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Alabastro: ISSN 2318-3179 São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017

Alabastro: ISSN 2318-3179 São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017

CONSELHO EDITORIAL

Aldo Fornazieri (FESPSP) Ana Cristina Passarella Brêtas (UNIFESP) Carlos Alberto Furtado de Melo (INSPER) Clarice Cohn (UFSCar) Cláudio Gonçalves Couto (FGV) Eliana Asche Cintra Ferreira (FESPSP) Flávio Rocha de Oliveira (UNIFESP) Flávio Wolf de Aguiar (USP) Ivan Russeff (FESPSP) Marcia Regina Tosta Dias (UNIFESP) Miguel Wady Chaia (PUC-SP) Roseli Aparecida Martins Coelho (FESPSP) Rosemary Segurado (FESPSP/PUC-SP) Vera Lucia Michalany Chaia (PUC-SP) Wagner Tadeu Iglecias (USP)

NESTA EDIÇÃO

EDITORES

Jéssica Ferreira Cardoso Graduanda em Sociologia e Política, FESPSP Pedro Barleta do Nascimento Graduando em Sociologia e Política, FESPSP

EDITORES-ASSISTENTES

Fábio Ap. Jesus Graduando em Sociologia e Política, FESPSP Felipe Daniel Paludetti Graduando em Sociologia e Política, FESPSP Igraine Martins Kramer Graduando em Sociologia e Política, FESPSP

COMISSÃO EDITORIAL

Carla Diéguez Doutora em Ciências Sociais, UNICAMP; Coordenadora do curso Sociologia e Política, FESPSP Fernanda Lima Graduada em Sociologia e Política, FESPSP

ORGANIZAÇÃO

Daniel De Lucca Reis Costa Doutor em Ciências Sociais, UNICAMP

ILUSTRAÇÃO

Toni D’Agostinho

DIAGRAMAÇÃO

Jéssica Ferreira Cardoso Graduanda em Sociologia e Política, FESPSP

A Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo) tem por escopo a publicação científica de artigos acadêmicos. Os artigos são de responsabilidade dos respectivos autores, não refletindo necessariamente a opinião da Comissão Editorial acerca do conteúdo dos mesmos.

da Comissão Editorial acerca do conteúdo dos mesmos. Este trabalho está licenciado sob uma Licença Creative
ISSN 2318-3179 São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017
ISSN 2318-3179
São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017

Sumário

Nota dos Editores

Jésica Ferreira Cardoso e Pedro Barleta do Nascimento

4 - 5

Ilustração

Toni D’Agostinho

6

Apresentação do Dossiê Direitos Humanos e Sociedade

Daniel De Lucca

7 - 12

Artigos

A comida como direito: apontamentos sobre o direito à alimentação adequada a partir da trajetória do Fome Zero Lis Furlani Blanco

Migração internacional e cidadania: avaliação das políticas públicas para migrantes na cidade de São Paulo na gestão Haddad (2013-2016) Ederson Duda da Silva

Ocupar e existir: os refugiados sírios como participantes do Movimento de Ocupação de São Paulo Guilherme Henrique Vasconcellos Leonel

13 - 30

31 - 49

50- 63

Espaço

urbano,

fluxos

e

direitos:

percursos

no

Elevado

João

Goulart

64

- 74

(Minhocão) Isabela Oliveira Pereira da Silva, Álex Kalil, Amanda Gabriela Jesus Amparo, Ana Paulo Martins, Robson Perez e Vinicius Santos

 

Da luta à lei: a violência contra as mulheres como violação dos direitos humanos Luciana Vieira Rubim Andrade

75

- 89

Direitos Humanos, Redes Sociais e Informação: Reflexões sobre o papel do Humaniza Redes Ketlen Stueber, Luis Fernando Herbert Massoni e Valdir Jose Morigi

90 - 103

Estudo comparativo entre o discurso da mídia e do povo sobre a Copa de 2014 Igor Lacerda, Cláudia Sendra e Guilherme Carvalhido

104 - 116

o discurso da mídia e do povo sobre a Copa de 2014 Igor Lacerda, Cláudia Sendra

Nota dos Editores

Temos a satisfação de compartilhar com vocês, leitoras e leitores, a nona edição da Alabastro - revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, repleta de trabalhos que compõem o dossiê “Direitos Humanos e Sociedade”.

A ALABASTRO, por ser uma revista editada por estudantes de graduação que se dedicam

a ela voluntariamente ao longo da sua formação, tem em sua dinâmica a constante renovação

dos seus integrantes. A editoria, que nas últimas edições foi composta majoritariamente por ex- alunos, passa, em 2017, a novamente ser conduzida por estudantes regulares do primeiro, segundo,

terceiro, e quarto anos do curso de Sociologia e Política, o que nos figura uma importante conquista. Dando continuidade aos princípios da revista, o atual corpo editorial reitera o esforço em valorizar

e fortalecer este como um espaço aberto ao graduando, seus anseios e sua produção.

A presente edição contou com a idealização e organização dedicada do Prof. Dr. Daniel

De Lucca (UNICAMP), coordenador de projetos do Núcleo de Direitos Humanos (NDH) da FESPSP, e quem redige a Apresentação deste volume. Sua publicação se justifica diante do cenário favorável às discussões relativas ao universo dos Direitos Humanos que nos parece demandar a reunião de produções sobre o assunto no âmbito das Ciências Sociais.

sobre o assunto no âmbito das Ciências Sociais. Esperamos que a leitura suscite boas reflexões. Os

Esperamos que a leitura suscite boas reflexões.

Os editores.

sobre o assunto no âmbito das Ciências Sociais. Esperamos que a leitura suscite boas reflexões. Os

I

lustração

Ilustração

por Toni D’Agostinho

(facebook.com/artedetonidagostinho)

por Toni D’Agostinho ( facebook.com/artedetonidagostinho ) Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de

Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017, p. 6.

A presentAção

Dossiê

Direitos Humanos e Sociedade

por Daniel De Lucca Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP, Professor e Coordenador do Núcleo de Direitos Humanos (NDH) da FESPSP

(dandelucca@gmail.com)

I

O ano de 2018 completa setenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, e trinta anos da chamada “Constituição Cidadã”, de 1988. De lá para cá muita coisa mudou, no mundo e no Brasil. Este Dossiê enfrenta questões relativas a estas mudanças, propondo relacionar a crítica à crise contemporânea dos Direitos Humanos. Estes, serão examinados através das lentes e dos instrumentos fornecidos pelas Ciência Sociais. Com isso, queremos sugerir que os Direitos Humanos não constituem apenas um marco jurídico-normativo ou mesmo mais um campo de lutas onde o jogo social se desenrola, mas configura um potente analisador, um posto de observação adequado para o exame aprofundado dos conflitos violentos e das transformações sociais de nosso tempo. Transformações estas que ainda se encontram em curso e que sugerem novos sentidos para o direito, para a violência, para a vida e para própria noção do que é “ser humano”. Assim, nesta apresentação proponho uma breve introdução da história política dos Direitos Humanos, considerando diferentes cenários e escalas, para então detalhar os artigos que dão corpo ao Dossiê que o leitor tem em mãos.

II

Em 1948, no ambiente de criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos foi uma resposta imediata às grandes guerras e catástrofes que assolaram a primeira metade do século XX. O documento buscava codificar normas mínimas para proteger a vida e a dignidade de todos os seres humanos, tornando-se um critério jurídico internacional e também um valor normativo a ser seguido e respeitado pelos vários Estados nacionais signatários. Mas durante a Guerra Fria o conceito de “indivisibilidade” de Direitos Humanos foi completamente fraturado entre os dois blocos antagônicos: direitos civis e políticos, de um lado, e direitos econômicos, sociais e culturais, de outro. EUA e URSS tratavam de influenciar a consolidação desses direitos impregnando-os de um discurso ideológico capaz de justificar não só suas formas de organização interna, como também os seus discursos de política externa. O bloco capitalista usava a defesa dos direitos políticos e civis como munição para promover sua visão de mundo, em contraposição ao bloco comunista que, avesso aos direitos políticos e de liberdades individuais, afirmava a primazia dos direitos econômicos e sociais coletivos (Hunt, 2010).

Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 6, v. 1, n. 9, 2017, p. 7-12.

A queda do muro de Berlim modificou este cenário, fazendo dos Direitos Humanos um importante

horizonte de expectativas para movimentos sociais progressistas, sociais-democratas e políticos de esquerda que ali buscaram preencher o vazio deixado pelo fim do socialismo real (Santos, 1997). Entretanto, em 2001, os atentados de “11 de setembro” abriram o novo milênio fazendo com que o sistema internacional criado em 1948 fosse mais uma vez chacoalhado devido às manobras geopolíticas da maior potência mundial. A instabilidade econômica, iniciada em 2008, bem como o pânico moral dos países no Atlântico Norte a respeito da chamada “crise dos refugiados” amplificou ainda mais as ondas de desestabilização dos marcos regulatórios globais. Neste sentido,

a ascensão de Donald Trump nos EUA e a saída da Inglaterra da União Européia representam transformações geopolíticas importantes ocorridas no centro do capitalismo mundial que foi hegemônico no século XX.

“Os Direitos Humanos vivem o pior momento desde o pós-Guerra” afirmou em entrevista Iain Lavine, da Human Rights Watch, quando esteve no Brasil em maio de 2017. Segundo Lavine, diretor de programas de uma das mais influentes organizações de Direitos Humanos do mundo, “todo um sistema erguido depois da Segunda Guerra, depois do Holocausto, para tentar garantir um certo nível de proteção dos civis, tudo isso está

falhando. As pessoas estão perdendo a confiança no sistema internacional” 3 . Este alerta é reforçado pelo fato de que, em várias partes do planeta, observa-se a ascensão de regimes autoritários, o endurecimento das fronteiras,

o crescimento do nacionalismo de massa, da xenofobia, da intolerância religiosa, do racismo, do sexismo e da

homofobia. Um cenário que se agrava com o prolongamento de guerras intermináveis na Palestina, na Síria, no Congo, no Mianmar e no Irian Jaya (Indonésia), além da atualização de outros novos modos de guerrear em escala transnacional - a guerra contra o terror, contra as drogas e contra a corrupção. Os novos meios de comunicação também aí atuam como importantes suportes narrativos na proliferação de discursos belicosos e intolerantes que forjam um novo consenso político completamente avesso a projetos e ideais democráticos, de governo e de vida coletiva. Neste ambiente hostil ao diálogo e à coabitação do mundo, noções basilares dos Direitos Humanos, como “universalidade dos direitos” e “igualdade jurídica”, são facilmente descartadas em prol do pragmatismo de mercado e da realpolitik. Esta forte contestação ao “direito a ter direitos”, para seguir a célebre formulação de Hanna Arendt (1988 [1951]), desenha os combates que marcam os novíssimos “tempos sombrios” em vigor.

No Brasil a trajetória dos Direitos Humanos seguiu caminhos próprios, fazendo com que os princípios da Declaração chegassem muito mais tarde, apenas 40 anos depois. A difícil luta pela democracia, pelo fim da ditadura militar, também pelo fim do cárcere político, da tortura e dos desaparecimentos, forjou ideais humanistas materializados na constituição de 1988, documento máximo que incorporou formalmente os princípios de 1948 (Carvalho, 2014; Alonso & Dolhnikoff, 2015). Mas como alguns analistas sugerem, o ciclo aberto pela “Nova República”, o mais longo período de experiência democrática vivida no país, parece ter chegado ao fim (Safatle, 2017).

Iniciada em 2013, quando “o gigante acordou”, a ruptura política brasileira se consolidou com o impeachment

de 2016. Mediante um tour de force institucional muito bem financiado pelo empresariado - num amplo acordo “com o Supremo, com tudo”, como afirmou Romero Jucá (PMDB) em gravação amplamente divulgada - assistimos

a derrubada de uma presidenta eleita pelas urnas. Daí emergiu o primeiro presidente da república denunciado,

duas vezes seguidas, por corrupção. Um chefe de Estado sem legitimidade popular e com a menor aprovação já registrada na história do país (3% segundo pesquisa do CNI/IBOPE em setembro de 2017). O governo cínico que

3 Link: https://www.nexojornal.com.br/entrevista/2017/05/06/Direitos-humanos-vivem-pior-momento-desde-o-pós-Guerra-segun- do-este-especialista

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aí se formou - cínico pois ascendeu graças ao discurso do combate à corrupção e agora abandona por completo o horizonte das aparências - colocou em curso o desmonte e a rapinagem do Estado: transformando dívidas privadas em dívidas públicas, destituindo os direitos dos trabalhadores, financiando bancos e corporações, bloqueando políticas sociais, doando e vendendo terras que não são suas, perseguindo minorias, intelectuais, pesquisadores, artistas e até mesmo curadores de museus. A oposição política tem sido criminalizada, o encarceramento em massa intensificado e o apartheid social alargado. Cada vez mais fecha-se os olhos para o trabalho escravo. Novas senzalas irrompem aqui e ali. E finalmente o patriarcado brasileiro explicita sua mais longeva tradição, transformando o planalto numa enorme casa grande.

O que observamos, então, não é apenas um aprofundamento das piores práticas dos governos anteriores, mas o desempacotamento de uma caixa de pandora na qual o reclamo nostálgico pelo “retorno” da ditadura militar e da monarquia, bem como o agigantamento de pautas morais associadas aos discursos do “Movimento Brasil Livre” e da “Escola Sem Partido”, ganham ares de “salvação nacional”. E a nação a ser salva é imaginada e idealizada como uma família mononuclear, de classe média, branca, heterosexual, com homens provedores e

mulheres reprodutoras. O conservadorismo em cólera ganha espaço nas ruas, nas mídias, na política e no judiciário.

O furor e a indignação manifesta fomentam práticas de censura e constrangimento à vida e ao pensamento

diverso. Tais movimentações causam medo, apreensão e terror, sentimentos que facilmente se associam ao desejo por estabilidade e pelo “fim da bagunça”. Condições estas, mais que adequadas para a legitimação pública de figuras autoritárias com duras políticas arbitrárias.

Em São Paulo, a maior metrópole do país, a crise dos Direitos Humanos tem assumido configurações locais próprias. Os cenários são inúmeros e aqui destaco apenas um que me parece exemplar. Num domingo de maio

de 2017, em plena Virada Cultural, uma forte ação policial teve como alvo a chamada “cracolândia” no bairro da

Luz. A intervenção foi uma ação coordenada pelo governo do estado com a prefeitura de São Paulo, integrando

várias instituições e agentes estatais, e que buscava, chamar a atenção pública e impelir os usuários de crack a deixar o local. Orgulhosamente anunciada pela nova gestão municipal como “o fim da cracolândia”, a ação não era radicalmente nova, apenas reproduzindo em escala ampliada as trágicas intervenções anteriores já ocorridas

no território: a “operação dignidade” em 1993, a “operação limpa” em 2005, a “operação dor e sofrimento” em

2012, e a “operação sufoco” em 2013. Intervenções cujos resultados, qualificados como “inócuos” pelos críticos, apenas reforçaram o sentido daquele fragmento da cidade como uma “aporia urbana”, um impasse radical e insolúvel

que habita o âmago da metrópole (Fromm, 2017).

Mas em 2017 retomou-se a velha fórmula do remédio repressivo como solução para se “acabar com a cracolândia”. Contudo, a nova ação ganhava dimensões dramáticas e performáticas que extrapolaram suas versões precedentes. Acompanhada por helicópteros, carros blindados, bombas de gás lacrimogênio, tropa de choque e até atiradores de elite (snippers), a ação foi então amplamente divulgada pela imprensa local, nacional e internacional. Os frequentadores do espaço foram levados, no atacado, para prisões e clínicas terapêuticas. A institucionalização em massa, prisional e sanitária, conflagrou um novo campo de batalhas para ativistas, advogados e defensores públicos que enfatizaram o caráter completamente ilegal da ação e denunciaram os maus tratos e as torturas cometidas.

De feição militar, a intervenção desenhou um quadro de guerra no coração da capital, com deslocamentos humanos forçados, famílias desalojadas, pessoas feridas e desaparecidas. O impacto foi forte, na dinâmica do bairro e mesmo no centro da cidade, com saque de lojas, pessoas em fuga, medo e apreensão. No calor apressado

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da “limpeza urbana”, agentes da prefeitura lacraram moradias com pessoas dentro que ficaram ali cativas, sem água, alimentação ou auxílio. Também um dos tratores responsáveis pela demolição dos edifícios, acabou por derrubar uma construção com gente dentro. E, enquanto policiais tiravam suas selfs meio às ruínas e destroços do território como souvenir da ocupação vitoriosa, o “fluxo” se refugiava na Praça Princesa Isabel. No espaço que recebe o nome da mulher que assinou a Lei Áurea, usuários de crack encontravam-se cercados por policiais armados e, com medo de serem espancados e presos ao saírem de lá, só tinham acesso à água potável, recursos e cuidados básicos através de uma rede de ativistas e trabalhadores sociais que levaram insumos para o perímetro do confinamento. À sombra do enorme monumento de Duque de Caxias, patrono da guerra em nosso país, formou-se então um enorme campo de refugiados urbanos.

Posteriormente, um obscuro incêndio teve ali início, se alastrando por todo acampamento da praça, queimando barracas, pertences e alguns corpos, e gerando um novo deslocamento em massa. Como resposta

à crise humanitária instalada, familiares atingidos e movimentos sociais ocuparam a Secretaria Municipal dos

Direitos Humanos (SMDH). Patrícia Bezerra, que à época era a única mulher posicionada no alto escalão da administração municipal de João Dória, qualificou a operação como “desastrosa” e acabou por renunciar ao cargo de Secretária Municipal de Direitos Humanos. Na cidade de São Paulo os confrontos continuam e se intensificam em múltiplas ramificações, não apenas na região central, espaço com grande projeção midiática, mas sobretudo nas periferias urbanas, comunidades, favelas, quebradas, escolas públicas etc.

Os diversos cenários de crise dos Direitos Humanos aqui destacados assinalam a espessura dos inquietantes desafios a serem enfrentados na escala internacional, nacional e também municipal. Em todo caso é necessário reconhecer que, de um modo ou outro, somos todos testemunhas, observadores e partícipes, queiramos ou não,

do agravamento do conflito social brasileiro que avança numa escalada sem precedentes. E com a agudização dos embates e dos confrontos, as regras públicas que deveriam regular o jogo de interesses em disputa se mostram pálidas, débeis, ineptas. Como recorrer ao Estado brasileiro se este se apresenta como violador número um? Algumas esperanças otimistas vislumbram nas eleições de 2018 um horizonte possível que, em todo caso, deverá concorrer com outros projetos políticos que almejam instituir o sistema parlamentarista no país, sem consulta popular e à revelia dos interesses da população. De fato, a Constituição e os direitos da cidadania viraram coisa outra. E, se no Brasil, a crítica rasa aos Direitos Humanos tendia a acusá-lo como “direito de bandido”

e “direito dos manos” (Caldeira, 2003), agora surge mais uma camada de sentido a ser descascada, aquela que associa os Direitos Humanos ao pensamento de “esquerda”.

III

O Dossiê “Direitos Humanos e Sociedade” propõe então uma visão ampliada sobre diferentes tópicos conectados ao tema, incorporando trabalhos que interrogam, de uma perspectiva crítica e interdisciplinar, as implicações culturais, políticas e econômicas envolvidas nas práticas e lutas sociais em torno dos Direitos Humanos, no Brasil e no mundo. Do ponto de vista das Ciências Sociais, que é o adotado aqui, o desafio é distanciar-se da noção de Direitos Humanos em sua forma abstrata e descontextualizada, para perguntar-se então como esta noção é traduzida na prática social, considerando suas consequências e implicações concretas, a trama das relações de poder situadas em contextos históricos e geográficos específicos, bem como os sentidos, as categorias sociais e as formas de disputa colocadas em jogo em nome dos Direitos Humanos.

Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 6, v. 1, n. 9, 2017, p. 7-12.

Muitos dos artigos aqui presentes foram primeiramente elaborados no contexto do Grupo de Trabalho

Direitos Humanos: trajetórias e desafios realizado durante as atividades do Seminário FESPSP no ano 2016. A organização deste GT teve origem no Núcleo de Direitos Humanos (NDH) da FESPSP, um espaço coletivo de estudos, pesquisa, atuação e discussão crítica no campo dos Direitos Humanos, do qual participam professores, estudantes, ex-alunos e demais interessados. O convite à publicação dos melhores trabalhos do GT foi calorosamente acolhido pelas editoras e editores da Revista Alabastro e posteriormente foi alargado com uma chamada pública de artigos. De

tal forma que temos aqui uma edição singular que conta com sete ensaios de autores com gradações acadêmicas

diversas: doutorandos, mestrandos e graduandos.

Mas este também é um Dossiê ilustrado. Acolhemos aqui o aguçado traço de Toni D’Agostinho, artista que desenha a imagem deste número, expressando o forte retrato de uma justiça que não faz justiça ao seu nome. Na ilustração de Toni, a justiça é representada como uma figura que não pode ver, mas que também não deixa outros falarem, silenciando e controlando vozes subalternas, mas mantendo-as perto de si, como testemunhas mudas de uma justiça cega que mantém indizíveis seus sujeitos de direitos.

O instigante artigo de Lis Furlani Bianco abre o Dossiê destacando deslocamentos envolvidos na

compreensão da alimentação como parte inalienável dos Direitos Humanos. Ao abordar a fome sob uma perspectiva antropológica, a autora levanta interessantes questões a respeito dos sentidos da dignidade e da necessidade envolvidos na refeição, o que permite problematizar os debates entorno do programa “Fome Zero”, política situada no fio da navalha entre os dilemas do emergencial e do estrutural, da carência e do direito. No segundo artigo, Edson Duda da Silva interroga as políticas públicas para imigrantes na gestão municipal de Fernando

Haddad, apresentando elementos da história da construção da lei municipal, a mobilização política que se articulou ao redor do tema e questionando os significados das classificações legais e da própria noção de “acomodação digna”. O artigo de Guilherme Vasconcellos Leonel continua a problematizar a experiência do deslocamento e

do refúgio em São Paulo, agora a partir de documentação e visitas de campo na Ocupação Leila Khaled, espaço

marcado pela presença de refugiados sírios que, por meio de redes informais de apoio, participam ao seu modo

da luta por moradia e pelo direito à cidade.

O quarto artigo é de autoria coletiva e retrata pesquisa de campo coordenada pela professora Isabela Oliveira Pereira da Silva no baixio do chamado “Minhocão”. Ali suas fronteiras, fluxos e personagens são considerados:

michês, prostitutas, usuários de crack, catadores, refugiados, entre outros. A partir de um estudo específico o texto versa sobre temas caros à antropologia urbana e aos Direitos Humanos: segregação, violência e direito à cidade. Tratado ele mesmo como um personagem urbano, o agora renomeado elevado João Goulart é então entendido como um “quarto de despejo”, ao mesmo tempo um espaço de rejeito e também de acolhida para os indesejáveis urbanos. Luciana Vieira Rubim Andrade, por sua vez, enfrenta o problema do feminicídio e da violência contra a mulher no Brasil. Apoiada na crítica feminista a autora reconstitui a trajetória dos marcos legais e políticos sobre a questão e analisa mais detalhadamente dois casos de denúncia contra o Estado brasileiro que alcançaram o sistema internacional de Direitos Humanos: Márcia Leopoldi e Maria da Penha.

Os dois últimos artigos do Dossiê focalizam o lugar dos direitos no âmbito das comunicações e das redes

sociais. Ketlen Stueber, Luis Fernando Herbert Massoni e Valdir Jose Morigi desenvolvem reflexões sobre a

breve, mas importante, vida do projeto federal “Humaniza Redes” no combate ao discurso do ódio na internet.

O estudo sinaliza algo vital nos tempos de hoje, registrando a experiência (abortada) do monitoramento das

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narrativas raivosas e ofensivas nas redes sociais. Por último, Igor Lacerda, Cláudia Sendra e Guilherme Carvalhido acompanham o debate na mídia sobre os conflitos entorno da Copa do Mundo na cidade do Rio de Janeiro em 2014. O contraste dos discursos é estabelecido através das denúncias das violações dos Direitos Humanos e a narrativa-mestra fornecida pelo jornal O Globo. Para além das diferentes formas de se narrar a Copa, o trabalho nos aponta para a luta pelos sentidos políticos da cidade e também do próprio direito. Com esta singular edição da Revista Alabastro esperamos que os leitores se sintam provocados a refletir sobre os Direitos Humanos, ampliando o debate sobre as lutas sociais e políticas que circunscrevem o tema.

Referências bibliográficas

Alonso, Angela & Dolhnikoff, Miriam, 1964 do golpe à democracia, São Paulo: Hedra; 2015.

Arendt, Hannah, “O declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem”, In: Origens do Totalitarismo, São

Paulo; Companhia das Letras; 1998 [1951].

Caldeira, Teresa Pires. “O corpo incircunscrito e o desrespeito aos direitos”, In: Cidade de Muros: crime, segregação e

cidadania em São Paulo, São Paulo: Editora34/Edusp; 2003.

Carvalho, José Murilo. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro; Civilização Brasileira; 2014.

Fromm, Deborah Rio, O “fim da cracolândia”: etnografia de uma aporia urbana [Dissertação de mestrado] Instituto de

filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, 2017.

Hunt, Lynn, A invenção dos Direitos Humanos, São Paulo: Companhia das Letras; 2010.

Safatle, Vladimir, Só mais um esforço, São Paulo: Três Estrelas; 2017.

Santos, Boaventura de Souza, “Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos”, Revista Crítica de Ciências

Sociais, n. 48, 1997.

Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 6, v. 1, n. 9, 2017, p. 7-12.

A rtigos

A comida como direito: apontamentos sobre o direito à alimentação adequada a partir da trajetória do Fome Zero

Lis Furlani Blanco Doutoranda em Antropologia Social pela UNICAMP (lisfblanco@gmail.com)

Resumo

Na criação do Programa Fome Zero, era pressuposta a ideia do direito à alimentação como parte inalienável dos direitos fundamentais do homem tendo como princípio político a perspectiva de que o acesso à comida não deve transitar no terreno da filantropia. Mais de dez anos se passaram desde o lançamento do Fome Zero, mas a questão do direito à alimentação e sua associação com políticas consideradas assistencialistas ainda é tema de debate. Neste sentido é objetivo deste artigo, partir da definição e problematização das categorias de comida e alimento para discutir o atual cenário do Direito à Alimentação Adequada no Brasil através da análise de uma cena etnográfica, que se passou no Conselho Municipal de Segurança Alimentar de São Paulo, a qual é parte de minha pesquisa de doutorado sobre a fome enquanto objeto múltiplo. Pretendo assim, compreender, a partir de questionamentos levantados por esta cena etnográfica, algumas categorias imbricadas nesta disputa, tais como a noção de direitos, assistência, vulnerabilidade e bem-estar social em ação/circulação/pauta.

Palavras-chave

direito à alimentação adequada; Fome Zero; assistência social; política pública

Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017, p. 13-30.

Artigos

A comida como direito: aponamentos sobre o direito à alimentação adequada a partir da trajetória do Fome Zero

Lis FurLAni BLAnco

Introdução

eu realmente queria estudar interveio de forma banal:

“Ah entendi, você quer saber como a gente sobrevive”, que

 

Partindo do pressuposto de que a comida e o

a

questão da necessidade em oposição à ideia de dignidade

comer são atividades humanas necessárias a todos da espécie e de que “o impulso pela busca da comida,

e

principalmente por pensar um objeto que está intimamente

direito tomaram centralidade em minhas análises,

é

apesar de tudo, um desejo o qual não pode ser

associado com a vida em seu sentido mais ‘básico’.

inibido e muito menos reprimido, de forma alguma até certos limites” (Richards, 1932, p.3 – tradução

No entanto, a discussão que advém da área das humanidades não comportaria tais preocupações,

livre), me parece uma tarefa quase impossível pensar

em razão de dois principais processos: primeiro, nós

alimento sem tocar na ideia de necessidade. A necessidade e a busca de sua supressão seriam práticas que promulgam a fome.

o

deveríamos abordar a alimentação a partir de uma perspectiva social e histórica, vendo o homem enquanto singular em suas formações sócio-culturais; segundo,

Entretanto, nas análises das mais diversas disciplinas científicas que tratam da temática da

alimentação, tais como a nutrição, a saúde pública, a engenharia e ciência dos alimentos, mas também

a

agronomia, a história e a sociologia, a comida

e

a fome ainda são, muitas vezes, vistas como

objetos com esferas separadas, na qual cada esfera compreende uma gama de relações e praticalidades distintas, dando assim a impressão de que cada uma destas esferas é, na realidade, um objeto em si. Por mais que, nas discussões antropológicas atuais a correlação entre a concepção da comida enquanto objeto natural (como forma de suprir as necessidades básicas) com o assistencialismo, bem como a relação entre a concepção social da comida com a promulgação de direitos básicos, esteja de certa forma superada, na prática cotidiana do fazer Estado e fazer políticas públicas estas relações ainda estão presentes.

Foi a partir de uma fala de uma de minhas principais interlocutoras 3 , que ao me perguntar o que

3 Minha atual pesquisa de doutorado foi inspirada por algumas questões que nasceram no desenvolver de minha dissertação de mestrado e que não foram trabalhadas em meu texto anterior. A principal delas tem a ver com as políticas públicas de segu- rança alimentar e a sua relação com a definição de fome perfor- mada pelo Estado brasileiro desde a implantação do programa

a ideia de que a nutrição, enquanto prática universal “é

retirada da esfera de especulação científica, bem como da controvérsia popular” (Klein, 2013, p.59), ficando restritos a ela todos os aspectos associados à alimentação enquanto atividade básica à sobrevivência biológica.

Aos estudiosos das ciências humanas a comida é pensada enquanto etnicidade, comensalidade, convivência, memória, parentesco, entre outras categorias. Todavia, a comida múltipla, que é nutriente, que é memória, mas que é também supressão da necessidade, ao mesmo tempo em que é garantia de direitos, não consegue nunca ser compreendida de forma ampla por nenhuma das áreas do saber. Como então pensar o direito à alimentação, em oposição à

Fome Zero. No entanto, apesar de não abordar essas questões em minha dissertação muitas delas emergiram durante minha pesquisa de campo em diversos contextos chamados aqui de contextos de precariedade, como as feiras livres das favelas de Sapopemba e Paraisópolis e o programa Mesa Brasil. Foi neste contexto de pesquisa de campo que a questão da oposição entre a necessidade e o direito apareceu, e foi a partir de meus inter- locutores de pesquisa do mestrado que iniciei a problematiza- ção de minha tese de doutorado. Neste texto, parto então de discussões etnográficas que foram iniciadas por volta de 2012, ano de ingresso no programa de pós-graduação em Antropo- logia Social na Unicamp, relacionando-as com o campo, ainda não finalizado, que tenho desenvolvido desde o ano de 2015 no doutorado nesta mesma instituição.

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A comida como direito: aponamentos sobre o direito à alimentação adequada a partir da trajetória do Fome Zero

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fome, a qual define vidas, cria práticas, políticas, relações e sujeitos, levando em consideração a afirmação de Richards (1932), na qual a comida é na verdade um objeto diferente para aquele que passa fome e para aquele o qual tem suas necessidades satisfeitas?

Buscando criar bases para responder esta pergunta, escolhi uma cena etnográfica a qual tem em seu cerne as praticalidades do fazer Estado (Bevilacqua e Leiner, 2000) e que articula a ideia de comida enquanto objeto múltiplo 4 promulgada tanto por aqueles que criam as políticas públicas como por aqueles que ‘passam fome’. Esta cena etnográfica é fruto de meu trabalho de campo para construção de minha tese de doutorado, na qual busco realizar uma etnografia da fome múltipla através da trajetória do programa Fome Zero. Para tanto, realizei minha pesquisa de campo, pressuposto central da construção de uma etnografia, em diversos espaços e temporalidades que constroem o que é aqui chamado de fome múltipla, dentre eles estão o Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de São Paulo, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o II Encontro Nacional de Pesquisa em Segurança Alimentar e Nutricional, o Curso de Políticas Públicas de Segurança Alimentar da FAO – ONU, na FIAN – Brasil, através de campo em seu projeto com os quilombolas do Brejo dos Criolos em Minas Gerais, bem como nos documentos de constituição do programa Fome Zero e suas análises científicas, e a Escala Brasileira de Segurança.

4 A partir de uma discussão posta em debate no campo da Antro- pologia por Marylin Strathern, Annemarie Mol propõe pensar o corpo e a aterosclerose (seu objeto de estudo no livro “The Body Multiple”, 2002) como múltiplo, isto é, indo em contraposição

a uma ideia de pluralidade que está associada a diferentes per-

spectivas sobre uma única coisa, uma única realidade. A ideia de múltiplo busca compreender como uma entidade é construída

a partir de um compósito de singularidades, que podem ou não ser coordenadas.

Neste texto, com foco no direito à alimentação adequada busquei então, centrar minha discussão em um único momento que condensou a possibilidade de levantar diversas questões sobre essa temática. Um único dia em uma reunião do Conselho de Segurança Alimentar do município de São Paulo 5 me possibilitou articular um questionamento sobre a construção da ideia de direitos que as políticas de segurança alimentar promulgam e como essas ressoam em praticalidades que constroem e são construídas pela ideia de fome e comida. Neste sentido, penso a fome a partir da ideia desta enquanto múltipla, isto é, promulgada tanto pela comida, como pelo alimento; pelos diferentes atores envolvidos nas atualizações de seus sentidos: pelas nutricionistas, pelo Estado, pelos políticos, cientistas sociais, por aqueles que passam fome e pela sociedade civil. São esses espaços e temporalidades que foram tomados como lugares de instituição da realidade em minha pesquisa de doutorado e que me permitiram pensar como é articulada a criação e instituição do direito humano à alimentação adequada.

Sem ter como objetivo principal tecer conclusões sobre o direito à alimentação adequada ou ainda realizar uma análise do programa Fome Zero, no que diz respeito à garantia deste direito, tentei partir de uma breve contextualização sobre o conceito

5 O Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional - COMUSAN-SP, foi instituído pelo Decreto nº 42.862, de 13 de fevereiro 2003, e atualizado estruturalmente pelo Decreto nº 50.126/08, com o objetivo de contribuir para a concretização do direito constitucional de cada pessoa humana à alimentação e à Segurança Alimentar e Nutricional. O COMUSAN-SP é com- posto 45 Conselheiros Titulares e 45 suplentes. O último manda- to teve início no dia 16 de dezembro de 2010, com duração de 3 anos, dos quais 15 titulares representam o poder público munici- pal, estadual e federal e 30 titulares representam a sociedade civil organizada, incluindo áreas do setor de alimentos, divididos nas regiões Norte, Sul, Leste I, Leste II e Oeste/Centro. (Disponível em: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/trab-

alho/abastecimento/comusan/index.php?p=26221)

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de fome e segurança alimentar que orientam a criação do programa Fome Zero para entender como esse programa promulga a fome enquanto um objeto múltiplo, que coloca no fio da navalha a disputa entre necessidade e direito.

O leite e a disputa do direito na prática

Em um dos dias de pesquisa de campo no Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional da cidade de São Paulo, o ponto central de pauta era a avaliação e revisão do programa Leve Leite 6 , o qual é responsável pela distribuição de dois quilos de leite por mês, para cada aluno da rede municipal de ensino. Apesar deste programa não ser diretamente relacionado ao programa Fome Zero, me pareceu extremamente relevante pensar a avaliação deste por parte dos conselheiros da cidade, isto porque a avaliação crítica dos conselheiros acerca de tal ação colocava em pauta, de forma sintética, a discussão central a qual venho tentando tratar neste artigo: a fome enquanto objeto múltiplo promulga práticas e é promulgada por estas em diversos espaços e temporalidades.

A partir desta perspectiva, a noção de direito à alimentação estaria, então, diretamente associada à ideia da fome como um objeto múltiplo, isto porque, de acordo com cada tipo de performatização do que é considerado ou não como fome, ocorre uma promulgação de distintas realidades, podendo estas

6 O Programa Leve Leite foi criado pela Prefeitura do Município de São Paulo com o objetivo de combater a desnutrição da popu- lação infantil da Rede Municipal de Ensino, além de diminuir o índice de evasão escolar (Decreto nº35.458/95). O Programa destina-se aos alunos regularmente matriculados na Rede Munic- ipal de Ensino e que tenham, no mínimo, 90% de frequência nos meses anteriores ao recebimento do benefício. (Fonte:http://

portal.sme.prefeitura.sp.gov.br/Main/Page/PortalSMESP/Pro-

grama-Leve-Leite)

estarem ou não coordenadas com a ideia de direito à alimentação. O que pretendo dizer aqui é que a maneira que esse objeto múltiplo é criado e coordenado para se tornar um único objeto, isto é, a fome alvo de políticas públicas, informa diretamente a maneira como estas políticas são concebidas: como direito ou assistência. A fome vista como performance que institui (Mol, 2002) é constituída por diversas destas performances, promulgada por diversos atores, objetos, lugares e temporalidades e que criam praticalidades, isto é, políticas públicas, projetos de leis e também direitos mais amplos ou menos amplos.

Quando a discussão acerca do Leve Leite foi iniciada na reunião do conselho, uma das principais propostas que surgiu tratava da realização de um diagnóstico do programa, buscando através de uma pesquisa de opinião entender qual era a percepção dos receptores do benefício. Logo que essa proposta foi difundida no grupo, um grande burburinho começou e a coordenadora do programa logo interpelou: “Eu sempre tenho muito medo de pesquisa, porque elas podem ser direcionadas, quando chega na opinião pública uma coisa vira totalmente outra coisa” (caderno de campo, 22/09/2016).

Depois dessa frase fiquei pensando exatamente neste sentido dos objetos, como todos esses objetos eram na realidade objetos distintos, isto é, que o que concebemos como uma dualidade na construção de uma política pública, assistencialismo versus direitos sociais, são na verdade objetos distintos, que instituem o objeto fome enquanto múltiplo. Assim como Audrey Richards (1932) afirma que comida é um objeto diferente para aquele que passa fome e para aquele o qual tem suas necessidades satisfeitas, penso que, nesse caso, o próprio objeto leite é diferente dependendo da forma de sua promulgação, podendo

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ser construído tanto como um direito adquirido, ou como uma política assistencial.

Na retomada da discussão sobre o programa a questão do direito em oposição ao assistencialismo foi pauta central, e a necessidade enquanto diretamente relacionada a uma política assistencial também foi questionada. Segundo uma nutricionista do conselho:

“No passado, talvez existisse algum fundamento técnico para execução deste programa, quando a desnutrição era uma realidade. Hoje temos um novo paradigma, não tem a gravidade da desnutrição” (caderno de campo, 22/09/2016). Após essa constatação, a coordenadora do Leve Leite se justifica dizendo que ela e as outras nutricionistas as quais ela coordena tentam trabalhar da maneira menos paternalista possível. No entanto, para os outros membros do conselho esse programa é um programa político, isto é, ele “serve como uma negociação direta entre os políticos e a população, como se fosse um direito às avessas”.

Fiquei então me indagando sobre o que seria um direito às avessas, quando fui interpelada por um comentário ao meu lado: “na verdade, precisar mesmo, muitos nem precisam [do leite], a maioria usa é pra fazer doce, bolo ou pra vender no bairro” (caderno de campo, 22/09/2016).

Não obstante o fato de que esse programa não é parte constituinte do programa Fome Zero, ou das ações que vieram de sua criação, e se trata na verdade de um programa municipal, ele se enquadra nas políticas de segurança alimentar e nutricional do município e sua análise se mostra muito parecida com as análises feitas acerca do Fome Zero. Reitero assim a frase de Richards (1932), na qual esta afirma que a fome é um objeto diferente para quem sofre suas mazelas em oposição àqueles que não a conhecem na

prática, e me pergunto: como pensar então o direito

à alimentação adequada, indo além dessa dicotomia, mas ao mesmo tempo compreendendo-a como parte

do objeto comida e do objeto fome?

A comida, a fome e a segurança alimentar:

uma breve contextualização

Segundo DaMatta (1987), referência nos

estudos sobre alimentação no Brasil, a comida

e o alimento seriam, não propriamente duas

nomenclaturas para esferas distintas de um mesmo objeto, mas sim dois objetos distintos que criam realidades que não são compatíveis. As comidas são os ingredientes dotados de significado social, enquanto os alimentos são ingredientes que têm como finalidade ‘somente’ a nutrição do corpo. Partindo desta concepção, ou ainda, compreendendo que esta é uma concepção referendada e utilizada

como base para estudos sociais sobre alimentação e fome, me coloquei em uma posição reflexiva sobre

a importância de compreender a fome múltipla e de

abranger as distintas concepções sobre necessidade, direitos básicos, assistencialismo.

Para além de uma análise da comida enquanto categoria social e biológica, percorrendo a história do direito à alimentação adequada e à segurança alimentar, é possível perceber que a perspectiva do

direito à alimentação ainda parte desse pressuposto, pois define este direito humano básico em dois princípios centrais que apesar de englobantes partem

de categorias duais. Segundo a FAO (ONU) o Direito

Humano à Alimentação Adequada apresenta duas dimensões indivisíveis e fundamentais, quais sejam: a primeira é o direito de estar livre da fome e da má nutrição; a segunda é o direito de ter acesso aos meios

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para obtenção de uma alimentação adequada.

Nesta perspectiva, as políticas de governo, como o Fome Zero, no debate público 7 , são facilmente encaixadas na dicotomia assistencialismo versus promoção dos direitos. Quando as condições de vida parecem ter anulado qualquer possibilidade de humanidade e sobrevivência, uma política de doação de alimento, por exemplo, é legitimada. No entanto, quando os beneficiários são analisados como recebendo um benefício que pode ir além de ‘apenas’ sua sobrevivência, a mesma política é percebida como no plano da filantropia.

Em um contexto de pulverização da categoria de direito, em que, é importante lembrar, o direito básico à alimentação somente ingressou na Constituição Brasileira no ano de 2010 (artigo 6º da Constituição Federal), é interessante pensar sobre a concepção de Radcliffe-Brown, quando este afirma que “como a maior parte da vida social consiste no processo de conseguir comida e comê-la, colocar uma pessoa fora da vida social significaria proibi-la de partilhar a comida que é obtida e dividida pela sociedade” (citado por Richards,1932, p.181- tradução livre).

É a partir desta contextualização da definição de comida e alimento, e da problematização destas categorias que busco discutir o atual cenário do direito à alimentação adequada no Brasil, através da discussão acerca do programa Leve Leite, no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do Município de São Paulo. Pretendo analisar essa ação governamental

7 Parto aqui da definição de debate público como um locus de construção e promulgação de objetos que engloba pes- quisadores, a mídia, a opinião pública e os próprios fazedores de política pública, tanto em suas instituições como fora delas. Tendo como perspectiva a ideia de Annemarie Mol (2002), que, como já dito, concebe certos objetos como múltiplos, penso que a promulgação da fome no debate público é parte da construção desta como múltipla.

explorando as inter-relações construídas nesse processo, as diferentes arenas em jogo e seus diferentes sujeitos políticos, buscando compreender algumas categorias imbricadas nesta disputa, tais

como a noção de direitos, assistência, vulnerabilidade

e bem-estar social em ação/circulação/pauta.

No entanto, para compreender a problemática posta em torno do programa Leve Leite, em relação à ideia de garantia de direitos em oposição ao assistencialismo é necessário entender como se dá a construção do objeto fome no Brasil o qual está em íntima relação com o contexto global de definição de categorias tais como insegurança alimentar, desnutrição e soberania.

Assim, podemos dizer que o tema da fome enquanto participante do debate público somente entrou na agenda dos estados nacionais e dos organismos internacionais após meados do século XX, ou, mais precisamente, após a segunda guerra mundial. Ao passo que o tema foi se tornando público em escala mundial, sua definição passou a ser debatida e disputada, resultando assim na concepção de que “a maneira que a fome é definida informa a maneira na qual as pessoas passam a compreender a categoria de fome” (Klein, 2013, p.16). Segundo Nancy Schepper-Hughes (citada por Klein, 2013), foi diante da situação dos prisioneiros dos campos de concentração nazistas da segunda guerra mundial que o direito à alimentação passou

a ser debatido em todo o mundo e que os cientistas

das mais diversas áreas tiveram que debater e buscar compreender e analisar o tema a fundo. Com a criação da FAO ONU (Organização das Nações Unidas

para Agricultura e Alimentação) a discussão acerca da segurança e soberania alimentar ganhou saliência enquanto política pública seguindo duas principais motrizes: libertação das necessidades e a realização

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das necessidades básicas para uma vida digna e a ideia de segurança nacional, isto é, o alimento pensado enquanto poderosa arma política de uma nação (Tomazini e Leite, 2016, p.18).

Após esse período, durante os anos 70, em decorrência da crise econômica mundial, ocorreu uma crise alimentar a qual afetou todos os países, incluindo potências mundiais que não pensavam na possibilidade de falta de alimento. Foi nesse contexto que a noção de alimento e/ou comida passou a ser politizada e debatida de forma rigorosa, mesmo que ainda vinculada à oferta de alimentos, o que gerava uma noção de política de assistência alimentar. Foi somente nos anos 80 que o conceito de segurança alimentar se sedimentou, consolidando a ideia que permanece até a atualidade, na qual à noção de oferta suficiente de alimentos incorporou-se a noção de acessos aos alimentos de qualidade e de regularidade. Assim, foi a partir deste contexto que as discussões acerca do direito à alimentação adequada tomaram centralidade não somente em um contexto global, como a partir de uma perspectiva nacional, no Brasil.

A partir de 1983, com a Conferência Mundial sobre Direitos Humanos da ONU, as discussões sobre o status dos direitos humanos gera uma mudança fundamental no paradigma da segurança alimentar no Brasil, uma vez que passa a existir um processo de responsabilização política: “baseados no princípio de direito à alimentação, os governos poderiam receber censuras em nível internacional, por não garantir acesso dos seus cidadãos à alimentação” (Tomazini e Leite, 2016, p.19).

No Brasil, essa conferência teve efeito direto, bem como uma aplicação singular e local, inserida no contexto específico de uma concepção dos direitos humanos da América Latina, a qual está diretamente relacionada com a solidariedade ligada a demandas

socioeconômicas neste contexto. Como, de acordo com Klein, “um corpo faminto em oposição a um corpo doente, necessita de alguém ou algo pelo qual este seja responsável, isto, é um corpo faminto existe como uma crítica potente a sociedade que o cria” (Klein, 2013, p.40 – tradução livre), o péssimo quadro da fome brasileiro movimentou a sociedade civil cobrando e criando ações para a garantia deste direito básico à população.

No entanto, diferente de outros contextos, no Brasil a temática da segurança alimentar apesar de ampla estava diretamente associada à insuficiência de renda; havia uma “identificação da incapacidade do acesso aos alimentos por parte da população brasileira frente à pobreza e ao desemprego, como uma de suas causas principais, ganhando então, destaque no diagnóstico da situação da insegurança alimentar no país” (Yasbek, 2003, p.4). Fica explícito, nesse sentido, que a noção de direito à alimentação teve desde seu início uma perspectiva que a associava à falta de acesso aos alimentos, bem como com a necessidade de inclusão social e conquista da cidadania.

Relacionando essa perspectiva da instituição de um paradigma da segurança alimentar nas políticas públicas brasileiras, conjuntamente com a definição do que seria um direito à alimentação adequada, sempre em relação à promulgação da fome enquanto objeto múltiplo, que foi-se desenhando o Fome Zero, como política pública marco nas políticas sociais brasileiras.

É a partir dos escritos de Josué de Castro 8 que

8 Josué Apolônio de Castro (Recife, 5 de setembro de 1908 - Paris, 24 de setembro de 1973), mais conhecido como Josué de Castro, foi um influente médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, políti- co, escritor, ativista brasileiro que dedicou sua vida ao combate à fome. Destacou-se no cenário brasileiro e internacional, não só pelos seus trab- alhos ecológicos sobre o problema da fome no mundo, mas também no plano político em vários organismos internacionais. Disponível em:

<http://www.josuedecastro.com.br/> Acessado em 13/10/2014.

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o referencial teórico do programa Fome Zero foi

delimitado/instituído. O geógrafo e médico brasileiro afirmava que não foi por acaso que o tema da fome foi por tanto tempo ignorado, e assim, pode-se dizer que “antes da discussão efetuada por Castro, os

temas de segurança e escassez alimentar juntamente com

a discussão sobre a fome não eram compreendidos a partir

de uma perspectiva da escala pública” (Klein, 2013, p.18).

Para Josué de Castro isso se dava, pois as sociedades humanas normalmente chegam ao ponto de inanição por forças culturais mais do que através de forças naturais, sendo a fome o resultado de grandes erros e defeitos de organização social, o que de certa forma não era pensada pelas instituições governamentais e internacionais, causando um “flagelo ainda misterioso”. Em sua obra mais conhecida, “Geografia da Fome”, publicada em 1947,

o autor afirma que: “um flagelo só é inevitável quando permanece um mistério. Os males provenientes da falta de alimentos continuam sendo um problema, mas não um mistério. Hoje já sabemos em que consistem

as necessidades em alimentos. Hoje já sabemos o que

é alimentação” (Castro, 1957, p.37).

Segundo o autor, “um sistema de alimentação funciona para alimentar as pessoas, satisfazer as necessidades biológicas de uma determinada população” (Castro, 1957, p.38). A fome, através de uma perspectiva que pode ser vista como uma concepção de cultura que está fundada nas relações funcionais entre níveis biológicos, psicológico, social e cultural (Geertz, 1973), é definida como uma necessidade biológica a ser satisfeita de modo mais ou menos bem sucedido pelas instituições sociais, econômicas e políticas. Sociedade e cultura, portanto, são pensadas como dimensões a serem acionadas para resolver esse problema.

A multiplicidade do objeto fome, no caso

específico do programa Fome Zero, é orientada partindo desta definição de Josué de Castro. No sentido exposto por Castro e incorporado pelo programa, existe uma ideia de que o termo fome “leva a uma interpretação menos precisa e universal do que um de seus principais sinônimos, a desnutrição, a qual parece ser melhor embasada cientificamente” (Klein, 2013, p.12), isto é, a fome é vista como uma deficiência energética, biológica, trazida por um problema social. Entretanto, a fome não pode ser considerada apenas

como problema social ou biomédico, e sim um fenômeno de ordem sociocultural, a qual também orienta a ciência enquanto voz legitimada. Para a fome são atribuídos significados próprios, construídos socialmente dentro de uma ordem prático-simbólica que se esboça no mundo cotidiano.

Ao tomarmos como premissa a ideia de Audrey

Richards em seu clássico estudo “Hunger and Work in a savage tribe”, no qual a autora argumenta que “nutrição em uma sociedade humana não pode ser pensada, de maneira alguma, fora do meio cultural na qual ela existe” (Richards, 1932, p.10 - tradução livre), considerando que “o início de qualquer atividade considerada humana, por si só, é a existência de desejos” (Ibid., ibidem), não podemos pensar a fome a partir de um viés estritamente social ou apenas biológico. É exatamente essa definição do que é fome que vai desenhando as políticas para seu combate ao passo que traz consequências diretamente determinadas com essa disputa.

O Fome Zero e as fronteiras entre direito e assistência

O Programa Fome Zero é complexo. Tão complexo quanto o inimigo que ele se

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propõe a derrotar. É composto por medidas emergenciais e por medidas estruturais, permanentes, aquelas que vão resolver em definitivo o problema.

O Fome Zero envolve praticamente todos

os ministérios, os governos estaduais,

as prefeituras municipais, as entidades da sociedade organizada, as empresas e

a população. A luta contra a fome é, na verdade, um passo fundamental para a

superação da miséria, da pobreza, da falta de oportunidades e da desigualdade social. E é por isso que o Fome Zero é mais, muito mais

do que um programa de doação de alimentos.

Essas doações emergenciais são necessárias, mas todos sabemos que não acabam com

o problema. Vamos criar as condições para

que todas as pessoas no nosso país possam

comer decentemente três vezes ao dia, todos

os dias, sem precisar de doações de ninguém.

Porque fome é, sim, falta de comida. Mas é também não ter uma alimentação adequada.

O Projeto Fome Zero combina, de um modo

novo, o emergencial com o estrutural. É preciso dar o peixe e ensinar a pescar.

Outro dia vi na televisão um senhor que catava alimentos no lixo. Ele tinha um pedaço de melancia nas mãos. E quando lhe perguntaram porque estava fazendo aquilo, respondeu: “Porque eu tenho fome”. É por isso que insisto: o Fome Zero não deve ser entendido como mais uma campanha temporária e emergencial contra a fome em algumas regiões do país.

É um outro tipo de fome. É fome de

dignidade, é fome de saúde, é fome de segurança, é fome de auto-estima. Não vamos permitir que o Fome Zero, nesse seu início, venha a ser atropelado por uma avalanche de doações que precisam ser corretamente organizadas. Precisamos vencer a fome, a miséria e a exclusão social. (Extratos do discurso de lançamento do

programa Fome Zero – proferido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2003 – grifos meus).

No

primeiro

ano

de

seu

mandato

como

presidente, Luiz Inácio Lula da Silva lançou o programa Fome Zero conjuntamente à criação do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome. A despeito dos elogios que o programa recebe internacionalmente pelos resultados que apresentou nos últimos anos, como podemos perceber em documento da FAO – ONU, no qual diz que o Brasil acertou ao adotar estratégia multidisciplinar como a que é aplicada pelo Fome Zero 9 , até hoje o

ministério e o programa são alvos de diversas críticas

e questionamentos sobre sua função e atuação nas

políticas públicas 10 . É incessante o questionamento

sobre o caráter dessas políticas governamentais, tendo em vista que nos dias atuais o programa Fome Zero,

o qual foi criado como um programa guarda-chuva

para distintas políticas, se pulverizou em programas de desenvolvimento social. O que estava, então, sendo articulado na criação de um programa e de um ministério que une em um mesmo rol de atividades ações para o desenvolvimento social e combate à fome? O que podemos compreender sobre uma política pública que foi consolidada enquanto ‘ideia- força’ de um governo e pensada como orientadora das políticas sociais no Brasil?

O projeto Fome Zero é um documento de mais de cem páginas elaborado pelo Instituto de Cidadania,

9 No Brasil, a Campanha Contra a Fome e o programa Fome Zero, que deu continuidade à campanha, foram criados dentro de uma estratégia de redução da pobreza e da fome, tornando assim o programa não apenas uma questão setorial da área de saúde. Fonte: Relatório FAO – ONU. Disponível em: http:// www.fao.org/publications/sofa/es/. Acessado em: 15/10/2014. 10 No ano de 2014, durante o debate para as eleições presiden- ciais na Rede Globo, o candidato Aécio Neves disse a presidente Dilma Rousseff que ninguém nunca entendeu o que é o FOME ZERO e como ele funciona. Nesse sentido, para além das dispu- tas que ocorrem durante o processo eleitoral, é interessante pen- sar essa perspectiva no sentido da atuação prática e do discurso construído no projeto do programa.

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sob coordenação de José Graziano da Silva 11 e com

a participação de diversas entidades e movimentos

da sociedade civil 12 . Partindo da concepção que o direito à alimentação deve ser assegurado pelo Estado, apresenta como principal objetivo a formulação de

uma política de segurança alimentar e nutricional para

a população brasileira. Em seus princípios gerais é

explicitado o conceito global de segurança alimentar

que orienta o projeto, deixando claro que “no Brasil,

a pobreza e o desemprego são as principais causas da

fome, e por isso a alimentação deve ser acessível a

todos com dignidade” (Yasbek, 2003, p.3).

Alguns dados gerais de contextualização da situação da fome no Brasil em relação à fome no

mundo são demonstrados através de diversos gráficos

e planilhas, indicando que “a fome não tem diminuído

no mundo, assim como ela não é causada pelo aumento da população e nem pela falta de alimentos” (Yasbek, 2003, p.2). No Brasil, “a pobreza e a fome

não estão concentradas nas áreas rurais do nordeste

e as forças do mercado não vêm sendo capazes de

resolver o problema” (Yasbek, 2003, p.3). Através desse panorama, é definido o público que se destina, a partir da apresentação da população brasileira em situação de carência alimentar ou em situação de vulnerabilidade.

É interessante ressaltar que no projeto ocorre uma distinção dos conceitos de fome, pobreza e

11 José Graziano da Silva (17 de novembro de 1949) é um agrôno- mo, professor e escritor brasileiro. Como acadêmico, escreveu diversas obras sobre a questão agrária no Brasil. Entre 2003 e 2004, atuou no gabinete de Luiz Inácio Lula da Silva como min- istro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, sendo o responsável pela implementação do Programa Fome Zero. Em 26 de junho de 2011, foi eleito diretor-geral da Orga- nização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). 12 Entidades religiosas, intelectuais das principais universidades brasileiras, organizações não governamentais com projetos de combate à fome e redução da pobreza são pequenos exemplos das diversas instituições e indivíduos que participaram na criação do programa Fome Zero.

desnutrição, os quais “têm uma forte relação, mas não têm o mesmo significado”. “A fome leva à desnutrição, mas nem toda desnutrição se origina na deficiência energética, principalmente na população infantil ( ), por conta disso considera-se que a desnutrição está mais associada à pobreza do que a fome, devido a carências globais” (Monteiro, 1995, p.196).

A partir da articulação de sentidos destes conceitos, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à fome (MDS) foi criado para abrigar diversas políticas públicas que integrassem ações para o desenvolvimento social, partindo da premissa de que no caso brasileiro a grande causa da falta de acesso aos alimentos é o baixo nível de renda. Desde políticas ligadas à geração de renda, transferência de renda, criação de cisternas, até políticas de educação nutricional e distribuição de cestas básicas ‘emergenciais’, o ministério atua em diversas frentes que abrangem, segundo a concepção do Estado, todos os fatores que associam fome e pobreza. No entanto, apesar da importante relação com o MDS, o programa Fome Zero em si, desde sua formação, passou por várias mudanças até se consolidar como a atual Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.

Segundo José Graziano (2003), a ideia central do programa era de que ele se tornasse um espaço articulador de todas as políticas sociais brasileiras. Para os seus criadores, “a comida é um direito cuja ausência reflete injustiças e gera desigualdades” (Silva, 2003, p.45). Nesse sentido, foi a partir desta afirmação que os intelectuais e idealizadores do projeto buscaram responder sua pergunta estruturadora: “porque manter políticas específicas para isso ao invés de diluir o combate à fome no desafio geral da pobreza”?

De acordo com os pressupostos apontados pelos criadores do programa o direito à alimentação

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A comida como direito: aponamentos sobre o direito à alimentação adequada a partir da trajetória do Fome Zero

Lis FurLAni BLAnco

é parte inalienável dos direitos fundamentais do

homem e deve ter como princípio político crucial a ideia de que o acesso à comida não deve transitar no terreno da filantropia. Assim, seria necessária uma política específica de combate à fome para quebrar

o círculo vicioso que a liga à exclusão. Residiria aí a

principal diferença entre o programa Fome Zero e qualquer outro programa de transferência de renda:

“a solidariedade só se resume em caridade quando desprovida de articulação com políticas públicas estruturais e mais ainda, é a luta contra a fome que dará

luz à sociedade civil organizada” (Silva, 2003, p.49).

Foi a partir desta premissa que os mais diversos programas de segurança alimentar e combate à fome foram estruturados após a criação do Programa Fome Zero. No entanto, durante a avaliação das políticas

públicas associadas à esta temática, as quais em sua maioria eram feitas pelos conselhos de segurança alimentar das três instâncias, municipal, estadual

e federal, a separação entre o que seria um ato de

caridade e uma política de garantia de direitos se mostra pouco definida. A própria sociedade civil organizada, mencionada por Graziano (2003), conjuntamente com instâncias institucionais, ao tratar de assuntos que tangenciam a questão das necessidades básicas em contraposição com direitos que vão além do mínimo social exigido, acaba colocando em cheque premissas básicas da consolidação e garantia de direitos humanos também considerados como básico, e é essa uma das principais considerações apontadas pela cena descrita no início deste texto.

Analisando assim, o discurso do presidente Lula na ocasião do lançamento do programa Fome Zero, e os textos criados pelos principais idealizadores e ativistas do programa conjuntamente com os documentos do “Fome Zero”, fica clara a importância deste projeto

enquanto um marco histórico nas políticas sociais brasileiras. Todavia, apesar da visível relevância das consequências e mudanças sociais que este projeto trouxe, a associação que se dá entre a definição de fome, a polissemia deste conceito relacionada à ideia de comida e alimento, com as políticas públicas de segurança alimentar inseridas em políticas sociais mais amplas, ainda é muito nebulosa.

O Fome Zero foi atualmente diluído na criação do MDS, nas políticas emergenciais de acesso à alimentação, nos programas de geração de renda e também nos programas de transferência de renda,

que inclui o conhecido “Bolsa Família”. Dessa forma,

o programa que pensava ser articulador de políticas

sociais e participação civil deixou de existir enquanto um projeto unificado frente à sociedade civil como um todo. Neste processo de criação, consolidação e diluição de uma política social ampla foram colocados em disputa diversos atores, conceitos, categorias e direitos e por isso se mostra como extremamente relevante seguir a trajetória da vida social desta política pública (Appadurai, 2008), desde o contexto de seu surgimento até seus atuais desdobramentos.

O Brasil saiu, no ano de 2014, do mapa da fome. Segundo o relatório desenvolvido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação

e a Agricultura (FAO), pelo Fundo Internacional de

Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA) “nos últimos 10 anos, o Brasil reduziu pela metade a parcela da população que sofre com a fome. Os órgãos da ONU destacaram que a taxa de desnutrição no Brasil caiu de 10,7% para menos de 5% desde 2003 (Kepple, 2014). Em comunicado oficial, Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social, sustentou que isso foi possível “graças a um conjunto de políticas públicas

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que garantiram o aumento de renda dos mais pobres e um aumento da oferta de alimentos, que consolidaram a rede de proteção social” (Portal Brasil, 2014).

O Fome Zero foi, então, a política social

que possibilitou a reversão do cenário da fome e desnutrição no Brasil, e se consolidou como ideia- força na construção do governo PT e de sua política de Estado, desde a eleição de Lula em 2002. No entanto, esse processo de criação de tal política se iniciou décadas antes, conjuntamente à criação do Partido dos Trabalhadores.

Segundo Aaron Ansell (2014), antropólogo americano que estudou o programa Fome Zero em

relação à eleição do governo PT, nos anos 80 o Partido dos Trabalhadores foi criado 13 a partir da articulação com as comunidades eclesiais de base, e durante os anos seguintes à sua criação, “a luta do PT pra ganhar representatividade nacional, provou que a oposição

ao capitalismo não era possível de um ponto de vista eleitoral” (Ansell, 2014, p.25).

Foi a partir desta perspectiva que os intelectuais

do Partido dos Trabalhadores começaram a pensar um novo tipo de política de Estado, e a luta contra a fome alcançou este objetivo. Segundo Plínio Sampaio (citado por Ansell, 2014, p.26), o desafio da época era fazer da democracia um espaço inalienável da vida cotidiana.

No final dos anos 80, o Instituto da Cidadania

criou uma “Política Nacional de Segurança Alimentar

e Nutricional” e a partir do foco em políticas

da alimentação o PT entrou em contato com as organizações religiosas e profissionais que estavam

13 Não é foco de minha análise, diferentemente de Ansell (2014), falar sobre o processo de criação e eleição do PT no governo federal e menos ainda pensar a relação entre o programa Fome Zero e tal processo. No entanto, a criação do PT e os atores envolvidos na elaboração do programa objeto deste estudo estão em íntima relação e por isso uso de outras fontes para tratar de- sta temática sem muito aprofundamento.

organizadas na sociedade civil. O tema da Segurança Alimentar, então, proporcionou uma causa comum a pessoas de diferentes tendências políticas, ao mesmo tempo que diminuía a importância do Estado na construção destas e reivindicava os feitos da sociedade civil organizada.

Os ativistas de Segurança Alimentar alegavam, porém, que as políticas desta área, até então desenvolvidas, eram vítimas do assistencialismo. No entanto, essa problematização não conseguiu sair do debate intelectual e não se espalhou pelas camadas populares do país, ao contrário do que pode ser observado em relação à categoria fome. Assim, após “ter mobilizado a população acerca do tema da fome, o desafio havia se tornado politizar essa categoria, através de uma política pública mais abrangente e acessível a toda população” (Ansell, 2014, p.30). Para Lula, durante a criação do programa Fome Zero, era necessário difundir a informação de que a fome não era uma doença por si só, mas sim uma perpetuadora da patronagem e expunha a fragilidade do desenvolvimento da democracia.

O Fome Zero foi criado desta forma, como um programa que constituído por três tipos

centrais de política pública: a emergencial, a local e

a estrutural, incluindo os seguintes o programas:

Banco de Alimentos, Restaurantes Populares e Cartão Alimentação; Distribuição de Cestas Básicas

Emergenciais, Movimento contra Fome, Doação de alimentos e em dinheiro, Cartilhas, Campanhas de

contribuição voluntária, Políticas regionais prioritárias,

e as políticas estruturais que incluem: referência

agrária, fortalecimento da agricultura familiar, projeto

de emergência para viver bem no semiárido, programa

para superar o analfabetismo, geração de emprego, combate à desnutrição materno-infantil.

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Segundo José Graziano da Silva, o programa, a partir da instituição do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome (MESA), pretendia ser, ao mesmo tempo, “uma pasta de implementação de ações e políticas específicas de segurança alimentar, mas também um ministério articulador de iniciativas de competência de outras pastas e instituições da sociedade civil” (Silva, 2003, p.45).

Foi a partir deste princípio que a primeira política do programa Fome Zero foi criada, isto é, o cartão alimentação, que foi amplamente adotado, muito rapidamente, e que consistia em um depósito de cinquenta reais para cada família que estivesse vivendo em condições de pobreza, podendo receber este benefício por até dezoito meses. Para um dos principais idealizadores do programa, o cartão alimentação incorpora a duplicidade de uma urgência estrutural: “ao contrário da cesta básica, que apenas transfere demanda e renda das comunidades pobres para zonas de produção mais competitivas, perpetuando uma nefasta relação de dependência, o cartão gera efeitos multiplicadores na economia local” (Silva, 2003, p.47). Conjuntamente a esta política, foram desenvolvidas outras propostas de atuação em médio e longo prazo, como o programa de aquisição dos alimentos, a criação dos conselhos estaduais e municipais de Segurança Alimentar, o programa de cisternas, de agricultura familiar.

No entanto, apesar desta preocupação central de que “solidariedade só se resume em caridade quando desprovida de articulação com políticas públicas estruturais” (Silva, 2003, p.48), logo no início do programa ocorreu uma disputa no que concerne a política de distribuição do cartão alimentação, e este foi substituído por uma política de transferência de renda, o famigerado “Bolsa Família”, o que acarretou no ‘fim’ do Fome Zero, no ano de 2004. Ou ainda, pode-se falar

que o Fome Zero deixou de ser o nome que representava todas as políticas sociais criadas e estruturadas na época, as quais passaram a estar centradas no programa Bolsa Família.

Após esse período, as críticas tecidas ao programa surgiram em grande número. Organizações da sociedade civil argumentaram que o Fome Zero apenas serviu para ‘dar o peixe’ a um número restrito de pessoas. Outras críticas mais contundentes afirmavam que “o programa Fome Zero que foi anunciado como prioridade do governo foi reduzido a um nome fantasia. A segurança alimentar perdeu sua importância nas estratégias das

políticas públicas governamentais e a transferência de renda se tornou nossa ‘salvadora da pátria’’ (Tomazini

e Leite, 2016, p.35). Segundo Frei Betto, um dos

idealizadores do programa, “ao descartar o Fome Zero

e optar pelo Bolsa Família, o governo federal escolheu

o pacto federativo em detrimento da mobilização da sociedade” (Tomazini e Leite, 2016, p.26).

No entanto, para além das críticas apresentadas

acima, parto da premissa também exposta por Tomazini

e Leite (2016) de que o “fome zero tal como proposto

não pode ser tomado somente como um mero acontecimento passageiro, digno de notas de rodapé, ou ainda como um primeiro momento do programa Bolsa Família”. É importante buscar compreender, assim, o porquê e quais os efeitos da constatação de que “a temática da segurança alimentar, embora tenha se institucionalizado no governo federal, permanece como

uma estratégia marginal da intervenção governamental em matéria de políticas sociais de luta contra pobreza, voltadas fortemente para as transferências de renda” (Tomazini e Leite, 2016, p.30).

É nesse sentido que a fome enquanto objeto múltiplo pode ser considerada extremamente profícua para se pensar a relação entre as políticas de segurança alimentar desde a criação do Fome Zero com o ideário

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de direitos, a noção de vulnerabilidade e assistência, pois coloca em relação em sua análise prática, ou seja, na análise da criação, consolidação e avaliação das políticas públicas, diferentes objetos que muitas vezes são coordenados e se tornam um único (Mol, 2002).

Assim, mais interessante do que simplesmente compreender o que mudou após a criação desta política pública, a qual derivou em muitas outras, me parece relevante voltarmos à pergunta central dos criadores do programa Fome Zero, isto é, “porque manter políticas específicas para isso ao invés de diluir o combate à fome no desafio geral da pobreza?”, para, a partir dela, pensar o que estava implicado na construção de tais políticas, quais as contradições e disputas presentes neste ideário e, assim, buscar revelar processos maiores de consolidação de direitos e de acesso à cidadania.

Considerações finais: o direito à alimentação adequada

Ao pensarmos a política de combate à fome como uma relação entre afetos, desafetos, reconhecimento simbólico e também usufruto material (Ahlert, 2008:

10), vemos a alimentação por si só como um objeto que transita entre as diversas esferas da vida social, sendo assim concebida como um importante referencial para compreender o papel do Estado na disputa pelo ideário e pela prática de direitos e deveres da assistência e da ideia de bem estar social mais básico, indo além da simplificação dessas políticas enquanto somente filantrópicas e solidárias.

Na cena etnográfica trazida como inspiração central para este artigo é possível compreender que mais do que a consolidação de um direito em si, a distribuição do leite pode ser vista como uma política assistencialista ou ainda um direito às avessas dependendo da fome que

é promulgada, e de sua articulação com ideias como a

de nutrição e segurança alimentar. No entanto, esta definição de fome não pode ser concebida sem antes pensarmos no que quer dizer comida, sendo essa categoria associada à dualidade entre necessidade e vontade. Porque a utilização de leite para confecção de um bolo é vista como caridade e aquela para nutrição de gestantes e bebês se consolida enquanto direito? O objeto desta disputa é diferente? Ele se transforma em cada uma dessas práticas? Seria um leite menos nutritivo do que o outro? Ou ainda, é a propriedade de nutrição que importa na definição de direitos básicos para alimentação?

É a partir destes questionamentos inspirados

por uma única cena etnográfica, mas que podem ser relacionados com diversas vivências de campo, que

proponho a realização de uma análise da alimentação

a qual partilha com Mintz a ideia de que “o estudo da

comida e do comer é importante tanto por si próprio, tendo em vista que a comida é extremamente essencial à existência humana (e normalmente não está disponível em quantidade adequada) quanto porque seu sub campo de estudo se provou valioso para o debate e progresso das teorias e metodologias antropológicas” (2002: 100 – tradução livre 14 ).

O programa Fome Zero que tem como foco

a população mais vulnerável à fome, ao relacioná-la

com a falta de acesso aos alimentos e à necessidade de inclusão social, conjugando-a com pobreza, se mostra

como objeto frutífero, dando complexidade ao tema proposto. Sobretudo ao considerarmos que os estudos

antropológicos sobre alimentação chegaram atualmente

a um grau de maturidade elevado, servindo como um

14 Versão original: the study of food and eating is important both for its own sake since food is utterly essential to human existence (and often insufficiently available) and because the subfield has proved valuable for debating and advancing anthropological theo- ry and research methods” (Mintz, 2002:100).

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veículo para analisar uma miríade de problemas e ainda iluminar “uma variada gama de processos sociais, tais como a criação política e econômica de valor, a criação simbólica deste e a construção social da memória” (Mintz, 2002: 100 - tradução livre 15 ).

Em relação à análise antropológica (e etnográfica) das políticas públicas, e neste caso a análise de uma cena etnográfica específica, é interessante perceber, como afirma Leiner e Bevilacqua que “justamente porque operam a partir de normas universalizantes (ou ainda categorias universalizantes, como a de fome) as instituições estatais acabam constituindo diferenças ou reforçando desigualdades produzidas em outras dimensões da vida social (2000: 15)”. É, segundo os autores, exatamente neste ponto, que:

“a abordagem etnográfica e a inspiração fornecida pela tradição teórica da disciplina permitem ir além, tanto na compreensão das especificidades das relações entre sociedade civil e instituições estatais, quanto indicando caminhos para reflexão sobre outras dimensões do Estado (2000: 15)”.

Assim, “ao mesmo tempo em que oferece uma nova perspectiva em relação aos estudos macro- sociológicos, a antropologia destes setores do Estado pode discutir e trabalhar categorias canônicas da própria antropologia”, tendo em vista que para além de todas essas relações estamos falando da vida das pessoas e estes “não sobrevivem simplesmente, eles sobrevivem de uma maneira específica” (Sahlins, 1979: 184).

A partir da compreensão dos processos de avaliação de uma política pública de segurança alimentar no Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do município de São Paulo é possível perceber como essas

15 Versão original: a broad societal processes such as political-eco- nomic value-creation” (Mintz, 1985), “symbolic value-creation” (Munn, 1986), “and the social construction of memory” (Sutton, 2001), (Mintz, 2002:100).

normas universalizantes mencionadas por Leiner e Bevilacqua (2000), promulgam o objeto fome na prática e com isso definem em suas ações cotidianas o que é considerado ou não um direito.

Segundo Martina Ahlert (2008), ao pensar a distribuição das cestas básicas do programa Fome Zero, percebe-se que existem sentidos distintos agregados aos alimentos os quais são distribuídos em forma de cesta básica no Fome Zero. De acordo com a antropóloga

estes sentidos são construídos a partir de uma oposição:

a necessidade de comer versus a política que rege a

distribuição de alimentos, isto é, a partir desta oposição acontecia uma classificação sobre quem merecia comer.

Apesar de entender que para além da criação de sentidos, objetos distintos são construídos, articulados, organizados e distribuídos nesta oposição, ou seja, são objetos diferentes que são distribuídos pelo programa, penso que assim como no debate acerca do Leve Leite,

é central conceber esses múltiplos objetos criados na

praticalidades do programa Fome Zero e na construção do direito à alimentação.

Para Ahlert (2008, p.2), a própria ideia de fome era diferente entre as nutricionistas e as receptoras do benefício: “a fome era vista, pelas nutricionistas, enquanto carência do grupo em questão e como central para participação no programa, no entanto, para as beneficiárias, a participação destas não acontecia somente para recebimento da cesta básica, visto que

negavam a fome como característica de seu dia-a-dia”. E

o mesmo aconteceu em relação às diversas concepções

que se tinham da política de distribuição de leite.

Quando analisamos, então, as políticas públicas de segurança alimentar e, mais especificamente o programa Fome Zero enquanto guarda-chuva de diversas políticas sociais, compreendemos o que Ahlert (2008) pretende discutir ao dizer que ocorre uma bricolagem entre ajuda

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e direito, e mais ainda que “na vivência do programa

Fome Zero, aquilo que pretendia ser a efetivação do

direito humano à alimentação, que seria resolvido com

o comer, ganhava complexidade a partir da relação entre

Estado e beneficiárias, tendo como chave interpretativa a ajuda positiva em contraposição à política” (Ahlert, 2008,p.7).

É de certa forma consensual a ideia de que o Fome Zero tinha como foco principal a população mais

vulnerável à fome e, ao relacionar fome à falta de acesso aos alimentos e assim à necessidade de inclusão social e

à construção de cidadania, o programa a conjuga com

a pobreza. No entanto, para além de compreender e

atestar a veracidade destas críticas, me parece profícuo

e necessário compreender de que forma todos esses

objetos são coordenados e instituem o que é fome e o que é direito à alimentação.

De acordo com Yasbek (2003), que analisou a partir da perspectiva da assistência social o programa Fome Zero, neste deveria haver uma interface com a assistência social, pois segundo a autora a fome é um desafio a ser enfrentado no âmbito de mínimos sociais no Brasil, bem como é objetivo da assistência social

garantir atendimento às necessidades básicas. Contudo, se continuarmos analisando essa dicotomia entre direito e assistencialismo, pensando o direito humano

à alimentação adequada como um mínimo social que

busca o estabelecimento de um padrão de inclusão o qual contém a ideia de dignidade e cidadania, mas sem

questionar qual objeto estamos falando, promulgando

e instituindo quando pensamos na ideia de direito, de

inclusão e mais ainda de cidadania, continuaremos presos nas fronteiras entre o biológico e o social e pouco

poderemos contribuir enquanto cientistas sociais.

Neste sentido, é exatamente porque o Programa Fome Zero pode ser considerado, segundo Telles, como “ações que colocam no fio da navalha essa estreita

fronteira entre direitos e carências na qual transitam” (citado por Yasbek, 2003, p.8), que sua compreensão enquanto lugar de praticalidades no qual diversos objetos são promulgados, que esse programa se mostra como extremamente relevante, em uma análise etnográfica da fome enquanto objeto múltiplo.

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Publicado: 16/09/2014 12h53

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Migração internacional e cidadania: avaliação políticas públicas para migrantes 3 na cidade de São Paulo na gestão Haddad (2013-2016) 4

Ederson Duda da Silva Graduando em Sociologia e Política pela FESPSP (langduda@gmail.com)

Resumo

A presente pesquisa consiste na investigação da gestão municipal como agente

fundamental na constituição de programas e legislação que vise garantir ao sujeito migrante uma acomodação digna, por meio da preservação dos direitos humanos,

combatendo a xenofobia e a exclusão social. O artigo buscará discutir a importância

da construção de políticas públicas nas gestões municipais, relacionando migração

internacional e cidadania, pois entendemos que é na municipalidade onde ocorrem

os

primeiros contatos entre migrantes e nacionais. Para tal analisaremos a formulação

da

Lei Municipal nº 16.478, de 15 de julho de 2016, que trata do reconhecimento e

da

institucionalização da participação social da população migrante internacional na

cidade de São Paulo.

Palavras-chave

política migratória; migração internacional; cidadania; direitos humanos; gestão municipal.

3 Vale ressaltar desde o início que quando utilizamos o termo “migrante” estamos afirmando a perspectiva de lidar com as cat- egorias de migrante econômico, refugiado, apátrida etc, sabedores das diferenças que cada categoria demanda dentro da visão política e jurídica. 4 A presente pesquisa foi realizada com auxílio da bolsa PIBIC/FESPSP 2016, sob orientação da Profª Drª Marta Bergamin e apresentada no Seminário FESPSP “Cidades conectadas: os desafios sociais na era das redes” - 17 a 20 de outubro de 2016, no GT 5 - Direitos Humanos: trajetórias e desafios.

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Migração internacional e cidadania: avaliação das políticas públicas para migrantes na cidade de São Paulo na gestão Haddad (2013-2016)

EdErson dudA dA silvA

Abstract

The present research consists in a investigation of municipal management as a fundamental agent in constitution of programs and legislation aimed to guaranteeing for migrant subject a decent accommodation through the preservation of human rights, combating xenophobia and social exclusion. The article discusses the importance of building public policies in municipal administrations, relating international migration and citizenship, because we understood that happens in municipality where the first contacts between migrants and nationals occur. Lastly, we are going to analyze the formulation of Municipal Law nº. 16,478, dated on July 15, 2016, which treat on recognition and institutionalization of social participation of international migrant population in city of São Paulo.

Keywords

migration policy; international migration; citizenship; human rights; municipal management.

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Migração internacional e cidadania: avaliação das políticas públicas para migrantes na cidade de São Paulo na gestão Haddad (2013-2016)

EdErson dudA dA silvA

Introdução 3

Em novembro de 2013, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo (SMDHC), por meio de sua Coordenação de Políticas

para Migrantes, realizou a 1ª Conferência Municipal

de Políticas para Imigrantes. Tal Conferência buscou

atender uma demanda histórica das comunidades

e organizações da sociedade civil da cidade da

cidade de São Paulo. A partir deste ponto a gestão municipal procurou intensificar o diálogo com a

população migrante a fim de realizar a Política Municipal para a População Imigrante.

Sancionada no dia 15 de junho de 2016, a Lei Municipal nº 16.478, que institui a Política Municipal para a População Imigrante da cidade de São Paulo, é uma conquista histórica da população, que juntamente com uma gestão municipal inovadora, deram à cidade de São Paulo uma história e sentido de desenvolvimento social e cultural. É pensando na constituição e formulação desta Lei que buscaremos

3 A pesquisa começou a ser pensada em meados de 2014, na chegada de haitianos na Missão Paz vindos da cidade de Brasiléia - ponto de chegada dos migrantes haitianos no Brasil. Inicial- mente o intuito da pesquisa era confrontar os programas soci- ais realizados pela gestão Haddad 2013/2016, verificando sua efetivação a partir do ponto de vista dos próprios migrantes. Porém, no decorrer da pesquisa compreendemos que no pri- meiro momento, para uma análise mais apurada futuramente, ca- beria destrinchar e focarmos na análise e desenvolvimento da Lei 16.478/2016. A pesquisa foi constituída a partir da ida a campo:

audiência pública - 26 de setembro de 2015; Diálogo sobre a Nova Lei de Migração – São Paulo, 21 de Novembro de 2015; Lançamento do Fórum Social Mundial de Migrações (FSMM) – São Paulo, 10 de Dezembro de 2015; 1º Festival do Dia Inter- nacional do Refugiado - em junho de 2016; e ao Fórum Social Mundial de Migrações (FSMM) - Julho de 2016. O conteúdo beneficiou-se de entrevistas qualitativas com a Assessora Téc- nica da Coordenação de Política para Migrantes (CPMig); com o Coordenador da Referência e uma assistente social da Acolhida do Centro de Referência e Acolhida do Imigrante; um membro do Conselho Participativo; e um estudante haitiano. Manteremos os nomes dos entrevistados em anonimato por questões éticas.

investigar as ações e os programas desenvolvidos na cidade de São Paulo pela gestão do Prefeito Fernando Haddad (2013/2016).

Deste modo, a presente pesquisa tem como objetivos gerais compreender os processos migratórios e suas mudanças acentuadas no contexto global, que compreendemos estar vinculado aos movimentos na contemporaneidade de migração internacional. É necessário também entender como se dão as políticas públicas de direitos humanos para migrantes dentro das cidades ou comunidades locais, como políticas de acolhimento aos migrantes e refugiados nos fluxos de movimentação de populações pelo mundo.

Investigaremos objetivamente as ações desenvolvidas pela gestão Fernando Haddad (2013/2016), reconstituindo a formulação da Lei Municipal nº 16. 478, de 07 de julho de 2016, a partir da 1ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes de São Paulo, realizada em 2013, assim como dos programas sociais realizados pela Coordenação de Política Migratória, buscando identificar as estratégias e ações da gestão Municipal sobre o tema migrações internacionais e cidadania.

Portanto, delinearemos o contexto da migração internacional, discutindo as categorias de migrante econômico e refugiado, assim como as ideias que permeiam a política migratória no nível nacional e local. Para tentar cumprir tal trajetória percorremos um caminho teórico a partir de revisão bibliográfica e pesquisas relacionadas sobre a temática da migração. Em seguida trataremos da investigação da Política Municipal para a População Imigrante, que passa pela análise da 1ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, da Lei Municipal nº 16. 478/2016, do Centro de Referência e Acolhida do Imigrante,

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Migração internacional e cidadania: avaliação das políticas públicas para migrantes na cidade de São Paulo na gestão Haddad (2013-2016)

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discutindo-se o processo de construção da política pública desenvolvida pela Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig).

Acreditamos que a Política Pública para a População Imigrante que foi desenvolvida na cidade de São Paulo serve como parâmetro para outras cidades, indicando diretrizes necessárias para a constituição de uma política pública para imigrantes a partir da perspectiva dos direitos humanos, atendendo uma demanda histórica de uma população que contribuiu muito para a construção do país.

Migrações internacionais

A migração internacional é um processo que historicamente tem sido determinado por guerras, conflitos civis, crises financeiras e crescimento demográfico. Esses grandes movimentos de pessoas ao redor do mundo constituem um elemento estrutural de grandes acontecimentos, como a formação de Estados-nação, o colonialismo, a industrialização e a formação do mercado de trabalho para o capitalismo (CASTLES; MILLER, 2009 apud BARALDI, 2014). Mesmo sendo um processo histórico recorrente há anos,

o que diferencia a migração internacional hoje é o número cada vez maior de pessoas em circulação no mundo 4 .

Tais processos migratórios se materializam por

meio do cruzamento de fronteiras, e desta forma, as fronteiras marcam esse conceito contemporâneo de migração internacional. Para Camila Baraldi (2014)

o migrante seria aquele sujeito que se desloca de um

4 Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) o núme- ro de migrantes chegou a cerca de 240 milhões de pessoas em 2015. O Brasil, de acordo com a Organização Internacional para Migrações (OIM), está inserido nesse contexto com aproxima- damente 1,5 milhões de imigrantes e cerca de 8.302 solicitações de refúgio, segundo o CONARE.

Estado-nação a outro, ficando, deste modo, sob a jurisdição deste último.

Sendo um processo histórico, podemos dizer que os fluxos migratórios normalmente estão submetidos a diversos processos que geram transformações globais, contidas principalmente nas relações sociais, econômicas, culturais, políticas e jurídicas sempre complexas na contemporaneidade. Assim como a própria definição do processo migratório deve ser revista (PATARRA, 2006), as novas modalidades migratórias presentes no cenário da globalização acabam por exigir também uma nova reavaliação dos paradigmas sobre o tema. Portanto, para um melhor entendimento das migrações internacionais no mundo hoje, devemos estar cientes que a incorporação de novas dimensões explicativas torna-se imprescindível.

Conforme Camila Baraldi,

) (

da história da humanidade, sendo estruturais no atual sistema de produção capitalista. No que se consolidou como sistema internacional de Estados nacionais, a escolha de quem pode entrar e quem não pode entrar no território nacional é considerada uma prerrogativa soberana. Os critérios para esta seleção sempre atenderam aos interesses nacionais, notadamente de seus mercados de trabalho e, mais recentemente, de suas identidades nacionais. Neste sistema regulatório, é clara a objetificação dos seres humanos, sem voz na construção das políticas migratórias (BARALDI, 2014, p. 24).

os movimentos migratórios fazem parte

Dentro do quadro do Estado-nação e da cidadania nacional, as políticas migratórias são determinadas pelo nacionalismo e sua prerrogativa estatal, excluindo, deste modo, os migrantes indesejados. Em um contexto em que muitas pessoas não podem usufruir da proteção de seu Estado-nação de origem, o debate sobre o que seriam direitos

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de nacionais e de migrantes é fundamental para a problematização da questão dos direitos dos não-cidadãos a partir do discurso paradigmático do cosmopolitismo liberal (BENHABIB, 2006). Assim, em

) (

autorizada, além das exigências para a obtenção desta, aplicam-se as exigências de integração à comunidade nacional, pois a diferença hierarquiza. Com relação aos que não obtém autorização, resta a criminalização ou o favor das anistias, que mantêm o controle. Assim, o foco do combate é o próprio critério de atribuição da cidadania formal, a nacionalidade, cujos

relação aos que entram de forma

contornos excludentes são colocados sob os holofotes pelos movimentos migratórios contemporâneos (BARALDI, 2014, 19).

Para Seyla Benhabib (2006) a proteção dos direitos dos migrantes internacionais é fundamental, pois esta estaria ao reconhecimento do estatuto universal da personalidade de cada ser humano. Neste sentido, o que Benhabib nos traz é o fato de que “o direito a ter direitos 5 ”, a partir da concepção cosmopolita de cidadania, não deve ser deixado apenas ao arbítrio dos Estados-nação, e que o controle de fronteiras deve sempre ter em consideração a luta pela sobrevivência do sujeito migrante e as condições de vida em seu país de origem.

Faz-se necessário, portanto, uma mudança e ressignificação dos paradigmas no contexto das migrações internacionais, onde, a partir da internacionalização dos direitos humanos e a tendência das sociedades serem cada vez mais transnacionais, os migrantes possam ter seus direitos garantidos e vistos não de forma objetificada, mas como seres humanos, portanto, como cidadãos, onde o direito a ter direitos independa da nacionalidade de cada pessoa.

5 A expressão é originalmente utilizada por Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo. Benhabib busca ampliar a compreen- são de cidadania arendtiana (2006, p. 51-53).

Política

desenvolvimento social

Migratória

como

garantia

de

De certa forma a constituição de uma política migratória está diretamente ligada ao reconhecimento da cidadania, especificamente ao reconhecimento de seus direitos como cidadão. Partindo de uma perspectiva jurídica, a questão da política migratória estaria ligada, segundo Hein de Haas (2011 apud Siciliano, 2015), com a construção de leis, regras e medidas estruturadas pelo Estado-nação, a fim de controlar e influenciar no volume e composição interna dos fluxos migratórios. Aqui o Estado seria

o único ator em ação, reconhecendo que a política migratória não determina, apenas influencia os

fluxos migratórios. Esta perspectiva tende a colocar

o foco da construção e desenvolvimento da política

migratória apenas nos fluxos migratórios, deixando

de lado os sujeitos migrantes. Ou seja, tal perspectiva ignora a complexidade do fenômeno migratório, que não se trata apenas da movimentação de pessoas ao redor do mundo, mas sim de um conjunto de causas que determinam a saída de uma pessoa de um país

a outro. Deste modo o debate sobre as migrações

internacionais evidencia posturas ideológicas que devemos compreender, tais como o que motiva pessoas a deixarem o seu país de origem em busca de “vantagens” no país de destino (MARQUES, 2008), refletindo também porque determinados grupos de pessoas conseguem migrar para um país em detrimento de outro (CASTLES; MILLER, 2009). Não aprofundaremos esta discussão neste artigo, tal

passagem serve apenas para demarcar, conforme Aristide Zolberg, que a migração internacional

) (

pois as políticas relevantes abrangem não só a

é um processo essencialmente político,

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regulação do movimento através das fronteiras do Estado, mas também as regras que dispõem sobre a aquisição, manutenção, perda ou renúncia voluntária da cidadania em todos os seus aspectos — político, social, econômico e cultural (ZOLBERG, 2006 apud SICILIANO, 2015, p. 11).

Portanto, seguindo a linha de pensamento de Zolberg, para o desenvolvimento de uma Política Migratória devemos levar em conta dois conceitos determinantes: cidadania e jurisdição. Essa definição, ao contrário da levantada acima, pressupõe uma visão humanista da questão migratória, adotando uma perspectiva que compreende que as ações do Estado devem regular não apenas a entrada, a permanência e saída de pessoas no território nacional - determinando deveres -, mas deve, da mesma forma, construir ações que garantam e assegurem a constituição da cidadania do migrante – ou seja, garantir direitos -, atuando diretamente na manutenção de laços entre nacionais e migrantes.

No Brasil permanece ainda em vigor o Estatuto

do Estrangeiro 6 , legado do período da ditadura militar, que vê o migrante a partir do paradigma da segurança nacional, garantindo a União à possibilidade de punir ou deportar, de formas distintas, qualquer estrangeiro que o poder executivo considerar como uma ameaça

à sociedade. Porém, a Constituição Federal no seu art. 5º garante a igualdade perante a lei entre migrantes

e nacionais, com exceção dos direitos políticos que somente correspondem à condição de cidadão.

Ainda, o processo de obtenção da cidadania

do modelo

do migrante no Brasil

se

a partir

6 Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ L6815.htm>. Vale ressaltar que tramita atualmente na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2516/2015, que revoga o atual Es- tatuto do Estrangeiro e institui uma nova Lei de Migração. Ele já passou pelo Senado e agora espera por votação do plenário da Câmara. Disponível em: http://www.camara.gov.br/proposi- coesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1594910. Acesso em 10 de setembro de 2016.

assimiliacionista, que segundo Castles e Miller (2004) permite essencialmente que as pessoas convertidas em membros da sociedade civil se unam ao Estado- nação em troca da assimilação cultural - ou seja, a pessoa migrante deve modificar sua identidade, mudar

a sua nacionalidade. A questão é que essa dialética

entre identidade e direito é de grande complexidade, pois exige do migrante a abdicação de sua identidade originária como condição da obtenção da cidadania.

Essa assimilação cultural intercambiada pelos direitos e a integração de pessoas (CASTLES; MILLER, 2004), dependendo do caso, pode ser altamente complexa, pois seus diversos graus podem fazer com que os sentimentos de pertencimento possam ser desenvolvidos em descompassos com relação a determinadas construções de valor 7 . Para Lopez Sala (2006), mesmo um migrante que tenha conseguido a cidadania, mas que não possui sua “identidade” garantida, sente-se e age afastado de todos os espaços de participação como resultante de uma série de experiências cotidianas que estabeleceram, progressivamente, uma diferença entre ele e os “nacionais”. O modelo assimiliacionista não acaba com a exclusão social.

Desta forma devemos buscar um modelo de integração, a partir da dialética entre identidade e direitos, onde ao mesmo tempo em que proponha e assegure

a aquisição de direitos a uma pessoa migrante como

membro pleno da sociedade civil de um Estado-nação, este não tenha que necessariamente assumir uma identidade cultural (língua, datas, vestimenta, religião) diferente.

A concepção que sustentaria tal conceito é do multiculturalismo, que, conforme Charles Taylor

7 O pertencimento e a integração de uma pessoa a um coletivo é um fenômeno muito mais amplo que aquilo que pode ser expli- cado por uma categoria teórica (ZAPATA-BARRERO, 2003).

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(1993) seria uma forma como as diferentes culturas podem coexistir dentro de um determinado espaço geográfico. Uma visão política do multiculturalismo pretende efetivar estratégias que busquem solucionar os diferentes conflitos surgidos pelas necessidades de reconhecimento das populações migrantes dentro do território nacional. Portanto, seguindo este raciocínio, uma política migratória constituída a partir da visão do multiculturalismo como uma política de reconhecimento surge como uma

) (

reconhecimento público das diferenças, por parte das instituições públicas, justificando desta forma a defesa da sobrevivência das comunidades culturais presentes nas sociedades multiculturais por estarem vinculadas à formação das identidades humanas, bem como à concessão de direitos especiais aos grupos culturais específicos. Diante disto, subjaz uma noção de cidadania que prima pelo bem estar dos diferentes grupos, diante da conjugação dos direitos fundamentais, que apresentam caráter individual com os direitos de caráter coletivo que levam em conta as particularidades culturais dos grupos, sendo ambos exercidos dentro dos limites territoriais e ideológicos do Estado (TAYLOR, 1993 apud SILVA, 2006, p. 314).

necessidade de uma política legítima de

Assim, a política da diferença (TAYLOR, 1993) busca o reconhecimento igualitário do outro a partir da condição de direitos, que é a condição mais adequada para uma sociedade que preserva os valores democráticos. Acreditamos que uma política migratória precisa considerar que os migrantes devem ter os mesmos direitos que as pessoas naturais do país, sem que por isto renunciem a nenhuma das suas características culturais 8 . Devemos, portanto, pensar

8 Podemos elencar casos atuais de países como a Bolívia, Equador, Canadá, Austrália e Suíça que procuram estruturar suas políticas de governo a partir da perspectiva do multiculturalismo.

a política migratória como uma política pública,

passando a considerar o sujeito migrante como um sujeito de direitos e o elemento fundamental desta política. A cidade de São Paulo tem buscado construir uma nova forma de se relacionar com o migrante internacional, desenvolvendo programas sociais e por meio da constituição da Lei Municipal nº 16.478, de 2016, que institucionaliza a política pública para a população migrante da cidade de São Paulo a partir da perspectiva dos direitos humanos.

Política migratória como política pública de direitos humanos no âmbito local

Se o Estado-nação é o responsável pelas

questões de fronteiras e legalização, é no nível local, na cidade, que os primeiros impactos econômicos, políticos e sociais se apresentam com mais intensidade

e onde deparamo-nos com os problemas diários

de inclusão e acolhimento dos imigrantes com a sociedade (ZAPATA-BARRERO, 2015).

A importância de tal perspectiva política é que

ela propõe evitar a distinção existente entre cidadãos, possuidores de direitos civis, políticos e sócio- econômicos, e não-cidadãos, aqueles que são alijados dos direitos de cidadania. Assim, a discussão sobre

o impacto das migrações internacionais em nível

local coloca uma série de questões sobre o papel do poder público em relação à construção de uma política migratória baseada em direitos humanos que exceda as responsabilidades da União e que garanta o desenvolvimento social.

Para pensadores como Ricard Zapata- Barrero, que tem desenvolvido pesquisas focadas no entendimento da democracia liberal, imigração

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contemporânea e o papel dos governos, tanto nas instâncias nacionais como locais, no desenvolvimento de

políticas públicas de direitos humanos que vise à garantia ao devido acolhimento do migrante a sociedade. Para Zapata-Barrero este é um desafio a ser enfrentado no século XXI, onde, no mundo cada vez mais conectado,

a abordagem global das migrações tende a requerer uma

responsabilidade em vários níveis: global, nacional e local - o local, a cidade, passaria a ter um papel estratégico importante no desenvolvimento da diversidade, trabalho e economia no século XXI (CASTELS, 1999).

O objetivo de Zapata-Barrero é o de examinar

a versatilidade da questão da responsabilidade pública

quando usada por diferentes concepções de democracia para apoiar os direitos sociais do migrante e sua diversidade 9 . Desta forma, para o autor, o paradigma da diversidade cultural passaria a ser um ponto-chave na agenda política local. A premissa do respeito à diversidade cultural é um conjunto de políticas promovidas por uma ideia básica: a de que a interação entre pessoas de diferentes origens (imigrantes e comunidade local) no âmbito local contribui para o desenvolvimento de uma cidade em vários níveis. Para Zapata-Barrero (2015) este fato tem sido negligenciado em políticas multiculturais nas administrações municipais.

Tal perspectiva tem sido desenvolvida por cidades espanholas, como a da região de Andaluzia, que já está na terceira fase do “Plano Integral para a Imigração” 10 , um

9 No livro, Las condiciones de la interculturalidad: gestión local de la diversidad en España (2015), o autor propõe uma reflexão sobre como o poder público municipal pode orientar suas políticas sociais em contextos de diversidade cultural, dimensionando suas funções sociais para o multiculturalismo. 10 Em relação às políticas públicas relacionada à integração social do imigrante na sociedade, a comunidade autônoma de Andaluzia, em relação a outras regiões da Espanha, tem construindo ações diferenciadas no tratamento ao migrante internacional, garantindo o acolhimento com ações transversal nas políticas sociais com o objetivo de incorporação. O 3º Plano Integral para a Imigração na

programa de acolhimento do migrante à comunidade local, com foco na gestão da diversidade e respeito aos direitos humanos.

O primeiro aporte de acolhimento ao migrante

deve ser dado pelo Estado nacional, que é quem deve

dar a autorização, buscar aplicar e garantir os direitos do migrante, integrando o mesmo à comunidade local (BARALDI, 2014). Porém, como ressalta Baraldi (2016),

o processo administrativo que permite a permanência

do imigrante no país é extremamente burocrático e demorado, o que contribui para tornar difícil essa inclusão junto à sociedade. Essa burocracia cria realidades que deixam os migrantes sujeitos ao trabalho precário e ilegal, ficando nas mãos de agenciadores, ou ainda, vítimas do trabalho análogo à escravidão.

A ideia de programas sociais de acolhimento e

direitos humanos desenvolvidos na gestão municipal tende a representar segurança ao migrante em um mundo globalmente instável. Sendo estruturadas por meio de harmonia e solidariedade, estes seriam espaços de acolhida e amparo em meio às instabilidades e crises mundiais, e, assim, re-criando identidades globais e locais. Manuel Castells contribui para um panorama do contexto social da globalização, da revitalização das cidades através da formação das redes e da flexibilidade de tempo e espaço.

Neste contexto, entender as migrações como uma parte normal das relações sociais (CASTLES,

1999) ou um movimento social em seu sentido literal (MEZZADRA, 2005), nos ajuda a compreender

a importância do papel das gestões municipais na

Andaluzia, com horizontes para 2016, é um passo no sentido da construção de uma sociedade mais coesa e multicultural, na gestão da diversidade. Disponível em: http://www.juntadeandalucia.es/organismos/ justiciaeinterior/areas/politicas-migratorias/planes-inmigracion. html, última visita em 15 de maio de 2015.

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promoção e execução de programas sociais que assegurerem emprego, acolhimento, que garanta a inclusão do migrante àquela sociedade e busque a construção de diálogos na construção participativa de programas sociais para a garantia da cidadania do migrante. A maneira de lidar com o migrante internacional, hoje, está diretamente ligada com as questões globais, na intensificação da globalização, e de que, na ideia de “cidade global”, (SASSEM, 1998; CARVALHO, 2000) a questão do debate político está diretamente ligada à ideia de qual cidade queremos construir (HARVEY, 2014).

Migração, refúgio e cidadania

O debate sobre a migração internacional tem colocado em colisão direta dois conceitos contemporâneos, na ordem jurídica e filosófica, garantidos pela maioria dos Estados nacionais, a saber:

o direito dos indivíduos de atravessarem as fronteiras, assegurados pelo artigo 13º e 14º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948; e o direito ao autogoverno de uma comunidade política, nos termos do artigo 21º da mesma Declaração. No presente artigo não iremos aprofundar na discussão jurídico-filosófica sobre quem tem o direito de ser protegido pelo Estado- nação. Mas essa discussão nos é necessária para compreendermos a distinção e a classificação entre os status migratórios, dentre eles o de migrante econômico, refugiado e apátrida dentro do contexto atual.

Na atual política pública para a População Imigrante da cidade de São Paulo notamos que não há tal distinção entre os termos “migrante econômico”, “refugiado” e “apátrida”, ou seja, as três categorias são atendidas da mesma forma pelos equipamentos

municipais e serviços sociais. Sobre a forma deste atendimento entraremos em mais detalhes em tópico posterior. O que cabe discussão neste momento é o entendimento do conceito de direitos humanos como algo não classificatório, portanto, como direitos irrestritos que busquem atender a todos os seres humanos independente de sua categoria ou do seu “status classificatório”.

Para Pablo Cernadas (2016) a classificação e separação contundente entre migrantes econômicos e refugiados acabam por conduzir, juntamente com outros conceitos, à crescente desproteção dos direitos das pessoas migrantes, ao mesmo tempo em que paradoxalmente coloca em crise o direito humano ao asilo e uma de suas principais formas de materialização - o estatuto dos refugiados.

Assim,

(

constituiria mais um exemplo de uma peculiaridade das políticas migratórias nos últimos anos: o uso de eufemismos. Por meio desses eufemismos são elaboradas formas discursivas com determinados objetivos político-comunicacionais, os quais geram consequências em pelo menos dois planos:

o conceito “migrante econômico”

)

primeiro, em legitimar determinado enfoque da política migratória, geralmente com viés de segurança; e segundo, consequentemente, em afetar direitos e garantias de pessoas que migram ou tentam migrar (CERNADAS, 2016, p.02).

Portanto, o conceito de “migrante econômico” para Cernadas seria um conceito juridicamente inexistente e equivocado. O objetivo desta conceituação, atribuindo apenas o conceito “econômico” ao migrante, seria o de atribuir somente à decisão de uma família ou pessoa de que migrar seria somente por questões da ordem econômica, ou seja, negando a migração como um fenômeno estrutural, que está ligada a múltiplas causas e uma série de combinações que são

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determinantes para a decisão de migrar.

A separação dos conceitos de migrante econômico e refugiado ocultaria uma realidade complexa e multidimensional que evidencia uma profunda crise de direitos humanos, desenvolvimento humano, direito humanitário e também direito dos refugiados (CERNADAS, 2016). Através da utilização de conceitos tais como o de “migrante econômico” acaba-se omitindo a realidade das pessoas que se deslocam em condições de extrema vulnerabilidade. Tal conceito carrega ainda a ideia de que estes são sujeitos que tomam a decisão de migrar livremente. Em Paola Pace e Kristi Severance podemos ver que,

) (

econômico] é que se pode supor que esses migrantes nunca terão direito a nenhuma situação regularizada e que, portanto, se pode imediatamente negar a entrada ou deportar. Existem circunstâncias em que um migrante que não seja nem refugiado nem requerente de asilo pode ter uma base jurídica para uma estadia regularizada em um país de acolhimento. Em qualquer caso, todos os migrantes têm direitos que devem ser respeitados. É importante que o discurso público compreenda essas distinções a fim de encontrar soluções razoáveis e respeitosas (PACE; SEVERANCE, 2016 apud CERNADAS, 2016, p.04).

o perigo de usar este termo [migrante

Desta forma, como sempre procura ressaltar Deyse Ventura em seus debates sobre o tema, se faz necessário uma mudança de paradigma em nossos discursos narrativos, deixando de utilizar termos generalizados como o de “ilegal” e “migração econômica”, que por muitas vezes afetam os direitos humanos dos migrantes. Assim, ao classificar de forma separada “migrantes econômicos” e “refugiados”, juntamente com uma noção de “necessidade de proteção internacional”, a difusão do conceito “migrantes econômicos” ou até mesmo certas interpretações sobre a referência aos “fluxos mistos”, não tem proporcionado

todos os efeitos desejados, ou seja, a proteção efetiva às pessoas refugiadas, mas em muitos casos o contrário (CERNADAS, 2016, p.04).

A partir da visão de Cernadas podemos compreender que as migrações forçadas devem ser analisadas e tratadas como um problema de direitos humanos que excede o direito internacional dos refugiados. Desta forma, a legitimação de políticas migratórias que não tratem de forma dissociada migrantes e refugiados se faz necessária de modo a

garantir a cada pessoa todas as formas de proteção a que têm direito através da circunstância em que se depara e dos direitos que estão em jogo em cada caso, até mesmo

o direito humano ao asilo reconhecido em diversos

instrumentos internacionais, buscando garantir, assim, a plena cidadania do sujeito migrante.

Feitas estas considerações, das quais consideramos importantes para uma compreensão mais ampla sobre

a migração internacional, passaremos a análise da

constituição da Lei Municipal nº 16.478, reconstituindo os passos desenvolvidos pela gestão municipal a partir de seus respectivos programas sociais para a população migrante da cidade de São Paulo.

Análise da Política Pública para a População Imigrante da Cidade de São Paulo

A cidade de São Paulo é um destino tradicional de imigração de diversas nacionalidades e nos últimos anos esse movimento tem se intensificado. Segundo Censo 2000-2010 11 houve um aumento de 117% na entrada de residentes, ou seja, houve o ingresso de 39.655 imigrantes em 2010 em relação a apenas 18.237 em 2000.

11 Disponível em: < http://smdu.prefeitura.sp.gov.br/informes_ urbanos/pdf/27.pdf >. Acesso em: 15 de setembro de 2016.

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Neste sentido, a história da cidade de São Paulo não pode ser compreendida sem pensar, ao mesmo tempo, na história da imigração que contribuiu não só para o desenvolvimento econômico da região, como também para a concretização da diversidade cultural da capital paulista.

Pensando em diminuir a distância entre migrantes internacionais e nacionais a gestão Fernando Haddad criou, em 2013, a Política Pública para a População Imigrante, a partir do Plano de Meta 65, desenvolvendo uma série de programas sociais e uma legislação, pioneira na sociedade brasileira, a Lei Municipal nº 16.478 12 .

Houve também a criação do Conselho Municipal de Imigrantes, com a maioria de seus membros composta por imigrantes eleitos de forma direta e aberta, e o Centro de Referência e Acolhida ao Imigrante (CRAI), facilitando o acesso à assistência social e as oportunidades de trabalho e de empreendedorismo para os estrangeiros vivendo na capital paulista. A Lei Municipal nº 16. 478/2016 procura fortalecer ações de formação e sensibilização dos agentes públicos para o trabalho com essa população, criando um canal de denúncias para os refugiados e imigrantes em casos de discriminação e de violação de seus direitos.

Em seguida investigaremos a constituição da Lei Municipal nº 16. 478/2016 analisando a 1ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes de São Paulo, realizada em 2013, assim como os programas sociais realizado pela Coordenação de Política Migratória (CPMig), identificando as estratégias e ações da gestão Municipal sobre o tema migrações internacionais e cidadania. Acreditamos que a Lei indica diretrizes necessárias para a construção de uma política pública para imigrantes a partir da perspectiva dos direitos

12 A legislação estipula que migrantes residentes na capital paulista sejam tratados de forma igualitária aos nacionais nos equipamentos públicos da cidade, desenvolvendo novas diretrizes e mecanismos de combate contra a xenofobia e racismo.

humanos, atendendo uma demanda histórica de uma população que contribuiu muito com a construção do país, mas que até então tinha sido esquecida pela gestão municipal.

1ª Conferência Municipal da cidade de São Paulo

Sendo uma experiência pioneira, a relevância desta 1ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes de São Paulo está no fato de ser a primeira experiência em todo o Brasil que envolve diretamente a

participação institucionalizada de migrantes com o intuito

de formulação de políticas públicas para esta população.

Com o tema “Somos Tod@s Migrantes” 13 , a Conferência Municipal (CM), para Rogério Sottilli, então Secretário de Direitos Humanos da cidade de São Paulo, marcaria uma mudança de paradigma da gestão

municipal ao tratar os migrantes como sujeitos plenos

de

direitos, que contribuem para uma cidade melhor.

Realizada entre os dias 29 e 30 de novembro e

de dezembro de 2013, a Conferência Municipal fez

parte de uma série de conferências preparatórias que

têm o objetivo de ampliar a cobertura dos debates sobre

a temática migratória, elegendo delegadas e delegados

e formulando contribuições para a realização da etapa nacional da 1ª Conferência Nacional sobre Migrações

e Refúgio (COMIGRAR), que buscou discutir as

realidades distintas de migrantes e refugiados no território brasileiro.

Na abertura, dia 29 de novembro de 2013, a Conferência Municipal começou com a recepção e o credenciamento dos participantes. Em seguida,

a cerimônia de abertura, que teve a participação de

representantes do Governo Federal e Municipal e dos

13 Mantivemos o título original, preservando o “@”, que busca incluir homens e mulheres.

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migrantes. A palestra da Professora Dra. Zilda Iokoi buscou contextualizar os eixos que seriam discutidos. Durante o segundo dia, 30 de novembro de 2013, houve a leitura e aprovação do Regimento Interno, a discussão das propostas nos Grupo de Trabalhos e, no fim da tarde, a eleição dos delegados. No último dia, 1º de dezembro, foi realizada a votação das propostas discutidas nos GTs pela plenária da Conferência Municipal.

A Conferência Municipal sobre Migrações

e Refúgio na cidade de São Paulo foi à primeira das

mais de 200 conferências preparatórias realizadas em todo o Brasil entre os anos de 2013 e 2014. A cidade de São Paulo, que tem a maior e mais diversa população migrante do país - hoje em torno de 386 mil pessoas de mais de 150 nacionalidades 14 -, teve um papel fundamental pelo fato de ser a conferência com o maior número de participantes, chegando a 436 pessoas. Dos presentes a maioria era de brasileiros, com 123 participantes; os bolivianos foram à nacionalidade estrangeira com mais participantes, chegando a 44. Dividindo os participantes por segmentos chegamos ao número de 115 pessoas da sociedade civil, 29 eram da academia e outras 21 trabalhavam no âmbito municipal, contendo ainda representantes do Governo Federal, de órgãos internacionais e de setores da mídia.

Possuindo apenas caráter consultivo e sendo convocada pelo Decreto Municipal nº 54.476/2013, a Conferência Municipal foi uma iniciativa da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo (SMDHC), por meio de sua Coordenação de Políticas para Imigrantes (CPMig) com o objetivo de contribuir para o debate, elaboração de propostas

e diretrizes para subsidiar as políticas públicas para a população migrante.

14 Dados obtidos com a CPMig em 29 de agosto de 2016.

Para a organização da Conferência Municipal foi convocada uma Comissão Organizadora paritária, oficializada pela Portaria nº 91/2013 da SMDHC, composta por 28 representantes do governo municipal

e organizações da sociedade civil. A conferência contou

ainda com a realização de etapas livres e mobilizadoras que tiveram o papel de elencar propostas a serem discutidas na etapa municipal. Nas etapas mobilizadoras seguiu-se o critério de distribuição territorial de imigrantes na cidade, privilegiando-se aqueles distritos ou subprefeituras onde as comunidades estão mais organizadas. Estas etapas foram abertas à população de um modo geral e ocorreram nos bairros Penha (CEU Tiquatira), Limão (Centro Cultural da Juventude), Centro (Cine Olido) e São Mateus (CEU São Rafael). Já as etapas livres, que foram nove, tiveram o papel de ampliar o debate sobre o tema, permitindo maior envolvimento da sociedade civil, entre eles órgãos do governo municipal e estadual, um coletivo universitário, uma comunidade religiosa e sindicatos, a saber: CUT/SP, Missão Paz, Coletivo Educar para o Mundo (Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo), REDE Interinstitucional em Prol do Imigrante, Secretaria de Administração Penitenciária/ Centro de Apoio ao Egresso e Família, Casa das Áfricas, Patronato INCA/CGIL, Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC).

Tanto as etapas preparatórias quanto a Conferência Municipal aconteceram em torno de quatro eixos que estruturaram os debates e propostas para o Texto-Base da conferência, a saber: i) promoção

e garantia de acesso a direitos sociais e serviços públicos;

ii) promoção do trabalho decente; iii) inclusão social e reconhecimento cultural; iv) legislação federal e política nacional para as migrações.

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Diferentemente de outros Textos-Base utilizados

em outras regiões do Brasil, o da Conferência Municipal não trazia propostas, mas sim um panorama sobre as políticas públicas voltadas para a população imigrante no país, buscando trazer elementos para o debate. Vale ressaltar que o Texto-Base foi elaborado conjuntamente pelo Coletivo de Extensão Universitária Educar para

o Mundo, o Instituto de Relações Internacionais da

Universidade de São Paulo e integrantes da Comissão Organizadora Municipal (COM).

Com as propostas apresentadas por cada eixo durante as etapas preparatórias, buscou-se definir quantas propostas de cada eixo que seriam encaminhadas à plenária final, discutidas nos GTs da etapa municipal. Deste modo, das 60 propostas apresentadas na Conferência Municipal, 35% (21 propostas) foram apresentadas pelo GT de promoção e

garantia de acesso a direitos sociais e serviços públicos, 12% (9 propostas) pelo GT de promoção do trabalho decente, 20% (12 propostas) pelo GT de inclusão social e reconhecimento cultural e 30% (18 propostas) pelo GT

de legislação federal e política nacional para as migrações.

Ao final do processo, os quatro Grupos de Trabalho por Eixo Temático da Conferência Municipal apresentou-se 60 propostas para a formulação de políticas públicas para migrantes à Plenária Final para apreciação e votação. Ainda sobre os delegados eleitos para a participação da etapa nacional, a Conferência Municipal elegeu o total de 50 delegadas e delegados da sociedade civil, assim como 16 suplentes. Os critérios para a eleição buscou garantir o universo dos delegados, sendo composto por: i) mínimo de 50% de mulheres; ii) mínimo de 50% de imigrantes; iii) mínimo de 10% de refugiados ou solicitantes de refúgio; iv) mínimo de 10% de estudantes estrangeiros; v) mínimo de 10% de portadores de visto humanitário. Vale ressaltar que por

não haver nenhum candidato que se declarou portador

de visto humanitário esta categoria não foi preenchida.

Política Municipal para migrantes da cidade de São Paulo

Sancionada no dia 7 de julho de 2016, a Lei Municipal nº 16.478, de forma geral dispõe sobre os objetivos, princípios, diretrizes e ações prioritárias, bem como sobre o Conselho Municipal de Imigrantes.

Sendo a primeira Lei que institui uma Política Municipal para a População Imigrante no território brasileiro, ela se propõe a organizar diretrizes para a política de imigrantes em âmbito municipal, sistematizando

o conjunto de políticas públicas que vêm sendo

implementadas na cidade de São Paulo pela gestão municipal desde meados de 2013.

Formulada pela gestão do prefeito Fernando Haddad a partir do seu Plano de Meta nº 65, a Lei Municipal nº 16.478/2016 pretende atender a uma demanda histórica da população imigrante da cidade de São Paulo. A política municipal para imigrantes passa

a definir os princípios e diretrizes que servirão de base para planos e programas posteriores com o intuito de aperfeiçoar dos serviços já existentes. Ainda conforme

a Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig) 15 , a

Lei municipal busca ressiginificar a categoria migrante, entendendo que os mesmos devem ser integrados à sociedade e vistos como cidadãos e sujeitos de direitos

- e não apenas de deveres, possuindo instrumentos para

desenvolver suas autonomias e que sejam reconhecidos como participantes ativos na construção de uma cidade

plural, e com respeito a diversidade.

15 Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secre- tarias/direitos_humanos/migrantes/programas_e_projetos/index. php?p=205909> Acesso em 03 de setembro de 2016.

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Assim, com a finalidade de articular as políticas públicas para migrantes na cidade de forma transversal, intersetorial e intersecretarial, em 2013 foi criada a Coordenação de Políticas para Migrantes (CPMig), no âmbito da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) de São Paulo, vigorada através do Artigo 242 da Lei nº 15.764, de 27/5/13. Os valores e princípios da Coordenação de Políticas para Migrantes, segundo o mesmo, são:

) (

novos fluxos migratórios para a cidade de São Paulo e dos imigrantes como sujeitos de direitos; a promoção e a garantia de seus direitos fundamentais; a promoção da integração social e cultural mediante o intercâmbio de saberes entre as diferentes comunidades no espaço público; a não- criminalização daqueles que migram e o respeito ao direito de mobilidade 16 .

o reconhecimento da importância dos

De certa forma podemos dizer que o início da construção da Política Municipal para a População Imigrante ocorreu por meio da formação do Comitê Intersetorial da Política Municipal para a População Imigrante (CIPMPI), criado por meio de Decreto Municipal nº 56.353. Composto de forma paritária por 26 integrantes, sendo 13 representantes de Secretarias do Governo Municipal e 13 representantes de organizações da sociedade civil reconhecidas no âmbito municipal pelo desenvolvimento de atividades relevantes relacionadas ao tema da imigração, o Comitê teve o papel de promover e articular as políticas públicas migratórias no município, de forma transversal e sob a ótica do migrante 17 .

Além de discutir os princípios gerais da política

16 Disponível em: <http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/ secretarias/direitos_humanos/migrantes/coordenacao/index. php?p=156223> Acesso em 03 de setembro de 2016. 17 Disponível em: <http://saopauloaberta.prefeitura.sp.gov.br/

index.php/politica-municipal-para-a-populacao-imigrante-prefei-

tura-de-sao-paulo-consulta-publica/> 03 de setembro de 2016

migratória, coube também ao Comitê discutir oito áreas do qual o poder público municipal ficará responsável por atuar, a saber: saúde, educação, assistência social, trabalho, esportes, cultura e lazer, habitação e participação social. Assuntos como igualdade de gênero e de raça e garantia dos direitos humanos pautaram todas as discussões de forma transversal.

As propostas elaboradas pelos membros do Comitê foram transformadas em um Anteprojeto de Lei, um documento preliminar que foi validado por meio de Audiência Pública ocorrida no dia 26 de setembro de 2015. Esta audiência foi realizada pela CPMig e SMDHC no espaço do Sindicato dos Bancários, no Auditório Azul, contando com a

presença de 71 pessoas entre migrantes, representantes

da sociedade civil, organizações não-governamentais,

grupos de pesquisa e instituições públicas.

Tendo apenas caráter consultivo, a audiência

sistematizou as propostas já elaboradas pelo Comitê

e endossadas pela maioria dos participantes ou

maioria simples para a formulação de um texto final, denominado Texto-base, que gira em torno de quatro eixos: i) princípios e diretrizes gerais; ii) assistência social e saúde, educação e trabalho e habitação; iii) cultura; e iv) esporte e participação social.

A partir da formulação do Texto-base e da sistematização do Comitê, a prefeitura de São Paulo disponibilizou no dia 12 de fevereiro de 2016 uma Minuta Online do documento para Consulta Pública, onde foram enviadas 159 contribuições ao texto, constituindo um segundo momento da participação popular para formulação do projeto de lei da Política Municipal para a População Imigrante, ficando aberta até o dia 04 de março. Após reformulações, adequando as contribuições da população ao projeto

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final, este foi encaminhada para Câmara Municipal de São Paulo no dia 31 de marca como Projeto de Lei n.º 142/2016, obtendo votação unânime no dia 21 de junho de 2016, sancionado no dia 07 de julho pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

Uma experiência inédita

A Lei nº 16.478/2016 é uma experiência inaugural não somente municipal, mas também nacional, de uma política pública para uma população

que faz parte direta da constituição social, cultural

e econômica do Brasil, mas que foi historicamente

excluída dos processos decisórios e participativos que lhe diz respeito. Não havendo nenhum marco legal por parte da União que buscasse determinar diretrizes para a formulação e implementação de políticas públicas para migrantes no âmbito local, acabava por dificultar e restringir tais ações. Neste sentido não seria errôneo afirmar que a prefeitura municipal da cidade de São Paulo foi pioneira na formulação de uma lei que, dentro de suas respectivas responsabilidades, por meio do pacto federativo, institucionaliza a participação social do sujeito migrante, dando a este uma visão a partir dos direitos humanos, garantindo, assim, a institucionalidade dos programas contidos na lei independente de mudanças governamentais.

Desenvolver uma política pública local sem nenhum marco legal anterior que desse respaldo

a este processo é de certa forma uma ação que visa

preencher uma demanda histórica da população migrante, transformando a forma como até então essa população foi olhada e tratada pela gestão tanto municipal quanto nacional.

Tratando-se de uma questão transversal, a

construção de uma política municipal passa também pela apropriação do tema pelas diversas pastas responsáveis do município e da própria sociedade. De certo forma seria quase impossível a formulação de tal lei se não houvesse uma articulação e integração entre poder público e sociedade civil organizada.

A Lei nº 16.478/2016 é composta por 10 artigos que se propõe a estabelecer objetivos, princípios e diretrizes que buscam visar ações prioritárias para a atuação do município em diversas áreas que são de sua responsabilidade, a saber: educação, saúde, assistência social, trabalho, habitação, cultura, esportes e lazer. Assim, a gestão municipal deverá guiar-se pela lei, se ocupando dos termos e princípios previstos no ato normativo para poder cumprir os objetivos que ali foram estipulados. Em suas diretrizes cabe destacar tais norteamentos: a igualdade de direitos, atenção às necessidades específicas, combate ao preconceito, regularização da situação e acesso universalizado aos serviços públicos. Sistematizando de forma simplificada cada artigo temos a seguinte configuração: Art. 1º institui a Política Municipal para a População Imigrante, assim como a garantia da igualdade e acesso a direitos e da diversidade cultural; Art. 2º determina os princípios da Política Municipal, destaque para igualdade de direitos e de oportunidades, regularização da situação da população imigrante, combate à xenofobia; Art. 3º cria diretrizes do Poder Público na implementação da Política Municipal para a População Imigrante; Art. 4º assegura o atendimento qualificado à população imigrante no âmbito dos serviços públicos municipais; Art. 5º garantia de diálogo permanente entre o Poder Público e a sociedade civil, em especial por meio de audiências, consultas públicas e conferências, em que pese à criação Conselho Municipal de Imigrantes; Art.

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6º o Poder Público deverá assegurar a manutenção dos Centros de Referência e Atendimento para Imigrantes – CRAI; Art. 7º diz respeito às ações prioritárias a ser implementadas pela Prefeitura Municipal; Art. 8º discrimina sobre as dotações orçamentárias com as despesas da execução da Lei; Art. 9º determina que o executivo deve regularizar a Lei num prazo de noventa dias a partir da data da publicação da mesma; Art. 10º determina a validade da Lei, que se dá a partir da publicação da mesma.

Vale ressaltar que entre o Texto-base que saiu da Audiência Pública, para a Minuta online que ficou sob Consulta Pública até o sancionamento da Lei pelo prefeito Fernando Haddad, houve várias mudanças no texto-base da lei 18 . Grosso modo podemos dizer que o que não entrou no projeto de lei final votado pela Câmara Municipal são atribuição dos outros entes federativos (Estado e União), como a questão do direito ao voto. Da mesma forma outras pontuações feitas tanto na Audiência Pública quanto na Consulta Pública não entraram no projeto final da Lei, pois, segundo Juliana Moreira de Souza Tubini, Assessora Técnica da Coordenação de Política para Migrantes da Prefeitura de São Paulo, seriam ações que não caberiam como artigos, mas que precisariam de decretos normativos geridos pela Prefeitura para serem efetivados. Ou seja, a Lei 16. 478 estabelece diretrizes para que as futuras gestão municipais atuem sobre a regulamentação de programas sociais. Ressaltamos ainda que a efetividade de tais programas dependa de dotações orçamentárias a serem ainda estipuladas pelo Poder Público.

Desta forma, podemos dizer a partir do que foi detalhado acima, que a Lei 16. 478/2016 é uma lei

18 Mudanças essas que infelizmente não detalharemos aqui, mas caberia um olhar mais atento em outras oportunidades.

que quebra barreiras na sociedade brasileira por ser é a

primeira lei na história do Brasil que institucionaliza e fomenta a participação social, econômica e cultural da população migrante através de iniciativas que visam à transformação do espaço municipal por meio da lógica fundamental de compreender que a cidadania não se dá sem participação, determinando, portanto, o sujeito migrante como um sujeito de direitos. Claramente que não devemos nos ludibriar e nos deixar levar apenas pela formulação de uma lei, pois cabe agora saber como

ele se dará na prática e no cotidiano dos migrantes

e da comunidade local. Mas, não podemos também

deixar de ressaltar sua importância como marco histórico, que, por meio de ações concretas, como

a garantia de 31 assentos específicos a migrantes em

conselhos participativos das subprefeituras, dando- lhes voz e vez na definição dos rumos da cidade, e

a constituição do CRAI, que ressignifica o papel do

poder público municipal, que passa a atuar sobre mudanças de paradigmas, construindo uma cidade diversa e inclusiva, respeitando os direitos básicos de todo e qualquer cidadão mediante ações afirmativas calcadas em legislação específica.

Conclusão

O debate sobre a migração internacional

demonstra a complexidade da questão, revelando

a extrema vulnerabilidade dessas pessoas em

deslocamento. O que demonstramos neste artigo foi que a migração é um processo essencialmente político (ZOLBERG, 2006 apud Siciliano, 2015), e que a ausência do poder público em todos os níveis,

sem estabelecimentos de políticas públicas voltadas às suas questões específicas, acabam aprofundando

a vulnerabilidade da população migrante, gerando

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vários mecanismos de exclusão social. Neste sentido, se faz necessário o desenvolvimento de estratégias para proteção dessas pessoas com base nas regras do direito internacional e direitos humanos, que possam

entre outras coisas, desmistificar a migração, para que

o migrante seja recebido de outra maneira, a partir de uma perspectiva de direitos humanos que lhe assegure

a inclusão social nos mais diversos sentidos.

A partir da discussão levantada por Ceriani (2016), buscamos compreender as prioridades das políticas migratórias, discutindo as causas e os motivos das pessoas que se deslocam, analisando conceitos que ocultam elementos deste processo, sustentando eufemismos, o que, por sua vez, têm afetado os direitos de pessoas migrantes, requerentes de asilo e também das questões mais específicas referentes aos refugiados.

Deste modo, procuramos levantar o debate sobre o papel da gestão municipal no que diz respeito ao acolhimento do migrante à comunidade local. Acreditamos que a ideia de programas sociais de acolhimento e direitos humanos desenvolvidos na

gestão municipal ressalta a importância de uma política pública a partir da perspectiva dos direitos humanos

e da política da diferença (TAYLOR, 1993), que tenta

trabalhar com a problemática da exclusão/inclusão, ao mesmo tempo em que reconstrói a narrativa sobre

a migração internacional, deixando de tratar essas pessoas como categorias, como coisas.

Portanto, entendemos que a Política Pública para a População Imigrante da cidade de São Paulo, possibilitou, mediante ações afirmativas e de inclusão social do sujeito migrante, como a experiência da 1ª Conferência Municipal de Políticas para Imigrantes, pela primeira vez a participação social institucionalizada dos migrantes.

JáaconstituiçãodaLeiMunicipalnº16.478/2016

garantiu que os programas desenvolvidos pela gestão municipal fossem institucionalizados, e que, portanto, independente da gestão a municipalidade de São Paulo terá um novo sentido de trabalhar e garantir aos migrantes, socialmente excluídos, o status de ser humano.

Portando, entendemos a gestão Haddad trouxe práticas inovadoras na forma de administrar a maior cidade Sul-Americana, onde, como mostramos, procurou incorporar normas e princípios definidores dos direitos fundamentais contidos na Constituição Federal de 1988, tal como o artigo 1º, que estabelece que o Estado Democrático de Direito tenha como fundamento, entre outras ações, garantir a “dignidade da pessoa humana”.

No que se refere à participação social do sujeito migrante nos processos de decisão, percebe-se, a partir da observação direta e entrevistas, que existe uma insistente preocupação por parte da população migrante na elaboração das identidades coletivas, como forma do exercício de suas autonomias e de reconhecimento social. Em uma das entrevistas vimos que para W 19 . esse reconhecimento social se dá pelo próprio reconhecimento na participação social, que seria a etapa mais importante neste longo processo de constituição do direito. Para M 20 ., refugiado da República Democrática do Congo, numa das falas no Diálogo Sobre a Nova lei de Migração, proclamava que o não reconhecimento do imigrante é de responsabilidade do migrante. Tais falas que emergem desses espaços de construção acabam

19 W. é um imigrante alemão, mora na zona oeste de São Paulo.

Chegou ao Brasil na década de 1980 e participou da construção do Conselho Participativo para migrantes na gestão Haddad 2013/16. Eleito, hoje ocupa uma das cadeiras do Conselho. Con- heci W. na Audiência Pública. A entrevista com W. foi realizada no Largo da Batata, no dia 15 agosto de 2016.

20 Realizada na cidade de São Paulo no dia 21/11/2015 no Sin-

dicato dos Bancários. O Intuito do Diálogo era o debate da Lei

20.516/2015 que trata da nova lei da migração brasileira.

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por fortalecer a própria população migrante na luta pelo reconhecimento da cidadania, construindo uma consciência de sua situação ao mesmo tempo em que estabelece uma identidade própria de um projeto de futuro, inaugurando práticas de mobilização para mudar a realidade atual.

Compreendemos, desta forma, que a dificuldade

da formação da identidade social está diretamente ligada

com a ideia de participação social – sendo este um fator de manutenção da hierarquia entre pessoas na sociedade. Neste sentido, conclui-se que a participação social do sujeito migrante dentro dos processos decisórios é fundamental para poder oferecer a possibilidade de identificação e reconhecimento social. E o que extraímos deste estudo ainda é que para que ocorra a participação social e política do migrante é fundamental a atuação do poder público envolvendo todos os níveis, no presente caso do âmbito municipal, desenvolvendo uma política migratória local incentivando a acomodação e acolhimento do migrante a partir da perspectiva dos direitos humanos, considerando o migrante como um membro que contribui de diversas formas para o desenvolvimento social, econômico e cultural da sociedade brasileira.

Por fim, a constituição do direito inscreve-se por meio da participação ativa e de práticas que nutrem os sujeitos - até então excluídos – possuidores de poder transformador, fornecendo-lhes ferramentas para que possam se organizar e defender seus direitos e

expressar suas vontades, reivindicando e constituindo-

se

nessas lutas, e assim, intervindo no destino da cidade.

E

a atuação do poder público é fundamental para

converter experiências de exclusão social em luta de reconhecimento social, em todas as suas dimensões.

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Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017, p. 31-49

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Ocupar e existir: os refugiados sírios como participantes do movimento de ocupação de São Paulo

Guilherme Henrique Vasconcellos Leonel Pós-graduado em Globalização e Cultura pela FESPSP (guil_leonel@hotmail.com)

Resumo

O

presente artigo pretende questionar como os refugiados sírios exilados no Brasil

se

tornam personagens na luta por moradia urbana, tendo como fundamento a

experiência etnográfica da Ocupação Leila Khaled, de São Paulo. Para tanto, abordam-

se o conceito de liminaridade de Victor Turner e a reflexão sobre o refugiado no papel

de

um homo sacer de Giorgio Agamben, inquirindo de que forma os indivíduos em situação

de

refugio questionam, com a própria existência o acesso às condições básicas de habitação e

a lógica humanitária que justifica o auxílio governamental prestado a esses grupos.

Palavras-chave

Direitos Humanos; moradia; refugiados; movimentos sociais.

Alabastro: revista eletrônica dos discentes da Escola de Sociologia e Política da FESPSP, São Paulo, ano 5, v. 1, n. 9, 2017, p. 50-63.

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Ocupar e existir: os refugiados sírios como participantes do movimento de ocupação de São Paulo

guilherme henrique VAsconcellos leonel

Abstract

The present paper intends to question how the syrian refugees exiled in Brazil became characters in the struggle for urban habitation, based on the ethnographic experience of the Ocupaçao Leila Khaled, from Sao Paulo. Starting from Victor Turner’s concept of liminality and Agambens ponderation about the role of homo sacer of the refugee, the paper debates in which forms the individuals living under the condition of refugee question, with their very existence, the access to basic conditions of living and the humanitarian logic that justifies the government aid provided to these groups.

Keywords

Human Rights; habitation; refugees; social movements

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Introdução

Em maio deste ano, o Ministério da Justiça divulgou um relatório sobre o número de estrangeiros que entraram no Brasil na condição de refugiados entre 2010 e 2015. O documento apresentou dados que podem provocar o interesse de estudiosos e grupos envolvidos com questões relativas à migração, nacionalismo, identidade étnica e outros temas correlatos. Uma das questões apresentadas pelo relatório é referente às nacionalidades com maior número de pedidos de refúgio, e também sobre a intensidade dos fluxos migratórios no período.

De acordo com levantamento, o percentual de pedidos de refúgio feitos no país no quinquênio subiu 2.868%, enquanto a concessão de refúgios subiu

176%. Particularmente em relação ao Brasil, a questão dos pedidos de asilo chamou atenção especialmente sobre dois países, sendo um deles a Síria. Segundo

o relatório do Ministério da Justiça, a Síria liderou o

número de pedidos concedidos, com 2.298 sírios tendo os pedidos de refúgio acolhidos, valor ainda maior quando relacionado com o total de pedidos de refúgio feitos por sírios no Brasil, que equivaleu a 3.460 no

período (o que significa que cerca de 66% dos pedidos de refúgio foram concedidos). Sintomaticamente,

o quinquênio é também o momento em que o país

árabe passa por um período de profunda instabilidade civil e violência extrema que já vitimou cerca de 500 mil sírios e expulsou 5 milhões de pessoas do país, no que é considerada a pior crise humanitária desde os anos 70. No Brasil, os refugiados sírios correspondem a cerca

de um quarto dos 8.863 refugiados reconhecidos no país.

Dentro deste contexto, o Brasil chamou atenção por ser o país fora do eixo migratório principal dos países em conflito (que compreendia principalmente

outros países do Oriente Médio e a Europa, acessada pela Turquia, Itália ou Grécia) a receber o maior número de refugiados.

Entretanto, apesar da legislação elogiada e da criação de um órgão voltado para o atendimento dos indivíduos em situação de refúgio, uma queixa comum dos próprios refugiados é a de que o atendimento oferecido fica aquém da demanda, o que compromete a capacidade de integração dos refugiados. A crítica foi motivo para um protesto de refugiados palestinos em 2011 e teve suas carências quantificadas numa pesquisa realizada em 2007 pela NEPO/Unicamp em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) e as Cáritas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Com o aparato institucional designado para oferecer suporte aos refugiados se demonstrando insuficiente, resta aos indivíduos recorrer a uma rede de solidariedade que envolve a comunidade, outros refugiados, movimentos sociais e Organizações Não Governamentais para suprir as necessidades de sua estadia no país. Frequentemente, por meio desta rede informal, as necessidades dos refugiados se encontram com outras questões urbanas que surgem das carências deixadas pelo Estado, o que por vezes faz com que as reivindicações particulares dos refugiados encontre um aliado nos grupos organizados para reivindicá-las.

Apesar disso, o caráter particular dos refugiados – que, além das carências econômicas e sociais, são indivíduos apátridas, colocados, pois, numa posição institucional que resulta em impedimentos burocráticos do Estado para suprir sua demanda – os torna indivíduos liminares, por excelência alheios ao sistema do qual precisam participar e questionando, com sua própria existência, tanto os canais institucionais designados para atender à sociedade

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quanto as redes informais de solidariedade que surgem nos espaços em que a presença do Estado não é capaz de dar conta das demandas de direitos.

Assim, conforme apontado por Giorgio Agamben em Homo Sacer: O Poder Soberano e a Vida Nua:

“Se os refugiados (cujo número nunca parou de crescer no nosso século [século XX], até incluir hoje uma porção não desprezível da humanidade) representam, no ordenamento do Estado-nação moderno, um elemento tão inquietante, é antes de tudo porque, rompendo a continuidade entre homem e cidadão, entre nascimento e nacionalidade, eles põem em crise a ficção originaria da soberania moderna.” (AGAMBEN, 2007, pg 138).

É, portanto, inerente ao caráter da condição de refugiado que a posição liminar dele na sociedade receptora desempenhe o papel de tensionar as estruturas sociais formais e informais de solidariedade e a capacidade delas de atender às demandas dos indivíduos contidos nesse grupo social. O que os refugiados diferem de outros grupos que poderiam ser considerados liminares nesse contexto é que a condição apátrida os exclui de todo o contexto social nativo, assim, a presença dos refugiados e a necessidade de que suas demandas sejam atendidas, tanto pelo Estado quanto pelas redes informais da sociedade, mais do que uma condição social, é uma condição humana. Assim, “o refugiado faz surgir para um átimo na cena política aquela vida nua que constitui seu secreto pressuposto” (AGAMBEN, 2007, pg 138).

O objetivo deste trabalho, portanto, é questionar como a presença dos “indivíduos sem direitos” e a sua condição liminar pode ser a mola propulsora para que seja questionado o quanto a objetivação das demandas sociais não seriam, antes, direitos humanos que permitem aos indivíduos uma existência plena. Partindo da análise etnográfica de uma ocupação urbana da

cidade de São Paulo, o artigo pretende analisar de que

maneira a liminaridade dos refugiados sírios se relaciona com outras demandas sociais presentes na convivência urbana, e como esta relação pode levar a uma reflexão sobre a capacidade do Estado de atender a essas demandas, além da efetividade dos meios adotados por ele para tanto. O trabalho opta por debruçar-se sobre um direito (talvez o mais imediato), e sobre as maneiras que os refugiados sírios e essa demanda se encontram

e se articulam mutuamente para traçar essa discussão.

Entre os direitos que o Estado se mostra incapaz

de suprir, encontra-se, talvez de forma mais dramática,

a questão da moradia. A escolha pela questão da

moradia se dá por seu caráter, de certa forma essencial ao estabelecimento dos indivíduos e também devido ao histórico rico de organização popular que esta luta possui na cidade de São Paulo, que antecede em muito

a atual crise migratória. Assim, a luta por moradia é um

campo em que o contato dos refugiados com redes de solidariedade informais e a presença (ou ausência) do Estado se dá de maneira mais imediata e organizada, permitindo que a análise da intersecção destas questões seja feita de forma direta. É no vértice desses três personagens que se encontra a Ocupação Leila Khaled.

Ocupar e Existir

Fundada em julho de 2015 – o que a coloca

no período em que o fluxo de imigrantes sírios para

o Brasil teve o aumento substancial de volume – a

Ocupação Leila Khaled se localiza num prédio no bairro da Liberdade, região central de São Paulo, e

é coordenado por um grupo do Movimento Terra

Livre. O imóvel estava inativo há cerca de dez anos

e originalmente foi ocupado devido à necessidade

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de alocar algumas famílias de uma ocupação anterior na região de Pinheiros que não era capaz de suprir

a demanda por moradia do grupo. O contato com a

causa dos refugiados veio através de uma das Ongs que atuam em parceria com o movimento. Cerca de 15 dias depois de o imóvel na Liberdade ter sido ocupado, uma das coordenadoras da ocupação, Silmara Silva, e um membro da Ong (Omopat) encontraram uma família de refugiados (composta por sete pessoas, sendo cinco mulheres e dois rapazes e alojada numa área de cerca de 2x2m²) vivendo de maneira precária na região do Brás. Os riscos de violência (sobretudo sexual, de acordo com Silmara) e preconceito por conta do uso do hijab a que a família estava sujeita fizeram com que ela fosse resgatada para a ocupação, que passou então a atender outros refugiados.

Atualmente a ocupação atende 47 árabes. Segundo Silmara a experiência de entrada dos refugiados

no Brasil é frustrante, casos como o da primeira família, de famílias vivendo em condições inadequadas são comuns. Os refugiados reclamam muito da recepção no Brasil, afirmam que a falta de apoio governamental é frustrante. No primeiro contato, o que costuma ocorrer

é a frustração da expectativa que existe de obter, o

refúgio o direito de entrar no país, e sobreviver. Tudo que os refugiados recebem é o visto de entrada.

O trabalho foi desenvolvido por meio de uma visita à ocupação Leila Khaled e entrevistas com as coordenadoras da ocupação, todas brasileiras. As entrevistas realizadas foram no formato focalizado

e não-estruturado, com questões que abordavam o

contato do movimento social com os refugiados sírios,

a condição dos refugiados antes do contato com o

movimento, a integração entre estes refugiados e os demais moradores da ocupação e também a integração deles com o resto dos moradores da região, as principais

dificuldades de adaptação dos refugiados e os principais obstáculos institucionais que eram encontrados por eles. Não foi possível a realização de entrevistas diretamente com os refugiados devido a um contato prévio destes com membros da imprensa que os deixou resistentes a permitirem novas conversas. Todas as entrevistas foram gravadas e realizadas no dia da visita à ocupação.

A identificação da Ocupação com a causa

refugiada – e até um certo princípio de identificação dos próprios refugiados com o sentimento comunitário

da ocupação – pode ser percebido pelo nome que foi

escolhido para batizar a ocupação. Segundo Silmara, todas as ocupações do Movimento Terra Livre são

batizadas com um nome próprio, que ajuda a construir

a identidade da ocupação. O nome é escolhido

democraticamente pelos moradores numa votação aberta. Dentro desses critérios, o nome escolhido pela comunidade para a ocupação foi o de Leila Khaled, membra da Frente Popular para Libertação da Palestina, uma organização política e militar fundada em 1967 como uma das organizações nacionalistas palestinas. Leila é famosa por ter participado do sequestro de um avião que ia de Roma para Tel Aviv em 1969 e por ter posteriormente participado da tentativa de um novo sequestro de avião em 1970. O sequestro foi mal sucedido e Leila foi presa no Reino Unido, sendo posteriormente libertada em troca dos reféns de outro sequestro. De acordo com Silmara, o nome foi sugerido por uma das famílias refugiadas e teve concordância da maioria dos moradores, o nome foi dado pela importância de Leila para a causa palestina e principalmente pela sua atuação durante os anos 70.

A reclamação dos refugiados atendidos pela Leila Khaled está em acordo com o verificado no artigo Famílias sírias refugiadas em São Paulo: o direito à integração, de Marília Calegari e Luciene Justino, que aponta

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que “Apesar de políticas migratórias que facilitam a

entrada de refugiados sírios em território brasileiro

e de instrumentos internacionais que garantem a

proteção dessa população, o acesso à assistência social ainda é ineficiente” (CALEGARI e JUSTINO, 2016, p.4). De acordo com a pesquisa, apesar de existirem várias entidades tanto governamentais quanto não governamentais que atuam no apoio aos refugiados, muitos dos refugiados afirmam não receber auxílio nenhum ou pouca assistência, sendo a principal ajuda referente à documentação.

“Os refugiados sírios em São Paulo enfrentam dificuldades recorrentes para imigrantes e,

especialmente, para refugiados como: idioma, preconceito, desemprego, falta de moradia,

a

proteção está centralizada em questões jurídicas e as políticas de integração dessa população é deixada de lado.” (CALEGARI e JUSTINO, 2016, p.6).

xenofobia, e assistência ineficiente [

]

Aassistênciarestritaàdocumentaçãoésintomática,

já que, apesar de essencial para a regularização da

presença dos refugiados no país, ela tem pouco a oferecer em relação às condições necessárias para a

integração e subsistência dos refugiados. A problemática dessa falta de condições para uma objetivação total dos indivíduos também já havia sido acusada por Agamben, “o humanitário separado do político não pode senão reproduzir o isolamento da vida sacra sobre o qual

se baseia a soberania” (AGAMBEN, 2007, pg. 140).

Uma vez que o Estado não apresenta aos refugiados condições para que possam acessar a totalidade dos direitos sociais concedidos aos cidadãos, os indivíduos apátridas são relegados a uma posição liminar em que apenas a sua presença é garantida institucionalmente.

Sobre os indivíduos e grupos em caráter liminar, Vitor Turner aponta em O Processo Ritual: estrutura e anti-estrutura, que “os membros de grupos étnicos e culturais desprezados ou proscritos desempenham

importantes papeis nos mitos e nos contos populares como representantes ou expressões de valores humanos universais.” (TURNER, 2013, pg. 135). Entre os refugiados, a condição de liminaridade a que estão circunscritos pelo Estado, apesar de potencialmente transitória (como é característico da liminaridade), se torna permanente devido à incapacidade de acesso dos indivíduos apátridas às condições necessárias para que seja realizada a sua integração na sociedade receptora.

O processo de integração é classificado por Julia Bertino Moreira no artigo Refugiados no Brasil:

Reflexões Acerca do Processo de Integração Local, como “processo mediante o qual os refugiados mantém sua própria identidade, mas se tornam parte da sociedade acolhedora a medida que possam conviver juntos com a população local de modo aceitável.” (MOREIRA, 2014, p. 89). Ou seja, um processo dialético por meio do qual esses refugiados deixam de ter status de indivíduos liminares para então fazer parte do meio social em que foram acolhidos. A integração, portanto, é um mecanismo que retira a sacralidade das vidas refugiadas e faz deles cidadãos assim como os indivíduos nativos que os receberam. Além de estar

relacionada à relação entre os dois grupos e à percepção social dos refugiados pelos nativos, existem ainda elementos materiais que compõem o processo, que são (ou deveriam ser) de responsabilidade do poder público que pretende promover a integração, assim, para o

seus elementos centrais

se referem à aquisição e acesso a emprego, moradia, educação, cidadania e direitos; processos de relações sociais com grupos dentro da sociedade receptora [ ]” (MOREIRA, 2014, p.89). Partindo da distinção entre “vida nua” e “vida plena”, é possível perceber que são os elementos materiais que são demandados do Estado que permitem aos refugiados qualificarem a própria

Estado, na integração “[

]

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vida como membros cidadãos da nova sociedade, uma vez

que esses requisitos são as condições necessárias para que

o indivíduo participe de todos os círculos do meio social.

Dessa forma, o papel do Estado se resume a oferecer a documentação necessária para a entrada dos refugiados dentro de seu território (garantindo que eles escapem da ameaça à sua integridade física, ou seja, garantindo o direito à vida), sem, no entanto, garantir a esses refugiados as condições necessárias para que eles possam participar de todas as esferas da vida pública. Em resumo, os refugiados ficam, dessa maneira, autorizados apenas a “existir”.

“Toda vez que os refugiados não representam mais casos individuais, mas, como acontece hoje mais e mais frequentemente, Um fenômeno de massa, tanto estas organizações [humanitárias supranacionais] quanto os Estados individuais, malgrado as solenes evocações dos direitos “sagrados e inalienáveis” do homem, demonstraram-se absolutamente incapazes não só de resolver o problema, mas até de simplesmente encara-lo de modo adequado.” (AGAMBEN, 2007, pg. 140).

Uma vez que as condições para a integração são

medidas a partir de condições práticas da sobrevivência dos refugiados, o processo passa a envolver os dispositivos do Estado que têm como função o provimento dessas condições para a sociedade, como

a oferta de saúde, acesso ao mercado de trabalho, à

educação, entre outras. Assim, a partir da constatação de que os refugiados não encontram apoio institucional, entra em cena uma rede de relações não governamentais para oferecer assistência aos refugiados: Ongs, a mesquita, grupos de militância social, indivíduos movidos por solidariedade.

O primeiro elemento que compõe as redes de solidariedade que atendem os refugiados é algo próximo de uma identificação étnica. É na comunidade árabe da

cidade (composta principalmente por libaneses), que os refugiados encontram seu primeiro emprego no Brasil. Muitos desses árabes estabilizados no Brasil são quem oferece uma atividade remunerada para a maioria dos refugiados que chegam. Apesar de o problema inicial do desemprego ser solucionado, qualitativamente, os empregos ficam longe do ideal. Os refugiados empregados por libaneses frequentemente têm uma carga horária maior e recebem um salário inferior ao empregado nativo. Além disso, a regularização desses empregos é incerta. De acordo com Silmara, todos os árabes residentes na ocupação estão empregados, mas não saberia quantos deles são registrados. Junto do acesso à moradia, a condição de trabalho é outra das

] as condições

de trabalho e os níveis salariais foram avaliados pelos entrevistados, de modo geral, como insatisfatórios.” (MOREIRA, 2014, p.95).

Outro campo em que a identificação étnica contribui para a formação das redes de solidariedade é no processo de busca por uma moradia. Nesse quesito, quem atua de forma proeminente em favor dos refugiados é a Mesquita Brasil (templo islâmico localizado no bairro do Cambuci, bairro central da cidade de São Paulo). De acordo com Silmara, foi pela atuação da Mesquita que algumas famílias que estavam na ocupação conseguiram se mudar para residências próprias (um caso particular de uma família que se mudou para São Mateus foi possível graças à doação da casa por um empresário), em contrapartida, os residentes da ocupação não conhecem casos de famílias de refugiados que tenham conseguido mudar-se para moradias através da atuação de algum canal governamental. No caso da Mesquita, o critério principal a ser observado é a presença de mulheres na família, com as famílias que possuem mais mulheres recebendo prioridade no

principais reclamações dos refugiados “[

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atendimento. Segundo Silmara, as famílias que têm um número maior de mulheres já não estão mais no prédio da ocupação por conta da atuação da Mesquita.

É possível perceber que as principais dificuldades do acesso dos refugiados aos serviços públicos são as mesmas enfrentadas pela população nativa. “As principais demandas da população estudada são em relação a emprego, idioma, moradia e validação de diplomas.” (CALEGARI e JUSTINO, 2016, p.11). As demandas apontadas pelo artigo em relação às famílias sírias são próximas às levantadas no artigo sobre refugiados em geral “O acesso aos serviços públicos também foi considerado precário, principalmente em termos de saúde e moradia.” (MOREIRA, 2014, p.95). É nesse ponto que as reivindicações dos refugiados em relação aos termos de sua integração começam a encontrar ressonância em lutas sociais nativas e em grupos que são atores nesses processos.

A exigência representada pela presença dos refugiados no meio social pode ser encarada como a predecessora da luta que esses mesmos refugiados passam a integrar a partir do momento que passam a fazer parte da Ocupação. Enquanto a Ocupação representa uma articulação dos movimentos sociais ligados ao debate sobre moradia na metrópole para questionar o direito à moradia, a presença dos refugiados no país, tendo a estadia autorizada pelo Estado mas carecendo do atendimento dele para atender às suas necessidades sociais se torna, mesmo que de forma inconsciente, uma oposição ao discurso institucional de atendimento à população e um questionamento sobre até onde esse discurso é efetivamente tornado prática.

“A dupla categorial fundamental da política ocidental não e aquela amigo-inimigo, mas vida nua-existência política, zoé-bios, exclusão- inclusão. A política existe porque o homem é o vivente que, na linguagem, separa e opõe a

si a própria vida nua e, ao mesmo tempo, se mantém em relação com ela numa exclusão inclusiva.” (AGAMBEN, 2007, pg. 16).

Analogamente, da mesma maneira que a vida exige um qualitativo para determinar que condição de vida está sendo reivindicada e em oposição a que outra forma de viver, também a luta pela moradia materializa e codifica um debate social que transcende sua materialidade. No artigo Ocupar, reivindicar, participar: sobre o repertório de ação do movimento de moradia de São Paulo, Luciana Tatagiba, Stella Zagato Paterniani e Thiago Aparecido Trindade apontam que os motivos para a participação em movimentos de moradia, na maior parte dos casos “[ ] reporta ao bem imediatamente demandado: a conquista da moradia. Contudo, fazem questão de qualificá- la: moradia digna.” (TATAGIBA; PATERNIANI; TRINDADE, 2012, p. 407, grifo dos autores). Assim, se o que os refugiados buscam, individualmente, na sociedade acolhedora é a bíos, plena de possibilidades políticas, econômicas, sociais, em oposição à zoé da mera existência física do corpo, também no debate sobre a habitação urbana, esses refugiados participam de um movimento que reivindica a moradia digna, em oposição a uma moradia nua de qualificação.

Mais do que um recurso retórico, é o qualitativo da reivindicação que une os refugiados e os integrantes dos movimentos de moradia: “a moradia digna contrapõe-se à realidade vivenciada por muitos: a moradia precária em cortiços, favelas, a moradia incerta que depende do Bolsa Aluguel ou da ajuda de parentes e/ou amigos, moradia “sem papel passado”, que espera regularização.” (TATAGIBA; PATERNIANI; TRINDADE, 2012, p. 407). Assim como não caberia a refugiados reivindicarem a vida (uma vez que já vivem), também para muitos integrantes dos movimentos de moradia, não é o ato de morar em si que é colocado

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em questão, mas a qualidade com que esse ato pode ser realizado. O eixo bíos-moradia digna opondo assim

a equivalência de zoé-moradia como o parâmetro a partir

do qual são exigidas do Estado as condições materiais

que permita à existência desses grupos alcançarem toda

a sua potencialidade.

“A ideia de dignidade remete também a um cenário que pode integrar às demandas por moradia outras demandas, como uma moradia que permita acesso a outros bens e serviços essenciais, por exemplo, emprego, transporte, saúde e educação. A “moradia digna” é um referente simbólico que qualifica a luta e a conquista e diz sobre a natureza de um engajamento que, se está voltado a uma reivindicação concreta e urgente – de gozo individual – tem potencialidade para ativar outros sentidos e motivações.” (TATAGIBA; PATERNIANI; TRINDADE, 2012, p. 407, grifo meu).

Assim, ainda que inadvertidamente, os refugiados, em sua luta individual para conquistarem o direito

à vida plena, participam de uma luta coletiva que faz