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Enfoques

Vol.1, n.14.

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

Enfoques. Revista dos Estudantes do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e


Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. – v.1, n.14 – Rio de Janeiro:
PPGSA, 2015- Semestral
ISSN 1678-1813
1. Sociologia; 2. Antropologia; I. Universidade Federal do Rio de Janeiro; II. Centro de Fi-
losofia e Ciências Sociais; III. Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia.

CORPO EDITORIAL
Organizadores da Edição
Keila Lucio de Carvalho
Leonardo Nóbrega da Silva
Eduardo H. N. Borges
Layssa Bauer Von Kulitz
Marcelo Augusto de Paiva dos Santos

Comissão Editorial
Alexandre Barbosa Fraga
Barbara Goulart Lopes
David Gonçalves Soares
Eduardo H. N. Borges
Joana Ramalho Ortigão Corrêa
Keila Lucio de Carvalho
Layssa Bauer Von Kulitz
Leonardo Nóbrega da Silva
Marcelo Augusto de Paiva dos Santos
Natália Helou Fazzioni
Pedro Alex Rodrigues Viana
Renata Montechiare
Yago Quiñones Triana

PARECERISTAS
Adriana Amaral Ferreira Alves (UFES)
Allene Carvalho Lage (UFPE)
Ana Maria Simão Saldanha (UNESP)
André Kaysel Velasco e Cruz (UNILA)
Antonio da Silveira Brasil Junior (UFRJ)
Bila Sorj (UFRJ)
Caio Eduardo Teixeira Vasconcellos (USP)
Carlos Eduardo Sell (UFSC)

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Carolina Burle de Niemeyer (UERJ)


Claudia Junqueira de Lima Costa (UFSC)
Daniel Fanta (UNESP)
Davide Giacobbo Scavo (UFGD)
Edilene Maria de Carvalho Leal (UNASE)
Fabio Chang de Almeida (UEM)
Fabio Rodrigues Ribeiro da Silva (UFJF)
Fabricio Pereira da Silva (UNIRIO)
Fernando Marcelo de la Cuadra (Universidade Estácio de Sá e CLACSO)
Fernando Perlatto (UFJF)
Florencia Stubrin (CLACSO)
João Marcelo Ehlert Maia (CPDOC)
Joana El-Jaick Andrade (IFMT)
Manuel Tavares Gomes (Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias)
Marco Antonio Perruso (UFRRJ)
Maria Ligia Ganacim Granado Rodrigues Elias (UEM)
Maria Livia De Tommasi (UFF)
Mariela Natália Becher (UERJ)
Natalia dos Reis Cruz (UFF)
Sara Araújo (Universidade de Coimbra)
Thais França da Silva (Universidade de Coimbra)
Vera Lúcia Maia Marques (UFMG)

PRODUÇÃO EDITORIAL
Projeto Gráfico, capa e diagramação
Rayssa Natalia da Penha dos Santos (UVA)
Revisão de textos
Beth Cobra, Marcelo Augusto de Paiva dos Santos, Sabrina Primo, Vanessa Baptista dos
S. Borges e Vânia Santiago.
Tradução dos resumos
Ben Kohn e Vanessa Baptista dos S. Borges.

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E D I T
APRESENTAÇÃO
O R I A L
É característico da teoria social pública e engajamento”. Através do
um constante exercício reflexivo que faz estudo das contribuições de Michael
da discussão de suas próprias bases Burawoy e de seus críticos, a autora
e conceitos uma atitude necessária. A sugere que este tema é fundamental na
partir da segunda metade do século batalha sobre o futuro da sociologia.
XX, discussões acerca do estatuto dos Os movimentos sociais assumem
conceitos passaram a questionar diversas protagonismo na discussão da teoria
perspectivas hegemônicas presentes social e não poderiam deixar de ser
nas ciências sociais. Os debates também foco de reflexão. É o que faz
desenvolvidos no interior das críticas Sarah Carneiro em “O Exército Zapatista
pós-coloniais trouxeram para o centro da de Libertação Nacional (EZLN) e os
discussão os problemas relacionados à desafios analíticos que o seu percurso
pretensão de universalidade de conceitos sugere à teoria social”. A atuação política
construídos a partir de pontos de vista dos zapatistas, analisada a partir de
muito particulares. No mesmo período, comunicações veiculadas pelo grupo,
a efervescente teoria sociológica latino- é vista como uma voz contestatória,
americana chamou a atenção para a colocando desafios tanto de ordem
necessidade de se pensar as relações social ao capitalismo mundial quanto às
estruturais de poder e dominação. abordagens acadêmicas em torno dos
Tendo em vista tal panorama, a Revista próprios movimentos sociais.
Enfoques apresenta esta edição temática Também no campo dos
intitulada Teoria Social em Perspectiva movimentos sociais, Wesley do Espírito
Crítica cujos artigos se debruçam sobre Santo apresenta em “Confrontando
diversas facetas deste campo de análise. Escalas: contribuições da etnografia
Acentuadamente no início do para as teorias sociais sobre movimentos
século XXI, agentes fundamentais e populares urbanos”, um relato etnográfico
tradicionalmente relegados ao segundo sobre a V Conferência Nacional das
plano, por meio dos movimentos sociais, Cidades, apontando as relações entre
passaram a questionar diversos aspectos movimentos sociais urbanos e suas
da construção epistemológica dominante articulações em torno do Estado.
nas ciências sociais. A perspectiva de O artigo de Leonardo Nóbrega
uma sociologia pública é recolocada, da Silva argumenta que os processos
de forma a tornar complexo o debate políticos em curso na Bolívia e no Equador,
que envolve uma produção sociológica a partir das noções de Buen Vivir e
cientificamente comprometida e uma Pachamama, colocam em cena desafios
inserção dialógica do pensamento no para a teoria social contemporânea.
debate público junto à sociedade civil. Para tanto, o autor busca revelar
Este é o tema central do artigo de Keila os limites das teorias pós-coloniais,
Lucio de Carvalho, intitulado “Sociologia decoloniais e das epistemologias do
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Sul, apontando a necessidade de internacionais e na teoria social como


construção de um pensamento crítico um todo.
que supere particularismos teóricos e “A revolução brasileira”, obra de
metodológicos e que seja capaz de Caio Prado Jr publicada em 1966, é
colocar em evidência a produção global analisada por Alexandre Loreto à luz da
de conhecimento no sentido político da geopolítica do conhecimento, buscando
emancipação humana. sugerir sua pertinência à proposição de
O horizonte de uma teoria social uma teoria social alinhada ao contexto
comprometida com a emancipação social na qual está inserida. O autor
da humanidade também é objeto de examina a geopolítica do conhecimento
reflexão em “Epistemologia das lutas como chave de análise para a obra do
sociais”. Roberta Lobo e Leandro intelectual marxista, buscando apontar
dos Santos propõem uma análise a algumas pistas para a necessária
respeito do que seria uma “filosofia da articulação entre a elaboração teórica
liberdade”, vinculada às lutas sociais e as condições sociais e institucionais
emancipatórias. Os autores buscam mais amplas para sua realização.
confluir as concepções presentes em O artigo de Aristeu Portela
Freud e Benjamim como forma de Júnior oferece uma reflexão sobre os
demonstrar a viabilidade epistemológica, pressupostos liberais no interior da
para a teoria social, de elementos discussão sobre a democracia presentes
políticos e cognitivos presentes na em Sergio Buarque de Holanda,
memória e na experiência empírica das Raymundo Faoro e Florestan Fernandes.
classes populares. O autor problematiza estes pressupostos,
A ênfase do artigo “Gênero e considerando que a apropriação do
cultura: uma reflexão pós-colonial”, de “liberalismo democrático”, apesar de se
Maria Eduarda Borba Dantas, recai na colocar como o fundamento de críticas
relação entre cultura e teoria política sociais progressistas, apresenta limites,
feminista. Nele, a autora propõe que uma vez que acaba obscurecendo os
o pensamento pós-colonial pode se alicerces sócio históricos nos quais a
apresentar como uma alternativa teórico- democracia pode emergir, para além de
epistemológica, na medida em que auxilia uma análise exclusivamente institucional
a descentralizar o debate feminista que, desse fenômeno.
muitas vezes, se pretende universal Carlos Douglas Filho, em “O
sem levar em conta os discursos e as poder no islã clássico e na filosofia
práticas particulares das sociedades e política de Ibn Khaldun: um estudo
culturas as quais estão envolvidas. dos conceitos de umma e assabya”,
A teoria das relações traça uma construção dos conceitos
internacionais também é analisada, à apontando para a importância social
luz do pensamento descolonial, por que tiveram e o seu entrelaçamento, a
Alexandre da Fonseca, em seu artigo partir do interesse em compreender a
intitulado “Ocupar ou desocupar? uma noção de poder no pensamento social
reflexão sobre perspectivas em RI”. A árabe-muçulmano.
análise sugere uma crítica à perspectiva O número também traz o artigo de
eurocêntrica, uma vez que a teoria Eric Monné, que apresenta uma reflexão
está relacionada a um conhecimento sobre uma organização neonazista da
supostamente desterritorializado e atualidade. Tomando como referência
neutro, ainda hegemônico nas relações as reflexões de Touraine, Tarrow e
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Honnet, o autor busca evidenciar que a perspectivas particularistas, garantindo


negação do reconhecimento de formas à teoria social o espaço para discussões
diversas de alteridade, empreendida por gerais sem cair na substancialização
esta organização, permite caracterizá-la e reificação dos fenômenos sociais. A
como um “novo antimovimento social”. Revista Enfoques espera, dessa forma,
Se, por um lado, a ideia de uma contribuir com o efervescente campo
teoria crítica possibilita um debate a de discussões das ciências sociais em
partir das diversas vozes e enunciados torno do estatuto dos seus conceitos
políticos localizados na sociedade civil, e construções teóricas, mediados pelas
por outro, pode também superar as práticas sociais em curso.

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ABRIR AS CIÊNCIAS SOCIAIS: SOCIOLOGIA PÚBLICA


E ENGAJAMENTO
Keila Lúcio de Carvalhoi

Resumo
Este artigo apresenta uma reflexão sobre a sociologia pública, através de um estudo das
contribuições de Michael Burawoy e das principais críticas dirigidas a essa proposta,
em torno das polêmicas acerca do engajamento dialógico com públicos no interior da
sociedade civil. Tamanha reação no interior dos círculos acadêmicos parece indicar que
a sociologia pública pode ser considerada um ponto focal de batalhas sobre o futuro da
sociologia.

Palavras chave: Sociologia pública, engajamento, sociedade civil, Michael Burawoy, Teoria
Sociológica.

OPENING THE SOCIAL SCIENCES: PUBLIC SOCIOLOGY AND ENGAGEMENT

Abstract:

This paper presents a reflection over public sociology, through a study about Michael
Burawoy’s contributions and the main criticisms to this proposal, around the controversy
about the dialogical engagement with the public within civil society. Such reaction within the
academic circles seems to indicate that public sociology can be considered a focal point of
battles over the future of sociology.

Keywords
Public sociology, engagement, civil society, Michael Burawoy, Sociological Theory.

Introdução Sociological Association (ASA) em 2004.


Este artigo sugere uma reflexão sobre Seu discurso representou um diálogo com
a sociologia pública, tendo como foco as o relatório da Comissão Gulbenkian sobre a
contribuiçõesdosociólogoMichaelBurawoy, reestruturação das ciências sociais, dirigido
a partir de suas primeiras formulações que por Immanuel Wallerstein e intitulado “Abrir
culminaram em sua célebre conferência as ciências sociais”.
na condição de presidente da American Para Burawoy (2007), o relatório
demonstra a ausência da abordagem

i
Keila Lúcio de Carvalho é doutoranda em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ) e professora da Coordenação de
Sociologia (Campus Maracanã) do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca
(CEFET-RJ). E-mail: keilalucio@yahoo.com.br

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de duas questões centrais. A primeira é qual tematiza sua relação com os valores
“conhecimento para quem?”. A sociologia e as propostas da sociedade; e isso
dialoga com seus próprios pares ou com significa, por fim, abri-las às audiências
pessoas exteriores à academia? De acordo extra-acadêmicas e particularmente
aos públicos – especialmente aqueles
com as indicações de Burawoy (2009b),
ameaçados pela erosão de sua
esta questão diz respeito a uma distinção
autonomia e de sua voz. (Burawoy,
entre audiências: de um lado, a comunidade
2007: 146)
de acadêmicos e de cientistas que buscam
compreender e explicar o mundo (audiência Os principais argumentos
acadêmica) e, por outro, pessoas para além norteadores da ideia de sociologia
da academia (audiência extra-acadêmica). pública foram apresentados por Burawoy
A segunda questão, “conhecimento em torno de onze teses,2 com o objetivo
para quê?”, separa analiticamente o de amparar a defesa de uma sociologia
conhecimento segundo seus meios seus capaz de consagrar-se não apenas como
fins últimos. O conhecimento sociológico ciência, mas como força moral e política.
é instrumental, ou seja, está preocupado Para os propósitos deste artigo, não
em determinar os meios apropriados a recuperarei exaustivamente as onze teses
determinados fins ou, por outro lado, é de Burawoy, apenas as linhas gerais de
reflexivo, dedicado à discussão daqueles sua argumentação teórica e metodológica
mesmos fins? Esta questão se refere à em torno da questão do engajamento da
maneira pela qual diferentes grupos podem sociologia e, por sua vez, do sociólogo
se beneficiar da sociologia enquanto enquanto ator político.
conhecimento que auxilia os indivíduos
A sociologia pública: engajamento e prática
a compreenderem seu lugar no mundo
dialógica
(Burawoy, 2009b) e reconhece os próprios
intelectuais (inclusive os sociólogos) O desenvolvimento da sociologia
como partes inerentes do mundo por eles acadêmica, principalmente norte-
estudado (2005b). americana, resultou em uma especialização
É com base nessas duas questões1 baseada na ideia de “ciência pura” –
relacionadas ao caráter reflexivo da pretensiosamente livre de valores – que
sociologia orientado para audiências retirou, ao menos transitoriamente, o
extra-acadêmicas que Burawoy vai formular compromisso moral da sociologia de
sua proposta da sociologia pública. Abrir contribuir para a realização de mudanças
as ciências sociais, nesta perspectiva, na sociedade. Entretanto, concordamos
significaria: com Burawoy (2005b) quando considera a
insustentabilidade desta premissa, já que
Abri-las ao conhecimento reflexivo, o

1
A questão “Sociologia para quem?” foi posta por Alfred McLung Lee em 1976, em seu discurso presidencial da
American Sociological Association (ASA). Já a outra questão, “Sociologia para quê?”, foi colocada por Robert
Lynd em 1939. Segundo Zussman & Misra (2007), o discurso de Burawoy por ocasião de sua presidência da
ASA, em 2004, resgata uma longa tradição na referida organização de discursos presidenciais que refletem
sobre a disciplina e sua direção. Mas, segundo os autores, a novidade trazida por Burawoy diz respeito ao
apelo a uma nova prática, para além da reconceitualização do pensamento sociológico (Zussman & Misra,
2007).
2
As onze teses de Burawoy foram apresentadas em sua conferência “For public sociology”, publicada na
American Sociological Review (2005a). Elas correspondem a uma clara alusão às Teses sobre Feuerbach, que
consistem em onze breves notas filosóficas escritas por Karl Marx em 1845.

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seu caráter antipolítico não é menos político à posição de Burawoy como presidente da
que o engajamento público em si. Buscando- ASA à época – e, posteriormente, como
se contrapor a uma concepção de ciência presidente da Associação Internacional de
“pura” e “aplicada” da sociologia é que Sociologia (ISA)3 – quanto à sistematicidade
Burawoy propõe a sociologia pública está e difusão de sua proposta em outros
prioritariamente relacionada ao contexto contextos nacionais. Juntos, tais elementos
da sociologia norte-americana, embora configuram-se importantes balizadores
seja de extrema importância sua discussão para a análise da pertinência da sociologia
em outros contextos nacionais, como o pública e seu lugar na teoria sociológica
Brasil. Neste sentido, a sociologia pública contemporânea.
consiste em uma concepção de superação A intenção de Burawoy trata, então, de
positiva do perfil predominantemente um apelo para a revitalização da sociologia
acadêmico e profissional da disciplina, em direção a uma sociologia pública, que
através do engajamento da sociologia poderia ser capaz de resgatar a “vocação
com diferentes públicos fora do mundo moral” da sociologia, através do diálogo
acadêmico, visando ao fortalecimento da dos sociólogos a respeito da natureza
sociedade civil (2005b). Ainda segundo o da sociedade e seus valores, através da
autor: transformação dos problemas privados dos
variados públicos em questões públicas.4
Temos passado um século construindo
Interessa particularmente à discussão
um conhecimento profissional,
que pretendo desenvolver neste artigo a
traduzindo o senso comum em ciência,
então, agora, estamos mais do que ideia de que os sociólogos podem – e
prontos para nos envolvermos numa devem –, segundo Burawoy, constituir-se
sistemática retradução, devolvendo o como público e, deste modo, como atores
conhecimento àqueles de onde esse políticos.
conhecimento veio, tornando questões A configuração proposta por
públicas para além de problemas Burawoy – sociólogos que se constituem
privados e regenerando, assim, a fibra como atores políticos e que estejam em
moral da sociologia. Localiza-se aqui diálogo constante com os demais públicos
a promessa e o desafio da sociologia – pressupõe uma pluralidade de públicos
pública, o complemento e não a negação
e, consequentemente, compromissos
da sociologia profissional. (Burawoy,
axiológicos distintos. Em outras palavras,
2005a: 5)
a necessidade de diálogo com os
A importância da proposta da públicos não determina o conteúdo dos
sociologia pública está relacionada tanto posicionamentos políticos e morais desses

3
Até alguns meses antes da finalização deste trabalho, Burawoy era presidente da Associação Internacion-
al de Sociologia (Comitê Executivo 2010-2014). Foi membro do Conselho Executivo da Associação Amer-
icana de Sociologia (ASA) entre 2000 e 2005, estando na presidência da referida associação entre 2003 e
2004.
4
Uma importante referência para Burawoy neste sentido são as contribuições de Wright Mills, considera-
do “líder da sociologia pública tradicional” (Burawoy, 2005a: 9). Segundo Mills (1975), a sociologia deveria
assumir seu caráter reflexivo, em constante diálogo com a vida cotidiana. Essas reflexões estão presentes
na obra A imaginação sociológica, publicada originalmente nos Estados Unidos em 1959.
Tal consideração não impede, contudo, a defesa de Burawoy por uma determinada concepção de so-
ciologia pública, que o autor afirma manter diálogo com a teoria marxista. Esta questão será retomada
posteriormente.

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mesmos compromissos. Isto porque, para presente conjuntura, o melhor espaço para
Burawoy, toda sociologia repousa sobre a defesa da humanidade, auxiliada pelo
um conjunto de valores e são estes valores estímulo de uma sociologia pública de
que se tornam objeto de discussão e matriz crítica.
diálogo entre os sociólogos e os públicos. Estas constatações colocam em
Como existe uma pluralidade de públicos cena alguns elementos que merecem
e de valores, Burawoy (2005a) defende destaque. Em primeiro lugar, a natureza
a existência de uma multiplicidade de conflituosa das relações entre Estado,
sociologias públicas, desde as mais liberais sociedade e mercado. Em segundo lugar
até as mais críticas.5 e, consequentemente, os antagonismos
Assim, uma primeira consideração presentes no interior da sociedade civil, que a
de Burawoy é a existência de uma caracteriza como espaço de consentimento
diversidade de públicos, com variadas e resistência. Por fim, e desta maneira,
orientações axiológicas (2005b). Para os públicos são heterogêneos, orientados
o autor, a definição de público supõe o por identidades plurais, cujos interesses
mapeamento dos arranjos nacionais podem chocar-se uns com os outros.
e, consequentemente, a avaliação das De todo modo, os esforços para
inter-relações de diferentes públicos no explicar a história, os fundamentos e os
interior da esfera pública. Dada a atuação processos internos das categorias de
privilegiada da sociologia no âmbito da público, esfera pública, e sociedade civil,
sociedade civil, a esfera pública aparece através do trabalho de reconstrução teórica
como um espaço de disputa possível, a partir da síntese empírica, não deve ser
através do engajamento público (2005a). dispensado. É neste sentido que tomar
A sociologia pública tem, portanto, o tais categorias como ideais normativos
objetivo de promover engajamento público deslocados de uma análise das condições
mediante a necessidade de fortalecimento históricas que engendram e transformam
e democratização da sociedade civil, em essas categorias, é uma solução aqui
tempos atuais de fundamentalismo de desprezada.
mercados e tirania dos Estados (Burawoy, Em Burawoy – com base no
2009a). Os diversos pontos de vista da pensamento de Antonio Gramsci – a
sociedade civil definem e constituem sociedade civil é considerada como
a unidade do olhar sociológico, sendo importante arena de luta de classes. É
a sociologia pública, por estabelecer nela que as classes lutam para conquistar
diálogos com os mais diferentes públicos, hegemonia, ou seja, a direção política.
representantedosinteressesdahumanidade Por esta razão, é a esfera que resulta da
como um todo. Ainda assim, considera o socialização da política e faz parte do
caráter contraditório, marcado por cisões Estado, em seu sentido amplo. Na literatura
e dominações que, de maneira alguma, que discute a relação entre o Estado e a
contemplaria a sociedade civil como uma sociedade civil, pode-se identificar uma
espécie de “comunitarismo harmonioso” vertente que procura situar a sociedade
(2005a: 24). A sociedade civil é entendida civil como parte da constituição de uma
como um campo de disputa, sendo, na esfera pública, que se diferencia tanto

5
Tal consideração não impede, contudo, a defesa de Burawoy por uma determinada concepção de so-
ciologia pública, que o autor afirma manter diálogo com a teoria marxista. Esta questão será retomada
posteriormente.

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da esfera tipicamente estatal quanto das Estado, mercado e sociedade civil que, em
regras estritas do mercado. última instância, condicionam as relações
Como Burawoy argumenta, as cisões entre os quatro tipos de conhecimento
presentes no interior da sociedade civil sociológico, referidos anteriormente.
são reproduzidas na divisão do trabalho no Os conflitos disciplinares entre estas
interior da sociologia, já que esta reflete, divisões refletem, de certa maneira, aqueles
em última instância, a própria sociedade. presentes nas articulações e processos
Burawoy busca demonstrar que a sociologia sociais que engendram cada uma dessas
pública não constitui o único horizonte “sociologias”. As próprias disputas em
possível para a sociologia, mas que está torno da proposta da sociologia pública
inserida em uma “divisão do trabalho” que são manifestações, segundo Burawoy, de
inclui também a sociologia para políticas um embate pela (re)articulação da divisão
públicas, a sociologia profissional e a do trabalho sociológico. As lutas internas
sociologia crítica.6 da sociologia e suas divisões, além de
Segundo Burawoy (2005a), são as representarem uma interdependência
questões “para quem” e “para que” fazemos positiva para a disciplina, não ofuscam o
sociologia que norteiam o conhecimento fato de que “os sociólogos compartilham
sociológico e que o divide em quatro tipos de um programa distintivo, enraizado
de perspectivas diferentes, caracterizadas na defesa e na expansão da sociedade
por sua interdependência na sociologia civil” (Burawoy, 2009a: 234). Somente
para políticas públicas, profissional, crítica quando as divisões forem reconhecidas
e pública – a partir de um claro investimento como positivas ao desenvolvimento da
na sociologia pública como conhecimento disciplina – através de uma colaboração
privilegiado de defesa da sociedade civil. intradisciplinar – é que Burawoy parece
Estas questões, longe de serem arbitrárias, ver realizar o ideal normativo da sociologia
dizem respeito à gênese da sociologia pública. Isto porque, segundo o autor, a
e às suas potencialidades teóricas e tarefa de reconstrução disciplinar consiste
normativas. Burawoy (2007) busca enfatizar em transformar a sociologia em si para a
como as sucessivas condições históricas sociologia para si: da divisão antagônica
reconfiguram o conteúdo das relações entre e fragmentária do trabalho sociológico,

6
A especificidade da sociologia no conjunto das diversas disciplinas e a institucionalização da divisão do
trabalho sociológico demarcada por Burawoy, embora possuam consequências metodológicas pertinentes
à abordagem que busco privilegiar, não serão desenvolvidas neste artigo. Por ora, cabe destacar que a so-
ciologia pública aparece, no interior da divisão do trabalho, como um ideal teórico e prático que depende
da sociologia profissional. Assim, a sociologia profissional – em sua condição hegemônica no contexto
atual da organização disciplinar da sociologia nos EUA – representa uma condição à própria existência
da sociologia pública, já que consiste em um conhecimento instrumental dirigido a um público acadêmico
e que estabelece o rigor científico da formulação de teorias, conceitos, métodos e técnicas de pesquisa
sociológica, garantindo que as exigências científicas e a objetividade do conhecimento estejam assegura-
das. Já a sociologia para políticas públicas tem como objetivo prover soluções para problemas de caráter
público e coletivo e se define por sua provisão de serviços a partir de um conhecimento instrumentalizado
a públicos extra-acadêmicos. Por fim, a sociologia crítica visa a analisar os fundamentos – analíticos e
normativos – da sociologia profissional, através de sua relação com uma audiência acadêmica a respeito
de um conhecimento que se caracteriza por sua reflexividade sobre o próprio objeto da sociologia profis-
sional – teorias, conceitos, métodos e técnicas de pesquisa sociológica são questionados e avaliados.
Segundo Burawoy, “a sociologia crítica é a consciência da sociologia profissional, assim como a sociologia
pública é a consciência da sociologia para políticas públicas” (Burawoy, 2005a: 10).

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marcada por “intrigas palacianas inúteis”, de um conjunto crítico de leituras em que


rumo a uma “divisão sinérgica e simbiótica foram explicitamente enfatizadas antigas
do trabalho, transformada num movimento controvérsias a respeito da neutralidade
social pela expansão da esfera pública, científica e do engajamento.
enraizada numa sociedade civil poderosa A história do pensamento
e autogerida” (Burawoy, 2009a: 243). sociológico revela um cenário de intensas
Na décima-primeira tese, Burawoy controvérsias em torno das questões de
aprofunda sua formulação e apresenta ordem metodológica e epistemológica
com mais clareza a sua concepção de recuperadas por Burawoy. Estas questões
sociólogo como ator político – ou, nas serão apresentadas à luz de um balanço
suas palavras, como militante.7 O apelo bibliográfico do debate em torno da
de Burawoy (2009a: 242, 234) é para que sociologia pública, embora as categorias
os sociólogos abandonem seus nichos de Burawoy permaneçam como referenciais
e partam para a cena pública em um para a análise. O mais importante aqui é
“contra-ataque centrado na sociedade evidenciar que os pontos mais intensos de
civil”, emergidos “de seus nichos e casulos polêmica ilustram questões controversas da
acadêmicos para assumir seus lugares disciplina, que ainda não são suplantadas
e influir na direção da sociedade”. No pela teoria sociológica contemporânea.
entanto, a constatação de uma pluralidade Uma hipótese aqui levantada é que as
de públicos e de contradições no interior críticas mais intensas à sociologia pública
da sociedade civil não impede que Burawoy estão concentradas no caráter dialógico
indique a perspectiva do “socialismo da sociologia pública em relação aos
sociológico” como parte integrante do seu públicos. Minhas primeiras aproximações
projeto normativo de sociologia pública. com a temática permitem indicar que se
Deste modo, considera o engajamento com localiza aí uma das principais contribuições
“utopias reais” uma visão de socialismo da sociologia pública à teoria sociológica
possível, que coloca a sociedade civil contemporânea.
em uma posição privilegiada (2005c) As guerras da sociologia pública8
em relação à tirania dos Estados e ao
fundamentalismo de mercados. A proposta da sociologia pública
A sociologia pública consiste, desta formulada por Burawoy foi alvo de diversas
forma, em uma sociologia para os públicos. críticas. Essas “guerras da sociologia
Por outro lado, a indicação e preferência por pública”, como denomino aqui, foram
um público privilegiado – os “subalternos” – travadas em uma série de eventos, debates,
para a sociologia pública não, retira, assim, periódicos e dossiês. O conjunto de críticas
a possibilidade de interlocução com os mais à sociologia pública que será recuperado, de
variados públicos. Como consequência forma breve, neste artigo, está relacionado
das hipóteses sugeridas, buscarei analisar às considerações especialmente relativas
a questão do engajamento do sociólogo ao engajamento do sociólogo nas questões
e da sociologia, como um todo, a partir públicas e, portanto, políticas. Segundo

7
Expressão inspirada na obra de Alvin Gouldner, The sociologist as partisan: sociology and the Welfare
State.
8
Denominação inspirada no artigo de Burawoy (2009c) The public sociology wars, da coletânea Handbook
of public sociology, organizada por Vincent Jeffries.

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Enfoques Vol.1, n.14.

Zussman & Misra (2007), a preocupação disciplina, já que a introdução de valores


mais profunda dos sociólogos que estão representaria uma corrosão dos padrões
“nervosos” com as perspectivas apontadas profissionais disciplinares.
por Burawoy é que a sociologia pública vai Já para Boyns & Fletcher (2005),
politizar a sociologia, em vez de investir a sociologia pública é uma tentativa
na qualidade científica baseada em equivocada de corrigir os problemas de
uma independência intelectual. Embora engajamento público e da identidade
Burawoy tenha insistido no fato de que disciplinar, que cercam a disciplina ao
a sociologia pública não está relacionada longo das últimas décadas. Alguns pontos
a determinados valores a priori, o fato de crítica são evidenciados pelos autores
de ser declaradamente marxista fez com na tentativa de apresentar as limitações
que muitos críticos tivessem uma postura deste programa. A suposta filiação da
bastante cética em relação a um pretenso sociologia pública ao marxismo, que
descompromisso com uma ideologia de contribuiria para ressaltar as divisões
esquerda.9 existentes dentro da disciplina, e o avanço
Lynn Smith-Lovin (2007) afirma público da sociologia em direção a uma
que a sociologia pública pode minar agenda voltada para uma “sociologia para
o desenvolvimento do conhecimento públicos” em vez de uma “sociologia dos
sociológico, justamente por carregar um públicos”, que condicionaria limitações ao
forte conteúdo valorativo. O problema desenvolvimento de uma interface pública,
parece não consistir no fato de que por exemplo. O que estes autores buscam
sociólogos individuais possam se envolver propor é que somente o desenvolvimento
em questões públicas e políticas e que de um programa forte de sociologia
façam de sua profissão um engajamento. profissional pode conformar um meio
Para a autora, a questão problemática da para reparar os problemas da disciplina.
sociologia pública é que isto se daria como Ou seja, estão preocupados com “a crise
projeto disciplinar coletivo. Assim como de legitimação endêmica à sociologia que
para Stinchcombe (2007), politização diz decorre de questões sobre as possibilidades
respeito à intromissão de preocupações de engajamento público da sociologia e a
políticas nos interesses intelectuais e coerência da sua identidade disciplinar”
científicos da sociologia (Smith-Lovin, (Boyns & Fletcher, 2005: 6). Isto significa
2007). Segundo Stinchcombe (2007), que, para os autores, no lugar de energias
uma pretensão duvidosa da proposta de dedicadas ao desenvolvimento de uma
Burawoy é a de que os sociólogos possuem sociologia pública, os esforços deveriam ser
algo de relevante a dizer ou dialogar com os primeiramente direcionados para reforçar
mais variados públicos. Mas, assim como a coerência do conhecimento disciplinar
Smith-Lovin, Stinchcombe é simpático à da sociologia e do desenvolvimento de um
participação política individual, embora programa forte de sociologia profissional.
crítico da participação coletiva pela Neste mesmo sentido, para Brint

9
Embora sob uma perspectiva distinta, a relação entre a sociologia pública e o marxismo é também
apontada por Calhoun (2005), quando afirma que “para além de sua [de Burawoy] agenda da sociologia
pública, existe um esforço para recolocar a sociologia marxista”. Em outro trecho, considera que Burawoy
esteja preocupado em superar uma versão do marxismo pós 1970, desvinculado dos movimentos sociais
(Calhoun, 2005: 357-58).

13
Enfoques Vol.1, n.14.

(2005), é o suposto potencial de querer é oferecida por Jonathan Turner (2005,


“mudar o mundo” que torna a sociologia 2009), para quem a sociologia pública
pública tão problemática, já que os compõe um pensamento de esquerda, que
sociólogos não se confundem com atores vai infundir ideologia à face pública da
políticos. Enquanto os sociólogos precisam sociologia. A questão apontada por Turner
estar em conformidade com as teorias, refere-se ao fato de que a sociologia, ao
o fato de se identificarem como atores se orientar ideologicamente, pode escapar
políticos significa estarem preso às visões ao controle da explicação científica. Turner
de mundo, às crenças e aos valores. É neste propõe construir uma “engenharia social”,
sentido que, segundo Brint, Burawoy reduz que enfatize a necessidade da neutralidade
a importância da sociologia profissional, dos valores e a possibilidade de uma
baseada na pesquisa empírica orientada ciência natural do mundo social. Segundo
pela teoria, em vez de aumentar sua o autor, o que as pessoas precisam é de um
influência. Tendo como base o cenário “conhecimento imparcial e preciso sobre
brasileiro, Schwartzman (2009: 277) o mundo social, que pode ser utilizado
afirma, diferentemente de Burawoy, que pelos públicos, clientes, formuladores de
“é no mundo acadêmico, da liberdade de políticas ou quem tiver um problema de
pesquisa e do rigor científico, que deveria organização social” (Turner, 2009: 263).
estar a âncora” da sociologia. Apesar de Partindo de outro patamar crítico, Touraine
apontar para a necessidade de a sociologia (2007) argumenta que a sociologia
estar relacionada às questões públicas, pública é, em nenhum sentido, periférica
o foco, segundo Schwartzman, deve ser ao empreendimento sociológico, mas
o esforço, ainda incompleto no país, em fundamental para a restauração teórica e
“consolidar uma sociologia que mantenha prática da agência dos atores no âmbito da
sua independência e sua relevância, tanto disciplina. Assim, a sociologia pública deve,
em relação aos rituais acadêmicos quanto segundo este autor, ocupar o lugar central
em relação às organizações e movimentos na sociologia em sua busca de atores. Para
sociais com os quais dialoga ou dos quais ele, tais públicos devem ser constituídos de
participa” (Schwartzman, 2009: 277). indivíduos e grupos localizados em situação
Outra crítica à sociologia pública de de vulnerabilidade social, submetidos a
Burawoy é realizada por Deflen (2005), que alguma forma de exploração e opressão
considera a sociologia pública um disfarce pelas forças dominantes. Além disto,
velado de uma versão particularista para Touraine (2007), estamos diante de
do chamado “marxismo sociológico”.10 uma necessidade histórica de superação
Segundo o autor, o problema não está da divisão entre sociologia profissional e
no ativismo sociológico individual, nem crítica. É neste sentido que seu projeto
no caso de uma sociologia ativista tomar de uma “sociologia geral dos atores”
posições políticas, mas na ligação da contribuiria para esta tarefa, ao conferir
disciplina com as questões públicas mais uma orientação normativa ao processo de
gerais da sociedade de forma a engajar- reconhecimento sociológico de direitos
se coletivamente. Uma análise semelhante dos atores relacionados anteriormente.

10
Na trilha de que o “conhecimento sociológico não pode desafiar o mundo” (Deflen, 2005), o autor elab-
orou, já em 2005, o site da campanha “Save Sociology” (www.savesociology.org), com o objetivo de salvar a
sociologia da sociologia pública e dos valores.

14
Enfoques Vol.1, n.14.

Já para Immanuel Wallerstein (2007), articulação entre imaginação sociológica e


a sociologia pública realiza uma falsa vida pública” (Maia & Perlatto, 2012: 108).
distinção entre conhecimento instrumental Deste modo, as primeiras
e conhecimento reflexivo, propondo aproximações com as diferentes respostas
outra solução para a questão apontada críticas e entusiastas permitem considerar
por Burawoy sobre os distintos tipos de que a sociologia pública intensificou
conhecimento no contexto de uma divisão do a reatualização de questões caras às
trabalho sociológico. Segundo Wallerstein mais diversas tradições sociológicas.
(2007), os sociólogos deveriam se envolver A discussão a respeito do engajamento
em ambos os conhecimentos, instrumental parece sugerir que se localiza, nesta
e reflexivo. Os sociólogos – e os cientistas questão, uma das principais contribuições
sociais de uma forma geral – deveriam da sociologia pública à teoria sociológica
realizar três funções, de forma simultânea contemporânea.
e consciente: uma função intelectual, Considerações finais
que corresponde ao desenvolvimento de A intenção de recuperar algumas
análises plausíveis sobre o mundo empírico; leituras críticas consiste em analisar
uma função moral, como forma de entender a reação ensejada e em que medida
as implicações morais da nossa atividade; podemos apostar na sociologia pública
e, por fim, uma função política, que leva enquanto um projeto duradouro, seguindo
em conta a melhor maneira de realizar o questionamento de Calhoun (2005), ou
uma boa moral (Wallerstein, 2007). Estas seja, pensar seus limites e possibilidades
funções, segundo argumenta, estão ligadas na atualidade.
de forma sequencial e inevitável. Assim, a Uma hipótese que busquei trabalhar
sociologia pública não deveria ser um tipo neste artigo é que uma das críticas mais
de sociologia separada das demais, já que fortes ensaiadas em direção à ideia
“todos os sociólogos [...] são, e não podem de sociologia pública questiona seu
ser de outra forma, sociólogos públicos. A horizonte de intervenção política, a partir
única distinção é entre aqueles que estão da valorização de uma prática dialógica
dispostos a vestir o manto e aqueles que com segmentos da sociedade civil. Esta
não estão” (Wallerstein, 2007: 174). concepção de intervenção e diálogo no
Maia & Perlatto (2012: 103) buscam interior da sociologia representaria, segundo
apontar que, no caso brasileiro, a partir os autores que recuperei neste trabalho
de um contexto periférico, a história das (Boyns & Fletcher, 2005; Brint, 2005; Turner,
ciências sociais demonstra uma “evidente 2005; Deflen, 2005; Smith-Lovin, 2007;
disposição pública, conectando-se, Stinchcombe, 2007; Schwartzman, 2009),
em muitos casos, não apenas a temas uma politização perigosa que colocaria em
públicos, mas ao próprio ativismo político”. risco o caráter científico da sociologia e,
Para estes autores, a sociologia pública por este motivo, representaria uma ameaça
precisa levar em conta as experiências à sua própria existência enquanto área
nacionais, para além da literatura anglo- de conhecimento. Grande parte destas
saxã, como forma de fugir ao caráter de leituras identificou na sociologia pública
mera ilustração de teses gerais, sem levar uma tentativa de resgatar o pensamento
em conta as especificidades de outras marxista para o interior da sociologia. Neste
geografias. Para tanto, a sociologia pública aspecto, foram feitas referências ao fato
precisa ampliar seu escopo de análise, do próprio Burawoy se declarar marxista,
sendo o caso brasileiro interessante para mas também a conhecida formulação do
demonstrar a “diversidade de formas de “marxismo sociológico”, em conjunto com
15
Enfoques Vol.1, n.14.

Erik Olin Wright.11 quanto as estratégias de intervenção no


É neste sentido que compreendo a âmbito dos atores sociais – neste caso, os
sociologia pública como um campo teórico sociólogos individuais, cujas perspectivas
e metodológico de disputas sobre o futuro e discursos são, de todo modo, mediados
da disciplina. As primeiras “guerras da por posições sociais.
sociologia pública” que recuperei neste Assim, considero as indicações
artigo recolocaram em cena alguns apontadas como pistas para pensarmos
elementos, subjacentes às questões os limites e as possibilidades da sociologia
apontadas, que merecem destaque. públicanateoriasociológicacontemporânea
As tensões entre engajamento e – ou, relembrando a questão de Calhoun
reconhecimento científico não podem (2005), nos faz refletir se a sociologia pública
ser deslocadas de uma discussão sobre é um projeto duradouro. De qualquer forma,
a natureza do conhecimento sociológico, as leituras e análises que busquei apontar
sempre mediado por processos mais neste artigo me permitem considerar, desde
amplos, relacionados à materialidade já, a pertinência da sociologia pública, nem
das condições sociais. Por este motivo, a tanto pelas respostas que Burawoy buscou
sociologia pública não é resultado apenas oferecer, mas pelas questões e embates
de embates e discursos localizados no que suscitou. Nas palavras do próprio
interior da disciplina, mas envolve tanto Michael Burawoy, “fazemos nossa própria
as condições e processos sociais sob os sociologia, mas não sob as condições de
quais emergiu a ideia de sociologia pública nossa própria escolha”.12

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11
Segundo Burawoy & Wright (2000), a tarefa de reconstruir o marxismo como uma teoria coerente deve
estar amparada em uma teoria da reprodução contraditória das relações de classe capitalistas, em vez de
uma teoria marxista da trajetória histórica. A proposta do marxismo sociológico busca identificar os pro-
cessos causais dentro da sociedade capitalista que têm amplas implicações para a natureza das institu-
ições em tais sociedades e as perspectivas para a emancipação humana. Neste sentido, o socialismo não
deve ser entendido como resultado de um processo teleológico ou uma necessidade histórica, mas como
o resultado potencial da estratégia, da restrição e da contingência. Segundo Braga (2009, 2010), em um
cenário ainda predominantemente positivista da sociologia, o debate contemporâneo da sociologia pública
é uma oportunidade para problematizarmos as relações entre a sociologia crítica e o marxismo. O desafio
consistiria em localizar a sociologia marxista na sociologia pública, como espaço privilegiado para desen-
volver tanto teorias quanto programas de pesquisa e, também, alicerçar um projeto político.
12
Esta frase (Burawoy, 2009b: 225) é uma alusão à clássica “os homens fazem sua própria história, mas
não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e, sim, sob aquelas com que se
defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado” (Marx, 2002: 21).

16
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18
Enfoques Vol.1, n.14.

O EZLN E OS DESAFIOS ANALÍTICOS QUE SEU


PERCURSO POLÍTICO SUGERE À TEORIA SOCIAL
Sarah Roberta de Oliveira Carneiroi

Resumo
O presente artigo, tomando como base dezessete comunicados zapatistas, pontua as
particularidades do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), ator social de forte
oposição ao capitalismo, com o objetivo de demonstrar os desafios que sua singular
trajetória política apresenta ao campo da teoria social. A insurgência do EZLN, em janeiro
de 1994, demarca a chegada à arena política do México de uma voz contestatória, que
convoca não somente a sociedade mexicana e mundial para repensarem os rumos do
planeta, mas também desafia as abordagens acadêmicas em torno dos movimentos sociais,
e as referências marxistas sobre revolução.

Palavras-chave: EZLN; despossuídos; percurso político singular; novos movimentos sociais;


abordagens marxistas.

ANALITICAL CHALLENGES THAT ITS POLITICAL PATH SUGGESTS TO SOCIAL THEORY

Abstract

The present article, built upon 17 Zapatista official reports, points out the particularities
of the EZLN, a social actor with strong opposition to capitalism. It aims to present the
challenges that EZLN’s unique political path offers to the field of social theory. EZLN’s
insurgency in January 1994 defines the beginning of an opposing voice in the Mexican
political arena which urges not only Mexican and international societies to rethink the
future of the planet but also challenges the academic approaches regarding social
movements and the Marxist references about revolution.

Keywords
EZLN; dispossessed; unique political path; new social movements; Marxist approaches.

i
Sarah Roberta de Oliveira Carneiro é doutora em Ciências Sociais pela Universidade
Federal da Bahia (UFBA), com estágio doutoral na Université de Strasbourg, e pesquisa-
dora do Núcleo de Estudos Ambientais e Rurais (Nuclear/UFBA). Suas áreas de interesse
são sociologia política e comunicação. E-mail: sarah.palavra@gmail.com.
19
Enfoques Vol.1, n.14.

A proposta do presente artigo1 é As sociedades contemporâneas têm


examinar a trajetória política do Exército experimentado diferentes modalidades de
Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) contestação, de modo que a grade teórica
com o objetivo de revelá-la como subsídio que se dispõe a analisar as mobilizações
empírico que desde sua insurgência, sociais vem sendo alvo de revisões,
na década de 1990, vem desafiando as problematizações e questionamentos.
interpretações sociológicas acerca dos Neste sentido, alguns estudos estão
atores sociais contestatórios. sendo produzidos, e suas abordagens, de
As práticas zapatistas, assim como um modo geral, têm sido direcionadas
muitas outras ações coletivas recentes, principalmente à compreensão de quais
apontam para o limite interpretativo das são as clivagens que, hoje, perpassam as
abordagens que se pautam pela clássica sociedades; quais são os sujeitos a elas
tensão capital x trabalho. Para, além disso, ligados e como se caracterizam as ações
o EZLN não pode ser lido com base apenas coletivas que vêm sendo chamadas não
nos novos repertórios analíticos que se mais de Novos Movimentos Sociais, mas
pautam, sobretudo, a partir das referências Novíssimos Movimentos dos Indignados
de identidade e dos direitos difusos, pois (Gohn, 2014).
o EZLN demonstra que as problemáticas Disposto a evidenciar o emaranhado
de ordem econômica não estão todas conceitual sugerido pelo EZLN, o
resolvidas e persistem, portanto, como presente artigo se vale não somente das
fontes de exclusão. contribuições dos seus estudiosos, mas
Em outras palavras, o EZLN é um também da voz dos próprios zapatistas,
movimento no qual coexistem distintas a qual se faz representada, aqui, através
dimensões da luta social, de modo que as dos comunicados emitidos pelo Comitê
suas demandas, a sua forma organizacional Clandestino Revolucionário Indígena
e a sua concepção de poder exigem a (CCRI), a Comandância Geral do Exército
multiplicidade de olhares e lhe afastam Zapatista de Libertação Nacional (CG) e
das possibilidades: 1) de ser compreendido pelo subcomandante Marcos.2
somente como uma guerrilha latino- Os comunicados são textos que
americana; 2) de ser classificado apenas se opõem ao neoliberalismo, reivindicam
como uma revolução nos moldes do roteiro liberdade, justiça e democracia; contêm
marxista; e 3) de ser visto imediatamente apelos poéticos e aforismos filosóficos, e
como um novo movimento social que se desde janeiro de 1994, graças ao apoio
relaciona mais com a questão identitária e de ativistas simpatizantes ao EZLN, são
menos com o horizonte da economia. disseminados pela Internet. Um conjunto

1
O presente artigo é um desmembramento do terceiro capítulo de minha tese de doutorado intitulada Do
silêncio das montanhas ao grito para o mundo; a saga de uma voz insurgente, cuja defesa foi realizada em
dezembro de 2012 no âmbito do Programa de Pós-graduação de Ciência Sociais da Universidade Federal
da Bahia (PPGCS/UFBA).
2
Na década de 1980, um mexicano urbano chamado Marcos refugiou-se na Selva Lacandona, reduto dos
indígenas no sudeste do México, para renovar os seus sonhos de guerrilha. Do seu encontro com os indí-
genas emergiu o EZLN, e ele se tornou seu porta-voz. No mês de maio, no entanto, ele saiu de cena para
dar lugar ao subcomandante Galeano. Mas todos os documentos zapatistas examinados para a produção
deste artigo são ainda de quando o subcomandante atendia pelo nome de Marcos, de modo que será este
o nome usado aqui.

20
Enfoques Vol.1, n.14.

de 17 comunicados (todos publicados pela ofensiva militar que desembocou na


em 1994 e 1995) foi então consultado aparição pública do EZLN, em 1° de janeiro
e compõe o corpus deste trabalho. Mas de 1994, foi um período de preparação,
foram usados, também, entrevistas mais que nas palavras do Exército, se chamou
recentes com o subcomandante Marcos “Crescimento explosivo”.
feitas por pesquisadores e, ainda, livros e O grito “Já basta” ecoou da boca de
artigos sobre o EZLN. homens e mulheres, cujos rostos estavam
De 1994 até o momento, o EZLN sob o paliacate, isto é, lenço colorido,
publicou seis Declarações, cartas para e sob o passa-montanha, que é o gorro
diferentes organizações, como as negro. Este gorro esconde o rosto e
organizações indígenas, comunicados para garante ao Exército uma unidade visual,
a sociedade internacional, para a mídia, que em sua primeira aparição pública
para as crianças, poemas e tantos outros provocou inúmeras perguntas na cabeça
escritos. dos que não tinham noção do processo
Para dar cabo à discussão que este organizativo que transcorria nas montanhas
artigo propõe, sua estrutura está assim e, inesperadamente, no dia 1° de janeiro
delineada: num primeiro momento, tem-se a de 1994, vieram a tomar conhecimento da
apresentação sucinta do EZLN; em seguida, existência de homens, mulheres e crianças,
são expostas algumas interpretações habitantes de uma selva, no estado de
analíticas a seu respeito; e, por fim, são Chiapas, selva esta que não é, vale dizer,
trazidas reflexões que têm por base as “próxima das câmeras” (Kingsnorth, 2006:
referências marxistas. 20), ou seja, não tinha apelos midiáticos,
O EZLN, seu Crescente Organizacional e as mas, ainda assim, após o grito dado pelo
Negociações Subsequentes EZLN, saiu da dimensão de lugar totalmente
O Exército Zapatista de Libertação desconhecido e tornou-se rapidamente
Nacional (EZLN), ator social contestatório um assunto nos noticiários do México e
de forte oposição ao capitalismo, fez-se também de outras partes do mundo.
conhecido mundialmente no dia 1º de Dentre as possibilidades analíticas
janeiro de 1994, por meio da ocupação de que o uso do passa-montanha inspira,
sete cidades de Chiapas e a enunciação do está a constatação de que os zapatistas
grito ¡Ya basta!, proferido contra o ingresso “esconderam” o rosto, ocultaram os
do México no Tratado de Livre Comércio da traços dados pelo fenótipo e guardaram
América do Norte (Nafta), que estabeleceu a fisionomia num pano “opaco”, o qual,
um mercado livre e sem fronteiras entre o acrescido de uma voz singularmente
México, o Canadá e os Estados Unidos. contestatória, arremessou interrogações
O grito ¡Ya basta! é um pedido de teto, perturbadoras no mundo e acabou por
trabalho, educação, terra e saúde, com construir um elo com as inúmeras caras
um reclame de democracia, liberdade e dos desfavorecidos, de modo que o
justiça. subcomandante Marcos, “falando de si” no
A década compreendida entre comunicado “O conto de Antônio”, diz:
1983, ano em que se deu o surgimento
[...] Marcos é um gay em São Francisco,
da primeira célula político-militar da região
negro na África do Sul, um asiático
da Selva Lacandona, formada por cinco
na Europa, chicano em San Isidro,
homens e uma mulher, e 1993, quando anarquista na Espanha, palestino em
houve uma consulta ampla a todas as Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal,
comunidades zapatistas, decidindo-se bagunceiro em Neza, roqueiro na cidade

21
Enfoques Vol.1, n.14.

universitária, judeu na Alemanha, que é nossa razão e a justiça que é nossa


ombudsman em Sedena, feminista nos vida”.4
partidos políticos, comunista após a O esforço zapatista esteve todo o
guerra fria, prisioneiro em Cintalapa, tempo empregado no sentido de sublinhar
pacifista na Bósnia, Mapuche nos Andes
a justiça da luta por eles “desencadeada”,
professor da CNTE, artista sem galeria
na medida em que os zapatistas são uma
nem portfólio, dona de casa num sábado
à noite não importa em qual bairro, em resposta ao esquecimento ao qual ficaram
qual vila, em qual México, guerrilheiro submetidos por séculos.
no México do fim do século XX, grevista
Hoje, 12 de janeiro de 1994, nós soubemos
na CTM, jornalista sem prestígio
que o senhor Carlos Salinas de Gortari,
nas páginas interiores, machista no
em sua qualidade de chefe supremo do
movimento feminista, mulher sozinha na
Exército federal, ordenou às suas tropas
estação do metrô às dez horas da noite,
para cessarem fogo. [...] O Comité
aposentado que faz piquete no Zócalo,
Clandestino Revolucionário Indígena, o
camponês sem terra, editor marginal,
Comando Geral do Exército Zapatista de
operário desempregado, médico sem
Libertação Nacional saúdam a decisão
gabinete, estudante inconformado,
do senhor Salinas de Gortari e ver um
dissidente do neoliberalismo, escritor
primeiro passo em direção à abertura
sem livros ou leitores, e, claro, zapatista
do diálogo entre os beligerantes. [...]
do Sudeste mexicano. Finalmente,
Nossa luta é justa e verídica, ela não
Marcos é um ser humano qualquer deste
responde a interesses pessoais, mas ao
mundo. Marcos é todas as minorias
cuidado com a liberdade de todo o povo
não toleradas, oprimidas, que resistem,
mexicano em geral e do povo indígena
que exploram e dizem “basta”. Tudo
em particular. Nós queremos a justiça
que é minoria no momento de falar
e iremos adiante porque em nossos
e maioria no momento de calar e de
corações vive a esperança. (Comunicado
sofrer. Tudo que incomoda o poder e as
“Sobre o cessar-fogo”, ¡Ya basta!, 1994:
boas consciências, tudo isso é Marcos,
78).
um zapatista no sudeste mexicano.
(Comunicado “O conto de Antonio”, ¡Ya Assim o EZLN respondeu ao cessar-
Basta!, 1994: 284) fogo acionado pelo governo, dizendo
ainda que não deixaria as armas e não se
Nota-se, portanto, neste depoimento
renderia a nenhum mau governo. A partir
a vinculação do EZLN com o universo
de propostas dos zapatistas e pressões
dos despossuídos3 e fragilizados, seja
da sociedade civil, o governo concordou
materialmente, seja emocionalmente.
em “dialogar” com o EZLN. Foi criada a
Depois da insurgência do EZLN, em 1º
Comissão de Mediação para a qual o EZLN
de janeiro de 1994, o governo, no dia 12
indicou como mediador o bispo de San
de janeiro, declarou unilateralmente um
Cristóbal de Las Casas, Don Samuel Ruiz
cessar-fogo, enquanto o EZLN solicitava
García, que tinha uma forte ligação com a
ser visto como uma força beligerante: “Nós
Teologia da Libertação.
perseguimos o combate até obtermos a
Em 1996, ou seja, passados dois
liberdade, que é nosso direito, a democracia

3
Esta terminologia é adotada neste artigo para traduzir os sujeitos que sentem qualquer tipo de despert-
encimento social, os quais aparecem como “desprovidos” no discurso zapatista.
4
Extraído do comunicado “Chamada a todos os mexicanos” (¡Ya basta!, 1994: 106).

22
Enfoques Vol.1, n.14.

anos da insurgência, foi assinado o mais frequência nos artigos sobre o EZLN
Acordos de San Andrés entre os zapatistas diz respeito à capacidade de permanência
e o governo mexicano e para reforçar este e continuidade do movimento, que mesmo
acordo foi elaborado o projeto de lei pela tendo reduzido significamente suas
Comisión de Concordia y Pacificación aparições, persiste enquanto ator social
(COCOPA). O Acordos de San Andrés foi contestátório, dotado de um discurso que
construído por meio de um processo que ativistas de todas as partes do mundo se
contou com a composição de mesas de interessam em escutar.
negociação, a saber: Direitos e Cultura Além disso, vale mencionar a
Indígena, Democracia e Justiça, Bem-estar e experiência da Escola Zapatista, que,
Desenvolvimento, Mulheres, Reconciliação segundo Amaury Ghijselings (2014),
em Chiapas e Fim das Hostilidades, e tinha implica uma iniciativa pedagógica inédita
como propósito alterar a Constiutição para na trajetória zapatista, pois se trata da
que os direitos fundamentais dos indígenas abertura dos Caracóis para o horizonte
fossem reconhecidos. da educação popular mais detida. Voltada
Mas o cumprimento destes pactos para sujeitos críticos que enxergam no
não aconteceu. As negociações de paz zapatismo uma referência de luta pela
entre o EZLN e o governo federal mexicano justiça social, a escuelita (como se chama
foram interrompidas em setembro de 1997, a vivência formativa), segundo Ghijselings,
devido às grandes divergências na mesa de tem o poder de inspirar movimentos sociais
diálogo sobre Democracia e Justiça. europeus.
Desde sua insurgência, o EZLN Alguns Esforços Interpretativos
continua firme em suas pautas, oscilando
momentos de aparição pública com o de O EZLN, embora contenha uma forte
retraimento, tendo realizado importantes referência étnica, não deve ser associado
eventos e marchas pelo México, as quais de imediato a um movimento social que se
contaram com a participação de grandes relaciona prioritariamente com questões
nomes da intelectualidade, a exemplo do identitárias, pois os zapatistas abarcam
pensador francês Alain Touraine. A últma pautas que estão para além das demandas
grande aparição do EZLN aconteceu em indígenas. Em seu repertório de luta há
dezembro de 2012, através de uma marcha a indicação de diferentes problemáticas
absolutamente silenciosa. É sabido que que afetam a sociedade mexicana, desde
a palavra ocupa um importante lugar nas a falta de moradia à escassez de salas
ações políticas do EZLN, de modo que a de aula, de modo que se existe um traço
decisão do silêncio tem propósito político. unitário que vincula os zapatistas, esta é a
Vale dizer que Bernard Duterme condição de despossuídos.
(2014), ao pautar a extensa durabilidade Desde que o grito ¡Ya basta! ecoou
do EZLN, comunica que o balanço que os – sua emissão ano passado completou
zapatistas fizeram deles mesmos, depois de 20 anos –, o EZLN prossegue sendo uma
20 anos da insurgência, é majoritariamente força política que demanda reflexões
positivo. Para o autor, o senso de acerca de seu modo organizacional e sua
autonomia do EZLN e sua proposta radical forma particular de intervir na construção
de democracia são grandes legados, ainda da realidade, na medida em que elegeu
que os zapatistas e o Estado mexicano não a comunicação como vetor importante, e
tenham chegado aos acordos desejados. assim conseguiu se constituir como sujeito
Atualmente, o mote que aparece com falante no espaço público mexicano e
mundial, falando em nome de todos os
23
Enfoques Vol.1, n.14.

despossuídos. (Câmara, 2000: 1)


Antônio da Silva Câmara lembra
que a grande parte dos estudos voltados A investigação acerca do EZLN feita
ao zapatismo busca entender as causas por Yvon Le Bot, que em suas pesquisas
que teriam dado origem ao levante em realizou uma longa entrevista com o
janeiro de 1994 na região de Chiapas. Ele subcomandante Marcos, permite uma
afirma que uma multiplicidade de causas leitura do EZLN como o resultado de um
é apontada pelos diversos autores: alguns desenvolvimento crescente de mobilização
buscam entendê-las a partir da própria vivenciada no seio da população indígena,
história do México, e muitos são os que sendo o zapatismo, segundo ele, uma
compreendem que as raízes da rebelião mistura de motivos religiosos, econômicos
se encontrariam na própria história de e políticos (Le Bot, 1997: 39). Ele diz
exclusão dos indígenas. ainda que o processo educativo vivido
Câmara verifica que o EZLN provoca na Selva Lacandona foi importante para
certo incômodo nos intelectuais, na a edificação do movimento, mas são as
medida em que os obriga a posicionarem- mudanças religiosas e as lutas sociais as
se diante da rebelião, ao mesmo tempo duas entradas necessárias à compreensão
em que testa a ideologia pós-moderna da gênese do zapatismo.
que não comporta movimentos de caráter A mobilização, que se efetivou no
revolucionário, herdeiros do pensamento seio da vida indígena antes da insurgência
utópico. do EZLN e para a qual Le Bot direciona o
olhar, também é considerada nos estudos
[...] encontra-se um grupo significativo feitos por Jérôme Baschet (2005). Este
de autores, às vezes até mesmo autor afirma que não podemos reduzir o
influenciados, em certos aspectos, EZLN à personalidade do subcomandante
pelo debate discursivo modernidade/ Marcos, nem muito menos deixar de
pós-modernidade que concebem o compreender que o zapatismo não nasceu
movimento de Chiapas como um novo em janeiro de 1994, pois há em torno dele
capítulo da luta contra a opressão
e antes dele um amplo e forte movimento
social, compreendida classicamente
apenas enquanto subordinação de
social desenvolvido pelos camponeses
classe, aportando enquanto novidade indígenas, sendo este um movimento que
a participação dos indígenas enquanto conta com aproximadamente 20 anos de
verdadeiros sujeitos sociais, locais luta e experiência.
e universais ao mesmo tempo. O Na entrevista publicada no livro
ideário do EZLN que não pretende a Zapatistas: a velocidade do sonho, de
destruição do Estado mexicano, mas Pedro Ortiz, Marco Brige e Rogério Ferrari,
sim o respeito à autonomia indígena o subcomandante Marcos fala que o EZLN
e o fim da exploração e da miséria “tem duas raízes: um grupo político-militar
social, o diferencia dos movimentos urbano e uma organização indígena”
nacionalistas europeus e indicam novas
(Marcos apud Ortiz, Brige & Ferrari, 2006:
possibilidades na resolução dos conflitos
originários das formas de subordinação
167).
desenvolvidas na sociedade capitalista, Esta afirmativa confirma, então,
por isto estas análises, mesmo que a característica indígena é um dos
apresentando, em alguns casos, certas traços do movimento, mas, como já foi
incongruências teóricas, são ricas e dito, o zapatismo não se compõe como
abrem novos horizontes para o estudo uma contestação exclusivamente indígena,
dos movimentos classistas e étnicos. e um dos comunicados zapatistas que

24
Enfoques Vol.1, n.14.

anunciam isto diz assim: “A luta do EZLN atualmente, quando se fala em mobilização
não é somente dos zapatistas, nem dos social, e essa nomenclatura é indissociável
chiapanescos, nem dos indígenas. É de das mobilizações contestatórias que
todos os mexicanos, daqueles que não têm surgiram no final dos anos 1960 e
nada, dos desprovidos, da maioria entregue extrapolaram a esfera industrial (Neveu,
à miséria, à ignorância, à morte”.5 2002; Fillieule, Mathieu & Péchu, 2009),
Outra confirmação desta ideia e quando se assinala isto, estamos a
aparece na “Carta a um jornalista honesto”, evidenciar que, atualmente, os movimentos
assinada pelos zapatistas, e na qual está sociais não se identificam puramente com
expresso: “Se diz a verdade e procura a a classificação de movimento operário
justiça, é zapatista, então, somos todos (Touraine, 1999).
zapatistas” (¡Ya basta!, 1994: 143). Em contato com esta referência,
Vale dizer que em relação ao vasto Melucci (2001) diz que as mobilizações
conteúdo indígena que contorna o EZLN, contemporâneas estariam, então,
Le Bot chama a atenção para o lugar da relacionadas ao feminismo, consumo,
cultura maia na construção do movimento, aos movimentos regionais e estudantis,
pois, embora ela seja bastante presente movimentos da contracultura jovem,
enquanto fonte de conhecimento, segundo movimentos anti-institucionais, à ecologia
ele, os zapatistas não reivindicam uma e às lutas desencadeadas por imigrantes.
especificidade maia, ou seja, não pretendem Mas ainda que este seu mapeamento
edificar uma nação sobre uma base étnica, porte algum sentido orientador e ajude
pelo contrário, fazem uma afirmação na realização de um debate sobre as
insistente da mexicanidade. “Os zapatistas características dos movimentos sociais
se querem resolutivamente mexicanos, na sociedade contemporânea, uma vez
indígenas mexicanos” (Le Bot, 1997: 85). tomando-o como roteiro de análise,
Baschet (2005) informa que o deve se levar em consideração que, se
EZLN entrelaça os componentes étnico, antes, os movimentos contestatórios se
nacional e internacional, pois a um só centravam quase que exclusivamente em
tempo contém uma forte referência reivindicações de caráter classista, sendo
indígena, exige exaustivamente que se faça este praticamente a única variável que
a superação do modelo Estado-partido, interferia na definição da identidade, e
vivido no México – na medida em que o por isto os movimentos sociais, em sua
Partido Revolucionário Institucional (PRI) grande maioria, se voltavam à incessante
se perpetuou na presidência do país por busca pela ampliação de renda, garantia
sete décadas – e se opõe explicitamente da seguridade social e outras conquistas
ao neoliberalismo, configurando-se como de caráter estrutural, como o direito à
um ator antissistema. Nas palavras dos saúde e à moradia, hoje, ainda que se
próprios zapatistas está dito: “O EZLN é note uma diversidade de quereres sendo
uma realidade política e militar em nível exercitada, as reivindicações não deixam
regional, nacional e internacional”.6 de dizer respeito à dimensão de classe.
A terminologia Novos Movimentos A novidade, segundo José Maurício
Sociais (NMS) é uma das mais usadas, Domingues, é que existe uma amplitude

5
Extraído do comunicado “Respeito aos direitos do homem e falsos testemunhos” (¡Ya basta!, 1994: 136).
6
Extraído do comunicado “Precisões para o diálogo” (¡Ya basta!, 1994:126).

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Enfoques Vol.1, n.14.

temática perpassando-as. Este autor Sendo assim, os contornos da ação


compreende que os movimentos contra a coletiva, em virtude das novas clivagens
pobreza, por exemplo, continuam existindo que povoam a sociedade contemporânea,
e chama a atenção para o espírito de rede. estão a demandar outras abordagens
teóricas. Contudo, há de se ter cuidado com
Embora as classes tenham perdido
alguns excessos que vêm sendo cometidos
a proeminência de que desfrutavam
quando são as novas clivagens objeto de
tanto do discurso político quanto
no sociológico, movimentos contra observação, pois alguns estudiosos têm se
a pobreza e a “exclusão” vêm se voltado à pesquisa acerca dos movimentos
reconstituindo em muitos países, sociais, tomando como ponto de partida o
caracterizando muito da crítica social abandono total de formulações anteriores,
da terceira fase da modernidade e por acreditarem que elas não mais
sendo amiúde marcados igualmente contribuem na construção de respostas.
por um espírito de rede como forma A teoria Novos Movimentos Sociais,
de organização e autodefinição. em termos de componente novo, traz para
(Domingues, 2002: 211) a abordagem dos movimentos sociais “uma
Carlos A. Gadea alerta para a nova forma de fazer política e a politização
permanência na contemporaneidade de de novos temas” (Touraine, 1999: 124),
alguns elementos comuns à luta social que além do deslocamento do lugar do sujeito;
antecedem o novo perfil dos movimentos, o caracteriza-se pela mudança do eixo das
qual se configura mediante reivindicações demandas para um patamar mais cultural.
mais conectadas com o exercício da Entretanto, para Maria da Glória
subjetividade, mas ao mesmo tempo alerta Gohn (2006), esta teoria está incompleta,
também para a necessidade de ultrapassar pois os conceitos que lhe dão base não
“toda uma tradição sociológica que vai estão suficientemente explicitados, e
desde o marxismo clássico à teoria do o que se tem é um diagnóstico das
sistema-mundo, em que a ‘liberdade dos manifestações coletivas contemporâneas,
atores’ parecia submetida ao determinismo de modo que reorienta categorias já
da alienação econômica” (Gadea, 2008: usadas anteriormente e desloca a ênfase
501). de uma lógica racional do sistema, comum
Atento para a ruptura com os às análises marxistas, para uma lógica de
movimentos antigos, Neveu (2002) racionalidade dos indivíduos.
especifica tal ruptura dizendo que ela Conforme Gohn, as primeiras
pode ser notada em quatro dimensões, a referências a ações coletivas e movimentos
saber: formas de organização e repertórios sociais datam de 1957, e daí em diante as
de ação, valores e reivindicações que investigações teóricas transitaram pelas
acompanham a mobilização, relação mais diferentes percepções, de modo que
com a política e identidade dos atores. A há desde registros de uma abordagem mais
alteração ocorrida nestes eixos, segundo instrumental, que analisou os movimentos
ele, traz como principais desdobramentos: a partir do binômio integração/
a destituição da expressão “classe funcionalismo, à realização de um conjunto
operária” como o único recurso identitário de observações que tem se preocupado em
contido num movimento, estruturas mais envolver mais amplamente o universo de
descentralizadas, emergência do corpo relações que diz respeito aos movimentos
como pauta política e outras modalidades sociais, a exemplo dos campos de força, da
de enfrentamento das forças antagônicas. identidade e da tessitura de redes.
Em sua obra Teorias dos movimentos
26
Enfoques Vol.1, n.14.

sociais, a autora passa em revista os Esse autor contribui ainda para a reflexão
principais paradigmas usados para aqui desenvolvida, ao informar que sob o
compreender os movimentos, e faz isso ângulo político-militar a força militar do
munida da certeza de que “não há um movimento zapatista estaria mais para o
conceito sobre movimento social mas cumprimento de uma dimensão simbólica
vários, conforme o paradigma utilizado” do que para a construção de uma referência
(Gohn, 2006: 13). Além deste pressuposto, bélica.
Gohn se equipa de mais outro: a América do Para ele, o EZLN não se constitui
Norte, a Europa e a América Latina possuem como uma guerrilha e nem muito menos é
contextos históricos específicos, e lutas o relançamento de uma antiga guerrilha; ao
e movimentos sociais correspondentes a contrário, nasce do fracasso deste modelo
eles. Logo, existem diferentes metodologias de luta revolucionária (Le Bot, 1997: 69).
voltadas ao estudo dos movimentos sociais. Contudo, embora Le Bot localize o aspecto
O escritor mexicano Carlos Fuentes da guerrilha na composição do EZLN, de um
e a mídia internacional classificaram o modo que deixa sugerido que os zapatistas
movimento como a primeira guerrilha pós- se relacionam com esta prática somente
comunista e pós-moderna7 do mundo. pelo viés da influência, ou seja, apenas
Mas, o subcomandante Marcos responde toma como inspiração este tipo de atuação
a esta fala informando que não se trata de política, é preciso ter em mente que, em
uma guerrilha moderna, nem pós-moderna, virtude da insurgência, os zapatistas
mas, sobretudo, um sintoma daquilo que se realmente travaram no plano militar uma
passa no mundo. luta contra o Exército mexicano, e uma luta
Afirmando que o EZLN é um sintoma do desigual, posto que o armamento zapatista,
que se passa no mundo, o subcomandante em termos de quantidade e potência, é
considera os zapatistas como os consideravelmente menos sofisticado do
“representantes” de todos aqueles que lutam que o empregado pelo Exército mexicano.
para ter uma vida decente onde vivem, e Um elemento que o leva a demarcar
este seu pensamento, quando confrontado esta distinção é a relação dos zapatistas
com o debate acerca do reconhecimento com o poder, pois, segundo Le Bot, enquanto
da diferença e da participação igualitária “as guerrilhas revolucionárias dos últimos
no espaço público, desenvolvido por Fraser decênios, na América Latina, tinham em
(2000), autora que faz um chamado para comum – todas sem exceção – o objetivo
as políticas urgentes de reconhecimento da de tomarem o poder do Estado, por meio
diferença, vem a revelar um ator social que das armas” (Le Bot, 1997: 71), os zapatistas
em suas reivindicações reúne o particular e afirmam não quererem ocupar o poder e
o universal. desejam ser soldados desnecessários.
Le Bot (1997) pontua que os Afinal, a existência deles significa a
zapatistas não querem ser tratados como inexistência da justiça social, de modo que,
cidadãos como os outros, conforme para materializá-la, eles precisam lutar.
preconiza a democracia formal, e nem Para Yúdice, os zapatistas realizam
como cidadãos diferentes dos outros, mas, uma insurgência que desestabiliza o status
sim, como cidadãos com suas diferenças, quo e instala uma possibilidade de repensar
numa perspectiva da democracia plural. a política e a cultura no México. Ele também

7
Não se pretende fazer aqui nenhuma grande problematização acerca da modernidade e/ou pós-mod-
ernidade, mas trazer este comentário feito por um escritor mexicano bastante conhecido.

27
Enfoques Vol.1, n.14.

pontua que os zapatistas não são “um acolher todos nós. A bandeira de um
exército guerrilheiro no estilo convencional movimento nacional revolucionário que
latino-americano, como os rebeldes de daria lugar às mais diversas tendências,
Castro, os sandinistas, a Frente Farabundo aos pensamentos mais variados, às
diferentes maneiras de lutar, mas que
Martí de Libertação Nacional de El Salvador,
representariam uma única vontade, um
ou mesmo o Sendero Luminoso” (Yúdice,
único objetivo: liberdade, democracia,
200: 444-445). Para ele, trata-se de um justiça. (¡Ya basta!, 1994: 105)
movimento que é muito mais do que um
combate armado, é um movimento que Reflexões com Base nas Referências
conseguiu abrir um espaço para comunicar Marxistas
seu projeto de sociedade.
Le Bot (1997) e Yúdice (2000) Nas palavras do subcomandante
fazem questão de demarcar as diferenças Marcos uma das descrições do EZLN é
entre o EZLN e as guerrilhas porque, de esta: um pequeno grupo urbano que se
um modo geral, nota-se um ímpeto, por aproximou dos indígenas de Chiapas; este
parte sobretudo da mídia mexicana em grupo tinha orientação marxista-leninista
classificar o EZLN como uma guerrilha, com perfil de organização clandestina,
talvez porque se trate de um movimento constituído por pessoas de classe média,
surgido na América Latina e que usou armas as quais eram adeptas do trabalho político e
em sua insurgência, mas o próprio EZLN no detentoras do projeto de um dia aderirem à
comunicado “Quem vai nos perdoar” diz luta armada, na medida em que se deparou
não seguir os modelos dos chefes das com o fechamento de todas as alternativas
guerrilhas anteriores.8 No comunicado políticas ocasionado pelo monopólio do
“Chamada para todos os mexicanos” estão poder durante décadas pelo PRI.
valorizadas todas as formas de luta pela Tal grupo buscava um espaço para
liberdade, pela democracia e pela justiça, e se preparar militarmente, enquanto os
o EZLN afirma que não tem pretensões de indígenas, por sua vez, haviam chegado
ser uma vanguarda histórica. à conclusão de que a via pacífica para a
transformação do país estava esgotada, e
A verdade é que nós nos organizamos da conjunção destes dois grupos, ambos
assim porque nós não fizemos insatisfeitos com os rumos do México,
de outra maneira. O EZLN saúda surgiu, em novembro de 1983, o Exército
o desenvolvimento honesto e
Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
consequente de todas as organizações
Vale retomar o comentário do
independentes e progressistas que
lutam pela liberdade, pela democracia subcomandante acerca da orientação
e pela justiça para a Pátria inteira. Existe marxista-leninista à luz das reflexões tecidas
e existirão outras armas populares. por Le Bot (1997), na medida em que este
Nós não pretendemos ser a vanguarda autor sinaliza para uma observação nesse
histórica, uma, única e verdadeira. Nós sentido. É que para ele a substituição das
não temos a pretensão de juntar sob categorias socialismo, luta de classes e
nossa bandeira zapatista todos os ditadura do proletariado pelas categorias
mexicanos honestos. Nós oferecemos democracia, justiça e liberdade, por parte
nossa bandeira. Mas existe uma do EZLN, é mais que uma reformulação,
bandeira maior e mais pulsante que pode

8
Extraído do comunicado “Quem vai nos perdoar?” (¡Ya basta!, 1994: 94).
28
Enfoques Vol.1, n.14.

menos que uma ruptura revolucionária e que grau seu encaminhamento guarda
estaria, portanto, mais alinhada ao que referências do marxismo e em que grau
pode se chamar de uma passagem. Le avança em relação a estes.
Bot diz ainda que os zapatistas buscam Lembremos que para Marx e Engels
compor uma democracia plural, começando (1848) toda luta de classe é uma luta
pelo fim da ditadura exercida pelo PRI e política, e a história de todas as sociedades
a deposição do presidente Carlos Salinas existentes é a história das lutas de classes,
de Gortari,9 de modo que eles exigem um a qual envolve antagonismos de diferentes
governo de transição e a abertura de um ordens. No que tange ao camponês, é
espaço político. importante salientar que Marx diz que os
A esta reflexão convém agregar camponeses, por viverem em condições
o comentário feito por Marcos em sua econômicas que os separam uns dos
entrevista a Le Bot na qual expressa que os outros, e opõem o seu modo de vida,
teóricos do zapatismo são todos aqueles os seus interesses e sua cultura aos das
que contribuíram para a construção de outras classes da sociedade, compõem
uma nova abordagem do mundo. Marcos uma classe.
esclarece: “ser marxista não é um pecado, Contudo, se só existe entre os
mas ser de esquerda ou ser revolucionário pequenos camponeses um elo local e a
significa estar sempre em movimento e se semelhança entre eles, e não se cria entre
renovar continuadamente, eu acredito que eles uma comunidade, nem também uma
o zapatismo é revolucionário e lógico com ligação nacional, nenhuma organização
ele mesmo. A gente chama isto como quiser: política, neste sentido, os camponeses
marxismo, antimarxismo, revisionismo, não constituem uma classe. Este aparente
reformismo...” (Marcos apud Le Bot, 1997: paradoxo diz respeito a uma existência
266-267). Marcos pontua ainda que “o material e uma inexistência de uma
zapatismo contribuiu para desconstruir consciência de classe, de modo que o
muitos esquemas, não pela via intelectual, campesinato não seria uma classe para si,
mas pela ação, pelo movimento” (Marcos apesar de usufruir dos atributos de uma
apud Le Bot, 1997: 270-271). Logo, fica classe.
muito evidente que na perspectiva do Entretanto,cabefrisarqueocamponês
subcomandante o EZLN convoca para uma manobrado do bonapartismo não equivale
revisão de muitas categorias de análise ao camponês de Chiapas. Em outras
política. palavras, o zapatista não é o francês do 18
Considerando o que diz Le Bot Brumário, mas sim o camponês organizado
(1997: 83): “a condução dos zapatistas em ejidos, unidades comunitárias que
desconserta os dogmáticos e confunde vinham sendo desmontados mesmo antes
as classificações”, é de se imaginar que de 1994. Lembrando que os zapatistas
as leituras científicas lançadas em torno retomam a cosmogonia indígena da
do EZLN gerem todo tipo de inferência, apropriação coletiva, questionam a
tendendo inclusive a um esforço de fragmentação em parcelas, tomando como
verificação no sentido de observar em referência o princípio de Zapata de que a

9
Salinas foi eleito em 1988 num pleito cujo resultado foi bastante contestado pela oposição democráti-
ca Ele assumiu a presidência, tendo como sua agremiação política o PRI, partido que governou o México,
conforme já foi mencionado, por um período de 71 anos ininterruptos, tempo que os zapatistas chamam de
ditadura e contra a qual se posicionam.
29
Enfoques Vol.1, n.14.

terra é de quem nela trabalha, conforme revolucionário passível de acolher


eles afirmam no comunicado “Resposta à todas as formas de organização social
proposição de acordo de paz do governo que se proponham, com honestidade
supremo”.10 e patriotismo, melhorar nosso México.
(Comunicado “Precisões sobre o EZLN
Nos Manuscritos Econômico-
e condições de um diálogo – ¡Ya basta!,
Filosóficos, Marx salienta que os ciclos
1994: 64-65)
econômicos ocasionam diferentes
efeitos sobre as distintas classes sociais. Fica evidente que o ideário político
Apanhando este indicativo, é pertinente, e social do EZLN apresenta características
no entanto, considerar que em se tratando semelhantes àquelas analisadas por Marx
do EZLN, verifica-se que há uma aliança na sociedade capitalista ocidental. Afinal, o
de classes e grupos sociais numa mesma zapatismo compõe-se também como uma
frente política, configurando, portanto, luta classista, na medida em que, como já
uma força política que integra diferentes foi mencionado, abarca sob sua bandeira
segmentos sociais, conforme evidencia o todos os despossuídos. Eles dizem: “Três
Comunicado “Precisões sobre o EZLN e forças devem unir os passos: a força dos
condições de um diálogo”, cujo um dos operários, a força dos camponeses, a força
trechos segue abaixo: popular. Estas três forças conosco, nada
irá nos parar”.11 Além disto, os zapatistas
As graves condições de pobreza de
nossos compatriotas não têm outra
defendem a autonomia política, se opõem
causa, senão: a ausência de liberdade ao governo e se indignam com a inexistência
e de democracia. Nós consideramos da liberdade e da democracia, apontando
que o respeito real das liberdades e tais ausências como as causas da pobreza
da vontade democrática do povo é que alastra o México.
a condição indispensável de uma Segundo Vásquez (1998: 29), o
melhoria do estado econômico e social pensamento marxista guarda quatro
dos despossuídos do nosso país. importantes dimensões, a saber: “teoria
Por esta razão, da mesma forma que da realidade, crítica do existente, projeto
nós agitamos a bandeira da melhoria de emancipação e imperativo político
das condições de vida do povo
de transformar o mundo”. Ele faz esta
mexicano, nós exigimos a liberdade e
a democracia política, a demissão do
afirmativa, tomando como ponto de partida
governo ilegítimo de Carlos Salinas de O manifesto comunista, cujas páginas,
Gortari, assim como a formação de segundo Vásquez, trazem a vocação
um governo de transição democrática prática da revolução e um conteúdo
que garanta eleições honestas em eminentemente programático. Ele diz ainda
todo o país e em todos os níveis do que o manifesto continua sendo um texto
governo. Nós reafirmamos a atualidade político vivo, e isso pode ser realmente
de nossas reivindicações políticas e comprovado, a partir das correspondências
econômicas em torno das quais nós percebidas entre o EZLN e as camadas da
queremos juntar todo o povo do México teoria marxista. Abaixo o fragmento de um
e suas organizações independentes,
dos comunicados zapatistas:
para que através de todas as formas
de luta, nasça um movimento nacional

10
Disponível em <http://enlacezapatista.ezln.org.mx>
11
Extraído do comunicado “A injustiça porta um novo nome: neoliberalismo” (¡Ya basta!, 1994: 268).

30
Enfoques Vol.1, n.14.

O trabalho coletivo, o pensamento exclusivo; Baschet acredita que os


democrático, a submissão à voz da zapatistas propõem uma reformulação
maioria são uma tradição na zona crítica da noção de revolução (Baschet,
indígena, eles são a única chance 2005: 91).
de sobrevivência, de resistência, de
O autor faz esta consideração, em
preservação da dignidade e da revolta.
virtude da fala de Marcos de que o EZLN
Estes “pensamentos errados”, aos
olhos dos proprietários da terra e dos não quer uma revolução ortodoxa, mas
comerciantes, vão ao encontro do sim alguma coisa mais difícil. Por isso, para
preceito capitalista que diz “muito em Baschet, “a fisionomia própria do zapatismo
poucas mãos”. (Comunicado “Chiapas: não poderá se construir se não sobre uma
O sudeste está em dois ventos, um base de trabalho que permite uma explícita
trovão e uma profecia” – ¡Ya basta!, reapropriação crítica, seletiva e refletida do
1994: 56) marxismo” (Baschet, 2005: 97).
É importante deixar dito que a região
Os zapatistas, contudo, não
de Chiapas, onde está o EZLN, comunica
se identificam com a ideia de que a
para o mundo um contrapoder popular, o
desejada nova sociedade será resultado
qual se revela, através dos Caracóis, dos
do cumprimento de um passo a passo
Municípios Autônomos e das Juntas de
pré-estabelecido, conforme aparece na
Bom Governo Revolucionários Zapatistas.
concepção marxista de mudança social, que
Os Caracóis são “territórios liberados” da
sugere a tomada da produção das mãos da
lógica capitalista dominante, com novos
burguesia e sua centralização temporária
modos de convivência social, funcionam
nas mãos do Estado, deslocamento este
como células locais, com uma gestão de
que só se realizaria, a princípio, através
autogoverno.
de uma violação despótica do direito de
Em sua fachada está escrito: “aqui o
propriedade e das relações de produção
povo manda e o governo obedece”, o que
burguesa, alterando desta forma todo o
implica no exercício de uma nova forma
modo de produção.
de gestionar assuntos públicos. Segundo
Deduz-se que esta concepção
Le Bot, os zapatistas não querem uma
revolucionária imputa ao povo um papel
rearrumação política, eles almejam uma
bastante determinado, de modo que se dele
alteração da cultura política, uma inversão
vem a sublevação, cabe à elite intelectual
da pirâmide do poder.
e política a interpretação do sentido da
Alain Touraine, por sua vez, lança
história, a submissão das práticas sociais à
mão de enunciados que problematizam
razão e à realização do progresso. Nestes
o modelo de construção rumo a uma
termos, lembremos o que Marx (1989) nos
nova sociedade, conforme está descrito
fala na Ideologia alemã: “todos os homens
nos apontamentos marxistas. Ele diz que
devem ter condições de viver para poder
no passado a ação política popular foi
‘fazer a história’” (Marx, 1989: 22). E este
concebida como “portador de uma lógica
apelo indubitavelmente é um dos que
positiva, como colocado no movimento
orientam os zapatistas.
da história, porque ele era comunidade,
A contribuição de Baschet no que
trabalho, energia ou povo, contra os atores
toca à interseção do EZLN com o marxismo
dominantes que defendiam interesses
passa, sobretudo pela afirmativa de que
particulares, privilégios ou lucros” (Touraine,
o EZLN abandona a ideia de ditadura do
1999: 114).
proletariado, na medida em que não enxerga
Acreditava-se que a vitória desse ator
o proletariado como um ator revolucionário
popular devia representar a reconciliação
31
Enfoques Vol.1, n.14.

da sociedade consigo mesma, a superação de etnicidade aberta, articulada à dimensão


das contradições, o júbilo da igualdade, social e englobada numa perspectiva vasta,
da fraternidade e da justiça, de modo que associa indígenas e não indígenas.
que quanto maior a infelicidade dos O que fica evidente é que, se olharmos
dominados, mais necessária era a violência o EZLN a partir da gramática do conflito,
revolucionária para fazer emergir a unidade nós veremos certas particularidades,
do povo. Touraine informa que foi esta a sobretudo, em relação aos movimentos de
mensagem de todas as revoluções, desde contestação da América Latina e que são,
a Convenção na França até a revolução conforme explica Pierre Vayssière (2001),
mexicana, passando pela revolução cubana associados à revolução e à guerrilha.
e pela revolução cultural chinesa. Em sua concepção, o EZLN não está
Quando o subcomandante Marcos dirigido apenas contra o Estado mexicano,
reivindica o direito à indefinição, está dado como os movimentos anteriores. “No
o informe sobre o manejo libertário que fundo, este movimento está enraizado
o EZLN faz das concepções de revolução com determinação no passado indígena
que o mundo conhece. Lembremos que do México que pretende se alargar até
o próprio Marx (1848) disse: ao longo do a dimensão do mundo globalizado”
tempo, vivem-se novas divisões, novas (Vayssière, 2001: 359). Trata-se de um
condições de opressão e novas formas de projeto ambicioso que quer levar em conta
luta. não somente os milhões de indígenas, mas
Portanto, é possível encontrar vias os quarenta milhões de pobres e todas
revolucionárias de superação da opressão as minorias oprimidas: os deficientes, as
que não reproduzem integralmente as mulheres, os artistas, os homossexuais,
orientações arroladas, por exemplo, em O explica Vayssière.
manifesto comunista. Vale dizer que Le Neste sentido, vale mencionar as
Bot (1997) preconiza que o movimento contribuições de René Zavaleta (1990) e
zapatista é um movimento de recomposição García Linera (2007). O primeiro pontuando
a partir de uma distensão irremediável, a formação social verdadeiramente
e não um retorno à tradição; nasceu de ancorada na diversidade, tendo em vista a
múltiplos impasses, divisões e rupturas, intersubjetividade e a autodeterminação,
reinventa a democracia e não defende o e o segundo ressaltando a cosmogonia
comunitarismo. indígena como uma ruptura da referência
Le Bot diz ainda que em um tempo de subalternidade, o que fica, segundo
no qual proliferam movimentos de caráter ele, muito bem explicitado na Bolívia, cuja
nacionalista, étnicos ou religiosos e também realidade bastante particular no que se
se verifica que as iniciativas em oposição refere à composição de classes sociais, uma
ao neoliberalismo se exprimem, sobretudo, vez observada em profundidade pelo grupo
por um viés identitário, o zapatismo aparece Comunas,12 permitiu a este a elaboração de
como “uma das tentativas mais significativas apontamentos que agregam ao repertório
de combinar identidade, modernidade e de reflexões marxistas a extensão de muitas
democracia” (Le Bot, 1997: 106). Baschet de suas categorias analíticas.
(2005), por sua vez, percebe o EZLN como Conclusão
um movimento que adota uma concepção

12
Para saber mais sobre o grupo Comunas, ver Gonçalves (2013).
13
Extraído do comunicado “O EZLN e a mídia” (¡Ya basta!, 1994: 161).

32
Enfoques Vol.1, n.14.

Como se observa, o EZLN não pelo EZLN indicativos de que a luta zapatista
se encaixa tão confortavel mente na detém aspectos políticos originais,
terminologia dos Novos Movimentos encontramos uma variedade de frases
Sociais porque suas pautas não estão que atestam tal perspectiva, como, por
amplamente centradas nas questões exemplo, esta: “o EZLN é [...] um movimento,
alusivas, por exemplo, à identidade e cujas origens, na melhor situação, são uma
ao corpo. Além disso, não se nota um enigma, e, na pior, uma provocação”.13
deslocamento do coletivo para o sujeito; Indiscutivelmente, o EZLN se compõe
pelo contrário, suas reivindicações são como um movimento, cujo percurso
voltadas essencialmente à dimensão incentiva a releitura de algumas definições
coletiva. políticas, como as que se encontram
Por outro lado, embora sua ancoradas no arcabouço marxista, por
trajetória dialogue com algumas exemplo, na medida em que suas ações
interpretações clássicas a respeito das portam uma dinâmica nova, mas ao
ações implementadas pelos despossuídos, mesmo tempo sinaliza o enfoque restritivo
ela as ultrapassa, na medida em que os dos novos aportes teóricos que parecem
zapatistas não tomam para si um plano ler a sociedade como se vivêssemos um
linear de feitura da revolução. momento pós- classe.
Se buscarmos nas falas proferidas

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34
Enfoques Vol.1, n.14.

CONFRONTANDO ESCALAS: CONTRIBUIÇÕES DA


ETNOGRAFIA PARA AS TEORIAS SOCIAIS SOBRE
MOVIMENTOS POPULARES URBANOS
Wecisley Ribeiro do Espírito Santoi
Resumo
O artigo apresenta um relato etnográfico sobre a V Conferência Nacional das Cidades,
com especial interesse na atuação dos movimentos sociais urbanos. O material de campo,
depois de apresentado, é confrontado com uma escala mais abrangente, na qual emergem
divergências e convergências entre estes mesmos movimentos em nível macrossociológico.
Por fim, testa-se a hipótese segundo a qual há uma continuidade entre o caráter segmentar
presente nas situações de interação social registradas no âmbito da Conferência, de um
lado, e os conflitos e coalizões testemunhados entre entidades dos movimentos urbanos e
as esferas estatais de governo, de outro. As considerações finais destacam alguns aspectos
culturais que subjazem à organização segmentar destas entidades.

Palavras chave: Movimentos sociais; urbano; escalas; segmentaridade; conflitos.

CONFRONTING SCALES: THE CONTRIBUTION OF ETHNOGRAPHY TO SOCIAL


THEORIES ABOUT URBAN POPULAR MOVEMENTS

Abstract:

The article presents an ethnographic report about the 5th National Conference of Cities,
with special interest in the performance of urban social movements. The field material, once
presented, is confronted with a broader scale, in which emerge differences (deviations) and
convergences among these same movements in a macrosocial level. Finally (at last), the
hypothesis according to which there is a continuity between the segmental character of
the social interactions observed within the scope of the conference and the conflicts and
coalitions witnessed between urban movement entities and State spheres of Government is
tested. The final considerations highlight some cultural aspects underlying the segmented
organization of these entities.

Keywords
Social movements; urban; scales; segmented social organization (segmentarity); conflicts.

i
Wecisley Ribeiro do Espírito Santo é mestre e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social/Museu Nacional/UFRJ; professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CEH/UERJ);
pesquisador bolsista do Colégio Brasileiro de Altos Estudos/UFRJ e membro do Núcleo de Antropologia do
Trabalho, de Estudos biográficos e de trajetórias (NuAT/PPGAS/MN/UFRJ). E-mail: wecisley@gmail.com

35
Enfoques Vol.1, n.14.

Introdução dos Movimentos Populares (CMP). O


Os relatos etnográficos podem trazer objetivo desta investigação foi o de tentar
algum aporte às teorias sociais de escala compreender as relações entre movimentos
macrossociológica? O detalhamento da sociais urbanos e a esfera pública.2
etnografia, seu interesse pelos aspectos O crescimento e a intensificação das
“menores” da vida cotidiana, oferece uma ações dos movimentos sociais urbanos
contribuiçãoparticularparaoenfrentamento (do que o protagonismo e a visibilidade
das questões sociais abrangentes? Pode ser recentes do MTST constitui o exemplo mais
profícua a operação de lançar uma escala evidente) – bem como a diversificação de
contra outra, compreendidas como níveis seus “repertórios de ação coletiva” (Tilly,
distintos de observação de um mesmo 1977) – lança luz sobre a importância
objeto? Estas indagações, nada originais crescente assumida pela questão urbana,
e há tempo consolidadas no interior da na história do Brasil. Tanto entidades
Antropologia (L’Etoile, Neiburg & Sigaud, que, nos últimos anos, têm priorizado a
2002), em particular, e das Teorias Sociais, participação institucional (nos conselhos e
em geral, servem como fio condutor para conferências, por exemplo) quanto as que
as notas etnográficas que se seguem. A se concentram sobre a ação direta, por meio
partir do caso dos movimentos sociais de mobilizações de rua, vêm denunciando
empenhados na luta pela Reforma Urbana1 a privatização dos territórios das cidades
e pelo Direito à Cidade, apresento um – por meio da ação de incorporadoras,
relato sobre a V Conferência Nacional das construtoras, empreiteiras, bancos de terra.
Cidades (ocorrida em novembro de 2013, É neste contexto que as reivindicações
doravante V CNC) buscando depreender por uma inversão de prioridades na
deste exercício algumas hipóteses mais política urbana – vale dizer, a passagem
gerais sobre as lutas urbanas brasileiras na do primado concedido à política de
atualidade. A observação desta Conferência terceirização da produção das cidades por
constituiu uma parte do trabalho de campo meio de empreiteiras e construtoras (com
etnográfico multissituado (Marcus, 1995) financiamento público) e da privatização
que desenvolvi entre dezembro de 2012 do espaço público, à garantia do direito
e novembro de 2014 – acompanhando a à cidade (e aos equipamentos urbanos
atuação do Movimento dos Trabalhadores de saúde, educação, transporte, lazer,
Sem Teto (MTST), da União Nacional por saneamento, habitação etc.) para todos os
Moradia Popular (UNMP), do Movimento cidadãos – ganham fôlego.
Nacional de Luta por Moradia (MNLM), da Os conflitos decorrentes destes
Confederação Nacional das Associações processos intensificam-se na razão
de Moradores (CONAN) e da Central mesma da radicalização da questão

1
As categorias nativas dos movimentos sociais urbanos são discriminadas em itálico, sobretudo quando
aparecem pela primeira vez, mas também quando vale a pena enfatizá-las novamente.
2
Este artigo apresenta um fragmento dos resultados de uma ampla pesquisa coletiva que reuniu cerca de
20 pesquisadores (entre antropólogos, sociólogos e historiadores), concentrada sobre as relações entab-
uladas entre movimentos sociais brasileiros e Estado. Esta investigação foi realizada sob os auspícios do
Colégio Brasileiro de Altos Estudos, com financiamento da Secretaria Geral da Presidência da República.
O que se segue diz repeito especificamente aos movimentos populares empenhados na luta pela Reforma
Urbana. Um relato mais panorâmico sobre o “estado da arte” dos movimentos populares urbanos, produto
desta mesma pesquisa, pode ser encontrado em Pandolfi & Espírito Santo (2014. Agradeço a Dulce Pan-
dolfi, com quem tive a honra de trabalhar nesta pesquisa, pela leitura crítica do material ora apresentado.
36
Enfoques Vol.1, n.14.

urbana. Ocupações de terra e de imóveis os trabalhos do plenário, seguindo com seu


que não cumprem a “função social da embate particular. Embora não seja possível
propriedade” (Constituição Federal e ouvir o tema da altercação, a linguagem
Estatuto das Cidades), reintegrações de corporal de ambas permite entrever um
posse, violência policial, criminalização terceiro ator, que é objeto da conversa – a
dos movimentos sociais e das regiões mais mesa coordenadora. Uma das mulheres,
pobres das cidades, ruídos introduzidos de sentada, ergue as mãos com as palmas
várias partes no diálogo entre sociedade voltadas para cima, fazendo círculos
civil organizada e governantes, conflitos simultâneos evocativos de indagações.
deflagrados entre entidades distintas dos A outra, permanecendo de pé, aponta de
movimentos; eis alguns dos principais modo acusador para a mesa, balançando
problemas colocados na agenda pública a cabeça negativamente; coloca o dedo
atualmente pela atuação dos movimentos indicador sob o globo ocular, sinalizando que
sociais urbanos. A pergunta central deste ela “está de olho”. O caráter inflamado dos
artigo pode ser, neste sentido, assim gestos, acompanhado de certa negligência
formulada: que contribuição a etnografia com relação aos trabalhos do plenário,
destes movimentos e de suas múltiplas permite supor tratar-se de polêmica muito
entidades pode oferecer à reflexão pública importante, pelo menos do ponto de vista
acerca destes problemas centrais de escala de ambas.
nacional? No que se segue, tento arriscar Este episódio, banal em aparência,
algumas possibilidades de resposta a esta evoca uma característica recorrente nos
questão. trabalhos da V CNC – a saber, uma série
Tensões rituais de pequenas tensões muito difusas por
todo o auditório. Embora estes pequenos
Por volta das 16h40min de conflitos relacionem-se com as grandes
uma quinta-feira (21 de novembro de questões em jogo na Conferência, também
2013), em meio à plenária do painel guardam certa autonomia relativa. Alguns
1 da V CNC, duas militantes da UNMP, destes pequenos debates – que lembram
identificadas por camisetas, debatem de o conceito de “sociabilidade agonística”
modo acalorado. O Auditório Máster do empregado por Comerford (2003) para
Centro de Convenções Ulisses Guimarães descrever interações sociais na Zona da
de Brasília (com capacidade para 2.827 Mata de Minas Gerais – relacionam-se,
pessoas), encontra-se majoritariamente antes, a correções recíprocas das formas
ocupado por delegados representantes pelas quais os militantes se expressam
dos quatro movimentos nacionais de luta entre eles do que ao conteúdo das
por habitação com assento no Conselho falas. Muitas das solicitações para fazer
Nacional das Cidades (ConCidades) – a uso da palavra por parte dos delegados
CONAM, o MNLM, a CMP, além da própria constituem o espaço/tempo no qual estes
UNMP. conflitos menores ganham expressão e
O que desencadeia o debate entre visibilidade. Elas são, na feliz expressão
as duas delegadas é uma votação para de Leite Lopes & Heredia (2014), parte
deliberar sobre um documento que visa das “estratégias de visibilização” de suas
garantir maior controle sobre grandes entidades, identidades e reivindicações
projetos com impactos ambientais. Se (gerais, específicas e, mesmo, por vezes,
bem que este seja o momento de levantar pessoais).
as credenciais para decidir sobre as Do ponto de vista dos militantes que
propostas, ambas ignoram soberanamente coordenam os trabalhos e daqueles que
37
Enfoques Vol.1, n.14.

acompanham e participam mais ativamente da votação, não erguem as credenciais


deles, estas intervenções pontuais atrasam para votar; encontram-se, já, concentrados
o andamento do plenário. Por outro lado, sobre as questões que serão debatidas a
para os protagonistas destes conflitos, os seguir. Esta aglomeração humana que se
trabalhos não podem continuar até que constitui perto da mesa coordenadora é
estas questões sejam enfrentadas. Isto um dado recorrente de todos os plenários
que mesmo os militantes consideram do evento. E tamanho é seu potencial
um “atraso” nos trabalhos parece ser um para disputar a agenda, os rumos e a
aspecto estruturante destas reuniões. velocidade dos trabalhos das reuniões
Com efeito, nenhum dos plenários da V que, em todos os painéis, um membro da
CNC conseguiu encerrar os trabalhos no mesa desempenha o papel de mediador
horário previsto pela programação; todos das demandas deste grupo. De pé, diante
eles avançaram mais de uma ou duas da aglomeração, este mediador ouve os
horas o teto estabelecido. Estas tensões pedidos de inscrição, os destaques, mas
que expressam conflitos segmentares entre também certas demandas não previstas ou
militantes isolados ou grupos segmentares estabelecidas no protocolo de condução
de militantes parecem desempenhar um dos trabalhos destes plenários.
papel de tensões rituais, cujo objetivo Há, pois, uma gramática da
é conservar a estrutura e os processos participação nestes espaços que não
habituais das reuniões dos movimentos coincide, em todos os seus aspectos,
sociais – que supõem uma participação com o protocolo oficial de condução
ativa dos militantes, sem a qual a concepção destas reuniões. Estas transgressões do
de democracia participativa que está em protocolo (solicitações de uso da palavra
jogo, bem como o próprio conteúdo prático quando as inscrições já foram encerradas,
que define a noção mesma de militância, de aberturas de defesas de propostas
não se concretizam. adicionais ao número deliberado em
O Painel 1 tem por objetivo deliberar plenário, alteração da redação de textos
sobre substitutivos ao texto original do que, por definição, não podem ser
Plano Nacional de Desenvolvimento Urbano alterados naquele fórum visto já terem sido
– com vistas a consolidar um Sistema aprovados em plenários anteriores etc.) não
Nacional de Desenvolvimento Urbano com parecem ser um “desvio” ou um “defeito”
caráter popular e participativo. Todos os no andamento das reuniões, mas parte
substitutivos são propostas provenientes constitutiva e estruturante delas. Tanto
das Conferências Estaduais e Municipais das assim que foi preciso criar a figura daquele
Cidades. Tendo, pois, já sido debatidos no mediador, espécie de intermediário entre
âmbito destas conferências locais, a mesa a mesa coordenadora dos trabalhos e a
coordenadora julga não ser necessário aglomeração de militantes que disputa com
abrir inscrições para uso da palavra. Este aquela a dinâmica da reunião. Por vezes,
fato desagrada o plenário, que solicita quando os trabalhos estagnam por conta
instauração de regime de votação no qual das intervenções desta aglomeração, todo
se delibera pela abertura de inscrições. o plenário entoa gritos de “senta, senta”.
Daí em diante os militantes mais Ao que menos da metade dos que estão de
participativos ocupam, até o fim da reunião, pé atendem de fato.
o local diante do microfone, permanecendo Mas, se esta aglomeração frontal
de pé, com o caderno de propostas em à mesa exerce de modo mais ativo sua
mãos. Alguns deles, por vezes, pedem a crítica, investida nas questões em jogo, ela
palavra, formulam suas defesas e, quando apenas leva ao paroxismo o senso crítico
38
Enfoques Vol.1, n.14.

que constitui um pré-requisito para todos de pelo menos 10% dos delegados
os militantes dos movimentos sociais, credenciados”. A militante formula então
senso crítico que pode ser definido como a proposta de redução do percentual das
o idioma por meio do qual o princípio assinaturas para encaminhamento das
da “segmentaridade” (Evans-Pritchard, moções, de 10% para 1%. Em sua defesa,
1969; Goldman, 2006) – voltarei a este argumenta que a exigência dos 10% constitui
ponto – se expressa nas relações sociais uma barreira para o encaminhamento
entabuladas na Conferência. Diante do de moções, fazendo com que somente
plenário, exercendo um controle quase os movimentos com representatividade
paralisante sobre a mesa coordenadora, nacional controlem a aprovação delas.
estes militantes oferecem um modelo de Na sequência, concordando, um delegado
ação para os demais, que o exercitam ali da Bahia, que não declara a entidade de
como alhures. pertencimento, toma a palavra e propõe
A escala etnográfica que, na proposta, substitua-se a expressão
“delegados credenciados” por “delegados
Quarta-feira, 20 de novembro de presentes no plenário”. E emenda que,
2013 – plenária para a aprovação do por vezes, os delegados credenciados
regimento interno da 5ª Conferência vão a Brasília para “fazer turismo” e não
Nacional das Cidades. Cerca de 2/3 dos comparecem aos plenários e ao que grande
assentos do Auditório Planalto do Centro parte dos presentes no auditório responde
de Convenções Ulisses Guimarães (cuja com vaias. A mesa argumenta que sua
capacidade máxima é de 983 pessoas) se proposta não facilitaria o encaminhamento
encontram ocupados. Chego ao plenário de moções, já que as assinaturas não
em pleno andamento dos trabalhos. A são recolhidas apenas no plenário, mas
discussão em pauta se refere ao horário de em diversos espaços. Um delegado
credenciamento dos delegados. A proposta representante do poder público municipal
registrada no regimento determina que o do Pará toma a palavra e apresenta a defesa
credenciamento dos titulares será até as do percentual de 1%. Outro delegado, este
18h00min do segundo dia do evento. No da CMP, defende a manutenção do texto
entanto, alguém do plenário encaminha original. E argumenta que o percentual
uma proposta de redução do teto, segundo de 1% não garante representatividade
a qual o credenciamento dos titulares dos documentos. Entra-se em regime de
encerrar-se-ia às 14h00min. A mesa votação e a manutenção do percentual de
pergunta se alguém defende a manutenção 10% é aprovada.
do texto original sem que ninguém se O plenário é encerrado com a
manifeste. Um delegado, representante do aprovação do regimento da V CNC. Antes,
poder público estadual de Mato Grosso, porém, que todos se retirem do auditório,
faz a defesa da proposta de redução do uma delegada da UNMP toma a palavra:
horário. Por fim, entra-se em regime de
votação, quando o plenário delibera pela Companheiros, a gente tem uma
manutenção do teto original. denúncia a fazer aqui. O Ministério das
Segue-se a votação de outro Cidades está tratando os delegados dos
destaque apresentado por uma delegada movimentos populares pessimamente.
A alimentação está precária, não tem
do movimento popular de Vila Velha, ES,
horáriocerto,nãotemônibuspraconduzir
referente ao artigo do regimento que a gente até o centro de convenções e até
determina o seguinte: “As moções serão o hotel. Nós queremos denunciar aqui,
levadas a plenário mediante a assinatura neste primeiro plenário, este tratamento
39
Enfoques Vol.1, n.14.

do Ministério das Cidades para que a Única dos Trabalhadores (CUT) de São
situação seja resolvida. Senão nós Paulo, comentando a denúncia da UNMP,
vamos escrever uma moção de repúdio referente aos problemas com hospedagem,
ao Ministério das Cidades para entregar transporte e alimentação. Ele confirma as
à Dilma.
denúncias:
Seguem-se aplausos acalorados de Nós chegamos ao aeroporto e a
todo o plenário. Uma mulher, sentada coordenação da conferência nos
no assento atrás de mim, vestida com uma recepcionou e levou para o hotel. Os
camisa do MNLM, faz alguns comentários hotéis foram divididos por segmento,
acerca de militantes em um hotel. segmento de luta por moradia ficaram
todos no mesmo hotel, movimentos de
Aqui é o lugar certo pra denunciar. trabalhadores ficaram em outro, cada
O responsável por esta situação é o segmento ficou num lugar. Tudo definido
Ministério das Cidades, mas lá no hotel pela organização da conferência. Mas
os representantes dos movimentos quando a gente chegou no hotel que
populares estavam tratando mal os ficou com os delegados representantes
funcionários do hotel. Aí teve um dos trabalhadores não tinha mais vaga.
funcionário que virou pra eles e disse: Aí falaram pra gente almoçar e fazer o
“nós também somos trabalhadores credenciamento e nos mandaram pra
como vocês”. Aí teve um militante que outro hotel. Eu nem fui ainda pro outro
respondeu: “você é trabalhador pelego”. hotel que me mandaram. Acabei de
Esses são os revolucionários de merda fazer o credenciamento agora e perdi
que tem aqui. a primeira plenária. Só vou pro hotel
depois da cerimônia de abertura.
O episódio introduz a pergunta
central deste artigo: há algum princípio Perguntei diretamente qual era a
ordenador que nos permita formular uma opinião dele a respeito da relação entre
interpretação unificada das distintas os movimentos sociais ali presentes e os
relações conflituosas que testemunhamos governos em suas três esferas. Segue-se
aqui (os conflitos entre movimentos sociais sua resposta:
e Ministério das Cidades; entre militantes
destes movimentos e os trabalhadores Em São Paulo os movimentos de luta
do hotel; e, finalmente, entre os próprios por moradia buscam dialogar com
o governo, com o Fernando Haddad
militantes – entre a delegada que fez a
e com a Dilma, mas resguardando
denúncia e a que formulou os comentários autonomia. A estratégia lá tem sido
críticos sobre os “revolucionários de ocupar os imóveis vazios no centro para
merda”)? A hipótese aventada é de que pressionar para que os trabalhadores
o próprio pré-requisito fundamental da retornem pro centro da cidade, de onde
formação de um militante, qual seja, a eles foram expulsos historicamente.
formação do senso crítico, se converte
frequentemente num fato social total, Não por acaso o Secretário Geral
investido doravante em todas as situações da Presidência da República, Gilberto
de interação (sejam elas entre militantes, Carvalho, encerrou sua fala, no segundo
entre estes e quaisquer outras pessoas, dia do evento, com as seguintes palavras:
entre entidades dos movimentos sociais, e “Vamos continuar amigos e continuar
entre estes e as várias esferas do Estado). brigando. Porque a briga de vocês é
Ao sair do auditório entabulo essencial pra gente continuar avançando”.
conversa com um militante da Central Esta fala – que poderia ser concebida

40
Enfoques Vol.1, n.14.

como uma formulação nativa do princípio encontra-se ocupado, em sua maior parte,
antropológico da segmentaridade – por delegados representantes das entidades
sintetiza bem a maneira pela qual alguns CMP, CONAM e MNLM. Em meio à primeira
dos grandes movimentos nacionais que têm exposição de um dos convidados, gritos e
assento no ConCidades, como a CONAM palavras de ordem chegam ao auditório,
e a CMP, caracterizam sua relação com o vindos de fora. O coordenador da mesa,
Governo Federal – em consonância com as representante da Federação Nacional dos
linhas gerais do depoimento do delegado Arquitetos e Urbanistas, interrompe a fala
representante da CUT, acima registrado.3 da expositora e diz: “Companheiros, parece
Quinta-feira, 21 de novembro de que está ocorrendo uma mobilização lá
2013, Painel 2 – plenário para a criação de fora e está vindo pra cá. Vamos aguardar
mecanismos que garantam participação e a chegada dos companheiros”.
controle popular no Sistema Nacional de A UNMP chega em bloco, entoando
Desenvolvimento Urbano. A fala de abertura palavras de ordem: “É a União, é a União,
é proferida por Gilberto Carvalho. Uma é a União que constrói o mutirão”. As
aglomeração de militantes cerca o ministro mulheres da União seguram pompons
quando ele desce da tribuna. O delegado amarelos – cor da UNMP – agitando-os
da UNMP responsável por coordenar enquanto cantam. Todos os militantes da
os trabalhos da mesa toma a palavra: União ocupam lugares do auditório sem,
“companheiros, a contribuição de vocês no entanto, se sentar – fato que obstrui
agora é aqui no plenário, deliberando sobre a visão de parte dos presentes que já
a participação e controle popular. Deixem se encontravam acomodados. Um dos
o ministro Gilberto Carvalho ir trabalhar”. delegados da entidade sobe na balaustrada
Episódios desta natureza se repetem em que separa o plenário da mesa e registra, com
várias conferências nacionais e lançam luz sua câmera filmadora, a chegada de seus
sobre as forças centrípetas investidas nas companheiros, enquanto oblitera a visão
conferências, que aproximam a sociedade de alguns dos presentes. O coordenador
civil organizada dos centros de poder dos trabalhos pede atenção aos recém-
estatal. Os militantes das entidades que chegados que, contudo não param de
participam destes espaços institucionais cantar ainda por um tempo. Por fim, com
parecem ter consciência destas forças sagacidade, ele pede uma salva de palmas
centrípetas e manipulam as possibilidades aos companheiros da União. Somente
de negociação e de visibilização de suas ao cabo das saudações os delegados da
demandas que elas possibilitam. entidade se acomodam e silenciam os
Sexta-feira, 22 de novembro de 2013, cantos. A chegada triunfante da UNMP
Painel 3 – plenário para deliberar sobre a não pareceu levantar nenhuma demanda,
Função Social da propriedade. O painel nenhuma reivindicação específica. O
inicia-se com algumas falas de membros formato de ato público teve por objetivo
convidados da mesa. O Auditório Máster aparente apenas marcar forte posição da

3
Com efeito, um jornal informativo da CMP caracteriza a trajetória da entidade nos seguintes termos:
“O 5º Congresso Nacional da Central dos Movimentos Populares celebrou os 20 anos da entidade, desta-
cando a sua participação fundamental na luta contra o projeto neoliberal, no período de 1994 a 2002, ten-
do sido uma das entidades organizadoras de grandes mobilizações de rua, a exemplo da marcha dos 100
mil em Brasília, dentre outras. Já entre 2003 e 2013, nos governos Lula e Dilma, a conclusão é que a CMP,
em alguns estados, priorizou a participação em espaços institucionais, como as conferências e conselhos”.

41
Enfoques Vol.1, n.14.

entidade no plenário. Parecia tratar-se de militantes com questões de ordem e de


mais uma das “estratégias de visibilização” encaminhamento se constitui diante do
(Leite Lopes & Heredia, 2014) levadas a microfone reservado às intervenções
curso pelos atores dos movimentos sociais do plenário. Caso o plenário aprove a
no âmbito das conferências. preservação do texto original, no entanto,
O coordenador da mesa restitui a não há motivos para aquela aglomeração,
palavra à expositora. Súbito, um militante posto não ser necessário abrir defesas
do MNLM se levanta e começa a gritar: das emendas. Mas aqueles delegados
“Aqui no plenário tá todo mundo calado...”, disputando o microfone são, já, uma
principia o delegado, a partir do que não premonição de que o texto original será
consigo entender suas palavras. A mesa reprovado.
pede a alguém da coordenação que vá falar A alteração do texto original das
com ele, ao que uma mulher se levanta e propostas abre, pois, a possibilidade
vai ouvi-lo. de interações sociais específicas – as
Reinicia-se, pela terceira vez, a intervenções de defesas das emendas
exposição da palestrante. Em linhas gerais, (leia-se, a tomada da palavra por parte
sua fala consistiu em denunciar o que ela de militantes do plenário, de outro modo
denominou de “cidade da mercadoria”, uma monopolizada pela mesa coordenadora).
antítese de espaço público, garantidor dos Estas defesas das emendas são sempre
direitos de todos aos equipamentos urbanos, precedidas de conversas e debates (mais
e contrário à satisfação das necessidades ou menos acalorados), em pequenas
coletivas. Afirmou a importância do Plano aglomerações muito difusas por todo o
Diretor dos municípios como um espaço de auditório e, sobretudo, diante do microfone
democratização das políticas públicas. Mas do plenário.
disse também: “O aumento dos recursos Na 257ª emenda aditiva há um
públicos governamentais, nos últimos dez erro de digitação. Um delegado pede
anos, para fazer a reforma urbana, não tem a palavra e sugere a correção. A mesa
sido suficiente. O que nós vivemos hoje é acata o encaminhamento. Outro delegado
uma antirreforma? urbana”. argumenta que a mesa não pode alterar o
Durante todas as exposições dos texto. E emenda que, por mais que o texto
convidados, grande parte dos delegados apresente erros de digitação, sua alteração
dos movimentos sociais não param em pelo plenário é um precedente perigoso,
suas cadeiras. Na fileira onde me sento, visto que os textos foram redigidos no
militantes levantam-se recorrentemente e âmbito das conferências locais e que a
me pedem passagem. Este fato, somado conferência nacional não tem competência
à manifestação do delegado do MNLM para alterar propostas dos estados e
que diz “aqui no plenário tá todo mundo municípios. A aglomeração aumenta diante
calado...”, sugere certa falta de interesse do microfone; gritos exaltados e gestos de
por parte dos militantes em ouvir, de um indignação pululam em todos os cantos.
modo passivo, os expositores; seu objetivo Entretanto, a possibilidade de ajustar o
na conferência é, antes, o de participar texto, em caráter extraordinário e somente
ativamente e tomar a palavra. em casos de erros de digitação, é aprovada
Inicia-se finalmente a votação das pelo plenário.
propostas do Painel 3. Antes mesmo que o Retiro-me do auditório em direção ao
coordenador inicie a leitura das emendas pátio do centro de convenções. Sento-me
aditivas ou substitutivas, no momento perto de um grupo de cinco delegados que
da leitura do texto original uma fila de conversam animadamente. Um militante
42
Enfoques Vol.1, n.14.

da CONAM diz para outro da UNMP: “Se de prioridades. De fato, uma frase muito
você sair da União e vier pra CONAM, vai comum entre os movimentos sociais,
provocar a queda do técnico” – referindo- referida ao latifúndio urbano, é: “quem
se metaforicamente ao presidente da tem a terra domina a política urbana”.
UNMP. Seguem-se uma série de metáforas Daí também resulta o ponto de vista mais
futebolísticas. Diz o militante da União: recente de Maricato sobre a participação
“Mas eu já tô é pendurando as chuteiras, dos movimentos sociais nos conselhos e
visse?” Ao que o outro responde: “tá nada, noutras vias institucionais:
nós estamos montando uma seleção na
Não tem falta, no Brasil, de planos e leis.
CONAM pra você vir jogar com a gente.
Recentemente nós tivemos uma festa
Porque nossa camisa é amarela, mas aqui
de planos diretores que foi a campanha
não é União não, visse? Aqui é CONAM”. dos planos diretores participativos. Eu
Confrontando escalas realmente acho que nós temos que fazer
um balanço disto e parar de acreditar
“Nós vamos retomar a proposta de que planejamento urbano vai passar por
reforma urbana em novas bases”. Assim cima de interesses que são muito fortes
Ermínia Maricato – liderança histórica da luta na produção da cidade. [...] Nós temos
pela reforma urbana e uma das principais que acabar com essa ingenuidade. O
formuladoras do projeto do Ministério das Flávio Villaça escreveu “A ilusão do plano
Cidades (reivindicação dos movimentos diretor” antes da última campanha dos
sociais transformada em realidade, durante planos diretores participativos. Naquela
o governo federal de Luiz Inácio Lula da campanha nós também cometemos o
Silva) – rematou sua participação num erro muito grave que foi de colocar
debate sobre os megaeventos, organizado todo o movimento popular discutindo
plano diretor, discutindo lei, fazendo
pelo Comitê Popular Rio, Copa e Olimpíadas
capacitação de instrumentos técnicos.
no dia 25 de novembro de 2011.4 Em linhas Não é função do movimento popular
gerais, a exposição da urbanista sugeriu achar saídas técnicas e urbanísticas.
que os megaeventos não inauguram uma É função do movimento popular fazer
dinâmica nova nas cidades brasileiras. exigências. E talvez é função de um
Eles apenas intensificam uma “febre” técnico, quando procurado, achar
sempre presente que tem como causador saídas. Durante esse período de tempo,
o grande capital urbano (incorporadoras, desses anos recentes, nós tivemos uma
construtoras, empreiteiras, o latifúndio febre participativa. Tem bibliografia que
urbano,aespeculaçãoimobiliária,aindústria fala que nós tivemos 20 mil conselhos
automobilística). Segundo Maricato, estas participativos; de criança, adolescente,
idosos, saúde, educação, cidades,
seriam as forças que dominam a política
habitação. Isto tudo multiplicado por
urbana no Brasil, a razão pela qual o municípios, estados e governo federal.
Estado brasileiro não tem condições para Mas o que é que aconteceu com as
atender o que os movimentos populares nossas cidades, durante esse período?
urbanos defendem como uma inversão 5

4
Ver <http://www.youtube.com/watch?v=Ctadh7ehMQo>. Acesso em 12 set 2014.
5
A crítica de Maricato vai além ao denunciar a flexibilização da normativa urbanística para atender a
interesses do capital urbano, que é perpetrada no interior de alguns conselhos: “Eu fui convidada para
participar de uma manifestação que era de defesa de uma promotora que foi afastada por um juiz porque
ela queria brecar um projeto francamente ilegal de cinco torres que serão construídas (se o nosso movi-

43
Enfoques Vol.1, n.14.

Pode-se tomar essa fala de Mesmo críticos ao caráter apenas consultivo


Maricato como um caso expressivo dos dos conselhos, e lutando para torná-los
movimentos que não acreditam na eficácia deliberativos, tais movimentos reconhecem
da participação institucional. Este é, por neles certo poder de influência sobre as
exemplo, o caso dos Comitês Populares políticas urbanas (conquanto ínfimo frente
da Copa, dentre os quais a entidade ao poder de lobby do grande capital).
carioca que organizou o debate acima Além disto – o que talvez seja ainda mais
citado. Entretanto, fazer uma separação fundamental –, as entidades que participam
rígida entre os que participam ou não de dos conselhos e conferências veem neles,
determinadas instâncias institucionais, ou de um lado, uma porta de acesso a múltiplas
entre os que apoiam ou que se opõem ao esferas do poder estatal e, de outro, um
governo federal, pode conduzir a uma visão importante espaço de formação política de
simplista da realidade. Esboçada assim, de seus quadros, que precisa ser protegido
modo simplificado a posição (melhor seria contra as forças que o querem extinguir,
dizer no plural) acima, perdemos muitas bem ilustradas na reação ao recente
de suas nuances segmentares. De fato, decreto presidencial nº 8.243/2014 que
se desconsiderarmos estas variações, cria o Sistema Nacional de Participação
parecerá estranho que o Movimento dos Social.
Trabalhadores Sem Teto (MTST), que Os conflitos entre movimentos
privilegia a ação direta nas ruas, tenha se sociais e os representantes do grande
mobilizado em conjunto com a Central dos capital urbano podem ser compreendidos
Movimentos Populares (CMP) em defesa de modo relativamente simplificado (ao
da recente aprovação do Plano Diretor menos para efeitos de argumentação, já
do município de São Paulo, defendido, que os casos particulares frequentemente
também, pelo prefeito da capital paulista assumem formas bastante complexas),
Fernando Haddad. Se as formulações de por meio da chave da luta de classes, da
Maricato, bem como as ações dos Comitês oposição estrutural entre capital e trabalho.
Populares da Copa e do MTST, expressam a Entretanto, as relações conflituosas que
posição dos movimentos populares críticos se estabelecem entre as entidades destes
à atuação nos conselhos participativos que movimentos sociais e as distintas esferas
se multiplicaram nos últimos doze anos com do Estado brasileiro (incluindo governos
estímulo do Governo Federal, a posição da que têm em sua composição segmentos
CMP, por outro lado, ilustra o ponto de vista da sociedade historicamente vinculados às
predominante não apenas entre os seus lutas populares) – e mais ainda, as relações
militantes, mas também nas entidades entre estes movimentos e a chamada “mão
nacionais com assento no ConCidades. esquerda do Estado” (Bourdieu, 1998) –

mento nas ruas não impedir) na fachada do porto de Recife. E a promotora exigiu o impacto ambiental e
paisagístico e o juiz afastou a promotora. E eu conversei com vários funcionários da prefeitura e eles me
disseram que tinham negado o alvará pras cinco torres. E simplesmente eu perguntei: ‘mas como é que foi
aprovado?’ ‘Ah, passou no Conselho de Desenvolvimento Urbano’. Sabe esses conselhos que a gente faz
para [exercer] o controle social sobre o Estado? Simplesmente o Conselho de Desenvolvimento Urbano
aprovou algo ilegal. Porque cinco torres? De trinta, quarenta andares? Num centro histórico de ruas estre-
itas? Como é que faz?” (Fala de Maricato em sua participação no debate acima citado). O desdobramento
das lutas populares contra o projeto Novo Recife (que atualmente prevê a construção não de cinco, mas de
doze torres na zona portuária de Recife), teve seu ponto culminante no movimento “Ocupe Estelita”.

44
Enfoques Vol.1, n.14.

são, por seu turno, bastante complexas e particular. É assim que Guillermo O’Donnell
apenas começam a ser estudadas pelas (1982), em seu estudo comparado entre
ciências sociais, no país (por exemplo, em sociabilidade e política no Brasil e na
Leite Lopes & Heredia, 2014). Mas, ainda Argentina, conclui que este último país
mais complicações para interpretação não teria conseguido constituir um projeto
sociológica trazem os conflitos deflagrados político unificado, diferentemente do Brasil,
entre as entidades dos movimentos em decorrência do caráter mais conflituoso
populares, bem como aqueles que ocorrem das relações sociais argentinas. Uma
no interior mesmo das entidades. comparação contemporânea entre os dois
Estamos aqui em pleno países poderia talvez aventar uma hipótese
cruzamento das escalas etnográficas e contrária à tese de O’Donnell. Seja como
macrossociológicas. E talvez seja este for, a interpretação que o cientista político
exercício mesmo de confrontar escalas argentino elabora sobre seu próprio país
um procedimento heurístico para a não saiu de minha lembrança durante
interpretação das questões em jogo. Em o trabalho de campo na V CNC; como
seu livro Como funciona a democracia: também não saiu o relato de Goldman,
uma teoria etnográfica da política, Marcio sobre a política dos grupos carnavalescos
Goldman (2006) destaca, como um do sul da Bahia.
aspecto central das relações políticas Em suma, e para conferir maior
entre grupos de carnaval do sul da Bahia, a concretude a este confronto de escalas,
segmentaridade – vale dizer, a alternância a pergunta que a observação – inspirada
entre distinção e identificação, de acordo pelos autores mencionados – fez emergir
com a conjuntura política, entre militantes é esta: será útil conceber os microconflitos
de grupos (rivais ou aliados) e mesmo segmentares entre militantes, registrados
de subgrupos no interior de um mesmo pela etnografia, de um lado, e as
grupo. Embora, em termos abstratos, a grandes tensões entre entidades destes
oposição binária entre solidariedade e movimentos, e entre elas e o Estado (em
egoísmo tenda a ser deslocada (mediante suas múltiplas esferas), de outro, como
um balanço do conhecimento etnográfico) dois polos de um contínuo? Na medida
pelo meio termo da solidariedade vicinal mesma em que a segmentaridade – desde
ou parcial – e o dualismo homólogo entre o trabalho pioneiro de Evans-Pritchard, The
cooperação e competição, desarticulado Nuer (1969) – tem como característica a
pelas práticas corporativas (Deleuze, capacidade de borrar as fronteiras6 entre
2001: 32) – no nível empírico parece haver escalas de observação, não seria esta
diferenças substanciais entre o grau de categoria ela mesma uma chave para
segmentaridade em cada sociedade a compreensão das contribuições da

6
Charles Tilly, revendo o postulado segundo o qual a noção de sociedade delimita “uma coisa à parte”,
nota o caráter necessariamente fluido de fronteiras que delimitam unidades sociais em diferentes esca-
las: “To what extent do the boundaries of different kinds of social relations coincide?” (Tilly, 1984: 23). “Yet
these politically reinforced frontiers do not contain all social life. Economic geographers enjoy demonstrat-
ing how different in scale and contour are the units defined by different activities or social relations” (Tilly,
1984: 24). Com efeito, o geógrafo David Harvey não apenas endossa a afirmação de Tilly como enfatiza
os problemas analíticos que podem decorrer de mudanças abruptas de escala (ver Harvey, 2014: 138). A
análise pautada na segmentaridade pode ser um antídoto contra estes problemas, já que ela engloba as
complexidades estruturais que são adicionadas quando passamos de uma escala a outra.

45
Enfoques Vol.1, n.14.

etnografia para a construção de teorias se manifesta, sobretudo por meio da


sociais macrossociológicas? Se a resposta correção professoral dos demais. Por
a estas questões for afirmativa, então vezes, o único subterfúgio encontrado para
as diferenças entre o jogo de conflitos e exercitar tal modo de se relacionar com
adesões que testemunhamos na etnografia os companheiros, afirmando estas tensões
(“nossa camisa é amarela, mas aqui não rituais, é a forma de falar. Uma vez que,
é União não, visse? Aqui é CONAM”) e do ponto de vista do conteúdo político das
as coalizões e cisões entre movimentos falas, pode haver grandes concordâncias 7
e governos em escala macrossociológica entre os movimentos sociais participantes
(como a luta unificada do MTST, da CMP e da Conferência, a correção recíproca das
do prefeito de São Paulo pela aprovação formas de falar, a retificação no uso de
do Plano Diretor), não são de natureza, conceitos não adequados para certos
mas de grau – ou melhor, de escala. contextos etc., é a maneira mais recorrente
Considerações finais por meio da qual se afirmam estas tensões
rituais. Esta espécie de sociabilidade
Caracterizei os pequenos conflitos agonística entre os militantes, entre os
difusos pelos espaços da V CNC como quatro grandes movimentos, entre partes
“tensões rituais”. Trata-se de considerar que deles etc., motivada pela quase compulsão
pode ser profícuo pensar sobre a maneira por demonstrar senso crítico em todos
pela qual a maior parte dos militantes os momentos da Conferência, me chamou
presentes na Conferência exercita sua muito a atenção. Trata-se talvez do aspecto
crítica. Parece-me que são pelo menos que mais caracteriza a maneira pela qual
duas as motivações que levam a maioria os movimentos sociais se relacionam entre
dos militantes delegados da Conferência a si (e, talvez, com setores do Estado). Esta
exercer exaustivamente seu senso crítico, demonstração quase “obrigatória”8 do
em todas as oportunidades possíveis: a) senso crítico, entre militantes, talvez possa
uma necessidade imperiosa que estes ser melhor interpretada (e, por conseguinte,
atores sentem de afirmar, até à exaustão, o também as formas de relações socais que
caráter democrático e popular do plenário, ela produz) por alguma coisa semelhante
com voz e voto garantidos a todos; e b) ao que se tem chamado de “sociologia da
outra necessidade, também imperiosa, crítica” mais do que por uma “sociologia
de afirmar a própria consciência crítica crítica” (Boltanski & Thévenot, 1999).
(pré-requisito fundamental para participar Creio também que muito se poderia
em certos circuitos sociais de interação ganhar aplicando ao estudo destes
de militantes dos movimentos sociais). fóruns de debate, plenários, conferências
Esta afirmação da própria consciência etc. uma abordagem antropológica

7
Embora a conferência, como venho argumentando, constitua um espaço de interação dos movimen-
tos sociais com a esfera pública repleto de polêmicas e de formas agonísticas de sociabilidade, há, sem
dúvida, também, em sua esfera, alguns grandes acordos (ou pressupostos compartilhados). Poder-se-ia
dizer, algumas “verdades”, sancionadas pelo coletivo, sobre as quais não se admite discussão; aquilo a
que Pierre Bourdieu se refere como doxa – isto é, pressupostos compartilhados que estão fora da esfera
da dúvida. O próprio caráter compulsório da expressão do senso crítico, independente da situação sobre a
qual ele se aplica me parece um destes grandes acordos.
8
Trata-se, segundo me parece, de uma obrigação que emana do coletivo e que constrange a pes-
soa a demonstrar as habilidades e conhecimentos necessários a um militante. Algo como “a expressão
obrigatória dos sentimentos” de que fala Mauss (1979).

46
Enfoques Vol.1, n.14.

semelhante à que Moacir Palmeira & contornos bastante nítidos (embora,


Beatriz Heredia (2009) aplicaram ao estudo como tenho enfatizado aqui, dinâmicos).
dos comícios; tratando-os como rituais Diante de uma direita unificada que
que possuem configurações espaciais e quase logrou eleger seu representante,
temporais específicas e tomando-os em as forças democrático-populares do país
sua positividade sociológica, buscando seguem perigosamente com suas formas
entender, pois, as relações sociais que aguerridas de se relacionar entre si. Vale
estes rituais produzem. A hipótese deste a pena encerrar com o editorial expressivo
artigo sugere que estas formas específicas do site Carta Maior, que no âmbito mais
de relação entre militantes de movimentos engajado da intervenção intelectual formula
sociais, produzidas no âmbito da V CNC, o mesmo problema geral apresentado por
guardam alguma relação com as maneiras estas notas etnográficas; o problema dos
pelas quais estes movimentos se relacionam limites da segmentaridade como princípio
também com a esfera pública. Talvez eles estruturador das relações políticas:
usem os mesmos óculos (do senso crítico)
O que se quer saber é se Lula já
para se olharem entre si e para olharem
conversou com Boulos, do MTST; se
para os governos, em suas várias esferas.
Boulos já conversou com Luciana Genro
Cabe indagar (com alguma ambição [do PSOL]; se Luciana Genro já conversou
propositiva da sociologia pública e com a CUT; se a CUT já conversou
como fizera outrora O’Donnell acerca da dom Stédile [do MST]; se todos já se
Argentina) se esta modalidade específica de deram conta de que passa da hora de
sociabilidade agonística entre militantes e uma conversa limada de sectarismos
entidades dos movimentos sociais urbanos e protelações, mas encharcadas das
não impõe um limite à agenda de uma providências que a urgência revela
luta unificada pela reforma urbana. Com quando se pensa grande. Se ainda não
efeito, por ocasião do processo eleitoral se aperceberam da contagem regressiva
que, uma vez mais, ameaça abortar o
para a presidência da República, no ano de
nascimento de um Brasil emancipado
2014, foi possível observar estas divisões
e progressista, bem... Serão avisados
segmentares, no interior da esquerda e de forma desastrosa quando o alarme
dos movimentos sociais brasileiros, em soar. (Leblon, 2014)

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47
Enfoques Vol.1, n.14.

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48
Enfoques Vol.1, n.14.

A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E SEUS


LUGARES DE ENUNCIAÇÃO: CONSIDERAÇÕES
EM TORNO DO PÓS-COLONIALISMO,
DECOLONIALISMO E EPISTEMOLOGIAS DO SUL
Leonardo Nóbrega da Silvai

Resumo
Os recentes processos de mudança social ocorridos em países latino-americanos chamam
a atenção para as limitações do pensamento hegemônico no Ocidente. O envolvimento de
diversos movimentos sociais, como dos indígenas e campesinos, exige uma reconsideração
epistémica ampla. Neste texto, abordo questões relativas às mudanças sociais recentemente
levadas à cabo tendo como corte analítico algumas discussões sobre o que se pode chamar
de pós-colonialismo, decolonialismo e epistemologias do Sul, apontando potencialidades
e limites existentes.

Palavras chave: Estado; América Latina; Pós-colonialismo; Decolonialismo; Epistemologias


do Sul.

KNOWLEDGE PRODUCTION AND WHERE IT IS EXPRESSED: CONSIDERATIONS


REGARDING POSTCOLONIALISM, DECOLONIALISM AND EPISTEMOLOGIES OF THE
SOUTH

Abstract:

This paper presents a reflection over public sociology, through a study about Michael
Burawoy’s contributions and the main criticisms to this proposal, around the controversy
about the dialogical engagement with the public within civil society. Such reaction within the
academic circles seems to indicate that public sociology can be considered a focal point of
battles over the future of sociology.

Keywords
State; Latin America; Postcolonialism; Decolonialism; Epistemologies of the South.

i
Leonardo Nóbrega da Silva é doutorando em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ). Pesquisador vinculado ao Núcleo de Estudos de
Teoria Social e América Latina (NETSAL/IESP) e ao Núcleo de Pesquisa em Sociologia da Cultura (NUSC/
UFRJ). E-mail: leonobrega.s@gmail.com.

49
Enfoques Vol.1, n.14.

Teoria é o trabalho que o centro faz


Raewyn Connel 1
Dessa maneira seguimos sendo o que não
somos. E como resultado não podem-
os nunca identificar nossos verdadeiros
problemas, muito menos resolvê-los, a
não ser de uma maneira parcial e distor-
cida.
Aníbal Quijano 2

Introdução momento, são apresentadas algumas


Processos de refundação do propostas centrais do pensamento pós-
Estado, especificamente na Bolívia e no colonial, decolonial e das chamadas
Equador, tendo as noções de Buen Vivir epistemologias do Sul, todas elas
e Pachamama como possíveis horizontes comprometidas, de formas variadas, com
normativos, consolidam, ao menos um horizonte emancipatório que leve
formalmente, e não sem discordâncias, em conta a pluralidade de vozes que
antigas demandas de movimentos devem ser ouvidas, interrompendo um
sociais indígenas e campesinos. Esses ciclo colonial que inibe, e mesmo exclui,
processos apresentam não apenas novos perspectivas diversas de mundo e de
desafios políticos, mas epistêmicos, construção de conhecimento. Trazendo
no sentido de que o conhecimento tais perspectivas para o âmbito da
produzido nos centros hegemônicos de modernidade global e da construção do
ciências sociais toma seus achados e conhecimento sociológico, considera-
discussões como universais, limitando se, entretanto, equivocada a posição
o pensamento produzido na periferia tomada por alguns dos principais
como particularismo de menor escopo pensadores de tais correntes de negar
e poder explicativo. a modernidade, não reconhecendo nela
O texto começa por considerar potencial emancipatório e dificultando
alguns dos elementos principais um diálogo que possa ser estabelecido
referentes à noção do Estado moderno, no próprio âmbito das ciências sociais.
atentando para os recentes processos Recuperando a tradição da
de refundação do Estado ocorridos na teoria sociológica latino-americana,
Bolívia e no Equador. Apesar de não argumenta-se que tal pensamento
ser possível falar em uma relação traz em seu seio um questionamento
óbvia entre movimentos sociais e emancipatório, no sentido de reclamar
construção de conhecimento, parte-se a construção de um conhecimento
da noção de “dupla hermenêutica” para autônomo e introvertido, porém sempre
propor uma tensão epistêmica que tais em diálogo com as linhas de pensamento
modificações impõem ao pensamento universais, o que possibilita, portanto,
racional ocidental. Em um segundo realizar essa discussão no próprio

1
Connel (2012: 1).
2
Quijano (2005: 118).

50
Enfoques Vol.1, n.14.

horizonte das ciências sociais. Sem a laica, politicamente neutra, apenas um


expectativa de apresentar argumentos aparato burocrático-administrativo. O
inéditos, este texto conclui que existem Estado moderno seria essencialmente um
potenciais ainda a serem explorados Estado burguês, e a inerente noção de
tanto nos movimentos de refundação cidadania, consolidada na promulgação
de Estados latino-americanos, como dos Direitos do Homem, nada mais seria
ocorreu no Equador e na Bolívia, quanto do que os direitos do homem burguês,
nas tradições de pensamento que visam legitimando os valores do individualismo
desconstruir essencialidades produtoras e da propriedade privada em detrimento
de dominação, sendo necessário, do coletivismo e da partilha de bens.
entretanto, trazer essa discussão para No universo da teoria crítica de
o âmbito da modernidade. A partir de origem marxista, entretanto, diversos
tais processos, é possível, portanto, outros adjetivos podem acompanhar a
tensionar a própria teoria social de palavra Estado, dependendo da realidade
forma a complexificar seu potencial em análise: periférico, subdesenvolvido,
crítico, autônomo e emancipador. colonial etc. Todos esses adjetivos
Considerações preliminares sobre o revelam algo fundamental: um Estado
Estado e movimentos políticos de não se constitui por si só, mas em relação
refundação na América Latina com outros Estados e instituições; e essa
relação se dá sempre de forma desigual.
Um elemento fundamental para A relação desigual entre Estados revela a
iniciar o debate da relação entre dominação de uns em relação a outros.
movimentos sociais, que trazem a noção É a partir da experiência comum de
de cidadania como elemento central heteronomia, portanto, que se permite
na articulação entre suas demandas falar em países do Norte Global e do
e sua luta efetiva, e a construção de Sul Global. Tal perspectiva, apesar de
conhecimento que tenha em si um indicar distinções geográficas, e por
caráter emancipatório — é a própria vezes até coincidir com tais divisões,
noção de Estado. Tal protagonismo não representa uma delimitação precisa
é inegável, tendo em vista a sua no mapa, mas, como foi apontado,
configuração moderna como aparato uma partilha de relações comuns de
administrativo, burocrático, repressivo e dominação no sistema global, uma
político de grande poder de controle espécie de geografia moral das relações
e ordenamento das vidas sob sua de poder. São muitas as características
tutela. Entretanto, desde Marx — pelo desta relação e ainda mais diversas e
menos —, o Estado não pode, ou não opressoras suas consequências para
deveria, ser visto como instituição os povos que a vivem. Atento, porém,
neutra, essencializada ou coisificada. O para as consequências epistêmicas e
campo de disputas em que se constitui seus desdobramentos práticos tanto na
o Estado revela traços constitutivos que construção de conhecimento quanto nas
evidenciam as forças sociais presentes atividades políticas e de formatação do
e o poder de dominação a ele inerente. Estado.
O Estado, para Marx (2010) — embora O avanço de reformas sociais
não se queira entrar aqui na discussão de caráter progressista na América
da existência ou não de uma teoria do Latina, bem como o protagonismo de
Estado no pensamento marxiano —, não movimentos indígenas e campesinos,
poderia ser visto como uma instituição tem requerido um tensionamento nas
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Enfoques Vol.1, n.14.

categorias analíticas usuais à teoria das tradições e repertórios nacional-


social. Questões postas em discussão, populares, viabilizado por uma aliança
como os conceitos de Buen Vivir, social de base indígena e campesina,
nos movimentos de refundação do ao lado de uma democratização radical,
Estado na Bolívia e no Equador, por entendida como um conjunto de crenças,
exemplo, desafiam a racionalidade valores e modos de vida carregados de
instrumental ocidental e revelam seus potencial igualitário (Pereira da Silva,
limites cognitivos, ou ao menos inserem 2013).
reflexões que chamam atenção para a Segundo Alberto Acosta (2010: 5),
relevância do lugar de construção e ex-presidente da Assembleia Constituinte
enunciação do saber científico. do Equador: “Toda Constitución
Movimentos sociais latino- sintetiza un momento histórico. En toda
americanos, partindo de uma experiência Constitución se cristalizan procesos
de subjugação em relação tanto aos sociales acumulados. Y en toda
países centrais do capitalismo global Constitución se plasma una determinada
quanto a uma situação de colonialismo forma de entender la vida”. A Constituição
interno, têm protagonizado mudanças do Equador (2008) e a Constituição
significativas nas configurações das da Bolívia (2009) trazem, de forma
nações do continente. Principalmente no explícita, demandas dos movimentos
Equador e na Bolívia, países que passaram sociais, marcadamente dos movimentos
recentemente por grandes mudanças no indígenas. A noção de Buen Vivir (em
sentido de uma refundação do Estado, kichwa: sumak kawsay, em aymara:
promulgando novas constituições. suma qmaña, em guarani: ñandareko;
As vozes desses movimentos sociais cf. Acosta, 2010), fortemente presente
se fazem ouvir de forma mais ou em ambas as constituições,3 ou dos
menos significativa, embora, como é direitos da natureza, entendidos sob
de se esperar de qualquer movimento a cosmovisão andina de Pachamama,4
político de enfrentamento de estruturas marcam um novo paradigma consolidado
consolidadas, permeadas por conflitos. institucionalmente em projeto de país.
Tal movimento de refundação do Estado A perspectiva de um Estado
pode ser entendido como uma atualização plurinacional e intercultural acompanha
das bases normativas do Estado a partir tais mudanças. Em vez de simplesmente

3
O artigo 275 da Constituição do Equador (2008), diz: “El régimen de desarrollo es el conjunto organizado,
sostenible y dinámico de los sistemas económicos, políticos, socio-culturales y ambientales, que garantizan
la realización del buen vivir, del sumak kawsay. El Estado planificará el desarrollo del país para garantizar
el ejercicio de los derechos, la consecución de los objetivos del régimen de desarrollo y los principios
consagrados en la Constitución. La planificación propiciará la equidad social y territorial, promoverá la
concertación, y será participativa, descentralizada, desconcentrada y transparente. El buen vivir requerirá
que las personas, comunidades, pueblos y nacionalidades gocen efectivamente de sus derechos, y ejerzan
responsabilidades en el marco de la interculturalidad, del respeto a sus diversidades, y de la conviven-
cia armónica con la naturaleza”. O artigo 306 da Constitución Política del Estado Plurinacional de Bolivia
(2009), diz:
“I. El modelo económico boliviano es plural, y está orientado a mejorar la calidad de vida y el
vivir bien de todas las bolivianas y los bolivianos.
II. La economía plural está constituida por las siguientes formas de organización económica: la
comunitaria, la estatal y la privada.

52
Enfoques Vol.1, n.14.

reconhecer os diferentes povos que em diferentes frentes, dentre elas algo


constituem a nação, trata-se de assumir que se pode chamar de descolonização
a perspectiva de tais povos e etnias. cognitiva, entendida como a possibilidade
Assume-se, portanto, segundo definição de uma construção autônoma e
de Boaventura de Sousa Santos (2010: introvertida do conhecimento, atendendo
83), um projeto político de país: a demandas reais dos participantes
de tal debate intelectual. É notável,
El sentido político de la refundación
portanto, que parte do caminho para tal
del Estado deriva del proyecto
descolonização da sociedade passa pela
de país consagrado en la
Constitución. Cuando, por ejemplo, própria descolonização do pensamento.
las Constituciones de Ecuador Ao estabelecer o Buen Vivir como
y Bolivia consagran el principio horizonte constitucional de projeto de
del buen vivir (Sumak Kawsay o país, os movimentos de refundação dos
Suma Qamaña) como paradigma Estados latino-americanos estabelecem,
normativo de la ordenación social y de certa forma, um enfoque cognitivo
económica, o cuando la Constitución novo, embora não unânime nem
de Ecuador consagra los derechos isento de conflito, que compete com
de la naturaleza entendida según la aquela racionalidade instrumental
cosmovisión andina de la Pachamama,
ocidental moderna em que o sujeito
5
definen que el proyecto de país
está separado da natureza, sendo
debe orientarse por caminos muy
distintos de los que conducirán a las esta, portanto, passível de dominação.
economías capitalistas, dependientes, Tal processo, apesar de bastante
extractivistas y agroexportadoras del complexo, pode ser entendido como
presente. envolvido numa espécie de relação
recíproca de troca entre a experiência
Esse projeto político se estabelece dos movimentos sociais e a produção
não só contra a expropriação desenfreada acadêmica comprometida com um
da natureza (Pachamama), como contra projeto de emancipação social, próxima
qualquer tipo de desigualdade social, àquilo que Giddens (1991) chamou de
assumindo um “processo de continuada movimento de “dupla hermenêutica”
descolonização da sociedade” (Acosta, para designar a apropriação moderna
2010: 11). Essa noção ampla de de elementos pertencentes à sociologia
descolonização da sociedade se insere

III. La economía plural articula las diferentes formas de organización económica sobre los principios
de complementariedad, reciprocidad, solidaridad, redistribución, igualdad, sustentabilidad,
equilibrio, justicia y transparencia. La economía social y comunitaria complementará el interés
individual con el vivir bien colectivo.
IV. Las formas de organización económica reconocidas en esta Constitución podrán constituir
empresas mixtas”. As passagens foram consultadas em Acosta (2010) e nas constituições originais.
4
O artigo 71 da Constituição do Equador (2008), diz: “La naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce
y realiza la vida, tiene derecho a que se respete integralmente su existencia y el mantenimiento y regener-
ación de sus ciclos vitales, estructura, funciones y procesos evolutivos.”
5
É importante notar que a noção de Buen Vivir, posta aqui em oposição à racionalidade ocidental mod-
erna (também identificada como de dominação instrumental da natureza), não se opõe ao pensamento
ocidental clássico, que conta, pelo menos desde Aristóteles, com a perspectiva da “boa vida” no seu hori-
zonte discursivo.

53
Enfoques Vol.1, n.14.

por movimentos sociais e, em via propositivo e seus limites analíticos.


reversa, a apropriação por sociólogos Sul global e desafios cognitivos:
de elementos elaborados internamente pós-colonialismo, decolonialismo e
no âmbito das lutas políticas. epistemologias do Sul
Apesar de considerar diversas
formas de racionalidade, Max Weber, A discussão entre universalidade
principalmente em seus estudos sobre dos conceitos da teoria social e a
as religiões mundiais, voltou-se ao particularidade demandada por diversas
entendimento da racionalidade ocidental formas de organização da vida, como
moderna, que ele define como sendo um vista na discussão da relação entre os
“racionalismo de dominação do mundo”, processos de refundação dos estados
podendo também ser entendido como da Bolívia e do Equador e os limites do
uma “atitude instrumental” de adequação conhecimento científico ocidental, pode
de meios ótimos para a realização de ser melhor entendida em um quadro
determinados fins, não importando geral de dominação em que se pode
valores como a pessoalidade, a ética contrapor as noções de Norte e Sul
religiosa etc. Esta racionalidade, que global. Essa divisão evidencia não uma
se concretiza na “ética econômica” clivagem geográfica, mas diferenças de
do protestantismo calvinista, torna- posição nas relações de poder. Apesar
se hegemônica no Ocidente de muitas das localidades do Sul global
moderno. A atitude de dominação e estarem localizadas no hemisfério Sul,
instrumentalização da natureza, da países do hemisfério Norte também
forma como se concebeu na gênese tem seu “Sul”, assim como países do
dessa racionalidade ocidental moderna, Sul também têm seu Norte, como fica
coloca-se notadamente em choque evidente nas formas de colonização
com os princípios do Buen Vivir e de internacional e interna.
Pachamama demandados pelos diversos O conceito de colonização
movimentos sociais que participaram interna não é simples e tem diversos
da configuração das constituições em desdobramentos a depender do momento
debate. histórico e da situação social em foco.
Mais do que uma forma de Não será, portanto, desenvolvido neste
organização social alternativa àquela texto de forma satisfatória, tendo em
ocidental moderna, tais princípios vista os limites do debate aqui proposto.
lançam-se como a consolidação de Basta, entretanto, deixar registrada
outra racionalidade constantemente a importância dada a tal conceito
abafada no processo de colonização. por Pablo Gonzáles Casanova (2007),
A partir da exemplaridade da trazendo à tona a conflitiva relação entre
promulgação de demandas sociais nas mercados, Estados-nação e diversidade
constituições do Equador e da Bolívia, étnica, pensado principalmente, mas não
e de processos ainda em aberto, pode- somente, no caso da América Latina.
se falar em desafios epistêmicos de Tal colonização interna é apropriada por
alçada global, em que o pensamento Silvia Rivera Cusicanqui (2010), socióloga
se coloque na direção contrária ao e líder indígena ayamara, em crítica
processo de colonização. As propostas direcionada ao pensamento decolonial,
de descentramento do pensamento que será tratado mais à frente, tendo
devem ser postas em discussão para como principal referência as ideias de
que se perceba, portanto, seu potencial Walter Mignolo. Para Cusicanqui, muito
54
Enfoques Vol.1, n.14.

do que se convencionou chamar de observação de algumas das propostas


conhecimento decolonial constrói-se investigativas que trazem tal relação
como um “triângulo sem base”, em que como objeto de análise. Edward Said
se formam redes de intelectuais, alguns foi um dos primeiros a chamar atenção
dos quais estabelecidos em universidades para a delimitação de localidades e
estrangeiras, que se apropriam de povos em termos de oposição relacional
demandas das lutas indígenas, mas e suas consequências políticas, morais
esvaziam suas pautas ao tratá-los como e cognitivas. Ativista político defensor
“povos originários”, relegando-os a um da causa palestina e intelectual
lugar fora da modernidade e, portanto, comprometido com questões que
sem capacidade de gerenciamento do envolviam o mundo árabe, Said teve
Estado. seu nome associado ao surgimento do
Reconhecendo, dessa forma, a que se convencionou chamar estudos
complexidade em que se estabelecem pós-coloniais. Seu livro mais conhecido,
as relações de dominação, seja em nível Orientalismo: o Oriente como invenção do
internacional ou interno ao Estado, este Ocidente (2007), publicado originalmente
texto se focará numa concepção mais em 1978, suscitou amplo debate.
generalista. Tal qual define Boaventura Sua argumentação central, e exposta
de Sousa Santos (2010:43), o Sul global aqui de forma resumida, é de que o
pode ser aqui entendido como “uma Oriente, tal qual visto em romances,
metáfora do sofrimento humano causado poesias, estudos históricos, compêndios
pelo capitalismo e colonialismo em escala sobre política e religião, cartilhas
global [e interna, incluo] e da resistência etc., sobretudo pelos principais países
para superá-lo ou minimizá-lo”.6 O que colonialistas modernos, quais sejam, o
define, portanto, essa delimitação é a Reino Unido, a França e, posteriormente,
sua localização na periferia do sistema os Estados Unidos, é uma invenção do
capitalista industrial e/ou a experiência Ocidente. Diante da centralidade do
moral e cognitiva de subalternidade, processo de descolonização assumida
tanto em uma perspectiva global quanto após a Segunda Guerra Mundial, cuja
em relação à reprodução que as elites demanda principal era (e ainda é) a
dos países periféricos realizam em sua autodeterminação dos povos, o estudo
própria realidade. Embora esta categoria de Said vem na esteira daqueles que
de Sul global seja potente em termos de passam a questionar os processos de
oposição política ao que se denomina colonização e as raízes deixadas nas
relacionalmente de Norte global, ela não mais diversas esferas da vida. Said deixa
pode ser entendida como uma categoria claro que seu objetivo é mostrar que o
estanque, mas como um processo de Oriente, tal qual se conhece, é uma
articulação7 (Cairo y Bringel, 2010). construção histórica feita em oposição
Estabelecidas as bases de tal ao Ocidente, e que essa construção está
geografia moral dos processos de baseada em um jogo de forças políticas,
dominação, faz-se necessário uma ou melhor, em uma configuração de

6
Tradução minha do original em espanhol.
7
Para um aprofundamento da questão do Sul global como processo de articulação, bem como a partici-
pação de movimentos estabelecidos no “Norte” neste processo, marcadamente Espanha e Portugal, e de
um perfil emergente do “ativista diaspórico”, ver Cairo y Bringel (2010).

55
Enfoques Vol.1, n.14.

poder. O reconhecimento desse lugar supostamente carente de objetividade.


de subalternidade e das consequências A desconstrução desse universalismo
econômicas, morais e cognitivas que europeu seria então tarefa fundamental
tal posição acarreta incentivou uma na construção de um universal “que
série de estudos críticos que têm como recusa as caracterizações essencialistas
horizonte político a superação dessa da realidade social, historiciza tanto o
condição. Tomar distância da crítica universal quanto o particular, reunifica
eurocêntrica não significa (ou não os lados ditos científico e humanístico
deveria significar, como será defendido em uma epistemologia e permiti-nos
mais à frente) jogar fora toda sua rica ver com olhos extremamente clínicos e
tradição, mas procurar novas soluções bastante céticos todas as justificativas
diante de problemas particulares postos. de “intervenção” dos poderosos contra
No âmbito do pensamento os fracos (Wallerstein, 2007: 118). Já para
decolonial latino-americano, Walter Quijano, a concentração, pela Europa,
Mignolo é figura central e estabelece das formas de controle da subjetividade
seu argumento com base na noção de e da produção de conhecimento
colonização cognitiva. Mignolo (2010) tem, como um dos eixos centrais,
afirma que “só a descolonização do ser a ideia de raça — “uma construção
e do saber levará a um câmbio do mental que expressa a experiência
horizonte econômico e político”. Como básica da dominação colonial e que
um dos intelectuais mais proeminentes desde então permeia as dimensões
de sua geração no que diz respeito ao mais importantes do poder mundial,
debate entre produção de conhecimento incluindo sua racionalidade específica,
e colonização, Mignolo defende que a o eurocentrismo” (Quijano, 2005: 107). A
partir de uma expansão para o Atlântico experiência da colonialidade é explicada
em meados do século XV, estabelece-se por meio da metáfora do espelho
a construção de um imaginário baseado distorcido, em que o sujeito vê a si
em estruturas de poder modernas e mesmo pelo conhecimento eurocêntrico,
coloniais. enxergando traços que reconhece como
A construção de tal argumento seus, posto que tal imagem não é de
está fortemente embasada nas noções todo quimérica, mas sempre de forma
de sistema-mundo de Immanuel parcial e distorcida, exagerando algumas
Wallerstein e de colonialidade de Aníbal características e escondendo outras,
Quijano, embora nem um nem outro dificultando, portanto, o reconhecimento
autor estejam totalmente contemplados pleno daquele que observa.
em relação aos desdobramentos do Essa colonialidade cognitiva
pensamento de Mignolo. O argumento moderna é o alvo de denúncia de
que aqui importa no pensamento Mignolo, sendo a sua desconstrução uma
de Wallerstein, é que, a partir da tarefa imprescindível para a formulação
estruturação do que chama de sistema- de um conhecimento autônomo e
mundo capitalista, que toma forma no emancipatório. A potência de tal atitude
século XVI, o “universalismo europeu” poderia ser encontrada na formulação
se impõe como forma de legitimação de movimentos sociais comprometidos
de dominação ou “retórica de poder”, com tal pauta. Como afirma Mignolo
baseado na noção de conhecimento (2005: 48),
científico em contraposição ao que
O surgimento zapatista, a força do
seria um conhecimento humanístico,
56
Enfoques Vol.1, n.14.

imaginário indígena e a disseminação acredita conhecer o futuro através do


planetária de seus discursos fazem- presente, estabelecendo-se teleologias
nos pensar em futuros possíveis como a de progresso econômico ou
além de todo fundamentalismo desenvolvimento. Para combater a
civilizatório, ideológico ou religioso,
razão metonímica, Santos propõe o
cujos perfis atuais são o produto
que ele define como “sociologia das
histórico da “exterioridade interior”
a que foram relegados (leia-se ausências”, que pode ser entendida
submetidos) pela autodefinição da como a investigação que tem como
civilização ocidental e do hemisfério objetivo mostrar que o que não
ocidental (...). existe é ativamente produzido como
não existente, concepção essa muito
Confluindo com essa discussão, próxima daquela defendida por Said
porém estabelecendo referencial quando afirma que a “não existência”
semântico próprio, Boaventura de Sousa do Oriente é uma produção ativa do
Santos (2007; 2010), cunha a noção de Ocidente. O objetivo dessa sociologia
epistemologias do Sul, lançando mão das ausências seria transformar os
do que chama de “dupla sociologia objetos ausentes em objetos presentes.
transgressiva das ausências e das Em contraposição à razão proléptica,
emergências”. Parte da concepção de Santos dispõe a “sociologia das
que existe hoje uma crise das ciências emergências”, que propõe substituir o
sociais, desde sempre produzidas determinismo teleológico, estabelecido
hegemonicamente em países do pela razão indolente, por uma utopia
hemisfério Norte. Essa crise se revelaria possível, traçada a partir das diversas
por meio da discrepância entre teoria experiências reveladas pela sociologia
e prática, uma vez que tais teorias não das ausências.
parecem dar respostas nem mesmo Para Santos, não é possível,
enxergar problemas postos no hemisfério no atual estado de transição em que
Sul. Seria necessário, portanto, uma se encontra a racionalidade, uma
reinvenção das ciências sociais, de epistemologia geral.8 Esta continuaria
forma que ela passe a ser parte da a delimitar a infinita possibilidade de
solução dos problemas. formas de conhecimento. E a forma de
Os problemas postos a partir toda essa infinidade de conhecimento
das ciências sociais hegemônicas fazer sentido seria por meio do
fariam parte de uma racionalidade processo de “tradução”, que consistiria
ocidental moderna que nega outras em “traduzir saberes em outros saberes,
racionalidades possíveis, o que Santos traduzir práticas em outras práticas e
chama de “racionalidade indolente”. Essa sujeitos de uns aos outros, (...) buscar
razão indolente se manifesta de duas inteligibilidade sem “canibalização”, sem
principais formas: por meio da “razão homogeneização” (Santos, 2007: 39).
metonímica”, que tende a tomar a parte Propõe, portanto, o que denomina de
pelo todo, excluindo aquilo que fica Epistemologias do Sul, que devem ser
fora daquele particular que serviu de entendidas como
referência; e da “razão proléptica”, que

8
Para uma discussão anterior sobre as bases da produção científica, consultar Santos (2003; 2008).

57
Enfoques Vol.1, n.14.

el reclamo de nuevos procesos de se construir conhecimentos que


de producción y de valoración de desviassem de seu caminho. Embora,
conocimientos válidos, científicos y como será visto, parte dessas correntes
no-científicos, y de nuevas relaciones de pensamento, diferentemente do que
entre diferentes tipos de conocimiento,
é defendido por Costa, se coloque, sim,
a partir de las prácticas de las clases
contra o pensamento científico, é a
y grupos sociales que han sufrido
de manera sistemática las injustas partir da defesa de um conhecimento
desigualdades y las discriminaciones fundamentado em bases epistemológicas
causadas por el capitalismo y por el sólidas que este texto desdobra suas
colonialismo (op. cit.: 43). análises. É preciso, portanto, apontar
limites e falhas na construção do
A partilha da preocupação com pensamento pós-colonial, decolonial e
a condição colonizada, bem como a das epistemologias do Sul para que
superação da heteronomia, é o ponto em possam avançar em suas pautas, mas
comum aos pensadores citados. Embora sem se distanciar do pensamento
as três correntes de pensamento sejam sociológico, que muito ainda tem
bastante complexas e não estejam aqui como contribuir para a construção de
devidamente contempladas, é necessário um imaginário emancipatório em nível
compreender suas denúncias de forma global.
a se pensar em desdobramentos
Limites do pós-colonialismo e a
cognitivos mais propositivos, que aponte
recuperação da tradição sociológica
para um horizonte de um conhecimento
latino-americana
autônomo e emancipador.
Sergio Costa (2006: 117), tratando João Marcelo Maia (2013)
do que se convencionou chamar de compartilha a preocupação de que, por
estudos pós-coloniais (mas que pode mais exitosa que seja a crítica pós-
aqui ser extrapolado para pensar colonialista, esta não pode resumir
também os estudos decoloniais e as todos os esforços em relação a uma
epistemologias do Sul), afirma que descentralização do pensamento
esta corrente de pensamento realiza eurocêntrico. Um dos problemas,
“o esforço de esboçar, pelo método sugere, é que os estudos pós-coloniais
da desconstrução dos essencialismos, ou decoloniais deixam de fora de seus
uma referência epistemológica crítica mitos de origem pensadores mais
às concepções dominantes de próximos da teoria sociológica, que no
modernidade”. Ao elaborar uma análise caso brasileiro teria como potenciais
do pensamento de alguns representantes referências os pensamentos de Guerreiro
de tais correntes, Costa nega o veredito Ramos ou Florestan Fernandes. Segundo
de alguns críticos de que o pensamento Maia, a tradição sociológica latino-
pós-colonial tenha o objetivo de minar americana constitui-se, em boa medida,
as bases e a possibilidade de se realizar por um “diálogo tenso e crítico com a
ciência. Para ele, as críticas pós- imaginação social europeia” (op. cit.: 105),
coloniais são dirigidas, principalmente revelando-se, portanto, como um rico
ao campo sociológico, não às bases arcabouço crítico de descentralização
epistemológicas das ciências sociais, do pensamento de matriz centrado na
mas a uma vertente específica, a da Europa e que não deve ser deixado de
teoria da modernização, cuja pretensão fora.
de universalidade limitou a possibilidade
58
Enfoques Vol.1, n.14.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que


boa parte da imaginação sociológica Em caminho parecido segue a
latino-americana foi forjada crítica de José Maurício Domingues
justamente a partir da experiência (2011) em relação ao pensamento
de um processo modernizador
decolonial de Walter Mignolo. Analisando
que não seguia o mesmo curso
o argumento central de Mignolo,
descrito pela teoria europeia. Ou
seja, o desconforto com o falso Domingues afirma que este, apesar
universalismo das teorias produzidas da importância de suas colocações,
na Metrópole não foi um fenômeno deve ser criticado principalmente por
que surgiu posteriormente, mas um duas perspectivas equivocadas: uma
elemento definidor dessa própria rejeição integral da modernidade, não
tradição intelectual (op. cit.: 109). enxergando nesta qualquer possibilidade
emancipatória; e a adoção de uma
Além de Guerreiro Ramos e perspectiva unilateral da questão étnica,
Florestan Fernandes, muito da tradição valorizando quase que automaticamente
teórica latino-americana produzida aquilo que é considerado por ele como
entre os anos de 1950 e 1970 reflete não moderno, operando, no limite e
tal preocupação.9 Está na raiz do de forma politicamente perigosa, uma
pensamento econômico gestado na inversão da teoria da modernização.
Cepal (Comissão Econômica para a Para Domingues, a modernidade deve
América Latina), do Centro Brasileiro de ser vista como um fenômeno duplo, em
Pesquisas Educacionais, criado em 1955 que se pode localizar tanto elementos
por Anísio Teixeira, do Centro Latino de dominação — capitalismo, estado
Americano de Pesquisas em Ciências burocrático, patriarquia, racismo —
Sociais (CLAPCS), criado em 1957, na quanto elementos emancipatórios —
cidade do Rio de Janeiro (Oliveira, liberdade, igualdade e solidariedade
2005; Bringel, Macedo e Silva, 2014, —, sendo estes últimos condições de
Maia, 2014), e da elaboração da Teoria possibilidade dos próprios movimentos
da Dependência, momento em que a sociais. A crítica decolonial, assim
discussão sobre o subdesenvolvimento como a pós-colonial, portanto, é válida,
ganhou maior refinamento sociológico e embora deva ser localizada no próprio
político (Maia, 2013). As preocupações arcabouço moderno, evitando-se cair
do autor seguem, portanto, no em particularismos infrutíferos e vazios.
sentido de ampliar e complexificar as
possibilidades de descentramento da Ao passo que a emergência dos
teoria social eurocêntrica, considerando movimentos dos “povos originários”
a importância da matriz pós-colonial, mas e, em menor grau, dos movimentos
recuperando a tradição do pensamento negros em vários países do
subcontinente contemporâneo é,
sociológico latino-americano, cujas
de modo bastante apropriado, uma
questões em muito confluíam com as preocupação-chave do trabalho
preocupações descolonizantes. de Mignolo — e na teorização

9
Para uma discussão mais detida no pensamento social brasileiro, consultar Maia (2011). Também o
trabalho de Brasil Jr (2013) sobre o processo de “aclimatação” das teorias da modernização em Florestan
Fernandes, no Brasil, e Gino Germani, na Argentina, traz hipóteses promissoras em relação ao lugar da per-
iferia como opção metodológica de análise da própria produção sociológica da metrópole.

59
Enfoques Vol.1, n.14.

pós-colonial latino-americano extroversão a ser superada (Domingues,


mais amplamente —, localizá-los 2014).10
fora da modernidade é, contudo, Também a referência às
incorrer em erro. Gostaria de, em epistemologias do Sul pode ser
vez disso, sugerir que eles podem
criticada, não sem deixar de reconhecer
levar a cabo algumas mudanças
seus acertos, por, de forma geral,
nos quadros epistêmicos modernos,
mas que isso se faz em estreita desconsiderar muito do pensamento
conexão com giros modernizadores gestado no Norte e tomar a tradição
episódicos, contingentes, que ou os “povos originários” do Sul como
constroem caminhos específicos pela legítimos por si só, sem trazer à tona
modernidade, mesclando distintos a discussão concernente à própria
“espaços de experiência” e “horizontes possibilidade de conhecimento científico.
de expectativa”, derivando de panos Como afirma Marcelo Rosa em crítica
de fundo civilizacionais diferentes direcionada às teorias que trazem o Sul
(Domingues, 2011: 75). como categoria de análise, no caso da
A autonomia é central em diversas construção analítica de Boaventura de
vertentes da tradição sociológica latino- Sousa Santos, “é importante notar que
americana, sem, entretanto, distanciar-se por mais que o Sul seja concebido como
da construção do pensamento moderno. o encontro entre a ciência e outras
Domingues aponta, dessa forma, como a formas locais, são suas qualidades não
autonomia se constitui em horizonte da científicas — outros saberes — que
reflexão em que os intelectuais latino- recebem a atenção do autor” (Rosa,
americanos de meados do século XX 2014: 48).
estão envolvidos, fortemente presente Tento em vista a denúncia
em suas interpretações e na construção promovida por tais linhas de pensando,
de identidades na América (2003). Tal de toda forma justas e bastante
perspectiva autônoma, com a disposição construtivas, é necessário, entretanto,
de uma discussão intelectual que se volta apontar a falta de diálogo, maior ou
para a própria realidade local, próxima menor a depender dos autores em
àquela defendida por Paulin Houtondji questão, com o pensamento sociológico
(2009) — referente à necessidade da e a modernidade de forma geral. A
uma comunidade acadêmica sólida em recuperação da tradição sociológica
que os debates passem por problemas latino-americana serve, dessa forma, para
vividos pelos participantes e sejam apontar possibilidades da construção
direcionados a si próprios, em diálogo, de um conhecimento ao mesmo tempo
entretanto, com as demais comunidades descentralizado, crítico e em diálogo
acadêmicas do mundo —, contrapõe- com uma construção de ciência
se a uma condição de heteronomia e universal. O pensamento de Guerreiro

10
Fernanda Beigel (2012; 2014), em suas pesquisas recentes, tem se dedicado a compreender as dinâmi-
cas de circulação internacional de conhecimento, tendo em vista as relações entre centro e periferia e
o tema da dependência acadêmica. Os sistemas de indexação dos periódicos científicos, baseados na
mercantilização e especialização, os sistemas de acesso, as referências citadas, os modelos das agências
financiadoras e mesmo a predominância da língua inglesa na comunicação entre pesquisadores marcam
alguns dos pontos centrais da estrutura internacional desigual do conhecimento e a consequente heter-
onomia nos países periféricos ou semiperiféricos.

60
Enfoques Vol.1, n.14.

Ramos pode ser tomado como um de diálogo com as tradições do


índice da tradição sociológica brasileira pensamento tanto centrais quanto
comprometida com o descentramento periféricas, criando interlocução com os
da teoria eurocêntrica dentro do quadro conceitos hegemônicos, mas pautado
de reflexão geral da modernidade. No sempre por questões autodeterminadas
seu livro clássico A redução sociológica e relevantes para a realidade social
(1996), publicado originalmente em brasileira. Importa, portanto, o olhar
1958, afirma como pretende contribuir crítico voltada para a realidade interna
com a atualização da sociologia no do país, incorporando, ao mesmo
Brasil, sendo seu objetivo, por um tempo, um diálogo com a produção
lado, “integrar a disciplina sociológica sociológica global, estabelecendo uma
nas correntes mais representativas do importante dimensão transnacional.
pensamento universal contemporâneo” Como afirma Maia, “não há teoria que
e por outro, “formular um conjunto possa se contentar com um certificado
de regras metódicas que estimulem a de nacionalidade” (2011: 87).
realização de um trabalho sociológico Pode-se apontar, portanto, o
dotado de valor pragmático, quanto ao pensamento de Guerreiro Ramos como
papel que possa exercer no processo exemplar desse amplo debate em
de desenvolvimento nacional” (Ramos, torno do processo de descolonização
1996: 41). protagonizado por diversos movimentos
As preocupações metodológicas sociais e pensadores do Sul global. A
de Guerreiro Ramos são guiadas, importância do pensamento sociológico
portanto, pelas questões objetivas de Ramos é fundamental por “ter
postas no Brasil de seu tempo. O mostrado que o ‘universal’ da sociologia
necessário processo de transposição definiu-se a partir da centralidade de
de conhecimentos e experiências entre casos históricos” (Oliveira, 2006: 189) e
culturas, fundamental na fundação da que interessa a um pensamento crítico
sociologia proposta pelo autor, permitindo emergente um diálogo autoconsciente
um diálogo com a tradição europeia com a produção global de conhecimento.
mas impondo questões emergentes Considerações finais
na sociedade brasileira, leva o nome
de “redução sociológica”. Adotando Este texto buscou salientar
uma linguagem que em muito lembra algumas possíveis contribuições que
a dos estudos pós-coloniais citados, os recentes movimentos de refundação
Ramos estabelece o horizonte político do Estado, mais especificamente na
de sua prática científica, comprometida Bolívia e no Equador, podem trazer
com o processo de descolonização e para o tensionamento e a ampliação
consequente superação da heteronomia: do arcabouço conceitual da teoria
“A colônia é, por definição, instrumento social. Para tal, foram apresentados,
da metrópole. Quando, porém, um no início, alguns elementos referentes
povo passa a ter projeto, adquire uma à constituição do Estado moderno e
individualidade subjetiva, isto é, vê-se a elementos inerentes aos movimentos
si mesmo como centro de referência” de contestação nas localidades
(op. cit.: 58). delimitadas, como as noções de Buen
Vivir e Pachamama. Se não é óbvia a
A perspectiva de Guerreiro relação entre os embates realizados
Ramos estaria fundada na estratégia no âmbito dos movimentos sociais
61
Enfoques Vol.1, n.14.

e aqueles realizados no âmbito da interpretativas que, por um lado, está


construção do conhecimento, a noção em consonância com as anteriormente
de “dupla hermenêutica” deixa claro, referidas correntes de pensamento, e por
entretanto, que algumas relações são outro, as complementa, na medida em
possíveis. Alguns dos representantes que estabelece um diálogo construtivo
mais proeminentes das correntes de com a modernidade e o pensamento
pensamento conhecidas como pós- sociológico. A conclusão deste texto,
colonial, decolonial e das epistemologias embora nem inédita nem definitiva, é de
do Sul, que têm se valido, de uma que é necessário ter atenção à condição
forma ou de outra, dos movimentos periférica em que o Sul global se
de descolonização e de rearticulação encontra, percebendo as consequências
do Estado, apesar de serem férteis em cognitivas e de dominação dessa
desconstruir essencialismos e denunciar condição, tal como apontada pelas
sistemas de opressão estabelecidos pela correntes aqui analisadas, mas sempre
hegemonia do conhecimento racional em diálogo com as tradições modernas
ocidental moderno, vão por caminhos de pensamento, para que não se incorra
equívocos ao, muitas vezes (mas nem no erro de inverter uma lógica perversa
sempre, visto a heterogeneidade de seu de exclusão e criação de essencialismos.
pensamento e os limites da reflexão As ciências sociais são uma ferramenta
estabelecida neste texto), negar a potente de entendimento da realidade
própria modernidade. social e de práticas políticas, sendo a
Parte da tradição sociológica sua produção crítica e autônoma, em
latino-americana, exemplificada pelo diálogo com as demais produções, uma
pensamento do sociólogo brasileiro etapa fundamental no horizonte político
Guerreiro Ramos, foi recuperada de de emancipação.
forma a apresentar possibilidades

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64
Enfoques Vol.1, n.14.

EPISTEMOLOGIA DAS LUTAS SOCIAIS


Roberta Loboi
Leandro dos Santosii

Resumo
Pretendemos com este texto travar um debate epistemológico sobre o potencial político-
pedagógico presente na memória das lutas sociais que têm como protagonista as classes
populares. Deste modo, as lutas sociais carregam em si uma forma própria de observar,
conhecer e criticar a realidade, que, diferentemente das correntes de pensamento
hegemônicas convencionais, congrega em suas análises razão e experiência empírica,
sensibilidade, objetividade e posicionamento político-ideológico.

Palavras chave: Lutas sociais e epistemologia; Racionalidade e experiência sensível; Memória


e história.

EPISTEMOLOGY OF SOCIAL STRUGGLES

Abstract:

We want with this text lock an epistemological debate about political-pedagogical potential
present in memory of social struggles that have as protagonist the popular classes. In this
way the social struggles carry itself a shape to observe, understand and criticize the fact that
unlike conventional, hegemonic currents of thought brings together in its analysis reason
and empirical experience, objectivity and political-ideological positioning.

Keywords
Social struggles and epistemology; Rationality and sensitive experience; Memory and
history.

i
Roberta Lobo é doutora em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e professora
do curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFR-
RJ). Pesquisadora do grupo de pesquisa Filosofia e Educação Popular. E-mail: roberta.lobo@gmail.com.

ii
Leandro dos Santos é mestre em Educação pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e
professor do Departamento de Educação e Sociedade do curso de Graduação em Pedagogia da Univer-
sidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Pesquisador do grupo de pesquisa Filosofia e Educação
Popular. E-mail: marxcso@yahoo.com.br.

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Enfoques Vol.1, n.14.

Apresentação do problema às lutas sociais pela emancipação


humana. O pensamento tem que
A questão – o que é teoria – parece fugir das raias do burocrático e se
não oferecer maiores dificuldades emaranhar na historicidade de questões
dentro do quadro atual da ciência. que encaminham labirinticamente
No sentido usual da pesquisa, para seu problema, que consiste em
teoria equivale a uma sinopse de desvendar uma nova episteme contida
proposições de campo especializado, na memória das lutas sociais forjadas
ligadas de tal modo entre si que se
pelas classes populares ao longo da
poderiam deduzir de algumas dessas
teorias todas as demais. [...] Sua história. Esse conjunto de memórias se
validade real reside na consonância apresenta como um concreto temporal
das proposições deduzidas com os sujo, perturbado, esquecido, comum e
fatos ocorridos. Se, ao contrário, maldito, resistente e melancólico, mas
se evidenciam contradições entre a que, ainda assim, contém centelhas de
experiência e a teoria, uma ou outra promessa de liberdade, ação prática,
terá que ser revista. (Horkheimer & realização no mundo (Benjamin, 1994).
Adorno, 1983: 117)
Na Dialética do esclarecimento
Na contemporaneidade, as tensões
(1985), Max Horkheimer & Theodor W.
existentes entre teoria, experiência social
Adorno demonstram como a ciência
e historicidade nos provocam para a
universalizante pretendeu reduzir
abertura da emancipação humana como
progressivamente a possibilidade de erro
um problema indeterminado, isento de
de seus resultados hipotéticos. Nesta
garantias quanto à sua realização,
direção, o conhecimento cotidiano,
porém ainda ativo na construção de
supostamente simples, não satisfaz as
uma filosofia da liberdade. Realidade
necessidades do conhecimento puro,
e pensamento, conceito e objeto são
já que, diferentemente da ciência, esta
demarcados por impossibilidades
forma popular de pensar a realidade
intransponíveis, mediações,
não se distancia da superstição, do
radicalizações e racionalizações
dogma, dos sentidos, das questões
opostas e complementares. Mas, diante
relacionadas à cultura, à política ou à
de tantos desencontros e rotas sem
economia; ao contrário, as evidencia
saída, como fazemos para realizar a
em sua construção analítica própria.
travessia da extinção da singularidade,
da reificação do sujeito cognoscente
Do indefinido homem da ciência
e da coisificação do sujeito sensível
ao cientista foram séculos de moldagens,
ao sujeito emancipado? Com base nas
fórmulas, instituições na constituição
reflexões de Adorno & Horkheimer
concreta de uma sociedade moderna,
(1983) podemos deduzir que razão e
capaz de dominar a natureza interna,
realidade não coincidem, revolução e
os instintos e desejos humanos, bem
sujeito revolucionário não se apresentam
como a natureza externa, o cosmos,
em um horizonte próximo.
a physis tomando forma de máquina,
montável e desmontável ao bel-prazer
Uma epistemologia a contrapelo
da necessidade de se mercantilizar
que, como em um risco cirúrgico,
como inexaurível meio de produção,
tateia as tensões postas na história de
progresso, civilização.
uma teoria do conhecimento vinculada

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Enfoques Vol.1, n.14.

Galileu, Descartes, Newton, Bacon


tomam a natureza como verdadeiro Se esta razão como posse do
objeto da ciência, produção de teoria, homem pode ser ensinada, tomamos o
operacionalização, manipulação e ideal de homem esclarecido de Kant
intervenção, o que se pensa do mundo, (2008), enquanto autonomia da vontade
se faz do mundo. O conhecer e o fazer como fonte da independência da razão,
alimentam uma identidade capaz de se realização da verdade. A saída da
reproduzir como cultura científica. O menoridade como um salto da antiga
modelo das artes mecânicas revelam caverna vai produzindo um sujeito
os processos da natureza. Métodos, humano que se concebe como portador
processos e linguagem das técnicas são da razão, consciente do poder histórico
objetos de reflexão numa aprendizagem objetivado, do desenvolvimento científico
calcada na experiência errante, acúmulo e técnico desta razão, do progresso
constante para a formação de um corpo da consciência, do conhecimento e da
orgânico e sistemático do conhecimento. moral posta na preservação da espécie
Pesquisa teórica e atividade prática, como um fim em si mesmo, unindo
o que é posto na prática é o mais felicidade, justiça e liberdade.
verdadeiro na teoria, a prática é garantia
de verdade. O útil e o verdadeiro estão Mas a dialética da razão pura e da
de mãos dadas. razão prática não deixou de apresentar
os processos de regressão social frente
Com a revolução científica dos ao progresso técnico da civilização
séculos XVI e XVII, o tema da produção burguesa. A tensão entre desenvolvimento
do conhecimento é retomado com mais lógico analítico dos conceitos da razão
vigor, já que a modernidade como pura de Kant e suas efetivações como
condição histórica impulsionava seus realidade demostrou como a razão não
pensadores a estabelecerem distinções é capaz de fundamentar racionalmente
entre as formas racionais e empíricas a liberdade, visto que os homens, suas
de pensar a realidade, o homem e a instiuições e lógicas mercantis são
natureza. A modernidade se estabelece autônomos em relação à razão. São os
como razão humana individual e interesses privados e não o interesse
progresso técnico em ritmo de uma comum que permeiam o fluxo das coisas
dialética positiva altiva e promissora. A existentes. A dialética negativa da razão
dúvida metódica, provisória e sistemática, pura e da razão prática tensiona a
aliada a uma natureza sem finalidades, cultura compreendida como moralidade,
reduzida a um mecanismo sem mistérios aperfeiçoamento dos costumes e o
para a linguagem matemática compõem progresso técnico e material como
a teoria do conhecimento e das civilização. O bem-estar material não
atividades técnicas do homem moderno. traz felicidade. A arte e a ciência não
A natureza como posse do homem, aperfeiçoaram os costumes, verdade já
apenas uma quantidade medida e não posta nos tempos de Rousseau e Kant
mais uma qualidade sentida. A razão (Menegat, 2006: 126).
como posse do homem, instrumento
universal para o esclarecimento, O modelo ideal de homem
inteligência das coisas, fornecimento de racional, livre, justo, culto produz e
meios para prever o futuro e dominar a reproduz socialmente um conhecimento
natureza. livre da possibilidade de erro, como
67
Enfoques Vol.1, n.14.

também livre das pulsões instintivas que


os sentidos ou os instintos humanos As guerras mundiais, o fascismo,
podem proporcionar. A elaboração o stalinismo, a sociedade administrada
de uma razão instrumentalizadora foram fenômenos históricos que
do homem e da natureza implicou a colocaram em xeque a promessa de
redução metódica do conhecimento progresso e felicidade da razão iluminista
a mero conhecimento técnico, e instrumental. Nesta perspectiva, os
amparado por hipóteses universalmente modelos de razão e ciência puras
verdadeiras e métodos científicos ampliam de forma exponencial o
válidos em qualquer tempo e espaço. processo de barbarização do real, pela
Nesta direção, desmistificar a realidade, degradação da natureza e da história. A
para os defensores desta forma de ciência iluminista “enquanto ciência do
racionalidade, é esquartejar o ser humano espírito [...] deixa de cumprir aquilo que
e a natureza em dimensões organizadas promete ao espírito: iluminar suas obras
hierarquicamente, na tentativa de fazer desde dentro” (Adorno, 2008: 24).
com que as potencialidades e dimensões
racionais subjuguem progressivamente Iluminar as obras desde dentro
as dimensões sensíveis e instintivas, a contrapelo é revirar as ruínas das
ou seja, trata-se de dissolver os mitos inúmeras catástrofes de uma civilização
anulando a imaginação por meio da sem moralidade e em permanente
razão instrumental (Horkheimer, 1983). excesso. É iluminar as derrotas dos
projetos levantados pelas classes
Livres dos feitiços e fantasmas populares em seus processos de luta
que as dimensões humanas não- como elaboração prática e teórica de
racionais podem criar, o ser humano novas formas de socialização humana
seria mais feliz e autônomo, já que para além do capital. Nesta contra-
desta forma ele conheceria o mundo iluminação teceremos um possível fio
à sua volta em profundidade e não da meada no que diz respeito a uma
apenas superficialmente. Transformar epistemologia das lutas sociais, fio
as dimensões humanas supostamente rastreado aqui a partir de duas questões
não-racionais, no sentido restrito fundamentais: a emancipação como
do termo – no que se refere a algo problema e a reconstrução da memória
instrumental, em dimensões menores é dos traumas das derrotas das revoluções
uma estratégia no sentido de reduzir como forma de conhecimento.
não somente o humano, mas também A emancipação como problema
suas percepções diante da realidade.
Assim, o pensamento hegemônico, O problema da emancipação não
ao separar experiência sensível da foi tratado exclusivamente pela tradição
produção de conhecimento cria um que constitui o pensamento crítico.
hiato entre a chamada intelligentsia e Embora seja através desta tradição que a
a sociedade como um todo, pois se discussão sobre a emancipação humana
os primeiros vivem na posse da razão, ganhe vigor, teóricos do pensamento
os segundos estariam despossuídos liberal e iluminista dedicaram um tempo
da dialética ascendente que supera significativo de reflexão a esta questão.
os sentidos ao encontro da razão, do Uma das referências, inclusive para o
conhecimento verdadeiro, útil, prático e pensamento crítico, foram as reflexões
eficaz (Horkheimer, 1983). de Kant que, mesmo sendo identificado
68
Enfoques Vol.1, n.14.

como um dos principais teóricos do desta elaboração está em reduzir


Iluminismo, não deixou de se ater à a produção de conhecimento ao
questão da emancipação humana exclusivo acionamento autônomo das
e de ter a crítica como método de dimensões racionais do ser humano,
conhecimento, vide o título de suas desconsiderando as múltiplas dimensões
principais obras: Crítica da razão pura, que o constituem. Como diria Hegel
Crítica da razão prática e Crítica do (1992), o escravo tem a consciência
juízo. da necessidade de liberdade, porém
não possui objetivamente a prática da
Segundo Kant, conhecimento, liberdade.
razão e autonomia andam juntos,
configurando entre eles uma relação Mas será que a racionalização do
de interdependência. Em seu texto sujeito como condição de liberdade é
Resposta à pergunta: o que é o processo tão simples? Basta vontade
esclarecimento? (2008), Kant afirma que própria para que o sujeito conquiste sua
todos os seres humanos são dotados autonomia? A forma como organizamos
de razão, considerando que para ele a vida social não influencia no
a razão é uma característica inata, processo? As tensões entre moralidade/
independente das condições de sua cultura e civilização/progresso material
natureza, ou seja, independente de anunciadas por Kant nas dialéticas
questões sociais, políticas, culturais que positivas e negativas da razão pura
envolvem o ser em questão. No entanto, e da razão prática se materializaram
esta característica inata não pode ser em barbárie objetivada ao longo do
acionada por todos, mas apenas por século XX, mal-estar que comunica as
aqueles que progressivamente vão se determinações sociais, os traumas e a
libertando de seus tutores. Em outras dinâmica da psiquê humana no processo
palavras, somente o homem capaz de de construção da autonomia do sujeito
fazer uso autônomo de sua razão possui (Freud, 1974).
condições de produzir conhecimento. A
autonomia é uma condição indispensável Herbert Marcuse (1981)
para a produção de conhecimento problematizou as constatações
socialmente válido, já que sem ela, isto kantianas e iluministas sobre a ideia de
é, sem a progressiva libertação de seus autonomia. Para o autor, o processo de
tutores, o sujeito somente reproduziria esclarecimento ou de consolidação do
as ideias de seu mentor, seja este o sujeito autônomo não se dá de modo
Estado Absoluto ou o Dogma Religioso. amistoso, pois ao longo da vida o sujeito
é submetido a uma série inumerável de
Esta racionalização constante da questões que o impedem de se tornar
vida social tornariam os seres humanos autônomo, a ponto de ter, inclusive, seus
melhores, mais justos, conscientes e desejos mais primitivos condicionados
felizes. Para alcançar tais objetivos o pela forma de sociedade em que está
sujeito dependia somente de sua força situado.
interior, pois, embora mediada pelo
conhecimento científico, a emancipação Em Eros e civilização (1981),
é um processo que se dá de dentro Marcuse apresenta o pensamento
para fora e depende da vontade que de Sigmund Freud a partir de uma
cada um tem de ser livre. O problema interpretação filosófica, buscando
69
Enfoques Vol.1, n.14.

fundamentar a possibilidade concreta e integral de necessidades – é abandonado”


real de constituição de uma Civilização (Marcuse, 1981: 33), ou seja, à medida
Não-Repressiva. Marcuse inicia suas que o Ego abandona seu estado
reflexões tendo como referência o primitivo, amadurece e se choca com
tensionamento apresentado por Freud a realidade, sendo obrigado a submeter
entre o princípio do prazer e o princípio a satisfação de suas necessidades a
da realidade. Segundo o criador da fontes externas, pois “o princípio do
psicanálise, a coexistência entre princípio prazer irrestrito entra em conflito com
da realidade e princípio do prazer o meio natural e humano. O indivíduo
como fluxo do processo civilizatório é chega à compreensão traumática de
impossibilitada, visto que o princípio que uma plena e indolor gratificação
de prazer exigiria a negação total do de suas necessidades é impossível”
princípio de realidade e vice-versa. Ou (Marcuse, 1981: 34).
seja, segundo Freud (1974), a afirmação
do Ego, em seu estado primitivo, movido Segundo Freud (1974), o Ego passa
por uma busca ilimitada pelo princípio a reconhecer o mundo exterior quando
do prazer seria incompatível com a este se torna uma fonte de prazer;
civilização, tendo em vista que o estado neste momento o Ego está vulnerável,
de sociedade imprime a necessidade pois corre o risco de ser reificado,
de renúncias ao sujeito em função dos coisificado, reduzido a algo que não é
limites institucionais, morais, culturais mais ele mesmo, subjugado, ou melhor,
etc. Ou seja, a civilização com seu capaz de subjugar suas necessidades e
princípio de realidade fundamentado respostas fisiobiológicas a necessidades
na sublimação dos desejos inviabiliza e respostas externamente criadas,
o sujeito que “por um lado, visa a condicionando seu prazer a elas, eis
ausência de sofrimento e de desprazer; o princípio da realidade (Freud, 1974).
por outro, à experiência de intensos Essa reificação progressiva do Ego
sentimentos de prazer” (Freud, 1974: 8). é perfeitamente compreensível, pois
diante de um cenário em que as fontes
Em seu estado primitivo, as de sofrimento assumem dimensões
necessidades fisiológicas de prazer do cada vez mais abrangentes, e que as
Ego encontravam respostas internas. pressões sobre o indivíduo são elevadas
Nesta perspectiva, a satisfação desses à milionésima potência, não espanta
desejos era encontrada no próprio que ausência de sofrimento tenha o
sujeito, isto é, a necessidade e a sua mesmo efeito que a felicidade, e que
satisfação compõem a mesma unidade não-encarceramento seja considerado
metabólica tendo em vista que ambas liberdade, ou mesmo que a reprodução
eram intrínsecas ao ser. Assim sendo, o de ideias e pensamentos seja sinônimo
Ego não teria que se submeter a algo de autonomia.
externo, eis o princípio do prazer: “O
princípio do prazer, sob a influência do Freud (1974) identificava no princípio
mundo externo, se transformou no mais da realidade, ou seja, na civilização, um
modesto princípio da realidade” (Freud, profundo sentimento de mal-estar, pois
1974: 9). seu amadurecimento exigia a anulação
progressiva das necessidades instintivas
“A civilização começa quando o do sujeito, submetido a uma sucessão
objetivo primário – isto é, a satisfação de experiências traumáticas, repressivas.
70
Enfoques Vol.1, n.14.

Para Freud, a noção de uma civilização é bom e mau, útil ou inútil, verdadeiro e
não-repressiva é impossível. A repressão falso, em outras palavras, “torna-se um
das liberdades ou de sua busca dá sujeito consciente, pensante, equipado
origem a um indivíduo autorreprimido para uma racionalidade que lhe é imposta
e a sua “autorrepressão apoia, por seu de fora” (Marcuse, 1981: 34). Esse Ego
turno, os senhores e suas instituições” ordenado realiza sua descarga motora
(Marcuse, 1981: 37). Essa repressão na “alteração apropriada da realidade:
que se acumula feito catástrofe na é convertida em ação” (Marcuse, 1981:
subjetividade humana reduz a ideia de 35). No tempo em que Marcuse está
liberdade, de autonomia e de felicidade refletindo, bem como no momento
do ser autorreprimido ao simples ato de presente essas potencialidades racionais
cotidianamente escapar da infelicidade, são direcionadas para uma ação
do encarceramento ou do sofrimento. reificada, para trabalho alienado, para
a manutenção do sistema mercantil,
Marcuse (1981) concorda de suas instituições e de sua estrutura
parcialmente com Freud. Acredita que de dominação. Entretanto, o mesmo
a formação social atual, regida por Ego ordenado acumula excessivamente
uma forma mercantil que reifica os estímulos contra a própria forma
sujeitos e as relações por ele travada mercantil e, consequentemente contra
reprime o Ego na substituição da luta a sua própria repressão. Recupera,
pela felicidade pela simples luta pela por exemplo, as ideias de liberdade,
existência. Para Marcuse, a repressão autonomia e felicidade ocultas em
inconsequente dos desejos tanto no uma memória distante, porém, sempre
desenvolvimento filogênico, quanto no passível de recuperação (Freud, 1974;
desenvolvimento ontogênico é uma Benjamin, 1994).
característica específica de nosso tempo
histórico marcado pelo capitalismo De acordo com Marcuse (1967:
moderno. Nestes termos, onde Freud vê 4), “as aptidões (intelectuais e materiais)
um tremendo mal-estar instransponível, da sociedade contemporânea são
Marcuse vê um imenso potencial dialético, incomensuravelmente maiores do que
dado que o princípio de realidade, nunca dantes”, no entanto, em vez da
estrutura fundamental da civilização, do liberação do sujeito à filosofia, à arte
mesmo modo que oprime, que reifica de modo geral, à política etc., o que
o Ego, pode contribuir para a sua total se tem é um aumento incomensurável
liberação, pois, com o estabelecimento da repressão e da dominação, ou
da civilização, isto é, com a afirmação seja, todas as aptidões intelectuais
do princípio de realidade o ser humano e materiais servem, na verdade, para
“esforça-se por obter o que é útil e o garantir que os tentáculos da sociedade
que pode ser obtido sem prejuízo para administrada alcancem os lugares e
si próprio e para o seu meio vital. Sob sujeitos em todos os cantos do Planeta.
o princípio de realidade, o ser humano
desenvolve a função da razão: aprende Neste sentido, a emancipação
a examinar a realidade” (Marcuse, 1981: humana é inversamente proporcional à
34). capacidade produtiva da atual forma de
organização social, na medida em que
Este desenvolvimento da razão nosso Ego reificado – que desconhece
permite ao sujeito distinguir entre o que quase que completamente seus instintos
71
Enfoques Vol.1, n.14.

primários – passa a ser um fragmento criatividade e a realização de atividades


reificado de um princípio da realidade livres (Marx, 2004).
que não se autoconhece, reduzindo, Os traumas das derrotas das revoluções
com isso, nossa percepção, nossas e a reconstrução da memória como
necessidades (inclusive as fisiobiológicas), forma de conhecimento
resumindo à minimização da dor, do
sofrimento, do desprazer cotidiano, na Desde que superamos o erro de
mesma medida em que reduz a nossa supor que o esquecimento com que
visão de liberdade. nos achamos familiarizados significa
a destruição do resíduo mnêmico
Essa percepção reduzida do mundo [relativo à memória] – isto é, a sua
ofusca a nossa visão de uma catástrofe aniquilação –, ficamos inclinados a
sem trégua. A racionalidade irracional assumir o ponto de vista oposto,
do atual modelo de sociedade pautado ou seja, o de que, na vida mental,
pela livre concorrência e por um padrão nada do que uma vez se formou
pode perecer – o de que tudo é,
de produtividade que destrói o livre
de alguma maneira, preservado e
desenvolvimento das necessidades e que, em circunstâncias apropriadas
faculdades humanas, mantém-se através (quando, por exemplo, a regressão
da constante ameaça de guerra e da volta suficiente atrás), pode ser
insistente repressão das potencialidades trazido de novo à luz (Freud, 1974:
individuais e coletivas para a minimização 4).
da luta pela existência (Marcuse, 1967:
14). Com a terceira revolução técnica- Neste momento de perplexidade
científica iniciada em meados do século generalizada em que a perspectiva
XX, pautada no desenvolvimento da de futuro se restringe à garantia da
informática, da robótica, na utilização sobrevivência diária – diante da fome,
de novas fontes energéticas e na das epidemias, dos desastres naturais,
biotecnologia, a luta pela existência da guerra convencional ou dos inúmeros
pode, sim, ser equilibrada com uma luta contextos de guerra civil espalhados
pelo tempo livre, pelo tempo da criação pelo Planeta – na selva de pedra das
e do prazer. cidades em que a imagem do passado
parece desaparecer paulatinamente da
Autoconservação da espécie, nossa memória, surge a necessidade de
liberdade e autonomia como refletirmos sobre nossas experiências
necessidades vitais (Freud, 1974; Fromm, históricas, sobretudo as que vivemos até
2004) parecem desconhecidas para as aqui, com o sentido de ressignificar o
sucessivas gerações que nasceram, passado, utilizando todo o seu material
foram formatadas, coisificadas e explosivo como agente catalisador das
desumanizadas pelo domínio da nossas experiências no tempo presente
repressão e da escassez elevada à (Benjamin, 1994), ampliando com isso
milionésima potência pelo sistema o nosso horizonte histórico diante das
capitalista contemporâneo que, ao longo possibilidades de um futuro diferente.
de seu processo contínuo e crescente
de deformação, foram sendo retiradas Nossa tarefa, nada simples por
do humano as características que sinal, consiste, como diria Freud (1974),
os distinguem dos outros animais, a em voltar no tempo, em sentar no
necessidade de liberdade, a autonomia, a divã da história desta experiência, em
72
Enfoques Vol.1, n.14.

regredir suficientemente até que seja prédios que outrora ocuparam essa
possível perceber e recuperar, ao menos antiga área, nada encontrará, ou,
teoricamente, parte daquilo que fora quando muito, restos escassos, já
deixado, melhor dizendo, “esquecido” que não existem mais. No máximo, as
melhores informações sobre a Roma
pelo caminho, isto é, tudo aquilo que
da era republicana capacitariam-
a sucessão de experiências traumáticas
no apenas a indicar os locais em
que vivemos nos fizeram esquecer. É que os templos e edifícios públicos
bom enfatizar que se trata apenas de daquele período se erguiam. Seu
“esquecimento”, pois em algum lugar da sítio acha-se hoje tomado por ruínas,
nossa psiquê coletiva está armazenada não pelas ruínas deles próprios,
a memória desta tradição crítica de mas pelas restaurações posteriores,
uma Epistemologia das Lutas Sociais, efetuadas após incêndios ou outros
pois, como afirma Freud (1974: 4), tipos de destruição. Também faz-
“no domínio da mente, por sua vez, se necessário que todos esses
o elemento primitivo se mostra tão remanescentes da Roma antiga
estejam mesclados com a confusão
comumente preservado”:
de uma grande metrópole, que
se desenvolveu muito nos últimos
Escolheremos como exemplo a história séculos, a partir da Renascença. Sem
da Cidade Eterna. Os historiadores dúvida, já não há nada mais que
nos dizem que a Roma mais antiga seja antigo, enterrado no solo da
foi a Roma Quadrata, uma povoação cidade ou sob os edifícios modernos.
sediada sobre o Palatino. Seguiu-se Este é o modo como se preserva o
a fase Septimontium, uma federação passado em sítios históricos como
das povoações das diferentes colinas; Roma (Freud, 1974: 4).
depois, veio a cidade limitada pelo
Muro Sérvio e, mais tarde ainda, após
todas as transformações ocorridas O mais interessante é que o pai
durante os períodos da república da psicanálise não vai se contentar em
e dos césares, a cidade que o construir conjecturas somente com a vida
imperador Aureliano cercou com as mental dos indivíduos, mas também com
suas muralhas. Não acompanharemos a história das sociedades, com o intuito
mais as modificações por que a de nos mostrar que, diferentemente da
cidade passou; perguntar-nos-emos, estrutura psíquica, a história guarda suas
porém, o quanto um visitante, que sequências relacionando diretamente
imaginaremos munido do mais
tempo e espaço, sendo necessário
completo conhecimento histórico e
topográfico, ainda pode encontrar,
que se sobreponha sempre uma fase
na Roma de hoje, de tudo que restou à outra, de forma que elas nunca
dessas primeiras etapas. À exceção existam no mesmo tempo e espaço
de umas poucas brechas, verá o simultaneamente. Freud (1974) nos fala
Muro de Aureliano quase intacto. ainda que, com a estrutura mental, a
Em certas partes, poderá encontrar preservação da memória não necessita
seções do Mudo do Sérvio que de uma sobreposição de imagens ou
foram escavadas e trazidas à luz. fases: dependendo do ângulo e da
Se souber bastante – mais do que a posição do observador, todas as imagens
arqueologia atual conhece –, talvez e fases vão estar sempre disponíveis
possa traçar na planta da cidade
à observação. A leitura que Freud
todo o perímetro desse muro e o
contorno da Roma Quadrata. Dos
(1974) faz da história certamente está

73
Enfoques Vol.1, n.14.

contaminada com aquilo que Benjamin desvios estratégicos e resolvê-los para


(1994) chamou incansavelmente de que possamos recomeçar a história de
história tradicional, considerando que onde paramos, melhor dizendo, de onde
esta concepção apresenta a história as nossas experiências traumáticas nos
em uma linearidade (unidimensional, fizeram parar.
a “linha” do tempo) mórbida, como se
os sujeitos caminhassem sempre em Sabendo, com isto, que todo
direção ao paraíso/progresso. fio histórico perdido pode ser
retomado desde que possamos voltar
Entretanto, o que nos interessa, suficientemente atrás, com ângulos e
neste momento, é compreender que posições diferentes, sabendo que, até
existe uma confluência interessante aqui, a nossa regra esteve marcada pela
entre os pensamentos de Benjamin e barbárie, pela opressão, pela violência
Freud, sobretudo quando Freud (1974) dos vencedores que contaram e contam
afirma que, na estrutura mental, toda a “história oficial”. O que esta versão
memória é preservada e, dependendo oficial da história não conta é que,
da posição que o sujeito observador ao longo desta trajetória, os projetos
assume no tempo e no espaço, ele revolucionários foram impedidos “por
poderá fazer uso de cada estrutura, contratendências e por movimentos
de cada fragmento de memória em opostos” (Marcuse, 1969: 16), estatais
seu estado perfeito, mesmo que ela ou extraestatais, lançando mão de
faça parte de um passado longínquo, mecanismos espirituais de violência
podendo recuperá-la em qualquer (relações econômicas: escassez e
tempo (ressignificando-a, é claro, à luz coerção em estado latente) ou de
do presente). Nestes termos, por um violência extraeconômica (fisicamente
processo de rememoração, como nos repressivas).1
fala Benjamin (1994), esse(s) passado(s)
estará(ão) sempre à nossa disposição para No Brasil isto nunca foi novidade,
ser(em) reinterpretado(s), recontado(s). pois até mesmo em nossos momentos
O que aproxima esta dupla ilustre de de democracia pálida, a exceção sempre
pensadores judeus é que o passado foi a forma reinante de manutenção
pode ser resolvido, reapropriado, isto da governabilidade e, de milagre em
é, que a qualquer momento podemos milagre, o preço da penitência para os
caminhar em direção aos nossos oprimidos, para as classes populares
medos, aos nossos traumas da infância “nacionais” foi bastante elevado. Golpes
e da juventude, às nossas derrotas, de Estado, ditaduras militares ou
aos nossos erros táticos, aos nossos empresarial-militares, suspensão dos

1
É importante considerar que para Marcuse (1969) tanto a primeira quanto a segunda forma de violência
estão condicionadas ao desenvolvimento do sistema mercantil, pois em momentos em que a taxa de acu-
mulação permanece estável a violência se manifesta em estado latente, pouco visível, pois são ofuscadas
pelas relações econômicas e alienadas do próprio processo produtivo; em contrapartida, caso a taxa de
acumulação tenha um movimento regressivo, ou seja, o sistema social esteja em um processo de crise e a
violência espiritual seja insuficiente para conter a insatisfação da massa, a violência extraeconômica seria
utilizada de modo mais intenso. Cabe destacar, ainda, que no desenvolvimento histórico do capitalismo os
dois tipos de violência serão utilizados simultaneamente, dependendo de sua vida orgânica.

74
Enfoques Vol.1, n.14.

direitos civis e políticos, supressão dos da esquerda alemã na Primeira Guerra


salários, dentre outras, sempre fizeram Mundial, das vanguardas culturais e
parte da nossa vida cotidiana, pois aqui políticas da Revolução Russa, o fracasso
o arcaico e o moderno fizeram uma das insurreições operárias na República
dobradinha perfeita, alimentando um ao de Weimar e na República de Conselhos
outro (Oliveira, 2008). Combinar estado da Hungria; a derrota dos anarquistas
de exceção e crescimento econômico, na Guerra Civil Espanhola, o nazismo,
trabalho escravo e precarização do o stalinismo, as ditaduras civil-militares
trabalho com avanços técnicos e na periferia, o milagre econômico e a
tecnológicos é nossa especialidade, violência das modernizações tardias, a
sendo a forma pela qual o capitalismo sociedade administrada. Catástrofes em
se desenvolverá no Brasil. Tanto é que, repetição apontam para uma suspensão
na atualidade, chegamos a exportá-la da práxis política? Sem práxis política
alimentando uma brazilianização do existe uma teoria crítica? Ou uma
mundo (Arantes, 2004). epistemologia das lutas sociais? (Santos,
2011).
Esse cortejo triunfante dos
vencedores, marcado pela universalização Se os tempos atuais nos retiram
da exceção entre os vencidos, continua de uma práxis política como sujeito
a percorrer seu caminho, encontrando coletivo, ao menos exigem para o
pela frente várias forças de resistência, bom entendedor uma crítica da cultura
trucidadas por uma intensa “repressão socialista e da cultura libertária, um pôr-
agressiva legal e extralegal por parte da se a contrapelo possuído pela melancolia
estrutura de poder – uma concentração hostil à atividade do esquecimento:
de força brutal contra a qual a Esquerda
Num mundo no qual se encoraja a
não possui defesa” (Marcuse, 1981:
amnésia, em que o recalcamento
43) – e que vão ser narradas pelos
toma o lugar do esquecimento, a
historiadores da história oficial como melancolia de esquerda ainda é capaz
focos dispersos e sem continuidade de de apelar a coisas que de outra
resistência. forma estariam perdidas. Manter
uma relação com o passado significa
Rememorar o passado, como diria relembrar o melhor para impedir o
Benjamin (1994), voltar suficientemente pior: que o passado se repita. A
atrás não significa negar que os melancolia passa a representar uma
oprimidos tiveram inúmeras experiências resistência à razão tecnológica e
de autorreflexão e autoprodução de administrativa que liquida a memória
[...]. O papel da memória é, pois,
conhecimento, mas considera que a
fundamental: se a tecnologia arquiva
Epistemologia das Lutas Sociais, na
o passado para se transformar em
perspectiva crítica, corresponde à práxis apologia do existente, a recordação
política das classes populares nos é o que preserva o melhor do que
processos e para os processos de luta foi e o melhor do que pode ser.
social, bem como sua rememoração, (Matos, 1989: 21)
tendo a crítica da história e a
sensibilidade narrativa do sujeito como Recordar, narrar e não deixar de
faróis desta epistemologia a contrapelo. perceber, como uma atividade consciente,
a emancipação humana como um
Os fracassos da Comuna de Paris, problema concreto, real, finito, posto
75
Enfoques Vol.1, n.14.

na ordem do dia como contraponto dor, porém é unindo luta social, memória,
da luta pela sobrevivência e afirmação atividade livre e lúdica que demarca no
da necessidade vital da felicidade e da processo histórico objetivado a busca e
liberdade. Uma epistemologia das lutas a realização de uma razão sensível.
sociais não se abstém da dialética da

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76
Enfoques Vol.1, n.14.

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cosmopolita. Dissertação de Mestrado. Seropédica, Universidade Federal Rural do Rio de
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77
Enfoques Vol.1, n.14.

GÊNERO E CULTURA: UMA REFLEXÃO PÓS-


COLONIAL
Maria Eduarda Borba Dantasi

Resumo
O propósito deste artigo é refletir sobre a teoria política feminista, interpretada como
uma teoria social, crítica e reflexiva, desde uma perspectiva pós-colonial — entendida
aqui não apenas em sua crítica epistemológica às formas de produção do conhecimento,
mas também em sua denúncia às assimetrias globais de poder. A análise da forma como
a “cultura” intercepta o debate feminista, ilustrada neste artigo pela obra de autoras
como Susan Okin, Anne Philips e Martha Nussbaum, impõe-se como o fio condutor deste
trabalho, cujo objetivo é tatear as interfaces entre a teoria feminista e a crítica pós-
colonial, percebendo possíveis linhas de continuidade entre o feminismo e a epistemologia
colonialista. Aponta-se para a necessidade de o feminismo problematizar os conceitos, as
categorias e as premissas em torno dos quais ele é construído — como o de “gênero” —,
mister para o qual a crítica pós-colonialista em muito contribui.

Palavras chave: Teoria política; Filosofia política; Feminismo; Cultura; Pós-colonialismo

GENDER AND CULTURE: A POSTCOLONIAL REFLECTION

Abstract:

The purpose of this article is to reflect on feminism, interpreted as a critical and reflexive social
theory, from a postcolonial perspective – here understood not only as an epistemological
critique of the forms through which knowledge is produced, but also as a denouncement of
the global asymmetries of power. The paper is guided by an analysis of the way in which
“culture” intervenes in the feminist debate, illustrated through the work of authors such as
Susan Okin, Anne Philips and Martha Nussbaum. Its main purpose, therefore, is to grasp the
interfaces between feminist theory and the postcolonial critique, identifying potential lines
of continuity between feminism and colonialist epistemology. It points the need for feminism
to critically question the concepts, categories and premises upon which it is built, such as
“gender”, a requirement to which the postcolonial critique has a lot to add.

Keywords
Political theory; Political philosophy; Feminism; Culture; Postcolonialism.

i
Maria Eduarda Borba Dantas é mestranda em Ciência Política pelo Programa de Pós-Graduação em Ciên-
cia Política da Universidade de Brasília (IPOL/UNB). E-mail: mariaeduarda.borbadantas@gmail.com

78
Enfoques Vol.1, n.14.

Introdução mulher — ou de tornar-se uma, em


As teorias feministas trouxeram homenagem a formule célèbre de
um aporte muito distinto para pensar Beauvoir — é afetada de maneiras
as sociedades contemporâneas e seus diferentes, conforme se faça incidir sobre
limites, elaborando críticas a respeito ela outras classificações estruturantes
de como noções de universalidade, dos padrões de distribuição do poder
liberdade e imparcialidade, bem como na sociedade (Quijano, 2005). Graças às
pretensões de suspensão das diferenças contribuições de autoras como Johanna
individuais, constroem referenciais e Brenner, Angela Davis, Elizabeth Spelman,
embasam sistemas sociais extremamente Bell Hooks ou, no Brasil, Sueli Carneiro,
excludentes: Por que razão e de que o feminismo pôde politizar-se não só
modo pode a desigualdade coexistir com em relação ao “gênero”, mas também à
a pretensão de igualdade universalizada raça e à classe.
(Phillips, 1997)? As tentativas de incluir a
Se, por um lado, pode-se enxergar “cultura” como um fator importante
essa contradição apenas como uma de particularização das experiências
questão de universalidade incompleta femininas ao redor do planeta — “we
— mas atingível, talvez, “a longo prazo”, have become politicized about race
como nos prometem os economistas —, and class, but not culture” (Abu-
por outro, é igualmente possível — e Lughod, 2002: 789) — são, todavia,
talvez mais interessante — seguir o insight ainda incipientes e sempre cercadas
de Pateman, tentando compreender de por bastante polêmica. É compreensível
que formas essa construção abstrata da a preocupação, expressa por autoras
igualdade oculta, chancela e legitima, como Susan Okin, de que diferenças
deliberadamente, a permanência culturais acabem por permitir e legitimar
de formas bastante específicas de formas de dominação das mulheres —
desigualdades (Pateman, 1993). Com afinal, de acordo com a autora, “most
efeito, os indivíduos abstratos que cultures have as one of their principal
povoam as teorias democráticas liberais aims the control of women by men”
são, na verdade, reflexos de experiências (Okin, 1999: 13).
individuais bastante particulares: a do É igualmente legítimo, porém,
homem branco, proprietário, ocidental, manifestar alguma preocupação: a)
cisgênero, heterossexual. quando o próprio feminismo é empregado
É um tanto paradoxal, portanto, que para apagar a marca das relações
o caminho trilhado pelo feminismo tenha, assimétricas de poder inegavelmente
por vezes, enveredado pela construção existentes entre o que Stuart Hall,
de outra categorização abstrata, “as ironicamente, chamou de “The West and
mulheres”, cujas experiências, ao fim e The Rest”, denunciando a “divisão sexual
ao cabo, poderiam ser subsumidas a do trabalho” em “países do terceiro
algum tipo de universalidade — haveria mundo” e sublimando, por completo, a
uma espécie de denominador comum divisão internacional do trabalho (Spivak,
determinante das vivências femininas, 2010); b) quando ele serve para oprimir
independentemente do lugar, do tempo e silenciar, estereotipar e deslegitimar
e das condições em que vivem essas as experiências de vida de certas
mulheres. E, no entanto, não é difícil mulheres, tratadas como um objeto
perceber que a experiência de ser monolítico, a-histórico e generalizante
— “The Third World Woman” (Mohanty,
79
Enfoques Vol.1, n.14.

1991); ou, ainda, c) quando ele é parte desenvolvimentistas, emancipatórios,


da retórica utilizada para justificar e universalistas — que podem, às vezes,
legitimar intervenções armadas e práticas até ir “fundo no que olham, mas não
flagrantemente colonializantes em certos no próprio fundo”.1
países, sejam na Índia e no Egito sob A hipótese aqui levantada é a de
o jugo britânico (Abu-Lughod, 2013: 33), que o feminismo, compreendido como
sejam no Iraque e no Afeganistão sob a uma teoria social crítica e reflexiva,
ocupação militar norte-americana (Abu- inevitavelmente, deve lidar com uma série
Lughod, 2013. Kandiyoti, 2007a/b). de contradições e aporias2 inerentes a
Com essas preocupações em qualquer discurso que tenha a margem
mente, o objetivo deste artigo é como locus de enunciação. Ignorar
problematizar certas maneiras como esses paradoxos, ou tentar encontrar
a “cultura” tem atravessado a teoria uma solução para eles, é, senão um
política feminista, ilustrado, aqui, pelas exercício vão, uma manobra perniciosa,
obras de Susan Okin, Anne Phillips e cujo efeito, mediata ou imediatamente
Martha Nussbaum, acrescentado um percebido, é o adoçamento, a diluição,
maior nível de complexidade à crítica o adestramento do feminismo, cujo
feminista, na medida em que ela se potencial crítico fica, assim, prejudicado
depara com dificuldades postas pela — inclusive em sua capacidade de dizer
desgastada disputa entre relativismo e algo sobre as nossas sociedades.
universalismo; pela divisão internacional Contemporaneamente, a “cultura”
do trabalho; pelos efeitos — concretos parece ser um desses conceitos que,
e simbólicos, evidentes e latentes — do com mais força, vem solicitar3 o
imperialismo europeu; pelos padrões feminismo, acrescentando-lhe alguma
globais de distribuição de poder — radicalidade. Nessa medida, o pós-
econômico, bélico, científico — que colonialismo — abraçado aqui tanto em
acabam determinando os limites entre o sua crítica epistemológica às formas
verdadeiro e o místico, entre o que faz de produção de conhecimento, como
sentido e o que não faz, entre o que também em sua denúncia às assimetrias
é possível e o que é impossível; pela globais de poder — pode revelar-se um
irrecusável (e desconfortável?) presença espaço profícuo para a articulação entre
de certos tipos de imigrantes nos países “gênero” e “cultura”; um exercício cujo
centrais; pela incontornável existência resultado esperado, portanto, não pode
de subalternos nas periferias do mundo; ser senão o próprio aprofundamento da
pelas linhas invisíveis, abissais (Santos, crítica feminista.
2007), que, uma vez traçadas, sustentam O artigo está estruturado em
práticas e discursos hegemônicos, duas partes: primeiro, tentaremos situar

1
Veloso, Caetano. “Americanos”. In: Circuladô Ao Vivo. Polygram do Brasil, 1993.
2
Do grego ἀπορία,,a-poros. Significa não caminho, uma rota que não permite passagem. Na filosofia, é um
problema de resolução aparentemente impossível.
3
Em referência ao emprego derrideano da palavra “solicitar”, derivada do latim sollicitare (sollus, “tudo”, e
ciere, “mover, abalar”). Solicitar, assim, significaria “abalar a totalidade”: toda totalidade pode ser total-
mente abalada, mostrando estar fundada, precisamente, naquilo que ela exclui, ignora, trata como impos-
sível. “It is the domination of beings that différance everywhere comes to solicit, in the sense that sollicitare,
in old Latin, means to shake as a whole, to make tremble in entirety” (Derrida, 1982: 21).
80
Enfoques Vol.1, n.14.

teoricamente a forma como pretendemos de perspectiva, de ponto de vista, de


desenvolver nosso argumento em explicitação de premissas — e não uma
torno da “cultura”, o que necessitará afirmação categórica de que aquilo que
de uma breve consideração acerca da o cientista diz é a encarnação absoluta
epistemologia das ciências modernas, da verdade.
para em seguida ensaiar enquadrar Na impossibilidade de atingir-se
os atritos entre o feminismo e o pós- um conhecimento objetivo, absoluto
colonialismo como as dissonâncias que e racional do mundo, os cientistas
surgem do encontro de duas margens — poderiam, no mínimo, estar cientes de
de duas formas distintas de falar sobre que estudam o mundo e a natureza
diferenças. Em um segundo momento, como se eles pudessem, de fato, ser
dedicaremos mais atenção a identificar conhecidos e explicados; falam do
as linhas de continuidade entre o seu conhecimento sobre o mundo
feminismo e a epistemologia colonial, como se suas invenções sobre ele de
tendo por suporte trabalhos que se fato existissem. É o caso da ideia de
enquadram no campo do feminismo “gravidade”: um conceito criado para
pós-colonial. A isso, sucede uma poder falar de como as coisas caem.
breve conclusão acerca das questões E a consciência desse como se muda
ponderadas neste artigo. tudo, na medida em que confere à
Do ‘ hypothesis non fingo’ de Isaac Newton posição do observador uma espécie de
à ‘invenção da cultura’ de Roy Wagner; “objetividade relativa”, que coloca muito
ou pós-colonialismo e feminismo: o mais destaque no próprio investigador,
que acontece quando duas margens se no próprio cientista, no recorte que ele
encontram? resolveu dar à realidade e nas formas
como ele decidiu explicá-la, do que na
Em um ensaio anexado à segunda realidade em si mesma.
edição do seu célebre Philosophiae Vai nesse sentido a tese defendida
Naturalis Principia Mathematica, em que por Wagner em “A invenção da cultura”.
apresentava a equação à qual obedecia O antropólogo norte-americano começa
todo o universo — a Lei da Gravitação por uma definição do seu campo de
Universal –, —, Isaac Newton declarava, estudo. Como a própria palavra deixa
orgulhosamente, “não formular adivinhar, a antropologia seria o estudo
hipóteses”: hyphotesis non fingo. Ele do fenômeno do homem:
insinuava, assim, não se dedicar
à desimportante tarefa de estudar A mente do homem, seu corpo, sua
fenômenos naturais para, a partir deles, evolução, origens, instrumentos, arte
elaborar explicações plausíveis. Pelo ou grupos, não simplesmente em si
contrário: a partir de suas fórmulas mesmos, mas como elementos ou
aspectos de um padrão-geral ou de
é que ele deduzia o mundo (Wagner,
um todo. Para enfatizar esse fato
2014: 20-21). e integrá-lo a seus esforços, os
Roy Wagner, todavia, sugere antropólogos tomaram uma palavra
uma interpretação um tanto benévola de uso corrente para nomear o
do imperativo newtoniano, que poderia fenômeno e difundiram seu uso. Essa
ser lido “como uma humilde e sóbria palavra é cultura (Wagner, 2014: 37).
declaração de procedimento, e não como
vanglória” (Wagner, 2014: 21). Tratar-se- Para Wagner, o antropólogo tentará
ia, enfim, de uma simples declaração denominar a situação que ele está

81
Enfoques Vol.1, n.14.

estudando como “cultura”, de forma nos permite falar sobre algo bastante
apriorística, como uma maneira de complicado: a diferença. Os problemas
falar sobre as coisas, compreendê-las surgem quando se esquece de que
e lidar com elas. A conclusão que ele essa diferença é construída relacional
tira daí é que a “cultura” não existe e contingentemente, e começa-se a
como um objeto monolítico, apreensível, acreditar que as fronteiras traçadas para
cognoscível, dominável: ela é inventada poder falar de diferenças constatadas
pelo antropólogo quando ele se depara são fixas, imutáveis — esquecemos que
com a diferença; quando ele sofre o elas são somente analogias que usamos
“choque cultural” durante o seu trabalho para falar de coisas, e começamos a
de campo. Desse susto, desse espanto, tomá-las pelas coisas em si.
desse confronto com “O Outro”, o Em O que é a política?, Hannah
antropólogo inventa não só a “cultura” Arendt elabora um raciocínio semelhante,
que ele acredita estar estudando, referindo-se aos “pré-juízos” que
conhecendo, como também a sua própria informam a atividade política — juízos
“cultura”: “antes disso, poder-se-ia dizer, que obliteram o fato de serem juízos e,
ele não tinha nenhuma cultura, já que por isso, são empregados como verdades
a cultura em que crescemos nunca é naturais, evidentes por si mesmas. Ainda
realmente ‘visível’ — é tomada como que nenhuma comunidade política possa
dada, de sorte que suas pressuposições prescindir do pré-juízo para funcionar
são percebidas como autoevidentes” cotidianamente, o perigo residiria na
(Wagner, 2014: 43). circunstância de que, obliterando uma
O trabalho do antropólogo nada parcela do passado — dos juízos que
mais é do que a construção de um foram tomados anteriormente —, o
conjunto de analogias, relações e pré-juízo poderia levar à renúncia da
comparações, levando a cabo um capacidade humana de julgar, tendo por
processo em que duas culturas — a efeito o esquecimento da contingência
dele próprio e a que ele pretende da política — o fato de que as coisas
estudar — são simultaneamente criadas, que são, na superficialidade da política,
“objetificadas”, isto é, tornadas objetos poderiam muito bem ser de outra forma
por ele. Segue daí que algo como (ARENDT, 1997: 52-59).
“cultura” não existe de fato: nesse jogo, Também Nietzsche, valendo-se da
a relação nascida da diferença, cujo metáfora das moedas cuja efígie foi
elo é o próprio antropólogo, é muito apagada pelo uso, fala da verdade como
mais real do que as coisas que ela
um batalhão móvel de metáforas,
pretende relacionar – a “cultura” “A” e
metonímias, antropomorfismos,
a “cultura” “B”; a “cultura” estudada e
enfim, uma soma de relações
a “cultura” do próprio antropólogo. A humanas, que foram enfatizadas
ideia de “cultura” apenas tornou-se a poética e retoricamente, transpostas,
linguagem geral por meio da qual a enfeitadas, e que, após longo uso,
antropologia se comunica. parecem a um povo sólidas, canônicas
A antropologia, portanto, seria o e obrigatórias: as verdades são
estudo do homem “como se a cultura ilusões, das quais se esqueceu que
existisse na qualidade de uma ‘coisa’ o são, metáforas que se tornaram
monolítica” (Wagner, 2014: 52). A ideia gastas e sem força sensível, moedas
de “cultura”, por sua vez, seria uma que perderam sua efígie e agora só
entram em consideração como metal,
espécie de “muleta de pensamento”, que
82
Enfoques Vol.1, n.14.

não mais como moedas (Nietzsche, estabelecidas por meio de linhas


1983: 48). radicais que dividem a realidade
social em dois universos distintos: o
É importante iniciar “uma reflexão “deste lado da linha” e o “do outro
pós-colonial” sobre “cultura” e feminismo lado da linha” (...). A característica
com essas considerações porque uma fundamental do pensamento abissal
das melhores formas de entender do que é a impossibilidade da co-presença
trata a crítica pós-colonial é referindo- dos dois lados da linha. (...)
se a ela como um esforço de politizar
fronteiras, uma tentativa de problematizar A humanidade moderna não se
diferenças — uma forma de relembrar concebe sem uma subumanidade
que os conceitos ordinariamente moderna. A negação de uma parte da
utilizados para extrair algum sentido humanidade é sacrificial, na medida
do mundo (“nacionalidade”, “raça”, em que constitui a condição para
“religião”, “gênero”, “etnia”, “cultura”) que a outra parte da humanidade
se afirme como universal (e essa
são apenas “muletas de pensamento”,
negação fundamental permite, por
analogias, metáforas; formas de falar
um lado, que tudo o que é possível
sobre as coisas como se elas existissem se transforme na possibilidade
e que não são, jamais, as coisas em si, de tudo e, por outro, que a
objetivas, reais. criatividade do pensamento abissal
Essa característica do pós- banalize facilmente o preço da sua
colonialismo pode ser identificada destrutividade (Santos, 2007: 71;76).
tanto na sua denúncia à constante
produção de “Outros” pelo Ocidente Para Quijano, o mundo
— como mostram, paradigmaticamente, contemporâneo estaria atravessado por
o “orientalismo” de Edward Said e o eixos fundamentais que determinam os
binarismo West/Rest de Stuart Hall —, padrões de distribuição global do poder,
quanto na sua denúncia ao “epistemicídio cuja origem e caráter seriam tipicamente
em massa” (Santos, 2007: 91) que coloniais, mas que, todavia, haveriam
acompanhou a expansão colonial da provado ser muito mais duradouros e
Europa, ou, mesmo, à “colonialidade do estáveis do que o próprio colonialismo
poder” (Quijano, 2005), mas também em que foram estabelecidos. Um deles,
em sua constatação de como o para o autor, seria “a classificação social
desenvolvimento, a modernização e a da população mundial de acordo com
produção de teorias emancipatórias e a ideia de raça, uma construção mental
humanistas no Ocidente tinham, como que expressa a experiência básica da
contrapartida, a aporética exclusão do dominação colonial” (Quijano, 2005: 2).
Resto do mundo — podemos aqui voltar Já Paul Gilroy chama atenção para
à abissalidade do pensamento ocidental o fato de que o fenômeno da escravidão
a que se refere Boaventura, incluindo colonial revelaria as fissuras internas
também Gilroy, Staheli e Mignolo. do próprio conceito modernidade, ao
escancarar o fato de que a escravidão
O pensamento moderno ocidental não seria algo externo a ela:
é um pensamento abissal. Consiste
num sistema de distinções visíveis In this setting, it is hardly surprising
e invisíveis, sendo que estas that if it is perceived to be relevant at
últimas fundamentam as primeiras. all, the history of slavery is somehow
As distinções invisíveis são assigned to blacks. It becomes our

83
Enfoques Vol.1, n.14.

special property rather than a part of desconstrução dos essencialismos, uma


the ethical and intellectual heritage referência epistemológica crítica às
of the West as a whole. This is only concepções dominantes de modernidade”
just preferable to the conventional (Costa, 2005: 117).
alternative response which views
O feminismo, certamente,
plantation slavery as a premodern
reúne teorias múltiplas e plurais, cuja
residue that disappears once it
is revealed to be fundamentally categorização sob um único nome
incompatible with enlightened — “feminismo” — ocorre não sem
rationality and capitalist industrial uma redução bastante significativa
production (Gilroy, 1993: 49). de sua complexidade. Não obstante,
é possível, com alguma boa vontade,
O referido autor acrescenta, ainda, argumentar que o “feminismo” poderia
que Hegel teria sido um dos únicos bem enquadrar-se como um esforço
filósofos a perceber a íntima associação parecido com o da crítica pós-colonial
entre a modernidade e a escravidão. — já que ele é, também, uma tentativa
Nesse mesmo sentido, Staheli, apoiando- de politizar e problematizar a diferença,
se em Laclau, nota que os discursos mas uma diferença específica, que é a
de globalização são exemplo de uma diferença de gênero.
“política de construção do impensável”,
que torna impensável “that which does (...) feminist scolarship, like most
not fit in with the hegemonic definition other kinds of scholarship, is not
mere production of knowledge
of the global. (...) Deconstructing the
about a certain subject. It is a
global requires us to trace that which directly political and discursive
is excluded by talking about the global, practice in that it is purposeful and
and to examine how these constitutive ideological. It is best seen as a
exclusions affect the very possibility mode of intervention into particular
of globality (Staheli, 2003: 2). Mignolo, hegemonic discourses (for example,
por sua vez, percebe que “from the traditional anthropology, sociology,
perspective of modernity, coloniality is literary criticism etc.); it is a political
difficult to see or recognize, and even a praxis which counters and resists
bothersome concept” (Mignolo, 2005: 5) the totalizing imperative of age-old
e se pergunta como é que dois conceitos “legitimate” and “scientific” bodies of
knowledge. Thus, feminist scholarly
umbilicalmente ligados — modernidade
practices (whether reading, writing,
e colonialidade — sobrepõe-se um ao critical, or textual) are inscribed in
outro para constituir dois lados de uma relations of power — relations which
mesma realidade e dar forma à ideia de they counter, resist, or even perhaps
“América”, durante o século XVI, e de implicitly support (Mohanty, 1991:
“América Latina”, durante o século XIX 53).
(Mignolo, 2005: 5).
Sérgio Costa está correto ao Os possíveis atritos existentes
notar que “os estudos pós-coloniais não entre a crítica pós-colonial e a crítica
constituem propriamente uma matriz produzida pelo feminismo podem ser
teórica única”, indo, antes, tratar-se interpretados, em alguma medida, como
de “uma variedade de contribuições choques que — talvez inevitavelmente?
com orientações distintas, mas que — surgem quando duas formas distintas
apresentam como característica comum de falar sobre diferenças se cruzam:
o esforço de esboçar, pelo método de O que acontece quando duas margens

84
Enfoques Vol.1, n.14.

se encontram? Há consonâncias — mas relevantes envolvendo “gênero” e “cultura”


também abundam as dissonâncias; e, que minariam a força dos argumentos
nesse sentido, as formas como a “cultura” em favor da concessão de “privilégios”
tem atravessado o debate feminista a “minorias culturais”. A primeira delas
conferem um prisma privilegiado a partir passaria pelo fato de que “personal,
do qual esses confrontos se tornam mais sexual, and reproductive life functions
tangíveis, mais tácteis, mais perceptíveis. as central focus of most cultures” (Okin,
Neste trabalho, tentaremos ilustrar 1999: 12-13). Como resultado, “the
essas tensões por meio da análise da defense of ‘cultural practices’ is likely to
obra de três autoras, Martha Nussbaum, have much greater impact on the lives of
Susan Okin e Anne Phillips, escolhidas women and girls than on those of men
por haverem desenvolvido argumentos and boys” (p. 13). Em segundo lugar,
bastante importantes sobre a “cultura”, para a autora, “most cultures have as
desde uma perspectiva feminista. one of their principal aims the control
É imprescindível iniciar essa of women by men” (Idem), e, portanto,
discussão com uma situação do contexto argumentos em favor das diferenças
teórico das autoras abordadas. Para tanto, culturais teriam por consequência mais
é proveitoso apontar para o fato de a provável a permissão, a legitimação
“cultura” ter se tornado foco de atenção e a perpetuação da dominação das
dessas autoras, preponderantemente, mulheres.
por meio de reflexões em torno do que É importante notar que Okin
Hall chamou de “questão multicultural” reconhece que práticas de dominação
(Hall, 2003), e, mais especificamente, e discriminação sexual também são
de um “multiculturalismo pluralista” encontradas em “culturas” liberais
cujo desdobramento principal seria a ocidentais (p. 16), muito embora, para
possibilidade de concessão de direitos a autora, elas estejam mais adiantadas
ou privilégios especiais a “minorias do que outras “culturas” do mundo,
culturais” (Okin, 1999: 10; Kymlicka, “including many of those from which
1995) — os group rights. É o caso, immigrants to Europe and North America
notadamente, dos trabalhos de Susan come” (p. 17). É com base nessas
Okin e de Anne Phillips, preocupadas considerações que Okin, ao final do
com a presença de “minorias culturais” seu texto, chega à conclusão de que
em países centrais, desenvolvidos, a concessão de direitos de grupo a
ocidentais. Daí os argumentos minorias “culturais mais patriarcais”, em
desenvolvidos pelas autoras serem sociedades “menos patriarcais”, não é
construídos em torno de problemas uma solução adequada. Com efeito, as
como políticas públicas para imigrantes, mulheres daquelas “culturas” poderiam
normas de Direito Internacional Privado estar
e incidentes processuais possivelmente
much better off if the culture into
levantados em face do Poder Judiciário.
4 which they were born were either to
become extinct (so that its members
Para Okin, há duas interfaces would become integrated into the

4
Ver, por exemplo, a extensa discussão de jurisprudências de cortes inglesas e norte-americanas levada a
cabo por Anne Phillips no terceiro capítulo de “Multiculturalism without culture”.

85
Enfoques Vol.1, n.14.

less sexist surrounding culture), or, many fundamental ways, touching on


preferably, to be encouraged to alter some of the most central elements
itself so as to reinforce the equality of human being’s quality of life —
of women – at least to the degree health, education, political liberty and
to which this value is upheld in the
participation, employment, self-respect,
majority culture (Okin, 1999: 22-23).
and life itself ” (p. 30.), Nussbaum
A análise da “cultura” em Phillips, desenvolve seu argumento no sentido
por sua vez, caracteriza-se pelo seu de resolver os potenciais conflitos que
esforço em enquadrar “cultura” como algo as “culturas” podem causar, por via,
potencialmente positivo (Phillips, 2007: simplesmente, da sua desconsideração,
132), e não como mero constrangimento à sempre que elas se mostrarem contrárias
autonomia de indivíduos, reconhecendo, à “dignidade humana”.
inclusive, tanto que as sociedades Com alguma ironia, Nussbaum
ocidentais de tradição liberal têm, afirma preferir correr o risco de ir para
também, “cultura” (Phillips, 2007: 127), o “inferno” especialmente reservado
quanto que a “cultura” não pode ser para “ Westernizers and imperialists”, do
tratada como algo essencializado, que desistir da posição de que “there
reificado, estável: culturas mudam ao are universal obligations to protect
longo do tempo. Todavia, não é difícil human functioning and its dignity, and
perceber que o que incomoda Phillips that the dignity of women is equal to
no multiculturalismo, e que é a linha that o men. If that involves assault on
por trás dos argumentos desenvolvidos many local traditions, both Western
em Multiculturalism without culture, é and non-Western, so much the better,
muito mais a preocupação de como because any tradition that denies these
compatibilizar a noção “cultura” com things is unjust” (Idem). Em outro trecho,
uma tradição liberal centrada em torno Nussbaum afirma que “real cultures
da autonomia individual, da capacidade contain plurality and conflict, tradition,
de agência dos indivíduos e de sua and subversion. They borrow good things
respectiva liberdade para fazer escolhas, from wherever they find them, none too
para, assim, poder manter de pé seu worried about purity” (p. 37). Não fica
argumento em favor da igualdade — e, claro, porém, que “coisas boas” são
tal como em Okin, o pano de fundo essas que as “culturas” deveriam tomar
dessa análise são os países centrais, para si, nem de acordo com qual critério
ocidentais, desenvolvidos, tomados pela as “tradições” devem ser “atacadas” por
presença do imigrante. serem consideradas “injustas” — não
Em “ Sex and social justice”, é difícil imaginar, porém, que algumas
Martha Nussbaum, desenvolvendo uma “culturas” estão mais propensas do
poderosa argumentação que une as que outras a sofrerem esse “ataque”
preocupações das teorias feministas (e a sua alegada “injustiça” muito
e da justiça social, parte da premissa improvavelmente seria o único fator
de que “human beings have a dignity envolvido na decisão dessa investida).
that deserves respect from laws and Nussbaum pretende, no fim das
social institutions” (Nussbaum, 1999: contas, varrer a “cultura” do conjunto de
5). Constatando que “tradições”, tanto aspectos que devam ser considerados
ocidentais quanto não ocidentais, politicamente relevantes, talvez
“perpetrate injustice against women in tentando replicar, macrocosmicamente
— e globalmente ¬— a manobra
86
Enfoques Vol.1, n.14.

liberal de suspensão das diferenças, 30). Não significa, tampouco, concluir


a fim de produzir um espaço neutro que “the only way to respect people’s
em que indivíduos possam ser livres dignities as agents is to create an
e autônomos — possam “florescer”, uphill unequal struggle for them at
conforme ela diz, exercendo livremente every turn in the road ” (Idem, p. 18);
as funções descritas na lista de “central ou ainda desconsiderar certas correntes
human functional capabilities” (p. 41). feministas como expressões do
Se, por um lado, pode-se parabenizar colonialismo, com o fito de excluí-las ou
Nussbaum pelo esforço de construir descartá-las; ou, muito menos, sugerir
uma teoria da justiça bastante ousada que não haja desigualdades e formas de
e com pretensões declaradamente dominação com base no gênero, seja em
universalistas, por outro, não é países ocidentais, seja em países não
equivocado, também, apontar que por ocidentais, nem que elas não precisem
trás desses argumentos, balança ser criticadas e problematizadas.
a crença de que os preceitos das Implica, sim, tomar ciência das
sociedades liberais ocidentais são, de complexidades, aporias e contradições
fato, universais, e que o seu universo envolvidas nesses mesmos problemas.
simbólico é elástico o suficiente para Complexidades, pois, como notam
englobar o mundo inteiro. Lazreg e Abu-Lughod, o conhecimento
A impossibilidade dessa manobra, acerca de como a dominação masculina
porém, está inscrita no próprio tecido se dá em outras “culturas” não é
das relações globais de poder — e facilmente adquirido ou imediatamente
defender o contrário implica, como bem acessado;5 contradições e aporias, pois
nota Chandra Mohanty, simplesmente qualquer discurso que se proponha a
apagar as diferenças que existem entre ser minimamente crítico e que ocupe a
o Ocidente e o Resto do mundo, tendo margem como o seu locus de enunciação
por efeito a confirmação da presunção encontrará essas dificuldades — e,
de que o Resto apenas ainda não se quando se tenta simplesmente superá-las
desenvolveu, evoluiu, modernizou-se ou sublimá-las, traça-se, inevitavelmente,
tanto quanto o Ocidente (Mohanty, 1991: uma clara linha de continuidade entre
72). Reconhecer essa impossibilidade, a crítica feminista e a epistemologia
por outro lado, não implica, como teme colonialista.
Nussbaum, um “colapso moral” — ser As linhas de continuidade entre o
uma das almas, descritas por Dante, feminismo e a epistemologia colonial
que vagueia eternamente no vestíbulo
do inferno, incapaz de assumir qualquer Essa “linha de continuidade”
posicionamento em relação a problemas entre o feminismo e o colonialismo está
políticos ou morais (Nussbaum, 1999: presente no trabalho das três autoras
comentadas acima. Okin e Phillips

5
“The split vision of the world that relegates non-Western women to a residual category, where fancy more
than fact rules, is a significant error in feminist scholarship as a whole. It can be corrected only if and when
Western feminists are ready and willing to think differently about the variety of modes of being female, in-
cluding their own. They must recognize that knowledge of North African/Third World women is not given all
at once. It is, like knowledge of women in Western societies, a process of sifting the true from the false and
making visible that which remains submerged” (Lazreg, 1988: 100).

87
Enfoques Vol.1, n.14.

parecem traçá-la de partida, ao tomar pelas margens, fenômeno de inegável


como foco de atenção de suas análises, força transruptiva: “somente nesse
como notado acima, o “multiculturalismo”. contexto se pode compreender por que
Stuart Hall, estudando o caso britânico, aquilo que ameaça se tornar o momento
nota que a “questão multicultural” de fechamento global do Ocidente — a
emerge, justamente, a partir de um apoteose de sua missão universalizante
problema concreto que a Inglaterra teve global — constitui ao mesmo tempo o
de enfrentar a partir, principalmente, da momento do descentramento, lento e
segunda metade do século XX, quando, prolongado do Ocidente” (Hall, 2003:
efeito do desmantelamento do seu 62).
império colonial, houve um expressivo Dessa maneira, enquanto o objetivo
incremento na imigração de indivíduos de Nussbaum parece ser o de manter
provenientes de ex-colônias no Caribe de pé um projeto de claras pretensões
e na Ásia: é o ingresso dos “filhos do universalizantes — ignorando que a sua
império” em cena, daqueles que vinham condição de existência é a necessária
das “franjas obscuras da commonwealth ” exclusão de um excesso que torna essa
para “poluir a pequena Inglaterra”. archia possível (Derrida, 1978: 62) —, em
A história, pois, é contada como Phillips e Okin a questão de por que de
se, antes dessa onda migratória, a Grã- as “minorias” com quem elas tanto se
Bretanha fosse “uma cultura homogênea preocupam estarem ali — na Inglaterra,
e unificada” — como se houvesse uma na França, nos Estados Unidos — sequer
“britanidade” prévia que, agora, tivesse é tratada com o cuidado suficiente. Okin,
de abrigar em si uma “jamaicanidade”, ademais, dá a impressão de reduzir
uma “paquistanidade”, uma “indianidade”. todas as dificuldades e obstáculos a que
É aí que surge não só a questão de como imigrantes são submetidos à questão da
“remodelar” a Inglaterra contemporânea, “diferença cultural”, sendo paradigmático
por meio de uma reinterpretação da o trecho em que condena a poligamia
sua vida nacional, pura e autêntica, — “an inescapable and barely tolerable
à luz desses novos elementos, mas institution in their African countries of
também o problema de como esses origin, and an unbearable imposition in
“grupos” deveriam ser tratados — que the French context” (Okin, 1999: 10) —,
tipo de políticas públicas deveria ser com base na circunstância de a falta de
destinadas a eles?, deveria haver alguma espaço privado e de a superpopulação
relativização das leis britânicas para de apartamentos em Paris levar à
esses indivíduos? etc. hostilidade, ao ressentimento e à
A emergência da “questão violência nessas famílias. Tudo é
multicultural”, assim, é o sinal do descontado sob a rubrica da “cultura”,
deslocamento de uma daquelas “linhas que, in casu, é encarnada e exoticizada
abissais” a que se refere Boaventura por meio da “poligamia”.
de Sousa Santos: antes, ela separava É evidente que a opressão e
a metrópole da colônia; agora, ela é a dominação das mulheres, seja no
traçada na própria metrópole, por força “Ocidente” ou não, geralmente estão
da presença do imigrante, criando “um inscritas no que, à falta de palavra
território confuso, atravessado por uma melhor, chamamos de “cultura” — e
linha abissal sinuosa” (Santos, 2007: essas questões precisam ser enfrentadas
79.). Para fazer mais uma vez referência e discutidas. Não poderíamos jamais
a Hall, tratar-se-ia da invasão do centro descartar a preocupação de Okin de
88
Enfoques Vol.1, n.14.

que diferenças culturais acabem por “opressão” das mulheres em países


permitir e legitimar formas de dominação islâmicos a partir de uma única variável,
dos homens sobre as mulheres e, que seria o Islã — ou o “IslamLand ”,
fazendo-o, pretender ainda nos chamar como Abu-Lughod ironicamente coloca:
de “feministas”.
What I discovered was a continuity
Nesse passo, é imprescindível
between the traditional social science
ressaltar que o que pretendemos apontar,
modes of apprehending North
com as ponderações feitas até aqui, African and Middle Eastern societies
é, tão somente, que quando a crítica rooted as they are in French colonial
feminista se debruça sobre a “cultura” epistemology and academic women’s
sem ter o cuidado ou a preocupação de treatment from these societies. One
situar na discussão outras questões — continuity, for example, is expressed
como os efeitos concretos e simbólicos, in the predominance of a “religious
evidentes e latentes do imperialismo paradigm” that gives religion a
europeu e do colonialismo; a assimetria privileged explanatory power. Most
profunda entre o centro e as periferias academic feminist practice takes
place within this paradigm, thereby
da sociedade mundial; a desigualdade
reproducing its presuppositions and
nos padrões globais de distribuição de
reinforcing its dominant position
poder; ou, mesmo, a divisão internacional (Lazreg, 1988: 83).
do trabalho —, ela acaba servindo para
apagar e invisibilizar o simples fato
da diferença entre o “Ocidente” e o Islam is not a place from which one can
come. Yet ‘IslamLand’, as I would call
“Resto” — e, com isso, a teoria política
this mythical place, annoints the call
feminista não só perde, claramente, to arms for women with transparent
potencial crítico, como também corre goodness. IslamLand enables those
o sério risco de ser arregimentada who advocate for women’s right to
por discursos colonializantes, como accrue moral capital. (...) IslamLand is
exporemos a seguir. the problem and Islam is condensed
Com efeito, o potencial in the figure of the victimized Muslim
colonializador do feminismo — essas woman (Abu-Lughod, 2013: 69-70).
linhas de continuidade que podem ser
identificadas e traçadas entre a teoria A parcialidade desses discursos,
política feminista e a epistemologia afirma Lazreg, torna-se patente se
colonial — vai bastante além das revertem os seus termos para propor
críticas aos trabalhos examinados até o que as mulheres da Europa ou da
momento, conforme demonstra o debate América do Norte devam ser estudadas
desenvolvido por autoras como Chandra como “mulheres cristãs”; e, não
Mohanty, Lila Abu-Lughod, Sara Suleri, obstante, esse raciocínio é feito sem
Marnia Lazreg e Deniz Kandiyoti. maiores constrangimentos em trabalhos
Uma característica amiúde notada que usam “mulheres muçulmanas”
dessa continuidade é o poder explanatório como categoria de análise, um rótulo
privilegiado que é concedido à “religião” que, simultaneamente, invisibiliza e
— como a muçulmana —, circunstância estereotipa essas mulheres, já que
para a qual chamam atenção tanto ele “affirms what ought to be seen
Abu-Lughod quanto Lazreg, indicando as problematical. Whether the ‘Islamic
que são bastante comuns narrativas women’ are truly devout or whether
feministas que pretendem explicar a the societies in which they live are

89
Enfoques Vol.1, n.14.

theocracies are questions that the label se: “mulheres oprimidas são facilmente
glosses-over” (Lazreg, 1988: 88). ignoradas” — com efeito, algo como a
A materialização dessa “opressão”, “agência” dessas mulheres é também
por sua vez, seria o véu, registrado ora facilmente ignorado, quando alguém
como algo que oprime, encapsula e ativamente a apaga: e é isso que essa
invisibiliza a subjetividade das mulheres, campanha, precisamente, faz.
anulando-as completamente como Seguindo na esteira de Abu-Lughod,
indivíduos, ora, também, como algo seria possível falar desse “feminismo
de sensual e de misterioso, quase colonial” enquanto uma preocupação
fetichizado, que esconde alguma coisa. seletiva em torno de determinadas formas
de opressão das mulheres, servindo a
Historically, of course, the veil has
propósitos colonialistas, mas que não
held an obsessive interest for many
está, em momento algum, efetivamente
a writer. In 1829, for example, Charles
Forster wrote Mohammetanism comprometido com a questão do
Unveiled, and Frantz Fanon, the empoderamento dessas mulheres. A
revolutionary, wrote in 1967 about obsessão em torno do véu é precisamente
Algerian women under the caption: isso — uma preocupação que, ademais,
“Algeria Unveiled”. Even angry apaga completamente a pluralidade de
responses to this abusive imagery significados e de variedades que essa
could not escape its attraction as vestimenta tem: “one cannot reduce
when a Moroccan feminist titled the diverse situations and attitudes of
her book: Beyond the Veil. The millions of Muslim women to a single
persistence of the veil as a symbol
item of clothing. And we should not
that essentially stands for women
underestimate the ways that veiling has
illustrates the difficulty researches
have in dealing with a reality with entered political contests across the
which they are unfamiliar. It also world ” (Abu-Lughod, 2013: 40).
reveals an attitude of mistrust. A Certamente, nem toda mulher
viel is a hiding device; it arouses que usa véu estará usando uma burqa,
suspicion (Lazreg, 1988: 85). e nem toda mulher que usa uma burqa
— ou um niqab, um hijab, um khimar,
Exemplos impressionantes desse um chador — estará sendo obrigada
poderoso simbolismo conferido ao ou compelida a fazê-lo — pelo menos
véu são abundantes. Abu-Lughod, por não em um sentido distinto do que se
exemplo, narra que na Argélia sob o pode dizer que uma mulher “ocidental”
domínio francês, o governo colonial se sente compelida a pintar as unhas,
organizava eventos públicos em que a passar batom ou a depilar-se (Wolf,
mulheres argelinas, vestidas com 1992). O problema, claro, estaria em
roupas tradicionais, eram solene e assumir que a mulher ocidental é livre,
cerimoniosamente “desveladas” por autônoma e produz individualmente as
mulheres francesas (Abu-Lughod, 2013: suas próprias preferências, enquanto
33). A autora também se reporta a uma a mulher muçulmana é oprimida e
campanha publicitária veiculada pela subjugada pela sua própria cultura —
ONG alemã International Human Rights, isso até Phillips, como vimos, percebe
em 2011, na qual a imagem de uma claramente, e mesmo Nussbaum chegou
mulher trajando uma burqa confundia-se a publicar artigos no New York Times,
com sacos de lixo azuis colocados ao quando países na Europa consideravam
fundo (Fakhraie, 2011). Na legenda, lia- editar leis banindo o uso de burqas,
90
Enfoques Vol.1, n.14.

demonstrando que o que estaria “algo” não raro é a própria “cultura”


por trás de tais propostas seria, na ou a “religião” da pessoa; segundo,
verdade, intolerância religiosa e medo porque isso implica que o objeto do
de muçulmanos: “what inspires fear resgate está sendo salvo para alguma
and mistrust in Europe, clearly, is not coisa. Para o que aquelas mulheres da
covering per se, but Muslim covering” Argélia de 1958 estavam sendo salvas
(Nussbaum, 2011b). por suas sisters in struggle (Mohanty,
O livro de Abu-Lughod, Do Muslim 1991: 56.) francesas? Como devemos
women need saving?, gira em torno do interpretar o programa beneficente de
questionamento do que ela identifica 2 milhões de dólares, custeados por
como uma retórica salvacionista, de empresas de cosméticos como L’Óreal,
caráter flagrantemente colonializante, Revlon e Clariol, destinado a ensinar
do Ocidente em relação às “Mulheres às mulheres afegãs os segredos da
do Terceiro Mundo” — algo em que maquiagem, da moda e do hair styling,
Spivak já havia agudamente reparado, montado no Afeganistão após o Talibã
em seu famoso Pode o subalterno falar?: haver perdido sua hegemonia naquele
território (Ghafour, 2004.)? Tudo se passa
Este é o momento para revelar que
como se, uma vez levantado o véu da
sati ou suttee, como o nome próprio
opressão do Talibã, as mulheres afegãs
do ritual de autoimolação de viúvas,
celebra um erro gramatical por pudessem, enfim, desfrutar plenamente
parte dos britânicos, assim como de sua liberdade, dando vazão à sua
a nomenclatura “índio americano” verdadeira essência feminina. O resultado
celebra um erro factual por parte desse discurso de “salvação”, para Abu-
de Colombo. A palavra em várias Lughod, não é senão a autorização de
línguas indianas é ‘a queima da sati ’ “cruzadas morais” do Ocidente contra,
ou da boa esposa, que assim escapa nesse caso, a IslamLand:
da estagnação regressiva da viúva
em brahmacrya. Isso exemplifica as This language insists that people
sobredeterminações das questões around the world must learn how
de gênero-classe-raça referentes à to be just and to measure up in
situação. Pode talvez ser apreendido an universal metric of humanity that
até mesmo quando é dito às claras: is defined, in part, by aspirations
homens brancos, procurando salvar for gender equality and women’s
mulheres de pele escura de homens freedom. If the authority for this
de pele escura, impõem sobre essas moral crusade to rescue women in
mulheres uma constrição ideológica other parts of the world, and usually
ainda maior ao identificar, de forma from their cultures or traditions,
absoluta, dentro da prática discursiva, depends on associating itself with
o fato de ser boa esposa com a the high ground of universal rights
autoimolação na pira funerária do talk that has been forged in a
marido (Spivak, 2010:115). range of international institutions,
its emotional persuasiveness derives
Abu-Lughod, então, intui que há from the bedrock on which such
algo de perverso nesse discurso de advocates build (Lughod, 2013:81).
“salvação” de mulheres: primeiro, por
isso pressupor que há alguém em O cenário se torna ainda mais
posição de salvar outrem de alguma alarmante quando vemos a crítica
coisa — e, como apontamos acima, esse feminista sendo mobilizada juntamente
ao conjunto retórico utilizado para
91
Enfoques Vol.1, n.14.

justificar guerras a outros países. Em referindo-se ao Iraque e ao Afeganistão


uma coletiva de imprensa feita em 11 no rescaldo do pós-conflito, é o de que
de outubro de 2001,6 logo após os aquilo que para o “Ocidente” parece ser
Estados Unidos haverem declarado “tradição”, é, muitas vezes, a manifestação
guerra ao Afeganistão, no rescaldo de formas novas e muito mais brutais
dos ataques de 11 de setembro, o de subjugação do mais fraco, as quais
presidente George W. Bush articulou se tornam possíveis em uma economia
expressamente o argumento de que que gira em torno do crime, em que há
a guerra ao terror seria também uma uma total falta de segurança e em que
guerra pelas “mulheres muçulmanas” os laços de confiança, parentesco e
— às quais ele candidamente se refere solidariedade em torno dos quais essas
como “women of cover”: “I was struck by sociedades, em grande medida, rurais
this: that in many cities, when Christian e tribais, encontravam-se estruturadas
and Jewish women learn that Muslim são testados até o limite pela pobreza,
women – women of cover – were afraid pelos conflitos entre grupos — e, muito
of going out of their homes alone, that obviamente, pela presença de exércitos
they went shopping with them, that they estrangeiros em seu território, lutando
showed true friendship and support – an uma guerra declarada por outras nações
act that shows the world the true nature àqueles países (Kandiyoti, 2007b: 511).
of America”; esse relato “really touched Conclusão
my heart”, acrescenta posteriormente o
presidente. Construímos um debate em
Em agosto de 2010, quando o torno das formas como a “cultura” tem
presidente Obama estava considerando atravessado a teoria política feminista
diminuir o contingente de tropas norte- usando, como exemplos, as obras de três
americanas no Afeganistão, a revista importantes autoras, Martha Nussbaum,
Time, por sua vez, veiculou uma edição Anne Philips e Susan Okin. O nosso
cuja capa trazia o retrato de Bibi Aisha, propósito, com isso, não é jamais o de
uma jovem afegã cujo nariz havia sido desconsiderar as contribuições dessas
mutilado pelo Talibã.7 No canto inferior autoras à teoria feminista, ou, pura e
direito, lia-se “what happens if we leave levianamente, tachá-las de “imperialistas”
Afghanistan”, insinuando que as mulheres ou “ocidentalistas”. Pelo contrário,
seriam as primeiras a sofrer com a pretendemos, com essa análise, apenas
ausência de tropas norte-americanas ilustrar a hipótese de que a “cultura”
naquele país. Como nota Abu-Lughod, seria um desses conceitos que, com
“unremarked was the fact that this act mais força, viriam solicitar feminismo,
of mutilation had been carried out while colocando-o face a face com os seus
U.S. and British troops were still present próprios limites, com suas próprias
in Afghanisthan” (Abu-Lughod, 2013: 27). contradições — que seriam os desafios
Nesse sentido, um ponto bastante compartilhados, aliás, por qualquer
importante construído por Kandiyoti, discurso que adote a margem como o

6
Disponível em: <http://www.johnstonsarchive.net/terrorism/bush911e.htm>. Acesso em 23/11/2014.
7
Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/b/bc/Bibi_Aisha_Cover_of_Time.jpg>. Acesso
em 23/11/2014.

92
Enfoques Vol.1, n.14.

seu locus de enunciação e, com isso, se própria categoria do “gênero”, registrada


perceba constrito a valer-se de conceitos como um binarismo que opõe o feminino
e categorias que, por si sós, são parte ao masculino, uma delas: “ feminist
do motivo que o mantém à margem. critique ought also to understand how
Nesse ímpeto, o pensamento pós- the category of ‘women’, the subject of
colonial se apresenta como um bom feminism, is produced and restrained by
fio condutor da nossa argumentação, the very structures of power through
na medida em que nos auxilia a which emancipation is sought” (Butler,
elaborar raciocínios e manobras críticas 2006: 4).
necessárias à explícita contestação e à Se a crítica feita por Pateman em
incessante problematização das linhas e O contrato sexual está correta — se
das fronteiras que traçamos para poder a exclusão das mulheres do contrato
falar das coisas que estão ao nosso social pode ser interpretada não como
redor, para poder produzir um sentido mera casualidade, ou questão de uma
do mundo. universalidade ainda por completar-se,
Não se deve ter a falsa impressão mas, sim, como uma maneira deliberada e
de que a teoria política feminista seja proposital de manter formas específicas
um corpo monolítico e homogêneo, e, de desigualdade sob um discurso de
muito menos, que haja uma oposição igualdade universalizante, ele próprio
clara entre um “feminismo colonial” e sendo sustentado, precisamente, por
um “feminismo pós-colonial”. Foi com aquilo que ele exclui —, isso significa
isso em mente que tivemos o cuidado, que a dominação — ou arriscaria
neste trabalho, de: a) falar apenas em agora sugerir: a colonização? — das
possíveis linhas de continuidade que mulheres pelos homens é uma aporia
podem ser identificadas ou traçadas da sociedade moderna, tanto quanto o
entre a epistemologia colonialista e a próprio fenômeno colonial — e aqui se
teoria política feminista; e, também, revela uma conexão bastante tangível
de b) introduzir as interfaces entre o entre esses dois pensamentos marginais,
feminismo e o pós-colonialismo como a crítica feminista e a pós-colonial.
o “encontro” ou o “choque” de duas O fato de tratar-se de aporias
margens — de duas formas diferentes acrescenta às ponderações feitas neste
de falar sobre diferenças, politizá- artigo uma nova complexidade: tanto o
las. Por isso, os efeitos do pós- feminismo quanto o pós-colonialismo
colonialismo sobre o feminismo podem estão cercados pelas contradições, pelos
ser interpretados como uma tentativa paradoxos e pelos erros intelectuais que,
de “descentrar” este último — uma fatalmente, acompanham o discurso de
tentativa de desconstruir aquilo que quem quer que se proponha a pensar
a crítica feminista, muitas vezes por a partir das margens, das franjas, dos
estratégia política, tentou construir: limites, das fronteiras nas quais as
uma categoria abstrata, universal e diferenças, os conceitos, os binarismos
homogênea chamada “As Mulheres”. que conferem sentido ao mundo são
O que se pretende apontar constituídos.8 Mesmo quando o pós-
com isso é que há várias fronteiras colonialismo coloca para si a missão de
sendo traçadas quando o feminismo desmantelar a centralidade do “Ocidente”,
mobiliza determinadas categorias a ele se vê impingido a mobilizar ideias,
fim de problematizar a dominação das conceitos e categorias que fazem parte
mulheres pelos homens — sendo a da maneira como o próprio “Ocidente”
93
Enfoques Vol.1, n.14.

classifica e interpreta o mundo e que, that it itself constructs has the ironic
por si sós, são parte da razão pela qual consequence that feminist goals risk
o “Resto” se encontra na posição de failure by refusing to take account of
subalternidade — o próprio raciocínio the constitutive powers of their own
representational claims. (...) Perhaps,
marginal reproduz e perpetua as causas
paradoxically, “representation” will be
da sua marginalidade.
shown to make sense for feminism
É essa a crítica feita por Paul Gilroy only when the subject of “women”
à aderência à ideia de “nacionalidade”, is nowhere presumed (Butler, 2006:
ou de “identidade nacional”, que ele 6-8).
identifica em movimentos de resistência
negros como os Panteras Negras ou o Não há saída possível — daí a a/
Pan-Africanismo e que o leva a introduzir poria; “there is no position outside this
o conceito de “Black Atlantic”, em grande field, but only a critical genealogy of its
medida, como uma leitura alternativa da own legitimating practices” (Butler, 2006:
modernidade, uma contraepistemologia 7). Talvez por isso, também, chegue
que nos permitiria chegar a categorias Spivak à conclusão da impraticabilidade
de pensamento mais adequadas à de fala do subalterno: “não há nenhum
compreensão das formas de resistência espaço a partir do qual o sujeito
e de acomodação da “cultura” negra subalterno sexuado possa falar” (Spivak,
— daí o título do primeiro capítulo 2010: 121) — e, na impossibilidade de
do seu livro: The Black Atlantic as a o intelectual representá-lo (no sentido
Counterculture of Modernity. É parecida, de vertreten), já que isso implicaria uma
também, a crítica desenvolvida por apropriação do Outro por assimilação,
Sara Suleri aos movimentos feministas Spivak acata a sugestão de Derrida, o
negros e à constrição que lhes parece qual, em vez de invocar que “se deixe
impingir o próprio conceito de “raça”, os outros falarem por si mesmos”, “faz
o que a leva a, controversamente, um ‘apelo’ ou ‘chamado’ ao ‘quase outro’
afirmar que “its feminism is necessarily (tout-autre, em oposição a um outro
skin deep in that the pigment of its autoconsolidado), para ‘tornar delirante
imagination cannot break of a strictly aquela voz interior que é a voz do outro
biological reading of race” (Suleri, 1992: em nós’” (p. 83).
765). É essa, igualmente, a crítica feita O que a crítica feminista, assim
pela teoria queer ao feminismo e à sua como a pós-colonialista, pode fazer
recepção, muitas vezes inquestionada, da com mais coerência é, justamente,
categoria do “gênero” e dos binarismos tentar tatear as aporias que envolvem
que ele implica, o que motiva Butler a os discursos, as práticas e as
argumentar que categorias analíticas em que o mundo,
as sociedades e elas próprias estão
the suggestion that feminism can seek envoltas. Quando nos deparamos com
wider representation for a subject
os excessos que a archia excluiu —

8
“(...) the excesses and the limitations that marginal discourses must inevitably accrue, even as they seek to
map the ultimate obsolescence of the dichotomy between margin and center. For until the participants in
marginal discourses learn how best to critique the intellectual errors that inebitably accompany the pro-
visional discursivity of the margin, the monolithic and untheorized identity of the center will always be on
them” (Suleri, 1992: 757).

94
Enfoques Vol.1, n.14.

archia que esses discursos marginais na, demarcando a diferença entre o


pretendem criticar —, ela própria vem a que é possível e o que é impossível,
ser solicitada, integralmente abalada — entre o pensável e o impensável, entre
e aí, sim, lembramo-nos das fundações o que faz sentido e o que não faz
contingentes da archia, bem como das sentido; recuperamos, de alguma forma,
linhas, dos limites, das fronteiras — dos aquela imagem que estava cunhada
juízos — que foram um dia traçados e na superfície da moeda, e podemos
tomados no passado, e que, uma vez considerá-la enfim como moeda, não
traçados, uma vez tomados, sustentam- apenas como metal.

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97
Enfoques Vol.1, n.14.

OCUPAR OU DESOCUPAR? UMA REFLEXÃO SOBRE


PERSPECTIVAS EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS1
Alexandre Marques da Fonsecai

Resumo
A ciência “ocidental” construiu o privilégio de “deslocalizar” seu pensamento para
fazê-lo passar por universal, objetivo e neutro. Neste artigo, parte-se do pressuposto
contrário, de que não existe pensamento que não esteja ligado a condições históricas
e sociais particulares. Busca-se, dessa forma, analisar criticamente a manutenção
do paradigma científico cartesiano nas relações internacionais (RI) e desmistificar
a persistência desse “Norte” epistemológico e político na disciplina. Postula-se, por
fim, a necessidade de uma leitura hermenêutica sobre aquela que seria uma política
descritiva do mundo – dos “vencedores” –, ao mesmo tempo que se problematiza a
intenção de “dar voz” aos subalternos.
Palavras chave: relações internacionais; pensamento descolonial; eurocentrismo;
hermenêutica; movimento Occupy.

TO OCCUPY OR DISOCCUPY? A REFLECTION ON PERSPECTIVES IN INTERNATIONAL


RELATIONS

Abstract:

Western science has constructed the privilege to “delocalize” its own thought in
order to render it supposedly universal, objective and neutral. This article takes the
opposite assumption, i.e., it assumes that there is no thought which is not connected
to particular historical and social conditions. The article aims to critically analyze
the persistence of this Cartesian scientific paradigm in International Relations (IR)
and tries to demystify the persistence of this epistemological and political guiding
principle in the discipline. Finally, it postulates the need for a hermeneutic reading
about what might constitute a descriptive version of the World, from the “winners”
point of view. It also critically questions the intention to “give voice” to the subalterns.

Keywords
International Relations; Decolonial Thinking; Eurocentrism; Hermeneutics; Occupy
movement

i
Alexandre Marques da Fonseca é graduado em Línguas e Relações Internacionais (FL-UP), Mestrado 1º
ano em Línguas Estrangeiras Aplicadas (Univ. Rouen) e 2º ano História do Pensamento Político (ENS de
Lyon); Doutorando do CES - Universidade de Coimbra. E-mail alexandremarquesfonseca@gmail.com.

98
Enfoques Vol.1, n.14.

Introdução 48) e da emergência de uma classe


“A perspectiva é a essência da “transnacional capitalista” (Self, 2014),2
escrita.” de um novo socialismo para os ricos
(Boaventura de Sousa Santos) e um capitalismo mais cruel para os
O movimento Occupy emergiu pobres3 (Stiglitz, 2009; Jones, 2014), um
em 2011, durante o “ano de sonhar mercado que não é autorregulado nem
perigosamente” (Žižek, 2012b) ou o “ano “livre” (Graeber, 2011: 363; Triffin, 1978:
da raiva” (Vrasti, 2012: 124). Depois da 2), que respostas deram ou devem
chamada Primavera Árabe, no Médio dar as relações internacionais (RI) e
Oriente, e dos Indignados espanhóis, o as ciências sociais? Se o movimento
movimento se tornou global em 15 de Occupy falhou, para que ainda procurar
outubro, quando “indignados” de várias “ocupar” essas disciplinas? Ou será
localizações se juntaram em assembleia melhor procurar “desocupá-las”, isto
pelo mundo afora. é, “aprender a desaprender” (Mignani,
Passados três anos, muitas 2013)?
questões foram levantadas e, talvez, Partindo da premissa de que
deixadas sem resposta. Algumas foram esse movimento se constitui “não por
silenciadas ou não chegaram a ser exigências específicas” mas como
feitas, e outras ainda revelaram o que uma “visão do mundo” (Bailey, 2012:
se pode chamar de “corrupto simulacro 139), pretendo fazer deste um estudo
de democracia” (Kiersey, 2012: 159). No fundamentalmente epistemológico de
entanto, algo é certo: esse movimento, repensar as raízes, as perspectivas e
em suas variadas encarnações, mudou o os objetivos, bem como os territórios
diálogo político e providenciou-nos com de uma disciplina que se tornou – ou
a “tinta vermelha” da verdade (Žižek, foi desde o início – hegemônica.
2013). O ponto de partida desse
Perante novas (?) questões questionamento é a edição n. 5 do
de redistribuição de riqueza, do Journal of Critical Globalisation Studies
papel do Estado em uma economia (2012), devotada ao tema “Imperialism,
globalizada e “financeirizada”, do “novo Finance, #Occupy”. É daí que começo
constitucionalismo” (Gill, 2002: 47- para logo em seguida me distanciar

1
O autor gostaria de agradecer os comentários e a revisão de Marta Araújo e de Igor Fonseca, bem como
dos dois pareceristas anônimos deste artigo.
2
Tal expressão se apoia em Self (2014), que define essa classe como tendo “connections to each other [...]
more significant than their ties to their home nations and governments. Forums such as [the one] at Davos
are where these hyper-elites [...] become a class without a country: the new global leadership. This bloc is
composed of the transnational corporations and financial institutions, the elites that manage the suprana-
tional economic planning agencies, major forces in the dominant political parties, media conglomerates and
technocratic elites and state managers [...] but the core membership is businessmen […]. What makes this
class different from the traditional ruling class in previous epochs is that the interests of its members are [...]
globally linked, rather than exclusively local and national in origin”.
3
Essa distinção se refere, nesse caso, exclusivamente à intervenção do poder estatal e à utilização do
dinheiro público, em particular depois da crise financeira de 2008, para “salvar” bancos privados, e à apli-
cação de medidas de austeridade para a maioria das populações. Por exemplo, como afirma Owen Jones
(2014), na Grã-Bretanha, “social security for the poor is shredded, stripped away, made ever more condi-
tional. But welfare for large corporations and wealthy individuals is doled out like never before”.

99
Enfoques Vol.1, n.14.

do movimento Occupy.4 Um texto em “investigador”, bem como dois casos


particular merece atenção – e é nele de pensadores do chamado “centro
que tem início o distanciamento do metropolitano” que, embora “críticos”,
movimento Occupy. Em “Occupy Wall podem efetivamente silenciar uma
Street? Position-blindness in the new perspectiva descolonizadora.
leftist revolution”, Gagyi afirma que, “ao Algumas clarificações necessárias
olhar para o movimento OWS de outra
posição – a partir do leste da Europa Localizando o pensamento
–, poderia parecer que o movimento Nenhum pensamento nasce no
tem falado “em nosso nome, mas não vácuo, por isso começo este artigo
necessariamente por nós” (2012: 146, como muitos militantes e intelectuais
grifo meu).5 descoloniais e anticoloniais: com
Se “somos todos 99%”,6 será que uma “localização” do meu próprio
existem alguns que são mais 99% que pensamento. Isso porque, por muito
outros? Será que a esquerda europeia, tempo, o “cientista” foi agraciado com
eurocentrada ou eurocêntrica, pode, por o privilégio da “desterritorialização” de
sua “position-blindness”, ser imperialista?7 seu pensamento – aquilo a que Castro-
Se apenas o centro, mesmo que crítico, Gómez (2005) chamou de “hybris do
tem legitimidade para falar de e em ponto zero”.
nome de, que consequências advêm Se o pensamento científico fosse
para aquela que deveria ser a “disciplina desterritorializado, poderia também
global por excelência”, as RI (LaMonica, ser, por consequência, objetivo, neutro
2011: 239)? e desinteressado, sendo o cientista o
O artigo está dividido em três intérprete privilegiado dessa linguagem
partes: na primeira, são feitas algumas “imparcial”. Foi nessa “atmosfera
clarificações posicionais com base teórica” que a disciplina de relações
na ideia de que teoria e prática são internacionais (RI) nasceu e na qual
inseparáveis; em seguida, é estudada a ainda parece imbuído um ponto ao qual
permanência de um norte fundador na retornarei.
disciplina de RI; por fim, é apresentada Ao localizar meu pensamento,
uma breve reflexão sobre o papel do aproveito como exemplo – não só

4
A referência ao movimento Occupy (ou a outros, como dos Indignados) serve aqui a dois propósitos que,
embora diferentes, se conjugam: o primeiro é a ligação com o próprio percurso intelectual que percorri –
desde uma perspectiva crítica “eurocentrada” à descolonial; o segundo é procurar perceber de que forma
esses diferentes entendimentos enviesaram minha visão e também a visão das relações internacionais.
Essa compreensão me parece fundamental para começar a “desocupar” as relações internacionais.
5
No original: “[...] when viewed from another position – such as that of Eastern European – it would seem
that OWS has been speaking in our name, but not necessarily for us” (grifo do original). Todas as traduções
para o português são de minha responsabilidade.
6
Um dos principais slogans e, ao mesmo tempo, reivindicações do movimento Occupy que Gagyi, entre
outros, problematizaram. De forma muito curta, essa autodesignação incorre em vícios similares a outras
designações “superabrangentes”, como a de “povo”.
7
Por “imperialista” entende-se, nesse contexto, uma atitude intelectual e simbólica – que decorre e simul-
taneamente (re)produz uma dominação econômica e social – sobretudo da parte dos intelectuais he-
gemônicos (localizados majoritariamente na Europa ou nos Estados Unidos) que, acreditando ou querendo
fazer acreditar que falam pelo mundo inteiro, ignoram e apagam voluntariamente outros povos, teorias,
modos de saber ou experiências (Maldonado-Torres, 2004: 32).

100
Enfoques Vol.1, n.14.

pelas semelhanças mas também pelas passado colonial não é (suficientemente)


diferenças – a apresentação que Bouteldja problematizado (Gomes & Meneses,
(2014b), militante do Mouvement des 2011: 3 e 8; Araújo & Maeso, 2010:
Indigènes de la République (MIR), faz de 259).
si própria: Contudo – e é a razão pela qual
frisei o “europeu do Sul” –, também vivo
Faço parte, simultaneamente, do Sul
em um país que, em quarenta anos,
e do Norte. Sou uma indigène da
foi “resgatado” pelo Fundo Monetário
República Francesa [e] um sujeito
colonial. Faço parte do “Sul do Norte”, Internacional (FMI) em três ocasiões
o que faz de mim uma branca, em diferentes, um país que vive, em sua
minha relação com o Sul, porque me maioria, ignorante dessas mesmas
beneficio, direta e indiretamente, da “ajudas estruturais” do FMI ao Sul global,
exploração do Norte pelo Sul. Mas que destruíram e arrasaram vidas e
[…] sou igualmente uma “não branca” estruturas sociais em nome de uma
em relação ao “corpo legítimo” da dívida que é, como se sabe, impagável.
nação francesa, isto é, àqueles que É dessa posição e parcialidade que olho
são europeus e cristãos [...]. O que e olhei, que penso e pensei o “global”,
faz de mim uma “branca” é o fato
com todas as vantagens e limites, pois,
de viver em um país imperialista, e
se Deleuze (s.d.) dizia que existe um
o que faz de mim uma “não branca”
é viver em um país estruturalmente “Terceiro Mundo” no “Primeiro Mundo”
racista. (e vice-versa), em muitos de nós também
convive um Norte no Sul e um Sul no
Há aí diferenças claras. A principal Norte.9
é que, ao contrário de Bouteldja, Conceptualização teórica
posso escolher “posicionar-me”, e o
pensamento dessa ativista e intelectual Antes de procurar responder à
será sempre visto como “específico” questão lançada na introdução – se as
e “comprometido”. Essa constitui uma RI são realmente a disciplina global (e
grande diferença que (se) reflete no plural) que deveriam ser –, talvez seja
argumento estruturante deste artigo.8 necessário clarificar algumas posições
Sou também, em uma expressão odiosa, de entrada, de modo que o argumento
um “português português”, homem, se vá clarificando e construindo. Uma
branco e europeu (do Sul), o que quer das consequências do ano de 2011 foi
dizer que não vivo a experiência direta fazer reemergir a “intuição” de Zinn
do racismo e do sexismo estruturais. (1997): “Nixon e Brezhnev têm muito
Ao mesmo tempo, tiro partido, como mais em comum um com o outro do
Bouteldja, da “exploração do Norte pelo que temos com Nixon […]. É como os
Sul” e nasci em um país em que o partidos Republicano e Democrata que

8
Agradeço a reformulação deste parágrafo a Marta Araújo.
9
Essas expressões de autoanálise, embora pareçam afastar o texto de uma “análise científica da reali-
dade”, como referiu um dos pareceristas, são aqui apresentadas exatamente para reforçar um dos pontos
principais da teoria descolonial (e deste artigo): o de que não existe uma teoria ou um teórico sem “territo-
rialidade”, sem uma experiência de vida particular e única, que dificilmente pode ser universalizada, como
se constrói o discurso científico, a partir do Discurso do método, de Descartes. As tensões, hesitações,
dúvidas ou interesses devem ser transparentes e tão expostas quanto possível.

101
Enfoques Vol.1, n.14.

clamam que vai fazer uma diferença criticam o colonialismo, sem abrir mão
enorme se um ou outro ganhar, mas no das categorias europeias”? (Grosfoguel,
fundo são todos o mesmo. Basicamente, 2012 apud Rosa, 2014: 52).
somos nós contra eles.”10 Essa é a primeira denúncia
O que Zinn clama é que não existe a fazer, seguindo o conselho de
um discurso que seja “universal”. O que Grosfoguel. É necessário reconhecer
existem são “posições” e movimentos que “o colonialismo enquanto relação
fluidos e em constante mudança, é socioeconômica sobreviveu ao
certo, mas também localizados. Se talvez colonialismo enquanto relação política”
seja claro quem são “eles”, é com a (Santos, 2004 apud Pureza & Cravo,
mesma facilidade que definimos o “nós”, 2005: 9). Contudo, não será necessário
os 99%? Vivemos todos em condições igualmente evitar categorizações e
similares de opressão? Quantos de prescrições “eurocêntricas” que mantêm
“nós” se identificam ou pretenderiam intacto um privilégio epistêmico?
ser parte de “eles”? O que é relevante Simplificando a questão, será que a
para o “eu” o é também para alguém solução para todos os problemas são
do outro lado do mundo? “democracia”, “mercado livre” e uma
São talvez demasiadas e complexas “sociedade civil forte”? Ou, conforme
perguntas, portanto definamos o “objeto” pergunta Mignolo (2009: 20),
em questão. O objeto em análise são
pode-se argumentar que existem
os “eles” metafóricos de que Zinn fala.
“corpos” ou “regiões” que precisam
Em vez de estudar o “subalterno”,
de ser guiados por “corpos”
reconhecendo não só os problemas ou “regiões” desenvolvidas que
dessa denominação mas também do chegaram lá primeiro e sabem
próprio ato, pretende-se estudar, criticar como fazê-lo. Como um liberal
e denunciar as estruturas de poder honesto, reconhecer-se-ia que não
globais (Mato, 2000), nomeadamente as se quer “impor” o conhecimento e
que se refletem nas RI. experiência, mas “trabalhar com os
Evita-se – ou procura-se evitar locais”. O problema é: que agenda
–, assim, falar pelo “outro”, alertados, vai ser implementada: a sua ou a
entre outros, por Spivak (1988) do papel deles?11
nefasto de intelectuais europeus que,
Essa é uma reflexão essencial para
embora críticos, falam por e sobre esse
qualquer militante comprometido, um
“outro” subalternizado. Precisamente por
“liberal honesto”, membro dos 99%, mas
isso e localizando(-me) – física e, muitas
também para quem estuda e investiga
vezes, intelectualmente – na Europa,
as RI. Então, procedendo novamente
como evitar o papel de “esquerda branca
de forma negativa, rejeita-se a ideia
[...], intelectuais do Sul e do Norte que

10
No original: “Nixon and Brezhnev have much more in common with one another than we have with Nixon
[…]. It’s like the Republican and Democratic parties, who claim that it’s going to make a terrible difference if
one or the other wins, yet they are all the same. Basically, it is us against them.”
11
No original: “You can […] argue that there are “bodies” and “regions” in need of guidance from developed
“bodies” and “regions” that got there first and know how to do it. As an honest liberal, you would recognize
that you do not want to “impose” your knowledge and experience but to “work with the locals”. The prob-
lem is, what agenda will be implemented, yours or theirs?”

102
Enfoques Vol.1, n.14.

de que existe um “Ocidente” e que ele desse fato; os não ocidentais nunca
é não um lugar, mas sim um projeto esquecem”12 (1997: 51, grifo meu).13
político (Glissant apud Trouillot, 2011: Finalmente, ligado a essas duas
83), com todos os aparelhos teóricos “verdades” ocidentais, entende-se a
e ideológicos próprios (“modernidade”, história não como uma “sequência de
“progresso”, entre outros), um projeto eventos, mas como um modo holístico
político forjado a armas, aniquilação e de pensar o mundo” (Cox, 2010: 5) e,
violência, mas também fruto de uma sobretudo, como objeto de disputa, de
“dominação simbólica” (Kibler, 2010), à revisões e de revisionismos políticos.
qual retornaremos. Procurando oferecer A bem dizer, uma história “factual”
uma tentativa de resposta ao motivo e “objetiva” não poderia deixar de
da dominação do Ocidente, nego duas considerar o “Ocidente” o único agente
“verdades” do discurso ocidental: a no mundo com o poder e a capacidade
primeira é que a expansão ocidental de manter todo o globo sob sua alçada,
decorreu de sua superioridade “natural” não deixando nenhuma margem de
e imanente, e não de uma violência tanto manobra aos “outros”.
física quanto simbólica; a segunda é que Nesse ponto, torna-se essencial
a pobreza e o “subdesenvolvimento” são recapitular o conceito de “violência
condições também “naturais” do “não simbólica”, um “processo de submissão
ocidental” (Jones, 2006a) ou “verdade” pelo qual os dominados percebem
igualmente perniciosa, fruto de “erros” a hierarquia social como legítima e
culturais ou da “mentalidade” desses natural” (Kibler, 2010) ou, como Bourdieu
povos (Trouillot, 2010). (1991: 167) refere, citando Weber,
Recorro precisamente a um dos “a domesticação dos dominados”14.
maiores expoentes do “ocidentalismo”, Numerosos exemplos poderiam ser
ideólogo do “choque de civilizações”, citados aqui,15 mas o que importa
Samuel Huntington: “O Ocidente frisar são as continuidades históricas
conquistou o mundo não pela imperialistas entre o pensamento e a
superioridade de suas ideias ou valores visão ocidental dos “outros”.
ou religião (aos quais poucos membros Foi esse pensamento que criou
das outras civilizações se converteram), e reforça hierarquias civilizacionais,
mas graças à sua superioridade distinções binárias, “o orientalismo,
em aplicar violência organizada. Os distingui[u] o sul da Europa de seu
ocidentais se esquecem frequentemente centro (Hegel) e remapeou o mundo em

12
No original: “The West won the world not by the superiority of its ideas or values or religion (to which few
members of other civilizations were converted) but rather by its superiority in applying organized violence.
Westerners often forget this fact; non-Westerners never do.”
13
Do outro lado do espectro geopolítico, Fanon (2002: 86) não diz outra coisa quando se refere à colo-
nização física e mental das potências ocidentais: “Chaque statue, celle de Faidherbe ou de Lyautey, de
Bugeaud ou du sergent Blandan, tous ces conquistadors juchés sur le sol colonial n’arrêtent pas de signifier
une seule et même chose: ‘Nous sommes ici par la force des baïonnettes [...]’.”
14
Não que essa dominação – “material ou simbólica” – não engendre as próprias formas de resistência,
como o próprio Bourdieu reconhece (Wacquant, 1989: 36).
15
Embora seja difícil “provar” esse ponto de forma conclusiva, pensemos, por exemplo, na visão de Hegel
sobre o papel da África como nunca tendo entrado na história e uma declaração substantivamente similar
do ex-presidente francês Nicolas Sarkozy em seu discurso em Dakar (Purtschert, 2010).
103
Enfoques Vol.1, n.14.

primeiro, segundo e terceiro” (Mignolo, englobante e totalizante que terminasse


2009: 3). O círculo está completo; a em um dos muitos “neo” e “ismos” que
ligação entre poder, violência física compõem a e pululam na disciplina, o
e simbólica, riqueza e conhecimento que se procura aqui é, como Chakrabarti
torna-se mais evidente. Partamos então (2007: 18), combinar a tradição
para ocupar – ou talvez desocupar? – o analítica que permita “desmistificar a
“edifício” das RI. ideologia [das RI] para produzir uma
A primeira ocupação: o edifício das RI crítica que procure uma ordem mais
justa”, realizando, concomitantemente,
Sobre que fundações e de uma leitura hermenêutica da própria
que substância foram as relações disciplina ao tomar “seu pensamento
internacionais (RI) construídas e [como] intimamente ligado a lugares e
materializadas? Que papel tem seu a formas particulares de vida”.
contexto fundador em sua(s) teoria(s) Essa combinação nos permite
dominante(s)? Como influiu sua olhar para as RI como uma disciplina
Weltanschauung e seus paradigmas no não natural nem nascida em um vazio,
status quo e vice-versa? Que espaço mas sim como a “manifestação histórica
existiu ou pode existir para outras de visões em conflito, cuja unidade e
visões? Que mudanças – se algumas – identidade são o produto da vitória nesse
existiram desde sua concepção como conflito” (Smith, 1995: 3). Aliás, embora
disciplina autônoma nos Estados Unidos a “data de nascimento” oficial das RI
no final da Primeira Guerra Mundial seja o período que procedeu à Primeira
(Smith, 1995: 14)? Guerra, seria ingênuo considerar que o
A [disciplina] relações internacionais “internacional” já não estava na mente
foi formalmente estabelecida após a de muitos teóricos e pensadores que
Primeira Guerra Mundial […], no auge são, agora, parte do cânone filosófico
do imperialismo, quando os poderes e político (Shilliam, 2009: 6 e 9).
europeus ocupavam e controlavam O “norte” que guia as RI
vastas áreas do mundo por meio
de controle colonial direto. Nessa Se a proposição de que as
época e ao longo dos séculos RI nasceram em um contexto local
anteriores, a partir dos quais as norte-americano e em um período
relações internacionais traçam sua de dominação geopolítica nascente
herança, um conjunto profundo de dos Estados Unidos, é minimamente
concepções ideológicas e racistas consensual que a afirmação de que as
era tido pelos colonizadores sobre os
RI continuam sendo dominadas por essa
povos, terras e histórias colonizadas.
visão particular pode já não ser tão
(Jones, 2004: 4).16
consensual. Aliás, a própria expressão
Mais do que preconizar uma teoria “particular” pode ser posta em causa e

16
No original: “IR was formally established in the aftermath of the First World War [...] at the height of im-
perialism, when the European powers were occupying and controlling vast areas of the world through direct
colonial rule. At this time and during the preceding centuries from which IR draws its heritage, a whole set
of profoundly ideological and racist notions were held by the colonizers about the colonized peoples, lands
and histories.”
104
Enfoques Vol.1, n.14.

defender-se, em vez disso, uma forma Mata (2014: 54), “enquanto a coleta e
de “universalismo anglo-saxônico”17 ou a aplicação de dados acontecem nas
afirmar até que as RI são a disciplina colônias, as teorizações são privilégio
global (e, por isso, plural) por excelência. das metrópoles”?19 Por que é que, como
Essa não poderá ser a posição defendida afirma categoricamente Trouillot (1997),
neste texto. Parto, por isso, da mesma a “teoria é feita no centro; a cor vem
pergunta, aparentemente simples, das margens”?
descrita por Stuenkel (2012):
As ciências sociais e humanidades
Qual foi a última vez que um teórico têm ainda de teorizar a experiência
não americano de uma instituição do mundo fora do Atlântico Norte
não americana formulou uma ideia […] a maioria dos humanistas vê a
que mudou a forma como vemos o experiência histórica da maioria da
mundo? (perguntou um participante humanidade como um avatar de
numa conferência dos Think Tanks algo cuja verdadeira face pode ser
de Política Externa do G20). Existe vista apenas naquilo que chamamos
alguma ideia não americana que hoje de Ocidente. A teoria é feita
tenha tido um verdadeiro impacto no centro; a cor vem das margens.
no pensamento global […], como o (TROUILLOT, 1997, grifo meu). 20
choque de civilizações de Samuel
Huntington, o fim da história de Obviamente o domínio militar,
Fukuyama ou o soft power de Joseph cultural e político (e também econômico)
Nye?18 ainda é do “Norte”, nomeadamente dos
Estados Unidos. No entanto, continua
Partilho assim de uma intuição sendo também uma hegemonia
semelhante à de Stuenkel, a de que epistemológica fundamental que faz que
“o campo das relações internacionais a maioria dos temas e das perspectivas
é dominado, como poucas outras venha “americanizada” mesmo quando
disciplinas, por pensadores estado- não está necessariamente ligada a esse
unidenses” (Stuenkel, 2012; Mata, país21 (Stuenkel, 2012):
2014: 32). Antes de interrogar sobre
que possíveis consequências advêm Os brasileiros que queiram estudar a
do “local” onde a teoria é feita, China ou a Índia ainda são obrigados
é importante procurar perceber o a ler livros estado-unidenses […]
sobre como pensar sobre esses
porquê. Por que é que, como refere

17
Tenho consciência da natureza paradoxal desse termo.
18
No original: “When was the last time a non-American thinker based at a non-American institution came
up with an idea that changed the way we see the world? (asked a participant at the G20 Foreign Policy Think
Tanks Summit). Is there any non-American idea that had a true impact on global thinking […], such as Sam-
uel Huntington’s Clash of Civilization, Fukuyama’s End of History, or Joseph Nye’s Soft Power?”
19
Cf. também Mignolo (2009: 1 e 9).
20
No original: “[T]he social sciences and the humanities have yet to theorize the experience of the world
outside the North Atlantic […] most humanists see the historical experience of the majority of humankind
only as an avatar of something of which the true face can be seen only in what we now call the West. Theo-
ry is done at the center; color comes from the margins.”
21
Paradoxalmente ou não, grande parte deste artigo foi realizada recorrendo à consulta de autores
(homens) anglo-saxônicos, enfatizando ainda mais o argumento aqui exposto.

105
Enfoques Vol.1, n.14.

lugares. O mesmo é verdade em Enquanto acadêmicos estado-


tópicos globais como terrorismo ou unidenses possam acreditar que a
intervenção humanitária. Enquanto proliferação nuclear, o terrorismo
os acadêmicos sobre a China, Índia ou o crescimento da China são os
ou terrorismo estão localizados assuntos mais importantes do mundo,
nos Estados Unidos, suas análises [acadêmicos] africanos podem
são inevitavelmente afetadas por se preocupar mais com doenças
sua localização geográfica e, em infecciosas, redução da pobreza ou
consequência, por interesses estado- degradação ambiental. No entanto,
unidenses. 22 esses tópicos parecerão sempre
como não atrativos para os editores
e pareceristas da Foreign Affairs ou
Se os investigadores são da Foreign Policy. (Stuenkel, 2012). 25
“inevitavelmente afetados por sua
localização”, majoritariamente nos Fazendo usado das palavras de
Estados Unidos, será possível negar Stuenkel, recorremos a Mata (2014:
que as RI estão presas “em um casaco 34) para afirmar que ver temas como
de forças não apenas vestefaliano “‘cooperação’ e ‘desenvolvimento’ [como]
mas ‘ocidentófilo’” 23
e imbuídas na ‘específicos’ da área de estudos africanos
pressuposição de que a “agência e o é revelar uma ‘desorientação ideológica’
poder ocidental no mundo são a única que [só] a mentalidade imperial explicaria”.
explicação”24 (Hobson, 2007: 93)? Ao Será que é disso que se trata? De uma
mesmo tempo, tudo aquilo que possa “arrogância epistêmica” fundacional? Se
interferir na narrativa “ocidentófila” substituirmos “relevância global” por
triunfante parece eliminado sob o manto “relevância hegemônica”, o efeito será
de expressões como “relevância global”, o mesmo? Ou será que, como afirmou
“grandes ideias” ou “interesse científico”: Fanon (2002: 80), “para o colonizado,
a objetividade é sempre dirigida contra
Os jornais científicos líderes no ele”?
campo das relações internacionais Ao mesmo tempo, um
escolhem artigos de “relevância contramovimento tem emergido nas
global”. Ainda assim, o que é
últimas décadas. No âmbito acadêmico,
relevante e o que não é difere muito
a denúncia da ocultação da “geo-história
consoante a quem se pergunta.
e da localização biográfica” (Mignolo,

22
No original: “Brazilians who seek to study China or India still need to read US-American books [...] about
how to think about these places. The same is true about global topics such as terrorism and humanitarian
intervention. While the leading India, China or terrorism scholars are no doubt based in the United States,
their analyses are inevitably affected by their geographic location and, as a consequence, by US American
interests.”
23
No original: “Westphilian straitjacket.”
24
No original: “The only game in town.”
25
No original: “The world’s leading academic journals in the field of international relations choose articles
on topics of “global relevance”. Yet what is relevant and what is not greatly differs on whom you ask. While
US-American scholars may believe nuclear proliferation, terrorism and the rise of China are the world’s most
important issues, Africans may care more about infectious diseases, poverty reduction and environmental
degradation. Yet these topics will always certainly seem unappealing to the editors and reviewers of Foreign
Affairs or Foreign Policy.”

106
Enfoques Vol.1, n.14.

2009: 2) das RI (e das ciências em (Stuenkel, 2012).


geral) tem chegado lentamente das Tendo em atenção esses dois
margens ao centro. Para Bourdieu e movimentos, postulo, como Cox (2003:
Wacquant (1999: 41), essa dissimulação 133), que “a teoria segue a realidade e
é um processo de “neutralização do também precede e molda a realidade”.
contexto histórico” da emergência de Assim, separar a academia, lugar
disciplinas ou problemáticas que se pretensamente livre de valores e
tornam efetivamente universais.26 apolítico, e a “realidade”, em que teria
Não se pense, todavia, que lugar a disputa de visões do mundo,
esse deslocamento de um contexto revela-se um gesto tão desnecessário
histórico particular para um pretenso quanto enganador.
universalismo ocorre sem a força, o Cabe então perguntar “onde se
capital financeiro e a vontade de uma podem encontrar os interesses dos
bateria de instituições, universidades países em desenvolvimento27 n(o) cânone”
e “think tanks” (Bourdieu e Wacquant, (Smith, 1995: 17). O autor conclui então
1999: 42 e 46; Suárez-Krabbe, 2011: que as RI continuam a se formar de
195-196; Mato, 2000: 489). Em um ponto de vista “ocidental branco,
contraponto a essa maior percepção masculino [e] conservador” que falseia o
dos poderes hegemônicos que se debate, transformando-o em um debate
conjugam e se servem da academia, “ocidental ou até norte-americano”
emerge, na vida política internacional, (Smith, 1995: 24). Compreende-se bem
um movimento dialético semelhante. que não se trata de “boas ideias”, mas
Isto é, à medida que as chamadas sim de legitimidade hegemônica: quem
“potências emergentes” ganham espaço pode dizer o que sobre quem? Quem
político, econômico e geográfico no pode definir o que e como se estuda?
cenário internacional, mais e mais a Segundo Owen Jones “Stephen Krasner
“comunidade internacional” se torna capturou a essência do estado atual da
privilégio elocutório dos presidentes teoria sobre relações internacionais nos
ocidentais, e as intervenções militares Estados Unidos: ‘Estou certo de que as
se tornam mais repetidas e unilaterais. pessoas em Luxemburgo têm boas ideias’,
Tudo enquanto a “realidade” mostra disse ele, ‘[…] mas quem se importa?
que “nenhum desafio global pode ser Luxemburgo não é hegemônico’” (2004:
resolvido apenas pelos Estados Unidos” 19).28

26
Um exemplo interessante é a emergência do “direito internacional”, por meio das obras de Hugo Groti-
us, tido como um dos ‘pais fundadores’ da disciplina. O que é ofuscado é o fato de Grotius provavelmente
ter agido “como conselheiro [da ‘Dutch East India Company’]” contra os juristas e interesses portugueses.
Além disso, usou igualmente como precedentes legais a lei costumária marítima asiática (Liu, 2004: 28).
Esse é um dos exemplos paradigmáticos que demonstra como “questões supostamente filosóficas, de-
batidas como universais por toda a Europa e não só, originaram-se [...] em particularidades (e conflitos)
históricos próprios de um universo singular” (Bourdieu & Wacquant, 1999: 41).
27
Essa expressão também se constitui problemática.
28
No original: “Stephen Krasner [...] captured the essence of the present state of theorizing about Inter-
national Relations in the United States: ‘Sure people in Luxemburg have good ideas,’ he said, ‘[…] but who
gives a damn? Luxemburg ain’t hegemonic’.”

107
Enfoques Vol.1, n.14.

Uma perspectiva necessariamente pensamento descolonial que “privilegia


incompleta hermenêutica sobre epistemologia”
A visão dominante das RI ainda (2011: 206).
é adequada ao mundo de hoje? Que A visão dos vencedores teria, nas
limites e fronteiras se devem derrubar? RI, sua expressão mais forte no realismo,
Que “globalização” se quer? Que a força teórica mais conservadora no
perspectiva o “eu” tem do mundo? O cânone da disciplina. Talvez por isso
que condicionou sua formação? Que Smith (1995: 13) considere que as
perguntas seriam diferentes se não fosse “teorias de RI são interessantes não
essa perspectiva? Que responsabilidade pelas explicações substantivas que
tem o chamado cidadão global29 no oferecem [...], mas como expressão
século XXI? dos limites da imaginação política
Não busco dar respostas a contemporânea”. Todavia, será possível
essas questões – seria impossível neste – e aí reside o problema com algumas
espaço limitado –, a um tão complexo das proposições de Vattimo e Zabala (e
problema epistemológico, fundamental de outros autores) – escrever ao lado
e fundacional. Minha perspectiva é dos com os fracos do outro lado do
necessariamente incompleta, localizada “pensamento abissal” (Santos, 2007)?
e implicada em valores, movimentos e Essa é a mesma pergunta
processos demasiado complexos. Por com que deparo aqui – que procurei
isso, talvez seja necessário reescrever explicitar na introdução – e com
a velha proposição de Marx: “Os que muitos investigadores deparam
filósofos apenas descreveram o mundo diariamente. Talvez seja útil, por isso,
de diversas formas; o momento chegou relembrar o trabalho de dois autores
para interpretá-lo” (Vattimo & Zabala, do Sul (geográfico e político): Ramón
2011: 17). Grosfoguel e Daniel Mato. Se o
Vattimo e Zabala contrastam, primeiro nos alerta para os perigos e
assim, uma política ontológica dos peripécias da manutenção de uma visão
“vencedores”, que implica uma visão desenvolvimentista e linear na esquerda
descritiva e conservadora (de manutenção “radical”, o segundo rejeita a missão
do “estado das coisas”) do mundo, com de “dar voz” àquelas que seriam as
uma visão interpretativa, hermenêutica “classes subalternas”.
e engajada em uma mudança efetiva, Hardt e Negri ou como ser imperialista
uma visão “fraca”,30 que pertenceria, nas contra o Império
palavras de Benjamin, à “tradição dos No artigo “Del imperialismo de
oprimidos” (Vattimo & Zabala, 2011: 71). Lenin al Imperio de Hardt y Negri:
Essa é também a base, para Mignolo, do

29
Expressão usada correntemente e que denota o reforço dos processos globalizantes.
30
Os autores não entendem sua proposição de um “pensamento débil”, no sentido de um pensamento
ineficaz ou desprovido de “força” teórica. Pelo contrário, o “pensamento débil” torna-se “uma teoria (forte)
de enfraquecimento como um sentido interpretativo da história, que se revela como emancipatório [...]. Em
lugar de outro sistema de pensamento, essa luta [emancipatória] deve confiar em um “pensamento dé-
bil”, isto é, na ideia da impossibilidade de ultrapassar a metafísica, ao mesmo tempo que se estabelece a
capacidade de viver sem valores fundadores ou legitimantes” (Vattimo & Zabala, 2011: 96-97).

108
Enfoques Vol.1, n.14.

‘fases superiores’ del eurocentrismo”, é a tese de Império segundo a qual


Grosfoguel (2008) desmistifica algumas “o trabalhador industrial diminuiu
das concepções dominantes que, desde significativamente, dando lugar ao
Marx, afetam a economia política e trabalhador intelectual”, com o
sobretudo a extrema-esquerda europeia. capitalismo a “evoluir”32 para uma
Como o próprio afirma, o livro Império, forma “cognitiva”. Aí reside o principal
de Hardt e Negri, não é mais do que equívoco dos autores de Império. O fato
“uma continuidade atualizada das teses é que seu “horizonte cognitivo” não lhes
eurocêntricas marxistas e leninistas permite contemplar “o crescimento de
de etapas do capitalismo” (Grosfoguel, maquilladoras na periferia neocolonial
2008: 21). do planeta” e que, por isso, nunca
Antes de explorar a tese de como hoje houve tantos “trabalhadores
Grosfoguel, torna-se necessário explicar industriais [...] na história do capitalismo”
o porquê de problematizar a “esquerda (Grosfoguel, 2008: 17-22).
europeia” nesse contexto. Para fazê-lo, Hardt e Negri se encontram, nesse
recorro novamente a Bouteldja (2014a), aspecto, mais próximos daqueles(as)
que afirma que a esquerda, “porque é governantes que acreditam que o
mais aliada dos indigènes [...], é também Ocidente (ou todo mundo talvez?) vive
seu pior inimigo”. É talvez por isso agora na chamada “economia do
que Grosfoguel (2008: 23) considere conhecimento”, desmaterializada e
Hardt e Negri – ícones de certo “alter- hiperconectada 33
(Boron, 2004: 32).
mundialismo”– um “bom exemplo [...] de Aí reside outra diferença fundamental
como a esquerda/branca/eurocentrada para Grosfoguel e a teoria descolonial.
é cúmplice [...] da colonialidade do É que, fruto quiçá de sua perspectiva,
poder”. ambos menorizam a luta descolonial,
O problema de Império não é tanto tomando-a como um “projeto culminado”
seu conteúdo, como sua perspectiva e subordinada à “análise dos processos
de partida e, sobretudo, o fato de de trabalho” (Boron, 2004: 24-25).
essa perspectiva da “colonialidade do É uma distância fundamental
poder”31 – a “localização epistemológica” para uma miríade de autores (Bahba,
de Hardt e Negri do “lado dominante 2002: 23; Fonseca & Jerrems, 2012: 2;
e colonizador” “centrada na Europa Hobson, 2007: 103; Jones, 2006b: 10)
ou nos Estados Unidos” – influenciar que olham para o fenômeno colonial
sua visão sobre tópicos fundamentais como inacabado e transmutado. Para
(Grosfoguel, 2008: 23) da teoria e da esses autores, a independência política
militância descolonial. é insuficiente em face da dependência
O primeiro caso, que ilustra econômica e da persistência de um
perfeitamente a crítica de Grosfoguel, modelo civilizacional que não se esgota

31
Expressão adaptada por Grosfoguel com base em Quijano (2000).
32
Note-se a persistência da narrativa “evolucionista”.
33
Ao mesmo tempo que se celebrava a “vitória para a liberdade” que se diz ser a queda do Muro de Berlim,
poucos lembraram os muros – visíveis em Melilla e Ceuta, no México e na Palestina – e invisíveis – que
impedem, física, material e intelectualmente a “hiperconexão” da humanidade e permitem a hiperconexão
do capital (o aspecto a que Negri e Hardt se referem).

109
Enfoques Vol.1, n.14.

na velha formulação de “superestrutura 5). É nesse sentido que pretendo discutir


e infraestrutura”, mas que se constitui a sempre tão polêmica questão de “dar
como uma “rede de relações globais voz” aos subalternos.
de poder raciais, sexuais, de gênero, É necessário deixar de falar “sobre o”,
espirituais, militares e de conhecimento” “pelo” ou “do” subalterno
(Grosfoguel, 2008: 24).
Pode-se considerar uma reação Em um plano ideal, a esquerda
exagerada a um livro que está longe do e a direita34 estarão sempre de acordo
mainstream acadêmico. É, porém, um livro em algo: é preciso acabar com os
que teve e tem seu impacto naqueles que subalternos. Obviamente que não
lutam e se engajam por um mundo não pelos mesmos motivos nem da mesma
imperial. Dessa forma, não apenas por forma, mas, em uma sociedade ideal, o
exigência de “democratização cognitiva”, “subalterno” não existiria. Abandonando
mas sobretudo pela desorientação essa descrição caricatural, não residirá
estratégica a que pode conduzir todos na própria designação o primeiro
aqueles que pugnam por um mundo problema? Como nota Mato, “não
descolonizado em todas as vertentes fico satisfeito com [...] a expressão
essa obra merece examinação. Ou, subalterno, porque me parece que [...]
como precisa Boron (2004: 30), autor reifica a condição social que nomeia”
de uma das mais detalhadas críticas a (2000: 499, grifo meu).
Império, esse livro “contiene gravísimos Qualquer investigador ou
errores de diagnóstico e interpretación investigadora deverá ser atravessado
que, en caso de pasar desapercibidos pelos mesmos questionamentos que
y ser aceptados por los grupos y levaram Mato a se interrogar sobre seu
organizaciones que hoy pugnan por trabalho de pesquisa. Muitos continuam
derrotar al imperialismo, podrían llegar empenhados em estudar o subalterno,
a ser la causa intelectual de nuevas inconscientes ou convencidos de que
y más duraderas derrotas”. A verdade essa é sua missão ou a melhor forma
é que, se o sofrimento do mundo é de amparar esse “outro” necessitado (ou
infinito, a realidade é demasiado não) de ajuda. Mantêm-se, assim, em
complexa, e a capacidade humana é uma posição de privilégio epistemológico
limitada, mais do que uma política de “estudar o outro para escrever e
descritiva de “vencedores” ou uma crítica ensinar sobre eles em línguas que lhes
contundente que se mantém em uma são estranhas” (Mato, 2000: 480).
posição de privilégio epistemológico, o Não pretendo aqui postular que
lema de Fanon, no final de Pele negra, essa posição seja errada de partida, nem
máscaras brancas, impõe-se: “Ó meu em todas as condições. No entanto, as
corpo, faz de mim sempre um homem perguntas que Mato (2000: 483) coloca
que interroga!” (apud Wallerstein, 2010: para esses investigadores são, acima

34
Entendidas aqui como categorias de divisão e definição política, econômica e social, que emergiram
depois da Revolução Francesa e indicam, de modo maniqueísta, para a esquerda um interesse “pela elim-
inação das desigualdades sociais” e, para a direita, a “convicção de que as desigualdades são naturais e
[...] não são elimináveis”, bem como a ideia de que “os homens […] devem submeter-se à lei do darwinismo
social”, isto é, à “seleção [...] entre os indivíduos que podem se desenvolver – ‘os vencedores’ – e os que
podem apenas sobreviver – “os perdedores” (Nogueira da Costa, 2010, grifos do original).

110
Enfoques Vol.1, n.14.

de tudo, introspectivas e merecem, cogito36 de outro (Castro-Gómez, 2005:


por isso, uma reflexão detalhada: 52; Dussel, 2000: 29)? Dessa forma,
“Quem tem interesse em extrair essa qualquer investigação “comprometida
informação? Os ‘grupos subalternos’ com a descolonização da investigação
pediram para ser estudados? Quem pode acadêmica” deve ponderar essas
eventualmente lucrar com tal produção questões.
de conhecimento? […] O que vão os Para Mato (2000: 482 e 486),
grupos sociais ‘subalternos’ ganhar de a resposta é clara: sempre que não
tal produção de conhecimento?”35 seja possível estudar com o ou ao lado
Talvez a seguinte reflexão ajude do subalterno,37 devem-se estudar as
a ilustrar o problema fundamental: “práticas dos agentes hegemônicos” –
quem é que, com toda a honestidade, os “responsáveis pela injustiça social” e
gostaria de se sentir “um sujeito de pela existência da subalternidade – e as
pesquisa, peça de museu ou imagem “articulações globais-locais do poder”.
exótica no projeto de outras pessoas”? Eventualmente esses dois casos
Frequentemente, mesmo sem intenção, é poderão parecer um deslocamento
nisso que o “subalterno” se transforma sociológico ou antropológico das RI.
ante as pesquisas “invasivas” daqueles No entanto, os avisos de Grosfoguel
que vêm do “centro”. Assim, retomo e Mato são essenciais para estudantes
a pergunta de Mato: “Quem pode e investigadores dessa disciplina. O
eventualmente lucrar com a informação foco no poder e a transmissão de
produzida [sobre grupos subalternos]” conhecimento ao subalterno (que é
(2000: 484)? também o investigador?), com todas as
Não são os “agentes econômicos suas limitações, são talvez a melhor
das sociedades metropolitanas” que estratégia para quem está comprometido
vão se beneficiar com a “informação com uma descolonização substantiva
extraída desses grupos”? Aliás, o projeto nos âmbitos acadêmico, cultural e
colonial não avançou sempre desse econômico.38
modo, ego conquiro de um lado e ego

35
No original: “Who is interested in extricating this information? Have the ‘subaltern’ groups asked to be
studied? Who may eventually profit from such knowledge production? [...]. What will the ‘subaltern’ social
groups gain from such knowledge production?”.
36
Para Dussel (2000: 48), “o moderno ego cogito foi precedido mais de um século pelo ego conquiro (eu
conquisto) prático do hispano-lusitano que impôs sua vontade [...] ao índio americano. A conquista do
México foi o primeiro campo do ego moderno. A Europa (Espanha) tinha uma superioridade óbvia sobre
as culturas astecas, maias, incas etc., em particular por suas armas de ferro [...]. A Europa moderna usa,
desde 1492, a conquista da América Latina [...] como trampolim para ganhar ‘vantagem comparativa’
decisiva sobre suas antigas culturas antagônicas (turco-muçulmana etc.). Sua superioridade é, em grande
parte, resultado da acumulação de riqueza, de experiência, conhecimento etc., que vai recolher a partir
da conquista da América Latina”. Não será possível traçar um paralelo com o papel atual do exército
dos Estados Unidos, um dos maiores responsáveis – se não o maior responsável – pelo avanço do
conhecimento e da pesquisa científica intrinsecamente ligada à conquista militar?
37
Reconhecendo, como se disse, que tal categoria não existe realmente, não passando de construção
teórica.
38
Gostaria de agradecer os comentários de uma das pareceristas sobre esta seção em particular e no
que concerne à problemática de estudar “o subalterno” ou estudar as “articulações de poder”. Importa
talvez esclarecer que não se procura rejeitar totalmente a primeira abordagem, tanto quanto se pretende
111
Enfoques Vol.1, n.14.

Repensar a ação ou a perspectiva? seriamente considerada.


Para concluir, um último pensador É manifestamente inútil avançar
europeu merece referência. Refiro-me a sem uma compreensão global – que
Žižek (2012a), ícone cultural e confesso implica pluralidade e diferença, mas
eurocêntrico que, em um pequeno também conjugação e reunião (de
vídeo intitulado “Don’t act. Just think”, esforços, saberes, vontades) – para as
argumenta em favor disso mesmo, ou lutas que se avizinham. Não é tempo
seja, a primazia da reflexão sobre a ação. de sermos Dom Quixote “confundindo
Nas palavras de Žižek, deve-se evitar moinhos de vento com poderosos
“ficar preso na pressão pseudoativista: cavaleiros de lança” (Boron, 2004:
façamos algo, vamos etc. Não, o tempo 22). Esse debate é necessário hoje e,
é de pensar” (2012a). em especial, em uma disciplina como
Embora as palavras de Žižek as relações internacionais (RI), que
possam induzir a olhar o pensamento e se pretende global, mas que ainda
a reflexão como “não ações”, a verdade é provincial, parcial e, infelizmente,
é que elas têm o mérito de prevenir hegemônica.
certo voluntarismo e encorajam, em Afinal, não serão atualmente as RI
vez disso, uma reflexividade e um como o mapa-múndi criado pelo alemão
pensamento estratégico que permita Mercator, que, embora projetando o
“agitar o debate público [...] sem ser mundo inteiro de forma aparentemente
acusado de utópico, no pior sentido do igualitária, privilegia seu próprio centro,
termo” (Žižek, 2012a). Essa chamada a Europa, o local onde foi produzido?39
do filósofo esloveno para refletir e (se) A solução não está em uma alteração
questionar sobre o mundo e, sobretudo, de proporções ou de medidas, como
sobre a própria ação – no seguimento na projeção de Gall-Peters, mas em
das proposições de Chakrabarti, Zabala uma radical mudança de centro e em
e Vattimo, Boron e Fanon – deve ser uma total inversão de paradigma, que

rejeitar essa categorização (e quem tem a “legitimidade” de fazê-la) e de avançar o argumento que, ao
compreender e “partilhar” os mecanismos dos poderosos, exista a possibilidade (mesmo que ínfima)
não só de inverter a tradicional hierarquia do conhecimento como também de servir a essa dita classe
subalterna.
39
Existe uma vasta literatura sobre a projeção mais “correta” do globo terrestre. A resposta é nenhuma,
visto que a distorção está sempre presente ao “esticar” uma esfera. Então, a discussão passou, por meio
da projeção Gall-Peters, por exemplo, por suas implicações políticas, vista como uma projeção (pró-)
terceiro-mundista. Não pretendo, por falta de espaço, discutir todas as projeções e seu impacto. Todavia,
Roberts, citado em Hall (1992: 9, grifos meus), destaca a projeção de Mercator, que se tornou dominante,
como tendo influenciado uma visão dos europeus de si próprios, (literalmente) no centro do mundo:
“Mercator’s new ‘projection’, first used in a map in 1568 [...] drove home the idea that the land surface
of the globe was naturally grouped about a European centre. So Europe came to stand in some men’s
minds at the centre of the world [...]. It did not often occur to them that you could have centred Mercator’s
projection in, say, China, or even Hawaii, and that Europeans might then have felt very different. The idea
still hangs about, even today. Most people like to think of themselves at the centre of things [...]. Mercator
helped his own civilisation to take what is now called a ‘Eurocentric’ view of the world.” É nesse sentido que
utilizo o exemplo de Mercator, sem pretender afirmar que o alemão tenha propositalmente influenciado o
pensamento eurocêntrico ou negar que sua projeção tenha servido sobretudo para navegações marítimas.

112
Enfoques Vol.1, n.14.

permita o desaparecimento dos centros sim, “centrar nossas preocupações e


e o fim de “suis” e “nortes”. visões do mundo para depois saber e
Ainda que rudimentar e modesta, compreender a teoria e a pesquisa de
a proposta deste artigo, seguindo nossa perspectiva e para nossos próprios
Linda Smith (2008), não é pensar a objetivos” (Smith, 2008: 38, grifos meus).
descolonização como a “rejeição total de A primeira, ou a descolonização que
toda pesquisa, teoria ou conhecimento ainda falta completar – para o “ocidental”
ocidental” – um empreendimento tão e o “indígena” –, é a da mente, porque
inútil quanto impossível. Para essa “a” alternativa nunca ocorrerá sem uma
acadêmica, descolonização implica, substantiva mudança de perspectiva.

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marítima e ao tráfico de população escravizada mas também como consequência (direta ou indireta) a
estabelecer o “norte” geográfico no topo do mundo e a projetar a imagem de certos países e continentes
como “centrais” (dominação simbólica), além de ser um excelente exemplo da conjugação entre ego cogito
e ego conquiro. A projeção de Mercator serve assim como resumo e bom exemplo da tese principal deste
artigo.
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117
Enfoques Vol.1, n.14.

TEORIA E PRÁXIS: PENSANDO A GEOPOLÍTICA DO


CONHECIMENTO A PARTIR DE CAIO PRADO JR.
Alexandre Loreto de Melloi

Resumo
Em A revolução brasileira, Caio Prado Jr. critica a análise do Brasil feita pelos teóricos
marxistas do Partido Comunista Brasileiro (PCB). O autor aponta para o problema de se
fazer uma análise com conceitos produzidos nos centros hegemônicos, pois, por serem
inspirados em outros contextos sócio-históricos, implicam interpretações errôneas das
condições socioeconômicas do país. Importado, o arcabouço teórico-conceitual adotado
se mostrou inadequado à economia e à história brasileiras ao não articular teoria e práxis.
Procura-se, então, discutir brevemente a crítica da utilização pela “periferia” do pensamento
produzido nos “centros” a partir da obra de Caio Prado, mostrando como esta evidencia
os limites epistemológicos da teoria sociológica clássica (no caso, a sociologia marxista
utilizada pela agenda política dos membros do PCB).

Palavras-chave: Geopolítica do conhecimento; Caio Prado Jr.; teoria e práxis; PCB; sociologia
marxista

THEORY AND PRAXIS: CONSIDERING THE GEOPOLITICS OF KNOWLEDGE BASED ON CAIO


PRADO JR.

Abstract

Caio Prado Jr., in A revolução brasileira, criticizes the analysis made of Brazil by Marxist
theorists in the Brazilian Communist Party (PCB). The author points out the problem that
drawing an analysis based on concepts produced in hegemonic centers may result in
erroneous interpretations of the socio-economic conditions of Brazil, due to their being
inspired by different socio-historical contexts. The imported theoretical and conceptual
framework which has been adopted has proved to be inappropriate to the Brazilian
economy and history, with an absence of any connection between theory and praxis.
This paper seeks to briefly review the use by the “outskirts” of the theory produced
in the “centers” based on the work of Caio Prado to show how this highlights the
epistemological limits of the classical sociological theory (in this case Marxist sociology
used by the political agenda of PCB members).

Keywords
Geopolitics of knowledge; Caio Prado Jr.; theory and praxis; Brazilian Communist Party;
Marxist sociology

i
Alexandre Loreto de Mello é mestrando em Sociologia e Antropologia - PPGSA/UFRJ. Email:
almello@hotmail.com
118
Enfoques Vol.1, n.14.

Introdução social.
O presente artigo visa analisar Marcada pela importação de
brevemente, à luz da geopolítica do teorias dos países centrais (Comissão
conhecimento, a crítica feita por Caio Gulbenkian, 1996: 29), a análise da
Prado Jr., em A revolução brasileira institucionalização das ciências sociais
(1966), aos teóricos marxistas do no país revela-se fecunda por meio da
Partido Comunista Brasileiro (PCB)1. obra de Caio Prado Jr. Os primeiros
Em outros termos, busca-se pensar a impulsos, como a tradução de obras
institucionalização das ciências sociais europeias e a elaboração de compêndios
no Brasil, marcada pelos paradigmas por parte de uma pequena elite intelectual
centrais da Europa, como consequência brasileira (Meucci, 2007), aliados a
de uma subjugação bélico-intelectual, questões sociopolíticas (Costa Pinto,
de um imperialismo acadêmico (Alatas, 1949), expõem seu caráter eurocêntrico.
2003: 606). Procura-se, assim, analisar Nesse cenário, há ainda os intelectuais
os limites da imaginação sociológica do PCB que, segundo Prado Jr. (1966),
europeia, uma vez que as teorias aplicaram a teoria marxista à realidade
cristalizadas como cânones – os brasileira sem quaisquer adaptações, o
clássicos (Alexander, 1999: 24) – não que implicou interpretações errôneas
se mostram adequadas e eficazes da realidade socioeconômica do país.
para dar conta de outros panoramas Embora essa produção teórica fosse
sócio-históricos. Segundo Connel, pautada por fins de prática política,
a elaboração de conceitos é uma as análises elaboradas pelos teóricos
reificação da experiência social (2012: do PCB estavam marcadas por um
10), evidenciando que há limites para eurocentrismo epistemológico, uma
sua transnacionalização. vez que se baseavam em conceitos
A institucionalização das ciências elaborados em outra conjuntura sócio-
sociais como disciplinas universitárias, histórica, evidenciando um caráter de
no Brasil, só se deu a partir de 1930,2 dependência acadêmica (Alatas, 2003:
em virtude de esforços individuais de 600).
alguns estudiosos autodidatas da elite A crítica de Prado Jr. evidencia
brasileira (Costa Pinto, 1949: 279). Costa que não houve articulação necessária
Pinto (1949) aponta que as mudanças entre teoria e práxis para uma análise
estruturais pelas quais passava o país, cientificamente adequada da sociedade.
em decorrência da Revolução de 1930, Pretende-se, assim, elaborar aqui uma
propiciaram o panorama para que discussão bibliográfica relacionando sua
ocorresse tal processo. A elite do Brasil crítica à adoção ortodoxa da sociologia
buscava a habilitação de pessoas para marxista pelos teóricos do PCB com
pensar a sociedade de forma científica, a relação acadêmica entre centro e
e não apenas juridicamente. Como periferia como consequências da divisão
relata o autor, esse processo deve ser social do trabalho nas ciências sociais
também objeto de análise sociológica, (Keim, 2008: 30). Será feita uma análise
visto que também é um produto da vida considerando a ótica da dependência

1
Ressalta-se que, até 1960, o nome dessa organização política era Partido Comunista do Brasil.
2
Toma-se esse ano como marco analítico. Para mais informações, ver Costa Pinto (1949) e Meucci (2007).

119
Enfoques Vol.1, n.14.

acadêmica proposta por Alatas (2003) uma apreensão sociológica da realidade


para refletir sobre as contingências brasileira, que, desde a década de
sociais e extraintelectuais da sociologia 1930, passava por mudanças estruturais
(Maia, 2012: 267). significativas. Visava-se, portanto, a
A institucionalização das ciências sociais uma melhor compreensão da realidade
no Brasil e seu caráter eurocêntrico social em prol do progresso do país. O
debate se dava com os bacharéis em
Como consequência da Revolução direito, os autodidatas, uma vez que
de 1930, o âmbito socioeconômico suas análises se limitavam a um aspecto
se diversificou, apresentando novos abstrato-teórico que desarticulava teoria
problemas, como urbanização, e realidade. A sociologia surge, assim,
crescimento do mercado interno, como um novo caminho para analisar e
industrialização, expansão do compreender a realidade social por meio
proletariado, entre outros. Com isso, a da observação aliada ao conhecimento
elite intelectual brasileira buscou novas teórico, possibilitando mediações entre
formas de se pensar a sociedade. teoria e práxis.
Foram importados conceitos e teorias Meucci ressalta também que
visando renunciar ao bacharelismo os autores brasileiros se encontravam
(Costa Pinto, 1949: 280) – isto é, a limitados às escolas sociológicas
formação autodidata em sociologia ou estrangeiras. Mais especificamente, viam-
antropologia de bacharéis de outras se dependentes de uma epistemologia
áreas. eurocêntrica das ciências sociais,
Conforme aponta Meucci, os uma vez que eram intelectuais da
primeiros livros de sociologia surgiram no elite engajados na causa sociológica.
Brasil em virtude da institucionalização Com a publicação de livros, manuais
da sociologia como disciplina no e compêndios sociológicos, buscava-se
ensino regular e da emergência de um formar uma geração de intelectuais capaz
mercado editorial com investimentos de compreender melhor a sociedade. Um
na área pedagógica. Dessa forma, detalhe importante é que não somente
constituiu-se um material didático de os conceitos e teorias eram importados
manuais de sociologia, os primeiros mas também os dados de pesquisa, pois
contatos em língua portuguesa com não haviam sido feitas, ainda, pesquisas
os conhecimentos sociológicos, antes em território nacional que permitissem
limitados àqueles que dominavam as a acumulação de dados. Com isso, há
línguas estrangeiras (Meucci, 2007). A um incentivo à libertação do aluno
autora ressalta o caráter elitista desse da tirania do compêndio (Meucci,
processo apontando para o fato de a 2007: 52). Em outros termos, alguns
perspectiva teórica marxista não estar autores propunham que os leitores se
presente. Ela nota que, pela situação organizassem em grupos para realizar
repressiva da época, a maioria dos pesquisas de campo e acumular dados
autores tinha preocupações por serem referentes à realidade brasileira.
oriundos de famílias ligadas à política
(Meucci, 2007: 12). O Partido Comunista Brasileiro e a
O boom editorial que acompanhou entrada da literatura marxista no Brasil
e possibilitou a institucionalização das Em meio às mudanças estruturais,
ciências sociais conduziu à desvalorização destaca-se a modernização consequente
da prática jurídica e à convocação de da Revolução de 1930, que engendrou
120
Enfoques Vol.1, n.14.

grande êxodo rural em busca de emprego suas publicações. Alguns anos depois,
nos centros urbanos. Foi nesse contexto, surgiu a revista Brasiliense, que, com
aliado à expansão da consciência inspiração marxista e nacionalista, tratou-
sociológica, que as obras de Karl Marx se de uma publicação político-cultural
e de Friedrich Engels foram traduzidas. independente e crítica em relação às
No entanto, a trajetória da publicação teses do PCB. Foi veiculada pela editora
de suas obras, entre 1930 e 1964, foi Brasiliense, fundada por Prado Jr. em
muito conturbada em decorrência de 1943. Embora a revista tenha parado
elementos como a Segunda Guerra de circular com a implementação da
Mundial e a conjuntura política do ditadura militar em 1964, a editora
Brasil, que envolvia a ilegalidade do continuou publicando livros e difundindo
Partido Comunista Brasileiro (PCB) – o marxismo.
principal difusor das teorias de Marx e Caio Prado Jr. e o Partido Comunista
Engels. Houve ainda grande limitação Brasileiro
de publicações, tanto em termos de
quantidade quanto de títulos. Procurava- Nascido em 1907, de origem
se, em primeira instância, traduzir aristocrática, formado em direito e em
e publicar obras que divulgassem o geografia, Caio Prado Jr. integra o quadro
marxismo, visando a uma propagação dos intelectuais que fizeram parte da
mais imediata de seus ideais. institucionalização das ciências sociais
De acordo com Novais Azevedo no Brasil (Reis, 1999: 1). Estudioso das
(2010: 120), essa pressa e esses teorias marxistas, escreveu na revista
obstáculos influenciaram negativamente Brasiliense, ao longo dos anos 1950,
a interpretação das nuanças da realidade diversos artigos nos quais analisava
brasileira pelos membros do PCB. Até a estrutura político-econômica do
os anos 1960, segundo Costa (2011), a Brasil. Nessa época, os estudos sobre
difusão da literatura de Marx no Brasil a realidade brasileira se pautavam
teve como maior colaborador o PCB, por no desenvolvimento econômico e na
meio de seus aparatos político-culturais possibilidade de reforma nas instituições
como editoras, jornais e revistas. Em políticas. Questionamentos sobre a
sua maioria, as publicações eram de estrutura econômica e o passado
cunho simplificador, caracterizando-se nacional permeavam as interpretações
por resumos cujo foco era a divulgação das questões agrárias do país,
das obras. Cabe ressaltar que, em destacando-se o debate sobre qual teria
geral, todas as traduções eram feitas sido o sistema herdado do colonialismo
da língua francesa ou espanhola, ou (feudalismo ou capitalismo).
seja, eram traduções de traduções. Considerado uma condição
Mesmo com a repressão decorrente intrínseca à elaboração de políticas
da Revolução de 1930, o PCB conseguiu de transformação social, esse debate
manter alguns de seus aparatos político- ocorreu em um momento complicado
culturais, como a revista Espírito Novo, para o Partido Comunista Brasileiro
que contou com a participação de (PCB), pois havia um conflito interno em
diversos intelectuais, entre os quais decorrência da submissão do partido ao
Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral pensamento marxista-leninista inspirado
e Caio Prado Jr. No entanto, com o pela União Soviética. Alegando que
governo Dutra, em 1947, acirrou-se a essa submissão o afastava da realidade
repressão ao comunismo, censurando do país, aqueles que criticavam as
121
Enfoques Vol.1, n.14.

interpretações “dogmáticas” do passado implicou uma interpretação errônea do


buscaram dialogar com intelectuais panorama socioeconômico do país. Por
progressistas da época (Silva, 2008: 52- mais que possa haver similaridades em
53). Em meio a esse debate, as diretrizes alguns detalhes, cada conjuntura sócio-
do PCB foram definidas: aproximar- histórica demanda sua própria leitura,
se mais da sociedade brasileira, cada práxis pede uma teoria específica,
conhecê-la melhor e a definição do e não um esquema teórico único.
projeto democrático-burguês – que era Essa importação e adaptação
antifeudal e anti-imperialista. A revista forçada de conceitos à realidade
Estudos Sociais, criada em 1958, foi um compreendia um esquema de etapas
dos veículos de manifestação do ideário sucessivas para a chegada ao
pecebista na cena intelectual nacional socialismo. Mais especificamente,
(Silva, 2008: 53). baseado nas teorias de Marx e Lenin
Com o golpe militar, fecharam a sobre a Rússia, as sociedades deveriam
revista Brasiliense, fundada por Prado passar por três estágios: feudalismo,
Jr., e, em 1966, o autor publicou o livro capitalismo e, por fim, socialismo
A revolução brasileira, que, segundo (Prado Jr., 1966: 38-39). Ao aplicarem
Reis (1999: 2), representa uma espécie dogmaticamente essa teoria à realidade
de síntese da análise de Prado Jr. da brasileira, interpretaram as oligarquias
sociedade brasileira. Nessa obra, critica latifundiárias e os camponeses como
a conduta dos teóricos marxistas do PCB, resquícios de um regime feudalista a
assinalando que estes interpretavam serem superados (Prado Jr., 1966:
de forma dogmática os preceitos de 46). Com esses resquícios, julgavam
Marx. Baseavam-se, desse modo, em necessário implementar uma revolução
formulações a priori que não atentavam democrático-burguesa plena, uma
para a conjuntura socioeconômica vez que já havia centros urbanos
brasileira. Em outras palavras, tentavam desenvolvidos abrindo caminho para a
adaptar teorias importadas, oriundas etapa sucedente, o socialismo.
de condições distintas da realidade do Embora a crítica de Caio Prado
país, ignorando-se os fatos presentes tenha sido formulada de forma genérica
(Prado Jr., 1966: 33). Decorreu-se dessa e sem citar nomes, entre os intelectuais
atitude uma desarticulação entre teoria criticados pelo autor estava Nelson
e práxis. Werneck Sodré. A obra de Sodré
Buscando a rearticulação entre representava as diretrizes interpretativas
abstrações teóricas e realidade social, do PCB, visto que era tido como o
a interpretação de Caio Prado rejeitou a maior expoente intelectual do partido.
orientação do PCB por não compactuar Apesar da aplicação do método marxista
com o modelo interpretativo e político ao panorama brasileiro, sua análise
democrático-burguês. Esse modelo, é consequência de um engajamento
para ele, carecia de revisão crítica político, de uma “posição política”
dos preceitos marxistas importados e, (Sodré, 1990: IX). Para o autor, ainda que
com isso, estes tornaram-se dogmas diferente do modelo europeu, o Brasil
que enviesavam o olhar dos teóricos tinha traços feudais que necessitavam
do PCB (Prado Jr., 1966: 35). Não se ser superados pelo desenvolvimento
trata, portanto, de analisar a sociedade da indústria do país que levaria à
com base em conceitos dados de forma consolidação da “burguesia nacional”.
apriorística, uma vez que tal atitude Outro intelectual que se destacou
122
Enfoques Vol.1, n.14.

entre os teóricos do PCB e pode ser latifúndios com o sistema de plantation


mencionado é Alberto Passos Guimarães. (monocultura para exportação).
Sua perspectiva pode ser vista como Com um marxismo heterodoxo,
inserida no debate que se desdobrava em oposição à ortodoxia dos teóricos
nas revistas Brasiliense e Estudos Sociais do PCB, Prado Jr. buscou compreender
(Santos, 1994: 54). Assim como Sodré, o Brasil em seu sentido estrutural,
Guimarães ressalta o caráter político de analisando as relações de trabalho e
seu estudo, evidenciando que sua análise de produção capitalista para além da
da realidade se imiscui em uma leitura teoria importada. Foi situado, por isso,
política (Santos, 1994: 55). Alinhando-se em “uma segunda fase, posterior à
à perspectiva de Sodré e às diretivas primeira fase da ‘recepção dogmática’,
pecebistas, Guimarães reafirmou a tese que vai de 1922 a 1940, [...] [a] ‘etapa
da feudalidade em sua interpretação da da autonomização teórica (1940-1960)”
questão agrária brasileira. (Reis, 1999: 6). A revolução brasileira,
Para Prado Jr., nunca houve para João Alberto da Costa Pinto (2007),
feudalismo no Brasil, mas sim relações de foi uma espécie de “acerto de contas”
trabalho reconhecidas pelo autor como com a agenda teórica e política do
sistema de parceria, barracão e cambão. PCB. Como sua proposta não envolvia
Vistas como resquícios do escravismo, práticas revolucionárias soviéticas, mas
trata-se de relações de emprego, porém sim melhorias trabalhistas, agravou-se
com uma remuneração in natura do o debate que travava com o partido
trabalho. A primeira caracteriza-se pelo desde a época das revistas Brasiliense
arrendamento de terra que é pago com e Estudos Sociais. A posição teórica
parte da produção (Prado Jr., 1966: de Prado Jr. rendeu árduas críticas
52-53); a segunda é uma espécie de à sua obra, como a feita por Assis
fornecimento do que se produz a preços Tavares (pseudônimo de Marco Antônio
extorsivos; e a terceira é a prestação de Tavares Coelho, dirigente do PCB), que
serviços gratuitos em troca do direito de afirmou que o programa “defendido
utilização e de ocupação de um pedaço pelo historiador era vago e estava
de terra (Prado Jr., 1966,: 56). aquém do programa do PCB” por ter
O autor aponta, assim, para a feito uma análise que desvinculou a
diferença entre escravismo e feudalismo: economia da política (Kaysel, 2012:
neste, a exploração da força de trabalho é 57). Dito de outra forma, essas críticas
legitimada por privilégios da aristocracia. evidenciam o estatuto teórico distinto
No caso brasileiro, a natureza das entre a sociologia acadêmica a que se
relações de trabalho era, de certo modo, propunha Caio Prado e o marxismo do
assalariada, constituindo, portanto, PCB, vinculado à prática política.
forma de trabalho capitalista (Prado Segundo Reis, A revolução brasileira
Jr., 1966: 52-53). Caio Prado explicita, foi escrita em um período conturbado
com isso, que o Brasil foi fundado em para a democracia nacional, período em
um contexto semicapitalista, pois foi que se instaurou o golpe militar de 1964.
consequência da expansão internacional Com isso, o Estado associou-se ao poder
do mercantilismo – o colonialismo. militar, e “o sonho de uma revolução
Composta de comerciantes portugueses ‘democrático-burguesa’ transformou-se
integrados à população depois da em um pesadelo-realidade da revolução
abertura dos portos, a burguesia era autoritário-burguesa” (Reis, 1999: 8). Era
essencialmente escravista e baseada em um momento importante para repensar
123
Enfoques Vol.1, n.14.

as interpretações e retomar discussões realidade, afirmando que os modelos


sobre a conjuntura político-econômica estruturam o pensamento sociológico.
do Brasil. Caio Prado expõe então Seu argumento é que os trabalhos
que os teóricos do PCB não souberam empíricos são apriorísticos, pois cada
utilizar analiticamente a teoria marxista. tomada de posição tem implicações:
Para ele, “a dialética é um método de se umas portas se abrem, outras se
interpretações das ações reais, e não fecham. Para compreender as teorias,
um dogma que enquadre esquemas Alexander (1987) alega que se devem
abstratos preestabelecidos” (Reis, 1999: conhecer aqueles que as elaboraram e,
8). sobretudo, como pensavam.
Em suma, Prado Jr. critica a Em uma abordagem crítica
leitura, do ponto de vista teórico, da das relações político-econômicas do
literatura marxista feita pelos teóricos colonialismo, Connell (2012) define
do PCB, visto que, em sua concepção, teoria como a produção feita pelo
compreenderam mal a dialética, centro, baseada em seus casos
adotando dogmaticamente os preceitos concretos. Essa situação, segundo
elaborados com base no contexto a autora, é fruto da geopolítica do
soviético. Há uma espécie de “erro conhecimento e pode ser revertida.
histórico” (Reis, 1999: 10) pela leitura Para transpor a assimetria da produção
do passado brasileiro, influenciando a de conhecimento, devem-se enfatizar
interpretação do presente e a previsão as tradições locais, visando escapar do
para o futuro. É preciso, portanto, partir eurocentrismo por meio da incitação a
do panorama social do Brasil para um pluralismo epistemológico (Connell,
interpretá-lo. Prado Jr. mostrou-se, assim, 2012). O pensamento social consequente
um dos questionadores dos métodos desse embate teórico-epistemológico foi
de análise da realidade brasileira que denominado southern theory (Connell,
estavam associados à prática política 2012: 12), e sua intenção é questionar a
do PCB. epistemologia consolidada, uma vez que
Teoria e práxis: a geopolítica do a colonialidade do poder cria diferentes
conhecimento e suas consequências condições para o entendimento social.
analíticas Seu argumento se baseia na divisão
social do trabalho, cujas implicações
De acordo com Jeffrey Alexander, materiais são evidentes: os intelectuais
a teoria é uma abstração de dados da periferia buscam especializações
particulares de determinado período nas metrópoles e publicações em seus
histórico; são generalizações baseadas periódicos acadêmicos.
em casos concretos. Embora os dados Ressaltando-se o caráter
sejam fundamentais, a teoria tem certa ontoformativo do encontro colonial,
autonomia em relação à realidade realidades sociais foram criadas com
concreta, pois depende da inserção a integração de economias locais ao
no tempo e no espaço daqueles que capitalismo global. Em outros termos,
as elaboram. As tradições nas quais surge o Estado colonial com o envio de
estão inseridos seus criadores são mais missionários, economias de plantation,
importantes que suas observações. entre outros elementos (Connell,
No caso das ciências sociais, o autor 2012: 12). Nesse contexto, conceitos
aponta para o fato de que elas elaborados pelo Norte mostram-se
produzem os dados e estruturam a limitados para a compreensão desse
124
Enfoques Vol.1, n.14.

tipo de realidade social, uma vez que meio de suas produções; e, por fim,
foram elaborados em outros panoramas possuir reconhecimento e prestígio por
sócio-históricos. Embora a reflexão sobre suas análises. Dentre esses, destacam-
a realidade social se dê sob condições se aqui o consumo e o prestígio de suas
distintas, os intelectuais da periferia pesquisas, ilustrados neste artigo pelo
estão marcados pelo uso de elementos debate entre Prado Jr. e os teóricos do
do pensamento das metrópoles PCB. Para além da importação teórica,
(Connell, 2012:13) em virtude do caráter a institucionalização das ciências sociais
eurocêntrico da institucionalização das no Brasil foi marcada pela dependência
ciências sociais. Buscou-se, neste artigo, em relação a instituições e ideias que
ilustrar essa questão por meio da influenciaram as agendas de pesquisa.
análise da recepção e da apropriação Influenciaram até os resultados – como
ortodoxa da teoria marxista pelo PCB, bem aponta a crítica de Prado Jr.
criticada por Caio Prado Jr. por não Para definir os países
possibilitar a articulação entre teoria e intelectualmente dominantes, Alatas
práxis. Esse autor elaborou então uma utiliza o termo center – um lugar que
análise do cenário socioeconômico do emana influência (Alatas, 2003: 603). Essa
Brasil partindo da realidade brasileira, hegemonia intelectual é consequência
evidenciando os limites de uma de séculos de dominação político-
dependência epistemológica. econômica, implicando reverberações
Segundo Alatas, podem-se culturais em períodos recentes. Evidencia,
chamar de discurso alternativo críticas portanto, uma relação desigual entre a
ao imperialismo acadêmico (2010: 230). produção científico-social dos países
Esses discursos são produzidos em um centrais em relação aos países do
contexto de dependência acadêmica, que, denominado Terceiro Mundo. O âmago
de acordo com o autor, é um contexto dessa desigualdade se encontra na
análogo à dominação econômica divisão social do trabalho das ciências
colonial. Tem-se em questão, no âmbito sociais, que foi moldado a partir da
das ciências sociais, uma relação em dominação colonial (Alatas, 2003: 606).
que paradigmas de um lugar imperam O fator mais ilustrativo dessa questão
sobre outros (Alatas, 2003: 601). Para é a produção de teorias, feita somente
compreender esse fenômeno, deve-se nos centers, enquanto a periferia se
olhar para a história, para o período de limitou a fazer pesquisas empíricas.
colonização, no qual havia uma educação Isso, para o autor, é um entrave ao
imposta às colônias, desde as missões progresso científico, uma vez que limita
civilizatórias. Se antes a dominação era as pesquisas a análises apriorísticas.
bélico-econômica, atualmente se dá pela Em outros termos, utilizam-se, em
dependência acadêmica, evidenciando realidades distintas daquelas de suas
um neocolonialismo (Alatas, 2003: 602). origens, conceitos, teorias, modelos e
O autor supracitado estabelece métodos produzidos alhures.
alguns critérios para reconhecer os O modelo centro-periferia é
países que exercem a dominação uma boa ferramenta analítica para
acadêmica: produção de dados compreender o processo de produção,
científicos em forma de publicações de difusão, recepção e comunicação das
livros, revistas e artigos; ter alcance ciências sociais em nível global. Keim
mundial de suas produções; influenciar (2008: 23) relata que há uma diferença
o pensamento de outros lugares por
125
Enfoques Vol.1, n.14.

entre a disciplina sociologia e o social elaborada por alguns autores e as


thinking presente em diversos lugares, condições institucionais mais amplas na
mas institucionalizado pelos europeus.3 qual estão inseridos (Maia, 2012: 268).
Nesse contexto, a sociologia surgiu Trata-se de pensar o debate a partir dos
nos países periféricos com um caráter limites da transnacionalização teórico-
de subordinação, que ainda perdura metodológica da realidade europeu-
na busca por especializações em anglo-saxã, trazendo à tona processos
instituições de ensino do centro. Em mais gerais, extraintelectuais, sobre os
sua análise, fica evidente que o caráter dilemas modernos globais (Maia, 2009:
de reconhecimento e de prestígio das 156).
teorias produzidas nos países centrais Considerações finais: dar cores locais
é uma consequência da dominação ou revolucionar a teoria social
político-econômica ocorrida ao longo
da história. Ou seja, é fruto de uma De acordo com Caio Prado
geopolítica do conhecimento. Jr., membros do Partido Comunista
De acordo com os critérios definidos Brasileiro (PCB), em suas elaborações
pela autora, uma sociologia desenvolvida teóricas voltadas para a prática política,
deve ser um sistema autônomo de utilizaram-se de conceitos que não
produção, difusão e acumulação de tinham correspondentes na realidade
conhecimento. Para tal, é necessário brasileira. Dentre outros, destacam-se
que haja centros especializados para latifúndio, feudalismo, camponeses e
pesquisa e ensino, com publicação em burguesia nacional. Com a utilização
periódicos acadêmicos, financiamentos e do modelo elaborado para analisar
mercado de trabalho. O desenvolvimento a situação europeia, estavam mal
institucional é definido com presença de equipados teórica e historicamente. O
mercado editorial, tecnologia, bibliotecas, autor quis evidenciar que, para rever
entre outros fatores. Percebe-se, dessa a história do Brasil, era necessário
forma, a necessidade de haver uma rediscutir a teoria e propor novas
comunidade escolar integrada, com formas de compreensão e intervenção,
divisão interna do trabalho adequada – sem ajustar a realidade aos textos
coleta de dados empíricos e estudos de clássicos de outros contextos. Com
caso, metodologia e elaboração teórica. isso, deixariam de ser apriorísticos e
Embora isso indique que uma sociologia dogmáticos, possibilitando uma análise
subdesenvolvida careça desses adequada da conjuntura socioeconômica
elementos, a autora destaca o caso do do país (Reis, 1999: 10).
Japão, que, mesmo com infraestrutura, Com base na crítica elaborada
não atingiu um nível de autonomia que em A revolução brasileira, buscou-se,
transponha a dependência acadêmica. neste artigo, ilustrar questões como a
Tomando a geopolítica como chave dependência acadêmica, levantada por
de leitura para a obra de Caio Prado Jr., Alatas, para expor como o panorama
evidencia-se, portanto, a necessidade brasileiro pode falar não apenas do
de analisar a articulação entre a teoria Brasil mas da questão global da social

3
A autora cita Ibn Khaldun, que buscava fundar uma ciência da civilização. Para mais informações, ver
Alatas & Sinha (2001).

126
Enfoques Vol.1, n.14.

theory (Maia, 2009: 156). Procurou-se não se limitem a falar somente de Marx,
ressaltar, assim, como essa obra pode Durkheim e Weber, incluindo pensadores
ser lida a partir da geopolítica do não europeus. Esses esforços serão
conhecimento, evidenciando o caráter fecundos se houver uma comunicação
iminente da revolução na teoria social. maior entre os cientistas sociais do
Mais especificamente, as ciências sociais Terceiro Mundo (Alatas, 2003: 609-610).
podem dar voz aos marginalizados, Esta abordagem se mostra
engendrando críticas às estruturas de relevante por evidenciar a camisa de força
poder, possibilitando a democratização do campo da sociologia formada pelos
da teoria, isto é, a produção e a clássicos (Alexander, 1999: 24). Buscou-
circulação de conhecimento social se ressaltar sua presença na sociologia
(Connell, 2012). brasileira com o intuito de questionar os
Para reverter a dependência limites da imaginação sociológica, uma
acadêmica, ou o colonialismo acadêmico, vez que teorias e conceitos cristalizados
Alatas propõe a expansão de estudos como paradigmas não se mostram
teóricos e empíricos sobre o tema. eficientes para realidades diferentes
Esses estudos devem ser difundidos das quais são frutos. Dessa forma, o
no ensino em universidades e por estudo da influência da geopolítica do
meio de publicações em periódicos e conhecimento no Brasil traz à tona a
conferências internacionais. Deve-se necessidade de se partir da realidade
também ir além dos estudos e escrever para chegar à abstração, conjugando,
livros de teoria sociológica clássica que assim, teoria e práxis.

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128
Enfoques Vol.1, n.14.

PRESSUPOSTOS LIBERAIS DA DISCUSSÃO SOBRE


DEMOCRACIA EM TRÊS INTÉRPRETES DO BRASIL:
UM ESTUDO DE SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA,
RAYMUNDO FAORO E FLORESTAN FERNANDES
Aristeu Portela Júniori

Resumo
O artigo analisa pressupostos liberais contidos em proposições-chave na discussão
sobre democracia que perpassa autores centrais do pensamento social brasileiro.
Detêm-se em três intérpretes, responsáveis por modos influentes de se analisar a
democracia no Brasil: Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Florestan
Fernandes. Aponta como uma concepção liberal de democracia orienta as análises
de Buarque e Faoro sobre as heranças ibéricas da nossa política. E argumenta que
Fernandes, num momento inicial da sua trajetória, concebe que a democracia somente
é possível no Brasil com o desenvolvimento concomitante da ordem social competitiva.
O artigo termina por apontar como a apropriação do liberalismo democrático pode
ser simultaneamente o fundamento de críticas sociais progressistas e uma limitação
em termos de perspectivas políticas.

Palavras chave: Democracia. Liberalismo. Patriarcalismo. Patrimonialismo.


Desenvolvimento.

LIBERAL ASSUMPTIONS OF THE DISCUSSION ON DEMOCRACY IN THREE


AUTHORS WHO ANALYZE BRAZIL: A STUDY INTO SÉRGIO BUARQUE DE
HOLANDA, RAYMUNDO FAORO AND FLORESTAN FERNANDES

Abstract:

This article examines liberal assumptions contained in key propositions in the


discussion about democracy that pervades Brazilian social thought. It analyzes three
authors, responsible for influential modes of interpreting Brazil: Sérgio Buarque de
Holanda, Raymundo Faoro and Florestan Fernandes. The article argues that a liberal

i
Aristeu Portela Júnior é professor assistente do Departamento de Educação da Universidade Federal Rural
de Pernambuco (UFRPE), mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco
(UFPE), e bolsista do CNPq. Integrante do grupo de pesquisa “Sociedade Brasileira Contemporânea: Cultu-
ra, Democracia e Pensamento Social”, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE, e
do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB) da UFRPE. E-mail: aristeu.portela@gmail.com.

129
Enfoques Vol.1, n.14.

conception of democracy guided Buarque’s and Faoro’s analyses of the Iberian legacy
found in Brazilian politics. And it argues that Fernandes, at an early phase of his
career, concludes that democracy is possible in Brazil only with the concomitant
development of competitive social order. The article ends by pointing out how the
appropriation of democratic liberalism may be both the basis for progressive social
criticism and a limitation in terms of political perspectives.

Keywords
Democracy. Liberalism. Patriarchy. Patrimonialism. Development.

Introdução concretização dos ideais da democracia


Um certo consenso no meio liberal, dada a sua vinculação histórica
intelectual e político costuma se referir com o modo de produção capitalista
ao século XX como o “século da e com as clivagens sociais de gênero
democracia”, baseado na generalização (Moraes, 2001; Phillips, 2011: 340).
e estabilidade da democracia enquanto No âmbito da teoria democrática,
regime político ao redor do Globo. “modelos” alternativos de democracia
O que tal consenso tende a omitir é vêm sendo constantemente discutidos,
que pressuposto nesse discurso está num leque que abrange formulações
a cristalização de uma noção de como a da “democracia participativa”
“democracia” que a reduz à forma e da “democracia deliberativa” (Miguel,
de governo estabelecida nos Estados 2005).
Unidos e na Europa Ocidental. Visando complementar estes
esforços de crítica e reflexão em torno
Com efeito, na oratória política do do modelo hegemônico de democracia,
nosso tempo [...] o termo “democracia” o presente trabalho busca analisar
tem como significado esse modelo- o modo como os princípios de uma
padrão de Estado; e isto significa um concepção liberal de democracia atuam
Estado constitucional, que oferece a enquanto pressupostos, nem sempre
garantia do império da lei e de vários
reconhecidos, de importantes debates
direitos e liberdades civis e políticas
políticos brasileiros, e também investigar,
e é governado por autoridades,
que devem necessariamente incluir concomitantemente, as limitações e
assembleias representativas, eleitas potencialidades da incorporação de tais
por sufrágio universal e por maiorias pressupostos ao estudo da democracia
numéricas entre todos os cidadãos, brasileira (ou dos seus fundamentos
em eleições realizadas a intervalos sociais, mais especificamente). Neste
regulares entre candidatos e/ou sentido, dentro de um vasto leque de
organizações que competem entre representantes do pensamento social
si. (Hobsbawn, 2007: 98) brasileiro, iremos nos focar nas obras de
três autores específicos: Sérgio Buarque
No entanto, o século XX também
de Holanda (1902-1982), Raymundo
pode ser visto como prenhe de críticas a
Faoro (1925-2003) e Florestan Fernandes
esse modelo hegemônico de democracia.
(1920-1995). Eles foram responsáveis
No plano da organização política,
pela cristalização de modos ativos e
movimentos como o socialismo e o
influentes de se interpretar a história
feminismo apontaram sérias limitações à
e a política brasileiras, elaborando
130
Enfoques Vol.1, n.14.

temas e formulações fundamentais, que autores, mas que se incorporam em e


exerceram e exercem influência marcante perpassam diversas outras análises que
em muitas análises contemporâneas. se desenvolveram (e se desenvolvem)
Na discussão dos autores, nas ciências sociais brasileiras. É a
a seguir, optamos por dividir suas reverberação dessas discussões no
reflexões em dois blocos temáticos: as debate intelectual contemporâneo que
influências ibéricas sobre a formação torna necessário o seu estudo.
social e política brasileira; e a questão Democracia e a herança ibérica do
do desenvolvimento.1 São dois eixos patriarcalismo e do patrimonialismo
de discussão em torno dos quais se
construíram pressupostos sobre a Tanto Buarque de Holanda quanto
democracia brasileira que ainda hoje Faoro concedem acentuado destaque ao
estão presentes no debate intelectual papel da cultura e das instituições ibéricas
e político. De um lado, encontra-se a na formação da nossa sociedade.2 Para
análise de padrões socioculturais que Buarque, o personalismo é a herança
dotariam a atividade política no Brasil mais fundamental que recebemos da
de caracteres específicos, os quais não colonização portuguesa, no sentido
são completamente coerentes com os de que está na base de muitos dos
princípios da democracia liberal. De processos formativos da sociedade
outro lado, temos a querela entre o brasileira. A cultura da personalidade,
desenvolvimento econômico e o chamado segundo o autor, é o traço mais
“desenvolvimento político”, isto é, a distintivo da evolução das nações
discussão em torno da possibilidade de ibéricas (e que elas não partilham com
se manter um padrão de crescimento os demais países europeus). Consiste
da economia ao mesmo tempo em que na importância particular que atribuem
se busca a consolidação de um regime ao valor próprio da pessoa humana, à
político democrático. Para ambos os autonomia de cada um em relação aos
eixos de discussão, os autores com que semelhantes (Holanda, 2009: 32).
trabalharemos desenvolveram reflexões Seria o personalismo a raiz tanto
fundamentais. dos nossos muitos males, como
Esta divisão temática permite, ao a preponderância de uma ética
mesmo tempo, distinguir as reflexões aventureira em relação a uma ética
dos autores, e aproximá-los em alguns do trabalho ou a subordinação do
dos seus pressupostos políticos mais elemento cooperativo e racional ao
fundamentais. Essa técnica de exposição pessoal e afetivo, como também de
deixa entrever também que aquelas algumas de nossas poucas virtudes,
discussões não ficaram restritas como a plasticidade. [...] Para
Buarque, também não existe solução
ao momento de produção desses

1
Importante frisar que não estamos fazendo um estudo exaustivo de suas obras, mas apenas tratando de
aspectos específicos das mesmas, relevantes para o tema em questão. Para outras visões acerca dessa
problemática, ver Ricupero & Ferreira (2005), Rodrigues (2007), Souza, L. (2007).
2
A análise que segue está focada nas suas obras mais influentes – Raízes do Brasil (publicada inicialmente
em 1936 e depois, substantivamente reformulada, em 1948) e Os Donos do Poder (que teve a primeira
edição publicada em 1958 e a segunda, muito ampliada, em 1975). Para uma comparação entre as difer-
entes versões das respectivas obras, ver Waizbort (2011) e Balbino (2002).
131
Enfoques Vol.1, n.14.

de continuidade entre personalismo da gestão política brasileira, para o


e herança rural. Pelo contrário, é autor, deriva da influência de padrões
precisamente pela ubiquidade da societários formados no (ou de acordo
influência rural avassaladora que com) o âmbito familiar patriarcal:
[ele] explica as formas mais abstratas
e permanentes que o personalismo [Um] dos efeitos decisivos
assume no nosso país. Nesse sentido, da supremacia incontestável,
o patriarcalismo, especialmente na absorvente, do núcleo familiar
sua versão patrimonialista, seria está em que as relações que se
a forma política específica ao criam na vida doméstica sempre
personalismo. (Souza, J., 2000: 164) forneceram o modelo obrigatório de
qualquer composição social entre
Segundo o historiador paulista, a nós. Isso ocorre mesmo onde as
família patriarcal era o centro a partir instituições democráticas, fundadas
do qual se dinamizavam os processos em princípios neutros e abstratos,
políticos e econômicos da sociedade pretendem assentar a sociedade em
brasileira colonial. Nos domínios rurais normas antiparticularistas. (Holanda,
relativamente isolados e autossuficientes 2009: 146)
que se formaram nesse período, os
Derivaria dessa “supremacia
senhores de terras absorviam parte
incontestável” do “núcleo familiar” o
das funções do Estado, sobretudo as
desagrado dos brasileiros quanto às
funções judiciárias – as quais, por essa
relações burocráticas e impessoais,
via, acabavam por se tornar, em vez de
características do Estado, e o fato
principais garantidoras de direitos civis,
de tentarmos sempre reduzi-las ao
simples instrumento de poder pessoal.
padrão pessoal e afetivo. Padrões
A influência dessa configuração
que, justamente porque baseados em
familiar se estenderia no espaço e no
critérios como simpatia e lealdade,
tempo na medida em que os indivíduos
são necessariamente assimétricos,
que tocariam à frente os processos de
estabelecem uma hierarquia entre os
urbanização e industrialização no Brasil
indivíduos na qual os “conhecidos”
provinham desse meio. Formados nesse
(“protegidos”, “amigos” etc.) são sempre
ambiente familiar patriarcal, não era fácil
privilegiados em relação aos outros,
para os “detentores das posições públicas
“desconhecidos”, “estranhos”. Ou
de responsabilidade” compreenderem “a
seja, enquanto a política democrática
distinção fundamental entre os domínios
moderna se fundamenta na busca
do privado e do público” (Holanda,
de uma igualdade (ao menos formal)
2009: 145). Sérgio Buarque os chama
dos indivíduos, nossa matriz cultural
de funcionários “patrimoniais”, para
nos conduziria ao estabelecimento de
os quais a gestão pública (inclusive a
distâncias e hierarquias entre eles.
política) apresenta-se como assunto do
Toda essa configuração social
seu interesse particular, não estando
leva à constituição, no âmbito da
relacionada a interesses objetivos,
política institucional, de uma camada
“como acontece no verdadeiro Estado
social voltada para a realização dos
burocrático, em que prevalecem a
seus interesses e dos seus iguais, não
especialização das funções e o esforço
particularmente preocupada com as
para se assegurarem garantias jurídicas
necessidades e desejos da nação como
aos cidadãos” (Holanda, 2009: 146).
um todo. Ocorre uma verdadeira cisão
Assim, o caráter patrimonialista
132
Enfoques Vol.1, n.14.

entre Estado e nação, em que apenas o próprio estamento burocrático. “Sobre


primeiro polo passa a contar em termos a sociedade, acima das classes, o
da confecção de políticas e do controle aparelhamento político [...] impera, rege
dos caminhos da transformação social e governa, em nome próprio, num círculo
brasileira. Não é por acaso, arremata impermeável de comando” (Faoro, 2008:
o autor, que a “ideologia impessoal 824).
do liberalismo democrático jamais se A característica mais importante
naturalizou entre nós” (Holanda, 2009: desse Estado patrimonial (para os
160). É nesse sentido que, segundo fins restritos do presente trabalho),
Sallum Jr. (2012: 50), em Raízes do conforme traçada por Faoro, está em
Brasil, que ele necessariamente coexiste com
um sistema político marcado por uma
a noção de democracia referia-se
autocracia de caráter autoritário (Faoro,
a uma relação política inexistente
2008: 829). Trata-se de uma organização
no Brasil, mas que apontava para
uma aspiração cujo suporte social e política na qual um único detentor do
político estava ainda em construção; poder (uma só pessoa, uma assembleia,
ela se definia em contraponto aos um comitê, uma junta ou um partido)
valores do personalismo e às relações monopoliza o poder político sem que
sociopolíticas oligárquicas. Estas seja possível aos seus destinatários
relações oligárquicas de mando se a participação real na formação da
materializavam, institucionalmente, no vontade estatal. “O único detentor [do
Estado patrimonial e se assentavam poder político] impõe à comunidade
no predomínio agrário, na família sua decisão política fundamental, isto
patriarcal e na escravidão, excluindo
é, ‘dita’-a aos destinatários do poder”
do corpo político uma grande arte
(Loewenstein, 1964 apud Faoro, 2008:
dos indivíduos subordinados ao
Estado. 829). Nessas condições, segundo Faoro,
“a soberania popular não existe, senão
Esse diagnóstico coincide, em como farsa, escamoteação ou engodo”
linhas gerais, com a análise de Raymundo (Faoro, 2008: 829).
Faoro acerca da conformação do Estado É notório como, em Faoro, a
brasileiro. Também enfatizando a herança “herança ibérica” do patrimonialismo
ibérica a marcar nossa configuração recai, sobretudo, na conformação
política, o autor aponta para como do Estado. Ao contrário de Sérgio
teríamos enraizado um modelo de Estado Buarque de Holanda, cujas noções
derivado basicamente, em seus traços de “personalismo” e “cordialidade”
fundamentais, da tradição histórica remetem ao tecido mesmo da vida
portuguesa, um Estado cujo controle social, às relações sociais entendidas
político-administrativo é exercido, desde de modo amplo – na perspectiva de
sua mais tenra formação, pela camada Faoro, o “patrimonialismo” aplica-se a
social que o autor denomina de um âmbito bem mais restrito. Para usar
“estamento burocrático”. O instrumento a distinção de Vianna (1999), teríamos
de poder desse estamento é o controle em Faoro o patrimonialismo como um
patrimonialista do Estado – um controle “fenômeno de Estado”, e não como um
em que as fronteiras entre as esferas “fenômeno societal”, como seria o caso
pública e privada são atenuadas para em Florestan Fernandes e Maria Sílvia
satisfazer imperativos ditados pelo de Carvalho Franco, por exemplo. Para
essa concepção centrada no domínio
133
Enfoques Vol.1, n.14.

estatal, o “atraso” da sociedade incrustada na formação da sociedade


brasileira (seu tumultuado caminho em brasileira. Não se trata, portanto, de uma
direção à modernização) seria exceção de certos períodos históricos,
mas do próprio andar normal da política
resultante de um vício de origem,
brasileira.
em razão do tipo de colonização a
que fomos submetidos – a chamada A pressão da ideologia liberal e
herança do patrimonialismo ibérico democrática não quebrou, nem
– cujas estruturas teriam sido diluiu, nem desfez o patronato
reforçadas ainda mais, com o político sobre a nação, impenetrável
transplante, no começo do século ao poder majoritário. [...] O poder
XIX, do Estado português para – a soberania nominalmente popular
o solo americano. Desse legado, – tem donos, que não emanam da
continuamente reiterado ao longo nação, da sociedade, da plebe ignara
do tempo, adviria a marca de uma e pobre. (Vianna, 1999: 836-837)
certa forma de Estado duramente
autônomo em relação à sociedade Em suma, para Buarque e Faoro
civil, que, ao abafar o mundo dos a distinção – ou mesmo a distância
interesses privados e inibir a livre – que se estabelece historicamente
iniciativa, teria comprometido entre Estado e nação no Brasil não
a história das instituições com é condizente com um regime político
concepções organicistas da vida
democrático. Mas nos cabe perguntar
social, e levado à afirmação da
racionalidade burocrática em
– e é essa a questão central aqui –
detrimento da racional-legal. (Vianna, qual é a concepção de democracia
1999: 175) que está subjacente a essas críticas?
Não que essa problemática se eleva
Na perspectiva de Faoro, este explicitamente ao nível de reflexão
quadro é completamente distinto de uma dos autores – uma determinada noção
estrutura constitucional normativamente de democracia está pressuposta em
democrática. Nesta, mesmo que o suas análises, e justamente por isso é
controle efetivo do poder político importante, na medida em que fornece
esteja nas mãos de elites possuidoras o horizonte normativo a partir do qual
(minoritárias, por definição), os suas críticas são realizadas.
verdadeiros detentores do poder – isto Segundo interpretamos, as
é, as camadas sociais que compõem reflexões dos autores se aproximam de
o povo – participam da formação das uma concepção de democracia guiada
decisões estatais mediante mecanismos por princípios liberais. É certo que,
de controle e seleção dessas elites. historicamente, essas duas doutrinas
“Não importa que o encadeamento que políticas nem sempre foram compatíveis
vai da cúpula à base esteja enrijecido – muito pelo contrário. Como mostra
por minorias detentoras, contanto que Bobbio (2007: 7-8), “liberalismo” é,
o circuito percorra a escala vertical” antes de tudo, uma concepção de
(Vianna, 1999: 829-830). Estado, na qual este tem poderes e
Faoro alcança a mesma conclusão funções limitadas; um Estado liberal
que Buarque: a cisão entre Estado não é necessariamente democrático:
e nação, com uma independência ao contrário, realiza-se historicamente
característica daquele quanto aos em sociedades nas quais a participação
interesses desta, está estruturalmente no governo é bastante restrita, limitada

134
Enfoques Vol.1, n.14.

às classes possuidoras. “Democracia”, no pensamento dos intérpretes do


por sua vez, segundo o autor italiano, Brasil aqui analisados. O liberalismo
é uma forma de governo na qual o democrático é aqui concebido como
poder está nas mãos da maioria; um uma “ideologia política”3 comprometida
governo democrático não dá vida com um conjunto específico de valores
necessariamente a um Estado liberal: e crenças, em especial o indivíduo,
este último é justamente posto em a liberdade, a razão, a justiça e a
crise pelo progressivo processo de tolerância (ver Heywood, 2010: 40).
democratização produzido pela gradual
O tema central da ideologia liberal é
ampliação do sufrágio até o sufrágio
o compromisso com o indivíduo e o
universal.
desejo de construir uma sociedade
Mas também é igualmente certo em que as pessoas possam se
que as duas doutrinas encontrarão realizar e satisfazer seus interesses
compatibilidade ao longo dos seus pessoais. Os liberais acreditam que
respectivos desenvolvimentos, ainda os seres humanos são, acima de
que não mantenham intocadas suas tudo, indivíduos, dotados de razão.
características originais. Como diz Bobbio Daí decorre que todo indivíduo
(2007: 42-43): “Não só o liberalismo é deve desfrutar da máxima liberdade
compatível com a democracia, mas a compatível com uma liberdade
democracia pode ser considerada como similar para todos. Porém, embora
tenham os mesmos direitos jurídicos
o natural desenvolvimento do Estado
e políticos, os indivíduos devem ser
liberal apenas se tomada não pelo lado
recompensados de acordo com seu
de seu ideal igualitário, mas pelo lado da talento e sua disposição para o
sua fórmula política, que é [...] a soberania trabalho. As sociedades liberais são
popular”. Hoje o método democrático organizadas politicamente em tono
é necessário para a salvaguarda dos de dois princípios: constitucionalismo
direitos fundamentais da pessoa, que e consentimento, criados para
estão na base do Estado liberal. A maior proteger os cidadãos dos riscos de
garantia de que os direitos de liberdade um governo tirano. (Heywood, 2010:
sejam protegidos contra a tendência 37)
dos governantes de limitá-los e suprimi-
Assim, mais do que observar a
los está na participação direta ou
vinculação dos autores com formulações
indireta dos cidadãos, do maior número
específicas do liberalismo, seja o
de cidadãos, na formação das leis.
“clássico” ou o “moderno” (ver Merquior,
Liberalismo e democracia encontram-
1991), o que faremos é analisar como
se, conformando uma concepção de
a formação social brasileira, na análise
democracia assentada em princípios
tanto de Holanda quanto de Faoro,
políticos do liberalismo.
desenrola-se, negando alguns dos
São estes princípios que mais
princípios norteadores da “ideologia
diretamente importam para o presente
liberal”.
trabalho, dado o caráter de apresentação
Comecemos pelo individualismo
difusa que essa ideologia apresenta

3
Na caracterização da “ideologia liberal”, tomamos como guia principal a sistematização de Heywood
(2010). Mas nos servimos também do suporte de Bobbio (2007) e Merquior (1991).

135
Enfoques Vol.1, n.14.

moderno, esta “crença na importância decisões sem qualquer vínculo de


suprema do indivíduo acima de qualquer mandato. [...] [A] democracia moderna
grupo social ou corpo coletivo” pressupõe a atomização da nação e
(Heywood, 2010: 41), característico do a sua recomposição num nível mais
elevado e ao mesmo tempo mais
liberalismo. Aparentemente ele poderia
restrito que é o das assembleias
se aproximar do personalismo, conforme
parlamentares. Mas tal processo de
definido por Sérgio Buarque de Holanda. atomização é o mesmo processo
No entanto, na verdade, eles diferem do qual nasceu a concepção do
em vários aspectos, principalmente (isto Estado liberal , cujo fundamento deve
é, tomando por referência os objetivos ser buscado [...] na afirmação dos
que nos interessam neste trabalho) nas direitos naturais e invioláveis do
distintas direções políticas que apontam. indivíduo. (Bobbio, 2007: 36, grifos
De um lado, o individualismo foi nossos)
a base para a luta liberal em torno
da garantia de direitos e liberdade Nas nações ibéricas [...] o princípio
no âmbito político, econômico e unificador foi sempre representado
social (Bobbio, 2007: 11-16) – direitos pelos governos. Nelas predominou,
e liberdade cuja negação está na incessantemente, o tipo de
base do Estado patrimonial conforme organização política artificialmente
teorizado por Faoro –, os quais foram mantida por uma força exterior, que,
posteriormente incorporados como nos tempos modernos, encontrou
uma das suas formas características
pressuposto fundamental da democracia
nas ditaduras militares [...]. Por isso
liberal (Heywood, 2010: 52-53). De outro
mesmo que rara e difícil, a obediência
lado, na visão de Buarque de Holanda, aparece algumas vezes, para os
o personalismo dá origem a um tipo povos ibéricos, como virtude suprema
de solidariedade social restrita aos entre todas. E não é estranhável que
ambientes em que há vinculação de essa obediência [...] tenha sido até
sentimento mais do que relações de agora, para eles, o único princípio
interesses, sendo antes inimigo do que político verdadeiramente forte. [...]
favorecedor das associações políticas Não existe, a seu ver, outra sorte de
estabelecidas sobre um plano vasto disciplina perfeitamente concebível,
como o nacional (Sallum Jr., 2004). Um além da que se funde na excessiva
centralização do poder e na
princípio (o individualismo) aponta para a
obediência. (Holanda, 2009: 38-39,
democracia e a luta por direitos; o outro
grifos nossos)
(o personalismo), para o autoritarismo e
a subserviência. Observe-se a diferença:
A dissolução do Estado de
Como bem aponta Sallum Jr.
estamento liberta o indivíduo na sua (2012: 54), o personalismo ibérico
singularidade e na sua autonomia: opunha-se ao individualismo moderno
é ao indivíduo enquanto tal, não porque, enquanto o primeiro “era uma
ao membro de uma corporação, afirmação das qualidades de pessoa
que cabe o direito de eleger os apenas para parte dos membros da
representantes da nação – os quais sociedade e tinha como pressuposto a
são chamados pelos indivíduos desigualdade essencial dos indivíduos”,
singulares para representar a nação o segundo “tem como pressuposto a
em seu conjunto e devem, portanto, igualdade essencial entre os homens,
desenvolver sua ação e tomar suas

136
Enfoques Vol.1, n.14.

desiguais apenas pelas condições em dessa comparação aparece a crítica de


que vivem e, por consequência, pelos Faoro ao papel do Estado como condutor
resultados a que chegam”. das transformações da sociedade,
Em segundo lugar, nós temos significando aqui a necessidade do
o princípio da liberdade negativa, fortalecimento das diversas esferas
característico do liberalismo clássico, da sociedade civil de modo a torná-
enquanto ausência de restrições las aptas a fazer frente a essa “social
ou limitações externas ao indivíduo enormity” (Faoro, 2008: 837) que é o
(Heywood, 2010: 44; Merquior, 1991: 25). Estado no Brasil (uma clássica visão
Ora, se pensarmos a própria configuração liberal, por sinal).
das relações sociais característica da O quanto esta configuração social
família patriarcal, conforme colocada foge aos princípios liberais, é evidente,
por Holanda (2009: 80), temos já aí uma na afirmação de Bobbio, de que a
negação deste princípio, na medida em democracia, hoje, é o melhor método
que é básica a sujeição ao patriarca. de proteção dos direitos individuais,
Como apontamos acima, a concentração especialmente da liberdade.
de diversos poderes em suas mãos o
[A] maior garantia de que os direitos
colocava como catalisador de poderes
de liberdade sejam protegidos
arbitrários, voltados não para a garantia
contra a tendência dos governantes
das liberdades individuais, mas para a de limitá-los e suprimi-los está na
realização dos seus próprios interesses. possibilidade que os cidadãos tenham
Enquanto essa descrição também se de defendê-los contra os eventuais
aplica ao Estado patrimonial de Faoro, abusos. O melhor remédio contra
acreditamos que é na caracterização do o abuso de poder sob qualquer
“capitalismo político” que podemos ver forma [...] é a participação direta
mais claramente a negação do princípio ou indireta dos cidadãos, do maior
da liberdade (negativa). O próprio número de cidadãos, na formação
Faoro (2008: 819) coloca que, sob esse das leis. (Bobbio, 2007: 43-44)
capitalismo politicamente orientado, a
Por fim, temos o próprio princípio
comunidade política conduz, da racionalidade (Heywood, 2010: 44-
comanda, supervisiona os negócios, 46), herança iluminista que o liberalismo
como negócios privados seus, na partilha com todo o chamado pensamento
origem, como negócios públicos “moderno”, e que, nesse contexto, diz
depois, em linhas que se demarcam respeito à superação da tradição e
gradualmente. O súdito, a sociedade, dos costumes como embasamento da
se compreendem no âmbito de vida social. Trata-se da construção
um aparelhamento a explorar, a
de um ordenamento social com base
manipular, a tosquiar nos casos
extremos.
em princípios laicos e que tomam
por referência o desenvolvimento do
O que é justamente o oposto pensamento científico. Ora, como vimos
do “capitalismo moderno, de índole nas análises de Faoro e Buarque, ambos,
industrial, racional na técnica e fundado comparando mesmo que indiretamente
na liberdade do indivíduo – liberdade a formação histórica brasileira com
de negociar, de contratar, de gerir países europeus ou os Estados Unidos,
a propriedade sob a garantia das parecem caminhar no sentido de
instituições” (Faoro, 2008: 819). Por trás mostrar que o Brasil, a partir de tais

137
Enfoques Vol.1, n.14.

parâmetros, não é “moderno”, que o aberta ao controle popular, em que os


aparentemente “moderno”, aqui, esconde interesses e necessidades das camadas
padrões sociais “arcaicos”. desfavorecidas são em alguma medida
E é justamente por isto que a levadas em conta, até pelo fato de
noção de uma “herança ibérica” é serem destas que parte a legitimidade
sempre lida numa chave negativa. Pois, do controle político por uma minoria
seja em termos do predomínio de representativa.
princípios familiares em outras esferas O corolário de tudo isso é a negação,
sociais (Buarque), seja em termos do na realidade brasileira conformada por
patrimonialismo, com a sua confusão legados políticos, culturais e sociais
entre as esferas do público e do privado ibéricos, dos princípios que norteiam a
(Faoro), os padrões socioculturais que constituição de uma democracia liberal.
vieram de Portugal são justamente No caso, especificamente da garantia
o oposto dos princípios racionais de das liberdades civis e da limitação do
ordenamento social. poder estatal em prol de uma sociedade
Por um lado, a “colonização” de civil que possa exercer a “soberania
diversas esferas sociais pelo padrão de popular” (Bobbio, 2007: 42-43; Heywood,
relações sociais característico da família 2010: 52-55).
patriarcal conforma uma sociedade Mas é preciso que fique claro
marcada, de cima a baixo, por relações que, em nenhum desses autores, a
hierárquicas, concentradoras de um aceitação de tais pressupostos redunda
poder arbitrário, em que o lema “Para numa defesa puramente institucional da
os amigos, tudo; para os inimigos, a democracia liberal. A questão primordial
lei” não poderia ser mais distante do não consiste nos arranjos jurídicos
“Igualdade, liberdade, fraternidade” necessários à conformação no país de
fixado pela Revolução Francesa de 1789. eleições periódicas livres, parlamento
Ou seja, mais do que os ordenamentos independente etc. O ponto que preocupa
jurídicos fixados racionalmente, é o esses autores, na nossa leitura, são os
padrão de relações familiares e de pressupostos socioculturais necessários
amizade (por definição, restritos) que para que os princípios liberais da
dita os caminhos da vida social e democracia sejam minimamente
política. concretizáveis. Trata-se do estudo das
Por outro lado, o controle condições sociais de possibilidade da
patrimonial e autocrático-autoritário do implantação de uma democracia liberal
Estado por uma camada social que não no Brasil.4
se renova, voltada exclusivamente para a Democracia e os pressupostos do
consecução dos seus próprios interesses, desenvolvimento
e que relega o “Povo” à condição de
mera massa de manobra, é, na verdade, Sobretudo a partir do 2º Pós-
o antípoda de uma organização política Guerra, a “linguagem política dominante”

4
É esta a razão pela qual o nosso estudo não se concentra nos arranjos institucionais delimitados pela
tradição liberal para a conformação de um governo democrático. Dado o próprio conjunto de temas tra-
balhados pelos autores aqui analisados, nos interessa menos questões como divisão de poderes e gov-
ernabilidade, por exemplo, e mais o modo como a própria formação da sociedade brasileira dificultaria a
concretização dos pressupostos ideológicos da democracia liberal.

138
Enfoques Vol.1, n.14.

no Brasil se caracteriza pelo enfoque as quais apenas indiretamente se


na problemática do desenvolvimento e apropriariam dos benefícios materiais
do nacionalismo (Weffort, 2006: 298). e morais do desenvolvimento. Este não
A respeito desse contexto, Lamounier consiste, portanto, numa questão apenas
(2011: 152) afirma que a democracia “técnica” ou “econômica”, possuindo
estaria sem lugar na discussão uma clara carga política: a inexistência
intelectual. Segundo o autor, entre as de mecanismos sociais capazes de
décadas de 1950 e 1960 a ênfase garantir o controle e a orientação
do debate político se deslocaria para coletivos das opções de mudança social
a questão da industrialização como invariavelmente conduz à concentração
requisito da autonomia nacional, o foco dos benefícios da mudança nas mãos
sendo, então, menos a consolidação das camadas sociais possuidoras e
e ordenação de um “sistema político detentoras do poder.
democrático”, do que os “‘obstáculos’ Fernandes vai buscar as raízes
políticos ao crescimento econômico”. histórico-sociais dessa situação
Florestan Fernandes é um autor na própria formação da sociedade
que encarna exceções a esta hipótese, brasileira. Segundo ele, a organização
na medida em que trata conjuntamente da sociedade colonial e imperial se dava
as problemáticas da democracia e do de um modo tal que a participação
desenvolvimento. Conforme as palavras regular em direitos e deveres
do próprio: reconhecidos socialmente obedecia a
critérios e normas estabelecidos pela
Por motivos diferentes, os alvos de
tradição, como a integração a uma dada
desenvolvimento social, valorizados
comunidade familiar, o sexo, a idade e,
tanto nos “países adiantados” (como
a Inglaterra, a Alemanha, a França, evidentemente, a situação econômica e
os Estados Unidos etc.) quanto a localização na hierarquia social.
nos “países subdesenvolvidos” (da Graças a essa composição
América, da Ásia, da Oceania ou da estrutural, a maior parte da população
África), incentivam mudanças direta brasileira adulta não tinha participação
ou indiretamente subordinadas aos direta na vida política, ou nela tinha acesso
interesses e aos valores sociais das para exercer atividades subordinadas
camadas dominantes na estrutura aos interesses das camadas dominantes.
de poder. Medidas formuladas em Esta situação é que dá origem ao
nome dos “interesses da nação”
que Florestan chama de “democracia
raramente correspondem, de fato, às
restrita”, um dado modo de organização
necessidades vitais da comunidade
como um todo. (Fernandes, 2008b: do poder político e social marcado pela
293) expressão na sociedade civil apenas (ou
majoritariamente) de representantes das
Aqui já estão colocados os camadas possuidoras, que a República
principais pontos da crítica que teria recebido como herança do Império
Fernandes realiza ao desenvolvimentismo. e que teria marcado a história posterior
Fundamentalmente, esta crítica aponta do Brasil.
para a exclusão, no que tange aos No entender de Fernandes,
alvos da mudança social planejada, as elites das camadas dominantes
dos interesses e valores sociais das trabalharam (e trabalham) contra a
camadas majoritárias da população, implantação de uma ordem de coisas
compatível com os “ideais de igualdade,
139
Enfoques Vol.1, n.14.

de segurança e de plena realização humana, a democratização da


da pessoa difundidos pela civilização educação e do poder, a divulgação
moderna”, porque “temem não encontrar e a consagração de modelos
de novo um lugar ao sol na estrutura racionais de pensamento e de
ação, a valorização e a propagação
de poder de uma sociedade brasileira
do planejamento em matérias de
renovada” (Fernandes, 1976b: 207).
interesse público etc. (Fernandes,
Essas camadas só aceitam as inovações
2008b: 295)
que conseguem dominar, dirigir e
aproveitar, ou seja, as inovações que A inserção do Brasil na esfera
não modificam a estrutura da situação de influência deste tipo de civilização
e suas perspectivas de desenvolvimento. torna inevitável a absorção de
Em suma, Fernandes aponta para determinados padrões societários e
o fato de que, numa nação que não matrizes culturais indispensáveis para
possui mecanismos consistentes de o seu desenvolvimento. Para o autor,
democratização do poder, as escolhas entre outros fatores, a fixação do
dos alvos básicos do desenvolvimento desenvolvimento em torno dos interesses
econômico, político e social são da classe dominante, exclusivamente,
feitas por pequenas minorias, mais impede a conformação dos caracteres
empenhadas em atender a seus próprios essenciais para o estabelecimento
interesses sociais, que a levar em conta de uma ordem social competitiva e
os interesses sociais da coletividade democrática.
como um todo. Ou seja, para Fernandes – nesse
Analiticamente, vamos nos deparar momento da sua produção intelectual,
com uma situação semelhante à surgida por volta das décadas de 1950 e
a partir do estudo de Sérgio Buarque 1960 (ver Portela Júnior, 2013) – a
de Holanda e Raymundo Faoro. As concretização da democracia no Brasil
peculiaridades do processo de formação aparece umbilicalmente relacionada
da sociedade brasileira apontam para as ao desenvolvimento da ordem social
dificuldades de conformação no Brasil competitiva. A democracia faria parte
de um regime democrático entendido das “potencialidades” da civilização
nos moldes liberais. Mas Florestan é moderna ainda a serem devidamente
mais explícito: são as “deformações” da exploradas. Em várias ocasiões, ele afirma
ordem social competitiva no Brasil que que a democratização (da renda, do
obstaculizam o solapamento dos padrões prestígio social e do poder) é “inerente”
políticos e sociais tradicionais, forjados à emergência e ao desenvolvimento
na sociedade colonial (Fernandes, 2008a: da ordem social competitiva; e que,
573). Um padrão restrito de democracia no caso brasileiro, a persistência de
vai na contramão da história ao impedir desigualdades herdadas da ordem social
a generalização de direitos e obrigações tradicionalista conformam “deformações”
sociais que atuam como fundamentos no padrão de integração, funcionamento
da ordem social competitiva. e evolução da ordem social competitiva,
que obstam, por consequência, a
A expansão orgânica da civilização
baseada na ciência e na tecnologia
conformação de uma democracia no
científica requer, essencialmente, a País (ver Fernandes, 2008b: 8).
universalização e o respeito pelos Assim, para o autor, o padrão
direitos fundamentais da pessoa civilizatório da sociedade ocidental

140
Enfoques Vol.1, n.14.

moderna necessariamente implica aquela que começa a surgir no século


a conjugação entre ordem social XIX e que desemboca na construção dos
competitiva e (algum nível de) fundamentos da “democracia liberal”)
democratização do poder, da renda e do foi e é dependente da aceitação de
prestígio social. Ou seja, a conformação pressupostos capitalistas. Segundo
de uma ordem social democrática deve Macpherson (1978), tendo surgido nas
ser buscada também porque permite sociedades capitalistas de mercado, a
superar as “inconsistências” que democracia liberal, como conceito (e,
marcam o processo de conformação de depois, como instituição concreta), desde
uma ordem social competitiva no Brasil. o início admitiu uma pressuposição
Isto é, superar as “falhas” que advêm básica inconsciente que o autor define
da sua harmonização com fatores como “o mercado marca o homem”.
característicos do ordenamento social No campo da teoria política, essa
do período colonial. característica teria apenas se acentuado
com o passar do tempo. Veja-se a
Isso não significa afirmar que
formulação do modelo de democracia
Florestan Fernandes concebeu a
mais influente no período pós-guerra,
sociedade de classes brasileira
como um projeto abortado; pelo o de Joseph Schumpeter. Nele, a
contrário, em sua interpretação, a democracia aparece, primeiro, como
sociedade de classes estava em um simples mecanismo para escolher e
pleno desenvolvimento no Brasil. autorizar governos, e, segundo, como um
No entanto, se ela não era um mecanismo marcado pela competição
projeto frustrado era, ao menos, um entre dois ou mais grupos dos quais
projeto mutilado, pois lhe faltava o sairão as minorias (elites) governantes.
vigor de um elemento central no Macpherson é claro ao desnudar a
moderno padrão de civilização: a analogia pressuposta nesse modelo: a
igualdade na competição (em termos
democracia, aqui,
de uma ordem social competitiva)
e a igualdade na participação do é tão somente um mecanismo
processo politico e no usufruto dos de mercado; os votantes são os
direitos previstos pelo estatuto legal consumidores; os políticos são os
(em termos de uma ordem social empresários. Não surpreende que o
baseada no princípio político-jurídico homem que primeiramente propôs
democrático). [...] Em suma, para esse modelo fosse um economista
atingir sua plenitude – não sendo que passou toda a sua vida
apenas uma caricatura de uma profissional elaborando modelos de
ordem social que se realiza somente mercado. Nem surpreende que os
no âmbito do crescimento econômico teóricos (e depois os publicistas e
– a sociedade de classes brasileira o público) tomassem esse modelo
teria de consolidar efetivamente o como realista, porque também
estilo de vida democrático, sob pena eles viveram e trabalharam numa
de sua frustração (Souza, P., 2007: sociedade impregnada de conduta
90) mercantil. Não apenas o modelo
do mercado parece corresponder,
Florestan Fernandes não está e, portanto, explicar, ao verdadeiro
sozinho nessa linha de argumentação. comportamento político das principais
Em termos históricos, a reflexão partes componentes do sistema
moderna sobre a democracia (isto é, político – os votantes e os partidos;
ele parecia justificar aquela conduta,
141
Enfoques Vol.1, n.14.

e daí todo o sistema. (Macpherson, política, também envolveria denotações


1978: 82-83) democráticas. Nas palavras do autor:
Não é nossa intenção aproximar o Mas, quando ele [Florestan Fernandes]
pensamento de Fernandes de Schumpeter, fala numa “ordem social competitiva”,
apenas destacar o pressuposto comum ele está pensando o competitivo em
da realização de democracia no seio de termos que envolvem uma referência
uma ordenação capitalista do sistema democrática, eu quase diria uma
incorporação pelo viés socialista de
econômico e das relações sociais. Mas
certos temas ao pensamento liberal,
a analogia encontra aí seus limites, pois a saber, uma ordem social em que
o próprio sentido com que Fernandes os mecanismos de organização
concebe a democracia, enfatizando a e funcionamento dos processos
necessidade da definição coletiva dos sociais assegurem a possibilidade de
rumos do desenvolvimento da nação, acesso universal a meios, recursos
está na contramão de um pensamento e instrumentos e na qual de alguma
que restringe a elites dominantes o papel maneira [...] haja algo assim como
de condução do futuro da sociedade. a possibilidade de uma carreira
A diferenciação continua mesmo universal aberta ao mérito. (Cohn,
no nível da relação axiológica do 1986: 135-136)
sociólogo paulista, tanto com o modelo Nesse sentido, o desenvolvimento
estadunidense de democracia, quanto (democratizado) da ordem social
com a ordem social competitiva. De um competitiva no Brasil é visto como
lado, é notório como, no interior de o caminho possível e provável, nas
uma discussão acerca da incorporação condições imperantes no país, de
de dividendos da civilização moderna superar os entraves do “antigo regime”
no Brasil, ele afirma que “ninguém que mantém vivas formas pré e
tem dúvidas de que seria muito mais subcapitalistas de exploração do trabalho,
produtivo importar os ideais democráticos e que impedem a plena universalização
norte-americanos, verbi gratia, que da cidadania. É em termos dos seus
a forma histórica de realização atual potenciais democratizantes que tal
da democracia nos Estados Unidos” desenvolvimento é encarado e defendido,
(Fernandes, 1976a: 245). Isto porque e não como “solução política”, isto é,
Fernandes reconhece que “à democracia não significando uma identificação com
liberal são inerentes limitações a proeminência econômica, sociocultural
fundamentais, que redundam na sua e política da classe burguesa, que ela
incapacidade de eliminar iniquidades implica.
sociais que são incompatíveis com a
própria democracia” (Fernandes, 2008c: Democracia e liberalismo
167). As reflexões de Sérgio Buarque de
Na verdade, o próprio termo Holanda, Raymundo Faoro e Florestan
“ordem social competitiva” – que remete Fernandes, no quadro interpretativo
diretamente à constituição de uma estabelecido acima, nos parecem
ordem social capitalista, burguesa – expressivas de como a apropriação
não pode ser entendido apenas nessa do liberalismo democrático pode ser,
referência, segundo Cohn (1986). O uso simultaneamente, o fundamento de
do termo por Florestan Fernandes, nesse críticas sociais progressistas e uma
momento da sua trajetória intelectual e limitação em termos de perspectivas
142
Enfoques Vol.1, n.14.

políticas. questionar o quanto a relação entre


Num sentido, ela embasa críticas a democracia liberal e o capitalismo5
sociais que reclamam, e lutam, pela obstaculiza a realização desses mesmos
concretização dos seus ideais na ideais democráticos. Na verdade, uma
realidade histórica. O liberalismo crítica geral que se pode fazer aos três
democrático fornece como que moldes é que eles, em alguma medida, idealizam
ideais, marcados pelos princípios da os traços da evolução social, política e
igualdade, liberdade e fraternidade (e econômica dos países “centrais”, isto é,
mesmo da racionalidade, como é o dos países não ibéricos, para Buarque e
caso em questão), que possibilitam a Faoro, notadamente os Estados Unidos
apreensão das contradições político- (Souza, J., 2000); e os “casos clássicos”
sociais da formação brasileira sob uma ou “típicos” do desenvolvimento
perspectiva progressista. capitalista e da Revolução Burguesa,
Assim em Sérgio Buarque de para Fernandes (Cardoso, 2005: 23, 28).
Holanda, para quem a superação das Em Buarque, a aposta nas
matrizes culturais herdadas de Portugal relações sociais construídas no ambiente
possibilita o estabelecimento de relações urbano como principal caminho para
sociais, embasadas institucionalmente, a superação das nossas heranças
mais igualitárias e racionais entre as ibéricas (Souza, J., 2000: 167) deixa
pessoas, portanto não hierarquizadas não pensadas as hierarquias sociais que
a partir de “relações de simpatia” são estabelecidas por esse novo mundo
ou de relações familiares; em Faoro, urbano, as quais não se coadunam com
que contrapõe ao patrimonialismo a princípios que ditam a necessidade de
organização de um Estado aberto ao relações igualitárias entre as pessoas.
controle, mesmo que limitado, do “Povo”, Faoro, de modo semelhante, em sua
e que garanta liberdades individuais crítica do “capitalismo politicamente
fundamentais não apenas na esfera orientado”, não aborda as contradições
política, mas também na econômica; e sociais envolvidas no estabelecimento
em Fernandes, que advoga, no sentido e desenvolvimento do “capitalismo
de superar a “democracia restrita” que moderno”, as quais mantêm a exclusão
marca a história política brasileira, a intrínseca à ordem capitalista. Por fim,
definição coletiva (isto é, atenta aos Fernandes conscientemente põe em
interesses e necessidades da maioria) segundo plano o fato de que uma
dos rumos, do desenvolvimento da ordem social competitiva desenvolvida,
sociedade. ao mesmo tempo em que insere o Brasil
No entanto, a apropriação do na esfera da “civilização moderna”, não
liberalismo democrático é também altera o caráter subordinado das camadas
limitadora na medida em que fixa um sociais majoritárias. A constituição
horizonte político além do qual não se de uma ordem social democrática,
ousa avançar. No caso dos três autores estabelecida a partir de princípios
trabalhados, este limite se evidencia liberais, se pode em alguma medida
no fato de não chegarem ao ponto de contribuir para a definição coletiva dos

5
Uma “economia capitalista ou de iniciativa privada organizada em linhas mercadológicas” é mesmo uma
das principais características de um regime liberal-democrático, conforme Heywood (2010: 52).

143
Enfoques Vol.1, n.14.

rumos do desenvolvimento, encontra mais capaz de êxito no sentido de se


seus limites ao não possibilitar, por si constituir uma democracia no país.6
mesma, a superação das desigualdades Em todo caso, no conjunto, esses
econômicas e sociais intrínsecas à três autores mostram um aspecto da
ordem social competitiva. análise da democracia que aparece em
É certamente possível argumentar segundo plano atualmente: o estudo dos
que essas perspectivas dos autores – fundamentos sócio-históricos em que
ou, caso se precise fazer essa ressalva, a democracia brasileira se desenvolve.
o modo como nós interpretamos as Certamente eles fornecem um ponto de
perspectivas dos autores – advenha, em apoio para se construir a crítica seja de
boa parte, não de uma identificação análises exclusivamente voltadas para os
completa com o liberalismo democrático aspectos institucionais da democracia,
ou a ordem social competitiva; mas que, seja de estudos embasados numa visão
dentro das condições histórico-sociais anistórica do presente, que desconsidera
colocadas no Brasil, nos diferentes os próprios processos formativos da
momentos em que eles escreveram, sociedade brasileira.
eles viam esse caminho como sendo o

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6
Esse é certamente o caso de Florestan Fernandes, que escapa, em desenvolvimentos posteriores da sua
obra, do horizonte fixado pela incorporação do liberalismo democrático, quando passa a se assumir ex-
plicitamente como socialista (ver. Tótora, 1999; Portela Júnior, 2013).

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146
Enfoques Vol.1, n.14.

O PODER NO ISLÃ CLÁSSICO E NA FILOSOFIA


POLÍTICA DE IBN KHALDUN: UM ESTUDO DOS
CONCEITOS DE UMMA E ASSABIYA
Carlos Douglas Martins Pinheiro Filhoi

Resumo
Com o propósito de compreender a noção de poder no pensamento social árabe-
muçulmano, realiza-se um estudo dos conceitos de umma e assabiya, em diálogo
com Ibn Khaldun (1332-1402), na obra Al-Muqaddimah, e seus interlocutores. Neste
sentido, articulo elementos da narrativa biográfica do profeta Mohammad (Maomé, ou
Muhammad) com o propósito de construir uma sociogênese da umma, unidade político-
social precursora do Império Árabe-Islâmico. Por fim, retorno a Ibn Khaldun e a seu
conceito de assabiya, que tem como propósito designar os laços de solidariedade
advindos do parentesco, comunidades ou nações, traduzido com “espírito de corpo”
ou “solidariedade de grupo”.

Palavras chave: Poder; Política; Islã clássico; Ibn Khaldun; Pensamento social árabe-
muçulmano.

POWER IN CLASSICAL ISLAM AND IN IBN KHALDUN’S POLITICAL PHILOSOPHY:


A STUDY OF THE CONCEPTS OF UMMA AND ASSABIYA

Abstract:

To understand the notion of power in the Arab-Muslim social thought, this research
makes a study of the umma and assabiya concepts in dialogue with Ibn Khaldun
(1332-1402) in Al-Muqaddimah and his interlocutors. For the purpose of building a
sociogenesis of the umma – the political and social unit precursor of the Muslim
Empire –, we introduced the biographical narrative of the Prophet Muhammad (or
Mohammed). Finally, to demonstrate the socio-cultural intermingling of these two
concepts, we return to Ibn Khaldun and his concept of assabiya, which is designated
as bonds of solidarity arising from kinship, communities or nations, translated as
“Spirit of Corps” or “Group Solidarity”.
Keywords: Power; Policy; Classical Islamic philosophy; Ibn Khaldun; Islamic social
thought.

i
Carlos Douglas Martins Pinheiro Filho é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador vinculado ao Núcleo de
Pesquisas em Sociologia da Cultura (NUSC/UFRJ). Atualmente é professor de Sociologia pela Fundação de
Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (FAETEC), na Escola Técnica Estadual Henrique Lage.

147
Enfoques Vol.1, n.14.

Introdução religiosas, formuladas por intelectuais e


O propósito deste estudo grupos inseridos neste contexto com o
é compreender como o poder foi propósito de inserir estes autores como
abordado no pensamento social árabe- vozes legítimas para o diálogo com as
muçulmano, a partir dos conceitos de Ciências Sociais modernas.
umma e assabiya. A compreensão dos Parto dos conceitos de umma
conceitos depende do entendimento do e assabiya como categorias nativas,
contexto em que estes são reificados, procurando descrever e analisar os
e vice-versa, na medida em que o discursos de agentes, sua configuração
próprio conceito mantém “fossilizadas” e o seu contexto histórico. Busca-se
certas expressões dessas vivências desenrolar sua historicidade dando voz
e das formas de pensamento a ela aos protagonistas desta experiência,
culturalmente atreladas. Neste sentido, como Ibn Khaldun e outros, e seus
apesar de sua historicidade, penso que interlocutores como Bisso, Coggiola,
o estudo desses conceitos colabora na Lawrence, Alatas, Dhaouadi e Connell,
compreensão da noção de poder na com o propósito de traçar uma
atualidade, constituindo um patrimônio sociogênese1 desses conceitos, pela
intelectual que deve ser reivindicado descrição e análise histórico-cultural do
pelas Ciências Sociais. islã, abordando elementos da biografia
Este estudo também é uma do profeta Muhammad.
resposta ao etnocentrismo intelectual, Inicialmente procura-se
de maneira crítica, mas positiva e compreender a relação entre o islã e
propositiva (Spickard, 1998: 174). as demais religiões monoteístas, nas
Como alerta o autor, a transposição suas origens, pois a plurirreligiosidade
de modelos de análise ocidentais e os é uma noção-chave para compreender
pressupostos culturais euro-cristãos nas o conceito de umma, comunidade
formulações da sociologia da religião, fundada na tolerância com as religiões
como problema da autoridade religiosa monoteístas e tributária da tradição
em Weber, a teoria da secularização árabe pagã da Meca pré-islâmica.
e da escolha racional, não podem ser Neste sentido, pode-se pensar a umma
considerados paradigmas universais como uma comunidade plurirreligiosa
para compreender as religiões. Pelo nas origens, mesmo que não haja um
inverso, o propósito do trabalho é Estado “laico” no sentido ocidental,
considerar os elementos culturais, relativizando narrativa característica do
morais e éticos do Islã, sua cosmologia processo civilizatório euro-cristão.
própria e concepções sociopolíticas e Posteriormente, procura-se

1
Utilizo o conceito de sociogênese inspirado nas obras de Norbert Elias, O processo civilizador,
volumes 1 e 2 (Elias, 1992, 1993), em que define sua abordagem dos processos históricos, com-
preendendo sociogênese e psicogênese como elementos relacionais articulados em um processo
mais amplo de longa duração. A sociogênese, grosso modo, refere-se às mudanças gerais e es-
truturais deste mesmo processo histórico. Assim, Elias estudava um determinado processo civiliza-
tório, europeu, que acabou por influir nos demais, num sentido universal. Porém, destacamos que
compreendemos sua teoria como método, não sendo aplicáveis os mesmos pressupostos relativos
ao processo civilizatório europeu, como descrito por Norbet Elias, como modelo de compreensão
ético para o processo histórico específico da cultura árabe-muçulmana.

148
Enfoques Vol.1, n.14.

levantar elementos para compreender que Jesus era mais que profeta.
o entrelaçamento entre a religião e a (Lawrence, 2008: 27)
comunidade no islã, explorando o viés
sociopolítico do debate. Assim, descreve- Osvaldo Coggiola (2007) em
se como o profeta Mohammad tornou- Islã histórico e islamismo político,
se líder daquela comunidade ao fundar cita Karen Armstrong ao descrever a
a umma, e cujo poder decorre de uma origem do islamismo, dizendo que o
racionalidade política, comunitária e autor relacionou seu nascimento com
suprarreligiosa. mudanças significativas na vida social
Por fim, busca-se descrever dos coraixitas2 da região de Meca.
o conceito de assabiya a partir dos “Especificamente com uma mudança
estudos de Ibn Khaldun (1987) a respeito rápida e dramática de uma vida nômade
da ascensão e queda dos Estados, que nas estepes da Arábia para uma vida
trata de elementos do islã clássico, muito próspera baseada no comércio
outros acontecimentos históricos e da região de Meca” (Coggiola, 2007: 5).
acontecimentos de sua atualidade no O autor comenta que o Islã,
Norte da África. quando Mohammad começou a defini-lo,
recebeu uma variedade de influências,
Os Primórdios do Islã especialmente do Judaísmo e do
Na Meca pré-islâmica, Alá, que Cristianismo, religião com comunidades
significa o Deus em árabe, era mais um crentes na região. Após a queda do
dos 360 ídolos de pedra em torno da reino judeu de Asmoneus, em 37 a.C., e
Ka’ba, onde diversos cultos conviviam uma nova diáspora, os judeus haviam se
conjuntamente. A peregrinação e as sete instalado em toda a Península Arábica.
voltas em torno da Pedra Negra eram Era grande a sua comunidade em Meca
práticas comuns em diversos cultos. e nos arredores. Os cristãos também
eram numerosos na Arábia pré-islâmica
A Ka’ba havia se tornado uma Casa e o Cristianismo havia se espalhado
Sagrada muito frequentada, um lugar
pela península e pela África, onde a
que Abraão partilhava com outros,
com ídolos que representavam
Igreja Copta era forte e o Egito figurava
deuses locais e divindades tribais. como reino cristão.
Dizia-se que esses ídolos possuíam O Islamismo era uma síntese nova,
um poder que rivalizava com o do capaz de transcender e de superar
Deus de Abraão. Algumas pessoas as divisões entre as tribos, unindo os
iam a Meca lançavam dúvidas sobre árabes. Das condições novas de vida
o poder dos ídolos, dizendo que, surgia a necessidade, tanto como a
após Abraão, haviam surgido outros possibilidade, da união dos árabes
profetas, todos proclamando um sobre as divisões tribais. (Coggiola,
deus não presente nos ídolos. Alguns
2007: p. 6)
dos não-partidários dos ídolos eram
os judeus, cujo profeta era Moisés. Citando Armstrong, Coggiola
Outros eram os cristãos, cujo
(2007) apresenta como Mohammad foi
profeta era Jesus, embora alguns
o agente de uma nova espiritualidade
deles fossem mais longe, afirmando
ajustada às suas próprias tradições

2
Os coraixitas foram os integrantes da tribo dominante na cidade de Meca.

149
Enfoques Vol.1, n.14.

que se oferecia aos árabes, mas à sua frente. Disse Gabriel: “Recita!”
que também poderia proporcionar, Mohammad era analfabeto, porém disse
ao mesmo tempo, um conhecimento as palavras sem as ler, saíram de sua
universal para poder comerciar. Neste boca como se fizessem parte dele
sentido, o caráter “multicultural” do (Lawrence, 2008: 28-29).
povo muçulmano é interpretado como Assim se faz a “revelação” de
garantia de sobrevivência comercial, Deus a Mohammad, tornando-o a
adotando a tolerância como forma de última voz a serviço divino. O então
relação com o “outro” e de convívio negociante de Meca se transformará em
com a alteridade (Coggiola, 2007: 6). profeta, centrando-se na pregação do
O surgimento de Mohammad monoteísmo e no discurso da salvação
operou sérias mudanças na vida do juízo final. Sua voz, legitimada pela
cotidiana daquela sociedade. Ele sua experiência visionária da escritura
estava decidido a trilhar uma vida sagrada do “livro-visão”, muda sua vida,
moral ascética, com preces e jejuns, levando-o a pregação em Meca.
procurando uma “doutrina clara para A oralidade é um aspecto de
substituir o caos de divindades e os notória importância, reflexo não apenas
matadouros que eram os sacrifícios de do islã, mas de toda tradição oral pré-
sangue realizados em volta do templo islâmica na qual Mohammad estava
de Meca” (Rogerson, 2004: 101). inserido, fato traduzido no Corão, um
Do Comerciante ao Profeta livro para ser lido em voz alta, com
rimas que imprimem uma determinada
Mohammad era um comerciante entonação, fazendo da fala um canto. A
oriundo de uma família pobre da compreensão do Corão está ancorada
poderosa tribo dos Banu Quraysh ou “no patrimônio de récitas legendárias
coraixitas, força sociopolítica dominante que constituíam o fundo comum da
em Meca. A despeito de sua origem, era poesia árabe” (Bissio, 2012: 133).
órfão de pai e mãe, criado inicialmente Diga-se de passagem, antes de ser
pelo avô e, depois do falecimento um livro escrito, o Corão era um “livro-
deste, pelo tio Abu Talib. Por indicação memória” que o profeta Mohammad
deste tio, começou a trabalhar logo na recitava para sua esposa Khadijah e os
infância com a condução de camelos. primeiros muçulmanos e, depois, para
Amadurecido, casa-se com a viúva toda a comunidade muçulmana, a umma.
Khadija, muitos anos mais velha do Destaco uma elucidativa passagem
que ele, e membro de família de ricos de Bruce Lawrence (2008), recordada
comerciantes mecanos. Desta maneira, da discussão sobre a transformação
Mohammad torna-se um comerciante e do comerciante de vida mundana no
passa a dirigir caravanas. profeta do Islã:
Tinha o costume, como muitos
comerciantes de Meca, dentre eles Tinha de suportar longos períodos
muitos cristãos e judeus, de jejuar e em eu não havia voz interior. Sempre
meditar nas cavernas de Hira, onde que a ouvia, repetia o que escutara
costumava passar o mês sagrado do para que os outros pudessem lembrar
as palavras exatas. Acima de tudo,
Ramadã. A primeira revelação, ocorrida
contava com sua amada [...] esposa
ali enquanto meditava, consiste num Khadijah. Ela se tornou a primeira
diálogo com o anjo Gabriel que ordena muçulmana [...]. (Lawrence, 2008: 31)
que ele recite um pergaminho que surge
150
Enfoques Vol.1, n.14.

A primeira muçulmana é aquela de sua narrativa tem como produto-


que primeiro, por ser sua esposa, produtor Jesus, um homem, a revelação
sua família, compartilha suas palavras divina no Islã tem como sujeito-objeto
recitando, construindo sua memória e a voz, a palavra divina expressa na fala
fazendo multiplicar as vozes. A recitação do líder profético, eternizada no Corão.
tornou-se um extraordinário ato de Hégira e a Formação da Umma
memória coletiva, que ecoou após a
morte de Mohammad, permitindo que Os muçulmanos passaram a
esse mesmo “livro-memória” fosse incomodar os governantes de Meca, ricos
finalmente escrito. comerciantes da tribo dos coraixitas, e
Logo veio a experiência visionária Mohammad foi muito perseguido pelo
da Viagem Noturna. Nesta noite seu tio Abu Lahab e sua mulher.
Mohammad teria viajado, conduzido pelo Crítico da vida suntuosa e fútil,
anjo Gabriel, para Meca, Jerusalém e ao ele instava os muçulmanos a criar
mais elevado trono do céu. Lá encontra uma sociedade justa e igualitária e
e é saudado pelos profetas ancestrais: a respeitar e ajudar os pobres [...].
Adão, Jesus, João Batista, José, A mensagem de Allah transmitida
Salomão, Moisés, Miriam, Ismael, Isaac, por seu profeta atraía sobretudo as
Elias, Noé e Abraão, o profeta máximo, camadas mais pobres e todos os
que encontra no sétimo e último nível. descontentes com as desigualdades
Nesta noite, na Sidrati il-Muntahab,3 sociais. (Bissio, 2012: 104)
Gabriel ofereceu sua comunidade e Seus caminhos encontram uma
beneficência divina, contanto que os seus profunda mudança ao morrer Khadija
seguidores rezassem 50 vezes por dia. e seu tio, pai adotivo e protetor, Abu
Mohammad teria aceitado. No retorno Talib. Assim, Mohammad ficou vulnerável
Moisés lembrou-lhe que 50 orações era à solidão e à perseguição, tornando-se
demais. Então Mohammad retorna e cada vez mais visado e atacado.
negocia com Gabriel a recitação diária
de 5 preces (Lawrence, 2008: 34). O principal canal de comunicação de
É notório como a passagem reflete que Maomé [Mohammad] dispunha
uma hexis3 do diálogo e negociação, em com o exterior eram as feiras anuais
que Mohammad é saudado em um ato realizadas nos arredores de Meca.
de apoio consensual ao “ultimo profeta Nesses eventos, reconhecidos como
intervalos de trégua, até seus mais
de Deus”. Finalmente, legitimado por
virulentos adversários não podiam
este “fórum-visão”, Mohammad estava
atacar. (Lawrence, 2008: 41)
pronto para tornar-se líder político.
Comparando a revelação divina do Num momento de intensa
evangelho bíblico, cujo caráter histórico perseguição no ano de 622 d.C., o profeta

3
Cito Muniz Sodré (2009: 84) que, partindo dos estudos de Aristóteles, define: “Hexis é a pos-
sibilidade de instalação da diferença na imposição estaticamente identitária do ethos. O sujeito
se apropria dos costumes herdados e tradicionalmente reproduzidos (portanto, concretamente, da
moral, socialmente condicionada e limitada) com a disposição voluntária e racional de praticar
atos justos e equilibrados dirigidos para um bem, uma virtude, um dever-ser [...]. Satisfaz deste
modo uma exigência propriamente ética [...]”.

151
Enfoques Vol.1, n.14.

e seus adeptos muçulmanos (muhajirun) Com relação a Moisés, profeta


se refugiam em Yathrib, um povoado máximo judaico, este teria sido seu
situado num oásis que, posteriormente, conselheiro na negociação com Gabriel
se chamaria Medina (literalmente cidade que se seguiu à Viagem Noturna,
em árabe). Sua diáspora é chamada de conforme citada anteriormente.
hégira (hijrah) e passou a marcar o Refletindo sobre a
início do calendário muçulmano. plurirreligiosidade, um personagem
Ao chegar, Muhammad e os apresentado por Raewyn Connell em
muçulmanos unificam as tribos de Aus seu livro Southern theory (2007) é
e Khazraj que convertidas ao islamismo exemplar: Al-Afghani foi um intelectual e
pelo “Pacto de Aqaba” passam a se líder político do séc. XIX, considerado o
chamar Ansar (“os ajudantes”). Além pai do modernismo islâmico, associava
disto, segundo Ibn Ishaq (2013), os a defesa do islã à interculturalidade.
muçulmanos e judeus da região teriam Despendeu boa parte de sua vida
feito um acordo que os comprometia a adulta viajando pelo mundo islâmico,
colaboração mútua numa comunidade de Kolkata ao Cairo, passando alguns
plurirreligiosa. períodos em países cristãos, sem se fixar
em nenhum lugar. Estava profundamente
As regras de convivência definidas
envolvido com a política das elites,
por Mohammad, cujo manuscrito
tendo sido conselheiro dos monarcas do
original chegou intato até os nossos
dias, ficaram conhecidas como Afeganistão, Irã e do Império Otomano.
“Constituição de Medina” ou “Pacto Também se envolvera com a reforma
do Ano I” e traduzem a visão política política em diversos países como o
do profeta. (Bissio, 2012: 105) Egito e Irã.
Al-Afghani foi um pensador original
Surge assim a umma, a comunidade e teve um potente impacto intelectual
muçulmana, que em seus primórdios que influenciou outros pensadores
compartilhava decisões políticas depois dele de diversas maneiras. Pode
comuns, muçulmanos e judeus. Apesar ser considerado um intelectual de tipo
de a umma corresponder à comunidade historicamente novo. Estava dividido
de muçulmanos em termos religiosos, entre duas culturas, a dos imperialistas
politicamente tinha suas ações com e a dos colonizados, e atuou na sua
base na decisão conjunta com outras interseção; era considerado um dos
comunidades religiosas. Tanto o que diz primeiros pensadores do mundo a
respeito ao Corão quanto nas sunas tentar mobilizar recursos de ambas as
e hadith é possível uma interpretação culturas para gerar poderosas questões.
que ressalta tolerância religiosa com Parece ter sido um grande orador e
os “Povos do Livro”, judeus e cristãos, professor, além de ter criado um dos
as religiões monoteístas abraâmicas, primeiros jornais do mundo islâmico.
reconhecendo, inclusive, os profetas de Sobre a comunidade, Beatriz Bissio
ambas como verdadeiros: (2012) nos coloca que Muhammad é o
elo que unifica a sociedade muçulmana,
Ó Povo do Livro, não vos excedais em
vossa religião, e não digais acerca toda ela parte da umma, comunidade
de Deus nada senão a verdade. O fundada em Medina. A referência em
messias, Jesus filho de Maria, foi um determinado território sempre foi
somente um Mensageiro de Deus [...]. questão secundária para os membros da
(Qu’ran, 2013, 4: 171) umma, fato que teria grande importância
152
Enfoques Vol.1, n.14.

na coesão e irradiação do Império O conceito de assabiya, como


Muçulmano. A concepção muçulmana definido por Ibn Khaldun (1985), é
de pertencimento a uma unidade considerado central em sua obra
transcendente no plano religioso, o Al-Muqadimah, estimado por seus
que torna difícil isolar os componentes interlocutores como o conceito mais
do Islã, como a religião e seu legado estudado do autor, termo que tem se
temporal. Neste sentido, para os fiéis, revelado de difícil tradução, pois trata-
não existe caráter duplo e, sim, um Islã se de um neologismo criado por Ibn
único e indissociável (Bissio, 2012: 103). khaldun (Bissio, 2012: 134). Entretanto,
Assim, a fala do profeta tem nova a última palavra deriva da raiz arábica
transformação: além de professar a fé assab, que significa vincular (Dhaouadi,
em Allah, Deus único, também assume 1990: 325). Sem um sinônimo preciso de
caráter político, de líder da comunidade. tradução para as línguas vernáculas, o
A diáspora, para Medina (hégira), marca termo tem sido traduzido como espírito
o início da contagem do tempo do de corpo, group feeling, social cohesion
calendário muçulmano por determinação ou solidariedade agnática (Tradulse,
do califa Umar Ibn Khattab, primeiro a 1987; Bissio, 2012; Dhaouadi, 1990;
interpretar essa mudança como decisiva Alatas, 2006, 2007).
para a fé islâmica. Ibn Ishaq (2013) Ibn Khaldun (1987) realizou
também dá destaque a esta passagem: estudos sobre a ascensão e queda de
vários estados do Magreb, concentrando
From a persecuted religious teacher
sua análise nas diferenças sociais de
in Mecca, Muhammad in Medina
organização da vida entre as sociedades
became the leader of a religious
community and was acknowledged nômades e sedentárias. Segundo Syed
to be the messenger of God […] Farid Alatas (2006: 401), “Ibn Khaldun’s
[and] by careful diplomacy and thesis was that groups with strong
firmness of purpose, he began to ‘assabiya’ could establish political rule
create a brotherhood of the faith, over those with weak ‘assabiya’”. Como
transcending all other ties and exemplo, a assabiya dos beduínos,
relationships, even those of father que foi mais forte e presente, permitiu
and son. This brotherhood united all derrotar militarmente grupos sedentários,
Muslims by giving them a common possibilitando o estabelecendo de suas
purpose – the defence of the faith
próprias dinastias no entorno das áreas
– and made God, and His prophet,
urbanas (Alatas, 2006: 401).
the final source of law. (Ibn Ishaq,
Esses grupos, diz o autor, onde
2013: s/p)
a assabiya é mais forte, são grupos
Neste sentido, o profeta, líder nômades que conservam seus laços
carismático, aparece como fundador do de solidariedade e que possuem seus
Estado, sua voz, a lei. A unificação tribal próprios meios de defesa, mantendo sua
e o monopólio da violência por parte soberania. São grupos cuja política é
do profeta, posteriormente do Califa, exercida pela comunidade, representada
ocorre pela voz como mediadora dos na figura de um líder, um pai fundador,
conflitos, estabelecendo a lei. A voz do e a soberania assegurada pelo ímpeto
profeta é a voz de Deus, mas também guerreiro dos membros masculinos mais
a voz do líder, do governante. jovens da sociedade.
Segundo Beatriz Bissio (2012:
Ibn Khaldun e o Conceito de Assabiya
134), a assabiya é o elemento de
153
Enfoques Vol.1, n.14.

coesão do grupo que torna os beduínos cada uno de sus combatientes, de


tão temíveis e que permite entender por proteger a su familia y su agnación,
que os povos menos civilizados realizam es la primordial (Ibn Jaldun, 1987:
conquistas mais vastas. 276)

La soberanía es, pues, la meta O ato fundador da política entre


concluyente de la assabiya. En una os homens é a ligação entre parentes
tribu compuesta de varias familias para ajuda mútua e proteção, o que,
principales, con sus respectivos segundo Ibn Khaldun (1987), ocorre
assabiyas, se precisa que una de antes da formação dos Estados,
estas últimas supere a las demás visto que a vida nômade antecede
y las reúna bajo su dirección, o sedentarismo, a formação das
formando con ellas un solo haz. cidades e o surgimento do Estado (Ibn
Entonces la tribu constituiría una
Khaldun, 1987: 267). Ibn Khaldun (1987)
sola y poderosa assabiya. Sin tales
providencias la desunión sobrevendría
reconhece o fundamento político da
en la comunidad, resultando de allí sociedade, em termos diacrônicos, nos
las pugnas y querellas. (Ibn Jaldun, grupos nômades de beduínos (al-umran
1987: 296) al-badawa) em que a política é pautada
pela liderança e soberania, de forte
Ibn Khaldun (1987) contextualiza assabiya; e, em termos sincrônicos,
sua definição na análise dos grupos nos laços de relação mais elementares,
nômades, tribos do deserto nas quais como no parentesco. Sendo a assabiya
a agressão recíproca entre membros do uma categoria analítica que não remete
grupo “cesa a la voz de sus ancianos y à razão, mas ao afeto, a solidariedade e
de sus jefes, a quienes todo el mundo relações que não dependem de vínculos
respeta y venera profundamente” racionais.
(Ibn Jauldun, 1987: 275). No que diz Assim, Ibn Khaldun (1987) mobiliza
respeito à proteção, os nômades são uma primeira definição de assabiya na
autossuficientes, e cada tribo “cuenta explicação da coesão de grupo advinda
com selectos grupos de guerreiros dos laços de parentesco, os primeiros e
compuestos por su juventude más mais próximos laços entre as pessoas.
briosa” (Ibn Jauldun, 1987: 275). Porém, Para o autor, “cuanto más inmediato es
estes grupos só poderiam repelir el parentesco entre los coligados, más
ataques externos caso pertencessem íntima se es la unión y más sólida”
a uma mesma assabiya, ou seja, caso (1987: 277). A assabiya é a força que
compartilhassem laços comuns de deriva do conhecimento ou crença de
sangue, partilhando um partidarismo que esses indivíduos compartilham uma
entre os parentes de sangue, a força origem comum (Alatas, 2007: 276).
vital de uma tribo ou povo que se Podemos dizer, então, que em termos de
expressa na vontade comum. relações humanas num dado contexto,
sua força é primeiramente definida de
Eso es justamente le que hace a los
forma absoluta, ou seja, pelos laços
contingentes beduinos tan fuertes y
tan temibles; puesto que la idea de agnáticos.4

4
Parentesco por sanguinidade de linha masculina.

154
Enfoques Vol.1, n.14.

Posteriormente, Ibn Khaldun O processo de conversão do


(1987) traz uma segunda definição de conceito absoluto para o relativo
assabiya, ilustrada por ele no exemplo decorre da análise da constituição
do homem que deixa sua tribo e adere sócio-histórica do poder nas sociedades
a outra, adotando a genealogia da árabe-muçulmanas analisadas por Ibn
outra tribo e encontrando um novo Khaldun (1987). Descreve o abandono
lar ali (Dhaouadi, 1990: 325). Neste da vida nômade e de uma linhagem
caso, a origem comum não ocorre por “pura” em prol da fundação de cidades
laços agnáticos, mas por outros fatores e formação de um Estado.
relativos, como parentesco ou a crença Conclusão
na origem comum. Dentre esses tipos de
laços enquadrados nesta definição, cita Pode-se dizer que a assabiya é
a relação entre o patrão e o cliente, o o núcleo de entendimento da teoria
familiar, o amigo e o agregado. política de Ibn Khaldun, em que, assim
como demonstra Bissio (2012: 138), o
Estos lazos son casi tan fuertes espaço onde o poder é exercido se
como los sanguíneos […]. Quiere configuram como círculos concêntricos
decir que el verdadero parentesco em que o núcleo é a capital.
consiste en esa unión de ánimos
que hace valer los lazos sanguíneos Una dinastía es mucho más poderosa
y que impele a los hombres a la en la capital de su gobierno que
solidaridad; exceptuad esa virtud el en los extremos y fronteras de su
parentesco no es más que una cosa imperio. Cuando ha extendido su
prescindible, un valor imaginario, poder hasta su radio, que es el
carente de realidad. (Ibn Jaldun, límite máximo, ya no podría llevarlo
1987: 277) más allá. Es así como los rayos
de la luz que emanan de un punto
Essa segunda análise traz uma central, y las ondulaciones circulares
definição relativa da assabiya, que que se extienden sobre la superficie
pode se fazer pelos vínculos afetivos del agua al ser herida. (Ibn Jaldun,
e de solidariedade que os grupos 1987: 334)
estabelecem entre seus membros, como
no caso da diáspora que fez surgir a Porém, Ibn Khaldun (1985) nota
umma em Medina. Neste sentido, Ibn que os impérios têm um ciclo próprio
Khaldun (1987) diz que o “sentimiento de de ascensão e queda. Ao realizarem
afecto y solidaridad” é o que “conduce conquistas e formarem impérios, as
el espíritu de la ‘assabiya’” (Ibn Jaldun, tribos dominantes vão tornando-se
1987: 278). sedentárias e passam a experimentar
A assabiya é uma força social uma erosão gradual de sua assabiya na
“centrípeta” que descreve o processo medida em que vão assumindo o modo
pelo qual um grupo dominante conquista de vida sedentário. Em outras palavras,
outros grupos, atraindo-os para sua os hábitos sedentários vão substituindo
liderança e centralizando o poder, o modo de vida nômade, reduzindo o
levando à acumulação crescente de sentimento de coesão social.
assabiya e à extensão de seu raio de Os impérios possuem um ciclo
influência. Neste sentido, “la finalidad que podem ser reduzidos a cinco fases,
última de toda assabiya es la conquista segundo Ibn Khaldun (1985: 356): a
del poder” (Ibn Jaldun, 1987: 297). primeira corresponde à conquista de

155
Enfoques Vol.1, n.14.

um reino com a tomada do poder de temporal. Assim, foram tomando forma


uma antiga autoridade; a segunda, o seus rituais, festividades, calendários e
soberano usurpa toda a autoridade e suas vestes, chamadas na jurisprudência
priva o povo da participação do poder; islâmica dar al-Islam, desafiado a se
a terceira é um período de ociosidade expandir para o território estrangeiro,
e sossego. Com a redução da coesão dar al-harb. O fato de a umma se
na vida social, a força militar de um situar acima de qualquer divisão étnica,
líder será minada e sua capacidade linguística, política ou social, dá-lhe o
de governar estará comprometida. O caráter universal (Bissio, 2012: 107).
ciclo se completa quando a dinastia Constitui, de fato, uma nação
é conquistada por um grupo de tribos formada por aqueles que reconhecem
pré-sedentárias, com a assabiya intacta, na fé comum o espaço de convívio
que substitui o mais fraco, urbanizado. social, separando os grupos que não
As tribos dominantes e as elites são professam a mesma fé por fronteiras
substituídas em uma base cíclica, mas invisível, barreiras culturais.
o sistema permanece estável. Esta é a
Essa foi à primeira fronteira invisível
natureza do ciclo Khaldunian.
e abstrata que Muhammad quis
Analisando o processo em que
alargar substituindo a solidariedade
grupos humanos conquistam e exercem tribal de sangue por uma adesão
o poder, Ibn Khaldun (1987) explicita voluntária ao Islã, unindo os árabes
que o poder e a religião não estão muçulmanos frente àqueles que
necessariamente vinculados. Exemplifica recusavam sua mensagem (Bissio,
como sociedades que não professam 2012: p. 109)
religião e nas quais há um poder
estabelecido. Porém, o autor atribui Para Al-Afghani, a religião é a
papel fundamental à religião que duplica chave do progresso, pois recusava a
a força da assabiya dirimindo conflitos dicotomia modernidade/tradicionalismo
entre os seus componentes. “Señala a tão familiar ao pensamento social
todos una dirección común, la de la ocidental:
verdad.” (Ibn Jaldun, 1987: 328). Pois é sabido que a religião é, sem
Sendo a umma a unidade política dúvida, a fonte de bem-estar do
basilar para formação de um novo tipo homem, por isso, se for colocada
de Estado na região, ela é plataforma em bases firmes e sólidas, a religião
de unificação das tribos árabes, se tornará naturalmente a fonte da
apesar de se expressar em definições completa de felicidade e perfeita
religiosas, tem seu fundamento numa tranquilidade. Acima de tudo, será
racionalidade política intramundana, a causa do progresso material e
definida pela articulação de interesses moral. (Connell, 2007: 115)
extrarreligiosos: aliança entre diferentes
Segundo Ali Shariati (Connell,
grupos para o combate de um inimigo
2007:115), o Islã não está apenas
em comum, unificação territorial de
envolvido com o social, mas é,
diferentes grupos, monopólio da
especificamente, uma religião
violência, da justiça e do poder.
revolucionária, comprometida desde o
A umma seria caracterizada
início com a igualdade social e contra
pelos deveres e direitos, políticos e
as estruturas de poder de qualquer
sociais, definidos no Corão, somados
tipo, reforçando o caráter político da
à fé, tanto no plano espiritual como
156
Enfoques Vol.1, n.14.

religião, estruturada pela militância e dos árabes e lhes permitiu expandir a


mobilização social. mensagem islâmica além da península
Para Ibn Khaldun (1987), o povo Arábica, com o universalismo da umma,
cuja assabiya está fortalecida por uma sendo a base da liderança inspirada
doutrina religiosa, estando todos unidos por vocação religiosa; posteriormente, o
numa mesma meta, torna-se invencível. efeito assabiya, elemento fundamental
que dá suporte para tornar a religião
Una dinastía mantiene bajo su
um movimento histórico, mesmo sendo
obediencia a pueblos tan fuertes
a religião um fator determinante na
como el suyo, e incluso más fuertes,
a condición de que lo haya sometido história islâmica. Por último, outros
después de haber duplicado sus fatores sociais, que se mantiveram
fuerzas con el influjo de la religión. a despeito da ascensão do Islã, que
(Ibn Jaldun, 1987: 328) não pôs fim à diversidade de grupos
constitutivos da sociedade muçulmana.
Al Jabri, segundo Dhaouadi (1990), Na visão de Al-Jabri, religião e assabiya
identifica três forças que moldaram a são fundamentais para a compreensão
história árabe-islâmica até o tempo de da dinâmica da sociedade árabe-
Khaldun. Primeiro, o fator religioso, pois muçulmana (Dhaouadi, 1990: 326).
o Islã havia mudado o caráter beduíno

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158
Enfoques Vol.1, n.14.

BLOOD & HONOUR: NEONAZISMO E TEORIA DOS


MOVIMENTOS SOCIAIS
Eric Monné Fraga de Oliveirai

Resumo
O intuito, neste artigo, é discutir uma organização de caráter neonazista da perspectiva
da teoria dos movimentos sociais. Com base nas contribuições teóricas e empíricas
de Alain Touraine e Sidney Tarrow, a proposta é pensar como essa teoria pode
contribuir para a compreensão da organização neonazista Blood & Honour e como
esta se encaixa nas proposições contemporâneas acerca dos movimentos sociais.
Além disso, são considerados os apontamentos de Axel Honneth acerca das lutas
por reconhecimento em um caso emblemático, no qual a capacidade dos agentes de
se sentirem reconhecidos e estimados depende da desigualdade material e jurídica
entre eles e aqueles a quem se opõem.

Palavras chave: Teoria dos movimentos sociais; neonazismo; luta por reconhecimento;
racismo, violência

BLOOD & HONOUR: NEO-NAZISM AND SOCIAL MOVEMENT THEORY

Abstract:

The article aims to discuss a neo-Nazi organization from a Social Movement Theory
perspective. Based on the theoretical and empirical contributions provided by Alain
Touraine and Sidney Tarrow, our purpose is to evaluate how such a theory can contribute
to the understanding of the neo-Nazi organization Blood & Honour and how this
organization can be classified according to the contemporary propositions regarding
social movements. Furthermore, we will also consider Axel Honneth’s arguments on
the struggles for recognition in order to understand such an emblematic case, in
which the possibility for the agents to feel recognized and valued depends directly
on the material and legal inequalities between themselves and those they oppose.
Keywords: Power; Policy; Classical Islamic philosophy; Ibn Khaldun; Islamic social
thought.

i
Eric Monné Fraga de Oliveira é mestre em Sociologia e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade
Federal Fluminense (UFF) e atualmente é doutorando em Sociologia no Instituto de Estudos Sociais e Políti-
cos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ), conduzindo pesquisa independente. E-mail:
ericmfo@hotmail.com.

159
Enfoques Vol.1, n.14.

Introdução organização.2 Nosso intuito é verificar


Neste artigo, o objetivo é realizar se essa organização pode ser pensada
uma breve análise da organização de como um movimento social, além de
extrema-direita Blood & Honour do refletir sobre as formas pelas quais se
prisma das teorias dos movimentos constitui a estrutura de oportunidades
sociais e do multiculturalismo. O e de mobilização de recursos, quais são
referencial teórico utilizado é composto seus símbolos e como são manipulados,
sobretudo dos desenvolvimentos de quais são seus objetivos, aliados e
Axel Honneth, Alain Touraine e Sidney opositores.
Tarrow dentro dessa temática, uma Antes, porém, faz-se necessário
vez que suas contribuições para a esclarecer a relação de Salas e de Buford
teoria dos movimentos sociais, não com o tema tratado. Antonio Salas é
sendo mutuamente excludentes, ajudam um jornalista espanhol que se infiltrou
a elucidar o caso de organizações em um terreno em que se articulam
calcadas no preconceito racial e étnico- três áreas distintas mas interligadas:
nacional. Além disso, vamos nos valer, música e estética skinhead, neonazismo
por meio de utilizações pontuais, de e hooliganismo no futebol.3 Salas (2006)
apontamentos teóricos e empíricos de se relacionou, durante a infiltração, com
Benedict Anderson, Norbert Elias, Stuart diversos grupos neonazistas, skinheads
Hall e Ron Eyerman. (incluindo os que se identificam à
As informações sobre o Blood & esquerda do espectro político) e
Honour – e, pontualmente, sobre outros hooligans, mas, no presente artigo,
grupos neonazistas – foram extraídas apenas sua interação com as divisões
dos trabalhos de Antonio Salas e Bill espanholas do Blood & Honour e a
Buford, além da coleta realizada no discussão sobre o início da “subcultura”4
site1 da divisão britânica da própria jovem skinhead e sua relação com o

1
Disponível em <http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk>. Acesso em abr. 2015.
2
Desse modo, apresentamos dois tipos de informação: as de primeira mão, obtidas da organ-
ização, sem o uso de intermediários; e as de segunda mão, conseguidas por meio de mediadores.
Com isso, oferecemos mais riqueza e complexidade à análise.
3
O conceito de hooliganismo tem sido intensamente disputado por vertentes divergentes e apre-
senta uma problemática bastante profunda, dada a multiplicidade de formas de uso da violência
física no contexto de futebol que se pretende abarcar em cada análise. Para fins de esclareci-
mento, todavia, optamos por utilizar a definição oferecida por Spaaij (2006: 11): “Hooliganismo
no futebol é definido aqui como a violência competitiva de grupos de fãs de futebol socialmente
organizados, dirigida sobretudo contra grupos de fãs opostos [Football hooliganism is defined here
as the competitive violence of socially organized fan groups in football, principally directed against
opposing fan groups]” (grifo do original).
4
Uma discussão aprofundada sobre o termo “subcultura” pode ser encontrada em Subculture:
the meaning of style (Hebdige, 1991), em Resistance through rituals: youth subcultures in post-war
Britain (Hall & Jefferson, 2004) e em Subcultures: cultural histories and social practice (Gelder,
2007). A fim de não fugir a nosso escopo, de forma resumida, podemos dizer que, com base nas
discussões das três obras citadas, o conceito de subcultura se refere a um sistema de práticas
culturais, crenças, ideologias, rituais e estilos de vida pertencentes a um grupo social – normal-
mente formado exclusiva ou majoritariamente por jovens – que se inclui dentro de uma comuni-
dade cultural maior, mas que procura ativamente se diferenciar desta por meio da contestação de
e da disputa por seus símbolos culturais.

160
Enfoques Vol.1, n.14.

neonazismo têm relevância. Já a obra de a Adolf Hitler e aos demais líderes do


Buford (2010), um norte-americano que nazismo tradicional; eleger e privilegiar
realizou um trabalho, também de cunho oponentes sociais, políticos e culturais
jornalístico, entre hooligans ingleses, distintos etc.5 Dessa forma, a organização
foi utilizada mais com a finalidade de aqui estudada representa apenas uma
corroborar as informações de Salas das diversas nuanças de articulação
sobre as organizações neonazistas e dessa ideologia.
suas relações com o hooliganismo e A segunda precaução está
com a subcultura skinhead, fornecendo relacionada ao fato de que a categoria
elementos para uma generalização neonazista normalmente não é utilizada
mais correta. Seu papel secundário é pelos membros dos próprios grupos para
providenciar dados para a afinidade identificarem a si mesmos individualmente
entre o National Front e o neonazismo. ou aos próprios grupos. Trata-se de uma
Neonazismo: breve elaboração do categoria de acusação,6 utilizada por
conceito pessoas e grupos que não pertencem
ao movimento. Essa designação
As formas de se conceituar o tem sido atribuída amplamente por
polêmico e disputado termo “neonazismo” diversos jornais (Castro, 2014), grupos
nas ciências humanas em geral e nas políticos (Whitford, 2011), pesquisadores
ciências sociais em particular encontram acadêmicos e também pela esfera
alguns problemas que necessitam jurídico-legal. De acordo com Bailer-
de abordagem específica antes de Galanda e Neugebauer, “neonazismo, um
iniciarmos a análise, a qual precisa de termo jurídico, é compreendido como
elaboração prévia do conceito. Faz-se a tentativa de propagar, desafiando
necessário ter duas precauções ao se diretamente a lei (Verbotsgesetz), a
utilizar o termo neonazismo, sobretudo ideologia nazista ou medidas como a
em artigos acadêmicos. A primeira diz negação, a subvalorização, a aprovação
respeito à variedade de grupos que ou a justificação do assassinato
podem ser abarcados por esse termo. em massa nazista, especialmente o
As coletividades identificadas como Holocausto” (1996: 6).7
neonazistas não formam um grupo Em nossa pesquisa, não se
homogêneo: cada grupo pode vir a verificou a ocorrência do termo
apresentar as próprias definições acerca neonazismo em nenhuma das seções
do caráter no nacional-socialismo; do site da organização Blood & Honour.
mobilizar de modo específico sua Assim como outros grupos identificados
simbologia, sua memória e sua história; como neonazistas, os membros da
atribuir diferentes níveis de importância Blood & Honour preferem utilizar em

5
De acordo com Andrade (2014), por exemplo, grupos brasileiros como o Valhalla 88 trazem o
foco de seu ódio sobretudo para nordestinos e nortistas migrados para as regiões Sul e Sudeste
do Brasil, além de homossexuais, judeus e comunistas.
6
Sobre as categorias de acusação, ver Velho (2008: 59-60) e Duque (2014).
7
Todas as citações em idioma estrangeiro foram traduzidas por mim. No caso dessa citação,
escolhi traduzir a expressão “a legal term” por “um termo jurídico”, em vez de “um termo legal”,
mesmo sabendo que não são sinônimos perfeitos, por ser uma opção que, sem mudar o sentido
original, oferece mais clareza e fluidez ao texto.

161
Enfoques Vol.1, n.14.

especial termos como “nacionalistas” ou totalitário baseado em uma ideologia


“nacional-socialistas”8 para se referir a étnico-racial, ainda quando tais grupos
seu caráter político individual e coletivo. se apresentam fora da Alemanha, uma
Magalhães (1998) pôde constatar a vez que o pangermanismo não é a
mesma ocorrência em sua pesquisa única forma de nacionalismo possível
acerca dos defensores do negacionismo/ para esses grupos.
revisionismo do Holocausto: “Esta O termo neonazismo apresenta,
corrente [revisionista do Holocausto] é portanto, diversas definições
a efetiva herdeira do [Partido Nacional- acadêmicas possíveis, de acordo com
Socialista dos Trabalhadores Alemães] a orientação de cada pesquisa, tanto
NSDAP e dela fazem parte indivíduos do ponto de vista teórico-metodológico
que se autodenominam simpatizantes do quanto do ponto de vista empírico, isto
nazismo, sem o prefixo neo” (Magalhães, é, do objeto real estudado. Contudo,
1998: 201, grifo do original). embora abordem pontos distintos,
Além da definição oferecida por tais definições não são mutuamente
Bailer-Galanda e Neugebauer (1996), excludentes, podendo ser combinadas
outras duas definições acadêmicas para para a análise. Aqui trataremos o
o conceito de neonazismo merecem conceito de neonazismo como uma
destaque, uma vez que ajudam a precisar característica atribuída a grupos –
o termo. A primeira foi oferecida por formais ou não – que se organizam, a
The Danish Center for Holocaust and partir do pós-Guerra, em torno dos ideais
Genocide Studies (Centro Dinamarquês de promovidos pelo nacional-socialismo,
Estudos do Holocausto e do Genocídio): adaptando essa ideologia política às
“Neonazismo é o nome da derivação novas condições históricas, sociais,
moderna do nazismo. É uma ideologia culturais e econômicas. Suas principais
radicalmente de direita, cujas principais intenções incluem a aceitação pública
características são o nacionalismo do nazismo como uma orientação
extremo e a xenofobia violenta”.9 De política legítima; o endurecimento das
acordo com esse centro de estudos, leis de migração, sobretudo no território
o neonazismo é uma continuação da europeu; o orgulho “racial”, “nacional”
ideologia nazista tradicional, porém ou mesmo “pancontinental” (no caso
adaptada a um novo contexto histórico, dos grupos neonazistas europeus); o
visando a seu restabelecimento como estabelecimento político, econômico,
ideologia política válida. Para McGowan cultural e social da superioridade da
(2003), o neonazismo é a corrente “raça ariana”; e a criação de estados
ideológica à qual pertencem indivíduos e totalitários ancorados no nacionalismo
grupos que defendem a restauração do étnico-racial. Além disso, o revisionismo
Terceiro Reich e anseiam por um Estado do Holocausto promovido pelos nazistas

8
Na seção “Home” do site, a organização afirma ter sido fundada para acolher aqueles que lu-
tam por seu povo, “sendo eles racistas de direita, patriotas, nacionalistas ou nacional-socialistas
lutadores da liberdade”. Disponível em <http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/home1.html>.
Acesso em abr. 2015.
9
Disponível em <http://www.holocaust-education.dk/eftertid/nynazisme.asp>. Acesso em 12 abr.
2015.
162
Enfoques Vol.1, n.14.

e a aversão a orientações de gênero futebol e violência ao estilo musical.


e de sexualidade alheias ao padrão Avessos ao pacifismo hippie, esses
heteronormativo são características jovens começaram a formar grupos
predominantes. relativamente coesos e orientados por
Surgimento da organização Blood & um comportamento violento (já em suas
Honour origens jamaicanas, a postura violenta
estava presente no estilo musical).
A organização Blood & Honour Raspar a cabeça, além de deixar o rosto
tem um início bastante particular, cuja perfeitamente imberbe, tornou-se regra
elucidação demanda que se explique, nos grupos como sinal de que eles
mesmo que superficialmente, um estavam constantemente preparados
fenômeno que lhe é anterior. Apesar para o combate físico.10 Com o passar
de ser uma organização europeia de do tempo, esse estilo musical se tornou
caráter neonazista, apenas é possível cada vez mais popular entre jovens
compreendê-la situando o contexto brancos, que passaram a constituir a
internacional de mudanças geopolíticas. maioria de seus ouvintes.
De acordo com Salas (2006), Após uma ligeira queda desse
depois da independência jamaicana em fenômeno na segunda metade da
relação ao Reino Unido, conquistada década de 1960 e no começo dos anos
gradualmente entre 1958 e 1962, grandes 1970,11 com o surgimento do movimento
contingentes de jovens jamaicanos musical punk na Inglaterra, os grupos
migraram para a Inglaterra em busca de jovens skinheads (apelido derivado
de melhores oportunidades de emprego de suas cabeças raspadas) voltaram a
e levaram sua música consigo. Logo ganhar força e número. No início, eram
esse estilo musical que os acompanhou politicamente apartidários, embora
– uma mistura “agressiva” de mento, fossem fortemente marcados por um
calipso, swing, jazz, jive e rhythm & blues sentimento de rejeição e de revolta.
que veio a se chamar ska –, combinado Entretanto, suásticas e cruzes gamadas,
com um ritmo bastante intenso de elementos do imaginário simbólico
dança, alcançou notável popularidade nazista, foram reapropriadas por alguns
entre outros jovens urbanos de origem desses grupos, sendo de início utilizadas
proletária, tornando-se parte de seu unicamente para fins provocativos, como
estilo de vida e de sua construção forma de transgressão, de demonstração
identitária. Dessa integração surgiram de repulsa contra a sociedade inglesa,
os mods (diminutivo de modernists, na qual se sentiam abandonados. Em
modernistas), que, com o passar do pouco tempo, porém, esses símbolos
tempo, começaram a agregar cerveja, deixaram de ser meramente sinais de

10
Por questões práticas, cabelos e barbas compridos podem facilmente ser fatores negativos em
lutas físicas: podem se enroscar em lugares inoportunos, atrapalhar a visão e possibilitar puxões
desestabilizadores por parte dos adversários.
11
Segundo Salas (2006), a responsabilidade por isso recai sobre a ação da polícia, dos tribunais
e da imprensa contra esses jovens, cujas ações violentas se intensificaram e passaram a se rel-
acionar cada vez mais com o futebol depois da vitória da seleção inglesa no Mundial de Futebol
de 1966, criando o fenômeno hooligan.

163
Enfoques Vol.1, n.14.

revolta e se tornaram parte do nascente membros de outras bandas skinheads


movimento neonazista.12 A mobilização neonazistas, como a Sudden Impact e a
de símbolos nazistas eventualmente Brutal Attack. A organização tem, desde
levou à mobilização de conceitos, então, como suas principais atividades
sentimentos e ideologias neonazistas. o preparo de concertos de música
Foram necessários alguns anos neonazista, especialmente na Europa,
até que, desse contexto, a figura de Ian e a composição e publicação de uma
Stuart Donaldson, vocalista da banda revista homônima para divulgação tanto
Skrewdriver – que, a partir de 1984, de música neonazista quanto de sua
se torna central no cenário skinhead ideologia. Seu nome é uma referência
neonazista13 –, emergisse com destaque. direta ao imaginário nazista: Blut und
De acordo com o site da Blood & Honour, Ehre era o lema da juventude hitlerista,
seus membros originais começaram a a organização paramilitar do Partido
se organizar no White Noise Club, em Nacional-Socialista dos Trabalhadores
Londres, considerado por eles até então Alemães (NSDAP).
a linha de frente da “revolução musical” Cabem, então, as perguntas: o
do Rock Against Communism.14 Em 1985, Blood & Honour, como representante
Ian Stuart cantou pela primeira vez do neonazismo, pode ser considerado
no clube a música “Blood & Honour”, um movimento social? Por quê? Que
que se tornaria o hino da organização. códigos morais e simbólicos o guiam?
Em 1987, depois de uma desilusão Quais são suas oportunidades políticas
com a casa de música mencionada, e suas formas de ação? Como se
os skinheads neonazistas que a captam e mobilizam os recursos? Qual
frequentavam e que se agrupavam cada é a base sobre a qual está assentada
vez mais sob o lema Blood & Honour e sua estrutura? Quais são seus aliados
menos sob seus nomes anteriores, como e oponentes? Segue uma tentativa de
Last Resort Skins e West London Skins, respostas a essas perguntas.
compareceram à reunião convocada por Blood & Honour: um movimento social?
Ian Stuart para um diálogo acerca do
futuro dos skinheads que frequentavam Para pensar se a organização
o White Noise Club. Com Paul Burnley, Blood & Honour, fundada para a
membro da No Remorse, outra banda divulgação de música e de ideologia de
neonazista proeminente, em junho de caráter neonacionalistas, constitui um
1987, Ian Stuart formou um grupo movimento social, vamos nos debruçar,
político e de distribuição de música neste artigo, sobre o livro Poderemos
neonazista chamado Blood & Honour viver juntos?, de Touraine (1998), pois
(Sangue e Honra), com a ajuda de consideramos que sua definição de

12
Não se deve cometer o equívoco, todavia, de tomar todo grupo skinhead como um grupo de
ideologia neonazista. Em verdade, a maior parte dos grupos skinheads pode ser classificada de
três formas: 1) neonazistas; 2) anarquistas ou comunistas (em suas diversas vertentes), também
chamados de SHARPs, sigla para SkinHeads Against Racial Prejudice, ou seja, skinheads contra o
preconceito racial; e 3) apartidários, embora normalmente descontentes com a ordem política e
econômica atual.
13
Salvo exceção, utilizaremos o termo skinhead para nos referirmos aos skinheads neonazistas.
14
Disponível em <http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/home1.html>. Acesso em 14 abr. 2015.
164
Enfoques Vol.1, n.14.

movimento social, particularmente de grupo acredita que se posiciona contra


antimovimento social, é especialmente uma forma de dominação que defende
capaz de fornecer uma abordagem o multiculturalismo em detrimento da
inovadora e pertinente ao assunto. identidade branca inglesa/europeia que
Embora definir de modo preciso o os constituiu em sujeitos. Podemos notar
que é um movimento social para esse a presença dessa crença no editorial da
autor não seja tarefa simples, quando 42a edição de sua revista homônima,
a questão é uma organização como a como se demonstra no fragmento a
Blood & Honour, esse tipo de raciocínio seguir: “‘As condições da experiência
se torna mais possível. vivida de um grupo oprimido estão
Segundo Touraine, os movimentos diretamente conectadas ao tipo de
sociais são caracterizados como “um músicas de resistência que este grupo
tipo muito particular de ação coletiva vai produzir’. Nós somos a resistência
[...] pelo qual uma categoria social, branca do rock’n’roll ”.16
sempre particular, questiona uma forma Dando sequência à formulação
de dominação social [...] invocando de sua teoria, Touraine distingue os
contra ela valores e orientações gerais movimentos sociais em três tipos:
da sociedade, que ela partilha com societais, culturais e históricos. Será
seu adversário, para privar este de suficiente, para os propósitos definidos
legitimidade” (1998: 113). Em outras aqui, que nos atenhamos apenas aos
palavras, um movimento social busca movimentos societais. Os movimentos
não apenas defender os interesses de societais “combinam um conflito
determinado grupo mas também destruir propriamente social com um projeto
uma relação de dominação. Até aqui, cultural” (Touraine, 1998: 118-119), nos
ainda é muito nebuloso definir se o quais se constrói o sujeito em seus
Blood & Honour constitui um movimento direitos, ao mesmo tempo que se luta
social, dadas as particularidades desse contra um adversário. O que constitui
grupo, as quais serão analisadas mais um movimento de tipo societal “é a
adiante. Podemos adiantar, todavia, associação entre um apelo moral e
que o Blood & Honour, por não lutar um conflito diretamente social, isto é,
contra uma forma de dominação à opondo um ator socialmente definido a
qual eles estariam de fato sujeitos – já outro” (Touraine, 1998: 122). No caso das
que gozam do privilégio étnico-racial- sociedades ocidentais atuais, o apelo dos
nacional (uma vez que suas fileiras são movimentos societais é quase sempre
integradas sobretudo por jovens brancos em direção às liberdades individuais.
ingleses/europeus,15 e não imigrantes De modo bastante “deformado”, a
ou descendentes de imigrantes de Blood & Honour corresponde a esta
outros grupos étnicos), em cujo terreno característica: a defesa de seus
constroem suas demandas –, não seria princípios, de seu pensamento e de
um movimento social. Por outro lado, o sua expressão está frequentemente

15
Optamos por salientar a identidade inglesa, apesar da transnacionalidade do grupo, por ter sido
fundado na Inglaterra e ser lá onde se realiza a maior parte de suas operações.
16
Disponível em <http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/magazine/issue42/issue42p_3.html>.
Acesso em 15 abr. 2015.

165
Enfoques Vol.1, n.14.

acompanhada pelas noções relacionadas organize simultaneamente pela rejeição


à ideia de liberdade individual, ainda de algo existente (no plano material
que seus membros neguem esse ideal ou no imaginário) e pela conquista
para seus oponentes e não raro se de alguma forma de reconhecimento
manifestem contra esse próprio ideal. (seja na luta por bens – materiais ou
Em suma, a Blood & Honour defende imateriais – escassos, seja pela garantia
a liberdade individual deles próprios de de direitos efetivos ou simbólicos,
serem contra as liberdades (e mesmo ou por outros tipos de conquista).
contra a existência) de seus oponentes. Então, nesse sentido, o que define a
Boa parte dos editoriais das revistas do organização Blood & Honour? Seria a
grupo deixa esse apelo às liberdades defesa de uma ameaçada “raça ariana”
individuais, sobretudo à liberdade de ou o ataque direto aos estrangeiros,
expressão, evidente por meio de seu judeus e grupos jovens de tendência
disclaimer: anarquista? Em uma primeira análise,
tende-se a responder a essa questão
[A revista] Blood & Honour é
com a segunda alternativa proposta.
produzida para refletir os pontos
Entretanto, é fácil compreender, por
de vista de seus leitores e não tem
a intenção de prejudicar, desonrar meio dos trabalhos de Buford (2010)
ou pregar nenhuma política ou ódio e Salas (2006), além do que se pode
contra nenhuma religião ou raça. ler no próprio site da organização, que,
Os artigos incluídos nestas páginas para os sujeitos que dela são membros,
não são necessariamente do editor a primeira alternativa de resposta seria
e não deveriam ser interpretados a mais correta.18
como tais. Liberdade de expressão Reformulemos, então, a pergunta:
deve ser aplicada a todos nós.17 os objetivos reais desse grupo são os
expostos por seus membros ou os que
Segundo Touraine, enquanto os
os não membros veem com base nas
movimentos societais se definem por
ações dos próprios membros do grupo?
seus objetivos construtivos, as revoltas se
Na realidade, defendemos que não é
orientam por aquilo que rejeitam. É difícil
possível pensar analiticamente esse
imaginar uma luta coletiva que não se

17
Disponível em várias edições: <http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/magazine/issue42/is-
sue42p_3.html>;
<http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/magazine/issue41/issue41p3.html>;
<http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/magazine/issue19/issue19p02.html>;
<http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/magazine/issue40/issue40p3.html>. Acesso em 15 abr.
2015.
18
Supor que a “autodefesa da raça ariana”, como costuma ser dito pelos sujeitos que participam
dessas organizações, não passa de uma demagogia utilizada por eles é ignorar o sentido que es-
ses grupos têm para os agentes que deles formam parte. Embora reconheçamos que não existam
formas de preconceito racial direcionado à “raça ariana” e que são pessoas e grupos majoritari-
amente brancos que continuam a ocupar as principais posições de dominação, sobretudo no Oci-
dente, não podemos dizer que a crença ideológica da Blood & Honour seja meramente demagógi-
ca. Ao contrário, ela está ancorada em um modo específico de interpretar o mundo, por mais que
exista uma quantidade quase infinita de dados que demonstre a falta de adequação dessa crença
à realidade da dominação étnico-racial.

166
Enfoques Vol.1, n.14.

grupo sem considerar os dois objetivos para a Austrália. Para eles, essa seria a
em conjunto. É preciso interpretar tanto precondição para a Europa “reconstruir
o que o grupo diz quanto o que se diz sua antiga glória”, reafirmando a posição
sobre ele. Nesse caso, uma hipótese de superioridade da raça branca.
não precisa excluir a outra. Para o Para cumprir esse ideal, faz-se
Blood & Honour, o que eles entendem necessário destruir seus inimigos (os
como “defesa da raça ariana” aparece sionistas – designação destinada a
sempre junto ao ataque contra grupos todos os judeus – em sua economia
não arianos, sobretudo imigrantes ou neoliberal supranacional e os migrantes
judeus, ou de orientação política de que chegam à Europa, sobretudo os
esquerda – ataques advindos de uma negros – africanos, afro-caribenhos,
rejeição radical que não permite nenhum jamaicanos, sul-americanos, entre outros
diálogo com os grupos adversários. – e os muçulmanos – tanto os africanos
Sendo assim, o neonazismo em quanto os árabes e asiáticos – mas
geral e o Blood & Honour especificamente também orientais e latinos), os traidores
parecem se encaixar naquilo que Touraine (brancos europeus e americanos com
chama de “antimovimento social”, ou orientação política liberal – os quais são
seja, aquilo que surge “quando um ator vistos como traidores da causa branca
social identifica-se inteiramente com que buscam o lucro imoral do mercado
uma aposta cultural [...] e então rejeita liberal controlado pelos sionistas –
seu adversário como inimigo, traidor ou ou de esquerda, particularmente os
simples obstáculo a eliminar” (1998: 140). mais “radicais”, como anarquistas e
Dessa forma, os antimovimentos sociais comunistas) e seus maiores obstáculos
rompem com qualquer possibilidade (as políticas multiculturais, que incluem
de diálogo ao recusar completamente os estrangeiros nas terras europeias
qualquer legitimidade a seus e que, para o Blood & Honour, têm
adversários. Os skinheads neonazistas como efeito a destruição da identidade
do Blood & Honour constituem um tradicional branca europeia). A área
exemplo concreto dessa situação: do site da organização voltada para
estão completamente identificados citações de seu fundador, Ian Stuart
(ideológica e emocionalmente) com a Donaldson, oferece diversos modelos
proposta neonazista; esta não é uma dessa visão de mundo. Vejamos duas
posição política à qual se possa aderir que se demonstram exemplares:
apenas parcialmente.19 Sua “aposta
[1] Eu não sou o tipo de pessoa
cultural” é, primeiro, em uma Europa
que vai rastejar para um bando de
racial e culturalmente branca, livre de
esquerdistas pacifistas frouxos e
estrangeiros – e, em menor grau, com sionistas de duas caras. Você deve ser
menos importância, tal proposta também honesto para as pessoas em relação
serviria para a América do Norte20 e às suas crenças, especialmente

19
Embora a adoção da estética geralmente utilizada pelos membros desse grupo não precise ser
completa, especialmente entre as mulheres.
20
A maior parte dos skinheads europeus tem uma posição confusa – até para eles – e mesmo
ambígua em relação aos Estados Unidos. Os motivos para essa confusão serão abordados mais
adiante.
167
Enfoques Vol.1, n.14.

quando a sobrevivência da nossa de um comunitarismo antimulticultural


própria raça está em jogo. centrado na Europa. Ele representa a
recusa a qualquer tipo de relação social
[2] Muitas pessoas sentem que raças com comunidades não brancas: para o
e culturas não se misturam. Isso pode Blood & Honour, é necessário que se
estar tocando em algumas feridas, crie um orgulho público da raça branca23
mas a verdade é que os negros para que esta possa se unir contra os
estão roubando nossos empregos imigrantes e contra a dominação sionista.
e deixando o homem Branco com Isso significa que a resposta para todos
o desemprego. Olhe então para os os problemas presentes na sociedade
judeus. Sua dieta básica é o dinheiro,
europeia, desde a década de 1970 (com
o controle de tudo de que se pode
os choques do petróleo, o desmonte
retirar um belo lucro. E então você
tem os comunistas que querem esse de grande parte do welfare state e a
absurdo de igualdade para todos. 21 implementação de práticas econômicas
neoliberais), é, para o Blood & Honour,
Retornando à elaboração muito simples: retirar os imigrados
teórica desenvolvida por Touraine, o das terras europeias, em defesa das
autor percebe, nos antimovimentos tradições locais e devolvendo o emprego
sociais, uma ação de defesa contra aos homens brancos, ao mesmo tempo
a dominação da “globalização”,22 “em que se devem desarticular a economia
nome de uma tradição comunitária e não e a política sionistas.
para defender a liberdade do sujeito” O desenvolvimento de um antimovimento
(Touraine, 1998: 140), impossibilitando social
a construção de conflitos, levando
a uma resposta violenta contra a Partindo da concepção dos
possibilidade de relacionamento com movimentos (e antimovimentos) sociais
as outras comunidades. Dessa forma, o construída por Touraine, o Blood & Honour
“antimovimento social” Blood & Honour se constitui, portanto, não propriamente
pode ser considerado uma expressão como um movimento social, mas como

21
Disponível em <http://www.bloodandhonourworldwide.co.uk/isd/quotes.html>. Acesso em 15 abr.
2015. Cabe observar que a inicial da palavra “branco” está em maiúscula. No original, o termo
“White man” também encontrava a inicial da palavra “white” em maiúscula. Isso não pareceu erro
de digitação, uma vez que tal ocorrência pode ser vista diversas vezes na página em expressões
como “White man” e “White people”. Acreditamos que esse uso seja a expressão, no uso da lin-
guagem, da crença na superioridade da raça branca.
22
Não é o escopo do presente trabalho discutir o termo globalização, o que, por si só, levaria
a um artigo ou a um livro inteiro, dependendo do motivo da discussão. Para nossos fins, é sufi-
ciente pensarmos a globalização nos termos que propõe Hall em Da diáspora: identidades e me-
diações culturais: uma intensificação ocorrida a partir da década de 1970 de um processo muito
mais antigo, que já havia tomado formas muito distintas, mas que, desde então, é regido sobretu-
do pelo fortalecimento de um sistema econômico em escala global, “no sentido de que sua esfera
de operações é planetária” (Hall, 2003: 56).
23
O editorial da edição n. 43 da revista nos oferece um exemplo: “Se racismo é admitir/ que ex-
iste diversidade racial,/ então você pode me chamar de racista/ e eu estou orgulhoso em sê-lo!/
Isso não tem a ver com odiar as outras raças/ isso tem a ver com amar a sua própria./ Então,
você vê, não existe nada de errado mesmo/ quando é demonstrado orgulho racial”. Disponível em
<www.bloodandhonourworldwide.co.uk/magazine/issue43/issue43p_2.html>. Acesso em 15 abr. 2015.
168
Enfoques Vol.1, n.14.

parte de um antimovimento social mais Segundo Buford (2010: 141), “as


amplo, visto que suas propostas não são fileiras do baixo escalão do National Front
consideradas por meio do conflito pela consistiam basicamente em pessoas que
via do diálogo, mas do confronto pela sentiam, com certo fundamento, que não
via da violência (Wieviorka, 2006), dada tinham nenhum outro lugar para onde
a recusa completa de reconhecimento se voltar”. Muitas dessas pessoas eram
da legitimidade da alteridade – ainda skinheads de direita, fãs de músicos
que essa proposta apareça revestida que se haviam filiado ao partido ou
como simples autodefesa de uma hooligans recrutados em estádios
supostamente ameaçada raça branca, de futebol durante as partidas dos
de uma supostamente ameaçada campeonatos nacionais, ou seja, tipos
cultura europeia. Faz-se necessário de jovens fortemente marcados pela
compreender como se constitui esse sensação de falta de reconhecimento e
antimovimento social. Já foi dito contra de estima social.
o que e contra quem o Blood & Honour Anos mais tarde, Ian Stuart
se propõe a lutar. Agora, antes mesmo deixou o partido por acreditar que este
de entendermos sua gramática moral e não era radical o suficiente em suas
suas formas de ação, cabe demonstrar proposições, e, para corresponder às
quem são seus aliados e quem constitui próprias expectativas, como mencionado
sua base a fim de compreendermos anteriormente, o Blood & Honour foi
como se comporta sua estrutura de formado. No entanto, o National Front
oportunidades e de mobilização de continuou a ser um ponto de referência
recursos. para muitos dos membros do Blood &
A filiação de Ian Stuart, em Honour, especialmente em época de
1979, já então líder da banda skinhead eleição.
Skrewdriver,24 ao National Front,25 partido Mesmo depois do falecimento
político da extrema-direita nacionalista de Ian Stuart Donaldson, em setembro
britânica que costuma estar vinculado de 1993, alguns partidos políticos
a propostas xenofóbicas e racistas, continuaram relacionados extraoficial ou
teve dois efeitos: primeiro, gerou uma indiretamente com o Blood & Honour
filiação em massa de jovens skinheads no contexto internacional. Um exemplo
ao mesmo partido26 e, segundo, fez que disso está na França, onde jovens
todo o movimento skinhead passasse a neonazistas, incluindo os que estão
ser tomado publicamente como sinônimo ligados ao Blood & Honour, apoiam
de neonazismo.27 o partido de extrema-direita Front

24
Vale notar, entretanto, que o primeiro álbum da banda, All Skrewed Up, lançado em 1977, não
contém nenhum elemento neonazista: a temática das letras é predominantemente sobre o senti-
mento de rejeição social, o que é perceptível pelos títulos das canções, como “An-Ti-So-Ci-Al”, “I
don’t like you” e “I don’t need your love”.
25
O que aconteceu cinco anos antes da fundação do Blood & Honour.
26
Não parece mera coincidência que o partido tenha alcançado seu auge nas eleições nacionais
gerais nesse mesmo ano. Entretanto, o partido entrou em queda vertiginosa depois dessa data,
demonstrando um tímido novo crescimento a partir de 2001.
27
Essa imagem permanece até os dias atuais aos olhos de boa parte do público que não está de
alguma forma envolvido com o movimento.

169
Enfoques Vol.1, n.14.

National (inspirado no National Front fundou, ainda que tenha bases também
britânico, embora não exista nenhuma na Holanda, na Suécia, na Hungria, em
relação de caráter oficial entre os dois), Portugal, na Nova Zelândia, no Canadá
presidido por Marine Le Pen, a qual e na Austrália. É interessante notar que,
recusa qualquer ligação com os jovens nos dois lugares onde é mais forte,
skinheads, indo contra a recomendação a Hammerskin se liga a elementos
de outros membros do partido. Marine diferentes: nos Estados Unidos, além
Le Pen foi candidata do Front National dos elementos que constituem o
às eleições presidenciais de 2012, na neonazismo na Europa, o ódio aos
França, e chegou a ser cotada para mexicanos e porto-riquenhos (incluindo,
figurar no segundo turno (Sage, 2011), sem dúvida, outros latinos) é um dos
obtendo mais de 6 milhões de votos principais focos mobilizadores de suas
no primeiro turno. Apesar dessa recusa ações. Já na Espanha, a Hammerskin
em aceitar o apoio explícito desses está presente nos estádios de futebol
setores, era inevitável que o Front de alguns dos principais clubes do
National – assim como outros partidos país por meio das chamadas torcidas
da direita nacionalista em outros “ultras”, como a Ultrassur, que apoia o
países europeus – o recebesse, pois Real Madrid Club de Fútbol.28
algumas de suas propostas estão em A relação entre Hammerskin e
acordo com as exigências do Blood Blood & Honour, entretanto, tem um
& Honour, particularmente na questão caráter muito fluido e instável: as duas
da imigração. Salas (2006) nota que, organizações não estão diretamente
na Espanha, partidos e movimentos interconectadas entre si por toda
de extrema-direita recebem apoio dos parte, embora alguns de seus membros
jovens neonazistas durante as eleições mantenham contato em virtude da
e oferecem recursos, especialmente música e da ideologia compartilhada.
financeiros, para que suas associações Em alguns países – na Espanha, por
(incluindo a Blood & Honour) mantenham exemplo –, existe mesmo uma rivalidade
suas atividades. entre as duas organizações (Salas,
Além das ligações extraoficiais 2006). Por outro lado, cabe observar
entre as organizações neonazistas e como exemplo que o site da Hammerskin
alguns partidos políticos de extrema- pôs à venda um DVD, produzido por sua
direita, existem, como o esperado, divisão australiana, a Southern Cross
relações íntimas dessas organizações Hammerskins, em 2007, em conjunto
neonazistas entre si, embora nem com a 9% Productions e a divisão
sempre de caráter oficial. O caso da australiana da Blood & Honour, cujo
Hammerskin, uma das maiores e mais conteúdo é a gravação de um concerto
importantes organizações neonazistas, realizado em homenagem a Ian Stuart
merece destaque por sua força na Donaldson.29 Podemos, portanto,
Espanha e nos Estados Unidos, onde se exemplificar a relação existente entre as

28
Embora haja outras torcidas de futebol ligadas à extrema-direita na Europa, a ligação entre a
Ultrassur e o Real Madrid é a mais evidente.
29
Disponível em <http://i564.photobucket.com/albums/ss90/BloodHonourAustralia/dvd-ad.jpg>. Aces-
so em abr. 2015.

170
Enfoques Vol.1, n.14.

duas organizações por meio destes dois para suas fileiras para poder fazer o
casos paradigmáticos quase opostos: antimovimento crescer e continuar a
rivalidade na Espanha (mesmo que, buscar por oportunidades políticas. Para
eventualmente, existam oportunidades isso, é necessária a mobilização de
de apoio mútuo) e parceria íntima recursos financeiros. A responsabilidade
na Austrália. Nos outros países, essa na realização dessa tarefa recai sobre
relação é menos óbvia, porém varia de as divisões nacionais do antimovimento,
acordo com cada caso, em algum lugar que o fazem sobretudo com a venda
entre os dois exemplos mencionados. de material de veiculação da ideologia
Os outros aliados desse neonazista (revistas, livros, CDs e
antimovimento são essencialmente camisetas de produção independente
associações neonazistas e skinheads ou semi-independente, além de outras
menores, além de pequenas lojas e mercadorias de menos importância)
gravadoras de música destinadas ao e com a realização de shows de
público skinhead neonazista. Dentre elas, música RAC (sigla de Rock Against
podemos destacar Rampage Productions, Communism, embora seu teor atual
Rune & Sword Productions, Final Conflict pareça majoritariamente voltado contra
Store, Dissident Mail-order, American imigrantes e seus descendentes, além
Front, Gesta Bélica e Associazione de judeus), com o apoio de outras
Culturale Veneto Fronte Skinheads – organizações neonazistas.
além da Falange, Democracia Nacional, Quanto às oportunidades de
Alternativa por la Unidad Nacional, que manifestação política, a situação da
não são associadas, mas estão sempre Blood & Honour, assim como de outras
no entorno das divisões espanholas de associações similares, é muito pouco
Blood & Honour e Hammerskin. São definida. A princípio, qualquer mobilização
todas, porém, aliadas menores. Não contrária à sua ideologia se torna uma
tendo êxito em se aliar oficialmente com possibilidade de oportunidade política:
os partidos de extrema-direita,30 que de passeatas do movimento pelos
temem ter sua imagem contaminada, direitos de homossexuais, bissexuais e
nas representações coletivas, pela transexuais às políticas de ação afirmativa
postura violenta dos skinheads, o Blood das populações afrodescendentes e de
& Honour acaba por não conseguir outras minorias, todos esses movimentos
oportunidades políticas no que tange à geram, como efeito colateral indesejado,
arena política estatal. oportunidades para a (re)ação física ou
Dessa forma, o antimovimento ideológica da Blood & Honour. Cada
social neonazista Blood & Honour está autoafirmação dos grupos aos quais
relativamente isolado, pois não pode a Blood & Honour se opõe é tomada
entrar nas vias políticas de fato,31 tendo por eles como tentativa de destruir a
que se restringir à captação de membros identidade branca e a cultura europeia

30
Salas (2006) chega mesmo a defender que os skinheads são manipulados como massa de
manobra por esses partidos.
31
A conduta violenta de seus líderes e sua recusa a participar do jogo político das democracias
liberal-burguesas impedem que entre eles se crie um habitus político profissional. O conceito de
habitus aqui se refere a Bourdieu (1998).
171
Enfoques Vol.1, n.14.

e, portanto, é transformada pelo grupo reconhecimento de superioridade; um


em oportunidade para fortalecer sua antimovimento social marcado pelo
identidade e recrutar novos membros. sentimento de superioridade étnico-
Símbolos, memória e construção da racial, nacional e cultural só poderá se
identidade neonazista sentir reconhecido se, e à medida que, for
reconhecida sua suposta superioridade.
Parafraseando Tarrow (2009), A ausência desse reconhecimento
adaptando ao objeto de estudo aqui significa a infração dessas expectativas.
proposto, podemos nos perguntar: o que Oferecer-lhes tratamento igual ao dado
motiva os membros do Blood & Honour às outras “raças” e culturas é igualá-los
a participar de atitudes violentas em a elas. Uma vez igualados àqueles que
nome de seu ideal, arriscando as próprias são por eles considerados inferiores,
integridades físicas e patrimoniais? Que os neonazistas se sentem rebaixados,
recompensas materiais ou imateriais desprezados, não reconhecidos.
podem obter por se arriscarem? Que Os skinheads, conforme relatado
objetivos pretendem alcançar? Qual por Salas (2006), incluindo os membros
é a estrutura moral que informa seu da Blood & Honour, são marcados
comportamento? É o caso de uma luta por um sentimento de submissão e de
por reconhecimento, para pensarmos exclusão desde antes de o componente
também nos termos de Honneth (2009)? político entrar em cena. É difícil conhecer
Comecemos pela última questão exatamente todos os porquês de o
para, a partir daí, desenvolvermos antimovimento skinhead neonazista ser
as demais. É possível pensar que o escolhido por um indivíduo como um
antimovimento neonazista se trata, em meio para expressar esse sentimento,
termos, de uma luta por reconhecimento tendo em vista que existem várias outras
desde que se realize uma interpretação formas de organização que poderiam
específica sobre o conceito de Honneth. servir para esse mesmo fim e que, mais
A cada direito conquistado por seus especificamente, nesse antimovimento,
adversários, mais esse antimovimento se existem várias organizações às quais
sente injustiçado, depreciado: enquanto o indivíduo pode se associar além
sua suposta superioridade não for da Blood & Honour. Todavia, o que
publicamente reconhecida, enquanto é fácil de compreender é que esse
seus adversários compartilharem de antimovimento fornece elementos fortes,
isonomia jurídica, os membros da ainda que sejam equivocados, para
organização continuarão a se sentir seus membros expressarem sentimentos
menosprezados. Segundo o autor, “os de revolta contra a submissão e a
motivos da resistência social e da rebelião exclusão que eles sentem que lhes são
se formam no quadro de experiências impostas, independentemente de isso
morais que procedem da infração e corresponder corretamente à realidade.
de expectativas de reconhecimento Uma vez que se começa a participar
profundamente arraigadas” (Honneth, dessa associação, o sentimento de
2009: 258). Seu sentimento identitário pertença gerado pela solidariedade
e de autoestima depende, em larga que se encontra no interior do grupo
medida, de sua condição de dominação; gera “uma espécie de estima mútua”
depende da inferiorização da alteridade. (Honneth, 2009: 260) entre os membros,
No caso do antimovimento neonazista, aumentando a identificação com a
há a expectativa de se alcançar o causa.
172
Enfoques Vol.1, n.14.

De acordo com Honneth, “o defendida pelo grupo.


engajamento individual na luta política Além das já mencionadas suásticas
restitui ao indivíduo um pouco de seu e cruzes gamadas, ligadas diretamente
autorrespeito perdido” (2009: 259- ao nazismo, o antimovimento neonazista
260). O antimovimento Blood & Honour possui símbolos próprios. Curiosamente,
acolhe seus membros em um grupo alguns dos principais símbolos utilizados
coeso, unido, cuja ideologia canaliza são numéricos: “18” vem da primeira e
todas as angústias sentidas contra da oitava letras do alfabeto latino, A e
inimigos reduzidos a rótulos simples: H, fazendo referência a Adolf Hitler; “88”
judeus e, com eles, o sistema econômico segue uma lógica similar, H e H, de Heil
global; homossexuais, que, para os Hitler; o mesmo se dá com “28”, que é
neonazistas, ameaçam a integridade da outra forma de se referir ao Blood &
família branca; socialistas, comunistas Honour. Já com outro dos algarismos
e anarquistas, por não defenderem a mobilizados, o “14”, a lógica é outra;
raça ariana; e, sobretudo, imigrantes, trata-se de uma alusão às 14 palavras
que supostamente se recusariam a se do supremacista branco David Lane, uma
integrar às populações nativas. Para frase que deve obrigatoriamente ser de
esse movimento, a resposta é simples: conhecimento de todo jovem neonazista:
com a eliminação dos imigrantes (física, “We must secure the existence of our
especial ou simbólica), a Europa pode se people and a future for White Children”,
fortalecer e construir uma supremacia isto é, “Devemos assegurar a existência
branca, lutando contra o sionismo e do nosso povo e um futuro para as
subjugando os demais povos. crianças brancas”.32
A “violação de um consenso É pela via simbólica, portanto, que
tácito” – consenso que, no caso do se mobiliza e se organiza a gramática
Blood & Honour, assim como de todo moral do grupo. Esses símbolos apelam
o antimovimento neonazista, reside na não apenas ao sentimento de uma
suposta superioridade da raça branca – superioridade não reconhecida mas
“é vivenciada pelos atingidos como um também à memória coletivamente
processo que os priva de reconhecimento criada, que sustenta a identidade
e, por isso, os vexa no sentimento de do grupo. Como ressaltou Eyerman
seu próprio valor” (Honneth, 2009: (2004), a memória é parte fundamental
263). O Blood & Honour envolve os na formação da identidade – tanto
indivíduos em um meio no qual a estima individual quanto coletiva –, bem como
mútua entre os “camaradas” (para da constituição de conflitos e processos
usar uma categoria nativa) restitui seu políticos. Os “traumas culturais” que
autorrespeito, seu sentimento de valor marcam a memória neonazista são a
próprio, por meio da manipulação de derrota na Segunda Guerra Mundial
símbolos que apelam à superioridade e a perda da condição imperialista
da raça ariana e da identidade europeia econômico-militar da Europa. Além

32
Há também referências simbólicas menores, como as divisões Panzer. Além disso, cada asso-
ciação neonazista conta com símbolos próprios. Na Hammerskin, por exemplo, um machado tat-
uado ou em uma camiseta substitui os símbolos do Blood & Honour, mobilizando a identidade
grupal com tanta força quanto a suástica.

173
Enfoques Vol.1, n.14.

disso, como se pôde perceber pelos os conflitos intraeuropeus em prol da


principais símbolos do antimovimento, defesa da raça ariana.
sua memória está profundamente Também na questão da memória,
orientada pelo imaginário do Terceiro é importante ressaltar que, como
Reich – o ápice do reconhecimento da em toda idealização do passado, o
suposta superioridade da raça ariana. antimovimento neonazista reformula
Anderson (2005), em Comunidades todos os problemas que já afligiram a
imaginadas, também destaca, entre Europa, especialmente os do passado
outros fatores, o papel da memória mais recente (como a crise econômica
como um processo de lembrança e de 2008 em diante, mas sobretudo
de esquecimento na construção da as crises provocadas pelos sucessivos
identidade coletiva de uma comunidade choques do petróleo, pelo desmonte de
que existe sobretudo no plano elementos centrais ao Estado de bem-
imaginário, especialmente no que se
33
estar social e pela reestruturação da
refere à nação, ou melhor, à identidade divisão internacional do trabalho, com
nacional. Todo o antimovimento a fuga de diversas indústrias europeias
neonazista apresenta uma característica para outros lugares do globo),35
particular nesse sentido: por um lado, responsabilizando de preferência uma
suas reivindicações são nacionalistas, suposta influência judaica ou a presença
na medida em que se propõem a fazer dos imigrantes, que estariam tirando os
a defesa das tradições nacionais; por empregos das populações locais.
outro lado, suas organizações são Mais além, um episódio
transnacionais, e seus discursos fazem inteiro do trauma cultural judaico
apelo tanto à nação quanto ao continente na história recente é apagado da
europeu – no caso dos grupos sediados memória neonazista: o Holocausto é
em países europeus. Considerando-se completamente negado pela maioria dos
que a maior parte do antimovimento membros dessa organização; é tratado
se situa na Europa, ao se associar ao como uma invenção do judaísmo para
Blood & Honour, o sujeito faz uma poder se travestir de vítima – embora
afirmação com um duplo sentido de a maioria desses membros não fosse
lugar:34 em um primeiro nível, afirma- hesitar em realizar um novo holocausto.
se uma nacionalidade (espanhol, inglês, Conforme relatado por Salas (2006),
alemão, holandês etc.), enquanto, em um o revisionismo/negacionismo histórico
segundo nível, afirma-se uma pertença sobre o genocídio judaico nos últimos
“racial” determinada pelo continente – a anos do Terceiro Reich é uma marca
Europa. Esquecem-se as rivalidades e presente em todas as organizações

33
A nação “é [uma comunidade] imaginada porque até os membros da mais pequena nação nun-
ca conhecerão, nunca encontrarão e nunca ouvirão falar da maioria dos outros membros dessa
mesma nação, mas, ainda assim, na mente de cada um existe a imagem da sua comunhão” (An-
derson, 2005: 25). Nesse contexto, de modo algum dizer que a nação é imaginada poderia implic-
ar que a nação não fosse também real.
34
Assim como ocorre na expressão “afro-americano”, fazendo referência ao país em que se vive
– os Estados Unidos da América – e ao continente de “origem” (real ou simbólica) – a África –,
conforme observou Eyerman (2004).
35
Existe vasta bibliografia sobre esse processo macroeconômico. Sugerimos Harvey (2008).

174
Enfoques Vol.1, n.14.

neonazistas. O negacionismo sobre e que não permitiriam que seus


o Holocausto pretende apagá-lo resultados fossem diferentes do
oficialmente da memória não apenas de que são (por exemplo: a afirmação
neonazistas, mas de todos. de que em Auschwitz não existiam
câmaras de gás. (Moraes, 2011: 3,
Em países como Áustria e
grifo do original).
Alemanha, o revisionismo do Holocausto
ganha importância na agenda de debates O negacionismo pode ser
públicos, tanto na política quanto na então definido não como uma prática
historiografia, durante a década de historiográfica legítima, mas como
1980 (Bailer-Galanda & Neugebauer, um instrumento de afirmação política
1996). O Historikerstreit – expressão de extrema-direita empreendida por
que pode ser traduzida como debate, ideólogos que “negam ou minimizam os
disputa ou conflito entre historiadores – efeitos do Holocausto e afirmam que
apresentou uma tendência a ignorar a o assassinato de milhões de judeus,
especificidade histórica do Holocausto, ciganos, eslavos etc. é uma mentira
minimizando os crimes de guerra da criada e mantida pelos vencedores da
Alemanha nazista. Para os autores, essa II Guerra Mundial em estreita aliança
é uma característica típica dos grupos com os judeus sionistas fundadores do
neonazistas, os quais tiveram sua Estado de Israel” (Castro, 2014: 9).
estrutura desarticulada na Áustria depois
de medidas que tornaram a negação Conclusão
do Holocausto um crime passível de Em seu estudo sobre o papel
punição legal, fazendo que tais grupos da noção de nação na construção
permanecessem na ilegalidade. identitária de comunidades, Anderson
Para Castro (2014: 7), o negacionismo (2005) percebe como o adjetivo “novo”
ou revisionismo do Holocausto constitui para denominar cidades fundadas
um exemplo de pseudo-história ancorada pelos europeus em terras distantes
em interpretações reducionistas do (como New York e Nouvelle-Orléans
extermínio nazista. Essa prática pseudo- na América do Norte) não tem o
histórica funciona como elemento significado de substituição de um lugar
aglutinador das formas fascistas antigo que existia; quando isso ocorria,
contemporâneas, assumindo um papel por exemplo, no Sudeste Asiático, a
central em sua identidade (Castro, cidade assim nomeada era considerada
2014: 8). Tanto para Castro quanto sucessora ou herdeira de uma cidade
para Moraes (2011), o negacionismo do antiga desaparecida. O significado do
Holocausto não deveria ser interpretado “novo” nas cidades fundadas pelos
por meio da terminologia historiográfica europeus em lugares remotos é de uma
de “revisionismo”, pois nova versão com base no topônimo
inspirador. Podemos usar essa dinâmica
o que caracteriza a prática e os
como analogia para nosso caso. O prefixo
textos dos negacionistas não são
“neo-” em “neonazismo” reúne essas
os resultados de seus trabalhos –
as suas supostas “interpretações” duas características simultaneamente: é
sobre um tempo passado (o período o substituto de um nazismo praticamente
de 1933 a 1945) –, mas sim os desaparecido e, ao mesmo tempo, uma
fundamentos e os propósitos mesmos nova versão, herdeira da antiga ideologia.
de seus trabalhos, que determinam O neonazismo é a adaptação de algumas
os procedimentos daí decorrentes das principais ideias nazistas originais
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Enfoques Vol.1, n.14.

a uma nova condição histórica, unindo- “os símbolos culturais não estão
as a seu antigo espírito de rejeição automaticamente disponíveis como
da alteridade, pensada sempre como símbolos mobilizadores, mas exigem
algo inferior. Tanto o nazismo original agentes concretos para transformá-
quanto sua versão reformulada partem los em quadros interpretativos de
de um misto de sentimento de falta confronto” – e é precisamente o que
de reconhecimento da superioridade acontece com a Blood & Honour em
imaginada com um conjunto de ideias relação aos antigos símbolos nazistas:
que têm como foco a negação do a organização, por meio dos confrontos
reconhecimento de múltiplas formas de sociopolíticos, manipula e mobiliza
alteridade. esses símbolos para fornecer um
O fato de o nazismo ser, em “quadro interpretativo” de todos os
grande parte, motivado pela crise do elementos que compõem o confronto
liberalismo e pela humilhação imposta à em que se insere. A combinação do
Alemanha com o Tratado de Versalhes, novo quadro interpretativo da xenofobia
além do antigo antissemitismo presente pan-europeia com o antigo quadro do
em diversas populações europeias imaginário nazista, em uma “matriz
(Elias, 1997), junto com todo o contexto cultural” (Tarrow, 2009: 158), produziu
histórico e social em que estava envolvido, um “quadro interpretativo explosivo de
ajuda a explicar aquela que é a maior ação coletiva”, isto é, um quadro que
diferença entre ele e o neonazismo: o possibilitou o surgimento de um novo
caráter transnacional deste, diferente antimovimento social.
do caráter exclusivamente nacional do Em outras palavras, o neonazismo,
nazismo. O neonazismo não é, nem ao por meio de suas organizações
menos em parte, uma resposta alemã supranacionais, mobiliza antigos
a uma humilhação sentida estritamente símbolos nazistas dando-lhes um
no plano nacional: as duas principais novo significado – ainda enraizado no
organizações neonazistas foram criadas significado anterior –, fornecido pelos
por ingleses e por norte-americanos, conflitos sociopolíticos em que seus
respectivamente a Blood & Honour adeptos se encontram, organizando suas
e a Hammerskin. A unidade à qual o experiências de falta de reconhecimento
grupo apela deixou de ser a unidade em torno de uma luta pela negação
pangermânica, passando a mobilizar do reconhecimento e da legitimidade a
diversos níveis: 1) o nível nacional; 2) o seus opositores, em um contexto em que
nível continental-cultural (já que a maior muitos jovens enfrentam um mercado
parte do antimovimento é europeia); e de trabalho extremamente competitivo,
3) o nível étnico-racial. em uma economia que enfrenta crises
Embora utilizem símbolos do periódicas, fazendo que a presença de
passado nazista alemão, o antimovimento trabalhadores estrangeiros seja vista
social neonazista se situa para muito como ameaça à sua sobrevivência
além da Alemanha; esses símbolos são econômica. O neonazismo, por meio de
ressignificados de um contexto nacional organizações como a Blood & Honour,
para o supranacional, de um movimento funciona como uma ponte cognitiva
político – no significado mais tradicional que liga experiências de exclusão
da palavra “política” – para um social e de risco econômico, sentidas
antimovimento social predominantemente individualmente pelos sujeitos, a uma
juvenil. Segundo Tarrow (2009: 157), luta política por reconhecimento dentro
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Enfoques Vol.1, n.14.

de uma coletividade, fornecendo-lhes e no poder”.36


um mapa cognitivo para explicar suas Neste artigo, nosso objetivo foi
experiências pessoais e o mundo que analisar brevemente o funcionamento de
os cerca mas os exclui e ameaça – alguns dos elementos mais básicos da
ainda que esse mapa não esteja de organização neonazista Blood & Honour
acordo com a realidade dos processos com base em dois eixos principais: 1) as
sociais. Essa luta é marcada por uma teorias dos movimentos sociais pensadas
conduta agressiva não apenas pela por Tarrow, Honneth e Touraine; e 2)
violência intrínseca à própria ideologia as teorias sobre o multiculturalismo
do movimento mas também porque, de Touraine e Hall. Além disso, foram
tendo recursos limitados, a “violência utilizados os estudos de Anderson e
real ou potencial [é] a forma mais fácil Eyerman sobre o papel da memória na
para a iniciação” (Tarrow, 2009: 126) de construção da identidade em conflitos
sujeitos que se sentem interditados em políticos. Nosso objetivo foi sobretudo
suas vidas cotidianas para se vincular demonstrar como a experiência de
ao antimovimento. A violência é também exclusão e de interdição do sujeito
“usada deliberadamente [...] para unir precisa de um conjunto simbólico
apoiadores, desumanizar opositores e coletivamente organizado para poder
demonstrar a coragem” (Tarrow, 2009: se transformar em um elemento que
126) do antimovimento, criando “uma mobilize a ação política coletiva.
identidade coletiva baseada na virilidade

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