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Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas e visualidades na cidade de Sobral/CE

© 2014 copyright by Nilson Almino de Freitas

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F936t
Freitas, Nilson Almino de
Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas e visualidades na Cidade de Sobral-CE
/ Nilson Almino de Freitas. - Sobral: Edições UVA, SERTÃOCULT, 2014.
188 p.:
ISBN.: 978-85-87906-81-6
978-85-67960-03-6

1. Patrimônio cultural. 2. Antropologia urbana 3. Memória – Sobral


(CE). 4. Imagem. I. Título.
CDD 307.76
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente à FAPERJ, pelo apoio financeiro atra-


vés do programa PDR – Edital 2008/2. A todos meus amigos do Pro-
grama Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Fede-
ral do Rio de Janeiro – PACC/UFRJ, especialmente meus colegas no
pós-doutorado em Estudos Culturais. Aos meus colegas da UVA, que
deram apoio nas idas e vindas entre Sobral e Rio de Janeiro, espe-
cialmente à Pró-Reitoria de Pesquisa. A meus bolsistas de iniciação
científica, que ajudaram na atividade de campo e produção de do-
cumentários. À Ilana Strozenberg, pelas orientações e convite para
ser pesquisador associado ao pós-doutorado em Estudos Culturais. À
Heloísa, pela sua alegria e apoio na minha efetivação como bolsista
da FAPERJ. A todos aqueles que colaboraram direta ou indiretamen-
te para realização desse trabalho, inclusive a Teobaldo Mesquita,
que ajudou na revisão final.
Dedico esse trabalho à minha esposa
Wellingta, à avó Nerina que muito ajudou nas
idas e vindas entre Rio e Sobral, aos meus fi-
lhos Gabriel e João Pedro, à minha filha Maria
Clara e a meus alunos do curso de Ciências
Sociais da UVA.
SUMÁRIO
Apresentação / 11

Introdução / 19

Capítulo I
O pesquisador e a cidade: o sensível, o biográfico e a experiência / 33

Parêntese / 41

Controvérsias e produção textual: desconstruindo argumentos sobre


a “sobralidade triunfante / 47

Controvérsias sobre a “sobralidade”: falsa oposição entre o fato con-


sumado e relatização / 58

Fazendo aliados e solidificando argumentos: conciliação de interes-


ses e instrumentos / 74

Revendo “fatos”. Outros argumentos / 82

Capítulo II
Política, agências e estrutura social: contrastes, distinções e discursos / 87

Política de preservação, estrutura socioeconômica e história / 90

Agenciamento e redes: a consolidação de um “nome de família” / 105


Amarrando argumento: a cultura política, a política pública e a
estrutura social / 121

Capítulo III
A cidade no documentário: Visualidades e conceitos sobre o espaço urba-
no nos bairros periféricos de Sobral / 127

Considerações iniciais: linguagem audiovisual e formas de ver o


filme / 127

O documentário e o bairro: metodologia e formas de fazer / 134

A cidade ou as cidades inventadas nos filmes: as histórias dos nar-


radores dos bairros periféricos / 141

A cidade, os narradores e o arquivo / 159

Considerações finais / 165

Referências / 177
Apresentação

“Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas e visualidades


na cidade de Sobral/CE” é o mais recente trabalho produzido pelo
professor Nilson Almino de Freitas, corolário de toda uma trajetória
acadêmica iniciada com sua primeira publicação “Sobral – Opulên-
cia e Tradição”, seguida de “Astúcias da Memória: imagens, narrati-
vas de espaços e práticas cotidianas dos moradores da cidade de So-
bral”, que tive o privilégio de também apresentar, caracterizado por
uma coerência temática que põe em evidência as cidades, sempre a
partir daquela que o autor escolheu como laboratório de análise – a
cidade de Sobral, no estado do Ceará.

São, portanto, mais de 14 anos em que o autor vem se de-


bruçando em torno do tema, diversificando e problematizando as
formas de fazer pesquisa, que foi bastante enriquecida nos últimos
anos pela utilização de recursos audiovisuais, nos quais a produção
de documentários tem encontrado um espaço especial no trabalho
acadêmico do autor, de uma maneira geral, e no âmbito da pesquisa,
em particular.

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O livro que apresentamos é fruto da maturidade do autor com
o tema, que identifica sua própria trajetória pessoal e de trabalho
acadêmico como pesquisador, de forma que o leitor tem uma visão
de conjunto do seu trabalho, além, claro, dos resultados a que tem
chegado, destacando-se uma riqueza de categorias desenvolvidas,
desta feita focando com mais acuidade a prática de pesquisa, em
meio a uma teia de relações que envolvem sobretudo a relação com
o próprio objeto de pesquisa, a pluralidade de formas de se fazer
ciência, a expressão científica, a dimensão política, as vicissitudes e
dilemas enfrentados pelo pesquisador, o lugar e o tempo da pesqui-
sa, dentre outros tópicos. Tudo isso por meio de uma linguagem que
concilia a profundidade da reflexão e a facilidade da comunicação,
ora parecendo falar consigo mesmo, ora ao leitor com o qual intera-
ge, em um estilo que se assemelha ao de memoriais.

Na obra, o autor atualiza sua preocupação de olhar a cidade (a


cidade de Sobral, no caso) de uma forma “plural”, de modo a perce-
ber nela não somente o que as elites políticas e econômicas veem,
mas também o olhar dos outsiders, destacando-se os que habitam as
periferias – as populações mais carentes de atendimento social, bem
como os “estrangeiros”, designação referente àqueles que não nas-
ceram em Sobral, mas que habitam igualmente a cidade, disputando
com os “nativos” os espaços urbanos e as oportunidades de trabalho
e lazer que a cidade oferece (quando oferece), sem exclusivismos
radicais ou preocupações de se identificar maneiras corretas ou er-
radas de se ver a cidade.

Assim, o autor põe em evidência as limitações ou contradições

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do olhar unilateral, exemplificado pelas elites supracitadas que, se-
gundo ele, veem a cidade unicamente a partir de suas belezas, de
seus heróis, de seus feitos, ou seja, do que o autor denominou de
“cidade triunfante”, razão pela qual a “sobralidade” emerge como
uma categoria permanente, usada pelo autor desde a primeira obra,
renovada nas que se seguiram, e nesta, de uma forma especial, con-
figurando-se como uma construção discursiva que impõe adentrar o
problema da heterogeneidade e pluralidade de visões, discursos, re-
presentações acerca da cidade, incluindo as mais diversas categorias
de pessoas e grupos que hoje a vivem, cada qual a seu modo, o que
para o autor impossibilita a definição precisa de uma “identidade”
que homogeneíze todos os habitantes da cidade em uma mesma re-
presentação que se pretenda social.

Tal é para o autor o que tem sido intentado pela facção social
hegemônica que forçosamente apregoara Sobral como uma cidade
moderna e triunfante, como se pode depreender da representação
social acerca da cidade subjacente ao projeto de tombamento da
cidade como patrimônio histórico nacional, ocasião em que o ele
desenvolve a dimensão política de seu trabalho sob uma perspectiva
crítica. Aliás, como o próprio autor expressa em seu texto, “Sobral é
rica, mas também é pobre”.

Pode-se afirmar que o foco da obra é a experiência de pesquisa,


sob as mais variadas dimensões, embora que em continuidade com o
que o autor já vem apregoando em textos anteriores, destacando-se
a pesquisa etnográfica, seu significado em termos do trabalho que o
cientista exerce. Para ele, em termos gerais, a experiência de pesquisa

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é um encontro entre o pesquisador e os demais agentes, que se situam
só hipoteticamente no âmbito do universo pesquisado, estes atuando
como uma espécie de “coautores” da pesquisa, posto que não se encon-
tram em um estado meramente passivo, mero objeto de investigação
do pesquisador, o que lhes confere a qualidade de sujeitos do próprio
processo da pesquisa. Nesse sentido, os resultados de uma pesquisa de
campo é sempre consequência de uma interlocução experienciada por
autor e esses agentes sob circunstâncias que envolvem o tempo (histó-
rico e atual, em uma unidade) e o espaço do encontro.

O trabalho de pesquisa, portanto, é definido como um encon-


tro de sujeitos ou agentes, estando, nesse sentido, em condições
igualitárias, embora que diferentes, “pesquisador” e “pesquisado”,
justificando-se as aspas em função de que tais realidades não se en-
contram em polos verdadeiramente estanques, mas, de certa forma,
imbricados a ponto de, por um lado, o pesquisador sofrer os afeta-
mentos do encontro, e de outro, o pesquisado interferir decisiva-
mente na produção dos resultados da pesquisa, não se constituindo
num mero “objeto” da pesquisa.

Mesmo no âmbito do pesquisador, abstraindo-se hipotetica-


mente o âmbito do pesquisado, a pesquisa se mantém como um
encontro, tendo em vista não se constituir o resultado de um autor
solitário, mas de toda uma constelação de pessoas que “em rede”
(expressão utilizada pelo autor) se organizam para a produção de
uma pesquisa, fato que remonta para a própria experiência do autor
em trabalho conjunto, quer com outros pesquisadores, quer com
estudantes e auxiliares de pesquisa, estagiários do laboratório, os

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agentes dos órgãos de fomento e financiamento das pesquisas, den-
tre outros que os reconhece como coautores lato sensu.

O autor é enfático ao pontuar que os resultados do seu traba-


lho de pesquisa são uma função de sua própria trajetória pessoal
como morador da cidade, razão pela qual lembra várias experiên-
cias vividas, desde a chegada à cidade até tempos mais recentes,
destacando-se seu trabalho na universidade, de uma maneira geral,
e mais especificamente a participação em editais de financiamento
e fomento à pesquisa, em que teve vários projetos seus e em parce-
ria com outros colegas aprovados em âmbitos nacional e regional;
a qualificação profissional; o contato com diversos segmentos so-
ciais, sobretudo alinhados às classes populares e aos movimentos
artísticos e culturais, cujos espantos, estranhamentos e curiosidades
decorrentes dessa experiência vão ganhando contornos de questio-
namentos problematizadores que orientam, conduzem e permeiam o
trabalho de pesquisador.

Em se falando de “resultados” (da pesquisa), deve-se salientar,


até mesmo para fins de se fazer justiça ao autor, que utilizo esse
termo de forma muito precária tendo-se em vista que o mesmo não
pensa o termo como algo de fato acabado, que mereceria o nome
de “resultado”, propriamente dito; antes, aquilo que um pesquisador
produz são narrativas, de matriz significativa, embora que sob uma
certa organização que poderíamos chamar também precariamente
de “científicas”, mas respeitando os limites estreitos do que é ou não
ciência; daí a despreocupação do autor em identificar as conclusões
do seu trabalho como pertencente a uma das ciências sociais (Socio-

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logia, Antropologia, Ciência Política) em particular, não se eximindo
da coragem de aproximar seu trabalho da dimensão artística.

Antes, a partir de alguns autores (Latour, dentre estes, por


exemplo), suscita questão relacionada à demarcação da cientifici-
dade quanto à prática científica, aventando a possibilidade desta
demarcação não se fazer mais sobre os critérios da organização por
disciplina e por objeto, o que para o autor produz limites ao próprio
trabalho científico. De fato, o autor tem procurado se libertar de
determinados cânones da cientificidade de caráter disciplinar, obje-
tivista e de resultados conclusivos em favor de uma orientação para
o trabalho de pesquisa em que os resultados sejam mais fluidos,
relacional e relativamente inconclusos.

“Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas e visualidades na


cidade de Sobral/CE” é uma espécie do gênero autobiografia cien-
tífica do seu autor, em que este atrela os resultados do seu trabalho
de pesquisa à sua própria experiência vivencial na cidade, tendo-se
como pressuposto a relação com o outro (ou “os outros”), de cujo
encontro brotam as narrativas que comporão o mosaico de pesquisa.
Cada pesquisa, em particular, do autor é um momento que se somará
às demais pesquisas, numa espécie de continuidade não linear, mas
cíclica, que formará ao final uma unidade não exaustiva, definida
em termos de narrativas e não de resultados absolutos.

O olhar que o autor direciona sobre a cidade é entrecortado


pelos olhares dos demais sujeitos com os quais aquele se relaciona,

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assim como pela sua própria trajetória de vida, resultado do próprio
encontro, mediado pelo trabalho etnográfico, chegando-se, ao final,
não à construção de um conhecimento propriamente dito acerca da
cidade, em termos da orientação científica tradicional, mas à produ-
ção de uma narrativa significadora dessa experiência.
A obra ora apresentada retoma, como aludido, diversas ques-
tões já postas pelo autor em obras anteriores, dentre as quais men-
cionamos: a produção de discursos e representações, o trabalho do
pesquisador, as relações entre ciência e arte, ciência e política. No
entanto, ao rediscuti-las o faz de forma a acrescentar sempre ele-
mentos novos que, em se tratando de uma trajetória da experiência
com a pesquisa, pode o leitor perceber o amadurecimento da discus-
são ao longo dessa própria trajetória, possibilitando o autor em um
tempo sempre cíclico ressignificar suas “descobertas” sempre à luz
das novas experiências e vice-versa.
Assim, se os temas vão ganhando novas luzes a partir da pró-
pria trajetória pessoal do autor através do trabalho científico, algu-
mas posturas permanecem ao longo do tempo, como, por exemplo,
o caráter democrático, que melhor traduz o termo “plural”, buscan-
do sempre privilegiar a pluralidade de falas acerca da Sobral, bem
como o caráter implicitamente crítico dos discursos que se sobre-
levam perante outros, embora, diga-se com propriedade, o autor
esteja bem menos interessado nessa crítica, e mais nas formas de
produção desses discursos, ou seja, de uma “gramática da produção”
como diversas vezes explicitados no próprio texto da obra, embora
não deixe de exercê-la.
A ênfase recai, portanto, no que o autor denomina de “condi-
ções de produção” dos discursos que ora são latentes, a exemplo dos

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discurso que promovem a versão monumental ou triunfal acerca de
Sobral, típico da versão oficial, que instrumentalizou a elaboração
de políticas públicas de preservação do patrimônio histórico nacio-
nal na cidade, ora explicitados, como a que o próprio autor ajuda a
promover através da sua obra, em sentido lato, e do trabalho de pro-
dução artístico-cultural, com destaque ao “Visualidades” (programa
de extensão de produção e desenvolvimento de linguagens visuais
acerca das cidades, dentro do qual encontra-se o filme “Sobral no
Plural”, e outros trabalhos, coordenados pelo autor), sem qualquer
ranço de exclusivismo; apenas para ressaltar a heterogeneidade de
experiências e maneiras de ver e viver a vida na cidade.
Em síntese, a obra é uma espécie de “balanço” que o autor faz
de seu trabalho como um todo, onde explicita os dilemas vividos ao
longo de sua trajetória pessoal, de onde é possível perceber o pro-
cesso de amadurecimento do mesmo, bem como de desenvolvimen-
to de seu próprio trabalho, ao longo dessa trajetória. Ao realizar esse
balanço o autor se percebe em meio a um emaranhado de questões
que demandam muito menos ser “solucionadas” do que compreen-
didas, sendo isso o fator desencadeador do próprio desenvolvimento
de seu trabalho, que reconhece como um trabalho conjunto, ao con-
trário de um trabalho meramente solitário.
De mais, só me resta reconhecer a grandeza e relevância da
obra, recomendando a leitura da mesma a todos que queiram conhe-
cer com mais profundidade os dilemas vividos por um pesquisador
no âmbito da pesquisa, além de compreendê-la com a qualidade que
lhe confere o autor.

Prof.Dr. Francisco Alencar Mota (UVA/Sobral-CE)

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INTRODUÇÃO

Este trabalho é o segundo livro baseado no relatório para o pós-


-doutorado em Estudos Culturais do Programa Avançado em Cultura
Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro - PACC/
UFRJ. O primeiro, publicado pela Editora Torre em 2012 com o títu-
lo “Astúcias da memória: imagens, narrativas de espaço e práticas
cotidianas dos moradores da cidade de Sobral/CE” e apresentado em
maio de 2011 no referido programa, visava compreender, a partir de
vivências e narrativas de moradores que falam sobre o sentimen-
to de pertença, as diferentes formas de perceber e agir no espaço
urbano de Sobral/CE. Nesse segundo trabalho foram incluídas as
repercussões desses objetivos, ou seja, minhas percepções expressas
como pesquisador e morador da cidade por 17 anos, alguns argu-
mentos para arrematar reflexões que já venho fazendo e a expressão
audiovisual de minha pesquisa nos trabalhos de alunos de iniciação
científica.

Esta cidade cearense de porte médio, com 180 mil habitantes


(estimativa do IBGE para 2010), foi tombada em 2000 pelo Instituto

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do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN - como pa-
trimônio histórico nacional. Essa política de preservação, auxiliada
por outras, estimulou uma série de modificações socioeconômicas e
espaciais implantadas pelo poder público local, estadual e federal,
assim como alguns discursos ufanistas serviram como mote para
se pensar em uma “sobralidade triunfante”1. Discursos esses que
também serviram para justificar a monumentalização da cidade. O
triunfalismo, fundamentado por uma versão da história que fala de
riqueza e pioneirismo, passou a fazer parte do cenário local, princi-
palmente nas matérias jornalísticas nas mídias sobralense e estadual
e até em livros didáticos produzidos para o ensino fundamental.
Em termos coloquiais, nas narrativas publicadas em alguns livros
de história local e no próprio documento que fundamenta a cidade
como patrimônio histórico nacional, parece que em Sobral nunca
teve pobreza, miséria, fome, dentre outros aspectos, que muito são
caracterizados por alguns como peculiares à região nordestina. A
imagem de aridez e morte, provocada pela estiagem, muito comum
na imprensa quando se pensa a região Nordeste do país, parece não
existir no discurso triunfalista da “sobralidade” anunciada pela polí-
tica de monumentalização da cidade. O “sertão” de Guimarães Rosa
parece não existir em Sobral.

Esse discurso triunfalista foi produzido como se falasse de to-


dos os sobralenses e suas histórias ao mesmo tempo. Vale a pena
lembrar que, por ser polo regional, Sobral atrai pessoas de várias
cidades menores da região que, em movimentos pendulares, fazem
com que a urbe cearense amplie o fluxo de pessoas nas ruas em
1 Cf.Freitas, 2000.

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determinados horários do dia. Muitos que migram também fixam
residência. A maior parte desses acaba morando em bairros perifé-
ricos. O fluxo de pessoas que vêm e vão faz com que os que ficam
participem ativamente da vida na cidade, mesmo não sendo natos.
Ao pensar a monumentalização da cidade que remete a um discurso
que fala de uma suposta “identidade coletiva”, pensei: será que to-
dos os moradores, sendo ou não “nativos”, pensam e fazem a cidade
da mesma forma? Logicamente que já sabia que as percepções e
práticas de espaço são múltiplas. Não tem como se pensar qualquer
“cultura”, inclusive a “sobralense”, como homogênea, linear no que
se refere a sua historicidade, ou coesa e exclusiva na sua “tradição”.
Assim como não dá para entender que seus moradores falam e fazem
as mesmas coisas sempre, ao se pensar e praticar o espaço. Sabia, e
ainda sei, que as formas de falar e de fazer o espaço são plurais. O
que eu não sabia era o conteúdo do que falavam sobre isso e o que
faziam de fato. Sempre achei que valia a pena explorar essa questão.

Não é uma preocupação de pesquisa recente de minha parte.


As repercussões deste trabalho, iniciado em 1997 no mestrado em
Sociologia da Universidade Federal do Ceará, já foram expressas
de várias formas e em linguagens diferentes. Do ponto de vista das
obrigações institucionais, quatro trabalhos se destacam: dissertação
de mestrado, publicada pelas Edições UVA em 2000 com o título
“Sobral - opulência e tradição”, tese de doutorado em Sociologia
pela Universidade Federal do Ceará, que teve como título “O Sabor
de uma cidade: Práticas cotidianas dos habitantes de Sobral”, defen-
dida em 2005, o primeiro relatório de estágio de pós-doutorado em
Estudos Culturais no Programa Avançado em Cultura Contemporâ-

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nea da Universidade Federal do Rio de Janeiro “Astúcias da memória:
imagens, narrativas de espaço e práticas cotidianas dos moradores
da cidade de Sobral/CE “ em 2011, publicado em 2012 pela editora
Torre, e o documentário “Sobral no Plural”, também apresentado por
ocasião da finalização do estágio de pós-doutorado e realizado em
parceria com o professor Paulo Passos de Oliveira, das Faculdades
Luciano Feijão, IES localizada em Sobral. Além disso, capítulos de
livros, artigos em revistas especializadas, apresentação de trabalhos
em congressos, roteiro de aulas em algumas disciplinas que ministro
na área de antropologia, dentre outras produções foram orientadas
por essa preocupação que apresento.

Porém as fontes para esse objetivo são inesgotáveis e diversi-


ficadas. Isso justifica a repercussão mais importante deste trabalho,
que vem sendo o Laboratório das Memórias e das Práticas Cotidia-
nas - Labome/UVA -, arquivo público de documentos orais e ima-
gens que dá suporte às minhas pesquisas e acaba servindo como
apoio para outros projetos de pesquisa, ensino e extensão de meus
colegas de trabalho. A ideia de arquivo foi ampliada no Labome,
pois além de o acervo permanente servir como fonte de consulta, é
também usado para produção de filmes documentários.

O objetivo de produções de documentários é criar uma política


e uma prática de criação de material imagético sobre a região noro-
este cearense, polarizada economicamente por Sobral. Essa política
vem sendo expressa nas três versões do evento batizado como Visu-
alidades, realizado nos anos de 2009, 2010 e 2011. Trata-se de uma
mostra de vídeos, fotografias, artes plásticas, desenhos e instalações,

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promovida por alunos e professores, a maioria dos cursos de Ciên-
cias Sociais e História da UVA, localizados no Centro de Ciências
Humanas – CCH, campus do Junco, com apoio do Labome. Nas três
edições do evento, levando-se em consideração somente os filmes
para efeito de ilustração, foram exibidos 37 documentários de curta,
média e longa metragens, a maioria inédita e realizada por docentes
e discentes da UVA.

O documentário Sobral no Plural, que já mencionei, produzido


com apoio da Pró-Reitoria de Extensão e pela direção do Centro de
Ciências Humanas da UVA, em parceria com o Labome, apresenta
a cidade de Sobral, do centro à periferia, narrada por moradores e
intelectuais. Sobral no Plural, idealizado por mim, com ajuda de
pesquisadores vinculados diretamente ao Labome, foi o único mé-
dia-metragem inédito exibido no II Visualidades. O filme, realizado
com padrão de qualidade maior, no que se refere ao planejamento
e aos recursos empregados, acabou sendo o carro chefe do evento,
atraindo um público que, apesar de não estar acostumado com a
produção local de documentários, já que praticamente a inaugura-
mos, recebeu com entusiasmo o vídeo.

Vale a pena explorar alguns pressupostos que me orientaram


ao dirigir esse filme, junto com meu colega Paulo Passos, para o
leitor entender melhor a proposta deste livro. Ao se trabalhar com
documentários sobre personagens que vivem no espaço urbano, é
comum a equipe de direção e produção polarizar a atenção sobre
a vida na cidade. Em um dos polos aparecem aqueles produtos au-
diovisuais sustentados pela construção de uma imagem de beleza

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estética e ética, que tenta fortalecer uma visão excitatória da perso-
nalidade no espaço. O outro polo teria como objetivo usar o vídeo
para denunciar algo inaceitável, quixotizando a pessoa em foco,
dando a ela um caráter revolucionário ou ainda colocando-a em
condição de grande vítima do “sistema”. Há uma espécie de pola-
rização moral entre o certo e o errado nessas duas perspectivas. Em
Sobral no Plural, pretendeu-se superar a dicotomia entre o certo e
o errado, articulando, em um mesmo vídeo, perspectivas e práticas
diferentes de como ver e agir no espaço urbano. Pretendemos explo-
rar o morador apaixonado pelo seu local de moradia, mas que não
necessariamente nasceu em Sobral. Pode até ter nascido em outro
lugar e não conseguiu o prestígio econômico almejado. Nesse caso
pretendeu-se superar o sentido de exaltação do que é particular à ci-
dade escolhida como locação, assim como a ideia de vitimizar o per-
sonagem em foco. A proposta foi também discutir astúcias pessoais
que acontecem em qualquer outra cidade que se apresenta como
polo regional, atraindo moradores de outras localidades para tentar
“melhorar de vida”, sem deixar de lado a opinião culta de historia-
dores, arquitetos ou representantes do poder público. A proposta foi
misturar depoimentos de pessoas que ocupam posições sociais bem
diferentes, além de contemplar divergências.

Portanto, este livro é uma repercussão de um trabalho expresso


em linguagens diferentes, mas que se complementam no sentido de
desconstruir visões correntes e, ao mesmo tempo, fazer o leitor ou
expectador, independentemente da concepção desses termos, ser es-
timulado a pensar. Proponho fazer o exercício do narrador descrito
por Benjamin (1985), que não dá respostas prontas, mas faz o in-

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terlocutor pensar. Minha experiência de pesquisa de campo também
estimulou este texto. Não sou sobralense nato, apesar de me consi-
derar morador e colaborador na reflexão sobre a dinâmica urbana. A
colaboração que ofereço tem uma natureza ondulante. Sinto-me em
casa por toda parte, tento sentir o mundo e me perco nele me escon-
dendo e achando. Há uma carga elétrica que acende minha emoção
ao ver o universal e o particular na multidão. Emociono-me também
com o confronto de ideias, com a desterritorialização e ênfase nas
diferenças no sentido intensivo do termo, o que coincide com a mi-
nha atividade como etnógrafo que pretendo mostrar no texto. Aliás,
não mostro só o texto etnográfico. Mostro também o etnógrafo e
sua forma de composição do texto e da imagem. Deixar-se afetar
pela experiência de campo é a característica básica da vivência no
trabalho etnográfico. O pesquisador não é aquele que registra obje-
tivamente o “real” e explica suas leis. Quero crer que a atividade de
pesquisa é mais humana do que isso. Há uma sinergia não planejada
entre os diferentes agentes em ação no processo de pesquisa. O tex-
to, apesar de ser redigido pelo pesquisador, que dá ênfase a determi-
nados aspectos, edita citações e direciona sua narrativa, é resultado
de um conflito de intenções e ações de diferentes sujeitos presentes
na vivência de campo. O pesquisador é afetado por essa experiência
e, a partir dessa afecção, cria sua perspectiva e direciona sua análise.
Isso parece tão importante que transformei essa discussão em um
capítulo deste livro, desconstruindo a aura de “neutralidade” que
ainda ronda as reflexões acadêmicas sobre o assunto. Não seria só
um capítulo metodológico tradicional, mas também uma parte do
texto onde a vivência, que é sempre mais rica que qualquer texto,

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tenta ser sistematizada de alguma forma e torna-se parte de uma
relação que rompe a fronteira entre pesquisador e pesquisado. O pri-
meiro capítulo é uma espécie de reflexão sobre meu trabalho, meio
biográfica e meio epistemológica, e um tanto quanto alegórica de
uma experiência de 17 anos como morador e pesquisador na cidade.
A forma corrente de construção de fatos entendidos como “científi-
cos”, a análise dos diferentes agenciamentos enfrentados pelo pes-
quisador, dentre outros aspectos que parecem não ter relação direta
com o tema de pesquisa, mas que são determinantes para entender
seus “resultados provisórios”, vão ser discutidos.

Pretendo aqui também desconstruir outras visões comuns sobre


o tema escolhido. A primeira se refere à visão do sertão nordestino
como um espaço rural árido, quase desértico, com uma população
folclorizada no personagem do “sertanejo” com roupa de couro, cha-
péu arredondado e com pouca instrução. Não vale a pena entrar no
mérito de tal visão, mas, certamente, é uma imagem produzida por
quem não conhece a complexidade do interior nordestino e suas ci-
dades. Fala-se muito da globalização ou mundialização como rom-
pimento de fronteiras e identidades, mas muitos não levam muito a
sério essa reflexão quando pensam nas diferenças e especificidades
espaciais, principalmente na oposição entre Nordeste e Sudeste do
Brasil. São comuns trabalhos produzidos nos grandes centros do
país que pensam em modelos difusionistas que adotam um territó-
rio central como transmissor de padrões culturais para as demais
regiões que, por sua vez, simplesmente os reproduzem. É comum ler
na academia trabalhos sobre determinadas manifestações culturais
localizadas geograficamente em uma grande metrópole brasileira

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


26  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
como se fossem representativas da “cultura brasileira”. Acontece
que, no sertão nordestino, boa parte das cidades são espaços ur-
banos antenados com uma suposta “modernidade”. Isso também é
tema de discursos sobre a economia, política, cultura, dentre outros
campos. Independentemente do significado atribuído ao conceito de
modernidade, percebo também nas cidades nordestinas aquilo que
acompanha qualquer projeto desenvolvimentista e que causa horror
aos seus agentes: a miséria.

Sobral, cidade cearense escolhida para essa empreitada, é exem-


plo do que estou falando. Como já dito, este município constitui-se
em um dos polos regionais do Ceará no que se refere à influência
econômica, política e cultural. Tal polarização repercutiu em seu
tombamento como Patrimônio Histórico Nacional em 2000, pelo
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, es-
tendendo uma imagem de referência também no âmbito nacional. A
história contada para fundamentar esta lógica é a de que a cidade
sempre foi próspera, mesclando o projeto de “modernização” pre-
gado pela administração municipal à época do tombamento, com
a preservação de uma tradição. Nesse caso, “tradição” e “moderni-
dade” aparecem como complementares, no sentido de fortalecer um
determinado discurso que coloca a cidade no rol daquelas que são
exemplares para a história, não só do estado do Ceará, nem somente
da região Nordeste, mas de todo o país, já que representa um patri-
mônio nacional.

O curioso é que a história contada pela política de preservação


esquece aqueles que sustentam a suposta riqueza, ou os que produ-
ziram as circunstâncias para que ela exista e faça parte da “tradição”

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
local consolidada pelo tombamento. É uma versão temporal organi-
zada em ciclos, o que torna mais didática a justificação da impor-
tância da cidade. Porém, em cada ciclo, acompanhando a riqueza,
vêm também aqueles que procuram uma vida melhor do que aquela
oferecida pelo seu lugar de origem e acabam se decepcionando, ou
tentando superar problemas relativos à baixa qualificação profissio-
nal, fazendo atividades consideradas por alguns como imorais ou
ilegais. Acontece que uma parte dos migrantes que vêm em busca
de uma “vida melhor” foi contratada pela indústria no ciclo corres-
pondente a essa modalidade de produção econômica, momento que
marcou a última fase ou “ciclo” da história contada pela política de
preservação implantada. Porém, nem todos foram empregados na
indústria. Ficaram, também, na cidade, migrantes que tiveram que
“se virar” por não conseguir espaço nos postos de trabalho ofereci-
dos. Isso acontece até o momento presente, mas os “especialistas da
memória” não contam essa história.

Entretanto, vale a pena ressaltar que a polarização exercida por


Sobral não se compara à influência exercida por Fortaleza, que tem
um fluxo de migrantes bem maior que qualquer outra cidade cea-
rense. A riqueza produzida na região polarizada por Sobral, portan-
to, tem que ser melhor sistematizada. Esse será o tema do segundo
capítulo do livro, acompanhado de uma discussão sobre a política
pública de uma forma mais geral. Entretanto, não se entende aqui
a política pública como ato administrativo implementado para o
“bem de todos”, como geralmente é pensada, mas como agência
construída de acordo com uma posição política sobre o que se deve
fazer. Nesse caso, o uso político e os modelos de agenciamento e

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
construção de adesão para uma determinada proposta é o tema do
capítulo. Logicamente que essa discussão contempla a política de
preservação enquanto política pública. Tento situar essa discussão
em um tempo histórico recente inaugurado em 1997 com a primeira
gestão do prefeito Cid Gomes e, ao mesmo tempo, mostrar modelo
de agenciamento em rede mais geral que organiza politicamente a
implementação de qualquer política pública. A “cultura política” que
está permeando as decisões e ações do poder público vai ser desta-
que nesse capítulo.

Essa discussão sobre a política pública vai ser acompanhada so-


bre uma reflexão mais geográfica para situá-la. Acontece que o flu-
xo de migrantes provoca uma segmentação na circulação de rique-
zas, no âmbito local. Percebe-se claramente na cidade um segmento
social que tem acesso às benesses da produção de riquezas materiais,
outros com limitado acesso e alguns com nenhum acesso. Isso não
é restrito a grandes centros, mas também às cidades médias. Há
aqueles, também, que se percebem em situações de ocupar as ruas da
cidade, tramando e executando suas astúcias para poder sobreviver.
Apesar de não estarem dentre os que possuem bens materiais que
causam prestígio, também agem no espaço urbano e trazem consigo
experiências de vida importantes para pensar as relações sociais e
a vida em sociedade. São eles que geralmente não aparecem como
atores, mas como vítimas do sistema em algumas considerações no
campo das ciências humanas. O presente livro trabalha exatamen-
te com esse perfil de morador, articulando suas trajetórias de vida
como migrantes ao que fazem como moradores da cidade. A “víti-
ma” torna-se protagonista no livro, mostrando suas espertezas para

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
superar as intempéries da falta de recursos financeiros. De passivo,
pretende-se tornar esse personagem ativo na cidade, contribuindo
para construção de suas relações sociais no cotidiano.

O terceiro capítulo apresenta um perfil de divulgação científi-


ca onde esse morador considerado por alguns como vítima apare-
ce falando da história local, o que não é nenhum demérito; muito
pelo contrário, valoriza e enriquece a versão oficial. A proposta é
refletir sobre alguns documentários já produzidos sobre a cidade,
dentre aqueles apresentados nas três versões do evento Visualida-
des. Pretende-se discutir algumas obras na linguagem audiovisual,
levantando os seguintes problemas: como transformar essa pers-
pectiva do trabalho de campo em filme sobre um tema relativo à
vida na cidade? Nesse capítulo também pretendo incluir reflexões
desconstruindo algumas concepções correntes sobre o documentá-
rio. Acredito que o documentarista não capta uma dada realidade;
ele a cria e transforma a partir do momento em que se inscreve nela,
tornando-se seu agente. Em frente à câmera, ele promove questio-
namentos e encontros, transformando e saindo transformado pela
sua relação com os entrevistados. Por isso, proponho, ao final do
livro, um encontro entre filmes, autores e os entrevistados que co-
nheci durante o processo de pesquisa. Nesta reunião, eles aparecerão
no debate sobre sua situação social, pensando acerca de si e sobre os
outros envolvidos na produção do filme.

Nesse caso, três alegorias vão ser articuladas no texto: a do


pesquisador que reflete sobre as ingerências, agências e redes cons-
truídas para produção de sua obra; a do pesquisador que observa
geografias e políticas públicas na cidade; e o autor e produtor de

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
audiovisual e sua obra expressando a visão de moradores da cidade
sobre sua história, a partir de bairros periféricos. Concretamente,
tento expressar aqui símbolos que tentam explorar e comunicar um
conjunto de narrativas ou quadros de maneira que cada um de-
les possa corresponder a significados aprendidos na experiência de
pesquisa. Assumo a crítica feita por Clifford (1998) quando afirma
que o texto etnográfico é uma performance com enredo estruturado
que descreve acontecimentos culturais acompanhados de afirmações
adicionais, sejam elas morais, ideológicas ou de uma cosmologia
imaginada. A história contada pretende estimular o leitor a imaginar
uma norma cultural diferente associada a uma experiência humana
que é comum a todos. Não quero criar a história, mas sim estimular
outras histórias a partir da minha. A única ressalva é que entendo
que esse é um trabalho experimental resultante de uma experiência
concreta com pessoas, objetos, ambientes, discursos e instituição, e
não uma expressão interpretativa exclusiva de um pesquisador. Por
isso que esses elementos acabam aparecendo no meu texto como
agentes também, além de mostrar quais são as regras do jogo da
produção acadêmica e como lido com elas.

Penso que o sensível, o biográfico e a experiência – atividade


artesanal resultante de um estudo da experiência humana através de
uma experiência pessoal – é importante ser discutida na pesquisa.
Aqui, segundo a discussão de Goldman (2006) sobre o tema, não
quero discutir crenças ou sistemas de valores reguladores da condu-
ta. Não entendo que, como pesquisador, tenho o controle explicati-
vo do que venho discutir aqui. Entendo meu texto como resultante
de injunções conflitantes experimentadas no campo e no próprio

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
texto. Acho que comunico uma experiência vivida que vai além da
explicação de crenças ou de expressão de sentimentos individuais
interpretados no texto, apesar de não abrir mão deles. Nesse caso,
como sugere Goldman (2006), duas frentes de reflexão são apresen-
tadas neste livro: descobrir porque, como e o que as agências com
as quais me relaciono no trabalho de campo fazem para tornarem-se
coerentes e razoáveis para mim e meus pares; e a segunda reflete se
somos capazes de seguir o que fazem e dizem e até que ponto somos
capazes de suportar suas práticas e saberes. Esta última questão nos
faz pensar: somos capazes de suportar a transformação de nós mes-
mos a partir da experiência de pesquisa?

Por isso que pensei ser interessante fazer um texto com di-
ferentes recortes, escalas e programas de verdade como matriz de
inteligibilidade para outros contextos. O ser afetado por comuni-
cações involuntárias resulta nessa expressão textual que apresento.
Não estou me preocupando tanto se estou respeitando, ignorando
ou subsumindo o que é ser “sobralense”, mas sim tentando expres-
sar minha desestabilização constante que incidiu em minhas formas
dominantes de pensar, para fazer novas conexões com o que expe-
rimentei. Vamos começar a leitura a partir desse ponto.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
CAPÍTULO I
O PESQUISADOR E A CIDADE: O SENSÍVEL,
O BIOGRÁFICO E A EXPERIÊNCIA
Não sou sobralense de nascimento, como já dito na introdução.
Fui morar em Sobral em 1995, quando fiz concurso para professor
na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Na ocasião me vi obrigado,
diante das exigências acadêmicas, a procurar uma “qualificação pro-
fissional”. Depois de criar, juntamente com outros colegas, o curso de
especialização em Metodologia da Pesquisa Social, onde fui coordena-
dor e aluno, construí, a partir dessa experiência, projeto de pesquisa
apresentado em 1997 para o mestrado em Sociologia da Universidade
Federal do Ceará. Esse projeto visava fazer uma etnografia sobre espaço
peculiar do centro de Sobral chamado Becco do Cotovelo2. É um espaço
central da cidade que é visto por determinados segmentos sociais como
local onde “tudo acontece”, “lugar da fofoca” e que tem uma autono-
mia político-administrativa com relação ao gestor público municipal,
por ter um “prefeito” próprio. O tempo de mestrado coincidiu com a
construção do processo de tombamento da cidade como patrimônio
histórico, que se efetivou em 2000, ano em que defendi minha disser-
2 A grafia está correta. A proposta dos frequentadores é resguardar o local como espaço tradi-
cional, mantendo a forma como se escrevia a palavra no passado.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
tação, o que motivou ampliar o foco de atenção para essa política de
preservação, sem abandonar completamente a proposta inicial sobre o
Becco, que mereceu um capítulo na dissertação. Depois de defender, a
editora da UVA se interessou pelo trabalho e o publicou no ano 2000
com o título “Sobral - opulência e tradição”.

Este relato biográfico inicial, que pretendo continuar mais à fren-


te, não constitui uma reprodução da história de minha vida, nem, por
outro lado, pretende ser uma expressão da metodologia científica ado-
tada. É isso e mais alguma coisa. Visa discutir o processo de produção
da pesquisa de campo e da etnografia e, ao mesmo tempo, assumir que
a subjetividade, de forma integral, está presente na pesquisa. Nesse
caso, o trabalho de campo passa a ser entendido aqui como fonte, mé-
todo, e principalmente, como experiência humana de um sujeito social
que foi afetado de alguma forma por ele. O corpo, como lembra Latour
(2007), é aquilo que deixa uma trajetória dinâmica onde aprendemos
a ser sensíveis ao que acontece no mundo vivido e experimentado.
Portanto, o corpo é afetado e se envolve na aprendizagem sobre a vida,
não enquanto essência ontológica, mas como experiência e vivência.
Portanto, o texto que aqui escrevo não pretende explicar “crenças nati-
vas”, como já dito na introdução, não quer construir explicações psico-
lógicas do “sobralense” e não produz explicações de relações coletivas
ou a “sociologia nativa”. É simplesmente expressão da experiência vi-
vida com injunções conflitantes que repercutem na transformação de
nós mesmos a partir de um aprendizado, como sugere Goldman (2006).

Tento superar, neste caso, uma discussão inaugurada por alguns


antropólogos na década de 1980, quando desconstruíam a “autoridade
etnográfica” do pesquisador. A proposta desses pesquisadores era a de
mostrar que o texto etnográfico era diferente de uma expressão real

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


34  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
do “outro”3. George Marcus (2009), por exemplo, propõe uma forma
de perceber o encontro etnográfico. Para ele, tal momento, no texto,
aparece como resultado de colaborações e de um tipo de engajamento
com intensidade variável entre as pessoas envolvidas, o espaço e o
tempo social compartilhados. Nesse caso, a interação supera a intenção
objetiva e metodicamente planejada do pesquisador que produz mapas
mentais do funcionamento da realidade. O texto etnográfico passa a
ser um ato de criação de alegorias, fruto de interações multissituadas e,
ao mesmo tempo, expressão através de uma linguagem apreendida no
campo de formação do profissional e de uma cientificidade pautada em
uma determinada noção do que vem a ser a ciência. Certamente não é
uma ciência dura, que tem a pretensão de buscar explicações essencia-
listas. É aquela que pretende reconhecer a humanidade do sujeito que
escreve, ressaltando seus limites, possibilidades e criatividade artesanal
no texto.

Para os autores da Writing Culture (CLIFFORD; MARCUS, 1986),


em termos gerais, a pesquisa passa por uma reflexibilidade, não só
sobre o contato concreto, mas também sobre uma ética, repercutindo
em uma emoção e uma política do processo de investigação. Nesse
campo, o pesquisador e sua etnografia produzem um efeito, articulando
uma tecnologia do método a uma estética fortemente influenciada pela
cultura de sua identificação profissional. A reflexibilidade passa a ser
uma estratégia para gerar um espaço de imaginação social, conectada a
uma disciplina artística e ética, situações relacionais e um determinado
conceito de ciência.

Entretanto, Latour (2005) chama atenção que a ideia de flexibili-


dade interpretativa não pode ser vista como algo inerente a uma subje-
3 Cf.Clifford, 1986.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
tivação diante de objetos inflexíveis ou de relações causais que podem
ser mapeadas. Além disso, a ênfase no texto não deveria ser o foco
exclusivo da etnografia, pois ela é resultado da interação do pesqui-
sador com pessoas, acontecimentos, agências, objetos, instituições e
discursos. É a experiência do sujeito com o mundo fora dele e dentro
dele que acrescenta multiplicidade. O mundo está em movimento, e o
máximo que podemos fazer é tentar acompanhá-lo, sem a esperança de
alcançar de forma completa sua complexidade.

O texto, para Latour (2005), portanto, não é uma informação in-


terpretativa sobre a experiência. É uma transformação, local de testes,
experimentos e simulação, onde atores e redes são traçadas. Por isso
penso que algo deve acontecer neles para não aparecerem chapados,
monótonos e vazios de movimento.

O “outro” tem que ser compreendido como um parceiro intelec-


tual, deixando de ser um ente exclusivo, radicalmente distinto e inde-
pendente do processo de pesquisa. Nesse caso, a palavra “outro” acaba
deixando de ter um efeito designador adequado. O “outro” deixa de
ser “tão outro assim”, em termos coloquiais. O trabalho de campo, o
contato e o texto que escrevemos sobre isso tornam-se um trabalho ex-
perimental, também no sentido artístico, construído pela interlocução
e interação entre os agentes envolvidos, que são afetados mutuamente
por experiências múltiplas que vão além de um simples contexto. A
afecção acontece em rede sinérgica que vai além da situação do conta-
to. Ela tem relação tanto com o tempo, quando remete a reminiscências
do pesquisador e do pesquisado que servem como fonte de ações no
presente etnográfico, quanto com o espaço, por haver relações com
lugares sociais e ambientais que não necessariamente são vividos na
situação de interação, mas que influenciam de alguma forma no mo-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
delo de sociabilidade adotado pelos agentes. No final das contas, edi-
tei todas essas experiências compartilhadas e tento tornar públicas em
meu texto.

Neste caso, as experiências vividas em Sobral não são somente


fontes de pesquisa, assim como circunscrever a pesquisa geografica-
mente a essa cidade cearense é pouco para o leitor entender o que estou
discutindo. As minhas experiências, sejam elas anteriores ou durante
a pesquisa, em outros lugares e outros tempos, seja virtualmente pela
mídia ou internet, seja presencialmente, também afetam minha inter-
pretação construída sobre a cidade. Lembro-me bem, quando morava
em Fortaleza, de discursos que pronunciavam o exotismo da cidade
de Sobral, denominando-a como United States of Sobral. Essa alcu-
nha ainda se faz presente, mesmo dentro do espaço geográfico de So-
bral, sendo usada e significada de várias formas. No final da década de
1990, lembro que em jornais de circulação local e estadual uma série
de exemplos da história eram citados para justificar este título que lem-
bra um estrangeirismo: nomes de ruas como John Sanford, o suposto
“sotaque”, a comprovação empírica da teoria da relatividade, a postura
aristocrática nas relações com seus moradores, dentre outros aspectos.
Ao chegar a Sobral, no ano de 1995, vi que, principalmente a partir de
1997, quando se começa a discutir a política de preservação do patri-
mônio histórico, eram comuns matérias em jornais locais, estaduais4,
revistas de circulação nacional5 e até programas de televisão de grandes
emissoras nacionais, falando de um suposto cosmopolitismo da cidade.
Dentre outras coisas, falava-se dos ônibus, no modelo “school bus”

4 Cf. ARAÚJO, Felipe. “Sobral Stories: Os Estrangeiros que Passam, as Influências que Ficam e
as Histórias que Fazem da Princesinha do Norte nossa Cidade mais Esnobe e Cosmopolita”. O
Povo, Fortaleza, 05 de abril de 1997, caderno Sábado.
5 Cf. A boa vida no interior. VEJA. 11 de março de 1998, ano 31 nº 10, p.70-76.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
norte-americano, comprados pela prefeitura na década de 1990 para
fazer o transporte escolar dos alunos do sistema municipal de educa-
ção, do beisebol jogado por grupos da cidade, dentre outras lembranças
que eram acionadas para falar do quanto era especial e diferente o
habitante da cidade. O Arco do Triunfo, as Torres Gêmeas e até o Cristo
Redentor, que não é estrangeiro, eram citados como aspectos peculiares
que fazem com que a cidade seja lembrada como diferente daquelas
que constituem o sertão cearense, inclusive distinguindo-a da capital.

Foto1

Foto2

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Foto 3

Foto 4
Fonte: Fotos de membro da rede social Facebook, acessadas em março de 2012, fazendo compara-
ções entre espaços da cidade cearense e outros de cidades conhecidas mundialmente, reforçando
o estrangeirismo e a distinção que é corrente no cotidiano da cidade e da capital cearense (preferi
omitir o nome de quem postou para preservar sua integridade física e moral).

Experiências mais recentes também influenciam minha narra-


tiva sobre a pesquisa, quando lembro de colegas do pós-doutorado
em Estudos Culturais na UFRJ provocando meu enfoque na pesqui-
sa, chamando atenção para o “caráter extraordinário” de alguns so-
bralenses ilustres e colocando a questão: “alguém precisa pesquisar
sobre isso: por que alguns sobralenses ilustres se destacam no cená-

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
rio nacional?”. O “provocador” certamente está lembrando de pes-
soas que são classificadas pelos memorialistas da região de Sobral
e adjacências como “vultos históricos”, como o senador do império
Francisco de Paula Pessoa, e da república, como Plínio Pompeu,
juristas como Clóvis Beviláqua, escritores como Domingos Olímpio,
mulheres como Maria Tomásia, abolicionista do final do século XIX,
o médico da Casa Imperial e cirurgião da Corte que viveu também
no final do século XIX, Vicente Cândido Figueiredo, barão e viscon-
de de Saboia, artista plástico como Raimundo Cela, dentre outros
que em tempos históricos diferentes são lembrados como grandes
“heróis” que nasceram, viveram na cidade ou são das adjacências.
São lembrados ainda “heróis” vivos, como Renato Aragão, Belchior,
Ciro Gomes, Patrícia Saboya, Cid Gomes, Mariana Ximenes, que tem
mãe sobralense, dentre outros. Entendo perfeitamente qualquer tipo
de interesse em querer valorizar o “sertão” mostrando que nesse
espaço geográfico também existe pensamento intelectual, artístico
e político, não sendo exclusividade somente do eixo Rio-São Pau-
lo. Até compartilho do desejo em mostrar isso, mas a invenção do
“herói” e seu uso precisa ser discutida e situada no seu campo de
produção representacional. É isso que me proponho quando penso a
“sobralidade triunfante”. Todas essas experiências que me levaram a
pesquisar sobre o tema, que é também uma versão ufanista da polí-
tica de patrimonialização histórica, merecem um pequeno parêntese
reflexivo partindo de minhas memórias na cidade, pensando uma
análise dos agenciamentos sociais da produção do conhecimento
com que tive que lidar.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


40  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
PARÊNTESE

Vim para Sobral para atuar como docente de instituições de


ensino superior da área de Ciências Sociais. Acho que é importante
frisar isto, pois essa experiência profissional de professor universitá-
rio é recheada de acontecimentos cotidianos que geralmente não são
tematizados por especialistas preocupados com a prática da relação
de pesquisa neste campo, já que o docente também é pesquisador.
Entretanto, no caso da universidade brasileira, há uma tensão entre
o fato de ser professor e de ser cientista, ao mesmo tempo que esta
tensão é tida como característica do profissional a ser formado por
esse docente, mesmo no caso da licenciatura. Porém, os especia-
listas, ao pensarem sobre o perfil de cientista que se quer formar,
atentam para uma série de componentes curriculares organizados
para que o discente possa ter acesso a uma graduação caracterizada
por conteúdos teóricos e atividades práticas que subsidiem a capa-
citação de um “bom cientista”. Este adjetivo carece de uma precisão
conceitual mais sólida e consistente.

Entretanto, poucos tematizam a prática do pesquisador no con-


texto das relações sociais no campo científico. Não quero cometer o
mesmo erro em me preocupar exclusivamente com a ciência produ-
zida e acabada aqui, já publicada em livros e artigos meus. Queria
discutir a ciência sendo construída no meu cotidiano e o que posso
lembrar de experiências que afetaram minha percepção sobre a ci-
dade. Logicamente que faço seleções, já que não posso lembrar de
todas as experiências. As reflexões sobre a ciência pronta e produ-
zida, portanto, são sempre analisadas de forma paisagística, onde a

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
prática cotidiana dos agentes envolvidos aparecem descontextua-
lizados das relações sociais, culturais e políticas da produção do
conhecimento.

Também não quero entrar no mérito de se esse livro pode si-


tuar-se no campo da ciência política, antropologia ou sociologia,
dentre outras possibilidades de classificação disciplinar. Apesar de
ter falado muito de etnografia até o momento, não quero crer que
seja propriedade de uma disciplina fazer um texto dessa natureza.
Mesmo assim, tenho dúvidas e não sei muito bem responder às per-
guntas: como devo classificar meu texto em uma disciplina específi-
ca? Será que existe um consenso sobre as opções que se devem fazer
neste processo de escolha para se qualificar o texto disciplinarmen-
te? Será que é necessário escolher entre a antropologia, a sociolo-
gia, a ciência política, a história ou a biografia, dentre outras, para
qualificar meu texto? Estas perguntas transparecem uma distinção
que supostamente parece óbvia e fundamental neste tipo de relação
entre escritor e leitor: de um lado está aquele que “sabe”, com uma
“ciência pronta” para “ensinar”, já situado dentre o espectro de op-
ções disciplinares, e aquele que “não sabe”, que deve aprender com
seus mestres.

O campo científico tem esta característica marcante: parece ha-


ver muita coisa já pronta sobre o que ensinar e como ensinar. A
postura de muitos professores é de grandes conhecedores da ciência
que ensinam, e aqueles que aprendem devem segui-los. A ciência,
como lembra Latour (2000), é cheia de “caixas pretas”. Esse é um
dispositivo de segurança inspirado na cibernética, onde o que conta

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
é o que nela entra e o que dela sai. Por mais complexo que seja seu
conteúdo, e por mais controversas que sejam suas afirmativas, as
teorias, os conceitos e o conhecimento produzido, nela acondiciona-
dos, passam a ser “o ponto de partida” ou o “porto seguro” de onde
todos acham que devem partir em aventuras incertas, mas sustenta-
das por supostos instrumentais cognitivos sólidos. A “caixa-preta”
parece só ser aberta quando os cientistas trabalham ou quando o
professor explica para seus alunos sobre sua complexidade. Nesse
sentido, Latour (2000) chama atenção para uma tensão entre uma
ciência pronta e acabada e uma outra ainda em fase de construção e
formação. A ciência pronta parece desconsiderar o contexto de sua
produção, e passa a prestar atenção somente no conteúdo de sua
enunciação, tendendo à universalização. Um formulário preenchido,
um entrave burocrático que dificulta o financiamento, os jogos de
vaidade entre profissionais em um mesmo campo, as seduções dos
mestres direcionadas para seus alunos mais “brilhantes”, as “fofo-
cas” nos corredores da universidade, os modismos intelectuais, a
valorização de uma área específica em detrimento de outra, as dis-
tintas formas de divulgação como novidades a serem consideradas
mais pertinentes do que outras, as controvérsias, o contato com ou-
tras instituições em busca de financiamento, a articulação com um
político ou burocrata para intermediar a aprovação de um projeto,
as brigas com os colegas por “espaço intelectual”, dentre inúmeros
acontecimentos que circulam nas IES e fora delas, parecem muito
distantes da definição de conceitos como “dádiva”, “conflito de clas-
ses”, “consciência coletiva”, “magia” ou “representação social”, “pa-
trimônio histórico”, “tradição”, “modernização” dentre outros que

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
queria se especializar nesta área disciplinar. O autor leva o leitor a
entender que o resultado desta experiência prática dará credencial
ao profissional para ser capaz de explicar e refletir sobre uma for-
mação adequada. Para ele, saber lidar com o “campo” é peculiar à
pesquisa antropológica.

Será que faz sentido dizer que sabemos lidar com o campo
quando somos obrigados a agir como cientista em ação, onde se
pressupõe um não saber? Faz sentido dizer que o cientista é aquele
que “sabe das coisas”, quando se deseja dele a atividade de investi-
gação de algo que ele sabe parcialmente? Não penso que esse “sa-
ber parcial” esteja somente no registro das informações empíricas
a serem feitas. Está também na insegurança própria da experiência
etnográfica, que demanda uma vivência compartilhada com dife-
rentes sujeitos que, a todo tempo, estão pensando e repensando suas
ações no mundo, modificando sua conduta. É comum, em termos
coloquiais, falarmos: “É difícil lidar com gente”. Ao compartilhar
uma vivência não é fácil dizer que estamos preparados para intera-
gir com a diversidade, apesar de se pregar em algumas disciplinas,
na antropologia em particular, a necessidade de saber lidar com isso.

Independentemente do fato de Levi-Strauss (1967) estar falan-


do do campo específico da antropologia, vale a pena ressaltar seu
empenho em produzir um texto que expresse as propriedades ge-
rais da ciência que realiza. É uma perspectiva normativa que tende
a pensar uma concepção que possa tecer os limites deste campo
científico específico em comparação com a História, a Sociologia, a
Economia, dentre outras áreas. Cada uma destas áreas disciplinares

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
resguarda textos e autores que rumam no mesmo sentido, tentando
criar sua “reserva de mercado” de formação profissional.

Diante destas tentativas de vulgarização de uma normatização


de como fazer ciência, é necessário entender que não há como sa-
ber fazê-la sem compreender algo dos bastidores do seu processo
de produção. Podemos até ser mais detalhistas: será que realmente
sabemos o que fazer como cientistas? Latour (2000) pensa ser neces-
sário trabalhar com o processo cotidiano de produção do conheci-
mento científico, descrevendo sua produção na prática, o que parece
ser uma ideia interessante. O conhecimento pronto está visível nos
livros, mas pouco se sabe sobre a ciência quando está sendo produ-
zida no seu cotidiano, em ação, e que pode resultar nesses saberes
publicados. Neste sentido, o autor propõe romper dois limites: a
organização por disciplinas e por objeto. O primeiro porque limita
a possibilidade de entender todos os elementos e forças agenciadas
para a execução do processo de experimentação ou relação entre
teoria e empiria. Limita também o entendimento das faculdades ou
poder mobilizado neste sentido, assim como as energias utilizadas,
os movimentos executados, as atitudes tomadas, expressões criadas,
alianças construídas com outros e posturas conquistadas no ato do
trabalho científico. Componentes esses que não têm como ser en-
tendidos como inerentes a uma área disciplinar específica. Apesar
disso, a tematização dessas fronteiras é exemplar para entender as
implicações sociais e políticas no campo científico que tende a for-
mar posições e reflexões consolidadas como necessárias, sejam elas
classificadas como clássicas ou contemporâneas, escondendo ou es-
camoteando conflitos, controvérsias e dissensos.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


45 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
O outro limite a ser rompido na proposta do autor é a impos-
sibilidade de precisão na definição de cada área específica pelo seu
objeto de pesquisa. Justamente porque a historicidade de sua defi-
nição mostra uma inconstância que não permite uma delimitação
sólida e definitiva, principalmente quando se pensa no caso das
ciências da sociedade. Qual o objeto de estudo específico da sociolo-
gia, da antropologia, da história ou da ciência política? Há diferença
na prática científica executada por profissionais de cada uma destas
áreas com relação à delimitação de um objeto? Essas são perguntas
que demandam ensaios arbitrários, normativos e pouco analíticos,
daqueles que tentam executar esse esforço de delimitação. Não que-
ro fazer isso aqui.

Neste sentido, proponho um texto que serve para pensar a mi-


nha prática de pesquisa e a relação com seu trabalho de campo de
uma forma quase biográfica e, ao mesmo tempo, um tanto quanto
experimental na elaboração do texto, misturando lembranças dis-
persas a uma linha de argumentação que visa mostrar uma trajetó-
ria ainda parcial de pesquisa, já que ela ainda está em andamento
em suas repercussões na consolidação de laboratórios, projetos e
produção de obras em outras linguagens e novos textos, como vou
mostrar aqui. Pensar isso independentemente de se estar criando um
texto típico de historiador, sociólogo, antropólogo, cientista políti-
co ou qualquer outro tipo de profissional das humanidades. Aliás,
aproxima-se mais de uma biografia seletiva e parcial de experiên-
cias, lembradas de forma não linear, que entendo serem significati-
vas para fundamentar determinados argumentos que levanto.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


46  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Inicio com uma reflexão sobre as atividades práticas que desen-
volvo ou desenvolvi, no sentido não só de argumentar, mas também
demonstrar, através de um processo de experimentação sistemático
e construção de redes sociais, meus argumentos. O que demanda um
movimento para além da prática científica em si, já que o cientista
se vê obrigado a fazer alianças que possam consolidar fatos e cons-
truir novas caixas-pretas. Alianças estas que obrigam o pesquisador
a sair dos muros da universidade e se relacionar com pessoas, obje-
tos, conjecturas e articulações mais amplas, levando em considera-
ção a sua situação enquanto integrante de uma sociedade e de uma
cultura englobante.

CONTROVÉRSIA E PRODUÇÃO TEXTUAL:


DESCONSTRUINDO ARGUMENTOS SOBRE A
“SOBRALIDADE TRIUNFANTE”

Nas diversas tentativas de delimitação da especificidade do que


se define como “sobralidade”, os moradores da cidade, independen-
temente de cultuarem ufanisticamente ou não o lugar, tendem a sig-
nificar esse conceito de inúmeras formas. Durante minha estadia na
cidade, que completa17 anos em 2012, muitas formas de usar o ter-
mo foram agenciadas por aqueles que fazem parte da minha rede de
relações. Uma coisa percebi durante esse tempo: fazer pesquisa no
campo das humanidades em Sobral não era corrente. Existiam mui-
tos trabalhos produzidos por padres, por pessoas que ocuparam car-
gos políticos, memorialistas, dentre outros escritores ocasionais que
se aventuravam em querer escrever sobre acontecimentos, “grandes

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


47 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
heróis”, “vultos históricos”, cronologias, genealogias, dentre outros
textos influenciados por uma determinada linha historiográfica ou
literária factual, essencialista, linear, exaltatória e triunfalista. O
costume desse tipo de literatura acaba afetando os julgamentos so-
bre meus interesses, e uma questão sempre apareceu, todas as vezes
que falo de meu trabalho: como surgiu essa paixão por Sobral?

Não é falsa modéstia dizer que fui o primeiro a fazer um tra-


balho em outra perspectiva no meu mestrado, que culminou na pu-
blicação do livro “Sobral - opulência e tradição”, no ano 2000. Fiz
parte das primeiras gerações de professores, vindos de fora, que não
são padres e memorialistas na UVA. E somente eu, dentre aqueles
que aqui chegaram, optei por fazer pesquisa em Sobral. Não penso
ser a minha escolha melhor ou pior do que as existentes até então.
Acho somente que foi diferente das escolhas usuais. O que me cha-
ma atenção nisso tudo é a centralização dos trabalhos na minha
área na capital do estado. Confesso ao leitor que sempre vivi em
grandes cidades. Até os dezesseis anos morei em Brasília e depois
passei a morar em Fortaleza. Não conhecia as “cidades do interior” e
tinha, como muitos ainda têm, uma imagem de “atraso”, isolamento
e provincianismo cultural como características peculiares das cida-
des do interior, principalmente no sertão do Ceará.

Pelo que me lembro, a primeira vez que a pergunta sobre os


motivos de minha paixão pela cidade surgiu foi quando dei uma
entrevista em programa televisivo da TV Diário, no ano 2000. A re-
pórter fez essa pergunta e notei logo que ela não tinha lido o livro,
a não ser a orelha, com texto produzido por Gilmar de Carvalho,

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


48  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
professor da área de Comunicação Social da Universidade Federal
do Ceará. Como já contei, o livro é baseado em minha dissertação de
mestrado. O projeto que apresentei para seleção, escolhi porque era
recém-concursado na UVA e não fui liberado de ministrar discipli-
nas para cursar pós-graduação. Antes tinha intenção de desenvolver
projeto na linha de pesquisa sobre crianças e adolescentes pobres
que habitavam ou frequentavam as ruas da cidade de Fortaleza para
“batalhar” pela vida. Nesse caso, confesso que escolhi o tema do
projeto direcionado a Sobral por conveniência, não por envolvi-
mento afetivo. Tinha que estar na cidade para desenvolver minhas
atividades como docente. Tentei responder para a repórter, falando
o que tinha acontecido, o que resultou em uma certa expressão de
decepção em seu rosto. Isso não queria dizer que não gostava do
que estava fazendo, mas sim, que não devo sobreinterpretar minhas
escolhas, dando a elas caráter que não possuem. Inclusive, contem-
poraneamente, tenho dificuldades de mudar o foco geográfico de
atenção da minha pesquisa, pois fixei residência na cidade, ao con-
trário de muitos de meus colegas que vivem pelas estradas fazendo
o percurso entre Fortaleza e Sobral. Além disso, me casei com uma
sobralense e terei uma filha nascida nesta cidade por volta de outu-
bro de 2012. Entretanto, apesar de ter sido um dos primeiros, deixei
de ser o único a fazer pesquisa na cidade. Vários outros colegas, em
seus mestrados e doutorados, optaram por fazer de Sobral seu foco
de pesquisa.

Como já dito, não posso pensar a pesquisa como resultado de


algo exterior a minha subjetividade e meu cotidiano, tornando-a
um dado puramente objetivo. No momento me vejo afetado por

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


49 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
uma angústia que carece se expressar no sentido de dizer: aquilo
que eu pensava antes precisa ser relativizado. O problema é que
nunca consegui resolver essa angústia e acabei me aproveitando
dela como recurso metodológico. Nesses anos, percebi que a ima-
gem coletiva construída para se designar adequadamente o que vem
a ser a “sobralidade” não é mais que um modelo teórico e genérico
construído por referências “inventadas” por indivíduos ou grupo de
pessoas que ocupam espaços que lhes permitem imprimir uma de-
terminada concepção de como se deve pensar a questão. A palavra
“invenção” pode ser entendida como um agenciamento pragmático,
corrupto e ilusório. Hobsbawm (1984) tenta chamar atenção de que
o momento contemporâneo é recheado de tradições inventadas. Já
Herzfeld (1991), pensando sobre a reflexão do autor inglês, pergun-
ta: qual tradição não é inventada? Nesse caso, falar que a tradição é
inventada é redundante. Entretanto, não é afirmação que desmerece
sua condição; pelo contrário, a coloca como algo construído social-
mente.

Pensando a “sobralidade” fundamentada em uma tradição his-


tórica oficializada com o tombamento feito pelo IPHAN em 2000,
os agentes operadores do processo de tradicionalização “negociam”
em um campo desigual de relações de poder e prestígio, valores e
interesses que podem ser usados no sentido de criar uma ideia sele-
tiva e parcial do que pode ser enquadrado enquanto “nosso” e dos
“outros”, justamente porque não é possível pensar um, sem pensar o
outro. Fica implícito esse agenciamento, assim como a tensão da ne-
gociação ideológica na consolidação da imagem da “sobralidade”. As
políticas públicas funcionam como mecanismo administrativo ope-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


50  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
rado por agentes que ocupam posições racionalmente e hierarqui-
camente definidas, que regula e controla qual versão ideológica da
imagem coletiva deve ser entendida como inerente ao ser “sobralen-
se”. Essa operação favorece a passagem de uma definição agenciada
por uma posição política diante da unidade, o que leva a entender
que existem outras, para uma visão essencialista, o que pressupõe a
anulação de qualquer outra posição, investindo em tornar a imagem
“oficial” mais sólida e consistente, procurando reforçar a rede de
adesão a ela com projetos de educação patrimonial. Em Sobral, o
livro didático “Descobrindo e construindo Sobral: conhecimentos de
Geografia e História” (CARACRISTI; SABOYA, 2002) foi publicado
para ser aplicado nas escolas de ensino fundamental, filme discutin-
do sobre isso foi produzido com título “Para sempre Sobral”, além
de outros projetos aplicados pela Escola de Comunicação, Ofícios e
Artes – ECOA −, como a Oficina Escola de Artes e Ofícios, projeto
premiado nacionalmente em cidades que possuem sítios históricos,
implantado em Sobral nos primeiros anos após 1999, financiamento
de recuperação de imóveis no sítio histórico, trabalhos de arqueolo-
gia urbana, internalização da fiação elétrica no sítio histórico, den-
tre outros em diferentes anos e gestões municipais que se sucedem
desde 1997.

A tradição e a identidade coletiva, portanto, não são autor-


referentes. São conquistadas em um campo de disputa ideológica,
oficializadas pela política de “monumentalização” da cidade. Como
informa Le Goff (1984), a ideia de monumento não representa ou
comemora o conjunto de acontecimentos do passado, mas sim esco-
lhas efetuadas pelos operadores do desenvolvimento temporal, que

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


51 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
usam como suporte técnico o trabalho histórico, arquitetônico e ju-
rídico. Nesse caso, esconde uma ideologia e uma perspectiva moral
implícita de como se deve agir.

Influenciado por Flusser (1998) ao pensar o brasileiro, e adap-


tando ao meu caso, penso que o estrangeirismo contido no discurso
que fundamenta a “sobralidade” expressa uma forma de tentar ser
equivalente ao que se pensa do europeu ou alguma outra cultura
onde possa estar contida a ideia de “moderno”, “pioneiro”, “opulen-
to” e “próspero”. O termo United States of Sobral, muito comum nas
brincadeiras de meus amigos de Fortaleza, e também usado na cida-
de de Sobral em alguns eventos públicos, como no banner do pro-
grama de rádio semanal no Becco do Cotovelo (Foto 5), ou na placa
em inglês “Elbow Street”6 para nomear esse mesmo lugar afixada na
parede externa ao Café Jaibaras (Foto 6), não aparecem à toa.

Nesse caso parece haver uma defasagem no engajamento histó-


rico que fundamenta a construção de uma identificação do sobralen-
se, já que, ao se investir nessa construção, ela se perde em elementos
que não são exclusivos do “sobralense”. Nos livros de historiadores
locais, memorialistas e até no Processo de Instrução encaminhado
ao IPHAN para fundamentar a necessidade de tombamento, apare-
cem passagens que apontam para um certo caráter cosmopolita do
morador da cidade, quando consome produtos da moda na Europa
e nos Estados Unidos7. Logicamente que há também uma defasagem
na definição do que seria europeu ou norte-americano.

6 Apesar de a tradução do substantivo “street” ser “rua”, a placa permaneceu como se a expres-
são “Elbow Street” significasse “Becco do Cotovelo”.
7 Sobre isso Cf.Mont’Alverne Girão e Soares, 1997.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Foto 5 - Banner de propaganda do programa do radialista Ivan Frota no Becco do Cotovelo,
que acontece todos os sábados onde se vê a referência ao estrangeirismo no nome da cidade.
Fonte: filme “Sobral no Plural”

Foto 6 - Placa indicativa do Becco do Cotovelo em inglês colocada pelos frequentadores do local.
Fonte: filme “Sobral no Plural”

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


53 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Não podemos pensar esses territórios como unidades culturais
indiferenciadas. Entretanto, há certa ideologia inventada sobre o
que representa a identidade substantiva desses territórios que fun-
damenta, por sua vez, o caráter cosmopolita em detrimento de uma
concepção que possa relatar um exclusivismo cultural da cidade de
Sobral. Isto resguarda uma ambiguidade: ao mesmo tempo que é
diferente, é igual. É diferente do que se caracteriza como “sertão” e
parecido com o que se caracteriza como “civilizado” ou moderno.
É exatamente isso que o discurso da tradição em Sobral represen-
ta: a “modernidade” como algo inerente à identidade coletiva da
“sobralidade”, o que é diferente daquilo que representa o sertanejo.
Logicamente que esses discursos são móveis e vão agregando ou-
tros elementos. O sertão não some completamente, e pode aparecer
no seu aspecto climático misturado aos demais elementos listados
como peculiares ao ser sobralense. O calor nos meses entre setembro
e dezembro, por exemplo, pode ser sempre lembrado sem prejudicar
a coerência do discurso.

Foto 7 – Cena do filme “Constantine” em montagem lembrando o calor de Sobral em fotos de


membro da rede social Facebook.Fonte: Facebook (preferi omitir o nome de quem postou. Aces-
sado em março de 2012)

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Apesar de a “sobralidade” e sua tradição estarem “amarradas”
pelo tombo, a conquista de uma versão é sempre parcial e prescinde
de um efeito nas pessoas afetadas. O superintendente regional do
IPHAN (gestão 1997-2008), segundo o que me confessou em en-
trevista, na época foi contra o processo e tinha a intenção de rever
a decisão final que ia contra sua vontade. Até o momento em que
finalizou sua gestão, não conseguiu executar o seu intento. Em sua
mesa, chegou a me mostrar uma pilha grande de processos que so-
licitavam reformas em edificações no sítio histórico, gerando uma
ironia que conta como justificativa de sua solicitação: ele argumen-
ta que virou uma espécie de “prefeito” de Sobral. A área preservada
e seu entorno correspondem ao maior bairro da cidade em número
de habitantes e fluxo de pessoas, por ser o centro comercial, político
e cultural da cidade. Cabia a ele o parecer sobre projetos de reforma
de edificações, sobrecarregando seu trabalho. A própria demanda
acentuada de processos mostra também um desejo que acaba sendo,
de certa forma, reprimido pelo fato de a propriedade do prédio não
garantir que o seu proprietário possa fazer o que quiser com ele,
no sentido da modificação estética e estrutural, por estar no sítio
histórico. Isso gera conflitos sobre o valor do patrimônio tombado
e discussões tensas percebidas no cotidiano da cidade sobre o que
merece ou não ser preservado ou modificado.

Outras representações da cidade construídas também não são


consensuais. Minha experiência acadêmica demonstra que a ima-
gem de cidade do interior, por exemplo, apesar de ser colocada em
dúvida pela “oficialização” da “sobralidade” na política pública de
patrimonialização, não foi completamente extinta. Um exemplo

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
concreto foi a situação de qualificação que passei no doutorado em
2004, quando um dos componentes da banca me chama atenção
para o caráter provinciano da cidade, ao se verem pequenos grupos
sentados nas calçadas no final de tarde, conversando. Isso, para o
arguidor, mostra uma espécie de resquício cultural de algo superado
nas grandes cidades, mas que ainda existe em Sobral. O fato de as
pessoas se conhecerem facilmente, em oposição a um individualis-
mo isolacionista dos grandes centros, reforçava os argumentos do
arguidor. O problema é que eu estava apresentando o trabalho em
programa de pós-graduação situado em bairro de Fortaleza, onde as
pessoas possuem o mesmo tipo de comportamento. É comum vermos
no bairro Benfica, onde estava no momento, as pessoas sentarem
nas calçadas e conversarem como se estivessem na sua sala de estar.
Penso que uma cidade como Fortaleza, com quase três milhões de
habitantes, já pode se enquadrar dentre as grandes cidades do Brasil.
Por outro lado, em Sobral, não é em todos os bairros que ocorre esse
tipo de encontro nas calçadas. Na Colina, bairro que abriga grandes
casas, não se vê o uso da rua para esse tipo de prática. A rua é usada
quase que exclusivamente para transitar de um lugar para outro,
principalmente de carro.

A controvérsia que tenta enquadrar os espaços entre “provin-


cianos” e “urbanos” deve ser melhor pensada diante das evidências
empíricas. Comecei a perceber que não podemos mais nos susten-
tar em modelos absolutos e sólidos. No primeiro relatório de pós-
-doutorado, apresentado em 20118, chamo atenção de um narrador

8 Cf. Freitas, 2012.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
entrevistado no bairro Dom Expedito, localizado na zona urbana,
que não consegue entender os sinalizadores de percurso da cidade, o
que o obriga a pedir ajuda de sua filha quando vai ao centro comer-
cial ou para “rua”, como prefere chamar. Ele cria animais e plantava
na margem do rio, parecendo viver longe do que se convenciona
chamar de urbano.

Fiquei ainda mais tranquilo em minha confusão de não saber


adjetivar direito a conduta dos moradores da cidade entre as opções
“provincianos” ou “cosmopolitas” quando, na apresentação que me
sucedeu em abril de 2011, no pós-doutorado, a professora carioca
que falava anunciou que entendia a cidade do Rio de Janeiro como
provinciana. No momento confirmei minha suspeita: é um termo
polifônico, e pode ser usado para adjetivar lugares bem diferentes,
independentemente da densidade demográfica ou taxa de urbaniza-
ção acentuada. Pode servir como categoria de acusação ou acentua-
ção de características desejadas para uma cidade. Inclusive é comum
dentre meus colegas de trabalho, principalmente aqueles que fazem
a “ponte rodoviária” semanal entre Fortaleza e Sobral, ouvir depoi-
mentos que tendem a fazer “chacota” com determinadas ações, que
são acompanhadas do discurso, que visam qualifica a cidade como
cosmopolita, como é o caso de projeto de lei que pretende transfor-
mar Sobral em região metropolitana, ou a obra do metrô de super-
fície9, ou ainda a implantação de uma filial de grandes franquias
nacionais e internacionais de alimentação ou de lojas de variedades
no varejo.

9 Estas ações e obras serão melhor discutidas no capítulo seguinte.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Vale a pena explorarmos a controvérsia entre versão oficial
da “sobralidade” e sua relativização, para o leitor entender melhor
meus argumentos a partir de minhas experiências e lembranças re-
latadas até aqui.

CONTROVÉRSIAS SOBRE A “SOBRALIDADE”:


FALSA OPOSIÇÃO ENTRE FATO CONSUMADO
E RELATIVIZAÇÃO

No cotidiano, fora do mundo “acadêmico”, assim como no


campo das ciências históricas e da sociedade, as controvérsias são
comuns. Aqui mesmo levanto uma: de um lado está a versão oficial
da monumentalização, e do outro, uma relativização analítica que
desconstrói a solidez da primeira. O interessante aqui talvez não seja
nem o posicionamento diante destes dois argumentos, nem mesmo
levar em consideração a especificidade, mas sim entender como sur-
ge e como é gerenciada uma controvérsia do ponto de vista formal.
As duas afirmativas estão enxertadas uma na outra, ou seja, são mo-
dalidades que qualificam de forma diferente um mesmo tema. Nesse
caso, convidam o leitor do texto a tomar direções bem diferentes. A
primeira afirmação tende a confirmar um enunciado que não mostra
suas condições de produção, quase construindo um fato consumado.
A outra tenta levar o enunciado em direção a um suposto contexto
de produção, onde aparecem evidências que podem por em dúvida a
primeira sentença. A tendência da primeira é tornar-se uma caixa-
-preta, pois não se pretende dizer nada mais sobre isso, a não ser
aquilo que confirme o fato de que todos os argumentos são cons-
truídos nesta direção. A segunda transforma o status da primeira,
Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas
58  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
criando uma controvérsia, tendendo tornar aquilo que poderia ser
um fato incontestável em ficção. O fato de citar algumas fontes que
não confirmam ou relativizam a versão oficial pode levar ao leitor
a impressão de não autorizar a produção de um fato consumado e
mostrar que este fato não é nada mais do que uma decisão tomada
por determinadas pessoas.

A controvérsia tem consequências muito sérias na formação


de um ponto de vista, e deve ser tematizada. Ela confunde a cabeça
ainda em formação de pessoas que são acostumadas a ter respostas
prontas em “caixas-pretas”. No livro didático que mencionei, ou até
mesmo no processo de instrução encaminhado ao IPHAN, é comum
aqueles que o leem desconhecerem os autores dos conteúdos, assim
como as controvérsias não são expostas ou explicitadas. Isto é, não
se conhece o ponto de vista e os interesses colocados em jogo por
aqueles que escrevem. No cotidiano, aqueles que são leitores des-
te material didático e instrutivo experimentam outra lógica. Neles
as tensões, opiniões opostas, tendências e mecanismos diversos de
produção do conhecimento não são expostos em sua diversidade e
conflito, fazendo com que o leitor sinta segurança no “porto seguro”
da verdade histórica, para fugir de qualquer “desordem” posta a sua
frente.

O leitor desconhece, bem como o material didático e instrutivo


não ensina, os condicionantes sociais e políticos da produção de um
conhecimento que supostamente deveria ser objetivo e sólido, mas
que cada vez mais se mostra como resultado de tensões entre su-
jeitos-agentes-cientistas, assim como fundado em afirmativas todo

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
tempo postas em questão por outras versões que não conseguem ter
a mesma visibilidade para o mesmo público. Muitas vezes a contro-
vérsia situa-se somente entre os intelectuais na universidade e não
se estendem para os demais moradores da cidade.

Como chama atenção Latour (2000), acontece que uma senten-


ça, para se tornar “fato” ou “ficção”, vai depender da maneira como
está inserida em outras. As premissas da obviedade, da demonstra-
ção de consistência e a forma como a sentença é amarrada a outras
afirmativas ou argumentos, supondo um fechamento da questão,
sugerindo a necessidade de se pensar outras, não se perdendo mais
tempo nela, aproximam-na do fato consumado. Isso porque é justa-
mente no campo da modalidade que se trava a disputa, influencian-
do comportamentos daqueles que são o alvo de investimento dos
técnicos e cientistas que tornam seus textos instrumentos formati-
vos de opinião sobre a identidade local.

O fato vai mudando cada vez mais seu status à medida que
se acrescenta uma nova contestação ao debate. O operador do fato
consumado joga com a imprecisão conceitual da identificação cole-
tiva do que é a “sobralidade”. As afirmações posteriores à publica-
ção de uma versão fundada em um ponto de vista sobre a questão
são fundamentais para a definição do status. O leitor irá acreditar
em outra afirmação dependendo daquilo que se vai fazer com elas
depois. Como fui um dos primeiros a publicar uma versão diferente,
vi que acabei me tornando referência para aqueles que não acredi-
tavam muito na versão oficial. Ao mesmo tempo percebi que muitos
gostaram sem ter entendido muito bem a mensagem. Alguns desses,
meio iludidos por acharem que sou mais um que cria uma versão

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


60  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
triufalista da história local, acabam se desiludindo quando entram
em contato comigo para ajudar na construção de suas obras, como
foi o caso do filme “Para sempre Sobral”, história já contada no li-
vro anterior, de onde fui cortado por não ser coerente com a versão
festiva e excitatória criada por eles da história local.

A repercussão de qualquer obra não é definida apenas pelas


reações dos leitores, mas também pelas decisões da rede de relações
da qual aquele que afirma faz parte. Decisões estas que nem sempre
são tomadas no contexto das reuniões que demarcam as estratégias
a serem tomadas no campo de atuação, mas também nas conversas
informais e nas afirmações que surgem em sala de aula, por exem-
plo, fundadas nas sentenças anteriores formuladas pelos colegas de
trabalho e obras produzidas em outras linguagens, como o docu-
mentário “Sobral no Plural”10 que expressa alguns dos argumentos
levantados por mim.

Desta forma, o destino das coisas que se diz está nas mãos da-
queles que as usam depois. Pode-se assim confirmar a ideia de que
a produção do conhecimento científico que serve como base para a
formação de cientistas é realmente um processo coletivo organizado
em rede de pessoas, laboratórios, recursos materiais e financeiros,
instituições de fomento, políticos, agentes econômicos, alunos, co-
legas de trabalho, bolsistas, estagiários e vários outros elos da cor-
rente e da torrente de agências e atores do cotidiano.

10 Documentário dirigido em parceria com Paulo Passos de Oliveira e apresentado em abril de


2011 como componente do primeiro relatório de Estágio do Pós-doutorado em Estudos Cul-
turais. O filme foi também apresentado no final de 2010 no II Visualidades, evento que vou
discutir ainda neste capítulo.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


61 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Outra ideia a se confirmar é a de que, diante de uma contro-
vérsia que abre a caixa-preta, não é possível detê-la ou direcioná-
-la ao caminho que queremos. As coisas que dizemos ou fazemos
neste campo não estão sob nosso domínio depois de publicizadas.
O destino delas está nas mãos de quem as usa depois. Isso não quer
dizer que o cientista deixa a sua obra ao léu. Fazendo desta forma,
a obra e todo o seu processo de produção se perdem. Muito pelo
contrário, geralmente o cientista, na procura da eficácia, quando há
controvérsia, investe na tecnificação de sua obra. O seu texto fica
mais técnico quando surgem contestações.

Como já dito, sem falsa modéstia, no cotidiano de minha prá-


tica profissional, sou sempre responsabilizado por meus colegas,
amigos e alunos para criar uma discussão diferente da oficial sobre
a “sobralidade triunfante”. Logicamente que essa diferença se dilui
com a produção já existente, que critica a lógica de cristalização
do patrimônio histórico produzida pela política pública existente
em Sobral e outras reflexões no âmbito estadual e federal que ca-
minham no mesmo sentido, me influenciando e, ao mesmo tempo,
dando força a meus argumentos. Talvez por isso, agora venho perce-
bendo mais liberdade e apoio por parte do poder público municipal
no sentido de estender o foco de atenção sobre o tema para campos
ainda não explorados. Na UVA criamos um programa de extensão
chamado “Visualidades” em 2009. Ele vem promovendo, a partir da
linguagem visual (fotografia, artes plásticas e documentário), uma
discussão, a partir da perspectiva do morador, do que significa a
“sobralidade” e sua percepção espacial. O filme “Sobral no plural” e

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


62  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
a série Bairros de Sobral11, são significativos para exemplo, além de
outros que acabaram sendo produzidos na mesma direção. A visão
homogênea e padronizada do espaço é relativizada, dando vazão a
uma perspectiva mais plural.

Acontece que há uma dimensão da produção científica, prin-


cipalmente quando tem como objeto de estudo a sociedade e cultu-
ra, que está sempre insatisfeita no sentido de fechar a caixa-preta,
existindo uma tensão entre a ciência consolidada e aquela que está
em fase de construção. De acordo com a direção tomada, a sentença
original anunciada na obra do cientista social terá um status dife-
renciado. Poderá ser uma certeza intemporal ou uma “ficção sub-
jetiva” de vida curta. Ela será “fato” se inserida em uma premissa
óbvia e amarrada a uma espécie de bom senso, mais ou menos dis-
cutido entre os pares que fazem parte do meio em que ela é produ-
zida. Porém, uma sentença sempre leva às possibilidades inúmeras
de interpretação que geram disputas. Dependendo das contestações
acrescentadas ao debate, a sentença muda de status. As respostas
que demandam as contestações geram novas sentenças, baseadas
nas primeiras, que poderão tornar-se uma terceira, e assim por dian-
te. Mesmo aquelas ações oficializada pelo poder público acabam
tomando outro rumo, gerando novas nuances a serem exploradas.

Acontece que nem sempre é possível deter as controvérsias ou


fazê-las caminhar da forma como queremos. Quando há discordân-
11 São os seguintes os filmes da série até novembro de 2011: Dom Expedito: Cultura, Arte e
Expressão (9 minutos), de Thiago de Castro; Vida e Bairro: Vila União (12 minutos), Josiany
Oliveira Mota; e Sumaré: História, Versões e Gerações (12 minutos), Daniele do Nascimento
Rodrigues.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


63 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
cia, acontece uma abertura constante de caixas-pretas que precisam
ser ofuscadas por recursos que muitas vezes não são do domínio de
uma única pessoa ou um único autor. Neste momento, torna-se ne-
cessária a busca de novos recursos em outros lugares e tempos. No-
vos aliados (autores, categorias e teorias) são arregimentados pelo
cientista social, que necessita sustentar seus argumentos diante dos
discordantes. Os reforços acabam por tornar a leitura mais técnica
e científica, no sentido de tentar transformar meras opiniões em
“fatos”. A ideia é que os alistados como aliados possam ser mais nu-
merosos e superiores do ponto de vista do prestígio no campo cien-
tífico, que atuam para que o argumento do texto científico possa ser
vitorioso. Nesse caso, meu campo de produção não pode se restringir
ao mesmo em que meus colegas de trabalho da UVA estão atuando.
Quanto mais o pesquisador se espalha, melhor. É uma lógica meio
pragmática e um tanto quanto cruel esta que estou descrevendo,
mas é a que o mundo acadêmico nos obriga a seguir.

Parece haver um efeito de retórica, sempre colocada em oposi-


ção à cientificidade, na análise que faço aqui. A oposição é somente
aparência, pois o argumento de autoridade, o prestígio do articulista
e de seus aliados no texto e o status de todos eles aparecem como
fundamentais no processo de produção da ciência, o que deixa de
ser contraditório à cientificidade atribuída ao produto do articulista,
justamente porque para um texto ganhar este adjetivo, não poderia
ser um produto de um cientista isolado; teria que mostrar ser um
texto onde várias pessoas aparecem engajadas nos seus argumentos.
Quem fica isolado, na verdade, é o leitor. Os aliados aparecem como
indicação de força do argumento. Outro sinal de segurança e força é

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


64  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
a referência a outros documentos que servem como fonte primária.
Para o discordante, sua tarefa acaba tornando-se mais difícil, pois
terá que enfraquecer cada vez mais textos devido ao acréscimo de
aliados.

É nesse sentido que o Visualidades surge como forma de arre-


gimentar cada vez mais aliados para a construção de discursos com
suportes diferentes que falam da cidade de forma mais plural, dando
voz aos seus moradores. São seis suportes para tal empreitada: o
texto, a fotografia, o filme, as artes plásticas, as instalações e o de-
senho. A cada ano o evento vem aumentando em participação, tanto
de proponentes, quanto de público. Em 2012 tornou-se um progra-
ma envolvendo vários projetos e está sendo apoiado pelo Ministério
da Educação, através do edital PROEXT. Na equipe de execução do
programa aprovado pelo MEC estão incluídos cerca de 200 alunos
dos cursos de Ciências Sociais, História e Geografia, 8 disciplinas
desses cursos, além de 8 professores, todos da UVA. São 16 bolsistas
de extensão para os três cursos. Além dos participantes da UVA, o
programa promove a formação de alunos do ensino fundamental,
através do programa do Governo Federal Jornada Ampliada, e alu-
nos do ensino médio que estão sendo alvos do estágio do Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (CAPES/UVA). Em
audiência com o prefeito da cidade, ele se mostrou muito interessa-
do em apoiar o programa, mesmo que este diversifique e promova
uma revisão da versão construída pela política de preservação sobre
a história local. Já temos o apoio, através de envio de trabalhos do
Laboratório de Antropologia em Mídias Audiovisuais – Lamia – da
Universidade Estadual do Ceará, do Laboratório de Antropologia e

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


65 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Imagem da Universidade Federal do Ceará, do Programa Universida-
de nas Quebradas, do Programa Avançado de Cultura Contemporâ-
nea da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de pessoas conheci-
das no universo da produção audiovisual, como Rosemberg Cariry e
seus filhos Petrus Cariry e Bárbara Cariry, dentre outros.

Talvez neste ponto possamos rever uma polêmica que faz par-
te do campo das ciências sociais: o produto deste profissional é
realmente ciência, ou arte? Parece que, pelo menos neste aspecto,
o programa provoca repercussões que criam as duas coisas. Pelo
menos nos textos publicados em revistas especializadas e livros do
grupo envolvido, pode-se visualizar uma aproximação do que se
convenciona chamar de científico, mesmo sem o texto prescindir
de seu formato artístico. Na técnica supostamente não ficcional do
artigo científico há uma inumerável reunião de autores, outros arti-
gos, documentos e fontes primárias de tempos e espaços diferentes
que são incluídas e anunciadas insistentemente. Esta reunião pode
ser composta tanto por referências que comprovam a tese do autor,
como por uma literatura que possa impressionar, ou ainda com uma
bibliografia que tem por objetivo mostrar o grupo de cientistas no
qual o articulista se identifica. Isso porque o cientista precisa de fa-
tos bem estabelecidos para começar seus argumentos. As referências
a outras autoridades no assunto presentes no texto são incorporadas
e aparecem como indicação de dúvida ou certeza, ou seja, suas te-
orias podem ser criticadas ou confirmadas como úteis para pensar
o tema exposto. A ideia é mostrar erudição. Neste sentido, tenta-se
mostrar ao leitor os recursos técnicos que o autor tem em mãos para
levantar seus argumentos e fortalecer sua posição contra ou a favor

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


66  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
de outros autores. Além disso, as referências podem combinar uma
tentativa de fortalecer determinado aliado para enfraquecer outro
que poderia contestar sua tese. Ou ainda opor textos diferentes, in-
validando ambos e tornando-os inoperantes.

A relação com a literatura produzida por outros, portanto, é


necessariamente utilitarista e, ao mesmo tempo visa contemplar
desejos do articulista no sentido de frisar determinados aspectos
que pretende ressaltar. Latour (2000) chama atenção de empregos
habituais das referências: usar para enfraquecer todos os inimigos,
paralisar os que poderiam criar controvérsias, se não for possível
deixá-los fracos, fortalecer a comunicação com aqueles que podem
abastecer com dados e argumentos incontestáveis, fazer com que os
inimigos briguem uns com os outros e se não houver segurança de
sua vitória, fazer declarações mostrando humildade.

Diante disso, parece haver uma invasão de práticas do campo


político no científico. Não só do político, mas também do econômi-
co, no sentido mais cruel da gestão das trocas e busca por espaços.
De fato, esta relação entre o político, o econômico e o científico já
gerou muita polêmica na história dos debates epistemológicos, as-
sim como a oposição arte e ciência. Entretanto, esta relação parece
ser mais aceita atualmente. Um exemplo claro disso é o debate já
citado, provocado por alguns antropólogos americanos com relação
à “autoridade etnográfica”12. Diante do reconhecimento quase unâ-
nime da impossibilidade da realização da neutralidade no campo
científico, a posição e a perspectiva passam a ser qualidades acei-
tas. A acusação de “subjetivo” passa ser assimilada de forma mais
12 Sobre isso Cf.Cliford, 1998.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
branda, apesar de a valorização do rigor metodológico ainda ser
fundamental. No campo da economia da produtividade, a disputa
é valorizada pelos órgãos oficiais que regulam o campo acadêmico,
e o critério quantitativo passa ser o parâmetro. Tabelas mostrando
as estatísticas da produtividade passam a ser encarados como parâ-
metro de qualidade na gestão oficial da produção do conhecimento.

No campo da produção artística nas linguagens visuais esco-


lhidas pelo “Visualidades”, a questão que se coloca é: até que ponto
o tipo de produção estética resultado da formação do programa e
exposta no evento expressa a pesquisa científica? Qual a fronteira
entre arte e ciência nas expressões visuais do evento? Independen-
temente das possíveis respostas às questões, sabemos que qualquer
obra em nosso campo de atuação passa pelo crivo do ponto de vista,
portanto mediada pela ética, pela moral e pela política. O filme, a
fotografia, a expressão artística de uma pintura, de uma instalação
ou do desenho não são diferentes. Inclusive, a visualidade expos-
ta nas três versões do evento fez ver o quanto essas linguagens
são poderosas para se pensar a identidade coletiva, favorecendo um
aproximação maior do expectador a lembranças e sensações daquilo
que estão vivendo em seu lugar de moradia. Ao contrário do que
acontece no circuito comercial de cinema, por exemplo, os filmes
que mais chamam atenção são aqueles em que as cenas estimulam a
lembrar suas realidades cotidianas, e não os que são feitos em outras
locações.

Após os eventos, sempre somos chamados por escolas ou gru-


pos vinculados a organizações governamentais ou não governa-
mentais para expor nossos filmes. As escolas geralmente são aquelas

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
localizadas em bairros periféricos. Houve ocasião em que mostramos
nosso filme para os adolescentes do Programa Nacional de Inclusão
de Jovens – ProJovem – e para os integrantes do grupo de idosos
do bairro Sumaré, localidade que abriga uma grande parte da po-
pulação pobre da cidade, em que as pessoas ficaram posteriormente
para o debate, dizendo que reconheceram algumas pessoas e luga-
res, assim como alguns se queixaram sobre os motivos de não haver
imagens dos bairros vizinhos. Também tiraram dúvidas sobre a pro-
dução e a forma de fazer filmes, contaram outras histórias, enfim,
participaram ativamente, justamente porque se viram na tela.

Inclusive a falsa polêmica que coloca em oposição a produção


artística e a científica não cria dúvidas somente sobre o caráter ex-
clusivamente artístico da linguagem visual adotada no evento, mas
também faz refletir sobre a exclusividade da cientificidade na pro-
dução dos cientistas. No campo das ciências sociais, existem autores
como Paul Veyne (1998), por exemplo, que chegam a considerar a
História como não ciência, mas com empréstimos de cientificidade.
Ele parte do pressuposto que a “ciência dura” é resultante de experi-
mentação metódica e sistemática, onde se pode pensar em protoco-
los e rotinas possíveis de ser revividos e verificados por criadores de
controvérsias. Esse não é o caso das ciências da sociedade.

A relação entre ciência e política passa a ser mais evidente no


campo das humanidades, justamente porque não é possível reviver
a mesma rotina da pesquisa de campo que resultou na obra contes-
tada. A objetividade encontra-se nessa relação ganhando um signi-
ficado diferente de sua oposição ao subjetivo. Veyne (1998), falando
da disciplina História, por exemplo, reconhece a impossibilidade da

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
síntese no conhecimento produzido por ela, denunciando sua par-
cialidade em dois sentidos: o autor não consegue dar conta de tudo
e não há como acompanhar a dinâmica e a complexidade das mu-
danças ocorridas no tempo e no espaço de forma plena, completa
ou total, forçando o investigador a fazer escolhas pautadas em seus
limites e possibilidades. Quando o historiador, assim como os repre-
sentantes de outras disciplinas no campo das ciências humanas, se
aproxima da realidade estudada, esta já se distancia por causa de
sua dinamicidade.

Porém, essa relação parcial não aparece somente no produto da


ciência, mas também no processo. A força do argumento construído,
as alianças agrupadas, assim como os instrumentos técnicos organi-
zados e usados, sem esquecer o fato do sucesso no convencimento
de organismos, instituições e pessoas que, posteriormente, passam a
usar os argumentos expostos no texto, transitam no foco de atenção
do cientista na construção de fatos e novas “caixas-pretas”. Portan-
to, não é somente o conteúdo em si que conta nessa relação, mas
todo o agenciamento organizado pelo articulista para produzir algo
que não se restringe somente ao método e à literatura, indo muito
mais além.

Os jogos de interesse aparecem também no momento do uso da


citação de artigos de outros autores. A citação não necessariamente
é feita da forma como o autor original gostaria que fosse feito, ou
seja, não é um mero processo de reprodução. Passa por um cinzela-
mento para colocar as teses do articulista na situação mais favorável
possível. Pode acontecer também de se usar uma citação sem ter sido

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
lido o texto completo, ou em apoio a um argumento não elaborado
e defendido pelo autor original. Outra opção é chamar atenção a
detalhes que o produtor da obra citada não leva muito a sério, ou,
por fim, exaltando intenções não explicitadas no texto usado como
referência. Tudo isso em função da legitimação dos argumentos ex-
postos, que é a meta do investimento na citação. As afirmações e
argumentos passam por uma erosão e polimento por todos aqueles
que os aceitam. Nesse caso a economia agenciada por aqueles que
produzem suas obras acabam criando competidores que se opõem
ou se aliam de acordo com necessidades pragmáticas.

Logicamente que este polimento não é uma exclusividade da


produção textual. Lembro-me de caso acontecido no filme “Sobral
no plural”, quando uma das entrevistadas viu o filme e fez ressal-
vas em relação a sua fala. Eu e meu colega de trabalho tínhamos
pensado em colocar uma sequência que falasse da história da Praça
São João, que é dividida na diagonal por uma rua, diferenciando-
-se das outras ruas que passam na lateral. Essa divisão, até meados
da década de 1950, separava a população pobre que ia para Igreja
Menino Deus localizada em uma de suas pontas, da elite da cidade
que frequentava o teatro. A professora, que é sobralense, carateriza
a cidade como cosmopolita e lembra da sociabilidade típica da ci-
dade. Acontece que no material bruto perguntamos sobre a história
da divisão da praça e ela termina falando que “mas também, nós
temos que reconhecer que é uma cidade muito elitista”. Na edição
juntamos as características marcantes que ela menciona com a frase
final da história da praça. Entretanto, retiramos a história da praça
porque ela estava em reforma da época da filmagem, impossibili-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
tando a captação de imagens, e não vimos sentido deixar na fala da
entrevistada. Por isso, fizemos a montagem com imagens do fotó-
grafo Hudson Costa e juntamos as frases. Ela fez questão de dizer em
evento público que queria fazer a ressalva de que o elitismo que ela
menciona não era genérico, mas sim, em referência à história que
ela contava da praça. Independentemente da ressalva, ela também
informou que aceitou do jeito que ficou. Na própria história da an-
tropologia visual, sabemos o quanto a imagem é resultado de uma
montagem.

Porém, todo este investimento é desautorizado e torna-se ilegí-


timo quando o texto ou a obra visual são produzidos e publicados,
entretanto ignorados pelo leitor ou espectador. Talvez esta nuance
seja mais mortífera do que a crítica ou a controvérsia. Se alguém
não fizer nada com os estímulos promovidos pela obra, é como se
ela nunca tivesse existido.

É nesse sentido que Certeau (1994) classifica o produto do tra-


balho intelectual no campo das ciências da sociedade e da cultura
como uma “arte de dizer” sobre aquilo que outro diz de sua arte.
Seria uma “maneira de fazer” com procedimentos e táticas próprias.
A obra tem que aparentar ser um “saber dizer” exatamente ajustado
a seu objeto. Assim, o discurso produz muito mais um efeito do
que um objeto. O processo de erudição, portanto, está subordinado
a uma “arte de dizer”, de pensar e de fazer que produz um efeito
de evidência. Certeau (1994) chega a comparar o intelectual a um
dançarino disfarçado de arquivista. Isso porque sua obra, seja ela
textualizada ou não, é resultado de um gesto equilibrista que tenta

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
manipular o dito pautado em um “tato”, sagacidade, flexibilidade de
espírito, senso de oportunidade e experiência longamente adquirida,
objetivando concordar circunstâncias de pesquisa e de discurso com
o público.

Certeau (1994) propõe um modelo para pensar este processo.


Para a composição de descrições definitivas sobre o tema com suas
possíveis explicações, é necessário que a obra apresente menos força
no uso de “saber-memória” ampliado que mostre experiência. Essa
demonstração de experiência tende a demandar ou demonstrar me-
nos tempo para a montagem, aumentando o efeito de que o autor
sabe o que faz na perspectiva do leitor. O produto final tem que
aparentar ser uma obra de ancião ou sábio, mediado por um saber
que tende a projetar uma interminável coleção de conhecimentos
particulares. Não quero crer que consigo aplicar esse modelo, assim
como não sei se causo esse efeito esperado. Entretanto, é essa geral-
mente a expectativa daqueles que veem a obra pronta, assim como é
a forma mais eficaz de envolver aquele que a presencia. É uma ética
e uma prática negociada com seus pares, leitores e outros agentes.

Além disso, as redes construídas e o envolvimento com seus pa-


res auxiliam nesta busca de leitores interessados. A participação em
congressos, encontros e eventos em outras instituições, assim como
a articulação com seus colegas cientistas para a formação de grupos
de pesquisa, núcleos e laboratórios, funcionam como uma ponte,
tanto para a constituição de aliados, quanto de usuários de suas
reflexões. Esses usuários, por sua vez, constituem outras redes onde
acabam sendo difundidos trabalhos e artigos, ampliando a teia de
relações e de leitores. Isso será mais bem explicitado logo adiante.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


73 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
FAZENDO ALIADOS E SOLIDIFICANDO ARGUMENTOS:
CONCILIAÇÃO DE INTERESSES E INSTRUMENTOS

Na prática, para que uma ideia possa tornar-se caixa-preta (La-


tour, 2000), é comum haver uma relação ambígua e perigosa que
envolve um recrutamento onde possa se aliar a outros. É uma alian-
ça entre cientistas, instrumentos, usos de formas de expressão que
são múltiplas, com linguagens misturadas e laboratórios, fazendo
tanta concessão quanto possível, assim como construindo uma res-
ponsabilidade para si de uma ideia onde os outros autores apareçam
pouco ou de forma passageira, para que possa dar a entender que os
outros são meros aplicadores, seguidores ou concordantes de suas
diretrizes. Confesso que não gosto nem um pouco disso, mas vejo
de forma corrente esse tipo de movimento, e isso afeta diretamen-
te o meu trabalho. A questão de definir quem é que segue e quem
é seguido não deve ser formulada de forma alguma no primeiro
movimento para que ele possa dar certo, mas terá que haver uma
resolução posterior para viabilizar o segundo aspecto. Não gosto
dessa lógica de produção, muito pelo contrário, tenho certo horror
a ela, mas é essa a impressão que me causa quando me deparo com
interlocutores que expressam suas opiniões sobre o que produzo.
Em muitas situações, o laboratório parece ser de minha proprieda-
de, assim como as obras são vistas como se fossem resultantes de
esforços individuais de minha parte. Não concordo com essa lógica,
mas parece ser a forma usual de vermos a dinâmica do processo de
produção acadêmica que é sempre pessoalizada, esquecendo uma
série de agentes e redes construídas.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Na história é comum vermos grandes heróis ou grandes cientis-
tas aparecendo como realizadores de “obras inestimáveis” que sur-
gem como resultado de uma simples ordem de comando deles. As
obras clássicas são mostradas como construções solitárias de gran-
des gênios. Acontece que as relações e as redes de aliança construí-
das, se levadas em consideração neste processo, complexificam estas
versões que parecem críveis sobre a autoria de “obras inesquecíveis”
para a humanidade, como é comum aparecer no campo científico.
Não sou responsável para criação da ideia da “sobralidade triunfan-
te”, nem fui o primeiro a fazer uma comparação entre o flaneur e o
etnógrafo, como faço na minha dissertação de mestrado que resul-
tou em meu primeiro livro. Mas já ouvi alguns me responsabilizarem
por isso.

Como já dito algumas vezes neste texto, na produção de uma


obra vários elementos são reunidos, além da literatura e da expe-
riência que serve de suporte empírico: recursos financeiros, assis-
tentes, oficinas ou laboratórios, ou ainda núcleos de pesquisa, cate-
gorias conceituais, instrumental metodológico, intelectuais aliados,
amigos e “mercado futuro” onde esta obra vai circular. Se o autor
não tiver condições de manter estes elementos juntos, sua obra se
dispersa e cada elemento segue o seu caminho. Para que esta jus-
taposição possa se consolidar como duradoura, surgirão comporta-
mentos imprevisíveis e perigosos como discordâncias, abertura de
caixa-preta, perda de interesse e esquecimento. A única maneira
que parece se mostrar eficaz é atar uma ideia com uma quantidade
máxima de elementos congregados, fazendo com que o discordante
desista das tentativas de desagregação. Uma pequena frouxidão no

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
sistema montado pode acarretar a perda de todo o sistema. Latour
(2000) lembra que para ser forte, é preciso que seu elo mais fraco
também seja forte. O problema é que quando entramos nesse siste-
ma, fica difícil controlar o seu rumo.

É impressionante a versatilidade dos cientistas em fazer alian-


ças distintas, e os representantes das ciências humanas não são di-
ferentes. Sinto que tenho certa dificuldade em me adaptar a esse
processo. Temos que nos posicionar todo tempo diante da diversida-
de de elementos postos ao redor e, ao mesmo tempo, não podemos
nos expressar com opiniões fixas, definitivas, absolutas e necessá-
rias diante de nenhum elo da corrente. O critério da “relevância”
do trabalho científico, portanto, é relacional, ou seja, depende da
configuração de alianças constituídas pelo autor de uma obra, que
deve aparecer como autônomo e, ao mesmo tempo, dependente, já
que não pode apresentar-se sozinho. Nessa situação, exige-se do
intelectual a capacidade de avaliar constantemente a força de deter-
minadas associações que ele faz para verificar a eficácia da imple-
mentação de suas ideias.

Latour (2000) chama atenção para o fato de que o movimento


no campo científico é de que não se conhece a natureza ou essência
das coisas, pois ela só é pensada depois da ciência acabada. Portanto
é definida pelo “fato”, e nunca pela ciência em fase de produção. A
sociedade pode ser pensada da mesma forma: não se sabe do que
ela é feita. Por isso os cientistas experimentam sem pudores novas
associações o tempo todo, deslocando interesses, remanejando gru-
pos e recrutando novos aliados, criando o seu mundo para traba-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
lhar independentemente ou convenientemente além das relações de
classe e sistema econômico ou, se necessário, incluindo-os em seus
agenciamentos. Isso sempre pensando que associações vão resistir
ou ceder, calculando medidas para sempre interessar as pessoas e
controlar o comportamento delas. O autor alerta que, para entender
o processo de construção de uma estabilidade, portanto, de fatos
e “caixas-pretas”, evitando controvérsias, é necessário considerar
simetricamente os esforços em alinhar, agenciar e associar recursos
humanos e não humanos.

Diante disso podemos pensar que ao docente pesquisador lança-


-se em um desafio premente: quem são os aliados com que o cientis-
ta lida em sua saga, inserida em relações coletivas, pela construção
de fatos e caixas-pretas? Posso aqui tecer algumas considerações se-
lecionando casos significativos como o dos bolsistas e auxiliares em
projetos, laboratórios, núcleos, grupos e centro de pesquisa. No caso
do docente-pesquisador que lida com seus auxiliares e bolsistas, ele
está construindo alianças ainda com cientistas em formação, indis-
ciplinados no que tange à construção e promoção de novos “fatos”.
A formação intelectual neste caso é tutelada, o que requer atenção
redobrada e argumentos para obrigar o ainda amador cientista a ser
convencido de como usar da melhor forma possível seus sentimen-
tos, interesses, paixões e práticas de acordo com a perspectiva do
pesquisador-professor.

Se as alianças forem restritas ao agenciamento e associação


com cientistas em formação, o que é comum em algumas regiões
onde a cultura de pesquisa acadêmica não está consolidada e a uni-

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versidade é semelhante a uma escola de nível superior, como é o
caso da UVA em Sobral, valorizando somente o ensino, o pesquisa-
dor passa a ter atribuições multiplicadas ao infinito. Isso porque não
é fácil imprimir o ofício de cientista com a existência mínima deles
entre seus pares. Acontece que vai ter que construir um movimento
bastante complexo. Primeiramente vai ter que destruir a autoridade
do senso comum. Esta é pautada, como argumenta Geertz (1997),
na naturalidade (esta é a natureza das coisas), na praticabilidade
(sagacidade e sensatez), na leveza (simplicidade sem exageros), na
não metodicidade (descartar a ostensividade) e na acessibilidade
(qualquer pessoa pode captar as conclusões do bom senso). Isso vai
ter que ser destruído na prática dos “amadores” que lhe fazem com-
panhia, incutindo neles uma perspectiva científica, que requer um
movimento de desnaturalização, metodicidade e domínio de uma
linguagem técnica, coisa que não tenho segurança se domino com-
pletamente.

Ao cientista também é comum ser necessário eliminar os “ou-


tros amadores” concorrentes que tentam realizar atividades para as
quais ele é formado e especializado, agradar financiadoras públi-
cas e particulares em benefício de suas atividades, sem ter que ser
obrigado a dar opinião ostensiva demais sobre suas práticas, já que
elas, quando publicizadas, podem fechar portas. Além disso, tem
que provar a todos que sua ciência é importante, forçando uma
demanda por colocações, trabalhos e empregos para outros profis-
sionais qualificados, evitar ingerências em seu trabalho, recorrer a
vários grupos de interesse para obter apoio sem chocá-los, mesmo
que suas ideias venham a destruir a visão de mundo deles, além de

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
realizar a pesquisa em si. Isso tudo somado às atividades de ensino,
ministrando várias disciplinas, já que há carência de professores na
IES em que atuo.

Neste contexto extremamente adverso, eu como cientista teria


que cuidar tanto da parte de dentro da ciência, produzindo, cons-
truindo, ensinando e praticando, quanto da parte de fora. Não há
uma divisão do trabalho de forma a facilitar as atividades. Enquan-
to uma ciência em particular não tiver uma sustentação externa e
existência interna, ela não se consolida e morre. A falta de pós-
-graduação stricto sensu reforça o problema. Na região em que atuo,
associa-se ainda à complexificação e reforço de empecilhos para a
execução de minhas atividade um certo isolamento causado pela
“invisibilidade” atribuída a uma concepção que se tem de univer-
sidades do interior, principalmente do sertão nordestino. Isso difi-
culta também a preocupação com a prática da investigação no que
concerne à construção de alianças e divulgação. A própria falta de
estrutura interna da IES dificulta uma divisão de trabalho com téc-
nicos contratados para determinadas funções da atividade de pes-
quisa ou de produção visual. Quanto menos gente se interessa pela
especialidade científica específica, menos conhecimento se adquire
e menos se aprende. Nesse caminho oposto à construção de “fatos”
e caixas-pretas, o cientista corre o risco de sair da investigação em
construção de mãos vazias.

Quando há chance de se construir uma divisão social do traba-


lho, as atividades externas passam a ser o foco de atenção principal
do coordenador dos projetos de investigação, já que ele é obrigado
socialmente a contar com sua titulação para fazer os devidos con-

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
tatos e viabilizar recursos, equipamentos e material, o que em mui-
tos casos demanda quase a totalidade de seu tempo, impedindo-o
de estar presente de forma constante no processo de produção de
fatos. Enquanto isso, geralmente os assistentes, auxiliares e bolsis-
tas, isolados das turbulências econômicas e políticas das atividades
externas, produzem, orientados pelas diretrizes do “coordenador do
projeto”.

Há uma complementaridade nestas diferenças e divisão do


trabalho, apesar de haver uma desconfiança que sugere a seguinte
questão: quem realmente faz pesquisa? Esta talvez seja uma falsa
questão. Os assistentes só podem se dedicar ao trabalho da ciência
em ação porque o “coordenador do projeto” está trazendo recursos
e subsídios novos, além de criar espaço para difundir o trabalho que
está sendo produzido ou tentando manter os recursos que já existem
fazendo as devidas mediações entre as instituições que podem dar
assistência.

É essa relação que faz com que aqueles que põem a ciência em
ação não vejam a sociedade isolada de sua atividade. Fofocas aca-
bam surgindo, onde o foco de atenção é a suposta exploração de-
sencadeada pelo “coordenador do projeto” que parece não produzir
nada, já que só se percebe a produção de seus auxiliares. Acontece
que o sucesso no trabalho também depende do sucesso na obtenção
de recursos.

Por outro lado, por parte do pesquisador responsável pelos


recursos, existe a necessidade de convencer aos auxiliares que o
emprego de esforços conjuntos em seu projeto é fundamental para

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
promover os próprios objetivos deles. É uma relação ambígua onde
os auxiliares têm que estar convencidos de que estão favorecendo
seus interesses ao ajudar no projeto de um “coordenador”. Têm que
haver um alinhamento de interesses.

Entretanto, é difícil realizar esta divisão do trabalho interno


e externo, quando os auxiliares ainda estão em formação, como
acontece no meu caso em Sobral, pois é necessária uma presença
constante do proponente do projeto na orientação das atividades,
fazendo com que ele tenha que desempenhar tanto as atividades
internas, quanto as externas. O ideal é que nas alianças estejam
presentes também pessoas com mais experiência que possam con-
duzir as atividades internas, juntamente com os auxiliares ainda
amadores. Isso libera o “coordenador” para construir outras alianças
e empreendimentos que possam favorecer o crescimento do projeto,
o que não é o meu caso.

Entretanto, o “coordenador” está situado em uma estratificação


social e hierárquica entre os cientistas de sua área de forma geral. O
lugar onde produz pode ou não favorecer a busca de novas posições
nessa hierarquia. Acontece que propor um artigo ou construir uma
controvérsia fora das grandes instituições socialmente reconhecidas
como centros de excelência dificulta essa busca por posições, já que
a distância é proporcional ao grau de invisibilidade, como já dito,
dando a parecer que o projeto sequer existe, caso o bloqueio não
seja furado.

Os critérios a serem seguidos para captar recursos adotados


pelos órgãos de fomento aguçam muito essa divisão hierárquica,

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


81 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
mesmo com políticas que visam a estimular investigações em re-
giões pouco favorecidas. Há uma sobrevalorização de um produti-
vismo pautado na quantidade de publicações que acaba dificultando
àqueles que estão longe dos grandes centros, onde se concentram
as editoras e revistas com indexação bem conceituadas. Por outro
lado, este mesmo critério acaba criando uma lógica inversa à ideia
da “inovação”, já que é comum, tendo em vista atingir metas quan-
titativas, se lerem artigos em publicações diferentes em que não há
uma mudança substantiva em seus conteúdos, principalmente em
áreas que demandam um maior tempo de investimento na pesqui-
sa para maturação e estudo, como é o caso das ciências humanas.
Desta forma, a “inovação” acaba sendo construída através de uma
“reprodução do mesmo”.

REVENDO “FATOS”. OUTROS ARGUMENTOS

A discussão sobre a “ciência em ação” como propõe Latour me


levou a relativizar questões prementes na minha prática profissional
hoje, principalmente pensando a atividade que passou a ser um dos
suportes de funcionamento e um saber proeminente em nossa socie-
dade ocidental, que é a ciência. A aplicação do sistema de análise
aqui construído nas diversas especializações científicas requer pou-
cas modificações especiais. Talvez necessite de revisões com bases
em contextos de situação específicos, como é o caso brasileiro e o
meu, em particular. Foi o que tentei fazer aqui.

Em princípio, pude perceber que há uma história de recursos


organizados ao longo das redes para acelerar a coesão entre elos

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


82  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
fortes e fracos na prática científica, facilitando a mobilidade e ven-
cendo distâncias para a construção de “fatos” significativos nes-
te campo. Desta forma, tenta-se estabelecer as bases da análise de
ações multifacetadas e complexas da prática científica. Isso porque
aqui se parte do seguinte pressuposto: a ciência é muito mais do que
uma estampa que tem a pretensão de representar exatamente ou
analogicamente um objeto produzido por um “saber competente”,
apesar de esta estampa dever ser importante referência para qual-
quer leitor, diante da necessidade construída no campo científico de
produzir não só uma obra que vá ser usada, mas também “fatos”.

Neste processo, há uma necessidade constante de denegar as


práticas políticas e econômicas, tanto no seu sentido estritamente
comercial, quanto nas trocas simbólicas ancoradas no cotidiano das
relações sociais. Há uma ideologia do “descobridor”, “criador inspi-
rado”, guiado por uma paixão pela sua profissão, sempre solitária
em um corpo quase “predestinado” ou “iluminado”. Não busco isso,
apesar de ser o que se espera de uma cientista social. O cientista
parece só dispor suas descobertas a uma convicção ou a princípios
pautados em uma ética que exclui manobras comerciais e envolvi-
mento com outros “não cientistas” em suas ações. Parece não ha-
ver manipulações, pressões sociais, troca de benefícios, relações de
vaidade ou reuniões “mundanas” com “pessoas comuns”, a não ser
quando estas últimas servem como “objeto” das ações profissionais
do cientista.

Como Bourdieu (2004), penso que a minha prática foi permea-


da de trocas simbólicas envolvidas com o comércio de valores, en-
quanto construções que podem ser vistas como componentes das

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
relações sociais, independentes e, ao mesmo tempo, dependentes das
especificidades pertinentes a um campo específico de atuação social
do cientista. A ideia de “sobralidade triunfante”, apesar de não ser
criação minha, tornou-se uma marca a ser vendida como peculiar a
meus argumentos e produções visuais.

Mostrar os agenciamentos de classificações e qualificação dos


sujeitos sociais envolvidos nesse processo de construção da oficia-
lização da identidade coletiva não quer dizer desqualificação de
desautorização de suas ações. É comum pesquisadores-docentes
tentarem se mostrar subversivos ou inovadores pelo fato de acres-
centarem à produção científica uma intenção de desvalorização de
uma determinada tendência de ver as coisas do mundo, entendida
como “ultrapassada”, ridicularizando e acusando, por exemplo, de
“provinciana”. Fazendo isso, o cientista se vê obrigado a produzir
uma obra através de ações científicas consagradas pelas instâncias
de celebração, como a universidade, por exemplo, sendo forçado a
buscar um reconhecimento, apesar do irreconhecimento produzi-
do contra uma tradição, não podendo negar o jogo e a crença na
ciência que serve de fundamento para sua produção. Acontece que
ele entra em um campo de disputas pela legitimação de uma versão
exemplar de ciência através da tentativa de criação de uma crença
diferente, acrescida de outros elementos. Mas, não poderá ter suces-
so sem a base cedida pela tradição, ou o “ultrapassado”. Além disso,
isso que é acusado como tal não passa somente de uma tentativa
de imprimir uma determinada visão sobre a questão, nada mais do
que isso. Desta forma, a “mágica” que se tenta produzir, buscando o
reconhecimento coletivo através de uma impostura bem fundamen-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


84  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
tada ou abuso de poder contra a tradição não é nada mais do que
o coroamento que se faz através de uma construção de legitimação
dentre o universo de celebridades e crentes de uma determinada
forma de fazer. Nesse campo não quero entrar. Estes dão sentido e
valor aos argumentos de acordo com a posição diante dos conflitos
construídos no campo científico, se vendendo ao modismo. Somente
gostaria de mostrar uma forma de ver como a “sobralidade” é agen-
ciada por mim, pelos meus pares, misturando tudo isso com a forma
adotada de oficialização da tradição em Sobral.

No caso das ciências da sociedade, os “fatos” não podem ser


isolados das tramas sociais tanto no que se refere às inerentes ao
objeto de investigação, quanto as construídas na ciência em ação na
relação entre o pesquisador e o pesquisado. Com relação ao objeto,
essas tramas, nas ciências humanas, para Veyne (1998) são misturas
pouco “científicas”, no sentido duro desta palavra, e muito huma-
nas de relações materiais, finalidades e acasos. Tentei teorizar aqui
sobre isso. O cientista isola uma fatia da vida social segundo seus
interesses e os fatos aparecem com laços objetivos e importância
relacional. A trama composta na narrativa do cientista é organizada
em planos diferentes, de acordo com cortes transversais e ritmos
temporais distintos como uma análise espectral, pautada em um
ponto de vista ou perspectiva. Desta forma, como lembra Veyne, o
“fato” nada é sem sua trama. Ele não é um ser, mas um cruzamento
de possibilidades de opções do observador, assim como acontece em
qualquer outro tipo de saber inerente às relações sociais.

Eu como analista também não posso ser visto como isolado de


um contexto social de relações. Não sou um solitário a refletir sobre

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
o mundo, mas também um agenciador de redes construídas no co-
tidiano. O saber produzido neste processo é contingente e relativo a
um tempo histórico com base em oportunidades heurísticas postas
dentre as possibilidades existentes e práticas eficazes no agencia-
mento de redes de produção, sustentação e difusão. A ciência, desta
forma, passa a ser vista como uma atividade humana, produzida
por pessoas que vivem em uma cultura e uma sociedade específica.
Tentei discutir como entrei nesse campo e como continuo atuando
para pensar a “sobralidade triunfante”. Passo agora a amarrar alguns
argumentos tomando como foco uma visão mais convencional de
uma forma mais expositiva e observativa no capítulo que segue.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


86  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
CAPÍTULO II
POLÍTICA, AGÊNCIAS E ESTRUTURA SOCIAL:
CONTRASTES, DISTINÇÕES E DISCURSOS

Nesse capítulo vou explorar questões que servem para amarrar


argumentos de reflexões que venho desenvolvendo há alguns anos
sobre a implementação de políticas públicas de preservação do pa-
trimônio histórico e urbanização, aplicadas na cidade cearense de
Sobral no final da década de 1990. A reflexão feita também fun-
damenta a discussão proposta na linguagem audiovisual que vou
expor no capítulo seguinte. É curioso verificar na pesquisa até agora
realizada como os agentes sociais do poder público local, quando
pensam a política pública, lembram somente do segundo termo com
um viés que remete a um serviço isento de um “bom administrador”
pensando no “bem de todos”. O “público” parece ser quase sinôni-
mo de “povo”, “todos”, portanto, ninguém em particular. Percebo
na experiência de pesquisa que venho desenvolvendo em Sobral
que pouco se leva a sério o primeiro termo, “política”, quando se
refere ao exercício do poder público, esquecendo uma diversidade
de códigos formalizados por sujeitos sociais que se posicionam e

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


87 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
entram em conflito com sujeitos produtores de códigos diferentes.
Quando se fala das intervenções na cidade e as percepções que as
orientam, sempre se pensa em uma suposta leitura consensual do
que se deve fazer e pensar sobre o passado e sobre o futuro, que é
constantemente entendida como um preceito imperativo, necessário
e inquestionável. Essa leitura acaba sendo usada contra aqueles que
se opõem, que acabam sendo acusados de inconsequentes. Em mui-
tos casos inclusive, os termos da crítica são os “interesses políticos”,
resignificando esse termo como algo negativo.

Essa classificação das atuações no campo político como algo


negativo, quase “desonesto”, parece ser comum entre nossos pares
no cotidiano. Em muitos casos, dizer que uma dada manifestação
é política tornou-se categoria de acusação. A política parece não
ser vista como disputa de posições, opiniões e práticas. Parece ha-
ver uma ideia corrente de que existe uma posição mais correta, e
as demais são usadas para derrubá-la, o que remete a um interes-
se somente pragmático em ocupar um suposto poder ou lugar de
prestígio em benefício próprio quando se pensa no indivíduo que
virou “político”. O contrário disso é a isenção, a imparcialidade e a
neutralidade, o que geralmente é remetido à honestidade e correção
de conduta para o “bem do povo”. O “administrador” público acaba
se esforçando para dar um caráter de isenção em suas ações dando
uma impressão de que é possível ser neutro; por isso que o interesse
e a posição política acabam sendo confundidos como negativos.

Levanto a seguinte questão quando vejo discursos de ocupantes


do poder público que afirmam fazer o “bem para povo”: de quem
eles estão falando? Que concepção de povo se leva em considera-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


88  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
ção? O povo, referente ao fazer público do administrador, representa
um dado estatístico amorfo, onde a subjetivação da opinião sobre
o que eles fazem não tem importância. O próprio Estado incorpora
essa lógica executando suas ações com base em classificações que
partem de sistemas generalizantes. O morador da cidade é o “público
alvo” das políticas públicas, mas a pretensão da ação não está an-
corada em um sujeito social específico. É comum aquele que ocupa
o legislativo e o executivo jogar com essa imprecisão de um sujeito
específico, afirmando fazer o que o povo deseja.

Em Sobral percebi que essa ideia de fazer o “bem comum”


foi fortemente relacionada à gestão de Cid Gomes (1997/2000 e
2001/2004). A imagem de “bom administrador” não teve apelo so-
mente em Sobral. A campanha para governador nos anos de 2007
e 2010, muito mais a primeira do que a segunda, foi polarizada nas
críticas e elogios ao que fez Cid Gomes como prefeito em Sobral nas
suas duas gestões. A campanha de 2007, principalmente, foi pola-
rizada entre o fazer para todos contra um discurso promovido pelo
seu adversário, que apontava a corrupção de sua administração,
acusando Cid Gomes de pensar somente em interesses individuais.

Além de conseguir o cargo do executivo estadual por duas ve-


zes, a rede de “políticos” próximos aos “Ferreira Gomes”, nome com
o qual são identificados ele e seus aliados, conseguiram dar conti-
nuidade na gestão municipal de Sobral através de Leônicas Cristino
em dois mandatos (2005/2008 e 2009/2012). Em 2011, decorrente de
um convite para atuar como ministro no Governo Federal, o prefeito
eleito cedeu seu cargo para o Vice-prefeito, Clodoveu Arruda.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
O que se pretende discutir aqui é a articulação entre a tentativa
de consolidação de uma rede de políticos especifica que, a partir de
uma determinada concepção de gestão e através de intervenções
organizadas como políticas públicas intenta afirmar uma posição
sobre a atuação na cidade. Relacionada a essa questão, pretendo
abrir uma discussão sobre a estruturação econômica da cidade e a
articulação com a cultura política local. A proposta é misturar ques-
tões que parecem distintas, mas que fazem parte de uma sinergia de
interesses, intenções, discursos e práticas de distintos moradores na
invenção de percepções e ações no espaço urbano de Sobral. Come-
ço com uma reflexão mais estrutural.

POLÍTICA DE PRESERVAÇÃO,
ESTRUTURA SOCIOECONÔMICA E HISTÓRIA

A área territorializada que delimita o sítio histórico reconheci-


do como monumento nacional pelo Instituto do Patrimônio Históri-
co e Artística Nacional - IPHAN em 2000, corresponde ao centro da
cidade, onde se verifica um intenso movimento durante a semana,
por concentrar residências, comércio, áreas de lazer, instituições re-
ligiosas e o sistema bancário. Não só há movimento de moradores
da cidade, mas também daqueles que chegam de várias outras cida-
des circunvizinhas.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


90  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Foto 7 - Além do transporte convencional de ônibus que sai da rodoviária, pode-se ver em frente à
igreja matriz a concentração de vários carros de transporte intermunicipais diários. Existem outros
pontos de concentração do mesmo tipo de transporte na cidade. Foto: filme “Sobral no Plural”.

Economicamente Sobral se caracteriza por ser uma cidade


que não depende exclusivamente de suas atividades de produção
do setor primário. A sua diversificação econômica promove certa
autonomia no que se refere ao consumo e ao crescimento. Possui
também uma atividade econômica polarizante, mantendo certo do-
mínio territorial que vai além do econômico, já que possui ao seu
redor um forte fluxo de moradores de outras cidades que precisam
vir a Sobral para resolver seus problemas bancários, fazer compras
no comércio, participar de atividades de lazer, estudar nas escolas
do sistema de ensino médio da rede privada, estudar nas universi-
dades públicas e privadas, dentre outros serviços necessários que
fortalecem a economia local. No campo político também é comum
parentes de famílias natas dessa cidade cearense se candidatarem a
cargos públicos de outras cidades da região, mantendo vínculos com
a cidade natal e reforçando o sistema de transporte e necessidade

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
de migração constante para Sobral. Na história política do Ceará,
percebi que alguns governadores também têm origem familiar em
Sobral ou têm alguma ligação com políticos locais13, como é o caso
de Cid Gomes, que consegue em 2010 eleger-se para um segundo
mandato (2007/2010 e 2011/2014), tendo sido anteriormente prefeito
de Sobral por dois mandatos, como já mencionado. Outros já foram
ministros do Governo Federal, como é caso de Ciro Gomes, que por
dois mandatos de presidentes de dois partidos que fazem oposição
no âmbito nacional (PSDB e depois o PT), ocupou pastas como a da
Fazenda e da Integração Nacional14.

Ao adentrar nos bairros de Sobral, vejo que esse circuito e fluxo


que relaciona o local com o extra local, tanto do ponto de vista da
rede de aliados políticos, quanto no campo das relações econômicas,
pode tanto favorecer alguns segmentos prestigiosos, quanto também
atrair o seu oposto, que é a pobreza, gerando concentração de renda
e desigualdades sociais. As idas e vindas por parte das populações
de outras cidades polarizadas por Sobral acabam incentivando a
necessidade de morar na cidade, opção que muitos fazem, já que ela
parece oferecer melhores chances de encontrar um emprego remu-
nerado. Acontece que as benesses da suposta modernização aplicada
na cidade, favorecida pela relação entre local e extra local, que visa
inseri-la no circuito das relações econômicas com outras cidades,
13 São exemplos de governadores que possuem algum vínculo com Sobral: João Tomé de Saboia
e Silva (1916-1920) e José Parsifal Barroso (1959-1963), dentre outros. Cf.MONT’ALVERNE
GIRÃO, Glória Giovana S. e SOARES, Maria Norma Maia, 1997. Ou Cf.COSTA, Francisco José
Lustosa da, 1987.
14 Ciro Gomes já foi deputado estadual (1983/1988), prefeito de Fortaleza (1989/1990), governa-
dor do Ceará (1991/1994), ministro da Fazenda (1994/1995), ministro da Integração Nacional
(2003/2006) e deputado federal (2007/2010).

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


92  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
cidades de outros estados e até com outros países, resulta, como
nos aponta Holanda (2007), em dois grandes circuitos da eco-
nomia urbana: um que consiste no acesso a determinados bens
de consumo e meios de comunicação com tecnologia de ponta,
como acontece nos grandes centros urbanos, resguardando as
devidas proporções, e outro, resultado indireto do primeiro, que
dá acesso parcial a esses mesmos bens e meios referentes ao que
está mais na moda no campo do consumo e produção de merca-
dorias, assim como um acesso restrito ao que se pode consumir
no campo tecnológico.

A autora chama atenção, portanto, para a formação de uma


espécie de hierarquia no circuito econômico que acaba tendo
implicações nas diferenças sociais, culturais e políticas. Há um
circuito superior, que inclui segmentos de maior prestígio eco-
nômico, político e cultural com famílias que mandam seus filhos
para estudar nos grandes centros urbanos do Sudeste do país ou
até mesmo no exterior, têm um alto padrão de consumo e têm
acesso a informações que circulam no âmbito global no que se
refere a moda, a produção artística, dentre outros aspectos que os
inserem na economia e cultura mundializada. Mas também exis-
te um circuito inferior, que acaba sendo abrigado pelos bairros
periféricos com habitações e habitat de pior qualidade estética,
espacial e de conforto.

A história contada pela política de preservação aplicada em


Sobral em 2000 fala do circuito superior e seu desenvolvimento
histórico. A impressão é a de que a cidade só possui riquezas his-
toricamente quando se lê o documento que serviu de referência

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
para justificar a implementação da monumentalização da cidade15.
A narrativa enquadrada é organizada em sequências fundamentadas
em uma produção econômica predominante em cada etapa. Porém,
como compreender a riqueza sem falar daqueles que contribuíram
para que ela existisse sem poder usufruir seus benefícios? Como
falar do ciclo da industrialização sem falar dos trabalhadores das
fábricas? Como falar desse mesmo ciclo sem falar das outras ativi-
dades econômicas que o sustentam? Sem as circunstâncias para sua
existência, a economia predominante não teria sustentação. Sobral
é rica, mas também é pobre. Mas, que riqueza é essa? Que pobreza
é essa? Não é a riqueza dos grandes centros econômicos do país no
que se refere ao produto interno bruto, mas, ao mesmo tempo, é
semelhante à dos grandes centros, do ponto de vista de sua estrutu-
ração do sistema produtivo e acesso aos bens de consumo.

Estas não são características econômicas e geográficas peculia-


res a muitas cidades do interior do Ceará. Talvez somente a região
metropolitana de Fortaleza e a região que abriga as cidades de Crato
e Juazeiro do Norte tenham as mesmas características polarizadoras
que Sobral. Logicamente devo avisar ao leitor que não se comparam
as diferenças de proporção da polarização quando as outras duas
regiões citadas são comparadas a Fortaleza. Só essa última possui
quase a metade dos habitantes de todo o estado.

A população de Fortaleza no Censo 2010 do Instituto Brasileiro


de Geografia e Estatísitca − IBGE − é de 2.452.185 e tem o PIB per

15 Esse documento foi publicado como: BARBOSA, Marta Emísia Jacinto; SOUSA, Raimundo
Nonato R. de e VASCONCELOS, Regina Ilka Vieira. Considerações para Análise Histórica do
Inventário do Patrimônio Arquitetônico de Sobral. Sobral: Mimeo, 1997.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
capita de R$ 11.461,22 (ano base de 2008 para o PIB per capita em
todas as cidades aqui citadas). A de Sobral é de 188.233 habitantes e
PIB de R$ 9.453,47. Em Juazeiro a população é de 249.939 habitan-
tes e PIB de R$ 8.060,35. O Crato, cidade vizinha, tem 121.428 e PIB
de R$ 5.569,48. A população do Ceará é de 8.452.381; portanto os
habitantes de Fortaleza representam 29% da população do estado.
Levando em consideração a região metropolitana da capital, a popu-
lação salta para 3.610.379, o que representa 42,7% da população do
Ceará16. Por sua vez, as outras duas regiões citadas não se comparam
com as cidades médias dos estados do Sul e Sudeste do país no que
se refere ao PIB, como já dito17.

Diante dessas informações, posso crer que a riqueza tão pro-


palada pelo documento que fundamenta a política de preservação,
que acaba sendo interpretada nas campanhas políticas como algo
atual, apesar de o documento se referir ao passado, ressaltando o
pioneirismo e a opulência da cidade, deve ser relativizada. Indepen-
dentemente dos exageros, esquecimentos e anacronismos históricos,
o interessante é que a polarização exercida por Sobral está tanto
provocando a vinda de migrantes para a cidade, quanto a saída para
outros locais do estado e do país. É comum conversar com pessoas
de diferentes classes sociais e perceber a necessidade de ter expe-
riências em outros lugares, tendo em vista uma “vida melhor”.

Na minha trajetória de pesquisa na cidade, pude perceber que


16 A Lei Complementar Federal nº 14, de 8 de junho de 1973 inclui na Região Metropolitana de
Fortaleza as cidades de Caucaia, Aquiraz, Pacatuba, Maranguape, Maracanaú, Eusébio, Guaiuba,
Itaitinga, Chorozinho, Pacajus, Horizonte, São Gonçalo do Amarante, Pindoretama e Cascavel.
17 Só para termos comparativos, a cidade do Rio de Janeiro tem um PIB per capita de R$ 25.121,92
e São Paulo de R$ 32.493,96.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
esse movimento não é recente. Nos jornais microfilmados que tive
oportunidade de ler, do final do século XIX18 era comum ver notí-
cias que falavam de pessoas nascidas em famílias de prestígio que
moraram em grandes centros, se formaram em profissões nobres em
diferentes tempos, como direito ou medicina, e voltaram para Sobral
com novo status social. Eram noticiadas também pessoas de desta-
que no âmbito nacional em diferentes profissões, que mereciam dis-
tinção porque nasceram em Sobral. Nos tempos atuais, alguns que
alcançaram certa visibilidade em diferentes campos, como Renato
Aragão, Belquior, dentre outros, são lembrados na cidade, não pelo
talento em suas profissões, mas pelo fato de serem natos de Sobral.

Nos bairros periféricos registrei, juntamente com meus bolsistas


de iniciação científica, depoimentos que falavam de momentos em
que as pessoas entrevistadas tiveram que viver em outros lugares
para “ganhar a vida” e voltaram para a cidade. É o caso do senhor
Pedro, que em 1958 foi para Brasília atrás de emprego depois de
uma falência da “bodega” que gerenciava. Ele lembra do episódio
ao contar sobre a morte de um de seus filhos por falta de condições
financeiras e de assistência de sua parte antes da viagem. Depois da
falência, vendeu o que ainda tinha e juntou dinheiro para “ganhar a
vida” na então futura capital brasileira. Chegando lá, não conseguiu
o emprego por causa de uma briga em que acabou se envolvendo
sem querer. Um parente dele que morava na capital e cuidava de um
almoxarifado de uma das construtoras é quem informou da opor-
tunidade e foi com ele falar com um dos engenheiros responsáveis

18 Aqui me refiro à pesquisa que realizei na Biblioteca Pública Menezes Pimentel, onde existe um
acervo microfilmado de diferentes jornais cearenses de diferentes tempos.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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pela empresa. Ao chegar no Catetinho, então sede oficial do governo
no final dos anos 1950, operários começaram a brigar e ele fugiu com
medo de represálias. Foi para Goiânia. A família acreditava que ele não
voltaria mais. Voltou de “pau de arara”.

História como a do senhor Pedro são comuns nos bairros periféri-


cos. Pessoas que vão para São Paulo trabalhar como “boias frias”, como
é o caso de Expedito Vidal, líder comunitário do bairro Padre Palhano,
ou para o Rio de Janeiro trabalhar como garçons, dentre outras pos-
sibilidades. Foi muito comum, nas minhas idas e vindas entre Rio de
Janeiro e Sobral, nos restaurantes da cidade carioca achar pessoas que
vieram de Sobral ou cidades da região, para ganhar a vida em busca de
trabalho. Isto mostra que o fluxo não é somente de “fora para dentro”,
mas também de “dentro para fora” em diferentes segmentos sociais.
Talvez isso possa ser uma explicação para a desproporção do cresci-
mento demográfico quando comparamos os últimos 100 anos entre
Fortaleza e Sobral. Provavelmente, a capital recebe mais pessoas do
que exporta, o que não acontece com a “Princesa do Norte”, como é
conhecida a cidade cearense aqui em foco.

O curioso é que desde a posse de Cid Gomes no poder público mu-


nicipal, em 1997, consolidou-se uma imagem de que a cidade retomou
o seu crescimento, que estava prejudicado por administrações públicas
entendidas como atrasadas e arcaicas. O “troca-troca” de prefeitos de-
corrente do processo de cassação implementado no mandato do pre-
feito Ricardo Barreto (1993/1996), que revezava seu cargo com o seu
vice-prefeito Aldenor Façanha Júnior (que virou seu “inimigo” político)
a cada momento que o processo passava por recurso no sistema judiciá-
rio, ajudou nessa ideia de que o que viria depois teria que ser diferente.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
A denúncia que se fazia nos programas de rádio da cidade, era de que,
a cada mudança no mandato, os cofres públicos eram esvaziados, e a
cidade acabou parando no que se refere aos investimentos do poder
público na época do “troca-troca”.

Nas gestões dos “Ferreira Gomes”, forma como era denomina-


do o grupo político agenciado por Cid Gomes, e nas outras gestões
posteriores de seu sucessor, o discurso da prosperidade e do pionei-
rismo os acompanhavam sempre na divulgação de seus projetos. Um
exemplo concreto é o programa Internet Grátis implementado em
2001. Segundo o que anuncia o site da Prefeitura,

O Projeto Internet Grátis foi criado em 2001 na ges-


tão do então prefeito Cid Ferreira Gomes, quando
o mesmo se interessou na ideia de Bill Gates, que
numa entrevista sugeria aos países de economia
emergente, como o Brasil, que provessem acesso à
Internet gratuitamente a todos os seus cidadãos. Na
época, o acesso à Internet era escasso e caro. O úni-
co meio de acesso doméstico era através de linha
discada. Através de parcerias com a operadora de
telecomunicações local e com o Instituto de Comu-
nicação e Informática − ICI, a Prefeitura Municipal
de Sobral − PMS materializou o que, para muitos,
seria inviável e prejudicaria o mercado de provedo-
res particulares. No entanto, na prática, a realidade
foi outra, surgiu a procura por serviços de Internet,
tanto em termos de quantidade como de qualidade,
gerando assim mais empregos e renda para o muni-
cípio. A partir de 2006, já na gestão do prefeito Leô-
nidas Cristino, o acesso gratuito à Internet passou a
ser também sem fio, ou seja, mediante a aquisição de
um kit de acesso a Internet wi-fi, a população pode
usufruir deste serviço com uma melhor qualidade.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Atualmente, os munícipes têm a disposição 13(treze)
torres de distribuição instaladas na cidade de Sobral.
(http://www.sobral.org/ acesso dia 9 de abril de 2012).

Essa imagem de prosperidade, opulência e pioneirismo tem re-


percussões que vão além das ações do poder executivo municipal ou
estadual. No legislativo estadual, alguns representantes eleitos pro-
movem discussões como a que quer criar a região metropolitana de
Sobral, reconhecendo sua influência como polo regional. Segundo
notícia do jornal O Povo de 27 de janeiro de 2012,

Composta pelos municípios de Sobral, Massapê, Se-


nador Sá, Uruoca, Santana do Acaraú, Forquilha,
Coreaú, Moraújo, Groaíras, Reriutaba, Varjota, Ca-
riré, Pacujá, Graça, Frecheirinha, Miraíma, Meruoca
e Alcântaras, a Região Metropolitana de Sobral, de
acordo com a proposta, será estratégica para inte-
grar a organização, o planejamento e a execução de
serviços públicos de interesse comum desses municí-
pios [...] A proposta de criação da RMS foi apresenta
desde a legislatura passada pelo deputado estadual
Professor Teodoro (PSDB) e foi aprovada, à época,
apenas como projeto de indicação. Agora, a expec-
tativa é de que a proposta, de autoria do professor e
do líder do Governo na Assembleia Legislativa, de-
putado estadual Antônio Carlos (PT), seja aprovada
como projeto de lei. “Sobral vive uma prosperida-
de muito grande e já tem grau de desenvolvimento
econômico suficiente para se transformar em Região
Metropolitana. A criação dela não só reconhece a or-
ganização da cidade, como também vai possibilitar
que o município receba do Ministério das Cidades
recursos previstos para esse tipo de região”, expli-
ca Teodoro. Segundo o parlamentar, a Universidade

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


99 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Vale do Acaraú (UVA), cuja sede é em Sobral, recebe
diariamente 10 mil alunos por dia de 40 municípios
vizinhos, assim como a Santa Casa de Misericórdia
atende pacientes de toda a região norte do estado.
“Num primeiro momento, com a criação da região,
Sobral iria ser o mais beneficiado financeiramente,
mas, com o tempo, o desenvolvimento se expandiria
para outros municípios”, pontua o parlamentar. (O
Povo online, acesso dia 09 de março de 2012)

O metrô de Sobral também parece ter sido pensado na mesma


lógica desenvolvimentista. No site do Governo do Estado do Ceará
aparece a notícia com os seguintes argumentos:

O projeto do metrô de Sobral surge como uma ne-


cessidade de estruturação das cidades de médio porte
do estado do Ceará, aliando investimentos públicos à
melhoria da qualidade destes municípios, de modo a
aliviar a pressão migratória sobre a capital cearense.
O empreendimento foi concebido pelo Governo do
Estado, através da Companhia Cearense de Trans-
portes Metropolitanos, vinculada à Secretaria da In-
fraestrutura do Estado (Seinfra), em parceria com o
Ministério das Cidades, através da Companhia Bra-
sileira de Trens Urbanos (CBTU). Ao lado deste novo
modal de transportes, vários outros investimentos,
como a consolidação do polo universitário, com duas
universidades públicas e várias faculdades privadas;
o fortalecimento do polo industrial e, mais recente-
mente, a construção do Hospital Regional farão de
Sobral uma das cidades mais bem preparadas para
o desafio do novo milênio que é aliar desenvolvi-
mento com sustentabilidade. O Projeto Veículo Leve
sobre Trilhos (VLT) de Sobral surgiu a partir de duas
premissas definidas no Plano Diretor do município:

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


100  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
aproveitamento da via ferroviária e a definição do
vetor transportes como estruturador de desenvol-
vimento urbano. Existente na paisagem da cidade
desde o final do século passado, a via férrea, usada
hoje só para carga, funcionou durante muito tempo
como barreira à expansão urbana. Hoje, ela contorna
o centro da cidade, ligando os bairros da Cohab 2,
no extremo leste, ao bairro do Sumaré, no oeste, e
servirá para abrigar a Linha Sul do VLT. (acesso dia
9 de abril de 2012)

O curioso é que, mesmo quando assume a gestão do Governo


do Estado por duas vezes, o que mais me chama atenção é a atri-
buição de responsabilidade pelas obras municipais anunciadas ao
governador como se ele tivesse feito tudo sozinho, exceto quando se
fala da criação da “região metropolitana”. Cheguei a presenciar uma
entrevista em programa de rádio bem famoso na cidade, chamado
“Izaias Nicolau”, que acontece todos os dias por volta das sete horas
da manhã, uma entrevista com o então governador. Ele estava com
o prefeito Clodoveu Arruda e listava todas as obras que fez em So-
bral. O nome do prefeito desaparece em seu discurso, principalmente
quando falava na obra do Hospital Reginal ou do VLT, o que não
acontecia quando outras obras eram feitas no tempo em que ele era
gestor da municipalidade. De qualquer forma, não é a uma rede de
agentes e agenciamentos inúmeros a quem é atribuída a responsa-
bilidade pelas obras. Uma outra notícia é sintomática do que estou
falando. O blog “Sobral de prima” noticia em 28 de maio de 2012 a
seguinte matéria:

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


101 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Às vésperas de iniciar o décimo oitavo (18°) mês de sua
gestão, o prefeito de Sobral, Veveu Arruda (PT) não sai do
lugar. A constatação de que a administração “veveuzis-
ta” continua estática e vivendo de retórica, são matérias
publicadas em conceituados blogs da cidade e até agora
nada de materialização da palavra do prefeito. Essa ma-
téria foi postada no mês de novembro (2011) pelo amigo
e blogueiro Rubens Lima (Blog Sobral em Revista) no fi-
nal da postagem são elencados sete temas abordados pelo
prefeito - número sugestivo (7): “O prefeito de Sobral, Ve-
veu Arruda, reuniu na hora do almoço desta sexta-feira,
04 de novembro, um grupo de empresários para um [sic]
rodada de conversações com o objetivo de ouvir o que
pensam os formadores de opinião ligados ao setor produ-
tivo local. Estiveram presentes ao encontro os empresá-
rios Márcio Rocha (Execute Computadores), Flávio Ribeiro
(Império das Construções), Deocleciano da Frota (Eletro
Jóias), Raimundo Afonso Ribeiro (Timbal), Zezinho Ponte
(Casa Samuel), Zequinha Fernandes (Sovaril) e Hélio Bri-
to (Sobral Gráfica). Segundo um empresário presente ao
encontro, o prefeito estava bem descontraído e se colocou
à disposição para ouvir críticas e sugestões visando o de-
senvolvimento econômico de Sobral. Falando bem mais
do que ouvindo, o prefeito estendeu a pauta, passando
por assuntos ligados a trânsito, limpeza pública, transpor-
te coletivo, distribuição de água, porto seco, aeroporto,
novas indústrias que estão chegando, compras públicas,
estradas e plano diretor. EM TEMPO: Abaixo, alguns te-
mas abordados pelo prefeito sobralense: 1. Está quase fe-
chada a vinda de uma montadora de carros para Sobral19;
2. Ampliação do aeroporto de Sobral, que ganharia uma
ponte sobre o Rio Acaraú20. O projeto enfrenta problemas

19 A montadora seria a Tac Motores.


20 Segundo o jornal de circulação estadual Diário do Nordeste de 16 de dezembro de 2011, no
caderno Regional, a Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC – condenou a ampliação do
atual aeroporto Virgílio Távora. Entretanto a notícia informa que o prefeito conseguiu incluir

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


102  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
ambientais para sua aprovação. Não é descartada a cons-
trução de um novo aeroporto. O problema é o custo: cerca
de R$ 30 milhões; 3. Internet gratuita com cobertura de
100% da cidade de Sobral, e em breve também nos dis-
tritos, com possibilidade de acesso gratuito via antena de
rádio; 4. Inicio das operações da MaxxBus prevista para
meados de janeiro21; 5. Negociação aberta para constru-
ção de um novo hotel para Sobral com padrão executivo,
além do hotel que está sendo construído anexo ao Sobral
no Shopping. 6. Licitação para linhas de Transporte Pú-
blico de Sobral. Ônibus com ar condicionado, no mesmo
padrão do metrô. Aumento de salários para médicos, a fim
de “segurá-los” em Sobral”.
(http://sobraldeprima.blogspot.com.br/2012/05/em-so-
bral-sete-promessas-o-tempo-e-as.html , acessado em
28 de maio de 2012).

Nota-se, mesmo que não tenha a mesma força de expressão na


imprensa e sendo criticado por um certo marasmo na sua adminis-
tração por alguns, que algumas diretrizes no sentido de uma suposta
modernização da cidade ainda estão presentes na gestão do prefeito
Clodoveu Arruda (Veveu). Diretrizes que acabam repercutindo na
ideia de ser cidade cosmopolita, até mesmo no âmbito cultural. Dois
eventos organizados em 2012 são significativos do que se fala: o I
Encontro de Jovens Produtores de Audiovisual da América Latina e
do Caribe – Nossas Américas, Nossos Cinemas – que reuniu produ-
tores de 17 países e o Imprima, mostra internacional e competitiva
de gravuras, que trouxe exposições de artistas de 34 países, sendo

emenda no orçamento da União, garantindo 40 milhões de reais para construção de novo ae-
roporto. Em 15 de março de 2012, o blog Caioca Alerta informa que três localidades disputam
a sede do novo equipamento: Caioca, Salgado dos Machados e Aprazível.
21 Ônibus de luxo montado pela empresa Rodomondi que terá filial em Sobral.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


103 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
somente 14 brasileiros e, dentre estes 5 sobralenses22. Os dois even-
tos foram concomitantemente realizados no final de maio. O nome
da premiação do Imprima resguarda o sentimento ufanista do “so-
bralense” ao lembrar do artista plástico Raimundo Cela. No primeiro
evento, o prefeito fez questão de ressaltar a historicidade oficial
da cidade, afirmando que no Ceará o desenvolvimento econômico,
cultural e político veio do interior para o litoral, ao contrário do que
acontece com as demais capitais nordestinas. Lembrou da pecuária
como responsável para composição do mito de origem. Mais uma
vez, marcando a força do governador na implementação de obras
e eventos na cidade, precedendo as suas palavras como prefeito, a
secretária adjunta de Cultura do Governo do Estado faz a sua fala.
Veveu, como é conhecido na cidade, acaba sendo marcado pela for-
ça política de Cid Gomes em sua gestão. Lembro-me que no período
que marcou a gestão de Cid no governo municipal (1997/2004), a
presença do governador como agente de ações era quase nula no
material de divulgação das obras implementadas, apesar de saber-
mos que quase todas tinham recursos do tesouro do Estado do Ceará
aplicados.

Apesar da pessoalização das ações do poder público ancoradas


no nome de Cid Gomes, em determinados momentos passa a ser
integrado a uma facção política mais ampla batizada de “Ferreira
Gomes”, nome que coincide com seu sobrenome. Gostaria agora de
centrar mais atenção nesse aspecto da construção da imagem políti-
ca de Cid Gomes e dos “Ferreira Gomes”.

22 Cf. http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1141003, acessado


em 28 de maio de 2012.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


104  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
AGENCIAMENTOS E REDES:
A CONSOLIDAÇÃO DE UM “NOME DE FAMÍLIA”

A política de preservação e os benefícios que os municípios tive-


ram com as mudanças promovidas nos anos após a promulgação da
Constituição de 1988 favoreceram um incremento nos recursos públi-
cos e certa autonomia financeira por parte do poder público municipal
na implementação de determinadas mudanças no espaço urbano. As-
sociada a um forte investimento na imagem da cidade e investindo na
ideia de ser promotora da modernidade e da preservação da tradição,
a administração Cid Gomes acaba se projetando politicamente como
aquela que fez a cidade de Sobral renascer das cinzas. Além disso, in-
veste na imagem de unidade por parte dos moradores em prol de seu
modelo de intervir no espaço urbano, elegendo por dois mandatos seu
sucessor Leônidas Cristino. Após a licença de Cristino, o vice-prefeito
Clodoveu Arruda assume, dando continuidade à promoção de sua fac-
ção política, lembrando sempre o apoio do então governador Cid Go-
mes, construindo a impressão de que não existe mais oposição aos que
compõem os “Ferreira Gomes”.

Entretanto, as narrativas individuais registradas no Laboratório


das Memórias e das Práticas Cotidianas − Labome/UVA23 mostram
que essa unidade não é tão sólida, mostrando que no cotidiano é
difícil consolidar uma adesão e enquadramento de todas as pessoas
em um determinado modelo de ver e agir na cidade. Existem críticas
que nos fazem pensar que a cidade é muito mais do que a estampa

23 Arquivo público de documentos orais e visuais da Universidade Estadual Vale do Acaraú.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


105 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
bonita, unificada e próspera projetada pela política de preservação e
“modernização” de Sobral entre os anos 1997 e 2012. Logicamente
essa imagem de opulência teria que ser fundamentada na sua his-
tória. Nesse aspecto a política de preservação foi importante, para
justificar a diferença da cidade, quase afirmando que a riqueza e a
prosperidade são características que fazem parte da tradição local. A
imagem, portanto, projeta Cid Gomes como arauto da preservação
de uma tradição que fala da modernização. Os narradores individu-
ais enriquecem ou criam controvérsias com relação a essa imagem.
Ronaldo Alves, líder comunitário do bairro Vila União, faz as se-
guintes considerações sobre o modelo de gestão do poder público,
principalmente no sistema de competição por premiação implantado
nas escolas municipais:

Nós “tamos” aqui no bairro do Vila União em Sobral, uma


verdadeira epidemia de jovens viciados em droga e que o
próprio poder pouco faz com isso, no momento em que
você levanta essa tese em qualquer movimento social isso
é sucumbido, ninguém dá a mínima por isso, porque acha
que isso não, não leva a nada, não traz nada, mas eu não
vejo assim “tá”entendendo?! E eu acho que se nós não
fizermos algo agora o, o “prijuízo” disso no futuro bem
próximo é muito maior do que o que imagina, “né”?! Por-
que não adianta você pegar é... Trancar sua casa, é botar
grades em todos os cantos se você não fez nada lá na
ponta, na periferia que é onde “tá” os “poblema” é a gente
vê nos grandes, a nível de Estado a, é 0,5 % o jovem que
ingressa no ensino superior, que é muito baixo. Aqui em
Sobral é 0,3% do jovem de baixa renda, ou seja, de perife-
ria que participa, ingressa na, no, no ensino superior. E o
pior disso é que a nossa cidade é uma cidade universitária,
“tá” entendendo?! Se ganha tanto prêmio nessas escolas

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


106  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
públicas “né” a troco por quê? Baseado em quê? Se ganha
tanto prêmio, se o jovem não tem acesso a essas univer-
sidades. Será que essas escolas são tão boas assim que
merece tanto prêmio? Enfim, são essas coisas que a gente
sempre “tá” questionando, será que o “poblema” não é nas
escolas, é nas famílias? Será que o governo “tá” fazendo
o que é correto? “Né”? “Tá” trazendo realmente essa edu-
cação, será que “tá” sendo feito, “tá” sendo desenvolvido
essa fórmula? (RODRIGUES, 2008).

Ele chama atenção dos aspectos já discutidos anteriormente,


que cindem a cidade entre aqueles que conseguem ter acesso às
benesses da chama globalização, tendo, inclusive, contato com a
produção do conhecimento acadêmico, por exemplo, e os que não
conseguem ter acesso. O sistema de premiação adotado nas escolas,
baseado no sistema de avaliação externa criado pelo poder público,
segundo o narrador, não consegue superar essa contradição.

Outro exemplo interessante que ressalta uma falta de seguran-


ça na ideia de “unanimidade inquestionável” que se quer atribuir à
força política do grupo dos “Ferreira Gomes” foi a vaia que o então
governador do Ceará Cid Gomes sofreu em 23 de outubro de 2011,
antes do show do cantor Zeca Baleiro que serviria para promover
a obra de internalização da fiação elétrica do sítio histórico de So-
bral24. Foi um tempo de greves dos professores do ensino médio em
todo o estado do Ceará, com respostas pouco populares por parte
do governador. A impressão nesse momento é que a forma como
respondeu a todo o processo grevista parece ter abalado sua popu-
24
O referido acontecimento pode ser visto no site: http://www.youtube.com/
watch?v=vmi7dhj-VA0. O áudio incluindo a fala do prefeito elogiando o governador durante
as vaias está no endereço http://www.youtube.com/watch?v=DASQuHCWT6A .

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


107 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
laridade em Sobral, local que lhe serviu de ponte para ascensão até
o governo do Estado.

No âmbito institucional, percebe-se que também existem con-


trovérsias ao modelo de desenvolvimento adotado na cidade. É o
caso do metrô já citado, que em 26 de março de 2012 teve suas
obras embargadas pelo Tribunal de Justiça do Ceará. O relato do
jornal de circulação estadual Diário do Nordeste dessa data informa
o seguinte:

O pedido de paralisação partiu do Ministério Público do


Ceará (MP/CE), que ingressou com ação civil contra a
Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Me-
trofor), o Estado do Ceará e o Município de Sobral. O MP
alegou que a construção do metrô causa degradação ao
meio ambiente e viola o Plano Diretor da cidade. Susten-
tou também que a obra gera transtornos à população, pois
está sendo realizada sem planejamento urbano e estudo
ambiental. Ainda de acordo com o Ministério Público, os
moradores atingidos sofrerão impacto financeiro em vir-
tude da desvalorização dos imóveis. As partes foram no-
tificadas, mas somente o Município de Sobral se manifes-
tou.[...] Na contestação, sustentou que não é diretamente
responsável pela construção, tendo a função de fiscalizar
se Plano Diretor está sendo respeitado. Defendeu que a
obra recebeu parecer técnico da Autarquia Municipal de
Meio Ambiente e que não fere a diretriz geral do desen-
volvimento urbano, pois passou pelo crivo do Conselho
Municipal do Plano Diretor. (Diário do Nordeste, 26 de
março de 2012).

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


108  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Logicamente que, do ponto de vista do discurso oficializado
pelo cargo que ocupa, é importante frisar a questão técnica do pa-
recer citado pelo prefeito. O que está implícito no discurso é que
manifestar uma posição que prescinda da competência técnica não é
possível nesse caso, apesar de estarem falando de políticas de plane-
jamento urbano. O termo política não pode aparecer como definição
resultante de agentes e agências, que escolhem e disputam posições
ou formas de ver o mundo. Mas sim, como resultante de uma refle-
xão racional elaborada por especialistas que, supostamente, sabem
o que estão fazendo, muito mais do que o morador leigo, principal-
mente quando se fala dessa dimensão especial do campo político
que se refere às ações do poder público, que é batizada de políticas
públicas. Nesta perspectiva, a opção por uma dentre várias formas
de pensar e agir não faz sentido, já que a suposta objetividade da
racionalização das ações políticas deixam de ser políticas e passam
a ganhar uma aura de “técnicas” ou “científicas”, o que acaba ga-
nhando força de verdade. A suposta objetividade tem a pretensão
de impedir avaliações subjetivas da gestão dos processos. Inclusive
os termos de classificação usados para pensar aqueles que vão se
beneficiar são genéricos e imprecisos, como já dito, pretendendo
suprimir uma subjetivação da ação.

No cotidiano, os moradores da cidade, por sua vez, agenciam


critérios outros de definição das ações do poder público que, em
muitos casos, criam uma tensão entre o enquadramento racional e a
pessoalidade. José Arteiro, por exemplo, líder comunitário do bairro
Pedrinhas, que se localiza na região central da cidade, afirma que
Cid Gomes, na concepção dele, foi o melhor prefeito para Sobral.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


109 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Inclusive menciona que conhece Cid e um dos irmãos pessoalmente,
tendo, inclusive, trabalhado com um primo deles por um tempo,
quando o narrador era vinculado ao Departamento Estadual de Ro-
dovias − DERT. De acordo com suas palavras, “Por sinal, são pessoas
inteligentes, trabalhador, tudo que eles faz é bem feito...” (RIBEIRO,
2006). Entretanto, o narrador argumenta depois de questionado:

Nilson: E o melhor prefeito para as Pedrinhas?


(risos)
José Arteiro: Rapaz, justamente é o que eu estava conver-
sando um dia desses para o, o, o menino ali, e o cara disse,
rapaz, nós tudo... a gente tem obrigação de votar no, no Cid?
Eu digo: “rapaz nós não...eu pelo menos, nós das Pedrinhas
não temos obrigação de votar no Cid não”. “Tem não?” “Tem
não!” Rapaz ele não fez nada no nosso bairro não rapaz. Até
hoje, não! Rapaz mas ele fez muita coisa pros bairros. Bom!
Ele fez na Expectativa, se ele fez lá, o pessoal tem obrigação
de votar nele, tem obrigação de votar nele, porque... mas ra-
paz, eu digo olha, o que ele fez aqui atualmente foi ampliar
esse colégio, foi! Mais aí não foi coisa da prefeitura também
não, foi aquele negocio do Unicef, aquela verba que veio pra
ampliar os colégios...
Ronaldo25 – Foi o Fundef...
José Arteiro: Fundef né? A prefeitura mesmo não foi não,
quer dizer eu não tô, eu não vou tirar... aqui ele não fez até
hoje nada, eu não posso dizer... Não mais ele fez muito... Eu
digo olha aí pra completar... pra tirar a dúvida do cara, olha
a coisa acontece é que o comer da tua panela não enche a
barriga de meus filhos não rapaz...
(risos).
José Arteiro: Não enche não, eu tenho que, o meu bairro que
é meu bairro, aqui foi onde eu nasci, foi onde eu me criei,
e criei meus filhos, moro aqui, tenho certeza que vou mor-

25 Ronaldo Santiago Lopes era bolsista de iniciação científica de projeto que eu coordenava e me
acompanhou na entrevista.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


110  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
rer aqui, a minha família é toda daqui, então eu tenho que
lutar pelo meu bairro, eu vou ter...vou defender o bairro de
Sumaré, Expectativa, eu não posso, vou defender meu bair-
ro, que ele fez muita coisa ele fez. Ele fez muito? Fez. Mas
aqui no meu bairro tá muito a desejar ainda, principalmente,
enquanto ele não fizer pelo menos essas duas coisas aqui
no bairro, a, a, a...o povo tão muito mal satisfeito com isso,
muito mal satisfeito! (RIBEIRO, 2006).

Nesse caso, não há uma objetividade racional como critério de


avaliação das ações do poder público. Há uma avaliação que é per-
meada por uma territorialização da cidade que passa a ser dividida
por bairros, divisões estas que servem como mediação para matizar
opções pelo voto. Apesar das relações pessoais, o narrador avalia
que não pode aconselhar o voto para Cid a outro morador do bairro,
justamente porque entende que seu território, que é o bairro Pedri-
nhas, deveria ter na sua gestão uma atenção que não se verificou.

O interessante no contato com as pessoas no cotidiano é que


percebo haver uma noção corrente de que as obras, principalmente
aquelas que causam um impacto visual grande naquele que as ob-
servam, são sempre vistas como “fazer algo”, o que repercute muito
mais do que outras ações do poder público nas avaliações dos mora-
dores. O saneamento, a reforma de uma escola, o financiamento de
atividades culturais, a não ser aquelas que atraem grandes públicos,
como os shows de artistas conhecidos nacionalmente ou interna-
cionalmente, dentre outros, parecem influenciar em opiniões que
remetem ao “não fazem nada”. É comum, inclusive haver denúncias
que lembram que os “políticos” só se interessam mesmo em atender
aos anseios da “comunidade”, termo que acaba sendo usado para

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


111 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
designar que não são desejos individuais, na época da “política”. As
lembranças de José Arteiro são úteis para compreendermos melhor
o que falo:

… eu tenho lutado muito, porque o tempo que eu tenho


aqui a...a...o prestamento de serviço que a gente tem aqui
com o bairro, já era pra gente ter conseguido alguma coi-
sa, melhor nessa comunidade, mas, a gente sei nem pra
quem apelar, quando chega a época da política, não falta,
é cheio de vereador, cheio de político aqui, rapaz, é pro-
messa por cima de promessa viu? Eu sou muito convi-
dado, eu sou, quando chega época de política, não falta
aqui, quando eu chego em casa, eu chego e a mulher olha,
chegou um... tem um convite pra você, e o que é? Reunião
do fulano de tal, com a liderança do bairro...
(risos)
J.A – A gente chega lá as promessas é as mesmas, viu
rapaz, inclusive quando...antes da eleição, a gente fez
uma entrevista aí, teve uma, uma reunião, com a primeira
dama, era a futura primeira dama na época né? A esposa
do, do prefeito. E ela nos prometeu, ela disse pra mim,
olhe, quando você... me procure que eu vou com você e a
gente ajeita, mas até hoje a gente não consegui nada, mas
a gente já sabe que essas coisas né? É coisa de campanha
política ninguém pode nem...
N – Mas o senhor já procurou ela?
J.A – Não, realmente ela não procurei não, não vou men-
tir, não procurei não. Procurei a secretaria, porque hoje
você pra procurar uma coisa assim, o prefeito de lá: fale
com o secretário fulano de tal...
R – É né?
J.A – Ele bota é fora, o prefeito fica se puder falar com
o prefeito né? Ele fica lá no gabinete dele e tal e tal, fala
com o fulano de tal, se é da saúde fala com o secretario
de saúde, se é da rua fala com o secretario de obra, e tudo
aí fica jogando a gente de um lado pra outro, vem aqui

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


112  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
amanhã, vem depois, é uma perca de tempo, termina nin-
guém arrumando nada e passa o tempo, chega a eleição é
outras promessas, e de tantas promessas já tô tão cheio...
“pessoal vamos aguardar, eu soube, não sei, eu soube que
parece que eles vão fazer mesmo esse saneamento básico
agora eu soube”, mas eu tô achando esse negocio tão fra-
co, pode até ser que aconteça né? Mas que até hoje eu não
tenho assim muita fé não! E a gente sempre naquela luta,
naquela esperança, e pedir, porque o que tem que fazer é
se humilhar, pedir, porque fica na mão das autoridades
aí fica a critério deles e a gente tem que esperar pela boa
vontade deles, tá entendendo?

A “política”, nesta perspectiva, perde seu caráter de disputa en-


tre opiniões diferentes e acaba sendo entendida somente como um
tempo específico do calendário eleitoral no discurso das pessoas no
cotidiano da cidade. Nas conversas com alguns moradores de Sobral
pode-se perceber que em suas falas normalmente aparecia o termo
“tempo da política” ou “época da política” em referência ao perío-
do do pleito eleitoral. Palmeira (1996), em seu trabalho no sertão
de Pernambuco, registrou o mesmo termo associado às eleições. O
autor define que o “tempo da política” parece constituir um corte
espaço temporal do período que antecede as eleições na fala das pes-
soas. Chama atenção de que as relações sociais acontecem de forma
diferente do restante do ano e o espaço da cidade é submetido a uma
nova geografia determinada pela adesão a determinadas facções po-
líticas. Essas adesões consistem num processo de comprometimento,
seja em nível individual ou familiar, com algum candidato ou com
alguém ligado a ele. O próprio partido ou outras formas de organi-
zação política parecem funcionar nessa lógica. Franzé, líder comu-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


113 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
nitário no bairro Alto da Expectativa, falando de sua experiência
com associação comunitária, lembra que:

porque hoje nós podemos perceber que nas... maioria das


associações, é um ambiente fechado, ela não, ela não tra-
balha diretamente com a comunidade, “né”. Tem medo
de... num sei se é de invadir ou de tomar o prédio, uma
coisa “deche...” é um ciúme que existe, das “pesso...” da
maioria das pessoas que assume, é... associações de bairro,
“né”? Geralmente elas são... é... associação de bairros ela
está muito mais com a família. Se você for... formos ob-
servar a... as associações, quem “tá” lá à frente, é às vezes
é um pai, uma mãe, um tio... “tá” a família “intera!”... Isso
é importante! “né”? mais quem “tá”? quem “tá” assumin-
do essa, essa associação. Aí às vezes ela passa do pai “pro”
filho, “né”? Do filho, “pro” tio. Então isso a gente “come-
çô” a perceber que “num” é bom. “Num” é bom porque a
gente começa a perceber que outras “pes”... surge novas
lideranças que questionam, que passa a ter uma visão di-
ferenciada, e aí acabam não tendo essa vez. Porque aquela
família não permite, que essa liderança, cresça!

No caso de sua experiência partidária, mais uma vez a família


aparece; entretanto, nesse caso a dimensão negativa relacionada à
crítica que faz da associação é ambígua quando se pensa o partido
como “família”. Ele conta que:

É dentro do partido seja “né”? que “teja” assumindo o


poder, ou não. Acho que o importante, o dever do lider,
é que a gente... de fato ele é líder quando ele de fato
questiona onde estiver, independente se seja da... da
esquerda, da direita, “pra” mim num... acho que num...
partido “pra” mim é ilusão, (barulho de carro passando)

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


114  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
entendeu? Tem que existir porque realmente é neces-
sário, é como uma família, tem que ter o sobrenome,
entendeu? Mas “pra” assim, acho o que o importante é
você assumir uma... uma posição dentro do partido que
“cê” esteja, num importa o partido.

Nesse caso, o partido, quando comparado à família, aparece


como uma predestinação em que o indivíduo tem que se conformar
por não ter escolha. Da mesma forma que nasce em família que não
pode escolher, o sujeito político, preservando sua posição individual,
não pode prescindir dele, ganhando um nome e sobrenome. O sobre-
nome remete ao fato de ter que compartilhar com outros determina-
das ações. No caso de Sobral é muito comum a adesão ancorada em
um nome de “peso”, o que remete à lógica da facção.

O conceito de facção política está aqui sendo entendido no sen-


tido de “quase grupo” como define Mayer (1987). Para definir o que
venha a ser o “quase grupo”, o autor americano o contrapõe ao de
grupo, no qual existe uma interação esperada e acordada social-
mente entre seus membros, onde não necessariamente precise de um
“chefe” como referência central e integradora. Há um regimento ou
estatuto definido que institucionaliza as ações do grupo. A referência
integradora, portanto, é a instituição social, com regras definidas. O
grupo manifesta uma maior segurança com relação à uniformidade e
continuidade, e a própria chefia, quando há, nem sempre é vitalícia,
apesar de haver casos onde existe uma apropriação pessoalizada da
instituição. Já o “quase grupo” depende de um indivíduo como foco
organizador central e nem sempre está ancorado em uma instituição
com estatuto definido por seus membros, o que enfraquece a lógica

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


115 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
dos partidos. Em geral, neste tipo de interação, as ações individuais
dos que aderem ao “quase grupo”, aqui entendido como facção, só
são valorizadas quando direcionadas a uma pessoa central. O crédi-
to das ações com outros membros do “quase grupo” é minimizado.
Como inspira Mayer (1987), a interação é formada por um conjunto
de ações inseridas em conexões sociais pertencentes a campos de so-
ciabilidade distintos formando redes segmentares, sempre tomando
como referência central uma pessoa. Esta rede que configura uma
facção fica bem clara no período eleitoral, não só em Sobral, mas em
outros municípios brasileiros e até em outros países26.

As ações individuais dos narradores com que tive contato são


orientadas pela lógica da facção. José Arteiro lembra de episódio
significativo quando era “charangueiro”, que pode ajudar a com-
preender o que digo:

fui charangueiro, eu toquei charanga com, com o pessoal


do Zé Prado, toquei charanga com o Joaquim Barreto, to-
quei charanga com os Figueiredo, toquei charanga com o
Padre Zé Linhares, toquei com os Ferreiras Gomes, eu era
charangueiro. Charangueiro é aquele, o sujeito forma um
regional, um sanfoneiro, um pistão, saí encima daquele
carro tocando né? Pow! Pow! Pow! Comecei naquela épo-
ca, na época, na época do Cesário Barreto, a gente fazia
uma, uma charanga era um jipe, um jipe velho, o sujei-
to botava um aquele sanfoneiro, uma radiadora encima,
chamava radiadora aquela...bom botava em cima, aí saía

26 Oautor citado pensa o “quase grupo” tendo como campo empírico relações
sociais na Índia. Portanto, em uma sociedade de castas. A Índia tem uma
estrutura social completamente diferente da nossa, e mesmo assim existe
essa semelhança.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


116  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
no meio da rua, Vu! Vu! Vu! Tocando a negada jogava
pedra na gente...
(risos)
J.A – Jogava cadeira, porque naquela época existia riva-
lidade de, de político né? O sujeito passava num bar, era
numa rua, essa rua não era daquele político da gente, me-
tia a pedra na gente! A gente pegava o zabumba pra butar
na cabeça da gente pra não pegar pedrada viu?

Essa citação faz lembrar que a adesão a uma facção política


geralmente está relacionada a uma configuração espacial e tempo-
ral que remete a uma espécie de divisão da cidade e das pessoas em
lados que aparecem como opostos. Em geral, neste tipo de interação
em rede proporcionado pela facção, as ações individuais dos que
aderem só são valorizadas quando direcionadas a uma pessoa cen-
tral, independentemente de estar ali como “profissional” que tem
como objetivo somente organizar a “charanga”, o que faria para
qualquer outro candidato. O crédito das ações com outros membros
do quase grupo é minimizado, como inspira Mayer (1987). Esta rede
que configura uma facção fica bem clara no período eleitoral.

Diante dessa lógica da facção, o nome do candidato ou o nome


de família de que ele faz parte, que nem sempre compõe seu sobre-
nome próprio, parecem ser os referenciais comuns de muitos mora-
dores. Nos pleitos de 1997, 200027, 2004 e 2008, era comum se pen-
sar as divisões pelos nomes de família como: os “Ferreira Gomes”,
os “Prados” e os “Barretos”. Ou então o nome pessoal do candidato
era referência (partido do Cid, do Leônidas, do Marcus Prado etc.).

27 Sobre as eleições de 1997 e 2000, Cf. FREITAS, 2001.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


117 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
A declaração pública do voto, o uso de instrumentos diversos para
fazer campanha, como a charanga, por exemplo, são pensados como
forma de se posicionar a favor de um dos lados. Isso pode com-
prometer o indivíduo para além do período eleitoral ou não, assim
como pode ser ancorado em uma relação de reciprocidade onde ele é
remunerado pela sua atividade. Vai depender muito do que se ganha
e do que se perde ao aderir, não só no sentido material, mas também
com relação a prestígio ou fundamentado em preceitos morais. O
fato de mudar de lado todo tempo, por exemplo, pode ou não ser
visto como algo negativo, dependendo de quem fala.

Nesse caso, não podemos mais entender as relações entre elei-


tores e candidatos somente no sentido de colocar os primeiro como
vítimas, enganados por aqueles que disputam o pleito. Lembro-me
de narrativa feita por Dona Lídia, líder comunitária do Bairro Alto
da Brasília, que é significativo para pensar. Ela lembra que:

(...) Fui pelejar pra casar civil, ai os políticos dava casa-


mento, ai falei com um vereador ainda me lembro quem
era, (...) ele foi o primeiro vereador, meu primeiro voto
aqui foi pra ele, ele disse me ajude? Ai eu disse ajudo,
mas o senhor me ajuda? Ele disse em que? Eu queria uma
ordem de casamento civil e ele disse: na hora! e eu vou
até ao seu casamento e eu: ai esse homem é muito legal,
mas é porque é tempo de política todos são legal. (XXX).

As redes de relações que são construídas durante o período


eleitoral através das “promessas” e dos “favores” estabelecem laços
de reciprocidade, onde o eleitor que por uma suposta concessão de

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


118  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
benefícios – dinheiro, empregos, tijolos, casamentos, cestas básicas
dentre outros – pode ou não se sentir na obrigação de votar em tal
candidato. Os comportamentos individuais são bastante diversifi-
cados nesse sentido. Entretanto, para que essas relações aconteçam
é preciso que haja uma ação recíproca. É o que Mauss (2003), no
seu conceito de dádiva, fala sobre as relações de reciprocidade: dar,
receber e retribuir. Nesses encontros entre sujeitos socialmente si-
tuados em posições diferentes há um acordo tácito entre as partes no
sentido de criar uma certa estabilidade negociada de interesses que
aparecem distintos. O que se recebe e o que se dá têm significados
que vão além do registro da necessidade ou da ganância competiti-
va do “ter mais”. Douglas (2006) também chama atenção para esse
aspecto. Do lado da moradora, o que ela coloca como objeto de
negociação não é um bem material. É algo que pode dar um status
diante da sua condição de mulher que fugiu de sua cidade, como ela
conta, por seu namorado não ter sido aceito pelos pais e, em So-
bral, queria regularizar sua situação com o casamento. Isso fornece
subsídios para demarcar uma nova posição dentre a variedade de
classificações sociais que conhecem que discriminam socialmente
mulheres “juntas”. Em algumas situações há cobranças no sentido
de entender que o casamento é a opção para aqueles casais que são
apenas “juntos”.

O prestígio a ser alcançado não é só pelo fato de estar em uma


posição melhor com relação aos julgamentos morais que podem ser
acionados por estar “junta”. Mas também pelo fato de se mostrar
mais próxima dentre aqueles que têm prestígio e poder, como é o
caso do vereador citado. Porém, não qualquer um. O fato de dizer

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


119 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
que o candidato é “legal” leva a pensar um modelo de classificação e
seleção do “melhor” dentre aqueles que poderiam lhe fazer o mesmo
favor. Geralmente a manifestação pessoal de como lidar com os ou-
tros e a capacidade de fazer “amigos” vão ser os valores lembrados
para classificar o candidato como “boa pessoa” ou “legal”. Nesse
aspecto, relações pessoais são tomadas como pressuposto para a es-
colha do candidato a aderir ou receber favores. O eleitor refere-se
à amizade, ao favor e à possibilidade de recompensa pessoal que o
candidato vai lhe proporcionar ao ser eleito. Aliás, com relação à
amizade, ela pode se apresentar também como anterior, assim como
pressuposto para que o pleiteante ao cargo público possa ganhar o
voto do eleitor e sua adesão na campanha. Alguns sentem orgulho
quando um candidato visita a sua casa, lhe conferindo diante dos
vizinhos e amigos uma imagem de poder e referência.

Nesse aspecto encontra-se uma ambiguidade própria da dinâ-


mica eleitoral. Ela, por um lado, favorece um sentimento de igualda-
de entre eleitor e candidato, e ao mesmo tempo cria uma hierarquia
social, pois, como analisa muito bem Chaves (1996), a posição que
o político ocupa, quando amigo de uma determinada pessoa, lhe dá
um status especial. A hierarquia também se estabelece entre aquele
que “doa” e aquele que “recebe”. Porém, a relação que se estabelece
não se limita a ser diádica. Tanto o eleitor forma uma rede de rela-
ções de compromissos entre eleitores no sentido de beneficiar com
votos e recursos para eleição do candidato, como o próprio candida-
to forma uma rede de adeptos diversificados com distintas posições
sociais, sempre pautados na amizade, no compromisso e no favor.
Alguns eleitores entram nessa rede indiretamente sendo “amigo do

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


120  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
amigo do candidato”, beneficiando-se de alguma forma e ocupando
uma posição na hierarquia social decorrente das relações estabeleci-
das no período eleitoral. Isso acaba criando também uma espécie de
hierarquia entre candidatos28.

Esse jogo de reciprocidades acaba envolvendo a praticamente


todos na cidade e muitos fora dela, diluindo aquela ideia de que
existe aqueles que enganam e aqueles que são enganados. Isso não
dilui a exploração, mas a coloca em um campo mais complexo de
relação e responsabilidades de ações e discursos. Resta-nos com-
preender agora a relação entre a discussão estrutural iniciada neste
capítulo e essas práticas cotidianas que remetem a uma cultura po-
lítica entendida como processo de subjetivação de agencias e cons-
tituição de redes de relações socialmente contruídas, contra uma
visão de passividade ou opressão, demonstrando uma pluralidade
de motivações para se fazer uma opção política, o que faz pensar a
política pública de uma forma diferente daquela que remete à ação
meramente administrativa que visa implementar propostas para o
“bem comum”.

AMARRANDO ARGUMENTO: A CULTURA POLÍTICA,


A POLÍTICA PÚBLICA E A ESTRUTURA SOCIAL

Diante dessa reflexão que tenta descrever esforços de diferentes


agentes sociais conectados em redes que passam por flutuações, des-

28 Essa mesma reflexão sobre a relação entre eleitores e candidatos está em artigo escrito em
parceria com minha bolsista de iniciação científica Caroline Silva Bezerra, em avaliação no
ano de 2012, para ser publicado em revista acadêmica, que tem como título “Adesão e política
no bairro Alto da Brasília em Sobral/CE”.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


121 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
territorializações e tentativa constante de novas conexões, o campo
político passa a ser entendido em contraste a mapas fixos e relações
dualistas entre dominantes e dominados e avaliações psicológicas
que apontam “patologias” morais de acordo com condutas frente
à norma jurídica que os classificam como “corruptos”. Gostaria de
adaptar uma reflexão feita por Latour sobre o “cientista” ao “políti-
co” (1997). A instabilidade nas relações de troca entre os diferentes
agentes envolvidos não podem garantir estabilidade constante de
prestígio de nenhum deles que se apresente em determinado tempo
como político proeminente. Por isso, o investimento é constante nas
ações que possam trazer “lucro” em sua atuação.

Entendendo a política pública no seu aspecto político, parece


haver uma espécie de economia integrada de produção de ações
políticas que não podem aparecer como tal, caracterizadas como
necessárias e imperativas para o “bem de todos”. O lugar que o pro-
ponente da política pública ocupa no espectro das relações sociais,
econômicas ou políticas desempenha um papel fundamental no cré-
dito de qualquer obra, o que acaba repercutindo na consolidação da
credibilidade de sua carreira. Entretanto, só isso não é suficiente. Há
um cálculo do agente político para avaliar as perspectivas ofereci-
das pelas oportunidades que se apresentam para ele. O investimen-
to deve ser mais rentável do que aquele que poderia ser feito em
qualquer outro setor das ações do poder público. Isso envolve uma
negociação cotidiana entre várias partes interessadas que avaliam o
“capital” que pode render como repercussão. Nesse caso, o “investi-
dor” abre um “mercado” para si graças a uma suposta contribuição
que deu para consolidá-lo. Disso resultam novos convites e negocia-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


122  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
ções com novos agentes sociais, transformando sua “economia” em
uma “renda” significativa. A intenção daquele que está na gestão do
poder público é criar um ciclo de ganho de credibilidade que possa
permitir novos ganhos. O objetivo não é somente o reconhecimento,
mas construir uma força de verdade sobre a sua competência.

O termo “político competente” remete a um juízo de valor sobre


a sua credibilidade, o que não pode ser avaliado somente a partir do
valor da pessoa responsável pela obra. A qualidade da obra também
é avaliada. Se ela fracassa na sua eficácia, o seu agente também
fracassa, possivelmente prejudicando a credibilidade e novos inves-
timentos. É por isso que, cada vez mais, a pesquisa de opinião ganha
importância como estratégia de gestão do poder público, pois apre-
senta-se como necessária para o operador da política pública uma
avaliação constante da quantidade e qualidade de suas obras e as
opiniões do púbico, para reavaliar as estratégias de carreira, já que
o cargo sempre é avaliado como uma profissão. Ele é remunerado
pela representatividade política pela qual foi eleito, tem uma função
oficialmente definida, tem uma posição na hierarquia constituída
pela organização do estado e a ele é pensada uma carreira.

De fato, não é só ele quem “faz” alguma coisa na sua gestão. A


rede de alianças faz a mediação e está conectada para agenciar obras,
pessoas, discursos e instituições. O mérito quem ganha é aquele que
está no topo da hierarquia da gestão, que geralmente é o ocupante
do executivo. A não ser que, como no caso de Sobral, a ponta da
rede não seja o prefeito, mas sim o governador. A subjetivação das
relações políticas favorece uma redistribuição de força de verdade
sobre a competência que pode transgredir uma hierarquia local que

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


123 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
se expande para um território mais amplo. O governador não escon-
de seus interesses em investir na região de Sobral, mesmo dizen-
do que, apesar disso, vai fazer uma distribuição equitativa de suas
ações políticas. Independentemente disso, todos os elos da corrente
de conexões devem ser fortes, envolvendo desde assessores diretos,
o morador sem vínculo nenhum com a associação de bairro, até as
obras em cada parte da cidade ou da região, tendo como sustentação
um discurso que possa agregar valor às suas estratégias. A confiança
em todos os elos vai variar de acordo com temporalidades criadas
pelas eleições. Alguns são mais valorizados que outros, dependendo
da proximidade ou distância do período eleitoral, assim como da
proximidade e distância do líder da facção política. A infinidade
de pessoas conectadas existe porque o “político” tem necessidade
de aumentar sua própria produção de força de verdade sobre a sua
competência, que pode ser negociada no sentido de busca de reco-
nhecimento, apesar de se submeter a um líder maior, como é o caso
do prefeito. Logicamente alguns elementos do sistema que regulam
as reciprocidades articuladas no cotidiano da cidade não podem ser
mencionados, pois correm o risco de ser interpretados de forma a
desautorizar a sua força de verdade sobre a sua competência.

As flutuações do mercado é que vão dizer quais agências po-


dem ser negociadas com mais chance de “remuneração”. A rapidez
com a qual essa negociação fornece mais credibilidade é sinal de
“bom investimento”. A ideia é acelerar o ciclo de credibilidade que
acaba agregando valor quando se usam adjetivos como “competen-
te” ou se qualifica sua atitude pessoal como resultante de “esforço

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


124  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
pelo bem do povo” ou “paixão” pelo lugar que representa no poder
executivo.

Na reflexão que faço, parece haver uma propensão a entender


as ações promovidas como políticas públicas como resultantes de
pessoas sem honra, pragmáticas, sem escrúpulos. Não seria esse o
foco. Acontece que uma psicologia do político seria muito pouco
para compreender o funcionamento da rede de relações de que ele
faz parte que precisa de ações convenientes com o objetivo de pro-
duzir força de verdade sobre a sua competência. A conveniência,
como argumenta Certeau (1994), é definida por critérios peculiares a
situações contextuais onde as agências são constituídas. Nessas si-
tuações, o agente é entendido como singularidade e é especializado
diante de sua conduta moral social e profissional, sendo “julgado”
e “classificado” pelos seus pares. Portanto, as práticas do agente
político, seja ele o prefeito, o governador ou morador da cidade, são
construídas na tensão entre a “conveniência” e a astúcia. Nesse caso,
as narrativas individuais dos moradores, a paisagem, a organização
do espaço, assim como as políticas públicas e obras dos agentes po-
líticos profissionais são fundamentais para entender a cidade como
produto de uma “arte”. Os distintos personagens que compõem o
cenário urbano de Sobral, portanto, são difíceis de classificar como
síntese de uma classe ou grupo, relativizando dicotomias como elite
x popular. Os prestigiosos agentes sociais que ocupam os cargos pú-
blicos, assim como os demais situados em outros segmentos sociais,
também são habitantes da cidade, os quais criam imagens distintas
e experiências variadas.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


125 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
A batalha pela produção de força de verdade sobre a sua com-
petência, por parte do político, portanto, não se sustenta se pen-
sarmos exclusivamente na racionalidade da política pública ou em
um pragmatismo calculista em relação a triunfos e investimentos.
São estrategistas que escolhem o momento oportuno envolvendo-
-se em colaborações potencialmente ricas, avaliando e aproveitan-
do oportunidades, correndo atrás de processos, práticas, discursos e
instituição que possam se adequar ou convencê-lo de fazer parte das
conexões que possam consolidar a sua busca pela consolidação do
reconhecimento de sua competência em “fazer”. Nesse caso há uma
convergência de trajetórias múltiplas de agências entre os distintos
sujeitos presentes na rede de relações construídas localmente e ex-
tralocalmente.

Os moradores, inclusive aqueles dos bairros periféricos, partici-


pam dessa lógica como mediadores de sujeitos abstratos entendidos
como “comunidade”. Sabemos que esse termo, apesar de aparentar
unidade, não representa exatamente um grupo homogêneo. Mas,
para aquele classificado como “líder”, é impossível agir se também
não estiver conectado em rede com outros, mesmo que o termo “ou-
tros” seja impreciso, que possam também lhe dar força de verdade
sobre a sua competência em representá-los. Alguns filmes produ-
zidos com base no acervo do Labome e apresentados no III Visua-
lidades de 2010 podem ser úteis para compreender o que digo. En-
tretanto, por serem filmes, vale a pena discutirmos antes o conceito
que mediou a produção, para depois descrever suas repercussões na
reflexão sobre a cidade a partir do bairro periférico.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


126  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
CAPÍTULO III
A CIDADE NO DOCUMENTÁRIO:
VISUALIDADES E CONCEITOS SOBRE O
ESPAÇO URBANO NOS BAIRROS
PERIFÉRICOS DE SOBRAL

CONSIDERAÇÕES INICIAIS: LINGUAGEM


AUDIOVISUAL E FORMAS DE VER O FILME

Depois de mais de uma década de pesquisa sobre a percep-


ção espacial e histórica da cidade de Sobral a partir de moradores
selecionados, como uma forma de desconstruir concepções rígidas
sobre a “sobralidade”, tentei me aventurar pelo campo da produção
audiovisual. A primeira expressão desta aventura foi o documentá-
rio “Sobral no plural”, dirigido 2010, em companhia de Paulo Pas-
sos de Oliveira, então meu colega de trabalho na UVA29. Em 2011,
mais três curtas metragens foram produzidos por meus bolsistas de
iniciação científica. Participei dessas produções na orientação dos
29 Tecnólogo em cinema pela Faculdade Gama Filho, mestre em Comunicação e Cultura pela ECO
– UFRJ e professor da área de Antropologia da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA/
Sobral-CE até o ano de 2011.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


127 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
trabalhos, como roteirista e na finalização. Os filmes inauguraram a
série “Bairros de Sobral”. Os filmes são os seguintes: “Dom Expedito:
cultura, arte e expressão”, dirigido por Thiago Castro; “Vida e bair-
ro: Vila União”, dirigido por Josiany Oliveira; e “Sumaré: história,
versões e gerações”, dirigido por Daniele do Nascimento. Os três
filmes tratam de narrativas sobre questões relacionadas a bairros
periféricos de Sobral.

Nas obras apresentadas tentamos trabalhar com a noção de do-


cumentário, sem a preocupação de achar que “expressam a realida-
de” de nossos interlocutores, já que partimos do pressuposto de que
no contexto de captação de imagens é impossível não pensar o que
fazer sem perceber o aparelho e o programa proposto pela direção
da filmagem. Há uma performance agenciada pelos agentes envol-
vidos em função de uma proposta acordada entre os interlocutores,
mediadas pelo aparelho que faz a captação e o modelo de relações
constituídas no ambiente. No final do processo de criação, há uma
montagem feita por aqueles que fazem a direção do filme, de acordo
com a concepção anteriormente firmada entre a equipe, em tensão
com o que apreenderam durante a captação.

Para Flusser (2002), o aparelho é um texto científico aplicado


que tem como finalidade expressar a imagem técnica que, por sua
vez, é uma abstração em terceiro grau, pois abstrai a imagem tradi-
cional para resultar em textos que depois reconstituem a abstração
para chegar a uma imagem pós-histórica ou pós-acontecido. A ima-
gem tradicional é histórica e, para o autor, constitui-se de superfície
representando algo abstraído através da imaginação que codifica

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


128  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
fenômenos em quatro dimensões: altura, largura, profundidade e
sonho, assim como decodifica mensagens codificadas, decifrando
imagens que orientam a intervenção no mundo. O deciframento
produz significados, tentando restituir dimensões abstraídas. O pro-
blema da transformação da imagem tradicional em técnica é que
esta última, contemporaneamente, passa a ser entendida como a
expressão dos significados das superfícies criadas por ela própria,
confundindo imagem e mundo, criando uma sensação de que não
precisa de deciframento. A imagem técnica não é objetiva; portanto,
não é uma expressão da realidade, apesar da interpretação corrente
no cotidiano, que pensa o documentário ou alguns gêneros de filmes
como “baseado em fatos reais”. A produção audiovisual que resulta
em filme é um conceito sobre o mundo que só se apresenta como tal
quando decifrada, mostrando que são superfícies que transcodificam
processo em cenas através de sua “magia” mediada pelo aparelho. A
“magia” do aparelho sucede a consciência histórica e conceitual que
decifrava a imagem tradicional e visava modificar o mundo, produ-
zindo não mais modificações, mas conceitos. Esta mesma “magia”
ritualiza programas, visando outros programar receptores para um
comportamento, emancipando a sociedade de pensar conceitual-
mente.

Benjamin (1987) ressalta que no processo de reprodução da


imagem técnica, o que é atingido é a sua aura, afastando-a de seu
âmbito de tradição e colocando-a à disposição dos meios de comu-
nicação de massa. Apesar de favorecer o acesso maior à imagem,
esse meios desvalorizam sua unidade enquanto ritual, processo e
autenticidade. Relacionando com as afirmações de Flusser (2002),

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


129 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
perde sua historicidade. Em Benjamin (1987), com a reprodução,
troca-se o valor ritual pela política que, por sua vez, é esteticizada.
A função artística produzida pela autenticidade é acessória nesta
lógica. O autor destaca que o filme não favorece a meditação, como
promove a pintura, por exemplo. Com o filme, não dá tempo de
contemplar, pois quando se vê a imagem, outra já é acionada. Para
Benjamin, a arte procura concentração, já a cultura de massa pro-
cura a diversão. Estando em movimento, a imagem fílmica prescin-
de do pensamento e cria a necessidade de o indivíduo se submeter
ao choque da quantidade de imagens em sequência, favorecendo a
diversão. O autor chama atenção para a diferença entre a concen-
tração, quando se mergulha na obra para decifrá-la, e a diversão,
quando a obra mergulha na massa. Neste campo há uma estetização
da política, encobrindo-a enquanto política, assim como mascaran-
do a ideia de que a imagem é um conceito ou concepção.

Bernardet (1985), em livro introdutório sobre o cinema, com-


para o filme a um sonho. Ele lembra que durante o sono, o sonho
nos dá a impressão de realidade. Só lembramos que é sonho quando
acordamos. É o que podemos chamar de impressão de realidade.
Para isso, junta-se aparelho, técnica e arte. Ele lembra que no século
XIX, o processo aparece como mecânico, com a pretensão de elimi-
nar a intervenção da subjetividade. Mais do que isso, a pretensão era
ser a reprodução da própria visão humana. Há também formas de
perceber o cinema como reprodução do movimento da vida, apesar
de não existir movimento no filme, já que ele é resultante de uma
ilusão de ótica. Estas ideias acabam estimulando uma luta implícita

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


130  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
na produção audiovisual que visa a manter ocultos os aspectos arti-
ficiais da produção dos filmes.

Alguns produtores, historicamente denunciam este ocultamen-


to, fazendo aparecer aqueles que supostamente “não deveriam apa-
recer”. É caso do documentário “Crônicas de um verão” (Chronique
d’un été) dos franceses Edgar Morin e Jean Rouch em 1960. Eles
apareceram como personagens de seus próprios filmes.

Confesso que sou muito favorável a esta última ideia. Entre-


tanto, mesmo diante de minha pouca experiência com a produção
audiovisual, não quero crer que revelando o filme através do filme,
estejamos “salvando” o público de ser “enganado” por algo que pre-
tendia reproduzir a realidade. Estamos somente fazendo uma revisão
estética, já que, mesmo nesse caso, o “filme do filme” é um filme. O
aparelho não deixa de existir. Só está sendo usado de forma a reco-
nhecer os autores como sujeitos da produção, sem abrir mão da per-
formance. Os diretores aparecem exatamente discutindo isso quando
perguntam a uma das personagens centrais se ela se intimida em
falar diante das câmaras. Esta discussão se estende durante o filme,
misturando pela questão “você é feliz?”. Outros temas vão aparecen-
do agregados às respostas que surgem, como a guerra, o trabalho,
a exploração, assim como a narrativa aparece confundindo perso-
nagens com entrevistados e entrevistadores. No final do processo,
aqueles que apareceram no documentário mediados pelo aparelho
assistem ao resultado e discutem. As percepções são contraditórias e
inúmeras, mostrando que o filme, por ter um caráter narrativo sobre
o próprio filme, estimula a discussão e promove controvérsias que
apontam por caminhos distintos.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


131 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Particularmente no campo das Ciências da Sociedade, esta dis-
cussão também ganha repercussão e promove estilos de documen-
tação e registro peculiares. Henley (2009) chama atenção para dois
grandes métodos quando o aparelho fílmico é usado como instru-
mento científico, particularmente no filme etnográfico: o método
evento-sequência, que minimiza o autor e o método dialógico, e
mídia indígena, onde o autor está presente, juntamente com aque-
les que são o foco do registro. No início do artigo, Henley afirma
que esta discussão sobre a desconstrução da autoridade do autor na
produção fílmica é anterior às polêmicas levantadas por Marcus,
Clifford, Geertz e demais antropólogos americanos30 sobre a auto-
ridade etnográfica. O exemplo já citado do filme de Morin e Rouch
confirma esta ideia. Inclusive o documentário foi realizado como
filme etnográfico através do Musée de l’Homme de Paris.

O método evento-sequência, para Henley (2009), é o mais tra-


dicional no cinema do gênero. Tem uma forma narrativa, tende a
acompanhar uma cronologia dos eventos na montagem, com come-
ço, meio e fim, além de precisar de um conhecimento anterior do
contexto cultural para identificar os eventos. Logicamente na mon-
tagem haveria cortes na ação, eliminando momentos sem relevância
para o autor. Entretanto, o autor está escondido atrás das câmaras e
quase desaparece. O filme pretende ter uma forma pedagógica, com
sequências curtas de ação atendendo às exigências de uma narrativa
estruturada para a linguagem fílmica. Uma variante é o estudo de
caso, que seriam eventos específicos como microcosmos de realida-
des sociais e culturais mais amplas.

30 Cf.Clifford e Marcus, 1986.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


132  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Já o método dialógico e a mídia indígena promovem o autor
como personagem do filme, mostrando as relações que orientam o
registro, revelando ou não o texto fílmico em si. A ideia de reflexi-
bilidade está contida neste método. As conversas entre os autores e
os personagens aparecem no filme, mostrando a interação entre pes-
quisador e pesquisado. As variantes deste método são filmes feitos
pelos próprios pesquisados, como é o caso do programa “Vídeo nas
aldeias” no Brasil. Nesse caso, o controle nativo é percebido como
fonte de poder e prestígio político, usando o aparelho e o programa
a favor de suas causas.

Independentemente da escolha metodológica que o autor possa


fazer, no cotidiano da produção do documentário não dá mais para
crer que ele registra a “realidade”, como já dito. Aqueles que são do-
cumentados pelo registro fílmico são, ao mesmo tempo, agentes ex-
pressivos da experiência vivida pelo grupo escolhido como foco de
pesquisa, e também atores, no sentido teatral do termo, quando se
tem o aparelho fílmico como mediador do registro. Entretanto, parto
do pressuposto que a representação teatral não é somente resultante
de uma imaginação ficcional. Assim como o filme, não é uma forma
de fantasia ou faz de conta especulativo. É um modo de percepção −
representação performática − que vai além da idealização da cena. É
uma realidade inventada e uma estética sensível que remete a uma
concepção que se quer passar. Como diz Cliffod Geertz (1991), pen-
sando o caso da relação entre teatralização e política em Bali, é um
signo no contexto de um sistema de signos, ou uma imagem em um
campo de imagens múltiplas. Portanto, o ator não só imita algo que
ele idealiza de forma neutra e imparcial. Para ele, trata-se antes de

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


133 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
tudo, de uma ética e um ato político. Tal relação faz com que a in-
clusão da dramatização não seja contraditória, nem com a produção
de um documentário, nem com o trabalho de campo etnográfico.

Estas orientações mais teóricas influenciam a minha produção


e de meus orientandos quando tentamos produzir documentários
sobre a cidade de Sobral. Gostaria de destacar três exemplos já cita-
dos aqui para discutir o conteúdo e a forma de produção, tendo em
vista refletir sobre as práticas cotidianas dos moradores da cidade
de Sobral e a percepção espacial, especialmente os moradores da pe-
riferia. São eles: “Dom Expedito: cultura, arte e expressão” dirigido
por Thiago Castro; “Vida e bairro: Vila União”, dirigido por Josiany
Oliveira; e “Sumaré: história, versões e gerações”, dirigido por Da-
niele do Nascimento.31

O DOCUMENTÁRIO E O BAIRRO:
METODOLOGIA E FORMAS DE FAZER

Alguns pressupostos mais teóricos orientaram a produção das


três obras. O primeiro é de que partiram do pressuposto de que fa-
lar sobre a pesquisa na cidade é muito mais do que uma estampa
idealista que pretende representar um ser coletivo, estável e fixo.
As entrevistas e imagens já produzidas e arquivadas no Labome
que foram usadas como referência para a produção dos filmes já
mostram isso, sendo algumas delas já trabalhadas neste relatório.
31 Os filmes citados estão disponíveis no Vimeo: “Sumaré: histórias, versões e gerações” de
Daniele do Nascimento Rodrigues (https://vimeo.com/84034647); “Vida e bairro: Vila União”
de Josiany Oliveira Mota (https://vimeo.com/82281116) e “Dom Expedito: cultura, arte e ex-
pressão” de Thiago de Castro (https://vimeo.com/81661391).

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


134  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Tal questão também já foi explorada no documentário “Sobral no
plural”, discutido no meu primeiro relatório do pós-doutorado em
Estudos Culturais, publicado pela editora Torre. Porém, pretendemos
dar mais ênfase ao aspecto de que os “invisíveis”, principalmente,
falam e agem sobre a cidade, no sentido de construí-la.

A proposta foi de que as cenas pudessem ser resultantes do que


estava registrado no acervo permanente do Labome, que apresenta o
material bruto, sem edição. Nesse caso, as cenas terão cenários mon-
tados que se misturam em tempos diferentes, ressaltando somente o
momento da conversa entre o entrevistador e o entrevistado. Des-
de o início, o pesquisador responsável pela interlocução organiza a
narrativa, aparecendo ocasionalmente no cenário e ouvindo o que
as pessoas têm a dizer, articulado à teatralização da experiência do
contato com os diferentes momentos que precedem e acompanham o
que é peculiar ao trabalho de pesquisa. O pesquisador também é ator
na narrativa, apresentando um diálogo com os atores-entrevistados.

Partimos do pressuposto de que não é possível gravarmos sem


o consentimento das pessoas envolvidas. Neste caso, após o con-
sentimento, percebe-se que não existe uma forma de filmar relações
sociais sem simular situações e eventos nas memórias registradas.
Na verdade, os documentários trataram apenas de mostrar uma no-
ção ou uma forma de ver o mundo e os grupos sociais envolvi-
dos. Porém, omitiram aspectos extradiscursivos, como as condições
de produção, recepção, o espaço social onde circulam, influências
extralocais e a dimensão pragmática do narrado, que causam um
efeito situacional no interlocutor. A proposta de interpretar as re-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


135 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
presentações presentes no discurso não é o único meio de produzir
informações sobre os pesquisados, justamente porque o depoimen-
to deles não fala por si. Não podemos esquecer o jogo de práticas
significativas das relações entre os diferentes sujeitos sociais que
compõem a “realidade” exposta no filme. Por isso, o pesquisado, os
pesquisadores, os atores e todos aqueles que participam do filme,
de uma forma ou de outra, deveriam aparecer nesse projeto. Mesmo
assim, nem todos os autores e diretores optaram por aparecer.

Inclusive, orientado pela discussão já feita aqui, acredito que


não há diferença ontológica entre a imagem do filme de ficção e
aquela do documentário. A primeira guarda um grão de realidade,
pois foi no real o lugar em que foi captada. Da mesma maneira, o
documentário reveste-se de ficção: a câmera tende a produzir efeitos
naquilo que é gravado, tendo em vista afetar o público que assiste
de alguma forma. Não pretendemos, aqui, negar o grau de esponta-
neidade do documentário, se é que isso existe, nem sua especifici-
dade. Apenas não admitimos que o filme de ficção seja menos real
que o documentário, nem que o documentário não possa ser a base
de fabulação tanto na construção da narrativa do filme, quanto na
produção das lembranças do entrevistado registradas.

Em Sobral no plural, nós, os diretores, simulamos viver um


dia de entrevistas em Sobral. Entretanto, todos os depoimentos e
imagens foram tomados ao longo de 18 dias de gravação. Para não
comprometer a verossimilhança, necessitamos de continuidade no
figurino e na luz do filme. O único dia supostamente vivido em
Sobral é outra fabulação, o lado ficcional, que agrega depoimentos

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


136  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
produzidos de nossos entrevistados, de acordo com seus interesses
contextuais, fruto de criatividade e construção, presentes no roteiro
que deu origem ao filme.

Os componentes dramáticos que envolvem os documentários


também são uma invenção particular de seus realizadores. Nosso
passeio em Sobral é conduzido pelo som de samba-rock, reggae e
rock, ritmos que fogem ao clichê dos elementos regionais espera-
dos em produções realizadas no Nordeste. Nas produções que quero
destacar aqui, os diretores pretenderam não gerar filmes mais com-
plexos do ponto de vista da simulação. Aliás o tempo autêntico do
registro pouco importou. O que foi destacado foi a narrativa dos
interlocutores. A narrativa destaca assuntos discutidos em pesquisa
e em reuniões anteriores entre entrevistados e entrevistadores. Tal
opção permite o controle maior de aspectos técnicos do filme, bem
como a economia de tempo e equipamento, já que nem todos fize-
ram a opção pela roteirização, nem simularam temporalidades orga-
nizadas em cenas a partir de rituais, mas sim valorizaram histórias
ou estórias.

Portelli (BESSA et al., 2010) diz que toda entrevista é um ex-


perimento em que as diferenças sociais podem ser deslocadas para
um pano de fundo, já que ela mostra muito mais um diálogo en-
tre diferentes. Há uma troca de tempos entre ambos, negociada de
forma a agradar ao entrevistado, que tem alguém para ouvi-lo, e
ao entrevistador, que tem alguém para lhe falar sobre os assuntos
que lhe interessam. Entretanto, o entrevistador tem que perceber
que nesse processo existem coisas que ele quer saber, assim como

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


137 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
existem coisas que os narradores querem dizer. Os dois são ativos
no processo, assim como perguntam e respondem. Os dois lados ne-
gociam e, só depois de registrado, é que o pesquisador torna o que
foi gravado documento. Já que há uma negociação, fica implícita a
responsabilidade do pesquisador em não trair a confiança da pessoa
que cedeu seu tempo e suas lembranças. Logicamente a narrativa
completa não é usada. Há seleções de passagens significativas para
a montagem da obra que está sendo orientada por um conceito, por
uma ética e por uma política, quando se pergunta: como respeitar
meu interlocutor no uso de sua narrativa?

As entrevistas tiveram outro pressuposto, que coincide com as


reflexões de Portelli. Os filmes não citaram depoimentos verídicos
ou que visam confirmar uma ideia. Valorizando a linguagem dos
narradores, contam estórias. Penso que o uso da grafia desta forma
quer fazer o leitor crer que a narrativa é criada ou inventada na si-
tuação de interlocução, e não coincide com um história ontológica
e essencialista. Entretanto, qual história é mais real? Qual história
conta a essência das coisas? Prefiro usar a grafia história, sabendo
que é improvável haver respostas absolutamente verdadeiras para as
perguntas feitas.

Nas histórias contadas nos documentários, não há voz over ou


de locutor narrando acontecimentos, o que, geralmente quando é
usada, amarra a narrativa fílmica a uma suposta história imparcial
que se distingue do que é falado pelos interlocutores, muitas vezes
narrando a constituição de relações grupais de um “nativo” abs-
trato e costumes gerais, arrumando a confusão de opiniões distin-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


138  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
tas em uma única versão supostamente lógica e racional. No caso
dos documentários citados, somente há a voz do entrevistador, que
nem sempre aparece, dos narradores e o som ambiente. A música só
aparece nos filmes do bairro Dom Expedito e do Sumaré, e mesmo
assim, no caso do segundo, são produzidas pelos próprios interlo-
cutores em ambientes específicos de festa ou reunião. E no caso do
filme do Dom Expedito, são músicas de domínio público que reme-
tem aos temas abordados, assim como também são produzidas pelos
próprios interlocutores.

Geralmente a música acompanha os filmes para reforçar emo-


ções ou dar ênfase a determinadas situações. No caso do documen-
tário sobre o Dom Expedito, ela aparece como parte da narrativa, já
que o filme trata de manifestações culturais no local, tendo a música
como uma delas, acompanhando as apresentações da escola de sam-
ba e da quadrilha junina nas imagens adicionais de arquivo destas
instituições culturais do bairro. No caso do documentário sobre o
Sumaré, ela aparece no início e no final, sendo uma expressão do
grupo de idosas do bairro em uma de suas reuniões, frisando a vita-
lidade do grupo e, no caso do final do filme, acompanha os créditos
em fundo preto ao lado da cena diminuída em seu enquadramento,
que as revela cantando. Já no documentário sobre o bairro Vila
União, não há música, mesmo nos créditos finais. Somente a voz
dos entrevistados e do ambiente sonorizam o filme. Todos os três
não fizeram captação em separado. O áudio da filmadora foi usado
como suporte.

O fato de serem documentários de curta metragem facilitou

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


139 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
a construção de uma história para cada um, baseada em histórias
narradas. As passagens citadas nos filmes são informativas e, ao
mesmo tempo, performances, e remetem à história que o autor quer
contar no filme. A edição é orientada por essa história. Os autores e
diretores se apropriaram das histórias contadas e as colocaram em
comunicação para, assumindo a responsabilidade pela sua constru-
ção, contar uma história sustentada em um conceito de filme que
apresenta um resultado de trabalho de campo e de um aprendizado
teórico e prático com seus interlocutores sobre os temas escolhidos e
editados. As histórias contadas, portanto, são obras artísticas e con-
tos escolhidos, apontando para horizontes de possibilidades que se
misturam com outros horizontes de possibilidades do autor e diretor,
como lembra Portelli (BESSA et al., 2010). Horizontes construídos
pela interlocução e vivência experiencial entre o pesquisador e o
pesquisado. Os filmes podem não ser tão dialógicos, já que o inter-
locutor só aparece enquanto tal no momento da entrevista que, por
sua vez, é o ponto de partida para se pensar o filme. No caso dos três
filmes, a concepção, roteiro e produção são atividades posteriores
ao aprendizado no trabalho de campo e da análise das entrevistas
registradas.

Trabalhar com fontes orais registradas em filme traz uma van-


tagem que em muitos casos é negligenciada nos documentários: o
centro de atenção da narrativa é a subjetivação da história, que
apresenta um significado individual. No caso, o pesquisador primei-
ro acredita na narrativa, depois questiona outras possibilidades, se
achar necessário, e finalmente tenta organizar o fragmento da his-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


140  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
tória narrada em uma sequência do filme. Vale a pena explorarmos
agora o conteúdo tendo em vista uma discussão sobre o que eles
mostram da cidade.

A CIDADE OU AS CIDADES INVENTADAS NOS FILMES:


AS HISTÓRIAS DOS NARRADORES
DOS BAIRROS PERIFÉRICOS

Nos três filmes, pretendia-se também questionar não só a fonte


de pesquisa, que é o entrevistado, no que se refere a horizontes de
possibilidades criadas de historicizar na negociação da interlocução,
mas também preceitos ideológicos rígidos. É comum se trabalhar
com documentários sobre personagens que vivem no espaço urba-
no, polarizando a atenção sobre a vida na cidade em avaliações mo-
rais que remetem ao certo ou errado, ou ao que merece ser denun-
ciado ou merece ser exaltado. Em um dos polos aparecem aqueles
produtos audiovisuais sustentados pela construção de uma imagem
de beleza estética e ética, que tenta fortalecer uma visão excitatória
ou triunfalista da personalidade no espaço. O outro polo teria como
objetivo usar o vídeo para denunciar algo inaceitável, quixotizando
a pessoa em foco, dando a ela um caráter revolucionário, ou ainda
colocando-a em condição de grande vítima do “sistema”. Há uma
espécie de polarização moral entre o certo e o errado nessas duas
perspectivas. Nos três documentário aqui discutidos, os diretores e
autores pretenderam superar a dicotomia entre o certo e o errado,
articulando em um mesmo vídeo perspectivas e práticas diferentes
de como ver e agir no espaço urbano, abordando aspectos pouco

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


141 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
explorados ao se tentar tematizar os personagens que vivem nas
cidades e a relação entre o pesquisador e o pesquisado. Aqueles
que são pesquisados nos filmes em sua maioria possuem trajetó-
rias pessoais de migração. Tinham como objetivo vir morar em uma
“cidade maior”, tendo em vista melhores condições de vida. Os au-
tores pretenderam explorar o morador apaixonado pelo seu local
de moradia, mas que não necessariamente nasceram na cidade e
não conseguiram o prestígio econômico almejado, não no sentido
de exaltar o que é particular à cidade escolhida como locação, ou
vitimizar o personagem em foco, mas tendendo a discutir astúcias
pessoais que acontecem em qualquer outra cidade que se apresenta
como polo regional, atraindo moradores de outras localidades para
tentar “melhorar de vida” naquilo que acabam se engajando. Apesar
da adversidade, investem e usam a cidade criando e promovendo
seu espaço de moradia.

Toda esta discussão pretende desconstruir outras visões comuns


sobre o tema escolhido. A primeira se refere à visão do sertão nor-
destino como um espaço rural, árido, quase desértico, com uma po-
pulação folclorizada no personagem do “sertanejo” com roupa de
couro, chapéu arredondado e com pouca instrução, visão esta que
já está sendo discutida no primeiro capítulo deste relatório de pós-
-doutorado, mas que vale a pena aqui ser lembrada, pois ela orienta
as opções feitas para reflexão sobre o conteúdo dos filmes. Entre-
tanto, não aparece a cidade no singular, mas as cidades, em alguns
momentos com moradores antenados com aquilo que acontece nas
grandes metrópoles ou não. Só que a cidade vista a partir do bairro
onde moram e que são responsáveis pela sua construção.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


142  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Um exemplo concreto do que se fala é o documentário “Vida e bair-
ro: Vila União” (curta metragem de 12 minutos) dirigido por Josiany
Oliveira. Ele tem como proposta mostrar a história do processo de
ocupação urbana organizada por determinados segmentos da Igreja
Católica que culminou na criação do bairro Vila União. Dois dos
interlocutores principais da pesquisa já haviam morrido: Maneco e
Maria dos Tijolos. O problema é que, no caso do primeiro, não havia
registro audiovisual feito com ele. Somente existia no Labome uma
gravação de áudio que, somando os encontros que tive com ele, tota-
lizam quase nove horas de gravação.
Maneco foi um dos únicos moradores da cidade que me procu-
raram para dar entrevista, pois queria registrar para posteridade a
sua experiência na Vila União. Para ele foi uma experiência pioneira
na cidade. Não só isso, como ele mesmo diz no filme que se inicia
com fundo preto, aparecendo depois somente uma foto sua três por
quatro com a mensagem “in memóriam”, única imagem que con-
seguimos com sua esposa: “Quero voltar à história da Vila União
porque eu acho que ela tem a ver com a minha vida também, certo?”
O tom biográfico de sua afirmativa revela o desejo do narrador de
confirmar esta experiência como significativa para sua existência.

Na época da entrevista em, 4 de julho de 2001, eu não possuía a


competência nem os recursos materiais necessários para a realização
do objetivo de Maneco, que era a produção de um documentário so-
bre essa história da ocupação do bairro Vila União, apesar de achar
que seria uma ideia interessante. Foi a única “ocupação” urbana ou,
como ele mesmo diz, “invasão”, já que o narrador não vê a diferença

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


143 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
entre os dois termos, mesmo sabendo da conotação ideológica do
primeiro, quando houve um planejamento urbanístico racional por
parte daqueles que organizaram o processo. Ele era formado em Tec-
nologia da Construção Civil, o que ajudou a fazer uma planta baixa
do espaço com o planejamento do arruamento, calçadas e lotes.

São comuns nas cidades as ocupações urbanas que não são ori-
ginárias de loteamentos propostos pelo poder público, um processo
quase “espontâneo” de composição dos lotes para construções de ca-
sas. Nestes casos, o arruamento quase não existe, não há linearidade
na composição dos lotes, o que dificulta uma urbanização posterior.
Não foi o caso da Vila União. O tabuleiro de xadrez é visível em
alguns lugares do bairro, inclusive com planejamento de praça e
traçado prevendo a configuração do terreno com todos os acidentes
e objetos que se achavam na sua superfície.

O processo de ocupação da região que viria a ser Vila União


ocorreu em 1992. No filme, a partir do momento em que o narra-
dor começa a contar a história, ela ganha continuidade na fala de
outros narradores. O que importa no documentário não é o que as
pessoas estão fazendo, que geralmente é usado no método evento-
-sequência de produzir documentários, nem uma temporalidade de
atividades encadeadas, mas a história que está sendo contada. As
imagens focam os narradores e suas falas, exceto quando aparecem
as lembranças de Maneco, que são cobertas por imagens do bairro
ou de fotos antigas conseguidas na Cáritas Diocesana de Sobral, que
mostram o processo de ocupação em 1992. Imagens do filme “So-
bral no plural” também são usadas para cobrir a fala de Maneco em

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


144  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
alguns momentos, principalmente quando ele fala de seu parceiro
no processo, o ambientalista Osvaldo Aguiar. No Labome existem
dois registros de entrevista com Osvaldo: o do filme “Sobral no plu-
ral”, que foram captadas em 2010, e de outro momento em 2009,
quando fizemos uma gravação mais longa. Este registro de 2009
foi usado para o filme sobre o bairro Vila União, quando Osvaldo
aparece. Quando Maneco fala de Osvaldo, as imagens de “Sobral no
plural” forma usadas. Os demais entrevistados reforçam a história
a ser contada, tratando de esforços individuais, desejos, dúvidas e
conflitos no processo. Todas elas foram registradas em tempos dife-
rentes, apesar de todas terem ocorrido em 2009, e não tinham com
finalidade a produção do filme, apesar do registro ser no sistema
audiovisual. O objetivo era o incremento do acervo permanente do
Labome. Dona Zeli cedeu entrevista em setembro, Dona Terezinha
em agosto, Ronaldo em novembro e Maria das Graças em junho. Em
determinados trechos falavam de suas experiências no processo de
ocupação, o que foi editado para composição do filme.

A história contada não pretende exaltar ninguém. Só pretende


respeitar o que cada narrador fala sobre si e seus atos. Entretanto,
a subjetivação da história está presente em cada fala, ressaltando
sua atitude “aventureira” no processo. Neste caso, o filme joga a
responsabilidade de qualquer ato exaltatório para os narradores. É
sempre ressaltada uma atitude heroica ao participar do processo. O
domínio da situação, apesar das dificuldades enfrentadas, acentuado
poder de observação das implicações da situação, as astúcias para
resolução dos problemas e a inflexão para pensar em “todos”, em
detrimento dos riscos individuais envolvidos, são valorizados nas

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


145 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
narrativas vistas no filme. As histórias contadas oscilam entre resu-
mos de experiências, ingenuidades e ironias ocorridas nos aconte-
cimentos, retratando inicialmente as dúvidas, os mal-entendidos, as
dificuldades de interação entre eles e o poder público, substituindo
paulatinamente este estado por um momento mais maduro, confian-
te e desabusado do processo.

Algumas anedotas aparecem como pontos de conexão com


uma imagem que está sendo construída de herói, sábio, solidário,
como é o caso de Dona Terezinha, que diz ter ajudado a todos em
seus lotes e “pegou o mais ruim...”. Um outro exemplo de anedota é o
caso de trecho do depoimento de Osvaldo, que lembra da ocasião da
ida dos moradores para o local de ocupação. Antes de 1992, os futu-
ros moradores da Vila União estavam em local chamado “Pantanal”,
localizado nos arredores dos bairros Alto da Expectativa e Alto da
Brasília. Era um local que alagava todos os anos e também era uma
ocupação, só que em área que trazia prejuízos anuais aos moradores
na época de chuva, o que justificava o seu nome. Maneco soube de
local da União (Governo Federal) que estava desocupado e resolveu,
com base em um cadastro de moradores que já possuíam, organizar,
juntamente com Osvaldo, o processo de remoção para o novo local.
Carro arrumado, todos se encontram no dia marcado e se pergun-
tam: “Quem sabe dirigir?” O problema é que ninguém sabia. Osvaldo
diz que, diante do problema, teve que aprender a dirigir naquele dia,
levando as pessoas para o local.

Os conflitos também se transformam em anedotas, dando vida


à história contada e chamando a atenção do expectador para as di-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


146  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
ficuldades enfrentadas, não só no ato pioneiro de “desbravadores”
que tiveram que pegar foice e enxada para retirar o mato que os
atrapalhava no processo, enfrentando a polícia, mas também resol-
vendo dificuldades internas de pessoas que invadiam o seu pedaço.
É o caso de Dona Zenir, que lembra do momento em que chegou em
seu terreno e havia outra pessoa limpando a área para construir sua
casa. Segundo o que ela conta:

… aí eu fui lavar roupa aqui numa barragem que tem aqui


nos terrenos. Aí um dia eu cheguei aí quando eu avistei
aqui nesse altinho eu vinha descendo aí quando eu vi o
“caboco” aí marcando. Aí eu deixei a trouxa de roupa lá
na minha irmã aí eu digo: seu Zé me diga aqui uma coisa
o que é que você “ta” fazendo aqui nesse terreno? “Não, é
meu terreno”. Eu digo: eu “to” marcando aqui como deve,
me diga aqui uma coisa como é que a pessoa ganha um
terreno duas vezes? O terreno é meu! Aí ele disse: “não!
Eu “to” marcando...” Eu digo: pois se você vai marcar eu
vou ficar aqui é você e eu que vai, vai ficar com o terreno
porque o terreno é meu “ta” aqui marcado já tem meu pa-
pelzinho botando o número da quadra aí ele, aí ele disse:
“não!” Aí eu: não mais eu digo: pois você vai ficar aqui.
Aí ele ficou desconfiado minha “fia” aí eu acho que eu só
vi esse homem nesse dia e não vi mais. (ARRUDA, 2009).

Cada narrativa fala do todo por cima de seus ombros, o que


enriquece as histórias. A coragem em enfrentar aqueles que tentam
se aproveitar da situação, é ressaltada na narrativa. A defesa do que
é seu é um valor inegociável nesta lembrança da narradora. Entre-
tanto, as dificuldades enfrentadas não se restringem aos conflitos
internos. Em alguns momentos os narradores aparecem como porta-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


147 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
-voz de toda uma “comunidade” na construção de um canal de co-
municação com o poder público para resolução de seus problemas,
como é o caso de Ronaldo, que afirma:

… temos “poblemas”? Temos! Temos muitos “poble-


mas”, mais nós também estamos tentando amenizar
isso mais que nós sozinhos, nós não iremos fazer
absolutamente nada se o próprio poder público não
tiver uma contrapartida, né? (RODRIGUES, 2008).

A ideia de “comunidade”, apesar de imprecisa em seu conteúdo,


é um forte aliado no discurso que visa a chamar atenção do po-
der público do que o narrador atribui como sua responsabilidade. O
problema não é somente interno e demanda uma atenção por parte
prefeitura, instituição pública que tem a prerrogativa de resolvê-
-lo, segundo o seu discurso. A “comunidade” precisa de moradia e
criou um mecanismo chamado “ocupação” para chamar atenção da
municipalidade para suas obrigações. Isso criou problemas sociais e
econômicos que merecem ser resolvidos, e o narrador se coloca na
condição de mediador da tensão entre eles e o poder público.

As dúvidas em relação à mudança para o local aparecem no de-


poimento de dona Graça, que também expressa o medo em relação
à fama de violência que a região já tinha. Ela diz que

[…] eu sempre pedi a Deus que não queria riqueza. Eu


queria que Deus me desse o pão de cada dia e uma som-
bra “pra” mim e “pra” minha família e graças a Deus foi
quando começou a, a invasão e eu não queria vir “pra
cá” não... “iche”! os Terrenos Novos “né” eu disse: Deus

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


148  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
me defenda! Chamava era As malvindas “né” [...] A gen-
te tinha amigo, a gente vinha na evangelização, o circo
bíblico “né”. Aí a gente vinha “né” “pros” Terrenos Novos
até “pra” casa do Diassis. Eu lembro demais do Diassis de
Mendes que é aquele que faz o programa na rádio “né”.
A gente vinha reunião na casa dele “né” aí lá eu olhava
“pra cá” tudo escuro só aquelas luzinhas acesas naquelas
barracas de papelão. Eu digo: eu! Que venho morar aqui!?
Deus me livre! “Né”, eu dizia assim... aí quando foi um dia
o Chico Massapê que é o primo, chamo primo que é primo
do meu marido, ele dizia assim: Prima, fale com o Maneco
prima, “pra” você arrumar uma casa, “pra” você arrumar
um “terrenozinho” “pra” você porque não dá mais “pra”
você pagar aluguel prima às coisas “tá” muito difícil. (Sil-
va, 2009)

O medo dos Terrenos Novos, bairro onde a Vila União acaba


sendo uma extensão, já criava fama na cidade na década de 1990.
A comparação com a guerra das Malvinas, conflito armado bastante
noticiado no Brasil, entre Argentina e Inglaterra, que aconteceu na
década anterior, acaba sendo lembrada como metáfora da violência.
Mesmo conhecendo a região no seu trabalho de evangelização, o
medo não é superado. Entretanto, a necessidade de moradia acaba
falando mais alto, e a narradora acaba se tornando líder comunitária
e ajuda no processo de “desbravamento” do local que era “escuro” e
“sombrio”. Ela e Dona Zelir informam no filme que a única luz que
existia era da fábrica de cimento da Votorantim, vizinha ao então
novo bairro.

Esta mesma lógica que ressalta uma subjetivação das narrativas


que contam sobre a história do bairro é seguida pelo filme “Suma-

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
ré: história, versões e gerações” (curta metragem de 13 minutos e
30 segundos) dirigido por Daniele do Nascimento. Neste filme, ao
contrário do anterior, o roteiro foi todo modificado no processo de
edição e montagem. No anterior não ouve modificações no roteiro
definido anteriormente e o decupamento foi facilitado pelo fato de
as entrevistas já estarem transcritas no acervo do Labome. No filme
sobre o bairro Sumaré, a bolsista era iniciante e teve que fazer a
captação pensando no filme que seria apresentado no III Visuali-
dades em 2011, assim como colaborar com o incremento do acervo
permanente do Labome. A ideia era contar a história do bairro a
partir de gerações diferentes: os jovens e os adultos. Nessa história,
os temas são diversificados e mais densos. Não pretende ter tema
único, como é o caso do que foi feito falando da Vila União. Não é
só o mito de origem o que está sendo explorado, mas também ques-
tões cotidianas como estudar, brincar, problemas sociais, violência,
paixão pelo lugar de moradia, dentre outros.

O Sumaré é um bairro resultante de processo de ocupação com


urbanização espontânea, o que repercute em arruamento irregular,
sem racionalização das quadras ou quarteirões. As casas são con-
jugadas e o material usado varia entre tijolos e barro batido, ao
contrário da Vila União, onde é raro se ver casas de taipa. Inclusive,
no filme descrito anteriormente, uma personagem que aparece em
destaque é a Maria dos Tijolos, responsável pela produção desse ma-
terial para comercializar dentre os então novos moradores do bairro.
Assim como Maneco, ela havia falecido, e é mencionada por Osval-
do no filme quando aparece uma foto sua, mas não houve registro
de entrevista com ela.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Os contrastes entre os dois bairros são grandes no que se refere
à racionalização na urbanização e construção das casas, mesmo que
em ambos as casas sejam pequenas e conjugadas, favorecendo o
reconhecimento social e, em certa medida, uma falta de privacida-
de nas relações de vizinhança. No Sumaré, a ocupação ocorreu em
meados da década de 1930, segundo o que contam alguns morado-
res, sendo um bairro bem mais antigo que a Vila União.

No início do filme aparece com fundo preto, após o título, um


letreiro informando que o nome Sumaré tem origem indígena e sig-
nifica “cheio de calombos e buracos”, o que remete ao terreno aci-
dentado da região, com muitos altos e baixos. Logo após aparece um
jovem rapaz chamado Leandro que fala ter pesquisado na internet
o que significa o termo e informa que é o nome de uma flor, mas
como ele mesmo fala, “e aí, eu não sei mais o resto da história”. Logo
depois aparece Dona Tetê, uma das primeiras moradoras, informan-
do, estimulada pelas perguntas da pesquisadora, que o nome inicial
do lugar era “alto do facão”, e justifica o termo pela “valentia” dos
primeiros moradores. O “facão” pode ser entendido como símbolo de
virilidade e força bruta de um anti-herói que defende sua “honra”
com sangue. É muito comum trabalhos acadêmicos sobre as “vende-
tas” no Nordeste, descrevendo conflitos entre grupos de familiares,
onde o facão é a arma que simboliza a melhor forma de matar32. O
curioso é como esse símbolo de virilidade que remete à violência
pode designar o nome de um lugar na sua origem.

Dona Rita e Dona Lúcia reforçam o rol dos pioneiros no bairro


em suas falas, ressaltando o quanto era pequeno o local em contrate
32 Cf. Costa Pinto, 1943. Cf. Marques, Ana Cláudia. 2002.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
com o tempo presente, que apresenta um bairro “grande e boni-
to”. O jovem Dandan aparece mostrando que no seu entendimento,
somente a “avó” dele saberia falar da história do bairro. José Mar-
ley, também jovem, reforça esse entendimento e cita Dona Mazô ou
Dona Marizô, senhora com mais de 90 anos, rezadeira e parteira no
bairro, como indicada para contar sua história. No trabalho de cam-
po percebi que o fato de ser rezadeira e parteira favorece seu reco-
nhecimento em quase todos os lugares em que anda no bairro. Cenas
emprestadas do material bruto do filme “Sobral no plural”, onde a
rezadeira aparece como uma das entrevistadas, são usadas no filme.
Nestas cenas Dona Marizô informa o marco temporal referencial do
mito de origem do bairro que se refere a sua chegada em 1934. Nas
suas palavras, “era só mato...”. Ela lembra da fala de seu pai:

“Óia, eu vou criar vocês aqui num alto muito boni-


to... nós vamos para um povoado tão bom!” Quando
nós cheguemos a estrada era uma veredinha, tem
mato para cá, mato para cá, só aquela casa de frente
que era do meu pai. Aí nós peguemos a chorar. Saí
da rua para vir para este degredo? Só mato! (NAS-
CIMENTO, 2001)

Ao usar o termo “só mato”, a narradora e os demais que aparecem


no filme direcionam suas histórias para a construção do mito de ori-
gem, remetendo suas lembranças a um tempo em que vieram para um
local inexplorado a ser dominado pela urbanização ou onde a cidade
está por chegar. O termo se refere à desolação e distância do mundo
civilizado da “rua” que, nos termos dos narradores, quer dizer centro
urbano, comercial e financeiro da cidade. É um espaço que deve ser

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desbravado ou colonizado por estes que aparecem no filme, princi-
palmente mulheres, que se qualificam como pioneiros. A aventura é
ressaltada nessa história de exploração do desconhecido.

Temas como brincadeiras de criança ou experiência escolar


passam a ser temas do filme, sempre no sentido de comparar as prá-
ticas dos mais jovens e dos mais idosos. Nesses temas, a diferença
maior parece ser a relação entre distância e proximidade do “mato”.
As brincadeiras parecem envolver mais atividades fora de casa ou
no meio do mato para os mais idosos do que para os mais jovens. A
escola também parece ser mais distante para os idosos.

Tia Crispina, apresentada por alguns moradores como a primei-


ra professora do bairro, aparece no filme. Ela ocupa essa função de
“primeira professora” motivada pela falta da escola no bairro em
seu tempo de juventude. Problema que parece não existir mais, na
visão dos jovens entrevistados. Leandro chega a dizer que já termi-
nou o ensino médio e vai tentar entrar na universidade. Tia Crispina
foi alfabetizada em casa, com um moça vinda de outra cidade, e
quando fez “carta de ABC” e “cartilha”, foi estudar no Luiz Felipe,
escola municipal próxima à prefeitura, em bairro bem distante. Na
sua época só tinha uma pequena escolinha que funcionava no ve-
rão. Na época (não informou o ano), principalmente no inverno,
as professoras não tinha acesso ao local por causa das constantes
enchentes do riacho Mucambinho, que corta o bairro. Com 19 anos
começou a atuar como professora na escola recém-construída, cha-
mada Mocinha Prado, hoje anexa à escola José Parente Prado, que
atende ao Sumaré.

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Outros temas acabam aparecendo no filme, como a dos movi-
mentos sociais. Quem fala sobre isso é Raimundo, que faz parte das
atividades das pastorais, de catequese, o que acabou desencadeando
em trabalhos sociais. A ocupação de terreno e mutirão organizado
para construir as casas ao lado da igreja do bairro, em 1995, foi
resultante de sua militância. Em 1998 foi fundada a associação co-
munitária do bairro, chamada Associação Construtiva São José.

Logo após o tema passa a ser o lazer e os problemas sociais.


Dona Rita lembra dos banhos no rio Acaraú, motivados pela neces-
sidade de ir buscar água, já que não se oferecia esse serviço público
no local. Ela não precisa o tempo histórico, mas fala de um momen-
to em que o bairro não tinha luz nem água encanada. A busca pela
água era sempre motivo de festa no rio. Dandan, que parece ser o
mais jovem dos entrevistados, fala do colorido atual do bairro, e da
sua beleza em comparação ao que era antes, sem precisar também
o tempo. Entretanto, lembra que a “melhora” acaba sendo acompa-
nhada de uma “piora”. Segundo ele, “o Sumaré pode ser um bairro
bonito, tanto antes como agora, mas se tem uma coisa que estraga
o Sumaré são os marginais” (SOUSA, 2011). Dona Tetê mostra-se
saudosa do tempo das dificuldades, justamente porque, segundo ela,
as pessoas podiam sair de suas casas em segurança e sem medo.
Dandan aparece novamente falando da imagem do perigo relacio-
nado ao bairro, mas relativiza, pois, segundo pensa, “todo canto tem
marginal”; portanto, não é algo exclusivo do Sumaré. Dona Rita
culpa as “drogas” como motivadora do medo e da falta de iniciativa
dos mais jovens em buscar trabalho. Alison, jovem morador, é mais

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radical na desconstrução da violência associada ao local. Ele conta
que é um bairro “super calmo”, não existem “brigas”, como o “pes-
soal” sempre diz, e que gosta muito de lá.

Raimundo aparece chamando atenção para outros problemas


no bairro, desta vez do ponto de vista ambiental. Destaca que a
habitação da região é desordenada e até criminosa em relação à
poluição do riacho Mucambinho, o que acaba também provocando
a poluição dos rios Jaibaras e Acaraú, repercutindo em problemas
na própria população do local. As “praias” já não existem mais e o
banho é quase proibitivo.

Na sequência final do filme, os jovens Dandan e Marley, assim


como Dona Rita e Tia Crispina, ressaltam a importância do bairro
para suas vidas, a conduta e o exemplo ensinados pelos vizinhos, a
vivência harmoniosa, os seus esforços em construir e consolidar o
lugar em que moram. Dandan chama atenção que, inclusive,

Se Deus quiser, eu vou rezar para que, quando eu


chegar a ter meu futuro, eu possa ter uma casa por
aqui por Sobral, para poder relembrar e levar a his-
tória do Sumaré para sempre e contar para meus fi-
lhos, para manter sempre dentro de meu coração a
história do Sumaré” (SOUSA, 2011).

O tom de inclinação afetiva, nesse caso, não se aplica ao passa-


do, mas ao futuro de um jovem que se mostra apaixonado pelo seu
lugar de moradia. No início do filme ressaltou que não sabia muito
da história do local, mas, no final, aparece se encontrando com uma

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história da qual, apesar de não conhecer muito bem, ele pretende
ser protagonista e historiador. O “trem”, cantado pelos idosos no
início e no final do documentário, expressa uma metáfora do filme:
“Tem um motorzinho que caminha para frente, tem um motorzinho
que caminha para trás. Esse vagão ainda tem lugar para quem quer
acompanhar...”. Essa é a história que se conta, que vem, que vai,
mas que sempre tem lugar para que possamos acompanhá-la para
onde for. O trem continua seguindo; o caminho, se vai ou se volta,
é o que menos importa. O que importa é a experiência subjetivada
no espaço.
Essa mesma lógica do processo de subjetivação acontece na
proposta do filme “Dom Expedito: cultura, arte e expressão” (curta
metragem de 9 minutos) dirigido por Thiago Castro. Só que, assim
como o filme da Vila União, tem um tema único: as manifestações
culturais do bairro, mesmo que pensadas de forma mais restrita às
manifestações artísticas. A cortina se abre e aparece o caminho que
sai do centro de Sobral e adentra o bairro Dom Expedito, localiza-
do na margem direita do rio Acaraú. O percurso simboliza a saída
do sítio histórico que, com a política de preservação do patrimônio
histórico, passou a ser visto como centro de intervenções do poder
público na promoção da política cultural, com a ECOA, Teatro São
João, Casa de Cultura, Escola de Música, dentre outros equipamen-
tos, adentrando em espaço distinto, que é próximo ao sítio histó-
rico, mas que resguarda peculiaridades com relação à produção de
manifestações culturais. A intenção do diretor e autor foi mostrar
que, mesmo com a centralização no sítio histórico dos investimentos
nas manifestações artísticas, o bairro Dom Expedito ainda tem vida
nesse campo.
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e visualidades na cidade de Sobral/CE
Entrando no bairro, a imagem, embalada por música incidental
de domínio público, apresenta a dança estilizada da quadrilha juni-
na, o desfile da escola de samba, a dança sertaneja coreografada, a
apresentação de rip-rop em palco montado na praça, o artesanato
vendido em feira no bairro, a roda de capoeira e a urbanização da
Margem Direita, que visava corrigir um contraste visual que opunha
as duas margens. De um lado tínhamos, até 2011, a Margem Esquer-
da, com equipamentos de esporte, calçadão para caminhada, anfi-
teatro, dentre outras estruturas, e do outro a Margem Direita, que só
apresentava pequenas casas conjugadas, que abrigavam moradores
menos abastados economicamente. Em 2011 foi inaugurada estru-
tura urbanizada com praça e ambientes para caminhada também na
Margem Direita, marcando a paisagem do bairro.

O primeiro depoimento é de Aucélio, professor de teatro e res-


ponsável pelas coreografias da escola de samba e da quadrilha juni-
na Estrela do Luar, que sempre representa o bairro no festival anual
de quadrilhas da cidade. Ele conta que o bairro é rico em talentos
culturais. Dalila, a presidente da quadrilha junina, e Marciano, pre-
sidente da Escola de Samba Acadêmicos do Dom Expedito, confir-
mam essa ideia. Este último, inclusive, ressalta o crescimento do
bairro em termos de “carnaval”. Nos anos passados, ele informa que
os expectadores esperavam as “Pedrinhas”, se referindo à escola de
samba do bairro rival. Entretanto, no presente, a agremiação de seu
bairro é a mais esperada, segundo o sambista. Imagens de arquivo
do desfile vão intercalando os depoimentos. Os discursos dos três
narradores exaltam as obras construídas sob a responsabilidade ad-
ministrativa e artística deles, mas sempre envolvendo outras pessoas

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
da comunidade nesse processo. Tentam mostrar paixão pelo que fa-
zem e pelo bairro, que acaba emprestando um determinado poder de
nomeação que extrapola esforços individuais, tornando imperativa
uma determinada conduta de engajamento coletivo, segundo o que
expressam. Ser do Dom Expedito parece ser merecedor de orgulho.
O sambista conta uma história desse processo que culminou no re-
conhecimento da escola de samba como uma das favoritas no car-
naval. Informa que iniciam a construção da agremiação em estágio
ainda meio infantil, de brincadeira. Entretanto, com o tempo vão
amadurecendo e ganhando um “corpo” mais adulto. Tudo começou
do nada. Lembra que não se tinha experiência, nem material, nem
carro, apoio, só boa vontade. Compara que hoje a escola de samba é
um filho que se criou e para o qual olha com carinho.

Logo após, Aucélio aparece falando de suas experiências no


bairro no campo do teatro. Trabalhou na escola de samba, na antiga
quadrilha “Arranca Toco”, na quadrilha também extinta “Atiçando
Fogo” e hoje na “Estrela do Luar”, sem deixar de ser carnavalesco
da Acadêmicos do Dom Expedito. Diante dessa experiência, o “casa-
mento de quadrilha” acabou sendo seu foco principal. Dalila apare-
ce conversando com os membros da quadrilha pedindo que devem
transmitir para as pessoas que é a maior felicidade delas estarem ali.
O rosto tem que mostrar esse sentimento. Depois ela aparece falando
para o diretor e autor do filme, informando que desde 2004 trabalha
com isso. Queixa-se somente que a comunidade deveria participar
mais. A participação é maior quando são promovidos eventos para
captação de recursos. Entretanto, nem todos reconhecem o trabalho,

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mostrando, em alguns casos, até desprezo. Na sua concepção, só a
comunidade ganharia com isso. O filme termina com um grupo de
dança com pessoas vestidas com trajes que lembram o sertanejo,
embalados pelo forró. Após os créditos que aparecem por cima da
dança, as cortinas se fecham.

A pergunta que se faz é: qual é a relação entre a prática de ar-


quivo, já que os filmes visavam à constituição de um acervo de en-
trevistas que viraram filmes, e a reflexão sobre a cidade de Sobral?
É isso que pretendo discutir agora.

A CIDADE, OS NARRADORES E O ARQUIVO

O mais importante nos filmes descritos não é sua estética, ape-


sar de não deixar de ser uma preocupação de seus autores. São
filmes testemunhais, que contam experiências selecionadas dos seus
autores com seus interlocutores, que são autores e diretores das
obras. O que importa não é somente o caráter de entretenimento
que devem ter; é também o registro, o arquivo e a transformação na
memória dos interlocutores, que, por si, já se sustentam na igual-
mente reveladora marca da modulação da lembrança, articulando
consciência coletiva e individual. A memória já é transformada pelo
narrador, como já vimos, na situação de comunicação construída
entre pesquisador e pesquisado. No filme ela é organizada de forma
a tornar-se ativa na construção de uma determinada forma de ver
o espaço em que o seu morador aparece como protagonista de sua
construção. Há uma transformação ativa da memória, que já é ativa
na sua tentativa de se inventar criativamente.

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Não dá para entendermos que o acervo arquivístico de docu-
mentos especiais, como os de entrevistas em suporte audiovisuais,
possam servir somente como fontes disponíveis de consulta. O filme,
penso eu, é uma forma eficaz de expressar as mensagens das entre-
vistas misturadas com as do autor e diretor. O filme pode se con-
trapor a uma sensação de que o arquivo é algo artificial, repetitivo,
mecânico, pois as exposições de documentos nos acervos parecem
transparecer que são estáticos. Há um excesso de informação versus
falta de criatividade e complexidade típica do registro de história
oral em alguns lugares. Entretanto, no Laboratório das Memórias
e das Práticas Cotidianas, não se pretende cometer esse erro. Cada
arquivo pode servir para inúmeras obras, assim como, por si, já são
fontes de criação de possibilidades de compreensão de inúmeros
temas. O Labome vem trabalhando nesse sentido, de usar o acervo
como recurso para criação de obras que possam expressar possibi-
lidades de compreensão das relações sociais e culturais da região.
Todo ano as produções são expostas no evento batizado Visualida-
des, que vem sendo realizado desde 2009. Nessa mesma lógica, as
fotografias também acabam tendo a mesma finalidade de exposição
de perspectivas e visões sobre determinados temas. No ano de 2011,
as artes plásticas e desenhos acabaram somando esforços nesse sen-
tido. Como dito, os filmes descritos foram apresentados na versão
de 2011 e possuem relação com a atividade de pesquisa orientada
por mim.

Os filmes mostram moradores selecionados que não são só pú-


blico alvo dos projetos de intervenção urbana da cidade. Não são
passivos às práticas administrativas do poder público local. São ati-

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vos e provocam este mesmo poder público a se pronunciar a favor
deles. Cobram, se mobilizam e não esperam acontecer. Nem todos
participam desta mobilização, ou concordam com aqueles que to-
mam a frente e se propõem a falar em favor de todos usando como
recurso retórico a ideia de pregar o desejo da “comunidade”. O bair-
ro, apesar de ser microcosmos da cidade, é também um lugar marca-
do por espacialidades ou territorialidades fluidas, mas que carregam
caracterizações que marcam propriedades específicas construídas
por seus moradores. O seu nome serve como designador na constru-
ção de classificações sociais de seus moradores. Classificações estas
que podem ganhar julgamentos morais, de acordo com a situação
de comunicação e os interlocutores envolvidos. Os narradores se-
lecionados se mostram apaixonados pelo seu bairro, apesar de em
alguns casos serem classificados como perigosos e violentos. Alguns
defendem o seu lugar como se tivessem defendendo a si mesmos,
pois entendem que sua existência e a forma como sua imagem pode
ser vista dependem da forma como os outros vêm o lugar em que
moram.

A versão da história contada pela monumentalização do sítio


histórico de Sobral apresenta uma defasagem diante do que os fil-
mes contam. A história monumentalizada ressalta a especificidade,
a independência, o pioneirismo, a opulência e, consequentemente, a
diferença pautada em um perfil de habitante genérico chamado “so-
bralense”. Na leitura, percebo que há claramente uma necessidade de
essa história não ser um mero reflexo da história do país. O “modo
de ser sobralense”, de fato, como já discutido aqui, tem relação com
uma posição política ou uma forma específica de ver o mundo e o

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
morador da cidade, e o sítio histórico acaba sendo o marco referen-
cial, em detrimento do que pode significar os bairros periféricos.

Apesar de não serem lembrados na história monumentalizada


e tombada como patrimônio histórico nacional, penso que os mo-
radores dos bairros selecionados adotam um método semelhante:
ressaltam especificidades, independência, pioneirismo, riqueza do
ponto de vista da capacidade criativa, destacando a diferença em
comparação com outros bairros. Nos discursos, o bairro não parece
ser um reflexo de uma história da cidade mais geral, nem somente
uma delimitação administrativa para a gestão otimizada das políti-
cas públicas. Claramente há uma posição política, moral e sentimen-
tal do morador diante de uma forma específica de ver o bairro, que
acaba se confundindo com seu mundo e com um morador genérico
e abstrato ancorado na ideia de “comunidade”. Há uma tentati-
va de resolução da tensão que aponta para uma convergência de
extensões e fronteiras, contra uma territorialidade fluida, segundo
o que mostram os moradores selecionados nos filmes. Entretanto,
esses limites vão além daqueles pronunciados pelo poder público
municipal. Os filmes ressaltam que, na verdade, é o morador quem
define esses limites. Alguns deles, sabendo dos seus opositores, que
também são seus vizinhos, tentam organizar os territórios para que
possam viabilizar suas ações na consolidação daquilo que pode fa-
vorecer um reconhecimento social que, nesse caso, deve se estender
para além dos limites do bairro. O morador do Sumaré, por exemplo,
deve ser reconhecido socialmente de uma forma positiva, não só em
seu bairro, mas também fora dele. Não só no presente, mas também

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no passado, ressaltando as proezas e aventuras que traçaram nessa
construção do bairro, e no futuro, quando poderão dizer para seus
filhos o quando é bom o lugar em que moram. Se não fosse o fato
de ter que lidar com grupos e pessoas que não partilham de senti-
mentos recíprocos dentre seus vizinhos, tudo estaria resolvido. O
conflito interno, portanto, favorece a mobilidade na constituição de
diferenças e identificações flexíveis desestabilizando arranjos está-
veis. O cruzamento móvel da tensão de perspectivas que disputam as
marcas de classificação que servem para construir as identificações
em conflito enriquecem e espaço praticado e dão vida a ele. Isso
mostra o “potencial da metamorfose” para o qual Gilberto Velho
(1999) chama atenção. A identificação social é multifacetada e de
estabilidade relativa.

Cada narrativa, na verdade conta sobre a história do local a


partir de sua forma de mostrar sua trajetória no bairro e as repercus-
sões que esperam criar a partir do que narram. Aqueles aspectos ne-
gativos são decorrência da impossibilidade de nos isolarmos daquilo
que afeta a cidade de uma forma mais geral. A violência, as dro-
gas, dentre outros aspectos, são consequências do nosso tempo e os
lembram de forma a mostrar que não possuem controle sobre isso.
Geralmente são fatores externos que chegam até eles, nos quais os
narradores não podem intervir, os responsáveis por aqueles aspectos
que podem dar um caráter negativo à identificação de seu local de
moradia. A violência, por exemplo, não tem um lugar próprio. Está
em outros lugares, assim como pode estar lá, próximo às suas casas.

Diante disso tudo, o mais importante nessas atividades que cul-

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minam nas obras apresentadas no Visualidades é a ideia de protago-
nismo histórico propiciado aos moradores dos bairros e a democra-
tização da participação dos indivíduos na construção da memória
social como forma, inclusive, de empoderamento, visando à mudan-
ça de condições sociais que os filmes podem promover. O arquivo
acaba sendo útil para essa possibilidade de ver a cidade a partir
deles e do aprendizado do pesquisador no trabalho de campo que,
no filme, imagina e tenta editar o que aprendeu.

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e visualidades na cidade de Sobral/CE
CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reflexões feitas neste relatório de estágio culminam em um


único argumento, também levantado por Scott (1999), e que apro-
veito aqui para adaptar aos meus. Já que não posso endossar um
princípio político único para onde as políticas públicas podem levar,
será preciso que repensemos nossa tradicional forma de pensá-las.
As opções não são mais as duas oposições radicais nas quais pode-
mos nos escorar: a tradição revolucionária que pretende reverter a
lógica do sistema capitalista e a tradição liberal do livre comércio,
da tecnociência e do desenvolvimento desenfreado.

De fato, as políticas públicas, particularmente aquelas que pre-


tendem preservar o patrimônio histórico nacional aplicadas em So-
bral, não podem ser pensadas sem seu caráter político-moral. Esse
caráter está inserido em um campo de disputa que se estende em
rede no espaço e no tempo histórico. O conflito, a instabilidade, a
descontinuidade e a densidade das transformações fazem parte desse
processo, tomando corpo nas relações cotidianas e tornando-se visí-
vel no espaço urbano. Não há unidade nas redes criadas para compor

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uma política pública. Ela é formada por conjuntos permanentemente
remodelados de interesses e práticas, jogando com virtudes, percep-
ções sobre a ética, aplicações de determinadas concepções estéticas,
com compromissos e aspirações econômicas e políticas.

Os operadores do processo precisam lidar com as críticas, com


as controvérsias e tensões ocasionadas pela implementação de mu-
danças no espaço e nas cabeças dos moradores da cidade, quando se
pensa em efetivar políticas de preservação. Por outro lado, a crítica
não é uma oposição às opções dos operadores do processo. Ela entra
na mesma lógica da falta de unidade entre os pares que questionam.
De fato, além de promover revisões, a política pública é um processo
impreciso e incerto de composição permanente de posições político-
-morais. A riqueza está na instabilidade das tensões provocadas em
redes de controvérsias. A disputa está sempre aberta, e novas pos-
sibilidades de comunicação se abrem. Não uma comunicação que
resulta de consensos, mas aquela que promove o movimento e a
diversidade. Dessa forma o termo político ganha visibilidade, o que
geralmente não tem quando se pensa na técnica e na ciência como
recurso de sua produção, ou na crítica à transformação de tudo em
mercadoria, já que essa última posição precisa ter uma conotação
imperativa com relação ao seu poder de verdade, contra a “mentira”
reforçada pela alienação.

No meu caso, a experiência pessoal com as modificações ur-


banas e estruturais em Sobral, após a implementação da política de
monumentalização da cidade, provocam desestabilização constante.
Nesse caso, não é mais possível experimentar o processo de modi-

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ficação espacial provocado pela política pública de preservação e
urbanização que a acompanha, como se fosse possível prever uma
transparência a ser revelada pela pesquisa. A pesquisa não desvela,
mas promove uma opacidade essencial do sujeito frente a si mes-
mo. Provoca a revisão de conceitos que pareciam firmes, por serem
científicos. O projeto de conhecimento que fazia uma distinção clara
entre cidade média e metrópole, relações provincianas e impessoais,
campo e cidade, dentre outras oposições binárias, me faziam pen-
sar que determinadas características do que seria uma metrópole,
por exemplo, quando aparecem em uma cidade média, podem ser
motivo de chacota ou exotização. Procurei rever meus conceitos
diante disso e pensar de forma diferente, tentando não exotizar ou
sobreinterpretar as modificações espaciais, sejam elas no sentido de
preservar uma tradição ou modernizar a cidade. Se consegui, só o
leitor pode julgar.

Aceitar ser afetado pela experiência de modificações urbanas


resultantes da vontade dos seus operadores supõe, todavia, que se
assuma o risco de ver projetos de conhecimento rígidos se desfa-
zerem. Não no sentido de se colocar ao lado do operador, mas, da
minha parte, encaixo essa carga energética promovida pelas modifi-
cações espaciais de um modo pessoal. Tenho um distúrbio provisório
de percepção ou uma modificação das dimensões; entretanto, não
necessariamente reproduzo as mesmas afecções do operador, que
pode, inclusive, estar completamente inafetado na aparência pelo
que foi feito na cidade. Aliás, a afecção que sofro não é resultante
somente de aspectos experimentados na cidade. É também resultado

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


167 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
de experiências múltiplas de vivências em vários lugares que ocupo
em outros lugares e tempos.

Aceitar “participar” como pesquisador na implementação de


políticas de preservação e urbanização da cidade e ser afetado não
tem nada a ver com uma operação de conhecimento por empatia,
qualquer que seja o sentido em que se entenda esse termo. Enten-
do o pesquisador como ser humano e, enquanto tal, como afirma
também Flusser (1998), é um ente essencialmente perdido, procu-
rando se encontrar. A decisão de adotar um caminho depende de
um mapa da situação, mesmo sabendo que esse mapa não é uma
expressão exata da situação, mas sim uma imagem mental cheia de
limites, entretanto com muitas possibilidades de escolha com rela-
ção ao percurso a ser escolhido. Portanto, a decisão de para onde ir
depende da posição das coisas e da imagem que fazemos delas. Por
sua vez, a imagem depende do ponto de vista, o que promove novas
perdições e buscas para encontrar-se. A constância dessa busca nos
faz perceber que a velha oposição entre “nós” e os “outros” não faz
mais sentido, assim como pensar o pesquisador dotado da verdade
por ser cientista, desqualificando a palavra do interlocutor em be-
nefício da promoção da sua, na verdade leva a uma armadilha por
fazer imaginar que o resultado da pesquisa significa desvendar as
trevas com as luzes da razão.

Por isso, falar de afecções, mesmo que de forma superficial e


seletiva, não se trata de apresentar subjetividades, representações,
pensamentos das pessoas e ações como um “naturalista” da socie-
dade, da cultura e do comportamento alheio. Também não se trata
de voltar-se para dentro de si, expondo sua subjetividade de forma

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
quase biográfica como promotora da transparência interpretativa
do mundo. É a promoção da despossessão de certezas e perda de
controle do todo e de si e aceitação de um desejo antes desconheci-
do sobre o que se pretende dizer do “outro”. Por sua vez, o “outro”
deixou de ser um ente distante, distinto e exclusivo na sua mani-
festação cultural e social. Nessa perspectiva reconheço a opacidade
da comunicação humana promovida pela pesquisa e a interferência
direta dos interlocutores no trabalho do pesquisador. Os que não
se relacionam com o pesquisador no tempo exclusivo da pesquisa
também interferem no trabalho. Isso quer dizer que a própria ideia
do “tempo exclusivo” da pesquisa tem que ser repensado, pois ou-
tras relações e outras temporalidades, assim como lembranças de
coisas que aconteceram no passado, que não são resultado direto do
investimento do pesquisador no trabalho de campo, podem intervir
diretamente na desterritorialização e reterritorialização do pesquisa-
dor. Para complicar ainda mais, reconheço que o “interlocutor” ou
o “pesquisado” não são só pessoas, mas também objetos, espaços,
temporalidades, discursos e processos. Um banco de uma praça, por
exemplo, quando incluído na paisagem, promove revisões de per-
cepções, comportamentos, discursos e afecções.

A forma de tratar a experiência promovida no trabalho de cam-


po pode ser múltipla. Aqui escolhi três: uma biografia que não é
exclusivamente biográfica, uma análise estrutural que não descarta
subjetivações cotidianas e a análise de imagens fílmicas de docu-
mentários que não são exclusivamente expressões da realidade, mas
expressão de conceitos construídos na relação entre interlocutores

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
que se apresentam como personagens da imagem técnica: os pesqui-
sadores e os moradores dos bairros periféricos.

Inclusive, vale a pena frisar que a imagem fílmica está sen-


do fundamental para divulgação dos trabalhos realizados que estão
vinculados aos projetos que desenvolvo, principalmente no sentido
de ampliar a quantidade de pessoas que têm acesso às obras resul-
tantes de meus esforços de pesquisa. A divulgação não está sen-
do feita exclusivamente no evento anual batizado de Visualidades.
Estou, juntamente com meus companheiros de trabalho, fazendo
mostras esporádicas na cidade de Sobral, em escolas ou no Centro
de Referência de Assistência Social – CRAS – de alguns bairros pe-
riféricos, onde trabalhos como os que desenvolvemos geralmente
não são divulgados. Nesses locais, a participação é intensa, não de
um público passivo que procura diversão, mas também sujeitos que
querem conhecer, perguntando sobre o processo de produção das
obras e se reconhecendo no filme, discutindo o cotidiano e os pro-
blemas sociais do local.

Pode parecer pretensioso, mas creio que estamos favorecendo


a criação de uma política de produção cultural que vai além do en-
tretenimento. Inclusive, é muito comum pensarmos que as pessoas
não gostam muito do documentário, por ser “maçante”. Como os
filmes que produzimos envolvem depoimentos de pessoas que são
reconhecidas pelos moradores dos bairros onde são exibidos, esse
tipo de filme passa a ser visto de forma diferente, chamando atenção
e criando interesse nas pessoas que assistem.

Vale a pena contar um exemplo que me marcou nessa trajetória


nesses momentos de exibição de documentários. No I Encontro de

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


170  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Jovens Produtores de Audiovisual da América Latina e Caribe, rea-
lizado em Sobral em 2012, uma das mostras do evento foram filmes
selecionados das três versões do Visualidades. O filme “Sobral no
plural”, dirigido por mim e pelo professor Paulo Passos, da Faculda-
de Luciano Feijão, desta cidade cearense, foi mostrado para mora-
dores do bairro Vila União no CRAS. O público era bastante variado
com relação à idade, indo desde crianças de 5 anos até senhores e
senhoras com mais de 80 anos. Durante a apresentação, os momen-
tos em que os entrevistados eram pouco conhecidos ou não faziam
parte do círculo de amizade ou de vizinhança, alguns se dispersa-
vam. Mas, quando aparecia o bairro Vila União, a alegria e alvoro-
ço eram ensurdecedores. Não só vibravam, mas também tentavam
prestar atenção nas imagens e no que se dizia do local, mesmo com
o barulho. No final aplaudiram bastante e alguns foram embora,
apesar do aviso de que haveria debate. Mesmo assim, as pessoas
que ficaram muito se interessaram em saber detalhes do que foi
discutido no filme, a concepção dos diretores com relação aos temas
sugeridos e o próprio conceito mais geral do filme. Alguns integran-
tes de um grupo de adolescentes pediram para mostrar o material
que produziram em audiovisual, feito com o celular de um deles. Era
um clipe de hip hop composto por eles. Depois que a apresentação
deles acabou, o debate foi retomado. Quando o debate acabou, um
deles, que parecia ser liderança dentre os outros, chegou para mim e
comentou: “somente vocês para fazer com que eu fique até o final.
Eu nunca fico muito tempo em atividades promovidas pelo CRAS”.

Confesso que essa era a reação que mais eu esperava: o reco-


nhecimento daqueles que não reconhecem o poder de verdade en-

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


171 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
quadrada e oficializada pelo poder público na forma de falar sobre a
realidade dos moradores da cidade. Não no sentido de me identificar
com o “oprimido”. Percebi que a obra que apresentava estimulava
a reflexão de todas as partes, incluindo aqueles que representam os
operadores do poder público, já que o coordenador do CRAS, que se
posicionou enquanto representante da prefeitura, também mostrou-
-se interessado em debater e disse ter aprendido muito com o filme.

Essa não foi a primeira vez que promovemos esse tipo de ati-
vidade. No bairro Sumaré, no final de 2011, já tínhamos feito algo
semelhante com apoio do SESC de Sobral, que ajudou com telão,
projetor e equipamento de som. Juntamos em uma quadra de es-
porte garotos e garotas do programa PROJOVEM, idosos e idosas do
grupo de idosos do bairro e alguns estudantes da escola de ensino
fundamental do bairro para assistir ao mesmo filme. A empolgação
foi a mesma. Em escola de ensino fundamental do bairro Pedrinhas,
também no final de 2011, a mesma atividade promoveu entusias-
mo e a reflexão de adolescentes de 9ª série, sempre com a presen-
ça dos diretores para discutir o filme com aqueles que assistiam.
Infelizmente ainda não promovemos mostras com os filmes do III
Visualidades que discuto nesse relatório, atividade que pretendemos
desenvolver ainda no ano de 2012, mas espero as mesmas reações.

Essas atividades demonstram a força da linguagem visual, par-


ticularmente o documentário, na promoção da reflexão sobre o espa-
ço vivido, inclusive naqueles que geralmente não são acostumados
com o audiovisual, a não ser na versão dos filmes e novelas exibidos
na televisão. Penso que seja um dos caminhos para realmente fazer

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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e visualidades na cidade de Sobral/CE
com que as pessoas tenham uma opinião sobre o patrimônio público
e possam participar de forma mais efetiva na discussão dos rumos
que a cidade pode tomar na implementação de políticas públicas,
sejam aquelas que visam à preservação, sejam as que pensam as mo-
dificações necessárias para melhorar as condições de vida dos mora-
dores. Principalmente se pensarmos que os documentários não são
somente filmes testemunhais de relações sociais e culturais. Não são
registros de realidades ou expressão concreta da vida das pessoas.
Também não são exclusivamente entretenimento. São instrumentos
transformadores de percepções e concepções rígidas, promovendo a
desterritorialização e reterritorialização constante quando o produ-
tor da obra desenvolve suas ideias no sentido de ser também partici-
pante do processo de reflexão e, ao mesmo tempo aquele que monta
a ideia com base em afecções sofridas na experiência concreta com
seus interlocutores, com o espaço, com as temporalidades, com as
instituições, objetos, discursos, com o aparelho e com o programa
proposto para finalização da obra.

O sujeito que pesquisa também é pesquisado e faz parte do pro-


cesso de sua investigação. É ativo em sua transformação e promotor
da reflexão e debate que pode culminar em ações concretas. Nessa
perspectiva, não é mais necessário pregar como estratégia política
de transformação da sociedade a ideia da “ciência aplicada”, como
alguns de meus colegas do meio acadêmico fazem, discutindo o
“retorno” que o pesquisador deve dar à sociedade que o financia em
seus projetos. Se o processo de pesquisa já é uma ação político-mo-
ral, ela promove não só a análise dos processos e relações sociais e
culturais a partir de uma linguagem própria do campo de formação

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


173 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
do pesquisador, mas também sua transformação em uma obra que
remete a uma concepção. Essa obra pode ser integrada a um proces-
so de comunicação que promova a reflexão e o debate, integrando e
desintegrando posições político-morais sólidas e essencialistas.
O mais comum é aquela postura do pesquisador como testemu-
nha quase que impessoal e inabalável que tem autoridade para falar
pelos “outros” e sabe mais do que “eles” próprios sobre suas “reali-
dades”, como já dito. No campo acadêmico, a linguagem usada, para
evitar controvérsias, acaba sendo colocada em patamar em que so-
mente seus pares possuem o domínio dos códigos para deciframen-
to. Mesmo assim, alguns são tão complexos que se tornam quase in-
compreensíveis para os “mortais” que não são formados na área de
atuação daquele que escreve. A pergunta é: para quem produzimos?
Para que produzimos? Por que produzimos? São perguntas que não
possuem respostas fáceis diante da cultura “produtivista” que, ape-
sar de falar de “inovações”, promove muito mais a repetição de
padrões e argumentos, já que algo muito diferente pode não facilitar
adesão dos pares que fazem a avaliação das obras. Por outro lado,
só podemos produzir se entrarmos nessa lógica, já que precisamos
de financiamento para nossos projetos e produção de obras, o que
prescinde de uma avaliação quantitativa de méritos estatísticos de
publicações em excesso e em veículos que sejam reconhecidos pelos
controladores das instituições e instrumentos de avaliação oficiais.
Nesse caso, o mérito não está somente em produzir em quantidade,
mas em lugares “priorizados” pelas instituições, instrumentos e me-
canismos de regulação dos méritos usados pelos seus operadores. O
pesquisador é obrigado a entrar nessa lógica para ser “alguém” no
mundo acadêmico.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


174  
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Esse é um jogo difícil e que carece de estratégias com que não
sou muito acostumado a lidar. O primeiro capítulo expressa isso. Essa
reflexão faz parte do processo de produção, pois afeta diretamen-
te no desempenho do pesquisador. Por isso precisa ser explicitado.
Tem relação direta com as outras alegorias construídas nos outros
dois capítulos: a do cientista como analista de determinados aspec-
tos da realidade social da cidade de Sobral e do pesquisador como
integrante de um coletivo de produtores culturais, mostrando seu
trabalho em outras linguagens. Inclusive, esta última alegoria, que
remete à transcodificação da linguagem acadêmica em audiovisual,
articulado à cultura de arquivo de documentos especiais (imagem e
som), é a que mais está me atraindo, não por ser melhor, mas por
favorecer a comunicação com segmentos sociais aos quais não con-
seguia chegar somente com a produção textual. Não deixei de me
comunicar com meus pares. Inclusive muitos deles também mostram
suas críticas e reflexões sobre o que produzo, juntamente com meus
colegas envolvidos no programa Visualidades, no formato visual. Só
estou ampliando o leque de possibilidades de interações com os que
estão fora da academia, flexibilizando e me “espalhando” pelas inú-
meras formas de expressão do pensamento. É essa minha “ambição”
e meu “pecado”: quero me “espalhar”.

Trajetos e memórias: patrimônios, narrativas


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ratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2009.(ZELI)

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FERREIRA, Antonio Manoel. (Depoimento, 01/08/07). Sobral, Labo-


ratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2007.

LIMA, Terezinha Rodrigues de. (Depoimento, 31/08/09). Sobral, La-


boratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2009.

MARQUES, Francisco Lucelio. (Depoimento, 28/08/11). Sobral, La-


boratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2011.

MESQUITA, Francisco José de Sousa. (depoimento, 26/10/07). So-


bral, Laboratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2007.

NASCIMENTO, Maria Cardoso do. (Depoimento, 13/05/09). Sobral,


Laboratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2009.

NASCIMENTO, Rita de Sousa. (Depoimento, 12/11/11). Sobral, Labo-


ratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2011.

NASCIMENTO, Teresinha Pereira do. (Dona Tetê). (Depoimento,


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PEDRO. (depoimento, 01/07/09). Sobral. Laboratório de Memórias e
Práticas Cotidianas, 2009.

POMPEU, Leandro Lopes. (Depoimento, 15/11/11). Sobral, Laborató-


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RIBEIRO, José Arteiro. (depoimento, 18/04/06). Sobral. Laboratório


de Memórias e Práticas Cotidianas, 2006.

RODRIGUES, Ronaldo Alves. (depoimento, 11/11/09 ). Sobral. Labo-


ratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2009.

SILVA, José Marley. (Depoimento, 15/11/11). Sobral, Laboratório de


Memórias e Práticas Cotidianas, 2011.

SILVA, Maria da Graças de Sousa. (Depoimento, 15/06/09). Sobral,


Laboratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2009.

SOUSA, Anderson Laureano de. (Depoimento, 15/11/11). Sobral, La-


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SOUSA, Antonio Loureto de. (Marciano). (Depoimento, 08/10/11).


Sobral, Laboratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2011

SOUSA, Lídia Ferreira de. (depoimento, 29/01/09). Sobral. Laborató-


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SOUSA, Lucia Maria Rodrigues de. (Depoimento, 12/11/11). Sobral,


Laboratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2011.

SOUSA, Maria Crispina Lima. (Depoimento, 12/11/11). Sobral, Labo-


ratório de Memórias e Práticas Cotidianas, 2011.

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183 
e visualidades na cidade de Sobral/CE
Filiada a

Este livro foi composto em fonte Rotis Serif, impresso no formato


15 x 21 cm, com miolo em papel off set 75 g e capa em supremo
250g, tiragem de 300 exemplares em dezembro de 2014.

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