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Contratos de Consumo

Não há um código de Consumo. Em outros países há Códigos de Consumo ou de


Consumidor ou, então, as leis de consumo estão inseridas no próprio CC, tal como
acontece na Alemanha. Houve em Portugal um anteprojeto de Código de Consumo.
Esse anteprojeto não passou e a legislação de consumo reduz-se leis avulsas.

Começando por falar no consumidor, o consumidor é um sujeito débil, tal como o


arrendatário. Este sujeito na contratação é visto como uma pessoa débil e por isso
merecem uma especial proteção. Um sujeito débil é aquele com pouco expediente
técnico.

Lei 24/96- Lei Geral de Defesa do Consumidor- é a 2ª Lei, porque a primeira que foi
revogada por esta foi a lei

O artigo 2º desta lei dá-nos a definição de consumidor. Deste artigo retiramos 4


elementos que retiram o conceito de consumidor.
1. "Todo aquele"- Não há restrição á pessoa física. O consumidor pode ser uma
pessoa coletiva ou uma pessoa singular. O professor defende que consumidor só
deveria ser a pessoa física, a pessoa singular. Isto não quereria dizer que, em
certos casos, não houvesse uma equiparação de regime. Por exemplo, o direito de
livre revogação. Fará sentido aplicar este direito a empresas? Estarão as empresas
tão desprotegidas nesse sentido como estará o consumidor singular? Se aplicarmos
este instituto, que é o ex libiris do Direito do Consumo a quem não é consumidor
de verdade, a quem não é uma parte mais débil, deixará de existir Direito de
Consumo.
2. " Destinado a uso não profissional"- O consumidor deve destinar os bens a uso
não profissional. Se destinar os bens a uso profissional já não sou consumidor.
Mas o que acontece, por exemplo, se compro um computador portátil que utilizo
tanto para trabalhar, para fins profissionais, mas também para lazer? O STJ da UE
estabelece como critério, nestas definições, para aferição do estatuto de
consumidor, o uso preponderante ou utilização predominante. Assim, segundo este
critério, se uso o computador em mais de 50% dos casos para fins não
profissionais serei consumidor para efeitos da lei. A lei não elenca o critério do
risco no estabelecimento do estatuto de consumidor.
3. "por pessoa que exerça com carácter profissional uma atividade económica que
vise a obtenção de benefícios"- O vendedor deve ser um profissional. Assim a
relação aqui é entre uma pessoa que exerce fins profissionais e outra não
profissional. Assim, se se tratar uma das partes uma associação ou uma instituição,
não se aplicará este regime, mas sim o regime geral do CC.

Há várias figuras que assumem uma figura relevante no seio do Direito Contratual do
Consumo. Entre estes institutos temos o instituto/figura geral de Direito de união de
Contratos.
Por exemplo, imaginemos que A vende a B um carro. B faz um contrato de mútuo com
C para lhe emprestar dinheiro para comprar o carro. O que aconteceria era que se o
contrato de compra e venda sofria de um vício, por exemplo, se o carro tinha mais Km
que o que lhe disseram a B, era que o contrato seria inválido, contudo B teria de
continuar a pagar o empréstimo e as prestações a C. Com esta figura dos contratos
coligados, quando um contrato se extingue o outro também, o que é mais justo para o
consumidor.

A nível da EU, temos diretivas relativa ao consumidor, que, num primeiro momento
eram diretivas de direção mínima e de harmonização. A UE podia dar mais proteção
nesse sentido. Contudo, tudo mudou. Hoje, temos diretivas de harmonização máxima
que dão uma proteção máxima ao consumidor e que obrigam os estados-membros a
transporem a diretiva literalmente. Esta regra tem ressalvas. A UE permite que o
Estado-Membro escolha entre duas ou três transcrições alternativas e, também, em
alguns casos, permite, circunstancialmente, adaptar a diretiva aos países que a transpõe,
alargando a proteção em certos casos.
No âmbito da defesa do consumidor temos a Diretiva 2011/83/UE. Segundo esta lei, o
conceito de consumidor vem de consumo. Esta lei integra como consumidor, também,
aquele que vende bens usados, em 2ª ou 3ª mão. Também enquadra no âmbito dos
contratos a que é aplicável, não só o contrato de compra e venda, mas também de
locação e de prestação de serviços. Esta diretiva foi transposta na Lei 24/96.

Quanto ao artigo 4º deveremos fala aqui de cumprimento defeituosos. O defeito ou


cumprimento defeituoso previsto no CC vai para além do defeito físico ou funcional,
mas incluí também a não conformidade com o que o consumidor inicialmente pretende.
Nesta lei também se regula a desconformidade da coisa com o pretendido pelo
consumidor. Isto está previsto no artigo 3º deste diploma. Mas que direitos terá o
consumidor quando á falta de conformidade? O artigo 4º responde.
No CC a venda de coisa defeituosa daria ao comprador um direito que poderia variar
entre o direito á reparação, substituição, redução do preço e a anulação. Estipula-se
assim uma hierarquia de direitos ao possível consumidor. Mas porque Galvão Teles ao
redigir esta parte do CC optou por anulação e não por resolução do contrato? Isto deve-
se a que ele se inspirou no CC alemão para redigir a lei e, na lei alemã, muitos autores
consideram anulação- waderlung- e outros resolução- Rücxtrit. Ao professor parece-lhe
mal a expressão anulação. Isto porque, quando falamos de anulação temos em vista
problemas relacionados com a vontade negocial. Posteriormente a estes vícios de
vontade negocial base do contrato é que vem aa questão do cumprimento de um
contrato. Não celebrado um contrato válido falaremos de anulação. Se está em causa o
cumprimento do contrato falaremos de resolução, isto claro sem prejuízo de utilizar
posteriormente o recurso á anulação. Para além disso, com fundamentos diferentes, é
possível a cumulação entre a Resolução e a Anulação um mesmo caso, desde que
preenchidos os diversos pressupostos e com fundamentos diferentes. O artigo 4º só fala
dos 4 remédios acima referidos. No entanto, há outro cumulável a estes, que é a
indemnização.

Quanto ao artigo 6º, que refere que estes direitos se transferem a 3º adquirente do bem,
imaginemos, por exemplo que A faz ccv com B e B faz ccv com C. Será que os direitos
de B, consumidor, se transmitem indistintamente a C? O artigo 6º não refere se o 3º
adquirente do bem a que se transmitem os direitos do primeiro adquirente tem ou não de
ser consumidor para se operar esta transmissão de direitos. No fundo, estamo-nos a
perguntar quem é o C e que direitos ou proteção ele terá. C terá para com B os mesmo
direitos que B terá para com A mas á luz do CC, nos prazos previstos pelo CC (garantia
de coisas móveis de 2 anos). Mas o que quero é proteção e direitos de C para com A. C
não é consumidor e por isso a transmissão para C dos direitos de B para com o vendedor
só faz sentido quando C é equiparada a consumidor ou é consumidor. Só assim faz
sentido, porque se não estaríamos a beneficiar um terceiro adquirente qualquer ele que
fosse.