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José Ferreira - Ano Letivo 2017/2018

Direito Penal III - Aulas Práticas (Sónia Fidalgo)

Aula 1 - 12/10/17

Qual é o objeto do DPIII? O ano passado estudámos a doutrina geral do crime - os elementos que têm de estar
presentes para que possuamos dizer que alguém cometeu um crime (Doutrina Geral do Crime) - ação típica, ilícita,
culposa e punível. Este ano vamos ver a consequência jurídica desse crime (Consequência Jurídica do Crime). Incide
sobre a Parte Geral do CP (arts. 40º e ss.).

Estudamos as reações/sanções criminais. Quais são as mais importantes? Penas e medidas de segurança.

Como sabemos então quando aplicar uma ou outra? Qual é o diferente pressuposto para aplicação de uma pena e para
a aplicação de uma medida de segurança?1: A pena pressupõe a culpa do agente, enquanto que a medida de
segurança pressupõe a perigosidade do agente.

1 - QUADRO GERAL DAS REAÇÕES/SANÇÕES CRIMINAIS

1. Temos penas:

1. Penas principais - prevê o nosso código 2 penas principais: a pena de prisão ou a pena de multa.

• Têm 2 características:

A. Estão expressamente previstas no tipo legal de crime;

B. Podem ser fixadas pelo juiz na sentença independentemente de quaisquer outras (normalmente os
alunos esquecem-se desta).

• Quando falamos da pena de multa, esta pode surgir em 2 modalidades:

a) Multa Autónoma - quando ela for a única espécie de pena prevista como tipo legal de crime

b) Multa Alternativa - quando ela surge no tipo legal de crime em alternativa à pena de prisão. (?)

c) Antigamente existia entre nós outra modalidade de multa: a pena de multa complementar. Quando no
tipo legal de crime se previa a aplicação de uma pena de prisão, e cumulativamente de uma pena de
multa. Esta multa complementar deixou de existir com a revisão do CP de 1995, embora ela continue a
subsistir em alguma legislação extravagante antiga. Por que é que terá o legislador decidido acabar
com esta multa complementar? (O tipo legal de crime diria mais ou menos isto: “quem desempenhar/
praticar a conduta x é punido com uma pena de prisão e com uma pena de multa”) Parece revelar uma

1 Muitas vezes questionado em orais!

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desconfiança em relação à eficácia jurídico-penal da multa enquanto pena - a multa é uma verdadeira
pena, não é necessário que seja aplicada em conjunto com uma pena de prisão; para alem disso, não
fazia sentido aplicar uma sanção de natureza pecuniária a uma pessoa que iria ser privada da sua
liberdade, e impossibilitada de auferir rendimentos.

• Exemplos:

- O art. 131º CP diz que a pena principal de prisão vai de 8 a 16 anos para quem matar outra pessoa sem
qualquer pena alternativa, mas o art. 143º CP já prevê duas penas principais em alternativa - neste caso
o juiz no caso concreto pode optar entre aplicar a pena de prisão ou de multa, surgindo na modalidade de
multa alternativa.

- Art. 366º/1 CP, prevêem-se 2 penas principais, e a muita como pena alternativa

- Art. 366º/2 CP, prevê como única sanção a pena principal de multa (não está previsto no tipo legal de
crime a pena de prisão). Neste caso, temos uma pena de multa autónoma.

• Por regra, a pena de multa no CP surge como pena alternativa (temos apenas meia dúzia de exemplos de
penas autónomas).

2. Penas de substituição - são penas que podem substituir qualquer uma das penas principais
concretamente determinadas, radicando no movimento da luta contra a aplicação de penas de prisão.
Estão previstas nos arts. 45º e ss. CP (lei nova). A numeração está diferente com a nova lei de Agosto (que
só entra em vigor 90 dias após a sua publicação, em Novembro; mas não faz sentido analisar artigos que
vão deixar de estar em vigor em breve).

• Há penas de substituição da pena de prisão e penas de substituição da pena de multa.

• Existe somente uma pena de substituição da pena de multa - a admoestação (art. 60º CP). Se o
juiz determinar uma pena de multa de 150/200/220 dias, pode, depois de encontrar esta pena,
substitui-la pela pena por admoestação (e isto fica escrito na sentença) - o juiz diz “eu optei por aplicar
a este agente, pelo crime de ofensa à integridade física uma pena de multa até 150 dias; uma vez que
estão reunidos os pressupostos do art. 60º CP, decido substituir esta pena de multa por uma pena de
admoestação”. Está admoestação consiste numa censura oral, feita ao agente em audiência. Depois,
infra, vamos ver quais são os critérios que o juiz segue para escolher uma pena ou outra, quais são os
critérios que ele segue para ver se pode ou não substituir. Isto vai ser o cerne do nosso estudo na
disciplina.

• Temos várias penas de substituição da pena de prisão:

- Pena de multa de substituição (art. 45º CP). Esta é uma numeração nova. Vimos que a pena de
multa pode surgir como multa principal (quando está prevista expressamente num tipo legal de
crime), mas pode surgir também como pena de substituição. E isto dá-nos um trabalhão, porque

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depois o regime de execução e o regime pelo incumprimento é diferente consoante estejamos


perante uma multa como pena principal, ou estejamos perante uma multa enquanto pena de
substituição (iremos debruçar sobre isto mais à frente). Se o juiz determinar uma pena de prisão
não superior a 1 ano (ex.: 10 meses de prisão), ele pode depois substituir por pena de multa - e
aqui o arguido fica condenado por pena de multa (substituiu a pena de prisão)

- Pena de proibição do exercício de profissão, função ou actividades públicas ou privadas (art. 46º
CP). Temos aqui que o crime foi cometido no âmbito do exercício de uma profissão, e o juiz pode
subsistir a pena de prisão não superior a 3 anos pela pena de proibição do exercício da
profissão. Esta pena tem pressupostos especiais - é preciso que o crime tenha sido cometido no
exercício da profissão, e pode substituir uma pena de prisão não superior a 3 anos.

- Pena de suspensão da execução da pena (art. 50º e ss CP). Não foi muito mexido este art..
Substitui penas de prisão não superiores a 5 anos. A suspensão de execução da pena pode ser
simples, com imposição de deveres ou regras de conduta, ou uma suspensão com regime de
prova.

- Pena de prestação de trabalho a favor da comunidade (art. 58º e ss CP). Foi um bocadinho
alterado o nº1 em Agosto, mas não vamos agora tratar disso. Uma pena de prisão não superior a
2 anos pode ser substituída por prestação de trabalho a favor da comunidade. Se o juiz
determinar uma pena de prisão de 3 anos e meio, pode substitui-la por multa? De acordo com o
que lemos nos últimos minutos, não. Mas já pode substituir por pena de prestação de trabalho a
favor da comunidade? Não.

• O leque das penas de substituição ao dispor do juiz depende da pena que ele tiver concretamente
determinado anteriormente.

• Existiam mais 2 penas de substituição, e eram as únicas privativas da liberdade (revogadas


pela lei de Agosto). Eram penas muito características:

- Prisão por dias livres/fins-de-semana (antigo art. 45º CP). Durante a semana o condenado
fazia a sua vida normal, por regra à sexta à noite ia para a prisão, e depois regressava
segunda de manhã.

- Regime de semi-detenção (antigo art. 46º CP). Durante o dia o condenado saia para praticar
as suas atividades/trabalho/estudar, e à noite regressava ao estabelecimento prisional.

3. Penas acessórias - são aquelas cuja aplicação pressupõe a fixação na sentença de uma pena principal ou
de uma pena de substituição. Elas são aplicadas juntamente com uma daquelas penas.

• Estão previstas na Parte Geral do CP, nos arts. 65º e ss. CP, e em certos casos também na Parte Especial
(ex.: art. 152º/4 e 6 CP).

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• Art. 69º CP - proibição de condução de veículos com motor. É uma pena acessória muito aplicada pelos
nossos tribunais, sobretudo nos casos em que alguém é condenado por condução em estado de
embriaguez (art. 292º CP). É assim punido com pena de prisão/multa por este crime, e por regra os
juizes aplicam também está pena acessória.

• Art. 152º/4 CP - violência doméstica. Quando o arguido é condenado pelo crime de violência doméstica,
além da pena de prisão que lhe venha a ser eventualmente aplicada, pode também vir a ser condenado
numa destas penas acessórias (como a proibição de entrar em contacto com a vítima).

• Com isto se percebe a importância da 2ª característica das penas principais (poderem ser aplicadas pelo juiz
na sentença independentemente de quaisquer outras), pois existem penas acessórias que também estão
expressamente previstas no tipo legal de crime, só que elas, ao contrário das penas principais, são aplicadas
juntamente com outras penas.

2. Temos medidas de segurança:

1. Privativas da liberdade - há apenas uma, o internamento de inimputável por anomalia psíquica (arts. 91º e
ss. CP).

2. Não privativas da liberdade - podem ser aplicadas tanto a imputáveis como a inimputáveis. São elas:

1. A interdição de atividades (art. 100º CP);

2. A cassação do título de condução de veículo com motor (art. 101º CP);

3. A aplicação de regras de conduta (art. 102º CP).

2 - CARACTERÍSTICAS DO SISTEMA SANCIONATÓRIO PORTUGUÊS

A partir do final da 2 guerra mundial, e particularmente a partir dos anos 60, foram introduzidas um conjunto de ideias
novas em matéria das sanções criminais na generalidade dos países europeus. Em Portugal, afirmaram-se no CP de
1982, e depois reafirmaram-se na revisão de 1995.

Características:

1. Recusa das penas de morte e de prisão perpétua - Podemos orgulhar-nos de ter abolido a pena de morte para os
crimes políticos em 1852, e para os demais crimes em 1867. A CRP afirma claramente estas ideias: o art. 24º/2
recusa a pena de morte, e no art. 30º/1 recusa as sanções de natureza perpétua.

2. As sanções privativas da liberdade constituem a ultima ratio da política criminal - Nota-se, no nosso sistema,
uma preferência clara por sanções não privativas da liberdade. A sanção privativa da liberdade é a sanção mais

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restritiva de direitos, e nem sempre é a sanção mais adequada. Esta ideia resulta do art. 18º/2 da CRP, e está
plasmada no art. 70º CP em relação às penas, e no art. 98º CP em relação às medidas de segurança.

3. O nosso sistema sancionatório é essencialmente monista. MATÉRIA MUITAS VEZES QUESTIONADA! Há três
aceções cerca do que é um sistema monista:

1. Numa 1ª aceção, um sistema monista é aquele que só conhece um tipo de reacções criminais: ou penas ou
medidas de segurança. Por outro lado, um sistema dualista será aquele que conhece as duas, as penas e
as medidas de segurança. No entanto, não é esta a aceção que nos interessa quando falamos de monismo
ou dualismo.

2. Há uma 2ª aceção segundo a qual um sistema é monista se, apesar de prever penas e medidas de
segurança, aplica as penas só a agentes imputáveis e aplica as medidas de segurança só a agentes
inimputáveis. No entanto, também não é esta a aceção que adotamos (recusamos esta aceção).

3. A 3ª aceção é aquela segundo a qual um sistema é dualista ou monista consoante admita ou não admita
que, ao mesmo agente e pela prática do mesmo facto, seja aplicada uma pena e, cumulativamente, uma
medida de segurança, ambas privativas da liberdade. É esta a acepção que nos interessa.

A possibilidade de aplicação de uma pena eventualmente privativa da liberdade e, cumulativamente, de uma


medida de segurança não privativa da liberdade, não faz do sistema um sistema dualista.

• Ex.: um agente pode ser condenado numa pena por condução de veículo em estado de embriaguez (art. 292º CP),
e cumulativamente ser condenado na medida de segurança de cassação do título de condução (art. 101º CP) - isto
é possível entre nós, mas não se admite que, ao mesmo agente e pelo mesmo facto, não se pode é aplicar
uma pena e uma medida de segurança AMBAS PRIVATIVAS DA LIBERDADE.

O carácter monista do nosso sistema não é prejudicado pelo disposto no art. 99º CP. Neste artigo está previsto o
Vicariato de Execução, estabelecendo o regime de execução quando ao mesmo agente se aplica uma pena e
uma medida de segurança ambas privativas da liberdade, mas por factos diferentes - porque um agente pode ser
considerado imputável em relação a um facto, e ser considerado inimputável em relação a outro facto, cometido num
momento próximo ao primeiro. Neste caso, pode aplicar-se uma pena pela prática do primeiro facto e uma medida de
segurança pela prática do segundo, sendo ambas as sanções privativas da liberdade. Mais uma vez, isto não põe em
causa o caráter monista do nosso sistema, porque se trata de factos diferentes.

• Ex.: A viola uma rapariga e a seguir furta-lhe a carteira. Pode em termos de psiquiatria ficar provado que aquele
agente era inimputável em relação aos crimes sexuais. Assim, o juiz pode aplicar uma pena pelo crime de furto,
uma medida de segurança de internamento pela prática do crime de violação. Temos 2 factos diferentes, e por isso
pode aplicar ao agente 2 sanções privativas da liberdade.

Quais são os países que têm sistemas dualistas? Em Espanha, Alemanha e Itália, encontramos soluções dualistas em 2
situações - estes sistemas permitem a aplicação de uma pena e de uma medida de segurança ambas privativas da
liberdade, ao mesmo agente e pelo mesmo facto em 2 tipos de casos:

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1) No caso dos delinquentes especialmente perigosos (ou delinquentes por tendência). Estes delinquentes praticam
crimes reiteradamente.

2) No caso dos delinquentes de imputabilidade diminuída. Estes são aqueles delinquentes que, no momento da prática
do facto, têm a sua capacidade para avaliar a ilicitude do facto, ou para se determinar de acordo com essa
avaliação, sensivelmente diminuída.

A estes dois tipos de agentes, nos sistemas dualistas, permite-se a aplicação de uma pena de prisão, tendo como
pressuposto e limite a culpa do agente, e cumulativamente, uma medida de segurança de internamento com base na
sua perigosidade, ao mesmo agente e pela prática do mesmo facto.

Então qual é a resposta, enquanto sistema monista, que damos?

1) Em relação aos delinquentes especialmente perigosos/por tendência, é-lhes aplicada uma pena relativamente
indeterminada (arts. 83º e ss. CP). A pena relativamente indeterminada é uma só sanção, mas tem uma natureza
mista - em parte ela é executada de acordo com as regras das penas, e noutra parte de acordo com as regras
das medidas de segurança. Deste modo, fica relativizada a característica monista do nosso sistema. É por isso
que dizemos que o nosso sistema não de um monismo puro - É DE MONISMO PRÁTICO/TENDENCIALMENTE
MONISTA.

2) Nos casos dos delinquentes de imputabilidade diminuída, estamos perante um agente que é menos culpado
porque tem uma menor capacidade para avaliar a ilicitude do facto ou para se determinar de acordo com essa
avaliação, o que vai conduzir a uma pena menor. Mas, simultaneamente, estamos perante um agente que manifesta
uma maior perigosidade, e por isso, em relação a ele, serão maiores as exigências de prevenção especial - estamos
perante um dilema, pois é um agente que tem uma culpa reduzida (menor capacidade para avaliar a ilicitude), mas
ao mesmo tempo revela-se por isso mais perigoso (e em relação a ele há maiores exigências de prevenção
especial). A resposta a esta questão está no art. 20º/2 CP: o agente com imputabilidade diminuída ou é
considerado imputável e ser-lhe-à aplicada uma pena, ou pode ser considerado inimputável e aplica-se uma
medida de segurança.

Aula 2 - 19/10/17

4. Extensão da responsabilidade penal às pessoas coletivas nos domínios do direito penal clássico ou de
justiça: Com a revisão do CP de 2007, passou a consagrar-se esta responsabilidade no próprio CP. Até à revisão de
2007, o art. 11 CP estabelecia o seguinte: “salvo disposição em contrário, só as pessoas singulares são susceptíveis
de responsabilidade criminal”. E encontrávamos no nosso ordenamento algumas disposições em contrário,
nomeadamente no diploma que estabelecia as infracções contra a economia e a saúde pública (DL nº 28/84), e
também nas infrações tributárias (Lei nº 15/2001).

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Mas em 2007 o art. 11º CP foi alterado, e agora prevê-se a responsabilidade penal das pessoa coletivas em relação a
diversos tipos legais de crime e previstos no CP, “salvo o disposto no nº seguinte e nos casos especialmente
previstos na lei, só as pessoas singulares são susceptíveis de responsabilidade criminal”. O nº2 do art. 11º
prevê um conjunto de crimes pelos quais podem ser responsáveis as pessoas coletivas. Estamos a falar em
condenar penalmente empresas, e a regra entre nós é a de que a responsabilidade penal é individual da pessoa
singular, e a grande novidade de 2007 foi trazer para o CP a possibilidade de punir as próprias pessoas coletivas (punir
não só os agentes, administradores, gestores destas empresas, mas a empresa enquanto tal) - não é uma novidade
total para o direito penal (como foi dito); em relação aos crimes fiscais, mesmo já antes da revisão de 2007 (desde
2001), previa-se a responsabilidade penal de pessoas coletivas, e a novidade de 2007 foi essa previsão constar em
relação aos crimes que estão no próprio CP. Ex.: o crime de poluição, cujos principais agentes poluidores não somos
nós considerados individualmente mas sim as grandes empresas; já tínhamos este tipo legal de crime previsto no CP
mas era criticado por não estar prevista a responsabilidade penal das empresas em relação ao crime de poluição (um
direito penal simbólico, que nunca era aplicado), e desde 2007 que já é possível pois este crime consta desta lista do
nº2.

Deste modo, desde 2007, o sistema penal português prevê, no art. 11º CP, a responsabilidade penal das pessoas
coletivas, e prevê ainda penas especificas para serrem aplicadas às pessoas coletivas nos arts. 90º-A a 90º-M. Assim,
desde 2007 temos também penas principais, acessórias e de substituição aplicáveis às pessoas colectivas:

- Nos termos do art. 90º-A CP, são aplicáveis às pessoas coletivas as penas principais de multa e a pena de
dissolução. A pena de dissolução é como se fosse uma pena de morte para esta entidade (está a ser utilizada para
cometer crimes a título principal), uma pena de aplicação rara, e está prevista no art. 90º-F CP. Por isso a pena que
se aplicará com maiúscula frequência será a pena principal de multa.

A este propósito, já sabemos que uma pena principal é aquela que está expressamente prevista no tipo legal de crime, e
que pode ser aplicada pelo juiz na sentença, independentemente de qualquer outra. Ora esta definição não vale para
as penas principais a aplicar às pessoas coletivas: na verdade, os tipos legais de crime referidos no art. 11º/2 CP
não se referem expressamente a qualquer pena a aplicar especificamente às pessoas colectivas; e, inclusivamente, há
tipos legais de crime referidos no art. 11º/2 CP em que se prevê somente a pena de prisão.

Então como resolvemos estes casos? Imaginemos que uma pessoa coletiva está a ser julgada pelo crime de
associação criminosa (art. 299º CP). Este artigo está no conjunto de tipos legais de crime do art. 11º/2 CP. Mas tipo
legal de crime só prevê a aplicação da pena de prisão , de 1 a 5 anos. Como vamos punir a empresa? Não vamos nem
podemos prender uma empresa!

A esta questão dá-nos resposta o art. 90º-B CP. A pena de multa é encontrada tendo como referência a pena de
prisão que está prevista para as pessoas singulares (no nosso caso de 1 a 5 anos). Nos termos do nº2 1 mês de
prisão vai corresponder a 10 dias de multa, e o nº3 estabelece que se estiver já previsto no tipo legal a pena de
multa aplica-se igualmente às pessoas coletivas. Desta leitura resulta que, se o tipo legal de crime previr lá o tipo de
multa não temos problema nenhum e vamos trabalhar com aquela multa, o problema surge quando o tipo legal de crime
previr somente pena de prisão. No caso em análise, vamos conjugar o art. 299º/1 CP com o 90º-B/1/2 CP: o que resulta
numa moldura penal de 120 a 600 dias de multa.

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Em jeito de conclusão, em relação às penas principais a aplicar às pessoas colectivas, podemos dizer o seguinte:

1) A pena de dissolução não está expressamente prevista em nenhum tipo legal de crime, por isso ela constitui
um desvio ao conceito de pena principal;

2) Em relação à pena de multa, nos casos em que o tipo legal de crime previr somente pena de prisão, então a
pena de multa principal a aplicar à pessoa colectiva não está diretamente prevista no tipo legal de crime,
estando apenas indirectamente prevista, porque se terá de proceder à conversão da pena de prisão em pena
de multa, de acordo com o disposto no art. 90º-B/1/2 CP.

3) Se o tipo legal de crime previr a pena de multa como pena principal, então à pessoa colectiva será aplicável a
mesma moldura penal que está prevista no tipo legal de crime (art. 90º-B/3 CP); Neste caso, valerá
inteiramente o conceito de pena principal, porque a pena de multa está expressamente prevista no tipo legal
de crime.

Para além destas penas principais, estão também previstas penas de substituição da pena de multa a aplicar às
pessoas colectivas. São elas:

1. Está prevista a pena da admoestação (art. 90º-C CP):

2. A caução de boa conduta (art. 90º-D CP);

3. E ainda a pena de vigilância judiciária (art. 90º-E CP).

Além disso, o CP prevê penas acessórias a aplicar às pessoas coletivas, que estão previstas no art. 90º-A/2 CP e
depois são reguladas no art. 90º-G e ss. CP. Até se diz que, em relação a estas penas acessórias, algumas delas
podiam ter ascendido até à figura de penas principais - têm uma maior eficácia jurídico-criminal do que a própria pena
de multa, são mais à realidade da pessoa coletiva. Agora é preciso que as nossas magistraturas (MP e a judicial) se
familiarizem com estas penas, para que as apliquem às pessoas coletivas com os efeitos preventivos que se
pretendem, estas penas acessórias - apesar da reforma de 2007 já ter sido há 10 anos, ainda são poucas as
condenações de pessoas coletivas ao abrigo deste regime do CP (os crimes fiscais são os mais frequentes, mas esses
já tinham um regime em vigor antes da reforma de 2007). Nem os advogados estão familiarizados com estes crimes.

5. No nosso sistema sancionatório, as penas e as medidas de segurança têm finalidades exclusivamente


preventivas.

Quadro dos fins das penas:

1. Teorias absolutas/retributivas: para as teorias absolutas ou retributivas, a pena visa a retribuição ou


compensação do mal do crime. Visa-se infligir ao agente um mano equivalente ao causado com o crime, “é o
olho por olho, dente por dente” da Lei de Talião. Há que reconhecer a estas teorias o mérito de afirmar o
princípio da culpa, negando a aplicação de uma pena que viole a dignidade da pessoa. No entanto, as teorias
retributivas são recusadas pelo nosso CP e pela doutrina portuguesa maioritária - ao contrário do que
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defendiam as trotais retributivas, entendemos que relação entre pena e culpa não é biunívoca (não há pena
sem culpa, nem culpa sem pena), na sua vertente bilateral. A culpa era fundamento, pressuposto, limite e
medida da pena. Diversamente, nós hoje defendemos o princípio da unilateralidade da pena: não há pena sem
culpa, mas pode haver culpa sem pena. A culpa é vista como pressuposto e limite, mas não como medida.

2. Teorias relativas/prevenção:

a. De prevenção geral.

a. Negativa/intimidação: para estas teorias, a pena é vista com forma de intimidação das outras
pessoas pelo mal que com ela se faz sofrer ao delinquente, e que, ao fim, as conduzirá a não
cometerem crimes. Exemplo clássico de COSTA ANDRADE (PAI): Um cavalo foi roubado e o autor
condenado à morte; o juíz disse-lhe “Não te condeno à morte por teres roubado um cavalo, mas
sim para que mais ninguém roube cavalos.”. Claro que esta teoria não pode ser aceite entre nós,
desde logo porque não define um limite para a pena: pois a pena seria aquela que fosse
necessária para afastar as pessoas de cometerem crimes, o que conduziria a uma maximização
das penas. Isto fazia com que o direito penal se tornasse um direito penal do terror, e violador da
dignidade humana.

b. Positiva/Integração: é o que há agora a valorar. Para esta teoria, a sanção penal é vista como uma
forma de reforçar a confiança da comunidade na validade e na força de vigência das suas normas,
isto é, apesar de todas as violações que tenham tido lugar, a norma continua válida. Esta teoria
vai ao encontro da função do direito penal como um direito de proteção de bens jurídicos, e
permitir-nos encontrar uma pena justa, isto é, uma pena adequada à culpa do agente, na medida
em que as exigências de prevenção estão sempre limitadas pela culpa do agente. Mas integração
do quê? 2 Da norma, e não do agente - quando alguém comete um crime de homicídio viola uma
norma do CP, o art. 131º; e apesar da norma ser violada, esta permanece válida continua a
integrar o OJ; e o bem jurídico vida, apesar de ter sido violado por aquele crime, permanece
protegido pelo CP; daí ir de encontro à finalidade do direito penal.

b. De prevenção especial. Estas doutrinas partem da ideia de que a pena é um instrumento de actuação
preventiva sobre a pessoa do delinquente, propondo-se evitar que no futuro o delinquente cometa novos
crimes. Estas teorias dividem-se:

i. Negativa/inoquização: para esta teoria, a pena serviria para intimidação do delinquente, ou para a
defesa da sociedade em face da perigosidade do delinquente. O que se pretende com a aplicação
da pena é separar o delinquente da sociedade.

ii. Positiva/ressocialização: de acordos com esta teoria, a pena tem como função alcançar a
reinserção social do delinquente. A pena de prisão só fará sentido se permitir levar a cabo um
programa socializador, devendo o Estado criar as condições necessárias para que o delinquente
possa, no futuro, continuar a viver a sua vida sem cometer crimes. É neste sentido que se fala de

2 Muito perguntado nos exames!

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uma prevenção de reincidência. Há porem situações em que o agente não se revela carecido de
ressocialização: é o caso dos delinquentes situacionais ou por afeto - nestes casos, os defensores
das teorias da prevenção especial limitam-se a conferir à pena uma função de advertência, que é
também uma dimensão negativa da prevenção especial. Exemplo de um marido que descobre a
esposa em casa com o seu amante e o mata no “calor do momento”. Isto é muito discutido.

Acabando esta revisão, quais são então os fins das penas e das medidas de segurança no nosso sistema
sancionatório?

A esta questão responde-nos o art. 40º CP, que foi inserido na revisão de 1995, e, de acordo com esta norma, as penas
e as medidas de segurança têm exclusivamente finalidades preventivas e nunca retributivas. Nos termos do art. 40º CP,
a finalidade primordial da pena é a de prevenção geral positiva/integração, enquanto que a finalidade secundária é a de
socialização do delinquente (prevenção especial positiva). Esta norma estabelece que as penas e medidas de
segurança visam a protecção de bens jurídicos, ou seja, finalidades de prevenção geral positiva.

Além disso, e também de acordo com o 40, a pena visa também a reintegração do agente na sociedade, ou seja, tem
também finalidades de prevenção especial positiva. Deste modo, de acordo com o 40, a finalidade primordial da pena é
a de prevenção geral positiva ou de integração, e a finalidade secundária é a de ressocialização do agente. Este 40 CP
não deixa margem para dúvidas.

3 - PRINCÍPIOS JURÍDICO-CONSTITUCIONAIS ORIENTADORES DO NOSSO PROGRAMA POLÍTICO-CRIMINAL

1. Princípio da legalidade: Está consagrado nos arts. 29º/3/4 CP, art. 165º/c) da CRP, bem como no art. 1º CP.

2. Princípio da congruência entre a ordem axiológico-constitucional e a ordem legal dos bens jurídico-
penalmente protegidos: Desta máxima decorre a exigência da necessidade e subsidiariedade da intervenção
jurídico-penal (art. 18º CRP), e decorre também a ideia de que o direito penal é um direito de protecção dos bens
jurídicos, afastando-se por isso as finalidades retributivas das penas, e afirmando-se que as sanções criminais têm
finalidades preventivas, como consta do art. 40º CP.

3. Princípio da proibição do excesso: Em matéria de penas, este princípio manifesta-se através do princípio da
culpa; e em matéria de medidas de segurança, manifesta-se através do princípio da proporcionalidade (art.
18º/2 CRP e art. 40º/3 CP). Manifesta-se ainda, em geral, no princípio da proporcionalidade das sanções
penais (art. 18º/2 CRP), sendo entendimento uniforme o de que o TC só deve censurar as soluções
legislativas que contenham sanções manifestamente excessivas.

• O princípio da culpa significa que não há pena sem culpa nem pena superior à medida da culpa. O princípio da
culpa não tem consagração expressa na CRP, mas ele assume-se como um princípio constitucional por via da
proteção constitucional da dignidade da pessoa humana (art. 1º, 13º e 25º/1 CRP)3

3 Muito perguntado nos exames!

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• O art. 40º/2 CP afirma que, em caso algum, a pena pode ultrapassar a medida da culpa. A culpa surge, assim, como
pressuposto e limite da pena, não sendo seu fundamento nem medida - não pode haver pena sem culpa nem pena
superior à medida da culpa, mas pode haver culpa sem pena. Este é o principio da unilateralidade da culpa/principio
da culpa na sua vertente unilateral como já vimos.

• Só esta concepção do princípio da culpa nos permite entender o instituto da dispensa de pena4 , consagrado no
art. 74º CP.

- É um caso especial de determinação da pena. Ela é, no fundo, uma declaração de culpa sem declaração de
pena (WEBER). Mas note-se que a dispensa de pena não dá lugar à absolvição do agente;

- A sentença que decreta uma dispensa de pena é uma sentença condenatória, e isto está no art. 375º/3 CPP.
Sendo uma sentença condenatória o agente vai ter de pagar as custas judiciais, e esta condenação ficará
inscrita no seu registo criminal (art. 6º/c da Lei de Identificação Criminal). O que acontece em caso de dispensa
de pena é que o arguido é condenado mas não lhe é aplicada qualquer pena, porque, no caso, não se fazem
sentir exigências de prevenção, não sendo a pena necessária. Quando assim é, o juiz pode dispensar de pena.

- Quais os pressupostos da dispensa de pena (art. 74º /1CP)?

1. O facto tem de constituir um crime punível com pena de prisão não superior a 6 meses, ou com multa não
superior a 120 dias;

2. A ilicitude do facto e a culpa do agente têm de ser diminutas;

3. O dano tem de ter sido reparado;

4. À dispensa de pena não se podem opôr naturalmente exigências de prevenção.

- A lei prevê ainda que a sentença possa ser adiada no caso de a reparação do dano não se ter realizado, mas o
juiz considera que essa reparação se vai realizar (art. 74º/2 CP - esse adiamento pode ser de 1 ano).

4. Princípio da socialidade: A CRP consagra um Estado de direito social, nos termos dos seus arts. 2º, 9º/b), 26’/1 e
31º/1. Entende-se que o Estado deve proporcionar aos condenados um programa de ressocialização (não coativa)
que lhes permita prosseguir a sua vida futura sem cometer crimes.

5. Princípio da preferência pelas reações criminais não detentivas: Este princípio é uma consequência das ideias
de necessidade e subsidiariedade da intervenção penal (art. 18º/2 CRP).

6. Princípio da aplicação da lei penal mais favorável: Este princípio decorre do art. 29º/4/in fine CRP e também do
art. 2º CP, e do art. 371º-A CPP. Este último art. prevê inclusivamente a possibilidade de reabertura de audiência
para aplicação retroativa da lei penal mais favorável (estabelecendo que, se após o trânsito em julgado da
condenação, mas ainda antes de ter cessado a execução da pena, entrar em vigor uma lei penal mais favorável, o

4 Orais, relacionado com a unilateralidade da pena.

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José Ferreira - Ano Letivo 2017/2018

condenado possa requerer a abertura da audiência para que lhe seja aplicado o novo regime). A doutrina e
jurisprudência constitucionais têm reconhecido a autonomia deste princípio de aplicação da lei penal mais favorável
em relação ao princípio da legalidade criminal, justificando tal autonomia diretamente no princípio da necessidade
das sanções penais.

7. Princípio da não automaticidade dos efeitos das penas: Este princípio está previsto no art. 30º/4 CRP e também
no art. 65º CP, significando que nenhuma pena envolve, como efeito necessário, a perda de direitos civis,
profissionais ou políticos.

8. Princípio da insusceptibilidade de transmissão da responsabilidade penal:A responsabilidade penal é pessoal


e intransmissível, e isto está no art. 30º/3 CRP.

9. Princípio segundo o qual os condenados em penas ou medidas de segurança privativas da liberdade mantêm a
titularidade dos direitos fundamentais, salvas as limitações inerentes ao sentido da condenação, e às exigências
próprias da respetiva execução. Isto está no art. 30º/5 CRP e nos arts. 6º e 7º do CEP.

Aula 3 - 26/10/17

4 - PENAS PRINCIPAIS
4.1 - PENA DE PRISÃO

1 - A nossa pena de prisão é uma pena única e simples. Porquê?5

1. É única porque no nosso CP atual (de 1982) desapareceram as formas diversificadas de prisão. Hoje, as
penas só se distinguem umas das outras em função da sua maior ou menor duração. Antes não era assim - no CP
anterior distinguia-se entre prisão maior (a perda de vínculo à função publica, a perda de condecorações que
tivesse), e a prisão correcional (era menos grave, e implicava p. ex. a suspensão de exercício de algumas funções
públicas, algumas delas implicavam a possibilidade de eleger órgãos de soberania e de eleição para alguns cargos
públicos).

2. Além de ser uma pena única, a pena de prisão é também uma pena simples, porque, à condenação numa
qualquer pena de prisão, não se ligam efeitos necessários ou automáticos, isto é, a pena de prisão não
envolve como efeito necessário a perda de direitos civis, profissionais ou políticos. Isto decorre do art. 30º/4
CRP e do art. 65º CP. A perda de direitos civis, profissionais ou políticos pode ocorrer, mas por via da aplicação de
uma outra pena (acessória).

2 - Além de ser única e simples, a pena de prisão tem sempre uma pena de duração limitada ou definida:

5 Exame!

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Quais os limites das penas de prisão?

• O art. 41º/1 CP dá-nos resposta a esta questão - esta norma é importante, porque temos de recorrer a ela sempre
que um tipo legal de crime na Parte Especial não estabelecer um limite mínimo da pena de prisão (p. ex. art.
143º CP - no que toca à moldura legal de que vai partir o juiz para determinar a pena concreta, vamos ter de ir buscar
o limite mínimo ao art. 41º/1 CP), que funciona como norma supletiva (limite mínimo de um mês, e a duração máxima
de 20 anos).6

• Mas o art. 41º/2 CP estabelece que, em casos especiais previstos na lei, o limite máximo pode ser de 25 anos.
Há duas situações previstas na Parte Geral do CP em que se prevê este limite máximo de 25 anos. Que situações são
essas? É o caso de concurso de crimes (art. 77º/2 CP), e também no caso de pena relativamente indeterminada (art.
83º/2 CP, art. 84º/2 CP e art. 86º/2 CP). Na Parte Especial existe também um caso em que se encontra estabelecido
este limite: este é o caso do homicídio qualificado (art. 132º CP).

• O art. 41º/3 CP afirma que em caso algum pode ser excedido o limite dos 25 anos. Houve já um entendimento no
sentido de se dizer que esta norma conferia aos cidadãos o direito a não passarem, em toda a sua vida, mais do que
25 anos na prisão. Mas este entendimento não é correto, a interpretação correta é a seguinte: por cada condenação
numa pena por um crime singular, ou numa pena única conjunta (em caso de concurso de crimes), ninguém pode
estar preso por mais de 25 anos. Mas, ao longo da sua vida, uma pessoa pode ser condenada por diversas vezes, e a
soma de todas as condenações pode acabar por perfazer mais do que 25 anos. No fundo o que se diz é que o nº3
seria desnecessário, porque ele se limita a reafirmar aquilo que já está dito pelo nº2..

É costume fazer-se uma distinção nas penas de prisão conforme a sua duração. Temos penas de curta duração (até 1
ano), depois temos as penas de média duração (1 a 5 anos), e as penas de longa duração (mais que 5 anos). Note-se
que esta distinção corresponde às categorias criminológicas entre i) criminalidade de pequena gravidade, ii) média
gravidade e iii) grave. Esta distinção é importante em matéria de penas de substituição, porque só pode haver
substituição se a pena for de pequena e/ou média duração - as de longa duração não podem ser substituídas.

4.2 - PENA DE MULTA

No nosso sistema, a multa pode surgir como pena principal ou então como pena de substituição.

1. É importante referir que que a pena de multa não é um direito de crédito por parte do Estado; ela não é uma taxa
nem um imposto - tem de ser vista como uma verdadeira pena.

2. A pena de multa tem um carácter pessoalíssimo, porque a responsabilidade criminal não é transmissível (art. 30º/3
CRP). Pelo facto de a multa ter um caráter pessoalíssimo, se um terceiro pagar a pena de multa estará a cometer
um crime de favorecimento pessoal (art. 367º/2 CP). Tem de ser o condenado a sentir ela própria o peso da pena -
se um terceiro pagar a pena essa pessoa condenada não sente o efeito da multa, e será condenado num crime. Por
isso, não pode haver uma doação para se pagar uma multa; nem a multa pode ser paga através de um seguro (pois
este é um seguro de responsabilidade civil, que não se confunde com a responsabilidade criminal - os médicos

6 Indicar sempre as normas todas - há cotação!

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ficam sempre muito surpreendidos quando se diz que quando cometerem algum crime nos pacientes, e forem
condenados numa multa não poderão pagá-la com o seguro de responsabilidade civil, servirá para pagar uma
eventual indemnização devida aos pacientes e seus familiares, pois a multa é uma pena e não uma dívida; quando
batemos com o carro temos um seguro de responsabilidade civil automóvel que serve para pagar danos em caso de
colisão com o outro veículo, mas se tivermos a infelicidade de atropelar um peão por negligência e sermos
condenados em ofensa à integridade física por negligência, o seguro não serve para pagar multa, só servirá para
pagar despesas que o peão tenha tido eventualmente).

3. Por outro lado, é também pelo facto de a multa ter um carácter pessoalíssmo que, quando o condenado a pagar
uma multa sem a ter pago, essa multa não vai ser paga com as forças da herança, como acontece com a
generalidade das dívidas do falecido - isto porque a responsabilidade criminal extingue-se com a morte (art. 127º
CP). A multa não é uma dívida, é uma pena.

4. As alterações em sede de responsabilidade penal das pessoas coletivas vieram introduzir alguma confusão nesta
matéria de pena de multa. Fala-se agora no CP (desde a revisão de 2007), de responsabilidade subsidiária e
de responsabilidade solidária pelo pagamento da pena de multa aplicada à pessoa colectiva (art. 11º/9 e 10).
Estas ideias de subsidiariedade e solidariedade no pagamento da pena de multa já estavam presentes em alguma
legislação extravagante, designadamente o art. 7º e 8º RGIT (Regime Geral das Infracções Tributárias), mas estas
ideias estão agora no próprio CP, e é criticável a utilização em direito penal destes conceitos. Porque os
conceitos de subsidiariedade, solidariedade e direito de regresso são conceitos de direito civil (obrigações), e por
isso não devem ser aplicados no direito penal. Constitui uma afronta grande à ideia de intransmissibilidade e do
caráter pessoalíssimo da pena. transmitem por isso a ideia de que o Estado quer o pagamento a todo o custo. Ainda
a este propósito, ver acordãos TC nº 171/2014 e STJ nº 11/2014: discutiu-se a inconstitucionalidade do art. 8º/7
RGIT, e o TC considerou que sim (norma que não era exatamente igual à do CP), sendo como tal revogada pela Lei
75-A/2014 de 2014. Tem se dito que não se trata de uma transmissibilidade da pena de multa aos administradores,
mas sim da transferência do pagamento (transmite-se apenas o pagamento e não a sanção); pode-se rebater que
não passa de uma burla do legislador, uma mudança de etiquetas - o Estado quis foi arrecadar as receitas, seja qual
for essa fonte.

5. Quais são os limites da pena de multa? Quando falamos de limites da pena de multa, temos de distinguir entre
limites em relação ao no de dias e limites em relação ao quantitativo diário:

• Os limites em relação ao nº de dias estão previstos no art. 47º/1 CP, onde se estabelece que a pena de multa
tem um limite mínimo de 10 dias, e um máximo é de 360 dias - esta é a regra geral. Mas há tipos legais de crime
na Parte Especial em que se prevê a possibilidade de a multa ir até ao máximo de 600 dias (exs.: furto qualificado, art.
204º/1 CP; abuso de confiança, art. 205º/4 CP; burla qualificada, art. 218º/1 CP), e ainda até aos 900 dias, no caso de
concurso de crimes (art. 77º/2 CP). E o art. 47º CP vai valer como norma supletiva em relação à pena de multa,
da mesma forma que o art. 41º CP vale para a pena de prisão.

• A resposta quanto aos limites do quantitativo diário estão no art. 47º/2 CP. Até à reforma de 2007, os limites não
eram estes: eram de 1€ a 498,80€, e a partir dessa revisão, passaram a ser de 5€ a 500€. Tem sido muito criticado
este aumento do limite mínimo da pena de multa (nem se fundamentou na revisão o porquê deste aumento), porque
este aumento foi exagerado - com este aumento perde-se eficácia político-criminal da pena de multa (há condenados

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que poderiam pagar 1,2,3 ou 4€, mas que não podem pagar 5€ por dia). É claro que um juiz, perante uma opção
entre prisão e multa, não pode escolher a pena de prisão pelo facto de o arguido não ter condições económicas para
pagar uma multa, nem sequer no seu limite mínimo - entende-se que tal procedimento violaria claramente o princípio
da igualdade. O nosso CP prevê, apesar disso, mecanismos para ultrapassar esta dificuldade, mas a verdade é que,
com o aumento do limite mínimo, estes mecanismos têm de ser utilizados com mais frequência, pelo que se acaba por
perder a eficácia político-criminal da pena de multa.

• Os nossos tribunais estão entupidos por casos de condução sem habilitação legal e de pequenos furtos, e o juiz
costuma condenar na pena de multa - mas a verdade é que são pessoas que vivem no limiar da pobreza (recebem
muitas vezes o rendimento de reinserção social).

4.3 - CARACTERÍSTICAS DAS PENAS DE SUBSTITUIÇÃO

As penas de substituição são aquelas que podem substituir qualquer uma das penas principais concretamente
determinadas, isto é, a pena de substituição aplica-se em vez da pena principal.

Até à revisão de Agosto de 2017 estavam previstas no CP 3 tipos de penas de substituição:

1. Penas de substituição em sentido próprio - as penas de substituição em sentido próprio têm 2 características: 1)
Elas substituem uma pena de prisão concretamente determinada; 2) Elas são penas não privativas da liberdade

• Exemplos: a pena de multa (art. 45º/1 CP), que substitui penas de prisão até 1 ano; a pena de proibição do
exercício de profissão, função ou atividade públicas ou privadas (art. 46º/1 CP), que substitui penas de prisão
até 3 anos; a suspensão de execução da pena de prisão (arts. 50º e ss. CP), que substitui penas de prisão até
5 anos - esta suspensão pode ser simples (art. 50 CP), pode ser uma suspensão com imposição de deveres
(art. 51º CP), pode ser uma suspensão com imposição de regras de conduta (art. 52º CP), ou pode ser ainda
uma suspensão com regime de prova (art. 53º e 54º CP); pena de prestação de trabalho a favor da comunidade
(art. 58º CP), que substitui penas de prisão até 2 anos.

2. Penas de substituição privativas da liberdade (ou detentivas). Tínhamos a prisão por dias livres e o regime de
semi-detenção, previstos nos arts. 45º e 46º CP respetivamente, e substituíam penas de prisão até 1 ano. Estas
penas são revogadas na revisão de 2017 (ainda em vigor até Novembro de 2017).

• Estava previsto já antes de Agosto de 2017, o regime da permanência na habitação. Aqui fazíamos uma
distinção, baseada numa alínea que era considerada pena de substituição (nº1/a)), e as restantes notas do
artigo eram consideradas um modo de execução. Agora o regime da permanência da habitação é um regime
completamente diferente, e havia normas que estavam no CP que passaram para o CEP, deixando de se
considerar uma pena de substituição e antes um modo de execução da pena (ver mais infra).

3. Pena de substituição da pena de multa - a admoestação somente (art. 60º CP). A admoestação substitui penas
de multa em medida não superior a 240 dias.

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Quando se perguntam os tipos de penas de substituição que existem, é isto que queremos que se responda (e não falar
sobre todos os tipos de pena).

4.4 - CARACTERIZAÇÃO DAS PENAS ACESSÓRIAS

Entre nós vale, actualmente, o princípio da não automaticidade dos efeitos das penas (matéria muito
questionada!), decorrente dos arts. 30º/4 CRP e 65º CP. Ou seja, nenhuma pena de prisão envolve como efeito
necessário a perda de direitos civis, profissionais ou políticos.

Até ao CP de 1982, existiam os chamados efeitos das penas (ou efeitos penais da condenação), de que eram exemplos
a demissão e a suspensão temporária da função pública, e também a interdição do exercício de certas profissões,
actividades ou direitos (ex.: a impossibilidade de ser tutor). Estes efeitos, associados a certas penas, eram de produção
automática. No CP de 1982, o legislador quis acabar com os efeitos automáticos das penas, e criar penas acessórias.
Mas na verdade, o que ficou no nosso CP de 1982 não foram verdadeiras penas acessórias - foram sim efeitos não
automáticos das penas. Eles eram efeitos não automáticos, porque a sua aplicação dependia da mediação do juiz. No
entanto, eles não eram verdadeiras penas acessórias, porque, em rigor, não se estabelecia uma relação entre esses
efeitos e a culpa do agente (e como sabemos, não pode haver pena sem culpa).

Por outro lado, eles eram vistos como efeitos da pena, e estes efeitos ligavam-se mais à pena do que ao facto. E, para
que estejamos perante uma verdadeira pena acessória, ela tem sempre de ser uma consequência do facto. Por outro
lado ainda, para que se trate de uma pena, ela tem de estar sempre limitada no tempo, entre o limite mínimo e o
máximo.

Assim, só com a revisão de 1995 é que o nosso CP se passou a prever um conjunto de verdadeiras penas
acessórias.

Aula 4 - 02/11/17

Para que estejamos perante uma verdadeira pena acessória, e não perante um mero efeito da pena, é preciso que
estejam presentes 3 características:

1. A pena tem sempre de ser referida ao facto;

2. A pena tem sempre como pressuposto a culpa do agente;

3. A pena é sempre limitada no tempo, isto é, essa pena tem de ser determinada em função dos critérios gerais
de determinação da pena previstos no art. 71º CP, e partir de uma moldura que estabeleça um mínimo e um
máximo de duração (moldura previamente prevista na lei).

Porque é que se aplica a pena acessória? Em função do quê?

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Nas penas acessórias estão também presentes finalidades de prevenção geral e especial. O juiz aplicará uma
pena acessória quando, tendo em conta as exigências de prevenção, considerar que a pena principal ou de substituição
se revela insuficiente. As penas acessórias assumem assim uma função complementar em relação às penas principais
ou de substituição.

As penas acessórias estão previstas na Parte Geral, nos arts. 66º e ss. CP, e em alguns casos na Parte Especial, nos
arts. 152º/4 e 6 (violência doméstica), art. 246º e art. 346º CP (prevêem certas incapacidades eleitorais e
inelegibilidades). O art. 65º/2 CP prevê o princípio do numerus apertus (número aberto) em matéria de penas
acessórias (pode haver mais penas acessórias para além destas que estão aqui na Parte Geral, podendo estar penas
acessórias previstas nos tipos legais de crime) - “A lei pode fazer corresponder a certos crimes a proibição do exercício de
determinados direitos ou profissões.”.

EXAMES:

1. Distinga penas acessórias de efeitos automáticos das penas.

2. Ver com muita atenção as penas novas criadas e as suas especificidades dos arts. 69º-A, B e C CP (criadas em
2014 e 2015). Tem se questionado se se tratam de verdadeiras penas acessórias ou se voltámos aos efeitos
automáticos das penas. Por exemplo, o art. 69º-B e C, nos nº1, diz-se “pode ser condenado” e nos nº2 diz-se “é
condenado” - nos nº2 deixa de haver disponibilidade do juiz quanto à possibilidade da sua aplicação. Daí que se
tenha questionado saber se afinal estas penas acessórias que foram criadas mais recentemente em 2015 se se
tratam de verdadeiras penas acessórias - por que razão no nº 1 usa a expressão “pode ser condenado”, e no nº2
usa a expressão “é condenado”? Parece que não se trata de uma verdadeira pena, e que voltámos aqui à velha
ideia dois efeitos automáticos das penas.

5 - DETERMINAÇÃO DA PENA APLICÁVEL ÀS PESSOAS SINGULARES

As fases de determinação da pena são 3:

1. O juiz investiga e determina a moldura penal aplicável ao caso. Nesta fase, o juiz está à procura da medida
legal ou abstrata da pena;

2. O juiz, dentro da moldura legal encontrada, vai determinar a medida concreta da pena;

3. Numa 3ª fase, o juiz escolhe a pena que vai efetivamente ser cumprida pelo agente. Esta é uma fase eventual
e que não tem de ser cronologicamente posterior à 2ª fase. Esta fase de escolha da pena pode verificar-se logo no
1º momento, nos casos em que o tipo legal de crime previr em alternativa a pena de prisão e a pena de multa. Mas
pode verificar-se também num 3º momento, porque se o juiz decidir aplicar ao caso uma pena de prisão não
superior a 5 anos, pode depois substituí-la por uma pena de substituição.

Vamos agora analisar as 3 fases:

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José Ferreira - Ano Letivo 2017/2018

1ª fase - Determinação da moldura penal:

Nesta fase o juiz tem de determinar o tipo legal de crime que a conduta do agente preenche. Encontrado o tipo legal de
crime, a moldura penal nele prevista entra automaticamente em aplicação; e esta nem sempre é uma tarefa simples,
porque por vezes o juíz tem de verificar se se trata de um tipo fundamental de crime, ou se estará antes perante um tipo
privilegiado ou um tipo qualificado de crime, sendo que as molduras penais são diferentes.

• É o que acontece nos casos de ofensa à integridade física - pode tratar-se de uma ofensa à integridade física simples
(tipo fundamental do 143), pode tratar-se de uma ofensa à integridade física qualificada (145), ou ainda de uma ofensa
à integridade física privilegiada (146).

• O mesmo acontece com o crime de homicídio, que também pode surgir como simples ou fundamental (131), como
qualificado (132), ou ainda como privilegiado (133), sendo que as molduras legais são muito diferentes consoante os
casos.

É também nesta 1ª fase que o juiz vai ter de averiguar se existem circunstâncias modificativas (p. ex., reincidência
que vai servir para agravar a moldura penal; idade, etc) - falaremos disto mais à frente.

2ª fase - Determinação da medida concreta da pena:

Encontrada a moldura penal, o juiz vai ter de determinar a pena que concretamente vai aplicar ao caso. Como é que o
juiz vai encontrar esta medida concreta?

O legislador dá-nos resposta a esta questão no art. 71º/1 CP, ao estabelecer que a determinação da medida da pena
é feita em função da culpa do agente e das exigências de prevenção. Como é que a culpa e as exigências de
prevenção se relacionam no caso concreto?

Ao longo da história, foram desenvolvidos e propostos diversos modelos de determinação da medida concreta da pena -
vamos referir todos, mas só vamos desenvolver os dois últimos!

1º modelo: Teoria do valor de posição ou de emprego

2º modelo: Teoria da pena da culpa exata

3º modelo: Teoria do espaço de liberdade ou da moldura da culpa (CLAUS ROXIN)

4º modelo: Teoria da moldura de prevenção (FIGUEIREDO DIAS e ANABELA MIRANDA RODRIGUES)

3º modelo: Teoria do espaço de liberdade ou da moldura da culpa

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Segundo esta teoria de ROXIN, a medida da pena é dada através da medida da culpa. E para ROXIN a culpa não
surge como uma medida exata - ela vai surgir sim como uma moldura da culpa entre o máximo e o mínimo.

• De acordo com ROXIN, a 1ª operação que o juiz terá de fazer consiste em determinar a moldura penal abstrata.
Imaginemos que se tratava de um crime de furto (art. 203º CP, que remete para o art. 41º CP para definir o limite
mínimo). Numa 2ª operação, o juiz terá de determinar a medida concreta da pena através da culpa. Mas a culpa não é
uma medida exata, e por isso a única coisa que o juiz consegue determinar é que, p. ex., uma pena de 6 meses já é
adequada à culpa do agente, e que, p. ex., uma pena de 2 anos ainda é adequada a essa mesma culpa. Assim,
dentro da moldura legal, o juiz vai construir a moldura da culpa. Em relação às exigências de prevenção geral, ROXIN
entende que qualquer pena aplicada entre os 6 meses e os 2 anos (dentro da moldura da culpa) satisfará as
exigências da prevenção geral, porque ela será uma pena justa, isto é, uma adequada à culpa do agente. Segundo
ROXIN, é depois dentro da moldura da culpa que vão atuar as exigências de prevenção especial, e em último termo
são as exigências de prevenção especial que determinam a medida concreta da pena. P. ex., atendendo às
exigências de prevenção especial, o juiz poderia determinar uma pena de 1 ano e 6 meses.

ROXIN admite uma situação especial em que se pode aplicar uma pena inferior à culpa do agente (p. ex., uma
pena de 4 meses). Isto poderá acontecer quando o agente não careça de socialização, e, ao nível das exigências de
prevenção especial, a pena vai cumprir somente a sua função de advertência. Nestes casos, a pena pode ser inferior ao
limite mínimo da moldura da culpa, mas o que nunca pode acontecer é a aplicação de uma pena que se situe abaixo do
limite mínimo da moldura penal - porque isto poria em causa a defesa do ordenamento jurídico coincide com o mínimo
da moldura legal. Para ROXIN, a pena mínima ainda compatível com a defesa do ordenamento jurídico coincide com o
limite mínimo da moldura legal.

Quais as críticas a esta proposta de ROXIN?

• 1ª crítica:

O modelo proposto por ROXIN não ignora as exigências de prevenção, mas concede à culpa um papel determinante na
medida da pena. Então, o modelo por ele proposto será compatível com o art. 71º CP, mas já não com o art. 40º CP,
porque este artigo é muito claro ao afirmar o que são as exigências de prevenção que constituem as finalidades das
penas. Por isso, o modelo a adotar por nós há-de ser um modelo que parte não da culpa mas sim das exigências de
prevenção.

• 2ª crítica:

A teoria de ROXIN não é compatível com o art. 40º CP, também porque este artigo é claro ao afirmar que a culpa é
apenas pressuposto e limite inultrapassável da pena, enquanto que na teoria da moldura da culpa, a culpa surge como
limite mínimo e limite máximo da pena.

• 3ª crítica:

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É também passível de crítica o facto de ROXIN fazer coincidir as exigências mínimas de prevenção geral com o limite
mínimo da moldura legal. Na verdade, as exigências de prevenção geral dependem sempre das características do caso
concreto.

- Por um lado, no caso concreto pode acontecer que, para que as exigências de prevenção geral se encontrem
preenchidas, seja necessário que a pena se situe acima do limite mínimo da moldura legal.

- Por outro lado, no nosso sistema sancionatório está previsto o instituto da dispensa de pena no art. 74º CP, que
permite que, em certos casos, haja culpa e não haja pena, isto é, há casos em que é provada à culpa mas, em
relação aos quais, não se fazem sentir exigências de prevenção que justifiquem a aplicação de uma pena.

4º modelo: Teoria da moldura de prevenção, proposta por FIGUEIREDO DIAS e ANABELA MIRANDA RODRIGUES

Este modelo é o que se mostra mais consentâneo com uma leitura conjugada dos art. 40º e 71º do CP. À luz do art. 40º
CP, com a aplicação de uma pena visa-se a tutela de bens jurídicos, ou seja, finalidades de prevenção geral. Por isso,
a medida da pena há-de ser determinada a partir da medida da necessidade de tutela de bens jurídicos no caso
concreto. Porém, essa necessidade de tutela dos bens jurídicos não surge de uma medida exata - deste modo
surge aqui uma moldura, a designada moldura de prevenção.

Esta moldura tem como limite superior o ponto ótimo da tutela dos bens jurídicos, e tem como limite inferior as
exigências mínimas de defesa do ordenamento jurídico e da paz social. Dentro desta moldura da prevenção geral de
integração, a medida da pena vai ser encontrada em função das exigências da prevenção especial7 .

Qual é o papel que desempenha a culpa neste modelo de prevenção? A culpa surge sempre como o limite da pena,
quer quanto às exigências de prevenção geral, quer quanto às exigências de prevenção especial.

Segundo FIGUEIREDO DIAS, podem surgir conflitos entre a culpa e as exigências de prevenção especial, mas por
regra, não existem conflitos entre a culpa e as finalidades de prevenção geral positiva (ou de integração).
Porquê? Isto porque não é fácil encontrar situações em que o ponto ótimo (ou ainda aceitável) de tutela dos bens
jurídicos se situe acima daquilo que a adequação à culpa permite. Na verdade, as razões de diminuição da culpa são,
em princípio, também comunitariamente compreensíveis e aceitáveis, e determinam que, no caso concreto, as
exigências de tutela de bens jurídicos e de estabilização das normas também sejam menores. Por isso, em princípio,
não existem conflitos entre a culpa e as exigências de prevenção geral positiva.

Quais são os critérios de aquisição e de valoração dos fatores de medida da pena?

Sabemos já que a culpa e a prevenção são os critérios de medida da pena. E já vimos qual é a forma como se
relacionam a culpa e as exigências de prevenção no processo de determinação da medida concreta da pena. Agora
vamos perguntar como é que o juiz vai aferir o grau de culpa, e como é que ele vai determinar quais exigências de

7 Nos casos em que o agente não for carecido de socialização e, ao nível das exigências de prevenção especial, a pena cumprir apenas uma função de advertência, a pena há-de
situar-se perto do limite mínimo da moldura de prevenção. Inversamente, se o agente se revelar muito carecido de socialização, a pena há-de situar-se perto do limite máximo da
moldura de prevenção.

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prevenção. No fundo, é preciso sabermos qual é o conjunto das circunstâncias do complexo integral do facto que
relevam (≠ revelar) para a culpa e que relevam para as exigências de prevenção.

A estas circunstâncias chamam-se “fatores de medida da pena”. E nesta tarefa o juiz é auxiliado pelo legislador,
que no art. 71º/2 CP enumera de forma exemplificativa alguns fatores de medida da pena (ATENÇÃO! Não confundir
com o 71º/1 CP, onde estão os critérios de medida da pena - a culpa do agente e das exigências de prevenção).
É exemplo desses fatores a) o grau de ilicitude do facto e ao modo como foi praticado, b) a intensidade do dolo e da
negligência, c) os sentimentos e fins que determinaram aquela conduta, d) as condições pessoais e sócio-económicas,
e) a conduta anterior e a conduta posterior a este, especialmente quando esta seja destinada a reparar as
consequências do crime (ex.: agente matou e tentou ocultar o cadáver; o agente matou e depois foi à polícia
desesperado e confessou), f) a falta de preparação para manter uma conduta lícita, manifestada no facto, quando essa
falta deva ser censurada através da aplicação da pena. O que o juiz vai fazer, a partir da moldura abstrata, vai
fundamentar a medida da pena, a partir das características do caso concreto, de acordo com o nº3 (atendendo
aos fatores exemplificativos do art. 71º/2 CP8, ou outros).

Aula 5 - 09/11/17

No âmbito dos factores da medida da pena é muito importante o principio da proibição da dupla valoração. O nº 2 do
artigo 71º CP estabelece que “na determinação concreta da pena, o juiz atenderá a todas as circunstancias que,
não fazendo parte do tipo de crime, deponham a favor do agente ou contra ele”. Assim, no principio da proibição
da dupla valoração, “não fazendo parte do tipo de crime” significa que não devem ser utilizadas pelo juiz para a
determinação da medida da pena circunstâncias que o legislador já tomou em consideração ao estabelecer a moldura
penal do facto.

• Ex.: Art. 132º CP - homicídio qualificado - conduta tem de revelar especial censurabilidade ou perversidade. Filho
matou o pai então o juiz considera-o como um homicídio qualificado com moldura legal de 12 a 25 anos. Não pode o
juiz para determinar a medida concreta da pena considerar o facto da vitima ser pai do agressor porque o agressor já
teve esse facto em consideração ao criar a moldura penal do artigo.

Este princípio vale ainda na medida em que o juiz não pode avaliar a mesma circunstância duas vezes, e é um
principio relevante em diversas matérias, p. ex. na matéria de determinação da pena de multa, na matéria da
reincidência e na matéria do concurso de crimes. Mas este princípio não impede que o juiz atenda à intensidade ou
aos efeitos do preenchimento do tipo legal de crime.

• Artigo 144º CP - Ofensa à integridade física grave - moldura penal de 2 a 10 anos - imaginemos que A amputou uma
perna a B, privou membro de um importante membro daí ser um crime de ofensa à integridade física grave. O facto de
B ter ficado sem uma perna não pode ter sido em conta pelo juiz para fundamentar a medida da pena sendo violaria o
principio da proibição da dupla valoração uma vez que a moldura penal da ofensa à integridade física grave já foi
agravada pelo legislador devido às circunstancias do crime. No entanto o juiz pode atender à gravidade ou intensidade
do tipo. Se A tivesse cortado as duas pernas a B então o juiz poderia ter em conta este facto. Não será indiferente

8 No exame temos de hipotizar com os fatores do nº2 para justificar a medida da pena!

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para questões de determinação da pena concreta o grau de preenchimento do tipo, a diferença entre cortar uma ou
duas pernas releva.

É costume fazer-se uma classificação dos fatores em 3 grupos:

1. Fatores relativos à execução do facto: aqueles que estão na alínea a) b) c) e parte final da e) do 71º/2;

2. Fatores relativos à personalidade do agente: alínea d) e f) do artigo 71º/2;

3. Fatores relativos à conduta do agente anterior e posterior ao facto: alínea e), o juiz lança mão destes fatores
para aferir a medida concreta da pena. Costuma dizer-se que estes fatores da medida da pena são ambivalentes,
isto é, o mesmo fator pode relevar para a determinação da culpa e para a averiguação das exigências de prevenção
e esta ambivalência pode ser dupla, isto é é, os fatores de medida da pena podem ser duplamente
ambivalentes - o mesmo fator pode ter um efeito agravante quando considerado ao nível da culpa e um
efeito atenuante quando considerado ao nível das exigências de prevenção e vice versa.

• Ex.: a situação económica do agente quanto a crimes de natureza fiscal. É um factor a ter em conta pelo juiz no
momento da determinação da medida concreta da pena. Boa situação económica do agente que não paga
impostos isto releva para aumentar a medida da pena, mais censurável é o comportamento daquele que poderia
pagar e mesmo assim opta por não o fazer. No entanto esse mesmo agente sem dificuldades económicas pode
reduzir as exigências de socialização e de prevenção especial são mais reduzidas daí estes factores se dizerem
duplamente ambivalentes. o mesmo fator pode relevar para a culpa e prevenção (ambivalentes) e duplamente
ambivalentes.

Mas nem todos os factores são ambivalentes. Os fatores relacionados com o comportamento posterior à pratica
do facto (art. 71º/2/e) CP) nunca podem relevar para efeitos de determinação da culpa do agente porque a culpa
do agente fixa-se no momento da prática do facto. Depois da prática de um crime o agente pode tomar uma de duas
atitudes: confessar ou fugir. Isto é importante para determinar a medida concreta da pena, no entanto este fator não é
ambivalente porque o comportamento posterior à pratica do facto não afere a culpa do agente porque esta é aferida no
momento da pratica do facto, nas circunstancias em que se encontrava naquele momento. Todos os fatores do 71º/2
são ambivalentes? Não. O art. 71º/2/e) CP não é um fator ambivalente.

Caso Prático 1

A cometeu um crime de furto, previsto no art. 203º CP.

Na primeira operação, ao ter de escolher entre pena de prisão e pena de multa, o juiz optou por aplicar a A a pena de
multa principal.

Determine a pena de multa a aplicar a este arguido.

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Resolução:

1. Primeira operação de determinação da pena - saber qual a moldura legal, Como não sabemos o limite mínimo da
pena de multa socorremo-nos do art. 47º CP - 10 a 360 dias.

2. Segunda operação - determinar a medida concreta da pena - o juiz vai ter de a determinar.

Qual o procedimento que tem de seguir para determinar a medida concreta da pena de multa? Atendendo aos critérios
do art. 71º/1 CP e dos fatores fixados no art. 71º/2 CP. Imaginemos que o juiz determina 100 dias de multa. Atendendo à
situação económica do agente o juiz terá agora de fixar o quantitativo diário do agente - entre 5€ e 500€.

Quais são em abstrato os sistemas de determinação da pena de multa?

a) Sistema da soma global:

aa) modalidade de multa em quantia certa

ab) modalidade de multa em quantia variável

b) Sistema dos dias-de-multa:

ba) na primeira operação, o juiz vai determinar o no de dias de multa

bb) na segunda operação, o juiz vai fixar o quantitativo diario

bc) na terceira operação, o juiz vai determinar o modo concreto do pagamento (eventual)

aa) Sistema da soma global, na modalidade de multa em quantia certa:

No sistema da soma global na modalidade de multa em medida certa fixada por lei, não há qualquer
procedimento a adoptar pelo juiz para a determinação da pena concreta. O juiz teria apenas de identificar o tipo
legal de crime e aplicar a pena nele prevista.

• Ex.: “quem furtar coisa de valor diminuto é punido com a multa de 300€”. O juiz apenas teria de ver se a conduta era
de furto de coisa de valor diminuto e se se tratou de um crime de furto.

Este sistema não é aceitável, sendo inconstitucional porque viola desde logo o princípio da culpa - não permite
atender à culpa concreta do agente, podendo vir a aplicar-se uma pena superior à culpa do agente. Por outro
lado, este sistema viola também o princípio da igualdade e o princípio da proporcionalidade, porque não
permite atender à situação económico-financeira do agente. Este sistema prejudica o agente com uma situação
económica mais débil e beneficia os mais ricos, e em relação aos agentes mais ricos esta multa em quantia fixa
pode acabar por perder a sua eficácia politico-criminal.

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ab) Sistema da soma global na modalidade de multa em quantia variável:

O sistema da soma global na modalidade de multa em quantia variável, afirmar-se-ia num tipo legal de crime que
estabelecesse o seguinte: “Quem cometer um crime de coisa de valor diminuto é punido com uma pena entre 200 e
400€”. Este sistema já permite de alguma forma atender à culpa e à situação económico-financeira do agente.

No entanto, este não é ainda um sistema satisfatório, uma vez que, considerando a culpa e a situação económica do
agente num único ato, o juiz fica impedido de atender ao diferente peso que cada um destes elementos pode
assumir na operação de determinação da pena (no caso concreto).

Nós não aceitamos nenhuma das modalidades do sistema global. Adoptamos sim o sistema dos dias de multa, que
passamos a analisar.

ba) Sistema dos dias de multa - 1ª operação (determinação dos dias de multa):

O art. 47º CP estabelece que a multa é fixada em dias, de acordo com os critérios estabelecidos no art. 71º/1 CP.
Deste modo, para a determinação da pena de multa, o juiz deve seguir os critérios gerais de determinação da pena
referidos no art. 71º/1 CP: a culpa e as exigências de prevenção. Concluímos assim que o nº de dias de multa se
determina do mesmo modo que se determinam os dias ou os meses de prisão, isto é, segundo os critérios referidos no
art. 71º/1 CP, e atender aos factores de medida da pena exemplificados no art. 71º/2 CP.

No art. 71º/2 CP, o legislador enuncia de forma exemplificativa um conjunto de fatores de medida da pena que
relevam para a culpa e/ou para a prevenção. Um desses factores é a situação económica do agente, que está na
alínea d): no caso da pena de multa, como a situação económica do agente vai ter posteriormente um tratamento
autónomo aquando da 2ª operação (da determinação/fixação do quantitativo diário), não faz sentido o juiz atender à
situação económica do agente logo na 1ª operação (de determinação do nº de dias de multa); se o juiz considerasse a
situação económico-financeira do agente, quer na 1ª operação, quer na 2ª operação, ele estaria claramente a violar o
princípio da proibição da dupla valoração.

No entanto, é consensual que o juiz deve atender à situação económico-financeira do agente logo no momento
em que está a determinar o nº de dias de multa, nas situações excecionais em que a situação económica do
agente for determinante da sua culpa (p. ex., duas senhoras que furtam uma lata de leite em pó, em que uma tinha
um filho esfomeado em casa e não tem dinheiro para pagar, enquanto que a segunda não se quis dar ao trabalho de
pagar e pôs na mala - no primeiro caso é determinante para baixar a culpa do agente).

Concluindo, todas as considerações atinentes quer à culpa, quer à prevenção geral e especial, devem influenciar apenas
a 1ª operação de determinação da pena de multa.

Por sua vez, tudo quanto respeitar à situação económico-financeira do agente não deve, em princípio, ser tido em
consideração no momento da determinação do no de dias de multa; exceto quando a situação económica do agente for
determinante da sua culpa.

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No nosso caso prático, atendendo a estes fatores todos, imaginemos que se aplica 100 dias de multa.

bb) Sistema dos dias de multa - 2ª operação (fixação do quantitativo diário):

Nos termos do art. 47º/2 CP, o quantitativo diario é fixado entre 5 e 500€, atendendo à situação económico-financeira
do agente, bem como aos seus encargos pessoais.

Por vezes pode ser difícil determinar qual a situação económico-financeira do arguido. O juiz pode fazer uso dos seus
poderes de investigação oficiosa (art. 340º CPP) para obter prova sobre os elementos necessários à correta
determinação do quantitativo diário da pena de multa. Normalmente o que o juiz faz aqui é perguntar quantos filhos tem,
o que normalmente faz, etc...; ou então pedir que se junte ao processo a declaração de IRS do agente, chamar a
entidade patronal, pedir recibos9 (muitas vezes pouco ajudará, porque não há uma correspondência entre os
rendimentos auferidos e os declarados).

Para determinar o quantitativo diário, atende-se ao último momento processualmente possível, isto é, determina-se o
quantitativo diário tendo em conta a situação económico-financeira do agente no momento da condenação. Isto está
relacionado com o princípio da proibição da reformatio in pejus (art. 409º CPP). Segundo este princípio, em termos
resumidos, sempre que um recurso for interposto no interesse exclusivo da defesa, o condenado não pode ver a
sua pena agravada em sede de recurso. Visa-se com este princípio garantir o direito ao recurso por parte do
condenado (art. 32º/1 CRP) - se o condenado soubesse que a sua pena pudesse subir, sentir-se-ia inibido de recorrer;
e só vale quando este recurso é interposto no interesse da defesa (e não pelo MP no interesse da acusação ou no
interesse do ofendido, onde a pena já pode ser agravada). No caso do recurso interposto apenas pela defesa em
relação a uma pena de multa, o tribunal superior nunca poderá aumentar o nº de dias de multa; porém, o tribunal já
poderá aumentar/agravar o quantitativo diário, se entretanto a situação económico-financeira do condenado tiver
melhorado de forma sensível (art. 409º/2 CPP) - p. ex., se algum cidadão comum ganhar o Euromilhões. Esta
possibilidade justifica-se em nome da ideia de que a pena de multa tem de ser uma sanção político-criminalmente
eficaz.

Situação de carência de rendimentos próprios - pode acontecer que quando o juiz vai determinar o quantitativo
diário, ele se depare com uma situação em que o agente não tem rendimentos próprios (p. ex., no caso de
desempregados, estudantes, domésticos...). Porém, isto não significa, no entanto, que este agente não possa ser
condenado numa pena de multa (agente desempregado por regra receberá, o subsídio de desemprego; o estudante
receberá, em princípio, dinheiro de mesada ou bolsa; e o cônjuge doméstico terá certamente uma parte do vencimento
do outro cônjuge, a título do dever de assistência). É sim a estas quantias que o juiz deve atender para determinar o
quantitativo diário da pena de multa - é a estas e só a estas (um estudante não pode atender aos ordenados dos pais -
um terceiro não pode pagar multa própria, senão até comete um crime como já vimos, se bem que quanto maior o
salário dos pais, melhor a sua mesada e assim maior a capacidade de pagamento). Mas há sempre um limite
inultrapassável, que é o mínimo existencial (o juiz pode aplicar uma pena de multa que o impeça de ir ao cinema, mas já
não que o impeça de almoçar). Pode acontecer ainda que no momento em que o juiz vai aplicar o quantitativo diário, se

9 Temos de ver em que casos se pode levantar o sigilo bancário, mas não é uma coisa simples pois temos vários interesses em jogo (a confiança nas instituições bancárias por um
lado, e o exercício da justiça penal por outro). E depois colocam-se aqui algumas questões complexas importantes: saber se o juiz pode considerar património para efeitos de
consideração da situação económico-financeira do agente - normalmente diz-se que não porque poderia implicar um confisco dos bens e não é isso que se pretende). Mas já se
tem em considerado p. ex. as rendas que o agente aufere com aquele património. Esta questão da determinação do quantitativo diário relacionada com a situação económico-
financeira do agente.

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depare com uma situação em que o agente não pode pagar sequer o mínimo legal dos 5€ por dia, porque vive no limiar
mínimo de subsistência, ou mesmo abaixo dele - o nosso CP prevê mecanismos para fazer face a estas situações
(vamos estudar mais à frente quando estudarmos a execução da pena de multa).

Aula 6 - 16/11/17

bc) Sistema dos dias de multa - 3ª operação [determinação do modo concreto do pagamento da pena de multa
(momento eventual)]:

Às 2 operações de determinação da pena de multa que acabámos de ver, pode eventualmente seguir-se uma 3ª,
relativa à fixação do prazo e às condições de pagamento.

Normalmente, a multa tem de ser paga dentro de 15 dias a contar da notificação para o efeito (art. 489º/2 CPP).
Mas, nos termos do art. 47º/3 CP, o juiz pode diferir (adiar ≠ deferir) o prazo para pagamento, ou permitir o
pagamento em prestações, tendo em conta a situação económico-financeira do condenado. Esta é, por isso, uma
operação meramente eventual - na maioria das vezes não ocorre (a pessoa recebe a guia para pagamento da multa, vai
ao Multibanco e paga).

Esta possibilidade pretende evitar que a pena de multa não seja cumprida. Mas claro que tem de haver limites a esta
possibilidade de diferimento e de pagamento em prestações, para que a multa continue a ser sentida como uma sanção
penal pelo agente (não seria aceitável nomeadamente diferir o pagamento para daqui a 60 anos, ou estabelecer
prestações de 2€ - a pena deixaria de ser sentida). Esses limites constam do art. 47º/3 CP - nunca pode ser o
diferimento ser superior a 1 ano, e nunca pode ser permitido o pagamento em prestações para lá dos 2 anos
(note-se que a lei não diz qual o valor dos prestações e de quantas prestações são - isso está na disponibilidade do juiz,
que irá analisar a situação económico-financeira do condenado, e ver o que é mais adequado no caso concreto). Na
prática, o que se verifica é que o juiz não prevê logo na sentença a possibilidade de pagamento diferido ou em
prestações - por regra, é o advogado do condenado que, após o trânsito em julgado da condenação, apresenta
requerimento com este pedido - ex.: acidente com o automóvel e gastou-se muito dinheiro com a reparação; o início do
ano letivo e está cheia de despesas; é um trabalhador independente e naquele mês não prestou quaisquer serviços e
por isso não têm rendimentos disponíveis.

Acórdão 07/04/2008 Processo 153/08-1Relação de Guimarães - O arguido foi encontrado a conduzir num estado de embriaguez,
tinha 1,7 g álcool/litro de sangue - a pessoa incorre na prática de um crime se tiver mais de 1,2 g (estava de facto bastante alcoolizado)
-, e foi condenado em 1ª instância ao pagamento de uma pena de multa, e o juiz condenou a 60 dias de multa com o pagamento diário
de 5€; condenou-o também na pena acessória de proibição de condução de veículos com motor por um período de 3 meses. O MP
entendeu que esta condenação tinha sido muito baixa (o nº de dias de multa era muito baixo, o quantitativo diário era muito baixo, e
que a própria pena acessória tinha sido aplicada por um período de tempo muito reduzido), e então recorreu desta decisão (o nosso
MP em Portugal não atua como nos filmes americanos, como um puro acusador, de acordo com a nossa legislação atua segundo
critérios de estrita objetividade - no nosso caso poderia também ter recorrido se entendesse que a pena era muito alta, ou seja tanto
pode interpor recursos no interesse da acusação, como no interesse da defesa). E na Relação de Guimarães, o juiz entendeu que, de
facto, os 60 dias de multa era adequado (por isso não agravou), mas entendeu que, tendo o juiz fixado o quantitativo diário no mínimo
nos 5€, era um valor muito baixo (segundo este juiz, este valor só deve ser aplicado a pessoas que vivem no limiar mínimo de

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subsistência; neste caso era jovem, vivia com os pais e por isso não tinha despesas com a renda de casa, água, luz, e auferia cerca de
500€ mensais), e aumentou para 8€; entendeu também o juiz que a pena acessória de proibição por 3 meses da condução de
veículos com motor tinha sido aplicada por um período de tempo muito reduzido (tece considerações muito interessantes ao dizer que
a pena acessória é uma verdadeira pena, que só se pode aplicar quando no caso se verificarem exigências de prevenção geral e
especial), e decidiu alargar este tempo para 7 meses.

6 - CASOS ESPECIAIS DE DETERMINAÇÃO DA PENA

Vamos ver o que acontece quando no caso concreto existem circunstâncias modificativas da pena: o juiz tem
de ter em consideração essa circunstância logo na primeira operação (de determinação da pena), ou seja, na
operação em que ele vai investigar a moldura legal aplicável ao caso.

O que são circunstâncias modificativas? Elas são os pressupostos que não dizem respeito nem ao tipo de ilícito
nem ao tipo de culpa, nem mesmo à punibilidade em sentido próprio, mas que contendem com a maior ou
menor gravidade do crime como um todo, e relevam, por isso, diretamente para a doutrina da determinação da
pena.

As circunstâncias modificativas são diferentes dos fatores de medida da pena. Porquê? Porque as circunstâncias
modificativas intervêm atenuando ou agravando a moldura penal abstrata, ao passo que os fatores de medida da pena,
enunciados exemplificativamente no art. 71º/2 CP, intervêm no momento de determinação da medida concreta da pena
(MUITAS VEZES PERGUNTADO NOS EXAMES).

As circunstâncias modificativas podem ser de vários tipos:

- agravantes (são aquelas que alteram a moldura penal, elevando-a, ou só no limite máximo, ou só no limite mínimo,
ou em ambos os limites);

- atenuantes (são as que alteram a moldura penal, baixando-a, ou só no limite máximo, ou só no limite mínimo, ou em
ambos os limites);

- gerais ou comuns (quando se aplicam a qualquer tipo de crime);

- específicas ou especiais (quando valem apenas para certos tipos legais de crime, estando referidas na parte
especial do CP - p.ex., no âmbito do crime de furto, em que o art. 206º/2 estabelece que se a coisa furtada for
restituída, a pena é especialmente atenuada);

No nosso sistema sancionatório apenas está prevista uma circunstância modificativa agravante geral, que é a
reincidência. Mas existem várias circunstâncias modificativas ateunantes gerais - estas podem ser de dois tipos:

- 1º tipo: Circunstâncias modificativas atenuantes expressamente previstas na lei: caso da comissão por
omissão (art. 10º/3 CP), o caso da tentativa (art. 23º/2 CP), o caso da cumplicidade (art. 27º/2 CP), e ainda o
caso do art. 4º regime especial dos jovens adultos, que está previsto no DL 401/1982 de 23 Setembro - este é o
regime que se aplica aos jovens entre os 16 e os 21 anos, e que prevê expressamente no art. 4º a possibilidade de
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atenuação especial da pena por parte do juiz, se for expectável que isso tenha um efeito positivo ao nível nas
exigências de prevenção especial (uma mais fácil reinserção na sociedade do agente).

- 2º tipo: Cláusula geral de atenuação especial da pena (art. 72º CP): o legislador indica exemplificativamente um
conjunto de circunstâncias que podem conduzir à atenuação especial da pena.

Concluímos daqui que, quer se trate de uma atenuação expressamente prevista, quer se trate de um caso previsto no
art. 72º CP, para que o juiz saiba de que modo deve proceder à atenuação, tem de seguir os critérios do art. 73º
CP.

NOTA: Sempre que a lei use a expressão “a pena pode ser especialmente atenuada”, não estamos a falar da
determinação da moldura concreta da pena, o que vai ser alterado é a própria moldura penal.

Caso Prático 1 sobre circunstâncias modificativas

A está a ser julgado como cúmplice pela prática de um crime punível com uma moldura penal de 5 a 15 anos.

Qual é a moldura abstrata de que o juiz deve partir para determinar a pena concreta a aplicar a A?

Resolução:

• Cúmplice: art. 27º/2 CP

• Art. 73º/1/a) CP: o limite máximo é reduzido DE 1/3 (termos de encontrar 1/3 e subtrair): 15x1/3=5; 15-5=10 - o limite
máximo passa a ser de 10 anos.

• Art. 73/1/b) CP: o limite mínimo é reduzido A 1/5 (basta encontrar 1/5 e está feito), se for igual ou superior a 3 anos; u
então ao mínimo legal se for inferior: 5x1/5=1 - o limite mínimo passa a ser de 1 ano!

Então, a moldura penal atenuada do cúmplice A passou a ser de 1 a 10 anos.

Caso Prático 2 sobre circunstâncias modificativas

B está a ser julgado como cúmplice pela prática de crime punível com uma moldura abstracta de 1 a 9 anos.

Qual é a moldura de que o juíz deve partir para determinar a pena concreta a aplicar a B?

Resolução:

• Cúmplice: art. 27º/2 CP.

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• Art. 73º/1/a) CP: limite máximo: 9x1/3=3; 9-3=6

• Art. 73º/1/b) CP: limite mínimo: não vai ser reduzido a 1/5, mas sim ao mínimo legal (1 mês, de acordo com o art. 41º/
1 CP)

Então, a moldura será de 1 mês a 6 anos.

ATENÇÃO: Podemos fazer estas contas na folha de rascunho do exame, e apenas pôr as respostas finais na folha de
exame.

6.1 - CONCORRÊNCIA/CONCURSO DE CIRCUNSTÂNCIAS MODIFICATIVAS

No caso concreto, pode verificar-se concorrência/concurso de circunstâncias modificativas, isto é, pode verificar-se
várias circunstâncias modificativas no mesmo caso. No caso de haver uma concorrência de circunstâncias
modificativas atenuantes, o juíz só deve fazer funcionar todas as circunstâncias se a razão da atenuação for
diferente em cada uma delas - ou seja, se cada uma das razões de atenuação possuir um autónomo fundamento
material. Isto decorre do art. 72º/3 CP.

• Este autónomo fundamento material verifica-se, p. ex., se se tratar de um jovem adulto que cometeu um crime apenas
na forma tentada e mostrou um claro arrependimento - aplica-se regime dos jovens adultos (pensados por ser um
jovem adulto, e por razões de prevenção especial não faz sentido prendê-los muito tempo), o da cláusula geral
(mostrou arrependimento) e o da tentativa; mas depende das circunstâncias do caso (pode optar por só aplicar uma
delas).

• Mas já não se verifica, p. ex., se se tratar de uma tentativa, e o juiz pretender também proceder à atenuação especial
da pena com base na clausula geral nos termos do art. 72º CP, por entender que, no caso concreto, não chegou a
haver um dano para o bem jurídico.

Caso Prático 3 sobre circunstâncias modificativas

C está a ser julgado pela prática de um crime punível com uma moldura penal de 3 a 12 anos.

C foi cúmplice, o crime não chegou a consumar-se, tendo ficado no estádio de tentativa; e, além disso, C tem 19 anos.

Qual é a moldura abstracta de que o juíz deve partir para determinar a pena concreta a aplicar a C?

Resolução:

Temos aqui uma concorrência de 3 circunstâncias atenuantes:

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- a cumplicidade

- a tentativa

- a idade

Em abstrato, são pensáveis dois sistemas: o sistema da acumulação e o sistema do funcionamento sucessivo.

- Sistema da acumulação

De acordo com este sistema, temos de fazer uma 1ª operação. Aqui vamos saber de quanto é que é atenuação. Nos
temos do art. 73º/1/a) CP, o limite máximo é reduzido de 1/3. No nosso caso prático, o limite máximo é de 12 anos; logo,
a atenuação vai ser de 4 anos.

Depois, numa 2ª operação, vamos multiplicar a atenuação de 4 anos pelo nº de circunstâncias modificativas
atenuantes que se verificarem no caso. No nosso exemplo, 4 anos vezes 3 circunstâncias modificativas - a
atenuação seria de 12 anos, o que dava azo a uma pena de 0.

Contudo, este sistema conduz a esta solução absurda, e como tal não o podemos seguir.

- Sistema do funcionamento sucessivo

Vamos fazer funcionar cada uma das circunstâncias modificativas atenuantes sucessivamente.

- Cúmplice:

• Então: art. 73º/1/a) limite máximo: 12x1/3=4; 12-4=8

• Art. 73º/1/b) limite mínimo: 3 anos x 1/5 = 36 meses x 1/5 = 7 meses e 6 dias (podemos dizer valores aproximados)

Passámos a ter uma moldura de 7 meses e 6 dias a 8 anos pelo facto de ser cúmplice.

- Tentativa:

• Art. 23º/2 CP: agora já trabalhamos com a moldura atenuada, de 7 meses e 6 dias a 8 anos.

• Então: limite máximo: 8x1/3= 96 meses x 1/3 = 32 meses (2 anos e 8 meses). 8 anos - 2 anos e 8 meses = 5 anos e 4
meses:

• Limite mínimo: 1 mês

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A moldura passa agora a ser de 1 mês a 5 anos e 4 meses.

- Regime dos jovens adultos (idade de 19 anos):

Agora, à semelhança do supracitado, vamos passar a usar a moldura de 1 mês a 5 anos e 4 meses.

• Então: limite máximo: 5 anos e 4 meses = 64 meses x 1/3 = 3 anos, 6 meses e 20 dias

• Limite mínimo: 1 mês

A moldura penal passa a ser de 1 mês a 3 anos, 6 meses e 20 dias. Depois dentro desta moldura legal, temos de
encontrar a moldura concreta, tendo em conta os critérios gerais do art. 70º/1 CP e os fatores de medida da pena do art.
71º/2 CP.

Aula 7 - 23/11/17

6.2 - CIRCUNSTÂNCIA MODIFICATIVA AGRAVANTE GERAL, A REINCIDÊNCIA:

Não é correto nós chamarmos reincidente a todo o agente que praticar mais do que um crime. A reincidência depende
de certos pressupostos referidos no art. 75º CP: punição por um crime doloso com pena superior a 6 meses,
condenação transitada em julgado por outro crime doloso com pena superior a 6 meses, e as condenações
anteriores não serviram de advertência suficiente contra a prática de crime.

É sempre esta a linha gráfica típica dos casos de reincidência:

Agente comete crime 1 —> Condenação pelo Crime 1 —> Trânsito em julgado da condenação do crime 1 —> Agente
comete crime 2

Quais os pressupostos para que possamos dizer que estamos perante um caso de reincidência?

1 - Pressuposto material:

Por que é que o agente reincidente vai ser mais fortemente punido do que o agente não reincidente? No caso da
reincidência o agente é mais punido porque é mais culpado, e a sua maior culpa consubstancia-se numa atitude
pessoal de desconsideração pela solene advertência contida na condenação anterior. O agente praticou um 1º
crime e foi condenado por esse crime; essa condenação transitou em julgado e, quando prática um segundo crime, o
agente revela uma atitude pessoal de desrespeito pela solene advertência contida na condenação anterior. O agente
reincidente tem por isso uma maior culpa.

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É verdade que o agente reincidente é também um agente em relação ao qual também se verificam maiores
exigências de prevenção especial, ou seja, é um agente mais perigoso. Porém, o que justifica a punição como
reincidente é uma maior culpa do agente. As exigências acrescidas de prevenção especial atuarão apenas de forma
indireta ou mediata - se no caso concreto o fundamento de uma maior sanção for, de forma imediata, a maior
perigosidade, neste caso deve aplicar-se ao agente uma pena relativamente indeterminada, nos termos do art.
76º/2 CP - se na situação convergirem os pressupostos da reincidência e da pena relativamente indeterminada,
deve aplicar-se ao agente uma pena relativamente indeterminada.

O pressuposto material da reincidência está referido no art. 75º/1/2ª parte CP. É pressuposto sempre que se mostre,
segundo as circunstâncias do caso, que a condenação ou as condenações anteriores não serviram ao agente
de suficiente advertência contra o crime. Para que esteja preenchido este pressuposto material, é necessário
que entre os dois crimes exista uma conexão íntima. Mas o que significa esta conexão íntima?

• P. ex., A praticou um crime de furto pelo qual foi condenado com uma decisão transitada em julgado, e depois
cometeu um crime de natureza sexual. Deverá A ser considerado reincidente? À partida parece que não, porque
parece que não há conexão íntima entre estes dois crimes.

Contudo, para haver uma conexão íntima, não tem de se tratar de uma repetição do mesmo crime. É preciso sim
que estejamos perante factos de natureza análoga, atendendo-se por regra ao bem jurídico em causa, aos motivos,
à espécie e à forma de execução (p. ex., crime de violação e a seguir crime de coacção sexual; crime de furto e crime
de abuso de confiança).

Em casos raros pode verificar-se a violação do mesmo bem jurídico nos 2 crimes, e ainda assim não haver
reincidência, porque, p. ex., a situação de degradação social em que o agente vive ou o efeito criminógeno da prisão
podem fazer com que, apesar de o agente ter voltado a violar o mesmo bem jurídico, tal não revele um desrespeito pela
solene advertência contida na condenação anterior.

2 - Pressupostos formais:

Caso Prático 1 de reincidência

Em Março de 2010, A cometeu um crime pelo qual foi condenado, em Maio de 2011, em 4 anos de prisão.

Ele cumpriu a pena e depois, em Abril de 2016 e já em liberdade, cometeu um 2º crime de natureza análoga ao
primeiro, punível com uma pena de prisão de 3 a 12 anos.

Determine a pena a aplicar a A por este 2º crime.

Resolução/Questão a colocar aqui: Admitindo que o pressuposto material está preenchido, estarão preenchidos os
pressupostos formais para que A possa ser condenado pelo 2º crime como reincidente? Fazemos uma distinção entre
pressupostos formais relativos ao 1º crime e pressupostos formais relativos ao 2º crime:

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• Pressupostos relativos ao 1º crime:

- 1º Pressuposto: É necessário que haja uma decisão com trânsito em julgado. Então, se a decisão for
irrecorrível, ela transita imediatamente em julgado. Mas, por regra, as decisões são recorríveis, e neste caso, a
decisão transitará em julgado quando já tiver passado o prazo para recurso, que, nos termos do art. 411º CPP, é
de 30 dias.

- 2º Pressuposto: Tem de se tratar de um crime doloso.

- 3º Pressuposto: Tem de ter sido punido com prisão efetiva superior a 6 meses. Dois esclarecimentos:

• O 1º crime tem de ter sido punido com prisão efetiva - por isso, não opera a reincidência se a pena for
substituída.

• Para além disso, o art. 75º/1 CP exige que o 1º crime tenha sido punido com pena de prisão efetiva superior
a 6 meses. Mas, nos termos do art. 75º/4 CP, não se exige que o agente tenha efetivamente cumprido essa
pena de prisão.

• Pressupostos relativos ao 2º crime:

- 1º Pressuposto: Tem de se tratar de um crime doloso.

- 2º Pressuposto: Tem também de ser punido com prisão efetiva superior a 6 meses, e não com uma pena de
substituição.

3 - Pressuposto formal relativo aos 2 crimes (art. 75º/2 CP):

Entre a prática do 1º crime e a prática do 2º, não podem ter decorrido mais do que 5 anos. Se tiverem passado
mais do que 5 anos, prescreve o regime da reincidência. Isto é assim porque, se tiver decorrido um tão longo tempo,
e o agente estiver na sociedade sem ter cometido nenhum crime de natureza análoga, não faz sentido afirmar que
desrespeitou a solene advertência que lhe foi feita há 15 anos atrás (não se consegue estabelecer a conexão material
entre os 2 crimes). Mas aqui não é computado o tempo em que ele esteve privado da liberdade (temos de subtrair
ao tempo de permeio entre os 2 crimes o tempo em que não esteve em liberdade - 4 anos), logo o regime da
reincidência do agente do nosso caso prático ainda não prescreveu ao momento do 2º crime praticado (apesar de a
uma primeira vista parecer que já tinha prescrito - passaram mais de 5 anos). Só em liberdade é que podemos saber se
a sua relação com os outros está a cumprir as tais exigências de prevenção geral e especial - durante o tempo em que
está preso, ele não está a ser posto à prova em sociedade, não conseguimos ver se a advertência da condenação
anterior está ou não a ser respeitada. Mesmo que tenha saído em liberdade condicional, esse tempo conta como tempo
de prisão (é um incidente de execução da pena). Se ele não estivesse estado preso - ex.: tinha fugido, prescreveu a
pena, ou que se tivesse sido dado o indulto - não obsta a verificação da reincidência.

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Acórdão 8/2014 TC (regime da prescrição da reincidência). O advogado invocou a inconstitucionalidade do art. 75º/2 CP - porque
violava o princípio da igualdade, ao afirmar que se um determinado sujeito for condenado em pena de prisão, e depois o juiz substituir
por suspensão de execução da pena (a cliente do advogado teria cometido um determinado crime e tinha sido condenada e presa, e
depois saiu em liberdade e cometeu outro crime; como entre a prática do primeiro crime e do segundo esteve presa, não prescreveu o
regime da reincidência, mesmo que tivessem passado mais de 5 anos), essa pessoa estaria em liberdade e por isso se voltasse a
cometer outro crime passados 5 anos teria prescrito o regime da reincidência; ao passo que, no caso da cliente dela, com obtinha
estado privada da liberdade, esse tempo de privação da liberdade impedia a prescrição da reincidência (na perspetiva de SÓNIA
FIDALGO não tem grande sentido, e a resposta do TC não podia ser óbvia). O TC afirmou que se justifica o tratamento diferente nesses
casos, porque num a pessoa está presa, e noutro está em liberdade (apesar da suspensão da execução da pena ser uma pena, esta
não implica a privação da liberdade da pessoa). Pode sair alguma questão sobre este acórdão nos exames escritos e orais!

Vamos agora fazer as operações de determinação da pena neste Caso Prático 1 de reincidência (art. 76º CP). São
4 operações em caso de reincidência:

• 1ª Operação:

Vamos determinar a pena concreta em que o agente seria condenado se não fosse reincidente, atendendo aos
critérios gerais do art. 71º CP. Só fazendo esta operação é que ficaremos a saber se, pelo 2º crime, o agente seria ou
não punido com pena de prisão efetiva superior a 6 meses. Se o juiz determinasse para o 2º crime uma pena de, p. ex.,
3 anos de prisão, que depois viesse a substituir pela suspensão de execução da pena, nesta caso não estaria
preenchido o requisito de, pelo 2º crime, o agente ser punido com prisão efetiva superior a 6 meses. Mas vamos
imaginar então que no nosso caso que, se o agente não fosse reincidente, o juiz determinaria uma pena de prisão de 5
anos.

• 2ª Operação:

Vamos construir a moldura penal da reincidência (art. 76º/1 CP). O limite mínimo será elevado de 1/3, e o limite
máximo permanecerá inalterado. É nesta 2ª operação que a reincidência atua como circunstância modificativa
agravante, pois vamos agravar a moldura legal. No nosso caso, 3 anos + 1/3 = 3+1 = 4. A nova moldura, pelo facto de
se tratar de um agente reincidente, será de 4 a 12 anos.

• 3ª Operação:

Dentro da moldura da reincidência, vamos determinar a pena concreta, de acordo com os critérios do art. 71º
CP, mas tendo agora em conta que o agente é reincidente. Agora vamos chegar a uma pena necessariamente mais
grave do que aquela a que chegámos na 1ª operação, porque o agente reincidente é mais culpado, e porque em
relação a ele são maiores as exigências de prevenção.

Imaginemos então que o juiz aplica uma pena de 7 anos. Podemos aqui questionar se não estaremos a violar o
princípio da proibição da dupla valoração. Ou seja, não estaremos com isto a valorar duas vezes o pressuposto
material da reincidência? Esta pergunta faz-se porque o juiz na 2ª operação agravou a moldura penal em nome da
maior culpa do agente, e depois na 3ª operação o juiz vai encontrar uma pena concreta mais grave também em nome
da maior culpa do agente. A resposta é negativa, porque o que foi valorado para a construção da moldura da
reincidência foi o facto de o agente ter desrespeitado a solene advertência contida na condenação anterior. E,

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na 3ª operação, quando está a determinar a concreta pena da reincidência, aquilo que o juiz vai valorar é o grau
desse desrespeito. Ora, como vimos anteriormente, o princípio da proibição da dupla valoração não impede que
o juiz atenda à intensidade da realização de um elemento do tipo, ou à intensidade da violação de um dever
determinante da aplicação da moldura legal.

• 4ª Operação:

Esta não é verdadeiramente uma operação de determinação da pena - é sim uma operação de limitação, que está
referida no art. 76º/1/2ª parte CP. De acordo com esta norma, o juiz tem de averiguar se a agravação respeita o
limite estabelecido pela pena mais grave aplicada nas condenações anteriores. Pretende-se evitar que uma
condenação anterior numa pena pequena possa, por efeito da reincidência, agravar desproporcionadamente a medida
da pena do 2º crime - a ideia que está presente é uma ideia de proporcionalidade. Como é que se determina a
agravação?

A agravação determina-se subtraindo à pena da reincidência (isto é, à pena que foi encontrada na 3ª operação),
aquela pena a que o agente seria condenado se não fosse reincidente (ou seja, a pena que foi encontrada na 1ª
operação). Deste modo ficamos a saber de quanto foi a agravação.

Então, neste caso prático, 7-5 = 2 — a agravação foi de 2 anos. Cumprimos ou não o limite da agravação do art. 76º/
1/2ª parte CP? Sim.

Aula 8 - 07/12/17

É costume dizer-se que a 1ª operação de determinação da pena no caso de reincidência (ou seja, a operação e
determinação da pena como se o agente não fosse reincidente é uma operação duplamente instrumental (porque
não é nesta pena que o agente vai ser condenado) - por um lado, ela é necessária para sabermos se está cumprido o
pressuposto de o 2º crime ser punido com prisão efetiva superior a 6 meses; e por outro lado, ela é necessária para
sabermos se está respeitado o limite da agravação imposto pelo art. 76º/1/parte final CP.

Isto é muitas vezes perguntado nos exames escritos e orais.

Caso Prático 2 sobre Reincidência:

Em 2015, A cometeu um crime pelo qual foi condenado em 2016 a 8 meses de prisão.

Em 2017, A cometeu um 2º crime, punível com uma moldura de 3 a 9 anos.

Tratando-se de uma situação de reincidência, determine a pena a aplicar a A.

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Resolução:

Esquema gráfico:

C1 em 2015 —> Julgamento C1 em 2016 (8 meses de prisão) —> TJulgado C1 (não se diz nada no caso sobre um
possível recurso) —> C2 em 2017 —> Julgamento C2 (3 a 9 anos)

No caso do exame, teríamos de percorrer todos os pressupostos da reincidência, inclusive o material (a conexão íntima
que se tem de verificar entre os 2 crimes).

• 1ª Operação: Determinação da pena como se o agente não fosse reincidente (duplamente instrumental). De acordo
com os critérios gerais do art. 71º CP, a culpa e as exigências de prevenção, e tendo em conta os fatores de medida
da pena do art. 71º/2 CP, Imaginemos que o juiz o encontrava uma pena de 3 anos de prisão (qualquer valor dá,
desde que dentro da moldura encontrada).

• 2ª Operação: Construção da moldura da reincidência. Art. 76º CP: o limite mínimo é elevado de 1/3, logo a moldura da
reincidência passa a ser de 4 anos a 9 anos.

• 3ª Operação: Determinação da pena concreta dentro da moldura agravada, e tendo em conta que o agente é
reincidente: Imaginemos que o juiz determina uma pena de prisão de 5 anos.

• 4ª Operação: Saber de quanto foi a agravação no nosso caso (partimos da pena que encontrámos tendo em conta
que o agente é reincidente, e subtraímos a pena que lhe aplicaríamos se ele não fosse reincidente), que não pode
exceder a pena mais grave aplicada nas condenações anteriores (8 meses no nosso caso): aqui a agravação foi de 2
anos. Quando falamos da agravação não estamos a falar da agravação da moldura penal, é de quanto é que a pena
concreta foi agravada pelo facto de o agente ser reincidente. Então não podia ser aplicada, porque excede o limite de
8 meses pelo qual ele foi condenado anteriormente, violando o art. 76º/1/parte final CP.

Concluindo, este agente A podia ser condenado, no máximo, a 3 anos e 8 meses de prisão.

Mas aqui temos um problema: aplica uma pena que fica abaixo do limite mínimo da moldura da reincidência. Por
vezes isto tem de acontecer. Por que é que a lei estabelece aquele limite da agravação? Isto radica na ideia de
proporcionalidade. O juiz agravou a pena de 3 para 5 porque considerou que o agente reincidente é mais culpado,
porque já foi alvo de uma condenação anteriormente. Mas faz sentido que agora a pena dele seja agravada em 2 anos?
Não tem propriamente a ver com os factos praticados (se ele não fosse reincidente, atendendo aos factos que ele
praticou, a pena era de 3), mas pelo simples facto dele ser reincidente, o que leva a uma maior culpa, por isso a pena
deixou de 3 e passou a ser de 5. Tendo em conta uma ideia de proporcionalidade, não faz sentido agravar em 2 anos
quando a pena a que foi condenado anteriormente era de 8 meses. Mas estes casos na prática serão muito raros -
porque em relação ao 1º crime, quando o juiz determina uma pena concreta de 8 meses, por regra a seguir o juiz
substitui essa pena baixa, e tratando-se de uma pena de substituição já não estariam presentes os pressupostos da
reincidência (ter sido condenado e ter a prisão efetiva superior a 6 meses). Embora possa acontecer casos em que o
juiz entende que não pode substituir a pena, é raro.

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Neste caso prático, qualquer pena que seja encontrada entre os 4 e os 9 anos, é uma pena maior do que aquela que
pode na realidade ser aplicada, por causa do limite dos 8 meses da condenação anterior - no máximo, o agente pode
ser condenado a uma pena de prisão de 3 anos e 8 meses, devido a uma ideia de proporcionalidade. O limite imposto
pela agravação é um limite absoluto e externo, e deste modo, quando a pena a que o agente é condenado pelo
primeiro crime for muito baixa, pode acontecer que a pena a aplicar ao agente reincidente pelo 2º crime tenha de ficar
abaixo do limite mínimo da moldura da reincidência.

Caso Prático 3 sobre Reincidência:

Em 2011, A praticou um crime de abuso de confiança, previsto no art. 205º/4/a) CP, pelo qual foi condenado, em
Outubro de 2012, a 3 anos de prisão.

Em Janeiro de 2016, A cometeu um furto qualificado (art. 204º/2 CP). No entanto, este crime de furto qualificado não
chegou a consumar-se, tendo ficado no estádio de tentativa.

Determine a pena a aplicar a A pelo 2º crime.

Resolução:

Esquema gráfico:

C1 em 2011 —> Julgamento C1 (3 anos de prisão) —> TJulgado C1 —> C2 (tentativa) em Janeiro de 2016 (2 a 8 anos
de prisão).

Temos portanto uma concorrência/concurso entre uma circunstância modificativa atenuante (tentativa) e uma
circunstância modificativa agravante (reincidência). Quando isto acontece, em 1º lugar devem atuar as
circunstâncias modificativas atenuantes (quer seja tentativa, omissão, jovem adulto, cumplicidade, etc...), e só
depois deve atuar a reincidência.

Teríamos de falar do pressuposto material de conexão entre os crimes - não tem de ser a repetição dos mesmos
crimes, mas sim uma semelhança de bem jurídico protegido, e assim parte-se do princípio que há uma conexão material
entre os crimes.

- Tentativa (art. 23º/2 CP):

Dizendo a lei aqui que temos de proceder a uma atenuação especial da pena, temos de socorrer-nos do art. 73º CP - o
limite máximo é reduzido de 1/3. Então a moldura 2 a 8 anos terá de ser atenuada, de acordo com este art. 73º CP:

• Limite máximo (art. 73º/1/a) CP): reduzido de 1/3 = então, o limite máximo passa a ser de 5 anos e 4 meses;

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• Limite mínimo (art. 73º/1/b) CP): reduzido a 1/5 se igual ou superior a 3 anos; se for inferior é reduzido ao mínimo legal
= então, o limite mínimo passa a ser de 1 mês;

A moldura passou a ser de 1 mês a 5 anos e 4 meses.

- Reincidência (arts. 75º e 76º CP):

Não faz sentido irmos agravar está moldura penal por causa da reincidência, porque a moldura de 2 a 8 anos é a
moldura que valeria se o C2 tivesse sido consumado. No nosso caso, o furto qualificado não chegou a consumar-se (ele
tentou furtar), logo ele não é reincidente em relação ao furto - ele é reincidente em relação a uma tentativa de furto. Por
isso naturalmente primeiro temos de atenuar a pena, e depois é que vamos fazer funcionar as regras da reincidência
(porque ele é reincidente em relação a uma tentativa, e não um crime consumado). E o mesmo valia se fosse um caso
de cumplicidade ou jovem adulto - era em relação a este 2º crime que temos de fazer atenuar a pena, e depois é que
fazíamos atuar as regras da reincidência.

• 1ª Operação: Determinar a pena como se o agente não fosse reincidente - vamos encontrar esta determinação dentro
da moldura já atenuada pela tentativa (aquela a que chegámos no passo anterior, de 1 mês a 5 anos e 4 meses).
Então, dentro desta moldura, imaginemos que o juiz determinaria, p. ex., uma pena de 2 anos.

• 2ª Operação: Construir a moldura da reincidência:

• Limite mínimo: elevado de 1/3, passa a ser de 1 mês e 10 dias;

• Limite máximo: mantém-se inalterado (5 anos e 4 meses). A moldura passa então a ser de 1 mês e 10 dias a 5
anos e 4 meses.

• 3ª Operação: Determinar a pena concreta dentro da moldura da reincidência (considerando que ele é reincidente de
um crime tentado): Imaginemos que, tendo em conta que ele é reincidente, o juiz aplica uma pena de 4 anos
(inventado por mim, qualquer valor é válido desde que seja dentro da moldura encontrada, e seja superior ao valor
encontrado na 1ª operação).

• 4ª Operação: Saber de quanto foi a agravação no nosso caso concreto, que não pode exceder a pena mais grave
aplicada nas condenações anteriores (art. 76º/1 CP): Para sabermos de quanto é a agravação, vamos à pena da 3ª
operação, e subtraímos a pena da 1ª operação. Assim, a agravação é de 2 anos, que está dentro do limite legal.

Ficará então uma pena de 4 anos pelos 2 crimes!

Nestes casos de concorrência entre a reincidência e uma circunstância modificativa atenuante, primeiro tem de
funcionar a circunstância modificativa atenuante, porque só assim é possível determinar a medida da pena do
2º crime independentemente da reincidência. Repare-se ainda que, por um lado, só deste modo nós saberemos se
está preenchido o requisito de o 2º crime ser punido com pena de prisão efetiva superior a 6 meses, porque
poderia acontecer, p. ex., que dentro da moldura atenuada pela tentativa, o juiz viesse a determinar uma pena de

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substituição. Por outro lado, só fazendo atuar primeiro a circunstância modificativa atenuante, é que nós
conseguiremos saber de quanto é que foi a agravação no caso concreto.

7 - CONCURSO DE CRIMES

Caso Prático 1 sobre concurso de crimes

A cometeu um crime em Outubro, e outro em Dezembro de 2015. A está hoje a ser julgado pela prática desses 2 crimes.

Determine a pena a aplicar a A.

Resolução:

Esquema típico do caso de concurso:

C1 em Outubro 2013 —> C2 em Dezembro 2013 —> Julgamento C1 + C2

No caso de concurso de crimes temos de socorrer-nos da norma do art. 77º CP. Quais são os pressupostos para que se
aplique o regime do art. 77º CP?

• 1º Pressuposto: Tem de se tratar de um concurso efetivo ou verdadeiro de crimes e, nos termos do art. 30º/1
CP, existe um concurso de crimes quando um mesmo agente pratica vários tipos legais de crime, ou quando o
mesmo agente pratica várias vezes o mesmo tipo legal de crime.

• 2º Pressuposto: O agente tem de ter praticado os vários crimes antes de transitar em julgado a condenação
por qualquer deles.

Em abstrato, quais são os sistemas de determinação da pena possíveis no caso de concurso de crimes?

1 - Sistema da acumulação material

2 - Sistema da pena única ou pena do concurso


2.1 - Sistema da pena unitária
2.2 - Sistema da pena conjunta

2.2.1 - Método da absorção


2.2.2 - Método da exasperação
2.2.3 - Método do cúmulo jurídico

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(vamos falar apenas do método que adoptamos, porque não temos tempo de falar dos outros). Adoptamos o sistema da
pena única. Dentro dele, adoptamos o sistema da pena conjunta, e dentro desse, segundo o método do cúmulo jurídico
(2 -> 2.2 -> 2.2.3). Este sistema que adoptamos (art. 77º CP), comporta 3 operações:

1ª Operação: Determinação da pena concreta para cada um dos crimes (segundo o critério geral do art. 71º
CP). Nesta 1ª operação, o juiz não vai considerar a possibilidade de substituição - ele vai somente determinar a
pena enquanto pena principal, isto é, ou uma pena de prisão ou uma pena de multa.

2ª Operação: Construção da moldura do concurso. Nesta 2ª operação, é preciso distinguir 2 situações, nos termos
do art. 77º/2 e 3 CP:

- 1ª situação: se se tratar de penas parcelares da mesma espécie, ou seja, se forem todas penas de prisão ou
todas penas de multa, o limite mínimo da moldura penal corresponde à pena concreta mais grave; e o
limite máximo dessa moldura corresponde à soma dessas penas concretamente aplicadas. Mas, o limite
máximo nunca pode exceder os 25 anos de pena de prisão, e os 900 dias de pena de multa - temos de ter
sempre em conta estas limitações máximas.

- 2ª situação: se se tratar de penas parcelares de espécie diferente, ou seja, umas penas são de prisão e
outras são de multa, antes de 1995 valia o sistema da acumulação material - o agente cumpria a pena de
prisão e pagava a pena de multa. Mas, após 1995, vale também nestes casos o sistema da pena única. O juiz
tem de proceder à conversão da pena de multa em prisão subsidiária, de acordo com os critérios no art.
49º CP. Ou seja, vai reduzir os dias de multa a 2/3, e depois vai encontrar a moldura do concurso de acordo
com o disposto no art. 77º/2 CP.

3ª Operação: Determinação da pena concreta dentro da moldura do concurso. O juiz vai determinar a medida
concreta da pena única de acordo com os critérios gerais da culpa e da prevenção referidos no art. 71º CP, mas
partindo de um critério especial previsto no art. 77º/1/2ª Parte CP, que estabelece que, na determinação da medida
concreta da pena do concurso, são considerados em conjunto os factos e a personalidade do agente (art. 77º/1/2ª
parte CP). Mas, o juiz já considerou os factos e a personalidade do agente enquanto fatores de medida da pena,
quando, na 1ª operação, determinou a pena concreta para cada crime. Não estará ele, na 3ª operação, a violar o
princípio da proibição da dupla valoração? Não, porque na 3ª operação o juiz vai considerar os factos e a
personalidade do agente em conjunto - i. é., tendo em conta a totalidade dos crimes cometidos. O juiz vai ter de
determinar, p. ex., se há alguma conexão entre os factos, e qual o tipo de conexão - vai averiguar se se trata de uma
carreira criminosa, ou se é apenas uma situação de pluri-ocasionalidade/conjunto de tipos legais de crime que não
têm qualquer relação entre si. O critério especial que está previsto no art. 77º/1 CP radica em o juiz avaliar, em
conjunto, os factos e a personalidade do agente - por esta razão não se viola o princípio da proibição da dupla
valoração (em conjunto em relação ao conjunto dos crimes cometidos, é esse o critério especial - ORAIS).

4ª Operação (eventual): Depois de ter determinado a pena única conjunta, se a pena encontrada não for superior a 5
anos de prisão, pode ainda o juiz proceder à sua substituição nos termos do art. 70º CP.

Acórdão STJ 14/10/2009 (Processo 328/07.9) - Neste caso era uma multiplicidade de crimes (roubo, abuso de confiança, condução
sem habilitação legal, condução perigosa, falsas declarações). Os juizes foram muito cuidadosos na determinação da pena única

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conjunta, e dizem claramente que, quando a lei se refere em conjunto, se refere à totalidade dos crimes cometidos. No ponto 5 do
sumário dizem os juizes “Na formação da pena conjunta, importa a visão do conjunto, a eventual conexão dos factos entre si, e a
relação desse desse “bocado de vida criminosa com a personalidade””. E no ponto 7 “Dada a proibição de dupla valoração na
formação da pena global não podem operar de novo as considerações sobre a individualização da pena feitas para a determinação das
penas individuais.”. É muito importante este acórdão! https://blook.pt/caselaw/PT/STJ/211309/

Caso Prático 2 sobre concurso de crimes

Entre Agosto e Novembro de 2015, A cometeu 3 crimes: os 2 primeiros são puníveis com pena de prisão até 3 anos, e o
3º é punível com pena de prisão de 2 a 8 anos.

A está hoje a ser julgado por esses crimes. Determine a pena a aplicar a A.

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 (1 mês a 3 anos) + C2 (1 mês a 3 anos) + C3 (2 anos a 8 anos) —> Julgamento C1+C2+C3

• 1ª Operação: Determinação da pena concreta de cada um dos crimes (ou “penas parcelares”). Imaginemos que para
o C1, o juiz determinava uma pena de prisão de 1 ano (são valores que temos de inventar, atendendo aos critérios
gerais do art. 71º/1 CP e aos fatores de medida da pena do art. 71º/2 CP, imaginemos que, dentro da moldura de 1
mês a 3 anos para o 1º crime o juiz determina a pena de prisão de 1 ano), para o C2 determinava uma pena de prisão
de 2 anos, e para o C3 determinava uma pena de prisão de 2 anos e 6 meses.

• 2ª Operação: Construção da moldura do concurso. Temos penas parcelares da mesma espécie, não há nenhuma
dificuldade:

• Limite mínimo: constituído pela pena concreta mais grave - 2 anos e 6 meses

• Limite máximo: soma de todas as penas que imaginámos - 5 anos e 6 meses.

• A moldura do concurso ser de 2 anos e meio A 5 anos e meio.

• 3ª Operação: Determinação da pena concreta dentro da moldura do concurso (pena única conjunta): Atendendo aos
critérios gerais do art. 71º e agora com o art. 77º/1 CP (para não violar o princípio da proibição da dupla valorarão),
imaginemos que, dentro desta moldura de 2 anos e meio a 5 anos e meio, o juiz determina, p. ex., uma pena de 3
anos. Qualquer valor é possível desde que seja um valor dentro desta moldura (e à partida será um valor mais alto do
que qualquer um dos valores encontrados para a “pena parcelar” - o juiz está aqui a encontrar uma pena única para
estes 3 crimes, ele vai ser condenado por estes 3 crimes numa só pena, porque ele praticou os 3 crimes antes de ser
condenado por qualquer um deles).

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• 4ª operação (eventual): O juiz vai averiguar se pode substituir ou não a pena (art. 70º CP) - neste caso poderia, pois é
inferior a 5 anos. Aqui o juiz também poderia substituir as “penas parcelares”, mas vimos que no caso de concurso de
crimes, o juiz não vai averiguar a possibilidade de substituição logo na 1ª operação, só o faz na última operação - só
se põe a possibilidade de substituição em relação à pena única conjunta, não vai o juiz averiguar na 1ª operação.

Caso Prático 3 sobre concurso de crimes:

Entre Janeiro a Novembro 2015, B cometeu 2 crimes: o primeiro punível com multa até 120 dias, e um 2º crime, punível
com pena de multa de 60 a 360 dias.

Determine a pena a que B vai ser condenado

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 (10 a 120 dias) —> C2 (60 a 360 dias) —> Julgamento C1+C2

Reunindo-se os pressupostos do concurso de crimes, temos de fazer as operações correspondentes:

• 1ª Operação: Determinação das penas parcelares: Imaginemos que, para o C1, o juiz determina 80 dias de multa, e
para o C2 determina 200 dias de multa (qualquer valor dentro das molduras penais seria possível). Nesta 1ª
operação, o juiz só vai determinar o nº de dias de multa, e não fixa logo o quantitativo diário - só vai fixar o
quantitativo diário da pena única conjunta, aquando da 3ª operação.

• 2ª Operação: Construção da moldura do concurso (penas parcelares da mesma espécie, não tem nada que saber):

• Limite mínimo: 200 dias;

• Limite máximo: 280 dias;

• 3ª Operação: Determinação, dentro da moldura do concurso, da pena única conjunta (socorrendo-nos nós dos
critérios gerais do art. 71º CP, mais o critério especial do art. 77º/1 CP - consideração em conjunto dos factos e da
personalidade atendendo aos vários crimes cometidos). Dentro da moldura de 200 a 280 dias, imaginemos, p. ex.,
que na 3ª operação o juiz determina uma pena de multa de 260 dias. Mas em relação à pena de multa não é
suficiente, temos de fazer a outra operação da determinação da pena de multa - a determinação do quantitativo diário,
atendendo à situação económico-financeira do agente e aos seus encargos pessoais. Atendendo ao quantitativo diário
entre 5€ e 500€, imaginemos que o juiz fixa 10€ por dia. Quantitativo diário = 260 x 10€/dia (p. ex.) = 2600€

Neste caso não haverá lugar à 4ª Operação. Mas se “determinássemos” 220 dias, já haveria lugar à admoestação, art.
60º CP (se a pena não for superior a 240 dias, como refere a norma legal).

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Aula 9 (extra) - 13/12/17

Caso Prático 4 sobre concurso de crimes

Em Agosto 2015, D cometeu um crime punível com pena de prisão de 2 a 8 anos.

Em Setembro de 2015, cometeu um 2º crime punível com pena de multa de 60 a 360 dias.

Determine a pena a aplicar a D.

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 (2 anos a 8 anos) —> C2 (60 dias a 360 dias) —> Julgamento C1+C2

• 1ª Operação: Determinação das penas parcelares (pena concreta para cada um dos crimes). Seguindo os critérios do
art. 71º CP (culpa e exigências de prevenção) e os fatores do art. 71º/2 CP, imaginemos que, para o C1, o juiz
determina 6 anos de prisão, e que para o C2 determina 240 dias de multa.

• 2ª Operação: Construção da moldura do concurso. Temos um problema - penas parcelares de espécie diferente.
Antes de 1995, valia nestes casos um sistema de acumulação material, por isso o D cumpriria os 6 anos de prisão e
pagava a multa. Mas desde 1995 vale também neste caso o sistema da pena única conjunta - para tal oi juiz terá de
converter a multa em prisão seguindo o critério previsto no art. 49º/1 CP que estabelece a redução da pena A 2/3 (240
dias de multa ficará a 160 dias de prisão). Só podemos construir a moldura do concurso depois de termos penas
da mesma espécie!

• Neste momento já temos penas da mesma espécie, e podemos construir a moldura do concurso:

• Limite mínimo: 6 anos;

• Limite máximo: 6 anos e 160 dias (160 dias = 5 meses e 10 dias);

• Fica então uma moldura do concurso de 6 anos a 6 anos, 5 meses e 10 dias.

• 3ª Operação: Determinação da pena única conjunta (atendendo aos critérios gerais do art. 71º CP e ao critério
especial do art. 77º CP). Imaginemos que fica então o valor (entre os limites mínimo e máximo) de 6 anos e 3 meses -
qualquer pena é possível desde que dentro da moldura por nós criada. Mas neste nosso caso, temos de ter em
atenção o disposto no art. 77º/3 CP, que nos diz que, no caso de penas parcelares de espécie diferente, as

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penas mantêm a sua diferente natureza. Isto significa que o condenado tem a possibilidade de pagar a pena de
multa, evitando assim que a multa se repercuta na pena única do concurso. Deste modo, quando as penas parcelares
são de espécie diferente, há duas alternativas:

- 1ª possibilidade: a multa é convertida prisão subsidiária (art. 49º/1 CP) para efeito da determinação da
pena do concurso;

- 2ª possibilidade: o condenado opta por pagar a pena de multa e esta deixa de entrar no procedimento
de determinação da pena única conjunta.

O juiz tem sempre de indicar as duas possibilidades, deixando o condenado escolher. Porém, a jurisprudência continua
na sua maioria a seguir o critério da acumulação material - está atrasada 22 anos (já é assim desde 1995).

Caso Prático 5 sobre concurso de crimes

A está hoje a ser julgado pela prática de um crime de ofensa à integridade física grave (art. 144º CP), e de um crime de
furto (art. 203º CP), ambos cometidos em Abril de 2015.

Tendo em conta que, em Maio de 2013, A foi condenado pela prática, em 2012, de um crime de abuso de confiança (art.
205º CP) na pena de 1 ano de prisão, determine a pena a aplicar a A.

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 em 2012 (art. 205º CP) —> Julgamento C1 em Maio 2013 (pena de 1 ano de prisão) —> TJulgado C1 —> C2 em
Abril 2015 (art. 144º CP - 2 a 10 anos) —> C3 em Abril 2015 (art. 203º CP - 1 mês a 3 anos) —> Julgamento C2 + C3

Parece em que não há repetição do mesmo tipo de crime, mas pode haver conexão material (o bem protegido é o
mesmo nos dois crimes - não são exatamente o mesmo crime, mas sim crimes análogos). É um caso de concurso de
crimes porque em relação ao C3 o agente é reincidente (entre o C1 e o C3 verifica-se uma reincidência) - temos de
fazer atuar as regras do concurso e da reincidência.

• 1ª Operação do concurso: Determinação das penas parcelares/concretas.

• C2: Imaginemos que o juiz determina 5 anos de prisão.

• C3: Aqui já teremos de fazer atuar o regime de reincidência, devido a ser análogo do C1. Pressupostos da
reincidência (art. 76º CP):

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• 1ª operação da determinação da pena no caso reincidência: determinação da pena como se o agente não
fosse reincidente. Imaginemos, dentro desta moldura de 1 mês a 3 anos, que o juiz determina 1 ano e 6
meses (se o agente não fosse reincidente).

• 2ª operação da determinação da pena no caso reincidência - construção da moldura da reincidência (art. 76º
CP):

• Limite mínimo: Elevar de 1/3 o limite mínimo - 1 mês e 10 dias

• Limite máximo: Permanece inalterado - 3 anos;

• 3ª operação da determinação da pena no caso reincidência: determinação da pena tendo em conta que o
agente é reincidente. Imaginemos que, tendo em conta que ele é reincidente, o juiz determina uma pena de 2
anos. Qualquer pena é válida desde que dentro da moldura, e claro que tem de ser uma pena sempre maior
do que aquela que encontrámos na 1ª operação.

• 4ª operação da determinação da pena no caso reincidência: saber de quanto foi a agravação. A agravação
não pode exceder 1 ano (que foi a condenação pelo C1). Vamos à pena que determinámos tendo em conta
que o agente era reincidente, e subtraimos a pena que determinámos abstraindo do facto que o agente era
reincidente. No nosso caso, a agravação aqui foi de 6 meses, por isso cumprimos o limite legal (1 ano). O juiz
podia aplicar esta pena de 2 anos pelo crime de furto.

• 2ª Operação do concurso de crimes - construção da moldura do concurso (art. 77º/2 CP):

• Limite mínimo: A pena concreta mais grave - 5 anos;

• Limite máximo: Soma das penas - 7 anos;

• 3ª Operação do concurso de crimes: determinação da pena única conjunta (atendendo aos critérios gerais do art. 71º
CP, e ao critério especial do art. 77º CP). Dentro da moldura do concurso de 5 a 7 anos, imaginemos que o juiz
determinava a pena única conjunta em 6 anos. Não haverá lugar à 4ª operação de substituição, pois chegámos a uma
pena única conjunta de 6 anos, superior a 5 anos.

7.1 - O CONHECIMENTO SUPERVENIENTE DO CONCURSO DE CRIMES (ART. 78º CP)

O conhecimento superveniente do concurso de crimes está previsto no art. 78º CP - para colmatar as deficiências do
sistema de administração da justiça penal.

Neste caso, o agente cometeu mais do que um crime. Mas no momento do julgamento, em vez de ter feito o concurso e
condenar pelos 2, i) o tribunal não conheceu todos os crimes que o agente praticou (tinha conhecimento dos primeiros
factos mas já não dos segundos); ii) ou então os processos, na fase de investigação, corram a ritmos diferentes e não
seja possível juntar tudo num processo só; (o caso José Maria Carrilho e Bárbara Guimarães); iii) ou por falhas na

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administração da justiça. A lei prevê que, posteriormente, possa ser encontrada uma pena única conjunta. O esquema
(C1 e C2) é o mesmo, mas em vez de ser logo julgado pelos 2, por algum motivo foi só por um (falta então ser julgado
pelo outro e que se encontre uma moldura única conjunta).

Quais são então pressupostos do conhecimento superveniente do concurso de crimes (art. 78º CP)?

• 1º Pressuposto: O crime de que só agora se tomou conhecimento tem de ter sido praticado antes da
condenação anteriormente proferida. Deste modo, o momento temporal decisivo é o momento em que a
condenação foi proferida, e não o momento em que tal decisão transitou em julgado.

• 2º Pressuposto: Os crimes em questão têm de ter sido já objeto de condenações transitadas em julgado.

• 3º Pressuposto: Até à revisão de 2007, estava expressamente previsto no art. 78º/1 CP um outro requisito - para
haver conhecimento superveniente do concurso, era necessário que a pena da condenação anterior não
estivesse ainda cumprida, prescrita ou extinta. Apesar de na atual redação o art. 78º/1 CP ter deixado de fazer
referência expressa a este pressuposto, tem-se entendido que as penas prescritas, cumpridas, prescritas ou extintas,
não devem ser tidas em conta para a formação de uma pena única conjunta.

Caso Prático 1 sobre conhecimento superveniente

Em Janeiro de 2015, A praticou um crime de furto (art. 203º CP), e em Fevereiro de 2015, cometeu um crime de ofensa
à integridade física grave (art. 144º CP).

Em Novembro de 2016, A é condenado pela prática de um furto numa pena de 2 anos de prisão. Neste momento o
tribunal desconhecia a prática do 2ª crime.

Em Outubro de 2017, chega ao conhecimento do tribunal a prática do 2º crime, sabendo o juiz também que A já foi
condenado pela prática de um furto.

Diga o que deve fazer o juiz.

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 em Janeiro 2015 (1 mês a 3 anos) —> C2 em Fevereiro 2015 (punível com 2 a 10 anos) —> Julgamento APENAS
DO C1 em Novembro 2016 (2 anos) —> TJulgado C1 —> Julgamento C2, em Outubro 2017

Até à reforma de 2007, no momento em que tinha conhecimento da prática do 2º crime, o tribunal devia determinar a
pena concreta a aplicar a esse crime; depois, devia construir a moldura do concurso (partindo também da pena a que o

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agente já tinha sido condenado pela prática do 1º crime); e por fim devia encontrar a pena única conjunta. No entanto,
isto já não é mais possível.

De acordo com a redação atual do art. 78º/2 CP, quando o juiz está a julgar a prática do 2º crime, ainda que ele
tenha conhecimento da prática do 1º crime, ele não poderá determinar logo uma pena única conjunta para os 2
crimes. Assim, em Outubro de 2017, o juiz só poderá determinar a pena para o 2º crime (dentro da moldura de 2 a 10
anos - imaginemos que o juiz determina uma pena de 3 anos).

E ainda, tendo em conta a redação atual do art. 78º/2 CP e do art. 472º CPP, tem de ser sempre designado um dia
para realização de uma nova audiência para determinar a pena em caso de conhecimento superveniente do
concurso. Deste modo, em Outubro de 2017, o juiz vai determinar a pena para o 2º crime (3 anos), e, depois do
trânsito em julgado da condenação pelo 2º crime, terá lugar uma nova audiência para determinar a pena única conjunta
a aplicar a A. Neste momento o juiz ainda não pode determinar a pena única conjunta porque esta decisão ainda não
transitou em julgado, então temos que esperar (isto não faz grande sentido, mas é assim mesmo) que transite em
julgado e só depois é que é marcada uma nova audiência (vamos partir do princípio que foi hoje), audiência essa cujo
único objetivo é determinar a pena única conjunta (não se faz mais nada). É uma perda de tempo, a única coisa que
pode justificar é o facto de o condenado querer recorrer da pena parcelar (mas de qualquer das formas, pode sempre
recorrer da pena única conjunta... enfim).

E o que é que o juiz tem de fazer nesta nova audiência? Vai ter de encontrar, finalmente, a pena única conjunta.

• 1ª Operação do concurso: O juiz vai partir das penas parcelares que foram encontradas nas condenações
anteriores. Para o C1 2 anos, e para o C2 3 anos

• 2ª Operação do concurso: Construção da moldura:

• Limite mínimo: 3 anos

• Limite máximo: 5 anos

• Fica uma moldura do concurso de 3 a 5 anos.

• 3ª Operação do concurso: Determinação da pena única conjunta. Imaginemos nesta moldura de 3 a 5 anos que o
juiz determina uma pena de 4 anos. Como A já está a cumprir a pena a que foi condenado em Novembro de 2016,
vamos ter de descontar na pena única conjunta a pena que foi cumprida em virtude da 1ª condenação. Isto resulta dos
arts. 78º/1 e do art. 81º CP. No nosso caso, partindo dito princípio que a condenação pelo 1º crime transitou em
julgado em Dezembro de 2016, e que A estava a cumprir pena de prisão desde essa altura, então ele já cumpriu
aproximadamente 1 ano de pena de prisão, e hoje, na audiência para determinação da pena única conjunta, o juiz
determinou uma pena de 4 anos. Trata-se, por isso, de uma situação de desconto de uma pena noutra pena - nestes
casos, de acordo com o disposto no art. 81º/1 CP, o desconto deverá ser feito por inteiro, ou seja 4 - 1 ele tem ainda 3
anos de prisão para cumprir.

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Caso Prático 2 sobre conhecimento superveniente

Em Janeiro de 2015, A praticou um furto (art. 203º CP), em Fevereiro de 2015, praticou um crime de ofensa à
integridade física grave (art. 144º CP); e em Março de 2015, ainda praticou um crime de dano qualificado (art. 213º/2,
CP).

Em Setembro de 2016, A é julgado pela prática do crime de furto e do crime de ofensa à integridade física grave. Tendo
determinado uma pena de 2 anos para o furto, e uma pena de 4 anos para a ofensa à integridade física grave, o tribunal
procedeu às operações de determinação da pena previstas no art. 77º CP, construindo uma moldura do concurso de 4 a
6 anos, e determinou uma pena única conjunta de 5 anos de prisão. Neste momento, o tribunal desconhecia a prática
do 3º crime.

Em Outubro 2017, o tribunal vem a conhecer o 3º crime. O que fazer?

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 em Janeiro 2015 (art. 203º CP - 2 anos) —> C2 em Fevereiro 2015 (art. 144º CP - 4 anos) —> C3 em Março 2015
(art. 213º/2 CP - 2 a 8 anos) —> Julgamento C1+C2 em Setembro 2016 (5 anos) —> Julgamento C3 em Outubro 2017

Pode apenas determinar a pena para o C3 - temos de esperar que transite em julgado para depois marcar uma
audiência. Este é também um caso de conhecimento superveniente do concurso. Neste caso, em Outubro 2017, o
tribunal tem de determinar a pena para o crime de dano qualificado (C3). Imaginemos que o juiz, para esse C3,
determina 3 anos de prisão, e só depois do transito em julgado desta condenação é que terá lugar uma nova audiência
para determinar a pena única conjunta a aplicar aos 3 crimes. O que terá o juiz de fazer nesta nova audiência?

• 1ª Operação: Ele terá de anular a pena única conjunta encontrada em Setembro de 2016 e depois determinar
uma nova pena única conjunta que abranja todo o concurso.

• 2ª operação: Partir das penas concretas já determinadas. Para o C1 - 2 anos, para o C2 - 4 anos e para o C3 - 3
anos

• 3ª operação: Determinar a moldura do concurso:

• Limite mínimo (pena concreta mais grave): 4 anos;

• Limite máximo (soma de todas as penas): 9 anos

• 4ª operação: Determinar a pena única conjunta, dentro da moldura do concurso (atendendo aos critérios gerais
do art. 71º/1 CP e os critérios especiais do art. 77º/1 CP). Imaginemos aqui que o juiz determina pena conjunta para
os 3 crimes de prisão de 7 anos.

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• 5ª operação: Operação do desconto, de acordo com o art. 78º/2 e 81º/1 CP. Partindo do princípio que isto transitou
em julgado 30 dias depois, ele foi condenado em Setembro e ele transitou em julgado desde Outubro de 2016, temos
de descontar. Sendo o desconto de uma pena a outra pena da mesma natureza, fazemos o desconto por inteiro e é só
fazer as contas até ao dia de hoje.

Caso Prático 3 sobre conhecimento superveniente:

Em Janeiro de 2015, A praticou um crime de ofensa à integridade física grave (art. 144º CP), e em Março de 2015,
cometeu um crime de dano qualificado (art. 213º/2 CP,).

Em Abril de 2016, A é condenado pela prática do crime de ofensa à integridade física grave, numa pena de prisão de 4
anos, que o juiz decidiu substituir pela pena de suspensão de execução da pena durante 4 anos. Neste momento, o
tribunal desconhecia a prática do 2º crime.

Em Outubro de 2017, o tribunal veio a conhecer a prática deste 2º crime, e determinou para este crime uma pena de 5
anos de prisão. Hoje realiza-se a audiência para a determinação da pena única conjunta a aplicar a A. Determine essa
pena.

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 em Janeiro de 2015 (2 a 10 anos) —> C2 em Março de 2015 (2 a 8 anos) —> Julgamento C1 em Abril de 2016 (4
anos - suspensão da execução) —> TJulgado C1 —> Julgamento C2 em Outubro de 2017 (5 anos) —> TJulgado C2
—> Julgamento C1+C2 (em rigor o que deveria ter sido feito em Abril).

Há uma pena de substituição (especificidade). A determinação da suspensão de execução é feita, desde Agosto, de
modo autónomo. Em houve uma alteração 2007 valia a regra de que a suspensão da execução da pena de prisão tinha
sempre a mesma duração da pena de prisão. Foi alterado em Agosto de 2017 - atualmente a suspensão de
execução da pena agora é determinada autonomamente, e faz sentido (o juiz determina uma pena de prisão de 3
anos, mas não faz sentido que a suspensão seja só de 3 - por regra a suspensão é por um período superior, porque o
agente vai estar em liberdade). Se ele estivesse preso, tínhamos de o estar a vigiá-lo 3 anos; se ele já está em
liberdade, compreende-se que o juiz possa suspender por um tempo superior.

• 1ª operação: Anular a pena de substituição (podia ser uma outra qualquer);

• 2ª operação: O juiz vai trabalhar com as penas concretas já determinadas. Para o C1 4 anos, e para o C2 5 anos

• 3ª operação: Construção da moldura do concurso (5 - 9 anos)

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• 4ª operação: Determinação da pena única conjunta. Imaginemos que, dentro da moldura de 5 a 9 anos, atendendo
aos critérios gerais do art. 71º CP e ao critério especial do art. 77º CP, o juiz determina uma pena de prisão de 8 anos.

• 5ª operação: Haverá lugar a desconto, não por inteiro, mas sim a um desconto equitativo (arts. 78º/1 e 81º/2
CP) - pois são penas de natureza diferente. Passaram 7 meses e um ano, ele agora foi condenado em 8 anos mas
o juiz não vai descontar 1 ano e 7 meses (ele não esteve este tempo preso, mas sim a cumprir suspensão de
execução da pena), e o desconto vai ser feito segundo aquilo que parecer equitativo (o juiz tem de justificar conforme
a pena de substituição em causa - ex.: estava num regime de suspensão da execução da pena com um regime de
prova muito apertado, obrigatoriedade de frequência de certos programas de violência doméstica, uma vigilância
apertada; o juiz pode considerar que por causa disto desconta mais).

Aula 10 (extra) - 14/12/17

Caso Prático 4 sobre conhecimento superveniente

Em Fevereiro de 2015, A cometeu um homicídio qualificado. Em Janeiro de 2016, foi julgado e condenado a 22 anos de
prisão. A interpôs recurso desta decisão.

Em Março de 2016, A cometeu outro homicídio qualificado. Em Outubro de 2016 transitou em julgado a condenação
pelo 1º crime.

Hoje, A está a ser julgado pelo 2º crime. Determine a pena a aplicar a A.

Resolução:

Esquema Gráfico:

C1 em Fevereiro de 2015 (art. 132º CP: 12 a 25 anos) —> Julgamento C1 (22 anos) —> Recurso C1 —> C2 em Março
de 2016 (art. 132º CP: 12 a 25 anos) —> TJulgado C1 em Outubro de 2016 —> Julgamento C2, hoje.

A especificidade deste caso é que o 2º crime foi praticado entre a condenação e o trânsito em julgado da
condenação do 1º crime. Nós não estamos, por isso, perante um caso de reincidência, porque o 2º crime foi praticado
antes do trânsito em julgado da condenação pelo 1º crime.

Será que ainda estamos aqui perante um caso de concurso de crimes? O problema deste caso é saber o significado
da expressão “anteriormente àquela condenação”, que está no art. 78º/1 CP. Será o momento em que a
condenação é proferida, ou será o momento do trânsito em julgado)?

• Se entendermos que esta expressão “àquela condenação” se refere ao momento em que a condenação transita em
julgado, então o nosso caso seria um caso de conhecimento superveniente do concurso.

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José Ferreira - Ano Letivo 2017/2018

• Mas se entendermos que a expressão “àquela condenação” se refere ao momento em que a condenação é
proferida (o dia do julgamento), então já não se tratará de um conhecimento superveniente do concurso.

Isto é muito importante - se entendermos a segunda posição já não será um caso de concurso de crimes, porque o 2º
crime foi cometido depois da 2ª condenação; mas se entremos que a expressão se refere ao trânsito em julgado, então
o nosso caso seria um caso de concurso de crimes, porque foi cometido antes do trânsito em julgado daquelas
condenação. Se fizermos concurso, encontramos uma única pena que não pode exceder os 25 anos, se não fizermos
concurso vamos condená-lo a 2 penas por 2 crimes de homicídio qualificado (22 mais 22 anos = 44 anos), e nós
dissemos que aquela norma que refere que o limite máximo da pena de prisão é de 25 anos, diz respeito a cada
condenação - pode acontecer que uma pessoa ao longo da vida fique presa mais de 25 anos, se for alvo de várias
condenações.

Qual é então a solução deste nosso caso? MARIA JOÃO ANTUNES entende que, no caso de um crime ser praticado
entre a condenação e o seu trânsito em julgado, nós não estamos perante um caso de conhecimento
superveniente do concurso. O momento relevante é o momento em que a condenação é proferida, e não o
momento do trânsito em julgado da condenação.

Há 2 argumentos que justificam esta posição:

1. O 1º argumento está relacionado com a razão de ser do próprio art. 78º CP. Este artigo existe para corrigir falhas
na justiça, e a verdade é que, no nosso caso prático, não houve qualquer falha na justiça, porque, quando o
agente foi condenado pelo 1º crime, na verdade ele só tinha mesmo cometido esse crime. Aqui reside o argumento
mais forte.

2. O 2º argumento reside no facto de que se se entendesse que os crimes cometidos entre a condenação e o trânsito
em julgado deviam ser considerados para efeitos de determinação de uma pena única do concurso, criar-se-ia um
período de impunidade para o agente, entre o momento da condenação e o momento do trânsito em julgado. Se o
agente tivesse sido condenado na pena máxima, ao ter em conta o período intermédio, o agente poderia ser tentado
a cometer os crimes que quisesse nessa altura (nunca seria condenado em mais de 25 anos, por mais horrorosos e
escabrosos que sejam esses tais crimes).

Deste modo, o momento decisivo para sabermos se estamos ou não perante uma situação de concurso de crimes, quer
para efeitos do art. 78º CP, quer para efeitos do art. 77º CP, é sempre o momento em que a condenação é proferida.
Para haver concurso o agente tem de ter cometido todos os crimes antes da condenação por qualquer um deles. Se o
agente cometer um crime depois da condenação mas antes do trânsito em julgado, não estaremos perante um concurso
de crimes, mas sim perante um caso de execução sucessiva de penas.

8 - ESCOLHA DA PENA E PENAS DE SUBSTITUIÇÃO

Caso Prático 1

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José Ferreira - Ano Letivo 2017/2018

A praticou um crime de homicídio por negligência, art. 137º CP. O art. 137º CP prevê como sanções a pena de prisão
até 3 anos ou a pena de multa.

Determine a pena a aplicar a A.

Resolução:

O 1º problema que surge é o problema de escolha da pena. O juiz tem de escolher se se aplica uma pena de prisão
ou uma pena de multa, sempre que o tipo legal de crime oferecer as 2 penas principais (e depois trabalhar com a
moldura da pena escolhida) - ORAIS!. E qual é o critério de escolha da pena? O critério de escolha está no art. 70º
CP, que estabelece que o tribunal deve dar preferência à pena não privativa da liberdade sempre que esta
satisfizer, de modo adequado e suficiente, as finalidades da punição. E quais são essas finalidades da punição?
(fazer desde logo uma bela remissão do art. 70º para o 40º CP). As finalidades são as exigências de prevenção
geral e de prevenção especial.

Este critério do art. 70º CP vale quer para a escolha da pena feita na 1ª operação (quando o tipo legal de crime
previr estas duas penas principais), quer quando a escolha da pena se der numa última operação (quando o juiz
determina uma pena de prisão não superior a 5 anos, e surge, por isso, a possibilidade de substituição). Vemos,
deste modo, que o critério da escolha da pena é independente de considerações de culpa. A culpa é critério de
determinação da medida concreta da pena, mas não é critério de escolha da pena. No momento de escolha da pena,
intervêm somente considerações relativas às exigências de prevenção.

🔥 ⚠ LER COM MUITA ATENÇÃO (perguntado sempre sempre sempre nas orais, e por vezes nos exames: “A diferença entre

critérios de escolha da pena e os critérios de determinação da medida da pena” - quando se fala em escolha, o que está em
causa é saber se implica prisão ou pena principal, ou depois na última operação se há possibilidade de substituição da pena de prisão
por uma pena não privativa da liberdade (art. 70º CP, que remete somente paras as finalidades de prevenção); os critérios de
determinação da medida concreta da pena, está em causa saber se o juiz aplica para um crime x 15, 16,19, 20, 22 anos. Para a
escolha da pena intervêm somente as exigências de prevenção (o critério de escolha da pena radica nas exigências de prevenção), e
os critérios de determinação da medida da pena são 2 - culpa e exigências de prevenção (art. 71º/1 CP).

Veja-se a seguinte questão de exame: “Na última operação da determinação da medida da pena, quando se abriu a possibilidade de
substituição, o juiz recusou a substituição porque considerou que o agente era muito culpado. Comente.” Temos de dizer que esta
decisão do juiz não está devidamente fundamentada porque a culpa não é critério de escolha (o juiz nunca pode recusar a substituição
com base numa ideia de culpa). A culpa não é critério de escolha, e tão-só de determinação medida da pena (se calhar vai sair no

exame de Janeiro 🤔 ).

Voltando ao nosso caso prático, logo no 1º momento, o juiz teria de escolher entre pena de prisão ou multa. Imaginemos
que o nosso juiz segue o critério do art. 70º CP, e entende que tem de aplicar ao agente a pena de prisão, determina
uma pena de 10 meses de prisão.

Neste caso o juiz vai deparar-se com uma última operação, em que vai ter de voltar a escolher a pena, porque, como
determinou uma pena de prisão não superior a 5 anos, coloca-se depois a possibilidade de substituição. Imaginemos

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que o juiz entende, seguindo uma vez mais o critério do art. 70º CP, a pena de prisão de 10 meses pode ser substituída
por uma pena de substituição. O juiz terá então um leque de penas de substituição à sua escolha. Quando o juiz tem
em alternativa diversas penas de substituição, deve aplicar aquela que melhor satisfazer as exigências de
prevenção especial.

Imaginemos que o juiz opta pela pena de multa como pena de substituição, nos termos do art. 45º/1 CP. Deste modo,
na 1ª operação, quando identificou o tipo legal de crime, perante a escolha entre prisão e multa, o juiz optou pela pena
de prisão - ele determinou uma pena de prisão de 10 meses, e depois substituiu essa pena de prisão por uma pena de
multa, e quer na 1ª operação de escolha quer na última, o critério a ter em conta é sempre o do art. 70º CP. Como é que
explicamos que na 1ª operação o juiz tenha rejeitado a multa enquanto pena principal, e depois acabe por substituir os
10 meses de prisão por uma pena de multa de substituição? Parece contraditório, mas isto é aceitável porque o
juízo que o juiz tem de fazer na última operação é um juízo mais exigente do que o que está pressuposto na 1ª
operação - nesta está em causa um critério de conveniência e de maior ou menor adequação (o juiz vai averiguar se,
tendo em conta as finalidades de prevenção, é preferível aplicar a pena de prisão ou a pena de multa); já na última
operação está em causa um critério de necessidade (se o juiz não aplicar a pena de substituição, ele tem de justificar
que a pena de prisão é necessária para que, naquele caso concreto, se cumpram as exigências de prevenção/punição).
Além disso, é aceitável que, no primeiro momento, o juiz opte pela pena de prisão.

Só nos casos em que for flagrante que a pena de prisão não faz qualquer sentido, é que o juiz deve optar logo pela
pena de multa enquanto pena principal - se o juiz optar na primeira operação pela aplicação da pena de multa, a única
pena que pode ser efetivamente ser aplicada será a pena de multa, porque a admoestação é aplicada em casos raros.
Já se, na 1ª operação, o juiz optar por aplicar pena de prisão, depois na última operação o juiz terá uma multiplicidade
de penas de substituição ao seu dispor, e poderá escolher aquela que melhor satisfizer as exigências de prevenção.
Além disso, o juiz vai ter em consideração ainda que a pena de multa principal e a pena de multa de substituição têm
regimes diferentes em caso de incumprimento, e isso pode influenciar também as escolhas do juiz.

Decidindo que quer substituir os 10 meses de prisão por multa, como é que o juiz vai determinar a pena de multa de
substituição?

- Em relação às penas de substituição em sentido próprio, vale atualmente a regra de determinação da medida
concreta da pena de substituição de forma autónoma, a partir dos critérios estabelecidos no art. 71º CP10 .

- Isto não acontece, porem, quando a pena de substituição for a prestação de trabalho em favor da
comunidade - neste caso, a duração da pena de substituição é a que resultar da regra de correspondência
legalmente estabelecida no art. 58º/3 CP.

No nosso caso prático, tratava-se de uma pena de multa de substituição, e o art. 45º/1 CP limita-se a remeter para o art.
47º CP, e não estabelece qualquer correspondência entre a pena de prisão e a pena de multa de substituição. Deste
modo, o juiz terá de determinar a pena de multa de substituição de forma autónoma, tendo em conta os critérios
gerais de determinação da pena do art. 71º CP, dentro da moldura de 10 a 360 dias referida no art. 47º CP - o juiz

10Até às alterações do CP em 2007, valia a regra da determinação da medida concreta da pena de substituição de forma autónoma, a partir dos critérios do art. 71º CP. Deste
modo, o juiz teria, em qualquer caso, de determinar primeiro a pena de prisão concretamente aplicada, e depois, numa operação autónoma desta, teria de determinar a pena de
substituição.

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vai ter de seguir as regras gerais de determinação da pena de multa, fazendo as operações do sistema dos dias de
multa. Trata-se de uma pena diferente.

Acórdão do STJ de 21/07/2009, que deu origem ao Acórdão de Fixação de Jurisprudência nº 8/2013. Estava em causa
precisamente a substituição da pena de prisão por uma multa, e o 1º acórdão tem uma série de erros que depois foram parcialmente

corrigidos por este. Ver em casa!

9 - EXECUÇÃO DAS PENAS PRINCIPAIS - A EXECUÇÃO DA PENA DE MULTA (1º) E DA PENA DE PRISÃO (2º)

Caso Prático nº 1
A foi condenado em 240 dias de pena de multa, no quantitativo diário de 10€, pelo que tem a pagar 2.400€ de multa.
Como é que se vai proceder à execução desta pena de multa?

Esquema Explicativo (importantíssimo, não ir ao exame sem saber este esquema):

1. Cumprimento voluntário (multa principal/de substituição)

1.1 Pagamento da quantia em dinheiro (art. 489º CPP)

1.2 Pagamento da multa em dias de trabalho (arts. 48º CP + 490º CPP; DL nº 375/97 de 24 Dezembro)

2. Pagamento coercivo (multa principal/de substituição)

2.1 Execução de bens (art. 491º CPP)

3. Não pagamento (nem voluntário nem coercivo) / Incumprimento

3.1 Por motivo imputável ao agente

3.1.1 Pena de multa principal - cumpre prisão subsidiária (art. 49º/1 e 2 CP)

3.1.2 Pena de multa de substituição - cumpre a pena de prisão principal aplicada na sentença (art.45º/
2 CP - alterado em Agosto de 2017)

3.2 Por motivo não imputável ao agente

3.2.1 Multa principal (art. 49º/3 CP)

3.2.2 Multa de substituição (arts. 45º/2 + 49º/3 CP)

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Da execução da pena de multa, falam-nos os arts. 48º e 49º CP, e ainda os arts. 489º a 491º-A do CPP. Partindo do
nosso caso genérico (não se disse se era pena de multa principal ou de substituição intencionalmente), vamos percorrer
todas as hipóteses:

1ª Hipótese:

Por regra, o condenado paga voluntariamente a pena de multa. O pagamento voluntário pode dar-se de 2 modos:

• 1º Modo: pode haver o pagamento voluntário da quantia em que o agente foi condenado, no prazo de 15
dias a contar da notificação para pagamento. Neste caso prático, A paga a multa e finda o processo de
execução (art. 489º CPP)

• 2º Modo: Há uma outra possibilidade - A pode requerer que a multa seja paga em dias de trabalho (arts. 48º

CP e 490º CPP). Deste modo, no mesmo prazo de 15 dias, em vez de pagar a multa em dinheiro 💰 , A pode

requerer o pagamento da multa através da prestação de dias de trabalho. O pagamento da multa em dias de
trabalho é ainda uma forma de pagamento voluntário da pena de multa.

• O art. 48º/2 CP remete-nos para os arts. 58º e 59º CP, que se referem à prestação de trabalho a favor da
comunidade. A prestação de trabalho a favor da comunidade, prevista no art. 59º CP, é uma pena de
substituição. No caso da pena de substituição, é o juiz que decide substituir a pena de prisão por esta
prestação de trabalho a favor da comunidade.

• Mas isto é diferente da situação que estamos ora a analisar - a substituição da multa por trabalho prevista no
art. 48º CP, NÃO É uma pena de substituição (a epígrafe do artigo é muito enganadora, a única pena de
substituição da pena de multa é a admoestação) - pois é o condenado em pena de multa que vai requerer o
seu pagamento em dias de trabalho. O instituto previsto no art. 48º CP trata-se de uma forma de pagamento
da pena de multa. Porém, quanto a alguns pontos do regime, o legislador remete para o regime da pena de
substituição da prestação de trabalho a favor da comunidade.

• Acórdão STJ de nº 7/2016, de 18 de Fevereiro de 2017 - a propósito da substituição por prestação de trabalho a favor da
comunidade (MARIA JOÃO ANTUNES anotou - Revista Portuguesa de Ciência Criminal nº26 de 2016, págs. 499º e ss.).
ORAIS MUITO IMPORTANTE!!! Eram 2 as questões tratadas pelo STJ a propósito da substituição da multa por prestação
de trabalho a favor da comunidade:

1. Esta possibilidade de substituição da pena de multa or trabalho se se coloca só em relação à pena de multa
principal ou também em relação à pena de multa de substituição. Quanto a nós nunca houve dúvidas - esta
possibilidade é um modo de pagamento da pena de multa, que vale quer para a pena de multa principal quer
para a pena de multa de substituição. Foi esta a decisão do STJ.

2. A possibilidade do juiz permitir o pagamento em duas de trabalho estava dependente da impossibilidade do


agente pagar em dinheiro. Será que só pode pedir para pagar em dias de trabalho aquele agente que não tiver
meios para pagar em dinheiro? O STJ considerou que sim. MARIA JOÃO ANTUNES e SÓNIA FIDALGO discordam
veementemente desta posição, pois não é adequada - não há nada na lei que faça depender esta possibilidade
de pagamento em dias de trabalho da impossibilidade de pagar em dinheiro. Por isso, este requerimento para

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pagar em dias de trabalho, o condenado não tem de provar que não tem dinheiro para pagar - pode
simplesmente fazer o requerimento a pedir para pagar em horas de trabalho.

2ª Hipótese:

Imaginemos agora que A não paga a multa voluntariamente, isto é, ele não paga os 2400€, nem requer o pagamento
em dias de trabalho. O que fazer neste caso? Entraremos agora no âmbito do cumprimento coercivo da pena de
multa. Neste caso, a 1ª coisa a fazer é ver se A tem bens suficientes para pagar a multa, e vai proceder-se à execução
dos bens do condenado, nos termos do art. 491º CPP. Se o condenado tiver bens suficiente a multa ficará paga. Isto
tanto vale para a multa de substituição como para a multa principal.

3ª Hipótese:

Imaginemos agora que A não paga a multa voluntariamente, e não tem bens. Mas teria dinheiro para pagar a multa, isto
é, trata-se de um caso de não pagamento imputável ao agente. E vamos agora partir do principio que esta multa de 240
dias é uma multa principal.

Tratando-se de uma pena de multa principal, temos de lançar mão do art. 49º CP, que estabelece no nº1 a
conversão da multa não paga em prisão subsidiária. O tempo de prisão subsidiária corresponde aos dias de
multa reduzidos a 2/3. Como A tinha sido condenado a 240 dias de multa de pena principal, ele vai ter de cumprir uma
pena de prisão subsidiária de 160 dias (2/3 de 240 dias).

Se A tivesse pago já uma parte da multa, ele só iria cumprir prisão subsidiária pelo tempo correspondente à
multa não paga, porque o pagamento reflete-se proporcionalmente no tempo de prisão subsidiária a cumprir - isto
infere-se do art. 49º/2 CP.

Não podemos esquecer que esta prisão subsidiária não é uma verdadeira pena (é errado dizer “PENA de prisão
subsidiária” - HÁ desconto na cotação do exame cada vez que se diz isto) - a pena em causa continua a ser a pena de
multa. A prisão subsidiária é, assim, uma sanção de constrangimento para o pagamento da pena de multa.

4ª Hipótese:

Imaginemos agora que A não pagou a pena de multa principal de 2400€ e vai, efetivamente, cumprir a prisão
subsidiária. Será que A tinha de cumprir necessariamente os 160 dias de prisão? Ou teria alguma forma de obstar a
esse cumprimento total da prisão? Nos termos do art. 49º/2 CP e 491º-A CPP, o condenado pode, a todo o tempo,
evitar, total ou parcialmente, a execução da prisão subsidiária, pagando a multa.

Neste caso, também se reflete proporcionalmente o tempo de prisão já cumprida no montante a pagar.

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5ª Hipótese:

Imaginemos agora que, após a condenação na pena de multa principal, A perdeu o seu emprego porque a empresa
faliu (p. ex.), e a sua situação económica alterou-se de tal forma que ele não pode pagar a pena de multa, ou seja, o
não pagamento não lhe é imputável. O que fazer neste caso? O art. 49º/3 CP prevê esta hipótese - neste caso, se A
provar que o não pagamento não lhe é imputável, o juiz converte a multa em prisão subsidiária, e depois
procede à suspensão da execução da prisão subsidiária, acompanhando esta suspensão da imposição de
deveres e regras de conduta de caráter não económico ou financeiro.

O disposto no art. 49º/3 CP vale tanto para as situações em que o condenado deixa de poder pagar a pena de
multa por razões supervenientes, como para as situações em que, no momento da condenação, o condenado já
vivia no limiar mínimo de subsistência ou até abaixo dele. Na verdade, pode acontecer que, no momento em que o
juiz vai determinar o quantitativo diário, ele se depare com uma situação em que o agente não pode pagar sequer o
mínimo legal (5€/dia). Nestes casos, o juiz deve fixar o quantitativo diário no mínimo legal, depois procede à conversão
da pena de multa em prisão subsidiária, e finalmente suspender a execução da prisão subsidiária, impondo ao agente o
cumprimento de deveres ou regras de conduta que não tenham carácter económico-financeiro.

Se o condenado cumprir esses deveres e regras de conduta, a pena de multa é declarada extinta; se não
cumprir os deveres e as regras de conduta, terá de cumprir a prisão subsidiária.

6ª Hipótese:

Vamos supor agora que o agente foi condenado em 6 meses de prisão, que o juiz decidiu substituir por 240 dias de
pena de multa com o quantitativo diário de 10€. O que é que acontece se A não cumprir, voluntária nem coercivamente,
esta pena de multa de substituição, por motivo que lhe é imputável? Se a multa não for paga por motivo imputável
ao agente, ele vai cumprir a pena de prisão que havia sido aplicada na sentença (art. 45º/2 CP). No nosso caso, o
condenado teria de cumprir então os 6 meses de prisão, podendo eventualmente vir a ser aplicado o regime de
permanência na habitação, atualmente previsto no art. 43º/1/c) CP. Este artigo é essencial!

Há deste modo diferenças de regime no caso de incumprimento de uma pena de multa principal, e de uma pena de
multa de substituição. Quais são essas diferenças? (EXAMES)

1. Tratando-se de uma pena de multa de substituição, o condenado vai ter de cumprir a pena de prisão que foi
substituída, e, verificados os pressupostos do art. 43º CP, pode vir a ser aplicado o regime de permanência na
habitação

2. Por sua vez, tratando-se de uma pena de multa principal, o condenado vai cumprir prisão subsidiária por tempo
correspondente ao da pena de multa, reduzido a 2/3. Neste caso, não sendo a prisão subsidiária uma
verdadeira pena, nunca poderá aplicar-se o regime de permanência na habitação, previsto no art. 43º CP.

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3. Deste modo, só podemos falar de prisão subsidiária quando estamos perante uma pena de multa
principal. Sempre que estivermos perante uma multa de substituição, a prisão que se fala não é a prisão
subsidiária - é sim a pena de prisão que o juiz aplicou na sentença e que decidiu depois substituir por multa.

7ª Hipótese:

Imagine agora que o não pagamento da pena de multa de substituição não é imputável ao agente. O que fazer? Neste
caso, o art. 45º/2 CP remete para o art. 49º/3 CP. Deste modo, também no caso da pena de multa de substituição
devemos aplicar o regime do art. 49º/3 CP tanto nas situações em que o condenado deixa de poder pagar a multa por
razões supervenientes, como nas situações em que, logo no momento da condenação, o agente já vivia no limiar
mínimo de subsistência ou até abaixo dele.

Deste modo, se A provar que o não pagamento não lhe é imputável, ou se, logo no momento da condenação, o
juiz verificar que A não pagar sequer o mínimo legal, deve proceder à suspensão da execução da pena de
prisão aplicada na sentença, acompanhando esta suspensão da imposição de deveres e regras de conduta de
caráter não económico. (Temos de ler o 49/3 de forma adaptada!)

Se o agente cumprir os deveres e regras de conduta, a pena é declarada extinta; se não cumprir, então terá de
cumprir a pena de prisão fixada na sentença (6 meses).

8ª Hipótese:

Imaginemos que A não pagou a pena de multa de substituição de 2.400€, por motivo que lhe é imputável, e vai
efetivamente ter de cumprir a pena de prisão de 6 meses a que foi condenado. Será que A pode obstar ao cumprimento
total da prisão? Se se tratasse de uma pena de multa principal, nos termos do art. 49º/2 CP, o agente podia, a
todo o tempo, evitar a execução da prisão subsidiária, pagando a multa.

Mas este regime de favor não se aplica no caso da pena de uma multa de substituição - o agente que foi
condenado numa multa de substituição, e que depois, não pagando a pena de multa, acaba por ter de cumprir a pena
de prisão principal a que foi condenado, não poderá obstar ao cumprimento desta pena, pagando posteriormente a
multa. O art. 45º/2 CP não remete para o art. 49º/2 CP.

9ª Hipótese:

Imaginemos agora que A pediu para pagar a pena de multa de substituição em prestações. Uma vez que A pagou
apenas algumas dessas prestações e não as restantes. O juiz revogou a substituição da pena de prisão por pena de
multa, e ordenou o cumprimento da pena de prisão de 6 meses. O pagamento parcial da pena de multa de substituição
poderá repercutir-se no tempo de prisão a cumprir? A resposta é não - esta possibilidade de repercussão do pagamento
já feito no tempo de prisão a cumprir é uma possibilidade que se infere do art. 49º/2 CP, e o art. 45º/2 CP não remete

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para o art. 49º/2 CP, remetendo apenas para o art. 49º/3 CP. Por isso, no caso de o juiz revogar a substituição, ainda
que já tenham sido pagas algumas prestações da pena de multa, o condenado terá sempre de cumprir a pena de prisão
na sua totalidade.

Este é um erro que foi dado pelo STJ no Acórdão de 21/07/2009 - primeiro achou que a pena de multa de substituição era encontrada
de forma aritmética a partir da pena de prisão (a pena de multa de substituição é sempre encontrada de modo autónomo); o segundo
erro foi o de que, já tendo sido pagas algumas prestações, o STJ entendeu que as prestações já pagas poderiam repercutir-se na
prisão a cumprir (se se tratar de uma pena de multa de substituição, o montante já pago não se pode repercutir-se no tempo de prisão
a cumprir, é montante perdido). O agente vai ter de cumprir a pena de prisão a que foi condenado na sentença.

10 - EXECUÇÃO DA PENA DE PRISÃO

A - REGIME DE PERMANÊNCIA NA HABITAÇÃO

Antes de Agosto de 2017, o regime de permanência na habitação estava já previsto no art. 44º CP. MARIA JOÃO ANTUNES
considerava que este artigo 44º/1/b) e nº2 CP previa uma forma de execução da pena de prisão. Em relação ao art. 44º/
1/a) CP, MARIA JOÃO ANTUNES questionava a natureza jurídica do instituto, admitindo que pudesse estar-se perante uma
pena de substituição privativa da liberdade.

Em relação ao atual regime de permanência na habitação, previsto no art. 43º CP e que resultou da revisão de Agosto
de 2017, não há dúvidas quanto à sua natureza jurídica - trata-se de uma forma/incidente de execução da pena de
prisão não superior a 2 anos. Deste modo, uma pena de prisão não superior a 2 anos poderá ser cumprida na prisão ou
em casa em regime de permanência na habitação. Antigamente esta previsto no art. 44º CP para penas não superiores
a 1 ano, e só em casos excecionais (caso de execução de grávidas, de pessoas portadoras de doença é que era de 2
anos). Agora é 2 anos, mas há regras diferentes no CEP (não vamos ter muito mais tempo para falar neste regime).

Tratando-se de uma forma de execução da pena de prisão, a possibilidade de aplicação do regime de permanência na
habitação é decidida depois de o juiz ter determinado a medida concreta da pena, e depois de ter procedido à operação
de escolha da pena. Deste modo, quando o juiz determina uma pena de prisão não superior a 2 anos, abre-se sempre a
possibilidade de substituir a pena, e tendo optado por não substituir a pena, o juiz terá depois de considerar a
possibilidade de aplicação do regime de permanência na habitação. E só se este regime não puder ser aplicado é que
condenado vai efetivamente para a prisão.

B - A LIBERDADE CONDICIONAL

A liberdade condicional está prevista nos arts. 61º e ss. CP e nos arts. 173º e ss. do Código de Execução das Penas e
Medidas Privativas da Liberdade. É um incidente da execução da pena de prisão, isto é, o condenado que se
encontre em liberdade condicional está ainda a cumprir pena de prisão.

Desde 1995, há duas normas no CP que nos mostram claramente que a liberdade condicional é um incidente de
execução da pena de prisão:
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• O art. 61º/1 CP, que nos diz que a liberdade condicional depende sempre do consentimento do condenado;

• E o art. 61º/5 CP, que diz que a duração da liberdade condicional não pode ultrapassar o tempo de prisão que ainda
falte cumprir.

Quais são os pressupostos da liberdade condicional?

• 1º pressuposto (formal) - O pressuposto base é sempre o consentimento do condenado (arts. 61º/1 CP e 176º/
1 Código de Execução de Penas);

• 2º pressuposto (formal) - É necessário que o condenado tenha cumprido metade da pena (art. 61º/2 CP);

• 3º pressuposto (formal) - É necessário que o condenado tenha cumprido, no mínimo, 6 meses da pena de
prisão (art. 61º/2 CP);

• 4º pressuposto (material) - É necessário que seja feito um juízo de prognose favorável, nos termos do qual a
liberdade condicional só poderá ser concedida se estiverem respeitadas as exigências de prevenção especial
(art. 61º/2/a) CP) e de prevenção geral (art. 61º/2/b) CP). Isto está na referência à condução da vida de modo
socialmente responsável e sem cometer crimes, vai ao encontro das exigências de prevenção especial de
socialização.

- Renovação da instância:

Imaginemos que não estão verificados os pressupostos, e que por isso o juiz não concede a liberdade condicional a
meio da pena.

Quando a liberdade condicional não for concedida a meio da pena, vai voltar a ser apreciada aos 2/3 da pena (art. 61º/3
CP). No entanto, de acordo com o art. 180º do Código de Execução das Penas, a possibilidade de concessão de
liberdade condicional será apreciada de 12 em 12 meses, a contar da data em que foi proferida a decisão anterior.

Temos por isso de harmonizar as 2 normas do art. 61º/3 CP com a norma do art. 189º do Código de Execução.

Quais os pressupostos para se aplicar a liberdade condicional quando ela tenha sido negada ao meio da pena? Temos
de distinguir 2 situações:

1. Até serem atingidos 2/3 do cumprimento da pena de prisão, a liberdade condicional só será
concedida se se encontrarem preenchidas as exigências de prevenção especial (art. 61º/2/a) CP), e
de prevenção geral (art. 61º/2/b) CP).

2. Depois de estarem cumpridos 2/3 da pena, o juiz poderá aplicar a liberdade condicional, desde que
se encontrem preenchidas as exigências de prevenção especial. Neste caso, o legislador presume que

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as exigências de prevenção geral já estão cumpridas (art. 61º/3 CP). Será sempre necessário que o
condenado consinta (art. 61º/1 CP).

- Liberdade condicional obrigatória:

Até agora temos estado a falar dos casos de liberdade condicional facultativa, isto é, os casos em que a liberdade
condicional depende da verificação do pressuposto material. Mas existem também casos de liberdade condicional
obrigatória, em que a aplicação da liberdade condicional não depende da verificação de qualquer pressuposto
material - o que se pretende é promover a transição entre a vida na prisão e a vida em liberdade. A liberdade
condicional obrigatória está referida no art. 61º/4 CP, e depende apenas do consentimento do condenado. É, no
entanto, preciso que a pena de prisão seja superior a 6 anos!

- Duração e regime da liberdade condicional:

Quanto tempo dura a liberdade condicional? Tem uma duração igual ao tempo de prisão que faltar cumprir, mas
nunca superior a 5 anos (art. 61º/5 CP). O art. 64º CP, que estabelece o regime da liberdade condicional, remete
no nº1 para os artigos relativos à suspensão da execução da pena. Por isso, a liberdade condicional pode ficar
sujeita à imposição ao libertado de regras de conduta ou do regime de prova.

Uma pessoa que foi condenada a 16 anos de prisão, é-lhe concedida a liberdade condicional a meio (aos 8); ele só vai
estar em liberdade condicional 5 anos (8 + 5 até aos 13, e ainda sobrariam 3 anos de prisão); estes 3 anos são
considerados extintos. A interpretação deste artigo não é “a liberdade condicional só é concedida 5 anos antes do fim da
pena” - esta é concedida ou a meio, ou aos 2/3, ou aos 5/6, ou então havendo renovação da instância -, e ela nunca
pode ter uma duração superior a 5 anos (se ainda faltar cumprir pena, esse resto da pena é considerado extinto).

Nota: para o exame os códigos só podem ter números, nada de letras porque frequentemente os CPs são retirados!!!

Caso Prático nº1 sobre liberdade condicional

A foi condenado numa pena de prisão de 2 anos por um crime de furto (art. 203º CP). Quando poderá A sair em
liberdade condicional?

Resolução:

Poderá sair em liberdade condicional ao fim de 1 ano (meio da pena), e está reunido o pressuposto dos 6 meses. Mas é
necessário que ele dê o seu consentimento (art. 61º/1 CP), e que estejam preenchidas as exigências de prevenção
geral e especial dos arts. 61º/2/a) b) CP. Vai estar em liberdade condicional 1 ano (o tempo que lhe resta cumprir até
terminar a pena) - art. 61º/5 CP.

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Mas imaginemos que, quando o juiz vai avaliar a possibilidade de aplicação da liberdade condicional, entende que não
estão preenchidas as exigências de prevenção geral e especial, e entende que não está verificado o pressuposto
material ao fim de um ano, e não aplica a liberdade condicional - o agente mantém-se preso. Poderá ainda a liberdade
condicional ser aplicada mais tarde? Se o juiz não determinar liberdade condicional neste 1º momento, tal poderá
acontecer aos 2/3 da pena (ao fim de 1 ano e 4 meses - 16 meses), art. 61º/3 CP. Desde que consinta sempre (art. 61º/
1 CP), e desde que se encontrem preenchidas as exigências de prevenção especial - a lei só manda o juiz atender às
exigências de prevenção especial neste momento, pois presume-se que as exigências de prevenção geral estão
cumpridas (ele já cumpriu 2/3 da pena), ou seja, as exigências da alínea b) já estão cumpridas. Quanto tempo fica em
liberdade condicional? Fica em liberdade condicional dos 16 meses aos 24 meses - 8 meses (art. 61º/5 CP). Isso
significa que, na prática, ninguém pode ficar preso 25 anos - mesmo que não saia antes, vai beneficiar de
liberdade condicional obrigatória (a menos que o condenado não consinta11).

E se o juiz considerar que aos 16 meses (2/3) não está preenchido o pressuposto material (as exigências de prevenção
especial), e não aplica a liberdade condicional? Pode beneficiar de liberdade condicional mais tarde ou não? Não há
liberdade condicional obrigatória porque a pena não é superior a 6 anos (a liberdade condicional obrigatória aos 5/6 de
cumprimento da pena só se aplica se a pena for superior a 6 anos, e neste caso não há). Se ele não saiu a meio, nem
saiu aos 2/3, vai ter de cumprir a pena até ao fim - só faltam cumprir 8 meses de pena.

Liberdade condicional obrigatória só existe para penas longas, porque quando o tempo em que o agente
está na prisão é muito longo entende-se que ele fica completamente desinserido/desenraizado da sociedade,
e então é preciso que saia, independentemente da verificação de qualquer pressuposto material, para se
adaptar à vida em sociedade. No caso de penas curtas de prisão, não há essa liberdade condicional obrigatória
aos 5/6 porque se entende que não há essa dessocialização tão marcada - parece um contra-senso (afinal se a pena
for grande ele sai aos 5/6, se a pena for curta não sai), mas a razão é essa.

Caso Prático nº 2 sobre liberdade condicional

A foi condenado numa pena de prisão de 12 anos pela prática de um homicídio. Quando é que ele pode sair em
liberdade condicional?

Resolução:

A meio da pena, aos 6 anos, ele pode sair em liberdade condicional, desde que ele consinta (art. 61º/1 CP), e desde
que se encontrem preenchidas as exigências de prevenção geral e especial (art. 61º/2 CP). Se ele saísse ao fim dos 6
anos, quanto tempo estaria em liberdade condicional? No máximo 5 anos (art. 61º/5 CP), aquele ano que sobra perdeu-
se - porque se o agente já esteve 5 anos em liberdade condicional, e se se portou bem nesse período (não
cometeu nenhum crime, não infringiu nenhuma regra de conduta que tivesse levado à revogação da liberdade
condicional), então há razoes para crer que não faz sentido mantermos ali 1 ano pendente. Ele vai estar em

11É muito raro o condenado não dar o consentimento para a liberdade condicional. Mas num caso que aconteceu cá em Coimbra, em que era uma pena curta de prisão, chegou o
momento da liberdade condicional e o condenado estava a frequentar um curso de formação profissional na própria prisão - disse que não queria sair porque queria aproveitar mais
uns meses para acabar esse curso.

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liberdade condicional até aos 11 anos (no máximo pode durar 5 anos, art. 61º/5 CP), e considera-se extinto o resto da
pena.

E se a meio da pena o juiz não conceder a liberdade condicional por considerar que não estão reunidos os
pressupostos do art. 61º/2 CP? Quando é que há renovação da instância? É muito provável que não aconteça tendo em
conta o crime em questão que alguém saísse logo ao fim de 6 anos (e antigamente antes das revisões, nestes casos o
primeiro momento em que seria concedida a liberdade condicional era só aos 2/3 no caso de crimes contra as pessoas
graves). Temos de compatibilizar o art. 61º/1 CP com o art. 180º CE (a possibilidade de se aplicar liberdade
condicional é reapreciada de 12 em 12 meses - reapreciada 12 meses após a última decisão que negou a sua
aplicação). Se ele não sair ao fim de 6 anos, aos 7 anos de execução da pena vamos voltar a apreciar a possibilidade
de concessão de liberdade condicional (art. 180º/1 CEP). Aqui o juiz concede a liberdade condicional se estiverem
reunidos os pressupostos do consentimento do condenado (art. 61º/1 CP), e é preciso que se encontrem preenchidas
as exigências de prevenção geral e especial (porque aos 7 anos ainda não alcançámos os 2/3 da pena), arts. 62º/2/a) e
b) CP. Quanto tempo fica em liberdade condicional? Vai ficar 5 anos (art. 61º/5 CP) - dos 7 aos 12 anos.

Se aos 7 anos o juiz não der liberdade condicional o que acontece? Entende que ao fim dos 7 anos ainda não estão
preenchidas as exigências de prevenção geral e especial. Se não sair, será reapreciada a possibilidade de liberdade
condicional 12 meses depois (8 anos), e a partir daí de 12 em 12 meses. Mas os 8 anos correspondem aos 2/3 da pena
de 12 anos (podia não ser assim, neste caso era), e assim voltamos a apreciar a possibilidade da liberdade condicional
(art. 61º/3 CP). Quais os pressupostos que têm de estar reunidos para a conceder aos 2/3 da pena? Sempre o
consentimento (art. 61º/1 CP), e agora o juiz tem de ver se estão verificadas as exigências de prevenção especial (as
exigências de prevenção geral já se consideram preenchidas), art. 61º/2/a) CP. Vai estar 4 anos em liberdade
condicional - dos 8 aos 12 anos -, art. 61º/5 CP.

E se o juiz considerar que não dá liberdade condicional ainda aos 8 anos? 12 meses depois, aos 9 anos de
cumprimento da pena, vai voltar a haver a renovação da instancia (art. 180º/1 CEP) - passaram 12 meses desde os 8
anos. Quais são os pressupostos? Os mesmos de há pouco - consentimento, preenchimento das exigências de
prevenção especial (as exigências de prevenção geral já se consideram preenchidas). Está 3 anos em liberdade
condicional - dos 9 aos 12 anos.

Se não o juiz não der sequer aos 9 anos a liberdade condicional (o agente cometeu um crime gravíssimo, e não
estavam reunidas as exigências de prevenção especial), vai haver renovação da instância aos 10 anos (10 anos
coincidem, por um lado com os 12 meses depois, e por outro com 5/6 dos 12 anos da pena). Vamos ter assim a
liberdade condicional obrigatória, porque a pena de prisão é superior a 6 anos. Neste caso, os pressupostos para se
conceder a liberdade condicional é só consentimento do condenado (não é necessário a verificado de qualquer
pressuposto material). Quanto tempo vai estar em liberdade condicional? 2 anos.

Aula 11 - 19/12/17

NOTA: Acórdão do STJ 9/2016 de 28 de Abril, acórdão de uniformização de jurisprudência. O STJ fixou jurisprudência
no seguinte sentido: o momento temporal a ter em conta para a verificação dos pressupostos do concurso de

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crimes com conhecimento superveniente é o do transito em julgado da 1ª condenação por qualquer dos crimes
em concurso. Este acórdão vai contra a opinião de MARIA JOÃO ANTUNES.

Caso Prático nº 2 sobre liberdade condicional

A foi condenado a uma pena de prisão de 10 mas ele esteve 2 anos em prisão preventiva pelo que actuando a figura do
desconto (nos termos do art. 80º CP) A tem apenas 8 anos de prisão para cumprir. Quando é que A poderá sair em
liberdade condicional?

Resolução:

Em abstrato há duas hipóteses:

1. Desconta-se o tempo de prisão preventiva na pena e depois determina-se a metade da pena. Logo a primeira
hipótese no nosso caso seria: pena de 10 anos menos 2 de prisão preventiva igual a 8. 8 a dividir por dois igual a 4.
Poderia sair ao fim de 4 anos de cumprimento de prisão. Seguindo esta hipótese A ficou privado da liberdade 6
anos.

2. Determina-se a metade da pena e depois desconta-se por inteiro o tempo de prisão preventiva nessa metade
da pena. Esta segunda hipótese no nosso caso seria: encontrar a metade da pena, ou seja 10 anos a dividir por
dois igual a 5 anos. 5 anos menos 2 anos de prisão preventiva igual a 3. Segundo esta hipótese o sujeito ficaria
privado da liberdade durante 5 anos.

Devemos optar pela 2ª hipótese porque se optássemos pela primeira estaríamos a prejudicar o gente que
esteve em prisão preventiva em relação a um outro agente que tivesse sido condenado numa pena com igual
duração mas que não tivesse estado em prisão preventiva.

Caso Prático nº 4 sobre liberdade condicional

A foi condenado a uma pena de 8 meses de prisão. Quando é que ele pode sair em liberdade condicional?

Resolução:

A especificidade deste caso é que A não poderia sair a metade da pena porque ainda não estão cumpridos os 6 meses
referidos no art. 61º/2 CP. Deste modo, nos casos em que o agente for condenado numa pena de prisão de 7, 8, 9, 10
ou 11 meses, a aplicação da liberdade condicional só deve ser apreciada quando estiverem cumpridos 6 meses de pena
e a liberdade condicional será concedida se o condenado consentir e estiverem preenchidos os requisitos do art. 61º/2/
a) e b) CP. Se tivermos penas de 1 ano ou mais aí já poderemos considerar a metade da pena.

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- Cumprimento e incumprimento da liberdade condicional:

Se decorrido o período de liberdade condicional não houver motivos que possam conduzir à sua revogação, a pena é
declarada extinta - art. 61º/5 CP. Mas há situações em que a liberdade condicional pode ser revogada, nos
mesmos termos em que deve ser a suspensão da execução da pena - art. 64º/1 CP (que nos remete para o art.
56º/1 CP).

Deste modo, a liberdade condicional é revogada sempre que, no seu decurso, o condenado infringir grosseira
ou repetidamente as regras de conduta impostas ou o plano de reinserção social - art. 56º/1/a) CP ou então
quando o condenado cometer crime pelo qual venha a ser condenado e revelar que as finalidades que estavam
na base da liberdade condicional não puderam por meio dela ser alcançadas - art. 56º/1/b) CP. Nos termos do
art. 64º/2 CP a revogação da liberdade condicional determinada a execução da pena de prisão ainda não
cumprida.

Para determinar a pena de prisão ainda não cumprida deve subtrair-se ao quantuum (medida) da condenação o
tempo da pena de prisão já cumprida e o período em que o condenado esteve em liberdade condicional. Não
podemos esquecer que a liberdade condicional é coincidente com a execução da pena. De acordo com o art. 64º/3 CP,
relativamente à pena de prisão que vier a ser cumprida em virtude da revogação da liberdade condicional, pode ter lugar
nova liberdade condicional.

Caso Prático nº 5 sobre liberdade condicional

A foi condenado a 6 anos de prisão por um crime de furto qualificado (art. 204º/2 CP). Ao fim e 3 anos (a meio da pena)
saiu em liberdade condicional. 1 ano depois ele infringiu as regras de conduta e a liberdade condicional foi revogada.
Quid iuris?

Resolução:

Aos supostos 4 anos de cumprimento da pena a liberdade condicional foi revogada. O que é que acontece? A
consequência desta revogação, segundo o art. 64º/2 CP, é A voltar para a prisão para cumprir os 2 anos de pena que
lhe faltam. Entendemos que o tempo em que esteve em liberdade condicional conta como tempo de pena cumprida, daí
só lhe faltarem 2 anos de cumprimento de pena. O art. 64º/3 do CP diz-nos, que quanto a estes 2 anos que lhe faltam
cumprir, o agente pode voltar a beneficiar da liberdade condicional - desde que reunidos todos os pressupostos de
liberdade condicional, é como que se de uma nova pena se tratasse relativamente a estes 2 anos que faltam cumprir.

- A liberdade condicional no caso de execução sucessiva de penas

Caso Prático nº 6 sobre liberdade condicional

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A foi condenado numa pena de prisão de 3 anos pela pratica de crime de furto qualificado (art. 204º/2 CP) e numa pena
de prisão de 12 anos pela prática do crime de homicídio (art. 131º CP). Este é um caso de cumprimento sucessivo de
penas. Quando é que A pode sair em liberdade condicional?

Resolução:

Se não existisse um regime especial para estes casos o tribunal avaliaria a aplicação da liberdade condicional em
relação ao crime de furto quando? Ao fim de ano e meio (pena de 3 anos). E se se verificassem os pressupostos a
liberdade condicional seria concedida mas como o condenado tinha outra pena para cumprir, ele ficaria em liberdade
condicional dentro da prisão. Claro que isto vai contra as finalidades ressocializadoras que estão na base da liberdade
condicional, por isso para estes casos existe um regime especial que está no art. 63º CP.

O art. 63º CP Regula a aplicação da liberdade condicional no caso de penas de prisão que devam ser cumpridas
sucessivamente. O nº1 dispõe que a execução da pena que deva ser cumprida em 1º lugar é interrompida sem
se fazer qualquer juízo, quando se encontrar cumprida metade da pena - esta interrupção destina-se ao
cumprimento da outra ou das outras penas sucessivas. O nº 2 estabelece que o juiz decide sobre a liberdade
condicional quando puder fazê-lo de forma simultânea em relação à totalidade das penas. O que é que isto
significa?

No nosso caso prático, de acordo com o art. 63º CP estamos perante um caso de execução sucessiva de penas em que
a pena 1 era de três anos e a pena 2 de 12 anos. O que vai acontecer segundo o art. 63º CP à pena de 3 anos? Vai ser
interrompida, ou seja, o agente cumpre 1 ano e 6 meses e a meio interrompemos a execução desta pena sem se fazer
qualquer juízo. E porquê esta interrupção? No momento em que interrompemos a execução desta pena 1 o agente
começa logo a cumprir a pena pelo crime 2. Cumpre 6 anos da pena 2 (estamos a meio da pena 2). Neste momento de
cumprimento das penas, ou seja, ao fim de 7 anos e 6 meses (1 ano e 6 meses da pena 1 + 6 anos da pena 2), o
tribunal de execução de penas já está em condições de avaliar a hipótese de liberdade condicional em relação à
totalidade das penas (art. 63º/2 CP). Caso estejam preenchidos todos os pressupostos a liberdade condicional será
concedida ao final de 7 anos e 6 meses de pena cumprida. E se não estiverem verificados os pressupostos? A liberdade
condicional não é concedida, retoma-se o cumprimento das penas e ao fim de 12 meses (art. 180º CEP) haverá
reapreciação, neste caso aos 8 anos e 6 meses. E se o tribunal de execução de penas entender novamente que não
estão preenchidos os pressupostos? Continua a pena de prisão voltando a haver reapreciação outros 12 meses depois,
ou seja, aos 9 anos e 6 meses. Segundo as regras da liberdade condicional há apreciação da pena aos 2/3 da pena de
prisão, no nosso caso seria aos 10 anos de cumprimento de prisão - arts. 63º e 61º/3 CP. Aos 12 anos da soma das
penas, ou seja 5/6 acontece a liberdade condicional obrigatória ao abrigo do art. 63º/3 CP - a concessão de liberdade
condicional obrigatória exige o consentimento do agente e que a pena seja superior a 6 anos.

Caso Prático nº 7 sobre liberdade condicional (regime mais gravoso para o arguido)

A foi condenado a 8 anos de pena de prisão pela prática de um crime de dano qualificado (art. 213º CP). Foi-lhe
concedida liberdade condicional a meio da pena, ou seja, saiu ao fim de 4 anos. Após 1 ano em liberdade condicional A
cometeu um crime de furto qualificado (art. 204º/2 CP). Por conseguinte a liberdade condicional foi revogada e ele vai

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ter de cumprir mais 3 anos de prisão pelo crime de dano qualificado (art. 64º/2 CP). Em relação ao crime de furto
qualificado A foi condenado numa pena de 6 anos. Diga quando pode A sair em liberdade condicional.

Resolução:

Este é também um caso de execução sucessiva de penas. Temos 3 anos pelo crime de dano e 6 anos pelo crime de
furto mas como a execução da pena de 3 anos resulta da revogação da liberdade condicional não vai atuar aqui o
regime especial do art. 63º CP porque o art. 63º/4 CP exclui expressamente a aplicação do regime nestes casos.
Então tudo se vai passar como se esta norma especial não existisse.

Esquema cronológico:
Pena1—> 3 anos de remanescente que resulta da revogação da liberdade condicional

Pena2 —> 6 anos

O que vamos fazer é apreciar a liberdade condicional autonomamente em relação a cada uma das penas. Em relação à
pena 1 - podia ser avaliada a possibilidade de liberdade condicional ao final de 1 ano e 6 meses, ié, 1/2 da pena de 3
anos (art. 61º/2 CP). Se o tribunal entender que estão reunidos os pressupostos começa a contar a liberdade
condicional mas o agente não sai. Continua a cumprir pena mas em relação ao segundo crime.

Se o tribunal entender que não estão reunidos os pressupostos da concessão da liberdade condicional então o agente
continuará a cumprir a pena 1, a pena pelo crime de dano. O que acontece? Aos 2/3 da pena 1 ou seja aos 2 anos de
pena cumprida o juiz vai voltar a avaliar a possibilidade de concessão de liberdade condicional (art. 61º/3 CP). Se o juiz
entender que estão reunidos os pressupostos começa a cumprir a liberdade condicional mas dentro da prisão, a cumprir
a pena pelo crime 2. Se por outro lado o tribunal não conceder a liberdade condicional então terá de cumprir o resto da
pena. Não se aplica a reapreciação ao final de 5/6 da pena porque esta é inferior a 6 anos. Começa então o agente a
cumprir a pena 2.

A liberdade condicional quanto à pena 2 pode ser concedida ao final de 3 anos (1/2 de 6 anos) Se cumpridos os
requisitos e o tribunal consentir. Se o tribunal entender que não estão reunidos os pressupostos, a reapreciação será
feita aos 2/3 da pena 2 ou seja, aos 4 anos nos termos do art. 61º/3 CP. Teremos só de ver se estão reunidos os
pressupostos de reinserção social visto que já passaram 2/3 da pena. Ao fim de 5 anos ha a renovação anual de
instancia nos termos do art. 180º CE. Neste caso não há liberdade condicional obrigatória porque a pena não é superior
a 6 anos.

Conclusão: o disposto do art. 63º/4 CP ao estabelecer que o regime especial não se aplica quando a execução da
pena resultar da revogação da liberdade condicional, é então um regime mais gravoso para o condenado e é um regime
mais gravoso porque já lhe foi dada uma oportunidade ao aplicar-se a liberdade condicional pelo 1º crime e ele
desperdiçou essa oportunidade levando à revogação da liberdade condicional. Este regime é mais gravoso porque se
se aplicasse o regime especial do art. 63º CP, a 1ª pena que o A tem de cumprir (que corresponde ao remanescente da
pena do crime de dano) interromper-se-ia sem se fazer qualquer juízo e ele começava logo a cumprir a pena pelo crime

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de furto qualificado. Além disso, haveria ainda a liberdade condicional obrigatória aos 5/6 (cinco sextos) da soma das
penas, coisa que não conhece no nosso caso pratico porque a execução da 1ª pena resulta da revogação da liberdade
condicional.

11 - MEDIDAS DE SEGURANÇA (matéria incompleta, só lecionada a parte mais questionada em exame e orais)

O sistema das sanções no direito penal português assenta em dois polos: as penas e as medidas de segurança. A pena
só pode ser aplicada ao agente que tenha atuado com culpa; as medidas de segurança, por sua vez, não supõem a
culpa do agente, pressupondo sim a sua perigosidade.

Entre nós está apenas prevista uma medida de segurança privativa da liberdade que é o internamento de
inimitáveis por anomalia psíquica - arts. 91º e ss. CP. Mas estão previstas várias medidas de segurança não
privativas da liberdade previstas nos arts. 100º e ss. CP, e que podem ser aplicadas tanto a agentes imputáveis
como a agentes inimputáveis.

Quando estamos perante um agente inimputável? O art. 20º/1 CP dispõe que é inimputável quem, por força de uma
anomalia psíquica, for incapaz no momento da pratica do facto de avaliar a ilicitude deste ou de se determinar de acordo
com essa avaliação. Mas além dos casos referidos no art. 20º/1 CP há ainda os casos de imputabilidade diminuída -
são casos duvidosos em que, perante um agente de imputabilidade diminuída, o juiz pode optar por considerá-lo
inimputável ao abrigo do disposto do artigo 20º/2 CP.

Quais os pressupostos da medida de segurança de internamento? Art. 91º CP:

Para que o juiz aplique a medida de segurança de internamento tem de se verificar 3 pressupostos:

1. Prática de um facto ilícito típico;

2. Declaração de inimputabilidade ao abrigo do art. 20º CP;

3. Um juízo de prognose desfavorável quanto à perigosidade criminal do agente - a perigosidade criminal


traduz-se no fundado receio de que o agente venha a cometer no futuro novos factos ilícitos típicos da mesma
espécie - art. 91º/1 CP.

Há ainda uma outra exigência que tem de ser sempre considerada quando se aplica uma medida de segurança:
a exigência de proporcionalidade. O art. 40º/3 CP estabelece expressamente que a medida de segurança só pode ser
aplicada se for proporcionada à gravidade do facto e à perigosidade do agente. O principio da proporcionalidade
assume no direito das medida de segurança uma função análoga à que é desempenhada no direito das penas pelo
principio da culpa - (muito questionado o principio da proporcionalidade nas medidas de segurança) quer um quer outro
são princípios limitadores do poder sancionatório do Estado.

- Regra quanto à duração da medida de segurança de internamento:

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A regra é a de que a medida de segurança cessa quando cessar o estado de perigosidade criminal que lhe deu
origem - art. 92º/1 CP. Não pode ser previamente determinada - quando o juiz aplica esta medida de segurança ele
não pode fixar a sua duração concreta porque ela há-de cessar quando cessar a perigosidade criminal do agente.
Quando o tribunal verificar que cessou a perigosidade criminal do agente este tem de ser libertado. A
perigosidade é assim o pressuposto de aplicação da medida de segurança e depois ela tem de perdurar também
durante a própria execução da medida de segurança. É também esta ideia que justifica o instituto do re-exame da
medida de internamento previsto no art. 96º CP.

Quanto à duração do internamento a lei estabelece um limite máximo, regra que decorre do art. 30º/1 CRP e do
art. 92º/2 CP. No entanto o art. 92º/3 CP prevê em certos casos a prorrogação da medida de segurança,
prorrogação esta que está regulada no art. 162º CEP e que é expressamente admitida no art. 30º/2 da CRP. Na
prática podíamos ter medidas de segurança de internamento perpétuas sendo que, com a evolução da psiquiatria, isto
acontecerá cada vez menos. No nosso sistema não há penas nem medidas de segurança perpétuas. O art. 93º/2 CP
não é inconstitucional porque está sustentado pelo art. 30º/1 CRP.

O art. 91º/2 CP estabelece para alguns casos uma duração mínima do internamento (3 anos). O juiz só pode
estabelecer o limite mínimo do internamento se estivermos perante um dos casos do art. 91º/2 CP, e esse limite mínimo
só poderá ter a duração mínima de 3 anos. Esta norma do art. 91º/2 CP faz-nos questionar sobre as finalidades da
medida de segurança de internamento.

Sendo o pressuposto da medida de segurança a perigosidade criminal do agente, ela visa naturalmente evitar que o agente venha a
praticar no futuro outros factos ilícitos típicos, ié, a medida de segurança cumpre primordialmente uma função de prevenção
especial de socialização e ou de segurança. Todavia o estabelecimento de um limite mínimo de duração da medida de segurança
em certos casos e a referencia à possibilidade de libertação se tal se revelar compatível com a defesa da ordem jurídica e da
paz social, faz com que certos autores como FIGUEIREDO DIAS defendam que as medidas de segurança também participam a
titulo autónomo da função de prevenção geral positiva ou de integração da norma violada. Aliás, relembra FIGUEIREDO DIAS que o
art. 40º CP não distingue entre penas e medidas de segurança quando indica como finalidades das sanções criminais as exigências de
prevenção geral e prevenção especial.

Já MARIA JOÃO ANTUNES entende que, na medida de segurança de internamento, a função de prevenção geral não releva de
modo autónomo. MARIA JOÃO ANTUNES concorda com ROXIN quando este autor diz que “as expectativas da comunidade quanto à
validade da norma violada não são postas em causa quando o facto é praticado por um inimputável”. A sociedade não se identifica
com o comportamento de um inimputável e deste modo não há verdadeiramente violação da norma, não havendo por isso a
necessidade de reafirmação da validade dessa norma. Além disso MARIA JOÃO ANTUNES refere que se o art. 91º/2 CP mostrasse que
as medidas de segurança cumprem de forma autónoma as finalidades de prevenção geral, então, ficaria por explicar o facto de esta
norma já não se aplicar nos casos em que o agente já não for perigoso no momento do julgamento. É que nos casos em que o
agente inimputável comete um facto ilícito típico mas no momento do julgamento já não for perigoso não se pode aplicar a medida de
segurança, e neste caso ficariam por cumprir as referidas exigências de prevenção geral. Isto mostra, segundo MARIA JOÃO ANTUNES,
que a medida de segurança de internamento não cumpre de forma autorama finalidades de prevenção geral. MARIA JOÃO ANTUNES
interpreta o artigo 91º/2 CP de modo diferente de FIGUEIREDO DIAS: para esta, o disposto neste nº 2 vale exclusivamente para o
agente declarado inimputável nos termos do art. 20º/2 CP, ié, vale apenas para os casos de imputabilidade diminuída. Precisamente
porque se trata de uma agente imputável mas que é declarado inimputável nos termos do art. 20º/2 CP (a nossa lei ficciona a
imputabilidade, para efeitos de aplicação de uma medida de segurança), justifica-se que, nos casos previstos no art. 91º/2 CP, o
internamento tenha uma duração mínima obrigatória ressalvada a possibilidade de uma libertação anterior se revelar compatível com a

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ordem jurídica e a paz social. Segundo MARIA JOÃO ANTUNES só nestes casos de imputabilidade diminuída é que as exigências de
prevenção geral positiva vão relevar de forma autónoma justificando-se a continuação do internamento ate aos 3 anos, ainda que
entretanto tenha já cessado a perigosidade criminal do agente. Não se pode esquecer que se o artigo 20º/2 CP não existisse aquele
agente iria ser condenado numa pena.

MARIA JOÃO ANTUNES diz que este seu entendimento não colide com o disposto no art. 40º/1 CP, porque esta é uma norma geral
sobre as finalidades das medidas de segurança incluídas as não privativas da liberdade (que tanto podem ser aplicáveis a agentes

imputáveis como a agentes inimputáveis), e de qualquer modo, refere MARIA JOÃO ANTUNES que a medida de segurança de
internamento de inimputável, ao abrigo do art. 20º/1 CP. participa, ainda que de forma não autónoma, da função da tutela de

bens jurídicos, ou seja, prevenção geral positiva.

Esta posição de MARIA JOÃO ANTUNES é uma posição ímpar na doutrina nacional, e muitas vezes questionada nos exames
- temos de demonstrar conhecer ambas as opiniões e podemos, se quisermos, optar, pessoalmente, por uma.

- Revisão da medida de segurança de internamento

O instituto da revisão do internado está previsto nos arts. 93ª CP e 158º e 159º CEP. Se desta revisão resultar que há
razões para esperar que a finalidade da medida possa ser alcançada em meio aberto, o tribunal colocará o
internado em liberdade para prova, ficando o agente sujeito a deveres e regras de conduta. A liberdade para
prova prevista no art. 94º CP é um incidente de execução da medida de segurança de internamento, à semelhança do
que acontece com a liberdade condicional no âmbito das penas.

Note-se que o agente é colocado em liberdade para prova se ainda for perigoso, i. é., a liberdade para prova
pressupõe sempre ainda a perigosidade do agente, porque se numa revisão da situação do internado se
concluir que o agente já não é perigoso, cessa a medida de segurança de internamento.

- Suspensão de execução de internamento

A suspensão da execução de internamento está prevista no art. 98º CP, e é uma medida de segurança não privativa da
liberdade, aplicável a delinquentes e inimputáveis por anomalia psíquica. Ela vai ser aplicada em vez do
internamento pelo que, ao contrário da liberdade para prova que é aplicada no decurso da execução da medida de
segurança do internamento, a suspensão da execução do internamento é aplicada no momento da condenação. A
suspensão da execução do internamento pressupõe também a perigosidade do condenado porque, como sabemos,
se no momento do julgamento o agente não for perigoso não pode aplicar-se-lhe qualquer medida de segurança.

12 - PENA RELATIVAMENTE INDETERMINADA

A pena relativamente indeterminada é uma sanção de natureza mista. Ela é executada segundo as regras das
penas até se mostrar cumprida a pena que concretamente caberia ao crime cometido e a partir deste momento

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é executada de acordo com as regras das medidas de segurança. É por causa da pena relativamente
indeterminada que nós dizemos que o nosso sistema é tendencialmente misto.

A pena relativamente indeterminada aplica-se aos delinquentes por tendência - arts. 83º e 84º CP; aplica-se aos
delinquentes alcoólicos e equiparados - arts. 86º e ss. CP; e também aos agentes da prática de crime de incendio
florestal - art. 274º-A/4 CP.

Quais são os pressupostos de aplicação de uma pena relativamente indeterminada? Os pressupostos variam de caso
para caso e encontram-se elencados nos respetivos arts. acima mencionados.

Como se determina a pena relativamente indeterminada? Também varia de caso para caso. Vamos na aula aplicar o
art. 83º CP nos casos de delinquência grave:

1. A primeira operação que o juiz tem de fazer será sempre a de encontrar a pena concreta que aplicaria
ao agente se ele não fosse delinquente por tendência;

2. Numa segunda operação o juiz vai fixar a pena relativamente indeterminada que nos termos do art.
83º/2 CP tem o mínimo correspondente a 2/3 da pena de prisão que concretamente caberia ao caso e o
máximo correspondente a esta pena acrescida de 6 anos sem exceder os 25 anos. O juiz fixa só o mínimo
e o máximo.

Caso Prático nº1

A cometeu um crime de homicídio (art. 131º CP). Estando reunidos todos os pressupostos do art. 83º CP o juiz quer
aplicar uma pena relativamente indeterminada. Fixe/encontre/determine essa pena e diga ainda quando é que A pode
sair em liberdade condicional.

Resolução:

Homicídio prevê pena de prisão de 8 a 16 anos.

• 1ª Operação: determinar uma pena concreta caso não lhe aplicasse uma pena relativamente indeterminada. Vamos
imaginar que a pena concreta seria de 9 anos. De quanto vai ser a pena relativamente indeterminada para um caso
previsto no art. 83º CP? Se ele não fosse delinquente por tendência seria uma pena de 9 anos. Dois terços de 9 é
igual a 6, então no mínimo a pena relativamente indeterminada seria de 6 anos segundo o art. 83º/2 CP. No máximo, a
pena concreta indeterminada seria de 15 anos (6 + 9 = 15).

Ele foi condenado a uma pena relativamente indeterminada entre 6 e 15 anos. Até à pena que concretamente caberia
ao caso (9 anos), a execução da pena relativamente indeterminada faz-se segundo as regras de execução da pena de
prisão, e a partir dos 9 anos e até aos 15 anos a execução da pena relativamente indeterminada faz-se nos termos da
execução da medida de execução do internamento. Quando estamos perante uma pena relativamente

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indeterminada as regras de libertação do condenado são diferentes conforme o momento em que se coloca a
possibilidade de libertação. É então necessário distinguir 2 momentos:

1. Regras que se aplicam até se mostrar cumprida a pena concreta que caberia ao crime (regras que se aplicam
ate aos 9 anos no nosso caso):

• 1.1. A liberdade condicional só pode ser concedida com o consentimento do condenado (art. 61º/1 CP por
remissão do art. 90º/1CP);

• 1.2. O condenado é posto em liberdade condicional quando se encontrarem cumpridos 2/3 da pena que
concretamente caberia ao crime, ié, é posto em liberdade condicional no limite mínimo da pena relativamente
indeterminada desde que se encontrem preenchidas as exigências de prevenção especial. Isto decorre do art.
61º/3 CP por remissão do art. 90º/1 CP; e aqui nós encontramos uma diferença em relação à liberdade
condicional no caso de execução de uma pena concreta porque no caso de execução de uma pena concreta, o 1º
momento em que se pode aplicar a liberdade condicional é a meio da pena, enquanto que no caso da pena
relativamente indeterminada o 1º momento em que se pode aplicar a liberdade condicional é aos 2/3 da pena que
concretamente caberia ao crime;

• 1.3. A liberdade condicional terá uma duração igual ao tempo que faltar para atingir o limite máximo da
pena relativamente indeterminada, mas nunca superior a 5 anos - isto resulta do art. 90º/2 CP.

No nosso caso o agente pode sair em liberdade condicional aos 6 anos porque equivalem aos 2/3 da pena concreta e
desde que consinta e se encontrem preenchidas as exigências de prevenção especial. Isto resulta do art. 90º/1 CP e do
art. 61º/1 e 3 CP. Quando tempo é que ele vai ficar em liberdade condicional? 5 anos, ou seja, até aos 11 anos - resulta
isto do art. 90º/2 CP.

Até se mostrar cumprida a pena que concretamente caberia ao crime, se a liberdade condicional for revogada, pode ser
concedida nova liberdade condicional, decorridos 2 anos sobre o inicio da continuação do cumprimento da pena, e caso
ela não seja aplicada neste momento a instancia renova-se decorrido cada período ulterior de 1 ano - art.180º/2/b) CEP.
Aqui também há uma diferença em relação à liberdade condicional nos casos de execução de uma pena concreta,
porque no caso da pena relativamente indeterminada, quando houver revogação da liberdade condicional, a lei
estabelece expressamente que a nova liberdade condicional só pode ser concedida decorridos 2 anos, e
quando se trata do cumprimento do remanescente de uma pena concreta a liberdade condicional pode ser
concedida nos termos gerais - art. 64º/3 CP.

Voltando ao nosso caso, se não tivesse sido ao fim de 6 anos concedida a liberdade condicional a A haverá renovação
anual da instância, até se mostrar cumprida a pena que concretamente caberia ao crime cometido - 180º/2/a) CEP. Se A
não saísse aos 6 anos poderia sair aos 7, 8 ou 9 anos de cumprimento de pena desde que ele consentisse e se
encontrarem preenchidas as exigências de prevenção especial.

2. Regras que se aplicam depois de estar cumprida a pena que concretamente caberia ao crime (regras que se
aplicam depois dos 9 anos, no nosso caso):

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Se até aos 9 anos A não for posto em liberdade condicional ou se ele for posto em liberdade condicional mas esta for
depois revogada, a partir dos 9 anos de cumprimento de pena nós já não poderemos falar de liberdade condicional,
falaremos sim de liberdade para prova porque a partir do momento em que se mostra cumprida a pena que
concretamente caberia ao crime, vale o regime das medidas de segurança. Quais as regras que se aplicam neste
caso? Elas estão nos arts. 90º/3 CP e 164º/2 CEP:

• 2.1 - A partir do momento em que estiver cumprida a pena que concretamente caberia ao crime, a pena
relativamente indeterminada cessa quando cessar a perigosidade do agente (art. 92º/1 CP), procedendo-se
à revisão da situação do internado nos termos do art. 93º/1 e 2 CP;

• 2.2 - Se a perigosidade não cessar mas o juiz chegar à conclusão que a finalidade da pena relativamente
indeterminada pode ser alcançada em meio aberto, o condenado pode ser colocado em liberdade para
prova nos termos dos arts. 94º e 95º CP.

• 2.3 - Se ao condenado não for concedida liberdade para prova nem se verificar a cessação do
internamento por não ter cessado a perigosidade, então o condenado sairá em liberdade apenas quando
for atingido o limite máximo da pena relativamente indeterminada, ou seja, os 15 anos no nosso caso
prático. Neste momento, ao fim de 15 anos, no limite máximo da pena relativamente indeterminada, o condenado
vai ser definitivamente libertado, mesmo que a sua perigosidade ainda persista porque na pena relativamente
indeterminada, ao contrário do que pode suceder numa medida de segurança, nunca pode haver prorrogação
da sanção.

Concluindo: o art. 90º CP mostra claramente a natureza mista da pena relativamente indeterminada. Até ao momento
em que se encontrar cumprida a pena que concretamente caberia ao crime, a pena relativamente indeterminada é
executada como uma pena, a partir desse momento a pena relativamente indeterminada é executada como uma
medida de segurança.

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