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DANIEL FERNANDES

FAROL DE SANIDADE
Pe qu eno ma nu a l d a in te ligê nc ia ca tó lica

Curitiba, 2019
SUMÁRIO

Introdução .......................................................... 11
CAPÍTULO I
O estudo como ato de devoção .......................... 27
CAPÍTULO II
A vocação intelectual como chamado eclesial ... 39
CAPÍTULO III
As raízes morais da inteligência ......................... 51
CAPÍTULO IV
A tradição intelectual católica ............................ 61
CAPÍTULO V
Por que ler os Padres da Igreja? ........................ 81
CAPÍTULO VI
O senso das nuances e o senso das proporções . 91
CAPÍTULO VII
Socráticos e isocráticos ..................................... 103
CAPÍTULO VIII
Dante, o poeta da educação liberal católica .... 113
CAPÍTULO IX
Os melhores inquiridores ................................. 123
CAPÍTULO X
O senso do romance ......................................... 131
CAPÍTULO XI
A imaginação batizada...................................... 141
CAPÍTULO XII
A virtude metafísica da humildade .................. 147
CAPÍTULO XIII
O dever do estudo ............................................ 155
CAPÍTULO XIV
A vida na verdade ............................................. 169
CAPÍTULO XV
Idem velle, idem nolle ...................................... 183
CAPÍTULO XVI
Por uma cultura da verdade ............................. 187

APÊNDICE
Duns Scot: sombras a dissipar ......................... 201

Algumas indicações bibliográficas essenciais para a


formação do intelectual católico ...................... 215

Bibliografia ....................................................... 219


O catolicismo não é nada se não for um encontro pessoal
com Cristo.
— James V. Schall, Catholicism and intelligence

A vida intelectual não é o único caminho para Deus, nem


mesmo o mais seguro, mas descobrimos ser um caminho,
e poderá ser o caminho destinado a nós.
— C. S. Lewis, O Peso da Glória

O cristianismo está feito principalmente para ser prati-


cado e, se é também objeto de reflexão, isso só tem valor
quando nos ajuda a viver o Evangelho na vida diária.

— Papa Francisco, Gaudete et Exsultate


INTRODUÇÃO

O homem, que se esforça por viver na


verdade, aceita-as como suas.
Pronuncia-as como se fossem suas.

— João Paulo II, Homilia na Quarta-


Feira de Cinzas, 20 de fevereiro de
1980

possível entrar na Igreja Católica através de muitas portas.


É Paul Claudel, descrente, estava na Notre-Dame de Paris para
acompanhar os ofícios de Natal de 1886, não por motivos religio-
sos, mas como poeta, com o fim de inspirar-se: “As crianças do
coro… cantavam aquilo que mais tarde soube ser o Magnificat…
Num instante o meu coração foi tocado e eu cri…; uma revelação
inefável… Era mesmo verdadeiro! Deus existe, está aqui… Ama-
me, chama-me”. Foi dentro dessa Catedral que Claudel teve seu
encontro com a Graça e com a Fé. Convertido, o poeta descobriria
a plenitude de beleza, verdade e consolo do catolicismo. Entrou na
Igreja através da “porta da beleza”. Outros, porém, seduzidos pela
busca da verdade, se põem a trilhar os caminhos da inteligência e,
em dado momento, esbarram com a monumental e sofisticada
tradição intelectual católica em obras de literatura, filosofia,
teologia e outras ciências. Tocados por tal patrimônio, movidos
pela graça de Deus, aproximam-se da Igreja e entram por essa
porta, que é a “porta da inteligência”. Sobejam exemplos dos que,

11
buscando a verdade, chegaram até a Igreja e descobriram que só os
cristãos católicos possuem o Logos inteiro, que é Cristo. Foi assim
com Santo Agostinho, John Henry Newman, Edith Stein e muitos
outros.1 O que deve ficar claro, desde o início, é que uma vez na
Igreja, o intelectual não é mais uma mônada solitária que dispense
a vinculação com o contexto eclesial. E isto é assim porque ser ba-
tizado é sempre e necessariamente um estar unido a todos os de-
mais, um estar em unidade e solidariedade com todo o Corpo Mís-
tico de Cristo, com toda a comunidade dos seus irmãos. O fato de
o Batismo o inserir numa comunidade, interrompe o seu isola-
mento. Estas pontualizações, longe de serem triviais, permitem
perceber que servir ao Evangelho nunca é uma aventura solitária.
Por isso mesmo a tradição intelectual da Igreja se concentra, não
apenas no indivíduo (tal como na cultura secular — onde cada um
faz do seu jeito), mas na comunidade. Sabemos pronunciar o nós
da Igreja, somos uma comunhão de pessoas.
A tradição intelectual católica é inescapavelmente histórica.
No catolicismo, a atividade do sábio está inevitavelmente vinculada
àquelas pessoas, idéias e eventos que criaram a memória cristã. Não
há memória cristã que não esteja enraizada na experiência comu-
nal. Assim, qualquer investigação intelectual séria é, ao mesmo
tempo, irredutivelmente pessoal e comunitária. Ser um intelectual
católico é participar pessoalmente em uma comunidade de investi-
gação. A Igreja nos fornece um depósito de sabedoria viva, e é por
estar conectado à sua vida e a outros pensadores cristãos, vivos ou
mortos, que provavelmente cresceremos melhor intelectualmente.
Crescemos em comunhão. Não se trata aqui de cair nas armadilhas

1
John Henry Newman chegou a escrever: “A razão correta, isto é, a razão
exercida corretamente, conduz a mente à fé católica”. (John Henry Newman,
The Idea of a University. Discourse 8. Knowledge Viewed in relation to Reli-
gion, 2).

12
psicológicas do mais cego “gregarismo” ou no vago “nós”, mas de
evitar reduzir a intelligentsia católica à medida do mais estreito fac-
ciosismo. Cabe-nos lembrar que o intelectual católico não é só in-
telectual, é, antes de tudo, católico. Como membro de uma comu-
nidade mística, deve contribuir, com suas capacidades individuais,
para o bem da Igreja. O católico é, portanto, um “vinculado”, al-
guém que está vinculado, e associado à missão universal da Igreja.
A conclusão, pois, é clara: ele deve ter a ambição de espalhar em
primeiro lugar não suas elucubrações pessoais, mas apresentar a
cosmovisão católica em toda a sua magnificência e em todas as con-
seqüências para os diversos setores da vida humana. Alimentado
pela contemplação dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição
de Cristo, ele deve encarar a missão intelectual como uma missão
de serviço, colocando-se à disposição da Igreja universal. Assim
como ela mesma se põe a serviço de toda a humanidade para salvá-
la. Um intelectual pode não ser cristão, mas é como cristão que ele
pode ser sal e luz.
A este tempo achamo-nos, sem dúvida, em face de uma crise
estrutural da civilização.2 Dominar rapidamente uma crise tão fe-
cunda de indizíveis conseqüências como a atual ou colaborar na
preparação de uma cultura mais sadia, aberta ao Evangelho, é ta-
refa urgente e indeclinável de todo investigador cristão consciente
de suas responsabilidades. Como bem disse Gregory Wolfe, “ab-
dicar dessa responsabilidade é fazer um pouco como um fazen-
deiro que se recusa a cultivar o campo porque há pedras e barro.

2
A cultura ocidental não se confunde com o catolicismo ou com a cultura
católica. Mas as duas coisas estão tão profundamente interligadas que uma
não pode entrar em crise sem afetar seriamente a outra. Essa é uma das razões
mais profundas pelas quais até mesmo as faculdades e universidades católicas
— com algumas renomadas exceções — não são hoje uma grande alternativa
ao declínio intelectual geral que nos cerca. (Cf. Robert Royal, The opening
of the catholic mind. The Catholic Thing. 7 de maio de 2015).

13
O agricultor previdente sabe que, com o cultivo adequado, o solo
vai se tornar fértil”.3 Nossa tarefa, diz ele, é ajudar a redimir a é-
poca, inspirados por aquele que disse: “Eis que faço novas todas as
coisas”. Guiados pela luz do Evangelho e pela mente da Igreja, e
conduzidos pela caridade cristã, os intelectuais católicos devem ser
cooperadores da verdade.
No entanto, o Papa Bento XVI assinala que isso não é obra que
possa ser realizada por mentes e corações distraídos e superficiais.
É necessário um profundo trabalho educativo e um discernimento
contínuo.4 Isto supõe séria preparação pessoal, dotes maduros de
discernimento, fiel adesão aos critérios indispensáveis de ortodoxia
doutrinal, vida sacramental e comunhão eclesial. Santo Agostinho,
o paradigma do homem de intelecto, vivendo numa época de crise
e de grandes transformações culturais não diferentes da nossa, en-
sinou que devemos procurar “pensar com Cristo e a Igreja”,5 o que
significa, entre outras coisas, levar sempre em consideração o en-
sino da Igreja, fundado na harmonia intrínseca entre fé e
empreendimento intelectual humano. A fé e a razão conspiram
para a verdade única, segundo os passos dos doutores da Igreja,
mormente de Santo Tomás de Aquino. Em qualquer época, os in-
telectuais católicos são chamados a uma fidelidade pessoal à Igreja,
com tudo quanto isto comporta. Sob a perspectiva católica, a fé,
longe de sufocar as energias do intelecto, revive-as e fortalece-as
ainda mais, fornece-lhes um alimento muito rico de verdades
sublimes. A consciência humana é ampliada e aprofundada pela
revelação cristã. O próprio Papa São João Paulo II, o “papa

3
Gregory Wolfe, A beleza salvará o mundo. Campinas: Vide editorial,
2015, p. 61.
4
Cf. Homilia do Papa Bento XVI, 16 de dezembro de 2010.
5
Henri Marrou diz que “A vida inteira de Santo Agostinho nos ensina,
com o exemplo, a arte de viver em tempos de catástrofe”. (Henri Marrou,
Santo Agostinho e o agostinismo. Rio de Janeiro: Agir, 1957, p. 9).

14
filósofo”, ensinou que a fé, iluminando e orientando o caminho da
razão, não permite que o dom da inteligência se curve sobre si
mesmo, incerto e derrotado, dentro dum horizonte onde tudo é
reduzido a mera opinião. Sustenta-o, ao contrário, e impele-o
continuamente a levantar os olhos, até encontrar os próprios
confins do mistério, núcleo gerador e energia propulsora de toda a
autêntica cultura, onde o fragmento se faz revelador de um Tudo
que o transcende.6
Não é fácil, atualmente, em tempos de relativismo e de plura-
lismo ideológico oficializado, orientar-se na direção da verdade e
do bem. Convém, portanto, hoje mais que nunca, aprofundar-mo-
nos na tradição intelectual da Igreja, uma tradição de diálogo
contínuo — informado pela fé, guiado pela razão e auxiliado pela
criatividade humana — que produz conhecimento, molda a cultura
e orienta a existência do homem. Luigi Giussani diz que uma das
funções da Igreja na história é o maternal chamado de atenção à
realidade das coisas. A Igreja, como uma mãe experiente, quer que
tenhamos uma “adequada postura” diante da existência. Isso im-
plica o chamado de atenção a uma postura certa do homem diante
do real e suas questões, postura certa que constitui a melhor con-
dição para encontrar respostas adequadas e corretas a essas ques-
tões. Através da Igreja, Deus ajuda o homem a alcançar clareza na
percepção dos significados últimos da vida humana. O homem
como tal de algum modo intui o sentido da vida, mas o intui com
muita dificuldade e de forma bastante fragmentária. A propósito
disto Santo Tomás observa que tal verdade procurada pela razão,
sem o auxílio divino, teria sido acessível apenas a poucos homens,
misturada a muitos erros e alcançada só depois de muito tempo de
esforço cognitivo. A razão necessita, portanto, de um auxílio, como

6
Cf. João Paulo II, Fides et Ratio.

15
acontece normalmente nas experiências importantes da vida. A I-
greja propõe-se justamente como auxiliar. Propõe-se a tornar mais
luminoso o que a mente humana alcança apenas depois de muito
tempo, com muita dificuldade, e não sem erros. É isto que o ho-
mem que busca com retidão de intenção deve poder encontrar na
Igreja: uma experimentada lucidez da existência. Como prolonga-
mento de Cristo na terra, a Igreja está em condições de oferecer,
portanto, uma capacidade de crítica e penetração do real que, pelas
raízes de que brota, como diz Giussani, não pode ser encontrada
em outros lugares ou religiões.
Como católicos, somos herdeiros de uma rica tradição
intelectual e espiritual. Um tesouro que não pode ser desprezado,
mas que deve ser assimilado e ampliado. É aqui que se apresenta a
condição dramática do intelectual católico de hoje. Ela está preci-
samente no fato de que ele tem de assumir todas as verdades es-
condidas nos erros da modernidade e integrá-las na síntese cató-
lica7 e conservar no fundo do coração o apaixonado desejo de se-
guir o Cristo mesmo contradito por todos os lados. Tal é hoje a
condição da sua perseverança na fidelidade ao Magistério vivo da
Igreja. Sabemos de certo que a Igreja sobreviveu a vários períodos
de crise, nos quais a cultura circundante entrou em colapso e
alguns mosteiros, centros de aprendizagem, mestres e alunos
preservaram o que podia ser preservado — até que condições mais
favoráveis voltassem. Ainda que seja difícil, não há uma razão que
impossibilite uma sociedade de recuperar sua saúde e estabilidade
sociais. Mas tal movimento de regeneração social requer um

7
A Igreja, segundo escreveu Hans Urs von Balthasar, inspirando-se em
Jerônimo e Newman, “devora as serpentes dos mágicos como a vara de Aa-
rão”. Ao longo da história, a Igreja sempre procurou drenar todas as contri-
buições da cultura de seu tempo para fazê-las frutificar em Cristo, sem es-
quecer que os “despojos dos egípcios” de nada servem e que são mesmo um
peso mortal se não são recebidos num coração convertido.

16
esforço moral e uma conscientização de nossas responsabilidades.
O trabalho de restauração, segundo Christopher Dawson, tem de
ser precedido e acompanhado pela reconstituição de nossas tradi-
ções intelectuais e espirituais. Por isso é necessário conclamar os
católicos de nosso tempo a preservar — e, esperançosamente,
reviver — o valor e a centralidade da tradição intelectual da Igreja,
construindo em muitos lugares “bolsões de sanidade”,8 como se
fôssemos membros da Irmandade de Leibowitz, do romance de
Walter M. Miller. Na primeira parte do romance o autor descreve
a luta dos monges copistas de um futuro distante para conservarem
livros e manuscritos após uma guerra atômica; e, mais uma vez, a
cultura humana é preservada nas celas dos mosteiros religiosos e a
civilização retoma seu caminho. No fundo, Um Cântico para Leibo-
witz (1957), focaliza o papel da Igreja na sociedade do futuro após
o holocausto nuclear. Cabe assinalar que, se é certo que a Igreja
não se confunde com a própria civilização, a crise geral da cultura
não pode deixar de afetá-la de alguma maneira. A comunidade
cristã está no tempo, vive na história. E esta supõe para aquela um
impacto iniludível, de limitação e condicionamento inevitáveis,
mas também de responsabilidade e desafio. Em cada época a Igreja
enfrenta novas situações históricas, cujos problemas não podem ser
resolvidos exatamente da mesma maneira que foram no passado.
Toda geração se depara então com a responsabilidade de tomar

8
No século VI, enquanto o Império Romano agonizava, São Bento e seus
irmãos plantaram as sementes de um novo mundo no que parecia ser um solo
árido. As sementes cresceram lentamente e finalmente floresceram na cris-
tandade da Idade Média. Rod Dreher, em A opção beneditina, propõe que
sigamos o mesmo caminho, não apenas através dos mosteiros, mas também
através das nossas famílias, escolas, paróquias e dioceses. Em todas essas co-
munidades, podemos seguir a Cristo em obediência e conversão de vida,
prestando atenção à vida de oração, dedicando-nos a estudos sérios e traba-
lhando arduamente para reconstruir sobre as ruínas.

17
decisões, cada uma delas como um ato autêntico de fé cristã ou de
apostasia.
Seja como for, não devemos esquecer que a história da Igreja
revela uma espécie de movimento cíclico de ascensão, corrupção,
queda e restauração. A apostasia parcial da cristandade e as catás-
trofes sociais e políticas que se seguem, diz Christopher Dawson,
não destroem jamais por completo a possibilidade de restauração
da cultura cristã. Elas podem até mesmo preparar o caminho para
isso derrubando as muralhas e as fortalezas que o homem construiu
como refúgios de seu orgulho e egoísmo. Em meio aos escombros,
permanecem ainda os fundamentos de uma ordem cristã, porque
se baseia no eterno Direito Natural, que é a lei de Deus, e nas imu-
táveis necessidades da natureza humana. O fundamento existe, não
importa quão profundamente esteja enterrado ou encoberto pelos
pecados do homem. É certo que Dawson nunca mostrou qualquer
esperança real de que uma verdadeira cristandade pudesse ressur-
gir após o vasto derramamento de sangue observado em sua vida.
Ele, no entanto, observou que épocas passadas também tinham co-
nhecido horrores. O remédio, segundo ele, só poderia ser encon-
trado naquela suficiência que vem de Deus. Os verdadeiros aju-
dantes do mundo são os pobres de espírito, os homens que se re-
cusam a ser vencidos pelo triunfo do mal e depositam confiança
exclusiva na salvação que vem do alto. A civilização ocidental deve
novamente aceitar o mistério da Graça. Somente pela redescoberta
do mundo espiritual e restauração das capacidades espirituais do
homem seria possível salvar a humanidade da autodestruição.
Do ponto de vista teológico, a visão do catolicismo como nú-
cleo espiritual da civilização permanece incontornável, porque só
a graça de Cristo cura e eleva a natureza humana de maneira única
e perfeita. Contudo, Dawson concluiu que o cristão pode falhar em
sua tarefa de recuperar a cultura. Mas, ainda assim, nada justifica

18
o desânimo. Para o historiador inglês, existem quatro motivos para
lutar pela restauração da cultura. O primeiro deles é a vontade de
Deus. Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao co-
nhecimento da verdade. Mesmo que fracassemos, devemos agir
como se fôssemos conseguir, pois a esperança é uma das três virtu-
des teologais. Segundo motivo: o cristão está particularmente equi-
pado para retomar a cultura, pois todo o desenvolvimento da cris-
tandade foi baseado justamente na conquista e cristianização do
mundo pagão. Terceiro: uma rigorosa defesa da fé católica pode
fazer com que os defensores dos erros e ideologias da modernidade
não tenham tanta certeza se conseguirão impor sua visão de mundo
deformada. Finalmente, devemos desempenhar nosso papel como
membros da Comunhão dos Santos, transmitindo nosso exemplo
e entendimento, servindo como remanescente e inspiração para a
geração futura, que pode estar mais preparada para lutar e enfren-
tar os desafios de seu próprio tempo. Nas palavras de Dawson,
“podemos não ser capazes de construir catedrais como os católicos
do século XIII, ou escrever um poema de viés épico como Dante,
mas todos nós podemos fazer algo para tornar o homem consciente
da existência da verdade religiosa e da relevância do pensamento
católico num mundo sombrio e secularizado”.9 Em apoio, Hans
Urs von Balthasar fez um apelo para que os católicos se tornassem,
como servos da cultura, guardiães da metafísica do ser. Vivendo
em tempos de grande confusão mental, recebemos a tarefa de afir-
mar o Ser, imperturbável pelas trevas e pela distorção, de maneira
vicária e representativa para toda a humanidade. Esta missão

9
Bradley J. Birzer, The Movement of World Revolution: Christopher
Dawson. The Imaginative Conservative. 18 de março de 2013.

19
requer mais do que capacidade de argumentação especulativa, re-
quer um investimento de toda a força da existência pessoal.10
Em momentos como este, a tentação de aderir a ideologias
imanentistas é muito grande. Tentação que todos os católicos po-
dem sofrer: a tentação dos grupos que consideram uma política de-
terminada, uma ideologia partidarista, como uma primeira urgên-
cia, como uma condição prévia para que a Igreja possa cumprir sua
missão. Se a História nos pode ensinar algo de absolutamente certo
é o enorme perigo que há em que os intelectuais católicos se infec-
tem com as correntes de pensamento equivocadas típicas do seu
tempo, sobretudo as correntes político-ideológicas de sua época,
sejam elas de direita ou de esquerda. Não por acaso, Franz Werfel,
no penúltimo de seus livros, Between Heaven and Earth, escreveu:
“O destino da civilização não é uma luta entre a Esquerda e a Di-
reita, como conservadores, liberais e revolucionários continuam a
crer. É uma luta entre o Céu e a Terra, entre a presença de Deus e
a ausência de Deus!” Todo esse palavreado político sobre direita e
esquerda que inundam as redes sociais e os meios universitários
nada significa, pois o segredo do sucesso está na dimensão vertical,
e não na horizontal.11 O soerguimento da civilização não virá da
direita nem da esquerda. À direita, dizia Fulton Sheen, estão os que
dormem; à esquerda estão os sonhadores. Mas no centro estão os
que fazem vigília em obediência ao mandamento divino, e não se
encerram no cubículo estreito da ideologia.12 Manter o equilíbrio
em uma era ideológica é uma tarefa difícil; com muita facilidade se
é puxado para os extremos da esquerda ou da direita. Por isso, em

10
John-Peter Pham, Uniting Faith and Culture: Hans Urs von Balthasar.
Spring 2000, vol. 42. n. 2.
11
Fulton Sheen, Falta um ideal positivo. Tribuna da Imprensa. 31 de ou-
tubro de 1951.
12
Idem, O comunismo e os intelectuais. Tribuna da Imprensa. 27 de feve-
reiro de 1951.

20
1952, o Papa Pio XII, dirigindo-se aos católicos austríacos e, através
deles, a “todos os católicos”, exortava-os a seguir fielmente a linha
reta da doutrina social católica, sem desvio nem para a direita nem
para a esquerda. Um desvio de alguns graus poderia, a princípio,
parecer sem importância. A longo prazo, tal desvio levaria a um
afastamento perigoso do reto caminho.13 O jogo Esquerda–Direita
é um jogo falseado, uma mística de inimizade posta em circulação
pela torrente do movimento revolucionário.
Mas ainda há outro perigo que também deve ser evitado: a des-
cida ao que poderíamos chamar de fundamentalismo católico, uma
caricatura estreita da ortodoxia. Determinados grupos tradiciona-
listas sofrem com esse flagelo, que pode facilmente degenerar na
convicção jansenista de que a “Igreja verdadeira” consiste num
grupo particular que preserva a pureza da fé católica. Esses grupos
tendem a reduzir a vida intelectual católica à memorização mecâ-
nica e intelectualista do catecismo e da Suma Teológica. Muitos
podem até citar com segurança diversos trechos da Suma, mas são
incapazes de relacionar esses trechos aos dilemas e dramas especí-
ficos do mundo real. No nosso esforço para caminhar na verdade
da fé e, portanto, para colocarmo-nos de maneira adequada diante
da tarefa da vida, não devemos nos comportar como católicos pe-
dantes. Em sua Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, o Papa
Francisco nos recorda que “só de forma muito pobre chegamos a
compreender a verdade que recebemos do Senhor. E, ainda com
maior dificuldade, conseguimos expressá-la”. Por isso, a vida inte-
lectual católica deve possuir uma profunda humildade, deve ser
uma tentativa inteiramente aberta e desejosa de adequação, com-
plementação, correção. A tentação desses grupos de impor

13
Mons. Guerry, A Doutrina Social da Igreja. Lisboa: Livraria Sampedro,
1957, p. 7–8.

21
uniformidade na piedade e no pensamento teológico deve dar lu-
gar a uma disposição para permitir a justa diversidade. Não se trata
de ser progressista. O progressismo também caminha longe do Se-
nhor. Mas devemos lembrar que há um pluralismo legítimo dentro
da Igreja. Estava certo Henri de Lubac ao dizer que impulsionar a
ortodoxia ao ponto do purismo religioso é destruí-la.
Na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de in-
terpretar muitos aspectos da doutrina e da vida cristã, que, na sua
variedade, “ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Pa-
lavra. Certamente, a quantos sonham com uma doutrina monolí-
tica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma
dispersão imperfeita”.14 Por mais essencial que seja o ensinamento
doutrinário da Igreja à vida de fé, o fim da vida cristã é a união com
Cristo. Para muitos que se enquadram nessa categoria intelectua-
lista, a vida cristã se resume a um conjunto de idéias escritas a se-
rem decoradas e repetidas no modo automático. Não passam do
conhecimento nocional para o conhecimento real. Só possuem os
conceitos abstratos da religião, como diria Newman. Tal dificul-
dade torna-se profundamente enraizada naqueles que oferecem re-
sistência severa aos desafios da modernidade. O problema fica
ainda mais complexo quando a apropriação de signos é conjugada
com uma idealização de uma era mitológica do passado, em que se
acredita que a Igreja triunfava sem dificuldades. A “solução” inte-
lectualista os leva a um certo tipo de dualismo que cria falsas dico-
tomias: devemos escolher entre a tradição e o mundo moderno,
entre apologética e evangelização, entre ortodoxia e ortopraxia.
Mas a reivindicação definidora da tradição cristã é que em Cristo
tudo é feito novo. Para o cristão, Cristo redime transcendendo as
nossas dicotomias humanas, e ele não o faz escolhendo lados, mas

14
Papa Francisco, Gaudete et Exsultate. c. II, 43.

22
reintegrando ambos na liberdade dos filhos de Deus. Depois de
abraçar a verdade e a beleza da fé, não devemos ter medo de voltar
às ambigüidades que fazem parte de nossa constituição moderna.
Somos produtos do nosso zeitgeist mais do que às vezes entende-
mos ou admitimos. O Evangelho de Jesus Cristo transcende o
tempo e o lugar, mas os próprios católicos não estão imunes às in-
fluências do período em que vivem. A graça pressupõe a natureza
para redimi-la. Temos que enfrentar nossa verdadeira natureza
com a confiança de que a graça de Deus cura tudo, incluindo nos-
sas feridas particularmente modernas.
A tensão para afirmar o real segundo a mente de Cristo e da
Igreja deve estar sempre presente no católico. Ele deve buscar sem-
pre essa adequação. Guardini descrevendo a tensão moral do cris-
tão solicitada pela Igreja, diz que a ela nos chama sempre àquela
tensão que está no fundo de nosso ser: a tensão entre ser e desejo,
realidade e tarefa. Cada um de nós, na medida em que vive o hori-
zonte de uma consciência cristã, deve continuamente se esforçar
para conseguir enfrentar os problemas e as questões humanas do
ponto de vista da mente da Igreja. Aqui vemos a importância da
crença ortodoxa: através da aceitação da fé historicamente apre-
sentada a nós pela Igreja nos chega a certeza e a clareza da verdade
de que o homem necessita para enfrentar a vida humana. Assim, a
prática do catolicismo deve ser reconhecível em todas as idades,
mas também deve abordar diretamente as questões, necessidades e
preocupações das pessoas de nosso tempo. As questões existenciais
colocadas pela modernidade e o conseqüente colapso das estrutu-
ras tradicionais de significado marcam nossa situação contemporâ-
nea. Esses desafios podem levar a uma profunda confusão, bem
como a uma busca séria de significado. Mas a busca não pode re-
signar-se a responder as perguntas, evitando-as. Em vez disso, de-
vemos nos voltar e enfrentar os desafios que nos caracterizam como

23
pessoas de nossa época. Vivemos em tempos perigosos, como to-
dos os cristãos que viveram antes de nós, mas no meio do perigo
há a graça e a força de Jesus Cristo.
Gostaria de insistir, para concluir, que a adesão à tradição da
Igreja é decisiva, mas “tradição não é, nos dizeres de Chesterton,
fazer o que os nossos antepassados faziam, mas fazer o que eles
fariam se fossem vivos”. Nas décadas que antecederam o Concílio
Vaticano II, a cultura católica era mais profunda e abrangente do
que é hoje, e os católicos mais instruídos tinham a sensação de fazer
parte de uma longa e venerável tradição que estava bem viva em
meados do século XX. A perda de coesão na vida intelectual cató-
lica teve menos a ver com qualquer desafio em particular do que
com a perda de convicção de que o catolicismo possui uma visão
intelectual sólida e unificadora a oferecer. Essa falta de coragem
ainda aflige a vida intelectual católica que foi enfraquecida ainda
mais pela ampla ignorância da tradição da Igreja entre os católicos
um pouco mais instruídos. Como portadora de uma tradição inte-
lectual, a Igreja nos lembra que há coisas com as quais vale a pena
se preocupar de uma maneira extrema, e estas também têm a ver
com a vida da mente. A fé madura é alimentada pela vida intelec-
tual. Cada vez mais, há reconhecimento da necessidade de recupe-
rar dentro do espaço eclesial um senso de urgência de uma alfabe-
tização doutrinal. O que descobrimos neste momento de nossa his-
tória, como nunca antes, é que existe um caos no mundo do pen-
samento. Somos obrigados, portanto, a nos conduzir à moda de
Santo Tomás de Aquino. Não é certo que possuímos seus dons pe-
culiares, mas somos obrigados a nos comprometer com a sua aber-
tura à verdade das coisas. Isso é algo que podemos fazer como teó-
logos, filósofos, poetas, cientistas, qualquer que seja nossa vocação
particular.

24
Todo católico que se move nesta via vocacional, que é a via da
inteligência, sente toda a fascinação das palavras de Santo Agosti-
nho: “Intellectum valde ama — ama muito a inteligência” e a fun-
ção que lhe é própria, de conhecer a verdade.15 Seu compromisso
a favor do conhecimento funda-se não em interesses ideológicos ou
partidários, mas na convicção de que o único Deus, como fonte de
cada verdade e bondade, é também fonte do desejo fervoroso do
intelecto de conhecer e do anseio da vontade de se realizar no
amor. É mister admitir, porém, que quando a luz da Palavra encar-
nada brilha sobre a mente humana, a capacidade de pensar meta-
fisicamente é reavivada e atraída para uma relação frutífera com a
verdade revelada de Cristo. Nossa posição ousada em defesa da
capacidade da razão humana para o universal — capacidade cum-
prida na verdade universal de Cristo — é a maneira como atende-
mos às necessidades mais profundas de nossa época, necessidade
ainda mais urgente porque completamente reprimida pela menta-
lidade cética e relativista predominante. Sem cair na idolatria da
razão, sabemos ela é parte integrante da pessoa humana e desem-
penha um papel honroso na tradição intelectual católica.
Em nosso tempo, enquanto céticos radicais descartam a possibili-
dade da capacidade da razão de alcançar a verdade, a tradição ca-
tólica afirma veementemente a capacidade da razão para fazer afir-
mações sobre a realidade objetiva. Cremos, assim, que somente a
plenitude da sabedoria católica que surge de um foco cristocên-
trico pode curar nossa cultura humana decaída e esquecida de
Deus. A Igreja é o alastramento universal do Salvador. Por isso
para Henri de Lubac a comunidade humana só pode ser aperfei-
çoada na vida da única Igreja Católica, na única comunhão euca-
rística e no único destino escatológico de todos os homens. A
Igreja, deve simultaneamente promover o catolicismo como

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Santo Agostinho, Epist. 120, 3, 13; PL 33, 459.

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religião do mistério e como a religião que promove a plena capaci-
dade da razão para apreender as verdades universais. As duas coi-
sas estão profundamente interligadas. Uma confiança renovada em
nossa capacidade de objetividade racional abre a mente para o mis-
tério do ser, assim como um envolvimento profundo com a revela-
ção de Cristo leva a mente a uma abordagem mais realista e honesta
de toda a realidade. A vida intelectual séria encoraja a admiração;
A teologia fiel restringe a tendência da razão à fantasia e à realiza-
ção de seus desejos. Mas uma coisa não pode jamais ser esquecida:
o desenvolvimento intelectual implica atenção à vida espiritual. O
desenvolvimento da tradição intelectual da Igreja tem necessidade
de pensadores católicos com os braços levantados para Deus em
atitude de oração, dóceis à verdade e consumidos pela caridade. A
fé que Jesus solicita não tem nada a ver com a credulidade. Essa fé
é, precisamente, o acesso da inteligência a uma verdade. A fé cató-
lica nunca pretendeu fundamentar o conhecimento de Deus no
desprezo da razão, em uma frustração da exigência de racionali-
dade e de inteligibilidade. Jesus não nos pediu a “humilhação” da
nossa razão, mas sua abertura e compreensão.

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