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UM GRUPO EM BUSCA DE PERFEIÇÃO ESPIRITUAL: OS


CÁTAROS NA FRANÇA MEDIEVAL*.

Um dos fatos marcantes da história medieval francesa recebe nos livros o nome de
Cruzada Albigense. Foi um movimento armado organizado pela Igreja em princípios do
século XIII com o fim de extirpar uma das mais importantes heresias aparecidas na Idade
Média: o catarismo ou albigeísmo. Logo após o término das operações militares, foram
criados os primeiros tribunais de Inquisição, instituição que viria a ter influência decisiva
nos processos de perseguição religiosa dos séculos posteriores. Na presente exposição,
pretendemos apresentar com brevidade os traços gerais que definiram o catarismo, os traços
gerais do ideário cátaro e os testemunhos inquisitoriais relativos ao grupo de dissidentes
religiosos.
Para começar, cabe assinalar que o grupo em questão aparece nos documentos do
século XIII nomeados de albigenses. Trata-se de um desses equívocos difíceis de serem
abandonados, mas há muito qualquer medievalista tem ciência de que o rótulo “albigense”
(albigeois) decorre de uma generalização enganosa comum no século XIII. A expressão,
como se sabe, associa os dissidentes religiosos com as populações da cidade de Albi,
embora as idéias heréticas tenham circulado em todo o Sul da atual França - o Languedoc
ou Occitânia.
Além disso, sob o termo comum de “albigenses” os contemporâneos reuniram
indevidamente adeptos de movimentos heréticos muito distintos entre si. Os atuais
heresiólogos souberam distinguir naquele rótulo pelo menos duas grandes correntes de
dissidência teológica às premissas da Igreja. Com efeito, na Idade Média o termo em causa
designava tanto os adeptos da heresia valdense, disseminada a partir do século XII na
França e na Itália, e os adeptos do catarismo, doutrina dualista muito mais antiga e
complexa. Talvez por isso outros nomes mais específicos, como patarinos, publicanos,
maniqueus e principalmente catharos tenham também sido aplicados a esses últimos.
***

*
Conferência apresentada na VI Jornada de Estudos do Oriente Antigo: crenças, magias e doenças, na
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, no dia 19/05/2000.
2

Por outro lado, o equívoco indica de imediato a dimensão do problema no qual o


catarismo se insere. Realmente, entre os séculos XI e XIII frutificaram no seio da Europa
muitas heresias. Aos olhos dos representantes da Igreja, todas se assemelhavam porque se
distanciavam de sua orientação doutrinal. Na realidade, porém, a emergência de
movimentos heréticos no período sugere a existência de problemas os mais variados no seio
da Cristandade, e, sobretudo, o desejo dos leigos em participar mais de perto das formas de
religiosidade cristãs. Por outro lado, não se pode negar que a proliferação de movimentos
dessa natureza estivesse relacionada à insatisfação dos leigos com a Igreja, até porque, em
sua maior parte, os seguidores das heresias criticavam os padres e a hierarquia católica
pelo seu distanciamento das promessas do cristianismo primitivo e propunham o retorno às
práticas do tempo dos apóstolos e mártires1.
Os primeiros indícios de movimentos heréticos foram registrados pelos cronistas do
século XI. Na virada do II milênio o monge Raoul Glaber anotou em sua crônica as
peripécias de Leutard, um camponês da região de Chalons-sur-Marne que abandonou a vida
mundana e adotou por conta própria os preceitos de uma vida ascética de acordo com os
ensinamentos bíblicos. Em suas pregações, exortava os ouvintes a negar-se ao pagamento
dos dízimos devidos à Igreja. Pouco depois, em torno de 1017, o cronista Ademar de
Chabannes afirma terem aparecido na região da Aquitânia homens que não atribuíam
qualquer valor ao batismo nem ao símbolo da cruz, praticavam excessivamente o jejum e
optaram pela vida em completa castidade.
Por volta de 1025, um grupo de dissidentes foi preso e julgado pelo bispo de Arras:
seus participantes afirmavam que a salvação não podia emanar de gestos administrados por
sacerdotes indignos nem pela intercessão de coisas materiais – como a água do batismo ou
o óleo da ordenação, o pão ou o vinho da eucaristia; a cruz não passaria de um pedaço de
madeira e os templos religiosos, um monte de pedras; a purificação procederia diretamente
da justiça de Cristo, e não dos sacramentos. Já em 1028 proliferou em Monteforti, na Itália,
uma seita liderada pelo asceta de nome Gerardo. Como os hereges de Arras, os integrantes
da seita negavam a trindade e a utilidade do batismo e não admitiam os sacramentos
ministrados por clérigos. Eram continentes em relação ao sexo e vegetarianos. Esta aversão
a tudo o que fosse proveniente da matéria e do mundo terrestre estimulava-os a encarar a

1
Nachmann FALBEL. Heresias medievais (Coleção Khronos). São Paulo: Ed. Perspectiva, 1978, pp. 26-28..
3

morte como um prêmio, e inclusive apressar sua chegada por meio dos tormentos infligidos
ao corpo2.
Os sinais da dissidência coincidem com o amplo movimento existente no próprio
seio da Igreja em prol do ideal da pobreza evangélica. A riqueza e o poder da instituição
eclesiástica eram apontados como a causa de grandes males e os hereges extraíam disso
argumentos para suas principais acusações contra ela. Alguns desses homens que optaram
pela vida na pobreza mantiveram-se nos limites da ortodoxia, sendo de algum modo
enquadrados. É o caso de Roberto d’Arbrissel, que na segunda metade do século XI fundou
a Ordem de Fontevrault em Angers; de Norberto de Xanten, que em meados do século XII
fundou a Ordem Premonstratense nas proximidades de Laon; e de São Francisco de Assis
ou São Domingos de Osma, fundadores da Ordem franciscana e da Ordem dominicana no
princípio do século XIII, ambas calcadas na experiência da pobreza absoluta3.
Mas a maior parte dos adeptos da vida apostólica não puderam ser enquadrados nos
quadros da Igreja. Optaram pela pregação livre e pela contestação aos ensinamentos dos
padres. Foi o que aconteceu com Pedro de Bruys, originário da Itália e falecido em 1132 na
Provença, e com Henrique de Lausanne, seu seguidor, condenado pelo concílio de Pisa em
1135. Ambos colocavam em dúvida a autoridade de vários livros do Novo Testamento,
negavam a autoridade da hierarquia eclesiástica e a eficácia do batismo. Também punham
em dúvida o valor da eucaristia e o sacrifício da missa sob a justificativa de que o corpo e o
sangue de Cristo teriam sido oferecidos em sacrifício apenas uma vez, quer dizer, durante a
“Última Ceia”. Seu conceito de Igreja era destituído de toda materialidade. Tendiam a vê-la
apenas em suas manifestações espirituais e retiravam sua profissão de fé apenas dos quatro
evangelhos.
Foi também o que ocorreu com o rico comerciante da cidade de Lyon, Pedro Valdo,
inspirador da heresia valdense. Da leitura das Sagradas Escrituras em 1173 obteve
experiência mística ímpar. Ele próprio traduziu a Bíblia para o provençal e rompeu com os
vínculos do mundo, entregando parte de seus bens à esposa e distribuindo o que sobrou aos
pobres. Tornou-se pregador itinerante e passou a ser seguido por homens e mulheres
vestidos com roupas simples, praticando a penitência. Os valdenses, também conhecidos

2
Georges DUBY, O ano mil (Coleção Lugar da História). Lisboa: Edições 70, 1982, pp. 77-89.
3
Brenda BOLTON. A reforma na Idade Média(Coleção Lugar da História). Lisboa: Edições 70, 1985, pp.
28-32.
4

como “Pobres de de Lyon”, espalharam-se rapidamente por todo o Sul da França e pela
Lombardia. Na Itália foram denunciados e combatidos pelos representantes eclesiásticos ao
longo de todo os séculos XIII e XIV. Seus adeptos fundaram comunidades isoladas nos
Alpes, algumas das quais subsistem até o presente.
A heresia valdense declarava que a Igreja manteve-se pura e incorrupta até a época
de Constantino, quando o papa Silvestre ganhou a primeira possessão temporal para o
papado. Daí em diante teria existido uma Igreja rica, poderosa e temporal, a qual
colocavam em dúvida afirmando que a Igreja de Roma não era a Igreja de Cristo. Negavam
qualquer tipo de juramento com base nos evangelhos, negavam aos poderes temporais o
direito de executar a pena capital, defendiam a todo leigo o direito de consagrar o
sacramento do altar. Por fim, reconheciam em sua própria Igreja uma tríplice hierarquia de
diácono, presbítero e bispo, composta por letrados ou incultos, ricos ou pobres, a quem
competia toda a organização e difusão do culto. A ordenação consistia tão somente na
formulação de orações e na imposição das mãos sobre os evangelhos, sem qualquer outra
cerimônia complementar.
***
Quanto ao catarismo, embora tenha aparecido também no princípio do século XII,
constituiu em movimento heterodoxo até certo ponto distinto dos anteriores, cuja origem é
difícil de ser estabelecida com precisão. Para alguns estudiosos, poderia ser o
desdobramento de concepções gnósticas greco-romanas divulgadas em textos manuscritos
produzidos nos mosteiros desde a virada do milênio. Para outros, teria sido introduzida no
Ocidente por pessoas influenciadas pelas idéias de uma corrente religiosa existente nas
fronteiras do Império Bizantino denominada “bogomilismo”.
Data do final do século X as primeiras informações a respeito da existência nas
montanhas da Macedônia e na Bulgária de um amplo movimento de seguidores das idéias
do sacerdote Cosmas, os quais adotavam a rígida vida ascética, condenavam o batismo
cristão, tinham horror à carne, negavam o matrimônio e professavam a crença na existência
de dois princípios absolutos na constituição do mundo: o bem e o mal. Eram herdeiros do
maniqueísmo, heresia amplamente difundida no Oriente nos primeiros séculos cristãos. No
ocidente, os seguidores do catarismo espalharam-se pelas terras do Sacro Império romano
5

Germânico, na região de Flandres, na Inglaterra e na Itália. Mas foi no Sul do reino da


França que sua adoção viria a exercer maior impacto na sociedade.
Em meados do século XII, a heresia já se encontrava bastante enraizada no
Ocidente. Por volta de 1149 havia um bispo cátaro no Norte da França e, anos mais tarde,
outros se estabeleceram na cidade de Albi, no Sul da França, e na Lombardia. No ano de
1167 o bispo cátaro Nicetas partiu de Bizâncio para visitar a Itália e o Languedoc. Teria
organizado um verdadeiro concílio cátaro na localidade de Saint Félix de Caraman com o
objetivo de organizar o culto. Nos anos seguintes, outras pessoas foram reconhecidas como
bispos na Itália e na Occitânia, de modo que, ao final do século, haviam onze bispados no
total: um no Norte da França, quatro no Sul (Albi, Toulouse, Carcassonne e Val d’Aran) e
seis na Itália (Concorezzo, Desenzano, Bagnolo, Vicenza, Florença e Spoleto). Na
realidade, estava surgindo uma igreja paralela dentro da Cristandade!
São essas as razões pelas quais antigos pesquisadores, entre os quais Jean Guiraud,
ou estudiosos recentes, como Jean Duvernoy, tenham sustentando a idéia de que o
catarismo foi algo mais que uma heresia. Teria sido, na verdade, uma religião dotada de
doutrina, organização e princípios próprios - em alguns casos radicalmente diferentes da
Igreja católica. Se, de fato, a palavra grega hairesis significa “escolher”, herege é o que
“escolhe” para si alternativas distintas daquelas estabelecidas e declaradas pela instituição
religiosa oficial, mas mantendo-se dentro dos princípios gerais que a definem. No caso dos
cátaros, pelo contrário, o que esteve em causa eram os próprios fundamentos da religião
cristã uma vez que seus adeptos professavam doutrinas de explicação da existência
fundadas em princípios dualistas4.
O que define de imediato a cosmogonia cátara é a crença na coexistência eterna de
dois princípios iguais em poder e eficácia radicalmente opostos e tendo cada um seu papel
no equilíbrio do universo: o primeiro é o princípio do bem, que se confunde com Deus; o
segundo, o princípio do mal, que se confunde com Satã. Ao primeiro princípio correspondia
pureza espiritual e perfeição, enquanto ao segundo estavam relacionados os defeitos,
imperfeições e a corrupção. Por isso é que os ministros dessa crença eram designados pelo
termo de origem grega catharos, que significa simplesmente “puros”. Seu intento era
aproximar-se tanto quanto possível do bem absoluto, quer dizer, de Deus. Sua doutrina
6

procurava oferecer respostas a um problema comum a todas as religiões ocidentais, qual


seja, o problema do mal. Tais respostas passavam pelo esforço de encontrar soluções que
pudessem conciliar as noções do finito e do infinito, do absoluto e do transitório, do bem e
do mal.
Na cosmogonia cátara, o universo teria sido criado e se desenvolveria a partir da
conjugação de duas forças opostas. Aquela do Deus bom teria sido a responsável pela
criação de um mundo invisível e espiritual, enquanto a outra, do Deus mal, teria criado a
natureza sensível. Como poderia o Deus essencialmente bom ter sido o criador do mundo
terreno, onde existia o mal? Enquanto o cristianismo e o judaísmo explicavam a existência
do mal recorrendo à idéia do diabo e do pecado, os gnósticos dualistas acreditavam que
esse mundo teria sido criado pelo princípio do mal, quer dizer, Satã. Deste modo, haveriam
por toda a eternidade dois mundos em presença: aquele do Deus bom, constituído por uma
infinidade de seres puramente espirituais (anjos) criados por ele e participantes de sua
natureza; e o mundo sensível, terrestre, material, em que reinava o Mal. O homem, todavia,
seria uma criação do Deus bom, o que lhe permitia a possibilidade de alcançar a esfera
espiritual pela via da purificação5.
Todas as considerações anteriores são apenas generalizações sobre a doutrina e a
cosmogonia cátara. Na realidade, não houve unidade nas crenças dualistas difundidas na
Europa Oriental e na Europa Ocidental. As principais divergências diziam respeito ao
alcance e a natureza dos dois princípios antagônicos. É comum falar da existência de
grupos que professavam um dualismo moderado, para o quais Satã, o criador do mundo,
teria sido um anjo do Deus bom caído em desgraça; e outros que professavam um dualismo
mais rigoroso e absoluto, para os quais Satã seria uma divindade independente, um criador
onipotente e onisciente.
De qualquer modo, tanto os dualistas moderados quanto os adeptos do dualismo
absoluto concordavam quanto ao fato de que o mundo provinha do mal. Isso tinha peso
decisivo em seu comportamento e no modo de se relacionar com as coisas terrenas.
Acreditavam que a matéria era essencialmente má, e que o homem era um alienado,
condenado a viver no reino da perdição. O objetivo principal do ser humano era ir de

4
Marie-Humble VICAIRE, “Le catharisme: une religion”. In: Historiographie du catharisme (Cahiers de
Fanjeaux nº 14). Toulouse: Édouard Privat, 1979, pp. 385-388.
5
Jean DUVERNOY, Le catharisme: la religion des cathares. Toulouse: Édouard Privat, 1976, pp. 184-198.
7

encontro à perfeição e participar da comunhão do mundo espiritual. Acreditavam na


redenção dos espíritos e na reencarnação, na transmigração das almas do homem para o
homem e do homem para os animais, quer dizer, na metempsicose. Rejeitavam a crença na
existência do Purgatório e do Inferno uma vez que, ao final, tais espaços estariam na
própria Terra.
Tais crenças encontravam reflexo imediato em sua própria conduta. Os cátaros
praticavam rigorosa abstinência, negavam qualquer contato mais constante com os bens
materiais e optavam pela pobreza absoluta. Tinham regras estritas no comer, praticavam
jejuns diários e jamais comiam carne. Também não praticavam o sexo, pois tinham horror à
procriação. No período final do catarismo, alguns ministros chegaram a realizar uma
espécie de suicídio ritual, chamado endura: deixavam de comer voluntariamente, até o
enfraquecimento total, ou então bebiam veneno ou cortavam as próprias veias6. Era uma
forma de apressar o contato com o reino Celeste!
Em suas pregações, condenavam as coisas do mundo. Para eles, a Igreja católica
seria a representante maior de Satanás. Todas as tradições aureoladas pela instituição, pela
mesma razão, eram sobejamente criticadas. Todas as formas de ligação formal entre
homens e mulheres eram condenados, inclusive o casamento e a procriação. Toda e
qualquer forma de autoridade era colocada em dúvida, pois só ao Deus bom estava
reservado o exercício do julgamento. Suas principais invectivas eram contra a pena de
morte, contra toda e qualquer forma de guerra, toda e qualquer forma de juramento7. Em
outras palavras, sua doutrina era abertamente contrária ao próprio modus vivendi da
sociedade na qual estiveram inseridos. De onde a pergunta: seria possível colocar em
prática tais doutrinas?
Na realidade, haviam distinções importantes no seio dos adeptos do catarismo.
Dado ao ascetismo extremo, apenas alguns escolhidos podiam ser considerados plenamente
os “eleitos” para o encontro com o Deus bom. Com efeito, a profissão das idéias era
realizada apenas pelo grupo de ministros cátaros, conhecidos pelo nome de “perfeitos”. Os
demais, ouvintes ou simpatizantes, participavam na qualidade de “crentes”. Os ministros
eram isolados dos demais por uma elaborada cerimônia de iniciação, o consolamentum.

6
J. M. VIDAL, “Les derniers ministres de l’albigéisme en Languedoc: leurs doctrines”. Revue des Questions
Historiques, tome LXXIX, 1906, pp. 102-105.
7
René NELLI, Os cátaros (Coleção Esfinge) Lisboa: Edições 70, 1980, pp. 22-39.
8

Aos crentes, essa cerimônia ocorria apenas por ocasião da extrema-unção porque esperava-
se que, depois da realização do ritual as portas para o outro mundo começavam a ser
abertas. Afora essa cerimônia, os cátaros tinham apenas dois sacramentos, a penitência e a
quebra do pão - espécie de comunhão -, e realizavam uma só oração, o Pater, variante do
“padre nosso” católico8.
Ao final do século XII, a ampla aceitação do catarismo nas terras do Languedoc era
descrita em tom bastante sombrio nos escritos dos sacerdotes da Igreja romana. A heresia
aparece nesses textos como um “câncer”, como um “tumor” no corpo da Cristandade. O
monge trovador Guilherme de Tudela inicia a composição de sua Chanson de la Croisade
Albigeoise afirmando que a “maldita” heresia dominava todo o território nas proximidade
de Albi, de Lauragais, de Bourdeaux e Béziers, onde pululavam “crentes”9. O cronista
Pierre des Vaux de Cernay mostrava-se mais enfático: “esses crentes se entregavam
livremente ao roubo e à usura, aos homicídios e aos prazeres da carne, ao perjúrio e a
outras perversidades. Pecavam com tal segurança e com tal frenesi porque acreditavam ter
a salvação garantida sem necessidade de confissão ou penitência, bastando-lhes recitar o
“pater noster” e receber de seus mestres a imposição das mãos”10. Aos homens de Deus,
não restava qualquer dúvida. Essa “gente desgarrada” deveria experimentar o “gládio” do
Senhor!
***
Frente aos progressos da propagação da heresia, a Igreja procurou intervir no
Languedoc e recuperar seu lugar junto aos fiéis. Desde meados do século XII, tentou
dissuadir os seguidores dos cátaros. Já em 1145 ninguém menos do que São Bernardo de
Claraval deslocou-se até o Sul do reino acompanhando o legado papal Albéric, bispo de
Óstia, pregou ativamente contra os adeptos do herege Henrique de Lausanne e exortou o
conde de Toulouse, Alfonso Jordain, a prestar o devido apoio à Igreja no combate aos
dissidentes. Na segunda metade do século, diversas missões chefiadas por legados papais
denunciaram os hereges em praça pública e advertiram sobre os riscos assumidos por seus

8
Jean GUIRAUD, Histoire de l’Inquisition au Moyen Age. Paris: Éditions Auguste Picard, 1935. Tome I, pp.
79-97.
9
La Chanson de la Croisade Albigeoise. Editée et traduite du provençal par Eugene MARTIN-CHABOT
(Les Classiques de l’Histoire de France au Moyen Age). Paris: Librairie Ancienne Honoré Champion,
1931. Tome I, estr. 2, vv. 5-9.
9

seguidores. Foi também recorrente a atuação de monges cisterciences, alguns dos quais
promoveram debates públicos com ministros cátaros com o fim de demonstrar os “erros” de
sua doutrina. O objetivo geral era que abjurassem de seus erros e se reconciliassem com a
Igreja.
Foi com esse intento que, em 1203 , uma missão de monges cisterciences chefiados
pelo próprio Abade de Cister, Arnaldo Amauri, acompanhou o legado papal Pedro de
Castelnau com o fim de pressionar o conde de Toulouse, Raimundo VI, a extirpar a
“pestilência herética” disseminada em suas terras e, ao mesmo tempo, de converter as
populações a ela simpáticas. No ano seguinte, dois importantes religiosos espanhóis, Diego,
bispo de Osma, e Domingos de Gusmão, vice prior do capítulo de Osma, juntaram-se aos
demais esperando converter as “almas desgarradas” do condado de Toulouse. Domingos,
posteriormente canonizado como São Domingos, foi o fundador do Convento de Prouille
em Toulouse, e da Ordem dos Predicadores, mais conhecida como Ordem dos
Dominicanos. Foi ele o primeiro a propor que na luta contra os hereges a conversão se
fizesse não apenas pelas palavras mas também pelo exemplo, adotando daí em diante o
voto de pobreza. Com efeito, os dominicanos tiveram atuação importantíssima durante todo
o período de conflito armado no Languedoc. De suas fileiras saíram os integrantes aos
primeiros tribunais de Inquisição.
A missão, todavia, não obteve sucesso imediato. Os cisterciences retornaram ao
Norte do reino em 1207. Um ano depois, o legado acusou Raimundo VI de conivência com
os hereges, excomungando-o. No dia 15 de janeiro de 1208 Pedro de Castelnau foi
assassinado por alguém supostamente a serviço do conde de Toulouse, motivo pelo qual
este passou a ser responsabilizado pelo crime. Enquanto o príncipe tentava inutilmente
provar sua inocência perante o papa e as autoridades eclesiásticas Inocêncio III mobilizava
bispos, arcebispos e abades de todo o reino e procurava convencer o próprio rei Filipe
Augusto a assumir a liderança militar de uma cruzada. A última tentativa de Raimundo para
provar sua inocência ocorreu em 1209: quando os contingentes do exército de cruzados
marchavam em direção às comunidades do Languedoc, ele próprio tomava parte da

10
PIERRE DES VAUX DE CERNAY. Histoire Albigeoise. Trad. par Pascal Guebin & Henri Maisonneuve
(L’Église et L’État au Moyen Age). Paris: Librairie J. Vrin, 1951, cap. 13, p. 7.
10

expedição. Mas a guerra já tinha sido declarada e seu desencadeamento provocou uma
reação em cadeia da qual nem o conde, nem seus vassalos, poderiam escapar11.
De resto, os desdobramentos da guerra são bem conhecidos. Em 22/07/1209 um
poderoso contingente de cavaleiros cruzados sitiou a cidade de Béziers, invadindo-a,
pilhando-a e massacrando parte de seus habitantes. Em seguida, o exército marchou contra
as fortalezas e cidades vizinhas até sitiar e conquistar Carcassonne, em agosto de 1209.
Raimundo Rogério Trencavel, sobrinho de Raimundo VI e visconde de Béziers e
Carcassone foi aprisionado e morreu alguns meses depois na prisão. Todas as terras de sua
família foram atribuídas a Simão de Montfort, conde de Leicester. Daí em diante, este
nobre da região de Ile de France assumiu a liderança militar do movimento, assediando
cidades e fortalezas dos domínios anteriormente pertencentes à família Trencavel.
Enquanto isso, Raimundo VI tentava em vão obter sua reconciliação no concílio de
Saint Gilles, em 1210, e no concílio de Montpellier, em 1211. Naquele mesmo ano
Toulouse, a capital do condado, foi sitiada pela primeira vez. No seguinte, o conde pediu
apoio ao rei de Aragão, Pedro o Católico, de quem era cunhado. Contando também com a
ajuda de importantes senhores feudais occitanos, entre os quais Bernardo de Comminges e
sobretudo o conde Raimundo Rogério de Foix, ele jogou todas as cartas numa grande
ofensiva armada no princípio de 1213. A grande coligação de cavaleiros dos dois lados dos
Pirineus foi contudo derrotada pelas tropas de Simão de Montfort na Batalha de Muret,
ocorrida em setembro de 121312. Toulouse foi então forçada a abrir suas portas ao novo
senhor. Dois anos mais tarde, Inocêncio III reconheceu os direitos de Simão de Montfort
em todo o Languedoc por ocasião do IV concílio de Latrão13.
Em 1216 Raimundo VI e seu filho, o futuro Raimundo VII, encontravam-se
exilados na Espanha enquanto Simão de Montfort e sua equipe de cavaleiros procuravam
manter sob controle as terras recentemente conquistadas. Foi então que, primeiramente na
cidade de Beaucaire, e depois em Toulouse, as populações rebelaram-se contra os
cavaleiros nortistas, abrindo suas portas aos príncipes espoliados. Desgastado por tantos

11
Charles MOLINIER, “L’Église et la société des cathares”. Revue Historique, Tome XCV, 1907, pp. 246-
248.
12
Charles HIGOUNET. “Les relations franco-iberiques au Moyen Age”. In: Les relations franco-espagnoles
jusqu’au XVII siècle (Bulletin Philologique et Historique du Comité des Travaux Historiques et
Scientifiques). Paris: Bibliothèque Nationale, 1972, pp. 9-10.
11

anos de conflito intermitente, sem apoio regular de novos contingentes de guerreiros, Simão
de Montfort tentou inutilmente quebrar a resistência meridional. Entre 1217 e 1218
manteve o longo cerco da cidade de Toulouse, vindo a morrer por ocasião dos combates em
25/06/1218. Seu lugar passou a ser ocupado pelo filho, Amauri de Montfort, mas pouco a
pouco os domínios anteriormente vencidos voltaram às mãos de seus senhores naturais. Em
1224, Montfort renunciou aos seus direitos, transferindo-os para Luís VIII, o rei da França.
Era o fim da “Cruzada baronial” e o início da “Cruzada real”14.
A atuação direta do rei na “questão albigense” aconteceu em 1226, e limitou-se ao
assédio e submissão da cidade de Avignon. A derrota daquela grande cidade, associada
com o prestígio da monarquia, levou a uma torrente de submissões. O monarca faleceu
naquele mesmo ano justamente quando retornava a Paris, mas teve tempo de designar
homens de sua confiança para administrar as regiões que lhe pertenciam. A Cruzada
Albigense terminou oficialmente em 12/04/1229, quando os representantes da Igreja e de
Luís IX (São Luís) estabeleceram em Paris um tratado de paz com Raimundo VII. A partir
da assinatura do tratado, os direitos da realeza foram assegurados e a ingerência dos
representantes da monarquia na administração local aumentaram paulatinamente.
Pelo Tratado de Paris, a Raimundo VII ficavam garantidas as terras do condado de
Toulouse, do Agenais, do Rouerge e do Quercy, mas, em contrapartida, o mesmo
comprometeu-se a combater a heresia, contribuir para a fundação de uma Universidade e
prestar o apoio inicial aos tribunais de Inquisição instalados em todo o Languedoc. O antigo
viscondado de Béziers e Carcassonne, assim como toda a parte oriental da Occitânia
doravante pertenciam aos territórios capetíngios. A cláusula mais funesta era a que previa o
casamento de sua filha de nove anos, Joana, com o irmão mais novo do rei, Alfonso de
Poitiers. Caso não tivesse sucessores do sexo masculino, suas posses seriam herdadas pelo
casal e se esses, por sua vez, não deixassem descendentes, elas passariam diretamente para
a coroa. Foi o que efetivamente aconteceu: o último conde de Toulouse faleceu sem deixar
filhos varões, sendo sucedido por Joana e Alfonso; ambos vieram a falecer em 1270,

13
Michel ROQUEBERT, L’Épopée cathare. Toulouse: Édouard Privat, 1977. Tome II – 1213-1216: Muret
ou la dépossession.
14
Monique ZERNER-CHARDAVOINE, La Croisade des Albigeois. Paris: Gallimard, 1979; Maria
Henriqueta FONSECA, “O catarismo e a Cruzada contra os Albigenses”. Revista de História (USP),
Volume VIII nº 17-18, 1954, pp. 79-117.
12

também sem deixar filhos. Pouco tempo depois, os representantes do rei Filipe o Ousado
tomavam posse oficial do que ainda lhes escapava do Languedoc15.
Nos últimos anos da tumultuada vida de Raimundo VII o derradeiro conde de
Toulouse passou por uma série de dificuldades mas manteve o empenho de recuperar o
prestígio de sua linhagem. Recorreu em vão ao papa Inocêncio IV e a São Luís na
esperança de reabilitar a memória do pai excomungado e enterrá-lo em solo consagrado.
Viúvo, esforçou-se por arranjar um casamento e ter afinal um filho que pudesse sucedê-lo.
As tratativas para o enlace com Beatriz, filha mais jovem do conde Raimundo Berengário
de Provença não deram resultados satisfatórios. O futuro sogro morreu em 1245 e a
pretendida foi entregue pelos tutores a Carlos de Anjou, outro irmão do rei! Pretendia
prestar voto de cruzado e seguir São Luís até o Oriente, mas foi acometido pela doença.
Morreu em 27 de setembro de 1249, com 52 anos de idade.
Sob o ponto de vista religioso, os desdobramentos da guerra e a derrota da nobreza
languedociana contra as hostes enviadas pelos papas, reis e senhores feudais do Norte do
reino implicou na exposição dos ministros heréticos e seus adeptos ou simpatizantes à
perseguição por parte das autoridades laicas e eclesiásticas. Paralelamente aos ataques
militares, integrantes das ordens monásticas (sobretudo os dominicanos) e do clero secular
tiveram a possibilidade de investigar, descobrir e punir os rebeldes da fé. Em 1229, o
mesmo da assinatura do Tratado de Paris e da capitulação dos senhores feudais do
Languedoc, uma assembléia de clérigos reunida por ocasião do concílio de Toulouse
lançou as bases para a criação dos primeiros tribunais do Santo Ofício e para a criação da
Universidade de Toulouse.
As reações armadas promovidas pelas populações occitanas, por outro lado, foram
diminuindo em importância. À ampla resistência organizada por ocasião da Cruzada dos
Montfort sucedeu rebeliões localizadas nos momentos iniciais da intervenção dos capetos.
Embora entre 1230 e 1240 diversos nobres meridionais despossuídos durante os conflitos
tenham atacado fortalezas e cidades, exigindo esforços permanentes dos oficiais da coroa,
eles foram esmagados um a um. A última grande rebelião, liderada por Raimundo
Trencavel na cidade de Carcassonne, foi duramente sufocada. Quatro anos depois, em
1244, um importante contingente de adeptos e simpatizantes do catarismo situados na

15
Paul LABAL. Los cátaros: herejia y crisis social. Barcelona: Editorial Crítica, 1984.
13

fortaleza de Montségur teve de se submeter após longo assédio e os “perfeitos” ali


encontrados arderam na fogueira16. Era o último episódio da longa “resistência cátara”.
A atuação eficiente dos inquisidores do século XIII, por sua vez, colocou os
ministros cátaros na defensiva. As inquirições, julgamentos e sentenças desarticularam a
malha de solidariedade na qual os heterodoxos se apoiavam. Por volta de 1240 o catarismo
sobrevivia na clandestinidade17. Muitos de seus participantes procuraram refúgio em outras
terras, na Catalunha e principalmente na Itália. Aqueles que permaneceram no Languedoc
foram aos poucos sendo identificados, presos, julgados e condenados à fogueira. Ao final
do século XIII, os derradeiros ministros cátaros atuantes escondiam-se nos confins do
condado de Foix, nas proximidades dos Pirineus18. Quando em 1309 o último ministro
cátaro, Pierre Autier, foi aprisionado e submetido aos inquisidores Bernard Gui e Geoffrey
d’Abblis, o catarismo chegou ao seu fim!
***
O mais importante repertório documental relativo aos hereges cátaros e seus
protetores encontra-se nas anotações provenientes dos arquivos da Inquisição. A Inquisição
começou a ser organizada em 1229 e seus primeiros tribunais foram instalados em 1232.
Tinha por objetivo a investigação meticulosa de delitos religiosos, o interrogatório dos
suspeitos, o julgamento, o estabelecimento de penas eventuais e a entrega dos condenados
às autoridades seculares. Assim sendo, os textos produzidos nesse meio não pretendiam
descrever acontecimentos nem emitir juízos sobre o que acontecia na época em referência.
As anotações procedentes dos tribunais referem-se fundamentalmente a pessoas e seu
possível envolvimento com a heresia.
No entanto, por sua própria natureza a Inquisição era instituição destinada a
estabelecer provas documentais. Seu funcionamento dependia de informações precisas e do
registro escrito, condição básica na busca de caracterizar a culpa de suspeitos ou réus. A
troca de informações entre inquisidores ou então as anotações deixadas aos posteriores
garantia a continuidade sistemática do ofício. Essa preocupação com a informação

16
Zoé OLDENBOURG, Le bucher de Montségur. Paris: Gallimard, 1959.
17
Aspecto recentemente abordado por Linda Joenne Carvalho Granjense de Lima SARAIVA, “Laços de
sangue, laços de fé. Relações familiares e solidariedade no catarismo do século XIII”. Dissertação de
Mestrado no PPG em História – UnB, 1998.
18
Anette PALES-GOBILLIARD, “Le catharisme dans le comté de Foix des origenes au début du XIV
siècle”. Revue de l’Histoire des Religions, Tome CLIX-2, 1976, pp. 192-196.
14

meticulosa teve reflexos importantes no conhecimento possível a respeito dos envolvidos


com o catarismo. Quase tudo o que se sabe sobre os dissidentes religiosos medievais nos
foi deixado pelos seus principais perseguidores!
Isto se aplica, por exemplo, aos principais textos cátaros publicados no século XX.
Coube ao estudioso da Ordem dos Dominicanos Antoine Dondaine trazer à público em
1939 a edição do texto redigido por um discípulo anônimo do bispo cátaro João de Lugio
no princípio da década de 1230 intitulado Liber de duobos principiis, extraído de um
manuscrito da biblioteca de Florença. Esse texto foi apropriado por Rainier Sacconi, e
posteriormente comentado no tratado anti-cátaro intitulado Liber contra manicheos19. Outra
modalidade de textos diz respeito aos manuais preparados pelos próprios juízes dos
tribunais com o fim de orientar o trabalho da caça aos hereges. Desde os primeiros
momentos da ação inquisitorial, aqueles mais versados em direito penal canônico
prepararam textos de orientação aos demais membros da instituição.
O mais antigo desses guias foi preparado entre 1248 e 1249 por Bernardo de Caux,
Inquisidor e Agen, Cahors e de Toulouse. O Processus inquisitionis compõe-se de
comentários e indicações sobre cada passo do procedimento inquisitorial. Há outro texto
similar produzido em Carcassonne por volta de 1270 por autor anônimo, o Tratactus de
hereticis. Mas foi entre 1321 e 1324 que Bernard Gui redigiu uma espécie de suma no
gênero, a Practica Inquisitionis heretice pravitatis. Sua experiência no ofício e os
conhecimentos acumulados pelos antecessores permitiram-lhe elaborar uma exposição
sobre os fundamentos legais e a extensão da autoridade inquisidorial, os principais traços
do catarismo e outras heresias bem como a forma de descobrir os indivíduos que as
praticavam, obter sua confissão de culpa, reabilitá-los ou puni-los20.
Aos historiadores da sociedade occitana do século XIII interessa sobremaneira as
anotações da própria atividade inquisitorial. Com efeito, desde pelo menos 1240 os
religiosos deixaram-nos informações pormenorizadas a respeito da relação entre as
autoridades eclesiásticas e as populações do Sul da França. Data de 1247 o interrogatório

19
Yves DOSSAT, “La découverte des textes cathares: le père Antoine Dondaine”. In: Historiographie du
catharisme (Cahiers de Fanjeaux nº 14). Toulouse: Éd. Privat, 1979, pp. 344, 352-355.
20
Yves DOSSAT, “Une figure d’Inquisiteur: Bernard de Caux”. In: Le credo, la morale et l’Inquisition
(Cahiers de Fanjeaux nº 6). Toulouse, Éd. Privat, 1971, pp. 264-265; Annete PALES-GOBILLIARD,
“Bernard Gui inquisiteur et auteur de la Practica”. In: Bernad Gui et son monde. (Cahiers de Fanjeaux nº
16). Toulouse, Éd. Privat, 1981, pp. 253-264.
15

de Pierre Garcias, um cátaro da cidade de Toulouse. Os notários a serviço dos primeiros


inquisidores tolosanos também arrolaram pacientemente as sentenças contra todos os
suspeitos de heresia daquela diocese. As anotações do notário do tribunal da Inquisição de
Carcassonne, por sua vez, dizem respeito a interrogatórios e subsequentes punições
relativas a década de 126021.
De igual valor são os registros de depoimentos prestados aos juízes dos tribunais.
Os primeiros testemunhos desse gênero foram realizados em Toulouse e em Carcassonne
nas décadas de 1250 e 1260. São concisos e trazem em seu interior as declarações ou
interrogatórios de pessoas convocadas para tal fim. Na medida em que as autoridades
fecharam o cerco aos principais focos de disseminação em meio urbano sua ação foi
direcionada para as comunidades rurais mais afastadas. Alguns inquisidores fixaram-se por
determinado tempo em pequenas cidades ou mesmo em aldeias que lhes pareciam
propensas ao contágio herético. Nesse caso, já não se tratava de pessoas convocadas a
comparecer perante os juízes, mas comunidades inteiras expostas durante longo tempo aos
representantes da ortodoxia. Tratava-se de quebrar a espessa malha sob a qual os últimos
ministros cátaros se escondiam, de desvencilhar a complexa rede de solidariedade que
atravessava as relações entre os hereges e suas respectivas comunidades.
Não é por acaso que os mais importantes registros inquisitoriais tenham sido
realizados no período de agonia do catarismo, em comunidades rurais da região do Vale do
Ariège, na fronteira do Languedoc com a Espanha. Era ali que os últimos pregadores
cátaros encontravam refúgio. Entre 1308 e 1309 cinco inquisidores, Geoffrey d’Abblis,
Bernard Gui, Jean de Beaune, Géraud de Blomac e Jean de Faugoux interrogaram
moradores da diocese de Pamiers, situada no condado de Foix, para descobrir e aprisionar o
último ministro cátaro em atuação no Languedoc, Pierre Autier. Parte dessa atividade
ostensiva consta nos registros de Geoffrey d’Ablis, composto pelo depoimento de dezessete
indivíduos de ambos os sexos22. Eram camponeses pobres cujas crenças misturavam
elementos da doutrina cristã e do catarismo com reminiscências do paganismo, pessoas

21
Os textos foram editados por Celestin DOUAIS, Documents pour servir à l’histoire de l’Inquisition dans le
Languedoc. Paris: Librairie Renouard, 1900 (reimpressão Paris: Librairie Honoré Champion, 1977). 2 vols.
22
Charles MOLINIER, L’Inquisition dans le Midi de la France au XIII et au XIV siècle: étude sur les sources
de son histoire. Paris: 1880 (reimpressão New York: Burt Franklin, s.d.), pp. 105-161.
16

totalmente diferentes daquelas que, um século antes, defenderam os cátaros de armas na


mão!
Data também dessa época os registros de Jacques Fournier, bispo de Pamiers e
inquisidor local posteriormente eleito papa com o nome de Bento XII, sobre os moradores
da aldeia de Montaillou, visitada por Geoffrey d’Abblis em 1309. Naquela ocasião este
último foi acompanhado por Jacques de Poloniac, guardião da prisão de Carcassonne,
instalou-se no castelo da família Clergue, que controlava a localidade, e ordenou que todas
as pessoas maiores de quatorze anos fossem detidas durante os interrogatórios. Aldeões,
artesões e a própria castelã foram ouvidos, daí resultando denúncias, confissões e processos
conduzidos por Jacques Fournier entre 1318 e 1324 envolvendo vinte e cinco pessoas, das
quais duas foram condenadas: uma era Guilherme Fort, entregue ao braço secular em 1321;
a outra era nada menos do que Bernardo Clergue, vassalo do conde de Foix e irmão do
pároco da localidade23. O “drama de Montaillou” encerrou a história de um século de
perseguição sistemática ao catarismo, aberta com a Cruzada Albigense.
O empenho de Jacques Fournier em registrar todos os detalhes a ele comunicados
pelos camponeses e pastores interrogados revela-nos a que ponto chegou o zelo na
condução da atividade inquisitorial. Nada do que foi dito escapou ao registro meticuloso:
relatos de encontros com supostos pregadores cátaros, informações a respeito de suspeitos
de heresia, mas também lembranças individuais sobre aspectos menos relacionados com
religião. Dados da vida cotidiana, das estruturas familiares, do modo de sentir e de pensar
ficaram retidos nos processos. A instituição eclesiástica havia penetrado nos lares, na
intimidade das pessoas comuns. A voz dos moradores da pequena aldeia situada nas
vizinhanças dos Pirineus, reapropriada com habilidade por Emanuel Le Roy Ladurie,
produziu um best-seller da historiografia francesa, da qual emerge um quadro muito vivo
das formas de sociabilidade vigentes no mundo camponês, no qual a heresia só muito
superficialmente desempenhara algum papel24.

José Rivair Macedo


Dep. De História - UFRGS

23
Elié GRIFFE, Le Languedoc cathare et l’Inquisition. Paris: Letouzey et Ané, 1980, pp. 270-283.
24
Emanuel Le Roy LADURIE, Montaillou: cátaros e católicos numa aldeia francesa (1294-1324). Lisboa:
Edições 70, s.d.