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“O garoto selvagem”: Observações e pesquisa sobre natureza e

cultura, determinismo biológico, determinismo geográfico e


endoculturação.

Esta pesquisa tem por objetivo identificar aspectos antropológicos e


sociológicos como determinismo biológico, endoculturação, determinismo
geográfico e a relação natureza x cultura através da análise do longa-
metragem “L’efant sauvage” (tradução para o português como “garoto
selvagem”).
O filme de 1969 traz em seu enredo a história de um garoto entre 11 e 12
anos de idade (interpretado por Jean-Pierre Cargol) que provavelmente foi
abandonado no ambiente selvagem, longe de qualquer contato com a
civilização ou cultura local. Por esses motivos, o garoto se alimenta de frutas,
frutos e raízes; além de utilizar as mãos para manusear a comida, anda de
forma quadrúpede, não possui vestimentas, apresenta uma forte resistência
ao calor e ao frio devido longos anos de exposição a altas e baixas
temperaturas diretamente na pele, possui uma audição capaz de ouvir ruídos
agudos mas não reage a ruídos muito fortes e até a sua habilidade de
comunicação labial foi extinta.
Após ser encontrado por 3 caçadores, este é apelidado de “Selvagem de
Aveyron” e levado para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos (já que o
garoto não apresentava uma audição muito boa e nem se comunicava por
palavras), neste local algumas pessoas tem medo dele, outras querem pegá-
lo e as crianças querem entender esse ser “peculiar” que não tem cultura por
ter crescido num meio natural; e é aqui que encontramos o primeiro choque
natureza x cultura. Natureza é o conjunto de coisas existentes em estado
bruto, sem a necessidade da interferência humana, pois as árvores não
precisam ser construídas pelos homens, nem os rios ou as florestas. O garoto
selvagem foi quem sofreu a interferência da natureza em seu organismo de
forma tal que até a sua psique e sua noção moral (que é considerada um valor
cultural) foi mudada, visivelmente vista quando ele mata o cachorro para
defender-se, atitude que provavelmente seria má vista em meio cultural. Por
outro lado, a cultura é uma construção humana a partir das modificações que
este faz na natureza, não só por meios materiais, mas também por meios
morais e espirituais. Há cerca de 30 mil anos atrás nossos antepassados
tentavam escrever o seu dia a dia ou expressar seus pensamentos através das
pinturas rupestres, o dia a dia era quase incerto; e como nômades
buscávamos sobreviver pela caça e pela pesca, porém sujeitos a ataques
inesperados de feras selvagens a todo instante, a chance de sobrevivência era
mínima. Com o passar do tempo o ser humano aprendeu a prever o clima, as
estações e a migração dos animais através das estrelas, a parti disso
conseguimos nos estabelecer em um lugar fixo para plantar, colher,
apascentar animais e estabelecemos um lar. Com o surgimento da escrita
decidimos registrar ideias e acontecimentos e transmiti-los de geração em
geração; e tudo isso nos levou de meras criaturas primitivas a grandes
pensadores. No nosso caso, a ética foi criada para aperfeiçoar a convivência,
as leis para aperfeiçoar a justiça e constituir famílias passou a ser nossa forma
de garantir a sobrevivência e até hoje faz parte de nossa cultura. Todo este
êxito teve seu início com pequenas modificações na própria natureza e
chegando àquilo que chamamos de civilização ocidental, sendo esta erguida
em três pilares: o direito romano, a filosofia grega e a moral judaico-cristã.
No contexto do filme, a sociedade culturalmente formada estranha o garoto
que talvez nunca teve contato com uma civilização, pois o garoto em tudo
age como um animal selvagem e o objetivo daqueles que o encontraram era
ensiná-lo a tornar-se um ser sociável. O garoto também estranha ser tirado
de seu meio habitual para ter contato com uma civilização cujo ele nunca
teve contato antes.
A partir desse momento o garoto será treinado para habituar-se a conviver
em sociedade civilizada, andando como bípede e se comunicando através da
fala (talvez perdido por causa da ausência de palavras e comunicação de
outros durante o período de desenvolvimento da fala do garoto), dando início
ao processo de enculturação. Enculturação é o processo de aprendizagem de
uma cultura onde os indivíduos inseridos nela aprendem suas características
e crenças, descrito pela sociologia como socialização. No filme por exemplo,
o garoto aprende a vestir-se e calçar-se da maneira como os europeus do
século XX faziam, ou quando o responsável por seus cuidados o puni –
mesmo quando ele faz algo certo - para ensiná-lo sobre padrões morais ou
para entender se um ser selvagem tinha capacidade de diferenciar entre o
bem e o mal e o que é bom ou mau. Locke definia a mente humana como
uma folha em branco, isto é, sem conhecimentos, padrões de
comportamento, crenças, costumes, etc. Logo o processo de enculturação é
a grosso modo o preenchimento dessa folha, feito pelos amigos, parentes,
família, igreja, escola, e outras instituições; e este processo dura toda uma
vida, pois o ser humano é subjetivo e está em constante mudança.
Em um determinado ponto do filme um dos homens que o avalia diz que o
menino é um ser inferior e mentalmente retardado e acredita que nada pode
mudar o comportamento do garoto mesmo que receba algum treino, o que
nos remete aos fatores de determinismo biológico e geográfico. O
determinismo biológico afirma que todas as características físicas e mentais
dos indivíduos são determinadas por sua raça, nacionalidade ou grupo étnico
que o indivíduo pertence, é afirmar por exemplo que todos os japoneses tem
o olho puxado e todo africano é negro. Em certas épocas era ensinado que
aqui as diferenças sociais e econômicas, entre as diferentes classes sociais
era fruto genético, determinando a suposta superioridade e a inferioridade de
povos e etnias (como a do filme onde um dos médicos afirma que o garoto
tem doença mental pelo fato de ter sido criado na selva).
Por sua vez, o determinismo geográfico afirma que o homem é moldado por
conta das condições ambientais ou naturais de onde ele está inserido (dizer
por exemplo que os Brasileiros são mais felizes que outros povos porque
moramos em um país de clima tropical). No filme, todos os comportamentos
do garoto como farejar, andar curvado com o rosto pro chão e ter grande
resistência ao frio e ao calor forma moldados por viver tanto tempo na selva
e sem contato humano, da mesma forma como o determinismo geográfico
afirma que até mesmo os comportamentos individuais são por influência do
meio.