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Anotação de Responsabilidade Técnica – ART

Termo de Responsabilidade Técnica – TRT

Vladimir Stolzenberg Torresi


Biólogo e Orientador Educacional

Recentemente, lendo o artigo que foi disponibilizado para Download, do Prof. Silvio
Lengler, pertinente a questão da responsabilidade técnica nos entrepostos de mel,
senti a necessidade de escrever este outro artigo, esclarecendo alguns pontos que
parecem não foram analisados ou discutidos naquele trabalho.

Inicialmente vamos esclarecer alguns dispositivos legais, que não foram comentados
de forma apropriada e que representam o aspecto legal, que favorece o exercício de
muitas atividades profissionais, consideradas como restritas de certas profissões.

A Anotação de Responsabilidade Técnica – ART, representa um registro do contrato,


seja escrito ou verbal, entre o profissional e o seu respectivo cliente, a sua exigência
tem embasamento legal na Lei Federal 6.496, de 07 de dezembro de 1977. A ART
define, para os efeitos legais, os responsáveis técnicos pela execução ou prestação de
quaisquer serviços que exijam a atenção de um profissional responsável. Ou seja, a
ART caracteriza os direitos e obrigações entre profissionais e contratantes, além de
determinar a responsabilidade profissional por eventuais defeitos e erros técnicos

A ART obriga o profissional a melhorar a qualidade dos serviços que presta à


sociedade, pois permite identificar os responsáveis pelos serviços ou obras,
imputando responsabilidade, inclusive junto à justiça

O Termo de Responsabilidade Técnica – TRT, deve ser preenchido por profissionais


que atuarão como Responsáveis Técnicos em empresas onde se faça necessária sua
presença. Diferentemente da ART, o TRT, deve ser renovado anualmente e sua
vinculação é com a personalidade jurídica contratante, diferentemente de uma ART
de função, que pode se perpetua, por exemplo, por toda uma vida profissional.

Ao aceitar se tornar um Responsável Técnico – via TRT, o profissional deve ter plena
ciência da importância do seu cargo. Seu ocupante responde não só pela qualidade e
segurança de um ou mais produtos ou serviços, mas também pela precisão das
informações que chegam ao consumidor. A função, portanto, deve ser vista como um
sinônimo de autonomia na tomada de decisões que envolvam esses aspectos. Se a
empresa pela qual responde causar danos tanto aos demais funcionários quanto aos
consumidores do seus produtos, o Responsável Técnico estará sujeito, juntamente
com a empresa, a responder a processos civis e criminais.

A luz destas considerações iniciais, deve ser esclarecido que não cabe, em hipótese
alguma, ao CONFEA – Conselho Federal de Engenharia e Arquitetura, ou ao MAPA –
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, ou ao INCRA – Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária a atribuição legal de legislar atividades
profissionais. Ao primeiro cabe, única e exclusivamente a atribuição de Fiscalizar o
Exercício das atividades inerentes às suas atribuições. Aos demais citados – fizemos
isto, haja visto erros cometidos por ambos e em discussão judicial – cabe criar
condições de trabalho, não determinando ou legislando que profissional pode ou não
exercer determinada atividade.

Assim sendo, para que um profissional obtenha uma ART ou um TRT, deve comprovar
em sua formação, a presença de disciplinas e conhecimento técnico que justifiquem a
emissão de tais documentos.

Por esta razão é que vários profissionais, de diversas áreas, podem atuar na
responsabilidade técnica de entrepostos de mel, não somente os preconizados pelo
artigo do Prof. Silvio Lengler. Basta, para isto, apresentar a devida ART ou TRT,
conforme for o caso.

Assim, ao contrário do que o plenário do XV Congresso Brasileiro de Apicultura,


realizado em 2004 em Natal, RN, tenha aprovado – o que nada mais passa do que uma
monção, não se justifica do ponto de vista legal as áreas apresentadas como
necessárias ao exercício desta atividade profissional. Nesta óptica, interessa que o
profissional possua em sua formação, as seguintes disciplinas, para atividade no
controle de qualidade dos produtos apícolas (utilizando a grade da Faculdade de
Medicina Veterinária da UFRGS como referencial, associada à legislação que favorece
a emissão de ART’s/TRT’s):

Apicultura – Ementa: abelhas melíferas: espécies, raças, castas, anatomia, fisiologia,


alimentos, atividades, vida social, inimigos. Manejo do apiário: equipamento agrícola,
instalação de colméias, flora apícola, higiene. Produtos da Apicultura: polinização, mel,
geléia real, núcleos e rainhas.

Inspeção e Tecnologia de Leite e Derivados, Ovos e Mel – Ementa: classificação,


bromatologia, toxicologia, processamento, seleção, inspeção dos produtos na fonte de
produção, armazenamento, consumo e legislação de leite, produtos derivados, ovos e
mel.

Para atuar, na formulação e manipulação de rações para abelhas, recomenda-se,


portanto, substituir a Disciplina Inspeção e Tecnologia de Leite e Derivados, Ovos e
Mel por (ainda usando a grade da Medicina Veterinária da UFRGS como referencial):

Nutrição Animal – Ementa: nutrientes: terminologia específica; objetivos da Nutrição


Animal; classificação dos nutrientes; exigências nutritivas dos processos corporais e
funções produtivas. Processos em Nutrição: digestão, absorção e metabolismo. Usos,
deficiências e interrelações entre os nutrientes. Aspectos especiais da nutrição dos
ruminantes.

Alimentos e Alimentação Animal – Ementa: estudos dos alimentos. Composição e valor


nutritivo. Cálculo de ração. Alimentação das espécies de interesse sócio-econômico.
Bromatologia, legislação e fiscalização.
O interessante de se analisar Grades Curriculares é encontrar que certas atividades
profissionais têm atribuições oriundas de antigas legislações e, no entanto, não
possuem a necessária formação para o exercício das mesmas. Assim, ao pesquisar, por
exemplo, a grade do Curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal do
Paraná (UFPR), verifica-se a INEXISTÊNCIA de qualquer disciplina vinculada com a
Apicultura e a vaga presença de uma disciplina denominada Inspeção dos Produtos de
Origem Animal. A Zootecnia da mesma instituição, guarda o mesmo problema, ou seja,
forma profissionais que possuem Curriculum apenas para atuar (será mesmo?) na
formulação e manipulação de rações para abelhas. Já o Curso de Agronomia –
atividade defendida pelo Prof. Silvio Lengler, possui, no quanto máximo uma disciplina
denominada Entomologia!

Façamos um estudo de caso, mais regional, analisando então as perspectivas dos


cursos oferecidos na Universidade Federal de Santa Maria. O Curso de Medicina
Veterinária não possuem nenhuma disciplina vinculada com a temática Apicultura.
Semelhantemente a situação da UFPR, o Curso de Agronomia possui, no quanto
máximo uma disciplina denominada Entomologia Agrícola! Somente o Curso de
Zootecnia possui uma disciplina intitulada Apicultura – zootecnia.

Em suma, qualquer profissional que demonstre a presença de tais disciplinas (ou


componentes curriculares), iguais ou assemelhados, em sua qualificação, poderá
exercer, mediante uma Anotação de Responsabilidade Técnica, ou mesmo um Termo
de Responsabilidade Técnica (quando for o caso deste último) a responsabilidade
pelas atividades Apícolas (e Meliponícolas), mesmo em um Entreposto de Mel e Cera;
até mesmo, porque estará demonstrando uma competência superior a dos
profissionais que tradicionalmente deveriam estar qualificados para o exercício desta
atividade.

i
Biólogo Licenciado Pleno (PUCRS), Esp. Lato Sensu em Informática na Educação (PUCRS),
Toxicologia Animal (ABEAS/PUCRS), Orientação Educacional (UCAM) e Microbiologia (UCS),
Ms. Stricto Sensu em Biociências – Zoologia (PUCRS), e Dr. Stricto Sensu em Informática na
Educação (UFRGS).

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