quando a
psicanálise alcançou círculos mais amplos, passou
a ser considerada um método revolucionário no
tratamento das enfermidades mentais e na leitura
e interpretação dos fenômenos sociais como um
todo. Ali estava contido, em essência, o que fazia da
psicanálise um método poderoso, que influenciou
gerações de médicos, psiquiatras e psicanalistas, e
as ciências de um modo geral.
A partir de então, Freud passou a ser procurado
a fim de discutir temas relevantes à psicologia e a
todas as ciências do homem. É claro, também havia
resistência às concepções recém-descobertas e aos
conceitos desenvolvidos por Freud, mas mesmo
aqueles que gostariam, não eram mais capazes
de desprezar o que Freud apresentava: o máximo
que podiam era odiar aquela novidade; podiam
compreendê-la mal e podiam criticá-la, com ou sem
Sigmund Schlomo Freud

razão, mas não podiam ignorá-la.


Com a psicanálise, e em grande parte com a
interpretação dos sonhos, Freud havia iniciado um
movimento tão revolucionário quanto as descobertas
de Darwin e Copérnico. De fato, tratava-se do golpe
definitivo que sofria a autoestima humana: Copérnico
havia mostrado que a Terra não era o centro do
sistema solar; Darwin, que a humanidade não havia
sido criada à imagem e semelhança de Deus. Com
a psicanálise, e em especial com a interpretação dos
sonhos, Freud desfere o golpe final: a mente humana
não está no controle; existem pensamentos dos quais
não temos consciência, passa-se em nós uma série
de raciocínios dotados de uma lógica própria, que
pensam, ainda que não saibamos que pensam, que
motivam muitas das nossas ações sem que tenhamos
qualquer controle sobre isso.
Controle, aí, tem dois sentidos: o daquilo que
podemos modificar, porque temos poder sobre ele,
mas também o que podemos vigiar. Esse campo da
mente sobre o qual não temos controle, Freud o
chamou de inconsciente. Com esse terceiro golpe, a
humanidade estava novamente só, lançada sem rede
de proteção a um campo perigoso de...
De quê, exatamente? Que lugar novo é esse, a que
somos lançados, quando não somos mais o centro?
Por que seria tão importante assim que a humanidade
fosse o centro do universo, o que Copérnico refutou,
o centro da adoração divina, o que Darwin refutou, e,
finalmente o centro de sua própria autoconsideração,
o que Freud refutou? Por que era tão importante ser
o centro?
Talvez porque, ao nascer somos o centro da atenção

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dos nossos pais, daqueles que cuidaram de nós quando


éramos mais indefesos e dependentes. Talvez uma
parte de nós ainda sinta que é indefesa e dependente,
e por isso precisa, mesmo simbolicamente ser o
centro de alguma coisa. E as ideias de Copérnico,
Darwin e Freud nos tiram esse lugar especial. Sem
ele, ficamos lançados a um campo perigoso de...
De quê? É essa a verdadeira resposta que Freud
consegue oferecer com seu livro, A Interpretação dos
Sonhos. Esse é o ponto alto que ele alcança, quando
descobre a chave da importância dos sonhos. Por que
sonhamos? Sonhamos para dormir, ele diz. É preciso
que encontremos algo de muito especial, no sonho,
para que nos seja tão penoso acordar, caso contrário
dificilmente permaneceríamos dormindo.
O que Freud afirma, nesse ponto, o que ele descobre
como aquilo que encontramos em nossos sonhos,
esse algo tão especial que nos mantém dormindo,
é tão simples que é quase incompreensível, mas é
bastante claro e Freud o afirma sem ressalvas: o que
encontramos no sonho é a realização de um desejo.
A primeira parte deste livro será dedicada a
explicar essa estranha afirmação. Nesta introdução,
pedimos ao leitor que a aceite, provisoriamente.
Aceite que, por exemplo, ao sonharmos com uma
viagem, não significa que faremos uma viagem, em
breve. Significa, simplesmente, que desejamos fazer
essa viagem. Ou significa que desejamos alguma
coisa que ocorre nessa viagem de sonhos.

“Ao sonharmos com uma viagem, não significa


que faremos uma viagem em breve. Significa, que
desejamos fazer essa viagem ou que desejamos
alguma coisa que ocorre nessa viagem de sonhos.”
Sigmund Schlomo Freud

A descoberta de que o homem não era o centro


estava intimamente relacionada com a descoberta de
que os sonhos eram a realização de desejos. Não mais
ser o centro deixava a humanidade lançada ao campo
enigmático e perigoso do desejo, sem um manual
para guiá-lo.
Nesta introdução, queremos mostrar por que
motivo essa descoberta foi tão importante para a
psicanálise e tão importante para Freud. Qual a
importância, que de outra maneira não se revelaria,
que os manuais de interpretação dos sonhos estejam
equivocados? Ou seja, qual a importância de que
não exista uma tabela possível fazendo corresponder
certo número de símbolos que aparecem nos sonhos
com algum significado que eles escondam? Por que e
como isso que Freud descobriu nos sonhos, mudou
a vida dele, e a própria psicanálise?
Começamos a responder essa pergunta com esta
questão: como um psicanalista se torna psicanalista?
Isto não é uma questão nada trivial. Um arquiteto
tor na - s e arqu ite to e stu d an d o a s e st r utu r a s ,
aprendendo a ler e a desenhar as plantas, fazendo
maquetes, estudando técnicas diversas e conceitos
desenvolvidos por diferentes arquitetos. Ele tem
professores que o introduzem nesses saberes e nesse
saber-fazer, toma o exemplo desses professores e de
outros arquitetos e assim aprende a fazer, de maneira
criativa, o que se chama arquitetura.
Um psicanalista não pode recorrer a esse método,
pelo menos não totalmente. Ele pode estudar os
conceitos num livro de psicanálise, aprender sobre
a maneira de pensar dos grandes mestres, mas de
maneira geral, um psicanalista não tem como acessar
o exemplo dos seus mestres. Não tem como saber a

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atitude exata que outro psicanalista adota em seu


consultório privado, não tem como saber que tipo
de conduta ele adota frente ao que um paciente pode
ou não dizer. Não pode entrar na “oficina” de seus
mestres para conhecer seus segredos.
Existem relatos de análises que continuam
sendo fontes importantíssimas no aprendizado da
psicanálise. Mas porque uma análise tem tantas
nuances, dura um certo tempo e abrange aspectos
tão pessoais daqueles que se envolvem nessa prática,
torna-se impossível, mesmo no relato mais detalhado,
transmitir tudo o que seria necessário para o aprendiz
adquirir experiência. Além disso, existe a questão
ética de manter a privacidade dos pacientes, o que
inviabiliza que os detalhes mais decisivos possam
ser dessa maneira revelados. Mesmo depois de ler
todos os livros disponíveis sobre o assunto, conversar
com os maiores experts e ter tido professores
apresentando-lhe os conceitos mais importantes, um
leigo não se tornará um psicanalista, enquanto não
tiver se submetido a uma análise.
Sigmund Schlomo Freud

Apenas quando tiver estado diante de um analista


com experiência, que o tenha conduzido através dos
enganos de seu próprio inconsciente, chegando a
conhecer aquilo que, normalmente, permaneceria
não-sabido, apenas então esse candidato a analista
estará em condições de analisar, em outra pessoa,
os mecanismos através dos quais o não-sabido dessa
pessoa se esconde dela mesma, os mecanismos
que a impedem de reconhecer seus pensamentos
inconscientes como sendo seus próprios. Para isso,
terá de desenvolver um estilo capaz de suportar a
fala daquela pessoa, vazia, queixosa, que não fala de
si e não se dirige a ninguém específico, até que se
torne uma fala plena, responsável, capaz de falar de
si e dirigir-se a alguém, o analista. Este é o momento
quando a análise pode ocorrer, e o não-sabido, ser
reconhecido.
Dessa maneira, para formar um analista, é
preciso outro analista, mais experiente. No caso
da arquitetura, também. Os primeiros arquitetos
inspiravam-se nos exemplos da natureza, nos animais
que constroem tocas e ninhos, nas cavernas que
abrigavam os primitivos, e aos poucos as diversas
técnicas iam sendo criadas para produzir uma
habitação. Os psicanalistas não têm esse recurso. A
psicanálise é algo que somente pode se dar a partir
da fala humana, portanto, a observação da natureza
não pode socorrê-la. Da mesma forma, as técnicas
não podem ser incrementadas aos poucos, desde
alguma base simples até sistemas complexos: todo o

“As técnicas de análise não podem ser incrementadas


aos poucos, desde alguma base simples até sistemas
complexos, todo o essencial da técnica teve de ser
criado de uma vez.”

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essencial da técnica teve de ser criado de uma vez,


consistindo em que se deixasse o paciente falar sobre
aquilo que o aflige e quais os sentidos que ele mesmo
dá para aquilo. Se a técnica é tão simples, e ao mesmo
tempo não é possível espelhar-se na natureza, nem
nos livros, há apenas uma maneira de se formar um
analista: que ele mesmo se submeta a uma análise,
e a partir dessa experiência descubra em si como
identificar em que momento um charuto significa
apenas um charuto, e em que momento significa
outra coisa.
Nisto, chegamos ao primeiro paradoxo da
psicanálise, talvez o mais importante deles. Se é preciso
um psicanalista para formar outro psicanalista, quem
formou o primeiro psicanalista? Em outras palavras,
quem conduziu a análise de Freud?
Esta pergunta é fundamental para o nosso
tema, porque é aquilo que motivou a existência de
A Interpretação dos Sonhos. A resposta tem duas
partes: quem conduziu a análise de Freud, e como.
A Interpretação dos Sonhos é o como. A obra é o
resultado da análise de Freud, como veremos.
Mas, quem a conduziu? Existem duas respostas
para essa pergunta, ambas concorrentes e verdadeiras.
A primeira diz: quem conduziu a análise foi o próprio
Freud. Foi, dessa maneira, uma autoanálise, a única
da sua espécie. A segunda resposta diz: foi Wilhem
Fliess, amigo de Freud.
Vamos explicar as duas respostas. Quando
Freud iniciou sua autoanálise, não sabia o que iria
encontrar. O não-sabido do inconsciente não era
apenas não-sabido pelo paciente, Freud: era não-
sabido absolutamente, ninguém o sabia. E, mais
radicalmente ainda: ninguém sabia que não sabia,
Sigmund Schlomo Freud

ninguém sabia que haveria, ali, algo a se saber. Isto


é da maior importância: se hoje tento empreender
uma autoanálise, só posso fracassar, porque só terei
ouvidos para aquilo que já sei: o complexo de Édipo, a
compulsão à repetição, a ambiguidade de sentimentos
em relação às pessoas de quem gosto, enfim, tudo
aquilo que a teoria me ensinou. Mas, se eu já sei o
que vou encontrar, então esse não é o inconsciente,
não é o não-sabido! Portanto, se quiser ir atrás do
não-sabido, preciso ir mais longe. E para ir mais
longe, não adianta estudar, saber mais. Saber mais
apenas empurraria o não-sabido ainda mais adiante.
Seria como tentar alcançar o horizonte: quanto mais
caminhamos, mais ele se afasta de nós.
Mas para Freud isso era possível, pois nenhuma
análise jamais havia sido empreendida. Tudo era não-
sabido, Freud não sabia o que encontraria no seu
inconsciente. A investigação de Freud, caminhando
sobre terreno virgem, pôde se comportar como se
o horizonte fosse exatamente o lugar em que ele
estava. A cada descoberta sua, o campo do não-
sabido, denominado o campo do inconsciente, era
povoado, todos aqueles pensamentos, do qual nada
se sabia, que chamamos o inconsciente, aos poucos
iam constituindo essa região tenebrosa chamada o
inconsciente. Assim, podemos afirmar que Freud não
apenas descobriu o inconsciente — de certa forma,
o inventou. Inventou-o com aquilo de sua própria
mente que encontrou ali.
Como foi possível que ele se aventurasse de
maneira tão corajosa? Aqueles que já fizeram uma
análise sabem que, às vezes, esses pensamentos que
pensamos sem saber que os pensamos, são bem
obscuros e têm bons motivos de permanecerem
inconscientes: são desagradáveis, terríveis! É certo

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que nem sempre o são, mas, vezes suficientes para


que não se possa se aventurar numa análise sem a
coragem de enfrentar alguns dragões. Como Freud
foi capaz de fazer isso?
É aqui que se introduz a segunda parte daquela
resposta. Ele conseguiu fazer isso porque tinha
outra pessoa, Wilhem Fliess, um amigo que era
por ele tremendamente admirado. Assim, o medo
que Freud podia ter daquilo que seu inconsciente
revelaria, durante sua autoanálise, não era tão
grande quanto o medo de decepcionar seu amigo
Fliess. A admiração por ele o impulsionava, e a
cada pensamento desagradável ou vergonhoso com
que Freud se depara, dirige-se a Fliess para relatá-
lo, e ao fazê-lo, tal vergonha se vê compensada
pelo orgulho de realizar o feito extraordinário de
descobrir aquele pensamento inconsciente. Assim,
é na correspondência e nas conversas pessoais que
manteve com Fliess, durante esse período, que Freud
encontrou o ponto de apoio intelectual e emocional
necessário para continuar o trabalho de elaboração e
desvendamento desses pensamentos que se ocultavam
de sua consciência.
Quando vamos a um analista, hoje, podemos relatar
nossos sonhos, mas mais do que isso relatamos nosso
dia a dia, nossos tropeços e frustrações, ideações,
expectativas, nossa interpretação do mundo que
nos rodeia, que chamamos de realidade. Freud não
poderia fazer todas essas coisas, pois nenhuma delas
escaparia à sua atenção consciente. Quando hoje digo
para meu analista: passei a semana inteira pensando
em tal coisa, e ele responde: mas como você pôde se
esquecer de X, isso me faz reavaliar aquilo que me
ocupou a mente a semana inteira, faz com que eu olhe
aquilo sob outra luz, qual seja, o fato de que passei a
Sigmund Schlomo Freud

semana inteira pensando numa coisa, quando deveria


ter pensado em outra. Meu pensamento, assim, não
tinha valor apenas por si mesmo, mas também por
aquilo que ele me impedia de pensar. Isso é possível
de acontecer porque meu analista é outra pessoa.
Para Freud, isso era impossível: se ele esquecesse de
algo, não teria como se lembrar disso, pois havia se
esquecido. Quando, mais tarde, se lembrasse, já seria
tarde demais, não seria possível retomar o raciocínio
e relacionar aquilo que foi esquecido com aquilo que
foi lembrado em seu lugar. Ele não tinha como saber
que algo tinha sido esquecido, a não ser quando se
lembrasse. Ele não tinha como lembrar-se de que
não se lembrava.
Mas havia algo que Freud poderia sempre
se lembrar, mesmo antes de saber que tipo de
pensamento ocultava: seus sonhos. Os sonhos, por
serem logicamente tão deformados, por obedecerem
a outra lógica, podem ser por nós lembrados com
alguma clareza, sem que por isso nos demos conta que
escondem pensamentos importantes. Se fossem mais
claros, facilmente nos esqueceríamos deles, como
forma de nos defender de seu conteúdo incômodo.
Deformados, podem chegar à consciência inteiros,
para só então serem analisados
Assim, Freud iniciou sua autoanálise: anotando
cada um de seus sonhos e analisando-os em seguida,
tentando decifrar o que é que revelavam, o que é que
escondiam, pôde, pouco a pouco, ir descobrindo de
que se tratava seu inconsciente. O gesto freudiano
de analisar seus sonhos, apoiado por Fliess, foi o que
podemos chamar um gesto inaugural, porque único
e pleno de consequências: ao mesmo tempo Freud
realizou sua autoanálise e inventou a psicanálise.

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Qual é, para nós, a importância dos sonhos?


Nem toda análise passa por uma análise dos sonhos.
Nem todo mundo parece lembrar-se dos sonhos
que tem, nem se sente à vontade para falar deles.
Pode uma análise dar-se de outra forma? A resposta
é afirmativa. Existem muitas outras produções
inconscientes que podem ser analisadas, e Freud
voltou-se a elas em momentos posteriores de sua
obra. São os atos falhos, esquecimentos cotidianos,
trocas de nomes ou de palavras, que normalmente
explicamos com alguma justificativa trivial. Tais
“distrações” identificadas por Freud, especialmente
no livro Psicopatologia da Vida Cotidiana, são porta-
vozes do inconsciente. Elas denunciavam que havia
um pensamento, ocorrendo ao abrigo do pensamento
consciente, e que possuíam lógicas e mecanismos
próprios, que depois de interpretadas, podiam ser
reconhecidas como pensamentos próprios à pessoa
esquecida. Assim, por exemplo, quando esquecemos
do aniversário de alguém, depois nos damos conta
de que já não queríamos a pessoa assim tão bem;
ou estamos ressentidos com ela por algum motivo,
ou queríamos evitar a obrigação de comparecer a
uma festa ou oferecer um presente. E o inconsciente,
introduzindo o esquecimento da data, permite que
façamos isso de maneira mais ou menos impune.
Existem muitas formações do inconsciente das quais
uma análise pode fazer usos, não apenas sonhos.
Entretanto, os sonhos permaneceram, para Freud
e para todos os psicanalistas que vieram depois, uma

“Existem muitas formações do


inconsciente — como atos falhos,
esquecimentos — das quais uma análise
pode fazer uso, não apenas sonhos.”
Sigmund Schlomo Freud

via privilegiada de acesso ao inconsciente. O motivo


disso é que o sonho também apresenta um caráter que
é comum a todas as formações do inconsciente, mas
mais claramente do que todas. Essa é a radicalidade
e a revolução contidas na descoberta de Freud: o
sonho, todo sonho, é a realização de um desejo, como
os sete capítulos de A Interpretação dos Sonhos visam
provar. É isso o que Freud havia constatado em seus
próprios sonhos, é o que ele havia confirmado nos
sonhos de seus pacientes, e agora empreendia o
esforço teórico de examinar os mecanismos através
dos quais isso acontecia.
Para nós é da máxima importância notar isso, se
quisermos seguir a proposta deste pequeno livro a fim
de examinar um pouco as revoluções que Freud teve
que enfrentar em sua própria obra, a fim de produzir
a revolução que a psicanálise gerou no mundo
das ciências. Freud começou como um médico, e
tratava doenças cujas causas eram desconhecidas,
e cuja localização podia, no máximo, ser definida
assim: uma doença dos nervos. Por isso, chamava
seus doentes “neuróticos”. Neurótico quer dizer

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isso: doente dos nervos. Mas que seriam os nervos?


Nervos, desde sempre, é o que mantém a gente em
pé e funcionando. Então, um doente dos nervos é
alguém que já não funciona tão bem. Assim, esse é
o significado, em psicanálise, de um sintoma. Não
é correto dizer: sintoma disso ou daquilo. Como
por exemplo, sintoma de que não estamos felizes.
Não se trata disso. Trata-se, mais simplesmente, de
dizer: um sintoma é quando algo não funciona como
esperávamos que funcionasse porque, geralmente,
esperávamos que estivéssemos no controle, e o
controle consciente é apenas a ponta do iceberg. Por
baixo há ainda muita coisa pensante, o inconsciente.
O sintoma denuncia isso, que existe um inconsciente.
Quando Freud começou a tratar os “doentes
dos nervos”, buscava qual a causa dessa doença, ou
seja: o que faz com que essa pessoa tenha parado
de funcionar? Para ele, ficou claro que a causa não
poderia ser orgânica. A histeria era o nome genérico
dado ao fenômeno segundo o qual algumas pessoas
padeciam de uma enfermidade séria, mas que os
exames físicos não podiam apontar a causa. Dizia-
se, então, que a causa residia em algum lugar entre
uma teimosia, uma indisposição voluntariosa e
alguma falta de caráter. Para esses médicos, não
havia nada de errado com os histéricos. Era como
se eles quisessem estar doentes. Freud recusava
essa explicação simplista, dizendo: apenas porque
não sabemos o que causa a histeria, não quer dizer
que não haja uma causa. Se não está no organismo,
como os exames parecem mostrar, então deve estar
na mente, ou em alguma parte do corpo que não se
confunde com o organismo.
Dessa maneira, Freud levantou a primeira
hipótese, que sustentou durante bastante tempo, e
Sigmund Schlomo Freud

de certa forma ficou tão popularizada que é até hoje


confundida com a própria essência da psicanálise.
Segundo essa hipótese, a causa da histeria, ou da
neurose em geral, é um trauma. O doente teria
passado por um trauma psíquico, que embora tenha
deixado seu organismo intacto, produziu efeitos
em sua mente, em sua psique, fazendo com que,
tempos depois, embora não se recorde dos eventos
traumáticos, sofra suas consequências com tanta
intensidade como se acontecessem agora.
Muito da popularidade da psicanálise se deu, no
início, a partir dessa hipótese. Alfred Hitchcock, o
grande cineasta, era particularmente atraído pelas
ideias psicanalíticas, que aparecem em vários de seus
filmes. Entretanto, as ideias que aparecem nesses
filmes adaptam-se muito melhor ao mecanismo dos
roteiros cinematográficos que ao mecanismo de uma
análise.
A maior parte dos filmes sobre psicanálise e
doença mental repousa sobre a seguinte premissa:
uma pessoa, de constituição algo frágil, passa por
uma situação traumática — com uma carga emocional
insuportável — e a partir de então, cria uma cisão
na realidade: passa a acreditar em eventos por ela
mesma imaginados como se fossem reais. O processo
de cura é o processo de descoberta da realidade e
das razões pelas quais o evento real — o trauma —
tivera de ser oculto da consciência do doente. O
esclarecimento da realidade coincide com a cura e
superação do trauma, e com o reconhecimento que
“A maior parte dos filmes sobre psicanálise e doença mental
repousa sobre a seguinte premissa: O esclarecimento da
realidade coincide com a cura e superação do trauma, e com
o reconhecimento que leva à conclusão do filme. Dá-se a essa
abordagem antiga o nome de método catártico.”

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leva à conclusão do filme. Dá-se a essa abordagem


antiga o nome de método catártico.
Algumas dessas circunstâncias fazem parte de
uma análise, especialmente daqueles doentes a quem
chamamos neuróticos obsessivos: o sentimento de
culpa exerce neles um efeito poderoso, e de fato criam
narrativas nas quais aparecem como culpados por
coisas que, ou não fizeram, ou não estavam sob sua
responsabilidade ou possibilidade evitar. O que Freud
descobriu é que o evento traumático, ele mesmo, não
é a realidade; ele pode ter ocorrido como pode não ter
ocorrido, e assim como o neurótico cria uma narrativa
de crime e culpa, cindindo a realidade, interpretando
os fatos conforme essa criação, também o próprio
trauma pode ser efeito dessa narrativa; também o
trauma pode ter sido imaginado como efeito da
doença, como uma espécie de fantasia de origem. O
verdadeiro trauma, portanto, deve ter ocorrido antes.
Trata-se, em resumo, do próprio trauma de estar vivo.
Isso parece muito exagerado, entretanto, podemos
confirmá-lo em cada análise que realizamos. Alguns
traumas reais podem agravar uma neurose, mas é
mais verdadeiro ainda que a neurose pode prescindir
dos traumas factuais: ela se sustenta, e mesmo os
cria conforme a necessidade, uma neurose alimenta-
se de si mesma, e de pouco adianta que o paciente
descubra que aquilo em que acredita não é real:
nada o impede de continuar acreditando, ou criar
novas narrativas que preservem sua doença, a não ser
que outro processo poderoso interrompa esse ciclo.
Uma das formas de fazê-lo é através da psicanálise.
O mecanismo de uma análise, assim, seria menos
o de reconstruir a realidade perdida pelo paciente,
como nos filmes, mas reconstruir, de outra maneira,
Sigmund Schlomo Freud

a narrativa que ele mesmo criou sobre essa realidade.


Então, a neurose cria narrativas, o que mais
especificamente chamamos fantasias, em especial
fantasias de origem (que tentam explicar coisas
como: quem somos, de onde viemos, para onde
vamos e a angústia que pode acompanhar esses
questionamentos). Os sonhos trazem essas fantasias
à tona. As fantasias neuróticas são difíceis de serem
admitidas como tal, ou seja, como produto nosso, e
não como situações que nos vitimam. Se efetivamente
nos tornamos reféns de nossas próprias fantasias, não
gostaríamos de admitir que a origem dessa armadilha
está em nós mesmos. Por causa disso, as fantasias
tornam-se inconscientes: o que delas emerge é a
situação que criam, mas permanece submerso o
roteiro de fundo que sustenta essas situações.
Através dos sonhos (dos atos falhos, dos sintomas
etc.), podemos ter um vislumbre do conteúdo dessas
fantasias, pois os sonhos deformam seus conteúdos,
e passam por inócuos, inconsequentes. Podemos
facilmente atribuir suas narrativas a qualquer forma
de confusão mental que operaria durante o sono,
negando a eles qualquer lógica. Quando, entretanto,
a partir da perspectiva freudiana, somos obrigados a
admitir que os sonhos são, acima de tudo, a realização
de desejos, então podemos relê-los, reconhecendo
neles uma história que nos diz respeito: são
ângulos ou, se assim quisermos, pequenos trailers
cinematográficos para nossa fantasia inconsciente.
Surge-nos uma pergunta, imediatamente: se
é verdade que todo sonho é a realização de um
desejo, como é possível que haja sonhos ruins?
Como podemos sonhar com eventos que não só
não queremos, como eventos que tememos, por

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21

exemplo, a morte de um ente querido? Será possível


que desejemos sofrer, sentir dor? A resposta exige
que a dividamos em duas partes.
Serão essas as duas partes deste livro. Na primeira,
explicaremos o significado da afirmação quase
enigmática, e desafiadora, de Freud, de que todo
sonho é a realização de um desejo. Descobriremos
que, sim, até mesmo alguns sonhos francamente
desagradáveis escondem desejos profundos, e
nesse sentido, não contrariam a tese original de
maneira alguma. Na segunda parte, contaremos a
história de como e por que Freud precisou rever essa
teoria e, sem abandoná-la, acrescentar a ela alguns
elementos importantes, transformando radicalmente
a psicanálise que ele próprio tinha inventado. Este
caminho nos levará, da teoria freudiana, passando
por suas revoluções, ao caráter surpreendente do
seu criador.
Espero que tenham uma agradável leitura.

“Segundo Freud, todo sonho é a realização


de um desejo e até mesmo alguns sonhos
francamente desagradáveis escondem
desejos profundos. “
Sigmund Schlomo Freud

Capítulo 1
FREUD E SUA AUTOANÁLISE
22
23

E
m relação a este assunto, existem duas
posições completamente opostas, sustentadas
pelo senso comum. De acordo com a primeira
posição, precisa de análise uma pessoa que
sofreu um trauma grave, passou por uma
situação de sofrimento muito grande e não é capaz de
resolver o problema sozinha. Segundo essa visão, a análise
seria uma espécie de terapia auxiliar para a pessoa com
uma constituição mais frágil: fazer uma análise seria sinal
de fraqueza, incompetência para lidar com as dificuldades
da vida, até mesmo veleidade, futilidade. Dessa posição,
surgiria aquela expressão segundo a qual só possui certos
sofrimentos quem pode se dar ao luxo para tanto — os
outros, os que trabalham, os que encaram a vida de frente,
não teriam tempo para isso.

Na direção oposta, está a posição que afirma: todo


mundo pode se beneficiar de uma análise. Conhecer a
si mesmo sempre pode nos ajudar a viver melhor, a nos
tornarmos pessoas melhores, a lidarmos melhor com
nós mesmos e com os outros. Uma pessoa que passa por
uma análise é mais capaz de suportar as dificuldades da
vida do que outra que nunca passou; é mais capaz de
lidar com as frustrações e com os desafios. Em suma,
tem estratégias que a tornam mais adaptada à vida em
sociedade, tornando-se menos vítima de seus impulsos
imediatos.

Como costuma ocorrer com o senso comum, essas


duas posições guardam alguma relação com a verdade,
sem esgotá-la, mas também sem deixar de mascará-la um
pouco e mesmo desvirtuá-la. Cada uma tem um pouco do
que se trata numa verdadeira análise, mas também tem
um tanto de mistificações.
Para resolvermos a questão, diremos o seguinte: uma
Sigmund Schlomo Freud

análise tem o objetivo de uma cura. Nesse sentido, não


é tão diferente de uma terapêutica. A diferença aparece
num aspecto muito sutil e que torna a psicanálise uma
disciplina tão complicada e controversa: aquilo que se cura
não é aquilo para o que se busca uma cura.

Expliquemos. Uma análise em que se busca simplesmente


o autoconhecimento não faz o menor sentido. Para o
autoconhecimento, podemos ler os poetas, os sociólogos,
os filósofos e todos os grandes pensadores; podemos nos
envolver amorosamente com alguém, podemos ter filhos
ou cuidar de nossos pais idosos; podemos nos entregar
com todas as forças a uma amizade profunda e produtiva.
Tudo isso nos leva ao autoconhecimento. Uma análise
não deixa de passar, no seu decurso, por alguns aspectos
de todas essas relações e por isso também ela pode trazer
algum autoconhecimento, às vezes um autoconhecimento
bastante profundo, mas não é essa a sua meta. Sua meta,
o motivo pelo qual alguém pode procurar uma análise e
o motivo pelo qual faz sentido aceitar um paciente em
análise é que essa pessoa esteja enfrentando algum tipo
de sofrimento.

Portanto, a pessoa procura uma análise para curar um


sofrimento. E por que ela faria isso? Por que uma análise,
em vez de uma terapia medicamentosa? Por que não um
médico ou um comportamentalista? Porque, para essa
pessoa, seu sofrimento não provém de um acaso: essa
pessoa acredita que seu sofrimento tem um sentido. Se o
seu organismo sofre, se o seu comportamento se desvia, ela
vê nisso tudo apenas a consequência, sintomas superficiais
de uma causa secreta: um sentido que sua doença carrega.
Sua procura por uma análise vem, portanto, nessa direção:
ela quer desvendar qual é o sentido dessa doença, que
segredo ela carrega ou esconde. Mais do que isso, acredita

24
25

que desvendar esse segredo a levará a superar esse


sofrimento: seu organismo retornará ao equilíbrio, seu
comportamento voltará a estar sob seu controle.

O início da psicanálise

Essa ideia parece muito inusitada, mas foi exatamente


ela que permitiu que a psicanálise viesse à existência, há
mais de 100 anos atrás – e o que continua sendo sua razão
de ser –, quando as pacientes histéricas, que sofriam desvios
intensos, tais como a paralisia de um braço, a dissociação
da personalidade (o que vulgarmente chamamos de dupla
personalidade) ou outros males inexplicáveis, e os médicos
regularmente as tratavam como se não houvesse nada de
errado com elas, então algumas delas se voltaram para
uma nova terapêutica, criada por Breuer, com auxílio
de Freud, por volta do ano de 1890, uma terapêutica na
qual era a própria paciente, ao invés do médico, quem
falava. Ela começava, fundamentalmente, com a seguinte
exclamação: “Deixe-me falar sobre o que me faz sofrer”. E
Breuer e Freud, pela primeira vez na história, resolveram
dar crédito a esse pedido: acreditar, embora todos os outros
médicos dissessem que não havia nada de errado com elas,
que sim, havia naquele sofrimento algum sentido, sobre o
qual se poderia falar algo. E deixaram-nas falar.

Levou algum tempo até que a psicanálise chegasse


ao ponto em que se encontra. O sentido que havia nos
sintomas trazidos pelas histéricas (e posteriormente por
outros tipos de pacientes, não apenas homens histéricos,

“Por volta do ano de 1890, Breuer e Freud criaram uma


terapêutica na qual era a própria paciente histérica, ao
invés do médico, quem falava, começando com ‘Deixe-me
falar sobre o que me faz sofrer’.”
Sigmund Schlomo Freud

mas também neuróticos obsessivos, melancólicos e toda


uma gama de pessoas cujo sofrimento se enraíza na psique
em vez de no organismo) demorou até ser cartografado,
e Freud foi obrigado a transitar por certo número de
terapêuticas até que atingisse a psicanálise.

Por que dissemos que a cura que a psicanálise oferece


não é aquilo para o que se busca uma cura? Então, se uma
paciente chegasse com uma paralisia num membro, ou
com palpitações recorrentes, seguidas de desmaios, ou,
ainda, um medo persecutório intenso, nada poderia fazer
a psicanálise contra isso?
A resposta a essa pergunta é algo enigmático, portanto
não tentemos disfarçá-la: sim e não. É verdade que as
pessoas que procuraram a psicanálise, desde os seus
primórdios, foram capazes de encontrar alívio e mesmo
a cura para seus sofrimentos. Entretanto, não foi olhando
para esse sofrimento, ou mesmo procurando suas causas
imediatas, que a psicanálise encontrou sua terapêutica. Em
outras palavras, não foi colocando foco e atenção naquilo
que os pacientes diziam como sendo o que os fazia sofrer
que a psicanálise pôde curá-los: foi colocando atenção

26
27

em outra parte: no sentido que aqueles sintomas traziam


para eles.

Em outras palavras, é como se os sintomas, que tanto


maltratavam aqueles pacientes, fossem, na verdade, para
eles, uma forma segura, palpável, compreensível (ainda
quando dissessem: não entendo por que tenho isso; o fato
de tê-lo era ele mesmo compreensível), um sintoma que
colocavam, sem saberem eles mesmos que o faziam, no
lugar de algo cujo sentido não podiam compreender, ou
suportar, seja porque era ultrajante, imoral ou simplesmente
ilógico, mas que, no entanto, sentiam. É neste ponto que
entra a revolução introduzida por Freud: nem tudo aquilo
que sentimos está sob nosso controle, nem tudo está
sob o nosso julgamento consciente. Algumas coisas que
sentimos, pensamos, até mesmo fazemos, não obedecem à
nossa lógica normal e mesmo assim impõem-se com toda
a força a nós mesmos. Tal é um sintoma, que nos deixa
incapacitados para bem funcionar, ou uma inibição, que
ainda permite que funcionemos, mas aos tropeções, como
se fôssemos mancos; mancos e até mesmo gagos.

O poder do inconsciente

Para dar alguns exemplos, pensemos simplesmente na


tão comum procrastinação, ou seja, a atitude por meio
da qual deixamos alguma coisa para depois, sempre para
depois, ainda que seja algo absolutamente simples de ser
feito, até o ponto em que se torne um problema, algo difícil
de resolver, uma premência, uma pressão, quando antes
tínhamos tempo de sobra e poderíamos ter-nos livrado da
obrigação com facilidade. Por que fazemos isso? Preguiça,
simplesmente? Há algo de ilógico nisso; sabemos que não
faz sentido e, no entanto, o repetimos frequentemente. Por
quê? Desconfiamos que haja nisso algum sentido. Algum
Sigmund Schlomo Freud

motivo inconsciente.

Da mesma forma, mas talvez mais difícil de ser


admitido, às vezes nos pegamos imaginando coisas
horríveis acontecendo com pessoas de quem gostamos
demais. Pode ser que imaginemos um terrível acidente
na estrada quando essa pessoa sai de viagem, ou tememos
que haja um assalto e essa pessoa seja gravemente ferida
ou morta e que nada possamos fazer a respeito. É claro
que diremos: “Na verdade, isso tudo é o medo falando,
justamente o medo de que essas coisas aconteçam”. Não
desejaríamos isso para ninguém, mas em relação às
pessoas de quem gostamos isso é mais temido, enquanto
somos mais ou menos indiferentes às outras pessoas.

Mas por que esse pensamento tão obsessivo a respeito


de tais eventos? Por que esse temor tão frequente, tão
impositivo, quando na verdade os riscos não são tão
grandes assim, quando vemos claramente que estamos
exagerando? Que sentido haverá nessa insistência, nesse
temor exagerado? Trata-se de algo ilógico, mas algo que
não nos larga, como uma compulsão a pensar nessas coisas
que não nos larga, mesmo quando nos desagrada tanto.

Tudo isso é assunto do inconsciente. Se pudermos


examiná-lo, investigá-lo, até mesmo dialogar com
ele, descobriremos que todos esses pensamentos e
atitudes ilógicas têm, na verdade, algum sentido. Qual?
Infelizmente, ele se dá numa outra linguagem, que é preciso
traduzir. Felizmente, ele se dá numa linguagem e por isso é
estruturado de uma maneira que somos capazes de acessar
“Se pudermos examinar o inconsciente, investigá-lo,
até mesmo dialogar com ele, descobriremos que todos
os pensamentos terríveis e atitudes ilógicas têm, na
verdade, algum sentido.”

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29

caso tenhamos as ferramentas para isso. O inconsciente


não é, assim, uma massa informe, desconexa, sem sentido.
O que acontece é que suas conexões não são tão óbvias
e obedecem a algumas regras um pouco diferentes das
regras que regem nosso pensamento consciente. É preciso
estudá-las para poder acessá-las, é preciso estudá-las para
sequer reconhecer que existem. Foi isso que Freud fez. E
fez isso através dos sonhos, em primeiro lugar.
Sigmund Schlomo Freud

Capítulo 2
A NOVIDADE MAIS ANTIGA DO
MUNDO: INTERPRETAR OS SONHOS
30
31

E
ntão Freud criou essa hipótese, a de que
havia um inconsciente, um não sabido,
uma área da nossa mente, ou psique,
em que se desenrolava uma série de
pensamentos e sentimentos sem que a
eles tivéssemos acesso; a única forma de reconhecer
sua existência era através de algumas das suas
consequências: as formações do inconsciente: sonhos,
atos falhos, sintomas etc., todo tipo de manifestação
aparentemente nonsense por meio da qual era preciso
ler, como nas entrelinhas de um texto, um sentido
oculto, desconhecido. Qual seria o conteúdo que
as formações do inconsciente ocultavam? Seria
sempre o mesmo? Seria algo novo a cada caso? Como
estabelecer algum tipo de regularidade científica
nessas observações?

A busca pelas razões do sofrimento

No caminho para o desenvolvimento da psicanálise,


Freud estabeleceu algumas teorias a partir das quais
alguma previsibilidade pudesse ser estabelecida,
algum caminho, algum guia que nos respondesse, ao
longo do trabalho analítico: mas, enfim, o que é que
estamos procurando?

Dissemos, há pouco, sem que no momento


anunciássemos a razão, que uma análise não visa ao
autoconhecimento, mas a cura de um sofrimento.
Dissemos também que o que se cura não é aquilo
que se busca curar, mas outra coisa. O que isso quer
dizer, afinal, e o que isso nos ensina sobre o que é que
procuramos numa análise?
Sigmund Schlomo Freud

Se a busca de uma análise fosse o autoconhecimento,


então estaríamos procurando, evidentemente, algumas
características básicas, típicas, alguns elementos
padrão, particulares, por meio dos quais aquele
paciente específico estaria identificado. Feito esse
trabalho, o paciente teria adquirido um conhecimento
maior acerca de quem ele é e a análise poderia ser
encerrada (não estaria claro, porém, o momento
em que essa análise deveria se encerrar, o quanto
de autoconhecimento seria necessário ou desejável
atingir antes de considerar o tratamento satisfatório).

O que buscamos, entretanto, não é isso, mas as


razões do sofrimento daquela pessoa. É por isso que
afirmo que sem que haja um sofrimento não há motivo
para empreender uma análise. O que acontece, porém,
como também já mencionei, é que não é olhando
para o sofrimento, para a doença, que seremos
capazes de curá-los, mas olhando e, principalmente,
ouvindo aquilo que o paciente pode dizer a respeito
desse sofrimento. Ali sim está o conhecimento que
buscamos, as peças do quebra-cabeça que compõe o
sentido daquela doença aparentemente desprovida
de sentido.

É apenas quando esse conhecimento é alcançado, ou


seja, quando é exposto à luz do dia o mecanismo que
construía aquela doença, que lhe dava algum sentido,
que a doença pode ser curada: expor seu mecanismo
esvazia o sentido que a sustentava. No momento exato
em que o nonsense de um sintoma tem seu sentido
descoberto, deixa de ter sentido, ou melhor dizendo:
tal sentido esvazia-se, torna-se irrisório, irrelevante.
Este é o caminho da cura.

32
33

Freud e os sonhos

Fica para nós, agora, a seguinte pergunta: se era


preciso traduzir o nonsense do sintoma para um
mecanismo com sentido e era essa tradução que
permitia a cura, como foi que Freud aprendeu a
realizar essa tradução? Como foi que pôde traduzir,
pela primeira vez na história, a linguagem do
inconsciente, como pôde descobrir-lhe o sentido,
como pôde aprender a ler essa linguagem? Qual foi a
Pedra de Roseta que, à semelhança da descoberta do
sentido dos hieróglifos egípcios, permitiu que ele lesse
no inconsciente não como se fosse grego, mas uma
língua que ele falasse cotidianamente?

Temos ensaiado a resposta há várias páginas,


tentando nos certificar de que a pergunta estava bem
compreendida. A resposta é muito mais simples: foi
através dos sonhos.

Os sonhos possuem uma linguagem muito


particular, aparentemente ilógica, mas verdadeiramente
compreensível. Ela possui algumas regras próprias,
que Freud teve que descobrir. E ele descobriu essa
linguagem da única forma que poderia tê-lo feito:
examinando seus próprios sonhos. A linguagem
dos sonhos era, portanto, a própria linguagem do
inconsciente.

Mas já que analisou seus próprios sonhos, será

“Os sonhos possuem uma linguagem muito


particular, aparentemente ilógica, mas
verdadeiramente compreensível, com algumas regras
próprias que Freud teve que descobrir.”
Sigmund Schlomo Freud

que Freud era, então, um doente? E se era um doente,


terá alguma validade toda a descoberta que realizou,
não só a respeito dos sonhos, mas do tratamento
psicanalítico?

É preciso que se compreenda o seguinte: a estrutura


que constrói o pensamento normal é a mesma que
constrói o pensamento neurótico. A doença que afeta
algumas pessoas reside, na verdade, nos mesmos
processos que todas as pessoas, doentes ou saudáveis,
compartilham.
Freud descobriu que os sonhos que seus pacientes
possuíam funcionavam fundamentalmente da
mesma maneira que os seus próprios, assim como de
outras pessoas com quem tinha a oportunidade de
investigar essa questão. O que deixava essas pessoas
doentes, portanto, não era o fato de que possuíam
um inconsciente (o fato de que sonhavam, esqueciam
ou trocavam nomes e datas, revelavam verdades
vergonhosas durante uma distração no meio de um
discurso inocente); isso era comum, em maior ou
menor grau, a todas as pessoas, neuróticas, adoecidas

34
35

ou não.
O que as deixava doentes era o que elas eram
capazes de fazer com esse inconsciente. Freud
verificou, não sem a ajuda de seu colega e amigo (e
depois opositor e inimigo) Jung, a existência dos
complexos: agrupamentos intrincados, verdadeiros
nós que ocorriam na psique de uma pessoa a partir
de determinados elementos inconscientes mal
trabalhados, que produziam limitações e dificuldades
na vida psíquica desses indivíduos: sintomas, inibições,
angústia.

Assim, aquilo que uma pessoa saudável era capaz


de processar e lidar bem era para outra pessoa fonte
de angústia e conforme essa pessoa pudesse ou não
lidar com essa angústia, o resultado seria inibições ou
sintomas. Em outras palavras, essa pessoa adoeceria.

Estabelecida essa questão, Freud pôde confiar


em que, examinando seus próprios sonhos, suas
motivações, sentidos, ocultações e aquilo que restava
deles representado em sua vida atual, cotidiana, poderia
também compreender as regras de funcionamento (e
de não funcionamento) do inconsciente em geral: dos
saudáveis e dos neuróticos.

Foi assim que Freud pôs-se a investigar seus sonhos;


anotá-los pela manhã, quando ainda estavam frescos
na memória, e ao longo de vários anos, especialmente
a partir de 1897 até a redação da Interpretação dos
Sonhos, em 1899, mas realmente ao longo de toda
sua vida, e interpretá-los à luz do que era capaz de
elaborar, conscientemente, como sendo as motivações
para sonhá-los.
Sigmund Schlomo Freud

É interessante notar que a Interpretação dos


Sonhos é um título que remonta aos velhos manuais,
encontrados em todas as épocas, que atribuíam aos
sonhos um sentido e consideravam a atividade de lê-
los como algo essencial, prudente, até mesmo sagrado.
Grandes líderes no mundo inteiro e ao longo da história
haviam procurado adivinhos, curandeiros, sábios de
todo tipo, a fim de que interpretassem seus sonhos. Eles
eram tidos como mensageiros, oráculos, premonições;
de certa forma, os próprios sonhos eram considerados
interpretações de tudo que havia de enigmático no
mundo e que por meio deles adquiria algum sentido.

O livro de Freud, assim, resgata essa tradição, na


medida em que atribui aos sonhos um valor e um papel
essencial na maneira como nos colocamos no mundo.
Entretanto, afasta-se dessa tradição, aproximando-se
daquela mais científica, a mesma que insistia ainda
na ausência de significado nos sonhos, ao estabelecer
as regras pelas quais eram construídos e os elementos
comuns aos sonhos em geral, sua razão de ser e a
maneira como se articulavam com o resto da psique
humana.

O que Freud buscava nos sonhos, portanto, não era


algum segredo escuso, sujo, oculto da consciência, que
tornasse uma pessoa doente. Se, como de fato ocorria,
encontrasse nesses sonhos elementos desagradáveis,
pensamentos repreensíveis, mesmo imorais, coisas que
não aceitaria caso fossem pensadas conscientemente,
sabia, entretanto, que tal era uma ocorrência normal:
“O que Freud buscava nos sonhos não era algum
segredo escuso. Se encontrasse nesses sonhos
elementos desagradáveis, mesmo imorais, sabia que
tal era uma ocorrência normal.”

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todas as pessoas, não apenas as neuróticas, mas


também as saudáveis, teriam, uma vez ou outra, esse
tipo de pensamento: era esse o solo comum em que
brotavam nossos desejos, e assim como somos capazes
de reconhecer que nem todas as nossas intenções são
altruístas, mas ao contrário, gostaríamos de obter
algum benefício, mesmo que pequeno, de cada uma
das nossas ações, nem que seja a satisfação moral de ter
tido uma atitude não egoísta, também Freud percebia
que os sonhos carregavam características nem sempre
agradáveis, mas sempre verdadeiras, elucidativas a
respeito do que o motivava não apenas durante o sono,
mas durante a vigília também.

Sendo assim, a despeito das confissões em que


alguns sonhos se transformavam e que ele prontamente
relatava a seu amigo Wilhem Fliess, o que mais
interessava a Freud era o que eles diziam a respeito
do mecanismo do inconsciente. Por isso, começou a
estudar, em seus próprios sonhos, os mecanismos que
os construíam. É o que veremos a seguir.
Sigmund Schlomo Freud

Capítulo 3
OS MECANISMOS DOS SONHOS
38
39

A
partir da análise de seus próprios sonhos
e depois verificando suas descobertas
nos sonhos de seus pacientes, Freud
foi capaz de identificar alguns padrões,
se assim quisermos chamá-los, regras
a que a construção dos sonhos obedece, a fim de se
constituírem como tal. Seu número é relativamente
reduzido, de maneira que poderemos abordá-las
com relativa facilidade, o que nos levará também à
compreensão dos mecanismos e regras que regem o
inconsciente.

O tempo

A primeira delas nos faz refletir sobre a noção


de tempo: o que é o tempo?

Tempo é, antes de tudo, algo que percebemos,


algo que sentimos passar. Podemos ficar parados
numa sala, sem nos movermos, e após alguns
momentos diremos: tanto tempo se passou.
Como fazemos para medi-lo, como apreendemos
a passagem do tempo? Por meio de registros ou
sinais externos, que de fato não têm nada a ver com
a natureza do tempo em si, mas que são indício
de sua passagem. Sem recorrer a nenhum recurso
mecânico ou eletrônico, um relógio, por hipótese,
podemos dizer que algum tempo se passou quando
certo número de pensamentos cruzou nossa mente;
quando sentimos que temos mais fome ou sede do
que antes; que nossos músculos sentem necessidade
de se alongar ou se exercitar.

O tempo, portanto, pode ser registrado, claro


que de maneira imperfeita, subjetiva se comparada
Sigmund Schlomo Freud

à rigidez mecânica dos relógios, mas ainda assim


precisamente: sabemos que algum tempo se passou
porque, além do tempo, algo mais se alterou em nós
mesmos: processos internos se produziram, numa
certa sucessão, dando conta de que o tempo passou.
Algumas pessoas se orgulham de serem capazes
de afirmar com quase exatidão quantos minutos
se passaram após certo período, sem consultar o
relógio. Godard, o cineasta que tão bem explorava
a dimensão do tempo em seus filmes da nouvelle
vague, era capaz de prever, com segundos de erro,
a duração de um rolo de filmagem.

Ora, o que nos interessa aqui é que precisamente


nos sonhos essa dimensão temporal, tão íntima e
cara a todos nós, é simplesmente ignorada. Nada
num sonho nos diz: “Tanto tempo se passou; foi
muito, foi pouco”. A experiência mais próxima que
temos do tempo, num sonho, é a experiência da
velocidade. Entretanto, ela não é um meio eficaz
para medir o tempo dos sonhos, pois se trata muito
mais de um elemento lógico do que cronológico:
a velocidade se apresenta como a sucessão
ininterrompida de eventos e cenas; repetições
tornam qualquer registro temporal impossível:
descíamos num carro muito velozmente e quando
estávamos prestes a nos chocar, a mesma cena
era revivida de outro ângulo, como num desenho
animado que pretende prender a atenção, ou uma
teletransmissão esportiva. Talvez os famosos
relógios derretidos de Salvador Dalí sejam uma
referência demasiado óbvia a essa característica
dos sonhos.

Como teremos a oportunidade de verificar em

40
41

outros casos, essa característica do sonho reflete


outra, que diz respeito ao inconsciente de maneira
geral, não apenas ao sonho. Trata-se, assim, da não
existência do tempo para o inconsciente. É por essa
razão que somos capazes de sonhar, com a nitidez
de algo que se deu ontem à tarde, eventos ocorridos
em nossa infância, ou mesmo quando éramos bebês
de colo. Um velho pode se recordar, num sonho, de
uma impressão vívida de sua juventude sem que ela
tenha perdido em força e vivacidade. A contraparte
disso é sabida: sentimentos desagradáveis,
impressões ruins podem retornar e nos atormentar
depois de anos, reativadas por algum encontro
fortuito, um pensamento fora de hora ou uma
dificuldade semelhante que enfrentamos na vida
atual. O aparecimento de uma neurose (ou talvez,
se formos mais radicais, seu reaparecimento) se
dá justamente por essa característica: um conflito
mal trabalhado numa idade remota é de repente
trazido novamente à tona, mesmo e talvez mais
frequentemente quando não somos capazes
de remontar, conscientemente, àquele conflito
primeiro: é como se o trauma tivesse estado latente e
nenhuma passagem de tempo houvesse desgastado
minimamente sua força original.

Os sonhos, assim, não obedecem a uma sucessão


cronológica, mas lógica. Se não há passagem do
tempo, o que determina que os eventos neles
ocorram numa determinada ordem? Que ordem
pode ser essa, que não é temporal? Por que a
“O aparecimento de uma neurose se dá justamente por
um conflito mal trabalhado numa idade remota, que de
repente é trazido à tona, quando não somos capazes de
remontar, conscientemente, àquele conflito.”
Sigmund Schlomo Freud

narrativa de um sonho apresentaria primeiro isto,


depois aquilo, se não existe uma sucessão temporal
nesses eventos? Trata-se de uma sucessão lógica. Os
sonhos colocam, lado a lado, ideias aproximadas e
as retratam como se fossem ideias independentes.
Na verdade, trata-se, via de regra, de uma mesma e
única ideia, expressa de maneiras diferentes, como
alguém que, tentando explicar uma ideia complexa,
fizesse uma primeira tentativa e depois, vendo que
seu interlocutor ainda não compreende, retoma
a explicação, dessa vez utilizando uma estratégia
totalmente diversa: outros exemplos, outra
abordagem. Assim são as sucessões de eventos nos
sonhos: diferentes maneiras de tentar explicar a
mesma coisa.

Ou, em outros casos, trata-se de uma oposição:


duas ideias são apresentadas, num sonho, em
sucessão. O sonho está nos dizendo que uma nos
agrada, enquanto a outra não; com uma estamos de

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43

acordo, com a outra teremos problemas.

Isso nos leva à próxima característica importante


dos sonhos, outro mecanismo de que eles se
valem para construir suas narrativas. Trata-se do
deslocamento.

O deslocamento

Deslocamento é o nome que Freud dá à


habilidade que os sonhos têm de tomar determinado
aspecto, coisa ou palavra que queiram representar
e apresentá-los de outra maneira, de maneira
indireta, por assim dizer. Assim, uma paciente
sonha com dois homens, ambos desconhecidos, que
se comportam de maneira desagradável e repulsiva.
Ela olha para eles com muita preocupação e se sente
pessoalmente ultrajada por sua atitude. Por que ela
se importa tanto, e o que o sonho está querendo lhe
dizer? Pergunto-lhe quem são esses homens, mas ela
não sabe dizer, são desconhecidos. Pergunto a ela
como eles são. Ela os descreve: “O mais jovem tem
uma barba, o mais velho é careca”. Peço, então, que
ela me diga quais são os homens que conhece que
tenham barba ou sejam carecas. Imediatamente ela
diz: “Meu namorado tem barba, meu pai é careca”.
Tal é o fenômeno do deslocamento.

O que o sonho tentava lhe dizer era que


determinados comportamentos partilhados por
seu namorado e por seu pai eram-lhe repulsivos,
desagradáveis. Mas porque são pessoas de quem
ela gostava muito, o próprio pensamento de que se
tornavam, em algumas situações, pessoas repulsivas
lhe era penoso, difícil: ela não queria pensar
Sigmund Schlomo Freud

naquilo. O sonho, entretanto, faz esse trabalho


para ela: pensa sem saber que ela pensa. E o sonho
faz isso por meio desse disfarce, o deslocamento.
Em vez de fazê-la sonhar com o namorado, depois
com o pai, ambos agindo de maneira estúpida, o
que seria uma maneira certa de fazê-la acordar
irritada, o sonho representa essas pessoas, o pai e o
namorado, deslocando uma de suas características,
a barba ou a careca, para outra pessoa, uma pessoa
desconhecida, indiferente. Assim, ela é capaz
de confrontar-se com o comportamento que a
desagrada sem relacioná-lo imediatamente com as
pessoas de quem gosta. Depois, durante a análise,
no processo de interpretação dos sonhos, é capaz
de recuperar a ponte que faltava: “O homem com
barba é meu namorado, o homem careca é meu pai”.

Este é o mesmo recurso, chamado metonímia,


que aparece na poesia: toma-se uma parte de um
objeto, um aspecto particular dele, para representá-
lo todo. O sonho, como a poesia, não precisa
dizer: “Pai, namorado”. Basta que diga: “Homem
com barba, homem careca”. Quando o sonhador
estiver acordado e puder dividir essa experiência
com alguém em quem confie, poderá decifrar o
enigma e enfrentar, já que não está mais sozinho,
o pensamento que antes pensou sem saber que
pensou: que tanto seu pai quanto seu namorado
podem ser, às vezes, pessoas bastante desagradáveis.

E já que fizemos recurso à poesia, seguindo


a lição do psicanalista francês Jacques Lacan,
continuemos neste passo: se a metonímia tem sua
função no sonho, a do deslocamento, que função
terá aquela outra grande figura poética, a metáfora?

44
45

Será ela também um mecanismo de que se valem


os sonhos para contar suas verdades?

E sim, verificamos que isso acontece. Freud


chamou esse mecanismo de condensação. A
condensação é um fenômeno importantíssimo
de entender nos sonhos, pois ela nos ajudará a
entender também outros aspectos do inconsciente.

Como funciona a condensação

Se o deslocamento era tomar uma única


característica de algo a ser representado, seja uma
palavra ou uma coisa, e conferi-la a outra coisa, de
maneira que a primeira fique disfarçada, mesmo
quando descobrir o disfarce seja tarefa trivial, no
caso da condensação é mais complexo: múltiplos
objetos a serem representados, sejam palavras
ou coisas, são reunidos num único objeto no
sonho: várias pessoas tornam-se uma só; várias
ideias reunidas tornam-se uma mesma palavra, às
vezes sem significado nenhum; um único nome,
provavelmente estranho ou pouco usual, reúne
vários nomes de pessoas, coisas, até mesmo ideias
inteiras.

A tarefa de decifrar tudo o que se esconde atrás de


uma condensação não é simples. Também não ajuda
o fato de que essas coisas todas ficam sobrepostas
no sonho: ideias díspares se aproximam, dividindo

“A condensação é um fenômeno
importantíssimo de entender nos sonhos,
pois ela nos ajudará a entender também
outros aspectos do inconsciente.”
Sigmund Schlomo Freud

o mesmo espaço no sonho. É como se, no caso


acima, fôssemos obrigados a dizer: esta pessoa
com quem você sonha é o seu pai, mas também é
o seu namorado. Imagine que não há de ser muito
confortável para alguém ver que tanto o pai quanto
o namorado são vistos, em seu inconsciente, como
uma mesma pessoa. Este seria, sem dúvida alguma,
um pensamento incestuoso.

No entanto, os sonhos são capazes de pregar


essas peças, revelando sentimentos e pensamentos
bastante complexos e possivelmente desagradáveis.
Nem sempre devemos dar-lhes crédito da maneira
como aparecem, mas também seríamos negligentes

46
47

em ignorá-los por completo. Uma boa análise de


sonhos deve conduzir o sonhador a saber em que
aspectos de seu sonho e interpretação deve se fiar
e quais são apenas enganadores, aparecendo como
confissões tenebrosas, mas na verdade escondendo
aspectos mais sutis, porém também mais difíceis
de compreender.

É preciso sempre se lembrar disso: a interpretação


dos sonhos, como a análise, embora possa trazer
à tona pensamentos repreensíveis, desagradáveis,
não tem como objetivo purgar imoralidades, não se
trata de um confessionário. Trata-se de descobrir
pensamentos que pensamos sem saber que
pensamos ou, em outras palavras, inconscientes:
às vezes ignoramos esses pensamos pelo fato de
serem imorais, queremos ignorá-los; às vezes,
simplesmente são complicados demais para que nos
demos ao trabalho de lhes dar atenção no tempo
cotidiano. Essa é uma boa forma de permitir que
aqueles nós se formem e em vez de um novelo,
acabaremos com um belo emaranhado de linhas
no lugar de um inconsciente. Desse labirinto mal
orientado surgirão os sintomas e as inibições:
cumpre reencontrar o fio da meada e os sonhos
sempre são um bom guia para isso.
Sigmund Schlomo Freud

Capítulo 4
A REALIZAÇÃO DE DESEJOS
48
49

E
para que teria o sonho tanto trabalho? Por que
faria manobras tão sofisticadas, trabalhosas?
Por que não sonhamos simplesmente com
aquilo que queremos sonhar?

A formação de um sonho

Imagine o seguinte: uma criança, numa expedição


familiar (esta é uma das histórias que Freud conta em
seu livro, trata-se de um sobrinho seu), avista uma
cabana no topo de um morro. O grupo deseja atingir o
topo do morro a fim de visitar essa cabana e como ela
fica visível ao longo de todo o caminho, esse desejo é
alimentado constantemente. Após certo tempo, porém,
todos percebem que o caminho que falta ainda é longo
e já começa a escurecer. Por esse motivo, são obrigados
a abandonar a meta original e retornar para casa, sem
poderem entrar na cabana. Na manhã seguinte, a criança
anuncia que teve um sonho: estavam dentro da cabana,
ela pode descrever seu interior, o que fizeram lá, etc. O
que aconteceu?

A excitação do dia havia sido intensa. A criança havia


alimentado o desejo de visitar a cabana e provavelmente
teria tido dificuldades para dormir, tamanha a ansiedade
por realizar esse desejo. O sonho, então, exerce sua função:
para permitir que a criança durma, realiza esse desejo,
de maneira que ela possa conciliá-lo com a necessidade
de sono. O sonho, assim, não é apenas a representação
do desejo, mas sua realização própria. No dia seguinte,
a criança está satisfeita e embora saiba que não visitou
realmente a cabana, sente-se contente, como se o tivesse
feito.

Os sonhos dos adultos costumam ser mais complicados.


Sigmund Schlomo Freud

Nossos desejos frequentemente mais complexos e a


satisfação que um sonho pode nos trazer dificilmente se
realizam com a mera representação alucinatória. Nosso
mundo, muito mais simbólico e menos imaginativo do
que o da criança, exige outros tipos de satisfação. Para
além dessa dificuldade, nossos desejos costumam ser
contraditórios: não apenas visitar a cabana, por exemplo,
mas evitar pôr a família em risco, numa trilha desconhecida,
pela chegada da noite. As crianças podem não ter em vista
essas contradições, mas os adultos frequentemente as
têm. Dessa maneira, o mesmo sonho teria de ser bastante
sofisticado para dar conta de realizar, ao mesmo tempo,
esses dois desejos, de resto inconciliáveis como o eram
na realidade.

Por conta dessas dificuldades é que os sonhos dos


adultos passam por tantas alterações (deslocamentos
e condensações). Mais do que isso, nossos sonhos
conflitam tremendamente, não apenas com a realidade,
mas com nossas concepções morais. Desejamos coisas
que conscientemente não queremos. Mais ainda, nossos
sentimentos são carregados de ambiguidade e isso é
verdade também para as crianças.
Como no exemplo que dei agora há pouco, podemos
gostar muito de uma pessoa, mas também nutrir
sentimentos agressivos em relação a ela: sentimentos de
rivalidade, ou de desamor, os quais nem sempre estamos
abertos a admitir. Quando um conflito como esse se torna
muito premente, em função de algum acontecimento
recente, por exemplo, quando encontramos uma pessoa
de quem gostamos, mas ela tem exatamente aquela
atitude que nos desagrada, ou nos coloca numa posição
com a qual não conseguimos ficar confortáveis, então a
ambiguidade do que sentimos por ela se apresenta com
mais força e é grande a chance de que o sonho, em sua

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51

função de preservar o sono, tente dar conta dessas forças


antagônicas, realizando, a um tempo, o desejo simpático
àquela pessoa, mas também o desejo agressivo. Ele nunca
poderia fazer isso representando aquela pessoa como ela
é. Por isso, nos sonhos visitamos lugares que não existem,
vemos pessoas desconhecidas, verificamos que chamamos
a pessoa por um nome, mas temos claro em nossa mente
que se trata, na verdade, de outra pessoa.
Todas as características do que vemos nos sonhos se
tornam embaralhadas, por meio dos mecanismos do
deslocamento e da condensação, para que aqueles desejos
antagônicos possam ser representados, lado a lado, e a
ambiguidade possa aparecer com toda sua intensidade.

Com isso, podemos também compreender outra


característica dos sonhos e, com eles, do inconsciente.
Tal é a circunstância de não haver, nos sonhos nem no
inconsciente, a noção lógica de contradição. Não há nada
num sonho que possa representar a noção, cotidianamente
trivial, do ‘não’. O sonho representa coisas positivas: fatos,
pessoas, lugares, palavras. Suas representações de coisas e
de palavras são sempre afirmativas, nunca negativas. Um
sonho não conhece qualquer maneira de formular a ideia
de que “não é isso”.

Sonhos: realizações de anseios

Sobre essa questão, há uma história bem interessante


e que pode elucidar bastante a natureza dos sonhos e a
circunstância de que sempre sejam realizações de desejos,

“Não há nada num sonho que possa


representar a noção, cotidianamente trivial,
do ‘não’ — o sonho representa coisas positivas:
fatos, pessoas, lugares, palavras.”
Sigmund Schlomo Freud

embora nem sempre desejos dos quais tenhamos muita


consciência.

Freud tinha uma paciente, homossexual, levada à


análise por sua família, que desejava vê-la “curada”
desse “problema”. É importante notar que Freud nunca
se propôs curar uma homossexualidade, uma vez que
nunca a considerou uma patologia. Do ponto de vista da
psicanálise, é tão surpreendente que alguém se interesse por
alguém do sexo oposto quanto que se interesse por alguém
do mesmo sexo: a própria noção de libido voltada a um
objeto, ou seja, de desejo sexual por qualquer pessoa, é tão
complexa, passa por aspectos tão sutis e surpreendentes no
desenvolvimento da psique e é determinada por fatores tão
diversos e quase sempre tão imprevisíveis, que de fato não
faz diferença nenhuma, em termos de saúde ou doença, se
essa pessoa é do mesmo sexo ou de outro. A complexidade
é a mesma e os acidentes patológicos que daí podem
decorrer são igualmente prováveis. Do ponto de vista
clínico, ninguém está em melhor ou pior situação pelas
escolhas sexuais que fez (inclusive porque são escolhas
que não passam por nossa vontade consciente).

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Freud havia aceitado essa paciente não porque prometia


curá-la da sua suposta doença, mas porque verificava nela
um nível de angústia e sofrimento que acreditava poder
tratar. Tal angústia não se dava, sem dúvida alguma, pelo
fato de sua homossexualidade, mas por todos os conflitos
em que havia se metido, independentemente disso. Freud
pôs-se a escutá-la.

O que ocorre é que essa paciente rapidamente se


interessa pelo médico Freud e passa a falar bastante de
sua vida, com um interesse genuíno de colaborar com
o tratamento. Freud lhe explica, então, a natureza dos
sonhos, sua descoberta e sua tese bem defendida de que
eles eram, em sua totalidade, realizações de desejos. A
paciente demonstra compreender isso.

Na sessão seguinte, ela traz um relato de um sonho. Seu


sonho era, muito simplesmente, que fazia amor com um
homem. Exultante, afirma para seu analista: “Você tinha
razão, os sonhos são realizações de desejos e como acabei
de sonhar que beijava um homem, isto significa que estou
curada, não sou mais lésbica, meu interesse agora se volta
para homens”.

Freud não se deixou enganar. Ele sabia que se havia algum


homem por quem ela se interessava, era ele mesmo, e não
num sentido sexual: a análise produz um fenômeno que ele
havia descoberto anos antes, que chamou de transferência,
ou amor de transferência: o paciente sob análise passa
a atribuir ao seu analista poderes especiais, um tipo de
ascendência ou magnificência que normalmente não teria,
como se esse analista fosse a única pessoa, mais do que ela
própria, a compreender seus sentimentos, seu sofrimento.
Existe outro tipo de transferência, a transferência negativa,
em que a supervalorização do analista é substituída pelo
Sigmund Schlomo Freud

rancor e pelo desgosto, mas isso escapa ao nosso assunto


agora. Prossigamos.

As transferências e os sonhos

O amor de transferência, que não deve ser confundido


com o desejo sexual, significava, neste caso, que a
paciente se inclinava a satisfazer Freud naquilo que
supunha serem seus desejos: no caso, o de curá-la da sua
homossexualidade. Ora, nem era esse o desejo de Freud,
nem o dela. Seu sonho, concluiu Freud, não significava a
realização do desejo por um homem, como parecia ser.
Significava, sim, a realização do seu desejo de satisfazer
Freud, como se dissesse para ele: “Veja, você tinha razão,
você é um terapeuta excepcional, estou curada”. É como
se o inconsciente mentisse: fingindo estar curada de sua
homossexualidade, sonhando com um homem, ela pôde
realizar o desejo de que Freud fosse bem sucedido em
sua tarefa, coisa que, de resto, não desejava em hipótese
alguma.

O inconsciente, como o sonho, não conhece o não,


não conhece a contradição. Dessa maneira, o sonho não
se manifesta de maneira negativa, não diz: “Eu não sou
heterossexual, não me interesso por homens, sua terapia
não terá efeito sobre mim”. Ele se manifesta de maneira
positiva, sempre. Diz, ao mesmo tempo: “Sua terapia
funciona, veja, e como! Eu me interesso por homens,
estou curada! Você é um ótimo terapeuta”. Ao mesmo
tempo, porém, conforme realiza o desejo de satisfazer seu

“O inconsciente, como o sonho, não conhece o não,


não conhece a contradição. Dessa maneira, o sonho
não se manifesta de maneira negativa, mas de
maneira positiva, sempre.”

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terapeuta, desejo proveniente do amor de transferência,


ela se vale dessa transferência, sem que o sonho fale disso
explicitamente, mas o que Freud percebe com astúcia, para
justamente minar o tratamento.

Aí está a ambiguidade do inconsciente, que se


manifesta não por um ‘sim’ e um ‘não’, mas por dois ‘sim’,
já que o inconsciente não conhece o ‘não’: de um lado,
“Sim, o tratamento funciona” e de outro, “Sim, como
estou curada, não preciso mais de tratamento, posso ir
para casa e continuar sendo quem eu era”. Freud chama
esse movimento de duplo, sempre presente quando há
transferência e, como neste caso, frequentemente valendo-
se da transferência, da resistência: ela se vale do amor
de transferência e de sua demonstração de afeto pelo
terapeuta para dar um fim à análise: “Estou curada (o
que o sonho afirma, positivamente), logo não preciso mais
de tratamento”.

Para Freud, que não tentava tratar sua homossexualidade,


mas seu sofrimento, a análise não estava terminada. Mas
é frequente que os pacientes resistam ao tratamento,
apegando-se aos próprios sintomas e ao próprio sofrimento,
que têm ao menos a vantagem de serem familiares, para
evitar lidar com questões bastante complexas, que podem
levá-los, como os sonhos de Freud o levaram, a algumas
verdades nem sempre triviais a respeito de si próprios. Por
exemplo, nesse caso, a descoberta, mais cedo ou mais tarde
inevitável, de que o amor é complexo, difícil e nos torna
mais suscetíveis ao sofrimento, seja esse amor sentido por
um homem ou por uma mulher.

Todo sonho, portanto, é uma realização de desejo,


embora às vezes seja a realização de mais de um desejo
e ainda que às vezes o desejo que realiza não seja o mais
Sigmund Schlomo Freud

óbvio, o mais evidente, como vimos no caso anterior.


E isso nos dá, finalmente, a característica mais
própria dos sonhos, portanto, o mecanismo sem o qual
não podemos entender a primeira coisa a respeito da
interpretação dos sonhos. Tal característica é a seguinte:
todo sonho possui não apenas um conteúdo aparente,
manifesto, mas também um conteúdo latente, que é
preciso interpretar para descobrir. O exemplo acima
explica isso: no conteúdo manifesto, a homossexual tem
desejo por um homem, portanto vê-se curada. O conteúdo
manifesto não é aquele que mais nos interessa numa
análise, mas sim o conteúdo latente. Naquele caso, o desejo
de satisfazer o analista, apresentando sua terapêutica como
bem-sucedida e, mais ainda, o desejo de se ver livre da
análise, apresentando-a como concluída. Desejo que é,
na verdade, produto da resistência, presente em toda e
qualquer análise, e também de uma interpretação errônea
de quais seriam os objetivos daquela análise, mas nem por
isso menos intenso.

Quando dizemos, portanto, que todo sonho é a


realização de um desejo, não dizemos que essa realização
se dá, necessariamente, no nível do conteúdo manifesto,
mas quase sempre, isso sim, no nível do conteúdo latente.
Quase só as crianças realizam os desejos de seus sonhos
no conteúdo manifesto. É preciso muitas vezes interpretar
o sonho, fazer associações às vezes muito complexas até
chegar ao conteúdo latente, onde se achará, sem exceção,
a realização de um ou mais desejos.

E isso nos traz à segunda parte de nossa investigação.


Dissemos que Freud havia, com esforço pessoal tremendo,
chegado à raiz dos sonhos, ao significado que guardavam
por trás de todo seu nonsense e disfarce ilógico, ou seja,
a lógica própria que os rege, a realização de desejos.

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57

Dissemos também que este foi um momento inaugural


para a psicanálise, a autoanálise de Freud criando um
mecanismo a partir do qual todas as análises poderiam
se realizar.
Chegou um momento, porém, em sua carreira, em que
Freud deu-se conta de que talvez sua teoria não estivesse
correta, ou pelo menos não estivesse completa. Este foi o
momento da Primeira Guerra Mundial. Freud havia, até
então, falado de desejos e do conflito entre desejos, desejos
antagônicos, contraditórios, abrigados num inconsciente
que desconhece o princípio da contradição. O fato da
Primeira Guerra força uma mudança neste panorama:
como continuar a falar no desejo como grande motor do
inconsciente quando as pessoas se lançam numa guerra
brutal, inconsequente e em escala mundial? Algo estava
fora de prumo, e Freud não recuaria em incluir em suas
teorias alguma explicação para isso, ou melhor: não
deixaria suas teorias intactas, ignorando o que a realidade
lhe mostrava. É disso que trataremos a seguir.
Sigmund Schlomo Freud

Capítulo 5
FREUD E O DESAFIO DA GUERRA
58
59

D
esde o começo de suas pesquisas, Freud havia
se detido sobre a seguinte questão: o que move
nosso psiquismo, se a consciência é apenas
a ponta do iceberg, havendo quase que um
continente submerso, no qual se desenrolam
sentimentos e pensamentos, do qual pouco ou nada sabemos,
o inconsciente? Então, o que move esse continente, que não
é nossa vontade? Quais são as energias que ali circulam, que
tipo de economia rege os impulsos que daí derivam, que faz
com que alguns possam ser expressos, enquanto outros não,
que produz conflitos, etc.?

O princípio de prazer

Com essa perspectiva, Freud estabeleceu um princípio,


o qual denominou “princípio de prazer”, o qual regeria,
inicialmente, toda nossa atividade psíquica. Segundo
esse princípio, todo organismo busca um estado de pouca
excitação, ou relaxamento, repouso; tudo aquilo que aparece
como movimento ou excitação aparece como desprazer.
O desprazer pode ter razões externas, como algo que nos
machuca, ou o frio, ou calor, ou barulhos muito intensos, etc.,
ou razões internas, como a fome, o sono, etc. A excitação sexual
também entraria na conta do desprazer: uma agitação que,
tirando o corpo do repouso, passa a exigir satisfação, que haja
algum prazer antes dessa satisfação, é como que um prazer
preparatório, preliminar, que concorre com o desprazer da
exigência de satisfação. Essa era a leitura que Freud fazia no
começo de suas pesquisas.

Freud tinha em mente, ao falar do princípio de prazer, duas


coisas. Por um lado, pensava em crianças muito pequenas,
bebês, para quem esse princípio é o principal regente de sua
atividade psíquica. A tal ponto que afirma: a criança, ao sentir
Sigmund Schlomo Freud

fome, espera que sua fome seja satisfeita. E ela o é, pelo menos
num número razoável de vezes, cedo ou tarde. Entretanto, o
psiquismo do bebê não está preparado, a princípio, para lidar
com a ausência dessa satisfação. O princípio de prazer exige que
a agitação produzida pela fome seja de alguma forma aplacada.
É por causa disso, afirma Freud, que a criança, enquanto não é
materialmente satisfeita, alucina essa satisfação: alucina o peito
que vai lhe dar de mamar e continua alucinando até que isso
aconteça. Para o psiquismo dessa criança, não há diferença
alguma entre a satisfação real e a satisfação alucinada: toda
sua representação da realidade se dá por meio do princípio
de prazer.

Logo, podemos observar que um ser humano não tem


muito futuro se permanece com uma configuração psíquica
assim limitada. É preciso que ele tenha alguma forma de
estabelecer alguma diferenciação entre a satisfação real e a
alucinada, é preciso que reconheça a realidade. Nesse ponto,
diz Freud, é que a criança, após certo número de satisfações
mais ou menos completas, ou seja, nunca inteiramente
completas, mas também não totalmente ausentes, aprende a
criar uma representação psíquica simbólica, separando aquilo
que está presente daquilo que está ausente. Freud chamou isso
de “princípio de realidade”.

O princípio de realidade

O princípio de realidade, então, é o que permite à


criança – e posteriormente ao adulto – adiar a experiência
de satisfação, conformando-se com as condições materiais
em que se acha, eventualmente possibilitando também que
produza movimentos na direção dessa satisfação. É assim que
a criança pode, a partir de certo ponto, não apenas aguardar
que o peito seja colocado em seus lábios para que possa se

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alimentar, mas também que se movimente na direção daquilo


de que necessita e quer. Já crescida, ela poderá fazer uso de
outras faculdades, motoras, intelectuais, etc., no sentido de
contornar as dificuldades do mundo, adiando a experiência
de satisfação, abrindo mão da perda da realidade contida na
alucinação satisfatória, até que possa encontrar na realidade
o objeto que busca.

Por algum tempo Freud considerou, portanto, que o


psiquismo era fundamentalmente regido por esses dois
princípios, o de prazer e o de realidade. Não seriam, porém,
princípios antagônicos. Continuava prevalecendo o princípio
de prazer. O princípio de realidade seria apenas um princípio
auxiliar, para garantir uma adaptação do princípio do prazer
à realidade, de maneira que a satisfação almejada fosse
concreta, o que, de certa forma, protegia o Eu da criança, e
depois do adulto, da aniquilação certa, caso continuasse apenas
alucinando sua satisfação e não indo em direção a realizá-la. O
princípio de realidade estava, dessa forma, não apenas a serviço
do princípio de prazer, mas também a serviço da conservação
do Eu.

A energia psíquica, chamada por Freud de libido, era o que


movia esse mecanismo. Era a libido que buscava satisfação,
que buscava um apaziguamento, repouso, busca essa expressa
pelo princípio de prazer. Ao mesmo tempo, era a libido que
se manifestava no princípio de realidade: a libido, voltando-
se para o próprio Eu, tencionava preservá-lo da aniquilação.
O princípio de realidade, portanto, servia para atender a
essa exigência: que o Eu não fosse aniquilado pela ausência
completa de satisfação das necessidades (já que, se fosse apenas
“Por algum tempo Freud considerou que o
psiquismo era fundamentalmente regido
pelos princípios de prazer e de realidade,
que não seriam, porém, antagônicos.”
Sigmund Schlomo Freud

pelo princípio de prazer, essa satisfação poderia ser alucinada


ao invés de concreta).

Freud nunca pôde afirmar com certeza em que se


fundava a libido. É outro capítulo importante da psicanálise
sua insistência em localizar nos impulsos sexuais a origem
de toda energia no organismo. Que essa energia depois se
diferenciasse, dirigindo-se para outros objetos que não os
sexuais e tivesse outros destinos que não a satisfação sexual,
não alterava o fato de que Freud sempre insistiu em que, na
origem, toda energia ou pulsão é sexual. Eram as análises que
ele empreendia que o levavam a pensar dessa forma, assim
como os conteúdos sexuais descobertos em si mesmo por
meio de sua autoanálise, depois expostos e explorados nos Três
Ensaios sobre a Sexualidade, texto de 1905, já mencionado
aqui e que trata, fundamentalmente, da sexualidade infantil.

Também é importante notar que, para a criança muito


pequena, essa sexualidade não é expressa através da busca
por objetos sexuais externos, mas sim por uma autossatisfação,
voltada para si mesma. Isso é perfeitamente expresso no
princípio de prazer: o bebê parece se bastar, ainda que,
materialmente, seja totalmente dependente. Na verdade, no
começo o bebê nem sequer tem a percepção de que sua mãe é
externa a ele: são como uma mesma coisa, não há diferenciação.
Trata-se de um estado simbiótico do qual as mães participam,
em certa medida.
Posteriormente, com a introdução da representação
simbólica da presença e ausência do objeto de satisfação e,
portanto, com a introdução do princípio de realidade, a criança
já pode começar a dispor de sua libido de outras maneiras, não
apenas voltada para si e para sua autoconservação (embora
parte dessa libido permaneça assim alocada por toda a vida
– quando ficamos doentes, por exemplo, perdemos parte
do nosso interesse pelo mundo externo e nos voltamos para

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dentro, em busca de preservar nossa própria integridade): a


criança começa a voltar seu interesse para coisas externas a si.

É nesse ponto que se introduz a temática do desejo de que


tratamos anteriormente. O desejo, por causa disso, é sexual
em sua origem, mas desvia-se dessa meta por meio de uma
série de processos, muito semelhantes, aliás, aos processos que
acontecem nos sonhos: deslocamento e condensação, se bem
nos lembrarmos (vide capítulo 3).

A pergunta que nos fazemos, neste ponto, é a seguinte:


se os sonhos são a realização de um desejo e se esse desejo
é sexual em sua origem, como podemos sonhar com coisas
desagradáveis, coisas detestáveis, coisas que não se aparentam
em nada com desejos?

São duas as respostas a essa pergunta.


Sigmund Schlomo Freud

Alguns sonhos parecem ser sonhos ruins e de fato o são, mas


apenas em um determinado aspecto. Como dissemos, o sonho
possui um conteúdo manifesto e um conteúdo latente. Pode
ser que no conteúdo manifesto o sonho seja algo ruim, mas
no conteúdo latente seja a realização de um desejo. É possível,
por exemplo, que ao acordarmos tenhamos a lembrança de ter
tido um sonho ruim, mas apesar disso temos uma sensação
boa, como se o sonho na verdade tivesse sido um sonho bom.
É porque de fato o foi, mas apenas no conteúdo latente. Se o
interpretarmos, seremos capazes de compreender por que esse
sonho nos tranquilizou, apesar de aparentar ser desagradável.

Um bom exemplo disso são os sonhos típicos de falharmos


em provas. Por exemplo, sonhamos que estudamos para uma
prova, mas no momento de escrever, damo-nos conta de
que não nos lembramos de nada, ou então que lembramos,
mas somos incapazes de transcrever para o papel, ou, ainda,
simplesmente não estudamos e não temos ideia de como
responder às perguntas. Aparentemente trata-se de um sonho
ruim. Se o analisamos, entretanto, verificaremos, via de regra,
que a matéria com que sonhamos é uma que justamente nunca
se apresentou a nós com dificuldade, ou então que fomos
capazes, num momento bastante significativo, de superar
essas dificuldades definitivamente. Tais sonhos são frequentes
à véspera de desafios que sabemos que deveremos enfrentar. O
conteúdo latente desses sonhos deve ser lido, assim, da seguinte
maneira: “Desejo que as dificuldades que hoje enfrento, para
as quais me preparo, embora pareçam intransponíveis, sejam
superadas com a mesma facilidade como na juventude superei
aquelas provas, que já não me metem mais medo e de fato
parecem triviais. Em outras palavras: que o desafio para o qual
me preparo agora não me seja mais dificultoso do que as provas
de matemática que tive de enfrentar e que nunca me causaram
problemas”.

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São, portanto, sonhos cujo conteúdo manifesto é


desagradável, mas cujo conteúdo latente constitui, como todo
sonho, a realização de um desejo.

Outra situação que pode nos deixar em dúvidas quanto


a que o sonho seja uma realização de desejo são os sonhos
em que coisas ruins acontecem a pessoas de quem gostamos
muito. Tal é o caso, por exemplo, de sonhos em que membros
de nossa família morrem. Dificilmente poderíamos dizer que
esses sonhos são a realização de um desejo, mas de fato o são.
Se pudermos, com alguma coragem, como Freud teve, analisar
tais sonhos e as emoções que eles acompanham, veremos que
não nutrimos, pelas pessoas especiais de nosso convívio e de
quem tanto gostamos, apenas sentimentos positivos. Junto
com esses misturam-se também sentimentos negativos e junto
com todo amor há uma parcela de ódio e até mesmo desprezo.

Não é incomum que justamente em relação às pessoas


que nos são mais próximas e em relação a quem nutrimos
o maior amor e respeito não sejamos capazes de reconhecer
também a parcela de desagrado que essas pessoas nos causam e
é justamente nessas situações que teremos sonhos como esse. A
realização de desejo aí significa a expressão da ambiguidade do
nosso afeto: por mais que gostemos de alguém, também temos
nossas ressalvas em relação a essa pessoa, nossa desconfiança,
às vezes certa rivalidade ou inveja e, finalmente, até mesmo
ódio. Que esses sentimentos negativos não sejam prevalentes,
ou seja, tenham pouca importância diante do amor que
sentimos, não impede que também necessitem de alguma
expressão e se evitamos, com alguma razão, dar-lhes expressão
consciente, então o inconsciente se encarrega disso e é por essa
razão que sonhamos coisas desagradáveis e mesmo terríveis
acontecendo a essas pessoas. Não devemos exagerar esses
sentimentos ruins apenas porque aparecem num sonho, mas
também seria equívoco ignorá-los completamente, fingindo
Sigmund Schlomo Freud

que não são nossos.

Entretanto, nem todos os sonhos se explicam dessas


maneiras. Isso é o que nos traz à questão enfrentada por Freud
com a chegada da Guerra. Existem sonhos que efetivamente
não escondem um desejo ambíguo, ou um desejo claro,
inequívoco, escondido atrás de um conteúdo manifesto. Há
sonhos que são, por exemplo, a repetição de um trauma. Foi
isso que Freud verificou, ao tratar os chamados neuróticos de
guerra, soldados ou trabalhadores do front que repetiam em
seus sonhos experiências traumáticas, experiências acontecidas
e totalmente afastadas de qualquer desejo. Como isso poderia
acontecer?

De acordo com o princípio de prazer, não poderia. O


princípio de prazer deveria afastar essas experiências, evitando,
assim, a agitação da psique, com a finalidade de manter o
repouso prazeroso. O princípio de realidade também não tem
interesse em repetir tais experiências, já que são passadas e
não são capazes de aproximar o Eu da satisfação de nenhum
desejo ou prazer: repetir um trauma não nos afasta dele, mas
nos aproxima; não apazigua uma excitação, mas a produz. Por
que, então, isso aconteceria?

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Além do princípio de prazer


Freud passou a desconfiar de sua teoria do princípio
de prazer quando se deparou com esses fatos. Não eram
exceções mal analisadas, mas uma quantidade surpreendente
de pessoas, adoecidas pela guerra, que pareciam se afastar
do funcionamento do princípio de prazer, assim como do
princípio de realidade que o serve, e repetir, de maneira até
mesmo alucinatória, experiências não de satisfação, mas de
desprazer, experiências de trauma e de horror.

Foi com isso em mente que Freud reviu sua teoria num
texto chamado, muito propriamente, de “Além do princípio
de prazer”. Nesse texto, ele tentava explicar como esse tipo de
experiência, que havia observado em muitos de seus pacientes,
seria possível.

A chave para a compreensão disso veio de maneira muito


insuspeita, como várias das descobertas freudianas. Um dia ele
observa um de seus netos, então um bebê que ainda mal falava,
brincando com um carretel de madeira. Ele se achava sobre a
cama, por sobre a qual pendia um dossel, uma dessas armações
de madeira que havia em algumas camas antigamente. Esse
dossel, forrado por um tecido, criava uma cobertura, como
uma cortina, separando a cama do resto do quarto. O garoto,
então, jogava o carretel para além da cortina, onde desaparecia,
ficando preso apenas por uma corda que ele mantinha segura.
A seguir, puxava o carretel de volta, pela corda, fazendo-o
reaparecer. Repetia a brincadeira incessantemente e aparentava
desfrutar de um grande prazer nisso.

Junto com o movimento do carretel, a criança pronunciava


duas sílabas, mal articuladas, que Freud interpretou como
sendo o fort e o da, que em alemão, sua língua, significam:
lá fora e aqui. Trata-se de uma brincadeira, muito parecida,
Sigmund Schlomo Freud

na verdade, com o nosso “Cadê?... achou!”, com que nos


divertimos com as crianças bem pequenas.
Freud identificou, nesse movimento repetitivo, duas coisas
importantíssimas, que mudaram a história da psicanálise
para sempre. É claro que tal não teria ocorrido se ele não
estivesse voltado para a problemática da repetição com que
havia se deparado nos neuróticos de guerra. Lembramos que
a pergunta que rondava sua mente era: por que repetem eles
experiências traumáticas se isso está em completo desacordo
com o princípio de prazer que deveria reger sua economia
psíquica?

A repetição do movimento de desaparição e reaparecimento


do carretel através da cortina fez Freud lembrar-se de sua
questão. Percebeu, ali, que aquilo que seu neto repetia, de
maneira prazerosa, era, na origem, um trauma: a separação
e posterior reaparecimento de sua própria mãe. De fato, essa
é uma das primeiras experiências traumáticas por que passa
toda criança. Aquele mesmo ser que a supria de todos os afetos
e necessidades, ao ponto mesmo de confundir-se com ela a
princípio, torna-se de repente alguém independente, que vem
e vai à vontade, podendo faltar, podendo não estar disponível,
deixando-o só. Leva algum tempo até que o bebê se acostume
a essa flutuação e mesmo crianças maiores não são imunes às
impressões desse primeiro trauma: lembremos que algumas
crianças, ao deixarem o lar para irem à escola pela primeira
vez, costumam chorar muito e às vezes é preciso deixá-las à
força, tal é a dificuldade de se separarem dos pais.

A pergunta de Freud, então, se volta para aquele pequeno


ser, certamente não um neurótico de guerra, mas ao contrário,
alguém que elaborava com uma visível expressão de prazer
aquele trauma anterior. Freud se deu conta, então, de que a
estratégia de que o psiquismo se valia, naquele caso, era muito
simples: ao repetir a experiência traumática, representando-a

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69

externamente a si, fazendo o carretel desaparecer e reaparecer


como acontecia com sua mãe, ele se tornava participante ativo
nessa experiência: deixava, portanto, de ser o objeto passivo
que era abandonado e recuperado por ela, mas o agente
dessa separação, que podia, à vontade, fazê-la desaparecer e
retornar. Essa representação, simbolização, processada pelo
ato de repetir a experiência, permitia ao pequeno suportar
aquele trauma e em alguma medida, ou seja, simbolicamente,
ter controle sobre ele. Deixava de ser a vítima para se tornar
o responsável.

Com isso, Freud pôde dar-se uma explicação satisfatória


para o que acontecia com aqueles pacientes retornados do front
de batalha que havia tratado. Eles repetiam infindavelmente a
experiência traumática na tentativa de elaborá-la, na tentativa
de aproximar-se dela no sentido de não mais ser a vítima,
mas o responsável. É claro que as condições em que se dão
as guerras, inclusive pelo fato do alistamento obrigatório, que
faz com que as pessoas sejam obrigadas a matar ou arriscar
serem mortas por valores ou objetivos que não são diretamente
seus ou com os quais não estão de acordo – é preciso lembrar
que, antes da guerra, as nações em guerra não eram nações
inimigas, mas vizinhas, havendo relações amistosas e laços
afetivos entre pessoas de todos os países depois envolvidos
no conflito – tudo isso faz com que o processo de elaboração
dessa experiência traumática em particular seja extremamente
difícil e custoso e às vezes não chegando a qualquer resultado.
Por isso é que aqueles soldados não repetiam, como o neto de
Freud, com prazer suas experiências traumáticas, mas com
dor e com horror. Infindavelmente.

“As condições em que se dão as guerras fazem com


que o processo de elaboração dessa experiência
traumática em particular seja extremamente difícil e
custoso, e às vezes não chega a qualquer resultado.”
Sigmund Schlomo Freud

Capítulo 6
ALGUÉM ALÉM DO EU
70
71

F
reud constatou, mais ou menos por essa
época e examinando os mesmos fenômenos,
ainda outra razão pela qual alguns sonhos
se expressavam não pela realização de um
desejo do Eu, mas de uma maneira que
parecia francamente contrastante com esse desejo,
como se esses sonhos contrariassem os desejos do Eu
em vez de expressá-los.

Freud nunca recuou de sua hipótese primeira, a


de que os sonhos eram a realização de um desejo, de
maneira que suas novas observações eram bastante
inquietantes. Num certo número de ocasiões, os
desejos que esses sonhos realizavam não podiam ser
atribuídos ao Eu do sonhador de maneira alguma. Do
que se tratava?

Neste ponto, Freud resgatou uma observação que o


havia interessado muito tempo antes. A observação do
fenômeno da autoconsciência.

A voz da consciência
Parecia que alguns doentes sofriam de um fenômeno
relativamente incomum, por meio do qual podiam
ouvir, como vozes exteriores, ordens ou comentários
dirigidos a si. Tais ordens viriam na forma “faça isso,
senão algo ruim acontecerá a você ou a alguém que
você ama”. Tais comentários vinham na forma: “veja,
agora ele vai fazer isso, vai caminhar naquela direção,
vai abrir aquela porta; agora ele vai dizer isso ou aquilo”.
O doente ouvia tais comentários e ordens dirigidos a si
mesmo como vindos de algum estranho. Ainda que os
pudesse acompanhar com um movimento de lábios, isto
não era realmente necessário: sua alucinação auditiva
Sigmund Schlomo Freud

podia prescindir de qualquer apoio material.

Tais manifestações estranhas, exageradas e


patológicas, Freud reconheceu rapidamente como
sendo a ampliação de um fenômeno muito comum,
existente também nas pessoas saudáveis. Tal era o
fenômeno da autoconsciência. Isso é muito comum
na psicanálise: aspectos normais da psique humana,
presentes em pessoas saudáveis, quando exagerados
ou perturbados por alguma unilateralidade acabam
transformando-se num fenômeno patológico, havendo
entre um doente e uma pessoa saudável menos uma
diferença qualitativa, como se poderia esperar, e mais
uma diferença quantitativa. No caso presente, o que
era exagerado é o que chamamos, não sem motivo,
de voz da consciência: a ideia de que há, em cada um
de nós, uma instância superior, ponderada e cheia
de autoridade, embora às vezes também algo cruel,
demasiado exigente e incansável, ordenando que nos
comportemos de determinada maneira, e não de outra,
empurrando-nos um pouco para frente, contra nossa
própria preguiça e indolência, um pouco para baixo,
deprimindo-nos sempre que não parecemos estar à
altura de tais demandas.

Assim, a sensação de culpa que sentimos ao deixar de


realizar algo, ou quando achamos que nosso desempenho
está aquém do que esperávamos de nós mesmos, não
pode ser atribuída simplesmente às exigências externas
que sofremos, como as exigências de nossos pais, de
autoridades a quem nos submetemos voluntariamente,
como chefes, por exemplo, ou mesmo pessoas que
miramos e em quem tentamos nos espelhar. Também
não podemos atribuir tais exigências ao nosso próprio
Eu, pois elas contrastam com esse Eu. Por exemplo,

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73

quando nos exigimos sair da cama cedo num dia em que


não havia qualquer compromisso que nos obrigasse: o
Eu gostaria de ficar mais tempo dormindo, mas algo
em nós exige um esforço extra, quem sabe começar
uma rotina ou hábito novo, quem sabe cumprir algo
que sempre adiamos, etc.

O superego

À outra parte de nós que assim nos exige, Freud


deu o nome de superego, ou supereu. O prefixo super
aí não deve ser entendido como de algo mais forte,
mais capaz, mais inteligente, como alguma espécie
de versão super-herói do Eu. Em vez disso, super aí
deve ser entendido como algo superior: tanto como
uma autoridade que ascende sobre o Eu quanto uma
espécie de supervisor, que observa o que o Eu faz e o
mede, comparando seu desempenho com algum ideal.
Caso o Eu se mostre inferior ao ideal (como é de se
esperar), o supereu atua no sentido de criticá-lo e até
mesmo agredi-lo. Todos conhecem essa experiência,
quase sempre desagradável, em maior ou menor grau:
sentimos que há algo em nós (podemos chamá-lo
pelo nome técnico, supereu, mas também podemos
chamá-lo consciência, autoconsciência, autoestima,
etc.) que se manifesta quando falhamos em algo, ou
agimos em desacordo com algum ideal que tínhamos:
recriminamos a nós mesmos, colocando-nos para
baixo, às vezes distribuindo, impiedosamente, críticas

“Sentimos que há algo em nós que se manifesta


quando falhamos em algo, ou agimos em desacordo
com algum ideal que tínhamos: recriminamos a nós
mesmos, às vezes distribuindo críticas impiedosas à
nossa própria conduta.”
Sigmund Schlomo Freud

e xingamentos à nossa própria conduta. Não é o Eu


que assim se dirige a si mesmo; trata-se de outra parte,
alguém além do Eu, mas que faz parte de nós mesmos,
que faz isso.

Tal era o fenômeno que Freud havia observado,


estudado e que agora retornava à sua mente, trazido
pelos sonhos que o surpreendiam por não parecerem
realizar desejos do Eu, conforme sua teoria costumava
exigir. O que Freud concluiu, portanto, é que esses
sonhos, que tratavam o Eu com particular crueldade,
podendo ser facilmente classificados como sonhos
ruins, eram sonhos que, na verdade, realizavam desejos
não da parte de nós representada pelo Eu, ou mesmo
desejos ocultos do Eu, inconscientes, como tantas vezes
acontece e que tivemos a oportunidade de examinar.
Nestes casos excepcionais, embora nem tão raros assim,
o que acontecia é que os sonhos atuavam no sentido
de realizar desejos dessa outra parte do Eu, que estava
como que acima dele, o superego, ou supereu.

Quando isso acontecia, o sonho se comportava


da mesma maneira como a consciência quando julga
que o Eu não está cumprindo satisfatoriamente suas
exigências. O sonho, como o supereu, agia com o Eu de
maneira julgadora, incriminadora e até mesmo cruel,
como se fosse a um tempo “promotor, juiz e algoz”, na
feliz – mas dura – expressão freudiana. O supereu, dessa
forma, para isso fazendo uso do sonho, penalizava o Eu,
após havê-lo acusado e julgado. O sonho servia, dessa
forma, como instrumento de sanção, ou pena, com que
castigava o Eu. Ficava evidente, assim, para Freud, por
que tais sonhos se manifestavam como tão agressivos,
negativos e, em uma palavra, ruins, em vez de, como era
a regra, satisfazerem um desejo – ainda que um desejo

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represado – do Eu. Sob determinado ponto de vista, é


como se o supereu tratasse o Eu da mesma forma com
que o Eu havia tratado as outras pessoas. No caso dos
soldados, é como se o supereu oferecesse para o Eu
o tratamento de Talião: como ele havia feito sofrer o
inimigo, agora o supereu o fazia reviver tudo aquilo
com que sofria repetidas vezes, como uma punição ou
castigo, sem cessar.

Quando Freud pôde examinar esses outros sonhos


desta maneira, pôde ampliar sua teoria dos sonhos, sem
negá-la: todos os sonhos eram realização de desejos; a
diferença é que às vezes esses sonhos eram contrários
aos desejos do Eu, pois eram desejos do supereu.

A ampliação da teoria dos sonhos, nesse sentido,


acompanhou também a teoria dos princípios do
acontecer psíquico. Havíamos visto que dois princípios
Sigmund Schlomo Freud

regiam a psique: o princípio do prazer, em primeiro


lugar, e o princípio de realidade, que tinha a única
função de adequar o princípio de prazer à função de
conservação do Eu. Agora, Freud percebia que o Eu,
submetido ao supereu, poderia afastar-se do princípio
de prazer. O supereu era uma instância no interior do
psiquismo, acima do Eu, que tinha o poder de produzir
desprazer e agitação ao invés de repouso, às vezes sem
interrupção, sem pausa. Pensando nisso, Freud passou
a se referir, conforme o título de seu importante livro,
de 1920, a algo “além do princípio de prazer”.

Conclusão
Para todos aqueles que se interessam pela psicanálise,
algumas expressões se tornam lugares comuns. Uma
delas afirma que, para Freud, tudo é sexo. A outra
se refere à contraposição de duas grandes forças
antagônicas, simbolizadas pelos deuses: Eros e Thanatos.

Essa breve incursão que fizemos, com a preocupação


de tornar alguns complicados conceitos acessíveis ao
público leigo (e agora, ao final da leitura, o leitor poderá
constatar se a tarefa foi cumprida a contento), deve nos
permitir olhar com mais atenção esses lugares comuns.

Quanto à afirmação de que, para Freud, tudo é sexo,


o que pudemos constatar foi o seguinte: embora seja
verdadeiro que, para Freud, toda energia psíquica é,
na origem, energia sexual, sendo esse precisamente

“O que o sonho realiza impõe-se a despeito de todo


regramento que queiramos impor a ele — tanto
assim que o próprio responsável pelo regramento, o
superego, também manifesta seus desejos disruptivos,
até mesmo prejudiciais.”

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o motivo pelo qual tantas, senão todas as patologias


ou perturbações psíquicas tenham sua origem mais
remota numa perturbação da sexualidade; ainda mais:
embora Freud tenha se detido com tanta tenacidade a
essa concepção, negando a qualificação de psicanalista a
quem quer que optasse por partir de outro pressuposto
(e contestando cientificamente a validade desse outro
pressuposto – já que as evidências do pressuposto
freudiano eram clínicas e nenhum outro ponto de
partida pôde validar-se na clínica), resta para nós, em
termos de tratamento e de prática psicanalítica, que o
desejo, como categoria clínica, é ainda mais importante:
se toda energia tem origem sexual, mas essa origem
pode ser desviada em seu destino, sofrendo diversas
mutações, sublimações, satisfações suplementares, resta
como irredutível apenas a categoria do desejo: aquilo
que o sonho realiza não se deixa domar e manifesta-se,
impõe-se a despeito de todo regramento que queiramos
impor a ele. Tanto assim que a própria instância
psíquica responsável pelo regramento, o superego,
também manifesta seus desejos disruptivos, até mesmo
prejudiciais.

Não pudemos, nesta breve abordagem, examinar com


exatidão o caráter desse desejo. Pudemos apenas apontar
que nessa descoberta reside a primeira grande revolução
freudiana, quando desiste de curar traumas e passa a
oferecer escuta àquilo que se manifestava como desejo
insistente e irreprimível, mesmo quando reprimido. De
fato, a cura dos traumas havia sido levada a cabo por
meio da terapêutica da hipnose e da catarse, bastante
bem expressa pelos filmes de Hitchcock e outros que
abordam os primórdios da psicanálise. Entretanto, Freud
também havia presenciado, com bastante frustração, que
os sintomas assim curados retornavam, ou deslocavam-
Sigmund Schlomo Freud

se (da mesma forma como operava o deslocamento


nos sonhos) para outros sintomas, que passavam a
representar as narrativas psíquicas não analisadas no
lugar dos traumas ou sintomas curados. Enquanto Freud
não enfrentou a questão de analisar essas narrativas,
que eram, em todo caso, narrativas a respeito do desejo
(até poderíamos dizer: narrativas que tentavam evitar o
problema do desejo), a psicanálise não havia se firmado
como uma clínica consistente, nem como prática
científica, mantendo-se apenas uma terapêutica mais
ou menos eficaz.

A primeira revolução de Freud foi, em nosso entender,


ter colocado a questão do desejo em primeiro plano,
acima do trauma, da patologia e do sintoma. E foi
apenas partindo de sua própria experiência, ou seja, da
autoanálise que empreendeu a partir de seus próprios
sonhos, que Freud pôde operar essa revolução.

A segunda revolução, em nosso entender, foi quando


Freud pôde examinar os neuróticos de guerra e ver o
furo que eles apontavam em sua teoria, pois o desejo e o
princípio de prazer sustentado por ele eram contrariados
pelos fenômenos e patologias de que sofriam esses
neuróticos. A coragem de Freud foi o que o permitiu
incluir em sua teoria não apenas uma força única,
de aproximação e ligação, Eros, libido, mas também
essa outra, a força de desagregação, destrutividade,
agressividade, elementos que a Guerra o havia obrigado
a considerar não como incidentais ou excepcionais na
realidade humana, mas como profundamente enraizados
nela, força a qual batizou, adequadamente, com o nome
de Thanatos, deus da morte na mitologia grega.

Com Eros, deus do amor, figuram assim em oposição

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79

as duas grandes forças reconhecidas pela psicanálise


como atuantes em nossa psique: o amor e a morte. Com
grande superação pessoal, revisão de toda sua prática,
reconhecimento de seus erros anteriores e uma inabalável
crença no guia que sua própria clínica constituía, ou
em uma palavra, lembrando aquilo que havíamos dito
no início: não foi com o saber-fazer, savoir-faire dos
arquitetos, mas com o saber se posicionar, saber estar
aí, savoir-y-faire, na expressão de Lacan, que Freud foi
capaz de descobrir esses dois princípios, cada um a seu
tempo, realizando, assim, duas verdadeiras revoluções
em sua teoria e em sua vida, com reflexos duráveis em
todas as ciências que se voltam para a humanidade e para
o cuidado: o amor e a morte; o desejo e a destruição.

Cada um de nós carrega ambos, e a clínica criada por


Freud, a psicanálise, passou a ensinar a todos nós, os que
a praticam, os que dela se beneficiam e os que por ela se
interessam, que cada um de nós carrega a ambos, amor
e morte, desejo e destruição, e o pior que há é não saber
nada disso, ou, pior ainda, não saber que sabemos.
Sigmund Schlomo Freud

80
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Freud e Seus FantasmaspXPDREUDTXHWUDWD


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