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Aulas Teóricas de Electrotecnia Teórica II

1. SISTEMAS ELÉCTRICOS TRIFÁSICOS

1.1. Tensões Trifásicas

Um conjunto de três tensões sinusoidais, da mesma frequência e amplitude, desfasadas de 120° em


relação umas às outras constituem o que se chama um sistema de tensões trifásico simétrico. Os valores
instantâneos de tais tensões são:

Figura 1.1: Diagrama vectorial de tensões trifásicas.

1.2. Geração de Tensões Trifásicas

As tensões trifásicas para sistemas eléctricos trifásicos são geradas por geradores trifásicos (alternadores)
síncronos. O alternador trifásico síncrono tem três enrolamentos idênticos (fases) rigidamente fixos entre
si no estator. Os enrolamentos estão separados de 120° uns dos outros e as f.e.m. sinusoidais neles
induzidas virão do mesmo modo desfasadas de 120º. O alternador é denominado síncrono porque a
velocidade angular do rotor ω é igual a frequência angular do campo magnético girante. O campo
magnético rotativo é criado pelo rotor o qual possui um enrolamento percorrido por uma corrente
contínua (corrente de excitação). Ver a figura 1.2.

Figura1.2: Gerador síncrono trifásico

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A sequência de fases é tal que a fase b está em atraso em relação à fase a, e a fase c está em atraso em
relação à fase b. A fase a, a dita de referência possui argumento nulo.

A ordem ABC é considerada como sequência de fases normal ou sequência positiva.

Figura1.3: Tensões instantâneas induzidas por um gerador trifásico.

A frequência das tensões induzidas (ou frequência eléctrica) é dada pela seguinte equação:

Onde:

1.3. Vantagens dos Sistemas Eléctricos Trifásicos em Comparação com os Monofásicos

1) Melhor uso dos materiais nas máquinas trifásicas (cobre e ferro) o que reduz as
dimensões e o peso conduzindo a uma relação custo/potência menor;

2) Linhas eléctricas trifásicas são constituídas apenas por três condutores, não sendo
necessário o neutro.

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1.4. Desvantagens

1) O sistema eléctrico trifásico é mais complexo em comparação com o sistema monofásico.

1.5. Definições

1.5.1. Significado de Fase

 Deslocamento relativo (no tempo) entre as tensões ou correntes num sistema trifásico.
 Um dos enrolamentos duma fonte trifásica, assim como todos os condutores ligados ao mesmo
enrolamento.

1.5.2. Sistema ou Circuito Trifásico

É uma combinação de um gerador trifásico, uma carga (ou cargas) trifásica, e os condutores de ligação.

Figura 1.4: Circuito trifásico.

1.6. Representação de uma Fonte Trifásica

Uma fonte trifásica pode ser representada por qualquer dos circuitos representados na figura 1.5.

Figura 1.5: Representação de uma fonte trifásica.

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1.7. Ligação dos Enrolamentos duma Fonte Trifásica

Os enrolamentos de uma fonte de energia trifásica (gerador trifásico) podem se ligar em Estrela ou em
Triângulo (ou Delta).

1.7.1. Ligação dos Enrolamentos de Uma Fonte Trifásica em Estrela

Na ligação em estrela as extremidades finais são ligadas ente si para formar o ponto Neutro, deixando as
estremidades iniciais como terminais do sistema trifásico. Ver a figura 1.6.

Figura 1.6: Ligação em Estrela dos enrolamentos de um gerador trifásico.

a) Tensão de Fase ou Tensão Simples

A tensão em cada um dos três enrolamentos (em cada uma das fases) de uma fonte trifásica denomina-se
tensão de fase ou tensão simples.
Na figura 1.7. UA , UB e UC são tensões de fase ou tensões simples.

Figura 1.7: Fonte trifásica com ligação em estrela – tensão de fase e tensão de linha.

Numa fonte trifásica com ligação em estrela as tensões de fase são iguais pelo módulo.

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Tensão de fase ou tensão simples.

As tensões de fase estão desfasadas em 120° uma das outras. Ver a figura 1.1.

b) Tensão de Linha ou Tensão Composta

Numa fonte trifásica a tensão entre fases nos terminais da fonte denomina-se tensão de linha ou tensão
composta.

Numa fonte com ligação em estrela as tensões de linha têm o mesmo módulo.

Para a fonte representada na figura 1.7:

→ Tensão de linha ou tensão composta

Pela 2ª Lei de Kirchhoff:

Analogamente,

→ →

Analogamente,

Portanto, numa fonte trifásica em estrela as tensões de linha estão desfasadas em 120° entre si.

Figura 1.8: Relação entre a tensão de fase e a tensão de linha.

Da figura 1.8 pode se ver que:

(1.7.1)

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As correntes nos condutores da linha são designadas por Correntes de Linha e para uma fonte com
ligação em estrela facilmente se pode ver que a corrente de linha é igual à corrente de fase. Ver a figura
1.7.

Numa fonte trifásica com ligação em estrela, a corrente de linha é igual à corrente de fase e o módulo da
tensão de linha é vezes maior que o módulo da tensão de fase.

1.7.2. Ligação dos Enrolamentos duma Fonte Trifásica em Triângulo (ou Delta)

Na ligação em triângulo o final da primeira fase do gerador é ligado ao início da segunda fase, o final
desta com o começo da terceira cujo final se liga ao princípio da primeira.

Figura 1.9: Ligação dos enrolamentos da fonte em triângulo.

O vector soma das f.e.m (um triângulo fechado) é zero. Por isso, desde que não haja carga ligado aos
terminais A, B e C não haverá corrente nos enrolamentos do gerador.

Figura 1.10: Fonte trifásica em triângulo

Pela Lei de Kirchhoff: Ver a figura 1.10.

(quando não há carga ligada aos enrolamentos em triângulo)

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a) Tensão de Fase e Tensão de Linha

Na figura 1.11. as tensões UA, UB e UC são denominadas tensão de fase e as tensões UAB, UBC e UCA são
denominadas tensão de linha.

Observando a figura 1.11. facilmente pode se ver que numa fonte com ligação em triângulo as tensões de
linha são iguais às tensões de fase, ou seja:

Figura 1.11: Tensão de fase e tensão de linha; corrente de fase e corrente de linha

b) Correntes de Linha e Correntes de Fase

Na figura 1.11 as correntes IA, IB e IC são denominadas correntes de linha.

As correntes IBA, IAC e ICB são denominadas correntes de fase.

Na figura 1.11, pela 1ª Lei de Kirchhoff:

Para o nó A:

Para o nó B:

Para o nó C:

Por isso, analogamente à tensão para uma fonte com ligação em estrela, numa fonte com ligação em
triângulo, as correntes de linha são vezes as correntes de fase.

(1.7.2)

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1.8. Ligação de uma Fonte Trifásica em Estrela à uma Carga Trifásica em Estrela com
Condutor Neutro

Figura 1.12: Ligação estrela-estrela com condutor neutro.

1º Caso: Carga Equilibrada

Uma carga trifásica se diz equilibrada quando a impedância em todas as fases é igual.

Carga Equilibrada

No circuito representado na figura 1.12 podemos ver que:

Pela 1ª Lei de Kirchhoff:

→ →

Se a carga for equilibrada , a corrente é nula e o condutor neutro pode ser


dispensado, sem afectar o funcionamento do circuito.

2º Caso: Carga Não Equilibrada

Uma carga trifásica se diz não equilibrada (ou desequilibrada) quando a impedância em pelo menos uma
das fases é diferente das outras fases.

Carga Não Equilibrada

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→ →

Se a carga não for equilibrada teremos no condutor neutro uma corrente diferente de zero. Neste caso
o condutor neutro não pode ser dispensado.

1.9. Ligação de uma Fonte Trifásica em Estrela à uma Carga Trifásica em Estrela sem
Condutor Neutro

Figura 1.13: Ligação estrela-estrela sem condutor neutro.

1º Caso: Carga Equilibrada

Este caso é idêntico ao caso da ligação da fonte em estrela a uma carga equilibrada em estrela com
condutor neutro (1º caso do 1.8). Como a carga é equilibrada a inexistência do condutor neutro não afecta
o funcionamento do circuito.

2º Caso: Carga Não Equilibrada

Neste caso o circuito pode ser facilmente calculado pelo Método do Par de Nós.

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1.10. Ligação de uma Fonte Trifásica em Estrela à uma Carga Trifásica em Triângulo

Figura 1.14: Ligação estrela triângulo.

1º Caso: Carga Equilibrada

Aplicando a 1ª Lei de Kirchhoff:

Nó A:

Nó B:

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Nó C:

Sendo a carga equilibrada as correntes de linha são vezes as correntes da fase.

2º Caso: Carga Desequilibrada ( )

No caso de presença de impedâncias nos condutores de linha pode-se transformar a carga em triângulo,
em estrela equivalente para facilmente se calcular o circuito.

1.11. Potências Num Sistema Trifásico

1º Caso: Carga Desequilibrada

a) Carga em Estrela
Potência Activa

Figura 1.15: Carga em estrela.

Potência Reativa

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Potência Aparente ou Potência Complexa

(Os módulos da potência aparente não podem ser somados, pois a potência aparente é
complexa).

b) Carga em Triângulo
Potência Activa

Potência Reactiva

Figura 1.16: Carga em triângulo.


Potência Aparente ou Potência Complexa

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2º Caso: Carga Equilibrada

Todas as fórmulas anteriores são válidas.

Portanto, para carga equilibrada, independentemente do tipo de ligação da carga, aplicam-se as fórmulas
seguintes:

(1.11.1)

1.12. Medição da Potência Activa nos Sistemas Trifásicos

1.12.1. Carga Desequilibrada com Condutor Neutro

No caso geral (carga desequilibrada e condutor neutro), a medição da potência activa num sistema trifásico
envolve três wattímetros ligados como mostra a figura 1.17.

Figura 1.17: Medição da potência activa, carga desequilibrada.

são leituras dos wattímetros respectivamente.

A potência total consumida pela carga será:

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1.12.2. Carga Desequilibrada Sem Condutor Neutro

Se não houver condutor neutro podem ser usados apenas dois wattímetros, como mostra a figura 1.18. A
soma das duas leituras dará a potência activa do sistema, qualquer que seja o tipo de ligação da carga.

Figura 1.18: Medição da potência activa utilizando dois wattímetros.

A leitura do wattímetro será:

A leitura do wattímetro será:

A potência total será:

P →P

Mas também

P → P (1.12.1)

A equação (1.12.1) permite-nos concluir que a soma da leitura dos dois wattímetros dá-nos a potência activa
total consumida pela carga trifásica.

Observação

Sendo a carga equilibrada, para determinar a potência activa total consumida pela carga, basta medir a
potência activa numa fase e multiplicar o valor obtido por três.

Os métodos de medição da potência activa apresentados em 1.12.1 e 1.12.2 são também válidos para carga
equilibrada.

1.13. Campo magnético de uma bobina percorrida por uma corrente alternada sinusoidal

A bobina representada na figura 1.19 é excitada por uma corrente sinusoidal.

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O campo magnético criado pela corrente i(t) que percorre a bobina é descrito pelo vector indução magnética
B, o seu sentido depende do sentido de enrolamento da bobina e do sentido da corrente num dado instante.

Figura 1.19: Campo magnético criado por uma bobina.

P é o princípio do enrolamento e F é o fim do enrolamento.

Quando a corrente entra pelo terminal P e sai pelo extremo F (sentido positivo da corrente no intervalo de
zero à ), o vector indução magnética aponta para cima.

Durante o semicírculo seguinte, quando a corrente é negativa, o vector B aponta para baixo. Assim o lugar
geométrico da extremidade do vector B é o eixo da bobina. Portanto, o campo magnético criado pela
corrente que percorre a bobina é pulsante e o seu lugar geométrico é o eixo da bobina.

1.14. Geração de um Campo Magnético Girante

Os sistemas trifásicos são caracterizados pela sua aptidão para produzir campos magnéticos girantes. Estes
campos são definidos como sendo aqueles em que o vector representativo da indução magnética B resultante
tem um comprimento fixo, mas roda com velocidade angular constante.

Figura 1.20: Correntes instantâneas trifásicas.

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Figura1.21: Campo magnético criado por três bobinas.

Os campos magnéticos criados pelas três bobinas representadas na figura 1.21 a) ao longo dos eixos +1, +2
e +3 respectivamente serão:

; ;

Vamos determinar o vector indução resultante Br para os instantes ωt = 0 e para ωt = π :

Para

Para

Figura 1.22: Vector indução magnética resultante nos instantes ωt = 0 e ωt = π.

Pode-se igualmente demonstrar que para ωt = 90º o vector Br fica dirigido verticalmente para cima, na
direcção e sentido do eixo +1.

soma algébrica das projecções de sobre o eixo .

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soma das projecções de sobre o eixo será.

É a amplitude da indução resultante.

(1.13.1)

Conclusão:

O vector da indução magnética resultante tem amplitude constante igual a e gira com uma velocidade
angular igual á frequência angular da rede trifásica de alimentação no sentido que vai do princípio da
primeira bobina para o princípio da segunda bobina (sentido horário).

Podemos dizer que o vector da indução magnética resultante gira para o lado da bobina cuja corrente está
em atraso de fase. Se a corrente i2(t) percorrer a terceira bobina e a corrente i1(t) passar para a segunda
bobina o sentido de rotação do campo inverter-se-á.

O motor de indução trifásico é o uso mais comum do campo magnético girante.

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2. FENÓMENOS TRANSITÓRIOS EM CIRCUITOS ELÉCTRICOS

2.1. Introdução

Geralmente os fenómenos transitórios aparecem em circuitos eléctricos quando se fecham ou abrem


interruptores, contudo podem existir fenómenos transitórios devidos a outras causas, tais como ligações
defeituosas, etc.

Nos sistemas eléctricos de potência a ligação e desligação das linhas de transportes, transformadores,
reactâncias, etc. é efectuada por disjuntores de potência, pois têm poder de corte. Os seccionadores não têm
poder de corte, sendo apenas usados para trabalhos em segurança, pois interrompem o circuito de forma
visível. Portanto, os seccionadores são manobrados com corrente nula.

Os fenómenos transitórios associados com as operações de abertura e fecho de interruptores são mudanças
que levam o circuito do estado magnético que existia antes da operação, a um estado magnético depois da
operação sobre o interruptor que duram essencialmente alguns décimos, centésimos ou até mesmo milésimo
de segundo, contudo o seu estudo é importante porque mostra com antecedência qual o aumento perigoso da
tensão ou intensidade da corrente que pode produzir-se em várias secções do circuito e que é muitas vezes
superior ao seu valor em regime permanente.

Figura 2.1. Representação da abertura e fecho do interruptor.

Num circuito eléctrico muitos fenómenos transitórios devem-se a existência de elementos que acumulam
energia.

Numa indutância pode ser acumulada energia magnética:

Numa capacidade acumula-se energia eléctrica:

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2.2. As Leis da Comutação

2.2.1. A 1ª Lei da Comutação

A corrente através de uma indutância imediatamente antes da comutação é igual a corrente através da
mesma indutância imediatamente depois da comutação.

→ é o instante imediatamente antes da comutação;

→ é o instante imediatamente após a comutação;

t=0 → é o instante da comutação, instante em que o interruptor é levado de uma posição para a outra.

Por outras palavras, a Primeira Lei da Comutação diz que a corrente através de uma indutância não pode
variar bruscamente.

Figura 2.2: Circuito RL.

Aplicando a 2ª Lei de Kirchhoff para o circuito da figura 2.2:

Se

A tensão

2.2.2. A 2ª Lei da Comutação

A tensão nos bornes de uma capacidade imediatamente antes da comutação é igual a tensão nos bornes da
mesma capacidade imediatamente depois da comutação.

→ Instante imediatamente antes da comutação.

→ Instante imediatamente depois da comutação.

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Figura 2.3: Circuito RC.

Aplicando a 2ª Lei de Kirchhoff para o circuito da figura 2.3: R.C +

; O que contradiz a 2ª Lei de Kirchhoff.

Por outras palavras, a tensão nos bornes de um capacitor não pode variar bruscamente.

A corrente através de um capacitor pode variar bruscamente.

2.3. Métodos de Análise dos Processos Transitórios

São três métodos principais:

1. Método Clássico;
2. Método Operacional;
3. Método do Integral de Duhamel.

Nas nossas aulas analisaremos os fenómenos transitórios relacionados com a abertura e fecho de
interruptores pelo método clássico.

2.4. Método Clássico

Algoritmo de Cálculo

1. Constituir as equações diferenciais para o circuito eléctrico obtido depois da comutação;


2. Escrever a(s) solução(s) como soma de duas componentes:

a) Componente forçada (componente estacionária) – Solução da equação diferencial não


homogenia (t → +∞). Esta componente depende da força aplicada ao circuito (fonte de
alimentação).

b) Componente livre (componente transitória) – Solução geral da equação diferencial homogenia.


É solução de uma equação independente da força aplicada.

3. Escrever a equação característica e determinar as suas raízes;

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4. Determinar as constantes de integração usando as condições inicias. Para isso geralmente calcula-se
o circuito antes da comutação e através das leis da comutação determinam-se as constantes de
integração.

2.5. Processos Transitórios no Circuito R – L

Vamos analisar os fenómenos transitórios no circuito representado na figura 2.4 pelo método clássico.

Figura 2.4: Processos transitórios no circuito R-L.

1º Passo:

Como ;

(2.5.1)

A equação (2.5.1) é equação diferencial linear do primeiro grau.

2º Passo:

A solução da equação (2.5.1) é da forma:

(2.5.2)

não varia é constante, é solução particular da equação diferencial não homogénea, equação (2.5.1).

é a solução geral da equação diferencial homogénea (ou solução geral), equação (2.5.3).

A equação diferencial linear homogenia associada é

(2.5.3)

Da matemática, a solução da equação diferencial linear homogenia (componente livre) é da forma:

► Solução da equação (2.5.3)

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Substituindo a componente livre na equação (2.5.2), obtém-se,

3º Passo

→ é a equação característica (2.5.4)

A raiz da equação característica é:

Podemos ter dois casos a saber:

Caso A: Circuito Alimentado por uma Fonte de Tensão Contínua u(t) = U

Quando t → + ∞ a corrente no circuito será contínua Iest. Ver a figura 2.4.

Fisicamente quando a corrente eléctrica não varia.

4º Passo

Vamos determinar as constantes de integração a partir das condições iniciais e das leis da comutação.

Quando tem-se:

Como temos uma indutância no circuito, vamos aplicar a 1ª Lei da Comutação. Ou seja, numa indutância a
corrente não pode variar bruscamente.

→ 1ª lei da comutação

Antes da comutação a corrente no circuito era nula, pois o circuito estava aberto.

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Onde

A grandeza é denominada Constante de Tempo. Sua unidade no Sistema Internacional é o segundo.

A tensão nos terminais da resistência será: →

A tensão nos terminais da indutância será:

Figura 2.5: Circuito R – L. Corrente e tensões transitórias

Caso B: Circuito Alimentado por Fonte de Tensão Alternada Sinusoidal

Ver a figura 2.4.

pois

Como a tensão de alimentação é alternada sinusoidal, a corrente em regime permanente no circuito, corrente
quando o tempo tende para infinito, corrente estacionária, também será alternada sinusoidal e em atraso em
φ em relação à tensão aplicada ao circuito devido ao carácter indutivo da carga.

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; ;

→ Componente estacionária da corrente

A corrente no circuito será:

Vamos determinar as constantes de integração a partir das condições iniciais e das leis da comutação:

Para →

→ 1ª lei da comutação, aplicada à indutância no circuito.

Antes da comutação o circuito estava aberto →

Portanto,

Como o circuito não alterou, apenas se substituiu a fonte de alimentação, ou seja, continua com os mesmos
elementos, então: Ver a equação (2.5.4).

Analisando esta equação, nota-se que para a componente transitória da corrente desaparece, ou

seja, .

Portanto, para se estabelece imediatamente no circuito o regime estacionário (regime permanente).

Figura 2.6: Circuito RL – Fonte alternada sinusoidal.

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2.6. Desligação do Circuito R – L da Fonte

Vamos analisar a desligação do circuito R – L da fonte. Vamos supor que na desligação, o interruptor passa
imediatamente da posição a para a posição b.

Figura 2.7: Desligação do circuito R-L da fonte.

Aplicando a 2ª Lei de Kirchhoff para o circuito obtido após a comutação:

Fisicamente, a componente forçada (componente estacionária) depende da força aplicada, fonte de


alimentação, ao circuito obtido depois da comutação, ou seja, depende do termo independente da equação
diferencial obtida depois da comutação. Neste caso, a componente forçada é nula. Ver a figura 2.7.

Analisando o circuito da figura 2.7, facilmente podemos concluir que com o tempo, a corrente, no circuito
obtido após a comutação, tende para zero pois não há nenhuma fonte de energia no circuito. Por isso,

A corrente no circuito: mas como então,

Substituindo na equação da 2ª lei de Kirchhoff para o circuito:

Como no circuito obtido há uma indutância, podemos aplicar a 1ª lei da comutação.

Antes da comutação, com fonte de tensão contínua a corrente era:

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A corrente no circuito será:

A tensão nos terminais da bobina será:

→ →

Figura 2.8: Desligação do circuito R-L.

No circuito da figura 2.7. obtido após a comutação, vamos curto-circuitar a resistência , ou seja, .

2.7. Processos Transitórios no Circuito R – C

Vamos analisar os fenómenos transitórios no circuito R-C representado na figura 2.9.

Figura 2.9: Processos transitórios num circuito R-C.

Escrevendo a equação da 2ª lei de Kirchhoff para o circuito obtido após a comutação:

A corrente que atravessa um capacitor é dada pela equação:

Substituindo na equação que traduz a 2ª lei de Kirchhoff:

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→ é uma equação diferencial linear do 1º grau.


A solução da equação diferencial linear do 1º grau cuja variável é uC apresenta duas componentes, uma
componente estacionária (forçada) e uma componente livre (transitória):

Quando o tempo tende para infinito, sendo tensão contínua aplicada ao circuito, a tensão nos terminais do
capacitor será igual à tensão aplicada.

Para este circuito (fig. 2.9), a equação diferencial homogenia associada será:

Sendo equação diferencial linear do 1º grau, cuja solução, ou componente livre, será da forma:

Vamos escrever a equação característica:

é a raiz da equação característica

Portanto, a tensão nos terminais do capacitor será:

Vamos calcular a tensão nos terminais do capacitor antes da comutação e aplicar a 2ª lei da comutação para
determinar as constantes de integração.

Antes da comutação o circuito estava aberto, a tensão nos terminais do capacitor era nula, mas vamos supor
que antes da comutação o capacitor estava carregado, com tensão UC0.

Aplicando a 2ª lei da comutação, pois temos um capacitor no circuito:

Então,

Depois de determinarmos a constante de integração podemos escrever a expressão da tensão nos terminais
do capacitor:

Onde

A corrente que atravessa um capacitor é dada pela equação:

→ →

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Figura 2.10: Processos transitórios num circuito R-C.

2.8. Descarga de Um Condensador Através duma Resistência

Vamos analisar a descarga do capacitor C através da resistência R1. Vamos supor que o interruptor passa
instantaneamente da posição a para a posição b.

Figura 2.11: Descarga de um condensador

A tensão na resistência R1 e a corrente através do condensador C serão dados pelas expressões


e respectivamente.

A corrente através do condensador tem sinal negativo pois tem sentido contrário à tensão nos terminais do
mesmo.

Aplicando a 2ª lei de Kirchhoff ao circuito obtido após a comutação:

→ ► Equação diferencial linear do 1º


grau.

A solução desta equação apresenta duas componentes, uma componente estacionária e uma componente
livre.

A componente estacionária da tensão (ucest) é nula, pois com o tempo a tensão nos terminais do capacitor
será nula, ou seja, o capacitor vai descarregar. Consequentemente a corrente estacionária no circuito será
nula.

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A solução da equação diferencial linear apresentada será da forma:

A equação diferencial homogenia ser

Cuja solução é da forma:

Substituindo na equação diferencial homogenia, obtemos:

→ ► Equação característica

Cuja raiz é

A tensão nos terminais do capacitor será: →

Vamos calcular a tensão no capacitor antes da comutação para determinar a constante A:

Ou seja, antes da comutação a tensão no capacitor era igual à tensão aplicada ao circuito (tensão contínua).

Aplicando a 2ª lei da comutação:

Assim,

Portanto, a tensão no capacitor será:

Figura 2.12: Gráficos – descarga de um condensador

A corrente no circuito obtido após a comutação será:

→ →

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2.9. Processos Transitórios no Circuito RLC

Vamos analisar os fenómenos transitórios no circuito RLC representado.

Figura 2.13: Ligação dum circuito RLC.

A corrente no capacitor é dada pela seguinte expressão: (2.9.1)

Aplicando a 2ª lei de Kirchhoff para o circuito obtido após a comutação: (2.9.2)

A tensão nos terminais da indutância é: (2.9.3)

A partir das equações 2.9.1 e 2.9.3 obtemos: (2.9.4)

Da equação (2.9.2):

→ (2.9.5)

A equação (2.9.5) é equação diferencial linear do 2º grau.

Da matemática a solução desta equação apresenta duas componentes, uma componente estacionária e uma
componente transitória ou livre.

(2.9.6)

No regime estacionário (regime permanente), a corrente no circuito será nula pois a tensão aplicada ao
circuito é contínua (circuito aberto no condensador) e consequentemente a tensão aplicada ao circuito será
igual a tensão nos terminais do condensador.

A equação diferencial homogenia associada é:

(2.9.7)

Da matemática:

Diferenciando,
e

Substituindo em (2.9.7):

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(2.9.8)

A equação (2.9.8) é a equação característica do circuito. Facilmente podemos ver que se trata de uma
equação quadrática. Vamos determinar suas raízes. Dividindo ambos os membros por LC,

Resolvendo a equação (2.9.8):

↔ (2.9.9)

Podem se verificar os seguintes três casos:

Caso A:

► Duas raízes reais e diferentes (p1 ≠ p2)

Caso B:

► Duas raízes reais e iguais ( )

Caso C:

► Duas raízes complexas diferentes.

As raízes aparecem sempre em pares conjugados.

^ (2.9.10)

é a frequência angular das oscilações próprias;

é o coeficiente de amortecimento.

Caso A: Duas Raízes Reais Diferentes (p1 ≠ p2)

A componente transitória será:

(2.9.11)

Da equação (2.9.6),

(2.9.12)

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Vamos calcular as constantes de integração, para tal vamos determinar as condições iniciais e aplicar as leis
da comutação.

Antes da comutação o capacitor estava desligado da fonte (circuito aberto) e vamos supor que estava
completamente descarregado, ou seja,

Aplicando a 2ª lei da comutação:

Substituindo na equação (2.9.12),

↔ (2.9.13)

Na equação (2.9.13) temos duas incógnitas. Portanto, precisamos de mais uma equação para determinar o
valor das incógnitas.

A corrente no circuito será:

Substituindo uc , equação (2.9.12), na expressão da corrente no capacitor, equação (2.9.1), obtemos

↔ (2.9.14)

Antes da comutação o circuito estava aberto, portanto, a corrente no circuito era nula ]

Aplicando a 1ª lei da comutação, pois temos uma indutância no circuito:

Portanto,

Formando um sistema de equações constituído pelas equações (2.9.13) e (2.9.14):

↔ (2.9.15)

↔ (2.9.16)

Substituindo as constantes obtidas (A1 e A2) na equação (2.9.12):

↔ (2.9.17)

A corrente no circuito é dada pela equação (2.9.14). Substituindo as constantes A1 e A2 na equação (2.9.14):

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↔ (2.9.18)

A tensão na resistência será:

A tensão na indutância será:

Caso B: Duas Raízes Reais Iguais

A componente transitória da tensão será:

(ver o caso A).

A tensão nos terminais do condensador:

↔ (2.9.19)

Antes da comutação (circuito aberto) a tensão no capacitor era nula (ver caso A).

Aplicando a 2ª lei da comutação,

Portanto,

Da equação (2.9.18):

Aplicando a 1ª lei da comutação ao circuito:

► pois antes da comutação a corrente era nula no circuito.

A corrente no circuito será:

↔ ) (2.9.20)

Como então,

↔ ↔

Substituindo as constantes obtidas (A1 e A2 ) podemos reescrever as equações (2.9.19) e (2.9.20) como
sendo:

A corrente no circuito será:

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Caso C: Duas Raízes Complexas Conjugadas ( e )

Ou seja,

;
A componente transitória da tensão nos terminais do capacitor será:

A corrente será,

A tensão nos terminais do condensador:

; ;

Fazendo uma análise idêntica aos casos anteriores, determinando as condições iniciais e aplicando as leis da
comutação, obtemos,

Estas expressões descrevem oscilações sinusoidais amortecidas, onde é a frequência angular da


oscilação e o coeficiente de amortecimento.

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2.10. Determinação da Equação Característica a Partir da Expressão da Impedância de


Entrada

Algoritmo

1º Escrever a expressão da impedância de entrada para qualquer ramo do circuito obtido depois da
comutação entre os dois terminais;

2º Substituir na expressão obtida todos os produtos pelo operador

3º Igualar a expressão obtida a zero e obter a equação característica;

Exemplo:

Vamos determinar a equação característica do circuito representado na figura 2.14, a partir da expressão da
impedância de entrada.

Figura 2.14: Impedância de Entrada – Equação característica

↔ ↔ ↔

↔ É equação característica.

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3. REDES DE QUATRO TERMINAIS OU QUADRIPOLOS

3.1. Introdução

Uma rede de quatro terminais (ou quadripolo) é um circuito eléctrico com dois terminais de entrada e dois
terminais de saída. Aos terminais de entrada geralmente liga-se a fonte de energia e aos terminais de saída
geralmente se liga a carga. Portanto, um quadripolo é usualmente um elo intermediário entre a fonte de
energia e a carga.

Exemplo de quadripolos: transformadores de potência; linhas de transporte de energia, circuitos em ponte;


etc.

Figura 3.1: Quadripolo

Os terminais m e n são terminais de entrada (input), onde geralmente se liga a fonte de energia;

Os terminais p e q são terminais de saída (output), onde geralmente se liga a carga.

3.2. Classificação de Quadripolos

a) Quanto a presença de fontes de energia:

 Quadripolos Passivos – Quando não contêm nenhuma fonte de alimentação.

Figura 3.2: Representação de Quadripolo Passivo

 Quadripolos Activos - Quando contêm pelo menos uma fonte de energia.

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Figura 3.3: Representação de quadripolo activo.

c) Quanto a presença de elementos lineares:

 Quadripolos Lineares - Quando contêm unicamente elementos lineares.


 Quadripolos Não Lineares – Quando contêm pelo menos um elemento não linear

3.3. Quadripolos Simétricos

Com a fonte de alimentação e a carga trocadas as correntes e as tensões respectivas permanecem


inalteráveis, ou seja, o quadripolo simétrico não muda as correntes e as tensões no circuito externo se
trocarmos os terminais de entrada e de saída. Caso contrário, o quadripolo diz-se não simétrico.

Figura 3.4: Quadripolo Simétrico

No quadripolo representado na figura 3.4, primeiro ligou-se a fonte aos terminais m e n do quadripolo e a
carga aos terminais p e q. Em seguida ligou-se a fonte aos terminais p e q e a carga aos terminais m e n. Para
quadripolo simétrico: ; ; ;

3.4. Descrição Matemática dos Quadripolos

Para qualquer quadripolo, ver a figura 3.1, temos 4 grandezas (ou variáveis): U1, I1, U2 e I2.

Quaisquer duas grandezas podem ser determinadas por meio das restantes duas grandezas, bastando para tal,
conhecer os parâmetros ou as ligações internas do quadripolo. Portanto, pode se formar um sistema de duas
equações à duas incógnitas.

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O que significa que são possíveis 6 modelos para descrever os quadripolos, designados por A, Y, Z, H, G e
B.

1º Modelo 2 º Modelo :

3 º Modelo : 4 º Modelo :

5 º Modelo : 6º Modelo B:

Nestas equações as constantes A, Y, Z, H, G e B são os parâmetros gerais do circuito (do quadripolo) ou


lineares do quadripolo e dependem das suas ligações internas e da frequência. Para qualquer rede de quatro
terminais, eles podem ser calculados ou determinados experimentalmente.
Pressupõe-se que tanto a carga como as tensões de entrada podem variar, enquanto as ligações internas do
quadripolo permanecem inalteradas e as impedâncias do quadripolo permanecem fixas.

3.5. Constantes do Modelo A

Neste capítulo, usaremos o modelo A, como o modelo básico. Ver a figura 3.1.
Pelo teorema da compensação: Ver a figura 3.5.

(3.5.1)

(3.5.2)

Figura 3.5: Aplicação do teorema da compensação ao quadripolo


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Aplicando o teorema de reciprocidade pode-se escrever as expressões para as correntes

(3.5.3)

(3.5.4)

Em que as admitâncias e são admitâncias de transferência.

As admitâncias são admitâncias de entrada ou admitâncias próprias.

Da equação (3.5.4) temos:

(3.5.5)

Comparando as equações (3.5.5) e (3.5.1), podemos ver que:

e (3.5.6)

Substituindo a equação (3.5.5) na equação (3.5.3), podemos obter:

↔ (3.5.7)

Comparando a equação (3.5.7) com a equação (3.5.2), podemos concluir que:

; (3.5.8)

O teorema da reciprocidade aplica-se apenas para circuitos lineares, por isso, para quadripolos lineares

Neste caso,

Vamos calcular o valor da expressão: (3.5.9)

Substituindo os parâmetros do modelo A da expressão (3.5.9) pelos valores obtidos (equações 3.5.6 e 3.5.8),
obtemos:

Portanto, no modelo A os coeficientes do quadripolo ligam-se entre si através da relação

(3.5.10)

Consideremos agora as relações entre se a tensão de alimentação é ligada aos terminais p e q


e a carga aos terminais m e n. Ver a figura 3.6.

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Figura 3.6: Alimentação e a carga do quadripolo trocadas.

Como no caso anterior, substituímos a impedância pela força electromotriz de sentido contrário à
(teorema da compensação). Ver a figura 3.7.

Figura 3.7: Teorema da compensação aplicado ao quadripolo.

Aplicando o teorema da reciprocidade, podemos escrever as equações para as correntes no quadripolo


obtido,
(3.5.11)

(3.5.12)

Podemos reescrever as equações (3.5.11) e (3.5.12) da seguinte forma:

(3.5.11)

(3.5.12)

Da equação (3.5.12),

(3.5.13)

Comparando as equações (3.5.13) e (3.5.1), podemos ver que

Substituindo a equação (3.5.13) na equação (3.5.11) obtemos

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(3.5.14)

Comparando as equações (3.5.14) e (3.5.2) facilmente podemos ver que

Comparando os A parâmetros obtidos com a alimentação trocada (alimentação ligada aos terminais p e q)
com os A parâmetros obtidos com a alimentação ligada aos terminais m e n, podemos verificar que os
parâmetros A11 e A22 aparecem trocados.
Portanto, com a alimentação e a carga trocadas o modelo A pode se escrever da seguinte forma:
(3.5.15)

(3.5.16)

Se com a alimentação e a carga trocadas e as respectivas correntes permanecem as mesmas tal rede é
chamada simétrica. Num quadripolo simétrico sempre se verifica a igualdade seguinte:

3.6. Determinação dos Parâmetros do Quadripolo

Os coeficientes complexos do quadripolo podem ser determinados usando os seguintes


métodos:
1. Método analítico (sabendo o esquema das ligações internas dos seus elementos e os valores das
suas impedâncias. Muitas vezes aplicam-se as leis de Kirchhoff e outros métodos de cálculo.

2. Usando os regimes de marcha em vazio e de curto-circuito do quadripolo. Este método pode ser
aplicado analiticamente ou experimentalmente:
a) Analiticamente se as ligações internas e os valores dos seus elementos são conhecidos.
b) Experimentalmente no laboratório.
3. Usando o método de representação do quadripolo em esquema em π ou esquema em T.
4. Representação de quadripolos complexos por meio de quadripolos simples;

3.6.1. Determinação dos Parâmetros Usando os Regimes de Marcha em Vazio e Curto-circuito

Este método também conhecido por método das três impedâncias prevê três experiências realizadas
analiticamente ou experimentalmente através de aparelhos de medida.
Vamos determinar os A parâmetros do quadripolo representado na figura 3.1, por meio dos regimes de
marcha em vazio (circuito aberto) e curto-circuito.

1ª Experiência (Regime de Marcha em Vazio nos terminais p e q)

Nesta experiência a fonte de alimentação é ligada aos terminais m e n e os terminais p e q são abertos
(marcha em vazio), sendo consequentemente a corrente I2 = 0.

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É medida a impedância vista dos terminais m e n da rede com os terminais p e q da carga em circuito
aberto (a carga é desligada).

Figura 3.8: Regime de marcha em vazio (terminais p e q abertos)

Como I2 = 0 nesta experiência, a partir das equações (3.5.1) e (3.5.2) teremos:

(3.6.1)

(3.6.2)

Dividindo a equação (3.6.1) pela equação (3.6.2), obtemos

↔ (3.6.3)

2ª Experiência (Regime de Curto-circuito nos terminais p e q)

Nesta experiência a fonte de alimentação é ligada aos terminais m e n e os terminais p e q são curto-
circuitados, sendo, consequentemente, a tensão U2 = 0.
É medida a impedância vista dos terminais m e n da rede com os terminais p e q curto-circuitados.

Figura 3.9: Regime de curto-circuito (terminais p e q curto-circuitados).

Nesta experiência, a partir das equações (3.5.1) e (3.5.2) teremos,

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Dividindo a equação da tensão pela equação da corrente neste regime, obtemos

↔ ↔ (3.6.4)

3ª Experiência (Regime de Curto-circuito nos terminais m e n)

Nesta experiência a fonte de alimentação é ligada aos terminais p e q e os terminais m e n são curto-
circuitados, sendo, consequentemente, a tensão U2 = 0.
É medida a impedância vista dos terminais p e q da rede com os terminais m e n da carga curto-
circuitados.

Figura 3.10: Regime de curto-circuito (terminais m e n curto-circuitados).

A partir das equações (3.5.1) e (3.5.2), neste regime teremos,

Dividindo a equação da tensão pela equação da corrente, obtemos,

↔ (3.6.5)

Resumindo, obtivemos quatro equações para as quatro incógnitas .

(3.6.6)

Resolvendo este sistema de equações obtemos:

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3.6.2. Medição dos Parâmetros do Quadripolo

Vamos determinar os parâmetros do quadripolo, experimentalmente, através dos aparelhos de medição.

1ª Experiência (Regime de Marcha em Vazio nos terminais p e q)

Nesta experiência a fonte de alimentação é ligada aos terminais m e n e os terminais p e q são abertos
(marcha em vazio), sendo consequentemente a corrente I2 = 0.

Figura 3.11: Regime de marcha em vazio (terminais p e q abertos).

Voltímetro → U10 ; Amperímetro → I10 ; Wattímetro → P10

Com base nos valores obtidos da potência activa P10, da tensão U10 e da corrente I10, podemos calcular o
ângulo φ10 para posteriormente calcularmos a impedância complexa Z10.

; ; ;

Mas uma vez que é importante conhecer o sinal do ângulo .

Para determinar o sinal do ângulo podemos usar um fasímetro, ou aplicar o método artificial estudado em
Electrotecnia Teórica I, capítulo Corrente Alternada Através de Uma Rede de Dois Terminais.
Portanto, nesta experiência determinamos Z10.

2ª Experiência (Regime de Curto-circuito nos terminais p e q)

Nesta experiência a fonte de alimentação é ligada aos terminais m e n e os terminais p e q são curto-
circuitados, sendo, consequentemente, a tensão U2 = 0. Ver a figura 3.12.

Figura 3.12: Regime de curto-circuito (terminais p e q curto-circuitados).

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Curto-circuito nos terminais p e q → U2 = 0 →

Voltímetro → U1k ; Amperímetro → I1k ; Wattímetro → P1k

Com base nos valores obtidos da potência activa P1k, da tensão U1k e da corrente I1k, calculamos o valor do
ângulo φ1k para posteriormente calcularmos a impedância complexa Z1k.

; ;

Mas uma vez que é importante conhecer o sinal do ângulo .

Para determinar o sinal do ângulo podemos usar um fasímetro, ou aplicar o método artificial estudado em
Electrotecnia Teórica I, capítulo Corrente Alternada Através de Uma Rede de Dois Terminais.
Nesta experiência determinamos Z1k.

3ª Experiência (Regime de Curto-circuito nos terminais m e n)

Nesta experiência a fonte de alimentação é ligada aos terminais p e q e os terminais m e n são curto-
circuitados, sendo, consequentemente, a tensão U2 = 0. Os aparelhos de medida são ligados aos terminais p e
q do quadripolo.

Curto-circuito nos terminais m e n → U2 = 0 →

Voltímetro → U1k ; Amperímetro → I1k ; Wattímetro → P1k

Com base nos valores obtidos da potência activa P1k, da tensão U1k e da corrente I1k, calculamos o valor do
ângulo φ1k para posteriormente calcularmos a impedância complexa Z1k.

; ;

Mas uma vez que é importante conhecer o sinal do ângulo . Nesta experiência
determinamos Z2k.

Depois de calcularmos as impedâncias Z10, Z1k e Z2k com base no sistema de equações (3.6.6) calculamos os
parâmetros do quadripolo A11, A12, A21 e A22.

3.7. Impedância de Entrada de Quadripolos

Num quadripolo, o coeficiente entre a tensão de entrada pela corrente da entrada chama-se Impedância de
Entrada do Quadripolo.

Figura 3.13: Impedância de entrada Zent1 do quadripolo.

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Na figura 3.13, a carga está ligada aos terminais p e q. Com base nas equações (3.5.1) e (3.5.2), obtemos.

Como

Na figura 3.14, a carga está ligada aos terminais m e n. Com base nas equações (3.5.15) e (3.5.16) obtemos:

Figura 3.14: Impedância de entrada Zent2 do quadripolo

Conclusão

A impedância de entrada depende da impedância da carga.

3.8. Impedância Característica de Quadripolos

Para um quadripolo não simétrico existem tais valores das impedâncias.

e tal que

Quando os terminais p e q está ligada a impedância de carga e

Quando os terminais m e n está ligada a impedância de carga

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Figura 3.15: Impedância Característica do quadripolo.

Cálculo da Impedância Característica

Resolvendo este sistema de equações obtemos,

Para um quadripolo simétrico: consequentemente

3.9. Representação de Quadripolos Em Esquemas Equivalentes

3.9.1. Quadripolo em T

Qualquer quadripolo passivo pode ser representado no esquema em T equivalente.

Figura 3.16: Esquema em T de um quadripolo

Vamos exprimir U1 e I1 à entrada do quadripolo em T representado na figura 3.16, de modo a obtermos


equações semelhantes às equações (3.5.1) e (3.5.2).

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→ 1ª Lei de Kirchhoff.

Pela 2ª Lei de Kirchhoff,

↔ (3.9.1)

Comparando a equação (3.9.1) com a equação (3.5.2), facilmente podemos ver que,

e (3.9.2)

Aplicando a 2ª Lei de Kirchhoff para a malha exterior do quadripolo em T,

Substituindo a corrente I1,

↔ (3.9.3)

Comparando a equação (3.9.3) com a equação (3.5.1), podemos ver que

e (3.9.4)

Portanto, conhecendo os valores das impedâncias , podemos calcular os parâmetros A do


quadripolo em T, através das equações (3.9.2) e (3.9.4).

Resolvendo as equações (3.9.2) e (3.9.4), obtemos as equações (3.9.5), que nos permitem calcular os valores
das impedâncias do quadripolo em T, conhecendo os parâmetros A do quadripolo dado.

; e (3.9.5)

Se a rede de quatro terminais (quadripolo) original for simétrica, então

(3.9.6)

3.9.2. Quadripolo em π

Qualquer quadripolo passivo pode ser representado no esquema em π equivalente.

Figura 3.17: Esquema em π equivalente de um quadripolo

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Para o quadripolo representado na figura 3.17, aplicando a 2ª Lei de Kirchhoff na malha exterior,

Mas → 1ª Lei de Kirchhoff

Substituindo,

↔ (3.9.7)

Comparando as equações (3.9.7) e (3.9.1),

e (3.9.8)

Pela 1ª Lei de Kirchhoff,

↔ (3.9.9)

Comparando as equações (3.9.9) e (3.5.2),

e (3.9.10)

Com os valores das impedâncias , podemos calcular os parâmetros A do quadripolo em T,


através das equações (3.9.8) e (3.9.10).
Resolvendo as equações (3.9.8) e (3.9.10), obtemos as equações

; e (3.9.11)

As equações (3.9.11) permitem-nos determinar as impedâncias Z1, Z2 e Z3 do esquema π equivalente de


qualquer quadripolo passivo, conhecendo os parâmetros A.
Para um quadripolo simétrico, consequentemente

3.10. Acoplamento de Quadripolos

3.10.1. Ligação de Quadripolos Em Cascata

Neste tipo de ligação os terminais de entrada do quadripolo posterior são ligados aos terminais de saída do
quadripolo precedente.
Vamos associar em cascata os quadripolos a e b representados na figura 3.18.
Para o quadripolo a podemos escrever as equações seguintes:
(3.10.1)

(3.10.2)

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Figura 3.18: Ligação dos quadripolos a e b em cascata

Podemos reescrever as equações (3.10.1) e (3.10.2) na forma matricial

Onde (3.10.3)

Para o quadripolo b podemos escrever as equações seguintes:


(3.10.4)

(3.10.5)

Na forma matricial as equações (3.10.4) e (3.10.5) podem ser reescritas da seguinte forma:

(3.10.6)

Na figura 3.18, analisando o esquema de ligação dos dois quadripolos, podemos ver que

Uma vez que e

Figura 3.19: Quadripolo resultante

Analisando a figura 3.19 facilmente podemos concluir que

Das equações (3.10.3) e (3.10.6), obtemos

↔ (3.10.7)

A equação (3.10.7) mostra que a matriz A do quadripolo resultante da associação em cascata dos
quadripolos a e b é dada pela multiplicação das matrizes a e b dos quadripolos originais.

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3.10.2. Ligação dos Quadripolos Em Série

Neste tipo de ligação, ligam-se em serie os terminais de entrada e os terminais de saída separadamente.

Para quadripolos ligados em serie é mais fácil trabalhar com os parâmetros Z.

Figura 3.20: Ligação dos quadripolos a e b em série.

Equações do modelo Z.

Para o quadripolo a, temos as seguintes equações:

(3.10.8)

Analogamente, para o quadripolo b temos as seguintes equações:

(3.10.9)

Somando (3.10.8) e (3.10.9), pois na ligação em série as tensões são somadas, obtemos

(3.10.10)

Na figura 3.20 facilmente podemos ver que

Portanto, a equação (3.10.10) podemos reescrever da seguinte forma:

↔ (3.10.11)

Da equação (3.10.11) podemos concluir que

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Figura 3.21: Ligação dos quadripolos a e b em série – Quadripolo resultante ou equivalente.

A matriz do quadripolo equivalente é a soma das matrizes Z dos quadripolos individuais.

3.10.3. Ligação dos Quadripolos Em Paralelo

Na ligação em paralelo, são ligados em paralelo os terminais de entrada, assim como os terminais de saída
separadamente.

Figura 3.22: Ligação dos quadripolos a e b em paralelo.

Neste tipo de ligação é mais fácil usar o modelo admitância ou modelo Y.

Equações do Modelo

Equações do modelo Y na forma matricial

Para o quadripolo a temos a seguinte equação:

(3.10.12)

Analogamente para o quadripolo b temos,

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(3.10.13)

Analisando a figura 3.22 podemos verificar que

; ; e (3.10.14)

Com base nas equações (3.10.14), podemos escrever,

↔ * (3.10.15)

Da equação (3.10.15) podemos concluir que

Figura 3.23: Ligação dos quadripolos a e b em paralelo – Quadripolo resultante.

A matriz Y do quadripolo equivalente é a soma das matrizes Y dos quadripolos individuais.

3.11. Concordância dum Quadripolo Ligado Entre Uma Fonte e Uma Carga

Para transferência de potência máxima de um bipolo activo a uma carga é necessário que

Para o caso de um quadripolo:

Figura 3.24: Concordância de quadripolo.

Para que a potência transferida da fonte para a carga seja máxima.

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4. O CAMPO ELECTROSTÁTICO

4.1. Introdução

O campo electromagnético é uma forma de matéria. Transporta energia e possui um conjunto de


propriedades eléctricas e magnéticas.
O campo electrostático é um caso particular de um campo electromagnético. Define-se como a região na
qual uma partícula carregada estacionaria estará sujeita a uma força devida a uma distribuição de cargas em
repouso em relação a um referencial invariável com o tempo.
Da física sabe-se que qualquer substância é constituída por partículas elementares carregadas rodeadas por
um campo electromagnético. Assim pode se dizer que em qualquer substância há descontinuidades
microscópicas no espaço.
Além disso, as partículas elementares carregadas que constituem os átomos e moléculas de uma substância
estão continuamente em movimento ao acaso.
Assim, além das descontinuidades microscópicas no espaço, há sempre mudança de posição (os
deslocamentos) de cargas microscópicas em espaços de tempo consecutivos. Na teoria de campo, considera-
se a média das descontinuidades microscópicas quer no espaço e no tempo, isto é, os fenómenos são
examinados macroscopicamente.
Num corpo carregado, a carga total considera-se invariável com o tempo, as cargas elementares movem-se
ao acaso. Portanto, o campo magnético devido às cargas elementares é praticamente inexistente mesmo
perto da superfície do corpo. É por esta razão que se pode considerar apenas um aspecto do campo
electromagnético ou seja o campo eléctrico.

Lei de Coulomb

A força de atracção ou repulsão entre duas cargas eléctricas, , pontuais e colocadas no vazio, é
proporcional ao produto das suas grandezas e é inversamente proporcional ao quadrado da distância entre
elas.

Figura 4.1: Lei de Coulomb

(4.1.1)

Onde,

são as cargas em Coulomb;


é a permitividade do vácuo;
é a distância entre as cargas em metros.

é o vector unitário cuja direcção é a da linha que une as cargas e cujo sentido é o da força que actua entre
elas.

é a força em Newtons.

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; ; e

Para cargas de sinais contrários a força é de atracção, para cargas do mesmo sinal a força é de repulsão.

4.2. Intensidade do Campo Electrostático

Se se coloca num campo electrostático uma carga positiva estacionária tão pequena que não dê origem a
qualquer mudança na distribuição de cargas nos corpos que produzem o campo, a razão entre a força que
actua sobre a carga e a grandeza da carga é igual à intensidade do campo eléctrico no ponto considerado.

(4.2.1)

A intensidade do campo eléctrico é numericamente igual a força que actua sobre a carga unitária.

Se um campo electrostático é devido a varias cargas ( a intensidade do campo electrostático


resultante será o vector soma das intensidade dos campos electrostáticos devidos a cada uma das cargas:

Figura 4.2: Campo electrostático no ponto A.

Na figura 4.2, o campo electrostático no ponto A será a soma vectorial dos campos devidos as cargas q1 e q2.

O princípio da sobreposição também é valido para o campo eléctrostático.

Das equações (4.1.1) e (4.2.1), podemos escrever,

↔ (4.2.2)

Da equação (4.2.1), podemos obter a unidade do campo electrostático no SI.

4.3. Linhas de Força

Um campo electrostático pode ser representado por um conjunto de linhas de força. Uma linha de força
eléctrica é um percurso imaginário no campo que começa numa carga positiva e termina numa carga
negativa igual. Desenha-se de tal modo que o seguimento de tangente à linha em qualquer ponto dá a
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direcção da intensidade de campo nesse ponto. Uma carga positiva muito pequena que se possa mover
livremente no campo e sem inercia seguiria o percurso da linha de força.

Figura 4.3: Linhas de força do campo electrostático.

4.4. Potencial do Campo Eléctrico

O campo electrostático é definido pelas grandezas intensidade do campo electrostático e o potencial . O


potencial do campo electrostático em qualquer ponto é uma grandeza escalar.

Figura 4.4: Trabalho realizado pelas forças do campo electrostático.

Consideremos uma carga colocada num campo eléctrostático. A força que actua sobre a carga é

; Sendo,

O trabalho realizado pelas forças do campo electrostático sobre a carga , para levar a carga q do ponto 1 ao
ponto 2 é dado por

(4.4.1)

A carga pode ter qualquer valor.

Suponhamos que a carga q é uma carga positiva e unitária

( ou seja, carga unitária)

Então, o trabalho realizado sobre esta carga ao leva-la do ponto 1 para o ponto 2 é numericamente igual à
diferença de potencial:

(4.4.2)

Se o potencial no ponto 2 é zero, então

(4.4.3)

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O potencial em qualquer ponto dum campo electrostático é definido como o trabalho realizado pelas forças
do campo para transportarem uma carga positiva unitária de um dado ponto para outro ponto onde o
potencial é zero.

Se o campo electrostático é devido a varias cargas, o potencial num ponto será a soma algébrica dos
potenciais devido a cada uma das cargas eléctricas.

Figura 4.5: Potencial devido a várias cargas

Na figura 4.5, o potencial no ponto A, será devido às cargas q1 , q2 e q3, ou seja,

4.5. Campo Electrostático Como Um Campo de Potencial

Escrevamos uma expressão para uma diferença de potencial num campo devida a uma carga pontual.

Figura 4.6: Diferença de potencial num campo electrostático.

Na figura 4.6, a diferença de potencial entre os pontos 1 e 2 do campo electrostático criado pela carga
pontual q1 é dada pela equação (4.4.2).

↔ ; mas

; mas

(4.5.1)

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Assim a diferença de potencial entre os pontos inicial e final do percurso (pontos 1 e 2) depende somente da
posição destes pontos e é independente do percurso ao longo do qual a carga é deslocada.

Da equação (4.5.1)

Se R2 = + ∞ → (4.5.2)

A equação (4.5.2) permite-nos calcular o potencial em qualquer ponto de um campo electrostático criado
por uma carga pontual q1.

Se tomarmos um percurso fechado (1-3-2-4-1), ou seja, começarmos e terminarmos no mesmo ponto.

Então, (4.5.3)

A equação (4.5.3) diz que num campo electrostático o integral curvilíneo da intensidade do campo eléctrico
ao longo de qualquer percurso fechado é nulo.

Fisicamente, isto se explica pelo facto de que as forças do campo realizam o mesmo trabalho sobre uma
carga que se move ao longo de um percurso fechado, que as forças exteriores que se opõem a este
movimento.

A equação (4.5.3) pode se ler: a circulação do vector ao longo de qualquer contorno fechado é zero. Os
campos que satisfazem a esta equação são chamados campos de potencial.

Exemplos de campos de potencial: campo gravitacional, campos de temperatura em regime permanente, etc.

4.6. Linhas Equipotenciais

Em qualquer campo electrostático podem se considerar superfícies nas quais todos os pontos estão ao
mesmo potencial. Tal superfície é chamada superfície equipotencial. As intersecções de um plano com as
superfícies equipotenciais são chamadas linhas equipotenciais.

No plano → Linhas equipotenciais; No espaço → Superfícies equipotenciais.

Figura 4.7: Linhas Equipotenciais

As superfícies equipotenciais intersectam as linhas de força perpendiculares em qualquer ponto.

Não se realiza trabalho ao deslocar-se uma carga ao longo de uma linha equipotencial.

Ao contrário das linhas de força, as linhas equipotenciais fecham-se sobre elas próprias.

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4.7. Gradiente de Potencial

A intensidade do campo eléctrico E e o potencial φ estão relacionados pelo integral da equação (4.4.2). A
relação pode também ter a forma diferencial.

Como vimos, um campo electrostático é um campo de potencial. No caso geral, existe uma diferença de
potencial entre dois pontos muito próximos do campo. Dividindo esta diferença de potencial pela distância
mais curta entre os dois pontos obtemos uma quantidade que representa a velocidade de variação do
potencial ao longo da mais curta distância entre os pontos. Esta velocidade depende do sentido em que os
pontos são tomados.

Na matemática usa-se o conceito gradiente de uma função escalar, que exprime em grandeza e sentido a
velocidade de variação máxima desta função.

Nesta definição há dois aspectos importantes a considerar:

a) Dois pontos vizinhos devem ser escolhidos num sentido em que a razão de variação do potencial
seja a maior; e
b) Este sentido deve ser tal que a função escalar aumente e não diminua ao longo dele.

O gradiente de potencial é um vector definido em cada ponto do campo electrostático cuja direcção é da
normal à superfície equipotencial (perpendicular às linhas equipotenciais) e se dirige de para (no
sentido em que o potencial aumenta). Ver a figura 4.8.

Figura 4.8: Gradiente de Potencial

Analisando a figura 4.8 podemos ver que,

é vector unitário; ;

Em que é a variação do potencial no sentido do ponto 1 para o ponto 2.

Como os vectores E e dn têm o mesmo sentido, o produto escalar é igual ao produto do valor de E
pelo valor de dn.

↔ ↔

O vector intensidade do campo eléctrico será

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↔ (4.7.1)

Da definição do gradiente vem

↔ (4.7.2)

Comparando as equações (4.7.1) e (4.7.2) podemos escrever

(4.7.3)

Vamos representar gradiente no sistema cartesiano ortogonal,

(4.7.4)

Mas,

(4.7.5)

Comparando as equações (4.7.3), (4.7.4) e (4.7.5) podemos escrever

(4.7.6)

Na equação (4.7.6) podemos ver que

No caso geral:

Em coordenadas esféricas

4.8. O Operador Nabla

O Operador de Hamilton (nabla) é um vector simbólico que substitui os símbolos do gradiente,


divergência e rotacional. A introdução deste operador simplifica os cálculos em análise vectorial.

A expressão do operador nabla em coordenadas cartesianas é:

(4.8.1)

A função respectiva é escrita a direita do sinal do operador.

(4.8.2)

Comparando a expressão (4.8.2) com a expressão (4.7.4) vemos que são idênticos. Ou seja,

(4.8.3)

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4.9. Fluxo do Vector E Através de Uma Superfície

O fluxo do vector E através de um elemento de superfície é igual ao produto escalar e é uma


grandeza escalar.

Figura 4.9: Fluxo de E através de dS.

Para uma superfície grande em que varia ao longo da superfície

(4.9.1)

Para uma superfície fechada

(4.9.2)

4.10. Campo Electrostático Num Meio Dieléctrico

As cargas que se podem mover livremente numa substância (como um condutor) sob a acção de um campo
eléctrico aplicado, isto é, o seu deslocamento não é limitado pelas forças intermoleculares, são chamadas
cargas livres.

Chamam-se cargas ligadas as cargas eléctricas que entram na composição da substância e são mantidas em
determinadas posições pelas forças intermoleculares (sobretudo nos dieléctricos). Tais cargas estão ligadas a
substâncias considerada e não podem ser desligadas da substância. O número de cargas ligadas positivas
numa substância é igual ao número de cargas ligadas negativas.

Se se coloca um corpo dieléctrico num campo eléctrico o corpo polariza-se.

Define-se polarização como sendo uma orientação definida das cargas ligadas numa substância devido ao
campo eléctrico aplicado. A orientação manifesta-se pelo deslocamento das cargas ligadas positivas no
sentido do potencial mais baixo e das cargas ligadas negativas no sentido de potencial mais elevado.

1º Grupo de Substâncias

Neste grupo de substâncias fazem parte os dieléctricos cujas moléculas são electricamente neutras quando
nenhum campo eléctrico externo é aplicado, ou seja, os “centros de gravidade” dos seus protões e electrões
coincidem. Observe a figura 4.10.

Entre estes dieléctricos estão o hidrogénio, o azoto, a parafina, a mica, etc.

O campo eléctrico aplicado dá origem a que o “centro de gravidade” dos protões se mova no sentido do
campo e o “centro da gravidade” dos electrões em sentido contrário ao campo. Como consequência a
molécula dá origem a um dipolo.

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Figura 4.10: 1º Grupo de dieléctricos.

2º Grupo de Substâncias (dieléctricos com moléculas polares)

Neste grupo de substâncias fazem parte os dieléctricos cujas moléculas são dipolos mesmo na ausência de
qualquer campo externo – dipolos permanentes. Contudo, em virtude da agitação térmica, estes dipolos
permanentes estão orientados ao acaso, e os seus momentos eléctricos anulam-se uns aos outros e a
substância não está polarizada. Um exemplo desta classe de dieléctricos é o cloreto de hidrogénio.

Figura 4.11: 2º Grupo de dieléctricos.

A polarização deste grupo de dieléctricos consiste em que as moléculas tendem a rodar de modo que os
momentos dieléctricos fiquem dirigidos segundo o campo eléctrico aplicado, e deste modo os seus
momentos eléctricos aumentam. Observa a figura 4.11.

4.11. Dipolos – Momento Eléctrico Dipolar

Duas cargas iguais e opostas separadas de uma distância infinitesimal l constituem um dipolo.

O momento eléctrico dipolar de duas cargas pontuais separadas de uma distância é um vector
cuja grandeza é , a direcção é a da linha que une as cargas e o sentido é o da carga negativa para a
positiva.

Figura 4.12: Momento eléctrico dipolar.

(4.11.1)

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Onde,

A unidade do momento eléctrico dipolar no SI é o coulomb metro.

Numa substância electrizada podem se considerar as moléculas, sob o ponto de vista eléctrico, como
dipolos. Sob um campo eléctrico aplicado estes dipolos tendem a orientar-se no espaço de modo que o seu
momento eléctrico seja paralelo ao vector intensidade do campo eléctrico. Sob o ponto de vista prático tem
interesse o momento eléctrico devido a soma dos dipolos que se encontram na unidade de volume da
substância.

O momento eléctrico da soma dos dipolos por unidade de volume de uma substância é chamado vector
polarização .

(4.11.2)

Onde V é o volume do dieléctrico.

A unidade da polarização no SI é o coulomb por metro quadrado.

Para a maior parte dos dieléctricos é proporcional à intensidade do campo eléctrico E aplicado. O
coeficiente de proporcionalidade é chamado susceptibilidade eléctrica:

↔ (4.11.3)

A unidade da susceptibilidade eléctrica no SI é o farad por metro.

4.12. Deslocamento Eléctrico ou Indução Eléctrica

Para além dos vectores E e P utiliza-se em electrotecnia o vector D chamado deslocamento eléctrico ou
indução eléctrica.

O deslocamento eléctrico ou indução eléctrica define-se pela propriedade do campo eléctrico que consiste
em induzir cargas em condutores nele colocado.

O vector é igual a soma de dois vectores: o vector , que caracteriza o campo no vácuo e o vector
polarização :

+ (4.12.1)

Como,

(4.12.2)

vem

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↔ (4.12.3)

Onde, ; (4.12.4)

O factor ɛ é chamado permitividade relativa. É a razão entre a permitividade absoluta (ɛa) de uma
substância e a permitividade do vazio (ɛ0). A permitividade relativa é uma grandeza sem dimensões.

No sistema de unidades SI:

[D] = [P] = [1 C/m2] = [coulombs/metro quadrado]

4.13. Teorema de Gauss

O teorema de Gauss, um dos mais importantes da electrostática, deriva da lei de Coulomb e do princípio da
sobreposição.

Pode ser enunciado de três modos diferentes:

1ª Formulação
O fluxo do vector deslocamento, através de uma superfície fechada que envolve um certo volume é igual a
soma algébrica das cargas livres no interior dessa superfície.

(4.13.1)

Isto é, o fluxo do vector deslocamento não depende da distribuição das cargas livres no interior da superfície
fechada.

Da fórmula (4.13.1), vê-se que o vector é uma característica do campo que não depende das propriedades
dieléctricas do meio, ou seja, não depende de .

2ª Formulação

O fluxo do vector intensidade do campo eléctrico através de uma superfície fechada qualquer, é igual a
soma das cargas livres no interior da superfície dividida por .
Como

↔ ↔ (4.13.2)

A equação (4.13.2) é válida para um meio isotrópico e homogénio.

3ª Formulação

O fluxo do vector intensidade do campo eléctrico através de qualquer superfície fechada é devido não só à
carga livre total mas também à carga ligada total no interior da superfície.

(4.13.3)

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4.14. Aplicação do Teorema de Gauss. O Campo Electrostático de Uma Carga Pontual

O teorema de Gauss define a intensidade do campo electrostático, ou deslocamento eléctrico em qualquer


ponto de um campo, desde que seja possível traçar uma superfície fechada pelo ponto considerado de modo
que todos os pontos da superfície sejam simétricos em relação à carga no interior da superfície fechada.
Como todos os pontos da superfície são simétricos em relação à carga, o valor da intensidade do campo será
o mesmo em todos os pontos da superfície.

Figura 4.13: Campo de uma carga pontual

Para o caso da carga pontual representada na figura 4.13, a superfície simétrica será uma esfera, que passará
pelo ponto no qual pretendemos calcular a intensidade de E.
Pelo teorema de Gauss, teremos,

Sendo a intensidade de constante em todos os pontos da superfície simétrica,

↔ (4.14.1)

O potencial eléctrico no ponto considerado será:

Da física sabe-se que o potencial no campo criado por uma carga pontual é zero no infinito.

; Então,

(4.14.2)

4.15. O Teorema de Gauss na Forma Diferencial

O teorema de Gauss sob a forma integral não permite conhecer o modo como o fluxo das linhas de num
ponto considerado do campo esta ligado à densidade das cargas livres no mesmo ponto. Esta relação é dada
pela forma diferencial do teorema de Gauss.

(4.15.1)

Vamos dividir ambos os membros da equação (4.15.1) pelo volume limitado pela superfície fachada.

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O volume V limitado pela superfície S pode tomar qualquer valor. Vamos reduzir este volume para próximo
de zero, ou seja,

Quando V tende para zero, o integral superficial da componente normal do deslocamento eléctrico tende
também para zero.

Contudo a razão de duas quantidades infinitesimais é uma quantidade finita.

O limite da razão entre o fluxo através de uma superfície fechada que envolve um ponto e o volume limitado
pela superfície fechada, quando o volume tendo para zero é chamado divergência de um dado vector nesse
ponto.

(4.15.3)

A equação (4.15.3) é uma das quatro equações fundamentais de Maxwell da teoria electromagnética.

é a densidade volumétrica da carga livre no ponto considerado.

A equação (4.15.3) diz-nos que a divergência de num ponto de um campo é determinado pela densidade
volumétrica de carga nesse ponto.

a)

Isto significa que as linhas de D partem do volume infinitamente pequeno. Figura 4.14.a.

b)

Isto significa que as linhas de D convergem no volume infinitamente pequeno. Figura 4.14.b.

c)

Significa que não existe neste ponto do campo nem divergência, nem convergência das linhas de D. Figura
4.14.c.

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Figura 4.14: Divergência de D.

Como, então,

→ (4.15.6)

A equação (4.15.6) é uma segunda forma diferencial do teorema de Gauss, válida para um meio homogénio
e isotrópico (ɛ constante).
Da equação (4.13.3), podemos obter,

(4.15.7)

4.16. A Divergência em Coordenadas Cartesianas

As expressões analíticas da div E variam com o sistema de coordenadas escolhido.

Para obtermos a expressão analítica da div E em coordenadas cartesianas, consideremos a figura 4.15.

Figura 4.15: Divergência em coordenadas cartesianas.

No ponto P (x, y, z) onde pretendemos calcular a divergência, consideremos um paralelepípedo rectangular


infinitesimal cujas arestas dx, dy, dz são paralelas aos eixos Ox, Oy e Oz respectivamente.

Para determinar a div E é necessário calcular o fluxo total de E que sai da superfície do paralelepípedo e
dividi-lo pelo seu volume dx dy dz.

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O fluxo através da face esquerda do paralelepípedo paralela a Oz e de área dx dz é devido somente a


componente de E paralela a Oy (Ey). Portanto, o fluxo de E através desta face é Ey dx dz.

A face da direita de área dx dz está a uma distância dy da face da esquerda. Portanto a componente de E
sobre o eixo dos yy (Ey) que passa através da face da direita de área dx dz é

(4.16.2)

Onde

é a velocidade de variação de Ey no sentido do eixo dos yy.

é a variação de Ey ao longo de dy.

O fluxo através das duas faces de área dx dz é

Analogamente, para as duas faces de área dy dz é

E para as duas faces de área de área dx dy é

Somando estes fluxos e dividindo pelo volume, segundo a equação (4.16.1), obtemos

(4.16.3)

A div E é uma grandeza escalar.

4.17. Utilização do Operador Nabla para Calcular a Divergência

Vamos provar que o produto escalar do operador por uma função vectorial qualquer, por exemplo
corresponde a tomar a divergência desta função vectorial, ou seja,

(4.17.1)

Vamos determinar o produto escalar de E e nabla.

Como

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(4.17.2)

Como podemos ver, o segundo membro da equação (4.17.2) corresponde a div E, equação (4.16.3).

Então,

4.18. As Equações de Poisson e Laplace

São extensões do teorema de Gauss e são apresentados sob a forma diferencial onde a velocidade de
variação das componentes do campo eléctrico está relacionada com a distribuição espacial de carga.

mas

Substituindo E obtém-se

Escrevendo em vez de em vez de tem-se

(4.18.1)

Esta é a equação de Paisson. Um caso particular desta equação é a equação de Laplace quando .

Portanto, a equação de Laplace é

(4.18.2)

O operador ou é conhecido como Operador de Laplace ou Laplaciano que muitas vezes se


representa como ∆.

Para obter a equação de Poisson em coordenadas cartesianas escrevamos:

Multiplicando termo a termo, obtemos

Assim a equação de Poisson em coordenadas cartesianas é

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(4.18.3)

Em coordenadas cartesianas, a equação de Laplace é a seguinte

(4.18.4)

4.19. O Campo Electrostático no Interior de um Corpo Condutor

Num corpo condutor colocado num campo electrostático, as cargas negativas acumulam-se à superfície do
corpo do lado onde o potencial é mais elevado e as cargas positivas do lado oposto, devido a indução
electrostática.

Figura 4.16: Campo electrostático num corpo condutor.

Na electrostática todos os pontos de um corpo condutor estão ao mesmo potencial, pois se existisse uma
diferença de potencial faria com que os electrões do corpo se deslocassem.

4.20. Condições Limites

Quando existe num campo eléctrico em mais do que um meio dieléctrico é importante conhecer as
condições que existem nas superfícies de reparação dos meios que têm propriedades eléctricas diferentes.
Estas são chamadas condições limites.

A resolução das equações de Poisson e de Laplace envolvem o uso de constantes de integração. Elas são
calculadas a partir das condições limites.

4.20.1. Condições Existentes na Superfície de Separação de um Corpo Condutor e de um


Dieléctrico

Há duas condições que são sempre satisfeitas na superfície de separação entre um corpo condutor não
percorrido por uma corrente eléctrica e um dieléctrico.

1ª Condição Limite

A componente tangencial da intensidade de campo eléctrico é zero.

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Vamos demonstrar a 1ª condição limite.

Figura 4.17: Demonstração da 1ª condição limite.

Tendo em conta que o potencial em qualquer ponto de um condutor é o mesmo, significa que no corpo
condutor , ou seja, , mas é diferente de zero

↔ Como

2ª Condição Limite

O deslocamento eléctrico em qualquer ponto do dieléctrico imediatamente vizinho da superfície do


condutor é numericamente igual à densidade de carga na superfície do condutor no ponto considerado.

Onde σ é a densidade superficial de carga.

Figura 4.18: Demonstração da 2ª condição limite

Paralelepípedo infinitamente pequeno, tal que a face superior seja paralela a superfície do corpo condutor.
Suponhamos que a altura do paralelepípedo é muito pequena, que seja desprezível. Portanto, a carga no
interior do volume considerado é .

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4.20.2. Condições Limites na Superfície de Separação de Dois Dieléctricos

Há duas condições que são sempre satisfeitas na superfície de separação de dois dieléctricos de
permitividades diferentes.

1ª Condição Limite

As componentes tangenciais das intensidades do campo eléctrico são iguais.

Figura 4.19: Demonstração da 1ª condição limite

Analogamente

Sentido de

Como

2ª Condição Limite

Na superfície de separação de dois dieléctricos as componentes normais do vector deslocamento são iguais.

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Figura 4.20: Demonstração da 2ª condição limite

Mas na superficie de separação de dois dieléctricos

Mas como

4.21. Campo Electrostático Criado por um Eixo Carregado

Consideremos um condutor metálico muito fino e de comprimento l, com uma carga τ por unidade de
comprimento, que se encontra num meio de permitividade Ɛ.

Figura 4.21: Campo electrostático criado por um candutor ou eixo carregado.

Aplicando o teorema de Gauss:

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Como ; e

Então,

↔ ↔

Como E é constante ao longo da superfície Gaussiana, colocou-se fora do sinal de integração.

(4.21.1)

Onde,

é a carga no condutor por unidade de comprimento.

A expressão (4.21.1) permite calcular o campo electrostático em qualquer ponto situado a uma distância r de
um condutor carregado.

O potencial eléctrico em qualquer ponto em volta do condutor, a distância r do condutor será

↔ ↔

(4.21.2)

4.22. Campo Electrostático Criado por Dois Condutores Paralelos Carregados

Consideremos dois condutores carregados, um com carga por unidade de comprimento e o outro com
por unidade de comprimento, que se encontram num meio de permitividade Ɛ.

Figura 4.22: Campo Electrostático criado por dois condutores paralelos carregados.

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O potencial no ponto M será devido ao condutor de carga +τ e ao condutor de carga – τ. Aplicando a


equação (4.21.2), obtemos,

quando

(4.22.1)

Na equação (4.22.1) a é a distância do ponto M ao condutor com carga positiva e b é a distância do ponto M
ao condutor com carga negativa.

Pela equação (4.22.1) pode se ver que uma linha equipotencial num campo criado por dois condutores
paralelos carregados é representada pela equação:

E define-se como o lugar geométrico dos pontos para os quais, a razão das suas distâncias a dois pontos
dados é uma quantidade constante.

Segundo o teorema de Appolonius o lugar geométrico dos pontos para os quais a razão das suas distâncias a
dois pontos dados é uma constante é uma circunferência.

Figura 4.23: Teorema de Appolonius.

4.23. Campo Electrostático de Uma Linha de Dois Condutores

Os dois condutores são cilíndricos, paralelos e compridos, de raio r, afastados de uma distância d.
Apliquemos aos dois condutores uma diferença de potencial tal que um deles adquire uma carga por
unidade de comprimento e o outro por unidade de comprimento.

Figura 4.24: Dois condutores cilíndricos carregados.

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Coloquemos os dois eixos carregados de modo que as superfícies dos condutores sejam equipotenciais. Os
pontos O1 e O2 são eixos geométricos dos condutores, e m e n os pontos correspondentes aos eixos
carregados. Por simetria estes eixos estão a mesma distância x dos eixos geométricos.

é valido quando →

Resolvendo esta equação obtemos

↔ (4.23.1)

O sinal antes da raiz corresponde ao ponto e o sinal corresponde ao ponto . Ver a figura 4.24.

4.24. Capacidade

Se dois condutores separados por um dieléctrico estão carregados com cargas e – , estabelece-se uma
diferença de potencial entre eles. A razão entre a carga e a diferença de potencial estabelecida é chamada
capacidade do par de condutores C.

(4.24.1)

Os dispositivos destinados a obter valores determinados de capacidade são chamados condensadores (ou
capacitores).

A unidade da capacidade no SI é o Farad.

Um Farad é uma unidade muito grande, que muitas vezes são utilizados os seus múltiplos.

Como a tensão entre dois corpos num campo electrostático pode ser linearmente expressa em função da
carga segue-se que a razão é independente de . A capacidade depende apenas da configuração
dos corpos das suas dimensões, das distâncias entre os corpos e das propriedades eléctricas do dieléctrico,
isto é, do valor de .

4.25. Capacidade de Uma Linha de Dois Condutores

Vamos determinar a capacidade da linha de dois condutores paralelos representada na figura 4.24.

A tensão entre os dois condutores, tensão entre os pontos 1 e 3, é

↔ (4.25.1)

A capacidade da linha é dada pela equação (4.24.1). Dividindo ambos os membros da equação (4.24.1) pelo
comprimento da linha, teremos a capacidade por unidade de comprimento C0, ou seja,

↔ ↔ (4.25.2)

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Substituindo (4.25.1) em (4.25.2),

↔ (4.25.3)

Como se vê, a capacidade por unidade de comprimento de uma linha de dois condutores, depende somente
das dimensões geométricas dos condutores e das propriedades do meio e é independente do valor da carga
e do valor da tensão .

Para e → (4.25.4)

A medida que a distância entre os condutores aumenta, a capacidade diminui.

4.26. Campo Electrostático de Um Cabo Coaxial

Vamos determinar o campo electrostático do cabo coaxial representado na figura 4.25.

Figura 4.25: Cabo coaxial.

No corpo condutor → Ler o parágrafo 4.19.

Campo Electrostático no Exterior do Cabo Coaxial

No exterior do cabo coaxial, aplicando o teorema de Gauss, o campo será

Mas a carga livre total no interior da superfície Gaussiana será zero.

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Portanto,

Mas como →

Campo Electrostático no Interior do Cabo Coaxial (Dieléctrico)

O campo electrostático no dieléctrico será

Portanto,

(4.26.1)

Onde,

é a carga livre por unidade de comprimento do condutor.

O potencial eléctrico no dieléctrico do cabo coaxial é

↔ ↔ ↔

(4.26.2)

Seja: quando r

→ ↔ ↔

Substituindo a constante C na equação (4.26.2),

↔ (4.26.3)

Onde

4.27. Capacidade de Um Cabo Coaxial

Vamos determinar a capacidade do cabo coaxial representado na figura 4.25.

Onde

→ é a diferença de potencial entre o condutor interior e o condutor exterior do cabo coaxial.

Da equação (4.26.3)

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A capacidade por unidade de comprimento do cabo coaxial é

↔ (4.27.1)

Na equação (4.27.1) podemos ver que a capacidade dos cabos coaxiais é muito alta, pois a permitividade Ɛ
do dieléctrico também é alta, limitando assim o uso dos cabos coaxiais nos sistemas de transporte de alta
tensão alternada. Em geral, em muito alta tensão alternada é viável o uso dos cabos coaxiais até uma
distância de cerca de 50 km, acima da qual tem que ser alta tensão contínua.

4.28. Campo Electrostático de Um Plano Carregado

Vamos determinar o campo electrostático do plano carregado representado na figura 4.26.

Figura 4.26: Plano carregado S e superfície Gaussiana

Aplicando o teorema de Gauss,

↔ ↔ ↔

(4.28.1)

Onde,

→ é a densidade superficial da carga livre.

Da equação (4.28.1) podemos concluir que:

a) A intensidade do campo electrostático não depende da distância do ponto considerado à placa


carregada.
b) A intensidade do campo electrostático é constante.

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4.29. Campo Electrostático de Um Condensador Plano

Vamos determinar o campo electrostático E do condensador plano representado na figura 4.27. A placa
superior possui carga +q e a placa inferior possui carga – q, sendo a distância entre as placas d.

Exterior do Condensador Plano

No exterior do condensador plano E = 0 pois a carga livre total contida no interior da superfície Gaussiana
que contém as duas placas será nula.

Mas como →

Como →

Interior do Condensador Plano

Vamos determinar agora E no espaço entre as placas do condensador plano. Ver a figura 4.27.

Figura 4.27: Aplicação do teorema de Gauss no interior do condensador plano.

Para a placa positiva, placa superior:

(Campo de um plano carregado).

Para a placa negativa, placa inferior:

Os vectores E1 e E2 têm a mesma direcção e sentido. Por isso a intensidade do campo resultante no espaço
entre as placas será

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(4.29.1)

A intensidade do campo eléctrico no espaço entre as placas é constante e não depende da distância d entre
elas.

Vamos determinar o potencial eléctrico no espaço entre as placas.

ou ↔

Seja

→ (4.29.2)

Substituindo a equação (4.29.1) em (4.29.2)

(4.29.3)

4.30. Capacidade do Condensador Plano

Vamos determinar a capacidade C do condensador plano representado na figura 4.27.

Mas a tensão entre as placas é dada pela expressão

↔ (4.30.1)

Substituindo (4.30.1) na fórmula para o cálculo da capacidade

↔ (4.30.2)

Esta equação permite calcular a capacidade de um condensador de plano, constituído por duas placas
paralelas de área S cada uma, separadas por uma distância d.

4.31. Energia do Campo Electrostático

É a capacidade de realizar trabalho dentro de campo para transportar cargas de um ponto para o outro.

A energia criada por um sistema de corpos carregados é dada por

(4.31.1)

Para determinar a energia do campo electrostático em geral vamos considerar a energia do campo
electrostático de um condensador plano. Ver a figura 4.27.

Para um condensador plano a energia, a partir da equação (4.31.1), é dada por

↔ ↔

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↔ Mas e ↔

Mas pois e

↔ (4.31.2)

Em geral, a energia do campo electrostático é dada por

(4.31.3)

Como

Então,

(4.31.4)

4.32. Método das Imagens Simétricas

A distribuição das cargas induzidas numa superfície pode se calcular em muitos casos pelo Método das
Imagens Simétricas. Este método consiste em colocarem-se cargas auxiliares fictícias num dos lados duma
superfície ou na superfície de separação de valores e posições tais que darão lugar ao mesmo campo
eléctrico no outro lado da superfície que o que é criado pelas cargas reais.

4.33. O Campo de Um Condutor Carregado Perto de Um Plano Condutor

Vamos usar o Método das Imagens Simétricas para calcular o campo de um condutor carregado perto de um
plano condutor como a terra.

Para determinar as características do campo electrostático coloca-se uma carga fictícia no ponto cuja
carga tem sinal contrario a carga dada – q1 . A distância h do ponto m à superfície de separação é a
mesma que a distância da carga real a esta superfície.

Figura 4.28: Condutor carregado perto de um plano condutor.

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A carga q2 = – q1

A componente tangencial de E na superfície de separação entre o dieléctrico e o plano condutor é nula, ou


seja,

↔ (4.33.1)

4.34. O Campo de Um Condutor Carregado Colocado Perto da Superfície de Separação de Dois


Dieléctricos

Para se conhecer a distribuição do campo, substituem-se as cargas induzidas por um sistema de duas cargas
imagens fictícias τ2 e τ3 e não uma carga como no caso anterior.

Figura 4.29: Condutor carregado perto da superfície de separação de dois meios de permitividades
diferentes.

Determinemos tais valores de τ2 e τ3 para que as condições limites sejam satisfeitas.

As componentes tangenciais de E na superfície de separação dos dois dieléctricos são iguais.

Substituindo E1, E2 e E3,

(4.34.1)

As componentes normais do vector deslocamento eléctrico na superficie de separação dos dois dieléctricos
são iguais.

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(4.34.2)

Resolvendo o sistema de equações, constituído pelas equações (4.34.1) e (4.34.2) obtemos

(4.34.3)

(4.34.4)

Analisando as equações (4.34.3) e (4.34.4) pode se ver que a carga tem sempre o sinal de .

A carga tem o sinal de quando .

Os cálculos apresentados são também válidos para cargas pontuais. Portanto, as equações (4.34.3) e (4.34.4)
podem ser escritas da seguinte forma:

(4.34.5)

(4.34.6)

4.35. O Campo de Um Sistema de Condutores Carregados Colocados Perto de Um Plano Condutor

Tornemos uma linha com vários condutores, constituída por n condutores muito longos com carga linear τk,
colocados paralelamente à superfície da terra.

Figura 4.30: Condutores carregados perto da superfície da terra.

Determinemos o potencial de um ponto arbitrário M no dieléctrico.

O potencial resultante no ponto M devido ao condutor 1 é

(4.35.1)

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Pois o potencial devido a dois condutores carregados, um com carga positiva por unidade de comprimento e
o outro com carga negativa por unidade de comprimento é dado pela equação (4.22.1).

O campo criado por dois condutores carregados é a soma vectorial do campo criado por cada um dos
condutores separadamente. O campo criado por um condutor é dado pela equação (4.21.1).

A intensidade do campo electrostático no ponto M devido aos três condutores carregados é dado pela
equação:

(4.35.2)

O potencial no ponto M devidos aos três condutores carregados é dado por:

↔ (4.35.3)

4.35.1. Coeficientes de Potencial. O Primeiro Grupo das Fórmulas de Maxwell

Na figura 4.30 o mesmo ponto pode ser colocado a superfície do primeiro condutor.

Para o condutor 1 teremos a seguinte equação:

Onde, e Sendo o raio do primeiro condutor.

Para os 3 condutores teremos as equações

Estas três equações podem ser reescritas da forma seguinte:

(4.35.4)

(4.35.5)

(4.35.6)

Estas equações constituem o primeiro grupo das fórmulas de Maxwell.

Os coeficientes das cargas τ, ou seja, os coeficientes α são coeficientes de potencial.

Como e então

A unidade dos coeficientes α no SI é .

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4.35.2. Coeficientes Capacitivos. O Segundo Grupo das Fórmulas de Maxwell

Resolvendo as equações do 1º grupo em ordem às cargas obtém-se

(4.35.7)

(4.35.8)

(4.35.9)

Estas equações constituem o segundo grupo das fórmulas de Maxwell.

Os coeficientes Onde é o determinante

O complemento algébrico obtém-se do determinante , eliminando a linha de ordem k e a coluna n e


multiplicando o determinante resultante por .

Os coeficientes são chamados coeficientes capacitivos e as suas dimensões são o reciproco dos
coeficientes α.

4.35.3. Auto-Capacidades e Capacidade Mútuas. O Terceiro Grupo das Fórmulas de Maxwell

O segundo grupo das fórmulas de Maxwell pode se escrever sob outra forma, em função das diferenças de
potencial entre um dado condutor e os outros condutores, incluindo a terra.

Figura 4.31: Auto-capacidades e capacidades mútuas.

(4.35.10)

(4.35.11)

(4.35.12)

Estas três equações constituem o 3º grupo das fórmulas de Maxwell.

Os coeficientes Ckk são chamados auto-capacidades e os coeficientes Ckm são chamados capacidades
mútuas.

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5. O CAMPO ELÉCTRICO DE UMA CORRENTE CONTÍNUA NUM MEIO


CONDUTOR

5.1. Corrente Eléctrica e Densidade de Corrente

Por corrente eléctrica entende-se um movimento ordenados de partículas carregados electricamente sob a
acção de um campo eléctrico. Nos metais essas partículas são chamadas electrões; nos líquidos iões.

A propriedade da matéria que determina a sua capacidade de conduzir a corrente eléctrica é chamada
condutividade ou condutância específica (γ).

O principal parâmetro de um campo eléctrico num meio condutor é a densidade de corrente .

(5.1.1)

É uma grandeza vectorial actuando no sentido da intensidade do campo eléctrico e numericamente igual a
razão entre a corrente que passa na superfície (normal ao vector intensidade de campo) e a
área dS desta superfície elementar.

A unidade da densidade da corrente δ no SI é [

Da equação (5.1.1), obtemos

↔ (5.1.2)

Da equação (5.1.2), podemos ver que a corrente eléctrica é o fluxo do vector densidade de corrente.
Contrariamente à densidade de corrente, a corrente eléctrica é uma grandeza escalar.

5.2. Lei de Ohm na Forma Diferencial

Relaciona a densidade da corrente num dado ponto dum meio condutor com a intensidade de campo nesse
ponto.

Figura 5.1: Elemento do condutor percorrido por corrente.

↔ ↔ (5.2.1)

A equação (5.2.1) é a lei de Ohm na forma diferencial válida para regiões exteriores a fonte de energia. γ é a
condutividade ou condutância específica.

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5.3. A Primeira Lei de Kirchhoff na Forma Diferencial

Consideremos um volume num meio condutor através do qual passa uma corrente invariável no tempo. A
corrente que entra nesse volume deve ser igual a que sai.

Como →

Dividindo ambos os membros da último equação pelo volume V limitado pela superfície fechada e tomando
o limite quando este volume tende para zero.

(5.3.1)

Esta é a primeira lei de Kirchoff na forma diferencial. Ela significa que em regime permanente não há
acumulação de linhas de densidade de corrente em qualquer ponto do campo.

5.4. A Segunda Lei de Kirchhoff na Forma Diferencial

Em regiões ocupadas por fontes de energia, existe, além do campo electrostático (ou campo de Coulomb), o
tão conhecido campo eléctrico externo, responsável pelo movimento contínuo de cargas a volta do circuito
eléctrico.

O termo externo aplica-se a um campo eléctrico de outras origens (como por exemplo aqueles devidos a
processos químicos, electroquímicos, térmicos, termoeléctricos, etc.).

Numa região ocupada por uma f.e.m:

(5.4.1)

Portanto, em regiões ocupadas por pontes pode-se escrever a equação:

) (5.4.2)

O integral de ambos os membros da equação (5.4.2) num contorno fechado contendo uma fonte de energia
constitui a 2ª Lei de Kirchhoff (lei da tensão ou das malhas) na forma diferencial.

(5.4.3)

Consideremos o circuito representado na figura 5.2, a volta do qual circula a corrente I. Vamos demonstrar
que a equação (5.4.3) traduz a 2ª lei de Kirchhoff na forma diferencial.

Vamos determinar o integral ao longo do percurso fechado 1-2-3-1, que representa o 2º membro da equação
(5.4.3).

O integral de uma soma é igual a soma dos integrais dos termos constituintes.

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Figura 5.2: Circuito fechado percorrido pela corrente I.

Como o campo de coulomb é de potencial ou conservativo, então,

Portanto,

Mas,

onde E é a força electromotriz.

→ Pois não há f.e.m. (campo externo) neste percurso.

Então,

(5.4.4)

Vamos determinar o valor da expressão

Mas para tal vamos multiplicar a expressão por S e dividir por S.

Integrado esta expressão, obtemos

Portanto,

É a 2ª lei de Kirchhoff.

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5.5. Lei de Joule na Forma Diferencial

A potência dissipada num condutor com resistência R, percorrido pela corrente I é dada por

Vamos obter uma expressão para dissipação de calor por unidade de volume num meio condutor. Ver a
figura 5.1.

Portanto,

(5.5.1)

A equação (5.5.1) é a lei de Joule na forma diferencial.

5.6. Equação de Laplace Para o Campo Eléctrico Num Meio Condutor

Sabemos que,

Para um campo não variável com o tempo

↔ ↔ ↔

(5.6.1)

Conclusão

A distribuição do campo num meio homogéneo e isotrópico obedece a equação de Laplace. Visto que a
equação de Laplace representa campos de potencial, os campos de corrente contínua num meio condutor
são campos de potencial. Num tal campo, fora das regiões ocupadas por fontes de energia,

5.7. Condições Limites de Um Campo Eléctrico de Uma Corrente Contínua em Dois Meios
Condutores de Diferentes Condutividades

Quando um campo eléctrico existe em dois meios condutores de condutividades γ1 e γ2 é importante


conhecer as condições que podem ser obtidas na superfície de separação entre eles.

1ª Condição

Na superfície da separação de dois meios condutores de condutividades diferentes, as componentes


tangenciais do vector intensidade do campo eléctrico são iguais.

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Figura 5.3: Componentes tangenciais de E iguais.

2ª Condição

As componentes normais do vector densidade da corrente δ, na superficie de separação de dois meios


condutores de condutividade diferentes são iguais.

Figura 5.4: Componentes normais de δ iguais.

5.8. Analogia entre o Campo Eléctrico num Meio Condutor e Campo Electrostático

O campo electrostático e o campo eléctrico de uma corrente contínua num meio condutor diferem na
natureza. O campo electrostático é produzido por cargas invariáveis no tempo e fixas no espaço, enquanto o
campo eléctrico num meio condutor é caracterizado pelo movimento ordenado de cargas sob a acção de uma
fonte externa. Verificam-se contudo certas analogias entre eles:

1º. Em ambos os campos intervém o vector intensidade do campo . Podemos comparar o vector
deslocamento eléctrico com o vector densidade de corrente .

2º. O fluxo de pode ser comparado com o fluxo de vector .

→ Campo Electrostático

→ Campo Eléctrico

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3º. O campo electrostático em regiões não ocupadas por cargas eléctricas satisfaz a equação de Laplace. O
mesmo é verdadeiro para o campo de uma corrente contínua fora das fontes eléctricas.

4º. As condições limites na superfície de separação de dois dieléctricos de diferentes permitividades são:

De modo semelhante, no limite de separação de dois meios de diferentes condutividades, verifica-se:

Esta analogia formal é largamente utilizada na prática. Se se sabe tudo a respeito de um campo
electrostático, podemos estender esses conhecimentos para um campo geometricamente igual, num meio
condutor.

5.9. Relação Entre Condutância e Capacidade

Quando um par de eléctrodos ligados a uma determinada fonte de energia é colocado num meio condutor,
passará uma corrente através desse meio. Supondo que a diferença de potencial entre os eléctrodos é U12 e a
corrente que passa através do meio é I, a condutância G desse meio é dada por

(5.9.1)

Figura 5.5: Corrente eléctrica entre os electrodos 1 e 2.

A corrente I

e a tensão

Substituindo a corrente e a tensão na equação (5.9.1),

(5.9.2)

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Por outro lado, num campo eléctrico, a capacidade entre dois eléctrodos idênticos carregados com cargas
iguais e de sinais contrários C é dada por

(5.9.3)

Pois

Dividindo a equação (5.9.2) pela equação (5.9.3) temos

(5.9.4)

Utilizando a equação (5.9.4), pode se determinar a condutância entre dois corpos se a capacidade for
conhecida ou vice-versa.

5.10. Campo Eléctrico Num Meio Dieléctrico Cercando Condutores Que Transportam Correntes

Sob as condições de electrostática, a componente das intensidades de campo tangente à superfície de um


corpo condutor é zero. Na presença de uma corrente contínua através de um condutor, a componente
tangencial da intensidade de campo é diferente de zero, apesar de ser desprezível em comparação com a
componente de intensidade normal, nesse ponto. Vamos provar isto com o exemplo abaixo.

Exemplo

Dados: U = 100 V d = 2 cm δ = 2,6.10 6 A/m2 γ = 5,6.107 1/(Ω.m)

Figura 5.6: Campo eléctrico num meio dieléctrico.

Sob condições electrostáticas

Portanto, a componente tangencial, ou seja, o campo eléctrico de uma corrente contínua pode ser desprezível
quando comparado com o campo electrostático.

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6. O CAMPO MAGNÉTICO DA CORRENTE CONTÍNUA

6.1. Equações Fundamentais do Campo Magnético

No capítulo Circuitos Magnéticos, em Electrotecnia Teórica I, ficou estabelecido que um campo magnético
é completamente definido pela Indução Magnética B, Intensidade do Campo H e Magnetização J,
relacionados por

(6.1.1)

Em que µ0 é a permeabilidade do vazio (vácuo).

A experiência mostra que a força F exercida sobre um condutor que transporta uma determinada corrente I
está relacionada com o elemento do condutor dl pela expressão:

(6.1.2)

Esta força é perpendicular à indução no ponto do condutor considerado e perpendicular ao respectivo


elemento da corrente.

A magnetização em qualquer ponto de um campo magnético é um vector que tem a mesma a direcção de
nesse ponto e é directamente proporcional a intensidade magnética (no interior da substância).

Assim,

(6.1.3)

χ é a susceptibilidade magnética da substância.

↔ ↔ ↔

(6.1.4)

Onde,

µa é a permeabilidade absoluta; µ é a permeabilidade relativa.

O Fluxo Magnético

O fluxo magnético ɸ através de uma área S é o integral da componente normal do vector indução magnética
ao longo da área.

(6.1.5)

O fluxo magnético em geral é medido em webers.

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6.2. As Leis Principais do Campo Magnético

6.2.1. Lei de Ampere na Forma Integral

A circulação do vector intensidade magnética ao longo de qualquer percurso fechado é igual a soma
algébrica das correntes que atravessam o contorno limitado por este percurso.

(6.2.1)

Consideremos um contorno fechado, a uma distância r da corrente eléctrica I, representado na figura 6.1.
Calculemos a circulação de H ao longo deste contorno.

Figura 6.1: Circulação de H ao longo do contorno fechado.

Segundo a lei de ampere, H para o contorno representado será:

↔ ↔ ↔ ↔

(6.2.2)

6.2.2. Lei de Ampere na Forma Diferencial

Consideremos agora um contorno muito pequeno em traço grosso representado na figura 6.2 e calculemos a
circulação de ao longo desse contorno. Ver a figura 6.2.

A circulação de H terá forçosamente que ser igual à corrente total que atravessa a área limitada por esse
contorno.

Se essa área ∆S é muito pequena, podemos supor que nela a densidade de corrente δ é constante. A corrente
que atravessa a área ∆S é então

Em que δn é a componente normal do vector densidade da corrente.

↔ ↔ ↔ ↔

↔ (6.2.3)

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Figura 6.2: Lei de Ampere na forma integral.

Dividindo ambos os membros da equação (6.2.3) por e fazendo ∆S tender para zero, o que significa uma
contracção até zero da área considerada e tomando o limite temos.

No primeiro membro da última equação temos a componente normal ao elemento ∆S do rotacional de H.


Portanto,

Se o elemento de superfície ∆S está orientado de tal modo que a sua normal tem a direcção do vector
densidade da corrente δ no ponto considerado, ou seja, → α = 0, então,

(6.2.4)

A equação (6.2.4) constitui a forma diferencial da lei de Ampere. O rotacional de um vector dá-nos o valor
do “spin” desse vector.

A equação (6.2.4) é geral e não depende de qualquer sistema de coordenadas em particular.

6.2.3. Forma Cartesiana da Equação

A igualdade entre rot H e δ implica a igualdade das suas componentes, num sistema de três eixos
ortogonais, sendo essas componentes funções de x, y e z.

Sem apresentamos a dedução, apresentamos abaixo a equação do rot H no sistema cartesiano ortogonal,
equação (6.2.5). Ver a figura 6.3.

(6.2.5)

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Figura 6.3: Rotacional de H na forma cartesiana.

Portanto, as componentes do rotacional no sistema cartesiano ortogonal são iguais as respectivas


componentes do vector densidade da corrente. Ver as equações (6.2.6).

; ; (6.2.6)

6.2.4. Expressão do Rotacional Como Produto Vectorial

Vamos determinar o produto vectorial .

(6.2.7)

Comparando as equações (6.2.5) e (6.2.7) podemos concluir que:

(6.2.8)

6.2.5. Expressão do Rotacional de H Sob a Forma de Determinante

O rotacional de qualquer vector num sistema de coordenadas cartesianas pode se exprimir como
determinante de terceira ordem. Para rotacional de H será

(6.2.9)

Resolvendo o determinante chegamos a equação (6.2.5).

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6.3. A Continuidade do Fluxo Magnético

Em termos matemáticos, o fluxo magnético ɸ é definido como o integral superficial do vector indução
magnética, ver a equação (6.1.5).

A experiência mostra que o fluxo magnético que entra num volume qualquer é igual ao fluxo magnético que
sai desse volume. Por consequência, a soma dos fluxos que entram e que saem num volume qualquer é igual
a zero. Falar de volume é o mesmo que falar de superfície fechada. Portanto, podemos escrever,

(6.3.1)

A equação (6.3.1) é equação da continuidade do fluxo magnético na forma integral.

6.4. Equação da Continuidade do Fluxo Magnético na Forma Diferencial

Vamos dividir ambos os membros da equação da continuidade do fluxo magnético, equação (6.3.1), pelo
volume V limitado pela superfície fechada e tomemos o limite quando o volume V tende para zero.

O primeiro membro da equação (6.4.1) denomina-se divergência de .

Podemos escrever a equação (6.4.1) da seguinte forma.

(6.4.2)

A equação (6.4.2) é a equação da continuidade do fluxo magnético na forma diferencial. Aplica-se em


qualquer ponto do espaço onde exista um campo magnético. Portanto, não há nenhum ponto de um campo
magnético que possa ser considerado como a origem ou terminal das linhas de força (de fluxo) do vector
indução magnética . Estas linhas nunca são interrompidas, ou seja, fecham-se sobre si mesmas.

6.5. O Campo Magnético em Áreas Atravessadas e Não Atravessadas por Correntes Contínuas

Consideremos um condutor percorrido por uma corrente contínua I. Ver a figura 6.4.

Figura 6.4: Campo magnético em áreas atravessadas e não atravessadas por correntes.

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Percurso 1-2-3-4-1

Este percurso define uma área atravessada pela corrente I. Portanto, o campo magnético é um campo
rotacional.

Se →

Percurso 1-2-3-5

Este percurso define uma área não atravessada pela corrente I. Portanto, o campo magnético é um campo
irrotacional.

Se →

6.6. O Potencial Escalar Magnético

Para um conjunto de pontos nos quais e , o campo magnético pode ser considerado como
irrotacional, ou um campo em que a cada ponto podemos associar um certo potencial escalar magnético φM.

A diferença de potencial escalar magnético entre dois pontos 1 e 2 é chamada queda de potencial magnético
entre esses pontos e é definida por:

(6.6.1)

Nestas condições, pode se dizer que em áreas não atravessadas por correntes, por analogia ao campo
electrostático, a intensidade do campo magnético pode ser definida através do gradiente do potencial escalar
magnético.

(6.6.2)

Figura 6.5: Diferença de potencial magnético entre os pontos 1 e 2.

Na figura 6.5, a tensão magnética entre os pontos 1 e 2 é dada por,

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6.7. Equação de Laplace para o Campo Magnético

Sabe-se que,

↔ ↔ ↔ ↔

Então,

(6.7.1)

O potencial escalar magnético, em áreas não atravessadas por correntes, satisfaz a equação de Laplace.

6.8. Condições Limites na Superfície de Separação de Dois Meios de Permeabilidades Diferentes

1ª Condição Limite

As componentes tangenciais do vector intensidade do campo magnético na superfície de separação de dois


meios de permeabilidades diferentes são iguais. Ver a figura 6.6.a).

H1t = H2t

2ª Condição Limite

As componentes normais do vector indução magnética na superfície de separação de dois meios de


permeabilidades diferentes são iguais. Ver a figura 6.6. b).

B1n = B2n

Figura 6.6: Condições limites.

6.9. O Potencial Vector Magnético

No estudo dos campos magnéticos faz-se largo uso do potencial vector do campo magnético, representado
por . O potencial vector magnético é uma grandeza vectorial definida por

(6.9.1)

Esta definição do vector indução magnética por uma rotacional baseia-se no facto de ser nula a divergência
de qualquer rotacional.
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Sabemos que

↔ , pois

Sabe-se que o produto vectorial de dois vectores é um vector perpendicular a ambos os vectores, cujo
sentido é dado pela regra da mão direita. Neste caso, o produto vectorial é um vector perpendicular
a Isto significa que o produto escalar entre nabla e o produto vectorial deve ser igual a zero, porque o
ângulo entre eles é de 90 .

Contrariamente ao potencial escalar magnético que se pode utilizar só nas regiões não atravessadas por
correntes eléctricas, pode se empregar o potencial vector quer nas regiões onde não existam correntes, quer
naquelas em que existam, isto é, em todos os casos.

6.10. Equação de Poisson para o Potencial Vector Magnético

Sabemos que,

Vamos multiplicar a última equação por ,

Como então,

(6.10.1)

Da matemática, sabe-se

Então,

↔ (6.10.2)

Dado que é uma função puramente teórica, utilizada nos cálculos, nós podemos impor para o campo
magnético de corrente contínua a seguinte condição:

Ou seja, as linhas do vector se fecham sobre si mesmas.

(6.10.3)

A equação (6.10.3) é a Equação de Poisson para o potencial vector magnético. Relaciona grandezas
vectoriais. Resolvendo esta equação em ordem ao potencial vector, obtém-se

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A unidade do potencial vector SI é

6.11. O Potencial Vector Magnético de Um Elemento de Corrente

Consideremos um condutor linear de comprimento l percorrido por uma corrente i. Analisemos um


elemento do condutor dl. Designemos por r a distância do elemento de condutor a um ponto qualquer do
espaço.

↔ Mas

Então,

(6.11.1)

Figura 6.7: Potencial vector de elemento de corrente.

A equação (6.11.1) permite-nos concluir que o potencial vector devido a um elemento de corrente, num
ponto do espaço, tem a mesma direcção e sentido que a corrente circulante no elemento do condutor.

6.12. O Fluxo Magnético Expresso Através do Potencial Vector Magnético

O fluxo magnético através duma superfície é dado por

Como

Então,

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Pelo teorema de Stokes, podemos transformar este integral de superfície, num integral curvilíneo, isto é,

(6.12.1)

Donde

(6.12.2)

6.13. Energia do Campo Magnético Gerado por Uma Corrente Contínua

Sabemos que

Onde,

; ; e

↔ (6.13.1)

No caso geral, com a variação de no espaço temos:

Mas,

(6.13.3)

6.14. Método das Imagens Magnéticas (Simétricas)

No estudo dos campos magnéticos devido a correntes circulando próximas de massas de ferro, usa-se
frequentemente o método das imagens magnéticas para o cálculo do campo.

Figura 6.8: Método das imagens magnéticas

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Consideremos um condutor transportando a corrente I 1, situado num meio de permeabilidade µ1, paralelo ao
meio de permeabilidade µ2, e simultaneamente paralelo à superfície de separação dos dois meios. Observe a
figura 6.8.

Vamos determinar a intensidade do campo magnético em qualquer ponto de ambos os meios.

Para o cálculo do campo, introduzimos duas correntes fictícias I 2 e I3, como representado na figura 6.8. O
condutor percorrido pela corrente fictícia I2 é imagem num “espelho” da corrente real I1. O condutor
percorrido pela corrente fictícia I3 é colocado na posição do condutor percorrido pela corrente real I 1. As
duas correntes fictícias I2 e I3 ainda desconhecidas devem satisfazer as duas condições limites.

As duas correntes fictícias I2 e I3 determinam-se usando as duas condições limites.

Na figura 6.8, o esquema equivalente b) permite-nos calcular o campo magnético no semi-espaço de


permeabilidade µ1 onde está o condutor percorrido pela corrente real I1; O esquema equivalente c) permite-
nos calcular o campo magnético no semi-espaço de permeabilidade µ2.

Vamos aplicar as condições limites para calcular as correntes fictícias I2 e I3.

1ª Condição:

2ª Condição:

1ª Condição:

Da figura 6.8 podemos verificar que

(6.14.1)

2ª Condição:

Na figura 6.8 podemos observar que

↔ ↔

(6.14.2)

Resolvendo o sistema de equações, constituído pelas equações (6.14.1) e (6.14.2), obtemos

(6.14.3)

(6.14.4)

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7. O CAMPO ELECTROMAGNÉTICO

7.1. Introdução
Um campo magnético variável produz sempre um campo eléctrico. Inversamente, um campo eléctrico
variável produz sempre um campo magnético. Esta interacção das forças eléctricas e magnéticas dá origem a
uma região no espaço conhecida por campo electromagnético.

Um campo electromagnético é uma forma de matéria. Possui energia, massa e momento e pode ser
convertido em outras formas de matéria.

Quaisquer distúrbios do campo num dieléctrico, as ondas electromagnéticas propagam-se a grandes


distâncias a uma velocidade muito próxima de 3×108 m/s (velocidade da luz).

7.2. Equações Principais do Campo Electromagnético (Equações de Maxwell)


As condições num campo electromagnético são expressas matematicamente pelas quatro equações da teoria
electromagnética de Maxwell, que são:

1)
Relaciona o rotacional de H num ponto do campo com a densidade de corrente nesse ponto.

→ Densidade da corrente de condução; → Densidade da corrente de deslocamento.

2)
Relaciona o rotacional de campo num ponto do campo com a variação de nesse ponto.

3)
Expressa a continuidade do fluxo magnético;

4)
Relaciona a divergência da intensidade do campo eléctrico E num ponto do campo, com a
densidade de carga livre nesse ponto.

A análise das relações existentes no campo electromagnético também faz o uso da equação da continuidade
e do teorema de Umov-Poynting.

7.2.1. A Primeira Equação da Teoria Electromagnética de Maxwell

(7.2.1)

A primeira equação de Maxwell pode ser lida como, estabelecendo que qualquer mudança na intensidade do
campo eléctrico com o tempo (isto é, o aparecimento de uma corrente de deslocamento), em qualquer ponto

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de um campo produz nesse ponto um campo magnético rotacional exactamente como a corrente de
condução.

7.2.2. A Segunda Equação da Teoria Electromagnética de Maxwell

(7.2.2)

Fisicamente significa que qualquer variação com o tempo do campo magnético ( ), em qualquer ponto,
produz nesse ponto um campo eléctrico rotacional. A 2ª equação de Maxwell é a equação diferencial da lei
da indução electromagnética (Lei de Faraday).

Lei de Faraday

A lei de Faraday estabelece que

Mas como então

Imaginemos um percurso fechado situado num campo magnético alternado. A queda da tensão ao longo dele
é que deve ser igual a f.e.m induzida pelo fluxo magnético alternado que atravessa o percurso, isto
é,

Pelo teorema de Stokes

Portanto,

Analisando a última equação, podemos ver que

7.3. Equação da Continuidade

→ A divergência de qualquer rotacional é igual à zero.

Portanto,

(7.3.1)

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A equação (7.3.1) mostra que as linhas de força da corrente total são circuitos fechados, o que
fisicamente significa que na fronteira entre o meio condutor e o dieléctrico a corrente de condução se
transforma em corrente de deslocamento ou vice-versa.

↔ ↔ ↔

Mas como

Então,

(7.3.2)

7.4. O Teorema de Poynting Para Valores Instantâneos

As relações energéticas existentes no campo electromagnético são expressas matematicamente sob a forma
do Teorema de Poynting.

O teorema pode ser escrito sob duas formas, uma para valores instantâneos e a outra em notação complexa
para valores sinusoidais.

Vamos deduzir a expressão que traduz o Teorema de Poynting para valores instantâneos.

Multiplicando as equações (7.2.1) e (7.2.2) por e respectivamente, obtemos,

Subtraindo (3) em (4)

Da matemática sabe-se

O produto da vectorial pode ser representado pelo vector

Conhecido como vector de Poynting.

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O sentido do vector POYTING determina-se usando a AREGRA DE SACAROLHA girando o vector


até ao vector usando o caminho mais curto (o menor ângulo).

A potência aparente por unidade de área ou Energia por unidade de tempo e por unidade de área.

Pelo teorema de divergência de Gauss,

(transformação do integral volumétrico em integral superficial)

É o teorema de POYNTING para valores instantâneos.

O primeiro membro de equação (5) expressa o fluxo normal para dentro (nota-se o nível “–”) do vector de
Poynting através de superfície S do volume V.

No segundo membro da equação (5)

Pela lei de Joule sob a forma diferencial é a energia dissipada sob a forma de calor por unidade de
volume e por unidade de tempo.

Portento, dá-nos o ritmo a que a energia é gerada sob a forma de calor no volume V do meio.

é o grau de variação da energia eléctrica e magnética armazenada na unidade de


volume.

O teorema de POYNTING deve ser tratado como uma equação de equilíbrio de energia.

EXEMPLO

Corrente continua transportada pelo cabo coaxial da figura a baixo.

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 O vector Poynting é paralelo ao eixo central

Como

A intensidade do campo eléctrico num dieléctrico devido a uma corrente contínua é determinada do mesmo
modo que no caso de campo electrostático.

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Assim, toda a energia que chega à carga é transmitida através do dieléctrico. Nenhuma energia atinge a
carga através do condutor central ou da armadura.

Na verdade, notando que é finito e que a intensidade do campo eléctrico no condutor e na bainha tem a
direcção da corrente e é diferente de zero, pode se mostrar que existe um fluxo para dentro do vector dos
Poynting através da superfície lateral do condutor. Por outras palavras, o condutor absorve energia do
dieléctrico que dá origem as perdas calorificas.

Os condutores de uma linha de transmissão agem apenas como canais para a corrente e servem como
“núcleos” estruturais do campo no dieléctrico.

7.5. As Equações de Maxwell na Notação Complexa

Equações escritas para valores instantâneos

Se e Variam sinusoidalmente com o tempo

As equações de Maxwell em notação complexa serão:

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7.6. O Teorema de Poynting na Notação Complexa

Imaginemos um circuito de corrente alternada contendo, uma resistência R, uma indutância L e uma
capacidade C, todas em serie.

⇒ ⇒

Por analogia com um circuito de corrente alternada

Mas,

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8. PROPAGAÇÃO DE ONDAS ELECTROMAGNÉTICAS NUM MEIO


CONDUTOR HOMOGÉNIO E ISOTRÓPICO

8.1. As Equações de Maxwell para o Meio Condutor

Consideremos a propagação de uma onda electromagnética num meio condutor de condutividade e


permeabilidade

A 1º e a 2º equação de Maxwell em notação complexa com variando sinusoidalmente com o tempo:

Num meio condutor, mesmo para a frequências relativamente altas.

Exemplo:

Para o cobre

(3)

É uma equação diferencial em . No caso geral, quando for uma função de três coordenadas ou mesmo
de duas, a equação (3) é de resolução bastante difícil. Limitar-nos-emos ao caso especial da onda
electromagnética plana, isto é a variação de em relação a só uma coordenada.

8.2. A Onda Electromagnética Plana

Uma onda Electromagnética dia-se PLANA se em qualquer instante a intensidade do campo eléctrico ea
intensidade do campo magnético em amplitude, direcção e sentido em todo os pontos
de um plano normal ao sentido de propagação de onda e estiverem contidas nesse plano.

Os vectores são mostrados no mesmo instante em planos paralelos ao eixo

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E por definição: Onda electromagnética Plana

Seja , ou seja tomemos o eixo dos como referencial de modo, que o eixo dos seja paralelo a
intensidade de

Equação diferencial

Equação diferencial

8.3. Equação Característica

Unidade de

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