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7.

Potencial de Corpos de Forma Simples

Após o tratamento e as transformações de dados potencias, como descritos nas


seções anteriores, inicia-se o processo de interpretação quantitativa e modelagem dos
corpos causadores das anomalias, procurando um significado geológico para os mesmos.
Uma vez que para o geofísico e geólogo de prospecção basta obter alguns dos parâmetros
do corpo como máxima profundidade, extensão lateral, densidade, iniciaremos com o
cálculo direto do efeito gravitacional de corpos com geometria simples.

Figura 7.1 – Expressão geral do efeito gravitacional de uma distribuição de massa


Tridimensional

Iniciaremos este cálculo da integral, para distribuições simples de massas como por
exemplo, o efeito gravitacional de uma esfera ou um ponto com massa concentrada m a
uma profundidade fixa z (Fig. 7.2). Este resultado será importante para estabelecer critérios
de estimativa de máxima profundidade de corpos 3-D.

Figura 7.2 – Efeito gravitacional, componente vertical, devido a uma esfera ou ponto de
massa m.

Outra geometria bastante útil, apesar de pouco significado geológico na realidade, é


a linha de massa, que aproxima bem corpos bi-dimensionais como falhas, túneis, etc. A
derivação da expressão abaixo é mostrada após da Fig. 7.3.
Figura 7.3 – Efeito gravitacional devido a uma linha de massa

A atração gravitacional dg devido a um segmento infinitesimal da linha de massa dl


é:

G dm R dl
dg = = G λ R 2 2 3/ 2
r 2
r (R + l )

dm = λ dl
cosθ = R/r
r2 = R2 + l2

A componente z é:

dgz = dg senφ


dl
gz = G λ senφ R ∫
−∞ ( R + l )
2 2 3/ 2

∞ ∞
dl dl
∫ 2 2 3/ 2 ∫=
−∞ ( R + l ) −∞ l 2 3/ 2
R (1 + 2 )
3

b = l/R = tgθ ⇒ l = R tgθ

dl = Rsec 2 θ dθ
R sec 2 θ dθ cos θ
∫ 2 d θ = ∫ = ∫ dθ =
R (sec 2 θ ) 3 / 2 R 2 sec θ R2

1 π/2 1 π/2
= 2 ∫ cos θdθ = 2 senθ / = 2/R 2
R −π /2 R −π /2

Portanto,

 2  2 G λ senφ 2 G λ
g z = G λ senφ R  2  = = =
R  R R2

z
= 2 Gλ
( x2 + z 2 )

Figura 7.4 – Cilindro horizontal de seção A


Podemos generalizar este resultado para o caso de um cilindro de raio A e densidade
∆ρ. A massa por unidade de comprimento torna-se πA2∆ρ e a atração gravitacional:

z
g z = 2 π G A 2 ∆ρ
( x 2 + z2 )

Figura 7.5

A lâmina horizontal semi-infinita em x e infinita em y simula descontinuidades


como falhas.
Definindo σ como a massa por unidade de área e usando o resultado obtido para
uma linha de massa uma vez que a placa acima pode ser vista como um número infinito de
linhas de massa, a partir do ponto x=a. Portanto λ = σdx, o efeito gravitacional devido a um
elemento de superfície é escrito como
z
dg z = 2 G σ dx
( x + z2 )
2


z
Em P=0, gz = 2 G σ∫ dx =
a (x + z )
2 2


z
= 2 G σ∫ 2
dx
x
z ( 2 + 1)
a 2
z

x2 x2
2 = tg θ ⇒ 1 + 2 = sec θ
2 2
z z

dx
= z sec 2 θ

π/2
π a
gz = 2 G σ ∫ dθ = 2 G σ( − arctg )
arctg a / z 2 z

Supondo que a borda da placa esteja situada em x=0, gz para qualquer x é escrita
como:

π x
g z ( x) = 2 G σ ( − arctg )
2 z
Podemos estender o resultado anterior para o caso de uma lâmina infinita em x e y,
e finita em z (platô de Bouguer)

Generalizar a expressão acima para uma lâmina de espessura infinitesimal e


densidade superficial σ :


z
gz = 2 G σ ∫ 2 dx = 2 π G σ
−∞ ( x + z )
2

Para uma lâmina de espessura finita h e densidade volumétrica ∆ρ

σ = ∆ρ h

Portanto, gz = 2π G ∆ρ h, que é a expressão utilizada para calcular o efeito da


redução de Bouguer.

8. Interpretação Direta
O primeiro método é da estimativa da máxima profundidade dos corpos causadores
da anomalia. Tal parâmetro pode ser importante para tomada de decisões acerca da
viabilidade de perfuração para amostrar o corpo, ou mesmo explora-lo no caso deste
possuir mineralização importante. Utiliza-se, para derivação da regra, a aproximação de
esfera para corpos 3-D e linha de massa para corpos aproximadamente 2-D.

Uitliza-se a própria curva da anomalia para estimar a meia-largura da anomalia e


substitui-a nas expressões abaixo deduzidas fazendo a razão amplitude máxima pela metade
da amplitude, como mostra a Fig. 8.1.
Figura 8.1
Uma alternativa ao método anterior é a de estimar a razão amplitude máxima sobre
gradiente máximo, e as regras são aquelas mostradas na Figura 8.2 abaixo.

Figura 8.2
Para se obter uma estimativa da extensão lateral do corpo, utiliza-se o gradiente
horizontal, sendo que é possível ainda dizer se as laterais do corpo divergem ou convergem
com a profundidade, como é mostrado na Fig. 8.3.

Figura 8.3

Outra estimativa importante é a massa do corpo causador da anomalia, uma vez que
a mineralização deve corresponder a uma percentagem da massa total. Se esta última for
estimada e conhecermos o valor da concentração da mineralização, então com a estimativa
da massa anômala é possível avaliar o potencial mineral da região. O procedimento para
estimar a massa é mostrado na Figura 8.4. Utiliza-se basicamente o Teorema de Gauss,
aplicado somente à área onde dispõem-se de observações gravimétricas.
Figura 8.4

Até este momento obtivemos o efeito gravitacional de corpos muito simples. Entretanto,
muitas vezes necessitamos simular corpos com geometria mais complexas, e para o caso bi-
dimensional, basta definirmos a forma de sua seção vertical e calcula-se o efeito
gravitacional em um perfil perpendicular à estrutura. Este foi o princípio do algoritmo
proposto por Talwani et al. (1959), e mostrado na Fig. 8.5.
Figura 8.5
Uma revisão geral dos métodos de inversão em métodos potenciais pode ser
encontrada em Bott (1973). Desde então inúmeros trabalhos metodológicos de inversão têm
sido propostos e para uma síntese do estado da arte, consultar Blakely (1996). A seguir é
apresentado um resumo dos conceitos de modelagem direta e inversa, e com o objetivo de
mostrar que tanto para o problema gravimétrico como magnético os formalismos são os
mesmos, segue-se a abordagem de Bott (1973).

1. Modelagem Direta

Por tentativa-e-erro os parâmetros do corpo anômalo tais como densidade, profundidade,


largura, volume, etc são estimados. Para tanto, as relações integrais entre os campos
potenciais e os corpos causadores devem ser conhecidas. Exemplo:
Efeito gravitacional, componente vertical:

z − z′
g(P ) = − G ∫R ρ( Q ) 3
dv (1)
r

Igualmente as relações para o cálculo do campo magnético:

∆T (P ) =
M(Q )

R r
3 [ $ $) r$ − F$ dv
. 3 (F.r ] (2)

Nestas equações, ρ(Q) e M(Q) têm o significado usual de densidade e magnetização,


respectivamente.

As duas equações acima têm a forma geral:

f (P ) = ∫ s(Q ). G(P, Q )dv (3)


R

Se considerarmos somente a magnetização induzida, com direção constante e isotrópica,


$ , então podemos escrever a equação (3) da seguinte forma:
M = M( Q)M

f (P ) = ∫ s(Q ) ψ (P, Q ) dv (4)


R

onde f(P) é o campo potencial em P, s(Q) descreve a quantidade física (densidade ou


magnetização) em Q e ψ(P,Q) é uma função que depende da relação geométrica entre o
ponto P e um ponto Q da fonte. A equação (4) é conhecida como a equação de Fredholm do
primeiro tipo. ψ(P,Q) e G(P,Q) são as funções de Green do problema. Através da relação
(4) podemos resumir o problema de modelagem em métodos potenciais da seguinte forma:
a. O cálculo direto é o cálculo de f(P) a partir de valores ou funções conhecidas de s(Q) e
ψ(P,Q), e o volume R. Desta forma, f(P) é completamente determinado, isto é, no cálculo
direto existe uma única solução. A modelagem direta envolve o cálculo de f(P), a
comparação desta com os valores medido do campo até que o campo calculado ajuste de
forma “satisfatória” o campo medido. Apesar do cálculo direto f(P) ser matematicamente
único, um modelo para as fontes magnéticas ou gravimétricas obtidos através do método
direto, é obviamente, não único.

b. O método inverso, por outro lado, insere as medidas de f(P) diretamente no lado
esquerdo da equação (4) e resolve-as para s(Q) ou R. O cálculo de s(Q) é conhecido como
um problema inverso linear , enquanto que o cálculo de algumas das propriedade de R ;e
um problema inverso não linear.

2. Problema Inverso Linear

Considerando incialmente o problema linear. Reescrevendo a equação (4) em


notação matricial:

N
fi = ∑ s j ψ ij i = 12
, ,....L
j=1

e se L > N utiliza-se o método dos mínimos quadrados para encontrar N valores de sj . Isto
não é tão simples como parece. A primeira dificuldade fundamental é o problema da não-
unicidade. Mesmo que conhecessemos f(P) precisamente, não é possível determinar uma
única solução de s(Q).

Saídas: reduzir a demanda de informação ou introduzir vinculos independentes fornecidos


pela geologia ou geofísica.

Exemplos de problemas inversos lineares:


a. Estimativa da distribuição de densidade de uma dada massa. Na equação (3), se
conhecermos a geometria do corpo. A anomalia gravimétrica medida em N posições
discretas:

gi = ρψ i i=1,2,3,.....N

A constante ρ pode ser determinado por uma simples regressão linear.

b. Magnetização de uma camada de espessura constante. Aplicação na determinação da


magnetização da crosta oceânica ou da crosta terrestre utilizando dados de satélite
(Magsat). Igualmente como no caso gravimétrico, a anomalia magnética para pontos
discretos é escrito como:

N
∆Ti = ∑ Mj ψ ij i=1,2,.....L
j=1

onde Mj é a intensidade de magnetização da célula j, e ψ ij é a anomalia de campo total no


ponto i devido à célula j com magnetização unitária.

3. Problema Inverso Não-Linear

O campo potencial do lado esquerdo da equção (4) é um funcional linear da


distribuição de densidade ou magnetização do corpo. Dobrando a intensidade de
magnetização por exemplo, duplicamos a amplitude da anomalia de campo total, enquanto
triplicando o valor da magnetização a amplitude da anomalia triplica. O mesmo não ocorre
com outros parâmetros que definem a fonte. O campo potencial não é uma função linear da
profundidade por exemplo, espessura ou forma da fonte. Todos estes parâmetros estão
contidos em ψ(P,Q) e nos limites da integração volumétrica sobre R na equação (4).
Métodos inversos que tentam estimar estes parâmetros não lineares são chamados métodos
não-lineares. Existem diversas maneiras em tentar resolver o problema não linear, a
maioria deles dependem da geometria do problema a ser resolvidos. Alguns exemplos são:

a. Métodos Iterativos
Por exemplo, estimar a forma de uma bacia sedimentar. Problema tomado como bi-
dimensional, o contraste de densidade é considerado constante e a seçao da bacia
subdividido em blocos de largura constante e a variável a ser ajustada é a profundidade do
embasamento.

b. Linearização do Problema não linear


Base da maioria dos métodos que utilizam técnicas de otimização para tornar automática a
busca de uma possível solução (contrapõe o método da tentativa e erro). Permite acessar a
não unicidade e instabilidade da solução. Pode-se citar o método de Marquadt. (ver pag.
233 de Blakely (1994) para teoria).

Referências:

1. Blakely, R., 1996, Potential Theory in Gravity and Magnetic Applications. Cambridge
University Press. Cap. 10.

2. Bott, M.H.P., 1973, Inverse methods in the interpretation of magnetic and gravity
anomalies. In Methods in Computational Physics, vol. 13, 133-161. Ed. Bruce Bolt,
Academic Press, N.Y.