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Capa

Dominique Lapierre e Larry Collins


Esta noite a liberdade
Badana da Capa

As Índias. Agosto de 1947: os últimos dias do maior sonho imperial de


todos os tempos: o Império britânico das Índias. As personagens de
Kipling, os lanceiros de Bengala, os caçadores de tigres, os ferozes
guerreiros pathans da fronteira indo-afegã. Os clubes "só para Brancos".
As Índias: Quatrocentos milhões de homens tementes a Deus conquistando a
liberdade num dia amaldiçoado pelos astros. Gandhi, um profeta seminu que
reúne um continente e expulsa a Inglaterra recusando alimentar-se e
falar. Os marajás com as suas manadas de elefantes cobertos de ouro e
seus haréns das Mil e Uma Noites. Louis Mountbatten, o soberbo e glorioso
almirante enviado às Índias para liquidar a jóia da coroa da sua bisavó,
a imperatriz Victória. Sua esposa Edwina, a vice-rainha que milhões de
Indianos reconhecidos queriam impedir de partir. Nehru, o líder sedutor
da rosa, abatido pelo apocalipse da Partilha. Jjnnah, o Muçulmano
inflexível que consegue "o sonho impossível do Paquistão". As Índias de
Agosto de 1947: uma grande, uma formidável epopeia.

PEQUENO LÉXICO PARA USO DO LEITOR

Ashram: lugar de retiro colectivo


à volta dum mestre (guru) Burqa: Véu das mulheres muçulmanas Chapati:
bolo folhado sem fermento Charpoy: tábua (de cama) de corda Cipaye:
soldado de infantaria indígena Dhoti: pano de algodão Ghât: escada
descendente do Gange Ghí: manteiga purificada Hartal: jornada de não-
acção e de luto Khadi: algodão cru (fiado à mão) Kirpan: sabre ritual dos
Sikhs Lathi: moca comprida de bambu Mantra: fórmula sagrada Namaste: bom-
dia Rishi: casto da Índia antiga Sadhu: asceta Sahib: nome dado ao
europeu Tilak: sinal vermelho portador de sorte
(na testa) Tonga: carroça
Badana da Contracapa

As Índias. Dos cumes da lendária passagem de Khyber às piras da cidade


santa de Bénarès, das plantações de chá de Assam às planícies ardentes do
Deccan, das luxuosas vivendas de Malabar Hill de Bombaim aos bairros de
lata, ferventes de violência, de Calcutá, do Gabinete de lambri do rei
Jorge VI às lojas cheias de armas de Poona, do misterioso refúgio dos
assassinos de Gandhi aos caminhos do maior êxodo da História, eis uma
prodigiosa página de história cheia de exotismo, de amor e de revelações,
ilustrada por 61 fotos, que preenchem esta noite a liberdade.
Quatro anos de esforços, 250.000 quilómetros percorridos em todos os
meios de transporte, incluindo o cavalo e travessia em elefantes, 6.000
páginas de testemunhos originais, 10.000 páginas de arquivos e de
documentos, a maioria totalmente inéditos, 800 horas de entrevistas
registadas, 400 obras, monografias e livros, 6.000 metros de película
impressionada para a descrição dos ambientes e lugares de acção, 50 horas
de montagens de som, 1.000 fotografias históricas das quais 600 inéditas
foram necessárias a Dominique Lapierre e a Larry Collins para escrever
Esta noite a liberdade.
Esta noite a liberdade é o quarto livro nascido da colaboração literária
franco-americana de Dominique Lapierre e Larry Collins. As suas três
primeiras obras, Paris já está a arder? Onde levarás o meu luto e Ó
Jerusalém tiveram edições que somaram milhões de exemplares no mundo
inteiro.
Página de Rosto

Dominique Lapierre e Larry Collins


Esta noite a liberdade
(narrativa)

EDIÇÕES ÁTICA
LISBOA
Ficha Técnica

Título do original: CETTE NUIT LA LIBERTÉ


Tradução de RICARDO ALBERTY E MARIA ARMINDA FARIAS
Sobrecapa: do original francês
Revisão de CÉSAR RAMOS

Copyright c 1975 Dominique Lapierre e Larry Collins


COMPOSTO EM SABON 10/11 POR GRIS IMPRESSORES
IMPRESSO E ENCADERNADO POR PRINTER PORTUGUESA
NO MÊS DE MAIO DE 1976
PRIMEIRA EDIÇÃO: 5000 EXEMPLARES
«A missão de governar as Índias foi, por qualquer misterioso desígnio da
Providência, posta aos ombros da raça inglesa.»

Rudyard Kipling, 1889.

«A perda das Índias seria para a Inglaterra um golpe fatal e definitivo.


Torná-la-ia num país insignificante.»

Winston Churchill, 1931.

«Há muitos anos, marcámos encontro com o destino e chegou a hora de


cumprirmos a nossa promessa.... Ao toque da meia noite, quando os homens
estiverem a dormir, a Índia acordará para a vida e para a liberdade. É
este o momento, um momento que a História raras vezes proporciona, quando
um povo sai do passado para entrar no futuro, quando acaba uma era,
quando a alma de uma nação, durante largo tempo esmagada, torna a
encontrar a sua expressão...»

Jawaharlal Nehru
no Parlamento indiano, uma hora antes da independência da Índia, na noite
de 4 de Agosto de 1947.
PRÓLOGO

O arco eleva a sua arrogante massa de basalto amarelo sobre o promontório


que domina o porto de Bombaim. A sombra da sua abóbada mistura-se uma
multidão estranha de encantadores de serpentes, leitores da sina,
mendigos e turistas, de hippies entregues ao torpor do sonho ou da droga,
de vadios e moribundos rejeitados por uma metrópole excessivamente
populosa. Poucos são os olhares que se elevam para ler a inscrição
gravada na frontaria deste monumento: «Erigido para comemorar o
desembarque nas Índias de Suas Majestades Imperiais o rei Jorge V e a
rainha Mary em 2 de Dezembro MCMXI.»
E contudo, esta «Porta das Índias» fora o arco de triunfo do maior
império que o mundo conheceu, um conjunto de territórios onde o Sol nunca
se escondia. A sua poderosa silhueta fora, para várias gerações de
britânicos, a primeira visão das margens encantadas pelas quais tinham
abandonado as aldeias dos Midlands ou as colinas da Escócia. Soldados,
aventureiros, mercadores e administradores, todos tinham passado por
debaixo deste arco para irem impor a Pax britannica na possessão mais
nobre do Império, para explorarem um continente conquistado e espalhar aí
a lei do homem branco, na convicção inabalável de que a sua raça nascera
para dominar e o seu império para durar milénios.
Tudo isto parece hoje bastante longínquo. A Porta das Índias não é hoje
mais do que um simples monumento histórico como os de Roma ou da
Babilónia, um padrão esquecido glorificando uma epopeia que morreu sob a
sua abóbada apenas há vinte e cinco anos.
<Página em branco>
NOTA DOS AUTORES AO LEITOR
Simplificámos quanto possível a transcrição das palavras indianas,
respeitando o seu uso.
Todavia, o leitor deve saber que o «j» se pronuncia «dj», o «eh» se
pronuncia «tch» e que as consoantes finais se pronunciam sempre. Exemplo:
«rajput» pronuncia-se «radjpute».
<Página em branco>
Capítulo primeiro
O ÚLTIMO IMPÉRIO ROMÂNTICO

Um grande povo passava um Inverno descontente. Envolto em nevoeiro e


melancolia, Londres, naquele primeiro de Janeiro de 1947, tremia de frio.
Talvez até então, nunca a capital britânica passara um dia de Ano Novo
tão lúgubre. Poucas eram naquela manhã de festa as casas que tinham água
quente que chegasse para encher uma banheira. E mais raros ainda eram os
londrinos que sofressem a habitual ressaca do seu «réveillon». O pouco
whisky à venda para as festas conseguira-se ao preço de oito libras
esterlinas a garrafa. Apenas alguns carros deslizavam nas ruas desertas,
fantasmas fugazes de uma nação privada de gasolina. Envoltos nos seus
sobretudos coçados e fora de moda após seis anos de guerra ou em fardas
disparatadas e gastas, alguns transeuntes apressavam-se com o pescoço
encolhido nos ombros, com ar aborrecido. Nos dias de chuva, um cheiro
especial invadia as ruas, e relentos de podridão e incêndio escapavam-se
das ruínas espalhadas pela cidade. As docas e o bairro em volta da
catedral de São Paulo exibiam ainda uma confusão de escombros. Sinistros
abrigos de betão erguiam-se ainda nalgumas encruzilhadas e arames
farpados juncavam os canteiros de Green Park.
Esta capital triste e martirizada era contudo a de um país vencedor.
Dezassete meses antes, a Inglaterra ganhara a guerra mais terrível da
história da humanidade. A heroicidade do seu povo, a sua coragem perante
a adversidade e a sua tenacidade indomável haviam merecido a admiração do
mundo. Mas pagava agora o preço exorbitante dessa vitória. A sua
indústria estava paralisada e os seus cofres vazios. O desemprego atingia
mais de dois milhões de ingleses. O ano que começava seria o oitavo em
que iriam viver num regime de restrições draconianas. Todos os bens de
consumo ou quase, estavam sujeitos a um racionamento severo: alimentação,
combustíveis, álcool, energia, vestuário, até à famosa stout dos pubs e
às bolas de críquete. Alguns jornais propunham as receitas dos humoristas
para reciclar o papel higiénico. «Cinto e frieiras» era a nova divisa do
povo que abatera Hitler fazendo obstinadamente o «V» da vitória. Apenas
uma família em cada quinze pudera dar-se ao luxo de ter peru para o
Natal, e uma taxa de cem por cento sobre os brinquedos deixara muitas
meias de criança vazias na chaminé. Os balcões e as montras das lojas
exibiam a maior parte das vezes letreiros informando «Já não há...». Já
não há batatas, já não há lenha, já não há carvão, já não há cigarros, já
não há toucinho. A sombria realidade que a Inglaterra encarava naquela
manhã de Ano Novo fora resumida numa frase cruel do seu maior economista.

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«Somos um país pobre, afirmara John Maynard Keynes aos seus compatriotas,
e temos que aprender a viver como tal.»
Todavia, os ingleses eram ricos. Um documento azul e dourado, o
passaporte britânico, dava-lhes o privilégio de entrarem livremente em
mais territórios do que qualquer outro cidadão de qualquer outro país do
mundo. O extraordinário conjunto de possessões, de colónias, de
protectorados e de domínios que constituíam o Império britânico
permanecia intacto naquele dia 1 de Janeiro de 1947. A existência de 563
milhões de homens — fantástico mosaico de povos, Tamuls e Chineses,
Bushmen e Hotentotes do sudoeste africano, aborígenes dravidianos e
Melanesianos, Australianos, Escoceses, Canadianos e tantos outros —
dependia ainda das decisões destes ingleses que tremiam de frio em
Londres sem aquecimento. Os 291 territórios deste domínio, espalhados por
toda a superfície do planeta, incluíam possessões tão vastas como o
Canadá, as Índias ou a Austrália, e lugares tão minúsculos e ignorados
como Bird Island, Bramble Bay e Wreck Reef. Nem Alexandre, nem César, nem
Carlos Magno tinham reinado sobre extensões comparáveis. O maior orgulho
da Inglaterra continuava a justificar-se: cada vez que o carrilhão do Big
Ben ecoava sobre as ruínas do centro de Londres, as dobras tricolores da
Union Jack eram içadas num mastro algures no Império britânico. Durante
três séculos as suas manchas vermelhas invadindo o mapa-mundo tinham
exaltado a imaginação dos estudantes ingleses, os apetites dos
mercadores, as ambições dos aventureiros. As suas matérias primas tinham
alimentado as oficinas da revolução industrial e os seus territórios
fornecido um mercado de escol pelos seus produtos. De um pequeno reino
insular com menos de cinquenta milhões de almas, o Império fizera a nação
mais poderosa do globo, e de Londres a capital do universo.
Sem ruído, quase furtivamente, um Austin Princess preto descia nessa
manhã em direcção ao centro da cidade. Enquanto passava em frente do
palácio de Buckingham e se dirigia a Mali, o seu único passageiro
contemplava melancolicamente a larga avenida imperial que deslizava sob
os seus olhos. Quantas vezes, pensava ele, celebrara a Grã-Bretanha os
seus triunfos naquela artéria. Meio século antes, a 20 de Junho de 1897,
o coche dourado da rainha Vitória seguira esse caminho por ocasião da
grandiosa festa que assinalara o apogeu do seu reinado, o seu jubileu de
diamante. Gurkhas do Nepal, Sikhs de Panjab, Pathans da fronteira afegã,
Hussas da Costa do Ouro, Swahilis do Quénia, sudaneses, jamaicanos,
malásios, chineses de Hong Kong, caçadores de cabeças de Bornéu,
australianos e canadianos tinham desfilado sob os aplausos do povo
enérgico que governava o Império ao qual eles tinham tanto orgulho em
pertencer. Os ingleses tinham vivido graças a ele um sonho fabuloso. A
própria herança deste passado sem igual ia-lhes ser contudo roubada em
breve. A idade do imperialismo tinham morrido e era precisamente o
simples reconhecimento desta evidência histórica que motivava, nesse
primeiro de Janeiro de 1947, a passagem solitária do Austin Princess no
Mali.

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Uma convocação oficial arrancara o seu passageiro às férias com a família
na Suíça para o fazer regressar urgentemente a Londres, onde acabava de o
deixar um avião especial da R.A.F. O carro parou em frente da porta
decerto mais fotografada do mundo, a do 10 Downing Street. Durante seis
anos, a imprensa mundial associara a imagem desta porta a uma silhueta
conhecida, com um chapéu de feltro preto na cabeça, enorme charuto na
boca, bengala numa das mãos, e a outra levantada mostrando o «V» da
vitória. Winston Churchill já não habitava esta casa de onde travara duas
grandes batalhas, uma para vencer Hitler, a outra para defender o Império
britânico.
Um novo primeiro-ministro residia agora no 10 Downing Street, um
professor socialista que Churchill classificara de «indivíduo modesto a
quem não faltam razões para o ser». Clement Attlee e o partido
trabalhista tinham chegado ao poder firmemente decididos a estimular a
descolonização do Império britânico. Para eles, este processus histórico
devia fatalmente começar pela emancipação do vasto território
abundantemente povoado que se estendia desde o estreito de Khyber ao cabo
Samorim — as Índias. Esta soberba construção, o Império das Índias,
constituía a pedra angular e a justificação de todo o império, o seu
maior êxito e o objecto dos seus cuidados mais vigilantes. Com os seus
lanceiros de Bengala e os seus marajás cobertos de jóias, as suas caçadas
ao tigre e os seus elefantes reais ajaezados de ouro, as suas plantações
de chá e as suas florestas tropicais, os seus sadhu (Nota 1) e os seus
altivos memsahib (Nota 2), as Índias tinham encarnado o sonho imperial.
Era para pôr termo a este sonho que fora convocado pelo Primeiro-ministro
o jovem almirante que parava em frente da porta.
Luís Francis Albert Victor Nicholas Mountbatten, visconde da Birmânia,
era, aos quarenta e seis anos, uma das personalidades mais célebres da
Inglaterra. Media seis pés de altura e nem uma onça de gordura a mais lhe
estragava a linha. Apesar da enorme responsabilidade que assumira durante
os últimos seis anos, nenhum vestígio de fadiga ou de tensão marcava o
seu rosto que milhões de leitores da imprensa popular inglesa conheciam
tão bem. A regularidade perfeita de feições e os olhos azuis realçados
pelo cabelo castanho ajudavam a parecer mais novo ainda o rosto
voluntarioso e distinto deste atleta que parecia saído de um estádio da
antiga Grécia.
Lorde Mountbatten sabia porque fora chamado a Londres. Desde que
abandonara o seu comando supremo inter-aliado do Sudeste asiático,
aceitara muitas vezes o convite do Primeiro-ministro que desejava ouvir a
sua opinião acerca das questões respeitantes àquela região do mundo.
Durante a sua última visita, o interesse de Clement Attlee concentrara-se
todavia num país que não fizera parte do teatro de operações sob a sua
autoridade, as Índias. Mountbatten sentira logo «uma impressão muito
desagradável». A sua previsão revelou-se justificada.

Nota 1 - Ascetas.
Nota 2 - Nome dado aos ingleses que habitavam as Índias.

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Attlee tinha com efeito a intenção de o nomear vice-rei das Índias,
dando-lhe assim o posto mais elevado do Império, o prestigioso cargo de
uma longa linhagem de ingleses que haviam presidido ao destino da
quinquagésima parte do género humano. Mas não era para governar o Império
das Índias que Clement Attlee escolhera Luís Mountbatten. Era para
cumprir a missão mais dolorosa de que podia encarregar-se um britânico,
organizar a retirada da Inglaterra das Índias.
Este prestigioso almirante de sangue real não desejava por nada deste
mundo que lhe confiassem esta tarefa de executor. Na ingénua esperança de
obrigar Attlee a renunciar à sua nomeação, subordinara a sua aceitação a
todo um leque de exigências, desde a escolha caprichosa de uma equipa de
colaboradores até querer que fosse posto à sua disposição um avião
especial de quatro motores. Com grande espanto seu Attlee concordara com
todos os seus pedidos. Por isso Mountbatten estava disposto a apresentar
naquele dia novas pretensões particularmente audaciosas.
Com o seu rosto pálido, o seu ar triste e os seus fatos de qualidade
medíocre, visivelmente rebeldes às carícias do ferro de engomar, o
Primeiro-ministro Clement Attlee simbolizava perfeitamente a atmosfera
cinzenta e sinistra da ocasião. Que este velho chefe socialista tivesse
pensado no simpático jogador de polo, primo do rei de Inglaterra, para
liquidar a jóia do Império, podia parecer à primeira vista absurdo. A
escolha era porém mais judiciosa do que parecia. As numerosas filas de
condecorações que ostentava o seu uniforme revelavam qualidades que a sua
imagem pública nem sempre popularizara. As suas responsabilidades no
Sudeste asiático tinham-lhe permitido adquirir um conhecimento único dos
movimentos nacionalistas indígenas. Negociara com os partidários de Hô
Chi Minh na Indochina, com Sukarno na Indonésia e com Aung San na
Birmânia, com os comunistas chineses da Malásia e com os sindicalistas
revolucionários de Singapura. Persuadido de que estes homens
representavam o futuro da Ásia, procurara a forma de se entender com eles
em vez de tentar suprimi-los como queriam os seus conselheiros. O
movimento nacionalista com o qual seria obrigado a tratar se fosse às
Índias era o mais antigo e mais forte de todos. Em vinte e cinco anos de
agitação e de acção, os seus chefes tinham levado as massas indianas a
obrigar o maior império de todos os tempos a renunciar ao seu domínio.
Ajuizadamente, a Inglaterra preferia retirar-se agora do que ser expulsa
pela força.
Clement Attlee esboçou ao seu visitante o quadro sombrio da situação nas
Índias. O clima deteriorava-se ali de dia para dia, declarou ele, e
chegara o momento de tomar uma decisão. Um espantoso paradoxo da História
queria com efeito que na hora crítica de dar a liberdade às Índias, a
Inglaterra não soubesse como proceder. A realização suprema que devia
marcar a apoteose do seu reinado ameaçava transformar-se em pesadelo. A
Inglaterra conquistara e governara as Índias vertendo menos sangue do que
correra na maior parte das outras venturas coloniais, mas a sua partida
arriscava-se a desencadear uma horrível explosão de violência entre as
populações indígenas libertas de repente da sua polícia.

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As raízes desta tragédia mergulhavam no antagonismo imemorial que opunha
os trezentos milhões de hindus aos cem milhões de muçulmanos que viviam
nas Índias. Mantido pela tradição, pela história e por religiões
violentamente opostas, disfarçadamente exacerbado pela política britânica
do passado, que procurara «dividir para reinar», o conflito chegara à
beira da explosão. Os chefes dos cem milhões de muçulmanos exigiam agora
que a Grã-Bretanha quebrasse a unidade da Índia tão duramente construída
para lhes dar um Estado Islâmico independente. No caso de uma negativa,
ameaçavam desencadear a guerra civil mais sangrenta jamais vista em toda
a Ásia. Tão resolvidos como eles a oporem-se a esta ambição estavam os
seus adversários, os dirigentes do partido do Congresso que reunia a
maior parte dos trezentos milhões de hindus. A divisão do subcontinente
indiano era a seu ver uma mutilação odiosamente sacrílega da sua pátria
histórica.
Presa na armadilha entre estas duas posições aparentemente
inconciliáveis, a Inglaterra enterrava-se cada vez mais num lameiro de
que parecia incapaz de se libertar. As inúmeras tentativas para o
conseguir tinham falhado. A situação era presentemente tão desesperada
que o actual vice-rei, marechal Sir. Archibald Wavell, acabava de
apresentar a Londres um verdadeiro plano de derrocada do Império das
Índias. Como último recurso, sugeria que o governo «anunciasse a intenção
da Grã-Bretanha de se retirar das Índias no momento e da forma exigidos
pelo respeito dos seus interesses; e que considerava qualquer tentativa
para entravar esta operação como um acto de guerra a que responderia com
todos os meios ao seu alcance». A Grã-Bretanha e as Índias encaminhavam-
se portanto para o maior dos cataclismos, precisou Clement Attleee a
Mountbatten. Todas as manhãs chegavam telegramas informando Londres de
recontros sangrentos ocorridos em novos pontos das Índias. Era preciso
agir depressa. O actual vice-rei não estava à altura de controlar a
situação. Faltava a este valoroso soldado a eloquência suficiente para
estabelecer contactos válidos com os seus irrequietos interlocutores
indianos. Só uma nova personalidade e uma aproximação original
conseguiriam desanuviar a crise. Era essa a razão por que Mountbatten
devia considerar um dever de Estado concordar em substituir o vice-rei.
O almirante conservara o rosto impenetrável durante toda a exposição do
Primeiro-ministro. Considerava mais do que nunca esta oferta «como uma
missão absolutamente sem esperanças». Conhecia e admirava o marechal
Wavell com quem discutira muitas vezes problemas das Índias. «Se ele não
conseguiu, porque terei eu mais sorte?» pensava ele. Mas sentia cada vez
mais claramente que não podia furtar-se. Ia ser obrigado a assumir uma
tarefa em que as probabilidades de falhar se previam consideráveis, e na
qual a sua gloriosa reputação ganha durante a guerra corria o risco de
afundar-se. Não podendo recusar-se francamente, Mountbatten estava
todavia decidido a impor ao primeiro-ministro certas disposições
políticas susceptíveis de dar à sua missão pelo menos algumas
probabilidades de êxito.

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Aceitaria com a condição absoluta de o governo proclamar publicamente a
data definitiva em que a Inglaterra se comprometia a deixar de exercer a
sua soberania para outorgar a independência das Índias.
Só esta exactidão provaria aos dirigentes indianos que a Grã-Bretanha
estava sinceramente disposta a ir-se embora, e os convenceria da urgência
em entabular negociações realistas.
Mountbatten exigiu a seguir um privilégio que nenhum outro vice-rei
ousaria jamais reclamar: plenos poderes, total liberdade de acção, sem
obrigação de comunicar com Londres e sobretudo sem a constante
interferência de Londres. O governo de Clement Attlee fixaria
evidentemente o destino final, mas ele e só ele, decidiria o rumo a dar
ao seu barco.
— De qualquer forma, não exige poderes plenipotenciários que o ponham
acima da autoridade do governo de Sua Majestade? — perguntou Attlee
inquieto.
— Parece-me que é exactamente o que peço — respondeu Mountbatten. — Como
quer que negocie a sério com o gabinete permanentemente às costas?
A enormidade das pretensões do jovem almirante pareceu cortar a
respiração do Primeiro-ministro. Mountbatten observou com certo agrado o
efeito do seu pedido, desejando profundamente que ele incitasse o seu
interlocutor a retirar o oferecimento. Uma hora mais tarde, com ar
sombrio e resignado, Luís Mountbatten saía de Downing Street, investido
com o triste encargo de ser o último vice-rei das Índias e o liquidatário
de uma grande epopeia nacional vinda dos confins da história do seu país.
Enquanto seguia para o carro, assaltou-o um estranho pensamento. Havia
exatamente setenta anos, contados dia a dia, quase hora a hora, a sua
bisavó era proclamada «Imperatriz das Índias», numa planície dos
arredores de Delhi. Todos os marajás reunidos nessa ocasião tinham
implorado aos céus para que «a autoridade e soberania da rainha Vitória
se mantivessem sólidas e poderosas por toda a eternidade».
Naquela manhã do dia de Ano Novo de 1947, um dos bisnetos dessa rainha
acabava de pedir ao primeiro-ministro da Grã-Bretanha que marcasse o dia
que havia de pôr termo a essa eternidade.
As epopeias mais grandiosas podem ter uma origem das mais banais. Se a
Grã-Bretanha se tivesse lançado três séculos antes na grande aventura
colonial que Luís Mountbatten recebera ordem de concluir, teria sido por
causa de cinco miseráveis xelins. Era este o preço atribuído a uma libra
de pimenta — condimento muito apreciado nas mesas isabelinas — e imposto
pelos traficantes holandeses que controlavam o comércio das especiarias.
Escandalizados com esta provocação, vinte e quatro comerciantes da Cidade
de Londres reuniram-se na tarde de 24 de Setembro de 1599, num prédio da
rua Leadenhall situado a menos de uma milha da residência em que Attlee e
Mountbatten acabavam de se encontrar.

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O seu objectivo era fundar uma modesta casa de comércio com o capital
inicial de setenta e duas mil libras esterlinas, subscrito por cento e
vinte e cinco accionistas. Apenas o lucro motivara esta empresa que
recebeu o nome de East Índia Trading Company.
A companhia recebeu a sanção oficial no dia 31 de Dezembro de 1599,
último dia do século XVI, quando a rainha Isabel I de Inglaterra outorgou
uma carta concedendo-lhe, por um período inicial de quinze anos, o
direito exclusivo de fazer comércio com todos os países situados para
além do Cabo da Boa Esperança. Oito meses mais tarde, um galião de
quinhentas toneladas, o Hector, lançou a âncora em frente do pequeno
porto de Surat, a norte de Bombaim. Era dia 24 de Agosto de 1600. Os
ingleses tinham chegado às Índias. O seu primeiro desembarque naquelas
praias lendárias, para onde julgara seguir Cristóvão Colombo quando
descobriu a América, foi bastante discreto. Escoltado por uma guarda de
cinquenta mercenários pathans, William Hawkins, comandante do Hector, um
velho lobo do mar mais pirata do que explorador, meteu-se pelo interior
daquelas paragens que haviam inflamado a imaginação da Inglaterra
isabelina, certo de ali encontrar rubis do tamanho de ovos de pomba,
pimenta à descrição, gengibre, anil e canela, árvores com folhas tão
grandes que poderiam abrigar uma família inteira, e poções mágicas à base
de presas de elefante que asseguravam a eterna juventude.
O comandante só veria essa Índia no caminho para Agra. Mas o seu encontro
com o Grão Mogol ia recompensá-lo plenamente das fadigas da viagem.
Encontrou-se perante um monarca ao lado de quem a rainha Isabel parecia a
senhora de um pequeno feudo de província. Reinando sobre setenta milhões
de vassalos, Jehangir era o rei mais rico e mais poderoso do mundo, o
quarto e último grande imperador mogol das Índias. O primeiro inglês
recebido na sua corte foi tratado com deferências que teriam decerto
espantado os austeros accionistas da East Índia Trading Company. O Mogol
nomeou-o oficial da sua casa real e ofereceu-lhe como presente de boas-
vindas a jovem mais bela do seu harém uma cristã arménia.
A chegada do intrépido comandante a Agra resultou felizmente em lucros
mais de molde a satisfazerem os apetites monetários dos seus patrões.
Jehangir assinou uma ordem imperial autorizando a companhia a abrir
feitorias na costa norte de Bombaim. O êxito foi rápido e impressionante.
Dois navios descarregaram todos os meses, no cais do Tamisa, montanhas de
pimenta, de goma, açúcar, seda crua e algodão. Faziam a viagem de
regresso com os porões cheios de produtos manufacturados. Um verdadeiro
dilúvio de dividendos encheu os bolsos dos accionistas da companhia. No
ano seguinte apareceram dois navios ao largo de Madras, depois no golfo
de Bengala. Alguns pioneiros corajosos instalaram-se nos pântanos
pestilentos do delta do Ganges e fundaram a feitoria que viria a ser mais
tarde Calcutá.

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Foram recebidos em geral sem hostilidade pelos soberanos e pelas
populações indígenas. A sua divisa repetida a cada passo explicava esse
acolhimento. «Trade not territory — Comércio, não colonização»,
proclamavam.
Todavia, o desenvolvimento dos seus negócios forçara em breve os agentes
da companhia a protegerem o seu comércio, levando-os inevitavelmente a
intervir nos conflitos políticos locais. Assim começou uma luta
irreversível que arrastaria a Inglaterra à conquista das Índias, quase
inadvertidamente. O aparecimento da França, atraída pelas mesmas riquezas
nas praias indianas, acelerara singularmente o processo. Durante trinta
anos, as duas nações transplantaram as suas rivalidades dos campos de
batalha da Europa para as florestas e planícies tropicais das Índias,
fazendo jogadas constantes para obterem o apoio e a amizade dos príncipes
indianos mais influentes. Sob o impulso do brilhante administrador Joseph
François Dupleix, a França tentou edificar nas Índias um vasto império. E
quase conseguiu. Mas o exército que a companhia inglesa tinha posto em
armas para defender os seus interesses acabou por bater os franceses e
desvanecer o seu sonho imperial.
No dia 23 de Junho de 1557, marchando sob uma chuva torrencial à frente
de novecentos ingleses do regimento de infantaria 39 e de dois mil
cipaios indígenas, um audacioso general chamado Robert Clive aniquilou as
forças de um turbulento sultão nos arrozais de uma aldeia de Bengala
perto de Plassey. A vitória de Clive, que apenas custara vinte e três
mortos e quarenta e nove feridos, abriu toda a Índia do norte aos
mercadores de Londres. Com ela dava-se início à verdadeira conquista que
durou todo o século seguinte. Os construtores do império tinham
substituído os negociantes.
Apesar de Londres lhes ordenarem que evitassem todos os «planos de
conquista e de expansão territorial», uma sucessão de governadores gerais
ambiciosos lançaram-se sem trégua numa política de imperialismo
desenfreado. Declarando que não podia haver «maior bênção para as
populações indígenas das Índias do que a extensão do domínio britânico»,
o governador Richard Wellesley alargara a soberania da Inglaterra aos
Estados de Mysore, do Travancore, de Baroda, Hyderabad e Gwalior,
desmembrara o valente reino hindu dos Maratas e conquistara quase todo o
Deccan, Bengala e o vale do Ganges. Os seus sucessores dominaram os
Estados rajputs, anexaram a província ocidental de Sind com o seu porto
de Carachi e declararam duas guerras ferozes aos Sikhs para dominar o
Panjab e realizar a conquista praticamente total das Índias. Assim,
algumas escassas décadas haviam bastado para que uma companhia de
mercadores se transformasse em potência soberana, os seus agentes e
caixeiros em generais e governadores, as suas feitorias em palácios, a
corrida aos dividendos em corrida ao domínio territorial. Sem
propriamente querer, a Grã-Bretanha sucedia ao imperador mogol que lhe
abrira as portas do sub-continente indiano.
O domínio inglês levava às Índias benefícios de considerável amplitude, a
Pax britannica e instituições copiadas da metrópole.

18
Mas sobretudo, oferecia a este gigantesco país o presente inestimável da
língua inglesa que se tornaria o laço entre os seus povos e o veículo das
suas aspirações revolucionárias.
A primeira manifestação destas aspirações surgira em 1857 sob a forma de
uma violenta revolta militar. O auxílio providencial de um punhado de
marajás evitara a derrocada do edifício britânico e permitira aos
ingleses reunir as suas forças e esmagar a revolta com uma brutalidade
igual à dos que contra eles se haviam rebelado. O resultado mais imediato
desta revolta foi uma mudança radical na maneira como a Inglaterra
governava as Índias. Após duzentos e cinquenta anos de actividades
produtivas, pôs-se termo à existência da venerável East Índia Trading
Company, pelo mesmo processo como nascera, por meio de um decreto real
assinado a 12 de Agosto de 1858. O novo édito transferia a
responsabilidade do destino de trezentos milhões de indianos para as mãos
de uma mulher de trinta e nove anos cujo rosto voluntarioso ia encarnar a
vocação da raça britânica de dominar o mundo, a rainha Vitória. A
autoridade da Inglaterra ia ser a partir de agora exercida pela coroa,
representada nas Índias por uma espécie de soberano nomeado para reinar
sobre um quinto da humanidade, o vice-rei.
Esta transformação fundamental inaugurava o período que o mundo iria
associar com mais frequência ao domínio inglês nas Índias, a época
vitoriana. A essência da sua filosofia baseava-se num conceito que
repetia com gosto aquele que viria a ser o cantor do sonho imperial,
Rudyard Kipling: os white Englishmen eram feitos para dominar «aqueles
pobres povos privados das suas leis». A responsabilidade de governar as
Índias, proclamava Kipling, «fora, por qualquer misterioso desígnio da
Providência, posta aos ombros da raça inglesa».
Este encargo monumental fora exercido por uma elite minúscula, os dois
mil membros do Indian Civil Service e os dois mil oficiais ingleses que
preenchiam o quadro do Exército das Índias. Apoiada em sessenta mil
soldados britânicos e duzentos mil soldados indígenas, a autoridade deste
punhado de homens governara e mantivera a ordem num país de trezentos
milhões de habitantes. Nenhuma estatística poderia definir melhor do que
estes números a natureza do domínio inglês nas Índias e traduzir o grau
de submissão que encontrou da parte das massas indianas.
A Índia destes colonizadores era a Índia romântica pitoresca dos contos
de Kipling. Era a Índia dos gentlemen brancos levando atrás dos seus
capacetes emplumados os seus esquadrões desowar (Nota 1) de turbante na
cabeça; a Índia dos cobradores de impostos perdidos nas imensidades
tórridas do Deccan; a Índia das sumptuosas festas imperiais na base do
Himalaia, na capital de Verão de Simla; a Índia das partidas de críquete
nos relvados do Bengal Club de Calcutá;

Nota 1 - Cavaleiros indígenas do Exército das Índias.

19
a Índia dos desafios de polo na poeira do deserto de Rajasthan e das
caçadas ao tigre em Assam; a Índia dos administradores que vestiam o
smoking para jantar no seu acampamento em plena floresta e erguiam
solenemente o cálice de sherry para fazer uma saúde ao rei-imperador
enquanto nas trevas ganiam os chacais; a Índia dos oficiais em dólman
vermelho, escalando as encostas vertiginosas da passagem do Khyber e
perseguindo os ferozes rebeldes pathans pela canícula do Verão ou com o
frio do Inverno; a Índia de uma casta de homens seguros da sua
superioridade bebendo o seu whisky com soda nas varandas dos seus clubes
«reservados apenas a Brancos». As extensões infinitas do continente
indiano deram a estes ingleses o que nunca lhes poderiam oferecer as suas
estreitas margens insulares, uma arena sem limites onde matar a sede de
aventura. Chegavam, imberbes e tímidos, com dezoito ou vinte anos, aos
cais de Bombaim. Trinta e cinco ou quarenta anos mais tarde, tornavam a
partir com o rosto queimado por demasiado sol e demasiado whisky, o corpo
marcado pelos ferimentos das balas, pelas doenças tropicais, as garras de
uma pantera ou as quedas no polo, mas orgulhosos por terem vivido a sua
parte de lenda no último império romântico do mundo.
Era a maior parte das vezes na confusão teatral da gare Victoria de
Bombaim que começava a sua aventura. Ali, sob as arcadas neogóticas,
descobriam o país onde tinham decidido passar a vida. Que choque ao
primeiro contacto com o turbilhão frenético da população indígena, no
meio do cheiro penetrante da urina e das especiarias, atabafados no calor
desumano! Que espanto ao descobrirem de repente a complexidade do mundo
indiano diante das fontes da gare! Como em todas as estações das Índias,
letreiros em todas as torneiras indicando a água «reservada» aos
europeus, aos hindus, aos muçulmanos e aos intocáveis. Que alívio à vista
das carruagens verde escuro do Frontier Mail ou do Hyderabad Express,
cujas locomotivas tinham os nomes de generais britânicos célebres. Por
detrás das cortinas das carruagens de I classe esperava-os um mundo
familiar, um mundo de assentos confortáveis com espaldares bordados, de
garrafas de champanhe postas a gelar em baldes de prata, um mundo
sobretudo, em que os únicos indianos que por acaso encontrassem seriam o
revisor ou os criados da carruagem-restaurante. Os recém-chegados
aprendiam assim logo ao primeiro contacto a regra essencial: a Grã-
Bretanha reinava nas Índias mas os ingleses viviam à parte.
Anos rudes aguardavam os jovens administradores do Império, no termo
desta primeira viagem. Tinham sido mandados para os postos longínquos, a
maior parte das vezes fora de toda a civilização, sem telégrafo nem
electricidade, sem estradas nem caminho de ferro, e vazios de qualquer
presença europeia. Com vinte e quatro ou vinte e cinco anos de idade,
viam-se muitas vezes senhores todo-poderosos de territórios mais vastos
do que a Córsega e mais povoados do que a Bélgica. Tinham inspeccionado o
seu distrito a pé ou a cavalo, indo de aldeia em aldeia à frente de uma
enorme caravana de criados, guardas do corpo, secretários, e uma fila de
burros, de camelos ou de carroças transportando a tenda-escritório, a
tenda-quarto, a tenda-sala de jantar, a tenda-cozinha, a tenda-casa de
banho, e víveres para um mês inteiro.

20
Em cada etapa, a tenda-escritório tornava-se em sala de audiências de um
tribunal. Dignamente instalados a uma mesa desmontável, ladeados por dois
servos que sacudiam as moscas com leques, tinham feito justiça em nome de
Sua Majestade o rei da Grã-Bretanha e imperador das Índias. Ao pôr do
sol, depois de um banho numa banheira de pele de cabra, tinham vestido
cerimoniosamente o seu smoking para um jantar solitário debaixo do
mosquiteiro da tenda-sala de jantar iluminada por uma lanterna de bordo
enquanto se ouviam em redor os ruídos da floresta e o rugido ocasional de
um tigre. Todas as madrugadas tornavam a partir para exercer noutro sítio
a autoridade soberana do homem branco.
Esta dura aprendizagem qualificava geralmente os servidores do Império
para tomarem o lugar merecido nas ilhas verdes privilegiadas de onde a
aristocracia imperial reinava sobre as Índias. Guetos dourados do domínio
britânico, os cantonments constituíam verdadeiros corpos estranhos
encravados nas principais cidades indianas. Cada um tinha o seu jardim
público, os seus canteiros à inglesa, o seu banco, o seu matadouro, as
suas lojas e a sua igreja com o seu campanário de pedra, altiva e
comovedora réplica dos encantadores campanários de Dorset ou de Surrey. O
coração destes enclaves era forçosamente a instituição que surge assim
que dois ingleses se encontram, o Club. Durante gerações, à hora
abençoada em que o sol se esconde no horizonte, os dignos representantes
de Sua Majestade tinham-se instalado nos canteiros ou à sombra das
frescas varandas destes clubs para um sundown, o primeiro whisky da
noite, trazido por criados de túnica branca. Cada um destes clubes
constituía um recanto sossegado onde os ingleses podiam evadir-se das
Índias durante alguns momentos e regressar ao país que tinham deixado
talvez para sempre. Confortavelmente metidos em caldeirões de coiro,
entregavam-se à leitura do Times cujas páginas, de há um mês atrás ou
mais, lhes traziam os ecos longínquos dos debates nos Comuns ou dos
factos ou atitudes referentes à família real, as efemérides da vida
londrina e sobretudo, a notícia dos nascimentos, dos esponsais ou do
falecimento dos seus contemporâneos de quem os separava um quarto da
superfície do globo. Após esta escala ritual, esperava-os uma outra,
primeiro ao bar e depois à sala de jantar. Sob uma bateria de
ventiladores sacudindo o ar tropical, sob o olhar de vidro das cabeças de
tigre ou de búfalo selvagem mortos nas florestas dos arredores,
desdenhavam os tesouros da gastronomia mogol para saborearem
religiosamente a cozinha insípida da sua ilha longínqua, servida numa
profusão de pratas lucilantes.
A Índia imperial tinha ostentado as festas e recepções mais faustosas.
«Toda a família inglesa que se honrava da menor estabilidade possuía uma
sala de baile e um salão de trinta metros de comprimento, conta uma
grande dama dessa época. Não existiam então esses horrorosos bufetes onde
as pessoas se vão sentar com o talher posto ao lado de pessoas
escolhidas.

21
O jantar mais íntimo reunia pelo menos quarenta convidados, com um criado
por detrás de cada um. Os negociantes não assistiam a estas recepções,
nem os indianos, evidentemente: ninguém se atrevera nunca a dar-se com
eles. Nada era mais importante do que a presença, e seria uma falta
imperdoável faltar a essa regra. Imaginem o gelo que se faria de repente
numa dessas festas se a esposa do secretário-geral de um ministério
descobrisse que a tinham sentado ao lado de um oficial de patente
inferior à do marido!»
O maior divertimento dos ingleses nas Índias tinha sido sem dúvida o
desporto. A sua paixão pelo cricket, o ténis, o squash e o hóquei sobre a
relva seria por isso, além da língua inglesa, a herança mais durável que
deixariam atrás de si estes colonizadores. Jogava-se ao golfe em Calcutá
desde 1829, trinta anos antes de Nova York, e o percurso mais elevado do
mundo foi iniciado a três mil metros de altitude, em pleno Himalaia.
Nenhum saco de golfe era mais apreciado do que os fabricados com a pele
de sexo de elefante — com a condição de que o seu proprietário tivesse
ele próprio morto o animal. Toda a cidade que se presava tinha uma equipa
de caça a cavalo, com a sua matilha de cães importados de Inglaterra.
Audaciosos cavaleiros de jaqueta vermelha e gorro preto galopavam no
calor das planícies áridas em perseguição dos chacais que a Índia
proporcionava à falta de raposas. Os mais temerários caçavam o javali à
lança, e a lenda afirmava que alguns tinham mesmo carregado desta forma
sobre tigres e panteras. Estes apaixonados por cavalos tinham adoptado o
jogo nacional indiano ao ponto de tornarem o polo numa verdadeira
instituição britânica. E a final anual do torneio de polo entre os vinte
e um regimentos de cavalaria do Exército das Índias constituirá durante
décadas o acontecimento desportivo mais brilhante da Índia imperial.
Se gerações de ingleses tinham realizado nas Índias os seus sonhos de
aventura, muitos deles deviam ter ali encontrado a morte na flor da
idade. Contíguo à igreja de cada enclave britânico, um cemitério e as
suas numerosas campas sinalizavam o tributo que a colonização inglesa
pagava ao clima cruel da Índia, aos seus perigos, às epidemias de cólera,
de malária e de febre dos pântanos. As lajes narravam essas histórias
comoventes. A campa mais antiga era a de uma certa Elisabeth Baker «morta
em 1610 ao dar à luz a bordo do Roebruck, a dois dias de Madras». Havia
as de comerciantes como Christopher Oxender, primeiro presidente da
feitoria de Surat — a cidade em frente da qual o comandante do Hector
lançara a âncora — morto em 15 de Abril de 1659 depois de «viver numa
enorme casa onda salvas de trombetas de prata anunciavam os inúmeros
pratos dos seus banquetes» e que «passeava nas ruas de Surat precedido
pelo seu capelão, a sua guarda de corpo e o portador do guarda-sol
imperial a cuja sombra avançava com uma dignidade peculiar. Havia as dos
agentes da civilização britânica como Augustus Cleveland, um cobrador de
impostos de Bhagalpur morto com a idade de vinte e nove anos, cujo
epitáfio explicava que «levara o progresso a uma raça selvagem de
montanheses da floresta de Raj Mahal, lhes ensinara o gosto pela cultura
e os ligara para sempre à coroa britânica».

22
Havia todas as campas dos soldados do Império caídos num belo impulso
pelo seu soberano e pelo seu país. O tenente W. H. Sitwell, do regimento
indígena 31, tinha «morrido no campo da honra com a idade de vinte e um
anos, a 11 de Fevereiro de 1850» quando «jovem, belo, valente, nobre, de
coração generoso e cheio de esperança, a vida o esperava com todos os
sonhos que se desvaneceram de um só golpe. Combatendo gloriosamente o
inimigo, de espada desembainhada, pereceu».
A Índia permanecera fiel às suas lendas até na morte. O tenente St. John
Shaw, da Royal Horse Artillery, sucumbira «às feridas causadas por uma
pantera a 12 de Maio de 1866, com vinte e seis anos de idade». O major
Archibald Hibbert, comandante da 80.a bateria da Royal Field Artillery
falecera a 15 de Junho de 1902 perto de Raipur «nas hastes de um búfalo
selvagem». Harris McQuaid fora «espezinhado por um elefante em Saugh a 6
de Junho de 1902», e Thomas Butler, um contabilista das Obras públicas de
Jabalpur, tivera «a pouca sorte de ser devorado por um tigre na floresta
de Tilman a 25 de Fevereiro de 1897». A morte mais insólita tinha sido a
do general de engenharia Henry Durand, que caíra do seu elefante de
passeio ao inaugurar o arco de triunfo de que calculara mal a altura.
Mais anónimas mas não menos significativas do preço em vidas humanas que
custara o sonho imperial inglês eram as pedras funerárias de todos os
inspectores de polícia, ferroviários, plantadores, missionários,
lanceiros de Bengala, e de todas as mulheres que a doença cerceara.
Ninguém fora poupado, nem mesmo a mulher do primeiro vice-rei das Índias,
Lady Canning, que morrera com a febre dos pântanos no seu palácio, embora
este ficasse longe das regiões pestíferas. Ainda mais comoventes e
significativas dos sacrifícios impostos aos conquistadores da Índia
imperial eram as pequenas sepulturas de todas as crianças vítimas de um
clima e de doenças que nunca teriam sofrido na Inglaterra de seus pais.
Dois epitáfios na mesma campa do cemitério de Asigarn resumiam bem toda
esta crueldade: «19 de Abril de 1845, Alexander, de sete meses, filho do
ferroviário Johnson Scott e de sua mulher Martha, morto de cólera», «30
de Abril de 1845, William John, de quatro anos, filho do ferroviário
Johnson Scott e de sua mulher Martha, morto de cólera». E por baixo
estava gravado o adeus dos pais inconsoláveis.

Aqui repousam
Frutos abençoados das mesmas entranhas
Duas crianças
Levadas por uma doença mortal
Longe de uma Inglaterra
Que nunca conheceram.

23
Funcionários ou soldados prestigiosos, estas gerações de ingleses tinham
administrado as Índias como elas nunca tinham sido administradas antes.
Dedicados e desprovidos de outra ambição que não fosse a de inspirar o
respeito pela lei e pela justiça a uma sociedade fundada na desigualdade,
eles tinham sido, com raras excepções, homens capazes e incorruptíveis.
Mas a insignificância do seu número e o complexo de superioridade racial
que os dominava tinham-nos afastado de verdadeiros contactos com as
populações postas sob a sua autoridade. Este preconceito vitoriano da
superioridade do homem branco nunca foi expresso com mais clareza do que
por um antigo administrador do Indian Civil Service durante um debate
parlamentar no princípio do século. Existia, afirmou ele, «uma convicção
enraizada comum a todos os ingleses que vivem nas Índias, desde o mais
poderoso ao mais humilde, desde o plantador na sua casamata longínqua até
ao director de qualquer jornal da capital, do perfeito de uma grande
província ao vice-rei no seu trono, a convicção entranhada no íntimo de
cada um, de que pertenciam a uma raça que Deus escolhera para governar e
dominar».
O massacre nos campos de batalha da Primeira Guerra mundial de seiscentos
mil elementos desta raça eleita daria um primeiro golpe na lenda de uma
certa Índia. Uma geração inteira de jovens destinados a patrulhar a
extensão da fronteira afegã, a administrar os distritos longínquos e
galopar nos seus cavalos de polo sobre a poeira dos maidan caíra nas
trincheiras da Flandres. A partir de 1918, o recrutamento do Indian Civil
Service tornara-se cada vez mais difícil. Pressentindo a evolução dos
tempos, os regressados da guerra preferiam abandonar uma carreira que
parecia destinada a terminar muito antes da idade da reforma.
No dia 1 de Janeiro de 1947, não restava de serviço nas Índias mais de um
milhar de sobreviventes do Indian Civil Service, elite minúscula que
conseguia ainda impor menos mal a autoridade da Grã-Bretanha sobre
quatrocentos milhões de homens. Eles eram os últimos representantes de
uma raça de homens destinados a desaparecer na queda do edifício colossal
condenado pela marcha implacável da História, e que uma entrevista
secreta realizada em Londres naquele dia acabava de precipitar
inexoravelmente.

24
Capítulo segundo
QUATROCENTOS MILHÕES DE FANÁTICOS

A dez mil quilómetros de Downing Street, numa aldeia do delta do Ganges,


situada acima do golfo de Bengala, um velho deitou-se na terra batida de
uma cabana de camponês. Era exactamente meio-dia. Como todos os dias à
mesma hora, pegou no saco húmido que lhe deram e colocou-o cuidadosamente
sobre o ventre. Depois, tomou um outro saco, mais pequeno, e assentou-o
sobre o crânio calvo. Assim estendido no chão, parecia uma criatura
frágil e insignificante. Todavia, este velho de setenta e sete anos,
encarquilhado sob a sua cataplasma de argila, tinha feito mais que
ninguém para deitar abaixo o Império britânico. Era por causa dele que o
primeiro-ministro inglês se via obrigado a mandar o bisneto da rainha
Vitória a Nova Deli para arranjar forma de liquidar a presença britânica
nas Índias.
Profeta manso do movimento de libertação mais extraordinário que jamais
existiu, Mohandas Karamchand Gandhi era um revolucionário bastante
singular. Junto dele encontravam-se os seus óculos com aros de aço e,
luzindo de asseio, a dentadura, que punha apenas para comer. Com a sua
pequena estatura, os seus cinquenta e dois quilos, os braços e pernas
desproporcionados em relação ao corpo, as orelhas espetadas, o nariz
achatado acima de um fio de bigode grisalho, fazia lembrar uma velha ave
pernalta. Apesar da sua fealdade, o rosto de Gandhi irradiava uma
estranha beleza devida ao permanente reflexo de humores, de sentimentos e
de malícia que o animava.
A um mundo esmagado pela violência, Gandhi propusera outro caminho, o
ahimsa — a não-violência. Propagando esta doutrina, conseguira mobilizar
o povo indiano para expulsar a Inglaterra da península. Graças a ele, uma
campanha moral substituirá a rebelião armada, a corrida às armas um
silêncio desprezível ao estalar das bombas terroristas. Enquanto a Europa
ecoava os gritos e discursos de um bando de demagogos e ditadores, Gandhi
levantava as massas do país mais povoado do globo sem erguer a voz. Não
era pela ânsia de poder nem da fortuna que ele atraíra os seus discípulos
à sua causa, mas por meio de um aviso: «Os que quiserem seguir-me,
dissera ele, devem estar dispostos a dormir no próprio chão, a vestirem-
se com roupas simples, a levantarem-se antes da alvorada, a viver de
alimentos frugais e limparem eles mesmos os seus trajes.» Em vez de
uniformes, propunha aos companheiros que usassem o algodão cru fiado à
mão. Reconhecível à primeira vista, esta indumentária iria unir entre si
as multidões indianas mais fortemente do que as camisas castanhas e
negras tinham unido as tropas dos ditadores europeus.

25
Para transmitir a sua doutrina, Gandhi recorrera aos métodos mais
elementares. Escrevia à mão à maioria dos seus correspondentes, mas
sobretudo, falava. Falava aos discípulos, aos fiéis das suas reuniões de
oração, nas assembleias do partido do Congresso. Não utilizava nenhuma
das técnicas preparadas para condicionar as massas e sujeitá-las à
vontade dos dirigentes e dos ideologistas. Todavia, a sua mensagem
espalhava-se num continente desprovido de todos os meios de comunicação
modernos: Gandhi possuía a arte dos gestos simples que falam à alma da
Índia. Realizava actos de uma originalidade surpreendente. Num país
devastado pela fome havia séculos, a sua técnica mais eficaz consistia em
privar-se de alimento, fazendo uma série de jejuns públicos. Punha a
Inglaterra de joelhos bebendo água e bicarbonato de sódio.
A Índia mística reconhecera neste Homenzinho frágil, no significado dos
seus actos, o génio de um Mahatma — uma Grande Alma — e seguira-o.
Venerado como um santo pelos seus discípulos, era incontestavelmente uma
das figuras mais notáveis da sua época. Para os ingleses, cuja partida
adiantara, não passava de um político hábil, um falso messias cujas
cruzadas não violentas tinham sempre acabado em violência. Até mesmo um
homem tão benevolente como o marechal Wavell, o vice-rei a quem ia
suceder Mountbatten, o considerava «um velho líder maléfico...
habilidoso, obstinado, tirânico, atrevido, com bastante falta de
autêntica santidade».
Raros eram os ingleses que lhe falaram que o tivessem compreendido e mais
raros ainda os que gostavam dele. O seu embaraço perante aquele
homenzinho era compreensível.
Mistura espantosa de grandes princípios morais e de obsessões
extravagantes, não hesitava em interromper discussões políticas sérias
para dissertar acerca dos benefícios da continência ou as causas da
prisão de ventre.
Onde se encontrava o Gandhi estava a capital das Índias, dizia-se.
Naquele dia 1 de Janeiro de 1947 essa honra pertencia à aldeia bengali de
Srirampur de onde o Mahatma, deitado sob as suas cataplasmas de argila,
exercia a sua autoridade sobre um continente inteiro sem auxílio das
ondas da rádio, sem electricidade nem água corrente, a cinquenta
quilómetros do telefone ou do telégrafo mais próximos. O distrito de
Noakhali, a que pertencia a aldeia de Srirampur, era uma das regiões mais
inacessíveis da Índia, um emaranhado de pântanos e de ilhotas perdidos no
meio do delta formado pelo Ganges e pelo Bramaputra. Numa superfície de
apenas sessenta quilómetros quadrados viviam dois milhões e meio de seres
humanos, dos quais oitenta por cento muçulmanos. Apinhavam-se em aldeolas
miseráveis separadas por uma enorme rede de canais e de ribeiros. Só era
possível chegar junto deles de barco, em jangadas puxadas por búfalos ou
por meio de pontes de bambu perigosamente suspensas sobre águas
lamacentas geralmente atabafadas num tapete de jacintos selvagens.

26
Esta festa de Ano Novo devia ser para Gandhi motivo de especial alegria.
Não estava ele prestes a conseguir o objectivo que mobilizara todas as
suas forças havia mais de trinta anos? Quando se avizinhava o desfecho
glorioso do» seu combate, Gandhi sofria contudo um profundo desgosto. As
causas eram nitidamente visíveis em toda a volta de Srirampur. Esta
aldeia tivera a triste glória de figurar nos despachos cuja gravidade
apressara a decisão de Clement Attlee. Excitados pelos chefes fanáticos e
pelos relatos das atrozes represálias exercidas contra os seus em
Calcutá, os muçulmanos do distrito de Noakhali haviam atacado as minorias
hindus que compartilhavam as suas aldeias. Tinham massacrado, violado,
pilhado, incendiado e forçado os vizinhos a comer a carne das vacas
sagradas. Metade das choupanas de Srirampur não eram mais do que ruínas
enegrecidas. Até a cabana habitada por Gandhi fora parcialmente destruída
pelo fogo.
Estas explosões de violência eram ainda casos isolados, mas as paixões
que as haviam desencadeado ameaçavam dominar em breve todo o sub-
continente. Desencadeados em Calcutá, estes motins sanguinários já se
tinham propagado à província de Bihar onde, desta vez, os hindus tinham
massacrado os muçulmanos com igual selvageria. O balanço destes massacres
explicava a angústia do primeiro-ministro britânico e a sua vontade de
mandar com urgência Mountbatten a Nova Deli.
Explicava também a presença de Gandhi em Srirampur. O facto dos seus
compatriotas se atacarem uns aos outros com uma ira sanguinária, no
momento triunfal da sua libertação, despedaçava o coração do velho. Eles
tinham-no seguido no caminho da independência mas não tinham compreendido
a doutrina fundamental da sua acção. Gandhi acreditava apaixonadamente na
não-violência. O holocausto que o mundo acabava de sofrer, o espectro da
destruição que hoje o ameaçava, provava de maneira indiscutível que hoje
o ameaçava, provava de maneira indiscutível que só a não-violência podia
salvar a humanidade. Desejava ardentemente que a nova Índia pudesse
mostrar à Ásia e à terra inteira um caminho não violento para conseguir a
redenção do homem. Mas se o seu povo se afastava dos próprios princípios
que ele utilizara para os conduzir à liberdade, que seria das suas
esperanças? Seria uma tragédia que tornaria a independência num triunfo
inútil.
Naquele dia de Ano Novo de 1947, a ameaça de uma partilha das Índias
afligia igualmente Gandhi. Todas as fibras do seu ser se revoltavam
contra a divisão do seu amado país que exigiam os chefes muçulmanos da
Índia e que muitos ingleses estavam prontos a aceitar. Os diferentes
povos indianos e as suas crenças estavam tão intrincadamente misturados
aos seus olhos como os fios entrelaçados de um tapete oriental. Ele
estava ferozmente convencido de que a Índia não podia ser dividida sem
que fosse destruída a essência da sua realidade, tal como um tapete não
pode ser rasgado sem que se quebre a harmonia do seu desenho.
Quando os primeiros massacres religiosos tinham aumentado o abismo que
separava as comunidades hindus e muçulmanas, Gandhi dissera num grito de
angústia: «Não distingo nenhuma luz na noite impenetrável.

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Os princípios da verdade, de amor e de não-violência que me ampararam
durante cinquenta anos parecem não ter as qualidades que lhes atribuí.»
Era para procurar novas razões de crer, para achar forma de curar a
doença, de impedir que ela contaminasse e fizesse naufragar a Índia
inteira, que ele viera à aldeia devastada de Srirampur. Durante vários
dias, percorrera o povoado, falando com os habitantes, orando e meditando
à escuta da sua «voz interior» que tantas vezes o iluminara em tempos de
crise.
Nessa noite de 1 de Janeiro, convocou os discípulos. A sua «voz interior»
falara-lhe finalmente. Como os santos homens da Índia tinham outrora
percorrido descalços o continente para irem rezar nos santuários, ele ia
empreender uma peregrinação de penitência através das aldeias do distrito
de Noakhali devastadas pelo ódio. Durante sete semanas, marchando
descalço em sinal de mortificação, Gandhi ia percorrer cento e oitenta e
cinco quilómetros e visitar quarenta e sete aldeias. Ele, um hindu, ia
aventurar-se no meio daqueles muçulmanos enraivecidos, correndo de aldeia
em aldeia, de cabana em cabana, para tentar trazer novamente a paz só com
o bálsamo da sua presença.
Que os políticos discutem em Nova Deli com os seus intermináveis
discursos sobre o futuro da Índia, declarou ele. Como sempre acontecera,
as verdadeiras respostas para os problemas da Índia deviam encontrar-se
nas aldeias.
«Será a minha última grande experiência», confirmou ele. Se conseguisse
«reacender a chama da fraternidade» naquelas aldeias amaldiçoadas pelo
sangue e pelo rancor, o seu exemplo havia de inspirar a nação inteira.
Aqui, em Noakhali, esperava poder empunhar de novo o facho da não-
violência para conjurar os demónios da intolerância religiosa e a divisão
que ameaçava a Índia.
Para esta peregrinação de penitência, Gandhi não queria outro companheiro
além de Deus. Apenas quatro discípulos o acompanharam e viveriam todos da
caridade dos camponeses. Manu, a sua fiel sobrinha-neta de dezanove anos,
meteu na sacola um lápis e papel, agulha e linha, uma tijela de barro,
uma colher de madeira e a sua roca. Não se esqueceu da estatueta de
marfim que Gandhi levava sempre consigo e que, sob a forma de três
macacos, com as mãos nos ouvidos, nos olhos e na boca, representavam os
três segredos da sabedoria:
«Não ouças o mal, não vejas o mal, não digas mal.» No seu saco de algodão
meteu os livros que exprimiam o eclectismo deste original mensageiro da
reconciliação: a Bhagavad Gitâ hindu, o Alcorão, as Práticas e Preceitos
de Jesus, e uma selecção de pensamentos judaicos.
Com Gandhi à frente, o pequeno grupo partiu ao nascer do Sol. Os
habitantes de Srirampur acorreram para olhar pela última vez aquele velho
de setenta anos que se ia embora, curvado sobre a sua bengala de bambu,
em busca do seu sonho, Gandhi recitou um poema de Rabindranath Tagore.

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Era um dos seus poemas preferidos. À medida que se afastava, os
camponeses ouviram cada vez mais alto a sua voz aflautada.
«Se eles não respondem à chamada, cantarolava ele, vai sozinho, vai
sozinho.»
A onda de sangue racista e religioso que Gandhi esperava estancar com a
sua peregrinação de penitente solitário tinha sido, juntamente com a
fome, a maldição mais terrível das Índias. O grande poema épico hindu, o
Mahabharata, glorificava uma horrorosa guerra civil que se desenrolara
dois mil e quinhentos anos antes de Cristo em Kurukshetra, perto da
actual Deli. O hinduísmo tinha origem no contacto brutal e fecundo entre
a civilização das tribos arianas vindas do Irão e das populações
aborígenes da região do Indo. Os arianos trouxeram consigo o Veda,
tratado de sabedoria, que os sábios da Índia desenvolveram e que se
tornou o fundamento da religião hindu.
A religião de Maomé chegara muito mais tarde, depois das hordas de Gengis
Khan e de Tamertão terem forçado a passagem de Khyber para caírem sobre a
extensa planície indogangética hindu. Durante dois séculos os imperadores
mogois muçulmanos tinham imposto o seu domínio despótico e implacável
sobre uma grande parte da península, espalhando a mensagem de Alá, único
e misericordioso.
As duas grandes religiões assim enxertadas no corpo da Índia fundavam-se
em duas concepções diferentes da divindade. Enquanto o islão se apoia
numa pessoa — o profeta Maomé — e num texto precioso — o Alcorão —, o
hinduísmo é uma religião sem fundador, embora revelada, sem dogmas, sem
liturgia, sem igreja. Para o islão, o criador liberta-se da sua criação,
manda e reina sobre a sua obra. Para os hindus, o criador e a sua criação
são apenas um. Deus não é uma personagem com uma existência separada da
sua manifestação sem limites.
Os hindus crêem que Deus está presente em toda a parte e é em toda a
parte o mesmo, sob os aspectos mais variados. Deus é as plantas, os
animais, o fogo, a chuva, o falo, os insectos, as estrelas, os planetas.
Deus é o homem na sua loucura e na sua sabedoria. Só existe para os
hindus uma única culpa, aavidya — a ignorância: não «ver» a evidência da
presença de Deus em todas as coisas.
Para os muçulmanos pelo contrário, Alá é absoluto tão longínquo que o
Alcorão proíbe a sua representação sob qualquer forma que seja. Uma
mesquita é um sítio árido. As únicas decorações permitidas são motivos
abstractos ou a repetição incansável dos noventa e nove nomes de Alá. Um
templo hindu é absolutamente o oposto: um imenso bazar espiritual, um
refúgio de deusas com o pescoço enfeitado de serpentes, deuses de seis
braços ou com cabeça de elefante, macacos adoráveis, virgens e até
representações eróticas.

29
Os muçulmanos reúnem-se para uma oração comum todas as semanas,
prostrando-se juntos na direcção de Meca e salmodiando em coro os
versículos do Alcorão. O hindu reza sozinho, escolhendo o seu deus
pessoal, emanação do Deus único, num panteão espantoso de três milhões de
divindades. A sua religião é uma selva tão complexa que apenas alguns
homens santos que consagraram a vida ao seu estudo conseguem compreendê-
la. O princípio básico, até onde é possível simplificar, explica o
mistério da vida pela acção de uma trindade de deuses, Brahma, o criador
Siva, o destruidor, e Vishnu, o conservador, expressões de forças
cósmicas que se manifestam no mundo e garantem o seu equilíbrio e uma
criação contínua. Depois vêm todas as outras divindades, os deuses e
deusas das estações, do clima, das colheitas e das doenças humanas, como
Mariamma, deusa da varíola, venerada com uma festa anual, muito
semelhante à Páscoa judaica.
Contudo, o que mais separava os hindus dos muçulmanos não era de ordem
metafísica, mas social. A grande barreira era o sistema hindu das castas.
Segundo as escrituras védicas, a sua origem remonta a Brahama, o Criador.
Os Brahamanes, a casta mais elevada, tinham saído da sua boca; os
Kshatriyas, os guerreiros, dos biceps; os Vaiçyas, os comerciantes, das
ancas; os Çudras, os artífices, dos pés. No ponto mais baixo encontravam-
se os sem-casta, a quem chamavam os Intocáveis e que, esses, teriam
nascido da terra. Esta segregação era todavia muito menos divina do que
sugeriam os Vedas. Fora utilizada pelas classes dominantes arianizadas
para permitir a continuação da escravatura das populações aborígenes de
pele negra que habitavam a península. Aliás, diz-se que o termo sânscrito
varna, que significa casta, significa também: cor. A pele negra dos
párias da Índia indicaria ainda de forma concreta as verdadeiras origens
do sistema.
As cinco divisões primitivas multiplicaram-se como células cancerosas em
cerca de três mil sub-castas, 1886 das quais apenas entre os Brahamanes.
Cada ofício tinha a sua casta, o que dividia a sociedade hindu numa
miríade de corporações estanques no interior das quais cada um estava
condenado a viver e morrer, sem qualquer esperança de fuga. Os seus
limites eram tão exatos que um serralheiro, por exemplo, não pertencia à
mesma sub-casta que um funileiro.
O segundo conceito fundamental do hinduísmo, a reincarnação, estava
igualmente ligado, de certa forma, ao sistema de castas. Os hindus
consideravam que o corpo não é mais do que um invólucro provisório da
alma. A vida do corpo é apenas uma das muitas encarnações da alma durante
a sua viagem através da eternidade, cadeia que começa e acaba na união
com o cosmos. O balanço do bem e do mal acumulados durante todas as
existências mortais chama-se o karma. É ele que determina se uma alma vai
na sua nova encarnação subir ou descer na hierarquia das castas. Esta
sanção moral fornecera assim ao poder a bitola ideal para manter as
desigualdades sociais.

30
Da mesma forma que a Igreja cristã exortava os servos da Idade Média a
suportarem a sua sorte fazendo-lhes entrever as recompensas da vida
eterna, assim o hinduísmo encorajou os miseráveis da Índia a aceitarem a
deles com resignação; esta constituía o meio mais seguro de ter um
destino melhor na próxima encarnação.
Os muçulmanos, para quem o islão representava uma fraternidade de rentes
privilegiada, lançaram o anátema sobre este sistema. Religião acolhedora
e generosa, a fé de Maomé atraiu milhões de convertidos às mesquitas. A
maioria destes novos fiéis provinha evidentemente dos párias do
hinduísmo, os Intocáveis: encontravam imediatamente no islão a
reabilitação que só lhes fora prometida numa encarnação longínqua e
escapavam ao mesmo tempo à taxa sobre os infiéis.
Durante a derrocada do Império mogol no princípio do século XVIII,
desenvolveu-se com grande repercussão um renascimento hindu nas Índias
arrastando uma vaga de lutas sangrentas entre hindus e muçulmanos. Depois
chegou a Inglaterra, a sua Pax britannica, e houve uma calma temporária.
Mas a desconfiança recíproca que separava as duas comunidades continuava.
Os hindus não podiam esquecer que os muçulmanos descendiam na sua maior
parte dos Intocáveis que tinham abandonado em tempos a sua religião para
escaparem à sua condição. Recusavam-se a tomar a menor parcela de
alimento com um muçulmano, de quem a própria presença era considerada uma
nódoa. Qualquer contacto corporal com um muçulmano obrigava um brâmane a
demoradas purificações rituais.
Hindus e muçulmanos coabitavam o distrito de Noakhali, visitado por
Gandhi, assim como compartilhavam os milhares de aldeias do norte da
Índia, do Bihar, das Províncias Unidas e do Panjab. Embora se misturassem
na vida de todos os dias, até ao ponto de emprestarem os utensílios uns
aos outros e irem às mesmas festas, as suas relações paravam aí.
Casamentos entre as duas comunidades eram praticamente desconhecidos.
Viviam em bairros separados. Uma estrada ou um caminho, chamados muitas
vezes o Caminho do Meio, serviam de fronteira. Os muçulmanos moravam de
um lado, os hindus do outro. Tiravam a água de poços diferentes, e um
hindu teria preferido morrer de sede a beber a água de um poço muçulmano
situado apenas a alguns metros do seu. As crianças hindus aprendiam a ler
e a escrever em hindu com o pandita da aldeia, os jovens muçulmanos
recebiam em urdu o ensino do xeque da mesquita. Até as drogas ancestrais
à base de ervas e de urina de vaca às quais recorriam todos para curarem
doenças parecidas eram elaboradas segundo dosagens e ritos diferentes.
A estas diferenças sociais e religiosas veio' juntar-se em breve uma
separação mais insidiosa ainda, a desigualdade económica. Os hindus foram
mais rápidos do que os muçulmanos a compreenderem as vantagens que a
educação britânica e o pensamento ocidental levavam às Índias. Por isso,
embora os ingleses se sentissem socialmente mais perto dos muçulmanos,
foram os hindus quem fez funcionar as rodas da máquina administrativa
britânica.

31
Tornaram-se financeiros, homens de negócios e administradores do país.
Com os Parsis, uma minoria originária dos zoroastrianos, adoradores do
fogo da Pérsia antiga, monopolizavam os seguros, o banco, o grande
comércio e as poucas indústrias nascentes. Nas cidades e nos pequenos
aglomerados, constituíam a classe comercial dominante. Quase em toda a
parte, o papel de usurário era desempenhado pelos hindus, em parte devido
às suas aptidões, em parte porque a lei do Alcorão proibia aos muçulmanos
o negócio do dinheiro.
Os grandes burgueses muçulmanos, muitos deles descendentes dos
conquistadores mongóis, eram grandes proprietários rurais quando não
escolhiam a carreira das armas. Quanto às populações muçulmanas, as
estruturas da sociedade indiana raras vezes lhes permitira escapar,
apesar da sua nova religião, à condição de párias a que haviam
pertencido. Encontravam-se nos campos, camponeses sem terra, vítimas da
exploração dos grandes proprietários hindus ou muçulmanos, e nas cidades,
pequenos artífices a maior parte das vezes ao serviço de comerciantes
hindus.
Esta desigualdade económica agravava ainda o abismo religioso e social
que dividia as duas comunidades de forma irreversível e tornava a todo o
momento possível um massacre com o que acabava de tingir de sangue a
aldeia de Srirampur. A menor faísca podia desencadeá-lo, e cada
comunidade tinha as suas provocações especiais. Para os Hindus, era a
música. Não havia meio mais seguro de desencadear a cólera dos seus
vizinhos muçulmanos do que perturbar a sua oração da sexta-feira com um
concerto blasfemo em frente da mesquita. Para os muçulmanos, o melhor
desafio devia ser praticado num animal, um desses bichos esqueléticos que
pairam nas ruas de todas as cidades e aldeias da Índia e são objecto de
especial respeito para o hinduísmo, as «vacas sagradas».
A veneração pela vaca remonta aos tempos bíblicos, quando o destino das
tribos arianas a caminho do subcontinente dependia da vitalidade dos seus
membros. Como os rabis da antiga Judeia tinham proibido aos judeus o uso
da carne de porco para evitar os males da triquinose, os sábios da antiga
Índia tinham sagrado a vaca para evitar que fossem abatidos os rebanhos
de que dependia a sobrevivência dos seus povos.
A Índia possuía em 1947 o rebanho mais importante do mundo: duzentos
milhões de cabeças, cinco vezes mais do que franceses tinha a França, ou
seja, um bovino por cada dois indianos. Quarenta milhões destes animais
não chegavam a dar um litro de leite por dia. Outros quarenta ou
cinquenta milhões deles, atrelados a carros e charruas, eram usados como
animais de tracção. Os restantes, cerca de cem milhões de cabeças,
estéreis e inúteis, erravam à sua vontade pelos campos e cidades,
roubando todos os dias a dez milhões de indianos o seu magro sustento. O
instinto de sobrevivência mais elementar teria mandado extinguir estes
animais, mas a superstição era tão forte que a destruição de uma única
vaca constituía para os hindus um crime sem perdão. Até o próprio Gandhi
proclamava que protegendo a vaca, era a obra inteira de Deus que o homem
protegia.

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Este respeito idólatra inspirava aos muçulmanos a mais viva repugnância.
Sentiam um prazer especial em conduzir as vacas que levavam ao matadouro
em frente das portas dos templos hindus. Durante séculos, milhares de
seres humanos tinham acompanhado estes animais na morte, vítimas de
revoltas sangrentas que resultavam inevitavelmente de semelhantes
provocações.
Durante o seu domínio nas Índias, os ingleses conseguiram manter um
frágil equilíbrio entre as duas comunidades não hesitando em se
aproveitarem dos seus antagonismos para facilitar a sua própria
autoridade. Ao princípio, a luta pela independência das Índias foi obra
de uma pequena elite intelectual. Esquecendo os seus preconceitos raciais
e religiosos, hindus e muçulmanos lutaram lado a lado por um objectivo
comum. Paradoxalmente, foi Gandhi quem destruiu esse acordo.
Naquela região do mundo mais impregnada de espiritualidade do que
qualquer outra, era inevitável que a luta pela liberdade tomasse o
aspecto de uma cruzada. Ninguém era mais tolerante do que Mohandas
Gandhi. Mas os esforços para associar os muçulmanos à sua campanha de
libertação não podiam impedir que ele fosse considerado acima de tudo um
santo homem hindu. O seu movimento pela independência iria portanto
adquirir fatalmente um colorido religioso hindu que em breve levantaria a
suspeita da parte dos muçulmanos. A sua desconfiança agravou-se à medida
que se viram espoliados pelos seus rivais hindus da sua justa parte do
poder local. Na consciência muçulmana aumentou a angústia de ser
mergulhada numa Índia independente sob o domínio hindu e condenada à
existência de uma minoria sem defesa naquele país que os seus
antepassados mongóis tinham conquistado. Só uma secessão e a organização
num Estado independente podiam oferecer aos muçulmanos indianos a
perspectiva de escapar a tal destino.
O projecto de criar um Estado muçulmano autónomo fora formulado pela
primeira vez a 28 de Janeiro de 1933 num documento de quatro páginas e
meia dactilografadas redigido em Inglaterra, numa vivenda de Cambridge. O
seu autor, Rahmat Ali, era um universitário indiano muçulmano, de
quarenta anos de idade. A ideia de que as Índias constituíam uma nação
única era, na sua opinião, «uma mentira absurda». «Não nos deixaremos
crucificar na cruz do nacionalismo hindu», escrevia Rahmat Ali. Reclamava
a união das províncias do noroeste da Índia onde os muçulmanos são em
maior número, o Panjab, Cachemir, Sind, a Província fronteiriça de
Noroeste e o Baluchistão. Propunha até um nome para o novo Estado:
«Paquistão», o País dos puros.
Aceite pelos chefes nacionalistas da Liga muçulmana, a sugestão de Rahmat
Ali tinha a pouco e pouco inflamado a imaginação das massas muçulmanas
indianas. Os seus progressos eram ainda encorajados pelo excessivo
patriotismo de que davam prova os dirigentes hindus do partido do
Congresso obstinando-se a recusarem a menor concessão política aos seus
rivais muçulmanos.

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O acontecimento que iria servir de catalisador ao ódio entre muçulmanos e
hindus deu-se em 16 de Agosto de 1946, cinco meses antes da partida de
Gandhi para a sua peregrinação de penitência. O seu teatro foi a segunda
cidade do Império britânico a seguir a Londres, uma metrópole cuja
reputação de violência e selvageria não tinha rival, Calcutá. A longa
tradição criminosa desta cidade enriquecera os dicionários da língua
inglesa com a palavra «thug» — o estrangulador, nome de uma seita cujos
membros roubavam as suas vítimas depois de as estrangularem com um lenço
onde estavam cosidas nos quatro cantos medalhas com a efígie de Kali, a
deusa hindu da destruição. O inferno — dizia-se, era ter nascido
Intocável nos bairros da lata de Calcutá. Ali se acumulava a maior
concentração mundial de miseráveis, muçulmanos e hindus numa mistura
desordenada.
Na madrugada de 16 de Agosto de 1646, grupos de fanáticos muçulmanos
saíram dos seus tugúrios, aos gritos. Brandiam matracas, barras de ferro
e pás. Este era o resultado do apelo feito pela Liga muçulmana, marcando
o dia 16 de Agosto como «Jornada de Acção direta», com o fim de provar a
ingleses e hindus que os muçulmanos estavam dispostos «a conquistar o
Paquistão sozinhos e se necessário, pela força». Estes assassinos
massacram impiedosamente todos os hindus que encontraram, atirando os
seus despojos nos canais. A polícia aterrada evitou prudentemente
intervir. Passado pouco tempo, espessas colunas de fumo ergueram-se em
muitos pontos da cidade: os bazares hindus ficaram reduzidos a chamas.
Algumas horas mais tarde, os hindus saíram por sua vez dos seus bairros,
exterminando todos os muçulmanos que encontravam. Nunca em toda a sua
violenta história Calcutá conhecera vinte e quatro horas de tanta
selvageria. Inchados como odres, cadáveres às dezenas boiavam no rio
Hooghly que atravessa a cidade. Corpos mutilados juncavam as ruas. Em
toda a parte, tinham sido os fracos e indefesos quem mais sofrera. Num
cruzamento de ruas, uma fila de cules jaziam, chacinados, no mesmo sítio
onde os assassinos os haviam surpreendido, ainda entre os varais dos seus
jerinchás. Quando a carnificina acabou, Calcutá tornou-se pasto dos
abutres. Rondavam em voo cerrado, descendo a pique a todo o momento para
se cevarem na carne dos seis mil mortos daquele dia.
Este massacre de Calcutá desencadeou novas matanças no distrito de
Noakhali, depois ferozes represálias hindus na província vizinha do
Bihar. Ele iria mudar o curso da história das Índias. Durante vários
anos, os muçulmanos tinham anunciado que um terrível cataclismo
destruiria a Índia se lhe fosse recusado um Estado nacional. A ameaça
tornava-se a partir de agora realidade apavorante. A razão que levara
Gandhi aos pântanos de Noakhali — a guerra civil — erguia-se no
horizonte.
Para outro homem, o glacial e brilhante advogado muçulmano que durante um
quarto de século fora o primeiro adversário de Gandhi, esta perspectiva
tornava-se agora o melhor meio de rasgar o mapa das Índias e de conseguir
o Paquistão. Era ele, Mohammed Ali Jinnah, mais ainda do que o próprio
Gandhi, quem possuía, nesse primeiro de Janeiro de 1947, a chave do
futuro das Índias.

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Era este severo e inflexível messias muçulmano que o bisneto da rainha
Vitória teria de enfrentar à sua chegada às Índias. Durante uma
manifestação em Bombaim, em Agosto de 1946, Mohammed Ali Jinnah expôs aos
seus partidários os ensinamentos tirados dos massacres de Calcutá. Se os
hindus querem a guerra, anunciou ele nesse dia os muçulmanos indianos
«aceitam-na sem hesitar».
Os lábios crispados num sorriso de desprezo, lançara então a hindus e
ingleses o desafio: «Ou provocamos nós a divisão da Índia, ou provocamos
a sua destruição.»

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<Página em branco>
Capítulo terceiro
OS CAMINHOS DA LIBERDADE

— Sabe que me acontece uma coisa terrível? — confessou Luís Mountbatten.


Os dois primos encontravam sós na intimidade de uma sala particular do
palácio de Buckingham. Nenhum protocolo era seguido nas relações deste
género de encontros. Assim, ao lado um do outro como velhos camaradas de
colégio, o rei Jorge VI e o jovem almirante conversavam tranquilamente
tomando chá. Mountbatten desejara muito esta entrevista. O seu primo
Jorge VI era o seu último recurso, a vaga esperança de escapar à pouca
sorte de ter sido escolhido para romper os laços da Inglaterra com as
Índias. Afinal, o rei era imperador das Índias e tinha o direito de
sancionar ou reprovar a sua nomeação como vice-rei.
— Eu sei, respondeu Jorge VI com um sorriso compreensivo. O primeiro-
ministro já veio falar comigo e eu dei o meu acordo.
— Aceitou? - espantou-se Mountbatten com certa emoção. Pensou bem?
— Certamente, estudei o assunto com o maior cuidado, respondeu o rei com
entusiasmo.
— Mas é uma missão extremamente arriscada, insistiu Mountbatten. Ninguém
entrevê a menor possibilidade de conseguir um compromisso naquelas
paragens. Parece impossível reunir as condições necessárias para isso.
Sou seu primo. Se vou às Índias e só consigo os mais deploráveis
estragos, será um golpe fatal para a coroa.
— Com certeza, respondeu Jorge VI, mas imagine os resultados benéficos
que daí virão para a mesma coroa, se vencer.
— É bastante optimista da sua parte, supirou Mountbatten enterrando-se no
cadeirão.
O jovem almirante nunca estava naquela sala que não se lembrasse de outro
primo, o seu amigo mais antigo, o que fora seu padrinho em Westminster no
dia do seu casamento, o homem que devia ter sido rei de Inglaterra,
David, o príncipe de Gales, mais tarde duque de Windsor. Ligavam-nos
laços de amizade desde a mais tenra infância. Quando em 1936 David, então
rei Eduardo VIII, decidira abdicar porque não queria reinar sem ter a seu
lado a mulher que amava, «Dickie» Mountbatten testemunhara-lhe sem
descanso a sua fiel amizade.
Estranha ironia do destino, pensava Mountbatten, fora como oficial às
ordens deste primo preferido que ele pisara pela primeira vez, em 17 de
Novembro de 1921, a terra que deveria agora libertar.

37
A Índia, anotara nessa noite o jovem Mountbatten no seu diário, «é aquele
país de que ouvimos sempre falar e com que sempre sonhámos». Durante a
visita real nada poderia desiludi-lo. O Império estava então no zénite.
Nenhuma recepção parecia bastante sumptuosa, nenhuma manifestação
bastante grandiosa para festejar a visita do herdeiro do trono imperial,
o «Shahzada Sahib», e do seu séquito. Fizeram a viagem no comboio branco
e dourado do vice-rei e a sua estadia foi uma sequência ininterrupta de
desfiles, de partidas de polo, de caçadas ao tigre, de passeios ao luar a
dorso de elefante, de bailes, de banquetes e recepções de uma elegância
sem rival, oferecidos pelos aliados mais seguros da coroa, os marajás e
nawabs das Índias. A despedida, Mountbatten anotara ainda: «A Índia é o
país mais maravilhoso do mundo e o vice-rei tem o lugar mais maravilhoso
do mundo. » Jorge VI confirmava-lhe que este «maravilhoso lugar» lhe
pertencia.
Um curto silêncio invadiu a sala do palácio de Buckingham, como se a
emoção dominasse de súbito o rei.
- É pena, lamentou ele com a voz carregada de melancolia, sempre quis ir
vê-lo ao sudeste asiático quando estava ali a combater, e partir depois
em visita às Índias, mas Churchill impediu-me. Depois da guerra, esperava
pelo menos ir às Índias. Receio agora nunca mais poder fazê-lo. É triste,
continuou ele, fui coroado imperador das Índias sem ao menos ter lá ido,
e é aqui, em Londres, que vou perder esse título.
Jorge VI morreria efectivamente sem ter pisado esse país fabuloso, jóia
do império que herdara do irmão. Para ele não haveria nem caçada ao
tigre, nem desfiles de elefantes constelados de ouro e de prata, nem
cortejos de príncipes cobertos de jóias, vindos para lhe prestar
homenagem. Ele apenas recolhera as migalhas da mesa da rainha Vitória. O
seu reinado, que parecia não ter sido previsto pela história da
Inglaterra, ia registar uma das épocas mais trágicas dessa história.
Nessa manhã de Maio de 1937, quando o arcebispo de Cantuária tinha, pela
graça de Deus, proclamado Jorge VI rei da Grã-Bretanha, da Irlanda e dos
Domínios situados além-mar, protector da fé e imperador das Índias, vinte
e oito dos noventa milhões de quilómetros quadrados das terras do globo
estavam ligadas de uma forma ou de outra à sua coroa. O único facto deste
reinado ia ser a dispersão da herança. Coroado rei-imperador de um
império que ultrapassava as mais extravagantes conquistas de Alexandre o
Grande, de Roma, de Gengis Khan, dos califas e de Napoleão, Jorge VI
acabaria soberano de um reino insular a ponto de se tornar uma nação
europeia como as outras.
- Sei que vou ser obrigado a retirar o «I» das minhas iniciais de Rex
Imperator, mas ficaria muito preocupado se tivesse de quebrar todos os
laços com as Índias.
Jorge VI compreendia perfeitamente que o grande sonho imperial se tinha
desvanecido e que o grandioso conjunto edificado pelos ministros da sua
bisavó estava condenado à morte. Mas ele queria a todo o custo dar nova
forma à empresa: tudo o que o Império representara devia sobreviver de
forma mais compatível com os tempos modernos.

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— Seria um desastre se uma Índia independente se negasse a pertencer à
família da Commonwealth, observou ele.
Vasta comunidade de nações independentes cimentada por tradições comuns,
por um passado comum, por laços privilegiados com a coroa, a Commonwealth
podia desempenhar um papel primordial nos problemas mundiais. Situada no
centro deste conjunto, a Inglaterra podia falar alto nos conselhos das
nações, dando aos seus discursos o tom da voz imperial que fora outrora a
sua. Londres podia tornar a ser Londres, o centro cultural, espiritual,
comercial e financeiro de uma parte importante do universo. O Império
podia morrer, mas o seu fantasma permitiria dar ao reino insular de Jorge
VI um lugar à parte no conjunto das potências europeias.
Para realizar este ideal, era indispensável que a Índia independente
entrasse para a Commonwealth. Se recusasse, as nações afro-asiáticas que
mais tarde ou mais cedo conquistariam também a independência, seguiriam
quase automaticamente o seu exemplo. No mesmo instante, a Commonwealth
ficaria condenado a já não ser mais do que um clube constituído apenas
por nações de raça branca em vez daquele conjunto poderoso que o rei
desejava ver surgir dos escombros do Império.
O primeiro-ministro e o partido trabalhista não compartilhavam de forma
nenhuma as ambições do seu soberano. Attlee não tinha dado qualquer
instrução a Mountbatten no sentido de conseguir que a Índia se mantivesse
na Commonwealth. Rei constitucional sem poderes verdadeiros, Jorge VI não
tinha qualquer forma de impor os seus pontos de vista. Mas o primo, esse,
podia. Ninguém compreendia melhor as esperanças do monarca do que o jovem
almirante. Nenhum outro membro da família real tinha viajado tanto como
ele no velho império; nenhum inglês sentia mais cruelmente a dor do seu
desmembramento. Junto da chaminé da sala de Buckingham, os dois bisnetos
de Vitória tomaram, naquele dia de Janeiro, uma resolução secreta: manter
bem alto, graças ao Commonwealth, o facho do Império.
Lord Mountbatten estava encarregado de a executar. Antes de voar para
Nova Deli, conseguiria de Attlee que este alargasse nesse sentido o
âmbito da sua missão. Nas semanas seguintes nenhuma tarefa absorveria
mais completamente o espírito, a força de persuasão e a habilidade do
novo vice-rei das Índias do que a concebida naquela tarde na sala de
Jorge VI, de conservar vivo o laço entre as Índias e a coroa da Grã-
Bretanha.
Perfil de um aristocrata audacioso
Ninguém parecia mais naturalmente indicado para ocupar as grandiosas
funções de vice-rei das Índias do que Luís Mountbatten. Assim que nasceu,
manifestou logo a sua facilidade instintiva para circular no meio dos
reis, quando, com um soco, fez saltar as lunetas do nariz imperial da sua
bisavó, a imperatriz Vitória, durante a cerimónia do seu baptizado.

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As origens da sua família remontavam ao século IV, e tinha como
antepassado directo o imperador Carlos Magno. Estava, ou estivera ligado
por laços de sangue ou por alianças ao kaiser Guilherme II, ao czar
Nicolau II, ao rei Afonso XIII de Espanha, a Fernando I da Roménia, a
Gustavo VI da Suécia, a Constantino I da Grécia, ao rei Haakon VII da
Noruega e a Alexandre I da Jugoslávia. Para Luís Mountbatten, as crises
da Europa eram questões de família.
Não havia muitos tronos vagos em 1900. O quarto filho da neta preferida
da rainha Vitória, a princesa Vitória de Hesse, e do seu primo, o
príncipe Luís de Battenberg, não devia saborear o prazer da vida real
senão por meio de intermediários. Passou os Verões da sua infância nos
castelos dos seus primos mais favorecidos, guardando dessas férias
idílicas, fortes recordações: os chás tomados nos canteiros do castelo de
Windsor, onde quase todos os convivas eram cabeças coroadas; cruzeiros no
iate do czar; longos passeios nas florestas vizinhas de São Petersburgo
em companhia do primo, o czar Alexis e a irmã deste, a grã-duquesa Maria,
por quem se apaixonara loucamente.
O seu nascimento prometia ao jovem Luís Mountbatten uma vida calma de
dignitário em qualquer corte da Europa; ali, poderia aplicar o seu gosto
do fausto aperfeiçoando usos e cerimónias em declínio. Mas optara por um
caminho diferente e encontrava-se hoje no cume de uma carreira
excepcional.
Mountbatten acabava de completar quarenta anos quando, no Outono de 1943,
Winston Churchill, então em busca de «um espírito jovem e vigoroso», o
nomeara comandante supremo interaliado no teatro de operações do sudeste
asiático. Semelhante responsabilidade, tais encargos, não eram
comparáveis senão com os do comandante supremo interaliado Dwight
Eisenhower no teatro europeu. Cento e vinte e oito milhões de homens
estariam no futuro sob a sua autoridade. Não tendo ganho até então nem
vitórias nem privilégios, este comando só oferecia como perspectivas «um
terrível moral, um terrível clima, um terrível inimigo e terríveis
derrotas».
Muitos dos seus subordinados tinham mais vinte anos do que ele e eram de
graduação superior. Alguns consideravam-no um playboy que conseguira,
graças às suas relações com reis, trocar o smoking pela farda de
almirante.
Consagrou toda a sua energia a reanimar o moral das suas tropas, visitou
regularmente todas as frentes, obrigou os seus generais a continuarem a
combater sob o dilúvio da monção birmanesa, arrancou quilo por quilo aos
seus superiores de Londres e de Washington, o reabastecimento
indispensável aos soldados. O resultado não se fez esperar: em 1945,
aquele exército havia pouco desencorajado e desorganizado ganharia a
maior vitória terrestre jamais conseguida sobre um exército nipónico.

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Só a explosão da bomba atómica impediu o seu chefe de realizar o seu
grande projecto, «a operação Zipper», que visava a reconquista da Malásia
e de Singapura por meio de uma audaciosa operação anfíbia cuja amplitude
só seria ultrapassada pelo desembarque da Normandia.
Em criança, Mountbatten escolhera a carreira da marinha. Queria seguir
assim as pisadas do pai que abandonara o seu país natal, a Alemanha, para
se alistar na Royal Navy e conseguir o posto de Primeiro Lord do Mar.
Mountbatten tinha apenas entrado para a escola de cadetes quando uma
tragédia aniquilou a carreira do pai. A vaga de hostilidade antigermânica
que deflagrou na Grã-Bretanha no princípio da primeira Guerra mundial
obrigou-o a demitir-se das suas funções, devido à sua origem alemã.
Deposto, mudou o nome de Battenberg para Mountbatten a pedido do rei
Jorge V (Nota 1). O aspirante de marinha Lord Luís Mountbatten jurou
ocupar um dia o posto de onde o pai tinha sido expulso por uma campanha
de ódio nacionalista.
Durante o período de entre-duas-guerras, esta ascensão tinha forçosamente
que sofrer o ritmo lento e vulgar de qualquer carreira de oficial em
tempo de paz. Por isso Mountbatten se dedicou a actividades não
militares. O seu encanto, a sua incomparável sedução, o seu entusiasmo
contagioso, permitiram-lhe tornar-se a personagem de escol de uma
imprensa inclinada às futilidades de um mundo sedento de distracções após
os horrores da guerra. O seu casamento com Edwina Ashley, uma bela e rica
herdeira, foi o acontecimento mundano de 1922. Raros foram os jornais e
revistas que não publicaram todas as semanas uma fotografia ou
indiscrição acerca do casal em voga: os Mountbatten no teatro em
companhia de Noel Coward, os Mountbatten no camarote real em Ascot, o
atlético Lord Mountbatten rasgando em ski aquático as águas do
Mediterrâneo ou disputando uma partida de polo. Mountbatten nunca renegou
o seu gosto pelas festas e passeios. Mas por detrás desta imagem pública
escondia-se uma personalidade que surgia a primeiro plano quando
terminava a festa.
O jovem lord não esquecera a sua jura de adolescente. Era o mais
consciencioso e o mais ambicioso dos oficiais de marinha. Era dotado de
uma capacidade de trabalho surpreendente, que iria, durante toda a sua
vida, esgotar os seus colaboradores. Persuadido de que o resultado das
guerras futuras dependeria da aplicação de técnicas científicas novas e
que não poderiam ser ganhas sem um sistema de comunicações infalível,
Mountbatten lançou-se no estudo profundo das telecomunicações. Em 1927,
alcançou o posto de major após o curso de transmissões da Royal Navy e
começou imediatamente a redigir o primeiro manual de utilização dos
postos de rádio em serviço na marinha. Fascinado com as ilimitadas
possibilidades da técnica e da ciência, entregou-se ao estudo da física,
da electricidade, das transmissões sob todas as formas.

Nota 1 - Na mesma época o próprio rei, de origem germânica, mudou o seu


nome de Saxe-Cobourg para Windsor.

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Tinha um grupo de amigos cujos nomes nunca apareciam ao lado do seu nas
crónicas mundanas — engenheiros, sábios, construtores de aviões,
mecânicos. Conseguiu interessar a Royal Navy nos trabalhos do grande
especialista francês de foguetões Robert Esnault-Pelterie, cujo livro
esboçava um plano profético sobre as bombas voadoras VI, os foguetões
teleguiados e até a viagem do homem à Lua. Descobriu na Suíça um canhão
de D.C.A., de tiro rápido capaz de combater os bombardeiros de voo picado
Stitka e lutou durante meses para convencer uma marinha céptica a adoptá-
lo.
Nas suas distracções, desenvolveu a mesma energia metódica para obter
sempre o melhor resultado. Quando descobriu o jogo do polo, tirou filmes
para analisar ao retardador a jogada dos maiores campeões. Estudou
cientificamente a forma do tacto e imaginou um novo modelo. Todos estes
esforços não fizeram dele um grande jogador, mas aprendeu o suficiente
para escrever sobre este desporto um trabalho abalizado, elevar à vitória
as equipas que dirigia.
Dotado de uma compreensão instintiva do carácter germânico, Mountbatten
seguiu com inquietação crescente, a ascensão de Hitler e o rearmamento
alemão. Observava com a mesma tristeza e sem ilusões a evolução do regime
político que expulsara o seu tio Nicolau II do trono dos tsars. Enquanto
decorriam os anos 30, os Mountbatten dedicaram cada vez menos tempo à
vida mundana para se entregarem mais à tarefa de alertarem os amigos e os
responsáveis políticos para a iminência de um conflito que viam
aproximar-se irremediavelmente.
Em Junho de 1939, Luís Mountbatten aceitou com orgulho o comando de uma
flotilha de destroyers. O seu navio, o Kelly, foi-lhe entregue a 23 de
Agosto. Algumas horas mais tarde, a rádio anunciou a assinatura feita por
Hitler e Staline de um pacto de não-agressão. O comandante do Kelly
compreendeu imediatamente o alcance desta notícia: a guerra era uma
questão de dias. Ordenou à sua tripulação que trabalhasse sem descanso,
para que a nave estivesse pronta para o mar dentro de três dias em vez
das três semanas habituais. Passados onze dias, quando estalou a guerra,
Mountbatten, de pincel na mão, suspenso da amurada do destroyer, estava
ocupado com os seus marinheiros a camuflar o Kelly. No dia seguinte, o
navio caçava o seu primeiro submarino alemão. «Nunca darei ordens para
abandonar o navio, precisara Mountbatten à tripulação. Nunca o
abandonaremos, a não ser que naufrague debaixo dos nossos pés.» O Kelly
escoltou comboios no mar da Mancha, perseguiu torpedeiros alemães no mar
do Norte, seguiu, no meio do nevoeiro e sob as bombas, em auxílio dos
seis mil sobreviventes da malograda expedição de Narvik. No mar do Norte,
um torpedeiro danificou-lhe a popa e estragou-lhe as caldeiras.
Mautbatten recusou-se a meter o navio a pique; evacuou a totalidade da
tripulação e passou uma noite sozinho sobre os restos do barco à deriva.
Depois, com dezoito voluntários, conseguiu fazê-lo rebocar a bom porto.
Um ano mais tarde, em Maio de 1941, ao largo de Creta, a sorte abandonou
Kelly.

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Atingido a meio por uma bomba, foi ao fundo em poucos minutos. Fiel ao
seu juramento, Luís Mountbatten ficou na ponte até que o seu navio
submergisse nas ondas. Agarrado com os sobreviventes à única jangada no
meio da água viscosa de petróleo, manteve o moral dos seus homens pondo-
os a cantar canções populares sob o tiroteio dos bombardeiros alemães.
Mountbatten recebeu a cruz da Distinguished Service Order, o mais alto
galardão britânico depois da Victoria Cross pela sua coragem em combate,
e o seu navio, a memória eterna do filme de Noel Coward In Which We
Serve.
Passados cinco anos, Churcill, que procurava alguém com audácia
suficiente para preparar as técnicas da futura invasão do continente —
mandou chamar Mountbatten. Nenhuma outra missão podia adaptar-se mais à
sua curiosidade científica e à sua imaginação. Jurando nunca mais recusar
a priori uma ideia nova, abriu as portas do seu quartel general a uma
legião de inventores, sábios, técnicos, e de génios.
Alguns dos seus projectos, como o iceberg-porta-aviões sobre água do mar
gelada misturada com pasta de madeira, não passavam de pura fantasia.
Outros foram brilhantes: por exemplo Plitto, o pipeline submarino que
atravessaria um dia a Mancha, assim como os portos artificiais e as
pequenas embarcações que permitiriam o desembarque na Normandia. Estas
realizações valeram ao seu inventor ser nomeado, aos quarenta e três
anos, comandante supremo interaliado do sudeste asiático.
Presentemente, quando se preparava, aos quarenta e seis anos, para meter
ombros à tarefa mais difícil da sua carreira, encontrava-se no auge dos
seus recursos físicos e intelectuais. A guerra no mar e a prática das
elevadas responsabilidades tinham aguçado o seu poder de decisão e
desenvolvido as suas aptidões naturais para o comando. Não era nem um
filósofo nem um pensador abstracto, mas possuía um penetrante espírito de
análise. Só acreditava no êxito. Ainda jovem oficial, levara um dia a sua
tripulação à vitória retumbante numa corrida a remos graças a uma maneira
de remar muito especial que inventara. Criticado pelo estilo fantasista
que acabava de apresentar, tinha respondido secamente que a única coisa
importante era «ser o primeiro a chegar à meta».
Uma invencível confiança em si próprio, que os seus críticos qualificavam
de orgulho, sustentava esta mentalidade de vencedor. Quando Churchill lhe
oferecera o comando na Ásia, ele pedira vinte e quatro horas para
reflectir.
— Porquê? — murmurara Churchill. — Não se sente capaz?
- Sir, respondera Mountbatten, tenho a franqueza congénita de me julgar
capaz de tudo.
O bisneto da rainha Vitória não teria tanta confiança em si próprio
durante as próximas semanas.

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Primeira escala do calvário de Gandhi «Como utilizar a luz do Sol»

Em todas as aldeias era o mesmo cerimonial. Logo à chegada, o asiático


mais célebre vivo dirigia-se a uma cabana, de preferência a de um
muçulmano, e pedia asilo. Se era escorraçado — às vezes acontecia —,
Gandhi ia bater a outra porta. «Se ninguém quiser receber-me, confessara
ele um dia, contentar-me-ei com a sombra acolhedora de uma árvore.» Vivia
do pouco alimento que os anfitriões lhe davam: alguns frutos, legumes,
leite de cabra coalhado e leite de noz de coco.
Os seus dias desenrolavam-se segundo um plano rigorosamente minutado. O
tempo era uma das suas obsessões. Cada minuto da vida era um dom de Deus
que devia ser aplicado ao serviço do homem. O emprego do tempo era
portanto regulado por um dos poucos objectos que possuía, um velho
relógio Ingersoll de oito xelins que trazia pendurado à cintura por um
cordão. Levantava-se às 2 horas da manhã para ler o Gitâ e dizer as suas
orações. Depois, acocorado sobre a terra batida, respondia aos seus
correspondentes — usando um lápis. Gastava os lápis até já não os poder
segurar com os dedos, porque representavam aos seus olhos o fruto do
trabalho de um dos seus irmãos e desperdiçá-lo seria dar prova de
indiferença por esse trabalho. Todas as manhãs à mesma hora lavava-se com
água misturada com sal. Adepto invencível dos tratamentos naturistas,
Gandhi estava convicto dos benefícios desta cura para eliminar as toxinas
dos intestinos. Um discípulo sabia que fazia verdadeiramente parte da sua
intimidade quando o Mahatma o convidava a administrar-lhe a sua lavagem.
Ao nascer do Sol, Gandhi saía a dar um passeio para se encontrar com os
aldeãos e falar com eles.
Preparou um método para levar a calma e a segurança àquela região, método
típico do seu estilo. Em cada aldeia, procurava um responsável hindu e
outro muçulmano dispostos a ouvir a sua mensagem. Quando os encontrava,
convencia-os a instalarem-se ambos sob o mesmo tecto. Tornavam-se então
ambos garantes da paz da aldeia. No caso de os seus concidadãos atacarem
a comunidade hindu, o chefe muçulmano comprometia-se a jejuar até à
morte. O hindu fazia o mesmo juramento.
Pelos caminhos cobertos de sangue de Noakhaili, Gandhi não limitava a sua
acção em exorcizar o ódio pregando a fraternidade entre muçulmanos e
hindus. Assim que sentia a atmosfera de uma aldeia inclinar-se a seu
favor, a sua mensagem de amor abria-se a outros ensinamentos mais vastos.
A Índia era para ele todas as aldeias perdidas e inacessíveis como
aqueles aglomerados que atravessava todos os dias. Conhecia-os melhor que
ninguém. Queria que a nova Índia enraizasse nelas os seus alicerces e
para isso era necessário tirá-las da rotina da sua existência.
«Proponho-me também mostrar-lhes a maneira de manter asseada a água da
vossa aldeia e os vossos corpos, anunciava ele aos habitantes.

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Vou ensiná-los a empregar melhor a terra de que são feitos os vossos
corpos; como beber a força da vida no infinito do céu acima das vossas
cabeças; como reforçar a vossa energia vital respirando o ar que vos
rodeia; como utilizar judiciosamente a luz do Sol.»
O velho profeta era inesgotável. Tinha uma confiança irredutível na
realidade dos actos concretos. Para grande indignação de muitos dos seus
discípulos que achavam que devia ser adoptada uma ordem de prioridades
diferente, Gandhi dedicava um cuidado meticuloso e uma atenção idênticas
na confecção de uma cataplasma de argila para um leproso e em preparar
uma discussão com o vice-rei. Assim, acompanhava os aldeãos aos seus
poços, ajudando-os às vezes a escolher o melhor sítio. Inspeccionava as
latrinas públicas ou, se a aldeia não as possuía - e era muitas vezes o
caso -, indicava como as deviam construir, participando até nos
trabalhos. Persuadido de que as más condições higiénicas estavam na
origem do elevado índice de mortalidade indiana, lutava havia anos contra
os velhos hábitos de escarrar, assoar-se e fazer as suas necessidades no
sítio onde a maior parte das pessoas passavam de pés descalços. «Se nós,
os indianos, escarrássemos todos ao mesmo tempo, imaginara ele um dia,
faríamos um lago bastante grande para afogar nele trezentos mil
ingleses.» Assim que via um camponês cuspir no chão, repreendia-o com
suavidade. Entrava nas casas para mostrar aos habitantes a maneira de
construir um filtro de água potável com carvão de madeira e areia. «A
diferença entre o que fazemos e aquilo de que somos capazes bastaria para
resolver a maioria dos problemas do mundo», repetia constantemente.
Todas as noites, fazia uma reunião pública de oração para que convidava
também os muçulmanos, tendo sempre o cuidado de completar a recitação do
Gitâ com alguns versículos do Alcorão. Durante estas reuniões, qualquer
pessoa o podia interrogar sobre qualquer assunto. Um aldeão fez-lhe notar
uma noite que em vez de perder tempo em Noakhali, era melhor voltar a
Nova Deli para negociar com Jinnah e a Liga muçulmana.
«Um chefe, explicou Gandhi, é apenas o reflexo do povo que ele dirige.
Ora o povo tem primeiro necessidade de ser guiado para fazer as pazes
consigo próprio.» Depois acrescentou: «O desejo do povo de viver em
entendimento fraterno há-de reflectir-se depois fatalmente nos actos dos
seus chefes.»
Achava que uma aldeia tinha compreendido a sua mensagem quando a
população muçulmana concordava em deixar entrar em suas casas os hindus
aterrados. Metia-se então a caminho para outro aglomerado a quinze ou
vinte quilómetros dali. A sua partida era invariavelmente às 7,30 h.
Gandhi seguia à frente, e o seu pequeno grupo deixava a aldeia por entre
as mangueiras e os pântanos onde patos e gansos grasnavam à sua passagem.
Escolhia um caminho difícil por estreitos carreiros eriçados de pedras
agudas e de raízes, através dos pegos e das sarças. A pequena caravana
enterrava às vezes na lama até ao joelho.

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Quando chegava à etapa seguinte, os pés nus do velho Mahatma estavam com
frequência completamente em ferida. Antes de iniciar a sua missão, Gandhi
mergulhava-os numa bacia de água quente, e depois abandonava-se ao único
prazer da sua vida dolorosa. Deixava Manu, a sua fiel e encantadora neta,
aliviar-lhe as dores massajando-os com uma pedra.

O profeta da não-violência acorda um continente

Durante trinta anos, estes pés martirizados tinham levado Gandhi aos
cantos mais longínquos da Índia, até milhares de aldeias semelhantes às
que ele visitava hoje, às sórdidas colónias de leprosos, às mais
desgraçadas cidades da lata, aos salões dos palácios imperiais e às celas
das prisões, para conseguir o objectivo da sua vida, a libertação da
Índia.
Mohandas Gandhi era um estudante de dezoito anos quando a bisavó de Jorge
VI e de Luís Mountbatten fora proclamada Imperatriz das Índias numa
planície perto de Deli. Para ele, esta grandiosa cerimónia estivera
sempre associada a uma cançoneta que cantava então com os camaradas na
sua cidade natal de Porbandar, à beira do mar de Omã, a duzentos
quilómetros de Deli:

Vejam lá este colosso inglês


Reina sobre o pobre indiano
Porque é um comilão
Mede seis pés de altura.

O rapazinho cuja força espiritual viria a humilhar os ingleses de seis


pés e o seu gigantesco império não pôde resistir ao desafio destes
versos. Às escondidas, mandou cozer um bocado de cabra e comeu a carne
proibida. A experiência foi desastrosa. O jovem Gandhi começou
imediatamente e sonhou toda a noite que tinha uma cabra aos pulos dentro
da barriga.
O pai era o diwan hereditário, o primeiro-ministro, de um pequeno
principado da península de Kathiawar a norte de Bombaim, e a mãe uma
mulher particularmente piedosa que cumpria longos jejuns religiosos.
Por curiosidade, o homem destinado a tornar-se o maior chefe espiritual
da Índia dos tempos modernos não nascera na aristocracia hindu, a casta
superior dos Brahmanes, a elite religiosa e filosófica do hinduísmo. O
pai pertencia à casta dos Vaiçyas, casta dos comerciantes que ocupa na
hierarquia social hindu uma posição relativamente inferior, acima dos
Çudras, os artífices e o pessoal de serviço, mas abaixo dos Brâmanes e
dos Kshatriyas, os príncipes e os guerreiros.
Segundo o costume indiano da época, Gandhi casou aos treze anos com uma
rapariguinha completamente analfabeta chamada Kasturbai. Aquele que mais
tarde daria ao mundo um exemplo de pureza ascética descobriu com espanto
os prazeres da carne.

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Quatro anos mais tarde, Gandhi e a esposa entregavam-se a esse prazer,
quando foram interrompidos por uma forte pancada na porta. Era um criado
anunciando ao jovem que o pai acabava de morrer. Ganhdi ficou
horrorizado. Adorava o pai. Momentos antes, estivera junto do doente,
tentando aliviar-lhe as dores massajando-lhe as pernas. Mas um forte
desejo sexual afastara-o do leito do moribundo para ir acordar a mulher,
que estava grávida. A partir de então, um invencível complexo de culpa
começou a adormecer nele as paixões da carne.
Gandhi foi mandado para Inglaterra a fim de estudar direito, na esperança
de poder suceder ao pai como primeiro-ministro do principado. Tal viagem
representava grandes sacrifícios para uma piedosa família hindu. Nenhum
membro da família antes dele fora ao estrangeiro. Gandhi foi solenemente
excluído da sua casta de mercadores, porque aos olhos dos mais velhos,
esta viagem além-mar só podia manchá-lo para sempre.
Em Londres, Gandhi foi extraordinariamente infeliz. Era tão tímido que só
a ideia de dirigir a palavra a um estrangeiro o fazia sofrer. O seu
aspecto franzino e a sua indumentária eram um espectáculo patético no
mundo sofisticado do tribunal de Londres. O fato mal cortado dançava-lhe
no corpo e parecia, com dezanove anos, tão fraco, tão tragicamente
insignificante, que os colegas da faculdade o tomavam muita vez por um
moço de recados.
Gandhi decidiu que a única maneira de escapar a esta tortura era
transformar-se num gentleman britânico. Pôs de parte os trajes de Bombaim
em troca de um guarda-roupa novo em folha. Comprou um chapéu alto de
seda, uma casaca, botas de verniz, luvas brancas e uma bengala de castão
de prata. Adquiriu uma loção para compor o cabelo rebelde e passou horas
em frente do espelho a admirar o seu novo aspecto e a treinar-se no nó da
gravata. Comprou até um violão, inscreveu-se numa escola de dança,
contratou um professor de francês e um mestre de conversação.
Os resultados desta empresa foram tão desastrosos como a sua experiência
com a carne de cabra. Só conseguiu tirar vagos gemidos do violão. Os pés
apertavam-lhe dentro das botas de Bond Street, a língua recusou-se a
pronunciar uma palavra de francês, e todas as lições de pronúncia foram
impotentes em libertar o espírito que procurava exprimir-se por detrás de
uma total timidez. Até uma visita a uma casa de prazer acabou em
fracasso. Gandhi não conseguiu passar da sala de entrada. Renunciando
então a imitar os ingleses, resolveu tornar a ser ele próprio. Assim que
obteve o diploma, apressou-se a regressar à Índia.
O seu regresso não teve nada de triunfal. Durante um mês, errou pelos
tribunais de Bombaim em busca de uma causa para defender. O homem cuja
voz levantaria um dia um povo, revelava-se incapaz de articular as poucas
frases susceptíveis de impressionar um magistrado.
Este insucesso esteve na origem da primeira grande mudança na vida de
Gandhi.

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Desiludida, a família mandou-o à África do Sul para tratar do processo de
um parente afastado. A viagem devia durar alguns meses. Mas ele estaria
ausente um quarto de século. Naquela terra hostil e longínqua, Gandhi
descobriu os princípios filosóficos que iriam transformar a sua vida e a
história da Índia.
Nada no seu comportamento indicava a menor vocação para o ascetismo ou
para a santidade quando desembarcou no porto de Durban em Abril de 1893.
Foi vestido com a elegante sobrecasaca dos advogados londrinos e
colarinho branco engomado que o futuro profeta da pobreza fez a sua
entrada na África do Sul para defender a causa do comerciante indiano que
arranjara.
O verdadeiro contacto de Gandhi com este novo país deu-se durante uma
viagem em caminho de ferro de Durban a Pretória. No fim da vida, Gandhi
ainda considerava esta viagem como «a experiência mais decisiva da sua
existência». A meio caminho de Pretória, um branco irrompeu no
compartimento de I classe e mandou-o para a carruagem das mercadorias.
Gandhi, que comprara um bilhete de I classe, recusou-se a obedecer. Na
paragem seguinte, o branco chamou um polícia e Gandhi foi expulso do
comboio em plena noite. Sozinho, tiritando de frio porque não se atrevera
a reclamar as malas que despachara, Gandhi passou uma noite de profundo
desalento. Era o seu primeiro confronto com a injustiça racial. Como um
cavaleiro da Idade Média na sua velada de armas, implorou ao deus do Gitâ
que lhe desse coragem e o iluminasse. Quando rompeu o dia na pequena
estação de Maritzburgo, o jovem tímido e desajeitado tomara a decisão
mais importante da sua vida. A partir de agora, Mohands Gandhi diria
«não».
Uma semana mais tarde, fazia o seu primeiro discurso público aos indianos
de Pretória. O advogado inexperiente que demonstrara uma timidez doentia
nos tribunais de Bombaim soltara de repente a língua. Exortou os seus
irmãos a unirem-se para defender os seus interesses, e antes de mais
nada, a aprenderem a fazê-lo na língua inglesa dos seus opressores. Na
tarde seguinte, Gandhi começava sem dar por isso, a cruzada que ia no
futuro libertar quatrocentos milhões de indianos, ensinando a gramática
inglesa a um lojista, um barbeiro e um funcionário. E dentro de pouco
tempo, ganhou a sua primeira vitória. Conseguiu arrancar às autoridades
dos caminhos de ferro o direito de os indianos decentemente vestidos
viajarem em I ou II classe nos comboios sul-africanos.
Quando o processo que motivara a sua viagem terminou Gandhi resolveu
ficar na África do Sul. Tornou-se ao mesmo tempo o primeiro homem da
comunidade indiana local e um advogado brilhante. Leal ao Império
britânico apesar das injustiças raciais, tomou parte na guerra dos Boers
ao lado dos ingleses, dirigindo um corpo de ambulâncias.
Dez anos após a sua chegada, outra viagem por caminho de ferro provocou a
segunda mudança da sua vida. Quando subia para o comboio de
Johannesburgo-Durban, numa noite de 1904, um amigo inglês ofereceu-lhe um
livro do filósofo John Ruskin, intitulado Unto This Last.

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Gandhi leu a obra numa noite. Foi a sua revelação na estrada de Damasco.
Antes de chegar ao seu destino no dia seguinte de manhã, tinha feito a
promessa de renunciar a todos os bens terrenos e viver de acordo com o
ideal de Ruskin. A riqueza era apenas uma arma para propagar a
escravatura, escrevia o filósofo. Um camponês era tão útil à sociedade
com a sua pá, como um advogado com os seus dotes oratórios, e a vida
daquele que lavrava a terra era a única que valia a pena ser vivida.
A decisão de Gandhi era tanto mais notável, porquanto ele era, naquela
altura da vida, um homem extraordinariamente próspero, que ganhava mais
de cinco mil libras esterlinas por ano, quantia fabulosa para a África do
Sul da época. Havia dois anos contudo que sentia a dúvida lavrar-lhe no
íntimo. Estava obcecado pela moral de renúncia pregada pelo Bhagavad Gítâ
como condição de todo o acordar espiritual. Ele já tinha enveredado por
esse caminho. Cortava o cabelo a si próprio, lavava a sua roupa e fazia
os despejos. Ajudara até a mulher no seu último parto. Os escritos de
Ruskin concordavam com ele nesta atitude.
Passados alguns dias, Gandhi instalou a família e um grupo de amigos numa
propriedade de cinquenta hectares perto da aldeia de Phoenix, a vinte
quilómetros de Durban, em pleno território zulu. Era um lugar triste e
desolado, com uma cabana em ruínas, laranjeiras, amoreiras e mangueiras,
um riacho e serpentes em profusão. Gandhi ia ali tomar os hábitos por que
havia de reger-se até à morte: em primeiro lugar a renúncia aos bens
materiais, depois o esforço para satisfazer da maneira mais simples as
necessidades do homem; tudo isto ligado a uma vida em comunidade onde o
trabalho de cada um tinha igual valor e onde os bens fossem divididos por
todos.
Restava ainda um doloroso sacrifício a cumprir: o voto de brahmacharya, o
juramento de continência que obcecava Gandhi havia anos. A cicatriz que
tinha deixado na sua memória as circunstâncias da morte do pai, o desejo
de não ter mais filhos, o ser fervor religioso crescente, tudo o
empurrava para essa resolução. Uma tarde de Verão de 1907, Gandhi
anunciou solenemente a sua esposa Kasturbai que tinha feito o voto de
brahmacharya. Iniciado num alegre frenesi com a idade de treze anos, o
ciclo da sua vida amorosa atingia o seu termo com a idade de trinta e
sete anos.
O brahmacharya representava para Gandhi muito mais do que uma simples
repressão dos apetites sexuais. Queria atingir o domínio de todos os
sentidos. Isso significava o controlo das emoções, da alimentação, da
palavra, a abolição da ira, da violência e do ódio, em resumo, a ascensão
a um estado sem desejos próximos do ideal do Gitâ. Esta escolha marcou a
sua escalada definitiva no caminho da ascese, o último acto da sua
transformação. Nenhuma das decisões tomadas por Gandhi o obrigou a um
combate interior tão violento como o voto de castidade. Estava condenado
a travá-lo, de uma forma ou de outra, para o resto da vida.

49
Foi a lutar pelos seus irmãos da África do Sul que Gandhi elaborou as
duas doutrinas que o iam tornar mundialmente célebre — a não-violência e
a desobediência civil. Curiosamente, foi um texto dos Evangelhos que o
levou a meditar sobre a não-violência.- Ficara impressionado com o
conselho de Cristo aos discípulos para estenderem a outra face aos
agressores. Já aplicara muitas vezes espontaneamente esta regra
suportando com estoicismo as humilhações e golpes dos brancos. A pena de
Talião — «olho por olho, dente por dente» — não podia conduzir senão a um
mundo de cegos, achava ele, e não se mudam as convicções de um homem
cortando-lhe a cabeça, assim como não se enche de amor um coração,
trespassando-o com uma bala. A violência atrai a violência. Gandhi queria
transformar os homens com o exemplo do bem, e reconciliá-los pela vontade
de Deus em vez de os dividir pelos seus antagonismos.
O governo da África do Sul proporcionou-lhe a ocasião de experimentar as
suas teorias no Outono de 1906. O pretexto foi um projecto de lei que
obrigava todos os indianos de mais de dezoito anos a recensearem-se nos
registos da polícia e a terem cartão de identidade privativo com
impressões digitais. No dia 11 de Setembro de 1906, perante uma multidão
de indianos em fúria, reunidos no teatro do Império de Joanesburgo,
Gandhi tomou a palavra para se insurgir contra esta lei. Obedecer-lhe,
declarou, é aceitar a ruína da nossa comunidade. «Só vejo uma saída,
resistir até à morte antes de nos submetermos à descriminação.» Pela
primeira vez na vida, levou uma multidão a tomar perante Deus o
compromisso solene de se revoltar contra uma lei iníqua, quaisquer que
fossem os riscos. Gandhi não explicou aos ouvintes a forma de luta.
Certamente ele próprio também não sabia. Apenas uma coisa era clara: a
resistência seria feita sem violência.
O novo princípio de luta política e social, que acabava de ser criado
nessa noite no teatro do Império, em breve teve nome: Satyâgrahan, a
Força da Verdade. Gandhi organizou o boicote das formalidades do
recenseamento e fez com que fosse proibida a entrada nos centros de
registo por comandos pacíficos de piquetes de greve. Esta campanha teve
como consequência a primeira das suas muitas passagens pela prisão.
Na sua cela, Gandhi ia descobrir a segunda obra profana que devia exercer
no seu pensamento uma influência profunda, o ensaio do escritor americano
Henry Thoreau acerca do Dever de Desobediência Civil (Nota 1). Thoreau
revoltava-se contra a complacência do seu governo em relação à
escravatura e contra a guerra injusta que ele fazia no México. Afirmava
que um indivíduo tem o direito de não cumprir as leis arbitrárias e
recusar obedecer a um regime cuja tirania se tornou insuportável.

Nota 1 - A terceira foi a obra de Leon Tolstói O Reino de Deus está em


Vós. Gandhi admirou a insistência com que o escritor russo aplicava os
seus princípios morais à sua vida diária. Os dois homens compartilhavam
opiniões extraordinariamente semelhantes acerca da não-violência, a
educação, alimentação, industrialização. Trocaram correspondência
importante.

50
Ter razão, dizia ele, é mais honroso do que respeitar as leis.
Esta hora serviu de catalisador às reflexões que dominavam havia muito o
espírito de Gandhi. Quando saiu da prisão, decidiu pô-las em prática
opondo-se à decisão do Transvaal de fechar as portas aos indianos. No dia
6 de Novembro de 1913, 2.037 homens, 127 mulheres e 57 crianças, com
Gandhi à frente, começaram uma marcha de não-violência em direcção ao
território interdito.
Ao contemplar esta patético rebanho que o seguia confiante, Gandhi foi
iluminado por uma nova revelação. Aqueles pobres diabos não tinham mais
nada a esperar do que pancadas e prisão. Milicianos brancos armados
esperavam-nos na fronteira do Transvaal. E todavia, electrizados pela sua
determinação, ardendo pela causa que ele lhes instilara, avançavam no seu
rasto, prontos, como ele diria, «a fazer chorar os corações dos seus
inimigos com o seu sofrimento silencioso». Gandhi compreendeu, perante a
sua calma resolução, no que podia tornar-se a acção da massa não-
violenta. Na fronteira do Transvaal avaliou a enorme força do movimento
que desencadeara. As centenas de indianos que caminhavam atrás dele nesse
dia podiam multiplicar-se em centenas de milhar, uma onda avassaladora
que uma fé inabalável no ideal de não-violência tornaria invencível.
Perseguições, ataques, prisões e sanções económicas seguiram-se a esta
manifestação, mas já nada podia estancar o impulso desencadeado por
Gandhi. A sua cruzada africana terminou em 1914 com uma vitória quase
total. Gandhi podia finalmente voltar à sua terra. Tinha então quarenta e
quatro anos.
O filho pródigo que regressava à terra natal já não tinha nada de comum
com o jovem advogado tímido que desembarcara vinte e um anos antes na
Africa do Sul. Nesta terra inóspita descobrira os seus três mestres:
Ruskin, Thoreau e Tolstói, um inglês, um americano e um russo. Os seus
ensinamentos e as duras experiências vividas entre os seus compatriotas
tinham-lhe permitido elaborar as duas doutrinas — não-violência e
desobediência civil — graças às quais iria durar os trinta anos
seguintes, humilhar o mais poderoso império do mundo.
Uma multidão enorme reservava-lhe uma recepção de herói quando a sua
frágil silhueta passou sob o arco imperial da Porta das Índias em Bombaim
no dia 9 de Janeiro de 1915. A sua sacola continha apenas uma riqueza: um
grosso maço de folhas de papel cheias da sua caligrafia. O título da
obra, Hind Swaraj — Autonomia da Índia, revelava que a Africa não fora
para Gandhi mais do que um campo de manobras antes da verdadeira batalha
da sua vida.
Gandhi instalou-se perto da cidade industrial de Ahmedabad numa das
margens do rio Sabarmati. Fundou ali um ashram, quinta comunitária
semelhante às que já tinha criado na África do Sul. Como sempre, as suas
preocupações orientavam-no em primeiro lugar no auxílio aos fracos e
oprimidos.

51
Organizou a resistência dos pequenos plantadores de anil do Bilhar contra
as exigências dos grandes proprietários britânicos, a greve do imposto
dos camponeses da região de Bombaim arruinados pelas secas, a luta dos
operários das fábricas têxteis de Ahmedabad contra os patrões cujas
contribuições financeiras proporcionavam contudo ao seu asbram os meios
de subsistência. Era a primeira vez que um líder se debruçava sobre as
desgraças das multidões miseráveis das Índias. Em breve Rabindranath
Tagore, o grande poeta indiano laureado com o prémio Nobel, lhe conferia
o título que passou a usar para o resto da vida: «Mahatma — A Grande
Alma, vestida com os farrapos dos mendigos».
Como a maioria dos indianos, Gandhi manteve-se fiel à Grã-Bretanha
durante a Primeira Guerra mundial, convicto de que esta saberia receber
com simpatia as aspirações nacionais da Índia. Enganava-se. Em 1919, a
Inglaterra votou o Rowlatt Act, uma lei que reprimia duramente qualquer
agitação com vista à libertação da Índia. Gandhi meditou semanas seguidas
para encontrar resposta à recusa da Grã-Bretanha às esperanças do seu
país. Veio-lhe durante um sonho, e era tão simples como extraordinária. A
Índia ia protestar pelo silêncio, um silêncio de morte. Gandhi ia
realizar uma experiência que ninguém antes dele ousara tentar. Ia
paralisar o país inteiro na calma glacial de um dia de luto, um hartal.
À semelhança de tantas das suas iniciativas políticas, este plano
reflectia o seu génio para descobrir ideias simples, ideias que podiam
resumir-se em poucas palavras acessíveis aos espíritos mais rudes, postas
em prática com os gestos mais vulgares. Para seguir Gandhi, os indianos
não precisavam sequer de violar a lei nem desafiar as matracas da
polícia. Deviam apenas não fazer nada. Fechando as lojas, abandonando as
salas de aula, orando nos seus templos ou simplesmente ficando em casa,
os indianos mostravam a sua solidariedade com o grito de revolta. Gandhi
escolheu para a sua jornada de hartal o dia 6 de Abril de 1919. Era o
primeiro desafio aberto que ele lançava às autoridades britânicas. Que a
Índia inteira se paralise, pediu ele, e que os seus opressores
compreendam a mensagem do seu silêncio.
Infelizmente, as massas não ficariam em toda a parte silenciosas.
Estalaram revoltas. A mais grave deu-se no Panjab, em Amritsar. A fim de
protestar contra as medidas de represália impostas na sua cidade pelos
ingleses, milhares de habitantes reuniram-se no dia 13 de Abril numa
manifestação pacífica, mas interdita, numa praça chamada Jallianwalla
Bagh. Apenas uma estreita passagem dava acesso a esta praça completamente
cercada por uma fila de casas. Assim que os manifestantes se juntaram,
surgiram uns cinquenta soldados britânicos, chefiados pelo comandante
militar da cidade, o general R. E. Dyer. Este formou os seus homens a
ambos os lados da entrada e, sem o menor aviso, mandou fazer fogo sobre a
multidão indefesa. Enquanto os indianos presos na armadilha gritavam e
imploravam piedade, as metralhadoras inglesas dispararam 1650 balas que
mataram ou feriram 1516 pessoas.

52
Convencido de que tinha feito «um bom trabalho», o general Dyer retirou-
se (Nota 1).
Este «belo trabalho» constituiu, na história das relações da Inglaterra
com a Índia, uma viragem mais decisiva do que fora o grande motim dos
sipaios sessenta e três anos antes. Mas para Gandhi, esta tragédia tinha
um sentido particular. Fazia-o perder definitivamente a sua confiança
neste Império a que sacrificara os seus princípios pacíficos durante as
duas guerras. A partir de agora, aplicaria todos os seus esforços para
tomar o controle da organização que encarnava as aspirações nacionalistas
da Índia.
A ideia de que o partido do Congresso podia vir a tornar-se a arma da
agitação das massas indianas teria certamente assustado o respeitável
funcionário inglês que fundou esta assembleia em 1885. Actuando com o
acordo do vice-rei, Octavian Hume pretendia criar um partido susceptível
de canalizar os protestos crescentes da classe intelectual numa
organização moderada capaz de estabelecer um diálogo de gentlemen com os
governantes britânicos na Índia. E era exactamente o que representava o
partido do Congresso quando Gandhi entrou na cena política. Decidido a
transformá-la num movimento de massas animado do seu ideal de não-
violência, apresentou ao partido no ano de 1920 em Calcutá, um plano de
acção que foi aprovado por uma maioria esmagadora. A partir daí e até à
morte, quer ocupasse ou não uma posição na hierarquia do partido, Gandhi
foi a consciência e o guia do Congresso, o chefe incontestado da luta
pela independência.
Tal como a sua organização de uma hartal nacional, a nova actuação de
Gandhi era de uma transparente simplicidade. O seu programa baseava-se
numa fórmula única: a não-colaboração. Os indianos iam boicotar tudo o
que fosse inglês: os alunos boicotariam as escolas inglesas, os advogados
os tribunais ingleses, os funcionários os lugares ingleses, os soldados
as condecorações inglesas. Gandhi começou por mandar ao vice-rei as duas
medalhas que tinha ganho com o seu corpo de ambulâncias durante a guerra
dos Boers. O seu fim essencial visava fazer ruir o edifício do poder
britânico nas Índias atacando a sua economia nos próprios alicerces. A
Grã-Bretanha comprava então a preços irrisórios algodão indiano que
enviava às fábricas de Lancashire e que voltavam às Índias sob a forma de
tecidos vendidos com lucros consideráveis, num mercado de que estavam
praticamente excluídos todos os têxteis não britânicos. Era o ciclo
clássico da exploração imperialista. Para dar um golpe nas máquinas das
fábricas inglesas, Gandhi escolheu uma arma que era a antítese absoluta
daquelas: a dobadoura de madeira tradicional.

Nota 1 - O massacre de Amritsar valeu um processo ao general Dyer que foi


obrigado a demitir-se do exército. Conservou todavia pleno direito à
reforma e a sua prova de força foi aplaudida pela maior parte dos
ingleses que viviam nas Índias. Fez-se uma colecta em todos os clubes do
país a fim de o ajudar a suportar o rigor da sua reforma forçada, e que
rendeu a soma astronómica de vinte e seis mil libras esterlinas.

53
Ia lutar durante vinte e cinco anos com uma energia indomável para
obrigar a Índia inteira a rejeitar os tecidos estrangeiros em favor do
khadi de algodão cru fiado em milhões de dobadouras. Persuadido de que a
miséria dos camponeses indianos provinha sobretudo do declínio das
profissões rurais, via no renascimento do artesanato a chave do
renascimento dos campos. Quanto às massas urbanas, fiar era para elas o
caminho de uma verdadeira redenção espiritual, a recordação constante do
laço que as unia à Índia do interior, à Índia de quinhentas mil aldeias.
A dobadoura tornou-se o símbolo em volta do qual pregou as doutrinas que
lhe interessavam. A esta cruzada veio juntar-se uma campanha de educação
para incitar os aldeãos a usarem as latrinas, a melhorar as suas
condições sanitárias, a combater a malária, a construir escolas para os
filhos, a fazer a propaganda de um entendimento harmónico entre hindus e
muçulmanos. Era todo um programa de regeneração da Índia rural que ele
propunha desta forma.
Gandhi deu o exemplo dedicando ele próprio com a maior regularidade meia
hora por dia à fiação e obrigando os discípulos a fazerem o mesmo. A
sessão diária de dobadoura tomou o aspecto de uma verdadeira cerimónia
religiosa, tornando-se o tempo gasto a fiar num interlúdio de oração e
meditação. O Mahatma salmodiava o nome de Deus, «Rama, Rama, Rama», ao
ritmo do estalar da roda.
Em Setembro de 1921 Gandhi deu novo impulso à sua cruzada renunciando
solenemente, e para o resto da vida, a qualquer outro vestuário além de
um pano e um xaile de algodão tecidos manualmente. A humilde tarefa da
fiação tornou-se um verdadeiro sacramento ligando por um rito diário os
membros de todas as tendências do partido do Congresso. O seu produto — o
khadi de algodão — tornou-se o uniforme dos combatentes da independência,
que tanto vestia ricos como pobres com o mesmo pedaço de tecido branco
grosseiro. A pequena dobadoura de Gandhi representava o emblema da sua
revolução pacífica, o desafio ao imperialismo ocidental de um continente
que despertava, o símbolo da unidade nacional e da liberdade.
Avançando na lama ou sobre as pedras agudas dos caminhos, passando noites
inteiras sentado nos bancos de III classe dos comboios, Gandhi foi levar
a sua mensagem até aos sítios mais afastados da Índia. Discursava cinco
ou seis vezes por dia, visitando milhares de aldeias. Era uma espectáculo
grandioso. Gandhi seguia à frente, descalço, com um pano de khadi em
volta da cintura, os óculos de aro de aço na ponta do nariz, apoiado a
uma bengala de bambu. Atrás seguiam os partidários vestidos de maneira
idêntica. Fechando a marcha, transportada à cabeça, avançava a cadeira--
retrete do Mahatma, aviso concreto da importância que ele dava ao
respeito pela higiene.
A sua longa jornada obteve um êxito fantástico. As multidões acorriam
para ver aquele a quem chamavam «a Grande Alma».

54
A sua pobreza voluntária, a sua simplicidade, a sua humildade que o
tornavam num santo homem vindo de qualquer passado longínquo para fazer
nascer uma nova Índia.
Nas cidades, repetia às massas urbanas que se a nação quisesse conseguir
a sua autonomia, tinha que começar por renunciar a todos os produtos de
origem estrangeira. Convidou as populações a desfazerem-se dos seus fatos
ingleses. Sapatos, peúgas, calças, camisas, chapéus, sobretudos, depressa
formaram uma enorme pilha diante dele. No seu entusiasmo, um homem ficou
completamente nu. Com um sorriso de satisfação, Gandhi pegou fogo àquela
pirâmide de roupa «made in England».
Os ingleses não tardaram a reagir. Se hesitavam em prender Gandhi com
medo de o transformar num mártir, não se privaram de atacar duramente os
seus partidários. Trinta mil pessoas foram presas, reuniões e marchas
dispersadas pela força, as sedes do Congresso rebuscadas.
No dia 1 de Fevereiro de 1922, Gandhi comunicou atenciosamente por
escrito ao vice-rei que resolvera intensificar a sua actuação. Da não--
colaboração ia passar à desobediência civil. Aconselhou os camponeses a
fazerem a greve dos impostos, os citadinos a não respeitarem as leis
britânicas, os soldados a deixarem de servir a coroa. Era uma declaração
de guerra não violenta que Gandhi fazia ao governo colonial das Índias.
«Os ingleses querem obrigar-nos a desencadear a luta no campo das
metralhadoras porque têm armas e nós não, anunciou ele. A nossa única
possibilidade de vencer é conduzir a luta para um campo onde nós temos
armas e eles não».
Milhares de indianos responderam ao apelo. Milhares foram metidos na
prisão. Aterrado, o governador de Bombaim classificou esta empresa como
«a experiência mais colossal da história do mundo e que esteve à beira de
triunfar». Falhou contudo devido a uma explosão de violência sangrenta
numa pequena aldeia a noroeste de Nova Deli. Contra os votos de quase
todos os membros do seu partido, Gandhi deu contra-ordem ao movimento:
sentia que os seus partidários não tinham compreendido bem a ideia de
não-violência.
Vendo que este retrocesso o tornava mais vulnerável, os ingleses
incriminaram-no. Gandhi declarou-se culpado perante a acusação de decisão
e reclamou a pena máxima num comovente apelo aos seus juízes. Foi
condenado a seis anos de cadeia na prisão de Yeravda, perto de Poona. Não
estava arrependido de coisa nenhuma. «A liberdade, escreveu ele, deve com
frequência ser procurada nas prisões, muitas vezes no cadafalso; nunca
nos conselhos, nos tribunais ou nas escolas.»
Gandhi foi libertado por questões de saúde antes do termo da sua pena e
recomeçou imediatamente as suas peregrinações através da Índia,
inoculando nas multidões os seus princípios de não-violência a fim de
impedir a repetição dos acontecimentos sangrentos que o tinham forçado a
interromper a sua acção.
No fim de 1929, estava pronto para dar mais um passo em frente.

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Em Lahore, ao bater da meia-noite, convenceu o partido do Congresso a
fazer o voto solene de conseguir o swaraj, a independência total da
Índia. Milhões de militantes do Congresso repetiram este juramento
durante reuniões em todo o país. Um novo confronto com os ingleses
tornava-se inevitável.
Gandhi reflectiu longamente, esperando que a sua «voz interior» lhe
indicasse a maneira mais favorável de conduzir a bom termo este
confronto. A resposta assim conseguida era a obra mais subtil do seu
génio criador, a mais espantosa provocação política dos tempos modernos.
A sua concepção era tão simples, e a sua apresentação tão espectacular
que Gandhi conquistou imediatamente popularidade mundial.
O seu desafio era paradoxalmente constituído por um condimento alimentar
a que o Mahatma renunciara havia anos na luta pela castidade, o sal.
Embora Gandhi pudesse privar-se dele, o sal constituía no clima tórrido
da Índia um ingrediente vital da alimentação de todos os habitantes.
Encontrava-se em intermináveis dunas brancas ao longo da costa, dom da
Providência eterna, o mar. Mas o governo britânico detinha o monopólio da
sua distribuição e o seu preço era acrescido de uma taxa. Apesar de
mínima, esta taxa representava para um camponês cerca de duas semanas de
jorna.
No dia 12 de Março de 1930 às 6 h 30 m da manhã, as costas levemente
curvas, o habitual bocado de tecido branco em volta da cintura, Gandhi
saiu do seu ashram à frente de um cortejo de setenta e nove discípulos, e
pôs-se a caminho em direcção ao mar, que ficava a quatrocentos
quilómetros dali. Milhares de simpatizantes acotovelavam-se para o saudar
ao longo da estrada que juncavam com um tapete de folhas. Jornalistas,
vindos de todo o mundo, seguiam o avanço da estranha caravana. De aldeia
em aldeia, a multidão renovava-se, ajoelhando à passagem da «Grande
Alma». Como um íman sobre limalha, Gandhi arrastava dezenas de milhar de
pessoas. A figura quase chaplinesca da insólita silhueta seminua
caminhando para o mar a fim de desafiar o Império britânico encheu dia
após dia a primeira página de todos os jornais do mundo e foi tema dos
filmes de actualidades de todas as salas de cinema. No vigésimo quinto
dia às seis horas da tarde Gandhi e o seu cortejo chegaram à beira do
oceano Índico, perto da cidade de Dandi. No dia seguinte de madrugada,
após uma noite de oração, o grupo meteu-se na água para um banho ritual.
Depois, perante milhares de espectadores, Gandhi baixou-se e apanhou um
punhado de sal misturado no cascalho. Com ar grave e decidido, brandiu o
punho antes de o abrir e mostrar à multidão o aglomerado de cristais
brancos, essa dádiva interdita do mar, que ia ser o novo símbolo da luta
pela independência.
Em menos de uma semana, toda a península ficou em efervescência. De um
extremo a outro continente, os partidários de Gandhi começaram a recolher
sal e a distribuí-lo. O país foi invadido por folhetos explicando a
maneira de purificar em casa o sal do mar.

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Em toda a parte acenderam-se milhares de fogueiras para queimarem, numa
espécie de arraial, todos os produtos importados de Inglaterra.
Os ingleses responderam com a razia mais gigantesca da história das
Índias e meteram milhares de pessoas na prisão. Gandhi foi uma delas.
Antes de ser reduzido ao silêncio na sua cela de Yeravda, conseguiu
enviar uma última mensagem aos seus partidários. «A honra da Índia,
dizia-lhes ele foi simbolizada por um punhado de sal na mão de um homem
da não-violência. O punho que encerrou esse sal pode ser cortado, mas não
largará o sal.»

Durante três séculos, no interior daquelas paredes da Câmara dos comuns


do Parlamento inglês, tinham sido ouvidos as vontades de um grupo de
homens que construíram e governaram o Império britânico. Os seus debates
e decisões dirigiam o destino de meio milhar de seres humanos dispersos
por toda a superfície do globo e impunham o domínio cristão branco de uma
pequena elite europeia sobre mais de um terço dos continentes. De geração
em geração, os construtores do Império tinham subido àquela tribuna para
dali explicarem as grandiosas empresas que faziam da Inglaterra a nação
mais poderosa do mundo. Testemunhas mudas destas grandezas passadas, as
altas traves de carvalho tinham ouvido sucessivamente os discursos de
William Pitt anunciando a anexação do Canadá, do Senegal, das Antilhas,
da Florida, a colonização da Austrália e a partida para a volta ao mundo
de um veleiro com as cores britânicas fretado pelo explorador James Cook.
Tinham ouvido Disraeli anunciar a ocupação do canal de Suez — a artéria
vital ligando a Inglaterra ao seu Império das Índias —, a conquista do
Transvaal, a submissão dos zulus, a derrota dos afegãos e a apoteose do
Império, a sua decisão de fazer proclamar Vitória Imperatriz das Índias.
Tinham ouvido Joseph Chamberlain apresentar o famoso projecto de envolver
a África numa cintura de aço britânico graças ao caminho-de-ferro desde o
Cabo ao Cairo.
Naquela tarde monótona de Fevereiro de 1947, os membros da Câmara dos
Comuns esperavam na sombra glacial e melancólica do seu prestigioso
recinto sem aquecimento que o primeiro-ministro subisse à tribuna para
pronunciar a oração fúnebre do Império britânico. Nos bancos da oposição
sentava-se como uma figura de proa, Winston Churchill, pesado bloco de
granito metido num sobretudo preto.
Durante cerca de cinquenta anos desde que, jovem oficial de cavalaria que
abraçara a carreira do jornalismo e da política, se tinha juntado às
fileiras desta assembleia, a sua voz encarnar ali o sonho imperial, como
acontecera, durante a Segunda Guerra mundial, a consciência da Inglaterra
e o catalisador da sua coragem. Político de rara visão, mas inflexível
nas suas convicções, Churchill dedicava ao Império uma afeição
apaixonada.

57
E de todos os vastos e pitorescos territórios que o compunham, nenhum
ocupava no seu coração lugar comparável ao das Índias. Churchill amava as
Índias com todas as fibras do seu ser. Tinha prestado serviço ainda muito
jovem, como oficial do 4.° regimento de Hussardos da rainha, e vivera
todas as aventuras das personagens de Kipling. Jogara o polo nos relvados
das suas maidan, perseguira os javalis à lança e caçara o tigre. Escalara
as vertentes da passagem de Khyber e galopara contra os patans da
fronteira de noroeste. Um gesto simbolizava a solidez dos laços que o
ligavam àquele país: cinquenta anos após a sua partida, ainda mandava
todos os meses duas libras esterlinas a um antigo criado de Bangalore.
A esta paixão sentimental juntava-se uma fé inabalável na grandeza
imperial. Afirmara constantemente que a posição da Inglaterra no mundo
dependia do seu império. Aderia com sinceridade ao dogma vitoriano que
assegurava que «estes pobres povos privados de leis» eram infinitamente
mais felizes sob a autoridade da Inglaterra do que sob o jugo de um bando
de déspotas locais.
Nada podia alterar a força da sua convicção. O domínio da Grã--Bretanha
nas Índias fora sempre justo, exercido no melhor interesse do país; o seu
povo dedicava aos senhores amizade e gratidão; os agitadores políticos
que reclamavam a independência constituíam apenas uma pequena minoria
industriada e não exprimiam nem as aspirações do povo nem os seus
interesses. Apesar de toda a lucidez de que dera prova durante tantas
crises mundiais, Churchill ficava cego e surdo perante o drama das
Índias. Desde 1910, lutara contra todos os esforços para levar este país
à independência. Desprezava Gandhi e a maior parte dos políticos
indianos, que classificava de «homens de palha».
Mais do que qualquer outro deputado presente naquele dia, Churchill
estava consciente da pressa demonstrada pelo primeiro-ministro que o
substituirá, neste desmembramento do Império de que se recusara sempre a
ser instrumento. Mas se tinha sido batido - para espanto de todo o mundo
— nas eleições de 1945, o velho leão controlava ainda uma maioria
absoluta na Câmara dos Lordes, e esta vantagem dava-lhe o poder de
retardar pelo menos dois anos o desfecho trágico. Cerrando os lábios, viu
subir à tribuna o seu sucessor socialista.
A curta declaração que Clement Attlee se preparava para ler tinha, em
grande parte, sido redigida pelo jovem almirante que enviava às Índias, e
de quem ia agora revelar o nome. Com a sua audácia habitual, Luís
Mountbatten conseguira sobrepor o seu próprio texto ao longo discurso que
Attlee preparara. O novo texto definia em termos precisos a missão do
vice-rei. Continha além disso um esclarecimento que o almirante achava
fundamental, e sem o qual, pensava ele, o quebra-cabeças indiano não
tinha a menor probabilidade de ser resolvido. Mountbatten lutara seis
semanas com Attlee, para conseguir que este ponto fosse mencionado.
A friorenta assembleia ficou hirta quando Attlee começou a ler a sua
declaração histórica.

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«O governo de Sua Majestade deseja dar a conhecer claramente que é sua
firme intenção tomar as disposições necessárias para proceder à
transferência da soberania das Índias para as mãos de uma autoridade
indiana responsável em data não posterior ao mês de Junho de
1948».
Um silêncio de espanto dominou os deputados enquanto cada um avaliava a
medida imediata destas palavras. Eles tinham consciência das convulsões
da História, conheciam a orientação política deliberadamente preparada
pela Grã-Bretanha nas Índias, mas nada atenuou a melancolia em que
ficaram à ideia de que o Império britânico das Índias não tinha mais de
catorze meses de vida. Terminava uma era do destino da Inglaterra. O que
o Manchester Guardian classificava no dia seguinte como «o maior
descompromisso da História», estava a ponto de se realizar.
A imponente silhueta ergueu-se no banco da oposição quando chegou a sua
vez de pronunciar um último discurso a favor do Império. A tremer de frio
e de emoção, Churchill denunciou «a manobra do governo que se servia de
figuras ilustres da guerra para encobrir uma triste e desastrosa
transacção». Fixando um prazo tão curto para abandonar as Índias, Attlee
submetia-se a «uma das mais tresloucadas exigências de Gandhi» gritando à
Inglaterra que partisse e «abandonasse a Índia ao seu destino... É com
profundo desgosto, lamentou ele, que assisto ao desmantelar do Império
britânico com todas as suas glórias e todas as obras realizadas para o
bem da humanidade. Muitos são aqueles que defenderam a Grã-Bretanha
contra os seus inimigos. Ninguém pode defendê-la contra si própria...
Evitemos acrescentar a isto uma fuga vergonhosa, um naufrágio rápido e
prematuro. Evitemos pelo menos juntar aos abismos de tristeza sentida por
tantos de nós, o perfume e o gosto da vergonha».
Estas palavras eram as de um mestre da eloquência, mas não constituíam
mais do que uma tentativa vã de impedir que o Sol se escondesse. A hora
do escrutínio, a Câmara dos comuns ratificou a marcha da História. Por
uma maioria esmagadora, votou o fim do reinado da Grã-Bretanha nas Índias
com a data limite de Junho de 1948.

Segunda escala da via dolorosa de Gandhi


Estilhaços de garrafas e excrementos

Quanto mais o seu pequeno grupo se embrenhava nos pântanos do distrito de


Noakhali, mais difícil se tornava a missão de Gandhi. O caloroso
acolhimento por parte das populações muçulmanas dos primeiros povoados
irritava fortemente os responsáveis pelas aldeias que ele se preparava
agora para visitar. Achando que ele ameaçava a sua própria autoridade,
resolveram hostilizar os habitantes contra o Mahatma.
Naquela manhã, dirigiu os passos para uma escola muçulmana onde crianças
de sete e oito anos, acocoradas em volta do seu xeque, seguiam uma aula
ao ar livre.

59
Radiante de alegria como um avô que encontra os netos preferidos, Gandhi
precipitou-se para o grupo. Mas o cheque levantou-se imediatamente e com
um gesto brusco e zangado, mandou as crianças entrarem para a sua cabana,
como se aquele velho fosse um feiticeiro que lhes viesse lançar mau
olhado. Cheio de espanto, Gandhi ficou em frente da cabana, fazendo
tristes sinais com a mão às crianças que distinguia na penumbra,
recebendo em troca os seus olhares sombrios cheios de curiosidade. Depois
levou a mão ao coração para os saudar com um «saiam» à maneira muçulmana.
Nenhuma das crianças lhe correspondeu. Nem mesmo aqueles inocentes tinham
o direito de aceitar a sua mensagem de fraternidade. Com um doloroso
suspiro, Gandhi deu meia volta e retomou o seu caminho.
Houve outros incidentes. Quatro dias antes, alguém tinha sabotado as
estacas de uma ponte de bambu e corda de juta por onde Gandhi devia
passar. Felizmente o crime fora descoberto antes da ponte abater e
precipitar Gandhi e o seu grupo nas ondas lamacentas que deslizavam cinco
metros abaixo. Noutra manhã, Gandhi encontrou, pregados nas árvores
muitos letreiros cobertos de slogans: «Vai-te embora...» «Aceita o
Paquistão».
Estas mensagens de ódio deixavam-no indiferente. A força física, a
capacidade de suportar os golpes sem protestar, de enfrentar
resolutamente o perigo eram, segundo parece, as qualidades essenciais de
um militante da não-violência. Depois da lição que recebera na África do
Sul quando o postilhão branco de uma diligência o quisera atirar do lugar
que lhe pertencia, o frágil homem dera muitas provas desta espécie de
coragem.
Dominando o desgosto profundo de ver crianças fugirem dele, Gandhi seguiu
a sua marcha até à aldeia próxima. A noite tinha sido húmida e fria e o
orvalho tornava escorregadio o estreito atalho por onde caminhava o
pequeno grupo. De repente, todos pararam enquanto Gandhi punha de parte a
sua bengala de bambu e se inclinava para o chão. Alguém tinha espalhado
no caminho por onde ele iria passar descalço, estilhaços de garrafas e
excrementos humanos. Gandhi cortou devagarinho uma folha de palmeira,
abaixou-se e realizou humildemente o acto mais desonroso para um hindu de
casta; servindo-se da palma como se fosse uma vassoura, varreu o chão.

«Esse faquir seminu»

Durante várias décadas, o adversário britânico mais feroz daquele velho


que varria pacientemente as imundices do seu caminho fora o invencível
tribuno da Câmara dos comuns. Todas as frases memoráveis pronunciadas por
Winston Churchill durante a sua carreira podiam encher um volume inteiro
de antologia, mas poucas delas haviam tido na opinião pública tão
profunda ressonância como a de que ele se servira para classificar
Gandhi: «Esse faquir seminu».

60
Fora por ocasião de um acontecimento que marcara uma viragem na história
do Império britânico. Era o dia 17 de Fevereiro de 1931. Amparando-se com
uma das mãos no seu bambu, segurando com a outra as pontas do chaile
branco, o Mahatma Gandhi subira nessa manhã os degraus de tijolo vermelho
do palácio do vice-rei das Índias. O seu rosto mostrava ainda as marcas
das longas semanas que ele passara numa prisão britânica. Mas não era um
mendigo a pedir favores que se apresentava perante o vice-rei - era a
própria Índia.
Brandindo o punho cheio de sal, Gandhi rasgava o véu do templo. O apoio
popular ao seu movimento alastrara de tal forma que o vice-rei Lord Irwin
se sentira obrigado a tirá-lo da prisão e a convidá-lo a ir a Nova Deli a
fim de negociar com ele na qualidade de líder reconhecido das aspirações
nacionais. Gandhi era, em 1931, o primeiro dessa cadeia de
revolucionários — líderes árabes, africanos ou asiáticos — que seguiriam
um dia o mesmo caminho que leva de uma prisão inglesa a uma sala de
conferências.
Winston Churchill compreendera o alcance deste encontro. No célebre
recinto onde não desistia de se revoltar contra o abandono das Índias por
parte da Inglaterra, censurara «o espectáculo nojento e humilhante desse
antigo advogado do tribunal de Londres, agora faquir sectário, subindo
meio nu os degraus do palácio do vice-rei para discutir e negociar de
igual para igual com o representante do rei-imperador». «A perda das
Índias, gritara ele com uma clarividência que se antecipava ao discurso
que havia de pronunciar dezasseis anos mais tarde, seria para nós um
golpe fatal e definitivo. Ela faz parte de um processo que nos reduziria
a uma nação insignificante.»
Este apelo não teve o mais pequeno eco em Nova Deli. As negociações
desenrolaram-se durante três semanas, constando de oito entrevistas, e
terminaram por um acordo conhecido pelo nome de «Gandhi-Irwin Pact». Este
pacto, semelhante em todos os pontos a um tratado entre duas potências
soberanas, dava a medida da vitória alcançada por Gandhi. O vice-rei
aceitava libertar os milhares de indianos que tinham acompanhado o seu
chefe na prisão (Nota 1). Gandhi concordava por seu turno em suspender a
campanha de desobediência e a tomar parte numa mesa redonda em Londres, a
fim de discutir o futuro das Índias.

Nota 1 - Ninguém beneficiaria mais deste acordo do que um jovem estudante


sikh chamado Gurcharan Singh. De mãos atadas atrás das costas, Gurcharan
Singh seguia nessa manhã por um comprido corredor da prisão de Labre ao
fim do qual o esperava o carrasco e a forca britânicos que deviam pôr
termo à sua existência de patriota revolucionário. Quando Gurcharan Singh
já avistava o patíbulo, ouviu, atrás dele, passos precipitados. Voltando-
se, viu chegar o major que dirigia a prisão.
- Parabéns! - gritou-lhe este, mostrando uma folha de papel azul.
O jovem Sikh perdeu a calma.
— Não lhes falta cinismo, gentlemen — berrou ele — vão enforcar-me e dão-
me os parabéns!
O oficial inglês anunciou-lhe que todas as execuções capitais tinham sido
suspensas depois de um pacto recentemente assinado em Nova Deli.
Gurcharan Singh foi liberto algumas semanas mais tarde. A primeira coisa
que fez foi uma peregrinação ao ashram de Gandhi. O ardente
revolucionário ficou fascinado com o Mahatma. Jurou seguir-lhe os passos
e tornou-se adepto.

61
Oito meses depois, em Outubro de 1931, com espanto de toda a Inglaterra,
o Mahatma Gandhi, usando sempre um pano de algodão e sandálias — retrato
vivo do Gunga Din de Kiling que «não usava quase nada pela frente e ainda
menos por trás» —, dirigia-se ao palácio de Buckingham para tomar chá com
o rei-imperador. Interrogado sobre a razão da sua vestimenta, Gandhi
respondeu com malícia que «Sua Majestade tinha fatos por nós dois».
A publicidade que envolveu este encontro traduzia o verdadeiro alcance da
visita do Gandhi a Londres. Todavia, a conferência não teve êxito. A
Inglaterra ainda não estava preparada para aceitar a independência das
Índias. Gandhi sempre afirmara que a verdadeira vitória «será ganha fora
da sala de conferências... semeando agora as sementes que adoçarão um dia
a atitude britânica». A imprensa e a opinião inglesas apaixonaram-se por
aquele estranho homenzinho que pretendia deitar abaixo o Império,
oferecendo às pancadas a outra face.
Saíra do navio vestido apenas com o seu pano, amparado ao bambu, sem
oficial às ordens, sem criados, sem guardas. Apenas alguns discípulos e
uma cabra desceram a ponte atrás dele, uma cabra que fornecia ao Mahatma
a sua tijela de leite diária. Desprezando os hotéis, instalou-se num
bairro pobre de East End. Aquele que fora, naquela mesma cidade, um
estudante incapaz de articular três palavras revelava agora uma
eloquência inesgotável. Falou com mineiros, com crianças, conheceu
Bernard Shaw, o arcebispo da Cantuária, Charlie Chaplin, os operários das
fábricas têxteis de Lancashire que os seus companheiros na Índia tinham
reduzido ao desemprego: em resumo, toda a gente, excepto Winston
Churchill que se recusou obstinadamente a recebê-lo, da não-violência. A
ironia do destino quis que fosse ele quem recolheu nos braços, à hora da
morte, aquele que lhe salvara a vida.
Gandhi causava uma forte impressão. Os filmes de actualidades sobre a
Marcha do sal já o tinham tornado célebre. Para as multidões inglesas
vítimas do mal-estar industrial, do desemprego e das graves injustiças
sociais, aquele emissário do Oriente vestido como Cristo, portador de uma
mensagem de amor, era uma personagem ao mesmo tempo fascinante e
inquietante. Mais tarde, o próprio Gandhi explicou a razão desse fascínio
num discurso feito na rádio americana. A atenção dada era atraída pela
luta das Índias pela independência, declarou ele, «porque os meios que
escolhemos para obter essa liberdade são únicos...

62
O mundo está farto de ver correr sangue. Procura sair desse pesadelo e
agrada-me crer que será talvez privilégio da velha terra indiana apontar
uma saída ao mundo sequioso de paz». Mas por enquanto, o Ocidente ainda
não estava maduro. Em vésperas de nova guerra mundial, uma cabra parecia-
lhe uma arma menos eficaz do que uma metralhadora. Todavia, quando tornou
a partir, no trajecto do caminho-de-ferro que o levava ao porto de
Brindes, milhares de franceses, de suíços e de italianos acorreram na
esperança de verem a sua frágil silhueta à janela da carruagem de III
classe.
Em Paris, uma multidão tão compacta invadira a gare do Norte, que Gandhi
teve de subir para um vagão de bagagens a fim de discursar. Na Suíça,
onde foi recebido pelo seu amigo Romain Rolland, o sindicato dos
leiteiros de Lérrian reivindicou a honra de alimentar o «rei das Índias».
Em Roma, avisou Mussolini de que o fascismo «cairia como um castelo de
cartas» e chorou perante o Cristo na cruz da capela Sistina.
Apesar desta travessia triunfal da Europa, Gandhi chegou ao seu país
cheio de mágoa. «Volto de mãos vazias», anunciou ele à multidão de
admiradores que o esperavam à chegada a Bombaim. A Índia teria de voltar
à desobediência civil. Passado menos de um mês, o homem que tomara chá
com o rei de Inglaterra no palácio de Buckingham era novamente hóspede de
Sua Majestade imperial, numa cela da prisão de Yeravda.
Durante os três anos seguintes, O Mahatma sofreu frequentes prisões
enquanto em Londres Churchill gritava que era preciso «esmagar Gandhi e
tudo o que ele representava». Apesar destas declarações, os ingleses
propuseram um plano de reforma que delegava nas províncias indianas uma
parte da autoridade central. Numa das suas saídas da prisão, Gandhi
resolveu abandonar temporariamente a acção política para se dedicar a
duas tarefas que tinham tentado sempre no seu coração sobrepor-se à luta
pela liberdade: a miséria de milhões de Intocáveis e a situação das
aldeias indianas.
A aproximação da Segunda Guerra mundial fortalecia o seu ideal de não-
violência, o único capaz de salvar o homem da destruição.
Quando Mussolini invadiu a Etiópia, Gandhi estimulou os etíopes «a
deixarem-se massacrar». O resultado, explicou ele, será mais frutífero do
que a resistência, porque «afinal, Mussolini não vai querer ocupar um
deserto». No dia seguinte a Munique, aconselhou os checos a «recusarem-se
a obedecer à vontade de Hitler, sujeitando-se a morrer na sua frente de
mãos vazias». Horrorizado com as perseguições aos judeus, exclamou: «Se
alguma vez pode haver na história da humanidade uma guerra justificável,
será uma guerra contra a Alemanha para impedir o aniquilamento insensato
de uma raça inteira.» Todavia, acrescentou, «não acredito na guerra». Em
seu lugar, propunha «a resistência calma e decidida de homens e mulheres
desarmados, recebendo de Jeová a força para sofrer. Essa atitude
obrigaria os alemães a respeitarem a dignidade humana».

63
A persistência da selvageria dos nazis perante a entrada resignada,
alguns anos mais tarde, de seis milhões de judeus nas câmaras de gaz
desmentiria cruelmente as utópicas esperanças de Gandhi.
Quando finalmente a guerra estalou de facto, Gandhi orou para que pelo
menos pudesse surgir do holocausto, como um romper de Sol, alguma atitude
heróica, o sacrifício não violento que iluminasse o caminho da humanidade
e lhe permitisse escapar à garra inexorável da autodestruição. Enquanto
Churchill galvanizava os seus compatriotas prometendo-lhes «sangue, suor
e lágrimas», Gandhi, esperando que os ingleses fossem um povo bastante
corajoso para pôr as suas teorias pessoais à prova, propôs-lhes outro
processo: «Convidem Hitler e Mussolini a conquistarem os países que
quiserem entre aqueles a que vocês chamam as vossas possessões, escreveu-
lhes ele após o maior dos bombardeamentos alemães sobre Londres. Deixem-
nos apoderar-se da vossa bela ilha com os seus numerosos e magníficos
monumentos. Abandonem-lhes tudo isso, mas não lhes entreguem o vosso
espírito nem a vossa alma.»
Esta atitude era a consequência lógica do ideal de não-violência. Mas
para os ingleses, e sobretudo para o seu chefe, não passavam de patetices
escritas por um velho excêntrico, bom para ser internado.
Gandhi não conseguiu sequer convencer os dirigentes do seu próprio
partido. A maioria dos seus discípulos eram anti-fascistas fervorosos,
prontos a meter a Índia na guerra, se o pudessem fazer como homens
livres. Pela primeira vez, mas não pela última, Gandhi rompeu com os
companheiros.
Foi Churchil quem os reconciliou. Fiel à sua política, o velho leão não
tencionava satisfazer os compromissos que os nacionalistas indianos
reclamavam como preço da sua participação na guerra. No decurso do seu
primeiro encontro com Franklin Roosevelt para lançar as bases da carta do
Atlântico, tinha feito claramente saber que as generosas disposições
previstas para o tratado não podiam em caso nenhum referir-se às Índias.
O seu partenaire americano ficou espantado com tanta intransigência. Uma
nova fórmula lapidar de Churchill ia espalhar-nos nos conselhos aliados:
«Não me tornei primeiro-ministro de Sua Majestade para presidir à
dissolução do Império britânico.»
Só em 1942, quando o exército imperial japonês chegou às fronteiras das
Índias, é que Churchill, estimulado por Washington e pelos seus
colaboradores próximos, consentiu em apresentar uma oferta séria a Nova
Deli. Não propunha evidentemente a independência imediata, mas pelo menos
o que a Inglaterra podia conceder de mais generoso em plena batalha pela
sua sobrevivência: o compromisso solene de dar às Índias, após a derrota
japonesa, o estatuto de domínio, ao seja a autonomia dentro do quadro do
Commonwealth britânico.
Gandhi rejeitou este presente envenenado, considerando que ele tinha como
único objectivo conseguir a colaboração imediata da Índia na defesa do
seu solo pela violência. E isto era a última coisa que ele estava
disposto a consentir.

64
Se era preciso resistir aos japoneses, Gandhi achava que a única arma a
empregar era a não-violência. O Mahatma acalentava um sonho secreto.
Resignara-se a ver correr rios de sangue, contando que fosse por uma
causa justa. Imaginava fileiras de indianos disciplinados e não violentos
avançando para as baionetas dos japoneses para morrerem uns após outros
até ao momento crítico em que a enormidade deste sacrifício vencesse os
inimigos, desarmando-os, provando ao mesmo tempo a eficácia da não-
violência, e mudando o curso da história da humanidade.
Gandhi observava todas as segundas-feiras «um dia de silêncio». Cumpria
este rito havia anos a fim de poupar as cordas vocais e fazer nascer no
seu íntimo vibrações de harmonia. Infelizmente para Gandhi e para a
Índia, a sua «voz interior», a voz da consciência, não guardou silêncio
na segunda-feira, 13 de Abril de 1942. Essa voz falou a Gandhi, e o
conselho que lhe deu ia ser tão desastroso para ele próprio como para os
seus partidários. Resumia-se em duas palavras que se tornaram o slogan da
nova cruzada: «Quit India Saiam da Índia». Os ingleses eram convidados a
renunciar imediatamente ao seu domínio. «Que abandonem as Índias a Deus
ou mesmo à anarquia.» Se os ingleses deixassem o país entregue ao seu
destino, os japoneses não teriam razão para atacar, explicou ele.
Imediatamente após a meia-noite de 8 de Agosto de 1942, Gandhi, nu da
cintura para cima na atmosfera sufocante de uma sala de Bombaim, lançou o
seu apelo. A sua voz era calma e pousada mas a mensagem que transmitia
estava carregada de uma paixão e de um fervor inéditos. «Quero a
liberdade já, declarou ele, esta noite mesmo, antes da alvorada, se
possível. Dou-lhes um mantra, uma fórmula sagrada, um mantra muito curto:
Agir ou morrer. Vamos libertar as Índias ou morrer, mas não viveremos
para ver eternizar-se a nossa escravidão.»
Não foi a liberdade mas nova prisão o que Gandhi ganhou antes da
alvorada. Numa operação cuidadosamente preparada, os ingleses prenderam
Gandhi e todos os responsáveis do Congresso, resolvidos a deixarem-nos na
prisão até ao fim da guerra. Uma curta explosão de violência seguiu-se a
esta medida. Mas, em menos de três semanas, os ingleses estavam outra vez
senhores da situação.
Pondo os chefes do Congresso fora da cena política num momento crucial, a
intervenção de Gandhi fizera admiravelmente o jogo dos seus adversários
da Liga Muçulmana. Estes ajudavam o esforço de guerra da Inglaterra,
usufruindo assim de uma dívida de reconhecimento considerável. Não só
Gandhi não tinha conseguido obter a retirada imediata dos ingleses, como
a sua iniciativa tinha aumentado o risco de uma partilha das Índias entre
muçulmanos e hindus quando eles se foram embora.
Esta foi a última prisão da vida do Mahatma. Quando a porta da cela se
abrisse, ele teria passado mais de seis anos da sua existência na cadeia:
2338 dias exactamente, 249 na África do Sul e 2089 nas Índias. Dessa vez,
Gandhi ficou preso no espaçoso palácio de Aga Khan em Yeravda, junto da
sua primeira cela. Após de cinco meses de detenção, anunciou que ia fazer
uma greve de fome de vinte e um dias.

65
Os motivos de tal decisão eram obscuros mas os ingleses não estavam
dispostos a transigir. Se Gandhi queria jejuar até morrer, deixem-no,
ordenou Churchill ao vice-rei.
A meio da prova, a saúde de Gandhi começou a fraquejar. Intratáveis, os
ingleses começavam já discretos preparativos para a sua morte. Dois
sacerdotes brâmanes foram convocados e receberam ordens para assegurarem
os ritos fúnebres. A coberto da noite, madeira de sândalo destinada à sua
pira foi levada em segredo para o palácio prisão. Todos aceitavam a sua
morte, excepto ele. Não pesava mais de cinquenta e cinco quilos no
princípio do jejum. Contudo, após de vinte e um dias de abstinência
total, com excepção de um pouco de água salgada e algumas gotas de sumo
de limão de vez em quando, o velho indomável de setenta e quatro anos
continuava vivo.
Outro golpe o esperava depois de vencer esta batalha. A madeira de
sândalo preparada para a sua cremação iria arder noutra pira funerária, a
da esposa. A rapariga analfabeta com quem casara aos treze anos, soltava
o último suspiro, com a cabeça sobre os seus joelhos, no dia 22 de
Fevereiro de 1944. Gandhi não negara os seus princípios para lhe salvar a
vida.
Acreditava nos tratamentos naturais e achava que a administração de
medicamentos por meio de uma seringa hipodérmica era um acto contrário à
não-violência. Prevenidos que a doente estava a morrer de bronquite
aguda, os ingleses mandaram vir penicilina por avião. Mas quando Gandhi
soube que aquele remédio devia ser administrado por via intravenosa, não
autorizou que os médicos tocassem no corpo da mulher.
Depois da morte de Kasturbai, a saúde de Gandhi declinou rapidamente.
Contraiu malária e uma desinteria amibiana. O seu estado piorou tão
depressa que o fim parecia agora certo. Contra vontade, Churchill
resignou-se a mandá-lo libertar para que não morresse numa prisão
britânica.
Gandhi também não queria morrer numa Índia britânica. Refugiado numa
vivenda de um dos seus partidários ricos, recobrava a pouco e pouco a
saúde. Às cartas urgentes do vice-rei avisando Churchill do agravamento
da fome na Índia, o Primeiro-ministro respondeu apenas com um telegrama
lacónico: «Porque razão Gandhi ainda não morreu?»
Alguns dias depois, ao entrar no quarto do Mahatma, o dono da casa viu um
dos seus discípulos em equilíbrio numa posição de yoga, de cabeça para
baixo e pés para cima, outro acocorado, visivelmente absorto em qualquer
meditação transcendente, um terceiro a dormir no chão com um saco de
argila sobre o ventre, e o Mahatma sentado na sua cadeira-retrete, com os
olhos perdidos no vácuo. Incapaz de ficar sério perante este espectáculo,
desatou a rir.
— Porque se ri? perguntou Gandhi espantado.
— Ah, Bapu (Pai), respondeu o dono da casa, veja como procedem os seus
companheiros: um está de cabeça para baixo, o outro fala com o além, o
terceiro dorme, e vós, o seu chefe, estais sentado no trono a fazer as
necessidades.

66
Julgais que é com soldados destes que podemos libertar as Índias?

No dia 20 de Março de 1947, na pista do aeroporto de Northolt, o avião de


Lord Mountbatten esperava à luz do amanhecer. Charles Smith, o criado de
quarto, já levara para bordo as bagagens pessoais do último vice-rei das
Índias, sessenta e seis malas e baús que continham até uma colecção de
cinzeiros de prata com o monograma do visconde Mountbatten da Birmânia
gravado. O desaparecimento de uma caixa de sapatos metido distraidamente
debaixo de um banco desencadeou à partida verdadeiro pânico: dentro ia
uma jóia de família de valor incalculável, a tiara de diamantes que
usaria Lady Mountbatten no dia em que subisse ao trono de vice-rainha das
Índias.
Arrumadas em todos os cantos do avião encontravam-se pilhas de dossiers,
de memorandos, de instruções diversas de que o vice-rei e o seu estado-
maior iam precisar nos meses futuros. O documento mais importante tinha
apenas duas páginas. Estava assinado por Clement Attlee mas tinha sido
Mountbatten quem o redigira. Especificava a sua missão. Nenhum vice-rei
tinha nunca recebido semelhante mandato. Este ordenava ao jovem almirante
que preparasse tudo para assegurar, antes de 30 de Junho de 1948, a
transferência da soberania britânica para as mãos de uma Índia
independente unificada, membro da Commonwealth. No caso dos muçulmanos
continuarem a reivindicarem um Estado separado, Mountbatten devia
procurar uma solução de compromisso, a federação dos dois Estados sob uma
autoridade central. Mas de qualquer forma, que esta solução não fosse
imposta pela força. Se, ao fim de seis meses, Mountbatten não tivesse
conseguido nenhum acordo para manter uma Índia unificada, devia propor
outra coisa.
Enquanto a tripulação procedia às últimas verificações, Mountbatten
passeava pela pista com dois dos seus velhos companheiros de guerra que
levava consigo para as Índias, o capitão de fragata Ronald Brockman, seu
chefe de gabinete, e o capitão de corveta Peter Howes, seu primeiro
ajudante de campo. Quantas vezes, pensava Brockman, este bombardeiro
Lancaster transformado levara Mountbatten aos postos avançados da selva
birmanesa ou às grandes conferências de guerra? A seu lado, o almirante,
sempre tão jovial, tinha um ar grave. O piloto anunciou finalmente que o
avião estava pronto.
- Bem, suspirou Mountbatten, cá vamos nós de partida para as Índias. Não
tinha vontade nenhuma de ir. E eles não têm vontade nenhuma dela me ver.
Talvez voltemos com o corpo crivado de balas.
Os três homens subiram para o avião. Os motores arrancaram.

67
O York MW 102 deslizou sobre a pista, e descolou rumo a leste em direcção
das Índias. O último acto da grande aventura que o comandante Hawkins
começara, três séculos e meio antes, navegando para o Oriente no seu
galião Hector, ia ser representado.
Capítulo quarto

AS TRINTA E UMA SALVAS DE CANHÃO DE UMA INVESTIDURA TRIUNFAL

Terceira escala da via dolorosa de Gandhi


«Dormir ao lado de uma Vénus»

Nada nem ninguém o conseguia fazer parar. Impulsionado pela sua energia
infatigável, o velho dos pés doridos ia de aldeia em aldeia para aplicar
o seu bálsamo de amor nas chagas da Índia. E essas chagas cicatrizavam a
pouco e pouco. No resto da silhueta patética, as paixões acalmavam-se.
Mas enquanto uma paz hesitante começava a renascer nos pântanos
ensanguentados de Noakhali, outro drama, esse interior, veio agravar os
sofrimentos do Mahatma. Um drama cuja natureza escandalizaria os seus
partidários mais incondicionais, alarmaria milhões de indianos, venceria
os historiadores que tentassem um dia analisar as múltiplas facetas desta
personalidade fora do comum. Uma cruel crise de consciência dominou
repentinamente, aos setenta e sete anos, aquele que era a consciência da
Índia.
Essa crise não tinha qualquer relação coma sua luta política. Também não
estava ligada com o caudal de horrores que o haviam levado a Noakhali,
nem com a tragédia que ameaçava dividir o país em dois no momento em que
este saía do jugo imperialista. Dizendo respeito só a ele próprio, nem
por isso deixaria de ter influência na história de toda a Índia. Um povo
inteiro arriscava-se a ver perdida a sua confiança na Grande Alma que o
tinha conduzido nos caminhos da liberdade. O drama de Gandhi tinha a sua
origem na luta que ele travava havia quarenta anos para dominar e
sublimar a sua sexualidade. Veio à luz com a presença de uma rapariguinha
de dezanove anos, sua sobrinha neta Manu. Órfã desde a mais tenra idade,
Manu fora educada em casa de Gandhi. Ele tinha-a mandado ir à prisão para
tratar a esposa moribunda; ao expirar, Kasturbai confiara a pequena ao
marido. Depois disso, Manu nunca mais se separou de Gandhi, que se
considerava ao mesmo tempo como «sua mãe» e guia espiritual. Era ele quem
dirigia todos os actos da sua vida, desde a maneira de vestir e do regime
alimentar até à sua educação e formação religiosa.
Ora, algum tempo antes de iniciar a peregrinação de penitente nos
caminhos de Noakhali, durante uma das suas muitas conversas, Gandhi fez
uma descoberta que o perturbou. Com a timidez de uma criança que se
confessa à mãe, Manu revelou-lhe que nunca tinha sentido as emoções
sexuais vulgares numa jovem da sua idade. Para aquele que combatera
durante toda a vida as tentações do sexo, era uma confissão capital.

69
Gandhi afirmara sempre que, para um verdadeiro soldado da não-violência,
homem ou mulher, a continência era a primeira vitória a alcançar. O seu
exército não violento ideal compunha-se de soldados sem sexo. Infringir
esta regra, era correr o risco de perder toda a força moral no momento
crítico.
Gandhi viu na confissão de Manu um sinal de que a sobrinha neta podia ser
o soldado perfeito para a sua luta. «Se, entre milhões de raparigas da
Índia, conseguir formar uma que seja perfeita, declarou-lhe ele, terei
prestado um serviço único às mulheres.» mas queria primeiro pô-la à
prova. Só os discípulos mais chegados o poderiam acompanhar a Noakhali,
anunciou-lhe; ela poderia ir também, com a condição de aceitar todas as
experiências a que ele a quisesse submeter.
E antes de mais, iam compartilhar o rude colchão que lhe servia de cama.
Se fossem ambos sinceros, ele no seu juramento de castidade, ela na sua
declaração de pureza, poderiam dormir juntos com a mesma inocência de mãe
e filha. Se não fossem sinceros, descobri-lo-iam imediatamente.
Gandhi pensava que esta constante e afectuosa promiscuidade não faria
senão confirmar a pureza cristalina da sobrinha neta. Ao contacto com o
seu velho corpo descarnado, qualquer sinal de desejo desapareceria
definitivamente dela. A jovem ganharia uma clareza de pensamento e uma
firmeza de palavra que ainda lhe faltavam. Longe da impureza do corpo e
do espírito, a casta Manu podia entregar-se com uma energia sem quebras à
grande tarefa que a esperava.
A jovem concordou. A partir daí, a sua grácil e suave presença nunca mais
abandonou o velho Mahatma.
Conforme Gandhi previra, esta intimidade causou consternação no seu
pequeno grupo. «Julgam que tudo isto é sinal de uma paixão violenta,
suspirou ele ao fim de algumas noites passadas com Manu. Perdoo-lhes a
ignorância: eles não compreendem.»
Só os mais puros dos seus partidários podiam com efeito seguir o
raciocínio complexo em que se alicerçava esta última manifestação de uma
longa luta moral e física. Esta luta começara havia mais de quarenta
anos, naquela noite de 1906, na África do Sul, quando Gandhi anunciara à
mulher a sua resolução de pronunciar o voto de brahmacharya, de
castidade. Com este juramento, seguia uma norma quase tão antiga como o
hinduísmo. Desde os primeiros rishi, seus antepassados, os sábios hindus
não se cansam de afirmar que um homem não pode atingir o acordar da
inteligência suprema, a compreensão global, isto é a libertação, a não
ser sublimando a força sexual, encaminhando toda a sua energia para o
alto, transmutando-a em energia espiritual.
Para guia dos que adoptassem esta ética, os sábios tinham elaborado um
código de nove regras. Um verdadeiro brahmachari não devia viver entre
mulheres, nem animais, nem eunucos. Não tinha o direito de se sentar numa
esteira em companhia de uma mulher, nem de pousar os olhos em qualquer
parte do corpo feminino.

70
Era-lhe recomendado que evitasse as doçuras sensuais de um banho quente
ou de uma massagem com óleo, e se defendesse dos perigos afrodisíacos
atribuídos ao leite, ao iogurte, ao ghi (Nota 1) e aos alimentos ricos em
gordura.
As razões que tinham levado Gandhi a fazer voto de castidade não eram
todas de origem mística. Assentavam também na convicção de que só o
domínio dos sentidos lhe daria força para cumprir a missão terrena de que
se sentia investido. Nada era negado àqueles que se libertavam dos seus
apetites. «Os órgãos sexuais dos verdadeiros brahmachari são apenas
símbolos, declarava ele, e as suas secreções sublimam-se numa energia
vital que invade todo o seu ser.» O perfeito brahmachari era aquele que
podia «dormir ao lado de uma Vénus em todo o esplendor da sua nudez sem
sentir a menor perturbação mental ou física».
Era um ideal difícil; Gandhi tinha lutado duramente para o pôr em
prática, porque as exigências da carne ardiam nele com um fogo muito
particular. Durante anos, experimentara toda a espécie de regimes
alimentares a fim de descobrir aquele que menos estimulasse a sua
sensualidade. Enquanto todos os mercados indianos apresentam uma série
incrível de filtros afrodisíacos, Gandhi renunciava às especiarias, aos
legumes crus e a certos frutos na esperança de dominar os seus impulsos
sexuais.
Trinta anos de ascese, de orações e meditação resultaram num fracasso
certa noite de 1936: com sessenta anos de idade, Gandhi acordou com
erecção, devido a um sonho. Foi, confessaria ele, «a minha hora mais
negra». Ficou tão transtornado com «esta horrível experiência» que fez
voto de guardar um silêncio absoluto durante seis semanas.
Durante meses, procurou as causas da sua fraqueza, perguntando a si
próprio se não chegara o momento de se retirar do mundo e conquistar, na
solidão, o que não tinha conseguido no meio dos seus. Chegou à conclusão
que aquele pesadelo era um desafio das potências do mal da sua força de
espírito. Decidiu esquecê-lo e perseverar no esforço de arrancar todo o
vestígio de sexualidade das últimas fibras do seu ser.
Enquanto retomava confiança no domínio dos sentidos, multiplicou os seus
contactos físicos com mulheres. Todos os dias, fazia-se massajar pelas
mãos de uma jovem. Recebia muitas vezes visitas ou discutia com os chefes
do partido do Congresso durante algumas destas sessões. Usava pouca roupa
e recomendava aos discípulos que fizessem o mesmo: a roupa, dizia,
«estimula unicamente uma falsa ideia de pudor». A única vez que se
dirigiu directamente a Winston Churchill, foi para responder à famosa
injúria de «faquir seminu». A sua nudez, declarou, representava a
verdadeira inocência que tentava conquistar. E tinha orgulho nisso.
Decretou que nada se opunha a que homens e mulheres fiéis ao seu voto de
castidade dormissem no mesmo quarto se a noite os surpreendesse no
exercício das suas tarefas.

Nota 1 - Manteiga desnatada.

71
A decisão de pedir à sobrinha neta Manu que compartilhasse o seu leito a
fim de poder modelar com mais perfeição o seu desabrochar espiritual era
a consequência natural do seu raciocínio.
A jovem acompanhou-o portanto na jornada de Noakhali. De aldeia em
aldeia, ela dormia junto dele nos humildes abrigos que os aldeões lhe
ofereciam. Massajava-o, preparava as cataplasmas de argila, tratava-o
quando ele sofria de diarreia. Deitava-se e levantava-se à mesma hora que
ele, orava com ele, e comia na sua escudela de mendigo. Numa noite gelada
de Fevereiro, ela viu que o velho tremia de frio ao seu lado. Friccionou-
-o e cobriu-o com toda a roupa que encontrou. Gandhi acabou por acalmar
e, diria ela mais tarde, «dormimos no calor um do outro até à hora da
oração».
O Mahatma tinha a consciência em paz: nada podia manchar a pureza das
suas relações com Manu. De facto, parece inconcebível que o menor desejo
carnal tenha atravessado o espírito destes dois seres. No fim da vida,
Gandhi era um homem solitário. Perdera a sua fiel companheira. Alguns dos
seus discípulos mais chegados estavam prestes a abandoná-lo e ele
arriscava-se a ver desvanecer-se o sonho que tentara realizar durante
décadas de luta feroz. A grande frustração da sua vida fora sem dúvida a
sua falha no papel de pai. O filho mais velho, sentindo-se privado da
afeição paterna em proveito de todos aqueles a quem Gandhi demonstrava a
sua solicitude, tornara-se um alcoólico incurável: chegara a cambalear de
embriaguez à cabeceira da mãe moribunda. Dos seus outros dois filhos, que
viviam na África do Sul, Gandhi nunca mais tivera notícias. A presença de
Manu vinha encher esse vazio.
Os rumores a respeito da sua estranha intimidade começaram a espalhar-se
publicamente. Divulgada pelos activistas da Liga muçulmana hostis à
cruzada de Gandhi no seu território, uma campanha de calúnias veio
agravar os rumores mais maliciosos. Chegaram ecos a Nova Deli, provocando
a consternação entre os chefes do Congresso que se preparavam para
iniciar negociações capitais com o novo vice-rei.
Uma noite, durante uma oração pública, Gandhi resolveu responder
abertamente a todas estas acusações. Declarando infames «os murmúrios das
más línguas», expôs as verdadeiras razões porque a sua sobrinha neta Manu
passava todas as noites com ele. Estas palavras acalmaram os seus
próximos mas não o resto do país. A crise atingiu o paroxismo em
Haimchar, a última localidade inscrita no programa da peregrinação. O
Mahatma anunciou ali a intenção de ir levar a sua mensagem de amor à
província do Bihar para apaziguar desta vez os hindus que tinham
massacrado as minorias muçulmanas que viviam entre eles.
Esta notícia alarmou os dirigentes do Congresso. Receavam o efeito que as
relações de Gandhi com Manu pudesse produzir nas populações hindus do
Bihar, extraordinariamente ortodoxas. Mandaram-lhe uma série de
emissários suplicando-lhe que abandonasse a sua experiência. Gandhi
recusou-se.

72
Foi Manu quem sugeriu finalmente ao velho Mahatma que mudasse os seus
hábitos. Prometeu que continuaria completamente de acordo com ele. Não
pretendia renunciar a nada do que tentavam ambos realizar. A solução que
propunha era temporária, uma concessão provisória feita aos espíritos
acanhados que os rodeavam, incapazes de compreenderem o seu objectivo.
Não o acompanharia na sua nova missão no Bihar.
Cheio de desgosto, Gandhi concordou.
«No seu uniforme branco de almirante, parece um actor de cinema», pensava
o jovem capitão de granadeiros da guarda que acabava de ser nomeado seu
ajudante de campo. Com ar feliz e sereno, e a esposa sorridente ao lado,
Luís Mountbatten chegava ao trem dourado construído outrora para o
desfile triunfal do rei-imperador Jorge V através de Deli, e preparava-se
para tomar posse do seu palácio. No momento em que a escolta de turbantes
dourados e fardas escarlates chegava à escadaria monumental coberta de
tapeçarias vermelhas, as gaitas de foles dos Royal Scott Fusiliers
começaram em honra do novo vice-rei das Índias uma barulhenta marcha de
boas-vindas.
Grave, sério, Lord Wavell, o vice-rei destronado, esperava no alto dos
degraus. A presença destes dois homens em Nova Deli constituía uma quebra
da tradição. Os usos mandavam com efeito que o navio levando o antigo
vice-rei saísse do porto de Bombaim no mesmo minuto em que acostava
aquele onde vinha o seu sucessor. Esta contradança evitava aos indianos o
embaraço da presença simultânea de dois «deuses» no seu solo. Mountbatten
pedira que se fizesse uma excepção à regra a fim de poder conversar com o
homem perante quem se inclinava agora.
Durante uns momentos, sob os flashes dos fotógrafos, os dois vice-reis
ficaram lado a lado a conversar, apresentavam à vista um lamentável
contraste: Mountbatten, o soberbo herói da guerra, radiante de confiança
e de vitalidade, e Wavell, o velho soldado vesgo, estimado pelos
subalternos, cujo «infeliz destino, escrevera ele horas antes no seu
diário, fora organizar retiradas e adoçar derrotas».
Wavell conduziu Mountbatten para a pesada porta de teca do palácio a fim
de lhe mostrar a sua nova morada e pô-lo ao par da espinhosa situação que
lhe legava.
- Sinto imenso que o tenham designado para me substituir, lamentou-se
ele.
- Porquê? exclamou Mountbatten espantado. Acha que não estou à altura?
- Não se trata disso, respondeu Wavell. Sabe que tenho uma grande
simpatia por si, mas a missão que lhe confiaram é impossível.
Experimentei tudo para tentar resolver este problema e não vejo a menor
parcela de esperança. O impasse é total.

73
Wavell evocou pacientemente os esforços que tinha desenvolvido para
resolver a crise. Depois levantou-se e foi abrir um cofre-forte. No
interior encontravam-se dois objectos que legava ao seu sucessor. O
primeiro faiscava sobre o veludo escuro de uma pequena caixa de madeira.
Era a placa cravejada de diamantes de grande mestre da ordem da Estrela
das Índias, o emblema das suas novas funções que Mountbatten poria ao
pescoço dentro de quarenta e oito horas por ocasião da cerimónia da
entronização.
O outro objecto era um dossier com o título «Operação Casa de Loucos».
Continha a única solução que aquele eminente soldado podia propor para
libertar a Inglaterra do dilema indiano. Wavell colocou-o em cima da
secretária, com um suspiro.
— Este documento chama-se assim porque se trata realmente de um problema
de loucos. Não vejo infelizmente outra forma de sair dele.
O documento previa a evacuação britânica das Índias província por
província, as mulheres e as crianças primeiro, depois os civis e
finalmente o exército, em resumo, uma retirada total dos ingleses que,
segundo todas as probabilidades deixariam o país no caos.
— É um desfecho trágico, concluiu Wavell, mas é o único que posso prever.
Pegou no dossier e estendeu-o a Mountbatten que estava estupefacto.
— Estou verdadeiramente, verdadeiramente desolado: mas é tudo quanto
tenho para lhe deixar.
Durante esta lúgubre iniciação do novo vice-rei nas suas funções, no
andar superior, a esposa inaugurava as suas de maneira mais cómica. Tendo
à chegada aos seus aposentos, pedido alguns restos de comida para Mizzen
e Jib, os dois cães sealyhams que trouxeram de Inglaterra, viu com
surpresa dois criados de turbante entrarem com passo solene no quarto.
Trazia cada um numa bandeja de prata um pires de porcelana com carne de
frango recentemente cozinhada. Em Inglaterra, cheia de austeridade,
semelhantes vitualhas eram de um luxo raro. Pousou os olhos nos cães que
saltavam de alegria, depois nos pires com o frango. A consciência
impedia-a de proporcionar semelhante festim a simples animais.
— Dêem-me isso, ordenou ela.
Apoderando-se dos dois pires, foi fechar-se na casa de banho. Ali,
sentada na beira da banheira, a que ia, na sua qualidade imperial de
vice-rainha das Índias, oferecer hospitalidade grandiosa a mais de
quarenta mil convivas, devorou com apetite o frango destinado aos cães.
Ia começar o último capítulo de uma grande história. Naquela manhã de 24
de Março de 1947, Luís Mountbatten ia subir ao seu trono de ouro e
púrpura. Seria o vigésimo e último representante de uma prestigiosa
linhagem de administradores e conquistadores.
A consagração oficial realizar-se-ia na grande sala do trono de um
palácio cujas dimensões só podem comparar-se às de Versailles ou do
Kremlim dos tsars.

74
Colossal, majestosa, a morada do vice-rei das Índias era o último
monumento que o mundo teria construído para uso apenas de um homem. A
Índia das multidões famintas era o único país que podia ter edificado e
mantido, em pleno século XX, um palácio semelhante.
As fachadas eram cobertas de pedras vermelhas e brancas que tinham
servido para a construção dos edifícios mongóis de que este era sucessor.
Mármore branco, amarelo, verde e negro, extraído das mesmas pedreiras que
haviam fornecido os mosaicos brilhantes do Taj Mahal, ornamentava as
paredes e o chão. Os corredores eram tão compridos que os criados usavam
bicicletas para se deslocarem nas caves.
Centenas de criados faziam nessa manhã reluzir os mármores, as madeiras,
os cobres dos trinta e sete salões e das trezentas e quarenta divisões.
Fora, no ambiente requintado dos jardins mongóis, quatrocentos e dezoito
jardineiros, mais do que Luís XIV alguma vez empregara em Versailles,
atarefavam-se a dar o último retoque no admirável alinhamento dos maciços
de flores, das pérgulas e dos lagos. Cinquenta deles tinham como única
função espantar os pássaros. Com as pontas dos turbantes escarlates e
dourados flutuando ao vento, as túnicas brancas já ornamentadas com o
brasão do visconde Mountbatten da Birmânia, mensageiros cruzavam-se nos
corredores. Jardineiros, camareiros, cozinheiros, estribeiros, guardas,
toda a criadagem desta fortaleza feudal perdida nos tempos modernos
preparava febrilmente a entronização do último vice-rei das Índias.
Num apartamento particular do primeiro piso, um criado contemplava o
grande uniforme de almirante que o patrão ia usar naquele dia. Charles
Smith não tinha nascido no Panjab ou no Rajasthan, era filho de um
agricultor de uma pequena aldeia do sul de Inglaterra.
Com aquele meticuloso cuidado nos pormenores, que adquirira em vinte e
cinco anos de serviço junto de Mountbatten, Smith estendeu sobre a farda
a banda de seda azul da confraria mais restrita do mundo, a ordem Mui
Nobre da Jarreteira. Depois enfiou na platina do ombro direito as
palhetas de ouro indicando que o portador daquele uniforme gozava do
insigne privilégio de ser ajudante de campo pessoal do rei Jorge VI.
Charles Smith retirou por fim os alfinetes de medalhas do patrão e as
quatro prestigiosas estrelas. Limpou-as respeitosamente com um pano, e
admirou o brilho das medalhas da ordem da Jarreteira, de grão-mestre da
ordem da Estrela das Índias, de grão mestre da ordem do Império das
Índias e da Grã-cruz da ordem de Victória.
Estas condecorações marcavam as grandes etapas da carreira de Luís
Mountbatten, tanto como as de Charles Smith. Desde que se tornara seu
terceiro criado com a idade de dezoito anos, Smith passara a ser a sombra
do homem que servia. Nas aristocráticas moradias de Inglaterra, nas bases
navais do Império, nas capitais da Europa, as alegrias do patrão tinham
sido as suas, tal como compartilhara as suas vitórias e desgostos. No
decurso dos anos loucos 20, fora ele quem preparara sempre os seus
calções da Etiópia por Mussolini.

75
Edwina recusou-se a evacuar Malta com as famílias dos colegas britânicos
do marido e tornou-se a voz da ilha nas antenas da rádio local. A crise
de Munique completou a mudança: a turbulenta herdeira entregou-se de
repente de corpo e alma à acção política e social. Durante a guerra, com
uma energia e dedicação sem tréguas, dirigiu as sessenta mil enfermeiras
da St. John Ambulance Brigade, a mais importante organização britânica de
assistência aos feridos e doentes de guerra. Após a capitulação do Japão,
o marido encarregou-a de uma perigosa missão nos campos de prisioneiros
aliados; organizou ali os socorros e a evacuação dos casos mais
desesperados. Antes mesmo dos primeiros de Mountbatten terem posto pé na
península da Malásia, Edwina — tendo como única protecção uma carta do
marido, e por escolta uma secretária, um oficial e um ajudante de campo
indiano — meteu-se por uma parte da região controlada ainda inteiramente
pelos japoneses. Avançou até Balik-papan, Manila e Hong Kong, obrigando
em todo o lado os japoneses a fornecerem a alimentação e os medicamentos
necessários à sobrevivência dos seus prisioneiros até à chegada dos
aliados. Milhares de homens esgotados pela fome, pela doença, e sobretudo
pelos maus tratos, lhe devem a vida. Numerosas condecorações
recompensaram o sentido do dever e de abnegação incansável de que ela deu
provas durante toda a guerra.
Agora, em Nova Deli, ela era chamada a desempenhar ao lado do marido um
papel capital, tornando-se ao mesmo tempo a sua confidente, seu emissário
nos momentos críticos e sua embaixatriz junto das mulheres dos dirigentes
indianos com quem teria de negociar.
A semelhança de Lord Mountbatten, ela deixaria nas Índias a marca do seu
estilo e do seu carácter. A sua surpreendente capacidade de adaptação
permitir-lhe-ia receber, esplendorosa na sua tiara de diamantes, cem
convivas em redor de uma mesa coberta de baixelas, e patinhar algumas
horas mais tarde na lama de um campo de refugiados, vestida com um
simples uniforme de caqui, acariciando a cabeça de uma criança a morrer
com cólera. Dando sempre nestes momentos prova de uma verdadeira
compaixão que por vezes o vice-rei não sentia. Gratos à sua sinceridade,
os indianos dariam mais tarde prova do seu afecto a Edwina Mountbatten
como nunca o haviam feito por nenhuma outra inglesa.
«Que estranha consagração dos nossos destinos neste dia! pensava
Mountbatten admirando a esposa que avançava para ele. Menos de um
quilómetro os separava com efeito do sítio em que, vinte e cinco anos
antes ele pedira a Edwina para casar com ele. Fora no dia 14 de Fevereiro
de 1922, durante o baile oferecido pelo vice-rei das Índias em honra do
príncipe de Gales, ao começar a quinta valsa. A vice-rainha, marquesa de
Reading, não pareceu ficar muito satisfeita ao saber da notícia.

78
«Esperava, escreveu ela à tia do jovem noivo, que Edwina escolhesse
alguém destinado a um futuro mais brilhante.»
Mountbatten recordava hoje estas palavras. Incapaz de reprimir um
sorriso, deu o braço à esposa e levou-a até ao trono de ouro e púrpura
que pertencera à marquesa de Reading.
As Índias tinham sido sempre uma terra de aparato. Naquele dia 24 de
Março, a pompa vitoriana aliada à magnificência mogol conservava todo o
seu brilho. Perfilados junto da escadaria monumental que levava ao Durbar
Hall, a sala do trono situada no coração do palácio, destacamentos do
Exército das Índias, da marinha e da aviação prestavam as honras. As
lanças cintilavam ao sol da manhã, os cavaleiros da guarda do vice-rei
fardados de vermelho e ouro, calções brancos e botas pretas, formavam uma
fila, de honra até à entrada.
No interior, sob o zimbório de mármore branco, toda a elite das Índias
esperava: os juízes do Tribunal supremo com togas pretas e cabeleiras
encaracoladas, tão britânicos como as leis que defendiam; os altos
funcionários do Indian Civil Service, procônsules do império, cuja
palidez anglo-saxónica contrastava com os perfis escuros dos seus jovens
colegas indianos; uma delegação de marajás reluzentes de cetins e de
jóias; e sobretudo, Jawaharlal Nehru com os companheiros do partido do
Congresso, todos com a famosa calote branca na cabeça, insígnia da
aliança dos combatentes pela independência.
Quando o cortejo penetrou na sala, quatro trombetas escondidas em nichos
por baixo da cúpula atacaram suavemente uma marcha. Assim que o novo
vice-rei e a esposa atravessaram a enorme porta, trombetas e luzes
explodiram triunfalmente sob as abóbadas.
Luís e Edwina Mountbatten dirigiram-se lentamente para os respectivos
tronos. A medida que se aproximavam, Mountbatten sentia-se dominado pela
mesma tensão que sentira outrora na ponte do Kelly e nos momentos que
precediam o combate. Dando aos seus gestos toda a majestade que requeria
a solenidade da ocasião, o vice-rei e a vice-rainha pararam em frente dos
tronos sobrepujados por um dossel de veludo carmesim.
O presidente do Tribunal supremo avançou e Mountbatten pronunciou, com a
mão erguida, o juramento que o tornava o novo vice-rei das Índias. Quando
acabou de dizer as palavras rituais, o estrondo dos canhões da Royal
Horse Artillery alinhados no pátio ecoou através da sala. No mesmo
instante, de um extremo ao outro das Índias, outros canhões associaram-se
às trinta e uma salvas da investidura triunfal. Sob as muralhas do forte
de Landi Kotal, porta da passagem de Khyber e do forte William de
Calcutá, de onde a Inglaterra partira sem querer à conquista da
península; sob as paredes da residência de Lucknow, onde havia quase um
século a bandeira britânica nunca era arriada em memória do sacrifício
dos ingleses caídos durante a revolta sangrenta de 1857;

79
no cabo Samorim cujos recifes tinham visto passar os galeões de Isabel I;
em frente do forte Saint George de Madras onde o acto de compra da
primeira concessão territorial da Companhia das Índias estava gravada
numa placa de ouro; em Poona, em Peshawar e em Simla, em todos os pontos
da Índia onde havia uma guarnição, as tropas alinhadas em parada
apresentaram armas. Atiradores das forças da fronteira, lanceiros dos
regimentos de cavalaria, cipaios sikhs e drogas, jats e patans, madrassis
e mercenários gurkhas, todos suspenderam o fôlego enquanto os canhões
faziam ouvir as últimas salvas do Império e as fanfarras tocavam o God
Save The King.
Mountbatten avançou então para a assembleia de altas personalidades
reunida na sua frente. «Não tenho ilusões acerca da dificuldade da minha
tarefa, declarou. Preciso da boa vontade de todos e peço à Índia que me
demonstre a partir de hoje essa boa vontade. Evitem qualquer palavra ou
atitude que possa ir aumentar o número de vítimas inocentes».
Os guardas abriram então os batentes da pesada porta de teca de Assam e
Mountbatten viu diante de si a perspectiva real dos lagos e canteiros que
se perdiam ao longe no centro de Nova Deli. De novo, as trombetas soaram.
O jovem almirante sentou-se invadido por uma vaga de confiança. Sabia que
esta breve cerimónia o tornava um dos homens mais poderosos do mundo.
Tinha agora um poder quase absoluto de vida ou de morte sobre mais de
quatrocentos milhões de homens, ou seja um quinto da humanidade.
Dentro de menos de uma hora, o novo vice-rei das Índias instalava-se à
sua mesa de trabalho, sobre a qual um ajudante de escritório veio
imediatamente pôr um cofre de coiro verde. Mountbatten abriu-o e tirou
dele um documento. Era a confirmação brutal dos seus pensamentos: o
recurso de perdão de um condenado à morte. Mountbatten leu atentamente a
última súplica de um homem que matara selvaticamente a mulher perante um
grupo de testemunhas. Aquele caso tinha sido tão bem passado à fieira de
todos os apelos previstos pela lei, que nenhuma circunstância atenuante
podia ser invocada. O vice-rei hesitou durante um bocado, pegou na caneta
e cumpriu o primeiro acto oficial do seu reinado. «Não existe nenhum
motivo para o exercício real do direito de perdão», escreveu ele na capa
do documento.
Antes de fazer aceitar as suas vontades aos chefes políticos das Índias,
Luís Mountbatten considerou que devia começar por se impor a si próprio à
Índia. O último vice-rei talvez regressasse a Inglaterra «com o corpo
crivado de balas», mas antes que isso acontecesse, ele não seria como
nenhum dos seus antecessores. Estava fortemente convencido de que «era
impossível ocupar o trono das Índias sem dar um grande espectáculo».

80
Fora enviado a Nova Deli para pôr termo ao domínio inglês, mas resolvera
transformar esse crepúsculo numa auréola de ouro e púrpura, e ressuscitar
num último fogo-de-artifício os faustos do império.
Mandou restabelecer todo o protocolo imperial posto de parte durante a
guerra, as soberbas rendições da guarda a cavalo à porta do palácio, as
fardas agaloadas dos ajudantes de campo, as paradas militares, todo o
cerimonial cuja ostentação lhe dava enorme prazer. Visava com isto um
objectivo mais ambicioso do que a satisfação dos seus gostos. Construir
em volta da sua pessoa um esplendoroso ambiente de poder e de glória
facilitaria a execução dos seus desígnios políticos. Ia substituir a
operação «Casa de loucos» pela operação «Sedução», destinada a
impressionar as multidões indianas tanto como os seus chefes. O programa
era uma hábil mistura de pompa patrícia e gestos populares, velhos
espectáculos de ontem e novas iniciativas que fizessem prever a Índia do
futuro.
Foi com algumas pinceladas que Mountbatten começou a sua revolução. Com
indignação dos seus colaboradores, ordenou que as escuras madeiras
preciosas do seu gabinete, onde tantas negociações tinham falhado, fossem
imediatamente pintadas com uma camada brilhante de tinta verde. Esta
medida tinha por fim pôr os interlocutores na mais jovial das
disposições. Depois transtornou a rotina do palácio, transformando-o num
quartel-general quase militar, fervente de actividade. Todos os dias
começavam com uma conferência de trabalho, em breve chamada «a oração da
manhã».
Mountbatten surpreendia os seus colaboradores pela vivacidade do seu
raciocínio, a faculdade de chegar imediatamente ao âmago dos problemas e,
sobretudo, pelas suas extraordinárias faculdades de trabalho. Não
querendo perder tempo a abrir e fechar coisas, suprimiu o vaivém
tradicional dos chaprassi que traziam os dossiers do Estado dentro de
cofres de coiro aferrolhados. Como se recusava igualmente a anotar
dossiers na solidão do seu gabinete, estabeleceu um diálogo permanente
com os seus colaboradores. «Quando se escrevia à margem de um documento
que devia ser lido por Mountbatten: «Posso falar-lhe?» conta um deles,
podia ter-se a certeza de ser convocado e devia estar-se a todo o momento
para dizer o que havia a dizer, porque ele podia muito bem chamar-nos às
duas horas da manhã.»
Mas a transformação essencial era a imagem pública de si próprio e da sua
missão que ele queria dar à Índia. Havia mais de um século o vice-rei,
prisioneiro dos esplendores protocolares do seu cargo, tornara-se um dos
deuses mais inacessíveis do panteão asiático. Duas tentativas de
assassínio tinham-no encerrado numa rede de polícias que o isolavam de
todo o contacto com as massas indígenas sobre que reinava. Sempre que o
seu comboio branco e doirado atravessava as imensidades indianas, havia
sentinelas de cem em cem metros sobre todo o seu itinerário. Centenas de
guardas de corpo, polícias, inspectores, protegiam o menor dos seus actos
e dos seus gestos. Se jogava o golfe, o campo era evacuado e ficavam
polícias emboscados por detrás das árvores do percurso.

81
Se passeava a cavalo, um esquadrão da sua guarda lançava-se atrás dele.
Mountbatten estava resolvido a acabar com todas estas precauções. Se
tencionava vestir-se de toda a grandeza imperial, era apenas para se
aproximar mais das massas. Anunciou portanto que ele, a mulher e as
filhas dariam a partir de agora o seu passeio da manhã a cavalo sem
escolta. Esta notícia espalhou o pânico nos serviços de segurança. Mas
ele não desistiu, e os camponeses indianos foram testemunhas de um
espectáculo tão incrível que o julgaram uma miragem: o vice-rei e a vice-
rainha das Índias passando na sua frente a trote, e saudando-os
graciosamente, sozinhos e sem protecção.
Os Mountbatten tiveram uma atitude ainda mais espectacular. Fizeram o que
nenhum representante do rei-imperador se dignara fazer em cem anos:
visitaram um indiano que não pertencia à pequena casta privilegiada dos
marajás e dos nawabs. Com espanto de todo o país, Luís Mountbatten e a
esposa apareceram uma noite entre os convidados recebidos por Jawaharal
Nehru na sua modesta residência de Nova Deli. Sob os olhares
estupefactos, o inglês deu amigavelmente o braço ao seu anfitrião e
passeou assim por entre a assistência, conversando familiarmente com
todos, apertando a mão a uns e a outros. Esta atitude teve enorme
repercussão. «O Senhor seja louvado, suspirou Nehru, temos finalmente
como vice-rei um ser humano em vez de um uniforme empalhado.»
Preocupado igualmente em testemunhar ao povo a nova estima que lhes
trazia, Mountbatten concedeu aos militares indianos — cerca de dois
milhões dos quais tinham servido sob as suas ordens na guerra do Sudeste
asiático — uma honra que lhes era devida havia muito tempo. Nomeou para
junto de si três ajudantes de campo indianos. Depois foram as próprias
portas do palácio que ele abriu àqueles que a Inglaterra governara do
alto de um pedestal. Decretou que não poderia ser dada qualquer recepção
no seu palácio sem a presença de convidados indianos. Não apenas alguns
figurantes, explicou ele. Pelo menos metade das pessoas convidadas devia
ser a partir de agora constituída por indianos.
A esposa fez uma revolução ainda mais radical. Por consideração para com
as tradições alimentares dos seus convivas indianos, mandou preparar uma
comida que um século de hospitalidade imperial nunca tolerara, cozinha
indiana vegetariana. Providenciou para que os acepipes fossem servidos,
segundo o costume, em pratos individuais, e para que um criado com uma
bacia, um jarro e um guardanapo ficasse por detrás de cada convidado.
Agora, podia comer-se com as mãos à mesa do vice-rei e lavar as mãos nos
vasos rituais.
Este desenrolar de atenções, maiores ou menores, a sincera afeição que os
Mountbatten revelavam ter pelo país onde o seu próprio romance de amor
começara, a convicção de que o novo vice-rei tinha vindo como libertador
e não como conquistador, o respeito que merecia dos homens que tinham
servido sob as suas ordens durante a guerra, todos estes factores iam
conjugar-se para dar a Luís e Edwina Mountbatten um prestígio
excepcional.

82
Pouco tempo após a sua chegada, o New York Times escrevia que «nenhum
vice-rei da História tinha conquistado tão completamente os corações,
ganho a confiança e o respeito do povo indiano». A operação «Sedução» ia
ter um êxito tão grande que o próprio Nehru afirmaria dentro de algumas
semanas com toda a seriedade ao novo vice-rei que ia ser cada vez mais
difícil negociar com ele porque «atraía multidões muito maiores do que
qualquer indiano vivo».
As notícias que Mountbatten recebia eram tão aterradoras que em princípio
ele duvidou da sua veracidade. Em comparação com elas, o dramático quadro
da situação indiana que lhe esboçara Clement Attlee três meses antes em
Londres pareceu-lhe a pintura de uma paisagem pastoril. E todavia, o
homem que lhe falava no silêncio do seu gabinete era um dos mais altos
funcionários do país, um inglês cujo conhecimento das Índias era
considerado em Nova Deli sem semelhante. George Abell pertencia havia
trinta e cinco anos às fileiras do famoso Indian Civil Service; fora o
colaborador mais próximo do vice-rei anterior.
As Índias, declarou Abell, estavam fatalmente a ponto de serem destruídas
numa guerra civil. Só uma solução rápida dos seus problemas podia salvar
o país. A grande pirâmide administrativa que o movia estava a ponto de
derrocar. A penúria dos administradores britânicos a cujo recrutamento a
guerra pusera fim, o antagonismo crescente que opunha os quadros
muçulmanos e hindus levavam directamente ao caos. A época dos
subterfúgios estava ultrapassada.
Vindo de um homem com o renome de Abell, este aviso não podia deixar de
alarmar o novo vice-rei. Não era todavia mais do que o prelúdio da
torrente de informações com que iria lutar nos dez primeiros dias da sua
missão nas Índias. Aquele que escolhera para director do seu gabinete, o
general Lord Ismay, antigo chefe do estado-maior particular de Churchill
de 1940 a 1945, antigo oficial do Exército das Índias e secretário de um
vice-rei anterior, concluía a sua análise por estas palavras: «A Índia é
um navio que arde em pleno oceano, com os porões acumulados de munições».
A única questão era saber se poderia extinguir-se o incêndio antes dele
atingir as munições.
O primeiro relatório que Mountbatten recebeu do governador britânico do
Panjab confirmava a insegurança que reinava já em toda a província. Um
parágrafo acessório do despacho ilustrava tragicamente esta afirmação.
Contava o drama que acabava de se desenrolar num distrito rural perto de
Rawalpindi. Tendo-se perdido o seu búfalo no campo de um vizinho sikh, um
camponês muçulmano quis ir procurá-lo.

83
Houve uma zaragata, depois um motim. Duas horas mais tarde, cem pessoas
jaziam no campo, massacradas a golpe de foices e de sabres.
No dia seguinte à investidura do novo vice-rei, incidentes entre hindus e
muçulmanos causaram noventa e nove mortos nas ruas de Calcutá. Dois dias
mais tarde, quarenta e um corpos horrivelmente mutilados jaziam nas ruas
de Bombaim.
Informado destas brutais explosões de violência, Mountbatten convocou o
chefe da polícia e perguntou-lhe se as suas forças estavam à altura de
garantir a manutenção da ordem.
— Não, Excelência, respondeu prontamente o polícia, são completamente
incapazes de o fazer.
Mountbatten fez a mesma pergunta ao comandante chefe do Exército das
Índias, marechal Sir Claude Auchinleck. Recebeu a mesma resposta.
A guerra fratricida de que estes dois confrontos eram apenas o prelúdio
nunca tinha posto em perigo vidas inglesas. Mas a tragédia que anunciava
era tal que Mountbatten se viu obrigado a tomar, dez dias após a sua
chegada, a decisão talvez mais importante do seu mandato. A data de Junho
de 1948, fixada em Londres para a concessão da independência, era
singularmente optimista. Qualquer que fosse a maneira como seria posto
fim ao reinado da Grã-Bretanha nas Índias, era nas semanas mais próximas
e não dentro de vários meses que teria de ser conseguida.
«A situação aqui, escreveu ele no dia 2 de Abril de 1947 no seu primeiro
relatório a Clement Attlee, é o mais sombria possível... Não vislumbro
senão uma fraca possibilidade de poder conseguir uma solução negociada
sobre a qual construir o futuro das Índias».
Depois de descrever o estado de extrema instabilidade em que encontrara o
país, Mountbatten lançou um grito de alarme ao governo que o mandara às
Índias. «Se eu não agir rapidamente, vai cair-me em cima uma guerra
civil».

84
Capítulo quinto

«SEREMOS PURIFICADOS PELAS CHAMAS»

Os dois homens encontravam-se sozinhos na sala. Nem sequer havia um


secretário para tomar notas. Convencido de que só uma solução rápida
podia evitar a catástrofe, Mountbatten adoptara uma táctica de
negociações revolucionária: o destino da Índia não seria debatido em
volta de uma mesa de conferências, mas na intimidade de conversas
particulares. A entrevista que decorria no escritório recentemente
pintado do vice-rei iniciava uma longa série delas. Destas discussões a
dois dependeria que o horror da guerra civil, anunciada no primeiro
relatório enviado por Mountbatten a Londres, fosse poupado à Índia.
Apenas quatro interlocutores participariam nestas entrevistas sucessivas,
o vice-rei e os três principais líderes indianos.
Estes últimos tinham passado a maior parte da vida a conspirar contra a
Inglaterra sem para isso se entenderem entre eles. Estavam todos com mais
de cinquenta anos. Eram todos advogados formados em Londres; •tinham ali
aprendido as regras da retórica. Para eles, estes encontros eram o grande
debate final da sua vida; de certo modo, todos se tinham preparado para
isso durante um quarto de século.
Para Mountbatten, o que contava acima de tudo era salvaguardar o mais
possível a enorme herança que a Grã-Bretanha pudesse deixar no mundo: a
unidade das Índias. Acalentava um desejo profundo, quase evangélico, de o
conseguir. A reivindicação dos muçulmanos, a divisão do país, só podia
dar origem a uma tragédia. A reivindicação dos muçulmanos, a divisão do
país, só podia dar origem a uma tragédia.
Foi por isso que, renunciando às conferências oficiais que só tinham
conduzido a tantos insucessos, preferira enfrentar os adversários um a um
na solidão do seu gabinete. Confiante no seu poder de persuasão, seguro
da justeza do seu pensamento, ia tentar conseguir em algumas semanas
aquilo em que os seus antecessores tinham falhado durante anos, pondo
termo à dominação da Inglaterra sem provocar o desmembramento das Índias.
Com a pequena calote branca do Congresso sobre um princípio de calva, uma
rosa acabada de apanhar metida na terceira casa do colete, o primeiro
indiano a entrar no escritório de Mountbatten era uma das personalidades
dominantes da cena política indiana. Um rosto sensível, cujas expressões
sempre irrequietas não cessavam de reflectir os humores e as emoções, com
qualquer coisa de felino e de sensual na atitude, os olhos de uma doçura
angélica, iluminados de vez em quando pela chama de uma paixão diabólica,
Jawaharlal Nehru era, aos cinquenta e oito anos, uma personalidade de
estatura tão imponente como Mountbatten.

85
Os dois homens já se conheciam. Tinham-se encontrado a seguir à guerra em
Singapura, onde o jovem almirante acabava de instalar o seu quartel-
general de comandante supremo. Desprezando a recomendação dos
companheiros para que não tivesse quaisquer relações com um homem que
acabava de sair de uma prisão britânica, Mountbatten não hesitara em
receber o líder indiano.
Simpatizaram imediatamente um com o outro. Nehru descobria junto de
Mountbatten e da esposa a Inglaterra acolhedora e liberal da sua
juventude de estudante cuja recordação os anos passados nos cárceres
britânicos haviam apagado. Os Mountbatten, esses, tinham ficado seduzidos
pelo encanto do indiano, pela sua cultura, talento e sentido de humor.
Desafiando mais uma vez a reprovação dos seus colaboradores, Mountbatten
decidira então atravessar Singapura no seu carro descoberto ao lado de
Nehru, atitude que, na opinião dos seus conselheiros, só podia honrar um
adversário da Inglaterra.
«Honrá-lo, a ele? exclamara Mountbatten com ardor. É ele quem me honra a
mim. Este homem será um dia primeiro-ministro da Índia independente!»
A profecia tinha-se agora quase realizado. Era na qualidade de primeiro-
ministro de uma Índia ainda sob a tutela britânica que Nehru devia o
facto de ser o primeiro dos três líderes indianos a ser recebido pelo
vice-rei.

Perfil do homem da rosa

A entrevista que se iniciava era para Jawahrlal Nehru apenas mais um


episódio do diálogo que mantivera durante quase toda a sua vida com os
colonizadores do seu país. Nehru fora o hóspede querido das maiores
famílias da Inglaterra, jantara na baixela de prata dourada do palácio de
Buckingham mas também nas gamelas de lata das prisões britânicas. Tivera
por interlocutores mestres de Cambridge, primeiros-ministros, vice-reis,
o próprio rei-imperador e os carcereiros.
Nascido numa família de brâmanes de Cachemira, descendente de uma
aristocracia oriental do Conhecimento, tão antiga e nobre como aquela a
que pertencia o novo vice-rei das Índias, Jawahrlal Nehru fora mandado
com dezasseis anos para Inglaterra a fim de completar a sua educação.
Tinha ali vivido sete anos de felicidade aprendendo as declinações
latinas e as subtilezas do críquete em Harrow, apaixonando-se pelas
ciências, por Nietzche e Oscar Wilde em Cambridge, admirado a eloquência
de Blackstone nos bancos da faculdade de direito em Oxford. O seu encanto
calmo, a sua elegância natural, a sua vasta cultura, atraíam as simpatias
onde quer que aparecesse.

86
Movia-se com à vontade nos salões da alta sociedade onde absorvia os
valores e hábitos que faziam a força desta. A sua estadia em Inglaterra
transformou-o tão completamente que no regresso a Allahabad em 1912, a
família e os amigos o acharam completamente «desindianisado».
Mas o jovem Nehru depressa teve consciência dos limites dessa «de-
sindianisação». Quando quis inscrever-se no clube britânico local, a sua
candidatura foi rejeitada. Embora tivesse feito os seus estudos em Harrow
e Cambridge, para os membros ultra burgueses, ultra brancos e ultra
britânicos do clube de Allahabad não deixava de ser um «black Indian».
A amargura causada por esta recusa dominou-o durante muito tempo e
provocou o seu desejo de seguir o pai Motilal no serviço da causa que
iria tornar-se a obra de sua vida: a luta pela independência. Depressa se
alistou nas fileiras do partido do Congresso. A agitação política que ali
conduziu valeu-lhe o privilégio de receber o melhor que o Império
britânico concedia então, o das suas prisões. Esteve nove anos preso. Na
solidão das celas, durante os passeios com os companheiros de cativeiro,
Nehru criou a sua visão da Índia de amanhã. Idealista, sonhava conciliar
no solo indiano dois regimes políticos aparentemente irreconciliáveis: a
democracia parlamentar da Grã-Bretanha e o socialismo económico de Karl
Marx. Queria uma Índia unificada, liberta da sua miséria e dos seus
mitos, livre do capitalismo, uma Índia onde as chaminés das fábricas
fossem testemunho de uma revolução industrial que os colonizadores lhe
negavam.
À primeira vista, Jawarlal Nehru era o homem menos apto a encaminhar a
Índia para esse sonho. Por baixo do khadi de algodão que usava por
deferência para com Gandhi, continuava a ser um gentleman. Numa terra
povoada por místicos, ele continuava a ser um racionalista. Aquele que a
educação científica de Cambridge tinha entusiasmado, consternava-se a
cada passo com os hábitos dos seus compatriotas que se recusavam a sair
de casa nos dias marcados de mau agoiro pelos astrólogos. No país mais
espiritualista do universo, ele era um agnóstico. Proclamava o horror que
lhe inspirava só ouvir a palavra religião. Desprezava os sacerdotes da
Índia, os seus sadhu, os seus yoguis, os seus sábios, brâmanes e cheiks,
responsáveis segundo ele pela estagnação, pelas divergências e pela
sujeição aos colonizadores estrangeiros.
Todavia, a Índia dos sadhu e das multidões minadas de superstições,
aceitara Nehru. Durante trinta anos, percorreu-a toda falando às massas.
Agarrada aos estribos dos carros eléctricos ou atravessando os campos a
pé e em carro de bois, a população dos bairros da lata e dos campos
acorria às centenas de milhar. Muitos eram os que não compreendiam uma
palavra dos seus discursos nem o seu sentido. Bastava-lhes vê-lo entre o
mar de cabeças. Era para eles o darsan, a comunhão tradicional espiritual
que se estabelece por meio dos olhos entre um grande sábio e os seus
fiéis. E iam-se embora plenamente satisfeitos.
Nehru usava da eloquência e da pena com a mesma facilidade, escolhendo as
palavras com a paixão de ourives pelas suas lojas.

87
Consagrado muito cedo por Gandhi, subira os escalões do partido do
Congresso até ser nomeado três vezes seu presidente. O Mahatma dava
claramente a entender que o facho da sua luta lhe passaria um dia para as
mãos.
Para Nehru, Gandhi era um génio. Embora se tivesse sempre oposto por
racionalismo às grandes iniciativas do Mahatma — a desobediência civil, a
Marcha do sal, a campanha de «Saiam da Índia» —, seguira-o sempre por
amizade e, conforme constatou mais tarde, tivera razão.
Gandhi fora, até certo ponto, o guru de Nehru. Fora ele quem o «rein-
dianisara», mandando-o às aldeias para conhecer o verdadeiro rosto da sua
pátria, a fim de permitir à sua alma embeber-se nos sofrimentos da Índia.
Quando os dois homens se encontravam, Nehru precipitava-se aos pés de
«Bapuji» para o ouvir, para conversar, ou simplesmente meditar. Eram para
ele sementes de intensa espiritualidade em que o seu coração de ateu
sentia o sopro da fé.
Mas tudo os separava, antes de mais nada a religião. Nehru odiava todas
as manifestações religiosas; a própria essência de Gandhi era a sua fé
inabalável em Deus. Nehru, cujo carácter agitado era a antítese da não--
violência, cultivava a literatura, a ciência, a técnica; Gandhi
considerava estas «feiticeiras» responsáveis por todas as desgraças da
humanidade.
Relações de pai e filho — com tudo o que tais laços implicam de tensão,
impulsos e inibições — estabeleceram-se entre eles. Durante toda a vida,
Nehru sentira a necessidade de se apoiar em alguém, de sentir junto de si
uma presença tranquilizadora a quem recorrer nos momentos de crise a que
o condenava a sua ardente personalidade. O pai, um jovial advogado com
bastante tendência para o bom whisky e para o vinho de Bordéus, ocupara
em princípio esse lugar. Semelhante papel pertencia agora a Gandhi.
Todavia, para além desta veneração, as suas relações começavam a sofrer
uma ligeira mudança. O filho estava prestes a abandonar a casa paterna
para entrar no mundo novo que adivinhava lá fora. Nesse mundo, precisaria
de outro guru, mais permeável aos problemas que o esperavam. Sem ter
plena consciência disso, abria-se lentamente um vazio no espírito de
Jawahrlal Nehru.
O mundo e a vida de ambos tinham mudado desde que Nehru e Mountbatten se
haviam encontrado a primeira vez, mas ao mesmo tempo, nasceu entre eles
mútua simpatia. Não havia no facto nada de surpreendente. Tudo aproximava
o herdeiro de uma linhagem três vezes milenária de brâmanes de Cachemir e
o homem que se orgulhava de descender da mais antiga família protestante
reinante. Ambos sentiam verdadeiro prazer em conversar um com o outro.

88
Nehru, o pensador abstracto, admirava o dinamismo prático de Mountbatten
e aquela capacidade de decisão que lhe tinham merecido as suas altas
responsabilidades durante a guerra. Por seu turno, Mountbatten sentia-se
estimulado pela cultura de Nehru e a agudeza do seu pensamento. Iria
depressa compreender que o único político indiano capaz de compartilhar o
seu desejo de manter as relações entre a Inglaterra e a nova Índia era
Jawahrlal Nehru.
O jovem almirante abordou o objectivo daquele encontro com a franqueza
habitual. Declarou que a sua principal preocupação era transgredir as
regras da soberania da Grã-Bretanha, mas sim evitar o mar de sangue que
poderia provocar semelhante mudança.
Entenderam-se depressa em dois pontos essenciais: uma decisão rápida era
capital; a partilha das Índias seria uma tragédia.
Nehru evocou a cruzada do velho profeta que prosseguia na sua
peregrinação solitária através das aldeias devastadas do Bihar. «Gandhi
está enganado, tenta curar o corpo da Índia aplicando-lhe um pouco de
bálsamo nas chagas em vez de procurar diagnosticar as causas da doença e
tratar todo o corpo».
Revelando-lhe esta lacuna entre o libertador da Índia e os seus
companheiros mais próximos, Nehru dava ao vice-rei uma indicação capital
que ia orientar toda a sua política. Sabia que, se não conseguisse
convencer os líderes indianos a manterem a unidade do país, a única
possibilidade que lhe restava era conseguir o seu acordo acerca da
partilha. A hostilidade de Gandhi a esta solução podia bloquear
irremediavelmente a situação, mas vislumbrava-se uma nova saída: o
Congresso podia não fazer caso da vontade do seu velho chefe. Era o que
Nehru acabava de dar a entender a Mountbatten e a este pareceu-lhe que
ninguém a não ser Nehru teria bastante peso para levar o Congresso a
romper com Gandhi.
Aliás, esta rotura não estava já esboçada? Ouvindo Nehru, o vice-rei
prometeu a si próprio que a partir de agora toda a sua política devia
tender para alargar o fosso, o que só seria possível com o apoio
incondicional do líder indiano. Mountbatten estava decidido a não se
poupar a esforços para o tornar seu aliado. Isso ia-lhe ser tanto mais
fácil porquanto a amizade profunda não tardou a ligar o homem da rosa a
Luís e Edwina Mountbatten.
Ao acompanhar Jawahrlal Nehru até à porta do palácio Mountbatten
declarou-lhe: «Senhor Nehru, peço-lhe que não me considere o último vice-
rei que vem pôr termo ao Império britânico das Índias, mas como o
primeiro vice-rei que vem abrir o caminho a uma Índia nova.» «Nehru
voltou-se para o jovem almirante. «Ah, sorriu ele, agora compreendo o que
queriam dizer quando lhe atribuíam um encanto tão perigoso.»
Uma vez mais, aquele a quem Churchill alcunhara de «faquir seminu» tomara
lugar no escritório de um vice-rei das Índias com vista a «parlamentar e
negociar de igual para igual com o representante do rei-imperador».

89
«Ele parece antes um passarinho, pensou Luís Mountbatten ao contemplar a
célebre figura sentada na sua frente, um pobre pardal encolhido no
cadeirão.»
Faziam um estranho contraste. Um almirante de sangue real que gostava de
vestir belos uniformes e um velho indiano que recusava tapar a sua nudez
com outra coisa além de um quadrado de algodão cru; um inglês atlético
transbordante de energia e um homenzinho calmo e mirrado; um chefe de
guerra que se aventurava a arriscar a vida de três milhões de soldados
para a conquista de Rangun e um profeta da não-violência que tremia à
ideia de matar uma mosca; um aristocrata bafejado pela sorte, e um velho
que se apaixonara pela libertação das massas mais miseráveis do globo.
Mountbatten, perito das telecomunicações, não tinha cessado de
aperfeiçoar por meio de alguma nova técnica electrónica a rede subtil que
o ligava através das ondas aos milhões de homens sob o seu comando.
Gandhi, frágil messias, desprezava a ciência e não tinha precisado dela
para transmitir a sua mensagem a todo um continente, o que o tornava um
dos maiores génios da comunicação de todos os tempos.
Tudo, no seu passado, no seu presente, parecia condenar os dois homens, a
não se entenderem. Contudo, nos meses próximos, o calmo Gandhi ia, no
dizer dos seus íntimos, descobrir na alma do guerreiro profissional «o
eco de alguns dos valores morais que ardiam no seu próprio coração». Por
sua vez, Mountbatten acabaria por simpatizar tão profundamente com ele,
que após a morte de Gandhi, iria declarar que o Mahatma iria ocupar na
História «o mesmo lugar que Buda ou Cristo».
O vice-rei dava tal importância a este primeiro encontro com Gandhi, que
mesmo antes da cerimónia da entronização lhe escrevera uma carta
convidando-o a visitá-lo. Gandhi redigiu a resposta e depois, pensando
melhor, pediu ao secretário que «esperasse dois dias para a meter no
correio. Não quero que esse jovem pense que estou morto por aceder ao seu
convite.»
O «jovem» adornara este convite com uma dessas deferências muito suas que
faziam embuchar os velhos ingleses das Índias. Oferecera a Gandhi mandar-
lhe o seu avião particular ao Bihar para o trazer a Deli. O Mahatma
declinou o oferecimento, preferindo viajar como de costume de comboio,
sentado no banco de madeira de uma carruagem de III classe.
Para sublinhar o interesse que tinha no êxito deste primeiro encontro e
dar uma dimensão especial de cordialidade à entrevista, o vice-rei pediu
à esposa para assistir. De súbito, um sentimento de inquietação apoderou-
se de Luís e Edwina Mountbatten. Teriam cometido qualquer falta?
Esquecido qualquer pormenor do protocolo?
Mountbatten lançou à esposa um olhar perplexo. «Meu Deus, que maneira
horrível de iniciar as nossas relações», pensou ele. Usando de toda a
delicadeza de que era capaz, acabou por perguntar ao seu visitante o
motivo da sua tristeza.

90
O homenzinho soltou um profundo suspiro. — Sabe, respondeu ele, desde a
minha estadia na África do Sul, renunciei aos bens deste mundo.
Acrescentou que não possuía praticamente nada: o seu Gitâ, os utensílios
de lata de que se servia para comer, relíquias herdadas das suas
passagens pela prisão de Yeravda; a pequena estatueta representando os
três macacos guru, e o relógio, o seu velho Ingersoll de oito xelins
amarrado à cintura por um cordão: quem quisesse dedicar cada minuto da
vida ao serviço de Deus, devia saber as horas.
— Mas, sabe o que me aconteceu? revelou ele. Roubaram-mo. Alguém me tirou
o relógio no comboio de Deli.
Mountbatten viu-lhe então lágrimas a brilhar nos olhos. Era essa a razão
do seu desgosto. Não a perda do relógio mas o facto de eles não terem
compreendido. Não era um relógio de oito xelins que lhe tinham roubado
nessa carruagem à cunha, mas um pouco da fé nos seus irmãos. (Nota 1)
Após um grande silêncio, Gandhi começou a falar dos males que esmagavam a
Índia; Mountbatten interrompeu-o com um gesto amigável.
— Senhor Gandhi, antes de me falar da Índia, fale-me de si. Gostaria de
saber quem o senhor é.
Estas palavras eram o resultado de uma táctica premeditada. O novo vice-
rei decidira estabelecer primeiro um contacto íntimo com os seus
interlocutores em vez de se deixar metralhar pelas suas exigências e
lamentações. Procurando pô-los à vontade, levando-os a confessarem-se,
esperava criar uma atmosfera de confiança que lhe permitiria depois agir
com eficácia.
A sua pergunta encantou o Mahatma. Adorava falar de si próprio, ainda por
cima com duas pessoas tão sedutoras, sinceramente interessadas no que ele
tinha a dizer. Começou uma narração das suas recordações da África do
Sul, contou a sua experiência como maqueiro durante a guerra dos Bóeres,
as campanhas de desobediência civil, a Marcha do sal. Explicou que o
Oriente tinha fecundado o Ocidente com as mensagens de Zoroastro, de
Buda, de Moisés, de Jesus, Maomé e Rama. Depois a mecânica invertera-se:
o Oriente sofrera durante séculos a hegemonia cultural do Ocidente.
Agora, apavorado com o espectro da bomba atómica, saturado de técnica, o
Ocidente precisava de se voltar de novo para o Oriente e beber nas suas
fontes. Tinha sede do amor e da compreensão fraternas que ele, Gandhi,
procurava espalhar.

Nota 1 - Seis meses mais tarde, em Setembro de 1947, quando Gandhi vivia
em Nova Deli em casa do industrial Birla, um desconhecido pediu para
falar com ele. Depois de negar identificar-se e dizer o motivo da visita
confessou ter roubado o relógio de Gandhi. Vinha devolvê-lo e pedir-lhe
perdão. «Perdoar-lhe? exclamou o secretário do Manahtman. Vai abraçá-lo!»
Levou o homem junto de Gandhi saltando de alegria como uma criança, ele
abraçou-o e chamou todos os presentes para lhes mostrar o relógio e
apresentar o filho pródigo que viera devolvê-lo.

91
Durante este primeiro encontro que se prolongou por duas horas, deu-se
uma cena banal e todavia extraordinária. O vice-rei ficou certo de que a
sua atitude tocara uma corda sensível do Mahatma.
Os Mountbatten levaram o seu hóspede aos jardins mongóis para satisfazer
a curiosidade dos fotógrafos. Gandhi tinha o costume de andar amparado
aos ombros das sobrinhas netas Manu e Abha que alcunhara afectuosamente
de suas «muletas». Na sua ausência, o revolucionário que dedicara a vida
à luta contra os ingleses, pôs espontaneamente a mão no ombro da última
vice-rainha das Índias, e amparando-se nela com tanta calma como se fosse
para a reunião de oração, voltou para o escritório de Lord Mountbatten.
Nova Deli sufocava com o primeiro vento tórrido da estação quente quando
Gandhi foi visitar o vice-rei pela segunda vez. Abrasados de sol, os
renques de laranjeiras dos jardins mongóis pareciam soltar faíscas. O
único oásis confortável no meio deste inferno era o gabinete de Luís
Mountbatten. O requinte que o levara a mandar pintar aquela sala tinha-
lhe aconselhado a equipá-la com o melhor sistema de climatização da
capital, que mantinha uma temperatura de vinte graus.
Esta comodidade quase provocou uma catástrofe. Passando bruscamente da
fornalha exterior para a frescura do escritório, Gandhi começou a tremer
de frio. Tomava contacto de maneira brutal com os benefícios da
civilização cujos progressos técnicos combatera. Assustado, o almirante
mandou desligar o aparelho e chamou o ajudante de campo, que avisou Lady
Mountabtten.
— Senhor, indignou-se Edwina, vai fazer com que o nosso amigo apanhe uma
pneumonia!
Abriu as janelas de par em par e foi correr ao quarto do marido buscar um
camisolão da Royal Navy que pôs sobre os ombros friorentos do Mahatma.
Para aquecer melhor o seu hóspede, mandou servir o chá na esplanada do
palácio.
Enquanto uma multidão de criados dispunha a sumptuosa baixela com as
armas do vice-rei gravadas, a jovem Manu, que desta vez acompanhara o
tio-avô, preparava a refeição frugal que trouxera — uma tijela de sumo de
limão, iogurte e algumas tâmaras. Gandhi comeu com uma colher cujo cabo
partido fora substituído por um bocado de bambu atado com um cordel. Só
os seus dois pratos de lata eram tão britânicos como os talheres de
Sheffield no tabuleiro do vice-rei. Tinha-os trazido consigo a última vez
que estivera preso.
Gandhi estendeu a sorrir o seu prato de iogurte a Mountbatten.
— É bom, disse ele com ar malicioso, devia provar.
O almirante examinou sem entusiasmo o caldo amarelado e grumoso.
— Parece-me que nunca comi disso, respondeu ele, na esperança de o
desencorajar.
— Não faz mal, insistiu Gandhi, há sempre uma primeira vez para tudo.
Experimente.

92
A sua cortesia natural aliada ao sentido do dever faz com que Mountbatten
aceitasse uma colherada.
Concitados os preliminares do seu segundo encontro com estes modestos
acepipes, o vice-rei embrenhou-se finalmente na engrenagem que
necessitara da parte dos seus antecessores uma dose pouco vulgar de
paciência e de coragem: negociar com Gandhi.
O Mahatma mostrara-se sempre um interlocutor difícil. Na sua opinião, a
verdade tinha dois aspectos: um, absoluto, transcendendo o mundo e do
qual o homem só podia ter intuições fugazes; o outro, relativo. E era
esta verdade relativa com que tinha de se lidar na vida de todos os dias.
Para explicar a diferença, Gandhi servia-se de uma parábola. Mergulhe a
mão esquerda, dizia ele, numa bacia de água gelada e depois numa de água
morna. A água morna parecer-lhe-á quente. Contudo, a temperatura não
mudou. A verdade absoluta era a temperatura real da água, mas a verdade
relativa, aquela perceptível pela mão do homem, variava. Esta parábola
indicava claramente que a verdade relativa de Gandhi não era um valor
rígido. Podia evoluir à medida que a sua compreensão de um problema se
modificava e esta ginástica moral tinha desconcertado muitas vezes os
seus interlocutores britânicos, que o tomavam por um espertalhão asiático
de duas caras. Às vezes, até os próprios discípulos ficavam exasperados.
— Bapuji (Pai), não o compreendendo, exclamou certo dia um deles. Como
pode ter dito uma coisa a semana passada e afirmar hoje o contrário?
— Ah, respondeu Gandhi, é porque aprendi muito desde a semana passada.
O novo vice-rei iniciava portanto as negociações sérias com certa
apreensão. Não era absolutamente certo que o homenzinho que «piava como
um pássaro» na sua frente o pudesse ajudar a encontrar uma solução para o
problema indiano. Sabia em contrapartida que ele era capaz de aniquilar
todos os seus esforços com vista a consegui-lo. As tentativas de tantos
outros intermediários haviam falhado tantas vezes por causa da sua
personalidade imprevisível. Fora Gandhi que mandara para Londres o
emissário de Churchill de mãos vazias em 1942. Fora ainda ele quem, fiel
aos seus princípios, reduzira a zero os esforços do vice-rei anterior
para resolver a crise indiana. Na véspera, durante a oração pública,
reafirmara uma vez mais que o seu país não podia ser dividido senão
passando por cima do seu cadáver. «Enquanto eu for vivo, acrescentara,
nunca aceitarei a partilha da Índia».
Mountbatten declarou logo a Gandhi que a política da Inglaterra fora
sempre nunca capitular pela força. Mas visto que a sua cruzada não
violenta acabara por a dominar, a Inglaterra estava hoje decidida a
abandonar as Índias acontecesse o que acontecesse.
— Há só uma coisa que importa, sublinhou Gandhi. Não dividam a Índia,
recusem-se a dividi-la, ainda que essa recusa faça correr rios de sangue.

93
Mountbatten afirmou que a Partilha era a última solução que ele quereria
adoptar. Mas que outra possibilidade havia?
— Em vez de a partilhar, dêem a Índia inteira aos muçulmanos, sugeriu
Gandhi. Coloquem os trezentos milhões de hindus sob o domínio muçulmano,
encarreguem Jinnah e os seus acólitos de formarem um governo, transmitam-
lhes a soberania da Inglaterra.
Mountbatten ficou assustado com a proposta do apóstolo da não-violência.
Se ele estava disposto a agarrar-se a qualquer bóia de salvação para
evitar a Partilha, esta solução parecia contudo um sonho de Alice no país
das maravilhas. Mas era certo que muitas outras ideias de Gandhi, tão
insólitas como esta, tinham resultado.
— O que o leva a crer que o seu próprio partido aceitaria essa sugestão?,
perguntou o almirante, inquieto.
— O Congresso quer acima de tudo evitar a Partilha. Fará todos os
possíveis para o impedir.
— E qual será a reacção de Jinnah?
— Se lhe for dizer que sou eu o autor deste plano, respondeu o Mahatma
com um sorriso malicioso, ele responde-lhe: «Ah, esse patife de Gandhi!»
Mountbatten ficou um grande bocado em silêncio. A proposta parecia-lhe
completamente utópica e não tinha a menor intenção de arriscar o seu
prestígio pessoal defendendo-a. Não podia contudo desprezar a menor
possibilidade de salvar a unidade da Índia. Por fim declarou:
— Se eu tiver a garantia oficial de que o Congresso está disposto a
ratificar esse plano e a colaborar sinceramente na sua realização, então
concordo em dar-lhe seguimento.
Gandhi saltou no cadeirão.
— Estou a ser completamente sincero, afirmou ele, e se o senhor tomar
essa decisão, estou pronto a percorrer a Índia de um extremo ao outro
para a fazer aceitar pelo povo.
Algumas horas mais tarde, um jornalista indiano teve ocasião de falar com
Gandhi no caminho para a sua oração pública. O Mahatma parecia «arder de
felicidade». Quando chegaram ao local da reunião, o velho voltou-se para
o jornalista, e com um sorriso de beatitude, murmurou: «Parece-me que fiz
mudar os ventos.»

Quarta escala da via dolorosa de Gandhi


Os discípulos afastam-se do pai

Uma única lâmpada enegrecida pelos insectos carbonizados iluminava o


miserável aposento. Nu da cintura para cima, Gandhi estava acocorado
sobre uma esteira no meio dos companheiros que discutiam animadamente.

94
Lá fora, com os olhos brilhantes, num misto de receio e curiosidade, os
filhos dos varredores da Bhangi Colony, o bairro da lata superlotado dos
Intocáveis que limpavam as ruas e as fossas de Nova Deli, acotovelavam-se
às janelas para espreitar o Mahatma e os chefes do seu partido do
Congresso.
Gandhi convocara-os para este bairro infame empestado pelo cheiro dos
excrementos que subia dos canais abertos que faziam as vezes de esgotos.
Era ali, no meio de uma das populações mais miseráveis do mundo, entre
aqueles rostos patéticos cobertos de chagas, que ele resolvera viver
durante a sua estadia na capital. A luta pelos oprimidos da sociedade
hindu, aqueles Intocáveis a quem chamava os Harijan — Filhos de Deus —,
tivera sempre no seu coração um lugar igual à outra, a da libertação da
Índia.
Os Intocáveis constituíam mais de um sexto da população. Evidentemente
que eram hindus, mas as faltas cometidas nas suas vidas anteriores
excluíam-nos de qualquer casta. Eram facilmente reconhecíveis pela cor
mais escura da pele, pela humildade do seu comportamento, pela miséria no
vestuário. A sua designação de Intocáveis exprimia o receio dos outros
hindus de se contaminarem ao seu contacto, o que exigiria uma purificação
ritual. A própria marca dos seus passos profanava, segundo se dizia, as
ruas habitadas por certos brâmanes. Um Intocável devia afastar-se cada
vez que um hindu de casta se cruzava no seu caminho, a fim de não o
manchar com a sua sombra. Nenhum hindu de casta podia comer na presença
de um Intocável, beber a água que ele tivesse tirado do poço, usar um
utensílio que ele tivesse tocado. A entrada em muitos templos era
interdita aos Intocáveis. Os filhos não eram aceites nas escolas. Até na
morte continuavam a ser párias. Não tinham acesso às piras funerárias
públicas. E como a sua pobreza os impedia geralmente de conseguirem
madeira suficiente para a cremação, os seus restos, parcialmente
calcinados, eram lançados ao rio ou enterrados. Muitas vezes também, eram
devorados pelos abutres.
Em certas regiões das Índias, os Intocáveis não tinham autorização de
sair da sua cabana a não ser de noite. Chamavam-lhes então os
«Invisíveis». Noutros sítios, eram vendidos como servos juntamente com a
terra onde trabalhavam; um jovem Intocável valia em média o preço de um
boi. Faziam os trabalhos mais rudes e mais sujos: despejar as fossas,
varrer as ruas, recolher o lixo, todas as tarefas impuras que os tornavam
justamente «intocáveis». Em pleno século de progresso social, o hinduísmo
dava-lhes apenas um privilégio. Não sendo vegetarianos, podiam comer as
vacas sagradas mortas pelas epidemias ou por doença, cujos cadáveres
pertenciam de direito aos limpadores do lixo das aldeias.
Desde o seu regresso da África do Sul, a causa destes párias tinha-se
tornado a causa de Gandhi. O seu primeiro ashram indiano quase falhara
porque ele os tinha ali recebido. Tratava-lhes as feridas, friccionando-
lhes os membros doloridos.

95
Mais ainda, para condenar a intocabilidade de forma espectacular, não
hesitou em executar a tarefa considerada mais degradante para um hindu da
sua casta. Limpou à vista de todos a barrica de um Intocável.
Em 32, quase tinha dado a vida por eles, fazendo uma greve da fome com
vista a impedir uma greve da fome com vista a impedir uma reforma
institucionalizando a sua segregação do resto da sociedade indiana. Na
sua obstinação de só viajar nas carruagens de III classe por eles usadas,
de morar nos seus bairros da lata, queria comover toda a Índia pela
desgraça da sua condição (Nota 1).
Dentro de alguns meses, algumas semanas mesmo, os homens reunidos naquela
noite em volta de Gandhi seriam os ministros do governo da Índia
independente. Ocupariam os espaçosos escritórios de onde os ingleses
tinham governado o Império, transportando-se para lá em luxuosas
limusines. Se Gandhi exigira que eles realizassem aquela peregrinação ao
interior de um dos bairros mais imundos da capital, fora para que eles
contactassem com as realidades do país que em breve iam governar.
A noite estava sufocante; para atenuar o calor, Gandhi recorrera a uma
refrigeração inventada por ele: uma toalha húmida em volta do crânio
calvo. Para sua grande tristeza o humor dos seus companheiros parecia tão
acalorado como a noite.
Garantindo alguns dias antes a Mountbatten que o partido do Congresso
estava pronto a fazer todas as concessões para evitar a Partilha, Gandhi
enganara-se. O seu engano dava a medida do fosso que começara a abrir-se
entre o Mahatma envelhecido e aqueles que havia formado e posto nos
lugares chave do comando do seu partido.
Estes militantes tinham apoiado Gandhi durante um quarto de século. Em
nome da sua causa tinham posto de parte os seus fatos ocidentais para
usarem o khadi, familiarizando os seus dedos pouco ágeis com os ritmos da
sua dobadoira, marchado à frente dos lathi barulhentos da polícia,
passado pelas prisões britânicas. Calando as suas hesitações e dúvidas,
tinham-no seguido nos caminhos obscuros da sua cruzada à conquista de uma
vitória com que não contavam e que, hoje, era uma realidade: o ideal de
Gandhi da não-violência arrancara a independência aos ingleses.

Nota 1 - A atitude de Gandhi causava bastantes problemas aos seus


companheiros do Congresso. Pouco tempo depois da sua chegada a Nova Deli,
Lord Mountbatten perguntara a um dos discípulos mais chegados do Mahatma,
a poetisa Sarojini Naidu, se a pobreza em que o Gandhi se obstinava em
viver não tornava a sua protecção especialmente difícil. «Ah, exclamou
ela a rir, exactamente como ele, os senhores pensam que ele está sozinho
quando entra para uma carruagem de III classe superlotada, na gare de
Calcutá. Ou que no seu tugúrio no meio dos Intocáveis, ninguém o protege.
O que ele ignora é que uma dúzia dos nossos militantes disfarçados de
Intocáveis o acompanham na carruagem e que dúzias de outros militantes
igualmente mascarados de párias são instalados nas barracas em volta da
sua. Meu caro Lord Luís, concluiu ela, não imagina o que custa à Índia
permitir que o velho viva na pobreza!»

96
As suas razões eram diferentes, mas todos sabiam que na luta pela
independência, só o seu génio podia reunir as multidões indianas sob uma
única bandeira. A luta comum impusera o silêncio às suas divergências.
Todavia, nessa noite, elas acabavam de ressurgir bruscamente com a
singular sugestão do seu velho chefe: pôr Jinnah e um governo muçulmano à
frente da Índia independente. Se eles se recusassem a apoiar o seu plano,
proclamava Gandhi, o novo vice-rei seria obrigado à Partilha. Durante a
sua longa marcha de penitente em Noakhali e depois no Bihar, pudera,
muito melhor do que os políticos de Deli, analisar a amplitude da
tragédia que ameaçava provocar a partilha. Nas aldeolas e nos pântanos do
delta do Ganges, vira nascer e explodir o ódio racial e religioso. A
Partilha só podia agravar estas lutas em vez de as acalmar. Pedia aos
companheiros que aderissem à sua solução, a única possibilidade, no seu
parecer, de preservar a unidade da Índia.
Não conseguiu comover Nehru nem os outros responsáveis do Congresso.
Havia um limite para o preço que estavam dispostos a pagar para salvar a
integridade do país. Deixar o poder nas mãos do adversário muçulmano ia
além desse limite. Compungido, o Mahatma teria de informar o vice-rei de
que não conseguira convencer os seus militantes. Não era ainda
propriamente a rotura, mas os seus discípulos já tomavam caminhos
diferentes do seu. A cruzada de Gandhi principiara no isolamento e nas
trevas de uma estação de comboio da Africa do Sul. Estava a ponto de
terminar como começara, na solidão.

Se o escritório do vice-rei não estivesse climatizado naquela tarde de


Abril, o frio glacial da figura austera e distante do líder muçulmano
teria bastado para o arrefecer. Desde o primeiro minuto, Mountbatten
tinha encontrado Mohammed Ali Jinnah no «mais arrogante, frio e
indiferente estado de espírito».
O homem chave do trio indiano, aquele que tinha na mão a solução do
dilema, foi o último a ir ao palácio do vice-rei. Recordando a cena vinte
e cinco anos mais tarde, Luís Mountbatten sublinharia: «Antes de falar
com Mohammed Ali Jinnah, nunca suspeitara até que ponto a minha tarefa
nas Índias era impossível.
A entrevista começou com uma gafe, que revelava de forma evidente que
nada era espontâneo naquele homem de setenta anos. Sabendo que seria
fotografado em companhia dos seus anfitriões, imaginara com antecedência
um galanteio para dirigir a Edwina Mountbatten. Contrariamente às suas
previsões, foi a ele e não a Edwina que o vice-rei convidou por cortesia
a ficar no meio. Jinnah teve pouca sorte! Tudo nele estava programado
como num horário. E não pôde deixar de dizer o seu galanteio. «Ah,
exclamou encantado, é uma rosa entre dois espinhos!»

97
Assim que entrou no gabinete, informou o vice-rei de que viera expor-lhe
a sua posição e aquilo que apenas estava disposto a aceitar. Tal como
tinha feito com Gandhi, o almirante interrompeu-o.
— Senhor Jinnah, ao ponto a que chegámos, não estou disposto a discutir
condições. Primeiro travemos conhecimento.
Mobilizando todo o seu encanto, Mountbatten começou a conquista do líder
muçulmano. Mas Jinnah parecia estar dentro de uma carapaça de gelo: só a
ideia de revelar a sua vida e o seu carácter perante um desconhecido
parecia intolerável a este homem que nunca se confessava, nem aos seus
mais íntimos.
Paciente e obstinadamente, Mountbatten lutou para vencer a reserva do seu
interlocutor. Durante alguns momentos que lhe pareceram horas, não obteve
mais do que uma série de monossílabos. Jinnah não falou senão à
despedida. «Meu Deus, como este homem é frio, suspirou o almirante
esgotado depois desta experiência. Foi preciso todo o tempo que durou a
entrevista só para lhe quebrar o gelo!»
Perfil de Mohammed Ali Jinnah, pai do Paquistão
A personagem que o mundo viria a saudar como o pai do Paquistão ouvira
pronunciar o nome deste Estado pela primeira vez durante um jantar em
traje de cerimónia oferecido no hotel Waldorf de Londres na Primavera de
1933. O seu anfitrião dessa noite era Rahmat Ali, o eterno estudante que
redigira na sua vivenda de Cambridge um manifesto reclamando a criação de
um Estado muçulmano independente para os muçulmanos das Índias. Rahmat
Ali não hesitara em infringir a lei do Alcorão oferecendo a Jinnah o
melhor vinho do hotel. Esperava convencê-lo a chefiar uma campanha
política para a conquista desse país que baptizara com o nome de
«Paquistão». Recebeu uma fria recusa. «O seu Paquistão, respondeu--lhe
Jinnah, é um sonho irrealizável.»
O homem que o infeliz estudante escolhera para ser o profeta da
emancipação dos muçulmanos indianos começara a sua carreira política
pregando a unidade entre hindus e muçulmanos. A sua família vinha da
península de Kathiawar de onde era natural o próprio Gandhi. De facto, se
o avô de Jinnah não se tivesse convertido ao islamismo por qualquer razão
oculta, os dois adversários políticos seriam da mesma casta. Jinnah
estivera também em Londres, e jantara no Inns of Court para ali receber a
toga de advogado. Mas ao contrário de Gandhi, voltara a Inglaterra
transformado num gentleman britânico.
Usava monóculo e fatos maravilhosamente talhados que mudava duas ou três
vezes por dia para estar sempre impecável no calor húmido de Bombaim.

98
Adorava ostras e caviar, champanhe, conhaque e os bons vinhos de Bordéus.
De uma honestidade e integridade acima de toda a suspeita, a sua
filosofia resumia-se no respeito escrupuloso do direito e das fórmulas.
Era, segundo contou um dos seus íntimos, «o último dos vitorianos, um
parlamentar à maneira de Gladstone e de Disraeli».
Advogado brilhante, foi naturalmente atraído para a política. Durante dez
anos lutou para manter os hindus e muçulmanos do Congresso unidos numa
frente comum contra os ingleses. As suas primeiras decepções surgiram
quando Gandhi tomou a chefia do partido. O elegante Jinnah não tinha a
menor intenção de vestir um bocado de pano grosseiro e pôr na cabeça a
pequena calote branca para ir apodrecer entre os vermes das prisões
britânicas. A desobediência civil, declarou, só era boa para os
ignorantes e analfabetos».
Rompeu com o Congresso e entrou nas fileiras da Liga muçulmana, o partido
nacionalista da causa muçulmana. A viragem decisiva da sua carreira
política deu-se após as eleições de 1937, quando o Congresso se recusou a
dividir o bolo do poder com a Liga muçulmana nas províncias onde existia
uma maioria muçulmana substancial. Homem de um orgulho inflexível, Jinnah
considerou a atitude do Congresso como um insulto pessoal. Viu nisso a
prova de que os muçulmanos nunca receberiam um tratamento equitativo numa
Índia governada por um partido de predominância hindu. O antigo apóstolo
da unidade entre as duas comunidades tornou-se a partir daí o advogado
invencível do Paquistão, esse projecto que ele tinha classificado, quatro
anos antes, de «sonho irrealizável».
Era difícil imaginar líder mais paradoxal para dirigir as massas
muçulmanas da Índia. Não havia nada de muçulmano em Mohammed Ali Jinnah
além do nome e do facto dos parentes praticarem a religião de Maomé.
Bebia álcool, comia carne de porco; esquecia-se de frequentar a mesquita
às sextas-feiras. Alá e o Alcorão não tinham qualquer lugar na sua visão
do mundo. Gandhi, seu adversário político hindu, conhecia mais versículos
do livro santo de Maomé do que ele. E conseguira reunir em sua volta a
grande maioria dos noventa milhões de muçulmanos indianos sem saber
articular mais do que algumas frases na sua língua tradicional, o urdu.
Jinnah não se sentia à vontade perante as multidões indianas. Odiava a
porcaria, o calor. Gandhi escolhia as carruagens de III classe para
viajar entre os mais humildes; ele só viajava em I classe para os evitar.
Enquanto o seu rival fazia da simplicidade um culto, Jinnah apreciava a
pompa. Gostava de visitar as cidades muçulmanas da Índia em cortejo real
precedido de elefantes ajaezados de ouro e uma banda a tocar o God Save
The King, «única música, dizia ele, que o povo conhecia».
A sua vida era um modelo de ordem e disciplina. Quando parava no jardim
diante das tulipas e das petúnias que cresciam em fileiras rectilíneas,
não era para apreciar a beleza destas flores, mas para verificar o seu
alinhamento perfeito.

99
Os livros de direito e os jornais constituíam a sua única leitura. De
facto, os jornais pareciam apaixonar esta personagem enigmática. Recebia-
os do mundo inteiro. Recortava artigos, anotava comentários à margem,
colava-os cuidadosamente em álbuns que se acumulavam nas prateleiras da
sua biblioteca.
Jinnah não sentia desprezo pelos seus rivais políticos hindus.
Classificava Nehru de «Peter Pan», de «personagem literária que teria
feito melhor em ser professor de Oxford do que político», de «brâmane
orgulhoso dissimulando a sua manha inata sob o verniz de uma educação
ocidental». Gandhi não era aos seus olhos mais do que «uma raposa
sabida». O espectáculo do Mahatma deitado sobre os preciosos tapetes
persas da sua casa de Bombaim «com um saco de lama no ventre» era uma
visão de pesadelo que Jinnah nunca esquecera — nem perdoara.
Entre os muçulmanos, Jinnah tinha poucos amigos, ainda menos discípulos,
apenas partidários, sócios. Com excepção da irmã, para ele não existia a
família. Vivia sozinho com o sonho de um Paquistão independente. Media
quase dois metros de altura, mas pesava apenas sessenta quilos. Tinha o
rosto tão magro e esticado, que as faces pareciam translúcidas sob as
maçãs do rosto salientes. A abundante cabeleira prateada cuidadosamente
penteada para trás aumentava ainda mais a sua estatura. A sua aparência
era tão composta e severa, que dava a sensação de força espartana.
Todos os seus triunfos eram devidos ao traço dominante da sua
personalidade, uma vontade inflexível. Não o poupavam a críticas nem a
censuras, mas ninguém, amigos ou inimigos, acusou nunca Jinnah de falta
de força de vontade.

Durante a primeira quinzena de Abril, Jinnah e o vice-rei tiveram seis


encontros capitais. Foram dez horas de conversações que decidiram o
destino das Índias. Mountbatten enfrentou-as armado do «orgulho mais
desmedido na minha capacidade de convencer as pessoas a fazerem o que
está certo, não tanto porque sou persuasivo mas porque possuo o talento
de apresentar os factos sob o seu aspecto mais favorável». Contaria mais
tarde como tentou «todas as astúcias, todos os recursos para abalar a
obstinação de Jinnah». Não havia nada a fazer. Nenhum argumento, nenhum
estratagema conseguia destruir nele o sonho do Paquistão.
A força da posição de Jinnah apoiava-se em dois pontos essenciais.
Primeiro, tinha-se tornado ditador absoluto da Liga muçulmana. Havia
talvez, abaixo dele, partidários de compromisso. Mas enquanto ele fosse
vivo, estes não falariam. Em segundo lugar, e de maior importância ainda,
a recordação do sangue que a sua «Jornada de Acção directa» fizera correr
nas ruas de Calcutá um ano antes.
Logo desde o princípio, Jinnah e Mountbatten tinham pelo menos concordado
num ponto: a necessidade de agir depressa.

100
Para o líder muçulmano, a Índia ultrapassara o estádio das transacções.
Só uma solução era possível, uma rápida «operação cirúrgica».
Quando Mountbatten revelou o seu receio de ver a Partilha desencadear a
violência, Jinnah tranquilizou-o. Uma vez praticada a sua «intervenção
cirúrgica», acabariam as perturbações e os dois países viveriam em feliz
harmonia. Tudo se passaria, explicou, como no processo que em tempos
defendera entre dois irmãos descontentes com a partilha da herança
paterna. Dois anos depois do veredicto do tribunal, tinham-se tornado
outra vez amigos. Acontecerá o mesmo, prometeu ele ao vice-rei, no caso
das Índias.
Os muçulmanos da Índia, insistia Jinnah, constituíam uma nação «com uma
cultura e uma civilização, uma língua e uma literatura, uma arte e
arquitectura, leis e um código moral, costumes e um calendário, história
e tradições distintas». A Índia nunca fora uma verdadeira nação,
afirmava. Só existia no mapa.
«As vacas que me apetece comer, dizia, os hindus impedem-me de as matar.
Cada vez que um hindu me aperta a mão, vai a correr purificar-se. A única
coisa comum a muçulmanos e hindus é a sua escravatura sob o jugo
britânico».
As suas discussões com Jinnah em breve se pareceram com «jogos de
escondidas», recorda Mountbatten. Como o coelho de Alice no país das
maravilhas, o líder muçulmano recusava-se a fazer a menor concessão;
Mountbatten, o defensor encarniçado da unidade, atacava por todos os
lados ao ponto de deixar «o velho gentleman completamente louco».
Para Jinnah, a divisão era a única via possível. Faltava ainda que ela
resultasse num Estado viável. Isso pressupunha, esclareceu, que duas
grandes províncias das Índias onde viviam importantes comunidades
muçulmanas, o Bangal e o Panjab, fizessem parte integrante do Paquistão
apesar das suas abundantes populações hindus. A argumentação de Jinnah
assentava num princípio: os muçulmanos das Índias não deviam ser
obrigados a viver sob a palmatória da maioria hindu. Era uma atitude
lógica. Mas como podia ele justificar o seu desejo de absorver num Estado
Muçulmano as minorias hindus do Panjab e do Bengal? Se a Índia devia ser
partilhada para excluir a minoria muçulmana da lei da maioria hindu, o
Panjab e o Bengal deviam ser cortados em dois por razões inversas mas
idênticas, declarou Mountbatten.
Jinnah protestou. Esta solução acabava por lhe conceder um Estado
economicamente sem possibilidades de existência, «um Paquistão roído
pelas traças».
Pois bem, se Jinnah acha realmente que esse país corre o risco de ser
roído pelas traças», não tem mais do que recusá-lo, propôs Mountbatten
que de qualquer forma não queria conceder-lhe Paquistão nenhum.
- Ah! respondeu Jinnah. Vossa Excelência parece não compreender muito bem
o problema.

101
Um homem é panjabi ou bengali antes de ser hindu ou muçulmano.
Compartilha com os seus uma história, uma língua, uma cultura, uma
economia comuns. Não deve separá-los porque fará correr sangue
indefinidamente.
— Senhor Jinnah, sou absolutamente da mesma opinião.
— Deveras?
— Naturalmente, concordou Mountbatten. Não só um homem é bengali ou
panjabi antes de ser hindu ou muçulmano, como é antes de mais um indiano.
Acaba de expor admiravelmente a tese irrefutável da unidade indiana.
— Mas não compreende nada... respondia Jinnah, e o jogo das escondidas
recomeçava.
Mountbatten estava espantado com a rigidez da posição de Jinnah. «Custava
a crer, dirá ele mais tarde, que um homem inteligente, bem educado, tendo
vivido em Londres, pudesse estar agarrado a tal ponto ao seu raciocínio.
Não era que não compreendesse as objecções, mas uma espécie de véu
tapava-lhe as ideias. Era ele o génio mau de todo o problema. Os outros
podiam convencer-se, mas Jinnah não. Enquanto ele vivesse, era impossível
salvaguardar a unidade das Índias».
Estas negociações atingiram o ponto crítico no dia 10 de Abril, três
semanas após a chegada de Luís Mountbatten a Nova Deli. Durante duas
horas, suplicou, intimou, implorou a Jinnah que preservasse a unidade
indiana. Com toda a sua eloquência, esboçou um quadro da grandeza que a
Índia podia atingir com os seus quatrocentos milhões de homens de raças e
credos diferentes. Todos unidos sob o comando de um governo central,
podiam gozar dos benefícios de uma industrialização maciça, desempenhar
um papel preponderante nas questões mundiais, representar a tendência
mais progressista da Ásia. Era possível que Jinnah risse de todas estas
esperanças e condenasse a península a ser apenas uma potência de terceira
ordem?
Jinnah continuava inabalável. Era, concluía Mountbatten com tristeza, «um
psicopata obnubilado mortalmente pelo seu Paquistão».
Meditando após a partida do visitante na solidão do seu gabinete, o vice-
rei compreendeu a inutilidade dos seus esforços: nem o seu poder de
persuasão nem o seu encanto tinham o menor efeito sobre o líder
muçulmano. Todas as novas discussões só podiam ser estéreis. Todavia, era
preciso sair do impasse, e sair depressa. Era certo que Mountbatten
desejava ardentemente salvar a unidade indiana, mas nem por isso podia
correr o risco de ver a Inglaterra presa na armadilha de uma Índia
desmoronando-se no caos e na violência. Porque, afinal, eram em primeiro
lugar os interesses da Grã-Bretanha que estava encarregado de defender. A
intransigência de Jinnah só lhe deixava uma saída: mutilar o
subcontinente indiano para dar aos muçulmanos o seu Paquistão.
O problema agora era fazer aceitar esta perspectiva radical a Nehru e aos
dirigentes do Congresso. Mountbatten decidiu elaborar com urgência um
plano susceptível de conseguir o seu acordo.

102
A PARTILHA DO IMPÉRIO DAS ÍNDIAS EM DOIS ESTADOS: A ÍNDIA E O PAQUISTÃO
As duas províncias do Panjab e do Bengala acharam-se cortadas em dois.
Para juntar as suas comunidades respectivas que a Partilha separou, dez
milhões de Hindus, de Muçulmanos e de Sikhs, lançaram-se a caminho do
maior êxodo da História.

<Mapa: omitido>
No dia seguinte de manhã, depois de analisar a situação com os seus
colaboradores, o vice-rei voltou-se para o chefe de gabinete.
- Meu caro Ismay, disse ele com tristeza, chegou infelizmente a hora de
preparar um plano para a partilha das Índias.

Perante o espectro de uma guerra religiosa e civil que ameaçava submergir


a península inteira, a Partilha parecia na verdade a única solução.
Infelizmente, apesar de todos os esforços do vice-rei, ela iria provocar
uma das grandes tragédias da história moderna nas duas províncias que
mutilava.
Para satisfazer as exigências de Mohammed Ali Jinnah dois dos conjuntos
mais perfeitos das Índias, o Panjab e o Bengal, teriam de ser cortados em
dois. Estas províncias ficavam além disso distantes uma da outra
quinhentos quilómetros, o que condenava o futuro Paquistão ao absurdo
geográfico de um Estado dividido em duas partes. Eram necessários vinte
dias — mais do que o tempo de uma viagem a Marselha - para ir por mar do
Paquistão ocidental ao Paquistão oriental. Só aparelhos quadrimotores
podiam ligar sem escala as duas metades do país; mas o novo Estado
poderia oferecer-se ao luxo de comprar tais aviões? Se ao menos duas
regiões pudessem atenuar a sua separação geográfica com uma unidade
racial e cultural, seria o menos. Mas assim não acontecia: os muçulmanos
do Panjab e os do Bengal eram tão diferentes como os suecos dos
espanhóis. Apenas a religião era a mesma.
De pequena estatura, vivos, de pele escura, os bengalis eram de origem
asiática. Nas veias dos panjabis corria pelo contrário o sangue de trinta
séculos de conquistas arianas que lhes davam uma pele clara e as feições
dos povos do Turquestão, das vastas estepes russas, da Pérsia, dos
desertos da Arábia e até das ilhas da Grécia antiga. Nem a história, nem
a língua, nem a cultura davam a estas duas comunidades, tão
fundamentalmente diferentes, qualquer elo que lhes permitisse comunicarem
entre si. O seu casamento num Paquistão seria uma união monstruosa contra
todos os imperativos da lógica.
O Panjab era a jóia da coroa das Índias. Com a extensão de metade da
França, ia desde as margens do Indo até ao extremo nordeste do país, até
às próprias portas da capital, Nova Deli. Era uma região de rios claros,
de férteis planícies cobertas de searas, um oásis abençoado pelos deuses
na aridez da península. A palavra panjab significa «Terra dos cinco
rios». Dos cinco caudais a que esta província devia a sua fertilidade, o
mais célebre era um dos maiores rios do globo, o Indo, que dera o próprio
nome à parte sul do continente indiano. Durante séculos, o seu vale fora
a grande via de invasão das Índias. Cinco mil anos de história tumultuosa
haviam afeiçoado o carácter do Panjab e cimentado a sua identidade.

104
Nas suas superfícies imensas tinham ecoado os galopes das hordas
conquistadoras da Ásia. A sua terra inspirara o canto celestial do livro
sagrado do hinduísmo, o Bhagavad Gitâ, narrando o diálogo místico entre o
deus Krishna e o rei-guerreiro Arjuna. As legiões persas de Dário e de
Ciro, os macedónios de Alexandre o Grande tinham acampado nas suas
planícies. Os mauras, os citas, os parsos tinham-nas ocupado antes de
serem expulsos pelas vagas dos hunos e pelos califas do Islão que traziam
a sua religião monoteísta às populações politeístas hindus. Três séculos
de dominação mogol tinham depois levado o Panjab ao seu apogeu e semeado
a sua terra com os monumentos indestrutíveis da Índia muçulmana.
Com as barbas reviradas e os cabelos compridos ocultos em turbantes de
todas as cores, os sikhs conquistaram-na depois, antes de sucumbirem por
sua vez ao domínio dos seus últimos ocupantes, os ingleses, que lhe
dariam uma prosperidade única na Ásia.
O Panjab era um conjunto tão subtil e complexo como os mosaicos dos
edifícios do seu glorioso passado mogol. A sua divisão só podia provocar
um traumatismo irreparável nas suas populações. Dezasseis milhões de
muçulmanos compartilhavam ali com quinze milhões de hindus e cinco
milhões de sikhs as ruelas e os bairros das suas 17.932 cidades e
aldeias. Embora a religião os distinguisse em comunidades separadas,
tinham em comum uma língua, tradições, igual orgulho na sua personalidade
intrínseca de panjabis. A coexistência económica era ainda mais íntima. A
riqueza do Panjab era devida a um milagre do homem, cuja própria natureza
punha de parte qualquer ideia de partilha: a gigantesca rede de canais de
irrigação construída pelos ingleses e que tornara esta região o celeiro
da Índia. Correndo de leste a oeste, as valas fertilizantes tinham
permitido cultivar os desertos e melhorar a existência de milhões de
panjabis. Decalcadas na implantação dos canais, uma rede magnífica de
estradas e vias férreas permitia enviar as produções do Panjab ao resto
da Índia. Qualquer que fosse, a fronteira de uma partilha condenava à
morte este eficaz sistema vascular. Da mesma forma, nenhuma divisão
evitaria cindir em duas a soberba e belicosa comunidade sikh. Mais de
dois milhões dos seus membros arriscava-se a ver os ricos terrenos
outrora conquistados ao deserto, e alguns dos seus templos mais santos
integrados num Estado muçulmano.
Na realidade, qualquer que fosse o traçado da linha divisória, iria criar
um verdadeiro pesadelo a milhões de homens. Só uma troca de populações
pela primeira vez na História poderia limitar os prejuízos, transferindo
os hindus para leste e os muçulmanos para oeste. Desde o rio Indo até ás
portas de Deli, em cerca de mil quilómetros, não existia uma cidade, nem
sequer uma aldeia, um campo de trigo ou de algodão que não estivesse
ameaçado pelo plano que Lord Ismay recebera ordem de estabelecer.
A divisão da província do Bengal, no outro extremo da península continha
os gérmenes de outro drama.

105
Mais populoso do que a Grã-Bretanha e a Irlanda reunidas, Bengala contava
trinta e cinco milhões de hindus e trinta milhões de muçulmanos num
território que se estendia das selvas do Himalaia até aos pântanos do
delta do Ganges e do Brahmaputra. Apesar das duas comunidades religiosas
distintas, Bengal, mais ainda do que o Panjab, constituía uma unidade.
Quer fossem muçulmanos ou hindus, os bengalis tinham as mesmas origens
rácicas, falavam a mesma língua, compartilhavam da mesma cultura. Tinham
uma maneira típica de se sentarem no chão, de dizer as frases com um
crescendo final, e todos celebravam o Ano Novo no dia 15 de Abril. Os
seus poetas, como Rabindranath Tagore, os pensadores como Sri Aurobindo,
os filósofos Swami Vivekananda eram glorificados por todos.
A origem da maior parte dos bengalis, muçulmanos ou hindus, remontava aos
tempos remotos da era pré-cristã, antes mesmo do florescimento da
civilização budista no delta do Ganges. Quando os conquistadores hindus
chegaram, no primeiro século da nossa era, obrigaram-nos a abjurar a sua
fé e a converterem-se ao hinduísmo. Mais tarde, as populações da parte
oriental do Bengal receberam com alívio os cavaleiros de Maomé: felizes
por escaparem ao jugo hindu, abraçaram o islamismo em massa. A partir
daí, o Bengal ficou dividido em duas etnias religiosas, os muçulmanos a
leste, os hindus a oeste.
Em 1905, Lord Curzon, um dos mais eminentes vice-reis das Índias, tentou
ratificar politicamente esta diferença dividindo oficialmente o Bengal em
duas regiões mais fácies de administrar. Seis anos mais tarde, a sua
tentativa resultou num fracasso, ficando demonstrado com uma sangrenta
revolução que entre os bengalis a paixão nacionalista era superior à
paixão religiosa.
Se o Panjab tinha recebido da Providência o maná da fertilidade, o Bengal
parecia ter sido amaldiçoado. Terra assolada por tufões e cheias
terríveis, que fora o celeiro de arroz da Índia e da Ásia do Sudeste até
meados do século XIX, era um imenso pântano tórrido de onde só nasciam as
duas plantas a que devia um precário bem-estar, o arroz e «a fibra de
ouro», a juta. O limite entre as duas zonas de cultura coincidia com a
fronteira religiosa: o arroz crescia a oeste, em terras hindus, e a juta
a leste, entre os muçulmanos.
O fulcro da existência do Bengal não estava todavia nas suas culturas,
mas numa cidade. Uma cidade que servira de trampolim à conquista
britânica, a segunda cidade do Império a seguir a Londres, o primeiro
porto da Ásia: Calcutá, trágico teatro dos massacres de Agosto de 1946.
Tudo na província do Bengal — estradas, vias de caminho-de-ferro,
comunicações, indústria - convergia para Calcutá. No caso da partilha do
Bengal, era fatal que esta metrópole, devido à sua situação geográfica
fosse integrada na metade ocidental hindu, o que condenaria a parte
oriental muçulmana a uma inexorável asfixia. Quase toda a juta do mundo
provinha do Bengal oriental muçulmano, mas todas as fábricas que a
transformavam em corda, tecido e sacas concentravam-se em volta de
Calcutá e Bengal ocidental hindu.

106
Além da juta, a parte muçulmana não produzia qualquer outra cultura; a
sobrevivência dos seus trinta milhões de habitantes dependia do arroz que
só crescia no lado hindu.
No fim de Abril de 1947, o último governador britânico do Bengal, Sir
Frederick Burrows, antigo sargento dos Grenadiers Guards e ex-
sindicalista dos Caminhos de Ferro, previu que a Bangladesh - estava
condenada, em caso de partilha, a tornar-se «o maior chiqueiro rural da
História».
Finalmente, a Partilha era absurda e ilógica por uma última razão. O
sonho de um Estado muçulmano independente tivera origem na vontade de
libertar as minorias muçulmanas das Índias da opressão hindu. Ora, mesmo
que Jinnah conseguisse obter todos os territórios que reivindicava,
apenas menos de metade dos muçulmanos fariam parte do seu Paquistão. Os
outros estavam tão espalhados pela província, que parecia humanamente
impossível reuni-los. Ilhotas perdidas num oceano hindu, seriam
infalivelmente os reféns e as primeiras vítimas de um conflito entre os
dois países. De facto, mesmo após a divisão, a Índia continuaria a contar
com cerca de cinquenta milhões de muçulmanos, tornando-se assim a segunda
nação muçulmana do mundo, depois do novo Estado nascido das suas
entranhas. (Nota 1)
Tal era a configuração, nessa Primavera de 1947, das duas partes de um
casamento que resultaria, menos de um quarto de século mais tarde, no
mais sangrento dos divórcios.
Se nesse Abril de 1947, Luís Mountbatten, Jawaharlal Nehru ou o Mahatma
Gandhi tivessem visto uma determinada fotografia, as Índias teriam talvez
podido escapar à tragédia que as ameaçava. Este documento fornecia com
efeito uma informação susceptível de perturbar a equação política indiana
e quase de certeza, modificar o curso da História da Ásia. Mas o segredo
estava tão bem guardado que até a CID britânica, um dos serviços de
investigação criminal mais eficientes do mundo, ignorava a sua
existência.
O centro da imagem mostrava dois círculos negros do tamanho de bolas de
ping-pong. Cada um deles estava cercado de uma orla branca irregular,
como o halo do Sol em eclipse. Mais acima, uma verdadeira galáxia de
pequenos pontos brancos salpicava o conjunto esbranquiçado da chapa.
Tratava-se da radiografia de dois pulmões humanos. Os círculos negros
eram lesões infecciosas; a série de pequenos pontos brancos, zonas onde o
tecido pulmonar ou plêurico se endurecera, confirmando o diagnóstico de
tuberculose avançada. O doente tinha apenas poucos meses de vida.

Nota 1 - A Indonésia, que viria a ser a primeira nação muçulmana, só teve


a independência em 1949.

107
Guardada num sobrescrito sem referência, esta chapa estava fechada no
cofre-forte do doutor Jal R. Patel, um médico de Bombaim. O seu cliente
era o homem glacial e inflexível que aniquilara todos os esforços de
Mountbatten para preservar a unidade das Índias. Mohammed Ali Jinnah, o
único obstáculo invencível desse objectivo, estava condenado à morte. Em
Junho de 1946, nove meses antes da chegada do novo vice-rei, o doutor
Patel diagnosticara a terrível doença cujo desfecho só podia ser fatal, e
a curto prazo. A tuberculose, essa maldição que matava todos os anos
milhões de indianos subalimentados, atacara o profeta do Paquistão, nessa
altura com setenta anos de idade.
Durante toda a vida, Jinnah tivera problemas de saúde devido à sua
fraqueza pulmonar. Muito antes da guerra, fora tratado em Berlim por
causa de complicações que teve após uma pleurisia. Frequentes crises de
bronquite tinham-lhe depois disso diminuído as resistências e
enfraquecido o sistema respiratório, ao ponto de um discurso mais longo o
deixar sem respiração durante horas.
Em 1946, um novo ataque de bronquite atacou o líder muçulmano em Simla.
No comboio que o levava de regresso a Bombaim, o seu estado agravou-se
cada vez mais. Tornou-se tão alarmante que a irmã Fátima se viu obrigada
a chamar o doutor Patel a meio do caminho. O médico conseguiu ver Jinnah
nos arrabaldes de Bombaim. Compreendeu logo que o seu ilustre doente se
encontrava «em estado desesperado». Informou que ele não aguentaria a
recepção triunfal que o esperava na estação principal de Bombaim, e
obrigou-o a descer numa estação da periferia para o levar directamente ao
hospital, onde a radiografia revelou o que seria um dia o segredo melhor
guardado da Índia.
Se Mohammed Ali Jinnah fosse outra pessoa qualquer, o médico tê-lo-ia
mandado imediatamente para um sanatório. Mas Jinnah não era um doente
como os outros. A saída do hospital, o doutor Patel recebeu-o no seu
gabinete. Sabia que Jinnah esgotava as suas últimas forças: havia dez
anos que só sobrevivia «à custa de whisky, de força de vontade e
cigarros».
O doutor Patel revelou a verdade ao seu paciente: estava atacado de uma
doença inexorável e devia mudar radicalmente a sua maneira de viver. A
menos que limitasse a sua actividade, se sujeitasse a longos e frequentes
períodos de repouso, deixasse de beber e de fumar, não podia esperar
viver mais do que alguns meses.
— Jinnah ouviu o diagnóstico sem pestanejar. Nem se punha a hipótese,
explicou, de trocar a luta de uma vida inteira por um leito de
agonizante. Nada, a não ser o túmulo, o desviaria da tarefa a que metera
ombros, assumir o destino dos muçulmanos do seu país nesta encruzilhada
crítica da sua história. Estava disposto a moderar o seu ritmo de vida,
mas só na medida em que o permitissem os deveres históricos do seu cargo.
Jinnah sabia que se Nehru e os seus adversários do Congresso fossem
informados de que ele estava a morrer, toda a perspectiva política podia
mudar.

108
Eles eram capazes de esperar pela sua morte para desmantelarem o seu
grande sonho do Paquistão pressionando os seus colegas mais maleáveis da
Liga muçulmana. Impôs portanto segredo absoluto a respeito da sua doença.
À força de injecções diárias, Jinnah voltou ao trabalho sem fazer a menor
concessão às recomendações do médico. Não ia deixar que o seu encontro
com a morte o fizesse perder o encontro com a História. Com uma coragem
sobre-humana, lutou até à última para atingir o seu fim. «A rapidez,
dissera ele a Mountbatten durante a sua primeira discussão sobre o futuro
das Índias, é a essência do seu contrato.» A rapidez tornava-se a
essência do contrato pessoal de Mohammed Ali Jinnah com o destino (Nota
1).

Os onze homens reunidos em volta da mesa oval da sala do conselho, que


esperavam respeitosamente que Lord Mountbatten abrisse os debates, eram
por assim dizer os descendentes dos primeiros fundadores da East India
Trading Company. Três séculos e meio antes, os seus precursores ávidos de
riquezas tinham lançado a Inglaterra à conquista das Índias. Governadores
das onze províncias da Índia britânica, eram os pilares do Império.
Tinham chegado ao apogeu de uma carreira dedicada inteiramente ao seu
serviço, e saboreavam agora os privilégios com que haviam sonhado nos
postos solitários dos seus verdes anos. Apenas dois eram medianos.
Eminentemente competentes e dedicados, estes homens levavam às Índias o
fruto de uma experiência sem igual; em troca gozavam uma existência
faustosa. As suas moradias oficiais eram verdadeiros palácios servidos
por legiões de criados. A sua autoridade estendia-se por territórios tão
vastos e populosos como os maiores países da Europa. Percorriam as suas
províncias em luxuosas carruagens especiais, as cidades em Rolls-Royce
escoltado por lanceiros de turbante, e as florestas no dorso de elefantes
ajaezados.
Sentados em volta do vice-rei por ordem de presença encontravam-se
primeiro os representantes das três grandes presidências, as de Bombaim,
de Madras e do Bengal.

Nota 1 - O antecessor de Mountbatten, Lord Wavell, registava no seu


diário íntimo a 10 de Janeiro e 28 de Fevereiro de 1947 que, segundo
certos relatórios, Jinnah era «um homem doente». Não se esclarecia,
contudo, qual a verdadeira gravidade da doença do líder muçulmano. Quanto
a Mountbatten, nunca foi pessoalmente informado de que Jinnah estava a
morrer. Há certas razões para crer que Liaquat Ali Khan, braço direito de
Jinnah, estava a par da doença que o minava durante os seis últimos meses
de vida. A própria filha de Jinnah, Dinah Wadia, revelou aos autores
deste livro, numa entrevista em Bombaim, em Dezembro de 1973, que só
soube da tuberculose do pai após a sua morte. Está convencida de que
Jinnah só revelou este segredo a sua irmã Fátima, proibindo-a de o
revelar fosse a quem fosse.

109
A seguir estavam os governadores das outras províncias: o Panjab, Sind
com o seu porto de Carachi, as Províncias Unidas, o Bihar, Orissa, Assam,
nos confins da fronteira birmanesa, as Províncias Centrais e finalmente a
província de Noroeste que guardava passagem de Khyber e a fronteira indo-
afegã.
Para Mountbatten, esta confrontação era uma prova delicada. Com quarenta
e seis anos, era o mais novo de todos. Desembarcara em Nova Deli sem
nenhuma das qualificações habituais exigidas para o seu alto cargo, tais
como uma carreira parlamentar exemplar ou um brilhante passado de
administrador. Também não estava familiarizado com os problemas deste
país onde a maior parte dos governadores tinham passado a vida inteira,
embrenhando-se nele até ao interior, conhecendo os dialectos, tornando-se
como alguns, peritos mundialmente reputados da sua complicada história.
Estes homens orgulhosos do seu passado não podiam deixar de receber com
cepticismo os planos deste jovem neófito chegado de fresco.
Mountbatten pensava todavia que a sua falta de experiência indiana não
constituía verdadeiramente uma limitação. Se eles, esses especialistas,
se tinham mostrado incapazes de propor a menor solução do problema
indiano, era com certeza «porque estavam demasiado presos à velha escola
imperialista e todos os seus esforços visavam no fundo a preservar o
sistema existente».
Abriu os debates convidando cada governador a esboçar um quadro da
situação na sua província. Os relatos de oito deles não eram demasiado
alarmantes: de maneira geral, reinava a calma nos seus territórios. Não
acontecia o mesmo com as três províncias críticas: O Panjab, a Província
fronteiriça do Noroeste e o Bengal.
Com o rosto tenso, os olhos pisados de fadiga, Sir Olaf Caroe, governador
da fronteira e guarda do desfiladeiro por onde se tinham introduzido,
durante trinta séculos, os conquistadores das Índias, tomou a palavra.
Não dormia há três dias devido à avalanche de telegramas anunciando novos
incidentes. Quase toda a carreira de Caroe decorrera naqueles confins do
Império. Nenhum etnólogo vivo podia pretender rivalizar com ele no
conhecimento dos belicosos patans, da sua língua e cultura. A sua
capital, Peshawar, mantinha ainda um dos bazares mais pitorescos da Ásia;
todas as semanas chegava de Cabul uma caravana de camelos carregada de
peles, açúcar, ópio, tapetes, baixela de prata, relógios, produtos de um
rendoso contrabando vindo do mundo inteiro, inclusivamente da U.R.S.S. As
grutas cavadas nas montanhas formavam um labirinto de oficinas secretas
de onde saíam armas reluzentes destinadas aos musudis, aos afridis, aos
wazirs, esses guerreiros lendários das tribos patans.
A situação na Província fronteiriça de Nordeste corria o risco de se
degradar, anunciou Olaf Caroe, e nesse caso, o velho pesadelo britânico
das hordas invasoras surgindo de noroeste para forçar as portas do
Império podia realizar-se.

110
As tribos patans instaladas no Afeganistão só esperavam a oportunidade
irromperem pela passagem de Khyber sobre Peshawar e o vale do Indo à
conquista dos territórios que reivindicavam havia um século. «Se não
tomarmos medidas urgentes, declarou, vamos ter uma crise internacional às
costas».
O quadro esboçado por Sir Evan Jenkis, o taciturno governador do Panjab,
era ainda mais sombrio. De origem galesa, Jenkis dedicara-se ao Panjab
com uma paixão igual à de Caroe pela sua província fronteiriça. A sua
devoção era tão completa, que os seus detractores acusavam o velho
celibatário de ter casado com o seu Panjab «ao ponto de se esquecer que o
resto das Índias existia». Qualquer solução do problema indiano, declarou
ele, arrastaria por força perturbações na sua província. Seria necessário
pelo menos um corpo de exército para manter ali a ordem, no caso de se
decidir a Partilha. «É absurdo prever que o Panjab se ponha a ferro e
fogo se for dividido, concluiu, porque já está a ferro e fogo.»
O governador Sir Frederick Burrows estava doente, mas o relatório sobre a
situação no Bengal apresentado pelo seu adjunto era em todos os pontos
tão alarmante como os dois anteriores.
Quando esta panorâmica terminou, Mountabatten mandou distribuir a cada
governador um documento contendo, explicou, as grandes linhas «de um dos
planos em estudo para resolver a situação». Para «facilidade de
designação», dera-lhe o nome de «Plano Balcans». Era o esboço do plano de
Partilha das Índias que o vice-rei pedira uma semana antes ao seu chefe
de gabinete Lord Ismay.
Uma onda de choque pareceu percorrer a assembleia enquanto os
governadores folheavam as primeiras páginas. Ao mesmo tempo construtores
e defensores da unidade das Índias, aqueles homens tinham dedicado a vida
à luta para a consolidar e agora a Grã-Bretanha pretendia destrui-la.
O plano — cujo nome era inspirado pela fragmentação dos Balcans num
cardume de Estados após a guerra de 14-18 — dava a cada uma das onze
províncias indianas a escolha de se integrar quer no Paquistão, quer na
Índia; ou então, se a maioria dos habitantes hindus e muçulmanos o
resolvessem, de se tornar independente.
Mountbatten acentuou que «não abandonaria negligentemente toda a
esperança de conservar a unidade das Índias». Queria que o mundo inteiro
soubesse bem que os ingleses faziam tudo o que estava ao seu alcance para
a salvaguardar. Mas se a Grã-Bretanha falhasse, era essencial que o mundo
soubesse igualmente que era «a opinião indiana e não uma decisão
britânica que ditara a escolha da Partilha». Quanto a ele, acreditava que
o Paquistão seria um Estado tão pouco viável que os seus responsáveis não
tardariam em querer voltar «ao seio de uma Índia reunificada».
Os onze homens, personificações da sabedoria colectiva que governara as
Índias durante um século, receberam esta perspectiva sem entusiasmo:
segundo eles a Partilha não podia trazer a solução do dilema indiano.
Todavia, não se opuseram. Na realidade, não tinham nada a propor.

111
Nessa noite, na sala de banquetes do palácio, onde os retratos dos
dezanove vice-reis das Índias pareciam contemplá-los como juízes vindos
do passado, os governadores, acompanhados das esposas, encerraram a sua
última conferência com um banquete solene presidido por Lord e Lady
Mountbatten. No final, os criados trouxeram garrafas de Porto. Quando
todos os copos estavam cheios, Lord Mountbatten, de pé, levantou o seu.
Ninguém se apercebia ainda, mas com este gesto, terminava uma era. Nunca
mais um vice-rei das Índias proporia os seus governadores a saúde que
Mountbatten fazia agora ao seu próprio primo: — Ladies and Gentlemen, to
the King-Emperor!
O impressionante cone branco do Naga Parbat enquadrou-se nas vigias do
avião. Apontava para o céu o vertiginoso cume de oito mil metros
dominando orgulhosamente os outros picos. Em toda a linha do horizonte,
os passageiros podiam admirar as vertentes nevadas de uma das maiores
cadeias de montanhas do mundo, o Hindu-kush, muralha formidável que
separa o sub-continente indiano da imensidade das estepes russas. O
aparelho virou para o sul, e sobrevoou a serpente cintilante do Indo para
começar a descida em direcção às paredes de terra batida e dos telhados
de adobe que envolviam a cidade de Peshawar, capital da Província
fronteiriça do Nordeste.
Quando o avião entrava na pista, os viajantes viram uma multidão em
marcha ladeada por um simples cordão de polícia em redor do aeroporto.
Mountbatten decidira suspender temporariamente as negociações no seu
escritório climatizado de Nova Deli, para ir tomar a temperatura política
das duas províncias mais perturbadas, o Panjab e a Província fronteiriça
do Nordeste. A notícia da sua visita espalhara-se como um rastilho de
pólvora por toda a região. Havia vinte e quatro horas, alvoroçados pelos
militantes da Liga muçulmana de Jinnah, dezenas de milhar de homens
dirigiram-se a Peshawar. Vindos em camiões, em autocarros, a cavalo, a
pé, em tonga, em comboios especiais, cantando e brandindo as suas armas,
espalhavam-se pela capital da província para se entregarem à maior
manifestação popular da sua história.
Estes gigantes de pele clara das belicosas tribos patans preparavam-se
para oferecer a Mountbatten uma recepção inesperada. Enervados pelo calor
e pela poeira, passando à frente dos que os conduziam, vibravam no mesmo
desejo frenético de gritar o seu apoio à causa do Paquistão. A polícia
conseguira canalizar esta torrente para a vasta esplanada entre a via
férrea e as muralhas do velho forte mogol de Peshawar. Mas na sua
impaciência crescente, ameaçavam a todo o momento perturbar a visita do
vice-rei e da esposa com disparos de espingarda.
A presença destas multidões em Peshawar era devida à situação política
paradoxal da província fronteiriça. Apesar de ser noventa e três por
cento muçulmana, a sua população votara sempre a favor do partido hindu
do Congresso.

112
O líder local era um chefe tribal muçulmano chamado Abdul Ghaffar Khan,
um colosso barbudo que fazia lembrar um profeta do Velho Testamento.
Tinha consagrado a sua vida à pregação da mensagem de amor e não-
violência de Gandhi àqueles guerreiros para quem a vingança do sangue era
uma tradição sagrada. Alcunhado «o Gandhi da Fronteira», esta personagem
singular mantivera o apoio popular até ao dia em que, fiel ao Mahata, se
revoltara contra a pretensão do Jinnha de criar um Estado muçulmano.
Influenciada pelos agentes da liga muçulmana, a população tinha-se
finalmente revoltado contra Abdul Gaffar Khan e o governo provincial que
ele nomeara em Pahawar.
A presença desta multidão ululante que viera receber Mountbatten, a
esposa e a filha Pamela, de dezassete anos de idade, provava que era
Jinnah e não «o Gandhi da Fronteira» quem tinha agora os sufrágios desta
província.
Visivelmente inquieto, o governador Sir Olaf Caroe apressou-se a conduzir
os visitantes à sua residência sob uma forte escolta. Cem mil
manifestantes ocupavam a esplanada próxima, prontos a explodir. Se
chegassem a isso, as forças de segurança não poderiam fazer outra coisa
senão abrir fogo. Daí resultaria um massacre, afogando num mar de sangue
as esperanças trazidas pelo reinado de Mountbatten.
Contra a opinião dos chefes da polícia e do exército que achavam este
projecto uma verdadeira loucura, o governador sugeriu ao vice-rei que se
mostrasse à multidão para tentar acalmá-la. «De acordo, vou correr o
risco.», respondeu Mountbatten. Para desespero dos responsáveis da
segurança, Edwina exigiu acompanhá-lo.
Alguns minutos mais tarde, um jipe deixava-os com o governador junto da
linha do caminho de ferro. Mountbatten deu a mão à mulher e escalaram
ambos o montículo. A seguir a este pequeno dique, descobriram a seus pés
a multidão ululante e hostil. O chão tremia sob os pés dos manifestantes
cujos gritos e excitação exprimiam a violência das paixões que agitavam,
nessa Primavera as multidões indianas desesperadas. Nuvens de poeira
subiam no ar; os gritos agitavam a atmosfera saturada de calor. Lord e
Lady Mountbatten sentiram por momentos vertigens. Tinha chegado a hora da
verdade para a operação Sedução, uma hora em que tudo podia soçobrar.
Observando as duas figuras que enfrentavam a multidão, Sir Olaf Caroe
sentiu o coração apertar-se. Havia ali talvez vinte, trinta ou quarenta
mil espingardas. Bastava um louco, um esquizofrénico para abater o vice-
rei e a esposa «como patos num tanque». Durante segundos intermináveis,
Caroe julgou que «as coisas iam correr mal».
Mountbatten parecia hesitar. Não sabia uma só palavra de pashtu, a língua
dos patans. Mas de repente, deu-se uma viragem inesperada na situação.
Para aquele encontro improvisado com os guerreiros mais ferozes do
Império, o acaso quisera que o vice-rei tivesse vestido o uniforme de
tecido leve que usara quando fora comandante supremo interaliado na
Birmânia.

113
Era a cor deste traje que iria evitar a tragédia: o verde, a cor do
Islão, o verde sagrado dos Hadjis, os santos homens que tinham feito a
peregrinação a Meca. Os amotinados, a maior parte dos quais usava o
uniforme dos «Camisas verdes», viram provavelmente na escolha daquele
vestuário a vontade de se solidarizar com a sua causa, uma delicada
homenagem prestada à sua religião. Acalmaram-se imediatamente, e a
esplanada ficou em silêncio atento.
Sempre segurando a esposa pela mão, Mountbatten segredou-lhe: «Faz-lhes
um aceno». Lenta e graciosamente, Edwina ergueu o braço ao mesmo tempo
que ele em direcção ao mar de gente. Enquanto as duas mãos se agitavam
devagar no ar escaldante, ouviu-se de súbito um imenso e interminável
clamor uma litania triunfal que transformava em apoteose os segundos mais
perigosos da operação Sedução.
«Mountbatten zindabad! gritavam os ferozes guerreiros patans, Mountbatten
zindabad — Viva Mountbatten!»
Quarenta e oito horas depois desta confrontação, Luís e Edwina
Mountbatten aterravam em Panjab. Sir Evan Jenkins levou-os imediatamente
até uma pequena aldeia a quarenta quilómetros de Rawalpindi. O vice-rei
ia poder verificar in loco a justificação do grito de alarme lançado
catorze dias antes pelo governo, e descobrir com os seus próprios olhos a
atrocidade da tragédia que se preparava naquela Primavera cruel de 1947.
Quando jovem capitão de fragata Mountbatten tinha visto desaparecer
muitos dos seus companheiros no naufrágio do seu destroyer ao largo de
Creta; comandante de guerra, dirigira milhões de combatentes através da
inóspita selva birmanesa. Todavia, nada igualava em horror o espectáculo
que se patenteava aos seus olhos naquela aldeia de três mil e quinhentas
almas, igual a outras quinhentas mil aldeias indianas. Durante séculos,
dois mil hindus e sikhs tinham ali coabitado em paz com mil e quinhentos
muçulmanos. O elegante minarete da mesquita e a torre arredondada do
giiru-dwara sikh eram hoje os únicos vestígios do que fora Kahuta.
Algum tempo antes da visita de Mountbatten uma patrulha britânica do
Norfolk Regiment pudera constatar, certa noite, durante uma missão de
reconhecimento, que os aldeãos dormiam descansados na paz e confiança
mútuas do seu bom entendimento. No dia seguinte de manhã, Kahuta deixara
de existir. Os hindus e os sikhs estavam todo os mortos, ou tinham
desaparecido.
Uma horda de muçulmanos tinha assaltado a aldeia, pegando fogo às casas;
famílias inteiras tinham morrido nas chamas. Os que conseguiram fugir,
foram apanhados, atados uns aos outros, regados com gasolina e queimados
vivos. Arrancadas da cama para serem violadas e convertidas à força ao
islamismo, algumas mulheres hindus sobreviveram.

114
Outras conseguiram escapar aos raptores para se irem lançar nas chamas e
morrerem com as famílias. Impossível de dominar, o incêndio atingiu o
bairro muçulmano e acabou por fazer desaparecer Kahuta.
«Antes de ir a Kahuta, escreveria Mountbatten ao governo de Londres, não
tinha avaliado a amplitude das abominações que se praticam aqui.»
O seu encontro com as massas de Peshawar e o espectáculo de uma aldeia
devastada do Panjab, davam-lhe a última confirmação de que precisava: a
opinião que formara após dez dias de consultas em Nova Deli estava certa.
A rapidez era a condição essencial para a resolução da situação indiana.
Se não agisse imediatamente, o país ia soçobrar no caos, arrastando na
sua queda o Império e o seu vice-rei. Para sair do impasse, era preciso
adoptar com urgência a solução que pessoalmente repugnava mas que as
circunstâncias impunham — a Partilha.

Quinta escala da via dolorosa de Gandhi


Um homem só com o seu sonho desfeito

A longa via dolorosa do Mahatma Gandhi tinha recomeçado. Nessa noite de 1


de Maio de 1947, a nova escala era aquele mesmo pardieiro do bairro dos
Intocáveis de Nova Deli onde, quinze dias antes, tinha sem êxito
aconselhado os companheiros a darem a Jinnah a Índia inteira para salvar
a todo o custo a sua unidade. Sentado no chão mais uma vez, com uma
toalha húmida sobre o crânio, o velho profeta assistia agora aos debates
dos chefes do Congresso reunidos em sua volta. Iniciada durante a reunião
anterior, a rotura definitiva era inevitável. Os longos anos de prisão,
as penosas greves da fome, os hartal de luto e de silêncio, as campanhas
de boicote tinham marcado outras tantas etapas no caminho que terminava
por esta derrota. Gandhi transformara a face da Índia e pregara uma das
doutrinas mais originais do seu tempo para conduzir o seu povo à
liberdade por meio da não-violência; e agora essa vitória sublime
ameaçava transformar-se em conflito pessoal. Com a coragem e a paciência
esgotadas, os companheiros estavam prontos a aceitar a divisão da Índia
como condição infalível da sua independência.
Gandhi não se opunha à Partilha por qualquer veneração mística a favor da
unidade indiana. Mas os anos passados nas aldeias tinham-lhe dado um
conhecimento profundo da alma indiana, que não podia ter nenhum dos
políticos de Nova Deli. Sabia que a Partilha não podia ser essa simples
«operação cirúrgica» que Jinnah propusera a Mountbatten. Seria um
massacre gigantesco que iria lançar uns contra os outros, desconhecidos,
mas também vizinhos, amigos e colegas através de toda a península.
Correria sangue em nome de uma causa odiosa e inútil, a divisão do país
em dois blocos inimigos condenados a devorarem-se um ao outro.

115
E esta luta nunca mais teria fim.
O drama de Gandhi era não ter outro caminho a propor aos companheiros
senão obedecerem ao seu instinto, aquele instinto que no passado os
guiara tantas vezes para a luz. Ora o velho profeta deixara de o ser aos
seus olhos. Com Mountbatten, todos sentiam que estava iminente uma
catástrofe e que a Partilha, por mais dolorosa que fosse, era a única
forma de lhe escapar.
Gandhi acreditava com todas as fibras do seu ser que eles estavam
enganados. E, de qualquer forma, na sua opinião era preferível o caos à
Partilha. Jinnah não conseguiria o seu Paquistão, a não ser que os
ingleses lho dessem, proclamava ele, e não lho darão se esbarrarem com a
oposição de uma maioria do Congresso. Digam aos ingleses para se irem
embora, sejam quais forem as consequências da sua partida, pediu ele.
Digam-lhes que abandonem a Índia «a Deus, ao caos, à anarquia, ao que
quiserem, mas que se vão embora». «Caminharemos sobre as chamas, mas
seremos purificados por elas».
A sua voz pregava a partir de agora no deserto. Os discípulos fiéis
surdos às suas exortações. Persuadidos de que a secessão dos muçulmanos
só podia favorecer o desenvolvimento de uma Índia hindu, muitos estavam
de longa data inclinados à ideia de uma partilha.
Dividido entre o seu profundo afecto por Gandhi e a admiração por
Mountbatten, Nehru não sabia que fazer: o Mahatma falava com o coração, o
vice-rei com a razão. Se por instinto, Nehru odiava a ideia da Partilha,
o seu espírito racionalista dizia-lhe que era o único caminho. Depois que
chegara à mesma conclusão, Mountbatten tinha, com a ajuda da esposa,
desenvolvido todo o seu poder de persuasão e o seu encanto para levar a
concordar com ela o seu amigo hindu. Servira-se para tanto de um
argumento capital: livre de Jinnah e dos muçulmanos, a Índia podia
escolher o governo forte de que Nehru precisava para construir um Estado
socialista.
A adesão de Nehru arrastou a dos outros chefes do partido. O primeiro-
ministro indiano foi encarregado de informar o vice-rei de que o
Congresso «embora continuasse apaixonadamente ligado ao princípio da
unidade das Índias», aceitava a Partilha, com a condição de as duas
grandes províncias do Panjab e do Bengal serem divididas.
Abandonado pelos seus, Gandhi ficou sozinho com o seu sonho desfeito.
No dia seguinte ao 2 de Maio de 1947 às 18 horas, exactamente quarenta
dias após a aterragem em Nova Deli, o York MW 102 voava para Londres
levando o director do Gabinete de Mountbatten. Lord Ismay ia submeter à
aprovação de Sua Majestade um plano para a partilha das Índias.

116
Todos os esforços do vice-rei para preservar a integridade do continente
indiano tinham finalmente esbarrado perante a intransigência de Jinnah.
Mountbatten continuava a ignorar a existência do único elemento que teria
podido modificar a situação, a doença de que morreria o líder muçulmano.
Durante o resto da vida, consideraria a sua impotência em convencer
Jinnah como o único fracasso da sua carreira. A angústia que sofria à
ideia de ficar na História como o autor da partilha das Índias exprimia-
se num documento levado também por Ismay. Era o quinto relatório do
último vice-rei das Índias ao governo de Clement Attlee.
«A Partilha, escreveria Mountbatten, é uma autêntica loucura, e ninguém
poderia obrigar-me a aceitá-la se a incrível demência racial e religiosa
que se apossou aqui de todos não tivesse cortado qualquer outra saída. A
responsabilidade desta decisão insensata deve ser claramente atribuída,
perante os olhos do mundo, aos indianos, porque eles lamentarão
amargamente um dia a escolha que estão prestes a fazer».
<Página em branco>
Capítulo sexto

«UMA FERIDA POR ONDE SE PERDERÁ O MELHOR SANGUE DA ÍNDIA»

Naquele dia não era necessário nenhum aparelho de climatização: a vista


que Luís Mountbatten descortinava das janelas do seu novo escritório,
bastava para o refrescar. Eram os cumes nevados do Himalaia, o «Tecto do
Mundo», essa muralha de gelo que separa a Índia do Tibet e da China. O
espectáculo vivificante das vertentes verdes atapetadas de abróteas e
jacintos, de florestas de coníferas que escondiam tufos esbraseados de
rododendros, repousavam-no da luz diabólica da capital atabafada de
calor. Esgotado pelo trabalho das últimas semanas, Mountbatten observara
a tradição dos seus antecessores abandonando Nova Deli e tirando proveito
da instituição mais surpreendente do Império das Índias, uma pequena
cidade britânica plantada nos contrafortes do Himalaia: Simla.
Havia mais de um século, todos os Verões, este grande burgo aninhado a
dois mil metros de altitude transformava-se durante cinco meses em
capital imperial. Era um lugar encantador com o seu coreto de pilares de
ferro forjado, os chalés com janelas de vidros pequenos, e o campanário
Tudor da catedral anglicana cujo sino era feito, ao estilo marcial do
cristianismo vitoriano, com o bronze fundido dos canhões capturados
durante as guerras contra os sikhs. A mil e quinhentos quilómetros do
mar, servido por um carreiro de via única, praticamente inacessível de
automóvel, este aprazível pedaço de campo inglês dominava altivamente as
planícies tórridas e superpovoadas das Índias.
Em meados de Abril, assim que vinham os grandes calores, o vice-rei
partia para Simla no seu comboio especial branco e dourado. Todo o
Império se deslocava com ele para a capital de Verão: os esquadrões da
sua guarda, os ajudantes de campo, os secretários, os generais, os
príncipes mais importantes, os embaixadores estrangeiros, os
correspondentes de imprensa, os altos funcionários do governo e a
multidão inumerável dos seus subordinados. Seguia-se um exército de
alfaiates, cabeleireiros, sapateiros, ourives, «By Appointment to H. E.
The Viceroy», negociantes de vinhos e álcoois, de memsahib ingleses, com
as suas pirâmides de malas, as legiões de criados e as suas turbulentas
progenituras. Até 1903, a linha de caminho de ferro terminava em Kalka e
os viajantes tinham que tomar tongas de dois cavalos para os sessenta
últimos quilómetros da escalada até Simla. Os cofres dos arquivos eram
transportados em carros de bancos ou às costas de homens. Em colunas
intermináveis, o dorso curvado sob a carga, os cules levavam uma
quantidade incrível de caixotes cheios de conservas, de foie gras, de
lagostins, de salsichas, de vinho de Bordéus, champanhe, e cherry
destinados às festas que tornariam a estância de Simla num paraíso de
requinte e elegância sem rival no Oriente.

119
No interior da cidade, o martelar dos cascos de cavalo ou o estalar dos
motores eram substituídos pela fricção regular dos pés de centenas de
cules. O protocolo exigia que apenas três carros a cavalos, e mais tarde
a motor, pudessem circular dentro da cidade: os do vice-rei, do
comandante chefe do Exército das Índias e do governador do Panjab. Nem
mesmo Deus tinha conseguido autorização de andar de automóvel em Simla,
dizia uma brincadeira local. Os veículos de uso eram os rickshaw. Eram
carros confortáveis «e não caranguejolas com bancos que dão cabo dos
ossos», recorda um dos seus proprietários. Eram precisos quatro homens
para o puxar nas ruas íngremes. Um quinto homem ia a correr ao lado,
descalço como os companheiros e pronto para substituir um deles.
Embora lhes proibissem o uso de calçado, os patrões rivalizavam em luxo o
traje dos seus cules. O vice-rei tinha o exclusivo da cor escarlate. Um
escocês resolvera vesti-los com o kilt, uma outra família mandara fazer-
lhes fardas diferentes para de dia e para a noite. Todos usavam no peito
uma placa de prata com as armas da casa que serviam gravadas. Os cules de
Simla morriam cedo, a maior parte das vezes de tuberculose.
As festas onde conduziam os patrões eram sumptuosas; as mais grandiosas
eram todavia sempre as dadas em Viceregal Lodge, o palácio do vice-rei,
centro da nobreza imperial e templo do aparato. Uma roseta presa ao varal
do seu rickshaw distinguia os convidados, dos quais apenas alguns tinham
direito ao portão de honra. Todos tinham porém a certeza de nunca ali
encontrarem cidadãos do país sobre que reinavam do alto do seu olimpo.
«Não se pode imaginar o ambiente em volta de Viceregal Lodge numa noite
de baile, conta com nostalgia uma testemunha. Com as pequenas lamparinas
de azeite a brilhar no escuro, as longas filas de rickshaws seguiam para
o palácio no meio do roçagar abafado de centenas de pés descalços.»
O outro pólo da vida mundana era o Hotel Cecil, cuja hospitalidade era
considerada uma das mais faustosas do mundo. Todas as noites às 20 h 15,
um criado de turbante percorria os corredores cobertos de grossas
alcatifas, tocando a sineta para o jantar, como nos paquetes da
Peninsular and Orient Oriental. Os homens casaca e as senhoras em traje
de noite desciam então para tomar lugar nas mesas cobertas de baixela de
Mappin Webb, loiça de Dalton e copos de cristal da Boémia sobre toalhas
de bordado irlandês. Em frente de cada talher perfilavam-se cinco copos —
para champanhe, whisky, vinho de Bordéus, Porto e água.
O centro de Simla era o Mali, larga avenida que atravessava a pequena
cidade de um extremo ao outro, ostentando uma série de lojas, de bancos e
de salas de chá. Os passeios e as calçadas estavam tão cuidadosamente
cobertos de tijolos como o palácio do vice-rei. No meio, erguia-se a
catedral anglicana onde, todos os domingos, o vice-rei e a vice-rainha,
acompanhados por toda a colónia britânica iam ouvir os salmos do serviço
cantados pelas «únicas vozes apropriadas — vozes inglesas».

120
Até à Primeira Guerra mundial, o Mali era interdito aos indianos. Esta
segregação tinha um carácter simbólico. A migração anual até às alturas
de Simla representava muito mais do que um rito da estação. Levava
consigo a subtil confirmação da superioridade racial da Inglaterra, da
graça da Providência que permitia aos ingleses viverem fora dos
formigueiros humanos que pululavam a seus pés nas planícies áridas.
Vários aspectos desse Simla de outros tempos haviam já desaparecido
quando Luís Mountbatten aí se instalou em princípios de Maio de 1947. A
guerra tinha posto termo ás deslocações de Verão do governo das Índias.
Presentemente, um indiano podia até circular no Mali, com a condição de
não usar o traje tradicional do seu país (Nota 1).
Embora estivesse esgotado, Mountbatten tinha fortes razões para estar de
excelente humor. Não terminara em seis semanas o que os seus antecessores
não haviam conseguido em anos? Apresentara ao governo de Londres um plano
que proporcionava à Grã-Bretanha um meio de se livrar com honra do
vespeiro indiano, e aos indianos uma solução que, embora penosa,
desobrigava o seu futuro. Tendo obtido de Attlee poderes excepcionais,
não fora obrigado a conseguir o acordo formal dos dirigentes indianos
antes de enviar o seu plano a Londres. Limitara-se a garantir ao governo
de Clement Attlee que eles o aceitariam quando lhes fosse apresentado.
O seu plano era uma mistura hábil de quanto aprendera na intimidade do
seu gabinete. Fundado no seu conhecimento das convicções e dos
sentimentos pessoais de cada um dos dirigentes indianos, representava uma
estimativa exacta do que eles estariam normalmente dispostos a admitir.
Mountbatten tinha tal confiança no seu parecer que anunciara oficialmente
a intenção de lhes apresentar este plano assim que voltasse a Nova Deli
em 17 de Maio.

Nota 1 - Simla ia mudar rapidamente após a Independência. Testemunha de


um passado que desejavam esquecer, a cidade foi abandonada pelos
indianos. «A única coisa que ainda existe da antiga Simla lamentava-se em
1973 M. S. Oberoi, proprietário do hotel Cecil, é o clima.» Uma
sobrevivente inglesa da grande época continua a habitar a cidade. Com
oitenta e nove anos e viúva, a Senhora Penn Montague vive sozinha na
enorme e melancólica moradia vitoriana herdada de um tio que foi ministro
das Finanças do vice-rei Lord Curzon, com seis cães, cinco gatos, quatro
criados e uma colecção de recordações. A Senhora Penn Montague, que fala
seis línguas, levanta-se sempre às 4 horas da tarde. Depois do pequeno-
almoço, que toma ao pôr-do-sol, retira-se para uma sala onde está o
objecto mais precioso da sua existência solitária, um aparelho de rádio
Zenith Transoceanic. Enquanto Simla dorme, a Senhora Montague instala-se
a ouvir o mundo. Às 4 horas da manhã, a luz da velha senhora é com
certeza a única que brilha entre Simla e o Tibete.
A frescura revigorante e a calma do olimpo de Simla favorecia a reflexão,
e o vice-rei não tardou em pensar se não teria sido demasiado optimista.
Depois de receber o plano, o governo de Londres não cessava de o
bombardear com telegramas sugerindo a alteração desta ou daquela
cláusula.
Sérias inquietações começavam a atormentar o vice-rei. Se todas as
resoluções fossem aplicadas, não seria em duas partes mas em três que o
subcontinente indiano acabava por ser dividido. Porque Montabatten
previra uma cláusula que permitia a uma das onze províncias — o Bengal -
tornar-se independente se a maioria de cada uma das suas comunidades
assim o resolvesse. Os sessenta e cinco milhões de hindus e de muçulmanos
bengalis poderiam, se o desejassem, formar juntos um Estado independente,
viável e lógico, com o grande porto de Calcutá como capital. Esta ideia
era devida ao dirigente muçulmano de Calcutá, Sayyid Suhrawardy, o
playboy amante de bares noturnos e de champanhe que, nove meses antes,
organizara o terror nas ruas da sua cidade excitando os seus militantes
contra a população hindu. A proposta seduzira Mountbatten. Contrariamente
ao monstruoso Estado de duas cabeças reivindicado por Jinnah, um Bengal
independente era possível num plano étnico e económico. Com agradável
surpresa do vice-rei, os dirigentes hindus locais tinham-se igualmente
mostrado favoráveis a este projecto.
No seu desejo de agir depressa, Montbatten esquecera-se porém de falar
com Nehru; era uma negligência que o inquietava agora. Pensando bem, o
primeiro-ministro indiano poderia verdadeiramente aceitar uma solução que
privasse a Índia do porto de Calcutá e da sua rica cintura industrial?
Se, depois de todas as garantias que mandara a Londres, a resposta fosse
negativa, Mountbatten passaria por um negociador bastante inconsciente
aos olhos da Inglaterra, das Índias e do mundo.
A sua intuição aconselhou-o a verificar junto de Nehru, seu hóspede nesta
curta estadia no Himalaia, que não corria esse risco. Mais do que nunca,
Luís Mountbatten via qualidade das suas relações com o sedutor Jawahrlal
Nehru uma promessa de futuro: a base de relações privilegiadas entre a
nova Índia e os seus antigos colonizadores. Uma forte amizade ligava
também Nehru e Edwina Mountbatten. Na Índia da primeira metade do século
XX, agarrada ainda às tradições, uma mulher como Edwina era uma
personagem de qualidades raras. Ninguém melhor do que esta encantadora
aristocrata, inteligente e generosa, sabia fazer sair o líder indiano da
sua concha nos seus momentos de dúvida e de angústia. Quantas situações
não tinha ela já resolvido, quantos acordos facilitado encantando-o
durante um passeio nos jardins mogóis, um banho na piscina ou em frente
de uma chávena de chá?
Obedecendo ao seu impulso e contra a opinião dos seus colaboradores,
Mountbatten convidou Nehru para tomar um cálice de Porto nessa mesma
noite no seu escritório. Com toda a naturalidade, entregou-lhe um
exemplar do famoso plano, pedindo-lhe para o analisar e dizer-lhe depois
que espécie de aceitação previa da parte do Congresso.

122
Contente e lisonjeado, Nehru prometeu estudá-lo imediatamente.
Algumas horas mais tarde, enquanto Mountbatten repousava, entregando-se
ao seu passatempo favorito - a elaboração da árvore genealógica da sua
família -, Jawaharlal Nehru passava à peneira o texto que ditaria o
destino do seu país. Ficou horrorizado. Que visão de pesadelo ia ser essa
Índia onde cada província teria o direito de decidir do seu futuro, essa
Índia não cortada em duas, mas fragmentada numa porção de bocados. A
porta que Mountbatten deixava aberta para a secessão do Bengal abriria
inevitavelmente uma ferida por onde se perderia o melhor sangue da Índia.
Nehru viu o espectro de uma Índia mutilada, amputada do seu pulmão vital,
Calcutá e as suas instalações portuárias, as suas fábricas de aço, de
cimento, as oficinas têxteis; o espectro de uma Cachemira independente, a
pátria dos seus antepassados, governada por um déspota que ela odiava; o
espectro de Estado de Hyderabad tornando-se um corpo muçulmano encravado
no coração da Índia; o espectro de toda uma série de outros Estados
reclamando também o direito à independência. Este plano ameaçava libertar
todas as forças centrífugas que tinham desde sempre posto em causa a
unidade das Índias e fazer desintegrar o país num verdadeiro mosaico de
Estados. Durante três séculos, os ingleses tinham dividido para reinar.
Agora, dividiam para se irem embora.
Pálido de cólera, Jawaharlal Nehru atirou as folhas pela casa fora e
gritou:
- Acabou-se!
Foi uma carta que informou no dia seguinte de manhã Luís Mountbatten da
reacção do líder indiano. O soberbo edifício que o vice-rei tinha
construído pacientemente durante as seis semanas anteriores abatia-se
como um castelo de cartas. O seu plano, escrevia-lhe Nehru, causava uma
tal impressão «de divisão, de possibilidade de conflitos e desordens» que
«não podia deixar de ser amargamente julgado e completamente desaprovado
pelo partido do Congresso».
O homem que acabava de anunciar orgulhosamente que dentro de dez dias
daria uma solução ao dilema indiano, compreendeu então que não tinha
solução nenhuma a propor. O plano que o gabinete britânico estava a
discutir, o plano para o qual ele garantira a adesão unânime dos
indianos, já não tinha qualquer possibilidade conseguir o acordo,
indispensável, do partido do Congresso. Consciente de que podiam
censurar-lhe a pressa ou a ingenuidade, Mountbatten não era todavia homem
para se deixar vencer por um insucesso. Longe de se entregar à
perspectiva da catástrofe, congratulou-se por ter revelado as suas
intenções a Nehru antes que fosse demasiado tarde. Apressou-se
imediatamente a remediar os estragos, confiando que a sua amizade
venceria esta crise. Nehru aceitou com efeito ficar mais um dia em Simla
para dar ao vice-rei tempo para tornar o projecto aceitável.

123
A nova redacção devia eliminar os pontos sombrios que tinham provocado a
sua hostilidade. Só deveria deixar às onze províncias e aos Estados
principescos uma única possibilidade de escolha: a integração com a Índia
ou a integração com o Paquistão. O sonho de um Bengal independente
desvanecera-se.
Mountbatten nem por isso estava menos convencido de que o Paquistão de
duas cabeças de Mohammed Ali Jinnah estava destinado a desaparecer. Antes
de um quarto de século, previu ele, o Bengal oriental que seria o Estado
de Jinnah terá abandonado o Paquistão. A guerra do Bangla Desh em 1971
provaria que só se tinha enganado num ano ao fazer a sua profecia.
Para engendrar o novo plano da independência das Índias, Montbatten fez
apelo ao jovem indiano V. P. Menon. Este era uma personagem incongruente
na corte distinta do vice-rei. Nenhum pergaminho de Oxford ou de
Cambridge ornava as paredes do seu escritório. Sendo o mais velho de doze
irmãos, Menon abandonara a escola aos treze anos para trabalhar como
pedreiro, mineiro, operário de uma fábrica, fogueiro de locomotiva,
intermediário de vendas de algodão e professor primário. Tendo aprendido
a escrever à máquina com dois dedos, foi em Simla, em 1929, que entrou
para a administração indiana como simples empregado de escritório (Nota
1). A sua carreira foi sem dúvida a ascensão mais vertiginosa da
administração imperial. Comissário das Reformas, Menon ocupava em 1947 no
gabinete do vice-rei o cargo mais elevado jamais entregue a um indiano.
Ali ganhara a confiança e depois a amizade de Montbatten.
O almirante anunciou-lhe sem rodeios que devia apresentar, antes dessa
mesma noite, uma nova versão do plano de independência. O espírito
fundamental desse documento - a Partilha das Índias — não devia ser
modificado, precisou ele, e a responsabilidade da escolha devia continuar
a pesar apenas sobre os indianos.

Sexta escala da via dolorosa de Gandhi


«Eles já não precisam de mim»

Vítima de uma violenta crise de apendicite, o corpo da jovem tremia como


varas verdes sob os cobertores que o tio-avô lhe pusera na cama.

Nota 1 - Para pagar as quinze rupias da viagem até Simla, V. P. Menon


dirigiu-se a um velho sikh que encontrou na rua e contou-lhe a sua
pobreza. O bom homem deu-lhe a quantia pedida. Quando Menon lhe perguntou
a morada a fim de o reembolsar, o sikh respondeu: «É muito simples. Até
ao dia da sua morte, sempre que um homem honesto lhe pedir auxílio, dê-
lhe quinze rupias». Ele assim fez. Seis meses antes de morrer, em 1965,
um mendigo veio bater-lhe à porta em Bangalore, conta a filha. Menon foi
buscar o porta-moedas, tirou quinze rupias e deu-as ao mendigo. Até aos
seus últimos dias, continuou a reembolsar a sua dívida.

124
Com os olhos ardentes de febre, as mãos crispadas sobre o ventre dolorido
Manu gemia como um animal ferido. Silencioso e angustiado, Gandhi andava
no quarto de um lado para o outro.
Novo conflito torturava o velho que os discípulos acabavam de desenganar.
Desta vez era com respeito à tímida rapariga que o tinha seguido na sua
peregrinação solitário pelos caminhos de Noakhali.
Depois que tratara as vítimas de uma epidemia de varíola na África do Sul
Gandhi tinha uma confiança absoluta nos remédios naturais. Denunciava a
medicina moderna, acusando-a de querer curar o corpo sem procurar curar a
alma, de receitar drogas em vez de apelar para as forças morais, de se
interessar mais pelo dinheiro dos doentes do que pela sua cura. O campo
indiano era rico em ervas medicinais, afirmava ele, postas à disposição
por Deus para curar os males de todos. O Mahatma considerava que o
tratamento pelas plantas era um prolongamento da sua filosofia de não-
violência. Fora em nome dessa doutrina que se recusara a deixar sujeitar
o corpo da esposa à simples violência de uma injecção de penicilina
quando ela agonizava sobre o catre da prisão.
Quando Manu começou a queixar-se de dores no ventre, Gandhi prescreveu-
lhe o tratamento que a sua medicina natural lhe aconselhava em
semelhantes casos: cataplasmas de argila, uma dieta restrita, e lavagens.
Trinta e seis horas depois, o seu estado tinha-se agravado de tal forma
que a sua vida estava presentemente em perigo. Como em Noakhali, esta
vida pertencia ao Mahtma, a jovem abandonara-se à sua vontade, pronta a
aceitar tudo o que ele resolvesse.
O velho profeta das ervas milagrosas tinha tratado demasiados doentes
para não conhecer os perigos do mal que atacava a sobrinha-neta. Estava
desfeito. O seu tratamento tinha falhado: a doença de Manu era sem dúvida
uma manifestação da imperfeição espiritual de ambos. Reconheceu a sua
derrota e cedeu: «Não tive coragem de deixar morrer assim uma jovem que
se entregara nas minhas mãos», confessaria mais tarde. «Com a maior
repugnância», aquele que recusara à esposa moribunda uma injecção
salvadora permitiu que o corpo da sobrinha-neta fosse sujeito à agressão
do bisturi de um cirurgião. Manu foi transportada de urgência ao hospital
para uma apendicectomia.
Enquanto estava inconsciente sob o efeito da anestesia, Gandhi pôs-lhe a
palma da mão na testa. «Entrega-te a Rama, murmurou ele, e tudo correrá
bem.»
Algumas horas mais tarde, assustado com a expressão ansiosa do Mahatma,
um médico afastou-o devagar da cabeceira de Manu. «Deve repousar, pediu
ele. O povo precisa mais que nunca de si.»
Gandhi ergueu para ele um olhar desesperado. «Nem o povo nem os que estão
no poder precisam de mim, suspirou tristemente. O meu único desejo é
morrer entregue à minha tarefa, pronunciando o nome de Deus com o meu
último fôlego».

125
<14 páginas de fotos: rainha Vitória, Índia imperial, Lord e Lady
Mountbatten, Gandhi, etc.: omitidas. Mantêm-se os textos que acompanham
as fotos.>
Victória Imperatriz das Índias
Esta soberana de cara rechonchuda reinou o império mais fabuloso do
mundo. Incarnando a vocação da raça britânica de dominar o universo,
Victória fez-se proclamar em 1 de Janeiro de 1877, Imperatriz, das
Índias. Este imenso território povoado por 300 milhões de indivíduos
tornou-se a jóia da sua coroa. Todos os marajás reunidos em Deli naquele
dia rogaram aos céus para que Sua Majestade da Inglaterra fosse eterna
nas Índias. (Foto de Roger-Viollet).
Três séculos e meio duma epopeia resultou no último grande
Império da História
» Começada por uma tímida aventura colonial, a conquista das Índias deu
origem ao último grande império romântico do mundo. Com o seu palácio
»*"" de 347 divisões e os esquadrões indianos da sua guarda (abaixo), o
vice-rei das Índias, era um dos personagens mais poderosos do planeta. A
sua chegada às Índias acompanhou-se dum fausto extraordinário — ao lado
em cima: o marquês de Linlithgow transpôs em Bombaim, em 1936, a «Porta
das Índias». Uma inscrição gravada no frontão deste edifício revelava que
tinha sido «erguido para comemorar o desembarque nas Índias de Suas
Majestades imperiais o rei Jorge V e a rainha Maria em 2 de Dezembro
MCMXI» (foto em baixo). Duas gerações de jovens ingleses passaram
primeiro sob este arco de triunfo antes de ir impor a Paz britânica até
aos centros mais recuados das Índias e aí fazer reinar a lei do homem
branco. (Fotos de D. Conchon, Fox e Fioger-Viollet).
Todos os faustos da Ásia para um punhado de senhores brancos vindos da
sua ilha longínqua
«A responsabilidade de governar as Índias, proclamou Kipling, foi
colocada por algum impenetrável desígnio da Providência sobre os ombros
da raça inglesa». Este credo de dominação imperial inspirou gerações de
jovens ingleses que encontraram nas extensões infinitas do continente
indiano uma arena sem limite onde saciar a sede de poder e de aventura. A
Índia que eles conheceram não existe mais. Ao alto à esquerda, Lord
Mountbatten, Lady Mountbatten e os seus dois filhos posam em 1947, no
meio dos serviçais de libré do seu palácio. Ao meio, o governador do
Panjab recebe para o chá alguns marajás da sua província. Em baixo, o
jantar de gala na messe dum regimento de cavalaria do Exército das
Índias. Abaixo, o «sahib» e os servidores indígenas. (Fotos de Popperfoto
e R.T.H.P.L.).
Os autores de "esta noite a liberdade" na pista do Império das Índias
À esquerda o Paquistão, à direita a Índia. No decurso da sua longa
investigação Dominique Lapierre (à esquerda) e Larry Collins (à direita)
pararam no lugar histórico onde ficou após 1947 a fronteira que separa o
velho Império das Índias. Se bem que três guerras tenham oposto a Índia e
o Paquistão depois da partida dos Ingleses, Lapierre e Collins
conseguiram fazer posar com eles os dois chefes de posto da fronteira de
Wagah: à esquerda, o major paquistanês Abdul Natif; à direita, o coronel
indiano Bhular. Ambos usam o pingalim dos oficiais britânicos, herança
dos tempos em que serviram o famoso Exército das Índias. (Foto de D.
Conchon),
Mountbatten no trono das Índias

Em 24 de Março de 1947, Louis Mountbatten, bisneto


da rainha Victória, veio a ser, ao lado da sua esposa Edwina,
o último vice-rei das Índias. Chefe militar
prestigiado da Segunda Guerra Mundial, primo do rei da Inglaterra,
liberal, o jovem almirante recebeu do governo Attlee
a dolorosa missão de negociar a retirada
da Inglaterra da mais gloriosa das suas possessões.
Cinco meses depois da sua chegada a Nova Deli,
a Índia e o Paquistão tornaram-se independentes.
“Operação sedução" com os líderes das Índias

Foi utilizando uma táctica revolucionária que Luís Mountbatten conseguiu


negociações com os três grandes líderes das Índias: às conferências
plenárias, ele preferiu a intimidade familiar das conversações privadas.
Os três indianos" passaram a vida a conspirar contra a Inglaterra, sem
nunca ter havido para qualquer deles algum entendimento entre aquela e
eles. Ao alto à esquerda, o muçulmano Mohammed Ali Jinnah; em cima, com
Gandhi, o profeta da não-violência que conduziu as massas indianas na sua
revolta contra a Inglaterra.
Trinta anos de negociações para obter a libertação
de 400 milhões de homens

Vestindo o seu humilde dhoti, Gandhi veio várias vezes reclamar a Londres
a independência do seu país (em 1931, foto de cima). Suas campanhas de
desobediência civil, de boicote de produtos ingleses, de manifestações
silenciosas e as perturbações da Segunda Guerra Mundial, acabaram por
constranger a Inglaterra a dar-lhe satisfação. Em 2 de Junho de 1947 (ao
lado), Lord Mountbatten anunciava aos principais líderes indianos a
partida da Inglaterra e a partilha das Índias em dois Estados: o
Paquistão e a União Indiana. A seguir, à direita de Mountbatten: os
Hindus Nehru, Patel e Kripalani, representando o Congresso indiano;
Baldev Singh, representando a comunidade sikh; Rab Nishtar, Liaquat Ali
Khan e Mohammed Ali Jinnah, representando a Liga muçulmana. Atrás do
vice-rei, seus colaboradores Sir Eric Miéville e Lord Ismay. Não ocupando
qualquer cargo oficial na hierarquia Indiana, Gandhi absteve-se de
participar nesta reunião histórica. (Fotos Popperfoto).
É no ombro da vice-rainha que se apoia o velho adversário dos Ingleses
Mountbatten compreendeu desde a sua chegada a Nova Deli que era Gandhi
que possuía a chave do dilema indiano. Entre o velho profeta da não
violência e o prestigioso chefe de guerra, iam-se unir laços de afeição
que salvariam a Inglaterra e as Índias de um desastre. A saída da sua
primeira entrevista, o adversário mais encarniçado dos Ingleses poisa
espontaneamente a mão no ombro da última vice-rainha das Índias. (Foto
Associated Press).
Capítulo sétimo
ELEFANTES, ROLLS-ROYCES E MARAJÁS

O criado de turbante avançou com passo respeitoso para a figura imponente


que dormia. Mal pousando os pés nus nas peles de tigre, de pantera e de
antílope que atapetavam o quarto, trazia nas mãos uma bandeja de prata
cinzelada, pertencente a um serviço encomendado em Londres no ano de
1921, para a visita às Índias de Sua Alteza real o príncipe de Gales. Um
bule de prata dourada exalava o aroma subtil de folhas em infusão, uma
mistura enviada de quinze em quinze dias pela famosa mercearia Fortnum
and Mason de Londres, com várias qualidades de biscoitos. Na penumbra do
quarto, nas paredes e dentro de vitrinas, brilhavam os olhos das feras
empalhadas e a colecção de troféus de prata, testemunhos da virtuosidade
do senhor daqueles domínios nas partidas de caça e nos desportos dos
gentlemen, o polo e o críquete.
O criado colocou a bandeja na banca de cabeceira e inclinou-se para
anunciar em voz baixa:
- Bed tea, Master.
O homem adormecido espreguiçou-se com gestos de felino e levantou-se.
Saído da sombra, um segundo criado apressou-se a pôr-lhe sobre os ombros
um robe de brocado. Começava mais um dia de Sua Alteza o príncipe
Yadavindra Singh, oitavo marajá do Estado indiano de Patiala.
Yadavindra Singh era presidente de uma das mais singulares associações do
mundo, uma pequena confraria como a humanidade nunca conhecera, nem
tornaria a conhecer. Naquela manhã de Maio, menos de dois anos após o
cataclismo de Hiroshima e do fim de uma guerra que abalara o mundo, os
565 marajás, rajás, e nawabs que compunham esta assembleia reinavam ainda
como herdeiros soberanos e absolutos sobre um terço do território das
Índias e um quarto da sua população: havia de facto duas Índias sob o
domínio inglês - a Índia das províncias, administrada pela capital Nova
Deli, e a Índia dos 565 principados (Nota 1).
A situação anacrónica dos príncipes indianos tinha a sua origem na
conquista acidental do país pela Grã-Bretanha. Os soberanos que tinham
recebido os ingleses de braços abertos, ou aqueles que se tinham mostrado
adversários leais no campo de batalha, foram autorizados a conservar o
seu trono com a condição de reconhecerem a Inglaterra como potência
soberana. Este princípio devia ser ratificado por tratados independentes
entre cada monarca e a coroa britânica.

Nota 1 - Marajá, rajá: títulos de príncipes de religião hindu; nawb,


nizam: títulos de príncipes de religião muçulmana.

127
Os príncipes aceitaram a soberania do rei-imperador, representado pelo
vice-rei, deixando-lhe o controle das questões exteriores e da sua
defesa. Receberam em contrapartida a garantia da sua autonomia interna.
Príncipes como o nizam de Hyderabad e o marajá de Cachemira reinavam
sobre Estados tão vastos e povoados como as grandes nações da Europa.
Outros, como alguns da península de Kathiawar à beira do mar de Oman,
viviam em antigas cavalariças e governavam domínios apenas um pouco
maiores do que o Bosque de Bolonha. A área de mais de quatrocentos
Estados não excedia trinta quilómetros quadrados. A confraria de
príncipes contava com alguns dos homens mais ricos do mundo e com
monarcas de rendimentos mais modestos do que os de um mercador do bazar
de Bombaim. Um cálculo permitia contudo estabelecer que cada um deles
possuía em média 11 títulos, 5,8 mulheres, 12,6 filhos, 9,2 elefantes,
2,8 carruagens de caminho de ferro privativas, 3,2 Rolls-Royces e um
palmarés de 22,9 tigres abatidos.
Um grande número de príncipes proporcionavam aos seus súbditos condições
de vida infinitamente melhores do que as dos indianos administrados pelos
ingleses. Outros, em menor número, não passavam de déspotas mais
interessados em roubar os cofres do seu reino e em satisfazer os seus
caprichos do que em promover o progresso do seu povo.
Quaisquer que fossem as suas virtudes ou taras, o futuro dos 565
príncipes indianos constituía um grave problema naquela Primavera de
1947. Nenhuma solução da equação indiana podia resultar se não resolvesse
ao mesmo tempo a sua situação particular.
Para Gandhi, Nehru e o Congresso, a resposta era clara. Era preciso pôr
termo ao reinado desses senhores feudais e integrar os seus Estados na
Índia independente. Esta perspectiva não tinha a menor probabilidade de
receber a aprovação de Yadavindra Singh nem dos seus pares. O seu Estado
de Patiala, no coração do Panjab, era um dos mais ricos e ele contava com
um exército de quinze mil homens, equipado com tanques Centurion e
baterias de artilharia.
Uma expressão preocupada vincava o rosto do chanceler da Câmara dos
príncipes enquanto bebia o seu chá. Sabia, nessa manhã de Maio, o que o
vice-rei das Índias ignorava ainda a dez mil quilómetros do seu palácio,
um homem ia pronunciar um apelo desesperado para que a sua sorte e a de
todos os príncipes não fosse aquela a que Nehru e os socialistas do
Congresso queriam condená-los.
Este homem não era um marajá, mas um inglês. Tinha partido de Nova Deli
para Londres sem o vice-rei saber. Filho de um pastor missionário, Sir
Conrad Corfield representava uma das grandes forças e ao mesmo tempo uma
das grandes fraquezas da administração britânica das Índias.

128
Tinha feito quase toda a sua carreira na secretaria das Questões dos
principados, e a Índia dos príncipes tinha-se tornado a sua própria
Índia. O que achava bom para os seus príncipes parecia-lhe bom para a
Índia. Odiava os inimigos daqueles, em especial Nehru e o Congresso, com
tanta força como eles próprios.
Nesse mês de Maio de 1947, Corfield era o Secretário político do vice-
rei, isto é, o seu representante junto dos príncipes no exercício da
soberania britânica.
Assoberbado, desde que chegara, com a tarefa enorme de encontrar uma
solução para o conflito que opunha hindus e muçulmanos, Lord Mountbatten
ainda não tivera tempo para se entregar ao problema dos príncipes. Isso
em nada modificara o estado de espírito de Corfield. Sabendo que o novo
vice-rei teria necessidade de conquistar as simpatias de Nehru e do
Congresso, fora a Londres tentar conseguir para os príncipes um
tratamento melhor do que certamente acabaria por lhes dar o vice-rei.
Ia empreender a sua diligência junto do secretário de Estado para as
Índias, no seu gabinete alcunhado «A gaiola dourada» desde o tempo da
imperatriz Vitória. Esta sala octogonal tinha uma característica
insólita: no eixo da secretária, colocada no centro, abriam-se duas
portas completamente iguais no tamanho, forma e ornatos. Dois príncipes
de grau idêntico podiam assim apresentar-se ao mesmo tempo na presença do
representante do rei-imperador, sem sofrer o vexame de qualquer falta às
regras da precedência. Não ficava manchada a honra de nenhum.
Corfield apresentou acaloradamente os seus argumentos ao ministro, conde
de Listowel. Aceitando a soberania da Coroa, os príncipes tinham entregue
uma parte dos seus poderes à Grã-Bretanha e só a ela, declarou. No dia em
que essa soberania cessasse, esses poderes deviam ser-lhes pessoalmente
restituídos. Ficavam então livres para negociar novos acordos com a Índia
ou o Paquistão; ou se o quisessem e se isso fosse viável, tornarem-se
independentes. Qualquer outro procedimento constituía uma violação dos
tratados feitos entre a Grã-Bretanha e os principados.
Sob o ponto de vista estritamente jurídico, a interpretação de Corfield
estava correcta. Mas as suas consequências práticas eram terríveis de
encarar. Se todas as implicações previstas na sua apaixonada exposição se
materializassem, a Índia independente corria o risco de uma balcanização
cujas proporções nem mesmo Nehru previra, no seu ataque de fúria em
Simla.
Os marajás e nawabs das Índias formavam uma aristocracia de tal maneira
fora do comum que a Rudyard Kipling pareceu que «estes homens tinham sido
criados pela Providência para encher o mundo de cenários pitorescos,
histórias de tigres e espectáculos grandiosos». Poderosos ou humildes,
ricos ou pobres, pertenciam a uma raça excepcional cujos membros haviam
fornecido matéria para as fabulosas lendas de uma Índia condenada agora a
desaparecer.

129
As histórias dos seus vícios e virtudes, das suas extravagâncias e
prodigalidades, das suas fantasias e excentricidades tinham enriquecido a
memória dos homens e maravilhado um mundo sedento de exotismo e de sonho.
Os marajás passavam pela vida sobre o tapete voador de um conto oriental.
A época da sua glória terminava, mas era de recear que depois deles o
mundo se aborrecesse.
Estes mitos não eram na verdade apanágio senão de um pequeno número,
aqueles a quem a riqueza, a ociosidade e uma imaginação particularmente
fértil permitiam entregar-se às mais delirantes loucuras. Estes
extravagantes aristocratas compartilhavam as mesmas paixões
avassaladoras: a caça, os desportos, os automóveis, os palácios, os
haréns, e sobretudo, o fascínio das jóias.
Este fascínio era neles de natureza quase religiosa. Atribuíam às pedras
preciosas uma essência mística dotada de poderes imensos. Assim, os
diamantes possuíam, segundo acreditavam, mara, isto é, forças femininas
susceptíveis de aumentar o poder sexual. A escolha e tamanho das pedras
eram determinados pelos astrólogos em função do horóscopo e do carácter
de cada um.
O marajá de Baroda tinha pelo ouro e pelas pedras preciosas uma veneração
feiticista. Apenas uma família tinha o privilégio de tecer com fios de
ouro as túnicas de cerimónia do marajá. As unhas desses tecelões eram
cortadas em forma de dente de pente, para conseguirem a maior perfeição
no tecido. A sua colecção de diamantes incluía a famosa Estrela do Sul, o
sétimo diamante do mundo pelo tamanho, e o Eugenia que fora oferecido por
Napoleão III à esposa depois de ter pertencido a Potemkin, o favorito da
grande Catarina da Rússia. Mas as peças mais admiráveis do seu tesouro
eram uma colecção de tapetes todos feitos de pérolas ornamentados com
desenhos em rubis e esmeraldas.
O marajá de Bharatpur possuía uma colecção de tapetes ainda mais
espantosa. Eram feitos de marfim. Cada um deles era fruto de vários anos
de trabalho de uma família inteira. O seu fabrico exigia uma minúcia
extraordinária, porque as presas de elefante tinham que ser primeiro
descascadas a fim de fornecer a matéria-prima.
O maior topázio do mundo brilhava como um olho de Ciclope no turbante do
simpático marajá sikh de Kapurthala. Os tesouros do marajá de Jaipur
estavam enterrados perto da sua cidade cor-de-rosa numa colina do
Rajasthan, guardada de geração em geração, por uma tribo de ferozes
Rajasthan. Os herdeiros desta nobre dinastia só estavam autorizados a
visitar o tesouro uma vez na vida para escolherem as pedras destinadas a
dar um brilho especial ao seu reinado. Entre essas maravilhas encontrava-
se um colar composto de três idas de rubis, cada um do tamanho do coração
de um pombo, realçados por três esmeraldas, pesando a maior noventa
quilates.
A jóia mais importante da colecção do marajá de Patiala era um colar de
pérolas seguro pelos Lloyds de Londres em meio milhão de francos antigos.

130
A peça mais curiosa era uma couraça constelada de mil e um diamantes com
reflexos azul pálido. Até ao princípio do século, os seus antepassados
tinham o costume de aparecer todos os anos ao povo vestidos apenas com
esta couraça, a sua virilidade real em erecção. Com esta demonstração
fálica, associavam a sua pessoa à força criadora do deus Shiva, enquanto
que os reflexos dos diamantes asseguravam aos súbditos o afastamento das
forças maléficas.
Um marajá de Mysore ouvira dizer a um viajante chinês que os afrodisíacos
mais eficazes eram confeccionados com diamantes moídos. Esta desgraçada
informação levaria ao empobrecimento rápido do seu tesouro, por terem
sido reduzidas a pó centenas de pedras preciosas. As bailarinas que iriam
aproveitar os efeitos mágicos passeavam nos jardins sobre elefantes com
os dentes incrustados de rubis e pendentes das orelhas gigantescos
brincos de diamantes que haviam escapado aos filtros de amor.
O elefante onde se deslocava o marajá de Baroda estava ainda mais bem
paramentado. As inquietantes defesas deste monstro centenário tinha
despedaçado mais de vinte rivais noutros tantos combates. Todos os seus
arreios eram de ouro maciço: o palanquim real, a gualdrapa, os pesados
braceletes nas quatro patas, e as correntes que lhe pendiam das orelhas.
Valia cada uma trinta milhões de francos antigos e representava uma
vitória do animal.
Os elefantes tinham sido, durante gerações, o meio de locomoção favorito
dos príncipes. Símbolos da ordem cósmica, nascidos da mão do deus Rama,
eram aos olhos deles os pilares do universo, o suporte do céu e das
nuvens. Uma vez por ano, o marajá de Mysore prostrava-se perante o rei
dos seus paquidermes. Por meio desta homenagem, renovava a sua aliança
com as forças da natureza e assegurava um ano de prosperidade aos seus
súbditos. A riqueza de um soberano avaliava-se pelo número, idade e
corpulência dos elefantes que ocupavam as quadras dos seus palácios,
algumas das quais abrigavam cerca de trezentos animais.
Depois de Aníbal atravessar os Alpes com a sua legião de elefantes,
talvez nunca se tivesse visto uma manada tão impressionante como a que
era apresentada uma vez por ano em Mysore por ocasião da festa de
Dasahra. Um milhar destes animais, decorados com desenhos, colares de
flores, jóias, chaireis e cabeçadas de ouro, desfilavam através da
cidade. Cabia ao macho mais forte a honra de transportar o palanquim do
soberano, que era um trono de ouro maciço forrado de veludo e sobrepujado
por um guarda-sol, atributo do poder principesco. Atrás, seguiam dois
elefantes paramentados com igual luxo. Transportavam dois palanquins
vazios cuja vista provocava um silêncio respeitoso na multidão: supunha-
se que conduziam as almas dos antepassados do marajá.
Combates de elefantes davam sempre um brilho especial às festas do
príncipe de Baroda, provocando duelos terríveis. Dois enormes machos,
enfurecidos com golpes de lança, eram açulados um contra o outro.

131
Fazendo tremer a terra com o seu peso colossal e o céu com os seus urros,
combatiam até à morte de um deles. O vencedor recebia a honra de entrar
para a quadra do príncipe.
O rajá de Dhenkanal, um pequeno feudo a leste da Índia, proporcionava
todos os anos a milhares de convidados ocasião de assistirem a uma
exibição tão curiosa como aquela embora menos sangrenta: o acasalamento
de dois dos mais belos elefantes da sua criação.
Um marajá de Gwalior usou mesmo certa vez um dos seus animais para uma
tarefa que nenhum outro paquiderme realizara nunca. Tendo encomendado em
Veneza um candeeiro cujo peso e tamanho excediam as dimensões do maior
lustre do palácio de Buckingham, resolveu verificar a solidez do telhado
do palácio pondo ali a passear o mais pesado dos seus elefantes, que para
lá foi içado por meio de um guindaste especialmente concebido.
Outros animais ocupavam no coração de certos príncipes lugar tão
privilegiado como os elefantes. Para o nawab de Junagadh, um minúsculo
principado a norte de Bombaim, eram os cães. Tinha instalado os animais
preferidos em aposentos com electricidade e telefone, onde eram servidos
por criados especiais. Celebrou o casamento da sua cadela favorita
Roshana com um cão Labrador chamado Bobby durante uma cerimónia grandiosa
para a qual convidou todos os príncipes e dignitários das Índias,
inclusive o vice-rei. Para seu grande desgosto, o representante do rei-
imperador declinou o convite. Todavia, cento e cinquenta mil pessoas
acotovelavam-se no percurso do cortejo nupcial que era aberto pelos
lanceiros do nawab e pelos elefantes reais. Após o desfie, o soberano
ofereceu um banquete em honra do casal canino antes de fazer conduzir os
jovens esposos aos seus aposentos nupciais para ali consumar a união. Só
esta festa custou trinta milhões de francos antigos, quantia que teria
bastado para satisfazer durante um ano inteiro as primeiras necessidades
de doze mil dos seiscentos e vinte mil desgraçados súbditos do príncipe.
Os funerais dos cães davam ocasião a cerimónias não menos solenes. Os
animais faziam a última viagem ao som da Marcha fúnebre de Chopin antes
de serem sepultados para o repouso eterno nos mausoléus de mármore do
cemitério que lhes era reservado. Em Junagadh, valia mais ser um cão do
que um homem.
O aparecimento do automóvel viria reduzir o papel dos elefantes em
matéria de aparato. O primeiro carro que desembarcou nas Índias em 1892
era um De Dion-Bouton francês destinado ao marajá de Patiala. Este
acontecimento ficou marcado para a posteridade pela atribuição de um
número de matrícula histórico - «O». O nizam de Hyderabad fez uma
colecção de automóveis graças a uma técnica que abonava a favor do seu
lendário espírito de economia.

132
Assim que os seus régios olhos viam, no interior das muralhas da sua
capital, um carro que lhe agradava, mandava ao feliz proprietário que
«Sua Alteza Exaltada» teria o maior prazer em recebê-lo de presente. Em
1947, as garagens do soberano abarrotavam de centenas de carros de que
nunca se servia.
O hóspede favorito das garagens dos príncipes indianos era naturalmente o
rei dos carros, o Rolls-Royce. Importavam-nos de todos os modelos e
tamanhos, em forma de torpedo, de limusine, coupé, break e até camionete.
O pequeno De Dion-Bouton do marajá de Patiala depressa ficou acompanhado
por um rebanho de elefantes mecânicos, vinte e dois Rolls-Royces do
marajá de Bharatpur eram tratados como seres vivos por pessoal
especializado. O príncipe possuía o exemplar mais exótico jamais
construído pela firma inglesa, um Rolls-Royce descapotável de prata
maciça. Dizia-se que misteriosas ondas afrodisíacas emanavam da
carroceria e que o gesto mais amável do proprietário era emprestá-lo a
outro príncipe para a cerimónia nupcial. O marajá mandara mesmo equipar
um dos seus Rolls-Royces para a caça às feras. Certo dia de 1921, levou o
príncipe de Gales e o seu jovem ajudante de campo Lord Luís Mountbatten
para a selva nesse automóvel. «O carro, escreveu nessa noite o futuro
vice-rei das Índias no seu diário, atravessou regiões selvagens, galgando
covas e fossos aos solavancos e balouçando como um navio no alto mar, sem
que fosse preciso nunca fazer a mudança para segunda velocidade.»
O veículo mais espantoso do parque dos soberanos indianos era contudo um
Lancaster pertencente ao marajá de Alwar. Era chapeado a ouro tanto no
interior como no exterior. O motorista e o mecânico sentavam-se em
almofadas de fio de ouro num compartimento fechado em que o volante era
de marfim esculpido. O feitio era exactamente a réplica do coche da
coroação dos reis de Inglaterra. E graças a qualquer milagre mecânico, o
motor conseguia levar a cento e quarenta quilómetros à hora o pesado e
majestoso veículo.
Alguns marajás tinham pela deslocação ferroviária tanta paixão como pelos
automóveis. O de Indore mandara construir na Alemanha uma carruagem
especial dotada de um luxo provavelmente único no mundo. Decorada pelos
maiores ourives da casa parisiense Puiforcat, esta carruagem era um
verdadeiro iate sobre rodas. O caminho de ferro preferido do marajá do
poderoso Estado de Gwalior era um brinquedo tão aperfeiçoado como nunca
criança nenhuma sonhou receber do pai Natal. A sua rede de carris de
prata maciça corria sobre a imensa mesa em forma de ferradura da sala de
jantar do palácio e prolongava-se, através das paredes, até às cozinhas.
Em noites de gala, um quadro de comandos era colocado junto do soberano.
Mexendo em manípulos, alavancas, botões e sereias, o príncipe-chefe de
estação regulava a marcha dos comboios miniatura que traziam as bebidas,
cigarros, charutos e gulodices aos seus hóspedes. As carruagens-
cisternas, cheias de whisky, vinho, Porto e Madeira, paravam em frente de
cada conviva para lhe matar a sede. Carregando com o dedo num botão, o
monarca podia, se quisesse, privar de bebida ou de charutos, um dos seus
convidados.

133
Certa noite dos anos 30, durante um banquete em honra do vice-rei, deu-se
um curto-circuito no quadro de comandos. Perante os olhos horrorizados de
Suas Excelências, os comboios do marajá, como loucos, correram de um
extremo a outro da sala de jantar, atirando para cima dos vestidos das
senhoras, das casacas e dos uniformes dos homens um verdadeiro dilúvio de
vinho e de cherry. Esta catástrofe, única nos anais ferroviários, quase
provocou um incidente diplomático.
Os palácios dos grandes príncipes das Índias rivalizavam em dimensões e
opulência, e até em bom gosto, com monumentos grandiosos como o Taj
Mahal. O de Mysore era talvez o mais vasto do mundo com as suas
seiscentas divisões, vinte das quais estavam apenas ocupadas por uma
colecção de tigres, panteras, elefantes e búfalos selvagens empalhados,
troféus roubados às selvas do reino por três gerações de príncipes
amantes da caça. De noite, com as suas dezenas de milhar de lâmpadas
eléctricas parecia um paquete colossal que tivesse encalhado em pleno
centro da Índia.
Novecentas e cinquenta e três janelas, todas de mármore rendilhado,
abriam sobre a fachada-terraço do palácio dos Ventos da cidade cor-de-
rosa de Jaipur. Para atenuar a luz viva do deserto, o marajá de Bikaner
mandara colocar nas janelas do seu palácio vitrais de jade, de alabastro,
topázio e âmbar. As paredes de mármore branco do palácio de Udaipur
surgiam como um navio fantasma no meio das águas contilantes de um lago.
Entusiasmado pela sua visita a Versalhes, o imaginativo e culto marajá de
Kapurthala trouxera para a sua corte o fausto do Rei-Sol. Mandou vir de
França uma equipa de arquitectos e decoradores e construiu na base do
Himalaia uma pequena réplica do palácio de Versailles. Encheu-o de vasos
de Sèvres, de tapeçarias de Gobelins, de móveis antigos, proclamou o
francês língua oficial da corte, impôs o vinho tinto e a água de Évian à
mesa, e mascarou os skins ao seu serviço com as cabeleiras empoadas,
bofes de renda, calções de seda e chinelas de fivela dourada dos
marqueses do rei de França.
Os tronos de alguns palácios eram sem sombra de dúvida os assentos mais
luxuosos onde alguma vez pousaram nádegas humanas. O de Mysore, de ouro
maciço, pesava uma tonelada. Subia-se para ele por nove degraus
reluzentes, também de ouro, que simbolizavam a ascensão de deus Visnu
para a Verdade. Um guarda-sol de metal precioso representando uma flor de
lótus sobrepujava o cadeirão real coberto de almofadas bordadas a ouro e
pérolas finas. O trono de um rajá de Orissa parecia uma enorme cama. O
príncipe tinha-o comprado num antiquário de Londres porque era a cópia
exacta da cama da sua rainha soberana, Vitória. Colocado numa sala com as
dimensões de uma catedral, sobre um palco rodeado de colunas gregas e de
estátuas de mulheres nuas de mármore branco, o trono do nawab de Rampur
era dominado por uma gigantesca coroa de metal dourado com um metro de
altura.

134
A sua concepção original inspirava-se também no exemplo ilustre do Rei-
Sol: no veludo dourado do assento havia um orifício de retrete. Este
reizinho oriental podia assim, tal como o grande monarca, fazer as suas
necessidades em público sem interromper o curso das questões do seu
reino.
Às vezes as horas pareciam intermináveis e alguns dos moradores destes
luxuosos palácios. Para matarem o seu tédio, entregavam-se em geral a
dois passatempos favoritos - as mulheres e o desporto. O harém fazia
parte integrante do palácio de um verdadeiro soberano — quer fosse hindu
ou muçulmano —, domínio habitado por centenas de jovens bailarinas e
concubinas para seu uso privativo.
As selvas dos seus Estados eram-lhes também exclusivamente reservadas,
sendo a sua fauna — e em especial os tigres, de que a Índia contava nessa
altura mais de vinte mil exemplares - o alvo preferido das suas
espingardas. O príncipe de Bharatpur abatera o seu primeiro tigre com
oito anos de idade. Quando tinha trinta e cinco, as peles das feras
mortas por ele, cosidas umas às outras como uma alcatifa, cobriam o chão
dos seus salões. O seu território foi teatro de um fabuloso massacre de
patos, tendo morrido 4 482 destas aves em três horas durante uma caçada
oferecida em honra do vice-rei, Lord Harding de Penshurst. O marajá de
Gwalior matou só à sua conta mais de mil e quinhentos feras. Era autor de
um livro destinado a um público muito restrito, o Guia da caça ao Tigre.
O senhor incontestado dos prazeres da caça e da carne tinha sido o pai do
chanceler da Câmara dos príncipes, Sir Bhupinder Singh, chamado «O
Magnífico», sétimo marajá de Patiala. Com a sua estatura colossal, cento
e trinta quilos de peso, bigodes retorcidos como os chifres de um touro
bravo, a esplêndida barba preta cuidadosamente enrolada atrás do pescoço
à velha moda dos sikhs, lábios sensuais e olhar arrogante, parecia saído
de uma gravura mogol. Para o mundo do período de entre-duas-guerras, Sir
Bhupinder encarnou todo o fausto dos marajás das Índias. O seu apetite
era tão grande, que podia comer facilmente vinte quilos de comida por
dia. Devorava de boa vontade dois ou três frangos à hora do chá. Adorava
o polo e, galopando à cabeça dos seus «Tigres de Patiala», ganhara em
todos os campos do mundo troféus que lhe enchiam o palácio. Para permitir
estas proezas, os seus estábulos albergavam quinhentos dos mais belos
espécimes de raça cavalar.
Desde a mais tenra adolescência, Bhupinder Singh mostrou as melhores
aptidões para a prática do outro divertimento igualmente digno de um
príncipe, o amor. Os cuidados que por fim dedicou ao seu harém acabariam
por matar a sua paixão pela caça e pelo polo. Era ele próprio quem
escolhia as iniciadas conforme os seus atractivos e talentos amorosos.

135
No auge da sua glória, o harém real de Patiala contava com trezentas e
cinquenta esposas e concubinas.
Durante os Verões escaldantes do Panjab, parte delas instalavam-se todas
as tardes à beira da piscina, beldades de seios nus, sereias submissas
que ele vigiava enquanto fazia os seus exercícios natatórios. Blocos de
gelo refrescavam a água, e o monarca flutuava na maior beatitude,
aproximando-se de vez em quando da borda da piscina para acariciar um
seio e beber um trago de whisky. As paredes e tectos dos seus aposentos
estavam decorados com cenas inspiradas nos baixos-relevos eróticos dos
templos que faziam com justiça a celebridade das Índias, verdadeiro
catálogo de exibições amorosas capazes de esgotar o espírito mais
imaginativo e o corpo mais atlético. Um enorme hamac de seda permitia a
Sua Alteza procurar entre céu e terra a embriaguez dos prazeres sugeridos
pelos frémitos das personagens do tecto.
Para satisfazer os seus desejos insaciáveis, o inventivo soberano decidiu
renovar com regularidade os encantos das suas mulheres. Abriu as portas
do palácio a uma elite de perfumistas, joalheiros, cabeleireiros,
esteticistas e costureiros. Os maiores mestres da cirurgia plástica foram
convidados para modelarem as feições das suas favoritas ao sabor dos seus
caprichos e dos padrões das revistas de beleza de Londres e Paris. A fim
de estimular os seus ardores, teve a ideia de transformar uma ala do
palácio num laboratório cujas provetas e alambiques fabricavam uma
colecção exótica de perfumes, loções, cosméticos e filtros.
Estes extravagantes requintes apenas conseguiam mascarar o fracasso do
ambiente de luxúria oriental concebido pelo marajá. Que homem, mesmo um
sikh tão bem dotado pela natureza como Bhupinder Singh «O Magnífico»,
teria podido satisfazer as exigências das trezentas e cinquenta beldades
que esperavam por detrás das gelosias do seu harém?
O recurso aos afrodisíacos tornou-se inevitável. Os seus mais
qualificados alquimistas fabricaram sapientes poções à base de ouro, de
pérolas, especiarias, prata, ervas e ferro. Durante algum tempo, a mais
eficaz era uma mistura de cenouras e mioleiras de pardal. Quando o efeito
destes preparados começou a diminuir, Sir Bhupinder Singh apelou para
técnicos franceses que supunha, muito naturalmente, peritos em questões
de amor. O tratamento de rádium que lhe aplicaram devia infelizmente dar
um resultado tão efémero como os anteriores. Não havia cura para a doença
de que sofria o marajá, a mesma que atacava tantos dos outros príncipes
seus colegas - o tédio. Morreria desse mal.
A Índia mística tinha por hábito atribuir origens divinas aos maiores dos
seus príncipes. As do marajá de Mysore confundiam-se com o nascimento da
Lua. Todos os anos, pelo equinócio de Outono, o soberano tornava-se para
o seu povo num deus vivo.

136
Como um sadhu no interior de uma gruta do Himalaia, separava-se do mundo
dentro de uma sala escura do palácio. Não se barbeava nem se lavava. Nem
mãos nem olhares humanos podiam pousar sobre ele durante o tempo em que
Deus habitava o seu corpo. Tornava a aparecer no nono dia. Um elefante
coberto de veludo constelado de ouro e pedrarias, com uma cabeçada
incrustada de esmeraldas, esperava à porta do palácio para o conduzir no
meio de uma escolta de lanceiros a um sítio mais popular do que divino, o
campo de corridas da capital. Ali, perante a multidão dos seus súbditos,
sacerdotes brâmanes banhavam-no cantando mantra, barbeavam-no e davam-lhe
de comer. Enquanto o Sol se escondia na floresta, era apresentado ao
monarca um cavalo preto. No momento em que o montava, milhares de
archotes acendiam-se em redor da pista. O príncipe galopava em toda a
volta desta coroa de chamas, desencadeando aplausos à passagem. O filho
da Lua regressara para o seu povo.
O marajá de Udaipur, esse, tinha a sua origem no Sol. O seu trono, com
dois mil anos de idade, era o mais antigo e prestigioso das Índias. Uma
vez por ano, também se tornava um deus vivo. De pé à proa de uma galera
semelhante ao barco de Cleópatra, passeava sobre as águas infestadas de
crocodilos do lago que banhava o seu palácio. Na ponte, atrás dele, como
o coro de uma tragédia antiga, em atitude de veneração, estavam os
dignitários da corte, com túnicas de musselina branca.
As pretensões do soberano de Bebares, a cidade santa à beira do Ganges,
embora menos ambiciosas, inspiravam a mesma piedade. A tradição mandava
que a primeira coisa que o príncipe daquela terra abençoada visse todas
as manhãs ao abrir os olhos, fosse o símbolo hindu da eternidade cósmica,
uma vaca sagrada. Assim, ao alvorecer era posta uma vaca sob a janela do
seu quarto e picada no flanco para que os mugidos acordassem o piedoso
marajá. Certa vez em que foi de visita ao nawab de Rampur, o cumprimento
deste rito levantou um problema delicado: como os aposentos reservados ao
visitante eram no segundo andar do palácio, o nawab teve de recorrer a um
sistema engenhoso para salvaguardar o ritual do acordar do seu hóspede.
Comprou uma grua que todas as manhãs içava uma vaca até à janela do
quarto. Aterrado pela sua insólita ascensão, o pobre animal soltava
mugidos tão sonoros que acordou todo o palácio à mesma hora que o marajá
de Benares.
Ricos ou pobres, devotos ou depravados, decadentes ou progressistas, os
príncipes tinham mostrado a maior lealdade para com a Inglaterra e um
zelo exemplar em servir os seus interesses. Não lhe haviam recusado nem o
seu dinheiro nem o seu sangue durante as suas guerras mundiais. Tinham
organizado, equipado, treinado corpos expedicionários que se distinguiram
em todas as frentes sob a bandeira da Union Jack. O marajá de Bikaner,
ele próprio general do exército britânico e membro do gabinete de guerra,
tinha mandado os seus cameleiros assaltarem as trincheiras alemãs da
Grande Guerra. Os lanceiros de Jodhpur tinham conquistado Haifa aos
turcos a 23 de Setembro de 1917 (Nota 1).

Nota 1 - Em matéria mais pacífica, o mesmo marajá introduzira no Ocidente


os «jodhpurs», o calção de montar usado habitualmente no seu reino.
Chegando a Londres para assistir aos festejos do jubileu de ouro da
rainha Vitória, o infeliz príncipe soube que o navio que transportava
todas as suas bagagens naufragara.
Para salvar a situação, foi obrigado a revelar a um alfaiate londrino o
segredo do corte dos seus calções preferidos.

137
Em 1943, sob as ordens do seu jovem marajá, comandante nos Lifeguards, os
sipaios da cidade cor-de-rosa de Jaipur tinham limpo as encostas do monte
Cassino e aberto o caminho de Roma aos exércitos aliados. Para premiar a
sua coragem à frente do seu batalhão, o maharao rajá de Bundi recebera a
Military Cross em plena selva birmanesa.
Os ingleses provaram a sua gratidão a estes fiéis e pródigos vassalos da
maneira mais hábil: cobrindo-os de uma chuva de honras e condecorações,
suas jóias preferidas. Os marajás de Gwalior, de Cooch Behar e de Patiala
receberam o insigne privilégio de escoltarem a cavalo, na qualidade de
ajudantes de campo honorários, o coche real de Eduardo VII durante as
festas da sua coroação. Oxford e Cambridge concederam pergaminhos
honoríficos a toda uma série de príncipes. Os peitos dos soberanos mais
merecedores enriqueceram-se com medalhas reluzentes de ordens novas
criadas para a circunstância - Ordem da Estrela das Índias, e Ordem do
Império das Índias.
Foi sobretudo pela graduação subtil de uma forma particularmente
engenhosa de recompensas que a potência soberana testemunhou a sua
estima. O número de salvas de canhão que saudava um monarca indiano era o
critério final e sem contestação do seu lugar na hierarquia principesca.
O vice-rei tinha autoridade para aumentar o número de salvas para honrar
um soberano em recompensa de serviços excepcionais, ou pelo contrário,
reduzi-lo em sinal de castigo. A dimensão dos reinos e a importância da
sua população não eram os únicos factores que determinavam o número
destas salvas de canhão. A fidelidade à Coroa, o sangue e o dinheiro
gastos na sua defesa eram igualmente considerados. Cinco soberanos - os
de Hyderabad, de Cachemira, de Mysore, de Gwalior e de Baroda - tinham
direito à suprema honra de vinte e uma salvas. Vinham a seguir os Estados
de dezanove, depois, de dezassete, quinze, treze, onze e nove salvas.
Para 425 humildes rajás e nawabs que reinavam sobre pequenos principados
quase esquecidos no mapa, não havia salvas nenhumas. Eram os príncipes
pobres das Índias, por quem não troava o canhão.

A Índia dos marajás e dos nawabs apresentava uma outra face. Muitos
príncipes tinham viajado no Ocidente, estudado em universidades,
descoberto os benefícios da ciência, da técnica, da educação. Muitos
tinham lutado para transformar os seus Estados em pilares da civilização
e do progresso, por vezes únicos na Ásia.

138
Milhões de homens gozavam nestes reinos de condições de existência e
vantagens materiais e sociais que a Inglaterra desconhecia na Índia.
O marajá de Baroda proibira a poligamia e tornara a instrução gratuita e
obrigatória muito antes de 1900. Lutara a favor dos Intocáveis com um
zelo tão encarniçado como o de Gandhi, criando instituições para os
alojar, vestir, instruir, e financiando na universidade de Columbia em
Nova York os estudos do homem que se tornaria o seu líder, o doutor
Bhimrao Ramji Ambedkar. O marajá de Bikaner transformara algumas regiões
do seu deserto do Rajasthan num verdadeiro oásis de jardins, lagos
artificiais e cidades florescentes à disposição dos seus súbditos.
Governado pelos descendentes de um príncipe Bourbon vindo do Pau no
século XVI, o principado muçulmano de Bhopal dera às mulheres uma
liberdade sem par em todo o Oriente. O Estado de Mysore possui a
universidade de ciências mais conceituada da Ásia e uma enorme cadeia de
barragens hidroeléctricas e de indústrias sem equivalente na Índia
britânica. Herdeiro de um dos maiores astrónomos da História, um sábio
que traduzira os princípios da geometria de Euclides em sânscrito, o
marajá de Jaipur tornara o observatório da sua capital num centro de
estudos de renome internacional. As estradas, as vias férreas, as
escolas, hospitais e instituições democráticas com que o marajá de
Kapurthala dotara o seu principado, transformaram-no num Estado moderno e
liberal que podia rivalizar com muitas nações ocidentais.
A Segunda Guerra mundial vira subir aos tronos indianos uma nova geração
de príncipes menos fanáticos, menos extravagantes, menos fabulosos que os
pais, mas cada vez mais conscientes de escassez dos seus privilégios e da
necessidade de reformar os costumes dos seus reinos. Uma das primeiras
decisões do oitavo marajá de Patiala fora encerrar o lendário harém de
seu pai Sir Bhupinder Singh «O Magnífico». O marajá de Gwalior desposara
uma plebeia, filha de um funcionário, e abandonara o enorme palácio da
família para viver numa casa de tamanho mais compatível com as realidades
do mundo do após-guerra.
Mas para desgraça destes príncipes e de todas quantos governavam os seus
Estados com competência e honestidade, o mundo associaria sempre os
marajás e nawabs das Índias com os excessos e excentricidades de um
pequeno número dos seus iguais.

Para dois Estados da Índia dos príncipes, dois soberanos que desfrutavam
a suprema honra da salva de vinte e um tiros de canhão, a iniciativa
tomada em Londres por Sir Conrad Corfield podia ter consequências
profundas. Os dois reinos tinham dimensões excepcionais. Ambos eram
enclaves. Ambos tinham como monarcas homens de uma região diferente da
maioria dos seus súbditos. E ambos acalentavam o mesmo sonho: fazer do
seu Estado uma nação independente e soberana.

139
De todas as personagens exóticas e singulares que reinavam nas Índias,
Rustum-i-Dauran, Arustu-i-Zeman, Wal Mamalik, Asif Jah, Nawab Mir Osman,
Alikhan Bahadur, Musafrul Mulk, Nizam Al-Mulk, Sipah Salar, Fateh Jang,
Sua Alteza Exaltada, Aliado Fiel da Coroa, o sétimo nizam do Estado de
Hyderabad era sem dúvida a mais espantosa. Este muçulmano erudito e
piedoso possuía o Estado mais vasto e mais populoso das Índias - vinte
milhões de hindus e três milhões de muçulmanos - situado em pleno coração
da península. Era um velho com metro e meio de altura, que pesava apenas
quarenta quilos. Uma vida inteira passada a mastigar folhas de betei
deixara-lhe na boca só um ou outro dente encarniçado. Tinha tanto medo de
ser envenenado que se fazia acompanhar sempre por um servo que provava
antes dele a sua refeição invariável de queijo fresco, gulodices, fruta,
betei e uma porção de ópio. O nizam era o único soberano da Índia que
podia usar o título de «Alteza Exaltada», distinção que lhe fora
conferida pela Inglaterra em reconhecimento dos cinquenta milhares de
francos antigos que ele oferecera por ocasião da Grande Guerra.
Em 1947, o nizam passava por ser o homem mais rico do mundo. Cunhava
moeda, e a sua fortuna legendária só era comparável em reputação à sua
avareza não menos legendária.
Vestia-se com pijamas miseráveis e calçava sandálias compradas por poucas
rupias no bazar local. Durante trinta e cinco anos, usara o mesmo fez,
duro de transpiração e de sebo. Apesar de possuir um serviço de prata
dourada que lhe permitia receber mais de cem convivas, comia num prato de
lata, acocorado sobre o tapete do quarto. Era tão económico que fumava as
pontas de cigarros deixados nos cinzeiros pelos convidados. Quando um
jantar oficial o obrigava a oferecer champanhe, tinha o cuidado de não
deixar que a única garrafa que mandava abrir se afastasse dele. Quando o
vice-rei Lord Wavell o visitou em 1944, o nizam telegrafou para Nova Deli
a fim de saber se ele exigia que fosse servido champanhe apesar da
carestia devido à guerra. Todos os Domingos, após o serviço religioso, o
cônsul britânico ia cumprimentá-lo. Imediatamente, aparecia um criado
trazendo uma bandeja com duas chávenas de chá, dois biscoitos e dois
cigarros. Certo dia, o Cônsul chegou inesperadamente em companhia de um
visitante de grande distinção. O nizam segredou qualquer coisa ao criado
que voltou com a chávena de chá, o biscoito e o cigarro que faltavam.
Na maior parte dos Estados, o uso obrigava os nobres a oferecerem todos
os anos ao seu soberano uma moeda de ouro, limitando-se o monarca a tocá-
la antes de a devolver ao seu proprietário. Mas em Hyderabad não havia
oferendas simbólicas. O nizam apoderava-se de todas as moedas de ouro e
metia-as numa fronha de travesseiro pendurada atrás dele. Em determinado
ano, uma das moedas rolou para debaixo do trono: sem hesitar um segundo,
e apresentando aos súbditos o espectáculo pouco agradável do seu assento,
o nizam pôs-se de gatas para recuperar a moeda.

140
Era tal a sua mesquinhez, que o médico vindo de Bombaim para lhe observar
o coração, não conseguiu obrigá-lo a fazer um electrocardiograma. Nenhum
aparelho eléctrico funcionava como devia ser em casa dele: por medida de
economia, o nizam ordenara à central eléctrica de Hyderabad que reduzisse
a voltagem.
Descendente de Maomé, herdeiro do fabuloso reino de Golconda, o nizam
recusara-se sempre a habitar o palácio dos seus antepassados. Preferia
morar numa casa velha que lhe deixara um dos seus cortesãos. O quarto
dele parecia uma pocilga, mobilado apenas com um colchão, uma mesa, três
cadeiras, uma série de cinzeiros e de cestos de papéis, despejados uma
vez por ano, no dia do seu aniversário. O escritório estava atravancado
de mesas velhas e de cómodas carregadas de maços de arquivos cobertos de
teias de aranha.
Contudo, este palácio da miséria albergava nos seus recantos uma fortuna
que desafiava a imaginação. A gaveta da secretária desengonçada continha,
embrulhado num jornal velho, o Koh-i-Noor — «A Montanha de Luz», um
fabuloso diamante de 280 quilates que fora a grande jóia do tesouro dos
imperadores mongóis. O nizan utilizava-o às vezes como pisa-papéis. No
jardim abandonado havia uma dúzia de camiões tão carregados que se
enterravam no chão até aos eixos. Estavam cheios de lingotes de ouro. Uma
colecção de jóias, tão fantástica que se dizia que podia cobrir os
passeios de Piccadilly, enchia todas as gavetas e o velho cofre-forte do
seu quarto. Possuía baús cheios de rupias, de dólares e de libras
esterlinas, embrulhadas em papel de jornal e totalizando cinco biliões de
francos antigos. Uma legião de ratos que dela faziam a sua refeição
favorita, desfalcavam todos os anos em vários milhões esta fortuna.
Finalmente, guardados por um batalhão de amazonas africanas armadas de
punhais, quarenta esposas legítimas, uma centena de concubinas e outros
tantos filhos nascidos das suas proezas povoavam o seu harém.
A fortuna mais querida do nizam naqueles tempos incertos era de facto o
seu numeroso exército, equipado com artilharia e aviação. Dispunha assim
de quase todos os trunfos para a independência, excepto o acesso ao mar e
o apoio do seu povo. Na maioria hindus, os súbditos apoiavam a pequena
minoria muçulmana que os governava. O estranho monarca não tinha porém
quaisquer dúvidas sobre o seu futuro. Quando Sir Conrad Corfield o foi
informar da decisão da Grã-Bretanha de abandonar as Índias, ele pulou de
contente na cadeira.
- Enfim! gritou, enfim, vou ser livre!
A mesma ambição animava outro poderoso soberano no extremo oposto das
Índias. Reinando sobre um dos mais célebres e mais belos lugares do
mundo, o vale encantado de Cachemira, Hari Singh era um hindu de alta
casta brâmane. Os seus quatro milhões de súbditos eram em três quartos
muçulmanos. O seu reino, encravados entre as paredes dos picos do
Himalaia, estendia-se sob o Tecto do mundo varrido pelos ventos que
sopravam do Ladakh, do Tibete e do Sin Kiang.

141
Constituía uma encruzilhada vital para a Índia, o futuro Paquistão, a
China e o Afeganistão haveriam fatalmente de se enfrentar um dia.
Pessoa fraca e indecisa, o marajá Hari Singh dividia o seu tempo entre as
festas luxuosas de Jammu, sua capital de Inverno, e as lagoas cobertas de
lótus da sua capital de Verão, Srinagar, a Veneza do Oriente. Inaugurara
o seu reinado com algumas tentativas de reforma, depressa dominadas pelo
seu despotismo crescente, mandando a pouco e pouco todos os adversários
para as prisões do seu Estado. Um deles fora o próprio Nehru, preso
durante uma visita à Cachemira dos seus antepassados. Como o nizam de
Hyderabad, Hari Singh possuía um exército capaz de defender as fronteiras
do seu reino e de fazer pesar a sua reivindicação de independência.

142
Capítulo oitavo

«UM DIA AMALDIÇOADO PELOS ASTROS»

O homem que descia do carro em frente do N.° 10 de Downing Street podia


estar legitimamente apreensivo. Convocado para se apresentar em Londres a
fim de explicar o incidente de Simla com Nehru, Lord Mountbatten fora
prevenido por Ismay logo à aterragem de que o governo estava «fortemente
irritado com a sua maneira de agir». Contudo, não sentia a menor
inquietação.
Levava consigo o novo plano de independência das Índias, redigido por V.
P. Menon após a rejeição brutal da primeira versão por parte de Nehru.
Estava persuadido de que este plano continha agora a chave do problema
indiano. De qualquer forma, não viera a Londres para «se explicar».
Tencionava pelo contrário substituir o antigo texto pelo novo e
demonstrar a Clement Attlee e ao seu governo «que podiam sentir-se
felizes por ele ter tido a intuição de mostrar o projecto a Nehru».
Com um largo sorriso, Mountbatten atravessou a barreira dos fotógrafos e
dirigiu-se ao escritório onde fora investido da sua missão, cinco meses
antes. Attlee e todos os ministros relacionados com as questões indianas
estavam à sua espera. O acolhimento foi cordial mas reservado. Sem se
mostrar desconcertado, Mountbatten começou a relatar a situação. «Não
lhes mostrei o menor arrependimento, contaria ele mais tarde, como não
lhes dei a menor justificação. Tive a sensação terrível, não de orgulho,
mas de convicção absoluta de que tudo dependia de mim e de que todos
aqueles ministros deveriam fazer o que eu lhes dissesse.»
Analisando as modificações feitas no plano inicial, Mountbatten anunciou
que tinha razões para afirmar que todas as partes em causa estavam agora
de acordo para aceitarem as propostas do novo documento. Mas sobretudo,
acrescentou, trazia uma informação da mais alta importância. Recebera a
garantia de que a Índia e o Paquistão independentes continuariam ligados
à Grã-Bretanha fazendo parte da Commonwealth britânico.
O partido do Congresso estava com efeito disposto a aceitar o estatuto de
domínio. Mas com uma condição: que a independência fosse dada
imediatamente, sendo a data limite de 30 de Junho de 1948 considerada
muito afastada.
Persuadido de que a rapidez era a base do êxito, Mountbatten queria
convencer o governo da necessidade de agir depressa. Quanto tempo teria
ele de esperar que o Parlamento votasse a lei dando a independência às
Índias? perguntou.
O à vontade do jovem almirante perante o austero areópago foi tão
notável, que em poucos minutos conseguia mudar em seu favor uma atmosfera
ao princípio hostil.

143
Fascinados pelo seu encanto e poder de persuasão, os ministros adoptaram
o novo plano sem lhe fazer qualquer alteração, por mais pequena que
fosse.
- Good God! exclamou Lord Ismay que fora testemunha de tantas tempestades
provocadas por Churchill naquela mesma residência. Assisti a muitas
proezas na minha vida, mas a que você acaba de conseguir ultrapassa-as
todas!
A possante silhueta que Luís Mountbatten via deitada na cama, com um
roupão escocês sobre os ombros, com meios óculos a cavalo na ponta do
nariz, o famoso charuto na boca, fizera sempre parte da sua existência. A
imagem de Winston Churchill povoava as suas recordações de adolescente,
desde o dia em que o tinha visto, jovem e exuberante Primeiro Lord do
Almirantado, a falar no salão da residência familiar com o pai, então
primeiro Lord do Mar. Mountbatten lembrava-se até de ouvir a mãe dizer
por graça a propósito do homem que se tornaria o símbolo da resistência
contra Hitler que «não se podia contar com ele», porque praticara uma
falta inqualificável: não devolvera um livro que pedira emprestado (Nota
1).
Nos meses que se seguiram à crise de Munique, uma viva simpatia
aproximara o jovem oficial de marinha e o político que aconselhava, no
meio da indiferença geral, o rearmamento da Grã-Bretanha. Mais tarde,
impressionado pela impetuosidade de Mountbatten, Churchill dera-lhe o seu
primeiro alto comando de guerra nomeando-o chefe das Operações
combinadas, depois comandante supremo interaliado do Sudeste asiático.
Apesar da diferença de idades, laços profundos haviam ligado os dois
homens durante todo o tempo de guerra e Mountbatten nunca se esquecera de
ir visitar o velho leão sempre que qualquer missão o obrigava a ir a
Londres (Nota 2).

Nota 1 - Tratava-se do livro francês Psychologie des foules de Gustave Le


Bon.
Nota 2 - Logo após o seu naufrágio em Creta, Mountbatten fora convidado
por Churchill para almoçar no sábado 21 de Junho de 1941, em companhia do
magnate da imprensa britânica Lord Max Beaverbrook. O primeiro-ministro
recebeu nesse dia os seus convidados com rosto alegre.
- Tenho novidades interessantíssimas, anunciou ele. Hitler vai atacar a
Rússia amanhã de madrugada. Durante toda a manhã temos tentado adivinhar
o que vai acontecer.
- Eu digo-lhe o que vai acontecer, interrompeu Beaverbrook. Os alemães
vão entrar na Rússia como em terreno conquistado. E que razia! Em menos
de um mês, seis semanas o máximo, tudo estará terminado.
- Os americanos, objectou Churchill, acham que os alemães vão levar mais
de dois meses, e o nosso Estado-Maior é da mesma opinião.

144
Mountbatten sabia que Churchill o estimava, mas, explicava ele, «por más
razões. Pensava que era apenas um guerreiro, uma espécie de mata--mouros.
Não fazia a menor ideia da natureza das minhas concepções políticas». O
jovem almirante estava convencido de que se Churchill tivesse sido eleito
em 1945, ele seria «eliminado como um trapo velho», por causa das suas
opiniões liberais acerca do futuro do Sudeste asiático.
Hoje, Mountbatten visitava Churchill a pedido do primeiro-ministro, para
o convencer a cumprir a missão mais dolorosa de velho Conservador. Ia
pedir-lhe que desse o seu beneplácito ao plano que ia desencadear o
desmembramento inexorável do seu querido Império. «Winston é a mola do
problema em Inglaterra, declarara Attlee a Mountbatten ao aconselhar-lhe
esta diligência. Nem eu nem ninguém do meu governo conseguirá convencê-
lo. Mas ele estima-o. Confia em si. Você tem possibilidades.»
Rude tarefa. Mountbatten sabia que Churchill achava desastroso qualquer
projecto que permitisse aos indianos governarem-se sozinhos. Acreditava
sinceramente que «a pior catástrofe que podia acontecer às Índias era
privá-las da eficiente administração britânica para a substituir por um
bando de indianos perturbadores e inexperientes».
Mountbatten começou a esboçar o plano dos seus esforços dos últimos
meses. O momento era crucial. Havia meio século que Churchill dizia «não»
a qualquer reforma que pudesse levar as Índias á independência.

Nota 1 (continuação da página anterior) - Quanto a mim, penso que os


russos vão aguentar pelo menos três meses, mas que depois serão vencidos
e que nós ficamos como antes, entre a espada e a parede...
Dando então com os olhos em Mountbatten, que parecera ter ficado
esquecido durante a conversa, Churchill dirigiu-se ao seu jovem amigo,
quase desculpando-se:
- Ah, Dickie, conte-nos lá os seus combates em Creta!
- Já pertencem ao passado, respondeu Mountbatten. Mas se me permite dar a
minha opinião, gostava de lhe dizer o que vai acontecer na Rússia.
Churchill concordou, um pouco contrariado.
- Não sou da opinião de Max Beaverbrook, declarou Mountbatten. Também não
estou de acordo com os americanos, com o nosso Estado-Maior e,
sinceramente, consigo mesmo, Senhor primeiro-ministro. Não penso que os
russos sejam vencidos. Vai ser o fim de Hitler. É a viragem da guerra.
- Então, Dickie, respondeu Churchill a sorrir, porquê esse seu ponto de
vista tão diferente?
- Primeiro porque as purgas militares de Estaline eliminaram toda a
oposição interna provável de que os nazis poderiam procurar servir-se.
Depois, e é doloroso para mim reconhecê-lo visto que a minha família
reinou ali durante tanto tempo, os russos têm agora qualquer coisa a
defender. Desta vez lutarão todos.
Churchill não pareceu de forma nenhuma convencido.
- É sempre agradável ouvir uma opinião jovem e entusiástica como a sua,
caro Dickie. Veremos.

145.
Um último «não» daria agora o golpe fatal a todas as esperanças de
Mountbatten. Chefe da maioria da Câmara dos lords, Churchill podia,
recorrendo a todos os artifícios do processo parlamentar, retardar
durante dois anos a lei promulgando a independência das Índias.
O vice-rei sabia a tragédia que podia resultar desse «não». O acordo do
Congresso ao seu plano dependia da outorga imediata da independência. O
seu governo, a sua administração e todo um continente borbulhante de
paixões raciais e religiosas não sobreviveria a esse adiamento que um
Churchill irascível podia infligir ao curso da História. Com os olhos
semi-cerrados, Churchill ouviu o vibrante apelo do seu jovem amigo com o
ar de um Buda perdido em meditação. Nada, nem o espectro da derrocada das
Índias, nem o caos, nem a guerra civil, provocou a menor reacção no seu
rosto impassível.
Mountbatten lançou então a última carta. Anunciou que possuía a garantia
de que as Índias ficariam na Commonwealth se a independência fosse
concedida imediatamente.
Churchill não acreditou nos seus ouvidos. Era possível que os inimigos
mais implacáveis do Império tivessem aceite conservarem-se nas fileiras
da comunidade britânica? Que as glórias passadas do seu querido Império
se perpetuassem nas novas estruturas da era que começava? Que podia
restar qualquer coisa dessa velha Índia onde queimara as energias da sua
juventude romântica; que continuariam, acima de tudo, os seus laços com a
Inglaterra?
Desconfiado, interrogou o visitante. Possuía ele uma garantia escrita?
Mountbatten respondeu que tinha uma carta de Nehru dando todas as
garantias desejadas.
- E o meu velho inimigo Gandhi? perguntou Churchill.
Mountbatten reconheceu que Gandhi era uma personagem imprevisível.
Representava um perigo real, mas o vice-rei esperava poder neutralizá-lo
com a ajuda de Nehru e de Patel.
Churchill pareceu voltar à sua meditação. Ergueu-se por fim sobre o
travesseiro e declarou que se Mountbatten obtivesse o acordo solene e
público de todos os partidos indianos ao plano que propunha, «a
Inglaterra inteira» estaria com ele. Os Conservadores juntar-se-iam com
os Trabalhistas para fazerem votar a lei necessária antes das férias de
Verão do Parlamento. As Índias poderiam ser independentes não dentro de
anos ou meses, mas dentro de algumas semanas, e até de alguns dias.
De toda uma série de fogueiras espalhadas através das Índias, espessos
rolos de fumo subiam ao céu. Não havia nenhuma madeira de sândalo,
nenhuma oferenda de ghî a alimentar estas piras crematórias improvisadas.
Nenhuma carpideira cantando mantra estava junto dos braseiros vigiados
apenas por alguns funcionários britânicos imperturbáveis.

146
Era só papel o que as chamas devoravam, quatro toneladas de documentos,
de relatórios, de arquivos. Acesos por ordem de Sir Conrad Corfield,
estes autos de fé reduziam a cinzas os episódios mais sinistros de alguns
capítulos pitorescos do passado das Índias: a história secreta dos
vícios, das loucuras e dos escândalos de cinco gerações dos seus
protegidos, os príncipes indianos. Corfield receava que esses arquivos,
acumulados pelo zelo meticuloso dos representantes sucessivos da coroa,
caindo intactos nas mãos dos futuros dirigentes da Índia e do Paquistão,
se tornassem armas de uma chantagem política.
Apesar de ter regressado de Londres com a garantia de que a Inglaterra
não abandonaria impunemente os seus príncipes indianos nas garras dos
socialistas do Congresso, Corfield continuava tão pessimista quanto ao
seu futuro que estava resolvido a preservar pelo menos o seu passado.
Tendo conseguido o acordo do governo de Attlee para a destruição desses
arquivos, ordenara imediatamente a todos os cônsules e agentes políticos
britânicos colocados nos principados que queimassem todos os documentos
relativos à vida privada dos príncipes.
Sir Conrad Corfield acendeu ele próprio a primeira fogueira debaixo das
janelas do seu escritório. Era uma pequena montanha de dossiers guardados
até então num cofre-forte de que só ele e o seu adjunto possuíam a chave.
A escrupulosa compilação de cento e cinquenta anos de escândalos
principescos desfazia-se em fumo. Considerando que esses documentos
faziam parte do património indiano, Nehru protestou energicamente.
Mas era demasiado tarde. Em Patiala, Hyderabad, Indore, Mysore, Baroda,
Porbandar - pátria de Gandhi nas margens do mar de Oman —, em Chitral no
Himalaia, na atmosfera tropical dos pântanos de Cochim, em toda a parte,
os funcionários britânicos atiravam às chamas a crónica escandalosa de
uma época.
Os relatos das excentricidades sexuais de alguns príncipes podiam por si
só alimentar as chamas durante horas. Um nawab de Rampur apostara com
vários dos seus pares que era capaz de desflorar num ano maior número de
virgens do que os outros. A prova de cada uma das suas conquistas seria o
anel de ouro que as jovens usam na narina até ao casamento. Enviando os
seus espadachins às aldeias do seu reino, como batedores da caçada ao
faisão, o nawab ganhou com enorme vantagem a aposta. No fim do ano, a
colheita de anéis pesava vários quilos.
A fogueira dos arquivos do marajá de Cachemira consumia os segredos de um
dos mais rocambolescos escândalos de entre as duas guerras. O príncipe
fora um dia surpreendido num quarto do hotel Savoy, em Londres, por um
homem que se apresentou como o esposo da sua jovem amante inglesa. De
facto cairá nas malhas de uma quadrilha de chantagistas que iam quase
conseguindo esvaziar os cofres do Estado de Cachemira por intermédio da
conta bancária pessoal do seu soberano.

147
O escândalo rebentou quando o verdadeiro marido da jovem, achando que não
fora suficientemente remunerado pelo empréstimo da esposa, foi revelar
tudo à polícia. No retumbante processo que se seguiu, a identidade do
infeliz marajá foi disfarçada com o pudico pseudónimo de «M. A.».
Desiludido para sempre das mulheres, Hari Singh voltou para Cachemira
onde descobriu novos horizontes sexuais na companhia de rapazes novos.
Fielmente registados pelos representantes da coroa, os relatos dessas
novas actividades voavam agora no éter do Himalaia, com a ajuda da fresca
brisa de Srinagar que acelerava a sua combustão.
O nizam de Hyderabad combinava, esse, duas paixões: a fotografia e a
pornografia. Tinha reunido uma impressionante colecção de documentos
eróticos. O ilustre velho dissimulara nas paredes e tectos dos quartos
dos convidados, câmaras automáticas que registavam os seus actos sexuais.
Fizera até instalar um aparelho por detrás do espelho da casa de banho
dos aposentos do palácio reservados aos hóspedes de qualidade. A colheita
desta câmara apresentando os grandes da Índia aliviando o ventre sentados
nas sanitas constituía o melhor da sua estranha colecção.
O último relatório acerca do nizam referia-se aos esforços do cônsul
britânico para ter a certeza de que as inclinações sexuais do príncipe
herdeiro estavam conformes com as de um futuro soberano. Com todo o tacto
de que era capaz, o inglês fizera alusão a certos rumores segundo os
quais as preferências do jovem não se dirigiam às princesas. O nizam
mandou imediatamente chamar o filho, assim como uma das mais graciosas
raparigas do seu harém. Sem fazer caso dos protestos embaraçados do
cônsul, disse ao filho para demonstrar ali, pública e completamente a sua
virilidade. Só assim podia ser desmentida a insinuação caluniadora de que
ele era incapaz de perpetuar a dinastia.
De todos os escândalos que desapareciam nas fogueiras purificadoras de
Sir Conrad Corfield, nenhum deixara um rasto tão sólido como o do
reinado, pelos anos 30, do príncipe de um pequeno Estado de oitocentos
mil habitantes na fronteira do Rajzsthan. O marajá de Alwar era um homem
tão encantador e culto que conseguira fascinar vários vice-reis ao ponto
de continuar impunemente as suas actividades. Como acreditava ser uma
reincarnação do deus Rama, usava permanentemente luvas de seda preta a
fim de conservar as mãos livres da sujidade da carne de qualquer mortal,
ao ponto de se recusar a descalçar a luva para cumprimentar o rei de
Inglaterra. Pretendendo usar um turbante igual ao do deus Rama,
contratara um exército de teólogos hindus apenas com o objectivo de lhe
calcularem as verdadeiras dimensões.
Entre os seus poderes temporais de príncipe e o poder divino que a si
próprio se atribuía, o marajá de Alwar não era homem para dominar os seus
apetites. Sendo um dos melhores atiradores da Índia, adorava matar os
animais servindo-se de crianças como isca. Mandava-as buscar às aldeias,
prometendo aos pais horrorizados abater o animal antes dele ter tempo de
devorar os filhos. Homossexual de gostos particularmente perversos, tinha
transformado o seu leito real na única academia militar onde os jovens
oficiais do seu exército podiam esperar obter galões.

148
As orgias em que os obrigava a participar terminavam às vezes com
assassínios sádicos.
Se a frequência e regularidade dos seus abusos tinham deixado indiferente
a nação suserana, os dois crimes que o marajá de Alwar teve a
infelicidade de praticar sob o reinado do vice-rei Lord Willingdon seriam
a sua perda. Convidado a almoçar no palácio do vice-rei, o príncipe foi
posto à direita de Lady Willingdon que admirou com entusiasmo o enorme
diamante que ele usava num dos dedos enluvados. A admiração da vice-
rainha talvez não fosse completamente desinteressada. Com efeito, a
tradição mandava que os príncipes oferecessem ao vice-rei ou à vice-
rainha qualquer objecto que suscitasse o seu apreço. A convite amável do
hóspede, a vice-rainha experimentou o anel, contemplou-o mais maravilhada
ainda, e devolveu-o ao seu proprietário.
O príncipe mandou vir discretamente um recipiente com água. Com enorme
espanto de todos os convivas, a reincarnação de Rama começou a purificar
cuidadosamente a jóia de toda a sujidade que nela pudesse ter deixado a
vice-rainha. Terminada a operação, tornou a meter o anel no dedo.
O segundo crime, mais imperdoável ainda aos olhos dos britânicos,
desenrolou-se num campo de polo. Furioso com a fraca demonstração de um
dos seus póneis durante um desafio, o soberano mandou-o regar com
gasolina e riscou ele mesmo o fósforo que o transformou numa tocha viva.
Esta revelação pública da sua crueldade para com um animal pesou mais do
que todos os requintes sádicos e por vezes mortais que infligira a grande
número de companheiros de orgias. O marajá de Alwar foi deposto e
deportado. Acabou os seus dias no exílio dourado do seu castelo na Côte
d'Azur.
Apesar de excepcional, o caso deste príncipe não foi o único a perturbar
as relações entre os puritanos senhores britânicos e os seus
extravagantes vassalos. Com a crónica das torpezas dos príncipes ardiam
também os relatos de numerosas crises.
A mais grave tivera como responsável o marajá de Baroda. Escandalizado
com o facto do cônsul britânico colocado no seu Estado, «um coronel
obscuro», ter direito ao mesmo número de salvas de canhão que ele, o
príncipe mandou imediatamente fundir dois canhões em ouro maciço para dar
às suas salvas uma ressonância mais real que a do coronel. Considerando-
se insultado, o cônsul enviou a Londres um relatório desfavorável acerca
da moral do marajá, acusando-o de tratar como escravas as mulheres do seu
harém.
Para se vingar, o príncipe convocou os melhores astrólogos e os homens
mais santos do seu reino, intimando-os a verem na conjuntura dos astros
uma maneira de fazer desaparecer o indesejável coronel.

149
Aconselharam-lhe o envenenamento por meio do diamante. O príncipe
escolheu no seu tesouro uma pedra do tamanho de uma avelã, que achou
apropriada à categoria do cônsul. Os astrólogos reduziram-na a pó, que
foi certa noite, misturado aos alimentos do coronel. Mas as horríveis
dores intestinais que provocou permitiram salvá-lo; foi transportado ao
hospital, onde uma lavagem ao estômago evitou o pior.
Esta tentativa de assassínio na pessoa de um representante da coroa
resultou numa questão de Estado. O marajá foi castigado. Os seus juízes
não se comoveram com a garantia dada pelos sacerdotes brâmanes de que
tinham cumprido devidamente todos os ritos que garantiam a transmigração
da alma do coronel, nem com a de um joalheiro assegurando que o valor do
diamante «correspondia exactamente ao de um coronel inglês». O marajá de
Baroda foi deposto por «incapacidade para administrar correctamente um
Estado vassalo da coroa britânica».
Foi vingado por um príncipe seu amigo. Quando o vice-rei que assinara a
ordem de exílio, foi visitar o seu Estado, o marajá de Patiala ordenou
aos artilheiros encarregados de disparar os trinta e um tiros de canhão
devidos ao representante do rei-imperador que usassem tão pouca pólvora
que as explosões «não fizessem mais barulho do que um petardo de
criança».
Outras medidas para as quais Corfield recebera igualmente o acordo de
Londres seguiram-se à destruição dos arquivos. Eram menos espectaculares,
mas podiam revelar-se de importância muitíssimo maior. Um dilúvio de
cartas enviadas por grande número de príncipes começou a chover sobre
Nova Deli. Por meio delas, os marajás informavam a administração central
da Índia britânica a sua intenção de anular os acordos autorizando os
Caminhos de ferro, os Correios, os Telégrafos e os outros serviços a
utilizarem as facilidades dos seus territórios. Esta táctica ofensiva
tinha como objectivo demonstrar que os príncipes não estavam desprovidos
de trunfos para enfrentarem a explicação decisiva que se aproximava. A
Índia que tais medidas faziam prever era uma Índia de pesadelo, onde os
comboios não andariam, os aviões não poderiam aterrar, onde a
electricidade não seria distribuída, onde o telefone e o telégrafo
ficariam calados.
O enorme retrato do general Robert Clive dominava os debates dos sete
líderes indianos reunidos no gabinete do vice-rei. Representantes dos
quatrocentos milhões de homens e de mulheres das Índias, esses milhões de
seres a quem justamente Gandhi chamava «os miseráveis espécimes de uma
humanidade de olhar sem expressão», tinham ido, nesse dia 2 de Junho de
1947, a casa de Lord Mountbatten para discutir o documento que ia
devolver ao seu povo o continente conquistado dois séculos antes pelo
general britânico.

150
O vice-rei trouxera-o pessoalmente quarenta e oito horas antes de Londres
onde fora aprovada pelo gabinete de Clement Attlee.
Cada líder ocupou o seu lugar na mesa redonda presidida por Lord
Mountbatten. Jinnah, Linquat Ali Khan e Rab Nishtar em nome da Liga
muçulmana. O Congresso era representado por Nehru, Patel e o seu
presidente, Acharya Kripalani. Finalmente, Baldev Singh, porta-voz dos
seis milhões de sikhs, a comunidade que viria a ser a mais afectada pelo
que ia decidir-se.
Um fotógrafo oficial apareceu para imortalizar a cena. Depois, após
alguns minutos de silêncio cortados por leves tosses nervosas, um
secretário colocou em frente de cada participante um sobrescrito contendo
um exemplar do plano redigido em Simla por V. P. Menon e aceite sem
alterações por Londres.
Era a primeira vez, desde a sua chegada às Índias, que Mountbatten se via
obrigado a substituir por uma mesa redonda a sua estratégia dos diálogos
a dois. Decidira ser o único orador, não querendo sob nenhum pretexto
correr o risco de ver a reunião degenerar em assembleia onde cada um
tentasse destruir o plano que fora tão difícil de elaborar.
Consciente da importância histórica desta reunião, começou por sublinhar
que, durante os cinco anos decorridos, tomara parte em muitas
conferências onde se decidira o destino da guerra. Mas não se recordava
de nenhum encontro tão decisivo como aquele. Mountbatten lembrou os
esforços que desenvolvera desde a sua chegada a Nova Deli, depois passou
rapidamente em revista os pontos essenciais do plano que tinham na sua
frente. Abordando a cláusula acerca da permanência da Índia e do
Paquistão no Commonwealth, o que fizera merecer a adesão de Winston
Churchill, sublinhou que ela não exprimia de forma nenhuma um desejo da
Grã-Bretanha de continuar a dominar, mas dava a garantia de que a
assistência britânica não seria retirada repentinamente, no caso de ser
desejada. Evocou a seguir o problema de Calcutá, depois a tragédia que
ameaçava os skins.
Declarou que não pedia aos presentes que fossem contra a sua consciência
dando o seu acordo total a um plano do qual alguns aspectos chocariam as
suas convicções profundas. Mas convidava-os a aderirem a ele num espírito
de tranquilidade geral e comprometerem-se a aplicá-lo evitando
derramamentos de sangue.
Tendo o cuidado de dar aos seus interlocutores um prazo de reflexão o
mais curto possível, Mountbatten pediu-lhes o acordo definitivo para o
dia seguinte, à mesma hora. Mas desejava, acrescentou, que cada um, até
lá, lhe desse o seu acordo em princípio.
- Gentlemen, concluiu, gostaria de ter notícias vossas hoje antes da
meia-noite.

151
Uma preocupação secreta dominava Luís Mountbatten desde o seu regresso a
Nova Deli, uma preocupação que empanava o brilho dos seus êxitos
londrinos e o seu «enorme optimismo quanto ao futuro». Iria o
«imprevisível Mahatma» tentar conseguir que falhassem os seus projectos?
Esta perspectiva aterrava-o.
Sentia verdadeiro afecto pelo seu «pobre pardalito». A ideia de que ele,
o guerreiro profissional, o vice-rei, podia ser obrigado a travar uma
luta de força com o apóstolo da não-violência, consternava-o.
Era todavia uma eventualidade a encarar. Se Jinnah fora o homem que
aniquilara as suas esperanças de preservar a unidade das Índias, Gandhi
podia ser quem pusesse obstáculo à sua tentativa de a dividir. Desde a
sua chegada às Índias, o vice-rei não desistira de procurar atrair a
confiança dos lideres do Congresso a fim de poder, em caso de luta de
força, neutralizar o Mahatma durante algumas horas cruciais.
A empresa fora mais fácil do que ele esperava. «Tinha a estranha
sensação, contaria mais tarde Mountbatten, de que eles estavam até certo
ponto dispostos a apoiar-se contra Gandhi, que me estimulavam quase a
desafiá-lo».
Mas o vice-rei sabia também que o Mahatma dispunha de recursos
excepcionais. Dispunha do próprio partido, milhões de militantes que o
veneravam, e sobretudo, dispunha do seu poder único de galvanizar as
massas. Se ele decidisse não fazer caso dos compromissos dos dirigentes e
voltar-se directamente para as multidões indianas, Gandhi podia provocar
uma crise terrível.
Tudo indicava que se preparava justamente para enveredar por esse
caminho. Não acabava ele de gritar durante a sua oração pública da noite:
«Que o país inteiro se torne pasto das chamas! Nunca abandonaremos uma
polegada da pátria.»
Por detrás destas palavras escondia-se uma surda angústia. Evidentemente
que todas as fibras do seu ser lhe diziam que a Partilha era um mal. Mas,
pela primeira vez, Gandhi já não tinha a certeza absoluta de que as
massas da Índia estariam prontas a segui-lo.
Certa manhã, durante um passeio nas ruas de Nova Deli, um dos seus
partidários interpelou-o:
- Na hora decisiva, espantou-se ele, parece que não contais muito, como
se quisessem deixar-vos de fora, a vós e aos vossos ideais.
- É verdade, suspirou o Mahatma com amargura, toda a gente se preocupa em
pôr flores na minha fotografia e nas minhas estátuas. Mas ninguém quer
seguir os meus conselhos.
Alguns dias mais tarde, Gandhi acordara meia hora antes da oração da
alvorada. Ele e a sobrinha-neta Manu tinham retomado o hábito de dormirem
juntos. A jovem ouviu o velho lamentar-se no escuro da sua cabana no
bairro dos Intocáveis.

152
«Agora estou sozinho, murmurou ele. Até mesmo Nehru e Patel acham que eu
estou errado e que a Partilha trará a paz... Perguntam se eu não me
tornei um pouco caprichoso com a idade.» Seguiu-se um grande silêncio.
Depois Gandhi suspirou: «Talvez eles tenham razão e eu esteja a lutar em
vão nas trevas.» Seguiu-se outro longo silêncio, depois Manu ouviu esta
frase: «Talvez eu já não esteja neste mundo para assistir, mas se o mal
que eu receio viesse a atacar a Índia e pôr a sua independência em
perigo, que a posteridade saiba a agonia que sofreu esta velha alma ao
pensar nessas desgraças.»
A «velha alma» tinha entrevista marcada no escritório do vice-rei no dia
2 de Junho ao meio-dia e meia, ou seja, hora e meia depois dos sete
líderes indianos, para dar a Mountbatten a resposta que este esperava com
mais impaciência. Gandhi, para quem a exactidão era sagrada, chegou no
momento preciso em que soava meio-dia e meia hora. Receando que uma
declaração de guerra lhe saísse da boca, o vice-rei levantou-se para o
receber. Antes de ter tempo para lhe desejar as boas vindas, o Mahatma
pusera um dedo nos lábios. «Graças a Deus, é o seu dia de silêncio!»
pensou Mountbatten com alívio.
Gandhi instalou-se no cadeirão e tirou das abas do seu dhoti um maço de
sobrescritos usados e uma minúscula ponta de lápis. Negando-se a
desperdiçar nem que fosse um bocado de papel, abria ele mesmo o correio e
transformava todos os sobrescritos em bilhetes que usava para comunicar
com os outros nos seus dias de silêncio.
Assim que Mountbatten acabou de expor o seu plano, Gandhi molhou a ponta
do lápis com a língua e redigiu a resposta, enchendo o verso de cinco
sobrescritos com a sua letra inclinada.
«Lamento não poder falar consigo, escreveu ele. Quando tomei a decisão de
observar um dia de silêncio à segunda-feira, previ a hipótese de poder
quebrar este voto em dois casos: para tratar de questões urgentes com uma
alta individualidade, e para tratar doentes. Ora, eu sei que não deseja
que eu quebre o meu silêncio. Há todavia duas coisas que devo tratar
consigo. Mas hoje não. Se tornarmos a ver-nos lhe direi.»
Depois levantou-se e despediu-se.
O palácio do vice-rei estava mergulhado na escuridão e no silêncio. De
vez em quando, como um fantasma roçando os tapetes com os pés descalços,
passava um criado de túnica branca. As luzes do gabinete de trabalho de
Mountbatten brilhavam ainda apesar da hora avançada da noite, iluminando
o último encontro daquele dia fértil em surpresas. Mountbatten observava
espantado o seu novo visitante. Os dirigentes do Congresso tinham dado a
conhecer no prazo marcado a decisão de aceitarem o plano proposto nessa
mesma manhã. Os sikhs também.

153
E agora o homem a quem este plano devia agradar mais do que a ninguém,
aquele cuja vontade inflexível conseguira a Partilha das Índias,
procurava retardar as coisas. Era também, até certo ponto, o dia de
silêncio de Mohammed Ali Jinnah. O objectivo de toda a sua vida estava ao
seu alcance. Mas por qualquer razão misteriosa, não se decidia a dizer a
palavra que obstinadamente se recusara a dizer toda a vida: sim.
Puxando lentamente fumaças de um dos seus eternos Craven A metido na
ponta de uma boquilha de jade, Jinnah obstinava-se em repetir que não
podia dar o seu acordo antes de consultar a Liga muçulmana, formalidade
que exigiria pelo menos uma semana.
Mountbatten sentiu-se dominado pela ira. Todas as frustrações que a
atitude glacial e intransigente do chefe muçulmano o tinham feito sofrer
voltaram-lhe à memória. Nessa noite, Jinnah ultrapassara os limites.
Conquistara «o seu maldito Paquistão». Até mesmo os sikhs estavam
resignados a isso. Todas as suas principais exigências haviam sido
satisfeitas, e eis que no momento decisivo, se preparava para fazer cair
todo o edifício devido à sua incapacidade psicológica de articular apenas
a palavra «sim».
Mountbatten tinha uma razão imperiosa para querer o acordo imediato de
Jinnah: dentro de menos de vinte e quatro horas, Clement Attlee ia
anunciar a Partilha das Índias na Câmara dos Comuns. O vice-rei empenhara
toda a sua responsabilidade assegurando ao primeiro-ministro e ao governo
britânico que não haveria mais surpresa nenhuma e que, desta vez, todos
os dirigentes indianos assinariam o plano aceite por Londres. A custa de
enormes dificuldades, conseguira pôr o Congresso de acordo com a ideia da
partilha. O próprio Gandhi se afastara, pelo menos temporariamente da
luta. A menor hesitação da parte de Jinnah, a mais ínfima suspeita de que
ele tentasse manobrar para conseguir uma última concessão, e morria a
esperança de ver as Índias escaparem ao caos.
- Senhor Jinnah, declarou Mountbatten, se julga que eu posso esperar uma
semana sentado neste cadeirão que o senhor reúna os seus partidários em
Nova Deli, está completamente louco. Bem sabe que a situação chegou a um
ponto que não pode retroceder. Consegui apanhar o seu Paquistão quando
ninguém acreditava que o conseguisse. Eu sei: o senhor sabe que o país
que vai receber está «destinado aos ratos», mas será de qualquer forma o
Paquistão. Tudo depende agora da sua aceitação do plano, amanhã, ao mesmo
tempo que os seus adversários. Se os dirigentes do Congresso adivinhassem
a sua recusa em se comprometer, retiravam imediatamente o seu acordo e
tudo estaria perdido.
Jinnah pareceu insensível a este apelo. Protestou que todas as regras
democráticas deviam ser observadas.
- Eu não sou a Liga muçulmana, respondeu.
- Vamos, Senhor Jinnah! disse Mountbatten. Ninguém pensa semelhante
coisa. Não tente enganar-se a si próprio. Toda a gente sabe quem está nas
fileiras da Liga muçulmana.

154
- Mas não, obstinou-se Jinnah, todos os preceitos devem ser respeitados.
- Senhor Jinnah, respondeu o vice-rei, vou dizer-lhe uma última coisa.
Não tenciono deixá-lo dar cabo do seu próprio plano. Não posso autorizá-
lo a rejeitar a solução que tanto lhe custou a conseguir. Estou disposto
a aceitá-la da sua parte. Amanhã, durante a sessão onde será concluído o
nosso acordo, vou declarar que recebi a resposta do Congresso, com
algumas reservas que estou certo de poder satisfazer, e que, portanto, o
Congresso aceitou. Vou declarar que os sikhs também aceitaram. Anunciarei
então que tive na noite anterior, uma conversa muito longa e cordial com
o Senhor Jinnah, que estudámos o plano em pormenor, e que o Senhor Jinnah
me garantiu pessoalmente que estava de acordo com este plano.
«Nesse momento, continuou Mountbatten, volto-me para si. Não quero que os
dirigentes do Congresso o obriguem a explicar-se publicamente. Só quero
que o senhor faça uma coisa. Quero que o senhor baixe a cabeça para
indicar que está de acordo comigo.
«Se não baixar a cabeça, Senhor Jinnah, concluiu Mountbatten, então está
perdido. Já não poderei fazer nada por si. Será a derrocada. Isto não é
uma ameaça, é uma profecia. Se não baixar a cabeça nessa altura, a minha
presença aqui já não será de qualquer utilidade, e o senhor terá perdido
o seu Paquistão, e acho que pode ir para o diabo!»
A reunião decorreu exactamente da forma que Mountbatten decidira. Naquele
dia 3 de Junho de 1947, o vice-rei condenou os seus interlocutores ao
silêncio, tomando o monopólio da palavra, conforme fizera na véspera.
Compreendendo embora as reservas das partes em presença, congratulou-se
com o acordo unânime que haviam dado ao seu plano. Agradeceu aos
dirigentes do Congresso, depois ao representante dos sikhs. Finalmente
anunciou que Jinnah lhe tinha garantido também o seu acordo.
Conforme estava previsto, o vice-rei voltou-se então para o líder
muçulmano sentado à sua direita. Não fazia a menor ideia da atitude que
iria adoptar Mohammed Ali Jinnah. Lembrar-se-ia toda a vida daquele
minuto «interminável». O líder muçulmano esboçou finalmente o gesto de
aprovação mais discreto que alguém pudesse fazer com a cabeça para sair
da imobilidade.
Com este sinal apenas perceptível, uma nação de noventa milhões de homens
via ratificada a sua existência. Por mais difíceis que ameaçassem ser as
circunstâncias do seu nascimento, «o sonho impossível» do Paquistão
realizava-se finalmente, Mountbatten podia a partir de agora continuar a
sua tarefa. Antes que os sete interlocutores tivessem tempo de respirar,
mandou distribuir-lhes um texto de trinta e quatro páginas. Pegando no
seu exemplar, o vice-rei mostrou ostensivamente antes de o possuir com um
gesto teatral.

155
Com voz grave, anunciou o título do documento: «Consequências
Administrativas da Partilha».
Era uma prenda de baptizado minuciosamente elaborada por Mountbatten e
pelos seus colaboradores aos dirigentes indianos, um guia destinado a
conduzi-los nos caminhos da tarefa gigantesca que os esperava. Página
após página, desenvolvia as implicações da decisão que acabava de ser
tomada. Nenhum dos sete homens estava preparado para enfrentar a terrível
realidade que descobriram logo nas primeiras linhas. Iam ser obrigados a
enfrentar um problema que nunca ninguém tivera que resolver antes deles,
um problema de dimensões que desafiavam a imaginação. Iam ser obrigados a
arrolar a herança de quatrocentos milhões de homens, a dividir os bens
acumulados havia mais de cem gerações, a repartir os frutos de trezentos
anos de progresso tecnológico. Teriam de dividir as reservas dos bancos,
os selos dos correios, os livros das bibliotecas, as dívidas, a terceira
rede de caminhos-de-ferro do mundo, as prisões com os seus presos, os
tinteiros, as vassouras os centros de pesquisa, os hospitais, as
universidades, os asilos de alienados, os canais de irrigação, as
instituições e uma porção de bens de variedade e número incalculáveis.
Um silêncio angustiante dominou a sala enquanto os sete homens começavam
apenas a medir a enormidade das suas responsabilidades. Mountbatten tinha
preparado cuidadosamente o seu aparato. Graças a este estratagema,
cortava o caminho a todas as discussões inúteis e concentrava o espírito
dos seus interlocutores num novo objectivo: conseguir a Partilha.
Foi quando dava um banho aos pés no regresso do seu passeio da tarde que
Gandhi soube da decisão dos líderes indianos de aceitarem a Partilha.
Enquanto a sobrinha-neta Manu o massajava, longe de sentir alívio, o seu
rosto exprimia cada vez mais dor. «Que Deus os proteja e lhes dê juízo a
todos!» suspirou ele.
Alguns minutos depois das sete horas, naquela mesma tarde de 3 de Junho
de 1947, o vice-rei e os três representantes das diferentes comunidades
entraram no estúdio de radiofusão de Nova Deli para anunciar aos seus
povos a divisão das Índias em duas nações independentes e soberanas.
Como convinha à sua categoria, Mountbatten foi o primeiro a falar. Em
poucas frases curtas, desejou boa sorte aos dois Estados que iam nascer.
Exprimindo-se em hindi, o Nehru sucedera-lhe ao microfone. Uma grande
tristeza ensombrou o rosto do homem de Estado indiano quando declarou: «O
grande destino da Índia vai realizar-se com um duro e difícil parto.»
Explicou a sua angústia quando se resignara a aceitar a Partilha, e
disse, para terminar: «É sem a menor alegria no coração que os informo do
acordo que acabamos de concluir.»
Jinnah tomou então a palavra. Nada podia ilustrar melhor do que o seu
discurso a imensidade da obra realizada, e o paradoxo do seu triunfo.
Para anunciar aos noventa milhões de muçulmanos que conseguira para eles
um Estado independente, Mohammed Ali Jinnah era obrigado a exprimir-se
numa língua que eles não podiam compreender.

156
Falou em inglês (Nota 1). Um locutor traduzia depois o discurso em urdu.
Baldev Singh anunciou por fim aos sikhs a sua aceitação do plano de
partilha, lançando um apelo à paz entre as comunidades retalhadas por
esta decisão.
O curto adiamento concedido a Mountbatten pelo dia de silêncio terminara
e estava iminente a confrontação temível. Pouco depois do meio-dia, no
dia seguinte, 4 de Junho, o vice-rei recebeu uma mensagem urgente: Gandhi
preparava-se para romper com a direcção do partido do Congresso e para
denunciar o plano nessa mesma noite durante a oração pública. Mountbatten
mandou imediatamente um emissário junto do Mahatma pedindo-lhe que fosse
falar com ele.
Gandhi chegou apenas uma hora antes da sua reunião de oração. Para tentar
impedir um desastre, o vice-rei só dispunha de cinco minutos. Assim que o
viu, compreendeu até que ponto o velho estava perturbado. Metido no
cadeirão «como um pássaro de asas cortadas», o Mahatma abanava a mão,
gemendo com voz que mal se ouvia: «É tão terrível, tão terrível.»
Naquele estado, Gandhi seria capaz de tudo, pensou Mountbatten. Se
denunciasse publicamente a Partilha, Nehru, Patel e os outros dirigentes
do Congresso que o vice-rei tinha com tanta paciência convencido, seriam
obrigados ou a romper com ele, ou a voltarem com a palavra atrás. Em
ambos os casos seria a catástrofe. Decidido a recorrer a todos os
argumentos que podia conceber a sua fértil imaginação, Mountbatten
começou por explicar ao Mahatma como compreendia e compartilhava a sua
dor.
Enquanto falava, teve uma súbita inspiração.
- Os jornais baptizaram este plano com o nome de «Plano Mountbatten»,
declarou, mas deviam ter-lhe chamado «Plano Gandhi».
Não fora Gandhi quem tinha sugerido os principais elementos dele? O
Mahatma olhou para o seu interlocutor com surpresa.
Com efeito, continuou Mountbatten, Gandhi pedira-lhe que deixasse ao povo
indiano a liberdade de escolha, e era precisamente o que o seu plano
facilitava. Eram as assembleias provinciais eleitas pelo povo que iam
traçar o futuro de cada província. Cada uma delas votaria para decidir
integrar-se ou na Índia ou no Paquistão.

Nota 1 - De qualquer forma, Jinnah terminou em urdu, gritando: «Paxistan


Zinda-bad! - Viva o Paquistão!», mas com um sotaque tão deplorável, que
alguns ouvintes julgaram que ele tinha dito «Pakistan is in the bag! - O
Paquistão está no saco!»

157
- Se, por um milagre, todas essas assembleias escolhessem pertencer ao
mesmo país, explicou Mountbatten, então a unidade da Índia estaria salva,
e o senhor teria ganho. Caso contrário, estou certo de que não espera dos
ingleses que se oponham à decisão deles pela força das armas.
Vibrante, empregando todo o seu encanto, Luís Mountbatten defendeu a sua
causa perante o velho de setenta e oito anos, cuja palavra ia talvez,
dentro de poucos minutos, decidir o destino da Índia.
Gandhi pareceu abalado: devia permanecer fiel ao seu instinto e continuar
a desaprovar a Partilha, com risco de fazer mergulhar a Índia no caos, ou
devia aceitar a chamada à razão do vice-rei?
Mountbatten ainda não tinha acabado a sua demonstração quando o visitante
se levantou. Pediu desculpa por ter de se ir embora, mas nunca fizera
esperar os fiéis das suas orações públicas.
Alguns instantes depois, sentado numa plataforma de terra batida no meio
da miserável colónia dos Intocáveis de Deli, Gandhi pronunciou o seu
veredicto. Entre a multidão que se apinhava em seu redor, muitos tinham
vindo, não para orar, mas na esperança de ouvir do profeta da resistência
um apelo à luta, uma declaração de guerra contra o plano de partilha. Mas
nenhum discurso bélico saiu nessa noite da boca do homem que tantas vezes
clamara que preferia a vivissecção do seu próprio corpo do que a do seu
país.
— É inútil acusar o vice-rei da Partilha, declarou ele. Olhai para vós e
para o interior dos vossos corações, e encontrareis a explicação do que
se passou.
Lord Mountbatten acabava de ganhar a vitória mais difícil da sua notável
carreira. Quanto a Gandhi, muitos indianos nunca mais lhe perdoariam.
Mais tarde, o frágil velho cujo coração havia de chorar eternamente a
partilha da Índia pagaria com o seu sangue o preço do seu silêncio.
Nunca o soberbo hemiciclo, construído para albergar os debates dos
legisladores da Índia fora testemunha de espectáculo comparável. Falando
sem apontamentos, Lord Mountbatten revelava à opinião indiana e do mundo
um dos actos de nascimento mais importantes da História, esse plano que
ia permitir a um quinto da humanidade atingir a plena independência, e
servir de percursos a um novo agregado de povos do planeta, compreendendo
dois terços da população do globo, o terceiro mundo.
Trezentos jornalistas e correspondentes vindos da Rússia, da China, da
América e da Europa, misturados com os repórteres da imprensa local,
representantes de uma variedade de jornais, de línguas, de culturas e de
religiões diferentes, seguiam com uma atenção extraordinária a
conferência de imprensa do vice-rei.
Para Lord Mountbatten, esta reunião era a consagração de um golpe de
força. Em menos de dois meses, e quase sozinho, conseguira o impossível:
entabular um diálogo com os chefes da Índia, lançar as bases de um
acordo, persuadir os seus interlocutores a aceitá-lo, conseguir
finalmente o apoio sem reservas, tanto do governo como da oposição de
Londres.

158
Navegara com perícia entre os escolhos que lhe apareceram no caminho. A
sua última proeza, realizara-a entrando na própria jaula do velho leão;
convencera Winston Churchill a encolher as garras e a rosnar, também ele,
a sua aprovação.
Um metralhar de perguntas assaltou o orador, mal acabou a sua exposição.
«Não tive a menor apreensão, diria Mountbatten. Tinha vivido todo o
problema, era o único que lhe conhecia todas as facetas. Pela primeira
vez, a imprensa encontrava o único homem que possuía todas as chaves do
processo.
Uma voz acabou por fazer a única pergunta deixada em suspenso. Para
completar o seu puzzle, era também a última casa que Mountbatten tinha
que preencher.
- Visto que todos estão de acordo em reconhecer que é urgente proclamar a
independência das Índias, pensou certamente numa data? perguntou um
jornalista indiano.
- Claro que sim, respondeu Mountbatten.
- Pode indicar-nos qual é?
Uma série de imagens e de cálculos rápidos passaram pelo espírito do
vice-rei. De facto, ele ainda não escolhera uma data; estava apenas
consciente de que devia ser muito próxima.
«Era necessário precipitar o acontecimento, dirá ele mais tarde. Sabia
que tinha que obrigar o parlamento britânico a votar a lei outorgando a
independência antes das férias parlamentares de Verão, se quisesse
continuar com o controle da situação. Estávamos sentados à beira de um
vulcão, sobre um barril de pólvora. Não sabíamos quando explodiria.»
Mountbatten contemplou o hemiciclo apinhado de gente. Todos os olhos
estavam fixos nele. Uma atmosfera de espectativa, adensada pela vibração
dos ventiladores, pesava sobre a assistência. O vice-rei estava decidido
a mostrar que era «o patrono de toda a questão». Várias datas lhe giravam
na cabeça como os números de uma roleta posta a rodar a toda a
velocidade. Dia 5 de Setembro? Dia 10? 20 de Agosto? A roleta parou
finalmente e a bola saltou para uma cavidade cujo número pareceu tão
apropriado, que a decisão de Mountbatten foi instantânea. Era uma data
relacionada com o maior êxito da sua existência, o dia em que a sua longa
campanha através das selvas birmanesas terminara com a capitulação
incondicional do Império nipónico. Já que toda uma época da história da
humanidade terminara com a queda da Ásia feudal dos samurais, nenhuma
data podia justificar-se mais para celebrar o nascimento de uma nova Ásia
democrática. Lord Mountbatten anunciou a sua escolha:
- A proclamação oficial da independência das Índias realizar-se-á no dia
15 de Agosto de 1947.

159
Esta revelação estalou como uma bomba. No parlamento britânico, junto do
primeiro-ministro, no palácio de Buckingham, a notícia causou uma
surpresa brutal. Ninguém, nem mesmo Clement Attlee, suspeitava de que
Mountbbatten estava pronto para fazer descer a cortina sobre a epopeia
indiana da Grã-Bretanha com tanta precipitação. Em Nova Deli, os
colaboradores mais íntimos do vice-rei não tinham tido o menor
pressentimento de que ele escolhesse uma data tão próxima. Também não
passara a menor suspeita de um prazo tão curto pelo espírito dos líderes
indianos com quem ele conversara tantas horas durante os dois primeiros
meses da sua missão.
Em parte nenhuma, todavia, a escolha da data de 15 de Agosto de 1947 para
a independência das Índias causaria tanta consternação como nas fileiras
de uma corporação que regulava a vida de milhões de hindus com uma
tirania mais opressiva do que a dos ingleses, dos chefes do Congresso e
dos príncipes todos juntos. Mountbatten cometera o erro imperdoável de
comunicar esta data sem consultar previamente os representantes do poder
oculto mais poderoso das Índias: os jyotishi, os astrólogos.
Nenhum povo estava mais sujeito do que o povo indiano à sua autoridade e
ao seu suposto conhecimento das leis que regem o universo. Cada marajá,
cada templo, cada aldeia possuía com carácter permanente um ou vários
jyotishi que reinavam como ditadores sobre a vida da comunidade hindu. A
sua intervenção abrangia todos os domínios. Milhões de indianos nunca se
tinham atrevido a fazer uma viagem, receber um amigo, concluir um
negócio, partir para a caça, estrear um traje, comprar uma jóia, cortar o
bigode, lavrar um campo, casar uma filha ou até celebrar um funeral, sem
previamente consultar um astrólogo.
Lendo a ordem e os destinos do mundo nas suas cartas celestes, os
astrólogos tinham adquirido um poder ilimitado. As crianças que eles
declaravam nascidas sob uma má estrela eram muitas vezes abandonadas
pelos pais. Alguns homens suicidavam-se no momento em que eles previam
uma conjunção dos planetas particularmente favorável à transmigração da
sua alma. Os astrólogos anunciavam os dias da semana, e as horas do dia
benéficas, e os que o não eram. O Domingo era um dia especialmente
nefasto, assim como a sexta-feira. Ora, qualquer indiano podia ficar a
saber por um simples calendário que nesse ano de 1947, o dia 15 de Agosto
calhava a uma sexta-feira.
Assim que a rádio anunciou a data fatídica, os astrólogos da Índia
inteira começaram a consultar os seus alfarrábios. Os da cidade santa de
Benares e de várias cidades do Sul proclamaram imediatamente que o dia 15
de Agosto era tão funesto que a Índia «faria bem em tolerar os ingleses
mais um dia, em vez de se arriscar à danação eterna».
Em Calcutá, o jovem astrólogo Swamin Madanand desenrolou o seu navamanch,
uma enorme carta astral redonda, composta por uma série de círculos
concêntricos sobre os quais estavam inscritos os dias e os meses do ano,
os ciclos da Lua e do Sol, os planetas, os signos do Zodíaco e a posição
das vinte e sete constelações do Zodíaco lunar que influenciam o destino
da terra.

160
No centro, encontrava-se um planisfério. Madananand fez girar os círculos
até coincidirem todos com o dia 15 de Agosto de 1947. Depois, partindo do
centro do continente indiano sobre o planisfério, traçou um feixe de
linhas em direcção aos diferentes círculos da carta celeste. Cada vez que
um dos traços atravessava a linha de 15 de Agosto, sentia suores frios na
espinha. Os seus cálculos faziam prever uma catástrofe.
A Índia, como aliás Nehru e Jinnah, estava nesse dia sob a influência do
Makara, Capricórnio, uma das particularidades do qual é uma hostilidade
implacável a todas as forças centrífugas, por conseguinte à Partilha
(Nota 1). Ora, mais alarmante ainda, sob a influência preponderante de
Saturno, o mais maléfico dos planetas, o dia 15 de Agosto de 1947 ia
passar sob o domínio de Rahu, o nodo lunar ascendente, chamado «cabeça
sem corpo», e do qual todas as manifestações - a começar pelos eclipses —
eram nefastas2. Desde as zero horas até à meia-noite de 15 de Agosto de
1947, as posições de Júpiter e de Vénus eram igualmente desfavoráveis,
por a sua conjunção com Saturno os colocar, durante todo aquele dia, no
pior sítio da abóbada celeste, «no inferno da nona casa do Karamsthan».
Como biliões dos seus colegas, o jovem astrólogo ergueu a cabeça,
horrorizado com a enormidade da tragédia que previa.
- Que fizeram eles? Mas que fizeram eles? - gritou.
Apesar do seu domínio do corpo e do espírito, adquirido com a prática de
anos de yoga, de meditação e de práticas tântricas, o jovem astrólogo
perdeu o controle de si próprio. Agarrando numa folha de papel, redigiu
um apelo ao responsável involuntário desta catástrofe.
«Lord Mountbatten, suplicava ele, pelo amor de Deus, não dê a
independência à Índia no dia 15 de Agosto de 1947. Se sobrevierem
inundações, secas, massacres, e o caos, será porque a Índia livre nasceu
num dia amaldiçoado pelos astros.»

Nota 1 - Nehru nasceu no 7º dia da Lua minguante do mês de Margaxirxa do


ano 1946 da era Samvat (14 de Novembro de 1889, isto é, sob o signo do
Escorpião com um ascendente Capricórnio). Jinnah nasceu a 25 de Dezembro
de 1876.
Nota 2 - Além do Sol, da Lua e dos planetas, os astrólogos indianos
contam ainda com Rahu e Ketu (respectivamente uma cabeça sem corpo e um
corpo sem cabeça) que são os «nodos» lunares, ascendente e descendente,
restos do corpo (cortados em dois por Vishnu) de um demónio que ousara
molhar os lábios na taça do licor da imortalidade [amrita).

161
< Página em branco>
Capítulo nono
O MAIOR DIVÓRCIO DA HISTÓRIA

Nada comparável fora tentado antes. Não havia precedentes, nem modelos,
nenhuma jurisprudência podia ser evocada para o divórcio mais total e
mais complexo da história da humanidade, a dispersão de uma família de
quatrocentos milhões de homens, a divisão dos seus bens, acumulados no
decorrer de séculos de existência comum sobre a mesma terra.
Para regularizar as formalidades desta separação, faltavam exactamente
setenta e três dias. A fim de persuadir todos desta extrema urgência,
Mountbatten mandou afixar em cada repartição da capital um calendário
mural de tipo inédito: começava a 3 de Junho, e terminava em 15 de
Agosto. Tal como a contagem ao contrário de uma explosão atómica, cada
folha indicava por debaixo da data, o número de «dias que faltavam para
preparar a Transmissão dos Poderes».
A responsabilidade de organizar a gigantesca partilha do património foi
confiada a dois indianos, que faziam as vezes de advogados de ambas as
partes. Um e outro eram perfeitos espécimes da fina flor burocrática que
um século de domínio britânico fizera nascer nas Índias. Viviam em duas
vivendas semelhantes pertencentes ao Estado, dirigiam-se diariamente às
suas repartições quase contíguas em dois Chevrolet anteriores à guerra
também idênticos, recebiam salário igual, e pagavam, com a mesma
pontualidade, as suas cotas mensais na mesma caixa de reformas. Um era
hindu, o outro muçulmano.
Todos os dias, de 3 de Junho a 15 de Agosto, com o respeito pelas
fórmulas e pelo pormenor que os seus tutores ingleses lhes tinham
ensinado, o muçulmano Chaudhuri Mohammed Ali e o hindu H. M. Patel
embrenharam-se no estudo dos dossiers que lhes permitiriam dividir os
bens dos seus quatrocentos milhões de compatriotas. A ironia quis que,
para dissecar a sua pátria, usassem a língua dos colonizadores. Mais de
uma centena de colaboradores, divididos por uma série de comissões e
subcomissões apresentavam-lhes pareceres. As suas decisões eram depois
comunicadas por aprovação final a um Concelho de Partilha presidido pelo
vice-rei.
O Congresso reivindicou logo de princípio os seus direitos sobre o bem
mais precioso de todos, o próprio nome de «Índia». Rejeitou a proposta de
baptizar o novo Estado com o nome de «Indostão», argumentando que era o
Paquistão quem fazia a secessão.
Como na maioria dos divórcios, foram as questões de dinheiro que deram
ocasião às discussões mais acesas. A mais delicada de todas referia-se à
divisão do crédito que a Grã-Bretanha deixava após a sua partida.

163
Depois de ser acusada durante decénios de explorar e pilhar as Índias, a
Inglaterra liquidava com efeito a sua epopeia indiana ficando devedora da
quantia astronómica de cinco biliões de dólares. Esta dívida fabulosa
representava uma parte do preço que lhe custara a vitória na guerra
mundial. Esta levara-a a uma bancarrota cujo processo histórico que
começava nas Índias era uma das consequências.
Era preciso também repartir os haveres dos bancos do Estado, os lingotes
de ouro guardados nos cofres do Bank of India, e todas as liquidações,
até às últimas notas de uma rupia e aos selos do correio arrumados no
cofre do chefe de distrito perdido no meio das tribos de caçadores de
cabeças naga. O problema revelou-se tão espinhoso que os dois
liquidatários tiveram que ser fechados num escritório e proibidos de
saírem até chegarem a um acordo.
Após laboriosas combinações, os dois homens acabaram por concordar em
conceder ao Paquistão 17,5 % das existências bancárias e dos balanços em
libras esterlinas em troca da obrigação de tomar a seu cargo 17,5 % da
dívida nacional indiana.
Decidiram atribuir à Índia 80 % dos bens materiais da enorme máquina
administrativa e 20 % ao Paquistão. Através de todo o país, os
funcionários começaram imediatamente a fazer a estatística das máquinas
de escrever, das mesas, cadeiras, escarradores, vassouras. Estes
inventários levaram a espantosas revelações. Descobriu-se por exemplo que
o equipamento do ministério do Abastecimento e da Agricultura do país do
globo mais atacado pela fome, se compunha ao todo e para tudo de 85 mesas
e 85 cadeiras de funcionários superiores, 425 mesas de funcionários
subalternos, 850 cadeiras vulgares, 56 cabides, 6 deles com espelho, 130
armários, 4 cofres-fortes, candeeiros de mesa, 170 máquinas de escrever,
120 relógios de parede, 110 bicicletas, 600 tinteiros, 3 viaturas de
serviço, 2 sofás e 40 escarradores.
A divisão destes bens foi objecto de discussão interminável, até mesmo de
pugilatos. Alguns chefes de serviços tentaram subtrair à divisão as suas
melhores máquinas de escrever e deixar para o Estado rival as cadeiras
mais desengonçadas. Algumas repartições transformaram-se em verdadeiros
tanques de regateiras, e viram-se por vezes funcionários respeitáveis que
exerciam a sua autoridade sobre várias centenas de milhar de pessoas,
discutir um tinteiro contra uma jarra, um porta-guarda-chuvas contra um
cabide, 125 almofadas para alfinetes contra um escarrador.
Em Lahore, o chefe da polícia Patrick Rich dividiu o seu material pelos
dois ajudantes, um muçulmano, o outro hindu. Dividiu tudo, as polainas,
os turbantes, as espingardas, os lathi, essas comprida mocas de bambu.
Quando chegou aos instrumentos da banda de música, Rich dividiu-os tão
escrupulosamente, dando uma trombeta ao Paquistão, um tambor à Índia uma
flauta ao Paquistão, um par de címbalos à Índia, até não restar mais do
que um único objecto. Qual não foi o seu espanto ao ver os seus dois
adjuntos, que tinham vivido anos de boa camaradagem, lutarem como cães
pela posse de um trombone.

164
Algumas das disputas mais violentas tiveram por objecto a divisão das
bibliotecas. Colecções completas da Enciclopédia britânica foram
religiosamente partidas, sendo os volumes pares distribuídos a um Estado,
e os volumes ímpares ao outro. Dividiram-se os dicionários, ficando a
Índia com as letras de A a K e o Paquistão com as outras. Quando havia
apenas um exemplar de qualquer obra, os bibliotecários tinham que decidir
a qual dos Estados o assunto interessava mais. Assim, homens instruídos e
inteligentes jogaram à pancada para ficarem com Alice no país das
maravilhas ou O Monte dos Vendavais.
O pagamento das pensões devidas às viúvas dos marinheiros mortos no mar
acarretou intermináveis discussões. O Paquistão devia tomar a seu cargo
todas as viúvas muçulmanas fosse qual fosse o local da sua residência?
Quanto à Índia, encarregava-se das viúvas hindus que vivessem no
Paquistão?
Só os vinhos e os álcoois escaparam a qualquer controvérsia. Foram
automaticamente atribuídos à Índia hindu, recebendo o Paquistão muçulmano
um crédito equivalente.
Algumas divisões foram verdadeiros quebra-cabeças. Devendo o Paquistão
ficar com a sua parte da rede de estradas e caminhos-de-ferro das Índias
- ou seja mais de um quarto -, como deviam ser repartidas as pás e os
carrinhos de mão dos cantoneiros, as locomotivas, as carruagens-
restaurante e os vagões de mercadorias dos caminhos de ferro? Devia-se
aplicar a regra dos 20% e dos 80% ou ter em conta a quilometragem das
linhas e das estradas pertencentes a cada Estado?
Houve distribuições impossíveis de efectuar. Como o ministério do
Interior havia declarado que as «responsabilidades do actual serviço de
informações não estavam verdadeiramente destinadas a diminuir com a
divisão do país», os seus agentes recusaram-se categoricamente ceder
fosse o que fosse ao Paquistão, desde um simples tinteiro a um apara-
lápis. Em contrapartida, só existia uma máquina de imprimir selos e notas
de banco, esses dois emblemas indispensáveis a qualquer identidade
nacional. Os indianos recusaram-se, com igual obstinação, a compartilhar
o seu uso com os futuros vizinhos.
Os muçulmanos foram portanto obrigados a emitir dinheiro provisório
carimbando a palavra «Paquistão» sobre as notas de banco indianas.
As velhas rivalidades religiosas da Índia ressurgiram na altura desta
divisão do património. Alguns muçulmanos reclamaram a demolição do Taj
Mahal e o seu transporte, pedra por pedra para o Paquistão, argumentando
que este famoso mausoléu fora edificado por um rei mogol. Brâmanes
indianos reivindicaram a posse do Indo, cujo curso passava pelo interior
do futuro Paquistão, porque os seus Vedas sagrados haviam sido elaborados
nas suas margens vinte e cinco séculos antes.
Nenhum dos dois Estados mostrou todavia a menor repugnância em herdar os
símbolos mais evidentes do poder imperial que os dominara durante tanto
tempo.

165
O sumptuoso comboio branco e dourado dos vice-reis que trilhara as
planícies áridas do Decão e o fértil vale do Ganges, foi atribuído à
Índia. O Paquistão recebeu em compensação a limusine oficial do
comandante-chefe do Exército das Índias e a do governador do Panjab.
A mais espantosa talvez de todas as divisões deu-se no pátio das
estrebarias do palácio do vice-rei. Doze coches eram o motivo da cobiça.
Com os seus ornatos carregados de ouro e de prata, os arreios reluzentes,
os cichins escarlates, simbolizavam a pompa e majestade soberbas que
haviam fascinado os súbditos indianos do Império, excitando ao mesmo
tempo a revolta. Cada vice-rei, cada soberano de visita, cada dignatário,
da corte, de passagem pelas Índias, tinha percorrido as avenidas da
capital imperial dentro de um destes landaus. Seis dos carros eram
ornamentados a ouro, os outros seis a prata. Não havia possibilidade de
os desaparelhar. Foi portanto decidido que um dos domínios receberia o
conjunto de carruagens douradas, devendo o outro contentar-se com as
ornamentadas a prata.
Para escolher os benefícios, o capitão de corveta Peter Howes, ajudante
de campo de Mountbatten, propôs o mais plebeu dos sistemas: jogar a cara
ou coroa. Acompanhado pelo major Yacoub Khan, futuro comandante da guarda
paquistanesa, e pelo major Govind Singh, futuro comandante da guarda
indiana, atirou uma moeda ao ar.
- Caras! gritou Govind Singh.
Quando a moeda caiu nas lajes do pátio, os três homens precipitaram-se. O
indiano deu largas à sua alegria. A sorte acabava de dar os coches
dourados dos senhores imperiais de ontem aos chefes da Índia socialista
de amanhã.
Seguiu-se a distribuição dos arneses, dos chicotes, botas, cabeleiras, e
uniformes dos cocheiros. Em breve não restava senão um último acessório:
a corneta do postilhão real de que só existia um exemplar.
O jovem oficial inglês pensou um momento. Era evidente que não havia
possibilidade de divisão. Podia jogá-la também a caras ou coroas. Mas
Peter Howes teve uma ideia melhor. Mostrou o objecto aos dois camaradas
indianos e declarou: «Bem vêem que não podemos dividir est corneta. Por
isso, creio que só há uma solução razoável: fico eu com ela.»
Com um sorriso malicioso, meteu o instrumento debaixo do braço e foi-se
embora (Nota 1).
Não havia só as notas de banco, os coches e as cadeiras dos burocratas de
um quinto da humanidade para inventariar e dividir antes de 15 de Agosto
de 1947.

Nota 1 - A corneta do postilhão dos coches dos vice-reis das Índias está
hoje sobre a chaminé da sua vivenda de Wiltshire para onde se retirou
Peter Howes. Almirante reformado, conta muitas vezes aos amigos a
história deste objecto e nunca perde a ocasião de soprar nela
alegremente, para recordar os bons velhos tempos.

166
Havia também as centenas de milhar de homens ligados à administração,
desde o director dos caminhos-de-ferro e os presidentes dos ministérios
até aos criados, aos varredores e aos babu, esses poderosos mangas-de-
alpaca que se tinham multiplicado como cogumelos em todos os serviços da
tentacular burocracia indiana. Todos estes funcionários tinham o direito
de optar quer pela Índia quer pelo Paquistão segundo a sua religião.
Feita a escolha, partiram com as famílias nos primeiros comboios da
jornada que seria o maior êxodo da História.
Mas a mais dolorosa de todas as divisões punha em jogo um milhão e
duzentos mil homens - hindus, muçulmanos, sikhs e ingleses - reunidos
nessa gloriosa instituição criada pela Grã-Bretanha: o Exército das
Índias. Consciente do papel capital que poderia desempenhar esta força na
manutenção da ordem a seguir à Partilha, Mountbatten pediu a Jinnah que a
deixasse intacta durante um ano sob a autoridade de um comandante supremo
britânico responsável junto dos dois governos. Mas o pai do Paquistão foi
inflexível: um exército era o atributo indispensável da soberania de uma
nação. Jinnah exigiu que o seu estivesse dentro das suas fronteiras antes
de 15 de Agosto. À razão de um terço para o Paquistão, e dois terços para
a Índia, o Exército das Índias ia portanto ser divido como tudo o mais.
Com este desmantelamento terminava uma nobre e gloriosa lenda.

Heróis de Kipling nos lanceiros de Bengal

O exército das Índias: o nome só por si dava origem a um mundo de


histórias românticas que entusiasmavam a imaginação. Fora ele o último
ponto de encontro das epopeias, o clube onde toda uma juventude inglesa,
sedenta de glória e de espaço, viera procurar aventuras. Desde os heróis
de Kipling até Gary Cooper galopando nas telas do cinema à cabeça dos
lanceiros de Bengal, uma série de imagens celebrava os feitos destes
gentlemen brancos arrastando atrás dos seus capacetes emplumados
esquadrões de cavaleiros de turbante. Gerações de filhos dessa Inglaterra
que reinava sobre metade do mundo tinham vindo escrever a História nas
solidões selvagens dos pilares do Império, escalando as ravinas
vertiginosas da passagem de Khyber, perseguindo, sob a neve ou sob um sol
implacável, os ferozes rebeldes patans que acabavam com os prisioneiros à
punhalada. Essas batalhas na fronteira afegã eram um desafio mortal que
os ingleses travavam com o espírito desportivo dos jogos de estudantes em
Eton ou Harrow. A maior parte das operações eram realizadas por pequenos
grupos compostos de um oficial e alguns sipaios. Tinham por fim tomar um
ponto alto, fazer uma emboscada, capturar um acampamento — forma de
combate que exigia coragem, iniciativa, e uma confiança absoluta entre o
chefe e os seus homens.
O regimento era a célula do Exército das Índias.

167
Oficiais ingleses e tropas indígenas entravam para ele como para uma
religião. Os recrutas indianos deviam depositar cinquenta libras
esterlinas para a compra do seu equipamento, quantia fabulosa para bolsas
modestas. Mas era tão prestigioso servir nesse exército que cada
regimento tinha uma lista de espera de vários anos. Dura e perigosa
durante as operações, a vida dos oficiais, no regresso às guarnições, era
cheia de conforto e de luxo. A abundância de criadagem indiana, o custo
ínfimo do necessário e do supérfluo, os privilégios de que gozavam os
militares, tudo permitia a esses jovens levar uma existência de sonho.
Lord Ismay, o director do gabinete de Mountbatten, não esqueceria nunca o
primeiro jantar na messe do seu regimento, quando voltava esgotado da
travessia de metade da Índia debaixo da poeira e do calor tórrido. Os
camaradas, vestidos com o magnífico uniforme vermelho, azul marinho e
ouro, estavam sentados à volta da mesa. Por detrás de cada um havia um
criado «de túnica de musselina branca imaculada, realçada por um cinturão
e um turbante com as cores do regimento. Ramos de rosas vermelhas e uma
profusão de pratas ornamentava uma toalha de linho branco adamascado. Por
cima da chaminé, estava o retrato do nosso coronel honorário, o príncipe
Albert Victor, irmão de Jorge V, e nas paredes alinhavam-se as cabeças
empalhadas de tigres, leopardos, «markhors» e cabras monteses». Era na
época em que os oficiais se vestiam como personagens de opereta. Usavam
fardas cor de pêssego, de hortelã, prateadas. Cada regimento organizava,
uma vez por ano, um jantar de gala. Exigia-se dos novos recrutas que
ficassem perdidos de bêbedos durante esta festa tradicional, e se
apresentassem pontualmente à chamada no dia seguinte às seis horas da
manhã. Um toque de corneta anunciava que o jantar estava na mesa. As
charlateiras reluzentes nos seus galões dourados, e as botas a brilhar
como espelhos, os oficiais seguiam o coronel até à sala de jantar. A luz
dos candelabros, saboreavam uma cozinha tão requintada como a dos
melhores restaurantes europeus de Calcutá ou de Bombaim. Após a
sobremesa, era trazida uma garrafa de Porto que passava religiosamente a
todos os convivas, no sentido contrário ao dos ponteiros de um relógio,
começando pelo coronel. Qualquer falta a este rito era considerada de mau
augúrio. O coronel propunha invariavelmente três saúdes: ao rei-
imperador, ao vice-rei e ao regimento. No 7.° regimento de cavalaria
ligeira do Panjab, mandava a tradição que o coronel atirasse o seu copo
para trás das costas a seguir a cada saúde. O sargento da messe, postado
atrás dele, apressava-se a esmigalhá-lo com o calcanhar da bota antes de
se pôr em sentido.
O bar e a cave das messes do Exército das Índias estavam prodigamente
fornecidos, e a honra de um oficial exigia que as suas contas no bar
fossem superiores ao total do seu soldo. De qualquer forma, a sua
situação financeira não era grave senão quando o seu débito excedesse, no
banco, a sua conta pessoal.
O bem mais precioso de cada regimento era a colecção de troféus de prata
que marcavam a sua história. Cada oficial que servia nas suas fileiras
oferecia-lhe um objecto com o seu nome e a data da sua incorporação.

168
Outras peças assinalavam a glória do regimento nos campos de polo e de
críquete, ou celebravam os seus feitos em batalhas. No 7.° regimento de
cavalaria ligeira do Panjab nos anos 30, uma curiosa alcunha foi posta a
uma taça durante um jantar particularmente animado. Excitados como
estudantes depois de um exame, os tenentes do regimento tinham nessa
noite saltado para cima da mesa a fim de urinarem todos dentro do
prestigioso recipiente. Com pouca capacidade para conter as cascatas das
suas bexigas repletas de champanhe, foi imediatamente baptizada com o
nome The Over flow Cup, «A Taça Transbordante».
Como as manobras e exercícios apenas ocupavam as manhãs, só havia uma
maneira digna de passar as tardes livres: a prática do desporto e dos
jogos de equipa, quer fosse o polo, a caçada do javali à lança, o
críquete, o hóquei ou a perseguição à raposa. Os jovens ingleses deviam
gastar de uma forma sã a sua energia juvenil, obrigação a que não
faltavam os duches frios que os Jesuítas infligiam aos seus alunos.
Porque na existência idílica do Exército das Índias como no seminário, o
sexo era banido. Os oficiais eram encorajados a não se casarem antes dos
quarenta. Depois da revolta indígena de 1857, manter relações com uma
indiana parecia mal, e as casas de prostituição não eram lugares que um
gentleman frequentasse. Um grande galope à rédea solta era o exaustor
aconselhado.
Os oficiais tinham direito a dois meses de licença por ano, mas
conseguiam com facilidade mais quando havia calma nas fronteiras. Iam
então à caça ao tigre e à pantera nas selvas da Índia central, caçavam o
leopardo das neves, a cabra montês e o urso preto junto do Himalaia, ou
pescavam o irrequieto mahseer nas cascatas transparentes de Cachemira.
Ismay passara assim as suas primeiras férias numa casa flutuante de
Srinagar, com os seus póneis do jogo do polo a pastarem na margem
próxima, por entre as corolas abertas das flores de lótus. Quando chegava
a estação quente, subia até Gulmarg, a 2700 metros de altitude. «O campo
de polo tinha sido feito com verdadeira turfa inglesa e havia lá no alto
um clube onde passavam noites inteiras a modificar o mundo.»
Os jovens oficiais do Exército das Índias nunca resolveram os problemas
do mundo. Mas, com as suas espingardas prontas em matar os tigres de
Bengala como os rebeldes das tribos tumultuosas da fronteira afegã, com
todo o folclore que acompanhava as suas cavalgadas nos elevados planaltos
da Ásia, com os seus cantis sempre cheios de whisky, os seus sticks e os
seus tacos de polo, foram os soberbos e longínquos guardiões do maior
império da História.
Servindo lado a lado em franca camaradagem de armas, os soldados hindus,
sikhs e muçulmanos do Exército das Índias tinham, sob o comando dos
oficiais britânicos, dado durante gerações um belo exemplo de
fraternidade. Misturavam o seu sangue nos campos de batalha,
compartilhavam os mesmos perigos, os mesmos deveres, as mesmas alegrias.
Sob o ondular dos estandartes britânicos, reconciliavam os seus
antagonismos ancestrais.

169
A Segunda Guerra mundial e os dias perturbados que se seguiram deviam
contudo modificar este equilíbrio. Durante as últimas semanas da sua
existência, o Exército das Índias começou também a ser contaminado pela
vaga de ódio que sacudia o país. Pela primeira vez, sipaios, sikhs e
muçulmanos recusaram-se a tomar as refeições juntos. Este racismo, que o
Exército das Índias se orgulhava de não conhecer, ia servir hoje para o
dividir (Nota 1).
Um simples formulário passado a ciclostilo, enviado no princípio de Junho
a cada um dos seus membros, tornou-se o agente da destruição do Exército
das Índias. Pedia-lhe para especificarem se queriam servir no exército
paquistanês ou indiano. A escolha não trazia qualquer problema aos sikhs
e aos hindus: Jinnah não os queria no seu exército, e decidiram todos sem
excepção ficar no exército indiano.
Para os muçulmanos cujas habitações se encontravam situadas na Índia após
a Partilha, esta folha de papel levantava em contrapartida um terrível
dilema. Deviam abandonar a terra natal, a casa dos antepassados, as
famílias, e juntarem-se ao exército de um Estado que reclamava os seus
serviços pela simples razão de serem muçulmanos? Ou deviam continuar a
viver no país a que os ligavam tantos laços e aceitarem o risco de verem
as suas carreiras sofrerem a animosidade crescente contra a comunidade a
que pertenciam?
Um destes indianos muçulmanos a quem mais custava a alternativa era um
veterano de El Alamein, o tenente-coronel Enaith Habibullah.

Nota 1 - Apesar das guerras sangrentas que puseram em confronto os


exércitos indiano e paquistanês depois da Partilha, um espírito de
fraternidade devia subsistir contudo entre todos os oficiais que tinham
servido lado a lado no Exército das Índias. Foi assim que durante a
guerra do Bangladesh, um grupo de oficiais de blindados paquistaneses,
que tinham partido em busca de oficiais indianos para se renderem,
acabaram por encontrar um oficial de cavalaria no bar de um clube que a
unidade deste acabava de ocupar. Antes de aceitar a sua capitulação, o
indiano exigiu que os prisioneiros bebessem com ele. Quando os soldados
paquistaneses depuseram as armas, os indianos e paquistaneses que
acabavam de se matar uns aos outros nos arrozais do Bangla organizaram
desafios de hóquei e de futebol, como nos velhos tempos.
Escandalizados, os partidários do xeque Muhjibur Rahman enviaram um
vigoroso protesto a Nova Deli. A reacção veio directamente do gabinete do
primeiro-ministro indiano Senhora Indira Gandhi. Recordava com secura ao
general comandante da região que o seu dever era «fazer a guerra, e não
jogar ao críquete».

170
Pediu uma licença para ir visitar a família a Lucknow, onde o pai era
vice-chanceler da universidade e a mãe uma partidária fanática do
Paquistão, passeou pelas ruas da cidade, contemplou as moradas dos seus
antepassados, barões feudais do reino de Oudh, e deu uma volta pelas
ruínas deixadas pela grande revolta de 1857. «Os meus avós morreram por
estas pedras, pensou. Esta é a Índia com que sonhei no colégio em
Inglaterra e debaixo dos obuses alemães do deserto da Líbia. É ao meu
lar, é a esta terra que pertenço. Fico (Nota 1).»
Para o comandante Yacoub Khan, um jovem oficial muçulmano que prestava
serviço na guarda do vice-rei, a decisão que devia tomar era a mais
importante da sua vida. Foi também resolver a sua escolha ao principado
de Rampur onde o pai era primeiro-ministro do tio, o nawab. Olhou com
emoção para a bela residência perto do sumptuoso palácio do tio. Guardava
tantas boas recordações daquela casa: os banquetes de cem talheres
servidos em baixela dourada, as noites de festa, as caçadas e os cortejos
de vinte ou trinta elefantes conduzindo os atiradores da selva, os bailes
fabulosos que duravam até ao amanhecer ao som de uma dúzia de orquestras,
a procissão de Rolls-Royces em frente da escadaria, o champanhe que
corria a rodos. Lembrava-se dos piqueniques debaixo das tendas decoradas
com almofadões multicolores e preciosos tapetes de seda, dos bufetes
abarrotados de vitualhas. Ficou a sonhar pelos salões do palácio, tornou
a ver com nostalgia a grande sala dos jantares de gala, ornamentada com
os retratos de Vitória e de Jorge V, a piscina de mármore branco onde
passara tantos dias alegres. Tudo isso fazia parte de uma outra vida,
pensou, uma vida destinada a desaparecer na Índia socialista que ia
surgir com a Independência. Que lugar podia essa Índia ter para alguém
como ele, herdeiro de uma família principesca muçulmana?
Yacoub Khan sentiu que não havia para ele outra alternativa senão emigrar
para o Paquistão. Tentou explicar isso à mãe:
- Viveu a sua vida, disse ele. A minha está ainda no princípio. Não julgo
que haja futuro para os muçulmanos na Índia depois da Partilha.
A velha senhora olhou para ele, incrédula e irritada ao mesmo tempo.
- Não compreendo o que queres dizer, espantou-se ela. Vivemos aqui há
três séculos. Ham hawa-ké bankbon davara âhé. Chegámos às planícies das
Índias nas asas do vento, continuou em urdu. Assistimos à pilhagem de
Deli. Os teus avós lutaram contra os ingleses por esta terra. O teu
bisavô foi fuzilado durante a revolta. Batemo-nos, revoltámo-nos,
defendemo-nos. E agora, temos uma pátria livre. A nossa sepultura será
aqui.
Estou velha, concluiu. Os meus dias estão contados. Não entendo muito de
política, mas tenho os meus sentimentos de mãe, e esses são egoístas.
Receio que a tua decisão nos separe.
- Não — protestou o filho. — Seria tão simples como se estivesse numa
guarnição em Carachi em vez de Nova Deli.

Nota 1 - Os dois irmãos de Enaith Habibullah, a irmã e o cunhado


preferiram emigrar para o Paquistão. Admiradora fervorosa de Jinnah, a
mãe resolveu porém ficar na Índia.

171
Partiu no dia seguinte de manhã, por um belo dia de Verão. A mãe vestia
um sari branco - cor do luto tanto para os muçulmanos como para os hindus
—, que recortava a sua silhueta sobre a fachada de grés cor-de-rosa da
casa familiar. Mandou o filho passar por debaixo de um exemplar do
Alcorão que levantou acima da sua cabeça. Depois entregou-lhe o livro
sagrado e pediu-lhe para o beijar. Então, recitaram juntos alguns
versículos à maneira de oração de despedida. Em seguida a mãe soprou
devagar na direcção do filho para ter a certeza de que a oração o
acompanhava.
Abrindo a porta do grande Packard que o levaria à estação, Yacoub Khan
voltou-se para fazer um último aceno com a mão. Direita e digna na sua
tristeza, a velha senhora saudou com a cabeça. Das janelas da casa, os
criados de turbante enviavam os seus salâm. Umas dessas janelas era a do
quarto que Yacoub Khan ocupara na adolescência, cheio ainda dos seus
martelos de criquet, dos álbuns de fotografias, das taças ganhas no jogo
do polo, de todas as recordações da sua infância. Não havia pressa,
pensou ele. Uma vez instalado no Paquistão viria buscar tudo aquilo.
Yacoub Khan enganava-se. Nunca mais voltaria ao lar paterno, nem tornaria
a ver a mãe. Daí a poucos meses, à frente de um esquadrão do exército
paquistanês, subiria uma das vertentes nevadas de Cachemira ao assalto a
uma posição guardada por homens que tinham sido seus companheiros no
Exército das Índias. Entre as unidades que tentariam travar o seu avanço
encontrava-se uma companhia do Garhwal Battalion indiano. Muçulmano
também, o chefe fizera em Julho de 1947 uma escolha inversa da de Yacoub
Khan e decidira ficar no país onde nascera. Também ele era natural de
Rampur, também ele se chamava Khan, Younis Khan. Era o irmão mais novo de
Yacoub.

A tarefa mais complexa, a mais temível levantada pela Partilha coube a um


advogado de nome arrancado aos dossiers do seu gabinete de Londres.
Apesar dos seus conhecimentos enciclopédicos, Sir Cyril Radcliffe
ignorava praticamente tudo a respeito das Índias. Esse inglês tranquilo e
gordinho nunca lidara com qualquer estatuto jurídico que a elas se
referisse. Nem sequer pusera lá os pés. Foi paradoxalmente por essa razão
que recebeu uma convocação do Lord Chanceler da Grã-Bretanha, para 27 de
Junho de 1947 à tarde.
O plano de partilha das Índias deixava em suspenso um problema capital,
explicou o lord Chanceler ao visitante: as linhas divisórias do Panjab e
de Bengal. Sabendo que eles próprios nunca mais chegariam a um acordo
sobre o traçado, Jinnah e Nehru tinham resolvido confiar essa
responsabilidade a uma comissão de demarcação cujo presidente desejavam
fosse um eminente jurista britânico. Este não devia ter nenhuma
experiência das Índias, sob pena de ser desclassificado por uma das
partes como não oferecendo todas as garantias de imparcialidade.

172
A sua reputação de homens de leis, e a sua não menos notável ignorância
das questões indianas tornavam-no o candidato ideal, sublinhou o lord
Chanceler.
Espantadíssimo, Radcliffe endireitou-se no cadeirão. Dividir o Panjab e
Bengal era a última coisa que ele desejava ser obrigado a fazer. Embora
ignorasse tudo a respeito das Índias, tinha experiência jurídica bastante
para saber que essa missão seria imperdoável. Todavia, como muitos
ingleses da sua geração, possuía por princípio um sentido profundo do
dever. Pensou que se, nesta encruzilhada crítica da sua história, os dois
adversários políticos indianos tinham conseguido entender-se para o
indicar, ele, um inglês, era obrigado a aceitar.
Uma hora mais tarde, um alto funcionário da secretaria de Estado dos
Negócios indianos desdobrou diante dele uma carta geográfica. Enquanto
com o dedo seguia o curso do Indo, contornava a barreira do Himalaia,
descia o Ganges e passava pelas margens do golfo de Bengala, Radcliffe
descobria pela primeira vez os limites das imensas províncias que teria
de cortar em duas. Oitenta e oito milhões de homens, as respectivas
habitações, arrozais, campos de juta, os seus prados e pomares, os seus
caminhos-de-ferro, estradas e fábricas - dezenas de milhar de quilómetros
quadrados surgiam aos seus olhos na abstracção de uma folha de papel
colorido.
Sobre um mapa semelhante ele iria ser obrigado a desenhar a linha que
amputaria aquele pedaço da humanidade com a segurança do escalpelo de um
cirurgião.
Antes da sua partida para Nova Deli, Sir Cyril Radcliffe foi recebido
pelo primeiro-ministro. Clement Attlee observou com orgulho a personagem
cujas decisões iam influenciar mais a vida das Índias do que as de
qualquer outro inglês havia três séculos. No quadro sombrio da cena
indiana carregada de nuvens, sentiu pelo menos um motivo real de
satisfação: era um antigo aluno de Haileybury, como ele próprio, que
Jinnah e Nehru tinham escolhido para cortar a terra natal de oitenta e
oito milhões dos seus compatriotas.
Luís Mountbatten mal tivera tempo de saborear a sua vitória, que havia
ganho conseguindo arrancar o acordo dos líderes indianos ao seu plano de
partilha, quando lhe caiu nas mãos novo problema, mais complexo ainda. Os
seus interlocutores não seriam, desta vez, um punhado de advogados
formados no tribunal londrino, mas os 565 membros do rebanho dourado de
Sir Conrad Corfield, os marajás e nawabs das Índias.
A atitude imprevisível, por vezes irresponsável, destes soberanos
ressuscitava um velho pesadelo. Se os seus chefes políticos podiam
dividir a Índia, os seus príncipes podiam aniquilá-la. A ameaça deles não
era uma simples partilha, mas uma explosão numa multidão de Estados.
Arriscavam-se a fazer estalar todas as forças de desintegração inerentes
às múltiplas línguas, raças, religiões, das regiões que dormitavam sob a
frágil superfície da unidade indiana.

173
Satisfazer as suas reivindicações de independência comprometeria
fatalmente a península num processo que levaria por força ao seu
desmembramento. A sucessão do Império das Índias não seria então mais do
que um mosaico de pequenos territórios inimigos e sem defesa, expostos à
cobiça da grande rival da Índia, a China.
A viagem secreta de Sir Conrad Corfield a Londres dera certos resultados.
O gabinete reconhecera a validez da sua tese: as prerrogativas que os
príncipes tinham cedido ao rei-imperador em troca da sua suserania deviam
ser-lhes directamente devolvidas. Isso implicava que voltassem a ter
todos os atributos da sua soberania à partida dos ingleses, e que seriam
então tecnicamente independentes. Corfield não sentiria a menor hesitação
em encorajar os mais poderosos a proclamarem oficialmente esta
independência.
«Ninguém me deixara prever que o problema dos principados indianos ia ser
tão difícil de resolver, senão mais, do que o da Índia inglesa», lamentou
Mountbatten num relatório enviado a Londres. Felizmente, ninguém estava
mais habilitado que ele para tratar com esses soberanos. Era, afinal, um
dos seus pares. Possuía o que era aos olhos deles a mais incontestável
das referências, laços de sangue com metade das casas reais da Europa, e,
acima de tudo, com a coroa que durante tanto tempo os protegera. Fora
aliás na companhia de alguns desses príncipes — cujos tronos tencionava
agora liquidar -, que ele descobrira, vinte e cinco anos antes, o
fabuloso Império das Índias. Fora seu hóspede. Percorrera as suas selvas
e perseguira os seus tigres, montara os seus elefantes reais. Bebera o
seu champanhe pelas suas taças de prata, saboreara os seus festins
orientais na sua baixela de ouro, dançara sob os candelabros de cristal
dos seus palácios com a jovem que viria a ser sua esposa. Sobre a relva
dos seus soberbos campos, iniciara-se no jogo do polo, de que se tornaria
mais tarde um perito mundialmente conhecido. Entre os poucos íntimos que
o tratavam por «Dickie», encontravam-se alguns marajás, de quem tinha
ficado amigo após essa viagem.
Mas, quaisquer que fossem os seus laços de sangue e o seu encanto
pessoal, Mountbatten era sobretudo um realista, profundamente fiel aos
seus princípios liberais. Os pais dos príncipes tinham sido talvez os
aliados mais seguros do Império; na época moderna que ia iniciar-se, a
Grã-Bretanha devia procurar os seus novos amigos entre os socialistas do
Congresso. Mountbatten não conseguiria conquistá-los se subordinasse os
interesses nacionais da Índia aos de uma pequena casta anacrónica de
senhores feudais.
O maior serviço que podia prestar a esses herdeiros de tempos idos era
salvá-los de si próprios dos seus fantasmas e em certos casos, do sonhos
megalómanos que o isolamento dourado dos seus Estados contribuirá para
alimentar. Uma visão obcecava Mountbatten desde a adolescência, uma cena
a que não assistira mas que imaginara muitas vezes, o espectáculo atroz
da cave de lekaterinbourg onde o seu tio, o tsar, a tia e os primos
tinham caído sob as balas dos revolucionários russos.

174
Sabia que certos marajás corriam o risco de praticar actos irreparáveis
susceptíveis de transformar os seus palácios em açougues. E o caminho que
o seu Secretário político, Sir Conrad Corfield os encorajava a tomarem
era justamente de molde a levar a semelhante tragédia.
Muitos deles julgavam todavia que Mountbatten ia ser o seu salvador, que
ia conseguir pô-los a salvo, a eles e à sua existência privilegiada.
Enganavam-se. O vice-rei queria pelo contrário, convencer os seus caros e
velhos amigos de que a única solução aceitável entrar no esquecimento sem
fazer barulho. Desejava vê-los abandonar qualquer reivindicação de
independência e proclamar a sua vontade de se associarem à Índia ou ao
Paquistão antes de 15 de Agosto. Estava pronto, pela sua parte, a usar da
sua autoridade junto de Nehru e de Jinnah para obter como compensação da
sua colaboração as melhores condições para o seu futuro pessoal.
Foi primeiro a Vallabhbhai Patel, ministro indiano encarregado de
resolver as questões dos príncipes, que Mountbatten propôs o seu ajuste.
Se o Congresso permitisse aos marajás e aos nawabs conservarem os seus
títulos, os seus palácios, as suas listas civis, a sua imunidade
principesca, o direito às condecorações britânicas e o estatuto quase
diplomático, teria o direito de conseguir que eles assinassem um pacto de
adesão transferindo pura e simplesmente a sua soberania para a Índia.
A oferta era tentadora. Patel sabia que não existia ninguém nas fileiras
do Congresso que gozasse junto dos príncipes de influência comparável à
de Mountbatten.
- Mas é preciso que eles estejam todos de acordo, declarou ao vice-rei.
Se me trouxer um cesto com todas as maçãs da árvore, aceito. Se não
existirem lá todas, recuso.
- Dispensa-me de uma dúzia de irredutíveis? perguntou o vice-rei.
- É muito, protestou Patel. Dois, o máximo.
- É muito pouco, lamentou Mountbatten.
O vice-rei e o ministro indiano discutiram como dois mercadores de
tapetes a propósito de territórios tão populosos como metade da Europa.
Transigiram finalmente no número de seis. A tarefa que esperava
Mountbatten nem por isso era mais leve. A totalidade menos seis, somava
de qualquer forma mais de quinhentas e cinquenta maçãs a recolher antes
de 15 de Agosto.
O convite de Jawaharlal Nehru era o mais surpreendente que um inglês
podia receber de um indiano. Ficaria inédita nos anais da descolonização.
Apenas a sabedoria ancestral da Índia e a personalidade, excepcional dos
interlocutores podia explicá-la. Nehru viera pedir solenemente ao último
vice-rei das Índias para ser o primeiro titular do mais alto cargo que
podia oferecer a Índia independente, o de governador-geral.

175
Apesar de profundamente sensibilizado com a enorme honra que lhe era
prestada, Mountbatten pôs grandes reticências. Tinha triunfado
brilhantemente durante os seus quatro meses nas Índias. Podia partir,
conforme esperava, «numa luminosa auréola de glória». Estava demasiado
consciente das dificuldades que iam surgir e receava ver manchado o seu
êxito. Para desempenhar eficientemente o papel de árbitro, era necessário
ainda que Jinnah lhe fizesse a mesma proposta.
O velho líder muçulmano não tinha pela sua parte a menor intenção de
renunciar às prorrogativas da magistratura suprema do Estado conseguido
após tantos esforços. Seria ele mesmo o primeiro governador-geral do
Paquistão. Mountbatten faz-lhe notar que ele não escolhera o lugar
apropriado: no regime de tipo britânico que escolhera para o seu Estado,
era o primeiro-ministro quem tinha todos os poderes. O papel de
governador-geral era apenas honorífico, sem verdadeira autoridade, como o
do rei de Inglaterra, explicou.
Estes argumentos não fizeram vacilar um momento Jinnah.
— No Paquistão, respondeu secamente, serei eu o governador-geral, e o
primeiro-ministro fará o que eu lhe mandar.
O rei, Attlee, Churchill, todos os que tinham consciência do alcance da
homenagem prestada por Nehru à Grã-Bretanha, exortaram o vice-rei a
aceitá-la.
Antes de dar o seu acordo, Lord Mountbatten desejava todavia obter uma
bênção. Parecia impossível que um homem que levara a Índia à libertação
pregando a sua doutrina de não-violência conseguisse ver outro que
dedicara a vida à arte da guerra tornar-se o primeiro chefe de Estado da
sua pátria independente. Num daqueles rasgos quixotescos que lhe eram
habituais, Gandhi já dera a conhecer ao mundo a personalidade ideal que
desejava para esse posto: uma varredora intocável, «de grande coração,
incorruptível e pura como o cristal».
Apesar de tudo quanto os separava, uma verdadeira afinidade unia o velho
Mahatma e o jovem almirante, mais novo do que ele trinta anos.
Mountbatten estava fascinado com Gandhi. Adorava o seu humor malicioso.
Logo à chegada, decidira ignorar todos os padrões britânicos e tentar
honestamente compreendê-lo. Cada encontro aumentara a sua simpatia e a da
esposa por aquela curiosa personagem. Gandhi ficara sensibilizado com
esse calor ao ponto de lhe corresponder com uma diligência de uma
generosidade excepcional. Uma tarde de Julho, esquecendo todos os anos
passados nas prisões britânicas, o Mahatma foi pedir espontaneamente a
Luís Mountbatten para ser o primeiro chefe de Estado do país que levara
trinta e cinco anos a arrancar aos ingleses. Esta oferta era um enorme
tributo ao último vice-rei e à Grã-Bretanha.

176
Contemplando a frágil silhueta perdida no enorme cadeirão, Mountbatten
estava profundamente comovido. «Foi preso por nós, pensou ele, humilhado,
desprezado, desdenhado, e ele ainda possui grandeza de alma suficiente
para ter este gesto.» Agradeceu a Gandhi. O velho balouçou a cabeça e
continuou a conversa.
Com um gesto da mão, indicou a fileira de construções pertencentes ao
palácio e os jardins mongóis. Tudo isto, declarou ele ao homem que amava
cada uma daquelas pedras e a faustosa vida que ali se vivia, todo este
esplêndido e incomparável conjunto vai pertencer à Índia independente. A
sua arrogante opulência e o passado com ela relacionado eram uma ofensa
para os seus compatriotas miseráveis. Os novos dirigentes da Índia deviam
dar o exemplo, a começar pelo governador-geral.
- Deixe este palácio, suplicou ele, e vá viver para uma casa sem criados.
O seu palácio poderá servir para um hospital.
Mountbatten fez um esgar divertido a esta ideia. Como poderia a primeira
figura da maior democracia do mundo receber dignamente chefes de Estado
estrangeiros numa humilde casa sem conforto? Enquanto Jorge VI, Attlee,
Nehru tentavam convencer o último vice-rei das Índias a aceitar um cargo
que lhe inspirava as mais vivas reticências, este encantador feiticeiro
pedia-lhe para ser o primeiro socialista da Índia independente, o
responsável pelo destino de mais de um quinto da humanidade, na
austeridade espartana de uma vivenda onde fosse ele mesmo a fazer a
limpeza!
«Não é do bisturi do cirurgião que eu vou precisar para cortar o Panjab e
Bengal, mas do machado do magarefe», inquietava-se Sir Cyril Radcliffe ao
ouvir Luís Mountbatten pormenorizar-lhe os termos da sua missão, à sua
chegada a Nova Deli. Perante o eminente jurista que a Partilha das Índias
arrancara ao seu gabinete londrino, o vice-rei foi categórico: o plano da
partilha devia estar pronto dentro de seis semanas. No dia 14 de Agosto
de 1947, o mais tardar.
A menos de vinte quilómetros do palácio do vice-rei começavam as
primeiras planícies de uma das maiores províncias que a mão de Sir Cyril
Radcliffe ia irremediavelmente destroçar, o Panjab. Nunca «o celeiro das
Índias» fizera prever recolhas tão abundantes como as que amadureciam nos
seus campos dourados de trigo e cevada, nas suas extensões ondulantes de
milho, de milho painço e de cana de açúcar. No seu andar desengonçado, os
bois avançavam já em longas caravanas, pelos caminhos poeirentos,
atrelados aos carros onde se empilhavam os primeiros frutos da mais
fértil terra indiana.
As aldeias para onde se dirigiam eram todas semelhantes.

177
Coberto de musgo esverdeado, havia primeiro o charco onde as mulheres iam
lavar a roupa, e os homens os animais de carga; depois a confusão de
casas de adobe, com os pequenos pátios onde se espanejavam ao sol, cães,
cabras, búfalos, vacas, e um rancho enorme de crianças, de pés descalços
e com os olhos besuntados de Khôl; grandes búfalos faziam girar
lentamente pesadas mós de pedra que moía o trigo e o milho; as mulheres
achatavam em forma de bolacha excremento fresco misturado com palha que,
depois de seco, ia servir de combustível nos seus lares.
O coração do Panjab era a antiga capital do Império das Mil e Uma Noites,
Lahore, a preferida dos reis mongóis. Tinham-na estimado e alindado com
uma profusão de monumentos e de tesouros: a mesquita imperial de
Aurangzeb, a mais vasta da Ásia, com faianças brilhantes como talismãs
sob a poeira dos séculos; o mausoléu de mármore de Jehangir, gravado com
os noventa e nove nomes de Alá; as muralhas de grés cor-de-rosa do
imponente forte de Akbar, com os Seus terraços repletos de mosaicos e
incrustações preciosas; os mausoléus de Noor Jahan, a princesa cativa que
desposou o carcereiro e se tornou imperatriz, e o de Anarkali, «Flor de
Romãzeira», jóia do harém de Akbar, enterrada viva por ter sorrido para o
filho dele; fontes transparentes dos jardins olorosos do Shalimar. Uma
cidade inteira pululando de nostalgias de um passado glorioso.
Mais cosmopolita do que Nova Deli, mais aristocrática do que Bombaim,
mais altiva do que Calcutá, Lahore era para muitos a cidade mais sedutora
das Índias. O seu centro era o Mali, uma larga avenida bordada de cafés,
de bares, de lojas, restaurantes e teatros. As casas de prazer eram as
mais requintadas da península, e a cidade gozava havia muito a reputação
de ser o Paris do Oriente.
O traje tradicional era o khazanchi, essa graciosa túnica de seda que
algumas indianas preferem ao sari, cujas pregas caem sobre calças
compridas tufadas apertadas nos tornozelos, semelhantes às usadas pelas
mulheres dos haréns dos imperadores mongóis. Mas, neste centro
incontestado da elegância as mulheres de sociedade gostavam de se vestir
como as cortesãs do grande século, as jovens como os manequins da Rua de
La Paix, os estudantes como os galãs dos filmes de René Clair, e os
actores como os gigolôs do cinema mudo.
Era em Lahore que os ingleses tinham criado as melhores instituições onde
formavam a elite das novas gerações indianas. Com os campanários góticos
das suas capelas, os seus campos de críquete, aqueles colégios eram as
réplicas exactas dos modelos britânicos transportados para as planícies
escaldantes do Panjab. Professores de colarinho engomado ensinavam ali o
grego e o latim a indianos de blazer, com os bonés enfeitados com nobres
divisas: «A luz do céu é o vosso guia», ou «A coragem de saber».
Fotografias amarelecidas cobriam as paredes dos corredores, mostrando as
equipas de rugby, de críquete e de hóquei, filas de rapazes de cor morena
sob bonés redondos, apertando com orgulho os sticks de hóquei ou os
martelos de críquete.

178
Hindus, muçulmanos ou sikhs, estes jovens tinham cantado lado a lado na
capela os hinos marciais de uma Inglaterra cristã, aprendido de cor as
obras dos poetas e dos romancistas britânicos, arremetido com os corpos
nos campos de desporto à conquista das virtudes viris dos senhores das
Índias a quem reclamavam hoje as chaves da sua pátria.
Lahore era antes de mais uma cidade tolerante. As diferenças religiosas
entre os seus habitantes — seiscentos mil muçulmanos, quinhentos mil
hindus e cem mil sikhs - manifestavam-se ali menos do que em qualquer
outra parte das Índias. Nas pistas de dança do Gymkhana Club e nas do
Cosmopolitan Club, limitavam-se muitas vezes à grossura de um sari
enquanto sikhs, muçulmanos, hindus, cristãos e parsis rodopiavam de
mistura ao ritmo de um tango ou de um fox-trot. Juntavam-se sem
descriminações nas recepções, jantares e bailes da alta sociedade, e as
sumptuosas vivendas dos bairros residenciais pertenciam indiferentemente
a membros de todas as comunidades.
Mas este quadro idílico era um sonho que começava a desvanecer-se. Desde
Janeiro de 1947, agitadores da Liga muçulmana faziam reuniões secretas
nos bairros habitados principalmente por muçulmanos. Brandindo
fotografias, crânios e ossadas, mostrando por vezes um fugitivo
horrivelmente mutilado, acusavam os hindus de todas as atrocidades
perpetradas algures, atiçando o fogo do ódio racial e religioso.
Uma primeira erupção de violência deu-se no princípio de Março quando, ao
grito de Pakistan Murdabad! — «Morte ao Paquistão!» um líder sikh cortou
a golpes de machado, o mastro no alto do qual flutuava a bandeira da Liga
muçulmana. Sangrentas represálias responderam a este desafio, causando
mais de três mil vítimas, na maior parte sikhs. Sobrevoando uma série de
aldeias devastadas, o general Sir Frank Messervy, comandante-chefe da
zona norte do Exército das Índias, ficara aterrado com as filas de
cadáveres «alinhados como faisões depois de uma caçada».
A violência atingira as ruas de Lahore quando ali chegara o homem que,
com um lápis, ia decidir o seu destino. Com a cabeça cheia de todas as
histórias que ouvira em Inglaterra acerca da espantosa cidade, da radiosa
época de Natal, dos bailes, da festa do cavalo, e da faustosa vida
mundana, Sir Cyril Radcliffe não encontrou nada disso. Na capital do
Panjab, só viu «calor, poeira, revoltas e incêndios». Cem mil cidadãos
haviam já fugido. Apesar do calor insuportável, os restantes tinham
renunciado ao velho costume de dormir nos terraços ao ar livre. Tornara-
se cada vez maior o perigo de ver surgir das trevas um punhal.
A zona mais perturbada de Lahore era o interior de uma muralha de pedra
de doze quilómetros, antiga muralha de Akbar, que abrigavam um dos
aglomerados humanos mais densos. Trezentos mil muçulmanos e cem mil
hindus e sikhs viviam ali, num labirinto de ruelas, de praças, lojas,
oficinas, templos, mesquitas e casebres. Todos os cheiros, todos os
ruídos, todos os gritos da Ásia dos bazares saíam deste formigueiro
sempre em movimento.

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Com as bandejas de cobre em equilíbrio à cabeça, mercadores ambulantes
circulavam por todo o lado, apregoando pirâmides de frutos e gulodices
orientais: balva e barji, bolinhos com pimenta, laranjas, papaias,
bananas, mangas, uvas e tâmaras, por vezes pretas de moscas. Com as
pupilas brancas do véu do tracoma, crianças esmagavam cana-de-açúcar em
prensas rudimentares e ofereciam o suco aos transeuntes.
As ruelas desta cidade velha compunham um mosaico bizantino de quitandas
e oficinas a meio metro acima do chão para ficarem protegidas das cheias.
Fronteiras misteriosas separavam esta confusão de barracas em corporações
rígidas. Havia a rua dos ourives com a sua exposição lucilantes de
pulseiras de ouro que constituíam o pé-de-meia de muitos hindus; a rua
dos perfumistas com a sua floresta de pauzinhos de incenso e os velhos
vasos da China cheios de essências exóticas misturadas ao gosto do
cliente; filas reluzentes de babuchas bordadas a lantejoulas, com a ponta
revirada fazendo lembrar uma gôndola; artífices que apresentavam uma
profusão de objectos envernizados incrustados de mosaicos, caixas de laca
graciosamente enfeitadas com iluminuras, cofres de madeira de sândalo com
as tampas cravejadas de delicados desenhos em folha de ouro ou marfim.
Havia lojas de armas, cheias de espingardas, de lanças de kirpan, o sabre
ritual dos sikhs. Havia vendedores de flores, que desapareciam por detrás
das montanhas de rosas e de jasmins que os filhos enfiavam num fio como
as pérolas de um colar; mais coloridos ainda e ricos de aromas, os
expositores de especiarias e as seiras dos ervanários, cuja variedade de
plantas medicinais curava desde a gota até às comichões, opressão ou
anemia. Havia vendedores de chá que apresentavam uma dúzia de folhas
diferentes, desde o negro cor de tinta até ao verde pálido de azeitona.
Havia mercadores de tecidos, acocorados de pés descalços como Budas sobre
esteiras, no meio do variegado multicor da sua mercadoria. Alguns só
vendiam trajes para casamentos, e os seus mostruários estavam cheios de
turbantes enfeitados com palhetas douradas, de túnicas e vestidos
incrustados de vidros coloridos, esmeraldas e rubis dos pobres.
Todo o Oriente das férias circulava como num palco. Muçulmanas,
escondidas sob as burcas, olhos à espreita por detrás da delgada viseira
do véu, deslizavam, como freiras à hora de vésperas, no turbilhão
chocalhante dos tonga, dos rickshaws, das bicicletas e dos trens.
Da varanda rendilhada de uma casa do bairro hindu, o homem mais rico da
antiga Lahore contemplava satisfeito toda esta ruidosa agitação. Um
quarto ou quase dos camponeses do Panjab estavam presos, alguns para toda
a vida, nas suas malhas douradas. O velho Bulagi Shah era o usurário mais
próspero da província.
As primeiras vítimas do seu ódio racial jaziam agora por debaixo das suas
janelas, vítimas absurdas, mortas ao acaso só porque usavam um turbante
sikh ou um cafetã muçulmano.
E todavia, apesar do ódio e do medo, viam-se ainda cenas de
confraternização. À noite, nos clubes, em volta dos bares, hindus e
muçulmanos da alta burguesia trocavam promessas apaixonadas.

180
Se a nossa cidade ficar em território indiano, havemos de os proteger,
juravam os hindus aos amigos muçulmanos, que faziam a mesma promessa aos
amigos indianos, no caso de a Partilha trazer a situação inversa.
O inglês de quem dependia a futura nacionalidade de Lahore chegava no
meio de um tal desencadear de violências que o governador do Panjab não
se atreveu a dar-lhe hospitalidade na sua residência. Sir Cyril Radcliffe
instalou-se como qualquer caixeiro-viajante, no hotel Faletti, fundado em
1860 por um napolitano que se apaixonara por uma cortesã local. Empregou
todo o seu poder de convicção para obter a ajuda dos juizes da comissão
de fronteiras - dois muçulmanos, um hindu e um sikh — que deviam Ser seus
assistentes. Mas estes quatro magistrados compartilhavam as paixões
partidárias dos seus compatriotas. Radcliffe compreendeu que devia
concluir sozinho a sua terrível missão. A sua chegada a Lahore causara
sensação ao ponto de uma escolta de inspectores ter de velar dia e noite
pela sua segurança. Sempre que saía do hotel, um bando de indianos
vibrantes de desespero caía sobre ele no meio do calor infernal. À ideia
de verem os frutos de uma vida inteira de trabalho destruídos de um golpe
pelo risco do seu lápis, estavam dispostos a oferecer-lhe fosse o que
fosse para conseguirem uma fronteira favorável à sua comunidade.
À noite, a fim de escapar a estas patéticas diligências, Radcliffe
refugiava-se no último bastião «para europeus apenas», o Punjab Club.
Ali, saboreando o seu whisky and soda sobre a relva, enquanto os criados
de túnica branca circulavam na sombra como fantasmas, o jurista inglês
que ignorava tudo a respeito das Índias perguntava a si próprio onde,
para além daquele jardim, na cidade febril de ódio, poderia encontrar
qualquer vestígio da Lahore idílica e lendária. A cidade estava agora
apenas dominada por ruídos e visões sombrias que lhe surgiam por detrás
da cerca do Punjab Club: as fagulhas ardentes de um bazar em chamas, o
gemido irritante da sereia das ambulâncias, os gritos de guerra dos
adversários, os Sat Sri Akal! dos sikhs, os Allah Akbar! dos muçulmanos,
o sinistro tan-tan dos fanáticos extremistas hindus martelando na noite
hostil.
A cinquenta quilómetros a leste de Lahore, erguem-se as muralhas da
segunda maior cidade do Panjab, Amritsar, cujas ruas envolvem o santuário
mais sagrado do sikhismo. Erigido no meio das águas lisas de um vasto
lago ritual atravessado por uma ponte, o Templo de Ouro é um edifício de
mármore branco reluzente de ornatos de cobre, prata e ouro. A cúpula,
completamente forrada de placas de ouro, alberga o exemplar manuscrito
original do livro santo dos sikhs, o Granth Sahib, cujas páginas forradas
de seda são todas as manhãs cobertas de flores frescas abanadas dia e
noite com um leque feito de cauda de boi cavalo. Só uma vassoura de penas
de pavão é digna de espanejar este lugar venerável.

181
Em 1947, os seis milhões de sikhs, cujo templo era o santo dos santos,
praticavam com fervor uma das grandes religiões nascidas nesta terra
indiana visitada por Deus. Com as barbas e os bigodes pujantes, o cabelo
que nunca cortavam atado em carrapito debaixo dos turbantes de todas as
cores, o seu porte altivo e a sua estatura imponente, representavam
apenas um meio por cento da população das Índias mas constituíam - como
ainda hoje — a comunidade mais forte, mais unida e guerreira.
O sikhismo provém do encontro brutal do Islão monoteísta com o induísmo
politeísta nos campos de batalha das fronteiras do Panjab. Fundado no fim
do século XV por Nanak, um guru hindu que tentou reconciliar as duas
religiões proclamando: «Não há hindus, não há muçulmanos; há apenas um
Deus, a Verdade suprema», o sikhismo prosperava sob o domínio mogol,
bebendo na sua tirania o fermento da sua vitalidade. A selvajaria das
perseguições levou o nono e último sucessor do guru Nanak a transformar
esta religião numa fé militante. Reunindo os seus cinco discípulos mais
próximos, os Panjpiyara — os «Cinco Bem-amados», o guru Gobing Singh
lançou o sikhismo novo fazendo-os beber, numa taça comum, água com açúcar
misturados com um sabre de dois gumes. Tornaram-se assim os fundadores da
sua nova confraria combatente, os Khalsa - os «Puros». O guru baptizou-os
com nomes novos, todos terminados em Singh — «Leão».
Para que eles pudessem distinguir-se da multidão e fossem capazes de
defender a sua fé à custa da própria vida, o guru obrigou-os a observarem
a lei dos «Cinco K». Deixariam crescer o pêlo (kesh), barba e cabelos;
poriam um pente de marfim ou madeira (kangha) no carrapito; usariam
calções curtos (kuchka), a fim de lhes permitir a mobilidade do
guerreiro; enfiariam um bracelete de aço (kara) no pulso direito; e
finalmente, nunca andariam sem um kirpan, sabre. Os sikhs não deviam,
além disso, fumar, comer carne de animais mortos segundo o rito islâmico,
nem manter relações sexuais com mulheres muçulmanas.
A derrocada do Império mongol deu aos sikhs a oportunidade de construírem
um reino muito deles na terra do seu querido Panjab. A chegada das fardas
escarlates britânicas pôs termo a esta curta hora de glória, mas antes de
sucumbirem em 1849, os sikhs infligiram aos ingleses a pior derrota
sofrida por eles nas Índias, perto da aldeia de Chillianwala.
Em Julho de 1947, cinco dos seis milhões de sikhs habitavam ainda no
Panjab. Constituíam apenas 13% da sua população mas possuíam 40% das
terras e produziam cerca de dois terços das colheitas. Perto de um terço
dos soldados do Exército das Índias eram sikhs e cerca de metade dos
homens condecorados durante as duas guerras mundiais provinham da sua
comunidade. Naturalmente dotados para a mecânica, tinham-se também
interessado pela indústria de transportes da qual detinham praticamente o
monopólio. Nas cidades e nas estradas indianas, os sikhs motoristas de
camião e de táxi eram figuras lendárias a quem ninguém ousava disputar
prioridade.

182
A situação do Panjab era a condensação trágica daquela em que se
encontrava a Índia inteira: se os muçulmanos e os sikhs tinham podido
viver juntos sob o jugo da Inglaterra, já não o podiam fazer sob o nome
de uma ou outra das duas comunidades. As recordações que os muçulmanos
conservavam do domínio sikh estavam povoadas de profanações de mesquitas
e sepulturas, de mulheres ultrajadas, de irmãos e irmãs massacrados,
apunhalados, mortos, cortados em bocados, queimados vivos.
Os relatos dos sofrimentos que os sikhs tinham, por seu turno passado sob
a opressão dos soberanos mongóis estavam reunidos num sangrento folclore
que todas as crianças sikhs aprendiam como um evangelho assim que
atingiam a idade da razão. O Templo de Ouro de Amritsar albergava um
museu que tinha por fim manter viva a recordação de todas as atrocidades
praticadas pelos muçulmanos. Uma profusão de pinturas ensanguentadas
representavam os corpos de sikhs serrados ao meio ou esmigalhados entre
duas mós de pedra por se terem recusado a converterem-se ao islamismo.
Outras mostravam mulheres sikhs assistindo, à porta do palácio do Grão
Mogol, ao massacre dos filhos decapitados pelos soldados da sua guarda
particular.
A falta de reacção da parte dos sikhs após as violências sofridas pela
sua comunidade em Março de 1947 havia ao mesmo tempo surpreendido e
assegurado os muçulmanos tanto como os augúrios políticos da capital. Os
sikhs, murmurava-se, tinham perdido o seu antigo ardor guerreiro; a
prosperidade amolecera-os.
Era um erro de julgamento grave. No princípio de Junho, enquanto em Nova
Deli o vice-rei e os dirigentes indianos chegavam a um acordo acerca da
divisão das Índias, os chefes sikhs reuniam-se secretamente no hotel
Nedou de Lahore. O objectivo deste conselho era preparar uma estratégia
para o caso da Partilha ser irrevogável. Uma voz dominou a assembleia, a
do vesgo fanático que provocara os motins de Março abatendo a golpes de
kirpan a bandeira da Liga Muçulmana. Tara Singh, a quem os partidários
chamavam «Master» porque era professor numa creche, perdera vários
membros da família nos acessos de violência que resultaram da sua
atitude. A partir daí, apenas uma paixão o animava: a vingança.
- Ó sikhs, gritou ele num discurso anunciador da tragédia que ia cair
sobre o Panjab, deveis estar prontos para o sacrifício supremo como os
japoneses e os nazis. As nossas terras estão a ponto de ficarem
submersas, as nossas mulheres desonradas. Erguei-vos para aniquilar uma
vez mais o invasor mogol. A nossa pátria está sedenta de sangue! Matemos-
lhe a sede com o sangue dos nossos inimigos!
A sua vingança, os sikhs preparavam-na de facto havia meses, organizando
a lista de milhares de antigos combatentes vivendo no Panjab, enchendo de
armas os seus gurus-dwara, os templos onde a polícia britânica não tinha
acesso.

183
Quando as primeiras vagas de refugiados sikhs e hindus, expulsos pelos
muçulmanos do oeste do Panjab, chegaram à sua região, os sikhs de
Amritsar resolveram vingar-se nos muçulmanos que viviam a seu lado.
Alguns homens armados com espingardas abriram fogo à entrada do bairro
muçulmano de uma aldeia, o que precipitou os habitantes aterrados numa
fuga louca para o outro extremo. Ali, dispersos pelos campos de cana-de-
açúcar, esperavam centenas de outros sikhs armados de forquilhas, sabres
e matracas, e começou o massacre. Uma forma especial de selvageria
caracterizou dentro de pouco tempo as matanças perpetradas pelos sikhs.
Os sexos circuncisados dos muçulmanos tornaram-se troféus. Os assassinos
cortavam-nos metendo-os depois na boca das suas vítimas ou nas das
mulheres muçulmanas assassinadas.
Como em Lahore, os tumultos nos campos depressa atingiram Amritsar, e
perpetuaram o ciclo atroz da violência. Em ambas as cidades, os bandidos
de delito comum puseram-se à frente da carnificina.
Certa noite de Julho, um ciclista passou a toda a velocidade numa ruela
de Lahore em frente do café cheio de gente onde Awar Ali, chefe da
quadrilha mais célebre da cidade, reunia a sua corte. O homem fez rolar
no terraço uma daquelas bilhas de cobre usadas no Panjab para transportar
o leite. Saltando sobre as mesas, o recipiente causou pânico na
assistência que fugiu para todos os lados. Como não se deu nenhuma
explosão, um criado aproximou-se da bilha com precaução. Até mesmo o
cruel Anwar Ali fez um esgar de horror ao ver lá dentro a mensagem que
lhe era destinada, uma prenda oferecida ao gangster de Lahore pelos seus
colegas sikhs de Amritsar. Dúzias de sexos circuncisados enchiam aquela
urna macabra.
De todos os problemas que preocupavam Luís Mountbatten, o mais aborrecido
resultava da escolha precipitada de 15 de Agosto para a independência das
Índias. Um conselho de astrólogos acabou por dar a conhecer aos
dirigentes indianos que se a sexta-feira 15 de Agosto de 1947 era um dia
extremamente funesto para inaugurar a história moderna do seu país, o dia
anterior apresentava em contrapartida uma conjunção astral infinitamente
mais favorável. Aliviado, o vice-rei apressou-se a aceitar a proposta que
lhe fez Nehru: a Índia e o Paquistão tornar-se-iam independentes no dia
14 de Agosto de 1947 à meia-noite (Nota 1).

Nota 1 - Durante uma reunião com os seus colaboradores, pouco depois da


conferência de imprensa em que anunciara a data de 15 de Agosto,
Mountbatten lamentara-se «da ausência no seu gabinete de conselheiros
peritos em astrologia». Exigindo que essa lacuna fosse «imediatamente
preenchida», confiou o cargo de astrólogo oficial do vice-rei ao seu
jovem adido de imprensa Alan Campbell-Johnson.

184
Durante trinta anos, a bandeira tricolor de algodão de khadi que ia em
breve substituir a Union Jack no céu da Índia flutuara nas reuniões,
manifestações e desfiles de um povo ávido de liberdade. Fora o próprio
Gandhi quem desenhara este emblema. No centro de três faixas horizontais
cor de açafrão, branca e verde, colocara o seu símbolo pessoal, o humilde
objecto que propunha às populações indianas para servir de instrumento à
sua redenção pacífica, a dobadoira.
Agora, na véspera da independência, nas próprias fileiras do seu partido
havia vozes que contestavam ao «brinquedo de Gandhi» o direito de ocupar
o lugar de honra na bandeira nacional. Para um número crescente de
militantes, esta dobadoira era uma imagem do passado, «um utensílio de
velha», a insígnia de uma Índia arcaica voltada para si própria.
Substituíram-na por outra roda, o símbolo da doutrina de Buda que o
imperador Açoka, fundador do primeiro império hindu, adoptara em sinal de
paz universal: o dharma chakra, a «roda da ordem cósmica», ladeada por um
casal de leões simbolizando a força e a coragem. Este novo atributo de
força e autoridade tornou-se o emblema da nova Índia.
Gandhi soube desta decisão com profunda tristeza. «Quaisquer que sejam as
qualidades artísticas desse desenho, escreveu ele, recuso-me a saudar a
bandeira que exiba semelhante mensagem.»

Sétima escala da vida dolorosa de Gandhi


«Deus da Gitâ, poupa a minha Índia bem-amada»

Esta decisão era todavia o prelúdio de todos os desgostos que iam abalar
o coração do libertador da Índia. Não só a sua pátria bem-amada ia ser
dividida, como a Índia retalhada que estava prestes a surgir teria apenas
uma vaga semelhança com aquela por que lutara toda a vida.
O sonho de Gandhi fora sempre criar uma Índia nova capaz de dar à Ásia e
à terra inteira o exemplo vivo dos seus ideais morais e sociais. Se, para
os detractores, estes ideais eram somente manias de um velho demagogo,
representavam para os seus partidários uma tábua de salvação lançada ao
género humano por um velho sábio que permanecia lúcido num mundo que
enlouquecera.
Gandhi opunha-se ferozmente a todos os que pretendiam que o futuro da
Índia dependia da sua capacidade de imitar a sociedade industrial e
tecnocrática do Ocidente que a colonizara. Combatia quase todos os
sistemas enraizados nesta ideia. A salvação da Índia, afirmava, reside
pelo contrário «na sua capacidade de desaprender o que descobriu nos
últimos cinquenta anos». A ciência não deve comandar os valores humanos,
assim como a técnica não deve reger a sociedade; a civilização não é
multiplicação indefinida das necessidades do homem mas antes a sua
limitação deliberada a fim de permitir a todos dividir o essencial.

185
A civilização ocidental concentrara o poder nas mãos de uma minoria à
custa dos interesses do maior número. Existia aí um benefício contestável
para os pobres do Ocidente, e uma real ameaça para as populações do mundo
subdesenvolvido.
Gandhi queria construir a sua Índia nova sobre as quinhentas mil aldeias,
facetas inumeráveis desse país que ele conhecia e amava, uma Índia
liberta da tecnologia, uma Índia voltada para Deus, medindo a passagem
das estações pelo ciclo das suas festas religiosas, os lustros pela
recordação das secas, os séculos pelo espectro das suas fomes terríveis.
Queria que cada aldeia se tornasse uma entidade autónoma capaz de
produzir a sua alimentação e vestuário, capaz de instruir os jovens e
curar os doentes. Proclamando que «muitas guerras podiam ter sido
evitadas na Ásia graças a uma tijela de arroz suplementar», procurara
constantemente novos géneros aptos a alimentar os camponeses indianos
famintos, experimentando ora a soja, os amendoins ou as nozes de manga
piladas. Insurgiu-se contra o polimento mecânico do arroz que o privava
de todos os elementos nutritivos da casca.
Finalmente, reclamava o encerramento das fábricas têxteis e sua
substituição pela dobadoira individual a fim de dar trabalho aos
desempregados das aldeias e criar actividades susceptíveis de prenderias
populações nos campos. O seu manifesto económico recordava que «os velhos
utensílios tradicionais, a charrua e a dobadoira, forjaram a nossa
sabedoria e a' nossa felicidade. No dia em que o homem inventar um
engenho capaz de fornecer leite, ghi e excremento, então será altura de
substituir as nossas vacas por esse aparelho. Entretanto devemos voltar à
nossa simplicidade ancestral».
O seu pesadelo era uma sociedade industrial dominada pela máquina, uma
sociedade que sugaria as populações rurais para as fechar em ignóbeis
tugúrios urbanos, roubando-lhes o seu ambiente natural, destruindo os
laços familiares e religiosos, e tudo isto com o fim de produzir coisas
de que os homens não precisam. Não apregoava a pobreza, como alguns por
vezes o acusavam: sabia que ela acarreta fatalmente a degradação moral e
a violência que ele odiava. Mas a superabundância dos bens materiais
conduzia, na sua opinião, aos mesmos resultados. Frigoríficos bem
fornecidos, armários cheios em cada quarto não impediam um povo de sofrer
insegurança psicológica e corrupção espiritual.
Gandhi desejava que o homem encontrasse um equilíbrio razoável entre uma
miséria aviltante e os excessos de um consumo desregrado. Para atingir
este objectivo, era preciso regenerar a célula. A desigualdade económica
e social provoca sempre conflitos, e ele sonhava também com uma sociedade
sem classes. Todas as profissões - manuais ou intelectuais - lhe dariam o
mesmo contributo. Todos os cidadãos, quem quer que fossem, deviam
realizar todos os dias um trabalho manual: a Índia das aldeias ganharia
assim os seus meios de subsistência, a das cidades a sua redenção diária.

186
Mas sobretudo, era o exemplo dos chefes que contava mais aos olhos do
Mahatma. Não gracejava quando dissera a Mountbatten para abandonar o seu
palácio e ir viver numa simples vivenda. Não havia ele pregado sempre que
a melhor maneira de abolir os privilégios era abandoná-los de livre
vontade?
De todos os grandes profetas socialistas do seu tempo, Gandhi era aquele
que mais radicalmente adaptara o seu modo de vida aos seus princípios.
Não fora ao ponto de reduzir a sua alimentação ao estritamente necessário
a fim de não desperdiçar um grama dos recursos da pátria esfomeada?1
A defesa de semelhantes teorias fora contudo ilustrada por
desconcertantes contradições. Embora não precisasse da rádio para fazer
ouvir a sua mensagem às massas do seu país, servia-se regularmente de um
microfone para denunciar os malefícios da técnica durante as orações
públicas. As cinquenta mil rupias anuais que davam vida ao seu ashram
tinham sido oferecidas por um magnate da indústria indiana, G. D. Birla,
cujas fábricas têxteis encarnavam maravilhosamente a sociedade de
pesadelo que apavorava o Mahatma.
Continuando a defender os seus conceitos económicos com a mesma
veemência, Gandhi embaraçava cada vez mais os companheiros. Quer fossem
socialistas fervorosos como Nehru, ou capitalistas ardentes como
Vallabhbhai Patel, acreditavam no progresso, nas máquinas, na indústria,
tecnologia, em qualquer aparelho levado à Índia pelo Ocidente e que
Gandhi votava ao pelourinho. Estavam impacientes por construírem fábricas
gigantes, por organizarem o futuro em planos quinquenais. Até mesmo
Nehru, o discípulo bem-amado, escrevera que seguir as ideias de Gandhi
levaria ao recuo ao passado, à condenação da Índia à autarquia mais
esmagadora que se pudesse conceber, a das aldeias.
Para grande desgosto daquele, o velho Mahatma sentiu-se na obrigação de
recordar publicamente, na véspera da independência, os princípios
fundamentais que deviam inspirar a vida dos dirigentes da Índia nova.
Cada ministro, declarou Gandhi, devia vestir exclusivamente o khadi e
viver numa casa sem criados. Não devia ter automóvel, devia estar liberto
de todos os preconceitos de casta, dedicar pelo menos uma hora por dia a
uma tarefa manual, como fiar ou cultivar legumes, a fim de aliviar a
penúria nacional. Devia excluir o uso «de mobiliário estrangeiro, sofás,
mesas e cadeiras», e deslocar-se sem guarda-costas. Acima de tudo, «os
chefes da Índia independente não deviam hesitar em dar o exemplo limpando
eles mesmos as suas retretes».
1 Gandhi não se dava bem com os marxistas. A maior parte deles achavam as
suas teorias destituídas de qualquer valor científico. Por seu turno, ele
odiava o comunismo ateu, gerador de violência. A maioria dos socialistas
eram, na sua opinião, «socialistas de sala», incapazes de mudar o seu
estilo de vida e de sacrificar a menor das suas comodidades, esperando da
mesma forma ganhar o Nirvana.

187
Por mais ingénuas e contudo cheias de sabedoria que fossem estas
palavras, revelavam de forma angustiante o dilema inerente a todos os
ideais de Gandhi: constituíam um guia perfeito para actores imperfeitos.
Mas de todas as suas inquietações acerca do futuro da sua pátria, a que
mais fortemente preocupava Gandhi, naquele mês de Julho de 1947 era a
violência racial e religiosa que se desencadeava no país. Exigiu ir ao
Panjab com Nehru para visitar os primeiros refugiados sikhs e hindus.
Foi um encontro trágico. Trinta e duas mil pessoas, sobreviventes de uma
centena de aldeias como a de Kahuta, cujo massacre impressionara tanto
Mountbatten, tinham sido postos a duzentos quilómetros da capital, no
meio do calor e da imundície do primeiro campo de refugiados indianos.
Urrando de ira, gritando a sua desgraça, a multidão cercou o carro de
Gandhi numa onda de miséria, gesticulando, chorando, os rostos
transtornados pelo ódio e pelo sofrimento, os olhos cheios de desespero.
Nuvens de moscas cobriam as feridas ainda ensanguentadas destes
infelizes. Prisioneiros daqueles corpos miseráveis e dos turbilhões de
poeira levantados pelos pés da multidão, sufocando com o calor tórrido e
o cheiro da podridão, os dois líderes ficaram quase asfixiados. Gandhi
passou todo o dia a tentar dar um pouco de ordem àquele acampamento
improvisado. Mostrou aos refugiados como abrir fossas, onde colocá-las,
ensinou-lhes regras de higiene, levantou um dispensário, reconfortou
doentes e feridos.
Ao fim da tarde, Gandhi e Nehru retomaram o caminho de Nova Deli.
Esgotado de fadiga, compungido com aquela exposição de miséria, o Mahatma
estendeu-se no banco da parte de trás do carro, pôs os pés sobre os
joelhos do discípulo que se afastara dele havia dois meses, e adormeceu.
Com o olhar fixo, o rosto normalmente tão vivo afivelado numa dor oculta,
Nehru ficou durante muito tempo a meditar nas terríveis consequências do
espectáculo que acabava de ver. Depois, suavemente, com ternura, como
para expiar o desgosto que lhe causara afastando-se dele, começou a
massajar os pés do velho adormecido ao serviço do qual dedicara tanto
tempo da sua vida.
Gandhi acordou à hora do crepúsculo. A ambos os lados do carro,
estendiam-se a perder de vista os campos de trigo ou de cana-de-açúcar, e
os arrozais. Levantava-se uma leve bruma, como um véu diáfano sobre a
imensa planície, filtrando o último brilho rosado do sol poente. Era uma
hora abençoada, tão antiga e eterna como a própria Índia: das dezenas de
milhar de casas de tijolos seco que se espalhavam pela grande planície do
Panjab, subia o fumo das bolas de excremento que cozinhavam o jantar da
Índia. Por toda a parte, acocorados sobre os calcanhares, as pontas dos
saris desbotados atadas nas costas, os braços nus tilintantes de
braceletes, as mulheres ateavam o lume, assando os chapati e os grãos de
chauna da reduzida ementa dos camponeses indianos. O fumo destes
incontáveis fogos envolvia o crepúsculo com o seu manto, saturando o céu
e a terra do odor acre que era o odor da Índia mãe.
Gandhi mandou parar o carro e sentou-se à beira da estrada para a sua
oração da tarde.

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A sua frágil silhueta curvada parecia fundir-se com as valas da grande
planície mergulhada na sombra. Do fundo do carro, com 0s olhos fechados e
o rosto escondido nas mãos, Nehru escutava a voz rouca e quebrada do
velho de coração despedaçado implorando ao Deus da Gítâ que livrasse a
sua querida Índia do trágico destino que ele previa.
<Página em branco>
Capítulo décimo

«É SÓ ATÉ A VISTA, IRMÃOS»

O martelar solene, em Londres, do bastão negro do Mensageiro do Rei


anunciara todas as grandes horas do Império britânico. Caminhando atrás
dele, trinta deputados do Parlamento tinham vezes sem conto, através dos
séculos, percorrido os corredores do seu velho edifício para solicitar o
«Royal Assent», a confirmação real autorizando a promulgação dos éditos
que levavam o poder imperial aos quatro cantos do mundo. O antigo ritual
não mudara, mas as pancadas que ritmavam, naquele dia 18 de Julho de
1947, o avanço do cortejo dirigido pelo primeiro-ministro Clement Attlee,
soavam desta vez como um dobre de finados. Marcavam o fim da prestigiosa
epopeia do homem branco no mundo, o desmantelamento do Império britânico.
O documento que confirmava a partida da Inglaterra e dava a independência
a um quinto da humanidade era um modelo de concisão e simplicidade: três
séculos e meio de colonização resumidos em dezasseis páginas
dactilografadas. Nunca medida tão importante fora elaborada e adoptada
com tanta rapidez pelo parlamento britânico. Menos de seis semanas tinham
bastado às duas câmaras para preparar, discutir e votar os textos
necessários. A dignidade e moderação dos debates tinham «correspondido à
grandeza do assunto», notou o Times de Londres. Tinham marcado também uma
viragem decisiva na história da Inglaterra e do mundo.
Outrora, na época do esplendor do Império, os deputados de Westminster
haviam imposto as suas vontades com a simples ameaça do envio de uma
canhoneira ou de um destacamento de soldados de farda vermelha. A Grã-
Bretanha fora a última potência europeia a empenhar-se na grande aventura
imperial. Mas a própria natureza deste povo insular tinha-o preparado
para o seu papel planetário. Os ingleses haviam percorrido mais oceanos,
desbravado mais territórios, travado mais batalhas, arriscado mais vidas,
governado mais seres humanos - e com mais justiça -do que nenhuma outra
nação imperialista. De facto, tinham encarnado durante várias gerações a
supremacia do homem branco cristão sobre os outros povos do globo.
Os debates parlamentares sobre a independência das Índias punham termo a
esse destino. A inevitável liquidação do Império estava preparada; iria
provocar uma vasta e profunda transformação do reino insular que fora o
seu senhor. Houvera no passado ocasiões «durante as quais um Estado se
vira obrigado a ceder à ponta da espada o seu poder, declarara Attlee no
Parlamento, mas era muito raro que um povo que dominara outro durante
tanto tempo, renunciasse ao seu domínio de sua livre vontade».

191
Até mesmo Winston Churchill, dando o seu melancólico consentimento a «uma
boa leizinha», prestava uma homenagem inesperada à sabedoria de que o
rival Attlee dera provas escolhendo Mountbatten para último vice-rei.
Nenhuma declaração devia contudo resumir melhor o humor dos legisladores
britânicos que a observação do visconde Samuel: «Pode dizer-se
verdadeiramente do Império britânico o que Shakespeare dizia de Macbeth,
barão de Cawdor: «Nada na sua vida foi maior do que a sua morte».
Clement Attlee e os deputados das Comunas tomaram lugar nos bancos da
Câmara dos lords para assistirem à cerimónia final que ia dar força de
lei ao texto fixando a data da independência das Índias no dia 14 de
Agosto de 1947 à meia-noite.
Símbolos do poder real, dois tronos dourados postos sobre um estrado
sobrepujado de uma tapeçaria com as armas do soberano, dominavam uma das
extremidades da sala. Entre os tronos e as barras dos deputados erguia-se
a cadeira do lord Grande Chanceler de Inglaterra. Diante desta
encontrava-se uma comprida mesa de carvalho escuro coberta de documentos,
os projectos das diferentes leis que deviam receber nesse dia o «Royal
Assent» de Jorge VI.
O Notável escriba da Coroa, representante do rei, tomou lugar a um dos
lados da mesa. O do Parlamento sentou-se em frente dele, pegou no
documento que tinha ao alcance da mão, e leu com voz solene o título do
primeiro projecto de lei proposto nesse dia ao assentimento real.
- Projecto de lei sobre a nacionalização da Companhia metropolitana do
gaz, anunciou ele.
- El-Rei o quer, respondeu o escriba da Coroa na velha língua normanda
que notificara durante séculos o acordo dos soberanos de Inglaterra à
promulgação de um édito parlamentar.
O escriba do Parlamento pegou então no documento seguinte.
- Projecto de lei sobre as obras no pontão de Felixstowe, declamou ele.
- El-Rei o quer, continuou o escriba da Coroa.
O escriba do Parlamento estendeu novamente o braço para o monte de
papéis.
- Projecto de lei sobre a independência das Índias.
- El-Rei o quer.
A estas palavras, Attlee corou levemente e baixou os olhos. O facto
estava consumado. Juntamente com as obras de um pontão e um caso de gaz
municipal, quatro palavras de francês arcaico tinham bastado para lançar
no passado o grande Império britânico das Índias.

192
O último conclave da confraria mais fechada do mundo estava reunido em
Nova Deli. Transpirando nas suas túnicas de brocado ou nas fardas
consteladas de condecorações, setenta e cinco dos marajás e nawabs mais
importantes das Índias, assim como os diwan – Primeiros-ministros - de
outros setenta e quatro, reuniram-se nesse dia quente húmido de Verão
para ouvir da boca do vice-rei o destino que a História lhes reservava.
Cintilante também de decorações sobre o uniforme branco de contra--
almirante, Lord Mountbatten entrou no pequeno hemiciclo da Câmara dos
príncipes. Chanceler da assembleia, o marajá sikh de Patiala, enorme e
barbudo, escoltou-o até à tribuna de onde ele pôde contemplar os rostos
inquietos que pareciam interrogá-lo.
Mountbatten preparava-se para recolher as maçãs destinadas ao cesto de
Vallabhbhai Patel. O seu adversário mais violento, Sir Conrad Corfield,
ia justamente nesse dia a caminho da Inglaterra a fim de gozar ali a
reforma antecipada. Preferira abandonar as Índias a ter de recomendar aos
seus queridos príncipes para adoptarem uma política que não aprovava. O
vice-rei vira-o partir sem desgosto. Persuadido de que o caminho que
escolhera era a melhor solução que podiam esperar os soberanos indianos,
tencionava não fazer caso dos seus protestos e levá-los de boa ou má
vontade, a aceitarem a sua política.
Falando sem apontamentos, exortou-os a assinarem a Acta de Adesão que
devia integrar os seus reinos, quer na Índia, quer no Paquistão. Qualquer
recurso às armas apenas faria correr sangue e conduzir ao desastre,
sublinhou. «Olhem para o futuro: imaginem o que a Índia e a terra inteira
serão dentro de dez anos, e tenham a inteligência de proceder nesse
sentido.»
Mas ele sabia que os cursos da História interessavam menos a alguns
membros daquela assembleia do que outras ideias. Na hora em que os
marajás e nawabs estavam prestes a desaparecer, em que o mundo onde
viviam estava já a desmoronar-se, o único argumento a que alguns deles
seriam sensíveis referia-se às condecorações que exibiam no peito. Se
aderissem à Índia, insistiu Mountbatten, tinha fortes razões para crer
que os dirigentes do Congresso não se oporiam a que continuassem a
receber, do seu primo rei de Inglaterra, as honras e títulos que tanto
amavam.
Quando acabou o seu discurso, Mountbatten convidou os auditores a
fazerem-lhe perguntas. Ficou estupefacto com algumas. As preocupações de
certos príncipes eram tão extravagantes naquela hora decisiva do seu
destino, que o vice-rei perguntou a si próprio se aqueles homens e os
seus Primeiros ministros compreendiam verdadeiramente a situação. A
principal preocupação de um deles era saber se podia conservar o direito
exclusivo de caçar o tigre dentro do seu Estado. O diwan de outro
príncipe -que não achara nada de melhor a fazer, naquela ocasião crítica,
senão partir para a Europa e dar a volta aos casinos e boîtes nocturnas -
declarou não saber que decisão tomar na ausência do seu senhor.
Mountbatten reflectiu uns momentos, depois tirou de cima da mesa a grossa
bola de vidro que servia de pisa-papéis.

193
Tomando o ar inspirado de um mago oriental em comunicação com o além, fê-
la girar nas mãos e anunciou:
- Vou consultar a minha bola de cristal e dar-lhes a resposta. Franzindo
o sobrolho, fixou o objecto com um olhar carregado de mistério. Durante
dez longos segundos, um silêncio esmagador perturbado apenas pela
respiração dos príncipes mais corpulentos, dominou a assistência. As
práticas de ocultismo nunca foram tomadas a brincar nas Índias, sobretudo
pelos marajás.
- Ah, murmurou por fim Mountbatten com a expressão dramática de um
espírita que regressa de uma viagem celeste, já vejo o vosso soberano.
Está sentado à mesa de comando do seu navio. E diz-lhes... diz-lhes:
«Assinem a Acta de adesão».

No dia seguinte à noite, um banquete solene reuniu pela última vez um


vice-rei das Índias com os descendentes das gerações de marajás e nawabs
que haviam sido os mais sólidos pilares do Império britânico das Índias.
Profundamente comovido pela tristeza dos circunstantes, Luís Mountbatten
convidou os mais fiéis e antigos aliados do rei-imperador a fazerem uma
saúde de despedida ao seu suserano.
Estais na véspera de fazer frente a uma revolução, declarou-lhes. Em
breve perdereis a vossa soberania. É inevitável. Mas aconselho-vos a não
proceder como os aristocratas da Revolução francesa. Não volteis as
costas à Índia que vai nascer no dia 15 de Agosto: Essa Índia precisa de
vós.
Essa Índia precisaria, com efeito, de administradores competentes,
embaixadores capazes de a representar, advogados, médicos, técnicos,
oficiais susceptíveis de substituir os ingleses no comando dos seus
exércitos. Os príncipes podiam escolher entre um refúgio dourado nos
campos de polo ou nas praias da Riviera, ou porem-se ao serviço da nação
que ia nascer e integrarem-se na sua elite. O vice-rei não tinha qualquer
dúvida sobre a escolha que eles deviam fazer.
- Desposai a Índia nova! suplicou ele.
Repleto de canas de pesca, de camaroeiros e de escarcelas, o break seguia
por entre as pedras e os trilhos do caminho à beira do Trika, uma das
correntes de Cachemira. Com os lábios grossos, os olhos irrequietos, o
queixo que se perdia nas pregas do pescoço, o rosto do condutor exprimira
exactamente o seu carácter. Era um homem fraco, hesitante, a quem as
perversões e o gosto das orgias tinham valido a reputação de Bórgia do
Himalaia. Mas Hari Singh, marajá de Cachemira, o «M. A.» cujas infelizes
aventuras haviam apaixonado os leitores de jornais escandalosos de antes
da guerra, era também uma personagem chave do drama indiano.

194
Era o soberano hindu hereditário de um reino cuja importância estratégica
se tornava capital, vasta encruzilhada com pouca população onde a Índia,
a China, o Tibete e o Paquistão estavam fatalmente destinados a
enfrentar-se um dia.
Nessa manhã, um visitante particularmente distinto ia sentado ao lado de
Haria Singh. Lord Mountbatten conhecia o monarca desde que haviam
galopado juntos no campo de polo de Jammu durante a viagem às Índias do
príncipe de Gales em 1921. Decidira fazer esta visita para forçar Hari
Singh a pronunciar-se acerca do futuro do seu reino.
Não era todavia no cesto do indiano Patel que o vice-rei tencionava fazer
cair a maçã de Cachemira. O bom senso parecia ditar a integração de
Cachemira no Paquistão. Setenta e sete por cento dos seus habitantes eram
muçulmanos. Este fora um dos cinco territórios que o estudante Rahmat Ali
tinha reunido no seu «sonho impossível». O «K» de «Pakistan» vinha da
palavra inglesa Kashimir.
O vice-rei aceitava esta lógica. Dera até ao marajá a garantia de que os
chefes do Congresso não levantariam objecções se ele resolvesse unir o
seu destino ao do Paquistão, devido à sua situação geográfica e à maioria
esmagadora dos seus súbditos muçulmanos. Jinnah prometera-lhe além disso
assegurar ao príncipe hindu o melhor acolhimento e um lugar de honra no
novo Estado.
- Mas eu não quero, sob pretexto nenhum, entregar Cachemira ao Paquistão,
respondeu o marajá.
- Então opte pela Índia, disse o vice-rei. Eu providenciarei pessoalmente
para que lhe seja enviada imediatamente uma divisão de infantaria para o
ajudar a preservar a integridade das suas fronteiras em caso de agressão
paquistanesa.
- Também não quero entregar o meu reino à Índia, respondeu o príncipe.
Quero tornar-me independente.
- Lamento dizer-lhe, mas não é possível, explodiu o vice-rei. O seu país
é um enclave; demasiado vasto e com muito pouca população. Terá por
vizinhos dois países rivais. Será para eles uma tentação permanente, e
acabará por tornar-se no campo de batalha onde se enfrentarão hindus e
muçulmanos.
Eis o que o espera. Perde o trono, e talvez a vida se não tiver cuidado.
O marajá abanou a cabeça e guardou silêncio até à chegada ao local da
pesca.
Mountbatten voltou à carga sem descanso. No terceiro dia, sentiu que a
determinação do seu velho amigo começava a fraquejar. Explorando este
primeiro êxito, sugeriu ao monarca que marcasse um encontro com o seu
primeiro-ministro para elaborar um acordo de princípio e o desejo de
associar o destino do seu reino a um ou outro dos dois novos Estados.
- É uma boa ideia, reconheceu o príncipe. Encontramo-nos amanhã. Mas esta
maçã ficaria solidamente agarrada à árvore.

195
No dia seguinte, um ajudante de campo preveniu o vice-rei de que Sua
Alteza estava com uma cólica intestinal que o impedia de participar na
reunião prevista. Mountbatten teve a certeza de que se tratava de uma
doença diplomática. Nunca mais tornaria a ver Hari Singh. Aquela
«indigestão» marcara o início de uma tragédia que iria envenenar as
relações entre a Índia e o Paquistão.
O vice-rei teve mais sorte com os outros soberanos indianos. Para alguns,
pôr a sua assinatura no fim da Acta de Adesão foi um acto doloroso. Um
rajá do centro da Índia morreu a seguir de crise cardíaca. Com as
lágrimas nos olhos, o marajá de Dholpur declarou a Mountbatten: «Este
texto quebra uma aliança que unia os meus antepassados e os do vosso rei
desde 1765». O marajá de Baroda, cujo antepassado tentara matar o cônsul
britânico com o pó de diamante, deixou-se cair a chorar como uma criança.
O rajá de um minúsculo Estado hesitou durante vários dias, porque
continuava a acreditar na origem divina da sua soberania. Os oito
príncipes do Panjab assinaram juntos durante uma cerimónia organizada na
sala de banquetes do marajá de Patiala, onde Sir Bhupinder «O Magnífico»
oferecera as festas mais sumptuosas das Índias. Dessa vez, recorda uma
testemunha, «o ambiente era tão lúgubre que dir-se-ia uma cremação».
Um punhado de príncipes obstinou-se a resistir a todas as exortações de
Mountbatten. O marajá de Udaipur — o que a lenda dizia descender do Sol —
tentou formar com alguns dos seus iguais, uma federação de reinos
independentes. Aconselhado pelo seu primeiro-ministro, o marajá de
Travancore, um Estado do Sul dotado de um porto e de ricos jazigos de
urânio, afirmou a sua vontade de independência.
As pressões destinadas a reduzir estes últimos rebeldes tornaram-se mais
fortes à medida que se aproximava o dia 15 de Agosto. Vallabhbhai Patel
organizou manifestações nos principados onde existiam cisões no partido
do Congresso. Um marajá de Orissa foi cercado no seu palácio por uma
multidão que se recusou a deixá-lo sair enquanto não assinasse a sua
submissão. O primeiro-ministro de Travancore foi apunhalado.
Transtornado, o soberano enviou imediatamente o seu acordo por telegrama
a Nova Deli.
Nenhuma adesão foi mais movimentada do que a do jovem marajá de Jodhpur,
cujo bisavô introduzira na Europa os calções que têm o seu nome.
Consciente de que a sua reputação de extravagante não era de maneira
nenhuma susceptível de lhe merecer as simpatias do futuro Estado
socialista indiano, o príncipe organizou um encontro secreto com o
soberano de Jaisalmer e Jinnah para saber qual seria o acolhimento do
líder muçulmano no caso de decidirem integrar os seus reinos hindus no
Paquistão.

196
Encantado com a ideia de privar os seus rivais do Congresso indiano de
dois principados importantes, Jinnah estendeu imediatamente uma folha em
branco ao marajá de Jodhpur.
- Não têm mais do que inscrever aqui as suas condições, declarou ele, e
eu assino.
Apanhados de improviso, os dois visitantes pediram tempo para reflectir.
De regresso ao hotel, falaram com V. P. Menon que os esperava. O
colaborador indiano que dirigira um novo plano de partilha para o vice-
rei em Simla tornara-se a eminência parda de Vallabhbhai Patel no
ministério dos Estados principescos. Misteriosamente informado de uma
diligência que ameaçava arrastar outros Estados do Rajasthan para a
órbita do Paquistão, Menon anunciou ao marajá de Jodhpur que Mountbatten
desejava vê-lo urgentemente.
Assim que chegou ao palácio, Menon deixou o príncipe na antecâmara e
precipitou-se nos corredores à procura do vice-rei que ignorava aquela
visita. Acabou por o encontrar na banheira e suplicou-lhe que fosse
convencer o soberano recalcitrante. Mountbatten acabou por convencer o
jovem príncipe de que ele cometia uma loucura lançando o seu reino hindu
nas mãos de Jinnah. Se renunciasse a esse projecto, prometia-lhe
conseguir a indulgência de Patel quanto às suas excentricidades passadas.
Mal o vice-rei se dirigiu aos seus aposentos, o príncipe apontou uma
pistola ao pobre Menon aterrado, e gritou: «Não me sujeito às suas
ameaças!» Alarmado com os gritos, Mountbatten voltou para trás, desarmou
o impetuoso soberano e confiscou a pistola.
Três dias mais tarde, o marajá assinou a Acta de Adesão. Depois, ansioso
por esquecer aqueles momentos desagradáveis, resolveu enterrar o seu
passado oferecendo uma festa de que Menon foi o convidado de honra.
Durante todo o dia, encharcou o sóbrio funcionário vegetariano com whisky
e champanhe, após o que mandou servir um banquete sumptuoso com assados,
caça, orquestra e bailarinas. Foi uma noite de pesadelo para o pobre
Menon. Mas o pior ainda estava para vir.
Atirando o turbante ao chão, numa crise de embriaguez, o marajá despediu
músicos e bailarinas, e anunciou que ia levar Menon a Nova Deli no seu
avião particular. Descolou como um foguete e sujeitou o seu passageiro,
já bastante indisposto pelo álcool e pelas iguarias, às mais terríveis
acrobacias, antes de o levar a bom porto. Verde, a vomitar, Menon
cambaleava ao sair do avião, mas nos dedos trémulos segurava o documento
que fazia cair mais uma nação no cesto de Patel.
Apesar das tropelias de um último grupo de irredutíveis, o vice-rei ia
poder honrar, antes de 15 de Agosto, o seu contrato com Vallabhbhai
Patel. O cesto que ia oferecer-lhe em honra de independência da Índia
transbordava de maçãs. Além de cinco príncipes, cujos territórios deviam
ficar no interior do Paquistão após a Partilha, e que se tinham portanto
aliado a Jinnah, Mountbatten conseguira a adesão de quase todos os outros
à nova Índia. Havia apenas três excepções, mas essas eram de vulto.

197
Levado por uma cabala de fanáticos muçulmanos loucos com a ideia de
perderem os seus privilégios numa Índia hindu, o soberano do Estado mais
vasto e mais povoado da península rejeitara todas as exortações de
Mountbatten. Recusando submeter-se à hegemonia da Índia nova, o nizam de
Hyderabad tentou desesperadamente fazer com que a Grã-Bretanha lhe
reconhecesse a qualidade de domínio independente. No seu palácio cheio de
jóias, de pedras preciosas e de maços de notas de banco embrulhados em
jornais velhos, o monarca não parava de gemer que era «abandonado pelo
seu aliado mais antigo», e de lamentar a quebra dos «laços de eterna
dedicação» que o ligavam ao rei-imperador.
A Cachemira recusava-se também à sujeição. Quanto ao terceiro príncipe,
as razões que o haviam levado a permanecer inflexível eram de ordem bem
diferente. Convencido por um agente de Jinnah que a primeira atitude da
Índia independente seria envenenar os seus cães de estimação, o nawab de
Junagadh decidira proclamar que aliava ao Paquistão o seu pequeno reino,
situado contudo em pleno território indiano.
— Meus senhores, apresento-lhes o inspector Savage dos Serviços de
investigação criminal do Panjab, anunciou Mountbatten aos dois dirigentes
muçulmanos que chamara ao seu gabinete naquela manhã de 5 de Agosto.
Creio que o que ele tem a dizer lhes interessa.
Jinnah e o seu braço direito Liaquat Ali Khan ficaram tanto mais atentos
porquanto a organização a que pertencia o polícia britânico tinha fama de
ser o melhor serviço de informações existente nas Índias.
Savage tossiu nervosamente e começou a falar. A informação que se
preparava para revelar fora obtida à custa de uma série de
interrogatórios feitos a criminosos presos no Panjab. Era considerada tão
confidencial que lhe haviam pedido para a aprender de cor antes da sua
partida de Lahore.
Um grupo de extremistas sikhs, revelou Savage, acabava de se associar com
a organização mais nacionalista das Índias, os fanáticos hindus do
Rasbtriya Swayam Sewak Sangh, o famoso R. S. S. S. À sua frente,
encontrava-se Tara Singh, o professor de asilo que no mês de Junho,
convidara os seus partidários a mergulharem o país num mar de sangue. Os
dois grupos tinham combinado reunir as suas energias e os seus recursos
para realizarem duas acções terroristas.
Aproveitando-se do seu treino militar e da experiência de explosivos, os
sikhs deviam fazer explodir os comboios especiais que transportariam da
Índia para o Paquistão o pessoal e a parte da herança material destinados
ao novo Estado. Tara Singh já instalara um posto de transmissões e um
operador para assinalar a partida e o itinerário desses comboios de
grupos armados encarregados de os atacarem e destruírem.
A responsabilidade da segunda operação fora confiada ao R. S. S. S.,
cujos membros hindus, ao contrário dos sikhs, podiam facilmente fazer-se
passar por muçulmanos.

198
A organização propunha-se infiltrar na cidade de Carachi os seus
militantes mais ferozes. Ignorava-se o número destes, mas cada um
recebera uma granada Mills britânica. Estes homens não se conheciam uns
aos outros, por isso prisões isoladas não podiam comprometer o conjunto
da operação.
No dia 14 de Agosto, estes assassinos deviam colocar-se ao longo do
itinerário do cortejo que levaria Mohammed Ali Jinnah desde a Assembleia
nacional até à sua residência oficial através das ruas de Carachi em
festa. Da mesma forma que um jovem sérvio fanático mergulhara a Europa
nos horrores da Primeira Guerra Mundial, bastava só um destes terroristas
para assassinar o Paquistão na pessoa do seu fundador, então no auge da
glória, atirando uma granada para dentro do seu carro descoberto. O R. S.
S. S. esperava que a fúria provocada por este assassínio inflamasse todo
o subcontinente indiano, desencadeando uma guerra civil selvagem de que
os hindus, mais numerosos, sairiam fatalmente vencedores.
Ao ouvir estas palavras, Jinnah ficou branco como a cal. Liaquat Ali Khan
pediu a Mountbatten que mandasse prender imediatamente todos os
dirigentes sikhs. O vice-rei hesitava. Também essa atitude ameaçava
desencadear a guerra civil que o R. S. S. S. desejava.
- Voltando-se para o inspector da polícia, perguntou:
- Suponhamos que ordeno ao governador do Panjab que execute essas
prisões?
Perante esta perspectiva, Sacage pensou prosaicamente: «Estava eu bem
servido!» Ele sabia que os chefes sikhs viviam em segurança no seu Templo
de Ouro de Amritsar, com as caves recheadas de armas. Nenhum polícia sikh
ou hindu se atreveria a ir desalojá-los, e a intervenção dos polícias
muçulmanos era inconcebível.
- Lamento ser obrigado a dizê-lo, mas já não restam suficientes elementos
leais na polícia do Panjab para realizar uma acção desse género,
respondeu. Custa-me insistir, mas não vejo forma nenhuma de obedecer a
essa ordem.
Após madura reflexão, Mountbatten anunciou que ia pedir a opinião de Sir
Evan Jenkins, governador do Panjab, e dos dois responsáveis encarregados
de governar, após a independência, as partes indiana e paquistanesa da
província.
A esta opinião, Liaquat Ali Khan deu um pulo na cadeira.
- Quer então fazer com que matem o Senhor Jinnah! indignou-se ele.
- Se vê as coisas por esse prisma, respondeu secamente o vice-rei, saiba
que eu vou entrar nesse mesmo carro e que, se ele tiver de morrer, eu
morrerei também. Mas ainda que isso aconteça, não tenciono mandar para a
cadeia os chefes de seis milhões de sikhs sem o acordo destes três
governadores.
O inspector Savage voltou nessa mesma noite a Lahore, portador de uma
carta para o governador Jenkins, que teve o cuidado de esconder nas
cuecas.

199
Quando tomou conhecimento da mensagem, o homem que conhecia melhor que
ninguém o Panjab, encolheu os ombros em sinal de impotência.
— Infelizmente não podemos fazer nada para os impedir de agir, suspirou
com tristeza Sir Evan Jenkins.
Cinco dias mais tarde, durante a noite de 11 para 12 de Agosto, os
comandos sikhs de Tara Singh executaram a primeira parte do plano
organizado pelo R. S. S. S. Duas cargas de plástico postas na via-férrea
fizeram explodir o comboio especial do Paquistão, a nove quilómetros da
estação de Giddarbaha no distrito de Ferozepore, no Panjab.
O jurista britânico que até aí nunca pusera os pés nas Índias, começara o
seu trabalho de vivissecção. Fechado na vivenda de persianas verdes que o
vice-rei pusera à sua disposição no recinto do seu palácio, sufocando no
calor de Nova Deli, Sir Cyril Radcliffe traçava sobre um mapa do estado-
maior do Royal Engineers as fronteiras que iam separar os oitenta e oito
milhões de indianos.
O prazo que lhe haviam imposto todas as partes condenavam-no a cumprir
esta tarefa na solidão daquela casa. Desligado de todo o contacto com as
grandes entidades vivas que dissecava, não podia prever as consequências
da obra do seu bisturi sobre aquelas terras pujantes de vida senão
baseando-se em dados abstractos, mapas, estatísticas ou relatórios.
Todos os dias retalhava uma rede de irrigação instalada nas terras do
Panjab como se fossem veias na pele de um homem, sem poder avaliar in
loco as repercussões do seu traçado. Sabia que no Panjab a água
representava a vida, e que quem controlasse a água, controlava a vida.
Contudo, era incapaz de seguir o caminho do seu lápis sobre a rede das
canalizações, dos diques, dos reservatórios. Mutilava arrozais e campos
de trigo sem nunca os ter visto. Não tinha podido visitar uma só das
centenas de aldeias através das quais ia passar a sua fronteira, nem
fazer uma ideia dos dramas a que ela ia sujeitar os pobres camponeses
subitamente privados dos seus campos, dos poços, dos caminhos. Nunca
teria a possibilidade de ir a esses lugares e atenuar nenhuma das
tragédias humanas que as suas decisões provocavam. Várias comunidades
ficariam separadas das suas culturas, das fábricas e das fontes de
abastecimento, das centrais eléctricas e das linhas de distribuição. E
tudo isso devido à necessidade louca em que se encontrava de dividir
diariamente dezenas de quilómetros de um país cuja economia, agricultura,
e sobretudo população, lhe eram quase desconhecidos.
O próprio material de que dispunha era por vezes precário. Faltavam-lhe
mapas de larga escala, e as informações fornecidas por outros estavam
erradas. Apercebeu-se assim de que os cinco rios do Panjab tinham uma
tendência curiosa para correr por vezes a vários quilómetros do leito que
lhes tinham marcado os serviços hidrográficos oficiais.

200
As estatísticas demográficas que deviam constituir a sua referência de
base eram inexactas e permanentemente falsificadas pelas partes em
presença para apoiarem as suas pretensões antagonistas.
Das duas províncias, foi a de Bengal que lhe deu menos trabalho.
Radcliffe hesitou apenas sobre o destino de Calcutá. A reivindicação da
cidade por Jinnah parecia-lhe justificada: a cidade permitiria o
escoamento natural da juta para as fábricas de transformação e para o
porto de exportação. Mas a forte maioria hindu da sua população
representava aos seus olhos um factor mais importante do que as
considerações económicas. Uma vez estabelecido este princípio, o resto
era relativamente simples. A sua fronteira não era todavia mais «do que
um risco de lápis traçado num mapa» com tudo o que isso acarretava de
arbitrário. No emaranhado de pântanos e planícies meio inundadas do
Bangal, não existia nenhuma barreira geológica que pudesse servir de
demarcação natural.
A divisão do Panjab era uma empresa igualmente melindrosa. As populações
muçulmanas e hindus que habitavam o Lahore em proporções quase iguais,
reivindicavam o direito à cidade com igual paixão. Para os sikhs,
Amritsar e o seu Templo de Ouro só podiam pertencer à Índia; ora a cidade
estava rodeada de zonas povoadas de muçulmanos. Na realidade, toda a
província era um mosaico de comunidades diversíssimas metidas umas nas
outras. Se tentasse delimitar uma fronteira que respeitasse a integridade
destas comunidades, Radcliffe arriscava-se a criar uma miríade de
minúsculos conclaves cujo acesso ia resultar incerto; se se esforçasse,
pelo contrário, por se inspirar nos imperativos da geografia e impor uma
fronteira mais prática, precisava de talhar a fundo.
O jurista inglês lembrar-se-ia sempre do calor tórrido daquelas semanas
de Verão, daquela humidade abrasadora, sufocante, aniquiladora. Três
divisões da sua residência estavam pejadas de mapas, documentos,
relatórios dactilografados sobre centenas de folhas de papel de arroz
impalpáveis. Quando trabalhava, em mangas de camisa, as folhas ficavam--
lhe coladas nos braços húmidos, deixando-lhe na pele estranhos sinais: a
marca de algumas palavras que significavam talvez as esperanças ou
súplicas desesperadas de centenas de milhares de seres humanos. Suspenso
do tecto, um ventilador sacudia o ar pesado. De vez em quando, movidas
por qualquer misteriosa descarga eléctrica, as pás pareciam loucas e
enchiam a vivenda de violentas rajadas de ar quente. As folhas começavam
então a rodopiar pela casa, como uma tempestade simbólica pressagiando o
triste destino que esperava as desventuradas aldeias do Panjab.
Radcliffe compreendeu que uma onda de sangue resultaria do seu plano de
partilha. Sabia que um vento de demência começava a soprar sobre certas
aldeias, as mesmas que estava a dividir. Após séculos de vida pacífica em
comum, hindus e muçulmanos lançavam-se uns contra os outros numa fúria de
massacre.
Aparte estas informações, ele não tinha praticamente nenhum contacto com
o exterior.

201
Quando se aventurava a ir a uma recepção ou um jantar, ficava
imediatamente cercado por uma multidão de pessoas que o assaltavam com as
suas súplicas. O seu único repouso era um curto passeio. Todas as tardes,
andava um bocado ao longo de um talude onde os ingleses tinham em 1857
reunido as suas forças para esmagar as revoltas de Deli.
Pela meia-noite, esgotado de fadiga, saía a dar alguns passos debaixo dos
eucaliptos do seu jardim. O jovem funcionário que lhe servia de
assistente acompanhava-o de vez em quando. Prisioneiro das suas
angústias, Radcliffe passeava a maior parte das vezes no jardim em
silêncio. Outras, os dois homens conversavam. Mas o sentido das
conveniências impedia Radcliffe de comunicar as suas preocupações a quem
quer que fosse, e o seu adjunto era demasiado discreto para fazer a menor
pergunta. Então, esses dois veteranos de Oxford falavam de Oxford na
quente noite indiana.
Lentamente, por meio de pequenos traços, tomando primeiro as decisões
mais fáceis, Radcliffe desenhou a sua fronteira. Uma ideia obcecava-o:
«Executo este trabalho horrível o mais depressa e melhor que posso,
pensava ele, mas tudo isto não serve para nada. Faça o que fizer, quando
acabar, eles vão todos matar-se uns aos outros.»
No Panjab, a tragédia já se desencadeara. As estradas e vias férreas da
província melhor administrada das Índias já não ofereciam segurança.
Hordas de sikhs vagueavam nos campos, atacando os aglomerados e bairros
muçulmanos. A vaga de crimes e pilhagens que se abateu sobre Lahore era
tão violenta, que um inspector da polícia britânica teve «a impressão de
que toda a cidade estava a suicidar-se». A estação central dos correios
era inundada por milhares de postais enviados a hindus e sikhs. Mostravam
cadáveres de homens mutilados, mulheres violadas e massacradas. No verso,
a mensagem anunciava: «Eis a sorte dos nossos irmãos e irmãs quando
caírem em poder dos muçulmanos. Fujam antes que esses selvagens lhes
façam o mesmo!» Esta guerra psicológica era obra da Liga muçulmana, que
procurava semear o pânico entre hindus e sikhs.
Nos bairros residenciais, cujos habitantes tinham sido outrora tão
orgulhosos da sua tolerância, apareceu nas paredes das casas muçulmanas o
crescente verde do islão, na esperança de que este sinal os protegeria
dos ladrões da sua religião. Na porta da sua residência de Lawrence Road,
um homem de negócios, pertencente à pequena comunidade dos parsis, que
era poupado ao frenesi religioso, inscreveu uma mensagem que constituía
uma espécie de epitáfio ao sonho desfeito de Lahore. «Os muçulmanos, os
sikhs e os hindus são todos irmãos, dizia ele. Mas, ó meus irmãos, esta
casa pertence a uma parsi.»
Como as demissões se multiplicavam entre os polícias indígenas, a
responsabilidade de reter esta vaga de violência coube a um pequeno grupo
de inspectores britânicos.

202
«Não havia tempo para sensibilidades, conta Patrick Famer, que em quinze
anos de serviço no Panjab nunca disparara um único tiro. Primeiro
aprendia-se a usar a metralhadora, depois a fazer interrogatórios.»
Outro inspector, Bil Rich, recorda-se das suas patrulhas nocturnas em
jeep através dos bazares desertos da cidade abrasada pelos incêndios,
enquanto vinha dos telhados o apelo lancinante dos vigias muçulmanos,
gritando de viela para viela: «Atenção, atenção, atenção...».
Entregues de corpo e alma à Índia, orgulhosos por servirem na polícia,
convictos contra tudo e contra todos da sua aptidão para manterem a ordem
no Panjab, estes homens sentiam dolorosamente o drama sofrido pela sua
província. Acusavam os cabecilhas, os sikhs e a Liga muçulmana. Mas acima
de tudo, censuravam «o arrogante almirante» instalado no seu palácio de
Nova Deli e «a sua odiosa pressa em pôr termo ao reinado da Grã-Bretanha
nas Índias».
A própria natureza parecia unir-se contra eles. Dia após dia, fixavam o
céu à procura das nuvens anunciadoras da monção que nunca mais chegava.
Só as trombas de água torrenciais poderiam apagar os incêndios, e as
rajadas de ar fresco atenuar o calor abrasador que enlouquecia todos
aqueles homens. A monção fora sempre a arma mais eficaz para esmagar um
motim, mas era uma arma sobre a qual os polícias ingleses nunca haviam
tido o menor controle.
Em Amritsar, a situação era ainda pior. Matava-se nas vielas dos bazares
como se cuspia. Alguns hindus tinham inventado uma táctica
particularmente cruel. Vestidos como muçulmanos, aproximavam-se dos
muçulmanos autênticos e atiravam-lhes para os olhos ácido nítrico ou
sulfúrico. Incendiários lançavam tochas para dentro das casas e das
lojas.
Tropas britânicas foram finalmente chamadas como reforço, e decretado um
recolher obrigatório de quarenta e oito horas. Mas estas medidas não
trouxeram qualquer sossego. Como último recurso, Rule Dean, chefe da
polícia, usou de um estratagema que nenhum manual de manutenção da ordem
mencionava. Certo dia, após uma onda de violência extremamente selvagem,
mandou a banda da polícia para a praça principal. Ali, no coração daquela
cidade prestes a desaparecer no meio do fogo e do sangue, puxando pelos
pulmões para abafar o ruído dos incêndios, os músicos da polícia tocaram
trechos de Gilbert and Sullivan, uma opereta popular cujas melodias eram
a última esperança de levar à razão uma cidade de cabeça perdida.
Para manter a ordem no Panjab após o dia 15 de Agosto, Mountbatten
decidiu criar uma força especial de cinquenta e cinco mil homens. Os seus
membros viriam de unidades do antigo Exército das Índias, como os
Gurkhas, cuja disciplina e origens nepalesas punham ao abrigo das paixões
raciais e religiosas.

203
Chamado «Panjab Boundary Force», este pequeno exército foi colocado sob o
comando do general inglês T. W. «Pete» Rees. Os seus efectivos
representavam o dobro dos que o governador da província julgara
necessários em caso de Partilha. Todavia, quando rebentasse a tempestade,
esta força seria desfeita como um molho de palha.
A verdade era que ninguém, nem Nehru, nem Jinnah, nem o iminente
governador do Panjab, sir Evan Jenkins, nem o próprio Mountbatten previam
então a amplitude da catástrofe que se preparava. Esta cegueira havia de
espantar os historiadores e suscitaria as maiores críticas ao último
vice-rei das Índias.
Homens tolerantes, desprovidos de fanatismo religioso, Nehru e Jinnah
cometeram ambos o grave erro de menosprezar o grau de frenesi a que as
paixões religiosas podiam arrastar as populações indianas. Julgavam que
os seus povos reagiriam com a lógica e tolerância de que eles próprios
davam mostras. Cada um pensava que a Partilha não provocaria confrontos
físicos. Enganavam-se. Entusiasmados pela euforia da independência
próxima, confundiam os seus desejos com a realidade. E tinham levado
Mountbatten a compartilhar da sua convicção.
O único dirigente indiano que previu a tragédia foi Gandhi. Lidava tanto
com as massas, comungando com a sua vida diária e os seus sofrimentos,
que adquirira a faculdade quase mágica de pressentir-lhes as menores
variações de humor. Os íntimos gostavam de o comparar com o profeta de
uma velha lenda hindu sentado junto de uma fogueira, numa noite gelada de
Inverno, e que começa de repente a tremer. «Olha em redor, dizia o
profeta ao discípulo. Algures na escuridão, há um pobre homem a morrer de
frio.» O discípulo procurava na noite e descobria de facto a presença de
um desgraçado. Tal era, afirmavam os seus íntimos, o género de intuição
que o Mahatma tinha da alma indiana.
Uma muçulmana censurou-o certa vez pela sua hostilidade à Partilha.
- Se dois irmãos que vivem sob o mesmo tecto quisessem separar-se e
viverem em casas diferentes, vocês opunham-se? perguntou ela.
- Ah, suspirou Gandhi, se ao menos pudéssemos separar-nos como irmãos.
Infelizmente, não será assim. Vamos matar-nos uns aos outros dentro das
próprias entranhas da mãe que nos traz no ventre.
O verdadeiro pesadelo do vice-rei, naqueles últimos dias em que ainda
encarnava o poder imperial da Inglaterra nas Índias, não era o Panjab.
Era Calcutá. Ele sabia que mandar tropas para Calcutá não serviria de
nada. No labirinto fétido e ruidoso dos seus bairros da lata e dos seus
bazares, nenhuma polícia, por mais numerosa que fosse, conseguiria manter
a ordem. De qualquer forma, a criação de uma força especial para o Panjab
tinha absorvido quase todas as unidades locais consideradas ainda de
confiança.

204
«Se tivessem que desencadear-se tumultos em Calcutá, diria mais tarde
Mountbatten, as torrentes de sangue que fariam correr tornariam, por
comparação, tudo o que pudesse acontecer no Panjab, num verdadeiro mar de
rosas.
Teria de encontrar outra forma de manter a calma na cidade. A que
escolheu era uma tentativa desesperada, mas em Calcutá o mal era tão
grande e os remédios tão limitados, que só um milagre podia salvar a
situação. Para travar o frenesi da cidade mais fanática do mundo, decidiu
apelar para o seu «pobre pardalito», o Mahatma Gandhi.
Expôs-lhe o seu projecto no fim de Julho. Com o seu exército do Panjab,
podia aguentar essa província, explicou, mas se houver motins em Calcutá,
«estamos perdidos. Eu nada poderei fazer. Existe ali de facto uma
brigada; nem sequer a mandarei reforçar. Se Calcutá se tornar num
braseiro, pois bem, Calcutá desaparecerá no incêndio».
- É esse o resultado das suas concessões e das concessões do Congresso a
Jinnah, respondeu Gandhi.
Talvez, reconheceu Mountbatten. Mas nem Gandhi nem ninguém tinha sido
capaz de propor outra alternativa. Havia contudo alguma coisa que Gandhi
podia fazer agora. A sua personalidade e o ideal de não-violência podiam
fazer reinar em Calcutá a paz que as tropas eram incapazes de impor.
Gandhi, esse, seria o único reforço que ele mandaria à sua brigada
aflita.
- Vá a Calcutá. Será ali, sozinho, o meu exército.
O velho não tinha a menor intenção de ir a Calcutá. Já decidira passar o
dia da independência a orar, a fiar na sua dobadoira e a jejuar no meio
da minoria hindu aterrada do distrito de Noakhali, no sul de Bengal, pela
segurança da qual oferecera a vida durante a peregrinação de penitência
do Ano Novo. Contudo, Mountbatten não seria o único a pedir a Gandhi que
fosse garantir a paz nos bairros da lata da efervescente Calcutá.
Outra voz não tardou a levantar-se. E foi a do último homem que se podia
esperar ao lado de Gandhi. O líder muçulmano Sayyid Suhrawardy
simbolizava com efeito a antítese absoluta de todos os valores que o
Mahatma defendia.
Este homem adiposo, de quarenta e sete anos, era havia muito tempo o
chefe dos muçulmanos de Calcutá. Era o protótipo do político corrupto e
venal que Gandhi denunciava. A sua filosofia política era simples: uma
vez eleito, não há razão para um homem abandonar mais as suas funções.
Suhrawardy assegurava assim a sua presença contínua no poder, utilizando
os fundos públicos para manter uma máfia de homens de acção encarregados
de reduzir ao silêncio os adversários políticos a golpes de matraca ou de
punhal.

205
Durante as fomes que assolaram o Bengal em 1943, interceptara e vendera
no mercado negro dezenas de toneladas de auxílios alimentares destinados
aos seus compatriotas. Vestia fatos de seda talhados por medida e calçava
sapatos de crocodilo de duas cores. Os cabelos pretos, tratados todas as
manhãs pelo cabeleireiro particular, reluziam de brilhantina. Enquanto
Gandhi lutava havia quarenta anos para extinguir no seu corpo os últimos
vestígios do apetite sexual, Suhrawardy fazia gala em seduzir todas as
bailarinas de cabaret e todas as prostitutas da alta de Calcutá. Se
Gandhi se permitia às vezes os benefícios de um pouco de bicarbonato de
sódio na água, o copo de Suhrawardy só se enchia geralmente de champanhe.
Enquanto as ementas do Mahatma se limitavam a algumas colheres de sopa de
lentilhas, de soja ou de iogurte, as de Suhrawardy incluíam grossas
postas de carne, toda a espécie de caril e pastelaria exótica, regime que
o envolvera de uma manta de gordura que contrastava com a magreza dos
seus concidadãos.
Mas havia pior: tinha as mãos tintas de sangue. Decretando dia feriado a
famosa jornada de acção directa organizada por Jinnah, retendo a polícia,
encorajando secretamente os seus partidários da Liga muçulmana,
Suhrawardy, então primeiro-ministro do Bengal, era responsável pelos
atrozes massacres que haviam devastado Calcutá em Agosto de 1946.
Era agora o receio das represálias hindus que o levava a pedir auxílio a
Gandhi.
Precipitando-se para o ashram de Sodepur onde o Mahatma fazia escala
antes de partir no dia seguinte para o distrito de Noakhali, pediu-lhe
que não abandonasse Calcutá. Só ele, afirmava, podia salvar ali os
muçulmanos e apaziguar o furacão de ódio e de incêndios que ameaçava a
cidade.
- Afinal, protestava ele, os muçulmanos têm tanto direito à sua protecção
como os hindus. Sempre disse que pertencia tanto a uns como aos outros.
Uma das grandes forças de Gandhi fora saber sempre distinguir a parte boa
do adversário. Percebeu no coração de Suhrawardy uma verdadeira angústia.
Se aceitasse ficar em Calcutá, respondeu Gandhi, só poderia ser com duas
condições. Suhrawardy devia primeiro conseguir dos muçulmanos do distrito
de Noakhali a garantia solene da segurança das populações hindus. Se um
único hindu ali fosse morto, ele, Gandhi, não teria outra coisa a fazer
senão jejuar até à morte. Por esta subtil transferência de
responsabilidades, o Mahatma tornava assim Suhrawardy responsável pela
sua própria vida.
Quando recebeu a garantia reclamada, Gandhi formulou a sua segunda
exigência. Propôs a aliança mais incongruente que se possa imaginar. A
sua presença em Calcutá era subordinada à do líder muçulmano: Suhrawardy
devia instalar-se junto dele, dia e noite, sem armas nem protecção, no
meio do bairro da lata mais sórdido da cidade.

206
Ali, os dois homens arriscariam ambos a vida em penhor da paz de Calcutá.
«Encontro-me aqui bloqueado, escreveu Gandhi depois de Suhrawardy aceitar
a sua proposta, e vou correr agora grandes riscos... O futuro reserva-nos
surpresas. Estejam alerta!»
O calendário de Mountbatten já não tinha mais folhas do que um mal-me-
quer. Aqueles últimos dias do Império britânico das Índias pareciam ao
vice-rei esgotado «os mais cansativos de todos». Cada dia surgiam «novos
problemas a resolver». Os que se referiam à organização das festas
comemorativas da Independência não eram os menores. Os dirigentes do
Congresso insistiram para «que houvesse muito luxo», segundo a antiga e
grandiosa tradição do Império. O rosto severo do socialismo apareceria
mais tarde.
O Congresso ordenou para dia 15 de Agosto o encerramento dos matadouros,
a organização de sessões de cinema gratuitas em todo o país, a
distribuição nas escolas, de bombons e de uma medalha comemorativa. Mas
nada se tornava simples. Em Lahore, um comunicado oficial anunciou que
«os festejos eram suprimidos devido à situação perturbada». Os dirigentes
do movimento extremista dos hindus Mahasabha, adversários ferozes da
Partilha, preveniram os militantes de que era «impossível haver alegria e
participar nas celebrações de 15 de Agosto». Exortaram pelo contrário os
seus filiados a empenharem todas as suas forças na luta pela reunificação
«da pátria mutilada».
Uma questão de protocolo suspendeu temporariamente a preparação das
cerimónias previstas no Paquistão para 14 de Agosto: Jinnha exigia a
presença do vice-rei antes mesmo da hora oficial da Independência. Outros
contratempos esperavam o líder muçulmano. Descobriu-se que um dos seis
cavalos do coche, que lhe fora atribuído no jogo de caras ou coroas, era
manco. Mountbatten teve de lhe oferecer em substituição um Rolls-Royce
descoberto para o seu primeiro desfile solene através das ruas de
Carachi. Jinnah estabeleceu ele mesmo a lista dos festejos que deviam
celebrar o nascimento do Paquistão. Abririam, ordenou, com um almoço
oficial na sua residência, na quinta-feira, 13 de Agosto. Um silêncio
embaraçoso acolheu o seu desejo. Um dos colaboradores foi então obrigado
a lembrar discretamente ao homem que ia tornar-se o chefe da primeira
nação islâmica do mundo que a quinta-feira 13 de Agosto calhava na última
semana do Ramadão, época em que todos os muçulmanos crentes do mundo
devem jejuar do nascer ao pôr-do-sol.
Enquanto o vice-rei e os chefes dos dois novos domínios resolviam esta
quantidade de pormenores, três séculos e meio de colonização britânica
nas Índias terminavam com o tilintar vibrante de milhares de copos e
corri as melancólicas promessas inspiradas pelo gin e pelo whisky dos
cocktails de despedida.

207
De um extremo ao outro das Índias, uma série ininterrupta de recepções,
de chás, de jantares, bailes, marcou a passagem do Império para a
Independência.
Muitos ingleses, em especial aqueles que exerciam as funções comerciais
que haviam trazido em tempos os seus antepassados a este país,
continuariam a viver na Índia. Mas para outros sessenta mil, soldados,
funcionários, inspectores da polícia, engenheiros do caminho-de-ferro,
empregados das telecomunicações ou das águas e florestas, chegara o
momento de regressar à ilha a que tinham sempre chamado «a casa
longínqua». Para alguns, a mudança seria brutal. De um dia para o outro,
trocavam um palácio de governador com as suas legiões de criados por uma
vivenda de campo e uma reforma que a inflação ia rapidamente devorar.
Apesar de haver um dito que afirmava que a vista mais bela das Índias era
a que se disfrutava da popa de um navio da Peninsular and Oriental
afastando-se de Bombaim, milhares de ingleses, prevendo as restrições de
uma Inglaterra socialista, sentiam a nostalgia dos belos anos passados na
Índia. A última imagem do porto de Bombaim seria para eles a mais triste
das visões.
Em centenas de vivendas, encaixotavam-se febrilmente as rendas e as
pratas, as peles de tigre, os retratos dos tios com grandes bigodes,
desaparecidos no 9º regimento de Lanceiros de Bengal ou no 6º de Rajput,
os capacetes de plumas, os móveis pesados e tristes mandados de
Inglaterra quarenta anos antes. Um povo, cujo grande erro nas Índias
fora, segundo Winston Churchill, viver à margem, despedia-se numa
explosão de cordialidade. Como se quisessem, antes da partida, prestar
homenagem à nova ordem que lhes sucedia, os ingleses abriram de par em
par as portas dos seus clubes e das suas casas aos indianos, permitindo
pela primeira vez aos saris, às túnicas sherwani e aos véus de khadi
roçarem a antiga raça imperial. Uma extraordinária atmosfera de simpatia
dominava estas reuniões. Acontecimento único: os colonizadores
abandonavam aqueles que haviam colonizado no meio de uma girândola de boa
vontade e simpatia.
Chandni Chowk, o bazar da Velha Deli, pululava de funcionários ingleses
que iam trocar o seu frigorífico, a grafonola e até o automóvel por
tapetes orientais, presas de elefante, objectos de ouro ou prata, ou
peles empalhadas de tigres e panteras para oferecerem aos que nunca
tinham podido matar nas florestas da península.
Este povo que partia deixava atrás de si uma fúnebre herança: os
monumentos, as estátuas, os cemitérios solitários onde repousavam cerca
de dois milhões de ingleses naqueles «túmulos errantes» de que fala Oscar
Wilde, «junto às muralhas de Deli», ou «nessas terras afegãs e perto das
areias movediças das sete bocas do Ganges».
A terra onde dormiam essas testemunhas do passado nunca mais seria
inglesa, mas a protecção dos seus despojos pertencia para sempre à Grã--
Bretanha.

208
Achando que «era impossível deixarmos os nossos mortos em mãos
estrangeiras», o vice-rei mandou colocar o cuidado destas sepulturas sob
a autoridade directa do governo britânico. Em Inglaterra, o arcebispo de
Cantuária organizou mesmo uma colecta para a sua manutenção (Nota 1).
Ficou decidido transferir para o cemitério da igreja de Cawnpore o
sinistro poço onde os rebeldes indianos da grande revolta de 1857 tinham
atirado os restos mutilados de novecentos e cinquenta homens, mulheres e
crianças. A inscrição que infamava este massacre foi discretamente velada
para não ofender o amor-próprio indiano.
Várias separações foram acompanhadas de cenas tipicamente britânicas.
Recusando-se a condenar os corajosos póneis, cujo galope os fizera ganhar
tantas partidas de polo, a acabarem os seus dias entre os varais de uma
tonga, muitos oficiais preferiram matá-los a tiro. Não podendo encontrar
uma hospitalidade digna para a matilha de caça a cavalo da escola do
estado-maior de Quetta, o coronel George Noel Smith mandou abater os cem
cães que a constituíam. A tarefa de matar «os nossos queridos velhos
companheiros com quem tínhamos feito tão belas partidas de desporto» foi,
recorda o coronel, «uma das mais dolorosas» da sua carreira. O futuro do
Clube canino numa Índia dividida chegou mesmo a ser evocado num conselho
do vice-rei.
Mountbatten deu ordens formais para que todas as recordações oficiais do
Império ficassem no seu lugar. Os impressionantes retratos de Clive, de
Hastings e de Wellesley, assim como as vigorosas estátuas da sua bisavó
Vitória. Todos os troféus, as pratas, bandeiras, uniformes, bibelots,
todos os testemunhos do reinado e das pompas da Inglaterra imperial
deviam ser legadas à Índia e ao Paquistão que fariam deles o uso que
entendessem.
A Grã-Bretanha desejava, declarou Lord Ismay, que «os dois novos Estados
possam recordar com orgulho os nossos três séculos de associação com as
Índias. Talvez eles não queiram essas recordações, mas é a eles que
compete dizê-lo».
As ordens do vice-rei não impediram que alguns tesouros do domínio
britânico desaparecessem. Desesperados por deixarem os seus regimentos,
muitos oficiais levaram para as brumosas guarnições insulares os troféus
desportivos ganhos na poeira do Decão ou do Panjab. Em Bombaim, dois
inspectores das alfândegas foram chamados ao gabinete do seu chefe Victor
Mattews, prestes a regressar a Inglaterra.
- Pode ser que estejamos a liquidar o Império, murmurou ele, mas não
vamos abandonar este tesouro aos indianos.

Nota 1 - Estes esforços não deram resultado. Poucos lugares da Índia


estão hoje em mais patético abandono do que os cemitérios ingleses.
Macacos aos guinchos perseguem os lagartos sobre o túmulo do general John
Nicholson que comandou a última operação contra os motins de Deli. Desde
Madras a Peshawar, as ervas daninhas cobrem hoje as inscrições das campas
dos ingleses caídos nas Índias.

209
E indicava um pesado baú metálico colocado no meio do gabinete e de
que só ele possuía a chave. John Ward Orr, um dos seus dois subordinados,
abriu cerimoniosamente o baú, esperando encontrar alguma fabulosa
escultura hindu ou um Buda coberto de jóias. Com grande espanto,
verificou que só havia lá dentro livros cuidadosamente arrumados. O
«tesouro» constituía uma última homenagem às virtudes do espírito
burocrático. Era a colecção completa das obras pornográficas que as
alfândegas britânicas tinham apreendido havia cinquenta anos, achando-as
demasiado escabrosas para o país cujos templos estavam todavia
ornamentados com as esculturas mais eróticas jamais talhadas pela mão do
homem. John Ward Orr folheou uma das obras, um álbum intitulado Les
Trente Positions de l'Amour. Achou que as poses prosaicas ali
representadas tinham tanto que ver com os requintes do erotismo dos
deuses hindus dos templos de Khajuraho como uma matrona de café-concerto
com a graça de uma primeira bailarina da Ópera.
Mattews estendeu solenemente a chave do baú a William Witcher, o mais
antigo dos seus adjuntos. Podia agora abandonar as Índias descansado,
anunciou: o maior «tesouro» das alfândegas ficaria em mãos inglesas (Nota
1).
Como sempre, estava sozinho. Fechado no seu silêncio, Mohammed Ali Jinnah
dirigia-se para uma pedra tumular do cemitério muçulmano de Bombaim.
Viera ali cumprir um acto que milhões de outros muçulmanos iriam cumprir
também nos próximos dias. Antes de partir para a sua terra prometida do
Paquistão, Jinnah depôs um último ramo de flores na campa que deixava
para sempre atrás de si. Jinnah era um homem extraordinário, mas
provavelmente, nada na sua vida fora mais extraordinário ou em todo o
caso mais insólito, do que o amor profundo e apaixonado que dedicara à
esposa. O seu amor e o casamento tinham desafiado quase todas as regras
da sociedade indiana da sua época. Na verdade, Ruttie Jinnah não devia
ter sido enterrada naquele cemitério islâmico. A esposa do messias
muçulmano das Índias não nascera na religião de Maomé; era uma parsi,
membro da seita que descendia dos zoroastrianos adoradores do fogo da
pérsia antiga e que colocavam os corpos dos seus mortos no alto das
torres cara serem devorados pelos abutres.

Nota 1 - O famoso baú ficou na realidade piedosamente guardado por mãos


inglesas durante cerca de dez anos. Witcher levou-o para casa, e a
esposa, filha de um pastor anglicano, quase desmaiou no dia em que o
marido deixou o baú aberto por distração e ela descobriu a natureza do
conteúdo. Witcher entregou o baú a Orr quando abandonou a Índia. Quando
chegou a vez de Orr, em 1955, já não havia na Índia nenhum sobrevivente
deste nobre corpo de alfandegários britânicos que haviam penado tanto
para evitar às Índias o contágio ignominioso daquele género de
literatura. Depois de escolher duas obras, Le Guide des Caresses e Les
Nuits du Harem, para aperfeiçoar o seu conhecimento do francês, Orr
resignou-se a entregar o baú aos indianos. Depois voltou para Inglaterra.
Alguns dias depois, o pobre funcionário foi avisado de que toda a sua
bagagem estava retida na alfândega «por posse ilegal de literatura
pornográfica». Confessou-se culpado.

210
Fora com a idade de quarenta anos, durante umas férias em Darjeeling e
quando parecia destinado ao celibato, que Jinnah se apaixonara loucamente
por Ruttie, filha de um dos seus amigos. Ela tinha menos vinte e quatro
anos do que ele, e ficou completamente fascinada (Nota 1). Furioso, o pai
da jovem conseguiu uma ordem do tribunal proibindo o seu ex-amigo de
tornar a ver a rapariga, mas no dia em que fez dezoito anos, levando como
bagagem apenas o seu cãozinho de estimação nos braços, a apaixonada
Ruttie fugiu da casa do pai milionário e desposou Jinnah.
O casamento durou dez anos. Muito bela, Ruttie Jinnah tornou-se de uma
sedução lendária na cidade de Bombaim, famosa pelo esplendor das suas
mulheres. Gostava de envolver a sua silhueta esguia com saris diáfanos ou
de se mostrar com vestidos cingidos que escandalizavam a boa sociedade.
Era ao mesmo tempo uma mundana e uma ardente nacionalista indiana.
Mas a diferença de idade e de carácter provocaria crises inevitáveis. A
exuberância da jovem embaraçou muitas vezes o marido e comprometeu a sua
carreira política. Apesar da sua paixão, o austero Jinnah teve cada vez
mais dificuldade em se entender com a inconstante e avassaladora esposa.
O seu sonho desfez-se numa noite do ano de 1928, quando a mulher que
amava, mas que não conseguira compreender, o abandonou. Passado um ano,
em Fevereiro de 1929, ela morreu vítima de uma dose excessiva de morfina,
que usava para acalmar as dores de uma doença incurável de que sofria.
Jinnah, já ferido pela humilhação pública da sua fuga, foi vencido pelo
desgosto. Ao deitar o primeiro punhado de terra na campa onde colocava
agora as suas flores, chorava como uma criança. Foi a última manifestação
pública da emotividade de Mohammed Ali Jinnah. A partir desse dia,
dedicou a vida ao despertar dos muçulmanos indianos.
O monóculo era o único acessório de gentleman britânico que Jinnah
conservava. Renunciara aos seus trajes de cerimónia e aos sapatos de
coiro branco e preto. Mohammed Ali Jinnah seguia de avião para Carachi,
sua capital, vestido como raramente se vestira desde que abandonara
aquele porto cinquenta anos antes para ir estudar Direito em Londres.
Envergava uma túnica comprida e apertada sberwani, abotoada até ao
queixo, e churidar, essas calças justas até ao tornozelo.

Nota 1 - Jinnah já fora casado com uma criança que nunca tinha visto e
que um amigo dos pais escolhera para ele, antes da sua partida para os
estudos em Londres. Segundo o costume, ela fora representada pelos pais
na cerimónia de casamento. Morreu antes do regresso de Jinnah de
Inglaterra.

211
O seu jovem ajudante de campo, o tenente de marinha Sayyid Ahsan — até
então ajudante de campo favorito do vice-rei que o tinha nomeado
pessoalmente, devido às suas qualidades excepcionais, para velar pelo
novo governador-geral do Paquistão —, acompanhou Jinnah até à escada do
DC 3 prateado que Mountbatten lhe emprestara. Antes de entrar para o
avião, o líder muçulmano voltou-se para abarcar com os olhos a capital
onde dirigira a sua luta por um Estado islâmico. «Julgo, disse ele, que é
a última vez que contemplo Nova Deli.»
A sua casa de Aurangzeb Roda, N.° 10 fora vendida. Durante muitos anos,
organizara ali a luta, sentado sobre um mapa gigante das Índias, feito de
prata, onde estavam marcadas as fronteiras do seu «sonho impossível». A
ironia do destino quis que o novo proprietário fosse um rico industrial
hindu chamado Seth Dalmia. Dentro de algumas horas, no sítio onde
flutuara a bandeira verde e branca da Liga muçulmana, seria hasteada «a
bandeira sagrada da vaca», emblema de uma outra liga, a favor da
proibição do abate das vacas, de que a ex-residência de Jinnah passava a
ser o quartel-general.
Cansado de subir os poucos degraus para o avião, Jinnah deixou-se cair no
seu lugar, sem fôlego. Ficou impassível, com o olhar imóvel, enquanto o
piloto britânico ligava os motores e conduzia o aparelho para a pista. No
momento em que o DC 3 descolou do chão, o jovem Sayyid Ahsan ouviu-o
murmurar, como para si próprio: «Pronto, voltou-se mais uma página.»
Passou todo o tempo do voo a saciar a sua paixão pela leitura dos
jornais. Tirava-os um a um da pilha colocada à sua esquerda, lia-os,
dobrava-os cuidadosamente e punha-os na cadeira à sua direita. Nenhum
sinal de emoção lhe aflorava o rosto enquanto lia as reportagens
entusiastas dedicadas ao seu triunfo. Não pronunciou uma palavra em toda
a viagem, não traiu o menor sentimento, não deixou escapar o mais pequeno
indício do que poderia sentir no momento em que o seu sonho se tornava
realidade. Quando o avião chegou à vista de Carachi, o ajudante de campo
Sayyid Ahsan descobriu de súbito, sob as asas do aparelho, «o imenso
deserto no qual avançava um mar de gente vestida de branco». O reflexo do
Sol, acentuava a brancura dos trajes. Fátima, a irmã de Jinnah, agarrou-
lhe na mão, emocionada.
— Jinn, Jinn, olha! gritou ela.
Jinnah voltou a cabeça para a vigia. Mas o seu rosto continuou
imperturbável.
- Sim, murmurou, há muita gente.
O líder muçulmano estava tão cansado da viagem que nem sequer teve forças
para se levantar do lugar à paragem do DC 3. Sayyid Ahsan ofereceu-se
para o ajudar, mas Jinnah recusou. O Quaid-i-Azam não faria a sua entrada
na capital apoiada ao braço de ninguém. Reunindo as últimas forças,
levantou-se para descer a escada e abrir caminho até ao carro através da
multidão compacta.
O mar de gente que avistara do avião estendia-se ao longo do percurso
até ao centro da cidade.

212
Milhares de corações soltavam vivas ininterruptos, Pakistan Zindabad! e
Jinnah Zinadabad!.
Atravessaram contudo um bairro onde a multidão estava silenciosa. t um
bairro hindu, observou Jinnah. Afinal de contas, eles não têm grande
razão para estarem satisfeitos.» Com a mesma impassibilidade que
demonstrara durante todo o trajecto desde Nova Deli, Jinnah passou em
frente da casa de grés amarelo de dois andares onde nascera no dia de
Natal de 1876.
Foi só quando subia lentamente a escadaria do antigo palácio dos
governadores britânicos que a sua máscara impenetrável se alterou. Aquela
extensa construção de um só piso ia ser a sua residência oficial. Parando
no alto da escada para tomar fôlego, voltou-se para o jovem ajudante de
campo. Por um instante, uma espécie de sorriso iluminou-lhe o rosto.
- Sabe, confessou ele, nunca esperei viver o suficiente para ver o
Paquistão.
Em menos de trinta e seis horas ia terminar a epopeia da Grã-Bretanha nas
Índias. Das entranhas da Índia inglesa iam nascer dois países que seriam
respectivamente a segunda e a quinta nações do globo. A aventura
terminava muito mais cedo do que todos tinham esperado, inclusivamente o
próprio vice-rei quando, cinco meses antes, o seu avião descolara das
brumas do aeroporto de Northolt rumo ao Oriente.
Todavia, uma preocupação dominava Mountbatten. Queria que o fim do
Império fosse uma apoteose de glória, uma explosão de simpatia e amizade
que fizessem prever os laços excepcionais que deviam persistir entre a
Inglaterra e as antigas jóias do seu Império.
Ora, esta atmosfera podia degradar-se de um momento para o outro. Bastava
tornar público o resultado do trabalho de Sir Cyril Radcliffe. Consciente
de que as duas partes iam contestar com violência a arbitragem do jurista
inglês, Mountbatten ordenara que as suas conclusões ficassem secretas até
ao dia 16 de Agosto. Ele sabia que esta decisão representava um risco
grave. A Índia e o Paquistão nasceriam sem que os dirigentes de nenhum
dos dois Estados conhecessem os componentes fundamentais dos seus países,
o número dos seus habitantes e os limites do seu território. Milhares de
pessoas nas centenas de aldeias do Panjab e do Bengal estavam condenadas
a passar o dia 15 de Agosto no medo e na incerteza. Como festejar uma
independência que não se sabia se ia ser origem de felicidade ou de
tragédia?
Mas para centenas de milhões de outras, era um dia de euforia. «Deixemos
os indianos saborearem o seu dia da Independência, dizia o vice-rei,
terão todo o tempo para descobrir depois o reverso da medalha.»
«Decidi, telegrafou ele para Londres, fazer com que os dirigentes
indianos não possam saber o traçado das fronteiras antes de 15 de Agosto.

213
Todos os nossos esforços e as nossas esperanças de estabelecer boas
relações entre a Inglaterra, a Índia e o Paquistão no dia da
Independência corriam o risco de aniquilar-se se agíssemos de outra
forma.»
O relatório de Sir Cyril Radcliffe chegou ao palácio do vice-rei na manhã
de 13 de Agosto. Mountbatten mandou fechar os dois sobrescritos
destinados a Jinnah e a Nehru no cofre de coiro verde dos documentos.
Durante as setenta e duas horas seguintes, enquanto as Índias cantavam e
dançavam, as novas fronteiras traçadas pelo jurista inglês ficavam dentro
desse cofre como os maus espíritos fechados na caixa de Pandora esperando
apenas uma volta de chave para lançar o seu cruel conteúdo a um
continente em festa.
Nas casernas, nos abarracamentos, nos fortes, nos postos de província,
soldados hindus, sikhs e muçulmanos do grande exército que a Partilha
mutilava ao mesmo tempo que a península, prestavam uns aos outros a
última homenagem. Em Nova Deli, os homens dos esquadrões sikhs e dogra do
Probyn's Horse, um dos mais antigos e célebres regimentos de cavalaria,
ofereceram um banquete gigantesco aos seus camaradas do esquadrão
muçulmano que os abandonava. Todos saborearam juntos, no terreno da
parada, um festim composto de montanhas de arroz fumegante, de caril de
frango, de kebab de carneiro e dos doces tradicionais feitos de arroz, de
caramelo, canela e amêndoas. Quando tudo estava comido, sikhs, hindus e
muçulmanos deram as mãos para dançarem uma última bhanga, uma farândola
louca, apoteose da noite mais importante da história do regimento.
Os muçulmanos dos regimentos estacionados nas zonas destinadas a
pertencerem ao Paquistão ofereceram festas semelhantes aos camaradas
sikhs e hindus que voltaram para a Índia. Em Rawalpindi, o 2.° regimento
de Cavalaria organizou um enorme barakana, «banquete de bons augúrios»,
para os que se iam embora. Todos os oficiais hindus e sikhs fizeram um
discurso, alguns com as lágrimas nos olhos, para saudarem o coronel
muçulmano Idriss que os comandara em alguns dos combates encarniçados da
Segunda Guerra Mundial.
— Para onde quer que vão, gritou por sua vez Idriss, ficaremos sempre
irmãos, porque vertemos juntos o nosso sangue.
O coronel muçulmano passou adiante a ordem que recebera do quartel-
general do futuro exército paquistanês intimando todas as tropas hindus e
sikhs a entregarem as armas antes da partida. «Estes homens são
soldados», declarou ele. «Chegaram aqui com as suas armas. Partirão com
elas.»
No dia seguinte de manhã, os sikhs e os hindus do 2.° regimento de
Cavalaria ficariam a dever a vida à atitude nobre do seu antigo coronel
muçulmano. Uma hora depois de saírem de Rawalpindi, o comboio caiu numa
emboscada muçulmana.

214
Sem as espingardas, teriam sido todos massacrados.
A festa de despedida mais comovente decorreu no relvado e na sala de
baile de uma instituição que tinha sido um dos santuários dos senhores
britânicos das Índias. Imperial Deli Gymkhana Club. Os convites foram
enviados em cartões gravados, em nome dos «Oficiais das Forças Armadas do
Domínio do Paquistão».
Um ambiente de «tristeza e de irrealidade» dominava o serão, recorda um
oficial indiano. Com os bigodes cuidadosamente aparados, os uniformes à
inglesa e as barras das condecorações ganhas ao serviço da Grã Bretanha,
os homens que se reuniam sob as lanternas pareciam todos saídos da mesma
forma, a dos colonizadores. Acompanhados pelas esposas em saris
multicores, conversavam sobre os canteiros cintilantes de grinaldas, ou
dançavam um último foxtrot na sala de baile iluminada.
Correram ao bar para beberem juntos e contarem uma última vez as boas
velhas histórias de guarnição de pólo, dos desertos da Africa, des selvas
birmanesas, de incursões contra os seus compatriotas da fronteira af-gã,
todas aquelas anedotas que marcam uma carreira de perigos e de aventuras
vividas na camaradagem do sangue vertido.
Nenhum destes homens podia imaginar, durante aquela festa nostálgica, a
sorte que os esperava. Abraçando-se, dando palmadas amigáveis nas costas,
gritavam: «Voltamos em Setembro para a caça ao javali!» ou «Não se
esqueçam do pólo em Lahore!» ou ainda «Lembrem-se de que temos umas
contas a ajustar com uma cabra montês de Cachemira!»
Quando chegou a hora da separação, o general Cariappa, um hindu do 7.°
regimento de Rajput, subiu para um pequeno estrado e pediu silêncio.
-Estamos aqui para dizer até à vista, e apenas até à vista, porque vamos
encontrar-nos em breve no mesmo espírito fraternal que sempre nos uniu -
declarou ele. Compartilhámos tanto tempo o mesmo destino, que a nossa
história é indivisível.
Evocou a sua experiência comum e concluiu.
- Fomos irmãos. Continuaremos para sempre irmãos. E nunca esqueceremos
todos os anos que vivemos juntos.
Quando terminou, o general hindu pegou num pesado troféu de prata coberto
por um pano, e ofereceu-o ao general Aga Raza, o oficial muçulmano de
posto mais elevado, como presente de despedida dos oficiais hindus aos
seus companheiros de armas muçulmanos. Raza destapou o objecto e brandiu-
o no ar para o mostrar à assistência. Trabalhado por um ourives de Nova
Deli, representava dois sipaios, um hindu e outro muçulmano, de pé lado a
lado, com as espingardas apontadas a um inimigo comum.
Depois de Raza agradecer em nome de todos os muçulmanos presentes, a
orquestra atacou a canção de adeus. Espontaneamente, todas as mãos se
estenderam umas para as outras.

215
Em poucos segundos, formou-se uma roda de hindus e muçulmanos misturados,
como uma cadeia fraterna, vibrante de amizade entoando um canto de
esperança do velho hino escocês.
Um longo silêncio seguiu-se à última estrofe. Depois os oficiais indianos
dirigiram-se para a porta da sala de baile, com o copo na mão, e puseram-
se em fila nos degraus que conduziam à saída. Um a um, os oficiais
paquistaneses passaram em frente desta ala de honra e perderam-se na
noite. À passagem de cada um, os indianos levantavam os copos para um
último brinde silencioso.
Tornariam a ver-se com efeito, conforme tinham prometido, mas muito mais
cedo e em circunstâncias bem diferentes do que haviam imaginado. Não
seria nos campos de pólo de Lahore, que se encontrariam os veteranos do
Exército das Índias, mas nos campos de batalha de Cachemira. Ali, as
espingardas dos dois sipaios do troféu de prata já não estariam apontadas
a um inimigo comum, mas voltadas uma contra a outra.

216
Capítulo décimo primeiro
AO BATER DA MEIA-NOITE, QUANDO OS HOMENS DORMIREM!...

Oitava estação do caminho de cruz de Gandhi


«Gandhi, és um traidor!»

Trinta e seis horas antes da independência, no começo da tarde de quarta-


feira 13 de Agosto, Gandhi deixou o seu refúgio do Ashram de Sodopur, no
meio dos coqueiros, para se lançar à conquista do «milagre».
O seu destino estava muito próximo. Era Calcutá, aquela metrópole de dois
milhões e meio de habitantes que fora, durante gerações, a grande capital
das Índias, o centro das letras e das artes, das ciências e da filosofia.
Mas, neste verão agitado, Calcutá era também um lugar que podia
assemelhar-se à manifestação do inferno na terra, um bairro da lata
maldito da «Cidade das noites de horror» de Rudyard Kipling.
Aí, na indigência e na abominação da cidade que se mostrara a mais
violenta do mundo, a doce voz do arcanjo da não-violência esperava
realizar o prodígio que nem o exército nem a polícia do vice-rei podiam
realizar. Mais uma vez, o artista da independência da Índia preparava-se
para oferecer a vida aos seus compatriotas, para os libertar já não dos
Ingleses, mas do ódio que lhes envenenava os corações.
Calcutá venerava a brutalidade sanguinária até nas suas lendas e na
escolha dos Deuses que adorava. A santa padroeira era Kali, a deusa hindu
da destruição, feroz bebedora de sangue, cujas estátuas ornamentavam de
guirlandas de serpentes e de crânios humanos. Todos os dias milhares de
pessoas se prosternavam perante os seus altares. No passado, tinham sido
imoladas crianças em sua honra e os seus adeptos ainda lhe sacrificavam
animais antes de mancharem a cabeça e o rosto com o seu sangue.
Para além de uma aparência de prosperidade, afirmava-se a triste
realidade: a cidade era o chiqueiro mais desumano do mundo. Há gerações,
ela atraía aos seus basti — os bairros da lata — as populações famélicas
dos pântanos de Bengala e das planícies ressequidas de Bihar. Os belos
relvados do parque Maidan, as elegantes vivendas de estilo georgiano e os
ricos edifícios das grandes sociedades comerciais da avenida Chowringhee
eram uma fachada tão artificial como um cenário de cinema. Imediatamente
atrás estendia-se por quilómetros uma gigantesca lixeira em que a
concentração em seres humanos era a mais densa do globo. Aí viviam dois
milhões de infelizes num tal estado de subalimentação que as suas
hipóteses de vida não atingiam os trinta anos. A maior parte deles nem
sequer dispunha da ração alimentar que os Nazis consentiam às suas
vítimas às portas das câmaras de gás.

217
Esta população contava mais de quatrocentos mil mendigos e desempregados,
bem como quarenta mil leprosos. Todos estes miseráveis se amontoavam em
cabanas em ruínas, choças de lama seca, tocas fétidas. Sórdidas ruelas
serviam de passagens, com os esgotos ao ar livre transbordando de
excrementos e de imundícies, domínio privilegiado de bandos de ratos e de
vermes inquietos. Raras fontes deixavam correr uma água sempre poluída.
Uma vez por semana, os impiedosos malik apareciam nas ruelas para
reclamar as rendas do inferno.
Fomes espantosas marcavam as grandes datas da história de Calcutá. A mais
recente datava de há quatro anos. Fizera, com as epidemias que se lhe
seguiram, mais de quatro milhões de mortos, apenas em Bengala. Centenas
de milhares de habitantes se tinham arrastado até aos caixotes do lixo
dos ricos e aos depósitos do lixo para aí procurar com que sobreviver.
Alucinados pela fome, famílias inteiras tinham-se desintegrado, mães
tinham morto os filhos que já não podiam alimentar, homens tinham comido
cães e cães tinham devorado velhos moribundos.
Na própria hora em que a Índia se preparava para celebrar a sua
liberdade, homens, mulheres e crianças continuavam a morrer de fome nas
ruas de Calcutá. A cólera, a tuberculose, a desinteria ceifavam aí todos
os anos mais vidas que a Índia perdera na sua luta contra a colonização
britânica.
Os pardieiros de Calcutá haviam sempre segregado todas as formas da
violência, mas os massacres de agosto de 1946 tinham dado a esta
violência uma nova dimensão, alimentando-a, desta vez, com o ódio
religioso. Depois, hindus e muçulmanos observavam-se numa desconfiança e
num terror de todos os instantes. Não se passava um só dia sem trazer a
sua sinistra colheita de cadáveres. Armados de facas, de revólveres, de
armas automáticas, de garrafas incendiárias ou de ganchos de aço chamados
«dentes de tigre», que permitiam arrancar os olhos de um adversário, os
bandos das duas comunidades preparavam-se para mergulhar a cidade num
novo banho de sangue.
Foi em 13 de Agosto, pouco depois das 3 horas da tarde, que num velho
Chevrolet chegou o homem que queria tentar impedir esta carnificina. O
carro percorreu uma longa sequência de fachadas leprosas e parou frente a
uma grade com o número 151 em Beliaghata Road. Aí, no meio de uma espécie
de terreno vazio transformado em charco pela monção, elevava-se uma vasta
construção ameaçando ruína, casa decrépita surgida de um cenário de
Tennessee Williams.
Com a sua varanda rodeada de balaustres e os seus pilares dóricos, Hydari
Mansion incarnara outrora o sonho paladino de algum mercador inglês,
transposto para os trópicos. O seu proprietário actual, um rico
muçulmano, há muito que o abandonara aos ratos, às serpentes e às
baratas. Tinham varrido apressadamente as imundícies que sujavam todas as
divisões e reparado a comodidade que tinha recomendado esta casa a
atenção do Mahatma: os W. C, uma raridade nos bairros populares de
Calcutá.

218
Era desta casa rodeada de fedor, de vermes e de lama, que Gandhi se ia
esforçar por realizar um prodígio.
Aqueles de quem este milagre dependia já lá estavam, esperando desde há
horas a chegada do ilustre visitante.
Eram todos hindus e muitos deles tinham tido um parente massacrado, uma
mulher ou uma filha violadas por muçulmanos durante as desordens do verão
precedente. A aproximação do carro, começaram a gritar o nome de Gandhi.
Mas, pela primeira vez na Índia, não aclamavam este nome. Conspurcavam-
no. Com os rostos deformados pela raiva e pelo ódio berravam: «Gandhi, és
um traidor! Vai salvar os nossos irmãos hindus de Noakhali! Protege os
hindus, não os muçulmanos!». Ao mesmo tempo, uma chuva de pedras caía
sobre o carro daquele que metade do mundo considerava como um santo.
Abriu-se então uma das portas e a silhueta familiar apareceu. As lunetas
na ponta do nariz, segurando com uma mão a aba do seu dhoti, a outra
levantada em sinal de paz, o frágil velho de setenta e sete anos avançou
sozinho para a multidão hostil.
- Quereis-me mal, então aproximo-me de vós, declarou ele.
A estas palavras, os manifestantes detiveram-se. Aquele cuja voz aguda
tinha advogado pela Índia perante soberanos e vice-reis, empreendeu
pregar a razão aos seus irmãos de raça.
- Vim aqui para defender tanto os hindus como os muçulmanos. Vou colocar-
me sob a vossa protecção. Tendes perfeitamente o direito de vos voltardes
contra mim, se quiserdes. Já quase atingi o fim da viagem da minha vida.
Já não tenho muito caminho a percorrer. Mas prefiro morrer imediatamente
que ver-vos mergulhar na loucura.
Explicou em seguida que, pela sua presença em Calcutá salvava também os
Hindus de Noakhali. Os chefes muçulmanos, culpados do massacre de tantos
Hindus, tinham-lhe dado a sua palavra: nem um só Hindu estaria lá em
baixo em perigo em 15 de Agosto. Eles sabiam que ele jejuaria até à morte
se traíssem a sua promessa.
Seguro desta certeza, aceitara vir a Calcutá. Da mesma maneira que
confiara aos chefes muçulmanos de Noakhali a responsabilidade moral da
segurança dos Hindus que viviam entre eles, ia agora tentar persuadir os
Hindus de Calcutá a proteger os seu concidadãos muçulmanos. Se recusassem
atender o seu apelo, se desencadeassem o massacre que tinham anunciado,
sabiam que seria em troca da vida dele.
Tal era a essência da sua estratégia da não violência: um contrato entre
os adversários e a sua vida oferecida como garantia do respeito dos seus
compromissos. Com a ameaça de se deixar morrer de fome, Gandhi
introduzira na arena política a velha sabedoria dos rishi: «Se fizeres
isso, sou eu que morro.»
- Como poderia eu, eu que sou um Hindu pelo meu nascimento, o Hindu dos
Hindus pela minha maneira de viver, ser um inimigo dos Hindus? Perguntou
ele à multidão encolerizada.

219
O raciocínio de Gandhi, a extrema simplicidade do seu ponto de vista
pareceram embaraçar os manifestantes. Depois de ter prometido conversar
com os seus representantes, Gandhi e os discípulos foram instalar-se na
sua nova casa. O arrependimento foi de curta duração. A chegada de Sayyid
Suhrawardy, o Muçulmano mais amaldiçoado pelas massas Hindus, provocou
uma nova explosão de furor. Os amotinados bombardearam a casa com
projécteis. Uma pedra pulverizou uma das suas raras vidraças semeando com
estilhaços de vidro a divisão em que Gandhi se encontrava. Acocorado no
chão, imperturbável, o Mahatma continuava a redigir a sua
correspondência. Porém, acabava de se produzir uma viragem dramática na
sua existência. Nesta tórrida tarde de Agosto, pela primeira vez desde o
seu regresso da África em 1915, e apenas a algumas horas do fim da longa
marcha da Índia para a liberdade, uma multidão do seu país levantara-se
contra ele.
— Excelência, os conspiradores estão prontos a passar à acção.
O inglês que fazia esta revelação ao vice-rei na pista do aeródromo de
Karachi era o chefe do C. I. D. (Nota 1), o departamento de investigação
criminal. Mountbatten chamou-o imediatamente à parte das pessoas que
tinham vindo acolhê-lo.
Todas as informações na sua posse, precisou o inspector, confirmavam o
relatório que Mountbatten recebera em Nova Deli: pelo menos uma bomba, e
provavelmente várias, deviam ser lançadas sobre o carro descoberto em que
Jinnah e ele próprio iam percorrer as ruas de Karachi no dia seguinte de
manhã, quinta-feira 14 de Agosto. Apesar de grandes esforços, não se
tinha conseguido apreender um único dos fanáticos hindus que o R.S.S.S.
introduzira na cidade para cometer este atentado.
Com extrema irritação do marido, Edwing passara para trás dele.
Surpreendera a confidência.
— Acompanhar-te-ei no carro, anunciou.
— Isso não, replicou vivamente Mountbatten. Não há nenhuma razão para
sermos ambos despedaçados.
Sem prestar atenção a este diálogo, o inspector prosseguiu:
— Jinnah persiste em querer um carro descoberto. A velocidade muito lenta
do cortejo oficial, as nossas chances de vos proteger serão muito
limitadas.
Segundo ele, apenas havia uma maneira de evitar a catástrofe.
— Excelência, suplicou, é absolutamente necessário que persuadis Jinnah a
anular o desfile.

Nota 1 - C. I. D. Criminal Investigation Department.

220
Algumas horas depois de uma multidão encolerizada ter lapidado o indiano
mais ilustre do século, naquela manhã de quinta-feira 14 de Agos-t0 a
três mil quilómetros de Calcutá na cidade de Karachi, o principal
adversário político de Gandhi preparava-se para saborear a sua vitória.
Mohammed Ali Jinnah elevara-se acima do velho desesperado da casa em
ruínas de Beliaghata Road. A despeito de Gandhi, a despeito de todos os
imperativos da razão e da lógica, a despeito sobretudo do mal implacável
que lhe devorava os pulmões, Jinnah dividira as Índias. Num instante, um
austero edifício de Karachi ia acolher o nascimento da maior nação
muçulmana do mundo. Reunidos nas galerias do hemiciclo em forma de
concha, encontravam-se os representantes dos setenta milhões de cidadãos
a quem Jinnah dera um país.
Pitoresca assembleia! Sólidos Panjabis em boné de astrakan cinzento e
compridos sherwani brancos abotoados até ao pescoço como sotainas;
imponentes Pathans: Wazirs, Mahsuds ou Afridis, com os seus largos
turbantes verde e ouro, e os rostos de pergaminho, cortados por soberbos
bigodes; pequenos bengalis de pele negra, representantes de uma província
longínqua que Jinnah nunca visitara e de um povo de que desconfiava;
velhos chefes de tribos balouches; mulheres do vale do Indo, o rosto
coberto com o burqa de setim bordado, mulheres do Panjab em salwar
enfeitado de ouro sobre amplas calças tufadas.
Ao lado de Jinnah, sentara-se o Inglês a quem arrancara o seu Estado.
Para esta primeira cerimónia de um calendário de festas que ia, em trinta
e seis horas, pôr fim a três séculos e meio de presença britânica,
Mountbatten vestira o seu grande uniforme de almirante luzente de
condecorações.
O último vice-rei das Índias levantou-se para transmitir os bons votos do
rei da Grã-Bretanha ao mais jovem dos seus domínios. Depois, celebrando
um acontecimento que tudo fizera para evitar, exclamou:
O nascimento do Paquistão é um grande momento. A História parece por
vezes avançar à velocidade infinitamente lenta de um glaciar, por vezes
precipita-se à velocidade de uma torrente. Hoje, nesta parte do mundo, os
nossos esforços conjugados fazendo fundir o gelo e afastando os
obstáculos, arrastaram-nos no seio da corrente. Já não há tempo de olhar
para trás. Há apenas tempo de olhar em frente.
Voltando-se então para Jinnah cujo rosto não traía mais emoção que uma
máscara mortuária, Mountbatten prestou homenagem ao pai do Paquistão.
As nossas estreitas relações, declarou ele, a confiança e a compreensão
mútuas que daí resultaram constituem, creio, a melhor garantia das nossas
futuras relações.
Pronunciando estes cumprimentos de preceito, Mountbatten não podia deixar
de pensar que, dentro de alguns instantes, ia arriscar a sua vida por
causa da teimosia do homem a quem eram destinados.

221
O vice-rei também não tinha conseguido persuadir Jinnah a renunciar ao
seu perigoso desfile, bem como não tinha podido fazer-lhe abandonar o seu
sonho de criar o Paquistão.
Anular a procissão ou atravessar a sua capital a toda a velocidade num
carro fechado teria parecido indigno ao primeiro chefe de Estado do
Paquistão. Jinnah recusou-se a deixar assim depreciar o nascimento da
nação porque tanto lutara. Quer quisesse quer não, Mountbatten ia ter de
expor a sua vida num carro descoberto ao lado de um homem que nunca
compreendera.
- Chegou o momento de nos despedirmos, concluiu. Que o Paquistão possa
sempre prosperar... que se possa conservar amigo dos seus vizinhos e de
todas as nações do Mundo.
Foi depois a vez de Jinnah. No seu sherwani branco abotoado até ao
pescoço, fazia pensar no papa Pio XII. Certamente, a Inglaterra e os
povos que colonizara separavam-se como amigos, reconheceu ele, «desejo
sinceramente que permaneçamos amigos». Prometeu que o Paquistão
observaria a velha tradição muçulmana de tolerância para com as outras
crenças.
O Paquistão nunca limitará a amizade aos seus vizinhos nem ao resto do
mundo, concluiu. Mal o eco destas promessas se extinguira, começava a
aventura. Os dois homens cujas vontades tantas vezes se haviam chocado
passaram lado a lado a maciça porta em tock do edifício. Junto do patamar
esperava o Rolls-Royce preto descoberto que devia acolhê-los para uma
última experiência comum. «Este maldito carro é parecido com um carro
fúnebre», pensou Mountbatten. Durante um momento, olhou a mulher. Dera ao
motorista do carro de Edwina a ordem de manter uma certa distância do
Rolls. Mas era verdade que ela conseguiria maneira de o obrigar a
desobedecer.
Enquanto avançava para o comprido veículo, aparentemente muito sereno,
toda uma série de imagens atravessou a sua memória: recordação do cortejo
de 1921, quando uma mesma bomba ameaçara o carro do príncipe de Gales,
visões de atentados ressuscitados pelas suas investigações genealógicas,
familiares que tinham sido na Índia o seu passatempo favorito. Um dos
ramos tinha o nome do seu segundo tio, o czar Alexandre II, com a menção
«Falecido em 13 de Fevereiro de 1881. Nesse dia Alexandre II fora feito
em bocados numa avenida de S. Petesburgo por uma bomba atirada para o seu
carro descoberto. Mais atrás, no mesmo ramo, encontrava-se o nome de um
outro tio, o grão-duque Sérgio, morto em 1904 em Moscovo pela máquina
infernal de um anarquista em condições quase semelhantes. Um outro ramo
tinha o nome da sua prima Ena que, no dia do seu casamento com Afonso
XIII de Espanha ficou com o vestido de noiva manchado pelo sangue e pelos
bocados de carne do postilhão vítima da bomba lançada para o seu carro.
Fantasmas do seu passado familiar, estas evocações fúnebres metiam-se no
Rolls-Royce ao mesmo tempo que o jovem vice-rei.

222
No momento em que o carro arrancava, o seu olhar cruzou-se com o de
Jinnah. Não trocaram nem uma palavra. Nunca conhecera Jinnah senão
contraído, mas uma corrente de vários milhares de Volts parecia desta vez
insensibilizar o líder muçulmano. Os 31 tiros de canhão da saudação ao
vice-rei acompanharam o cortejo nas avenidas de Karachi onde a multidão
os esperava, ébria de alegria e de gratidão, mar de rostos anónimos entre
os quais se ocultavam algures, num canto de rua, numa esquina, no vão de
uma janela, num telhado, os homens que tinham recebido a ordem de matar
Jinnah. Espalhado pelos quatro quilómetros do percurso, um cordão de
soldados apresentava armas. Mas voltavam as costas à multidão e não
podiam impedir um terrorista de lançar uma bomba.
Luís Mounbtatten confessaria um dia que os trinta minutos deste passeio
lhe pareceram durar 24 horas. O carro avançava quase a passo entre os
cachos humanos transbordando dos passeios, empoleirados nos candeeiros,
nos postos eléctricos, nos telhados, amontoados às janelas, e nas
varandas. Inconscientes do drama que viviam os dois heróis que eles
aclamavam, os muçulmanos em delírio gritavam Zindabad dirigidos ao
Paquistão, a Jinnah e a Mountbatten.
Apanhados na armadilha, os dois homens de Estado enterravam-se neste
túnel de rostos, esta estreita garganta donde em qualquer segundo podia
vir a morte. Obrigados a responder à alegria popular, não podiam fazer
outra coisa senão representar a comédia, e manifestar também a sua
alegria e gratidão. Mountbatten jamais esqueceria esta experiência:
durante todo o desfile agitou o braço arvorando um radioso sorriso, mas
os olhos não cessavam de espreitar os rostos e os gestos à sua volta em
busca de uma expressão inquietante, de um movimento suspeito de qualquer
indício que lhe revelasse: «é aqui que vai acontecer».
«Qual é? Pensava ele. É este a quem dirijo uma saudação? Ou este outro ao
lado?» O seu olhar demorava-se em tudo o que pudesse parecer insólito no
meio desta multidão em festa: um homem que não sorria ou que sorria
demasiado... este que estava demasiado calmo, este outro demasiado
agitado... ou talvez ainda aquele cujo fato estranho realçava entre os
que o rodeavam. Estúpidas reflexões atravessaram o seu espírito. Lembrou-
se que o secretário de um governador de Bengala interceptara um dia em
pleno voo a bomba de um assassino e a voltara a atirar, mas esta proeza
recordou-lhe que ele próprio nunca fora capaz de apanhar uma bola de
cricket. Pensava na mulher, atrás de si, e interrogava-se, se, como
estava convencido, ela obrigara o motorista a infringir as suas ordens.
Não ousava interromper a sua vigilância para se voltar e o verificar.
Incessantemente, os seus olhos continuavam a perscrutar o horizonte por
detrás da multidão, espreitando a aparição repentina de um bocado de
metal no céu.
Quando viu desembocar o cortejo depois da varanda da sua residência em
Victória Road, um homem apertou a coronha da pistola de calibre 45 que
enchia o bolso do seu casaco. Enquanto os olhos vigiavam as silhuetas
gesticulando às janelas da casa em frente, o polegar fez saltar
lentamente a patilha de segurança da sua arma.

223
Quando o Rolls-Royce se aproximou, G. D. Savage, o jovem oficial da
polícia que viera a Nova Deli revelar ao vice-rei a conspiração de um
atentado contra Jinnah, fez uma oração. Não tinha de facto nenhum direito
de deter este revólver. O seu serviço acabara 24 horas antes. Preparava-
se para voltar para sua casa, na Inglaterra.
No carro, Mountbatten e Jinnah continuavam a disfarçar a sua apreensão
sorrindo graciosamente e saudando a multidão. Estavam tão preocupados que
ainda não tinham trocado uma única palavra. A vaidade, que os seus
detractores consideravam como o seu pior defeito, constituía neste
instante o melhor conforto do vice-rei: «Estas pessoas gostam de mim,
pensava. No fim de contas, dei-lhes a sua independência! «Persuadia-se
sinceramente de que nesta multidão não podia encontrar-se um único homem
que pudesse aceitar matá-lo querendo assassinar Jinnah. A sua presença
neste carro não era a melhor salvaguarda do chefe de Estado Muçulmano?
«não vão tentar matá-lo, repetia, porque sabem que correriam o risco de
me matar também.»
Na sua varanda, Savage reteve a respiração enquanto o carro passava aos
seus pés. Conservou a mão crispada no gatilho da sua arma até o Rolls ter
saído do alcance de tiro que lhe permitisse oferecer aos passageiros
qualquer protecção. Após o que voltou para o seu quarto e bebeu quatro
bons goles de Scotch.
Ao vibrar dos Zindabad sucedia-se agora um silêncio ameaçador. «Um bairro
Hindu, é aqui que isso vai acontecer», pensou Mountbatten. Durante cinco
intermináveis minutos, o cortejo atravessou as multidões mudas do
Elphinston Street, a principal artéria comercial de Karachi. Quase todas
as suas boutiques e estalagens pertenciam a um dos arruinados e
aterrorizados pelo acontecimento que os seus vizinhos muçulmanos hoje
celebravam.
Nenhuma bomba explodiu. Com a consolação de um marinheiro avistando o
farol de um porto após a tempestade, Mountbatten viu enfim as altas
grades do palácio de Jinnah aparecer diante do capot do Rolls Royce.
Estava terminado o passeio mais doloroso da sua vida.
Quando o carro se imobilizou, um sorriso iluminou pela primeira vez a
máscara glacial que o vice-rei sempre conhecera ao líder muçulmano. Pondo
as compridas mãos ossudas no joelho do inglês, Jinnah murmurou:
- Deus seja louvado, trouxe-vos vivo!

Nota 1 - No decorrer das suas numerosas investigações a fim de descobrir


porque não fora executado o atentado de Karachi, os autores deste livro
apenas conseguiram recolher um único testemunho, o de Pritham Singh, um
reparador sikh de bicicletas. Pritham Singh foi preso pelo C. I. D. por
ter participado no descarrilamento de comboios paquistaneses. Assegurou
que a organização extremista R. S. S. S. tinha realmente introduzido os
assassinos em Karachi, mas que o seu chefe, cuja granada devia dar o
sinal do bombardeamento geral do carro, renunciou a lançar o seu engenho
quando viu Mountbatten sentado ao lado de Jinnah no Rolls Royce.

224
«Que grande atrevimento!» pensou Mountbatten. - Trouxeste-me vivo?
Exclamou. Mas, valha-me Deus, fui eu que vos trouxe vivo!

Nona estação do caminho da cruz de Gandhi


«Um dia de luto»

Como sempre, ele estava a horas. Em 14 de Agosto, às 5 horas certas da


tarde, a frágil silhueta de Gandhi apareceu à porta de Hydari Mansion.
Ligeiramente curvado, apoiando-se nas suas «muletas», as suas duas
segundas sobrinhas Abha e Manu, abriu um caminho através da multidão que
o aguardava no pátio da casa.
A cerimónia que se preparava para celebrar era um acontecimento tão
imutável como todos os que compunham a vida meticulosamente regrada do
Mahatma. Enquanto que Lenine preparara a revolução do fundo da sua cela,
enquanto que os Nazis haviam galvanizado as suas tropas no decorrer das
grandiosas manifestações de Nuremberga, Gandhi conduzira a Índia na sua
longa marcha para a liberdade propondo-lhe todas as tardes uma simples
reunião de oração.
Nas cidades e nas aldeias, nos casebres de Londres ou nas prisões
britânicas, estas reuniões de oração haviam sido o traço genial de um
especialista em relações humanas para estabelecer uma comunicação com os
seus fiéis. Falara sobre os valores nutritivos do arroz integral, da
maldição da bomba atómica, da importância de ir regularmente à retrete,
das sublimes belezas da Gítâ, das vantagens da continência sexual, das
injustiças do imperialismo e dos benefícios da não-violência. Repetidas
de boca em boca, publicadas nos jornais, retransmitidas na rádio, estas
alocuções quotidianas haviam sido o cimento do seu movimento, e como que
o evangelho do Mahatma.
Agora, no pátio desta casa em ruínas no coração da cidade do ódio,
preparava-se para tomar a palavra na última reunião de oração organizada
numa Índia ocupada pelos Ingleses. Todo o dia recebera delegações de
Hindus e explicara-lhes a natureza do contrato de não-violência que
propunha a Calcutá, esperando que a repetição incansável da sua mensagem
conseguisse criar um novo espírito de fraternidade. A presença de pelo
menos dez mil pessoas nesta primeira reunião de oração em Calcutá
indicava que fora ouvido.
- A partir de amanhã, estaremos libertos do jugo da Grã-Bretanha,
declarou. Mas a partir de hoje à meia-noite, a Índia encontrar-se-á
dividida. Amanhã será um dia de festa mas também um dia de luto.
Advertiu os seus fiéis de que a independência ia colocar pesadas
responsabilidades sobre os ombros de cada um.
- Se Calcutá conseguir encontrar a razão e salvaguardar a fraternidade,
talvez a Índia inteira possa ser salva.

225
Mas, se as chamas de um combate fratricida abrasarem o país, como
sobreviverá a nossa jovem liberdade?
O homem que fora o obreiro desta liberdade revelou aos seus partidários
que, pessoalmente, não participaria nos festejos da Independência da
Índia. Pediu aos seus discípulos para passarem com ele este dia histórico
«jejuando e rezando pela salvação da Índia e fiando o mais possível,
porque era esta cara roda de madeira que era o melhor para salvar o seu
país do desastre».
A despeito dos Pakistan Zindabad que haviam seguido o carro de Jinnah
através das ruas de Karachi, o nascimento do Paquistão desenrolou-se no
meio de uma surpreendente apatia. Estranhamente, foi no Bengala
muçulmano, no território que se tornou o Paquistão Oriental - que seria
um dia o campo de batalha da guerra do Bangla Desh - que a atmosfera foi
a mais alegre. Khwaja Nazimuddin, o novo Primeiro-ministro da província,
deixou Calcutá para Dacca, a nova capital a bordo de um minúsculo vapor
decorado com bandeiras da Liga muçulmana que bordejou durante horas
através das águas do delta do Ganges, aumentadas pela monção. Todas as
vezes que a pequena embarcação se imobilizava perante as cabanas de uma
aldeia, a população acorria num concerto de aclamações e de Pakistan
Zindabad. «Toda a gente cantava, recorda o filho de Nazimuddin, e havia
felicidade em todos os olhos.»
Em Lahore, capital de um Panjab que a ignorância do traçado exacto da
fronteira tornava mais febril do que nunca, o inglês Bill Rich acabava a
sua missão de comissário da polícia. Com a ajuda dos polícias que ficaram
no seu posto, tentara em vão dominar a violência. Mas no inferno deste
verão sem monção, o medo e o ódio submergiam a cidade das Mil e uma
noites dos reis Mongóis. O Inglês relatou num registo o resumo dos
últimos incidentes de que fora testemunho, triste relatório que legava à
posteridade. Depois chamou o seu sucessor muçulmano.
Bill Rich tirou o formulário da transmissão de poderes. O documento
estava dividido em dois. Na parte esquerda, inscreveu: «transmiti os meus
poderes hoje, quinta-feira 14 de Agosto de 1947», e assinou. O Inglês
saudou o Muçulmano, apertou a mão dos poucos colaboradores que ainda
estavam presentes, depois foi-se embora tristemente.
Dominando o seu esgotamento, Jinnah passou a tarde a percorrer uma a uma
as divisões da imensa casa de Karachi que à meia-noite se ia tornar a sua
residência oficial. Nada escapava ao seu olhar. Esquadrinhando o
inventário, descobriu que faltava um jogo de bolas. Furioso, chamou o seu
ajudante de campo e deu a sua primeira ordem de governador-geral do
Paquistão: encontrar e pôr no lugar os macetes e os arcos desaparecidos.
O homem que fora o primeiro a conceber o «sonho impossível» do Paquistão
passou, esse, o dia de 14 de Agosto sozinho na sua modesta casa de campo
em Cambridge, na Inglaterra.

226
Nunca haveria paradas triunfais nas ruas de Karachi para o eterno
estudante Rahmat Ali, nenhuma multidão lhe manifestaria a sua gratidão.
Doravante o seu sonho pertencia a um outro homem, aquele que o repelira
quando ele lhe propusera tornar-se o campeão da libertação do seu povo.
Rahmat Ali ocupou este dia de glória em que o seu ambicioso projecto se
tornara realidade a redigir um panfleto condenando Jinnah por ter aceite
a partilha do Panjab. Mas jogava uma partida antecipadamente perdida.
Todo um povo reconhecido ia em breve gastar o equivalente a meio milhão
de francos para construir em Karachi um mausoléu em memória do Mohammed
Ali Jinnah. Para o visionário que inventara o Paquistão, não haveria
mais, um dia, que uma sepultura anónima num cemitério de Newmarket,
Inglaterra.
Puseram-se a caminho ao pôr do sol. Saltitando como uma ave pernalta um
tocador de flauta escoltava o carro através das ruas apinhadas de Nova
Deli. Todos os cem metros, parava, acocorava-se no asfalto e fazia vibrar
a poeira com o ar que saía do seu instrumento enquanto que no fundo do
carro, os dois passageiros conservavam uma indiferença celeste. Eram dois
Sannyasin, aqueles homens que, no entardecer da vida deixam as famílias,
abandonam os bens e partem pelas estradas num desnudamento total em busca
do absoluto. Com o peito nu, o rosto coberto de cinzas, os longos cabelos
empastados caindo como estopa sobre magros ombros, eram peregrinos de uma
Índia secular. Os seus únicos bens eram um longo pau com sete nós, uma
cabaça de água e uma pele de antílope (Nota 1). Quando uma silhueta em
Sari aparecia à janela do seu táxi, desviavam o olhar. Pertenciam a uma
das mais antigas seitas da Índia e as regras da sua ordem eram tão
rigorosas que deviam não só renunciar a toda a presença feminina, mas não
tinham sequer o direito de olhar uma mulher. Todas as manhãs, cobriam-se
de cinzas em lembrança da natureza efémera do corpo humano. Viviam de
esmolas, consumindo, sem nunca se sentarem, a sua única refeição
quotidiana: alguns goles de pancha-gavia, beberagem sagrada composta de
cinco dos benéficos da vaca, o leite, o yogurte, o ghi (manteiga
clarificada) a urina e a bosta.
Um destes santos homens trazia, nesta noite de 14 de Agosto, uma salva de
prata maciça sobre a qual estava dobrada uma écharpe de seda branca, a
ouro, o pitambaram, o fato de Deus. O outro trazia um ceptro esculpido,
um recipiente de água santa proveniente da ribeira de Tanjore, um
saquinho de cinzas e um outro de arroz cozido que tinham sido benzidos
por Nataraja, o Senhor da dança, no seu templo de Chindambaram, perto de
Madras.

Nota 1 - O antílope e o tigre são considerados pelos Hindus como animais


particularmente puros. A utilização da sua pele como esteira não ocasiona
nenhuma mácula.

227
A pequena procissão atravessou as ruas da capital até à porta de uma
modesta vivenda, no número 17 de York Road. Era aí que os emissários de
uma Índia forjada de superstição e de magia tinham encontro com o profeta
de uma Índia nova, a Índia da ciência e do socialismo. Do mesmo modo que
os santos homens de outrora eram chamados a consagrar nos seus poderes os
antigos reis da Índia, do mesmo modo os sannyasin tinham vindo esta tarde
oferecer a consagração pelas antigas insígnias da autoridade ao homem que
ia assumir a direcção de uma moderna nação indiana.
Aspergiram Jwaharlal Nehru de água benta, ungiram-lhe a testa com cinzas
sagradas, colocaram-lhe o ceptro nas mãos e envolveram-no na vestimenta
de Deus. Para aquele que nunca cessara de proclamar o horror que a
simples palavra de «religião» lhe inspirava, estes ritos eram a
desoladora manifestação de tudo o que no seu país condenava. Todavia
Nehru submeteu-se-lhe com humildade, considerando talvez que, nas horas
difíceis que o esperavam, nenhum socorro devia ser repelido, mesmo o de
forças ocultas em que não acreditava.
Nas guarnições, nas residências, nos gabinetes oficiais, nas bases
navais,- no forte William de Calcutá donde partira a conquista da Índia,
no forte de S. Georges de Madras, no palácio de Simla, em Cachemira, em
Nagaland, em Sikkim e nas selvas de Assam, milhares de bandeiras
britânicas foram pela última vez arreadas dos seus mastros. Nenhuma
cerimónia oficial acompanhou a desaparição, no céu indiano, do estandarte
que durante três séculos e meio simbolizara o reino da Grã-Bretanha nesta
parte do mundo. Mountbatten exigira que assim fosse. O próprio Nehru,
preocupado em «não ofender as susceptibilidades inglesas», proibira
qualquer manifestação.
No dia seguinte ao nascer do sol, a Union Jack fora em toda a parte
substituída pelo emblema açafrão, branco e verde da Índia independente.
No cimo do canal de Khyber, o capitão Kenneth Dance, segundo oficial dos
Khyber Rifles, o único inglês sempre a postos nestes lugares, escutava as
sete pancadas de tambor que ressoavam no silêncio vesperal. Conformemente
a uma velha tradição do exército das Índias, este tantã tocara todas as
horas do dia desde há decénios, em atenção aos sipaios indígenas que não
podiam comprar relógio para aqueles que, ainda mais numerosos não
saberiam ver as horas. Ao último toque. Dance subiu ao posto da guarda no
cimo do forte de Landi Kotal. Aí um corneteiro estava pronto a tocar a
retirada. Por baixo dos dois homens, junto das muralhas, a estrada
sinuosa deslizava para o vale, em direcção a Jamrud e ao desfiladeiro
pelo qual, há mais de 30 séculos, os invasores se tinham abatido sobre as
planícies das Índias. Em numerosas viragens, escudos esculpidos na rocha
comemoravam as batalhas travadas pelo exército a que Dance pertencia,
recordando os sacrifícios dos seus compatriotas caídos em defesa desta
passagem histórica.

228
O corneteiro pôs-se em sentido e levantou o seu instrumento. Com o
coração opresso baixou a bandeira ao apelo do toque. Desatou-o e dobrou-o
cuidadosamente, decidido a conduzi-la «para lugar seguro na Inglaterra,
donde viera». Depois ofereceu um grande sino de cobre que comprara num
shipchandler de Bombaim, para substituir o tantã do posto da guarda.
Mandara-lhe gravar uma breve homenagem: «ao Khyber Rifles Regiment da
parte do capitão Kenneth Dance, 14 de Agosto de 1947». Nesta mesma tarde,
quase na outra extremidade das Índias, uma bandeira Britânica descia do
seu mastro pela primeira vez em 90 anos. A residência do governador de
Lucknow era o santuário da Índia imperial, o relicário das mais gloriosas
recordações do império, a cidadela cuja tenacidade incarnara o poderio da
Inglaterra face à adversidade. Ninguém levantara as suas ruínas,
religiosamente preservadas desde aquele dia de 1857 em que os mil
sobreviventes da sua guarnição tinham aclamado a coluna de socorro que os
libertaria do cerco de 87 dias imposto pelos rebeldes indianos.
Novo governador indiano da província, uma mulher assistia à descida da
bandeira. Célebre poetisa, Sarojini, Naidu fora um dos primeiros
discípulos de Gandhi. Participava nos seus hartal, deitara fogo a pilhas
de fatos made in England; estava presente na praia onde, num gesto de
desafio, o Mahatma levantara para o céu o seu punho cheio de sal. Sobre
ela se tinham abatido as pancadas dos lathi ingleses, e passara perto de
dois anos nas prisões britânicas. Toda a sua vida fora ordenada em função
deste instante: ver desaparecer a bandeira inglesa do céu indiano.
E contudo, esta indiana endurecida por tantas lutas sentiu lágrimas a
correr pelo seu rosto. Os soldados do destacamento de honra dobraram a
bandeira com cuidado. Mountbatten ordenara que fosse enviada ao rei Jorge
VI como última recordação deste império das Índias que não pudera
visitar. Depois o próprio comandante pegou num machado: nunca o emblema
de uma outra nação poderia flutuar no mastro sagrado de Lucknow.
Jawaharlal Nehru mal acabara de limpar da testa as santas cinzas dos
sannyasin e de se sentar à mesa para jantar quando o telefone tocou no
gabinete da sua vivenda de Nova Deli. As comunicações eram tão más que a
filha Indira o ouviu gritar para se fazer ouvir. A jovem viu o pai voltar
com o rosto descomposto. Incapaz de falar, apoiou a cabeça nas mãos e
ficou silencioso por um longo momento. Explicou por fim, com os olhos
brilhantes de lágrimas que a chamada vinha de Lahore. A água dos bairros
Hindus e sikhs da cidade velha fora cortada. As pessoas, sedentas,
enlouqueciam no calor tórrido do verão; as mulheres e as crianças que se
aventuravam fora dos seus mahalla para ir mendigar um balde de água eram
imediatamente massacradas pela população muçulmana.

229
Incêndios destruíam já numerosos bairros.
Nehru lamentou-se com uma voz dificilmente audível: — Como vou eu poder
falar esta noite à nação? Como vou poder pretender que o meu coração se
alegre pela independência da Índia quando sei que Lahore, a nossa bela
Lahore, está em chamas?
A visão que atormentava Jawaharlal Nehru apresentava-se em todo o seu
horror perante os olhos de um jovem oficial inglês de um batalhão de
Gurkhas. Atravessando no seu jeep a ponte que conduzia a Lahore, o
capitão Robert Atkins viu meia dúzia de enormes geysers de chamas que se
levantavam por cima da cidade. Uma imagem lhe atravessou o espírito, a do
céu esbraseado de Londres na noite trágica do grande bombardeamento de
Agosto de 1940.
Atrás de Atkins vinham os 200 homens da sua companhia, também ela
vanguarda de uma coluna de jeeps e de camiões. Desde a aurora, este
batalhão avançava para Lahore. Pertencia aos cinquenta mil homens da
força especial criada por Mountbatten para restabelecer a ordem no
Panjab. O capitão Atkins atravessou Lahore sem encontrar vivalma.
Acompanhava-o um silêncio de morte, apenas pontuado pelo longínquo
crepitar dos incêndios.
Perscrutando a noite ameaçadora, Atkins pensou na última noite que no ano
precedente passara com o pai, coronel do exército das Índias. Tinham
discutido política enquanto jogavam bilhar no clube de Madras. «As Índias
em breve serão independentes, é inevitável, predissera o coronel, mas
nesse dia haverá um horrível banho de sangue».
Nenhum incendiário tinha acendido o braseiro que ardia no coração de Nova
Deli no jardim da residência do presidente do Parlamento indiano, o Dr.
Rajendra Prasad. Era o fogo de sacrifício, o que segundo os ricos védicos
consagrara o padre Brâmon, e que salmodiava mandras diante das chamas. A
terra, mãe universal, a água, fonte da vida, e o fogo, essência da
energia e da destruição, compunham a Trimúrti, a Trindade do hinduísmo. O
fogo era um elemento indispensável das festas rituais hindus, o grande
purificador, o veículo divino conduzindo o homem às suas origens, as
cinzas donde saíra. «Oh fogo, cantava o padre brâmane, tu és o olhar dos
deuses e dos sábios. Tens o poder de penetrar nas mais ocultas
profundezas do coração humano para aí descobrir a verdade.»
Enquanto a encantação avançava pela noite, os homens e a mulher que iam
tornar-se os ministros da Índia independente desfilavam um a um perante o
fogo sagrado. Um outro brâmane aspergia-os todas as vezes com algumas
gotas de água.

230
Os fiéis vinham em seguida apresentar-se perante uma jovem que tinha nas
mãos uma taça de cobre contendo pó de cinábrio. Ela mergulhava o polegar
da mão direita na taça e colocava respeitosamente na fronte de cada
ministro uma mancha vermelha, aquele «terceiro olho» que vê a realidade
para além das aparências. Finalmente prontos a cumprir a missão que os
esperava, estes homens e esta mulher do primeiro governo livre da Índia
penetraram no recinto pavimentado do Parlamento onde, dentro de alguns
instantes, iam assumir a responsabilidade de conduzir o destino de mais
de trezentos milhões de indianos.

Assinados os últimos documentos, enviados os últimos despachos, não


restava mais que embalar os carimbos, os selos e todos os acessórios do
que fora o Império Britânico das Índias. Sozinho no seu gabinete, Lorde
Mountbatten estava pensativo. «Sou ainda um dos homens mais poderosos do
mundo, pensou. Desta secretária, controlo nos últimos minutos da sua
existência uma máquina que tem o direito de vida e de morte sobre um
quinto da humanidade.» A esta ideia, recordou-se de um conto de H. G.
Wells intitulado «O Homem que podia fazer milagres». Era a história de um
inglês que possuía, por um dia, o poder de realizar o quer que fosse.
«Estou a viver os últimos momentos desta prodigiosa função que dá aos
vice-reis das Índias o poder de fazer milagres, disse de si para si. É
preciso que eu faça um. Mas qual?».
Veio-lhe uma ideia. «Senhor Deus, exclamou alto, encontrei. Vou fazer da
Bégum (Nota 1) de Palanpur uma Alteza. «Entusiasmado por esta
perspectiva, convocou imediatamente os seus colaboradores.
Mountbatten e o nawab de Palanpur tinham-se ligado com uma íntima amizade
em 1921, durante a viagem do príncipe de Gales às Índias. Em 1945,
durante uma estadia em casa do seu amigo nawab, Mountbatten recebeu a
visita do residente britânico local. É verdade que a mulher do nawab era
australiana, explicou este, mas convertera-se ao islamismo; adoptara o
uso do sari bem como de todos os outros fatos regionais, e realizava uma
admirável obra social. Ora, o nawab estava desesperado: o vice-rei
recusava-se obstinadamente a conceder à sua esposa o título de Alteza,
pretexto de que ela não era indiana. No seu regresso a Nova Deli,
Mountbatten interviera pessoalmente junto do vice-rei Lorde Wavell. Em
vão. Londres opunha-se a um favor susceptível de incitar numerosos
maharajas a desposar estrangeiras.
Logo que os seus colaboradores se reuniram no seu gabinete, Mountbatten
explicou as intenções.
- Mas, protestou um deles, não podeis fazer isso!
- Quem ousa pretender que não posso, replicou Mountbatten rindo. Sou ou
não o vice-rei das Índias?

Nota 1 - Título dado às princesas indianas. (N. da T.)

231
Mandou buscar imediatamente um rolo de pergaminho e mandou escrever aí as
frases solenes que elevavam «pela graça de Deus», a esposa australiana do
nawab de Palanpur à dignidade de Alteza.
Às onze horas e cinquenta e oito desta noite de 14 de Agosto de 1947 Luís
Mountbatten punha a sua rubrica no fundo do documento. Alguns minutos
mais tarde o seu emblema pessoal de vice-rei, a bandeira britânica
ornamentada com o brasão da Estrela das Índias, descia pela última vez do
mastro do palácio dos vice-reis das Índias em Nova Deli (Nota 1).

Desde a noite dos tempos, muito antes de o homem gravar na pedra a magia
das suas legendas, o choro dos búzios saudara o nascimento da aurora nas
costas da Índia. De pé no recinto do Parlamento, um indiano embrulhado
num pedaço de khadi preparava-se hoje para anunciar a centenas de milhões
de homens o nascimento de uma nova aurora. Trazia debaixo do braço uma
concha comprida de nácares de rosa e de púrpura. Este homem era o arauto
das massas indianas vindas à rua para reclamar a liberdade.
Por baixo dele, na tribuna, encontrava-se Jawaharlal Nehru. Na botoeira
do seu colete de algodão, pusera como todos os dias - excepto durante os
seus nove anos de encarceramento nas prisões britânicas - uma rosa, a
flor tornada o seu emblema. Nas paredes do hemiciclo, os retratos
oficiais dos vice-reis das Índias tinham sido tirados e substituídos por
auriflamas de açafrão, branco e verde.
Nas bancadas repletas apertavam-se, em saris, em véu de khadi, em
brocados principescos, em smocking e em vestidos de noite, os notáveis da
nação que esta noite ia nascer. As populações que representavam
constituíam uma reunião de raças e de religiões, de línguas e de culturas
de uma diversidade sem igual na superfície do globo. Eram emanações de um
país em que as mais altas conquistas espirituais se misturavam à mais
horrível miséria material, um país cujas maiores riquezas eram os seus
paradoxos, em que os homens eram mais férteis que os seus campos; um país
apaixonado por Deus e destruído por calamidades naturais de uma amplitude
e de uma crueldade sem igual; um país carregado com um rico passado, com
um presente incerto, e cujo futuro estava comprometido por mais problemas
que qualquer outra nação do mundo jamais afrontara.
Porém, apesar de todos estes obstáculos, de todos estes-males, a sua
Índia era também um dos símbolos mais vivos e mais duráveis da capacidade
dos homens para sobreviver.
Os homens e as mulheres reunidos no hemiciclo eram os delegados de uma
nação de trezentos e trinta milhões de habitantes.

Nota 1 - Encontra-se agora na famosa abadia romana de Romsy, a igreja


paroquial do conde Mountbatten da Birmânia.

232
Além de duzentos e setenta e cinco milhões de Hindus repartidos em três
mil castas e subcastas dos quais uns setenta milhões de intocáveis e
tribos primitivas — contava trinta e três milhões de Muçulmanos, sete
milhões de Cristãos, seis milhões de Sikhs, cem mil Parsis e vinte e
quatro mil Judeus cujos antepassados tinham fugido do seu exílio em
Babilónia após a destruição do templo de Salomão.
Raros, nesta assembleia, eram os que podiam comunicar entre si na sua
língua natal. A única língua comum era o inglês dos colonizadores. A
Índia ia ter quinze línguas oficiais e oitocentos e quarenta e cinco
dialectos. 0 urdu dos deputados muçulmanos do Banjab escrevia-se da
direita para a esquerda, o hindu dos seus vizinhos das Províncias unidas
da esquerda para a direita, o tamil dos Madrassis lia-se por vezes de
cima para baixo, enquanto que outras escritas se decifravam como
hieróglifos. O próprio sentido dos gestos quotidianos era diferente.
Quando um Madrassi, com a pele escura das gentes do Sul, acenava com a
cabeça de cima para baixo, queria dizer «sim». Quando um habitante do
norte de pele mais clara fazia o mesmo movimento, era para dizer «não».
A Índia abrigava quase tantos leprosos quantos habitantes tinha a Suíça,
tantos brâmanes como Belgas havia na Bélgica, mendigos suficientes para
povoar toda a Holanda, onze milhões de sadhus, vinte milhões de
aborígenes, de que alguns, como os Naga, eram outrora caçadores de
cabeças, nove milhões de crianças com menos de quinze anos casadas ou
viúvas. Mais de dez milhões de indianos levavam uma vida seminómade. Iam
de aldeia em aldeia, exercendo de pais a filhos os ofícios da sua casta,
encantadores de serpentes, adivinhos, ciganos, jograis, abridores de
poços, mágicos, funâmbulos, mercadores de ervas medicinais. Trinta e oito
mil crianças nasciam todos os dias, das quais um quarto estava condenado
a morrer antes da idade de cinco anos. Perto de dez milhões de indianos
morriam todos os anos, muitos por má nutrição, ou ainda com doenças como
a varíola e a cólera, aliás estão praticamente espalhadas por todo o
lado.
A sua península era uma das regiões mais intensamente espirituais do
globo, a terra natal do budismo, mãe do hinduísmo, um dos grandes
santuários do islamismo, um território em que os deuses se manifestavam
sob a aparência de uma colecção imaginária de formas e de símbolos, em
que as práticas religiosas iam da mais alta especulação metafísica até a
sacrifícios de animais e também a orgias sexuais praticadas por certas
seitas ou quando de festas rituais em certos campos. O panteão hindu
compreendia trezentos e trinta milhões de divindades, porque nunca se
conhece Deus, apenas se conhecem as suas manifestações; e ele manifesta-
se em todas as coisas, em cada instante da vida. Havia deuses e deusas da
dança, da poesia e da canção; deuses e deusas da morte, da destruição e
das doenças; deusas, como Markhi Devi, aos pés da qual se sacrificavam
cabras para reter as epidemias de cólera, e deuses, como Deva Indra, a
quem os seus fiéis reclamavam o poder de imitar as proezas sexuais das
personagens esculpidas nos frisos eróticos dos templos.

233
Deus incarnava em árvores como as figueiras asiáticas, nos cento e trinta
e seis milhões de macacos da Índia, heróis das suas epopeias mitológicas,
nos seus duzentos milhões de vacas sagradas, nas suas serpentes, em
particular as cobras, cujo veneno matava todos os anos vinte mil dos seus
adoradores. Entre as três mil seitas da Índia encontravam-se os
Zoroastres, descendentes dos adoradores do fogo da antiga Pérsia, e os
Jains, um ramo reformado do hinduísmo cujos adeptos consideravam toda a
existência como sagrada ao ponto de apenas caminharem com uma máscara de
gaze sobre a boca, com receio de engolir e de matar um insecto por
inadvertência.
A nação que os deputados esta noite reunidos em Nova Deli representavam
compreendia alguns dos homens mais ricos do mundo e trezentos milhões de
camponeses que dificilmente conseguiam sobreviver. As suas terras, que
teriam podido ser as mais prósperas do Globo, eram as mais miseráveis.
Oitenta e três por cento da população era analfabeta. O rendimento médio
por pessoa não ultrapassava 50 cêntimos por dia. Um quarto dos habitantes
das duas grandes cidades indianas, Calcutá e Bombaim, dormia, fazia as
necessidades, tinha os filhos e morria na rua. A Índia recebia por ano
uma média de 114 centímetros de chuva, mais que as planícies de Beauce e
os jardins de Touraine, mas este maná era muito desigualmente repartido
pelos meses do ano e pelas regiões do país a tal ponto que muitas vezes
era ineficaz. Um terço das chuvas torrenciais da monção ia perder-se sem
proveito no mar. Trezentos mil quilómetros quadrados, uma superfície tão
vasta como a Alemanha, não recebia mais de 20 cm de água por ano,
enquanto outras regiões eram cobertas por um dilúvio que todos os anos
devastava o solo e ameaçava afogar milhões de homens.
A Índia contava três dos maiores nomes da indústria mundial, os Birla, os
Tatá e os Dalmial mas a sua economia, essencialmente feudal, apenas
aproveitava a um punhado de poderosos proprietários de terras e
capitalistas. Os seus colonizadores não tinham feito nenhuns esforços
para industrializar o país. As exportações limitavam-se quase unicamente
a culturas industriais: juta, chá, algodão, tabaco. A maior parte das
máquinas tinha de ser importada. O consumo de electricidade por habitante
era insignificante, 50 vezes inferior ao dos franceses. Enquanto o
subsolo encerrava perto de um quarto das reservas de ferro do mundo, a
produção siderúrgica apenas atingia um milhão de toneladas por ano. A
Índia possuía 6083 quilómetros de costa, mas as técnicas de pesca eram
tão primitivas que nem mesmo podiam dar a cada indiano uma libra de peixe
por ano.
De facto, a única herança dos colonizadores britânicos parecia ser uma
terrível colecção de problemas e de maldições. Contudo ninguém nesta
noite, no recinto do Parlamento indiano, parecia alimentar a menor
animosidade para com eles, nenhum parecia pensar que a partida dos
senhores da Índia ia bastar para aliviar o peso dos terríveis males que
submergiam o país.

234
O homem que ia carregar com a esmagadora responsabilidade de saldar a
Índia do seu infortúnio levantou-se para falar. Após a sua dolorosa
conversa telefónica com Lahore, Jawaharlal Nehru não tivera nem o tempo
nem a força de preparar um discurso para celebrar a independência,
improvisou a sua alocução, deixando falar o coração.
- Há numerosos anos, declarou, marcámos uma entrevista ao destino e
chegou a hora de cumprir a nossa promessa... ao bater da meia noite,
quando os homens dormirem, a Índia despertará para a vida e para a
liberdade.
As frases brotavam, eloquentes, vibrantes. Mas para Nehru, esta hora
triunfal fora irremediavelmente estragada. «Dificilmente me dava conta do
que dizia, confessará ele. As palavras surgiam espontaneamente, mas o meu
espírito não podia desprender-se da visão de Lahore em chamas.»
- Chegou o momento, prosseguiu Nehru, um momento raramente oferecido pela
história quando um povo sai do passado para entrar no futuro, quando uma
época acaba, quando a alma de uma nação, longo tempo abafada, reencontra
a sua expressão. (...) No alvorecer da história, a Índia começou uma
procura sem fim; desde a noite dos tempos, o seu passado é testemunho dos
seus esforços, da grandeza dos seus sucessos e dos seus falhanços.
Através da sua boa como da sua má sorte, nunca perdeu de vista a sua
finalidade nem esqueceu o ideal donde tira a sua força. Hoje, pomos fim a
uma época de desgraça. A Índia encontrou-se finalmente. (...) A hora não
é de críticas mesquinhas e destruidoras, concluiu, nem de rancores ou
insultos. Devemos construir a nobre casa da Índia livre, acolhedora para
todos os seus filhos.
Nehru propôs à assembleia levantar-se, à décima segunda badalada da meia
noite, para prestar o juramento de servir a Índia e o seu povo. Fora, o
estrondo da trovoada rasgou de repente o céu e fez cair as cataratas da
monção sobre os milhares de homens e mulheres que se tinham agrupado à
volta do edifício. Encharcados até aos ossos, o pobre povo de Nova Deliu
esperava estoicamente o instante fatídico.
No hemiciclo, as duas agulhas do velho relógio britânico por cima da
tribuna aproximaram-se do número romano da décima segunda hora. Os
delegados do povo indiano que dentro de alguns segundos se ia tornar a
segunda nação do mundo esperavam também, num silêncio meditativo.
Enquanto se apagava o eco das doze badaladas do carrilhão, o som retiniu
na sala, apelo ancestral surgido desta noite de séculos de que Nehru
falara. O longo choro monótono do búzio anunciava aos representantes da
Índia milenária o nascimento da sua nação, e ao mundo, o fim de uma época
colonial.
Esta época começara num dia de verão do ano de 1492 num pequeno porto da
Espanha. Partindo pelo infinito dos oceanos em busca da Índia, Cristóvão
Colombo tinha, por engano, descoberto a América.

235
Quatro séculos e meio da história do homem tinham a marca desta
descoberta e das suas consequências: a exploração religiosa, económica e
política dos povos de cor através do globo pelo Ocidente Cristóvão,
Inkas, Swahilis Egípcios, Iraquianos, Hotentotes, Chineses, Argelinos,
Birmanos, Filipinos, Marroquinos, Vietnamianos, uma interminável onda de
povos, de nações, de civilizações que quatrocentos e cinquenta anos de
experiência colonial tinham dizimado, empobrecido, domesticado,
envelhecido, convertido, enriquecido, explorado ou economicamente
estimulado e sempre irrevogavelmente transformado.
As multidões famintas de um continente em oração acabavam de arrancar a
sua liberdade aos arquitectos do maior império que esta colonização
cristã produzira, um império cujo tamanho, a população e a importância
esmagavam os de Roma, da Babilónia, de Cartago e da Grécia. Doravante,
nenhum outro império colonial poderia durar muito tempo. Os seus chefes
poderiam tentar opor-se à marcha da História por discursos e pelas armas:
os seus esforços seriam vãs e sangrentas tentativas condenadas ao
falhanço. De uma maneira irrevogável, definitiva, a independência da
Índia punha fim a um capítulo da história da humanidade.
Na rua, o dilúvio cessara subitamente e a multidão manifestava a sua
alegria. Logo que Nehru apareceu, milhares de pessoas precipitaram-se
para ele numa corrida louca que ameaçou submergi-lo, com os seus
ministros. Observando o estreito cordão de polícias que tentava conter
esta avalanche, Nehru sorriu.
Sabe, declarou a um dos seus companheiros, há exactamente dez anos, tive
em Londres uma disputa com o vice-rei Lorde Linlithgow. Estava de tal
modo encolerizado que lhe gritei: «maldito seja eu se dentro de dez anos
a Índia não estiver independente». Respondeu-me: «Oh, não correis
qualquer risco. Em minha vida a Índia não será independente, Senhor
Nehru, nem na vossa».
Para além dos muros do Parlamento de Nova Deli, na imensidade dos dois
Estados que acabavam de nascer, o apelo do búzio encontrou o seu eco na
alegria delirante de milhões de homens.
Em Bombaim, um polícia pregou um cartaz com a inscrição «Fechado» na
porta da cidadela da supremacia branca, o yacht club. Este lugar, em que
três gerações de sahib tinham saboreado o seu whisky ao abrigo de
qualquer olhar indígena, ia tornar-se a messe dos cadetes da marinha
indiana. Em Simla, à última badalada da meia-noite, centenas de homens e
de mulheres em dhoti e em saris precipitaram-se cantando para o Mali, a
avenida em que jamais qualquer indiano tivera o direito de circular em
fato nacional. Centenas de outros invadiram os restaurantes e as pistas
de dança do hotel Firpo em Calcutá, do Faletti em Lahore, de famoso Taj
Mahal em Bombaim, até então reservados aos clientes em smoking e vestidos
de noite (Nota 1)

Nota 1 - 1 Um deputado indiano quis introduzir na constituição uma


cláusula proibindo aos estabelecimentos públicos de exigir dos seus
clientes o uso do smoking, o fato preferido dos antigos colonizadores.

236
Nova Deli celebrava esta gloriosa noite por uma orgia de iluminações. O
vasto centro comercial de Connaught Circus e as ruelas da cidade velha
rebrilhavam de lâmpadas cor de açafrão, brancas e verdes. Os templos, as
mesquitas e os guru-dwara sikhs estavam enfeitados de lanternas
multicolores, bem como o Forte vermelho dos imperadores Mongóis.
O mais célebre dos templos modernos de Nova Deli, o Birla Mandir,
parecia-se com as cúpulas e modelagens de gesso cobertas de lampiões a
qualquer alucinação de Luís II da Baviera. No bairro dos varredores-
limpa-latrinas intocáveis, onde Gandhi tantas vezes vivera, a
independência trazia um benefício até então desconhecido destas pobres
gentes — a luz. A municipalidade oferecera as velas e as lâmpadas de óleo
que, nesta noite, iluminariam os seus casebres em honra da liberdade. De
bicicleta, em tonga, de camião, a pé, até mesmo no dorso de elefantes,
todos acorriam para o centro de Nova Deli para cantar a sua alegria num
grande arrebatamento de fraternidade. Os restaurantes e os cafés de
Connaught Circus estavam repletos. O bar do hotel Imperial, um dos
santuários dos antigos colonizadores, estava invadido por indianos em
júbilo. Logo a seguir à meia-noite, um deles subiu ao balcão para pedir
aos seus compatriotas que cantassem com ele o hino nacional. Um clamor de
alegria acolheu este convite, mas depois de ter entoado o refrão do poeta
nacional Rabindrana Tagore, a maior parte dos cantores fez uma descoberta
aflitiva: conheciam a letra do God Save the King, mas não a do hino do
seu país. No hotel Maiden, o mais célebre estabelecimento da Velha Deli,
uma encantadora indiana dançava de mesa em mesa para com o seu baton pôr
na testa de cada um tilak escarlate.
Na sombra cúmplice de um jardim próximo do centro, o jornalista Kartar
Duggal Sing celebrou a independência do seu país de uma maneira muito
pessoal. Beijou Aisha Ali, a linda estudante de medicina que encontrara
alguns dias antes. O seu abraço foi o primeiro de uma longa e maravilhosa
história de amor, começada contudo sob os mais desfavoráveis auspícios.
Ia de encontro a estas outras paixões que em breve deviam destruir o
norte da Índia. Kartar Duggal Singh era sikh. Aisha Ali era muçulmana
(Nota 1).
Apesar da exuberância desta noite de Independência, os primeiros sinais
da tempestade já se haviam manifestado no próprio coração da capital. Nos
bairros da Velha Deli, numerosos muçulmanos murmuravam o novo slogan
lançado pelos fanáticos da Liga muçulmana: «obtivemos o Paquistão pelo
direito — vamos agora conquistar o Indostão pela força».

Nota 1 - Os Duggal Singh casaram alguns meses mais tarde no Tempo de Ouro
de Amritsar, o santuário sagrado dos Sikhs. Mas durante onze anos foram
considerados suspeitos e tiveram de viver como párias, sem emprego nem
casa. Tiveram três filhos e habitam hoje Nova Deli. Ele é editor, ela é
médica.

237
Nessa manhã, o mullah de uma mesquita lembrara aos seus fiéis que os
muçulmanos tinham reinado durante séculos sobre Deli e que «Inch Allah,»
com a graça de Deus, iam recomeçar». Inversamente, refugiados hindus e
sikhs do Panjab amontoados em campos de ocasião à volta da cidade
ameaçavam transformar os bairros muçulmanos da capital «numa gigantesca
fogueira para celebrar a independência».
Uma predição exprimiu, nesta noite de festa, a inquietação que começava a
despontar. Ouvindo o concerto dos búzios e dos clamores populares, V. P.
Menon, o brilhante funcionário indiano que em Simla remodelara o plano de
partilha de Mountbatten, tomou repentinamente um ar grave. «É agora que o
nosso pesadelo vai começar», anunciou aos seus filhos.
Para milhões de outros indianos através da península, este 14 de agosto à
meia noite marcava o começo de vinte e quatro horas de alegria. No forte
de Landi Kotal, dominando a passagem de Khyber, carneiros inteiros
assavam sobre uma dúzia de braseiros crepitantes. Os oficiais
paquistaneses e os atiradores do Khyber Rifles festejavam com os seus
tradicionais inimigos, os montanheses das tribos, patanes. O coronel
ofereceu ao seu adjunto e convidado de honra, o capitão inglês Kenneth
Dance, o prato princiapl, o fígado de um carneiro envolvido na tripa
amarelada e gordurosa de um pedaço de intestino. A primeira badalada da
meia noite m homens da tribos pegaram nas espingardas e lançaram na noite
uma rajada de metralha gritando: «A Khyber é nossa, a Khyber é nossa!»
Em Cawnpore, a cidade maldita dos massacres da sublevação de 1857, os
ingleses e os indianos abraçaram-se nas ruas. Em Ahmedabad, a capital da
indústria têxtil onde Gandhi organizara as primeiras greves, um jovem
professor que fora preso em 1942 por ter desfraldado uma bandeira
indiana, recebeu o privilégio de içar o emblema nacional na câmara
municipal.
Em Lucknow, uma cerimónia reuniu os elementos notáveis na residência do
governador para o içar das cores nacionais. Os convites gravados
especificavam: «Trajo nacional. Recomenda o dhoti»: Rajeshwar Dayal, um
indiano funcionário da administração britânica, admirou-se deste
pormenor. Habituado aos fatos e gravatas brancas dos seus antigos
patrões, nem sequer possuía dhoti. O ambiente da recepção foi
absolutamente diferente das reuniões oficiais de outrora. Mal as portas
foram abertas, uma nuvem de mulheres e de crianças lançaram-se sobre os
bolos e as guloseimas do bufete. Ao ver elevar-se a bandeira do seu país,
um curioso pensamento veio ao espírito de Dayal, que traduzia bem a
maneira como os ingleses tinham reinado sobre a Índia. Em 14 anos de
serviço, tivera muitos colegas britânicos. Porém jamais algum havia sido
um «amigo».

238
Em Madras, Bangalore, Patna, em milhares de cidades e de aldeias, as
multidões entraram à meia-noite nos templos para depor pétalas de rosa
aos pés das divindades e pedir as suas bênçãos para a nova nação. Em
Renares, o pasteleiro mais reputado fez um excelente negócio
confeccionando um bolo da independência com as cores nacionais à base de
polpa de laranja, de arroz doce e de pistacha.
Mas em nenhuma parte a independência foi celebrada com mais fervor
entusiasmo que no grande porto de Bombaim. Exactamente à meia noite na
varanda da sua residência, o Primeiro-ministro da província gritou «Sois
livres!» à multidão reunida sob as suas janelas. As duas palavras mágicas
levantaram uma ovação fantástica. Nos passeios desta metrópole, muitas
vezes tingidos com o sangue dos patriotas caídos sob as pancadas de
Lathi, nesta cidade cuja história estava inextricavelmente misturada ao
combate da Índia pela liberdade, nas ruas que tinham visto tantas
manifestações, hartals, greves, todo um povo se entregou à mais louca
alegria. Desde o bairro residencial de Marine Drive aos longínquos
bairros de lata de Parei, das «vilas» de Malabar Hill ao ferro velho
poeirento da Feira da ladra, Bombaim era apenas um mar de luzes. «Meia
noite tornara-se meio dia», escreveu um jornalista. «Era um novo Diwali,
um novo Id, um Novo Ano, eram todas as celebrações desta terra de festas
reunidas numa só, porque era a festa da liberdade».
Uma outra série de recepções que, essas, não tinham nenhum carácter de
regozijo, inaugurou igualmente o início da nova era nos palácios de
alguns representantes da velha Índia dos príncipes. Passara o tempo dos
Maharajas. Para a maior parte deles, o 15 de Agosto seria um dia de luto.
O nizam de Hyderabad ofereceu no seu palácio iluminado um banquete de
despedida aos funcionários britânicos do seu reino cuja missão terminava
esta noite, ao mesmo tempo que se rompiam os laços privilegiados que o
uniam à coroa de Inglaterra. A exuberância da numerosa progenitura do
nisam e a elegância das mulheres não impediram que a soirée se
desenrolasse numa atmosfera de velada fúnebre. No fim da refeição, mesmo
antes da meia noite, o velho monarca vestido de calças remendadas
levantou-se para propor um último brinde ao rei-imperador. John Peyton,
um dos convivas ingleses, observou o rosto fúnebre do seu hospedeiro.
«Como é triste, pensou, ver acabar duzentos anos de história neste único
e patético gesto de adeus».
Para muitos indianos, a noite com que há tantos anos sonhavam foi um
terrível pesadelo. Para o tenente coronel Jangu T. Sataravala, um Parsi
coberto de condecorações do Frontier Force Rifles, ficaria para sempre
associada à mais revoltante visão: a dos corpos horrivelmente mutilados
de toda uma família de hindus ardendo nas ruínas de um subúrbio de
Quetta, no Baluquistão. Ao lado, massacrados com igual selvajaria, jaziam
os cadáveres da corajosa família muçulmana que oferecera hospitalidade a
estes hindus. Sushila Nayar, uma jovem médica, passara dois anos na
prisão e consagrara a sua vida à causa cujo termo era esta noite.

239
Contudo, nem sentia alegria nem sentimento de vitória. Enviada por Gandhi
a um campo de refugiados do Panjab, apenas tinha consciência da miséria
dos milhares de infelizes de que estava encarregada e que incessantemente
aprendiam a obscuridade de recear ver surgir Muçulmanos vindos para os
matar.
Lahore, a cidade que deveria ter sido a mais feliz de todas, oferecia um
espectáculo de desolação. Chegado ao anoitecer com os seus Gurkhas o
capitão Robert Atkins viu acorrer à sua tenda uma multidão de hindus
aterrorizados. Agarrados aos filhos, a uma trouxa, a um colchão,
imploravam a protecção dos soldados. Cerca de cem mil hindus e sikhs
estavam cercados nas muralhas da velha Lahore, sem água, rodeados pelas
chamas dos incêndios, perseguidos por grupos de muçulmanos prontos a
saltar sobre aqueles que se aventurassem a sair. Os incendiários tinham
já deitado fogo ao mais célebre guru-dwara sikh e saudado com ovações os
gritos das suas vítimas que ardiam no interior.
Em compensação, Calcutá, a cidade maldita, estava a viver uma
surpreendente metamorfose. Esta tinha começado timidamente antes do pôr
do sol, quando uma procissão de hindus e de muçulmanos se dirigira para
Hydari Mansion, o quartel general de Gandhi. À sua passagem, a atmosfera
modificava-se pouco a pouco. Nos amontoados miseráveis de Kelganda Road e
à volta da gare de Sealdah, os goonda hindus e muçulmanos metiam os
punhais na bainha para juntamente afixarem bandeiras indianas nos
candeeiros e nas varandas. Xeques abriam as suas mesquitas aos adoradores
de Kali; Estes, em paga, convidavam os muçulmanos a vir aos seus templos
contemplar as estátuas da deusa da destruição.
Fanáticos que, vinte e quatro horas antes, estavam prontos para se
degolar, estreitavam-se agora na rua. Mulheres e crianças hindus e
muçulmanas trocavam guloseimas. Para o escritor bengali Kumar Bose,
Calcutá evocava «a noite de natal do filme «A Oeste nada de novo», quando
os soldados franceses e alemães saem das suas trincheiras para durante um
curto momento esquecerem que são inimigos».
Enquanto a Índia se entregava à sua alegria, uma pequena revolução
agitava a vasta habitação que fora o santuário do poder imperial
britânico. De um canto a outro do palácio de Nova Deli, um exército de
criados trabalhavam para fazer desaparecer os símbolos imperiais
susceptíveis de ofender as sensibilidades de uma nação tornada livre. Uma
equipa de criados ia de divisão em divisão substituir o papel de cartas
com cabeçalho de «Vicerby's House» por novos blocos com a menção
«Government House». Outros tinham por missão fazer desaparecer os
armários imperiais da sala do trono. Uma série de insígnias escapou à
modificação. O monograma do visconde de Mountbatten da Birmânia continuou
a figurar nas caixas de fósforos, nas anilhas dos charutos, nas
saboneteiras e nas manteigueiras do palácio.

240
Um pouco depois da meia noite, uma delegação do Parlamento indiano chegou
ao palácio. Na sua qualidade de presidente da nova assembleia
constitucional, o Dr. Rajendra Prasad vinha solenemente convidar o último
vice-rei das Índias a tornar-se o primeiro governador-geral da Índia
independente. Com emoção e gravidade, Lord Mountbatten prometeu servir a
Índia como se ele próprio fosse indiano. Nehru entregou-lhe em seguida um
envelope contendo a lista das personalidades que, com o seu acordo,
deviam formar o primeiro governo da nova Índia.
Mountbatten pegou então numa garrafa de Porto e serviu ele próprio os
seus visitantes. Depois ergueu o seu copo: «à saúde da Índia!» propôs.
Após ter bebido uma golada, Nehru ergueu o seu à saúde do inglês. «Ao rei
Jorge VI!» disse. Esta homenagem suscitou a admiração e o respeito do
almirante inglês. «Que homem! pensou, Após tudo o que passou, tem a
elegância e a generosidade de fazer tal gesto em semelhante noite.»
Antes de ir deitar-se, Mountbatten, abriu o envelope que Nehru lhe
entregara. Ao descobrir o seu conteúdo, desatou a rir. Na pressa desta
noite louca, Nehru esquecera-se de escrever os nomes dos seus ministros.
A folha estava virgem.
Um pequeno grupo de ingleses abria caminho através da obscuridade e da
multidão que cercava a gare de Lahore. Eram os últimos representantes de
uma nobre linhagem de administradores, de polícias, de soldados, que
tinham feito do Panjab o orgulho da Índia britânica. Agora regressavam a
casa, deixando a outros os canais, as estradas, as vias férreas, as
pontes que os seus predecessores tinham construído. Ao chegarem ao seu
comboio viram ferroviários lavar o cais com abundante água. Algumas horas
antes, a gare tinha sido teatro de um massacre de refugiados hindus. Bill
Rich, que acabava de terminar a sua missão, de chefe da polícia de
Lahore, notou um pormenor atroz: carregadores empurravam um carro de
bagagens, mas não estava cheio de encomendas. Eram cadáveres que aí iam
amontoados. Para subir para o seu vagon, Rich teve depois de saltar um
corpo. Não foi contudo a visão deste homem jazendo mutilado aos seus pés
que mais o espantou, mas sua própria indiferença, a sua descoberta brutal
do grau de endurecimento a que os horrores do Panjab o tinham conduzido.
Rule Dean, o seu colega de Amritsar que lhe enviara a fanfarra tocar
operetas à praça da cidade, contemplava com melancolia a paisagem que
desfilava, por detrás dos vidros do seu compartimento. Via as chamas
devorando as aldeias que tinha como missão proteger. No clarão
avermelhado dos braseiros, distinguia por vezes as silhuetas dos
incendiários dançando uma dança macabra.
«Em lugar de partirmos na paz e na dignidade, pensava, apenas deixamos
atrás de nós o caos.»

241
A meio caminho de Nova Deli, foi atrelado ao comboio um vagão-
restaurante. À vista da louça e das toalhas imaculadas o oficial inglês,
que em breve venderia utensílios de plástico num subúrbio de Londres,
compreendeu que o Pankjab passara para um outro mundo.
A habitação em ruínas de Beliaghata Road estava silenciosa. À porta um
punhado de hindus e de muçulmanos faziam guarda, lado a lado. Nenhum
clarão era visível por detrás dos vidros quebrados de Hydari Mansion.
Nada, nem mesmo os acontecimentos desta noite histórica, tinham
perturbado o ritmo imutável dos hábitos do seu ocupante. Na divisão que
partilhava com os seus companheiros, ele estava estendido numa esteira de
ráfia, colocada no chão. Ao lado de socos de pau, de um exemplar da Gitâ,
de uma dentadura e de uns óculos com aros de ferro, enquanto soavam as
doze badaladas mágicas de uma nova era e a Índia despertava para a vida e
para a liberdade, Mohandas Karamchand Gandhi dormia num sono profundo.

242
Capítulo décimo segundo

COMO É BELO ESTAR VIVO NESTE ALVORECER»

A brisa da aurora dissipou enfim o manto de bruma que cobria as águas.


Como faziam desde a noite dos tempos, as multidões convergiram para as
margens sagradas do Ganges, considerado como o céu aqui na terra, «este
grande canal fúnebre e receado (Nota 1), mãe de toda a vida e rio dos
deuses, para procurar na imersão ritual o caminho da eternidade. Nenhuma
cerimónia podia celebrar melhor o nascimento deste 15 de Agosto de 1947.
Benares, que os hindus consideram a primeira terra emersa do primordial
oceano, honrava com os seus ritos matinais a mais jovem nação do globo.
Estes ritos eram a expressão perpetuamente renovada da eterna história de
amor que unia os hindus ao seu rio sagrado. Por esta união mística, o
hinduísmo exprime a necessidade natural do homem de se entregar às forças
misteriosas que governam o seu destino. Desde a base do glaciar do
Himalaia onde nasce a mais de cinco mil metros de altitude até às águas
lamacentas do golfo de Bengala, o Ganges atravessa em dois mil e
quinhentos quilómetros regiões tórridas e superpovoadas. O seu caudal
caprichoso inunda e devasta regularmente as terras dos camponeses que o
adoram. O seu curso cava as ruínas de cidades e de aldeias abandonadas,
testemunhos silenciosos das suas bruscas cóleras no decorrer dos séculos.
A despeito da sua turbulenta natureza, os Hindus consideram-no todo como
um lugar privilegiado, não o sendo, porém, nenhum mais que o largo
crescente que desenha durante a travessia de Benares. Desde todos os
tempos, os hindus vieram banhar-se a este sítio, beber a água sagrada e
implorar aí os favores dos deuses caprichosos.
As multidões silenciosas desciam ao longo dos ghât, as largas escadas que
conduzem ao rio. Cada peregrino trazia como oferta uma pequena lâmpada de
manteiga derretida ou de cânfora, símbolo da luz que afasta as trevas da
ignorância, piedoso pensamento transmitido a um outro mundo pelo fogo e
pela água. Metidos até ao peito no rio sagrado, milhares de outros, cujas
chamas vacilantes se pareciam a Miríades de pirilampos, estavam já
imóveis, absortos pela sua oração. Depois de ter oferecido ao Ganges
coroas de flores, o olhar voltado para lá da margem oposta, os peregrinos
esperavam a renovação do milagre quotidiano, a aparição do disco de fogo
que ia surgir das entranhas da terra, o sol, origem de todas as formas de
vida. Logo que a sua auréola despontava no horizonte, milhares de cabeças
se voltavam ritualmente para ele numa explosão de fervor.

Nota 1 - André Malraux, «Antimemórias»

243
Depois, para lhe agradecer este prodígio, os fiéis ofereceram-lhe água de
Ganges - a que dissolve todas as formas - que deixaram correr das suas
mãos entreabertas.
Na cidade, a honra de ser o primeiro a transpor o limiar do Templo de
Ouro, o santuário mais venerado de Benares, pertenceu ainda esta manhã ao
pandi1 Brawani Shankar. Ninguém, em Benares, sentia a independência com
tanta alegria como este velho homem de Deus. Durante anos, dera asilo aos
nacionalistas perseguidos pela polícia britânica.
Com um vaso de cobre cheio de água do Ganges e uma taça de sândalo nas
mãos, o padre atravessou o templo para se deter perante uma grande pedra
de granito. Este rochedo arredondado era a mais preciosa relíquia hindu
de Benares. Subtraindo-a à pilhagem das hordas fanáticas do imperador
Aurangzeb, os antepassados do santo homem haviam conquistado o direito de
serem os seus guardas hereditários. Que o padre viesse prosternar-se
perante ele, era o gesto mais próprio para dar graças aos deuses neste
dia da independência.
Este culto era uma das mais antigas formas do fervor religioso.
Era um lingam, um «sinal» de pedra simbolizando o poder vital do Deus
Shiva, o atributo da força do poder gerador da natureza. Benares era o
centro desse culto. Aí os lingam erguiam-se em quase todos os templos, no
fundo de nichos cavados nas ruas, nos degraus das ghât. Quando o sol
apareceu, milhares de hindus imitaram o velho pandit e exprimiram a sua
gratidão pela reincarnação da sua antiga nação cobrindo com amor a
superfície polida dos lingam com ofertas de massa de sândalo, de leite,
de água do Ganges, de manteiga derretida, entrançando-lhe coroas de
jasmim e de cravos da Índia e oferecendo-lhe pétalas de rosas e as folhas
amargas da árvore preferida de Shiva, a bilva (Nota 2).
Enquanto o clarão da aurora coloria a cidade de um tom rosa, um grupo de
Intocáveis — aqueles a quem Gandhi chamava os Filhos de Deus -, as costas
curvadas sob o peso de feixes e de grandes achas de pau, desceram os
degraus do lugar mais alucinante de Benares, a ghât de Manikarnika.

Nota 1 - Título honorífico dado na Índia aos Brâmanes instruídos na


ciência religiosa, aos fundadores de seitas, etc. (N. da T.)
Nota 2 - Uma pitoresca lenda hindu revela assim a origem de culto do
Lingam. Um dia, o Deus Shiva e a sua esposa Parvati embriagaram-se e
foram surpreendidos a ter relações por Vishnu acompanhado de outros
deuses. Absortos pelos seus entusiasmos, não deram qualquer atenção aos
seus visitantes. Escandalizados por esta desordem, os deuses lançaram uma
maldição ao casal divino e foram-se embora.
Quando Shiva e Parvati tiveram conhecimento do que se passara, morreram
de vergonha na posição em que haviam sido surpreendidos. «A vergonha que
me matou, proclamou Shiva, deu-me uma nova vida sob a forma de um lingam.
Este e branco. Tem três olhos e cinco caras. Tem riscas como uma pele de
tigre. Existia antes do mundo e é a fonte e o começo de todas as coisas.
Faz desaparecer os nossos receios e os nossos terrores e permite a
realização do nosso destino».

244
Alguns minutos mais tarde, quatro homens levando aos ombros uma padiola
de bambu desembocaram no cimo da escada. Diante deles caminhava uma Qumta
personagem que ritmava docemente em pequenos címbalos e mantra sagrado
que eles salmodiavam «Râmnam satya kai» - o nome de Râm é Verdade». Estas
palavras lembravam a todos os que viam passar a pequena procissão que um
dia também eles acabariam como este corpo que repousava na padiola,
embrulhado numa mortalha de algodão.
Morrer em Benares é para todo o hindu a surpresa bênção. Se a morte o
surpreende no interior de um perímetro de 60 quilómetros à volta da
cidade, Shiva, a sua divindade tutelar, liberta-o do ciclo perpétuo das
reincarnações e permite à sua alma fundir-se para a eternidade no paraíso
de Brahma. É por isso que se vem a Benares não para aí viver mas para aí
morrer.
Os transportadores desceram até ao rio o despojo do primeiro candidato do
dia à celeste viagem e mergulharam-no no Ganges pela última vez. Um deles
abriu depois a boca do defunto para aí deixar cair algumas gotas de água.
Depois colocaram o corpo sobre uma fogueira. Os Intocáveis de serviço
cobriram o cadáver com lenha e despejaram-lhe em cima um pote de ghi,
manteiga clarificada.
Com o rosto e o crânio rapados o corpo purificado pelas abluções rituais,
o filho mais velho do defunto deu cinco vezes a volta à fogueira para um
último adeus. Um servidor do templo vizinho dedicado a Ganesh, o Deus com
cabeça de elefante, entregou-lhe então uma tocha acesa no fogo perpétuo
do santuário. Pô-la sob a lenha e um monte de chamas saiu da pirâmide de
lenha. Os homens da família sentaram-se à volta do braseiro que
projectava para o céu de verão um geyser de faúlhas. Um ruído seco saiu
de repente do crepitar das chamas. Os fiéis recolheram-se mais
profundamente murmurando uma acção de graças. O crânio do defunto acabava
de rebentar, abrindo assim à energia cósmica os canais em que circulara a
energia vital. Neste 15 de Agosto de 1947, quando a Índia se libertava da
servidão imperialista, Benares, como todas as manhãs, oferecia aos seus
mortos a suprema libertação.
Cerca de das duas horas da manhã - uma hora antes do levantar habitual de
Gandhi -, apareceu à janela de Hydari Mansion a luz incerta de uma vela.
O dia em que o seu povo celebrava a libertação deveria ter sido uma
apoteose para o velho profeta, a coroação de uma cruzada que provocara a
admiração do mundo e mudara o curso da história. Não era nada disso. A
vitória porque aceitara tantos sacrifícios tinha um gosto a cinzas.
Como durante a sua peregrinação do Ano Novo através dos pântanos do
distrito de Noakhali, sete meses antes, o doce apóstolo da não-violência
estava cheio de dúvidas. «Já não vejo claro, escrevera na véspera. Terei
conduzido o país para um caminho errado?»

245
Como era hábito nos momentos de incerteza e de sofrimento, Gandhi
debruçara-se desde o despertar sobre o livro desde há tempo tornado o seu
guia, o canto celeste da Bhagavad Gítâ. Quantas vezes os seus versículos
o não tinham consolado já?
Ainda hoje, acocorado sobre a sua esteira com o tronco nu Gandhi
inaugurava portanto a independência da Índia lendo a Gitâ. Rodeado pelos
discípulos, recitava o primeiro dos dezoito diálogos do santo livro, um
apelo desesperado lançado a Krishna pelo guerreiro Arjuna: «No campo do
cumprimento do Dharma, no campo sagrado de Kuru, os meus homens e os
filhos de Pandu estão espalhados, ardendo no desejo de se baterem Que
devem eles fazer, ó Sanjaya?»
Esta interrogação aplicava-se extraordinariamente nesta hora patética da
história indiana.
Um ruído velho como a vida despertara-o: o bater regular da pedra contra
a pedra. Num pátio da aldeia de Chatharpur, perto de Nova Deli um
camponês estendido sobre as cordas entrelaçadas de um charpoy abriu os
olhos. No clarão ambreado de uma lâmpada de óleo, viu a esposa debruçada
sobre um almofariz. Com o rosto meio oculto pelas pregas do véu que lhe
envolvia o corpo, pilava o grão do dia para a família.
Como todas as manhãs, a primeira preocupação do camponês Ranjit Lai, com
a idade de 52 anos, foi purificar-se lavando a boca para pronunciar o
mantra ensinado pelo pai: «Que o esplendor do Sol, que é o esplendor de
Deus, nos ajude!» «Oh Vishnu, murmurou, Shiva, Sol, Lua, Marte, Mercúrio,
Júpiter, Vénus, Rahu, Ketu, fazei que o dia nos seja propício!» Depois
levantou-se saiu do pátio para se juntar aos outros camponeses que se
escapavam no clarão da aurora para o campo que servia de latrinas
públicas aos três mil habitantes de Chatharpur, uma das 557987 aldeias da
Índia.
A dominação estrangeira que nesta aurora de Agosto acabava não perturbava
absolutamente nada estes homens. Nunca em toda a sua existência, Ranjit
Lai dirigira uma palavra pérfida a um representante da raça que governara
o seu país. Como todos os outros aldeãos apenas via um Inglês uma vez por
ano, quando o colector regional dos impostos vinha a Chatharpur
assegurar-se de que a aldeia pagava correctamente as suas taxas. A única
frase que sabia pronunciar na língua dos senhores da Índia era a que os
seus companheiros e ele próprio empregavam para designar aquilo que
estavam a fazer: the call of nature, «o apelo da natureza». Embora
qualificado com um termo estrangeiro, este acto era objecto de vinte e
três regras hindus draconianas. Ranjit Lai tinha na mão esquerda uma
jarra de cobre cheia de água. O dhoti com que estava vestido nem devia
ser novo nem ter sido lavado há pouco. O campo para que se dirigia fora
escolhido em virtude do seu afastamento de qualquer ribeira, poço,
encruzilhada, lago, figueira ou qualquer outra árvore sagrada, bem como
do templo da aldeia.

246
Ao chegar ao campo, o camponês suspendeu o seu triplo cordel de brâmane
na orelha esquerda, cobriu a cabeça com as abas do dhoti, tirou as
sandálias e agachou-se tão baixo quanto possível. Qualquer outra posição
era incorrecta. Devia então observar um silêncio absoluto e nem olhar o
sol, nem a lua, nem as estrelas, nem o fogo, nem uma figueira, nem um
outro brâmane, nem o templo da aldeia.
Quando terminou, Ranjit Lai levantou-se evitando olhar para trás e lavou
os pés e as mãos com a água, da sua jarra. Depois, tendo cuidado em
proteger, com a mão esquerda, as suas partes íntimas, dirigiu-se ao
tanque da aldeia. Para as suas abluções, utilizou um punhado de terra
cuja natureza estava rigorosamente determinada. Não devia, sob qualquer
pretexto, provir de uma pastagem, de um cemitério, do recinto de um
templo, de um formigueiro, do pé de uma árvore, de um terreiro ou de um
caminho. Nem devia ser salgada nem estéril e não devia servir para os
oleiros. Misturando a terra com água, o camponês limpou, sempre com a mão
esquerda, a parte suja do seu corpo (Nota 1). Após isso, lavou as mãos
cinco vezes seguidas começando pela esquerda, igualmente cinco vezes os
pés começando pelo direito, depois lavou três vezes a boca tendo o
cuidado de cuspir bem para a esquerda a água poluída. Feito isto, estava
preparado para respeitar a vigésima terceira prescrição que acompanhava a
libertação quotidiana dos seus intestinos. Purificou o interior do seu
corpo bebendo, pela concha da mão, junto do punho, três goladas de água
em que invocara a presença do Ganges.
Cumprido este rito, Ranjit retomou o caminho de casa atravessando a terra
ingrata dos campos a que com dificuldade arrancava a subsistência da
mulher e dos sete filhos. No amanhecer, podia aperceber três figueiras
cuja ramagem se abria como sombrinhas por cima de uma pequena esplanada.
Era o lugar de cremação da aldeia. Uma almenara de pedra elevava-se na
bruma do horizonte. À sua esquerda, apareciam duas graciosas cúpulas,
ruínas de uma metrópole construída no século XIII pelo sultão Aladine,
fundador de uma das sete cidades da antiga Deli.
Para o norte, a menos de trinta quilómetros, nas largas avenidas de Nova
Deli, Ranjit Lai e os seus concidadãos tinham esta manhã entrevista com a
história. A maior parte deles nunca antes efectuara esta curta viagem. Em
52 anos, Ranjit apenas fizera uma vez, para comprar na rua da prata do
bazar da Velha Deli a bracelete de casamento da filha mais velha. Mas
hoje para os aldeãos de Chatharpur bem como para os de todos os
arredores, as distâncias já não existiam. Braços múltiplos de um rio
imenso, acorriam para o centro da sua capital em festa para aí celebrar a
libertação de uma colonização que a maior parte nem sequer conhecera.

Nota 1 - O umbigo é para os hindus a fronteira do corpo. A mão esquerda


deve ser utilizada para todos os actos a realizar abaixo deste. Para
cima, é em geral a mão direita que é empregue.

247
«Sede bendita, maravilhosa aurora de liberdade, que imunda de ouro e de
púrpura uma antiga capital», cantava o poeta às multidões que submergiam
a cidade. Havia caravanas de tonga, tocando alegremente todos os seus
guizos. Havia bois com os cascos e os chifres pintados de açafrão branco
e verde, que puxavam compridos carros cheios de famílias em júbilo. Havia
camiões transbordando de cachos humanos, com o tejadilho e os lados
decorados com pinturas ingénuas cheias de serpentes, de águias de falcões
e de vacas sagradas sobre um fundo de montanhas cobertas de neve. As
pessoas chegavam montadas em burros, a cavalo, de bicicleta, a pé,
camponeses com turbantes de todas as cores, mulheres vestidas com saris
cintilantes e com toda uma quinquilharia de jóias que lhes brilhavam nos
braços, nos tornozelos, nos dedos e nas narinas.
Nesta barafunda fraternal, nem existia posição, nem casta, nem religião.
Brâmanes, intocáveis, hindus, sikhs, muçulmanos, parsis, anglo-indianos,
todos riam, cantavam, choravam.
Ranjit Lai alugara por quatro anos uma tonga em que se meteram a mulher e
os sete filhos. À sua volta, ouvia camponeses volúveis explicar porque
iam todos a Nova Deli. «Os ingleses vão-se embora, gritavam eles. Nehru
vai içar a nossa bandeira. Somos livres!»
Um toque de trombetas de prata anunciou a abertura das cerimónias da
independência pela entronização do primeiro governador-geral
constitucional da jovem nação indiana. O homem que ia prestar juramento
era um inglês, aquele que acabava de assumir as mais altas funções de um
império destinado pelos seus fundadores a adorar mil anos. Com o mesmo ar
grave que arvorara em Karachi, o bisneto da rainha Victória avançou na
sala do trono onde ia receber uma honra única na história mundial da
descolonização. Para Lord Mountbatten, «o dia mais importante da sua
existência» acabava de começar, este dia em que o povo indiano, a quem
aliás acabava de dar a sua soberania, o convidava a continuar o seu chefe
supremo. A esposa Edwina caminhava ao seu lado, vestida com uma capa de
lamé prateado, os cabelos castanhos presos por um diadema. Decidido a que
este dia se desenrolasse numa última explosão de pompa», Mountbatten
cuidara ele próprio dos mínimos pormenores das cerimónias da
independência, imprimindo-lhes a sua delicadeza e o seu gosto pelo
fausto. Uma escolta de uniformes enfeitados conduzia o par real para os
tronos dourados de que haviam tomado posse cinco meses antes.
De pé à sua esquerda e à sua direita sobre um estrado de mármore estavam
os novos senhores da Índia, Nehru em jodhpur de algodão e colete de linho
cru, Vallabhbhai Patel, semelhante a um imperador romano no seu dhoti
branco, os outros com o barrete branco do partido do Congresso.

248
Tomando o lugar ao lado dos ministros, Mountbatten pensou com humor que
pelo menos todos tinham em comum uma experiência, a de terem sido os
hóspedes das prisões britânicas. Foi portanto perante este nobre areópago
de antigos pensionistas da administração penitenciária de Sua Majestade
que levantou a mão direita para jurar solenemente ser o humilde e fiel
servidor da Índia independente. Os ministros de que, na véspera, Nehru se
esquecera de dar a lista, prestaram por sua vez juramento perante o
inglês que dera a independência ao seu país.
Fora, as vinte e uma salvas celebrando o acontecimento começaram a
ressoar através da capital em júbilo (Nota 1). Junto da monumental escada
da sala do trono, coberta com uma passadeira vermelha, esperava o carro
preto e dourado fabricado nos ateliers londrinos da casa Barker e Ca.,
para a visita real às Índias de Jorge V e da rainha Maria. Diante da
atrelagem de seis cavalos baios estava alinhada toda a guarda a cavalo do
governador-geral em botas negras brilhantes, túnicas brancas de verão
apertadas com cinturões bordados a ouro, e turbantes de seda azul. O
cortejo fulgurante de cores agitou-se, oficiais de sabre desembainhado,
cavaleiros com as lanças ao alto e os estandartes flutuando ao vento,
cintilando ao sol. Quatro esquadrões reunidos num feérico cambiante de
luzes preparavam-se para o último espectáculo de um velho álbum de
glórias e a primeira parada da Índia independente. Lord Mountbatten, de
pé na carruagem, saudava a dupla fila de guardas a cavalo que prestavam
as honras aos portões do palácio.
Para além, a Índia esperava. Uma Índia como nenhum inglês pudera
contemplar em três séculos de colonização. A verdadeira dimensão fora
sempre o desmedido das suas multidões, mas nunca um tal oceano havia
submergido Nova Deli. O cortejo depressa foi invadido, os cavalos da
guarda obrigados a marcar passo. O protocolo decalcado sobre as tradições
de uma outra Índia foi afastado, absorvido pela Índia nova, triunfante
que afogava o ouro e a púrpura no turbilhão de milhares de cabeças
morenas.
«Caem as cadeias à minha volta», pensou o jornalista sikh que, na noite
precedente, saudara a independência beijando uma estudante de medicina
muçulmana. Recordou-se que um dia, na sua infância, um estudante inglês o
empurrara de um passeio. «Ninguém poderá mais fazer-me isso», pensou. Não
via mais à sua volta nem pobres nem ricos, nem intocáveis nem senhores,
nem advogados nem empregados bancários, nem coolies nem pickpockets,
havia apenas pessoas felizes que se abraçavam e se interpelavam ao grito
de Azad, Sahib - «Somos livres, Senhor!» «Era como se todo um povo
tivesse encontrado subitamente a sua casa», recorda uma outra testemunha.

Nota 1 - Só os vice-reis das Índias haviam tido direito à saudação de


trinta e um tiros de canhão. A saudação foi reduzida a vinte e um tiros
para o governador-geral.

249
Ao ver a bandeira do seu país flutuar pela primeira vez na messe dos
oficiais de Nova Deli, o major indiano Ashwini Dubey pensava: «Nesta
messe onde nós fomos bodes expiatórios, agora já apenas haverá acima de
nós camaradas indianos».
Diante da mesma bandeira, Sulochana Pahdi, uma liceal de 16 anos
partilhava com milhões de jovens a «impressão de se tornar adulta ao
mesmo tempo que o seu país». Recordou um verso de William Wordsworth que
aprendera nos bancos da sua escola britânica: «Como é belo estar vivo
neste alvorecer murmurou, e como ser jovem é o paraíso».
Para muitos indianos, a palavra mágica de independência significava o
nascimento de um mundo novo. Ranjit Lai, o camponês de Chatharpur
assegurou aos filhos de que não teriam mais falta de comida. Em nome da
jovem liberdade, alguns creram que doravante tudo era gratuito e
autorizado. Assim, um mendigo penetrou na tribuna reservada aos
diplomatas. Ao polícia que lhe pedia o seu cartão de convite, exclamou:
— O meu convite? Porque precisaria eu de um convite? Tenho a minha
independência. Isso basta.
Em todo o país se desenrolavam as mesmas cenas de júbilo. Em Calcutá, uma
multidão vinda dos bairros da lata penetrou no palácio dos antigos
governadores, enquanto Sir Frederick Burrows e a esposa ainda aí tomavam
o pequeno-almoço. Indianos, que nunca haviam dormido senão em cordas de
um charpoy quando não era mesmo no chão, celebraram a independência
saltando como crianças na cama onde haviam dormido gerações de
governadores britânicos. Outros exprimiram a sua alegria apunhalando com
a ponta do guarda-chuva os retratos dos antigos senhores da Índia.
Em Bombaim, foi no templo da elegância imperial, o hotel Taj Mahal que a
multidão se precipitou. Em Madras, os indianos com a pele negra das
gentes do sul desfilaram todo o dia ao longo do molhe para contemplar com
orgulho a bandeira flutuando no forte Saint-Georges, primeira fortaleza
da East Índia Trading Company Britânica. Em Surat, dúzias de veleiros
embandeirados participaram numa regata da independência na baía onde o
capitão do Galeão Hector inaugurara a epopeia indiana.
Este dia trouxe uma liberdade ainda mais tangível a uma certa categoria
de cidadãos. Uma amnistia geral abriu as portas das prisões a centenas de
presos políticos. Foram comutadas condenações à morte. Mesmo os animais
foram privilegiados, estando todos os matadouros fechados nesse dia. A
Índia mística, a Índia dos Fakirs e das lendas, tomou parte na festa. Em
Turukalikundram no sul, as duas águias brancas que todos os dias ao meio
dia descem do alto dos céus para vir comer às mãos do padre do templo,
celebraram o acontecimento batendo alegremente as asas, afirmou-se. Na
selva de Madura perto de Madras, sadhus entregaram-se a espectaculares
demonstrações. Suspensos de ganchos enterrados nas costas dedicaram o seu
sacrifício à independência da Índia - e recolheram logo uma abundante
colheita de esmolas.

250
O dia foi marcado por uma boa vontade geral para com os ingleses e _ela
dignidade com que estes últimos participaram nas cerimónias. Em Shillong,
o coronel britânico que comandava os atiradores dos Assam Rifles
esquivou-se discretamente para deixar ao seu adjunto indiano a honra Je
presidir ao desfile da independência. Peter Bullock, director da imensa
plantação de chá de Chuba, perto da fronteira Birmane, deu feriado aos
seus mil e quinhentos trabalhadores e ofereceu-lhes uma grande festa,
enquanto que a maior parte deles não conhecia a razão disso.
Houve excepções. Em Simla, a Senhora Maud Penn Montague recusou-se a
deixar a casa em que dera tantos jantares e bailes. Nascida, bem como o
seu pai, na península, considerava a Índia como a sua única pátria. À
excepção de cinco anos de colégio na Inglaterra, passara aí toda a sua
vida. A um amigo que lhe sugeria que chegara o momento de se ir embora,
replicara: «Meu caro, que iria eu fazer para a Inglaterra? Eu nem sequer
sei ferver a água para o chá». Assim, enquanto a antiga capital de verão
do império se entregava à alegria, ela ficou em casa a chorar, incapaz de
ver subir outra bandeira ao mastro onde flutuara a sua querida Union
Jack.
Para o Paquistão, o 15 de Agosto ocorria num dia particularmente
favorável. Era a última sexta-feira do mês do Ramadan. As festividades
glorificavam quase tanto o patrono do Paquistão como o nascimento do
próprio Estado. A fotografia e o nome de Jinnah espalhavam-se por todo o
lado, às janelas, nos bazares, nas lojas, nos gigantescos arcos de
triunfo sobrepostos às avenidas. Um pequeno anúncio no Pakistan Times
declarava mesmo que «por intermédio da voz dos seus guardas, os camelos,
os macacos e os tigres do zoo de Lahore se associavam à alegria geral
para enviar as suas felicitações ao Quaid-i-Azam e anunciar Pakistan
Zindabad». Em Dacca, a capital do Paquistão Oriental onde «o grande
líder» nunca pusera os pés, o seu retrato decorava todas as montras.
Jinnah celebrou pessoalmente este dia de apoteose apoderando-se de todas
as alavancas de comando do Estado. Durante os poucos meses que lhe
restavam de vida, aquele que proclamara tão ardentemente a sua vontade de
respeitar as regras constitucionais governava como ditador. Contudo o
membro mais próximo da sua família não estava ao seu lado para partilhar
o seu triunfo. A oitocentos quilómetros de Karachi, na varanda de um
apartamento de Colaba, um dos bairros mais elegantes de Bombaim, uma
jovem decorara a sua varanda com duas bandeiras, uma indiana, a outra
paquistanesa. A sua justa posição simbolizava o dilema que representava a
independência para tantos muçulmanos. Dina, a única filha de Mohammed Ali
Jinnah, ainda não pudera escolher entre a terra do nascimento e a nação
islâmica criada por seu pai. I Conscientes do drama que se escondia por
detrás da euforia deste dia, numerosos indianos foram incapazes de
partilhar a alegria dos seus compatriotas. Em Lucknow, Anis Kidwai
recordar-se-á sempre do espectáculo incongruente da multidão cantando a
sua alegria agitando bandeiras, ao lado de pessoas que soluçavam porque
acabavam de ter conhecimento da morte de parentes massacrados no Panjab.

251
O advogado Sikh Khushwant Singh, originário de Lahore ficou indiferente
ao transbordar das multidões em delírio de Nova Deli. «Não tinha nenhuma
razão de me regozijar, recorda com amargura. Para mim, corno para milhões
de pessoas no meu caso, a independência traria uma tragédia. Haviam
mutilado o Panjab, e eu perdera tudo».
No Panjab, este dia glorioso era um dia de horror. Em Amritsar, enquanto
as novas autoridades ordenavam um rápido içar da bandeira na antiga
fortaleza mongólica, Sikhs devastavam um bairro muçulmano. Massacraram
sem piedade os homens, arrancaram os fatos às mulheres, violaram-nas, e
arrastavam-nas através da cidade até ao Templo de Ouro antes de as
degolar. No Estado de Patiala, outrora governado por Bhupinder Singh, «o
magnífico» bandos de Sikhs vagueavam pelos campos em busca dos refugiados
muçulmanos que fugiam para o Paquistão. O príncipe Balindra Singh, irmão
do Maharaja, caiu sobre um destes grupos armados com enormes Kirpan, os
seus sabres tradicionais. Suplicou-lhes que voltassem aos seus trabalhos.
- É o tempo da ceifa, argumentou. Deveríeis voltar para casa e ceifar as
vossas colheitas.
— Temos primeiro uma outra colheita a ceifar, replicou o chefe fazendo
voltejar o seu Kirpan.
A construção de tijolo da gare de Amritsar tornara-se um verdadeiro campo
de refugiados. Os milhares de hindus que fugiam do Panjab Ocidental
tinham invadido as salas de espera, os guichés, os gabinetes, os cais,
espreitando a chegada de cada comboio na esperança de encontrar membros
das suas famílias.
Ao entardecer do 15 de Agosto, o chefe da gare Chani Singh abriu uma
passagem no meio desta multidão superexcitada, apoiando-se na autoridade
que lhe conferia o seu boné azul e a bandeira vermelha que brandia na
mão. Chani Singh conhecia antecipadamente a cena que se seguiria à
chegada do expresso n.° 10. A cada comboio se reproduzia a mesma coisa.
Homens e mulheres lançavam-se às janelas e às portinholas dos vagões de
terceira classe na busca angustiada de um filho perdido na fuga, gritando
nomes, abraçando-se em crises de desespero. Pessoas corriam de vaga em
vaga chamando parentes ou procurando alguém da sua aldeia susceptível de
lhes dar notícias. Havia crianças em lágrimas abandonadas no meio de
pacotes e de trouxas, e outras nascidas durante o êxodo que continuavam,
nesta confusão, a chupar o peito da mãe em lágrimas.
Chani Singh conseguiu atingir a extremidade do cais e baixou a bandeira
logo que a locomotiva apareceu.

252
Um pormenor o impressionou. Quando o assobiar do vapor e o chiar dos
travões se calaram, o chefe da gare compreendeu que no expresso n.° 10 se
passava algo de insólito. Um silêncio petrificado abatera-se sobre o
cais. Chani Singh inspeccionou a enfiada dos oito vagões. Todos os vidros
dos compartimentos estavam baixados, mas não se via nenhum viajante. Nem
uma portinhola se abrira. Ninguém descia dos vagões. Era um comboio de
fantasmas que acabara de entrar na gare de Amritsar. O chefe da gare
desferrolhou uma portinhola e subiu ao interior para aí descobrir um
amontoado de corpos degolados, desventrados, com os crânios rebentados.
Pernas, braços, troncos juncavam os corredores. De uma pilha de cadáveres
saiu um gemido estrangulado. Chani Singh gritou imediatamente «estais em
Amritsar, aqui somos todos hindus e sikhs. A polícia está aí. Não tenhais
medo». Alguns feridos mexeram-se então levemente. O pesadelo ficaria
gravado na memória do chefe da gare. Uma mulher apanhou a cabeça do
marido num lago de sangue e apertou-a nos braços gritando. Crianças
agarravam-se às mães massacradas, homens loucos de dor retiraram duma
pilha de cadáveres os corpos mutilados dos seus filhos. Estonteado, o
chefe da gare corria de um vagão para o outro. Em cada compartimento, o
espectáculo era o mesmo. Ao último, foi acometido de náusea e começou a
vomitar. Asfixiado pelo cheiro de carneiro, fechou os olhos,
interrogando-se «como os deuses tinham podido permitir semelhante
horror». Quando levantou a cabeça, descobriu, pintada em letras grandes
no lado da última carruagem a assinatura dos assassinos. Leu: «Este
comboio é o nosso presente de independência a Nehru».
Em Calcutá, com as suas orações e a sua roda, Gandhi conseguira
conquistar os bairros da lata, onde se esperava uma explosão de uma
violência ultrapassando em amplitude e em horror os piores acontecimentos
de Panjab. O milagre que a procissão nocturna da véspera para Hydari
Mansien deixara pressagiar realizava-se. Através de toda a cidade que um
ano antes vítimas da jornada de acção directa de Jinnah juncavam,
Muçulmanos Hindus desfilavam em conjunto. Era, observa Pyarelal Nayar, o
secretário do Mahatma, «como se, após as nuvens negras de um ano de
loucura, aparecesse de novo o sol da razão e da boa-vontade».
Esta transformação inimaginável acelera-se, desde a aurora com a chegada
a Hydari Mansien de um novo desfile, este composto por jovens muçulmanos
e hindus. Tinham caminhado toda a noite para obter o darsan de Gandhi. A
sua visita era a primeira de uma onda de peregrinos que convergiram todo
o dia para a sua casa em ruínas. Todas as meias horas o Mahatma era
obrigado a interromper a sua meditação o seu trabalho na roda de fiar
para se mostrar à multidão. Considerando este dia como um dia de luto,
não preparara nenhuma mensagem de felicitações para o povo, que conduzira
à liberdade.

253
A um grupo de responsáveis políticos vindos procurar a sua bênção
declarou: «Desconfiai do poder, porque o poder corrompe. Não caiais nas
suas armadilhas. Não esqueceis que a vossa missão é servir os pobres das
aldeias da Índia».
Nessa tarde, trinta mil pessoas, três vezes mais que na véspera,
acorreram num concerto de búzios para assistir à oração pública de
Gandhi. Ele falou-lhes de um estrado de madeira erguido à pressa num
terreno vago vizinho, e agradeceu-lhes pela vitória de Calcutá. Desejou
que o seu exemplo inspirasse os seus compatriotas de Panjab.
— Quando se bebeu a taça envenenada do ódio, o néctar da amizade devia
parecer ainda mais doce, declarou.
Com os traços marcados pela fadiga de um jejum de vinte e quatro horas,
bastante inesperado nele, Sayyid Suhrawardy dirigiu-se em seguida ao
auditório. Aquele que era o chefe incontestado dos Muçulmanos de Calcutá
pediu às multidões misturadas para selarem a sua reconciliação gritando
com ele Jai Hind - «Viva a Índia!».
Após isto, os dois chefes empreenderam uma volta pela cidade na velha
Chevrolet de Gandhi. Desta vez não foi com pedras e injúrias que foram
acolhidos. Em cada esquina, as multidões entusiastas aspergiam o seu
carro de água de rosas clamando a sua gratidão: «Gandhi, és o nosso
salvador».
A cerimónia celebrada num terreno vago da cidade de Poona, a cento e
cinquenta quilómetros a sudeste de Bombaim, parecia-se a milhares de
outros que neste 15 de Agosto de 1947 se desenrolavam no novo domínio da
Índia. Era o hastear das cores nacionais. Contudo, um pormenor
diferenciava o ritual observado em Poona. A bandeira que subia lentamente
o mastro improvisado colocado no meio de um grupo de quinhentos homens
não era a bandeira da Índia independente. Era um triângulo cor de laranja
onde aparecia um símbolo que durante dez anos aterrorizara a Europa, a
suástica. Esta cruz gamada encontrava-se no estandarte de Poona pela
mesma razão que apareceu nas bandeiras do Terceiro Reich de Hitler. Era
um símbolo solar e cósmico introduzido nas Índias pelos conquistadores
Árias vindos de Noroeste, mais de três mil anos antes. Os homens reunidos
em Poona pertenciam todos ao R. S. S. S., o movimento hindu para-
fascista, de que alguns membros tinham recebido como missão assassinar
Jinnah em Karachi quarenta e oito horas antes. Hindus fanáticos, tinham
pelo menos um ponto comum com o profeta da não-violência: também eles
estavam chocados pela divisão da Índia. Mas a aproximação ficava por aí.
Odiavam Gandhi e a sua acção. O herói nacional da Índia era aos seus
olhos o inimigo figadal do hinduísmo.
O seu movimento fundamentava-se num velho sonho histórico, o de
reconstruir um grande império hindu, indo desde as nascentes do Indo até
- do Bramaputra, dos cumes de neve do Tibete até ao cabo Comorin.

254
Consideravam a doutrina da não-violência como uma filosofia de parvos,
própria para corromper a força de carácter dos povos hindus. No seu ideal
não havia qualquer lugar para a fraternidade e a tolerância para com a
minoria muçulmana da Índia. Enquanto hindus, consideravam-se os únicos
sucessores dos conquistadores arianos e, consequentemente, os
proprietários legítimos do país. Segundo eles, os muçulmanos não eram
mais que os descendentes de um clã de usurpadores, e dos mongóis. Mas
havia sobretudo um pecado que nunca poderiam perdoar ao velho libertador
da Índia. Esta acusação era em si mesma uma cruel ironia. Consideravam
Gandhi, o único político indiano a ter-se oposto a isso até ao fim, como
o único responsável pela partilha da Índia.
O homem que presidia à concentração de Poona era um jornalista. Nathuran
Godsé fizera 37 anos, mas as suas grandes bochechas de criança davam-lhe
um ar mais jovem. Os grandes olhos inocentes impressionavam pela
intensidade do olhar e por uma espécie de melancolia que o jeito dos
lábios acentuava mais. De natureza tímida e reservada, Godsé inflamava—se
na acção. Nessa mesma manhã exprimira à sua maneira os sentimentos que a
independência da Índia lhe inspirava na primeira página do jornal que
dirigia, o Hindu Rashira - a nação hindu. O lugar reservado ao seu
editorial quotidiano fora deixado em branco e rodeado por uma tarja negra
de luto.
Junto da bandeira, foi ainda mais explícito. As cerimónias da
independência em todo o país eram apenas, explicou, «uma camuflagem
destinada a esconder ao povo o facto de centenas de Hindus estarem já a
ser massacradas e centenas de mulheres roubadas e violadas. A vivissecção
da Índia é uma calamidade condenando milhões de indianos a horríveis
sofrimentos». E era essa «a obra do partido do Congresso e, antes de
mais, do seu chefe, Gandhi». No fim do discurso, Nathuram Gotsé convidou
as suas tropas a saudar o emblema do seu movimento. Depois, com o polegar
da mão direita sobre o coração, a palma voltada para o chão, prestaram
juramento: «À Pátria que me viu nascer e onde cresci, juro que o meu
corpo está pronto a morrer pela sua causa». Uma vez mais, a estas
palavras, Nathuram Gotse sentiu-se invadido por uma vaga de orgulho. Toda
a sua vida conhecera o falhanço, tanto na escola como na meia dúzia de
profissões que exercera. Falhara em tudo, até ao dia em que abraçara a
doutrina extremista do R.S.S.S. Penetrando-se do seu ensinamento e da sua
literatura, aprendendo a escrever e a falar em público, tornara-se um dos
melhores polemistas do movimento. E agora, projectava assumir um novo
papel, místico. Seria o vingador da Índia, purificando-a dos inimigos de
uma ressurreição hindu.

255
De todas as grandiosas cerimónias que celebraram a independência em Nova
Deli, a mais impressionante foi sem dúvida um lanche para crianças, que
viu, a família Mountbatten misturar-se sem protocolo a milhares de jovens
indianos, símbolos da Índia nova.
Mas a recordação mais espectacular deixada por este dia 15 de Agosto de
1947 seria a do içar das cores indianas na capital, às cinco horas da
tarde, na esplanada próxima do arco de argila amarelada dedicado aos
noventa mil indianos mortos para o império britânico durante a primeira
guerra mundial.
Os colaboradores de Lord Mountbatten tinham previsto a presença de uma
trintena de milhares de hindus. Tinham-se enganado em meio milhão. Nunca
ninguém vira nada de semelhante a esta avalanche na capital. Surgindo de
todos os lados, as massas que, de manhã, tinham convergido para a cidade,
submergiam a pequena tribuna erguida junto do mastro. Dir-se-ia, recorda,
uma testemunha, «uma barcaça agitada por um oceano tempestuoso.» As
barreiras, as cordas destinadas a canalisar os espectadores, os recintos
reservados, os polícias, tudo fora arrastado pela irresistível maré
humana. Afogado nesta massa movediça, Ranjit Lai, o camponês que deixara
ao amanhecer a sua aldeia de Chatharpur, pensou que apenas se podiam
juntar tais multidões para os Kumbhamela, as grandes peregrinações às
margens do Ganges. O aperto era tão grande que nem ele, nem a mulher, nem
os filhos podiam mexer os braços, a ponto de serem incapazes de comer os
chapati que tinham trazido.
Muriel Watson e Elisabeth Ward, as duas assistentes de Lady Mountbatten,
chegaram pouco antes das cinco horas. Tinham vestido elegantes vestidos
de cocktail, com luvas brancas até aos cotovelos e pequenos chapéus de
plumas multicolores. Sentiram-se de repente aspiradas nos turbilhões,
levantadas do chão, arrastadas pela onda. Agarrando-se uma à outra, sem
chapéus, com os vestidos esfarrapados, lutaram desesperadamente para não
serem sufocadas. Pela primeira vez na sua vida, Elisabeth Ward, que
contudo tomada de pânico.
- Vamos ser espezinhadas, gritou à amiga.
- Graças a Deus, estão descalços, acalmou-a Muriel Watson.
Pamela Mountbatten, com 17 anos, alcançou a esplanada acompanhada por
dois colaboradores de seu pai. -Os três abriram com grande dificuldade
uma passagem em direcção à pequena tribuna oficial. A menos de cinquenta
metros do fim, tombaram num muro intransponível de pessoas sentadas no
chão.
Vendo a jovem da plataforma onde já se encontrava, Nehru gritou-lhe para
ir para junto dele, passando sobre os ombros das pessoas.
- Impossível! Tenho sapatos de saltos.
- Tire-os!
- Oh, nunca ousaria, insurgiu-se Pamela.
- Então deixe-os estar, impacientou-se Nehru, e caminhe simplesmente
sobre as pessoas, não dirão nada.

256
- Mas os saltos vão magoá-las!
- Deixe-se de infantilidades, gritou Nehru, descalce-se e venha depressa.
Com um suspiro de impotência, a filha do último vice-rei da Índia tirou
os chinelos e tentou saltar o tapete humano que a separava da tribuna. ¦o
bom humor geral, uma floresta de braços se levantou imediatamente para
ela, a fim de facilitar a sua acrobática progressão.
No momento em que os turbantes dos cavaleiros da escolta do primeiro
governador-geral da Índia surgiram por cima das cabeças, uma vaga de
fundo levantou literalmente a multidão. Observando o caminhar lento da
carruagem dos seus pais, Pamela Mountbatten foi testemunho de um incrível
espectáculo. Milhares de mulheres estavam lá com os seus bebés nos
braços. Receando ver os filhos esmagados no aperto, tiveram uma
iniciativa desesperada. Com os braços atiravam-nos ao ar no espaço livre
por cima das cabeças, atirando-os de novo ao ar como bolas quando eles
caíam. Num minuto, o céu ficou cheio de milhares de crianças. «Meu Deus,
pensou a jovem inglesa estupefacta, está a chover bebés».
Mountbatten compreendeu instantaneamente que não havia nem sombras de
hipóteses de ver respirar o protocolo estabelecido para o içar da
bandeira. Nem sequer podia descer da carruagem.
- É preciso içar a bandeira, gritou a Nehru. Pior para a música. A
fanfarra está bloqueada com a guarda de honra. Apesar da barulheira, o
seu chamamento foi ouvido na plataforma. O emblema açafrão, branco e
verde, de uma Índia livre elevou-se imediatamente, enquanto de pé na sua
carruagem, o bisneto da rainha Victória o saudava.
A aparição da bandeira, uma ovação frenética saiu de quinhentos mil
peitos. Na alegria deste momento, a Índia, esquecia a derrota de Plassey
a repressão dos motins de 1857, o massacre de Arritsar. Esquecia as
humilhações da lei marcial, as cargas dos polícias, o turbilhão dos seus
lathi, as execuções dos mártires da Independência. Três séculos de
provações desapareciam no júbilo. Quando a bandeira da nova Índia atingia
o cimo do mastro, um arco-íris aureolou-a, arco de Deus Indra, que une õ
céu e a terra. Para este povo atento à linguagem do além e respeitador
das vontades celestes, este sinal, apenas podia ser a manifestação da
presença divina: o alaranjado, o amarelo e o verde do espectro solar
davam à sua bandeira uma dimensão universal.
- Se o próprio Deus nos envia tal presságio, lançou uma voz, quem poderá
atravessar-se no nosso caminho?
O regresso ao palácio de Luís e Edwina Mountbatten ia fazer-lhes viver
uma experiência inesquecível. A sua carruagem parecia-se a uma jangada
derivando ao sabor dos redemoinhos da multidão exuberante. Levado de
braço em braço pelos seus compatriotas em delírio, Nehru conseguiu
juntar-se-lhes.

257
Dir-se-ia, pensou Mountbatten, «uma espécie de gigantesco piquenique de
perto de um milhão de pessoas que se divertem como nunca na sua vida».
Esta explosão de alegria espontânea e incontrolável reflectia o
verdadeiro significado desta jornada. De pé no meio da floresta de mãos
que se estendia para ele, Mountbatten procurava o limite deste oceano de
cabeças; pareceu-lhe infinito. Tão longe quanto o olhar conseguia
alcançar, encontrava sempre a multidão. Três vezes seguidas o governador-
geral e a esposa debruçaram-se para levantar uma mulher quase a cair
debaixo das rodas do carro. Instalados nas almofadas de couro preto
feitas para o rei e para a rainha de Inglaterra, os três náufragos
atravessaram maravilhados a multidão ao lado do último vice-rei e da
última vice-rainha das Índias.
Mas acima de tudo, a recordação deste dia ficaria, para Luís e Edwina
Mountbatten, ligada a um grito, um grito vibrante incansavelmente
repetido. Nenhum inglês tivera, antes deles, o privilégio de suscitar uma
homenagem tão carregada de emoção e de sinceridade. Compassadas como
salvas triunfais, rebentavam incessantemente as aclamações da multidão:
Mountbatten-Ki Jai! — «Viva Mountbatten!»
A dez mil quilómetros das multidões exultantes de Nova Deli, no coração
dos Highlands da Escócia, um carro oficial penetrou nesse dia no pátio do
castelo de Balmoral. O seu passageiro foi introduzido no gabinete de
trabalho onde o rei Jorge VI o esperava. O conde de Listowell, último
secretário de Estado para os assuntos indianos, informou oficialmente Sua
Majestade de que a Grã-Bretanha tinha transmitido os seus poderes às
autoridades indianas. Este acto modificava irrevogavelmente a natureza do
reino do monarca britânico: doravante não tinha mais o direito ao título
de Rex Imperator.
Restava realizar uma última formalidade para ratificar esta mudança. O
ministro devia restituir ao rei os selos que tinham sido as garantias do
seu cargo, a incarnação dos laços que uniam o Império das Índias à coroa
britânica. Infelizmente, estes selos já não existiam. Alguém os desviara
já há bastante tempo. A última recordação que o último secretário de
Estado para os Negócios Indianos podia propor ao soberano deste Império
que nunca visitara, era uma inclinação respeitosa da cabeça e o gesto
simbólico de lhe estender a palma.
O crepúsculo descia sobre a capital da Índia, ao mesmo tempo que caía a
poeira levantada por um milhão de pés. As multidões continuavam a
percorrer as ruas cantando, gritando e abraçando-se.

258
Na Velha Deli, junto das muralhas do Forte Vermelho, milhares de indianos
em delírio participavam num gigantesco carnaval de encantadores de
serpentes, de jograis, de adivinhos, de ursos sábios, de lutadores, de
músicos, de engolidores de sabres, de fakires que atravessavam o rosto
com punhais. Outros deixavam a cidade aos milhares, em intermináveis
caravanas multicolores e partiam para as suas aldeias. Ranjit Lai, o
camponês brâmane de Chatharpur, estava entre eles. Para sua grande
cólera, o cocheiro de tonga que de manhã pedira quatro anna para o levar
a Nova Deli, reclamava agora oito vezes mais para o levar a casa.
Considerando que era pagar bastante caro a liberdade, Ranjit Lai e a
família fizeram a pé os trinta quilómetros de trajecto.
Finalmente sós nos seus apartamentos privados, Luís e Edwina
Ivlountbatten caíram nos braços um do outro. Estavam radiantes de
felicidade e de emoção. A roda do seu destino acabara de dar uma volta
completa. Nas ruas da cidade que vira nascer o seu amor há um quarto de
século, acabavam de partilhar a mesma apoteose. Nunca o almirante, que
todavia saboreara a embriaguez de receber a capitulação de setecentos e
cinquenta mil Japoneses, viveria um momento mais exaltante. Era um
momento comparável à celebração louca do fim da guerra, pensava
Mountbatten, excepto que desta vez se tratava de «uma guerra ganha pelas
duas partes, uma guerra sem vencidos».
No dia seguinte de manhã em Londres, um visitante chegado de Nova Deli
apresentou-se à porta do n.° 10 de Downing Street. O Primeiro-ministro
Clement Attlee tinha todas as razões para estar satisfeito. A
independência das Índias fora acompanhada de mais manifestações de boa
vontade para com a Grã-Bretanha que ninguém tinha podido esperar seis
meses antes. Comparando a atitude da Inglaterra com a dos Países-Baixos
na Indonésia e da França na Indochina, uma personalidade indiana
observara: «Não podemos senão admirar a coragem e o senso político do
povo britânico.»
Luis Mountbatten enviara contudo a Londres o seu secretário particular,
George Abell, para prevenir Attlee contra as falsas esperanças que tais
declarações podiam fazer nascer. A maneira como o problema da
independência fora resolvido, declarou George Abell ao Primeiro-ministro,
era um triunfo ao mesmo tempo para o seu governo e para o homem que
designara como vice-rei, mas não devia regozijar-se demasiado depressa,
recomendou, nem demasiado ostensivamente, porque a partilha do
subcontinente indiano ia inelutavelmente acarretar «o mais terrível dos
banhos de sangue».
Attlee tirou algumas fumaças do seu cachimbo e acenou tristemente a
cabeça. Esteja descansado, prometeu, daqui nenhuma declaração
esclarecedora sairá. Não tinha «nenhuma ilusão». O que fora realizado era
gigantesco, mas também ele sabia bem que era preciso pagar o seu preço.

259
Em Nova Deli, chegara a hora de abrir a caixa de Pandora. Antes de as
enviar aos seus destinatários, Lord Mountbatten considerou uma vez mais
os dois envelopes amarelos. Cada um continha um jogo das novas cartas
geográficas da península, bem como uma dúzia de folhas dactilografadas.
Eram os últimos documentos oficiais que a Inglaterra legaria às Índias,
as últimas malhas de uma longa cadeia que começara pela outorga da carta
real de Isabel I à East Índia Trading Company em 1599, e acabou com esta
lei sancionada menos de um mês antes pelas palavras rituais «o Rei o
Quer». Nenhum dos textos precedentes tivera consequências comparáveis às
que estes dois últimos documentos iam trazer.
Mountbatten entregou um dos envelopes a Jawaharlal Nehru, Primeiro-
ministro da Índia, e o outro a Liaquat Ali Khan, Primeiro-ministro do
Paquistão, e propôs-lhes estudarem o conteúdo deles com os seus
colaboradores, antes de virem discuti-lo com ele.
A cólera que abrasava os rostos dos dois chefes de governo após este
exame assegurou Mountbatten da perfeita imparcialidade observada pelo
autor da partilha das Índias. Tanto um como outro dos dois homens
pareciam bêbedos de raiva. Mal se sentaram, explodiram numa tempestade de
protestos. Desvanecera-se a euforia da Independência.
Ao cortar a carta das Índias, Sir Cyril Radcliffe respeitara
rigorosamente as instruções recebidas. Com algumas insignificantes
excepções, traçara a fronteira atribuindo aos indianos as zonas com
maioria Hindu, e aos Paquistaneses as de maioria Muçulmana. No papel, o
resultado podia ainda parecer aceitável. Na realidade, era um desastre.
No Bengala, a linha de partilha corria o risco de condenar cada uma das
duas partes à ruína económica. Enquanto oitenta e cinco por cento da juta
mundial se criava na zona atribuída ao Paquistão, no seu território não
havia uma única fábrica de transformação. Em compensação, a Índia
encontrava-se com mais de uma centena de fábricas e com o único porto de
exportação, Calcutá, mas sem juta.
No Panjab, a fronteira de Radcliffe atribuía a cidade de Lahore ao
Paquistão e a de Amritsar com o seu templo de Ouro à Índia, cortando em
duas as terras e as populações de uma das comunidades mais militantes e
mais unidas das Índias, os Sikhs. Levados pelo desespero, estes iam
tornar-se os principais actores da tragédia do Panjab.
Uma grave controvérsia ia surgir a propósito da pequena aglomeração de
Gurdaspur, abrigada na base do Himalaia, no extremo norte do Panjab. A
fim de permitir à sua fronteira seguir neste sítio o limite natural de
uma ribeira, Radcliffe colocou a pequena cidade, povoada na sua maioria
muçulmanos, e as poucas aldeias que a rodeavam, do lado da União Indiana
de Nehru, recusando-se a criar um enclave paquistanês em território
indiano.

260
Noventa milhões de muçulmanos nunca lhe perdoariam esta decisão. Porque,
se Radclife tivesse, ao contrário, atribuído Gurdaspur ao Paquistão, não
eram algumas casas de barro amassado com palha que o Estado de Mohammed
Ali Jinnah teria ganho. A Gurdaspur viria fatalmente juntar-se um dia ou
outro o vale encantado cujo nome inspirara as últimas palavras do
imperador mongol Jehangir, no seu leito de morte: «Cachemira, ó
Cachemira». Sem a passagem que Gurdaspur permitiria, no sopé do Himalaia,
a Índia não possuiria efectivamente nenhuma via de acesso terrestre para
o Cachemira e o seu marajá hindu, sempre indeciso não teria outra escolha
senão ligar o destino do seu Estado ao Paquistão. Inconscientemente, o
escalpelo do jurista britânico ofereceria assim à Índia a ocasião de um
dia absorver a Cachemira.
O homem a quem se tinha confiado a vivissecção da Índia porque ignorava
tudo dos seus problemas, perscrutava do alto do céu as paisagens que
acabava de dividir. Rodeado de severas medidas de segurança, Sir Gyril
Radcliffe voltava à Inglaterra. A última tarefa do jovem funcionário que
o acompanhava fora passar o avião a pente fino, no receio de uma bomba.
Perdido nos seus pensamentos, o jurista britânico contemplava através da
sua janela a extensão infinda dos campos de trigo e de cana-de-açúcar do
Panjab. Avaliava melhor que ninguém a consternação e a desgraça que os
seus traços provocariam. Infelizmente, não existia nenhum traçado ideal
que tivesse podido evitar esta colheita de angústia e de sofrimentos. As
razões que levavam inexoravelmente o Panjab e o Bengala à tragédia
existiam muito antes de Sir Cyril Radcliffe ter sido arrancado ao seu
escritório londrino. Tinha a certeza de que o seu trabalho resultaria em
destruição e em violência. E certamente também saberia que o tornariam
responsável por esta tragédia.
Quando o tinham encarregado da sua missão, Nehru e Jinnah tinham ambos
prometido aceitar as suas decisões e fazê-las aceitar. Ora, os dois
homens tinham-se apressado a condená-las. Alguns dias mais tarde,
desgostoso, Radcliffe responderia à sua atitude com a única resposta que
possuía: recusaria as duas mil libras esterlinas representando o salário
proposto para a mais complexa partilha geográfica dos tempos modernos.
Imperceptível ao olhar de Radacliffe no seu avião, a maior migração da
história da humanidade começava já. As primeiras filas de refugiados do
Panjab apressavam-se nos carreiros, ao longo dos canais, através dos
campos, pelo asfalto escaldante da Grand Trunk-Road.

261
Dentro de algumas horas, a publicação do relatório de Sir Cyril Radcliffe
ia juntar uma nova dimensão aos horrores que ainda ameaçavam esta
província. Aldeias, cujos habitantes muçulmanos tinham saudado com
entusiasmo o nascimento do Paquistão, achar-se-iam na Índia. Por outro
lado, Sikhs que criam ter celebrado nos seus guru-dwara a ligação da sua
aldeia à Índia, apenas deviam a vida a uma fuga desvairada para o outro
lado da fronteira, para além dos campos que sempre tinham cultivado.
Certos absurdos a que a urgência condenara o jurista britânico não
tardaram a aparecer. Canais de irrigação tinham as suas comportas de
alimentação num país, e a sua rede de distribuição no outro. A fronteira
atravessava por vezes o centro de um casal. Acontecia mesmo cortar uma
casa em duas, deixando a porta de entrada do lado indiano e a janela de
trás aberta para o Paquistão.
Todas as prisões do Panjab se encontraram no Paquistão, assim como o seu
único asilo de loucos. Numa repentina crise de lucidez, os pensionistas
hindus e sikhs do estabelecimento suplicaram desesperadamente aos seus
enfermeiros que os transferissem para a Índia para escaparem aos
Muçulmanos, que não deixariam de os massacrar. Os seus médicos mostraram
menos clarividência que eles. Rejeitaram a sua súplica.

262
Capítulo décimo terceiro
«OS NOSSOS POVOS CAÍRAM NA LOUCURA»

Isto devia ser um verdadeiro cataclismo. Durante seis semanas, o norte da


Índia ia de repente cair num banho de sangue de uma amplitude
extraordinária. Como nas horas mais tristes da humanidade, uma loucura,
homicida apoderava-se de milhões de homens. Nem uma aldeia, nem uma
família seriam poupadas pelo contágio. Neste breve e monstruoso
morticínio pereceriam tantos indianos como franceses na segunda guerra
mundial.
Por toda a parte, os mais numerosos e os mais fortes atacaram as minorias
mais fracas. Nas ricas vivendas da avenida Aurangzeb da capital, os souks
de jóias de Chandni Chowk na velha Deli e os mahalla de Amritsar; nos
elegantes arredores de Lahore, os bazares de Rawalpindi, por detrás das
muralhas de Peshawar; nas boutiques, nos stands, nas casas de barro e nas
ruelas das aldeias; nos fornos de tijolos, nos ateliers de têxteis e nos
campos, nas gares, nos hospitais, nos asilos, nos escritórios e nos
cafés, por toda a parte as comunidades que até então tinham vivido lado a
lado lançaram-se umas contra as outras num transbordar de ódio. Nem era
uma verdadeira guerra, nem uma guerra civil, nem uma guerrilha. Era uma
convulsão, a brutal e súbita explosão de um mundo. Um crime provocava
outro, o horror trazia o horror, a morte engendrava a morte. Em breve,
tal como a carcaça de um imóvel que se abate sob o efeito de uma última
bomba, as paredes de toda uma porção da sociedade indiana ruíram umas
sobre as outras.
Este desastre não era furtuito. Ao nascer, a Índia e o Paquistão eram
dois irmãos siameses ligados um ao outro por um tumor maligno, o Panjab.
O escalpelo de Sir Cyril Radcliffe cortara ao meio o tumor e separara os
gémeos, mas não pudera eliminar as células cancerosas. O seu corte
deixara cinco milhões de sicks e de hindus na metade paquistanesa do
Panjab e cinco milhões de muçulmanos na metade indiana. Intoxicados pelas
promessas de Jinnah e dos líderes da Liga muçulmana, as massas muçulmanas
exploradas tinham acabado por se convencer que no Paquistão, «País dos
Puros,» usurários hindus, comerciantes e impiedosos grandes proprietários
sikhs teriam desaparecido. Ora, eles continuavam lá. Ocupavam as suas
quintas e as suas boutiques, exigiam o pagamento dos seus juros e dos
seus alugueres. Como os muçulmanos então pensaram: «Se o Paquistão é
nosso, então as boutiques, as quintas, as casas, as fábricas dos hindus
são nossas também». No mesmo momento, na parte tornada indiana, os sikhs
preparavam-se para expulsar todos os muçulmanos que viviam na sua zona, a
fim de instalar no seu lugar os seus irmãos que fugiam do território
paquistanês.

263
Era portanto inevitável que todos - hindus sikhs e muçulmanos - se
defrontassem com igual fúria exterminadora.
As Índias sempre tinham sido a terra do desmedido. O horror das
carnificinas do Panjab, a amplitude dos sofrimentos e das desgraças que
criaram não fugiram a esta tradição. Os povos civilizados matavam-se uns
aos outros com explosões atómicas, de Vi, de obuses, de fósforo, com
lança chamas e gazes asfixiantes. Os povos do Panjab massacraram-se com
chuços de bambu, facas, sabres, matracas, martelos, paralelepípedos e
ganchos em forma de dentes de tigre? Estupefactos pelo frenesim que
inconscientemente tinham desencadeado, os seus dirigentes tentaram
desesperadamente chamá-los à razão. Em vão: a Índia enlouquecera.
*
O capitão R. E. Atkins, do 2.° batalhão de Gurkhs, ficou com a respiração
cortada. O espectáculo de que tanto ouvira falar sem nisso acreditar,
tinha-o agora diante dos olhos. Nas valetas de Lahore, corria uma
torrente de sangue. O belo «Paris do Oriente» não era mais que ruína e
desolação. Ruas inteiras eram pasto das chamas. À noite, a agitação dos
larápios lembrava ao capitão inglês a das formigas brancas moendo a
madeira. Desde a instalação por comerciantes hindus que lhe propunham uma
fortuna - vinte, trinta, cinquenta mil rupias, as filhas e as jóias das
mulheres - se ele lhes permitisse fugir no seu jeep ao inferno em que
Lahore se tornara.
Precisamente do outro lado da fronteira, em Amritsar, os bairros
muçulmanos eram apenas escombros, donde se escapavam grossas espirais de
fumo acre. Companhias de abutres pareciam velar por este cenário de
apocalipse donde saía o odor sufocante dos corpos em decomposição. Por
toda a parte cenas análogas desfiguravam o Panjab. Em Lyallpur, os
operários muçulmanos de uma fábrica de têxteis exterminaram os seus
companheiros de trabalho Sikhs. A sinistra descoberta do capitão Atkins
tomava aqui uma dimensão completamente diferente: desta vez, era um canal
de irrigação que levava o sangue de centenas de vítimas sikhs e hindus.
Em Simla, Fay Campbell-Johnson a esposa do delegado de imprensa de Lord
Mountbatten, estremeceu de horror perante o que descobriu da varanda do
hotel Cecil, onde gerações de administradores imperiais tinham saboreado
o seu whisky nas tardes de verão. Fazendo rodar os seus kirpan, sikhs
dirigiam-se de bicicleta para o Mallm em perseguição dos muçulmanos tais
como cavaleiros perseguindo um javali. Quando atingiam uma presa,
decapitavam-na com um golpe de sabre. Uma outra inglesa viu a cabeça de
um destes infelizes rolar no passeio e parar aos seus pés, com o gorro
sempre no lugar. Pedalando furiosamente, o assassino lançava-se já sobre
uma nova vítima brandia o sabre escorrendo sangue e gritava: «Vou matar
mais! Vou matar mais!»

264
O carrasco era geralmente um desconhecido, mas por vezes também um amigo.
Todos os dias desde há quinze anos, Naranjan Siongh, um cafeteiro sikh do
bazar da cidade de Mountgomery, recebia a visita do seu vizinho um
curtidor muçulmano. Numa manhã de Agosto, mal lhe tinha preparado a sua
taça de chá negro de Assam, encontrou na frente um rosto perturbado de
ódio. Apontando-o, o vizinho gritou: «Matai-o, matai-o!» Um grupo de
muçulmanos surgiu imediatamente da ruela. Com um golpe de sabre, um deles
seccionou a perna do sikh, enquanto os outros massacravam o pai, com a
idade de noventa anos, e o seu único filho. Antes de perder o
conhecimento, o cafeteiro assistiu impotente ao rapto da sua filha de
dezoito anos pelo homem a quem servira chá durante quinze anos.
Por toda a parte se abatia o mesmo terror sobre as comunidades
minoritárias. Em Ukarna, uma pequena cidade têxtil com maioria muçulmana,
Madanlal Pahwa, um hindu de vinte anos, antigo marinheiro da marinha
indiana, refugiou-se em casa de uma das suas tias. Das janelas assistiu
às manifestações delirantes da população muçulmana que dançava, cantava e
brandia as bandeiras do Paquistão cantando: «Hanskelya Paquistan,
Larkelinge Hindustan!» - «Ganhámos o Paquistão a rir, ganharemos a Índia
a combater!» Mandall Pahwa odiava os muçulmanos. No seu uniforme Kaki,
ornado com o galão negro da organização extremista hindu R.S.S.S., nunca
desperdiçara uma oportunidade de os aterrorizar. Era agora a sua vez de
se inquietar: «Todos temos medo, pensou, parecemo-nos a cordeiros que vão
para o sacrifício.
Graças à sua experiência militar e sentido de organização, os sikhs eram
os assassinos mais eficazes. Agrupados em jattha - bandos de cinquenta a
cem homens -, armados até aos dentes, caíam sobre as aldeias muçulmanas
como nuvens de gafanhotos, apenas deixando atrás de si sangue e ruína.
O caseiro muçulmano Ahmed Zarullah habitava, perto de Ferozepore, um
destes pequenos casais sem defesa que os jattha sikhs atacavam de
preferência. «Numa noite, recorda, eles chegaram dando horrorosos gritos
de guerra. Nós sabíamos que íamos ser exterminados como ratos. Escondemo-
nos debaixo dos charpoy e atrás dos montes de bosta de vaca. Os Sikhs
fizeram saltar a minha porta à machadada. Fui atingido por uma bala no
braço esquerdo. Quando tentava levantar-me vi cair a minha mulher, ferida
por sua vez. Corria-lhe sangue da coxa e das costas. O meu filho de três
anos foi atingido no ventre. Nem sequer deu um grito. Morreu
instantaneamente. Peguei na minha mulher ao colo e, abandonando o nosso
filho morto, fugi por uma janela com o nosso outro filho. Vi sikhs abater
muçulmanos que se escapavam das casas em chamas. Outros corriam
arrastando mulheres e garotas. Ouviam-se uivos, gemidos, choros
impressionantes. Sikhs lançaram-se sobre mim e arrancaram-me o corpo da
minha mulher. Levaram o nosso filho.

265
Depois deram-me uma punhalada e deixaram-me como morto na poeira. Tudo
acabara para mim. A vida já não contava: aqueles que eu amava tinham
desaparecido. Já nem sequer tinha forças para chorar. Os meus olhos
estavam tão secos como um oued do Sind antes da monção. Perdi os
sentidos».
Em Sheikhpura, um grande burgo comercial ao norte de Lahore, todos os
habitantes hindus e sikhs foram reunidos num vasto depósito onde a banca
local depositava o grão que servia de caução aos seus empréstimos
Polícias muçulmanos e desertores do exército atiraram para o monte com
metralhadoras, matando-os até ao último.
Entre os oficiais ingleses que tinham ficado para servir no exército
indiano ou paquistanês, repetia-se incessantemente o mesmo refrão: «O que
aqui se passa é pior que tudo o que se pôde ver durante a segunda guerra
mundial.»
O enviado especial do New York Times, Robert Trumbull, que cobrira bom
número de guerras no decorrer da sua carreira, telegrafou ao seu jornal:
«Nunca nada me impressionou tanto, nem mesmo os montes de cadáveres após
o desembarque de Tarawa. Hoje na Índia correm rios de sangue. Vi mortos
às centenas e, mais horrível que tudo, milhares de indianos sem olhos,
sem pés, sem mãos. Raros são os que têm a sorte de morrer com uma bala.
Homens, mulheres e crianças são as mais das vezes batidos até à morte com
matracas, lapidados, abandonados ao suplício de uma agonia que o calor e
as moscas tornam ainda mais horrorosa».
Todas as comunidades davam prova de igual selvajaria. Um oficial inglês
da Força de Intervenção do Panjab descobriu quatro bebés muçulmanos
«enfiados em espetos e assados como leitões» numa aldeia devastada por
sikhs. Um outro viu «um cortejo de mulheres hindus cujos seios tinham
sido cortados por fanáticos muçulmanos».
Em certos sectores, os muçulmanos ofereceram aos vizinhos hindus a
possibilidade de se converterem ao islamismo ou de deixarem o Paquistão.
O camponês Bagh Das vivia numa aldeia de trezentos hindus em plena zona
muçulmana, a ocidente de Lyallpur. Numa tarde, várias centenas de
muçulmanos caíram sobre a pequena comunidade. Todos os habitantes foram
reunidos num campo enquanto pilhavam as suas casas. Depois foram
conduzidos até à primeira aldeia onde se erguia um minarete. Foram
obrigados a lavar os pés na bacia das abluções, antes de serem empurrados
para o interior da mesquita onde tiveram de se ajoelhar. Depois de lhes
ter lido alguns versículos do Alcorão, o maulvi declarou:
- Tendes de escolher entre tornar-vos muçulmanos e viver felizes, ou
serdes mortos.
- Preferimos tornar-nos muçulmanos, acabou por responder Bagh Das em nome
dos companheiros.
Cada «convertido» recebeu então um nome muçulmano e foi obrigado a
recitar um verso do alcorão. O grupo foi em seguida conduzido para o
pátio da mesquita onde estava a assar uma vaca. Cada um foi forçado a
comer um bocado.

266
Bagh Das, que era vegetariano, teve «uma irresistível vontade de
vomitar», mas fez um esforço com receio de ser morto se não obedecesse.
Junto dele, um brâmane pediu autorização para ir, com a mulher e os três
filhos, buscar os pratos e os talheres do seu casamento a fim de honrar
como devia ser esta grande viragem da sua existência. Lisonjeados, os
seus raptores muçulmanos aceitaram. Nem o Brâmane nem ninguém da sua
família voltou a comer a carne sacrílega. «Escondera em casa uma faca
conta Bagh Das. Quando chegou a casa, tirou-a do esconderijo. Degolou
primeiro a mulher, depois os três filhos. Finalmente espetou a faca no
coração».
Um motivo que nada tinha a ver com o fervor religioso impelia muitas
vezes os muçulmanos do Paquistão a exterminar os vizinhos sikhs e hindus
ou a provocar a sua fuga. Era a cobiça dos seus bens.
O sikh Sardar Prem praticava, numa aldeia perto de Sialkot uma profissão
que os muçulmanos desprezavam: emprestava sob caução. «Eu pertencia a uma
família muito rica, explica. Tinha uma grande casa de dois andares, com
um sólido portão de ferro forjado. Toda a gente na aldeia sabia que eu
era o mais rico. Muitos muçulmanos me pediam para hipotecar as suas
jóias. Conservava-as num cofre metálico. Quase todos os muçulmanos da
aldeia tinham, num momento ou noutro, depositado em minha casa qualquer
valor com caução.»
Numa manhã, pouco depois da independência, Sardare Prem viu manifestantes
muçulmanos avançarem para a sua casa brandindo matracas, barras de ferro
e facas. A maior parte dos rostos era-lhe familiar: cada um fora pelo
menos uma vez seu devedor. «O cofre, o cofre!» Gritavam.
«Ah! eles pensavam ceifar uma bela colheita», conta Sardar Prem. Mas o
cofre encerrava também uma espingarda de dois canos e vinte e cinco
cartuchos. Sardar Prem pegou na arma e subiu ao segundo andar. Durante
uma hora, defendeu a casa correndo de uma janela à outra e atirando sobre
os desordeiros que tentavam arrombar o portão.
Durante este tempo, no rés-do-chão desenrolava-se uma cena alucinante. A
esposa reunira as seis filhas no vestíbulo e trouxera um bidon de álcool.
Regou com ele todo o corpo. Depois de ter implorado a misericórdia do
guru Nanak e ordenado às filhas que a imitassem, imolou-se sem um grito.
Um odor de carne calcinada encheu imediatamente a casa, subindo até ao
segundo andar onde Sardar Prem atirava os últimos cartuchos. Mandou ainda
uma chumbada e lançou-se ofegante na escada.
Chegado a baixo, deu um grito de horror. A mulher e três das suas filhas
não eram mais que um monte informe de carne e de ossos carbonizados no
chão do vestíbulo. Tinham preferido perecer nas chamas que serem violadas
pelos muçulmanos.
Tais cenas não eram raras. Quando os muçulmanos atacaram a casa de Ganda
Singh, um proprietário agrário do distrito de Gurdaspur, as filhas e
todas as mulheres vivendo sob o seu tecto imploraram-lhe que as matasse
para lhes poupar caírem nas mãos dos muçulmanos.

267
Ganda Singh colocou-se por detrás de um cepo improvisado, tapou os olhos,
empunhou o sabre e decapitou-as todas sucessivamente. Quando os
muçulmanos acabaram por arrombar a sua porta, apenas o encontraram vivo a
ele. Ataram-no a uma árvore e cortaram-no em bocados.
Nem todos os sikhs e hindus que foram expulsos das suas casas eram ricos.
O jovem Guldap Singh, com catorze anos, era filho de um modesto rendeiro
pertencente a uma comunidade de uma cinquentena de sikhs e de hindus
isolados no meio de seiscentos muçulmanos de uma aldeia próxima de
Lahore. Vivia com os pais em duas divisões de barro amassado, tendo como
fortuna dois búfalos e uma vaca. Um dia, os muçulmanos cercaram o bairro
aos gritos de «deixai o Paquistão, senão matamos-vos!». Todos os
habitantes fugiram de casa e correram refugiar-se em casa do sikh mais
importante da aldeia. «Os muçulmanos chegaram com sabres, facas compridos
chuços de ferro com as pontas envolvidas por panos embebidos de gasolina,
recorda Guldap Singh. Bombardeámo-los com tijolos e pedras, mas
conseguiram pôr fogo à casa. Conseguiram agarrar um sikh e puseram fogo à
sua barba. Enquanto a barba ardia como uma tocha, vi-o lançar um tijolo à
cabeça de um muçulmano. Depois caiu nas chamas gritando o nome do guru
Nanak. Muçulmanos conseguiram penetrar na casa e apoderar-se de alguns
homens que arrastaram para fora para os matar a golpes de foices ou
machadas. Precipitei-me para o terraço onde as mulheres se tinham
refugiado. Algumas tinham bebés nos braços. Acenderam uma grande
fogueira, e chorando deram de mamar aos filhos. Depois, à última gota de
leite, depuseram-nos no braseiro antes de por sua vez se atirarem às
chamas. Era um espectáculo insuportável.»
O jovem saltou do terraço e aproveitou-se da confusão e da noite que caía
para subir a uma árvore. Ficou aí escondido durante as seis horas
seguintes.
«O odor da carne grelhada chegava até mim, recorda. Eu sabia que o meu
pai e a minha mãe nunca sairiam da casa: estavam mortos. A minha mãe
atirara-se ao fogo. Vi muçulmanos levarem duas garotas. Elas não
choravam: deviam estar desmaiadas. Pela noite adiante, quando a calma
voltou, desci da minha árvore e deslizei para o interior. Toda a gente
estava morta. Excepto as duas garotas e eu todos os sikhs e hindus tinham
perecido.
Guldap Singh errou toda a noite no carneiro, incapaz mesmo de chorar. Ao
amanhecer, tentou identificar os restos carbonizados dos seus pais. Não
conseguiu. Encontrou no chão uma faca coberta de sangue e serviu-se dela
para cortar os cabelos a fim de poder fazer-se passar por muçulmano.
Depois fugiu.
Durante estes dias de apocalipse, o horror foi o feito de todos e mediu-
se com uma igualdade quase bíblica, olho por olho, violação por violação,
assassínio por assassínio. O único traço que diferenciava Mohammed Yacub
do jovem sikh era a religião. Mohamed tinha também catorze anos e, como
Guldap Singh adorava jogar bilhar.

268
Entregava-se ao seu jogo favorito, diante da casa de barro amassado que
habitava com os pais e seis irmãos e irmãs numa aldeia situada próximo de
Amritsar, na Índia, quando um Jattha irrompeu. Conseguiu fugir e
esconder-se num campo de cana-de-açúcar. «Os sikhs cortaram os seios de
várias mulheres, conta. Camponeses desorientados degolaram então as
mulheres e as filhas para que não caíssem nas suas mãos. Vi sikhs
trespassar com lanças dois dos meus irmãos mais novos. Louco de dor, o
meu pai começou a correr em todos os sentidos. Os sikhs não conseguiam
agarrá-lo. Acabaram por lançar atrás dele os cães da aldeia. Mordido nos
tornozelos, o meu pai teve de diminuir a sua corrida e os sikhs puderam
apoderar-se dele. Ataram-no. Depois atiraram-no ao chão e cortaram-no aos
bocados com sabres. A cabeça, as mãos, os braços, as pernas foram
separadas do corpo. Os sikhs abandonaram então aos cães os restos do meu
pai».
Apenas cinquenta dos quinhentos muçulmanos da aldeia escaparam ao
massacre, salvos pela intervenção de uma patrulha da Força de Intervenção
do Panjab. Único sobrevivente da sua família, Mohammed foi «levado por
soldados Gurkhas do exército indiano para uma terra desconhecida mas onde
ele estaria em segurança porque pertencia, afirmavam os seus dirigentes,
aos muçulmanos».
A recordação destas terríveis conclusões deixaram cicatrizes indeléveis
no coração de milhões de pessoas. Raras seriam as famílias do Panjab que
não teriam perdido um ser querido nesta carnagem insensata. A feliz
província não ia ser mais durante anos, senão uma reunião dolorosa de
memórias traumatizadas, cada uma povoada de atrocidades mais
despedaçadoras umas que as outras, histórias terríveis de um povo
repentinamente desenraizado, arrancado à terra a que estava ligado há
gerações, lançado no terror pelos caminhos do êxodo.
Uma paixão particular ligava o camponês sikh Sant Singh aos campos de que
fora expulso. Tinha-os, em certo sentido, pago com o seu sangue derramado
pela Inglaterra na praia de Gallipoli, durante a primeira guerra mundial.
Foram-lhe precisos 16 anos para desbravar e plantar os cinquenta hectares
da parcela n.° 105/15 que lhe fora atribuída, bem como a milhares de
outros combatentes sikhs, a sudoeste de Lahore, numa zona valorizada pela
instalação de uma rede de canais de irrigação. Instalara a esposa na
tenda onde vivera mais de dez anos, criara os filhos na sua terra,
construirá as cinco divisões da sua casa de tijolos secos que era ao
mesmo tempo o seu orgulho e o testemunho do seu êxito. Dois dias antes da
independência, um dos seus trabalhadores muçulmanos trouxe-lhe um
panfleto que circulava secretamente no sector. «Os sikhs e os hindus não
pertencem a esta terra. Devem ser expulsos», estava escrito. O ataque
ocorreu três dias depois. Sant Singh e os duzentos sikhs da sua aldeia
resolveram fugir. Com cinco outros aldeãos comandados por um venerável
ex-sargento de 80 anos, foi encarregado de escoltar as mulheres da
aldeia. Antes de se pôr a caminho, foi recolher-se em oração no guru-
dwara, o templo que ajudara a construir.

269
«Cheguei aqui com as mãos vazias, murmurou. Parto com as mãos vazias.
Guru Nanak, apenas peço a tua protecção».
A protecção do guru pareceu cessar junto a uma aldeia chamada Birwalla
onde o camião de Sant Singh avariou por falta de gasolina. «Estava
escuro, conta. Tínhamos caminhado ao longo do caminho-de-ferro e não pela
estrada a fim de não sermos apanhados pelos muçulmanos. Tinham-nos
prevenido de que eles tinham levantado uma enorme barricada e que matavam
todos os hindus e os sikhs que encontrassem. Ouvíamo-los a gritar e a
chamar na noite, porque a aldeia apenas se encontrava a algumas centenas
de metros. De repente, vimos um velho que se escapava sem barulho na
obscuridade. Tínhamos a certeza de que ele ia advertir os seus
concidadãos e que depressa nos viriam atacar. Ouvimos vozes que se
aproximavam cada vez mais. Estávamos aterrorizados. O velho sargento deu-
-nos então uma ordem: devíamos matar as nossas mulheres. Não podíamos
fazer-lhes correr o risco de serem raptadas e violadas. Fizemo-las descer
do camião e sentar no chão, alinhadas em três filas. Tapámos-lhes os
olhos. Um bebé de dois meses mamava no peito da mãe. Ordenámos-lhes que
recitassem incessantemente a oração sikh «Deus é Verdade». A minha esposa
encontrava-se no meio da primeira fila. As nossas duas filhas também lá
estavam, do mesmo modo que a minha nora e as nossas duas netas. Tentei
não olhar. Tinha uma espingarda de caça de dois canos e os outros tinham
espingardas de guerra 303, dois revólveres e uma metralhadora Sten.
Entoei um versículo do quinto livro do livro santo do guru Nanak. Dizia:
«Tudo é a vontade de Deus e, se a tua hora chegou, deves morrer». Depois
peguei num lenço branco e preveni os meus companheiros de que o baixaria
três vezes. À terceira vez, todos faríamos fogo. Baixei o lenço uma
primeira vez e gritei: «Ek!» — «Um! «Baixei-o uma segunda vez e gritei:
«Do!» -«Dois!» Intimamente não deixava de repetir: «Meu Deus, não me
abandoneis.» Ia baixar o meu lenço pela terceira vez quando vi faróis na
noite. Compreendi que Deus escutara a minha oração e pedi aos meus
companheiros para deporem as armas porque íamos poder pedir socorro. «E
se o carro está cheio de muçulmanos?» Inquietou-se o velho sargento. Era
de facto um camião do exército paquistanês com soldados muçulmanos, mas o
oficial era um bravo homem. Disse-nos que ia escoltar-nos. Beijámos-lhe
os pés e seguimo-lo.

Eram quase cem mil. Há cinco longas horas esperam-no, submergindo a praça
de Narikeldanga de Calcutá, nas beiras dos telhados, das varandas,
suspensos das sacadas, agarrados como cachos de frutos aos ramos das
árvores. A três mil quilómetros das planícies do Panjab onde se matavam
as duas comunidades, esta multidão de Hindus e de Muçulmanos misturados
espreitava a chegada do pequeno homem que conseguira, apenas pelo
magnetismo da sua presença, deter a violência da cidade reputada como a
mais brutal do mundo.

270
Quando a frágil silhueta de Gandhi apareceu na pequena plataforma, uma
corrente mística pareceu galvanizar a assistência. «Agora que a onda da
boa vontade desce de novo sobre Calcutá, declarou o Mahatma, é prenso que
cada um contribua para fazer durar esta amizade reencontrada.» E Gandhi
fustigou aqueles que criam ter dado prova de patriotismo atacando na
antevéspera a vivenda do administrador francês do vizinho estabelecimento
de Chandernagor «A França é um grande povo amante da liberdade, exclamou,
e a Índia deve proteger as suas possessões aqui existentes.»
Contemplando a multidão vibrante de alegria e entusiasmo que o ouvia, o
velho profeta foi de repente assaltado pela dúvida. Era demasiado belo
para ser verdadeiro. Que milagre de Calcutá não seja apenas uma
efervescência passageira!» implorou.
O que um homem sozinho sem armas realizava em Calcutá, cinquenta e cinco
mil soldados não conseguiam realizá-lo no Panjab. A poderosa força
especial de intervenção formada por Mountbatten estava ultrapassada pelos
acontecimentos. Nada era menos surpreendente. Doze distritos estavam a
fogo e sangue. Alguns cobriam uma superfície maior que a Palestina onde
mais de cem mil soldados britânicos também não bastavam, nesse Outono,
para manter a segurança. As vias terrestres e os diques que cortavam a
região eram dificilmente praticáveis para os veículos pesados. Só as
unidades de cavalaria teriam podido oferecer a mobilidade desejada, mas a
cavalaria já não existia neste exército, em que o cavalo durante muito
tempo fizera a sua glória.
O desabamento total das estruturas administrativas do país complicava
singularmente as operações de manutenção da ordem. O telégrafo, os
correios, o telefone, já não funcionavam. À falta de instalações mais
convenientes, os indianos eram obrigados a governar a sua metade do
Panjab a partir de uma modesta casa particular equipada com uma única
linha telefónica e com um posto de rádio instalado nos sanitários.
A situação do lado paquistanês revelava-se ainda mais trágica. O novo
estado estava à beira do caos. Se Jinnah tinha encontrado o jogo de bolas
que faltava no inventário do seu palácio, não tinha recuperado grande
coisa mais. Roubados, perdidos ou desviados, centenas de vagões contendo
a parte da herança pertencente ao Paquistão tinham desaparecido. À falta
de cadeiras e de mesas, os funcionários de Karachi tinham de
dactilografar no passeio os primeiros documentos da maior nação muçulmana
do Mundo. Não podendo oferecer-lhes sofás nem canapés, ministros recebiam
de pé os primeiros embaixadores que chegavam dos quatro cantos da terra.
Separadas uma da outra por mais de dois mil quilómetros de território
indiano, as duas metades do Paquistão não estavam unidas por nenhum meio
de comunicação.

271
A economia nacional estava em plena anarquia. Os entrepostos
paquistaneses estavam a abarrotar de algodão, de juta, de peles, mas não
havia ateliers, nem fábricas de curtumes susceptíveis de as tratar. O
país produzia um quarto de tabaco da península mas não possuía
manufactura de fósforos. Subitamente privados dos seus quadros e dos seus
empregados hindus, o comércio e todo o sistema bancário estavam atingidos
de paralisia. Foi preciso importar a preço de ouro carvão da África do
Sul para fazer andar as centrais eléctricas, recusando-se a Índia a
vendê-lo ao seu vizinho.
Mas foi no envio do que lhe pertencia do antigo Exército das Índias que o
Paquistão encontrou na Índia uma má vontade que se parecia a um acto
deliberado de sabotar a sua sobrevivência. Das cento e setenta mil
toneladas de equipamento e de material que lhe eram devidas, o Paquistão
apenas recebeu seis mil. Tinham sido previstos trezentos comboios
especiais para fazer esta gigantesca mudança de casa. Chegaram apenas
três. Os oficiais paquistaneses encontraram neles cinco mil pares de
botas, cinco mil espingardas inutilizáveis, um lote de batas de
enfermeiras e caixas cheias de tijolos e de... preservativos.
Estas atitudes suscitaram nos muçulmanos um vivo rancor, e a convicção
profunda de que a Índia procurava estrangular o seu país ainda no berço.
O antigo comandante em chefe dos Exércitos das Índias partilhava do seu
receio. O marechal Sir Claude Auchinleck, que fora encarregado de
supervisar a partilha, escrevia, no fim de Agosto, ao governo britânico:
«não hesito em afirmar que o actual governo indiano está implacavelmente
determinado a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir o
desenvolvimento do Paquistão.
Não eram todavia as sombrias maquinações da Índia que mais pesavam sobre
o futuro do Paquistão. O novo Estado estava a pontos de ser absorvido,
como o seu vizinho indiano, pela maior migração de todos os tempos. De um
canto ao outro do Panjab, um povo aterrorizado pelo furacão da violência
fugiu a pé, em tanga, em charabãs, de comboio, de bicicleta, levando o
que podia, uma vaca, um charpoi, um saco de trigo, uma trouxa, alguns
utensílios. A interminável onda ia provocar uma troca de populações de
uma amplitude inigualável. Nos fins de Setembro, quando se tornaria um
verdadeiro maremoto, mais de cinco milhões de fugitivos encontrar-se-iam
iludidos nas estradas e nos caminhos do Panjab. Mais de dez milhões de
pessoas — que formariam uma cadeia indo de Calcutá a Nova York — mudariam
de domicílio em menos de três meses.
Este êxodo sem precedentes faria dez vezes mais refugiados que a criação
do Estado de Israel no médio Oriente e quatro vezes mais «pessoas
desalojadas» que a segunda guerra mundial.
Para os muçulmanos da pequena cidade de Karnal, ao norte de Nova Deli, a
partida foi dada pelo guarda campestre tamborilando de uma rua à outra e
anunciando que «para a salvaguarda da população muçulmana, chegaram
comboios para a transportar ao Paquistão».

272
Vinte mil habitantes abandonaram imediatamente as suas casas para se
dirigirem à gare.
Um outro guarda campestre informou os dois mil muçulmanos de Kasauli que
tinham vinte e quatro horas para deixar a cidade. Reunidos no dia
seguinte ao alvorecer no campo de manobras, viram-se despojados de todos
os seus bens à excepção de um cobertor por pessoa.
Madanlal Pahwa, o antigo marinheiro hindu que se refugiara na casa da tia
pensando «somos como cordeiros que conduzem ao sacrifício», partiu num
autocarro pertencente ao primo. Tinham amontoado aí os móveis, a louça,
os fatos, a roupa branca, o cofre encerrando as economias e as jóias, as
recordações e os retratos de família, as imagens de Shiva. Mas o pai de
Madanlal recusou-se a subir. O seu astrólogo afirmara-lhe que vinte de
agosto não era um dia favorável à viagem. Mesmo a ameaça de um ataque
iminente dos muçulmanos não o abalaria. Como bom hindu respeitador das
leis celestes, apenas iria embora quando os astros o recomendassem: em 23
de agosto às 9 h e 30 m da manhã.
Foi um pesadelo que decidiu o empreiteiro de curtumes hindu Jee Chaudri a
fugir. Sonhou que se encontrava na gare onde milhares de pessoas tomavam
de assalto todos os vagões do comboio em que desesperadamente tentava
subir. Acordou a suar quando o comboio do seu sonho partiu sem ele.
Levantou-se imediatamente, pôs algumas coisas no saco, correu até à gare
e meteu-se no primeiro comboio com destino à Índia. Ninguém escapou à
maldição do êxodo. Os tuberculosos muçulmanos do sanatório de Kasauli
foram expulsos pelos médicos hindus que os tratavam. Alguns apenas tinham
um pulmão; outros acabavam de deixar a mesa de operações. Todos foram
conduzidos até ao portão do estabelecimento com ordem de atingir a pé a
sua nova pátria. Os vinte e cinco Sadhu de Ashram de Baba Leal, do lado
paquistanês, foram expulsos dos edifícios onde tinham consagrado a sua
vida à oração, à meditação, ao yoga, e ao estudo das escrituras védicas.
Envolvidos na sua toga côr de laranja, com o seu santo padroeiro Swami
Sundar à frente no cavalo branco do Ashram a que se atribuíam milagres,
puseram-se a caminho cantando mantras enquanto muçulmanos incendiavam já
os lugares que eles acabavam de abandonar.
A preocupação principal no momento da partida era salvar alguns bens de
valor. B. R. Abalkha, um próspero comerciante hindu de Montgomery
escondeu quarenta mil rupias num cinto que enrolou à sua volta «para
comprar os muçulmanos ao longo do caminho a fim de que não nos matem».
Eram numerosos os que tinham convertido as suas economias em jóias,
sobretudo entre os hindus ricos. Um quinteiro dos arredores de Lahore
embrulhou cuidadosamente as da mulher e o seu ouro em pequenos pacotes
que atirou para o fundo do poço, prometendo a si mesmo voltar um dia a
recuperá-las.

273
Mati Das, um comerciante de sementes hindu de Rawalpindi, fechou o fruto
de toda uma vida de esforços, trinta mil rupias e quarenta «tola» de
ouro, numa caixa. Para ter a certeza de não a perder atou-a ao pulso por
um corrente. Vã precaução. Alguns dias mais tarde um muçulmano tirar-lha-
ia da maneira mais simples: cortando-lhe o pulso.
O que Renu Branblai, a esposa de um camponês hindu do distrito de
Mianwalli, possuía de mais precioso era intransportável: a sua vaca.
Dedicava-lhe uma veneração especial. Convencida de que «os muçulmanos iam
matá-la para a comer», decidiu dar-lhe a liberdade. Depois, impressionada
com o ar infeliz do animal, pegou em pó de cinábrio e fez-lhe na testa um
tilak para a proteger e lhe dar sorte.
Alia Hyder, uma rica jovem muçulmana de Lucknow, conseguiu fugir de avião
com a mãe e a irmã. Partiam para sempre mas apenas tinham direito, como
simples turistas, a 20 kg de bagagens. Nunca esqueceria a manhã que
passaram na cozinha a seleccionar pelo peso os objectos que lhes eram
mais queridos. A irmã escolheu o sari vermelho entrelaçado de fios de
ouro do seu casamento, a mãe escolheu o tapete de oração de veludo azul,
e ela decidiu-se por um exemplar do Alcorão com cobertura de madeira de
rosa, incrustada com uma guirlanda de pérolas.
Uma preocupação inversa animou o grande proprietário agrário de
Mianwallah, Baldev Raj, e os cinco irmãos. Persuadidos de que iam ser
despojados na fuga, levaram o conteúdo do cofre forte familiar para o
terraço da casa. Os muçulmanos iam talvez ocupar-lhes as terras, pensava
Baldev Raj, mas «nunca o nosso dinheiro cairia nas mãos desses
mandriões». Fez um monte com os maços de rupias acumuladas em toda uma
vida de labor e de poupança, depois, desatando aos soluços, lançou-lhes
fogo.
Alguns foram-se embora bastante decididos a voltar. Ahmed Abbas,
jornalista muçulmano originário de Panipal, uma cidade histórica ao norte
de Nova Deli, sempre fora hostil à ideia do Paquistão. Não foi para a
terra prometida de Jinnah que partiu, mas para a capital indiana. Ao
partir, a mãe atou um cartaz à porta da casa. «Esta casa pertence à
família Abbas, que decidiu não ir para o Paquistão, dizia ela. Esta
família vai apenas passar alguns dias a Nova Deli e regressará em breve».
Para Vickie Noon, a encantadora esposa inglesa de Sir Feroz Khan Noon, um
importante paquistanês de Lahore, o êxodo começou com a chegada de um
mensageiro à porta da sua vivenda de férias de Kulu, junto do Himalaia.
«Vão atacar a vossa casa esta tarde», anunciou-lhe. Povoada por uma
maioria de hindus, a região ficava doravante em território indiano. A
jovem possuía para se defender as duas espingardas de caça e o revólver
do marido. Confiou as espingardas a dois dos seus mais fiéis servidores e
ficou com o revólver, embora nunca se tivesse servido de uma arma de
fogo.
Quando a noite chegou, viu chamas no vale. Eram as casas de outros
muçulmanos que ardiam já.

274
Cerca das onze horas da noite, uma violenta chuvada encharcou os
incêndios e o fervor dos assaltantes. A linda Vickie Woon estava salva
por esta noite. No dia seguinte ao alvorecer, conseguiu refugiar-se no
palácio do seu velho amigo, o Raja de Mandi. A sua trégua devia ser de
curta duração. Uma aventura picaresca começava para a jovem inglesa de
pele branca e olhos azuis.
No medo, no desgosto, no ódio, no rancor, no pânico da precipitação ou na
ordem de uma partida meticulosamente preparada, puseram-se em marcha. Aos
milhares. Às centenas de milhares. Aos milhões. A chegada destes
formigueiros humanos provocou trágicos problemas aos dois Estados que
lutavam já pela sua sobrevivência, colocando-os na obrigação de 0s
acolher, com o espectro da fome e de epidemias gigantescas perante eles.
Estes milhões de refugiados espalhavam à sua passagem o vírus da grande
histeria que varria o Panjab. As narrações de atrocidades mantinham o
ciclo infernal e lançavam nas estradas novas colunas de miséria. Esta
migração demencial ia alterar para sempre o rosto e o carácter desta
terra carregada de história. Não se encontraria mais um único muçulmano
em numerosos altos lugares em que o génio dos mongóis tinha enfeitado a
Índia de tantas maravilhadas.
Dos trezentos mil sikhs e hindus que tinham habitado Lahore, apenas
restava um milhar. No fim do mês de Agosto, enquanto a violência
aumentava, um desconhecido realizou antes de fugir um gesto que
constituía o epitáfio do sonho perdido da cidade das Mil e Uma Noites,
uma reflexão amarga sobre o que podia significar a Independência para
tantos Panjabis. Uma mão anónima depôs no coração da cidade uma coroa de
flores ao pé da estátua da imperatriz Vitória.

Desta vez, eram quinhentos mil a esperá-lo. O «milagre de Calcutá»


persistia. Quinhentos mil hindus e muçulmanos misturados num oceano
fraternal cobriam a imensa esplanada do parque Maidan de Calcutá cujas
relvas tinham sido outrora domínio exclusivo dos póneis de polo e dos
jogos de cricket dos senhores britânicos. O próprio Gandhi, no enlevo da
sua alma caridosa nunca imaginara semelhante espectáculo. Este dia de
Agosto era o da grande festa muçulmana chamada Id-ud-Fitr, marcando o fim
do jejum do Ramadão, e multidões de uma amplitude sem precedentes tinham
acorrido à sua reunião de oração.
Desde o amanhecer, milhares de hindus e de muçulmanos tinham desfilado
debaixo das janelas da casa em ruínas onde residia o velho líder, vindo
procurar a sua bênção, trazendo-lhe flores e guloseimas. Como era
segunda-feira, o seu dia de silêncio, Gandhi passou uma grande parte do
dia a rabiscar para os seus visitantes mensagens de votos e de gratidão
nas costas de envelopes usados que lhe serviam de papel de carta. Durante
certo tempo, outros hindus e outros muçulmanos desfilavam juntos através
das ruas onde um ano antes se tinham massacrado mutuamente.

275
Cantavam slogans de unidade e de fraternidade, trocavam cigarros bolos,
bombons, molhavam-se com água de rosas. Quando Gandhi atingiu a pequena
tribuna edificada em sua intenção, um louco entusiasmo excitou a
assistência. Às 19 horas exactas, visivelmente perturbado p0r esta
fabulosa manifestação de amor, levantou-se e ofereceu à multidão a
saudação com as mãos juntas segundo a tradição indiana. Depois o velho
chefe hindu quebrou o seu voto de silêncio para se associar em urdu à
festa dos muçulmanos: «Id Mubarak!» — «Feliz Id!»
Para centenas de milhares de Panjabis, o primeiro reflexo de
sobrevivência no cataclismo que abalava a sua província, foi
precipitarem-se para os edifícios de tijolo e de ardósia pintados que
ofereciam em cada aglomeração de alguma importância um símbolo calmante
de ordem e de organização - as gares de caminho-de-ferro. Os nomes dos
comboios que, durante gerações, tinham passado perante os seus cais de
betão faziam parte da legenda indiana e ilustravam uma das realizações
mais prestigiosas da Inglaterra nas Índias. O Frontier Mail, o Calcutá-
Peshawar express, o Bombay Madras tinham, como o Orient-Express, o
Transiberiano e o Union Pacific americano, unificado um continente,
espalhando ao longo das suas vias os benefícios da tecnologia e do
progresso.
Neste fim de Verão de 1947, estes comboios representavam para as
multidões aterrorizadas a mais sólida esperança de fugir ao pesadelo.
Para dezenas de milhares de pessoas, iam tornar-se caixões rolantes.
Durante estes terríveis dias, a aparição de uma locomotiva desencadeava o
mesmo frenesim em todas as gares do Panjab. Como a proa de um navio
cortando as ondas, as máquinas abriram uma passagem no meio das
multidões, despedaçando os infelizes que caíam nos carris. Todos tinham
esperado durante dias, muitas vezes sem água nem comida, sob o sol
implacável de um verão a que a monção se recusava pôr fim. Num concerto
de gritos e de choros, a multidão atirava-se às portinholas e às janelas
dos vagões. Cachos humanos agarravam-se às paredes, às balaustradas, aos
puxadores, aos estribos, aos pára-choques. Quando já não restava mais
nada para deitar a mão, as pessoas subiam para os tectos arredondados das
carruagens, edificando sobre o metal escaldante alucinantes pirâmides de
corpos, de pacotes, de embrulhos, que a abóbada do primeiro túnel poderia
transformar numa horrível massa.
O professor hindu Nihal Bhranbi, a mulher e seis filhos conseguiram subir
para um vagão, mas a sua viagem para a esperança parou aí. Depois de ter
esperado durante seis horas que o comboio deixasse a gare da pequena
cidade paquistanesa onde há vinte anos ensinava, o hindu e a sua família
ouviram finalmente um apito. Mas este sinal anunciava apenas a partida da
locomotiva. Enquanto ela desaparecia no fundo da via, um bando de
muçulmanos brandindo matracas, lanças e machados, caía sobre a gare.

276
Gritando « Allah Akbar!» - «Deus é grande!» atiraram-se ao comboio,
massacrando à passagem todos os hindus que esperavam no cais. Irrompendo
nos vagões, os assassinos lançaram os viajantes para o cais, onde os seus
cúmplices os degolavam. Alguns hindus tentaram fugir mas outros
muçulmanos com camisas verdes perseguiram-nos e depressa os apanharam,
atirando-os, em seguida, mortos ou moribundos, para o fundo de um poço
diante da gare. A esposa do professor ouviu o chefe encorajar os
assassinos ao grito de: «Quanto mais hindus matardes, maior certeza
tereis de ir para o paraíso».
A jovem, o marido e os seis filhos apertavam-se uns contra os outros no
seu compartimento quando muçulmanos arrombaram a portinhola e atiraram
para o monte. «O meu marido foi atingido assim como o nosso - único
filho, recorda a Senhora Bhrandi. O meu filho começou a gemer: «Água,
água». Não tinha sequer uma gota para lhe dar. Pedi socorro. Os gemidos
do meu filho espaçaram-se suavemente e fechou os olhos. O meu marido não
dizia nada. Corria-lhe um fio de sangue da cabeça. De repente, a sua
perna teve uma espécie de convulsão, depois os membros esticaram. Atirei-
me sobre os dois corpos para tentar reanimá-los sacudindo-os. Mas já não
mexiam. As minhas filhas agarravam-se ao meu sari. Muçulmanos agarram-nos
e empurraram-nos para o cais. Levaram as minhas três filhas mais velhas.
Vi-os bater na cabeça da mais velha. Ela estendeu as mãos para mim e
gritou: «Mamã, mamã!» Mas eu não podia fazer nada.
«Um pouco mais tarde, muçulmanos vieram buscar o meu marido e o meu
filho, sem dúvida para precipitar os seus corpos no fundo de um poço.
Tudo acabara para eles. Então fiquei louca e comecei a gritar. Tinha a
impressão de que já nada importava, nem mesmo os dois filhos que me
restavam. Estava como morta.»
Apenas uma centena dos dois mil viajantes deste comboio deviam sobreviver
à tragédia e atingir a outra extremidade do Panjab.
O pai de Madanlal Pahwa, aquele hindu que não quisera fugir antes da data
considerada propícia pelo seu astrólogo, descobriu num destes comboios
malditos que a astrologia não era uma ciência exacta. A vinte quilómetros
da fronteira indiana, um bando de muçulmanos subiu ao estribo do seu
vagão, precipitou-se no compartimento vizinho ocupado por mulheres e
arrancou-lhes anéis e braceletes, cortando-lhes os dedos, punhos ou
tornozelos quando as jóias não caíam depressa. Alguns fizeram depois
passar as mais jovens pela janela e saltaram atrás delas. Outros
muçulmanos atiraram-se ao compartimento do pai de Madanlal Pahwa. Com um
golpe de sabre, um deles decapitou a mulher sentada em frente dele.
Durante um instante, a cabeça, ainda ligada ao pescoço por alguns
músculos, pendeu sobre o peito como a de uma boneca partida enquanto, nos
seus joelhos, o seu bebé lhe sorria chilreando. O viajante sentiu então
punhaladas a atravessá-lo. Rolou no chão e ficou quase imediatamente
coberto pelos corpos dos seus companheiros de infortúnio. Antes de
desmaiar, teve uma curiosa sensação: um larápio arrancava-lhe os sapatos.

277
Quando a primeira rajada de balas atingiu o seu comboio na gare de
Gujrat, o comerciante de sementes sikh Prem Singh pensou: «Os muçulmanos
vão fazer-nos pagar três séculos de escravatura. Vão exterminar-nos». Num
compartimento vizinho, aos primeiros tiros, o fazendeiro Dhani Ram
estendeu no chão a esposa e os quatro filhos, depois deitou-se sobre
eles. Quase imediatamente caíram-lhes feridos em cima. Sentindo sangue
correr, o hindu teve um reflexo que ia salvar a sua família: sujou o
rosto com ele, bem como o da mulher e dos filhos a fim de que passassem
todos por mortos.
Enquanto se acelerava o ritmo do êxodo nas duas direcções, estes comboios
de miséria tornaram-se, de cada lado da fronteira, o alvo preferido dos
assassinos. Foram atacados nas gares, detidos por emboscadas em pleno
campo. Foram desmontadas vias férreas para os fazer descarrilar perante
bandos de assaltantes que se atiravam à carniça. Comboios foram
imobilizados por cúmplices que accionavam a campainha de alarme. Outros
foram parados por mecânicos que tinham sido subornados ou ameaçados de
serem mortos. Na Índia, hindus e sikhs revistaram comboios inteiros de
refugiados e massacraram todos os machos circuncisados. No Paquistão,
muçulmanos degolaram todos os homens que o não eram.
A meticulosa organização que fazia o orgulho dos caminhos-de-ferro
indianos foi completamente desfeita. Já não havia horários. Poucos
maquinistas hindus aceitavam conduzir um comboio para o Paquistão, e
reciprocamente. Por vezes, durante quatro ou cinco dias de seguida, todos
os comboios que chegavam a Lahore ou a Amritsar apenas traziam um
carregamento de cadáveres e de moribundos.
Ashwini Dubey, o major indiano que tinha ficado louco de alegria, no dia
da Independência, por ver a bandeira do seu país flutuar na messe onde se
sentira humilhado pelos seus superiores britânicos, descobriu em Lahore o
preço desta liberdade quando um comboio entrou na gare, cheio de mortos e
de feridos. De cada portinhola escorriam rios de sangue, «como a água
transbordando do radiador de um automóvel num dia de grande calor».
Por toda a parte, neste Panjab que se teria crido maldito os sikhs
mostraram uma real loucura de exterminação, manchando a imagem de um
grande povo com ondas de sangue. Depois de terem atacado um comboio em
Amritsar, enviaram falsos socorristas percorrer os vagões e acabar com os
sobreviventes. Margaret Bourke-White, a fotógrafa americana da revista
Life, travou conhecimento com alguns destes sikhs, «veneráveis com as
suas longas barbas e turbantes azuis da seita Akali, acocorados ao longo
do cais. Com um sabre recurvado pousado nas pernas, esperavam
tranquilamente o comboio seguinte».
A bordo de certos comboios foram colocados pequenos destacamentos
armados, mas os soldados evitavam geralmente atirar sobre os assaltantes
que pertenciam à sua comunidade. A presença de alguns oficiais britânicos
à cabeça destas escoltas realizou por vezes verdadeiros prodígios.

278
Intrigado pelo abrandamento insólito do seu comboio a uma centena de
quilómetros da fronteira do Paquistão, o ferroviário muçulmano Ahed Zahur
deslizou até à locomotiva. Surpreendeu dois sikhs que entregavam um maço
de rupias ao maquinista hindu ao fim de que parasse o comboio na gare de
Amritsar. Aterrorizado, o ferroviário correu a revelar o que se
conspirava ao tenente britânico que comandava a escolta. Saltando de um
vagão para o outro pelos tejadilhos, como num western, o jovem oficial
correu até à locomotiva. De revólver em punho, deu ordem para acelerar.
Em vez de obedecer, o maquinista quis accionar os travões. O Inglês deu-
lhe uma pancada com a coronha, atou-o como um salsichão e apoderou-se dos
comandos da locomotiva. Alguns minutos mais tarde, num apito estridente e
com um Inglês negro de fuligem como maquinista, no comboio de Zahur e de
três mil viajantes muçulmanos atravessou a toda a velocidade a gare de
Amritsar nas barbas dos sikhs que se preparavam para aí os massacrarem.
Chegados sãos e salvos ao Paquistão, reconhecidos, os muçulmanos, que
escaparam puseram uma guirlanda ao pescoço do seu benfeitor britânico.
Não era feita de flores de jasmim e de cravos da Índia, mas de notas de
banco.
O pesadelo existia por todo o lado. O comboio que conduzia de Simls para
Nova Deli as centenas de criados da comitiva do antigo vice-rei foi
detido ao sinal de um petardo. Sikhs lançaram-se ao assalto dos vagões.
Os criados hindus juntaram-se a eles para se lançarem sobre os camaradas
Muçulmanos com os quais tinham servido o império. No seu compartimento,
Sarah Ismay e o seu noivo, o capitão aviador Wenty Beaumont um dos
ajudantes de campo de Lord Mountbatten, pegaram cada um, um revólver.
Dissimulado sob uma pilha de malas, encontrava-se com eles o criado de
quarto muçulmano, Abdul Hamid. Dois hindus apareceram à portinhola e
pediram-lhes cortesmente autorização para levar o muçulmano que os
acompanhava.
- Um passo mais e sois mortos, responderam em coro os dois jovens
ingleses apontando para os intrusos as suas Smith e Wesson.
Nesse dia, Abdul Hamid foi o único muçulmano que chegou vivo a Nova Deli.
A odisseia destes «comboios da morte» ia constituir o capítulo mais negro
da lenda maldita do Panjab. O americano Richard Fischer, representante
dos tractores Caterpillar, seria atormentado toda a vida pela cena de que
foi testemunho da janela do seu compartimento, apanhado numa emboscada
entre Quetta e Lahore. Muçulmanos tinham-se atirado ao comboio e lançavam
todos os viajantes sikhs para os carris onde cúmplices os matracavam até
à morte com curiosas canas de extremidades em forma de crescente. Treze
sikhs pereceram assim aos olhos do americano horrorizado. Acabada a sua
tarefa, os Muçulmanos brandiram com orgulho os seus instrumentos de
morte. Fischer pôde então identificá-los. Eram sticks de hóquei.
O Americano não chegara ao fim das suas surpresas.

279
Esperava-o um espectáculo surpreendente à chegada à gare de Lahore. Para
além dos cadáveres que juncavam o cais, o seu olhar foi atraído por um
cartaz. Recordação dos dias felizes em que a província dos cinco rios era
um modelo de ordem e de prosperidade, indicava: «está à disposição dos
senhores viajantes um caderno de reclamações no gabinete do chefe de
gare. Todas as pessoas que desejem fazer uma reclamação a propósito dos
serviços oferecidos pelos caminhos-de-ferro, é convidada a utilizar este
registo.»
Desta vez, eram quase um milhão. Dia após dia, durante estas duas semanas
trágicas em que o Panjab soçobrava na loucura, a grandeza das multidões
que assistiam à reunião de oração de Gandhi tinha aumentado transformando
a metrópole que mais de uma vez se mostrara selvagem num oásis de amor e
de fraternidade. As massas humanas mais pobres do globo tinham ouvido a
mensagem do profeta da reconciliação e encontrado as suas tradições
ancestrais de tolerância.
O «milagre de Calcutá» prolongava-se. «A cidade, escrevia o New York
Times, é a maravilha da Índia».
Com a sua habitual humildade, Gandhi recusou a paternidade deste
prodígio. «Apenas somos brinquedos na mão de Deus, explicou no seu jornal
Harijan. Ele faz-nos dançar ao som da sua música». Uma carta de Nova Deli
veio contudo prestar a este humilde César as honras que lhe eram devidas.
«No Panjab, temos uma força especial de cinquenta e cinco mil soldados, e
vastas desordens entre mãos, escrevia Luís Mountbatten ao seu «pobre
monge». Em Bengala, a nossa força de intervenção tem apenas um único
homem, e não há desordens». Na sua dupla qualidade de chefe militar e de
administrador, o último vice-rei das Índias reivindicava «o direito de
prestar homenagem ao único soldado do seu exército».
Rolavam lado a lado num carro descoberto. Trinta anos de luta comum
contra a dominação britânica deveriam ter dado aos primeiros-ministros
dos dois novos Estados - O Paquistão e a Índia - o privilégio de desfilar
triunfalmente no meio das multidões vibrantes dos seus compatriotas. Era
pelo contrário num mundo de horror e de miséria que Jawa-harlal Nehru e
Liaquat Ali Khan avançavam, um mundo de rostos silenciosos exprimindo o
medo e a angústia e não a gratidão pelos benefícios que a liberdade lhes
tinha trazido. Os dois homens percorriam o Panjab pela segunda vez na
busca desesperada de uma solução susceptível de restaurar um pouco de
ordem nesta terra de calamidades.
Tinham perdido completamente o controlo da situação. As suas forças de
polícia tinham-se desintegrado, a autoridade das suas administrações
dissolvera-se na tormenta e nem sequer podiam contar com a lealdade dos
seus exércitos.

280
O Panjab era o país do medo e da anarquia.
Perante o espectáculo das intermináveis colunas de refugiados que se
arrastavam nos dois sentidos, das aldeias devastadas pelas chamas e pela
pilhagem, dos campos que ninguém ceifara, os dois chefes de governo
caíram nos seus bancos, como que esmagados pelo peso de tantas desgraças.
Nehru acabou por romper o silêncio.
Que inferno esta maldita partilha nos traz! - indignava-se voltando-se
para Liaquat Ali Khan. Como poderíamos nós ter previsto tal catástrofe
quando a aceitamos? Então todos éramos irmãos. Porque aconteceu tudo
isso?
- Os nossos povos caíram na loucura, suspirou Liaquat Ali Khan.
De repente, um homem destacou-se de uma coluna de refugiados e
precipitou-se para o carro. Era um hindu, com um ar alucinado. Tinha
reconhecido o líder indiano. Nehru era alguém importante, «um master de
Deli, o chefe do governo, alguém que poderia fazer qualquer coisa». De
lágrimas nos olhos, agarrando-se às bordas da portinhola, o infeliz
implorou Nehru para que o ajudasse. Um bando de Muçulmanos tinha, a
alguns quilómetros, surgido de um campo de cana-de-açúcar e roubado a sua
única filha, a sua garota de dez anos. Adorava a filhinha mais do que
todas as coisas. «Devolvei-ma suplico-vos, devolvei-ma!» Gritava este
homem louco de dor.
Impressionado por este brutal confronto com a desgraça do seu povo, Nehru
enterrou-se mais no banco com uma brusca vontade de vomitar. Era o
primeiro-ministro de mais de trezentos milhões de cidadãos, mas era
incapaz de socorrer este pai desesperado que contava com ele para
realizar um milagre e lhe restituir a filha. Abatido por tristeza e
impotência, Nehru, pôs a cabeça nas mãos e chorou.
Nessa noite, o Primeiro-ministro da Índia não pode conciliar o sono.
Ainda sob o efeito de tudo o que acabava de ver, percorreu durante horas
o corredor da casa que ocupava em Lahore. A crueza sanguinária de que o
seu povo dava provas era para ele uma revelação aterradora. Ressentia
como uma horrível queimadura o ódio que submergia o Panjab, e nada na sua
existência o tinha preparado para afrontar tal tragédia. Pareceu-lhe tão
odiosa que não hesitou em se arriscar a perder o apoio dos seus
compatriotas para a combater.
Avisado de que os sikhs de uma aldeia próxima de Amritsar se preparavam
para massacrar os seus vizinhos Muçulmanos, convocou imediatamente os
seus chefes debaixo de uma enorme figueira-da-índia.
- Sei o que preparais, declarou-lhes. Se tocais num só cabelo dos vossos
vizinhos Muçulmanos, far-vos-ei reunir neste mesmo lugar, amanhã ao
alvorecer e darei pessoalmente ordem aos meus guardas para vos
executarem.
Cerca das duas horas da manhã, Nehru foi acordar o seu ajudante de campo
e pediu-lhe para entrar em contacto com Nova Deli a fim de seguir os
últimos desenvolvimentos da situação. Após a longa ladainha das más
novas, apenas recebeu uma única informação tranquilizadora: o velho homem
que ele traíra para aceitar a Partilha continuava a realizar o seu
milagre.

281
Calcutá estava calma.
Um assobio cortou o ar: era o sinal. Seis jovens lançaram-se em
perseguição aos dois homens que caminhavam calmamente na rua. Gritando:
«Muçulmanos! Muçulmanos!», alcançaram os passeantes e estenderam-nos por
terra. Aterrorizados, estes juraram que eram Hindus, dando nomes hindus e
direcções em bairros Hindus. Mas o chefe de grupo, um estudante de
dezassete anos chamado Sunil Roy, exigia uma prova mais formal e arrancou
as abas dos seus dhoti. Pôde constatar que tinham efectivamente os
estigmas da fé de Maomé: Eram circuncisados.
Um dos jovens hindus atirou-lhes uma toalha à cabeça, enquanto um outro
lhes atava os braços. Seguidos por toda uma multidão de fanáticos
brandindo matracas, facas e barras de ferro, os dois infelizes foram
empurrados aos gritos de «à morte, sujos Muçulmanos!». Até crianças se
juntaram ao sinistro cortejo para os ameaçar com tijolos e
paralelepípedos.
O seu caminho de cruz durou algumas centenas de metros até à curva
majestosa de um rio. «Em tempo normal, teríamos achado repugnante poluir
a água sagrada com sangue muçulmano, devia declarar mais tarde o chefe
dos raptores. Muitos hindus cumpriam o seu Puja ao longo das margens.
Mulheres banhavam-se.»
Os torcionários fizeram contudo descer as suas vítimas até ao rio. Uma
barra de ferro cintilou ao sol e abateu-se sobre o primeiro muçulmano com
um ruído de madeira partida. Com o crânio rebentado, o homem caiu na
água, deixando à superfície uma auréola vermelha. O seu companheiro
debateu-se furiosamente. «O mesmo rapaz bateu-lhe na cabeça, contaria
mais tarde o chefe dos assassinos. Crianças atiraram-lhe tijolos. Um
homem apunhalou-o no pescoço para ter a certeza de que estava bem morto.»
Em redor, fiéis Hindus continuavam a rezar, aparentemente indiferentes ao
espectáculo dos dois assassinatos perpetrados a alguns metros deles.
Realizada a sua tarefa, Sunil Roy empurrou com um pontapé os dois corpos
para o largo e a corrente arrastou-os. Elevou-se então do grupo dos
assassinos um grito repetido três vezes: «Kali Mayi-Ki Jai!» — «Viva a
nossa mãe Kali!»
Era a manhã de 31 de Agosto de 1947. Após dezasseis dias de milagre, o
vírus do ódio religioso contaminava de novo a cidade de Calcutá. Como nos
outros lados, a infecção alastrava, propagada pelas narrações de horror
dos refugiados que chegavam do Panjab. Bastara um vago rumor dos
refugiados que chegavam do Panjab. Bastara um vago rumor anunciando que
um adolescente hindu tinha sido espancado até à morte por Muçulmanos num
carro eléctrico para voltar a pôr fogo à pólvora.

282
Às dez horas dessa noite, um cortejo de jovens fanáticos hindus irrompeu
bruscamente no pátio de Hydari Mansion para exigir uma entrevista com o
Mahatma. Estendido na sua esteira entre as sobrinhas fiéis Manu e Abha,
Gandhi dormia. Exibindo uma criança com a cabeça envolvida numa ligadura,
que pretendia ter sido batida por Muçulmano, a multidão começou a gritar
e a atirar pedras à casa. Manu e Abha saíram para tentar apaziguá-la mas
sem sucessão. Empurrando os polícias, os revoltosos espalharam-se pelo
interior da casa. Acordado pelo barulho, Gandhi levantou-se e enfrentou
os assaltantes. «Que nova loucura é esta? Perguntou. Eis-me: Matai-me!»
As suas palavras perderam-se no alarido. Dois Muçulmanos cobertos de
sangue conseguiram atravessar as filas dos manifestantes para virem
refugiar-se junto de Gandhi. Uma matraca voou na sua direcção e passou
junto da cabeça do Mahatma antes de vir espetar-se na parede por detrás
dele.
Chegaram por fim reforços da polícia e Gandhi pôde voltar a estender-se
na sua esteira. Estava impressionado: o «milagre de Calcutá» não fora
mais que uma extraordinária miragem.
As suas últimas ilusões foram definitivamente varridas no dia seguinte.
Pouco depois do meio dia foram feitos uma série de ataques combinados
contra os bairros de lata Muçulmanos onde os habitantes, confiantes pela
presença de Gandhi, tinham regressado. A maior parte destas acções eram
conduzidas por fanáticos do R. S. S. S., a organização hindu extremista
cujos militantes tinham, no dia da independência, saudado em Poona a cruz
gamada da sua bandeira cor de laranja. Em Beliaghata Road, não longe da
residência do Mahatma, duas granadas explodiram num camion evacuava um
grupo de Muçulmanos aterrorizados. Gandhi ocorreu imediatamente. Tinham
sido mortos dois trabalhadores. Com os olhos vidrados, jaziam num charco
de sangue, nuvens de moscas voltejavam em torno das suas chagas abertas.
Uma moeda de quatro annas tinha rolado do bolso de um deles e brilhava no
chão ao lado do seu cadáver.
Gandhi sentiu tal choque que recusou qualquer alimento e isolou-se no
silêncio. «Rezo para a Luz. Procuro no mais profundo de mim. Apenas o
silêncio me pode ajudar», disse simplesmente.
Algumas horas mais tarde, após um curto passeio no pátio, acocorou--se na
esteira para redigir uma declaração pública. Encontrara a resposta que
procurava e a sua decisão era irrevogável. Para fazer voltar Calcutá à
razão, ia submeter o seu velho corpo a uma greve da fome até à morte.
Décima estação do caminho de cruz de Gandhi A paz ou a morte
A arma que Gandhi ia brandir era a mais paradoxal que se podia empregar
neste país onde morrer de fome era, desde há séculos, a mais comum das
maldições. Esta arma era portanto tão antiga como a Índia.

283
0 antigo adágio dos Rishi, os primeiros sábios da Índia antiga - «Se
fizeres isso, sou eu que morro» -, não tinha deixado de inspirar um povo
desmunido as mais das vezes de qualquer outro meio de coacção. Em 1947,
camponeses iam ainda jejuar dia