Você está na página 1de 13

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/281225987

A sociologia periférica de Guerreiro Ramos

Article · April 2015


DOI: 10.1590/S0103-49792015000100004

CITATIONS READS

3 78

1 author:

João Marcelo EHLERT Maia


Fundação Getulio Vargas
29 PUBLICATIONS   108 CITATIONS   

SEE PROFILE

Some of the authors of this publication are also working on these related projects:

Global arenas of knowledgeA sociology of knowledge project. See: http://sydney.edu.au/education_social_work/news_events/projects/global-arenas/index.shtml


View project

All content following this page was uploaded by João Marcelo EHLERT Maia on 08 June 2016.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


João Marcelo Ehlert Maia

A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS

DOSSIÊ
João Marcelo Ehlert Maia*

O artigo analisa a obra do sociólogo Alberto Guerreiro Ramos como parte do campo da sociologia pe-
riférica. Por meio de uma leitura interna de seus textos escritos na década de 1950, sugere-se que uma
abordagem transnacional de sua produção intelectual pode contribuir para inserir a história do pen-
samento social brasileiro no campo da história global da sociologia no pós-Segunda Guerra Mundial.
Palavras-chaves: Guerreiro Ramos. Sociologia periférica. História da sociologia. Pensamento social bra-
sileiro.

O objetivo deste artigo é analisar o dis- e dados recolhidos a partir de pesquisas que
curso sociológico de Alberto Guerreiro Ramos venho desenvolvendo nos últimos anos sobre
(1915-1982) a partir de duas dimensões rela- o tema. Em seguida, analiso a produção socio-
cionadas entre si: a) a história da sociologia pe- lógica de Guerreiro Ramos à luz desse univer-
riférica no período posterior à Segunda Guer- so, tomando como material primário principal
ra Mundial; b) a relação entre essa sociologia alguns de seus principais textos da década de
periférica e a história global da disciplina no 1950, incluindo seu clássico livro sobre a re-
mesmo período. Minha hipótese é que parte dução sociológica. Finalmente, finalizo apon-
da produção intelectual de Guerreiro Ramos tando como essa análise pode representar uma
compartilha com essa sociologia um conjunto pequena, mas relevante, contribuição para
de teorias, conceitos e modos de pensar, o que novas questões que vêm sendo discutidas tan-

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015


implica reler a contribuição desse autor à luz to no campo do chamado “pensamento social
de uma história alternativa ao campo exclusi- brasileiro” como nas pesquisas contemporâne-
vamente nacional do chamado pensamento so- as da história da sociologia.
cial brasileiro. Além disso, sustento que o caso As análises e as interpretações aqui
de Guerreiro Ramos, visto por essa perspectiva apresentadas surgiram de diferentes pesquisas
ampliada, nos ajuda a recontar a própria his- e reflexões realizadas no ambiente acadêmi-
tória geral da disciplina de uma forma menos co do Centro de Pesquisa e Documentação de
eurocentrada e mais propriamente global. História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da
O artigo tem três seções. Na primeira, Escola de Ciências Sociais da Fundação Getú-
apresento brevemente o que entendo ser a so- lio Vargas. Iniciei os estudos específicos sobre
ciologia periférica, mobilizando literatura re- Guerreiro Ramos no âmbito do projeto “Terra,
lativa à história do conhecimento sociológico autonomia e imaginação periférica: descen-
trando o pensamento social brasileiro”, finan-
* Doutor em Sociologia. Professor do CPDOC/Escola de Ciên-
cias Sociais da FGV. Pesquisador/bolsista do CNPq. ciado pela FAPERJ para o período compreendi-
Praia de Botafogo 190/ 14º andar. Cep: 22250-900. Rio de
Janeiro – Rio de Janeiro – Brasil. joao.maia@fgv.br do entre 2010 e 2011. Mais recentemente, es-

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792015000100004
47
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS.

tou coordenando o projeto “Repertórios perifé- nam a sociologia ao pensamento europeu sobre
ricos: léxicos, conceitos e teorias periféricas”,1 a modernidade, por exemplo), aos próprios li-
financiado pelo CNPq para o biênio 2013-2014, e vros que organizam e sintetizam a visão hege-
que é compartilhado com o pesquisador Cláudio Pi- mônica sobre essa história, como se pode ver
nheiro, com o qual trabalhei no Laboratório de Pen- nos trabalhos de Anthony Giddens e Jonathan
samento Social (LAPES) do CPDOC. Turner (1999) e Hans Joas e Wolfgang Knobl
(2009), para ficar apenas em alguns dos nomes
mais conhecidos no mainstream da disciplina.
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA Em geral, a narrativa contida nessas
obras é bem conhecida: a história da sociolo-
A categoria de sociologia periférica tra- gia no século XX teria conhecido seu momento
balhada neste artigo surgiu a partir da percep- fundador na grandiosa síntese de Talcott Par-
ção de que a história da sociologia, tal como sons no livro A Estrutura da Ação Social, de
disseminada em livros, artigos e coletâneas 1937, momento em que a disciplina, nos EUA,
especializadas, privilegia basicamente auto- teria incorporado, de forma decisiva, a teori-
res, teorias e correntes intelectuais surgidas zação europeia. Em seguida, a consolidação
nos Estados Unidos e na Europa, perpetuando, do estrutural-funcionalismo nas décadas de
portanto, uma profunda assimetria entre con- 1940 e 1950 teria contribuído para a interna-
textos “centrais” e “periféricos”, o que é um cionalização do pensamento sociológico, sob
problema bem conhecido na literatura espe- a égide do par Parsons-Lazarsfeld. A crítica a
cializada. Não são poucos os estudos que rei- essa síntese teria vindo da emergência das teo-
teram as desigualdades estruturais existentes rias de conflito e da renascença do marxismo,
na geopolítica da produção de conhecimen- com larga contribuição de teóricos europeus
to (Hountondji, 1990; Alatas, 2006; Connell, (Dahrendorf, Rex, entre outros) nos anos de
2007; Keim, 2010). Essas desigualdades con- 1960. A proliferação de abordagens micro e
tribuem para concentrar os recursos institu- macro, que não se comunicavam entre si (di-
cionais, econômicos e simbólicos necessários gamos, o estruturalismo de origem francesa e
para a produção e circulação de conhecimento a abordagem dramatúrgica de Goffman), teria
em países e universidades do Hemisfério Nor- inspirado as novas tentativas de síntese teórica
te, lugar de onde são enunciadas as teorias ti- das décadas de 1970 e 1980, representadas nas
das como legítimas e supostamente universais, obras de Pierre Bourdieu, Anthony Giddens
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

reservando-se aos países do Sul a função de e Jurgen Habermas, entre outros. Finalmente,
produção de dados e materiais primários e a a erosão de prestígio dos grandes paradigmas
tarefa de replicação de teorizações. explicativos totalizantes teria impulsionado
No caso da sociologia, tal distribuição a pulverização de correntes teóricas, com a
desigual afeta a própria autocompreensão dos abertura da sociologia para a crítica feminista,
sociólogos com relação à história de sua disci- para os estudos subalternos e para abordagens
plina, que tem caráter notadamente eurocêntri- oriundas de outros campos, como psicanálise,
co. As evidências desse problema vão da pró- antropologia e teoria literária. Essa história, re-
pria construção de currículos de graduação em sumida um pouco grosseiramente, aqui é con-
universidades brasileiras (nos quais os alunos tada tendo como geografia quase exclusiva os
são expostos, de forma excessiva e quase exclu- países do Atlântico Norte, o que torna toda a so-
siva, a disciplinas de introdução que relacio- ciologia praticada na América Latina, na África
1
A equipe é formada também pelos alunos de graduação
e na Ásia irrelevante ou simples replicação ou
Mariana Freitas (CPDOC, Escola de Ciências Sociais), Ra- recriação de uma história que lhes é alheia. Por
phael Lebigre (UFRJ) e pela mestre em Filosofia pela USP
Marianna Poyares. isso, refiro-me aqui à sociologia periférica.

48
João Marcelo Ehlert Maia

Note-se que nem discuto a narrativa com a hipótese de que a sociologia periférica,
hegemônica sobre a história dos fundamen- a despeito de sua notável diversidade interna,
tos tidos como “clássicos” da disciplina, que caracterizou-se pela existência de um campo
é responsável pela cristalização do famoso câ- internacional estruturado por um universo co-
none que todo estudante de graduação apren- mum de questões relativas a problemas como
de, formado pelos nomes de Marx, Weber e autonomia, imperialismo, eurocentrismo, co-
Durkheim. Como corretamente já apontou lonialismo e dependência. Em texto anterior
Raewyn Connell (2012), tal narrativa obscure- (Maia e Caruso, 2012), exploramos a obra de
ce as profundas conexões entre o surgimento um notável sociólogo periférico – Syed Hus-
da reflexão sobre o social e fenômenos globais sein Alatas (1928-2007) – para evidenciar algu-
como o colonialismo e o imperialismo, que ma das categorias que circulavam com desen-
impulsionaram o olhar “imperial” que marcou voltura nesse universo (como “mente cativa”).
Comte, Hohbouse e Spencer, entre outros no- No que se refere ao vocabulário e às institui-
mes menos cotados e hoje esquecidos. ções que permitiam a circulação dessas ques-
Mais recentemente, nota-se um esforço tões, é importante notar que esse universo en-
considerável no campo da história da sociolo- volveu não apenas cientistas sociais, mas tam-
gia, que tem por objetivo descentrar a narrativa bém economistas e historiadores de diferentes
acima apresentada, iluminando autores, insti- países, que escreviam em revistas e periódicos
tuições, teorias e correntes teóricas produzidas tais como a Cahiers Internationaux de Socio-
em contextos periféricos que contribuíram logie (editada na França entre 1946 e 2011), a
para modelar discursos e conceitos de grande América Latina (revista do Centro Latino-A-
circulação no pensamento social, mas que não mericano de Pesquisa em Ciências Sociais da
são devidamente registrados e (ou) analisados UNESCO), a Tiers-Monde (editada a partir dos
na narrativa hegemônica. A já citada Raewyn anos 1960, também na França), e a africana
Connell, por sua vez, vem empreendendo Transitions, entre dezenas de outros títulos de
notável esforço na tentativa de inventariar e menor regularidade e impacto. Finalmente, de-
analisar pensadores africanos, asiáticos e lati- ve-se destacar a emergência de conferências e
no-americanos que possam renovar o discurso congressos de temática terceiro-mundista que
teórico da disciplina (Connell, 2007), e a pró- proliferavam no período, mais particularmen-
pria Associação Internacional de Sociologia te na década de 1970 (Deves, 2006).
vem abrindo espaço para essa discussão, tendo Uma das características principais desse

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015


editado um valioso volume, no qual especialis- vasto universo é o que nomeei como “linguagem
tas de diversas regiões do mundo apresentam da autonomia” (Maia, 2012a), isto é, um discur-
a história da sociologia em países tão diver- so sociológico que reconhece as assimetrias en-
sos como Irã, Palestina e África do Sul (Patel, tre centro e periferia e busca refletir sobre esse
2009). No caso da América Latina, Fernanda tema, seja em termos práticos, impulsionando
Beigel (2013), Eduardo Deves (2006) e Clau- formas não acadêmicas de trabalho intelectual,
dio Pinheiro (2010) evidenciaram a circulação seja em termos cognitivos, pelo desenvolvimen-
internacional da teoria da dependência e sua to de novos conceitos que possam contribuir
relevância para o processo de regionalização e para a reelaboração da teoria sociológica. Sus-
transnacionalização da disciplina. tento que Guerreiro Ramos pode ser interpre-
Minha pesquisa e este artigo sobre o caso tado como um intelectual cuja produção e tra-
de Guerreiro Ramos juntam-se a esse esforço, jetória ganha inteligibilidade à luz de questões
pois acredito que ainda há muito trabalho a ser próprias a esse universo transnacional, outrora
feito, em especial no que se refere a aborda- conhecido como “Terceiro Mundo”. Na próxi-
gens comparativas e transnacionais. Trabalho ma seção, procuro comprovar esse ponto.

49
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS.

GUERREIRO RAMOS E A SOCIOLO- campo científico do Rio de Janeiro. Após ter


GIA PERIFÉRICA sua nomeação para a posição de assistente na
cátedra de sociologia da FNFi preterida em
Em outros artigos (Maia e Caruso, 2012; favor de Costa Pinto, Guerreiro consegue ob-
Maia, 2012a), esbocei as conexões entre Guer- ter um posto no Departamento Nacional da
reiro Ramos e a sociologia periférica, e mais Criança em 1943, graças a San Thiago Dantas,
recentemente teci uma comparação entre o e torna-se interino no DASP no mesmo ano. A
brasileiro e o sociólogo malaio Syed Hussein partir daí, Guerreiro vai galgando posições no
Alatas (1927-2008), um dos precursores da serviço público e orientando-se para o estudo e
moderna ciência social no Sudeste Asiático a aplicação dos métodos sociológicos nos pro-
(Maia, 2014). Essas comparações visavam a cessos de organização do trabalho e na admi-
entender uma dimensão peculiar da trajetória nistração pública.
intelectual de Guerreiro Ramos, que diz res- Nos seus primeiros artigos mais pro-
peito às mudanças no seu discurso sociológico priamente acadêmicos, na Revista do Serviço
vivenciadas entre as décadas de 1940 e 1970. Público, pode-se observar que o autor tinha um
Neste artigo, amplio essa perspectiva, indo notável conhecimento sobre a sociologia nor-
além do caso comparativo específico. te-americana, em especial suas contribuições
Na segunda metade da década de 1930, metodológicas para a disciplina. Assim, Ra-
Guerreiro escreve para jornais e revistas (como mos escrevia sobre técnicas de survey social,
O Imparcial, A Ordem, Norte, Cadernos da indicadores demográficos e organização do tra-
Hora Presente) e desenvolve intensa atividade balho, entre outros temas de sociologia aplica-
de escrita, que é reunida na obra “Introdução da. Isso certamente refletia suas atividades no
à Cultura”. Nesse período, há pouca sociologia DASP e no Departamento Nacional da Crian-
propriamente dita, já que o autor dedica-se à ça, que foram investigadas por alguns de seus
filosofia, à crítica cultural e à poesia, sempre melhores intérpretes (Azevedo, 2006; Maio e
motivado pelo existencialismo cristão que lhe Lopes, 2012). Nos anos de 1950 e 1960, surge
é caro, e que se fundamenta na crítica à de- o Guerreiro mais conhecido, autor de artigos
sumanização do homem moderno e na conse- incendiários sobre a alienação da sociologia
quente busca por uma afirmação integral do brasileira, polemista notório por seu embate
sujeito. Filósofos como Maritain, Mounier e com Florestan Fernandes e membro indiscipli-
nado do Instituto Superior de Estudos Brasi-
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

Berdiaeff são seus autores de predileção. Com


esse último, exilado russo em Paris, correspon- leiros, o ISEB. Nesse período, conceitos como
de-se por carta. colonialismo, redução sociológica e alienação
A sociologia começa a aparecer de forma ganham espaço nos seus textos, bem como um
mais decidida na escrita de Guerreiro após sua conjunto novo de referências intelectuais, for-
vinda ao Rio de Janeiro, em 1939. Na ocasião, mado por pensadores do dito Terceiro Mun-
já fazia parte da administração Landulfo Alves do. Finalmente, no seu longo exílio, vivido a
na Bahia, e sua viagem para a capital federal de partir de 1966 em solo norte-americano, na
então visava à ampliação de sua formação inte- University of Southern California, encontra-
lectual. A despeito das fortes inclinações poé- remos reflexões sobre administração e racio-
ticas (o livro “O Drama de Ser Dois”, com seus nalização, com fundamentação em Habermas,
escritos da década de 1930, fora publicado em Weber, Marcuse e outros autores europeus e
1937), forma-se em Ciências Sociais (1942) e americanos. É claro que se pode postular uma
Direito (1943) na Faculdade Nacional de Fi- coerência na obra de Guerreiro Ramos, como
losofia, orientando-se a partir de então para a notavelmente faz Ariston Azevedo (2006), ao
busca de afirmação profissional no incipiente apontar a constante preocupação crítica do

50
João Marcelo Ehlert Maia

autor com a alienação do homem moderno liar o chamado “homem de cor” a se integrar
numa sociedade marcada pela racionalização, de forma plena na sociedade brasileira.
problema analisado à luz de uma agenda filo- Essa virada periférica no pensamento
sófica oriunda do existencialismo cristão. Po- de Guerreiro Ramos pode ser também explica-
rém, é também incontestável que, no período da pelo encontro do autor com protagonistas
compreendido entre 1953 e 1964, essas preo- da luta anticolonial em Paris, quando de uma
cupações foram vazadas em estilo, conceitos viagem realizada em 1956. Na ocasião, a ca-
e citações que não eram exclusivas do autor, pital francesa era um verdadeiro centro da di-
e nem poderiam se explicar pelo simples de- áspora de intelectuais africanos e caribenhos
senvolvimento interno do sistema intelectual das colônias, que logravam constituir laços
brasileiro. Explico-me. de solidariedade transcontinental justamente
O primeiro ponto a se ressaltar é a cen- no coração da Metrópole colonizadora. Guer-
tralidade do colonialismo na reflexão de Guer- reiro passa a escrever artigos para jornais de-
reiro Ramos nesse período. Longe de designar fendendo o espírito de Bandung e inserindo os
um período histórico específico, esse conceito problemas brasileiros no tema mais geral da
é tratado pelo autor como intrínseco à estrutu- luta anti-imperialista e da situação do Tercei-
ra epistemológica das ciências sociais. Assim, ro Mundo. Essa viagem está descrita no artigo
seus conhecidos textos sobre o “problema do Centro e Periferia no Mundo, publicado em 11
negro” evidenciam como a própria construção de março de 1956 em O Jornal. Ao relatar suas
da questão do negro no Brasil deriva de uma impressões sobre a viagem, Guerreiro afirma:
agenda das ciências sociais colonizadas, já que
O essencial dessas impressões diz respeito à politi-
pressupõe que o “negro” seria membro de um
zação desses povos até agora situados na periferia
grupo dotado de cultura e religião próprias,
do mundo, ou seja, constitutivos do proletariado
específicas de grupos “tradicionais”, a ser in- externo dos dois centros de poder de nosso tempo
vestigado e analisado pelos cientistas brancos [...] Senti em Paris e Londres o que há de obstinado
(Ramos, 1954). Longe de naturalizar o negro e decidido na ação de africanos e asiáticos em prol
ontologicamente, Guerreiro Ramos relaciona do soerguimento de suas regiões. A Conferência de
Bandoemg (sic) e sua continuação no Cairo este ano,
a produção desse grupo ao próprio discurso
o próximo Congresso Mundial dos intelectuais de
das ciências sociais, que reitera uma posição
cor, a realizar-se em setembro vindouro em Paris,
subalterna. Como se vê, a crítica ao racismo é, são apenas aspectos mais notórios de um trabalho
na verdade, uma crítica às ciências sociais e ao

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015


cotidiano, ininterrupto [...]. (Ramos, 1956, p. 1)
seu discurso moderno. Esse movimento episte-
mológico não está necessariamente contido na Note-se, nesse artigo de jornal, a utiliza-
sua produção anterior dos anos de 1940 (em- ção do conceito de “proletariado externo”, que
bora, obviamente, se possam apontar origens foi consagrado na obra do pensador congolês
e rastros), mas ganha sentido se lido à luz dos Pierre Moussa. Mas, mesmo antes dessa via-
escritos terceiro-mundistas que, na década de gem e desse texto, verifica-se, em Guerreiro,
1950, vinham evidenciando a dimensão colo- a forma pela qual temas que ele já trabalhava
nial das ciências humanas europeias – caso de anteriormente – como o problema da aliena-
Frantz Fanon, por exemplo. A reflexão do autor ção – começam a ser tratados a partir de uma
também certamente se nutriu de sua experiên- perspectiva que enfatiza a inscrição periférica
cia no Teatro Experimental do Negro (tem), e subordinada do Brasil no mundo ocidental.
fundado em 1944, e do Instituto Nacional do Em seu texto “O processo da sociologia no Bra-
Negro, de 1949 (Barbosa, 2006). Nesses espa- sil: esquema para uma História das ideias” (Ra-
ços, Guerreiro colaborava na organização das mos, 1953), Guerreiro relê a tradição intelectu-
sessões de grupoterapia, que visavam a auxi- al brasileira à luz de um esquema mais amplo

51
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS.

que questiona o etnocentrismo e a dimensão uma agenda de pesquisas prioritária, na qual


imitativa do pensamento em países de origem não haveria espaço para estudos monográficos
colonial. Nas palavras do autor, ou estudos de comunidade. Suas teses aca-
baram sendo derrubadas no plenário final do
O ideal da sociologia universal nos países líderes
do pensamento sociológico é, assim, um sintoma de
evento, mas isso não impediu que o autor con-
etnocentrismo. Nos países culturalmente coloniais, tinuasse a defendê-las em outros espaços. No
é uma superfetação compensatória do complexo de seu já citado livro sobre a história das ideias
inferioridade de certos elementos de elite (Ramos, no Brasil, essas ideias são apresentadas, já que
1953. p. 9). os exemplos apresentados de países que te-
Nessa mesma linha, Guerreiro afirma riam logrado produzir uma tradição autêntica
que países como Rússia, Índia, Japão e China de sociologia (Rússia, Japão, China e Índia) são
teriam logrado transformar o conhecimento aqueles nos quais esse conhecimento teria se
sociológico em instrumento de construção na- tornado combustível para afirmação nacional
cional, algo que não se deu propriamente no e construção dos países.
Brasil, ainda preso às determinações da situa- Outra evidência está no clássico livro de
ção colonial. Essa situação teria feito com que Guerreiro Ramos sobre a redução sociológica,
a produção intelectual no Brasil oscilasse en- de 1958 (Ramos, 1995). Nessa obra, o autor va-
tre o “imperialismo mimético” e o “caminho da le-se explicitamente da fenomenologia de Hus-
afirmação”. serl para estabelecer um método de apropria-
Se, por um lado, é antiga a linhagem ção crítica de conceitos e teorias cunhados na
de pensadores brasileiros que diagnosticara o Europa e nos Estados Unidos e utilizados lar-
caráter supostamente artificial e “importado” gamente na teoria sociológica. Sua ideia prin-
da vida intelectual brasileira (Brandão, 2005), cipal é evidenciar como esse repertório deriva
é forçoso reconhecer que a linguagem e o vo- da experiência social e história dessas socieda-
cabulário utilizados por Guerreiro Ramos para des, embora tal origem seja apagada quando da
fazer esse mesmo ponto são novos. Há uma sua apropriação por parte de cientistas sociais
decidida abordagem geopolítica que coloca o em contextos periféricos.
problema da colonização e do eurocentrismo Essa abordagem fenomenológica po-
em lugar mais central do que, digamos, em deria ser explicada com recurso da formação
Visconde do Uruguai ou em Alberto Torres, intelectual de Guerreiro Ramos, marcada pelo
dois conhecidos pensadores associados a essa treinamento filosófico e pela intimidade com
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

vertente crítica. Pensadores não europeus esta- as correntes existencialistas. Porém o projeto
vam praticamente ausentes do horizonte des- da redução, tal como exposto pelo autor, não
ses homens, ainda fortemente orientados para se limita à aplicação da fenomenologia, incor-
a tradição cultural europeia. porando uma decidida marcação “periférica”,
No ano de 1953, Guerreiro presidiu a pois Guerreiro dirige-se preferencialmente aos
sessão sobre estruturas regionais e nacionais cientistas sociais de países em desenvolvimen-
no II Congresso Latino-Americano de Sociolo- to. São esses intelectuais que se veem às voltas
gia. Nessa sessão, apresentou várias teses que com o problema do falso universalismo de teo-
buscavam construir um sistema de relevância rias e conceitos extraídos de outras realidades
para as ciências sociais em países subdesen- nacionais. A redução, portanto, não se explica
volvidos ou em processo de desenvolvimento. como exercício de depuração conceitual ape-
Guerreiro desejava afirmar a necessidade da nas, mas, principalmente, como uma ferra-
instrumentalização da sociologia para o pro- menta para a produção de uma ciência social
cesso de desenvolvimento das sociedades la- mais autônoma e menos alienada.
tino-americanas, o que exigiria a formação de A marcação periférica é visível, por

52
João Marcelo Ehlert Maia

exemplo, nas referências mobilizadas por metodologias chauvinistas), porém criticavam


Guerreiro Ramos. Logo nos capítulos iniciais, a elaboração de agendas de pesquisa heterôno-
o autor remete o leitor a Anta Diop, Mohamad mas. É o caso do já citado Syed Hussein Alatas,
Labadi e Aimé Césaire, conhecidos intelectu- que sempre rejeitou tentativas de “islamizar
ais periféricos de colônias francesas, todos às o conhecimento”, mas que apontou a neces-
voltas com o problema do pensamento autô- sidade de o sociólogo periférico elaborar um
nomo em condições de profunda assimetria pensamento autônomo a partir de critérios de
entre centro e periferias. Além disso, as leis relevância que são estabelecidos localmente
da redução sociológica, apresentadas nos capí- (Alatas, 1972).
tulos subsequentes, enfatizam exatamente os No seu exílio nos Estados Unidos, ini-
procedimentos necessários para a superação ciado em 1966, Guerreiro Ramos volta ao tra-
do “pensamento imitativo”, outro tema co- balho intelectual intenso, tendo lançado vários
mum aos cientistas sociais e escritores que se artigos e livros. Nessa fase final de sua trajetó-
viam às voltas com problemas teóricos e prá- ria, seus escritos orientam-se mais detidamen-
ticos similares nas suas regiões de origem. A te para a teoria das organizações, retomando
primeira lei, por exemplo, intitula-se “Lei do preocupações há muito acalentadas – como
comprometimento”, e afirma a necessidade de o problema da alienação em sociedades mo-
engajamento do sociólogo com a sua realidade. dernas – e mesmo problemas desenvolvidos
Como se sabe, o tema do engajamento é pró- na década de 1960, como a questão da pro-
prio das filosofias existencialistas de diferen- dução autônoma de conceitos e teorias mais
tes matizes, mas a torção periférica operada ajustados à realidade nacional (Ramos, 1966;
por Guerreiro Ramos explica-se pela afirmação 1981). Porém tais textos já não mobilizam, de
de que os cientistas, em países periféricos, de- forma mais extensa, referências, conceitos e
vem se engajar nas suas realidades nacionais, intelectuais oriundos do campo da sociologia
e não em quaisquer realidades. A necessidade periférica, como no período anterior, anali-
de afirmação nacional não era comum no pen- sado acima. Em outra ocasião (Maia, 2012b),
samento sociológico do período no Hemisfério argumentei justamente que a produção socio-
Norte, mas se configurava como tema funda- lógica de Guerreiro nos EUA demonstrava no-
mental para os intelectuais do Terceiro Mun- tável conhecimento da discussão teórica feita
do, às voltas tanto com processos de liberação no Hemisfério Norte, seja da tradição funcio-
nacional como com projetos de desenvolvi- nalista norte-americana (Parsons e Shills, por

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015


mento autônomo em contextos já emancipa- exemplo), seja da teoria crítica europeia (cita-
dos (Berger, 2004). ções de Habermas). Com isso quero dizer que,
A terceira lei também guarda forte com- a despeito de ser possível identificar temas
ponente próprio da sociologia periférica. Essa e problemas perenes na obra de Guerreiro, é
lei, relativa à universalidade da ciência, afirma inegável que houve, nos anos de 1950 e 1960,
que tal universalidade se dá no nível abstra- uma “torção periférica”.
to da prática científica, referente aos procedi- Foi justamente esta torção que explorei,
mentos e teorizações mais gerais, mas não no por acreditar que ela explica a forma como
nível da construção de problemas e objetos. Guerreiro se engaja num universo intelectual
Esses devem se originar do engajamento do que denominei aqui de “sociologia periférica”.
cientista social com sua própria realidade e Porém sustento também que tal análise não
suas questões, o que aproxima Guerreiro Ra- serve apenas para produzir mais uma nova
mos de outros sociólogos que reconheciam a interpretação do autor em tela, mas também
dimensão universal da ciência (e, portanto, nos permite vislumbrar outro modo de pensar
rejeitavam a procura por teorias nativistas ou a história intelectual brasileira como um todo,

53
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS.

ou, dizendo de outra maneira, nosso “pensa- mente vinculado com o estudo das ideias mo-
mento social”, além da própria história global dernas sobre o social. De certa maneira, essa
da sociologia. Explico-me. separação reflete a polêmica em torno do esta-
tuto científico dos textos agrupados na rubrica
do “pensamento social”, polêmica que moti-
Implicações analíticas para o pensa- vou boa parte das discussões constitutivas des-
mento social brasileiro e a história se campo, mas que não me cabe retomar aqui.
global da sociologia É certo que tal reflexão não é inédita, já
que não foram poucos os pesquisadores que
Os estudiosos que se dedicam à pesqui- empreenderam estudos comparativos ou de
sa das ideias e dos intelectuais brasileiros já recepção para evidenciar as conexões interna-
exploraram, de forma sofisticada e produtiva, cionais que explicam ideias e atitudes de pen-
as conexões internas nesse universo nacional. sadores e intelectuais brasileiros. Novamente,
Numa perspectiva que se tornou clássica na os próprios estudos de Werneck Vianna, já ci-
área, Luiz Werneck Vianna (1997) consolidou tados, tomam como marcação a inscrição pe-
uma agenda baseada na identificação de tradi- riférica do Brasil na formação do mundo oci-
ções “americanistas” e “iberistas” na vida inte- dental, o que explica o tipo de recurso que o
lectual brasileira, aproximando, por exemplo, autor faz da obra do italiano Antonio Gramsci.
autores de épocas diferentes como Oliveira Barboza Filho (2000), por sua vez, fez discus-
Vianna e Visconde do Uruguai. Em outro per- são similar, ao construir um vasto universo
curso, Gildo Brandão (2005) estabeleceu a hi- cognitivo pautado pelo conceito de “barroco”,
pótese das “linhagens” do pensamento político cuja origem não é nacional, mas sim própria
brasileiro, também construindo famílias inte- da formação histórico-cultural do mundo ibe-
lectuais em termos diacrônicos. A perspectiva ro-americano. Em outra tradição intelectual,
avançada aqui e em textos anteriores (Maia, tributária do marxismo acadêmico paulista
2009; 2013; 2014) parte desses avanços, mas (Lahuerta 1999), o conceito de “periferia” foi
sugere que também podemos interpretar nosso fundamental para articular interpretações so-
pensamento social como parte de um amplo bre o lugar das ideias dominantes na forma-
campo transnacional que reunia intelectuais, ção da sociedade brasileira (Schwartz, 1973;
instituições, categorias, conceitos e obras, que Ricupero, 2008). Finalmente, no próprio caso
destacavam outros temas para a agendada so- de Guerreiro Ramos, não são poucos os in-
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

ciologia, tais como imperialismo, colonialis- térpretes que buscaram evidenciar a conexão
mo, construção nacional e, fundamentalmen- terceiro-mundista como chave analítica (Ortiz,
te, implicava outra forma de pensar o estatuto 1985; Motta, 2010).
da teoria sociológica, vista como não natural- Parto das contribuições acima para
mente universalizável e, portanto, passível de sugerir a existência do campo da sociologia
recriação a partir de condições de relevância periférica como um universo pleno de signi-
próprias. ficância e potência, no qual se devem inscre-
Tal perspectiva implica desfazer as bar- ver aspectos da produção intelectual no Brasil.
reiras e separações entre a história do pensa- Isto é, trata-se de “ver o nacional de fora para
mento social brasileiro e a história das ciências dentro”, por assim dizer, e não simplesmente
sociais globais, fato que se reflete na própria adicionar a dimensão internacional.
estrutura de ensino de graduação em nosso Finalmente, tal ângulo de análise tam-
país, em que, usualmente, o pensamento so- bém pode contribuir para um reenquadramen-
cial é ensinado fora das cadeiras de Sociologia, to da própria forma como contamos a história
permanecendo à parte e sem ser necessaria- global da disciplina de sociologia. Na primeira

54
João Marcelo Ehlert Maia

parte deste artigo, expus as críticas que vêm campo da história da sociologia têm chamado
sendo feitas recentemente ao eurocentrismo a atenção para a importância de agências de
que marca as narrativas hegemônicas nessas cooperação internacional (Heilbron, Guilhot
pesquisas. Porém, é imperioso reconhecer que e Jeanpierre, 2008) e para a migração de con-
tais narrativas vêm sendo questionadas até ceitos entre diferentes contextos nacionais
mesmo nos países centrais no Atlântico Nor- (Schrecker, 2010).
te. Por exemplo, já se apontou o quanto ainda Faltam, porém, estudos que não se li-
se ignora o papel fundamental de sociólogas mitem ao universo da sociologia nos Estados
mulheres, como Harriet Martineau (Deegan, Unidos e na Europa. De forma geral, o conhe-
2003), e mesmo Jennifer Platt, uma decana da cimento sobre a história da disciplina, embora
sociologia britânica, argumentando sobre a ne- cada vez mais sofisticado e detalhado, ainda
cessidade de investigarmos a imensa plurali- se ressente do foco excessivo na produção in-
dade que constituiu o universo do que conhe- telectual do Hemisfério Norte. Pouco se sabe
cemos hoje por sociologia (Platt, 2010). sobre a circulação da teoria da dependência
Tais contribuições derivam, ao menos entre os anos de 1970 e 1980, por exemplo, que
parcialmente, da renovação do campo da his- tanto impacto teve na consolidação de redes
tória da sociologia, no qual novas abordagens intelectuais entre cientistas do Hemisfério Sul
vêm, desde meados da década de 1970, inves- (Pinheiro, 2010; Vedes, 2006) e na própria pro-
tigando mais detidamente as circunstâncias dução de políticas públicas (Macedo, 2013).
que presidiram a formação de cânones, tra- Nesse sentido, uma obra como a de
jetórias consagradas e tradições intelectuais. Guerreiro Ramos lança luz nova sobre como
Trabalhos como os de Stephen Lukes (1973) e sociólogos do dito Terceiro Mundo lidavam
Terry Clark (1973) abriram esse caminho, cuja com o mainstream da disciplina de maneiras
síntese programática pode ser encontrada no criativas e inusitadas. O conceito de redução
artigo de Jones (1983), no qual as contribui- sociológica, tal como trabalhado pelo autor na
ções do contextualismo linguístico da Escola sua obra clássica de 1958, pode nos ajudar a
de Cambridge e da nova história da ciência recontar não apenas a produção teórica feita
(via Thomas Kuhn) são reclamadas para os es- fora dos grandes centros, mas a própria histó-
tudos sobre história da sociologia. Essa nova ria do pensamento fenomenológico nas déca-
onda de pesquisas foi marcada, por um lado, das de 1950 e 1960. Além disso, boa parte da
por uma ênfase maior no rigor historiográfico discussão contemporânea sobre colonialidade

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015


e na pesquisa documental, como se pode veri- e pós-colonialidade ainda tem marcações qua-
ficar no conhecido trabalho de Jennifer Platt se que exclusivamente oriundas do universo
sobre a história da metodologia nos Estados linguístico anglo-saxão, e os pensadores usu-
Unidos (Platt, 1996), e, por outro, pelo interes- almente relacionados às discussões dos anos
se em desvendar as variáveis institucionais e de 1950 e 1960 são, em sua maioria, poetas, fi-
políticas que modelaram o cânone da discipli- lósofos e escritores (como Frantz Fanon, Aimé
na, seus “eleitos” e seus “esquecidos” (Lamont, Césaire, Albert Memmi etc.).
1987; McLaughlin, 1988; Baher, 2002). Dito de outra forma: o caso de Guerrei-
Nos últimos anos, esse campo tem se ro Ramos não deve ser visto como exemplar
aberto para pesquisas transnacionais e compa- apenas da sociologia brasileira, embora ele,
rativas, que procuram evitar as narrativas ex- obviamente, o seja, mas sim como o de um
cessivamente encapsuladas no paradigma do intelectual relevante na produção de uma
Estado-Nação (a obra de Wolf Lepenies talvez sociologia feita em contexto periférico, que
seja a mais potente herdeira dessa perspecti- dialogou e partilhou os campos semântico e
va “nacionalista”). Assim, os pesquisadores no político, além de horizontes epistemológicos,

55
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS.

com outros intelectuais da América do Sul, da BAHER P. Founders, Classics, Canons. Modern Disputes
over the Origins and Appraisal of Sociology’s Heritage.
África, ou da Ásia. Essa abordagem transnacio- New Jersey: Transaction Books, 2002.
nal deve servir para reequacionar a forma de BARBOSA, M. Guerreiro Ramos: o personalismo negro.
Tempo Social, São Paulo, v. 18, n. 2, p. 217-228, nov., 2006.
narrar o desenvolvimento de nossa disciplina.
BARBOZA FILHO, R. Tradição e artifício: o barroco na
Por exemplo: é possível contar uma história da formação americana. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.
sociologia da modernização que ignore a críti- BEIGEL, Fernanda (Org). The politics of academic
autonomy in Latin America. Farnham, Ashgate, 2013.
ca reconstrutiva feita por Costa Pinto, Flores-
BERGER, Mark T. After the third world? History, destiny
tan, Gino Germani e outros, na América Lati- and fate of the Thirdworldism. Third world quarterly. v. 25,
na (Brasil Junior, 2013)? É possível fazer uma n. 1, p. 9-39, 2004.

história sincera do marxismo no pós-Segunda BRANDÃO, G.M. Linhagens do pensamento político


brasileiro. Dados – Revista de Ciências Sociais, Rio de
Guerra que desconsidere a teoria da dependên- Janeiro, v. 48, n. 2, p. 231-269, 2005.
cia e seus efeitos em certos departamentos de BRASIL JUNIOR, Antônio. Passagens para a teoria
sociológica: Florestan Fernandes e Gino Germani. São
economia e política nos anos de 1970 e 1980? Paulo: HUCITEC, 2013.
É possível contar uma história da discussão CLARK, T.N. Prophets and Patrons: the French University
and the emergence of the Social Sciences. Cambridge:
epistemológica sobre o estatuto da objetivida- Harvard University Press, 1973.
de nas ciências sociais sem entender o deba- CONNELL, R. Southern theory: the global dynamics of
knowledge in social science. London: Polity Press, 2007.
te sobre as indigenous sociologies nos anos de
______. O Império e a criação de uma ciência social.
1980 (Akiwowo, 1986)? É possível termos uma Contemporânea, São Carlos. v. 2, n. 2, p. 309-336, 2012.
história da metodologia em sociologia ignoran- DEEGAN, Mary Jo. Textbooks, the history of sociology and
do a contribuição do colombiano Orlando Fals the sociological stock of knowledge. Sociological theory. v.
21, n. 3 p. 295-308, Set. 2003.
Borda para a pesquisa em ação? DEVES, E. Los cientistas econômico sociales chilenos em
Todos esses exemplos apontam para a los largos 60 y su inserción em las redes internacionales:
la reunión del foro tercero mundo em Santiago em abril
necessidade de pensar a história global da so- de 73. Revista Universum, Talca/Chile v. 21, n. 1, p. 138-
167. 2006
ciologia levando em conta as experiências pe-
GIDDENS, Anthony; TURBER. Jonathan. Teoria social
riféricas não apenas como campos nos quais a hoje. São Paulo: UNESP, 1999.
grande teoria foi aplicada, mas como espaços HEILBRON, Johan; GUILHOT, Nicolas; JEANPIERRE,
a partir dos quais essa teoria foi consumida, Laurent. Toward a transnational history of the social
sciences. Journal of the history of the behavioral science. v.
recriada e revertida, contribuindo, portanto, 44, n.2, p. 146-60. 2008.
para outra visão do que foi nossa disciplina. HOUNTONDJI, Paulin. Scientific Dependence. Africa
Today. Research in African Literatures. Bloomington. v.21,
n. 3, p. 5-15, 1990.
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

JONES, R.A. The new history of sociology. Annual Review


of Sociology. Palo Alto, v. 9, p. 447-69. 1983
Recebido para publicação em 20 de fevereiro de 2014
Aceito em 11 de dezembro de 2014 JOAS, Hans; KNÖBL Wolfgang. Social theory. Twenty
introductory lectures. Cambridge: Cambridge University
Press, 2009.
KEIM, Wiebke. Pour une Modèle Centre-Périphérie
dans la science sociale. Aspects problematiques des
REFERÊNCIAS relations internationales en sciences sociales. Revue dês
anthropologies des connaissances. Paris, v. 43, n. 3, p. 570-
98. 2010.
AKIWOWO, A. Contributions to the sociology of
knowledge from an African oral poetry. International LAHUERTA, Milton . Intelectuais e transição: entre a
Sociology, v. 1, n. 4, p. 345-358, dez., 1986. política e a profissão. Tese. Doutorado em Ciência Política,
Faculdade Filosofia Letras e Ciências Humanas – USP, São
ALATAS, S.F. Alternative Discourses in Asian Social Paulo. 1999.
Science: Responses to Eurocentrism. New Delhi: Sage,
2006. LAMONT, M. How to become a dominant french
philosopher: the case of Jacques Derrida. The American
ALATAS, S.H. The Captive Mind in Development Studies. Journal of Sociology. Chicago, v. 93, n. 3, p. 584-622. 1987
Some Neglected Problems and the Need for an Autonomous
Social Science Tradition in Asia. International Social LUKES, Steven. Émile Durkheim: his life and work.
Sciences Journal. v. 24, n. 1, p. 9-25, 1972. London: Penguin Press, 1973.
AZEVEDO, A. A Sociologia Antropocêntrica de Alberto MACEDO, Felipe. B. Dependência em trânsito: recepções
Guerreiro Ramos. 2006. Tese. Programa de Pós-Graduação e reinterpretações do pensamento da CEPAL e da Teoria
em Sociologia Política/ UFSC. Florianopólis. da Dependência em África - o caso Tanzânia. Monografia
apresentada como requisito para conclusão de Bacharelado

56
João Marcelo Ehlert Maia

em Ciências Sociais na Escola Superior de Ciências Sociais PINHEIRO, C. Direct and indirect transitivity. The
da FGV. Rio de Janeiro, 2013. receptions of dependency theory. In: India and Singapore
and other dialogues between intellectual peripheries from
MAIA, João Marcelo Ehlert. Pensamento brasileiro e the Global South. World social sciences and humanities
teoria social: notas para uma agenda de pesquisa. Revista network meeting. 28-30th October, Buenos Aires,
Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 24, n. 71, p. Argentina, 2010.
155-168, 2009.
PLATT, Jennifer. Sociology. In: Backhouse R.; Fontaine
______; CARUSO, Gabriela B. Uma trajetória intelectual P. (eds). The history of the social sciences since 1945.
periférica: Hussein Alatas e a sociologia autônoma. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.
Perspectivas: Revista de Ciências Sociais. São Paulo, v. 41,
p. 53-77, jan./jun. 2012. ______. A history of sociological research methods in
America. 1920-1950. Cambridge: Cambridge University
______. The transnational language of autonomy in the Press, 1996.
Global South: the Works of A. Guerreiro Ramos e S.Hussein
Alatas. Paper apresentado no seminário intermediário do RAMOS, Alberto Guerreiro. O Processo da Sociologia
Research Committee on the History of Sociology. Dublin, no Brasil (esquema de uma História das Ideias). Rio de
27-30 junho de 2012a. Janeiro: Estúdio de Artes Gráficas, 1953.
______. Reputações à brasileira. O caso de Alberto ______. O problema do negro na sociologia brasileira.
Guerreiro Ramos. Sociologia & Antropologia, Rio de Cadernos do Nosso Tempo. Rio de Janeiro . v. 2, n. 2, jan/
Janeiro, v. 2, n. 4, p. 265-291, 2012. 2013(b). jun1954.
______. Além da pós-colonialidade: a sociologia periférica e ______. Centro e periferia no mundo. O Jornal, Rio de
a crítica ao eurocentrismo. Cadernos de Estudos Culturais, Janeiro. Publicado em 11 de março de 1956.
Campo Grande, v. 5, n. 9, p. 81-92, 2013.
______. A redução sociológica (introdução ao estudo da
______. History of sociology and the quest for intelectual razão sociológica). Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1995.
autonomy in the Global South: the cases of Alberto
Guerreiro Ramos and Syed Hussein Alatas. Current ______. Administração e estratégia do desenvolvimento.
Sociology.v. 62, n. 7, p. 1097-1115. 2014. Elementos de uma sociologia especial da Administração.
Rio de Janeiro: Editora FGV, 1966.
MAIO, Marco Chor; LOPES, Thiago da Costa. Da Escola de
Chicago ao Nacional-Desenvolvimentismo: Saúde e Nação _____. The new science of organizations: a
no pensamento de Alberto Guerreiro Ramos (1940-1950). reconceptualization of the wealth of nations. Buffalo, NY:
Sociologias. Porto Alegre, v. 14, n. 30, p. 290-329, 2012. University of Toronto Press, 1981.

McLAUGHLIN, Neil. How to become a forgotten RICUPERO, Bernardo. Da formação à forma: ainda ‘as
intellectual: intellectual movements and the rise and fall ideias estão fora do lugar. Lua Nova, São Paulo, n. 73, p.
of Erich Fromm”. Sociological Forum, v. 13 n. 2, p. 215-46. 59-69, 2008.
1998. SCHRECKER, Cherry. Community and community
MOTTA, Luiz Eduardo. A Política do Guerreiro: studies: a retourn journey. In ______. (Org). Transatlantic
Nacionalismo, revolução e socialismo no debate brasileiro voyages and sociology: the migration and development of
dos anos 1960. Organizações & Sociedade, Salvador v.17, ideas. Furnham: Ashgate, 2010.
n. 52, p. 85-101, 2010. SCHWARTZ, Roberto. As ideias estão fora do lugar.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 3, p.151-161, 1973.
São Paulo: Brasiliense, 1994
PATEL, S. The ISA Handbook of diverse sociological
traditions. London: Sage Publications, 2009.

Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

57
A SOCIOLOGIA PERIFÉRICA DE GUERREIRO RAMOS.

THE PERIPHERAL SOCIOLOGY OF LA SOCIOLOGIE PÉRIPHÉRIQUE DE


GUERREIRO RAMOS GUERREIRO RAMOS

João Marcelo Ehlert Maia João Marcelo Ehlert Maia

This article analyzes the works by sociologist L’article analyse l’oeuvre de Alberto Guerreiro
Alberto Guerreiro Ramos as a part of the field of Ramos en tant que partie du champ de la sociologie
peripheral sociology. From an internal reading of périphérique. Par une lecture interne de ses
his texts written in the 1950s, we suggest that a textes écrits dans les années 1950, nous partons
transnational approach of his intellectual output de l’hypothèse selon laquelle une approche
may contribute to inserting the history of Brazilian transnationale de sa production intellectuelle peut
social thought in the field of the global history of contribuer à insérer l’histoire de la pensée sociale
post-WWII sociology. brésilienne dans le champ de l’histoire mondiale de
la sociologie post Deuxième Guerre Mondiale.
Keywords: Guerreiro Ramos. Peripheral sociology.
History of sociology. Brazilian social thought. Mots-clés: Guerreiro Ramos. Sociologie périphérique.
Histoire de la sociologie. Pensée sociale brésilienne.
Caderno CRH, Salvador, v. 28, n. 73, p. 47-58, Jan./Abr. 2015

João Marcelo Ehlert Maia – Doutor em Sociologia. Professor adjunto do CPDOC/FGV-RJ. Área de maior
ênfase de estudo é Sociologia da Cultura, atuando principalmente nos seguintes temas: intelectuais,
pensamento social brasileiro e história das ciências sociais. Recentemente tem explorado o campo da
teoria social em contextos periféricos (pós-colonialismo, decolonialidade e pensamento social periférico).
Faz parte de dois grupos de pesquisa reconhecidos pelo CNPq: Epistemologias Fronteiriças e Conexões
Sul-Sul (sediado na UNB) e Intelectuais e Poder no mundo Ibero-Americano (sediado na UERJ). Membro
do grupo de trabalho em História da Sociologia da ISA (Research Committe on the History of Sociology)
onde exerce a função de secretário. Publicações recentes: Protests, protests, everywhere. The Cairo review of
global affairs, v. 12, p. 79-86, 2014; History of sociology and the quest for intellectual autonomy in the Global
South: the cases of Alberto Guerreiro Ramos and Syed Hussein Alatas. Current Sociology (Print), v. 62, p.
1097-1115, 2014; Qual sociologia pública? uma visão a partir da periferia. Lua Nova (Impresso), v. 87, p.
83-112, 2013; Além da pós-colonialidade: a sociologia periférica e a crítica ao eurocentrismo. Cadernos
de Estudos Culturais, v. 5, p. 81-92, 2013.

58
View publication stats