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Pneumotórax Neologismo Poética

Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos. Beijo pouco, falo menos ainda. Estou farto do lirismo comedido
A vida inteira que podia ter sido e que não foi. Mas invento palavras Do lirismo bem comportado
Tosse, tosse, tosse. que traduzem a ternura Do lirismo funcionário público com livro de ponto
[mais funda expediente
Mandou chamar o médico: E mais cotidiana. protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor
— Diga trinta e três. inventei, por exemplo, Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no
— Trinta e três… trinta e três… trinta e três… [o verbo teadorar. dicionário
— Respire. Intransitivo o cunho vernáculo de um vocábulo
Teadoro, Teodora.. Abaixo os puristas
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o Todas as palavras sobretudo os barbarismos
pulmão direito infiltrado. universais
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? Todas as construções sobretudo as sintaxes de
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Desencanto
Estou farto do lirismo namorador
Vou-me Embora pra Pasárgada Político
Eu faço versos como quem chora
Raquítico
De desalento… de desencanto…
Vou-me embora pra Pasárgada Sifilítico
Fecha o meu livro, se por agora
Lá sou amigo do rei De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
Não tens motivo nenhum de pranto.
Lá tenho a mulher que eu quero fora de si mesmo.
Na cama que escolherei De resto não é lirismo
Meu verso é sangue. Volúpia ardente…
Será contabilidade tabela de co-senos secretário d
Tristeza esparsa… remorso vão…
Vou-me embora pra Pasárgada amante exemplar
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Vou-me embora pra Pasárgada com cem modelos de cartas e as diferentes
Cai, gota a gota, do coração.
Aqui eu não sou feliz maneiras de
Lá a existência é uma aventura agradar às mulheres, etc.
E nestes versos de angústia rouca,
De tal modo inconsequente Quero antes o lirismo dos loucos
Assim dos lábios a vida corre,
Que Joana a Louca de Espanha O lirismo dos bêbados
Deixando um acre sabor na boca.
Rainha e falsa demente O lirismo difícil e pungente dos bêbados
Vem a ser contraparente O lirismo dos clowns de Shakespeare
– Eu faço versos como quem morre.
Da nora que nunca tive – Não quero mais saber do lirismo que não é
A estrela libertação.
E como farei ginástica Canção do vento e da minha vida
Andarei de bicicleta Vi uma estrela tão alta,
Montarei em burro brabo Vi uma estrela tão fria!
O vento varria as folhas, O vento varria os meses
Subirei no pau-de-sebo Vi uma estrela luzindo
O vento varria os frutos, E varria os teus sorrisos...
Tomarei banhos de mar! Na minha vida vazia.
O vento varria as flores... O vento varria tudo!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio Era uma estrela tão alta!
E a minha vida ficava E a minha vida ficava
Mando chamar a mãe-d’água Era uma estrela tão fria!
Cada vez mais cheia Cada vez mais cheia
Pra me contar as histórias Era uma estrela sozinha
De frutos, de flores, de folhas. De tudo.
Que no tempo de eu menino Luzindo no fim do dia.
Rosa vinha me contar O vento varria as luzes,
Vou-me embora pra Pasárgada Por que da sua distância O vento varria as músicas,
Para a minha companhia
O vento varria os aromas...
Em Pasárgada tem tudo Não baixava aquela estrela?
É outra civilização Por que tão alta luzia?
E a minha vida ficava
Tem um processo seguro Cada vez mais cheia
De impedir a concepção E ouvi-a na sombra funda
De aromas, de estrelas, de cânticos.
Tem telefone automático Responder que assim fazia
Tem alcaloide à vontade Para dar uma esperança
O vento varria os sonhos
Tem prostitutas bonitas Mais triste ao fim do meu dia. E varria as amizades...
Para a gente namorar O vento varria as mulheres...
E quando eu estiver mais triste Andorinha
Mas triste de não ter jeito E a minha vida ficava
Quando de noite me der Andorinha lá fora está dizendo: Cada vez mais cheia
Vontade de me matar — “Passei o dia à toa, à toa!” De afetos e de mulheres.
— Lá sou amigo do rei — Andorinha, andorinha,
Terei a mulher que eu quero [minha cantiga é mais triste!
Na cama que escolherei Passei a vida à toa, à toa…
Vou-me embora pra Pasárgada.