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Microestruturas de Alguns Solos Colapsíveis do Semiárido do

Nordeste Antes e Após o Colapso


Moacy Silva Torres
Universidade Federal de Pernambuco, Recife, Brasil, moacyatc@hotmail.com

Marta Lúcia Rolim de Almendra Freitas


Universidade Federal de Pernambuco e Universidade Católica de Pernambuco, Recife, Brasil,
marta.rolim@uol.com.br

Silvio Romero de Melo Ferreira.


Universidade Federal de Pernambuco, Universidade de Pernambuco e Universidade Católica de
Pernambuco, Recife, Brasil, sr.mf@hotmail.com

RESUMO: O conhecimento da microestrutura do solo é um importante fator que influencia no


comportamento hidromecânico dos solos. Há na natureza solos que apresentam estruturas instáveis.
Entre eles encontram-se os solos colapsíveis com estrutura porosa e partículas ligadas por pontes de
argilas, colóides, óxidos de ferro etc, que quando submetidos ou não a um aumento de tensão,
seguido de decréscimo de sucção sofrem um rearranjo estrutural com redução de volume. A
microestrutura de alguns solos colapsíveis arenosos antes e após o colapso do Semiárido do
nordeste brasileiro é analisada. São realizados ensaios de caracterização física, edométricos simples
e duplos e de microscopia ótica (MO) e eletrônica de varedura (MEV). Constata-se que as
microestruturas dos solos antes e após o colapso são semelhantes. Entretanto, após o colapso há um
maior empacotamento e entrosamento entre os grãos, redução dos vazios e material de revestimento
e a microestrutura ainda é instável.
PALAVRAS-CHAVE: Solo Colapsível, Microestrutura, Comportamento de Solo

1 INTRODUÇÃO A microestrutura dos solos compactados foi


inicialmente enfatizada por Lambe (1958), que
Collins e McGown (1974) definiram procurou explicar o comportamento das argilas
microestrutura do solo um como arranjo compactadas em termos de diferenças de
estrutural das partículas constituintes (arranjo arranjos de partículas com microestrutura
espacial, distribuição das partículas e floculada e dispersas e da dupla camada de água
associações de espaços vazios - "microfabric"), absorvida ao redor de cada partícula de argila.
composição e forças interpartículas. Argilas compactadas no ramo seco da curva
A distinção entre microestrutura e de compactação podem ser vistas
macroestrutura é realizada arbitrariamente, de esquematicamente como uma coleção de
maneira subjetiva, de acordo com a capacidade "aglomerados", chamados de "packets" por
de ver à vista desarmada, sem uso de lentes, Brackley (1975) e "crumbs" por Smart (1973) e
Collins (1985). Do ponto de vista morfológico, Popescu (1980), deixando grandes poros com
o que se observa no campo é a macroestrutura baixa saturação. Nos solos com estruturas
(avaliação qualitativa). A macroestrutura é abertas, há uma relação fechada entre carga e
classificada em função da forma, tamanho e deformação de colapso. Deformações
grau de desenvolvimento de suas unidades. A irreversíveis com sucção constante ocorrem
forma define o tipo da macroestrutura, o quando os "packets" deformam, seus pontos de
tamanho define a sua classe e o contato quebram e os agregados ocupam os
desenvolvimento, o grau da macroestrutura, poros vazios. Estas mudanças são também
Santos et al (2005). controladas pela sucção, as quais mantêm uma
baixa compressibilidade dos "packets" (devido microestrutura está baseada em três tipos de
ao efeito da absorção entre partículas de argila) forma: "Elementary particle arrangements",
e preservam alguma rigidez da composição da partículas elementares de argila, silte ou
estrutura do solo, através do efeito capilar nos partículas do tamanho de areia ou grupos do
vazios "interpackets". tamanho de argila; "Particles asseblages",
Casagrande (1932) apresentou de forma argilas ou partículas elementares granulares que
esquemática a microestrutura de um solo se arranjam formando agregados; "Composite",
colapsível (silte argiloso), previamente arranjos de partículas elementares se combinam
carregado antes de ser inundado e após a para formar uma reunião de partículas, estas
inundação, Figura 1. individualmente se associando e se combinando
de várias maneiras para formar a "Composite
microfabric". Nos solos colapsíveis,
a) predominam mais arranjos de partículas
b)
granulares cobertas por partículas de argilas ou
agentes cimentantes.
Benvenuto (1982) observou em amostras do
solo de município de Manga – MG uma
microestrutura porosa, com grãos de areias, siltes
Figura 1. Estrutura do solo carregado antes da inundação e argilas e conglomerados de partículas formando
(a) e após a inundação (b), Casagrande (1932). pontes. Observou na microestrutura do solo após
carregamento e colapso sob a tensão aplicada de
Dudley (1970) e Clemence e Finbarr (1981), 106 kPa um fechamento da na microestrutura do
solo.
propuseram uma série de modelos para solos de Mendonça (1990) observou a microestrutura
estrutura instável, Figura 2. Collins e McGown do solo colapsível da região de Bom Jesus da
(1974) confirmaram a presença de vínculos de Lapa – BA que as partículas maiores não se
argila na estrutura de vários solos de natureza conectam diretamente, mas por meio de
colapsível, assegurando que a estrutura é muito partículas menores, possivelmente de argila e/ou
silte.
mais complexa do que se supunha Ferreira (1995) observou no solo colapsível de
anteriormente, e afirmaram que altos potenciais Petrolândia-PE que os grãos de quartzo
de colapso devem estar associados aos grandes encontravam-se revestidos, total ou parcialmente
poros dentro dos agregados de partículas e entre de argilas, quase sempre não se estendendo ou
as diversas aglutinações dessas partículas. formando pontes de argilas.
Guimarães Neto (1997) fez um minucioso
estudo da microestrutura de solos colapsíveis
adicionando diferentes teores de argila ao solo e
identificou teores de argilas que podem ser
adicionados aos solos colapsíveis arenosos de
Petrolândia para que não apresentem colapso
quando inundados.
O objetivo deste trabalho é analisar a
microestrutura de três solos colapsíveis do
Semiárido do Nordeste Brasileiro. Em dois
deles, um situado em Petrolina-PE e outro em
Petrolândia-PE, serão analisadas as
microestruturas antes e após o colapso e no
Figura 2. Modelos propostos por DUDLEY (1970) para
terceiro situado em Parnaíba-PI a microestrutura
explicar estruturas instáveis de solos colapsíveis .
será analisada antes do colapso. Procura-se
também analisar de forma integrada nos solos
McGown e Collins (1975) e Collins (1985) colapsíveis de Petrolina e de Petrolândia o
utilizando microscopia eletrônica de varredura comportamento de colapso, em função do
(MEV) e analisando solos naturais propuseram estado tensional inicial, variação da umidade e da
uma classificação das formas microestruturais microestrutura.
dos solos naturais. A descrição da
2 PROGRAMA DE INVESTIGAÇÃO tensão vertical de consolidação 320 kPa.
GEOTÉCNICA Lâminas delgadas foram preparadas e para a
obtenção das micrografias, foi utilizada uma
2.1 Caracterização Física e Mecânica câmara fotomicrográfica Zeiss MC 63, com
controle de exposição automático Zeiss MC
Na caracterização física dos solos a 62A, acoplado ao microscópio petrográfico.
preparação das amostras seguiu as Maiores detalhes sobre a preparação das
recomendações da ABNT (1986a) e foram amostras são apresentados por Ferreira (1995).
realizados os seguintes ensaios: Análise
granulométrica, ABNT (1984a); Massa 2.2.2 Microscopia Eletrônica de Varredura –
específica dos grãos dos solos, ABNT (1984b); MEV
Limite de liquidez, ABNT (1984c); Limite de
plasticidade, ABNT (1984d); Ensaio de Para observar a microestrutura no MEV é
compactação, ABNT (1986b). necessário que os solos tenham baixa umidade
Para obtenção da relação sucção-umidade, (praticamente seco) e que a microestrutura
utilizou-se a membrana de pressão e dessecador esteja preservada. Entretanto, a técnica requer
de vácuo com diferentes soluções de NaCl e
H2SO4. um conjunto de operações que envolvem
Foram realizados ensaios edométricos secagem, corte, superfície de observação pouco
simples em amostras do tipo bloco acidentada e uniformidade na metalização da
indeformado. As tensões aplicadas nos ensaios superfície a observar. Os efeitos destes
eram acrescidas de / = 1, iniciando com 10 procedimentos devem ser reduzidos para se ter
kPa e finalizando com 1280 kPa. A avaliação uma superfície de observação com menor
do potencial de colapso (CP%) utilizou a
Equação 1. perturbação possível, McGown e Collins (1975)
e Ferreira (1995).
CP (%) = 100∆H/Hi % Eq (1) A preparação das amostras indeformadas
para serem observadas no MEV teve o seguinte
Onde: CP é o potencial de colapso; ∆H é a variação da procedimento:
altura do corpo de prova devido à inundação; Hi é a i. Secagem prévia – Embora os solos no seu
altura do corpo de prova antes da inundação . estado natural estivessem com baixa
umidade foram colocadas no dessecador e
2.2 Caracterização Microestrutural submetidas a um pequeno vácuo. Várias
A microestrutura do solo de Petrolândia-PE pesagens foram realizadas até ocorrer
foi observada antes e após colapso através da constância de peso, que foi verificada após
Microscopia Ótica (MO) e por meio de quatro dias.
Microscopia Eletrônica de Varedura (MEV) nas ii. Preparação da superfície de observação -
amostras antes e após colapso dos solos de Pequenos instrumentos cortantes e outros
Petrolândia-PE e Petrolina-PE e em amostras
antes do colapso no solo colapsível de Parnaíba- pontiagudos auxiliaram nas fragmentações
PI. sucessivas dos torrões do solo. Procurando
deixar sempre a superfície de observação
2.2.1 Microscopia Ótica sem toque dos instrumentos. A forma final
dos corpos de prova aproximou-se de um
Análise da microestrutura através da cubo com “arestas” que variaram de 7 a 10
microscopia ótica foi realizada em duas mm.
amostras do solo de Petrolândia-PE. Na iii. Metalização das amostras - As amostras
primeira, amostras indeformadas foram foram fixadas utilizando fita dupla fase 3M a
coletadas em caixas metálicas (Kubiena) com um suporte de alumínio de formato cilíndrico
dimensões de 0,10 x 0,06 x 0,05m, a partir de (diâmetro 9,0mm e altura de 10,0 mm)
amostras do tipo bloco. Na segunda, a amostra apropriado para o microscópio. As
foi obtida a partir do corpo de prova do ensaio superfícies dos solos de Petrolândia-PE e de
edométrico simples, carregado e inundado na Parnaíba-PI foram metalizadas por uma fina
película de ouro, para evitar carregamento seu interior, os anéis com os solos foram
eletrostático e propiciar uma boa condução colocados separadamente em dessecadores
do feixe de elétrons. O suporte de alumínio com silica-gel, quando foram realizadas
que apóia as amostras foi colocado dentro de pesagens para verificar constância de peso,
uma campânula de vácuo do tipo Fine Coat, caracterizando o processo de secagem, que
Ion Sputter JfC-1100 da marca JEOL. Sendo ocorreu após 70 dias.
metalizado com ouro por meio de
evaporação. Em algumas amostras após as 3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
primeiras observações, foi necessário fazer
uma segunda e às vezes uma terceira O solo de Parnaíba-PE é arenoso (79% a 84%)
metalização, o que permitiu um maior poder com predomínio de areia fina, Figura 3a. Na
de resolução. As superfícies das amostras Classificação Unificada é identificado como
foram observadas no equipamento JSM 5600 SM, tem baixa plasticidade (3% a 4%) ou não
LV Scanning Microscope de marca JOEL, líquido e não plástico. Tem peso específico
com aceleração de 15 KV e com poder de aparente seco máximo variando de 20,00 kN/m3
resolução bem ampliado e permitindo a 20,60 kN/m3 e umidade ótima variando de
aumentos de 50.000 vezes com máquina 7,80% a 8,20%.
fotográfica acoplada ao equipamento. Já a No solo de Petrolândia-PE a porcentagem de
preparação da superfície do solo de areia é superior a 87% e porcentagem de argila
Petrolina-PE foi realizada com grafite e inferior a 8%, é não líquido e não plástico e
observada no equipamento JSM 6460 classificado como SM ou SP, Figura 3b.
Scanning Microscope de marca JOEL, com O solo de Petrolina-PE é arenoso (SP) com
aceleração de 30 KV, com máquina mais de 90% de areia, a fração argilosa < 5% e
fotográfica acoplada ao equipamento. praticamente sem silte (máximo 2%), Figura 3c.
Para observar a microestrutura dos solos de O solo de Parnaíba-PI é o mais poroso e o
Petrolândia-PE e de Petrolina-PE após colapso que apresenta maior colapso. Os valores dos
foram preparadas amostras a partir do corpo de potenciais de colapso crescem com o acréscimo
prova do ensaio edométrico simples da tensão vertical de inundação, atingindo
convencional, carregado a umidade constante valores máximos para as tensões de 160 kPa no
até a tensão desejada (320 kPa para o solo de solo de Petrolina-PE e 320 kPa para os solos de
Petrolândia e 160 kPa para o solo de Petrolina) solos de Petrolândia-PE e Parnaíba-PI e
e inundado sobre as prepectivas tensões. O posteriormente decresce. Há uma tensão crítica
processo de segagem prévia teve o seguinte para o colapso máximo, comportamento
procedimento: semelhante foi encontrado por Alonso at al
i. Após ocorrer a estabilização das (1990) e Ferreira (1995). Os valores dos
deformações (colapso), com os solos dentro potenciais de colapso (CP) encontrados do solo
da célula edométrica e submetidos às de Petrolina-PE são inferiores aos encontrados
respectivas tensões, foi removido o excesso por Silva (2003) no solo colapsível de Petrolina
d'água das células, através de uma pequena do Conjunto Privê Village (Silva, 2002) e no
bomba de sucção manual e verificava-se solo colaspsível do Canal Pontal Azul em
ocorrência de deformações nos solos. Petrolina-PE (Fucale, 2000) e Ferreira e Fucale
ii. Incidência de luz (150 Watt) por 4 dias nas (2014).
células próximas aos solos e Os solos dos três municípios são aluvionares,
acompanhamento da variação das predominantimente arenosos, não apresentam
deformações. Os solos foram descarregados plasticidade em sua maioria e apresentaram
e o alívio de tensão causou uma expansão de umidades baixa no momento de coleta e
0,4% no solo de Petrolândia-PE e de 0,20% microestrutura semelhante, Figura 3.
no solo de Petrolina-PE. Após, abriu-se a
célula não foi mais verificada água livre no
Figura 3. Caracterização Física, de Colapisibilidade e Microestrutural. a) Parnaíba-PI, b) Petrolândia–PE, c) Petrolina-
PE

3.1 Microestrutura antes e após colapso – solo de solo com o estado de compactação e a
Petrolândia-PE microestrutura antes e após o colapso.
O solo colapsível de Petrolândia-PE
A Figura 4 apresenta de forma integrada o apresenta umidade inicial de 1,70%, grau de
comportamento de variação de volume do solo saturação de 7,61%, índice de vazios de 0,590,
submetido a uma tensão quando a umidade peso específico natural de 16,25 KN/m3 e uma
aumenta e relaciona a distribuição dos grãos do sucção inicial de 10 MPa. Estas condições
iniciais são representadas nas Figura 4 a), b), c), d) com indicação do algarismo 1

No solo indeformado a matriz do solo é designada poros do empacotamento simples, ou


constituída por intensa quantidade de grãos de seja, os espaços vazios que resultam da junção de
areia e pouca argila. Os grãos de areia são quase partículas de diferentes tamanhos e formas.
totalmente de quartzo, sendo de tamanhos Alguns poucos canais foram observados. Na
variados e formas arredondadas e angulares, lâmina há 50% de grãos, 39% de poros e 11% de
Figuras 5a e 5b. A pequena quantidade de argila argilas. O revestimento dos grãos do esqueleto é
encontra-se revestindo total ou parcialmente os atribuído a processo de iluviação, intemperismo
grãos do esqueleto (areia), quase sempre não se em campo ou movimentações de natureza
estendendo ou formando pontes entre eles. A fisicogênica. Em todos os casos a natureza da
espessura do revestimento varia de 5 a 40 m. argila é marcada pela organização paralela,
Este tipo de estrutura condiciona a formação uniforme e contínua de suas partículas.
predominante de um tipo de porosidade

c)
b)

a)

d)

e)

Figura 4. Variação do potencial de expansão e colapso associados a tensão de expansão, índice de vazios crítico e grau
de saturação crítica
A amostra do solo comprimiu 2,26% sob
tensão vertical de 320 kPa, na mesma umidade
inicial, porém, agora com índice de vazios de
0,538, grau de saturação de 8,63% e peso
específico aparente seco de 17,40 KN/m3, Figura
4 (com indicação do algarismo 2). Após a
inundação o solo colapsou 6,20%. Sob esta
condição o solo saturou, a umidade atingiu
16,62% e o peso específico aparente seco de
18,66 KN/m3 correspondente a um grau de
compactação de 95,69% Figura 4a), b), e c).
Após o processo de colapso, (Figura 4 c), d)
Figura 5. Micrografia de grãos de areia revestidos de e) indicado pelo algarismo 3), o solo foi
argila iluvial, a) e b) em amostras indeformadas (MO), c) dessecado sob a tensão de 320,00 kPa e
Ponte de argila – MEV e d) Após colapso - MEV descarregado à tensão zero com variação de
volume positiva de 0,30 %. A amostra foi
preparada, como descrita no item 2, para ser A Figura 7 apresenta de forma integrada o
observada a sua estrutura em microscópio ótico. comportamento de variação de volume do solo
Apesar de todos os efeitos do processo de colaspsível de Petrolina – PE. O solo é uma
preparação das amostras (secagem, alívio de areia mal graduada, o peso específico natural do
tensão, corte, vácuo, etc), observa-se que as varia de 14,97 a 15,10 kN/m3, a umidade natural
estruturas do solo após colapso são similares às é de 0,81% e o valor do peso específico aparente
da amostra indeformada do solo natural. Há, seco máximo é de 18,50 kN/m3 e umidade ótima
entretanto, um empacotamento mais denso entre de 7,30%.
os grãos, causado pela aplicação da tensão e do Para observar a microestrutura após colapso,
colapso, Figura 4e. A microestrutura do solo o solo com índice de vazios inicial de 0,72
após colapso ainda é instável e os grãos de areia (indicado na Figura 7 pelo algarismo 1)
encontram-se revestidos com argila iluvial, comprimiu 2,07% sob a tensão vertical de 160
porém com menor espessura do que na amostra kPa, na mesma umidade inicial, porém, agora
“indeformada” (< 15 m). A percolação da água com índice de vazios de 0,660, grau de saturação
provoca um carreamento das partículas de argilas de 3,23% e peso específico aparente seco de
que passam a preencher os vazios presentes na 15,84 KN/m3 (indicado na Figura 7 pelo
amostra indeformada. Na lâmina observa-se que algarismo 2). A inundação provocou um colapso
a percentagem de grãos permanece 50% e de de 4,58% (esta condição é apresentada na Figura
argilas cresce para 18%. 7 com a indicação do algarismo 3). Após o
A Figura 6 mostra a variação dos valores dos colapso, o solo foi dessecado sob a tensão de
potenciais de colapso com as tensões aplicadas 160,00 kPa e descarregado à tensão zero com
obtidos a partir de ensaios edométricos simples variação de volume positiva de 0,20 %. A
após ciclos sucessivos de carregamento, amostra foi preparada para ser observada no
inundação, descarregamento e secagem, MEV como descrito no item 2. Apesar de todos
realizados em solos colapsíveis de Petrolândia – os efeitos do processo de preparação das
PE por Ferreira (1995). O solo continua amostras (secagem, alívio de tensão, corte,
colapsando a cada ciclo, porém com menor vácuo, etc), observa-se que a estrutura do solo
intensidade com o acréscimo do número de após colapso é similar a do solo indeformado.
ciclos. A microestrutura tende a estabilidade mas Há, entretanto, um empacotamento mais denso
ainda é instável, Figura 4. entre os grãos, causado pela aplicação da tensão e
do colapso. A microestrutura do solo após
colapso ainda é instável e os grãos de areia
encontram-se revestidos com argila iluvial. A
percolação da água provoca um carreamento das
partículas de argilas que passam a preencher os
vazios presentes na amostra inderformada.

3.3 Microestrutura antes do colapso – solo de


Parnaiba - PI

A matriz do solo de Parnaíba - PI é


constituída por uma intensa quantidade de grãos
de areia e pouca argila. Os grãos de areia são
Figura 6. Variação do Potencial de Colapso com ciclos
quase totalmente de Quartzo, de tamanhos
sucessivos de carregamento, inundação, descarregamento variados e formas arredondadas e angulares,
e secagem, Ferreira (1995) Figura 8. A pouca quantidade de plasma,
predominantemente mineral (argila), encontra-
3.2 Microestrutura antes e após colapso do solo se revestida total ou parcialmente, e quase
de Petrolina-PE sempre não se estendendo ou formando pontes
entre eles. Este tipo de contextura condiciona a
formação predominante do tipo de porosidade pontes de argilas, a porosidade é do tipo de
designada poros de empacotamento simples. O empacotamento simples, observando-se ainda
revestimento dos grãos é típico de processos poucos canais. Os revestimentos dos grãos são
iluviais. Características similares foram típicos de processo de iluviação. A
observadas por Wolle et al (1978), Wolle et al microestrutura após a compressão e colapso é
(1981), Benvenuto (1982), Mendonça (1990) e similar à do solo “indeformado” havendo um
Ferreira (1995) em solos colapsíveis. maior empacotamento e entrosamento dos
grãos, uma redução dos vazios, e as partículas
4.0 CONCLUSÕES de areia encontram-se ainda revestidas de argila,
porém com espessura menor. A estrutura ainda
A microestrutura dos solos analisados é é instável podendo o solo apresentar novos
semelhante. Os grãos de quartzo encontram-se colapsos com ciclos de umedecimento-secagem.
revestidos, total ou parcialmente de argilas,
quase sempre não se estendendo ou formando

Figura 7. Variação do potencial de colapso associado a tensão de expansão, índice de vazios crítico e grau de saturação
crítica

REFERÊNCIAS

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