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O inapanhável objeto do savoir-faire na análise

O inapanhável objeto
do savoir-faire na análise1
The elusory object of know-how in analysis
Erik Porge
Traduçao: Elisa dos Mares Guia-Menendez
Mariana Valério Orlandi

Resumo
Além das regras técnicas, o savoir-faire (saber-fazer) provém de uma posição ética. O
tato, assim como a disponibilidade, o constitui. Ele encontra sua expressão na regra da
atenção igualmente em suspenso. Esta visa a impedir a compreensão precipitada e favo-
rece a surpresa no discurso, sinais de uma passagem de inconsciente. Ela também indica
que o savoir-faire se encontra ligado ao tempo e ao seu manejo, bem como à existência
da lalíngua (lalangue). No entanto, o savoir-faire não deve se situar somente do lado do
analista, mas também do analisante. A este cabe aprender como lidar com seu fantasma
e seu sintoma. Além disso, o savoir-faire se refere sempre a uma subjetividade, seja ela
do analista ou do analisante, na medida em que o inconsciente é um savoir-faire com a
lalíngua?

Palavras-chave: Saber-fazer, Atenção, Lalangue.

Naquilo que concerne à psicanálise, o savoir- preservar a independência última do pacien-


faire pode ser visto de maneira positiva ou te, utilizando a sugestão somente para fazê-
negativa. O lado ruim: no sentido de uma -lo realizar o trabalho psíquico, que o condu-
manipulação indevida da transferência. O zirá necessariamente a melhorar de maneira
lado bom: no sentido de uma justa aprecia- durável a sua condição psíquica (FREUD,
ção dos posicionamentos da transferência. 1975).
Esse aspecto bifacetário do savoir-faire, no A fronteira entre uma sugestão arbitrária,
fundo, está correlacionado com o da transfe- hipnotizante e uma sugestão a serviço do
rência em si, que às vezes é um fator de resis- “trabalho psíquico” pode ser porosa, segun-
tência e também motor de um querer dizer. do o dito que os fins justificam os meios. Por
A dupla face da transferência nos mostra que isso, é preciso admitir a existência “de uma
ela nunca é pura nem purificável, pois está dimensão de sugestão em toda transferência”
intricada com a sugestão. No entanto, é reco- (Plon, 1989, p. 91). Nessa ocasião Michel
mendável distingui-la. Mas tal distinção não Plon também cita Lacan:
é fácil e demanda a intervenção de outras
coordenadas. Freud identificou muito bem Nas condições centrais, normais de uma análi-
tal armadilha em seu artigo A dinâmica da se, nas neuroses, a transferência é interpretada
transferência e busca contorná-la: Buscamos com o próprio instrumento da transferência e

1. Título original: L’insaisissable objet du savoir-faire dans l’analyse. In: Essaim. Erès, 2013/1, n. 30, p. 9-23.

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com base nela mesma. Portanto, ela poderá ser diz de qual saber nem de qual fazer se trata,
feita somente a partir de uma posição que lhe é nem que o fazer se origina do saber. No que
atribuída na transferência, que o analista ana- concerne ao resultado dessa associação de
lise e intervenha na própria transferência. Para dois verbos, ele pode provir seja de um fazer
ser sincero haverá uma margem irredutível de sem muito saber, seja um saber sem muito
sugestão, um elemento que será sempre suspei- fazer.
to, que não se atém ao que se passa por fora O exercício de um fazer pode produzir
— não há como saber — e sim a aquilo que a um saber, especialmente se o fazer possui
própria teoria é capaz de produzir2 (Lacan, valor de ato, levando em consideração que
1992, p. 210). o gesto está associado a uma dimensão sig-
nificante — por exemplo, no caso de César
Se, de fato, a transferência pode ser inter- atravessando o Rubicão —, mesmo se du-
pretada somente com a própria transferên- rante o ato o sujeito não perceba o que está
cia, existe um círculo vicioso da transferên- fazendo, pois ele está dividido pelo ato, ele o
cia e da sugestão. Daí então a necessidade, transforma, ele não é mais o mesmo antes e
para encontrar uma saída, de fazer com que a após o ato. A mudança de posição do sujeito
transferência dependa de outra alavanca teó- modifica a sua relação com o saber. É o para-
rica (o ponto fixo de Arquimedes que Des- digma do ato analítico, o qual Lacan definiu
cartes relembra em sua segunda Meditação), como a passagem do analisante a analista. De
que foi finalmente nomeado por Lacan, em maneira mais modesta, é também o efeito de
1964, o sujeito suposto saber. qualquer ato falho, de todo engano,3 que pro-
É também por essa via que é possível duz uma entrepercepção (entr’apercevoir) de
abordar a questão do savoir-faire na análise. uma dimensão significante que até então o
Um savoir-faire que não se relanceará nos sujeito desconhecia.
equivocados sulcos da transferência e da su- O fazer pode também encontrar sua ori-
gestão e que não tomará a máscara de Janus. gem no saber. É o caso do discurso univer-
sitário e de toda formação dita profissional,
Além e aquém em que se coloca em prática um saber cons-
do saber e do fazer associados tituído. A partir desse ponto de vista, o sa-
A associação destes dois verbos cria uma voir-faire analítico é uma deglutição de um
nova noção, suplementar à adição de cada saber aprendido em e através de uma análise
um destes termos. A ordem não é indiferen- pessoal. Trata-se, então, de uma concepção
te, porém o savoir-faire (saber-fazer) não é livresca do saber, produzindo interpretações
inverso ao faire-savoir (fazer-saber), expres- prontas para serem usadas (prêtes-à-porter).
são que também tem sua pertinência, mas Ele se opõe a um saber proveniente de um
que concerne outro campo como o da psico- agir.
se. E o savoir-faire não precisa de faire-savoir. Mas a dimensão do ato deve ser transmi-
No “savoir-faire ” existe uma determinação tida através de um saber que confere a sua
do fazer pelo saber, mas ela não se esgota. dimensão significante ao fazer e lhe permite
Longe disso, o sentido do traço da união en- ser reconhecido como tal. Não saberíamos,
tre ambos é também um traço de separação. então, estabelecer uma demarcação clara
Mas se o saber determina o fazer, tal fato não entre essas duas origens possíveis de um sa-
voir-faire. É preciso se desvencilhar de uma
2. Em 1 de março de 1961, p. 210. Ele recoloca a ques-
tão em seu seminário L’insu que sait de l’une-bévue
s’aile à mourre, em 17 maio 1977 (LACAN, 2004, p. 3. Termo em francês bévue, que significa engano co-
124). metido por ignorância. (N.T.).

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posição binária entre saber e fazer, que é de- O lado do ato


masiadamente generalizada. É o que fez La- e do fracasso (ratage)
can quando, ao escrever a fórmula do sujeito O fato de evocar um savoir-faire em uma
suposto saber, diferencia e articula o saber análise — e que ao fazê-lo a noção de ato é
textual, lógico e topológico (o oito interior) e convocada — implica um possível fracasso.
um saber referencial, “latente”, saber suposto, O possível seria, segundo Lacan, um cessar
assim como o sujeito, nos significantes deste, de se escrever. Sabemos que, desde Aristó-
aonde o “não sabido se ordena como estru- teles e sua contribuição à controvérsia dos
tura do saber” (Lacan, 2003, p. 248-250). futuros contingentes, que o que há de neces-
Tal como Freud nos lembra, devemos sário é o possível. É possível que seja A ou
abordar cada “novo caso como se nada hou- B que vença a batalha naval amanhã, mas é
véssemos adquirido de suas primeiras deci- necessário que seja ou um ou outro. As al-
frações” (Lacan, 2003, p. 249). Em outro ternâncias ou pontuações, do cessar de se
momento, mas nessa mesma direção, ele escrever e do não cessar de se escrever (assim
anuncia que é “indispensável que o analista como Lacan define o necessário [LACAN,
seja ao menos dois. O analista, para que os 1982, p. 132) talvez sejam aquilo que separa
efeitos possam surtir é o analista quem, estes a ação do sujeito suposto saber, como figura
efeitos, os teoriza” (Lacan, 1974). necessária, da do savoir-faire, como figura do
Permanecendo em uma oposição entre possível da transferência.
saber e fazer, não saberíamos encontrar a Contrariamente à definição que busca
verdade do savoir-faire; ao mesmo tempo a que o savoir-faire seja identificado como ha-
noção contém uma originalidade e um valor bilidade, a busca de obter sucesso naquilo
que não devem ser perdidos de vista. Possi- que fazemos em uma análise, o savoir-faire se
velmente o laço entre o saber e o fazer não aproxima do risco, de uma possível falha, a
consiste em um laço de dois termos, e é pre- aproximação e o fracasso, dimensões ligadas
ciso ao menos poder atá-los com um terceiro ao ato analítico. Nesse sentido, o savoir-faire
termo. Propomos introduzir neste ponto os é exatamente o contrário da aplicação prática
termos de gozo e lalíngua (lalangue). de uma regra teórica universal. Ele não enal-
No savoir-faire, o saber e o fazer não po- tece o saber e não equivale a nenhuma habi-
dem ser isolados como duas entidades ou lidade técnica que seja, mesmo se tratando
dois elementos conjuntos que, de alguma ma- de algo bem-vindo.
neira, complementariam um ao outro. Exis- É também o caso de outros domínios
te uma alienação, seja um fazer que, por um e não somente da análise, por exemplo, na
lado, exclui o saber e um saber que, por outro arte. Fabricar um quadro não é pintar (COL-
lado, exclui o fazer. Uma parcela do fazer ex- LINS, 2012).
cede o saber, ou o antecipa, quando esse fazer Em Propos sur la peiture du moine Citrou-
produz um saber. Ao mesmo tempo, o fazer ille-Amère (Anotações sobre a pintura do
pode se mostrar falho com relação ao saber. monge abóbora-amarga), Shih T’ao exempli-
A transferência ao analista depende do sig- fica aquilo que ele chama de “um traço único
nificante terceiro, mediador, “sujeito suposto do pincel”, familiar à caligrafia e à pintura,
saber”, mas isso pode reforçar a repreensão que vai bem além de regras técnicas de exe-
da falta de savoir-faire. Mesmo se um savoir- cução. Ele representa um verdadeiro ascetis-
faire é emprestado ao analista, não é o que mo:
encontramos no princípio da transferência.
Não saberíamos estender de maneira natural Aonde se encontra a regra? Ela reside em um só
a fórmula do sujeito suposto saber em uma traço do pincel. Em um só traço do pincel en-
fórmula de um sujeito suposto saber fazer. contra-se o principio de todas as coisas, a raiz

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de Dez Mil Fenômenos, isto é revelado aos Es- tempos no advento do significante: o do tra-
píritos, mas escondido dos homens, e o século o ço (do não), o da sua desmarcação, e o da
ignora. [...] A regra do traço único do pincel é a anulação da desmarcação. Isso gera o adven-
ausência de regra que produz a regra, e assim a to do significante “não”: não há traço no não.
regra obtida abrange o universal (T’AO, 1984, Em Lituraterra, Lacan conta somente dois
cap. I). tempos, mas ele fala de uma rasura de tra-
[...] ço algum que seja anterior para apontar esse
É na união entre o pincel e a tinta que se pro- momento inapanhável “da metade sem par
duz o ato de pintura: “A tinta deve umedecer em que o sujeito subsiste”, e é a caligrafia que
o pincel com a alma, o pincel deve utilizar a o presentifica:
tinta com o espírito. [...] Realizar a união entre
o pincel e a tinta, é resolver a distinção de yin e O escoamento é o remate do traço primário e
yun e se comprometer a ordenar o caos” (T’AO, daquilo que o apaga. Eu lhe disse: é pela con-
1984 cap. V, VII). junção deles que ele se faz sujeito, mas por aí
se marcam dois tempos. É preciso, pois, que se
Em seu livro sobre um dos maiores pinto- distinga nisso a rasura. Rasura de traço algum
res chineses, Chu Ta (1626-1705), amigo de que seja anterior, é isso que do litoral faz terra.
Shih T’ao, Le génie du trait (O gênio do traço), Litura pura é o litoral. Produzi-la é reproduzir
François Cheng escreve: essa metade ímpar com que o sujeito subsiste.
Esta é a façanha da caligrafia. Experimentem
Que se trate de caligrafia ou de pintura, na fazer essa barra horizontal que é traçada da
China, o gênio criador se resume sempre a este esquerda para a direita, para figurar com um
gesto único: traçar o traço. (...) Recordemos que traço o um unário como caractere, e vocês leva-
para os chineses o traço não consiste em uma rão muito tempo para descobrir com que apoio
finalidade em si. Da mesma forma com que ele ela se empreende, com que suspensão ela se
não seria percebido como uma simples linha. detém. A bem da verdade, é sem chances para
Ele é, ao contrário, uma entidade viva, impli- um ocidental. É preciso um embalo que só con-
cada em uma estrutura global que pretende segue quem se desliga de seja lá o que for que
tratar do universo em toda sua toda a integra- faça traço (raye).
lidade (Cheng, 1986, p. 36-39).
Entre centro e ausência, entre saber e gozo, há
Em função das grandes mudanças polí- litoral que só vira literal quando, essa virada,
ticas e familiares, Shu Ta se fechará em um vocês podem tomá-la, a mesma, a todo instan-
mutismo absoluto, mas ele mostrará ter uma te. É somente a partir daí que podem tomar-
extraordinária energia criativa. François se pelo agente que a sustenta. (Lacan, 2003,
Cheng percebe que para ele o traço represen- p.21)
ta a “voz de dentro”, ele “dá a palavra à suas
imagens” (Cheng, 1986, p. 39). Vemos que o savoir-faire não se reduz a
Du tait (de taire) au trai il y a l’r. (Do si- uma habilidade técnica e que um savoir-faire
lêncio ao traço, existe o r). em diferentes domínios pode produzir efei-
Essa experiência é preciosa para abordar- tos análogos, e nesse ponto, uma virada entre
mos aquilo que Lacan chama de “lituraterra”, saber e gozo.
“a rasura de traço algum que seja anterior” Não é exatamente do que se trata o savoir-
(Lacan, 2003, p. 21), a mesma do traço faire? Saber fazer uma curva entre saber e
unário. Ele modifica aquilo que havia apre- gozo? Não seria o gozo o terceiro termo que
sentado em seu seminário A identificação faria traço entre saber e fazer? O único traço
(Lacan, 24 jan. 1962) formulando os três de pincel como o traço unário?

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O savoir-faire pode ser ensinado? aprendizado de um savoir-faire. Conceber


O savoir-faire é transmissível como na arte as coisas dessa forma consistiria em perma-
ou no artesanato? Mais precisamente, quais necer em um modelo de análise enquanto
seriam os elementos do savoir-faire que po- formação profissional. Mesmo sendo difícil
deriam constituir objeto de uma transmis- para cada um poder dizer em que a análise
são? E como? pessoal contribui para o aprendizado do sa-
Não me parece contestável o fato de que o voir-faire, ela será útil ao analisando se ele se
savoir-faire possa ser ensinado durante uma tornar analista.
análise, assim como tudo o que se encontra Essa foi uma questão colocada durante
ao redor dela, supervisões, apresentações de um colóquio organizado em novembro de
paciente, cartéis, passe... É o que então tor- 2011 pela EPFCL4: “Enquanto alguém que
naria o savoir-faire indispensável, mas limi- pratica a psicanálise, o que você obteve do
tado, pois a transmissão de um savoir-faire analista que Lacan foi para você?”5 Tentando
analítico não é a transmissão da psicanálise, responder a essa questão, comecei ressaltan-
concebida como um saber sobre a passagem do a dificuldade:
da posição de analisante à posição de analis-
ta. É nesse sentido que o savoir-faire pode se Quais pontos eu irei distinguir em Lacan, irei
converter em uma sugestão e, então, reduzir ler em sua prática para afirmar que eles tive-
a psicanálise a uma espécie de psicoterapia. ram tal ou tal efeito na minha prática? Seria eu
Ao publicar A interpretação dos sonhos, capaz de representar aquilo que opera na mi-
Freud esperava, entretempos, produzir um nha prática? E simultaneamente relatar algu-
“manual” de interpretação, um guia de sa- ma coisa precisa de minha análise com Lacan?
voir-faire das interpretações dos sonhos, que Assim mesmo, quando eu conseguir estabelecer
poderia ser utilizado por qualquer pessoa. esta relação de elementos, permanece somente
É por isso que ele buscará da forma mais o conjunto de traços que “recebi” com outros
abrangente possível contribuições de outros traços próprios que farão com que tais traços
analistas, as quais foram incluídas ou não em não possuam mais o mesmo valor e não se-
sua obra, em uma história complicada (Ma- rão mais identificáveis enquanto recebidos, ao
rinelli; Meyer, 2009). Porém, rapida- menos que eu não me dê conta.6 O recebido é
mente ele se dará conta de que um manual um re-sabido daquilo que não me dou conta
não poderia substituir uma análise pessoal, (PORGE, 2012, p. 41).
com um terceiro. Todavia, foi preciso espe-
rar 1918 para que Hermann Nunberg reco- Colocados tais limites, retive, entretanto,
mendasse de antemão a análise pessoal para certos traços que poderiam entrar no quadro
exercer a psicanálise, e 1925 para que a IPA daquilo que definiria um savoir-faire. Que fi-
tornasse tal recomendação obrigatória, o que que entendido que não é porque retivemos
inscreveria o vínculo entre a análise pessoal que os dominamos, e existe uma distância
e a aquisição de um savoir-faire. Ao mesmo entre aquilo que se representa de um savoir-
tempo que Freud se sentia livre com rela- faire e aquele que o opera. Vejamos, resumi-
ção às regras enunciadas, ele declara que a dos, três desses traços.
psicanálise não pode ser ensinada em livros
(FREUD, 1974). Nos dias de hoje, a necessi- 4. Ecole de Psychanalyse des Foruns du Champ La-
dade de uma análise pessoal para exercer a canien.
psicanálise é um consenso, embora as razões 5. Publicado em: Champ Lacanien, Revue de Psycha-
nalyse, Paris, n. 11, maio 2012, École de Psychanalyse
não sejam sempre as mesmas. des Foruns du Champ Lacanien.
Não seria questão de reduzir a análise do 6. Termo em francês insu significa “sem se dar conta”.
analista nem suas conexões, supervisões, ao (N.T.).

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Um valor do savoir-faire que a análise me lisantes no consultório do analista, por um


ensinou é a do tato. Freud já havia mencio- trabalho comum com eles nas instituições,
nado em “A psicanálise dita selvagem”: “Na pela participação nos seminários e, sobretu-
psicanálise, essas regras estritas viriam subs- do, nas apresentações de paciente de Lacan
tituir uma inapanhável qualidade que exige e de outros analistas. Poderíamos dizer que
um dom especial: o “tato médico” (FREUD, isso introduzia uma dimensão de passe na
1974, p. 41). própria análise e instaurava, assim, o analista
Rudolph Loewenstein é um dos poucos a como passador de um discurso, o que é uma
ter escrito um artigo inteiro consagrado ao maneira de conceber que o analista seja ao
tato na análise. Ele nos alerta especialmente menos dois.
contra duas preocupações que, por mais legí- Finalmente, mas a lista não é exaustiva, se
timas que sejam, podem prejudicar o proces- existe uma coisa que a análise pode ensinar e
so de análise: uma curiosidade muito grande que alimenta um savoir-faire, é a disponibili-
em conhecer os pequenos detalhes da histó- dade do analista, disponibilidade à demanda
ria do paciente e um zelo terapêutico que o de escutar e à própria escuta, que ao encon-
torna impaciente. Ele também teve o mérito tro do valor da paciência, frequentemente
de acrescentar: subestimado.
Essa disponibilidade não é um dom, ela
Uma grande parte das intervenções dos ana- é uma disposição, ou seja, uma posição do
listas, entre elas, as que pecam contra o tato analista, que separa, diferencia, discerne (o
psicológico, possuem uma base em comum. É dizer).7 A dis-posição do analista responde a
a transgressão da terapêutica analítica a um uma su-posição em que o objeto é o objeto
estado da psicoterapia mais primitiva, aquela que prepara a sua de-su-posição do saber no
que age sobre os pacientes através de bons con- final da análise. Por vezes, ela permite pro-
selhos, pelo chamado à vontade e pela persua- -posições que são atos.
são (Loewenstein, 1930-1931). A disponibilidade do analista encontra
sua expressão na regra fundamental enun-
Lacan, que fora analisante de Loewens- ciada por Freud, a da atenção igualmente em
tein, reconhecia também o valor dessa qua- suspenso, a gleichschwebende Aufmerksam-
lidade, atribuindo-lhe a seguinte definição: keit.8 Nessa expressão, o gleich implica uma
não se apoiar muito nos significantes que fa- continuidade (a atenção) enquanto o schwe-
zem mal, manejá-los com discernimento em bend se aproxima mais de uma descontinui-
sua literalidade. dade (o suspenso). É na verdade uma regra
A análise também me ensinou o valor de in-atenção, tal como entendeu Theodor
de um savoir-faire com as relações interior- Reik em Le psychologue surpris. Relaxando a
-exterior, sem abolir a distinção entre pri- sua atenção, desviando-a de um ponto fixo,
vado-público, mas introduzindo nessa rela- esperado, voluntário, colocando-se em esta-
ção uma terceira dimensão, uma dimensão do de inatenção, o analista se torna recepti-
analisante passando ao público. Com Lacan, vo ao Einfall, à ideia súbita, à surpresa que é
uma exterioridade se mostrava convidativa característica do inconsciente. “Este proces-
no próprio consultório do analista. Ela po- so de relaxamento momentâneo da atenção
deria ocorrer mesmo sem ele, mas ele pode- e do desvio de interesse em outras direções
ria também — com seu estilo inimitável, mas
que ensinava através das surpresas que ele
7. Em francês dis. (N.T.).
provocava — modelá-la, ou seja, demons- 8. Para esta tradução e seu comentário, cf. PORGE,
trar um savoir-faire avec (saber-fazer com): E. Des fondements de la clinique psychanalytique. Tou-
isso acontecia no encontro com outros ana- louse: Erès, 2008, chap. V.

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com o retorno consecutivo do objeto prepa- chinês é não tanto buscar ter uma ideia do
ra a surpresa” (Reik, 1976, p. 75-78). A re- que se torna disponível à “(cf. Xunzi, chap.
gra visa impedir que possamos compreender “Jiebi”)” (Jullien, 2012, p. 36-42). A dis-
muito rápido os dizeres do analisante e co- tância entre a psicanálise e a sabedoria, chi-
locá-los em pequenas caixas interpretativas nesa ou não, continua preservada, mas a
já prontas; a regra favorece a receptividade reconciliação com esse ponto merece nossa
da surpresa do discurso, inclusive as que vêm atenção... suspensa.
do analista, como em caso de lapso auditivo A referência à atenção igualmente sus-
(Verhören) que revela o dizer no que foi ou- pensa nos permite afirmar que o savoir-faire
vido (Clavurier, 2003). se apoia essencialmente no manejo do tempo
Muito mais que uma regra técnica, trata- assim como no manejo do dizer. Os dois es-
se, podemos ver, de uma posição ética fun- tão relacionados (LACAN, 1977).9 Não basta
dada no aparecimento repentino descontí- que uma intervenção na análise seja exata,
nuo, ao imprevisto, sem que esperemos, das justa. Ela deve ocorrer no bom momento e
formações do inconsciente. Elas aparecem ser colocada de uma boa maneira. Sabemos
repentinamente e desaparecem logo que que Freud nos lembra o provérbio dizendo
aparecem, na estrutura temporal da escan- que o leão salta somente uma vez (FREUD,
são, da batida de uma abertura (LACAN, 1975, p. 234); todavia, não se trata de todas
1979, p. 33). as interpretações, trata-se daquelas que são
A regra da atenção igualmente em sus- “violentas” na questão da fixação de um ter-
penso se aproxima da regra à qual Descar- mo na análise (o que Freud fizera com o Ho-
tes se submeteu, de colocar em suspenso os mem dos lobos).
saberes constituídos e de onde surgiu o co- Mesmo sem se tomar por um leão, o ana-
gito enquanto uma espécie de Einfall, muito lista sabe que o efeito de uma intervenção de
mais como um julgamento dedutivo; é o que sua parte depende de sua posição na trans-
o torna vizinho do sujeito do inconsciente, ferência e do tempo lógico em que ele se si-
permitindo ser retomado por Lacan. tua. O termo suspenso nos leva diretamente
A atenção igualmente em suspenso dos ao tempo lógico, pois é após duas escansões
saberes constituídos é, então, um fundamen- suspensivas que a asserção de uma certeza
to do savoir-faire. Neste sentido o savoir-fai- pode ser enunciada. Ela é então antecipada
re não se trata de uma soma de saberes de na pressa, no momento de concluir que está
experiência. Ele visa o contrário, ir contra articulado ao instante de ver e ao tempo por
as armadilhas da compreensão ligada à ex- compreender (ao qual podemos assimilar a
periência. O savoir-faire se revela nessa dire- perlaboração freudiana).
ção tal como um savoir-ne-pas-faire (saber- Se a compreensão daquilo que é dito em
-não-fazer), uma suspensão do savoir-faire. análise deve ser colocada em suspenso, é
A atenção igualmente em suspenso tem uma porque, assim como no tempo lógico, ela se
função de corte, logo, de pontuação, que funda em uma não compreensão, que encon-
dará sentido ao discurso. Ela é a colocação trará o seu término somente na antecipação,
em ato do silêncio, e ela é da mesma ordem na pressa do momento de concluir. Ela acon-
da pontuação na sessão. tece no après-coup do momento de concluir.
Ressaltamos que François Jullien aproxi- Não basta pronunciar a palavra kairos para
mou a disponibilidade freudiana àquela que saber captar o bom momento da interpreta-
constitui a base da sabedoria chinesa, para ção. Existem vários kairos no tempo lógico.
quem a disponibilidade é “uma disposição
sem posição adotada”, que leva a um des- 9. Le moment de conclure, 15 nov. 1977. Inédito: Le
prendimento progressivo. O “conhecimento” dire a affaire avec le temps.

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O leão salta várias vezes, de maneira diferen- a maneira pela qual os analistas podem inter-
te, segundo os tempos lógicos e a topologia vir. Lalíngua tece as palavras e os sintomas,
que correspondem a ele, o que Lacan identi- ela é composta do “integral dos equívocos
ficou à garrafa de Klein (LACAN, 1965). Na que uma história deixa persistir” de uma lín-
relação do sujeito ao Outro, em que a gar- gua entre outras assim que de uma parte de
rafa de Klein oferece uma costura possível, gozo fálico (LACAN, 11 jun. 1974). Lalíngua
o espaço se encontra em duas dimensões, e inclui a dita língua materna com uma parcela
o tempo, em três. A sincronia do momen- estritamente individual. É por essa razão que
to de ver é a da linguagem como sistema; a “a interpretação deve sempre — da parte do
diacronia do tempo para compreender é a analista — levar em conta que naquilo que é
da progressão circular da demanda em tor- dito, existe o sonoro, e que este sonoro deve
no daquilo que produz um furo, progressão consonar com aquilo que dele é de incons-
onde o sentido se inverte em um momento; ciente” (LACAN, 1976, p. 50).
enfim, o momento de concluir em torno do De outra maneira, é em função da la-
furo é aquele de uma identificação que não língua que em Les non-dupes errent Lacan
se encontra fundada numa identidade em si, situa novamente a atenção igualmente em
mas o contrário, numa incomensurabilidade suspenso:
ao um.
O suspenso que determina o tempo da […] colocarmo-nos neste estado dito pudica-
interversão da análise opera também, neces- mente de atenção flutuante que faz com que
sariamente, em sua maneira de dizer. Ele não justamente quando o parceiro, lá, o analisante,
deve dizer muito, nem de uma maneira qual- ele mesmo emite um pensamento, nós podemos
quer; a interpretação deve ser ágil. ter um outro, o que é um feliz azar de onde se
produz um flash; é justamente lá onde a inter-
Em nenhum caso uma intervenção analítica pretação pode se produzir; quer dizer que, de-
deve ser teórica, sugestiva, ou seja, imperativa, vido ao fato de termos uma atenção flutuante,
ele deve ser equivocada. A interpretação ana- nós escutamos o que ele diz muitas vezes do
lítica não é feita para ser compreendida; ela é fato de uma espécie de equívoco, quer dizer, de
feita para produzir ondas. Então devemos bus- uma equivalência material. Nós percebemos o
car ser discretos e nos lembrar que é melhor ca- que ele disse — percebemos, pois somos subme-
lar-se; basta somente escolher (LACAN, 1976, tidos a isso — que isto que ele disse poderia ser
p. 35).

Além do senso, a interpretação nos re-


mete à distinção do dito e do dizer. “Eu não
te faço dizê-lo. Não reside aí um mínimo de
intervenção interpretativa?” (LACAN, 2003,
p. 492). parte do Savoir du psychanalyste, à parte, sob o título
Após a introdução do termo lalíngua em Je parle aux murs (Eu falo aos muros) e de incluir o
outro no Seminário …Ou pire, o que mistura as pis-
novembro de 1971,10 Lacan cerne ainda mais tas de leitura para os dois seminários. C.f; editorial no
site de Essaim. Por um estudo das questões levantadas
sobre o termo “lalangue”, cf. Dominique Simonney,
10. Lacan, J. Séminaire Le savoir du psychanalyste “Lalangue en questions”, Essaim, n. 29, outono 2012.
(O saber do psicanalista). Esse seminário foi feito na Esse número se intitula precisamente Ce qu’on doit
capela de Sainte-Anne, no mesmo ano mas em alter- à lalangue (O que devemos à lalingua) e contém vá-
nância com o Seminário …Ou pire, que aconteceu rios outros artigos sobre o tema, de Jean-Pierre Cléro,
na Faculdade de Direito do Panthéon. Jacques-Alain Frédéric Pellion, Simone Wiener, Mary McLoughlin,
Miller achou melhor publicar, no Seuil, em 2011, uma Paul Henry, Paul Alérini.

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O inapanhável objeto do savoir-faire na análise

escutado de forma completamente atravessa- é fazê-lo aprender: é aprender dele como fazer.
da. E é justamente o escutando de forma com- O objeto a e sua relação, em um caso determi-
pletamente atravessada que permitimos que nado, à divisão do sujeito é o paciente que sabe
ele perceba de onde vêm seus pensamentos, sua fazer e nós estamos no lugar dos resultados na
semiótica, de onde ela emerge: ela emerge de medida em que os favorecemos (LACAN, 19
nada além do que a ex-istência (ek-sistence) maio 1965).
da lalíngua. Lalingua ex-iste, ex-iste em ou-
tros lugares além dos quais ele acredita ser seu Se existe um savoir-faire do analista, ele
mundo (LACAN, 11 jun. 1974) consiste em favorecer o resultado, que é o
analista, resultado do savoir-faire do anali-
Savoir-faire do analisante, sando.
savoir-faire com a lalíngua Passando do fantasma ao sintoma, Lacan
Chegando neste ponto, devemos nos per- considera em seguida o fim da análise como
guntar se não deformamos nossa aproxima- um savoir-faire do analisante, um “saber fa-
ção do savoir-faire privilegiando a parte do zer com o seu sintoma”, um “saber lidar com
analista e desse fato favorecendo uma linha ele, saber manipulá-lo”, “algo que correspon-
muito próxima de uma habilidade deste úl- de ao que o homem faz com a sua imagem”
timo em passar sua “direção” da cura para o (LACAN, 2004, p. 49-50). “Manipulá-lo”:
progresso da análise, a fim de obter aquilo ainda é preciso tato.
que Freud chama de “a convicção certa da É um savoir-faire com o seu sintoma que
existência do inconsciente” (FREUD, 1975, encontra o limite de uma identificação ao
p. 264) e para “realizar o trabalho psíquico sintoma, que se pode definir como o limite
que irá conduzir [o paciente] necessaria- que encontra a análise do sintoma, seja ele
mente a melhorar de maneira durável sua um limite às substituições que dão suporte
condição psíquica” (FREUD, 1975, p. 58). ao sintoma como metáfora. É um limite aos
O savoir-faire também não deve se situar confins do simbólico e do real; ele chega até
do lado do analisante ? E, além disso, não se- a análise do sintoma e faz borda no real do
ria de situá-lo do lado de uma subjetividade, traço unário, quer dizer, no “mesmo”, nisso
seja ela do analisante ou seja ela do analista? que ocupa o mesmo lugar, que se sobrepõe,
O que temos que aprender com o anali- segundo o fecho duplo (la double boucle)
sante de seu próprio savoir-faire é, na verda- deste. Lá se efetua, entre gozo e saber, uma
de, o que Lacan evoca inúmeras vezes. Por transformação de litoral a litoral com um de-
exemplo, em suas conferências nos Estados pósito, uma precipitação da letra do sintoma
Unidos: (Porge, 2010, p. 118-119, 128-129, 133,
154).
[...] é com meus analisantes que aprendo tudo, A virada nesse passe é o próprio lugar do
que aprendo o que é a psicanálise. Eu empresto savoir-faire. E lá ele tem algo a fazer com a
a eles minhas intervenções, e não meus ensina- lalíngua:
mentos, exceto se eu sei que eles sabem perfei-
tamente o que isto quer dizer (LACAN, 1976, Lalíngua é o que permite o querer (anseio),
p. 34). consideramos que não é por acaso que assim
seja o quer de querer, terceira pessoa do indica-
Em seu seminário sobre os problemas tivo, que o não (non) negativo e o nome (nom)
cruciais da psicanálise, ele é ainda mais pre- nominativo também não são por acaso; nem
ciso: que deles (d’eux) (d apostrofo antes deste eles
[eux] que designa aqueles dos quais se fala)
Trazer o paciente a seu fantasma original, não seja feito da mesma maneira que o numero

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O inapanhável objeto do savoir-faire na análise

dois (deux), também não é por acaso e mui- ra de escrever ou de compreender esses nomes
to menos arbitrário, como diz Saussure. O que ou palavras. Todas as ideias enunciadas com
se deve conceber aí é o depósito, o aluvião, a sons semelhantes têm uma mesma origem e se
petrificação que se marca a partir do manejo relacionam todas, dentro de seu princípio, a
por um grupo de sua experiência inconsciente um mesmo objeto.
(LACAN, 1974, p. 189). São eles os seguintes sons:
Les dents, la bouche (os dentes, a boca)
Existe uma questão importante, que Les dents la bouchent. (os dentes a entopem)
curiosamente não perguntamos nunca, que L’aidant la bouche. (ajudando a boca)
é esta do significado deste “não é por acaso”, L’aide en la bouche. (a ajuda na boca)
que Lacan repete também em um outro tex- Laides en la bouche. (feios na boca)
to.11 Ele não volta a uma etimologia comum. Laid dans la bouche. (feio na boca)
Então o quê? Se não é por acaso, é porque há Lait dans la bouche. (leite na boca)
uma razão. Qual razão? A réson, esta que res- L’est dam le à bouche. (é a barragem à boca)
soa, segundo as palavras de Francis Ponge, Les dents-là bouche (os dentes la na boca)13
revisitado por Lacan que vai até questionar: (Brisset, 2001, p. 702)
“Isto que ressoa é a origem da re (res) com a
qual fazemos a realidade?” (LACAN, 2011, A mudança para a ciência-ficção aparece
p. 93). Um eco, uma ressonância primitiva, quando Brisset afirma que a origem do dis-
uma unidade que seria fixada e multiplica- curso é feita apenas da criação do homem e
da em várias palavras. Um eco12 teria envia- que “pela análise das palavras iremos então
do uma ressonância comum (comme une) escutar falar dos ancestrais que vivem em
a várias palavras, a vários sons. Trata-se de nós e por quem vivemos”, estes ancestrais
um processo que nos faz pensar naquele de sendo os sapos e as rãs que coaxam, o coâ,
Jean-Pierre Brisset (que inspira Marcel Du- coâ transformando-se no quoi? quoi? (o quê?
champ). Em A ciência de Deus ou a criação O quê?) humano.
do homem, ele escreve que “a origem de cada Como nota Michel Foucault, “estamos no
língua está nesta língua mesma e define as- oposto do processo que consiste em procurar
sim “a grande Lei ou chave do discurso”: uma mesma raiz para várias palavras: trata-
se, por uma unidade atual, de ver proliferar
Existem no discurso inúmeras Leis, desconhe- os estados anteriores que vieram cristalizar-
cidas até agora, entre as quais a mais impor- se nela”. “A pesquisa de sua origem, segundo
tante é a que um som ou uma cadeia de sons Brisset, não cinge a língua: ela a decompõe e
idêntica, inteligível e clara, possa exprimir coi- a multiplica por ela mesma”. É um princípio
sas diferentes, por uma modificação na manei- de proliferação.

Uma palavra é o paradoxo, o milagre, o ma-


11. Lacan, J. Conférence à Genève sur le symptôme ravilhoso azar de um mesmo som que, por ra-
(Conferência à Genebra sobre o sintoma), Le bloc-no- zões diferentes, por pessoas diferentes, vivendo
tes de la psychanalyse, n. 5, Genève, 1985, p. 12: “Ce
n’est pas du tout au hasard que dans lalangue quelle
coisas diferentes, é retido ao longo de uma his-
qu’elle soit dont quelqu’un a reçu la première empre- tória. É a série improvável do dado que, sete
inte, un mot est équivoque. Ce n’est certainement pas
par hasard qu’en français le mot ne se prononce d’une
façon équivoque avec le mot nœud. Ce n’est pas du 13. Brisset, J.-P. La science de Dieu ou la création de
tout par hasard que le mot pas, qui en français redou- l’homme (1900), dans Œuvres complètes, sous la direc-
ble la négation contrairement à bien d’autres langues tion de M. Décimo, Dijon, Les Presses du Réel, 2001,
désigne aussi un pas”. p. 702. Repris dans Les origines humaines (1913), dans
12. Cf. Porge, E. Voix de l’écho. Toulouse: Erès, 2012. Œuvres complètes, op. cit., p. 1130.

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O inapanhável objeto do savoir-faire na análise

vezes seguidas, cai do mesmo lado. Pouco im- No final de seu Seminário Mais, ainda,
porta quem fala, e, quando fala, por que fala, Lacan já avançava que:
e utilizando qual vocabulário: os mesmos ba-
rulhos, invariavelmente, retidos (Foucault, A linguagem sem duvida é feita da lalíngua.
2001, p. 604-606). É uma elocubração de saber sobre a lalíngua.
Mas o inconsciente é um saber, um savoir-faire
A ex-istência (ek-sistence) dessa lalíngua com a lalíngua. E isto que sabemos fazer com
faz borda com o delírio. Este pode encontrar a lalíngua ultrapassa de muito o que podemos
seu suporte mas também uma forma de limi- nos dar conta a título de linguagem (LACAN,
te se nos referimos a Schreber, que quer tor- 1982, p. 127).
nar as vozes dos pássaros milagrosos como
um sentimento autêntico fazendo-os entrar Desse ponto de vista, podemos dizer que
no painel da homofonia, ou ainda a Louis Louis Wolfson procede a uma tentativa de
Wolfson, que se serve também da lalíngua (o domar a lalíngua e que ele tem sucesso ao
entrelínguas) para tentar, e conseguir relati- identificá-la a seu sintoma (Wolfson,
vamente, fazer barragem às suas vozes. 1970).
Essa função de limite ou de borda da la- “Isto que sabemos fazer com a lalíngua”
língua não é sem relação com a função da le- pertence tanto ao analisante quanto ao ana-
tra como Lacan a faz evoluir, especialmente lista, e mesmo mais ao analisante que ao
no que faz mudança no litoral, entre saber analista, pois é ele quem fala. O analista
e gozo, literalmente (LACAN, 2003, p. 16). pode querer se dar conta a título da lingua-
Precisamente, na passagem citada acima, La- gem, mas ele será sempre ultrapassado pela
can fala de “depósito” e de “petrificação” em lalíngua do analisante. E se ele mesmo fala,
relação à lalíngua. ele torna-se novamente analisante. Um ana-
O termo “depósito” já aparecia no L’étour- lisante que pode eventualmente produzir do
dit (LACAN, 2003, p. 490). Ele se relaciona analista... para o analisante.
com a “precipitação” da letra, que também O savoir-faire é atado ao parlêtre, esse que
aparece na La troisième: “Não há letra sem a fala sem ser, pois seu ser só se retém à pala-
lalíngua [...]. Como é que a lalíngua pode se vra. A análise permite ao analista aprender
precipitar na letra? Isto continua como ques- algo de um savoir-faire do analisando, do sa-
tão” (LACAN, 1974, p. 194). voir-faire com a lalíngua que ele (o analista)
Talvez a resposta se encontre na Confe- escuta e age (o analisante).
rência de Genebra sobre o sintoma: Lacan re- O savoir-faire é possível, mas esse possí-
corre à metáfora do coador (já presente em vel se mostra necessário; seu objeto é esqui-
Kant) que peneira o escoamento da água da vo, ele é um fio com o qual se delimita o
lalíngua, depositando os detritos, os peda- objeto.
ços de significantes aos quais a linguagem Longe de ser herdeiro da experiência, o
se amarra, o coador causando as precipita- savoir-faire vai contra a experiência, ele é an-
ções de letras, de traços unários na lalíngua. tes de qualquer coisa um saber-não-fazer e
A passagem de uma língua a outra, o passe, um não saber fazer ligado à experiência. Ele
seria variações do coador da letra, que por é uma suspensão do saber e do fazer, mo-
seus buracos deixa passar o Um, o S1, o traço mento de sua escansão. Ele é um saber des-
unário incarnado na lalíngua e que continua fazer (o que é chamado de análise). Desfa-
indeciso entre fonema, palavra, frase ou em zer a submissão ao sentido. Ele é o que de
todo o pensamento, este Um que o pedaço de mais íntimo da prática toca ao mais real do
barbante de um nó borromeu suporta (LA- inconsciente como o impossível a dizer nos
CAN, 1982, p. 131). dizeres que falam dele.

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O inapanhável objeto do savoir-faire na análise

Abstract completas de Sigmund Freud. Direção-geral da tra-


Over and above technical rules, know-how dução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago,
1974, v. XII.
derives from an ethical position. Tact and re-
ceptiveness are its constituent parts. It finds FREUD, S. Análise terminável e interminável (1937).
expression in the rule of equally suspended In: Edição standard brasileira das obras psicológicas
attention which guards against a hasty un- completas de Sigmund Freud.Direção-geral da tradu-
derstanding of what is said, preferring sur- ção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1975,
v. XXIII.
prises as signs of the unconscious. The rule
indicates also that know-how is linked to the Jullien, F. Cinq concepts proposés à la psychanalyse.
notion of time and its handling as well as to Paris: Grasset, 2012. p. 36, 42.
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Know-how howe-
ver is not only in the realm of the analyst. LACAN, J. Conférence à Genève sur le symptôme. In:
Le bloc-notes de la psychanalyse, n. 5. Genève, 1985.
The analysand too must find how to do with
his fantasies and symptom. Finally, is know- LACAN, J. Conférences et entretiens dans les univer-
-how always to be attributed to a subjectivity, sités nord-américaines. Scilicet 6/7. Paris: Le Seuil,
be it that of the analyst’s or the analysand’s, 1976.
insofar as the unconscious is know-how with
LACAN, J. Je parle aux murs. Paris: Le Seuil, 2011.
lalangue?
Lacan, J. L’identification, 1961-1962. Seminário iné-
Keywords: Know-how, Attention, Lalange. dito.

LACAN, J. L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à


mourre. L’Unebévue, Paris, n. 21, École Lacanienne de

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O inapanhável objeto do savoir-faire na análise

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p. 248-264. Psicanalista em Paris.
Foi membro da EFP (Ecole Freudienne
LACAN, J. O Seminário RSI (1974). Inédito. de Psychanalyse) até a sua dissolução.
Membro da Associação de Psicanálise Encore.
Loewenstein, R. Remarques sur le tact dans la Foi responsável por um CMP
technique psychanalytique. In: Revue française de (Centro Médico Psicológico) para crianças
psychanalyse, 1930-1931, republicado em Figures de la e adolescentes. Autor de vários livros,
psychanalyse, n. 15. Toulouse: Erès, 2007. traduzidos em outros países, dirige a revista Essaim.

Marinelli, L. et Meyer, A. Rêver avec Freud. Endereço para correspondência


L’histoire collective de L’interprétation du revê. Paris: 1, Rue Mizon
Aubier, 2009. 75015 - Paris/França
Tel. (33)1 43 22 14 44
Plon, M. “Au-delà” et “en deçà” de la suggestion. Fré- E-mail: erikporge@hotmail.fr
nésie, n. 8. Paris: Éd. Frénésie, automne 1989.

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de discours. In: Revue de psychanalyse, n. 11, Paris,
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R ecebido em : 1 2 / 0 9 / 2 0 1 3
A provado em : 2 0 / 0 9 / 2 0 1 3

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