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Raízes do

planejamento urbano
em Campo Grande
e a criação do
Planurb

Ângelo Marcos Vieira de Arruda


Câmara Municipal de Campo Grande - MS

Paulo Siufi Neto (presidente)


VEREADORES
Athayde Nery
Carlos Augusto Borges
Clemêncio Frutuoso Ribeiro
Cristóvão Silveira
Flávio César Mendes de Oliveira
Grazielle Salgado Machado 
Herculano Borges Daniel
Jamal Mohamed Salem
João Rocha
José Airton Saraiva
Lidio Nogueira Lopes
Loester Nunes de Oliveira
Magali Marlon Picarelli 
Marcelo de Moura Bluma
Marcos Alex Azevedo de Melo
Mário César Oliveira da Fonseca
Paulo Francisco Coimbra Pedra
Rosiane Modesto de Oliveira
Thais Helena Vieira Rosa Gomes
Vanderlei da Silva Matos

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Arruda, Ângelo Marcos Vieira de.


Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do
Planurb / Ângelo Marcos Vieira de Arruda. -- Campo Grande, MS : A. M.
V. Arruda , 2012.
120 p. : il.; 21,5 x 20,5 cm.

ISBN 978-85-909782-1-3

1. Planejamento urbano – Campo Grande (MS). 2. Instituto Municipal de


Planejamento Urbano (Campo Grande, MS) – História. 3. Campo Grande
(MS) – História. I. Título.

CDD (22) 711.4098171


Raízes do
planejamento urbano
em Campo Grande
e a criação do
Planurb

Ângelo Marcos Vieira de Arruda

Campo Grande
Mato Grosso do Sul
2012

EDIÇÃO DO AUTOR
Raízes do planejamento urbano
em Campo Grande e a criação do Planurb
Ângelo Marcos Vieira de Arruda

Capa:
Gutemberg Weingartner
Revisão linguística:
Lúcia Helena Paula do Canto
Diagramação e editoração eletrônica:
Marília Leite
Finalização de imagens e de arquivos:
Lennon Godoi
Fotolito, impressão e acabamento:
Gibim Gráfica e Editora
Fotos:
Acervo Planurb,
Acervo Arca,
Arquivos do autor e
demais créditos referenciados

Troféu comemorativo dos 25 anos de criação


do Planurb, desenvolvido por Ângelo Arruda
a partir do esquema ilustrativo do Plano de Massa
do Plano Diretor de Campo Grande (ver p. 81).
Prefácio

Juvêncio César da Fonseca


Ex-senador da República
e ex-prefeito de Campo Grande

O esforço de Campo Grande para instituir o seu órgão de planejamento ur-


bano é rico de fatos interessantes e de pessoas idealistas, inteligentes e capazes.
Em 1982 foram eleitos os vereadores da cidade, entre os quais eu me in-
cluía. Antes do efetivo início do ano legislativo, que se daria no mês de fe-
vereiro, nos reunimos e promovemos um seminário que tinha como tema o
planejamento urbano de Campo Grande, cuja iniciativa havia amadurecido
diante da evidente precariedade legislativa institucional para uma boa gestão
nessa área.
Eu e o vereador Fausto Matto Grosso lideramos essa iniciativa e realiza-
mos um seminário, que propunha a implantação do órgão de planejamento
urbano do município, em atendimento à imperiosa necessidade de dar o pon-
tapé inicial, assegurando a democratização das decisões municipais e, ao mes-
mo tempo, dotar o município, institucionalmente, de uma legislação urbana
moderna, que atendesse a vocação de crescimento da cidade.
O ordenamento inicial da malha urbana, contemplado no projeto de Nilo
Javary Barém, havia se perdido no tempo em razão do crescimento desordena-
do da cidade.

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A continuar como vinha, nossa cidade seria cos Arruda, que reuniu os melhores profissionais
ainda mais estrangulada, onerando os cofres pú- locais e envolveu a comunidade no nosso proje-
blicos em esforços que poderiam ser evitados. De to. Contratamos inicialmente apenas um ou outro
1983 a 1985, a Câmara Municipal trabalhou inten- técnico conhecido nacionalmente, sujeitando-se às
samente para convencer o executivo da prática do regras de aproveitamento e valorização dos profis-
necessário planejamento urbano, infrutiferamente. sionais locais.
Em 1985 fui eleito prefeito municipal. O nosso Elaboramos até o final da nossa primeira ad-
sonho ganhou força e imediatamente começamos a ministração, em 1988, o início do Processo de Pla-
trabalhar o projeto, que exigia uma equipe compe- nejamento Urbano e a implantação do Sistema Mu-
tente, com cultura e conhecimentos técnicos à altu- nicipal de Planejamento de Campo Grande. Foram
ra das expectativas daquele momento. Finalmente, preparados os projetos de lei de Ordenamento, Uso
pensávamos nós, Campo Grande iria contar com e Ocupação do Solo e dos Loteamentos Sociais. As
uma estrutura legal que asseguraria o nosso cresci- decisões haveriam de estar de acordo com a vonta-
mento mais ordenadamente. de da população. Eis aí a razão por que instituímos
o Conselho Municipal de Desenvolvimento Urba-
Ponto que destaco como importantíssimo foi a
no (CMDU), órgão popular e consultivo, composto
decisão de utilizar os recursos humanos locais. Não
de quase duas dezenas de entidades da comunida-
contratamos nenhuma empresa de fora, daquelas
de. Nenhum projeto poderia, daí então, prosperar,
que vendem o seu pacote de ideias e abandonam
ser encaminhado à Câmara, sem o parecer desse
o município após a conclusão do contrato. Apos-
Conselho.
tamos na capacidade da nossa gente, funcionários
que conheciam todas as nossas carências e que de- Em diversas oportunidades, os projetos do
tinham a nossa cultura urbanística. Executivo foram substancialmente modificados
pelo CMDU e para melhor, graças à democratização
Promovemos com o Instituto dos Arquite-
das decisões. O prefeito municipal é e será sempre
tos do Brasil (IAB) e a Associação dos Geógra-
uma figura forte, tem suas prerrogativas de iniciati-
fos do Brasil (AGB) um encontro com órgãos de
va das leis, mas nunca deve ser mais forte do que o
planejamento de várias cidades brasileiras, como
desejo da população.
São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Goiânia, For-
taleza, Vitória e outras, para trocar experiências, Com esse procedimento, antecipamo-nos à
críticas e análises sobre o funcionamento e a for- Constituição de 1988 que, pela primeira vez, falou
ma de inserção administrativa desses órgãos. O re- em processo de participação comunitária, de con-
sultado foi a criação da Unidade de Planejamento trole social na gestão pública. Os avanços alcan-
Urbano de Campo Grande, Planurb, considerada çados até o final de nossa primeira administração
como um órgão de última geração, que poderia (1988) adormeceram nos quatro anos seguintes. Os
desenvolver um excelente trabalho. Seu primeiro projetos foram abandonados e o esforço exercitado
presidente foi o arquiteto e urbanista Ângelo Mar- até então não mereceu continuidade.

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Em 1992, novamente fui eleito prefeito mu- tudo para melhor definir o futuro da cidade, com a
nicipal. Os projetos de desenvolvimento urbano e continuidade das tarefas afetas ao Planurb. Prefei-
ambiental foram retomados. Em 1993, grande parte to nenhum teria coragem daí por diante de gerir a
da equipe inicial voltou a ser reunida, sob o mesmo cidade sem o concurso desse órgão.
entusiasmo e dedicação de antes.
O trabalho do Planurb é contínuo, permanen-
Promovemos encontros com a participação de te, tal como se trata da saúde de um corpo que de-
técnicos renomados e políticos. Buscamos a partici- seja longevidade com qualidade de vida.
pação dos ex-prefeitos Olívio Dutra, de Porto Ale-
Temos esperanças de que nossos administra-
gre; Nion Albernaz, de Goiânia; e os prefeitos de
dores, como vem acontecendo, avançarão sempre
Vitória, Fortaleza, além do economista Paul Singer
mais e para melhor, inspirados na ideia de que a
e os arquitetos e urbanistas Raquel Rolnik, Ermínia
cidade é um ser vivo, que exige projetos que retra-
Maricato e Sérgio Zaratin. Promovemos ainda vá-
tem essa preocupação de modo permanente. Erra-
rios encontros regionais com o tema Campo Gran-
damente, pode-se pensar que agora é só executar
de – que cidade queremos. As decisões finais repe-
obras e pronto. A cidade está salva para o homem.
timos, sempre, sob a ótica nossa, da nossa cultura,
Sabemos que isto simplesmente não é verdadeiro.
da nossa memória, dos nossos sonhos de futuro.
O Planurb tem que ser prestigiado e acionado
Os estudos desenvolveram-se em conjunto
constantemente como instrumento indispensável
com o Plano Diretor, aprovado em dezembro de
ao nosso desenvolvimento ordenado.
1995, como o instrumento maior do Processo Per-
manente de Planejamento, dentro do Sistema Muni- As obras são importantes, indispensáveis, mas
cipal de Planejamento Participativo, instituído pela têm que obedecer a um propósito inteligente, que
Lei Complementar no 5, de 22 de janeiro de 1995. propicie o crescimento urbano, voltado sempre
para a satisfação integral dos anseios da comuni-
O Planurb é elevado à condição de Instituto,
dade, sob a ótica da cidade sustentável. Esse pro-
ganhando autonomia e mobilidade maior para
cedimento requer cuidados, é uma ciência, exige
continuar a tarefa do planejamento urbano da nos-
planejamento, razão de ser do Planurb, com seus
sa cidade.
25 anos de intenso trabalho e que continua a ser o
O nosso segundo mandato de prefeito mu- depositário das nossas esperanças de viver em uma
nicipal estava se expirando. Tínhamos nas mãos cidade ainda mais humana.

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AGRADECIMENTOS
 Neste momento de comemoração dos 25 anos de fundação do
Instituto de Planejamento Urbano de Campo Grande, agradeço o apoio, para elaboração deste trabalho,
ao Presidente da Câmara de Vereadores de Campo Grande Paulo Siufi e ao Vereador Marcelo Bluma;
ao ex-prefeito e ex-senador da República, Juvêncio César da Fonseca; ao arquiteto
Sérgio Zaratin, pelo texto que incorporei; ao arquiteto Gutemberg Weingartner, pela linda capa;
ao Arquivo Histórico de Campo Grande, pela cessão de imagens; a Marília Leite, pela
coordenação da editoração; ao amigo e arquiteto José Marcos da Fonseca;
ao Planurb e aos colegas que trabalharam comigo na equipe técnica e administrativa, em especial
Juares Echeverria, Rita de Cássia Belleza Michelini e Mara Márcia Fernandes de Moraes;
ao pessoal da Coordenadoria de Apoio aos Órgãos Colegiados (CAOC);
à esposa Ana Elizabete Arruda e aos filhos Moreno e Lucas Barros Arruda,
pelo carinho sempre dedicado; e a Deus, pela vida.
Vinte e cinco anos depois

Ângelo Marcos Vieira de Arruda


Arquiteto e urbanista
e primeiro diretor-geral do Planurb em 1987

No ano de 1987, por vontade política do Prefeito Juvêncio César da Fon-


seca, foi criado o Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urbanização
(CMDU) e a Unidade de Planejamento Urbano de Campo Grande (Planurb). E
eu participei direta e ativamente desses dois processos.

Vinte e cinco anos depois me pego escrevendo sobre essa história.

O livro que você vai ler conta a história da criação desses dois organismos
públicos municipais e para que essa história fosse bem contada, cuidei de pro-
cessar uma visão mais abrangente da cidade, de sua trajetória no planejamento
e, com esse olhar mais 360°, acabei construindo uma trajetória do planejamento
urbano em Campo Grande, e dei o nome de Raízes do Planejamento Urbano
em Campo Grande e a Criação do Planurb.

Durante anos, acalentei vontade de escrever este livro. Mas nunca fui in-
fluenciado. Sempre achei que outro poderia escrevê-lo. Até que um dia algo
aconteceu. E o que aconteceu foi ter somado 1987 com 25 e a conta ter dado
2012. Aí pensei. O Planurb que ajudei a criar completa 25 anos de fundação em
2012. Logo, é chegada a hora de fazer pesquisa e escrever algo.

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Campo Grande é uma cidade que teve um tatuto da Cidade sendo processadas pela socie-
comportamento político no planejamento urbano e dade, nascem o Planurb e o CMDU, organismos
uma trajetória urbanística, um pouco diferente de públicos municipais que considero fundamentais
cidades de seu porte e sua época de instalação. para dar sustentação às práticas técnicas e de-
mocráticas de planejamento, sem os quais, certa-
Mais de 100 anos depois de sua fundação, em
mente, não teríamos a qualidade de vida que se
1872, ela se transformou em capital de um novo Es-
tem hoje.
tado brasileiro – criado em plena ditadura militar,
instalado pelo general Ernesto Geisel – e teve um O livro está estruturado em cinco capítulos e
surto de desenvolvimento urbano inesperado, fru- anexos. O primeiro capítulo trata da evolução da
to das migrações e da necessidade de ultrapassar legislação urbanística de Campo Grande e a traje-
as fronteiras de cidade do interior do sul do Mato tória dos planos e normas do planejamento urba-
Grosso para capital do Estado de Mato Grosso do no, de 1905 a 1995. O capítulo 2 articula as atitudes
Sul em 1979. tomadas desde 1948, para se criar e estruturar o
órgão de planejamento urbano da cidade, com as
Esses são alguns bons motivos que fizeram de
ações de diversos governantes municipais. No ter-
Campo Grande uma cidade em crescimento acima
ceiro capítulo, comentamos a evolução da demo-
da média nacional, ganhando, por consequência,
cratização e discussão das ideias do planejamento
inúmeros problemas, como favelas, transporte ur-
culminando com a criação do CMDU. No capítu-
bano precário, necessidades de novas infraestrutu-
lo 4, abordamos os principais trabalhos pioneiros
ras e muitas instalações institucionais.
desenvolvidos pelo Planurb em 1987 e 1988 que
A pressão desses problemas era enorme e cria- deram unidade às ações daquele momento e, por
ram-se défices de atendimentos sociais jamais vis- fim, um texto atual, fruto da divisão regional da
tos e, com isso, a ferramenta do planejamento urba- cidade de 1987 e de 1995, as regiões urbanas. Nes-
no logo foi lembrada como essencial para estudar se capítulo, uma análise da cidade de 2010, com
e resolver esses e outros tantos problemas urbanos as referências da divisão consagrada pelo plane-
encontrados nas décadas de 1970 em diversas capi- jamento.
tais, mas que, em Campo Grande, foram ocorrer a
Ainda há muito para fazer em planejamento
partir de 1980.
urbano em Campo Grande, inclusive o maior forta-
Nesse clima de novidades políticas, da nova lecimento do Planurb. Mas isso é conversa para ou-
capital se instalando e de uma nova Constituição tro livro. Leia e conheça as raízes do planejamento
federal em discussão e com ideias para um Es- urbano em Campo Grande.

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Minha experiência no Planurb:
um depoimento

Sérgio Zaratin
Arquiteto e urbanista e consultor da
Unidade de Planejamento Urbano de Campo Grande
em 1987 e 1988

Foi com certa surpresa que, regressando ao Brasil em 1965, depois de um


período de perto de três anos no exterior, e tendo de recomeçar minha vida
profissional neste país, fui informado de que havia uma quantidade grande de
trabalhos de planejamento urbano sendo contratados por escritórios e empre-
sas do setor privado.
Nos anos no exterior, eu tinha praticamente trabalhado apenas em pla-
nejamento urbano e, quase nada, regional. Tinha sido o encarregado do pla-
nejamento de todos os núcleos urbanos de uma região de 16 mil km2 (mais ou
menos o dobro da Grande São Paulo), com exceção da capital da província, que
se localizava também na região, e que tinha à frente de seu Plano um arquiteto
dedicado exclusivamente a esse trabalho.
A região sob minha responsabilidade contava com uma cidade de 95 mil
habitantes, uma segunda com 55 mil, duas ou três com populações entre 20 e
30 mil, e, pelo menos, que me lembre, perto de cinco outras com populações ao
redor dos 10 mil habitantes.
Minha função, além de organizar as bases e elaborar os planos diretores
desse conjunto de cidades, era fornecer as indicações para a localização, nelas,

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de todos os investimentos estatais para elas destina- estatal idealizado por Roberto Campos; confirmação
dos pelo planejamento do País. Tratava-se, portanto, disto vem dada no livro de Celson Ferrari dedicado
de um planejamento praticamente integrado on line, ao Urbanismo, no qual menciona o intuito do Gover-
como hoje se diria, no qual a elaboração do Plano vi- no Castello Branco de criar um Sistema Nacional de
nha acompanhada de imediato de sua implantação. Planejamento Local Integrado, intuito esse do qual
não se acham indicações nos períodos posteriores.
Minha surpresa no regresso se dava pelo fato
de ter ocorrido, há pouco mais de um ano, no Bra- Como quer que seja, o certo é que o regime de
sil, a famigerada, e autoproclamada, Revolução de exceção, em 1965, instituía um dispositivo de apoio
1964 (na verdade, um golpe – militar –, mas con- técnico e financeiro à elaboração dos planos munici-
tando com o apoio estratégico decisivo dos órgãos pais, criando, para tanto, vinculado ao Ministério do
mais poderosos da mídia, de amplos setores do em- Interior, e operando com recursos do BNH, o Servi-
presariado, do latifúndio, da classe média urbana e ço Federal de Habitação e Urbanismo (Serfhau) que,
de altos dirigentes de igrejas). O regime instituído por cerca de dez anos, até sua extinção em 1975,
após o golpe, tendo como um dos pilares de sua propiciou a elaboração de um número apreciável
ideologia a redução da participação estatal na eco- de planos municipais, com o que se consolidou uma
nomia, a privatização de diversos setores do capital experiência na matéria que não pode ser ignorada.
e dos serviços, a abertura irrestrita ao investimento
Com duas linhas de ação, a do financiamento
estrangeiro, a supressão de garantias trabalhistas
às prefeituras para a elaboração dos planos de seus
instituídas até então, não parecia o mais propenso
municípios e a da provisão de assistência técnica es-
a incentivar o planejamento, em especial, o urbano.
pecializada – para a apreciação de pedidos daquele
Minha primeira, e como iria verificar depois, financiamento, a orientação e acompanhamento, no
equivocada, interpretação do aparente paradoxo que coubesse da elaboração dos planos, sempre obri-
era a de que, confrontado com as dificuldades en- gatoriamente contratados com a iniciativa privada
contradas na implantação dos grandes conjuntos – o Serfhau constituiu o núcleo mais ativo de siste-
habitacionais, que começava a financiar, com o Ban- matização e inovação na disciplina do planejamento
co Nacional de Habitação (BNH), de forma articula- urbano no Brasil, no período. Pôde contar, para tan-
da às alterações na legislação laboral, o regime opta- to, com a colaboração de um nutrido grupo de pro-
ra pragmaticamente por promover o planejamento fissionais de diversas especialidades e provenientes
das cidades, de forma a remover aqueles obstáculos. de várias regiões do País, que procuraram trazer, de
forma desinteressada, o melhor de seus conhecimen-
Na verdade, o que vim a saber, bem mais tarde,
tos e experiências na matéria, para consolidar a me-
por depoimento pessoal de técnico e dirigente pú-
todologia que o órgão federal viria a adotar.
blico ligado desde o início à montagem da pauta do
governo da ditadura, é que teria havido intenção ex- A inovação mais efetiva assim introduzida se-
plícita desta de incentivar o planejamento das cida- ria a superação do conceito funcionalista, bastante
des brasileiras, de forma articulada ao planejamento mecanicista, que prevalecera na cultura urbanística

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no Brasil até então, sob a influência das posturas do para a elaboração dos PDDIs municipais e a adoção
movimento internacional de arquitetura moderna, do roteiro padrão orientador dessa elaboração, pelo
e que impregnara, por decorrência, o planejamen- Serfhau, repercutiram incisivamente no mercado de
to municipal, em favor de uma conceituação mais consultoria, dando origem à expansão de escritórios
abrangente, que passava a abordar os fundamen- e empresas do ramo existentes e a um grande núme-
tos econômicos e sociais da organização municipal, ro de novos, nem sempre devidamente aparelhados
procurando integrá-los, na elaboração do plano para as especificidades do planejamento, nem do-
diretor, aos aspectos do assentamento territorial e tados do capital de giro necessário às operações da
da urbanização. Daí a expressão que passou a ser espécie. Por outro lado, a exigência, então instituída
empregada para designá-lo, Plano Diretor de De- pela administração federal, aos municípios, de um
senvolvimento Integrado (PDDI). Acrescia, ainda, à PDDI, à maneira de um pré-requisito, para que finan-
integração pretendida, a abordagem e definição de ciamentos de infraestrutura pudessem ser liberados
propostas para a organização administrativa muni- para as prefeituras, funcionou como um incentivo às
cipal e a elaboração orçamentária. iniciativas locais de elaboração dos planos. De fato, é
O roteiro organizado, das diversas contri- enorme a quantidade de PDDI elaborado no período
buições para a elaboração do PDDI, amplamente de 1965 a 1975. Mas, o que começou a se revelar, de
divulgado por manuais do próprio Serfhau e de forma alarmante, ao final do período, foi que a maio-
entidades diversas estaduais, compreendia a pre- ria desses planos, uma vez elaborados, não chegou
paração de um conjunto de elementos técnicos, a ser objeto de implantação nem a gerar processos
assim dispostos: a) Estudo Preliminar, dedicado a de planejamento municipal de caráter permanente,
orientar o Plano segundo as peculiaridades do mu- sequer a influenciar de forma substantiva a forma-
nicípio; b) Diagnósticos, desdobrados segundo os ção e tomada de decisões na esfera local. O que te-
campos Econômico, Social, da Organização Terri- ria acontecido? Foi a pergunta que se colocou, ine-
torial e da Organização Administrativa da Prefei- vitavelmente, aos profissionais mais comprometidos
tura, incluída aí a Orçamentação; c) Prognósticos, com a disciplina do planejamento; por quais razões
nos campos da Economia e da Estrutura e Orga- a considerável massa de recursos financeiros e de
nização Social; d) Problemática e Política Geral de aparelhamento administrativo disponibilizados pela
Desenvolvimento do Município; e) Diretrizes, des- administração federal para o planejamento munici-
dobradas em Desenvolvimento Econômico, De- pal teria tido um resultado praticamente nulo na con-
senvolvimento Social e Organização Territorial; f) secução dos objetivos? Estava aberto o espaço para a
elementos de formalização e implantação, compre- crítica em profundidade da experiência do período
endendo o Plano Diretor Físico, o Manual de Orga- Serfhau, uma crítica que se fazia, mais que necessá-
nização da Prefeitura e a chamada Instrumentação ria, indispensável, para o empenho de se materializar
Legal do Plano. a ação planejada nos municípios brasileiros.

A disponibilização de recursos de financiamen- Tendo participado, seja na condição de mem-


to para a contratação de entidades do setor privado bro de equipes técnicas, seja como coordenador, de

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um número considerável de elaborações, completas butida na ideologia do regime de exceção, de que
ou parciais, de PDDI, e, mais, tendo podido viver, medidas de cunho apenas financeiro seriam capazes
no exterior, a experiência da operação do planeja- e suficientes para promover mudanças estruturais.
mento municipal como disciplina inserida no dia Esse segundo aspecto, com certeza, terá contribuído
a dia da ação administrativa e de governo, o grau para o baixo resultado da ação do órgão federal.
de minha insatisfação com o malogro da experiên-
3) Ausência de propostas concretas para a funda-
cia Serfhau era dos maiores. Talvez por isso, já em
mentação institucional da atividade de planeja-
1975, tenha construído, e procurado levar a debate,
mento nos municípios – aqui também a indigência
no que possível, a crítica a essa experiência. Posso
ideológica da ditadura se revela em sua plenitude;
dizer que dessa crítica deflui toda a minha atuação
certamente não terá passado despercebido aos líde-
ulterior, em processos de planejamento municipais
res do regime que a instituição brasileira, a partir dos
e regionais e no debate público das questões do de-
próprios textos constitucionais, não abrigava subs-
senvolvimento municipal planejado no Brasil.
tancialmente o exercício da política urbana, subsu-
Minha crítica à ação do Serfhau pode ser colo- mida esta de forma genérica no quadro das compe-
cada sucintamente segundo os pontos que passo a tências municipais; mas, ao inovar, mediante as duas
enumerar. reformas a que procedeu, em 1967 e 1969, na ques-
1) Concentração do esforço e canalização de recur- tão urbana, o regime limitou-se a criar a figura das
sos apenas para o Plano Diretor – com o descaso con- re­giões metropolitanas, na verdade, formações de
sequente de incentivos e meios para a implantação e superestrutura da urbanização, deixando sem qual-
operação permanente do processo de planejamento; quer tratamento específico a questão básica da polí-
como é sabido, e da melhor doutrina, um Plano Di- tica urbana mais corrente, e o possível avanço de sua
retor só faz sentido e logra condições de eficácia se gestão pela ação planejada nos municípios. Mais um
inserido em um processo permanente da disciplina fator de peso substancial a contribuir para a reversão
do fazer planejado. O descaso com esse preceito, que de expectativas experimentada pelo autoritarismo
se expressava na ausência de recursos para o custeio na sua tentativa de promover o planejamento local.
das ações de implantação, parece ter tido peso deci- 4) Atomização da elaboração do Plano por um con-
sivo no malogro da experiência Serfhau. junto de estudos isolados, que não confluem para
2) Direcionamento dos recursos de financiamento um documento institucional que o consubstancie
apenas para o custeio de contratações da elabora- materialmente – de ordem metodológica, esse aspec-
ção dos Planos com a iniciativa privada – conse- to do PDDI do Serfhau chega a parecer paradoxal,
quentemente, ausência de incentivos e recursos para na concepção que, com tanta pertinência, tinha pro-
a qualificação e o treinamento das equipes locais, às curado associar os aspectos econômicos e sociais do
quais caberia em definitivo a magna tarefa de levar desenvolvimento do município aos aspectos físico-
as propostas dos planos à concretização; expressão -territoriais; mas, na verdade, todos os Diagnósticos,
provavelmente de uma visão econômica vulgar em- Prognósticos, definições de Problemática e de Políti-

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ca Geral de Desenvolvimento e as Diretrizes segundo esse aspecto crítico, como que deriva das demais in-
os diversos campos temáticos, contemplados no ro- suficiências e dos desvios de perspectiva, embuti-
teiro padrão adotado, acabam por permanecer como dos no roteiro padrão da elaboração do PDDI, antes
documentos autarquizados, por assim dizer, autos- apontados (precariedade de previsões e descaso com
suficientes, que, carentes de previsão dos elementos o processo de planejamento e sua base institucional;
que propiciariam sua articulação orgânica, de fato, atomização da elaboração por um conjunto de ele-
não se integram; mais ainda, estando a formalização mentos não articulados organicamente; e elaboração
do Plano distribuída por outro conjunto de elemen- cominada exclusivamente às entidades privadas),
tos isolados (Plano Diretor Físico; e uma imprecisa e combinados, praticamente induziam as entidades
jamais especificada Instrumentação Legal do Plano), contratadas a se esmerarem burocraticamente, para
acaba por não haver um documento que expresse le- atendimento às disposições contratuais, na elabora-
galmente o Plano propriamente dito; na verdade, o ção dos aspectos menos polêmicos (Diagnósticos e
PDDI vem a ser um Plano que só se objetiva total- Prognósticos) que naqueles mais complexos e que
mente em seu processo de elaboração, e com esse demandariam a reflexão mais complexa e criativa
processo se confunde. Consequência concreta desse (Diretrizes, especialmente as físico-territoriais e ur-
aspecto problemático foi a alta autoridade municipal banísticas; elementos de formalização), resultando,
que, na maioria das vezes não versada na disciplina assim, os PDDIs, em volumosos conjuntos de docu-
do planejamento, e não tendo podido contar com o mentos técnicos, dos quais, perto de 90% dedicados
assessoramento de um corpo técnico treinado quan- à parte analítica e apenas um percentual exíguo à
to à concepção Serfhau, acabou por ignorar o Plano parte propositiva; mais ainda, essa parte, principal-
como instrumento válido de orientação de sua ação mente no segmento físico-urbanístico, com grande
administrativa, relegando o volumoso conjunto de frequência, se definia dos cânones de projetos funcio-
documentos do PDDI à peça da biblioteca da Prefei- nalistas herdados da tradição técnica, sem guardar
tura, quando existente esta, ou, mais frequentemente, um mínimo de correspondência aos resultados das
a adorno das estantes de seu gabinete, servindo ape- extensíssimas análises econômicas e sociais realiza-
nas para o cumprimento do papel de pré-requisito das, por mais este vício, frustrando as expectativas
para a solicitação de outros financiamentos, estes, de integração que o método Serfhau tanto enfatiza-
sim, de seu devido conhecimento e interesse. va. Seria quase o caso de se dizer, jocosamente, que
a sigla PDDI se havia convertido em PDDD – Plano
5) Descompasso entre os elementos analíticos da
Diretor de Desenvolvimento Desconjuntado.
elaboração (Diagnósticos, Prognósticos, Problemáti-
ca de Desenvolvimento do Município) e os elemen- Ter chegado, porém, a esse alentado quadro
tos propositivos estruturais (Política Geral e Diretri- de conclusões, não teria sido suficiente para ultimar
zes de Desenvolvimento do Município) e os voltados minha crítica ao formato Serfhau. É sabido que, em
à formalização das propostas (Plano Diretor Físico, arquitetura e urbanismo, e, por decorrência, no pla-
Manual de Organização da Prefeitura, Instrumenta- nejamento urbano, a crítica a um paradigma só se
ção Legal do Plano) – também ligado à metodologia, completa com a reproposição, com a apresentação

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de uma alternativa. Isto é o que me foi proporcio- C) Ausência de meios dinâmicos, na norma zo-
nado com o convite da Administração municipal nal, para internalizar e prover consequência a de-
de Salvador, na gestão do Prefeito Jorge Hage, em limitações e restrições, existentes e emergentes,
1976, para proceder à consultoria geral da elabo- emanadas de outros níveis de governo, que não
ração do Plano Diretor daquele município. Assim, o municipal, que também dispõem de competên-
no período de 1976 a 1979, tive a oportunidade, no cias específicas para interferir na localização dos
trabalho coletivo com a equipe do Órgão Central de elementos que configuram uso e ocupação do solo
Planejamento (Oceplan) da Prefeitura de Salvador, (especialmente quanto ao patrimônio histórico, ar-
de levar minha crítica a sua consolidação final, com tístico e monumental, ao meio ambiente, à infraes-
a reproposição dos conceitos e meios de elaboração trutura e à habitação de interesse social).
e implantação do Plano Diretor.
D) Precariedade das classificações das categorias
No mesmo período, foi-me propiciada, também, de uso, definidas, as mais das vezes, para fins de
a oportunidade de consolidar minhas posições críti- zoneamento, de forma pragmática e assistemática,
cas e minha reproposição com respeito à legislação com base na ontologia (perfil qualitativo) das ativi-
de zoneamento corrente, a qual começara a ser apli- dades e ações físicas que configuram o uso e ocupa-
cada em diversos municípios brasileiros, em 1966, no ção do solo, e não no que, de fato, importa, que é o
exercício, pela esfera municipal, do poder de polícia seu impacto e demanda à estrutura do assentamen-
administrativa para o ordenamento do uso e ocupa- to e ao meio ambiente.
ção do solo. Decorridos dez anos, aproximadamente,
E) Ausência de entendimento devidamente ho-
da aplicação do instrumento do zoneamento como
mogeneizado quanto aos institutos de que se
único, e hegemônico instrumento, desse ordenamen-
vale o ordenamento, com confusão frequente en-
to, as limitações e problemas desse instrumento já se
tre os conceitos de aprovação de projetos, licencia-
patenteavam, como a seguir exponho.
mento, autorização, permissão, conformidade de
A) Rigidez das permissões e proibições de locali- uso, tipologia de infrações, reservas legais de es-
zação de usos do solo com base apenas na definição paços e elementos da estrutura urbana e do meio
de perfis, características e delimitações zonais, ten- ambiente.
dendo a impedir as coexistências de usos distintos,
F) Necessidade recorrente, em consequência des-
que podem ocorrer, como se passam na chamada
ses problemas, de se proceder a sucessivas, fre-
cidade real, sem maiores problemas, e com enrique-
quentes, e muitas vezes, casuísticas, alterações na
cimento das oportunidades de encontro e convivên-
norma original, de forma a ajustá-la a situações de
cia humana e de atividades econômicas.
que não dá conta, tornando o corpo legislativo, em
B) Incapacidade do desenho zonal de dar conta das muitos casos, um emaranhado, de difícil entendi-
inovações emergentes na cidade, seja por conta da mento e manuseio, seja para os interessados que
inovação tecnológica, seja pela diversificação de pro- devem atender à norma, seja para o funcionário a
dutos gerados pelo mercado e indústria imobiliários. quem cabe sua aplicação.

16 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


No que respeita ao Plano Diretor, minha (re) e especialização profissional); definição das vincu-
proposição tinha início pela abordagem institucio- lações desses instrumentos aos planos;
nal. Tratava-se de superar a indigência da ação da e) regime de planejamento, compreendendo a ela-
ditadura quanto a esse aspecto, procurando, por boração e o debate público dos planos, as instân-
via legal, assegurar a existência, em caráter perma- cias da participação popular nesses processos, a
nente, do processo de planejamento, o qual deveria periodicidade da elaboração e revisão dos planos e
abranger o Plano Diretor, os demais planos que com o ajuste dos instrumentos de implantação por oca-
este interagem, os meios mediante os quais os pla- sião de cada revisão;
nos são levados à implantação, os regimes de ini- f) sistema de planejamento, compreendendo o con-
ciativa, debate, aprovação, revisão e atualização dos junto de unidades da Administração envolvidas no
planos e demais instrumentos, o que deveria obri- processo, incluindo colegiados com participação da
gatoriamente abrigar a participação da comunidade comunidade, critérios para sua composição e suas
em todas as instâncias do processo, retirando essa respectivas funções naquele processo;
participação do contexto retórico em que, então, g) obrigatoriedade de implantação e manutenção
com frequência, se inseria, para consagrá-la como do sistema de informações municipal, de base
instituição material e direito concreto da cidadania. geo­rre­ferenciada, servindo tanto ao processo de
planejamento e de implantação quanto ao amparo
Surgiu daí a primeira minuta da lei que viria
às ações correntes da Administração.
a ser denominada Do Processo de Planejamento e
Participação Comunitária. Por esse diploma, esta- Considerada a lei assim concebida, a inova-
belecia-se no município: ção se daria, em sequência, na montagem do Plano
a) obrigatoriedade da manutenção de um processo Diretor propriamente dito. Essa montagem come-
de planejamento permanente; çava por eliminar os Diagnósticos e Prognósticos,
b) definição dos tipos de planos que devem inte- Diretrizes e Políticas Gerais e Plano Diretor Físico,
grar esse processo e de seus conteúdos mínimos ou do formato Serfhau, fazendo a elaboração confluir
típicos; para um único documento final, que seria a lei do
c) definição dos vínculos de determinação e prece- Plano Diretor. Não se tratava, obviamente, de eli-
dência entre os planos desses diversos tipos e da minar as análises de estado e evolução, e projeções
vinculação aos planos dos atos da Administração; correspondentes, principalmente de demandas, nos
d) definição dos tipos e funções dos diversos ins- campos econômico e social, da organização territo-
trumentos de implantação das diretrizes contidas rial, dos serviços e equipamentos de infraestrutura
nos planos (legislação de ordenamento do uso e e sociais; pois sem essas análises, não há plano que
ocupação do solo; código de obras, edificações e se fundamente. Mas se tratava de fazê-las tendo em
instalações; código de posturas municipais; progra- vista expressamente a fundamentação e demandas
mação orçamentária; programas de urbanização, a serem consideradas e atendidas pelas diretrizes
equipamentos e serviços sociais e de infraestrutura; e proposições – não mais como peças autônomas
programações de comunicação social, treinamento e autossuficientes. Tampouco há de levar a sério

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 17


certas críticas formalistas e um tanto farisaicas que incorporar inovações tecnológicas e de mercado,
se fizeram ouvir à época, no sentido, óbvio, de que que estão a ocorrer constantemente.
um plano não pode determinar quais valores de
As inovações assim descritas vieram a ter-
população, renda, estratificação social, crescimento
mo, em Salvador, pela aprovação e promulgação,
econômico, tenham que ser atingidos no município.
respectivamente, em 1983, 1984 e 1985, da Lei do
Mas o que o Plano deve conter, obrigatoriamente, é
Processo de Planejamento e Participação Comuni-
o quadro de fundamentos, projeções e demandas
tária, da Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação
a serem atendidas por suas propostas, no mínimo,
do Solo e da Lei do Plano Diretor. Já ao longo desse
como uma satisfação que deve ser dada à cidadania
período, a experiência da capital baiana era repli-
à qual se dirige. Concebido dessa maneira, o Plano
cada, total ou parcialmente, a diversos outros mu-
Diretor tinha restabelecida sua unidade, superan-
nicípios, como Cotia e Mogi das Cruzes, na Gran-
do, de fato, o dualismo de que viera impregnado
de São Paulo, Registro e Mairinque, no interior do
pela metodologia do Serfhau.
Estado paulista. Estava, por assim dizer, criado,
No que respeita à legislação de ordenamento sem que essa jamais tivesse sido minha intenção, o
do uso e ocupação do solo, não se tratava, também, para­digma alternativo à concepção e metodologia
de rejeitar pela base o zoneamento como instituto; do Serfhau, que carregava embutida a expectativa
esse era conservado, porém, sem o caráter único e de, enfim, se lograr a consolidação do planejamento
hegemônico de que desfrutara até então. Tratava- como prática e disciplina material, inserida por in-
-se de utilizá-lo dentro das possibilidades limitadas teiro na ordem corrente dos assuntos da Adminis-
que contém, instrumento rústico que é, apenas para tração. E, mais que tudo, com os instrumentos (re)
conferir à estrutura do assentamento o desenho ge- criados, passível de ser cobrado dos governantes,
ral dado pelo Plano, utilizando-se concomitante e como um direito, pela cidadania organizada.
concorrentemente dentro da mesma norma, os ins-
Minha experiência no Planurb tem lugar qua-
titutos não zonais (exigências de reservas legais de
se que concomitantemente à que assinalei no Esta-
espaços e atributos físicos, de distâncias mínimas
do de São Paulo.
ou máximas entre diferentes usos do solo, de trata-
mentos de elementos do meio ambiente). Introdu- Inicia-se em 1986, quando recebi o honroso
zia-se, também, para que a norma pudesse ajustar- convite da administração do Prefeito Juvêncio Cé-
-se ao longo do tempo, sem muitas alterações no sar da Fonseca para ser o consultor geral da elabo-
desenho zonal, à emergência de novos arranjos das ração do Plano que então se encetava. Entre 1986 e
competências entre os níveis de governo e de pro- 1987, pude trazer, para o conhecimento da equipe
gramas diversos de natureza social, cultural e urba- formada pela Prefeitura para a elaboração, as pro-
nística, a figura das Áreas Sujeitas a Regime Espe- postas criadas em Salvador e aprofundadas com os
cífico. Tornava-se possível, dessa forma, manter a municípios paulistas. Eu pouco conhecia de Campo
integridade da norma original, ao tempo em que se Grande. Meus contatos com a cidade tinham sido
assegurando a necessária flexibilidade desta para poucos, apenas por ocasião de um projeto de arqui-

18 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


tetura que havia elaborado para o que viria a ser a bado, à sombra das frondosas árvores de sua pro-
futura universidade. No segundo e mais alongado priedade, com a equipe técnica do Planurb, para
contato é que se me foi revelando o perfil do muni- discussão das propostas do Plano; reunião que se
cípio – moderno, aberto à inovação e à qualidade, o estendeu até que a chegada da noite obrigasse a
que se expressava nas muitas oportunidades ofere- sua conclusão, pois não fosse isso não se sabe até
cidas para o trabalho técnico profissional. quando prosseguiria. Trabalho em planejamento,
neste País e no exterior, há perto, hoje, em 2012, de
O mesmo perfil que encontrava na equipe mo-
cinquenta anos; e posso dizer que, ao longo desse
bilizada para os trabalhos do Plano, sob a direção do
alentado período, não consigo apontar um exemplo
arquiteto José Marcos da Fonseca e a coordenação do
que fosse, de envolvimento da Administração com
também arquiteto Ângelo Marcos Vieira de Arruda.
a elaboração do Plano, equivalente ao que pude
Foi de fato estimulante o trabalho que pude desen-
presenciar em Campo Grande na década de 1980.
volver com essa equipe, principalmente pelo espírito
aberto que ela mostrava à apreciação das propostas O segundo episódio que conservo na lembran-
que eu trazia, e pela desenvoltura com que estas iam ça é o do envolvimento e da contribuição aos tra-
sendo, pelo trabalho coletivo, progressivamente re- balhos da norma de ordenamento do setor imobi­
finadas e ajustadas às peculiaridades do Município. liário do Município, particularmente na reversão do
Foi igualmente digno de nota o clima constru- partido fortemente ideológico que tinha impregna-
tivo e de tranquilidade em que se desenvolveu o do o zoneamento até então, traduzido na previsão
debate público das propostas do Plano, da base de de uma estrutura de adensamento sob a forma de
planejamento que se criava, e, por fim, da norma corredores dispostos ao longo de supostos traçados
de uso e ocupação do solo. A decorrência natural de transporte coletivo, que, na verdade, não se im-
desse processo viria a concretizar-se com a aprova- plantariam da forma prevista na concepção. De for-
ção bastante expedita dos três diplomas legais em ma construtiva e acurada na interpretação da rea­
que se consubstanciou o resultado da elaboração: a lidade urbanística de Campo Grande, e, inclusive,
chamada Lei do Processo, a Lei do Plano Diretor e com apoio em planilhas de simulação de formação
a Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo de preços de mercado de terras, a contribuição do
(LOUOS) como veio a ser denominada. segmento imobiliário revelou-se de suma importân-
cia no resgate da centralidade concreta da cidade no
Mas, o que, além do bom resultado obtido, vai âmbito da administração do uso e ocupação do solo.
estar para sempre gravado em minha lembrança
são, na verdade, três fatos, ou episódios, que me O terceiro episódio que cabe destacar é o da
permito brevemente relatar. O primeiro é o envol- geração da proposta para um grande parque cen-
vimento intenso da Administração e do Prefeito Ju- tral urbano estendendo-se ao longo do curso do
vêncio, em particular, nos trabalhos da elaboração. Ribeirão Prosa. De forma totalmente imprevista,
Envolvimento que se expressa de forma marcante essa proposta, que evoluiu, quase que como uma
pela reunião que promoveu, na tarde de um sá- antevisão, ao longo de trabalhos de definição do

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 19


zoneamento para as áreas do Centro-Norte da ci- edição do Estatuto da Cidade, a criação do Ministé-
dade, acabou por dotar a esta de um equipamento rio das Cidades e a instituição, por este, de um novo
de invulgar qualidade, que poucas cidades do País paradigma, consubstanciado na metodologia do de-
podem equiparar, e por se enriquecer tematicamen- nominado Plano Diretor Participativo. A uma análise
te, de forma definitiva, com sua destinação às ati- ainda bastante incompleta a que tenho procedido,
vidades e manifestações das nações indígenas. Em tanto o Estatuto quanto o método do Plano Partici-
minha vida profissional, esse episódio será sempre pativo me causam alguma apreensão, por não conte-
um dos que considero com o maior apreço. rem disposições mais concretas sobre o processo de
implantação dos planos e a garantia da continuidade
Não pude acompanhar o processo de implanta-
do planejamento municipal como processo perma-
ção das propostas do Planurb. Nos períodos poste-
nente. Essas são, todavia, conclusões ainda muito
riores ao da década de 1980 a 1990, pude levar à prá-
preliminares, que cabem testar e desenvolver. Foi por
tica, de forma total ou parcial, a experiência iniciada
essa razão que incluí, em programa de um pequeno
em Salvador e desenvolvida em Campo Grande, em
curso-palestra que estou preparando para a Frente
diversos municípios – Suzano, Embu, Ubatuba, São
Parlamentar da Reforma Urbana e da Cooperação
Sebastião, Mogi das Cruzes, Mairiporã, Santana de
Regional, da Assembleia Legislativa do Estado de
Parnaíba, Atibaia, no Estado de São Paulo, e, nova-
São Paulo, três módulos de crítica, respectivamente,
mente em Salvador, de 1998 a 2004. A avaliação que
ao paradigma Serfhau, ao que venho praticando nas
posso, hoje, fazer, a respeito da aplicação do para-
últimas décadas e ao do Ministério. Espero que algu-
digma que desenvolvi, mostrará resultados variados
ma luz se faça a partir dessas tentativas.
– alguns processos concretizados e convertidos em
práticas correntes, outros, interrompidos ou reverti- Como terá evoluído a implantação do Pla-
dos à quase completa paralisação. Posso ver com cla- nurb? O evento a que fui convidado, e do qual pude
reza o vezo iluminista com que me empenhei nessas participar, de comemoração dos dez anos de fun-
experiências, e a crença de que a simples formulação cionamento do Conselho Municipal de Desenvolvi-
legal quanto ao processo de planejamento, uma vez mento Urbano (CMDU) parecia apontar a uma si-
promulgada, teria por ela mesma um grande poder tuação de solidez e de continuidade do processo de
transformador. Na verdade, as coisas se passam de planejamento em Campo Grande. Será correta essa
uma forma um tanto diferente – as formas e condu- impressão? Creio que a oportunidade que, hoje,
tas tradicionais das administrações, caracterizadas nos une nesse evento, mais que uma comemoração
pelo pragmatismo vulgar e pela incapacidade de dos 25 anos do Planurb, pode ser de imensa valia
lidar bem com o apoio técnico, têm mostrado forte para uma avaliação, que é preciso acometer com fir-
resi­liência, mostrando que um esforço para se tra- meza, do estado em que estamos no que respeita a
balhar com a cultura das organizações públicas, no essa disciplina do planejamento, tão valiosa para o
sentido do avanço e da inovação, se faz estrategica- desenvolvimento dos municípios brasileiros, mas,
mente necessário. Por outro lado, no plano nacional, ainda, tão pouco assimilada no contexto sociopolí-
algumas inovações institucionais ocorreram, com a tico de nossa sociedade e das administrações.

20 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Sumário

Prefácio 5

Vinte e cinco anos depois 9

Minha experiência no Planurb: um depoimento 11

Introdução 23

1 As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 30

2 O processo de criação do Planurb 54

3 A democratização do planejamento e o CMDU 66

4 Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 74

5 Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 88

Lei no 2.503, de 4 de julho de 1988 109


Pioneiros do planejamento urbano em Campo Grande 115
Lista de siglas 117
Referências 119

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 21


Introdução

A preocupação com o planejamento urbano e com o desenvolvimento de


Campo Grande sempre esteve presente em diversos documentos – leis e planos
– desde sua fundação, em 1872. Data de 1905 a primeira lei municipal que faz
referências a temas da urbanização recente.
O Código de Posturas de Campo Grande, daquele ano, tratava, dentre ou- A cidade de
tros assuntos, de saneamento e de limpeza urbana, localização das edificações Campo Grande
e tamanhos dos lotes. A preocupação sanitária era a tônica da lei, pois a cidade, assistiu, durante
com pouco mais de 1.200 habitantes, segundo Themistocles Paes de Souza Brazil, muitas décadas, à
em seu relatório de 1906, de que fala Paulo Coelho Machado, em seu livro “Rua elaboração de leis e
Velha”, devia seguir o ritmo das outras capitais, principalmente Belo Horizonte, normas urbanísticas,
especialmente de
MG, que acabava de ter um Plano Urbanístico, elaborado no final do século XIX.
uso, ocupação e
Na primeira década do século XX, pela Resolução no 21, de 18 de junho de parcelamento do solo,
1909, foi elaborada e aprovada a primeira planta urbana da cidade, pelo enge- sem que houvesse
nheiro-agrônomo Nilo Javary Barém, com lotes numerados de 1 a 382, onde tra- a participação da
çava os passos iniciais para o ordenamento do crescimento urbano. Essa planta comunidade técnica
é o primeiro Plano Urbanístico de Campo Grande. A regularidade da malha ur- nem da empresarial,
política ou popular.
bana, usando a trama ortogonal, com uma grande avenida central, evidenciava
a utilização de um traçado europeu das cidades do século XIX.
Mas a grande formação do sítio atual estaria para acontecer com a de-
marcação do rossio de Campo Grande, por meio do engenheiro militar The-

Introdução 23
mistocles Paes de Souza Brazil ajudado por Leonel balho de demarcar terras na fronteira, teve contacto
Velasco. Na prática, o rossio da época equivale ao com tribos indígenas e pôde dedicar-se a pesquisar
termo hoje conhecido como Perímetro Urbano de os seus costumes descritos em livro, com desenhos
Campo Grande. O que foi aprovado e demarcado em bico de pena, publicado em 1936, na coleção
no começo do século, 6.540 hectares, é equivalente a “Brasiliana”, editado pela Companhia Editora Na-
18% do atual perímetro de 2012, e quando a cidade cional com o título “A vida entre os índios guaicu-
só tinha 1.200 habitantes. rus”, tomo 60.
O rossio de 1910, já era suficiente para abrigar Contudo, quem acabou elaborando o projeto
a população de 2010, que era de 786 mil habitantes da planta de Campo Grande foi o primeiro enge-
segundo a Fundação Instituto Brasileiro de Geogra- nheiro que residiu por aqui: Nilo Javary Barém, for-
fia e Estatística (FIBGE). mado em agronomia no Rio Grande do Sul – pro-
vavelmente na Escola de Agronomia e Veterinária
de Porto Alegre –, contratado pela Intendência em
A Planta Urbana de 1o de junho de 1909, passando a ser, também, o pri-
Campo Grande e o rossio meiro engenheiro servidor público. Apesar de di-
plomado em agronomia, Nilo Barém era perito em
agrimensura e em construções rurais, advindas de
No início de 1909, o engenheiro francês Emílio
sua formação na escola superior, o que lhe permitiu
Rivasseau esteve na vila. Era um agrimensor que
atuar como projetista e demarcador de terras.
prestava serviços à Companhia Matte Larangei-
ra, desde 1894, na fronteira com o Paraguai e que Com as reviravoltas políticas e com o entra e
se ofereceu ao Intendente municipal para os ser- sai de alguns intendentes no início do século XX,
viços de elaboração de um plano de alinhamento Nilo Barém chegou, inclusive, a ocupar o cargo de
das ruas. Rivasseau não elaborou a planta da Vila, Intendente municipal entre os meses de setembro e
embora desde 1906 houvesse uma autorização da outubro de 1910. Seu grande trabalho foi elaborar
Câmara para contratar os serviços profissionais, os rumos urbanísticos para Campo Grande, que, até
mas fez vários levantamentos nas propriedades ru- aquele momento, não dispunha de nenhum traçado
rais circunvizinhas e desenhou muitas plantas de de ruas. Na função de engenheiro municipal,
antigas divisões e demarcações de terras em Mato responsabilizou-se, também, pela aprovação de
Grosso, sendo, inclusive, de sua autoria um dos pri- projetos e expedição de alvarás de construção, na
meiros mapas da parte sul do Estado de Mato Gros- seção de engenharia, entre os anos de 1909 e 1920.
so, em 1919, e uma definição cartográfica da região Seu Plano de Alinhamento de Ruas e Praças
do Nabileque onde viviam os índios Guaicuru. de Campo Grande foi aprovado em 18 de junho de
Emílio Rivasseau trabalhou em Mato Grosso 1909, pela Resolução no 21, da Câmara de Vereado-
de 1890 a 1920 e foi funcionário da Repartição de res, cujo texto de denominação das ruas foi apre-
Terras, Minas e Colonização do Estado. Por seu tra- sentado pelo vereador José Vieira Damas. A planta

24 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


era ortogonal, com uma avenida central e principal da um tanto esparso, surgiu na bifurcação dos córre-
de 54,00 metros e as demais ruas de 20 e 25,00 m em gos “Prosa” e “Segredo”, e agora vai-se estendendo em
quarteirões de 100 a 150,00 m. Os lotes projetados terreno ligeiramente inclinado até o alto de aprasivel
collina, d’onde se descortinam magníficos panoramas.
eram de 40,00x50,00 m ou de 40,00x60,00 m e nume-
rados de 1 até 385. As ruas e praças que obedecem á um intelligente tra-
çado, são amplas, tendo duas avenidas – uma de 1200
A denominação das ruas pela Resolução da metros de comprimento por 50 metros de largura, e a
Câmara de Vereadores tinha a seguinte descrição: outra de 600 por 28 metros –, tudo em via de arbori-
partindo do sul para o norte, a primeira rua, Afonso sação. A praça principal está sendo ajardinada e será
Pena; a segunda, 7 de Setembro; a terceira, 15 de em breves dias um formoso logradouro publico. Ain-
Novembro; a quarta, Av. Marechal Hermes; a quin- da as arterias principaes de transito são illuminadas
ta, [...]. Do nascente para o poente, a primeira rua, com luz á kerozene, porém, já está aberta a concur-
rencia para a illuminação electrica. Existem já alguns
José Antônio; a segunda, 15 de Agosto; a terceira,
edificios de importancia, como o predio do Governo
Pedro Celestino; a quarta, 24 de Fevereiro; a quinta,
Municipal e a Escola Publica municipal, e outros de
13 de Maio; a sexta, [...]; a sétima, D. Antônio; a oi-
residencias particulares: nota-se uma verdadeira febre
tava; a nona, [...] e a praça entre a Avenida Marechal de construcção, apezar da carestia e difficuldade na
Hermes e a Rua 15 de Novembro. obtenção dos materiaes de construcção.
Logo após a implantação da Planta Urbana As condições climatericas da villa, e de toudo o muni-
e do Rossio em 1911, Eduardo Olímpio Machado, cipio de Campo Grande, são as melhores possiveis. A
morando em Campo Grande, foi convidado a es- temperatura media é de 24 gráos, elevando-se sómente
crever sobre nossa cidade para publicar no livro excepcionalmente á 29, e descendo algumas vezes á zero
e mesmo abaixo nos mezes de Maio a Agosto; as brisas
“Album Graphico do Estado de Matto Grosso”,
constantes amenisam os dias calorosos, e mesmo na es-
editado em 1914 em Hamburgo, na Alemanha. Ele
tação de maior calor as noites são agradabelissimas.
assim descreveu:
A villa de Campo Grande está situada no planalto Antes mesmo de encerrar a primeira década do
da Serra de Maracajú, n’uma altitude de 735 mtrs., século XX, Campo Grande já possuía os três instru-
pelos 20o 27’ 15” de latitude e 11o 36’ 53” de longitu- mentos básicos para o seu desenvolvimento ordena-
de o do Rio de Janeiro. Há pouco mais de dois anno, do: um perímetro urbano definido por lei (rossio),
era um villajo insignificante, contando apenas cento um traçado urbano da vila (plano de alinhamento de
e tantas casas, em sua maioria de páo á pique, e uns ruas e praças) e um Código que determinava a forma
1200 habitantes: actualmente possua cerca de 500 fo-
de ocupação do solo e de construção de edifícios.
gos, notando-se já um certo gosto nas construcções, e
contando com uma população fixa de nunca menos de O plano de expansão urbana já tinha suas di-
5000 almas. retrizes básicas: ao norte, áreas de terra onde atual-
O aspecto da villa, observada de qualquer das estradas mente se localizam a Universidade Católica Dom
que a demandam, é interessante e agradável á vista do Bosco (UCDB) e a Lagoa da Cruz (Mata do Segre-
viajante. O seu casario alegre e de feitio moderno, ain- do); à leste, até o atual Parque dos Poderes (Desbar-

Introdução 25
rancado); à oeste, até o Bairro Amambay (quartéis) trouxe grandes novidades para Campo Grande, em
e ao sul, pouco após o Córrego Prosa. termos urbanísticos: dividiu a cidade em zonas de
construção, criou a Zona Central ou Comercial, a
Com o rossio implantado, a cidade foi se estru-
Industrial, a Residencial e as Zonas Mistas.
turando com edifícios públicos, instalações milita-
res (quartéis, hospital) e, em 1921, foi aprovado um A questão do parcelamento do solo foi tratada
novo Código de Posturas contendo requisitos urba- em seu artigo 7o quando determina a testada míni-
nísticos importantes, tais como: a continuidade de ma do lote em 12,00 m e a profundidade de 30,00
vias com a mesma faixa de domínio e o primeiro m, exceção para a área central, que poderia ser de
bairro de Campo Grande – o Amambaí, interligan- 10,00 m (na região central as subdivisões de lotes,
do o sítio urbano aos quartéis do Exército, que se antes desta lei, eram de 20,00 m, no mínimo). A ori-
instalaram na parte oeste da cidade. gem do padrão do lote de 12x30 m de Campo Gran-
de data, portanto, de 1941.
A Resolução no 43, de 27 de abril de 1921, pro-
mulgada por Arlindo de Andrade Gomes, Inten- Mais importante que o tamanho do lote é o
dente municipal, estabeleceu o Código de Posturas que está escrito no parágrafo segundo, do Art. 9o:
do Município. “nos arruamentos deverão ser observados as áreas
de 20% (vinte por cento) para ruas e 20% (vinte por
cento) para as praças e jardins”.
Os projetos do Como no final da década de 1930, além das
Escritório Saturnino de Brito quadras originais de 1909 só havia o Bairro Amam-
baí (década de 1920) e o Cascudo (1936), atual São
Foi com o Escritório Saturnino de Brito, con- Francisco, esse dispositivo foi importante para re-
tratado para elaborar projetos de saneamento bási- gular as áreas de praças dos loteamentos aprova-
co, que a cidade, no final da década de 1930, já com dos de 1941 até a década de 1970.
mais de 20.000 habitantes, possuiu seu primeiro
plano de uso do solo, ao lado do planejamento de
expansão da rede de água e de esgotamento. 1948: marco do planejamento
Por força da Lei federal de 1937 e pelas dire- democrático e participativo
trizes do trabalho de Saturnino de Brito, em 1941,
é editado o Código de Obras da cidade, que deter- É de 1948 – com a aprovação da Lei municipal
mina o primeiro zoneamento dos usos e diretrizes no 24, de 6 de abril, assinada por Fernando Correa
para loteamento. Esse dispositivo legal foi aplicado da Costa –, a data de criação da Comissão do Plano
a todos os empreendimentos da cidade até o final da Cidade de Campo Grande, com várias atribui-
da década de 1960. ções, dentre elas, “elaborar o Plano Diretor para o
O Decreto-lei no 39, de 31 de janeiro de 1941, desenvolvimento e melhoramento da cidade” e “fi-
assinado pelo Prefeito Eduardo Olímpio Machado, xar as condições de loteamentos de terrenos para a

26 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


formação de vilas”. Nascia o embrião do Planurb e mitou zonas (definiu termos técnicos, núcleos indus-
do CMDU de hoje, em um só órgão municipal. triais, zonas agrícolas) e deu normas para construção
A Comissão era formada pelo Prefeito, dois ve- de todos os tipos, e, do artigo 423 em diante, tratou
readores, dois funcionários e seis cidadãos e pode- de loteamentos definindo que todos os projetos, antes
ria se servir de encarregados e solicitar “a admissão de aprovados, ficariam sujeitos a diretrizes da muni-
de urbanistas, sob contrato, para orientação geral”. cipalidade – o lote da área central baixou para 8,00 m
O termo “urbanista” aparece pela primeira vez em a testada e os demais, para 10,00 m; a área mínima
lei municipal – até então eram só os engenheiros –, continuou em 300,00 m2; as ruas mínimas com 9,00 m
reforçando a tese de que, com o crescimento urbano de largura e leito carroçável de 6,00 m; as áreas de re-
rápido, havia necessidade de se socorrer com con- creação obedeceriam ao índice de 16 m2 de área verde
sultores externos, fato que acompanha a trajetória por habitante do futuro loteamento; e a quadra máxi-
da cidade até os dias de hoje. ma ficou estabelecida em 300,00 m de comprimento.

Em 1959, na administração do Prefeito Wilson A partir da década de 1940, a população urba-


Martins, pela Lei no 663, de 30 de dezembro, que na de Campo Grande passou a dobrar a cada dez
estabelece uma nova estrutura administrativa de anos. Em 1950, eram 31.708 habitantes; em 1960,
Campo Grande, é criada uma estrutura colegiada dobrou para 64.934; em 1970, passou para 131.110
muito parecida com o atual CMDU: o Conselho de habitantes; e em 1980, já havia 283.653 habitantes
Planejamento e Urbanismo (CPU), como órgão au- na cidade.
tônomo de aconselhamento do governo para ques-
tões de planejamento e do Plano Diretor.
O CPU era composto de nove pessoas repre- O Plano da Hidroservice de 1968
sentando a sociedade – Associação Comercial, Acri- e de Jaime Lerner de 1977
mat, Lions Club, Rotary Club, proprietários de imó-
veis, Associação das Indústrias, engenheiros, OAB No final da década de 1960, impulsionado pelo
e associação dos médicos; e quatro do setor público planejamento do governo militar central, o municí-
– prefeito, secretário de Obras e Viação, chefe do pio de Campo Grande contratou seu primeiro Plano
Setor de Obras e Urbanismo e chefe do Setor de Es- Diretor, elaborado pela empresa Hidroservice Con-
tradas de Rodagens. sultoria. Plano Diretor de Desenvolvimento Integra-
Com a criação do setor de Obras e Urbanismo, do (PDDI), esse era o nome técnico adotado na época.
a questão da análise e aprovação de loteamentos O PDDI traçou um extenso diagnóstico da cida-
passou a ser administrada por esse órgão. de, em todas as áreas da administração. Deu diretri-
Em 1965, pela Lei Legislativa no 26, de 31 de zes para várias obras que foram realizadas ao longo
maio de 1965, a cidade passa a ter um novo Código dos anos, por exemplo, a Via Norte-Sul (margeando
de Obras, que trata de zoneamento, uso do solo, lo­ o Córrego Segredo e Anhaduizinho) e o minianel
teamento e posturas municipais. Em 468 artigos, deli- rodoviário; localizava a central de abastecimento de

Introdução 27
água da cidade (a atual Guariroba); propunha uma coletiva, de todos os moradores, para se transfor-
reserva onde atualmente se localiza o Parque dos Po- mar em um comércio de índices e de manchas urba-
deres (Parque do Leste); e criava o Núcleo Industrial. nas. Mudar a legislação para atender empresários
Do ponto de vista da política urbana, o PDDI, que queriam instalar seus empreendimentos em
apesar de burocrata e de ter sido elaborado sem a área cuja lei não permitia, era fato corriqueiro na
participação popular, pode ser considerado progres- década de 1980, quando a cidade explodia, em ter-
sista, pois propunha uma lei de uso do solo urbano mos de crescimento demográfico, por conta da sua
baseada nos princípios da normatização por zonas nova condição de capital.
de uso; uma nova legislação de parcelamento do
solo urbano que passou a exigir infraestrutura básica
nos empreendimentos de loteamento e outros. PLANURB e o CMDU: 1987
Todas essas propostas viraram texto legal con-
A cidade de Campo Grande assistiu, durante
tido na Lei municipal no 1.429, de 24 de janeiro de
muitas décadas, à elaboração de leis e normas urba-
1973, e suas alterações posteriores.
nísticas, especialmente de uso, ocupação e parcela-
O arquiteto paranaense Jaime Lerner que, como mento do solo, sem que houvesse a participação da
Prefeito de Curitiba e ex-diretor do Instituto de Pes- comunidade técnica nem da empresarial, política
quisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), ou popular.
tinha levado a cabo, naquela cidade, propostas urba-
nas que a grande imprensa divulgou como exitosas, O processo de planejamento ocorrido foi pu-
veio a Campo Grande, em 1977, a convite do prefeito ramente tecnocrático: contratava-se uma empresa
da época, engenheiro Marcelo Miranda Soares, e ela- para elaborar planos para a cidade crescer e se de-
borou um Plano de Diretrizes de Estruturação Urba- senvolver calcada nos ideais obreiros da época: pla-
na de Campo Grande, que contemplava a prioridade nos havia para dar sustentação às obras que seriam
no uso do solo combinado com um sistema viário e executadas com dinheiro público, a fundo perdido.
de transporte urbano por meio de corredores, que Nessa lógica, não havia necessidade de um ór-
resultou na Lei no 1.747 de 29 de maio de 1978. gão de planejamento urbano para pensar e repensar
Lerner elaborou uma proposta com a partici- a cidade; não havia a necessidade de construir um
pação de alguns arquitetos locais que à época tra- corpo técnico voltado para a formação em planeja-
balhavam no setor público, mas, o município não mento público. Dessa forma, se não havia planeja-
possuía, ainda, um órgão de planejamento urbano mento urbano municipal, não havia também diretri-
que pudesse acompanhar e monitorar a execução zes para loteamento, grandes edificações e outras.
das propostas, o que acarretou modificações seto- A cidade foi crescendo e, sem acompanha-
riais na supracitada lei, todas com a finalidade de mento ou monitoramento para corrigir as distor-
alterar o zoneamento, considerado rígido e implan- ções geradas pelas normas urbanísticas, mudanças
tado por meio de obras públicas. foram feitas na legislação, atendendo a interesses
A ocupação do solo urbano da capital de Mato já citados. Ao mesmo tempo, já na década de 1980,
Grosso do Sul foi deixando de ser uma atividade os índices de crescimento demográfico batiam nas

28 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


nuvens (8,02% ao ano): a migração se intensificara nicipal a criação de um órgão de planejamento ur-
com a nova situação de capital de Mato Grosso do bano com finalidade de estudar a cidade e propor
Sul e novo governo estadual se instalara na cidade, soluções para os problemas que estavam ocorren-
aumentando a procura por imóveis e áreas. do. Ao final de 1985, é realizado um seminário, co-
ordenado pelo IAB/MS com o apoio da AGB/MS e
Com esse quadro, era possível prever o que
da Prefeitura Municipal de Campo Grande, com a
acontecia naquele período: favelas surgiam da noi-
finalidade de discutir o modelo e o formato do ór-
te para o dia, em várias partes da cidade; não havia
gão municipal de planejamento urbano.
transporte coletivo suficiente, muito menos energia
e água potável; a rede de educação e de saúde não As propostas do Seminário foram concreti-
estava preparada para atender a demanda criada. zadas em 11 de março de 1987, com a criação do
Conselho Municipal de Desenvolvimento Urba-
O caos urbano se deveu, de um lado, à locali-
no (CMDU) e, em 8 de maio do mesmo ano, com
zação dos conjuntos habitacionais distantes do cen-
a criação da Unidade de Planejamento Urbano de
tro urbano e, do outro, à inexistência de infraestru-
Campo Grande (Planurb), vinculada à Secretaria
tura básica e de equipamentos sociais, como escola,
Municipal de Planejamento.
posto de saúde, posto policial, contribuindo para,
ao invés de resolver a questão habitacional, criar O CMDU, órgão composto de representantes
mais problemas para a administração municipal, de segmentos da sociedade e da municipalidade, e
aumentando investimentos em transporte urbano, a Planurb, órgão técnico de planejamento urbano,
pavimentação e outros e jogando a população para preencheram a maior lacuna deixada por todas as
locais distantes do centro de emprego. administrações anteriores. Nascidos em um mo-
mento de grande efervescência de desenvolvimen-
Mais do que isso: a inexistência de um órgão
to urbano e de crescimento desordenado, esses dois
municipal de planejamento urbano, que pudesse
órgãos passaram a pensar a cidade, em todas as
elaborar as diretrizes urbanísticas necessárias para
suas necessidades urbanísticas.
acompanhar o crescimento vertiginoso, contribuiu
para que os mais de 120 loteamentos aprovados na Depois de um ano de trabalho, a Planurb en-
década de 1980 desorganizassem o tecido urbano caminhou para discussão e aprovação, no CMDU,
pela descontinuidade das vias públicas, demarca- uma legislação urbanística para Campo Grande
ção das áreas destinadas à recreação e lazer e aos que contemplava, além do uso do solo urbano, o
equipamentos comunitários futuros sem planeja- parcelamento, o perímetro urbano e um início de
mento e admitindo sobras e pontas de quadra que legislação ambiental e de proteção dos bens patri-
hoje não servem para nenhuma construção pública. moniais da cidade.
Desde o começo da década de 1980, diversas Em dezembro de 1988, a Câmara de Verea-
entidades de classe, dentre elas o Instituto de Ar- dores aprovou a Lei no 2.567, que modernizava os
quitetos do Brasil - Departamento de MS, a AGB/ conceitos urbanísticos e entregava à sociedade uma
MS e a Associação de Engenheiros e Arquitetos de norma legal moderna e mais realista, em relação às
Campo Grande solicitavam do setor público mu- necessidades do município.

Introdução 29
Ao alto, Rua 13 de Maio com
primeiras instalações de
comércio (década de 1910).
Reprodução: Album Graphico do
Estado de Matto-Grosso.

Ao lado, Rua 14 de Julho


(década de 1920).
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

30 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


1
As raízes do planejamento urbano
em Campo Grande

Antecedentes históricos

Consta de diversos estudos sobre a ocupação de Campo Grande que tudo


começou em 1872 quando o mineiro José Antônio Alves Pereira, seus dois fi-
lhos – Joaquim e Antônio Luís – e mais quatro agregados chegaram no dia As raízes do
21 de junho1 e, à margem esquerda do córrego Anhanduizinho, ergueram um planejamento urbano
pequeno rancho de palha. de Campo Grande
estão presentes
No dia 22 de junho encontraram-se com um casal de habitantes do lugar: na história e em
o poconeano João Nepomuceno Ferreira e sua mulher Maria Abranches. Por- sua trajetória de
tanto, no ano da chegada do fundador da cidade, podemos afirmar que nove desenvolvimento.
habitantes constituíram a primeira população de Campo Grande. As heranças culturais
Nesse mesmo ano de 1872, o Brasil fazia sua primeira contagem popula- e urbanísticas são
cional: eram 9,9 milhões de habitantes e em Mato Grosso, 60.417 moradores intensas em todos
os momentos da
distribuídos entre Cuiabá, Corumbá, Miranda, Poconé e outras localidades.
cidade.
Poucos meses depois, nos meados de 1873, José Antônio Pereira retornou
a Monte Alegre, MG, e só voltou a Campo Grande em 14 de agosto de 1875
acompanhado de uma caravana com 62 pessoas. No local encontra um suces-

1. A data de fundação de Campo Grande deveria ser 21 de junho de 1872 e não a comemo-
rada em 26 de agosto de 1899.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 31


sor de José Nepomuceno: o mineiro Manoel Vieira A economia do lugar crescia com os negócios
de Souza que estava acampado com nove pessoas. de gado do Triângulo Mineiro e de outras localida-
As duas famílias montam nove ranchos, todos de- des. Os primeiros migrantes europeus começaram
salinhados, nas redondezas da atual Rua 26 de Agosto a chegar ao arraial e as casas comerciais, escola, e
e, assim, em 1875, a população de Campo Grande já outras necessidades humanas, foram implantadas.
era de 73 habitantes. O assentamento original da loca- Em 26 de agosto de 1899, ocorreu a emancipa-
lidade ocorreu à margem dos córregos Prosa e Segre- ção política, por meio da Resolução estadual no 225,
do, local agradável para os novos moradores. Desse e nasceu o município de Campo Grande com um
assentamento surgia a vila de Campo Grande e a traje- território de 105.000 km², desmembrado de Nioa-
tória do planejamento urbano da cidade. que, o sexto município do sul de Mato Grosso3 e o
Os primeiros edifícios começam a ser ergui- último a ser criado no século XIX.
dos. Dois anos depois, em 1877, José Antônio Pe-
De acordo com diversos historiadores de Cam-
reira ergueu a primeira igreja do arraial, em esteio
po Grande, pode-se estimar, em função do número
de aroeira e construção de pau a pique. A partir de
de eleitores registrados em 1892 e em 1898, que a
então, o povoado passou a ser conhecido como San-
população da sede do município em 1899 era de
to Antônio de Campo Grande da Vacaria. Em 1888,
328 habitantes.
funda-se o primeiro cemitério, nos cruzamentos
das atuais Ruas 15 de Novembro e 13 de Maio, ao Esse assentamento surgiu de forma a ocupar as
lado da Praça Ari Coelho2. terras férteis da região e seus moradores ora habita-
Em 1889, pela Lei estadual no 729, de 23 de no- vam ranchos às margens dos dois córregos centrais
vembro, foi criado o Distrito de Paz, pertencente ao ou estavam sediados em pequenas fazendas nas
município de Miranda. A região atraía contingentes proximidades da vila.
migrantes de vários lugares, especialmente aqueles A origem rural e mineira do assentamento do
com negócios de gado. Nessa época, multiplicaram- território conduziu a ocupação social e urbana. Há-
-se as fazendas nos arredores do distrito e a base da bitos e feitos nesse tempo eram todos vinculados à
economia local era a pecuária bovina, por causa da origem rural mineira do fundador e dos primeiros
grande quantidade de terras disponíveis. moradores. Ranchos foram erguidos na área mais
Nesse ano, mais de 30 famílias já habitavam o urbana da vila, mas muitos mantinham suas terras
lugar, seja nas fazendas do entorno ou em ranchos rurais para a prática pecuária, marca cultural da
na Rua Velha. Assim, em 1889, dez anos antes da cidade e de seu urbanismo: grandes propriedades
emancipação política de Campo Grande, algo em cultuadas de família para família, extensões de ter-
torno de 180 pessoas residiam aqui. ra a perder de vista.

2. Esta Praça, antes de sua atual denominação, era chamada de Praça Municipal ou Jardim Público e depois Praça da Liber-
dade.
3. Havia ainda Corumbá (1850), Paranaíba (1857), Miranda (1871), Nioaque (1890) e Coxim (1898).

32 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


O Plano de Alinhamento A vila em formação se comunicava com as de-
de Ruas e o Rossio mais regiões do Estado de Mato Grosso e do país
por meio de estradas boiadeiras, que penetravam o
A preocupação com o planejamento e o desen- sítio original a partir de várias entradas, e uma das
volvimento de Campo Grande esteve sempre pre- mais usadas era a estrada para o Pantanal, a oeste.
sente em todos os documentos e planos existentes, As saídas boiadeiras eram os limites oficiais da
desde sua fundação. Vila de Campo Grande e fortemente utilizadas, por
conta do intenso comércio de gado, nos meados do
Mas foi somente em 1905 que veio a aprovação
século XIX e, depois disso, com o fim da Guerra do
da primeira lei municipal que faz referências a te-
Paraguai, como caminho de passagem de pessoas e
mas da urbanização recente.
de comunicação com São Paulo e Minas Gerais.
O Código de Posturas de Campo Grande da-
No ano de 1910, outro engenheiro, Themisto-
quele ano tratava, como já foi dito, dentre outros
cles Paes de Souza Brazil, capitão do exército e peri-
assuntos, de saneamento e de limpeza urbana, loca-
to em matemática e geometria, inicia a demarcação
lização das edificações e tamanhos dos lotes.
do Rossio de Campo Grande, definindo-o em 6.504
Outra medida urbanística veio com a aprova- hectares, sendo 222 na área urbana, 1.314 para a su-
ção da Resolução no 21, de 18 de junho de 1909, que burbana e 4.968 para a zona rústica.
aprova a primeira planta urbana da cidade. Ao entregar o trabalho, em 1910, Themistocles
A regularidade da malha urbana, usando a preparou um Relatório onde analisa a vila em seus
trama ortogonal, com uma grande avenida central, diversos aspectos e diz que havia 1.200 moradores
como citada anteriormente, apareceu no urbanismo na área urbana de Campo Grande. Na prática, o
de Goiânia e de Belo Horizonte. rossio da época equivale ao termo hoje conhecido
como Perímetro Urbano de Campo Grande.
A planta da cidade continha um conjunto de
quarteirões com lotes médios de 2.500 m2, com O que foi aprovado e demarcado no começo
testada de 40,00 ou 50,00 m, de traçado ortogonal, do século, 6.540 ha, é equivalente a 20% do períme-
sendo a Avenida Afonso Pena – originalmente tro de 1997, e quando a cidade só tinha 1.200 habi-
Marechal Hermes –, a via mais larga, com 50,00 tantes.
m, enquanto as demais vias tinham 20,00 m de O rossio de 1910, já era suficiente para abrigar
largura. a população de 650 mil habitantes, e com um aden-
samento populacional excelente, em torno de 100
Essa planta histórica tinha como referências
hab./ha.
urbanísticas o traçado modernista e a sua implan-
tação obedeceu à lógica de instalação das pessoas Portanto, antes mesmo de encerrar a primeira
na época, ou seja, utilizando os córregos Prosa, ao década do século XX, Campo Grande já possuía os
sul, e o Segredo, a oeste, como limites referenciais. três instrumentos básicos para o seu desenvolvi-
A única rua povoada era a atual Rua 26 de Agosto, mento ordenado e um plano de expansão urbana
denominada de Rua Velha. com diretrizes básicas.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 33


Assim, podemos
afirmar que, em 11 anos,
a população cresceu a
uma taxa média geomé-
trica anual de 11,67%,
a mais alta de todos os
anos analisados neste
trabalho, saindo de 328
habitantes, em 1899,
para 1.200 em 1910.

Vários fatores con-


tribuíram para esse cres-
cimento populacional.
Dentre eles, a intensifi-
cação do comércio com
gado, a proximidade
com o principal muni-
cípio do Estado – Co-
rumbá, um dos mais
importantes portos do
interior do Centro-Oeste
brasileiro – por onde se
inicia a migração dos
principais comerciantes
da vila e o ponto de pas-
sagem obrigatório em
direção a São Paulo.

Naquela década, as
edificações existentes na
Vila se localizavam ao
longo de uma viela – a
atual Rua 26 de Agosto
Ao alto, detalhe da planta original do rossio de 1910 de –, chamada de Rua Velha, construídas em taipa,
Themistocles Paes de Souza Brazil. Acima, planta do usando madeira da região, com apenas um pavi-
Plano de Alinhamento de Ruas de Campo Grande mento. Rústica, a arquitetura evidencia sua época e
de 1909 de Nilo Javary Barém.
as condições sociais de seus habitantes.
Fonte: Arquivo Histórico de Campo Grande (Arca).

34 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Estrada de ferro da NOB e 1.200 habitantes em 1910 para 3.367 em 1920, com
o primeiro bairro, o Amambaí um crescimento médio geométrico de 10,87% ao
ano. Em 1919, segundo o Relatório de Humberto
Miranda , a cidade tinha 550 prédios cadastrados.
Com a criação do município de Três Lagoas em
1915, Campo Grande perdeu 45.000 km² de seu terri- Ao final do período, o traçado urbano da cida-
tório e sua área municipal passou a ser de 60.000 km². de cresceu para a direção norte, abrindo ruas até os
limites da Av. Mato Grosso. As larguras das vias e
Em 31 de julho de 1912, a Diretoria de Terras da
das quadras foram mantidas, obedecendo a dispo-
Secretaria de Agricultura de Mato Grosso aprovou a
sições urbanísticas vigentes. Na planta da cidade,
Planta do Rossio do Patrimônio de Campo Grande
cujo desenho foi publicado no livro “Mato Grosso”,
com 6.504 hectares de acordo com o projeto de The-
de Virgílio Correa Filho em 1922, as quadras acima
mistocles Brazil. Em 1o de novembro, o Intendente
da Av. Mato Grosso eram lotes suburbanos, concei-
Antônio Norberto de Almeida fazia o mesmo.
to de expansão urbana.
Em 20 de julho de 1910, Campo Grande foi
Outra área reservada foram os quarteirões nos
elevada à categoria de Comarca Especial e, de acor-
arredores da Rua 25 de Dezembro, obedecendo à
do com o relatório de Themistocles Brazil, “a vila
disposição de abrigar instalações militares cujas
apresentava o aspecto de pequeno povoado em for-
implantações estavam sendo discutidas. Essa re-
mação. Casas esparsas, deixando entre si grandes
gião era denominada de “Campo de Marte”.
intervalos, semeiam o branco de suas pinturas e o
O sítio da vila continuava tendo como limites
vermelho dos telhados no verde escuro da vegeta-
físicos os dois córregos – Prosa e Segredo –, como
ção, dando o conjunto uma aparência agradável”.
barreiras a sua mancha urbana. Nos limites do Pro-
O principal fator de desenvolvimento urbano sa, havia chácaras que tinham formato típico de
e econômico de Campo Grande, de todos os tem- lote urbano, porém estreito e profundo.
pos, aconteceu nessa década: a ligação da cidade
Na década de 1920, Campo Grande foi incluí­
com São Paulo via Bauru, por meio da estrada de
da na lista das 15 cidades brasileiras onde seriam
ferro Noroeste do Brasil (NOB), inaugurada, ofi-
construídos quartéis militares. A Companhia Cons-
cialmente, no dia 14 de outubro de 1914.
trutora de Santos, de Roberto Cochrane Simonsen,
A ligação ferroviária modificou as relações em novembro de 1921, instala o escritório local,
econômicas e culturais de Campo Grande. A Rua dirigido pelo engenheiro Armando de Arruda Pe-
14 de Julho, uma das muitas ruas projetadas por reira, e inicia as obras dos edifícios projetados em
Nilo Javary Barém em 1909, com seus 20 metros São Paulo pela equipe da construtora. Começa pela
de largura, após a implantação da estação da NOB, sede da 9ª Região Militar, na Av. Afonso Pena e, em
tornou-se a via mais importante da cidade, com seguida, instala o canteiro dos quartéis, localizados
seu comércio pelos migrantes, principalmente os na saída para Corumbá, ao lado da estrada para
árabes. Corumbá e Aquidauana, de grande uso dos pecua-
Esse surto de desenvolvimento econômico ristas. O conjunto arquitetônico das edificações mi-
refletiu nas taxas de crescimento populacional: de litares foi rapidamente construído.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 35


Na mesma época, Camillo Boni, engenheiro des residenciais oficiais e semioficiais e, assim,
que trabalhava na Intendência Municipal na admi- surgiu a ideia de implantar um bairro nas imedia-
nistração de Arlindo de Andrade Gomes, projetou ções do complexo militar. A Intendência Munici-
o traçado urbanístico do primeiro bairro de Cam- pal também pensava em um bairro de expansão
po Grande, o Amambaí, de ruas sinuosas e largas, central destinado ao assentamento de imigrantes
possibilitando, pela proximidade da área central, a que chegavam a todo o momento, além de operá-
moradia dos operários que não retornaram a São rios das obras militares, ex-operários da ferrovia e
Paulo após o término das obras militares e de ou- outros trabalhadores (RODRIGUES, 1980) e, com
tros migrantes de menor renda. isso, pela Resolução de 1o de dezembro de 1921,
nascia o “Bairro Amambahy”, apresentada pelo
Vereador Leopoldo Gonçalves dos Santos, na ses-
Camillo Boni e o projeto são de 25 de novembro daquele ano, a pedido do
urbanístico do bairro Amambaí Intendente Arlindo de Andrade Gomes.

Após o início das obras militares, a adminis- A curta Resolução, aprovada em 1o de dezem-
tração sentiu a necessidade de instalar as unida- bro tinha a seguinte redação:

Ao lado, planta de
Campo Grande de 1922.
Na página 37, reprodução
da planta do Bairro
Amambaí de 1921.
Arquivo: Ângelo Arruda.

36 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


“Aprova a denomina-
ção dos novos terrenos
públicos do ‘Bairro do
Amambahy’ e estabelece
critérios para concessão
dos lotes”.4
Art 1º – Fica aprovada a
Planta dos terrenos adquiri-
dos para os serviços milita-
res desta cidade, feita pela
Seção de Engenharia da In-
tendência Municipal, ligada
à planta geral do Patrimônio.
Art. 2º – Os novos terrenos pú­
blicos denominam-se “Bair­­­ro
Amambahy”, até o prolonga-
mento da Rua Cândido Ma-
riano.
Art. 3 º – Estes terrenos serão
aforados na forma do Códi-
go de Posturas e concedidos
gratuitamente.
Art. 4 º – Aos indivíduos ou empresas que se propuserem a
§ 5º – Terminado o prazo para a construção em cada lote,
construir dentro de dois anos a contar da publicação desta,
sem que ela tenha sido convenientemente ultimada, fi-
grupos de dez casas, serão concedidos os seguintes favores:
cará sem efeito a concessão gratuita, devendo o conces-
§ 1º – Concessão gratuita do lote ou lotes de terrenos
sionário indenizar a Intendência do seu justo valor, para
destinados à construção;
então receber o seu respectivo título de aforamento.
§ 2º – Isenção completa do imposto predial no período
Art. 5º – Às pessoas que quiserem construir casas para resi-
estatuído;
dências serão igualmente concedidos iguais favores.
§ 3º – Redução de 50% nas taxas de iluminação e de água,
Art. 6º – Só serão permitidas construções de acordo com o
de outros serviços sanitários ou de embelezamento que
Código de Posturas e tratando-se de residências de famílias
forem instituídos;
sempre serão feitas no centro de jardins.
§ 4º – O título definitivo do lote ou lotes gratuitamente
concedidos, só serão expedidos ultimando a concessão, Art. 7º – As concessões de terras importam ainda na arbori-
após a conclusão das respectivas construções, em prazo que zação obrigatória dos terrenos.
for previamente estipulado pela Intendência Municipal e Art. 8º – Só serão permitidas casas comerciais nos lotes de
que não poderá, sob pretexto algum, ser prorrogado; esquina.

4. Essa Resolução, base jurídica e urbanística de criação do bairro Amambaí, encontra-se no livro de Atas no 4 da Câmara
de Vereadores.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 37


Art. 9º – Os lotes do novo bairro terão as dimensões de 40,00 Art. 12 – Revogam-se as disposições em contrário
por 60,00 metros, salvo nos lotes prejudicados pelo esqua-
Arnaldo Estevão de Figueiredo – Presidente
drejamento.
Leopoldo Gonçalves dos Santos
Art. 10º – Quando o prolongamento das ruas abranger ter- Hormínio Pereira Mendes
renos particulares, sendo eles divididos em lotes pelos pro- Barnabé Gonçalves Barbosa Marques
prietários, a construção obedecerá, em tudo, as prescrições Francisco Fernandes
desta lei e do Código de Posturas.
Art. 11º – Nas ruas Anhanduhy, Avenida Calógeras, 14 de Na análise dessa Resolução, alguns pontos nos
Julho, 13 de Maio e transversais, desde a Rua 24 de Feve- chamam a atenção. A planta foi feita na Seção de
reiro, em toda a extensão da cidade, todas as construções Engenharia da Intendência Municipal, o chefe da
iniciadas durante o ano de 1922 ficarão com os seguintes Seção era o engenheiro italiano Camillo Boni5 e os
favores: terrenos foram adquiridos pela Intendência especi-
§ 1º – Isenção do pagamento de taxas, emolumentos e im- ficamente para atender os serviços militares da ci-
postos quaisquer, comumente exigidas para a respectiva dade, como já tinha procedido anteriormente para
construção; instalação do complexo militar. A propriedade da
§ 2º – Relevação de todo e qualquer imposto em atraso em área poderia ser da família de Bernardo Baís, dono
que tiver incorrido o lote ou lotes de terreno destinados
da região do Portão de Ferro, vizinho ao Amambaí.
à construção;
§ 3º – Redução de 50% no lançamento do imposto predial Os terrenos foram aforados de acordo com o
respectivo. que determinava o Código de Posturas de 1921 e

5. Camillo Boni (1889-1974), filho de Domenico e Rita Boni, nasceu em 21 de agosto, na cidade
de Moderna, Itália, e em 1909 diplomou-se como perito em Agrimensura, Arquitetura e Enge-
nharia no Reggio Instituto Técnico Jacoppo Barozzi. Aos 25 anos de idade foi convocado para
lutar na Primeira Guerra Mundial e, depois de terminada a batalha, casou-se com Dina Dolfi
Boni (1879-1929) e transferiu-se para o Brasil, tendo chegado a São Paulo em 1918. Após resi-
dir um ano na capital paulista, fixou residência em Campo Grande. Na condição de italiano,
fez diversos contatos com padres da Missão Salesiana de Mato Grosso, tendo recebido como
encomenda de trabalho, projetar a Catedral de São José, igreja matriz da cidade, no terreno
hoje ocupado pela Praça do Rádio Clube, que acabou não sendo construída. Esse foi seu pri-
meiro projeto em Campo Grande, uma catedral em estilo neogótico, com torre central e duas
entradas laterais. Em 1921, Boni foi convidado a assumir a função de engenheiro municipal e
de Chefe da Seção de Engenharia da Intendência municipal, órgão responsável pelo controle
de obras públicas e de aprovação de projetos, na gestão dos prefeitos Arlindo de Andrade Gomes e Arnaldo Estevão de
Figueiredo. Durante toda a sua gestão, promoveu uma grande revolução na cidade de Campo Grande. Só saiu da cidade
em 1938, a convite da Congregação dos Padres Redentoristas Americanos para assumir a construção de obras religiosas nas
cidades interioranas de Aquidauana e Bela Vista. No ano em que assume essa função, estava iniciando as obras de constru-
ção dos quartéis militares e, assim, Boni teve bons contatos com os profissionais encarregados pela obra, da Construtora de
Santos, principalmente Armando de Arruda Pereira, engenheiro chefe do escritório em Campo Grande. No ano de 1934,
obteve do CREA/SP a licença no 1.665, para exercer a profissão de Arquiteto e de Construtor, já que seu curso técnico de
Modena não era superior pleno. (Foto de Camillo Boni - Arquivo: Ângelo Arruda)

38 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


colocados gratuitamente aos interessados com in- de 1922, p. 225, e no trabalho intitulado “O Municí-
centivos de 50% das taxas de iluminação e de água pio de Campo Grande em 1919” de Rosário Congro.
e de outros serviços, além de isenção completa do
Boni foi um grande realizador e modernizou a
imposto predial. Os mesmos incentivos foram fei-
administração local. Trabalhou com arquitetura, ur-
tos para quem construísse grupos de dez casas.
banismo e engenharia, como poucos, no seu tempo.
Essa determinação explica a existência de casas em
Na administração pública, na área do urbanismo
vila, geminadas ou não, construídas sob uma mes-
e paisagismo, realizou o Plano de Melhoramentos
ma tipologia arquitetônica.
das Ruas e Calçadas, com levantamento e perfil de
Outra determinação tratava dos estabeleci- cada uma das vias urbanas; padronizou as calça-
mentos comerciais: só poderiam se localizar nas es- das e passeios; embelezou e arborizou a Av. Afonso
quinas, contrariando a determinação do Código de Pena com árvores vindas da chácara do Intendente
Posturas válido para a cidade como um todo. Essa Arlindo Gomes; projetou, fiscalizou e implantou o
norma, utilizada durante muitos anos, criou unida- traçado urbanístico do bairro Amambaí, o primeiro
des construídas com características específicas que bairro de Campo Grande, em 1921.
ainda hoje se mantêm.
Boni e sua equipe, ao projetarem o Amam-
A norma urbanística determinava, ainda, a di- baí, utilizaram um traçado barroco, de formato
mensão dos lotes em 40,00 m de testada por 60,00 m si­nuoso e irregular tendo como princípios regula-
de profundidade, como medidas-padrão. Entretan- dores a pré-existência das estradas boiadeiras para
to, quando da aprovação da lei do Código de Postu- Aquidauana e para o Imbirussu e a topografia da
ras de 27 de abril, a testada já era de 20,00 m e, com área que, em função da microbacia do Córrego
isso, houve uma adaptação da exigência à norma Anhanduy, tinha um desnível de 30,00 m, contados
maior. O bairro foi implantado em lotes de 20,00 m de sua parte mais alta, na proximidade do Hospital
de testada, naqueles ortogonais e nos irregulares, Militar até a atual Avenida Bandeirantes.
com dimensões próximas.
Além desses elementos físicos, os limites im-
O paisagismo não foi esquecido pela norma: postos pela ferrovia, pelos muros dos quartéis e
era obrigatório o plantio de árvores no lote, com a pela interligação da Avenida Afonso Pena com o
residência, preferencialmente ao centro. Com isso o bairro, de certa forma, também contribuiram para o
Amambaí tornou-se um lugar de muito verde. lançamento do traçado viário implantado.
Como engenheiro encarregado da Seção de No início da década de 1920, a ligação com o
Engenharia, juntamente com seu auxiliar em agri- bairro se dava pela Rua 26 de Agosto e pela Rua
mensura Gigliotti, também italiano, Boni fez o le- Cândido Mariano, denominada Y Juca Pirama. Pela
vantamento da planta da cidade, atendendo de- Rua 26 de Agosto e nos seus arredores imediatos
terminação do Intendente municipal, visando a localizam-se as edificações mais antigas do bairro.
preparar a futura implantação das obras militares. Nas imediações da Cândido Mariano, as edifica-
Essa planta urbana foi publicada no livro de Virgílio ções residenciais militares, instaladas nos anos de
Correia Filho, “Matto Grosso - Publicação oficial” 1930. A Avenida Afonso Pena só foi implantada nos

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 39


anos de 1960 e, antes disso, nos anos de 1940, foi de Agosto, Av. Afonso Pena e Rua Guia Lopes, por
aberta para a construção do acesso à Igreja Nossa onde escoa o transporte coletivo que atende ou que
Senhora do Perpétuo Socorro dos Padres Redento- perpassa o bairro.
ristas Americanos. Assim, podemos afirmar que o A sinuosidade existente no traçado viário do
bairro Amambaí teve dois momentos de ocupação: Amambaí é condizente com sua condição topográ-
a) no primeiro, quando de sua implantação, a fica, o que permite dizer que há uma correta apli-
ocupação se deu no espaço geográfico situa- cação das curvas projetadas com as curvas naturais
do entre a Rua 26 de Agosto, Av. Bandeirantes, do terreno e, com isso, o sistema de drenagem cons-
Salgado Filho e Tiradentes (que estamos deno- truído nos anos de 1960 é bastante eficiente.
minando de parte sul do bairro), evidenciada
O projeto do bairro dividia a área aproximada
pela tipologia e idade das construções e pela
de 65 hectares em 35 quarteirões, 12 localizados em
ligação entre a cidade central e o bairro pela
sua parte norte e 22 na parte sul, e 435 lotes. Do
Rua 26 de Agosto;
total de lotes, 75% são de formato irregular, com di-
b) no segundo, a região localizada ao norte,
mensões variáveis de testada entre 12 e 30 m, e os
favorecida pela urbanização das residências
lotes de formato regular apresentam testada média
militares oficiais e semioficiais, da Igreja e
de 20,00 m e profundidade de 40,00 m coincidindo
da Escola General Malan, nos anos de 1930 e
com o formato original de 1921. Podemos afirmar
1940. Nesse momento, com a pavimentação
que os lotes regulares ainda guardam o seu formato
em 1938, a Rua Cândido Mariano passaria a
original do projeto de Camillo Boni.
ser o acesso mais importante para a região e
adquire grande importância na cidade. A principal característica do parcelamen-
O traçado viário do Bairro Amambaí é sinuo- to da área é a inexistência de quadras totalmente
so e irregular. As ruas possuem faixa de domínio regulares. Os polígonos variam em forma e a
de 20,00 m, excetuada a Avenida Afonso Pena, com maioria deles apresentam formatos triangulares,
50,00 m. Duas formas de pata de ganso aparecem trapezoidais ou de paralelogramos. A matriz gera­
no traçado: uma na Av. Salgado Filho com a Rua dora do traçado viário, que acaba contribuindo
Iguaçu e Av. Bandeirantes e a outra na Av. Bandei- com o formato dos quarteirões, é a explicação para
rantes com a Av. Afonso Pena e Av. João Rosa Pires. o parcelamento desse bairro.

A forma de pata de ganso, bastante utilizada Do parcelamento original havia 28.889 m2 de


nos traçados barrocos, advinham da necessidade de áreas não parceladas – áreas públicas destinadas
se criarem ruas diagonais ao traçado ortogonal das a equipamentos comunitários e praças sendo, a
cidades. A solução existente no Amambaí é pouco maior delas, a área 11, com 23.000 m2, onde se lo-
encontrada em loteamentos em Campo Grande. calizam a Igreja do Perpétuo Socorro e a Escola dos
Padres Redentoristas. Essa área era originalmente
As vias projetadas com maior tráfego de veí-
inteira e foi subdividida em duas.
culos são as localizadas no contorno do bairro – Av.
Duque de Caxias, Av. Bandeirantes, Av. Salgado Fi- Outras áreas públicas existentes e que foram
lho e Av. João Rosa Pires –, e as internas – Rua 26 ocupadas eram as áreas 6 e 12 e a ponta da 1, que

40 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


sediam o Mercado Antônio Valente, a Escola Ma- essa área foi urbanizada e integrada com o antigo
noel Barbosa e o Serviço Social da Indústria (SESI), espaço do Mercado e transformou-se na Praça das
respectivamente. Araras.
A área destinada ao arruamento do loteamen- Mas, no Plano do Escritório Saturnino de Bri-
to foi de 229.575,00 m2, correspondendo a 32,7% da to, em 1938, foi criada uma alteração do traçado e aí
área total da gleba. surgiu a Praça Newton Cavalcanti, no limite oeste,
Uma forte característica do projeto do Bairro com a incorporação de uma área de aproximada-
Amambaí é a existência de praças. Pelo desenho mente oito hectares ao traçado original, limitado
original, acreditamos que a maior delas tenha sido pela Rua Joaquim Dornelas e agora transposto para
prevista na área onde se localiza a Igreja do Per- a Av. Tiradentes. A Rua Poconé, que existia no pro-
pétuo Socorro. Há duas pequenas áreas localizadas jeto original, interligando a Av. Afonso Pena com a
na parte sul, limitadas pela Av. Bandeirantes, que Rua 26 de Agosto, foi fechada pela municipalidade
são as Praças Domingos Giordano e Chaia Jacob. e desafetada para fins de alienação.
Nos anos de 1950, ao lado do Mercado Antônio Va- A denominação das ruas do bairro é marca
lente, na área 6, foi construída a Praça Cuiabá, com cultural do Amambaí. São nomes de pessoas liga-
coreto e área de recreação. Recentemente, em 1992, das à história de Mato Grosso e de Campo Gran-
de, como Amando de Oliveira, Guia
Lopes, Coronel Camisão e Visconde
de Taunay; ou nomes de raiz indíge-
na como Terenos, Iguassu, Poconé,
Aporé, Camapuã, Paissandu e Bo-
doquena.
Em 1930, quase uma déca-
da após a implantação do Bairro
Amambaí, Campo Grande abrigava
10.117 habitantes, crescendo 11,63%
ao ano no período e triplicava a po-

Detalhe da planta cadastral


de Campo Grande de 1939.
Arquivo: Ângelo Arruda.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 41


pulação em dez anos. O desenho da mancha urba- dente municipal, estabeleceu o Código de Posturas
na da cidade, com a instalação do bairro, dos quar- do Município e, em seu art. VI, diz que “o prolon-
téis e das Vilas Orpheu Baís, Carvalho e Planalto, gamento das ruas e avenidas atuais só podem ser
é bem diferente da década anterior, 1920, pois as feitos com autorização da Intendência – a Prefeitu-
barreiras dos córregos tinham sido transpostas na ra da época –, obedecendo à planta oficial”, ou seja,
direção oeste, sudoeste e noroeste. supomos haver, após a planta elaborada por Nilo
Javary Barém, outra, conforme o art. VII, parágrafo
A ligação oeste se fazia pelo pontilhão na Rua
primeiro, com “diretrizes” para prolongamentos e
26 de Agosto e na Rua Cândido Mariano, trans-
ainda diz “obedecendo à mesma largura em toda a
pondo o córrego Segredo e dando seguimento ao
zona municipal”.
desenvolvimento oeste. A saída para Rochedinho,
atual Av. Tamandaré, tem seu desenho configura- Ainda o art. VII da Resolução diz que “a lar-
do com o loteamento Vila Planalto. Ao sul, o tra- gura mínima das ruas é de 20,00 m e das avenidas
çado da Vila Carvalho – que teria ligação com uma 40,00 m e só serão permitidas travessas de 10,00 m
variante da Rua 26 de Agosto –, sugere a continui- em caso de necessidade comprovada”.
dade da Rua 14 de Julho, fato que vai ocorrer anos
Tal dispositivo muito contribuiu para que
após.
aquelas vias do traçado original de Nilo Javary Ba-
A Resolução no 43, de 27 de abril de 1921, pro- rém tivessem continuidade, principalmente a Av.
mulgada por Arlindo de Andrade Gomes, Inten- Afonso Pena, antiga Marechal Hermes.

Ao lado, mapa da Evolução


Urbana de Campo Grande
sobre planta de 1939.
Desenho do autor.

Abaixo, foto do arquiteto


Frederico Urlass.
Arquivo: Ângelo Arruda.

42 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


A cidade planejada com o plano Elias Zahran, estava com seu desenho definido a
do Escritório Saturnino de Brito ser implantado futuramente.
Outra região importante criada nessa época foi a
Região da Vila Alba e arredores que, pela localização
Os anos de 1930 iniciam-se com o Estado Novo
próxima aos quartéis, era preferencial da população.
– governo do Presidente da República Getúlio Var-
gas –, com grande influência dos militares. Em Em 1939, a população urbana estimada era de
1933, o coronel Newton Cavalcanti, comandante lo- 23.054 habitantes e apresentava um crescimento ur-
cal, construiu duas obras que marcam a paisagem bano na década de 8,58% ao ano.
urbana da cidade: o Relógio, no cruzamento da Rua
14 de Julho com a Av. Afonso Pena, já demolido, e
o monumento, chamado Obelisco, no cruzamento O Plano Urbano do Escritório
da Av. Afonso Pena com a Rua José Antônio, obras Saturnino de Brito: o primeiro
com influência Art Déco.
plano para Campo Grande
O Prefeito Eduardo Olímpio Machado, em 1938,
contratou o escritório Saturnino de Brito, do Rio de Ao assumir o cargo, Eduardo Olímpio Macha-
Janeiro, com a tarefa de elaborar o Plano de Sanea- do encontrou dois problemas crônicos: as pesadas
mento e Drenagem da cidade e o projeto do sistema dívidas das administrações anteriores e o sanea-
de abastecimento de água da estação do Córrego mento da cidade que, com seus 23 mil habitantes
Lageado. Naquela ocasião, o escritório preparou a na zona urbana, ainda era servida pela rede de
primeira Planta Urbana de Campo Grande com le- abastecimento de água construída em 1921, na ad-
vantamento topográfico e a localização cadastral dos ministração de Arlindo de Andrade Gomes quando
imóveis existentes. Por fim, os estudos culminaram a cidade tinha pouco mais de 3.500 habitantes.
com a promulgação do Decreto-lei no 39, de 31 de
janeiro de 1941, o primeiro Plano Diretor da cidade, Preocupado com a questão do saneamento bá-
já com mais de 25 mil habitantes (EBNER, 1998). sico, que envolvia uma urgente ampliação da rede
de abastecimento de água, uma completa rede de
As construções se modernizavam, principal- esgotos com sistema de tratamento, além dos pro-
mente com o uso de fachadas limpas de ornamen- blemas de drenagem urbana, o Prefeito tratou de
tos, tendo como obra mais importante desse perío- buscar soluções para o problema e, assim, conseguiu
do o Hotel Americano, autoria do arquiteto alemão aprovar na Câmara de Vereadores, por meio da Lei
Frederico Urlass. no 15, de 10 de julho daquele ano, uma autorização
A Planta de Campo Grande, elaborada pelo para contratar um empréstimo interno no valor de
escritório Saturnino de Brito em 1938, sinalizava a 10 mil contos de réis (equivalentes a 10 milhões de
continuidade do traçado em direção norte, até os reais), para aplicar exclusivamente em obras de pa-
limites da Rua Amazonas e a inclusão do traçado vimentação da cidade, abastecimento de água, rede
da Vila Bandeirantes e do Taveirópolis à sudoeste. de esgoto e outras complementares, tudo de acordo
A Av. Contorno, atual Salgado Filho com Eduardo com um Plano Urbanístico a ser elaborado por espe-

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 43


cialistas, além de uma Planta Cadastral da Cidade Cadastral, e que contivesse soluções para os proble-
e diversos projetos de rodovias e prédios escolares. mas de saneamento. Outra condição era que a em-
Esses últimos itens surgiram em função da ausência presa dispusesse de um “técnico em urbanismo”,
total de uma Planta de Valores para cobranças do que pudesse residir em Campo Grande durante o
Imposto Predial e Territorial, além do também grave período de elaboração do trabalho, e um geólogo,
problema de ligação da cidade com seus distritos e a para as soluções técnicas de pavimentação.
existência de uma diminuta rede escolar municipal.
Em 14 de dezembro de 1937, após receber as
Para o financiamento da grande importância cartas-resposta das três empresas, o Prefeito opta
aprovada, o Município dava como garantia de paga- pela proposta do Escritório Saturnino de Brito8 e
mento as taxas a serem criadas, receita de impostos imediatamente converte o plano de trabalho na Lei
e décima predial, mas, ao contatar a Caixa Econômi- no 19, de dezembro de 1937.
ca no Rio de Janeiro, o Prefeito recebeu orientação
O Escritório Saturnino de Brito9 era uma em-
de obter, do Governo do Estado, uma garantia mais
presa técnica dirigida, em 1937, por Francisco Satur-
efetiva e também que seria necessário contratar uma
nino Rodrigues de Brito Filho e seu irmão Fernando
empresa para elaborar o Plano em questão.
Geraldo Saturnino Rodrigues de Brito, filhos de F.
No caso da garantia, o Estado concedeu, pela Saturnino de Brito (1864-1929), engenheiro sanita-
Lei no 103, de 13 de outubro de 1937, garantia com rista e urbanista que atuou, desde o século XIX até
a renda dos impostos transferidos e, no caso da sua morte, em projetos urbanísticos de mais de 50
empresa, o Prefeito Eduardo Olímpio encaminhou cidades brasileiras e que deixou um enorme legado
cartas a três delas6: uma em São Paulo – Byington & para o país e para seus filhos. Seus projetos mais fa-
Cia (dos engenheiros Frederico Bondra, Fernando mosos são os destinados às cidades de Vitória-ES,
Escorel, José de Faria Júnior e José Maria da Costa Campos-RJ, Santos-SP e Recife-PE. A experiência e a
Rodrigues); e duas no Rio de Janeiro – J. Caetano competência de Saturnino de Brito em seus projetos
Álvares Júnior e Escritório F. Saturnino de Brito públicos, certamente, habilitou a empresa dos filhos
Filho7. Todos tiveram como incumbência elaborar para trabalhos similares em outra época, inclusive
um Plano Urbanístico e de Obras, além da Planta com dispensa de concorrência pública.

6. Fonte: Arquivo Histórico de Campo Grande, livro de correspondência da Prefeitura de Campo Grande: Correspondências
expedidas, ano de 1937.
7. Nomes constantes das cartas endereçadas pelo Prefeito de Campo Grande. No caso de F. Saturnino de Brito Filho, o en-
dereço do escritório constante da Carta era: Rua Mauá, 7 - salas 1516 e 1517 - Rio de Janeiro.
8. Antônio Lopes Lins, em seu livro Eduardo Olímpio Machado: o homem, o meio e seu tempo, afirma que ao chegar à Caixa
Econômica Federal, agência centro do Rio de Janeiro, o Prefeito de Campo Grande foi orientado a contratar os serviços do
Escritório Saturnino de Brito, pela sua tradição em fazer tais serviços para diversas cidades brasileiras.
9. Os sócios eram: Fernando Geraldo Saturnino Rodrigues de Brito, arquiteto formado em 1934 pela Escola Nacional de
Belas Artes que trabalhou com Luís Nunes, no DAU em Recife, em 1934 e tinha carteira CREA 2.284/D. Já Francisco Rodri-
gues Saturnino de Brito Filho era engenheiro civil e de minas, formado em 1931, na Politécnica do RJ, carteira CREA 587/D.

44 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


A Lei no 19/1937 autorizava a contratar serviços e) abertura e prolongamento da Rua João Pes-
técnicos e profissionais de um engenheiro de notória soa em direção ao norte, bairro do Cascudo,
capacidade em assuntos de urbanismo e saneamento até a Esplanada da Noroeste do Brasil;
de cidades pelo valor de 100 contos de réis (equiva- f) retificação dos córregos Prosa e Segredo nos
lentes a R$ 56 mil), para que pudesse estudar e apre- trechos convenientes e sobre a drenagem, uso
sentar um plano detalhado nas áreas já citadas. Além e conservação dos terrenos de brejos margi-
dos estudos técnicos e os melhoramentos e da Planta nais a eles;
Cadastral, haveria necessidade de elaborar planos de g) estudos sobre esgotamento de águas plu-
obras complementares nas seguintes áreas: viais;
a) estilo e condições técnicas das construções h) estudos para pavimentação das seguintes
em geral, de acordo com a topografia, salubri- vias: Rua 7 de Setembro, Rua 15 de Novembro,
dade e geologia dos terrenos10; Av. Afonso Pena até o Obelisco, Rua Barão do
b) prolongamento e abertura de ruas, avenidas, Rio Branco, Rua Dom Aquino, Rua Cândido
localização de logradouros e de edifícios pú- Mariano, Rua Maracaju, Rua Antônio Maria
blicos para estabelecimento de ensino univer- Coelho e Av. Mato Grosso, Rua Pedro Celes-
sitário, técnico e profissional, vilas operárias, tino, Rua 13 de Maio, Rua João Pessoa e Av.
biblioteca, estabelecimentos fabris, químicos, Calógeras;
industriais, depósitos de inflamáveis e explosi- i) estudos para a rede de esgotos, compreen-
vos e outros que, pela sua complexidade e na- dendo toda a área a ser pavimentada e com
tureza, devam se localizar em áreas próprias11; capacidade para 100 mil habitantes;
c) macadamização12 das entradas das estradas j) estudos para o abastecimento de água da
de Jaraguari, Bandeira, Lagoa da Cruz, Porto cidade e seus bairros, com novos meios de
XV de Novembro, Imbirussu, Avenida Calóge- captação, para uma população de 150 mil ha-
ras ou Rua João Pessoa (atual Rua 14 de Julho) bitantes, inclusive a conveniência de poços ar-
e no trecho que sai da Rua 7 de Setembro ao tesianos e autorização para que o Município
Cemitério Municipal; Rua Santos Dumont, a adquira, por compra ou desapropriação, os
partir da Rua João Pessoa e sua ligação com o terrenos dentro dos quais estejam compreen-
Bairro Amambaí e o Campo de Aviação; didos os mananciais que forem julgados indis-
d) ligação da cidade com o Bairro Amambaí e pensáveis ao abastecimento futuro da cidade;
com o Campo de Aviação pela Rua 15 de No- k) autorização para adquirir terrenos onde
vembro, Avenida Schnoor e Av. Afonso Pena e existam pedreiras que sejam úteis de fácil ex-
Praça Newton Cavalcanti; ploração, para uso na pavimentação;

10. O Decreto-lei no 39, de 1941, trata do zoneamento, parcelamento e das construções.


11. Essas propostas, que devem ter saído do Plano, foram utilizadas pelo Prefeito para deslocar os depósitos de inflamáveis
da cidade, colocando-os na saída da cidade em direção ao oeste-Pantanal.
12. Técnica inventada pelo inglês Mac Adam, no século XIX, que consistia em uma mistura de pedra britada com saibro e com-
pressão por máquinas pesadas, adicionando piche ou massa asfáltica quente e pó de pedra por cima [MACHADO, 1990, p. 19].

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 45


l) estudos da rede elétrica atual e sugestões econômicos e populacionais, o que exigiu do setor
para outras fontes de energia. público, normas mais rígidas quanto ao uso e ocu-
pação do solo urbano. Ela perdurou como norma
O Plano Urbano, elaborado pelo Escritório Sa-
urbanística até 1965, quando uma nova lei munici-
turnino de Brito, foi entregue à Prefeitura Munici-
pal, com 468 artigos, a de no 26/1965, foi aprovada,
pal em 1938, conforme atestam os documentos do
com mais destaque para as construções embora ti-
arquivo municipal. De posse do Plano e das pro-
vesse um novo zoneamento para a cidade.
postas das obras, o Prefeito Eduardo Olímpio Ma-
chado foi atrás da contratação do financiamento, A grande novidade do Decreto-lei no 39/1941
mas, em função das mudanças e oscilações mun- era o zoneamento13 da cidade. Cinco zonas de uso
diais da taxa de juros bancários, por força do episó- foram criadas e, para cada uma delas, uma norma
dio da Segunda Guerra, atravessa toda a sua gestão para as atividades, empreendimentos e para a ocu-
e apenas em 1942, já no mandato do Prefeito que o pação do solo.
sucedeu, Demosthenes Martins, é que se iniciam as
A Zona Central ou Comercial compreendia a
obras que vão transformar Campo Grande em uma
parte mais histórica e central de Campo Grande,
cidade urbanizada; a aplicação do Plano Urbanís-
constituída de um polígono com as ruas comerciais
tico, que se converteu em Decreto-lei no 39, de 31
mais importantes, como a Rua 14 de Julho e seus
de janeiro de 1941, que é um dos últimos atos do
arredores. Nessa zona era admitida a testada dos
Prefeito Eduardo Machado.
lotes de 10,00 m (enquanto que no restante da cida-
O Plano do Escritório Saturnino de Brito foi de era de 12,00 m) e profundidade de 30,00 m. Era
materializado por uma lei municipal que traz em permitido construir até o limite de 60% do terreno e
seu caput: “divide a cidade em zonas de construção se houvesse, nos fundos, atividades residenciais, o
e dá outras providências”. O Decreto-lei possui 66 que era típico na época, o índice cresceria para 65%.
artigos e institui um zoneamento para a cidade; no- A construção deveria ser no alinhamento predial.
mina as regras para loteamento e desmembramen-
A Zona Industrial era compreendida pelas
to, bem como as normas técnicas para construções
ruas mais antigas da cidade, às margens do Cór-
em que trata das taxas de ocupação, recuo, tipos
rego Prosa, no caso a Rua 26 de Agosto, Barão de
de construções, número de pavimentos, altura e
Melgaço e Joaquim Murtinho, onde havia terrenos
gabarito dos prédios e de seus detalhes, das licen-
brejosos e de difícil construção naqueles tempos.
ças para edificar, dos projetos e da aprovação e, por
Nessa região havia ainda algumas pequenas ola-
fim, define os profissionais aptos a trabalhar.
rias de tijolos e outras fábricas e eram permitidos
Essa norma municipal era completa e cum- ocupar 70% do terreno, pois os lotes eram maiores,
priu suas funções durante todo o período em que por conta da profundidade das ruas até o córrego.
a cidade cresceu em média 8% ao ano, em termos A construção poderia ser no alinhamento predial.

13. Desde 1905, a cidade já tinha normas urbanísticas expressas em Código de Posturas, mas nenhuma delas tratava do zonea-
mento da cidade. O zoneamento como função surge nos anos de 1930, após a Carta de Atenas do CIAM de 1931.

46 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


A Zona Residencial era um quadrilátero for- de 2a Categoria constituía todo o restante da cidade
mado pela Av. Mato Grosso, Rua 25 de Dezembro, não delimitado pela lei municipal. Tinha um sen-
Av. Afonso Pena e Rua 13 de Maio, uma clara se- tido de corredor, pois era possível ocupar 50% do
paração das demais zonas comercial e industrial, solo na primeira e 33% na segunda categoria.
apesar da proximidade destas. O recuo frontal exi-
Alguns itens da Lei tinham claro compromis-
gido era de 4,00 m e o lateral de 1,50 m e, no míni-
so com a modernidade, como a exigência de cons-
mo, seis cômodos, em um claro sentido de que as
trução com, no mínimo, dois pavimentos na Rua
casas operárias de dois ou três cômodos ficaram
14 de Julho, entre a Rua General Mello e a Rua 7
para o Bairro Amambaí e para a Zona de 2a Cate-
de Setembro, na Rua Dom Aquino, Rua Barão do
goria. Após a promulgação da Lei, as residências
Rio Branco e Avenida Afonso Pena entre a Av. Ca-
existentes nos fundos das lojas comerciais exis-
lógeras e a Rua 13 de Maio; as vilas, só poderiam
tentes na Rua 14 de Julho começam a se transferir
ser construídas nas Zonas Mistas de 1a e 2a Cate-
para as ruas localizadas nessa zona residencial,
goria, e afastadas uma da outra, no mínimo, 200
com destaque para as ruas Antônio Maria Coe-
metros, uma tentativa de retirá-las da área mais
lho e Cândido Mariano, as preferidas da classe de
central e até não permitindo na zona residencial,
maior renda.
evidenciando o uso uniresidencial; nos loteamen-
A Zona Mista de 1a Categoria compreendia di- tos novos já se exigia um percentual de 20% da
versas ruas da área central e residencial, enquanto a área total da gleba para o arruamento e outros
20% reservados para as
áreas de praças e jar-
dins, percentuais bem
maiores que os determi-
nados pela Lei federal
no 6.766/1979 em vigor
até recentemente para

Mapa do Plano Urbanístico


de Campo Grande do
Escritório Saturnino de Brito.
Arquivo: Ângelo Arruda.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 47


todo o país; os profissionais encarregados pelas com graves consequências para a construção civil
obras, engenheiros ou arquitetos, eram obrigados em função da dependência brasileira com a impor-
a informar o nome do eletricista e do encanador tação de materiais básicos, como o ferro e o cimen-
encarregado e este deveria também estar cadastra- to. Somente no final da década, é que começaram
do na municipalidade. a ser construídos alguns edifícios de importância
para a arquitetura local. Inicia-se a verticalização
Outro ponto muito importante do Plano do
da cidade com a construção de prédios de mais de
Escritório Saturnino de Brito ocorreu com o Ato
três pavimentos, principalmente na Rua 14 de Julho
no 16, de 27 de março de 1939, quando o Prefeito
e arredores.
Eduardo Machado resolveu, a seu pedido, criar
a Comissão Municipal de Saneamento, para ana- Em 1959, na administração do Prefeito Wilson
lisar e encaminhar para aprovação, no Departa- Martins, a Lei no 663 estabelece uma nova estrutura
mento de Saúde do Conselho de Administração administrativa para Campo Grande, como já cita-
Municipal do Estado de Mato Grosso, a proposta do, e é criado um colegiado muito parecido com
de adução das águas do Córrego Desbarrancado, o atual CMDU: o CPU, como órgão autônomo de
localizado na parte leste da cidade, naqueles anos aconselhamento do governo para questões de pla-
distantes uns 4.000 m da área urbanizada da Av. nejamento e do Plano Diretor.
Afonso Pena, o Obelisco. A área adquirida pela
Com a criação do setor de Obras e Urbanismo,
municipalidade nos anos de 1940, por orientação
a questão da análise e aprovação de loteamentos
do Plano, foi utilizada parcialmente para adução
passou a ser administrada pelo CPU.
e hoje abriga a nascente do Córrego Prosa, com
águas do Desbarrancado e Córrego Português e Em 1965, pela Lei Legislativa no 26, a cidade
é a sede do Parque dos Poderes, local onde estão passou a ter um novo Código de Obras, que tratava
instalados os prédios da administração estadual de zoneamento, uso do solo, loteamento e posturas
e uma reserva ecológica de cerrado das maiores municipais.
entre as cidades brasileiras, além de captar e for- Os anos de 1960 marcaram a trajetória da ver-
necer água para diversos bairros. Ainda hoje, uma ticalização da cidade. Com 63 mil habitantes, se-
pequena barragem construída, em 1944, lá se en- gundo o IBGE, Campo Grande já possuía mais ha-
contra, formando um pequeno lago e um espaço bitantes que Cuiabá, a capital do Estado de Mato
construído para o turismo ecológico. Grosso, e a sua arrecadação tributária era quase
duas vezes maior.
Esse crescimento populacional e econômico de-
A verticalização e o modernismo finiu as perspectivas da construção civil na cidade.
Novos programas e necessidades sociais, fazendo
Um novo panorama econômico surgiu nos uso de tecnologia construtiva e normas urbanísticas
anos de 1940, com as imposições comerciais provo- mais rígidas, não davam mais espaço para o trabalho
cadas pela Segunda Guerra Mundial (1936-1945), dos construtores práticos dos anos de 1920 e 1930.

48 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Os Planos da Hidroservice e Com o passar dos anos, chegaram à cidade, de
de Jaime Lerner: década de 1970 todas as partes do Brasil, profissionais que foram
estudar arquitetura e urbanismo no Rio de Janeiro,
São Paulo, Curitiba e outras localidades e passa-
A economia da principal cidade do interior de
ram a morar e constituir seus escritórios em Campo
Mato Grosso cresceu muito nessa época. Os preços
Grande atraídos pela nova capital. Esses arquitetos
da carne bovina, bem como o início da expansão da
encontraram mercado fértil na cidade e no Estado,
fronteira agrícola do Estado, com a região de Dou-
principalmente com o advento dos concursos pú-
rados, polarizando essa atividade, fizeram a cidade
blicos de projeto de arquitetura, por ocasião das
expandir e se transformar em um importante polo
obras do Conjunto do Parque dos Poderes e de al-
de serviços e de comércio do Estado.
gumas obras da Prefeitura Municipal.
Na década de 1970, o Plano Diretor de Desen-
volvimento Integrado de Campo Grande, elabora-
do pela empresa Hidroservice Engenharia, traçou
as linhas do futuro planejamento urbano. Do ponto A instalação de Campo Grande
de vista da política urbana, o PDDI, como já cita- como capital do novo Estado: novo
do, apesar de ser um plano bastante formal e de ter impulso ao desenvolvimento urbano
sido elaborado sem a participação popular, pode
ser considerado progressista. No início dos anos 1980, um fato importante
O Plano de Estrutura Urbana de Lerner perdurou do ponto de vista do ensino, foi a criação do Curso
por mais de dez anos, concorrendo para modificar a de Arquitetura e Urbanismo no Centro de Ensino
paisagem da cidade, principalmente na verticalização Superior “Prof. Plínio Mendes dos Santos” (Cesup),
dos edifícios, na criação de um calçadão na área cen- permitindo a formação dos arquitetos locais. Com
tral e nas modificações na malha viária de transporte a conclusão da primeira turma, a produção da ci-
coletivo. O perímetro urbano se alonga e passa dos 30 dade passou também pelos arquitetos e urbanistas
mil hectares; a cidade está cheia de vazios urbanos. formados no Estado.

Em outubro de 1977, Mato Grosso foi dividido A cidade, como capital do novo Estado, desen-
por lei complementar federal e criado o Estado de volveu-se em uma enorme velocidade. Com taxa
Mato Grosso do Sul. A instalação da nova unida- média geométrica de crescimento de 8% ao ano, a
de federada deu-se em janeiro de 1979. Esse fato população dobrou, mais uma vez, de uma década
político alterou as relações econômicas, sociais e para a outra, atingindo mais de 250 mil habitantes,
culturais da nova capital, Campo Grande. A atra- e apresentando fluxo migratório interno e externo
ção pelo novo Estado, fonte de riqueza, pela soja intenso, aumentando a pressão no setor habitacio-
e pelo gado, centro do poder político estadual e nal e nos serviços públicos. Empresas de construção
de localização estratégica em relação a São Paulo, civil se instalaram; a nova legislação urbanística e
trouxe mudanças nas relações empresariais locais e de edificações, então em vigor, limitou, entre outras
migrantes das mais variadas regiões. coisas, o gabarito dos edifícios em 12 pavimentos.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 49


A partir da instalação do Parque dos Pode- discutir as propostas urbanísticas e arquitetônicas
res, no início da década, a Avenida Afonso Pena, para a cidade.
principal eixo viário urbano, rompeu seus limi-
Em 1988, com quase 500 mil habitantes, a Câ-
tes com a Rua Ceará e foi então prolongada até o
mara Municipal aprovou a nova estrutura urba-
Parque, criando uma nova opção de acesso viá­
nística de Campo Grande: a Lei no 2.567/1988, uma
rio para o Centro Administrativo do Estado, fa-
legislação complexa, com mais de 50 artigos e 11
vorecendo uma expansão do território para fins
anexos, que tratava de todas as questões urbanís-
de construção e criando um mercado novo para
ticas e ambientais – uso e parcelamento do solo
o setor imobiliário local, nos setores residencial
urbano, perímetro urbano, áreas de fundo de vale,
e comercial.
zoneamento e outros. Um novo zoneamento para a
O surto de crescimento e de desenvolvimen- cidade foi desenhado, baseado em experiências de
to urbano favoreceu a explosão do mercado da outras cidades brasileiras (Vide capítulo 5).
construção civil em Campo Grande. O crescimento Ao mesmo tempo, áreas destinadas à vertica-
desordenado provocado pelas demandas socioeco- lização eram expandidas, atingindo quase todo o
nômicas trouxe vários problemas decorrentes da território compreendido dentro do minianel rodo-
expansão do perímetro urbano e a criação de con- viário (polígono entre as ruas Ceará, Eduardo Elias
juntos habitacionais da Companhia de Habitação Zahran, Salgado Filho, Tamandaré e Mascarenhas
Popular (Cohab), construídos em espaços distan- de Moraes), além de outras regiões mais periféricas.
tes do centro de emprego, tais como os conjuntos A Lei criou, ainda, mecanismos de defesa ambiental
José Abrão, Moreninha I, II e III e Estrela do Sul. e de conforto urbano, aumentando os afastamentos
No início da década de 1980, em três ou quatro laterais entre os edifícios, criando regras para esta-
anos, o Estado construiu mais de 25 mil unidades cionamentos e outros.
habitacionais na cidade, fruto da política federal de
financiamentos, criando enormes dificuldades ur- A Carta Geotécnica começava a ser elaborada
banas provenientes da localização periférica desses e a Área non aedificandi às margens dos córregos au-
assentamentos. menta para 50,00 m, porém, em alguns lugares da
cidade, já era tarde – as favelas ocupavam as mar-
A administração pública passou a necessitar, gens dos córregos; e foi criada a Reserva do Parque
crescentemente, de um órgão de planejamento ur- dos Poderes, a maior área urbana de Cerrados do
bano para planejar e controlar o desenvolvimento Oeste.
urbano, incluindo o setor imobiliário, o qual exigia
a expansão das áreas de negócios, especificamente
a criação de áreas urbanas onde fossem permitidos
O planejamento urbano
empreender novas atividades imobiliárias, princi-
na virada do século XX
palmente a habitação vertical.

Em 1987, a Prefeitura criou a Planurb e o Na década de 1990 há diminuição das taxas


CMDU, órgãos que passaram a elaborar normas e de crescimento econômico e populacional de Cam-

50 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


po Grande, agora em torno de 2% ao ano. O setor O Plano Diretor de 1995
público, principalmente o estadual e municipal, e
os grandes empreendedores da arquitetura e do Em outubro de 1993, o Planurb lançou o semi-
urbanismo campo-grandense passaram a adotar nário “A cidade como um jogo democrático”, orga-
uma política de desenvolver arquitetura dos par- nizando as bases da discussão do seu Plano Diretor,
ques, praças, jardins e avenidas e alguns projetos com cinco vetores: a horizontalidade, os vazios, as
arquitetônicos isolados. Quanto aos parques e pra- diferenças entre lugares, as distâncias e as desigual-
ças destacam-se os seguintes: a) Parque das Na- dades. O diagnóstico da cidade, naqueles anos, era
ções Indígenas, localizado entre as Avenidas Mato que a cidade já crescia a taxas menores que as das
Grosso e Afonso Pena, com mais de 119 hectares de décadas anteriores (algo em torno de 5% ao ano)
área dentro do perímetro urbano; b) Parque Ayrton com o seguinte quadro:
Sena, com área de 33 hectares, localizado no Bair-
a) a cidade era horizontal e isso implicava den-
ro Aero Rancho, zona sul da cidade; c) Parque Flo-
sidades muito baixas em toda a cidade com
restal Antonio Albuquerque, mais conhecido como
um alto custo de manutenção dos serviços pú-
Horto Florestal de Campo Grande, obra de recupe-
blicos;
ração do espaço urbano onde José Antônio Pereira,
em 1875, construiu seu rancho ao chegar às terras b) a cidade era vazia, pois o território de 1993
de Campo Grande; d) reorganização do espaço de de 33.404 hectares tinha 43% sem ocupação e
lazer Belmar Fidalgo na área central, e da Praça Ari assim os vazios urbanos afloravam problemas;
Coelho; e) melhorias no desenho paisagístico e na c) a cidade era diferente, pois o potencial cons-
reformulação do programa das praças dos bairros trutivo não era uniformemente distribuído;
Itanhangá Park, José Abrão, Miguel Couto e da Pre- d) a cidade era distante com um grau de es-
feitura da Capital. palhamento urbano alto e com isso custos de
Quanto ao planejamento urbano ressaltam-se deslocamento excessivos; e
a elaboração e aprovação do Plano Diretor de Cam- e) a cidade era desigual com irregularidades
po Grande, em 1995, que introduz novos conceitos: de urbanização e de oferta de infraestrutura
cria as regiões urbanas com base nas bacias hidro- urbana e serviços.
gráficas da cidade e os planos locais de cada região
Mais de dois anos depois, em novembro de
e institui figuras peculiares de urbanização.
1995, o Plano foi aprovado pela Câmara Municipal
O Plano Diretor de 1995, que tinha começa- e, em seus 21 artigos, reformula-se o Sistema Muni-
do a ser debatido em 1987, é elaborado, em 1989, cipal de Planejamento, com a criação dos Conselhos
pelo Planurb. Apreciado pelo CMDU e enviado Regionais, os Planos Locais e figuras urbanísticas
para a Câmara Municipal, esse projeto de lei de novas, como a Outorga Onerosa, Urbanização Ne-
1990, da gestão Lúdio Martins Coelho, foi retira- gociada e Consorciada.
do pelo Prefeito Juvêncio César da Fonseca em seu
segundo mandato e teve sua discussão retomada O Plano serviu ainda para alimentar as discus-
via Planurb. sões ambientais, de transporte e de habitação so-

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 51


cial em Campo Grande, pois considerou essas três O planejamento urbano
áreas como as prioritárias no desenvolvimento ur- em tempos recentes
bano. Assim nasceu a discussão da Agenda 21 e do
Estatuto da Cidade: desenvolvimento sustentável; O início da discussão sobre revisão do Plano
plano de gestão ambiental; conservação de recursos Diretor de Campo Grande de 1995 deu-se na 2a
naturais; ética ecológica; proteção dos recursos na- Conferência das Cidades, em julho de 2005. Em se-
turais; meio antrópico; ambiente natural; cenários guida aconteceram oficinas de trabalho para que a
ambientais; ecologia urbana; fontes renováveis; equipe técnica desenvolvesse parâmetros para as
biomassa; licenciamento ambiental; Estudo de Im- futuras discussões, a respeito do Plano, com a co-
pacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Am- munidade local.
biental (RIMA).
Para a mobilização da comunidade foi instituí-
Essa era a nova linguagem que todos esta- do o Programa Comunidade Viva, em maio de 2005
vam tendo que apreender para exercer suas pro- e, como primeira manifestação do programa, acon-
fissões. teceu o 1o Ciclo de Conferências Locais em junho de
A AGENDA 21 era um programa de ação que 2006, quando foram feitas nove reuniões: sete nas
“constitui a mais ousada e abrangente tentativa já regiões urbanas e duas nos dois distritos.
realizada de promover, em escala planetária, um Dando continuidade ao programa, aconteceu,
novo padrão de desenvolvimento, conciliando mé- com a mesma intenção, sobre a participação da co-
todos de proteção ambiental, justiça social e eficiên- munidade na revisão do Plano, o 2o Ciclo de Con-
cia econômica [...] a Agenda 21 traduzia em ações o ferências Locais em julho de 2006, com os mesmos
conceito de desenvolvimento sustentável”, dizia o procedimentos da anterior. Em seu âmbito maior e
Ministério de Meio Ambiente. agora já com as necessidades da comunidade e o
Em Campo Grande, seu processo de constru- mínimo entendimento desta sobre o Plano, aconte-
ção iniciou em abril de 2001 e a discussão sobre ceram três reuniões públicas em março e abril de
seus meios confundia-se com outra discussão: a 2006, duas nos distritos e uma na região do centro.
Conferência das Cidades, do Ministério do mesmo Para completar o ciclo houve três audiências públi-
nome, atendendo ao Estatuto das Cidades, lei fede- cas em agosto de 2006, seguindo o mesmo procedi-
ral de 2001, que instituía as políticas nacionais de mento das reuniões públicas.
desenvolvimento urbano. A equipe técnica apresentou inicialmente 12
Campo Grande completava, em 1999, 100 anos temas: 1) o papel do município na região de desen-
de sua emancipação política. Com uma população volvimento regional; 2) desenvolvimento econômi-
urbana de 618 mil habitantes e mais de 600 arquite- co municipal; 3) interface zona rural e urbana; 4)
tos residentes e um órgão de planejamento urbano tendências da expansão urbana; 5) instrumentos
em pleno funcionamento, o quadro urbano já era urbanísticos; 6) política habitacional; 7) regulariza-
modificado com ações e projetos desenvolvidos ção fundiária; 8) função social da propriedade ur-
pela comunidade local. bana; 9) patrimônio cultural municipal; 10) gestão

52 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


democrática e controle social; 11) transporte, trân- Essa situação exigia, do setor público e da ini-
sito e mobilidade; 12) saneamento ambiental e re- ciativa privada muita ação, e com isso começou o
cursos hídricos. caos urbano. O Governo do Estado, por intermédio
da Companhia de Habitação Popular (Cohab), des-
O projeto de lei foi finalizado e enviado para
respeitando qualquer norma urbanística municipal,
a Câmara Municipal apenas uma vez, e, sem qual-
determinou a construção de gigantescos conjuntos
quer tipo de objeto que causasse polêmica, foi
habitacionais, localizados em áreas distantes da pe-
aprovado. Um relatório técnico foi produzido pelo
riferia, como as Moreninhas, fora do perímetro ur-
relator Vereador Jorge Martins, mas a Comissão Le-
bano. O Instituto de Previdência de MS (Previsul) e
gislativa não apreciou e o projeto foi aprovado sem
o Instituto de Orientação às Cooperativas (Inocoop)
nenhuma emenda parlamentar, conforme Lei Com-
também deixaram suas marcas no sítio urbano.
plementar no 94, de 6 de outubro de 2006.
Ora, se a cidade já tinha um perímetro de
28.500 ha suficiente para abrigar mais de quatro
A título de conclusão milhões de pessoas e na década de 1980 só tinha
300 mil, por que alterar o perímetro para implantar
A partir da década de 1940, a população urba- o maior conjunto habitacional do Estado – as More-
na de Campo Grande passou a dobrar a cada dez ninhas, com quatro mil casas? A Câmara Municipal
anos, como vimos. Em 1950, eram 31.708 habitan- aprovou a mudança. Esse foi um episódio de um
tes; em 1960, dobrou para 64.934; em 1970, passou tempo sem discussão no planejamento.
para 131.110; em 1980, já havia 283.653 habitantes. Somente entre 1980 e 1985, o setor público es-
Em 1991, o Censo Demográfico do IBGE regis- tadual construiu mais de 15 mil habitações populares,
trou 526 mil pessoas, um crescimento menor que ou seja, 25% do total de habitações existentes em 1985.
nas últimas cinco décadas. Em 2000, 663 mil habi- Eram os anos do milagre da construção civil de
tantes e o crescimento médio geométrico anual, que Mato Grosso do Sul e do país, onde o Banco Nacional
era de mais de 8% nas décadas de 1970/1980, passa da Habitação financiou milhares de habitações pelo
para 6% de 1980/1990 e agora para pouco mais de país afora. Em Campo Grande, segundo as estatísti-
2%. Em 2010 foram contados 786 mil pessoas. cas, nunca se construiu tanto em período tão curto.
Essa velocidade de crescimento urbano e de Nesse sentido, as raízes do planejamento ur-
urbanização acelerada, ocorridas em décadas pas- bano de Campo Grande estão presentes na história
sadas em Campo Grande, não correspondia com a e em sua trajetória de desenvolvimento, apontados
base econômica do Estado, ainda centrada na agro- aqui neste capítulo. As nossas heranças culturais e
pecuária e mais recentemente na agroindústria. urbanísticas são intensas e muito presentes em to-
dos os momentos da cidade.
Durante mais de 50 anos, a elaboração de leis e
normas urbanísticas não teve a participação da co- Quem vai estudar Campo Grande e planejá-la
munidade técnica, nem da empresarial, política ou precisa conhecer sua história sob pena de cometer
popular. equívocos que podem comprometer o futuro.

As raízes do planejamento urbano em Campo Grande 53


Ao alto, Edifício Nacao,
construído em 1948 e, na
época, o mais alto da cidade.
Rua 14 de Julho, esquina
com Rua Dom Aquino.
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

Ao lado,
Rua Cândido Mariano,
sentido centro-bairro
(década de 1970).
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

54 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


2
O processo de criação do Planurb

A Unidade de Planejamento Urbano de Campo Grande foi criada e insta-


lada em 1987, por uma decisão política do Prefeito Juvêncio César da Fonseca.
Mas como toda decisão há sempre um processo de construção.
Foi em 1948, pela Lei no 24, que o então Prefeito de Campo Grande Fer-
nando Correa da Costa aprovou uma proposta do Vereador Arthur de Ávila A Planurb
Filho de criação da Comissão do Plano da Cidade de Campo Grande. nasceu
pela vontade
Com a aprovação da Lei no 24/1948, o processo de planejamento urbano em de fazer um
Campo Grande começou a existir e a ser implantado. A lei tinha um texto bem planejamento
curto. Em apenas seis artigos, criava a Comissão do Plano da Cidade de Cam- local com
po Grande, com a atribuição de elaborar o Plano Diretor de Desenvolvimento e técnicos locais,
Melhoramento da cidade; orientar a locação geral, dimensões das ruas, viadutos, aproveitando
pontes, cursos de água, boulevards, playgrounds, parkways, praças, parques, aero- as experiências
portos e outras vias públicas ou espaços abertos; determinar a locação geral e nacionais.
extensão futura de todos os serviços coletivos; estabelecer o plano de zoneamento
e fixação de altura, área, locação e uso das edificações; fixar as normas e condições
de loteamentos e terrenos para a formação da vila e fazer a propaganda educacio-
nal da população no tocante às questões urbanísticas. Cabia ainda à Comissão, in-
troduzir modificações, a qualquer tempo, nesse plano diretor que seria elaborado.
A Comissão, formada pelo Prefeito Municipal, dois vereadores escolhidos
pela Câmara Municipal, dois funcionários municipais e seis cidadãos de notória

O processo de criação do Planurb 55


competência e idoneidade, nomeados por Ato do Po- e mais alguns poucos bairros descolados desse nú-
der Executivo, poderia solicitar a contratação de em- cleo, como o Amambaí, o mais antigo, de 1921.
pregados necessários ao trabalho, inclusive de “ur- Nos anos de 1950, nos mandatos dos prefeitos
banistas”, para orientação geral, visto que o serviço Ari Coelho (1951-1953) e Wilson Fadul (1953-1955),
deveria ser exercido gratuitamente pelos designados apesar das iniciativas de urbanização da cidade,
pelo Prefeito municipal14. Na prática, o coordenador pela via da pavimentação de vias urbanas, nenhu-
da Comissão era o engenheiro Renê Neder, servidor ma atitude de instituir o planejamento urbano foi
municipal, encarregado das obras do município. tomada. Wilson Fadul comenta, em Buainain (2006),
Nesse sentido, a Comissão do Plano da Cidade que a administração pública municipal era precária:
de 1948 era um misto de unidade de planejamento não havia secretarias para cuidar dos assuntos mu-
urbano – incumbida de elaborar o Plano Diretor –, e nicipais. Havia apenas uma Secretaria Geral na Pre-
unidade de aconselhamento do Executivo munici- feitura e o Prefeito Municipal e os poucos técnicos
pal, com a tarefa de fazer a divulgação e os debates e administrativos. Não se falava em planejamento.
dos assuntos urbanísticos da cidade. Mesmo assim, Fadul ainda realiza a instalação da
rede telefônica da cidade e o Horto Florestal.
Mas, a decisão do Prefeito Fernando Correa da
Costa respeitava os acontecimentos urbanísticos da- Campo Grande era assim nos anos de 1950, se-
quele período. No Brasil, por volta de 1940, com a gundo Fadul:
população das cidades brasileiras se urbanizando a Ela [a cidade] praticamente terminava no Dom Bosco
cada ano com o processo de crescimento vertiginoso [Av. Mato Grosso]. Tinha depois o Bairro do Cascu-
na direção das principais cidades do país e uma bus- do. Pro lado do cemitério [ao sul da cidade], a cidade
ca por territórios desocupados, como o caso de Mato terminava na beira do córrego, na Joaquim Murtinho,
por ali. Do outro lado, atravessava a Cabeça de Boi e já
Grosso, a colonização, pela via da exploração, é fun-
era uma outra cidade.
ção determinante da ordenação urbana de então. A
maior parte das cidades daquele tempo foi implan- Não existiam favelas; tinha bairros pobres mas não
favelas. Tinha o núcleo central e aqueles apêndices.
tada ao longo das rotas de passagem e dos rios, sem
Campo Grande era ocupada em função da renda, cla-
nenhum tipo de planejamento do território que pu-
ro. O pessoal que trabalhava no exército e tinha ren-
desse comportar grande contingente populacional. dimentos mais baixos ficava no bairro Amambaí, em
Na década de 1940, Campo Grande era imensa, frente aos quartéis. A Vila Carvalho, ligada ao curtu-
do ponto de vista territorial. O município de então me [...] (BUAINAIN, 2006, p 51).
abrangia o território dos atuais municípios de Te- No mandato do Prefeito Wilson Barbosa Mar-
renos e Sidrolândia, mas a cidade se resumia a um tins (1959-1963) é que foi aprovada a Lei no 663/1959,
núcleo central, correspondente ao quadrilátero atual estabelecendo a estrutura e definindo as atribuições
mais histórico, que envolve as ruas Fernando Correa dos órgãos administrativos da Prefeitura Municipal
da Costa, Pedro Celestino, Mato Grosso e Calógeras de Campo Grande. Em seu artigo 2o, criava o CPU,

14. Analisando os documentos da época, não encontramos citação dos nomes dos membros dessa Comissão.

56 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


um órgão autônomo, ao qual cabia aconselhar e su- e esgotos e o engenheiro Hélio Baís Martins elabo-
gerir ao Governo Municipal os estudos a respeito ra o novo Código de Obras e Posturas Municipais,
do Plano Diretor do Município, opinando nos casos aprovado pela Câmara Municipal em 1965, como
julgados necessários pelo Prefeito. Lei legislativa no 26, de 31 de maio. Outra ação im-
Esse Conselho foi uma proposição da empresa portante do Prefeito Wilson Martins foi a Lei no
de consultoria Companhia de Organização de Em- 695/1960, que traça os novos limites do perímetro
presas, do Rio de Janeiro. Pela administração muni- urbano da cidade, para combater a especulação
cipal participavam o prefeito municipal (que era o imobiliária, que começava a acontecer em Campo
presidente), o secretário de Obras e Viação e o chefe Grande. Ficou assim o novo perímetro urbano:
do Serviço de Urbanismo e do Serviço Municipal de Art. 1o - O perímetro urbano da cidade fica compre-
Estradas de Rodagem, dois representantes da Câma- endido dentro dos seguintes limites: começa na Rua
ra de Vereadores e representantes da sociedade civil. Amazonas no cruzamento com a Rua 25 de Dezem-
bro, seguindo por esta até encontrar a Rua 15 de No-
Nas competências do CPU, escritas em oitos vembro, pela qual segue até encontrar a Rua Campo
itens, podemos verificar que era o organismo res- de Marte; daí até a Rua Joaquim Murtinho e por esta
ponsável pela recomendação de estudos e projetos até a Rua José Antônio; seguindo por esta até o corre-
de planejamento urbano de toda ordem e ainda co- dor da estrada de Três Barras, no cruzamento de uma
ordenava a sua execução. Na prática administrativa, Rua projetada, por esta até a Rua Sebastião Lima; daí
tinha as mesmas atribuições da Comissão do Plano à Avenida Contorno e por esta até a Avenida Primeira;
desta até os trilhos da N.O.B.; por estes trilhos até o
da Cidade, de 1948. Ou seja, há indícios de que a ci-
córrego Segredo; por este acima até o corredor do Im-
dade ainda não possuía pessoal técnico especializa-
birussú; daí até a Praça São Tomé; segue daí pela Rua
do para formar o órgão municipal e a alternativa era 13 de Maio até a Rua Presidente Roosevelt; por esta
contratar consultores e deixar a comunidade local até a Rua Pedro Celestino; desta até a Rua Amazonas;
participar e organizar os debates e a aprovação das por esta até a Rua 25 de Dezembro, ponto de partida.
ideias. Com essa medida, garantia-se parte impor-
Wilson Martins em Buanain (2006), lembra que,
tante do processo de planejamento urbano.
nos anos de 1960, a cidade de Campo Grande já se
O Prefeito Wilson Martins desenvolveu um estendia para além do Bairro São Francisco (antigo
mandato voltado para a cidade e para a adminis- Cascudo) e se agigantava a todo o momento. Era a
tração municipal que, a seu ver, era precária e ar- época de inauguração da capital federal, Brasília, e
caica. Contrata os serviços do Instituto Brasileiro a região Centro-Oeste começava a despertar para a
da Administração Municipal (IBAM) para acertar ocupação territorial e como Campo Grande tinha
as finanças e a gestão pública e também os estudos uma localização privilegiada no sul do Mato Grosso,
do Plano Diretor com o Centro de Pesquisas e Es- beneficiou-se desse processo de desenvolvimento.
tudos Urbanísticos da Faculdade de Arquitetura e
Nesse ano de 1960, Wilson Martins determina
Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP).
a aprovação de outra lei importante que ainda é usa-
Ainda encomenda para o Escritório Saturnino da pela população da cidade: trata-se da Lei no 686,
de Brito os serviços de ampliação das redes de água de 25 de agosto, que expede plantas de arquitetura

O processo de criação do Planurb 57


gratuitas para a população de baixa renda para edi- a contratação da consultoria da empresa Hidroservi-
ficação de casas populares de um, dois e três dormi- ce Engenharia de Projetos Ltda. e, com isso, concreta-
tórios, cujos cálculos estimativos apontam mais de mente, no começo da segunda administração de Ca-
dez mil unidades existentes na periferia da cidade. nale, o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado
começou a ser elaborado em 1970. Pela Lei municipal
Na administração seguinte, o Prefeito Antô-
no 1.124, de 15 de março de 1968, que autoriza o fi-
nio Mendes Canale (1963-1967) toma a iniciativa
nanciamento, e pela Lei no 1.197, de 26 de junho de
de solicitar autorização legislativa para um con-
1969, o Poder Executivo foi autorizado a contratar os
vênio de cooperação técnica com a Pontifícia Uni-
serviços da Hidroservice pelo valor de 758 mil cruza-
versidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), por
dos novos, a serem financiados pelo Banco Nacional
intermédio do Centro de Estudos e Planejamento
de Habitação e Caixa Econômica Federal, dentro do
(Cendeplan-PUC), para a criação do Núcleo de Pla-
Plano do Serfhau, órgão do Ministério do Interior en-
nejamento Municipal, trabalho assessorado pelo ar-
carregado do planejamento nacional.
quiteto Harry James Cole15 e a criação do Conselho
Municipal de Desenvolvimento Integrado (CMDI) Em 1971, Canale nomeia o engenheiro Fernan-
objeto do Decreto no 3.679/1964. do Scardini na Secretaria de Obras e o arquiteto Gui-
lhermo Sória na Assessoria de Planejamento, que
Canale afirma, em Buanain (2006), que era o sugeriu a contratação do paisagista Burle Marx para
momento de acabar com o empirismo e partir para elaborar propostas para a Avenida Afonso Pena,
estudar a cidade e seus problemas e, para tanto, era Mato Grosso e Y Juca Pirama (parte oeste da Rua
necessário estruturar o poder público municipal Cândido Mariano em frente ao Colégio Maria Cons-
com ferramentas modernas e, uma delas, contando tança de Barros Machado), da Praça Newton Caval-
com a assessoria da PUC-RJ, implantar um organis- canti e a abertura das primeiras avenidas marginais
mo para planejar a cidade. A tese era, de fato, ela- aos córregos. Nesse momento, o projeto executivo
borar um plano diretor para Campo Grande. Mas da Av. Afonso Pena, da Av. Calógeras até a Rua José
essa atitude somente se concretiza no seu segundo Antônio, no Obelisco, estava sendo apreciado pela
mandato, em 1970. equipe técnica comandada pelo arquiteto Sória.
Durante o mandato do Prefeito Plínio Barbosa A Assessoria de Planejamento foi instituída
Martins (1967-1970) foram criadas as condições para pela reforma administrativa de 1971 pela Lei muni-

15. O arquiteto carioca Harry James Cole se formou na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de
Janeiro, em 1954, e trabalhou como arquiteto e urbanista até 1980. Cole fez um curso de especialização em planejamento
urbano na Inglaterra e nesse período também trabalhou no Departamento de Arquitetura do London County Council. Essa
experiência marcou profundamente seus trabalhos profissionais, que apresentam fortes ressonâncias do urbanismo inglês.
Atuando profissionalmente no Brasil, Cole foi partícipe de importantes acontecimentos no campo do planejamento urbano
no Brasil entre 1957 e 1973, como a construção de Brasília, a implementação dos planos de desenvolvimento integrado e
a concepção do Programa Cura, além de ter elaborado inúmeros trabalhos urbanísticos em seu escritório, o HJ Cole Ar-
quitetos + Associados S/C Ltda. até o final dos anos de 1970. Fonte: Tese de Doutorado Maria Cecilia Lucchese, Escola de
Engenharia de São Carlos USP 2009

58 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


cipal no 1.299, de 30 de julho, no artigo 16, e subordi- e implantá-la. Mais uma tentativa de instalar o órgão
navam-se a ela o Serviço de Controle Arquitetônico de planejamento urbano que não se concretiza.
e Urbanístico; Serviço de Programação e Controle e
Durante o mandato do Prefeito Marcelo Mi-
o Serviço de Cadastro Físico. Para cumprir a missão
randa Soares (1977-1979) não houve grande preo-
de coordenar os trabalhos do Plano Diretor ainda
cupação em instituir o processo de planejamento
criava o Conselho Municipal de Desenvolvimento
urbano local, especialmente por conta da contra-
Integrado.
tação dos serviços da Empresa Jaime Lerner que
Desse trabalho com a empresa Hidroservice, elabora o Plano de Estruturação Urbana (PEU) e
Campo Grande passou a ter o PDDI – comentado no o Projeto Comunidades Urbanas de Recuperação
capítulo 1. A aprovação da Lei no 1.429/1973, que defi- Acelerada (Cura), no bairro Taveirópolis, resultan-
nia as diretrizes do planejamento da cidade, acontece do seu trabalho de planejamento na aprovação da
só na na administração posterior, do Prefeito Levy Lei municipal no 1.747/1978.
Dias (1973-1977), que acaba sendo o responsável pela
Apesar disso, houve uma reformulação na admi-
execução das principais medidas previstas do PDDI,
nistração municipal pela Lei n o 1.811, de 21 de maio
como a urbanização da Avenida Norte-Sul, marge-
de 1979, que, em seu artigo 19, criou o Departamento
ando o Córrego Segredo. Quanto à instalação do ór-
de Urbanismo, com a Divisão de Planejamento Urba-
gão de planejamento urbano, na administração Levy
no vinculado. Mas esse departamento, embora tives-
Dias, nenhuma ação nessa direção foi realizada.
se sido administrado por profissionais arquitetos, não
A Câmara Municipal, por autoria do Vereador estava preparado para o processo de planejamento
Eduardo Contar Filho, é que vai propor pela Lei legis- urbano, visto que os projetos eram todos contratados
lativa no 88, de 26 de julho de 1974, a criação da Com- de empresas de consultoria nacionais.
panhia de Desenvolvimento e Urbanismo de Campo
No plano nacional, começava a discussão pela
Grande (Codurcam),
reforma urbana. Bassul (2005) relata:
autorizando o Poder
Executivo Municipal A reforma urbana também foi resgatada durante a ditadura
a constituir a empresa militar. Num primeiro momento, em 1975, com a publicação
de um conjunto de ideias para se resolver os problemas urba-
nos, o qual receberá formato de lei, dois anos mais tarde. E
num segundo momento, na proposta
do Projeto de Lei de Desenvolvimen-
to Urbano – PL 775 – de 1983. A partir

Reprodução da capa de um documento


do PDDI de Campo Grande e do Projeto
CURA Piloto de Campo Grande.
Arquivos: Planurb e Ângelo Arruda, respectivamente.

O processo de criação do Planurb 59


de uma visão centralizadora, tal ante-
projeto de 1977, esboçou a integração
das ações entre os diferentes níveis
de governo do setor do planejamento
urbano. Entretanto, a participação da
comunidade foi prevista por uma cer-
ta ação fiscalizatória presente no capí-
tulo IV destinado aos “Instrumentos
de Atuação”: Artigo 39 - “A execução
do plano poderá ser cometida a enti-
dades públicas ou privadas, cabendo
sua fiscalização ao Poder Público e a
iniciativa privada, sob formas asso-
ciativas e comunitárias”.

No plano local, a cidade de


Campo Grande se transformava
em capital de Mato Grosso do Sul
e, em 1979, instala-se um novo go-
verno estadual com o engenheiro
do Departamento de Obras de Saneamento (DNOS)
Harry Amorim Costa, e Marcelo Miranda Soares na
administração municipal. Seis meses depois, Harry
Amorim deixa o governo estadual; Marcelo Miranda
assume e o Presidente da Câmara de Vereadores Albi-
no Coimbra foi nomeado Prefeito Municipal.

Durante os próximos seis anos, Campo Gran-


de passou a ter vários prefeitos: Albino Coim-
bra (29/6/1979 a 7/11/1980); Leon Denizart Conte
(7/11/1980 a 19/11/1980); Levy Dias (19/11/1980 a
6/4/1982); Valdir Pires Cardoso (6/4/1982 a 12/5/1982);
Heráclito Diniz de Figueiredo (12/5/1982 a 14/3/1983);
Nelly Elias Bacha (14/3/1983 a 20/5/1983) e Lúdio Mar-
tins Coelho (20/5/1983 a 31/12/1985), todos nomeados
Ao alto, mapa do Zoneamento de Campo Grande de 1978.
pelo governador do Estado. Fonte: Perfil de Campo Grande de 1988.

Durante esse tempo, de 1979 a 1985, a Câmara Acima, reprodução da capa do projeto
de Vereadores, mais uma vez, autoriza o Poder Exe- Estrutura Urbana de Campo Grande.
cutivo a criar o órgão de planejamento da cidade. Em Arquivo: Ângelo Arruda.

60 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


30 de dezembro de 1979, pela Lei Legislativa no 137, Popular que teve papel importante no processo de
era autorizada a criação do Instituto de Pesquisa e elaboração da Constituição Federal com vários de
Planejamento Urbano de Campo Grande, autarquia seus temas tratados no Capítulo da Política Urbana.
municipal, mas que também não logrou efeitos. Em Estabelece o artigo 182 da Constituição Federal:
1981, outra reforma administrativa municipal, pela Artigo 182 – A política de desenvolvimento urbano,
Lei no 1.949, de 16 de janeiro, cria o Departamento executada pelo Poder Público municipal, conforme di-
de Planejamento Urbano na Secretaria de Obras. retriz geral fixadas em lei tem por objetivo ordenar o
pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade
Foi na administração de Heráclito Diniz que e garantir o bem-estar de seus habitantes.
aconteceu um fato administrativo importante que
vai determinar a implantação do organismo de pla- Com esse texto aprovado em 1988, Campo
nejamento da cidade. Era a criação da Unidade de Grande se aliava ao processo nacional de planeja-
Administração do Subprojeto (UAS), um organis- mento urbano, agora com a criação de um organis-
mo técnico para administrar recursos de um pro- mo capaz de responder às demandas da cidade e
grama federal de planejamento de Cidades de Porte da sociedade, com corpo técnico local e democrati-
Médio (CPM). Heráclito, quando entrevistado por zação de seus processos, com legislação adequada.
Buainain (2006), afirma:
Fizemos primeiro o Perfil Socioeconômico de Campo
Grande e a UAS teve muito cuidado em assegurar que Contextualização da
a cidade se desenvolvesse de maneira planejada. Nós criação do Planurb
tínhamos arquitetos bastante preocupados com esse
problema de urbanismo [...] A UAS foi o embrião do
Concretamente, o processo de criação do Pla-
órgão de planejamento urbano. Nós não tínhamos den-
nurb se fortaleceu e nasceu com a eleição dos ve­
tro da Prefeitura um órgão específico como o Planurb.
readores de 1982: Juvêncio César da Fonseca; José
Nos anos de 1980, o movimento pela redemo- Roberto Oliva; Waldemir Moka de Brito (Moka);
cratização do país, que culminou no fim da ditadu- Leon Denizart Conte; Sérgio Arruda; Tetsuo Arashi-
ra militar com a instalação da Assembleia Nacional ro; Francisco Giordano Neto (falecido); Moacir
Constituinte, consubstanciou-se no marco desse Scândola; Nelly Elias Bacha; Francisco José Albu-
processo. Bassul (2005) constata a influência decisiva querque Maia Costa; Victor Cabreira de Eugênio;
dos movimentos sociais organizados na confecção Marco Aurélio Bertoni; Antônio Braga; Américo
da Lei Maior, durante aquele período, sendo um dos Flores Nicolatti; Francisco Fausto Matto Grosso Pe-
aspectos marcantes o fato de que a Assembleia Na- reira; Marcelo Barbosa Martins; Ramão Achucarro;
cional Constituinte não partir de um texto técnico. Wilson Oshiro; Antônio Parron Aranda; Antônio
Uma grande quantidade de associações civis, Pereira; Jairo Fontoura Correa; Manoel Lacerda e
movimentos e grupos sociais, entidades, associações Marilene de Moraes Coimbra.
de classe, organizações não governamentais partici- Esse grupo, antes de tomar posse em março de
param dos trabalhos da Assembleia Nacional Cons- 1983, realizou um Seminário para discutir os proble-
tituinte, inclusive com a formulação de uma Emenda mas de Campo Grande no Plenário da Câmara Mu-

O processo de criação do Planurb 61


Reunião com vereadores de
Campo Grande em 1987 para
apresentação do Projeto de
Lei do Planurb.
Arquivo: Ângelo Arruda.

nicipal e, desse evento, germinaram diversas propos- Os novos vereadores eleitos em 1982, espe-
tas importantes, dentre elas, a necessidade imperiosa cialmente Juvêncio César da Fonseca, Fausto Matto
de criar o órgão de planejamento urbano da cidade. Grosso e Américo Nicollati, elegeram como priori-
dades de seus mandatos, as questões urbanas e fun-
Vivia-se um período de transição entre o fim
diárias da cidade e, com isso, havia espaço para dis-
da ditadura militar e o processo de redemocrati-
cutir a criação de um organismo municipal que se
zação, que acaba sendo instalada em 1984 com a
responsabilizasse pelo planejamento urbano, visto
vitória de Tancredo Neves para a Presidência da
que ainda não havia uma estrutura municipal en-
República. A cidade recém-instalada como capital
carregada de estudar, pesquisar e planejar a cidade,
do mais novo Estado do país, Mato Grosso do Sul,
com todos os problemas urbanos.
sofria com a urbanização desenfreada, a criação de
favelas por toda parte e a inconsequente alta dos Uma oportunidade de criar o órgão de pla-
preços dos imóveis, fruto, de acordo com o merca- nejamento urbano surgiu quando da discussão e
do imobiliário, do engessamento urbanístico pro- aprovação da legislação de favelas (Lei municipal no
vocado pela aplicação da lei de uso do solo em vi- 2.223/1984, que criava o Programa de Regularização
gor, desde 1978, a Lei municipal no 1.747/1978. e Assentamento de Favelas) e um artigo foi incluído
como emenda desses vereadores que pleiteavam a
Ocupação de áreas privadas e públicas por fa-
criação do Planurb em 1984, quando era Prefeito o
mílias em busca de oportunidades de emprego e mo-
pecuarista Lúdio Martins Coelho. A classe política
radia, geralmente migrantes da zona rural ou de ou-
culpava o surgimento de favelas em Campo Grande
tros estados; ônibus superlotados sem uma política
pela ausência de uma política urbana.
de transporte urbano; mais de 80 mil lotes vazios em
contraste com uma imensidão de glebas vazias no pe- Mas foi o vereador Fausto Matto Grosso que,
rímetro urbano; défice de salas de aula e de unidades por meio de emenda ao Projeto de lei no 19, de 31
de saúde, dentre outros problemas, eram o retrato de de agosto de 1984, do Poder Executivo, propôs uma
Campo Grande em 1982, quando das eleições gerais. reformulação da estrutura básica da administração

62 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


municipal e nessa mudança, nasceria o CMDU e o eu queria duas coisas: valorizar o nosso pessoal técnico
Instituto Municipal de Planejamento Urbano (IM- local e não receber “pacote” de consultorias prontas,
PUC). A emenda foi aprovada pelos vereadores, sem debate. Aí optamos por contratar o Sérgio Zaratin
e ele, juntamente com a equipe local, começa a discutir
mas foi colocado um prazo de 90 dias, prorrogado
as bases de um novo planejamento urbano.
por mais 150 para a sua implantação, que acabou
não acontecendo em 1985. Assim, em agosto de 1986, a Prefeitura Muni-
cipal celebrou um convênio com o Instituto de Ar-
A Lei municipal no 2.253, de fevereiro de 1985,
quitetos do Brasil – Departamento de Mato Grosso
foi aprovada e estava reformulada a estrutura básica
do Sul, para a realização de diversas atividades,
da Prefeitura Municipal. Foi criado o processo de ne-
dentre elas, um seminário que ficaria encarregado
cessidade e, assim, Lúdio Coelho mandou elaborar
de debater as propostas para a estruturação do Ins-
um projeto de lei que instituísse o Instituto de Plane-
tituto de Planejamento Urbano e, entre 30 de julho e
jamento Urbano, dessa vez, considerando a extinção
1o de agosto de 1985, os trabalhos foram realizados.
da UAS, criada pela Lei municipal no 2.051/1982.
O documento do IAB-MS, resultado das pro-
Lá na UAS havia um corpo técnico de profis-
postas do Seminário, continha avanços enormes
sionais que seria importante para iniciar a instala-
para o planejamento urbano de Campo Grande.
ção do Instituto de Planejamento Urbano, mas essa
Pregava a participação da comunidade em todo o
opção não se configurou ao final e o projeto de lei
processo de planejamento; requeria o acesso livre
acabou não sendo encaminhado para aprovação.
à informação ligada ao planejamento da cidade; e
Tudo volta à estaca zero.
solicitava a criação de um instituto com a máxima
Em 1985, em função da Campanha Diretas Já, transparência e clareza na veiculação de suas pro-
Campo Grande elegeu Juvêncio César da Fonseca, postas. E mais: dizia que a estrutura administrativa
para prefeito municipal. Segundo o ex-prefeito Ju- deveria ser flexível para se adequar às diversas ta-
vêncio16, quando ele assumiu o seu mandato em refas do planejamento urbano, evitando os feudos
1986, a cidade de Campo Grande estava pronta funcionais, e recomendava: a) a entidade deveria ser
para discutir seus problemas urbanos. uma autarquia pública municipal, livre e vinculada
Disse ele em entrevista: ao Gabinete do Prefeito; b) a realização de concursos
públicos para os cargos funcionais; c) a criação de
Quando assumimos o mandato, o país estava começan-
um Conselho Municipal de Desenvolvimento Urba-
do a discutir a necessidade de uma nova Constituição
no, também vinculado ao Gabinete do Prefeito; d) a
e o que mais se pregava era o controle social, que era
fundamental para livrar-nos do passado. Eu tinha algu- implementação de um disciplinamento do processo
ma experiência no planejamento, pois em 1979 quando de planejamento e participação comunitária, base-
fui Chefe de Gabinete do Prefeito Marcelo Miranda, ado na experiência de Salvador-BA e Cotia-SP; e) a
acompanhei intensamente a equipe do arquiteto Jai- criação de um Grupo de Trabalho voltado para pro-
me Lerner que fez um plano para nossa cidade. Mas gramar o instituto e apreciar as ideias futuras.

16. Entrevista realizada em Campo Grande, MS, no dia 21 de abril de 2012.

O processo de criação do Planurb 63


Decorrido um ano, a Prefeitura Municipal cria IAB-MS, e não deveria aproveitar a Unidade UAS,
o Grupo de Trabalho pela Portaria no 136, de 9 de existente desde 1982.
março de 1987, com a finalidade de estudar, em 30
Somente esse tema foi motivo de muitos deba-
dias, os mecanismos institucionais e instrumentais
tes e muita polêmica em 1987. O GT recomendava
para implantação do órgão de planejamento urbano.
ainda que houvesse consultoria técnica externa e
Faziam parte, os arquitetos Inácio Salvador Nessi-
especializada e que o Fundo Municipal de Desen-
mian (Semur) e Ângelo Marcos Vieira de Arruda (Se-
volvimento Urbano, existente desde 1983, fosse ge-
plan); o advogado Augusto Vieira de Melo (Projur)
rido pelo Planurb.
e o economista Carlos Nóbrega de Freitas (Seplan).
Para a discussão dessas ideias, o Prefeito Ju-
O grupo realizou consultas e participou de um
vêncio realizou diversas reuniões com as entidades
seminário em Florianópolis em abril de 1987, com
e com os vereadores culminando com a aprovação
a participação dos institutos IPUF (Florianópolis);
da Lei no 2.383, de 11 de maio de 1987: “cria na Es-
IPPUC (Curitiba); IPLAN (Rio de Janeiro) e Seplan
trutura Básica da Secretaria Municipal do Planeja-
de São Paulo, onde foram debatidas as ideias de aper-
mento a Unidade de Planejamento Urbano de Cam-
feiçoamento das unidades técnicas de planejamento
po Grande (Planurb) e dá outras providências”.
urbano no país e a necessidade de melhorar o nível
institucional e administrativo desses organismos. O Planurb foi criado como unidade técnica
Voltando desse seminário, o Grupo de Traba- encarregada de formular a política de desenvolvi-
lho (GT) aprovou uma proposta de implantação mento urbano e responsável pela análise, coleta e
do órgão de planejamento urbano e apresentou as sistematização de todas as informações necessárias
ideias ao Prefeito Municipal, assim: a) o órgão de para o planejamento; pela elaboração e coordena-
planejamento urbano, ao nascer, deveria começar ção dos estudos e pesquisas de planos e projetos de
vinculado à Secretaria de Planejamento hajam vista natureza urbanística, inclusive a legislação; e pela
as relações setoriais e o processo de planejamento análise e avaliação de desempenho da situação físi-
global da cidade, a cargo da Seplan; b) os Grupos ca, socioeconômica e conjuntural da administração.
de Planejamento existentes na Estrutura Básica de A estrutura era enxuta e pequena: Diretor Exe-
todas as secretarias municipais deveriam ser im- cutivo; Assessor Jurídico; Centro de Documentação
plantados e vinculados ao Instituto; c) o órgão de- Técnica; Núcleo de Editoração e três Coordenado-
veria atuar em planejamento urbano, planejamento rias – de Informações para o Planejamento, de Pla-
do transporte e trânsito, estudos e projetos em geral nejamento Global e de Monitoramento e Avaliação.
e planejamento do cadastro imobiliário. Acompanhava um quadro técnico de 17 pessoas e
O nome proposto era “Unidade de Planeja- mais um grupo administrativo de 12 profissionais,
mento Urbano de Campo Grande (Planurb)”, uma quase todos da própria administração municipal17.
unidade técnica vinculada à Seplan e não uma au- Juvêncio relata que o planejamento urbano sem-
tarquia, como queria o relatório do Seminário do pre o contaminou como profissional e político. Como

17. Os trabalhos que foram realizados por essa equipe constam do Capítulo 4.

64 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


advogado e as relações do direito
com o urbanismo, o animaram a
caminhar na direção dos compro-
missos com a cidade e seu desen-
volvimento urbano.
Apesar disso, Juvêncio não
queria um órgão de planejamento
qualquer. Disse ele:
Convidamos vários especialistas
para debater conosco o melhor
formato de um organismo de
planejamento urbano para uma
cidade do porte de Campo Grande em 1986. Tínhamos
um grupo de profissionais na cidade muito bom, mas
queríamos ouvir algumas experiências. Desse processo
que fizemos em conjunto com o IAB-MS e a AGB-MS,
surgiu um debate onde nasceram as ideias que logo
acatamos. Um órgão enxuto com boa capacidade de
formulação e uma equipe toda local. Campo Grande
não aceitava mais os famosos pacotes de projetos que
vinham e não se relacionavam com as questões locais.
A Planurb nasceu pela vontade de fazer um
planejamento local com técnicos locais, aproveitan- Prefeito Juvêncio César da Fonseca, em 1987,
com a equipe do Planurb e assinando o Projeto de Lei
do as experiências nacionais e a que mais motivou
do Planurb, com Wilson Coutinho e Ângelo Arruda.
o poder municipal foi a do arquiteto Sérgio Zaratin, Acervo: Biblioteca Planurb.
profissional da assessoria da Empresa de Planeja-
mento Metropolitano de São Paulo (Emplasa), que trabalho e uma gratificação por projetos desenvol-
tinha desenvolvido em Salvador, BA, anos antes, vidos. Isso foi aceito por todos e o Planurb nasceu
um processo de planejamento urbano democrático com essa marca administrativa: leve, enxuto e com
e participativo com uma série de ideias novas para um plano de trabalho adequado às suas finalidades.
o zoneamento da cidade. Oito anos depois de sua criação, a unidade
Além disso, ele propôs um modelo de órgão técnica da Seplan se transforma em autarquia mu-
de planejamento baseado na capacidade dos técni- nicipal, vinculada ao Gabinete do Prefeito, pela Lei
cos de se organizarem em grupos e com uma equipe no 3.183, de 22 de agosto de 1995, que cria o “Insti-
única, sem vinculação a nenhum departamento. As- tuto Municipal de Planejamento Urbano de Campo
sim, haveria uma otimização da equipe, subdividida Grande – Planurb, e dá outras providências” encer-
em projetos, com coordenação escalada para cada rando um ciclo institucional da entidade.

O processo de criação do Planurb 65


Ao alto, Paço Municipal,
Av. Afonso Pena
(inaugurado em 1979).
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

Ao lado, vista parcial


de Campo Grande
(década de 1980).
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

66 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


3
A democratização
do planejamento e o CMDU

Foi com a publicação do Decreto municipal no 5.484, de 9 de março de


1987, que nasceu, legalmente, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Ur-
bano (CMDU) criado para suprir a necessidade de assegurar a ampla discus-
são, no âmbito da administração e da comunidade, das políticas, diretrizes e
planos de desenvolvimento municipal. O CMDU já
atravessou a
A Prefeitura Municipal sentia a importância de estimular a participação
administração de
da comunidade no processo de tomada de decisão das questões urbanas e, ao quatro prefeitos
mesmo tempo, queria garantir essa participação efetivando as relações do con- nesses 25 anos,
trole social por meio do CMDU. sempre com altos e
baixos, mas uma
Ao longo dos anos de 1980, com a transição democrática, foi acontecendo
coisa é inegável:
o surgimento de um regime mais aberto à participação. Os movimentos sociais, é um Conselho que
por suas entidades, foram se tornando interlocutores privilegiados do Estado, nunca se omitiu,
na medida em que este estava se propondo a novas formas de representação na nunca deixou de
sociedade. O Movimento Nacional pela Reforma Urbana surgiu nesse período, dar sua opinião.
por volta de 1985.
No âmbito nacional, segundo Silva (2003), o Movimento pela Reforma
Urbana se organizava e, por meio de setores da Igreja Católica, do movimento
social, intelectuais, técnicos da área urbana e entidades organizadas em torno
da política urbana, além de partidos políticos clandestinos e legais, desenvol-

A democratização do planejamento e o CMDU 67


veram a articulação de um amplo movimento na- A competência do CMDU estava no artigo 2o
cional para discutir propostas sobre a cidade, com do Decreto no 5.484: o Conselho deveria se prepa-
vistas a participar de forma organizada do processo rar para dar pareceres sobre planos, programas e
que estabeleceria uma nova Constituição. projetos, globais ou setoriais, que visassem ao de-
senvolvimento urbano integrado que deveria ser
Em 1987 a sociedade organizada da cidade de
encaminhado pelo Executivo Municipal, a título de
Campo Grande clamava por um planejamento ur-
consulta.
bano participativo. Uma simples pesquisa nos prin-
cipais jornais da época vai mostrar diversos debates Portanto, o CMDU nasceu com a finalidade
e a sociedade apontando caminhos. Vivíamos em de debater todo o planejamento urbano de Campo
período democrático em curso, com a Assembleia Grande e com uma força enorme: todos os proje-
Nacional Constituinte. O Brasil queria mudar e tos deveriam ser encaminhados previamente para
Campo Grande estava em sintonia com o país. a manifestação do Plenário do Conselho.

Em Campo Grande, a comunidade técnica era Mas o decreto de sua criação deixava bem claro
muito expressiva nas entidades que funcionavam que a autonomia do Poder Executivo estava garan-
naquele ano de 1987: a Associação de Engenheiros tida, pois a conveniência ou não de usar o parecer
e Arquitetos de Campo Grande; o Instituto de Ar- do CMDU para as propostas da administração era
quitetos do Brasil, Seção Mato Grosso do Sul; e a do Prefeito Municipal e com isso estavam preserva-
Associação dos Geógrafos do Brasil, Seção de Mato das as relações de poder e as relações sociais. Para
Grosso do Sul. Poucos profissionais estavam inte- a administração municipal, os pareceres do CMDU
ressados na discussão, mas havia sempre muito es- deveriam servir de subsídios para o aperfeiçoamen-
paço para proposições. to dos projetos e das ideias que começavam a brotar
sobre os problemas urbanísticos em geral.

O CMDU foi criado com uma composição de
O CMDU Plenário bastante interessante: a sociedade civil or-
ganizada era majoritária, ou seja, do total de 18 con-
O CMDU foi criado como órgão de natureza selheiros, as entidades indicavam 13.
consultiva e esse era um ponto de partida na sua O Prefeito Municipal era sempre o Presiden-
construção: seu papel na administração e suas re- te desse Conselho e havia a escolha de dois cargos
lações com o poder legislativo municipal. Tudo em para ajudar em sua estruturação: o 1o e o 2o secretá-
1987 era novo e, apostar em um conselho deliberati- rios, eleitos por seus pares em Plenário. Cada con-
vo no ato de sua criação, era arriscar demais e abrir selheiro indicado como titular deveria ter sempre
fendas com os vereadores que deveriam enxergar um suplente, para substituí-lo em suas faltas e im-
esse novo organismo como um aliado do processo pedimentos, com mandato de apenas um ano, ga-
de debates sobre os problemas da cidade. rantida a recondução.

68 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Nesse primeiro Plenário do
CMDU, a administração públi-
ca estava representada, apenas,
pelo Secretário Municipal de
Planejamento, pelo Secretário de
Planejamento e Coordenação Ge-
ral do Estado, pelo Secretário Es-
pecial de Meio Ambiente e pela
Fundação de Cultura de Mato
Grosso do Sul. A sociedade civil
organizada indicava represen-
tantes da Associação Comercial
de Campo Grande; da Associação de Proprietá-
rios de Imóveis de Campo Grande; das Empresas
de Compra e Venda, Locação e Administração de
Imóveis Residenciais e Comerciais do Mato Gros-
so do Sul (Secovi-MS); do Sindicato da Indústria
da Construção Civil e do Mobiliário de Campo
Grande (Sinduscon); do Sindicato dos Corretores
de Imóveis de Mato Grosso do Sul (SCI-MS); do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado
de Mato Grosso do Sul; da União das Associações
de Moradores de Campo Grande (Umam); do Ins-
tituto de Arquitetos do Brasil - Departamento de
Mato Grosso do Sul; da Associação de Engenhei-
ros e Arquitetos de Campo Grande; da Associa-
ção Profissional dos Economistas de Mato Grosso
do Sul; da Associação dos Advogados de Campo
Grande; da Associação dos Geógrafos Brasileiros -
Seção Campo Grande.
As sessões do CMDU eram sempre no Paço
Municipal e a Unidade de Planejamento Urbano de
Primeira reunião do Conselho Municipal
Campo Grande (Planurb) dava todo o suporte para
de Desenvolvimento Urbano (CMDU) em 1987.
as reuniões e a organização burocrática e adminis- Conselheiros e equipe técnica.
trativa de todos os processos. Fonte: Acervo Biblioteca Planurb.

A democratização do planejamento e o CMDU 69


Os primeiros conselheiros tomaram posse no Já as entidades técnicas eram as que mais
Plenário no dia 21 de julho de 1987, na presença do pressionavam pela mudança do zoneamento da
Prefeito Municipal, e todos os atos de nomeação cidade, com propostas concretas, respaldadas nas
foram publicados em 13 de julho daquele ano, no experiências acumuladas de anos de debates sobre
Diário Oficial de Mato Grosso do Sul. Com a posse, o tema.
o primeiro ato do CMDU foi apreciar e aprovar o
seu Regimento.
Na época, algumas críticas foram feitas a esse
A lei do processo de planejamento
modelo de CMDU que contemplava, em sua mai-
e da participação comunitária
ria, entidades da área técnica e profissional, dei-
xando de lado as entidades do movimento social e Em 1988, com a experiência iniciada de discu-
comunitário. tir a cidade e com a perspectiva democrática e de
controle social, o consultor Sérgio Zaratin sugeriu a
O modelo do CMDU de Campo Grande de
adoção de uma lei com os princípios fundamentais
1987 contemplava os segmentos da sociedade e as
para o processo democrático de discussão da cida-
forças locais que se aproximavam no tema do de-
de, antes da aprovação desses mesmos princípios
senvolvimento urbano. O controle social, que hoje
na Constituição federal de outubro de 1988: era
se instala a cada dia, na administração pública, nas-
a Lei no 2.503, de 4 de julho de 1988, que “Dispõe
cia em Campo Grande com o CMDU e as entidades
sobre o Processo de Planejamento e Participação
que mais atuavam na discussão da cidade foram
Comunitária no Desenvolvimento do Município
convocadas, pelo Decreto, a fazer parte do Conse-
de Campo Grande e dá outras providências”. (Ver
lho. Com isso, nascia uma força social auxiliar, fun-
Anexo, p. 109)
damental para a discussão dos problemas da cidade
e importante para a democracia no planejamento. Essa lei inovava as relações entre o Poder
No que tange às entidades de moradores18, a Público e a sociedade civil, determinava os con-
condição de entidade municipal era, sob o ponto de teúdos de cada trabalho a ser realizado, especial-
vista da administração municipal, essencial e, com mente o Plano Diretor, os prazos, as rotinas e as
essa regra política, apenas a Umam tinha assento prioridades na discussão. A Lei no 2.503/1988 era
no CMDU. um avanço para a sociedade urbanística da época.

18. As entidades sociais nos movimentos urbanos, que contribuíram de forma destacada no processo de resistência e derru-
bada da ditadura militar, durante as décadas de 1960 e 1970. Período esse, em que os direitos civis foram fortemente restrin-
gidos, e as organizações sociais foram proibidas de atuar politicamente. Tal proibição abriu espaço para que as Associações
de Moradores servissem como forma de atuação política e iniciassem importantes processos de luta, buscando conquistar
melhores condições de vida, a volta ao estado de direito, com a correspondente liberdade de expressão e prática cotidiana
da democracia. (BASSUL, 2005).

70 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Revolucionava o sistema de planejamento urbano em Campo Grande, cidade pioneira nesse proces-
ao mesmo tempo em que organizava a discussão so. Com isso, a legislação urbanística incluiu, em
democrática da cidade e criava os mecanismos e as seu conteúdo, esses temas, outrora discutidos em
instâncias delegadas. legislação em separado.

No corpo da lei, o CMDU, que tinha sido cria-


do por Decreto em 1987, era agora criado por lei,
conforme seu artigo 3o:
Os trabalhos do CMDU
“Art. 3o - Fica criado o Conselho Municipal de Desenvolvi-
mento e Urbanização – CMDU, órgão colegiado de natureza
Vinte e cinco anos de existência; mais de 400
consultiva, que, sob a presidência do Chefe do Executivo, reuniões ordinárias; uma reunião a cada mês; mais
tem por objetivo emitir pareceres sobre quaisquer planos, de 300 conselheiros titulares e uns 600 suplentes
programas, projetos globais ou específicos, que encaminha- passaram pelo Plenário Nilo Javary Barém, uma
dos prévia e obrigatoriamente de projeto de lei à Câmara homenagem ao engenheiro que criou a primeira
Municipal, sem prejuízo da autonomia dos Poderes Muni-
planta da cidade.
cipais constituídos.
A primeira reunião ocorreu em 10 de agosto
§ 1º - O Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urba-
daquele ano, com a presença de representantes de
nização – CMDU, será implantado por decreto que esta-
belecerá as normas regulamentares e a sua composição, 18 entidades que compunham o CMDU no ato de
assegurando a participação, de no máximo: sua formação e, nesse tempo, esse Conselho ana-
a) 05 (cinco) representantes da administração munici- lisou, debateu, aprovou inúmeras matérias do in-
pal e estadual; teresse da cidade e do seu planejamento urbano e,
b) 12 (doze) representantes das Associações e Sindica-
várias delas, fazem parte do nosso dia a dia e, às
tos da Sociedade Civil;
vezes, não damos conta de sua importância.
c) 06 (seis) representantes dos Institutos ou Associa-
ções Profissionais. Uma das matérias mais expressivas, e que ain-
§ 2º - O Conselho Municipal de Desenvolvimento e Ur- da está em vigor, trata do uso e da ocupação do solo
banização – CMDU terá, também, como sua atribuição, urbano, aprovada em 1988, já com vários remendos
emitir pareceres sobre matéria relacionada com a preser- setoriais feitos pela Câmara e pela Prefeitura, muito
vação do Patrimônio Natural e Cultural, bem como sobre embora a essência urbanística permaneça. No hori-
Áreas de Proteção Sócio ecológica e Áreas de Proteção zonte de 450 mil habitantes da época da elaboração
Ambiental.”
da lei até os 656 mil de hoje, com mais de 50% de
Observa-se que o inciso 2o inclui a temática am- crescimento populacional em 15 anos, já demonstra
biental e cultural e as áreas de proteção como pauta a necessidade de uma revisão nos objetivos e na po-
do CMDU e instalava-se, naquele ano, a discussão lítica central da lei.
das necessidades do cumprimento da legislação do Em 1987, na discussão dessa Lei de Ordena-
Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), mento do Uso e Ocupação do Solo, foram necessá-

A democratização do planejamento e o CMDU 71


rias 11 reuniões semanais para a sua total aprova- O CMDU foi criado pelo Prefeito Juvêncio
ção. Outras leis importantes que o CMDU aprovou César da Fonseca a partir de uma solicitação das
em 1987 tratavam da Participação Comunitária no entidades ligadas ao planejamento urbano que en-
Processo de Planejamento e de uma Lei de Parcela- xergavam a necessidade de estruturar uma instân-
mento Social, com a inclusão de uma significativa cia comunitária de discussão da cidade e de seus
figura jurídica: a Concessão do Direito Real de Uso, problemas e soluções. Antes desse Conselho, a Câ-
para compra de lotes sociais – um avanço da socie- mara de Vereadores alterava ou aprovava matérias
dade e da democracia urbana. de interesse do urbanismo sem que houvesse um
interlocutor social.
Como Conselho participativo mais antigo de
Campo Grande, muitos projetos importantes foram Hoje, com os conselhos regionais criados
discutidos no CMDU de 1987 a 2012: o Plano Se- pelo Plano Diretor de 1995, a participação social
torial de Educação, o Plano Diretor de Transporte e comunitária está consolidada na prática demo-
e Trânsito, a Hierarquização do Sistema Viário, a crática, com mais de 600 conselheiros que auxi-
Carta Geotécnica de Campo Grande, o Código de liam na tarefa de construir a democracia partici-
Posturas Municipais, a Lei dos Conjuntos Habita- pativa e, com isso, seus representantes regionais
cionais de Interesse Social, o Parque do Prosa, que são escolhidos para fazer parte do Plenário do
mudou o nome para o atual Parque das Nações CMDU que, atualmente, tem 27 conselheiros e 54
Indígenas, a Urbanização Negociada, a Lei dos Lo- suplentes.
tes Urbanizados, a Criação dos Conselhos de Meio Trabalho voluntário, de interesse público, éti-
Ambiente, da Cultura, da Criança e Adolescente e co, democrático e essencialmente de conteúdo ur-
do Desenvolvimento Rural, o Código de Obras, o banístico voltado para as questões do patrimônio
Plano Diretor de 1991 e de 1995, o Plano do Centro histórico, do comércio formal e ambulante, do lixo,
de Campo Grande, a criação do Sistema Municipal da drenagem, das calçadas, dos desmatamentos, do
de Planejamento, do Camelódromo, da Praça das imposto progressivo, dos índices urbanísticos, das
Araras, da Praça do Banco do Brasil, da Urbaniza- atividades poluidoras, do zoneamento urbano, da
ção do Buraco da Pedreira, da Praça Ari Coelho, acessibilidade, do comodato, das favelas, dos córre-
da Barão do Rio Branco, a Carta de Drenagem, os gos, enfim, de uma gama de assuntos que precisam
Conselhos Regionais, da Política Municipal de Ha- ser tratados.
bitação e do Plano Habitacional de Interesse Social.
O CMDU é um grande Conselho Municipal
Recentemente, o CMDU está sendo convoca- que auxilia a administração dos prefeitos munici-
do para opinar, também, no Orçamento Municipal, pais, a cada quatro anos, mas que, nos últimos anos,
na Lei de Diretrizes Orçamentárias, no Plano Plu- tem perdido um pouco seu espaço e tem discutido
rianual de Investimentos, como tarefa de auxiliar o poucas matérias vibrantes, de grande interesse ur-
planejamento da cidade. banístico.

72 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Nesses 25 anos, em alguns
momentos, o CMDU vivenciou e
relatou lutas importantes do urba-
nismo de Campo Grande, como a
questão da localização do Terminal
Rodoviário Euclides de Oliveira,
em 1994, ou com a aprovação da
lei que desafetava mais de 100 hec-
tares de áreas públicas existentes
em loteamentos aprovados, logo
no começo da administração de
André Puccinelli. O CMDU já atra-
vessou a administração de quatro prefeitos nesses
25 anos, sempre com altos e baixos, mas uma coisa é
inegável: é um Conselho que nunca se omitiu, nunca
deixou de dar sua opinião, ainda que esta contrarie
interesses da administração e de alguns setores.
Com isso, ganhou respeito de todas as entida-
des, do Ministério Público, da OAB, do Conselho
Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) e
de tantas outras respeitáveis associações. Acredito
sempre que nessas horas de comemoração também
é hora de avaliação e que possamos debater o in- Na foto maior, sessão solene de comemoração dos dez anos
do CMDU. Acima, prefeito André Puccinelli entrega placa
gresso de representantes das universidades com o comemorativa da data ao prefeito Juvêncio César da Fonseca.
consequente rodízio de outras representações so- Fotos: Elio Taveira. Acervo: Biblioteca Planurb.

ciais; creio que o CMDU deve coordenar o Fórum


tando os Conselhos Regionais; o CMDU deve so-
Municipal de Desenvolvimento, organizar todos os
licitar a presença, nas reuniões, do seu Presidente,
setores econômicos para um grande debate sobre o
o Prefeito de Campo Grande, ou de seu Vice, como
futuro e a vocação de Campo Grande, saindo um
autoridade maior e necessária nas discussões.
pouco da postura, até cômoda, de somente reunir-
-se quando a Prefeitura envia projetos; acredito que Enfim, uma coisa é certa: o CMDU precisa vol-
a Plenária possa sair da Sala Nilo Barém e ir para tar a discutir planejamento urbano, objeto principal
os bairros, para as universidades, democratizando de sua criação, fator maior de sua existência antes
ainda mais o acesso e o conhecimento, logo agora que os outros conselhos existentes passem a exigir
que tomaram posse novos conselheiros represen- essa discussão.

A democratização do planejamento e o CMDU 73


Ao alto, Praça da Concórdia,
atual Praça Aquidauna
(década de 1960).
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

Ao lado, vista parcial de


Campo Grande. Estádio
Belmar Fidalgo ao centro
(década de 1980).
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

74 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


4
Os trabalhos pioneiros e
a reforma urbana

O Plano de Trabalho do Planurb 1987-1988 aprovado pelo Prefeito Juvên-


cio César da Fonseca e pelo Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urba-
nização, era muito inovador.
O Programa contemplava duas linhas estratégicas: a primeira, para ela-
boração do Plano Diretor de Desenvolvimento de Campo Grande, o PDD; e a O Planurb
segunda, para o desenvolvimento de projetos de natureza específica, de acordo nasceu para
com o grau de prioridades dos problemas urbanos, com formulação em curto
desenvolver
estudos e projetos
prazo.
de planejamento
Dessa forma, podemos dizer que o Planurb nasceu para fazer o Plano Di- urbano de pequenos,
retor e diversos projetos específicos, em curto prazo, ditados pela administra- médios e grandes
ção e pela sociedade, por intermédio do CMDU. problemas urbanos
que Campo Grande
tinha, naqueles
idos de 1987.
O ambiente nacional

A Reforma Urbana estava sendo debatida pela sociedade brasileira em


1987. A Assembleia Nacional Constituinte, composta de 559 congressistas, foi
instalada em 1o de fevereiro de 1987, sendo presidida pelo deputado Ulysses
Guimarães, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Os

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 75


trabalhos dos constituintes se estenderam por 18 A legislação de 1977 estava muito defasada e
meses. Em 5 de outubro de 1988, foi promulgada comprometida, no essencial, em uma proposta de
a nova Constituição brasileira. Ao ser aprovada, a transporte coletivo, com uso de corredores e cana-
nova Carta Magna foi pioneira ao incluir no artigo letas específicas para ônibus, de implantação incer-
182 o tema da reforma urbana e do plano diretor, ta e que não se efetivou em sua maior parte. Isso a
pela primeira vez na história. tornava muito vulnerável e insubsistente, pela falta
de elementos materiais de apoio em que se baseia
Nesse mesmo ano de 1987, foi criado o Fórum
seu “desenho”.
Nacional de Reforma Urbana19, uma articulação de
entidades da sociedade civil – movimentos popula- A legislação, como instrumento de um plano,
res, associações de classe, organizações não gover- em sua reformulação, requereria uma base equiva-
namentais (ONGs) e instituições de pesquisa que lente a um conjunto de diretrizes de planejamento
lutavam por políticas que garantissem direitos bá- global de mesmo nível. A legislação de então era,
sicos de todos, como moradia de qualidade, água e ainda, precária na definição das categorias de uso
saneamento, transporte acessível e eficiente. (casuísticas, misturando empreendimentos com
atividades, requerendo excessivas interpretações)
Foi nesse clima institucional de reformas para
e o material gráfico disponível para consulta dos
uma cidade democrática que as leis em Campo
munícipes era impróprio e insuficiente para em-
Grande começaram a ser discutidas e reformula-
preender.
das, e também se fundam as propostas de trabalho
para a Campo Grande do século XXI. Na tentativa de sua atualização, visando a sis-
tematizar melhor as categorias de uso, foram feitas
adequações pouco compatíveis à aplicação da lei e,
tudo indicava, sem o nível de sistematização neces-
As discussões exploratórias
sária. Ainda não havia uma discussão no processo
iniciais para mudar o
de planejamento que permitisse atualizar o conteú-
ordenamento urbanístico
do das normas em presença das modificações nos
seus pressupostos e das configurações emergentes.
Começar um trabalho novo com equipe téc-
nica muito qualificada, mas ainda em formação, Nesse quadro, a equipe tinha como alternati-
exigiu da Unidade de Planejamento Urbano de vas: a) fazer uma nova legislação; b) reformular a
Campo Grande a adoção de uma estratégia inicial existente; c) adotar parcelamento em separado; ou
e a escolhida foi a da leitura da cidade baseada em d) incluir parcelamento na norma geral. Acabaram
dados concretos, do dia a dia, coletados por visitas, prevalecendo as alternativas “a” e “d”.
entrevistas e reuniões com pessoas de diversas enti- A equipe entendia como fundamental impri-
dades que estavam debatendo as questões urbanas. mir, à nova legislação, características de flexibi-

19. Sobre esse tema ver Bassul (2005).

76 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


lidade e de capacidade de ajuste, sem coerção, ao 2, nos bolsões do Jardim dos Estados e Bela Vista/
crescimento e à estruturação orgânica da cidade. Itanhangá, mas não se confirmava na Nova Campo
Na legislação vigente em 1987, era patente a inade- Grande;
quação da caracterização das “zonas especiais”, na b) as previsões da legislação quanto às Zonas
realidade “usos” (institucionais, em geral), que não de Serviços 1, nos bolsões “saída para São Paulo”,
requeriam, praticamente, em sua totalidade, regu- “saída para Cuiabá” e “saída para Aquidauana”,
lamentação pelo Poder Público. pareciam interpretar adequadamente as funções
Era patente também, a ausência de respostas dessas áreas na estrutura da cidade e favorecer um
às possibilidades de adensamento abertas pela le- disciplinamento coerente;
gislação, nas chamadas “zonas de alta densida- c) as previsões para as Zonas de Serviços 2
de”, em grandes e majoritárias extensões destas. E pareciam, ao contrário, insuficientes e conflitivas,
pior: não se configurava, na prática, a faixa de mé- com tendências dessas áreas de se assimilarem às
dia densidade prevista na legislação, a conhecida Zonas de Serviços 1, nos corredores “Anel”, “saí-
“zona laranja” para gabaritos de seis pavimentos. da para Três Lagoas” e “saída para Sidrolândia”.
Quanto aos bolsões “Centro/Norte” e “Centro/
Outros itens de análise eram:
Sul”, parecia haver adequação, porém, sua exten-
a) confirmava-se a manutenção das caracte- são se mostrava insuficiente para a demanda loca-
rísticas previstas para a Zona de Baixa Densidade cional evidenciada;

Equipe técnica da Prefeitura


e do Planurb em visita aos
bairros (da esq. para a dir.):
Sérgio Zaratin, José Marcos
da Fonseca, D. Aurea,
Maria Lúcia Torrecilha,
Tirmiano Chaves, Inácio
Nessimian e Ângelo Arruda.
Acervo: Biblioteca Planurb.

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 77


d) na parte referente às “Zonas Verdes”, houve transição, entre “altas e baixas densidades”, quanto
inversão de resultados pretendidos com a legislação, à ocupação e ao aproveitamento, não obstante, cris-
por inadequação dos instrumentos acionados com a talizada, também, nos aspectos de “uso” (se existe
lei (atividade pública para a desapropriação das fai- algo a ser diferenciado, é em termos de índices ur-
xas). Isso deu origem, quando realizado, a invasões banísticos e não de usos);
por favelas das áreas das faixas tornadas públicas,
2) as zonas chamadas de “alta densidade”
ocorrendo, também, em áreas em que a faixa consi-
e de “serviços 2” identificavam e cristalizavam,
derada non aedificandi foi incluída em parcelamentos
com acerto, algumas das principais estruturas da
como área verde (“sistema de lazer”), de caráter pú-
urbanização de Campo Grande: os eixos viários e
blico. Por outro lado, a identificação e o enquadra-
de atividades terciárias de articulação da cidade
mento dessas áreas deixaram de lado trechos de cur-
com as áreas de sua influência e comando regio-
sos de água significativos que mereceriam proteção/
nal; porém, o princípio “de desenho” utilizado no
preservação; também, a ausência de organização
zoneamento, consistente em criar zonas axiais ao
das áreas como parques lineares ou equivalentes
longo dos corredores que assim são formados, é
contribuiu para essa situação; igualmente, a caracte-
levado a um extremo radical, no atravessamento
rização das mesmas áreas como zonas, conforme foi
para essas zonas do setor mais central da cidade;
feita, repetia erros de conotar usos como zonas em
os eixos zonais, aí, não sofrem praticamente qual-
prejuízo da eficácia da norma. Em resumo, as faixas
quer modificação, sendo mantida a sua conforma-
verdes de fundo de vale deveriam ser tratadas como
ção “em faixa”; isso equivale a não reconhecer o
“áreas” exigíveis como critérios/requisitos em em-
efeito cumulativo gerado pela acessibilidade e pe-
preendimentos e não como zonas;
las condições de aglomeração ampliadas quando
e) a Zona de Baixa Densidade 1 parecia razoa- se dá o cruzamento de dois ou mais eixos de con-
velmente adequada, embora mostrasse conflitar-se centração; esse efeito tende a fazer expandir em
com tendências à constituição de corredores comer- todas as direções os impulsos de localização de
ciais/de serviços, que surgiam com muita vitalida- atividades terciárias, bem como elevava o preço
de em seu interior e demandando condições menos dos terrenos nas mesmas direções, ensejando, as-
restritivas que as estabelecidas na legislação para sim, pressões por um maior aproveitamento dos
aquelas zonas (Rua Joaquim Murtinho, Av. Júlio lotes;
de Castilho, Av. das Bandeiras, Rua Spipe Calarge,
Rua Bahia, Av. Guaicurus e outras). 3) uma das possíveis razões para o partido
adotado pode ter sido a intenção de “abrir” (dira-
Entendia-se necessária, também, uma apre-
dare) a área central, por meio de espaços de apro-
ciação do “desenho” urbano gerado pela norma.
veitamento menor, pelos quais, supostamente,
Quanto a isso:
seria possível garantir melhores condições de ae-
1) reiterava-se a impropriedade da faixa de ração e visualização do complexo central; porém,
“média densidade”, de notórias características de essa intenção não se acha expressa, tampouco há

78 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


por que entender que seria por meio da criação pação do solo, responsabilizada pelos atrasos no
dos grandes eixos de concentração a única forma desenvolvimento da cidade.
de realizá-la.
Com isso, o Planurb muda a discussão não de
Em conclusão, entendia-se que o “desenho” método mas de prioridades. Havia pouco tempo,
urbano presente/subjacente à norma deveria ser menos de 18 meses para se produzir uma quanti-
avalizado e revisado, inclusive, no aspecto do dade de trabalhos considerados essenciais e, assim,
alargamento “em mancha de óleo” das áreas cen- nasce o Plano de Massa do Plano Diretor, base para
trais de grande concentração e densidade. A esse a discussão do ordenamento do uso e da ocupação
respeito, análises da capacidade de adensamento do solo urbano. Na prática, a Planurb, para o tra-
sem saturação ou, congestionamento dessas áreas balho formal do Plano Diretor e com as principais
(e de sua infraestrutura) foram indispensáveis; o diretrizes encaminhadas, faz um pequeno atalho
mesmo vale para os sistemas de transportes, cuja para cuidar do controle da cidade e, após a sua con-
coerência com o partido que vier a ser adotado era clusão, retomar o processo de construção do Plano
fundamental. Diretor20.
A análise da ocupação do território da cida-
de exigia, em curto prazo, um levantamento de
Sobre o Plano Diretor campo preciso, identificando a real situação em
de Desenvolvimento (PDD) termos de uso e ocupação real, situação da infra-
e os Planos Setoriais estrutura, da verticalidade, de problemas urbanos.
A Planurb foi apoiada por uma equipe de fiscais
O Plano Diretor de Desenvolvimento de Cam- da Secretaria Municipal de Controle Urbanístico
po Grande foi pensado para o ano 2000. Era um (Semur) que, em pouco tempo, usando uma me-
horizonte positivo, virada de século e, se a cidade todologia de levantamento criada pela equipe téc-
continuasse crescendo demograficamente, como vi- nica, procedeu o levantamento de toda a cidade e
nha crescendo em épocas anteriores, era necessário com o mapeamento das atividades reais; a cidade
prepará-la para esse novo tempo. foi estudada.

Entretanto, o Plano foi iniciado, debatidas suas Cálculos de áreas estimativas foram realizados
diretrizes do Plano de Massa e não foi concluído. e, após esse levantamento de campo de 1987, pas­
No decorrer do processo de sua construção, diver- samos a conhecer a cidade melhor. Com esses da-
sas entidades do CMDU afirmavam e confirmavam dos, surgiam as primeiras ideias dos novos espaços
a prioridade de rever a legislação de uso e de ocu- urbanos, indicados na Tabela 1 (página seguinte).

20. Essa ação chegou a ser criticada por alguns técnicos e por setores da cidade. Mas depois a história comprova que foi
uma decisão acertada, pois a Lei de Uso do Solo acabou conferindo à cidade um conjunto normativo que deu fôlego para a
elaboração do Plano Diretor em outras bases urbanísticas. Ver Ebner (1999) e Yonamine (2005).

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 79


Tabela 1 - Espaços urbanos em Campo Grande – 1987

ITEM LOCAL Área em hectare

01 CENTRO HISTÓRICO 47,00

02 CENTRO EXPANDIDO 760,00

03 CONTIDO NO ANEL INTERNO DE ADENSAMENTO 2.006,00

04 COROA PERIFÉRICA INTERNA 14.694,00

05 COROA PERIFÉRICA EXTERNA 17.618,00


(diferença até o perímetro urbano proposto)

06 O NOVO PERÍMETRO PROPOSTO 34.319,00

07 ÁREAS EXCLUSIVAMENTE RESIDENCIAIS 1.976,00


(existentes e previstas)

08 ÁREAS INSTITUCIONAIS 1.439,00


(existentes, discriminadas para ocorrências)

09 ÁREAS VERDES ORGANIZADAS (pontuais e concentradas) 651,00

10 ÁREAS VERDES CILIARES DE PROTEÇÃO 454,00

11 ÁREAS RESIDENCIAIS DIVERSIFICADAS 1.097,00

12 ÁREAS MISTAS 718,00

13 ÁREAS INDUSTRIAIS 591,00

14 ÁREAS DE CONCENTRAÇÃO TERCIÁRIA SUBCENTRAL 230,00

15 COMPLEXOS TERCIÁRIOS ESTRUTURAIS 1.561,00

16 COMPLEXOS DE PRODUÇÃO 1.754,00

17 VAZIOS DE OCUPAÇÃO INDUZIDA 2.572,00

Elaboração: Ângelo Marcos Arruda


Fonte: Campo Grande, Informações Básicas – Plano Diretor e Zoneamento, 1987.

80 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


As políticas gerais de desenvolvimento do Pla-
no Diretor para o ano de 2000 eram:
1. propiciar sustentação adequada à diversi-
ficação econômica em curso no município, favore-
cendo a localização, na malha urbana, de empreen-
dimentos dos setores secundário e terciário;
2. favorecer a expansão das atividades econô-
micas de alta capacidade de geração de empregos;
3. preparar a cidade, no que respeita à oferta
de equipamentos sociais e de infraestrutura urba-
na, para os novos patamares e escalas de demandas
até o ano 2000;
4. favorecer o acesso ao mercado formal de Área a adensar
trabalho à população economicamente ativa, prin- Área de urbanização prioritária
cipalmente a de menor renda;
Área de urbanização não prioritária
5. preservar, ao máximo, os exemplares do sí-
tio urbano original;
Figura 1
6. modernizar e ampliar os implementos da Esquema do Plano de Massa do Plano Diretor
função polarizadora exercida por Campo Grande
em relação ao Estado de Mato Grosso do Sul.
ser incentivada a urbanização, por meio de empre-
Para ilustrar o processo do Plano de Massa do endimentos de urbanização integrada e de incen-
Plano Diretor, um esquema foi produzido e pensa- tivos aos loteamentos para baixa renda, utilizando
do para se visualizar as bases do planejamento de melhor as áreas vazias e não parceladas, combaten-
ocupação do território urbano de Campo Grande do a especulação e invertendo a tendência histórica
(Figura 1). de colocar o trabalhador residindo na periferia.
O anel central, composto, basicamente, do mi- No terceiro anel deveria ser desestimulada sua
nianel rodoviário, deveria ser adensado, utilizando ocupação residencial e estimulada a criação de em-
melhor o sistema viário e a infraestrutura urbana pregos nos conjuntos já existentes, como por exem-
existente. Em 1987, o adensamento desse anel era plo, as Moreninhas.
de 57 habitantes por hectare e a proposta era au-
Para a equipe, Campo Grande era uma cidade
mentar o adensamento para 150 hab./ha.
vazia, com um enorme perímetro urbano e que pre-
Em um segundo anel, que corresponde a uma cisava de uma ação de planejamento voltada para
região distante em até 8 km da zona central, deveria combater os vazios urbanos especulativos.

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 81


Sobre os Projetos Específicos Era consenso entre todos os técnicos e os
conselheiros do CDMU que a cidade precisava de
uma nova Lei de Uso do Solo, que contemplasse
O Planurb nasceu para desenvolver estudos
a reali­dade urbanística local, que dialogasse com
e projetos de planejamento urbano de pequenos,
os problemas existentes e que propusesse solução
médios e grandes problemas urbanos que Campo
imediata a problemas de localização de novos em-
Grande tinha, naqueles idos de 1987.
preendimentos, de abertura de novas possibilida-
Assim, além de cuidar do Plano Diretor – que des de investimentos, para uma cidade que crescia
determinaria as diretrizes para todos os demais a taxas médias acima de 8% ao ano.
planos e trabalhos de médio e grande porte –, a Pla- Portanto, o trabalho prioritário a ser elaborado
nurb observava alguns problemas imediatos que foi a Legislação de Uso e Ordenamento do Solo Ur-
deveriam ter uma resposta de planejamento urbano bano que contemplasse, também, o Parcelamento
em curto prazo. do Solo Urbano e a figura em discussão do Lotea-

Reprodução
de capas dos
trabalhos
pioneiros.
Arquivo:
Ângelo Arruda.

82 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


mento Social, desenvolvido pela Secretaria de As- amento. Ainda era precária na definição das cate-
suntos Fundiários (SEAF). gorias de uso considerada casuística em diversos
A reformulação dos Códigos de Obras de 1979 locais da cidade e não definia as atividades e os em-
e do Código de Posturas Municipais (que foram co- preendimentos a serem realizados.
ordenados por Solange Vaz e Maria Inez Miyahi- A queixa geral dos empreendedores e dos
ra) também era prioridade com o Plano Diretor de profissionais da arquitetura e da engenharia e dos
Transporte, coordenado por Paulo Kinoshita e Ana corretores imobiliários era de que a Lei do Ler-
Isa Garcia Bueno, embora não tivessem sido con- ner22, como era conhecida, estabelecia corredores e
cluídos em dezembro de 1988. fundos de vales lineares às margens dos córregos
como áreas non aedificandi e determinava obras de
Já, dos trabalhos em curto prazo que apon-
infraestrutura para a consolidação das condições
tariam soluções imediatas foram aprovados: o In-
urbanísticas impostas pela legislação. Ou seja, na
ventário de Bens Imóveis do Patrimônio Histórico;
prática, se a administração municipal não executas-
o Programa de Rede Física Educacional 1987-1990;
se as obras do Corredor da Avenida Bandeirantes,
a Divisão Setorial de Campo Grande; o Projeto da
por exemplo, as regras estabelecidas de altura dos
Feira Livre Central e a elaboração do Perfil Socioe-
edifícios e usos impostos para aquela região seriam
conômico de Campo Grande.
comprometidas.
Assim aconteceu. Grande parte dos investi-
A nova legislação de uso mentos previstos no Plano de Diretrizes Urbanas,
e ocupação do solo urbano21 que acompanhava o caderno da Lei no 1.747/1978,
não foi realizado. Um dos mais lembrados pela
O diagnóstico que a equipe técnica tinha da sociedade era um “calçadão na Avenida Afonso
Lei Municipal de Uso do Solo em vigor no ano de Pena” no sentido leste-oeste que nunca foi execu-
1987 – Lei no 1.747, de 29 de maio de 1978 – não era tado e os empreendimentos que poderiam ser reali-
bom. No essencial, baseava-se em uma proposta zados nessa região eram sempre barrados por conta
de diretrizes de transporte coletivo, com corredo- do “calçadão” que nunca veio.
res e canaletas, cuja implantação incerta não efe- Havia ainda outros componentes que com-
tivou o desenho do ordenamento em maior parte prometiam o controle urbano e o desenvolvimen-
da cidade. to da cidade, como as “zonas especiais”, pedaços
Esse ordenamento deixava a legislação mui- de território urbano, às vezes uma quadra ou um
to vulnerável pela falta de elementos materiais de lote, com regulamentação especial por ato do Po-
apoio ao desenho da cidade proposto para o zone- der Executivo, que sempre causaram problemas

21. Participaram desse trabalho todos os técnicos do Planurb e da Semur, coordenados por Ângelo Marcos Vieira de Arruda
e Maria Lucia Torrecilha.
22. A Lei no 1.747, de 1978, foi elaborada sob consultoria do Escritório Jaime Lerner em 1977.

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 83


para os administradores; ou ainda a configuração Só havia três hipóteses para a sua implantação:
do adensamento das zonas de média densidade; ou o cidadão possuía um imóvel e queria saber quais
as zonas verdes com inadequações ambientais para os empreendimentos que poderia edificar e quais
sua utilização e a pouca quantidade de espaços ur- as atividades que poderia exercer naquele imóvel
banos para as zonas de alta densidade. depois da construção; o cidadão possuía imóvel
Todos esses elementos de análise foram deba- edificado e queria saber quais as atividades que po-
tidos. Assim, começava a definição de uma nova deria exercer; ou ainda, o cidadão desejaria exercer
lei de uso e ocupação do solo urbano de Campo determinada atividade ou construir um empreen-
Grande, já que não houve consenso em promover dimento e procurar um local para tal.
ajustes na lei em vigor. Todos consideravam-na Apesar das dificuldades iniciais de compreen-
uma “colcha de retalhos”, pois, de 1978 a 1987, a são desse conceito novo, logo a equipe técnica ab-
legislação de uso do solo já tinha sido alterada 15 sorveu as mudanças e passou a fazer as listas dos
vezes. empreendimentos legais e a das atividades que
Definiu-se por uma Lei de Ordenamento do possibilitariam a sua função.
Uso e da Ocupação do Solo Urbano e não uma lei
de diretrizes urbanas; definiu-se por juntar as nor-
mas de parcelamento do solo urbano e de meio am- A divisão setorial da cidade
biente em um único conjunto jurídico e decidiu-se,
ainda, que as regras do perímetro urbano, também, Os trabalhos de divisão setorial da cidade fica-
fossem contidas nesse escopo único. ram a cargo de Juares Echeverria e Aparecida Lopes
As ideias iniciais da nova legislação foram tra- de Oliveira, subsidiando o Decreto no 5.768, de 8 de
zidas da cidade de Salvador, pelo consultor Sérgio dezembro de 1988, que “Institui a Divisão Setorial
Zaratin, que anos antes tinha realizado trabalho da Área Urbana do Município de Campo Grande”.
idêntico por lá. Esse pioneiro trabalho começa com a adequa-
Na prática, uma mudança estrutural no con- ção das necessidades de promover estudos de pla-
ceito da lei: “o empreendimento e a atividade”. nejamento que envolvessem a realidade das diver-
Considerava-se empreendimento a ação física – seja sas localidades da cidade.
uma obra, um loteamento, a abertura de uma via
Era uma necessidade de planejamento fazer
pública; e a atividade era tudo aquilo que pode ser
a divisão do perímetro de mais de 30 mil hectares
exercido no empreendimento.
em espaços com realidades diferentes. Conhecer as
Ou seja, se na Lei no 1.747/1978 havia deficiên- diversas localidades, seus equipamentos, infraes-
cias de informações sobre as atividades a serem exer- trutura, classificar, mensurar, levantar dados esta-
cidas no empreendimento – pois ela somente tratava tísticos, conhecer os polos de bairro com o fim de
da construção –, a partir de então, com o novo con- promover um planejamento com mais precisão, era
ceito, o controle urbano era quase absoluto. imprescindível.

84 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Depois de muitos estudos e levantamentos, a problema todas às vezes em que se necessitava es-
cidade foi dividida em cinco zonas e 67 setores de crever um documento e fazer as justificativas usan-
planejamento. As zonas eram de fácil identificação, do informações de Campo Grande.
pois se usaram os pontos cardeais, ficando assim: O Perfil de Campo Grande era um projeto de
zona central e zonas norte, sul, leste e oeste e cada banco de dados com informações das diversas áreas
uma delas subdivididas em setores internos e com da cidade, que poderia ser impresso para conheci-
o compromisso da Delegacia do IBGE realizar, já mento de todos. O trabalho teve início sob a coorde-
em 1990, o Censo Demográfico, usando essa reali- nação do Assessor de Documentação Técnica Luis
dade de planejamento e geográfica. Paulo Peters com Vinicius Pereira e, na sequência,
Esse trabalho, além de pioneiro, foi importante Jorge Cândia e Mara Huebra Gordin, com partici-
para que, anos depois, outro estudo fosse realizado. pação dos Chefes dos Grupos de Planejamento de
Usando as bacias hidrográficas dos córregos urba- todas as secretarias municipais.
nos que cortam a cidade, o perímetro foi redividido A cidade foi dividida em campos de levan-
em regiões urbanas e não mais em zonas urbanas, tamentos de dados que foram mapeados e tabelas
surgindo assim a atual divisão em sete regiões ur- construídas com séries históricas, sendo, por fim,
banas: Centro, Prosa, Segredo, Anhanduizinho, reali­zada uma análise de todos os dados disponíveis.
Bandeira, Lagoa e Imbirussu.
Os aspectos históricos, físicos, demográficos,
Anos depois, o IBGE usa esse critério de divi- econômicos, sociais, de infraestrutura urbana e de
são da cidade e, nos Censos Demográficos de 2000 serviços, turismo, lazer e cultura, além das finanças
e 2010, os dados já foram coletados por região urba- municipais e das informações institucionais, foram
na, o que tem facilitado muito a compreensão dos publicados em um livro editado em 1988, com tira-
problemas da cidade no seu todo e em cada um dos gem inicial de dois mil exemplares, produzido pela
bairros e localidades. Slogan Publicidade e impresso na Gráfica Brasília.
Esse documento, 25 anos depois, continua
sendo atualizado anualmente e, agora, com a in-
O Perfil Socioeconômico formática, está disponível em meio digital, em ver-
de Campo Grande são para impressão em PDF no site www.capital.
ms.gov.br/Planurb.
Conhecer Campo Grande era fundamental para
planejar. Mas, em 1987, não havia dados consolida-
dos da cidade e do município que fossem compatí- A Feira Livre Central
veis com as exigências do planejamento urbano.
Apenas os dados censitários e os dados de No ano de 1986, a Feira Central de Campo
rede física setorial existiam em grau de consolida- Grande, aquela do sobá e do espetinho, que desde
ção nas secretarias envolvidas e isso se tornava um o ano de 2004 está implantada na antiga Esplanada

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 85


da Noroeste do Brasil, esteve em discussão com re- Terra”: próxima à Feira, um local conhecido como
lação a sua permanência nas Ruas Abrão Júlio Rahe, “Pedreira”, ainda desocupado por se tratar de um
Padre João Crippa e José Antônio. Motivo? Um grande buraco; e e) Área “Imediações da NOB”:
shop­ping center seria instalado na quadra vazia que onde desde 2004 está instalada a Feira Central.
contornava essas ruas e desembocava na Avenida
Foram analisados itens como área em metros
Mato Grosso. Era o Guaicurus Shopping Center
quadrados, localização, situação econômica, situ-
Local de alta tradição em Campo Grande, a ação jurídica, infraestrutura, sistema viário, trans-
feirinha estava naquelas ruas desde 1966; portanto, porte coletivo, situação do entorno e salubridade.
eram 20 anos de lugar marcado, com as barracas de Reuniões foram feitas e a preferência se confirmou
comidas e alimentos sendo montadas e desmonta- pelo terreno do que poderia ser o Guaicurus Shop-
das todas as quartas-feiras e sábados. ping, posto que a construção do shopping não hou-
Em 1987, o Planurb destacou as arquitetas vesse vingado. O projeto elaborado pela prefeitura,
Maria Inês Nakasato Miyahira e Solange Vaz para em 1987, pode ser visto como um marco de grandes
elaborarem estudos que deveriam ser discutidos transformações. A princípio, os projetos de plane-
com a associação dos feirantes, visando à nova jamento urbano para Campo Grande viam a Feira
localização da feira em função do novo empreen- como um item de comércio e de abastecimento.
dimento comercial. No mesmo ano, é finalizado o
Calado (2010) relata que, quando o Planurb
estudo “Uma proposta para a Feira Livre Central”,
discutiu, via proposta, uma mudança de local para
com um exame detalhado sobre todas as áreas que
a Feira, a colocou como fator cultural e de impor-
poderiam receber a feira. Eram cinco, as propostas:
tância no urbano, não apenas como um problema
a) Área “Shopping Guaicurus”: terreno que estava
a ser superado, mas, ainda, como um movimento a
destinado ao investimento de criação do shopping
ser preservado, de interesse público urbano.
que havia sido aprovado pelo prefeito, mas se en-
contrava, ainda, apenas no papel. Com área total de O shopping não saiu do papel, mesmo assim a
16.200 m², que formavam uma quadra ao lado da Feira continuou nas ruas, nem conseguiu ocupar o
rua da Feira (onde posteriormente foi instalado o lugar do shopping, nem outro lugar sugerido pelo
templo da Igreja Universal do Reino de Deus), era estudo do Planurb, na Proposta de 1987. Mas o in-
o local de preferência dos feirantes e recomendada teresse em mudar a Feira de seu local já havia se
pelo projeto; b) Área “Projeto Gemt”: na Rua Ma- estabelecido. O campo de ideias ficara aberto para
racaju, próxima ao local onde estava a Feira. Atual- que muitas tentativas fossem feitas nesse sentido.
mente, abriga uma agência do Banco do Brasil e a A Feira passou a ser uma preocupação para os
Central de Atendimento ao Cidadão da Prefeitura feirantes, em termos de assegurarem seus ganhos
Municipal de Campo Grande; c) Área “Rio Grande e para a população, no sentido de sua continui-
do Sul”: na Rua Rio Grande do Sul, onde se insta- dade, por ser considerada um espaço histórico. A
lavam os circos que vinham à cidade (hoje no lo- ideia era que ela não poderia acabar, mas poderia
cal está o Hipermercado Wal Mart); d) Área “Ana ser transformada, para ficar condizente com uma

86 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


cidade “moderna” e “promissora”, conforme noti- contou, ainda, com o efetivo envolvimento da técni-
ciou o Jornal da Manhã em agosto de 1987, mesmo ca educacional Ângela Maria da Silva, sendo finali-
mês em que foi lançada a Proposta do Planurb. zado e entregue ao Prefeito Juvêncio César da Fon-
seca, que fez um encaminhamento ao governador
do Estado de Mato Grosso do Sul para a construção
Inventário dos Bens Imóveis das escolas estaduais.
de Campo Grande Esse foi um trabalho inédito e importante para
Campo Grande: planejar a rede de educação para
Coordenado pela Cláudia Pereira Gonçalves, os fins de défice escolar.
com o apoio de Sérgio Yonamine da Secretaria Muni- A cidade foi toda mapeada com a localização de
cipal de Cultura e Esportes (Semce), o levantamento todas as unidades públicas de educação municipal,
dos edifícios e lugares importantes para a memória e estadual e federal e a rede particular mais importan-
patrimônio de Campo Grande teve início em setem- te. Com base nesses mapas e com os dados, por esco-
bro de 1987 e findou em março de 1988 com recomen- la, de matrículas e turnos, usando o planejamento do
dações para tombamento e preservação. O trabalho Ministério de Educação e as normas legais e técnicas
não foi totalmente concluído, à espera das diretrizes da época, foi possível identificar os locais onde deve-
da política de uso e ocupação do solo urbano. riam ser construídas novas escolas, considerando as
demandas futuras e as matrículas atuais.
Uma pesquisa de campo com alunos de mais
Programa de Rede Física de 50 escolas foi realizada para verificar onde eles
Educacional 1987/1990 estudavam e moravam, sendo possível identificar,
em 1988, que mais de 80% dos estudantes do Co-
Em 1985, o défice escolar em Campo Grande, légio Joaquim Murtinho, localizado no centro de
diante das altas taxas de crescimento demográfico Campo Grande, eram oriundos de bairros, os mais
de mais de 8% ao ano, era enorme. A federação dos diversos da cidade.
professores falava que havia mais de 100 mil crian-
Essa pesquisa mostrou a necessidade de cons-
ças fora da sala de aula, apesar de o município e o
trução de escolas em locais com maior adensamen-
Estado afirmarem que não passava de 40 mil. Sejam
to populacional e, ainda, a necessidade de uma po-
100 ou 40 mil, o número correto, o que faltava era
lítica de transporte público para os estudantes. Esse
um plano para organizar as construções da rede fí-
trabalho lançou as bases para o Passe do Estudante,
sica em Campo Grande, e foi com esse propósito
que continua em vigor. O trabalho técnico permitiu
que a Planurb elaborou esse trabalho.
um planejamento de obras mais orientado para o
O trabalho teve a participação do economista futuro, em um momento de muito crescimento eco-
Jorge Alberto Cândia e das técnicas sociais Valdete nômico e populacional e contribuiu para o combate
de Barros, Eloisa de Castro e Denise de Macedo, e efetivo do défice educacional em Campo Grande.

Os trabalhos pioneiros e a reforma urbana 87


Ao alto, vista parcial
de Campo Grande.
Av. Ernesto Geisel
(Norte-Sul) em
primeiro plano.
Acervo: Arquivo Histórico de
Campo Grande (Arca).

Ao lado, vista
panorâmica da cidade.
Arquivo: Gutemberg Weingartner.

88 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


5
Quem é Campo Grande em 2012:
a cidade e suas regiões urbanas

De acordo com as projeções estatísticas, Campo Grande deve ter um mi-


lhão de habitantes em 2027.
No entanto, a capital de Mato Grosso do Sul, fundada em 1872 e emanci-
pada em 1899, segundo o IBGE, tem, em 2012, pouco menos de 800 mil habi-
tantes e um pouco mais de 34 mil hectares de perímetro urbano. O crescimento O Plano Diretor
médio anual gira em torno de 1,72% e a quantidade de pessoas por domicílio é aprovou a divisão
de 3,19, ou seja, a família média campo-grandense, atualmente, é de um casal
da cidade em sete
regiões urbanas:
e menos de dois filhos.
Centro, Prosa,
Campo Grande é um município urbano. Quase 99% de sua população Segredo, Bandeira,
(776.242 habitantes em 2010) reside na cidade enquanto pouco mais de dez mil Imbirussu, Lagoa e
pessoas residem na zona rural e nos distritos de Anhanduí e Rochedinho. A Anhanduizinho.
área do município é equivalente ao tamanho de alguns países como Porto Rico, Todas elas têm
características
Cabo Verde, Brunei, Luxemburgo e um pouco maior que o Líbano e Jamaica.
diferentes em seu
Já a área urbana é imensa. Tem capacidade para abrigar, com folga, quatro mi-
processo de ocupação
lhões de habitantes. A área urbanizada (184 km²) é apenas a metade do imenso e de sua racionalidade
perímetro urbano (353 km²). Maior que Porto Alegre (160 km²); Salvador (159 de necessidades.
km²) ou Recife (121 km²).
A população economicamente ativa da cidade é de 70,67% e a taxa de al-
fabetização registra 95%.

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 89


Do ponto de vista econômico, o município (a maioria dos empregos ainda se encontra dentro
tem sua economia centrada nas atividades de co- da região central); intensamente distante (ocupação
mércio e serviços, com 85,4% da arrecadação; e, desordenada) e profundamente desigual (má dis-
apesar dos esforços governamentais, as atividades tribuição dos serviços públicos).
industriais contribuem com 6,8%. Em 2010, pouco
mais de 17 mil estabelecimentos econômicos esta-
vam registrados. Campo Grande e
Na questão da renda familiar, Campo Grande suas regiões urbanas
tem outro perfil. Do total dos 249 mil domicílios da
cidade, 46,40% das famílias tinham renda mensal Campo Grande começou a formar seu patri-
per capita de até um salário-mínimo; 36,00% tinham mônio urbano e ambiental quando teve início seu
renda de um a três salários-mínimos; 7,7%, de três processo de ocupação territorial, ainda na década
a cinco salários-mínimos e uns 10% têm rendimen- de 1870, logo após a chegada dos primeiros habi-
tos acima de cinco salários-mínimos mensais. Ou tantes.
seja, 82,4% das famílias têm renda de zero a três
A terra urbana dos tempos dos pioneiros do
salários-mínimos mensais.
século XIX, formada por uma generosidade de
Já os serviços de infraestrutura urbana têm córregos e densa vegetação de cerrado, começa a
alguns bons indicadores. As redes de abasteci- ser subdividida em fazendas e chácaras, visando a
mento de água e de energia elétrica atendem a atender a todos que chegavam em busca de novas
99% da cidade; embora a de esgoto fique em 61%. opções de moradia e de atividade rural com a cria-
Mais de 97% da população é atendida pela cole- ção de gado e algum plantio para subsistência. Era
ta domiciliar de lixo. A pavimentação asfáltica assim a nossa capital até o final do século XIX quan-
atende a 61% das vias urbanas. Em 2010, a frota do, em 1899, transformou-se no sexto município do
de veículos cadastrou 200.713 automóveis, 11.800 sul de Mato Grosso, ganhando independência ad-
caminhões, 34.436 caminhonetes e 92.000 moto- ministrativa e financeira.
cicletas.
Seu território era imenso naqueles tempos,
A rede de atendimento social dispõe de 96 mais de 100 mil km2, que se estendiam de Coxim a
Centros de Educação Infantil, 163 unidades educa- Bataguassu e de Nioaque a Paranaíba. Nessa imen-
cionais, sendo 79 escolas estaduais e 84 municipais, sa área de terra, mais ao centro do sul do Estado,
e 119 unidades de saúde de todos os tipos. em 1909, moradias urbanas começam a pontuar em
Por fim, Campo Grande, como se vê nesses uma pequena vila de traçado ortogonal, projetada
poucos dados, é uma cidade excessivamente ho- para atender as necessidades de convivência e de
rizontal (sua infraestrutura é cara); preocupante- cidadania do povo que chegava e se organizava
mente vazia (seu perímetro urbano comporta 5 mi- entre os 368 lotes de 2.500,00 m2 disponíveis pela
lhões de habitantes); economicamente centralizada planta da cidade.

90 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Os primeiros gestores não esqueceram das leis pecialmente o transporte, a habitação, o saneamen-
e das normas e muito menos de cuidar dos córregos to e o urbanismo.
e protegê-los para o abastecimento coletivo da po-
Administrar Campo Grande, após ser declara-
pulação. Com o passar dos tempos, chega a ferrovia
da capital estadual, foi administrar conflitos urba-
da Noroeste do Brasil trazendo todas as riquezas
nos, visto que a cidade, apesar de ter espaço para
que a vila precisava. Não tardou e, em 1918, ela foi
crescimento, não apresentava receita suficiente
elevada à condição de cidade próspera, com mais
para atender as demandas sociais de todos os que
de 2 mil habitantes, centro comercial do sul do Esta-
chegavam.
do e importante polo de negócios com gado. Com o
trem de ferro da antiga NOB, chegam todos e tudo: Défices são criados em todas as áreas sociais e
pessoas das diversas partes do mundo e do Brasil, urbanísticas, exigindo dos prefeitos, daqueles anos,
suprimentos materiais e inovações técnicas. Assim, muita habilidade e muito apoio federal e estadual
em um “piscar” de 30 anos, a cidade “explode” e no para administrar áreas sensíveis, como a educação,
início dos anos 1950 já era apontada pelo Censo do com 30 mil crianças fora de sala de aula em 1980, e a
IBGE como maior economicamente e mais populo- habitação, com deficiência de aproximadamente 25
sa que a capital do Estado uno, Cuiabá. mil unidades e mais de 100 favelas se proliferando
rapidamente.
Campo Grande se formou e se desenvolveu
Assim, fomos atravessando o período inicial
sob o signo da modernidade com amplas ruas e
da vida da cidade como capital até que, em 1987,
avenidas, duas grandes praças centrais, comércio
com a criação do Instituto Municipal de Plane-
vigoroso; uma multiculturalidade de povos e raças
jamento Urbano e Meio Ambiente e do Conselho
e enorme força de trabalho militar – uma de suas
Municipal de Desenvolvimento e Urbanização, a
bases de organização urbana e territorial. Não du-
década de 1980 se encerra com leis novas e regras
rou muito e, em 1979, se transformou em capital de
definidas para o setor imobiliário e para as bases
um novo Estado que queriam de modelo nacional,
de um Plano Diretor, que será elaborado em 1991,
mas que não teve seus passos iniciais devidamente
aprovado em 1995 e revisado em 2006, mantendo
planejados. Com essa decisão governamental, a ci-
suas principais características, especialmente a di-
dade interiorana – conservadora e economicamente
visão da cidade em sete regiões, e planejando sua
forte – recebe migrantes de todas as partes do país,
ocupação urbana.
vindos para o mais novo eldorado brasileiro: a ca-
pital do novo Estado de Mato Grosso do Sul. Atualmente, Campo Grande com seus 353 km2
e 786 mil habitantes, é uma cidade com inúmeros
Com o intenso fluxo migratório, a cidade atin- espaços vazios centrais e subcentrais, que desesti-
giu 285 mil habitantes em 1980 – metade da popu- mulam a urbanização de muitos lugares. O custo
lação daquele censo era não mato-grossense –, e os dessas áreas vazias para a cidade – mais de 29% do
problemas, antes administrados com certa tranqui- perímetro ainda não está parcelado e há mais de 100
lidade, passam a se impor na agenda da cidade, es- mil lotes vagos na cidade –, é muito alto, pois ace-

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 91


lera dispêndios municipais desnecessários, como
patrolamento de vias em excesso ou um matagal Região urbana do 71.037
fenomenal onde se cria até gado na área urbana. Centro habitantes
Essa situação de cidade com vazios é típica
de Campo Grande, onde seu processo histórico de Região urbana do 108.962
ocupação (fazendas que viram chácaras, que viram SEGREDO habitantes
glebas e que viram loteamentos) desloca o eixo do
desenvolvimento para áreas com mais infraestrutu-
ra, cujo custo ainda não foi avaliado. Região urbana do 82.328
PROSA habitantes
A municipalidade, no seu dia a dia, vive apa-
gando incêndios provocados pela ausência de uma
política de ocupação do solo, inclusive com a utili- Região urbana do 113.118
zação dos instrumentos legais, como o Estatuto da BANDEIRA habitantes
Cidade. Aprova-se o Imposto Predial e Territorial
Urbano (IPTU) progressivo, mas não se usa.
Região urbana do 185.558
O que se tem hoje é uma Lei complementar do ANHANDUIZINHO habitantes
Plano Diretor de 1995, revisado em 2006, que carece
de uma enorme revisão conceitual; uma lei de orde-
namento de uso e ocupação do solo, cheia de remen- Região urbana do 114.447
dos, alguns ao sabor do empresariado e uma série LAGOA habitantes
de instrumentos previstos e criados pelo Estatuto da
Cidade que ainda não vigoram em Campo Grande,
como o IPTU Progressivo no Tempo, dentre outros. Região urbana do 98.752
IMBIRUSSU habitantes
O Plano Diretor aprovou a divisão da cidade
em sete regiões urbanas: Centro, Prosa, Segredo,
Bandeira, Imbirussu, Lagoa e Anhanduizinho. To- Distrito de 4.267
das elas têm características diferentes em seu pro- ANHANDUÍ habitantes
cesso de ocupação e de sua racionalidade de neces-
sidades.
Distrito de 1.093
Em 2010, segundo o Censo do IBGE, a popula- ROCHEDINHO habitantes
ção total de Campo Grande era de 786.797 habitan-
tes e estava dividida da seguinte maneira em suas
diversas regiões (ver detalhamento na Tabela 2, pá- Demais 7.235
ginas 94 e 95): ÁREAS RURAIS habitantes

92 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Figura 2 - Campo Grande: Regiões Urbanas e bairros

Fonte: Planurb

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 93


Tabela 2 - População de Campo Grande em 2010:
distribuição geográfica, por faixa etária e indíces de dependênca econômica

Regiões Urbanas
Variáveis Campo
Grande Total Centro Segredo

População total 786.797 774.202 71.037 108.962


População masculina 381.333 374.202 32.482 52.791
População feminina 405.464 400.000 38.555 56.171
0 a 4 anos 56.961 56.090 3.091 8.897
Grupos de

5 a 14 anos 178.020 175.103 10.249 26.863


Idade

15 a 64 anos 556.055 547.219 51.308 76.137


65 anos ou mais 52.722 51.880 9.480 5.962
Proporção da população no total do município (%) 100,00 98,40 9,03 13,85
Mulheres em idade fértil (15 a 49 anos) 232.606 229.584 20.435 32.732
Idade média 31,69 31,69 38,21 30,16
Idade mediana 28,89 28,86 36,39 27,78
Razão de sexo (%) 94,05 93,55 84,25 93,98
Razão crianças/mulheres (%) 244,88 244,31 151,26 271,81
Índice de envelhecimento (%) 29,62 29,63 92,50 22,19
Razão de dependência demográfica (%) 41,50 41,48 38,45 43,11
Razão de dependência dos idosos (%) 9,48 9,48 18,48 7,83
Razão de dependência dos jovens (%) 32,01 32,00 19,98 35,28
Taxa média geométrica de crescimento anual (%) 1,72 1,70 -0,63 2,82
- 2000-2010
Área (ha) 809.297,00 35.302,79 2.011,50 4.497,50
Densidade demográfica (hab./ha) 97,22 km2 21,93 35,32 24,23
Domicílios particulares permanentes 249.800 245.769 25.551 34.451
Moradores em domicílios partic. permanentes 780.014 768.271 70.608 108.283
Média de moradores por domicílio 3,12 3,13 2,76 3,14

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010

94 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Regiões Urbanas Distrito Distrito de Demais
de Roche- Áreas
Prosa Bandeira Anhan- Lagoa Imbirussu Anhanduí dinho Rurais
duizinho

82.328 113.118 185.558 114.447 98.752 4.267 1.093 7.235


41.078 54.853 89.927 55.379 47.692 2.350 609 4.172
41.250 58.265 95.631 59.068 51.060 1.917 484 3.063
5.776 8.084 14.809 8.656 6.777 243 60 568
17.773 25.218 46.017 26.909 22.074 944 235 1.738
59.793 81.013 129.088 80.417 69.463 3.041 752 5.043
4.762 6.887 10.453 7.121 7.215 282 106 454
10,46 14,38 23,58 14,55 12,55 0,54 0,14 0,92
23.944 34.318 55.450 33.868 28.964 1.126 237 1.659
31,74 31,45 30,23 31,21 32,18 32,37 36,68 31,48
30,23 28,79 27,75 28,50 30,27 31,62 37,79 30,66
99,58 94,14 94,04 93,75 93,40 122,59 125,83 136,21
241,23 235,56 267,07 255,58 233,98 215,81 253,16 342,37
26,79 27,31 22,72 26,46 32,69 29,87 45,11 26,12
37,69 39,63 43,75 42,32 42,16 40,32 45,35 43,47
7,96 8,50 8,10 8,86 10,39 9,27 14,10 9,00
29,72 31,13 35,65 33,46 31,78 31,04 31,25 34,46
3,48 1,59 2,00 1,47 0,95 2,05 1,52 3,98

5.565,46 6.236,26 6.192,03 5.057,12 5.742,91 723,29 55,58 773.215,34


14,79 18,14 29,97 22,63 17,20 5,90 19,67 0,01
25.249 36.197 57.845 35.568 30.908 1.473 404 2.154
79.293 112.769 184.501 114.206 98.611 4.159 1077 6.507
3,14 3,12 3,19 3,21 3,19 2,82 2,67 3,02

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 95


1 A Região Urbana do Centro O progresso chega com os trilhos; o abasteci-
mento comercial se modifica e facilita o acesso a pro-
Falar das carac- dutos vindos de São Paulo e do Rio de Janeiro. A Rua
terísticas da região ur- 14 de Julho, que não fora projetada para ser a mais
bana do Centro é falar importante da cidade, com a construção da estação e
da própria cidade de dos galpões da NOB no seu extremo norte, se vê im-
Campo Grande, de pulsionada pelo desenvolvimento comercial. A par-
sua história, seu nas- tir dos anos de 1920, essa via se transforma na grande
cimento e desenvol- artéria urbana da cidade. A atual Praça Ari Coelho
vimento. Entretanto, de Oliveira (antigo Passeio Público), recebe calçada
para se caracterizar a e outras benfeitorias. A cidade ganha seu segundo
região é importante traçar alguns pontos que só a Código de Posturas, mais moderno e já dispondo de
história pode auxiliar. O fundador, o mineiro José diretrizes urbanísticas para prolongamento de vias
Antônio Pereira, chega a Campo Grande em 1872, projetadas. Na década de 1920, também chegam as
se estabelece com a família na região onde atual- corporações militares e se instalam na parte oeste da
mente se encontra o Horto Florestal, no cruzamento cidade e lá é construído um grande complexo de edi-
dos córregos Prosa e Segredo e lá monta seu rancho. ficações, formando a atual Vila Militar e arredores.

No final de 1877, ele e outros moradores cons- Ainda na mesma década, a parte oeste da re-
troem a primeira igreja da vila e, nessa época, a gião centro inicia sua urbanização com a implanta-
atual Rua 26 de Agosto, antiga Rua Velha (primeira ção do bairro Amambaí, projetado pelo engenheiro
rua da vila), começa a ser ocupada pelos migrantes italiano Camillo Boni. Com a ferrovia NOB, chegam
oriundos de várias partes. A vila cresce rapidamen- imigrantes de todas as partes, principalmente ára-
te, impulsionada pela crescente economia do gado. bes, italianos, espanhóis e portugueses. Os primei-
Em 1905, a Intendência Municipal aprova o primei- ros se estabelecem na Rua 14 de Julho em ativida-
ro Código de Posturas da cidade. Em 1909, a pedido des comerciais. Os demais, em sua maioria, eram
do Intendente Municipal, o engenheiro agrimensor construtores e contribuem para edificar a cidade.
Nilo Javary Barém elabora a primeira planta urba- Nos anos de 1930, já com 25 mil habitantes, Campo
na da vila, denominada Plano de Alinhamento das Grande apresenta um enorme crescimento, desper-
Ruas e Praças, criando os quarteirões centrais des- tando no governo estadual, com sede em Cuiabá,
de a Rua Dom Aquino até a Rua 26 de Agosto (Nor- grande interesse em promover mais investimentos
te-Sul) e da Av. Calógeras até a Rua Arthur Jorge na região. Obras de pavimentação asfáltica e drena-
(Leste-Oeste). Estava configurada, assim, por meio gem e a construção de equipamentos urbanos trans-
de uma planta urbana, a cidade de Campo Grande. formam a paisagem da cidade. No final da década,
Logo depois, chega a ferrovia Noroeste do Brasil, vários edifícios são construídos: os cines Alhambra
em 1914, e, com o fim da Primeira Guerra Mundial, e Rialto, o edifício José Abrão (atual Hotel America-
a cidade cresce econômica e demograficamente. no), a Igreja Matriz de São José, dentre outros. Com

96 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


o advento da Segunda Guerra Mundial, em 1936, a outras propostas. Se, a partir dos anos de 1940, du-
parte sul de Mato Grosso passa a produzir e expor- rante décadas seguidas, a cidade vinha duplicando
tar carne bovina para a Europa, a preços aviltantes, em termos populacionais, na década de 1970, com
com o previsível enriquecimento de vários produto- o anúncio da divisão do Estado de Mato Grosso e a
res rurais. Com isso, a cidade ganha novo impulso transformação da cidade em capital do novo Estado
e, nos anos de 1940, surgem os bairros São Francis- de Mato Grosso do Sul, a dinâmica econômica se al-
co, Boa Vista, Vila Olga e Cascudo. São novas áreas tera profundamente e as taxas de crescimento popu-
de urbanização e local de residência da população lacional crescem, atingindo a média de 8% ao ano.
que cresce com a migração. O processo de verticali-
Essa mudança política aprofunda o desenvol-
zação tem início nessa década com o edifício Olin-
vimento urbano da área central. Com ela chegam,
da, na esquina da Av. Afonso Pena com a Rua 14 de
além de novos empreendedores, também os servi-
Julho. Nos anos de 1950, Getúlio Vargas assume a
ços e as atividades decorrentes da preparação ins-
Presidência da República pela segunda vez e deter-
titucional do novo Estado: agências bancárias dos
mina a construção de um grande colégio estadual
principais conglomerados financeiros do país; ho-
em Campo Grande, surgindo o Liceu Campo-Gran-
téis e serviços de alimentação; nova rede de abas-
dense (atual Maria Constança de Barros Machado)
tecimento alimentar e de serviços de transporte de
em 1954, localizado na região da “Cabeça de Boi”.
mercadorias e cargas; corporações privadas; e, por
A partir dos anos de 1950, a expansão se dá na dire-
fim, as secretarias de estado do novo governo esta-
ção sul, após a conclusão das obras da ponte sobre o
dual – todos necessitando de lugar para se instalar,
Córrego Prosa, na Rua 14 de Julho até os limites do
preferencialmente no centro. Com a sede do gover-
Cemitério Santo Amaro. Outro impulso urbaniza-
no estadual funcionando no antigo Edifício das Re-
dor veio com as obras do novo Aeroporto da cidade
partições Públicas Estaduais (ERPE), localizado às
e a parte oeste da região também se modifica.
margens do Córrego Prosa, aquela parte da região
A partir dos anos de 1960, a região central da do centro se desenvolve e em seus arredores insta-
cidade, com a economia da parte sul de Mato Gros- lam-se serviços de apoio às atividades públicas.
so em pleno desenvolvimento, intensifica sua verti-
Nessa época, o bairro central, onde residia a
calização: edifícios Dona Neta, São José, Palácio do
população de classe de renda “A”, era o Jardim dos
Comércio, Itamaraty, José Antônio Pereira, dentre
Estados, pequeno loteamento de poucos quartei-
outros. No final da década, em 1968, o Plano Diretor
rões, mas que, pela localização, foi o preferido du-
de Desenvolvimento Integrado, elaborado pela em-
rante vários anos.
presa Hidroservice Engenharia, propõe diretrizes
urbanas que iriam alterar o desenho da área central, A própria mudança da sede da Prefeitura de
como a expansão da área reservada para a constru- Campo Grande, da esquina da Av. Calógeras com a
ção de edifícios, a estruturação de uma rede viária Av. Afonso Pena para o endereço atual, na Rua 25
– Norte-Sul e Leste-Oeste – em função dos córregos de Dezembro com a Av. Afonso Pena, nos anos de
existentes, e a localização das indústrias, dentre 1970, puxa a atividade comercial na direção leste da

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 97


região centro. Com o Plano de Estruturação Urbana rodoviário, atual Região Urbana do Centro. Dentre
do arquiteto Jaime Lerner, de 1977, várias transfor- essas atividades destacam-se: rede de supermerca-
mações são realizadas na cidade e na área central, dos (Extra, Comper), cinemas (Campo Grande l e II
sendo a principal o Projeto do Calçadão da Rua Ba- e Plaza), igrejas (Matriz de Santo Antônio, São José e
rão do Rio Branco e arredores, que altera a tipologia São Francisco), agências bancárias diversas, institui-
de várias quadras centrais. Ao mesmo tempo, mu- ções públicas federais, estaduais e municipais (sede
danças no sistema de transporte coletivo central alte- da Prefeitura, repartições e outras), cartórios e outros
ram o trânsito, fazendo da Rua Rui Barbosa o grande serviços notariais, grandes colégios públicos e priva-
corredor central, juntamente com a Rua Maracaju. dos (Joaquim Murtinho, Maria Constança de Barros
Nos anos de 1980, a área central passa a se in- Machado, Lúcia Martins Coelho, Hércules Maymo-
terligar com a parte leste da cidade, com as obras de ne, Mace, Dom Bosco e outros), praças centrais e
continuidade da Av. Afonso Pena, ultrapassando os parques urbanos equipados (Belmar Fidalgo, Horto
limites da Rua Ceará, indo se encontrar com o Par- Florestal, Itanhangá, Araras, Ari Coelho, Rádio Clu-
que dos Poderes, recém-construído. É ainda dessa be, São Bento), sem falar na Feira Livre Central, que,
época, o início da canalização do Córrego Prosa, aos sábados, não fecha e serve alimentação regional,
com o uso de gabião – técnica que utiliza pedras sede da Uniderp, do cemitério Santo Amaro, do Ca-
e telas de proteção de barrancos – ou de muro de melódromo, da Morada dos Baís, da “Pedra” (região
concreto armado, fazendo surgir a avenida margi- de comércio de automóveis), dentre outros. Por fim,
nal ao Córrego Prosa e dando novas condições de é na área central, até por força da legislação de uso
urbanização para áreas brejosas dos bairros Cabre- do solo urbano, que a verticalização acontece, com
úva, Monte Líbano, dentre outros. Outros bairros tendências em direção do Bairro São Francisco, na
surgem nessa década (Bela Vista, São Bento, Ven- parte norte da região central.
das e arredores) interligando a parte sul da região A região urbana do Centro, de acordo com da-
com a Av. Eduardo Elias Zahran. dos do Planurb, possui uma área de 2.011 hectares,
A área central se consolida como região da cida- o que corresponde a pouco mais de 6% da área total
de. Os investimentos públicos continuam, dessa vez da cidade e abriga uma população de 71 mil pes-
com obras de lazer e infraestrutura – Horto Florestal, soas com adensamento de 35 hab./ha e no centro
Belmar Fidalgo, revitalização da Pensão Pimentel, 43 hab./ha; a região perdeu população entre 1991
nova iluminação da Av. Afonso Pena, conclusão da e 1996 – 8 mil pessoas, possivelmente por desloca-
avenida Norte-Sul até o viaduto Hélio de Macedo. mento interno – e entre 2000 e 2010.
Com essas obras e outras menores, a questão da for- Dentro da região encontramos 13 setores que
ça da centralidade da região centro aumenta ainda se propõem denominar de bairros: Centro Antigo,
mais. Essa centralidade, que se consolida a cada ano São Francisco, Cruzeiro, Jardim dos Estados, Bela
que passa, se verifica com a presença de atividades Vista, Itanhangá Park, São Bento, Monte Líbano,
comerciais, de serviços, institucionais, públicas e Glória, Carvalho, Amambaí, Cabreúva e Planal-
privadas, localizadas dentro da região do minianel to, abrangendo todas as propriedades localizadas

98 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


no perímetro correspondente ao antigo minianel abastecimento alimentar –, mesclada por loteamen-
rodoviário, ou seja: Rua Ceará, Av. Eduardo Elias tos de implantação recente e conjuntos habitacio-
Zahran, Av. Salgado Filho, Av. Tamandaré, Av. Mas- nais de classes de renda D e E – José Abrão, Estrela
carenhas de Moraes e Av. Coronel Antonino. do Sul, Coophasul e Nascente do Segredo.
Desses bairros, o mais populoso ainda é o Cen- Conhecer a região do Segredo é quase um
tro Antigo, com 13 mil habitantes, vindo depois o passeio pelo campo, embora ainda se permaneça
Cruzeiro, com 12.415, e o São Francisco, com 10.364 na cidade. Fazendas e sítios se misturam à malha
residentes. O centro é o local de início da cidade e urbana em uma convivência histórica, pois a região
nele está sua certidão de nascimento, sua história foi ocupada pelos imigrantes japoneses que, no
e o núcleo de desenvolvimento da cidade. As ruas começo do século, se instalaram para o cultivo de
mais conhecidas estão no centro, como a primeira verduras e hortaliças, caracterizando a região como
delas – a 26 de Agosto, a 14 de Julho e a nossa gran- agrícola.
de avenida, a Afonso Pena.
Por essa razão é que ali foi instalada a pri-
O patrimônio histórico da cidade, em grande meira escola municipal rural de Campo Grande,
parte, está situado nessa região: os edifícios, as casas a Kamé Adania, ainda em funcionamento. Outro
e demais prédios do complexo da antiga estrada de ponto forte da região refere-se à cultura religiosa
ferro Noroeste do Brasil; os edifícios comerciais anti- da cidade: lá, no bairro São Benedito, está situada a
gos da Rua 14 de Julho; os principais hotéis antigos, comunidade negra da Tia Eva cuja igreja existente
como o Hotel Americano e o Hotel Gaspar, assim foi construída em 1912 e anualmente sedia as fes-
como os principais edifícios de arquitetura moderna tas em homenagem ao padroeiro, São Benedito; há
da cidade, como o antigo Hotel Campo Grande e o também a sede do Seminário da Diocese de Campo
Colégio Maria Constança de Barros Machado. Grande, com vários edifícios construídos. A presen-
ça marcante da igreja católica evoluiu nas últimas
décadas e seu maior empreendimento, a Universi-

2 A Região Urbana do Segredo dade Católica Dom Bosco (UCDB), está implantada
na região.
Situada na par- Cortada pelo Córrego Segredo – e este é o mo-
te norte da cidade, tivo de seu nome – a região possui atrativos natu-
possui uma estrutura rais de grande beleza, com a presença de nascentes
urbana marcada por desse córrego, com destaque para a área do Jardim
usos tradicionalmen- Botânico – com 179 hectares, instituída pelo Decre-
te rurais – chácaras de to estadual n° 7.119, de 17 de março de 1993 – e para
recreio ou de produ- a reserva ambiental de propriedade do Ministério
ção de hortifrutigran- do Exército localizada ao lado da Rua Marques do
jeiros destinados ao Herval, conhecida como corredor da Nova Lima.

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 99


A região conta ainda com um dos mais impor- nalização do Córrego Segredo em direção à região
tantes hospitais brasileiros que trata da hanseníase norte, avançando na região urbana do Segredo e
e outras doenças dermatológicas, que é o Hospital com uma série de novos empreendimentos habita-
São Julião, com sua arquitetura moderna, tanto da cionais recentes, a região pode desabrochar em dez
Capela quanto da Escola e do Centro Cirúrgico. anos. De fato, os investimentos públicos para a re-
gião foram consideráveis.
Quanto ao lazer, a região possui dois grandes
clubes: o Tênis Club, de propriedade particular, e o Lugar preferido para a implantação de empre-
Clube do Trabalhador do Sesi, localizados nas pro- endimentos habitacionais do Programa de Arren-
ximidades do Conjunto Habitacional José Abrão, damento Residencial da Caixa Econômica Federal,
no lado oeste da região, bem como o Ginásio Po- já há mais de dez pequenos conjuntos habitacionais
liesportivo, de propriedade do Colégio Dom Bosco diferenciados, por conta da atração exercida pela
e de uso dos acadêmicos da instituição, às margens UCDB. No mais, a região concentra áreas com ati-
do Córrego Segredo. Na questão habitacional, além vidades rurais com chácaras; possui a maioria das
da presença de grandes conjuntos habitacionais nascentes dos córregos que cortam a cidade e re-
construídos na década de 1980 – como o José Abrão, servas ambientais do Jardim Botânico com 179 ha e
com 866 unidades ou o Estrela do Sul, com 1.500 a reserva do Ministério do Exército; abriga 108.962
unidades –, a região do Segredo abriga a primeira habitantes (13%), e o setor mais populoso é o Nova
favela regularizada em Campo Grande – o Beco da Lima, com 35.519, e o mais adensado é o Cel. An-
Liberdade, hoje integrada à malha urbana dos bair- tonino, com 43 hab./ha; com 4.497 ha de área (13%).
ros circunvizinhos –, e as favelas Rio de Janeiro e Há 34 mil domicílios particulares.
Guanabara, todas regularizadas nos anos de 1980
no início do processo institucional de legalização
de favelas em Campo Grande.
3 A Região Urbana do Prosa
Outro ponto forte da região está relacionado
com a paisagem urbana em dois lugares específicos: Até o início dos
tanto na Av. Dom Antônio Barbosa, saída para Ro- anos de 1980, a Região
chedo, quanto na Rua do Seminário – como em ne- Urbana do Prosa esta-
nhum outro lugar da cidade – se tem uma excelente va ocupada por uma
visão da urbanização e do perfil da verticalização pequena quantidade
de Campo Grande. Com a urbanização da Norte- de loteamentos loca-
-Sul, avenida que margeia o Córrego Segredo, que lizados nos arredores
agora se dirige para a Região do Segredo, aquela da Rua Ceará – vilas
região pode sofrer um enorme surto de desenvolvi- Monte Carlo, Marga-
mento urbano, provocado pelas proximidades com rida e Jurema –, e por um conjunto habitacional lo-
o centro da cidade. A partir da continuidade da ca- calizado na Av. Mato Grosso, o Coophafé. O Jardim

100 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Noroeste, maior loteamento da cidade com quase Nações Indígenas, com seus 116 hectares, o maior
10 mil lotes, localizado na saída para Três Lagoas, complexo de lazer de massa da cidade; b) os clu-
apesar de aprovado não estava implantado. Com o bes de associações profissionais existentes – anti-
desenvolvimento verificado a partir da divisão do go Grêmio da Enersul – Clube da Terceira Idade,
Estado de Mato Grosso e a instalação do Estado Clube dos Servidores Municipais, Clube da AABB,
de Mato Grosso do Sul, em 1979, a região foi sen- Clube dos Médicos e o Centro de Lazer dos Traba-
do gradativamente ocupada por empreendimentos lhadores em Transporte; c) as chácaras de recreio
destinados à população de mais alta renda. localizadas atrás do Parque dos Poderes; d) o lazer
de compras com a instalação do Shopping Center
A partir daí, nascem os bairros Autonomista,
Campo Grande.
Giocondo Orsi, Carandá Bosque, Chácara Cachoei-
ra e os loteamentos fechados às margens do Cór- Após a construção do shopping, no ano de
rego Sóter. O surgimento desses empreendimentos 1988, os bairros que compõem seu entorno mudam
residenciais deveu-se a diversos fatores, particular- a configuração de uso, com a forte atração comer-
mente ao atendimento de moradia da classe social cial desse grande centro de compras. Exemplo é o
de alta renda e à necessidade imobiliária de expan- bairro Chácara Cachoeira que, projetado como resi-
são das áreas residenciais das classes “A e B”, que dencial, se modifica dia a dia para um grande cen-
até os anos de 1970 habitavam o Jardim dos Esta- tro de serviços. A região possui grandes atrativos
dos. Esses bairros urbanizados e de rápida ocupa- urbanos localizados no complexo do Parque dos
ção alteram a configuração urbana da região e al- Poderes e das Nações Indígenas. Esses dois empre-
guns dos empreendimentos somente se instalaram endimentos públicos concentram o maior conjunto
após a implantação da infraestrutura de acesso ao arquitetônico e urbanístico de Campo Grande, com
Parque dos Poderes e da continuidade da Avenida edifícios de arquitetura moderna de grande valor
Afonso Pena, que rompe os limites da Rua Ceará, cultural para a cidade, tais como as Secretarias de
nos anos de 1984 e 1985. Com a construção do Par- Estado, a Assembleia Legislativa, o Tribunal de Jus-
que dos Poderes, no início dos anos de 1980, e com tiça, o Centro de Convenções, a Rádio e TV Edu-
o advento da instalação de um Shopping Center, a cativa, o Museu de Arte Moderna, dentre outros, e
Região Urbana do Prosa passou por transforma- são hoje referências turísticas obrigatórias para os
ções em sua estrutura, fazendo adentrar sua ocu- visitantes da Capital.
pação para a porção leste da cidade. Nessa linha, a
Outros grandes empreendimentos localizados
região concentra atividades do poder público, tanto
na Região do Prosa são a Central de Abastecimen-
estadual quanto federal, com repartições de vários
to (Ceasa), o Estabelecimento Penal de Segurança
níveis.
Máxima e o Cemitério do Cruzeiro. Na área social
Atualmente, a região possui fortes caracterís- privada, a região abriga a Unidade de Ciências
ticas voltadas para o lazer, abrigando complexos e Agrárias da Uniderp, os colégios Paulo Freire e Ma-
estruturas diversificadas, tais como: a) o Parque das ria de Lagos Barcelos (Funlec), além dos hospitais

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 101


Proncor e Miguel Couto Unimed. A abertura da Via raneio, Parque dos Poderes, Desbarrancado e Noro-
Park, margeando o Córrego Sóter, e o respectivo este resistem em assentar famílias de menor renda
Parque Ecológico do Sóter deram mais qualidade por se localizarem mais distantes do polo comercial
àquela região, ocupada por uma população que do bairro e do centro da cidade.
mistura alta e baixa renda em suas porções, mas Assim é o Prosa, uma região de enormes bele-
trouxe enormes problemas urbanos de ocupação zas paisagísticas, ambientais e arquitetônicas e que
desenfreada, causando enchentes nos meses de de- concentra lugares de rara beleza e importância cul-
zembro a março de cada ano. tural da cidade.
Depois de anos de investimentos constantes,
a Região do Prosa, localizada na porção leste de
Campo Grande, ainda vive das suas contradições.
Abriga a moradia das famílias de maior renda da 4 A Região Urbana do Bandeira
cidade, os condomínios mais chiques, o Parque dos
Poderes, do Prosa e do Sóter, mas ainda convive O seu processo
com a pobreza de assentamentos habitacionais des- de ocupação tem iní-
providos de serviços públicos. cio na década de 1950
com os loteamentos
Essa região de urbanização recente concen-
do Jardim Paulista,
tra empreendimentos públicos (Parque dos Pode-
Tiradentes e Jardim
res, Sistema Penitenciário) e de lazer (Parque das
Alegre, este ao lado
Nações Indígenas, chácaras de recreio, shopping
do Aero Rural. Com
center e clubes profissionais); abriga a moradia
o tempo, as áreas
da maior parte da classe média e alta da cidade;
próximas à Av. Eduardo Elias Zahran foram sendo
a reserva do Parque dos Poderes; concentra 82.328
parceladas e ocupadas, acontecendo a urbaniza-
hab. (8,56%), sendo o mais populoso o Jardim No-
ção na direção sul-sudeste. Em termos de ocupa-
roeste, por incrível que pareça, até recentemente
ção, com a instalação do Conjunto Coopharádio,
um enorme vazio urbano; tem 5.565 ha (16%) de
no final dos anos de 1970, a região começa a ser
área e o setor mais adensado é o Monte Carlo com
urbanizada na sua parte mais central, com a Rua
45 hab./ha.
Spipe Calarge tendo grande importância viária, a
Por concentrar as escolas privadas maiores, partir de sua pavimentação.
possui diversas escolas públicas, dois hospitais e
quatro unidades de saúde. Seus bairros, Monte Diversos bairros, tais como Portinho Pache,
Carlo, Santa Fé, Chácara Cachoeira e Carandá Bos- TV Morena, Mansur, Morumbi e outros, surgem
que somam a grande parte da renda média da cida- nesse momento. A região do Bandeira possui vias
de e grau de alfabetização da população enquanto que assumem características próprias. A primeira é
a Mata do Jacinto, Parque dos Novos Estados, Ve- a Av. Eduardo Elias Zahran que faz fronteira com a

102 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


região urbana do Centro. Parte importante do an- fato urbano, a região nos arredores da Moreninha é
tigo minianel rodoviário, projetado pela empresa de uso rural, com a presença de fazendas e chácaras
Hidroservice Engenharia, quando do Plano Dire- de uso urbano e ali também se instalam clubes de
tor de Desenvolvimento Integrado de 1968, essa serviços e atividades de lazer.
via carrega uma grande quantidade de problemas
Já a Av. Gury Marques (saída para São Paulo)
urbanos, pelo seu alto fluxo e pela localização de
abriga indústrias e atividades atacadistas pesadas,
empreendimentos de médio e grande porte, nos se-
típicas em vias de acesso rodoviário à malha ur-
tores comercial e de serviços. Sua importância está
bana. Há alguns empreendimentos que destacam
relacionada com a ligação do fluxo do final da Av.
a região do Bandeira das demais regiões urbanas
Costa e Silva (saída para São Paulo) com diversos
de Campo Grande: a presença das torres e das an-
locais da cidade, sem que haja necessidade de se
tenas repetidoras das TVs – Morena, Bandeirantes
penetrar na região central.
e Record; a área remanescente do aeroporto Aero
A outra via de grande importância da região é Rural, construído nos anos de 1950 e bastante utili-
a Joaquim Murtinho em comunicação com a saída zado pela classe produtora local; a sede de campo
de Três Lagoas. Nesse último trecho, localizam-se do principal clube da cidade – o Rádio Clube, lo-
diversos clubes de serviços e as estações da Sanesul calizado no setor Rita Vieira; o comando geral do
e da Eletrobrás. Já o anel viário, que interliga as saí­ Corpo de Bombeiros Militar, na Av. Costa e Silva,
das de São Paulo com Três Lagoas e Cuiabá, após dentre outros. Em termos de lazer, a grande área
sua implantação nos anos de 1980, atraiu empreen- existente é o Parque Jacques da Luz, localizado nas
dimentos atacadistas e de serviços agropecuários Moreninhas, ao lado do anel viário, e vários clubes
e, mais recentemente, pesqueiros do tipo pesque e de serviços já citados.
pague. Outra via importante, que ao ser pavimen-
tada em 1986 deu grande impulso de desenvolvi- A antiga Fazenda Rancharia se transformou
mento, foi a Av. Guaicurus, iniciando a urbanização em enormes loteamentos fechados Dahma e outros
da região do Itamaracá, Pacaembu, Campina Verde empreendimentos na região. A urbanização da ave-
e arredores, principalmente com a instalação da in- nida que corre sobre os fios de alta tensão trouxe
dústria Ceval de alimentos. enormes benefícios para a região.

Nos anos de 1980, com a construção do conjun- Na área ambiental, a região do Bandeira abri-
to habitacional Moreninhas, com 4 mil casas popu- ga a Lagoa do Itatiaia, localizada no bairro de mes-
lares, a região do Bandeira atinge seus limites ao sul, mo nome, um dos mais expressivos ecossistemas
tendo, inclusive, que aumentar o perímetro urbano de Campo Grande e que está declarada, no Plano
da cidade para atender essa situação. As Moreni- Diretor, como área especial de Interesse Ambiental,
nhas, durante muito tempo, foi considerada uma re- além das nascentes dos córregos Bandeira, Bálsamo
gião-problema em termos urbanos. Com seus mais e Lageado, inclusive com a presença da estação de
de 20 mil moradores é, isoladamente, maior que a tratamento de água que abastece parte da cidade de
maioria dos municípios do Estado. Apesar desse Campo Grande.

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 103


A região urbana do Bandeira é a maior de o bairro Guanandy, como loteamento, na década
Campo Grande em área territorial, com 6.236 ha, e de 1960, com 3.500 lotes e, aos poucos, a região vai
possui os seguintes bairros: Moreninha, o mais po- se estruturando, surgindo outros loteamentos – Jo-
puloso, com 22. 711 habitantes seguido do Tiraden- ckey Club, Piratininga, Ipiranga, Marcos Roberto,
tes, com 21.896 hab. e depois o Universitário, com Jacy e Vila Bandeirantes. Localizada na porção sul
21.700 hab. Ainda possui os bairros Progresso, TV da cidade, a região pode ser descrita a partir da sua
Morena, Vilas Boas, Maria Aparecida Pedrossian, rede de córregos.
Rita Vieira, Carlota e Dr. Albuquerque.
Dos limites da Av. Salgado Filho até o córre-
Sua enorme extensão territorial, abrangen- go Bandeira, a região apresenta um assentamento
do todo o setor leste de Campo Grande, faz dela consolidado, não só pela localização dos loteamen-
uma região desproporcionalmente desprovida de tos mais antigos – Guanandy, Jacy, Ipiranga, Pira-
serviços de pavimentação asfáltica e esgotamento tininga – mas, tendo em vista que essa parte pos-
sanitário e sua área ainda está por ser parcelada em sui toda infraestrutura urbana. Um outro trecho
pelo menos 30%. pode ser descrito no espaço compreendido entre
Na região do Bandeira, como já citada, temos o Córrego Bandeira e a Av. Guaicurus, de expan-
a Lagoa do Itatiaia, um dos mais belos lugares da são e assentamento mais recente e onde se localiza
cidade. Possui 113.118 habitantes equivalentes a o maior conjunto habitacional de Campo Grande:
16% do total da cidade e 18 hab./ha, sendo o bairro o Aero Rancho, cujo espaço urbano se caracteriza
mais adensado, o Carlota, com 40 hab./ha. Ainda é pela crescente ocupação.
cortada pelos córregos Bálsamo, Bandeira, Lageado Por último, uma porção do espaço regional
e Anhanduizinho. localizado entre a Av. Guaicurus e os limites do
perímetro urbano, onde existe ainda uma grande
quantidade de áreas rurais e aparecem assenta-

5 A Região Urbana do mentos sociais municipais de grande tamanho po-


pulacional – no caso, o Parque do Sol, o Dom Antô-
Anhanduizinho nio Barbosa e o Jardim das Meninas, cuja carência
de infraestrutura e serviços públicos é enorme.
A Região Urba- Apesar de banhada por vários córregos – Anhan-
na do Anhanduizinho duizinho, Bandeira, Bálsamo e Lageado –, a região
iniciou seu processo está descaracterizada em termos ambientais, ine-
de urbanização no xistindo áreas especiais de reserva ou de preserva-
final da década de ção visível, ocasionada, provavelmente, pela ocu-
1950, com a aprova- pação habitacional.
ção dos loteamentos
Taquarussu e Améri- Em termos populacionais, a região é a maior
ca. Logo depois surge de Campo Grande embora apresente densidade

104 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


demográfica ainda muito baixa. Alguns espaços investimentos públicos e privados, destinados à
e equipamentos podem caracterizar a região do moradia de segmento populacional de baixa e mé-
Anhanduizinho. Lá se localiza o Campus da Uni- dia renda e constitui um espaço urbano de grande
versidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), atração econômica em curto prazo.
antiga Universidade Estadual (UEMT), construída
Seu mais recente investimento é o Shopping
na década de 1960, que constitui um dos maiores
Norte-Sul que tende a alterar as relações urbanísti-
conjuntos arquitetônicos e paisagísticos da cidade,
cas dos bairros da região.
com o Teatro Glauce Rocha, o Estádio Morenão, o
Restaurante e o Complexo desportivo. A região urbana do Anhanduizinho é, segun-
do o IBGE, a mais populosa da cidade com 185.558
Outra área que simboliza a região é a do Mu- habitantes, embora possua apenas 30 hab./ha.
seu José Antônio Pereira, localizado em parte da Com isso, sua população é quase 24% de toda a
Fazenda Bálsamo e único exemplar arquitetônico do município, o que a qualifica como uma região
do século XIX, que constitui patrimônio cultural da de grande poder de barganha política na hora de
cidade por ter sido lugar de propriedade do filho do decisão de orçamento municipal e outras deman-
fundador da cidade. Outras características marcan- das. Apesar de a maioria da população de Campo
tes da região são a presença de vários cemitérios- Grande acreditar e comentar que as Moreninhas
-parque, localizados na Av. Filinto Müller e na Av. são o bairro mais populoso da cidade, há aqui
Guaicurus; o Campo de Beisebol, esporte praticado uma outra informação: o Aero Rancho, na região
pela comunidade japonesa; o Jockey Club de Cam- do Anhanduizinho é, de fato e de direito, o lugar
po Grande, espaço esportivo de hipismo; o Parque mais populoso da cidade com seus mais de 38 mil
de Exposições Laucídio Coelho, onde ocorrem as habitantes, seguido bem abaixo pelo Centro-Oes-
manifestações ligadas à atividade agropecuária te, com seus 24.016 habitantes e a Alves Pereira
do Estado; o maior Ginásio Esportivo da cidade, o com 16.475 hab. Ainda os bairros Taquarussu, Jo-
Guanandizão; e o Parque de Lazer Airton Senna, no ckey Club, América, Piratininga, Jacy, Guanandy
Aero Rancho. e Colonial fazem parte da região, embora com po-
pulações menores.
A região urbana do Anhanduizinho é uma das
regiões da cidade que tem apresentado sinais visí- O bairro mais adensado da cidade está nes-
veis de crescimento e de ocupação, por sua locali- sa região – o Guanandy com 64 hab./ha e toda
zação e equipamentos existentes e em construção. a região apresenta sinais visíveis de crescimento,
Três hospitais de grande porte ali se localizam – concentrando os assentamentos e conjuntos re-
Rosa Pedrossian, Pênfigo e Universitário; uma rede centes; localiza os cemitérios-parques, o Jockey
escolar de grande porte com uma escola de aten- Club; o parque de exposições, o Guanandizão e
dimento integral – o CAIC do Aero Rancho e uma o Parque Airton Senna; abriga o Museu José An-
acessibilidade garantida pelo sistema viário anelar tônio Pereira remanescente da época da fundação
existente. Com essas características, a região atrai da cidade.

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 105


6 A Região Urbana do Lagoa Outra característica da região está presente
no Bairro Taveirópolis e arredores: o projeto urba-
A Região Urbana no da área executado quando do Projeto Comuni-
do Lagoa têm como dades Urbanas de Recuperação Acelerada (Cura),
principal caracterís- programa do extinto Banco Nacional da Habitação
tica a existência de que financiou uma urbanização completa do bair-
grandes áreas mili- ro, com a implantação de infraestrutura urbana. Lá,
tares formadas pela em função do desenho urbano, as calçadas tiveram
Base Aérea de Campo sua largura aumentada e a pista de rolamento dimi-
Grande, pela segunda nuída com ganhos em qualidade de vida em diver-
parte da Vila Militar, sos quarteirões.
além do Aeroporto Internacional de Campo Gran-
O Bairro Taveirópolis abrigava o Clube Espor-
de – áreas institucionais que, pela sua localização
tivo de mesmo nome no estádio municipal Elias
espacial urbana, eram consideradas entraves ao
Gadia, muito utilizado pela população e cuja área
crescimento da cidade no sentido oeste.
se transforma em espaço de lazer do bairro. Ou-
Os primeiros loteamentos na região foram tro clube esportivo que possui sua sede esportiva e
rea­lizados na década de 1940, com as Vilas Taveiró- demais dependências na região é o Comercial Es-
polis e Santos Dumont e pela cessão de área públi- porte Clube. Em termos ambientais, a Região do
ca municipal para instalação da Base Aérea. Apesar Lagoa ainda possui características peculiares, com
da presença dessas áreas institucionais federais, a boa proteção de reservas existentes, principalmen-
região se desenvolveu às margens da saída para Si- te as de propriedade da Base Aérea e de uma área
drolândia até os limites das margens do Córrego de 20 hectares localizada no Loteamento Rancho
Lagoa. Alegre, vizinho ao portal Caiobá, em fase de im-
plantação.
Foi com a implantação do Conjunto Habitacio-
nal Coophavila II, na década de 1970, no ponto mais Quase todo o trecho urbano do Córrego
extremo ao sudoeste da região, que ela assume sua Lagoa ainda possui matas ciliares e algum grau de
dimensão de perfil longitudinal, acompanhando, conservação e se transforma em parte do Parque
definitivamente, os espaços existentes entre a Av. Linear do Lagoa, margeando a nova Avenida Lúdio
Marechal Deodoro e o Córrego Lagoa. Coelho. Recentemente, uma obra da Prefeitura Mu-
A Região do Lagoa concentra grandes lotea- nicipal, por meio da EMHA, proporcionou novos
mentos implantados nas décadas de 1960 e 1970, ares para a região: é o Buriti-Lagoa, um projeto de
com destaque para o Santa Emília, São Conrado, urbanização e deslocamento de favela, sem remo-
Tijuca e Portal Caiobá, que, juntos, somam mais de ção, que aproveitou a área marginal aos córregos
10 mil lotes, e, decorridos mais de 20 anos, esses lo- para um belo parque e os lotes vagos da região para
teamentos ainda não atingiram 50% de ocupação. construir casas.

106 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


A Região Urbana do Lagoa abriga as maiores implantado no final dos anos 1910 e com a presença
áreas institucionais da cidade, como a Base Aérea e da estação Indubrasil, atividades atacadistas e in-
o Aeroporto Internacional. A região se desenvolve dustriais foram ali se localizando, tendo o Frigorífi-
ao longo do Córrego Lagoa, abriga os clubes Tavei- co Mato Grosso (Frima) como exemplo maior.
rópolis e Comercial, possui duas áreas de reserva de
Uma das características da Região Urbana
grande valor ambiental, sendo uma na Base Aérea e
do Imbirussu é a presença marcante de atividades
outra, em loteamento recente – Rancho Alegre.
econômicas industriais, que se agregam no Núcleo
Sua área, de mais de cinco mil hectares, tem Industrial e nas margens da Avenida Duque de Ca-
114 mil habitantes, mas é muito vazia, com apenas xias, logo após o Aeroporto Internacional de Cam-
23 hab./ha. Essa região poderia ter se consolidado po Grande.
como de urbanização prioritária dada sua localiza-
ção ambiental. Segundo dados do Planurb, ela está A região passa a atrair atividades industriais a
dividida em 11 bairros e os dados de 2010 do IBGE partir da elaboração do Plano de Desenvolvimen-
mostram o São Conrado com mais de 18 mil habi- to Integrado de Campo Grande, elaborado pela
tantes, o mais populoso dentre todos. Essa região Hidroservice Engenharia e Consultoria, em 1968,
ocupa o lado sudoeste da cidade e possui uma den- que propôs que os depósitos de combustíveis e as
sidade de 32,44 habitantes por hectare. indústrias poluentes se implantassem na saída de
Aquidauana. Frigoríficos, moinho de trigo, esma-
gadoras de soja e outras plantas industriais com-
põem a paisagem de boa parte da região.
7 A Região Urbana do Imbirussu
Outra forte característica da região está ligada
Historicamente, à presença de grandes áreas militares, como a sede
a Região Urbana do do Comando Militar do Oeste, o 20° Regimento de
Imbirussu foi utiliza- Cavalaria Blindada (RCB) e o antigo Estande de
da como passagem Tiro, todos órgãos do Ministério do Exército.
para interligar a cida-
Segundo informações do Planurb, a região ini-
de de Campo Grande
cia seu processo de urbanização nos anos de 1950,
à saída para o Panta-
com a Vila Alba, e, ao longo dos anos, a ocupação
nal e para os municí-
foi se expandido em função da abertura da Avenida
pios do oeste do Esta-
Júlio de Castillho, seu mais importante eixo viário.
do, por meio da atual via Duque de Caxias.
Atualmente, a região possui vários equipamentos
Esse acesso, originalmente boiadeiro, utiliza- públicos que a destacam das demais, como o Cemi-
do desde o começo do século, foi se urbanizando a tério Santo Amaro, o maior da cidade, a sede da Po-
partir da instalação das edificações dos quartéis mi- lícia Federal, a sede da Fundação Nacional de Saú-
litares na década de 1920. Com o ramal ferroviário de, o Colégio Militar de Campo Grande, o Centro

Quem é Campo Grande em 2012: a cidade e suas regiões urbanas 107


de Pesquisa de Gado de Corte da Embrapa, além Em termos de espaços públicos destinados ao lazer,
dos edifícios militares já citados. havia um parque projetado para a região – Parque
das Acácias, em área pertencente à Rede Ferroviá-
Na área habitacional, a região possui gran-
ria Federal defronte à Av. Duque de Caxias –, mas
des contrastes tipológicos. Ao mesmo tempo em
ainda não implantado, embora declarado como
que abriga o loteamento Nova Campo Grande,
Área de Interesse Urbanístico pelo Plano Diretor de
projetado nos anos de 1960 para atender as ne-
Campo Grande. Essa área foi adquirida pela muni-
cessidades da classe média da época e dotado de
cipalidade da RFFSA.
toda a infraestrutura de apoio, recentemente a re-
gião tem servido aos assentamentos municipais, Finalmente, a região possui a maior área pú-
como o Zé Pereira, ou a favelas de grande porte, blica municipal, localizada ao lado do Cemitério
no caso a Sayonara, e a conjuntos habitacionais Santo Amaro, com mais de 42 hectares que, nos úl-
como o Coophatrabalho, o Panamá e o Manoel timos anos, esteve cedida para o Ministério da Ae-
Secco Thomé. ronáutica, e é conhecida pela população pelo fato
de ter sido o local da missa celebrada pelo Papa
Além desses, lá se localiza o primeiro conjunto
João Paulo II quando de sua última visita a Campo
habitacional da cidade, o Lar do Trabalhador, cons-
Grande em 1992 e onde a municipalidade realiza as
truído na década de 1960, com ruas estreitas e uma
festas junina e de carnaval.
tipologia própria de padrão construtivo.
A Região Urbana do Imbirussu possui um po-
A Região do Imbirussu, em comparação com
tencial ambiental invejável na cidade, pela presença
as demais regiões urbanas de Campo Grande, pos-
do maior maciço contínuo de buritis ainda preser-
sui poucos vazios urbanos visíveis que possam
vados, o que, por si só, justifica uma enorme inter-
constituir áreas de interesse para empreendimen-
venção urbanística na região que começou com o
tos de loteamentos urbanos. No setor ambiental,
Parque Linear. De acordo com dados do Planurb,
possui um dos maiores renques de buritis da cida-
oriundos do Censo do IBGE 2010, a região tem
de, localizado ao longo do Córrego Imbirussu, nas
sete grandes bairros, assim identificados: 1. Núcleo
proximidades do loteamento Jardim Búzios, que,
Industrial, localizado na saída para Terenos, porção
em uma urbanização longa recente, deu qualidade
oeste da cidade onde habitam 3.594 pessoas; 2.
a esse espaço ao criar o Parque Linear.
Nova Campo Grande, área dos anos de 1960, que
A paisagem natural ali existente é de rara be- não conseguiu se expandir no tempo e que abriga
leza e se estende até o viaduto nas proximidades 10.161 pessoas; 3. Popular, na realidade uma parte
do Frigorífico Swift, defronte à Vila Popular. Além da Nova Campo Grande, seção VII, do lado oposto,
dessa área, na região se localiza uma reserva am- com 18.816 habitantes; 4. Panamá, o segundo bair-
biental – conhecida como Mata do Otaviano, nome ro mais populoso com 17.906 habitantes; 5. Santo
do proprietário, localizada nas proximidades do Antônio, com 13.529 habitantes; 6. Sobrinho, com
Aeroporto Internacional – que, aos poucos, diminui 11.249 moradores; e 7. Santo Amaro, o mais popu-
de tamanho em função da proximidade de favelas. loso de todos, com 23.501 habitantes.

108 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Lei no 2.503, de 4 de julho de 1988

DISPÕE SOBRE O PROCESSO DE PLANEJAMENTO E DE PARTICIPAÇÃO


COMUNITÁRIA NO DESENVOLVIMENTO DO MUNICÍPIO DE
CAMPO GRANDE E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS.

JUVÊNCIO CÉSAR DA FONSECA, PREFEITO MU- a convivência democrática, o avanço social e político, a
NICPAL DE CAMPO GRANDE, CAPITAL DO ESTADO melhoria da qualidade de vida da população;
DE MATO GROSSO DO SUL, no uso das atribuições que lhe II. vincular as ações dos diversos órgãos da Administra-
confere o artigo 89, inciso I, cominado com o § 2º do artigo ção Municipal a política e planos estabelecidos de forma
69 da Lei Complementar nº 07, de 20.11.81 (Lei Orgânica dos integrada, considerando suas repercussões mútuas e seu
Municípios), promulga a seguinte lei: impacto sobre a estrutura territorial do Município e o
meio-ambiente;
III. promover as medidas necessárias à cooperação e ar-
TÍTULO I ticulação da atuação municipal com a dos demais níveis
DAS DISPOSIÇÕES GERAIS de governo;
IV. assegurar a ampla discussão das políticas, diretrizes
CAPÍTULO I e planos municipais, segundo as normas estabelecidas
DOS OBJETIVOS nesta lei;
V. estimular e garantir a participação da comunidade nas
Art. 1º – Para os efeitos desta lei, compete à Administração tomadas de decisão sobre o desenvolvimento e organiza-
Municipal, atendendo as peculiaridades locais e as diretri- ção territorial e espacial do Município;
zes federais e estaduais: VI. preservar e valorizar os recursos naturais, os elemen-
I. promover o desenvolvimento municipal através de tos do acervo cultural e o patrimônio histórico, artístico e
um processo de planejamento permanente, objetivando ambiental do Município;

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 109


VII. prevenir e corrigir a ocorrência de deseconomias no Município, acompanhada das diretrizes que devem regê-
processo de urbanização; -la e que é resultado do processo de planejamento e de
VIII. estabelecer as medidas adequadas no sentido de participação comunitária, sujeito a revisões, atualizações,
evitar a deformação especulativa do uso e do valor do complementações, ajustamentos periódicos e necessaria-
solo urbano; mente institucionalizado através de legislação municipal;
IX. maximizar os benefícios sociais dos investimentos pú- IV. Plano Específico – representação documentada, parti-
blicos e privados em operações de urbanização e empre- cularizada de objetivos e diretrizes referidos a um setor
endimentos edilícios; técnico, econômico ou espacial da realidade municipal,
X. compatibilizar as atividades urbanas e não-urbanas, correspondendo aos seguintes níveis de planejamento:
públicas ou privadas, exercidas no Município;
XI. propiciar condições para o dimensionamento da in- a) Planejamento Setorial – elaboração, sobre bases técni-
fraestrutura e serviços municipais, objetivando sua ade- cas, de planos, programas e projetos com o objetivo de
quação às demandas sócio-econômicas; formular diretrizes ligadas a uma atividade, disciplina
XII. compatibilizar com o planejamento do desenvolvi- ou tecnologia específica, tais como:
mento municipal, de nível geral, os planos, os programas 1. habitação;
e projetos setoriais e territoriais; 2. indústria;
XIII. criar condições necessárias à adequada distribuição 3. comércio e serviços;
espacial da população, em especial a de baixa renda, para 4. agropecuária;
facilitar sua mobilidade e acesso aos centros de emprego, 5. extrativismo;
propiciando sua permanência em localizações residen- 6. turismo e hotelaria;
ciais favoráveis. 7. patrimônio histórico, artístico e ambiental urbano
e rural;
CAPÍTULO II 8. preservação fisiográfica e das condições naturais e
DAS DEFINIÇÕES paisagísticas;
9. tráfego;
Art. 2º – Para os fins desta lei, adotam-se as seguintes defi- 10. transporte de passageiros;
nições: 11. transporte de cargas;
I. Processo de Planejamento Municipal – conjunto de 12. infraestrutura de energia, comunicações e armaze-
procedimentos da Administração Municipal, contíguo, nagem de grãos;
desenvolvido com a participação constante da Câmara 13. infraestrutura de saneamento básico, compreen-
Municipal e da comunidade e segundo regras definidas, dendo sistemas de abastecimento d’água, esgotamen-
visando a fixação dos objetivos e diretrizes de interesse to sanitário, drenagem, coleta e disposição do lixo ur-
municipal, a preparação dos meios para atingí-los, bem bano;
como, controle de sua aplicação e a avaliação dos resul- 14. infraestrutura de serviços municipais, compreen-
tados obtidos; dendo iluminação pública, cemitérios, abastecimento
II. Processo de Participação Comunitária – conjunto de alimentar, conservação e limpeza de vias e logradouros;
procedimentos, definidos por normas específicas, que as- 15. infraestrutura de equipamentos sociais, compreen-
segura a articulação entre o Poder Executivo Municipal, dendo redes físicas de educação e saúde, áreas verdes,
o Poder Legislativo e a Comunidade, no sentido de fazer espaços abertos, equipamentos de recreação, cultura,
com que os interesses coletivos consubstanciem as dire- lazer e de assistência social;
trizes e metas do planejamento municipal; 16. controle da poluição sonora, do ar, da água e do solo.
III. Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal – re-
presentação documentada da organização desejável do b) Planejamento das Subunidades Espaciais Urbanas –
espaço econômico, social, político e físico-territorial do elaboração, sobre base técnica, da organização urbanís-

110 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


tica para um determinado segmento do tecido urbano, belecerá as normas regulamentares e a sua composição,
compreendendo conjunta e integralmente os seguintes assegurando a participação, de no máximo:
elementos: a) 05 (cinco) representantes da administração munici-
1. traçado de vias e logradouros, obedecendo à hierar- pal e estadual;
quização do sistema viário; b) 12 (doze) representantes das Associações e Sindica-
2. localização e bases para projetos físicos de melho- tos da Sociedade Civil;
ramentos; c) 06 (seis) representantes dos Institutos ou Associa-
3. reurbanização total ou parcial; ções Profissionais.
4. explicitação e detalhamento de diretrizes e normas § 2º - O Conselho Municipal de Desenvolvimento e Ur-
para uso, ocupação e parcelamento do solo urbano; banização – CMDU terá, também, como sua atribuição,
5. tratamentos paisagísticos, de comunicação visual e emitir pareceres sobre matéria relacionada com a preser-
de mobiliário urbano; vação do Patrimônio Natural e Cultural, bem como sobre
6. normas de controle e operação da circulação urba- Áreas de Proteção Sócio ecológica e Áreas de Proteção
na, das áreas verdes e dos espaços abertos; Ambiental.
7. localização de equipamentos urbanos;
8. outros setores da malha urbana.
TÍTULO II
c) Planejamento das Subunidades Espaciais Rurais – ela- DO PROCESSO DE PLANEJAMENTO E
boração, sobre bases técnicas, de organização especializa- PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA
da de um determinado segmento da área rural, podendo
compreender, entre outros, os seguintes elementos: CAPÍTULO I
1. assentamentos populacionais e de mão de obra rurais; DAS INFORMAÇÕES BÁSICAS
2. áreas especiais de exploração das atividades primá-
rias com finalidades sociais; Art. 4º – Compete à Secretaria Municipal do Planejamen-
3. Complexos localizados de unidades de infraestru- to – SEPLAN, através da Unidade de Planejamento Urbano
tura e serviços; de Campo Grande – PLANURB em conjunto, solicitar, ela-
4. Elementos de proteção e recursos naturais, ao meio borar, armazenar, tabular com fins específicos, bem como,
ambiente e ao patrimônio natural e cultural. imprimir e divulgar as informações básicas para a elabora-
ção, acompanhamento e avaliação dos planos, programas e
projetos.
CAPÍTULO III Parágrafo Único – São consideradas informações básicas
DO CONSELHO MUNICIPAL DE para atender o disposto neste artigo, dentre outras:
DESENVOLVIMENTO E URBANIZAÇÃO I. os registros analíticos e tabulações do cadastro técnico
municipal e do cadastro econômico;
Art. 3º – Fica criado o Conselho Municipal de Desenvolvi- II. os Orçamentos-Programas Plurianual de investimen-
mento e Urbanização – CMDU, órgão colegiado de natureza tos da Municipalidade, bem como, seus relatórios de
consultiva, que, sob a presidência do Chefe do Executivo, acompanhamento de execução;
tem por objetivo emitir pareceres sobre quaisquer planos, III. estudos, planos e projetos de investimentos e obras
programas, projetos globais ou específicos, que encaminha- para o município;
dos prévia e obrigatoriamente de projeto de lei à Câmara IV. os registros analíticos e tabulações setoriais referentes
Municipal, sem prejuízo da autonomia dos Poderes Muni- à infraestrutura e aos equipamentos sociais;
cipais constituídos. V. a cartografia, os dados estatísticos e censitários pro-
§ 1º - O Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urba- duzidos por quaisquer fontes, pertinentes à realidade
nização – CMDU, será implantado por decreto que esta- municipal;

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 111


VI. os registros analíticos e tabulações especiais prepara- CAPÍTULO II
dos pela PLANURB/SEPLAN para servir ao planejamen- DAS FUNÇÕES DO PLANO DIRETOR DE
to municipal; DESENVOLVIMENTO MUNICIPAL
VII. os relatórios e estatísticas sobre os serviços Munici- E OS PLANOS ESPECÍFICOS
pais e solicitações de aprovações de plantas e projetos e
pedidos de licença referentes a empreendimentos e ativi- Art. 9º – O Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal e os
dades implantadas ou exercidas no Município; Planos Específicos têm, dentre outras as seguintes funções:
VIII. Informações gerais, históricas, de recursos naturais, I. Fornecer as bases para elaboração dos Orçamentos-
de população, emprego e renda, de ocupação de áreas -Programa e Plurianual de Investimentos;
pelas diversas atividades, infraestrutura e equipamentos, II. Orientar a elaboração do conteúdo dos programas fi-
áreas verdes e espaços abertos, habitação, abastecimento nanceiros dos órgãos da Administração Municipal, pro-
alimentar e outras que se fizerem necessárias; movendo sua integração, mediante fornecimento das ba-
IX. Informações dos setores econômicos – primário, se- ses técnicas e programáticas necessárias;
cundário e terciário; III. Propiciar as condições necessárias à habilitação do
X. Informações e tabulações analíticas de acompanha- Município para a captação de recursos financeiros de
mento das finanças municipais; apoio a programas de desenvolvimento local, junto a
XI. Outras informações de natureza estatística de interes- fontes nacionais e internacionais;
se do planejamento municipal. IV. Tornar públicos os dados e informações atualizadas,
Art. 5º – Os órgãos da Administração Municipal, através concernentes à realidade municipal, bem como, os obje-
dos Grupos de Planejamento, deverão encaminhar à PLA- tivos e as diretrizes da Administração Municipal, relacio-
NURB/SEPLAN, sistematicamente, ou quando solicitado, as nados com estes planos, de modo a orientar as atividades
informações básicas e demais dados e indicadores sob sua públicas e privadas;
responsabilidade. V. Permitir o adequado posicionamento da Administra-
Art. 6º – Os convênios e contratos com quaisquer órgãos ção Municipal em suas relações com os órgãos e entida-
públicos e entidades privadas, para obtenção, cessão, inter- des da administração direta e indireta, federal e estadual,
câmbio ou processamento de informações, dados, indicado- vinculados ao desenvolvimento em geral;
res ou tabulações celebrados pela Prefeitura Municipal de VI. Orientar a manutenção de um acervo disponível de
Campo Grande, deverão ter a interveniência da SEPLAN. projetos adequados à utilização dos recursos municipais
Art. 7º – A SEPLAN, através da PLANURB, em articulação e ao desenvolvimento urbano e rural integrado.
com os Grupos de Planejamento, procederá a montagem de
um Sistema de Informações Municipais de Campo Grande
–SIM/CG, inclusive informatizado, que conterá as informa- CAPÍTULO III
ções pertinentes a que se refere os incisos do parágrafo úni- DO CONTEÚDO DO PLANO DIRETOR DE
co, do artigo 4º, desta lei. DESENVOLVIMENTO MUNICIPAL
Art. 8º – A SEPLAN, através da PLANURB, em articulação
com a Secretaria Municipal do Controle Urbanístico – SE- Art. 10 – O Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal –
MUR, objetivando a sistematização e o conveniente tra- PDDM, apresentará, como conteúdo básico:
tamento de dados e informações, manterá um Sistema de I. projeções relativas à demanda real de equipamentos
Referência Geográfica conjugado com o Sistema de Infor- sociais, infraestrutura, serviços e atividades econômicas
mações Cartográfica da cidade de Campo Grande. em geral;
Parágrafo único – Os órgãos da Administração Municipal de- II. revisão, atualização e complementação relativas aos
verão, em todo levantamento, pesquisa, tabulação, ou qual- elementos dos Planos que se fizerem necessários;
quer outra forma de registro de dados e indicadores utilizar III. diretrizes gerais relativas ao assentamento, uso do
o sistema de referencia e codificação previstos neste artigo. solo, infra e superestrutura rural;

112 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


IV. diretrizes gerais relativas a estrutura urbana, uso do do PDDM e dos demais planos dele decorrentes, bem
solo, infra e superestrutura urbana; como a se manifestar a respeito de seu conteúdo e diretri-
V. diretrizes de orientação relativas a: zes, promovendo todos os atos e medidas necessárias ao
a) programas de investimentos municipais; adequado desenvolvimento das atividades referidas no
b) prioridades e conteúdos dos Planos Específicos de “caput” deste artigo.
natureza setorial; Art. 14 – Quando da elaboração ou atualização do PDDM
c) prioridades e conteúdos dos Planos Específicos a e dos Planos Específicos, a PLANURB ouvirá previamente
nível de subunidades; os segmentos da comunidade diretamente envolvidos no
d) recomendações e sugestões para programas de projeto, para a preparação de minuta a ser apreciado pelo
obras e investimentos no Município. Conselho Municipal de Desenvolvimento e Urbanização –
CMDU.
§ 1º - Para os fins considerados no “Caput” deste artigo, a
CAPÍTULO IV SEPLAN/PLANURB deverá utilizar os seguintes instru-
DOS PLANOS ESPECÍFICOS mentos:
I. publicação obrigatória na imprensa local, pelo perío-
Art. 11 – Os conteúdos dos Planos Específicos serão esta- do de 03 (três) dias consecutivos, da ementa dos projetos
belecidos em Termos de Referência e programação prévia, suscetíveis de apreciação pelo Conselho Municipal de
preparados pela PLANURB e encaminhados ao CMDU Desenvolvimento e Urbanização – CMDU;
para cumprimento das finalidades de que trata o artigo 3º II. montagem de exposições públicas sobre os Planos e
desta lei. seus conteúdos específicos;
Art. 12 – Os Planos Específicos deverão atender aos objeti- III. realização de debates públicos sobre fundamentos,
vos e diretrizes do PDDM, devendo incorporá-los, de forma questões e proposições específicos;
detalhada, para aplicação às situações particularizadas. § 2º - Os procedimentos e prazos de apreciação das pro-
postas pelo CMDU serão estabelecidos pelo seu Regi-
mento Interno.
CAPÍTULO V Art. 15 – Recebido o parecer conclusivo do CMDU, a PLA-
DA ELABORAÇÃO E DISCUSSÃO DO NURB preparará, em prazo não superior a 45 (quarenta e
PLANO DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO cinco) dias, minuta de projeto de lei, a ser submetido à apre-
MUNICIPAL E PLANOS ESPECÍFICOS ciação do Legislativo.

Art. 13 – O Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal –


PDDM, e Planos Específicos, serão elaborados pela Unidade CAPÍTULO VI
de Planejamento Urbano de Campo Grande – PLANURB, DA REVISÃO E ATUALIZAÇÃO
da Secretaria Municipal do Planejamento – SEPLAN, caben- DOS PLANOS
do-lhe, para esse efeito, a coordenação dos procedimentos
de todos os órgãos da Administração Municipal, que serão Art. 16 – O Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal e
corresponsáveis pela sua preparação, cabendo-lhe, ainda, o os Planos Específicos serão revistos, obedecendo à dinâmica
controle de sua implementação e a avaliação de seus resul- do processo de planejamento local em prazos não superio-
tados. res a 5 (cinco) anos, contados a partir da data de publicação
§ 1º - Os Planos Específicos deverão ser elaborados sob a da Lei que os aprovar, obedecido o disposto no Capítulo V,
coordenação da SEPLAN/PLANURB, por administração do Título II, desta lei.
direta ou contratada. Art. 17 – O Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal
§ 2º - Os órgãos da Administração Municipal ficam obri- e os Planos Específicos poderão sofrer complementações e
gados a fornecer as informações necessárias à elaboração ajustamentos antes do prazo estabelecido no artigo anterior,

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 113


sem prejuízo da revisão prevista nesta lei, respeitadas, sem- Art. 20 – Todos os planos, programas e projetos da Adminis-
pre, as disposições de seu Capítulo V, Título II. tração Municipal, bem como o Plano de Metas Anual, deve-
rão ser elaborados em compatibilidade com as diretrizes do
Plano Diretor de Desenvolvimento Municipal.
CAPÍTULO VII
DA VINCULAÇÃO, DOS ATOS
DA ADMINISTRAÇÃO AOS PLANOS DAS DISPOSIÇÕES FINAIS
E TRANSITÓRIAS
Art. 18 – Os atos dos órgãos da Administração Municipal
vinculam-se ao Plano Diretor de Desenvolvimento Munici- Art. 21 – As disposições sobre o ordenamento do uso e ocu-
pal e aos Planos Específicos. pação do solo urbano deverão ser compatibilizados com o
Art. 19 – O Executivo elaborará as propostas para os Programas PDDM e os Planos Específicos.
de Investimentos, inclusive os Plurianuais, fazendo correspon- Art. 22 – A presente lei será regulamentada através do De-
der a alocação de recursos orçamentários e extra-orçamentá- creto do Executivo Municipal.
rios aos objetivos e diretrizes do Plano Diretor de Desenvolvi- Art. 23 – Esta lei entra em vigor na data da sua publicação,
mento Municipal e dos Planos Específicos existentes. revogadas as disposições em contrário.

PREFEITURA MUNICIPAL DE CAMPO GRANDE, 04 DE JULHO DE 1988

114 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Pioneiros do planejamento urbano
em Campo Grande

I. EX-PREFEITOS DE CAMPO GRANDE Jorge Martins – Secretário de Planejamento; José Marcos da


Fonseca – Secretário de Controle Urbanístico; Inácio Salva-
– Juvêncio César da Fonseca (1987-1988) e (1993-1996)
dor Nessimian – Diretor de Departamento; Álvaro Ribeiro
– Lúdio Martins Coelho (1989-1992)
– Secretário de Obras Públicas; Ricardo Schettini – Diretor
– André Puccinelli (1997-2000) e (2001-2004)
de Departamento; Elenice Pereira Carille – Procuradora Ju-
– Nelson Trad Filho (2004-2008) e (2009-2012)
rídica; Edil Afonso Albuquerque – Chefe de Gabinete; Jairo
Ribeiro – Secretário de Serviços Públicos; Aroldo Abussa-
fi Figueiró – Secretário de Transporte e Trânsito; Sebastião
II. EX-PRESIDENTES DO PLANURB
Lourico Fontoura – Assessor da Seplan.
– Ângelo Marcos Vieira de Arruda (1987-1988)
– Chaia Jacob Netto (1989-1992)
– Sergio Seiko Yonamine (1993-1995) e (2000-2004) B. UNIDADE DE PLANEJAMENTO URBANO DE
– Eliane Salete Detoni (1998-2000) CAMPO GRANDE (1987-1988)
– Berenice Jacob (2004-2008)
Ângelo Marcos Vieira de Arruda – Diretor Executivo; Maria
– Marta Lucia da Silva Martinez (2009-2012)
Lúcia Torrecilha – Coordenadora; Augusto Vieira de Melo
– Assessor Jurídico; Márcia Jacometo – Assessora Jurídica;
Mara Huebra Gordin – Coordenadora; Rita de Cássia Bel-
A. PREFEITURA DE CAMPO GRANDE (1987-1988)
leza Michelini - Assessoria; Luis Paulo Peters – Assessoria.
Wilson Coutinho – Secretário de Finanças e de Planejamen- TÉCNICOS: Ana Isa Garcia Bueno; Cláudia Pereira Gonçal-
to; Carlos Nóbrega de Freitas – Diretor Executivo da Seplan; ves; Maura Simões Correa Neder; Valdete de Barros Mar-

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 115


tins; Solange de Fátima Vaz Duarte; Aparecida Lopes de sociação Comercial de Campo Grande; Adelino dos Anjos
Oliveira (in memoriam); Denise Ferreira de Macedo Abrão; Martins (in memoriam) – Associação Comercial de Campo
Juares R. Echeverria; Maria Inês Nakazato Miyahira; Paulo Grande; Cornélio Silva (in memoriam) – Sindicato dos Em-
T. Kinoshita; Vinicius Vieira Pereira; Anna Maria Ponce de pregados no Comércio; Idelmar da Mota Lima – Sindicato
Carvalho; Élida Moreira; Elias Makaron; Eloisa Castro Ber- dos Empregados no Comércio; Dirceu de Oliveira Peters –
ro; Jorge Alberto Cândia; Tirmiano Grubert Chaves. Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Campo Gran-
ADMINISTRATIVOS: Maria Silvana Rodrigues; Solange de; Edson Lacerda – Associação dos Engenheiros e Arqui-
Fernandes; Simone de Lima Maia; Mara Márcia Fernan- tetos de Campo Grande; Ramiro Saraiva – Associação dos
des de Moraes; Antônio Marcos Martins Apolinário; Edson Engenheiros e Arquitetos de Campo Grande; Élvio Araújo
Cândido Garcia; Jean Carlo Pereira Braz; Reginaldo Tavares Garabini – IAB/Depto de MS; Fayez Jose Rizk – IAB/­Depto
Alves; Zenaide Catarina Rocha - Espanha; Clélia Maria Trin- de MS; Jurandir Santana Nogueira (in memoriam) – IAB/
dade; Sandra Mara Freitas Jorge Vieira. Depto de MS; José Roberto Gallo – Fundação de Cultura de
CONSULTORES: Sergio Zaratin; Alaor Caffé Alves; Hideo MS; Norton Tasso – Fundação de Cultura de MS; Francis-
Sudo. co Evandro de Santana – AGB MS; Cleonice Alexandre Le
Bourlegat – AGB MS; Jairo Faracco – Associação dos Advo-
gados de Campo Grande; Edson Maccari – Associação dos
C. CONSELHEIROS DO CONSELHO MUNICIPAL Advogados de Campo Grande; Dicesar de Paula Lopes Fi-
DE DESENVOLVIMENTO E URBANIZAÇÃO lho – Associação dos Economistas de MS; Luiz Carlos Sobral
(CMDU) (1987-1988) Petengil – Associação dos Economistas de MS; Rosimeyre
Alves – Sindicato dos Jornalistas de MS; Flávio Paes – Sin-
Juvêncio César da Fonseca – Prefeito e Presidente; Mara
dicato dos Jornalistas de MS.
Márcia de Moraes – Secretaria Executiva do CMDU; Wilson
Coutinho – Seplan CG; Carlos Nóbrega de Freitas – Seplan
CG; Jorge de Oliveira Martins – Seplan MS; Levy Arnos
D. VEREADORES DA CÂMARA MUNICIPAL
Monteiro – Seplan MS; Harry Amorim Costa (in memoriam)
DE CAMPO GRANDE (1983-1988)
– Sema; Nelson José Martins Rocha – Sema; José Sabino dos
Santos – Umam; Elias Santos – Umam; Jurandir Domingues Juvêncio César da Fonseca; José Roberto Oliva; Waldemir
– Umam; Joacir Nunes Ribeiro – Umam; Carlos Roberto Fi- Moka de Brito (Moka); Leon Denizart Conte; Sérgio Arruda;
gueiredo Gonçalves – Secovi MS; Onofre Rodrigues de San- Tetsuo Arashiro; Francisco Giordano Neto; Rubens Dantas
tana – Secovi MS; Nelson Eduardo Pereira da Costa – Secovi (suplente); Moacir Scândola; Nelly Elias Bacha; Francisco
MS; Eduardo Folley Coelho – Secovi MS; Marcos Augusto José Albuquerque Maia Costa; Victor Cabreira de Eugê-
Netto – Secovi MS; Luis Carlos Ferreira Gomes – Secovi MS; nio; Marco Aurélio Bertoni; Antônio Braga; Américo Flores
Paulo José Araújo Correa – Sinduscon; Renato Katayama – Nicolatti; Francisco Fausto Matto Grosso Pereira; Marcelo
Sinduscon; Raul Tarek Fajuri – Sinduscon; Renato Loureiro Barbosa Martins; Ramão Achucarro; Wilson Oshiro; Antô-
de Figueiredo – Sinduscon MS; José Oliva Filho – Associa- nio Parron Aranda; Duilio Ramirez; Pierri Adri (suplente);
ção Proprietários de Imóveis; Alvino Acceturi – Associação Antônio Pereira; Jairo Fontoura Correa; Manoel Lacerda;
Proprietários de Imóveis; Lyrio Novaes (in memoriam) – As- Marilene de Moraes Coimbra.

116 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Na imprensa Lista de siglas

AABB – Associação Atlética Banco do Brasil


Recortes de jornais diários de 1987:
ACI – Associação Comercial e Industrial
Correio do Estado, Diário da Serra, Acrimat – Associação dos Criadores do Sul de Mato Grosso
Jornal da Manhã e Jornal da Cidade. AEACG – Associação de Engenheiros e Arquitetos de
Campo Grande
AGB – Associação dos Geógrafos do Brasil
BNH – Banco Nacional de Habitação
CAIC – Centro de Apoio Integrado
CAOC – Coordenadoria de Apoio aos Órgãos Colegiados
Ceasa – Central de Abastecimento
Cendeplan – Centro de Estudos e Planejamento [PUC]
Cesup – Centro de Ensino Superior “Prof. Plínio
Mendes dos Santos”
CMDI – Conselho Municipal de Desenvolvimento Integrado
CMDU – Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano
Codurcam – Companhia de Desenvolvimento e Urbanismo
de Campo Grande
Cohab – Companhia de Habitação Popular
Conama – Conselho Nacional de Meio Ambiente
CPM – Cidades de Porte Médio
CPU – Conselho de Planejamento e Urbanismo
CREA – Conselho Regional de Engenharia e Agronomia
Cura – Projeto Comunidades Urbanas de Recuperação Acelerada
DNOS – Departamento de Obras de Saneamento
EIA – Estudo de Impacto Ambiental
Eletrobrás – Centrais Elétricas Brasileiras S.A.
Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
EMHA – Agência Municipal de Habitação [Campo Grande-MS]
Emplasa – Empresa de Planejamento Metropolitano de São Paulo
Enersul – Empresa Energética de Mato Grosso do Sul S.A.
ERPE – Edifício das Repartições Públicas Estaduais
FIBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Frima – Frigorífico Mato Grosso
Funlec – Fundação Lowtons de Educação e Cultura
IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil
IBAM – Instituto Brasileiro da Administração Municipal
IMPUC – Instituto Municipal de Planejamento Urbano
Inocoop – Instituto de Orientação às Cooperativas
IPLAN – Instituto de Planejamento do Rio de Janeiro
IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano
IPUF – Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 117


LOUOS – Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo
OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
Oceplan – Órgão Central de Planejamento [Prefeitura de Salvador]
ONGs – Organizações Não Governamentais
PDD – Plano Diretor de Desenvolvimento de Campo Grande
PDDD – Plano Diretor de Desenvolvimento Desconjuntado
PDDI – Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado
PEU – Plano de Estruturação Urbana
Planurb – Unidade de Planejamento Urbano de
Campo Grande (1987-1995)
PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro
Previsul – Instituto de Previdência de Mato Grosso do Sul
Projur – Procuradoria Jurídica
Proncor – Pronto Socorro do Coração
PUC-RJ – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
PV – Partido Verde
RCB – Regimento de Cavalaria Blindada
RFFSA – Rede Ferroviária Federal S.A.
RIMA – Relatório de Impacto Ambiental
Sanesul – Empresa de Saneamento do Estado de
Mato Grosso do Sul
SCI-MS – Sindicato dos Corretores de Imóveis de
Mato Grosso do Sul
SEAF – Secretaria de Assuntos Fundiários
Secovi – Sindicato da Habitação-MS
Semce – Secretaria Municipal de Cultura e Esportes
Semur – Secretaria Municipal de Controle Urbanístico
Seplan – Secretaria de Planejamento
Serfhau – Serviço Federal de Habitação e Urbanismo
SESI – Serviço Social da Indústria
Sinduscon – Sindicato da Indústria da Construção Civil
e do Mobiliário de Campo Grande
UAS – Unidade de Administração do Subprojeto
UCDB – Universidade Católica Dom Bosco
UEMT – Universidade Estadual de Mato Grosso
UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
Umam – União das Associações de Moradores de Campo Grande
Uniderp – Universidade para o Desenvolvimento do Estado
e da Região do Pantanal
Unimed – Cooperativa de Trabalho Médico
USP – Universidade de São Paulo

118 Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb


Referências

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------. Campo Grande: arquitetura, urbanismo e memória. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 2006.
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------. Formação urbana e ambiental de Campo Grande: 1899-1939. In: MOSTRA UNIDERP DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA,
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BASSUL, José Roberto. Estatuto da cidade: quem ganhou? quem perdeu? Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições
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BUAINAIN, Maura. Campo Grande em palavras: a cidade na visão de seus prefeitos. Campo Grande, MS: Instituto Muni-
cipal de Planejamento Urbano, 2006.
CALADO, Lenita Maria Rodrigues. Campo Grande e sua feira livre central: conhecendo a cidade através da feira. 2010. 134
f. Dissertação (Mestrado em História)-Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados, 2010.
CAMPO GRANDE. Câmara Municipal. 1903 a 1993. Campo Grande, MS, 1993
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------------------. Prefeitura Municipal. Secretaria de Planejamento. PLANURB. Programa de Trabalho PLANURB 1987/1988:
termos de referência. Campo Grande, MS: PLANURB, 1987.
CAMPOS, Pery Alves. Do 1º rancho à locomotiva 44: achegas para a história de Campo Grande. In: ÁLBUM de Campo
Grande de 1939. Campo Grande, MT, 1939.
CONGRO, Rosário. O município de Campo Grande. Campo Grande, MS: Intendência Geral. 1919.
EBNER, Iris de Almeida. A cidade e seus vazios: investigação e proposta para os vazios de Campo Grande. Campo Grande,
MS: Ed. UFMS, 1999.
GARDIN, Cleonice. Campo Grande: entre o sagrado e o profano. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 1999.
IBGE. Censo demográfico: Mato Grosso: 1920-1930 e 1940. Rio de Janeiro: IBGE, 1940.
MACHADO, Paulo Coelho. Arlindo de Andrade. Campo Grande, MS: Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, 1988.
MACHADO, Paulo Coelho. A grande avenida. Campo Grande, MS: PMCG/Funcesp/UBE, 2000.
.................. . A rua principal. Campo Grande, MS: Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, 1990.
.................. . A rua velha. Campo Grande, MS: Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, 1989.
OLIVEIRA NETO, Antônio Firmino de. Nas ruas da cidade: um estudo geográfico sobre as ruas e calçadas de Campo Gran-
de. Campo Grande, MS: Ed. UFMS, 1999.
YONAMINE, Sérgio Seiko. Cidades são cenários de encontros: gestão urbana e democracia em Campo Grande. Campo
Grande, MS: Ed. UFMS, 2005.

Raízes do planejamento urbano em Campo Grande e a criação do Planurb 119


Sobre o autor

Ângelo Marcos Vieira de Arruda

Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS)


Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas / Curso de Arquitetura e Urbanismo

Nasceu em Penedo, AL, em 1957. Estudou Arquitetura Grande e Secretário de Finanças da Abea. Foi Vice-Presiden-
e Urbanismo na Universidade Federal de Pernambuco onde te da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA)
se graduou em 1979. Em 1980, mudou-se para Campo Gran- e membro da FNA na Confederação Nacional dos Profis-
de e trabalhou dois anos com o arquiteto Jurandir Santana sionais Liberais (CNPL). É membro do Instituto Histórico e
Nogueira e desenvolveu mais de 50 projetos, dentre eles, Geográfico de Mato Grosso do Sul, do Conselho Curador da
como coautor, o da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Fundação Contar. Foi Assessor Técnico de Arquitetura da
Justiça do Estado, obras do conjunto arquitetônico do Par- Casa da Memória Arnaldo Estevão de Figueiredo; do Con-
que dos Poderes. selho Regional do Centro de Campo Grande e Secretário-
Em 1983, iniciou a carreira docente no Curso de Ar- -Geral da organização não governamental Ferroviva.
quitetura do Centro de Ensino Superior Plínio Mendes dos Foi Presidente da Federação Nacional dos Arquitetos
Santos (Cesup), ministrando aulas de Projeto e montou es- e Urbanistas, de 2004 a 2010; mestre em Arquitetura pela
critório em sociedade com a arquiteta Denise de Moraes. Em Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), dou-
1984, assumiu a Diretoria-Geral da Secretaria de Planejamen- tor em Educação pela UFMS e professor pesquisador dessa
to e Coordenação Geral de MS. Em 1987, fundou e assumiu Universidade, no Curso de Arquitetura e Urbanismo.
a Diretoria Executiva da Unidade de Planejamento Urbano É autor dos livros “Parcelamento do Solo Urbano em
de Campo Grande (Planurb) e desenvolveu, com sua equipe, Campo Grande: visão crítica e roteiro legal”; “Arquitetu-
a nova legislação urbanística da cidade de Campo Grande. ra em Campo Grande”, com Gogliardo Vieira Maragno e
Em 1989, assumiu a função de Secretário-Adjunto de Mário Sérgio Sobral Costa; “Almanarq: dicas úteis para os
Trabalho de MS e, em 1990, trabalhou na área de turismo arquitetos e urbanistas”, com Kelson Senra e Eneida Hoelz;
do Estado. Em 1993, fundou o Sindicato dos Arquitetos de “Arquitetura e Urbanismo em Campo Grande na Década de
MS, sendo seu primeiro presidente. Naquele ano, voltou a 30”; “Pioneiros da Arquitetura e da Construção em Campo
ministrar aulas no Curso de Arquitetura na cadeira de Pla- Grande”; “FNA 25 Anos de Luta”; “Plano Diretor de Tere-
nejamento Urbano e Regional. Em 1994, fundou a empresa nos: a voz da comunidade no planejamento de uma cidade
Atelier de Arquitetura S/C Ltda. em sociedade com Gogliar- de pequeno porte” e “Experiências em Habitação de Interes-
do Maragno, que foi fechada em 2003. se Social no Brasil”, com Yara Medeiros; “Campo Grande:
É autor de vários projetos, dentre eles, o Centro Médi- arquitetura, urbanismo e memória”; e “História da Arquite-
co do Servidor Público Municipal. Já foi Presidente do Sin- tura de Mato Grosso do Sul: origens e trajetórias”.
dicato dos Arquitetos e Urbanistas de MS, conselheiro do É articulista do site midiamax.com desde 2002 e do jor-
Crea-MS, membro da Comissão do Solo Urbano de Campo nal diário O Estado de MS.

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