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Sobral e região em foco

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MULTIPLOS OLHARES SOBRE A CIDADE E O
URBANO: SOBRAL E REGIÃO EM FOCO

Martha Maria Júnior


Nilson Almino de Freitas
Virgínia Célia Cavalcante de Holanda
Sobral e região em foco 5

Apresentação

O Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Cidades da Região Norte do Es-


tado do Ceará (GEPECCE) e o Grupo de Estudo e Pesquisa em Planejamento
Urbano e Regional – GEPPUR, da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA),
desenvolvem investigações multidisciplinares no espaço urbano de cidades médias
e pequenas na região norte cearense, objetivando produzir uma compreensão das
diferentes formas de ocupação espacial através de enfoques diversificados.
O GEPECE atualmente tem o apoio técnico do Laboratório das Memórias
e Práticas Cotidianas (LABOME) e do Núcleo de Estudos de História Regional (NE-
DHIR), ambos da UVA. Está atualmente vinculado ao Núcleo de Estudos Urbanos
e Regionais (NEURB), também da UVA. São laboratórios financiados com recursos
obtidos pelo GEPECCE, dentre outras fontes, em três editais diferentes (dois da FUN-
CAP e um do Universal do CNPq) em anos diferentes, além de serem sustentados
com recursos da própria UVA. Os projetos foram os seguintes: “Memórias e narrativas:
imagens da cidade de Sobral” (vigência entre 26.11.02 a 30.10.03, convênio FUNCAP/
UVA 36/2002); “Cultura, fluxos e cotidiano na cidade de Sobral-CE: integrando visões
interdisciplinares” (vigência entre 05/10/06 a 05/10.07, Convênio nº 027/2006 FCPC/
FUNCAP); “Usos, sabores e memórias: a cidade de Sobral e as práticas de espaço”
(ainda vigente e iniciado em 01/01/2008, edital MTC/CNPq: No 15/2007-Universal).
6 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

O GEPPUR atualmente tem o apoio técnico do Núcleo de Estudos Ur-


banos e Regionais (NEURB) do Curso de Geografia da UVA. Tem parceria no
desenvolvimento das pesquisas com o Laboratório de Estudos Urbanos e Culturais
(LEURC) da UECE. São laboratórios financiados com recursos obtidos através de
projetos aprovados junto às agências de financiamento à pesquisa, além de serem
mantidos com recursos das respectivas universidades. Atualmente o GEPPUR de-
senvolve uma pesquisa de significativa relevância para o conhecimento das cidades
médias cearenses, financiada pela FUNCAP, através de bolsa PBI- Bolsa Produtivi-
dade em Pesquisa e estimulo a interiorização.
O livro reúne artigos refletindo os resultados das pesquisas desenvol-
vidas no âmbito dos dois grupos, pretendendo problematizar criticamente e pro-
mover o repensar sobre as políticas de planejamento e desenvolvimento urbano,
educacional e cultural, assim como fazer com que o morador conheça melhor sua
cidade. A própria população interessada em participar do planejamento dessas po-
líticas através de instâncias como conselhos, por exemplo, será beneficiada com
cursos breves, que podem ser promovidos utilizando o livro como material didático.
Nas investigações promovidas pelo GEPCCE e pelo GEPPUR, as cida-
des em foco são dissecadas, através de investigações em campos multilocalizados,
transgredindo um regime hegemônico de percepção espacial, muitas vezes natura-
lizado por seus habitantes. Para isso, as reflexões dos componentes dos respectivos
grupos, professores dos cursos de História, Ciências Sociais, Geografia da UVA e
do LEURC do Mestrado em Geografia da UECE, têm que ser disseminadas e co-
municadas para a sociedade em geral.
Nessa publicação, inclui-se a contribuição de três professores renomados
nessas três áreas citadas que fornecem subsídios teóricos e metodológicos para se
pensar além do local.
O livro poderá ajudar na capacitação para promover uma participação
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mais qualificada tecnicamente na implementação de políticas urbanas, como o


Plano Diretor, assim como políticas culturais, como é o caso da preservação do
patrimônio material e imaterial, dentre outras. A legislação pertinente a essas polí-
ticas citadas prevê a participação da população, mas esse envolvimento geralmen-
te acontece sem uma formação dos participantes no sentido de compreender a
dinâmica operacional, as relações políticas envolvidas, as posturas ideológicas em
jogo, assim como não conhecem a história que fundamenta percepções correntes
sobre a cidade. Tudo isso está sendo discutido nos artigos selecionados. O livro é
um instrumento fundamental para mostrar como são construídas visões correntes
sobre as cidades da região, proporcionando ao leitor uma percepção mais ampla de
seu espaço e de sua história. Outra justificativa fundamental para investir na leitura
deste livro é o fato de ser comum essa discussão sobre o urbano concentrando a
atenção em grandes capitais. Sendo raros os trabalhos que fazem reflexões sobre
cidades médias e pequenas da região, este instrumento será fundamental para suprir
essa lacuna. As disciplinas acadêmicas dos diferentes cursos da UVA que discutem
a questão urbana acabam se beneficiando também com este recurso.
Este pode ser um instrumento valioso para divulgar os trabalhos desen-
volvidos pela UVA em parceria com as instituições de fomento, principalmente na
área de humanidades.
Os artigos selecionados estão divididos em duas partes: uma que reflete
os resultados das pesquisas desenvolvidas pelos dois grupos, e uma segunda parte
mais teórica, que vai além da questão regional e coloca questões fundamentais para
orientar qualquer reflexão sobre o urbano. Resta-nos então apreciar os artigos.

Profª. Ms. Martha Maria Júnior


Prof. Dr. Nilson Almino de Freitas
Profª. Dra.Virgínia Célia Cavalcante de Holanda
(Organizadores)
Sumário

PARTE I

O Urbano no Semiárido: Pequenas Cidades do Ceará em Discussão


Antonia Neide Costa Santana

Espaços de Lazer em Sobral-Ceará, o “cid marketink” e uma proposta de (re)invenção


da cidade
Diocleide Lima Ferreira

O Teatro da História: Os Espaços entre Cenas e Cenários


Durval Muniz de Albuquerque Júnior

A Cidade dos “Coronéis”: História e Cultura Política em Sobral-CE (1962-1970).


Edvanir Maia da Silveira

Uma introdução ao estudo das redes de comércio e de serviço entre a Cidade Média de
Sobral e algumas cidades pequenas da Região Norte do Ceará
Lenilton Francisco de Assis

Maneiras de ver e viver o Bairro Terrenos Novos na Cidade de Sobral – Ceará


Maria Antonia Veiga Adrião
Da Fazenda Caiçara, nos “Sertões do Norte”, à Cidade Média de Sobral:
reconstruindo espacialmente o processo da Expressão Regional
Martha Maria Junior

Ação, Efeito e Manobras: o “Artefato Primoroso” da Monumentalização de Sobral e


seus usos no Campo Político
Nilson Almino de Freitas

PARTE II

Sobral: Esquizofrenia da Exceção


Rogério Haesbaert

O consumo e a cidade
Simone Carneiro Maldonado
Maura Carneiro Maldonado

Urbanização brasileira: um olhar pelos interstícios das configurações espaciais seletivas


Virginia Célia Cavalcante de Holanda

Cidades médias: considerações sobre a discussão conceitual


Zenilde Baima Amora
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PARTE I
12 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

O Urbano no Semi-Árido:
Pequenas Cidades do Ceará em Discussão

Antonia Neide Costa Santana 1

INTRODUÇÃO

Este artigo é fruto de reflexões desenvolvidas no exercício


da disciplina Geografia Urbana e advindas de um Grupo de Estu-
dos sobre Cidades Pequenas, iniciado com alunos da graduação, ao
assumir a coordenação do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais
(NEURB) do Curso de Geografia da Universidade Estadual Vale do
Acaraú (UVA - Sobral/CE), em agosto de 2003.   As idéias foram
maturadas, posteriormente, através da minha participação no Grupo
de Estudo e Pesquisa (cadastrado no CNPq) sobre as “Cidades da
Região Norte do Estado do Ceará”, o qual é constituído por profes-
sores e alunos dos cursos de Geografia, História e Ciências Sociais
da UVA.
1 Geógrafa; professora da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA- Sobral/CE; douto-
randa na Universidade Federal Fluminense (UFF); e-mail: neidesan@gmail.com.
Sobral e região em foco 13

Exemplos de modos urbanos de viver ou discussões de te-


mas considerados tipicamente da cidade, dados em sala de aula ou
durante as discussões no grupo de estudo, pareciam estranhos aos
alunos, ao passo que temas relacionados à questão da terra eram assi-
milados e/ou discutidos com maior entusiasmo e fluidez.
A Universidade Estadual Vale do Acaraú recebe diariamente
centenas de alunos e estes trazem para a sala de aula os acontecimen-
tos, a história e o cotidiano das suas cidades, a maioria localizada na
microrregião Sobral/Ibiapaba, no noroeste do estado do Ceará.  
Muitos alunos não moram nas sedes dos municípios e sim
em distritos ou sítios .. Em alguns desses municípios os alunos se
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sentem “ilhados” pela dificuldade de transporte coletivo, pela pre-


cariedade das estradas e pelo difícil acesso aos meios de comunica-
ção. Nessas cidades a presença da natureza e do mundo camponês
é bastante forte, propiciando um modo de ser contentor de práticas
sociais indecisas entre um urbano que se afirma e um mundo “não
urbano” que persiste. Mas talvez não haja indecisão; apenas contra-
dições ou até mesmo um urbano ainda mesclado pela presença da
natureza e das relações campesinas.
É pretensão deste artigo, elaborado em 2007, discutir o ur-
bano em pequenas cidades do Semi-Árido do Nordeste, especifica-
mente do estado do Ceará, bem como alguns conceitos que se creem
necessários ao entendimento desse modo de ser e viver. Conheci es-
sas cidades em trabalhos de campo ou a passeio - muitas delas foram
visitadas mais de uma vez. As mesmas não serão nominadas porque
as observações realizadas não estavam direcionadas a um grupo es-
2 Estabelecimento agrícola de pequena lavoura (Dicionário Aurélio – Século XXI).
14 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

pecífico de cidades. São cidades do interior do Ceará, mais preci-


samente aquelas que pertencem à microrregião Sobral/Ibiapaba, ou
seja, 29 cidades, das quais apenas cinco possuem mais de 20.000 mil
habitantes .
3

O urbano dessas cidades é diferenciado, com práticas so-


ciais marcadas por um mundo onde a natureza ainda se faz bastante
presente, onde a deficiência dos serviços interfere na qualificação do
modo urbano de viver. A observação e análise das tradições, dos há-
bitos, costumes e do cotidiano dessas pessoas são fundamentais para
o desnudamento desse modo de viver.
A cidade pequena do semi-árido cearense e o urbano, que a
iguala e a diferencia no tempo e no espaço, também são objetos de
estudo da minha pesquisa de doutorado, que se encontra em desen-
volvimento na Universidade Federal Fluminense.

A CIDADE PEQUENA:
UM URBANO QUE SE DIFERENCIA

Gente que caminha, anônima, pessoas sem rosto, olhares


desfocados de quem vem na direção contrária; gente que passa com
pressa; olha, mas não fixa, não vê, mesmo quem agoniza no passeio
público e morre na contramão atrapalhando o tráfego. O tempo do capital
requer pressa, urgência, ritmos e tempos acelerados. Parar? Se o si-
nal estiver vermelho ou se alcançado o endereço a que se destinava.

3 Foi considerada, para este trabalho, apenas a população das sedes municipais.
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Tocar em alguém exige um pedido de desculpas, faz parte das regras


urbanas da não convivência. Regras universais, aceitas e assimiladas
por quase todos e que constituem o modo urbano de viver.
Assim é a cidade grande. Músicas como Construção e Sinal
Fechado são sempre lembradas quando se quer caracterizar ou falar
das impressões que as pessoas têm ao se referir aos grandes centros
urbanos. São músicas que falam da vida solitária e da ausência de
tempo de quem mora na metrópole.
Mas o anonimato, o olhar que não perscruta, o não interesse
pela vida de quem passa, a celeridade dos acontecimentos caracte-
rizam o urbano das grandes, mas não se adequam ao urbano das
pequenas cidades. Estas se assemelham mais à cidadezinha descrita
por Veríssimo (1994, p.76) nas suas Comédias da Vida Privada: “O
homem não precisa perguntar como se chega ao centro da cidade.
Vai a pé, guiando-se por suas lembranças. O centro continua como
era. A praça. A igreja. A prefeitura”. Não há quem caminhe pelas
ruas e não seja percebido; a privacidade é pública; a arquitetura das
casas é homogênea; a solidariedade é mais presente. Santos (1982)
afirma que as cidades locais mudam de conteúdo, não sendo mais
estas as cidades dos notáveis. Esses pequenos espaços urbanos do
sertão cearense ainda são dos notáveis: juízes, padres, médicos, vere-
adores... ainda são personalidades que se destacam, são conhecidos
pelos nomes, afinal é a eles que a população recorre.
O modo urbano de viver das metrópoles influencia os pe-
quenos centros urbanos e pode-se dizer que há um modo geral e
homogêneo de ser que se reproduz no particular. Mas esse modo
geral e homogêneo é totalmente absorvido pela população local ou
16 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

as particularidades do lugar conseguem redirecionar ou, pelo menos,


adicionar novos elementos à totalidade, modificando as suas feições?
Perruci (1984, p.13), ao analisar a formação da região Nordeste, com-
preende que essa formação é intrínseca ao desenvolvimento histórico
do modo capitalista de produção no Brasil, e diante dessa compreen-
são ele afirma a importância de se entender as formas de reprodução
do geral no particular “e como, a partir deste, podemos entender as
múltiplas articulações entre os diversos tipos de relações sociais e
o fio condutor do processo mais global, representado pela luta de
classes no Brasil”. O pensamento de Perruci pode servir de marco
teórico para a compreensão do desenvolvimento desigual e contraditório
do urbano dessas cidades do Nordeste brasileiro. Mais precisamente,
cidades do entorno de Sobral, na região Noroeste do Ceará.
O urbano nessas cidades revela as contradições de um pro-
cesso de desenvolvimento que não se realiza por igual, onde alguns
espaços se constituem como área complementar de outros. O modo
urbano de viver reflete, portanto, fragilidades identificadas a partir
de alguns hábitos como o fechamento do comércio no horário do
almoço; visitar pessoas sem aviso prévio; a cidade dorme a partir das
22 horas, exceto nos períodos de festa; a árvore plantada à frente da
casa não serve apenas para dar sombra, mas para armar a rede nas
calçadas, secar a roupa lavada, vender carne em condições duvido-
sas de higiene; o reconhecimento das badaladas do sino da igreja,
conseguindo identificar se a “chamada” é para missa ou enterro, no
caso deste último, se para criança ou adulto; há ausência nas conver-
sas cotidianas de assuntos considerados tipicamente urbanos, como
cinema, teatro – a novela predomina; segue-se bem o horário das re-
Sobral e região em foco 17

feições e as pessoas não têm o hábito e nem a necessidade de “comer


fora”; o dia da feira ainda é um importante marco temporal, tanto
para moradores da sede como para os da área rural; há outros marcos
temporais de grande significado, como as festas religiosas, juninas,
natalinas, que geram expectativa na população, pois é o momento de
receber parentes, amigos de outros lugares, a cidade se “prepara” fes-
ta após festa; moradores antigos percebem moradores novos. O que
há, no local, do urbano, da metrópole? Há um universo cosmopolita,
mas quem dele participa?
Clark (1991, p.103-104), analisando os “estudos dos con-
trastes urbano-rural”, cita Tönnies, que no final do século XIX, ao
analisar as cidades alemãs, identifica a “família extensa ou os grupos
de parentesco” como base da organização da sociedade rural. Não
há desejo de transpor mecanicamente teorias desenvolvidas em ou-
tros tempos e outras realidades, mas nas pequenas cidades do interior
do Nordeste ainda se observa que a cidade pertence mais a algumas
famílias, detentoras de poder, terra e capital, que a outras. Estas têm
poucos direitos sobre os caminhos traçados para a cidade. Porém,
observa-se que esse poder é dividido entre as famílias tradicionais e
novos grupos, muitas vezes exógenos.
O poder na cidade pequena não é impessoal como na cidade
grande. O não anonimato e a convivência próxima entre os habitan-
tes possibilitam a personificação desse poder. Classes sociais distintas
utilizam-se dos mesmos ambientes, gerando muitas vezes relações de
amizade entre pobres e ricos. Como os serviços nessas cidades, em
sua maioria, são mantidos pelo Estado (municipal, estadual e federal),
é comum o filho do rico estudar na mesma escola, pública, que o
18 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

filho do pobre; em um mesmo templo rezam dominantes e domi-


nados; os funcionários públicos são constituídos de todas as classes
sociais que compõem o município. Os pobres, embora impedidos
financeiramente de materializar seus desejos, assimilam, com facili-
dade, idéias, preconceitos e valores dos ricos.
Esses hábitos e costumes que persistem são fatos isolados,
em vias de extinção e por isso não se validam como objeto de estudo?
Apesar de poucos, conseguem emaranhar-se simplesmente, cons-
tituindo a base do urbano local? Ou transbordam e transparecem,
configurando-se como outra realidade urbana?
Com essas indagações não se quer negar as contradições da
totalidade urbana. Entende-se, conforme Carlos (2004, p. 19), que
“[...] se a construção da problemática urbana se realiza no plano teó-
rico, a produção da cidade e do urbano se coloca no plano da prática
sócio-espacial, revelando a vida na cidade”.
As cidades crescem em quantidade, mas os equipamentos
urbanos não aumentam na mesma velocidade. Geiger (1997, p. 16)
afirma que “A urbanização, em termos de transferência das popula-
ções para as cidades, praticamente se completou, mas o progresso
no urbanismo e nos serviços não seguiu paralelo”. A impressão que
se tem é que esse modo urbano é filtrado através dos equipamentos
e dos serviços que chegam à cidade. Por exemplo, o uso do sistema
financeiro é um dos serviços que modifica o ritmo dessas cidades, as
pessoas correm para pegar o banco aberto. Mesmo sem participar do ho-
rário de verão, todas as cidades do Ceará têm suas agências bancárias
antecipando em uma hora o seu horário de funcionamento. Mas, ao
mesmo tempo em que a cidade segue o ritmo do sistema financeiro,
Sobral e região em foco 19

várias de suas lojas fecham suas portas para o intervalo do almoço,


que em alguns casos é antecipado para as onze horas da manhã, man-
tendo o hábito do descanso, após as refeições. As ruas esvaziam-se e
o tempo não parece ser o do capital. O ritmo também se modifica no
período matutino: a manhã é dos bancos, dos cartórios, dos consul-
tórios médicos, dos lugares das compras e dos afazeres; a tarde geral-
mente só é utilizada quando, pela manhã, o tempo foi insuficiente. O
uso do centro comercial é mais restrito no período vespertino. Parece
que o urbano não se completa ou, então, revela feições diferenciadas.
O que é esse urbano ou, se é possível mensurar ou qualifi-
car, quais os níveis dessa urbanidade?
De acordo com Silva (1997, p. 85), “O urbano costura as di-
ferenças reconhecidas entre as cidades, extrapola seus limites e utiliza
todos os meios possíveis para homogeneizar atitudes, hábitos, com-
portamentos”. O urbano nasce a partir da cidade e requer condições
materiais e estruturais para se realizar. Mas essas condições não estão
apenas no plano da materialidade, pois o urbano também exige um
sistema de valores e preceitos que ele mesmo vai tecendo em um pro-
cesso de relações entre as pessoas, e destas com o seu entorno e para
além deste. O urbano se faz necessário à compreensão das condições
materiais e não materiais que formam as práticas de vida nas cidades.
O lugar expressa o urbano e este, por sua vez, incide sobre o lugar.
Nesse sentido, o conceito de lugar, tanto quanto o de urbano,
se mostra necessário ao entendimento dessa questão, pois o lugar
seria o “fragmento” do espaço onde o viver se materializa e, nesse
caso, coincide com a própria extensão do objeto de estudo discutido
neste artigo. O lugar, pois, é a própria extensão da cidade. O coti-
20 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

diano dos habitantes do lugar revela práticas desenvolvidas a partir


das necessidades locais e a partir de necessidades exógenas. Um não
é constituído para o outro, mas a totalidade se faz no eterno movi-
mento das contradições, onde um contém o outro, havendo sempre
o surgimento do novo. Para Carlos (1996, p.26) “o lugar é o mundo
do vivido, é onde se formulam os problemas da produção no sentido
amplo, isto é, o modo como é produzida a existência social dos seres
humanos”.
Há, no dizer de Santos (1996, p.125), uma mundialização
da mais-valia: “a impulsão que recebem esses conjuntos técnicos
atuais (ou suas frações) é única, vinda de uma só fonte, a mais-valia
tornada mundial ou mundializada, por intermédio das firmas e dos
bancos internacionais”.
A fonte provedora do modo de produção capitalista se
consolida, no Brasil, com o desenvolvimento da indústria. Para Oli-
veira (1981, p.74) a industrialização do país possibilita a realização
interna da produção de valor: “[...] a produção de mercadorias de
realização interna impunha seu equivalente geral a todo o conjunto
da economia.” O processo de industrialização favorece, portanto,
as condições para a integração da economia e dos espaços. O ar-
quipélago econômico se desfaz, mas permanecem as diferenças regio-
nais. Diferenças essas que, por exemplo, se manifestam, no caso
do Ceará, 1) nas relações de trabalho: o assalariamento da mão-de-
obra ainda é pouco presente no meio rural, o nível de salário dos
trabalhadores do campo e da cidade é muito baixo, principalmente
fora da região metropolitana, as relações pessoais, na cidade local,
interferem nas relações de trabalho; há trocas de serviços entre pa-
Sobral e região em foco 21

trão e empregado, como forma de pagamento; 2) na dotação de


infraestrutura, pois o Nordeste não faz parte da região concentrada,
cujo espraiamento contínuo, através da técnica, da ciência e da in-
formação, se esgota no Centro-Sul do país. De acordo com Santos
(1996), o meio técnico-científico-informacional se constitui como
área contínua (região concentrada) no Centro Sul do país e nas demais
regiões como manchas e pontos. Pontos e manchas são essenciais ao
desenvolvimento do capital e permanecerão assim, não se trans-
formarão em região concentrada sem a anuência do grande capital.
Santos (1988, p. 78) fala dos fixos e dos fluxos. “Um objeto
geográfico, um fixo, é um objeto técnico, mas também um obje-
to social, graças aos fluxos. Fixos e fluxos interagem e se alteram
mutua­mente”.
Sabendo da imbricação entre um e outro, pode-se dizer que
as pequenas cidades do Nordeste participam do processo de urba-
nização mais no que se refere aos fluxos do que aos fixos? Através
dos fluxos essas cidades se ligam ao mundo, apesar da inconstância
da internet, da reduzida quantidade de computadores e de faxes, da
desqualificação profissional das pessoas e da ausência de necessida-
des – ainda são muitos os que vivem à margem desse processo –
quanto ao uso desses equipamentos. Para Remy e Voyé (1992, p. 11),
a urbanização é um “processo que integra a mobilidade, não apenas
de pessoas e de bens, mas também de mensagens e de idéias na
vida quotidiana”. Como se configura essa urbanização em espaços
tecnicamente impedidos de acompanhar na mesma velocidade, dos
centros urbanos de decisão, as idéias, as mensagens e as ordens? Há
um descompasso no tempo e no espaço. Os passos lentos do tem-
22 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

po resguardam o espaço. Salgueiro (2003, p.100) é quem traz esse


entendimento ao afirmar que

Cada época tem um modo específico de ex-


periência do espaço e do tempo e produz
tempos (temporalidades) e espaços (espacia-
lidades) não integrados porque o tempo man-
tém vários ritmos e o espaço vários atributos.
Afirmam-se tempos e espaços hegemônicos
e persistem espaços e tempos dominados.

Quanto aos fixos, geralmente, no caso do Nordeste, che-


gam até às ditas cidades médias. Estas, resguardadas as proporções,
concentram os equipamentos técnicos de que fala Milton Santos, as
atividades produtivas e comerciais, bem como, os serviços mais es-
pecializados. As cidades pequenas dependem, portanto, das cidades
médias e das metrópoles, que às vezes não são as circunvizinhas.
Na região Noroeste do Ceará as pequenas cidades são em
maior número, e em algumas a atividade primária, que inicialmente
delimitou o urbano do rural, se faz presente, não só com a chegada
dos produtos rurais vendidos em feiras, mercearias e mercantis, mas
no cotidiano da cidade através de trabalhadores, que não se configu-
ram como bóias-frias e diariamente se deslocam a pé, de bicicleta,
para a roça. O limite entre o natural e o artificial é visível e abrupto na
paisagem, mas não o é nas relações que esses trabalhadores estabe-
lecem com o seu entorno. A relação com um mundo primário, com
Sobral e região em foco 23

a natureza é latente e transparece no comportamento individual e


coletivo: permanece, para alguns, o hábito de se alimentar de cócoras
ou em pé, tal qual no roçado; perdura o medo da fúria da natureza
(relâmpagos, redemoinhos que carregam o capeta, ventos fortes que
assustam); resplandece a alegria coletiva com a vinda da chuva e os
banhos nas “bicas” das casas; aceita-se o sobrenatural como explica-
ção de fatos e fenômenos; persiste o receio em usar eletrodomésticos
mais sofisticados e a dificuldade em aprender a usá-los. Manifestam-
se algumas outras atitudes perceptíveis ao olhar de quem vem de um
urbano já consolidado.
Entendendo que as relações sociais se refletem no urbano ao
mesmo tempo que o urbano incorre sobre elas, pergunta-se até que
ponto essas localidades estão no mesmo ritmo da metrópole ou da
cidade média mais próxima, ou qual a temporalidade desses lugares?
A inserção do local no global leva à necessidade de se enten-
der o ritmo desses processos e como esse ritmo se cristaliza forman-
do no mesmo espaço contínuo espaços diferenciados. Para o enten-
dimento desse “impasse” os conceitos de temporalidades e espacialidades
se tornam necessários. Salgueiro (2003, p.100) assim os entende:

Existe um espaço palco ou contentor, mas


várias espacialidades resultantes da repro-
dução e apropriação daquele mesmo espa-
ço, o que significa dar-lhe novas formas e
imbuí-lo de sentidos associados ao seu uso
por cada indivíduo ou grupo. Existe o tem-
po longo e contínuo da sucessão linear dos
24 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

acontecimentos históricos e o tempo desco-


nectado, com diferentes ritmos, intensidades
e valores que se cruzam, as temporalidades
também elas produzidas e diferenciadas.

As cidades médias e os pequenos centros urbanos passaram


a ser objeto de estudo. Antes o urbano pesquisado era o da metrópo-
le. Atitude bem compreendida se considerarmos que era na metrópo-
le que se situava a universidade e, claro seus pesquisadores. Podemos
ainda fazer uma segunda atribuição: o meio técnico-científico-informacional,
desenvolvido conceitualmente por Milton Santos, ainda não era tão
presente, tão espalhado e tão tecnicamente adiantado quanto a partir,
no caso do Ceará, da década de 1980.
As universidades se deslocam para as cidades médias e com
isso vêm as pesquisas sobre essas cidades e seu entorno. A cidade
pequena entra em cena. Esta vem através de pessoas que diariamente
consomem os serviços em/de Sobral e, de uma forma mais sistema-
tizada, através dos alunos.
A Universidade Estadual Vale do Acaraú recebe diariamente
centenas de alunos e estes trazem para a sala de aula os acontecimen-
tos, a história e o cotidiano das suas cidades. Muitos deles não moram
nas sedes dos municípios e sim em distritos ou sítios. Em alguns des-
ses municípios os alunos se sentem ilhados pela dificuldade de trans-
porte coletivo, pela precariedade das estradas e pelo difícil acesso aos
meios de comunicação - em alguns casos o rádio ainda tem papel
preponderante. Esses estudantes sentem muita dificuldade ao eleger
os seus lugares (povoados, distritos, cidades etc) como objeto de suas
Sobral e região em foco 25

pesquisas para elaboração de monografias de conclusão de curso. O


acervo local é extremamente precário, há ausência de informações e
de dados científicos dessas localidades, muitas vezes dificultando ou
inviabilizando pesquisas. Além disso, desde cedo, os educandos trei-
nam o olhar ou se habituam a estudar e analisar as grandes cidades, as
metrópoles, pois são elas ou, em alguns casos, as cidades médias do
Sul e Sudeste do país, que estão presentes nos livros didáticos.
Dificilmente os alunos interagem quando os exemplos da-
dos em sala são aqueles do viver metropolitano; assuntos típicos de
cidade, usados nas aulas, para ilustrar ou introduzir um tópico da dis-
ciplina ministrada, principalmente nas aulas de geografia urbana, não
despertam interesse ou não suscitam o debate. Um ou outro aluno
que morou em alguma capital, principalmente do Sul ou Sudeste do
país, não permanece alheio. Fora da sala, a tentativa de diálogos sobre
temas como cinema e teatro é sempre frustrante. Algumas necessida-
des e alguns hábitos caracterizados como urbanos também não são
arrolados por esses alunos.

A OFICIALIZAÇÃO DA CIDADE

A Constituição Federal de 1988 delega aos Estados o po-


der de criação, fusão e desmembramento de municípios. Esse poder
que foi delegado aos Estados permitiu, segundo, Tomio a criação de 4

1.438 municípios brasileiros (25% do total), considerando o período


5

que vai da promulgação da Constituição até o ano de 2000. Porém,

4 TOMIO, Fabrício R. de Limas. A criação de municípios após a constituição de 1988. In:


Revista Brasileira de Ciências Sociais – vol.17, nº48.
5 No Ceará 11, segundo dados de 1997 do IPLANCE.
26 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

essa autonomia, em função da quantidade de municípios criados,


passou a ser regulada pela Emenda Constitucional nº. 15, de 12 de
novembro de 1996. A EC nº.15 exige que sejam realizados plebisci-
tos tanto com o município que está pleiteando a emancipação como
com aqueles envolvidos no processo, e exige, ainda, a realização de
Estudo de Viabilidade Municipal.
No Ceará, a lei que “disciplina o processo de criação de mu-
nicípios, sua tramitação e dá outras providências” é a Lei Comple-
mentar Nº 1, de 5 de Novembro de 1991, que no momento está sus-
pensa, aguardando a lei complementar federal. Nessa lei os requisitos
não diferem dos dos outros Estados da Federação, variando apenas
em termos de quantidade. São exigidos, portanto: requerimento di-
rigido à Assembléia Legislativa, assinado por, no mínimo, 100 elei-
tores da área que pretende a emancipação; população estimada igual
ou superior a 1,5 milésimos da população total do estado; eleitora-
do igual ou superior a 20% da população; número de prédios igual
ou superior a 400; distrito legalizado; renda tributária não inferior a
0,01% da arrecadação do Estado. A lei ainda exige uma infraestrutura
mínima composta de eletrificação na sede, um posto de saúde (subs-
tituível por uma casa de parto), um posto policial, fonte pública de
abastecimento d’água e instalações físicas para a prefeitura e a câmara
municipal.
O Ceará, segundo dados do Anuário Estatístico de 2004,
possui 184 cidades, já que no Brasil, para efeitos oficiais, cidade
é a sede do município. Em termos populacionais, essas cidades,
desconsiderando os seus distritos, estão distribuídas conforme o
Quadro 1.
Sobral e região em foco 27

Quadro 1 - Número de cidades do Ceará por faixas de população


Faixas de População (habitantes) Número de Cidades
Até 5.000 13
De 5.000 a 10.000 54
De 10.000 a 20.000 71
De 20.000 a 30.000 18
De 30.000 a 40.000 10
De 40.000 a 50.000 10
De 50.000 a 100.000 03
De 100.000 a 200.000 03
De 200.000 a 500.000 16
Acima de 500.000 17
Fonte: Anuário Estatístico do Ceará - 2004

Organização: Antonia Neide Costa Santana

Essas cidades estão agrupadas em 7 mesorregiões que in-


cluem 33 microrregiões geográficas. Ao final da década de 1980, o
Ceará, administrado por um novo grupo político formado pela elite em-
presarial do estado, passa a ser regionalizado também em Áreas de De-
senvolvimento Regional (ADRs) ou Macrorregiões de Planejamento, num
total de sete, sendo que o litoral é subdividido em duas. Nessa nova confi-
guração, a Microrregião Sobral une-se à Microrregião Ibiapaba, tornando-
se uma só região administrativa. Esta microrregião é composta por 29 mu-
nicípios, cujas populações se distribuem conforme o Quadro 2.

6 Juazeiro do Norte, com 205.213 habitantes.


7 A capital do Estado, Fortaleza, com 2.141.402 habitantes, considerando os distritos porque,
nesse caso, se transformaram em bairros da cidade. Caso seja considerada apenas a sede administrativa,
então a população cai para 791.210 habitantes.
28 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Quadro 2 - Grupos de cidades da Microrregião


Sobral/Ibiapaba por faixas de população

Faixas de População
Número e Relação das Cidades
(habitantes)

Até 5.000 2 (Pires Ferreira e Senador Sá)


7 (Croatá, Pacujá, Alcântaras, Coreaú, Groaíras,
De 5.000 a 10.000
Moraújo, Meruoca)
15 (Ibiapina, Hidrolândia, Guaraciaba do Norte,
Graça, Frecheirinha, Forquilha, Cariré, Carnaubal,
De 10.000 a 20.000
Irauçuba, Reriutaba, Massapê, Mucambo, Santana
do Acaraú, Varjota, Ubajara)
De 20.000 a 30.000 1 (Viçosa do Ceará)
De 30.000 a 40.000 2 (São Benedito e Ipu)
De 40.000 a 50.000 1 (Tianguá)
De 100.000 a 200.000 1 cidade (Sobral: 122.405 habitantes)
Fonte: Anuário Estatístico do Ceará - 2004
Organização: Antonia Neide Costa Santana

As cidades pequenas, principalmente aquelas cuja popula-


ção varia entre 5.000 e 10.000 habitantes, possuem características de
um modo urbano diferenciado, com práticas sociais marcadas por
um mundo onde a natureza ainda se faz bastante presente, onde há
deficiência na qualidade e quantidade dos serviços, onde a ligação
com o mundo rural é muito forte. O Anuário Estatístico de 2004
fornece os dados dessas cidades referentes a população, taxa de ur-
banização e densidade demográfica; já o ano de criação do município
e a área territorial foram extraídos do Atlas do Ceará de 1997 (CEA-
RÁ,1997). Esses dados são mostrados na Tabela 1.
Sobral e região em foco 29

Tabela 1 - População, taxa de urbanização, ano de criação, área e den-


sidade demográfica das cidades com população entre 5 e
10 mil habitantes da Microrregião Sobral/Ibiapaba
Taxa de
Ano de Área Densidade
Cidades População Urbanização
criação (Km2) demográfica
(%)
Alcântaras 8.320 28,9 1957 155,4 71,1
Coreaú 9.748 56,4 1870 815,0 24,6
Croatá 6.649 45,4 1988 134,9 42,2
Groaíras 7.754 63,9 1957 156,1 56,2
Meruoca 6.467 49,6 1885 155,4 73,3
Moraújo 5.157 47,6 1957 471,0 15,0
Pacujá 5.653 58,0 1957 65,8 86,3
Fonte: Anuário Estatístico de 2004; Atlas do Ceará de 1997
Organização: Antonia Neide Costa Santana

Em se tratando da rede urbana cearense, a função dos


centros coletores tem norteado as teorias explicativas da ocupa-
ção e apropriação desse território (SILVA, 1992; AMORA, 1999;
SOUZA, 1995). A macrocefalia também é outra tese defendida por
esses autores. Há uma forte concentração urbana em Fortaleza e
sua região metropolitana e uma grande disparidade em relação às
outras áreas do estado, mas, claro, essa urbanização não se restringe
apenas a Fortaleza.
O Ceará só teve as suas terras ocupadas pelos portugueses
100 anos depois do descobrimento oficial do Brasil e o processo de
urbanização foi bastante lento. Fortaleza, a capital do Estado, só foi
elevada a cidade em 1823.
Pelo interior do território cearense se distribuíam algumas
30 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

cidades (Sobral na região Norte, Crato ao Sul e Icó no Sertão Central)


consideradas como centros coletores e a quem competia o papel de
“integração” ao resto do território, do país ou do mundo.
A existência de poucas cidades com funções mais complexas
que outras permanece até hoje. O conceito de rede urbana é essencial
para mostrar a articulação entre a Região Metropolitana de Fortaleza
e as demais cidades do interior do estado, não se restringindo a limi-
tes territoriais. Uma vez que

Por rede geográfica entendemos “um conjun-


to de localizações geográficas interconectadas”
entre si “por um certo número de ligações”. [...]
A rede urbana é a expressão mais acabada, mais
conhecida e estudada das redes geográficas. Há
em realidade, inúmeras e variadas redes que
recobrem de modo visível ou não, a superfície
terrestre (CORRÊA, 1997, p. 131).

O URBANO NO SEMI-ÁRIDO:
DOIS OUTROS CONCEITOS FUNDAMENTAIS
Vários são os conceitos importantes e necessários para se
compreender a cidade e o urbano, alguns deles - lugar, urbano, rede ur-
bana, região, temporalidades, espacialidades – se fizeram presentes ao lon-
go do texto por serem considerados fundamentais ao entendimento
da realidade urbana dessas pequenas cidades. Estas compõem um
todo contraditório, processual, em constante transformação, imbri-
Sobral e região em foco 31

cado em velhas e novas relações, cujo movimento apresenta a possi-


bilidade de ser minimamente elucidado e concebido, creio, à luz dos
conceitos eleitos. Além destes já citados, dois outros também são
imprescindíveis para se compreender o objeto em discussão; são eles:
cidade e trabalho.
As cidades do mundo atual, inseridas ou produzidas pelo ca-
pitalismo, vêm absorvendo e (re) produzindo cada vez mais o modo
capitalista de viver quase que independentemente do seu nível de hie-
rarquização. Pequeno, médio ou grande centro, o urbano não se pren-
de a essa adjetivação, como também não se limita ao perímetro ofi-
cialmente traçado e expresso nas placas de “início” ou “fim de zona
urbana”. O limite entre o campo e a cidade talvez só exista no plano
do visível, através da paisagem. Esta, no interior do Nordeste, ainda é
muito bem caracterizada, dividindo-se, numa visão macro, entre as coi-
sas do campo e as da cidade. Mas, até que ponto essa separação se dá
no modo urbano de ser? As relações pré-capitalistas presentes no campo
ainda são capazes de se refletir no modo de viver do povo da cidade?
A cidade marca de forma tão profunda o mundo contempo-
râneo que fica difícil imaginá-lo fora de um contexto urbano. Cida-
des grandes, metrópoles, cidades médias e pequenas, todas povoam
os continentes, dando mostras de que refletem a própria história de
fixação do homem no espaço geográfico e da transformação desse
espaço em algo socialmente construído e, portanto, histórico. Porém,
a construção social do espaço não se dá de forma homogênea, e
tampouco significa que as formas que sobreviveram sejam as cor-
retas, mas aquelas que, nas contradições históricas, conseguiram se
sobrepor às demais.
32 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

A cidade, de tão complexa, passa a impressão de caos, de


algo indecifrável e ininteligível; e de tão dinâmica, a impressão de que
somos incapazes de apreendê-la no presente. E realmente é difícil
compreendê-la por várias razões: a cidade traz, na sua constituição, as
marcas do passado e já aponta os sinais do futuro; ela exige múltiplas
interpretações; não é, pois, objeto exclusivo de uma única ciência; a
sua apreensão requer o entendimento da constituição e do desenvol-
vimento da luta de classes, bem como o entendimento das relações
sociais de produção. É difícil compreendê-la porque a cidade sofre
influências exógenas, e estas são mais incisivas que no passado, em
função do avanço das técnicas, do papel da informação e da ciência
e da própria dinâmica do poder do capital; difícil ainda pela dinami-
cidade que a envolve, cuja celeridade foi impulsionada pelos avanços
tecnológicos.
Há um segundo esforço teórico a ser feito, ainda em relação
ao conceito de cidade, que seria no que se refere a sua classificação.
O que são cidades médias, pequenas e grandes? Quais os critérios de
classificação?
As cidades discutidas nesse artigo se classificam como pe-
quenas, se considerarmos terminologias e critérios oficiais. Mas
os critérios oficiais são insuficientes ao privilegiarem pressupostos
quantitativos. Milton Santos propõe o conceito de cidade local. Para ele
tal conceito apresenta uma preocupação menos quantitativa e mais
qualitativa: “poderíamos então definir a cidade local como a aglo-
meração capaz de responder às necessidades vitais mínimas, reais ou
criadas, de toda uma população, função esta que implica uma vida
de relações” (SANTOS, 1982, p. 70). Mas o conceito de cidade lo-
Sobral e região em foco 33

cal proposto por Santos é apropriado para designar as cidades em


questão? A saída para o impasse estaria na adoção do termo pequenas
cidades locais? Amora (1999, p. 30) assim designa as pequenas cidades,
ao analisar a rede urbana cearense:

Identifica-se hoje na rede urbana cearense


três níveis de assentamentos urbanos que
compreendem: a metrópole, as cidades mé-
dias ou intermediárias e as pequenas cidades
locais . A característica deste sistema é a fraca
8

articulação entre as cidades e a forte con-


centração urbana na capital e mais recente-
mente em sua área metropolitana, o cresci-
mento das cidades de nível intermediário e
a pouca capacidade de articulação dos cen-
tros locais.

A cidade, por mais local que seja, está incluída em uma tota-
lidade que é global. Abreu (2003, p. 97) nos mostra que:

Ao contrário do passado, quando os geógra-


fos pensavam as cidades quase que exclusi-
vamente a partir de sua dimensão singular,
única, elas hoje são vistas como loci de inter-
seção de processos sociais que têm origem

8 Grifo nosso.
34 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

em diversas escalas espaciais. Alguns desses


processos são mundializados, e só podem ser
compreendidos a partir de sua correta inser-
ção numa escala global de interpretação. Ou-
tros são de caráter particular, e se explicam
pelas dinâmicas sociais dos estados-nações.
Há outros, ainda, que são de natureza nitida-
mente singular e, por isso, precisam ser con-
textualizados a partir das realidades locais.

Há um tempo global determinado pelo dinamismo do capi-


tal, também global, e pelas relações sociais de produção, e há tempos
subordinados. A divisão internacional do trabalho, ao definir onde,
como e o quê será produzido, submete à mesma lógica o tempo e o espaço.
Qual o tempo das pequenas cidades? Qual a influência do poder local
na reprodução do espaço diante da força do capital hegemônico?
Entender o trabalho na realidade urbana dessas localidades se
faz necessário para uma aproximação do entendimento da composi-
ção das classes sociais locais, visto que o poder aquisitivo influencia
na compra de diferentes modos urbanos.
As ações, diferentemente das pessoas nas pequenas cidades,
essas sim, são anônimas, embora quase sempre nessas cidades se co-
nheçam os trabalhadores e se acompanhe de perto a construção dos
ambientes artificiais. Mas isso não é suficiente para que os indivíduos
se sintam construtores da realidade. O estranhamento do trabalhador
diante de sua obra se deve ao que Marx chama de alienação do trabalho.
Sobral e região em foco 35

[...] Com a valorização do mundo das coisas


aumenta em proporção direta a desvaloriza-
ção do mundo dos homens. O trabalho não
produz só mercadorias; produz a si mesmo e
ao trabalhador como uma mercadoria, e isto
na proporção em que produz mercadorias em
geral. [...] No estado econômico-político esta
realização efetiva do trabalho aparece como
desefetivação do trabalhador, a objetivação ta-
refa das mais difíceis e que tem desafiado os
especialistas como perda e servidão do objeto, a
apropriação como alienação, como exterioriza-
ção. (FERNANDES, 1984, p. 148-149).

A produção da existência social dos seres humanos se realiza


através do trabalho, que não é só intelectual, mas físico e material. É
no mundo urbano, onde o trabalho mais se exterioriza das pessoas. A
fragmentação da realidade se dá, ou talvez comece, através do trabalho.
Alienar-se do mesmo impede a não apropriação e a não apreensão do
espaço pelo trabalhador. Até que ponto essa alienação ou a ausência
dela contribui para a absorção ou não de novos modos urbanos de
viver? Ferreira (1995, p. 17), referindo-se aos espaços excluídos pelo
capital hegemônico, diz que nesses espaços “[...] opera-se com mais
baixos níveis de tecnificação, com menor divisão de trabalho, e com
organização não empresarial [...]”. Tal afirmação remete a uma neces-
sidade de se entender as relações de trabalho nessas localidades como
uma forma de revelar o urbano através dessas relações.
36 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Em algumas áreas do Nordeste brasileiro, nos espaços rural e


urbano, ainda há a presença de características arcaicas, como as relações
de compadrio, a ausência de moeda nos serviços prestados ao latifundi-
ário, no meio rural, assim também como aos patrões, na cidade (muitos
ainda trabalham almejando abrigo e alimentação). Há também a busca
por um protetor, onde a idéia do santo e do político se confunde.
Há uma lógica universal que submete os mais longínquos
e minúsculos lugarejos a um determinado modo de ser (talvez, cada
um do “seu jeito”?), com características semelhantes. Nessa lógica
universal se insere a produção das mercadorias, como também, no
dizer de Santos (1988), dos serviços, das idéias, das mensagens e das
ordens. Para Ferreira (1995, p. 14) “a produção e o consumo de mas-
sa, presidiram a urbanização moderna, calcada na industrialização e
nos serviços voltados para dinamizar a economia. Trata-se de um
processo geral que afeta de forma específica os lugares particulares”.
Pode-se admitir que essas particularidades se desenvolvem ou tomam
forma no local, sendo o lugar o locus de realização dessas singularida-
des. Carlos (1996, p. 20) conceitua lugar como

[...] a base da reprodução da vida [...]. A cidade,


por exemplo, produz-se e revela-se no plano
da vida e do indivíduo. Este plano é aquele do
local. As relações que os indivíduos mantêm
com os espaços habitados se exprimem todos
os dias nos modos do uso, nas condições mais
banais, no secundário, no acidental.
O trabalho assalariado se reproduz, claro, nessas cidades,
Sobral e região em foco 37

mas o mesmo é permeado por relações de amizade/intimidade pro-


porcionadas pelo tamanho do lugar, já que, aí, quase todos se co-
nhecem. O patrão, às vezes, mora ao lado e, em muitos casos, é com-
padre ou tem alguma relação de parentesco. A amizade/intimidade
mascaram as relações de exploração.
Assim é a cidade pequena do interior do Ceará. Pequena,
mas nem por isso menos complexa.

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Sobral e região em foco 39

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40 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Espaços de lazer em Sobral-Ceará,


o “Cid Marketink” e uma proposta de (re)invenção da cidade

Diocleide Lima Ferreira 9

INTRODUÇÃO

O objeto de análise deste trabalho são os sentidos da requa-


lificação urbana em Sobral, cidade que dista 225 km da capital, Forta-
leza, dos agentes que fazem uso dos espaços voltados para as práticas
de lazer e dos moradores dos seus entornos, quais sejam: “Boulevard
do Arco de Nossa Senhora de Fátima”, “Parque da Cidade” e “Mar-
gem Esquerda do Rio Acaraú”, obras de impacto construídas na últi-
ma gestão (2001-2004), cujo slogan foi “Sobral pronta para o futuro”,
do ex-prefeito Cid Ferreira Gomes (PSB).
Nos últimos dez anos, vem sendo implementada nessa cida-
de uma política de remodelação do espaço público, com ampliação
9 Professora Assistente V do curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual Vale do
Acaraú. Estudante do curso de doutorado em Ciências Sociais da UNICAMP. Pesquisadora do Grupo de
Estudos e Pesquisas sobre as Cidades da Região Norte do Ceará. Coordenadora da pesquisa “Apropria-
ções dos espaços: lazer, trabalho e violência na cidade de Sobral”, financiada pela Fundação Cearense de
Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico - FUNCAP.
Sobral e região em foco 41

do mercado público municipal, construção de um complexo cons-


tituído por biblioteca, museu, escola de artes e ofícios e restauran-
te popular municipal, construção de avenidas, reformas de praças e
obras voltadas para o lazer, com apelativo uso de símbolos e recursos
de engenharia que destoam de uma imagem comum a outras cidades
do interior do Ceará, mais especificamente a região norte do estado,
onde se situa o referido município. Tais obras são resultados do pro-
cesso de modernização e transformação do espaço urbano em So-
bral. Tendo em vista os impactos que tal processo desencadeia, o ob-
jetivo geral desta pesquisa é buscar compreender os diferentes “usos”
(LEITE, 2004) dos espaços requalificados e os sentidos atribuídos a
eles por aqueles que participaram de sua concepção e construção,
assim como por aqueles que os freqüentam, moram no seu entorno
e os transformam cotidianamente.
Os espaços sobre os quais desenvolvi esta investigação sim-
bolizam a modernização da cidade na forma de “obras de impacto”
(GONDIM, 2001, p. 9), assim como representaram o desfecho da
administração de Cid Gomes em Sobral e serviram como standart de
campanha do ex-prefeito para o cargo de governador do Ceará, nas
eleições de 2006, o que lhe garantiu êxito.
A partir dessas considerações, é possível construir relações
entre o que se pode chamar de “(re)invenção” de uma cidade (SAN-
CHÉZ, 2003) “moderna”, “desenvolvida”, com construções espa-
ciais impactantes, e o enaltecimento da figura política do adminis-
trador público, no caso Cid Ferreira Gomes. Com isso, interpreto
a cidade de Sobral como um campo simbólico, que agrega desejos e
tensões, formando uma teia de relações onde homens “ordinários”
42 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

- agentes usuários astutos, táticos - e estrategistas - agentes técnicos


(CERTEAU, 1996) engendram uma ressignificação dinâmica do es-
paço urbano.
A opção pelas categorias “táticas” e “estratégias” me ocorre
em virtude da explicação embutida nas mesmas a partir dos diferen-
tes sentidos que os agentes dão àquilo que fazem. Certeau chama de
estratégia

o cálculo das relações de força que se torna


possível a partir do momento em que um su-
jeito de querer e poder é isolável de um “am-
biente”. Ela postula um lugar capaz de ser
circunscrito como um próprio e, portanto,
capaz de servir de base a uma gestão de suas
relações com uma exterioridade distinta. A
nacio-nalidade política, econômica ou cientí-
fica foi construída segundo esse modelo es-
tratégico. (CERTEAU, 1996, p. 46).

Há um caráter racional nas estratégias, orientado por um fim


(WEBER, 1994), instrumentalizado e sem levar em consideração os
desejos, os prazeres cotidianos. Elas resguar-dam “sob cálculos obje-
tivos a sua relação com o poder que os sustenta, guardado pelo lugar
próprio ou pela instituição” (CERTEAU, 1996, p. 47).
As táticas são, ao contrário, fragmentárias e indissociáveis dos
desejos cotidianos. Os indivíduos jogam com os acontecimentos cons-
Sobral e região em foco 43

tantemente, as maneiras de fazer nascem fora de um projeto sistema-


tizado e orientado para uma determinada prática. Então vejo as obras
construídas em Sobral como espaços onde a vontade do poder público
se desfaz com as práticas dos indivíduos que fazem uso dos mesmos.
Neste trançado investigativo, busquei construir um verda-
deiro artesanato intelectual (MILLS, 1981) onde teoria e empiria se
deixam visualizar numa só tessitura.
A realização do trabalho de campo teve como guia o uso
de “observação flutuante”, no Parque da Cidade, Margem Esquerda
do Rio Acaraú e Boulevard do Arco, espaços privilegiados para o
lazer, onde podemos encontrar moradores das mais diversas classes
sociais. Conforme Goldman (1995, p. 146), “a observação direta e
contínua se transforma em ‘observação flutuante’, semelhante à ‘es-
cuta flutuante’ do psicanalista: o observador está sempre em situação
de pesquisa, sua atenção podendo ser exigida a qualquer instante”. A
opção por este tipo de observação me deixa à vontade pelo fato da
não necessidade de “morar” com os indivíduos que irei investigar. A
bem da verdade, sou pesquisadora e moradora da cidade, e me sinto
fazendo esta investigação desde que a administração pública iniciou
o processo de construção das obras, momento em que me sentia já
incomodada pelos “possíveis transtornos que estavam causando” . 10

Esse fator não é único; acrescente-se ainda que sou freqüentadora


dos três espaços, sempre faço caminhadas, vou a shows ou mesmo
me sento em algum dos bares ou restaurantes para papear com ami-
gos. Enfim, quero aqui chamar a atenção para o fato de o pesquisa-

10 Frase exposta em placas na construção dos espaços que elejo para investigar, assim como em
outras obras que foram edificadas na cidade no mesmo período.
44 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

dor vivenciar as mesmas práticas dos seus interlocutores, por habitar


a mesma cidade e também construir nela seus referenciais. E como já
observou Oliven (1996, p. 11),

um dos principais desafios do antropólogo que


estuda sociedades complexas reside justamente
em tentar interpretar sua própria cultura e ques-
tionar seus pressupostos que são muitas vezes
aceitos como fatos inquestionáveis pela maioria
da população e inclusive por muitos pesquisa-
dores. Trata-se de compreender nossos rituais,
nossos símbolos, nosso sistema de parentesco,
nosso sistema de trocas, etc.

Não sou sobralense, mas já moro na cidade há seis anos, e


tenho a consciência de que naturalizo muitas coisas que ora me propus
estranhar. E muito embora também não me auto-defina antropóloga,
recorro e essas lições a que todo o cientista social deveria recorrer.
A partir das observações, não tive condições de sistematizar
alguns elementos, como a quantidade de “entrevistados”, idades, se-
xos, pois o olhar sobre os sujeitos investigados se deu em fluxo e em
os ouvir muitas vezes em conversas não muito estruturadas, pois nos
lugares onde a pesquisa foi realizada, tais elementos não são dados tão
facilmente quantificáveis partindo do ponto de vista das dinâmicas dos
três espaços e das relações sociais ali elaboradas, com seus percalços
Sobral e região em foco 45

e imponderáveis (PEIRANO, 1995), elementos que dão o substrato


da pesquisa qualitativa nas ciências sociais. Lancei mão de, como já
evidenciei acima, conversas com freqüen-tadores e moradores dos en-
tornos dos locais, no intuito de perceber, através dos seus discursos,
os sentidos que dão às suas ações. Fiz diários de todas as idas a campo
para registro dos diversos momentos observados nos locais de pes-
quisa e nos seus entornos, que certamente não se repetirão dado que,
mesmo os sujeitos sociais seguindo regras, a realidade social não se dá
sob forma de leis e repetições. Evidencio ainda a contribuição dos dois
orientandos que toparam “viajar” nessa empreitada investigativa, e que,
em parceria comigo, construíram também seus trabalhos de final de
curso: Ruy Damasceno Miranda e Andrea Venini Falconi . 11

Os métodos das ciências sociais também são tão passíveis


de discussões quanto às suas teorias, por se constituírem de inter-
pretações da realidade, evidenciarem um forte respeito à alteridade
e permitirem que não somente os sujeitos (outros) sejam investiga-
dos, mas que o sujeito que investiga também se sinta investigado por
compor tal realidade.

CONTEXTUALIZANDO SOBRAL

Sobral é uma cidade que se destaca, no interior do Ceará, por


pelo menos três aspectos: 1º) por possuir uma história político-econô-
mica privilegiada; 2º) por dispor de patrimônio legado de modelos arqui-
tetônicos associados aos traços da aristocracia local, formada ao longo
dos séculos XVIII e XIX; e 3º) por ter sido a primeira cidade cearense a

11 A eles dedico esse trabalho, e sem eles não seria possível a conclusão do mesmo!
46 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ser tombada pelo IPHAN, pioneirismo que, segundo Freitas (2005, p. 9),
“é potencializado no campo da política e das narrativas ufanistas sobre
Sobral”. Esses aspectos reforçam a idéia de “sobralidade triunfante”, pre-
sente nos estudos de Freitas (2005, p. 38). A forma material da sobralidade
triunfante (FREITAS, 2005) é o que o poder público municipal designa
“corredor histórico e cultural”, tombado pelo Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1999.
Além disso, Sobral agrega uma grande movimentação co-
mercial, chegando a atrair, nos últimos cinco anos, redes de estabe-
lecimentos comerciais de médio e grande porte nos ramos de su-
permercados, farmácias, móveis, eletroeletrônicos, eletrodomésticos,
calçados, perfumaria e vestuário. Concentra, ainda, o pólo regional de
indústrias, além de outros equipamentos situados no núcleo central
do município: universidades públicas, faculdades privadas, centro de
educação tecnológica, escolas de educação básica, públicas e priva-
das, hospitais regionais, pista de pouso de pequeno porte (chamada
por moradores da cidade de “aeroporto”) e um complexo prisional,
que se localiza na fronteira com o município de Groaíras, a aproxima-
damente 4 km do núcleo central da cidade.
Nos últimos dez anos, Sobral foi administrada por um gru-
po político cujos líderes são membros de uma mesma família: os
Ferreira Gomes . No cenário político do Ceará, esta família é vista
12

12 Quando assumiu o primeiro mandato em Sobral, Cid Ferreira Gomes pertencia ao PPS
(Partido Popular Socialista); atualmente, está filiado ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Apesar de uma
proposta de inovação política em Sobral, o ex-prefeito carrega consigo a prática de pertencer ao mesmo
partido político dos demais membros de sua família, dentre os quais se destacam: Ciro Ferreira Gomes,
como deputado federal, o qual no último pleito (2006) foi o mais votado, proporcionalmente, tendo ocu-
pado o cargo de Ministro da Integração Social no primeiro mandato presidencial de Luís Inácio Lula da
Silva; e Ivo Ferreira Gomes, reeleito deputado estadual em 2006, atualmente no cargo de chefe da Casa
Civil, na gestão de Cid Gomes como governador do Estado.
Sobral e região em foco 47

como o grupo político que detém o poder administrativo da cidade


de Sobral e exerce forte influência na região norte do Ceará. Tal fato
foi evidenciado recentemente, em edição de março de 2007, da re-
vista “Piauí” , fazendo referência ao poder “oligárquico” da família
13

em comparação a outras famílias que se destacam com seus poderes


políticos no nordeste brasileiro, devido ao contexto em que se encon-
tram parte dos seus membros no cenário político estadual e nacional:

Como oligarquia é o regime político em que


o poder é exercido por um pequeno grupo
de pessoas, pertencentes à mesma classe ou
família, os Gomes não têm por que se irritar.
Poderiam até se alegrar, já que, ao contrário
de outras oligarquias nordestinas, como os
Sarney, os Magalhães, os Alves e os Maia,
que foram humilhados nas urnas na última
eleição, eles estão por cima da carne-seca.
Desbancaram o grupo capitaneado pelo se-
nador tucano Tasso Jereissati, têm cinco da
família em cargos eletivos e são os chefes
políticos incontestes do Ceará. Tendo como
vitrine a cidade sertaneja de Sobral, a oligar-
quia dos Gomes acalenta um sonho: botar
Ciro na Presidência da República. “Vamos
trabalhar muito para isso”, diz a senadora
13 Revista editada em São Paulo pela Editora Abril. E tem se destacado no Brasil pelo conteúdo
de suas matérias com temas provocativos sobre a sociedade brasileira. Tem como slogan: “a revista para
quem tem um parafuso a mais”.
48 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Patrícia . “Não há ninguém com tanto po-


14

tencial e honestidade como ele”, emenda o


deputado Ivo. “Conversamos muito e Ciro
está certo de que agora é o momento dele”,
revela Tim . O desejo dos oligarcas é que o
15

presidente Lula o lance como sucessor.

O referido grupo orienta-se por uma perspectiva inovado-


ra de gestão, em relação aos governos municipais anteriores, com
uma proposta político-administrativa voltada para o embelezamento
e a construção de obras de impacto (GONDIM, 2001). Essa forma
de gestão foi iniciada com a primeira administração do ex-prefeito
Cid Ferreira Gomes (1997-2000), reeleito em 2000 e, mesmo com a
sua substituição em 2005, após oito anos à frente da administração
pública municipal, há uma continuidade do grupo político de Cid
Ferreira Gomes e das práticas e interesses político-administrativos
do ex-prefeito.
Do final da primeira gestão do prefeito Cid Gomes para
o início da segunda, iniciam-se as grandes construções arquitetôni-
cas, como a urbanização da Margem Esquerda do Rio Acaraú e a
reconstrução da Ponte Velha. Na segunda gestão temos as seguintes
grandes construções: a Avenida Pericentral, o Parque da Cidade , o 16

Boulevard do Arco de Nossa Senhora de Fátima e a reordenação


14 Ex-mulher de Ciro Gomes.
15 Tim Gomes é primo legítimo de Cid e Ciro Gomes. É vereador em Fortaleza, assumindo
atualmente a presidência da Câmara Municipal.
16 O Parque da Cidade tem uma extensão de aproximadamente 70.000 m2; nasce no bairro
do Junco, perpassa o Campo dos Velhos e termina na confluência do Alto da Expectativa com o Alto
da Brasília, tendo à sua margem esquerda a avenida Pericentral, que torna o acesso a outros bairros da
cidade mais rápido.
Sobral e região em foco 49

do trânsito, com ampliação de vias, construção de novas avenidas e


outros logradouros.
Conforme Silva Forte (2004), as práticas de requalificação
urbana fazem parte de uma ação política que se vale da utilização do
espaço físico e social com “obras de impacto” na cidade. Tais estraté-
gias foram muito bem utilizadas pelos governos do Ceará na Era Je-
reissati (1987-1990) e pela administração de Fortaleza sob o coman-
do do Prefeito Juraci Magalhães , as quais se deram objetivamente
17

enquanto “intervenções espaciais, arquitetônicas e urbanísticas com


a finalidade de fomentar atividades econômicas como o turismo e o
comércio” (SILVA FORTE, 2004, p. 10). Perseguindo a moderni-
zação dos espaços com tais obras, junta-se a isso a potencialização
industrial do estado do Ceará, afirmando assim a sua colocação no
mercado global.
Seguindo a lógica da política estadual de “modernização” do
estado do Ceará, a administração Cid Gomes em Sobral, que com-
preendeu exatamente dois mandatos (1997-2000 e 2001-2004), im-
planta nesta cidade o processo de requalificação do espaço urbano.
A primeira grande empreitada dessa gestão, que tinha como slogan
“Sobral no Rumo Certo”, foi o tombamento do patrimônio arquite-
tônico local pelo IPHAN, entre os anos de 1997 e 1999. Tais ações
junto a outras direcionadas às políticas públicas para a educação e
saúde, formam um conjunto que conferem a marca da referida admi-
nistração, considerada também um marco referencial para a vida da
cidade, onde reinava um certo “tradicionalismo” nas ações políticas

17 Juraci Magalhães foi prefeito de Fortaleza em três ocasiões: de 1990 a 1993, de 1997 a 2000 e
reeleito para 2001 até 2004.
50 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

e passa a experimentar um aspecto considerado pelos habitantes da


cidade e políticos locais como moderno, de transição e de constante
transformação, causando na população sobralense o sentimento de
que Sobral é uma outra cidade. É comum se ouvir no discurso das
pessoas, seja nas ruas, nos bares, enfim, em lugares diversos, a se-
guinte afirmativa: “Sobral mudou muito depois do Cid”, como uma
forma de fascínio em decorrência das transformações ocorridas na
cidade. Conforme Freitas (2005, p. 14),

[...] as ações implementadas pela adminis-


tração Cid Gomes causam desorientação e
fascinação, aparecem como determinação de
uma verdade sobre o que é possível e neces-
sário se fazer por uma cidade. As imagens
narradas por essa versão são espetaculari-
zadas, massificadas e, a todo custo, tentam
tornar-se visíveis.

Tais estratégias acompanham uma tendência mundial de


requalificação urbana das cidades tendo como objetivo o consumo
das mesmas em termos mercadológicos. Sharon Zukin analisa essa
tendência enquanto uma modificação nas cidades, através do modo
como organizamos o que chama de “consumo visual do espaço e do
tempo” (ZUKIN, 2000, p. 91). Esse tempo e esse espaço compreen-
dem a “paisagem urbana da pós-modernidade” (ibid., p. 81).
A paisagem urbana da pós-modernidade encerra uma nova
Sobral e região em foco 51

forma de significar antigos espaços, os sítios específicos das cida-


des modernas, transformando-os, conforme Zukin (2000, p. 82), em
“espaços liminares pós-modernos, que tanto falseiam como fazem a
mediação entre natureza e artefato, uso público e valor privado, mer-
cado global e lugar específico”. Essas ações tanto servem para mape-
ar cultura e poder, como também mapear a oposição entre mercado
e lugar, sendo que o primeiro se dá através de forças econômicas
que desvinculam os indivíduos das instituições sociais estabelecidas, e
o segundo ancora os indivíduos no meio social, numa tentativa de pro-
porcionar a base para uma identidade estável. Contudo, essa identidade
é sustentada por outro conceito: o enobrecimento de espaços, também
conhecido como “gentrification” (HARVEY (2006; LEITE, 2004).
O conceito de gentrification, ou enobrecimento, aponta para
uma reutilização dos espaços públicos para usos das elites, como afir-
ma Zukin (2000), dos “poderosos”. Ao mesmo tempo em que há
esse uso de poder nos espaços públicos, há uma construção cultural
de formas originais de apropriação dos espaços pelos não poderosos,
ou no sentido também trabalhado por Zukin (2000), de uma ver-
nacularização das práticas de usos dos espaços, que transgridem as
formas elaboradas estrategicamente pelos “poderosos”. Essa verna-
cularização tem o mesmo sentido das ações nomeadas por “táticas”
de Michel de Certeau (CERTEAU, 1996).
Em Sobral, é possível perceber como os discursos de eno-
brecimento pairam sobre os três espaços em questão, assim como
são perceptíveis os “contra-usos” (LEITE, 2004) dos que freqüen-
tam os mesmos; por exemplo, nas serestas do Parque da Cidade,
onde ocorrem os forrós a céu aberto, que divertem os moradores dos
52 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

bairros do entorno nas madrugadas dos fins de semana; outro exem-


plo marcante é o uso da Margem Esquerda por lavadeiras de roupa,
que aproveitam a água represada do rio para a lavagem de roupas e o
gramado para quará-las e secá-las. 18

Tais práticas me põem a pensar sobre o sentido que esses


indivíduos atribuem não somente ao espaço, mas também ao tempo
em que vivem. Pois há pouco menos de dez anos, Sobral vivia uma
realidade distante do que se vê na atualidade.
Outro aspecto da cidade que me chama a atenção é a forma
como o poder público criou estratégias para misturar temas que re-
metem a uma tradição, com o patrimônio histórico-arquitetônico e o
lazer atual. Os três espaços investigados têm em si a caracterização de
lugar de passeio e sociabilidades diversas, com jovens, adultos, idosos
e crianças compartilhando práticas diferenciadas no mesmo espaço.
Então abre-se espaço para formação de grupos por gostos, nomea-
ções de indivíduos por identificação, conflitos entre os que moram
no entorno dos espaços e os que usufruem dos mesmos de forma
fluida. Enfim, constroi-se e desfaz-se o espaço a todo instante. Essa
dinâmica caracteriza a afirmação do “espaço público”; na verdade,
aponta para o que Leite (2004) analisa como a reordenação do uso
público do espaço urbano, mesmo com uma movimentação que mais
parece desordenação.

18 Termo utilizado pelas lavadeiras no processo de lavagem de roupas, quando estas são expos-
tas ao sol por um período que antecede o enxágüe.
Sobral e região em foco 53

OS DIVERSOS USOS DE SOBRAL

As mudanças na cidade passam a refletir uma reorganização


política do espaço urbano, podendo nos mostrar um lado da urbe que
sofre intervenções de higienização e reconfiguração das relações nos
novos espaços construídos, tanto nos seus aspectos físicos quanto
nos sociais. A visão publicizada pela administração pública municipal
nos veículos de comunicação locais é a de “revitalização” e “moder-
nização” da cidade, como afirma artigo do informativo municipal de
março de 2000:

Sobral teve no dia 23 de dezembro, mais um


dos seus patrimônios históricos, resgatado.
Em festiva solenidade, o Prefeito Cid Go-
mes entregou à população o largo de nossa
Senhora das Dores, obra que cria uma nova
área de lazer para a cidade, simboliza a mo-
dernidade de Sobral no Rumo certo e inicia o
processo de revitalização do rio Acaraú. (In-
formativo Sobral; março, 2000).

Cabe evidenciar que tais obras não anulam o simbolismo


do patrimônio arquitetônico tombado. Ao contrário, irão exaltá-lo e
como complemento, trarão um modelo de cidade que une “tradição”
e “modernidade” como possibilidade de torná-la consumível tanto
para seus moradores como para quem a visita. Todos esses lugares se
tornaram cartões postais da cidade e junto ao patrimônio arquitetôni-
54 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

co ganham potenciais de exploração turística, muito embora esta não


seja uma prática efetiva em Sobral.
Sanchéz (2003) nomeia a ação acima exposta como “city
marketing”, e afirma que

O city marketing e os planos estratégicos de


cidade aparecem como importantes instru-
mentos do chamado “novo planejamento
urbano”, que busca recuperar sua legitimida-
de quanto à intervenção pública na perspec-
tiva de “colocar as cidades no novo mapa do
mundo”. Neste contexto, a produção de ima-
gens tem um papel cada vez mais relevante
na formulação de novas estratégias econômi-
cas e urbanas orientadas, sobretudo, para a
internacionalização da cidade, mas, também,
para a obtenção de notáveis efeitos internos,
particularmente no que se refere à constru-
ção de uma ampla adesão social a um deter-
minado modelo de gestão e de administra-
ção da cidade (grifo do autor). (SANCHÉZ,
2002, p. 25).

O marketing construído para Sobral, aparentemente, busca


a renovação da cidade; isso é percebido logo no slogan da segunda
administração de Cid Gomes: “Sobral pronta para o futuro”. No en-
tanto, as ações promovidas nesse momento, principalmente, as que
Sobral e região em foco 55

utilizam o espaço urbano como alvo, têm como ação primordial a


construção de espaços voltados para o lazer.
Em todo o período de campanha para o governo do Estado
(eleições 2006), a propaganda de Cid Gomes utilizou as imagens dos
três espaços que aqui elejo como meus lócus de investigação: o Par-
que da Cidade, o Boulevard do Arco e a Margem Esquerda do Rio
Acaraú, como mostras de sua capacidade administrativa de transfor-
mação. Esses espaços, especificamente, e não outros feitos, foram
muito evidenciados em sua campanha para governo do estado. Daí a
questão que orienta outra análise: por que os espaços voltados para
o lazer se tornam fundamentais nas ações da gestão pública de Cid
Gomes? É fato que existia uma demanda social para a construção de
tais espaços, e o poder público municipal à época anunciava queda de
desemprego e aumento do crescimento econômico na cidade . 19

Os espaços novos foram criados e, conseqüentemente, no-


vas formas de apropriações do espaço urbano surgiram em Sobral.
Essas apropriações tomaram diferentes sentidos a partir de quem
está se apropriando dos referidos espaços, lhes atribuindo vida social.
Por exemplo, no Boulevard do Arco, um largo construído em volta
de um dos símbolos históricos da cidade, o Arco de Nossa Senhora
de Fátima, também conhecido como “Arco do Triunfo” , é possível 20

verificar a constância de jovens adolescentes de diversas classes so-


ciais em busca de investidas amorosas e a partir daí criam e recriam
19 O boletim informativo da Prefeitura de Sobral, de 30 de dezembro de 2003, anuncia queda
de 14,17% para 11,13%, dos anos 2000 para 2003.
20 Largo construído em volta de um dos símbolos históricos da cidade, o Arco de Nossa
Senhora de Fátima, também conhecido como “Arco do Triunfo”, por ser uma réplica do monumento
francês, com uma significativa diferença: é um símbolo cristão, pois a imagem de Nossa Senhora de Fáti-
ma está em cima do arco, fato que nomeia o monumento, que foi construído em homenagem à passagem
da imagem peregrina da referida Santa por Sobral, em 1954.
56 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

o espaço social vivido não somente com suas presenças; acresce-se a


isso nomeações que usam para se identificar naquele espaço especí-
fico, em dias e horários também específicos . Outro fator que modi- 21

ficou o lugar foi a construção de pontos comerciais, principalmente


do ramo de alimentos e bares no seu entorno.
Pode-se fazer afirmações semelhantes em relação ao Parque
da cidade e à Margem esquerda do Rio Acaraú, quando se verifica
22

que são espaços onde se vivem conquistas amorosas, passeios, práti-


cas esportivas, encontros românticos, brincadeiras de criança, venda
de produtos e alimentos, shows, encontros de amigos, discussões po-
líticas, disputas, conflitos, enfim, relações inúmeras a partir das quais
os sujeitos que os freqüentam irão definir tais lugares enquanto espa-
ços praticados (CERTEAU, 1996).

USOS DO PARQUE DA CIDADE

No Parque da Cidade podemos encontrar: quiosques para a


venda de gêneros alimentícios e bebidas, quadras para a prática de es-
portes (futebol e voleibol), uma pista para a prática de bicicross, par-
quinhos para crianças, uma pista para a prática de skate (skate park),
uma fonte que é, ao mesmo tempo, um monumento que aproveita um
trecho do riacho que atravessa o parque inteiro, como obra de arte.
21 Ver trabalho de Ruy Damasceno Miranda: O Estilo do Boulevard do Arco: um estudo sobre os
jovens sobralenses (mimeo). O referido aluno está matriculado no curso de Ciências Sociais da Universi-
dade Estadual Vale do Acaraú; é membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as Cidades da Região
Norte do Estado do Ceará e está sob minha orientação. Esse trabalho foi apresentado no VII Encontro
de Iniciação Científica da Universidade Estadual Vale do Acaraú, edição 2005.
22 Ver FALCONI, Andrea Venini. Lazer no Parque da Cidade: espaço urbano, sociabilidade e consumo
em Sobral-CE. 2008, 72 f.. Monografia (Bacharelado em Ciências Sociais) – Centro de Ciências Humanas,
Universidade Estadual Vale do Acaraú, Sobral, 2008. A referida aluna fez parte da pesquisa “Apropriação
dos espaços: lazer, trabalho e violência na cidade de Sobral”, com bolsa de Iniciação Científica financiada
pela FUNCAP, e por mim coordenada desde abril de 2006.
Sobral e região em foco 57

O parque foi inaugurado no ano de 2004, e desde então


pode-se verificar que vários imóveis estão sendo construídos, fomen-
tando uma especulação imobiliária no seu entorno, fazendo com que
os imóveis alcancem valores altos, apontando para a formação de um
bairro de classe média no local onde até 2004 observava-se uma mata
entremeada por um riacho e alguns terrenos baldios. O Parque da Ci-
dade tem uma dimensão de 70.000m² e atravessa três bairros: Campo
dos Velhos, Alto da Brasília e Expectativa. Esses bairros situam-se
na periferia da cidade; isso faz com que o Parque seja considerado
por alguns como uma espécie de não lugar (AUGÉ, 2003). Porém,
tal reconhecimento é sociologicamente passível de problematização,
quando se vê no local uma série de apropriações que o significam de
outra forma. E isso é perceptível quando se expressam relações que
dinamizam a vida do lugar, por exemplo no skate park, que é a primei-
ra pista de skate com status profissional a ser construída no Ceará,
a forma como os skatistas se apropriam e criam sociabilidades, as
quais podemos definir como agregadoras de um grupo específico de
jovens, assim como passam a “lutar” simbolicamente na cidade pelas
suas demandas. Eles criam um movimento, que os faz sair de seus
bairros, nem sempre próximos ao parque, e dão uma nova roupagem
à cidade com suas vestimentas, visual, estilo musical, instrumento de
transporte, gírias etc.
Há no parque da cidade, um certo aumento do fluxo de
pessoas, no horário da noite, assim como nos outros dois espaços,
o que faz com que os comerciantes adotem, geralmente, a prática
da venda de bebidas alcoólicas em seus estabelecimentos. É muito
comum passar pelos quiosques a qualquer hora da noite e lá estarem
58 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

homens e mulheres tomando “uma cervejinha”, assim como é muito


freqüente a presença de adolescentes namorando nos banquinhos e
em alguns pontos mais escuros do local. Nos finais de semana, em
horários mais tardios da noite, acontecem em alguns quiosque, aque-
les mais próximos ao bairro Alto da Brasília, as chamadas serestas,
que movimentam bastante aquele trecho específico do Parque. Nas
serestas há pessoas de todas as idades, e tem um público que vai lá
para dançar, beber e, muitas vezes, dar uma “escapadinha”, como
me afirmou um freqüentador, que é casado e vai o local em busca de
outras investidas amorosas . Mas é possível ver pessoas que saem do
23

trabalho, como é o caso dos operários da Grendene , os quais vão 24

para lá quando saem do turno de trabalho que se encerra à meia-


noite. E posso afirmar que mesmo sendo uma atividade um tanto
discriminada pela elite da cidade, as serestas do Parque são freqüen-
tadas por todos os segmentos sociais.
Os moradores do entorno do Parque da Cidade se dividem
quanto ao que pensam sobre o mesmo, pois alguns falam do embele-
zamento do local como algo que os favoreceu, outros reclamam dos
casos de violência, especificamente assaltos, no lugar.
Esses referenciais não são reconhecidos no Boulevard do

23 Apesar de não ter constatado a prática de prostituição nas serestas, pude perceber a freqüên-
cia de mulheres que vão ao local para “curtir” com alguém; elas chegam geralmente sós e se vestem de
maneira provocante para chamar a atenção dos homens. Pude ouvir classificações negativas a respeito
delas, como um garçon certa feita me disse ser uma delas “um gato véi”, termo muito usado pelos
cearenses para qualificar mulheres que não são casadas e gostam de se envolver com vários homens, não
necessariamente em troca de dinheiro.
24 Grendene é uma indústria de calçados gaúcha, que se localiza no bairro Alto da Brasília. A
referida indústria se instalou na cidade no ano de 1998 e oferece um total de 13.000 empregos diretos
na região. Esse empreendimento se fez com o intuito de diminuir a pobreza na região, mas a indústria se
instala tendo em troca incentivos fiscais e mão-de-obra barata e desqualificada; junto a isso, não oferece
direitos aos trabalhadores como vale transporte, pois não há em Sobral e nas cidades vizinhas um sistema
de transporte coletivo regularizado.
Sobral e região em foco 59

Arco, um lugar que carrega logo no nome um sentido diferenciado,


por ser uma praça construída no entorno de uma réplica do arco do
triunfo parisiense, e que alimenta uma relativa elitização das práticas
ali vivenciadas. Além disso, está situado no centro da cidade, local
historicamente enobrecido pelo patrimônio arquitetônico, e que os-
tenta o simbolismo ufanista gerador da “sobralidade triunfante”.

USOS DO BOULEVARD DO ARCO

O Boulevard foi o último dos três espaços de lazer enfoca-


dos neste trabalho a ser inaugurado. O referido espaço é preferen-
cialmente, um lugar de passeio. E há uma predominância de jovens
e adolescentes no que se refere a sua apropriação, enquanto lugar de
lazer.
O Boulevard do Arco foi uma grande obra que exigiu na
sua construção uma reforma de todo o trecho onde está situado, até
mesmo das calçadas das casas no seu entorno, causando uma divisão
de opiniões entre os moradores da cidade, a respeito da positividade
de sua implantação, refletida em um trecho do boletim municipal de
Sobral.

O Boulevard do Arco é uma obra de qua-


lificação urbana compreendida entre a Rua
Maria Tomásia e a rotatória da Avenida Il-
defonso Cavalcante. Toda a área está sendo
trabalhada com materiais nobres e de espe-
60 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

cificações especiais, constando de canteiro


central ampliado, com pavimentação em gra-
nito e piso tátil próprio para cegos, além de
ciclofaixa, priorizando o usuário pedestre e
ciclista. As calçadas laterais serão completa-
mente refeitas com acabamento em concreto
especial pigmentado e faixas de jardinagem,
incluindo arborização específica. O trecho
próximo ao Arco Nossa Senhora de Fátima
continuará, prioritariamente, uma praça cívi-
ca própria para eventos, como de costume,
com todo o acabamento previsto para este
fim. O trecho entre as ruas Paulo Aragão e
Maria Tomásia será totalmente arborizado
para uma boa qualidade ambiental. Tam-
bém nessa área será construído um pequeno
palco para shows e apresentações artísticas.
Como a prioridade deverá ser o pedestre, as
faixas de tráfego serão estreitadas para pos-
sibilitar um trânsito mais lento e contem-
plativo. As áreas de estacionamento ficarão
compreendidas nos quarteirões do Colégio
Luciano Feijão, entre as ruas Dr. Figuei-
redo e Paulo Aragão e em toda a extensão
das ruas transversais à Avenida Dr. Guarany.
(Boletim Municipal 20.12.04).
Sobral e região em foco 61

A movimentação no lugar tornou-se bastante intensa, prin-


cipalmente em finais de semana e feriados, no período da noite. Du-
rante o dia, devido às condições climáticas da cidade, onde o calor é
bastante intenso, por se encontrar num vale no meio do semi-árido
cearense, essa praça é um lugar de passagem para os que vão ao cen-
tro ou a outros destinos, e nos dias da semana à noite veem-se uns
poucos grupos, em sua maior parte formados por pessoas que mo-
ram na avenida onde se localiza a praça e, ainda, pessoas que esperam
o ônibus para ir à universidade, ou que ao final da aula param para
conversar; há também, grupos que marcam encontros para de lá se
deslocarem para outros lugares.
A freqüência de adolescentes no Boulevard demarca uma
apropriação bastante específica do lugar que se manifesta com prá-
ticas que chamam a atenção de qualquer pessoa que esteja de passa-
gem por aquele local nos fins de semana, com seus corpos, cores e
interações. Eles fazem distinções entre si, que se evidenciam inicial-
mente pelas vestimentas que estão usando. Há os que usam sempre
roupas pretas, com imagens de algumas bandas de rock, e tênis All
Star. Outros adolescentes usam shorts e chinelos coloridos, estando
pouco menos arrumados, estes são poucos e freqüentam mais o local
aos sábados; há jovens vestindo roupas de acordo com o que dita a
moda: meninas com vários acessórios (brincos, pulseiras, prendedo-
res de cabelo, bolsas etc) geralmente todos da mesma cor da blusa, do
esmalte das unhas, da maquiagem e às vezes dos sapatos de salto alto
(há uma preferência pela cor rosa!). Os rapazes usam sapatos e cintos
de cor igual, ou blusas de marcas famosas (Nike, Skiller, Zefirelli etc.)
com bermudas que dão maior visibilidade aos seus tênis, os quais
62 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

também são de marcas caras, mas apresentam-se um pouco menos


preocupados com a aparência em comparação às meninas e consti-
tuem o maior grupo entre os freqüentadores do Boulevard do Arco.
Alguns grupos identificados no Boulevard são os “roquei-
ros”, os “PPP’s” (que significa Plays, Patricinhas e Pivetes) e os gru-
pos que não têm uma classificação específica como os outros dois,
mas mantêm uma notoriedade que se destaca com suas práticas e
com a percepção que os outros dois grupos têm deles.
Alguns códigos específicos de classificação são criados por
um grupo para fazer referências ao outro. Essas classificações são
atribuídas a partir da reunião de uma série de características intrínse-
cas aos grupos. O primeiro referencial de classificação desses grupos
são diferenciações que serão identificadas nas roupas que usam; no
entanto, outros aspectos contam em tais classificações, como as pre-
ferências musicais ou as pessoas com quem estão acompanhados.
Uma das práticas mais freqüentes no Boulevard é a paque-
ra, que consiste em troca de olhares e insinuações para uma pessoa
considerada interessante, dando a entender uma “abertura” a apro-
ximações com fins mais íntimos (conversas, beijos etc). Ao sentar-se
num dos banquinhos do lugar, é perceptível a performance das mo-
ças e dos rapazes na busca do ser que quer conquistar. São olhares,
cheiros, cores, que lançam um só propósito: “beijar muito”, como me
afirmou uma interlocutora, que vai sempre ao local com a finalidade
de “ficar” com os “gatinhos”, que aparecem.
Noutro plano estão os moradores do local, com reclama-
ções e críticas ao que se torna o Boulevard nos fins de semana e
dias de shows, quando ficam impedidos de entrar com seus carros
Sobral e região em foco 63

em suas próprias casas, por conta de um esquema de segurança que


a guarda municipal, juntamente com a polícia militar, montam para
garantir a ordem. Tal esquema de segurança consta de detectores de
armas e metais, os quais são instalados em locais estratégicos e não
permitem a passagem de carros por serem estreitos demais. Daí os
moradores se sentirem violados em seus direitos, em prol da diversão
para outros.
Há ainda no Boulevard a realização de várias festividades,
como a micareta “carnabral” (carnaval fora de época), desfiles de
moda, o bloco dos sujos (festa que acontece no sábado que ante-
cede o carnaval, onde homens se vestem de mulher e mulheres se
vestem como homem), e vez por outra acontecem grandes shows
com artistas reconhecidos local ou nacionalmente . Além disso, há 25

uma efervescência de abertura de bares, lanchonetes, cybercafés e


sorveterias no entorno do local, atualmente. Junto a isso, ao longo da
avenida onde está situado o Boulevard, vem se definindo uma nova
caracterização do lugar, pois é onde estão sendo edificadas as sedes
de várias instituições públicas, como o prédio da Receita Federal, a
delegacia de Justiça Federal; por isso, já se ouve falar em ampliação
do Boulevard.

USOS DA MARGEM ESQUERDA DO RIO ACARAÚ

A Margem Esquerda do Rio Acaraú tem cerca de três qui-


lômetros de extensão e é o espaço onde há o complexo formado por
diversos empreendimentos, como a biblioteca pública municipal, a

25 Já vi shows de bandas reconhecidas nacionalmente, como Jotaquest e Capital Inicial.


64 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Escola de Cultura, Comunicação, Ofícios e Artes (ECCOA), o museu


Madi de Arte Contemporânea, restaurante popular, igrejas tombadas
pelo IPHAN, além de um conjunto de casas, que mesmo não per-
tencendo às famílias da elite da cidade, também foram tombadas. A
obra ainda possui quadras para práticas desportivas, anfiteatros para
apresentações artístico-culturais, calçadões para passeios, ciclovias e
gramados para que as pessoas possam contemplar a vista do rio, na
verdade um espelho d’água, onde as águas do referido rio ficam re-
presadas ao longo do ano, dando a impressão de um lago perene em
Sobral, cidade situada em um vale no semi-árido nordestino.
A construção da Margem Esquerda e sua inauguração ti-
veram momentos conflituosos na cidade, tendo em vista que Sobral
passa a maior parte do ano sem chuvas, assim como o restante do
estado. No entanto, entre janeiro e abril, temos a estação chuvosa, e
no ano da inauguração desta obra, as primeiras chuvas foram bastan-
te fortes, fazendo com que as águas do rio Acaraú, um dos principais
da região, transbordassem e destruíssem parte da obra já concluída.
Tal fato causou polêmica na cidade, por ter sido uma das maiores
cheias do rio Acaraú, justamente no momento previsto para inaugu-
ração da Margem Esquerda, que é marcada, sobretudo, por constituir
uma barragem no rio, a qual foi condenada por estudiosos do curso
de Geografia da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, com
o argumento de que tal feito promoveria “a morte do rio Acaraú” . 26

Esta visão confrontava com a que a prefeitura da cidade difundia


em seu informativo diário: “Estas obras, sem dúvida, trarão grandes
26 Frase estampada em camisas que divulgavam a campanha pela preservação do Rio Acaraú,
encampada por alguns alunos e professores do curso de Geografia da Universidade Estadual Vale do
Acaraú - UVA. Em contraponto, a prefeitura distribuiu camisetas para os moradores da cidade com a
seguinte frase: “A cidade se volta para o rio”.
Sobral e região em foco 65

benefícios para Sobral, principalmente para a população ribeirinha”


(Boletim Municipal, 6 de janeiro de 2006).
Mesmo com toda polêmica gerada em torno do impacto
ambiental causado pela construção da obra, ela foi concluída e inau-
gurada após o período chuvoso com grande pompa, divulgação e
show musical do cantor Lulu Santos, no dia 23 de maio de 2004.
E com o passar dos tempos, vem ganhando muita importância na
cidade, pois ao caminhar pelo local pode-se perceber um espaço da
cidade modificado e “embelezado” para abrir as portas do centro cul-
tural sobralense aos que chegam a Sobral, utilizando como símbolo
o rio Acaraú, que outrora foi de maior importância para a vida dessa
urbe. Atualmente, tal empreitada ressignifica o sentido que os seus
moradores estão dando para o rio Acaraú.
Cabe evidenciar que esse sentido é influenciado pelo dis-
curso das elites políticas locais que, segundo Sanchéz (2003), “dizem
muito mais sobre elas e muito pouco sobre o cidadão comum”. Há
uma forte referência àqueles que elaboram ou criam a necessidade do
processo de modificação do espaço na cidade. Sanchéz (2003, p. 86)
nos adverte que
A transformação urbana por meio dos cha-
mados “projetos de cidade” implica a produ-
ção de discursos por parte dos atores urba-
nos dominantes, especialmente os governos
locais e as coalizões pró-crescimento. Os
discursos acerca da cidade, veiculados pelos
meios de comunicação notadamente publici-
tária, têm o objetivo de modificar a imagem
66 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

da cidade e construir novas “imagens de


marca” das cidades “re-inventadas”.

A Margem Esquerda do Rio Acaraú notadamente se insere


no contexto acima referido, quando é pensada e programada com o
fim de mostrar Sobral não com marcas de cidade do interior, mas
com a imagem de uma cidade que atende às seduções da modernida-
de com orientações políticas voltadas para o mercado mundial. É a
estratégia do “city marketing” (SANCHÉZ, 2003), produzindo a ci-
dade para ser “vendida”, e nesse sentido, os equipamentos midiáticos
se apresentam como potenciais aliados em tal objetivo.
A Margem Esquerda do rio Acaraú é, atualmente, um dos
espaços mais propagandeados pelos meios de comunicação do es-
tado , além de fazer parte das imagens mais divulgadas nos cartões
27

postais da cidade. Ela compõe, junto com outros espaços, o que se


parafraseia como Cid marketing , por ser constantemente apresentada
28

nas propagandas de divulgação do ex-prefeito de Sobral e atual go-


vernador do Estado do Ceará, Cid Gomes.
Para além do encantamento que a obra gera, demonstrando o
“crescimento” e “desenvolvimento” da cidade, com a sua arquitetura,
podemos evidenciar a presença de equipamentos construídos nesse es-
paço, criando outras necessidades de utilização do mesmo; são eles: a
27 É bastante comum a imagem da Margem Esquerda do Rio Acaraú ser veiculada num dos
jornais locais de maior audiência no estado: o Jornal do Meio-dia, transmitido pela TV Verdes Mares,
pertencente ao maior grupo empresarial de Comunicação do Ceará – o grupo Edson Queiroz, que con-
segue atingir os maiores índices de audiência no estado, além de transmitir seus programas para outros
estados do Brasil, via antena parabólica.
28 Esse termo foi criado nas reuniões do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as Cidades da Re-
gião Norte do Estado do Ceará; nós o criamos como analogia ao termo city marketing, exatamente quando
era perceptível o enaltecimento de Sobral na campanha de Cid Gomes para o governo do estado.
Sobral e região em foco 67

Biblioteca Pública de Sobral Lustosa da Costa , o Museu Madi de Arte


29

Contemporânea e o Restaurante Popular. Tais equipamentos juntam-


se aos que já existiam , e foram aproveitados para unir a arquitetura
30

presente à antiga.
Há fluxos de pessoas em todos os horários do dia na Mar-
gem Esquerda. Mas, dependendo do horário, geralmente durante o
dia, pode-se ver uma maior intensidade de passantes pelo lugar, pra-
ticando atividades como lazer (esportes, caminhadas, namoro etc),
trabalho (vendedores ambulantes, canoeiros, bares etc), violências
(assaltos a mão armada, briga de gangues, conflitos etc). Quem são
essas pessoas, o que pensam sobre o local? Essa pergunta norteou
todo o processo investigativo proposto na pesquisa. Pois além dos
que fazem do local uma “passagem”, seja para que uso for, há os mo-
radores das duas margens que atribuem outros significados à obra
31

Margem Esquerda do Rio Acaraú, já que toda a modificação feita


nesse espaço compreende um lugar especial na vida desses habitantes
da cidade, em específico, o quintal de suas casas.
Os moradores das duas margens fazem uso do espaço das
mais diversas formas, e como me informou um morador da margem
esquerda, o qual habita no local há mais de 20 anos, “nunca manguei
tanto do povo, como agora”, pois ele senta no quintal de sua casa e fica
a observar as pessoas que fazem caminhadas com o intuito de se exer-
citar para cuidar do corpo. Esse mesmo morador vende balas e cerve-
29 Segundo informou o Boletim Municipal de 15 de fevereiro de 2008, a biblioteca já possui
cerca de 3.000 usuários cadastrados, dos mais diversos bairros da cidade.
30 Compõem as obras antigas: o largo das dores, a antiga igrejinha de Nossa Senhora das Dores,
ruínas de antigos armazéns e casarões, a Igreja da Sé e o casario tombado pelo IPHAN.
31 Segundo nos informou um técnico da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio
Ambiente da Prefeitura Municipal de Sobral, já estão sendo realizados estudos na margem direita para a
urbanização do outro lado do rio.
68 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

jas numa caixa de isopor, nos banquinhos que se encontram o longo


da Margem, ao mesmo tempo que manda os filhos irem para dentro de
casa e briga com o seu cachorro, por que “o bicho é danado e valente”.
Também é possível assistir a campeonatos de futebol amador nas qua-
dras de gramado, nos domingos pela manhã; ver casais de namorados
embalando seus romances ao som de belas canções no pôr-do-sol, dos
fins de semana; ver jovens em busca de investidas amorosas, porém
com menos intensidade que no Boulevard do Arco; e ainda, uma fre-
qüência, em horários mais tardios, de jovens universitários embalados
por vinhos e violões.
Como no Boulevard, há constantes apresentações artísticas
promovidas pela Secretaria de Cultura da Prefeitura Municipal em par-
ceria com o Serviço Social do Comércio (SESC-Sobral). Tais atividades
vêm intensificar a agenda da ECCOA, que pretende, com atividades
artístico-culturais e debates diversos, a inovação cultural no interior do
Ceará. Essa visão perpassa outras instâncias da cidade, e isso pode ser
evidenciado no discurso da Secretária de Cultura e Turismo, no texto
de introdução da Agenda Cultural e Turística de Sobral, de janeiro de
2008, quando a mesma afirma ser Sobral um dos 4,5% municípios
brasileiros a possuir secretaria de cultura, e que investe 2,6% de seu or-
çamento em cultura. E fecha o seu texto afirmando que Sobral “é uma
cidade cosmopolita por formação e vocação, expressão de tradição e
contemporaneidade que se interpenetram” . 32

Na Margem há ainda duas atividades bastante evidentes; isso


não quer dizer que não haja outras, mas exponho um pouco mais es-
sas duas por conta dos contatos que fiz, que não foram vencidas pela

32 Agenda Cultural e Turística de Sobral, de janeiro de 2008.


Sobral e região em foco 69

urbanização e modernização do local: a canoagem, como meio de


transporte, e a lavagem de roupas na beira do rio . Falo isso porque, 33

pelo que me informaram, até 2004 as pessoas iam para aquele lugar
pescar, ou iam para os chamados, pelos moradores de Sobral, banhos
de sol, nos fins de semana e feriados, e usavam o rio para a lavagem
de roupas e para a travessia até o outro lado (margem direita), onde
se localiza o bairro dom Expedito . 34

Os canoeiros, ao menos alguns deles, estão no local há mais


de 60 anos. Exercem tal atividade cotidianamente e fazem disto um
posto de trabalho. Antes da construção do espelho d’água, trabalha-
vam na canoagem em vários pontos do rio, somente enquanto este
estava cheio, pois quando as águas baixavam, iam exercer outras ativi-
dades de trabalho para a sustentação de suas famílias. Com a constru-
ção da referida obra, os canoeiros vieram a se fixar num só ponto do
rio fazendo a travessia de pessoas que vêm, em sua maioria, do bairro
Dom Expedito e vão ao centro da cidade e vice-versa. Eles cobram pe-
las travessias, mas não há valor fixo pela viagem, o que não lhes garante
uma regulamentação, e tampouco uma maior valorização da atividade.
Um dos canoeiros me informou que até tentaram retirá-los dali com
a construção do espelho d’água, mas segundo o mesmo, a canoagem
é “uma coisa muito importante pra cidade, pois é barato e não polui
o rio”. Muito embora essa fala do canoeiro reflita uma relativa cons-

33 As duas atividades acontecem durante o dia, quando no local há pouco movimento em


relação aos finais de tarde e fins de semana.
34 Há, evidentemente, outros usos, mas não explorei o suficiente para analisá-los. Como
exemplo, há notícias de que muitos casos de violência aconteciam e ainda acontecem nas margens do rio,
sobretudo, na área urbanizada. Há um caso muito conhecido na cidade, de antes de a obra ser concluída,
que foi o assassinato de um rapaz cometido por dois jovens que estudavam na UVA. Esse caso teve
bastante repercussão na cidade, pois foi solucionado com base nas imagens captadas pelas câmeras que
“vigiam” alguns pontos da urbe, os quais estão nos limites do espaço tombado pelo IPHAN.
70 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ciência de sua condição de importância para a cidade, ele admite que


não há concorrência entre os canoeiros, mas um deles acaba ganhando
mais passageiros, pelo fato de ser o mais velho e as pessoas gostarem
mais dele. “Ele já poderia ter se aposentado”, diz um outro canoeiro.
O mais velho deles traz consigo o aprendizado que obteve do pai, e
fala do rio, numa viagem que fiz com ele, “como a coisa mais bela da
cidade”. E quando o perguntei sobre a obra na Margem Esquerda, ele
me arregalou os olhos dizendo: “só querem voto!”. Essa afirmação
enaltece o sentido que aquele velho senhor canoeiro, filho de um tam-
bém canoeiro, o qual passou a vida a remar naquelas águas, dá àquela
arquitetura com a qual ele convive tão bem, mas que para ele se traduz
em garantias políticas para um grupo, que ele definiu bem: “voto pro
Cid”, e aqui encontramos a alusão direta a já referida família Ferreira
Gomes, que ganha espaço no estado do Ceará.
Por outro lado, quando embarcamos nas canoas podemos ver
uma inscrição anônima ao redor de uma das saídas de esgoto que de-
sembocam no rio, e que foram de certa forma ornamentadas pela obra,
porém muito simbólica para a definição daquele espaço: “o ânus da ci-
dade”. Essa frase deixa sua marca de rebeldia para contrastar com aquele
espaço que se quer higienizado, porém ela não é vista por quem passeia
na margem esquerda do rio; só se consegue avistá-la quando adentramos
o rio na canoa . Na mesma viagem em que conversei com o referido ca-
35

noeiro, ouvi de uma passageira que ali era realmente o “ânus da cidade”,
e ela me questionou “por que o green peace não vem aqui ver essa imo-
ralidade que fizeram com o rio?” Essa moradora me contou que nasceu
em Sobral, mas que teve que migrar para o Rio de Janeiro quando ado-
35 A aluna do curso de Ciências Sociais da UVA, Ana Argentina Castro Sales, registrou essa
imagem em fotografia, em seu trabalho monográfico sobre o bairro Dom Expedito.
Sobral e região em foco 71

lescente, no entanto estava de volta à cidade por conta das oportunidades


de emprego que o lugar estava oferecendo, e que queria ficar perto de
sua família, a qual morava ali, no bairro Dom Expedito.
As lavadeiras do rio Acaraú compõem outro grupo bastante
intrigante do ponto de vista do uso da Margem Esquerda, pois elas ocu-
pam de forma muito peculiar tal espaço: lavando roupas e as estendendo
ao longo do verde gramado, que deveria servir para embelezar o local,
como elas dizem, “quarando a roupa naquele capim verdim, verdim”.
Para elas, a obra da margem trouxe algumas vantagens,
como o gramado para estenderem as roupas, e um lugar limpo e bo-
nito para trabalharem. Por outro lado, elas entendem que o problema
está nas águas paradas do rio, pois há o entendimento de que parada
a correnteza, as águas são poluídas e a roupa fica suja. Além desta
insatisfação, há ainda o fato de não terem mais as pedras para “bater
a roupa”, e agora têm que ficar acocoradas ou aproveitar um píer
desativado para a esfregação das roupas. Muitas lavadeiras vêm de
outros bairros da cidade, e falam que mesmo com escassez de água,
preferiam o rio como era antes. Há ainda as que continuam lavando
suas roupas no lado do rio que corresponde ao bairro das Pedrinhas,
por acharem que lá a água é mais limpa.

LANÇANDO QUESTÕES PARA A CONTINUAÇÃO

O Parque da Cidade, a Margem Esquerda do rio Acaraú e o


Boulevard do Arco de Nossa Senhora de Fátima aglomeram uma grande
mescla de freqüentadores sem a distinção por classes sociais ou idades.
Cabe evidenciar que já existem projetos de expansão destes três espaços.
72 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Mas há ainda áreas específicas nos próprios bairros que podem ser identi-
ficados enquanto espaços de lazer, como por exemplo as praças públicas,
que foram construídas para os moradores dos próprios bairros. E o que se
pode perceber é que mesmo com todo o embelezamento e higienização
dos novos espaços construídos na cidade para o atrativo turístico e comer-
cial, que possivelmente viria de fora da cidade, há uma apropriação pelos
que estão e são da cidade de Sobral. Para tanto, se faz necessário entender o
que tais espaços, que referencialmente seriam considerados embelezadores
da cidade, significam para os sujeitos sociais que os vivenciam cotidiana-
mente. Principalmente aqueles que buscam nesses locais alternativas como
lazer, haja vista que, segundo Pinto (2002), tal conceito define hoje toda
uma condição de estilo de vida que acompanha as mudanças socioeconô-
micas mundiais. Entende-se por estilo de vida

[...] uma expressão que, com as transforma-


ções contemporâneas deixou de ser conce-
bida como conjunto relativamente fixo de
disposições, gosto e práticas culturais que
demarcavam fronteiras entre grupos para,
na cidade contem-porânea, se constituir de
maneira mais dinâmica. (PINTO, 2002, p. 9).

E em alguns locais da cidade, podem-se ver outdoors coloca-


dos pela prefeitura municipal com a seguinte frase: “Lazer e cidada-
nia”. Os freqüentadores do Parque da Cidade, do Boulevard do Arco
e da Margem Esquerda fazem a relação da prática de lazer como uma
prática de cidadania? Este conceito é compreendido por eles? Con-
Sobral e região em foco 73

versando com alguns freqüentadores, não se faz visível essa relação,


até por que a conquista daqueles espaços não se deu na forma de
movimentos organizados em busca do direito ao lazer . 36

As práticas de lazer vêm se configurando como uma impor-


tante atividade no mercado globalizado, em virtude de ter-se torna-
do o tempo livre um tempo de consumo, para além da oposição ao
tempo de trabalho (PADILHA, 2006; ELIAS, 1992). De acordo com
Werneck (2001, p. 15-16),

Nos dias atuais, o tempo não significa apenas


um instrumento de orientação indispensável
para uma multiplicidade de acontecimentos
na nossa vida social, hoje fragmentada em
unidades estanques e cronometrada de dife-
rentes maneiras. O tempo é também um ob-
jeto de saber muito interessante, repre-senta-
ção simbólica de uma vasta rede de relações
que reúne possibilidades físicas individuais
ou sociais, muitas das quais intimamente re-
lacionadas ao lazer.

Além do lazer, que se dá como uma forma de sociabilida-


de, também foi observado na pesquisa como os referidos espaços se
configuram enquanto postos de trabalho para alguns habitantes de
Sobral. Basta dar um passeio em qualquer dos três locais e facilmente
36 Este dado demanda, inclusive, uma análise ainda mais cuidadosa, pois na presente pesquisa
não houve oportunidade para explorar o entendimento dos sobralenses que ocupam os espaços de lazer
pesquisados sobre essa dimensão da cidadania e do uso dos espaços.
74 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

se veem comerciantes com “banquinhas” vendendo balas, pipocas,


milho verde, bebidas alcoólicas, artesãos e os donos das “cidades
infláveis” . Há nos referidos espaços e nos seus entornos signifi-
37

cativa quantidade de pontos comercias, como bares e lanchonetes


que foram abertos nos três locais e também se tornaram pontos de
encontro dos sobralenses e de pessoas que visitam a cidade.
Dentre os três locais, somente o Parque da Cidade teria sido
destinado a ter estabelecimentos como bares quando da recondução
de donos de quiosques que existiam em várias praças da cidade para
o Parque, que seria o local de consumo propriamente dito. Então os
espaços voltados para o lazer se transformaram também em postos
de trabalho, os quais garantem a sobrevivência das pessoas que os
ocupam. Daí também se conclui que a relação trabalho e lazer se in-
terliga com as dinâmicas de vida da população sobralense.
Para concluir, pensar na reinvenção da cidade de Sobral toman-
do como referencial os três espaços de lazer postos em evidência torna
possível pensar Sobral para além do Patrimônio Histórico e Arquitetôni-
co tombado, dando à análise sobre a cidade novas cores, reveladas pelos
desejos e tensões que a tornam o que é: um espaço elaborado socialmen-
te. Por isso, concordo com Sennet (2001, p. 24), quando este afirma

a cidade tem sido um lócus de poder,cujos espa-


ços tornaram-se coerentes e completos à ima-
gem do próprio homem. Mas também foi nelas

37 As cidades infláveis são brinquedos gigantes com formatos de casas, castelos, cama elástica e
escorregadores próprios para crianças. A principal característica desses brinquedos é que, como o próprio
nome diz, são infláveis, por isso são facilmente montáveis e desmontáveis, permanecendo por períodos
determinados e geralmente à noite.
Sobral e região em foco 75

que essas imagens se estilhaçaram, no contexto


de agrupamentos de pessoas diferentes – fator
de intensificação da complexidade social – e
que se apresentam uma às outras como estra-
nhas. Todos esses aspectos da experiência urba-
na – diferença, complexidade estranheza – sus-
tentam a resistência à dominação.

Neste sentido, não há somente uma cidade reinventada pelo


poder público; há também uma cidade reinventada cotidianamente por
aqueles que compõem os fluxos nos espaços e dizem muito mais sobre ela.

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Sobral e região em foco 77

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78 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

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diferença. Campinas: Papirus, 2000. p.104-115.

O Teatro da História:
Os espaços entre cenas e cenários

Durval Muniz de Albuquerque Júnior 38

Durante muito tempo os espaços não preocuparam os his-


toriadores. Entre os variados aspectos da vida social que ignoravam,
notadamente aqueles que concerniam aos sentidos e não à inteligibi-
lidade, os espaços eram tratados pelos historiadores como dado ób-
vio, como um elemento fixo e imóvel, que serviria apenas de cenário
para os eventos que narravam, ou seja, como lugares onde se desen-
rolavam os fatos ou onde decorria a ação que vinha a ser tema da
narrativa historiográfica. Podemos dizer que os escritores da história
eram, no máximo, cenógrafos, embora despidos da percepção que
têm aqueles de que os cenários não são apenas matéria para a descri-
ção, mas são fruto de montagem, de disposição de um conjunto de
materiais, de efeitos, de relações entre coisas e práticas humanas que
38 Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Sobral e região em foco 79

as põem em conexão, que as retiram de seu isolamento e as fazem


funcionar a serviço da produção de um sentido. Se cada corpo ou
coisa tem o seu lugar, ocupa um lugar, só se tornam espaços, só for-
mam espaços, no entanto, quando conectados por práticas, quando
reunidos numa trama, quando a serviço de um enredo, liames quase
sempre invisíveis, teias que os amarram numa totalidade passageira,
porém que tem uma duração variável, em intervalos de tempo que
levam para existir e se desmanchar as configurações, os desenhos que
a disposição dos lugares e suas relações realizam.
Como diz Michel de Certeau , os espaços são lugares prati-
39

cados, mas são também fruto dos relatos dessas práticas, das repre-
sentações que aí ocorrem. Os historiadores quase sempre pensam os
espaços como cenários desligados das tramas, dos eventos, das cenas
que aí vêm a ocorrer, que aí vêm a ser representadas. Mas quem faz
teatro sabe que não existe cenário que já não traga em si a virtualida-
de da cena que aí vai se passar, e é a cena que realiza o cenário, pois
é ela que o pratica, que conecta através de seu enredo e, portanto, dá
sentido de conjunto àquela barafunda de corpos e coisas que, sem
ela, permaneceriam ali dispersos e sem fazer sentido para além da
curiosidade de sua pose, de sua colocação bizarra. O sofá azul, a mesa
de centro, a luminária, o tapete vermelho, a faca sobre o piano, o pe-
daço de xícara atirado num canto sombrio só fazem sentido quando
a cena se inicia. Ao contrário do que comumente pensam os realistas,
o palco não pré-existe à cena; ele vem a ser palco no momento em
que a encenação se põe sobre ele e o atualiza como tal. Do ponto
de vista empírico, existe apenas um tablado ou cimentado que pode

39 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 201 e ss.


80 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

vir a ser outros espaços dependendo do que aí se pratica: pode ser


salão de dança, paisagem para convescote, campo de futebol, salão
universitário para pompas acadêmicas, cama para amantes urgentes e
teatrais. O cenário vem à cena, vem com a cena, emerge das práticas
discursivas e não discursivas que o faz fazer sentido, representar.
Portanto, cabe a nós historiadores dos espaços pensá-los
não apenas como cenários, mas como conjunto de cenas que ocor-
rem numa dada temporalidade, forjando dadas tramas, dadas redes,
dadas relações, constituindo panoramas, montando paisagens mó-
veis, prontas a se desmanchar ao final de cada ato, de cada cena. Os
espaços são misturas inextrincáveis de dimensões concretas e dimen-
sões simbólicas. Não se pode estabelecer aqui uma anterioridade ou
uma determinação entre os aspectos ditos materiais e os ditos imate-
riais dos espaços. Como numa peça teatral, os enredos da história dos
espaços são variados e podem se iniciar por diferentes entradas, por
distintos prólogos, ser causados por distintos acontecimentos. Os es-
paços são frutos das artes e das astúcias dos homens, que buscam
definir fronteiras, estabelecer proximidades, distâncias e separações
entre homens e coisas do mundo, dotá-las de certa ordem, torná-las
inteligíveis, lançando mão, para isto, não apenas das explicações e
compreensões racionais, mas também das fantasias, dos mitos, das
crenças, dos delírios, das luzes e das sombras.
Como diz Marc Augé , a idéia que fazemos dos lugares e dos
40

espaços como algo fundado definitivamente, como um ser que é por ser,
como queria Parmênides , é uma fantasia, é uma autoilusão humana, que
41

40 AUGÉ, Marc. Não-Lugares: introdução a antropologia da supermodernidade, 4. ed. Campi-


nas: Papirus, 1994. p. 52-55.
41 PARMÊNIDES. Da Natureza. São Paulo: Loyola, 2002.
Sobral e região em foco 81

está a serviço de nossa tranqüilidade e de nossa necessidade de alienação


para suportarmos a vida. Esta ilusão foi partilhada por inúmeras socie-
dades e, inclusive, por muitos historiadores e antropólogos que as estu-
daram. Esta era uma idéia cara a Levi Strauss , de que havia sociedades
42

mais fundadas no espaço que no tempo, sociedades frias, a-históricas,


capazes de permanentemente repor a temporalidade pela refundação
dos espaços, por sua reposição permanente através de seus calendários
rituais, através de cenas que, representadas, repunham as mesmas e re-
correntes repartições espaciais que com elas protegiam o grupo da mu-
dança. O olhar do europeu, desesperado pela fugacidade e velocidade
da temporalidade de sua sociedade, facilmente se deixou mitificar por
estas sociedades mais espaciais que temporais, ou seja, menos históricas.
Olhar e lugar etnográfico que repõem a percepção questionável que ar-
ticula espaço a intemporalidade, espaço e natureza, natureza e reposição
do mesmo, tempo circular que se fecharia sobre si mesmo. Encenação
do mesmo que parece criar um mundo fechado para o exterior e imune
a discórdias no seu interior. O estruturalismo antropológico e histórico
trouxe para o centro do discurso destas disciplinas as metáforas espaciais
em sua luta contra a efemeridade dos tempos em que vivemos.
Os etnólogos e historiadores passaram não só a não per-
ceber o cenário como produto da cena, mas fizeram uma operação
inversa, absorveram ou dissolveram a cena no cenário, os mapas et-
nográficos, as dicotomias espaciais que recortariam a vida das tribos
e aldeias estudadas passaram a explicar os próprios homens. Ao invés
de pensar os espaços como fruto de práticas humanas, como lugares

42 LEVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem. Campinas: Papirus, 1989.


82 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

praticados, Mauss , Levi Strauss e de certa forma o próprio Braudel


43 44

fizeram dos homens seres praticados pelos espaços; eles se tornam


parte de uma paisagem que os explica, o espaço é que os informa e
não o oposto. Esta espacialização do antropológico e do histórico
vem acompanhada da obsessão pela totalidade, pela apreensão do
fato social total. A própria idéia de todo, de totalidade, tem uma di-
mensão espacial; é como se pudéssemos acompanhar todas as curvas
e volteios de uma linha que abarcaria toda uma realidade e daria a ela
um sentido fechado, desenharia dela uma imagem sem rugas, sem
brechas, um espaço que se daria totalmente à percepção, um evento
do qual poderíamos definir as linhas mestras, uma interpretação ca-
paz de perceber um espaço do qual nada escapou ou ficou de fora.
Não é esta forma de pensar o espaço e o histórico que nos
interessa, mas é justamente o oposto, ou seja, pensar o histórico, a
temporalidade, como fazendo parte dos espaços, dando a eles plasti-
cidade, tornando-os móveis, pensando-os como fluxos multidirecio-
nais, dotando-os de equivocidade, pensando-os como um conjunto
de posições móveis, alternáveis, substituíveis, negociáveis, nascidas
de lutas, conflitos e confrontos. Os espaços que conjuguem a cons-
trução no tempo de identidades e relações de pertencimento, como
também de exclusão. Os lugares que interessam para o historiador
não são aqueles que escapariam do tempo, que seria um pedaço de
passado encravado no presente, como uma cena estática e muda,
como “lugares de memória” ou lócus de tradições, mas lugares en-
tendidos como palimpsestos, como fruto da sedimentação de cama-

43 MAUSS, Marcel. Sociologie et Antropologie. Paris: PUF, 1966.


44 BRAUDEL, Fernand. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Lisboa: Martins
Fontes, 1983-1984.
Sobral e região em foco 83

das sucessivas de relações sociais e de sentidos culturais. Os espaços


não surgem, apenas, do acúmulo das práticas diversas que o cons-
truiram, mas dos sentidos diversos que a eles foram dados. Qualquer
espaço é fruto de sucessivos estratos constituídos por nomes, símbo-
los, ícones, textos, mapas, ditos e formas de ver e de fazer ver. Como
aprendemos como Michel Foucault e Pierre Nora , ao investigar os
45 46

espaços e os lugares, os historiadores estariam em busca não daquilo


que de perene temos no mundo, daquilo que é sempre o mesmo, mas
daquilo que nos difere, nos faz ser diferentes do passado. Paul Vey-
ne já disse que cabe ao historiador inventariar as diferenças, pensar,
47

portanto, nossas diferenças espaciais, pensar como não apenas os ce-


nários contemporâneos são distintos, mas, principalmente, como as
cenas que os constituem e põem em prática os fazem funcionar, são
específicas, são singulares, em nosso tempo e em cada tempo que o
antecedeu. Temos que abandonar uma visão geométrica e matemáti-
ca dos espaços para dar a eles uma conotação humana, antropológi-
ca, psicológica. Parafraseando Clarisse Lispector , que numa crônica 48

disse que à sua literatura não interessavam os fatos mas a repercussão


que estes tinham nos homens, creio que este é o caminho que nós
historiadores devemos seguir; a nós não interessam os espaços em
sua existência empírica, descarnada, mas como esta empiria é signi-
ficada, pensada, praticada pelos homens, como os espaços nos afe-
tam e são afetados por nós, como eles nos constroem e são por nós
construídos, como eles são formados pela e são formados por nossa
46 NORA, Pierre. Les lieux de mémorie, 2: La nation. Paris: (s.e.), 1986.
47 VEYNE, Paul. O Inventário das Diferenças. São Paulo: Brasiliense, 1989.
48 LISPECTOR, Clarice. Ficção ou não. In: A Descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
p. 270-271.
49 VIDAL, Laurent. Alain Corbin: o prazer do historiador. In: História e manifestações visuais. São
Paulo: ANPUH, Revista Brasileira de História, n. 49, jan-jun 2005, p. 11-31.
84 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

sensibilidade. Isso não significa dizer que não devemos nos importar
com a natureza. Mas, exatamente, para nos importarmos com a na-
tureza é preciso vê-la como sendo mais do que um simples ente pré-
existente aos homens, com o qual ele nada tem que ver, do qual deve
fugir, se afastar, ao qual deve dominar, submeter, usar sem nenhuma
responsabilidade.
Em entrevista recentemente publicada no Brasil, Alain Cor-
bin fala da necessidade de se fazer uma história das sensibilidades
49

em relação aos espaços. E nos lembra, como faz Michel de Serres , 50

que nossas relações com os lugares, com os territórios, com a terra


são da ordem do sensível. Talvez por isso não se tenha, durante mui-
to tempo, encontrado pessoas dispostas a fazer a história destas rela-
ções. Em busca de atender ao modelo iluminista de ciência, a história
procurou, durante certo tempo, ser a ciência do pensamento, do que
os grandes homens projetaram, planejaram e executaram, resultando
numa sucessão de personagens com uma subjetividade sumária e es-
quemática e um panteão de heróis sem corpo, sem sexo, sem desejo,
sem sentidos, sem sensibilidade; um texto que proporcionava pouco
prazer em ser lido. Como queria Colingwood , o historiador era 51

aquele que repensava o pensamento de seus antepassados. Hoje, se


queremos fazer história dos espaços devemos tentar imaginar o que
sentiam os homens diante da neve, que emoções produziam a che-
gada da primavera para um colhedor de flores ou para amantes apai-
xonados, que paixões mobilizavam um pastor a arriscar a vida para
salvar a sua ovelha caída no fundo do vale. É preciso que a história

50 SERRES, Michel. Os Cinco Sentidos. Rio de Janeiro: Bertrand-Brasil, 2001.

51 COLINGWOOD. The Idea of History. Oxford: Claredon Press, 1946.


Sobral e região em foco 85

deixe de ser escrita apenas do ponto de vista do olhar, reduzindo os


espaços às suas descrições; é preciso dar profundidade de sentido e
de sentimento a estes espaços tomando como índices significativos
dos lugares, como fazia Proust, os seus cheiros, as suas texturas, os
seus sons, seus ruídos, seus gostos, os sabores que aí foram produ-
zidos e provados. Portanto, o estudo dos espaços, da história dos
espaços exige uma mirada poética, uma visão artística, a prática de
uma estética, reeducando nossos sentidos para também participarem,
mais do que apenas do logos, da construção de nosso discurso de
historiador. É preciso escrever com todo o corpo, ele que foi o nosso
primeiro e único instrumento de relações espaciais, de construção de
lugares, de territórios. É preciso ter arte para poder encenar nas pá-
ginas da história o sentido que têm as primeiras gotas de chuva para
um homem do semi-árido nordestino, a alegria de que é tomado ao
escutar as bátegas caindo do telhado de sua casa, a primavera que se
inicia em seu coração ao ver as vacas a fazerem escaramuças diante
do pasto verde que vem nascendo, ser capaz de avaliar a preciosa
sinfonia que é para os ouvidos desses homens o coaxar em uníssono
dos sapos nos açudes, o zurrar distante de um jumento numa noite
sertaneja, a beleza inigualável de um céu carregado de nuvens escu-
ras, a emoção provocada pela visão de um campo amarelecido pelos
pendões loiros do milho. Isto é a vida e isto deveria ser a história que
tenta a ela dar forma, é esse o modo de produção da existência, ele é
poético por mais torpe, cruel e violento que também possa ser.
Há uma crônica de Clarisse Lispector em que esta relação
entre história, poética e espaços é explorada e da qual pode ser inte-
ressante reproduzir um trecho para que nós historiadores possamos
86 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

pensar nos desafios que se colocam para nós ao nos propormos a fazer
uma historiografia que articule estas duas categorias. Ela se chama Cos-
monauta na terra e foi publicada em 1967, como reação ao primeiro vôo
de um homem pelo espaço sideral, momento em que pela primeira vez
o homem experimentou a desterritorialização absoluta. Diz Clarisse:

Extremamente atrasada, reflito sobre os


cosmonautas. Ou melhor, sobre o primeiro
cosmonauta. Quase um dia depois de Gagá-
rin, nossos sentimentos já estavam atrasados
em contraposição à velocidade com que o
acontecimento nos ultrapassa. Agora, então,
atrasadíssima penso no assunto. É um assun-
to difícil de se sentir.
Um dia desses um menino, advertido de
que a bola com que brincava cairia no chão
e amolaria os vizinhos de baixo, respondeu:
ora, o mundo já é automático, quando uma
mão joga a bola no ar, a outra já é automática
e pega-a, não cai não.
A questão é que nossa mão ainda não é
bastante automática. Foi com susto que Ga-
gárin subiu, pois se o automático do mun-
do não funcionasse a bola viria mais do que
transtornar os vizinhos de baixo. E foi com
susto que minha mão pouco automática tre-
meu à possibilidade de não ser rápida bastan-
Sobral e região em foco 87

te e deixar o “acontecimento cosmonauta”


me escapar. A responsabilidade de sentir é
grande, a responsabilidade de não deixar cair
a bola que nos jogaram.
A necessidade de tornar tudo um pouco
mais lógico – o que de algum modo equivale
ao automático – me faz tentar criteriosamen-
te o bom susto que me pegou:
- De agora em diante, me referindo à Terra,
não direi mais indiscriminadamente “o mun-
do”. “Mapa mundial” considerei expressão
não apropriada; quando eu disser “meu mun-
do”, me lembrarei com um susto de alegria
que também meu mapa precisa ser refundido,
e que ninguém me garante que, visto de fora,
o meu mundo não seja azul. Considerações:
antes do primeiro cosmonauta, estaria certo
alguém dizer, referindo-se ao próprio nasci-
mento, “vim ao mundo”. Mas só há pouco
nascemos para o mundo. Quase encabulados.
- Para vermos o azul, olhamos para o céu.
A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul
será uma cor em si, ou uma questão de dis-
tância? Ou uma questão de nostalgia? O inal-
cançável é sempre azul.
- Se eu fosse o primeiro astronauta, minha
alegria só se renovaria quando um homem
88 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

voltasse lá do mundo: pois também ele vira.


Porque “ter visto” não é substituível por ne-
nhuma descrição: ter visto só se compara a
ter visto. Até um outro ser humano ter visto
também, eu teria dentro de mim um grande
silêncio, mesmo que falasse. Consideração:
suponho a hipótese de alguém no mundo já
ter visto Deus. E nunca ter dito uma palavra.
Pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.” 52


O texto de Clarisse é, para nós historiadores dos espaços, uma
valiosa contribuição: em primeiro lugar por afirmar o caráter desrupti-
vo e instaurador que tem o acontecimento. O acontecimento que como
signo nos convoca a sobre ele falar, a significá-lo, a domá-lo em sua
emergência irrecorrível. Isto é o real para Clarice, assim como era para
Lacan, o irremediável, o que se impõe e pede explicações, solicita refle-
xões. É a bola que nos é jogada pelo passado e que devemos saber segu-
rar. Nós historiadores estamos sempre ameaçados de ser ultrapassados
pelos acontecimentos, estes chegam de surpresa e pedem explicações
imediatas. É o vôo do primeiro cosmonauta que causa perplexidade em
sua singularidade, em sua diferença, e precisa ser colocado dentro dos
esquemas automáticos de racionalização que a sociedade dispõe, mas
que se descobre incapaz de fazê-lo. O automático, o hábito, o costume,
o saber consagrado, o modelo, a fórmula não dão conta de apaziguar
em sua singularidade este acontecimento. Evento que indicia o próprio
tempo em que se vive, tempo veloz, de transformações tão rápidas que

52 LISPECTOR, Clarice. Cosmonauta na terra. In: A Descoberta do Mundo, p. 24-25.


Sobral e região em foco 89

se torna cada vez mais difícil organizá-las a partir da racionalidade e dos


conceitos de que se dispõe. Clarice, como nós historiadores, sabemos
que a realidade nos ultrapassa, que jamais nossos conceitos, nossos auto-
matismos, nossas mãos, por mais ágeis que sejam, conseguem capturar
todos os fatos que ocorrem a nossa volta ou que ocorreram no passado,
nada pode impedir que alguns venham a cair no esquecimento.
Mas Clarice nos adverte para um outro aspecto importante, ou
seja, se este acontecimento é difícil de ser pensado, também é difícil de ser
sentido. Ou seja, ela não separa, como costumamos fazer, razão e sensibili-
dade, sentir é também compreender, há fenômenos, como os que ocorrem
nos espaços, nos quais a sensibilidade é um caminho para o conhecimento.
Ela nos recomenda: se for difícil pensar um fato, tente senti-lo. Ao ver que
o acontecimento que presenciava rapidamente ultrapassava a sua capaci-
dade de explicá-lo logicamente, fazendo-a sentir-se atrasada, atrasadíssima
para tratar dele, para extrair dele uma explicação, acontecimento tão deci-
sivo que tornara rapidamente obsoletos todos os conceitos e saberes que
tinha acumulado sobre o mundo, sobre a terra e sobre o homem, Clarice
apela para a sensibilidade, e com um misto de susto e alegria encara o desa-
fio de produzir sentido para o que passara só fazia um dia, mas que parecia
ter tornado tudo velho, tudo antigo, tudo ultrapassado, ter posto por terra
os automatismos que a governavam e governavam o mundo até então.
Este acontecimento tinha provocado justamente a desordem
nos conceitos que até então mediavam e presidiam a relação dos ho-
mens com a terra, com o céu e consigo mesmos. A homologia entre
mundo e terra tinha desaparecido, o mundo se ampliara do dia para a
noite, passara a ser fora da terra, a ser um além dela, a terra já não era
mais nosso mundo, habitávamos agora um mundo bem mais vasto e
90 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

bem mais etéreo. A humanidade havia iniciado seu processo definitivo


de desterritorialização ou de desterramento, eis a angústia posta pelo
novo, acompanhada da curiosidade, que emergem do texto clariciano.
O mundo das pessoas também se havia alterado, todos os mapas, ou
seja, as representações até então válidas sobre a terra, teriam que ser
refundidos, refeitos. Vistos de fora, o mundo particular de cada um po-
dia também ser azul, ou quiçá aparecer com diferentes cores, e Clarice
se alegra com esta emergência do novo, com esta irrupção da novidade
que desautomatiza as representações. Clarice está feliz porque Gagárin
é um poeta, ele fez emergir da linguagem, da gramática do universo,
novas palavras, novos sentidos, permitiu a inversão dos conceitos, das
imagens e enunciados consagrados sobre o mundo. Quando disse: vejo
a terra, ela é azul, o cosmonauta russo, símbolo maior de uma ciência
racionalista triunfante mostrou a imanente condição poética do ho-
mem, ele fez poesia, ele fez ver a condição poética de nossas imagens e
de nossos relatos de espaço. Como um novo Ulisses, Gagárin, em frase
curta, reconta sua aventura épica, refaz o papel de Homero.
Agora não se podia mais considerar o nascimento como o vir
ao mundo, no máximo como o vir à terra, nos tornávamos menores
no mesmo instante que nos engrandecíamos, nos descobríamos mais
terráqueos à medida que nos tornávamos cosmonautas. Na verdade
durante séculos os homens acharam que quando nasciam vinham ao
mundo, e descobriam agora, encabulados, que somente depois da-
quele passeio decisivo se podia dizer que os homens, pelo menos um
homem, havia vindo ao mundo. Mas será que ele havia mesmo vindo
ao mundo, como poderíamos ter certeza se ele estava só, se não ha-
via ninguém para narrar sua aventura, somente ele mesmo. E Clarice
Sobral e região em foco 91

nos coloca, assim, outra questão fundamental para nossa reflexão, ou


seja, o papel representado pela narrativa, o papel representado pelo
vínculo social que se estabelece através da linguagem, sobre o papel
que o outro representa no estabelecimento de qualquer verdade, na
definição daquilo que se chama de realidade. Ela se coloca na posição
de Gagárin e imagina o desconforto que deve sentir por ser o único a
ter visto algo que não possui linguagem capaz de transmitir. Fazendo
pouca concessão ao que costuma chamar de ilusões realistas, Clarice
nos fala da impossibilidade do ver poder corresponder ao dizer, ela
nos fala da brecha irreparável que separa o visto do dito, de como as
coisas vistas não se alojam completamente nas palavras que as bus-
cam enunciar. A visibilidade dos espaços mantém uma distância em
relação à sua dizibilidade. Ver não é dizer e vice-versa. Para Clarice, se
fosse astronauta, ficaria muito alegre quando outro humano vivesse a
experiência do espaço como ela e pudesse então estabelecer com ele
um diálogo, uma conversa, uma comunicação, fruto da qual este es-
paço iria ganhando existência, verdade, realidade. Somente os relatos
que fizessem de suas viagens, depois que tivessem organizado suas
experiências em narrativas e fossem encontrando entre elas pontos
de contato, ilhas de sentido, fragmentos de imagens que fossem se
aglutinando e se cristalizando em núcleos de significação é que se
poderia dizer que aquelas viagens e o espaço onde estiveram eram
reais e tinham verdades a ser ditas. Antes de outro humano ter o que
dizer sobre este espaço extraterrestre, o que Gagárin portava era um
grande silêncio, pois ele falava de experiências não partilhadas, por-
tanto, não significadas socialmente; os outros ouviam suas palavras,
mas estas ficavam boiando soltas no espaço, sem nenhum solo para
92 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

se fixarem; como se alguém ao ver Deus tentasse partilhar esta expe-


riência grandiosa com alguém e não encontrasse interlocutores, mas
apenas pessoas espantadas e desconfiadas de sua sanidade mental.
Clarice, por fim, traz para nós historiadores do espaço a per-
cepção de como estes são relativos às narrativas que os constroem,
ao ponto de vista de quem os vê. Os espaços são construções do
olhar humano, do falar humano, do uso dos seus sentidos, das suas
práticas, as mais diversas. Antes dos cosmonautas, para enxergar o
azul olhávamos para o céu, o azul era a cor do céu, agora após as
palavras poéticas de Gagárin azul também era a cor da terra. Antes,
apenas o céu era azul, porque só para ele podíamos olhar com distan-
ciamento, estávamos grudados à terra e, por isso, a víamos marrom e
pesada. Agora desterritorializados, podíamos ver a nossa antiga mo-
rada à distância, e era ela agora que se descobria azul, leve, flutuando
na imensidão. Saindo da terra numa nave, descobre que ela é também
um grande e poderoso veleiro azul. O que faz Clarice concluir que
talvez o azul, ao contrário do que pensam os essencialistas de todos
os matizes, não exista em si mesmo, seja produto de um ponto de
vista, de uma distância, uma verdade, uma realidade fruto de uma
ilusão de ótica, fruto de uma ficção de nosso olho poético. A cor
azul podia ser, quem sabe, até uma questão de nostalgia, de saudade
de um lugar que está distante e ao qual não se pode chegar. Talvez
azul sejam todos os inalcançáveis, os espaços desejados, sonhados,
mas nunca materializados. Azul talvez seja a inalcançável verdade do
passado, a inalcançável realidade dos espaços. Azul é a nostalgia dos
historiadores, cosmonautas dos tempos e dos espaços ultrapassados
pela velocidade da nave do mundo.
Sobral e região em foco 93

A Cidade dos “Coronéis”:


História e Cultura Política em Sobral-Ce (1962-1970).

Edvanir Maia da Silveira . 53

INTRODUÇÃO

A cidade não nos é imposta de cima pra baixo e nem de


fora pra dentro, ou pelo menos não é apenas isto; é uma construção
humana. Somos tanto ativos como passivos de nossas cidades, e por
isto somos sujeitos de sua história e de seu futuro. Segundo Rykwert
(2004) e Del Rio (1990) , a década de 1940 forçou arquitetos e ur-
54

banistas a reconstruir as cidades destruídas pela guerra, o que lhes


permitiu pensar uma nova estrutura urbana para um novo momento
histórico. Mas as populações também pensaram as suas cidades, e a
década de 1960 viu surgirem as primeiras críticas e protestos genera-
lizados sobre a qualidade do ambiente urbano que vinha sendo pro-

53 A autora é professora assistente do curso de História da Universidade Estadual Vale do


Acaraú – UVA-Ce.
54 RYKWERT, Joseph. A Sedução do lugar: a História e futuro da cidade. São Paulo: Martins Fontes,
2004. p.3- 4 e DEL RIO, Vicente. Introdução ao desenho urbano no processo de planejamento. São Paulo: Pini,
1990. p. 19.
94 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

duzido, tanto pelo poder público como pela iniciativa privada.


Entre as décadas de 1960 e 1970 a cidade de Sobral contava
com uma população de mais ou menos 60.000 habitantes, vivendo
do comércio, da indústria, da agricultura e da pecuária e estava sob a
administração de Cesário Barreto Lima e Jerônimo de Medeiros Pra-
do, duas grandes lideranças que se revezaram no poder local de 1962
a 1986. Este era também o período da ditadura militar, do “milagre
econômico”, do “ciclo dos coronéis” no governo do Estado e de sé-
rios conflitos políticos entre Barretos e Prados, registrados inclusive
pela imprensa nacional.
No senso comum, nas obras de arquitetos, historiadores, fi-
lósofos, fotógrafos, memorialistas, entre outros, há duas leituras sobre
essa cidade: para uns, Sobral continuava a ocupar lugar de destaque
na zona norte do estado, pela renda per capita, pela infra-estrutura,
pelas lideranças políticas e outros vultos que fizeram dela uma cidade
promissora. Para outros, essa era uma cidade arcaica, improdutiva,
obscura, sem história a ser contada.
A “época do coronéis”, de acordo com Linda Gondim , é 55

uma expressão criada nas campanhas eleitorais dos anos 1980 no


Ceará, numa tentativa de diferenciar os jovens empresários, represen-
tados por Tasso Jereissati, dos antigos dirigentes, que mesmo tendo
a patente de coronel ganhariam o adjetivo como forma de identificá-
los a figuras do atraso na política brasileira.
A “Cidade dos Coronéis” é uma expressão criada por nós, já
que Sobral se insere neste contexto. Os discursos dos jovens empre-

55 GONDIM, L. M. P. Clientelismo e modernidade nas políticas públicas: os “governos das mudanças” no


Ceará (1987-1994). Ijuí: UNIJUÍ, 1998. (Coleção Outros Diálogos).
Sobral e região em foco 95

sários entre as décadas de 1980 e 1990 no Ceará se fazem presentes


nesta cidade desde a eleição de Cid Gomes, nos anos 90. Nesse sen-
tido, Barretos e Prados seriam identificados como forças do atraso
pelo período em que dirigiram à cidade, pela sua relação com os “co-
ronéis” no governo do Estado e até mesmo por se aliarem à ditadura
militar entre as décadas de 1960 e 1980.
Barretos e Prados têm a mesma filiação política: a ARENA,
partido do regime militar, num momento em que apenas dois parti-
dos poderiam exercer suas atividades políticas. A ARENA represen-
tava o governo militar e o MDB representava a oposição. Em Sobral,
a ARENA subdividiu-se em dois blocos: ARENA I e II, chegando
a três em alguns momentos, e o MDB, embora tenha existido, não
representava propriamente uma oposição, já que tinha boas relações
com os arenistas.
Contraditoriamente, seria a aliança desses grupos políticos
às “forças do atraso” a responsável por alguns investimentos, espe-
cialmente em infra-estrutura, na cidade de Sobral. Afinal, Sobral era
arcaica ou moderna? rica ou pobre? frívola ou estática? Como com-
preender então a “Cidade dos Coronéis”? O objetivo deste artigo
é discutir as ambigüidades na história da cidade de Sobral entre as
décadas de 1960/70.
Para compreendermos essas práticas políticas e culturais que
fizeram o que estamos chamando de “Cidade dos Coronéis” é preci-
so investigar os diferentes elementos que compuseram o seu contex-
to histórico: os sujeitos, suas práticas e aspirações. Na investigação
de tais questões, trabalharemos com depoimentos de moradores e
lideranças políticas que vivenciaram o período, com a literatura local
96 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

que reproduz fatos diversos sobre a cidade e com o jornal Correio


da Semana, semanário católico de propriedade da Diocese de Sobral,
que circula ainda hoje na cidade e que traz importantes registros so-
bre obras urbanas, relações de poder, entre outras práticas urbanas.

O CONTEXTO POLÍTICO

Ao analisar a história política do Ceará, Josênio Parente


afirma que a região norte do estado se caracteriza pela falta de fideli-
dade partidária e pela independência política na relação com as esfe-
ras estadual e nacional, tornando-os menos coesos e mais fragmen-
tados . O período entre 1945 e 1964 caracteriza-se pela existência de
56

partidos nacionais; entre os mais fortes estão o Partido Social De-


mocrático (PSD), a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido
Trabalhista Brasileiro (PTB), todos com representação em Sobral.
José Sabóia de Albuquerque foi o líder da UDN em Sobral
até 1950, quando faleceu. Francisco Monte, sogro de Parsifal Barro-
so - governador do Ceará entre 1959-1962, foi aliado de Sabóia na
UDN, separando-se nos anos 50, quando vai militar no PTB, legen-
da que representa como Deputado Federal até 1961 . 57

D. José rompe com Chico Monte em 1958 para apoiar


Pe. Palhano , e Cesário Barreto será o grande articulador político e
58

financeiro da campanha do candidato da Igreja de Dom José pela


UDN. Mas segundo César Barreto, a vaidade, o jogo de intrigas e os

56 PARENTE, F. J. O Ceará dos “coronéis” (1945-1986). In.: SOUZA, S. (Org). Uma nova
história do Ceará. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2000. p. 383.
57 CAVALCANTE, Arnaud de Holanda. Sociedade sobralense: vultos em destaque. Sobral: Imprensa
Oficial do Município, 2004. p. 168
58 COSTA, p. 64
Sobral e região em foco 97

interesses políticos contrariados acabaram por provocar em pouco


tempo o rompimento político de Cesário com Palhano, que passa a
comandar violenta campanha contra o filho adotivo de D. José . 59

Nas eleições de 1962, Palhano faz oposição a Barreto,


apoiando a candidatura de Jerônimo Prado . Os dois fazem as pa- 6061

zes em 1969, mas brigam novamente em 1975 . Tais disputas ren- 62

deriam mais tarde a cassação de Palhano como deputado federal em


1964, comemorada com muita festa pelos cesaristas . 63

Segundo Penha Ribeiro, 1962 é o ano em que se inicia a


formação das facções Prado e Barreto na política local, tendo como
chefes políticos Jerônimo de Medeiros Prado, pela UDN, partido da
família Sabóia, e Cesário Barreto Lima, pelo PTB, partido da facção
Montista (Chico Monte), de quem Cesário se tornaria herdeiro . 64

Cesário Barreto Lima nasceu em Sobral. Foi empresário,


pracinha do exército, desportista, presidente da Associação Comer-
cial, sócio de Rotary Clube, e sobrinho do famoso jornalista Deolin-
do Barreto Lima, assassinado nas dependências da Câmara Municipal
de Sobral no ano de 1922 . Ingressou na política sobralense em 1962,
65

com a eleição municipal que o fez prefeito de Sobral entre 1963 e


1966 . 66

Jerônimo Prado é originário das cercanias de Jaibaras e São


59 LIMA, César Barreto. Estórias e História de Sobral. 2. ed. Sobral: Imprensa Oficial do
Município, 2004. p. 75. .
60 COSTA, p. 71
61 COSTA, L. da. Sobral cidade de cenas fortes. Rio de Janeiro - São Paulo - Fortaleza: ABC, 2003. p. 95
62 MELO, Abdelmoumen. Entrevista gravada em 2004.
63 RIBEIRO, Penha Magalhães. Da Santa Maioria à Taperuaba: um breve estudo da oligarquia Barreto
no distrito de Taperuaba (1962-1992). Sobral: UVA, 2001 (Mimeo). p. 24.
64 LIMA, op. cit. p. 174
65 CAVALCANTE, op. cit. p. 127
66 CAVALCANTE, p. 245
98 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Vicente, atual distrito de Sobral. Ligado originalmente ao setor da


agropecuária, também tornou-se empresário bem sucedido no muni-
cípio de Sobral. Foi prefeito do município entre 1967 e 1971 . 67

Com a instalação do bipartidarismo em 1966, as lideranças


políticas em Sobral se acomodaram às novas agremiações. A ARENA
teve posição majoritária e o MDB se organiza de forma muito inex-
pressiva. A aliança com o regime é tão expressiva que chega-se mesmo
a criar sublegendas para atender às divergências locais: ARENA I, sob
a liderança de Cesário Barreto; ARENA II, liderado por Jerônimo Pra-
do e ARENA III, que teve a frente José Euclides Ferreira Gomes . 68

No texto sobre partidos políticos no Brasil, Rogério Sch-


mitt cita a cientista política Mª Dalva Kinzo, que afirma:

O propósito estratégico do regime era montar


um sistema partidário organizado em termos
de apoio ou oposição ao governo, reunindo
em uma única legenda todos os congressistas
cujas tendências políticas fossem favoráveis
ao regime, e num modesto partido de oposi-
ção as forças políticas restantes . 69

Ele acrescenta ainda que o princípio era criar organizações


provisórias, daí nenhuma das novas legendas, oficializadas em 1966,
continha a palavra “partido” em sua denominação. O MDB conse-
67 Ver divergências sobre a representação desses partidos.
68 SCHMITT, R. Partidos políticos no Brasil (1945-2000). Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Coleção
Descobrindo o Brasil. p. 33
69 Ibidem, p. 34-36
Sobral e região em foco 99

guiu ter maioria no recrutamento de apenas três partidos: PTB, PSB


e MRT, já que foi muito prejudicado pelas cassações . O autor ca- 70

racteriza assim a ARENA como importante instrumento político do


regime que lhe garantiu significativas vitórias nos pleitos de 1966 e
1970, especialmente nas regiões Norte e Nordeste do país. Contudo,
o frágil MDB começava a ganhar forças, e o bipartidarismo será ex-
tinto em 1979. A fragmentação da oposição, por meio do pluriparti-
darismo, seria a próxima estratégia política que socorreria o regime
até as eleições de 1985 . 71

No trabalho sobre a memória política da ARENA, Lúcia


Grinberg mostra que a história do partido envolve uma disputa pela
memória tanto da UDN (União Democrática Nacional) quanto do
Partido Social Democrático (PSD). A ARENA é lembrada com a ima-
gem de subordinação e adesismo aos militares no executivo, um perfil
negativo, já que significa a participação após o sucesso do movimento
de 1964 e não a participação efetiva no processo . “[...] O MDB era re- 72

ferido como partido do ‘sim’ e a Arena como partido do ‘sim, senhor’”,


o que significa dizer que ambos “se dobravam à vontade do poder, mas
a Arena o fazia com mais servilismo e menos pudor” . 73

Segundo a autora, a historiografia sobre a ARENA questio-


na a compreensão da agremiação como partido: pela limitada influ-
ência no governo ou pela diversidade de origens partidárias de seus
membros. Contudo, ela defende que se a ARENA foi inventada pelo
70 Ibidem, p. 47
71 GRINBERG, Lúcia. Uma memória política sobre a Arena: dos “revolucionários de primeira
hora” ao “partido do sim, senhor”. In.: REIS, Daniel Aarão et al.(Orgs). O Golpe militar e a ditadura – 4
anos depois (1964-2004). São Paulo: EDUSC, 2004. p. 143.
72 MOTTA. Rodrigo de Patto Sá. Introdução à história dos partidos políticos brasileiros: Belo Horizon-
te: UFMG. p. 148.
73 Ibidem, p. 149
100 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

regime militar, seus membros não o foram, tendo em sua maioria


longa prática na política partidária . Grinberg conclui que a ARENA
74

foi um bode expiatório ao inverso do regime militar: fraca, risível e


sem poder nenhum. Contudo é preciso reconhecer que é representa-
tiva de boa parte da história dos partidos políticos no Brasil: UDN,
PSD e até PTB, e formou grande parte da geração seguinte de políti-
cos quando as alternativas se limitavam a ela e ao MDB . �

O REGIME MILITAR

Ao caracterizar o golpe que deu origem à ditadura militar


no Brasil, Carlos Fico lembra que foi um golpe civil-militar, ou seja,
a sociedade brasileira de algum modo participou da construção da
“revolução”. Como em várias outras regiões do país, a ditadura teve
a aceitação de parte da sociedade sobralense. O jornal católico Correio
da Semana manifesta esse apoio da Igreja e de outros setores da socie-
dade local ao regime:

Veio – mercê de Deus – a Revolução de 31


de Março, Revolução salvadora que enxotou
para longe os vendilhões da Pátria, que ex-
pulsou os nefandos comunas traidores, que
nos iam entregar de pés e mãos atados aos
seus comparsas russos e cubanos. Ora muito
bem! Todo mundo bateu palmas aos revo-
lucionários e deu graças aos céus pela nossa

74 Ibidem, p. 158.
Sobral e região em foco 101

libertação. Houve cânticos. Houve passeatas.


Discursos louvaminheiros, em penca, às For-
ças Armadas libertadoras. Correram rios de
tinta bendizendo a Revolução e exaltando os
seus obreiros, heróicos e dignos . 75

O ex-vereador jeromista Abdelmoumen Melo afirma que a


ditadura teve reflexo em Sobral por meio principalmente da família
Barreto, que tinha vários militares nesse período, como os irmãos
de Cesário Barreto: Gal. Flamarion Barreto, ex-professor da Escola
Superior de Guerra e do Estado Maior do Exército, e o Cel. Luciano
Barreto, genro de um ex-ministro de Estado durante o regime mili-
tar .
76

Um série de fatos dá sinais das boas relações entre Barretos


e o regime militar: a visita do presidente Castelo Branco duas vezes
a Sobral, recepcionado na casa do pai do prefeito; a concessão do
título de Cidadão Sobralense ao Presidente em 1966; a homenagem
a Argentina Castelo Branco, esposa falecida do Presidente, que deu
o nome a um conjunto habitacional, no bairro Sinhá Sabóia; a cassa-
ção do deputado federal Pe. Palhano Sabóia, no governo de Castelo
Branco, que também é atribuída ao prestígio dos Barretos com o
regime e o episódio de divisão da Câmara em 1968, que entra em
77

recesso depois de uma “violenta entrevista do ex-prefeito Cesário


Barreto Lima, no Jornal O Povo em Fortaleza” conseguindo ganho 78

75 RAMOS, Ribeiro. Homens, coisas e fatos. Correio da Semana. Sobral, sábado 12 de junho de 1965.
Ano 48, n° 9. p. 2
76 Abdelmoumen Melo – Ex-vereador da UDN em Sobral. Entrevista gravada em 2004.
77 Ibidem.
78 LIMA, p. 185
102 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

de causa ao seu grupo . 79

O ex-vereador acrescenta ainda que esse prestígio dos Bar-


retos com os militares traria sérias conseqüências à política local:

Se não fosse o Gal. Josias Ferreira Gomes, ir-


mão do Zé Ferreira, tio de Dr. José Euclides,
tio do Cid, que era general de muito prestígio,
aqui em Sobral não tinha dado certo não. A
perseguição aqui era muito grande, mas com
a influência do Gal. Josias também, que tinha
muito prestígio, amenizou um pouco. O seu
Jerônimo fez uma grande administração tam-
bém em parte ao trabalho do Gal. Josias que
era deputado eleito por Sr. Jerônimo e por
nós todos .
80

Isso significa que Jerônimo Prado também tinha represen-


tação junto aos militares, e que isto favoreceu sua administração. Du-
rante o período em que a Câmara entra em recesso, o prefeito ficou
administrando por meio de decretos, o que traria tranqüilidade e au-
tonomia a seu governo. Contudo sobre este episódio, especificamen-
te, há duas versões acerca do tempo de recesso das duas Câmaras:
para o cesarista César B. Lima o recesso durou 60 dias; para o jero-
mista Abdelmoumen Melo, o recesso teria sido de um ano.
De qualquer modo, além da filiação partidária, Francisco
79 LIMA, C. Barreto.
80 Ibidem.
Sobral e região em foco 103

Prado, sobrinho de J. Prado, cita a postura de apoio do tio à ditadura:

Foi exatamente no tempo que tio Jerônimo


esteve à frente da prefeitura que estourou
o regime militar. [...] eu tive oportunidade,
juntamente com meus colegas, naquela épo-
ca nós estudávamos aqui em 67, 66 por aí, e
houve o movimento de pessoas, de alunos,
que foram até a prefeitura municipal de So-
bral para fazer com que a prefeitura também
entrasse nessa problemática maior que estava
a acontecer, e ficar contra o regime militar
aquela época. Ele manso como sempre foi,
nunca reservou uma palavra nem de sim nem
de não. Apenas como cidadão, que estava
dentro do poder, reprimiu como todo país
estava reprimindo aquilo que acontecia. E foi
um susto pra nós, e pra ele, obviamente. [...]
Mas, ele apenas resguardou o direito das ins-
tituições públicas na cidade de Sobral [...] .
81

O depoimento acima, além de confirmar a aliança de Jerôni-


mo Prado ao regime militar, também revela a existência de resistência
de setores da sociedade local ao regime.
O depoente Francisco Sabóia afirma que os bares Antárc-

81 PRADO, Francisco. Entrevista gravada em 07/08/2006.


104 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

tica e o Crepúsculo era propriedade de um comunista, João Sales,


ligado a Luis Carlos Prestes e conhecido pelos militares, tendo sido
preso várias vezes. Sabóia foi militante estudantil na década de 1960
e descreve as ações dos estudantes, que apesar de muito jovens, dis-
cutiam e questionavam o regime de exceção. Segundo ele, o Colégio
Sobralense, uma escola católica, e o Colégio Estadual D. José Tupi-
nambá da Frota eram locais onde se organizavam os focos de resis-
tência estudantil à ditadura, sob a coordenação do Pe. Luizito. Uma
das famosas manifestações foi a tentativa de homenagear um dos
líderes da Revolução Cubana – Che Guevara, durante a solenidade
de colação de grau da turma de 1968 . Mas a homenagem teria sido
82

impedida pela polícia.


Ele acrescenta que além dessas ações, os estudantes atrapa-
lhavam a exibição de filmes; jogaram ovos no cantor Valdick Soriano,
num dos seus shows na cidade, pelo fato de não ter sido permitido o
pagamento de meia entrada para os estudantes; e podem até ter sido
os responsáveis pelo incêndio num dos cinemas da cidade na década
de 60.

OS “CORONÉIS”

O Estado do Ceará, entre as décadas de 1960 e 1970 esteve


sob a administração de três coronéis reformados do exército, fato
que daria a este período a denominação de “ciclo dos coronéis”. O
primeiro e mais representativo deles foi o Cel. Virgílio Távora. Se-
gundo Josênio Parente, a eleição de Virgílio em 1962 é resultado de
82 PRADO, Viviane Bezerra. Memória política de Sobral – A ditadura militar em foco. Sobral: UVA,
2005.
Sobral e região em foco 105

um grande pacto político chamado de União pelo Ceará, em que num


acordo costurado pelo governador Parsifal Barroso, os maiores parti-
dos do período, PSD e UDN, se unem para derrotar Carlos Jereissati,
um forte nome que disputava a liderança do PTB com o governador.
Ele acrescenta ainda que Virgílio eleito governador e Carlos Jereissati
senador se tornariam as duas grandes lideranças da transição para a
ideologia da modernidade no Ceará. 83

Parente defende a tese de que a ideologia da modernização,


identificada com a industrialização, foi facilmente assimilada pelas
elites políticas cearenses.

Távora plantou naquele primeiro momen-


to – 1962/66 - as bases desse processo que
culminará numa industrialização mais inten-
sa. A obra estrutural mais significativa nesse
primeiro governo foi ter trazido energia de
Paulo Afonso para o Estado. No seu retor-
no ao governo (1979-1982), ele toma um
conjunto de iniciativas que consolidarão o
processo de industrialização. Concretizada a
infraestrutura de transporte, habitação entre
outros, para a instalação do distrito industrial
do município Maracanaú, na grande Forta-
leza, houve o empenho pessoal para a pro-
vação de projetos privados pela Sudene, no
sentido de dar vida àquele empreendimento,
83 PARENTE, Op. Cit. p. 392-396.
106 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

até estimulando a instalação de empresas do


Sudeste, naqueles setores tradicionais e mais
identificados com a vocação industrial cea-
rense, como grupo Gerdau, Vicunha, Têxtil
Machado, Artex, entre outras . 84

Portanto, Virgílio seria o principal referencial dessa elite que


se apropriou da modernização como meio de sobrevivência no con-
texto político local, o que a diferenciaria de outras elites nordestinas,
conforme tese de Parente . Do mesmo modo, outros sociólogos e
85

economistas defendem que a infraestrutura para a modernização do


Ceará teria sido montada pelos chamados “coronéis”, que apesar de
carregar o estereótipo de figuras do atraso, não fazem jus ao nome . 86

O empreendedorismo de Távora é notificado pela imprensa


sobralense:

VIRGÍLIO TROUXE MILHÕES PARA O


CEARÁ

O Governador Virgílio Távora voltou da


SUDENE trazendo milhões para o Ceará,
cujos planos de aplicação serão: 1º - Cons-
trução da rodovia Iguatú-Acopiara. 2º -

84 Ibidem, p. 398
85 PARENTE, Josênio C. O Ceará e a modernidade. In.: A Era Jereissati. Fortaleza: Demócrito
Rocha, 2002. p. 125-143.
86 LEMENHE, M. A. Família, tradição e poder – o (caso) dos coronéis. São Paulo: Annablu-
me/Edições UFC, 1995. (Selo Universidade: 44) e TEIXEIRA, F. J. S. CIC: a “razão esclarecida” da
FIEC. Fortaleza: 1994. (mímeo).
Sobral e região em foco 107

Convênio de 40 milhões, para reequipamen-


to da Faculdade de Veterinária do Ceará. 3º
- 50 milhões para o abastecimento de água,
Maranguape, Iguatu, Mucambo, Alcântaras
e Ipueiras. 4º - 145 milhões para o desen-
volvimento da pesca no Ceará, 100 milhões
para o DNOCS, 45 milhões, para o Governo
do Estado . 87

O governador também foi responsável por uma série de


obras na região Norte e na cidade de Sobral durante a gestão de
Cesário Barreto (1963-1967), conforme notifica o Correio da Semana:
ALCÂNTARAS - Em companhia de secre-
tários de Estado, Presidente e Diretor da CE-
NORTE, o governador Vírgílio Távora inau-
gurou oficialmente [...], a rêde de de Energia
Elétrica desta cidade . 88

Há muitos meses o Governo do Estado fez


grandes serviços na pista de nosso aeropor-
to, no Bairro Betânia. [...] Sobral precisa de
um aeroporto à altura de seu comércio e de
sua indústria. 89

87 Correio da Semana. Sobral-Ce, 5 de junho de 1965 – ANO 48 – Nº.8. p. 1


88 Inaugurada a rede de energia elétrica de Alcântaras. In.: Correio da Semana . Sobral-Ce, 18
de abril de 1965, Ano 48, n° 01, p. 05.
89 Sobral por dentro. In.: Correio da Semana . Sobral-Ce, 18 de abril de 1965, Ano 48, n° 01, p. 06.
90 Sobral por dentro. Correio da Semana. Sobral-Ce, 18 de abril de 1965, Ano 48, n° 1, p.6.
108 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

AVENIDA- Foi inaugurada a nova Avenida


Eurípedes Ferreira Gomes que dá acesso ao
clube AABB. Toda asfaltada pelo Governo
do Estado, tem uma iluminação a mercúrio
feita pela Prefeitura Municipal. Referida ilu-
minação, ao que fomos informados, custou
cinco milhões e duzentos mil cruzeiros. (...) . 90

O governo seguinte é o de Plácido Castelo(1967-1971), que


embora não carregue a patente nem o prestígio dos “coronéis”, não
foge da indicação do regime militar. Segundo Parente, foi um gover-
no difícil devido à limitação de recursos, já que na época o Fundo de
Participação ainda não havia sido criado, o que provocaria o atraso
do funcionalismo durante toda sua gestão. Contudo,

[...] dentro do espírito do movimento políti-


co de 1964, ele fez obras grandiosas, como
a construção do Instituto Penal Paulo Sara-
sate (IPPS), a rodovia do Algodão, ligando
Fortaleza a Crato, a rodovia litorânea ligando
Fortaleza a Aracati, o estádio Plácido Caste-
lo, depois conhecido como Castelão, conclu-
ído no governo Virgílio Távora, o Palácio da
Abolição . 91

90 Sobral por dentro. Correio da Semana. Sobral-Ce, 18 de abril de 1965, Ano 48, n° 1, p.6.
91 PARENTE, Op. Cit, p. 401-402.
Sobral e região em foco 109

Em Sobral há várias notas no Correio da Semana dando


conta da presença do governador na cidade, que entre 1967 e 1971
estava sob a administração de Jerônimo Prado. Durante a sua gestão
foi construído o Estádio Plácido Aderaldo Castelo em Sobral . 92

A CIDADE

O governo de Cesário Barreto se deu num momento de


crise. O projeto econômico do novo regime ainda não rendera fru-
tos. Segundo Luís Prado, entre 1946 e 1960, o Brasil vivenciou um
período de crescimento econômico, com uma das maiores taxas de
crescimento do PIB do mundo. Contudo, a partir de 1963-1967 o
crescimento caiu pela metade. A solução para tais problemas foi
apontada a partir de duas teses: a estruturalista e a liberal. Com o
golpe civil-militar de 1964 a proposta liberal saiu vitoriosa . 93

Prado afirma que nos primeiros anos a inflação não foi con-
trolada, gerando impopularidade do governo. Em Sobral, notamos
essa manifestação:

A Revolução, faça-se justiça, está cumprin-


do o expurgo bolchevista atuante no País,
imprime moralidade no trato da coisa pú-
blica, mas esta fracassando em proporcionar

93 PRADO, Luiz Carlos Delorme; EARP, Fábio Sá. O “milagre” brasileiro: crescimento acele-
rado, integração internacional e concentração de renda (1967-1973). In.: FERREIRA, Jorge; DELGA-
DO, Lucília de A. (Org.). O Brasil Republicano. O tempo da ditadura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2003. p. 207.
93 Desilusões. Humberto R. de Andrade. Correio da Semana. Sobral, 15 de maio de 1965. Ano
48, n° 5. p. 2 e 5.
110 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

à família brasileira condições de existência


tolerável. E já estamos nos aproximando da
vigência revolucionaria [...]” . 94

Mas seria o prestígio de Barreto com Távora o responsável


pelo sucesso da sua administração, é o que revelam essas notas do
Correio da Semana:
SOBRAL POR DENTRO...

O Prefeito Cesário Barreto esta mobilizando


nada menos de 45 milhões de cruzeiros na
construção do Mercado Público que surge
como uma de suas maiores realizações . 95

VERBAS PARA SOBRAL

O Prefeito de Sobral o Sr. Cesário Barreto


na Capital do Estado manteve entendimen-
tos com o Governador do Estado Cel. Vir-
gílio Távora do qual conseguiu uma verba de
dez milhões de cruzeiros para a extensão do
serviço de águas ate as casas populares que
estão sendo construídas pela prefeitura . 96

Diferentemente de Cesário Barreto, Jerônimo Prado rece-

94 Correio da Semana. Sobral-Ce, 5 de junho de 1965 – Ano 48 – Nº.8 p.6


95 Correio da Semana Sobral-Ce, 12 de junho de 1965 – Ano 48 – Nº. 9. p.1
96 PRADO, Op. Cit. p. 207
Sobral e região em foco 111

beu a cidade num momento de estabilidade. Apesar de o governo de


Plácido Castelo não ter sido tão intenso como o de Távora, Prado
recebeu o governo municipal no momento em que se efetivava no
país o “milagre econômico” dos militares.
Segundo o historiador Luís Prado, as bases para o “milagre
econômico” estavam montadas. Uma combinação virtuosa entre a
política econômica e o substancial crescimento da economia mundial
garantia a sustentação do regime e a repressão aos movimentos opo-
sicionistas . É, portanto, num momento de crescimento econômico
97

e consolidação do regime militar que Jerônimo Medeiros Prado assu-


me a prefeitura de Sobral.
De acordo com o Correio da Semana, várias obras de infra-
estrutura foram realizadas durante o governo de Prado: Indústria de
laticínios – Lassa, de beneficiamento de castanha de caju – INCAS-
SA, de material de construção – COSMAC, de lenços, de cimento,
aeroporto, rodovia, hospital, entre outros . Apesar de sua limitada
98

formação escolar, Jerônimo Prado se destaca nas obras de educação


e de modernização do espaço urbano da cidade.
A criação da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA
é apontada como um incremento da estrutura urbana local. Em 1968
foi fundada a Fundação Universidade Estadual Vale do Acaraú –
UVA , que ele próprio considerava sua grande realização. Para o his-
99

toriador Pe. Sadoc de Araújo, que participou da criação da instituição,


a fundação da UVA para Sobral pode ser comparada à emancipação
97 Correio da Semana. Sobral-Ce, 13 de janeiro de 1968. p. 3
98 A UVA foi criada a partir da Lei Municipal n° 214, de 23/10/1968. As primeiras faculdades
autorizadas e reconhecidas pelo Conselho Federal da Educação. (SOARES, 2003, p. 20-22).
99 ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc de. Jerônimo Prado o herói da UVA. In.: SOARES, José
Teodoro (Org.). Jerônimo Prado e o Ensino Superior em Sobral. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2003. p. 16.
112 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

política do município. Ele afirma que com a UVA a cidade alcançou


a sua maturidade cultural.

No tempo, o Ministério da Educação exigia


que não se criasse qualquer estabelecimento,
sem que houvesse uma sólida entidade man-
tenedora que lhe garantisse o sustento, com
recursos econômicos próprios e suficientes.
Em Sobral não havia senão duas entidades
capazes de assumir tão pesado encargo: a
diocese ou a prefeitura. A primeira recusou
[...]. Não havia, portanto, outra alternativa
senão convencer o então prefeito Jerônimo
Prado de aceitar tornar a prefeitura a entida-
de mantenedora da nova Universidade . 100

O livro intitulado: Jerônimo Prado e o Ensino Superior em Sobral,


produzido por ocasião de sua morte, lhe são feitas homenagens, es-
pecialmente por sua atuação na educação: “Honras sejam prestadas
ao Prefeito Jerônimo Prado pela sua visão antecipadora de oferecer
ensino médio municipal e superior no Estado do Ceará de então, em
período ainda nem sonhado pelos prefeitos do Ceará de então (...)” . 101

A interiorização do ensino superior no Ceará foi um proces-


so tardio. Segundo Angélica Ramos, a lei 5.540 de 1960 serviu para

100 SOARES, J. T. Jerônimo Prado e Ensino Superior em Sobral. Sobral: Edições UVA, 2003. p. 24.
101 Apud. FERREIRA NETO, Cicinato. Estudos de História Jaguaribana. Fortaleza: Premius, 2003.
p. 554-555.
Sobral e região em foco 113

remover os entraves burocráticos à criação de instituições de ensino


superior no país. Para ela, o governo militar achava mais segura a
abertura de faculdades nas pequenas cidades interioranas, onde po-
deriam ficar submetidas facilmente ao controle social das oligarquias
locais, forças leais às determinações do Governo, constituindo o que
ela chamou de autoritarismo desmobilizador. A criação da Faculdade de
Filosofia Dom Aureliano Matos, no final dos anos 60, no Vale do
Jaguaribe, é resultado desse projeto. Desse modo, a interiorização
do ensino superior, ao mesmo tempo em que contribuiu como in-
cremento cultural nas pequenas cidades, desmobilizava os focos de
resistência ao regime da época . A fundação da UVA, nesse sentido
102

deve-se à aliança de Jerônimo Prado com o regime militar.


Outro importante empreendimento que marcaria a adminis-
tração de Jerônimo Prado foi a elaboração do primeiro Plano Diretor
de Sobral, em 1967. Há duas versões sobre a iniciativa do plano. Para
o arquiteto Herbert Rocha, tal plano é uma iniciativa do governo do
Estado, que deu ao prefeito Prado a oportunidade de nortear sua
administração levando em conta diretrizes básicas para cada setor da
cidade. Ele afirma ainda que, “sem contar com o acompanhamento
e as atualizações necessárias, caiu no abandono, tão logo assumiu o
prefeito seguinte” . 103

Já o Advogado Francisco Prado, sobrinho de Jerônimo Pra-


do, afirma que o Plano Diretor de 1967 foi uma iniciativa municipal
originada das “cabeças pensantes” da cidade:

102 ROCHA, p. 220


103 PRADO, F. Entrevista gravada em 07/08/2006.
114 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

A iniciativa veio também desse mesmo gru-


po que criou a Universidade Vale do Acaraú.
Naquela época Sobral sobrevivia dos pensa-
mentos, por que não dizer das entidades fi-
lantrópicas. A entidade maior aquela época
se não fora o Lyons, rebatia nesse outro sus-
tentáculo que foi o Rotary. E a idéia nasceu
dentro do Rotary Club, alimentada por todos
esses grandes sobralenses com várias reuni-
ões e o plano diretor também foi criado na
cabeça desse grupo, com o aval do governo
do Estado, que inclusive mandava de vez em
quando pessoas representativas para aqui de-
senvolver o plano para a cidade crescer . 104

O próprio Jerônimo Prado caracteriza-o como “um facho


de luz que iluminaria o futuro de Sobral, melhor abalizado pela ci-
ência e pela técnica”, e que o papel da sua administração na concre-
tização do plano era uma contribuição a um esforço regional para
recuperação mesmo do Nordeste . 105

A relação entre Barretos e Prados e suas administrações são


recheadas de contradições ou mesmo de ambigüidades. As divergên-
cias e convergências entre eles são enumeradas por depoentes ligados
tanto aos Barretos quanto aos Prados.

104 SOBRAL. Plano Diretor de Sobral. Administração Jerônimo Prado – 1967-70. p.1
105 SABÓIA. F. das C. Ex-militante do movimento estudantil. Entrevista gravada em 3 de
novembro de 2006.
Sobral e região em foco 115

Para o pradista Francisco Sabóia , a cidade não cresceu nes-


106

te período porque um prefeito destruía tudo que o outro fazia, dadas


as divergências entre eles. Abdelmoumen Melo reforça que Prados
e Barretos não se juntavam nem em festa religiosa, mas salienta que
eles foram os melhores prefeitos de Sobral de todos os tempos. Mes-
mo sendo jeromista, reconhece que Cesário também fez grandes rea-
lizações na cidade . O cesarista César Barreto enumera uma série de
107

episódios em que Barretos e Prados se insultam mutuamente , tanto 108

que a coligação na eleição de 1986 traria muitos transtornos entre os


seus correligionários
Mas o pradista Francisco Prado ameniza: “Era desrespei-
tosa no tempo da política. Mas fora da política, dentro do grau de
familiaridade, nada existia”. Do mesmo modo o Correio da Semana
não dá conta de nenhum conflito; o desenvolvimento da cidade é
apresentado como contínuo ao longo do período em que esses gru-
pos se revezaram na administração municipal.

CONCLUSÃO

A partir das questões acima exploradas, algumas conclusões


parciais podem ser tiradas sobre a “Cidade dos Coronéis”. Notamos
que por caminhos diferentes os administradores Barretos e Prados
apoiaram a instalação do regime militar em Sobral e se aliaram ao
projeto dos “Coronéis” no Ceará, o que lhes trouxe alguns ganhos
materiais para a cidade, que de algum modo tornava frívola a vida
106 MELO, A. op. cit.
107 LIMA, C. B. op. cit.
108 MUNFORD, L. A Cidade na História: suas origens, transformações e perspectivas. São
Paulo: Martins Fontes, 1998. 4. ed. p. 620-621.
116 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

urbana local. Constatamos ainda que, se houve divergências entre


tais grupos, houve também muitas convergências; Barretos e Prados
tiveram muito em comum.
E finalmente, concluímos que a “Cidade dos Coronéis”
caracterizou-se por uma intensa vida política e por um promissor
processo de modernização que manteria a tradição de Sobral como
“cidade de cenas fortes”.
Na sua defesa incondicional da cidade, o urbanista Lewis
Munford proclama:

[...] A missão final da cidade é incentivar a


participação consciente do homem no pro-
cesso cósmico e no processo histórico. De-
vemos restituir à cidade as funções maternais,
nutridoras da vida, as atividades autônomas,
as associações simbióticas que por muito
tempo têm estado omitidas ou esquecidas.
Com efeito, deve a cidade ser um órgão de
amor; e a melhor economia das cidades é o
cuidado e a cultura dos homens�

REFERÊNCIAS

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Sobral e região em foco 119

Uma Introdução ao Estudo das Redes de Comércio e de


Serviço entre a Cidade Média de Sobral e algumas Cidades
Pequenas da Região Norte do Ceará 109

Lenilton Francisco de Assis�

INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o Brasil vem registrando um cresci-
mento expressivo das cidades médias, as quais passaram a abrigar em
seus territórios maior conteúdo de ciência, de tecnologia e de infor-
mação. Por conseguinte, essas cidades vêm revelando novas dinâmi-
cas territoriais, em virtude da atração de indústrias e de imigrantes
(que outrora se dirigiam diretamente às metrópoles), da expansão das
atividades de comércio e, sobretudo, da oferta de melhores serviços.
O crescimento das atividades terciárias tem possibilitado às
cidades médias redefinirem sua organização espacial, suas funções
regionais, assim como expandirem suas relações com o mundo. Por
isso, buscamos neste artigo analisar, a título de introdução, as redes
de comércio e de serviço entre a cidade média de Sobral e as cidades
pequenas de Cariré, Groaíras, Varjota e Graça, todas localizadas na
porção noroeste do Ceará (Mapa 1).
109 Professor Ms. do curso de Geografia da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA - So-
bral/CE). E-mail: lenilton@yahoo.com
120 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Mapa 1: Estado do Ceará – localização da área de estudo

O estudo também visa identificar que atividades as cidades


pequenas mais demandam de Sobral e como se configura, atualmen-
te, a “polarização” que esta cidade média estabelece sobre o desen-
volvimento socioespacial dos municípios adjacentes.
Na primeira parte deste ensaio, apresentamos alguns apon-
tamentos teóricos que balizam as discussões. Em seguida, analisa-
mos, a partir de fontes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatís-
tica (IBGE) e do Instituto de Pesquisa e de Estratégia Econômica do
Ceará (IPECE), a “terciarização” e a “polarização” de Sobral e suas
influências nas quatro cidades pequenas selecionadas.
Sobral e região em foco 121

A “TERCIARIZAÇÃO” E SEUS REFLEXOS


NA REDE URBANA REGIONAL
O comércio e os serviços são, por excelência, atividades so-
cioeconômicas que contribuem para a produção do espaço urbano.
No que concerne ao comércio, Pintaudi (2002, p. 145) ressalta que
“analisar as formas comerciais, que são formas espaciais históricas,
permite-nos a verificação das diferenças presentes no conjunto urba-
no e o entendimento das distinções que se delineiam entre espaços
sociais”.

A troca de mercadorias (escambo) e a prestação de serviços


(administrativos, militares, etc.) foram, em períodos remotos, alguns
dos fatores responsáveis pela fixação das pessoas e, conseqüente-
mente, pela formação das primeiras cidades. A respeito dos serviços,
Castilho (1998, p. 35) reforça que “[...] sempre estiveram vinculados
à formação histórica e ao dinamismo dos espaços urbanos desde os
primórdios da sua formação [...]”.

Na atualidade, o comércio e os serviços se aprimoraram e se


diversificaram, formando, um dos setores mais dinâmicos e comple-
xos da economia – o terciário. Para Lipietz (apud PEDROSO, 2005,
p. 11471), o setor terciário corresponde à

[...] esfera da produção de bens imateriais


(serviços específicos) e da realização (distri-
buição, circulação e venda) de bens materiais
dos outros setores. De forma geral, este setor
122 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

contém, na prática duas grandes categorias


que equivalem às duas faces da esfera citada.
São elas a Prestação de Serviços em estabe-
lecimentos administrativos, sociais, financei-
ros, etc., e o Comércio em geral (incluindo
toda a circulação das mercadorias).

O setor terciário vem sendo impulsionado pela revolução


técnico-científica, desbancando os setores primário e secundário.
Esta terciarização se deve, dentre outros, aos seguintes fatores: a
“modernização” da agricultura e da indústria, que tem intensificado a
dispensa de mão-de-obra e o surgimento de novos serviços técnicos;
a expansão da urbanização e de novos hábitos culturais como o turis-
mo, o culto ao corpo e os cuidados com a saúde; e o crescimento de
novas “formas comerciais” como o shopping centers, os hipermercados,
os fast foods etc., que se proliferam nas médias e grandes cidades. Go-
mes (2002, p. 138) também acrescenta que “existe uma hiperindus-
trialização de serviços, aguçada pela crise econômica e pela retração
no mundo do emprego. “[...] A crise leva à proliferação do circuito
inferior da economia, se estendendo para a informalidade ilícita [...]”.

Não obstante o setor terciário vir registrando esta ascensão,


ainda existe uma carência de estudos científicos sobre as suas ativi-
dades. Os setores primário e secundário sempre despertaram maior
atenção da comunidade acadêmica, o que, obviamente, não foi dife-
rente na Geografia.
Sobral e região em foco 123

Com efeito, a geografia humana passou pro-


gressivamente dos fatos de hábitat para os
fatos de relações entre economia agrícola e
espaço e em seguida se preocupou com a geo-
grafia industrial. Somente pelo viés da geogra-
fia urbana é que tardiamente se falou de uma
geografia das atividades terciárias como fun-
ção das cidades. (ROCHEFORT, 1998, p. 39).

Diversos estudos geográficos sobre o terciário foram ela-


borados nas décadas de 1960 e 1970, baseando-se, especialmente, na
Teoria das Localidades Centrais, formulada pelo geógrafo alemão Walter
Christaller, em 1933. Na sua perspectiva locacional e organizacional
do espaço, Christaller atraiu a curiosidade dos geógrafos para o
estudo do terciário, ao demonstrar que o centro ou localidade central
de um espaço é o núcleo de distribuição dos fluxos de pessoas, mer-
cadorias e serviços para as áreas periféricas.

Apesar das diversas críticas e da extensa bibliografia produ-


zida com o emprego desta teoria, adverte Corrêa (2001, p.16) que,
“[...] muito pouco foi adicionado ao conhecimento da organização
espacial dos lugares de distribuição varejista e de serviços”.

Outra contribuição de peso para o estudo geográfico do


terciário foi dada por Santos (1979), ao formular a teoria dos dois
circuitos (superior e inferior) da economia urbana dos países sub-
desenvolvidos. A modernização tecnológica, que posteriormente
124 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

será chamada pelo autor de “meio técnico-científico-informacional”


(SANTOS, 1998b), vai contribuir para a criação de dois circuitos de
produção, distribuição e consumo de mercadorias nas cidades dos
países pobres.

Simplificando, pode-se apresentar o circui-


to superior como constituído pelos bancos,
comércio e indústria de exportação, indústria
urbana moderna, serviços modernos, ataca-
distas e transportadores. O circuito inferior
é constituído essencialmente por formas de
fabricação não “capital intensivo”, pelos ser-
viços não modernos fornecidos “a varejo” e
pelo comércio não moderno e de pequena
dimensão (SANTOS, 1979, p.31).

Embora estes dois circuitos apresentem, teoricamente, cla-


ras diferenças quanto à sua expressão espacial, na realidade urbana
eles se entrelaçam e se complementam, pois as cidades dos países
pobres sempre refletem as contradições sociais existentes e condicio-
nam a perpetuação e a coexistência do moderno e do não moderno.

Estas contribuições teóricas, somadas às constatações da


expressão que o terciário vem assumindo na atualidade, “obrigam” a
Geografia a não mais negligenciar a importância deste setor na pro-
dução dos “sistemas de objetos e dos sistemas de ações” (SANTOS,
Sobral e região em foco 125

1997) que formam a organização espacial das cidades. As relações


intra e interurbana vêm se modificando em virtude da modernização
dos meios de transporte e comunicação, alterando também a hierar-
quia e as estruturas das redes urbanas.

Segundo Corrêa (2001, p. 93), a rede urbana é um “[...] con-


junto de centros urbanos funcionalmente articulados entre si. É,
portanto, um tipo particular de rede na qual os vértices ou nós são
diferentes núcleos de povoamento dotados de funções urbanas, e os
caminhos ou ligações são os diversos fluxos entre esses centros”.

O papel e o grau de atração (polarização) que as cidades


assumem no contexto da rede urbana estão também diretamente vin-
culados às diversidades e especializações do comércio e dos serviços
que elas ofertam às populações de suas hinterlândias, ou seja, aos
usuários que diariamente se deslocam dos centros menores para os
maiores para complementar as carências destas atividades econômi-
cas nos locais onde residem.

A rede urbana regional que Sobral configura com os muni-


cípios circunvizinhos apresenta uma estrutura dendrítica, sobretudo
considerando-se as relações de comércio e de serviços entre as ci-
dades pequenas e a cidade primaz (Sobral). Corrêa (2001, p. 44) nos
explica que numa rede dendrítica de centros

A cidade primaz concentra maior parte do


comércio atacadista exportador e importa-
dor, através do qual toda a região vê viabi-
126 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

lizada a sua participação na divisão interna-


cional do trabalho. Concentra, assim, a maior
parte da renda, bem como a elite regional de
raízes predominantemente fundiária e mer-
cantil. Principal mercado de trabalho urbano,
transforma-se no mais importante foco das
correntes migratórias de destino urbano.

As diferenças dos padrões das redes urbanas se devem a


três distintas estruturas que se inter-relacionam, as quais sintetizamos
abaixo também a partir das observações de Corrêa (2004, p. 67-71):

1. Estrutura dimensional: diz respeito ao tamanho dos centros


de uma dada rede, revelando o grau de concentração ou
dispersão de população e atividades nos seus centros ur-
banos.
2. Estrutura funcional: corresponde às atividades que diferen-
ciam os centros de uma dada rede ou entre redes, reve-
lando as desigualdades socioespaciais.
3. Estrutura Espacial: refere-se ao modo como os centros
urbanos e os fluxos estão dispostos sobre um dado seg-
mento da superfície terrestre. Por meio dela, as estrutu-
ras dimensional e funcional da rede urbana são compre-
endidas.

A interação destas diferentes estruturas resultou, por exem-


plo, na clássica configuração da rede urbana brasileira que divide e
Sobral e região em foco 127

hierarquiza as cidades de acordo com o número de habitantes e a


concentração de atividades industriais. Esta classificação em metró-
poles nacionais, metrópoles regionais, metrópoles regionais incom-
pletas, centros regionais e cidades pequenas vem sendo questiona-
da (SANTOS, 1979; 1997b; CORRÊA, 2001; 2004) desde os anos
de 1970, devido à fluidez com que o capital vem se difundindo no
território nacional, aproveitando todas as possibilidades que o meio
técnico-científico-informacional lhe propicia para extração da mais-
valia nos mais recônditos lugares do país.

A ampliação e a melhoria, sobretudo da malha rodoviária e


dos meios de comunicação, têm reduzido as distâncias para o capi-
tal, possibilitando a desconcentração das atividades econômicas das
metrópoles (especialmente da indústria), a redefinição dos fluxos mi-
gratórios, a expansão das atividades terciárias e, conseqüentemente, a
própria reorganização da rede urbana brasileira.

Spósito (1999, p. 93) chama atenção para o fato de que


“atualmente, há possibilidades múltiplas de relações entre cidades
de diferentes padrões, sem que necessariamente elas se estabeleçam
hierarquicamente”. Neste contexto, podemos dizer que embora as
pequenas cidades ainda recorram, geralmente, às cidades intermedi-
árias mais próximas em busca de certos serviços ou comércio, elas já
se articulam, também, diretamente e instantaneamente, com as me-
trópoles e com o mundo. Por isso, na “nova urbanização brasileira”
(SANTOS, 1998a) que vem se desenhando, as cidades pequenas e as
cidades médias têm seus papéis redefinidos.

Conforme Santos (1998b, p. 152) “[...] as cidades de porte


128 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

médio passam a acolher maiores contingentes de classes médias, um


número crescente de letrados, indispensáveis a uma produção ma-
terial, industrial e agrícola, que se industrializa”. As cidades peque-
nas, por conseguinte, também mudam de conteúdo, deixando de ser
as cidades dos notáveis para ser as “cidades locais ou econômicas”
(SANTOS, 1998b, p. 148).

Porém, é válido ressaltar que esta modernização propiciada


pela inserção das cidades médias e pequenas na globalização é desi-
gual e seletiva, não sendo um processo homogêneo para todo terri-
tório brasileiro. Há diferenças consideráveis entre as cidades médias
e pequenas da região Sudeste e as da região Nordeste, por exemplo.
As diferenças são resultantes das dinâmicas distintas que geraram pa-
drões demográficos, produtivos e de rendas diferenciados.

Reportando-nos ao estudo de Engel e Soares (2004) sobre


a dinâmica das pequenas cidades da rede urbana do cerrado mineiro
(polarizadas por Uberlândia), podemos fazer uma analogia com as
pequenas cidades da Região Norte do Ceará (polarizadas por Sobral)
e arriscar dizer que estas últimas não estão passando pelo mesmo
processo de modernização agrícola que as transformariam nas “cida-
des locais”, designadas por Santos (1998b).

Entre as cidades médias metropolitanas e não metropoli-


tanas há também dinâmicas espaciais heterogêneas (ANDRADE;
SERRA, 1997). Isto reforça a necessidade de análises específicas so-
bre as realidades destes espaços urbanos.

Estas transformações pelas quais as cidades médias e pe-


Sobral e região em foco 129

quenas vêm passando têm suscitado a elaboração de diversos estudos


geográficos. Depois de muitos anos sendo preteridas em relação às
metrópoles, vem crescendo no seio da Geografia Urbana a preocu-
pação em entender a dinâmica do território brasileiro a partir da rea-
lidade das cidades médias e pequenas. A própria definição do que é
uma cidade média e uma cidade pequena já é uma questão polêmica
que provoca diversas discussões (DEUS, 2004; VEIGA, 2004; MAIA
2005).

Destarte, sem adentrarmos nas polêmicas, consideraremos


cidades médias como aquelas que têm, segundo o IBGE, entre 100 e
500 mil habitantes; já para as cidades pequenas, adotaremos a classi-
ficação de Wanderley (2001), que se adequa aos pequenos municípios
aqui selecionados, ou seja, às unidades com população urbana de até
20 mil habitantes. Estas definições, inicialmente, nos possibilitarão
desenvolver a pesquisa e aprofundar, no futuro, outras classificações
que não se restringem ao quantitativo populacional.

Compartilhamos da visão de Amora (1999, p. 30) de que


“a definição de cidade envolve uma série de atributos que por cer-
to inclui o demográfico, o predomínio do construído sobre o não
construído, mas, sobretudo, as inter-relações que se dão em todos os
níveis: econômico, social, político etc., remetendo ainda à definição
de urbano”.

Faz-se importante destacar que compreendemos Sobral


como uma cidade média, uma “capital regional”, em virtude do seu
contingente populacional, mas também do seu grau de polarização,
do seu comércio, dos seus serviços, ou seja, do papel que sua estrutu-
130 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ra urbana exerce nos demais municípios integrantes da Região Norte


do Ceará.

A pesquisa aqui proposta tem como balizamento teórico a


reflexão abaixo, de Milton Santos, sobre a “nova urbanização”:

Hoje, assistimos à especialização funcional das


áreas e lugares, o que leva à intensificação do
movimento e à possibilidade crescente de tro-
cas. Por isso, crescem não só as grandes cida-
des, mas também as cidades médias. Quanto
maior a inserção da ciência e tecnologia, mais
um lugar se especializa, mais aumenta o nú-
mero, intensidade e qualidade dos fluxos que
chegam e saem de uma área. Esse processo
pode conduzir à estagnação ou mesmo ao
desaparecimento das cidades pequenas. A
diminuição relativa dos preços dos transportes,
sua qualidade, diversidade e quantidade, cria
uma tendência ao aumento do movimento [...]
(SANTOS, 1998b, p. 51. Grifo nosso).


Nesta perspectiva, analisaremos em seguida como a “mo-
dernização” e a expansão do setor terciário em Sobral tem redefinido
suas funções regionais e influenciado na dinâmica urbana de alguns
pequenos municípios da sua hinterlândia.
Sobral e região em foco 131

AS INFLUÊNCIAS DA POLARIZAÇÃO E DA
TERCIARIZAÇÃO DE SOBRAL EM ALGUMAS
CIDADES PEQUENAS DA SUA HINTERLÂNDIA

A cidade de Sobral está localizada na porção noroeste do


estado do Ceará, a 230 km da capital Fortaleza (Mapa 1). Considera-
da uma cidade de porte médio, Sobral é marcada pelo clima quente
e seco (semi-árido). A cidade tem um destaque no contexto da rede
urbana cearense desde o início do século XVIII, quando passara a
ser um importante núcleo pecuário-algodoeiro do Sertão Norte do
Estado. A charque, o couro, o algodão, os óleos vegetais, a cera e o
chapéu de palha de carnaúba (CARACRISTI, 1999) foram os princi-
pais produtos que, ao longo do tempo, inseriram a cidade nas redes
do comércio mundial, destacando-a dos municípios adjacentes e do
interior de todo o Ceará.
Desde meados do século passado, o crescimento urbano de
Sobral adquire expressão no sistema de cidades que formam a rede
urbana cearense. Em 1950, a taxa de urbanização da cidade (37,75%)
já superava a do Estado (25,5%), o que persistiu nos recenseamentos
subseqüentes, chegando Sobral a apresentar no Censo 2000 (IBGE),
86,62% da população residindo nas sedes do município e dos distri-
tos, enquanto no Ceará este valor cai para 71,53%.
Nas últimas décadas, Sobral tem registrado um crescimento
e um dinamismo econômico que se devem, mormente à captação de
investimentos externos para as suas indústrias, à modernização e à
diversificação dos seus serviços que juntamente com a sua histórica
132 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

função de centro comercial, tornaram-na um polo regional que in-


fluencia cerca de 50 municípios da Zona Norte do Estado.
Em 2000, o Índice de Desenvolvimento Humano de Sobral
foi de 0,698, obtendo assim a 7ª colocação no ranking do Estado. O
PIB per capita do município, em 2002, foi de 5.474 reais, bem acima da
média cearense que foi de 3.182 reais (CEARÁ, 2004).
Embora o setor industrial seja o que mais contribui na com-
posição do Produto Interno Bruto (PIB) de Sobral (64,93%, em
2000), verifica-se também a ascensão do setor de serviços que, em
1993, representava 20% do PIB municipal, saltando para 33,77%, em
2000. Neste mesmo ano, a agropecuária confirmou a pouca repre-
sentatividade que tem na economia do município, com apenas 1,3%
da produção (SEBRAE/CE, 1999; CEARÁ, 2004).
A expressão do setor industrial na cidade se deve à instalação
de algumas indústrias de transformação (como a Fábrica de Cimento
Portland - 1964; a Moageira Serra Grande - 1964; e a Grendene - 1993),
que contribuem para a arrecadação de tributos e para a ocupação (com
baixos salários) de grande parte da população (Tabela 1).

TABELA 1 - População ocupada por subsetor de atividades – Sobral,


Outubro de 2002
Subsetor % Estimativa
Indústrias de transformação 30,59 12.834
Construção Civil 6,24 2.618
Comércio 19,52 8.189
Serviços 37,42 15.700
Outros 6,23 2.613
Total 100,00 41.954
Fonte: Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Sobral / Pesquisa Direta - IDT
Sobral e região em foco 133

O fato de a indústria assumir o papel de atividade motriz da eco-


nomia de Sobral também se deve aos subsídios fiscais oriundos das po-
líticas de desenvolvimento regional implementadas pela Sudene através
do “Programa Universitário de Desenvolvimento Industrial do Nordes-
te” (Pudine), criado em 1966, e especialmente do “Programa Nacional
de Apoio às Capitais e Cidades de Porte Médio” (PNCCPM), desenvol-
vido entre os anos de 1974/1978 (HOLANDA, 2000, p. 45-67).
Este último programa foi baseado na “Teoria dos Polos de
Desenvolvimento”, do economista François Perroux, a qual foi am-
plamente aplicada no Brasil a partir dos anos 1960. Andrade (1965,
p. 64) resume esta teoria afirmando que:

[...] Para Perroux o polo é o centro econô-


mico dinâmico de uma região, de um país
ou de um continente, e que o seu crescimen-
to se faz sentir sobre a região que o cerca
de vez que ele cria fluxos da região para o
centro e refluxos do centro para a região.
O desenvolvimento regional estará, assim,
sempre ligado ao do seu polo.

Então, as cidades médias foram incentivadas, através do


PNCCPM, a se transformar em polos de desenvolvimento, abrigan-
do as indústrias que se desconcentravam das metrópoles. Na teoria,
imaginava-se que o desenvolvimento local gerado com a industriali-
zação das cidades intermediárias se irradiaria para as pequenas cida-
des sob a sua influência.
134 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Desse modo, com esta política, o Estado esperava rever-


ter a polarização das metrópoles, sobretudo de São Paulo e Rio de
Janeiro, e frear os fluxos migratórios que já provocavam as “dese-
conomias de aglomeração” nestes grandes centros urbanos do país.
Em Sobral, a pré-existência e a importância histórica das
atividades terciárias, assim como a sua localização e o acesso a di-
versos municípios, possibilitaram que ela fosse “eleita” para abrigar
um pólo industrial e, conseqüentemente, para se tornar uma “capi-
tal regional”.
Porém, o crescimento que a cidade tem apresentado
também é usado pelas elites e lideranças locais para construir no
imaginário coletivo a idéia da “modernização política” vivenciada
nas duas últimas gestões do prefeito Cid Ferreira Gomes (1997-
2000/2000-2004). Esta idéia é, inicialmente, ressaltada pela revista
Veja (11/03/1998), que classifica Sobral entre as dez melhores cida-
des do interior brasileiro (FREITAS, 2000, p. 33). Posteriormente,
a revista Exame (03/12/2000) também a coloca entre as trinta me-
lhores cidades médias de todo o país (MARIA JÚNIOR, 2004, p.
81), reforçando assim as ações das “lideranças políticas locais” que
assumem as estratégias de expansão e de marketing urbano – outrora
coordenadas pela Igreja Católica de Sobral, especialmente pelo seu
primeiro bispo, Dom José Tupinambá da Frota (1882-1959).
Os impactos deste crescimento de Sobral também são sen-
tidos pelas pequenas cidades da sua hinterlândia, as quais passam
a buscar, cada vez mais, empregos, comércio e serviços na capital
regional.
O crescimento industrial registrado nas últimas décadas
Sobral e região em foco 135

tem influenciado na expansão do comércio varejista de Sobral, no


crescimento dos serviços bancários, de educação (destacando-se o
papel da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA), das clíni-
cas médicas especializadas, dos transportes, entre outros serviços
públicos de “interesse social” e privados de “interesse econômico”.
Coexistem em Sobral um comércio “primitivo” do merca-
do público, das mercearias, dos ambulantes etc., com um comércio
“moderno” dos supermercados, das lojas de eletrodomésticos, de
informática, entre outras. Assiste-se, nos últimos anos, à descentra-
lização do comércio da sua área central, especialmente com a ins-
talação dos supermercados Pinheiros e Super Lagoa, os quais têm
“puxado” também a desconcentração de alguns serviços, como os
bancos, correios, cinema..., para outros bairros da cidade.
A criação de uma linha de ônibus circular e a proliferação
de “topics” e mototaxis têm melhorado a articulação - que ainda é
bastante deficiente - entre os diversos bairros de Sobral, contribuin-
do também para que o desenvolvimento do comércio seja um dos
vetores da expansão territorial da própria cidade.
Em relação aos serviços, a educação e a saúde se configu-
ram como os principais atrativos que intensificam as redes de rela-
ções entre Sobral e as cidades pequenas da sua hinterlândia.
Os pequenos municípios de Cariré, Graça, Groaíras e Var-
jota estão localizados na área de influência direta de Sobral, distan-
do desta capital regional cerca de 42, 72, 24 e 73km, respectivamen-
te (Mapa 1). Cariré e Groaíras fazem fronteira ao sul com a cidade
média. Estas duas cidades locais, juntamente com Graça - situada a
Sudoeste da cidade primaz , integram a Microrregião de Sobral, de-
136 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

limitada pelo IBGE. Varjota, localizada ao sul de Sobral, faz parte


de outra microrregião de planejamento, a de Ipu.
A rede viária que interliga Sobral a estas cidades pequenas
tem como eixo central a BR-222, que corta a cidade primaz e se
complementa com as seguintes vias estaduais: a CE-183 para dar
acesso a Cariré e Varjota; a CE-178, para Groaíras; e com as CE-
321/253/321 para Graça (Mapa 1).
Este sistema viário constitui o principal meio de ligação e
de circulação diária de diversos fluxos entre os centros urbanos que
compõem a rede urbana regional. A “modernização” dos meios de
transporte coletivo tem sido um dos principais fatores responsáveis
pela maior articulação interurbana entre Sobral e sua hinterlândia.
O surgimento das transportadoras particulares de ônibus
e, especialmente, das “topics” (também conhecidas como vãs, peru-
as e bestas) vêm substituindo os velhos “paus-de arara” e os antigos
ônibus intermunicipais, que na maior parte das cidades pequenas
limitavam os fluxos da população de baixa renda a se deslocarem
aos centros maiores apenas uma ou duas vezes ao dia – no início da
manhã e/ou final da tarde. Transportadoras como a Guanabara, a
Horizonte, a Linhares, a Uruburetama, entre outras, têm se difundi-
do e aumentado sua área de abrangência na Região Norte do Ceará,
disputando a população de baixo poder aquisitivo com as “topics”
que vêm se multiplicando rapidamente como transporte alternati-
vo e como opção informal de refúgio do “desemprego estrutural”.
Ademais, o asfaltamento das rodovias interioranas também acele-
rou e facilitou estes deslocamentos.
O aumento na oferta de ônibus e topics nos pequenos mu-
Sobral e região em foco 137

nicípios tem “reduzido as distâncias” entre estes e a capital regio-


nal, possibilitando a intensificação de diversos fluxos, sobretudo de
comércio e de serviços. Hoje, as populações das cidades pequenas
se deslocam diariamente a Sobral com mais freqüência, em menos
tempo e com um custo menor, pois existe uma concorrência de
preço entre as topics e as transportadoras de ônibus.
Pequenos municípios, como Groaíras e Varjota, estão nas
rotas de diversos ônibus e topics que fazem a ligação de Sobral com
outras pequenas cidades mais longínquas, possibilitando, assim, que
as populações destas duas tenham maiores opções de deslocamen-
to, com intervalos de espera bem menor, quando comparadas com
outros municípios circunvizinhos.
Os primeiros ônibus e topics partem das cidades pequenas
em direção a Sobral por volta das 4 ou 5 horas da madrugada, es-
pecialmente em direção à Santa Casa de Misericórdia e ao Mercado
Público. Nas horas seguintes, o fluxo é intenso, pois estudantes dos
colégios particulares, universitários, trabalhadores e donas de casa
também vão à capital regional. Parte desta população retorna às
cidades pequenas de origem no final da manhã e outros no final da
tarde. À noite, prevalece o fluxo de universitários que, geralmente,
vão para Sobral em ônibus de propriedade das prefeituras dos seus
municípios.
Vale salientar que para a classe média e, sobretudo para a
“elite” dos pequenos municípios, o automóvel particular é a opção
mais usual de deslocamento para as cidades maiores.
Se a modernização dos transportes, por um lado, quebra
com a “velha” hierarquia urbana, possibilitando às populações destas
138 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

cidades pequenas irem a Sobral ou diretamente a Fortaleza (metró-


pole regional), por outro lado ela também influencia na organização e
na dinâmica destes pequenos municípios, especialmente na oferta de
serviços particulares e na expansão do comércio local.
Os pequenos comerciantes das bodegas, dos armarinhos e
das feiras livres, assim como o dentista, o “médico da família”, o
advogado, o contador, entre outros prestadores de serviço “ilustres”
que ainda convivem nesses pequenos centros, vêem-se diante da con-
corrência com os maiores centros urbanos, que oferecem diversidade
e, muitas vezes, melhor qualidade e menor preço pelos produtos e
serviços ofertados. Assim, o barateamento e a facilidade de transpor-
tes têm levado, em muitos casos, a um decréscimo e estagnação do
embrionário setor terciário destas pequenas cidades.
No entanto, convém reforçar que esta “abertura” do terciá-
rio local à concorrência com outras cidades maiores também tem um
lado positivo, pois, muitas vezes, ela instiga a melhoria da qualidade
dos produtos e dos serviços ofertados para “prender” a clientela que
já tem mais opções de escolha.
No comércio, as relações de confiança e de amizade, as ano-
tações das compras nas cadernetas, são aspectos singulares do co-
tidiano das pequenas cidades que, cada vez mais, são influenciados
pelas relações impessoais de compra e venda dos grandes centros,
dominados pela expansão dos cartões de crédito, dos cheques e dos
crediários. O aumento da concorrência, derivado do “aumento do
movimento” da população, faz com que passem a coexistir esses dois
tipos de relações nas cidades pequenas.
Sobral e região em foco 139

TABELA 2 - Perfil demográfico de Sobral, Cariré, Graça, Groaíras e


Varjota - 2000
Pop.
Pop. Urbana Pop. Rural Tgca* 1991/2000
Dens.
Total
absoluta e taxa absoluta (%)
CIDADES Demog.
(1000
de urbanização e relativa
Total Urbana Rural hab/km2
hab.) (%) (%)
134.508 20.768
Sobral 155.276 2,21 2,91 -1,42 73,25
(86,63%) (13,37%)
5.459 13.158
Cariré 18.617 0,53 4,04 -0,63 26,29
(29,32%) (70,68%)
4.838 9.975
Graça 14.813 0,34 10,24 -2,35 56,95
(32,66%) (67,34%)
5.588 3.153
Groaíras 8.741 0,88 2,14 -1,02 56,25
(63,93%) (36,07%)
13.479 3.114
Varjota 16.593 2,35 3,40 -1,26 74,84
(81,23%) (18,77%)
*Taxa Geométrica de Incremento Anual.
Fonte: Censo Demográfico 2000 – IBGE; Anuário Estatístico do Ceará – 2002/2003.
Disponível em: http://www.iplance.ce.gov.br Acesso em: 05 nov. 2004

A análise de outros dados ainda nos possibilita tecer algu-


mas considerações acerca das redes de comércio e de serviços entre
Sobral e as cidades pequenas de Cariré, Graça, Groaíras e Varjota.
Estes quatro pequenos centros apresentam, conforme o Censo 2000
do IBGE, uma população total inferior a 20 mil habitantes em cada
município. Dentre elas, Cariré foi a que registrou maior contingente
populacional (18.617 habitantes). Porém, devido à expressão de sua
área (711,2 km2), ela foi, das quatro cidades, a que apresentou menor
densidade demográfica: 6,29 hab/km2 (Tabela 2).
Varjota, por outro lado, foi a cidade pequena que mais cres-
ceu entre 1991 e 2000, acusando uma taxa geométrica de incremento
anual de 2,35%, o que supera, inclusive a taxa de crescimento de So-
bral (2,21%) neste mesmo período (Tabela 2).
140 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

No que concerne à distribuição da população, Cariré e Gra-


ça têm mais da metade dos seus habitantes residindo na zona rural,
enquanto Groaíras e Varjota, inversamente, apresentam mais da me-
tade da população habitando na zona urbana.
Faz-se interessante observar na Tabela 2 que a urbanização
vem se expandindo nestas pequenas cidades, pois todas registraram,
entre 1991 e 2000, uma taxa geométrica de crescimento urbano anual
positiva. O decréscimo da população rural neste período também foi
constatado nos quatro pequenos municípios e na cidade primaz.
Esta urbanização das cidades pequenas acompanha o cresci-
mento que as populações residentes nas sedes dos municípios e dos
distritos vêm registrando no Brasil, assim como o próprio processo
de urbanização em curso no espaço mundial.
Porém, depreende-se, a partir da leitura da Tabela 2, que
estas cidades têm vivenciado um crescimento urbano diferenciado
desde a última década. Não obstante Varjota (81,23%) tenha apresen-
tado a maior taxa de urbanização em 2000, Graça e Cariré lideraram
a média de crescimento urbano anual, com 10,24% e 4,04%, respec-
tivamente, entre 1991 e 2000. Neste período, a urbanização destes
municípios, excetuando Graça, ultrapassou até a de Sobral, a qual
registrou um crescimento econômico expressivo no último decênio.
É válido ressaltar que a liderança disparada da urbanização
de Graça (10,24%) nesta década deve-se ao fato de o município ter se
emancipado recentemente (1987), passando então, nos anos subse-
qüentes, a constituir equipamentos e instituições público-administra-
tivas que atraíram a população para o núcleo da cidade.
Sobral e região em foco 141

A análise geral dos dados das Tabelas 3 e 4 nos incita a


ventilar que a urbanização em curso nestas pequenas cidades nem
sempre representa melhoria da qualidade de vida dos seus citadinos,
pois a concentração de renda e do poder político nas mãos de um
pequeno número de famílias “ilustres” geralmente provoca um baixo
desenvolvimento socioespacial dos municípios e a carência na oferta
de serviços básicos à população.

TABELA 3 - Perfil socioeconômico de Sobral, Cariré, Graça, Groaí­


ras e Varjota - 2000
IDH PIB (%) PIB (%) PIB (%)
Cidades PIB per capita
(ranking CE) Agropecuária Indústria Serviços
Sobral 0,698 (7) 4.973 1,30 64,93 33,77
Cariré 0,622 (111) 1.246 17,53 3,89 78,59
Graça 0,593 (158) 1.081 12,97 1,49 85,54
Groaíras 0,653 (44) 1.338 12,53 2,54 84,93
Varjota 0,668 (29) 1.268 12,35 3,93 83,72
Fonte: Anuário Estatístico do Ceará – 2002/2003.
Disponível em: http://www.iplance.ce.gov.br Acesso em: 5 nov. 2004

Em 2000, por exemplo, enquanto Sobral ficou na 7ª colo-


cação de melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), os
quatro municípios analisados na sua área de influência apresentaram
um IDH bem inferior (Tabela 3), sobretudo Cariré (111ª posição) e
Graça (158ª posição) quando comparados entre os 184 municípios
que compõem o Estado.
Esta discrepância social entre a capital regional e as cidades
pequenas também é denunciada pelo Produto Interno Bruto (PIB)
per capita destes municípios. A média de toda a receita gerada em 2000,
142 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

dividida pela população de Sobral, é cerca de quatro vezes superior


(4.973) a de qualquer uma das quatro cidades em estudo (Tabela 3).
Embora saibamos que estes índices e médias “camuflam” problemas
como a concentração de renda e as desigualdades sociais vivenciadas
em muitos destes pequenos municípios, eles nos ajudam, mesmo que
parcialmente, a compreender o enquadramento socioeconômico des-
tes centros na rede urbana regional.

TABELA 4 - Estabelecimentos comerciais por setor e oferta de al-


guns serviços em Sobral, Cariré, Graça, Groaíras e Varjota
Estabelecimentos
Comerciais - 2001 Oferta de alguns serviços -1998
Cidades Posto Hospital
Ataca- Vare- Total de
Total de e Mater- Correios Bancos
dista jista Escolas*
Saúde nidade
Sobral 1.976 80 1.896 4 4 191 1 6
Cariré 136 - 136 4 - 46 1 1
Graça 33 - 33 2 - 30 1 -
Groaíras 127 - 127 2 - 24 1 -
Varjota 221 - 221 2 1 39 1 1
*Ano 1999
Fonte: Perfil Municipal 2000 (Sobral, Cariré, Graça, Groaíras e Varjota), do IPECE.
Disponível em: http://www.iplance.ce.gov.br. Acesso em: 5 nov. 2004

A comparação do PIB por setores econômicos, em 2000,


entre a cidade média de Sobral e as cidades pequenas em apreço tam-
bém revela nuanças das disparidades apresentadas por estas últimas
em relação à capital regional. Nas economias dos pequenos centros,
a agropecuária ainda é um setor importante quando comparada a
Sobral que, contrariamente aos quatro pequenos municípios, tem a
indústria como carro-chefe da sua economia (Tabela 3).
Sobral e região em foco 143

Esta relativa importância da agropecuária nas cidades peque-


nas está atrelada à expressão que a população rural ainda tem – mes-
mo em franca decadência – nestes municípios. Em 1997, o Banco do
Nordeste detectou que as vocações econômicas dos quatro pequenos
municípios estavam ligadas à agropecuária, e que as atividades de alta
prioridade para investimentos eram: o cultivo do algodão herbáceo
de sequeiro, a produção de derivados do leite, a bovinocultura e a
caprinocultura de corte semi-intensiva (CEARÁ, 2000).
Porém, as atividades primárias em diversas pequenas cida-
des nordestinas são historicamente marcadas pela produção extensi-
va voltada, muitas vezes, para a subsistência, assim como pela carên-
cia de políticas efetivas que ajudem as populações rurais a se fixarem
no campo. Eis os porquês também de as cidades pequenas em análise
estarem registrando um aumento positivo da taxa de urbanização,
porém todas inferiores à capital regional.
Ao mesmo tempo em que ocorre este êxodo rural no inte-
rior dos municípios pequenos, também acontecem os êxodos rural e
urbano intermunicipais, ou seja, a migração das populações rural e
urbana das cidades pequenas em direção à cidade primaz.
O crescimento das atividades secundárias e terciárias em
Sobral, nas últimas décadas, vem atraindo a população das pequenas
cidades da sua hinterlândia a migrarem para esta cidade média, bus-
cando sua inserção no mercado de trabalho. Este movimento migra-
tório interurbano tem, conseqüentemente, influenciado no aumento
da urbanização de Sobral nas últimas décadas.
De acordo com o IBGE, 7.018 pessoas não naturais de
Sobral estavam residindo na cidade em 1996. Destas, 5.786 eram
144 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

oriundas de outros municípios cearenses (Tabela 5), as quais, na sua


maioria, devem ser das cidades pequenas que fazem parte da sua hin-
terlândia. Esta “corrida” das populações das cidades pequenas para
a cidade média tem provocado a queda no ritmo e até o decréscimo
populacional em algumas destas primeiras.
Entre as quatro pequenas cidades em apreço, Varjota foi
a que apresentou, em 1996, maior número de imigrantes (891) de
outras cidades do Estado; este fato explica, em parte, as expressivas
taxas de urbanização (2000) e de incremento anual (1991/2000) deste
município.

TABELA 5 - Perfil migratório de Sobral, Cariré, Graça, Groaíras e


Varjota
Pessoas não naturais Pessoas que trabalhavam ou estudavam em
do município de outro município da UF* - 2000
Cidades
origem da mesma UF* 15 a 24 anos 25 a 64 anos
- 1996
Sobral 5.786 354 412
Cariré 628 259 251
Graça 181 60 15
Groaíras 180 139 152
Varjota 891 139 75
*Unidade da Federação
Fonte: Contagem da População - 1996; Censo 2000 – Migrações – IBGE.
Disponível em: http://www.ibge.gov.br Acesso em: 5 nov. 2004

Andrade e Serra (1997) constataram que entre 1970 e 1991,


a participação das cidades com menos de 20 mil habitantes no cres-
cimento da população nacional caiu para 13,2% em relação ao perí-
odo de 1950/1970, quando era de 22,12%. Em Sobral, o período de
1970/1999 coincide com a implementação da política nacional de
fortalecimento das cidades médias através dos incentivos da Sudene
Sobral e região em foco 145

para a industrialização da cidade. Portanto, o decréscimo populacio-


nal registrado nos municípios com menos de 20 mil habitantes tem
como uma das principais causas o êxodo rural e urbano das popula-
ções locais para as cidades de porte médio que se industrializavam.
Diariamente, também ocorrem as migrações pendulares de
trabalhadores e estudantes que se deslocam para outras cidades e re-
tornam no mesmo dia para o lugar de origem. Na Tabela 5 podemos
ver, por exemplo, que entre as quatro cidades pequenas analisadas,
Cariré foi a que apresentou, em 2000, maior número desses migran-
tes entre as faixas etárias de 15 a 24 anos (259 pessoas) e de 25 a 64
anos (251 pessoas). Acredita-se que grande parte das escolas e dos
trabalhos buscados por essas pessoas esteja localizada na cidade de
Sobral, fato este que comprova o papel polarizador que esta cidade
exerce sob a sua hinterlândia.
No rastro da terciarização que se alastra em escalas nacional
e global, Cariré, Graça, Groaíras e Varjota acusaram em 2000 uma
participação substancial dos serviços na totalização dos seus PIB’s
(Tabela 3). Em todas as quatro cidades, os serviços corresponderam
nesse ano a mais de 75% de tudo o que foi produzido, diferenciando-
se de Sobral, onde o PIB de serviços não equivaleu nem à metade do
total da produção neste mesmo período.
No entanto, esta expressão do PIB dos serviços nestas pe-
quenas cidades não representa, na realidade, uma diversidade e boa
oferta do comércio e dos serviços locais. Ao contrário, estas cida-
des carecem inclusive da oferta de alguns serviços básicos, como por
exemplo, Graça e Groaíras, que em 1998, sequer tinham um banco
ou um hospital/maternidade (Tabela 4).
146 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Esta participação expressiva dos serviços no PIB destes


quatro municípios analisados em 2000, deve-se, mormente, à con-
centração de trabalhadores nos serviços públicos administrativos, o
que tem transformado as suas prefeituras nos principais “cabides de
emprego”. Esta é uma estratégia política “corriqueira” em diversos
pequenos municípios brasileiros, onde as elites locais perpetuam o
status quo dominante através da criação e da distribuição de empregos
temporários entre parentes e aliados políticos.
Os estabelecimentos comerciais também integram o PIB
dos serviços. Porém, em 2001, nos municípios pequenos em análise,
o comércio era totalmente varejista (Tabela 4), predominando, como
é típico das cidades pequenas, as bodegas, as mercearias, os mercan-
tis, o mercado público, as lanchonetes e as padarias com a oferta
de gêneros alimentícios; as pequenas lojas, boutiques e armarinhos
com vestuários, miudezas, e perfumarias; os armazéns de material de
construção, entre outros estabelecimentos de menor expressão.
Ademais, observa-se na Tabela 4 que em relação à quanti-
dade e aos tipos de estabelecimentos comerciais, em 2001, Sobral se
configura como a cidade primaz, concentrando um total de 1.976
estabelecimentos, dos quais 80 são atacadistas, ou seja, além de abas-
tecerem o comércio local também suprem a demanda do comércio
varejista das pequenas cidades da sua hinterlândia. Assim, o comércio
de Sobral abastece duplamente estes pequenos municípios: direta-
mente, quando as populações dos pequenos municípios se deslocam
até Sobral para aproveitar a diversidade do seu comércio varejista, e
indiretamente, quando os armazéns e depósitos atacadistas fornecem
mercadorias para o comércio varejista destes pequenos municípios.
Sobral e região em foco 147

No tocante aos serviços de saúde dos pequenos centros, há


predominância de postos (muitas vezes em condições precárias) para
atender os pacientes com problemas mais simples. Os casos mais
graves são diretamente encaminhados a Sobral, perpetuando o seu
papel de polo de saúde regional.
Atualmente, Sobral concentra uma série de clínicas particu-
lares especializadas e a Santa Casa da Misericórdia, hospital público
que atende pacientes oriundos de 61 municípios da Zona Norte do
Estado. A Santa Casa, que está prestes a se tornar um hospital-escola,
disponibiliza 400 leitos para internamentos, atendendo uma média
diária de 185 pacientes na emergência e 347 em consultas ambulato-
riais. Em 2003, 9.511 cirurgias foram realizadas, numa média de 26
por dia (REBOUÇAS; MARQUES, 2004, p. 10).
Os serviços de educação, por sua vez, também reforçam a
polarização de Sobral, pois é nesta cidade que se localiza a UVA, um
campus avançado da UFC (que começou a funcionar em 2006) e
algumas faculdades particulares. A UVA é a maior universidade de
Sobral, que oferta 23 cursos de graduação regulares na sua sede. Há
também seus campi avançados, instalados em alguns municípios da
região, os cursos de pós-graduação lato sensu e os cursos sequenciais e
em regime especial que são oferecidos ao longo do ano e, sobretudo
nos meses de férias, em diversos municípios do Ceará e até em outros
estados como o Maranhão, Pernambuco e Piauí.
Na década de 1990, também foi instalado na cidade, assim
como em outros polos do Estado, o Centro de Ensino Tecnológico
(Centec), o qual oferta uma “educação profissionalizante” pós-se-
cundária. Os cursos de irrigação, saneamento ambiental, tecnologia
148 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

de alimentos e eletromecânica visam formar técnicos ou “tecnólo-


gos” para o mercado de trabalho regional (MARIA JÚNIOR, 2004,
p. 93).
Sobral ainda concentra o maior número de escolas, apre-
sentando uma grande discrepância em relação aos quatro pequenos
municípios estudados (Tabela 4). Em 1999, o município tinha 191
escolas, das quais 52 eram da rede particular. Os colégios e cursinhos
pré-vestibulares, os cursos de idioma e de informática atraem uma
grande clientela de alunos oriundos das classes média e alta de toda
a região (Tabela 5).
Assim sendo, os dados apresentados nas tabelas anteriores,
mesmo com suas limitações, demonstram a expressão de Sobral e
a polarização que exerce nos pequenos municípios analisados. O
aumento da industrialização e a expansão crescente do seu setor ter-
ciário configuram Sobral como um lugar central na rede urbana re-
gional, para onde convergem os fluxos oriundos dos municípios da
sua área de influência.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As idéias desenvolvidas neste artigo partiram da hipótese de


que as melhorias dos meios de transporte e comunicação, nos últi-
mos anos, ao mesmo tempo em que vêm quebrando a clássica hierar-
quia da rede urbana regional (interligando diretamente os fluxos das
cidades pequenas com as cidades médias e as metrópoles), também
têm gerado uma maior concentração de atividades em Sobral, au-
Sobral e região em foco 149

mentando assim a dependência econômica e a pobreza nas pequenas


cidades sob a sua influência.
O cotejamento dos aportes teóricos com os dados es-
tatísticos dos quatro pequenos municípios selecionados nos faz
apontar para a confirmação dessa suposição. Alguns estudos cita-
dos (ANDRADE; SERRA, 1997; MARIA JÚNIOR, 2004) tam-
bém reforçam a nossa observação de que ao invés das cidades
médias “irradiarem” desenvolvimento para as suas áreas de influ-
ência, conforme previam as políticas urbanas dos anos 70, estes
“pOlos”, cada vez mais, concentram riquezas.
Esta tendência fica mais acentuada, pois vivemos um mo-
mento histórico em que a técnica, a ciência e a informação expan-
diram ainda mais a racionalidade do capital e, por conseguinte, a
exclusão de pessoas e lugares.
Neste sentido, a “modernização” vivenciada em Sobral
(em especial, pelo “peso” e pela “tradição” das suas lideranças
políticas) deve ampliar as suas relações com o mundo e continuar
reforçando o seu papel de cidade-polo regional. Para as cidades
pequenas do seu entorno, a falta de políticas públicas específicas
para (re)estruturar suas economias também deve, por outro lado,
acentuar problemas, dentre outros, como o esvaziamento popula-
cional, a estagnação econômica e a maior dependência de produ-
tos e serviços técnicos e especializados.
Todavia, faz-se pertinente auscultar acuradamente a evo-
lução urbana destes pequenos municípios, a estrutura e a dinâmica
dos seus comércios, a oferta e a diversidade dos seus serviços,
no intuito de recompor a gênese e a dinâmica destes espaços. É
150 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

importante mudar o enfoque e a escala de análise, privilegiando o


estudo destas pequenas cidades e das suas relações com Sobral, com
as metrópoles regionais e globais.
Destarte, estes são desafios futuros...

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154 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Maneiras de ver e viver o bairro


Terrenos Novos na Cidade de Sobral – Ceará
Maria Antonia Veiga Adrião 1

A MEMÓRIA

Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos:


com uma diferença. A Cidade sonhada o
possuía jovem; em Isidora, chega em idade
avançada. Na praça, há o murinho dos velhos
que vêem a juventude passar; ele está sentado
ao lado deles. Os desejos agora são recorda-
ções. (CALVINO, 1990, p. 12).

Neste ensaio traremos algumas questões que nos moveram


a propor a pesquisa Memória e Experiência de Vida nos Depoimen-
tos de Velhos Moradores dos Bairros da Cidade de Sobral-Ceará,
quando aproveitamos para apresentar nossa opção metodológica e
alguns parcos resultados já conquistados, à medida que a pesquisa
prossegue conhecendo o bairro Terrenos Novos, espaço inicial da
Sobral e região em foco 155

pesquisa, e não sem motivos, já que esse bairro circunvizinha o cam-


pus do Junco (UVA), onde trabalhamos, e a escola de ensino médio
Jarbas Passarinho, nossa vizinha e apoiadora.
Outro esclarecimento importante diz respeito ao nosso pro-
pósito, que é o de reconstruir e estudar a memória do crescimento
urbano da cidade de Sobral, situada na zona noroeste do Ceará, a
partir de depoimentos de vida de velhos moradores dos bairros dessa
cidade, como diz o título do projeto acima citado.
Trata-se de um projeto de Iniciação Científica que estamos
desenvolvendo com um grupo de estudantes, sendo um estudante do
curso de História da Universidade Estadual Vale do Acaraú, bolsis-
ta da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (FUNCAP) e quatro estudantes de ensino médio da
Escola de Ensino Médio Jarbas Passarinho, bolsistas do programa
de bolsas PIBIC/Junior do Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (CNPq), com apoio da FUNCAP.2
Nosso objetivo está sendo investigar a memória do cresci-
mento urbano desta cidade através, principalmente, de recordações
de experiências de vida da população idosa habitante dos bairros,
quando pretendemos realizar um documentário audiovisual e outro
escrito, com os resultados obtidos. Isto porque nas últimas três déca-
das a população da cidade duplicou, alterando, por conseguinte, seu
espaço físico com a criação de novos bairros, ruas e praças, quando
se estendeu a limites inimagináveis no passado.
Portanto, essa população de idosos viveu muitas décadas nes-
ta cidade, ou não, porque parte dela é migrante, mas boa parte desses
migrantes mudou há muitos anos; portanto, testemunhou e contribuiu
156 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

para o desenvolvimento urbano de Sobral em suas várias fases.


Para tanto, preferimos trabalhar com a fonte oral, reprodu-
zindo aqui algumas questões já levantadas no projeto. Pois reafirma-
mos a influência de Ecléa Bosi em “Memória e Sociedade: Lembran-
ças de Velhos”3. Essa perspectiva nos motivou a a propor esta pes-
quisa, porque ficamos encantados com o trabalho dessa estudiosa,
de reconstituir a memória de um lugar, no caso dela a cidade de São
Paulo, a partir de recordações de experiências de vida de moradores
idosos, que podem constituir um grupo social a partir de vivências
que tiveram em comum, ou se pensados através de relações sociais
que mantiveram no passado.
A cidade aparece nas reminiscências dos sujeitos propostos,
à medida que recordam suas vivências na mesma:

Depois fomos morar na Rua Conselheiro


Nébias, que naquele tempo era residencial
como, hoje, o Jardim América; ali moravam
condes em Palacetes [...] Aquele bairro fi-
cou horrível; quando passo por lá, naqueles
Campos Elíseos, aí, dá uma dor no coração.
Aquilo era maravilhoso, aquelas ruas quietas,
aqueles jardins [...]4.

Como vemos, a cidade vai sendo descortinada por esses an-


tigos moradores com nostalgia, quando parece ser inevitável o contra-
ponto entre passado e presente, principalmente porque o presente pare-
Sobral e região em foco 157

ce agredir a sensibilidade desses sujeitos, por se apresentar desfigurado,


“horrivel”, totalmente diferente dos tempos idos de suas reminiscências.
Tendo aí a despretensão de trazer toda a verdade de fatos re-
cordados, Bosi descarta a possibilidade de confrontar as lembranças
do grupo de velhos ouvidos por ela com outras evidências históricas.
Quando afirma:

[...] A veracidade do narrador não nos preo-
cupou: com certeza seus erros e lapsos são
menos graves em suas conseqüências que as
omissões da história oficial. Nosso interesse
está no que foi lembrado, no que foi escolhi-
do pra perpetuar-se na história de sua vida.
Recolhi aquela “evocação em disciplina” que
chamei de memória-trabalho.5

Isto posto, temos a mesma despretensão ou, ao contrário, a


mesma pretensão que tivera Bosi, de não confrontar essas reminis-
cências com outras evidências, mas procurar perceber o que esses
idosos recordam do crescimento urbano do qual participaram, o que
relembram do passado vivido nesta cidade, que inclui outras evidên-
cias relacionadas a sua própria cultura e às escolhas que fizeram e, é
claro, a construção da cidade enquanto viviam.
O que já é muito, se considerarmos os cuidados éticos que
precisamos ter com os sujeitos da pesquisa e com suas lembranças,
porque, como concluiu Michael Hall, “todos nós sabemos que a ma-
158 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

neira como se formula uma pergunta pode influir decisivamente na


resposta.” Isto porque “Não é necessário má fé consciente para sair
de uma entrevista tendo ouvido exatamente o que esperamos.” 6
Sem contar que, como entendeu Bosi, “muitas recordações
que incorporamos ao nosso passado não são nossas: simplesmen-
te nos foram relatadas por nossos parentes e depois lembradas por
nós.”7 Todavia, embora tenhamos optado pela fonte oral sem con-
frontá-la com outros testemunhos, precisamos ter os cuidados que
a investigação na história social requer, inclusive na observação de
silêncios voluntários e involuntários e suas motivações.
Contudo, não podemos esquecer de evidências que surgem
naturalmente entre pesquisadores e depoentes, como as políticas
adotadas inclusive para a criação do bairro. Porque uma das questões
mais comuns dos moradores entrevistados é a motivação pela qual
o prefeito José Euclides Ferreira Gomes criou este bairro, em 1982.
Assim, os monumentos construídos durante o período, nomencla-
turas de ruas e praças, as lutas para melhoria desses espaços, todas
memórias latentes ou, ao contrário, propagadas aos quatro cantos da
cidade como forma de relembrar a atuação política de grupos sociais
ou de autoridades da cidade, mas que se apresentam como vestígios.

OS MORADORES

Quando observar e apreender as estratégias e táticas desses


moradores de como viver na cidade, à medida que esta aparece em
seus depoimentos, tem sido nosso maior exercício de aprendizagem.
Certeau chamou atenção para o modo como os usuários ou praticantes
Sobral e região em foco 159

da cidade se apropriam de seu espaço quotidianamente, refazendo-


o, reorganizando-o, transformando-o até, conforme seus interesses,
inventando e reinventado maneiras de fazer e viver esse espaço.8
Esse autor chama de usuários ou praticantes da cidade os mo-
radores que para ele não apenas consomem a cultura dominante pos-
ta às cidades, porém, utilizam-na, usam-na, apropriam-se da mesma,
por uma arte de utilizar aqueles que lhe são impostos. Assim, recriam-na
de modo a torná-la possível “diante de uma produção racionalizada,
expansionista, centralizada, espetacular e barulhenta, posta-se uma
produção de tipo totalmente diverso, qualificada como ‘consumo’,
que tem como característica suas astúcias, seu esfarelamento em con-
formidade com as ocasiões”. 9
Os conflitos de interesses não surgem por acaso; estão re-
lacionados com o lugar social que cada morador ocupa na urbe, que,
como sabemos, não são iguais e, portanto, embora não seja dito, são
regulados por leis também desiguais ou por políticas diferentes, que
fazem surgir uma marginalidade social absolutamente previsível pelo
poder constituído. Pessoas foram convidadas pelo então prefeito a
ocupar o novo bairro que ele estava fundando, mas sem nenhuma in-
fraestrutura, à mercê da própria sorte.
Não se imagina um bairro sendo criado ou recriado no cen-
tro da cidade e entregue a seus usuários da mesma forma. O Terrenos
Novos, como passou a ser chamado pelos seus moradores, inaugurou a
ocupação do lado sudeste da cidade, para onde só iriam os interessados.
A parte urbana terminava antes. Onde se situa este bairro era a Fazenda
Mucambinho, desativada e abandonada há anos pelos proprietários, e
que foi reapropriada pela prefeitura para a criação do novo espaço.10
160 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Nessas circunstâncias, refletir sobre as maneiras de fazer esse


bairro pelos seus moradores é sem dúvida um bom exercício. Isto por-
que estar à margem da urbanidade da cidade não os fez menos perspi-
cazes ou menos valentes em cuidar de seus interesses. E em seus de-
poimentos podemos vê-los medindo forças com os outros ocupantes
do bairro, como com as autoridades da cidade, em busca de conferir a
esse espaço a infra-estrutura necessária e a garantir o direito de morada.
Quando falamos em estratégias e táticas, estamos buscando
compreender a relação de alteração/interação entre esses usuários da
cidade, os outros moradores e suas autoridades e instituições políti-
cas. Certeau chama de estratégia a tudo o que pode ficar ao alcance
do olhar interessado, que pode ser lido, interpretado calculado ante-
cipadamente, para que se possa pensar ou até manipular ações de
relações de forças.11
As práticas políticas desiguais em uma cidade, em nome da
racionalidade dos espaços, sugerem que muitos moradores se per-
cebam num campo minado, quando “Ver (longe) será igualmente
prever, antecipar-se ao tempo pela leitura de um espaço”, onde qual-
quer gesto descuidado pode acionar o inimigo, ou a autoridade, ou o
proprietário vigilitante. Portanto, estratégia pode ser pensada como
“domínio dos lugares pela vista. A divisão do espaço permite uma
prática panóptica a partir de um lugar de onde a vista transforma as for-
ças estranhas em objetos que se podem observar e medir, controlar
portanto e “inclui” na sua visão.12
Quanto à tática, segundo esse estudioso, caracteriza-se por
maneiras de se fazer entender no território do outro. Enquanto bus-
camos estratégias em nosso próprio campo de ação e atuação, a táti-
Sobral e região em foco 161

ca, ao contrário, tende a surgir no território do outro. Exige que no


espaço do outro procuremos a melhor hora de ação, exige cuidado
em não precipitar acontecimentos, em saber esperar o melhor mo-
mento para o embate, para a reivindicação, para a reclamação, para a
abordagem, seja das autoridades, das suas instituições ou representa-
ções. Para Certeau, a tática

aproveita as “ocasiões” e delas depende, sem


base para estocar benefícios, aumentar a pro-
priedade e prever saídas. O que ela ganha não
se conserva. Este não-lugar lhe permite sem
dúvida mobilidade, mas numa docilidade aos
azares do tempo, para captar no voo as pos-
sibilidades oferecidas por um instante. Tem
que utilizar, vigilante, as falhas que as con-
junturas particulares vão abrindo na vigilân-
cia do poder proprietário. 13

Podemos concluir que a estratégia precede a tática. Os pra-


ticantes da cidade se colocam em alerta para tirar proveito de con-
junturas políticas, e uma vez parte delas, precisam auscultar suas pos-
sibilidades. Contudo, podemos pensar em luta unilateral se a cidade
é um espaço absolutamente plural, com tantos segmentos sociais,
instituições e representações, cada um ocupando um lugar social e
político ou buscando ocupar “seu lugar”, ou se incluir no “sistema”?
Bem, digamos que essa maneira de fazer/viver a cidade seja
própria, segundo Certeau, de seus expropriados, aquele que “tem que
162 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

utilizar, vigilante, as falhas que as conjunturas particulares vão abrin-


do na vigilância do poder proprietário.”14
Para esse autor, “Em suma, a tática é a arte do fraco.”15 Nes-
se sentido, quem precisaria de tática/astúcia para viver em uma or-
dem estabelecida como a cidade, que aparece aos olhos do visitante
como um espaço definido, homogêneo, inteiro, sem fraturas, como
se todos vivessem as mesmas oportunidades? Quem precisaria criar
trilhas próprias, inventar novos caminhos, ignorar contingências, cir-
cular com o cuidado de fugitivos?
Ainda segundo Certeau, “a tática é determinada pela ausência de
poder, assim como a estratégia é organizada pelo postulado de um poder.”16
Viver à margem em uma cidade é viver fora dos sistemas abrangidos pelo
poder oficial, do sistema educacional, de saúde, de transporte, de água,
esgoto, de coleta de lixo, de energia, comercial, industrial, de direito. É pre-
cisar postular se incluir nesses espaços ordenados pelas técnicas, criando ao
mesmo tempo um espaço próprio, desordenado, infrator muitas vezes, in-
coerente, regulado pelo tempo da necessidade, ininteligível até.
Na luta desigual deflagrada na cidade, onde os espaços já
nascem segregados dentro de uma ordem dominante estabelecida,
ordenada pelo poder que a sustenta e que é sustentado por ela, é es-
tratégico transformar essa política desigual em arte de viver as ocasiões
e viver quase uma invisibilidade.

A CULTURA
Narrações de experiências, depoimentos de vida, entrevis-
tas, reminiscências de passados vividos, anonimamente ou não, pelos
habitantes de uma cidade são cada vez mais utilizados pela história
Sobral e região em foco 163

social para estudar os espaços vividos, os embates sociais, as mudan-


ças ocorridas, a memória coletiva, para recompor passados, quando
é possível perceber as relações de entendimento ou de embate, de
concórdia ou de discórdia travadas no cotidiano das famílias, da rua,
do bairro, da escola, do trabalho, da associação do bairro, do sindi-
cato, do partido político, mesmo em celebrações cívicas, religiosas,
profanas, protestos, comícios. De diversos modos as pessoas vivem a
cidade, interagem com seus espaços, contribuem para a renovação de
velhos costumes e para a criação de novas possibilidades existências.
Influenciam seus governos e enquanto também são influen-
ciadas por eles; políticas são criadas ou recriadas em torno de novos
ou velhos discursos. Mas o certo é que enquanto essas alterações vão
acontecendo em silêncio ou celebradas, discursadas, propagadas, as
pessoas vão envelhecendo e acumulando experiências, desejos reali-
zados, frustrações, conquistas pessoais e coletivas no viver na cidade.
Desse modo, impregnam, contaminam os espaços com sua cultura,
seus modos de ver e agir, falar e ouvir, enquanto incorporam os sig-
nificados que estes espaços já têm ou passam a ter para elas, transfor-
mando-os em lugares de memória, como diria Nora.
Ítalo Calvino dirá que é possível, ao adentrar uma cidade,
perceber vidas repletas de interesses, embates, sonhos, frustrações,
conquistas, resistência, experiência, presentes mesmo em lugares que
exalam morte, como nos monumentos aos mortos. Mas exatamente
por isso, por esses monumentos terem a função de fazer lembrar a
morte e a vida representada, codificada, simbolizada em pedra. As-
sim a cidade se faz vida e se faz morte, em percursos que se cruzam,
descruzam, harmonizando ou se embatendo com interesses diversos.
164 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Mesmo no mais obscuro canto, na mais triste fotografia,


na mais melancólica poesia de vida, podemos perceber esse viver ou
esse morrer na cidade. Perceber, por exemplo, pessoas vivas viven-
do como mortas, tão silenciadas que podem passar despercebidas
nas campanhas censitárias. Por outro lado, encontramos mortos que
remanescem vida por estarem lembrados, reinventados em monu-
mentos nas praças públicas, placas, nomenclaturas, hinos, bandeiras,
fotografias, documentários.
A vida na cidade é curiosa e implica aceitação, tolerância,
diferença, mas também tem gerado seu oposto, como discriminação
social, política, cultural, religiosa. Portanto, está repleta de segregação
e disputa, mas também de inclusão e indiferença. Momentos há em
que inclusão e indiferença se encruzam e se confundem. O que é
inclusão na cidade? o que é indiferença? O que pode ser considera-
do inclusão pode ser, simplesmente, indiferença. Indiferença aos que
chegam, aos que partem, aos que vivem, aos que morrem, aos que
emigram, aos que imigram, aos que moram, aos que apenas passam
o dia resolvendo problemas, negócios, trabalham.
Os espaços da cidade, como já vimos, não são iguais. Al-
guns já nascem privilegiados como centros de negócios, residenciais,
culturais. Outros já nascem mais bem servidos pelas autoridades por
apresentarem ou representarem melhor a cidade no tocante à paisa-
gem natural já existente, ou pela facilidade em se criar novas paisa-
gens, ou por estarem próximos desses centros, e, portanto, darem
melhor visibilidade a políticas públicas adotadas.
Outros espaços já nascem desprestigiados, geralmente
enquanto são considerados periferia, porque à medida que a cida-
Sobral e região em foco 165

de cresce, esses espaços podem despertar interesses especulativos,


imobiliários, governamentais, comerciais, e dessa forma podem se
transformar, gerando novas paisagens humanas e arquitetônicas até
privilegiadas.
Interessante perceber que os cantos obscuros da cidade
chamam a atenção por satisfazerem a grupos segregados, por serem
mais econômicos de morar, mas também por manterem no obscu-
rantismo identidades não identificadas com a cidade, com seus es-
paços públicos, não públicos, com seus monumentos que celebram
vencedores. Com paisagens que ocultam demônios que assustam de
longe ao transeunte comum, como se dissessem: “aqui jazem concei-
tos e preconceitos contra você e sua família”.
A luta pelo viver na cidade gera embates ocultos, apreen-
didos em olhares, gestos, símbolos, mas também em placas, nomes,
monumentos, lugares. Lugares ditos, lugares não ditos, cantos que
se escondem de outros cantos e que silenciam textos não lidos em
público, porque gerariam conflitos imediatos, revelariam as armas
circunstanciais de cada um para o embate cotidiano. E essa luta, na
maioria das vezes, não pode ser dita, ser lida, ser descrita. A sedução
que alguns lugares exercem é vencida pelo cansaço, pelos temores,
pelos miasmas, pela pressa.
A cidade se faz e refaz nesse cotidiano, igualmente o indi-
viduo que dela faz parte. Portanto, também se faz e refaz a memória
material, imaterial, social, individual. O sujeito que vive a cidade si-
lencia tanto quanto ela. Ele também tem interesses que entram em
combate consigo mesmos, do que dizer, do que calar, mas também
entram em conflito com os interesses da cidade. De seus lugares di-
166 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

tos e não ditos. Algumas experiências podem e devem ser reveladas,


causam orgulho, satisfação, revelam vitórias, conquistas. Outras de-
vem ser esquecidas para o bem individual ou coletivo, causam cons-
trangimento, revelam frustrações, humilhações, derrotas.
Na maioria das vezes o individuo quer esquecer ou evita
revelar experiências que se confundem entre o individuo e o coletivo,
entre conceitos e preconceitos, mesmo entre o que ele concebe como
bem e mal, entre o aceito ou não pelas comunidades com as quais ele
interage. Mesmo quando esse indivíduo vai falar de suas lembranças
mais remotas, ele tem cautela, ele mede conseqüências, sem contar
que como a memória individual se renova, recordar é sempre pro-
blemático.17

A CIDADE

E quanto ao grupo social escolhido, isto se deve à partici-


pação na construção da cidade vivida, como já fizemos referência
contemporânea de ontem e de hoje. Um grupo que testemunhou
essa cidade modificar-se nas últimas décadas. Essa população teve
a oportunidade de viver as duas cidades, participou de suas trans-
formações, pode acompanhar suas fases de modernização que pariu
avenidas, fechou velhas ruas, adotou novos costumes, criou tradições,
adotou novos filhos, produziu atores sociais.
Todavia, muitos desses idosos, pelo que já constatamos, não
são sobralenses, não nasceram sequer nas vilas e povoações rurais de
Sobral. Emigraram de cidades circunvizinhas nas últimas décadas.
Cidades, que ao contrário, nesse período estagnaram ou até viram
Sobral e região em foco 167

suas populações diminuir, sem contar que um contingente dessas ci-


dades está sendo considerado dormitório de Sobral, porque muitos
de seus habitantes trabalham e estudam nesta urbe, retornando para
casa apenas para dormir; esta é uma questão que consideramos fun-
damental e que suscita outra discussão que não faremos aqui, mas
que coaduna com outra pesquisa que estamos realizando sobre a cul-
tura sertaneja e as motivações para mudar ou permanecer no sertão.
Por ora importa dizer que, antes que essa cidade do pas-
sado, da memória desses sujeitos se perca no desejo, na imaginação
ou no esquecimento, queremos conhecer seus testemunhos, quere-
mos registrá-la, queremos até preservá-la como um tributo aos que a
construíram, a serviram e a viram partir. Ou que, juntamente com ela,
partiram embalados pelo silêncio em que viveram.
Mas também, será importante ver renascer das reminiscên-
cias dessa população essa outra Sobral, das últimas décadas, mais
ousada, com espaços mais definidos, mais largos, porém, mais ex-
cludentes, que segrega seus sujeitos sem compaixão quando os faz
conhecer seus lugares, definindo seus cantos de morada, inclusive
seus lugares de memória.
Definindo onde será bom morar, negociar, passear, estudar,
e o que será bom recordar desse passado, o que será bom esquecer.
Essa mudança urbana trouxe consigo, além de alterações na arquite-
tura da cidade, alterações nas nomenclaturas de ruas, praças, quando
se aproveitou para trocar bustos, árvores, frentes de edifícios, costas,
corrimões, cores, luzes, e assim fazer e refazer novos espaços de con-
vivência social, revelando uma Sobral que progride sem olhar para
trás, sem ouvir seus reclamos.
168 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Novos espaços se abriram, outros se fecharam, surgiram no-


vos atores sociais, como o fiscal de rua que tenta coibir o vendedor
ambulante, o comércio de calçadas, de praças e becos, tradição de
toda cidade onde há uma população considerável de desempregados
e de imigrados. Esses fiscais se encarregam também de cercear a ma-
landragem das ruas centrais e do mercado público.
Uma cidade que higienizou seus espaços controlando animais
domésticos, vacarias, pocilgas, entre outros costumes que a população
de tradição rural pouco a pouco teve que esquecer, enquanto assimila-
va valores novos, citadinos, ou, por que não dizer, sobralenses.
Essa Sobral, como dissemos, mais segregadora, afastou de
seu centro residencial e comercial os moradores que a viram nascer,
crescer e se tornar o que é hoje. Porque muitas ruas que se iniciaram
periféricas circundando esse centro enquanto a cidade se desenvolvia
tornaram-se principais também; portanto, esses espaços, antes lugar
comum, não poderiam mais servir de morada para uma gente sem
sorte, sem era nem beira.
Parafraseando Freyre, sobrados e mocambos não se mistu-
ram. Por isso, a exemplo de todas as grandes cidades, sua higieniza-
ção foi sinônimo de eugenismo social, de segregação social e cultural.
Os grupos sociais que habitavam esse centro ou suas proximidades
foram compor outra paisagem humana, de subúrbios distantes, que
se fazem meninos para uma cidade fundada no século XIX.
Queremos justificar assim, nossa opção pela história oral,
e por querer reconstituir a memória dessa cidade através de remi-
niscências de idosos moradores dos bairros. De todos os bairros, é
bom que se diga, não apenas desses últimos, mas de todos. Audaciosa
Sobral e região em foco 169

nossa pretensão, mas necessária para compreendermos esse desen-


volvimento.
Não é difícil perceber que se foram criados novos bairros na
cidade, os antigos foram alterados numa proporção que se fizerem
jovens também. Não só porque receberam novos moradores, mas
porque foram reorganizados com serviço público como pavimen-
tação de ruas, praças; ganharam redes de esgoto, escolas, postos de
saúde; viram ser aterradas suas lagoas e grotões. Exatamente onde
moramos hoje, situava-se uma das lagoas da cidade. Alguns dos ve-
lhos entrevistados contam nos dedos as lagoas que conheceram.
Sem contar a “nova burguesia”, expressão cara aos marxis-
tas, dado que novos ricos ou novos pobres foram uma constante nas
cidades capitalistas ou nas socialistas; porque esses sistemas se refize-
ram sempre, criando novos sujeitos e novas demandas; mas voltando
à nossa questão, a exemplo das grandes cidades, os novos ricos de So-
bral optaram por fundar seus próprios bairros e viver circunscritos,
afastados do centro, onde construíram suas mansões e se isolaram
também da multidão adventícia.
Desse modo, queremos conhecer como se deu a urbaniza-
ção dessa jovem Sobral, construída nas últimas décadas do século
XX, aliada à cidade que já se fazia velha, embora refeita nas primeiras
décadas desse século, quando estava perdendo sua aura de “princesi-
nha do norte”, adquirida no século XIX.
Essa cidade que se arroga o direito de ter parte de seu patri-
mônio histórico e cultural tombado, de pertencer ao Patrimônio His-
tórico Nacional, afirmando que em seu passado muito mais remoto
construiu riquezas urbanas memoráveis, gloriosas do ponto de vista
170 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

oficial, social e cultural, que precisam ser preservadas como legado


aos seus descendentes, porque

[...] guarda, seja no traçado de suas ruas cen-
trais, seja em muitas edificações, a estrutura
original de seu núcleo e as marcas da lenta
construção e expansão de seu tecido urbano,
com suas diversas ocupações e usos. A rique-
za e importância de Sobral ao longo dos anos
faz-se visível, inclusive, na rica paisagem que
compreende a serra da Meruoca e a silhueta
de suas edificações. A importância das estra-
das, bem como a centralização do poder re-
ligioso, revelam como ocorreu o processo de
ocupação do sertão do país.18

Os historiadores sobralenses que reconstituíram essa me-


mória concluíram que nesse centro tombado como patrimônio na-
cional, que se impõe não apenas aos seus moradores, mas aos visi-
tantes, pode-se sentir ainda a aura civilizatória que ocupou o sertão
brasileiro, que marcou a colonização dessas bandas do Brasil.
Seus monumentos expressam muito sobre o Brasil Colônia,
sobre a gente que para cá veio, não apenas sobre seu gosto estético, mas
sobre as riquezas que foram produzidas ou descobertas. A vaidade de
propagar linhas coloniais, de ter sido escolhida para abrigar descenden-
tes da coroa portuguesa, de possuir casarões decorados com cerâmica
importada de Portugal, podemos dizer que faz parte do patrimônio
Sobral e região em foco 171

imaterial tombado também; e representa só para constar, porque não


importa aos sobralenses, contradições de colonizados.
O que deveria causar constrangimento causa ostentação, vee-
mência, inventa tradição. “Não obstante, não podemos anular a histó-
ria, mas apenas lembrá-la, esquecê-la ou inventá-la”, concluímos com
Hobsbawm em seu manifesto sobre os quinhentos anos de Quilombo.
Voltando ao seu crescimento urbano, nas primeiras décadas
do XX, uma nova urbanidade vai se colocar sobre a anterior, pensada
não para substituir sua aura aristocrática que nascera com a ocupa-
ção de seus fundadores durante o século XVIII, mas para renová-la
na perspectiva de uma cidade cosmopolita, moderna, ressignificando
seus espaços com todo o paradoxo que representava.
Concordamos com Berman, lembrando de seu precioso es-
tudo sobre modernidade: Tudo que é sólido desmancha no ar:

Ser moderno é encontrar-se em um ambiente


que promete aventura, poder, alegria, cresci-
mento, autotransformação e transformação
das coisas em redor – mas ao mesmo tempo
ameaça destruir tudo o que temos, tudo o
que sabemos, tudo o que somos. A experi-
ência ambiental da modernidade anula todas
as fronteiras geográficas e raciais, de classe
e nacionalidade, de religião e ideologia: nes-
se sentido, pode-se dizer que a modernidade
une a espécie humana. Porém, é uma unidade
paradoxal, uma unidade de desunidade [...]19
172 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Nas primeiras décadas do XX, indiferente a todos os para-


doxos previstos, nascia a Sobral moderna, mostrando logo sua idios-
sincrasia regional, isto porque nascia mítica, enraizada em seus valo-
res religiosos mais do que qualquer outra cidade desta região, tendo à
frente seu herói fundador e primeiro bispo Dom José Tupinambá da
Frota, que passou para a história como seu construtor, um homem de
visão cosmopolita, européia, intelectual e religiosa, claro. Ele, por sua
vez, não apenas ratificou os valores religiosos com que catequizou a
cidade nos tempos coloniais, como conseguiu unir essas propostas
sagradas às seculares em voga. Desse modo procurou, aliando-se ao
poder político, dar visibilidade aos então quatro cantos da cidade,
contribuindo para a edificação de monumentos considerados indis-
pensáveis ao seu bom funcionamento e desenvolvimento urbano, à
organização de seus espaços públicos, à normatização de princípios e
valores sociais e culturais. Nascia assim, a cidade moderna.
Essa nova cidade renovava conceitos e práticas e, mesmo
sem querer, superava a velha, enraizava novos valores, como aconte-
cera a todas as cidades naquele processo. Dessa forma, essa Sobral se
refez para continuar sua caminhada de primeira cidade, de princesa
do norte, provando que era merecedora dessa homenagem, renovan-
do-se também como cidade polo.
Cidade polo porque atraia não apenas investimentos públi-
cos, mas privados, comércios, indústrias, manufaturas. A exploração
de produtos da região, como o algodão, continuou produzindo em-
pregos; também a palha de carnaúba, a argila, mineral abundante e
necessário à produção de tijolos, telhas, entre outros produtos. Co-
mércios da área da construção civil, da área de medicamentos, de
Sobral e região em foco 173

produtos alimentícios foram fundados nessas primeiras décadas e


permanecem até hoje.
Mas voltando a Dom José, suas novas edificações criaram
novos espaços, inclusive para ricos e pobres, mas na perspectiva mo-
derna, onde todos teriam seu lugar garantido e justificado agora dos
pontos de vista religioso e laico, e não mais aristocrático, escravocra-
ta. Religioso porque era natural que a Igreja se ocupasse dos espaços
de seus fieis, não apenas ricos e pobres, mas homens e mulheres,
jovens e velhos, saudáveis e doentes, leigos e religiosos.
E do ponto de vista laico, era justificável também que a Igre-
ja se inserisse na defesa de conceitos científicos eugênicos e higiênicos
assimilados no centro do saber científico, onde seu maior proponen-
te estudara; pois uma organização citadina com escolas para ricos e
pobres, para meninos e meninas, com abrigo para velhos, enfim, com
definições de espaços onde todas as almas pudessem ser salvas, mas
também seus corpos, era o que havia de mais atual naqueles tempos.
Acreditamos que esses três projetos de cidade possam apare-
cer nas memórias dos entrevistados. Uma cidade que se impõe como
patrimônio histórico e cultural, como passado glorioso, colonial, que
nesse caso, como já dissemos, causa vaidade e não constrangimento,
embora contraditoriamente, desde seu tombamento até hoje, as auto-
ridades da cidade unida ao setor privado venham se encarregando de
modificar suas ruas, praças, avenidas, nomenclaturas, sem contar que
algumas casas mais antigas preservam apenas suas frentes ou seus
interiores! Contradições da modernidade?
A outra cidade que, acreditamos, faz parte das reminiscên-
cias dos sujeitos propostos é a cidade dos sonhos, como diria Ítalo
174 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Calvino, porque foi conquista de Dom José, seu santo protetor, tam-
bém motivo de altivez; afinal, Sobral tornava-se diocese, e isto signi-
ficava poder de mando na região a qual esse episcopado assistia. Uma
cidade com cinema, teatro, passeios públicos, bailes, mas nada, nada
competia com as celebrações religiosas desse eclesiástico. Principal-
mente por causa de sua outra face, a de construtor e reorganizador
do espaço público e, por conseguinte, da sociedade sobralense. Cida-
de esta contemporânea de muitos dos entrevistados.
E por fim, surgirá não necessariamente nessa ordem, a cida-
de dos novos tempos, dos novos bairros. Uma cidade que atraiu mais
do que nunca, e sem comparação com nenhuma outra dessa micror-
região cearense, uma população adventícia de longe e de perto. Os de
perto emigrados do sertão, um espaço que também se reconfigurou
nas últimas décadas, embora não tenha modificado sua estrutura eco-
nômica e social, ao contrário, cada vez mais espoliadora, restando a
muitas famílias buscar refúgio na cidade, à procura de seus empregos,
mas também de serviços nas áreas de saúde, educação e outros.
O certo é que Sobral se tornou uma promessa, aventura dos
novos tempos de Brasil, quando a cidade grande deixou de ser um
mito. A migração sertão-cidade sempre ocorreu, e é considerada uma
das maiores conseqüências do sistema capitalista, porque inicialmen-
te implantado nas grandes cidades, onde se concentravam as fábricas
que atraiam a população expropriada do campo.
E no Brasil isso não foi diferente; é só olhar os números
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para ver-
mos a emigração ocorrida nas primeiras décadas do XX, e como se
concentrava nas grandes cidades brasileiras. Os nordestinos inclusive
Sobral e região em foco 175

são considerados os construtores, literalmente, das novas metrópo-


les brasileiras, porque como emigrados analfabetos, sem profissão,
empregavam-se mais na construção de edifícios, vilas operárias, ave-
nidas, na construção pública e privada, do que nas fábricas.
A novidade está em essa emigração ter se voltado para pe-
quenas cidades como Sobral, com uma media de até 100 mil habitan-
tes; agora esta cidade se orgulha de já ter quase 160 mil habitantes,
número que alcançou na última década.
Quanto à emigração de longe, a fábrica Grendene tem se
encarregado de atrair seus dirigentes gaúchos, os legítimos “puro san-
gue” descendentes europeus, que vieram se bronzear no nosso ser-
tão, e segundo alguns, recolonizar estas terras. Há denúncias de que
seriam os novos proprietários de áreas sertanejas desvalorizadas com
o absenteísmo de seus novos proprietários por herança, fazendas an-
tes grandes produtoras de algodão, carne, leite, queijo. Hoje, depois
da morte de seus proprietários, estão totalmente abandonadas; uma
vez educados e radicados na cidade, esses novos donos se recusam a
morar ou investir em suas heranças. E assim, estariam vendendo-as
por “ninharias” para os novos brancos gaúchos. Questões que esta-
mos estudando em outra pesquisa já referendada aqui.
Bom, voltando à emigração do trabalhador rural e seus mo-
tivos, para não incorrermos na tentação de análises já consagradas e
já até senso comum na academia, vamos esperar pelos resultados da
pesquisa.
176 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

______________________________

1 Professora do curso de História da Universidade Estadual Vale do Acaraú; orientadora da pesquisa Memória e
Experiência de Vida nos Depoimentos de Velhos Moradores dos Bairros de Sobral-Ceará. E-mail. mavaadri@
bol.com.br.

2 Pesquisadores: Paulo Henrique de Souza Martins, estudante do curso de História, bolsista do programa de
bolsas de iniciação científica da FUNCAP; Samara Costa Silva, Maria Erbênia Gonçalves da Costa, Maria Jo-
ciane Vasconcelos Freire, Benedita Marcela Santos Nascimento, estudantes da Escola de Ensino Fundamental
e Médio Jarbas Passarinho e bolsistas do programa de bolsas PIBIC/JUNIOR do CNPq.
3 BOSI, Eclea. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 3. ed. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
4 Ibidem, p. 99.
5 Ibidem, p. 37
6 Ver o texto de HALL, Michael M. História Oral: os riscos da inocência. In: O Direito à Memória: Patrimô-
nio Histórico e Cidadania. p. 159.
7 Ibidem, p. 407.
8 CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: 1. Artes de fazer. 2. ed. Petrópolis, Vozes, 1994. p. 37-53
9 Ibidem, p. 94.
10 SANFORD, H. de Paula P. Fazenda Mucambinho. In: Correio da Semana, nº. 178. Sobral-Ce, 02
a 09/09/2006. p. 18. Este autor se diz descendente dos proprietários da fazenda que em 1935 abrigou um
projeto modelo do Ministério da Agricultura para a experimentação de criação de diversos animais adaptáveis
ao nosso clima. Segundo o autor, sua “saudosa tia” que assumira a direção do projeto depois do afastamento
da carreira política de seu pai Paulo Sanford, “deslocava-se de charrete, todos os dias, de Sobral para o Mu-
cambinho, pois tinha a chefia do escritório que lá funcionava.” Atenção para o detalhe: Deslocava-se de Sobral
para o Mucambinho; portanto, dá para medir a distância da zona urbana da cidade pelo modo como o autor
se refere ao deslocamento.
11 Ibidem, p. 99.
12 Ibidem, p. 100.
13 Ibidem, p. 100.
14 Ibidem, p. 101.
15 Ibidem, p. 101.
16 Ibidem, p. 101
17 Ver PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre ética na
Historia Oral. In: Proj. Historia. São Paulo, (15), abr. 1997. p. 13-49
18 BARBOSA, Marta Emisia Jacinto; LUCAS, Meize Regina Lucena; SOUZA, Raimundo N. R.; VAS-
CONCELOS, Regina Ilka Vieira. (Organizadores). Sobral: Histórico e Evolução Urbana. In: Sobral: Patrimônio
Histórico. Sobral: Prefeitura Municipal de Sobral, 2000. p. 29.
19 BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Com-
panhia das Letras, 1986.
Sobral e região em foco 177

Da Fazenda Caiçara, nos “Sertões do


Norte”, à Cidade Média de Sobral:
Reconstruindo Espacialmente o Processo da Expressão Regional
Martha Maria Junior

SOBRAL: RESGATANDO O PROCESSO HISTÓRICO


DA EXPRESSÃO REGIONAL

A configuração espacial do sistema urbano cearense é de-


notativa do papel desempenhado pelos centros de porte médio desde
o início do processo de urbanização até os dias atuais. Dessa forma,
o entendimento do processo de ocupação e consolidação espacial
deve contemplar as variáveis que explicam a formação territorial e o
fortalecimento da expressão regional de tais centros.
Localizada no sertão norte, mais precisamente a noroeste
do estado do Ceará, na microrregião de Sobral, a 235 km de Fortale-
za, a cidade média de Sobral apresenta-se como espaço fundamental
na explicação do processo acima mencionado.

A ocupação dos sertões do norte do Ceará teve início com o


estabelecimento das primeiras fazendas de gado nas margens do rio
178 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Acaraú e seus afluentes mais importantes por volta do fim do século


XVII e início do século XVIII. Inicialmente, a população que se esta-
beleceu nos sertões do Norte era oriunda principalmente dos estados
de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, que de lá fugia dos
transtornos causados pelas invasões holandesas, o que explica o fato
das primeiras relações comerciais estabelecidas entre os povoados
dos sertões e a região da zona da mata canavieira.
Apesar de a invasão holandesa ter contribuído para apressar
o processo de ocupação dos sertões do norte do Ceará, não podemos
deixar de destacar os motivos de ordem geográfica, tais como a boa
qualidade dos pastos, a profundidade e largura dos rios, abundância
e boa qualidade das águas e proximidade com as serras frescas – a
Ibiapaba - e apropriadas para atividades agrícolas diversificadas.
Nos sertões do norte do Ceará, o aglomerado urbano de
Sobral teve sua origem na sede de uma fazenda situada no cruza-
mento de caminhos de considerável movimento. Embora apesar de
muito significativo, não foi este o fato principal na determinação do
rápido crescimento inicial do povoado, mas sim a influência religiosa
e principalmente econômica da Igreja, através do padre João de Ma-
tos, adjunto do vigário de Fortaleza, enviado em 1712 pelo bispado
de Olinda para a ribeira do Acaraú, atendendo ao pedido dos fervo-
rosos católicos moradores da região, que na época pertencia ainda
à capitania de Pernambuco, os quais se obrigaram a pagar um boi
por cada fazenda ao cura do instituído curato do Acaraú. A sede do
curato passou a ser a fazenda Caiçara, desde 1742, quando se iniciou
a construção da igreja matriz em terreno doado pelo fazendeiro pro-
prietário.
Sobral e região em foco 179

O pagamento de um boi por fazenda implicava a necessida-


de de comunicação periódica do cura com os fazendeiros da região,
senão por razões do ofício religioso, pelo menos em função do con-
trole das suas rendas. A influência tanto religiosa como econômica
do padre gerava uma convergência da vida social do curato para a sua
sede. “Uma forma de polarização, mesmo que incipiente”, segundo
Pompeu de Souza Brasil.
Uma boa constatação sobre a relação entre a sede do curato
e sua circunvizinhança encontra-se no livro de Tupinambá da Frota,
onde o mesmo afirma: “A construção da matriz na fazenda Caiçara e
a presença assídua do cura contribuíram para o desenvolvimento do
povoado para onde vinham de toda a circunvizinhança novos habi-
tantes”.

Evidentemente não se pode atribuir específica e diretamen-


te à construção da igreja matriz e à presença assídua do padre o de-
senvolvimento do povoado, embora a forte religiosidade local tenha
atraído a sociedade para as proximidades da igreja. Conseqüentemen-
te os comerciantes e as unidades de abastecimento também foram
atraídos, não pela religiosidade, mas pelo crescente adensamento de-
mográfico nas proximidades da matriz, que começou a receber popu-
lações dispersas pelo curato do Acaraú.

Por volta de 1757, o bispo de Pernambuco subdividiu o


curato do Acaraú em quatro, permanecendo o povoado da fazenda
Caiçara como sede da então freguesia de Nossa Senhora da Concei-
ção de Caiçara, que beneficiada por sua localização no entroncamen-
to das estradas que ligavam o litoral, o interior e as serras, impulsio-
180 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

nou o criatório e o comércio do gado bovino, principal excedente,


mercadoria básica na economia da época.

Caiçara (ou Sobral) firmava-se então como centro urbano e


fortalecia ainda mais suas relações de comércio com a Zona da Mata
e o Recôncavo Baiano. Assim, a tortuosa trilha, conhecida como ca-
minho da Caiçara, evoluiu para uma das estradas mais movimentadas
do século XVIII, além de melhorar os caminhos em direção aos ser-
tões do Piauí, visto que estes já estavam ligados aos grandes centros
de Recife e Olinda.

O comércio entre Caiçara (ou Sobral) e Recife ou Salvador se


fazia da seguinte forma: as cabeças de gado dos diversos fazendeiros
e as tropas de burros de carga com produtos locais concentravam-
se em Sobral onde ocorria o início da comercialização. Daí partiam
através do sertão em direção as grandes feiras nos arredores de Sal-
vador ou Recife. Após a venda do gado, compravam-se mercadorias
nas capitais e o retorno se fazia geralmente por mar até o porto de
Acaraú, de onde vinha por terra até Sobral, ponto de distribuição das
mercadorias para as fazendas e povoados circunvizinhos.
As viagens para Recife e Salvador eram feitas por terra, pois
transportar o gado através do porto era oneroso, além do gado ne-
cessitar água e alimentação durante o trajeto. Na volta, o transporte
marítimo era o ideal para o transporte dos produtos manufaturados
que desembarcavam no porto de Acaraú.
Embora o comércio tenha se intensificado, as dificuldades e
os prejuízos decorrentes das compridas travessias vieram mostrar que
a concorrência com os paraibanos, norte-riograndenses, pernambuca-
Sobral e região em foco 181

nos e baianos era desvantajosa, por isso foi necessário que os cearenses
desenvolvessem técnicas industriais para exportar sua matéria-prima,
já preparada para a distribuição. Em vez de exportar bois, passaram a
exportar a carne em mantas semidesidratadas e conservadas pelo sal.
Surgia assim a indústria da carne-seca, ideal para o transporte marítimo,
visto que não deteriorava, nem exigia alimento enquanto viajava.
Os ricos fazendeiros de Sobral começaram a montar suas
indústrias de abate, salgamento e secagem de carne próximo ao porto
de Acaraú, por volta do ano de 1745. O povoado logo começou a se
desenvolver e inicialmente recebeu o nome de Oficinas.
A instalação das fábricas, oficinas ou charqueadas, como afirma
Valdelice Girão, impulsionou o desenvolvimento da Capitania do Siará
Grande: “Foi com a produção e comercialização da carne seca que o
comércio da Capitania ganhou maior importância na região Nordeste.
Com ela, o comércio passou a ser feito por mar, e foi nas proximidades
dos portos de embarque que se estabeleceram as Charqueadas”.
Não só as circunstâncias geográficas favoráveis, a localiza-
ção nas proximidades do rio e conseqüentemente do porto, e princi-
palmente a expansão do povoado de Sobral como centro econômico
e organizador da região, impulsionaram o desenvolvimento do po-
voado da Barra do Acaraú, núcleo inicial da cidade conhecido como
Oficinas, que mais tarde receberia o nome de Acaraú.

Os donos das oficinas à margem do Aca-


raú, ribeira rica de gado, abundância de sal
e navegação fácil, logo adotaram o processo
182 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

rudimentar das feitorias do Jaguaribe, multi-


plicando suas fábricas, base do povoamento
progresso econômico da região norte da ca-
pitania, de que Sobral logo toma a liderança

Sobral destacava-se pela excelência de seu gado. A pecuária


conseguia prosperar nos sertões, suplantando os obstáculos das secas
e dos métodos rudimentares utilizados na criação, no transporte e
no abate do gado. E através do porto do Acaraú transportavam-se
carnes, couro e sola para os principais portos da Colônia.
Em contrapartida, as embarcações retornavam ao porto de
Acaraú trazendo objetos em prataria e porcelana, móveis e materiais
de construção, para a Vila Distinta e Real de Sobral, contribuindo
dessa forma para o “formoseamento” da Vila que, prosperava eco-
nomicamente e iniciava a construção de seu conjunto arquitetônico,
fundamentando assim o título que tem hoje a cidade, de Princesa da
Região Norte.
As elites sociais e políticas da Vila, que na época se estrutu-
ravam segundo o modelo copiado da sede da província, assimilavam
novas práticas sociais, que denotavam uma influência estrangeira.
Na região norte do Estado, toda a prosperidade convivia
com as adversidades climáticas próprias da região, praticamente sem
muitos problemas até o início das secas de 1777-1778 e 1790-1794.
A primeira, também conhecida como seca dos três setes, foi respon-
sável pelo início da redução do gado da Capitania e do cultivo do
algodão; e a segunda praticamente dizimou os rebanhos sertanejos,
Sobral e região em foco 183

acabando dessa forma com a produção e exportação da carne-do-Ce-


ará, embora a extinção da indústria das charqueadas tenha tido como
causa, principalmente, fatores de ordem socioeconômica externos à
capitania do Ceará.
Segundo Correia, mudanças ocorridas na Europa, especial-
mente na Inglaterra, com a Revolução Industrial, a partir do século
XVIII, provocariam algumas alterações e adaptações do sistema co-
lonial brasileiro, estimulando a agricultura, sobretudo a cultura do
algodão nas regiões semiáridas. Cultura até então relegada a um plano
secundário, simples matéria-prima de rudimentar indústria caseira, o
algodão reorganiza a economia da região conhecida hoje como So-
bral e sua zona de influência. A agricultura algodoeira começa a ser
produzida para fins mercantis.
O gado já não se constitui no principal produto da econo-
mia. As atividades agrícolas, estimuladas pela estação chuvosa de
1795, e principalmente o algodão, cuja produção contribuiu para uma
maior integração entre o interior e o litoral, provoca o desenvolvi-
mento dos meios de transporte e a criação de novas vias, ligando o
sertão norte da Capitania à vila de Granja, alcançando as margens do
rio Parnaíba e a vila de Fortaleza – sede administrativa.
Segundo Oliveira, (1988, p. 46),

O Nordeste agrário não-açucareiro converte-


se num vasto algodoal [...]. Não é a plantation,
porém a estrutura de produção dessa nova
mercadoria; esse vasto algodoal é na verdade
184 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

constituído pela segmentação sem fim de pe-


quenas e isoladas culturas. [...] Emerge aqui a
estrutura fundiária típica do latifúndio.

A comercialização do algodão, como a do gado em tempos


anteriores, determinou um grande incremento nas vias de transporte
de todo o Estado. E ao fim do primeiro quarto do século XIX, o Es-
tado se encontrava todo cortado de caminhos ligando suas principais
cidades de então.
Sobral continuava sempre na hegemonia do comércio, da
vida religiosa e da vida política da zona norte do Estado. Era um
dos “nós” dessa grande rede de caminhos e estradas, necessária ao
escoamento da produção agrícola da região norte do Estado, já bem
mais numerosa e diversificada que antes do declínio das charqueadas
quando destinava-se basicamente ao auto-abastecimento das fazen-
das. Alguns produtos destinavam-se a outras regiões ou províncias,
aumentando a rede de relações comerciais, outros apenas se deslo-
cavam das diversas unidades de produção da área para o seu centro
urbano polarizador, que crescia demográfica e economicamente, e
exigia maior e mais sofisticado abastecimento.
Em 1799, a Capitania do Ceará tornava-se independente de
Pernambuco, e em 1810 iniciou-se a exportação do algodão armaze-
nado em Sobral pelo porto de Acaraú; em pouco mais de dez anos, o
governo da província inaugurou na cidade uma alfândega provisória
para controlar as transações comerciais na região.
Uma nova calamidade climática, a seca de 1844-45, chega
Sobral e região em foco 185

desorganizando o processo de crescimento econômico de Sobral e


sua região, trazendo enorme prejuízo para a agricultura e forçando o
deslocamento de parte da população do sertão norte, promovendo
assim fortes mudanças naturais e socioespaciais.
Em meados do século XIX, a população dos sertões de So-
bral já se encontrava recomposta, visto que até então as irregularida-
des de chuvas que caracterizavam a região já faziam parte da vida da
população, que migrava em tempo de escassez para as terras úmidas
na periferia do semiárido, até o “fechamento” das mesmas em virtu-
de do avanço da cultura do algodão por toda a província do Ceará.
Embora as secas tenham acarretado perdas econômicas e
transtornos aos sertões do Ceará, sempre trouxeram, na opinião de
Souza Brasil, alguma nova infraestrutura para a modernização e cres-
cimento econômico da região, pois até a criação de uma Inspetoria
Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) ocorreria em função da
sucessão periódica destes fenômenos climáticos.
Segundo Oliveira(1988), a criação da IFOCS na primeira
década do século representou, de alguma forma, um esforço raciona-
lizador por parte do Estado no combate às secas, uma manifestação
do planejamento da atividade governamental para resolver os proble-
mas da economia regional.
As secas de 1888, 1889, 1900 e 1915 tiveram conseqüên-
cias desastrosas para a economia cearense. Provocaram a emigração
de cerca de meio milhão de sertanejos, apesar de essa migração não
poder ser atribuída exclusivamente às secas, visto que o êxodo em
massa foi possível também pelo advento da produção cafeeira no Sul
e, sobretudo a partir de 1888, pela abertura das florestas de seringais
186 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

nas regiões subpovoadas do Amazonas e Pará, pois ambas as regiões


necessitavam de mão de obra abundante e barata, a fim de atender às
exigências em expansão do café e da borracha. Existia um recruta-
mento a cada seca e amplos subsídios federais financiavam passagem
para o Norte. O governo cearense recolhia um “imposto por cabe-
ça”, por cada trabalhador exportado.
Sem mão de obra abundante e barata, a agricultura tradicio-
nal do Nordeste árido – gado e algodão - era incapaz de recuperar-se
nos anos em que não havia seca. Quando o governo se deu conta
da contradição tentou proteger a mão de obra da emigração, mas as
fracas providências não surtiram muito efeito, e só na década de 1920
é que essa carência começou a ser aliviada.
Em 1911, foi criada a Inspetoria Federal de Obras Contra
as Secas – IFOCS, que em seguida se transformaria em Departamen-
to Nacional de Obras Contra as Secas - DNOCS –, cujos serviços,
mesmo atabalhoados e sem muito planejamento racional, resultaram
em obras de significativo valor para as regiões inseridas em sua juris-
dição, que cobria vários estados cronicamente flagelados pelas secas.
Muitos quilômetros de estrada foram abertos e outras estra-
das já existentes foram melhoradas. Poços artesianos foram perfura-
dos, barragens e sistemas de irrigação foram construídos. De acordo
com Girão, citado por Souza Brasil (1972, p. 117),

Todas essas obras significaram estímulos do


processo de mudança, principalmente de
modernização.[...]. O automóvel e o casaco
Sobral e região em foco 187

mostraram ao matuto coisas desconhecidas,


novas idéias, vontade nova e o transfigura-
ram. O comércio passou do costado das bur-
ralhadas para a boléia dos caminhões, mais
intenso, mais extenso [...]. Com a facilidade
dos transportes e das comunicações, os pro-
dutos se valorizaram e outros vieram integrar
o parque de sua exportação. Os açudes ver-
dejaram várzeas incultivadas, deram estabili-
dade maior aos currais e alimentaram melhor
os engenhos e as fábricas de beneficiamento.

As usinas de beneficiamento de algodão e as pequenas in-


dústrias artesanais de facas, calçados, artefatos de couro e de bene-
ficiamento da produção agrícola também prosperavam, exportando
seus produtos para além das fronteiras do sul do estado, atingindo os
sertões do Piauí e Pernambuco. A partir de 1849, insere-se em Sobral
a atividade industrial, promovendo a transformação da economia da
cidade, inicialmente através da fábrica de tecidos Ernesto Deoclecia-
no, cuja produção baseava-se no beneficiamento do algodão, sendo
essa produção exportada através do porto de Camocim e da estrada
de ferro Sobral/Camocim.
Os sobralenses ampliaram seu espaço comercial, através das
relações que começaram a estabelecer com as várias cidades do país,
apesar de, a partir do século XX, Sobral ter progressivamente perdi-
do sua vitalidade no tocante à atividade industrial, que necessitava de
novos investimentos, e somente começa a ser revitalizada em meados
188 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

de 1960, em consequência dos poucos investimentos da Sudene e de


capital local.
Segundo Holanda (2000), apesar da frágil economia indus-
trial, já na década de 1970, Sobral aparece, juntamente com Fortale-
za, Juazeiro do Norte e Crato, como os centros industriais de maior
destaque, embora somente na década de 1990, com a chegada da
indústria Grendene Sobral S.A., a cidade de Sobral incorpore uma
nova fase industrial.

O PAPEL DAS ATIVIDADES COMERCIAIS E DOS SERVI-


ÇOS NAS DÉCADAS DE 60, 70 E 80 NA CIDADE DE SOBRAL
Mesmo perdendo parte de sua influência e vitalidade eco-
nômica, em função dos rearranjos espaciais do sistema produtivo re-
gional, da melhoria do sistema de transporte e da incapacidade das
oligarquias locais de investir em novas atividades industriais, a cidade
de Sobral, continuou exercendo papel de destaque diante da rede de
cidades cearense, embora Fortaleza, a capital do estado cada vez mais
consolidasse a posição de pólo concentrador.

Sobral, não só sobreviveu as mudanças que ocorreram no


sistema produtivo cearense, de um modo geral, como também incor-
porou novas atividades terciárias ao seu território. A concentração de
equipamentos comerciais e de serviços e a revitalização do poder de
atração regional geraram assim um novo urbano. Uma “urbanização
terciária”, que foi se sobrepondo a antiga economia agro-exportadora
e transformando a cidade em “empório comercial” e centro presta-
dor de serviços. Cidade possuidora de um terciário “primitivo”, onde
Sobral e região em foco 189

nem sempre as atividades econômicas podem ser bem definidas. Um


terciário das feiras semanais, do mercado público, das mercearias, dos
bazares, dos ambulantes, dos pequenos comércios, dos armazéns de
secos e molhados. Um terciário diferente do existente nas grandes
cidades.

Assim, a sobrevivência de Sobral como centro de destaque


no contexto da rede urbana cearense não se deu apenas através de
seu peso populacional, já bastante significativo na década de 70, mas
principalmente devido às funções desenvolvidas na região. Ela se
constituiu como centro de redistribuição de produtos manufaturados
e de coleta da produção regional.

Foi a concentração das atividades de comércio e serviços


que deu sustentação e consolidou as relações interurbanas estabele-
cidas entre essa cidade e as pequenas cidades circunvizinhas. A de-
pendência dessas pequenas cidades com respeito à cidade de Sobral
deve-se principalmente à precariedade do terciário nelas existente,
que muitas vezes condicionou grande parte dos deslocamentos da
população.

A importância do terciário para o dinamismo da cidade de


Sobral não se constituiu um momento passageiro, visto que desde
os seus primórdios, esta cidade sempre teve nessas atividades um
dos fatores mais importantes de sua formação histórica e de seu di-
namismo socioespacial, como explicitamos anteriormente, quando
relatamos como era realizado o comércio do charque.
190 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

As atividades comerciais e de serviços, em-


bora com transformações, permanecem ali,
pois são constitutivas do modo de vida urba-
no (...). Assim, entendemos que a análise do
comércio permite uma melhor compreensão
do espaço urbano, na medida em que comér-
cio e cidade são elementos indissociáveis,
como podemos comprovar historicamente.

No processo de reorganização do espaço urbano-regional


desse centro, na década de 1970, mais precisamente a partir de 1976,
Sobral passa a ser identificada como cidade de porte médio; a classi-
ficação foi baseada em quatro critérios de análise, dentre os quais os
três abaixo transcritos vão demonstrar, a nosso ver, que a escolha foi
muito influenciada pelo alcance das funções terciárias e pelo papel
exercido por elas na rede urbana:

• Estrutura da população economicamente ativa, local e


microrregional
• Posição da cidade na região e no espaço geográfico em
geral
• Importância das funções terciárias.
O fortalecimento da economia terciária, como podemos
perceber nas Tabelas 1 e 2, surgiu como o caminho mais viável diante
da divisão territorial-social do trabalho.
Sobral e região em foco 191

Tabela 1 - Classificação das cidades cearenses (centos regionais), de


acordo com seus equipamentos terciários, na década de 1970
Centro Regional Classificação
Crato 1º
Sobral 2º
Juazeiro do Norte 3º
Iguatu 4º
Fonte: RBG/IBGE 39(3), 1977.

Tabela 2 - População ativa empregada no setor terciário, na década de


1970, nas cidades de Crato, Juazeiro do Norte e Sobral
Cidade População Empregada (%)
Crato 80
Juazeiro do Norte 71
Sobral 60
Fonte: RBG/IBGE 39(3), 1977.

Sobral, na década de 1970, já possuía um centro universitá-


rio, a Universidade Vale do Acaraú, além de algumas escolas de ensino
secundário, inclusive uma escola técnica de comércio, e destacava-se
como o principal centro educacional da região norte do Estado. Atrai
diariamente centenas de estudantes que residem nos municípios cir-
cunvizinhos. A função educacional que vem ao longo do tempo se
consolidando sempre foi um fator preponderante no papel regional
exercido por essa cidade.

Já na década de 1970, a Faculdade de Filosofia Vale do Aca-


raú – UVA, segundo dados da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação,
recebia diariamente alunos dos municípios de Camocim, Massapê,
192 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Tianguá, Itapajé, Mucambo, São Benedito, Viçosa do Ceará, Marti-


nópolis, Carnaubal, Ubajara, Senador Sá e Ipú, entre outros.

Quanto aos equipamentos de saúde, Sobral já na época


atendia a uma demanda regional, já que era o mais bem equipado da
região norte do Ceará. Nisto, a Santa Casa de Misericórdia de Sobral
merece destaque, pois desde sua fundação atua como um hospital
regional e exerce esse papel, atendendo mais de 40 municípios, inclu-
sive de estados vizinhos como o Piauí.

Segundo Lacerda Felipe:

O terciário surge como uma especialização


necessária e vital para as cidades chamadas
de centro regional, a ponto de ser essa ativi-
dade a força regionalizadora dos atuais cen-
tros regionais, no momento em que o centro
prestador de serviços conjuga em torno de si
outros espaços, outras cidades.

No Nordeste brasileiro o processo de urbanização dos cen-


tros regionais, desde a década de 1960 até meados da década 1980,
pouco tem a ver com a implantação de novas indústrias, mas com
uma estrutura de serviços, fazendo com que em algumas regiões o
elemento de maior mobilidade seja o homem à procura desses servi-
ços, ou seja, durante as referidas décadas, o grau de industrialização
nestas cidades não se mostra significativo, indicando que o maior ou
menor desempenho produtivo delas deve ser associado a outras ca-
Sobral e região em foco 193

racterísticas estruturais que não a industrialização.

A economia dessas cidades foi sempre muito dependente


do setor terciário. Já que as indústrias instaladas estavam vinculadas
à produção agrícola regional, através do beneficiamento de produtos
como o algodão, voltados à exportação e como matéria-prima para a
indústria sediada em Fortaleza, antes do advento da Sudene.

Os dados do Censo Industrial de 1970 vão apresentar So-


bral contando com apenas 5 indústrias, dentre elas 4 ligadas ao be-
neficiamento e utilização do algodão e uma indústria química, que
no total empregavam cerca de 750 trabalhadores. Embora outros es-
tabelecimentos, como olarias, metalúrgicas, fábrica de refrigerante,
fábrica de sabão e padarias tenham sido incluídas no setor industrial,
apresentavam tecnologia rudimentar e empregavam apenas cerca de
1.100 trabalhadores.

Ressalte-se ainda a concentração das atividades industriais


em Fortaleza, visto que a quase totalidade dos incentivos fiscais da
Sudene foram direcionados para empreendimentos na capital, refor-
çando mais ainda a sua centralidade no Estado. A cidade de Sobral
recebeu pouco investimento da Sudene. Apenas algumas indústrias
foram implantadas no período citado, a exemplo da Companhia de
Cimento Portland.

O comércio foi, sem dúvida, o fator preponderante da


economia dessa cidade. Ainda durante parte da década de 1970, o
comércio atacadista destacava-se pela presença da várias empresas
especializadas no comércio de produtos agrícolas regionais, algumas
194 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

delas responsáveis pela exportação para o Sudeste do Brasil e para


o exterior, principalmente no comércio do algodão. Outras traba-
lhavam com produtos de consumo local e regional, como o arroz, o
milho, o feijão, a farinha de mandioca etc.

Mesmo com queda na produção do algodão e a existência,


no Estado, de órgãos como a COBAL, que compravam produtos
agrícolas de consumo local e regional, Sobral, durante a década de
1980, ainda detinha importante papel como centro coletor da produ-
ção agrícola, sobretudo de feijão e milho.

No comércio a varejo, as bodegas, as mercearias, os arma-


zéns de secos e molhados, que tiveram o seu declínio com o advento
dos supermercados na venda a varejo, os bares, os restaurantes e as
lojas de móveis, tecidos e eletrodomésticos eram os mais encontrados
na cidade. Também merece destaque o papel exercido pelo mercado
público, não só por seu papel regional, mas também por uma forte
carga simbólica. No mercado público encontram-se desde produtos
industrializados provenientes de outras regiões do país, até produtos
que levam a marca da cultura regional. Em cidades como Sobral, o
mercado tem ainda grande destaque não só para os moradores locais,
mas também na vida regional.

O comércio ambulante tem crescido consideravelmente


nessa cidade média nos últimos anos, a ponto de na década de 1990
ter passado por um “disciplinamento”, se é que podemos falar assim,
com a designação de espaços conhecidos como “camelódromos”.

Na década de 1980, os centros regionais, como todas as ou-


Sobral e região em foco 195

tras cidades do país, aumentaram seus níveis de pobreza. O país pas-


sava por uma recessão econômica, desacelerando as economias locais
e regionais, embora nossos centros tenham conseguido apresentar
um crescimento lento em relação ao aumento dos equipamentos co-
merciais, e consequentemente dos postos de trabalho, como pode-
mos observar na Tabela 3. Embora Andrade e Serra (1998), afirmem
que Sobral apresentou na época um baixo desempenho produtivo
e uma relativa estagnação devido às baixas taxas de imigração e sua
proximidade com Fortaleza, a cidade conseguiu sobreviver manten-
do o papel que sempre exerceu na rede urbana cearense.

Tabela 3 - Estabelecimentos comerciais e pessoal ocupado nos muni-


cípios de médio porte, nos anos de 1980 e1985
Nº de Estabelecimentos Pessoal Ocupado
Município/Ano
1980 1985 1980 1985
Sobral 589 595 2005 2131
Crato 394 468 1457 1767
Juazeiro do Norte 846 1007 3166 3946
Fonte: Anuário Estatístico do Ceará – IPLANCE, 1985.

Os números apresentados na Tabela 3 demonstram como


Sobral confirma a relativa estagnação já citada; embora não tenha
reduzido o número de postos de trabalho, mesmo assim cresceu bem
menos, se comparado com os outros dois municípios.

A área de influência e penetração do referido comércio des-


sa cidade e sua região de influência, segundo alguns trabalhos publi-
cados nas décadas de 1970 e 1980, apresentam Sobral atuando além
dos seus limites estaduais, além da configuração projetada pela rede
196 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

urbana cearense, embora a dominância desse centro de médio porte


configure-se predominantemente na região noroeste do Ceará, que
circunscreve uma parte do sertão, parte do litoral e parte da serra.

OS NOVOS INVESTIMENTOS INDUSTRIAIS, O COMÉR-


CIO E OS SERVIÇOS A PARTIR DA DÉCADA DE 90 NA
CIDADE DE SOBRAL

O dinamismo da economia urbana e a reorientação do consumo

A economia da cidade de Sobral nas décadas que precede-


ram os anos 1990 foi marcada pelo predomínio das atividades terci-
árias, formadas pelo comércio e serviços. O comércio e os serviços,
como já afirmamos, além de terem sido o grande sustentáculo das
economias locais, também foram os principais responsáveis pela for-
te atração que essa cidade exerceu junto às pequenas cidades circun-
vizinhas.
Na década de 1990, além da intensificação das atividades de
comércio e serviços, também o setor industrial recebeu novos inves-
timentos. Novas indústrias chegaram aos centros de médio porte do
estado do Ceará, atraídas pela mão de obra local – barata, disponível,
abundante e menos organizada -, pela isenção de impostos e pela
infraestrutura.
Nesta mesma década, o crescente desemprego e a ausên-
cia de projetos de desenvolvimento impulsionaram os municípios à
disputa de investimentos do setor industrial, buscando atrair a qual-
Sobral e região em foco 197

quer custo grandes empresas, fazendo concessões adequadas, a atual


redefinição da geografia do investimento produtivo industrial nem
sempre é compensatória em termos econômicos para o município
que oferece os benefícios.
Quanto ao volume de empregos diretos gerados nos muni-
cípios de médio porte não metropolitanos e na região metropolitana
de Fortaleza, percebemos, como demonstram as Tabelas 4 e 5, que
a RMF, na década de 1990 ainda concentrava uma quantidade muito
mais expressiva de trabalhadores ligados a indústria, apesar das po-
líticas de relocalização industrial no interior do Nordeste. Embora
a instalação no sertão norte de um dos maiores produtores de cal-
çados do país, o grupo Grendene, que chegou em Sobral no ano de
1993, tenha contribuindo fortemente para a reestruturação do pólo
calçadista no Ceará, visto que até então o referido pólo abrangia um
grande número de pequenas e médias fábricas de calçados, espalha-
das pelo Estado e os principais núcleos de concentração estavam em
Juazeiro do Norte, Sobral e principalmente na Região Metropolitana
de Fortaleza.
Tabela 4 - Empregos diretos gerados na Região Metropolitana de
Fortaleza (RMF) e nos municípios de médio porte (MMP) de Crato,
Juazeiro do Norte e Sobral – 1999
Municípios Empregos Diretos (%)
RMF (todos os municípios) 51.178 55,36
Crato 2.698 2,92
Juazeiro do Norte 2.734 2,96
Sobral 2.005 2,17
MMP (total) 7.437 8,05
Fonte: Adaptado de MENELEU NETO, José. Novos Sapateiros: os trabalhadores e a reestruturação do capital.
Tese de Doutorado, UFC. Fortaleza, 2000.
198 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Tabela 5 - Empresas de calçados instaladas no Ceará – 1991


Municípios Nº de Empresas
Fortaleza 252
Demais Municípios 115
Total 367
Fonte: Secretaria de Indústria e Comércio.

A implantação de algumas indústrias no interior do estado


do Ceará, ou seja, o deslocamento de empresas industriais de outras
regiões do país para municípios como Sobral desencadeou o aumen-
to do processo migratório entre esses centros e as pequenas cidades
próximas a eles, além de acarretar impactos na economia urbana, em
particular no comércio, nos serviços e no setor de transporte.
A empresa de calçados Grendene se instalou no município
Sobral em 1993, inicialmente gerando 1.100 empregos. No ano de
2000, a empresa contava, segundo dados da revista Exame (nº 22,
ano 2000), com 8.963 funcionários, que recebiam salários em media
30% mais baixos do que os salários pagos aos funcionários da mesma
empresa sediada no Rio Grande do Sul. E mais recentemente, segun-
do dados da própria Grendene, dez anos após sua instalação, ou seja,
em 2003, a empresa contava com sete fábricas e gerava cerca de 16
mil empregos diretos.
Mesmo pagando baixos salários, políticos e administradores
do Estado destacam o papel desenvolvido pela empresa na cidade
como resultado do projeto de modernização política pelo qual vem
passando o município na última década. Dentre eles, Soares (2000)
afirma:
Sobral e região em foco 199

Esta modernização de caráter econômico e de


cunho capitalista aportou em Sobral, com a
transferência de fábricas do Rio Grande do Sul,
merecendo destaque a Grendene, indústria de
calçados, que em números redondos, emprega
dez mil pessoas, provocando uma redução de
desemprego em 50%, caindo de 14% para me-
nos de 7% da população economicamente ativa

Muitos trabalhadores residentes não só em Sobral, mas tam-


bém em vários municípios circunvizinhos, incorporaram-se à grande
indústria e passaram a consumir o comércio e os serviços desse cen-
tro regional com maior freqüência, embora de forma limitada, em
função do baixo poder aquisitivo de seus salários, dinamizando assim
a economia urbana formal e informal, reforçando o seu poder de
atração e reorientando os fluxos do consumo dentro da rede urbana.
No que diz respeito ao dinamismo do comércio e dos servi-
ços na década de 1990 em Sobral vale lembrar que

As cidades sempre encorajaram a expansão dos


serviços seja para atender às necessidades das suas
atividades produtivas seja àquelas da população
trabalhadora a elas vinculada. Posteriormente, no-
tadamente em função do aumento da demanda,
tem-se a formação efetiva de espaços de consumo
os quais vão intensificar a expansão deste setor.
200 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Além disso, a expansão dos serviços tem aumentado pro-


gressivamente, não só nos grandes centros, mas também nos centros
de médio porte, embora muitos desses serviços possuam especifi-
cidades inerentes às condições socioeconômicas e culturais de suas
populações.
No estado do Ceará, a partir da década de 1990, a diversida-
de do comércio e dos serviços passa a se concentrar não só na me-
trópole, como também nas cidades “regionais”, redirecionando parte
dos fluxos e intensificando as relações interurbanas existentes no seio
da rede urbana cearense, principalmente as relações existentes entre
essas cidades e os centros locais circunvizinhos, visto que as condi-
ções materiais e socioculturais na maioria das vezes condicionam a
direção dos fluxos e as referidas relações.

O poder de atração das cidades depende es-


treitamente do tipo dos serviços que ela pos-
sui e oferece à população de sua “hinterlân-
dia”, ou seja, aos seus usuários, aqueles que
usam e desfrutam dos equipamentos coleti-
vos públicos ou privados.

O que ocorreu na década de 90, em geral, foi a dependência


das pequenas cidades à cidade-polo, que não é necessariamente só de
emprego, mas de serviços, principalmente de saúde e de educação.
Sobral e região em foco 201

COMO OS FLUXOS FORAM SE INTENSIFICANDO


ENTRE SOBRAL E AS PEQUENAS CIDADES A
PARTIR DÉCADA DE 90
As transformações ocorridas na economia urbana dinamiza-
ram também os fluxos entre as cidades locais e Sobral. Os transpor-
tes alternativos substituíram os antigos “paus de arara” e os velhos
ônibus das linhas intermunicipais responsáveis pelo deslocamento
diário entre as cidades vizinhas e Sobral. As “topics”, mais velozes e
de preço mais acessível, deslocam-se diariamente, num constante flu-
xo durante todo o dia, transportando a população que vem à procura
dos bens e serviços não existentes no lugar de origem.
Esse aumento na intensidade dos fluxos passou a interferir
no processo de estruturação interna do espaço urbano dos centros
de médio porte e das pequenas cidades. Algumas dessas pequenas
cidades, principalmente as que fazem parte da microrregião de So-
bral, têm hoje seu comércio praticamente “estagnado”, e não mais
possuem agências bancárias, exceto a agência de um banco particular
vinculada aos correios. Este fato condiciona o deslocamento, até da
população mais velha, em direção ao centro regional ao final de cada
mês para receber a aposentadoria.
Os alternativos ou “topics” concentram-se em alguns pon-
tos da cidade, sempre nas proximidades dos serviços, do comércio
formal, do mercado e do “camelódromo”, reorganizando, muitas ve-
zes, os espaços em torno dos locais de parada, atraindo para esses
espaços o comércio ambulante, pequenos bares e lanchonetes.
Segundo Sposito,
202 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

A importância do progresso dos meios de


transportes já era destacada desde o come-
ço deste século, não apenas como elemen-
to a ser considerado para a compreensão do
processo de descentralização no interior das
cidades, mas também para o entendimento
dos fluxos populacionais entre cidades.

A constatação da importância de tais fluxos no estabeleci-


mento das relações que Sobral mantém com suas áreas de influência
nos permite concordar com Sposito, quando a mesma afirma que “a
dimensão espacial”, aparentemente anulada pelas facilidades de co-
municação, ganha nova importância para a análise dos espaços urba-
nos, porque é necessário avaliar a distribuição desigual do território,
da infraestrutura e dos equipamentos que permitem o acesso a novas
formas de circulação.
Para compreender as relações que se estabelecem entre as
cidades na organização da rede urbana cearense, se faz necessário en-
tender que, embora as formas da produção e consumo que definiam
a hierarquização de nossas cidades tenham sido superadas, inclusive
pelas múltiplas possibilidades de circulação das informações que vêm
redesenhando a espacialidade das relações entre as cidades, devemos
lembrar que as condições socioeconômicas das populações de nossas
pequenas cidades ainda condicionam parte significativa dos desloca-
mentos oriundos destas na direção dos centros de médio porte.
Tais deslocamentos reforçam a importância regional de ci-
dades como Sobral, que a partir da década de 1990, em função dos
Sobral e região em foco 203

novos investimentos, da diversidade do comércio e dos serviços, tem


revitalizado o papel que historicamente sempre desempenharam no
contexto de nossa rede urbana: o papel de polo regional.
Em Sobral, a descentralização territorial do comércio e dos
serviços pôde ser observada através da alocação de atividades que
antes se restringiam territorialmente ao centro principal da cidade e
no início da década de 2000 começaram a ser instaladas em outros
eixos. Inicialmente, em julho de 2003, surgiu o complexo comercial
do supermercado Pinheiro, localizado na Avenida John Sanford, no
bairro do Junco, que é um dos exemplos da citada descentralização.
O eixo que foi reestruturado em função do novo equipa-
mento congrega um grande supermercado, duas salas de cinema, um
restaurante, um salão de beleza, três lojas, duas lanchonetes e dois
caixas 24 horas, além de congregar serviços de utilidade pública exis-
tentes apenas no centro da cidade, como uma agência dos correios.
A instalação do complexo num espaço da cidade pouco valorizado
revitalizou a incipiente função comercial do bairro, que se destinava
às classes mais populares, incorporando valor aos lotes disponíveis,
estimulando a especulação imobiliária, além de dinamizar os fluxos.
Outro exemplo significativo surge em torno do supermer-
cado Super Lagoa, instalado em Sobral em novembro de 2003, lo-
calizado na Avenida Dr. Arimateia Monte e Silva, no bairro Campo
dos Velhos, nas proximidades do “Parque da Cidade”, área da cidade
que vem sendo ocupada desde meados da década de 1990 pela classe
média e fortemente especulada por empresários locais.
Nas proximidades do Super Lagoa, ao longo da referida
avenida, instalaram-se lojas de informática, vários salões de beleza,
204 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

uma escola privada, um restaurante, um bar/casa de show, duas aca-


demias de ginástica, um pet shop/clínica veterinária, uma panificado-
ra, lojas de material para construção, um posto de combustíveis, uma
locadora, entre outros.
Mais recentemente, no ano de 2006, outro supermercado, o
Super Rainha, instalado entre o bairro da Betânia e o centro, também
atraiu algumas atividades comerciais em seu entorno. E embora o
Super Rainha pertença a um grupo local, já desponta como um novo
eixo comercial, que abriga em suas instalações, além do supermerca-
do, um restaurante/lanchonete, uma loja de roupas femininas e três
caixas 24 horas, além de uma locadora, uma loja de produtos de in-
formática, um cyber café, uma concessionária de automóveis e uma
lanchonete, que estão instalados dentro do pequeno centro.
A respeito desse processo de descentralização, Assis e Ro-
drigues (2008) reforçam que

à medida que a cidade cresce, a descentra-


lização também aumenta em Sobral, levan-
do à formação de subcentros terciários nos
bairros do Junco e Campo dos Velhos, es-
pecialmente nas avenidas John Sanford e do
Contorno (Dr. José Arimateia Monte e Silva)
onde estão localizados os supermercados Pi-
nheiro e Super Lagoa.

A modernização e a expansão do setor terciário têm inten-


sificado os fluxos entre as pequenas cidades da região norte do Ceará
Sobral e região em foco 205

e a cidade de Sobral, reafirmado o papel que esta cidade média de-


sempenha junto aos demais municípios da região: o papel de “cidade
terciária”, de “capital regional”.
Em meados dos anos 1990, a Universidade Estadual Vale
do Acaraú (UVA) ampliou consideravelmente o número de cursos
de graduação e de cursos específicos de “formação de professores”,
além de instituir alguns programas de pós-graduação em convênio
com outras instituições de ensino superior, aperfeiçoando assim o
papel que as mesmas vêm desenvolvendo desde a sua criação, ou
seja, de instituições de convergência e de irradiação do conhecimento
regional, como tão claramente afirma Coelho (2000, p. 94):

A UVA projeta-se não somente como o prin-


cipal polo de modernização, mas como a mais
significativa agência de desenvolvimento na
região norte do Ceará. Essa instituição co-
manda há mais de vinte anos a formação
profissional e, por conseguinte, a inovação na
zona norte do Estado. Desta forma, com um
papel institucional claramente definido, qual
seja, o de formar recursos humanos para a
renovação e melhoria dos quadros regionais,
essa instituição cumpre a valiosa função de
suprir carências da zona norte, qualificando
pessoal para o magistério público e privado e
para os serviços privados e da pequena buro-
cracia, os “bureaux” municipais para a região.
206 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Ainda na década de 1990, o Centro de Ensino Tecnológico


(CENTEC), federalizado em 2007 e incorporado ao programa de
Centros Federais de Ensino Tecnológico (CEFET), com seus cur-
sos pós-secundários, instalou-se estrategicamente em Sobral, norte
do Estado, tentando instituir uma proposta de formação superior
diferente das existentes no citado centro.
Os Centros de Ensino Tecnológico foram criados com o
intuito de instituir a “educação profissionalizante” pós-secundária no
interior do estado do Ceará. Sua função pedagógica é formar técnicos
ou “tecnólogos” para o mercado de trabalho regional. E para isso
instituíram um vestibular regional, ou seja, O CENTEC de Sobral
tem seu número de vagas destinadas aos municípios de suas regiões
de abrangência.
Possuem cursos nas áreas de irrigação, saneamento ambien-
tal, tecnologia de alimentos e eletromecânica. São equipados com ex-
celentes laboratórios e recursos audiovisuais não encontrados sequer
na maioria das universidades federais brasileiras.
De acordo com Mourão,

Sobral tem investido bastante na ciência e


tecnologia e na formação de jovens. Conta
com um centro de informática, sem falar no
CENTEC (Centro de Formação Tecnológi-
ca). O município vem se preparando para a
globalização, pois não podemos viver eterna-
mente em segundo plano, importando tec-
Sobral e região em foco 207

nologias dos outros. [...] Sobral tem dado um


passo à frente em diversos setores. Minha ex-
periência como professor visitante da UVA
tem sido gratificante. [...] o interesse pela ci-
ência é grande no município e a cultura cien-
tífica vai se tornando importante.

Se há algumas décadas, grande parte dos estudantes da


UVA deslocava-se diariamente entre Sobral e os municípios circun-
vizinhos, atualmente este fluxo é bem maior em função não só das
universidades que aumentaram o número de cursos, mas também em
virtude dos CENTECs, da interiorização da Universidade Federal do
Ceará, da instalação de duas faculdades particulares e do aumento
dos estabelecimentos particulares de nível médio.
Mesmo considerando a intensificação das relações entre as
pequenas cidades e as cidades de médio porte do território cearense
como um dos processos responsáveis pela configuração espacial da
rede de cidades cearenses, é importante que percebamos que a rela-
ção hierárquica não mais existe.
A ampliação das possibilidades de transportes e a diversifi-
cação das formas de comunicação minimizaram as distâncias entre
a metrópole, os centros regionais e os centros locais, gerando novas
possibilidades de relações e reforçando algumas já existentes entre
cidades de diferentes padrões e tamanhos, sem que necessariamen-
te se estabeleçam hierarquicamente. As relações, as intermediações
entre as cidades não mais são assentadas em hierarquias. É fato a
existência de uma “rede urbana” capturada, embora de forma ainda
208 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

precária, pelo processo modernizador da economia capitalista. Uma


rede que rompeu com a estrita hierarquia; portanto faz-se necessário
reconsiderar a noção de hierarquia como tradicionalmente foi pro-
posto.
É certo que a centralidade acentuada no nível interurbano,
ou seja, o papel de cidade principal desempenhado por Sobral em sua
respectiva rede regional, “mesmo considerando o incipiente cresci-
mento industrial, revela o grau de importância de seu papel comercial
e de serviços para uma clientela regional”. (SPOSITO, 2001, p. 241)
As médias e pequenas cidades nordestinas são exemplos da
realização diferenciada do processo modernizador da economia ca-
pitalista, ou seja, a economia capitalista em um mundo globalizado,
como afirma Damiani (2006, p. 37), “insere precariamente todos os
espaços. Esse é o modo de inserção possível numa sociedade críti-
ca como a moderna sociedade capitalista”. Sabe-se que o processo
modernizador não ocorre da mesma maneira em todos os lugares.
É certo afirmar que nas pequenas e médias cidades nordestinas tal
processo pode ser percebido de forma “rarefeita”.
De acordo com Silva:

A realidade urbana estadual, no seu con-


junto, apresenta [...] cidades incompletas,
com infraestrutura frágil, com problema de
conexão exterior que revelam uma rede ur-
bana com rupturas, compõem o quadro de
cidades cearenses. A expansão da malha ro-
Sobral e região em foco 209

doviária, da rede telefônica, de infovias [...]


atestam progressos que acenam para a supe-
ração de enormes problemas. Entretanto no
interior das cidades, os contrastes acirram as
contradições[...].

Então a análise da rede urbana cearense, partindo do pa-


pel exercido pela cidade média de Sobral nessa rede, exige pensar o
território brasileiro sob a ótica desigual e combinada de inserção da
economia capitalista nas diversas regiões do país.

SOBRAL: O CONSTANTE CRESCIMENTO DAS TAXAS


DE URBANIZAÇÃO

O dinamismo e a diversificação da economia, dos transpor-


tes e das comunicações ocorrido a partir da década de1990, e que
vem se intensificando na atual década nos centros regionais ou cida-
des médias cearenses, pode também ser analisado a partir das altas
taxas de urbanização apresentadas por essas cidades, como podemos
ver na Tabela 6.
Tabela 6 - Taxas de urbanização de Crato, Juazeiro do Norte e Sobral:
1991, 1996 e 2000
Municípios 1991 1996 2000
Crato 77,64 81,55 80,23
Juazeiro do Norte 95,02 95,24 95,32
Sobral 81,47 83,63 86,62
Fonte: Anuário estatístico, IPLANCE, 2000/2001.
210 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

As taxas apresentadas na Tabela 6 são resultantes de uma


“urbanização” que vem se construindo a partir das relações ocorridas
não só no interior dessas cidades, como também a partir das relações
desenvolvidas entre elas e as cidades pequenas. Uma urbanização que
vem se construindo através de velhas e novas dinâmicas espaciais,
que redefinem a rede urbana cearense, configurada na atualidade por
suas “redes regionais de cidades”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em vista do exposto, torna-se importante reafirmar que a


rede urbana cearense parte de “histórias regionais” que ao longo do
tempo foram gerando formações espaciais configuradas na forma de
“redes regionais”, cuja espacialidade e estrutura dimensional/funcio-
nal são reflexo e condição da forte relação que sempre se estabeleceu
entre as cidades médias e as pequenas cidades.

A rede urbana regional, formada por Sobral e sua respectiva


“área de influência” desde o momento em que Fortaleza passa a exer-
cer o papel de cidade primaz, foram incorporadas a uma estrutura
dimensional maior, na qual a principal cidade desenvolve papel pre-
ponderante, apesar da clássica “hierarquia urbana” não mais conduzir
o sentido dos deslocamentos.

Outra questão importante, diante da realidade espacial vi-


venciada por essa “rede regional”, principalmente nas últimas duas
décadas, é o processo de estagnação econômica e esvaziamento de-
mográfico por que passam parte das pequenas cidades, embora nelas
Sobral e região em foco 211

se possam encontrar “resquícios” do mundo globalizado, do mundo


“moderno”, pois como já afirmamos, o processo modernizador não
se realizou ao mesmo tempo em todos os lugares

A pobreza das pequenas cidades, ao mesmo tempo em que


contrasta com a revitalização econômica desse centro de médio por-
te, condiciona parte significativa dos fluxos no interior da “rede re-
gional” e certamente enfraquece a relação dessas cidades com Forta-
leza, no contexto da rede urbana cearense.

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216 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Ação, Efeito e Manobras:


O “Artefato Primoroso”
Da Monumentalização de Sobral e seus Usos no Campo Político
Nilson Almino de Freitas

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Este trabalho analisa os princípios metodológicos, legais


e morais na implementação de um “tempo monumental” (HER-
ZFELD, 1991) lembrado pelo processo de tombamento do centro
urbano de Sobral como Patrimônio Histórico Nacional em 1999, ci-
dade essa localizada a 225 km da capital do estado brasileiro do Ce-
ará, Fortaleza. Pretende também analisar o que está implícito no su-
posto processo de “modernização” do espaço urbano aplicado como
justificativa da necessidade de tornar a cidade visualmente elegante,
esteticamente “bonita”, higienizada e “nobre”. Portanto, a intenção
é analisar a relação entre a construção simbólica do “tempo monu-
mental” articulada às práticas do campo econômico, técnico, jurídico
e político. O fechamento do texto acaba incluindo nessa discussão
a idéia da participação popular e como ela aparece nessa articulação
entre os elementos analisados.
Sobral e região em foco 217

Pensando em uma comparação, é interessante lembrar aqui de


Herzfeld (1991), que reflete sobre o caso de Rethemnos, cidade de Creta.
Ele chama atenção para a influência da máquina estatal na formulação,
através de sua organização burocrática, de uma identidade para o local.
O autor percebe que há um contraste entre ideologias diferentes que
servem como definição de uma origem para a cidade. Estes contrastes
sevem para fundamentar o argumento que existem ambigüidades e dife-
renças discursivas abismais entre o “tempo monumental” do “discurso
oficial” e o tempo social colado ao cotidiano. No caso analisado por
Herzfeld, o “discurso oficial” apresenta a história da cidade e de seus
habitantes como uma predestinação fatalista que entende a experiência
social como uma eterna verdade. Esta predestinação margeia o ambiente
físico e transforma as propriedades pessoais em monumentos coletivos,
causando uma série de constrangimentos legais aos moradores no que se
refere à impossibilidade de reformas em suas casas.
O caso de Sobral não parece ser diferente. É uma cidade que
teve seu centro urbano tombado como Patrimônio Histórico Nacional
em 1999, como já dito, e passou por um processo de “revitalização” de
espaços no entorno do sítio histórico, tendo em vista tornar o centro-
monumento iluminado e visível, reforçando uma idéia de “resgate” de
uma tradição local. Desde o tombamento, o poder público local vem
realizando uma diversidade de obras estruturantes e estéticas que causam
um certo deslumbre em alguns, críticas e/ou desorientação em outros,
obrigando os moradores da cidade a se adaptar ou rever práticas coti-
dianas implementadas nos espaços reformados, ampliados ou constru-
ídos. As inaugurações destas obras foram espeta-cularizadas com gran-
des shows de artistas nacional e internacionalmente conhecidos, sempre
218 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

exaltando a dimensão “moderna” da administração pública ancorada no


nome do prefeito Cid Gomes (1997/2000 e 2001/2004), articulada com
a idéia de um poder público que preserva a “tradição” local.
A proposta deste artigo é transgredir um regime hegemônico de
modo naturalista de narração sobre a monumentalização entendida como
“óbvia”, compreendendo este processo como uma trama social construída
socialmente nos limites de um contexto político específico, num período
marcado não só pela proposta do “resgate” da tradição, mas também pela
idéia da “modernização”. A proposta é acompanhar o percurso e o uso
destas idéias e as trilhas construídas e percorridas para sustentar uma fac-
ção política que chegou a fazer um sucessor em 2004, com um discurso de
continuidade das intenções da administração anterior.
Acontece que durante toda a gestão de Cid Gomes, a idéia
mais difundida nos instrumentos de imprensa é de que, a partir de
uma iniciativa preservacionista, podia-se aplicar um determinado
modelo de “modernização” que implica uma intervenção no espaço
urbano. Este modelo foi exposto e pensado como um imperativo ca-
tegórico, que devia consubstanciar uma cidade tanto preparada para
consumir da mesma forma e com os mesmos recursos de uma me-
trópole, quanto uma cidade a ser consumida por sua especificidade,
tornando o urbano um produto.
É neste sentido que as categorias “resgate”, “restauração” e
“revitalização”, que parecem óbvias na sua enunciação, no sentido de
reforçar esta idéia de monumentalização, são acionadas. Elas denomi-
nam ações que passam a ser entendidas como necessidades prementes
para que Sobral possa ser reverenciada como tradicional, ao mesmo
tempo em que no entorno do sítio histórico, o “parque da cidade”, a
Sobral e região em foco 219

“margem esquerda”, o Centro de Convenções ou a avenida “pericen-


tral”, passam a servir de suporte para uma modernização supostamen-
te premente do urbano. Parece haver uma espécie de consenso coleti-
vo nestas anunciações narrativas de uma vontade de um “sobralense”
genérico e impreciso de preservar suas “origens” e tudo aquilo que é
“típico” de sua “sobralidade triunfante”, sempre presente na história
da cidade. O pioneirismo, a independência social, política e econômica
com relação à capital estadual e a conexão com o que há de mais nobre
e “civilizado” no mundo contemporâneo são lembrados como carac-
terísticas deste habitante simulado na política de tombamento. É um
simulacro teórico e visual que dá suporte a esta idéia.
A imagem genérica produzida por esta iniciativa da tecno-
cracia local é potencializada por diversos instrumentos de difusão
simultânea, como a imprensa local e estadual, ressaltando também a
implantação de projetos cunhados como “sociais”. Foram produzi-
dos livros didáticos, grandes shows, dentre outros instrumentos, para
tentar convencer aos habitantes da necessidade de monumentaliza-
ção e modernização da cidade. Começo com uma reflexão sobre a
fundamentação jurídica deste processo.

CONJUNTO DE LEIS E ORDENAMENTOS:


GESTÃO DE SÍMBOLOS, DE VERSÕES E DA IDENTIDADE

Para que as iniciativas registradas como preservacionistas


tenham legitimidade, o campo jurídico é acionado para fundamentá-
las. Um caderno publicado pelo IPHAN, distribuído pela Prefeitura
de Sobral, extrai vários artigos e tenta mostrar, de forma didática, a
220 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

interpretação das normas para o leigo. O artigo 216 da Constituição


Federal, citado neste caderno, por exemplo, diz: “Constituem patri-
mônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial,
tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência
à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da
sociedade brasileira[...]” (PAIVA, 1999, p.6).
A questão que se coloca é: o que é mesmo identidade? O do-
cumento tenta respondê-la afirmando que: “É tudo aquilo que pode
identificar ou diferenciar um homem, uma mulher, um grupo social,
político, étnico, religioso, etc., em relação a outro. O termo identidade
é relacionado à cultura, pois também revela as ações do homem para
viver em sociedade ao longo da história” (PAIVA, 1999, p. 9).
Apesar de o documento ressaltar a dinamicidade do pa-
trimônio cultural, parece haver um movimento inverso que tende
a solidificar uma identificação substantiva pautada na diferenciação
entendida como necessária. A relação entre a noção de cultura e iden-
tidade parece tender a afirmar uma determinada perspectiva de dife-
renciação nas manifestações culturais, justamente porque a noção de
identidade é sempre seletiva e tende excluir a diversidade e construir
uma homogeneidade exclusivista, não contemplando a dinamicidade
da cultura, nem sua pluralidade. Além disso, há uma imprecisão im-
plícita na explicação, no sentido de definir o “outro” tomado como
referência para a definição da identidade. Nesse sentido o “outro”
pode ser qualquer um, dando espaço para manipulações heurísticas
diversas.
Outro elemento pode ser acrescentado nessa relação, pen-
sando o caso de Sobral e o período Cid Gomes. Ele se elege colo-
Sobral e região em foco 221

cando como uma de suas metas “resgatar” a dignidade perdida em


administrações anteriores que não respeitaram a “tradição sobralen-
se”. Os prefeitos anteriores eram acusados de arcaicos e atrasados,
justamente por não valorizar o que o “sobralense” tem de melhor.
Independente da imprecisão na descrição do que pode ser listado
como “o melhor” desse “sobralense” genérico e indefinido, esta fac-
ção política parecia anunciar uma suposta crise de identidade que tem
que ser “regatada” e “resguardada” pelo poder público.
Este movimento de “resgate” do autêntico não é peculiar
somente a uma intenção política anunciada em Sobral. A idéia da cri-
se de identidade, na verdade, faz parte de um movimento mais amplo
na contemporaneidade, onde o excesso de comunicação provocado
pela velocidade e facilidade de contatos, transmissões de informa-
ções, e a mundialização das práticas e processos de relações entre
culturas e sociedades diferentes acabam provocando o seu oposto:
a busca pela diferenciação. Apesar de este movimento não atingir a
todos e não ser assimilado da mesma forma em todas as sociedades
nos dias de hoje, algumas pessoas e grupos sociais mais envolvidos
neste processo percebem-se mais próximos ou com poder de superar
grandes distâncias. O acesso a determinados meios de comunicação
está facilitando isso. Desta forma, essa proximidade parece criar um
sentimento de insatisfação com o movimento de homo-geneização,
tendendo à construção de um exclusivismo meio etnocêntrico. A
identidade surge nesta ambigüidade entre um movimento geral de
aproximação e uma reação que gera um distanciamento. É uma dupla
instância: é igual justamente porque é diferente.
Assim, diante desta ambigüidade, ideologicamente o con-
222 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ceito de identidade torna-se solo fértil a uma centralização do poder


e fortalecimento de prestígio pessoal entre aqueles que a defendem,
pois se torna um referencial de autoafirmação perante um outro que
pode ser todos aqueles que são diferentes, apesar de estarem próxi-
mos.
Em Sobral a facção política que ocupa o poder municipal
em 1997 parece ter sido muito eficaz na construção deste modelo
de sociabilidade pautado na afirmação da diferença e construção de
uma autoafirmação coletiva. É exemplar o que escreve o secretário
de Cultura, Desporto e Mobilização Social da gestão 1997/2000, José
Clodoveu de Arruda Coelho Neto, resumo de um artigo publicado
na revista Sanare, editada pela Prefeitura, quando diz:

O povo sobralense registra a sua identida-


de em um importante patrimônio material e
imaterial construído ao longo da história do
município. A preservação desse patrimônio
significa a preservação da própria identida-
de desse povo. A Administração Sobral no
Rumo Certo compreendeu isso e conquis-
tou para o município o tombamento do seu
centro histórico, não somente para efeitos de
contemplação e estudos. O processo de re-
construção da história patrimonial e cultural
de Sobral tem devolvido a uma parcela mar-
ginalizada do povo sobralense a sua identida-
de perdida, contribuindo, dessa forma, para
Sobral e região em foco 223

a reinclusão desses grupos na vida social (Sa-


nare, out/nov/dez de 2000, pg.42).

As peculiaridades históricas da cidade ressaltadas pelo arti-


culista, associadas às categorias “desenvolvimento” e “crescimento”,
acabam sendo usadas como marcos de distinção e pioneirismo, não
só como correspondente aos movimentos culturais, sociais e políticos
peculiares a mundialização, mas é muito mais do que isso: faz parte
da tradição do local. A questão que se coloca é: que história é essa que
precisa ser reconstruída? Que identidade é essa que estava perdida?
Quem são estes “marginalizados” que precisam de uma “reinclusão”
na “vida social”? Antes estes genéricos e imprecisos grupos, conside-
rados por ele como “excluídos”, não tinham “vida social”? Em que
aspectos eles são marginalizados? O secretário Clodoveu Arruda não
responde a estas questões no seu artigo. O articulista continua seu
argumento dizendo que “[...] cuidar do patrimônio histórico-cultural
e assegurá-lo como direito de cidadania não é tarefa apenas de sua
população. É também de seus governantes” (Sanare, out/nov/dez de
2000, p. 42). Mais uma vez questões ficam sem respostas, como por
exemplo: de que concepção de cidadania o articulista fala?
O caderno já citado que fala da monumentalização de So-
bral define cidadania da seguinte forma: “Cidadania é o direito de vi-
ver decentemente. Independente de raça, sexo, credo ou classe social
todos os homens nascem livres e têm direitos iguais à vida, a empre-
go, à saúde, à educação, à moradia e também à memória histórica”
(Paiva, 1999, p.10).
A ideia de cidadania parece ser definida no sentido inverso
224 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ao de identidade, pois ressalta uma indiferenciação no acesso aos di-


reitos fundamentais. A diferença pregada pelo processo de identifi-
cação acaba entrando em tensão quando se pensa na indistinção no
acesso à “memória histórica”. O direito é de “todos”. Mas quem são
esses “todos”, quando se pensa em uma tradição que tende a ressal-
tar diferenças e especificidades? A resposta para esta questão parece
estar na construção de um sujeito coletivo genérico, indistinto, que
acaba sendo um simulacro, já que, ao mesmo tempo, ressalta a dife-
rença em relação a um outro impreciso, e tem que preservar o direito
de todos, de forma a não haver distinção e discriminação de dife-
renças. O “sobralense” genérico e abstrato aparece neste momento,
justamente porque resguarda os dois movimentos, a diferenciação e
a indiferenciação, pelo menos no espaço restrito da cidade e dentre
aqueles que se classificam enquanto tal.
O sujeito genérico, indiferenciado pelo resguardo da sua ci-
dadania e diferenciado por ser “sobralense”, é chamado à atenção de
seus deveres de respeito e cuidado à tradição no caderno publicado
pela Prefeitura. Essas idéias de cuidado e de respeito são relativas à
dimensão das atitudes morais dos indivíduos. A noção de cidadania
pregada pelo documento, portanto, é tanto legalista quanto moral, ou
seja, procede também conforme a honestidade, a justiça e os bons cos-
tumes. Liberdade, direitos iguais e questões de ordem moral, quando
jogadas na narrativa de forma genérica e associadas a uma identidade
imprecisa, podem ser sacudidas, balançadas e manejadas de diferen-
tes formas, dependendo da destreza do agente narrador. Essa costura
de elementos morais com a noção de identidade tem assento em uma
doutrina normativa que é fundamentada em uma determinada forma
Sobral e região em foco 225

de entender e perceber o que está ao redor. Este assento, portanto


é contextual e relacional. É por isso que aparece sempre atrelado ao
jurídico, para justificar-se socialmente. Para ter eficácia simbólica, a
narrativa sobre o bom senso, honestidade, liberdade, dentre outros
aspectos referentes à moral pressupostamente justa, tem que estar
amparada na lei, dispositivo normativo que aprendemos que deve ser
respeitado e aplicado. O problema é: quem julga, e em que contexto
temporal e espacial, que o comportamento de um indivíduo pode ou
não ser entendido como expressão destes preceitos que definem a
cidadania? O protesto de um morador que não aceita a imposição da
municipalidade de proibir uma reforma em sua residência localizada
no sítio histórico tombado, por exemplo, é uma manifestação livre e
justa? Esta narrativa não deixa clara a resposta à questão.
No que se refere ao cuidado a que o documento chama
atenção, ele está direcionado a três modalidades de patrimônio, que
fazem parte da política nacional de preservação: a natureza (paisagem
e recursos naturais), os bens culturais (objetos e edificações) e os
saberes e modos de fazer (técnicas e artes). Classificações essas que
também são jogadas como autoevidentes, o que pode gerar inúmeras
interpretações, do ponto de vista de sua implementação e efetivação.
Somando-se a essas dimensões morais e legais, o livreto
chama atenção da garantia do “bem estar” que o tombamento pode
trazer. Segundo o documento, o tombamento não significa parar no
tempo, pois a cidade também precisa de saneamento básico, meios de
transporte, comunicação, eletricidade etc. Desta forma, o patrimônio
pode se modificar com o tempo, mas garantindo que “as caracterís-
ticas essenciais, especiais – aquelas que a tornam diferente de todas
226 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

as outras – não desapareçam” (PAIVA, 1999, p.16). Além disso, o


tombamento, segundo o livreto, pode beneficiar o turismo cultural,
“contribuindo para o desenvolvimento de muitas cidades tombadas”.
(Ibid.).
A idéia de “desenvolvimento” relaciona-se diretamente com
o que já foi dito: a implementação dessas políticas, na prática, acaba
sendo coerente com um movimento global de tentativa de facilitar a
comunicação, construindo, de forma latente, uma grande “aldeia glo-
bal”, e ao mesmo tempo aciona o seu contrário, a anunciação e efeti-
vação prática de uma diferença que deve ser ressaltada. O simbólico
referente à construção de uma identificação substancial e genérica é
articulado com o político, pois, de fato, o que se coloca em evidência
é uma determinada perspectiva de como se deve mostrá-lo, negli-
genciando qualquer evidência de conflito na sua elaboração, apesar
de ela existir. É também articulado com o econômico, atrelando esta
construção a políticas que venham a fortalecer determinados setores
de produção de riqueza. É isso que vai ser analisado agora.

O SIMBÓLICO, O POLÍTICO E O ECONÔMICO


NO PROCESSO DE MONUMENTALIZAÇÃO

Com relação ao campo político, o sistema jurídico vem a


contribuir para diluir o conflito, tornando a aplicação de uma pers-
pectiva na implementação da construção de uma identidade coletiva
óbvia e supostamente consensual. A legislação pertinente ao assunto
prevê que cabe ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Na-
cional (IPHAN), juntamente com a Prefeitura Municipal cuidar do
Sobral e região em foco 227

processo de tombamento e fiscalizar o sítio histórico. Após o tomba-


mento, todas as mudanças a serem realizadas nas edificações situadas
na área têm que passar pelo aval destas duas instituições.
Ainda no campo político, a especificidade fundamentada na
diferença não pode ser só aquela que se sustente no “sobralense”.
Tem que ser sustentada também na diferença formulada pela pró-
pria facção política que está no poder. Como já dito, o secretário de
cultura, Clodoveu Arruda, em artigo, lembra que as administrações
municipais anteriores davam pouca importância ao “que Sobral re-
presentava”. Para ele,

Poucas administrações investiram em ações


que fizessem renascer o patrimônio e acen-
der nos corações sobralenses a história de
seus antepassados fazendo dela a sua história
[...]. As gerações mais novas foram, assim,
perdendo o seu passado e as construções
antigas tornaram-se, para muitos, apenas
“pedra e cal”, não retratando mais o grande
acervo histórico, artístico e cultural que re-
presentavam [...]. Sua identidade adormecida
dificultava o estabelecimento de novos hori-
zontes. Diante da inércia administrativa, os
sobralenses não tinham condições de criar e
recriar novos e velhos patrimônios. Faltavam
ações públicas concretas que dessem vazão
a novas idéias e expressões populares, resga-
228 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

tando não só o passado e sua historicidade,


mas abrindo espaços para a criação e recria-
ção artística-cultural (Sanare, out/nov/dez
de 2000, p.42).

A idéia da “identidade adormecida” lembra muito o conto


consagrado e muito conhecido da “bela adormecida”, criado pelo es-
critor francês Charles Perrault. A história conta que uma princesa, de
forma inata, possuía dons especiais. Entretanto, também nasceu com
uma maldição: aos 16 anos de idade cairia num sono eterno. Com a
concretização da maldição, todos moradores do castelo também fica-
ram adormecidos e foram acordados com a chegada de um príncipe
encantado que beijaria a princesa, quebrando a maldição.
É interessante que a cidade de Sobral é conhecida popu-
larmente como “Princesa do Norte”. Toma-se aqui a liberdade de
fazer algumas comparações forçadas pela imaginação. No discurso
do Secretário, parece que a administração Cid Gomes surge como
um príncipe encantado que faz com que a beleza, a pureza, o senti-
mento e a nobreza, simbolizada na “Princesa do Norte” que dorme
por causa de um “feitiço maligno” de administrações anteriores, seja
despertada com um beijo daquele que é também o seu salvador. A
“princesa” e os “sobralenses”, habitantes do castelo, parecem ter sido
despertados e “resgatados” de um sono profundo que não permitia
dar “vazão” a qualquer tipo de expressão. A ação administrativa do
governo Cid Gomes, nesse sentido, passa a ser não só a explicitação
prática de uma técnica de gerir a municipalidade, mas também uma
espécie de predestinação iluminada que revela a luz para aqueles que
Sobral e região em foco 229

estavam com os olhos cerrados pela sonolência causada por outros


governantes, que não se preocupavam com a tradição dos antepas-
sados. Assim, acordados, supostamente seria possível a condição de
possibilidade para o “estabelecimento de novos horizontes”.
A própria solução da relação ambígua entre cidadania e
identidade não pode ficar só na definição genérica de uma “sobrali-
dade”. É necessário articular a diferenciação com uma indiferencia-
ção em atividades práticas. Em Sobral não houve uma resposta efeti-
va no investimento em políticas de turismo, a não ser no turismo de
negócios e de eventos, a partir de atividades direcionados ao Centro
de Convenções, construído em 2002. Mas, por outro lado, algumas
edificações e espaços do sítio histórico e do seu entorno passaram a
ter usos distintos dos originais. O casarão que abrigava no final do
século XIX e início do XX as grandes festas freqüentadas por pesso-
as de prestígio social e político na cidade, por exemplo, tornou-se um
Centro de Línguas Estrangeiras destinado a uma parcela da popula-
ção que não tem acesso aos cursos pagos. Dois processos parecem
estar intercalados na constituição deste projeto: um atendimento a
determinados segmentos da população que não teriam condições de
pagar os curso de línguas privados e, ao mesmo tempo, um processo
de higienização da cidade, associando estética, preservação e progra-
ma de assistência social.
Outros “projetos cidadãos”, como foram batizados, pare-
cem seguir a mesma trilha da costura entre política preservacionista e
assistência social, acrescido somente com a política setorial de cultura.
Um exemplo é o Projeto Oficina-Escola de Artes e Ofícios de Sobral
(PROEAOS) que, mesmo depois de todo o alarde de seus objetivos
230 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

nos jornais, no período Cid Gomes, essa facção política não conse-
guiu implementá-lo completamente. A proposta previa cinco oficinas
em seu programa: a de arte e papel, a de marcenaria e carpintaria, a de
conservação e restauração de acervo gráfico, a de instalações prediais
e a de alvenaria. Além destas atividades internas, o projeto anunciava
atividades experimentais em imóveis do sítio histórico tombado de
Sobral. Esta última foi realizada com o auxílio de jovens entre 14
e 21 anos, que, segundo a avaliação dos propositores, estavam em
“risco psicossocial”, apesar de não definirem com precisão o signifi-
cado do termo. Esse não é um projeto criado em Sobral, pois existe
também em outros estados brasileiros e já ganhou o prêmio Rodrigo
Melo Franco, em 2001, do IPHAN na categoria Preservação de Bens
Móveis e Imóveis. Desta forma, a administração municipal tende a
conciliar três dimensões fundamentais, apesar da imprecisão e obscu-
ridade na definição delas: a “cidadania”, a “cultura” e a “identidade”.
Esses e outros exemplos mostram que o patrimônio não
pode ser entendido somente no sentido da proteção de valores es-
pirituais e materiais passados entre gerações. Não é só uma recor-
dação ou memória de atos, falas e obras. É uma construção social
sustentada por uma engenharia política no presente que produz um
corpus cultural mais ou menos difuso que tem a pretensão de ter
sentido e significado para toda uma coletividade. Desse modo, há
uma dimensão utilitária no processo implementado de construção
da monumentalização. Ao patrimônio é atribuído um valor simbó-
lico que deve ser reconhecido de forma premente e imperativa. É
uma espécie de síntese simbólica mediada pela moda e pelas relações
de poder e prestígio. Ele é uma recriação da história que tende a
Sobral e região em foco 231

transmitir uma visão essencialista do passado e esquece uma série de


circunstâncias que poderiam denegrir a versão produzida. Porém, o
simbólico produzido não se sustenta se não for relacionado a outras
atividades que possam lhe dar certa utilidade pragmática, como pro-
jetos educacionais, de lazer e assistenciais, assim como demanda um
forte investimento na propaganda extralocal, sempre acompanhada
do seu idealizador, o que o favorece nas disputas futuras no campo
político. Não é à toa que a cidade de Sobral virou foco de atenção na
campanha para governador de 2006 que deu a vitória a Cid Gomes.
Os projetos implementados na cidade foram lembrados tanto como
foco de críticas do opositor quanto para exaltação do candidato vi-
torioso.
Na produção da representação simbólica da monumentali-
zação, o técnico aparece como protagonista principal neste processo,
pois é seguindo suas avaliações, laudos, perícias e análises, que as
instâncias do Estado implementam toda e qualquer intervenção no
espaço urbano. Sobre isso vale a pena uma atenção analítica especial.

O TÉCNICO E O SIMULACRO: LEGITIMAÇÃO DO SIMBÓ-


LICO E DENEGAÇÃO DO POLÍTICO E DO ECONÔMICO
A cidade projetada nos projetos, laudos e pareceres usados
para implementar políticas direcionadas ao urbano, especialmente a
de preservação, anunciados como orientados por princípios científi-
cos e técnicos, geralmente deixam de registrar que a imagem fabri-
cada resultante, apesar de não ser falsa, é elaborada por interesses
específicos de determinados agentes sociais, a partir de estratégias
pautadas em narrativas imperativas recheadas de autoridades morais,
232 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

legalistas, racionais e históricas. A informação fabricada é utilizada


para justificar atitudes de membros do poder público que projetam,
a partir de uma autoridade que lhes é peculiar, imagens que são im-
postas aos demais. O técnico e o burocrata, sustentados por uma
formação acadêmica, seja como historiador, arquiteto, engenheiro,
advogado, dentre outras, integrantes ou integrados através de contra-
to ao poder público, ocupam um lugar singular nas tenções implícitas
nas relações de poder da cidade. Lugar este definido tanto pelo indi-
víduo a si mesmo, quanto pela relação entre distintos agentes sociais,
disputando uma posição privilegiada na hierarquia culturalmente de-
finida que delimita o território exclusivo das pessoas de “prestígio”.
O lugar ocupado por eles tem a pretensão de ser distinto do ocupado
pelo homem comum, que pode ser entendido como não técnico ou
não político (CHAUÍ, 1984).
O saber implícito nessa lógica da técnica resulta em uma
construção que pressupõe constância e unidade de ações pretensa-
mente universais, neutras e seguras. Alguns adjetivos são aplicados no
saber produzido para realçar seus efeitos no cotidiano, como a idéia
de “racional” e “moderno”. No período Cid Gomes, este recurso era
muito comum. Nesse processo de produção do saber técnico, prin-
cipalmente o relativo às estratégias planejadas que visam organizar
racionalmente o urbano, há uma necessidade constante de denegar as
práticas políticas e econômicas no seu processo de produção.
O econômico, por exemplo, no seu sentido estritamente
comercial, só aparece como repercussão projetada estrategicamente
pelo saber técnico para criar espaço de produção de riquezas para um
“público alvo” genérico, mas não enquanto comércio de um saber
Sobral e região em foco 233

competente. O técnico não pode dizer que está se vendendo no sen-


tido de compra de sua “alma” ou espírito científico. A cientificidade
tem que ser resguardada de manipulações externas de qualquer or-
dem; por isso, o técnico necessita prevenir sua conduta de um tipo de
comércio que aparenta não ter princípios certos para vender, mani-
pulando qualquer princípio, desde que venda com lucro. Logicamen-
te, o técnico é pago para trabalhar, mas o produto de sua atividade
tem que ser sustentado pela objetividade e por um suposto controle
de manifestações subjetivas e sentimentais, assim como preservado
de manipulações comerciais e ideológicas.
A única ideologia permitida neste tipo de trabalho é a do
“descobridor”, “criador inspirado”, guiado por uma paixão pela sua
profissão, sempre solitária em um corpo quase “predestinado” ou
“iluminado”, o que auxilia muito nas diferentes formas de classifi-
cação e avaliação do que vem a ser um profissional competente. O
técnico, a partir da idéia de cientificidade de sua atividade, parece só
dispor suas descobertas a uma convicção ou a princípios pautados
em ética e método rigorosos, que excluem manobras comerciais e
envolvimento subjetivo e emocional com outros “não cientistas” em
suas ações. Parece não haver manipulações, pressões sociais, troca de
benefícios, relações de vaidade ou reuniões “mundanas” com “pes-
soas comuns”, a não ser quando estas últimas servem como “objeto”
das ações profissionais do técnico.
O técnico não tem a pretensão de se distanciar somente do
econômico, mas também do político. Apesar disso, só se pode com-
preender este processo, que culmina com o parecer técnico, analisan-
do a ciência como elemento estruturado pela sociedade e construído
234 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

em constante interação com suas tramas, tensões, movimentos e am-


bigüidades. A ciência é socialmente construída. Desta forma, um de
seus produtos, o “fato”, não pode ser entendido fora do contexto das
relações sociais.
Veyne (1998) relativiza a definição de “fato” como algo que
pretende ter organização natural, que esteja pronto e que seja inalte-
rável. Nessa perspectiva organicista, o esforço do cientista, portanto,
parece ser tentar reencontrar esta organização. Acontece que os “fa-
tos”, segundo a orientação de Veyne (1998), não podem ser isolados
das tramas sociais, tanto no que se refere às inerentes ao objeto de
investigação, quanto às construídas na ciência em ação. Segundo o
autor, estas tramas, nas ciências humanas, são misturas pouco “científi-
cas”, no sentido rígido e experimental desta palavra, e muito humanas,
recheadas de relações materiais, finalidades e acasos. O técnico pautado
na prática científica isola uma fatia da vida social segundo seus interes-
ses, e os fatos aparecem com laços objetivos e importância relacional.
A trama composta na narrativa do técnico é organizada em planos
diferentes, de acordo com cortes transversais e ritmos temporais dis-
tintos, como uma análise espectral pautada em um ponto de vista ou
perspectiva. Desta forma, como lembra Veyne, o “fato” nada é sem sua
trama. Ele não é um ser, mas um cruzamento de possibilidades de op-
ções metodológicas do observador, assim como acontece em qualquer
outro tipo de saber inerente às relações sociais.
Assim, o técnico não tem como fugir da impossibilidade de
dar conta de tudo sobre o real. Dessa forma, o saber produzido sobre
qualquer realidade é sempre parcial, no duplo sentido do termo: por
um lado, é resultante de interações subjetivas em um determinado
Sobral e região em foco 235

campo de atuação profissional articulado com o cultural, e por outro,


só toma como “objeto” uma parte da realidade selecionada.
Porém, esta relação parcial não aparece somente no produto
do saber técnico, mas também no processo. A força do argumento
construído, as alianças agrupadas, assim como os instrumentos técni-
cos organizados e usados, sem deixar esquecer o fato do sucesso no
convencimento da instituição que contrata e pessoas que, posterior-
mente, passam a usar os argumentos expostos no texto, transitam no
foco de atenção do profissional na construção de fatos consubstan-
ciados no parecer, no laudo ou no diagnóstico produzido. Portanto,
não é somente o conteúdo em si que conta nesta relação, mas todo
o agenciamento organizado pelo técnico para produzir algo, que não
se restringe somente ao método e à literatura, indo muito mais além.
Pensando o caso específico da política de patrimonialização
aplicada em Sobral, os argumentos produzidos pelo parecer dos téc-
nicos contratados para fazer o Estudo (1997) necessário para a sua
implementação, falam sobre características gerais do sobralense que
são padronizadas, “pasteurizadas”, “embelezadas”, “embaladas” e
vendidas como gerais e válidas para qualquer sobralense por parte das
políticas culturais, assistenciais, de lazer e educacionais, principalmente.
É uma imagem que pretende ser matricial, originária do ser “sobralen-
se” e base para conhecer o habitante típico da cidade. O núcleo urbano
tombado serve como suporte para constituição dessa imagem matri-
cial, que não é nada mais do que uma maneira de ver a cidade, porém
legitimado pela suposta objetividade do parecer técnico. Entretanto,
essa imagem não pode ser totalmente arbitrária. É uma condensação
ou uma espécie de média de valores e percepções, justamente para
236 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

manter sua legitimidade. Não é à toa que a história contada no Estudo


(1997) é recheada de grandes heróis e feitos que têm a pretensão de
representar o pioneirismo e a riqueza que Sobral parece sempre preser-
var, desde os seus primórdios como vila colonial.
Esta versão da história contada para fundamentar o pro-
cesso de tombamento é um simulacro ou uma imagem que é ide-
alizada, processada e armazenada na forma de uma série ordenada
de unidades individuais espaciais, dispostas contiguamente, cada uma
com um “brilho” especial e definido. A “sobralidade”, nas narrativas
do estudo aqui citado, aparece como um espectro ou um feixe de
energia radiante, formado por uma dispersão de ondas, que atinge os
habitantes da cidade e os torna apaixonados cegamente pelo fato de
viverem no seu conjunto de edificações de concreto.
É comum encontrarmos outras narrativas escritas de forma
laudatória para justificar, defender, elogiar ou louvar o “sobralense”
em jornais locais e estaduais, grupos organizados e instituições. Essas
narrativas tendem sempre a apontar a “sobralidade” como instâncias
de consagração, de notabilidade dos “escolhidos” e supostamente
“privilegiados” moradores da cidade, transcendendo versões, especi-
ficidades e contextos circunstanciais. A “sobralidade” aparece nessas
narrativas como essência ou natureza íntima da existência na cidade.
Aparece também como aquilo que faz com que o “sobralense” seja o
que é na sua natureza. Parece ser a existência do que é mais constituti-
vo do “sobralense”, apesar de não haver explicitação e detalhamento
dos elementos que se organizam para dar suporte ao modelo desta
constituição. Além de tudo, esta “sobralidade” tem significação espe-
cial, distintiva e supostamente definitiva.
Sobral e região em foco 237

Cada casarão, os sobrados, o Teatro São João, o Museu


Dom José Tupinambá da Frota e demais edificações presentes no
núcleo urbano tombado são mais do que edificações nessas narrati-
vas. Devem ser lembrados como símbolos da chamada “sobralidade
triunfante”, palavra-chave encontrada em alguns artigos jornalísticos
locais e estaduais.
Logicamente o técnico não é o responsável direto pela im-
plementação de qualquer política aplicada ao urbano. Seu parecer é
usado no campo político e potencializado em práticas de intervenção
e modificação do espaço planejado enquanto políticas públicas. É tam-
bém usado para legitimar determinadas formas específicas de planejar
e modificar o espaço, sem parecer que seja parcial e pautado em uma
dentre várias perspectivas possíveis. Entretanto, apesar de não querer
aparecer como tal, o saber produzido neste processo é contingente e
relativo a um tempo histórico com base em oportunidades heurísticas
postas dentre as possibilidades existentes e práticas eficazes no agen-
ciamento de redes de produção, sustentação e difusão.
Grandes obras de modificação estrutural no tráfego e no
traçado urbano, construção de espaços de lazer e intervenções paisa-
gísticas no entorno do sítio histórico acabam reforçando o simbólico
construído sobre o patrimônio, relacionando-o a uma suposta mo-
dernização premente no discurso da municipalidade da gestão Cid
Gomes. A população acaba sendo entendida como “público alvo”,
categoria também imprecisa e genérica. A participação popular na
implementação de políticas de preservação, apesar de prevista em lei,
é construída através de mecanismos em que a opinião dos moradores
é expressa de forma seletiva e direcionada a uma determinada forma
238 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

de ver a cidade. O campo político acaba jogando com a imprecisão da


legislação que define mecanismos de participação, o que serve para
legitimar qualquer ação que possa ser batizada nessa rubrica.

CONSIDERAÇÕES FINAIS: ALGUMAS RELAÇÕES


COM A QUESTÃO DA PARTICIPAÇÃO

É importante considerar que existe um movimento presente


no processo de produção da legislação federal desde a Constituição
de 1988 que trata de políticas públicas que colocam como importante
a questão da participação popular. A política de patrimônio não é di-
ferente. A preservação do patrimônio, segundo a legislação pertinen-
te, baseada na “identidade” e na “cidadania”, deve ter como suporte
a opinião dos moradores sobre a implementação de políticas desta
natureza. Como boa parte da legislação, algumas questões carecem
de maior precisão conceitual, principalmente quando se pensa a for-
ma prevista de participação.
Bourdieu (1987) faz uma reflexão interessante sobre a pes-
quisa de opinião pública, que pode ser adaptada à relativização da
participação popular nos processos decisórios. Já fazendo as devidas
adaptações, três questões podem ser interessantes para se pensar o
envolvimento das pessoas nos processos decisórios. A primeira é que
qualquer forma de participação pressupõe que a opinião de todos os
envolvidos realmente se equivale. A segunda é a idéia de que a pro-
dução de opiniões, principalmente a referente à concepção de urba-
nismo, patrimônio histórico, dentre outras, está ao alcance de todos.
E a terceira é o pressuposto que de que existem um consenso sobre
Sobral e região em foco 239

os problemas e perguntas que merecem ser feitas.


Nesse sentido, há dois tipos de saber que deveriam perten-
cer a qualquer um que se envolva em processos de participação, para
que as opiniões sejam equivalentes: o primeiro é o inerente ao campo
político, e o segundo, aos códigos lingüísticos elaborados no campo
do saber competente do técnico. Não que estes saberes sejam os cor-
retos, mas é a partir deles que o sistema político se fundamenta para
tomar decisões. No campo político, o processo exige uma posição
influenciada por uma demanda social. Essa posição é relativa a uma
conjuntura política e é interessada. O adversário é sempre desclassi-
ficado socialmente diante de argumentos que tendem a apresentar
princípios imperativos e supostamente certos e necessários. Nem to-
dos os habitantes da cidade estão acostumados com os conflitos de
percepção e com as ambigüidades inerentes ao campo de disputas
por uma posição política legítima. Em Sobral não é diferente. A ideia
do político como aquele que cuida do “povo”, do “bem público”, da
“comunidade”, da “cidade” ou aquele que “faz”, categorias sempre
manipuladas de forma imprecisa e genérica, ainda é uma moeda de
troca fundamental para se ganhar uma eleição. Os termos preser-
vação da “tradição” e “modernização”, usados de forma veemente
nas campanhas de Cid Gomes, não fogem à regra. São incluídos no
processo de construção de discursos que tendem a mostrar um argu-
mento imperativo e certo que tendeu a reforçar a posição do então
candidato em 1996.
O domínio do saber técnico acaba sendo entendido no pro-
cesso de definição das políticas a serem implementadas como o que
tem mais legitimidade, como já dito. No caso da monumentalização
240 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

de Sobral ele foi decisivo. Apesar de a legislação prever que é neces-


sário os moradores se expressarem na implementação dessa política,
o que ocorreu foi o aproveitamento de abaixo-assinado feito contra
a derrubada de um casarão que hoje abriga a Casa da Cultura, docu-
mento esse produzido em 1996, como uma manifestação popular
da necessidade de uma política de preservação para Sobral. Como
o processo de instrução de tombamento foi produzido em 1997, o
abaixo-assinado foi colocado em anexo e o documento completo foi
enviado para o Conselho Nacional do IPHAN no Rio de Janeiro e
aprovado com o parecer de Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, na
época prefeito de Ouro Preto. Como já dito, a efetivação do tomba-
mento se deu em 1999.
A questão fundamental neste processo é de que não existe
uma problemática que se apresente de igual modo para todos. O que
aconteceu em Sobral é que a proposta produzida pelas mãos daque-
les que fazem parte do campo político e os técnicos contratados,
passou por determinadas problemáticas anunciadas por pessoas que
têm uma determinada percepção de como se organiza e aplica o sa-
ber técnico e a ação política, o que difere das inúmeras percepções
dos integrantes das diferentes classes sociais e grupos de moradores.
Os que não têm força ou não compõem o campo político e técnico,
podem imaginar outras problemáticas relevantes, ou mesmo inter-
pretar as questões levantadas pela implementação de determinadas
políticas setoriais de formas diferentes, o que inviabiliza a idéia de
que todos podem dar uma opinião, já que não são homogêneas, ou
melhor, não partem dos mesmos pressupostos, códigos lingüísticos e
entendimento dos mecanismos de implementação.
Sobral e região em foco 241

A questão da heterogeneidade de bases cognitivas e práticas


para a formulação de opiniões não é uma questão negativa. Só que
elas não podem ser entendidas como “preparadas” da mesma for-
ma para produzir uma opinião. Toda opinião, como nos alerta Bour-
dieu (1987), está situada em uma série de posições marcadas em um
determinado campo de atuação. Nesse sentido, há uma margem de
liberdade que é relativa à tensão entre pressupostos e ideologias dife-
rentes, posta em uma estrutura do campo político criado para tomada
de posições que podem ser hierarquicamente definidas, o que acaba
favorecendo determinadas posições como preeminentes. Se aqueles
que ocupam o campo de disputa de opiniões não conhecem bem os
mecanismos sociologicamente criados para definição de decisões, o
seu poder de disputa será restrito. Portanto, a participação não pode
ser entendida como resultante de uma mera soma de opiniões in-
dividuais. É um conflito entre forças. Aqueles que manipulam com
maior destreza o sistema de produção de opinião, dissimulando com
eficácia o conflito de forças, acabam fazendo com que a percepção
que produzem passe a ser entendida como a mais “objetiva”, “racio-
nal” e “justa”. A emoção individual deve ser diluída no que é “bom
para todos”. Só não se sabe muito bem quem são esses “todos”, já
que a política de preservação, ao mesmo tempo que diferencia alguns
pela necessidade de produzir uma identidade, deve indiferenciar to-
dos para preservar a cidadania, causando uma confusão na definição
de quem é merecedor dela.
As idéias de “modernização” administrativa do campo po-
lítico e de preservação da “tradição” parecem ter sido úteis, no sen-
tido de criar uma imagem corrente de que o período Cid Gomes foi
242 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

extremamente eficiente na definição de que as opiniões simuladas


por essa facção política são imperativas, necessárias e óbvias. O jogo
político, recheado por um simulacro simbólico articulando o econô-
mico, projetos sociais, de lazer e estética foram organizados através
de uma engenharia planejada racionalmente e fizeram com que esse
grupo político fizesse, como já dito, um sucessor em 2004 e ganhasse
o governo do estado em 2006.

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PREFEITURA MUNICIPAL DE SOBRAL. Secretaria de Cultura,
Desporto e Mobilização Social. Estudo para tombamento do pa-
trimônio histórico de Sobral. Mimeo, 1997.
VEYNE, Paul. Como se escreve a história e Foucault revolucio-
na a história. Brasília: UNB, 1998.
244 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:
Sobral e região em foco 245

PARTE II
246 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Sobral: Esquizofrenia da Exceção


Rogério Haesbaert

O interior pobre/miserável do Nordeste. O Sertão num de


seus trechos mais áridos. O cinza domina a paisagem, e o sol quase
perdido do entardecer azuleja o perfil de montanhas no horizonte.
Lembra lugares míticos que nunca visitei às portas do Saara – Tibesti
ou Hoggar em miniatura. No solo, cabras e vacas muito magras, e
casas onde o silêncio parece não habitar ninguém. Nomes sonoros,
como Itapagé, Iratinga, Irauçuba e Caxitoré, parecem todos carregar
consigo a rusticidade da paisagem.

De repente, um grande açude, comprimido também pela es-


cassez crescente de água, e a terceira cidade cearense brotando das
margens do rio Acaraú, ao longe, emoldurada pela barreira da serra
da Meruoca. Serras aqui são uma combinação imprescindível, gran-
des maciços isolados, quais imensos icebergs no mar de caatinga (não
à toa, muitos deles formalmente batizados de “inselbergs”).
Sobral, eu já sabia, depois de ouvir apresentação de disserta-
ção em desenvolvimento na Universidade Estadual do Ceará, é uma
Sobral e região em foco 247

concentração urbana que caracterizei como espacialmente “esquizo-


frênica”. Ali, no coração do Sertão, cruzam-se os diversos momen-
tos-mundos a que temos direito na atual era da chamada globalização
neoliberal (em transição para as globalizações de controle e/ou de
insegurança).
Sobral tem “Arco do Triunfo” (de Nossa Senhora), “MIT” e
“Cristo Redentor”. Sobral tem “revitalização” da beira-rio, tem con-
domínio fechado, condomínio vertical embargado (por contravenção
ecológica), tem internet grátis na praça (e em breve terá sem fio por
toda a cidade), Sobral tem remoção de população pobre, tem indús-
tria “deslocalizada”, tem lavadeiras estendendo roupa nas calçadas
reluzentes do parque, tem museu de arte moderna com obras de todo
o mundo, tem casa-museu de bispo ultraconservador, que sonhava
fazer da cidade sua “Pequena Roma”...
Em Sobral é difícil reunir numa unidade os fragmentos de
tantos tempos e de tantos espaços que ali se sobrepõem, como se
o cruzamento do rio Acaraú, velho eixo da ordem agrário-pastoril,
com a BR-222, eixo da circulação capitalista “flexível” que alimenta
a Grendene, sua fábrica-plataforma de 12 mil trabalhadores, pudesse
aglutinar num único nó a imensa diversidade de anseios e temores
que recheiam, do local ao global, os intrincados percursos dessas tra-
mas que conformam a virtual-efetiva realidade nordestino-brasileira.
Às vezes penso que tudo isto é ficção, que é inadmissível –
se não impossível – a convivência de tantas contradições e de tanta
ambigüidade – paisagens que, pelo menos num primeiro olhar, “não
se casam”, ou “nunca iriam” se casar. Olhar um lado e o outro do
rio, ou melhor, do “espelho d’água” (como é conhecido localmente)
248 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

que refletiu melhor a incoerência da cidade, é olhar para dois mundos


que se contrapõem visceralmente. A impressão é de que, 20 anos
atrás, não admitiríamos tamanho contrassenso. Mas hoje, como toda
exceção parece ter se tornado regra, é moeda corrente aceitar o im-
ponderável. E, com isso, as contradições mais violentas, as grandes
exceções, ou melhor, os grandes excessos, afloram quase que com
naturalidade, pois “não natural” passa a ser não termos incoerência
bruta, não termos subversão plena daquilo que considerávamos “ló-
gico” ou “esperado”.
O previsível, hoje, é o imprevisível. Encontrar internet grá-
tis, sem fio, para todos os que não têm computador, nem transporte
público, nem esgotamento sanitário; construir parques assépticos,
museus e bibliotecas arquitetonicamente ostensivos, de “primeiro
mundo”, com cascatas de água límpida que se projetam sobre um
lago poluído por esgotos sem tratamento, onde resistem lavadeiras
analfabetas que coram suas roupas sobre as calçadas impecáveis do
parque... Paus de arara e moto-táxis suprem a crônica deficiência de
transporte público, postos de saúde ajardinados com médicos mal
remunerados denunciam que vale mais é a imagem.
Pobres e ricos olham a margem esquerda do rio e se van-
gloriam, irmanados, na sociedade do espetáculo que reluz na contra-
face da verdadeira margem, a daqueles relegados à eterna luta pela
sobrevivência nas periferias que ninguém acaba colocando no mapa
(aquele da cidade de poucos, desenhado na calçada em frente ao mu-
seu). No mundo sobral-mossoró-caruaruense, quase tudo é imagem.
Vendemos agora, não apenas a força de trabalho de que a Grendene
usufrui por menos da metade do salário que pagava a seus trabalha-
Sobral e região em foco 249

dores no Sul, mas também as imagens edulcoradas, “fora do lugar”,


esquizofrênicas, que a cidade, enquanto “exceção” diuturnamente
refeita, oferece. Sobre o velho beco de certa tradição política pairam
óvnis sem sentido – aqui o fazer sentido, a lógica, é agora a exceção.
Faz-se política, literalmente, olhando para o espaço (fora do lugar).
Precisamos conviver com o inusitado, com a aparente sur-
presa que, por ser tão comum, acaba não surpreendendo mais nin-
guém. Sobral ainda me surpreende porque sou daqueles poucos que
gostariam de ver alguma coerência nas atitudes políticas dos que pri-
mam mais pela sutileza nada ostensiva da igualdade do que pelos
impactos esquizofrênicos da exceção.
250 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

O consumo e a cidade
Simone Carneiro Maldonado
Maura Carneiro Maldonado

“O ar da cidade liberta os homens” (antigo adágio alemão)

O objetivo central deste artigo é oferecer considerações so-


bre o fenômeno do consumo e sua articulação com os processos de
urbanização e as questões do espaço na cidade, tentando articular a
necessidade e o desejo de adquirir bens com os aspectos sociocultu-
rais do comércio e da compra.
Como interface aos estudos sobre consumo aqui citados,
tomamos o pensamento do sociólogo Georg Simmel sobre o di-
nheiro e a cidade, que nos remete ao que hoje é compreendido
como consumo. No Brasil, a sociologia de Simmel tem sido res-
gatada dos anais da passagem do século XIX para o século XX
por autores como Souza e Oelze (1998), Freitag (2005), Almino
(1985), Waizbort (2000) e Maldonado (1998). A atualidade dos
textos de Simmel, sua sensibilidade e riqueza temática recaem em
Sobral e região em foco 251

grande medida sobre a relevância do debate político e intelectual


sobre as metrópoles, como pontos de convergência e mobilização
de elementos societários como a moda, o dinheiro, o conflito e o
consumo (BOURDIN, 2005). Assim, a sociologia simmeliana se
transforma em nossos dias numa importante forma de argumen-
tação teórica como reflexão sobre o impacto dos processos de ur-
banização sobre o conflito e a comunicação nas cidades. Nos seus
importantes textos sobre as formações urbanas em crescimento,
na sua “megalopolização”, Simmel identifica a “intensificação da
vida nervosa”, do surgimento de novos tipos sociais e formas
emergentes de conflito e sociação (SIMMEL, 1998; FREITAG,
2005). Trata-se, segundo ele, de “um verdadeiro bombardeio de
estímulos visuais e auditivos” a que o homem urbano reage dife-
rentemente do morador do mundo agrário ou das cidades peque-
nas (SIMMEL, 2004, p. 170). Como “sede da economia monetá-
ria” e do poder, da diferenciação e da constante tensão entre os
binômios que caracterizam a cultura urbana expressando-se em
dicotomias como associação/dissociação, interior/exterior, sub-
jetivo/objetivo, individual/coletivo, em que “a cidade grande de-
vora o indivíduo”, que termina por emudecer, numa cidade “que
não o enxerga e não o escuta.” (FREITAG, 2005).
Os centros urbanos se caracterizam também como epicen-
tros do consumo e da moda, exercendo pelo poder da mercadoria e
os atos de compra e venda séria pressão sobre as pessoas, modifican-
do o tom das relações e marcando o espírito das cidades onde
252 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

[...] a cada saída à rua, com o ritmo e a di-


versidade da vida social, profissional e eco-
nômica, a grande cidade estabelece uma
profunda oposição com a cidade pequena e
com o campo, cujos modelos de vida [...] têm
um ritmo mais lento, mais habitual e que se
desenvolve e forma regular (SIMMEL apud
BOURDIN, 2005).

Justifica-se o uso da análise sociocultural como base para


este estudo por serem a cultura, o comportamento humano e os
hábitos urbanos os atos de confluência da preocupação sociológica
com o fenômeno da cidade. Vários autores, antes mesmo que fossem
desenvolvidos estudos mercadológicos, já abordavam os símbolos,
sentimentos e valores referentes ao consumo, como Veblen (1974),
Baudrillard (1995), Bourdieu (1984) e Simmel (1977). Essas análises
passam, inclusive, como é o caso do clássico “The World of Goods”
de Douglas e Isherwood (1979), pelo relacionamento das sociedades
com a aquisição (mesmo em grupos primitivos e alheios à troca mo-
netária). Recaem sobre os princípios do sistema capitalista muitas das
referências associadas ao consumo, vendo-o unicamente pela ótica
do prazer ou da abundância da compra, o que distorce um pouco a
visão ou a função real deste processo. No entanto, pretendemos nos
referir a outras dimensões, essas culturais, da noção de consumo, arti-
culando essas práticas com a troca monetária e o espaço urbano que,
segundo Simmel, é por excelência o lugar da troca monetária, im-
Sobral e região em foco 253

pregnando “o ser do citadino [...] conferindo-lhe um ritmo próprio,


ansioso, repressivo com relação aos seus instintos e necessidades.”
(1998, p. 18).

CONSUMO
O consumo é um elemento importante na análise das estru-
turas da sociedade e das formas de comportamento de maneira geral.
Parte-se do princípio de que consumir é algo inevitável ao cotidiano
dos indivíduos e de que simplesmente não podemos estar alheios
ao sistema do consumo. Na sociedade moderna, para quase todos
os nossos movimentos é necessário consumir, seja ao comprar um
objeto, se alimentar, tomar um copo de água ou ligar a TV, mes-
mo sem sair de casa estamos consumindo. Há alguns anos houve
um movimento nos Estados Unidos chamado “Buy Nothing Today”
(STENZEL, 2004), com o intuito de ir contra um sistema comercial
que, em princípio, escraviza os consumidores, denunciando que as
grandes corporações tentam monopolizar o mundo com o poder das
suas marcas, criando necessidades de consumo e assim frustrações
humanas naqueles que não podem seguir as “regras” impostas pela
mídia. Apesar de esta ser uma realidade no sistema capitalista, “não
comprar nada hoje” é uma escolha quase impossível em nossos dias,
pois a sociedade urbana não é capaz de produzir nada do que conso-
me no cotidiano. Ou seja, nos tempos modernos, em poucos lugares,
talvez em tribos ou regiões rurais, ainda se mantém o costume de
produzir o que se come, o que se veste, mas na sociedade urbana essa
prática inexiste; portanto estamos fadados a comprar toda e qualquer
254 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

coisa que possamos utilizar. É interessante fazer uma reflexão indivi-


dual e questionar: “Qual dos objetos de uso pessoal, ou até qual dos
objetos utilizados no dia de hoje, eu mesmo produzi?”. Assim sendo,
o estudo do consumo é o estudo da própria sociedade, é o estudo
das características e objetos culturais que caracterizam a sociedade
contemporânea.
Segundo D´Angelo (2004, p. 22), para os economistas o
consumo “ são escolhas racionais e objetivas, visando sempre a uma
compra ‘ideal’ - aquela em que a máxima utilidade e o menor dispên-
dio monetário se combinam.” Essa foi durante muito tempo a expli-
cação técnica do ato de consumir, mas por trás disso existem moti-
vações, desejos, padrões de cultura, além de outros elementos que
são decisivos no processo de compra. Hoje as teorias de marketing,
economia e administração se aliam à psicologia, antropologia e socio-
logia para compreender melhor e explicar o movimento do consumo.
Jaime Junior (2001) avalia que este evento de multidisciplinaridade no
estudo do consumo e seu movimento nos centros urbanos é neces-
sário porque à medida que as dimensões culturais e simbólicas foram
sendo observadas como uma explicação, e mais do que isso, como
uma influência no comportamento do consumidor, a academia, os
departamentos de marketing das empresas e os institutos de pesquisa
de mercado passaram a recorrer ao aporte das ciências sociais como
complementação dos estudos sobre o tema.
Autores definem consumo das mais diversas formas. De
maneira geral, o consumo é a compra ou aquisição de bens na in-
tenção de sanar uma necessidade ou desejo (ALLÉRES, 2006). É a
Sobral e região em foco 255

troca monetária entre cliente e fornecedor; é quando um indivíduo


paga uma quantia por um produto ou serviço (MCCRACKEN, 2003;
ROCHA; BARROS, 2004; TASCHNER, 2000; D´ANGELO, 2003;
2004). Porém para além do ato do consumo em si está a manifestação
cultural, a comunicação implícita, a troca simbólica entre mercadoria
e consumidor. O consumo não pode ser interpretado apenas pela
ação de “produzir, comprar e usar produtos” (ROCHA; BARROS,
2004). Este é elemento de um sistema simbólico, através do qual a
cultura expressa seus princípios, categorias, ideais, valores, identidade
e projetos. Todos estes autores, após conceituarem de maneira geral
o consumo, passam para este enfoque cultural do ato. Rocha e Barros
(2004) lembram que antes de tudo o consumo é um fenômeno sim-
bólico e coletivo perpassado por questões meramente econômicas,
de modo que as razões de ordem prática e monetária não explicam
os seus diferentes significados, conteúdos e atores sociais. A partir do
momento em que o indivíduo é capaz de pagar o “preço de entrada”
(ROCHA; BARROS, 2004) para adquirir bens ou serviços desejados,
as escolhas do que e como consumir tornam-se completamente de-
pendentes da ordem cultural, de sistemas simbólicos e de necessidades
classificatórias. Para Baudrillard (1995), um dos primeiros estudiosos
do simbolismo do consumo, este pode ser descrito como “a palavra
da sociedade contemporânea sobre si mesma”, ou seja, exercendo
um papel fundamental na sociedade urbana, de forma a poder dizer
que o consumo tem uma função social. A partir da análise do consu-
mo é possível “ler”, decifrar a sociedade, já que consumir representa
práticas, códigos, símbolos que identificam e compõem os indivídu-
256 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

os. Rocha e Barros (2004) descrevem o consumo como um discurso


eloqüente e aberto a múltiplas leituras, permitindo decifrar, classifi-
car, aproximar e distanciar grupos sociais através do comportamento
de compra. Neste sentido, vários autores analisaram o consumo pela
ótica cultural deste fenômeno (VEBLEN, 1974; BAUDRILLARD,
1995; BOURDIEU, 1984; CANCLINI,1997; D´ANGELO, 2004;
MCCRAKEN, 2003).

CULTURA , CONSUMO E CIDADE


Cultura é todo comportamento aprendido no convívio so-
cial, incluindo artes, valores, gostos e crenças (LARAIA, 1999). Po-
rém não há um consenso que viabilize uma definição fixa ou única,
havendo no entanto pontos consensuais que emergem na atenção aos
resultados das pesquisas e nas análises feitas sobre o que se tem con-
vencionado chamar cultura. Na visão de Malinowski (1976), a cultura
inclui os artefatos, os bens, os procedimentos técnicos, as ideias, os
hábitos e os valores herdados. Ainda sob a percepção deste autor, a
“cultura relaciona-se sempre à capacidade de satisfazer necessidades
humanas e a sua racionalidade inerente é a sua instrumentalidade.”
(MALINOWSKI, 1976, p. XVIII). Para Raymond Williams (1958),
a cultura é constituída de significados comuns, inclusive as artes e o
aprendizado, os processos de descoberta e esforço criativo. A cultura
é pública, encontrando-se em toda a sociedade e em cada mente.
Clifford Geertz, um antropólogo reconhecido e atual, em sua obra
“A interpretação das culturas” apresenta variados conceitos sobre o
tema (GEERTZ, 1978, p.4-5):
Sobral e região em foco 257

1. “O estilo de vida de um povo”


2. “O legado social que o indivíduo herda do seu grupo”
3. “Modos de pensar, sentir e acreditar”
4. “O comportamento aprendido”
5. “Um conjunto de técnicas para o ajustamento, tanto ao
meio ambiente como aos outros homens”
6. “um mapa comportamental”, entre outros.
Desta forma, pode-se entender o consumo também como
uma manifestação cultural em que a sociedade exprime gostos, com-
portamentos, tendências que constituem o seu próprio caráter cultu-
ral. Como afirmam Douglas e Isherwood, as decisões de consumo
“são uma fonte vital da cultura do nosso tempo” (1979, p. 37). Neste
trabalho estuda-se o fenomeno do consumo de luxo, entendendo os
significados e valores relacionados a ele e o espaço físico em que his-
toricamente ocorre.
Santos (2004) apresenta um ensaio sobre as transforma-
ções qualitativas nas práticas de consumo. Trata-se, nas palavras
do próprio, autor de uma “legitimidade cultural” em que as novas
práticas e esferas da vida urbana assumem formas inéditas. Per-
cebe-se, nos dias de hoje, uma massificação, uma globalização no
comportamento do consumidor que acarreta numa unificação ou
universalização cultural (FEATHERSTONE, 1995), que conduz
sempre à globalização tecnológica e cultural de modo geral. Países
consumindo de forma uniforme as mesmas músicas, as mesmas
roupas, a mesma comida, os mesmos carros e eletrodomésticos,
padrões feitos de consensos e diferenças, que são distribuídos e
258 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

consumidos sempre em ambientes urbanos na história recente da


humanidade.
Durante a produção fabril, o consumo era restrito e difícil,
pela falta de opções e produtos no mercado. “Por um certo tem-
po parecia que realmente seria impossível, para a maioria de nós,
distinguir o muito rico do moderadamente rico ou do meramente
rico pelo que vestiam” (LURIE, 1997, p. 145). Após a Revolução
Industrial e o crescimento e surgimento de cidades, a capacidade
de consumir foi estendida, pois a oferta foi potencializada com o
uso de máquinas e de tecnologia, assim como a troca monetária
teve suas dimensões cada vez mais alargadas, tornando-se lingua-
gem universal, de um ponto de vista estrutural. Assim, o que era
por assim dizer exclusivo, aos poucos passou a ser desejado por
muitos, e a possibilidade de compra aumentou, já que a oferta foi
intensificada dada a facilidade de produção e a aplicação da eco-
nomia monetária nas relações sociais. A partir desse momento, as
identidades individuais que eram adquiridas através da heredita-
riedade, da tradicionalidade do nome ou da família, passaram a
ser marcadas a partir das posses individuais. Nesta perspectiva, “a
identidade social, outrora uma herança que se mantinha estável ao
longo da vida de uma pessoa, passa a ser construída pelo próprio
indivíduo, que se vale, principalmente, de produtos e serviços para
moldá-la.” (D´ANGELO, 2003, p. 3).
O movimento de atribuir significados, valores, identida-
des, até mesmo magia aos objetos é exercido, hoje, pela propagan-
da, elemento característico da urbanidade, que através do discurso
Sobral e região em foco 259

persuasivo transforma a “natureza” das mercadorias, dotando-as


de sentido. Assim verifica-se um comportamento coletivo pelo que
Alléres (2006, p. 55) chama de “hiperconsumo”. A produção de
textos altamente criativos, que massificam uma mensagem de ex-
trema competitividade, ditando regras, como diz Lipovetsky (xxxx
– ENTREVISTA OTILIA) de que “é preciso ser mais moderno que
o moderno, mais jovem que o jovem, estar mais na moda do que
a própria moda”. Este discurso é construído de forma a explorar
imagens de romance, exotismo, desejo, beleza, poder em produ-
tos “mundanos”, desde automóveis, cosméticos, vestimenta, jóias
até eletrodomésticos e produtos de limpeza (FEATHERSTONE,
1995). Desta forma as mercadorias são incessantemente desejadas
pelos consumidores e depois rejeitadas e substituídas, dando lugar
a novos objetos-símbolos “desta vez” mais indispensáveis que os
outros.
Fazendo uma análise do dia a dia, das atividades, da
casa, do lazer, é possível encontrar o significado das posses e dos
costumes na construção da identidade individual. A aparência e
o comportamento são formas de comunicação silenciosa do “eu”
(MARTIN; EVANS XXX). A apresentação, o consumo, os lugares
freqüentados, os amigos, a organização da casa e do trabalho são
formas de interação social em que são exteriorizadas característi-
cas pessoais dos indivíduos (CASTILHOS et al., 2006). Castilhos
et al. (2006) afirmam que “as posses são a linguagem por meio da
qual se estabelece todo tipo de comunicação entre o self e o mundo
que o cerca.”
260 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Além de o consumo exteriorizar a identidade das pesso-


as, as posses também servem como auxilio para a construção da
identidade pessoal na família, no trabalho, no grupo de amigos,
na cidade e até da própria pessoa. Os objetos pessoais são como
rótulos que nos identificam; assim sendo, quando o consumidor
executa uma compra, além do valor real da mesma, ele busca va-
lores implícitos que reafirmem a sua condição e suas ideias (BAU-
DRILLARD, 1995).
Até então, foram apresentadas pesquisas que confirmam
a idéia de que os consumidores adquirem produtos que estejam
em congruência com seus valores pessoais, de forma a construir
e reforçar a sua identidade. De modo semelhante, Banister e
Hogg (2004) apresentam um estudo que corrobora esta posição,
mas conduzindo a sua pesquisa em sentido contrário, ou seja, os
autores analisam o comportamento do consumidor percebendo
que os indivíduos são definidos não só pelo que consomem, mas
também pelo que rejeitam. Esse estudo conclui que os consumi-
dores rejeitam produtos e marcas com simbolismos negativos na
intenção de proteger sua auto-estima e seu autoconceito. As au-
toras concluem que a manutenção da autoestima envolve a pro-
teção e o aumento do sentido da pessoa a partir do momento em
que o indivíduo rejeita produtos com imagens negativas evitando
assim o “rebaixamento do eu”. Sendo este trabalho referente ao
fenômeno do consumo, em si perpassado por significados sociais
e culturais, é necessário compreender ações e sentimentos liga-
dos ao ato de consumir.
Sobral e região em foco 261

DISTÚRBIOS DO CONSUMO
Nas análises sobre o tema, verificamos modos diferentes de
abordar o consumo. Por alguns ele é visto como a aquisição de coi-
sas efêmeras e desnecessárias (BELK et AL., 1989; MCCRACKEN,
2003; BENSON, 2000), e ainda sendo responsável pelo sofrimento
psicológico causado pela impossibilidade de consumir (DANTAS;
TOBLER, 2003).
Na tentativa de corresponder a tais modelos,
os sujeitos buscam desesperadamente con-
sumir ‘soluções’ imediatas que ilusoriamente
possam se apresentar como portadoras da
capacidade de preencher o sentimento de va-
zio produzido por uma sociedade cada vez
mais seduzida pelo espetacular mundo dos
objetos e vulnerável às oscilações do merca-
do. (DANTAS; TOBLER, 2004, página?).

Simmel, em seu artigo publicado por Souza e Oelze (1998),


atribui este sofrimento à cultura do estímulo, à tendência do desejo
moderno por impressões extremas e por rápidas mudanças. O cami-
nho buscado é o do exagero quantitativo, que dificulta o problema
inicial “produzindo uma insatisfação cada vez maior”. Para que o ex-
cesso tenha valor, é preciso que haja, não o bastante, mas demasiado
– importa que se mantenha e manifeste uma diferença significativa
entre o necessário e o supérfluo.
262 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

No seu estudo sobre a Sociologia da Moda, Simmel (apud


SOUZA; OELZE, 1998, p. 388) se detém sobre a magia do adorno e
do supérfluo, convertendo o ter da pessoa numa qualidade visível do
seu ser. O imediatamente necessário não tem o mesmo valor simbó-
lico que o supérfluo, que como indica a palavra, flui com excesso, isto
é, se derrama além do seu ponto de necessidade.
Porém, voltamos a afirmar que apesar de estas posições so-
bre o consumo serem verdadeiras, nele ainda existe a característica da
inevitabilidade, pois na sociedade contemporânea é impossível sobre-
viver sem consumir. Características como o desnecessário e o supér-
fluo, e ainda o sofrimento atribuído ao não consumir, são distúrbios
psíquicos relacionados ao desejo de compra que se tenta satisfazer
no comércio, na mercadoria, na cidade. Como diz Wirth, citando “A
Riqueza das Nações” de Adam Smith no seu texto sobre A Cidade,
“há certas atividades que mesmo no seu gênero mais rudimentar, em
lugar algum podem ser desenvolvidas, a não ser numa grande cida-
de”. O consumismo nos parece ser uma delas, como “característica
das condições de vida citadinas.” (WIRTH, 1976).

CONSUMO E CONSUMISMO
Para proceder à análise é preciso diferenciar consumo de con-
sumismo. O consumo apresenta-se como atividade natural dentro do
sistema em que vivemos, quando praticado de forma consciente, em que
o indivíduo realmente precisa do produto que está comprando. Dentro
dessa compra consciente estão a comida, as roupas, a escola, os remédios
Sobral e região em foco 263

e até o lazer, tudo isso na medida em que esses produtos sejam neces-
sários. O que chamamos de consumismo passa por um excesso e por
uma inversão da idéia de necessidade. A necessidade não é mais concreta
e real, ela surge como desejo de completar algo. Mas não passa de uma
ilusão, e o período em que o indivíduo se sente satisfeito é curto. E todos
vão novamente passar pelos corredores de um shopping em busca de res-
postas rápidas para preencher o vazio. Hoje nem mesmo o pobre está
dispensado de fazer, também, o consumo além do necessário. Se pen-
sarmos que as necessidades básicas são alimentação, moradia, vestuário,
educação, então a classe menos favorecida, em princípio, teria no leque
de compras a cesta básica com o seu salário. Porém esta não é a realida-
de. Canclíni (1997) questiona esta situação dizendo que ainda há quem
justifique a pobreza alegando que as pessoas compram televisores, vide-
ocassetes e carros enquanto lhes falta casa própria. Como se explica que
famílias que não têm o que comer e vestir durante o ano, quando chega
o Natal dissipam o pouco a mais do que ganharam em festas e presentes?

Oh, não discutam a “necessidade”! O mais


pobre dos mendigos possui ainda algo de
supérfluo na mais miserável coisa. Reduzam
a natureza às necessidades da natureza e o
homem ficará reduzido ao animal: a sua vida
deixará de ter valor. Compreendes por aca-
so que necessitamos de um pequeno excesso
para existir? (SHAKESPEARE, apud BAU-
DRILLARD, 1995, p. 39).
264 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Veblen (1980), o criador do conceito de consumo conspí-


cuo – atividade do consumo como prova de riqueza e ostentação
pela aristocracia - caracteriza este comportamento do exagero como
forma de exteriorizar o conceito individual. Este filósofo e econo-
mista criticou a ordem econômica dominante na época, o capitalismo
competitivo e seu sistema de preços. Sua obra mais importante diz
justamente respeito às articulações entre as noções de classes sociais
e de consumo, numa época em que a ordem capitalista, os antagonis-
mos de classe e o monopólio do poder econômico eram os grandes
temas que dividiam os meios intelectuais na Europa e nos Estados
Unidos nas três últimas décadas do século XIX.
Dentro dessas perspectivas, os objetos servem como más-
caras; não somos mais o que somos e sim o que possuímos. A socie-
dade nos percebe a partir do que temos; por isso é tão importante
consumir. Quanto menos o sujeito se percebe como tal, mais ele pre-
cisa ter, comprar, sentir-se dono de algo concreto, palpável e o que
dá o valor ao produto que consumimos é a publicidade. É claro que
o discurso publicitário só funciona diante da fragilização do sujeito,
que procura fora de si as respostas da sua existência, já que está mer-
gulhado num contexto de morais e valores que apontam como felici-
dade a necessidade de as pessoas parecerem vitoriosas, com dinheiro;
logo, bem sucedidas e felizes. Nas palavras de Alléres (2006, p.36), “o
objetivo de uma sociedade de consumo muito desenvolvida é per-
mitir que todos os desejos, fantasias, projetos, paixões e exigências se
materializem em signos, logomarcas, códigos, símbolos, chegando à
escolha e à aquisição de objetos.”
Sobral e região em foco 265

Os apelos publicitários se baseiam no estilo, na personalida-


de, na individualidade. Conquistam o consumidor pelo desejo de ser
único e incentivam a compra e a fidelidade àquela marca anunciada.
“O papel da publicidade é, principalmente, sitiar as interdições (ta-
bus, culpabilidade, timidez, interdições de classe, etc.) e fixar as pul-
sões até então retidas, sobre objetos cuja aquisição será a tradução e
realização de um desejo.” (Alléres, 2006, p. 36).
À nossa volta existe uma espécie de evidência fantástica do
consumo e da abundância, criada pela multiplicação dos objetos, dos
serviços, dos bens materiais, originando como que uma categoria de
mutação fundamental na ecologia da espécie humana.

As sociedades da abundância se caracterizam


por uma superacumulação de objetos e por
sua reciclagem permanente e acelerada. Esse
culto dos objetos, esse materialismo, esse he-
donismo narcisístico desafiam os valores tra-
dicionais (cultura, comunicação, etc.). (AL-
LÉRES, 2006, p. 56).

Também falando sobre consumo, diz Baudrillard (1995,


p.16): “Os objetos não constituem nem uma flora nem uma fauna.
No entanto, sugerem a impressão de vegetação proliferante e de selva
em que o novo homem selvagem dos tempos modernos tem dificul-
dade de reencontrar os reflexos da civilização”. Isto é, a multiplicida-
de de produtos e modelos age na cabeça do consumidor de forma a
266 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

fazer com que esses produtos se tornem essenciais ao bem-estar e ao


conforto do cotidiano. A dinâmica da cultura material, a velocidade
da mudança e do desenvolvimento leva a que cada vez mais se redu-
za a vida útil dos objetos, que em breves espaços de tempo caem na
inutilidade e no desuso. Por exemplo, os vários modelos de celulares,
com milhares de funções. Há alguns poucos anos atrás não existia o
aparelho celular e ele nos era desnecessário. Hoje, além de um bem
indispensável, é indispensável também que mande mensagens, entre
na Internet e tire fotos.
Mas o limiar entre o necessário e o desnecessário é difícil de
ser definido, pois se o necessário for absolutamente o que o homem
precisa para viver, a tecnologia, o conforto e as facilidades da vida
moderna, todos seriam desnecessários. Existem apenas poucos obje-
tos puramente utilitários, neutros, de modo algum carregados de sig-
nificados sociais. Carros, computadores, televisão, geladeira, enfim, o
mundo seria supérfluo.

NECESSIDADE E DESEJO
Há que diferenciar também o que é necessidade e desejo. A
necessidade seria o indispensável, o inevitável; e o desejo, a vontade
de conseguir algo, ambição ou sonho. Em outras palavras, podemos
dizer que existem necessidades objetivas (necessidade) e necessida-
des subjetivas (desejo). No ato da compra estas noções se unem e
desenvolvem a motivação que finaliza o processo.
O desejo é um sentimento humano ilimitado, é aquilo em
que se acredita e aonde se deseja chegar. O desejo é também a espe-
Sobral e região em foco 267

rança, nas palavras de Richard (1980, p.57): “não paramos de desejar,


somos seres de desejos”. No universo do consumo o desejo nem
sempre é causa de sofrimento, mas também é fator de superação, de
autorrecompensa, de felicidade e de realização.
A necessidade está presente no desejo, inclusive preceden-
do-o. Não é fácil definir um limite moral para a necessidade, inclu-
sive na sociedade contemporânea, onde por um lado se encontra a
profusão de oportunidades e objetos, além de estímulos à compra, e
por outro, um mundo miserável e subdesenvolvido. Mas há de se en-
tender que as necessidades passam por questões de cultura, costumes
e posição social.

Instead of supposing that good are primarily needed


for subsistence plus competitive display, let us assume
that they are needed for making visible and stable
the categories of culture. It is standar ethnographic
practice to assume that all material possessions carry
social meanings and to concentrate a main part of
culture analysis upon their use as communicators.
(DOUGLAS; ISHERWOOD, 1979, p. 59).

Cada grupo social tem um comportamento de compra di-


ferente não é possível fugir desta realidade; o que é necessidade para
uns não tem o mesmo valor para outros; portanto é difícil encontrar
uma definição moral e universal para a necessidade.
268 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Levando em conta seu nível de rendimento e


seu poder de compra, cada indivíduo estabe-
lece sua escala de prioridades mais ou menos
objetiva, que lhe serve de referencia à aquisi-
ção dos produtos que ele considerará neces-
sários à satisfação total de suas necessidades.
(ALLÉRES, 2006, p. 64).

Desta forma se relativiza a falsa impressão a que têm sido


submetidos o consumo e suas práticas, de que sejam ações sociais
de caráter negativo unicamente originadas e reproduzidas a partir do
que Veblen (1980, p.7) chamou sistemas de preços ou economia pecuniária,
ou seja, o capitalismo competitivo.

CONCLUSÃO
Diante do contexto, o presente trabalho objetivou realizar
um levantamento bibliográfico sobre o tema do consumo à luz das
teorias sociais, na tentativa de relacioná-las aos aspectos simbólicos
e culturais dos processos, motivações e comportamentos de com-
pra, observando que o consumo é uma resposta cultural dos valores
sociais e também dos indivíduos, um fenômeno que se realiza por
excelência na cidade. A partir das análises, foi verificado que exis-
tem duas vertentes sobre esta ação: uma no sentido de atribuir-lhe
um sentido unicamente ligado ao valor das posses, desencadeando
o chamado “sofrimento psicológico” (DANTAS; TOBLER, 2003).
Outra reconhece os aspectos em que o consumo é parte da cultura e
Sobral e região em foco 269

da sociedade moderna dos processos de urbanização e crescimento


das cidades, fazendo-se inevitável, e assim sendo, importante de ser
estudado.
Acredita-se que os casos e experiências apresentados no tex-
to demonstram que o saber sociológico muito pode contribuir para o
avanço da gestão de marketing, justamente por este caráter mais trans-
cendente do que a mera consideração do consumo como compra e
venda de produtos. O mesmo pode ser dito do resgate de autores
que estudaram a cidade e suas possibilidades e características, entre
elas o crescimento do comércio, a divisão do trabalho, as instituições
financeiras e o consumo. Há muito mais noções e valores embutidos
não só nas motivações dos compradores, como nos anúncios comer-
ciais e ofertas de produtos. O conhecimento sociológico passa a ser
uma sofisticada arma para a dominação simbólica do consumidor?
Ao construírem estratégias de marketing lastreadas em interpretações
sociais cada vez mais refinadas, não estaria o comércio ludibriando
os indivíduos?
Responder a essas questões não é uma tarefa simples, po-
rém fazendo uso deste tipo de análise social do consumo encontram-
se explicações mais profundas sobre os fenômenos aqui referidos.
Como foi afirmado ao longo deste texto, não existe uma teoria que
congregue todos os tipos de consumidores e suas aspirações, sendo
necessário um estudo social e psicológico que diferencie os grupos
sociais, para assim saber se a motivação de compra desses indivíduos
se refere a necessidades objetivas ou a necessidades subjetivas. Des-
ta forma se desfaz a imagem generalizada do consumo obrigatório,
270 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

como impõem a publicidade e os meios de comunicação de massa,


assim como a idéia de que consumir traz imensas satisfações e realiza
sonhos, suprindo outros lugares vazios no espírito do ser humano.

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274 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Urbanização brasileira:
um olhar pelos interstícios das configurações espaciais seletivas

Virginia Célia Cavalcante de Holanda

Como resultado do modelo de substituição de importações


no território brasileiro, dá-se o início do forte processo de metropo-
lização, que perdura como traço do urbano até a década de 1980. As
grandes cidades captam para seus espaços população e atividade pro-
dutiva. No entanto, em meados dos anos 1980, embora essas cidades
permaneçam como centro de decisões, anunciam-se novos espaços
dinâmicos, contudo, conservando-se uma lógica seletiva e com forte
expansão dos circuitos da economia urbana. Recorremos ao proces-
so de urbanização, para compreensão de como foi se configurando
essa lógica.
Inicialmente, as duas instituições propulsoras da edificação
de vilas no Brasil foram o Estado Português e a Igreja Católica. Den-
tro de suas opções, se despontaram as cidades-portos ao longo do
litoral no decorrer do período colonial, a maioria com funções de
Sobral e região em foco 275

capital, a exemplo de Recife e Salvador. As demais se limitavam a cen-


tros comerciais e artesanais; todavia, o ciclo de exploração comercial
contribuiu para a modificação na organização espacial. Nas áreas de
produção mais concentrada e na sua área de influência, originou-se a
formação de uma rede de pequenos núcleos de povoamento, porém
com apenas cinco áreas merecendo a denominação de cidade, três
delas localizadas no Nordeste, conforme Prado Júnior:

No fim do regime colonial as cidades eram


insignificantes; apenas cinco mereciam este
título – Rio de Janeiro, Salvador, Recife, São
Paulo, São Luís do Maranhão. As demais não
passariam de aldeias; a sua população equiva-
leria a 5,7 % da população total do país, cerca
de 2.850.000 habitantes. (PRADO JÚNIOR,
apud GEIGER, 1963, p. 20).

Dessa forma, nos vales úmidos do sertão surgem povoados,


centros administrativos e de serviços voltados às áreas produtoras da
colônia. Esses povoados não passavam de pequenos núcleos com um
ou outro aspecto de urbe. Não formavam vínculo entre si, pois as vias
de transporte se limitavam a caminhos vicinais de animais de carga,
de modo que as relações entre os lugares eram determinadas por sua
localização geográfica e pelo significado econômico.
Nestor Goulart Reis (apud SANTOS, 1994) analisa o perí-
odo de urbanização entre 1500 e 1720, destacando três etapas de or-
276 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ganização do território brasileiro. Em seus estudos, o autor enfatiza


a última fase, que termina em 1720, salientando que nesse período o
país aparece com uma rede urbana constituída por um conjunto de
63 vilas e 8 cidades.
No período colonial, a população viveu quase totalmente
no campo; as poucas áreas urbanas eram dependentes do espaço
agrário. Nos séculos XVI e XVII, as cidades eram verdadeiros es-
paços fantasmas, nos quais seus proprietários, ligados à atividade
agrária, apenas vinham ocupá-las em tempos de festas. Com a ener-
gização da atividade comercial e administrativa, a cidade vai aos
poucos adquirindo dinamismo, se formando os espaços verdadei-
ramente urbanos.
Os diferentes usos do território em função dos interesses da
metrópole resultaram também na fragmentação da criação das cida-
des. É o caso da cana-de-açúcar, atividade que acabou por contribuir
com a criação de pequenas cidades em algumas áreas de Pernambuco
e Bahia, razão maior da importância de Recife e Salvador. Exemplo
também de Manaus e Belém, que se firmaram através do extrativis-
mo da borracha, e de Fortaleza, com a exploração comercial do algo-
dão no Ceará; graças a essa atividade a capital assiste a sua expansão
e hegemonia no território cearense.
Aos poucos, muitas cidades vão deixando de ser apenas
espaço administrativo, abrigando mais residências nobres e profis-
sionais de ofícios. Essas mudanças começam em meados do século
XVIII, tornando-se mais significativas, a ponto de se falar em proces-
so de urbanização nos séculos seguintes:
Sobral e região em foco 277

[...] no decorrer do século XVIII a urbaniza-


ção se desenvolve e a casa da cidade se torna
a residência mais importante do fazendeiro
ou do senhor do engenho, que só vai à sua
propriedade rural no momento de corte da
cana. [...] Mas, é necessário ainda mais um
século para que a urbanização atingisse sua
maturidade, no século XIX, e ainda mais um
século para adquirir as características com as
quais a conhecemos hoje. (SANTOS, 1994,
p. 19).

No recenseamento de 1872, o Brasil apresenta uma popu-


lação total de 9.930.478 habitantes, sendo o Rio de Janeiro a maior
aglomeração do país, com uma população de 272.972 habitantes,
enquanto São Paulo aparece com 31.385 habitantes, apresentando
assim uma população numericamente inferior às cidades de Recife e
Salvador. Com o recenseamento de 1890, São Paulo passa a contar
com 239.820 habitantes, atingindo a condição de segunda cidade do
país em população, mas ficando ainda distante do Rio de Janeiro, que
contava com 811.443 habitantes naquela época.
A partir da década de 1930, com o Estado Novo, ocorre
uma intensificação da intervenção do poder público no processo de
organização territorial do país, tal como analisamos nos itens ante-
riores, no qual a dominação da cidade é sentida. Para Geiger (1963),
neste momento os interesses dos grupos urbanos se levantam contra
278 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

os interesses dos grupos de cafeicultores.


As ações políticas do período objetivam um crescimento da
indústria, com todos os seus significados, tais como: a formação de
um mercado consumidor dentro do próprio país e o incremento do
setor terciário para impulsionar esse mercado. Dentro desse contex-
to, o processo de urbanização é acelerado, ocorrendo um expressivo
surgimento de cidades médias:

Quando se torna o elemento dinâmico da


economia brasileira, o setor industrial passa
acelerar o crescimento urbano de grandes e
médias cidades, o qual, por sua vez, suscita
movimentos de população do campo para as
cidades. (GEIGER, 1963, p. 100).

Nos anos 1940, com a crescente industrialização do Sudeste,


a urbanização brasileira passa por uma aceleração significativa. As ci-
dades do Rio de Janeiro e São Paulo se consolidam como metrópoles
nacionais, reunindo, em 1940, cerca de 22,2% da população brasileira,
e na década seguinte atinge 23%. As cidades médias da época continu-
am concentradas nas áreas dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo,
como Niterói, Campinas, Santos e Jundiaí.
Rio de Janeiro e São Paulo então apresentam aspectos bem
particulares em relação ao restante do território brasileiro. A primei-
ra, com força política e econômica desde o período colonial e por
ter se tornado a capital do Brasil; a segunda, como mencionado ini-
Sobral e região em foco 279

cialmente, reunia condições diferentes de outras áreas do país para a


reprodução do capital. (AMORA, 1978, p. 14).
Com o incremento do transporte rodoviário nos anos 1940, con-
solidou-se a circulação de produtos agrícolas: algodão, sisal, mamona, entre
outros, oriundos do Nordeste, para alimentar as indústrias do centro-sul do
país. Paralelo a esses fluxos, ao longo das rodovias, ocorreu o crescimento
populacional de muitas cidades no interior do país, surgindo demanda por
novos serviços, o que colaborou, por sua vez, para o surgimento e forta-
lecimento de alguns centros; esses vão se ligar diretamente com as cidades
maiores, sem a mesma ordem hierárquica do início do século.
A região Nordeste alcança alterações demográficas expres-
sivas: Recife atinge a marca de 348.424 habitantes, abrigando uma
população superior à de Salvador, que detinha um contingente de
290.443 pessoas. Belém, na região Norte, passa a ser a sétima cidade
brasileira em população, e em seguida as cidades de Porto Alegre e
Belo Horizonte. Depois vem Fortaleza, seguida de Niterói e Curitiba.
No âmbito geral, o Brasil vivencia nesse momento o cresci-
mento de suas principais aglomerações urbanas. As taxas de urbani-
zação brasileira são reveladoras deste quadro: em 1940, a população
urbana era de 26,35%, saltando em 1960 para 44,67%, atingindo, em
1970, a marca de 55,92%. Na década de 1980 chega a 67,59%, em
1996 atinge 78,36% de urbanização e, segundo o último censo, em
2000 eleva-se para 81,25%.

Entre 1940 e 1980, dá-se uma verdadeira in-


versão quanto ao lugar de residência da popu-
280 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

lação brasileira. Há meio século atrás (1940), a


taxa de urbanização era de 26,35%, em 1980
alcança 68,86%. Nesses quarenta anos, tripli-
ca a população total do Brasil, ao passo que a
população urbana se multiplica por sete vezes
e meia (SANTOS, 1994, p. 29).

Os grandes projetos criados pelo Estado brasileiro nos anos


1940 colaboraram para uma grandiosa chegada de multinacionais ao
país, notadamente nos anos 1950 e 1960. A partir deste momento,
dá-se um impacto maior da industrialização sobre a urbanização bra-
sileira. Entre 1940 e 1950, o crescimento populacional total foi de
25%, porém, no que concerne à população urbana, o crescimento foi
bem superior, atingindo a taxa de 45%. Paralelamente à urbanização,
o Estado acaba proporcionando um novo processo de acumulação.
Em seguida, esse mesmo Estado tenta identificar e amenizar os cha-
mados “desequilíbrios regionais” (FURTADO, 1974), resultantes de
sua política concentracionista, com a criação de órgãos de desenvol-
vimento regional.
Essa lógica de acumulação apresentava-se como um fenô-
meno de ordem mundial, resultante, sobretudo, de uma nova divisão
internacional do trabalho e das novas formas de acumulação, pensa-
das agora em nível global pelos países centrais, acabando por influen-
ciar na urbanização de muitos países.
No Brasil, essa aglomeração urbana proporciona a multipli-
cação de cidades em diferentes escalas e aumento das taxas da po-
Sobral e região em foco 281

pulação urbana sobre a rural. Há redefinições dos papéis de muitas


cidades que já tinham expressivo aglomerado urbano, passando a
sentir a força do crescimento populacional muito mais expressivo
que as possibilidades criadas pelas políticas de investimentos estrutu-
rais, acabando por sofrer grandes mazelas sociais.
As políticas urbanas, com o governo autoritário da déca-
da de 60, foram assentadas no discurso da segurança nacional e do
crescimento econômico. Seus objetivos atingiam a organização do
sistema de cidades, como analisa Davidovich:

A consolidação de uma rede de cidades tem


sido assumida como componente espacial
de estratégias de desenvolvimento, à medida
que compreende unidades funcionais inter-
dependentes, submetidas às regularidades e
perseguindo metas comuns. Representariam
desde modo um elemento fundamental para
a consecução de objetivos de “equilíbrio” do
sistema. (DAVIDOVICH, 1982, p. 17).
Como já mencionado, em fins dos anos 1950, muitos fo-
ram os programas visando amenizar as disparidades regionais. O ele-
mento balizador do crescimento seria expansão e modernização das
densidades técnicas. No Nordeste, num período de dez anos, a rede
rodoviária teve sua participação ampliada sobre o território, passando
de 14% para 28%. No sistema elétrico, foram construídas as usinas
hidrelétricas, como as de Boa Esperança e Paulo Afonso.
282 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Vão se consolidando no Brasil os espaços urbanos que têm


como característica marcante a redistribuição da população brasileira
e do seu sistema de cidades. O censo de 1970 revela, pela primeira
vez, um predomínio da população urbana sobre a rural, com uma
taxa de urbanização de 55,92%, correspondendo a um maior número
de brasileiros vivendo nas cidades.
Com a institucionalização das regiões metropolitanas em
1973, São Paulo e Rio de Janeiro continuaram a receber contingentes
de migrantes. A população migrante dirige-se para as cidades que
compõem as suas regiões metropolitanas, dando-se também o cresci-
mento das cidades médias longe dos grandes centros.

O que é curioso no Brasil é que essa metropo-


lização não está confinada a uma parte do terri-
tório, não é apenas o eixo Rio-São Paulo que se
metropoliza, mas é Sobral no Ceará, é Campina
Grande na Paraíba, é Dourados no Mato Gros-
so do Sul, etc. (SOUZA, 1992, p. 64).

Em 1976, elabora-se uma política de apoio às cidades mé-


dias, o denominado Programa Nacional de Apoio às Capitais e Cida-
des de Porte Médio (PNCCPM), visando incentivar um sistema ur-
bano mais homogêneo, que propiciasse desenvolvimento econômico
e mudanças no destino das migrações.
No estado do Ceará a partir dos anos 1970, assiste-se a um
fluxo de migrantes para a área central da região metropolitana, e aos
Sobral e região em foco 283

poucos esse fluxo vai se deslocando para as cidades desta região, so-
bretudo após a construção de conjuntos habitacionais e distritos in-
dustriais longe de Fortaleza, tais como: os conjuntos habitacionais
Jereissati I, II, III, no município de Pacatuba, e o Nova Metrópole, no
município de Caucaia, entre outros. Esses conjuntos se multiplicaram
nas periferias das grandes e médias cidades, expressando cada vez
mais a materialidade da segregação nas áreas urbanas.
Nos anos 1980, o crescimento urbano brasileiro adquire no-
vas feições, dentre elas, um processo de migração de alguns tipos
de atividade industrial e a ampliação dos dois circuitos da economia
urbana, tendo por base novas formas de acumulação e de consumo.
Entre essas indústrias predominam aquelas que têm o uso do traba-
lho intensivo. Na região Nordeste, elas mantêm ou aumentam suas
taxas de lucros, contando com incentivos fiscais, mão de obra barata,
espaços dotados de infraestrutura.
No primeiro momento, as transferências dessas empresas
rumavam para as capitais dos estados e, mais recentemente, para as
cidades mais expressivas do interior, denominadas cidades médias, pro-
piciando também mudanças nos circuitos da economia urbana dessas
cidades. Com o incremento do circuito superior e paralelo a esse, o
surgimento ou expansão do circuito inferior gerau igualmente novas
relações entre esses circuitos, envolvendo empresas pequenas que au-
mentam suas “relações” com os “setores” mais sofisticados (SINGER,
1977). Essas mudanças contribuíram para que, nas cidades médias,
acontecessem aqueles estilos urbanos predominantes nas metrópoles
nos anos 1960, interpretados nos estudos de Santos (1979): “O estilo
284 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

urbano implicou grande ampliação do terciário, que atende à reprodu-


ção de relações capitalista, juntando sob um mesmo rótulo atividades
de circuito superior e de um circuito inferior da economia”.
A expansão econômica e territorial da urbanização é um me-
canismo de organização capitalista do espaço. Realidade que sofre al-
terações a partir dos anos 1950, e se amplia gradativamente. A taxa de
urbanização alcançada pelo Brasil, quando analisada de acordo com
cada região, denota significativas diferenças entre elas (as regiões). O
Sudeste apresenta taxas de urbanização superiores às demais regiões.
Na década de 1940, sua urbanização era da ordem de 39,42%, de
longe seguida pelas regiões Norte e Sul, enquanto o Nordeste, para
o mesmo período, apresentava uma taxa de urbanização de 23,42%.
Em 1980 o Nordeste continuava como a região menos ur-
banizada do país, com uma taxa de 50,44%, ou seja, embora sua po-
pulação urbana tenha crescido, as demais regiões alcançaram índices
superiores, principalmente as regiões Sul e Centro-Oeste. Na con-
tagem de 1991, verifica-se o seguinte quadro: o Sudeste atinge uma
taxa de urbanização de 88,02%, seguida pela região Centro-Oeste,
com uma taxa de 81,28%, urbanização impulsionada sobretudo pelas
crescentes taxas de migração para Brasília e a ampliação da fronteira
agrícola. A região Sul aparece com 74,2%; em seguida vem o Nordes-
te, com 65,21% de urbanização, passando à frente da região Norte,
que se apresenta com 59,05%. Este quadro é explicado em parte pelo
crescimento das aglomerações em cidades médias. Quanto aos dados
de 2000, há um crescimento considerável de urbanização em todas as
regiões (Tabela 1).
Sobral e região em foco 285

Tabela 1 - Proporção da População Urbana, Segundo as Grandes


Regiões. 1940-2000
Regiões 1940 1960 1980 1991 2000
Sudeste 39, 42 57, 00 82, 81 88,02 90,52
Sul 27, 73 37, 10 62, 41 74,20 80,94
Nordeste 23, 42 33, 89 50, 46 60,65 69,07
Centro-Oeste 21, 45 34, 22 67, 79 81,28 86,73
Norte 27, 75 37, 38 51, 65 59,05 69,87

Fonte: IBGE

As cidades brasileiras com mais de 500 mil habitantes con-


tribuíram, no período de 1950-1970, com 48% do crescimento ur-
bano do país, enquanto os centros intermediários, ou melhor, entre
50 mil e 500 mil, tiveram uma participação de 19%, contribuindo,
no período de 1970-1980, com 49% do crescimento populacional
brasileiro, o que correspondeu a um aumento de 30%.
Segundo dados do IBGE e do Instituto de Pesquisa Eco-
nômica Aplicada (Ipea), no que tange à evolução dos municípios,
segundo classes de população, formados por oito grupos diferentes,
teremos a seguinte realidade: o grupo de municípios entre 100 mil
e 499.999 habitantes se localiza em maior quantidade na região Su-
deste, num total de 99 municípios, acompanhada pelas regiões Sul e
Nordeste, com 37 e 36 municípios, respectivamente; em seguida, e
bem longe, aparecem as regiões Norte, com 12 municípios, e Centro-
Oeste, com 8.
Ainda que esse quadro expresse dados do município, é pro-
vável que o grupo na faixa de 50 mil a 99.999 habitantes tenha signi-
286 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

ficativa taxa de urbanização, pois, como se colocou, as cidades com


mais de 50 mil habitantes passam a desempenhar um papel impor-
tante no processo de urbanização nas últimas décadas.
Quando a análise se realiza no grupo entre 50 mil e 99.999
habitantes, pode-se observar uma tendência de crescimento demo-
gráfico desses municípios no Nordeste. Esta região detém 91 municí-
pios nesse grupo, bem próximo do número do Sudeste, que aglutina
101 municípios.
A concentração maior de municípios do grupo de 500 mil a
999.999 habitantes está nas regiões Sudeste e Nordeste do país. Em-
bora o Nordeste apareça com uma taxa de urbanização baixa, quando
comparada a outras regiões, esta região apresenta um grande número de
centros intermediários, ou seja, seis grandes aglomerações entre 500 mil
e 999.999, três centros com mais de um milhão de habitantes, correspon-
dendo às três maiores capitais do Nordeste: Salvador, Recife e Fortaleza.
As cidades médias, metropolitanas, cresceram, sobretudo na
década de 1970. Já no período de 1980-1991, seu crescimento foi de
36%, contra 41% das cidades médias não metropolitanas. Importan-
te, contudo, lembrar que essas cidades das regiões metropolitanas
continuam com um papel de destaque e novos municípios são incor-
porados às mesmas.
Quanto ao crescimento das cidades médias não metropo-
litanas, cabe destacar que essas vivenciam não só um crescimento
populacional, mas também um surto industrial, com desdobramento
nos dois circuitos da economia urbana. Essas cidades permitem a
diversificação da divisão do trabalho. Quanto maiores e mais populo-
Sobral e região em foco 287

sas as cidades, mais capazes são de abrigar uma ampla quantidade de


atividades e um número maior de profissões (SANTOS; SILVEIRA,
2001), permitindo uma arena complexa dos circuitos da economia
urbana no período atual.

A cidade não é apenas o reino das grandes


corporações e dos grandes bancos, o reino
do circuito superior, mas também o lugar do
trabalho nãoespecializado, das produções e
serviços banais, das ações ligadas aos consu-
mos populares – aquelas necessidades cria-
das pelo nosso tempo, mas cuja resposta não
é dada a todos pela economia hegemônica.
(SILVEIRA, 2005, p. 60).
O crescimento dessas cidades em parte justifica a expansão
do circuito superior marginal e circuito inferior. No ano de 2000, o
IBGE constata que, do total de 791.954 pequenas e microempresas
de prestação de serviços existentes no Brasil, 77.493 pertenciam à
reparação e manutenção de veículos e objetos domésticos, como ve-
remos em relação à cidade de Sobral.
O Ceará é o terceiro estado com maior contingente demo-
gráfico do Nordeste, e essa população se encontra principalmente
nas áreas urbanas, sendo a taxa de urbanização do estado de 71,53 %.
No mesmo ano, as cidades médias não metropolitanas apresentavam
taxas de urbanização superiores à do Estado, a exemplo de Juazeiro
do Norte (95,33%), Sobral (86,63%) e Crato (80,19%).
288 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Conclui-se então que o processo de urbanização do território


brasileiro sempre foi acompanhado de desequilíbrios demográficos, so-
ciais, políticos e econômicos, proporcionados, sobremaneira, pela pró-
pria lógica de acumulação, que modifica as relações entre os lugares de
acordo com seus interesses, alterando também a distribuição da popu-
lação dentro do território, “[...] o poder não tem por único objetivo au-
mentar ou diminuir o estoque; ele se interessa também pela repartição,
pela distribuição desse estoque no espaço.” (RAFFESTIN, 1993, p. 79).
Todavia, nos lugares permanecem igualmente traços ligados
às variáveis próprias, resultantes de processos históricos de ocupação,
das características de sua estrutura agrária, das formas de inserção no
processo de industrialização, entre outros.
Na atual conjuntura, observa-se que, em espaços mais dinâ-
micos, novos papéis são determinados pela lógica globalizante. En-
tretanto, nesses lugares manifestam-se ações dos sujeitos, que não
são apenas números de um recenseamento; são homens que lutam
para criar condições amparadas em outras variáveis, ampliando as
suas relações com outros espaços e melhorando o cotidiano de onde
estão, na cidade ou no campo. Um exemplo cabal é o da luta pela so-
brevivência e as formas criativas experimentadas, no seio da pobreza
nas cidades brasileiras do presente, independentemente de sua escala.

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Sobral e região em foco 293

Cidades médias:
considerações sobre a discussão conceitual

Zenilde Baima Amora

O entendimento do que estamos chamando de cidades mé-


dias passa, em princípio, por uma reflexão sobre a urbanização no
contexto atual de reestruturação socioeconômica, mas, sobretudo,
pela apreensão dos conteúdos, definições e conceitos que alimentam
a discussão a propósito desse nível de cidade.
Para efeito deste texto situamos, em linhas gerais, a posição
de geógrafos brasileiros, e também franceses, estudiosos das cidades
médias, não sendo nossa pretensão proceder a um estado da arte a
propósito do interesse atual pelo tema. Constitui, assim, uma tentati-
va de se evidenciar os principais traços teóricos que embasam o de-
bate. Embora o interesse pela cidade média se insira em um contexto
multidisciplinar, nos restringiremos, principalmente, aos enfoques
desenvolvidos no âmbito da ciência geográfica.
294 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Retomamos aqui algumas idéias formuladas, de modo


preliminar, em um trabalho intitulado: “Cidades médias: em busca
de uma definição”, que apresentamos no XIII Encontro Nacional
dos Geógrafos, realizado em João Pessoa, Paraíba, em 2002. Nes-
se trabalho apresentamos algumas premissas na busca dos signifi-
cados norteadores de uma definição de cidade média, tendo sido
evidenciados alguns aspectos levantados pelos geógrafos que se
debruçaram sobre esse tema nas últimas décadas. Demos pros-
seguimento à reflexão, com a realização de pesquisas e a elabora-
ção de textos, tendo como objeto as cidades médias cearenses, ao
mesmo tempo em que pudemos incorporar importantes reflexões
que se deram posteriormente em nível nacional, o que nos mo-
tivou mais ainda a continuar trabalhando com o tema. Intencio-
nou-se, neste texto, retomar a discussão a partir das reflexões dos
estudiosos das cidades médias, uma vez que não consideramos o
debate teórico finalizado.
Iniciamos nossas considerações traçando, em linhas gerais,
alguns exemplos da importância crescente que o estudo das cidades
médias vem despertando, não obstante o predomínio dos estudos
voltados para as grandes cidades, que atraíram muito mais a atenção
dos estudiosos do urbano. Em seguida, apresentamos os principais
pontos que embasam a discussão na perspectiva teórico-conceitual,
partindo de algumas ideias formuladas por autores como Brunet
(1997), Corrêa (1997 e 2007), Commerçon e Goujon (1997), Com-
merçon (1998), Sposito (2001, 2006 e 2007) e Amorim Filho (2007),
dentre outros.
Sobral e região em foco 295

A retomada da temática
A cidade média vem sendo objeto de renovado interesse en-
tre os geógrafos brasileiros, sobretudo a partir da segunda metade da
década de 1990, consubstanciado em publicações, simpósios, jorna-
das de trabalho e grupos de pesquisa organizados em redes nacional
e internacional. Ainda como testemunho desse interesse, destacam-
se importantes obras tratando especificamente das cidades médias, a
exemplo das coletâneas organizadas por Sposito et al. (2006), Sposito
(2007), além de outros trabalhos publicados em revistas e anais de
eventos científicos.
Antes de adentrarmos na discussão conceitual, objeto de
nossa análise, cabe destacar que as cidades médias foram alvo de po-
líticas voltadas para o ordenamento territorial em alguns países do
mundo ainda na década de 1970. Cita-se o caso da França, onde,
segundo Commerçon (1998), as cidades médias foram redescobertas
pelos planejadores e incluídas em programas governamentais visan-
do ao “equilíbrio” do espaço francês. Além do mais, havia uma idea-
lização das cidades médias como símbolo de felicidade, considerando
que as grandes cidades eram vistas como pouco humanas.
No Brasil, nos anos de 1976 e 1977, foi elaborado um pro-
grama em nível federal para essas aglomerações, que propunha ações
revitalizadoras das mesmas, justificadas nas diretrizes de política terri-
torial do II PND (Soares, 1999, p. 55). Neste plano foram traçadas
estratégias para as cidades com população acima de 50.000 habitan-
tes. Esta política já foi amplamente enfatizada, não obstante não ter
logrado o êxito preconizado como política pública de intervenção.
296 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

Souza (1999, p.118) que, inspirada na política francesa, defendia o


Programa de Cidades Médias como instrumento de descentralização
dos investimentos e do emprego, argumenta que a política urbana de
cidades médias implantada com o II PND “[...] foi de caráter estrita-
mente setorial e já era na época um retrocesso em relação às visões
que se tinham de políticas urbanas [...] como era o caso da França e
Inglaterra.”
Durante o final da década de 1970 e na de 1980, no Brasil, se
fala pouco das cidades médias como preocupação acadêmica, porém
o tema não deixou de ser objeto de interesse, a exemplo dos estu-
dos de Amorim Filho (1976, 1984), Barat (1979), Andrade e Lodder
(1979), além de outros trabalhos que não tivemos a oportunidade de
consultar.
Acredita-se que a relevância que assume a temática, nos
anos 1990, com um maior número de geógrafos envolvidos, vincula-
se a uma série de razões que consideramos pertinentes à reflexão
sobre esse nível de cidade. Uma destas razões diz respeito ao con-
siderável dinamismo demográfico das cidades médias, não somente
no Brasil, mas em outros países do mundo. O caso brasileiro ilustra
bem essa assertiva: “[...] as cidades de porte médio, com população
entre 100 mil e 500 mil habitantes, crescem a taxas maiores do que a
da metrópole, nos anos 80 e 90 (4,8% contra 1,3%).” (Maricato,
2001, p. 25).
Outra razão do crescente interesse pelas cidades médias de-
ve-se ao dinamismo socioeconômico que elas expressaram nos últi-
mos anos, decorrente, em grande parte, da reestruturação econômica
Sobral e região em foco 297

que incorporou os espaços mais urbanizados em várias regiões do


planeta. Desse modo, o estudo das cidades médias vincula-se, evi-
dentemente, às análises mais gerais e aprofundadas do urbano, nota-
damente nas últimas décadas, quando a mundialização se acentua em
muitos lugares. Volta-se a falar de cidade média não apenas como um
nível intermediário entre a cidade grande e as pequenas, mas como
expressão da urbanização em meio à reestruturação capitalista e aos
novos paradigmas técnico-econômicos.
As cidades médias passam a ser evocadas como atrativas
para a implantação de investimentos por oferecerem vantagens com-
petitivas e condições necessárias à produção mundializada. Em reali-
dades do capitalismo central, o desenvolvimento científico, tecnoló-
gico e educacional é o principal dinamizador e, portanto, tem grande
peso no papel que as cidades médias desempenham no contexto dos
territórios nacionais. Em espaços do capitalismo periférico, a presen-
ça de uma mão de obra abundante, os baixos salários e os incentivos
governamentais são os principais atrativos para os investimentos em
setores econômicos como a indústria, por exemplo. Este é o caso
de muitas cidades médias, inclusive as cearenses; contudo, não apro-
fundaremos este aspecto, haja vista a nossa proposta de discussão
teórico-conceitual explicitada anteriormente.
Como evidência da retomada do interesse pelas cidades mé-
dias, em nível mundial, citamos a publicação editada pela UNESCO:
“Ciudades intermédias y urbanización mundial” (1999), que resultou
de um trabalho de cooperação entre a UIA (Unión Internacional de
los Arquitectos) e o Ministério de Assuntos Exteriores da Espanha,
298 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

através da Comissão Nacional de Cooperação com a UNESCO e a


prefeitura da cidade espanhola de Lleida.
De um modo geral, a preocupação exposta pelo grupo e/
ou programa de Lleida passa pelo desenvolvimento de ações propo-
sitivas. Porém, é interessante ressaltarmos o estabelecimento de uma
rede de cooperação de profissionais (no caso o destaque foi para os
arquitetos) indo do nível local ao mundial, tornando o tema objeto
de interesse mais amplo. Aliás, o documento referido foi publicado
em seis idiomas (Espanhol, Francês, Inglês, Russo, Chinês e Árabe),
tendo o grupo de Lleida contado com a cooperação da UNESCO,
através do programa MOST – Management of Social Transforma-
tions, que tem como enfoque as ciências humanas e sociais e temas
relacionados à urbanização, entre os quais o das cidades médias.
O que foi exposto por esse programa de cidades médias em
rede mundial suscita considerações; entretanto, dados os objetivos
deste artigo, não será possível comentarmos alguns pontos interes-
santes suscitados com a leitura da publicação, tais como a perspectiva
da cidade média no âmbito da urbanização mundial e a visão que a
considera como ponto de equilíbrio mais sustentado territorialmente.
No âmbito acadêmico, a cidade média é enfocada tanto na
ótica analítica, através dos estudos de realidades específicas, quanto
na perspectiva conceitual, na intenção de se ultrapassar o meramente
empírico e atribuir conteúdo teórico a esta expressão, em princípio,
classificatória. Conforme afirma Sposito (2007, p. 9), a noção de cida-
de média requer maior fundamentação “[...] uma vez que a adoção da
expressão ‘cidade média’ é pouco adequada, porque alude diretamen-
Sobral e região em foco 299

te ao tamanho e pressupõe hierarquia e classificação.” Trataremos


desses aspectos mais adiante. A autora acrescenta, ainda, que traba-
lhar com essa escala urbana envolve um esforço no sentido de se dar
precisão teórica à noção de cidade média “[...] elevando-a, se possível,
à condição de conceito científico.”

A DISCUSSÃO CONCEITUAL
A divisão das cidades em pequenas, médias e grandes cons-
titui, grosso modo, uma primeira classificação das aglomerações ur-
banas no sentido de definições de hierarquias. Esta classificação se
apresenta como a mais simples, porém não suficiente para dar maior
sentido à urbanização enquanto processo socioespacial. A estudiosa
francesa Christine Lamarre (1997, p. 35) afirma ser esta divisão do
urbano muito antiga e muito recente. Muito antiga porque adapta-se
melhor ao vocabulário corrente pelo fato de expressar empiricamen-
te as dimensões de um fenômeno. Quanto a ser recente, porque não
são sempre as mesmas características das cidades que são mensuradas
com base nesse vocabulário. “Comme toute taxonomie, celle qui s´applique
aux villes a une double origine: l´observation du phénomène et un présupposé, une
conception de la ville, de son essence, de ses fonctions, de son rôle.”
Para alguns estudiosos, a taxonomia não constitui obstáculo
a uma análise mais acurada deste nível do urbano. Para outros, con-
forme já citamos, é necessário definir o que se entende por cidade
média, e mais precisamente, conceituá-la. Acreditamos que existe por
parte dos estudiosos brasileiros que estudam as cidades médias, entre
os quais nos incluímos, um consenso sobre a necessidade da discus-
300 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

são com base teórico-conceitual.


Como sabemos, o conceito, tanto na perspectiva filosófica
quanto científica compreende uma abstração “[...] resultado de uma
prática e elemento de uma teoria” (COMTE-SPONVILLE, 2003,
p.118), indo, portanto, além da noção que é mais vaga. Desse modo,
corroboramos a idéia de se passar da classificação ou da noção de
cidade média, que é mais vaga, ao conceito, mesmo cientes das di-
ficuldades postas à sua formulação e dos obstáculos que envolvem
uma conceituação mais abrangente, tendo em vista as diferentes rea-
lidades socioespaciais.
Levando em conta os avanços das reflexões sobre as cidades
médias, tanto em relação às evidências empíricas quanto ao que con-
cerne às discussões conceituais, apresentamos a seguir alguns prin-
cípios que vêm alimentando o debate teórico, notadamente entre os
geógrafos. Dessa forma, teceremos algumas considerações sobre os
pontos de vista desses estudiosos, sem contudo termos a pretensão
de esgotar o assunto.
Nicole Commerçon (1998) destaca que o conceito de cida-
de média já foi amplamente explicitado por M. Michel em 1977 e,
de acordo com Amorim Filho (2007, p.70), esse autor francês “[...]
publica nos Annales de Geògraphie uma das reflexões mais completas
e críticas realizadas na França sobre as principais características das
cidades médias francesas.” Amorim Filho enfatiza a crítica que o re-
ferido autor francês faz à classificação das cidades por tamanho. M.
Michel (1977 apud Amorim Filho, 2007, p.71) critica também a de-
finição de cidades médias pelo critério funcional, ao considerar que
Sobral e região em foco 301

não há funções próprias destas cidades, mas uma “grande heteroge-


neidade funcional”, não obstante, como veremos, as funções estarem
associadas ao papel regional desempenhado pelas cidades médias.
Já Roger Brunet (1997, p.13) afirma que a cidade média
existe, mas não foi verdadeiramente definida, sendo uma noção um
pouco vaga e não um conceito. Em um artigo, com o título: Villes
moyennes: point de vue de géographe (Cidades médias: ponto de vista do
geógrafo) que compõe o livro: Villes moyennes: espace, société, patrimoi-
ne, organizado por Commerçon e Goujon (1997), Brunet inicia suas
considerações com a seguinte expressão: “Il n´est jamais commode de
traiter d´un objet réel non idetifié,” (Não é jamais cômodo tratar de um
objeto real não identificado) e referindo-se à cidade média: “Elle exis-
te, mais nul ne l´a vraiment definie” (Ela existe mas ninguém verdadeira-
mente a definiu). Para resolver esse impasse, Brunet pensa a cidade
média em torno de três temas: o contexto; a cidade média no sistema
de cidades (portanto, para além da cidade); a cidade média no sistema
geográfico local (em seu intraurbano).
Assim como Brunet, Corrêa (2007, p. 23) reconhece a ci-
dade média como objeto de estudo, porém admite dificuldades na
sua conceituação. No entanto, pressupõe na construção do conceito,
“[...] uma específica combinação entre tamanho demográfico, fun-
ções urbanas e organização do seu espaço intraurbano.” Voltaremos
a estes aspectos formulados por Corrêa mais adiante.
O tamanho demográfico constitui uma primeira dificuldade
tanto na concepção de Corrêa como na dos demais estudiosos que
se debruçaram sobre a abordagem das cidades médias. Santos (1994,
302 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

p.70) já levantava a questão da classificação por tamanho colocando


o problema da interpretação das estatísticas para as ciências humanas,
uma vez que “ [...] o número em momentos distintos possui significa-
do diferente.” Desse modo, o que pode ser chamado de cidade média
na década de 1940/1950, não é mais na década de 1970/1980, e ele
acrescenta que na década de 1990 (quando formula essas idéias), para
ser considerada cidade média, uma aglomeração deveria ter em torno
de 100 mil habitantes. O critério populacional varia, assim, confor-
me a época, ou seja, conforme a década ou anos considerados e em
comparação a outras cidades. No caso brasileiro, este critério varia
também conforme a região e os estados. O limiar de uma cidade mé-
dia no Ceará, por exemplo, não é o mesmo de uma cidade média em
São Paulo (Amora, 2002).
O que se pode concluir, a partir das considerações críticas
apresentadas a propósito do critério do tamanho demográfico, é a
necessidade de se relativizar este critério tendo em vista as implica-
ções de definições baseadas estritamente no número de habitantes.
A escala espacial de referência constitui outra dificuldade
na unificação de um conceito de cidade média, apontada por Corrêa
(2007), que dá exemplos da escala estadual brasileira em que uma
cidade pode ser média no contexto do país, porém uma grande ci-
dade na escala estadual. Isso tem causado, a nosso ver, uma grande
confusão, haja vista a heterogeneidade do urbano brasileiro. Ainda
referindo-se à escala, Corrêa (2007, p.26) indaga: “existe uma escala
espacial na qual é possível pensar a cidade média?”
A dimensão temporal é a terceira dificuldade assinalada por
Sobral e região em foco 303

Corrêa ao afirmar que se deve “qualificar a cada momento o que se


entende, do ponto de vista demográfico, por cidade média.” (2007,
p.26). Neste sentido, concorda com Lamarre (1997), que ressalta o
fato de a cidade não permanecer sempre média. Para Corrêa, essa
transitoriedade torna-se uma dificuldade à consecução de um concei-
to de cidade média.
Fica assim evidente que as cidades têm tamanhos diferentes,
papéis diferentes, conforme já foi amplamente debatido pelos estu-
diosos citados, e que a organização urbana do espaço calcada em re-
des hierarquizadas não corresponde, ou em alguns casos nem chegou
a corresponder, à realidade das relações interurbanas.
Desse modo, a discussão conceitual sobre as cidades médias
remete, ainda, às considerações de Corrêa e Brunet, já citadas aqui,
sobre as funções das cidades, ou seja, sobre o papel que elas desem-
penham em suas respectivas redes urbanas, bem como no que se
refere à organização intraurbana dessas cidades. A rede urbana pode
ser considerada um meio de apreensão dos espaços na perspectiva
funcional; entretanto, a representação de uma rede urbana hierarqui-
zada, como sintetizam Di Méo e Guerit (1996, p. 117) baseava-se na
hipótese de que

[...] stipulait qu’il existe un modèle spatial de diffu-


sion des biens, des capitaux et des services, plus lar-
gement de l’information, des idées et de l’innovation,
obéissant à um schéma hiérarchique calque sur le
réseau des villes qui les distribuent.
304 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

O conceito de rede urbana na perspectiva de espaços hierar-


quizados foi amplamente debatido e alvo de críticas, por não corres-
ponder mais à realidade das relações interurbanas. Isto porque cada
vez mais os diversos níveis do urbano articulam-se através de fluxos
materiais e imateriais, rompendo com a representação da realidade
pautada em um modelo que via a relação com o território, na expres-
são de Brunet, citada por Di Méo e Guerit (op. cit., p. 117), através de
uma “cascata hierárquica”, ou seja, em um modelo próprio dos países
do capitalismo central, como a França, onde as capitais comandam as
metrópoles regionais, que comandam as cidades médias, e assim su-
cessivamente. Entretanto, cabe perguntar: em que base estruturam-
se, atualmente, as relações das cidades médias com o espaço rural e
com as pequenas cidades?
O papel regional desempenhado pelas cidades médias tor-
na-se um atributo que as particulariza em relação à metrópole e às
cidades pequenas: “[...] papéis regionais sempre estiveram associados
às cidades médias, às vezes denominadas cidades regionais.” (spo-
sito, 2007, p. 234). Mesmo considerando que cada vez mais as ci-
dades médias articulam-se, através dos fluxos, em diferentes escalas,
as práticas regionais são mantidas por estas cidades e até mesmo se
ampliam; porém diferem de acordo com a região ou país. Como res-
saltam Santos e Silveira (2001, p. 283):

as cidades médias comandam o essencial dos


aspectos técnicos da produção regional, dei-
xando o essencial dos aspectos políticos para
Sobral e região em foco 305

aglomerações maiores, no país ou no estran-


geiro, em virtude do papel dessas metrópoles
na condução direta ou indireta do chamado
mercado global.

A afirmação de Santos reforça, a nosso ver, a importância


do papel regional da cidade média não somente como materialidade,
mas como premissa na abordagem conceitual. Entretanto, convém
refletir sobre os papéis desempenhados pelas cidades médias, posto
que são diferentes, dependendo do contexto econômico e da forma-
ção socioespacial em que elas estão inseridas. Daí a necessidade de
estudos sobre realidades específicas.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS


A partir das reflexões aqui expostas, sem a pretensão de ter-
mos apresentado a discussão como conclusiva, reafirmamos a im-
portância de se manter o debate teórico e de, conseqüentemente,
prosseguirmos com os estudos que abordam as cidades médias em
contextos específicos. O primeiro enfoque anima o debate e amplia
as perspectivas de enriquecimento das análises particulares.
Permanecem as dificuldades conceituais, porém considera-
mos que foram significativos os avanços no que concerne à discussão
de escopo teórico. Fica evidente que não é possível se chegar a um
conceito único de cidade média, o que não parece constituir obstácu-
lo ao desenvolvimento de pesquisas empíricas, tampouco ao enten-
dimento da realidade.
306 Multiplos olhares sobre a cidade e o urbano:

A partir das contribuições apontadas pelos estudiosos,


destaca-se o fato de ser difícil a formulação de um conceito único,
cabendo aportes específicos para o entendimento de realidades par-
ticulares. Outro aspecto levantado pelos estudiosos da temática diz
respeito à condição de não haver características específicas das ci-
dades médias, porém elas se particularizam tendo em vista alguns
premissas. Uma destas premissas refere-se, como já foi destacado, ao
papel regional das cidades médias, que diferentemente das metrópo-
les, vinculam-se mais diretamente com o campo e as cidades menores
que formam suas áreas de influência, tornado-se este aspecto um di-
ferencial e, portanto, um atributo conceitual. Entretanto, o papel re-
gional apresenta diferenciações, dependendo da formação social em
que a cidade média está inserida, ao mesmo tempo que não se pode
mais falar, no atual contexto de globalização, de um padrão de cidade
voltado unicamente para a região. As cidades estabelecem cada vez
mais ligações com outros espaços, em diferentes escalas.
Ao finalizar estas reflexões, gostaríamos de destacar o enri-
quecimento do processo de conhecimento sobre as cidades médias
consubstanciado em publicações, grupos de trabalho e encontros
científicos, resultado de ações mais compartilhadas entre os que pen-
sam e estudam estas cidades no Brasil
Sobral e região em foco 307

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