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7o ANO EF

PORTUGUÊS

Revista PIAUÍ | EDIÇÃO 114 | MARÇO DE 2016_questões afetivo-tecnológicas

Será que ela vai escrever de volta? Será que não?


A ciência da demora nas mensagens de texto

AZIZ ANSARI, ERIC KLINENBERG

Algum tempo atrás apareceu uma mulher na minha vida – digamos que se chamasse Tanya. Nós dois
nos conhecemos uma noite em Los Angeles. Era aniversário de um amigo e, quando a festa foi murchando,
ela me ofereceu carona até em casa. Tínhamos passado a noite inteira conversando e então perguntei se ela
não queria entrar e tomar alguma coisa. Naquela época, eu sublocava uma casa bem bonita nas encostas de
Hollywood. Lembrava a casa do Robert de Niro em Fogo contra Fogo, mas tinha um pouco mais o meu
jeitão do que o de um assaltante especializado no roubo de carros blindados. Preparei umas bebidas, e nós
dois ficamos nos revezando na escolha dos discos, enquanto continuávamos a conversa e nos divertíamos.
Acabamos ficando juntos, e foi excelente. Eu me lembro de que estava meio alto por causa da bebida
e disse alguma coisa idiota na hora em que ela se despediu, tipo “Tanya, achei você uma mulher
encantadora…”. E ela respondeu: “Aziz, você também é um homem encantador.” Um encontro que parecia
bastante promissor, tendo em vista o consenso entre os presentes: éramos, os dois, pessoas encantadoras.
Eu queria encontrar Tanya de novo. Acabei me debatendo com um problema que pode parecer
simples, mas que hoje em dia afeta todo mundo: como e quando eu deveria entrar em contato? Era melhor
telefonar? Mandar uma mensagem de texto? Uma mensagem pelo Facebook? Usar sinais de fumaça? E
como é que se faz isso?
Acabei decidindo enviar uma mensagem, porque ela me pareceu o tipo de pessoa que manda muitas
mensagens de texto. Esperei uns dias, para não dar a impressão de estar ansioso demais. E descobri que a
banda Beach House, que tínhamos ouvido na noite daquele encontro, ia tocar em Los Angeles naquela
semana. Parecia o convite perfeito.
A mensagem que mandei foi a seguinte:

Ei – não sei se vc foi pra NY, mas o Beach House toca hoje e amanhã na Wiltern. Tá a fim? Talvez eles
deixem vc cantar The Motto, se a gente pedir com jeitinho.

Uma proposta firme e clara, mas com uma piadinha interna. (Na tal festa do primeiro dia, ela tinha cantado
The Motto, do Drake – e o mais impressionante é que sabia quase toda a letra de cor.)
Alguns minutos depois, o status da minha mensagem mudou para “lida”. Meu coração parou. Agora
era a hora da verdade. Eu me preparei e fiquei olhando enquanto aqueles pontinhos pipocavam na tela do
iPhone. As bolinhas torturantes indicando que a pessoa está escrevendo uma resposta; o equivalente, nos
smartphones, da lenta subida do vagão até o topo da montanha-russa. Mas então, poucos segundos depois –
os pontos sumiram. E não veio mais nenhuma resposta de Tanya. Hmmm… O que teria acontecido? Mais
alguns minutos e… Nada. Quinze minutos… Nada. Minha confiança começou a se dissolver, e a se
transformar em dúvida. Uma hora… Nada. Duas horas… Nada. Três horas… Nada. Um pânico moderado se
instalou. Comecei então a analisar a mensagem que eu havia mandado. Antes tão seguro de mim, agora eu
questionava tudo que tinha escrito.
Sou tão idiota! Eu devia ter escrito “Eei” com dois e’s, e não com um só! E fiz perguntas demais. Onde eu
estava com a cabeça? E olha só, no fim, ainda botei mais uma pergunta. Aziz, QUE IDEIA FOI ESSA DE
PERGUNTAR TANTA COISA?

Foi então que me dei conta de uma coisa interessante: o tipo de loucura em que eu estava
mergulhando nem existia vinte ou mesmo dez anos atrás. Mas agora ali estava eu, checando maniacamente o
meu telefone a cada cinco minutos, vivendo um furacão de pânico, dor e raiva, só porque essa pessoa não
tinha me mandado a porcaria de uma mensagenzinha curta naquele telefone idiota.
O romance nos dias de hoje se tornou uma coisa bastante estressante – especialmente no que diz
respeito às mensagens de texto, que estão se transformando no novo modo padrão de convidar alguém para
sair. Em 2010, apenas 10% dos adultos jovens usavam mensagens para propor um primeiro encontro, mas
em 2013 já eram 32%. Assim, um número cada vez maior de nós volta e meia se vê sozinho, olhando para a
tela de um telefone enquanto é tomado pelas mais variadas emoções.
O estranho é que isso está acontecendo com todo mundo ao mesmo tempo, e devia servir de consolo
a gente saber que na verdade ninguém faz muita ideia do que está acontecendo. Decidi, por isso, investigar o
que está acontecendo, mas sabia que eu, um comediante, não tinha os recursos para abordar sozinho a
questão, e assim resolvi formar uma dupla com o sociólogo Eric Klinenberg, da Universidade de Nova
York. Armamos um vasto projeto de pesquisa, ao longo de 2013 e 2014, envolvendo grupos de discussão e
entrevistas com gente de todo o planeta, além da troca de ideias com pesquisadores importantes que se
dedicam ao estudo das relações amorosas no mundo moderno. Descobrimos muita coisa sobre as formas
atuais da procura por alguém, inclusive o que fazer a cada vez que você manda ou recebe uma mensagem de
texto.
Uma questão que provoca muita discussão é a da quantidade de tempo que alguém deve esperar antes
de responder a uma mensagem que acabou de receber. Muita gente apoia a tática de dedicar o dobro do
tempo de resposta da outra pessoa – se respondem a sua mensagem em cinco minutos, você espera dez etc.
Dessa forma você manteria o controle da situação, dando sempre a impressão de estar mais ocupado e ser
menos disponível que seu interlocutor. Outros acham que esperar uns poucos minutos já é suficiente para
provar que você faz alguma outra coisa da sua vida além de ficar olhando para a tela do celular. Há quem
acredite também que se deve, sim, usar o dobro do tempo de resposta do interlocutor, mas intercalar aqui e
ali uma reação imediata mais curta, para não dar a impressão de estar seguindo alguma regra – sem nunca
escrever nada muito longo! Há ainda quem garanta que o certo é esperar 25% a mais que o outro. Outros
defendem que três minutos são a demora perfeita. Mas também encontramos quem tenha dito que estava de
saco cheio desse jogo todo – e que receber respostas rápidas sem qualquer cálculo é um alívio, uma
demonstração de confiança.
Mas será que isso tudo funciona? Por que tanta gente se comporta assim? Alguma dessas estratégias
é confirmada por estudos psicológicos concretos?
Nos últimos anos, psicólogos behavioristas lançaram alguma luz sobre o motivo pelo qual as técnicas
de demora podem ser poderosas. O que se pode dizer sobre a noção de que responder na mesma hora a uma
mensagem torna a pessoa menos interessante? Foram realizadas centenas de testes psicológicos de
laboratório em que animais recebem tipos diferentes de estímulo em vários tipos de situações. Um dos
achados mais intrigantes é que a “incerteza quanto à recompensa” – quando, por exemplo, as cobaias não
conseguem prever se pressionar uma determinada alavanca irá ou não lhes trazer comida – pode aumentar e
muito o interesse pela recompensa, ao mesmo tempo que reforça os níveis de dopamina no cérebro, de
maneira que os animais ficam mais agitados.
Se consideramos a mensagem de texto como uma “recompensa”, é bom levar em conta que os
animais que são premiados toda vez que empurram a alavanca acabam ficando mais lentos – pois sabem
que, a cada vez que quiserem uma nova recompensa, ela estará à sua disposição. Assim, se você for o tipo de
pessoa que sempre responde na hora a qualquer mensagem que recebe, pode acabar virando parte da
paisagem, e perder muito do seu valor como recompensa. A outra pessoa acaba não sentindo urgência em
lhe escrever de volta ou, no caso do animal de laboratório, voltar a pressionar a alavanca.
A mensagem de texto é um meio de comunicação que condiciona a nossa mente de várias maneiras,
e criamos a expectativa de que nossas conversas por escrito produzam efeitos muito diferentes dos
telefonemas de voz. Antes que todo mundo tivesse um celular, as pessoas podiam levar algum tempo – às
vezes dias – para produzir uma resposta a um recado ou um bilhete, sem com isso deixar preocupado o autor
da mensagem. A troca de mensagens de texto nos acostumou a respostas muito mais rápidas. Pelo que
descobrimos nas nossas entrevistas, essa medida de tempo varia de pessoa para pessoa, mas pode se situar
entre dez minutos e uma hora, ou ser até imediata, dependendo da comunicação anterior. Quando não
obtemos uma resposta rápida, nossa cabeça entra em parafuso.
Natasha Schüll, antropóloga e pesquisadora no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts,
dedica-se ao estudo do vício do jogo e, mais especificamente, ao que acontece nas mentes e nos corpos das
pessoas que se viciam na gratificação instantânea das máquinas caça-níqueis. Quando conversamos, em
Boston, ela explicou que, à diferença dos jogos de cartas, das corridas de cavalo ou da loteria semanal – três
casos de apostas em que o jogador precisa sempre esperar; seja por sua vez, pela chegada ou pelo sorteio
semanal –, o jogo nos caça-níqueis é praticamente imediato, e o jogador é informado do resultado sem
qualquer demora.
“Você começa a contar com um resultado instantâneo e perde a capacidade de tolerar qualquer
espera”, disse Schüll. Ela traça uma analogia entre os caça-níqueis e as mensagens de texto, visto que nos
dois casos a resposta que a pessoa espera precisa ser rápida. “Quando você troca mensagens com alguém por
quem se interessou mas ainda não conhece de verdade, a situação lembra a aposta num caça-níqueis: muita
incerteza, expectativa e ansiedade. O sistema todo da pessoa se prepara para receber a mensagem de
resposta. Você tem vontade – você precisa – de uma resposta imediata, e, se ela não vem, a decepção afeta
todo o seu sistema, ‘Aaaaaah!’ Você não sabe o que fazer diante dessa falta de resposta, dessa questão em
aberto.”
Schüll afirma que a mensagem de texto é muito diferente do recado na secretária eletrônica, o
método dominante antes da era dos smartphones. “No que diz respeito ao tempo, e também do ponto de vista
emocional, deixar recado numa secretária eletrônica equivale mais à compra de um bilhete de loteria”,
explicou. “Você sabe que vai precisar de uma longa espera até conhecer os números sorteados. Não conta
com uma resposta imediata, nem se entrega a um suspense muito intenso porque sabe que a demora vai ser
de alguns dias. Já no caso de uma mensagem de texto, se não recebe uma resposta em menos de quinze
minutos, já começa a ficar perturbado.”
Schüll nos contou que já viveu, ela própria, a agonia dessa espera. Alguns anos atrás, vinha trocando
mensagens com um pretendente, uma pessoa com quem tinha começado a sair e por quem estava muito
interessada, e tudo indicava que ele também estava interessado. Mas um belo dia, sem qualquer motivo ou
explicação, o sujeito parou de escrever. E ela só foi receber um novo sinal dele depois de três dias. Nesse
meio tempo, ficou totalmente fixada no desaparecimento do rapaz, e teve dificuldades até nas suas
atividades rotineiras. “Ninguém queria chegar perto de mim”, ela disse, “porque eu estava simplesmente
obcecada: Onde foi que esse cara se meteu?”
Quando o sujeito afinal reapareceu, ela ficou aliviada de saber que na verdade ele tinha perdido o
telefone. Como só tinha o número de Schüll anotado na sua lista de contatos, ele custou a achar outro meio
de falar com ela.
“No caso de um telefonema, três dias não bastariam para deixar uma pessoa tão transtornada assim,
mas para a minha cabeça, acostumada à troca de mensagens de texto, ficar sem essa recompensa… Foram
três dias absolutamente infernais”, contou. Mesmo pessoas que vivem em relações estáveis podem sentir
uma ansiedade desse tipo na troca de mensagens de texto. Na relação que eu vivo – um compromisso sério,
uma parceria muito amorosa –, já passei por vários casos de demora na troca de mensagens. Foram situações
que me causaram um considerável desconforto. Por exemplo:

Você vai passar no hotel antes de ir para o show hoje?


[enviado às 6:34]
Acho q não. Preciso me preparar pra apresentação e combinei de tomar um copo de vinho com o Zach.
Quer vir encontrara gente?
[enviado às 6:36]

Notem o intervalo de vinte minutos que ocorre em seguida.

Não.
[enviado às 6:56]

Durante a lacuna de vinte minutos depois de “Quer vir encontrar a gente?”, fiquei convencido de que
minha mulher tinha se chateado com alguma coisa. Suas outras respostas haviam sido praticamente
imediatas, e aquela pausa, para mim, indicava que alguma coisa estava errada e que eu devia ter passado no
hotel, ou algo assim.
Te encontro no show.
[enviado às 6:56]
Vc tá chateada ou não.
[enviado às 7:01]
Nada chateada. Só descansando no hotel. Passei o dia todo andando e ñ estou a fim de sair.
[enviado às 7:17]
Ok só quis saber
[enviado às 7:17]

Mais uma vez, quando ela custou a responder depois de “Vc tá chateada ou não”, eu concluí que ela
tinha ficado obviamente chateada. Caso contrário, por que esperar tanto tempo para me responder que não?
E todas essas variações da minha percepção quanto aos sentimentos dela, além do meu próprio estado de
espírito, se deviam unicamente às diferenças no tempo de resposta das mensagens de texto.
Se esse efeito é assim poderoso mesmo no caso de pessoas em relações de compromisso sério, faz
sentido aceitar o que todos os princípios psicológicos indicam: que a demora é uma estratégia que funciona
para as pessoas solteiras decididas a atiçar a atração do outro.
Por exemplo, vamos supor que você é um homem e conhece três mulheres num bar. No dia seguinte,
manda mensagens para todas elas. Duas respondem depressa, mas a terceira não fala nada. As duas
primeiras, num certo sentido, indicam interesse ao escrever de volta e, na prática, deixam você tranquilo. Já
a outra mulher, por não ter respondido, gera incerteza – e então você começa a procurar uma explicação para
aquele comportamento. Por que ela não me respondeu? Qual terá sido o problema? Será que eu fiz alguma
besteira? Essa terceira mulher produz incerteza, fator que, dizem os psicólogos sociais, pode levar a uma
poderosa atração romântica.
A equipe formada por Erin Whitchurch, Timothy Wilson e Daniel Gilbert realizou um estudo em que
mostraram a algumas mulheres os perfis no Facebook de homens que, pelo que diziam, tinham examinado
os perfis delas. A um primeiro grupo, disseram que os donos daqueles perfis tinham dado as notas mais altas
aos perfis delas. A um segundo, disseram que aqueles homens tinham achado os perfis delas dentro da
média. E, a um terceiro grupo, mostraram perfis de vários homens e disseram que era “incerto” o quanto eles
tinham gostado ou não do perfil delas. Como era de se esperar, as mulheres avaliavam melhor os sujeitos
que gostaram mais delas do que aqueles que as achavam dentro da média (o princípio da reciprocidade:
gostamos de quem gosta de nós). No entanto, o grupo que mais interesse despertou entre as mulheres foi o
dos “incertos”. E, mais adiante, elas ainda comentaram que era neles que tinham ficado pensando no período
que se seguiu à entrevista. Quanto mais você pensa em alguém, mais aumenta a presença dessa pessoa na
sua cabeça, o que por sua vez pode resultar num sentimento de atração.
Outra ideia da psicologia social envolvida nos nossos padrões de troca de mensagens é o princípio da
escassez. Ou seja: sempre consideramos mais desejável o que parece menos disponível. Quando você manda
mensagens de texto com menos frequência, na verdade você está produzindo uma escassez da sua pessoa, o
que torna você mais atraente.
De todo modo, apesar de tudo que você possa achar do conteúdo da sua mensagem ou do tempo
certo para a resposta, às vezes o que acontece não tem nada a ver com você, e é produzido por fatores
completamente alheios à sua vontade. Quando eu estava às voltas com a história da Tanya, um amigo me
deu um ótimo conselho: “Às vezes você está numa situação dessas e se arrepende de alguma coisa que disse,
fez ou escreveu, mas muitas vezes isso tudo só tem a ver com alguma coisa que se passou do lado de lá, com
a outra pessoa, e você não faz a menor ideia do que possa ser.”
Alguns meses mais tarde, tornei a esbarrar com Tanya. Tivemos uma conversa muito engraçada e ela
acabou me pedindo desculpas por não ter respondido da outra vez. Parece que na ocasião ela estava pondo
em questão a sua identidade sexual, tentando descobrir se era lésbica ou não.
Essa hipótese, de fato, nem tinha passado pela minha cabeça. Acabamos saindo de novo naquela
noite, e ela disse que dessa vez ninguém iria ficar fazendo joguinhos, nem agir de maneira calculada. Dias
depois, mandei uma mensagem de texto para Tanya, seguindo a sua própria sugestão de não ficar fazendo
cálculos. A resposta dela? Silêncio.

(Trecho do livro Romance Moderno a ser publicado este mês pela editora Paralela.)