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UNIFAVIP/DeVry

CENTRO UNIVERSITÁRIO VALE DO IPOJUCA


COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA
CURSO DE PSICOLOGIA

Evaldo Roque do Nascimento Júnior

BLACK METAL: As representações da morte nas produções musicais

CARUARU
2016
Evaldo Roque do Nascimento Júnior

BLACK METAL: As representações da morte nas produções musicais

Trabalho de conclusão de curso


apresentado ao Centro Universitário Vale
do Ipojuca, como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharelado em
Psicologia.

Orientador: Prof. Mes. Anderson Duarte


Freire

CARUARU
2016
Catalogação na fonte -

Biblioteca do Centro Universitário do Vale do Ipojuca, Caruaru/PE

N244b Nascimento Júnior, Evaldo Roque do.


Black metal: as representações da morte nas produções
musicais / Evaldo Roque do Nascimento Júnior. – Caruaru:
DeVry | UNIFAVIP, 2016.
60 f.: il.
Orientador (a): Profº Me. Anderson Duarte Freire.
Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) – Centro
Universitário do Vale do Ipojuca.

1. Black metal. 2. Medo da morte. 3. Ser heroico. 4. Pulsão


de morte. 5. Cultura. I. Título.

CDU 159.9[16.2]

Ficha catalográfica elaborada pelo setor de Processamento técnico


AGRADECIMENTOS
À minha mãe, por sempre me incentivar em toda a jornada dessa graduação:

Ao meu orientador e amigo Anderson Freire, por ter acolhido incondicionalmente o


meu desejo da construção desse trabalho:

À professora e amiga Heleniza Saldanha, pelo seu apoio e entusiasmo com a


elaboração dessa monografia:

Ao meu amigo Gabriel Laurentino, por sempre estar disponível para vastos diálogos
sobre o tema da minha pesquisa:

À todos os meus mestres que, ao longo dessa graduação, contribuíram para a


construção da minha vida acadêmica.
“O Black Metal é uma arte única que nos
permite expressar quaisquer tipos de
emoções humana e isso é uma virtude. E
como eu falei anteriormente, minhas
autorreflexões são o que mais me
inspiram. E estas são sempre repletas de
emoções genuínas e considerações reais
sobre a natureza humana.”

(Ash, vocalista da banda Nargaroth)


RESUMO

No presente trabalho de conclusão de curso foi realizada uma pesquisa sobre as


produções que envolvem o contexto artístico do subgênero musical advindo das
ramificações do Heavy Metal, o Black Metal. Nosso objetivo é traçar um paralelo
entre o Black Metal e o Cristianismo, a partir do tema da morte, utilizando como
ferramenta uma análise cultural e psicanalítica. Incialmente, falamos brevemente
sobre as vertentes mais extremas do Metal até chegarmos ao Black Metal,
explanando a historicidade do nosso objeto de estudo através de suas bandas
pioneiras até o movimento mais consolidado na Noruega e dos temas ideológicos
que são preconizados nesse movimento musical. Em decorrência a isso, seguiremos
a discutir a noção de morte, o medo da morte e o ser heroico em nossa cultura e
traçaremos um paralelo sobre essas temáticas com as representações/produções
associadas ao Black Metal e sua crítica veemente ao contexto religioso de cunho
cristão. No terceiro momento, discorremos sobre as questões que estão
relacionadas com o contexto pulsional da psicanálise, mais especificamente, com o
conceito de pulsão de morte e seus significados fazendo correlações com as
expressões artísticas do Black Metal. Concluímos, por fim, que o medo da morte é
um sentimento comum ao Black Metal e ao Cristianismo.

Palavras-chave: Black Metal. Medo da Morte. Ser Heroico. Pulsão de Morte.


Cultura. Religião. Arte.
ABSTRACT

The present monograph project performs a research about the productions


surrounding the artistic context of the musical subgenre that came from Heavy
Metal’s ramifications, the Black Metal genre. Our goal focus on drawing a parallel
between Black Metal and Christianity, starting from death’s subject, using both
cultural and psychoanalytic analyses as tools. Initially, we will briefly discuss about
the most extreme angles of Metal Music until we finally reach Black Metal, explaining
our object of study’s historicity through its pioneering bands to the most consolidated
movement in Norway and the advocated ideological themes in this musical
movement. As a result, we will proceed and discuss the concept of death as a
subject, fearing death and the heroic being in our social culture plus drawing a
parallel on the aforementioned themes including portrayals/productions related to
Black Metal and its vehement criticism regarding the christian mark in the religious
context. Thirdly, we will discuss the issues related to the pulsional context of
psychoanalysis, or more specifically, the concept of death drive and its meanings,
creating correlations with the artistic expressions of Black Metal. We can conclude,
therefore, that fearing death is a mutual sense present in Black Metal and
Christianity.

Keywords: Black Metal. Fear of Death. Heroic Being. Death Drive. Social Culture.
Religion. Art.
LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 - Foto promocional da banda HellHammer. ............................................. 14


FIGURA 2 - Capa do álbum "Black Metal" da banda Venom. ................................... 14
FIGURA 3 - Foto promocional da banda Satyricon. .................................................. 16
FIGURA 4 - Foto promocional da banda Cradle of Filth. ........................................... 18
FIGURA 5 - Capa do álbum "Fuck me Jesus" da banda Marduk. ............................. 29
FIGURA 6 - Capa do álbum "Angelus Exuros pro Eternus" da banda Dark Funeral . 30
FIGURA 7 - Show da banda Watain ......................................................................... 32
FIGURA 8 - Show da banda Gorgoroth .................................................................... 32
FIGURA 9 - Capa do álbum "Obedience" da banda Marduk..................................... 43
FIGURA 10 - Capa do álbum "Cruelty And The Beast" da banda Cradle of Filth...... 45
FIGURA 11 - Capa do álbum "The Dawn of the Black Hearts" da banda Mayhem ... 48
FIGURA 12 - Logotipo da banda Thy Light. .............................................................. 50
FIGURA 13 - Logotipo da banda Happy Days .......................................................... 50
FIGURA 14 - Vocalista da banda Psychonaut 4. ...................................................... 52
FIGURA 15 - Vocalista da banda Shining ................................................................. 52
FIGURA 16 - Foto promocional da banda Carach Angren. ....................................... 53
FIGURA 17 - Foto do Show da banda Watain. ......................................................... 53
FIGURA 18 - Imagem do Show da banda Gorgoroth ................................................ 54
FIGURA 19 - Imagem tirada do Show da banda Watain. .......................................... 55
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 11
CAPÍTULO I .............................................................................................................. 13
1 A GÊNESE DO BLACK METAL ............................................................................ 13
1.1. Os Pioneiros ..................................................................................................... 13
CAPÍTULO II ............................................................................................................. 21
2 A CULTURA E O MEDO DA MORTE ................................................................... 21
2.1. A Superação da Morte no Contexto Cultural ................................................. 21
2.2. As Representatividades da Morte nas Produções do Black Metal .............. 24
CAPÍTULO III ............................................................................................................ 35
3 O ATRAVESSAMENTO DA PULSÃO NAS PRODUÇÕES DO BLACK METAL . 35
3.1. Desvelando o Conceito de Pulsão .................................................................. 35
3.2. Sadismo, masoquismo, perversão como via dos destinos pulsionais ....... 39
3.3. Os Destinos Pulsionais nas Produções do Black Metal ............................... 43
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 57
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 60
INTRODUÇÃO

Quando falamos sobre Heavy Metal ao senso comum, logo o estilo é


associado a uma música com sonoridade extremamente agressiva, com imagens de
natureza diabólicas e desempenho em palco de comportamento marginal. Soma-se
a isso que seus apreciadores são jovens, que costumam ter cabelos longos e andam
de preto com camisetas das respectivas bandas do estilo (SILVA, 2010), com
imagens agressivas, hostis, fora dos padrões culturais. Em uma perspectiva sem
aprofundamentos e estereotipada sobre o assunto, o Heavy Metal muitas vezes é
taxado como uma música de pouco valor cultural, comparado com os outros estilos
musicais mais aceitáveis pela cultura dominante.
Existem pouquíssimos estudos em psicologia e psicanálise no Brasil que
tenham um aprofundamento acadêmico sobre o Heavy Metal e suas vertentes
musicais. Porém, pensando nesta musicalidade com um olhar holístico, podemos
perceber o quão complexo é este gênero musical, pois suas expressões artísticas
são extremamente ricas em seus conteúdos abordados, já que esse estilo de música
tem uma gama de ramificações chamadas de subgêneros, que detém um leque de
possibilidades que dá margem a sonoridades distintas e que abordam inúmeros
temas nas suas composições.
Dos tantos subgêneros do Heavy Metal o que nos interessa, em particular, é o
Black Metal, por transpassar tanto os limites da indústria fonográfica dominante,
como os limites da cultura prescrita, normatizada, sobretudo na perspectiva religiosa
quando se trata do tema morte que há, de certa forma, em nossa cultura, um
enorme tabu sobre o assunto. Quando pensamos na cultura Black Metal, estamos
falando de grupo urbano que cria laços afetivos, promove eventos, consome
produtos associados, produz e aprecia esse tipo de arte (CAMPOY, 2010), que
desenvolvem ideologias e rituais muito próximos de um contexto religioso.
Nossa pesquisa foi de natureza bibliográfica e, em função da inexistência de
material sobre o tema, associado à Psicologia, recorremos a fontes associadas à
pesquisa antropológica para nossa reflexão no âmbito da nossa ciência.
Os levantamentos bibliográficos explorados neste trabalho foram feitos
através de livros, documentários, CDs das respectivas bandas do subgênero em
questão (para coletar letras das composições e suas artes gráficas) e na internet em
busca de imagens das performances que envolvem os artistas dessa tribo. Também
11
em sites de pesquisas como Google, Google Acadêmico e Scielo, na investigação
de conteúdos que abordam temas sobre a historicidade do Heavy Metal e seus
subgêneros do Metal Extremo, também a questão de como a morte é vista em nossa
cultura através do viés psicológico e psicanalítico.
O modo da pesquisa deste trabalho de conclusão de curso é de natureza
qualitativa, já que tem como objetivo um procedimento de reflexão sistemática e
crítica (MINAYO, 2009), abrindo assim o leque de possibilidades sobre a
problemática (GIL, 2002). Nosso estudo também é exploratório, já que tem como
proposito uma maior clareza e familiaridade com o tema para termos a capacidade
de construir um novo olhar sobre o mesmo (GIL, 2002).
Nesse trabalho, interessa-nos, portanto, desvelar esse universo, discutindo os
vários elementos que o compõe, seus signos, símbolos e significados, sobretudo o
sentido implicado nos temas relacionados à morte, suicídio e ao demônio, além da
crítica veemente ao cristianismo.
Para isso, no primeiro momento discutimos o Heavy Metal e suas
decomposições em múltiplos subgêneros do Metal Extremo até chegarmos ao Black
Metal. Em seguida, explanamos sobre parte de seu contexto histórico
exemplificando o surgimento do Black Metal, através de suas bandas pioneiras e
sobre alguns dos temas que esta arte aborda em suas composições/produções.
No segundo momento, discutiremos a noção de morte a partir dos teóricos
Freud e Becker, traçando paralelamente a ideia de negação da morte e o medo da
morte em nossa cultura e a diferenciação desse conceito através das
representações simbólicas associadas às produções do Black Metal.
Em seguida, discorremos sobre os destinos que envolvem a questão pulsional
nas características do sadismo e masoquismo e do dualismo das pulsões de vida e
de morte correlacionado com as expressões do Black Metal.
Esperamos, com esse trabalho, desmistificar alguns elementos do Black
Metal, proporcionando um pouco mais de compreensão sobre os temas e questões
que envolvem esse subgênero musical, utilizando a psicologia e a psicanálise como
lentes para tal compreensão.

12
CAPÍTULO I

A GÊNESE DO BLACK METAL

1.1 Os Pioneiros
O Black Metal é um subgênero musical que advém do Heavy Metal, fazendo
parte de uma categoria de estilo chamado Metal Extremo (CAMPOY, 2010). Este
determinado padrão de musicalidade tem como características uma sonoridade
rápida, crua, brutal, distorcida e com vocais guturais. Os subgêneros que compõem
o Heavy Metal Extremo, tais como o Thrash Metal, Black Metal, Death Metal, Doom
Metal e Gore/Grind/Splatter (CAMPOY, 2010), estiliza em seu imaginário lírico,
temas como guerra, visões apocalípticas, filosofia, satanismo, anticristianismo,
misticismo, solidão, natureza, suicídio, violência, depressão, horror, dentre outros. O
Black Metal consegue passear sobre todas as temáticas mencionadas do conjunto
associado ao Metal Extremo. Esta categoria de arte metaforiza a ideia de morte, não
só na música como um todo, mas no seu desempenho em palco, nas vestimentas,
pinturas faciais, vídeos clipes e em sua arte gráfica.
Em principio, a intitulada “primeira geração de Black Metal”, teve origem nos
anos 80 (PATTERSON, 2013). Além de ter influencias diretas do Heavy Metal,
também teve inspiração da cena do Punk Rock britânico e de alguns elementos
teatrais influenciados do estilo Shock Rock (METAL, 2005). Tais estilos foram
influencias extremamente importantes para o alicerce da criação da musicalidade
em questão. As bandas que compõem a “primeira geração do Black Metal” foram
Bathory, Mercyful Fate, Venom, Hellhammer/Celtic Frost dentre outras
(PATTERSON, 2013).
Para melhor visibilidade do leitor a cerca do universo que compõem a primeira
geração deste subgênero musical, utilizaremos a foto promocional da banda sueca
HellHammer:

13
Figura 1 - Foto promocional da banda HellHammer – Disponível em: <http://www.metal-
archives.com/bands/Hellhammer/287> Acesso em: 20. Out. 2016.

O estilo Black Metal começou a ser criado e influenciado principalmente


através da banda Venom com o seu álbum de 1982 com o título “Black Metal”
(PATTERSON, 2013). As composições líricas e o som extremamente agressivo
desta banda foram, sem dúvida, uma das mais relevantes de todas para o
surgimento deste movimento musical.

Figura 2 - Capa do álbum "Black Metal" da banda Venom - Disponível em: <
http://hdwall.us/music-and-dance/blackmetal-black-metal-venom-music-desktop-hd-wallpaper-47648/>
Acesso em: 20. Out. 2016.

14
Nas composições do Venom, o que mais se evidencia, em associação a
algumas bandas que mais tarde serão chamadas de “segunda geração do Black
Metal” na Noruega, é justamente a narrativa do diabo. Na banda Venom, Satanás
está presente na maioria de suas composições, executando o caos apocalíptico na
terra e fazendo com que os “guerreiros”, ao lado do opositor, lutem contra o Deus
judaico-cristão em decorrência de um cenário caótico de violência e horror.
Podemos apontar, para melhor ilustração, um trecho da música “At War With Satan”
do álbum já mencionado:

Os guerreiros se reúnem lentamente em torno


Da cidade sagrada, no inferno
Satanás grita por vingança
Para a terra da qual os anjos caíram
Tiranos oram por desastres para a
Terra do amor e confiança
Demônios tramam uma maneira de transformar
1
Os céus em pó

A citação da música evidencia toda uma estética do mal, em que os


guerrilheiros em nome de Satanás acabariam com os reinos dos céus tendo-se um
cenário de violência, morte, caos e horror. No momento inicial do Black Metal, não
se tinha uma ideologia forte entre o movimento cultural como aconteceu na década
de 90 com as bandas norueguesas (METAL, 2005).
Segundo Patterson (2013) nos anos 90, emergiu à “segunda geração do
Black Metal” que foi comandada por bandas fundadas na Noruega como Burzum,
Mayhem, Gorgoroth, Emperor, Satyricon, Darkthrone, Immortal etc. Além dessas
bandas terem a inspiração da primeira geração em sua musicalidade, também
adicionaram vários elementos dos outros subgêneros do Metal Extremo como: o
Thrash Metal e o Death Metal (PATTERSON, 2013). Por outro lado, é importante
ressalvarmos o que Campoy (2010) nos revela sobre a banda brasileira intitulada
Sarcófago criada nos anos 80, como influência de extrema importância em todo o
corpo estético para o segundo momento dessa cultura.

1
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/venom/136042/traducao.html> Acesso em: 20
mar. 2016.
15
Figura 3 - Foto promocional da banda Satyricon - Disponível em: <http://rock-metal-
punk.org/interview/satyricon>. Acesso em: 21. Out. 2016.

Foi neste período que o movimento Black Metal começou a ganhar estética
na cena global do Metal como um movimento cultural mais firme (METAL, 2005). O
subgênero começa a ter certo respaldo midiático em relação de alguns
acontecimentos, tais como incêndios em igrejas, assassinatos e suicídios cometidos
por alguns de seus músicos (SILVA, 2010), como, por exemplo, o suicídio do
vocalista Per Yngve Ohlin da banda Mayhem, conhecido artisticamente por Dead.
A partir desses eventos que repercutiu na mídia, as bandas norueguesas
começaram a virar inspiração para além de sua fronteira, disseminando o Black
Metal em outras regiões do mundo, principalmente na Suécia, onde se originaram
bandas extremamente relevantes como o Dark Funeral, Watain, Lord Belial, Marduk,
na Polônia a banda Behemoth dentre outras. Neste momento, o Black Metal ganha
importância e eventualmente conquista fãs em toda a comunidade do Heavy Metal.
Assim, devido a todos esses episódios, o Black Metal atualmente é a
manifestação artística/cultural mais exportada da Noruega (METAL, 2005). Uma de
suas bases ideológicas é a apologia a Satanás com uma visão de mundo caótica,
assim como o combate ao cristianismo. Tais questões se tornam evidentes em dois
momentos que podemos destacar: no primeiro tem-se a os incêndios de igrejas
católicas na Noruega realizadas por componentes dessas bandas; no segundo
temos o depoimento do Gaahl, o ex-vocalista da banda Gorgoroth, no
filme/documentário realizado em 2005 chamado “Metal a Headbangers Journey” em
16
que ele é questionado, pelo entrevistador, sobre o que Satã significa
ideologicamente para seu projeto musical. O entrevistado responde “A liberdade...
Todo homem que nasce rei, se converte em rei. Todo homem que nasce escravo,
não conhece Satã”.
A narrativa do diabo para o ex-vocalista do Gorgoroth parece simbolizar uma
forma de liberdade para além dos dogmas impostos pelo cristianismo na sociedade
ocidental, em que a carne não é mais expressão do pecado, a morte não é mais
vista como uma forma de chegar ao paraíso e que o homem está em constante luta
para com a vida. Tal afirmação pode ser realçada através de um trecho da música
“Carving Giant” do álbum de 2006, da banda em questão:

Apodere-se e cobice o meu trabalho


Nenhuma confiança é para o homem
Pai das luzes profanas e condenadas
Recompensando em assistência para uma vida acabada
Para todo verme vivo
Escreve-se um presságio
Para todo ser vivo
Atravessa-se o crepúsculo
E toda noite há um fogo! Ardendo e queimando
A maldição de uma criança
Traga a dor
Nossos foram os espíritos
Inteligência estuprada
Existimos... Todos... Para que desperte e nos salve da guerra!
A essência da dúvida
Esculpindo um gigante
Esculpindo o olho de um deus
2
Cria-me

A figura do diabo é o ponto inicial para toda narrativa do estilo, porém outros
temas emergem como temáticas em suas letras (CAMPOY, 2010). A banda Burzum,
por exemplo, traz temas como paganismo das antigas crenças nórdicas e guerra,
como no caso da música “War”:

2
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/gorgoroth/1460506/> Acesso em: 20 mar.
2016.

17
Isso é guerra
Eu caí no chão com neve
E com centenas de corpos em volta
Muitos rastejam sem ajuda em volta
3
No chão com neve vermelha de sangue

Também na década de 90, o subgênero musical ganhou mais respaldo na


mídia fonográfica através de bandas como Cradle of Filth e Dimmu Borgir
(PATTERSON, 2013). Ambas têm sonoridades um tanto distintas comparadas à
maioria dos grupos musicais deste período. Essas bandas adicionaram intensidade
em elementos tais como teclados, vocais limpos e influências da música clássica
(PATTERSON, 2013). Logo, essas bandas começaram a serem rotuladas como
Symphonic Black Metal.

Figura 4 - Foto promocional da banda Cradle of Filth - Disponível em:


<http://www.leastworstoption.com/cradle-of-filth-vempire/>. Acesso em: 21. Out. 2016.

3
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/burzum/91465/traducao.html> Acesso em: 20
mar. 2016.

18
A partir desse rótulo e dos novos elementos musicais no Black Metal,
inúmeros modificações em decorrência da musicalidade em si como também de
novas rotulações começaram a surgir. Neste caso, a árvore genealógica do
subgênero em questão, ganha inúmeras roupagens no sentido de toda a sua
estética musical.
A banda inglesa Cradle of Filth (vide figura 4), por exemplo, trouxe uma nova
forma lírica em suas temáticas. A temática do subgênero começa a ter um corpo
erótico, dramático, poético e romântico.
Isso pode ser visto na música “Nocturnal Supremacy” do álbum produzido em
1996 “V Empire or Dark Fearytales in Phallustein”:

O sol desce
Espíritos magentas cobrem os céus
E descarregam doenças eróticas
Onde o sexo e a morte residem
Das marés contorcidas
Onde as sereias góticas tecem suas canções ás praias
Através das cinzas dos campos de batalha
Onde os corvos e os anjos guerreiam
(...) Impostores se arrastam diante de sua cruz
Eu sou Aquele de derrotou a Morte
E suportou a dor da perda
Que Cristo vulgar irá elevar minha compressão?
4
Seu templo arruinado Queima

Em linhas gerais, o cenário de violência e morte parece ser uma constante


nas composições do Black Metal. A metáfora da morte nesta manifestação artística
não está somente na composição e no som. Ela aparece também no desempenho
em palco, vestimentas, pinturas faciais e na arte gráfica.
Todos esses elementos supracitados serão objeto de discussão nos capítulos
que se seguem, em que pretendemos mostrar de que forma eles expressam um
mundo oposto ao proposto pelo cristianismo.

4
Tradução disponível em: <http://whiplash.net/materias/traducoes/004842-cradleoffilth.html>
Acesso em: 20 mar. 2016.

19
A seguir, discutiremos sobre a morte na cultura, sobretudo a visão de nossa
cultura.

20
CAPÍTULO II

2 A CULTURA E O MEDO DA MORTE

2.1. A Superação da Morte no Contexto Cultural


Segundo Becker (2007), em seu livro A Negação da Morte, o medo da morte
é um dos grandes percursores de toda a criação simbólica do homem. É através do
terror do desconhecido que o ser humano torna-se capaz de formar/burlar meios de
negar a ideia de morte, pois saber da finitude é de natureza insuportável para o
mesmo. Inúmeras formas simbólicas são criadas para negar a realidade do fim da
existência. Então, nesta perspectiva, o medo da morte contribui significativamente
para as criações das religiões, ciências, sistemas culturais e das artes.
A grande diferença entre o ser humano e os outros animais consiste no fato
de que, não somos meramente biológicos, também somos simbólicos, e é por
simbolizarmos que nos diferenciamos dos demais seres vivos, e em decorrência
disto tememos a morte. Assim Becker (2007) afirma que “a essência do homem é,
sua natureza paradoxal, dado o fato de ser metade animal e metade simbólico” (p.
48). Deste modo, o homem cai em total crise existencial por ter a ciência de que ele
é finito, assim como tudo que o circunda perece. Em relação a isto:

Poderíamos chamar esse paradoxo existencial de condição da


individualidade dentro da finitude. O homem tem uma identidade simbólica
que o destaca nitidamente da natureza. Ele é um eu simbólico, uma criatura
com um nome, uma história de vida. É um criador com uma mente que voa
alto para especular sobre o átomo, que com imaginação pode colocar-se
em um ponto no espaço e, extasiado, contemplar o seu próprio planeta.
(BECKER, 2007, p.48)

É neste momento em que as representações simbólicas conseguem suprir o


insuportável – a penumbra da morte. Em decorrência deste questionamento, temos
os sistemas culturais que nos dão toda uma forma de preservação da espécie e dos
perigos externos através do conjunto social.
Outro ponto interessante para analisarmos através desta indagação, é o que
Freud (1927) nos traz em seu livro O Futuro de uma Ilusão, pontuando-nos que
através da capacidade civilizatória humana, conseguimos nos elevar perante as
outras formas de vida. Deste modo, vários signos e símbolos são criados. Nessa

21
perspectiva, a capacidade civilizatória acontece pela negação dos nossas pulsões
mais primitivas em prol da vida em comunidade.
Desse modo, todo indivíduo, de certa forma, é virtualmente inimigo da
civilização. Por outro lado, o contrário também acontece, as questões que envolvem
a civilização são definidas contra o indivíduo em decorrência desse
sacrifício/compartilhamento da vida (FREUD, 1927).
Todas estas indagações sobre a morte nos levam para a impotência do
homem perante o universo. Por exemplo, o modo que a religiosidade nega a morte
em decorrência da crença em uma pós-vida, pode ser visto como uma forma de
defesa do psiquismo diante do “não-saber” (CASSORLA, 2002).
Nas crenças religiosas, muitas delas prometem a transcendência da alma, ou
seja, negam o corpo como expressão da finitude e procuram no simbólico a ideia da
transcendência da existência - a vida eterna. É extremamente válido ressalvarmos
que no cristianismo, por exemplo, a forma personificada de Deus é associada à
figura do pai. Neste sentido, Freud (1927) nos aponta que a figura desse pai tem
como missão: “exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a
crueldade do Destino, particularmente o que é demonstrado na morte, e compensa-
los pelo sofrimento e privações de uma vida civilizada em comum lhes impôs” (p.28).
Nessa linha de pensamento, o símbolo do divino é usado como forma de
tentar suprir todos os nossos anseios perante o desamparo do desconhecido.
Podemos indagar que de fato a religião nos deu algumas capacidades interessantes
no sentido da estruturação sociocultural, por ter castrado certos desejos que tornaria
a vida em comum impossível. Em contrapartida, Freud (1927) nos faz refletir dizendo
que:

A religião, é claro, prestou um grande serviço para a humanidade, contribuiu


muito para domar os instintos associais. Mas não foi o suficiente. (...) Se
houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, conforta-la,
reconcilia-la com a vida, e transforma-la em veículo de civilização, ninguém
sonharia em alterar as condições existentes. Mas, em vez disso, o que
vemos? Vemos que um número estarrecedoramente grande de pessoas se
mostram insatisfeitas e infelizes com a civilização, sentindo-a como um jogo
do qual gostaria de se libertar. (p.47)

Analisando esse questionamento, podemos afirmar que na religião, o


indivíduo é colocado em uma condição de negar os seus desejos através do

22
sacrifício em prol da comunidade, colocando-o, assim, em uma condição
desconfortante. Também é interessante pontuarmos, no que diz respeito à
insuficiência da religião para com boa parte da humanidade, a incapacidade da
mesma em dar respostas palpáveis, coisa que o progresso da ciência nos oferece.
No campo cientifico, procura-se no concreto, respostas para compreendermos
tudo que nos cerca (CASSORLA, 2002). Em decorrência dos conhecimentos
adquiridos, podemos ter em nosso imaginário, uma ideia de controle do universo,
também a capacidade de dominar as forças da natureza e extrair dela as suas
riquezas objetivando a satisfação das necessidades humanas (FREUD, 1927).
Dessa forma, podemos afirmar que a maneira na qual encaramos o concreto
no sentido do saber cientifico, também oferece certa sensação de conforto em
relação às respostas ditas como palpáveis parente o vazio humano em relação à
complexidade imensurável do universo.
Já a arte, é a expressão inconsciente transgredindo na obra os anseios da
humanidade. Assim, Freud (1927) pontua que:

Como já descobrimos há muito tempo, a arte nos oferece satisfações


substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas renúncias
culturais, e, por esse motivo, ela serve, como nenhuma outra coisa, para
reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da
civilização. (p. 23)

Através dessa afirmativa, podemos dizer que na arte é possível encontrar


uma forma de escapar das amarras que a cultura nos impõe, podendo transgredir,
no sentido da capacidade de satisfazer, na via do simbólico, os desejos que vão de
contrapartida a tudo o que está preestabelecido culturalmente, já que na arte não há
restrições. Nos conteúdos artísticos, pode-se elevar o que existe de mais íntimo no
indivíduo.
Outro elemento que emerge no contexto do tema morte é a figura do herói.
Becker (2007) coloca que uma das características básicas dessa figura, em nossa
cultura, é refletir o terror da morte, enfrentando-a:

O heroísmo é, antes de qualquer coisa, um reflexo do terror da morte. O


que mais admiramos é a coragem de enfrentar a morte, damos a esse valor
a nossa mais alta e mais constante adoração. Ele toca fundo em nossos
corações porque temos dúvidas sobre até que ponto nós mesmos seriamos
valente. (BEKCER, 2007, p. 31)

23
Ao longo de nossa história, de nossa cultura, contos, mitos e religiões nos são
oferecidos como elementos de integração social, através de narrativas em que o
herói se dá em sacrifício, vencendo ou não a morte, eternizando-se. Os
personagens descritos nos contos mitológicos, cinematográficos e religiosos, por
exemplo, são figuras que enfrentam as mais temíveis feras ou até mesmo superam a
morte do corpo, e por esse motivo, são exaltados por boa parte da humanidade.
Um dos personagens mais cultuados na cultura ocidental é a figura de Jesus
Cristo, que sem dúvida, é uma representação total da negação da morte, pois nas
escrituras bíblicas, o mesmo consegue superar o enfado do corpo, subir aos céus e
ir de encontro ao divino (eternidade). O interessante de pensarmos no culto do
catolicismo, por exemplo, é ver o quão simbólico é as representações do corpo e do
sangue que são consumidos em determinado rito representado pelo pão e o vinho
por seus adeptos, através da personificação de seu messias que conseguiu superar
o carnal.
De acordo com Becker (2007), a intencionalidade advinda dos processos
culturais da humanidade está conectada em oposição à natureza, ao ponto de
transcendê-la, é uma negação através do heroísmo da condição de ser meramente
uma criatura destinada à morte. Assim, o heroísmo de cunho religioso, tiraria do
homem o sentimento que mais deseja negar (finitude) e a transformando em uma
condição heroica, leve, suave, aprazível, aceitável, pelo deslocamento do eixo da
vida: da terra para o céu (BECKER, 2007).
Podemos evidenciar que a ideia de morte em nossa cultura é vista como algo
horripilante, morrer para o ser humano, significa reduzir-se ao nada, ao desamparo,
ao desconhecido. E como já pontuamos nesse capítulo, a ideia que permeia a
inexistência é tão insuportável que acabamos por nega-la.
Assim, através das nossas criações simbólicas, procuramos superar a
insuportável consciência advinda da finitude humana e do desconhecido através dos
mitos, sistemas religiosos, artísticos dentre outros. Tentamos superar na via do
simbólico o nosso medo dos temores da noite, do obscuro fim de que nada se sabe
chamado morte.
2.2. As Representatividades da Morte nas Produções do Black Metal
Quando olhamos para o Black Metal, vemos nele a expressão artística que
mais evoca a ideia de morte. Enquanto nossa cultura hipervaloriza a vida ele

24
valoriza a morte, desconfigura a vida evidenciando o caos que também lhe é
inerente, como todas as formas de violência e sofrimento.
Talvez o Black Metal seja uma das poucas manifestações musicais que
levam, de uma forma tão aberta, temáticas desta natureza em nossa cultura. Como
já mencionamos neste trabalho, o subgênero em questão, tem uma sonoridade
extremamente agressiva, tendo como base um corpo sonoro musicalmente “feio”, do
mesmo modo como a morte é vista em nossa cultura. As composições musicais que
envolvem o estilo, geralmente tem um dilema extremamente existencial, evocando
elementos como a contemplação em decorrência da ideia de morte. Vejamos, então,
o que falam essas composições.
Começaremos com a banda brasileira de nome Khaotic e a letra da música
chamada “Hino à Morte”, do álbum lançado em 2013 com título Tenebrae:

Tu és bela e temida
Perfeita e obscura
Portadora de nossos destinos
O caminho além de nossa existência

Essa tristeza, o luto a destruição


A destruição do que um dia chamou-se vida

Envolta em um manto negro


Sua fúnebre presença causa temor
Traz consigo o caminho final, a última barreira
O misterioso segredo do que há além de ti

Tu és o fim e o começo (Solidão)


O limiar entre a vida e o desconhecido (Morte)
És justa mas impiedosa (Fúnebre)
És a mais perfeita sincronia do obscuro (Luto)

Tu virás ao encontro de cada um de nós


E não há como se esconder ou fugir
Todos perecemos diante de sua negra presença
Não há como resistir ao seu encanto fúnebre
Todos os sentidos se perdem diante de ti
Tome o meu último suspiro de vida
Entrego-me ao seu abraço fatal
25
Leve-me para a solidão, para escuridão
Mostre-me seus segredos
Leve-me para muito além daquilo que um dia pude compreender

Consuma-me completamente
Envolva-me em teu manto negro
Tome meu ultimo suspiro de vida
Leve-me para muito além
Para longe de tudo, leve-me para escuridão

Magnifica destruição – Morte!


Inevitável destino – Morte!
Mórbido fim – Morte!
Luto e tristeza – Morte!

Na letra da canção, pode-se observar o quão exaltado é o fim da existência.


Vê-se toda a inquietação perante o desconhecido, evocando uma estética de
destruição, trazendo conteúdos claramente mortíferos.
Diferentemente das questões de negação da morte, que também
explanamos. A música em questão, não nega a morte no sentido de uma
transcendência a nível religioso, em busca da “certeza” de um local prometido e sem
dor, onde a morte é meramente a continuidade da vida.
Todo o simbolismo que a canção citada propõe é a ideia de entregar-se a
morte, mostrando, de certa forma, as incertezas do fim da existência e evidenciando
“o real”, no sentido de que nós somos seres predestinados ao padecimento.
Obviamente se Deus é vida, e, portanto, Ele representaria a garantia da
eternidade, a morte, em definitivo, seria a negação de Deus e de toda doutrina
cristã, incluindo a ideia de paraíso, ressurreição de Cristo, etc. Por essa razão, para
o Black Metal, a figura de Deus também está em total declínio. Pois o que se vê em
suas composições é justamente a ausência de toda a mística que há no divino, em
que o mesmo possa promover para o homem um sentimento de completude. Isso
pode ser visto na música “For The Below of God” do álbum feito em 2012 chamado
Redefining Darkness da banda sueca Shining:

Desde que nasci fui


Atraído pelo sinistro
26
Todas as forças malignas e cruéis do mundo
Mesmo assim, às vezes fui enganado por seu oposto
E é com grande vergonha
Que reconheço esses erros

Pai... que não estais no céu


Ouve os meus gritos de verdadeiro remorso
Para permitir que um ser mortal jamais se iguale a vós
Deve ser punido por um destino pior que a morte

Eu encontro conforto na tristeza e na dor


Pensando em todas aquelas belas
Coisas que poderiam ter sido
Agora me coloque em uma posição na qual
Tenha de escolher
Minha devoção ao mal sempre
Virá antes que você

Por incontáveis dias e incontáveis noites


Eu tenho andado por estas
Ruas desgastadas sozinho
E é nesses momentos angustiantes
Que acho nutrição para minha faminta

E misantrópica alma

Eu encontro conforto na tristeza e na dor


Pensando em todas aquelas belas
Coisas que poderiam ter sido
Agora me coloque em uma posição na qual
Tenha de escolher
Minha devoção ao mal sempre
Virá antes que você

Não importa o que você faça


Não importa o que você diga
5
Para quem quer que você reze

5
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/shining/for-the-god-below/traducao.html>
Acesso em: 25 out. 2016.
27
O sentimento de solidão, tristeza, misantropia e desamparo são evidentes em
toda a composição. Mais especificamente o desemparo religioso, é visto como uma
forma de ilusão, no qual o sujeito reza aos “céus” por um conforto perante á
inospitalidade do mundo. Assim, a existência pontuada no Black Metal, é vista como
uma grande tragédia que deve ser expressa, que, de certa forma, é vivenciada em
todo o contexto musical.
Deste modo, as figuras que representam toda a questão da negação do
corpo, a busca para uma transcendência, por superação da morte, é colocada em
condições de declínio.
Outra composição que reflete bem essa ideia é a música “Jesus Tød”, da
banda norueguesa Burzum, do álbum produzido em 1996 intitulado Filosofem:

Uma figura caída no chão


Tão cruel que as flores ao seu redor
Murcham
Uma alma escura colocada sobre o chão
Tão fria, que toda a água se transforma em gelo
Uma sombra caiu sobre a floresta
Murcha como a alma do projeto
Alma que tinha o formato de uma sombra
6
A sombra das forças do mal

Nesse caso, a figura tão exaltada pelos religiosos de cunho cristão, é


colocada em total decadência, uma vez que ela é “destronada” como um pai que
não consegue suprir todas as necessidades humanas. No caso, a mítica de Jesus
Cristo, é vista pelo seu inverso, o sujeito desconfigurado pela morte, sendo assim,
um ser finito e não digno de adoração.
Outro lugar, no Black Metal, em que a morte emerge com toda sua força e
expressão, é na produção das capas dos discos. As artes gráficas de seus
respectivos álbuns, por exemplo, têm conteúdos que exploram a temática estilizada
de suas composições. Podemos ver o declínio das figuras religiosas através da capa
do álbum “Fuck Me Jesus” feito em 1991 da banda sueca Marduk.

6
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/burzum/91474/traducao.html> Acesso em: 25
out. 2016.

28
Figura 5 - Capa do álbum "Fuck me Jesus" da banda Marduk - Disponível em:
<http://www.osmoseproductions.com/item/2/94903-110402-1110-1-0/113721018/marduk-fuck-me-
jesus.html>. Acesso em: 25. Out. 2016.

A arte em questão consegue chegar ao extremo da contraposição às


ideologias cristãs. Inclusive, o material exposto, foi proibido de comercialização em
diversos países devido à ilustração (PATTERSON, 2013).
O “ataque” ao cristianismo aqui, proposto na capa, reflete a ideia de
mortalidade da divindade. Sob certo aspecto, a humanização de Cristo por incitação
ao sexo carnal com ele. Ao mesmo tempo, nos faz pensar sobre a descrença no
absoluto como solução para a morte – ou mesmo para a vida −, a negação de um
mundo perfeito, santificado, sem sofrimento, exaltado, glorificado. O herói cristão
para o Black Metal é uma farsa, um engano, não traduz a realidade do mundo.
Outro ponto, nas artes gráficas, que é extremamente explorado nas criações
do subgênero é justamente o cenário de violência e de destruição de tudo que é
pregado como promessa pelo cristianismo. O que se vê em questão é toda uma
estética apocalíptica, em que o cenário da morte representa o fim, o declínio do
bem, da artificialidade, das “mentiras” pregadas pela religião judaico-cristã, das
29
promessas não cumpridas de um além-vida que não se vê, que não se sabe, que se
limita a fé.
A destruição, neste caso, estaria alinhada com a própria mitologia cristã ao
falar do Mal, do inferno, de Satanás como oposição a Deus. Nessa perspectiva, a
figura de Satanás representaria a liberdade das ilusões, representaria a própria
realidade, crua, dura, insuportável. Liberdade essa que destruiria toda a estética
mística religiosa, visto que tudo será destinado ao caos.
A capa do álbum “Angelus Exuro pro Eternus” de 2009, junto à música “The
End of Human Race”, da banda sueca Dark Funeral, reflete bem essa ideia:

Figura 6 - Capa do álbum "Angelus Exuros pro Eternus" da banda Dark Funeral - Disponível
em: <http://www.metal-archives.com/albums/Dark_Funeral/Angelus_Exuro_pro_Eternus/249659>.
Acesso em: 15. Mai. 2016.

Lá vêm eles, os servos alados do Lorde das Trevas


Como nuvens negras, eles bloqueiam a luz do sol
Ao lado deles, voa o rei dos demônios gafanhotos
O senhor destruidor, e o filho escolhido do apocalipse
30
Este com certeza, é o fim - da raça humana
Trovões rugem, o abismo agora, escancarado
A escuridão desencadeia, seu exército sobre o mundo
O ar cheio do cheiro de enxofre...
E carne queimada...

Quando o homem pensou, eles tinham visto o pior do inferno


A terra explode e enche o céu de sujeira, e osso quebrado
O senhor-necro, ergue-se de baixo
Reunidos permanecem, o resto de sua impiedosa horda

A impiedosa horda

Os poucos que podem estar vivos, serão tomadas pelas chamas


O mundo está pegando fogo, as chamas sobem mais alto...

Os seres humanos - apagados

Agora no lugar, onde o assassino está


Um edifício surge, construído pela corrida infernal
Um monumento do mal, inteiramente feito de ossos

É tudo o que resta - da raça humana

O mundo está em chamas - chamas a subir mais alto...

"Um tempo perdido para os horrores pestilentos de uma nova era demoníaca"
"Empalados no topo do monumento a tortura vai queimar"
"Para sempre ..."

Os poucos que podem estar vivos, serão tomados pelas chamas


O mundo está em chamas - chamas a subir mais alto...

7
Os seres humanos apagados...

7
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/dark-funeral/1593182/traducao.html> Acesso
em: 25 out. 2016.

31
Outro espaço expressivo, dentro da arte Black Metal, dos conflitos que
envolvem a morte, o cristianismo, satanismo, etc., é o palco. Eles são, geralmente,
carregados de conteúdos que evocam toda uma ritualística de um cenário repleto de
conteúdos que remetem a uma contraposição ao cristianismo, levando elementos
como crucifixos invertidos, esqueletos e sangue sintético. Também são usados
acessórios flamejantes para dar mais ênfase a um show de natureza “caótica”. As
imagens abaixo, refletem bem o que estamos a dizer:

Figura 7 - Show da banda Watain - Disponível em: <http://accessrock.se/live-watain-getaway-


rock-festival-gavle/>. Acesso em: 20 mai. 2016

Figura 8 - Show da banda Gorgoroth – Disponível em: <


https://www.youtube.com/watch?v=gWTmMGmnEBg>. Acesso em: 15. Nov. 2016

32
Como se pode notar, ao longo deste capitulo, todas as produções que
envolvem o Black Metal, de uma maneira ou de outra, são uma forma de
contraposição sobre o que é pregado em nossa cultura em relação ao tema morte e
suas formas de negação. O Black Metal traz em sua estética uma metaforização da
ideia de morte que quebra muitas das formas de burlar o medo da morte que nos é
preestabelecida. Sabendo que o Black Metal faz parte da categoria do Metal
Extremo, podemos perceber que:

Toda essa forma de produção do Metal Extremo (conteúdos de culto à


morte e à violência), tanto escrita quanto visual, em todas as suas formas,
trata-se de uma prática que diz da maneira de se colocar e agir no mundo
desse grupo de pessoas. As letras, a apresentação visual, as fotos
promocionais, os nomes adotados, os textos, as resenhas, as peças
publicitárias, tudo isso fala de uma produção de sentido (SILVA, 2008, p.
13).

Através de tudo que já foi discutido até o momento, podemos dizer que há um
heroísmo no Black Metal. Pois, contemplar à morte, criar uma estética de caos,
repugnar a Cristo, desafiar o clero, exaltar Satanás vai de contra tudo que é
preestabelecido culturalmente. É algo de extrema ousadia. É necessária a coragem
de um herói – ainda que visto como anti pela cultura dominante – para realizar tais
proezas. No entanto, seus seguidores se refestelam com tudo que envolve a mística
do Black Metal, sentem orgulho de fazerem parte desse movimento e muitos levam
a sério tudo que é “pregado” nesses “cultos”, inclusive o cometimento de suicídio por
“orientação” de músicas dessas bandas.
Porém, ao mesmo tempo, todo esse enfrentamento em decorrência das
formas de negação para com o estado inorgânico do sujeito, não seria uma defesa
do ego em relação ao sofrimento?
Neste caso, o que podemos afirmar diante do Black Metal, e suas questões
metafóricas em decorrência do tema morte, é que essa manifestação artística tem a
tentativa de mexer com o lado mais desafiador do homem, ou seja, com sua parte
mais obscura e inquietante, que vai contra todos os limites da insuportabilidade da
consciência, com a intenção de “quebrar” as formas de “burlar” os modelos em
relação ao medo da morte que é transmitido por nossa cultura aos sujeitos, levando
o tema em questão a outro patamar, em decorrência da diferenciação dos sentidos

33
associados à mesma, evidenciando de forma mais aberta, e mostrando na arte
todas as nossas inquietações.
Diante de todas as questões aqui colocadas, é importante que se diga que
nossa visão sobre o satanismo, em particular, a partir do Black Metal, não é a visão
cristã do inferno como lugar de punição, como Satã enquanto castrador, senhor de
um reino que imporá sofrimento àqueles que não se enquadraram ao modelo cristão
e foram “abandonados” por Deus. Satã representa a própria realidade, a
desmistificação de um mundo bom, puro, ingênuo, casto. Nessa perspectiva, diria
mesmo que a psicanálise e Satanás andam juntos, uma vez que os dois revelam a
crueza do humano. Seria a psicanálise obra do Diabo? Eis a questão. Para tentar
responder, discutiremos, no próximo capítulo, sobre as pulsões.

34
CAPÍTULO III

3 O ATRAVESSAMENTO DA PULSÃO NAS PRODUÇÕES DO BLACK METAL

3.1. Desvelando o Conceito de Pulsão


A respeito do conceito de pulsão, Birman (2009) nos diz que Freud,
inicialmente admitira que este tema ainda fosse de natureza “obscura” para o
mesmo. Porém, ressalvara que era algo extremamente importante como forma
teórica da metapsicologia, não podendo assim ser descartada por hipótese alguma.
Sem a definição de pulsão, muito provavelmente a psicanálise não teria alicerces
suficientes para se sustentar, pois o conceito em questão é um dos pontos
fundamentais na construção da teoria psicanalítica.
Entretanto, é importante dizermos que inicialmente houve um equívoco
linguístico quanto à palavra pulsão no sentido freudiano, pois em alemão (idioma
original que as obras de Freud foram escritas), a palavra é Trieb que foi traduzida
pela língua inglesa de modo errôneo como Instint (instinto) (BIRMAN, 2009). Assim,
ambas as palavras são de ordem distintas para a psicanálise. O instinto é oriundo de
excitações fisiológicas que os animais de modo geral possuem, para que os
mesmos sejam designados a saciarem suas necessidades biológicas para sua
sobrevivência e de sua espécie (BIRMAN, 2009). Deste modo, o instinto tem como
característica comportamentos biologicamente herdados.
Segundo Birman (2009), o conceito de pulsão é apresentado por Freud como
o limite entre o que se encontra na fronteira do corpóreo (somático) e da alma
(psiquismo). Ele se representa entre o corporal e o mental. Para melhor categorizar
as diferenciações que residem entre o instinto e a pulsão, podemos evidenciar que:

A rigor, a diferença entre elas, estaria no fato de que a excitação fisiológica


se caracteriza por ser uma força de impacto, e momentâneo, enquanto que
a excitação pulsional seria uma força constante. Portanto, seria possível ao
organismo promover a fuga de uma excitação fisiológica pela ação reflexo e
muscular, o que não aconteceria com a excitação pulsional. (BIRMAN, 2009
p.83)

Nesta linha de raciocínio, o instinto tem como intento uma excitação de


natureza fixada, possuindo um objeto efetivamente específico, para saciar sua
necessidade biológica. Já no que diz respeito à pulsão, não existe nenhum

35
comportamento de sentido direto, nem decorrência de um objeto especifico, sendo
assim descrita pela ordem do desejo.
Com este sentido, o desejo é codificado através da linguagem, já que faz
parte do aparato psíquico, ou seja, da subjetividade de cada sujeito. Dessa maneira,
a pulsão nunca poderá se torna parte da consciência e até mesmo no inconsciente
ela é vista como uma forma de ideia e afeto (BIRMAN, 2009). Assim, a força
pulsional se encontra no limite entre o corpo e a psíquico sendo constituída pela
conjuntura de determinados elementos específicos que são: a pressão/impulso, o
alvo, o objeto e a fonte da pulsão (BIRMAN, 2009).
O impulso ou pressão, via de regra, caracteriza o ser da pulsão, sendo que a
pulsão seria uma exigência de trabalho colocado pelo psiquismo em relação ao
corpóreo, implicando, deste modo, a força que evidenciaria sua capacidade de
intensidade e economia (no sentindo de energia libidinal). Sendo assim:

O impulso funda o ser da pulsão e a mobilidade caracteriza o impulso como


tal qualquer pulsão é necessariamente ativa. Desta maneira quando se fala
em pulsão passiva, o que está em pauta, não é a passividade em oposição
à atividade, mas o alvo passivo da pulsão e a forma passiva pela qual a
mobilidade se realiza. (BIRMAN, 2009 p. 99)

O alvo de qualquer pulsão é sempre a experiência advinda de uma satisfação,


sendo assim a busca pela satisfação, no qual mobilizaria o impulso da atividade
tendo em vista a redução da tensão provocada pelo impulso já que:

A pulsão evidencia uma perturbação no aparelho psíquico, pela exigência


do trabalho que promove pelo fato de ser uma força constante. Essa
perturbação se materializa pela produção da sensação de desprazer, de
maneira que almejar a satisfação implicaria diminuir a intensidade do
impulso em questão, para que o prazer pudesse se estabelecer e ser
finalmente restaurado. (BIRMAN, 2009 p. 100)

O objeto é o meio pelo qual a pulsão poderá atingir o seu alvo, a experiência
de satisfação, também sendo a forma mais variada da questão pulsional, por não ser
ligada a ela em seu sentido original. Assim o objeto da pulsão pode ser mudado
constantemente, ele é multifacetário. Com isso, vários objetos podem ser
satisfatórios para a mesma pulsão e vice-versa (BIRMAN, 2009). No entanto,

36
diferentes questões pulsionais poderiam se saciar pelo mesmo objeto. Deste modo,
Birman (2009) afirma que:

Pode-se compreender disso, no que tange a variação e a multiplicidade do


objeto da pulsão, a ruptura entre o registro biológico e o registro pulsional,
que acompanhamos em filigrana desde o início desse ensino de Freud. Por
isso mesmo, para teorizar sobre a pulsão seria necessário ir além da ordem
vital e do instinto, estudados pelo discurso biológico, para construir um
discurso metalpsicológico. (p.101)

Nesta perspectiva de pensamento, a metapsicologia mostra que se encontra


para além do discurso científico dominante na época em que Freud criou sua teoria.
Todavia, a lógica cientificista deste período preconizava os fatos ditos como
plausíveis de maneiras palpáveis, ou seja, de forma mapeada no corpo.
Já o conceito pulsional iria para além deste pensamento, no sentido de
separar o homem do contexto meramente biológico. Já que a concepção da pulsão
transpassa sobre o conceito categórico da ciência, mostrando que tais questões não
podem resolvidas pelo conceito biológico que foi preconizado nesta época, mas pelo
que permeia entre o psiquismo e o corporal.
A fonte da pulsão é o corpóreo, não o mental, neste caso, seria uma questão
notoriamente de natureza somática no qual se origina o impulso, podendo ocorrer
num órgão ou em outra parte do corpo (BIRMAN, 2009).
Em primeira instancia, na conceituação, através da obra “os três ensaios
sobre a sexualidade”, Freud denomina a pulsão de forma dual, representado pelas
pulsões do eu e de autoconservação, já as segundas, estariam ligadas como
pulsões sexuais (BIRMAN, 2009). Nestas duas distinções, evidenciam diferentes
operações e funções do aparelho psíquico no qual a pulsão do eu e de
autoconvervação se designaria para as necessidades advindas das funções do
corpo na intenção de autopreservação da vida do sujeito (SIMANKE, 2014). Desta
maneira, impondo ao mesmo a procurar os alimentos e se defender dos perigos
exteriores para se manter vivo.
Já as pulsões sexuais serviriam diretamente para a constituição advinda da
sexualidade infantil, a busca pelo prazer do perverso-polimorfo (BIRMAN,2009).
Nesta linha de pensamento, o que seria soberano para com a vida, era o gozo e o
prazer designado pelo exercício absolutamente sem restrições da sexualidade e do
desejo.
37
De acordo com Simanke (2014), no segundo dualismo, Freud classificou a
pulsão em duas modalidades diferentes como base fundamental dos conflitos
psíquicos na sua obra “Além do princípio do prazer”. Neste contexto, o dualismo da
teoria pulsional foi denominada como Pulsão de Vida (Eros) e Pulsão de Morte
(Thanatos) (CARSSORLA, 2002). Assim, “Neste contexto teórico, a polaridade entre
a vida e a morte passaria a configurar o conflito psíquico, delineando as suas
diversas linhas de forças” (BIRMAN, 2009 p. 109).
Nesta nova perspectiva, as pulsões do eu e de autoconservanção e as
sexuais, agora, são codificadas como pulsão de vida, já que elas têm o caráter para
a progressão e conservação da vida (SIMANKE, 2014). Já a pulsão de morte seria
o oposto, ou seja, a energia que a envolve tem o caráter de destrutividade,
procurando o estado inorgânico, a tensão zero – à morte (CASSORLA, 2002).
Segundo Birman (2009), a pulsão se centra essencialmente no impulso e nas
condições econômica do sujeito sendo que:

Assim, o impulso, ao impor uma exigência de trabalho ao psiquismo por


uma perturbação (desprazer) que não pode ser descarregada por uma ação
reflexa, se acopla a objetos que possam apaziguar tal perturbação e que
permitam a satisfação. Constitui-se dessa forma, o circuito da pulsão, um
processo que se repete de maneira insistente e infinita na medida em que,
sendo uma força constante, a pulsão é permanentemente relançada. (p.
116)

Tal circuito, nesse sentido, seria através do aparelho psíquico que faria com
que o impulso fosse visto como montagem e circuito pulsional, já que não poderia
surgir de maneira espontânea. Dessa forma, para se alcançar a satisfação mediante
a atividade da pulsão, seria necessária a mediação das inúmeras formas de
representatividade objetivando que o impulso encontre uma forma de representar-se
para ter a satisfação (BIRMAN, 2009).
Com a montagem e o circuito da pulsão, o caminho que seria de natureza
somática passaria a pertencer ao campo erógeno e assim chegaria à realização
prazerosa. Entretanto, a finalidade de todo o contexto pulsional e de seu aparelho
psíquico, seria a regulação insistente do princípio do prazer (BIRMAN, 2009).
Diante do exposto, da definição de pulsão, da diferenciação do conceito de
instinto, vinculado à dimensão biológica como objeto definido, e de pulsão como sem
objeto apriorístico, podemos emergir de forma mais clara naquilo que nos interessa:

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a pulsão de morte (Thanatos). Pois é ela que, a nosso ver, se faz representar nas
produções do Black Metal.
3.2. Sadismo, masoquismo, perversão como via dos destinos pulsionais
Como já vimos anteriormente, ao longo desse capítulo, o movimento primário
da pulsão é justamente o de atividade, para que o organismo tenha capacidade de
se livrar do desprazer constante, em prol de restaurar-se através da satisfação
(BIRMAN, 2009). A atividade, neste caso, seria em decorrência da violência perante
a potência do ser que envolve o psiquismo do sujeito.
Segundo Birman (2009), Freud denomina como “destinos da pulsão” o
conjunto das defesas que o aparelho psíquico constrói para conseguir lhe dar com
os impulsos perturbadores provocando, assim, exigências da ligação do psíquico
com o corporal. Desse modo, em relação às ações defensivas realizadas, o impulso
poderá delinear percursos nos registros psíquicos e corporais, assim traçando neles
uma cartografia.
Nos destinos traçados pela teoria pulsional, podem existir diferentes
percursos para a obtenção de seus destinos (realização do prazer) que são: a
inversão no seu contrário, o retorno sobre a própria pessoa, o recalque e a
sublimação (BIRMAN, 2009). Porém, no primeiro momento, Freud só tratará sobre
os dois primeiros destinos, já o recalque a sublimação, foram codificados em outras
obras do autor (BIRMAN, 2009).
Na inversão e seu contrário e o retorno para a própria pessoa, o que
realmente estaria em jogo, seria a presença de dois processos que se
complementam entre si, porém de modos distintos. Neste caso, Birman (2009) nos
diz que o que estaria em pauta, seria o deslocamento entre os polos ativo e passivo,
que levaria para a mudança de conteúdo pulsional. Nessa retórica, as atividades de
cunho ativo da pulsão, podemos citar, para melhor exemplificação, as características
que envolvem as questões do sadismo e do masoquismo.
Assim, nessa perspectiva, no que diz respeito às indagações que permeiam o
sadismo e masoquismo, seriam atos totalmente marcados pela atividade de
natureza violento, tendo como origem a pulsão de morte (SIMANKE, 2014). O
sadismo consiste na forma/poder do exercício dirigido contra outra pessoa como
objeto. Desse modo, Birman (2009) nos pontua que:

39
A retórica freudiana é muito clara, no que concerne ao sadismo original,
pois o que estaria em pauta seria a afirmação da potência do ser que se
contraporia ativamente a perturbação desprazerosa aniquilante. Se esse
movimento seria marcado pela violência, o que se pretende com isso não é
o aniquilamento do outro, bem entendido, mas a afirmação da potência de
viver. Enfim, a afirmação de potência de ser seria marcada pela violência.
(p.132)

Neste caso, a energia de aniquilação pulsional que envolvem as atividades


sádicas como marca registrada, seria a manifestação/afirmação da potência do ser
perante o outro que estaria em uma posição passiva tomada como objeto. Em
seguida a isto:

O outro como objeto seria abandonado e substituído pelo próprio sujeito da


ação, que realizaria um retorno para a própria pessoa. O alvo ativo da
pulsão se transformaria em passivo, conjuntando assim a mudança do
objeto com a transformação do alvo da pulsão. (BIRMAN, 2009 p. 133)

Birman (2009) também nos diz que em seguida, no último e terceiro


momento, aconteceria em decorrência de que outra pessoa assumiria o papel de
sujeito, no contexto que envolve as transformações de atividade para passividade
assumida no movimento antecessor.
Segundo Simanke (2014), Freud pontua que a obtenção de prazer mediante o
movimento do masoquismo aconteceria pela via do sadismo originário em relação
com o terceiro movimento, a posição passiva ficaria na via fantasmática. Antes
desse último circuito da pulsão, o masoquismo não existiria (BIRMAN, 2009).
Assim, no que diz respeito ao masoquismo, o que poderemos denominar
como tal, é justamente a questão passiva da pulsão, em que aconteceria uma
mudança do objeto pulsional, ou seja, a própria pessoa que antes estava na posição
anterior (ativo), passaria a assumir o lugar do outro voltado para seu próprio corpo
(passivo). Além disso, pode ser destacado na relação sadismo/masoquismo que:

Seria apenas na montagem final do sadismo que a pulsão manifestaria a


pressão de humilhar e dominar o outro, além de lhe infligir dor. Porém, isso
não seria o imperativo do sadismo originário. Com efeito o que se pretende
originalmente é afirmar a potencia do ser, que mesmo que se realize pela
violência não busca nem infligir dor ao outro nem tão pouco domina-lo e
humilha-lo. Seria apenas a passagem do sujeito para a posição masoquista,
posteriormente, que o movimento sádico inicial seria transformado, visando
provocar dor no outro conjugado por sua humilhação e dominação.
(BIRMAN, 2009 p. 135)
40
Ao longo do que vem sendo discutido neste capitulo, a objetividade da pulsão
é justamente encontrar meios/mecanismos na busca de alívio/prazer mediante o
desprazer ocorrido pelo movimento constante pulsional.
Assim, fica evidente, ao longo deste trabalho, que a teoria psicanalítica
representa uma cicatriz em todo o narcisismo da humanidade, pois a psicanálise faz
questionamentos sobre o humano que antes nunca foram feitos (CASSORLA, 2002).
No Zeitgeist8 que a psicanálise surgiu, à ciência era extremamente conservadora e
positivista, não admitia nada que tivesse um caráter subjetivista. A trajetória de
Freud começou com o desvelamento do inconsciente que, sem dúvida, é o ponto
crucial de toda a teoria psicanalítica (FADIMAN; FRAGER, 1986).
A partir de então, o homem não era mais “o senhor de si”, ou seja, ele não
tinha total domínio sobre suas faculdades mentais como se imaginava outrora, agora
sabemos que no ser humano existem forças que vão para além daquilo que
pensamos e não conseguimos controlar. Neste momento, o indivíduo é colocado
com um saber que para si é desconhecido, que nos impulsiona para situações
impensadas. Deste modo, a teoria freudiana, contestou uma série de tabus culturais,
científicos e religiosos em todo o contexto da sociedade (FADIMAN; FRAGER,
1986).
Segundo Cassorla (2002), Freud também traz, através de suas investigações
na psique, outra ferida em todo o narcisismo da sociedade ocidental, e talvez esta
seja de natureza tão insuportável quanto à noção do inconsciente. São justamente
os estudos que o mesmo fazia sobre à morte, pois diferentemente das questões
inconscientes, não temos nenhuma ideia ou norte sobre o fim da existência
(CASSORLA, 2002).
A vida e a morte são duas forças distintas, dois extremos. Cassorla (2002)
pontua que as características da vida vêm através da criatividade; já da morte, vem
em decorrência da destruição. A morte, de certa forma, evidencia o real – no sentido
do padecimento do corpo e de tudo que nos circunda.
Estas duas forças pulsionais, são representadas através dos dois deuses da
mitologia grega Eros (vida) e Thânatos (morte). Nesta analogia, os dois deuses
(pulsões) viveriam em constante conflito na nossa psique em que:

8
Espírito da Era
41
As primeiras levam ao crescimento, desenvolvimento, integração,
reprodução, manutenção da vida; as segundas fazem os movimentos
inversos, de desintegração, tentando levar o indivíduo para um estado
inorgânico, à morte. (CASSORLA, 2002 p. 97)

Por mais que estas duas forças pareçam dois extremos que não se tocam,
elas acabam se fundindo em uma ideia de complementação, e ao mesmo tempo, se
posicionam em um processo dialético (CASSORLA, 2002).
Quando, por exemplo, a pulsão de morte está juntamente com a vida, a
agressividade tomada pelo sujeito é normal, assim protegendo o indivíduo de uma
série de questões em que o mesmo possa lutar para ter o mérito desejado
(CASSORLA, 2002), a manutenção/preservação da vida. Deste modo, vemos o
quanto é relevante à interação destas duas forças psíquicas para a autopreservação
do sujeito. Porém, quando há um desequilíbrio entre elas, e a pulsão de morte tem
uma posição de dominação no psiquismo do individuo, evidencia-se sua força no
extremamente destrutiva quando:

Nos defrontamos com situações de sofrimento, que podem manifestar-se


nas áreas somáticas, mental e social, em todas elas. Essa predominância
em seu auge pode levar à morte emocional (na loucura) e à morte do corpo,
através de somatizações graves ou atos suicidas, ou mesmo mortes
“naturais” precoces. (CASSORLA, 2002 p. 97)

Por mais que nós estejamos tomados pelo equilíbrio entre Eros e Thânatos
em nossa pisque, em termos subjetivos, o deus da morte sempre irá vencer em
decorrência do tempo, pois como já foi dito neste trabalho, tudo está no processo de
padecimento. Porém, em questão de espécie, através da reprodução (genes), que
dão origem aos nossos descendentes, Eros consegue, de certa forma, triunfar
(CASSORLA, 2002).
As pulsões de vida e morte são uma constante para toda a evolução da
humanidade, pois essas duas energias mencionadas fazem com que nós
perpetuemos a preservação e, consequentemente, a continuidade de nossa espécie.
Porém, ninguém pode afirmar que a espécie humana ou todos outros seres
vivos que compartilham de nosso planeta, continuarão existindo para todo o sempre.
Não sabemos se seremos extintos em decorrência de alguma eventualidade natural,
ou poderemos a nós mesmos nos destruir, já que temos uma capacidade de poder

42
de fogo extremamente potente para isso (CASSORLA, 2002). E, como nos conta a
história, nós já utilizamos destes recursos contra nós mesmos.
3.3. Os Destinos Pulsionais nas Produções do Black Metal
Em todo o contexto que a extremidade ideológica do Black Metal possa
chegar em termos estéticos, podemos perceber que muitos desses elementos fazem
uma ligação inegável com os conteúdos que são abordados sobre os conceitos da
pulsão de morte. Nas questões que envolvem o sadismo vista no percurso primário
da pulsão, na qual o desejo de ser soberano para com outro é uma forma de
potencia de ser (BIRMAN, 2009). Podemos associar essa demanda através da capa
e letra da música que se encontra no material feito nos anos 2000 intitulado
“Obedience” da banda Marduk.

Figura 9 - Capa do álbum "Obedience" da banda Marduk – Disponível em: <


https://br.pinterest.com/alwin01/music/>. Acesso em: 15. Out. 2016.

Eu vou puxar as cordas fortemente e deixar o seu bondage apertado


Olhos vendados e amordaçados, você é tão desamparada quando você está
Sem os dois, audição e visão

43
Desamparada, sem controle, todos os seus sentidos giram
Toda a atenção centrada unicamente na sua vermelha e ardente pele

Dominada, humilhada, escute meu comando


Imobilizada, tranquilizada, escute a minha demanda
Obediência

Eu vou dominar você, assim você está totalmente sob o meu controle
Brincar com o seu corpo indefeso, tantalizar a sua alma
Finalmente, quando eu terminar, eu não vou deixá-la amarrada
Vou colocar isso em você quente e pesado e deixar
Você satisfeita

Dominada, humilhada, escute meu comando


Imobilizada, tranquilizada, escute a minha demanda
Obediência

Obrigada a beijar a mão do mestre


Para satisfazer todas as minhas demandas
O chicote estala nas suas costas
Como você está sendo amarrada no rack

Ela luta contra as cordas amarradas nela


Para manter o ritmo cruel
Tire as algemas prejudicando o movimento dela
As lágrimas da miséria indefesa mancham o rosto dela
E apenas lembranças permanecem do orgulho

Dominada, humilhada, escute meu comando


Imobilizada, tranquilizada, escute a minha demanda
9
Obediência

Fica claro percebermos que tais elementos são evidenciados na canção e na


arte gráfica. Ambos os exemplos, fazem parte de uma prática sexual conhecida com
a sigla BDSM. Nessa prática sexual, os membros que aderem, costumam realizar o

9
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/marduk/99501/traducao.html> Acesso em: 25
out. 2016.
44
ato através de fetiches associados a: Bondage10, Disciplina, Dominação, Submissão
e Masoquismo. A música cria uma narrativa na qual o indivíduo estaria na posição
de dominação, tendo a parceira sexual como objeto. Porém, esse outro que se
encontra em uma posição passiva, também está no mesmo movimento, ou seja, no
movimento do prazer.
Nas composições do Black Metal, muitas vezes conteúdos histórias de
natureza perversa são utilizados em suas produções. Podemos citar o álbum
“Cruelty and Beast” produzido em 1998 pela banda Cradle of Filth, que faz menção a
lenda da Condessa assassina serial da Hungria chamada Elisabeth Bathory, que
matava e torturava suas jovens serviçais, tomando banho com os sangues das
vítimas alegando que se banhando, poderia continuar jovial assim como mostra a
imagem:

Figura 10 - Capa do álbum "Cruelty And The Beast" da banda Cradle of Filth – Disponível
em: < https://www.amazon.fr/Cruelty-Beast-Cradle-Filth/dp/B000FGGEQ8>. Acesso em: 20. Out.
2016. ‘

10
É uma espécie de fetiche que geralmente tem relação com práticas sodomasoquistas, na qual a
fonte prazerosa se encontra em amarrar e imobilizar o seu parceiro sexual.
45
Todo o contexto do álbum tem como intenção, contar, de modo cronológico, a
trajetória da Condessa Bathory. Podemos utilizar, para melhor visibilidade da
produção musical, um trecho da letra do respectivo álbum chamada “Bathory Aria (I.
Benighted Like Usher, II. A Murder of Ravens in Fugue, III. Eyes That Witnessed
Madness)”:

Em uma era crucificada pelos pregos da fé


Quando os espantalhos violentos de Cristo devastaram terras
Uma Condessa arredia nascera, um espectro obsidiana
Desafiou o abismo bem sabendo que Ela era amaldiçoada
Sua vida sussurrou pesar como uma marcha funerária
Distorcida e ansiando, obcecada e arrebatada
Com aqueles sucumbindo à crueldade
Esmagados sob a marcha de Sua dança
Um redemoinho de fogo que varreu através dos espinhos
Da doce rosa, bosques cerrados
de espinhos se agarraram...

Ela exigiu dos Céus


E para eternamente colher
O elixir da Juventude dos puros
Enquanto suas fantasias lésbicas
Chegaram ao extremo
Após décadas, libertada
Veio atrás da cura sedosa do sangue

Mas o reinado Dela cessou rapidamente


Aos Deuses Sombrios sonhou profundamente
Para atenderem aos apelos Dela

Quando Seus carcereiros foram atacados


Com as condenações de um padre
Que gaguejou ritos
Na calada da noite
Pelos lençóis manchados das donzelas

E Ela posou orgulhosa


Quando os crimes Dela foram encobertos

46
11
E como Jezebel aos lábios dos camponeses
Embora Ela cheirasse os fogos
Que lamberam os membros cada vez mais altos
Para as vaginas torturadas das cúmplices

Assim termina este preço depravado da fábula


E apesar de poupada da mordida da pira
Por meio do nascimento de uma nobre linhagem
Seus pecados (crimes) trouxeram a Ela nenhum alívio

Para sempre separada da emoção da chegada da noite


Onde a Morte lenta, solitária, poderia conceder o vôo Dela

"Os Espíritos quase fugiram do julgamento


Eu apodreci, sozinha, insana
Onde a floresta sussurra lamentos castanhos por mim
Entre os pinheiros e os acônitos engrinaldados
Além destas paredes, na qual condenada
Para a penumbra de uma tumba austera
Eu caminho com a loucura feraz enviada
Pelos raios pálidos de uma lua inocente
Quem, privado de necrologias, assim
Comanda a criação sobre a Terra?
Enquanto eu resigno meus lábios para a morte
Um beijo frio e lento que repreende o renascimento
Embora um último desejo seja legado pelo destino
Minha beleza murchará, não vista
Exceto pelos olhos gêmeos e negros que virão buscar
Minha alma para a paz ou companhia para o Inferno”

12
Minha alma para fazer companhia ao Inferno

No trecho em questão, podemos notar que a parte citada da música faz


menção ao contexto em que Elizabeth Bathory foi condenada. É notório perceber o
quão a mesma e suas práticas sádicas são exaltadas (de modo extremamente
poético) na canção, inclusive parecendo até se tratar de uma divindade.
11
É uma personagem bíblica do Velho Testamento que se destacava por ser uma rainha
extremamente depravada, cruel e imoral.
12
Tradução disponível em: <http://whiplash.net/materias/traducoes/028779-cradleoffilth.html>
Acesso em: 20 nov. 2016.
47
Outra forma de evidenciarmos o sadismo pode ser vista no caso do suicídio
do vocalista Per Yngve Ohlin da banda Mayhem, conhecido artisticamente por Dead.
Podemos citar, para melhor ilustração desse caso, a capa do álbum “The Dawn of
the Black Hearts” de 1995, que é uma foto real do ocorrido.

Figura 11 - Capa do álbum "The Dawn of the Black Hearts" da banda Mayhem – Disponível
em: < http://newsperuse.com/showbiz/mayhem-dawn-of-the-black-hearts-album-cover.html>. Acesso
em: 15. Out. 2016.

Como já vimos, à pulsão de morte está extremamente vinculada na questão


que permeia os sentidos mais destrutivos do ser humano e são vistos
recorrentemente nas produções do Black Metal. Para melhor visibilidade dessa
questão, usaremos a letra da música “Puritania” criada em 2001 da banda
norueguesa Dimmu Borgir:

Nós vamos acabar com a sua raça


Contagem regressiva para exterminar a raça humana
4, 3, 2, 1...
48
Deixe o caos entrar
No solo sem defesas
Remova os erros do homem
e varra todo o tipo enfraquecendo-se

Eu sou guerra, eu sou dor


Eu sou tudo o que você sempre matou
Eu sou lágrimas em seus olhos
Eu sou seus pesos, eu sou mentiras

Passado é a tolerância
E presença da graça
Os limpadores são ajustados para fora
Para limpar a sujeira humana

Eu sou puro, eu sou verdadeiro


Eu sou tudo acima de você
Eu sou risada, eu sou sorriso
Eu sou a terra poluída

Eu sou as tempestades cósmicas


Eu sou as minhocas minusculas
Eu sou medo na noite
Eu sou aquele que traz a luz

13
Terra apagada com sucesso

A questão da destruitividade para com o universo e principalmente em “varrer


a raça humana” vai sendo um sentimento misantrópico constante em toda a
composição. Outro ponto interessante para ser analisado, é justamente o que a
canção nos traz quando coloca os sentimentos de aniquilamento como uma forma
de negação do próprio homem valorizando o estado inorgânico do todo.
Outra forma de evidenciar a conceituações da pulsão de morte no Black Metal
em decorrência do aniquilamento ao ponto da busca pela morte no viés suicida em
suas produções, se encontra nos logotipos das bandas que muitas vezes são

13
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/dimmu-borgir/10968/traducao.html> Acesso
em: 25 out. 2016.
49
carregados de símbolos que evidenciam a ideia de morte, como podemos observar
nas figuras abaixo:

Figura 12 - Logotipo da banda Thy Light – Disponível em: <http://www.metal-


archives.com/bands/Thy_Light/36147>. Acesso em: 03. Mai. 2016.

Figura 13 - Logo Tipo da banda Happy Day – Disponível em: <http://www.metal-


archives.com/bands/Happy_Days/97532>. Acesso em: 22. Out. 2016.

Os símbolos das forcas, velas, cruzes invertidas e giletes expostas nos


logotipos das bandas Thy Light e Happy Days, por exemplo, representam toda uma
ideia de autodestruição, com temas como solidão, misantropia, depressão e suicídio.
50
Outra forma que pode confirmar essa questão é a música “Förtvivlan, Min Arvedel”
escrita em 2011 da banda sueca Shining na qual o desejo de morte e da não
simbolização para com a vida está exposto:

Eu vejo preto, minha visão é obscurecida


Sem fé, sem esperança e sem amor
Eu vejo preto, ruas, casas e praças
Eu olho preto, e nada significa nada

Desespero, onde quer que eu vá e onde quer que eu veja


Desespero, a minha herança
E eu sei que tudo o que eu digo e faço
Que tudo o que está errado
Mas como um condenado grita o meu corpo
Querendo mais e mais e mais e mais, e mais

Acordo esmagado e quebrado e danificado


Sistematicamente destruindo tudo o que sempre significou nada para mim
Com um sorriso aberto como uma ampla estrada
Eu percebo, finalmente, a resposta de por que eu não quero viver mais
Porque nada, nada mais importa
14
Não, nada importa

Na canção mencionada, é notório percebermos o quanto a mesma enfatiza o


sentimento de negatividade perante a vida e, comumente, a não simbolização da
mesma. Outro ponto instigante é a diferença das ideologias que tem como
perspectiva a destruição em massa, como já explanamos nesse trabalho. A letra
expressa à colocação em primeira pessoa, ou seja, a energia de morte voltada
totalmente para o sujeito que quer se autodestruir. Algumas bandas de Black Metal,
em boa parte das performances em palco, realizam a automutilação em seus
respectivos shows:

14
Tradução disponível em: <https://www.letras.mus.br/shining/1896825/traducao.html> Acesso em:
25 out. 2016.

51
Figura 14 - Vocalista da banda Psychonaut 4 – Disponível em: <
http://www.karaoketexty.cz/fotky/psychonaut-60792/536724>. Acesso em: 20. Out. 2016.

Figura 15 - Vocalista da banda Shining Disponível em: <


http://fr.metalship.org/bands/shining>. Acesso em: 20. Out. 2016.

52
Outro aspecto comum, no Black Metal, é uma pintura facial chamada
corpsepaint15, utilizada por seus artistas, que é exclusivamente do subgênero em
questão (CAMPONY, 2010). Segundo Silva (2010), o corpsepaint é uma das formas
mais características do Black Metal, já que esta pintura facial procura, de certa
forma, imitar as “feições” de um cadáver. Porém, Campony (2010) vai além, segundo
o autor, essa determinada pintura facial, para os praticantes do Black Metal, é uma
forma de “materialização de uma atitude interior”.

Figura 16 - Foto promocional da banda Carach Angren – Disponível em: <


http://www.pitkings.nl/tag/carach-angren/>. Acesso em: 18. Mai. 2016.

Figura 17 - Foto do Show da banda Watain – Disponível em: <


http://www.brooklynvegan.com/behemoth-watain-1/> Acesso em: 10. Set. 2016.

15
Pintura de Cadáver.
53
O corpsepaint nesta perspectiva pode ser visto como uma forma de expressar
na pele as ideologias que o Black Metal transmite, como ódio, angústia, guerra,
morte, horror, negação da cultura popular, dentre outros. Assim Campony (2008)
afirma que:

(...) O corpsepaint é o corolário de uma transfiguração de si pela qual o


músico passa, espécie de acionamento de um álter ego guerreiro: seu nome
é trocado pelo seu codinome, suas vestimentas ordinárias dão lugar à
“armadura”, empunha armas e instrumentos e, finalmente, no seu rosto ele
desenha a face de um outro self. (p. 16)

Além das pinturas faciais nos artistas do Black Metal, podemos notar em seus
trajes toda uma estética que representa uma formulação de guerra, pois muitas
vezes nas performances em palcos dos respectivos concertos do subgênero, é
notório observarmos o quanto as vestimentas juntamente com o corpsepaint trazem
toda uma ideia de que o show é um cenário de guerra. Podemos exemplificar com
as figuras:

Figura 18 - Imagem do Show da banda Gorgoroth – Disponível em:


<https://pt.wikipedia.org/wiki/Gorgoroth>. Acesso em: 20 mai. 2016

54
Figura 19 - Imagem tirada do Show da banda Watain – Disponível em: <
http://stubblemusiczine.com/2015/12/31/photos-watain-black-metal-warfare-ii-at-union-transfer-in-
philly/>. Acesso em: 19. Set. 2016.

Roupas negras, cintos de balas, crucifixos invertidos, spikers com espinhos


grandes e pontiagudos, fazem parte desta estética visual dos artistas do Black
Metal. É interessante pontuarmos que toda esta vestimenta e o desempenho em
palco extremamente teatral trazem para o subgênero toda uma estilização do mal
(CAMPONY, 2010).
Talvez o modo no qual o Black Metal enxerga o mundo, seja o que Freud viu
em 1912, no qual expressou em uma carta a Lou Salomé, seu desencanto com as
atrocidades decorrentes da II Guerra Mundial, na qual, segundo Roudenesco (Apud
PALADINO), á ênfase de Freud recaí sobre os aspectos mais sombrios da
humanidade:

Não duvido que a humanidade venha a se recuperar dessa guerra; mas


tenho certeza de que eu e meus contemporâneos não veremos mais o
mundo risonhamente. Ele é feio. O mais triste nisso tudo é que ele é
exatamente tal como deveríamos ter representado: os homens e seus
comportamentos segundo as experiências instigantes pela psicanálise.
(ROUDENESCO apud PALADINO, p. 79)

55
O que podemos dizer sobre o que foi exposto nesse capítulo, é pontuar que
as ideologias preconizadas pelo Black Metal estão visceralmente vinculadas a
energia psíquica da pulsão de morte. Pois, a estética que permeia essa arte, de uma
forma ou de outra, está evocando os elementos essenciais do estado inorgânico,
destrutivo, sádico, masoquista, perverso, depressivo, suicida dentre outros, dos
indivíduos. O Black Metal é, em si mesmo, pura perversão, pelo gozo do impacto
que cria ao quebrar a estética padronizada da cultura sob vários aspectos, ao
desconfigurar os valores vigentes e oferecer, de forma exibicionista, num ato
sadomasoquista, seu sangue no palco ao vivo e à cores, entre tantos outros
elementos que representam a subversão da ordem.
Ao mesmo tempo, sua destrutividade estaria associada a uma linguagem
cultural que, em nosso entendimento, busca expressar a forma como esse
movimento enxerga o mundo: cruel, insípido, atroz, feio, porém real, contraposto às
tentativas do cristianismo que defenderá Eros, no qual a morte representa nada mais
do que a transcendência para um local eterno e pacifico. Será?

56
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho teve como objetivo desmistificar uma série de


signos/significados do subgênero musical Black Metal, que possui conteúdos que
estão extremamente vinculados à ideia de morte de uma forma atípica, comparada
com as formas preestabelecidas sobre essa temática em nossa cultura. Neste caso,
utilizamos as produções que envolvem: letras musicais, artes dos respectivos
álbuns, trajes, pinturas faciais, cenários e desempenho em palco para realizar a
interseção da psicologia e psicanálise como forma de discursão.
Em toda a historicidade que permeia o Black Metal exposta no trabalho, vimos
que os conteúdos do subgênero em questão, estão sempre vinculados a uma
estética de natureza violenta, que é expressa nas representações da sua
musicalidade; que há uma diferenciação exorbitante no que diz respeito às
produções artísticas do Black Metal com as consumidas pela mídia dominante em
nossa cultura.
Nas questões relacionadas aos temas das pulsões e seus destinos, na qual a
energia pulsional está correlacionada em encontrar meios/mecanismo na busca do
alívio/prazer em decorrência do desprazer constante do movimento pulsional,
pontuamos á relação entre o que permeia a pulsão de morte, ou seja, sua energia
de destrutividade qual deriva o sadismo, o masoquismo e a busca do sujeito pelo
seu estado inorgânico que pode acarretar sentimentos de depressão e suicídio.
Percebemos também que no contexto da morte como um tema dominante,
que o Black Metal confronta os valores e princípios do cristianismo, pela forma como
ele nos posiciona no mundo diante da vida e da morte. Notamos que ele utiliza
símbolos e signos para negar toda a insuportabilidade da consciência de nossa
mortalidade. Dentre esses símbolos, enfatizamos o contexto relacionado à religião
cristã e a personificação do ser heroico embasado na figura mítica de Jesus Cristo,
como forma de negação da mortalidade do ser humano, na busca de uma vida além
do plano material. E também por ser um dos pontos de maior crítica nas ideologias
preconizadas pelo Black Metal.
Assim, podemos definir que as diferenciações através das contraposições do
Black Metal para com as crenças religiosas de cunho cristão, se encontram na forma
em que ambos tentam “burlar” a noção de morte. Pois, no Black Metal, em vez de
negar a finitude do homem na busca de uma transcendência em nível espiritual,

57
acaba, de certa forma, desmistificando todo o discurso religioso e mostrando que o
homem está sozinho perante o universo e que o mesmo será condenado à morte.
Neste caso, no Black Metal, a exibição da ideia de mortalidade é vista de uma
maneira visceral, trazendo outra linguagem sobre esta temática em relação ao
contexto cultural associado à tribo urbana que o compõem.
Entretanto, negar tudo que é preestabelecido e desmistificar os símbolos
relacionados ao medo da morte em nossa cultura, expor tudo isso em uma trilha
sonora de maneira cinematográfica, é uma atitude de extrema audácia. Só um herói
(ou anti-herói, como é o caso) é capaz de tal feito. Podemos assim concluir que o
medo da morte está tanto no cristianismo quanto no Black Metal. A diferença entre
eles é justamente a forma em que ambos encaram simbolicamente à morte.
A partir disto, fizemos uma interseção destes conteúdos com as produções
vinculadas ao Black Metal. Pois, ficou evidente que em nosso objeto de estudo, de
uma forma ou de outra, parece querer mostrar o que há de mais mortal e insano no
ser humano. Nessa perspectiva, a forma de encarar o mundo na estética do Black
Metal mostra-nos as faces dos sujeitos no qual se encontra o seu lado mais
inquietante, destrutivo e sombrio.
Em suma, podemos dizer, através das indagações expostas neste trabalho,
que a arte do Black Metal exterioriza em sua estética, tudo aquilo que a cultura quer
negar. Pois as ideologias expostas nas produções do subgênero, expõem todo a
destrutividade e desejos insanos que reside no indivíduo e que foi castrada em prol
do bem comum civilizatório.
Pensando desta maneira, podemos dizer que outro ponto interessante no qual
as produções relacionadas ao Black Metal se encontram, em termos psicanalíticos,
e que poderá ser explorado em outro momento, é justamente a questão
sublimatória. Por utilizar o viés das artes para encontrar um destino na via do
simbólico para a energia investida por Thânatos em algo sublime, sendo aceitável e
reconhecida na tribo urbana que reside.
Para finalizar, na arte Black Metal, ao nosso entendimento, o desejo de
aniquilação é constante, é tenso, como propõe as automutilações realizadas no
palco. A morte é o caminho, a saída para um mundo sórdido, cruel, atroz. Nisso o
Black Metal e o cristianismo se aproximam, porém se o primeiro propõe a morte
como saída, o segundo desloca o eixo da vida da terra para o céu. Ao mesmo

58
tempo, os dois tratam da insuportabilidade da morte, os dois buscam fugir dela, cada
qual a sua maneira. Se para o cristianismo constrói-se mecanismos sublimatórios
como forma de enfrentamento, no Black Metal é pelo próprio enfrentamento de
forma afrontada que se eliminaria a angustia da finitude.
Podemos dizer também, que o cristianismo tem por objetivo transformar as
pulsões em coisas sublimes. A religião é um dos mecanismos que contribui para a
civilização, lugar de domesticação das pulsões. O Black Metal vai de contramão,
estimula as vivências das perversões e dos instintos mais primitivos, dentre os quais
o autodestrutivo. A vida ganha outro sentido.
Há muito que se dizer e trabalhar sobre a temática. É óbvio que ela não se
esgota nesse trabalho e que nossa intenção foi de levantar questões para
posteriores aprofundamentos. Esperamos, assim, ter contribuindo para que haja um
melhor entendimento sobre o tema e sua posição dentro da cultura, da sociedade.

59
REFERÊNCIAS

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BIRMAN, J. As Pulsões e seus Destinos: Do corporal ao psíquico. Rio de Janeiro:


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5. 1 CD.

BURZUM. Jesus Tod. In: BURZUM. Filosofem. Misanthropy Records, 1996. Faixa
2. 1 CD.

CAMPOY, L. C. O Caminho da Mão Esquerda: O Mal do Black Metal. 2008.


Monografia (Especialização) - Curso de Antropologia, Universidade Federal do Rio
de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Disponível em:
<http://www.abant.org.br/conteudo/ANAIS/CD_Virtual_26_RBA/grupos_de_trabalho/t
rabalhos/GT 29/leonardo carbonieri campoy.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2016.

CAMPOY, C. L. Trevas Sobre Luz: O Underground do Heavy Metal Extremo no


Brasil. São Paulo: Alameda, 2010.

CASSORLA, R. M. S. Reflexões sobre a Psicanálise e a Morte. In: KOVÁCS, M. J


(Cord.). Morte e Desenvolvimento Humano. 4 ed. São Paulo: Casa do Psicólogo,
2002. Cap. 6.

CRADLE OF FILTH. Nocturnal Supremacy. In: CRADLE OF FILTH. V Empire or


Dark Fearytales in Phallustein. Cacophonous Records, 1996. Faixa 4. 1 CD.

CRADLE OF FILTH. Bathory Aria (I: Benighted like Usher/ II: A Murder of Ravens in
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