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Este importante tivo de Joel Birman 6 um trabalho de ‘lego. Ponto final de uma linha de pesquisa iniciada ha oto ‘anosna universidade, no entan- to, a quase tolalidade dos ttu- los dos capitulos é constituida por interrogagdes. Ser conclu Sivo ciicamente, em relago 20 feminino e a feminiidade, 66 pode levar a problematicas, no ‘seu melhor sentido: redes que, centre contrades ¢ ambigtida- es, vao tragando e tecendofr- ‘memente vertentes de questbes emaberto. ‘A novidade do texto de Biman é a maneira como ele fara 0 desvendamento © de- ‘senredamento das palavras fe- rminino e feminilidade na obra de Freud que formam a encru- zilhada de muitas exigéncias @ impecativos sic: fazendo ura leitura das matrizes consti- tuvas do pensamento psicana- Iti. A forte inspirago fou- caultiana, traz-ne ahistorlaea genealogia como substrato das exigéncias epistemoldgicas, pparamelhor aproenderas linha de forga que seriam cons- tituvas do pensamento psica- nalitico e suas encruzilhadas Conceltuas, jogos delinguagem {que funcionam como formas de vida que tém consequéncias ‘e2is sobre o corpo e a subjti- Vidade. O objetivo central é de tectara presenga de ciferentes ‘graméticas do eratismo no dis- curso freudiano, abrindo urn ho- Fizonte crticona psicandlise de hoje, no mundo conturoado da és-modemidade. Maneira, a meu ver, de manter viva a psi- ccanalise, voltando as origens, as matrizes constitutvas de um ensamento, para reaticuiéio deforma inéita, que permitano- Erotismo e subjetividade Resenha de Joel Birman, Gramdticas do erotismo — A feminilidade e suas formas de subjetivacao em psicandlise, Rio de Janeiro, Civilizagao Brasileira, 2001, 253 p. vvas formas de pensar e de re, portanto, novas formas do sentir © de viver. Ele consi- deraos modelos consitudos no Ocidente, para pensar a cons ‘rugdo dos sexos @ a existén- ade diterentes erogeneidades masculina e feminina e para ‘mostrar as ambiglidades © 0s. paradoxos constitutivos e fun- damentais ao discurso freu- diano acerca da hstria, da a= forenga sexual da feminil- dade. O discurso freudiano so- bre a diferenga sexual sera auscultado na sua espessura temporal eras suas condigbes de possibilidade, tomando as mattizes antropoldgicas que ‘8 inscreveram no tempo his tético da modemidade, rein- terpretadas, com riginaldade, por Froud, Assim, Joolinicia com as duas primeiras contracigdes: 92 odiscurso freudiano dau de fato voz e dreito fala para mulhe- res desde 0s seus primérdios, pela positvacao da histeriano final do séc. X1X,realizou, tam- 'bém, ao ado disso, uma letura dopsiquismo feminine pela qual ‘ste seria marcado pelas impos- siolidades de sublimagao ede restrgées elogdentes na ordem tranguladoras do progresso, entre elas os perversos, pode- riam ser transformadas pelos saberes einsrumentos tecnol6- gicos da medicina. Um dos pro- jetos maiores anunciados, que se constitu precisamente no ‘campo da medicalizagao, pela ‘categoria de degeneragaofoio {da eugenia, promovido pelona- zismo e pelo paradigms tedrico {da antropologia racial, Onazis- ‘mo @o Holocaust foram a expl- cctagao extrerada e absurda do projeto eugénico do biopoder, a revelagio terorfica da ambigh- 138 {dade dos fundamentos do pro- jtomodemo do Ocidente, Comapsicandlise, a his- teria sotreu remanejamentos signiticativos, pois Freud, a0 ‘mesmo tempo em quereconho- cceue ciscurse da modernidade sobre a diferenga sexual, reto- ‘mou iscurso da Antigdidade fundado no monismo sexual. O eratsmofoientéo sublinhado no Psiquismo do sujeito modemo. ‘A novidade freudiana da con- ‘cepp0 sexual da histera jamais val ser abandonads, indo date- ria da sedugéo & teoria do fan- tasma. Os tracos psiquicos, sondo as inscrigbes indeléveis das fixagGes pulsionais da his ‘éra ibidinal do sujeto desde as ‘suas origens, marcariam sem- prea eloquéncia do seu goz: 1 registro do corpo erégenc" {p. 139). Alémalisso, oimagind tio bissexuale a cena psiquica dahisteria aparecem como uma recusa de aceitar a diferenga ssoxual, se constituindo numa crfica ao modelo da siterenga, ‘sexual ea presenga de um er0- tismo inseritono corpo da histo tia, marca inefével de seu ser, que se contraporia a qualquer redugdo do ser da feminiidade {figura da matemidade. Nesta outra cartografia da histera, “a Psicandlise seguia no corpo os Fastros semanticos deixados pelo confito psiquico, podendo tencontrar-se com a gramética ‘erégena do sintoma histérico, agora capaz de decitragao ‘no redutivel a gica da anato- mia patolégica’(p. 149), Asre- configuragées da histeviatra- zidas pela psicandlise com a assagem pela catarse e pola transferéncia trouxeram o @m= preendimento de ura verdad Fa.arqueclogia do sentido, agra- mmatica e a semantica da cons- ‘tuglodo sintoma histrico, para {que o stjeito pudesse costurar Co ecido do eue do psiquismoe ultrapassar suas fragmenta- (gOes psiquicas e seus dlla- ‘caramentos corpéreos. A fala ativa, na experiéncia clinica, produziu um efeito de corte © ‘uptura crucial com o gozo pre- sente na passividade da servi- «do, possibiitando outra circu lagdo erégena, um efeito relangador do gozo que abre para ele relatvizages, novas ‘sendas, outros caminhos pei- quicos reveladores de suas sutllezas, mindcias e mazelas ‘A histeria, jd ndo mals iden- tihoada a simulagaoe& ment, pelo dispositive da fala/escuta, {oi pedra de toque do des: mantelamento do dispositive da hereditariedade-degeneracéo, ‘0 fazer a cca sistomtica da sua causalidade hereditaria © dar abertura & sua dimensio sexual, & énfase no eratismo 0 suas formas sintomaticas de ef 0que se amplounocampo dapsicandiise para uma tooria, goral da sexualidade humana sendo, portanto, um discurso critico do biopoder © da bichistria ‘Mas, nem tudo sé flores ‘Seamulherhistérica pode ser