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 Como Treinar o
Cálculo?
 Quando
Um Super GM Calcular?
 Temas Táticos
compartilha
 Imaginação
seus métodos  Lances
de trabalho Candidatos
 Desenvolvendo
a Intuição
 Bibliografia
recomendada
Aprendendo a
Calcular
GM Rafael Leitão

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Conteúdo:

I. Introdução 1

II. COMO TREINAR O CÁLCULO? 6


 TREINANDO A HABILIDADE TÁTICA 6
 EXERCÍCIOS DE AQUECIMENTO MENTAL 9
 FINAIS DE REI E PEÕES 10
 TREINANDO A IMAGINAÇÃO 12
 ANALISANDO PARTIDAS 13
 MELHORANDO A VISUALIZAÇÃO 14
 COMO UTILIZAR OS PROGRAMAS DE ANÁLISE 15

III. QUANDO CALCULAR? 24

IV. TEMAS TÁTICOS 37


 EXERCÍCIOS 48
 SOLUÇÕES 49

V. DESENVOLVENDO A IMAGINAÇÃO 50
 UTILIDADE PRÁTICA 52
 UM SEGREDO DA ESCOLA RUSSA 57
 POSIÇÕES PARA SEREM JOGADAS ENTRE OS ALUNOS 60
 EXERCÍCIOS 60
 PARTE I 61
 PARTE II 63
 SOLUÇÕES PARTE I 64
 SOLUÇÕES PARTE II 64
 SOLUÇÃO DA POSIÇÃO A SER JOGADA ENTRE ALUNOS 65

VI. LANCES CANDIDATOS 66


 EXERCÍCIOS 81
 SOLUÇÕES 82
VII. DESENVOLVENDO A INTUIÇÃO 84
 TESTE 1 96
 SOLUÇÕES DO TESTE 1 99
 SOLUÇÕES DO TESTE 2 99

CONCLUSÃO 100
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA 100
 

I- INTRODUÇÃO

Um bom cálculo de variantes é a principal qualidade necessária para o desenvolvimento de


um enxadrista intermediário. Neste nível de jogo, apesar das eventuais deficiências posicionais, o
que decide a partida é o cálculo bruto. A imensa maioria dos jogadores simplesmente não
consegue aprofundar-se na posição e efetuar um cálculo preciso, seja por certa “preguiça mental”,
por não conseguirem visualizar várias jogadas na frente – o que se resolve a partir de um
treinamento específico -, ou por simplesmente não avaliarem corretamente a importância de uma
decisão baseada além de uma idéia superficial da posição. Os russos sabem disso há muitos
anos: é preciso ser concreto. Se você quiser efetuar um plano, é preciso analisar concretamente se
ele é realizável. Para arrematar uma partida, é preciso calcular corretamente para não dar chances
ao adversário. Enfim, em todos os momentos críticos de uma partida, o cálculo é parte obrigatória.
Analise suas partidas recentes e veja quantas delas você perdeu por um deslize tático ou por um
cálculo impreciso. Muitas, não? A grande maioria, provavelmente. Este é o material didático ideal
para você.
Nos meus primeiros anos de desenvolvimento como enxadrista, a parte tática do jogo foi a
que mais trabalhei. Todo dia, invariavelmente, reservava parte do meu treinamento para exercícios
de cálculo. Leia bem: todos os dias! Obviamente, é necessário trabalhar nos outros aspectos de
uma partida de xadrez, seja montando um repertório de aberturas, conhecendo os finais
indispensáveis e idéias posicionais freqüentes, mas o que vai fazer você subir de nível será o
cálculo, pois a maioria dos seus adversários simplesmente não sabe calcular. Iniciantes sobem de
nível porque param de entregar peças e passam a recolher as que seus oponentes presenteiam.
Intermediários ganham mais partidas, pois aprendem a arrematar as posições em que tem
vantagem e conseguem criar mais problemas táticos quando dominados posicionalmente. Mestres
e grandes mestres simplesmente calculam melhor nos momentos críticos. Como se vê, o cálculo é
importante em todos os níveis de jogo.
Muitas vezes venci partidas com posições de clara desvantagem, graças à tática. Este é
um recurso muito utilizado por jogadores avançados: criar problemas táticos para o adversário
quando se tem uma posição inferior. Repito: a grande maioria dos enxadristas não sabe calcular
corretamente, e eles falharão ante a primeira complicação tática. Mas para utilizar este recurso,
você precisa aprender a guiar-se corretamente nos diversos ramos da análise de uma posição e
treinar a imaginação para encontrar recursos escondidos.


 
 

Por isso, digo sempre para os meus alunos: antes de pretender ser um expert em uma
abertura, aprenda a calcular. Muitos se preocupam apenas em decorar o livro mais recente de sua
defesa predileta, ou estudar as novidades mais importantes do último Informador. Mas de que
adiantará todo este conhecimento teórico se você não conseguir analisar sequer uma variante com
precisão?
A conseqüência de um erro de cálculo pode ser fatal. Uma abertura equivocada ou um
plano infeliz em geral levam apenas a uma posição difícil, mas deixar de ver um recurso tático do
adversário pode significar a derrota imediata. Vejamos o seguinte exemplo:

Ostos,J - Leitão,R
Merida , 2000
XIIIIIIIIY
9-+r+r+k+0
9+-wq-+pzp-0
9-+-+-+-zp0
9tR-+-zP-+-0
9Q+-+-+-+0
9+P+-+-zP-0
9-mKPtR-+-zP0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

As brancas têm dois peões de vantagem, mas a posição insegura do seu rei garante às
pretas certa compensação. No momento existe um problema concreto a resolver, pois as pretas
ameaçam o § de e5, assim como um xeque desagradável em c3. É hora de calcular algumas
variantes.
32.¦e2?
Uma jogada indiferente. O mestre venezuelano prende-se à defesa do peão, quando
deveria ter analisado as variantes com mais cuidado. As brancas tinham duas formas de evitar a
penetração em c3: [32.£b4 ¦xe5 33.¦xe5 £xe5+ 34.£d4 £a5, mas aqui as pretas têm boa
compensação e podem confiar em salvar a partida. 32.c4! seria a jogada correta. Após 32...¦xe5
as brancas teriam duas opções: 33.¦a7 (33.¦a8² simplificando e garantindo a vantagem.) 33...£c5
34.£d7 e as brancas conseguem ativar-se, com boas chances de vitória.
32...£c3+ 33.¢a2?
33.¢c1 seria a única jogada, mas aqui o preto já tem ótimo contra-jogo.
33...¦ed8!
Ameaçando ¦d1, seguido de mate. Simplesmente não há defesa.
34.e6 fxe6 0-1


 
 

O exemplo acima representa um caso drástico de análise superficial. As jogadas brancas


pareciam naturais, mas resultaram em uma rápida derrota. Note que o cálculo de variantes é muito
mais do que ver duas ou três jogadas adiante, ou resolver algumas combinações básicas. É
preciso estar alerta durante toda a partida, calcular variantes e saber avaliar se o resultado de uma
combinação foi favorável ou não. Ao resolvermos exemplos de alguns livros de tática, o resultado é
mais ou menos matemático, no formato “jogam as brancas e ganham”, mas a verdade é que no
mundo real as coisas não são tão simples. Primeiro, não haverá ninguém para alertá-lo com um
“ei, concentre-se, aqui você tem uma combinação que ganha a dama” e segundo, na grande
maioria dos casos o cálculo de variantes não é tão matemático. Você precisa analisar não só para
dar mate ou ganhar material, mas também para conquistar vantagens posicionais. Por essas e
outras que se costuma afirmar que a tática anda lado a lado com a estratégia.
Os softwares de análise de certa forma revolucionaram a forma de se trabalhar o estudo de
uma posição. Eles representam uma poderosa ferramenta de auxílio para aqueles que pretendem
aprimorar-se no cálculo. Mas também têm ajudado a fomentar alguns hábitos preguiçosos de
enxadristas que colocam qualquer posição no Fritz, sem sequer haver analisado uma variante.
Portanto, use esta ferramenta de forma inteligente e você perceberá seus benefícios.
A principal qualidade para um bom cálculo é a confiança. Jogadores que estão sempre em
dúvida, repassando a análise inúmeras vezes, achando que cometeram algum erro de análise,
tendem a apurar-se por tempo, além de atraírem os erros que tanto temem. Mas claro que
confiança adquire-se com treinamento. Portanto, discipline-se para treinar o cálculo diariamente.
Se para um atleta correr 10km é necessário para manter a forma física, para um enxadrista é
necessário resolver exercícios de tática para manter a “forma mental”. Assim você estará alerta,
treinado e confiante para a competição.

A seguir um breve roteiro dos tópicos tratados neste material didático:

- Como Treinar o Cálculo?

Nesta seção indicarei algumas regras gerais para o treinamento de cálculo, abordando
questões genéricas como quantas horas dedicar-se, que livros estudar, que softwares
utilizar e como resolver exercícios de análise. Após estudar este capítulo, o leitor terá uma
boa idéia do trabalho necessário para aprimorar-se na área mais importante para um
enxadrista moderno.

- Quando Calcular?

Não somos computadores, capazes de calcular milhões de jogadas por segundo.


Devemos, portanto, ser seletivos em nosso esforço. O cálculo desordenado, além de


 
 

desnecessário, pode causar apuro de tempo e cansaço. Uma habilidade muito importante
é saber reconhecer os momentos em que é realmente necessário aprofundar-se no cálculo
de variantes. Neste capítulo ajudaremos a reconhecer quais são estes momentos.

- Temas Táticos

A fase inicial para o desenvolvimento do cálculo preciso de variantes é o treinamento da


visão combinatória. Esta habilidade desenvolve-se resolvendo diariamente exercícios dos
principais temas táticos. Aqui abordaremos combinações simples, mostrando como o
treinamento pode ajudá-lo a utilizar a visão combinatória para vencer partidas.

- Imaginação

Encontrar recursos táticos escondidos é uma das tarefas mais importantes para acumular
vitórias. Para tanto, é fundamental desenvolver a imaginação. Veremos a importância de
resolver composições e como este trabalho pode ajudá-lo na prática.

- Lances Candidatos

Na minha opinião, este é o tema mais importante para aprimorar o cálculo de variantes.
Muitos jogadores calculam de maneira desorganizada, sem dar atenção para seus
recursos ou os do adversário. Elaborar uma lista de lances candidatos o ajudará a
descobrir a essência da posição, tornando seu cálculo mais preciso. Acima de tudo, o leitor
atento encontrará aqui uma nova forma de pensar durante as partidas. Este pode ser o
capítulo mais importante para sua carreira enxadrística.

- Desenvolvendo a Intuição

Algumas posições são impossíveis de calcular precisamente. Nos apuros de tempo, é


preciso escolher um lance mesmo sem muita análise. Nesse tipo de jogo, apenas
jogadores com uma intuição apurada sobrevivem. Mas será a intuição algo que pode ser
treinado? Tentarei responder a esta pergunta, além de oferecer alguns exercícios para
ajudá-lo a avaliar a força de sua intuição.

- Conclusões

Aqui faremos um breve resumo dos principais tópicos abordados nesta apostila e
apresentaremos uma bibliografia sugerida.


 
 

O cálculo de variantes é o maior defeito de 90% dos enxadristas. Neste material você tem
um guia completo do que fazer para superá-los. Mas não se esqueça, o cálculo é como manter a
forma física. Você deve praticá-lo continuamente.


 
 

II – COMO TREINAR O CÁLCULO?

Nesta seção, indicarei algumas regras gerais para o treinamento de cálculo, abordando
questões genéricas como quanto tempo dedicar-se, quais livros estudar, quais os principais
métodos de treinamento e como utilizar os softwares de análise. Após estudar este capítulo, o
leitor terá uma boa idéia do trabalho necessário para aprimorar-se na área mais importante para
um enxadrista moderno.
Conforme já escrevi por diversas vezes, o cálculo de variantes incorreto é a principal
deficiência dos enxadristas medianos, juntamente com o desconhecimento dos clássicos. Sobre
como sanar a segunda fraqueza, os leitores deverão investigar a apostila sobre jogo posicional.
Mas, se o seu maior problema for o cálculo de variantes fraco, espero que este material ofereça um
guia completo para corrigi-lo.
Desde já, adianto que a apostila, infelizmente, não contém uma poção mágica que fará
com que o leitor fiel saia por aí analisando variantes de dez lances na frente, sem cometer
deslizes. O xadrez é um jogo difícil, e você já deve saber disso. O sucesso vem para aqueles que
gostam do jogo e se dedicam. Neste capítulo, mostrarei o caminho que tracei para conseguir um
nível de grande-mestre no cálculo, assim como algumas sugestões para que você possa conseguir
o mesmo. Porém, o trabalho será árduo e você deverá esforçar-se para adquirir essa maestria.
Mas podemos chamar a análise de belas partidas de xadrez, de posições com inúmeros
mistérios, de trabalho árduo? Para mim isso mais se assemelha a uma grande diversão!

TREINANDO A HABILIDADE TÁTICA

Revelo ao leitor um pequeno “segredo” do meu treinamento. Desde bem jovem, até
finalmente obter o título de grande-mestre, não houve sequer um dia de treinamento sem que eu
reservasse uma parte do tempo para o cálculo de variantes. De forma semelhante ao alongamento
para um atleta, iniciar o estudo com a resolução de problemas de cálculo, ajuda-o a “esquentar” a
mente, a entrar em um estado de disposição para o trabalho, além de melhorar imensamente suas
análises. Imagine isso repetido por anos e anos? Portanto, eis aqui minha primeira sugestão: toda
vez, ao iniciar a sessão de treinamento, comece com a resolução de combinações,
independentemente do que virá depois. Repita este processo até transformá-lo em uma rotina
indispensável.
Mas quais tipos de exercícios devem ser resolvidos? Esta é uma indagação importante e
aqui começarei a fazer algumas sugestões bibliográficas (a lista completa estará ao final da
apostila). Antes de tudo, é preciso saber que existe uma progressão a ser feita para se atingir o
domínio do cálculo. A fase inicial é a obtenção de uma boa visão combinatória e saber reconhecer
os principais temas táticos com rapidez. Para isso é preciso resolver combinações relativamente


 
 

simples, divididas por temas, para que você comece a aumentar seu arsenal de padrões táticos e
seja capaz de reconhecer os elementos da posição instantaneamente. Vejamos duas posições em
um mesmo tema, mostrando como é importante reconhecer as nuances táticas.

Pinski,J- Leitão,R
Guarapuava, 1995

XIIIIIIIIY
9-+rtr-+k+0
9zpp+-vlp+-0
9-+-+p+pzp0
9+-+lzP-+-0
9n+q+NvL-+0
9zP-zP-+Q+-0
9-+R+-zPPzP0
9+L+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

Não existe qualquer dúvida em relação à vantagem preta, mas uma rápida percepção dos
temas táticos pode fazer a tarefa de arrematar a partida bem mais fácil. Um jogador bem treinado
deve ser capaz de encontrar a seguinte combinação em menos de 10 segundos...
25...¥xe4 26.¦xe4 £xe4!
Utilizando o tema de mate na primeira fila, que de agora em diante chamarei de "mate da
gaveta" – afinal, veja só se o rei branco não está engavetado! - as pretas decidem a partida
imediatamente. 0–1

Claro que este é um exemplo bem simples. Mas a partida tinha imensa importância (foi
disputada em um Campeonato Mundial sub-16) e uma habilidade tática bem treinada fez a
diferença. Toda vez que estudarmos um tema, devemos começar pelos exemplos mais simples e
gradualmente aumentar a dificuldade. Aqui vale a pena ter um bom livro, repleto de exercícios.
Continuemos com outra posição de mate da gaveta. Qualquer livro de tática está repleto de
exemplos neste tema. O recomendado é trabalharmos em ordem crescente de dificuldade.
Podemos começar com um exercício fácil, como seria o caso da partida acima, até evoluir a uma
posição bem mais complexa, que exija um cálculo de várias jogadas à frente e muita atenção aos
recursos adversários, ainda que o tema central seja o mesmo.


 
 

Adams,E - Torre,C
Nova Orleans, 1920
XIIIIIIIIY
9-+r+r+k+0
9+p+qvlpzpp0
9-+-zp-sn-+0
9zp-+P+-vL-0
9-+-wQ-+-+0
9+-+-+N+-0
9PzP-+RzPPzP0
9+-+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Este é um exemplo clássico, vastamente publicado. A posição parece bem calma e seria
esperado que nas próximas jogadas todas as torres fossem trocadas na coluna "e", com um
empate rápido. Entretanto, graças à percepção de um tema tático, o mate da gaveta, Adams
encontrou uma combinação que garantiu sua imortalidade no xadrez.
1.¥xf6 ¥xf6 2.£g4!
O primeiro de uma série de golpes táticos. A dama branca é invulnerável graças à
fraqueza da oitava fila, mas, por enquanto, as pretas conseguem manter a defesa da casa e8.
2...£b5
Nos próximos laces as brancas tentam desviar a dama preta da diagonal a4-e8.
3.£c4!!
Não satisfeito em colocar a dama no raio de ação de uma peça preta, Adams faz melhor e
a oferece a duas peças! Novamente as pretas são forçadas a fugir com sua dama.
3...£d7 4.£c7!
A perseguição continua!
4...£b5
XIIIIIIIIY
9-+r+r+k+0
9+pwQ-+pzpp0
9-+-zp-vl-+0
9zpq+P+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+N+-0
9PzP-+RzPPzP0
9+-+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas


 
 

Até aqui os lances brancos não foram difíceis de encontrar e são óbvios para um
enxadrista de razoável domínio tático. Mas agora as brancas devem prosseguir com cuidado. Uma
habilidade fundamental para o domínio do cálculo é ver os recursos do adversário. Perdi as contas
de quantas vezes mostrei esta posição para alunos que me sugeriram 21.£xb7?? como solução.
Para vencer, o branco deve ver o contra-jogo das pretas e utilizar a tática para evitá-lo.
5.a4!
5.£xb7?? £xe2! 6.¦xe2 (6.£xc8 £xe1+ 7.¤xe1 ¦xc8) 6...¦c1+ e as brancas
experimentariam uma dose do seu próprio veneno.
5...£xa4 6.¦e4!
Este é o lance mais difícil da combinação. Ele é muito difícil de ver, pois parece que o
branco não tem ameaças. Mas um olhar mais atento mostra que a idéia não é capturar a dama
preta imediatamente, mas sim jogar 7.£xc8. E após 6...£b5, é possível explorar a sutil diferença
entre a torre em e2 e a em e4.
6...£b5 7.£xb7!
Agora as pretas não podem jogar £xe2 e perdem material.
1-0
Um exemplo brilhante. Com o treinamento adequado, esse tipo de combinação não
apresenta grandes dificuldades, mas ainda assim produz um imenso prazer estético e mostra a
importância de estar atento aos recursos do adversário.

EXERCÍCIOS DE AQUECIMENTO MENTAL

Exercícios simples de tática também servem para preparar a mente para o trabalho, antes
de uma árdua sessão de treinamento. Recomendo a todos que comecem o estudo com pelo
menos uma hora de exercícios simples de cálculo. Livros para isso não faltam. Recomendo o “Test
Your Chess IQ”, do Livshitz, e problemas do Informador. Da mesma forma, esse tipo de
treinamento é benéfico imediatamente antes de uma partida, para aquecer a mente. Geralmente
iniciamos nossas partidas com um estado de ânimo relativamente preguiçoso (principalmente
quando temos que jogar em horários matinais bizarros!). Ao resolver alguns exercícios de tática
simples, entramos em um estado de alerta que pode ser útil para um jogo mais enérgico desde a
abertura. Mas vale enfatizar que estes devem ser exercícios simples. Não vá tentar resolver
problemas complexos, que podem deixá-lo frustrado e cansado.


 
 

FINAIS DE REI E PEÕES

Uma forma de treinamento de cálculo bastante interessante e desprezada consiste no


estudo de finais de rei e peões. Nesse tipo de final não é possível fazer uma avaliação do tipo: “as
brancas têm leve vantagem”. Finais de peões são matemáticos, e temos que avaliar como vitória,
empate ou derrota, sem meio termo. Ao resolvermos esse tipo de exercício, treinamos uma
qualidade fundamental para o cálculo, que é a precisão em variantes longas. Mas em alguns
desses finais outras qualidades também são exercitadas:

Laveryd - Wikstrom
Umea, 1997
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+pzpp0
9-+-+p+-+0
9+-mk-zP-+-0
9-zpP+p+-+0
9+K+-zP-+-0
9-+-+-zPPzP0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas. Como deve terminar esta partida?

Não é difícil de ver que esta será uma luta por tempos. À primeira vista, aquele que ficar
sem lances de peão primeiro, perderá. Portanto, a resposta correta - que a posição é empatada -
parece paradoxal. A primeira pergunta é: como as pretas evitam a derrota imediata? 1...f6? (ou
1...f5?) é sem esperança, devido a 2.exf6 gxf6 3.g4!
1...h5!
Ocorre que após o natural 2.h4? o branco é colocado em zugzwang de forma inusitada:
2...g5! 3.hxg5 h4–+. Curiosamente, a partida seguiu: 1...h6?? 2.h3?? (2.g4! g6 3.h4+-, ou 2...f5
3.exf6 gxf6 4.h4+-) 2...h5!–+ 3.h4 g5! 4.g3 g4 e as brancas abandonaram.
2.h3!
Lance único! Já sabemos que 2.h4? não funciona. 2.f4? exf3 3.gxf3 h4 4.h3 f6–+ e 2.g3?
f6–+ também não serviriam. Mas agora as pretas novamente têm uma difícil tarefa. 2...g5? perde
imediatamente para 3.g3 e 2...f5? para 3.h4+-; 2...h4? 3.g3! hxg3 (3...g5 4.g4) 4.fxg3 f5 5.exf6 gxf6
6.h4+- e 2...g6? é elegantemente refutado após 3.g4! (3.h4? g5!) 3...hxg4 4.h4!+-. Portanto, só
resta uma jogada.
2...f6! 3.h4!
Claro que não 3.exf6? gxf6–+. Mas agora o que as pretas podem fazer?

10 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-zp-0
9-+-+pzp-+0
9+-mk-zP-+p0
9-zpP+p+-zP0
9+K+-zP-+-0
9-+-+-zPP+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

3...fxe5 é respondido com 3.g4!; e se 3...f5, então 4.f4! exf3 5.gxf3 g5 (5...f4 6.exf4 g6 7.f5)
6.hxg5 h4 7.g6 h3 8.g7 h2 9.g8£ h1£ 10.£f8+ ¢c6 11.£d6++-, com um final de damas facilmente
ganho. É preciso um talento especial para encontrar a idéia de afogado no meio do tabuleiro!
3...fxe5! 4.g4! g6
4...hxg4? 5.h5+-
5.g5 ¢b6!
5...¢d6!
6.¢xb4 ¢c6 7.c5 ¢d5!! 8.¢b5
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-+p+p+0
9+KzPkzp-zPp0
9-+-+p+-zP0
9+-+-zP-+-0
9-+-+-zP-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Afogado

Neste exemplo pudemos praticar a precisão na análise de uma variante longa, a atenção
aos recursos do adversário e a imaginação para encontrar o tema do “afogado”.
Estes finais também são excelentes para o treino de visualização, conforme veremos mais
tarde.
Para bons exemplos de finais de rei e peões e também para exercícios de cálculo em
outros finais, recomendo o excelente livro “Test Your Endgame Ability”, de Livshits e Speelman.

11 
 
 

TREINANDO A IMAGINAÇÃO

O desenvolvimento da imaginação é fundamental para calcular variantes corretamente. Em


muitas posições, a solução correta será uma idéia escondida, um tema paradoxal, que só será
encontrado por quem estiver muito bem treinado nesta busca. Calcular variantes diretas com
precisão fará do leitor um analista mediano. Mas encontrar lances espetaculares e calculá-los até
sua conclusão o levará a uma outra categoria.
Mas como treinar a imaginação? Aqui entra a importância da resolução de composições.
Este tema merecerá uma atenção especial e um capítulo próprio nesta apostila, mas desde já
adianto que este é um dos segredos da escola russa. Muitos enxadristas não têm em conta a
importância deste trabalho na prática. Mais tarde explicarei com mais detalhes como você pode
utilizar o desenvolvimento da imaginação para conseguir pontos nos torneios, mas aproveito a
ocasião para estimular a vontade do leitor, que provavelmente já teve seu senso estético aguçado
pelo final de peões visto acima.

Gurvich 1927
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9mK-+-+-+N0
9-+-+-+-+0
9+-sN-+-+-0
9-sn-+-+-+0
9+-+-+-wQ-0
9-+-+-+psn0
9+-+-+-+k0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

Parece que o branco não poderá evitar a coroação do peão de “g”. Entretanto...
1.¤e4!
Com a idéia de responder 1...g1£ com 2.¤f2+, ganhando a dama. Mas as pretas encontram uma
defesa melhor.
1...¤d3!
Agora 2.£xd3 g1£+ deixa as brancas com material insuficiente para a vitória. O caminho para a
vitória é inacreditável:
2.£f2!! ¤xf2 3.¤g3+!! ¢g1 4.¤g5 +−
Um zugzwang fenomenal. A posição final deixa uma impressão de encantamento difícil de
esquecer.
Não é difícil encontrar livros com diversas composições a serem resolvidas. A obra com as

12 
 
 

principais pérolas de Kasparian é sugestão obrigatória, mas existe um livro bem menos conhecido
e que é uma verdadeira jóia: “Secrets of Spectacular Chess”, de Levitt e Friedgood, que traça a
semelhança entre belíssimas composições e exemplos práticos. Nas edições mais recentes do
Informador pode ser encontrada, ao final, uma seção reservada a estudos e composições, que
também servem como exercícios. Material para trabalho não falta. O importante é que o leitor
reconheça a importância deste esforço e incorpore-o à programação de treinamento.

ANALISANDO PARTIDAS

A análise de partidas, sejam próprias ou de outros enxadristas, é parte fundamental de


qualquer treinamento. Mas muitos pecam pela superficialidade com que abordam esta tarefa. Em
relação às nossas partidas, é importante analisar as complicações táticas com grande
profundidade e tirar conclusões dos erros mais freqüentes e deficiências que devem ser
trabalhadas. Digamos que você perceba, através das análises de suas partidas nas três últimas
competições, que está omitindo importantes recursos táticos do adversário. Apenas por este
diagnóstico, já valeu a pena todo o tempo gasto com a análise de suas partidas. Então o passo
seguinte é montar uma rotina de treinamento específica para sanar essa deficiência, resolvendo
inúmeros exercícios de cálculo em que se deve estar atento aos lances candidatos do adversário
(novamente composições servem muito bem a este propósito). Gradualmente, suas principais
deficiências serão reduzidas. Vale lembrar que a análise de suas partidas servirá não apenas para
diagnosticar erros de cálculo, mas também para melhorar deficiências em outras áreas. Mas
inicialmente os erros de cálculo serão os mais transparentes e você ficará chocado com a
quantidade de imprecisões táticas que descobrirá em uma análise mais profunda de suas partidas.
A superficialidade também é o principal erro ao analisar partidas de outros enxadristas.
Não podemos simplesmente olhar partidas e aceitar as análises do comentarista. É preciso pensar
ativamente para melhorar. Para melhorar o cálculo é preciso escolher um livro com partidas bem
comentadas (isso é o que não falta – para uma pequena lista, basta ler a bibliografia sugerida, ao
final da apostila) e parar em todas as posições críticas, que serão facilmente reconhecíveis, pois
provavelmente estarão antecedidas por um diagrama. Então feche o livro, coloque um tempo no
relógio (em média uns vinte minutos) e comece a calcular a posição, como se fosse sua própria
partida. Ao final anote suas conclusões e tenha bem claro qual lance considera o melhor. Ás vezes
o tempo não será suficiente para uma análise precisa da posição, mas tudo bem, neste caso você
terá treinado a intuição. Em seguida, compare suas análises com as do livro e cheque-as também
com os programas de análise. Este trabalho é igualmente prazeroso e benéfico. E mais uma vez
repito: leitura passiva não funciona no treinamento enxadrístico. Seja crítico e sempre faça suas
próprias análises.

13 
 
 

MELHORANDO A VISUALIZAÇÃO

Muitos enxadristas têm grande dificuldade em visualizar algumas jogadas adiante. Isto
ocorre por falta de prática, pois é preciso estar constantemente calculando variantes para adquirir a
maestria nessa área. A conseqüência disso é catastrófica, gerando um cálculo impreciso e
insegurança. E, como já sabemos, mesmo se tivermos uma compreensão de jogo superior a do
adversário, sem o cálculo preciso – que implica uma boa visualização -, os resultados ficarão
aquém do esperado.
O primeiro passo é reconhecer se você realmente tem esta deficiência e quão problemática
ela realmente é. Se você não consegue ser preciso em variantes de cinco ou mais jogadas na
frente, tudo bem, não se desespere, não existe nada de grave aqui. Mas, caro leitor, responda a
seguinte pergunta: você consegue visualizar o tabuleiro de xadrez nitidamente, ao ponto de saber
dizer imediatamente qual a cor de cada uma de suas casas com os olhos vendados? Se alguém
lhe perguntar qual a cor da casa f5 e você precisar de mais de cinco segundos para responder
“que pergunta é essa, claro que a casa f5 é branca!”, então você está com problemas de
visualização (vamos ignorar o fato de você pensar quinze segundos e responder que a casa f5 é
preta, pois espero que o diagnóstico seja óbvio nesse caso).
Pois bem, suponhamos que você não consiga visualizar bem o tabuleiro, o que fazer? Tive
um aluno que criou uma fórmula matemática para saber rapidamente a cor de cada casa. Tive
alguma dificuldade em explicar-lhe a inutilidade deste sistema. Estamos treinando visualização,
não álgebra!
Primeiro, reitero: trabalho árduo. Você terá que resolver inúmeros exercícios diariamente,
até melhorar gradualmente. Nada de novo por aqui. Mas tenho algumas sugestões extras a fazer.
Jamais, em hipótese alguma, mova as peças quando estiver fazendo um exercício de
cálculo. Parece óbvio, mas muitos enxadristas, quando não conseguem ver a solução, começam a
mexer as peças. Não cometa este erro. Tente o seu máximo para visualizar toda a variante. Se não
conseguir dentro de um tempo estipulado, confira a solução do autor. Somente depois de ter
visualizado e entendido toda a solução, você deve mexer as peças e conferir se está tudo certo.
Existe um treinamento de análise em que é recomendável que você mexa as peças. Mas este
sistema só é recomendado para jogadores avançados, que não tenham qualquer problema em
enxergar várias jogadas à frente. Se você não tem boa visualização, nunca analise movendo as
peças.
Um método efetivo para quem já tem certa noção do tabuleiro, mas ainda derrapa em
variantes longas, é resolver alguns exercícios às cegas. Você pode adicionar esse sistema à sua
programação de treinamento e os resultados não tardarão a aparecer. Evidentemente, ao menos
em um primeiro momento, as posições não podem ser muito complexas. Exemplos com poucas
peças e com uma solução curta são os mais recomendados. Em geral um livro de tática com
poucas peças é o mais adequado (mais uma vez recomendo o “Test Your Endgame Ability”). A

14 
 
 

posição seguinte é o tipo de exercício ideal para ser resolvido sem olhar para o tabuleiro:

Otten,H
1892
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-vl-0
9-+-+-mk-+0
9+-+-+-+-0
9P+-+K+P+0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

1.a5 ¥f8 2.¢d5 ¥h6 3.g5+! ¥xg5 4.¢e4 ¥h4 5.¢f3+−


Poucas peças, uma solução curta e simples, com um detalhe tático sutil (3.g5+!). Tudo o
que procuramos na fase inicial do treinamento de visualização.
Em um segundo momento, quando já tivermos resolvido um grande número de exemplos
dessa forma, vale a pena tentar algo um pouco mais ousado. Por que não jogar algumas partidas
de treinamento às cegas? Pergunte a um enxadrista mais ou menos da sua força se ele não aceita
o desafio (se você tiver um treinador, melhor ainda) e joguem uma vez por semana, por exemplo.
No início será uma experiência difícil, mas em pouco tempo você terá um excelente domínio do
tabuleiro, sem vacilar quando tiver que calcular várias jogadas à frente.

COMO UTILIZAR OS PROGRAMAS DE ANÁLISE

A utilização de computadores revolucionou a forma de se estudar xadrez. Hoje em dia não


existe um estudante sério do jogo que não conte com os principais softwares de análise
disponíveis. Entretanto, a imensa maioria utiliza esta ferramenta de forma equivocada, muitas
vezes analisando de forma preguiçosa, apenas deixando a máquina fazer todo o trabalho, o que,
além de não contribuir para uma melhora no seu jogo, geralmente culmina em análises no mínimo
imprecisas. O fato é que não haverá um computador para ajudá-lo durante a partida, portanto
aprenda a confiar em você mesmo e na qualidade de suas análises. Além do mais, a máquina não
entende e não avalia corretamente muitas posições, precisando de interferência humana para
produzir análises de qualidade.
A verdade é que este é um tema bastante complexo e merece uma atenção especial.

15 
 
 

Provavelmente aprofundarei mais no assunto em um futuro artigo ou na próxima apostila de


cálculo, mas no momento é preciso ao menos apresentar alguns pontos importantes.
Existem muitos benefícios em utilizar as engines. Em um país como o Brasil, onde temos
grande dificuldade em encontrar parceiros de estudo, os computadores podem auxiliá-lo
imensamente, principalmente em análises de aberturas. Além do mais, a prática de jogar contra os
programas, apesar de um tanto masoquista, pode ser útil. Mas abusar da ajuda da máquina pode
ser muito prejudicial. Não se torne um escravo do computador. Aprenda a usá-lo como um
parceiro, não como um mestre infalível. Muitos enxadristas da nova geração vêm abusando das
análises com o Fritz e programas semelhantes, e começam a absorver alguns dos aspectos
negativos do jogo da máquina, principalmente avaliações totalmente incorretas. E nem é preciso
dizer que não chegam nem perto do seu ponto forte, que são as análises perfeitas de posições
matemáticas.
Há pouco tempo enfrentei um jovem e promissor MI brasileiro. Venci uma partida que me
pareceu bem complicada e interessante, inclusive com valor teórico. Mas a partida foi decidida
basicamente por um erro de cálculo do meu adversário, em uma posição complexa, mas que eu
julgava um pouco superior para mim. Qual não foi minha surpresa quando no dia seguinte o jovem
mestre me disse que teria vantagem decisiva se não houvesse errado no momento decisivo. Já
sabia que toda sua avaliação havia sido baseada na idéia do computador sobre a posição, que,
aliás, muito contrariava a avaliação de vários grandes-mestres aos quais eu havia mostrado a
partida. Alguns meses depois, estudei a posição crítica, também com computadores, e análises
cuidadosas mostraram que a avaliação humana era a correta. Portanto, não deixe a máquina
dominar sua mente. Confie em suas análises e avaliações e saiba utilizar esta ferramenta de forma
equilibrada.
Minha recomendação é sempre reservar algum tempo para analisar sozinho uma
determinada posição. Reserve ao menos meia hora para esta tarefa. Faça uma avaliação de quem
está melhor. Formule planos, analise algumas jogadas na frente, conclua como jogaria. Apenas
depois deste trabalho inicial, coloque a posição no computador, de preferência utilizando várias
engines simultaneamente (eu costumo utilizar três). Muitas idéias novas aparecerão neste
momento. Compare sua avaliação com a das engines, separe suas principais sugestões e depois
volte a analisar a posição sozinho, acrescentando as idéias do computador. Repita este processo
até sentir que as análises estão bem feitas. É um processo demorado, mas assim você terá
análises mais precisas, terá progredido como jogador e utilizado o computador da forma mais
efetiva possível.
Mesmo alguns dos mais fortes enxadristas do mundo cometem sérios deslizes nessa área.
Este erro quase custou o título mundial a Kramnik recentemente.

16 
 
 

Kramnik,V− Leko,P
Brissago (m/8), 2004

1.e4 e5 2.¤f3 ¤c6 3.¥b5 a6 4.¥a4 ¤f6 5.0-0 ¥e7 6.¦e1 b5 7.¥b3 0-0 8.c3 d5 9.exd5
¤xd5 10.¤xe5 ¤xe5 11.¦xe5 c6 12.d4 ¥d6 13.¦e1 £h4 14.g3 £h3 15.¦e4 g5 16.£f1 £h5
17.¤d2 ¥f5 18.f3 ¤f6 19.¦e1 ¦ae8 20.¦xe8 ¦xe8 21.a4
Um método típico para neutralizar a vantagem de desenvolvimento das pretas. As brancas
ativam sua torre através da coluna "a".
21...£g6 22.axb5
Em uma entrevista após o match, Kramnik criticou este lance e revelou que sua intenção
inicial era seguir com 22.¤e4, devolvendo material para completar o desenvolvimento. Este é um
tratamento bem “humano” e correto da posição. Entretanto, logo sua equipe de analistas descobriu
que as pretas teriam boas chances de se defender. As seguintes análises comprovam esse ponto
de vista: 22...¤xe4 23.fxe4 ¥xe4 24.¥xg5! (24.axb5? permite que as pretas comecem um ataque
decisivo após 24...¥d3 25.¥xf7+ £xf7 26.£xd3 ¦e1+ 27.¢g2 £d5+ 28.¢h3 ¦g1–+) 24...bxa4!
25.¥c4 (25.¦xa4? enfraquece a primeira fila, permitindo 25...¦b8 com forte ataque) 25...¥d5
(25...¦b8!? é uma sugestão do Leko e leva a uma posição complicada após 26.¦e1 ¥d5 27.¥xd5
cxd5 28.¥c1 h5) e após 26.¥xd5 cxd5 a atividade das peças pretas compensa sua debilidade
estrutural, mas ainda existe muita luta na posição.
22...¥d3
XIIIIIIIIY
9-+-+r+k+0
9+-+-+p+p0
9p+pvl-snq+0
9+P+-+-zp-0
9-+-zP-+-+0
9+LzPl+PzP-0
9-zP-sN-+-zP0
9tR-vL-+QmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Existe uma diferença significativa na forma em que os dois grandes-mestres encaravam


esta posição. Kramnik a havia estudado com seus segundos e principalmente com o computador,
enquanto para Leko a posição era desconhecida de longa data, tanto que ele já se encontrava em
apuro de tempo. Seria de se esperar que as pretas perdessem sem luta, mas surpreendentemente
este era o destino reservado para Kramnik...
23.£f2?
Com esta jogada as brancas sacrificam a dama, acreditando na força do seu peão de "a",

17 
 
 

mas o contra-jogo no flanco dama não chega a tempo. Apesar do lance do texto ainda ser parte da
preparação do Kramnik, ele leva à derrota. Neste caso o computador, ao invés de ser usado como
uma ferramenta de auxílio nas análises, convenceu toda uma equipe de grandes-mestres de que
seu lance era vencedor, o que quase custou o título mundial a Kramnik. 23.£d1 ainda teria salvado
a partida. 23...¥e2! (no caso de 23...axb5 24.¦a7 a torre branca entra em jogo, reduzindo o
potencial do ataque preto.) 24.£c2 (24.¥c2? £h5 25.£e1 ¥xf3 e as pretas teriam um ataque
decisivo.) 24...¥d3 (24...£h5? 25.£f5!) 25.£d1 com empate.
23...¦e2
As pretas conseguiram caçar a dama branca, mas a situação não é tão clara, pois após
bxa6 o peão de “a” torna-se muito perigoso.
24.£xe2
Em seu excelente livro “Secrets of Attacking Chess”, Marin comenta de forma muito
interessante este momento da partida, tentando entender o motivo pelo qual os analistas de
Kramnik foram ofuscados pelas conclusões do computador. Reproduzo as palavras de Marin:
“Tive a curiosidade de repetir o que pode ter sido o ´processo de pesquisa´ de Kramnik e cia.
Funcionando em um computador razoavelmente potente (Pentium Centrino de 1.8 GHz), a opinião
inicial do Fritz sobre a posição do texto é que 24. £xe2 seguido de 25.bxa6 leva a uma clara
vantagem. Em seguida, começa a gostar ainda mais desta opção. Geralmente essa crescente na
avaliação da máquina é considerada convincente, mas este é precisamente o problema: tendemos
a esquecer que jogamos xadrez principalmente para testar nossa força mental e que o processo de
análise deve ter um propósito similar. Acredito que se os segundos do Kramnik tivessem estudado
a posição com um pouco mais de cuidado no tabuleiro, teriam sentido que as coisas não eram tão
claras. Ironicamente, após 3-4 minutos a avaliação do computador repentinamente muda de
“quase ganha” para “perdida”.
Há alguns anos, li em algum lugar que Kramnik antes de perguntar a opinião do
computador sobre uma certa posição, ou mesmo antes de olhar as partidas críticas em uma
variante que esteja interessado, sempre tentava formar opinião sobre o que estava acontecendo
no tabuleiro. Entretanto, parece que ele parcialmente perdeu este hábito”.
Uma excelente descrição do provável erro dos analistas. Muito cuidado com essas
avaliações rápidas do computador. Nas posições críticas, deixe-o analisando ao menos uma hora
antes de tentar sacar qualquer conclusão. A máquina avalia muito mal as posições de desequilíbrio
material, como a deste exemplo. Para avaliar corretamente alguns sacrifícios a longo prazo, você
deverá confiar no velho e bom cérebro humano.
24.bxa6 era uma opção crítica, mas tampouco salvaria as brancas. 24...¦xf2 25.¢xf2.
Agora as pretas têm duas formas de continuar, igualmente efetivas. 25...£h5 sugestão do Leko.
(25...£h6 sugestão do Marin. 26.¢e3. As opções são igualmente perdedoras:
a) 26.¢g2 g4! 27.fxg4 £e3–+;

18 
 
 

b) 26.¢g1 g4 (26...¥xg3–+) 27.¤e4 (27.f4 ¥xf4! 28.gxf4 g3! 29.hxg3 ¤g4–+) 27...£h3–+;

26...¥b5 27.c4 (27.a7 ¥f4+! 28.gxf4 gxf4+ 29.¢f2 £xh2+ 30.¢e1 £e2#; 27.¥c4 g4+
28.¢d3 £g6+ 29.¢e3 ¥xc4 30.¤xc4 ¥b8–+) 27...¤d5+! 28.cxd5 (28.¢d3 ¥xa6–+) 28...g4+ 29.f4
£xh2 30.¥c4 £xg3+ 31.¢e2 ¥xc4+ 32.¤xc4 £f3+ 33.¢d2 ¥xf4+ 34.¢c2 £xd5 35.a7 (35.¢b3
¥b8–+) 35...£xc4+ 36.¢b1 £xc1+ 37.¢a2 £c4+ 38.¢b1 £d3+ 39.¢a2 £a6+ 40.¢b1 £xa7
41.¦xa7 g3–+)
26.¢e3
a) 26.¢g2 g4–+;
b) 26.¤f1 ¤e4+! 27.¢e3 ¥xf1 28.a7 £xh2 29.a8£+ ¢g7–+;
c) 26.¢g1 ¥xg3! 27.hxg3 £h3 28.a7 £xg3+ 29.¢h1 g4!! 30.a8£+ ¢g7 31.£b7 (31.¦a7
£e1+ 32.¢g2 gxf3+–+) 31...£e1+ 32.¢g2 gxf3+ 33.¤xf3 (33.¢xf3 £e2+ 34.¢g3 ¤h5+ 35.¢h4
£h2+ 36.¢g4 £g3+ 37.¢xh5 ¥g6#) 33...£f1+ 34.¢g3 ¤h5+ 35.¢h4 £h1+ 36.¢g4 £g2+ 37.¢xh5
£h3+ 38.¤h4 (38.¢g5 £g3+ 39.¢h5 ¥g6#) 38...¥e2+ 39.¢g5 £g4#;
26...¥xa6 27.¦xa6 £xh2 28.¦xc6 £xg3–+.

24...¥xe2 25.bxa6 £d3!-+


O computador começa avaliando essa posição como vantagem decisiva branca, mas
gradualmente vai mudando de opinião. Repito: muito cuidado com avaliações rápidas. Deixe o
computador analisando e dê uma olhada na posição no tabuleiro por alguns minutos. Na maioria
das vezes você terá uma avaliação mais precisa depois disso.
26.¢f2
O computador demora um certo tempo para entender que as brancas tomam mate depois
de 26.a7 £e3+ 27.¢g2 ¥xf3+! 28.¤xf3 £e2+ 29.¢g1 ¤g4! 30.a8£+ ¢g7.
XIIIIIIIIY
9-+-+-+k+0
9+-+-+p+p0
9P+pvl-sn-+0
9+-+-+-zp-0
9-+-zP-+-+0
9+LzPq+PzP-0
9-zP-sNlmK-zP0
9tR-vL-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

26...¥xf3! 27.¤xf3 ¤e4+ 28.¢e1 ¤xc3! 29.bxc3 £xc3+ 30.¢f2 £xa1 31.a7 h6! 32.h4 g4
0-1

19 
 
 

Uma dura derrota para Kramnik, mas provavelmente ele aprendeu uma lição que jamais
esquecerá.

Uma forma muito interessante de se treinar a utilização do computador é jogar partidas por
correspondência. Há alguns anos, fiquei fascinado por esta prática. No meu caso, tecnicamente,
não se tratava de xadrez por correspondência, mas passei a jogar partidas em alguns sites, com o
tempo de reflexão de três dias por jogada. O grande valor deste treinamento é que seu adversário,
por mais fraco que seja, fará uso dos principais programas de análise, portanto você não vencerá
se simplesmente jogar as sugestões da máquina. Será preciso interagir e descobrir idéias
“humanas”. Recomendo jogar em sites desse tipo para qualquer jogador que queira desenvolver
sua análise e aprimorar-se no uso do computador. Eis um exemplo interessante da época em que
eu disputava várias partidas pela internet:

Rafpig − Chess−Star
Gameknot, 2004

Antes, uma pequena explicação. Rafpig era o meu nickname no site (por que será?),
Chess-Star era o nick do meu adversário. Gameknot é um dos sites que promove esse tipo de
partida. O tempo de reflexão era 3 dias por lance.
1.e4 c5 2.¤f3 d6 3.d4 cxd4 4.¤xd4 ¤f6 5.¤c3 g6 6.¥e3 ¥g7 7.f3 ¤c6 8.£d2 ¥d7 9.¥c4
¦c8 10.¥b3 a5 11.a4 0-0 12.0-0-0 ¤e5 13.g4 ¤c4 14.¥xc4 ¦xc4 15.b3 ¦c8 16.h4 h5 17.gxh5
¤xh5 18.¦hg1 ¦e8 19.¢b1 ¢h7 20.f4 e6
Meu adversário jogou a abertura de forma imprecisa e não há dúvida a respeito da
vantagem branca. Entretanto, é preciso jogar corretamente para não dar chances ao meu
adversário, que iria se defender com lances de computador. As sugestões do Fritz não me
pareciam convincentes aqui, Então, decidi olhar a posição com olhos humanos por algum tempo.
XIIIIIIIIY
9-+rwqr+-+0
9+p+l+pvlk0
9-+-zpp+p+0
9zp-+-+-+n0
9P+-sNPzP-zP0
9+PsN-vL-+-0
9-+PwQ-+-+0
9+K+R+-tR-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

20 
 
 

As engines recomendavam três lances: 21.f5 ou um salto de cavalo a b5, seja com o de d4
ou com o de c3. Após 21.f5, concluí que as pretas não teriam problemas: 21...exf5 22.exf5 ¥xf5
23.¤xf5 ¥xc3 24.£d5 £f6. Os saltos a b5 pareciam mais interessantes. Mesmo assim, sentia que
poderia encontrar uma solução talvez mais precisa, ou no mínimo mais original. Afinal, não queria
simplesmente reproduzir as conclusões da máquina. E encontrei uma jogada muito interessante.
21.¦g5!
Uma idéia bastante direta, mas impossível de ser encontrada pelo computador. O plano
branco é sacrificar a qualidade em h5 no momento oportuno, abrindo linhas de ataque ao rei preto.
Como escrevi anteriormente, as engines têm muita dificuldade em avaliar corretamente sacrifícios
posicionais. Não é surpresa que nenhum dos programas entendeu minha jogada, sugerindo às
pretas 21... ¥f6 ou 21... ¥h6, “forçando” a torre intrusa a retroceder. Era justamente com isso que
eu contava.
21...¥f6?
Meu adversário confia cegamente nessa sugestão, mas este lance permite o sacrifício
decisivo. O mesmo resultado ocorreria após 21...¥h6: 22.¦xh5! gxh5 23.e5!
O computador a partir deste momento começa a reconhecer o perigo e vai mudando a
avaliação, se bem que continua a gostar da posição preta.
23...f5
Uma tentativa desesperada, mas as opções não são melhores. (23...¥c6 24.¤xc6 ¦xc6
25.¤e4+-; 23...¦xc3 24.£xc3 £xh4 25.£c7 £d8 26.£xb7+-; 23...d5 24.£d3+ ¢h8 25.f5+-)
24.exf6!
O computador tem dificuldade para encontrar este lance.
24...£xf6 25.£d3
(25.¤e4 £e7 26.£d3 também daria um ataque decisivo às brancas)
25...¢h8
(25...£g6 26.¤e4+-)
26.¤e4 £f8 27.¤f3 com ataque decisivo.

A única forma de complicar a partida seria 21...e5! Agora as brancas teriam duas opções:
A) 22.fxe5 escolha mais posicional. 22...dxe5 (22...¦xe5 23.¤f3±) 23.¤f3 com
vantagem.
B) 22.¤f5!? que leva a grandes complicações onde o preto está à beira do precipício,
mas ainda não vi como arrematar a partida contra a melhor defesa.
22...exf4!
(22...¥xf5 23.exf5 ¥f6 (23...¥h6 24.fxe5 ¥xg5 25.¥xg5±; 23...exf4 24.¥d4±) 24.¦xh5+
gxh5 25.£e2 ¦xc3 26.¦g1 ¢h6 27.fxe5+ ¦xe3 28.£xe3+ ¢h7 29.£e2! ¢h6 30.£d2+
¢h7 31.£d1! com esta manobra as brancas protegem a primeira fila, preparando o

21 
 
 

arremate. 31...¢h6 32.exf6 £xf6 33.¦g5+-)


23.¥d4 ¥xd4 24.£xd4 f6
A posição parece horrível para as pretas, mas elas escapam por um fio nas variantes
que seguem.
25.¦xh5+
(25.¦xg6!? ¢xg6 26.¦g1+ ¤g3 (26...¢h7? 27.£d1+-) 27.¤xg3 fxg3 28.¦xg3+ ¢h7
(28...¢f7 29.£d5+ ¥e6 30.£h5++-) 29.£d5 ¢h6 com empate)
25...gxh5 26.¤d5 ¦e5 27.¤xd6 ¥g4! 28.¤xc8 ¥xd1 com boas chances de salvar a
partida, por exemplo: 29.¤ce7 ¢g7 30.¤f5+ ¦xf5 31.exf5 ¥g4 32.¤xf4 £xd4 33.¤e6+
¢f7 34.¤xd4 ¢e7 com contra-jogo suficiente para o empate.

22.¦xh5+!
O sacrifício que eu havia preparado descaradamente e que foi subestimado por meu
adversário. O ataque branco é demolidor.
22...gxh5 23.£e2 ¦h8
23...¢g8 perderia para 24.£xh5 ¥g7 25.¦g1+-
O arremate mais bonito ocorreria após 23...¦xc3 24.¦g1 ¢h6 25.¥d2! ¥xd4 26.f5+ ¥e3
27.¥xe3+ ¦xe3 28.£xe3+ ¢h7 29.¦g5 £f6 30.¦xh5+ ¢g8 31.£g3+ ¢f8 32.£xd6+ £e7 (32... ¦e7
33.e5+-)
XIIIIIIIIY
9-+-+rmk-+0
9+p+lwqp+-0
9-+-wQp+-+0
9zp-+-+P+R0
9P+-+P+-zP0
9+P+-+-+-0
9-+P+-+-+0
9+K+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

33.f6! £xd6 34.¦h8#

24.¦g1 ¥g7

22 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+rwq-+-tr0
9+p+l+pvlk0
9-+-zpp+-+0
9zp-+-+-+p0
9P+-sNPzP-zP0
9+PsN-vL-+-0
9-+P+Q+-+0
9+K+-+-tR-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

25.¤f5!
Este elegante sacrifício decide a partida.
25...exf5 26.¥d4 £xh4
26...f6 27.£g2 £f8 28.£g6+ ¢g8 29.¤d5+-
27.¦xg7+ ¢h6 28.£g2 1-0
As pretas não têm defesa satisfatória contra a ameaça 29. £g5. Acredito que nesta partida
consegui mesclar as análises humanas com as de computador de forma quase ideal.

Este capítulo mostrou a importância de dedicar várias horas diárias ao aperfeiçoamento do


cálculo, assim como os principais métodos de treinamento. Nos capítulos seguintes, veremos
temas mais específicos.

23 
 
 

III- QUANDO CALCULAR?

Muito se fala sobre a importância de calcular corretamente. Com razão, afinal a maioria
das partidas são decididas por um erro de cálculo, especialmente em um nível intermediário. A
compreensão posicional e a técnica também são habilidades fundamentais, mas o cálculo está
presente mesmo nessas áreas. Quando formulamos um plano, devemos calcular e ver se ele é
viável. Mesmo na técnica de finais temos que calcular variantes.
Mas a grande vantagem de termos uma boa compreensão posicional e boa técnica é que
podemos avaliar corretamente as posições e guiar o nosso cálculo, sabendo exatamente o que
queremos. Se nossa avaliação é que estamos em inferioridade, então uma operação tática que
leva à igualdade é suficiente. Meu ponto é: não calculamos simplesmente por calcular. Analisamos
as posições com um objetivo. E não devemos calcular o tempo todo, desnecessariamente. Cálculo
bruto é para computadores, não para humanos.
Este é um tema com grande importância prática, mas ainda assim pouco teorizado. Vemos
muitos livros de combinações, de tática etc., mas 90% de uma partida de xadrez é feita de um
cálculo muito menos matemático, que depende da avaliação da posição e de objetivos mais
abstratos que o mate ou um ganho material.
Claro que a quantidade de análise de cada jogador nestas posições varia muito de acordo
com o seu estilo. No meu caso, em posições não muito diretas, sou guiado primordialmente por
meu “feeling” posicional, calculando apenas algumas poucas variantes. Já o Giovanni Vescovi, por
exemplo, é um jogador bem mais analista, que costuma calcular muitas variantes mesmo em
posições simples. Mas ele certamente sabe dosar isso de forma equilibrada, tentando analisar
apenas variantes relevantes.
O fato é que saber calcular apenas o necessário é uma qualidade tão importante quanto
saber calcular corretamente. O cálculo excessivo gera cansaço e apuro de tempo. O xadrez é
fundamentalmente um jogo inexato. Pouquíssimas posições podem ser calculadas até o fim. Nos
torneios de hoje em dia, com um ritmo de jogo cada vez mais acelerado, cresce a importância de
tomar decisões mais práticas. Portanto, saiba calcular apenas o suficiente para tomar sua decisão.
Poupe seus esforços para novos problemas que certamente irão surgir.
Para saber quando você deve analisar profundamente, é muito importante saber
reconhecer as posições críticas. Nestas posições você deverá concentrar seus esforços para tomar
uma decisão importante. O primeiro momento crítico de uma partida ocorre quando saímos da
teoria. Mas aqui não adianta apenas calcular. É preciso avaliar a posição, entender o que ela pede
e nossos objetivos. Muitos jogadores jovens têm problemas nessa área, pois estão acostumados a
analisar massivamente com o computador, que não os ensina fundamentos posicionais. Então
estes jogadores utilizam o cálculo para guiar seu entendimento da posição, quando o contrário
deveria ser feito.

24 
 
 

Estas posições críticas podem aparecer logo na abertura, mas em alguns casos elas
surgem apenas no momento do arremate. Não são poucas as vezes, portanto, que vencemos uma
partida praticamente sem calcular, apenas tomando cuidado para não dar recursos ao adversário e
analisando algumas variantes simples na hora de definir a vitória.

Leitão,R - Fier,A
São Paulo, 2006

1.d4 ¤f6 2.c4 g6 3.¤c3 d5


Uma decisão surpreendente , pois Fier jamais havia jogado a Grünfeld. Temendo uma
preparação específica contra 4.¥g5, que é a variante que mais utilizo atualmente, decidi jogar uma
linha antiga, em que tinha bastante experiência e bons resultados, ainda que objetivamente não dê
vantagem às brancas.
4.¥f4 ¥g7 5.e3 c5 6.dxc5 £a5 7.¦c1 dxc4
7... ¤e4 também é possível, mas o lance do texto é tido pela teoria como a forma mais
confiável de igualar.
8.¥xc4 0-0
Um detalhe importante, já que a captura imediata do peão com 8... £xc5?? leva à derrota
após 9. ¤b5! £b4+ 10. ¢f1. Apesar de isso ser bem conhecido pela teoria, foi dessa forma que
venci o Van Wely, um grande especialista em aberturas, em 1999.
9.¤f3 £xc5 10.¥b3 £a5 11.0-0 ¤c6 12.£e2
XIIIIIIIIY
9r+l+-trk+0
9zpp+-zppvlp0
9-+n+-snp+0
9wq-+-+-+-0
9-+-+-vL-+0
9+LsN-zPN+-0
9PzP-+QzPPzP0
9+-tR-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

Minha última jogada é uma tentativa de fugir das linhas mais teóricas, que ocorrem após
12.h3, uma posição que foi exaustivamente analisada durante um dos matches entre Karpov e
Kasparov. O lance do texto é menos conhecido, mas também tem seu veneno, já que as pretas
devem ser precisas para evitar problemas. Esta pode ser considerada a primeira posição crítica,
pelo ponto de vista do meu adversário, pois aqui o conhecimento teórico dele acabou. É preciso
agora estudar os detalhes da posição e analisar algumas variantes.
12...e5?
Um erro posicional grave, pois este lance debilita a casa d5 e limita o raio de ação do bispo

25 
 
 

de g7. A forma correta de jogar seria 12...¤h5! 13.¥g5 ¥g4 14.¥h4 £b4! 15.£c4 (infelizmente isso
é forçado, devido à ameaça de 15... ¥xf3) 15...£xc4 16.¥xc4 e as pretas não têm problemas no
final. Existe um pequeno detalhe tático após o lance do texto. Aparentemente as brancas não
podem jogar 13. ¥g5 – lance natural -, devido a 13...e4. Mas com a ajuda de um detalhe tático
simples, consegui refutar essa idéia.
13.¥g5!
13...e4? é refutado por 14.¥xf6, e as brancas ganham um peão. Este foi o primeiro cálculo
que tive que fazer nessa partida. Lembre-se: calcule somente o necessário para tomar sua
decisão. Está claro que a casa correta para o bispo é g5. Assim que estiver definida a refutação
tática para 13...e4, devemos fazer nossa jogada. Não há necessidade de calcular qualquer coisa
além disso. É preciso poupar tempo para decisões mais difíceis, que certamente aparecerão.

13...¥f5 14.¤d2

Um lance temático, bem de acordo com o meu estilo, mas aqui desconfio que poderia ter
jogado melhor. Mais energético seria 14.¤h4!, criando problemas mais concretos para as pretas.
Analisei 14...¥g4 15.f3 ¥c8 (15...¥d7 16.¦fd1 seria pior) e não fiquei satisfeito com a colocação do
meu cavalo em h4. Essa avaliação, entretanto, foi pessimista e errada, pois com as peças pretas
tão mal desenvolvidas, não é difícil de ver que as brancas têm grande vantagem, mesmo sem
analisar qualquer variante. Na verdade, o motivo de escolher 14.¤d2 e não 14.¤h4 nos remete a
fatores mais psicológicos que necessariamente enxadrísticos. Geralmente escolhemos nosso lance
nos primeiros 5 minutos que analisamos uma posição, guiados por uma série de motivos, entre
eles nossa intuição. Se você é um jogador posicional, geralmente sua idéia inicial será um lance
com um fundamento sólido, não excessivamente complexo. Se você for um jogador naturalmente
tático, sua primeira vontade será uma variante mais aguda. O resto do tempo que analisamos,
muitas vezes tentamos apenas justificar com variantes essa primeira impressão (que às vezes é
errada). Esse foi meu erro ao analisar essa posição. Como minha vontade inicial era seguir
calmamente com 14.¤d2, então a minha avaliação da alternativa mais agressiva já ficou
comprometida. Um jogador mais tático, como o próprio Fier, poderia fazer um tipo de avaliação
inversa, tentando justificar a jogada mais ativa e criar um bloqueio contra a alternativa mais sólida.
Ambos os casos representam uma forma equivocada de encarar a posição, pois devemos sempre
buscar a solução mais precisa, independentemente do nosso estilo de jogo. Solucionar esse tipo
de equívoco, porém, é uma tarefa extremamente difícil, pois lidamos aqui não apenas com
problemas enxadrísticos, mas também com traços da nossa personalidade.

14...¦ad8 15.¥xf6 ¥xf6 16.¤de4

26 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+-tr-trk+0
9zpp+-+p+p0
9-+n+-vlp+0
9wq-+-zpl+-0
9-+-+N+-+0
9+LsN-zP-+-0
9PzP-+QzPPzP0
9+-tR-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

Segui com a idéia da jogada 14, que era trazer o cavalo de f3 para uma posição mais
centralizada. Agora as pretas devem escolher a casa para o bispo de f6. As opções são e7 ou g7.
Qual você escolheria?
16...¥g7?
Outro momento crítico para as pretas, pois este erro terá grande efeito no resultado da
partida. Vemos aqui uma situação em que podemos chegar à solução correta sem ter que analisar
variantes, mas utilizando um senso posicional bem apurado. Um dos principais problemas para as
pretas é a possível invasão do cavalo de e4 nas casas c5 e especialmente d6. Além do mais, o
bispo em g7 tem um potencial muito reduzido, devido ao peão de e5. Estes fatores nos levam à
conclusão de que o bispo deveria ter seguido para e7. Neste caso, a desvantagem preta não seria
grave. Mas agora sua posição é muito difícil.
17.¦fd1
Agora já ameaço 17.¤d6.
17...£b4 18.¦xd8
Provavelmente seria melhor não se apressar com essa troca e jogar simplesmente 18.f3.
Mas eu achava que as pretas deveriam tomar em d8 com o cavalo, para não debilitar o ponto f7. A
troca estaria justificada nesse caso.
18...¤xd8?!
Fier achou o mesmo, mas seria melhor jogar 18...¦xd8, pois não há uma forma efetiva de
explorar a debilidade em f7 imediatamente.

19.f3 £a5

Prevenindo-se contra a provável penetração do cavalo branco em d5. A troca 19...¥xe4


sempre é uma possibilidade, pois elimina um dos possíveis cavalos invasores. De todas as formas,
após 20.¤xe4 as pretas teriam que conviver com uma posição muito passiva.

27 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+-sn-trk+0
9zpp+-+pvlp0
9-+-+-+p+0
9wq-+-zpl+-0
9-+-+N+-+0
9+LsN-zPP+-0
9PzP-+Q+PzP0
9+-tR-+-mK-0
xiiiiiiiiy
Como jogar com as brancas?

Nenhuma das minhas jogadas até agora foi particularmente difícil. Fazendo os lances
naturais, consegui uma posição com clara vantagem. Muitos enxadristas têm problemas com o
passo seguinte, que é aumentar sua vantagem e convertê-la em vitória. Esta fase técnica pode ser
extremamente difícil. Agora temos que ser precisos e calcular algumas variantes, mesmo que não
sejam muito complicadas. O lance natural aqui é 20.¤d6, mas não vi como continuar depois de
20...¥e6. 20.¦d1, melhorando o posicionamento da torre é um lance natural e perfeitamente
possível. Mas depois de algum tempo refletindo sobre a posição, encontrei uma outra idéia, mais
incisiva e, ao meu ver, mais forte.

20.£b5!
A troca de damas seria extremamente desagradável para as pretas, que ficariam
definitivamente sem qualquer contra-jogo. Além do mais, eu sabia que esta manobra seria
especialmente desagradável para Fier, que é um jogador agressivo e que sempre procura chances
para complicar a partida.

20...£c7
Conforme o esperado, as pretas tratam de fugir com a dama.
21.¦d1!
Melhorando a torre, agora que a dama já está mais ativa. Agora tenho diversas opções
para melhorar minha posição, seja com ¤d6, ¤d5 ou com £c5. É muito difícil defender quando
seu adversário tem opções tão variadas.
21...¤c6?!
Objetivamente este lance não é bom, ainda que ele crie uma cilada interessante, que por
muito pouco não funcionou! Agora as brancas conseguem uma vantagem posicional decisiva com
uma seqüência forçada, ainda que vantagem também seria grande após as alternativas 21...a6
22.£c5 ou 21...¥xe4 22.¤xe4.

28 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+-+-trk+0
9zppwq-+pvlp0
9-+n+-+p+0
9+Q+-zpl+-0
9-+-+N+-+0
9+LsN-zPP+-0
9PzP-+-+PzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o problema com 22.¤d6?

Estive muito perto de cometer um grave erro nessa posição e jogar 22.¤d6?,que permitiria
às pretas um golpe tático que deixaria a posição incerta: 22...¤d4!. Sempre esteja atento aos
recursos do adversário. Passado o susto, me concentrei melhor na posição e rapidamente
visualizei a continuação que me daria vantagem decisiva. A posição não é de cálculo complexo,
mas é importante ser preciso para levar a partida à sua conclusão lógica.

22.¤d5 £b8 23.¤df6+! ¥xf6 24.¤xf6+ ¢g7 25.¤d7


Agora a torre branca entra na sétima, com efeitos devastadores.

25...a6!?
Em posições de grande desvantagem, é sempre interessante armar ciladas ou tentar criar
complicações para o seu adversário.

26.£c5
Continuando a mesma lógica, quando tiver grande vantagem, evite complicações táticas
desnecessárias, jogando da forma mais simples e segura possível. Ainda investigaremos mais
esse tema, mas aqui temos uma boa ilustração. Comecei analisando a jogada natural e
aparentemente mais forte, 26.£b6, mas logo percebi a idéia do meu adversário: 26...£d8!?
27.£xb7 ¤a5. Após essa análise rápida, me decidi por um lance que dá menos opções para o
preto. Esse é o tipo de raciocínio correto para converter vantagens técnicas.
26...¥xd7 27.¦xd7
A vantagem do bispo contra cavalo em uma posição aberta, além da torre na sétima e as
debilidades na posição preta, são os elementos que dão uma fácil vitória ao branco.
27...£c8 28.£d6 ¢h6
Hora de arrematar. Novamente escolhi a solução mais simples.
29.¥xf7 ¦d8 30.¦xd8 ¤xd8 31.£f8+ ¢h5 32.g4+ ¢g5 33.¢g2! h5 34.£e7+ 1-0

29 
 
 

Esta partida é um bom exemplo de uma vitória conseguida com bom jogo posicional aliado
a um pequeno número de variantes calculadas precisamente.
Mesmo em posições que demandam mais cálculo, é possível guiar-se sem ter que calcular
muitas variantes. É preciso sobretudo saber organizar o cálculo e dar prioridade para as variantes
que podem facilitar sua decisão.

Nunn,J- Pribyl,M
Bundesliga, 1996

1.e4 e5 2.¤f3 ¤c6 3.¥c4 ¤f6 4.d3 ¥c5 5.0-0 d6 6.c3 0-0 7.¤bd2 a6 8.¥b3 ¥a7 9.h3
¤d7 10.¥c2 f5 11.exf5 ¦xf5 12.d4 ¦f8
As pretas jogaram a abertura de forma imprecisa, iniciando uma batalha no centro sem
desenvolvimento suficiente. A conseqüência natural disso é uma iniciativa branca nas
complicações resultantes. Esse tipo de avaliação é importante para saber quais serão os seus
objetivos ao iniciar o cálculo. Agora é preciso começar o trabalho.
13.¤e4
Um lance natural, trazendo o cavalo para o ataque e liberando o bispo de c1. Já era
possível tentar uma solução tática: 13.d5 ¤e7 14.¥xh7+? (14.¤g5 é melhor, mas após 14...¤f6
15.¤de4 ¤f5 as brancas não têm grande coisa) 14...¢xh7 15.¤g5+ ¢g8 16.¤e6. Aparentemente
as pretas estão em apuros agora, mas um bom analista deve ser capaz de ver o recurso das
pretas sem problemas. 16...£e8 17.¤xc7 £g6 18.¤xa8 ¤b6! e a ameaça de 18...¥xh3 dá uma
excelente posição ao segundo jogador. Este não é um cálculo difícil, mas muitos enxadristas já se
perderiam aqui.
13...exd4

XIIIIIIIIY
9r+lwq-trk+0
9vlpzpn+-zpp0
9p+nzp-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-zpN+-+0
9+-zP-+N+P0
9PzPL+-zPP+0
9tR-vLQ+RmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Um momento crítico. Várias peças brancas estão apontando para o flanco rei desprotegido
das pretas, portanto há um claro potencial para uma continuação direta, mas qual lance deve ser
escolhido? Várias são as possibilidades tentadoras: 14.¤eg5, 14.¤fg5, 14.¥b3+ e 14.¥g5. O

30 
 
 

grande número de possibilidades indica que analisar exaustivamente todas essas opções
consumirá muito tempo. Um método muito interessante nesses casos é o sugerido por John Nunn
em seu livro “Secrets of Practical Chess”: olhar rapidamente cada uma das possibilidades, sem
aprofundar demais, vendo quais são as posições críticas e comparando-as. Com este processo,
podemos filtrar o que é realmente relevante para a posição. Nesta partida, Nunn decidiu ser prático
e escolheu uma variante que garante uma pequena vantagem posicional, mas havia uma
continuação mais forte.
14.¤eg5
Vejamos uma forma prática de analisar essa posição. As análises seguintes são extraídas
do livro do Nunn, mas vou me concentrar na maneira como eu analisaria cada uma das
continuações.

1) 14.£d3. A típica bateria ¥c2-£d3 chama a atenção, mas rapidamente podemos


descartar esse lance ao percebermos que ele não gera ameaças. 14...¤ce5 15.¤xe5 ¤xe5 e a
tentativa de mate com 16.¤f6+ £xf6 17.£xh7+ ¢f7 não funciona;

2) 14.¥g5 £e8. Eu descartaria esta opção sem muitas análises, pelo fato de que o bispo
de g5 ocupa uma casa que poderia ser melhor utilizada por um dos cavalos brancos. Nunn
continua com a seguinte variante: 15.¦e1 ¤de5 16.¤xd4 ¥xh3! 17.gxh3 ¥xd4 18.cxd4 ¤f3+
19.¢g2 ¤xe1+ 20.£xe1 ¤xd4, com vantagem preta.

3) 14.¥b3+. Este lance cria ameaças concretas ao rei preto e deve ser seriamente
considerado. Entretanto, não existe um a definição clara após 14...¢h8 15.¤fg5 £e7 (15...¤de5
16.¤xh7!±) 16.¤e6 (16.£h5 g6 17.£h6 ¤f6 e 16.¤xh7 £xe4 17.¤xf8 ¤xf8 18.£h5+ ¤h7 não
funcionam) 16...¤f6! 17.¤xf8 £xe4, com uma posição incerta.

4) 14.¤fg5!. Este é o lance correto, mas a variante que o justifica é complicada. 14...¤de5
15.¤xh7 ¦f5 16.¤eg5 d3 17.¥b3+ d5 18.g4!. O lance mais difícil de toda a variante, pois nosso
instinto é contra avançar os peões do roque. Além do mais, não é fácil perceber que a torre preta
não tem casa. 18...¦f7 19.¤xf7 ¤xf7 20.£xd3 ¤ce5 21.£xd5 £xd5 22.¥xd5 ¢xh7 23.¦e1 e as
brancas têm vantagem.
Frente a uma difícil escolha, com tantas variantes a serem consideradas, Nunn acaba
optando por uma solução prática, jogando para uma pequena vantagem.
14...¤f6 15.£d3 g6
Forçado, já que após 15...h6? 16.¤h7 ¦e8 17.£g6 as brancas têm um ataque decisivo.
16.¤xd4 ¤xd4 17.cxd4 d5
XIIIIIIIIY

31 
 
 

9r+lwq-trk+0
9vlpzp-+-+p0
9p+-+-snp+0
9+-+p+-sN-0
9-+-zP-+-+0
9+-+Q+-+P0
9PzPL+-zPP+0
9tR-vL-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

18.¤xh7!
Uma operação tática simples, após a qual as brancas trocam o peão de h7 pelo de d4,
debilitando o rei preto.
18...¥f5
Não 18...¢xh7? 19.£xg6+ ¢h8 20.¥g5 e as pretas não têm defesa.
19.¤xf6+ £xf6 20.£b3 ¥xc2 21.£xc2 ¥xd4 22.¥h6
A posição do texto é resultado de uma seqüência praticamente forçada após o lance 14
das brancas. Agora as pretas precisam decidir qual a melhor casa para a torre. Curiosamente, a
retirada correta foi ignorada por Nunn em suas análises, que apenas considera a jogada da
partida.
22...¦f7
Claro que a opção 22...¦fe8! tem uma idéia extremamente difícil de ser percebida por
alguém que não esteja armado com um computador. Mas o objetivo do analista é descobrir a
verdade da posição, independentemente da dificuldade ou característica do lance. Após uma
continuação similar a da partida, com 23.¦ad1, está claro que a torre preta encontra-se melhor
colocada em e8. A partida terminaria em empate após 23...c6 (Não 23...c5? 24.¥e3 ¥xe3 25.fxe3
£c6 26.¦xd5!) 24.¦xd4 £xd4 25.£xg6+ ¢h8 26.¥g5 ¦f8 27.£h5+ ¢g8 28.¥h6. A tentativa de
refutação do jogo preto seria 23.£xc7, mas então aparece o recurso de computador: 23... g5! e
incrivelmente o bispo está perdido. Verdade que as brancas podem conseguir um bom número de
peões, por exemplo: 24. £d7 ¥e5 25. £xd5+ ¢h8 26. ¦ae1 ¦ad8 27. ¥xg5 £xg5 28. £xb7, mas
após 28... £f6, a atividade das peças pretas garantiria ao menos a igualdade.
23.¦ad1 ¦h7?
Um erro grave, que custa a partida. As pretas subestimaram os perigos da sua posição. As
opções eram:
1) 23...¢h7 24.¥e3 ¥xe3 25.fxe3 £e7 26.¦xf7+ £xf7 27.e4 dxe4 28.£xe4, que seria bem
desagradável para as pretas, devido ao seu rei exposto;
2) 23...c5 24.¥e3 ¥xe3 25.fxe3 £c6 26.¦xf7 ¢xf7 27.e4! d4 (27...dxe4 28.¦f1+ ¢g7
29.£c3+ ¢g8 30.¦f6 £e8 31.£c4+ ¢g7 32.¦e6 £d7 33.£xe4 £d4+ 34.£xd4+ cxd4

32 
 
 

35.¦d6±) 28.£c4+ ¢g7 29.b4!, com pressão;


3) 23...¥xb2 24.¦xd5 ¦e8 25.¦fd1 ¥e5 seria a melhor escolha, mas a posição branca é
levemente superior, pois seu rei está mais seguro.

XIIIIIIIIY
9r+-+-+k+0
9+pzp-+-+r0
9p+-+-wqpvL0
9+-+p+-+-0
9-+-vl-+-+0
9+-+-+-+P0
9PzPQ+-zPP+0
9+-+R+RmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

Este é um momento didático. Um jogador bem treinado perceberá a necessidade de


procurar uma vitória forçada aqui. Afinal, após 24. ¦xd4 as pretas não terão qualquer peão para
proteger o rei. Aqui é preciso parar, respirar fundo e calcular até o final. As variantes são diretas e
forçadas, portanto há pouco espaço para erro.
24.¦xd4! £xd4 25.£xg6+ ¢h8 26.¦e1
As pretas não têm defesa contra a ameaça de 27. ¦e8+.
26...¦d7
A única forma de continuar. Agora as brancas podem ganhar dois peões após 27.¦e8+
¦xe8 28.£xe8+ ¢h7 29.£xd7+ ¢xh6 30.£xc7, mas as pretas têm um forte peão passado em d, e
em finais de damas um peão passado às vezes pode compensar a perda de vários peões. De
qualquer forma, o branco teria que tomar cuidado, o que justifica a procura por um lance “matador”.
27.£h5! £d3
São muitas as ameaças. 27...¢g8 28.¦e3 é sem esperanças.
28.¦e6 ¦g8 29.¥g7+! ¢xg7 30.£h6+ 1-0

Jogadores que por natureza calculam muitas variantes, correm outros perigos além da
possibilidade de um erro de cálculo. Muitas vezes eles são incapazes de tomar decisões práticas,
sempre querendo descobrir a verdade da posição. Isso pode ser perigoso. Suponha que em uma
posição com pequena vantagem você veja uma variante complicada, que pode aumentar sua
vantagem. Mas após analisar por cerca de meia hora as variantes possíveis, você chega à
conclusão que as complicações são pouco claras. É psicologicamente muito difícil parar essas
análises e procurar por alternativas. Eventualmente você acabará se convencendo que deve
escolher a linha tática, pois no mínimo será difícil para seu adversário encontrar o caminho correto
no meio de tantas complicações. Assim, você acaba jogando um lance que não é o melhor, e

33 
 
 

colocando em risco a partida. E é incrível quantas vezes seu adversário encontrará o caminho
correto...
Minha recomendação, portanto, é que você seja prático. Não calcule variantes
desnecessariamente complicadas. Se tiver uma opção entre um lance sólido, sem muitas
complicações, mas que garante vantagem, e outro espetacular, mas que precisa ser calculado com
extrema precisão e cria riscos, então opte pela linha segura.
Mesmo alguns dos melhores jogadores do mundo às vezes tomam decisões equivocadas
sobre que variantes precisam analisar.

Anand,V- Kamsky,G
Linares, 1994
XIIIIIIIIY
9r+-wqk+-tr0
9+-+-+pzp-0
9p+-+-vl-zp0
9+-+-sn-+-0
9Nzp-zpP+-zP0
9+P+-+P+-0
9-zPPwQ-+-+0
9+-mKR+LtR-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

A avaliação desta posição depende da mobilidade dos peões centrais brancos. Se for
possível avançá-los a f4 e e5, então as pretas estarão totalmente perdidas. Mas as pretas
ameaçam um duplo em f3.

A escolha natural seria 19.¥e2, desenvolvendo uma peça e preparando o avanço dos
peões. As pretas não conseguem bloqueá-los, já que após 19...g5 20.hxg5 (20.£xb4 também é
bom) 20...hxg5 21.£xb4 as brancas têm clara vantagem. Anand não jogou 19.¥e2 por 19... d3!?.
Entretanto, as brancas podem continuar com 20.£e3! e o preto estaria com graves problemas:
20...¥xh4 21.¥xd3 £c7 22.¤b6, e com o cavalo pronto para pular a d5, a posição preta é perdida.
Esta variante não é difícil de calcular (ainda mais para Anand), mas o super GM indiano foi
distraído por uma possibilidade tática, mais espetacular.

19.f4?! ¤f3 20.£g2 ¤xg1 21.e5


Os peões conseguiram o tão desejado avanço, mas ao custo de material. As trocas de
golpes táticos continuam:
21...0-0
21...¥xh4? 22.£xg7 ¦f8 23.£xg1 e as brancas teriam compensação decisiva.

34 
 
 

22.¥d3!
XIIIIIIIIY
9r+-wq-trk+0
9+-+-+pzp-0
9p+-+-vl-zp0
9+-+-zP-+-0
9Nzp-zp-zP-zP0
9+P+L+-+-0
9-zPP+-+Q+0
9+-mKR+-sn-0
xiiiiiiiiy
Encontre o melhor lance para as pretas

Um lance importante. As brancas ainda não precisam recapturar material. Após 22.exf6
£xf6 23.£xg1 £xf4+ 24.¢b1 £xh4 25.¦xd4 £e7 a posição seria difícil de avaliar. Apenas um
jogador taticamente muito talentoso poderia calcular esta variante e decidir-se pelo audacioso
19.f4?!. Anand certamente analisou ainda mais, pois ele havia previsto a continuação seguinte da
partida. Mas ainda assim sua decisão não foi a melhor. É inegável o risco que o branco corre após
19.f4, enquanto 19. ¥e2 conservaria uma grande vantagem, sem muita análise e riscos. Não é
surpresa que as análises comprovem esta avaliação. Nesta posição Kamsky não encontrou o
lance que causaria maiores problemas para as brancas. Esta é uma descoberta minha, pois não
encontrei a jogada correta nas análises que vi na base de dados.
22...¥xe5
22...¥xh4? não serviria: 23.¦xg1 g6 24.¥xg6 ¢h8 25.¥h7!; A jogada correta seria:
22...¤e2+! após a qual não seria fácil conduzir a iniciativa branca. 23.£xe2 ¥xh4. Claro que as
brancas têm compensação, pois seu ataque é perigoso. A presença dos bispos de cores opostas
ajuda sua iniciativa. Várias são as continuações possíveis aqui, mas nenhuma delas garante clara
vantagem:
1) 24.£e4 g6 25.¦g1 ¦a7! 26.e6 (26.f5 ¥f2 27.¦g2 (27.¦g4 h5 28.¦g2 £h4!) 27...£h4!)
26...f5 27.¦xg6+ ¢h7 28.£c6 ¥e7 com posição incerta;
2) 24.¦g1 também não é convincente;
3) 24.¦h1 é a continuação mais perigosa. Mas as complicações não são claras, como as
seguintes variantes demonstram:
24...¦e8 25.£g4 ¥f2
(25...¥g5 seria uma tentativa de devolver material para aliviar a posição, mas as brancas
conservariam a iniciativa após 26.¢b1 ou 26.fxg5 £xg5+ 27.£xg5 hxg5 28.¤b6 ¦ad8 29.¤c4²)
26.¢b1
(O mais direto 26.¦xh6 leva a interessantes complicações, mas a posição se mantém

35 
 
 

próxima do equilíbrio. 26...¦xe5! Recurso fundamental para as pretas. 27.¦h7 ¦e1+ 28.¢d2 g6
(28...£f6 29.£f3! ¦ae8 30.£xf2²) 29.¥xg6 ¦g1 30.£h5 (30.¦h8+ ¢g7 31.¦xd8 (31.¦h7+=)
31...¦xg4 (31...¦xd8 32.£f5 ¦xg6 33.¤c5÷) 32.¦xa8 ¦xg6) 30...¦xg6 (30...¥e1+ 31.¢d3 ¦g3+
32.¢e2 £e7+ 33.¢d1 fxg6 34.¦h8+ ¢f7 (34...¢g7 35.£h6+ ¢f6 36.¦xa8‚) 35.£d5+±) 31.¦h8+
¢g7 32.¦xd8 ¦xd8 33.£e5+ ¢g8 34.¤c5 com posição complicada.)
26...¢f8 27.¦h2 ¥e3 28.¦g2 g5 (28...g6? 29.¥xg6) 29.£h3
(29.£h5 ¢g7 (29...¥xf4 30.£xh6+ ¢e7 31.¦e2!ƒ; 29...¦e6 30.¤c5) 30.¦xg5+ hxg5
31.£h7+ ¢f8 32.£h8+ ¢e7 33.£f6+=)
29...¢g7
(29...¦e6?! 30.¤c5 (30.f5 ¦xe5 31.£xh6+ ¢e7 32.£c6!©) 30...¦c6 31.¥e4)
30.fxg5 ¥xg5 31.£f5 com compensação pelo material sacrificado.
Como se vê, o resultado da partida estaria em aberto no caso da melhor defesa para as
pretas. Mesmo após a continuação da partida, a posição não é simples, ao menos não para um
jogador sem a mesma habilidade do Anand.
23.fxe5 £xh4 24.¦xg1 £f4+ 25.¢b1 £xe5
Mesmo para um grande-mestre, calcular toda esta variante está longe de ser fácil, mas
isso ainda não é o fim. Na posição resultante as pretas têm torre e três peões por bispo e cavalo,
em teoria uma vantagem material considerável. Anand, entretanto, provou que após 26.¤c5! a
iniciativa branca previne as pretas de coordenarem suas peças. Ele ganhou uma bela partida na
continuação.

Espero que tenha ficado claro para o leitor que, tão importante quanto a análise correta de
variantes, é saber reconhecer os momentos em que é preciso calcular, além de utilizar este cálculo
de forma prática, sem tentar ultrapassar os limites do que somos capazes. O que diferencia
humanos de máquinas é a avaliação das posições e a intuição. Alie essas armas ao cálculo e
analise apenas o suficiente para tomar sua decisão.

36 
 
 

IV- TEMAS TÁTICOS

A habilidade tática de um enxadrista é composta por dois elementos: visão combinatória e


técnica de cálculo de variantes. Estes dois elementos, por sua vez, são divididos em vários outros
procedimentos para procurar e planejar jogadas, temas e situações típicas.
O primeiro passo é obter uma rápida percepção dos temas táticos. Lances que não são
óbvios, envolvendo sacrifícios. A esta habilidade chamo visão combinatória. Sem ela um jogador é
incapaz de calcular corretamente, razão pela qual iniciamos nosso treinamento de cálculo
específico por este tópico.
Para o desenvolvimento da visão combinatória e da imaginação, é preciso resolver
exercícios incessantemente, sejam composições ou diagramas extraídos da prática, cuja principal
dificuldade seja encontrar a idéia tática correta. Existem numerosos livros publicados com este
tópico. Eles contêm combinações relativamente simples, que um jogador habilidoso encontrará
rapidamente. Recomendo uma resolução diária destes exercícios, dedicando a eles ao menos 30
minutos. No meu desenvolvimento como jogador, durante anos resolvia combinações todos os
dias, e isso contribuiu imensamente com minha habilidade tática. Até hoje realizo este trabalho,
pois ele é como a escala para os músicos, sendo extremamente útil para melhorar sua forma antes
das competições. Resolvendo rapidamente algumas combinações, você não apenas desenvolve
uma rápida percepção da posição, mas também ganha confiança em suas habilidades.
Á seguir algumas combinações simples, que podem ser descobertas rapidamente por um
jogador com boa visão combinatória.
 

Dvoretsky,M - Zilberstein
1966
XIIIIIIIIY
9-tr-+kvl-tr0
9+ptRl+pzpp0
9-+-+p+-+0
9wq-+pzP-vL-0
9p+-wQ-+-+0
9zP-+L+-+-0
9-zP-+-zPPzP0
9+-tR-+-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

Mesmo em exercícios de combinações simples é bom sempre começarmos com uma


rápida avaliação da posição. Rapidamente podemos perceber que a posição preta é perdida, pois
as brancas têm uma vantagem de desenvolvimento esmagadora, em troca de apenas um peão. A

37 
 
 

tarefa agora é arrematar a partida. Dvoretsky não teve problemas para encontrar a solução correta,
mesmo sendo esta uma partida relâmpago.
20.¦xd7! ¢xd7 21.£a7!
21.¥d2 também seria suficiente. Utilizando um tema tático bem conhecido (desvio) as
brancas decidem a partida. 1−0
 
Após algum tempo resolvendo exercícios diariamente, você começará a perceber os temas
mais rapidamente, graças ao maior conhecimento dos temas táticos existentes. E o resultado disso
virá rapidamente nos torneios (desde que você realmente trabalhe nas combinações!). Vejamos
como consegui importantes vitórias graças ao treinamento constante da visão combinatória:
 

Olafsson,H - Leitão,R
Capelle la Grande 2000
XIIIIIIIIY
9-+-+r+k+0
9zp-zp-+nzpp0
9-+-zp-snrwq0
9+P+Pzp-+-0
9-zP-+P+-+0
9zP-+Q+PzPl0
9-+-sNLtR-+0
9+-vL-+-tRK0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

Meu adversário subestimou gravemente o ataque preto. Com sua última jogada, 26.hxg3,
ele se preparou para trazer a torre de f2 para o jogo. O problema é que a partida termina em mate
forçado agora.

26...¥f1+

Apenas nesta casa o descoberto funciona. Somente agora o grande-mestre islandês se


deu conta do que estava ocorrendo. Ele abandonou em vista da continuação: 27. ¦h2 £xh2! 28.
¢xh2 ¦h6#.
 

38 
 
 

Vescovi,G - Leitão,R
São Paulo, 2000
XIIIIIIIIY
9-+-+k+-+0
9+l+-+qzp-0
9p+-+N+-+0
9+-vl-+-+-0
9-zp-+n+-+0
9+-+-+-+L0
9PzPP+Q+-+0
9+-+K+-+N0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

É preciso reconhecer rapidamente o tema tático que envolve a cravada da dama branca.
Graças a uma pequena combinação é possível ganhar material:
25...¤c3+! 26.bxc3 ¥f3 27.¤xg7+ ¢f8 28.¤e6+ ¢e7 0-1

Leitão,R - Zhang Zhong


Trípoli, 2004
XIIIIIIIIY
9R+-vl-tr-mk0
9+-wq-+-zp-0
9-+-zp-+Lzp0
9+p+Qzp-+-0
9-zP-+-+-+0
9+-zP-+-zP-0
9-+-+-zP-+0
9+-+-+-mK-0
xiiiiiiiiy
Avalie 43... £xc3

Esta partida teve um caráter de decisão, pois foi disputada no Campeonato Mundial
realizado na Líbia, em 2004. Meu adversário, o então campeão chinês, era considerado favorito
neste match eliminatório. Após um empate bem complicado na primeira partida, coloquei minhas
esperanças nas peças brancas da segunda partida, que garantiria a classificação ao vencedor. Na
posição do diagrama as brancas têm um peão a menos, mas a compensação está no domínio das
casas brancas. A presença dos bispos de cores opostas certamente me favorece, pois posso
engrenar um ataque de mate. Além do mais, o peão de b5 é uma fraqueza. Tudo isso corrobora a
avaliação de vantagem branca, mas a posição preta está longe de estar perdida. Durante a partida,

39 
 
 

eu esperava as naturais continuações, 43... £b6 44. ¦a2, com o plano de ¥d3-£e4, ou 43...£e7
44.¥e4 £f6 45.f3, com vantagem branca em ambos os casos. Para minha surpresa, o GM chinês
decidiu-se pela captura do peão de c3.
43...£xc3??
Um erro difícil de entender, pois foi cometido por um fortíssimo enxadrista. O que se pode
dizer? Os grandes-mestres também erram (e muito)! Agora pude aliar os temas de desvio e mate
da “gaveta” para encerrar o match.
44.£f7! 1-0

Toth,C - Leitão,R
São Paulo, 2000
XIIIIIIIIY
9r+-wqrvlk+0
9+-+-+p+p0
9p+-zp-snp+0
9zPlzpP+-+-0
9-zp-+PvL-+0
9+P+-+L+P0
9-+-+-zPP+0
9tRN+QtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as pretas?

A avaliação da posição indica uma clara iniciativa preta, que possuem vantagem de
desenvolvimento. Além do mais, é possível detectar que duas peças brancas estão sem defesa: o
bispo de f4 e a torre de a1. Sempre fique alerta nestes casos, pois a possibilidade de um ataque
duplo torna-se real. O tema pode ser explorado graças a uma pequena combinação:

21...¤xe4! 22.¦xe4
22.¥xe4 £f6 23.¤a3 bxa3 seria um pouco melhor, mas não mudaria a avaliação.
22...¦xe4 23.¥xe4 £f6 24.¤d2 £xf4 −+
Com um peão central a mais e par de bispos, não há qualquer problema técnico para
converter a vantagem.

40 
 
 

Frare,F - Leitão,R
Jogos Abertos, 2002
XIIIIIIIIY
9-+-+-+k+0
9+-tr-wqpzp-0
9p+-+-tr-zp0
9+-zp-+-+-0
9-+NzP-+-wQ0
9+P+-+l+P0
9P+-tR-+P+0
9+-tR-+-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as pretas?

É fácil observar o tema tático mais importante da posição: o raio x da dama de e7 com a
dama de h4. Precisamos apenas colocar o rei branco em uma posição adequada para que a torre
de f6 saia com xeque descoberto. Isso é possível através de uma simples combinação:
42...¥xg2!
Agora as brancas perdem material pesado após 43.¦xg2 ¦f1+ ou 43. ¢xg2 ¦g6+. Meu
adversário decidiu tirar a dama do tema de descoberto, mas com um peão a mais e a vantagem do
bispo contra cavalo em uma posição aberta, a vitória é simples. A continuação foi:
43.£h5 ¥f3 44.£e5 ¦e6 45.£f4 ¦f6 46.£e5 cxd4 47.£xe7 ¦xe7 48.¦xd4 ¦e2 49.¦d2
¦g6+ 50.¢f1 ¦xd2 51.¤xd2 ¥g2+ 52.¢f2 ¥xh3 53.b4 ¥d7 54.¤b3 ¥b5 55.¤c5 h5 56.a4 ¥c6
57.¦b1 ¦g5 58.¤xa6 ¥xa4 59.¤c7 ¥b5 60.¦c1 ¢f8 61.¢f3 ¢e7 62.¢f4 ¦g4+ 63.¢f3 ¦g5
64.¢f4 f6 65.¦c5 ¦xc5 66.bxc5 ¥c6 67.¤a6 g5+ 68.¢g3 h4+ 0-1
Após o domínio das combinações básicas, conseguido graças a um árduo e continuado
treinamento, você será capaz de perceber temas táticos em posições mais complexas, ampliando
a capacidade da sua visão combinatória. Até aqui os exemplos que vimos foram bem simples.
Passemos a alguns mais complexos:

Leitão,R - Granara,S
Laguna, 1996
XIIIIIIIIY
9r+l+-trk+0
9+p+nwq-+p0
9p+-+pvlp+0
9+-+-+p+-0
9-+PsN-+-+0
9+P+-+-+-0
9PvLQ+LzPPzP0
9+-+RtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas e ganham

41 
 
 

A literatura enxadrística já explicou há muito tempo que a tática é uma conseqüência da


estratégia. Esta posição é didática nesse quesito. Na minha apostila sobre jogo posicional,
explicarei detalhadamente o processo para avaliar rápida e corretamente uma posição, mas já
adianto que os itens são os seguintes: 1- Material; 2- Estrutura de peões; 3-Mobilidade das peças;
4- Segurança dos reis. Salvo o primeiro item, não é difícil constatar que o branco tem clara
vantagem em todos os outros. Já é possível até mesmo pensar em um arremate.
Uma dificuldade nessas posições, é que existem algumas jogadas que conservam a
vantagem sem riscos, como por exemplo 18.f4 ou 18. ¥f3. Mas também há um lance que pode
decidir a partida imediatamente: 18.¤xe6. Neste caso, não há segredos: é preciso começar a
análise pelo lance mais matemático e ver se já é possível decidir a partida. Neste exemplo conduzi
um dos cálculos mais precisos da minha carreira, pois analisei todas as variantes até o fim. O fato
de a posição ter um caráter forçado, certamente facilitou o meu trabalho.
18.¤xe6!! £xe6 19.c5!
Lance importante, porque além de preparar 20. ¥c4, garante a casa d6 para a torre.
19... ¢g7
A alternativa era tirar o rei para h8, mas a vitória seria mais simples nesse caso: 19...¢h8
20.¥c4 £c6 21.¦e6+-; 19...¥xb2 20.¥c4 £xc4 21.£xc4+ ¢h8 daria às pretas bom material em
troca da dama, mas a vantagem branca em desenvolvimento seria decisiva após 22.¦e7.
20.¥c4 £c6 21.¦e7+ ¢h6
21...¢h8 22.¦d6 £xc5 23.¦exd7+-
22.£c1+
O lance mais humano. O computador indica que tanto 22.¦d3 quanto 22.£d3 também
venceriam.
22...g5
22...f4 seria arrematado com elegância: 23.£xf4+ g5 24.¦xh7+! ¢xh7 25.£f5+ ¢h6
(25...¢h8 26.¦d3+-) 26.¥d3+-
23.¦e6
23.¦d6 £xc5 24.¦exd7+-
23...£xc5 24.¦xd7 ¥xd7 25.¥xf6+−
Analisei 18.¤xe6 até aqui. As pretas podem abandonar.
25...¦xf6 26.¦xf6+ ¢g7 27.¦f7+
27.£xg5+ ¢h8 28.¦f7 £d4 29.£h6 £d1+ 30.¥f1+-
27...¢g6 28.¦xd7 1-0
28.¦g7+! seria um toque de classe final.

42 
 
 

Lautier ,J – Leitão,R
Nova Delhi, 2000
XIIIIIIIIY
9-+-wQ-+-+0
9zp-+-+p+k0
9-tr-+N+p+0
9+-+P+-+p0
9P+-+P+-+0
9+-+-wqP+-0
9-+-+-trPzP0
9+-+-+-tRK0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as pretas?

A importância desta partida não pode deixar de ser enfatizada. Jogando a primeira rodada
do Campeonato Mundial, contra um super grande-mestre da elite, tinha que aproveitar ao máximo
minhas chances. Está claro que tenho vantagem, mas Lautier engenhosamente armou um tema de
xeque perpétuo que parece difícil de escapar. Mas consegui encontrar um recurso para colocar
meu oponente em apuros justo quando nos encontrávamos em apuro de tempo.
33...¦xg2!
Um bonito tema e também a única possibilidade de jogar a ganhar. As alternativas
levavam somente ao empate: 33...fxe6 34.£e7+=; 33...¦c2 34.h4 ¦c1 35.¦xc1 £xc1+ 36.¢h2=.
Agora coloque-se na pele do condutor das brancas. Como você jogaria?
34.¤g5+?
Aparentemente forçado, mas esse lance leva a graves dificuldades. A solução correta foi
apontada por ninguém menos que Kasparov, em seu finado site kasparovchess. 34.¢xg2!!. Este
lance merece duplo sinal de exclamação, pois é inacreditável que as brancas possam subir com o
seu rei impunemente. Durante a partida, tanto eu como meu adversário descartamos rapidamente
essa possibilidade, mas o computador não teme fantasmas. 34...¦b2+ 35.¢h3 £xf3+ (35...£xg1
36.¤g5+ ¢g7 37.¤e6+=) 36.¦g3 £f1+ 37.¢h4 ¦xh2+. Sinceramente, não continuei as análises
além desse ponto, pois a vitória me parecia clara. Até hoje me custa a acreditar que o branco
escape. 38.¢g5 £c1+ 39.¢f6 (39.¤f4? ¦f2 40.£f6 ¦xf4! 41. £xf4 f6 -+) 39...¦f2+ 40.¢e7 (Se
40.¢e5 as pretas têm chances de vitória após 40... fxe6 41.£g5 £xg5+ 42.¦xg5 exd5 43.exd5
¢g7 44.d6 ¢f7) 40...fxe6 41.dxe6. Não consegui encontrar vitória para as pretas nessa posição.
Possivelmente o melhor é aceitar o empate por repetição após 41... £c5+ 42. £d6 £c8 43. £d8
etc.
34...¦xg5 35.£xg5 £xf3+ 36.£g2 £e3
As pretas têm agora, apesar do material reduzido, uma clara vantagem. Os peões brancos
estão muito avançados e constituem alvo fácil. Além do mais, o rei branco carece de maior

43 
 
 

proteção.
37.¦f1 ¢g7 38.¦d1
Talvez fosse melhor procurar salvação em um final de torres, se bem que as pretas
ganhariam um peão após 38.£f3 £xf3+ 39.¦xf3 ¦b4 40.e5 ¦e4.
38...¦f6!
Agora a torre penetra de forma decisiva.
39.d6 ¦f2 40.£g3 £e2 41.¦c1
41.¢g1 seria mais tenaz, mas o final de damas após 41...¦g2+ 42.£xg2 £xd1+ 43.¢f2
£xd6 é facilmente ganho.
41...£xe4+ 42.¢g1 ¦f3 43.£e1 £d4+ 44.¢g2 ¦d3 0-1

Leitão,R - Zambrana,O
Santos,2006
XIIIIIIIIY
9-wqr+-+k+0
9+-+R+pzpp0
9rvLn+pvl-+0
9zp-+-+-+-0
9Pzp-+-+-+0
9+L+-wQ-+-0
9-zP-+-zPPzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Com as peças brancas tão ativas, devemos procurar algum arremate imediato. O velho e
bom sacrifício em f7 é mais do que suficiente.
24.¦xf7! ¤d4!?
Recurso inesperado. As pretas perderiam imediatamente após 24...¢xf7 25.£xe6+ ¢g6
26.¥c2+ ou 24...¦xb6 25.¦xf6. Após o lance do texto, como você jogaria?
25.¦xf6!
A solução mais precisa.
25...£xb6 26.¦xd4! gxf6 27.¦g4+ ¢f7
27... ¢h8 28. £h6 terminaria em mate.
28.£h6 ¦f8 29.¥c4!
Elegante. Consigo trazer o bispo para o ataque com ganho de tempo.
29...¢e7 30.£xh7+ ¦f7 31.¦g7 ¦xg7 32.£xg7+ ¢d6 33.¥xa6 £xa6 34.£xf6+−
Toda esta seqüência é forçada após 25.¦xf6 e foi devidamente calculada durante a partida.
Com o treinamento correto, o leitor dedicado será capaz de fazer esse tipo de análise sem grandes

44 
 
 

problemas. Agora a posição branca é totalmente ganha.


34...£e2 35.h4 £d1+ 36.¢h2 £xa4 37.£d8+ ¢e5 38.h5 ¢f5 39.£f8+ ¢e4 40.h6 £c2
41.£f6 b3 42.£h4+ 1-0

Mesmo com toda essa prática, lapsos são inevitáveis. E isso não deve desanimá-lo, mas
sim ajudá-lo a reconhecer que o caminho para a maestria não é fácil e requer constante esforço.
No exemplo seguinte fui vítima do meu desleixo em reconhecer um tema que já havia visto várias
vezes, mas que por algum motivo me escapou em um momento importante. Aproveito para
aconselhar: Aprenda com suas derrotas!
 
Leitão,R - Jerez Perez,A
Figueres, 2006
XIIIIIIIIY
9r+-+-+-+0
9zP-+-+pmk-0
9R+-+psnp+0
9+-+p+-+-0
9-+pzP-+-+0
9+-zP-+q+P0
9-+-+-zP-+0
9+-wQ-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas e ganham

28...¤g4!
Temático, mas esse sacrifício não foi considerado nas minhas análises anteriores. Eu
esperava por 28...£xh3 , quando as brancas teriam todos os motivos para acreditar na vitória após
29. £e3. Infelizmente nem sempre as coisas são como imaginamos...Agora a posição é totalmente
perdida.
29.¦xe6 £xh3 30.¦xg6+ fxg6 31.£f4 ¦xa7 32.f3 ¤f6 0-1

Em muitas partidas a verdade permanece por trás da cortina. Mais um motivo para analisar
as posições profundamente, sem ater-se apenas ao que ficou demonstrado no tabuleiro. Nos dois
exemplos seguintes meus adversários falharam no cálculo e permitiram que eu conseguisse uma
pontuação maior do que deveria. Mesmo campeões mundiais não estão imunes a erros!

45 
 
 

Leitão,R – Karpov,A
São Paulo rapid 2004
XIIIIIIIIY
9-+Q+-+-+0
9zp-+rwqpmk-0
9-zpR+-snpzp0
9+-+p+-+-0
9-+-zP-+-zP0
9zP-+-+LzP-0
9-zP-+-zPK+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Chegamos nessa posição com pouquíssimo tempo para cada jogador, não mais que dois
minutos com dez segundos de acréscimo. Tenho uma clara vantagem. Minhas peças estão mais
ativas e tenho a vantagem do bispo contra o cavalo. Uma continuação normal seria 41.£b8,
especulando com temas na oitava e também preparando uma volta para e5 ou f4 em caso de
necessidade. Entretanto, fui atraído pelo tema de um sacrifício de qualidade em f6, para atrair o rei
preto para uma rede de mate. Quase sem tempo para calcular, não consegui resistir a essa
possibilidade. Mas como você avalia a jogada 41.¦xf6?
41.¦xf6?
Um erro! Não analisei suficientemente rápido para ver a refutação da minha idéia. Para
minha sorte, o grande Anatoly Karpov também não a viu.
41...¢xf6??
O lance que eu havia calculado. Nesse caso ganho forçado. Era preciso utilizar um lance
intermediário antes de capturar a torre. Havia duas formas de conseguir isso: 41...¦d8! 42.¦xf7+
¢xf7 ou 41...¦c7 42.£b8 ¢xf6 43.£h8+ ¢e6 44.£e5+ ¢d7 45.£xd5+ ¢e8. Nos dois casos eu
enfrentaria uma árdua luta pelo empate. Vale destacar que esse tema - lances intermediários – é
um dos mais difíceis e importantes para o cálculo. Pretendo abordá-lo mais detalhadamente em um
futuro material didático.
42.£h8+ ¢f5 43.g4+ ¢f4 44.£xh6+ g5 45.hxg5 1-0
Não há defesa para o mate.

No seguinte exemplo, o tema tático que daria a vitória ao meu adversário ficou escondido
por muito tempo, até o dia em que fiz uma análise mais detalhada da partida.

46 
 
 

Campora,D – Leitão,R
Cali, 2001
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+q+-+-0
9-zpl+-mk-zp0
9zpNzp-+P+-0
9P+-+p+-+0
9+-zP-+-wQP0
9-zP-+-+-+0
9+-+-+-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

A partida continuou de forma insuspeita:


37.£h4+? ¢e5 38.£xh6 £d1+ 39.¢f2 £f3+ 40.¢e1 £h1+ 41.¢f2 £h2+ 42.¢e1 £g1+
43.¢e2 £g2+ 44.¢e1 ¥xb5 45.axb5 £xb2 46.£g7+ ¢xf5 47.£g4+ ¢e5 ½-½

O leitor consegue ver o que o grande-mestre argentino deixou passar?


As brancas poderiam colocar dificuldades insuperáveis para o adversário com um bonito
tema tático: 37.£g6+ ¢e5 38.¤d6!!. As pretas não podem capturar o cavalo: 38...£xd6? 39.£g3+
¢d5 40.c4+ ganhando a dama. Com o cavalo em d6 e o rei preto exposto em e5, o branco não
teria problemas para vencer.

Os exemplos que vimos demonstraram a importância de uma visão combinatória bem


treinada. Agora ofereço ao leitor alguns exercícios simples para que possa praticar suas
habilidades e preparar-se para os capítulos mais árduos que estão por vir.

47 
 
 

EXERCÍCIOS

XIIIIIIIIY
9-+-+-+k+0
4
9+p+-+rvlp0
9p+-+p+-+0 XIIIIIIIIY
9+-+l+-zP-0 9-+-+k+-tr0
9-+-+-zP-+0 9tr-+p+p+-0
9+P+LvL-tR-0 9-zpl+p+-zp0
9P+-+K+-+0 9zp-vl-zP-wq-0
9+-+-+-+-0 9-+-+L+-tR0
xiiiiiiiiy 9+-zPQ+-vL-0
Jogam as brancas 9PzP-+-zPP+0
2 9+-+RmK-+-0
xiiiiiiiiy
XIIIIIIIIY Jogam as brancas
9-+-+r+r+0
9+-+l+-+p0
9kwqnzP-+-+0
9zpp+R+-+-0
9-+-+L+-+0
9+-+-+P+-0
5
9PzPPwQ-+PzP0
9+K+-+-+R0 XIIIIIIIIY
xiiiiiiiiy 9-+k+-tr-+0
Jogam as brancas 9zpp+q+N+-0
3 9-+-+-+QzP0
9+-zp-+-+-0
XIIIIIIIIY 9-+-+-vl-+0
9r+-+-+-tr0 9+-+-+-+-0
9+-+-+kzp-0 9PzP-tr-+-+0
9-+-+p+-+0 9+K+-+R+R0
9zpp+pzPp+P0 xiiiiiiiiy
9-+p+-zP-mK0 Jogam as pretas
9zP-zP-zP-+-0
9-zP-+-+R+0
9tR-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

48 
 
 

SOLUÇÕES

1− Leitão,R - Felgaer,R, Santiago 2005: 32.¥xh7+! ¢f8 33.¥c5+ 1-0

2− Leitão,R - Mekhitarian,K, Serra Negra 2003: 25.¦xb5! £d4 [25...£xb5 26.¥d3+-;


25...¢xb5 26.£d3+] 26.¦xa5+! ¢b6 27.£xd4+ ¤xd4 28.¦d5+− ¤e6 29.¦d2 h5
30.b4! ¦c8 31.¢b2 ¦g5 32.a3 h4 33.¦c1 ¥b5 34.d7 ¥xd7 35.¦xd7 ¦xg2 36.¦cd1
1-0

3− Limp,E – Leitão,R, Jogos Abertos 2001: 31...¦xh5+! [Graças a uma operação


tática simples as pretas ganham um peão.] 32.¢g3 [Forçado, pois após 32.¢xh5?
¦h8+ 33.¢g5 g6 as pretas dão mate. Entretanto, após o lance do texto as pretas
ficam com um peão limpo a mais e consegui converter minha vantagem mais tarde.]

4− Leitão,R - Limp,E, Rio Preto, 2005: 20.¥xc6 dxc6 21.¦g4! £e7 22.¥h4 1-0

5− Milos,G - Izeta,F, Santos 2001: 32...¦xf7? [32...¥e5!! Com este lance espetacular
as pretas venceriam. Verdade seja dita , este recurso é dificílimo de ver sem a
ajuda de um computador, ainda mais com pouco tempo no relógio, como era o
caso. 33.¤d6+ (33.¤xe5 ¦xf1+ 34.¦xf1 ¦d1+ 35.¢c2 £d2+ 36.¢b3 £b4+ 37.¢c2
¦d2+ 38.¢c1 £xb2#) 33...¥xd6 34.h7 (34.¦xf8+ ¥xf8–+) 34...¦h2!–+] 33.h7 Agora
Izeta é obrigado a dar xeque perpétuo. 33...¦xb2+ 34.¢xb2 £d4+ 35.¢c2 £d2+
36.¢b1 £b4+ 37.¢c2 ½-½

 
 
 

49 
 
 

V- DESENVOLVENDO A IMAGINAÇÃO

Para aprimorar suas habilidades no cálculo de variantes e na descoberta de recursos


escondidos, é fundamental desenvolver a imaginação. Jogadores que encontram apenas soluções
triviais dificilmente podem aspirar à maestria. Mas em que exatamente consiste a imaginação em
um contexto enxadrístico? Como desenvolvê-la? Qual sua utilidade prática? Estas são as
perguntas que tentarei responder neste breve tratado.
A imaginação transparece ao encontrarmos um bonito recurso tático, uma jogada que
parece absurda, um tema que permita salvar uma posição aparentemente perdida ou ganhar uma
que parecia empatada. Para desenvolvê-la, devemos, como sempre, trabalhar. O trabalho
consistirá na resolução de composições, acostumando-nos com essa busca pelo impossível.
Testaremos nossa capacidade ao procurar a única solução possível, bonita e inacreditável.
Ao jogar e resolver estudos e composições, treinamos nossa imaginação e a habilidade de decifrar
as idéias do adversário, assim como o cálculo de variantes e a rápida tomada de decisões pelo
método da eliminação.
Comecemos nossos estudos com alguns exemplos de composições que me atraíram no
início de minha carreira enxadrística.

Kubbel 1921
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-vl0
9+-+-+-+-0
9kwq-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+N+-tR-+-0
9K+-zP-+-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Esta é uma das posições mais incríveis que já vi. Foi graças à impressão causada por este
exemplo que fui atraído ao mundo das composições. As brancas têm dama a menos, sem
qualquer possibilidade de conseguir uma fortaleza. É preciso encontrar algum recurso imediato, o
que parece pouco provável.
1.¤d4!!
É difícil de acreditar que este lance leva ao empate, mas é verdade. Devo dizer que 99%
dos meus alunos sugerem imediatamente 1.¦e6? nesta posição. Se este mesmo lance chamou

50 
 
 

sua atenção, não desanime! O problema é que após 1...£xe6 o cavalo de b3 fica cravado,
tornando o tão sonhado 2.¤c5+ lance impossível pelas regras atuais do xadrez.
1...£xd4
Mesmo com toda sua vantagem material, as pretas não conseguem fugir com a
dama.1...£d8 2.¦a3+ ¢b7 3.¦b3+ ¢c8 4.¦b8+ ¢xb8 5.¤c6+=.
2.¦a3+ ¢b5 3.¦b3+ ¢c5 4.¦c3+ ¢d5 5.¦d3!! £xd3
Empate. O rei das brancas está afogado, um dos temas mais presentes em composições.

Perkonoja 1968
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+p+r+-+-0
9-+-+n+-+0
9+-+-+p+L0
9-+-+-mk-+0
9+-+-+N+K0
9-+-+-+-+0
9+-+-+R+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Alguns estudos assemelham-se a posições jogadas no mundo “real”, incluindo lances


mundanos que servem como prelúdio para as idéias mais bonitas e escondidas. Nestes estudos é
particularmente difícil visualizar toda a seqüência do início ao fim. Nestes casos, como veremos
mais tarde, o ideal é jogar a posição contra um parceiro de estudo.
1.¤d4+ ¢e5 2.¦e1+
Na posição inicial as brancas não têm material suficiente para vencer, mas agora a partida
parece estar no fim, já que as pretas perderão uma peça. Mas sempre tenha muita atenção com os
recursos do oponente!
2...¢f6!
2...¢xd4 3.¦d1+ +-
3.¦xe6+ ¢g5
O que fazer agora? Duas peças estão atacadas, mas as tentativas não se esgotaram. É
possível armar uma rede de mate.
4.¤e2! ¢xh5 5.¤f4+ ¢g5 6.¢g3 ¦g7
As pretas estão confinadas a uma defesa passiva agora, tendo apenas movimentos de
torre à sua disposição. Mas para aproveitar isso é preciso ser preciso.
7.¦d6!
7.¦b6 seria um grave erro, pois após 7...¦g8 8.¦e6 b5! As pretas se libertariam.
¦g8 8.¦b6 ¦g7 9.¤e6+ +−

51 
 
 

O tema da precisão está novamente presente na composição abaixo. Em certos casos o


lance menos provável é justamente o que leva à vitória.

Richter 1953
XIIIIIIIIY
9-wQK+-+kwq0
9+-+-+-zp-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+-vL-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

1.¢b7+!!
Apenas movendo o rei para esta casa é possível vencer. 1.¢d7 parece ser o lance de
acordo com as leis da estratégia, mas podemos aprender uma lição importante com este exemplo:
no xadrez o importante não é seguir regras, mas entender os motivos concretos de cada posição.
1...¢h7 2.£h2+ ¢g8 3.£a2+ ¢h7 4.£f7!+−
Agora fica clara a importância do rei em b7. A dama preta está sem casa e após 4...£g8 as
pretas tomam mate.

UTILIDADE PRÁTICA

Mas resolver estudos e problemas realmente o ajudará a jogar xadrez melhor? A resposta
é afirmativa. Resolvendo composições periodicamente, você estará treinando sua habilidade de
cálculo, sua imaginação, a capacidade de perceber os recursos do adversário, entre outros
benefícios.
Se você quiser progredir como enxadrista, seguir o exemplo de Kasparov pode ter suas
vantagens. Vejamos algumas coisas que ele disse a respeito do tema:
“Eu adoro resolver problemas de xadrez e, particularmente, estudos. Estes problemas são
cheio de paradoxos e idéias originais.”

52 
 
 

“Alguns estudos eu gosto de ver e rever.”


“A composição é a mais bonita e misteriosa faceta da arte enxadrística.”
“Foi a beleza e brilhantismo dos golpes táticos no xadrez que me cativaram em minha
infância.”
“O xadrez para mim é uma arte.”
Não é à toa que uma partida de Kasparov, justamente contra o GM brasileiro Jaime Sunye,
mais se assemelha a uma composição. O exemplo é famoso por uma posição contida nas análises
do Kasparov em seu clássico: “O Teste do Tempo”.

Sunye,J − Kasparov,G
Graz, 1981
XIIIIIIIIY
9-+-+-+k+0
9+-+-+pzp-0
9-zp-+-+-zp0
9+-vl-+-tr-0
9P+-+psN-+0
9+Q+-zPn+P0
9-vL-tr-zPP+0
9+-+-+-+K0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas (posição de análise)

Essa era uma posição possível caso Sunye tivesse jogado 42.¢g1-h1 em seu lance
anterior (o brasileiro escolheu 42.¢f1 e foi derrotado). Kasparov havia preparado uma combinação
demoníaca.
42...¥xe3!
42...¦xf2 43.gxf3 exf3 também venceria, mas de forma mais “humana”.
43.fxe3
43.¤e6 ¦xf2 44.gxf3 ¦f1+ 45.¢h2 exf3 46.¤xg5 ¥f4 seria um bonito mate.
43...¦dxg2!! 44.¤xg2 ¦g3
XIIIIIIIIY
9-+-+-+k+0
9+-+-+pzp-0
9-zp-+-+-zp0
9+-+-+-+-0
9P+-+p+-+0
9+Q+-zPntrP0
9-vL-+-+N+0
9+-+-+-+K0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas (posição de análise)

53 
 
 

As pretas têm apenas torre e cavalo, mas isso é o que chamo maximização das forças de
ataque! As brancas não conseguem evitar o mate. Nunca vi posição similar na prática enxadrística.
Certamente a resolução de estudos e composições ajudou o Kasparov na busca por uma solução
tão original.

Um senso estético sofisticado e apreço à beleza no xadrez andam lado a lado com um jogo
de alto nível. Algumas possíveis razões pelas quais solucionar problemas e estudos melhorarão
seu xadrez:
Primeiramente, seu poder de imaginação será desenvolvido com o aumento do
“vocabulário” de idéias táticas e padrões.
Em segundo lugar, a resolução de problemas demanda um pensamento muito lógico,
claro, preciso, bem orientado. Esse tipo de pensamento é muito útil ao jogar xadrez em qualquer
nível.
Vejamos agora outros exemplos práticos que se assemelham a posições de composição: 

Caldeira,A - Leitão,R
Americana, 1996
XIIIIIIIIY
9r+-+kvl-tr0
9zpp+-zppzpp0
9-+n+-+-+0
9wq-+pzP-+-0
9-+-sNnzP-+0
9+-+-+K+P0
9PzPP+-+P+0
9tR-vLQ+L+R0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

Não me perguntem o que o rei branco está fazendo em f3... Está claro que as pretas
devem tratar de explorar isso, mas como?
12...£e1!!
Uma solução fantástica e um dos lances mais bonitos que já joguei.
13.¥e3
Aceitar o presente deixaria as brancas com um peão a menos após 13.£xe1 ¤xd4+
14.¢e3 (14.¢g4?? h5+ 15.¢h4 ¤f5#) 14...¤xc2+ 15.¢e2 ¤xe1 16.¢xe1 e6∓.
13...£g3+
13...¤g5+ seria interessante, mas acredito que a vantagem preta após 14.fxg5 ¤xe5+
15.¢f4 ¤g6+ 16.¢f3 ¤h4+ 17.¢g4 £xe3 18.£d3 não seria tão grande quanto na partida.

54 
 
 

14.¢e2 e6
Graças à manobra tática iniciada com 12...£e1, consegui evitar o desenvolvimento normal
das peças brancas. Agora estou pronto para explorar a deficiência na posição do seu rei.
15.c3 g5!
Uma ruptura típica, ainda mais eficaz nesta posição. A posição branca está perdida. A
continuação foi:
16.fxg5 £xe5 17.¤xc6 bxc6 18.£d4 £xd4 19.¥xd4 ¦g8-+ 20.¦g1 ¦xg5 21.g4 ¦b8 22.b3
c5 23.¥e3 ¤xc3+ 24.¢d3 ¦g8 25.¥f4 ¦b6 26.¥e5 ¤e4 27.¥g2 ¥d6 28.¥b2 c4+ 29.¢c2 ¢e7
30.¥xe4 dxe4 31.g5 cxb3+ 32.axb3 ¦c8+ 33.¢d1 ¦xb3 34.¥f6+ ¢e8 35.¦g4 ¦d3+ 36.¢e1 ¦c2
37.¦xa7 ¥b4+ 0-1
Averbakh,Y - Kotov,A
Zurich,1953
XIIIIIIIIY
9-tr-+-+nmk0
9+p+qvl-+p0
9-+-zp-tr-+0
9zp-zpPzp-+-0
9-+P+Pzp-+0
9+-+-+P+P0
9PzP-wQNvLRmK0
9+-+-+R+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

Uma posição clássica, jogada no famoso torneio de Candidatos realizado em Zurich 53,
sobre o qual foi escrito por David Bronstein um dos melhores livros de xadrez já publicados. As
pretas iniciam uma combinação para atrair o rei branco.
30...£xh3+!!
O custo é uma dama inteira, mas a relatividade do material é uma das facetas mais
interessantes do nosso jogo. A isca foi cara, mas como poderá o rei branco sobreviver ao ataque
de todas as peças restantes?
31.¢xh3 ¦h6+ 32.¢g4 ¤f6+ 33.¢f5 ¤d7
Havia um caminho alternativo para a vitória: 33...¤g4!?. As brancas precisam fazer
contorcionismos para não tomarem mate, mas não há salvação. 34.¤xf4™ (34.¢xg4 ¦g8+ 35.¢f5
¦f6#) 34...¦g8 35.¤h5 ¦hg6 36.£g5™ ¥xg5 37.¢xg4 ¥f4+ 38.¢h3 ¦xg2 39.¤xf4 exf4 e as
brancas perdem devido à sua desvantagem material, algo bem surpreendente se levarmos em
conta que tudo começou com um sacrifício puro de dama.
34.¦g5 ¦f8+ 35.¢g4 ¤f6+ 36.¢f5 ¤g8+ 37.¢g4 ¤f6+
Mais preciso seria 37...¥xg5 38.¢xg5 ¦f7 39.¥h4 ¦g7+ 40.¢f5 ¦hg6 41.¥g5 ¤h6+
42.¥xh6 ¦f7#.

55 
 
 

38.¢f5 ¤xd5+ 39.¢g4 ¤f6+ 40.¢f5 ¤g8+ 41.¢g4 ¤f6+ 42.¢f5 ¤g8+ 43.¢g4 ¥xg5
44.¢xg5 ¦f7 45.¥h4 ¦g6+
45...¦g7+ seria um erro, pois as brancas escapariam da rede de mate com 46.¢f5 ¦hg6
47.£xd6! ¦xd6 48.¢xe5.
46.¢h5 ¦fg7 47.¥g5 ¦xg5+ 48.¢h4 ¤f6 49.¤g3 ¦xg3 50.£xd6 ¦3g6 51.£b8+ ¦g8 0-1

Encerrando esta primeira parte, ofereço um exemplo recente de um dos jogadores mais
imaginativos da atualidade: Alexey Shirov. A posição é impressionante, com recursos de ataque e
defesa que deixariam qualquer compositor orgulhoso!

Gelfand,B − Shirov,A
Odessa (rapid) 2007
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-zp-+-zpk+0
9+-vlR+-zPp0
9-+-+P+-mK0
9+-wQ-+-zPP0
9p+-+-wq-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas. Qual o seu lance?

A posição é muito complicada. É difícil entender o que está acontecendo sem aprofundar
em algumas variantes. Gelfand decide contra-atacar com o óbvio:
41.¦f5?
Soubesse ele o que lhe aguardava, certamente tentaria descobrir algum outro recurso, se
bem que com o tempo escasso dessa partida seria praticamente impossível encontrar a única
chance de defesa: 41.¦xc5! bxc5 42.£e5!!
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-+-zpk+0
9+-zp-wQ-zPp0
9-+-+P+-mK0
9+-+-+-zPP0
9p+-+-wq-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

56 
 
 

O tradicional tema de afogado! As pretas teriam bem mais problemas aqui, ainda que após
42...fxg5+ 43.£xg5+ ¢f7 é bem provável que o peão de a2 decida a partida.
41...£f4+
Este foi o detalhe que escapou a Gelfand! Seria um pouco mais preciso: 41...a1£!
42.£xa1 £f4+!!
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-zp-+-zpk+0
9+-vl-+RzPp0
9-+-+Pwq-mK0
9+-+-+-zPP0
9-+-+-+-+0
9wQ-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Com mate na jogada seguinte, mas a continuação da partida foi suficiente.


42.gxf4 ¥f2+ 43.£g3 ¥xg3+ 44.¢xg3 a1£ 45.¦xf6+ ¢g7 46.e5 b5 47.¢h4 b4 48.¢xh5
£d1+ 49.¢h4 b3 50.e6 b2 51.¦f7+ ¢g8 52.¦b7 b1£ 53.¦xb1 £xb1 54.¢g4 £e4 0-1

UM SEGREDO DA ESCOLA RUSSA

“Uma parte considerável do desenvolvimento da minha habilidade tática se deu com o meu
interesse de jovem pela composição de estudos”. Vasili Smyslov.
“Uma das importantes (se não a mais importante) qualidades de um mestre de xadrez é a
habilidade de calcular variantes com precisão. Para aqueles jogadores que não se sentem
confiantes a esse respeito, é útil resolver estudos”. Mikhail Botvinnik.
A utilização de estudos para melhorar a habilidade de cálculo é um dos segredos da escola
russa. Desde a época do patriarca Mikhail Botvinnik este método já era utilizado. Pude comprová-lo
durante minha visita a Moscou, em 2002, quando o renomado treinador Mark Dvoretsky me
bombardeou com uma série de composições a serem resolvidas, assim como fez com a equipe
olímpica brasileira durante a preparação para a Olimpíada, em 2006.
Mas Dvoretsky gosta de utilizar um método bastante interessante para treinar o cálculo
através de composições: jogar essas posições, com o auxílio de um treinador. Assim é possível
recriar um ambiente de torneio, onde estará presente, além da necessidade de calcular com

57 
 
 

precisão e encontrar recursos de ataque e defesa, a pressão exercida pelo relógio, fazendo com
que o aluno aprenda também a administrar o tempo corretamente.
Este é o treino que proponho. Jogar uma série de posições, de forma desigual, é verdade,
pois o treinador já saberá a solução de todas elas. Mas fazer o quê, os alunos devem sofrer! O
tempo total para cada exemplo será limitado, dependendo do seu rating e da complexidade da
posição, portanto não se pode gastar o tempo em vão. Alguns lances serão simples e você deverá
jogá-los rapidamente, mas será preciso definir os momentos críticos, que demandam mais tempo
de análise. Se o aluno cometer algum erro, então uma punição de tempo é aplicada e volta-se a
posição inicial. É preciso descobrir onde foi cometido o erro e tentar alguma outra variante. Esse
tipo de treinamento é especialmente útil para desenvolver a habilidade de cálculo, a imaginação e
a técnica de tomada de decisões.
Devo chamar a atenção para um erro comum. Ao praticar o cálculo de variantes, não tente,
em qualquer posição, ver tudo até o final. O xadrez é, fundamentalmente, um jogo inexato. Não é
comum que uma posição possa ser completamente exaurida pelo cálculo – geralmente também
será preciso uma avaliação. O tempo para pensar durante uma partida é sempre limitado, e muitos
problemas terão que ser solucionados – o que significa que temos que agir da forma mais
econômica possível. Nosso objetivo não é calcular variantes com a maior profundidade possível,
mas tomar a decisão perfeita. Calcule a mínima (isso mesmo, a mínima!) seqüência de lances
necessária e suficiente para tomar a decisão correta. Cálculo de variantes
desnecessariamente profundo leva ao cansaço e apuro de tempo e, como conseqüência, a
erros.
A habilidade em evitar o cálculo de variantes desnecessário é tão importante quanto a
habilidade de calcular profunda e precisamente. Esse é um elemento importante para a técnica de
cálculo.

Vlasak,1977
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+p+-0
9-+-+-+-+0
9+-+P+p+P0
9-+-+-+-+0
9+-+-+P+-0
9p+p+-zPQvl0
9mk-+-mK-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

Como um enxadrista prático raciocina? 1.£g7+? ¢b1 não tem sentido, e se 1.£xh2?

58 
 
 

c1£+, as pretas rapidamente promoverão seu peão de "a" também. Isso significa que só há uma
possibilidade de continuar a luta.
1.¢d2 ¢b2 2.£g7+ ¢b1 3.£a1+! ¢xa1
Pelo método da eliminação estabelecemos os lances obrigatórios. Agora podemos
prender o rei no canto de duas formas: 4.¢xc2 ou 4.¢c1. Não havia qualquer necessidade de
decidir isso com antecedência. Este é um novo problema - só precisamos resolvê-lo agora, quando
temos a posição à nossa frente. Note que após 4.¢xc2? ¥f4! as brancas estão em zugzwang. Isso
significa que novamente temos que fazer nosso lance sem necessidade de cálculo profundo.
4.¢c1! ¥e5
Agora temos que checar 5.h6. Não é difícil de ver que as brancas terminam em um
zugzwang interminável. 5.h6 ¥f4+ 6.¢xc2 ¥xh6 7.d6 ¥f4 8.d7 ¥g5 9.f4 ¥d8 10.¢c1 ¥a5 11.¢c2
¥c7! 12.f3 ¥b6 13.¢c1 ¥a5 14.¢c2 ¥c7 15.¢c1 ¥xf4+ 16.¢c2 ¥g5 17.f4 ¥d8 18.¢c1 ¥a5 19.¢c2
¥c7–+. Então o que devemos fazer? Um fio de esperança reside na idéia de forçar ...f7-f6, já que o
peão em f6 atrapalharia as manobras de bispo.
5.f4! ¥d6!
5...¥xf4+? levaria à derrota após 6.¢xc2 f6 7.f3+-.
6.¢xc2 ¥xf4 7.f3 f6
O objetivo foi alcançado. Infelizmente, agora tanto 8.d6 quanto 8.h6 alcançam o empate, o
que de certa forma diminui a beleza da composição.
8.d6
8.h6 ¥xh6 9.d6 ¥f8 10.d7 ¥e7 11.¢c1!=.
8...¥xd6 9.h6 ¥f8 10.h7 ¥g7 11.f4!=

POSIÇÕES PARA SEREM JOGADAS ENTRE OS ALUNOS

Algumas posições podem ser jogadas de igual para igual, sem que um dos jogadores saiba
a solução. Ambos treinam e ganham benefícios e satisfação de um encontro como esse.
Mas em um estudo, os jogadores não são equivalentes. As brancas geralmente têm os
problemas mais interessantes para serem resolvidos. Com jogo correto, elas sempre conseguem
sucesso. O adversário corre o risco de se sentir dominado. Ele sabe que, por mais que tente, o
resultado provavelmente não será em seu favor. Apenas estudos que têm um conteúdo muito rico,

59 
 
 

com uma batalha longa e de duplo gume são recomendáveis para jogar em conjunto.
A posição seguinte deverá ser jogada com algum amigo enxadrista, com um ritmo de jogo
de 1h 30mins para cada um. Antes de iniciar a partida, cada adversário pode analisar a posição
por 30 minutos, podendo inclusive mexer as peças. A solução se encontra ao final do capítulo.

Pervakov 1992

XIIIIIIIIY
9-+-tr-+-+0
9+-+-+-zP-0
9l+-zP-+-mk0
9+-+N+-+-0
9-+-+p+-+0
9+-+-zP-+-0
9P+-+-+N+0
9+-+-+-+K0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

EXERCÍCIOS

Neste capítulo, a área reservada aos exercícios será um pouco maior do que de costume,
sendo dividida em duas partes. A primeira será composta por composições a serem resolvidas,
calculando as variantes do início ao fim, sem mexer as peças. A segunda parte será para o tipo de
treinamento que acabamos de ver, sendo necessária a presença de um amigo ou treinador que
conheça a solução dos exercícios. O tempo para jogar cada uma dessas posições, supondo um
jogador com força aproximada de 2300 pontos de rating, será de 15 minutos.Use o bom senso
caso você tenha mais ou menos que essa força estimada. Combine a punição a ser aplicada após
cada erro. Resolvendo continuamente exercícios como os aqui propostos, em pouco tempo você
notará grande evolução em sua capacidade de cálculo.

60 
 
 

PARTE I
3
XIIIIIIIIY
1
9-+-mK-+-+0
XIIIIIIIIY 9+-+Rzp-mk-0
9-+-+-+K+0 9-+-+-+-zp0
9+-+r+-+r0 9+r+-+-+-0
9-+-+-mkn+0 9-+-+-+-zP0
9+-+-+p+-0 9+-+-+-zP-0
9-+-+-zP-+0 9-+p+-+-+0
9+-+-+-sN-0 9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0 xiiiiiiiiy
9+-+-tR-tR-0 Jogam as brancas
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas 4

XIIIIIIIIY
9-+-+-+-tr0
9+pzp-+pmk-0
2 9pvlp+-zp-+0
XIIIIIIIIY 9+-+-snP+-0
9-+-+-+-+0 9-+-+rvL-+0
9vl-zp-+-zp-0 9+-+-+-zP-0
9Lmk-+-+-+0 9PzPP+L+KzP0
9+-+-sN-+-0 9+-+RtR-+-0
9-+-+-+-+0 xiiiiiiiiy
9+-+-+-+-0 Jogam as pretas
9-+-+-+-+0
9sN-+-+-mK-0
xiiiiiiiiy 5
Jogam as brancas XIIIIIIIIY
9r+l+-tr-+0
9+p+psNpmkp0
9-+-zpn+p+0
9+-zpN+-+P0
9-+PsnP+-+0
9wq-+-wQP+-0
9p+-+LmKP+0
9+R+-+-+R0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

61 
 
 

PARTE II (Jogam as brancas em todos os exercícios)

Gerbstman,A 1961

XIIIIIIIIY Gorgiev,T 1928


9-+K+-+-+0
9+-+-+-+-0 XIIIIIIIIY
9kzP-+-+P+0 9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0 9+-zp-+-+K0
9-+-+-+-+0 9-+-+-+-+0
9+-+-+-+p0 9+-+-+-+k0
9-+-tr-+-zP0 9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0 9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy 9-+-+-+PzP0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy

Kralin, Kuznetsov 1966 Chernenko 1980

XIIIIIIIIY XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0 9-+-+-+-+0
9zP-+-+-+-0 9+-+-+-+-0
9-+-+-+p+0 9P+-+-+-+0
9+-+-+-zPp0 9+-+-+-+l0
9-+-+R+-mK0 9-+-zp-+p+0
9+-+-+-+-0 9+-+Kzp-mkp0
9p+-+L+-zp0 9-+-+P+-+0
9+-+-+-mk-0 9+-+-+L+-0
xiiiiiiiiy xiiiiiiiiy

Matous,M 1986

Pogosiants,E 1973 XIIIIIIIIY


9-+-+lvl-+0
XIIIIIIIIY 9+-+-+-+-0
9-+-+-+k+0 9-+-+-+-tR0
9+-+-+Nzp-0 9+-+-+-+-0
9-+-+n+-+0 9-+-+-+kvL0
9+-wQq+-zPK0 9+-+p+-+-0
9-+-+-+-+0 9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0 9+-+-+-+K0
9-+-+-+-+0 xiiiiiiiiy
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy

62 
 
 

Lewit,M 1933

XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-vl-+-+-zP0
9mkP+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+K+-0
9-zP-+-+-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy

63 
 
 

SOLUÇÕES PARTE I

1) 1.¤h5+ ¦xh5 2.¦xg6+ ¢xg6 3.¦e6#

2) 1.¥e2! ¢b7+ 2.¢g2 ¥d4 3.¤b3 ¥xe5 4.¤a5+ ¢a8 5.¤c6 ¥d6 6.¥a6 g5 7.¢f3 ¥f4
8.¢g4 ¥d2 9.¢f5 ¥f4 10.¢e6 g4 11.¢d7 g3 12.¢c8 g2 13.¥b7#

3) 1.¦c7! ¦b8+ 2.¢xe7 ¦b7 3.¦xb7 c1£ 4.¢e6+ ¢g6 5.h5+! ¢xh5 6.¦g7=

4) 1...¥f2! 2.¢xf2 ¦xh2+ 3.¢f1 ¦exe2 4.¦xe2 ¦h1+ 5.¢f2 ¦xd1³

5) 1.£h6+! ¢xh6 2.hxg6+ ¢g5 3.¦h5+! ¢xh5 4.f4+ ¤xe2 5.¤f6+ ¢h6 6.¦h1+ ¢g7 7.¤e8+
¦xe8 8.¦xh7+ ¢f8 9.¦xf7#

SOLUÇÕES PARTE II

1) Gerbstman,A 1961: 1.g7! ¦c2+ 2.¢b8! ¦g2 3.b7 ¦xg7 4.¢a8! ¦g8+ 5.b8£ ¦xb8+
6.¢xb8 ¢b6 7.¢a8!=

2) Kralin, Kuznetsov 1966: 1.¥f3 h1£+ 2.¥xh1 a1£ 3.a8£ £xa8 4.¦e1+ ¢h2 5.¥e4! £a1
6.¦b1!+−

3) Pogosiants 1973: 1.¤h6+ ¢h7 2.£c2+ ¢h8 3.£c8+ ¤f8 4.£xf8+ ¢h7 5.£g8+! £xg8
6.g6+ ¢h8 7.¤f7+ £xf7 8.gxf7 g6+ 9.¢h6+−

4) Gorgiev, T 1928: 1.g4+ ¢g5! 2.¢g7! c5 3.h4+! ¢xg4 4.¢g6!=

5) Chernenko 1980: 1.a7 ¥g6+ 2.¢xd4 ¥e4 3.¢xe4 h2 4.¥g2 ¢xg2 5.¢xe3! h1£
6.a8¥+!+− [6.a8£+ ¢g3 7.£xh1=]

6) Matous,M 1986: 1.¦e6 d2 2.¦e4+ ¢h3 3.¥e1! ¥c6 4.¢g1 ¥c5+ 5.¢f1 ¥b5+ 6.¦e2
d1£=

7) Lewit,M 1933: 1.¢e4 ¥d8 2.b6! ¢a6 [2...¢xb6 3.¢f5+-] 3.¢e5 ¥g5 4.h7 ¥c1 5.¢d6
¥xb2 6.¢c7! [6.¢c6 ¥e5=] 6...¥e5+ 7.¢c6+−

64 
 
 

SOLUÇÃO DA POSIÇÃO A SER JOGADA ENTRE ALUNOS:

Pervakov 1992: 1.¤gf4 ¥c8 2.g8£! ¦xg8 3.¤e7 ¦h8 4.¤xc8 ¢g5+! 5.¢g1!! [5.¢g2?
¦xc8 6.d7 ¦g8 7.d8£+ (7.d8¦ ¢h4+! 8.¦xg8=) 7...¢h6+ 8.£xg8=] 5...¦xc8 6.d7 ¦g8 7.d8¦! ¢h4+
8.¤g2+! ¢h3 9.¦d2 +−

65 
 
 

VI- LANCES CANDIDATOS

A técnica de lances candidatos é, na minha opinião, a mais importante ferramenta para um


cálculo preciso. O procedimento de aplicação dos lances candidatos está muito bem descrito no
livro “Pense Como um Grande Mestre”, de Alexander Kotov.
De acordo com a técnica de Kotov - que subiu de jogador de primeira categoria a grande-
mestre, graças ao seu treinamento incansável para melhorar o cálculo -, os candidatos devem ser
determinados imediatamente e listados com precisão. Esse trabalho não pode ser feito por partes,
analisando um lance e só então procurando por outro.
É muito importante antes de aprofundar no cálculo de variantes formular uma lista dos
lances candidatos e ir repetindo este processo, tanto para suas opções quanto para as do
adversário. Utilizando este método, muitas vezes você encontrará recursos que estavam
escondidos, surpreendendo seu oponente ou defendendo-se contra suas ameaças. Especialmente
em algumas posições que demandam muita imaginação e organização no cálculo, o uso dos
lances candidatos é de extrema importância. Nestas posições, para obter sucesso você precisará
ver um lance a mais ou um lance diferente do que o adversário calculou. Disciplinando-se para
procurar os candidatos, você conseguirá isso com mais facilidade. Entretanto, antes de utilizar este
método durante uma partida, você deverá praticá-lo bastante em seu treinamento caseiro.
Tratamos aqui de uma mudança de atitude mental, algo que leva um certo tempo, além de muita
prática. Portanto, reserve duas semanas de treinamento específico para a aplicação dos Lances
Candidatos. Ao final deste período, você será capaz de organizar o cálculo de forma quase
automática.
Para o propósito de treino de lances candidatos, você deve tentar resolver exercícios em
que a principal dificuldade não seja a procura por idéias bonitas e camufladas, mas sim a
necessidade de examinar um grande número de variantes, visualizando várias jogadas à frente.
Vejamos, então, um brilhante exemplo de ataque, contra-ataque e cálculo preciso. Nos
exercícios sugeridos, tente organizar seu cálculo conforme a sugestão acima, não se esquecendo
de listar as jogadas e idéias de interesse antes de aprofundar no cálculo.

Short,N − Kasparov,G
Novgorod, 1997

1.e4 c5 2.¤f3 d6 3.d4 cxd4 4.¤xd4 ¤f6 5.¤c3 a6 6.¥c4


Este sistema para enfrentar a Najdorf foi a principal arma de Nigel Short em seu match
pelo campeonato mundial da PCA, disputado contra o próprio Kasparov.
6...e6 7.0-0 ¥e7 8.¥b3 0-0 9.f4 b5 10.e5 dxe5 11.fxe5 ¤fd7
Outro lance teórico é 11...¥c5.
12.¥e3

66 
 
 

12.£h5.
12...¤xe5 13.£h5 ¤bc6
13...¤c4÷.
14.¤xc6 ¤xc6 15.¦f3 b4
Certamente ambos os jogadores conheciam muito bem esta posição. As opções seriam
15...g6?! ou 15...£d6.
16.¦h3 h6 17.¦d1?!
As brancas tinham duas outras continuações. 17.¤e4 levaria a uma posição muito
confusa, mas acredito que 17.¥xh6! seria o lance correto, garantindo vantagem às brancas. É
preciso destacar que 17.¦g3? seria totalmente errado, pois as pretas ganham material após
17...bxc3 18.¦xg7+ ¢xg7 19.¥xh6+ ¢g8! 20.£g4+ ¥g5 21.¥xg5 £d4+. 17.¥xh6! g6 (17...gxh6?
XIIIIIIIIY
9r+lwq-trk+0
9+-+-vlp+-0
9p+n+p+-zp0
9+-+-+-+Q0
9-zp-+-+-+0
9+LsN-+-+R0
9PzPP+-+PzP0
9tR-+-+-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

18.¦d1!!
Lances candidatos! À primeira vista 18.£xh6 é automático, mas nesse caso a dama preta
auxilia na defesa. Com o uso disciplinado dos lances candidatos é possível encontrar a melhor
jogada branca. 18.£xh6 £d4+ 19.¢h1 £g7 20.¦g3 £xg3 21.hxg3 bxc3 e as pretas escapam.
18...£b6+ 19.¢h1
Agora a dama preta fica afastada da defesa.
19...¥g5 20.¤e4 com um ataque decisivo. Sugiro ao leitor que confira esta avaliação e
analise as linhas de ataque.
Após 17...g6, a partida segue com: 18.£f3 bxc3 19.£xc6 cxb2 20.¦f1! ¥d7 21.£c3 ¥f6!
22.¦xf6 b1£+ 23.¦f1 £b6+ 24.¦e3 £xf1+ 25.¢xf1 f6. As pretas não estão perdidas, mas está claro
que sua posição é difícil. As brancas podem recapturar o material sacrificado e continuar seu
ataque sem risco: 26.¥xf8 ¦xf8 27.£d3 com vantagem.
17.¤e4 também seria interessante e daria compensação após 17...£a5 18.¤c5©.
17...£a5 18.¤d5!
É preciso evitar a troca de damas de qualquer maneira.
18...exd5 19.¦g3
Se 19.¦xd5?! as pretas poderiam escolher uma linha de empate com 19...£c7 20.¥xh6

67 
 
 

(20.¦g3 ¥f6 21.¥xh6 ¤e7) 20...¥xh3 21.¥xg7! ¢xg7 22.¦g5+ = ou tentar forçar a partida com
19...¥xh3! 20.¦xa5 ¤xa5 21.£xa5 ¥e6 ³. Após o lance do texto as pretas têm uma decisão critica.
O ataque branco é extremamente perigoso. O fato de a posição ser bem matemática reduz
a lista dos lances candidatos disponíveis.
XIIIIIIIIY
9r+l+-trk+0
9+-+-vlpzp-0
9p+n+-+-zp0
9wq-+p+-+Q0
9-zp-+-+-+0
9+L+-vL-tR-0
9PzPP+-+PzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as pretas?

19...d4?!
Quando defendemos essas posições, geralmente faz sentido começar a análise pelos
lances mais concretos, que forcem trocas ou definições. Kasparov acaba decidindo-se por uma
dessas opções. Ele omitiu uma defesa melhor, que lhe daria vantagem. Lembremos, entretanto,
que em 97 ainda não se usava tanto os programas de análise. Supondo que a posição ainda fosse
conhecida por Kasparov (uma suposição bastante lógica). Iso pode explicar o erro em suas
análises caseiras.
19...¥g5 seria outra jogada bem concreta. A partida terminaria em empate. 20.¥xg5 hxg5
21.£xg5 g6:
a) 22.¥xd5? ¥e6!;
b) 22.¦xd5? £b6+ 23.¦c5 ¤d4 (23...¢g7!? 24.¥xf7 ¤e7!∓) 24.£xg6+ £xg6 25.¦xg6+
¢h7∓;
c) 22.£f6! £c5+ 23.¢h1 ¤e7 24.¦xd5! ¤xd5 25.¦xg6+ com xeque perpétuo;
19...¥f6! é a resposta correta para a pergunta do diagrama. Com este lance as pretas
defenderiam o ataque e conservariam sua vantagem material. Claro, para fazer um lance calmo
como esse em meio a esse ataque, é preciso muito sangue-frio e de preferência um bom
computador. As variantes seguintes comprovam a defesa preta.
a) 20.¥xd5 ¥e6
(20...£c7 também é possível. 21.¥xh6 (21.£xh6? £xg3) 21...¤e7!? (21...¥e6 22.¥xg7 ¥xg7
23.¦xg7+ ¢xg7 24.£g5+=) 22.¥xa8 ¤f5!„)

a1) 21.£f3 ¥e5! 22.¥xc6 ¦ad8–+;


a2) 21.¥xh6 ¦fd8–+ (21...¤e7–+) ;

68 
 
 

a3) 21.£xh6 ¥e5! 22.¥e4 (22.¥xe6 ¥xg3–+) 22...¦fd8! 23.£h7+ ¢f8–+;

b) 20.£xh6 £c7!–+. Eis a principal idéia da defesa preta. Agora se 21.£xf6 £xg3 e o
conhecido tema tático garante a vitória;
c) 20.¥xh6 ¤e7–+;
d) 20.¦xd5 £c7 21.¥xh6 (21.£xh6?? £xg3) 21...¤e7 e as pretas defendem, por exemplo:
22.¥xg7 £b6+ 23.¢h1 ¥xg7 24.¦dg5 ¤f5 25.¦h3 (25.¦xg7+ ¤xg7 26.£g5 £d4™–+ Único e bom.)
25...£h6 26.£xh6 ¤xh6 27.¦xh6 ¦e8–+.
20.¥d5
Outro momento importante. As brancas tinham duas continuações de interesse: 20.£xh6
£e5 21.¥f4 £f6 22.¦g6 ¥e6! 23.¥xe6 (23.¦xf6? gxh6–+) 23...fxe6 24.¦d3! ¤e5 25.¦xg7+ £xg7
26.¦g3 £xg3 27.£xe6+ ¤f7 28.¥xg3 ¦fe8, com vantagem preta.
20.¦xg7+!? forçaria as pretas a encontrar uma defesa forçada. 20...¢xg7 21.¥xh6+
(21.£xh6+ ¢g8 22.£g6+=) 21...¢h7 22.¥d5?! Criando ameaças de mate e recusando o empate.
XIIIIIIIIY
9r+l+-tr-+0
9+-+-vlp+k0
9p+n+-+-vL0
9wq-+L+-+Q0
9-zp-zp-+-+0
9+-+-+-+-0
9PzPP+-+PzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas. Qual a melhor defesa?

22...£xd5!
Um tema muito importante no cálculo de variantes (derivado dos lances candidatos) é o
"método da eliminação". Trata-se do seguinte: primeiro escolhemos corretamente a lista dos lances
candidatos (algo que não é difícil em uma posição cheia de ameaças como essa). Depois, ao
começarmos a análise de cada lance, vamos descartando aqueles em que vemos alguma
refutação. Se ao final desse processo sobrar apenas um lance que não é refutado imediatamente,
então devemos escolhê-lo, sem necessidade de aprofundarmos mais. No xadrez moderno é
extremamente importante ser prático e saber economizar tempo e energia. Vejamos como esse
trabalho funciona na posição do diagrama. Quais os lances candidatos para as pretas? 22...£xd5
(típico método defensivo, devolvendo parte do material) ou 22...¥g4. 22...¥e6 é analisado aqui
mais por motivos "científicos", pois durante a partida você nem precisa considerá-lo. Se sua análise
foi perfeita, você concluiu que 22...¥g4 levaria a um ataque muito perigoso para as brancas,
enquanto 22...£xd5 acaba com o ataque e leva a uma posição sem riscos. 22...¥g4?! 23.£xg4

69 
 
 

¢xh6 24.¦d3. A posição é assustadora, mas as pretas ainda têm recursos. 24...¥g5™ 25.¦h3+
¢g6 26.£h5+ ¢f6 27.¦f3+ ¢e7 28.£xg5+ f6 29.£f5 com forte ataque. Uma continuação possível
seria: 29...¢d8 30.£e6 £c5 31.¥xc6 ¦a7 32.¦f5 ¦e7 33.¦d5+ ¢c7 34.£f5! £xc6 35.¦c5 com clara
vantagem. 22...¥e6? seria ainda pior: 23.¥f4+ ¢g7 (23...¢g8 24.¦d3+-) 24.£h6+ ¢g8 25.¦d3+-.
23.£xd5 ¢xh6 24.£xc6+ ¥e6 e as pretas têm vantagem. Após o lance da partida, 20.¥d5,
novamente as pretas precisam defender com maestria.
XIIIIIIIIY
9r+l+-trk+0
9+-+-vlpzp-0
9p+n+-+-zp0
9wq-+L+-+Q0
9-zp-zp-+-+0
9+-+-vL-tR-0
9PzPP+-+PzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Analise esta posição e conclua como a partida deve proceder

20...¥g5!
Uma excelente jogada defensiva. A dama em a5, aparentemente longe da luta, tem
importância fundamental na defesa! Havia uma forma mais complicada de empatar: 20...dxe3
21.£xh6 g5!! Este lance pode ser descoberto pelo método da eliminação. As brancas não têm
nada melhor que o empate. 22.£g6+ =.
21.¥xg5!
Short, por sua vez, encontra uma bonita seqüência, que conclui essa magnífica partida
com um resultado justo.
21...£xd5 22.¥f6 £xh5 23.¦xg7+ ¢h8 24.¦g6+ ¢h7 25.¦g7+ ½-½

O próximo exemplo é especial em minha carreira, pois ocorreu no torneio em que consegui
minha norma final de grande-mestre. Além do mais, considero esta a melhor partida que já joguei.

Leitão,R - Baburin,A
Bermuda, 1998

1.d4 d5 2.c4 dxc4 3.e3 e6 4.¥xc4 c5 5.¤f3 a6 6.0-0 ¤f6 7.¤c3 b5 8.¥b3 ¥b7 9.£e2
¤bd7 10.e4 cxd4 11.¤xd4 ¥c5 12.¥e3 £b6 13.¦fd1 ¤e5
O sistema de abertura das brancas é inofensivo e as pretas já têm cômoda igualdade.
14.¦ac1 ¦c8?
Um lance normal, mas era preciso tirar o rei do centro o quanto antes. 14...0–0 15.f3 ¦fd8

70 
 
 

16.¤c2 =.
XIIIIIIIIY
9-+r+k+-tr0
9+l+-+pzpp0
9pwq-+psn-+0
9+pvl-sn-+-0
9-+-sNP+-+0
9+LsN-vL-+-0
9PzP-+QzPPzP0
9+-tRR+-mK-0
xiiiiiiiiy
Encontre uma possibilidade tática para as brancas

15.¤a4!!
Uma jogada incrível, explorando alguns temas táticos complexos. O detalhe é que o
empate já seria bom para mim nesta partida, em um torneio em que eu buscava minha última
norma de GM. Mas simplesmente não pude resistir a este lance...Em toda minha carreira, está é a
jogada mais forte que já fiz.
15...bxa4 16.¥xa4+ ¢e7
Uma difícil decisão. A opção era cobrir o xeque com um dos cavalos. 16...¤fd7
XIIIIIIIIY
9-+r+k+-tr0
9+l+n+pzpp0
9pwq-+p+-+0
9+-vl-sn-+-0
9L+-sNP+-+0
9+-+-vL-+-0
9PzP-+QzPPzP0
9+-tRR+-mK-0
xiiiiiiiiy
Quais os lances candidatos das brancas?

Minha idéia ao sacrificar a peça era prosseguir – em todos os casos – com 17.¦xc5 e
tentar explorar os temas táticos originados pelas diversas cravadas. Entretanto, a técnica dos
lances candidatos deve ser utilizada não apenas para encontrar temas na posição inicial da
análise, mas também nos diversos ramos de sua árvore. Neste caso, fazendo uma lista dos
candidatos, é possível observar um outro tema tático que pode ser explorado: a jogada b2-b4!?.
Aqui temos, portanto, duas jogadas de interesse: 17.¦xc5 e 17.b4.

I) 17.b4!?:

71 
 
 

a) 17...¥xb4 18.¤c6 £xc6 (18...¤xc6 19.¥xb6 ¤xb6 20.¥xc6+ ¦xc6 21.¦xc6 ¥xc6
22.£xa6+-; 18...¦xc6 19.¥xb6 ¦xb6 20.¦c7+-; 18...¥xc6 19.¥xb6 ¤xb6 20.£xa6+-; 18...£xe3
19.fxe3 ¤xc6 20.¥xc6 ¦xc6 21.¦xc6 ¥xc6 22.£xa6+-; 18...¥c5 19.¤xe5+-) 19.¥xc6 ¤xc6
(19...¥xc6 20.f4 ¤g6 21.£xa6 ¤e7 22.¦xc6 ¦xc6 23.£a8+ ¦c8 24.£b7+-) 20.£b2±;
b) 17...¥xd4 18.¥xd4 £xb4 19.¥xd7+ ¤xd7 20.¦b1±;
c) 17...£xb4 18.¥xd7+ ¤xd7 19.¦b1. As brancas recuperam a peça e conservam a iniciativa.

II) 17.¦xc5 ¦xc5 (17...£xc5 18.¤xe6‚) 18.¤b3 ¥c6 19.¤xc5 ¤xc5 20.¥xc6+ £xc6
21.¦c1 £xe4 22.¦xc5 0–0 23.h3².

Já 16...¤ed7? seria um erro, pois haveria uma significativa diferença na linha principal.
17.¦xc5! (17.b4!? também seria possível aqui, com idéias similares às analisadas em resposta a
16...¤fd7). 17...¦xc5 (17...£xc5 18.¤xe6 £b4 19.¥xd7+ ¤xd7 20.¤xg7+ com forte ataque, por
exemplo: 20...¢d8 21.¥g5+ ¢c7 22.¥f4+ ¢d8 23.£g4+-) 18.¤b3 ¥c6 19.¤xc5 ¤xc5 20.¦d6!+-.

17.¦xc5!
Este é o detalhe tático por trás de 15.¤a4.
17...¦xc5
17...£xc5 18.¤f5+ exf5 19.¥xc5+ ¦xc5 20.exf5+-.
18.¤b3
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-tr0
9+l+-mkpzpp0
9pwq-+psn-+0
9+-tr-sn-+-0
9L+-+P+-+0
9+N+-vL-+-0
9PzP-+QzPPzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Quais os lances candidatos das pretas e qual deve ser escolhido?

18...¦hc8?
Ao enfrentar uma difícil decisão, meu adversário erra e perde a partida imediatamente.
18...¤xe4 era forçado. 19.¤xc5 ¤xc5 20.£d2!. Agora as brancas criam desagradáveis ameaças:
b2-b4 ou ¥xc5 seguido. de £g5+. As pretas devem seguir com cuidado. 20...¥d5! 21.b4 ¤e4
(21...¤xa4 leva a uma posição de desequilíbrio material em que prefiro as brancas: 22.¥xb6 ¤xb6
23.£g5+ f6 24.£xg7+ ¤f7²) 22.¥xb6 (22.£b2 ¤c4) 22...¤xd2 23.¦xd2². Considero esta a melhor
seqüência para ambos os lados após 15.¤a4. As brancas têm uma pequena vantagem no final.
19.¤xc5 ¦xc5

72 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+l+-mkpzpp0
9pwq-+psn-+0
9+-tr-sn-+-0
9L+-+P+-+0
9+-+-vL-+-0
9PzP-+QzPPzP0
9+-+R+-mK-0
xiiiiiiiiy
Como as brancas arrematam?

20.b4!
Visão combinatória e lances candidatos!
20...£xb4 21.£d2 1-0

Leitão,R − Stohl,I
Istanbul (ol), 2000

1.e4 c5 2.¤f3 d6 3.d4 cxd4 4.¤xd4 ¤f6 5.¤c3 a6 6.¥e2 e6 7.0-0 ¤bd7
Um desenvolvimento incomum do cavalo na Scheveningen. Este sistema é uma
especialidade do GM eslovaco.
8.a4 b6 9.f4 ¥b7 10.¥f3 £c7 11.¢h1 ¦d8 12.£e1
Devido a algumas particularidades da posição que só descobri em minhas análises
caseiras, cheguei à conclusão que o desenvolvimento correto da dama seria em e2.
12.£e2! ¥e7 13.e5 dxe5 14.fxe5 £xe5
Aqui fica clara a diferença entre a dama em e2 e e1. Agora 14...¤xe5? perderia para
15.¥f4+-.
15.£xe5 ¤xe5 16.¥xb7
16.¤xe6?! seria outro lance candidato. Sempre esteja atento aos lances intermediários! A
análise que segue é bem interessante, mas comprova a ineficácia da tentativa branca: 16...¥xf3
17.¤xg7+ (Após 17.¤xd8 ¥a8∓ as brancas perderiam material) 17...¢f8 18.¤f5 ¥c6 19.¥h6+ ¢e8
20.¤xe7 (20.¦ae1 seria pior: 20...¦g8! 21.¤xe7 (21.¤g7+ ¢d7 22.¦xe5 ¤g4–+; 21.¦xe5 ¥xg2+
22.¢g1 ¥xf1+ 23.¢xf1 ¦d7∓) 21...¥xg2+ 22.¢g1 ¢xe7 23.¦xe5+ ¢d6 com clara vantagem preta.)
20...¢xe7 21.¥g5 ¦hg8! 22.¥xf6+ ¢e6 23.¥xd8 ¥xg2+ 24.¢g1 ¥xf1+ 25.¢xf1 ¦xd8 e as pretas
têm uma leve vantagem no final, graças às suas peças mais ativas.)
16...¦xd4 17.¥xa6². Com par de bispos e maioria no flanco dama, as brancas podem
pressionar. Obviamente essas variantes eram impossíveis de se prever sem preparação caseira
adequada.

73 
 
 

12...¥e7 13.£g3
Agora 13.e5 é perigoso, pois com as damas no tabuleiro o preto pode criar temas de mate
após 13...dxe5 14.fxe5 ¤xe5 15.¥xb7 (15.¥f4? ¤xf3) 15...¦xd4„.
13...0-0 14.e5
Não é possível conseguir vantagem com o temático salto de cavalo: 14.¤d5 ¤xd5 15.exd5
¥xd5 16.¥xd5 exd5 e as pretas não têm o que temer. O lance do texto inicia complicações e a
posição demanda cálculo concreto.
XIIIIIIIIY
9-+-tr-trk+0
9+lwqnvlpzpp0
9pzp-zppsn-+0
9+-+-zP-+-0
9P+-sN-zP-+0
9+-sN-+LwQ-0
9-zPP+-+PzP0
9tR-vL-+R+K0
xiiiiiiiiy
Qual a melhor defesa?

14...¤e8?!
Meu adversário opta por uma continuação segura, mas passiva, que dá a iniciativa às
brancas. Este era um momento crítico para o cálculo, já que as brancas acabam de sacrificar um
peão. De fato, 14...dxe5! 15.fxe5 ¤xe5 seria a continuação correta (note que 15...£xe5 16.£xe5
¤xe5 17.¥xb7 ¦xd4 18.¥xa6² leva a uma posição similar à que avaliamos nos comentários à
jogada 12 das brancas). Parece assustador aceitar o peão de e5, já que o cavalo fica cravado
depois de 16.¥f4 (as opções não servem: 16.¥xb7? ¦xd4 17.¥xa6 ¤h5∓; 16.¥h6 ¤e8 17.¤xe6?
fxe6 18.¥xb7 £xb7 19.£xe5 gxh6 20.£xe6+ ¢h8∓), mas é preciso continuar a análise. 16...¥d6.
Agora as brancas têm duas opções:
I- 17.¤db5?! axb5 18.¤xb5.
a) 18...£xc2?! 19.¤xd6 ¤xf3 20.¤xb7÷;
b) 18...¤xf3 19.¤xc7 ¤h5 20.¥xd6 (20.£f2 ¥xf4 21.£xb6 ¦b8∓) 20...¤xg3+ 21.¥xg3 ¤d4³;
c) 18...¥xf3 19.¤xc7 ¤h5 20.£h4 (20.£xf3 ¤xf3 21.¥xd6 ¦xd6 22.¦xf3 ¦c6∓) 20...¤g6 21.£f2
(21.£xd8 ¥xg2+!) 21...¤hxf4 22.£xf3 ¥xc7³).

II- 17.¥xb7 ¤h5! 18.£e1 ¤xf4 19.¥xa6 com equilíbrio.


15.¥e3 g6?
Este lance natural é um erro grave. Era preciso primeiro retirar o cavalo branco do
centro.15...¥xf3 16.¤xf3 g6².

74 
 
 

XIIIIIIIIY
9-+-trntrk+0
9+lwqnvlp+p0
9pzp-zpp+p+0
9+-+-zP-+-0
9P+-sN-zP-+0
9+-sN-vLLwQ-0
9-zPP+-+PzP0
9tR-+-+R+K0
xiiiiiiiiy
Como você jogaria com as brancas?

Nas posições da Siciliana é preciso estar atento para aproveitar as chances táticas. Aqui
não há espaço para um jogo puramente conceitual. Quais os nossos candidatos? Está claro que o
enérgico 16.f5 deve ser incluído. As outras possibilidades são mais calmas, como 16.¥xb7 ou o
desenvolvimento da torre de a em d1 ou e1. Nestes casos, é preciso analisar o lance mais
matemático primeiro, pois se a avaliação for satisfatória não precisaremos analisar os demais.
16.f5!
Tive que fazer um cálculo longo e preciso para me decidir a essa jogada. Previ a
continuação que ocorreu na partida até o lance 21.
16...¥xf3
O mais difícil. As opções eram: 16...dxe5 17.fxg6 hxg6 18.¤xe6! fxe6 19.£xg6+ ¤g7
20.¥h6 ¥f6 21.¥xb7 £xb7 22.¤e4+-; 16...exf5 17.¥xb7 £xb7 18.¤xf5 ¤xe5 19.¤d5+-; 16...¤xe5
17.¥xb7 £xb7 18.¥h6 exf5 19.¤xf5±.
17.fxe6!
17.f6? ¥xf6 18.exf6 ¥b7 19.¥h6 ¤exf6 20.¥xf8 ¦xf8³.
17...¥b7
XIIIIIIIIY
9-+-trntrk+0
9+lwqnvlp+p0
9pzp-zpP+p+0
9+-+-zP-+-0
9P+-sN-+-+0
9+-sN-vL-wQ-0
9-zPP+-+PzP0
9tR-+-+R+K0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

18.¤f5!

75 
 
 

Stohl não viu este lance. A posição das pretas não tem defesa.
18...¤xe5
18...fxe6 19.¤xe7+ ¢h8 20.£h3+-.
19.¥xb6!
O detalhe tático por trás de toda a combinação. Sem este lance 18.¤f5 não teria sentido.
19...£xb6 20.¤xe7+ ¢h8 21.¤ed5+−
Agora o avanço e6-e7 torna-se inevitável. As brancas ganham material.
21...¥xd5 22.¤xd5 £xb2 23.e7 ¤g7 24.£h4 ¦c8 25.¤f6 h5 26.exf8£+ ¦xf8 27.£g5
¤g4 28.¤d7
¹28.¤xg4 hxg4 29.£xg4+-.
28...¦c8
28...¦e8! 29.h3 ¤f2+ 30.¢h2 ¤e4 31.£h6+ ¢g8 32.¦ae1 £b7 33.¦xe4 £xd7±.
29.h3 £b7?
29...¤f2+ 30.¢h2+-; 29...¤e6 30.£e7 ¤h6 era a única defesa.
30.¦xf7 1-0

Leitão,R − Eliet,N
Charleroi, 2006
XIIIIIIIIY
9-+l+-tr-+0
9zp-+-+kzpQ0
9-zp-+p+-zp0
9+-tr-zP-+q0
9-+nsN-+-+0
9+-+-+-+-0
9P+-+-zPP+0
9+L+RtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

27.¦d3?
Infelizmente, neste caso o autor não seguiu seu próprio conselho. Empolgado com a
possibilidade de um ataque de mate imediato, me esqueci de calcular os lances candidatos
corretamente e acabei perdendo uma partida decisiva. Lembre-se: aprenda com os seus erros!
27.f4!+-
Lances “calmos” como este são difíceis de encontrar, pois em posições de ataque
tendemos a analisar jogadas mais forçantes. Justamente por isso, devemos fazer uma lista dos
candidatos mais tranqüilos, pois nem sempre a tática direta funciona.
27...¤e3 (27...¥b7 28.¤xe6! ¢xe6 29.¥g6 £g4 30.f5+ ¦xf5 31.£g8+ +-) 28.¤f3! ¤xd1

76 
 
 

29.¤g5+ ¢e7 30.¥g6 +-.


27...¤xe5 28.¦h3
28.¦g3 ¤g4.
28...£g5 29.f4? £xf4 30.¤b3
30.¤e2 £g5 31.¦g3 ¤g4–+.
30...¢e8!-+
Não vi este lance. As pretas conseguiram vantagem decisiva e acabaram vencendo.

Alsina Leal,D − Leitão,R


Barcelona, 2006

1.e4 d6
A Pirc é uma defesa pouco jogada atualmente, mas ao meu ver sem razão, pois não existe
um caminho provado para a vantagem branca.
2.d4 ¤f6 3.¤c3 g6 4.f4 ¥g7 5.¤f3 0-0 6.¥d3
Uma das variantes principais.
6...¤a6 7.0-0 c5 8.d5
Agora temos uma estrutura de Benoni, ótima para quem precisa da vitória com as pretas.
8...¥g4 9.¥c4 ¤c7 10.h3 ¥xf3 11.£xf3 e6
Ruptura central típica nessa estrutura, objetivando maior espaço para a posição preta. A
opção é 11...¤d7.
12.dxe6 fxe6 13.¥e3
Outra linha importante é 13.¦d1 £e7 14.e5 dxe5 15.£xb7, com jogo complicado.
13...b6
Evitando os temas com a captura do peão de b7. 13...£e7 14.e5 dxe5 15.£xb7÷
14.¦ad1 £e7 15.¦fe1
Agora o avanço 15.e5 não seria perigoso: 15...dxe5 16.£b7 (16.£c6 ¥h6„) 16...¢h8
(16...¦fb8 17.£c6© ¥h6) 17.fxe5 (17.¤b5 ¤fd5 18.¥xd5 ¤xd5 19.£xe7 ¤xe7 20.¤c7 ¤d5!)
17...¤fd5„; 15.a4 é uma jogada temática. Provavelmente eu responderia com 15...a6.
15...¤d7 16.£g4
Eu teria preferido 16.£e2, que é a continuação mais natural. A posição estaria equilibrada
após 16...¦ad8 17.a4 ¢h8.
16...¢h8
16...a6 17.a4 ¢h8 evitaria a continuação da partida, mas não há motivo para temê-la.
17.¤b5?!
Esse plano não é perigoso para as pretas. A troca de cavalos só daria vantagem se o
branco pudesse recapturar com o peão.

77 
 
 

17...¤xb5 18.¥xb5 ¤f6


Aceitar o peão de b2 seria totalmente errado. Esse é o tipo da variante que não precisa ser
analisada completamente, basta um senso de perigo adequado para perceber que aos 18...¥xb2?
19.e5! d5 20.c4 d4 21.¥f2 o bispo preto fora de jogo deixaria as pretas sem recursos suficientes
para proteger o rei.
19.£h4
Mais ou menos forçado, pois a dama estaria muito mal em f3. 19.£f3 ¤h5³.
19...£c7!
Lances que cumprem várias funções são muito importantes em uma partida. A jogada da
partida tira a dama da cravada, controla a casa e5 e prepara o avanço c5-c4.
XIIIIIIIIY
9r+-+-tr-mk0
9zp-wq-+-vlp0
9-zp-zppsnp+0
9+Lzp-+-+-0
9-+-+PzP-wQ0
9+-+-vL-+P0
9PzPP+-+P+0
9+-+RtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

20.e5!?
Agora as complicações táticas se iniciam. A jogada mais “tranqüila” seria 20.¥d2, mas com
jogo preciso as pretas teriam bom jogo. 20...a6! (20...c4?! 21.¥b4± e 20...d5?! 21.e5 ¤e4 22.¥d3!±
seriam insatisfatórios) 21.¥f1 b5 22.e5 ¤d5 23.exd6 £xd6„.
20...dxe5 21.fxe5 ¤d5!
Durante a partida analisei algumas variantes e pressenti que as brancas teriam
compensação após 21...£xe5. As análises comprovaram que haveria igualdade neste caso.
22.¥c1 (22.c3©) 22...£f5 (22...£h5 23.£xh5 ¤xh5 24.¦xe6=) 23.¥d3 £h5 24.£xh5 ¤xh5 25.¦xe6
¤f4=.
22.¥h6?!
Fiquei muito surpreso com este lance. Durante a partida acreditava que já estava ganho
nesse momento. Ainda que isso não seja verdade, a jogada do texto leva a grandes dificuldades
práticas. Meu adversário tinha duas continuações bem mais seguras, que levariam ao equilíbrio.
Inicialmente é preciso apontar 22.c4? seria um erro, pois o branco não teria ataque após 22...¤xe3
23.¦xe3 ¥xe5, já que 24.¦d7?? leva mate: 24...¥h2+ 25.¢h1 ¦f1#. Mas 22.¥g5 seria suficiente:
22...¥xe5 23.£e4 ¦f5 (23...¥xb2 24.£xe6©) 24.c4 ¦xg5 25.cxd5 exd5 26.¦xd5 ¥h2+ 27.¢h1 ¦xd5
28.£xd5 ¦f8 29.£c6=. 22.¥c1 também seria possível, pois depois de 22...¥xe5 23.£e4 as brancas

78 
 
 

teriam compensação suficiente.


22...¥xh6 23.£xh6
XIIIIIIIIY
9r+-+-tr-mk0
9zp-wq-+-+p0
9-zp-+p+pwQ0
9+LzpnzP-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+P0
9PzPP+-+P+0
9+-+RtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

23...c4!
Meu adversário provavelmente não viu este avanço. Agora a situação do bispo em b5 é
precária e só por um milagre as brancas conseguem escapar.
24.¦f1
24.¢h1 levaria a uma transposição.
24...£c5+ 25.¢h1 ¤e3
Chegamos ao momento crítico da partida. Eu estava confiante que a partida estava
terminada. A posição branca parece perdida e meu oponente estava em apuro de tempo.
Entretanto, ao analisar um pouco mais a posição, encontrei um espetacular recurso de defesa, que
Alsina não desperdiçou.
XIIIIIIIIY
9r+-+-tr-mk0
9zp-+-+-+p0
9-zp-+p+pwQ0
9+Lwq-zP-+-0
9-+p+-+-+0
9+-+-sn-+P0
9PzPP+-+P+0
9+-+R+R+K0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

26.b4!!
É importante explicar o processo para colocar este lance na lista dos candidatos, já que ele
é muito difícil de ver imediatamente. É preciso antes entender algumas sutilezas da posição. As
brancas têm um tema de mate indefensável com a jogada ¦d1-d7, mas se 26. ¦d7, as pretas

79 
 
 

chegam primeiro após 26... ¦xf1+, com mate forçado. È necessário antes defender a casa f1. Aqui
vale um conselho: em algumas posições só percebemos certos temas táticos depois de analisar
variantes. Toda vez que um novo tema for descoberto, vale a pena voltarmos à posição inicial e
nos perguntarmos se este tem influencia nossa lista inicial de candidatos. Em muitos casos
descobriremos um lance que não havíamos considerado.
Após 26.b4 foi minha vez de resolver um difícil problema. Como defender?
26...£xb4™
Absolutamente forçado. 26...cxb3?? 27.¦d7 levaria mate.
27.¦xf8+?
Apurado por tempo, o jovem MI espanhol deixa escapar a continuação correta. A partida
terminaria em xeque perpétuo após 27.¦d7 ¦xf1+ 28.¢h2 ¦h1+ 29.¢xh1 £e1+ 30.¢h2 ¤f1+
31.¢g1=.
27...¦xf8 28.¦d7??
Agora tudo termina. Era preciso jogar 28.£xe3 £xb5µ se bem que as brancas não teriam
muitas chances aqui.
28...£e1+ 29.¢h2 ¤f1+ 30.¢h1 ¤d2+ 31.¢h2 £xe5+
31...¤f3+ também daria mate.
0-1

80 
 
 

EXERCÍCIOS

XIIIIIIIIY
9r+l+-+rmk0
9zpp+-+-zp-0
9-+nwq-+-zp0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0 4
9+-+LvL-+-0
9PzPPmK-wQP+0 XIIIIIIIIY
9tR-+-+-+R0 9-+-+-+k+0
xiiiiiiiiy 9zpl+-+-zp-0
Jogam as brancas 9-zp-+-wqPzp0
9+-+p+Q+-0
9-+-zP-+-+0
9vLP+p+-+-0
2
9P+r+-+-zP0
XIIIIIIIIY 9+-+-tR-mK-0
9-+-+-sn-+0 xiiiiiiiiy
9+-+-+-+-0 Jogam as pretas
9-+-+-+-+0
9+-+-zp-+-0
9-+-+P+-mk0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0 5
9+-+R+-+K0
xiiiiiiiiy XIIIIIIIIY
Jogam as brancas 9-+k+-+-+0
9+-vl-+-+-0
9pzp-+-+-+0
9+-+-zp-+-0
3
9-zP-+-+P+0
XIIIIIIIIY 9+KzP-+p+-0
9r+-+-trk+0 9-zP-tR-+-+0
9+p+-+pzpp0 9+-+-+-+-0
9-+ptR-wq-+0 xiiiiiiiiy
Jogam as brancas
9vl-+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-vL-zP-0
9PzPP+-zP-zP0
9+-mKQ+-+R0
xiiiiiiiiy
Analise os recursos das pretas.

81 
 
 

SOLUÇÕES:

1) Rine - Sprinckle EUA, 1981: 1.¥c5! [1.¥xh6? gxh6 2.£f7 ¦g7=; 1.£f7?! ¤e5!
2.¦xh6+ £xh6 3.£d5!÷] 1...£d5 [1...£f6? 2.£xf6 gxf6 3.¦xh6+ ¢g7 4.¦h7#;
1...£c7 2.£f6!!+-; 1...£e5 2.¦ae1 £xb2 (2...£g5+ 3.¥e3+-) 3.£f4+-] 2.£f4! [2.£f6?
£xd3+; 2.¦xh6+? gxh6 3.£f6+ ¦g7 4.¦h1 £g5+; 2.£e3?! £e6] 2...¦d8 [2...£xc5
3.¦xh6++-; 2...£xg2+ 3.¢c3+-; 2...h5 3.£e4!+- (3.¦ae1 £xc5 4.¦e5!+-) ] 3.¦xh6+!
¢g8 4.¦h8+! ¢xh8 5.£h4+ ¢g8 6.£h7+ ¢f7 7.£g6+ ¢g8 8.£h7+ ¢f7 9.¦f1+
¥f5 10.¦xf5+ £xf5 11.£xf5+ ¢g8 12.¢c1 1-0

2) Gurvich, 1958: 1.¢g2! [1.¦d6? ¢g3!=; 1.¦d8? ¤e6! (1...¤g6? 2.¢g2 ¢g4
3.¦g8+-) 2.¦e8 ¤g5 3.¦xe5 ¢g4 4.¦e8 (4.¢g2 ¢f4 5.¦f5+ ¢g4=) 4...¢f4 5.e5
¢f5=] 1...¢g4 2.¦d6! ∆¢f2-e3 +- 2...¤h7 3.¢f2 ¢f4 4.¦h6! ¤g5 5.¦h4#

3) Chernyshev - Ostrivnoy, Stavropol, 1967: As pretas não tem compensação


suficiente pelo peão. Para contrariar essa avaliação, elas podem tentar a seguinte
investida tática: 1...¥d2+!? 2.£xd2 [2.¢b1?? foi jogado na partida. 2...£xd6–+;
2.¦xd2?? ¦xa2–+; 2.¢xd2?? £xd6+] 2...¦xa2 3.£d3! Com este lance as brancas
defendem e mantêm a peça a mais. Muitos livros dão 3.£b4 como linha principal,
levando ao empate. 3...¦d8! 4.¢b1! (4.¦xd8+? £xd8 5.¢b1 £a8 -+) 4...¦da8!
5.¢c1! ¦d8! a) 5...£f3? 6.¦e1; b) 5...c5? 6.£b6! (6.¥xc5? £f3 7.¦e1 ¦a1+ 8.¢d2
¦xe1 9.¢xe1 ¦a1+ 10.¢d2 ¦d1#; 6.£xc5?! ¦d8! 7.¦xd8+ £xd8) ; 6.¢b1! ¦da8!=.
Após 3.£d3! as brancas conseguem vantagem decisiva, portanto podemos concluir
que a posição inicial é vantajosa.

4) Maroczy - Bogolyubov, Nova Iorque, 1924: 1...¦c1!! [1...£xf5?? 2.¦e8+;


1...¦c8?? 2.£xc8+; 1...¦e2? Este lance é insuficiente, pois as pretas não
conseguem converter sua vantagem no final que segue. 2.¦xe2! (2.¦f1? Este foi
jogado na partida, que terminou em vitória preta após 2...£xd4+ (2...£xf5 3.¦xf5
¦e8–+) 3.¢h1 £f6! 0–1) 2...dxe2 3.£xf6 gxf6 (3...e1£+ 4.£f1=) 4.¢f2 ¥a6. Agora
a forma mais simples de empatar é 5.¥d6 ¥d3 6.¥b8 a6 7.¥c7 b5 8.¥a5 ¢g7
9.¢e3 ¥b1 10.¢xe2 ¥xa2 (10...b4 11.¢d2!) 11.b4 ¢xg6 12.¢e3=] 2.¥xc1 [2.£xf6
¦xe1+ 3.£f1 d2–+] 2...£xf5 3.¦e8+ £f8 4.¦xf8+ ¢xf8 5.¢f2 ¥c8!-+ ∆¥f5 x g6.
Com essa estrutura, ao contrario do que ocorre apos 1...¦e2?, o preto pode

82 
 
 

explorar sua vantagem material.

5) Alekhine - Tartakower, Viena, 1927: 1.¦d5!! "As variantes que explicam este
lance aparentemente estranho (a torre ataca um peão protegido e deixa o outro
peão passado avançar) se mostrarão simples se a idéia básica for compreendida:
os peões pretos são inofensivos quando 1) estão em casas da mesma cor do
bispo, pois o rei pode lidar com eles facilmente; 2) a torre branca consegue atacá-
los por trás sem perda de tempo" (Alekhine). As análises seguintes são do
Dvoretsky, com algumas pequenas correções que apontarei com a sigla RDL.
1.¢c4?! e4 2.¢d4 ¥f4 3.¦f2? e3 4.¦xf3 e2–+; 1.¢c2?! e4 2.¦d4! e3 3.¢d3 e2
4.¢d2 ¥g3 5.¦e4 ¥h4 6.¦e5 (6.g5! é uma melhor tentativa, mas as pretas têm
chances de empate após 6...¥xg5+ 7.¢e1 a5! RDL ) 6...¥g3=; 1.g5?! e4 2.g6
(2.¦d5? f2 3.¦f5 e3 4.g6 ¥e5!–+) 2...¥e5 3.¦f2 ¢d7 4.¦f1 ¢e6 5.¢c2÷; 1.¦h2!? e4
2.¦h8+ ¢d7 3.¦f8 ¥g3! 4.g5 ¥d6! (4...e3? 5.¦xf3 e2 6.¦d3+!+-) Até aqui análises
do Dvoretsky parecem corretas, mas ele segue com uma variante estranha: 5.¦f6
¥e5 6.¦f7+ ¢e6, avaliando a posição como empatada. Entretanto, após: 5.¦f7+
¢e6 6.g6 ¥e5 7.¢c2, a vantagem branca deve ser decisiva. 1...e4 [1...f2 2.¦d1 e4
3.¢c2 ¥f4 4.¦f1+-] 2.¦f5 ¥g3 [2...¢d7 3.¢c4+-] 3.g5 ¢d7 [3...e3 4.¦xf3 e2 5.¦e3
e1£ 6.¦xe1 ¥xe1 7.g6+-] 4.g6 ¢e6 5.g7 ¢xf5 6.g8£ ¥f4 7.£f7+ ¢g4 8.£g6+
¥g5 9.£xe4+ ¢g3 10.£g6 ¢f4 11.£xb6 1-0

83 
 
 

VII- DESENVOLVENDO A INTUIÇÃO

Durante uma partida de xadrez, em raríssimas ocasiões somos capazes de analisar


variantes puramente matemáticas, que levem de forma forçada a uma clara melhora em nossa
posição. Na imensa maioria das vezes, algo deve guiar nosso cálculo. Na maioria das posições
a compreensão posicional faz esse trabalho. Em outras situações devemos ser guiados por
nossa intuição.
No xadrez a intuição funciona, por exemplo, para absorver rapidamente os elementos
mais importantes de uma posição, “sentir” onde cada peça estará melhor colocada, avaliar
posições de cálculo complexo sem ter que analisar tudo. Sua importância não pode ser
menosprezada. Alguns jogadores têm uma intuição naturalmente desenvolvida. Entre os
grandes, podemos citar Capablanca, Petrosian, Karpov, Anand. Outros são de uma escola
mais analítica, gostam de provar concretamente o valor de suas jogadas. Entre os analíticos,
podemos citar Fischer e Kasparov. Mas, qualquer que seja o estilo do jogador, ele deve
trabalhar tanto para aprimorar sua intuição quanto sua análise.
Necessitamos especialmente da intuição em posições de apuro de tempo, em que
temos que tomar decisões complexas rapidamente. Em todos os exercícios seguintes, haverá
uma severa restrição de tempo para o leitor escolher sua jogada. Outro caso típico se dá
quando devemos escolher entre duas continuações aparentemente equivalentes,mas que
provoquem mudanças na posição. Esta é uma decisão das mais difíceis no xadrez, mesmo
quando temos bastante tempo. Neste capítulo, ajudaremos o leitor a treinar sua tomada de
decisões nesses casos.
Mas, afinal, é possível treinar a intuição? Sim, existem formas de treinamento
específicas para essa habilidade. A dificuldade é extrair bons exemplos para isso. Em alguns
casos será preciso a ajuda de um amigo ou treinador, mas também é possível praticar
individualmente – afinal, sabemos que a imensa maioria dos enxadristas brasileiros são
autodidatas.
Uma forma muito interessante de treinamento foi mostrada por Dvoretsky (sim,
novamente ele!) quando esteve no Brasil. Para essa atividade é preciso um controle estrito do
tempo. Escolha uma posição muito complicada, que necessite de muita análise para escolher a
jogada correta. Em seguida, coloque 5 minutos no relógio para tomar sua decisão. Após esse
tempo, anote o lance que jogaria. Agora, coloque 10 minutos no relógio e analise novamente a
posição. Veja se sua decisão mudou ou não após uma maior reflexão. Depois compare suas
análises com as do livro.
Utilizaremos esse método na parte inicial do nosso treinamento de intuição. Em todos
os exercícios seguintes, utilize esta fórmula (5 minutos – decisão inicial + 10 minutos – decisão
final) e veja se concorda com as minhas sugestões. Como é o caso com a maioria dos
exemplos desta apostila, as posições seguintes são extraídas das minhas partidas.

84 
 
 

Leitão,R − Lima,D
Rio Preto, 2005
XIIIIIIIIY
9-tr-tr-snk+0
9zppwq-vlpzpp0
9-+l+p+-+0
9+-+-zP-sN-0
9-+-zP-+Q+0
9+-+L+-+-0
9P+-+-zPPzP0
9+RvL-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Avalie a jogada 17.¦b3

Como você deverá ter percebido nessa primeira experiência, o tempo sugerido não é
suficiente para analisar todas as complicações iniciadas com 17. ¦b3. A decisão final terá que
ser tomada intuitivamente, mesmo após os 10 minutos adicionais. Na posição inicial as brancas
devem escolher entre as complicações que se iniciam com a passagem da torre pela terceira
fila, seguido de um sacrifício em h7, ou uma continuação mais calma, como 17.¥e3, por
exemplo. Qual a mais correta? Difícil de dizer, mas durante a partida avaliei que as pretas não
teriam grandes problemas após continuações mais calmas. Algo me dizia que o branco teria,
no mínimo, compensação suficiente após o sacrifício. Não consegui analisar todas as
variantes, mas não pude resistir à continuação mais ativa.
17.¦b3!? ¥d5 18.¥xh7+
Curiosamente, apenas durante o processo de revisão desta apostila, me ocorreu a
idéia de sacrificar em h7 com outra peça, 18.¤xh7, que teria ao menos o mesmo valor que a
jogada da partida. Lances Candidatos! Então 18... ¤xh7 seria ruim (ver análise do lance 19...
¢xh7). O correto é 19...¥xb3! 19.¤f6+ ¥xf6 20.exf6 ¤g6 (20...g6?! 21.£h4 com ataque)
21.axb3 (21.¥xg6 fxg6 22.¥f4? ¦xd4) 21...gxf6 (21...¦bc8 também é possível, mas as brancas
têm compensação.) 22.¥xg6 fxg6 23.¥f4 £f7 24.¥xb8 ¦xb8, com posição equilibrada.
18...¤xh7 19.¤xh7
Agora as pretas têm uma difícil decisão sobre que peça capturar. Darcy provou estar à
altura do desafio.
19...¥xb3!
19...¢xh7 seria muito perigoso. As brancas teriam o empate já garantido, além de
boas chances de conseguir um ataque de mate. Em geral é muito cômodo atacar quando se
tem a segurança de um perpétuo à mão, caso necessário. 20.¦h3+ ¢g8 21.£h5
(21.¥h6 também é interessante, mas as pretas escapam. 21...g6 (21...¥f8 22.¥f4ƒ)
22.¥g5 ¢f8 23.¦c1 (23.¦h8+ ¢g7 24.¦h7+ ¢xh7 25.£h4+ ¢g8 26.¥xe7 ¥f3!? (26...f5 27.£f6
¦d7 28.£xg6+ ¢h8=) 27.gxf3 (27.¥f6 ¥h5) 27...¦xd4 28.£xd4 £xe7 com provável empate.)
23...¥c6 24.¦h8+ ¢g7 25.¥f6+ ¥xf6 26.exf6+ ¢xf6 27.£h4+ g5 28.¦h6+ ¢e7 29.£xg5+ ¢e8
(29...¢d7? 30.d5!) 30.£g8+=)

85 
 
 

21...f5 22.£g6! com forte ataque. A bateria ¦h7-£h5 é um clássico. (22.£h7+ garante
o empate. 22...¢f7 23.£h5+=)
20.¤f6+ ¢f8!
Mais um lance preciso. 20...¥xf6? perderia: 21.exf6 g6 22.£h3 £d6 23.¥h6 ¥d1
(23...£d5 24.g4+-) 24.¦xd1 £e5 25.¥g7 £h5 26.¦d3+-.
21.£h4 ¥xf6 22.exf6 gxf6 23.axb3
O lance do texto dá compensação prática para as brancas – ainda que tecnicamente a
posição preta seja melhor. Mais preciso seria 23.¥f4!, que levaria ao empate. 23...£b6 (23...e5
é perigoso: 24.dxe5 fxe5 25.axb3 ¦d5 26.£h8+ ¢e7 27.¥g5+ ¢d7 28.£f6 com ataque.)
24.¥xb8 (24.£xf6 ¥c4) 24...¥c4 25.¦c1 £xd4 26.£xd4 ¦xd4 27.¥xa7=.
23...£d6! 24.£xf6 £xd4 25.£f3³
A posição é difícil de jogar, pois as casas pretas estão muito debilitadas. Com pouco
tempo no relógio, Lima decide aceitar o empate.
25...£d3 26.£f6 £d4 27.£f3 ½-½
Uma batalha interessante, na qual ataque e defesa se equipararam.
No exemplo seguinte uma boa preparação teórica me garantiu uma perigosa iniciativa
na abertura, mas meu cálculo nas complicações não foi bom o suficiente para garantir a vitória.

Leitão,R − Otero,D
Santa Clara, 2003

1.e4 e5 2.¤f3 ¤c6 3.¥b5 a6 4.¥a4 d6 5.0-0 ¥d7 6.d4


Pouco antes de minha viagem a Cuba, havia preparado esta linha que envolve um
sacrifício de peão. Esta foi a primeira (e até agora única) oportunidade que tive de utilizar este
sistema.
6...b5 7.¥b3 ¤xd4 8.¤xd4 exd4 9.c3 dxc3 10.£h5!? g6 11.£d5 ¥e6 12.£c6+ ¥d7
13.£xc3 ¤f6
O primeiro momento crítico da partida. Estava confiante em minha compensação nesse
momento. Dois lances me pareceram promissores: 14.e5 e 14.¦e1. Conforme o modelo de
tempo sugerido, decida qual deles jogaria.
XIIIIIIIIY
9r+-wqkvl-tr0
9+-zpl+p+p0
9p+-zp-snp+0
9+p+-+-+-0
9-+-+P+-+0
9+LwQ-+-+-0
9PzP-+-zPPzP0
9tRNvL-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Como você jogaria de brancas?

14.e5!

86 
 
 

A decisão é extremamente complicada e é impossível analisar todas as linhas durante


a partida. Devemos calcular as principais variantes, mas no final somente a intuição poderá nos
ajudar. 14.¦e1 era muito tentador, já que após 14...¥g7 15.e5 dxe5 16.£xe5+ ¢f8 17.¤c3, as
brancas conseguem ótima compensação. Mas será que não deixamos escapar algum recurso
nessa linha? Após 16.£xe5+ as pretas teriam um recurso espetacular:
XIIIIIIIIY
9r+-wqk+-tr0
9+-zpl+pvlp0
9p+-+-snp+0
9+p+-wQ-+-0
9-+-+-+-+0
9+L+-+-+-0
9PzP-+-zPPzP0
9tRNvL-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas

16...¥e6!!
Só descobri este lance em minhas análises caseiras. De acordo com meu cálculo
durante a partida, portanto, deveria ter jogado 14.¦e1, mas algo me dizia que 14.e5 era melhor.
Algumas vezes nossa intuição estará certa, assim como muitas vezes ela nos deixará na mão.
Mas com o treinamento correto, vamos ganhando uma percepção mais rápida das posições, o
que nos ajudará a ter mais acertos do que erros. Depois de 16...¥e6 a posição torna-se muito
perigosa para o branco, como as análises seguintes demonstram:
17.¥xe6 0–0!
Esta é a idéia. As pretas têm uma grande vantagem de desenvolvimento, que
compensa a peça.
18.¥b3
a) 18.¤c3 ¦e8, recuperando a peça com vantagem;
b) 18.¥h3 ¦e8 19.£c3 ¤g4 20.¦xe8+:
b1) 20.£d2 £xd2 21.¥xd2 (21.¦xe8+ ¦xe8 22.¤xd2 ¦e1+ 23.¤f1 ¤e5∓) 21...¦xe1+
22.¥xe1 ¥xb2 23.¥c3 (23.¥xg4 ¥xa1∓) 23...¥xa1 24.¥xa1 ¦e8³;
b2) 20.£a5
XIIIIIIIIY
9r+-wqr+k+0
9+-zp-+pvlp0
9p+-+-+p+0
9wQp+-+-+-0
9-+-+-+n+0
9+-+-+-+L0
9PzP-+-zPPzP0
9tRNvL-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as pretas?

87 
 
 

Este não é exatamente um problema de intuição, mas podemos aproveitá-lo. A melhor


jogada é 20...£d3!∓,criando a terrível ameaça de ¥g7-c3, por exemplo: 21.¥xg4 ¥c3! 22.£xc3
£xc3 23.¦f1 £b4∓.
Após 20.¦xe8+ a partida segue 20...£xe8 21.£a5 (21.£d3 ¥d4∓) 21...¤xf2! 22.¢xf2
¥d4+ 23.¢f1 £c6 com forte ataque.
Então o branco deve tentar 18.¥b3, mas neste caso também as pretas conseguem
compensação de forma similar: 18...¦e8 19.£c3 ¤g4 20.¥xf7+!?
Interessante tentativa de devolver material para escapar, mas que não resolve os
problemas. As opções, entretanto, são mais perigosas: a) 20.£d2 £xd2 21.¥xd2 (21.¦xe8+
¦xe8 22.¤xd2 ¦e1+ 23.¤f1 ¥d4–+) 21...¦xe1+ 22.¥xe1 ¥xb2 23.¥c3 ¦e8∓; b) 20.¦xe8+ £xe8
21.£d3 ¥d4 22.¤d2 £e1+ 23.£f1 ¦e8 24.g3 ¥xf2+ 25.¢h1 ¦e2–+.
20...¢xf7 21.£b3+ ¢f8 22.¦f1³ (22.¦xe8+ £xe8 23.¥d2 £f7∓).
Talvez seja mais prudente para as brancas jogar 16.¦xe5+, mas nenhuma vantagem é
conseguida nesse caso. 16...¢f8 (16...¥e6÷ também é possível) 17.£c5+ ¢g8 18.¦e7 ¥e8
19.£xc7 ¤d7 20.£xd8 ¦xd8 com igualdade.
Vimos, portanto, que com jogo imaginativo a posição preta não é pior após 14.¦e1.
Mas depois de 14.e5! é possível conservar a iniciativa.
14...b4!?
Um lance interessante, que eu não havia analisado e que é uma novidade nessa
posição. Meu cálculo tinha previsto apenas 14...dxe5 15.£xe5+ £e7 16.£xc7 ¥g7 17.¥g5 0–0
18.¤c3 com vantagem. O lace do texto tira a casa c3 do cavalo, caso o branco tente prosseguir
de forma semelhante. Como você jogaria agora?
XIIIIIIIIY
9r+-wqkvl-tr0
9+-zpl+p+p0
9p+-zp-snp+0
9+-+-zP-+-0
9-zp-+-+-+0
9+LwQ-+-+-0
9PzP-+-zPPzP0
9tRNvL-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas?

15.£g3?!
De agora em diante meu jogo foi impreciso e a vantagem desaparece. As brancas têm
3 lances candidatos: 15.£g3, 15.£xb4 e 15.£f3. 15.£xb4 daria certa compensação após
15...dxe5 16.£c4 (16.£a5 ¥d6 (16...c5 17.£c3©) 17.¤c3©) 16...¥e6 17.£c6+ ¥d7 18.£f3 ¥g7
19.¥g5©. Mas o mais preciso seria 15.£f3!, um lance que não entrou na minha lista de
candidatos durante a partida. Após 15...dxe5 16.¦e1, as brancas têm vantagem, por exemplo:
16...¥g7 (16...¥e7 17.¥h6) 17.¦xe5+ ¥e6 (17...¢f8±) 18.¥xe6 fxe6 19.£c6+ ¢f8 20.¦e1 ¤d5
(20...£d5 21.£xc7²; 20...£e8 21.£xc7 ¤d5 22.£g3²) 21.¦xe6 ¢f7 22.¤d2.

88 
 
 

15...dxe5 16.£xe5+ £e7 17.£xc7 ¥g7


17...¥b5 seria ruim: 18.£xe7+ ¥xe7 19.¦e1ƒ.
18.¥f4
18.¥d2 0–0 19.¦e1 ¤e4„.
18...¦c8 19.£b6 ¦c6 20.£b8+
Desperdiçando a última chance de conseguir vantagem, com 20.£b7! 0–0 21.¤d2².
20...¦c8 21.£b6 ¦c6 22.£b8+ ¦c8 ½-½

Leitão − De Souza,M
São Paulo, 2006

1.d4 ¤f6 2.c4 e6 3.¤f3 b6 4.g3 ¥a6 5.b3 ¥b4+ 6.¥d2 ¥e7 7.¥g2 c6 8.¥c3 d5 9.¤e5
¤fd7 10.¤xd7 ¤xd7 11.¤d2 0-0 12.0-0 ¦c8 13.¦e1 c5 14.cxd5 exd5 15.e4?! dxe4 16.¤xe4
¤f6

16...f5! 17.¤d2 cxd4 18.¥xd4 ¤f6„ seria melhor. Agora eu poderia jogar o natural
17.dxc5, tentando conseguir uma pequena vantagem no final. Entretanto, achei que a posição
após 17...¤xe4 18.¥xe4 £xd1 19.¦axd1 ¥xc5 20.¦d7 ¥xf2+ 21.¢xf2 ¦xc3 22.¦xa7 ¥d3 seria
insuficiente para a vitória. Visualizei uma possibilidade tática com 17.d5, mas não havia tempo
para analisar todas as complicações. Tente calcular as variantes e avalie este lance.
XIIIIIIIIY
9-+rwq-trk+0
9zp-+-vlpzpp0
9lzp-+-sn-+0
9+-zp-+-+-0
9-+-zPN+-+0
9+PvL-+-zP-0
9P+-+-zPLzP0
9tR-+QtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Avalie 17.d5

17.d5!?
Objetivamente, um símbolo de ?! ou até mesmo ? seria o mais correto para avaliar este
lance, mas ele cria grandes complicações táticas que nem sempre podem ser resolvidas
durante a partida, como foi o caso do presente exemplo. Em geral sou um jogador sólido e não
gosto de me aventurar em complicações arriscadas, mas concluí que seguindo continuações
normais não teria chances de vencer esta partida.
17...¤xd5 18.¥xg7!
Esta é a idéia do lance anterior.
18...¢xg7 19.£g4+ ¢h8 20.£f5

89 
 
 

As brancas têm uma peça inteira a menos, mas é possível especular com a posição
debilitada do rei preto e também com a possível cravada do cavalo de d5. Agora as pretas
devem tomar uma decisão.
XIIIIIIIIY
9-+rwq-tr-mk0
9zp-+-vlp+p0
9lzp-+-+-+0
9+-zpn+Q+-0
9-+-+N+-+0
9+P+-+-zP-0
9P+-+-zPLzP0
9tR-+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual a melhor defesa para as pretas?

20...¥b7?
Este lance não resolve os problemas defensivos.O lance de computador 20...¥d3 era
uma opção, se bem que parece muito estranho para um humano defender a posição após
21.¦ad1 ¤b4. As peças pretas estão em uma situação desagradável, mas aparentemente não
há como explorar isso imediatamente, se bem que a posição continuaria totalmente confusa
após 22.¦e3. A defesa mais sólida seria 20...¦c7!. Durante a partida, calculei 21.¦ad1 ¦d7
22.¤c3 ¤xc3 23.¦xd7, mas não vi 23...¥c8!, que defende. O melhor, portanto, seria continuar
com 22.¥h3 ¥c8 23.£h5 f5 24.¥xf5 ¦xf5 25.£xf5 ¤f6 26.¦xd7 ¥xd7 27.£e5, mas a posição
preta seria preferível após 27...¥c6³.
21.¦ad1 £c7

XIIIIIIIIY
9-+r+-tr-mk0
9zplwq-vlp+p0
9-zp-+-+-+0
9+-zpn+Q+-0
9-+-+N+-+0
9+P+-+-zP-0
9P+-+-zPLzP0
9+-+RtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as brancas

Como já expliquei antes, é muito cômodo jogar uma posição de ataque quando já se
tem a garantia de uma linha de empate. Neste caso, com 22.¦xd5 ¥xd5 23.¤f6 na manga
(xeque perpétuo), decidi procurar por outras continuações. Não demorei muito a encontrar uma
linha de ganho.
22.¤c3!!
Se o preto não aceitar o sacrifício sua posição é estrategicamente perdida.

90 
 
 

22...¤xc3 23.¦d7+−
Mesmo com uma vantagem de duas peças, as pretas perdem material.
23...£xd7 24.£xd7 ¥xg2 25.£xe7 ¤d5 26.£e5+ f6 27.£f5 1−0
Uma bonita posição final para uma das partidas de ataque mais interessantes que já
joguei.

Outra forma de treinar a intuição é selecionar algumas posições em que devemos


escolher entre dois lances mais ou menos equivalentes, e depois comparar as conclusões com
as do autor. Ofereço agora alguns exemplos neste tema. Não gaste mais do que 5 minutos
para responder aos exercícios propostos.

Leitão,R − Khenkin,I
Nova Iorque, 2000

1.e4 c6 2.d4 d5 3.e5 ¥f5 4.¤c3 e6 5.g4 ¥g6 6.¤ge2 c5 7.h4 h5 8.¤f4 ¤c6 9.¤xg6
fxg6 10.¤e2 £b6! 11.¤f4 cxd4 12.¥d3 ¤xe5 13.¤xg6 ¤xg6 14.¥xg6+ ¢d7 15.gxh5
A preparação de aberturas nunca foi meu ponto forte e mais uma vez não saí com uma
posição muito feliz. Mas ainda não é preciso abandonar...
15...¤e7?!
15...¥b4+³.
16.¥d3 ¤c6 17.¦g1 £d8?!
Mais uma imprecisão. Agora as brancas têm vantagem. 17...£c7 18.¢f1÷. 17...¥b4+
18.¢f1 ¦af8!? 19.¦xg7+ ¢c8©. 18.¥g5 ¥e7 19.£e2 ¥xg5
Eis aqui o primeiro exercício. Devo escolher como capturar em g5. Qual você
escolheria?
XIIIIIIIIY
9r+-wq-+-tr0
9zpp+k+-zp-0
9-+n+p+-+0
9+-+p+-vlP0
9-+-zp-+-zP0
9+-+L+-+-0
9PzPP+QzP-+0
9tR-+-mK-tR-0
xiiiiiiiiy
Qual a melhor captura para as brancas?

20.hxg5?!
A decisão é entre a atividade das peças após 20.¦xg5 ou a estrutura de peões após
20.hxg5. Minha decisão foi equivocada. 20.¦xg5 daria clara vantagem às brancas. 20...£f6
21.0–0–0± (21.£g4 ¦af8! 22.¦xg7+ (22.0–0–0 £f4+ 23.£xf4 ¦xf4 24.¦xg7+ ¤e7=; 22.¦xd5+?!
¢e7ƒ) 22...¤e7„) 21...¦af8 (21...¦ae8 22.£g4!ƒ) 22.¦g6 £e5 23.£xe5 ¤xe5 24.¦xg7+ e as
pretas terão uma difícil luta pelo empate.
20...£c7

91 
 
 

20...£a5+! 21.¢f1 e5 seria ainda melhor. As pretas teriam vantagem.


21.0-0-0 ¦af8
As pretas estabilizaram sua posição e não têm problemas. Na complicada luta que
seguiu, consegui melhorar minha posição e obter uma importante vitória. Ofereço ao leitor o
restante da partida com as análises publicadas no Informador.
22.¦g2
22.h6?! gxh6 23.g6 ¦hg8∓; 22.¢b1 £e5! 23.£g4 £f4 24.£h3 £f3 25.£xf3 ¦xf3³;
22.¦de1 £f4+ 23.¢b1 e5 24.¥b5 (24.h6 gxh6 25.g6 ¦hg8∓) 24...¦f5³.
22...£f4+ 23.¢b1 e5
23...£f3 24.£xf3 ¦xf3 25.h6 ¤e5 (25...gxh6? 26.g6) 26.¥e2 ¦f4 27.¦h1 (27.hxg7 ¦g8³)
27...gxh6 28.gxh6 (28.¦xh6? ¦xh6 29.gxh6 ¦h4) 28...¦f7=.
24.¦dg1
24.c4!? dxc3 (24...dxc4 25.¥xc4 ¦xh5!? 26.£xh5 £e4+ 27.¥d3 (27.¢a1 £xg2 28.£g6
£xf2 29.£xg7+ ¢d6÷) 27...£xg2 28.£g6 ¦xf2 (28...£xf2? 29.¦f1) 29.¥f5+=) 25.bxc3 ¢c7÷;
24.h6 gxh6 25.g6 ¦hg8 26.g7 ¦f7 27.¦dg1 e4 28.¥b5 ¢c7³.
24...e4
24...£f3! 25.£xf3 ¦xf3 26.h6 (26.¦h2 e4³) 26...gxh6 27.¦h1 e4 28.¥b5³ (28.¥e2 ¦f7
29.gxh6 ¦fh7 30.¦gh2 ¤e5³)
25.¥b5 £f3?
25...a6 26.¥xc6+ ¢xc6÷
26.£d2! e3
[26...¦xh5!? 27.¥e2 £xg2 28.¦xg2 ¦h1+ 29.¥d1 e3 30.fxe3 ¦ff1 31.¢c1 ¤b4 32.c3
¤xa2+ (32...dxe3 33.£e2 ¦xd1+ 34.£xd1 ¤d3+ 35.¢c2 ¦xd1 36.¢xd1±) 33.¢c2 ¦xd1
34.£xd1 ¦xd1 35.¢xd1 dxc3 36.¦c2! ¤b4 37.¦xc3².
27.fxe3 dxe3
27...£xe3 28.£d1±.
28.£c3 ¦xh5 29.a3!±
29.£xg7+ ¦f7 30.¥e2 (30.£g6) 30...¦xg7 31.¥xf3 ¦h4 32.¥xd5±.
29...¦h4 30.£xg7+
30.¦f1? £xf1+ 31.¥xf1 ¦xf1+ 32.¢a2 d4„.
30...¦f7
30...£f7 31.£c3±.
31.£e5 ¦e7 32.£b8!+− d4 33.g6 e2
33...¦h1 34.¦xh1! (34.£xb7+? ¢d6 35.£xc6+ £xc6 36.¥xc6 ¦xg1+ 37.¦xg1 e2
38.¦e1 ¢xc6²) 34...£xg2 35.¦h8+-.
34.¦xe2 £xe2?
34...¦xe2 35.£xb7+ ¢d6 36.¥xe2 £xe2 37.g7 ¦g4 (37...¤e7 38.g8£ ¤xg8 39.¦g6+
¢e5 40.£c7++-) 38.g8£ ¦xg8 39.¦xg8+-.
35.£xb7+ ¢d8 36.£a8+ 1-0

92 
 
 

Kharlov,A− Leitão,R
FIDE-Wch k.o. Tripoli, 2004
XIIIIIIIIY
9-+r+-+k+0
9+-+-+-zp-0
9p+-+-+-zp0
9+p+q+-+-0
9-+-+pwQ-+0
9+P+-+-+P0
9P+-+-zPP+0
9+-+-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas. 27...¦c2 ou 27... ¦e8?

Esta partida foi a primeira do meu match pela terceira rodada do Mundial da Fide em
2004. Meu adversário implementou uma novidade na abertura e eu gastei muito tempo para
encontrar a melhor defesa. As brancas têm uma pequena vantagem na posição do diagrama, e
agora devo decidir como defender. Tenho duas opções: uma defesa ativa, com 27...¦c2, que
corre o risco de um ataque de mate, já que a torre fica deslocada, ou uma defesa passiva com
27...¦e8, mais sólida, mas sujeita a um sofrimento duradouro. Podemos chegar à resposta
correta intuitivamente.
27...¦c2?
Tentando resolver os problemas imediatamente. Eu não estava pronto para uma
defesa longa, se bem que após o correto 27...¦e8², nem vejo muito sofrimento para as pretas.
Claramente minha posição será muito perigosa depois da investida com a torre, mas calculei
algumas variantes e não encontrei como o branco organizaria as peças pesadas para atacar.
Neste exemplo minha intuição e meu senso se perigo me abandonaram, pois não é preciso
muito cálculo para decidir aqui. Basta o “feeling” que 27... ¦c2 não pode ser bom.
28.¦xe4 ¦xa2 29.¦e5!
Agora começam os problemas. As brancas preparam a clássica formação com a dama
atrás da torre para atacar.
29...£d3
Segundo o computador este lance é um erro, mas a posição já era difícil de defender,
por exemplo: 29...£d7 30.£e4, 29...£f7 30.£e4±, ou 29...£d1+ (a melhor defesa) 30.¢h2 £d7
31.¦f5ƒ com ataque.
30.¦e8+ ¢h7 31.£f8 £d5 32.£h8+ ¢g6 33.¦e3+−
Agora não há defesa.
33...£d4 34.¦g3+ ¢f7 35.¦f3+ ¢g6 36.£e8+ ¢h7 37.¦f8 1-0

93 
 
 

Granda,J - Leitão,R
Santiago, 2006
XIIIIIIIIY
9-+rwqr+k+0
9zpp+-+pzpp0
9-+-+-+-+0
9+-vLp+l+-0
9-+-+n+-+0
9zP-zP-+-zP-0
9-+QsNPzPLzP0
9+R+-+RmK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas. 16...¤xd2 ou 16...¤xg3?

A posição das pretas é posicionalmente muito boa, mas agora começamos


complicações táticas. A possibilidade de um descoberto com o cavalo de e4, aproveitando a
diagonal h7-b1, sobrecarregada de peças brancas, se destaca. Dois lances candidatos cumpre
esse propósito: 16...¤xd2 e 16... ¤xg3. Qual deles é o melhor? Precisamos aprofundar nas
variantes, mas para ser sincero, não sei a resposta ao certo. Neste exemplo, a decisão
também pode variar de acordo com o estilo do jogador.
16...¤xd2
Objetivamente este deve ser o melhor, ao menos para meu estilo. Mas 16...¤xg3!?
provavelmente será a escolha de jogadores mais táticos, que gostem de desequilíbrios
materiais e queiram conservar mais peças no tabuleiro. Após 17.e4 ¤xf1 18.¤xf1 (as outras
capturas são inferiores: 18.¢xf1 ¦xc5 19.exf5 £c7 ou 19...£f6, com vantagem ;18.¦xf1 ¦xc5
19.exf5³) 18...¥xe4 (18...¦xe4 19.¥xa7 ¦e5 20.£c1 ¥xb1 21.£xb1„; 18...¦xc5 19.exf5÷)
19.¥xe4 ¦xc5 (19...¦xe4 20.¥xa7; 19...dxe4 20.¥xa7) 20.¥xh7+ ¢f8³ com uma posição
complicada, mas na qual as pretas devem ter vantagem. Mas aqui haveria um risco de derrota
bem maior do que na partida, onde as pretas jogam praticamente com o empate na manga.
17.£xf5
Após 17.£xd2 ¥xb1 18.¦xb1 ¦xc5 19.¦xb7∓ as pretas têm clara vantagem.
17...¤xb1
17...g6!? provavelmente seria melhor, pois as brancas não conseguiriam conservar o
par de bispos nesse caso. 18.£d3 (18.£f4 ¤xb1 19.¦xb1 ¦xc5 20.¦xb7 ¦e7 21.£f6 ¦d7
22.£xd8+ ¦xd8 23.¦xa7 ¦xc3³) 18...¤xb1 19.¥b4 a5 20.¦xb1 axb4 21.¦xb4 £f6 22.¦xb7
(22.¦d4 £a6 23.e3) 22...¦xc3 23.£d2³.
18.¥xd5 £f6 19.£xf6!?
19.£xb1 ¦xc5 20.£xb7. Essa tinha sido a variante principal do meu cálculo. As
brancas teriam chances de empate, mas a posição preta é muito cômoda de jogar. 20...£e7
(20...¦xc3 21.£xa7 g6³ 22.e4) 21.£xe7! ¦xe7 22.¦b1 g5! a) 22...g6?! 23.c4 ¦a5 (23...¦xe2
24.¦b8+ ¢g7 25.¦b7 ¦a5 26.¦xf7+ ¢h6 27.h4 ¦xa3 28.g4„) 24.e4 ¦xa3 25.c5„; b) 22...h6
23.c4 ¦xe2 24.¦b7 (24.¦b8+ ¢h7 25.¥xf7 ¦f5!) 24...¦a5 25.¢f1 ¦d2³; 23.c4 ¦xe2 24.¦b8+

94 
 
 

(24.¦b7 ¦a5³) 24...¢g7 25.¦b7 ¦a5 26.¦xf7+ ¢g6³.


19...gxf6 20.¥xa7 ¤xc3 21.¥f3 ¤xe2+ 22.¢g2³
Apesar da vantagem material preta, as brancas conservam certa compensação graças
ao par de bispos. Após algumas reviravoltas, consegui vencer este final.

Uma técnica de treinamento utilizada pela escola russa consiste na resolução de uma
série de posições em um curto espaço de tempo. Um exemplo seria selecionar cinco posições
a serem resolvidas em 15 minutos. Neste caso é preciso que alguém prepare o teste,
selecionando posições de temas variados, posicionais e táticos. O aluno então precisa dosar o
tempo e confiar na sua intuição. Ao final deste capítulo, ofereço dois testes para o leitor praticar
sua intuição, mas antes apresento um exemplo com dificuldade semelhante à dos exercícios
que finalizam o capítulo.

Leitão,R − D'Arruda,R
Buenos Aires, 2005

XIIIIIIIIY
9r+ltr-+k+0
9+-wq-snpzpp0
9p+-+p+-+0
9+p+pzP-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+-+N+-0
9PzPPwQNzPPzP0
9+-+RtR-mK-0
xiiiiiiiiy
Qual o melhor lance para as pretas?

Esta posição bem poderia estar em um dos testes seguintes. A posição preta tem
problemas posicionais, já que nessa estrutura típica da francesa, o bispo de casas brancas é
muito ruim. Meu plano é simplesmente ocupar a casa d4 com o cavalo de e2 e então preparar
um ataque no flanco rei. Meu adversário reagiu muito bem, lutando por contra-jogo antes que
fosse tarde.
16...d4! 17.¤exd4 ¥b7©
Agora o bispo ganha vida e as pretas conseguem compensação suficiente pelo
material.

Encerrando o capítulo, ofereço ao leitor dois testes de intuição. Cada um deles consiste
em 5 posições que devem ser resolvidas em um tempo total de 15 minutos. Anote a solução e
depois compare com as minhas sugestões. Considere a solução correta se acertou o primeiro
lance.

95 
 
 

TESTE 1

1 3
XIIIIIIIIY XIIIIIIIIY
9-+-+r+-+0 9-+-sn-trk+0
9+p+-+-+-0 9+-+qtrpvlp0
9-tR-+-+-+0 9-+pzpl+p+0
9+-zpN+pmk-0 9+-+-zp-+-0
9-+-+-+-sn0 9-+P+-+-+0
9zP-+P+p+P0 9+-+PzP-zP-0
9-zPP+-+-+0 9-+-+NzPLzP0
9+-+-+K+-0 9+RvLQ+RmK-0
xiiiiiiiiy xiiiiiiiiy
Jogam as brancas Jogam as brancas

4
XIIIIIIIIY
2 9r+-+-mk-tr0
XIIIIIIIIY 9zp-zpq+pzpp0
9-+-tr-+k+0 9-zp-+p+-+0
9+-+-+pzp-0 9sn-+nzP-wQ-0
9-zp-+psn-zp0 9-+-zPN+-+0
9+-+r+n+q0 9+-+-+N+-0
9-+-zP-+-+0 9PzP-+-zPPzP0
9zP-+-+NvL-0 9+-tR-+RmK-0
9-zP-+QzP-zP0 xiiiiiiiiy
9+-tRR+-mK-0 Jogam as brancas
xiiiiiiiiy
Jogam as pretas
5
XIIIIIIIIY
9-+-tr-+k+0
9zp-+r+pzpp0
9-zpQ+-+n+0
9+-+P+-wq-0
9P+-+L+-+0
9+-+-+-zP-0
9-+-+-zP-zP0
9+-tR-tR-mK-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

96 
 
 

TESTE 2

1
XIIIIIIIIY 3
9-+-trk+-tr0 XIIIIIIIIY
9zpp+-zpp+p0 9-trr+-+-+0
9-+n+-snp+0 9+-+lzppmkp0
9+-vL-+-+-0 9-+nzp-+p+0
9-+P+P+l+0 9+p+-+-+-0
9+-zP-+N+-0 9-sN-+-+-+0
9P+-+-zPPzP0 9+P+-+-zP-0
9tR-+-mKL+R0 9P+-tRPzPLzP0
xiiiiiiiiy 9+-+-+RmK-0
Jogam as brancas xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

2
XIIIIIIIIY 4
9r+-sn-+-mk0 XIIIIIIIIY
9+-+-+pzp-0 9r+-+-trk+0
9-+-+-tr-zp0 9zppzpqvlpzpp0
9+psNqzp-+Q0 9-+n+-+-+0
9-zP-+-+-+0 9+-+p+-+l0
9+-+P+-tR-0 9-+-zP-+-+0
9-+-+-zPPzP0 9+-zPL+N+P0
9+-+-+RmK-0 9PzP-vL-zPP+0
xiiiiiiiiy 9tR-+QtR-mK-0
Jogam as pretas
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

5
XIIIIIIIIY
9-+-+-+-+0
9+-+-+-+-0
9-+-+-+-+0
9+-+p+-+-0
9-mk-+-+-+0
9+P+-+-+-0
9K+P+-+-+0
9+-+-+-+-0
xiiiiiiiiy
Jogam as brancas

97 
 
 

SOLUÇÕES DO TESTE 1:

1− Larsen − Spassky, Tilburg 1978: 46.¤c7!+− A invasão da torre em e2 deve ser


evitada. 46...¦g8 [46...¦e2? 47.¤e6+] 47.¤e6+ ¢f6 48.¤xc5+ ¢e5 49.¦h6 ¢f4 50.¦xh4+
¢e3 51.¤e4! fxe4 [51...¦g2 52.¤c3] 52.¦xe4+ ¢d2 53.¢f2 1-0

2− Mikhalchisin − Kochiev, Frunze 1979: 1...¤h7! ∆¤g5. A troca de cavalos enfatiza a


debilidade do rei branco e do peão de d4. 2.¢f1 £h3+ 3.¢g1 ¤g5 4.¤xg5 hxg5 5.¥e5
¤h4 6.£f1 £g4+ 7.¢h1 £e4+ 8.¢g1 ¤f3+ 0-1

3− Dvoretsky − Veselovsky, Moscou 1967: O plano branco envolve uma ofensiva no


flanco dama: £a4, ¥a3, ¦b6(b8) etc. As pretas, por sua parte, gostariam de trocar o
perigoso bispo de g2. A resposta 17...¥h3! mostra que 17.£a4?! é impreciso. O branco
também não quer jogar 17.¦e1?!, pois não faz parte do plano. 17.¥a3! As brancas se
desenvolvem, evitam a troca dos bispos e complicam a jogada d6-d5. 17...¦fe8 18.£a4
£c7 19.£a8! f5 20.¦b8 ¥f8 21.¥b4 £a7? 22.¦a1 [22.¥xd6] 22...£d7 23.¦a6 ¥f7? 24.¥a5
1-0

4- Sax - Short, Londres 1980: Não é fácil atacar no flanco rei no momento. As brancas
devem trocar o forte cavalo em d5 e, aproveitando as torres pretas desconectadas,
pressionar pela coluna "c". 19.¤c3! ¦c8 20.¤xd5 £xd5 21.¦c3 h6 22.£c1 c6 23.b4 ¤b7
24.£a3 ¦a8 25.¦xc6! e as brancas venceram.

5− Alekhine - Colle, Paris 1925: À primeira vista parece que as pretas neutralizaram o
perigoso peão de “d” e que o branco não pode utilizar a fraqueza temporária das pretas na
oitava fila. 29.¥xg6! Este parece estranho, já que agora o peão de “d” não pode mais ser
protegido. Mas Alekhine jogou esse lance por motivos táticos. 29...hxg6? Perde
imediatamente. 29...£xg6? seria mau por 30.£xd7. O único lance seria 29...fxg6 apesar
de que ele não pararia o ataque branco: 30.£e6+ ¦f7! (30...¢f8? 31.¦c4 ¦f7 (31...¦xd5
32.¦f4+ ¦f5 33.¦e5!+-; 31...¦e7 32.¦f4+ ¢e8 33.£f7+ ¢d7 34.h4+-) 32.¦c8 ganha) 31.¦c8
¦xc8 32.£xc8+ ¦f8 33.¦e8 (33.£e6+ ¢h8 34.d6 £d2 35.¦e2 £c1+ 36.¢g2 £c6+
37.¢h3±) 33...£f6 34.¦xf8+ £xf8 35.£c6±] 30.£xd7!! De todas as formas! 30...¦xd7
31.¦e8+ ¢h7 32.¦cc8 ¦d8 33.¦exd8 e as pretas abandonaram. 1-0

98 
 
 

SOLUÇÕES DO TESTE 2

1- Smyslov− Botvinnik, 21º Campeonato Mundial, Moscou (12) 1957: 1.e4 c5 2.¤f3 g6
3.c4 ¥g7 4.d4 d6 5.¤c3 ¤c6 6.¥e3 ¥g4 7.dxc5 dxc5 8.£xd8+ ¦xd8 9.¥xc5 ¥xc3+
10.bxc3 ¤f6 11.¤d4! ¤xe4 12.¤xc6 bxc6 13.¥xa7 "Agora está claro que as brancas
venceram o duelo da abertura. Elas têm o par de bispos e um peão passado em "a",
enquanto as pretas não tem nenhum contra-jogo real" (Smyslov). 13...¥f5 14.f3 ¤d6 15.a4
¦a8 16.¥b6 0-0 17.c5 ¤c8 18.g4 ¥e6 19.a5 ¤xb6 20.cxb6 e as brancas venceram.

2− Tseshkovsky - Tal, Sochi 1970: 30...¦xf2!-+ 31.¦e1 [31.¦xf2 ¦a1+ 32.¦f1 £d4+;
31.¢xf2 £d4+ 32.¢f3 £f4+ 33.¢e2 ¦a2+–+] 31...¦f4 32.h3 ¦a1 33.¦xa1 £d4+ 34.¢h2
£xa1∓ 35.d4 ¤c6 36.¤e6 ¦f1 37.¦xg7 ¦h1+ 38.¢g3 £e1+ 39.¢g4 £e2+ 40.¢h4 £xh5+
41.¢xh5 ¦f1 42.d5 ¤d8 43.¢xh6 ¤xe6 44.¦h7+ ¢g8 45.dxe6 ¦f6+ 46.¢g5 ¦g6+
47.¢f5 ¢xh7 48.exf7 ¢g7 0-1

3− Azmaiparashvili - Yurtaev, Pavlodar 1982: 1.¥xc6!² As brancas devem manter seu


cavalo bem colocado em b4. 1...¥xc6 2.¦c1 ¥d7 [2...¥e4 3.¦dd1!] 3.¦dc2 e6 4.¢f1 ¢f6
5.¢e1 d5?! 6.¦xc8 ¦xc8 7.¦xc8 ¥xc8 8.¢d2 ¥d7 9.¢c3 ¢e5 10.¤c2 ¢d6 11.¢b4 ¢c6
12.¤d4+ ¢b6 13.f4 f6 14.a4 bxa4 15.bxa4 e5 16.fxe5 fxe5 17.¤f3 e4 18.a5+ ¢a6
19.¤d4 e3 20.¤c2 ¥b5 21.¤xe3 ¥xe2 22.¤xd5 ¢b7 23.¤f6 h5 24.h4 ¢c6 25.¢c3 1-0

4- Capablanca - Marshall, Havana 1913: 1.¤e5! [A partida seguiu 1.¥b5? ¥d6 2.¤e5!
¥xe5 3.£xh5 ¥f6 4.¥f4 ¦ae8²] 1...¤xe5 [1...¥xd1 2.¤xd7 ¦fd8 3.¤e5 ¤xe5 4.¦xe5+-]
2.¥xh7+ ¢xh7 3.£xh5+, com um sólido peão a mais.

5− Grigoriev, 1933: 1.¢a1! [1.¢b1? ¢c3 2.¢c1 d4 3.¢d1 d3=; 1.¢b2? d4 2.¢b1 (2.¢c1
¢c3) 2...d3!=] 1...¢c3 [1...d4 2.¢b2 ¢c5 3.¢c1+-] 2.¢b1 ¢b4 [2...d4 3.¢c1+-] 3.¢c1!
¢c3 4.¢d1 d4 5.¢c1 d3 6.cxd3 ¢xd3 7.¢b2 ¢d4 8.¢a3 ¢c5 9.¢a4 ¢b6 10.¢b4+−

99 
 
 

CONCLUSÃO

Como foi possível perceber ao longo desta apostila, não existe um grande segredo para
melhorar seu cálculo – “basta” o material certo e muito trabalho. A tarefa não é fácil e é preciso
muita dedicação. Devemos calcular variantes diariamente, resolver exercícios, criar idéias novas,
tentar refutar as análises dos livros, checar análises com o computador. Resumindo: analisar
independentemente. Esse trabalho analítico incessante é o segredo para a maestria no jogo de
xadrez.
Para ajudar o leitor com a primeira das tarefas listadas acima – ter um bom material -, listo
agora livros que o ajudarão na tarefa de aperfeiçoar o cálculo. Lembro também que o trabalho com
um treinador especializado pode ajudá-lo a subir as escadas mais rapidamente.
O resto é com você!

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

- Test Your Chess IQ, August Lishvitz, Cadogan Chess 1996.

- Secrets of Spectacular Chess, Jonathan Levitt e David Friedgood, Batsford 1995.

- Secrets of Practical Chess, John Nunn, Gambit 1998.

- School of Chess Excellence 1 – Endgame Analysis, Mark Dvoretsky, Edition Olms 2001.

- School of Chess Excellence 2 – Tactical Play, Mark Dvoretsky, Edition Olms 2002.

- Learn from the Legends, Mihail Marin, Quality Chess 2004.

- Excelling at Chess Calculation, Jacob Aagaard, Everyman Chess 2004.

- Secrets of Chess Defence, Mihail Marin, Gambit 2003.

- Secrets of Attacking Chess, Mihail Marin, Gambit 2005.

- Think Like a Grandmaster, Alexander Kotov, Batsford 1995.

- Test Your Endgame Ability, August Lishvist e Jon Speelman, Macmillan Chess Library 1988.

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