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CONTENIDO

ACESSO EM DESALINHO: O CASO DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS DO ESTADO DO


RIO DE JANEIRO - O FUNDAMENTAL É A JUSTIÇA ........................................................ 14
Tauã Lima Verdan Rangel
Luciane Mara Correa Gomes
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 15
2 A ESTRUTURA DO PROJETO CONCILIAÇÃO PRÉ PROCESSUAL E SUA CONCEPÇÃO
TEÓRICA COMO DIREITO FUNDAMENTAL ........................................................................................ 16
3 POR UM ACESSO INFORMATIZADO E EFICAZ ................................................................................ 17
4 ASPECTOS ESTRUTURAIS DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS E OS MUTIRÕES DE
CONCILIAÇÃO ............................................................................................................................................. 19
5 CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 23

AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS PELO VIÉS TRABALHISTA:


ESSENCIALIDADE DO PROTECIONISMO JURÍDICO-LABORAL EM CRISES
ECONÔMICAS. .................................................................................................................... 25
Ana Maria Pires Barbosa dos Reis
Bruno Prisinzano Pereira Creado
Raíssa Stegemann dos Reis Rocha
1 CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS SOBRE O DIREITO DO TRABALHO ......................................... 26
2 MODERNIDADE ECONÔMICA-SOCIAL E DIREITO DO TRABALHO ..........................................29
3 ESSENCIALIDADE DO DIREITO DO TRABALHO: ECONOMIA, CRISES E PROTEÇÃO
JURÍDICA ....................................................................................................................................................... 32
5 CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 34

A ATUALIDADE HISTÓRICA DO CASAMENTO HOMOAFETIVO E SUA


REGULAMENTAÇÃO JURÍDICA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO. ............................. 37
Lucas Santos de Almeida
Ana Maria Viola de Sousa
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 37
2 CASAMENTO HOMOAFETIVO: LINEAMENTOS INTERDISCIPLINARES E PROPEDÊUTICOS
......................................................................................................................................................................... 38
3 REGULAMENTAÇÃO JURÍDICA DO CASAMENTO HOMOAFETIVO ........................................... 42
4 CASAMENTO HOMOAFETIVO: UM DIREITO HUMANO .............................................................. 46
5 CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 48

1
DIREITOS HUMANOS E CINEMA: NOVA METODOLOGIA DO ENSINO JURÍDICO .... 53
Ana Maria Viola de Sousa
Lucas Santos de Almeida
1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 53
2 O ENSINO JURÍDICO E DIREITOS HUMANOS ................................................................................. 54
3 ABORDAGEM METODOLÓGICA .......................................................................................................... 57
4 O CINEMA COMO ESTRATÉGIA DIDÁTICA ..................................................................................... 60
5 CONCLUSÕES ........................................................................................................................................... 61

PENSANDO A EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL E O DIREITO HUMANO AO


DESENVOLVIMENTO PELA PROSPECTIVA DA COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN65
Regina Vera Villas Bôas
Grasiele Augusta Ferreira Nascimento
I - NOTAS INTRODUTÓRIAS: PENSAMENTO COMPLEXO, SOCIEDADE GLOBALIZADA E
EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL ............................................................................................................ 66
II - DIREITO HUMANO AO DESENVOLVIMENTO E A COMPLEXIDADE ..................................... 68
III NOTAS CONCLUSIVAS: DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL, EDUCAÇÃO
AMBIENTAL E TRANSDISCIPLINARIDADE .......................................................................................... 71

O DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA ................................................... 77


Regina Vera Villas Bôas
Durcelania da Silva Soares
INTRODUÇÃO .............................................................................................................................................. 78
1 A POBREZA E A FOME VIOLANDO DIREITOS HUMANOS ............................................................ 79
2 DESAFIOS PARA GARANTIR A EFETIVAÇÃO DO DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO
ADEQUADA (DHAA) .................................................................................................................................. 83
3 DIREITO FUNDAMENTAL SOCIAL À ALIMENTAÇÃO NO MUNDO GLOBALIZADO: (IN)
EFETIVIDADE DE UMA ALIMENTAÇÃO ADEQUADA....................................................................... 86
CONCLUSÃO ................................................................................................................................................ 87

UMA REFLEXÃO SOBRE JUSTIÇA AMBIENTAL NO BRASIL DO SÉCULO XXI: A


PARTIR DO CONCEITO TOMASIANO DE JUSTIÇA ......................................................... 91
Lino Rampazzo
Patrícia Nunes Lima Bianchi
INTRODUÇÃO .............................................................................................................................................. 91
1 A COLOCAÇÃO DOS TEMAS DO DIREITO E DA JUSTIÇA NA SUMA TEOLÓGICA .................92
2 A RELAÇÃO ENTRE O DIREITO E A JUSTIÇA ................................................................................... 93

2
3 A ESSÊNCIA DA JUSTIÇA .......................................................................................................................95
4 JUSTIÇA AMBIENTAL: ASPECTOS RELEVANTES ............................................................................ 97
5 O CONCEITO DE JUSTIÇA TOMASIANO E A JUSTIÇA AMBIENTAL ....................................... 100
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 102

A EFETIVIDADE DO DIREITO SOCIAL À MORADIA RELACIONADO AO BEM ESTAR


DO INDIVÍDUO NO CONTEXTO AMBIENTAL URBANO ............................................. 105
Daniele da Conceição Matos Alves
Jorge Luiz Oliveira dos Santos
1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................................................106
2 CONCEITOS DE MORADIA DIGNA ....................................................................................................106
3 DIREITO À MORADIA E DIREITO AO MEIO AMBIENTE URBANO ........................................... 110
4 TEORIA DOS SISTEMAS DE LUHMANN ........................................................................................... 111
5 SOCIEDADE DE RISCO .......................................................................................................................... 113
6 EFICÁCIA VERTICAL E HORIZONTAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS ................................ 114
7 CONCLUSÃO ............................................................................................................................................115

OS PRINCÍPIOS DO ESTADO DE DIREITO E SUA REPERCUSSÃO NA ESFERA


AMBIENTAL PELA TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO DE HABERMAS .................... 117
Fábia de Oliveira Rodrigues Maruco
INTRODUÇÃO. ............................................................................................................................................118
A RELAÇÃO INTERNA ENTRE DIREITO E POLÍTICA. ...................................................................... 119
O PODER COMUNICATIVO E A FORMAÇÃO LEGÍTIMA DO DIREITO. ...................................... 120
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................... 131

LECIONANDO O DIREITO: ENSINAR A SER HUMANO ................................................. 133


Luciane Mara Correa Gomes
Carmen Caroline Ferreira do Carmo Nader
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................ 134
2. TRANSFORMAR PARA RESGATAR .................................................................................................... 135
3. MECANISMOS DE EFETIVAÇÃO O ENSINO DE DIREITOS HUMANOS .................................. 137
4. CIDADANIA FRATERNIZADA ............................................................................................................. 137
5. CONCLUSÃO .......................................................................................................................................... 140

JUDICIAL: ANÁLISE DE CORRELAÇÕES NO ÂMBITO DO SISTEMA


INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS ............................................................... 142

3
Fabrício Muraro Novais
Muriel Amaral Jacob
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 142
1 SEPARAÇÃO DE PODERES E FUNÇÕES DO ESTADO: DISCRICIONARIEDADE E
NORMATIVIDADE ..................................................................................................................................... 144
2 OMISSÃO INCONSTITUCIONAL DO PODER PÚBLICO E ATIVISMO JUDICIAL ................... 147
3 ACESSO A
NEOCONSTITUCIONALISMO ............................................................................................................... 149
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 152

A EDUCAÇÃO CONGLOBANTE COMO PROPOSTA DE REALINHO DA CONSCIÊNCIA


SOCIAL E COMUNITÁRIA................................................................................................. 156
Ivan Martins Motta
Leonardo Rodrigues Coelho Monteiro
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 156
O ENTE SOCIAL, SEUS VALORES MORAIS E A CONSCIÊNCIA SOCIAL. .................................... 157
A FAMÍLIA E O BERÇO DA CONSCIÊNCIA MORAL ......................................................................... 159
AS LIMITAÇÕES DA LIBERDADE E AS RELAÇÕES EXTERNAS DE PRIVAÇÃO DAS
CAPACIDADES ...........................................................................................................................................160
A ORIENTAÇÃO SOCIAL DA EDUCAÇÃO INFORMAL ..................................................................... 163
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 164

ACESSO À JUSTIÇA ATRAVÉS DA MEDIAÇÃO: UMA REALIDADE POSSÍVEL ............ 167


Adriane de Oliveira Ningeliski
Laura Jane Ribeiro Both
1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................... 168
2 DO ACESSO À JUSTIÇA ........................................................................................................................ 168
3 MEDIAÇÃO: UMA PROPOSTA DE ACESSO À JUSTIÇA ................................................................. 171
4 CONCLUSÃO ........................................................................................................................................... 174

OS DIREITOS HUMANOS E A PROMOÇÃO DA JUSTIÇA .............................................. 177


Pedro Alves da Cruz
Rodolfo Anderson Bueno de Aquino
1 DIREITOS FUNDAMENTAIS ................................................................................................................ 178
2 DIREITOS HUMANOS ........................................................................................................................... 186
3 PROMOÇÃO DA JUSTIÇA .................................................................................................................... 187
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 188
4
A ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL POR MEIO DA EXPANSÃO DAS
CAPACIDADES PESSOAIS ................................................................................................ 190
José Alberto Barbosa Junior
Rodolfo Anderson Bueno de Aquino
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 191
1 O TRABALHO HUMANO: CONCEITO, PRODUTO DA ATIVIDADE HUMANA COLETIVA ... 192
2 DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO: LEGITIMIDADE E LIBERDADE
SUBSTANCIAIS .......................................................................................................................................... 194
DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE: EXPANSÃO DAS CAPACIDADES ............................ 194
3 A PROTEÇÃO LEGAL INTERNACIONAL DO TRABALHO INFANTIL ......................................... 198

A INVISIBILIDADE PERANTE OS MORADORES EM SITUAÇÃO DE RUA. .................. 207


Maria Clara do Nascimento
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................207
1 INTERDISCIPLINARIDADE. ................................................................................................................ 208
2 DIREITOS HUMANOS E OUTROS RAMOS AFETOS AOS DIREITOS DOS MORADORES EM
SITUAÇÃO DE RUA. ................................................................................................................................. 209
3 AS POLITICAS SOCIAIS PÚBLICAS..................................................................................................... 211
4 MOVIMENTO NACIONAL DA POPULAÇÃO DE RUA. ................................................................... 213
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 214

O DIREITO AO ESQUECIMENTO: A NECESSIDADE E A IMPORTÂNCIA DE UMA


DISCUSSÃO ACADÊMICA. ................................................................................................ 217
Gabriel Monteiro de Oliveira
Renan Pontes
Prof. Dra. Patrícia Nunes Lima Bianchi
1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................ 218
2. Direito ao Esquecimento: noções GERAIS ........................................................................................... 218
3. CONFLITO ENTRE O DIREITO À PRIVACIDADE E O DIREITO AO ACESO À INFORMAÇÃO
...................................................................................................................................................................... 220
4. A IMPORTÂNCIA DE UMA POSTURA ESTATAL ............................................................................ 223
5. A NECESSIDADE DE UM DEBATE ACADÊMICO INTERNACIONAL......................................... 225
6. CONCLUSÃO .......................................................................................................................................... 225

O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO MANDADO DE


OTIMIZAÇÃO DOS INSTRUMENTOS AMBIENTAIS DE INCENTIVO À PROTEÇÃO. 228
Daniele Alves Moraes

5
Thais Bernardes Maganhini
1.MANDADO DE OTIMIZAÇÃO PRINCÍPIO DA DIGNIDDE DA PESSOA HUMANA ..............229
2. MEIO AMBIENTE COMO DIREITO FUNDAMENTAL .................................................................. 234
3. DA INTERVENÇÃO DO ESTADO NA ORDEM ECONOMICA AMBIENTAL .............................. 236
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 237

EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS: A PERCEPÇÃO DE PROFESSORES


UNIVERSITÁRIOS DA ÁREA DE EDUCAÇÃO .................................................................. 241
Sonia Maria Ferreira Koehler
Jéssica de Sousa Villela
Alessandra Campos Silva de Carvalho
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 242
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS, A EDUCAÇÃO EMANCIPADORA. ................................ 243
JUSTIÇA E O COMPROMISSO COM A EDUCAÇÃO SOCIAL .......................................................... 245
ABORDAGEM METODOLÓGICA ........................................................................................................... 248
O INSTRUMENTO DE PESQUISA E O MÉTODO DE ANÁLISE ...................................................... 249
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 258

PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA: UMA POLÍTICA SOCIAL PÚBLICA EM PROL
DOS DIREITOS HUMANOS .............................................................................................. 262
Drielly Faria Vasques
Luísa Claudia Faria dos Santos
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 262
A EFETIVAÇÃO DOS DIREITOS SOCIAIS COMO DIREITOS FUNDAMENTAIS E DIREITOS
HUMANOS .................................................................................................................................................. 263
O DIREITO À MORADIA E SUA INSERÇÃO NO DIREITO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO .. 267
POLÍTICAS SOCIAIS PÚBLICAS: UMA GARANTIA DE IGUALDADE REAL? ...............................270
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 275

ALIENAÇÃO PARENTAL: BREVE ANÁLISE À LUZ DA GARANTIA DOS DIREITOS


FUNDAMENTAIS DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES .................................................. 279
Luiza Helena Lellis Andrade de Sá Sodero Toledo
Bruna Maria Florenzano e Moreno
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 279
1. PRINCIPAIS INSTRUMENTOS DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E
ADOLESCENTES AO LONGO DA HISTÓRIA ..................................................................................... 280
2. O ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ....................................................................... 281

6
3. ALIENAÇÃO PARENTAL E A VIOLAÇÃO DOS DIREITOS DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES
....................................................................................................................................................................... 283
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 286

AS LIMITAÇÕES DA INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA .................................................. 289


Andréia da Cruz Costa
Marina de Oliveira Silva
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 289
ORIGEM E CONCEITO DA INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA ......................................................... 290
PROBLEMÁTICA DA INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA E RESPONSABILIDADES ...................... 291
EM SUA OBRA, GISELE RICOBOM, EXPÕE: ....................................................................................... 291
AINDA A RESPEITO DE RESPONSABILIDADE, JUBILUT, DISPÕE: ..............................................292
DIREITOS HUMANOS E INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA ............................................................... 292
A RESPEITO DISTO, PAULO BONAVIDES DISCORRE: .................................................................... 294
NÃO OBSTANTE, EM SUA OBRA, LILIANA LYRA JUBILUT, APONTA: ........................................ 294
AS LIMITAÇÕES DA INTERVENÇÃO HUMANITÁRIA ...................................................................... 294
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 296

A INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA NA SOCIEDADE .................................. 298


Vitor Hugo Cornetti Pereira
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 298
A PESSOA COM DEFICIÊNCIA.............................................................................................................. 298
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 302

CARTILHA SOBRE ELEIÇÕES E O DESPERTAR PARA A CIDADANIA ......................... 304


Roberto Bastos de Oliveira Júnior
Fátima Medeiros
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 305
1. UMA SÉRIE DE CARTILHAS DE DIREITOS HUMANOS .............................................................. 306
2. CARTILHA SOBRE ELEIÇÕES............................................................................................................ 308
3. UM PROJETO EXTENSIONISTA DIFERENCIADO ........................................................................ 309
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................................... 311

A POBREZA E O TRABALHO INFANTIL: A FACE PERVERSA DA RELAÇÃO DE


CONSUMO NO BRASIL ENVOLVENDO A INFÂNCIA POBRE ....................................... 314
Grasiele Augusta Ferreira Nascimento

7
Daisy Rafaela da Silva
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 314
O CONSUMO E A POBREZA ................................................................................................................... 318
O TRABALHO INFANTIL COM VISTAS AO PERTENCIMENTO NA SOCIEDADE
CONSUMIDORA ........................................................................................................................................ 318
DADOS ESTATÍSTICOS DO TRABALHO INFANTIL NA SOCIEDADE BRASILEIRA .................. 320
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 321

EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS E O PROTAGONISMO DO JOVEM NA AÇÃO E


EXTENSÃO COMUNITÁRIA ..............................................................................................323
Maria Aparecida Alkimin
Fátima Medeiros
1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................... 324
2 EDUCAÇÃO E ESCOLA PARA A FORMAÇÃO INTEGRAL ............................................................. 324
3 EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS ............................................................................................ 326
3.1 O DIREITO FUNDAMENTAL À EDUCAÇÃO ................................................................................. 328
3.2 EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS PARA O DESENVOLVIMENTO PESSOAL E PARA O
PROGRESSO DA SOCIEDADE ................................................................................................................ 329
4 CIDADANIA E PARTICIPAÇÃO: O PROTAGONISMO DO JOVEM NA EXTENSÃO E AÇÃO
COMUNITÁRIA ......................................................................................................................................... 330
4.1 JUVENTUDE E PARTICIPAÇÃO CIDADÃ: O PROTAGONISMO DO JOVEM ......................... 330
4.2 ATIVIDADES DE EXTENSÃO E AÇÃO COMUNITÁRIA: ARTICULAÇÃO ENTRE ENSINO,
PESQUISA E EXTENSÃO .......................................................................................................................... 332

JUSTIÇA COMUTATIVA E DISTRIBUTIVA NO PENSAMENTO DE SANTO TOMÁS .. 336


José Marcos Miné Vanzella
Lino Rampazzo
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 336
1 O ESQUEMA DA SUMA TEOLÓGICA ................................................................................................. 337
2 QUESTÃO 61: DAS PARTES SUBJETIVAS DA JUSTIÇA.................................................................. 338
ORA AS AÇÕES PRINCIPAIS SÃO MESMO DISTINTAS ENQUANTO DISTRIBUIÇÃO E
COMUTAÇÃO ............................................................................................................................................ 341
3 QUESTÃO 62: DA RESTITUIÇÃO ........................................................................................................ 343
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 350

ATO INFRACIONAL E MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS: ANÁLISE À LUZ DOS DIREITOS


HUMANOS, DA PROTEÇÃO INTEGRAL E DO MELHOR INTERESSE DO
ADOLESCENTE INFRATOR .............................................................................................. 353

8
Maria Aparecida Alkimin
Felipe Marcatte de Sousa
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 354
1 DIREITOS HUMANOS INFANTO-JUVENIS E O SISTEMA DE PROTEÇÃO ............................... 355
3 ATO INFRACIONAL E MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS ................................................................ 360
4 ATO INFRACIONAL E A MEDIAÇÃO COMO FORMA DE SOLUÇÃO DO CONFLITO
ENVOLVENDO ADOLESCENTE EM CONFLITO COM A LEI .......................................................... 364
CONCLUSÃO ..............................................................................................................................................368

A NECESSÁRIA INTERFACE ENTRE OS DIREITOS HUMANOS E O


DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ............................................................................. 371
Isabela Maria Marques Thebaldi
1 A NECESSÁRIA INTERFACE ENTRE OS DIREITOS HUMANOS E AMBIENTAIS ..................... 372
2 A CRISE AMBIENTAL ............................................................................................................................ 373
3 O PAPEL DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ...................................................................... 374
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................................................... 380

DERECHO COLECTIVO AL CONOCIMIENTO TRADICIONAL DE COMUNIDADES


INDÍGENAS Y DE COMUNIDADES LOCALES: DIVISIÓN EQUITATIVA Y JUSTA DE
LOS BENEFICIOS .............................................................................................................. 382
Sergio Peña Neira
INTRODUCCIÓN ....................................................................................................................................... 382

INDÍGENAS ................................................................................................................................................. 383


LA PROTECCIÓN INTERNACIONAL Y SU PROYECCIÓN ................................................................ 384
EL CASO CHILENO ................................................................................................................................... 387

DIREITOS HUMANOS E POLÍTICAS SOCIAIS PÚBLICAS NA ÓTICA DO DOCENTE DO


CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO: UM ESTUDO DE CASO.................................. 396
Milena Zampieri Sellmann
Paulo Sérgio Araújo Tavares
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 396
MÉTODO .................................................................................................................................................... 396
DESENVOLVIMENTO ............................................................................................................................... 397
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 414

EL ENFRENTAMIENTO A LA VIOLENCIA CONTRA LA MUJER COMO UNA FORMA


DE GARANTÍA DE LOS DERECHOS HUMANOS Y FUNDAMENTALES ........................ 417
9
Ilana Driele Mendes da Cunha Lima
INTRODUCCIÓN ....................................................................................................................................... 417
1 ESTADÍSTICAS DE VIOLENCIA CONTRA LA MUJER EN BRASIL Y ESPAÑA ........................... 419
2 ASPECTOS CONSTITUCIONALES EN EL ENFRENTAMIENTO A LA VIOLENCIA CONTRA LA
MUJER EN BRASIL Y EN ESPAÑA .......................................................................................................... 423
3 APUNTES DE ESPECIALISTAS ............................................................................................................ 426
4 CONSIDERACIONES FINALES ............................................................................................................ 428
5 ANEXOS .................................................................................................................................................... 429

EXECUÇÃO PROVISÓRIA DA PENA E POSSÍVEL LIMITE DA INTERPRETAÇÃO


CONSTITUCIONAL ............................................................................................................ 437
Alexandro Conceição dos Santos
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 437
ESTADO E PENA: CONSIDERAÇÕES GERAIS .................................................................................... 438
DEVIDO PROCESSO LEGAL, DIREITO DE PUNIR E EXECUÇÃO DA PENA ................................ 439
EXECUÇÃO PROVISÓRIA E PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA ................................ 441
POSICIONAMENTOS FAVORÁVEIS À DECISÃO DO SUPREMO ................................................... 443
POSICIONAMENTOS CONTRÁRIOS À DECISÃO DO SUPREMO .................................................. 444
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 448

CIDADANIA E DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA: COMO VALORES FUNDAMENTAIS


PARA O COMBATE À INTOLERÂNCIA À LUZ DOS DIREITOS INTERNACIONAL,
BRASILEIRO E CHILENO. ................................................................................................. 452
Jaime Meira do Nascimento Junior
Gabriel Alves da Silva Júnior
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 452
1.EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS DIREITOS HUMANOS .................................................................... 454
2. CIDADANIA E INTOLERÂNCIA .......................................................................................................... 458
4.CONCLUSÃO ........................................................................................................................................... 464

EL DESARROLLO SOSTENIBLE EN EL ENTRECRUZAMIENTO ENTRE EL DERECHO


AL MEDIO AMBIENTE Y EL DERECHO AL DESARROLLO ........................................... 468
Gonzalo Aguilar Cavallo
INTRODUCCIÓN .......................................................................................................................................468
1. DESARROLLO SOSTENIBLE ...............................................................................................................470
2. DESARROLLO Y DERECHOS HUMANOS ........................................................................................ 476
CONCLUSIÓN ........................................................................................................................................... 490

10
SEQUESTRO INTERNACIONAL: UMA ANÁLISE NO CONTEXTO BRASILEIRO.......... 491
Icaro Reinaldo Teixeira
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 491
1. A PROBLEMÁTICA DO SEQUESTRO INTERNACIONAL NO BRASIL ........................................ 492
2. CONVENÇÃO DE HAIA DE 1980 ........................................................................................................ 493
3. OUTRAS CONVENÇÕES INTERNACIONAIS QUE VISAM PROTEÇÃO DA CRIANÇA ...........495
4. ASSENTO CONSTITUCIONAL BRASILEIRO .................................................................................. 496
5. ATUAÇÕES E PROCEDIMENTOS CONVENÇÃO DE HAIA 1980 ............................................ 498
6. PROCESSOS JUDICIAIS ....................................................................................................................... 501
7. ALIENAÇÃO PARENTAL ..................................................................................................................... 502
CONCLUSÃO ............................................................................................................................................. 504

O PRINCÍPIO DA VEDAÇÃO AO RETROCESSO EM MATÉRIA AMBIENTAL COMO


REFLEXO DA PROTEÇÃO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA .............................. 507
Jaime Meira do Nascimento Junior
Daisy Rafaela da Silva
1. MEIO AMBIENTE: ASPECTOS JURÍDICOS .................................................................................... 508
2. A PROPOSTA DE EMENDA CONSTITUCIONAL 65/2012 (PEC 65/2012) ............................... 513
3. ANÁLISE .................................................................................................................................................. 515
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 517

O ENSINO JURÍDICO E DIREITOS HUMANOS ............................................................... 521


Jaqueline Rodrigues
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 522
2.1 O RUMO ATUAL DO ENSINO JURÍDICO: PROBLEMATIZANDO O EXCESSO DE
RACIONALISMO E DA TÉCNICA ...........................................................................................................526
2.2 O PENSAR COMPLEXO E TRANSDISCIPLINAR NA EDUCAÇÃO: EDUCAR PARA A
COMPREENSÃO HUMANA ..................................................................................................................... 531
2.3 A HUMANIDADE NO SAGRADO COMO TERCEIRO TERMO INCLUÍDO: A REALIDADE
QUE NOS UNE ........................................................................................................................................... 532

CONSTRUINDO CIDADES RESILIENTES: A EFETIVAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS E


A REDUÇÃO DO RISCO DE DESASTRES NA REGIÃO METROPOLITANA DO VALE DO
PARAÍBA, SÃO PAULO, BRASIL. ...................................................................................... 539
João Carlos Valentim Veiga Junior
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 541
2 NAÇÕES UNIDAS E A REDUÇÃO DE RISCOS: UM BREVE ESCORÇO HISTÓRICO ............... 542

11
3 CONSTRUINDO CIDADES RESILIENTES ......................................................................................... 544
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 549

LA FUNCIÓN SOCIAL DEL TRABAJO Y PROTECCIÓN DE LOS TRABAJADORES ...... 553


Juan Carlos Fernández Hermosilla
LA FUNCIÓN SOCIAL DEL TRABAJO ................................................................................................... 553
PROTECCIÓN DE LOS TRABAJADORES .............................................................................................. 555

O DIREITO À ISENÇÃO DE IPVA AOS PROPRIETÁRIOS PORTADORES DE


DEFICIÊNCIA INAPTOS A DIRIGIR FACE AO PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA
HUMANA. .......................................................................................................................... 559
Milena Zampieri Sellmann
Paulo Sérgio Araújo Tavares
INTRODUÇÃO: ......................................................................................................................................... 560
1 O IMPOSTO SOBRE A PROPRIEDADE DE VEÍCULOS AUTOMOTORES (IPVA). ................... 561
2 ISENÇÃO TRIBUTÁRIA. ........................................................................................................................ 562
2.1 ISENÇÃO DE IPVA PARA PORTADORES DE DEFICIÊNCIA ....................................................... 564
3 PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. .................................................................... 566
CONCLUSÃO .............................................................................................................................................. 571

LA PRESENCIA DEL DISCURSO RELIGIOSO EN LOS ESPACIOS PÚBLICOS Y EN EL


ESTADO, ENTRE LO SECULAR Y LO NEUTRO DE HABERMAS Y TAYLOR ................. 574
José Marcos Miné Vanzella
Pablo Jiménez Serrano
INTRODUCCIÓN ....................................................................................................................................... 575
1 LA CUESTIÓN DEL ESTADO Y LA NEUTRALIDAD EN EL PENSAMIENTO DE TAYLOR ....... 576
2 LA CUESTIÓN DEL ESTADO EN EL PENSAMIENTO DE JÜRGEN HABERMAS ...................... 578

DEMOCRACIA LIBERAL ......................................................................................................................... 580


4 LA DIFERENCIA ENTRE LA RAZÓN EN LA TRADICIÓN RELIGIOSA Y LA RAZÓN SECULAR
....................................................................................................................................................................... 583
5 RELIGIOSIDAD VERSUS PATRIOTISMO COMO VALOR PRIMARIO: EL CASO DE CUBA .... 584
Conclusión ................................................................................................................................................... 590

DIREITOS E GARANTIAS PROCESSUAIS PENAIS: BREVES COMPARAÇÕES ENTRE AS


NORMAS INTERNAS BRASILEIRAS E A CONVENÇÃO AMERICANA SOBRE DIREITOS
HUMANOS ......................................................................................................................... 592
Priscila da Silva Aleixo
12
Aline Marques Marino
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................592
CONTEXTUALIZAÇÃO ............................................................................................................................. 594
SEMELHANÇAS .........................................................................................................................................595
DIFERENÇAS ............................................................................................................................................. 596
O PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA ................................................................................ 597
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA ...........................................601
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................................................... 602

A UTILIZAÇÃO DE INSTRUMENTOS DE TUTELA COLETIVA PARA A EFETIVAÇÃO DE


POLÍTICAS PÚBLICAS EM PROL DOS DIREITOS E DAS GARANTIAS FUNDAMENTAIS
............................................................................................................................................ 604
Priscila da Silva Aleixo
Aline Marques Marino
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................... 604
BREVES CONSIDERAÇÕES CONCEITUAIS SOBRE OS DIREITOS TRANSINDIVIDUAIS ........ 605
AS POLÍTICAS PÚBLICAS E O PODER PÚBLICO ............................................................................. 606
AS POLÍTICAS PÚBLICAS E OS INSTRUMENTOS DE TUTELA COLETIVA ............................... 609
MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO............................................................................................ 609
AÇÃO CIVIL PÚBLICA ............................................................................................................................. 609
CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................................................610

SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO: UMA VISÃO DA VIOLÊNCIA ................................ 613


Ivani Gardin
INTRODUÇÃO ............................................................................................................................................ 613
A INTERDISCIPLINARIDADE PARA UMA RELAÇÃO ENTRE A SOCIOLOGIA E O DIREITO
FRENTE A VIOLÊNCIA ............................................................................................................................. 613
FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA VIOLÊNCIA SUBJETIVA, OBJETIVA E SIMBÓLICA ............... 614
FORMAS DE VIOLÊNCIA QUE PODEM SER IDENTIFICADAS NAS PRISÕES BRASILEIRAS .. 616
A VIOLÊNCIA INVISÍVEL NAS PRISOES ............................................................................................... 619
DIREITOS HUMANOS DIANTE DA VIOLÊNCIA NAS PRISÕES ..................................................... 620
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................................................... 623

13
ACESSO EM DESALINHO: O CASO DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS DO ESTADO DO
RIO DE JANEIRO - O FUNDAMENTAL É A JUSTIÇA
1

Resumo:
A busca por meios processuais que efetivem a prestação jurisdicional célere encontra hoje, no
Brasil, entraves a assegurar a justiça da decisão, tendo em vista que os juizados especiais
cíveis, em especial, os do Estado do Rio de Janeiro, encontram-se assoberbados de demandas e
a solução posta para reorganizar a efetividade deste direito fundamental é a realização de
mutirões de conciliação. No entanto, a pesquisa se consolida na problemática de não ser a
política pública do Núcleo Permanente de Mediação e Conciliação o método mais seguro a
possibilitar este acesso à justiça. Os objetivos tramitam nos entraves a obter a prestação
jurisdicional; bem como identificar que o Poder Judiciário ao entregar uma decisão tardia está
a romper com esta garantia fundamental e avaliar os critérios que a dinâmica dos mutirões
possam oferecer como solução final ao conflito. A pesquisa é qualitativa pelo método
bibliográfico, com referencial teórico em Santos, Warat e Greco.
Palavras-chave: Direito fundamental. Acesso à justiça. Inovação institucional.
Abstract
The search for procedural means to effect a speedy judicial review in Brazil today is impeded
in ensuring the fairness of the decision, since special civil courts, especially those in the State
of Rio de Janeiro, are overwhelmed by Demands and the solution posed to reorganize the
effectiveness of this fundamental right is the accomplishment of conciliation efforts. However,
the research consolidates in the problematic of not being the public policy of the Permanent
Nucleus of Mediation and Conciliation the more secure method to allow this access to justice.
The objectives deal with the obstacles to obtaining legal services; As well as to identify that the
Judiciary in delivering a late decision is breaking with this fundamental guarantee and
evaluating the criteria that the dynamics of the mutirões can offer as a final solution to the
conflict. The research is qualitative by the bibliographic method, with theoretical reference in
Santos, Warat and Greco.

1
Bolsista CAPES. Doutorando vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito da Universidade
Federal Fluminense. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e
Direito da Universidade Federal Fluminense. Especialista em Práticas Processuais Processo Civil, Processo Penal
e Processo do Trabalho pelo Centro Universitário São Camilo. Professor na Faculdade Metropolitana São Carlos
Bom Jesus do Itabapoana e na Multivix Unidade Cachoeiro de Itapemirim-ES. Endereço Eletrônico:
taua_verdan2@hotmail.com. Acesso currículo Plataforma Lattes http://lattes.cnpq.br/8802878793841195
2
Mestre em Direito Público e Evolução Social pela Universidade Estácio de Sá. Bacharel em Ciências Jurídicas e
Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora no Centro Universitário Augusto Motta.
Endereço eletronico: lucianemara@uol.com.br . Acesso currículo Plataforma Lattes:
http://lattes.cnpq.br/7142619530244859

14
Keywords: Fundamental Right. Access to justice. Institutional innovation.
1 INTRODUÇÃO
Com o advento da conscientização das sociedades acerca de seus direitos, garantias e
liberdades, o Poder Judiciário deparou-se com indivíduos mais ativos no que se refere a busca
pelos direitos e os meios processuais para constituí-los. Todavia, ante este movimento, não
houve a adequada preparação do campo judiciário a recepcionar o volume de demandas,
decorrente de litígios de baixa complexidade, advindos das dinâmicas de conscientização da
população dos direitos conquistados, com isto denotando desigualdade no acesso à justiça. Em
uma tentativa de suprimir os efeitos desta morosidade, para atender àquelas ações, criou-se o
juizado especial cível como inovação que surtiu resultados por algum tempo. No entanto, a
partir do último quinquênio, com o constante crescimento do número de demandas
pendentes, firmando-se o entendimento de que são aquelas sem a entrega da prestação
jurisdicional ou o bem da vida pretendido, retomando a posição anterior, onde o acesso é para
aqueles que podem esperar o lapso temporal que vier a transcorrer, que pode apontar a
violação de direito fundamental.
É possível indicar que o grupo mais afetado pelo funcionamento precário dos juizados
especiais cíveis é a camada de menor poder aquisitivo, uma vez que a inexigibilidade de
recolhimento das custas processuais atrai aqueles que não possuem recursos financeiros para
arcar com o custo de uma demanda judicial que litigam em face de serviços públicos e
instituições financeiras. A problemática desta pesquisa atravessa o âmbito da legislação, vez
que pretende diagnosticar a necessidade de uma reforma na gestão dos tribunais, no que diz
respeito à estrutura dos juizados especiais cíveis, como meio de reduzir suas taxas de
congestionamento, delimitado o estudo ao Estado do Rio de Janeiro, uma vez que o volume de
demandas impede a circulação dos processos no âmbito dos cartórios e serventias.
Com isto, o objetivo geral é identificar as causas que culminam na morosidade nas demandas
julgadas pelos juizados especiais cíveis. Pontuando especificamente em observar as causas que
podem contribuir para a demora na obtenção da prestação jurisdicional; identificar a demora
como violação ao direito fundamental de acesso ao judiciário e avaliar a eficiência dos
mutirões de conciliação organizados para reduzir o tempo de duração entre a distribuição do
processo e o seu término, buscando maior celeridade no termo do litígio, através de método
alternativo de resolução de conflito.
A pesquisa será bibliográfica, tomando como norte Boaventura de Sousa Santos e Luis Alberto
Warat para analisar a organização do Poder Judiciário, o suporte estrutural e de recursos
humanos e as possibilidades de reforma para comportar um quantitativo expressivo de
demandas sem que se tornem indefinidas quanto à sua solução, através da avaliação das
estatísticas apresentadas pelo Tribunal fluminense do acervo de processos pendentes e dos
resultados dos mutirões de conciliação realizados.

15
2 A ESTRUTURA DO PROJETO CONCILIAÇÃO PRÉ PROCESSUAL E SUA CONCEPÇÃO
TEÓRICA COMO DIREITO FUNDAMENTAL
O acesso à prestação jurisdicional, com a sua elevação a condição de direito fundamental na
Constituição de 1988, tem sido recorrentemente objeto de estudo em virtude da larga distância
entre a sua eficiência e a situação presentada nos tribunais brasileiros. Importante recordar
que a grande parte das reformas processuais do último quarto do século passado não
conseguiu conferir ao Poder Judiciário uma zona de conforto para decidir e solucionar
conflitos entre os indivíduos, num prazo mínimo, suficiente a satisfazer aquela necessidade do
indivíduo alcançar o bem da vida no menor lapso temporal. Sob a chancela de ter sido o
grande responsável pelo assoberbamento dos tribunais. A demanda sob a pecha de ser de
massa, passa a ser um ponto fora da curva, que aqui cabe nominar como a falta de condições
igualitárias para o seu acesso. É provável que Piero Calamandrei (2004, p. 27), como já
pronunciado em um ciclo de palestras conferidas na Universidade de Pádua, já tivesse a
certeza do direito e a igualdade dos cidadãos perante a lei, antes eram conquistas preciosas,
hoje, estão cada vez mais em perigo em face ao conjunto falível do campo judiciário.
Julgar que a demanda de massa é a culpada pela demora na entrega da prestação jurisdicional
é desconsiderar que no curso da sociedade, o alargamento das práticas comerciais e
reconhecimento de direito coletivos, além de direitos novos oriundos das relações sociais. É
importante identificar que no conceito de acesso à justiça, compreendido como garantia de
direito formal do indivíduo, engloba obter do Estado os meios para recompor a violação deles
direitos. Com o desenvolvimento da sociedade, a partir do século passado, houve a ampliação
dos direitos já mencionados.
Possibilitar e facilitar o acesso à justiça foi e tem sido uma preocupação e uma construção
constante nas sociedades modernas, principalmente após o reconhecimento da sua posição de
direito fundamental e de direitos humanos. Objeto de estudo de Mauro Cappelletti e Bryant
Garth, do acesso à justiça se extraem três vertentes para alcance deste acesso com igualdade de
armas: o acesso pela coletivização de direitos; a construção de métodos alternativos para
decidir causas judiciais e a instrumentalização do acesso a quem não possua condições
técnicas e financeiras para a litigância.
A pesquisa busca, nos mecanismos alternativos, as vantagens de conciliação, evidenciando
seus elaboradores, dois eixos fundamentais o custo do litígio e a sobrecarga dos tribunais.
Apontando que a satisfação das partes envolvidas se operacionaliza quando a parte pode
alcançar celeremente o resultado da demanda (CAPPELLETTI, GARTH, 1988, p. 84). Mais uma
vez, os pesquisadores apontam que a essência da conciliação é a redução do congestionamento
do judiciário, carece de certificar que os resultados efetivamente são de êxito, apontando
assim que a conciliação não foi instituída para ser a táboa de salvação para o problema do
excesso de processos, mas sim um caminho para a entrega célere da resposta por iniciativa dos
próprios agentes sociais.

16
Boaventura de Souza Santos apontou diversas saídas para a sobrecarga dos tribunais, desde
que haja relação direta com o tempo nos processos. Para o autor, além de ser variável em cada
país, deve ainda causar naquele que busca o tribunal para resolver seu problema o sentimento
de desconfiança na eficácia da justiça, bem como tentativas que passam pela informalização da
justiça, reapetrechamento dos tribunais com recursos humanos e infraestruturas,
automatização, novas tecnologias de comunicação e informação, criação de tribunais especiais
para a pequena litigação de massa, reformas processuais (2007, 26).
Neste ponto, cumpre apontar que a morosidade é prejudicial não só para as partes
interessadas, como também para a qualidade no funcionamento dos tribunais e, por
consequência, não é cabal aceitar que em nome de eliminar a sobrecarga de trabalho, o
excesso de burocracia, o positivismo e o legalismo, sejam adotadas condutas que vão gerar
efeitos nefastos ao jurisdicionado e que não traduzam em justiça cidadã, tão somente terá uma
justiça mais rápida. É plausível considerar que a conciliação possa assumir, como método ágil,
informal e célere, a posição de meio de solução de litígio capaz de resolver um número cada
vez maior de demandas, podendo haver ainda, a redução de custos com a sua realização
virtual, hipóteses que serão avaliadas no item que se segue.
3 POR UM ACESSO INFORMATIZADO E EFICAZ
Manter o exercício da satisfação da pretensão a ser recebido do Estado através de uma decisão
capaz de reparar a violação ao seu direito é uma prestação bastante complexa para o indivíduo
que recorre à jurisdição com esta finalidade. Seja qualitativa, seja quantitativa, o que
compromete ao recepcionar o volume de ações às novas exigências constitucionais e
processuais o resultado prático, acarretando para o Poder Judiciário, conseqüências danosas,
afetando a funcionalidade da máquina judiciária, sob pena de sofrer mudanças
desintegradoras. Esta posição é assumida por Aurélio Wander Bastos (2001, p. 122) ao fazer a
abordagem da estrutura interna da Administração da Justiça, sintetizando que cabe a máquina
administrativa do Judiciário efetuar levantamentos, promover aprendizados e adaptar aos
novos padrões de comportamento, alterando aqueles que interfiram na sua avaria.
Assim, o Estado necessariamente necessita identificar dinâmicas que cumpram esta garantia
fundamental, o Poder Judiciário, por seu turno, vem recebendo um volume cada vez maior de
demandas. E possível apontar que o Estado confere a garantia processual, o campo judiciário
efetua o recebimento e faz o regular desenvolvimento destas ações, mesmo sem possuir em
sua estrutura maios de atender a sobrecarga de processos distribuídos e pendentes o
tratamento adequado.
Não é forçoso assegurar que dentre os diversos movimentos havidos, a reforma da legislação
processual tem sido a preocupação mais pontual, uma vez que o cidadão pretende receber de
forma proporcional a razoável duração do processo espalhada como obter o objeto do processo
no menor tempo possível. Não obstante seu conceito aberto, é a partir da jurisprudência da
Corte Europeia de Direitos Humanos, que se encontra os critérios identificadores do que se

17
pode chamar de razoável: a complexidade da causa; o comportamento das partes e o
comportamento do juiz na condução do processo3, são os principais aspectos do que se é a
razoabilidade de tempo para processar, julgar e satisfazer o indivíduo.
Como constituir um método que, além de tornar mais célere e mais eficiente, não deixará de
preservar a proteção constitucional das garantias processuais fundamentais. É oportuno
apontar que deve ainda haver o fomento da participatividade dos agentes envolvidos no
processo, prática amplamente divulgada na comunidade globalizada como uma necessidade a
ser concretizada como signo da democracia. Humberto Dalla Bernardina de Pinho (2015, p.57)
sinaliza que tanto o direito material quanto o direito processual não podem deixar de atender
aos anseios sociais, sem perder sua essência, pois o acesso à justiça está compreendido na
ordem civil constitucional com o fim de assegurar a devida proteção as grandes carências e
necessidades da sociedade de massa. Então, a colaboração das partes no resultado do processo
deve ser vista como um princípio processual e como componente da participação democrática
do indivíduo no conflito social.
Para que se possa construir um método que confira aos cidadãos a eficiência e a solução mais
rápida para o conflito, é importante assegurar que este acesso atenderá à ordem jurídica justa.
Paulo Cesar Pinheiro Carneiro (2007, p. 58), em pesquisa institucional realizada pela
Universidade do Estado do Rio de Janeiro e a Universidade Estácio de Sá, verbalizou que
devem ser construídas dinâmicas que protejam os quatro princípios que devem estar contidos
no desenho institucional da decisão proferida pelo campo judiciário: a acessabilidade, a
operosidade, a utilidade e a proporcionalidade. É necessário compreender a acessibilidade
como a etapa que assegure a qualquer cidadão o instrumento eficaz para estar em juízo e ainda
que opte por outro que não seja excluída a prestação jurisdicional. Por operosidade, a atuação
ética daqueles que atuam no campo judiciário; a utilidade com o fim de promover a entrega do
bem da vida almejado de forma rápida sem sacrifícios exorbitantes ao vencido e a
proporcionalidade que privilegia o interesse mais precioso e que satisfaça a uma gama maior
de pessoas.
Promover a conciliação é conceber que adotar este método pode corresponder a atingir a
satisfação do indivíduo por instrumentos e meios processuais corretos que priorizem a atitude
conciliatória antes da intervenção estatal no conflito social. Todavia, uma cautela deve ser
perseguida é quanto a possibilidade de utilizar o instituto com o fim de transformá-lo em um
pretexto para retardar o andamento ou a solução, devendo ser seguida a risca a orientação de
Leonardo Greco (2015, p.24):
O uso dos meios alternativos é desejável, mas deve ter como pano de fundo uma justiça estatal
eficiente e confiável, para que a escolha dos cidadãos entre uma ou outra via se dê em busca do
meio que mais bem tutele os interesses em jogo e para que aquele que optarem pelos

3
Corte Europeia de Direitos Humanos. Caso Neumeister VS Áustria, 1968. MARINONI, Luiz Guilherme. Arenhart
Sergio Cruz. Mitidiero, Daniel. O novo processo civil. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, 172.

18
primeiros se sintam seguros de que a justiça estatal estará sempre de portas abertas para coibir
os abusos ou erros manifestos que ocorrerem na sua atuação.
A legislação processual civil brasileira introduziu mudanças em março de 2016, através da
vigência da Lei Federal n. 13.105, a dinâmica da conciliação pré-processual com o objetivo de
reduzir o tempo de tramitação do processo, a partir da inserção dos institutos como fases
consoante o artigo 334. Segundo o artigo, a conciliação será vigida pelos princípios da
independência, da imparcialidade, da autonomia da vontade, da confidencialidade, da
oralidade, da informalidade e da decisão informada. É sustentável apontar que em que pese
todo debate acadêmico, ao lançar a autonomia de vontade das partes, como parte do fenômeno
processual democrático, está parcialmente comprometida, a partir do momento em que a eles,
em caso de absenteísmo, é considerado ato atentatório à dignidade da justiça sancionado com
multa de ate dois por cento da vantagem econômica pretendida ou do valor da causa. Não
obstante, compelir o indivíduo a tomar parte de uma etapa processual que deveria ser
facultativo e que passa a ser compulsória por força de lei, foge ao bom senso.
Desta forma, se o objetivo da conciliação é obter como resultado a ponderação do bem jurídico
pretendido pelos interessados, deve-se considerar que não se pode imputar o encargo sob pena
de se tornar apenas uma fase processual, que culminará na procrastinação do processo. Não
obstante a esta evidência aqui apontada, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
introduziu o Centro Permanente de Conciliação dos Juizados Especiais Cíveis, tópico do item
que se segue.
4 ASPECTOS ESTRUTURAIS DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS E OS MUTIRÕES DE
CONCILIAÇÃO
No Brasil, as relações advindas do consumo em massa passaram a ser regradas pelo Código de
Defesa do Consumidor, instrumento de vanguarda e inspirador de outros marcos legislativos, a
partir de 1990, veio a introduzir conceitos como direitos difusos e coletivos, inversão do ônus
da prova para a parte hipossuficiente, proteção efetiva ao consumidor e criação de juizados
especiais de pequenas causa de varas especializadas para a solução de litígios de consumo.
Desta forma, o consumidor, como elo mais frágil da cadeia de consumo, passou a dispor do
acesso à justiça através dos juizados especiais de pequenas causas.
Estes juizados que haviam sido criados pela Lei Federal 7.244, de 7 de novembro de 1984,
vieram a ser substituídos, pela Lei Federal n. 9.099 de 26 de setembro de 1995, pelos juizados
especiais cíveis. A hipótese trazida pela pesquisa realizada por Paulo Cesar Pinheiro Carneiro
de acesso à justiça através dos juizados especiais cíveis, onde o indivíduo passou a ter a sua
disposição, meios de credibilidade numa justiça mais próxima do homem mediano, ainda que
houvesse necessidades de introduzir mudanças destinadas ao alargamento desta
acessibilidade.
Não deve deixar de considerar que garantir o acesso à justiça é essencialmente principiológico
e que se trata de meio para concretizar direitos fundamentais em seara processual. Quase

19
vinte anos após a sua criação, os juizados especiais cíveis sofrem com o número de ações cada
vez mais volumosos em relação a movimentação processual e cartorária. Para fazer uma
reflexão acerca do quantitativo de processos distribuídos no Juizado Especial Cível do
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, nos últimos doze meses, foram,
aproximadamente, quinhentos mil processos. Se por uma via está o acesso à prestação
jurisdicional mais inserido na cultura do brasileiro, tornado possível com a estrutura
simplificada do rito dos juizados especiais cíveis.
Os números despontam que o maior litigante é o Estado ou seus delegatários em quaisquer
pólos das ações. Tornando assim, impactante a realidade traduzida em números ante a falsa
ideia de litigantes compulsivos ou que existe um efeito cascata que atravanca a marcha
processual e de desenvolvimento regular das ações como é trazido para conhecimento da
comunidade em geral Vítimas do próprio sucesso, os juizados especiais levam hoje mais tempo
para julgar do que quando foram criados. Só os juizados especiais cíveis receberam, em 2009,
mais de 525 mil processos.
Alguns juízes realizaram mais de 3 mil audiências no período e, mesmo assim, os juizados
julgaram mais processos do que receberam, com mais de 550 mil sentenças. Muitas discussões
são repetitivas que não retira a sua importância frente ao cidadão. Para lidar com isso, o juiz
titular do 4o Juizado Especial Cível do Rio decidiu de uma só vez 163 ações, apresentadas por
815 garis contra a Rede Bandeirantes de TV, devido a uma declaração de um apresentador da
emissora que foi ao ar inadvertidamente. A estratégica tem sido adotada de igual forma por
outros juízes, a fim de dar contra da quantidade de processo, porém este ainda não é o meio
mais eficaz para resolver o volume de ações já distribuídas. E não só pelos julgadores, já que
ações com petições idênticas também chegam ao Judiciário tanto em primeiro como em
segunda instância. Em matéria de consumo, há sempre o risco do efeito cascata, oriundo de
decisões que reconhecem direitos de consumidores lesados de fato geram uma demanda, que,
algumas vezes, não decorre de dano efetivo.
Os juizados especiais cíveis outrora pensados para uma justiça mais célere, hoje, não têm
condições de serem tão otimizados, já que pensar o ingresso anual de quase meio milhão de
ações distribuídas para pouco mais de 110 juizados especiais cíveis instalados em todo o Estado
do Rio de Janeiro. A página eletrônica do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
aponta que no período de um ano, entre outubro de 2013 a setembro de 2014, foram
distribuídas em todo Estado 479.086 (quatrocentos e setenta e nove mil e oitenta e seis) ações
nos Juizados Especiais Cíveis.
Extrai-se da página do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, o levantamento do
quantitativo feito em 2008 e mantido até o ano de 2014, instalados Juizados Especiais Cíveis da
Capital: 27; Juizados Especiais Criminais da Capital: 14; Juizados Especiais Cíveis do Interior:
38; Juizados Especiais Da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e Especiais
Criminais do Interior: 11; Juizados Especiais Adjuntos nas Comarcas de 1a e 2a entrância, num
total de Adjuntos Cíveis: 55 e Adjuntos Criminais: 39.
20
Por este mero demonstrativo já aponta que a hipótese trazida no bojo do Projeto de Florença
se desviou do seu objetivo aqui nesta Unidade Federativa, De acordo com o relatório do
Projeto de Florença, indica-se que os problemas decorrentes das sociedades contemporâneas
precisam ser superados através de uma ruptura nas instituições jurídicas para tornar efetivos
os direitos do cidadão comum. Esta transformação necessita ser pautada em mudanças no
estudo e ensino do processo civil como mecanismo de atingir o acesso efetivo à justiça, através
técnicas destinadas a servir funções sociais que o sistema judiciário ainda não está inquinado a
superar. Com este relatório encaminhou-se diretrizes adotadas no sentido de garantir
igualdade de armas as partes antagônicas, enfatiza-se neste artigo as causas que envolvem
somas relativamente pequenas, capazes de serem submetidas aos juizados especiais cíveis.
O problema diagnosticado pelo acúmulo de processos nos juizados é reconhecido pelo próprio
Poder Judiciário fluminense. Verifica-se no anuário da justiça que alguns juízes realizaram
mais de três mil audiências no ano de 2009, vindo a julgar mais processos do que receberam.
Aponta-se que há demandas repetitivas, o que tem sido feito é também julgar de forma
repetitiva para que possa dar conta do fluxo de processos, como se este fosse o caminho ideal.
Noutro giro, a solução aferida pelo Tribunal para tornar ágil o trâmite processual é a criação
de faixas reversíveis, a exemplo do que se dá na engenharia de trânsito, com a implementação
de mutirões de serventuários, para minimizar o quantitativo de processos paralisados pelo
reduzido número de servidores. De acordo com os dados obtidos do Judiciário Fluminense em
números, no que tange a pessoal, o Tribunal Fluminense dispõe de 31 magistrados em Turmas
Recursais e 96 em Juizados Especiais, havendo 26.978 servidores para atender a todo complexo
do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, sem menção ao número de servidores
lotados nos Juizados Especiais Cíveis, mas indica-se que não é um número suficiente a
satisfazer a rotina dos cartórios.
Um grupo de auxiliares e juízes se consolidam em deixar de fazer o atendimento de partes,
estagiários e advogados em um dia específico da semana para agilizar as atividades internas.
Em outro meio, a falta de serventuários é minimizada pela contratação de estagiários,
estudantes dos cursos jurídicos com o desvio da função de aprendizado, criando assim a
desvirtuação da função social do acadêmico em fase de desenvolvimento profissional. A
solução para o volume de demandas tem sido pensada pelo Poder Judiciário com a
implementação de termos de cooperação técnica e mutirões de conciliação onde todos estão
determinados a apagar pequenos focos do incêndio como meio de suprimir do volume de
demandas de empresas de telefonia e bancos no âmbito dos juizados especiais cíveis.
Esta posição foi pautada a partir dos dados colhidos de Primeira Instância que informa ter
sido, a partir de abril do corrente ano, assinado pela nova administração do Tribunal
Fluminense dois termos de cooperação técnica, com o objetivo de dar maior celeridade e
efetividade aos trâmites processuais na Justiça fluminense: Juiz na Comarca e Citação
Eletrônica. De acordo com o editorial, em se tratando de condutas adotadas no âmbito dos
Juizados Especiais Cíveis, são organizados pelo Centro Permanente de Conciliação mutirões,
21
que apresentaram índices satisfatórios. Num deles atendeu-se 274 processos de quatro
empresas, com 89,8% dos casos chegaram a um acordo. Em outro mutirão realizado com
bancos e empresas de telefonia, envolvendo o quantitativo de 386 processos, o índice de 84%
de acordos.
Noutro viés, pergunta que não quer calar, se a norma jurídica já prevê a fiscalização de
serviços do Estado pelo Estado, há paradigma para realizar sanções pelo descumprimento das
condutas a serem adotadas na prestação do serviço e refere à lei a hipótese de condenação
pecuniária, sob a forma de meio de coerção, aplicá-las não seria mais eficiente da parte do
Poder Executivo do que suportar o Poder Judiciário um manancial de ações de consumo de
massa, onde é visível a falha na prestação de serviços.
No meio das já pautadas características do acesso à justiça, percebe-se claramente que não é só
o consumidor que sofre com os transtornos decorrentes do serviço mal feito ou mal prestado,
mas também o Estado com a ausência no exercício do múnus, que tornam uma ação para
pacificação de um conflito social simples num tormento para a parte que menos recursos
possui, a exemplo do homem comum.
Apesar das aparências nefastas, os juizados especiais cíveis ainda são meios eficazes de
atendimento da parcela da sociedade que procura o Estado no intuito de dirimir um conflito
de simples conflituosidade. Com uma estrutura procedimental mais singularizada poderá
atingir o resultado pretendido num espaço de tempo razoável, mas ainda não tem a capacidade
de trazer dentro do mesmo ano o resultado prático pretendido para as partes envolvidas.
Esta posição é assumida a partir dos dados obtidos na estatística realizada pelo
DGJUR/DEIGE/DICOL, departamentos do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, em
janeiro de 2011, perceptível através dos índices apresentados, onde há remanescente no acervo
da primeira instância dos juizados especiais cíveis, pois no ano de 2009, foram distribuídos
501.875 processos e julgados 551.847; já no ano de 2010, os números apontam para 456.422
processos distribuídos e 580.591 julgados. Desta forma, ainda há um déficit, pois neste mesmo
ano, foram distribuídos 528.543 com julgamento de 631.070. Neste aspecto o que importa
afirmar é que o acervo ainda não está contemplados, mas que o problema precisa ser
enfrentado sob pena de trazer uma desvirtuação dos juizados especiais cíveis.
É fato reconhecido que os juizados especiais levam mais tempo para julgar do que quando
foram instituídos, o que demanda paciência e perseverança e não são compatíveis com a
duração razoável do processo, direito fundamental garantido pela Constituição da República.
Aqui importante trazer a consideração o posicionamento de Aurélio Wander Bastos a despeito
da importância do Poder Judiciário no contexto social e sua necessidade de abertura às novas
violações que reclamam a proteção legal:

limites e programas as suas reformulações, tendo em vista as suas tradicionais competências,


os efeitos residuais dos fatos sociais novos, os fatos consuetudinários que necessitem de

22
proteção legal, as próprias relações sociais juridicamente desprezadas, o envolvimento judicial
nos conflitos em processo de complexificação e, especialmente, o seu papel nos conflitos de

O Conselho Nacional de Justiça promove todo o ano o dia nacional de conciliação onde todos
os Tribunais do país se mobilizam para ocorrência de audiência visando à solução de conflitos
levados a eles, tal iniciativa ocorre desde 2006 e vem todos os anos ultrapassando a marca de
40% de acordos efetuados, são processos que normalmente levariam anos para sua solução,
entretanto com a conciliação e os mutirões faz com que o cenário mude. Vê-se, por este
prisma que, unindo a forma alternativa de solução de conflitos com a aplicação do mesmo, o
cidadão e a justiça brasileira ganham em muito,com a solução do problema do cidadão, porém
para desobstruir os tribunais, atualmente com pilhas e pilhas de processos a serem julgados, é
necessária a adoção de políticas públicas destinadas a diminuir o impacto do assoberbamento
da máquina judiciária.
5 CONCLUSÃO
As contingências para a obtenção de uma prestação jurisdicional efetiva cruzam fronteiras que
demandam muito mais que recursos materiais e estruturais para a sua concretização, motivo
determinante para que o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro instalasse métodos de
solução alternativa de conflitos, a realidade os juizados especiais cíveis, com a finalidade de
entregar uma prestação jurisdicional efetiva com o custo de recursos menos elevado possível.
Buscar a diminuição dos obstáculos ao acesso à justiça é um dos fatores que levaram o
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro a implementar o Centro Permanente de
Conciliação que, através do Projeto de Conciliação Pré Processual, busca melhorar a redução
de custos, facilitando ainda aqueles litigantes de baixo nível econômico e educacional, que
também prejudica os autores individuais, já que, por este canal, outras formas de assistência
jurídica são viabilizadas aos jurisdicionados.
Se pensar o debate da Justiça como meio de pacificação social, demarcar o termo é considerar
que se tratada de uma virtude de dar a cada um, o direito que lhe pertence, inserindo nesta
perspectiva de entregar a Justiça, com a redução não só de custos ambientais, mas também de
acessibilidade aos indivíduos ao desenvolvimento da prestação.
O fenômeno dos mutirões de conciliação busca reduzir o volume de demandas que são
distribuídas em face de fornecedores de serviços públicos e instituições financeiras e
bancárias. Num afã de obter um acordo como meio de extinguir o processo com a
homologação da conciliação realizada. Tem-se um outra via, a frustração do indivíduo com a
realização de grandes pregões, os direitos são mitigados face a necessidade de encurtamento
do tempo para realizar a composição, assim como a extinção do processo caso a parte autora
não compareça por uma intimação que não foi recebida a tempo. É o dilema da quantificação
das decisões em face da qualidade da prestação judiciária. É possível represar a frustração da
23
da pesquisa.
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24
AFIRMAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS PELO VIÉS TRABALHISTA:
ESSENCIALIDADE DO PROTECIONISMO JURÍDICO-LABORAL EM CRISES
ECONÔMICAS.
4

RESUMO
O ponto referencial desse artigo é o caráter protecionista dos Direitos Trabalhistas como
instrumento indispensável de proteção e ratificação dos Direitos Humanos frente as crises
econômicas. Tal problema de pesquisa revela-se necessário à medida em que os reflexos
negativos dos impactos econômicos tornam-se justificativa política para medidas que
suprimem Direitos trabalhistas e, consequentemente, Direitos Humanos à exemplo, o pacote
de medidas de austeridade na Grécia e as reformas trabalhista e previdenciária em voga no
Brasil. Para tanto, a pesquisa decorre através de análise doutrinária, bem como pontuais
considerações empíricas, estruturando-se na investigação de três pilares interligados entre si,
quais sejam, uma breve abordagem histórica do Direito do Trabalho como força sócio-política
antagônica aos abusos do sistema capitalista liberal, a contextualização desses direitos diante
das transformações sociais e econômicas advindas da revolução técnica-científica e a forma
como os Direitos trabalhistas não apenas englobam como também ratificam os Direitos
Humanos ao fazerem prevalecer seu caráter protecionista sobre as crises econômicas e seus
reflexos.
PALAVRAS-CHAVE: Direito do Trabalho; Direitos Humanos; Crises econômicas; Antagonismo
jurídico-laboral.
RESUMEN
El punto de referencia de este artículo es el carácter proteccionista de los derechos laborales
como un instrumento indispensable de la ratificación y la protección de los Derechos
Humanos en tempos de crisis económicas. Este problema de investigación es necessário en la
medida en que los efectos negativos de los impactos económicos se convierten en justificación
política de medidas que suprimen los derechos laborales y, por tanto, los Derechos Humanos
por ejemplo, el paquete de medidas de austeridad en Grecia y las reformas laborales y de
seguridade social en boga en Brasil. Para tanto, la investigación se produce através de análisis
de doctrinas, así como consideraciones empíricas especificas, estructurando en la

4
Bacharelanda em Direito do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL-Lorena). Estagiária do Tribunal
de Justiça de São Paulo (TJ/SP) pela comarca de Guaratinguetá/SP.
5
Mestre em Direitos sociais, econômicos e culturais pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL-
Lorena). Coordenador da Graduação em Direito e do Ensino à Distância UNISAL-Lorena.
6
Advogada. Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL-Lorena).

25
investigación de tres pilares interconectados mutuamente, que son, un breve enfoque
histórico de Derecho laboral como fuerza sociopolítica antagónica al abuso del sistema liberal
capitalista, la contextualización de estes derechos en la cara de las transformaciones sociales y
económicas resultantes de la revolución técnico-científica y como los Derechos laborales no
sólo incluye sino también ratifica los Derechos Humanos cuando prevalece su carácter
proteccionista sobre la crisis económicas.
PALABRAS-CLAVE: Derecho del Trabajo; Derechos Humanos; Crisis económicas;
1 CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS SOBRE O DIREITO DO TRABALHO
A caracterização do Direito do Trabalho se dá, sobretudo, por ser ele um produto histórico-
social consagrado mundialmente e nos mais variados instrumentos jurídicos, como também
pelos Direitos Humanos e pela própria sociedade, alçando-o ao patamar de Direito Social que
se desenvolve e se adapta em consonância com as demandas mercadológicas, econômicas e
sociais. Sem embargo, a compreensão integral deste ramo jurídico exige um escorço histórico
que apresente a evolução do Direito Trabalhista em âmbito nacional e internacional.
Remontando aos séculos XVIII e XIX, a ausência de garantias robustas de direitos dos
trabalhadores era flagrante, ressaltada por um quadro econômico desfavorável e profundas
desigualdades sociais: é com essa base histórica, contudo, que as mudanças significativas
viriam, catalisadas pelas insurreições sociais que ansiavam melhores condições e maior
resguardo estatal e legal.
As condições de trabalho a que o proletário era submetido retratam verdadeira condição de
indignidade, em que o valor axiológico e fático do ser humano enquanto sujeito de direitos e
dignidade era ignorado.
As jornadas de trabalho eram incessantes, com números de horas tão superiores ao aceitável
que reduziam o trabalhador a mera mão-de-obra condicionada à precariedade de condições de
higiene, saúde, alimentação, repouso e lazer. Não obstante as jornadas extremamente
exigentes, era comum a exploração desumana da mão-de-obra de mulheres, gestantes,
crianças e idosos, por serem estes uma mão-de-obra irrisória em custos à época, gerando
remunerações pífias e demais condições degradantes (NASCIMENTO, 2010).
Ainda nesse sentido, os salários eram tão ínfimos que não permitiam a ascensão social, de
modo que aqueles que não dispunham de recursos financeiros tendiam a quedar-se na mesma
situação de miserabilidade por toda sua vida e de suas gerações vindouras, desaguando em um
inevitável ciclo de desigualdade social e separação da sociedade por classes.
É nesse contexto do ápice da exploração abusiva do trabalho humano que se desenrolou o
primeiro marco a ser abordado, qual seja, a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII na
Inglaterra.
Tal Revolução pautou-se na modernização das técnicas de trabalho, incitando a substituição da
mão-de-obra artesã humana pelas máquinas desenvolvidas, que aceleravam a produção das
26
mercadorias e diminuíam custos, fazendo com que a demanda aumentasse e, por
consequência, os lucros também. Desse modo, não é por acaso que essa fase é intitulada como
revolução, posto que ensejou notável transformação social, comercial e trabalhista (BARROS,
2016).
A esse respeito, imprescindível é mencionar que os trabalhadores, diante das novas condições
inauguradas, se organizaram com o escopo de reivindicar melhores condições de trabalho,
exercendo tal prerrogativa por meio de protestos e clamores em tom de revolta
oportunidade em que diversos direitos políticos, trabalhistas, sociais e humanos foram
conquistados em seus favores.
Com a associação dos operários, inauguraram-se as chamadas trade unions ou sindicatos,
organizações de trabalhadores que, dotadas de força ante as reivindicações bem sucedidas,
negociavam com os empregadores condições mais favoráveis de trabalho, ao passo que o
capitalismo exercia grande impacto sobre o mercado de consumo e, diretamente, sobre o
trabalhador assalariado. Ressalte-se aqui a importância dessa percepção de união, posto que
organizados em sindicatos os empregados conseguiam força bastante para contrapor-se ao
poderio empregatício.
Ademais, a inserção dos sindicatos na sociedade trouxe a consideração dos direitos da
coletividade, permitindo a regulamentação de categorias profissionais e fortalecendo
movimentos de oposição e resistência por condições mais protetivas à integridade física, moral
e jurídica de seus direitos.
A revolução industrial, portanto, demarca o momento em que o Direito do Trabalho estrutura-
se como categoria específica, representando o principal instrumento vinculante do
trabalhador à cadeia produtiva (DELGADO, 2016).
Por fim, necessário é delinear os contornos de outro notório marco histórico para o Direito do
que assolou os Estados Unidos da América em
1929 e que repercutiu nas relações de trabalho mundialmente.
Após a Primeira Guerra Mundial, compreendida entre 1914 e 1918, a economia americana
cresceu disparadamente, desenvolvendo-se as grandes potências industriais e mercantis.
Não foi somente a produção tecnológica que prosperou, mas também a oferta de crédito aos
compradores dos produtos demandados, culminando em um giro enorme de capital que atraiu
os investidores a depositar seu dinheiro e suas expectativas no mercado norte-americano.
Diante da grande quantidade de crédito emitido e da ausência de valor real com a produção, a
Bolsa de Valores entrou em colapso gerando um desemprego que atingiu milhares de
trabalhadores, a falência de grandes empresas e a desvalorização da economia em âmbito
mundial.

27
Como solução do deslinde, a economia foi remanejada e restabelecida, voltando a economia
norte-americana ao patamar de uma das maiores potências mundiais, o que perdura até a
atualidade.
Posto isto, evidencia-se que o Direito do Trabalho é disciplina dotada de flexibilidade, na
medida em que tenha se adaptado e se reerguido em períodos de crises e total relapso às
condições humanas de trabalho, com o escopo de alinhar as demandas de mercado à qualidade
de vida e de trabalho dos sujeitos que participam dessa longa cadeia de direitos e obrigações
denominada relação de trabalho.
Com o escopo de coibir e penalizar os abusos surgidos no seio das relações empregatícias, o
Direito do Trabalho mantém-se como instituto que se reinventa e acompanha as
transformações sociais, sendo soberano e garantido fundamentalmente pelos Estados.
1.1 Transcorrer histórico e transformações jus laborais: a lapidação do Direito Trabalhista a
partir da crise do petróleo
Uma das fases do Direito do Trabalho mais marcantes e importantes ao desenrolar do Direito
do Trabalho moderno é a da crise do petróleo, iniciada nas décadas de 1970 e 1980, e que
permanece vigente na atualidade.
Desde a descoberta do petróleo em 1859 esse produto foi consumido abundante e
desenfreadamente pela sociedade, sendo que somente na década de 1970 constatou-se que, se
tratando de combustível fóssil formado em decorrência da decomposição de materiais
orgânicos, era fonte esgotável: nesse momento o preço do produto foi elevado, pois admitiu-se
a possibilidade de perda dessa fonte de riqueza comercializada em larga escala.
Diante de tal oscilação, instalou-se um cenário de crise e de conflitos estabelecidos entre a
produção e a elevação do valor do produto, o que surtiu reflexos desastrosos na economia
mundial.
No Brasil a crise perdura até a atualidade, estagnando os índices de desenvolvimento
econômico, impedindo a geração de novos empregos e retirando dos trabalhadores, ainda que
parcialmente, suas atividades já conquistadas (MONTORO FILHO et al., 2011).
Com o advento da tecnologia, especialmente considerando a introdução e a predominância da
internet em todas as relações estabelecidas, os inconvenientes referentes ao tempo e ao espaço
foram superados, tendo em vista a constante conexão virtual que aproxima pessoas, altera as
relações empregatícias, substitui mão-de-obra, globaliza as relações e reforça a cultura
capitalista (DELGADO, 2016).
Na sociedade contemporânea, as relações empregatícias adquirem novas características e
novas possibilidades de desenvolvimento. Existe um treino constante para que se produza
roboticamente em larga escala, recrutando não mais pessoas, e, sim, máquinas que já há muito
substituíram a atividade humana.

28
Por óbvio que a implementação da alta tecnologia como fator determinante e constituidor de
novas relações de emprego tem seus desdobramentos no processo do trabalho: o mercado de
trabalho foi alterado, a crescente instabilidade da economia e das finanças do Estado atordoa e
incute na sociedade o temor que se traduz nos índices alarmantes e cada vez maiores de
desemprego, que se deve, um pouco, à automatização da tecnologia. A esse respeito, considera-
se o caos social fundado no capitalismo contemporâneo.
Em âmbito internacional também houve exposição a esses problemas econômicos decorrentes
dessa frente sistemática, ensejando a diminuição dos empregos dada a produção em larga
escala utilizando cada vez menos mão-de-obra, em uma relação de produtividade crescente
versus trabalho decrescente (NASCIMENTO, 2010).
Infere-se, portanto, que a sistemática trabalhista e jurídica mais atual se consubstancia num
impasse fundado entre as vantagens tecnológicas trazidas com a modernização e a crise
econômico-política também vivenciada em razão dela. A própria Constituição Federal
instituiu preceitos que ressaltam a igualdade social e democrática, remetendo aos momentos
opressores e autoritários vivenciados no país para ressaltar a importância da modernização
das normas e, consequentemente, das relações de trabalho (DELGADO, 2016).
Sem embargo, deve-se partir da premissa de que toda evolução pressupõe contrapartidas, e a
nova sistemática trabalhista voltada ao capitalismo revestiu de transformação as relações
estabelecidas no ambiente de trabalho.
2 MODERNIDADE ECONÔMICA-SOCIAL E DIREITO DO TRABALHO
A tríade composta pelos fatores econômico, social e laboral não apenas ensejou o surgimento
do Direito do Trabalho no século XIX, quando a Europa perecia em desigualdades sociais e
econômicas tão flagrantes que tornou-se necessária uma intervenção estatal por intermédio de
legislados imperativos e irrenunciáveis pelas partes (BARROS, 2016), mas também demarcou
de forma mais clara a dinâmica de interação entre tais fatores, que coexistem em uma
coadjuvação recíproca.
Destarte, a própria análise da evolução do trabalho e, posteriormente, da construção da ordem
legal trabalhista, torna flagrante que as concepções de trabalho e relação de emprego sempre
estiveram intimamente ligadas ao momento histórico vivido: do escravismo, primeira
manifestação de trabalho humano (não abarcada pelo Direito do Trabalho em razão da
ausência de liberdade subjetiva do indivíduo), até as mais modernas e atuais teses legais da
área, todas as concepções e tratamentos dispensados ao labor humano perpassaram a natureza
e peculiaridades inerentes a cada sociedade e ao momento histórico por elas vivido
(DELGADO, 2016).
Tal correlação de fatores é aferível em diversos contextos, como nas sociedades primitivas, em
que a essência bélica e dominadora desaguava na predominância do escravismo; na idade
média, cuja realidade social e econômica fomentaram a servidão como sistema predominante
de organização do trabalho agrário europeu; na idade moderna, em que a solidificação do
29
sistema capitalista somado ao agravo das desigualdades sociais e inércia estatal trouxeram a
exploração abusiva do trabalho humano, gerando reivindicações propícias ao surgimento do
Direito do Trabalho e do movimento sindicalista; na contemporaneidade, em que o progresso
de diversas ciências abarca novas modalidades de emprego e dita a rítmica empregatícia e
mercadológica.
Assim, a constante evolução do corpo social e da economia impôs ao Direito do Trabalho a
necessidade de adaptar-se constante e rapidamente as demandas que surgiam (DELGADO,
2016).
Nesse sentido, a modernidade econômica-social impactou sobremaneira o direito trabalhista
por diversos fatores.
Sob um dos prismas, havia as novas concepções abarcadas pela estruturação de uma ordem
legal voltada ao trabalho, como a relação de emprego (determinando a sujeição estritamente
objetiva ao empregador e não mais vinculação pessoal, típica do escravagismo), a titularidade
de direitos relativos ao labor, a preocupação em inserir dignamente o ser humano na cadeia
produtiva por meio do trabalho resguardado e hígido, e mesmo discussões sobre a importância
da junção dos trabalhadores para alcançar paridade de poder com o empregador em
negociações e reivindicações, conceito consubstanciado pelo sindicalismo.
Em outra instância, havia a revolução tecnológica e suas implicações, como robotização de
parte do processo produtivo, criação de novos postos de trabalho, o fenômeno da globalização,
evolução dos setores econômicos (em especial o secundário), grande volume de informações
mais acessíveis, novo processamento e organização de dados e a informatização (DELGADO,
2015).
É óbvio, portanto, que a nova configuração mundial de prevalência do capitalismo e ascensão
da tecnologia afetaram a ordem trabalhista, obrigando uma releitura dessa estruturação legal.
2.1 Tecnologia e globalização: o despontar das novas relações laborais
Uma transição em especial, porém, modificou de maneira profunda e irreversível toda
sistemática socioeconômica, afetando sobremaneira as formas de trabalho: a terceira
revolução tecnológica, de meados da década de 70.
Tal qual disposto nas lições do jurisfilósofo brasileiro Miguel Reale em sua Teoria
Tridimensional do Direito (segundo a qual o Direito origina-se da conjugação harmônica dos
aspectos fático, axiológico e normativo), os adventos tecnológicos e de mercado foram
rapidamente absorvidos pelo corpo social e incorporados as legislações diversas, em uma clara
dinâmica tridimensionalista de fato, valor social do fato e norma.
O progresso do campo científico, destacado em áreas como aeronáutica, telecomunicações,
biotecnologia, eletrônica e microeletrônica, afetaram diretamente os setores econômicos, em
especial o secundário e o terciário, trazendo novas tecnologias, processos fabris mais

30
robotizados e eficientes, oferta de novos produtos e serviços, expansão na tecnologia de
processamento de dados.
Além disso, desponta no final do século XX o processo de globalização, consubstanciado pela
criação de elo íntimo entre sistemas regionais, nacionais ou comunitário, transcendendo
limites fronteiriços regionais ou nacionais em uma dinâmica de demarcação de um parâmetro
mercadológico de globo terrestre (DELGADO, 2015).
Não obstante, esse avançar do paradigma técnico-produtivo surte efeitos em toda economia,
visto que intensifica o uso do capital e a produtividade do trabalho (POCHMANN, 1999).
A produtividade tende a crescer na medida em que aplica-se maior utilização de capital ou
meios de trabalho mais desenvolvidos tecnologicamente, o que, consequentemente, impõe ao
empregado treinar-se no uso dessas tecnologias que agora integram em definitivo seu
ambiente de trabalho. Além disso, uma crescente linha de oferta de postos de trabalho facilita
a mobilidade ocupacional dos empregados em busca de melhores condições laborais
(MONTORO FILHO et al., 2011).
As relações de emprego, como elos basilares de inserção digna do ser humano na cadeia
produtiva capitalista que são, de imediato também foram afetadas pelas novidades advindas
dessa terceira revolução: nesse contexto, o Direito do Trabalho, antes acostumado ao
tradicional sistema empregatício, deparava-se, agora, com uma nova realidade mercadológica
a qual teria que se adaptar.
2.2 Contraponto entre modernidade e trabalho: a precarização das condições trabalhistas
Os novos paradigmas representaram uma profunda mudança social e econômica, basicamente
inaugurando uma nova ordem mundial e uma nova fase do sistema capitalista que beneficiaria
a humanidade com adventos tecnológicos, modernização de processos, criação de novos
postos de trabalho, profissionalização da mão-de-obra, dentre outros.
Contudo, não obstante tais melhorias, o sistema capitalista tem por finalidade principal o
alcance do lucro e, sendo este o escopo principal, raramente considera os fatores humanos e
sociais agregados e usados nos processos produtivos como prova a própria estruturação do
Direito do Trabalho, nascido das lutas e reivindicações de trabalhadores frente aos abusos e
más condições a que eram submetidos.
Em um primeiro momento, a robotização de postos antes ocupados por humanos desemprega
parte da população, que, excluída da cadeia produtiva pelo não emprego de sua mão-de-obra,
dificilmente subsistirá em condições humanamente dignas. É nessa dinâmica, inclusive, que
ganha força a tese da integral robotização dos postos de trabalhos mais tarde contestada pela
realidade mercadológica, que apontava para a robotização de postos de trabalho manuais em
detrimento do crescimento daqueles que exigem maior aptidão intelectual (GODINHO, 2015).
A evolução dos meios de comunicação, como rádio e TV, também perfazem uma conectividade
imensa, posteriormente ampliada pela informática e telefonia em um contexto no qual a
31
pessoa está sempre conectada e, por consequência, acessível. Nesse ínterim, a conectividade
não apenas congloba novas modalidades de emprego (como o teletrabalho), mas também
sujeita o empregado a uma ligação direta com seu emprego que, não raramente, macula sua
intimidade, lazer e descanso.
Há que se considerar também a incessante cobrança do mercado pela adequação do
empregado às variadas formas de produção criadas para a maximização do lucro. Os
empregados precisam constantemente adequar-
devendo ter um baixo grau na escala RM (resistência à mudança) sob pena de serem excluídos
do mercado (DALLEGRAVE NETO, 2000), e, consequentemente, integrarem a massa alheia à
cadeia produtiva com baixas condições de subsistência.
No mais, sendo o capitalismo um sistema cíclico de crises e ascensões, quando há no mercado
alta oferta de mão-obra, levando à queda da taxa de salário, os empregados que não possuem
forma diversa de mercadoria para ofertar acabam ampliando a capacidade da sua força
produtiva, nem sempre de forma positiva por vezes cumprindo jornadas de trabalho mais
extensas, por vezes aceitando menores remunerações ou negligenciando boas condições de
exercício do trabalho (PAIVA; CUNHA, 2008).
Embora inconteste as benesses provenientes de tais mudanças, a essência do sistema
financeiro capitalista permaneceu sendo a busca do lucro em detrimento dos demais fatores
agregados à cadeia produtiva, agravando mazelas sociais e humanas que o Direito do Trabalho
prontamente dignificou-se, e ainda tenta, erradicar.
3 ESSENCIALIDADE DO DIREITO DO TRABALHO: ECONOMIA, CRISES E PROTEÇÃO
JURÍDICA
Conquanto o epíteto Direito do Trabalho esteja vastamente presente no cotidiano, tal
nomenclatura, por si só, não desvela a ampla gama axiológica por ela abarcada.
À priori deve-se retomar que o Direito do Trabalho, conquanto diga respeito à uma
estruturação jurídica, tem por cerne o labor humano, seus valores e implicações: nisto reside a
identificação da ciência trabalhista com a antropologia e mesmo a sociologia, motivo pelo qual
não há definição de trabalho como finalidade em si mesmo, desconexo de contextos sociais e
coletivos (MORAES FILHO, 2014).
Neste sentido, socialmente o direito do trabalho assume, portanto, característica de proteção à
possibilidade do indivíduo participar da produção de todos em troca da remuneração devida e
proporcional ao seu próprio esforço (MORAES FILHO, 2014). É pelo trabalho que o indivíduo
integra dignamente a cadeia produtiva social, girando capital pela produção, distribuição ou
aprimoramento de bens e serviços ofertados à grande massa consumidora, consequentemente,
aquecendo e mantendo a economia.
Macroeconomicamente, o valor social do trabalho apreende-se dos índices de
empregabilidade, geração de postos de trabalho, níveis de desemprego, renda e poder

32
aquisitivo, fatores expressivos da realidade social de um país e que afetam diretamente a
economia.
A própria produção de bens e serviços finalizados, resultado direto do trabalho dos atores
sociais, é periodicamente somada em um determinado lapso temporal para quantificar a
atividade econômica de uma região, ou seja, o produto interno bruto (PIB) gerado. Ademais, a
própria remuneração aferida pelo empregado integra a cadeia produtiva porque deste sustento
proverá os bens e serviços que atendem a si mesmo, familiares e próximos, dos itens
necessários aos supérfluos.
Já sob o prisma individual, o trabalho está intimamente ligado à subsistência do indivíduo e
sua realização pessoal por meio da valoração do trabalho.
É um prolongamento da própria personalidade do sujeito, que conecta-se à produção social
através da sua própria parcela de trabalho; sendo atividade predominante da vivência humana
e também expressão própria do esforço humano, tanto pode o trabalho realizar pessoalmente
o indivíduo quanto frustrá-lo.
É no emprego que o ser humano desprende a maior parte de seu tempo, privando-se do
convívio social, familiar e mesmo de seu lazer.
Tais fatores evidenciam a importância da proteção jurídica laboral, pois se o trabalho depende
de uma boa premissa econômica para que emerjam novos postos de emprego e melhores
condições de empregabilidade, tampouco a economia desenvolve-se plenamente sem os frutos
do trabalho.
Operar o Direito trabalhista é tratar de aspectos muito mais complexos e profundos que
apenas a estruturação legal de uma disciplina: é lidar com os anseios e as inspirações humanas,
as perspectivas de melhoria de vida pelo esforço próprio, a inserção digna de uma pessoa em
uma cadeia produtiva focada quase que exclusivamente em lucros, sendo que o direito
trabalhista torna-se verdadeiro óbice à exploração desregrada e cruel da mão-de-obra
(BARROS, 2016).
Não obstante, o fato do trabalho ser substrato existencial humano envolve ainda a dignidade
da pessoa humana, suas condições de saúde e também ascensão social.
Trabalho é uma forma de alienação do próprio tempo em detrimento da lucratividade do
sistema e do empregador. É, inquestionavelmente, vínculo direto com a própria dignidade da
pessoa, vez que pelos frutos do trabalho afere-se condições de existência minimamente
aceitáveis, vez que enobrece o indivíduo pela ligação dignificante deste ao sistema produtivo
sem que a pessoa necessite recorrer à criminalidade marginalizante e punitiva.
Ademais, desprender tempo ao labor é abnegar-se do convívio social e familiar, do descanso,
do lazer; é também dispor da própria energia e saúde, em uma permuta inegável de troca da
vida humana no processo produtivo.

33
É, por fim, instrumento legítimo de efetivação dos Direitos Humanos, vez que o trabalho
possibilita acesso à moradia, educação, saúde, vestimentas, e tantos outros itens, sejam básicos
ou supérfluos, conglobados pelo conceito de existência humana digna.
5 CONCLUSÃO
É mister que a economia e o trabalho estão intimamente ligados em diversos aspectos, em uma
verdadeira relação de interdependência. Se o trabalho necessita de uma economia equilibrada
para propagar-se em melhores condições, também a economia necessita do labor humano para
a geração de renda, capital, bens e serviços.
Não obstante, as experiências históricas são abundantes em demonstrar que a exploração da
mão-de-obra majoritariamente advinha de métodos abusivos e injustos, surgindo a
necessidade de acompanhamento e regularização da mesma.
Eis, então, que o Direito do Trabalho surge como força antagônica aos abusos e péssimas
condições vivenciadas pelos trabalhadores, por isso mesmo sendo sistemicamente atacado em
suas acepções: mais por representar uma forte e imperiosa barreira à despreocupada e cruel
exploração desordenada da mão-de-obra do que por realmente macular processos
econômicos.
Natural, portanto, que a ciência jurídico-laboral sofra ataques sistêmicos e seja
constantemente incompreendida e questionada. Nasceu das muitas lutas e reivindicações de
trabalhadores mal remunerados, humilhados, submetidos a condições degradantes,
mutilados, eletrocutados, acidentados, trabalhando em locais insalubres ou perigosos, idosos
que não puderam desfrutar a velhice em sossego, crianças que não puderam ter sua própria
infância, jovens sem perspectivas e ambições, trabalhadores em condições análogas ao
escravagismo.
Nasceu, enfim, para promover Justiça Social, já muito polêmica e desde a tenra uma
sonhadora da dignidade pelo trabalho decente e hígido, afinal, subvertendo a ordem do lucro
em primeiro lugar pela valorização do ser humano e do seu trabalho.
Para muito além dos fatores econômicos que permeiam as discussões sobre a redução de
direitos, há de se considerar que, acima de tudo, o trabalho nada mais é do que a
comercialização da vida humana, a alienação de nosso tempo, saúde e energia, motivos pelos
quais o Direito do Trabalho não pode sujeitar-se à atender prontamente toda e qualquer
demanda econômica, em especial quando isso represente a supressão ou modificação radical
de direitos.
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35
Silva, J. A. (2016). Curso de Direito Constitucional Positivo (39a. ed.). São Paulo: Malheiros.

36
A ATUALIDADE HISTÓRICA DO CASAMENTO HOMOAFETIVO E SUA
REGULAMENTAÇÃO JURÍDICA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO.
7

RESUMO: O presente trabalho insere-se na temática dos direitos humanos, vislumbrando,


como núcleo de toda a reflexão, a atualidade histórico-mundial do casamento homoafetivo.
Delinear-se-á uma abordagem propedêutica e histórica, inclusive de tratamento filosófico,
para, então, atingir a problemática pontual da dogmática jurídica, escrutando-se o direito
comparado Brasil-Chile. Tem-se, como base teórica, não só autores clássicos do direito das
minorias, mas, outrossim, pensadores de outras áreas do saber humano, a fim de enriquecer o
estudo, estabelecendo-se um diálogo entre diferentes disciplinas. Em deslinde, será verificado
que o casamento homoafetivo compõe uma conquista de direitos por parte de um grupo social
que, por muitos séculos, e devido a complexos fatores, padeceu das mais diversas perseguições
e violações à sua dignidade humana.
PALAVRAS-CHAVE: direitos humanos; casamento homoafetivo; regulamentação jurídica;
direito comparado; mundo contemporâneo.
ABSTRACT: The present work is part of the human rights theme, as a reflection of the
historical-global relevance of same-sex marriage. A propaedeutic and historical approach,
including by philosophical treatment, will be devised in order to reach the problematic point
of juridical dogmatics, scrutinizing Brasil-Chile comparative law. It has as theoretical base not
only classic authors of the law of minorities, but also thinkers of other areas of human
knowledge, in order to enrich the study, establishing a dialogue between different disciplines.
In demarcation, it will be verified that the same-sex marriage composes a conquest of rights by
a social group that, for many centuries, and due to complex factors, suffered from the most
diverse persecutions and violations to its human dignity.
KEYWORDS: Human Rights; Same-sex Marriage; Legal Regulation; Comparative Law;
Contemporary World.
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho, calcado em estudos que ultrapassam a mera dogmática jurídica, encontra
notável supedâneo em esclarecimentos propedêuticos e interdisciplinares, os quais acabam
por preparar o desenvolvimento da temática, conferindo-lhe maior amplitude e prospecção.

7
Mestrando em Direito, pelo UNISAL. Graduado em Direito, pela UNIVAP. Advogado em São José dos Campos, São
Paulo, Brasil. E-mail: lucas.s.almeida@uol.com.br
8
Pós-doutora em Democracia e Direitos Humanos, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra,
Portugal. Doutora e Mestre em Direito das Relações Sociais, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Professora e pesquisadora nos cursos de graduação em Direito da UNIP e da UNIVAP. Professora e pesquisadora na
graduação e no curso de mestrado em Direito do UNISAL. Advogada em São José dos Campos, São Paulo, Brasil. E-
mail: amvds@uol.com.br

37
A união ou o casamento homoafetivo, tal como concebido atualmente, é um fenômeno
historicamente recente, e decorre de lutas dos homossexuais, e também de todo o movimento
LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis), por visibilidade e respeito, vezes
entrelaçando-se com a luta por direitos e reconhecimento de outras minorias, igualmente
sufocadas pelas incongruências do status quo.
Recorrer-se-á a esclarecimentos históricos, doutrinário-religiosos e também jusfilosóficos, a
fim de atingir o núcleo duro da dogmática jurídica, delineando-se considerações pontuais
acerca da regulamentação jurídica do casamento homoafetivo no mundo hodierno; e, a fim de
ilustrá-la, serão reproduzidos dispositivos legais, tanto do Brasil quanto do Chile, na esperança
de que o direito comparado corrobore a total compreensão do tema proposto.
2 CASAMENTO HOMOAFETIVO: LINEAMENTOS INTERDISCIPLINARES E
PROPEDÊUTICOS
Para que o casamento homoafetivo seja compreendido de modo global e oniabrangente, faz-se
imperiosa a consideração quanto à propedêutica, ou seja, quanto aos indispensáveis estudos
preliminares e preparatórios, os quais, além de fornecer fundamentos às análises vindouras,
guardam consigo relevantes encontros com outras searas do conhecimento humano.
Assim, apresenta-se no presente item o escorço histórico correspondente à trajetória
percorrida pelos homossexuais e, logo a seguir, considerações doutrinário-religiosas a respeito
da aludida minoria, a fim de balizar a melhor compreensão do tema proposto.
Entretanto, devido à vastidão dos dados históricos e das orientações religiosas existentes, serão
selecionadas somente informações estritamente fundamentais e indispensáveis para o salutar
desenvolvimento do estudo, conforme abaixo exposto.
2.1 ESCORÇO HISTÓRICO
Homossexuais sempre existiram, em todos os tempos e em todas as culturas, do ocidente ao
oriente, e práticas homossexuais podem ser encontradas não só entre seres humanos, mas,
inclusive, no meio animal. Eis uma constatação9 técnica, objetiva e histórica.
Entretanto, muito além da apreciação empírica, e, no que pese a aludida naturalidade 10 de tal
orientação sexual, o deletério fenômeno da invisibilidade por muito tempo lançou suas

9
Em acórdão do Supremo Tribunal Federal na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 4277/DF, que reconheceu a
união homoafetiva no Brasil, tomou- orientação e não uma
opção sexual. Já é de curso corrente na comunidade científica a percepção também relatada pelos diversos amici
curiae de que a homossexualidade não constitui doença, desvio ou distúrbio mental, mas uma característica da
personalida
Inconstitucionalidade nº 4277/DF. Requerente: Procuradoria-Geral da República. Relator: Min. Ayres Britto.
Brasília, j. 05 maio 2011a. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628635>. Acesso em: 15 fev. 2017.
10
Sigmund Freud, inquirido por uma mãe aflita pela homossexualidade de seu filho, respondeu-lhe que a
classificada como uma doença; nós a
38
sombras sobre essa minoria, considerando-

heteronormatividade (HARDT, NEGRI, 2016, p. 357).


A hierarquia e a opressão de gênero são muito antigas, arraigadas nos costumes, e remontam
aos primórdios das comunidades primitivas de seres humanos, quando a civilização ainda dava
seus primeiros passos. As consequências de sua prática afetam não apenas homossexuais, mas
inclusive mulheres, crianças e adolescentes.
Por tal razão, salutar rememorar os ensinamentos de Friedrich Engels (2006), o qual, em seu
notório estudo antropológico e filosófico a respeito do surgimento da família, da propriedade
privada e do Estado, esclareceu que, no início, os agrupamentos humanos eram notadamente
matriarcais, nos quais as mulheres11 desfrutavam de ampla autonomia frente aos homens,
desempenhando, inclusive, funções de liderança familiar e social.
Entretanto, com o surgimento da monogamia, o matriarcado deu lugar ao patriarcado,
coincidindo com o desenvolvimento do primeiro antagonismo de classes na história humana
(ENGELS, 2006). Posteriormente, adveio, então, o pater familiae, figura masculina guarida de
autoridade absoluta (SOUSA, 2011, p. 176), marcando por muito tempo a concepção de família.
Em suma, Engels12 elucida que:
O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento
do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes,
com a opressão do sexo feminino pelo masculino. A monogamia foi um grande progresso
histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas,
aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um
retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e
da repressão de outros. (ENGELS, 2006, p. 68).
No que pese o avanço da heteronormatividade e da opressão de gênero concomitantemente ao
processo civilizatório, é relevante notar que na Grécia Helenística (323 a 31 a.C), período em
que os gregos desfrutavam o ápice de seu desenvolvimento econômico, cultural e político, era

Denise Bottmann. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 610.
11
Nesse sentido, há, também, a vetusta mater semper certa est, pater autem incertus
ilustrar o destaque conferido à mulher e a tensão simbólica que envolve a figura paterna. Cf. DINIZ, Maria Helena.
Curso de Direito Civil Brasileiro: Direito de Família. 30. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, v. 5, p. 567; QUINET, Antonio.
Édipo ao pé da letra: fragmentos de tragédia e psicanálise. São Paulo: Zahar, 2015.
12
No original, lê-
development of the antagonism between man and woman in monoghamian marriage, and the first class oppresion
with that of the female sex by the male. Monogamy was a great historical advance, but at the same time it
inaugurated, along with slavery private wealth, that epoch, surviving this day, in wich every advance is likewise a
relative regression, in wich, the well-being and development of some are attained through the misery and
els 1882-89. Translated by Barrie
Selman et al. London: Lawrence & Wishart, 2010, v. 26, p. 173 -174.

39
muito comum a prática de relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, algo que perpassava
significativos segmentos da população (HALPERIN, 1990).
Em Atenas, a pederastia (paederasty) era uma prática reconhecida como honrosa e decente,
inexistindo, inclusive, qualquer pena que coibisse ou punisse tal comportamento.
A pederastia não correspondia a uma prática sexual entre duas pessoas do mesmo gênero,
pura e simplesmente, tal como se costuma concebê-la atualmente. De modo contrário, ela era
uma prática sexual específica, de relevância social e moral, realizada entre o adulto-mestre e o
jovem-aprendiz, tendo este entre doze e dezoito anos de idade, e desprovida de qualquer amor
entre as partes. Grosso modo, compunha uma iniciação do adolescente que dava seus
primeiros passos na vida pública, tornando-se cidadão ateniense (HALPERIN, 1990, p. 55 - 57).
Entretanto, o adulto-mestre era, em verdade, um homem comum, casado com uma mulher,
com a qual matinha relações heterossexuais, cumprindo somente sua função social com o
ritual de iniciação da juventude.
Com as invasões sofridas pelas cidades-estado gregas, bem como muitos outros fatores
registrados pelos historiadores, a pederastia, assim como outros relevantes elementos
culturais e sociais daquele povo, foi aos poucos arrefecendo, mesclando-se com novas culturas.
Exceto tal período da história ocidental, olvidando-se peculiaridades esparsas de tribos e
comunidades autóctones, a prática homossexual sempre esteve ofuscada pelo preconceito e
pela recriminação.
Tais considerações de caráter histórico-antropológico só servem para reforçar o fato do direito
in casu, o direito de família - estar sempre entrelaçado e emaranhado com outras dimensões
da socialidade humana, as quais delimitam sua natureza, mediante interações dinâmicas e
vezes conflitivas (ALVES, 2010).
Conforme observado, e também melhor desenvolvido de outra forma no tópico subsequente,
constata-se que própria aversão ou preconceito em relação aos homossexuais é um fenômeno
instável, prendendo-se a uma série de fatores externos e contingentes, não obstante ter
composto uma força avassaladora na maior parte da história, perdurando, ainda hoje, em
vários países (SOUSA, 2015).
2.2 POSICIONAMENTO RELIGIOSO FACE AOS HOMOSSEXUAIS
Devido à vasta pluralidade de religiões e seitas existentes ao redor do mundo, no presente
artigo são eleitas somente duas religiões, inclusive de grande prospecção histórico-mundial e
robusta abrangência populacional e política, que são, nomeadamente: o cristianismo em sua
vertente católica e o islamismo, a fim de melhor compreender a postura eminentemente
religiosa face os direitos humanos fundamentais da minoria em apreço.

40
Padre Alberto Hurtado (2009, p. 29), eminente clérigo chileno, quando questionado a quem

con sus fracasos, con s


O Catecismo da Igreja Católica13 dedica tópico especial para tratar da temática dos

2357 a 2359.
A despeito de tecer uma série de críticas e observações reprovadoras, o documento oficial
apresenta, em deslinde, uma postura de respeito e acolhimento aos homossexuais, algo
extremamente clarividente no § 2358, abaixo reproduzido:
[Homens e mulheres homossexuais] devem ser acolhidos com respeito, compaixão e
delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas
pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao
sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição. (grifo
nosso).14
No parágrafo subsequente, o Catecismo sublinha o imperativo da castidade na vida das
pessoas homossexuais, a saber:
2359. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio,
educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela
oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da
perfeição cristã.15
Nesse sentido, Rampazzo (2014, p. 222) menci
-se de suas imperfeições

Imprescindível comentar que, recentemente, a Igreja tem recorrido cada vez mais a uma
postura acolhedora e completamente respeitosa em relação aos homossexuais.

No § 2357 há o reconhecimento, por parte do Catecismo da Igreja Católica, da presença de práticas homossexuais
13

em infindáveis culturas e ao longo da história, comentando-

<http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html>. Acesso em 14 fev. 2017.


14
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Disponível em:
<http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html>. Acesso em 14 fev. 2017.
15
Ibidem.

41
Aliás, o Papa Francisco16, representante máximo da Igreja Católica Apostólica Romana,
confessou que a Igreja deve pedir perdão aos homossexuais e demais minorias por ter-lhes
relegado à marginalização durante séculos.
Já quanto ao islamismo, têm-se os estudos doutrinários de Youssef Al-Karadhawi (2014, p. 191),
notória autoridade muçulmana em jurisprudência islâmica, segundo o qual a prática sexual

obstante inexistir consenso a respeito das punições17 que devem ser aplicadas aos envolvidos
em tais atos libidinosos, recomenda-se as penas mais severas.
Ayaan Hirsi Ali (2015), refugiada da Somália e professora na Universidade de Harvard,
menciona que o islã não é um todo homogêneo, existindo grandes agrupamentos de devotos
moderados, respeitadores do multiculturalismo e do direito das minorias, no que pese a força
avassaladora daqueles que compõem uma corrente fundamentalista e intolerante.
Sendo uma das três religiões monoteístas do mundo, o islamismo compartilha com o judaísmo
e com o cristianismo de consideráveis semelhanças históricas e doutrinárias, recorrendo a
relatos comuns tanto à Torá, quanto à Bíblia. Para tanto, ao apreciar a temática da
homoafetividade, os islâmicos mencionam o d

-KARADHAWI, 2014, p. 191).


Conforme soberbamente conhecido, e, inclusive, salientado pelos islâmicos, apenas Lot e sua
família desfrutaram da oportunidade de fugir da cidade profanada e voluptuosa, tendo sido
vedado, definitivamente, olhar para trás enquanto os castigos divinos eram aplicados aos
pecadores (AL-KARADHAWI, 2014).
Entretanto, a esposa de Lot, num rompante de curiosidade, mirou seu olhar para trás, sendo
imediatamente castigada. Fulminada, tornou-se uma estátua de sal.
Por sua vez, José Saramago (2009, p. 97), em seu último livro publicado em vida, teceu
comentários

3 REGULAMENTAÇÃO JURÍDICA DO CASAMENTO HOMOAFETIVO

16
Cf. GAYS merecem o pedido de perdão da Igreja Católica, diz papa Francisco. Folha de S. Paulo. 27 jun. 2016.
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2016/06/1786082-gays-merecem-pedido-de-perdao-da-
igreja-catolica-diz-papa-francisco.shtml>. Acesso em 22 fev. 2017.
17
Youssef Al-Karadhawi sugere a pena de morte, escusando-
castigos possam parecer cruéis, eles têm sido sugeridos para manter a pureza da sociedade islâmica e para mantê-la
a salvo d -KARADHAWI, Dr. Youssef. O lícito e o ilícito no islam. Trad. de Samir El
Hayek. [s.l]: [s.n], 2014, p. 192.

42
A regulamentação jurídica da união ou do casamento homoafetivo no mundo contemporâneo
é vasta, estendendo-se por muitos países, sob a égide de sistemáticas e dinâmicas diferentes
umas das outras sob as quais reverberam questões políticas, culturais e também religiosas.
Por tal razão, foram selecionados somente dois países da América do Sul, a fim de ilustrar a
temática sub examine.
3.1 BRASIL
Em fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina do Brasil deixou de considerar a
homossexualidade como doença, tendo a Organização Mundial de Saúde (OMS), somente em
17 de maio de 1990, retirado a homossexualidade da lista internacional de patologias, quando
foi, então, estabelecido o Dia Internacional contra a Homofobia (SOUSA; CAPUCHO, 2014).
Não obstante a mudança de postura por parte das organizações voltadas à saúde, apenas em
maio de 2011 o Supremo Tribunal Federal18, nos autos da Ação Declaratória de
Inconstitucionalidade 4.277 DF e da Ação Declaratória de Preceito Fundamental 132 RJ,
reconheceu a constitucionalidade da união estável homoafetiva, afastando-se qualquer
interpretação do artigo 1723 do Código Civil que alijasse pessoas do mesmo sexo em
constituírem entidade familiar19.
No mesmo ano, em outubro, o Superior Tribunal de Justiça prolatou decisão nos autos do
Recurso Especial nº 1.183.378 RS, na qual apresentou consonância à ADI 4277/DF e à ADPF
132/RJ, havendo sido elaborada a seguinte ementa:
DIREITO DE FAMÍLIA. CASAMENTO CIVIL ENTRE PESSOAS DO MESMO SEXO
(HOMOAFETIVO). INTERPRETAÇAO DOS ARTS. 1.514, 1.521, 1.523, 1.535 e 1.565 DO CÓDIGO
CIVIL DE 2002. INEXISTÊNCIA DE VEDAÇAO EXPRESSA A QUE SE HABILITEM PARA O
CASAMENTO PESSOAS DO MESMO SEXO. VEDAÇAO IMPLÍCITA
CONSTITUCIONALMENTE INACEITÁVEL. ORIENTAÇAO PRINCIPIOLÓGICA
CONFERIDA PELO STF NO JULGAMENTO DA ADPF N. 132/RJ E DA ADI N. 4.277/DF. (STJ
Recurso Especial nº 1.183.378/RS, Relator: Min. Luis Felipe Salmão, j. 25 out. 2011b). 20

18
Conferir mais em: <http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=178931>. Acesso em 14
fev. 2017.
19

estável e do casamento homoafetivos seria uma Emenda Constitucional, sob a afirmativa de que as decisões do STF
prolatadas na ADI 4277 e na ADPF 132 e a Resolução do CNJ nº 175/2013 ferem a hierarquia de normas. Cf. DINIZ,
Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: Direito de Família. 30. ed. São Paulo: Saraiva, 2015, v. 5, p. 69.
20
Disponível em:
<https://jurisprudencia.s3.amazonaws.com/STJ/IT/RESP_1183378_RS_1330972067974.pdf?Signature=uG522giztGFE
6DM5dphqBiwCfKw%3D&Expires=1487172521&AWSAccessKeyId=AKIAIPM2XEMZACAXCMBA&response-
content-type=application/pdf&x-amz-meta-md5-hash=6614bce5618ad15c0806d4ac79e931ac>. Acesso em 15 fev.
2017.

43
Já em 2013, sobreveio a Resolução do Conselho Nacional de Justiça nº 175/201321 que, ao seu
turno, vedou às aut

22
, não haveria razão para excluir de
sua abrangência uniões de pessoas do mesmo sexo.
Válido, ainda, mencionar que, recentemente, o Projeto de Lei do Senado nº 612/201123, de
autoria da Senadora Marta Suplicy, que propõe a alteração dos artigos 1.723 e 1.726 do Código
Civil, a fim de permitir o reconhecimento legal da união estável entre pessoas do mesmo sexo,
foi aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Aguarda, agora, votação em
turno suplementar, ocasião em que haverá decisão terminativa. Feito isso, provavelmente
passará à análise da Câmara dos Deputados.
O aludido Projeto de Lei sucedeu o antigo Projeto de Lei nº 1.151 de 1995, igualmente proposto
por Marta Suplicy, que também ambicionava disciplinar a união civil entre pessoas do mesmo
sexo (DINIZ, 2015, p. 416), tendo, entretanto, sido atravancado e suspenso pelas disputadas
político-legislativas daqueles anos.
Por oportuno, cabe rememorar, ainda, que desde a Instrução Normativa nº 11/2006 do
Instituto Nacional do Seguro Social, as uniões homoafetivas têm proteção da indigitada
autarquia, já que o artigo 30 daquela I.N. dispõe que o companheiro homossexual de segurado
da Previdência Social desfruta de proteção previdenciário-assistencial, constando do rol de
dependentes desde que comprovados os requisitos legais para tanto, verbi gratia, vida comum
e dependência econômica (DINIZ, 2015, p. 416).
Evidentemente, no Brasil foi o ativismo judicial que auxiliou a salvaguarda dos direitos dos
homossexuais, bem como dos demais integrantes da sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Transexuais e Travestis)24, em detrimento da incúria e do conservadorismo do Poder

21
Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/images/imprensa/resolu%C3%A7%C3%A3o_n_175.pdf>. Acesso em 14 fev.
2017.
22
Disponível em: <http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628635>. Acesso em 15
fev. 2017.
23
Disponível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/102589>. Acesso em 22 fev. 2017.
24
No Brasil, é utilizado, desde 2008, quando da I Conferência Nacional de Direitos Humanos e Cidadania, a sigla
LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Travestis), sucedendo a outrora recorrida sigla GLS (Gays, Lésbicas
e Simpatizantes). No plano internacional, recentemente tem-se recorrido à sigla LGBTQIA (Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexuais e Assexuais), ampliando seu espectro e apresentando outras
distinções. Cf. SOUSA, Ana Maria Viola de; CAPUCHO, Ana Maria C. Castro. Direitos Humanos: questões atuais
sobre a violência contra LGBTTT. In: ______; NASCIMENTO, Grasiele Augusta Ferreira; ZUÑIGA, Noé Lópes.
Direitos Humanos e Minorias. Lorena: UNISAL, 2014. Disponível em:
<http://www.lo.unisal.br/direito/semidi2014/publicacoes/livro4/Ana%20Maria%20Carvalho%20Castro%20Capuch
o%20e%20Ana%20Maria%20Viola%20de%20Sousa.pdf>. Acesso em 27 fev. 2017; SCHULMAN, Michael. Generation
LGBTQIA. The New York Times. 9 jan. 2013. Fashion & Style.Disponível em:
<http://www.nytimes.com/2013/01/10/fashion/generation-lgbtqia.html>. Acesso em 27 fev. 2017.

44
Legislativo, demasiado vinculado às forças da heteronormatividade, seja por razões religiosas e
culturais, seja por razões eminentemente políticas.
3.2 CHILE
No Chile, a Ley nº 20.830 de 2015 reconheceu e regulamentou a união civil homoafetiva
(acuerdo de unión civil), já delimitando em seu artículo 1º a natureza do aludido instituto
jurídico, que acaba por ser um contrato de direito de família, a saber:
Artículo 1°- El acuerdo de unión civil es un contrato celebrado entre dos personas que
comparten un hogar, con el propósito de regular los efectos jurídicos derivados de su vida
afectiva en común, de carácter estable y permanente. Los contrayentes se denominarán
convivientes civiles y serán considerados parientes para los efectos previstos en el artículo 4225
del Código Civil.
Su celebración conferirá el estado civil de conviviente civil. El término de este acuerdo
restituirá a los contrayentes el estado civil que tenían antes de celebrar este contrato, salvo en
la situación prevista en la letra c) del artículo 26.26
A indigitada lei também menciona os procedimentos burocráticos para a celebração do
acuerdo de unión civil, que deverá ocorrer perante um oficial do Servicio de Registro Civil e
Identificación, respeitando-se sua correspondente jurisdição. No original, lê-se:
Artículo 5°- El acuerdo de unión civil se celebrará en el Servicio de Registro Civil e
Identificación, ante cualquier oficial, quien levantará acta de todo lo obrado, la que será
firmada por él y por los contrayentes. La celebración podrá efectuarse en el local de su oficina
o en el lugar que señalaren los contrayentes, siempre que se hallare ubicado dentro de su
territorio jurisdiccional.27
Em outubro daquele ano, houve a primeira união homoafetiva, muito festejada pelos
movimentos e instituições de defesa dos direitos humanos, conforme registrado pelo jornal El
País Brasil. In verbis:
Seis meses depois da promulgação da lei pela presidenta Michelle Bachelet, o Chile começou
nesta quinta-feira a realizar seus primeiros acordos de uniões civis, que regula juridicamente
as uniões de casais homossexuais e heterossexuais que não estão casados [...] Considerado um

25
A título informativo, informa-se que o artículo 42 del Código Civil ey
dispone que se oiga a los parientes de una persona, se entenderán comprendidos en esa denominación el cónyuge
de ésta y sus consanguíneos de uno y otro sexo, mayores de edad. A falta de consanguíneos en suficiente número
serán oídos los afines. Serán referidos los descendientes y ascendientes a los colaterales, y entre éstos los de más
cercano parentesco. Los parientes serán citados, y comparecerán a ser oídos, verbalmente, en la forma prescrita por
ESO NACIONAL DE CHILE. Disponível em:
<https://www.leychile.cl/Navegar?idNorma=172986>. Acesso em 01 mar. 2017.
26
BIBLIOTECA DEL CONGRESO NACIONAL DE CHILE. Disponível em:
<https://www.leychile.cl/Navegar?idNorma=1075210&idParte=0>. Acesso em 13 fev. 2017.
27
Ibidem.

45
país tradicional, com uma forte influência da Igreja Católica em 2004 teve sua primeira lei de
divórcio e o aborto ainda é punido em todas as circunstâncias , o Chile conseguiu aprovar o
Acordo de união civil por causa da conscientização social que realizaram os movimentos
defensores dos direitos das minorias sexuais. O Movimento de Integração e Liberação
Homossexual (Movilh) lembrou que houve 35 marchas, 72 protestos, 20 campanhas, seis
projetos de lei e 11 anos de espera antes da aprovação do AUC.28
Entretanto, antes mesmo do Estado chileno reconhecer a união civil homoafetiva, há, desde
2012, figuras legais que coíbem as práticas discriminatórias contra uma série de pessoas,
dentre elas, os integrantes do amálgama LGBT.
É o caso da Ley nº 20.609 de 2012 (Ley antidiscriminación), que, ao seu turno, tem como
que permita restablecer eficazmente el imperio

O artículo 2º dispõe:
[...] se entiende por discriminación arbitraria toda distinción, exclusión o restricción que
carezca de justificación razonable, efectuada por agentes del Estado o particulares, y que cause
privación, perturbación o amenaza en el ejercicio legítimo de los derechos fundamentales
establecidos en la Constitución Política de la República o en los tratados internacionales sobre
derechos humanos ratificados por Chile y que se encuentren vigentes, en particular cuando se
funden en motivos tales como la raza o etnia, la nacionalidad, la situación socioeconómica, el
idioma, la ideología u opinión política, la religión o creencia, la sindicación o participación en
organizaciones gremiales o la falta de ellas, el sexo, la orientación sexual, la identidad de
género, el estado civil, la edad, la filiación, la apariencia personal y la enfermedad o
discapacidad. (grifo nosso).29
Sendo assim, relevante é o desiderato apresentado pela Ley antidiscriminación, e, outrossim,
clarividente é a constatação de que a união homoafetiva chilena ainda não pode ser
considerada como equivalente ao casamento, e nem mesmo como instituto semelhante a uma
união estável do ordenamento jurídico brasileiro, pois configura mero negócio jurídico do
cosmos do direito de família. Entretanto, mesmo assim, deve ser vislumbrada como um avanço
jurídico a favor da minoria em apreço.
4 CASAMENTO HOMOAFETIVO: UM DIREITO HUMANO
A dignidade da pessoa humana é consagrada já pelo artigo 1º, inciso III, da Constituição da
República Federativa do Brasil, sendo que, em complemento, tem-se o artigo 3º, inciso IV,

28
Cf. MONTES, Rocío. Chile realiza as primeiras uniões civis de casais homossexuais. El País. 23 out. 2015.
Internacional. Disponível em: < http://brasil.elpais.com/brasil/2015/10/22/internacional/1445535590_295707.html>.
Acesso em 13 fev. 2017.
29
BIBLIOTECA DEL CONGRESO NACIONAL DE CHILE. Disponível em: <
http://www.cdh.uchile.cl/media/seminarios_talleres/Ley_no_discriminacion_Chile.pdf>. Acesso em 13 fev. 2017.

46
preconceitos de origem, raça,

menção do artigo 4º da Carta Magna, que, em seu inciso II, dita que a República é regida pelo
princípio da prevalência dos direitos humanos30.
Se realizado for o mais simples cotejo entre os esclarecimentos jusfilosóficos e doutrinários
atrelados à dignidade humana e a sistemática dos direitos fundamentais brasileiros,
consubstanciados na Constituição da República, verificar-se-á que a concretização do
casamento homoafetivo é um direito humano.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman (2004, p. 104 - 105), com destacada lucidez, tece
comentários esclarecedores a respeito da dignidade humana, os quais merecem ser
reproduzidos. Em suas próprias palavras:

Não é apenas que a vida digna e o respeito devido à humanidade de cada ser humano se
combinem num valor supremo que não pode ser superado ou compensado por nenhum
volume ou quantidade de outros valores, mas que todos os outros valores só são valores na
medida em que sirvam à dignidade humana e promovam a sua causa.
De outra banda, Jürgen Habermas, filósofo e sociólogo alemão, ensina que o sentido de
dignidade humana é atualizado com o desenrolar do tempo histórico, fazendo com que sejam
aprofundados os direitos humanos fundamentais já assegurados, bem como construídos novos
direitos que também exigem efetivação (HABERMAS, 2012).
Michael Hardt e Antonio Negri31 (2016, p. 13), em seu estudo crítico a respeito do mundo
precisa de força para se impor aos poderes
dominantes e desmantelar suas instituições corruptas, para só então poder criar um novo
mundo de bem-
Em outras palavras, percebe- - seguindo,
inclusive, os dizeres do mandamento cristão -
(BAUMAN, 2004, p. 103).
-se mister desmanchar o
inatacável véu de igualdade formal criado pelos donos do poder, segundo os quais inexistem
- 358).

30
Cf. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 27 fev. 2017.
31
Michael Hardt e Antonio Negri elucidam que tanto a hierarquia de gênero, quanto a hierarquia racial precisam

HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Bem-estar Comum. Trad. de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2016, p.
367.

47
Trabalhadores, mulheres, LGBT, crianças, adolescentes, idosos, deficientes, indígenas e negros,
todos padecem das insuportáveis mazelas de uma sociedade de classes, tremendamente
desigual, dividida entre exploradores e explorados, opressores e oprimidos, privilegiados e
marginalizados.
Em um mundo onde foi proclamado que as diferenças de classe, gênero e raça foram
superadas, torna-
os grupos vulneráveis, os quais, por óbvio, compõem a maioria populacional (HARDT; NEGRI,
2016, p. 358).
Ora, homofobia32 e heteronormatividade caminham juntas, e, assim, precisam ser abertamente
combatidas. Só desse modo a instituição do casamento poderá concretizar um ambiente
igualitário, aberto e livre de hierarquias opressoras (HARDT; NEGRI, 2016).
Curioso registrar, uma vez mais e de modo específico, que a própria família costuma ser um
locus privilegiado que acaba por perpetuar a hierarquia de gênero, a heteronormatividade e a
constante violência contra homossexuais, algo recentemente confirmado pela Associação SOS-
Homophobie, da França (DUPONT, 2017).
Segundo a SOS-Homophobie, 15% dos testemunhos de vítimas que sofreram homofobia,
praticada em 2016, na França, estão adstritos ao âmbito cotidiano da vida familiar, consistindo
não só em violência física, mas também em perseguição moral e chantagens diversas para que
o indivíduo homossexual se torne heterossexual (DUPONT, 2017).
Afinal, de maneira geral, a estrutura mesma da família contemporânea que encontra no
casamento sustentáculo fundamental - ainda é fortemente pautada em uma visão violenta e
excludente do amor, da diversidade, da liberdade e da harmonia entre pessoas diferentes e
irrepetíveis (HARDT; NEGRI, 2016).
Por oportuno, valioso mencionar, ainda, que a temática sub examine não se resume apenas a
uma questão de tomada de consciência algo que soaria demasiado singelo e leviano -, mas,
sim, de combate tenaz, de reestruturação das instituições sociais, maculadas por uma série de
fatores políticos, econômicos e mesmo culturais.
5 CONCLUSÃO
O presente trabalho contemplou a temática do casamento homoafetivo mediante a coleta de
contribuições propedêuticas e especialmente interdisciplinares, percorrendo desde

32

Ana Maria C. Castro. Direitos Humanos: questões atuais sobre a violência contra LGBT. In: SOUSA, Ana Maria
Viola de; NASCIMENTO, Grasiele Augusta Ferreira; ZUÑIGA, Noé Lópes. Direitos Humanos e Minorias. Lorena:
UNISAL, 2014. Disponível em:
<http://www.lo.unisal.br/direito/semidi2014/publicacoes/livro4/Ana%20Maria%20Carvalho%20Castro%20Capuch
o%20e%20Ana%20Maria%20Viola%20de%20Sousa.pdf>. Acesso em 27 fev. 2017.

48
lineamentos históricos e religiosos até a questão pontual da regulamentação jurídica no
mundo hodierno.
A fim de ilustrar a aludida regulamentação jurídica, recorreu-se ao direito comparado,
trazendo o exemplo da legislação chilena em paralelo ao direito brasileiro.
Vislumbrou-se que o casamento homoafetivo é uma conquista histórica de uma minoria que
por muitos séculos permaneceu perseguida, ou ao menos invisível, obnubilada pela sombra do
preconceito e da intolerância, desprovida de qualquer respeito por sua dignidade humana.
O casamento ou a união homoafetiva, imbricado em toda complexidade e detalhamentos
técnicos inerentes aos ordenamentos jurídicos hodiernos, acaba por ser um fenômeno jurídico
razoavelmente recente, remontando, quando muito, ao início da década de noventa, a partir de
quando os homossexuais - e também todo o movimento LGBT - passaram a desfrutar de maior
visibilidade na sociedade contemporânea.
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2014.
ALI, Ayaan Hirsi. Herege: por que o islã precisa de uma reforma imediata. Trad. de Laura
Teixeira Motta e Jussara Simões. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
ALVES, Alaôr Caffé. Dialética e Direito: linguagem, sentido e realidade. Barueri: Manole, 2010.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. de Carlos
Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 27 fev. 2017.

______. Supremo Tribunal Federal. Ação Direita de Inconstitucionalidade nº 4277/DF.


Requerente: Procuradoria-Geral da República. Relator: Min. Ayres Britto. Brasília, j. 05 maio
2011a. Disponível em: <
http://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=AC&docID=628635>. Acesso em: 15
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______. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 1.183.378/RS. Recorrente: K.R.O e
L.P. Recorrido: Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul. Relator: Min. Luis Felipe
Salmão. Brasília, j. 25 out. 2011b. Disponível em: <
https://jurisprudencia.s3.amazonaws.com/STJ/IT/RESP_1183378_RS_1330972067974.pdf?Sign
ature=uG522giztGFE6DM5dphqBiwCfKw%3D&Expires=1487172521&AWSAccessKeyId=AKIAI
PM2XEMZACAXCMBA&response-content-type=application/pdf&x-amz-meta-md5-
hash=6614bce5618ad15c0806d4ac79e931ac>. Acesso em: 15 fev. 2017.

49
______. Projeto de Lei do Senado nº 612 de 2011c. Altera os arts. 1.723 e 1.726 do Código Civil,
para permitir o reconhecimento legal da união estável entre pessoas do mesmo sexo.
Disponível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/102589>.
Acesso em: 22 fev. 2017.
______. Resolução do Conselho Nacional de Justiça nº 175, de 14 de maio de 2013. Dispõe sobre
a habilitação, celebração de casamento civil, ou de conversão de união estável em casamento,
entre pessoas de mesmo sexo. Disponível em: <
http://www.cnj.jus.br/images/imprensa/resolu%C3%A7%C3%A3o_n_175.pdf>. Acesso em: 22
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CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Disponível em:
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CHILE. Decreto com fuerza de Ley 1, de 30 de mayo de 2000. Fija texto refundido, coordinado
y sistematizado del Codigo Civil; de la Ley nº4.808, sobre registro civil, de la Ley nº17.344, que
autoriza cambio de nombres y apellidos, de la Ley nº 16.618, Ley de menores, de la Ley nº
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impuesto a las herencias, asignaciones y donaciones. Biblioteca del Congreso Nacional de
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50
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Acesso em: 27 fev. 2017.

51
SUPREMO reconhece união homoafetiva. Notícias STF. 05 maio 2011. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=178931>. Acesso em: 14
fev. 2017.

52
DIREITOS HUMANOS E CINEMA: NOVA METODOLOGIA DO ENSINO JURÍDICO
33

34

RESUMO: No ensino jurídico, um dos principais desafios é o estabelecimento de uma conexão


entre a teoria legislativa e doutrinária com a prática profissional aos futuros aplicadores do
direito. Como metodologia do ensino jurídico, propomos o cinema como um método didático
intraclasse, na qual mediante o exercício de análise, de interpretação, de questionamentos e
reflexões, permitirá aos alunos estabelecer, de maneira versátil, habilidades e competências
para o exercício da função jurídica, enriquecendo, notadamente, sua compreensão acerca da
emblemática temática dos direitos humanos.
PALAVRAS-CHAVE: Ensino Jurídico; Metodologia; Cinema; Direitos Humanos
ABSTRACT: In law's education, one of the main challenges is the establishment of a
connection between the legislative and doctrinal theory with the professional practice to the
future applicators of the law. As a methodology of legal education, we propose cinema as an
intraclass didactic method in which, through the exercise of analysis, interpretation,
questioning and reflection, students will be able to establish, in a versatile way, skills and
competences for the exercise of the legal function, becoming notably enricher their
understanding of the emblematic human right theme.
KEYWORDS: Legal Education; Methodology; Cinema; Human Rights.
1 INTRODUÇÃO
O ensino jurídico no Brasil tem sido muito criticado pelo uso de metodologias tradicionais de
conteúdo exclusivamente técnico. Comumente, os recém-formados deparam com algumas
dificuldades gerando insegurança no exercício de sua profissão.
Essa situação, aliada à constante evolução da sociedade em todos os aspectos, exige das
Instituições de Ensino, novas metodologias e orientações.
As denominadas Metodologias Ativas, embora inicialmente tenham sido objeto de aplicação
nas áreas médicas e de saúde, estudos mais recentes indicam-nas também às demais áreas,
demonstrando maiores preocupações com os formandos que irão trilhar sua atuação
profissional na complexa vida em sociedade.

33
Pós-doutora em Democracia e Direitos Humanos, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra,
Portugal. Doutora e Mestre em Direito das Relações Sociais, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Professora e pesquisadora nos cursos de graduação em Direito da UNIP e da UNIVAP. Professora e pesquisadora na
graduação e no Curso de Mestrado em Direito da UNISAL. Advogada em São José dos Campos, São Paulo, Brasil. E-
mail: amvds@uol.com.br
34
Mestrando em Direito, pela UNISAL. Graduado em Direito pela UNIVAP, Advogado em São José dos Campos, São
Paulo, Brasil. E-mail: lucas.s.almeida@uol.com.br

53
Assim como em outras áreas do conhecimento, o ensino jurídico não pode ficar alheia à
renovação metodológica. Isto porque o sistema de ensino jurídico exige que se forme
profissionais não apenas com extremo saber técnico e legal, mas também com aguçada
capacidade para transformar a realidade, estruturando e reestruturando conceitos, adequando
a hermenêutica para aplicação justa e correta do Direito.
Nesse caminho, o presente trabalho tem como objetivo refletir sobre a influência dos Direitos
Humanos e das novas metodologias, utilizando como ferramenta didática o cinema para
cumprir a missão do ensino jurídico, através de pesquisa, inovação e criatividade, constituir-se
na força imprescindível para construção de uma sociedade inclusiva, egressando profissionais
com uma formação integral e comprometidos com a realização dos Direitos Humanos.
2 O ENSINO JURÍDICO E DIREITOS HUMANOS
O ensino jurídico tem sido pautado, em termos genéricos, por metodologias de caráter
exclusivamente técnico, com transmissão de conhecimentos acabados e imutáveis. Essas
metodologias revelam-se tradicionalmente como meios de condicionar o pensamento do aluno
impondo um conjunto de saberes prontos, direcionando suas interpretações jurídicas a um
ponto de vista fixo e limitado.
Essas atuações provocavam, muitas vezes, insatisfação nos alunos pela desconexão entre o
conhecimento adquirido e a atuação prática, pela ausência de significado entre teoria e vida
prática, pela incoerência entre seus estudos e a profissão, além de gerar insegurança no
exercício profissional na sociedade.
Era, portanto, necessário, repensar o ensino jurídico. Era preciso buscar o sentido da
educação: não apenas como transmissão de conhecimento dos mais velhos aos mais jovens,
mas como um processo que fortalecesse e integrasse o indivíduo na sociedade, que tivesse
capacidade de interferir no meio em que vive, objetivando melhor qualidade de vida, que
exercitasse a solidariedade, que incorporasse valores de respeito à diversidade e à tolerância,
que lutasse pela redução das desigualdades. E isto só seria conseguido, se houvesse uma
educação orientada pelos Direitos Humanos.
Embora a evocação dos Direitos Humanos na educação inicialmente proposta tenha sido uma
tendência estritamente pedagógica no que se refere à formação permanente dos educadores
(PARRA, 2012, p. 150), aos poucos, o processo educativo à luz das diretrizes humanísticas,
assumia mudança sociopolítica e se orientava para a construção não apenas de uma cultura de
direitos humanos, mas abarcava também a dimensão social, envolvendo metodologias que
propunham diálogos de cordialidade entre educando e educadores (VIOLA, 2010, p. 25).
No Brasil, o Programa Nacional de Direitos Humanos adotou a inclusão da "educação e cultura
em Direitos Humanos", como um dos eixos temáticos, explicando que
[...] a educação e a cultura em Direitos Humanos visam à formação de nova mentalidade
coletiva para o exercício da solidariedade, do respeito às diversidades e da tolerância. Como

54
processo sistemático e multidimensional que orienta a formação do sujeito de direitos, seu
objetivo é combater o preconceito, a discriminação e a violência, promovendo a adoção de
novos valores de liberdade, justiça e igualdade. (BRASIL, 2010).
No que tange ao sistema de ensino jurídico, Linhares (2009, p. 69) afirma que há uma luta
interna entre a transmissão de cultura conservadora e uma nova tarefa revolucionária da
educação, de modo que ambas as forças são consideradas "horizontes opostos em direção aos
quais a educação tenta caminhar, mantendo a tensão, o conflito e a dialética entre o velho e o
novo". Isso porque o sistema de ensino jurídico exige, não apenas um saber, ou seja, a
reprodução do conhecimento já existente e consolidado, mas também o fazer, ou seja, a
capacidade de transformar a realidade, estruturando e reestruturando constantemente os
conceitos, adequando a hermenêutica para aplicação correta e justa do Direito.
O documento produzido pela UNESCO - Declaração Mundial Sobre o Ensino Superior no
Século XXI: Visão e Ação35 - em 1998, já enumerava no artigo 1º, a missão e as funções do
ensino superior, que serão as seguintes:
a) educar e formar pessoas altamente qualificadas, cidadãs e cidadãos responsáveis, capazes de
atender às necessidades de todos os aspectos da atividade humana, oferecendo-lhes
qualificações relevantes, incluindo capacitações profissionais nas quais sejam combinados
conhecimentos teóricos e práticos de alto nível mediante cursos e programas que se adaptem
constantemente às necessidades presentes e futuras da sociedade;
b) prover um espaço aberto de oportunidades para o ensino superior e para a aprendizagem
permanente, oferecendo uma ampla gama de opções e a possibilidade de alguns pontos
flexíveis de ingresso e conclusão dentro do sistema, assim como oportunidades de realização
individual e mobilidade social, de modo a educar para a cidadania e a participação plena na
sociedade com abertura para o mundo, visando construir capacidades endógenas e consolidar
os direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a democracia e a paz em um contexto de
justiça;
c) promover, gerar e difundir conhecimentos por meio da pesquisa e, como parte de sua
atividade de extensão à comunidade, oferecer assessorias relevantes para ajudar as sociedades
em seu desenvolvimento cultural, social e econômico, promovendo e desenvolvendo a
pesquisa científica e tecnológica, assim como os estudos acadêmicos nas ciências sociais e
humanas, e a atividade criativa nas artes;
d) contribuir para a compreensão, interpretação, preservação, reforço, fomento e difusão das
culturas nacionais e regionais, internacionais e históricas, em um contexto de pluralismo e
diversidade cultural;

35
O texto da Declaração Mundial Sobre o Ensino Superior no Século XXI: Visão e Ação está disponível na biblioteca
virtual da USP, em www.direitoshumanos.usp.br>acervo. Acesso em 20 fev. 2017.

55
e) contribuir na proteção e consolidação dos valores da sociedade, formando a juventude de
acordo com os valores nos quais se baseia a cidadania democrática, e proporcionando
perspectivas críticas e independentes a fim de colaborar no debate sobre as opções
estratégicas e no fortalecimento de perspectivas humanistas;
f) contribuir para o desenvolvimento e melhoria da educação em todos os níveis, em particular
por meio da capacitação de pessoal docente.
A UNESCO, no Comunicado de 2009 oriundo da Conferência Mundial de Educação Superior
ocorrido em Paris naquela data, reconhecia que a educação superior, avançando na pesquisa,
inovação e criatividade, se constituía na "força maior na construção de uma sociedade
inclusiva e de conhecimento diversificado", estabelecendo, dentre as responsabilidades sociais,
[...] o dever de aumentar o foco interdisciplinar e promover pensamento crítico de forma a
contribuir para o desenvolvimento sustentável, a paz, o bem estar e a realização dos Direitos
Humanos. (UNESCO, 2009).
Desse modo, os alunos não buscam no ensino superior, apenas instrução e técnicas de
pesquisa, mas, a formação integral do ser humano, assim como o estudante de Direito não
deve estar adstrito apenas aos termos da lei, senão também comprometido com a
complexidade da vida em sociedade.
Num cenário de constantes transformações que alteram a realidade nos âmbitos social,
econômico, tecnológico, científico, político, filosófico, cultural, o ensino jurídico não pode
estar afastado dos acontecimentos fáticos. E mais, como afirma Linhares (2009, p. 250), o
próprio docente da área jurídica se vê desafiado para compreender o que se passa ao seu redor,
com a emergência de novas necessidades exigindo dele a reformulação de instrumentos
capazes de satisfazer esses novos direitos.
No Brasil, as diretrizes nacionais para o curso de Direito estão evidenciadas na Resolução
CNE/CES nº 9/2004, incluindo como elemento estrutural do projeto pedagógico, diferentes
"modos de integração entre teoria e prática" (art. 2º, § 1º, inc.V) significando que o aluno deve
consolidar os conhecimentos teóricos e aplicá-los na prática consubstanciado principalmente
nas atividades desenvolvidas no Estágio Supervisionado, o Trabalho de Curso e Atividades
Complementares (BRASIL, 2004).
A preocupação com a formação do aluno de Direito também vem estampado nas disposições
do art. 3º da Resolução CNE/CES 9/2004:
Art. 3º - O curso de graduação em Direito deverá assegurar, no perfil do graduando, sólida
formação geral, humanística e axiológica, capacidade de análise, domínio de conceitos e da
terminologia jurídica, adequada argumentação, interpretação e valorização dos fenômenos
jurídicos e sociais, aliada a uma postura reflexiva e de visão crítica que fomente a capacidade e
a aptidão para a aprendizagem autônoma e dinâmica, indispensável ao exercício da Ciência do
Direito, da prestação da justiça e do desenvolvimento da cidadania. (BRASIL, 2004).

56
Para que o aluno tenha efetivamente este perfil será necessário que ele obtenha orientações de
uma aproximação disciplinar, identificado nas relações interdisciplinares, transdisciplinares e
multidisciplinares com outras áreas do saber. Com todo esse cabedal de instrumentos o
operador do Direito pode aproximar-se do seu objetivo com espírito aberto e flexível,
devidamente capacitado para compreender as rápidas e constantes mudanças sociais,
interpretando as normas com espírito crítico, reflexivo e responsável (LINHARES, 2009, p.
342).
Embora existam obstáculos e desafios para o ensino jurídico, é essencial não perder de vista o
compromisso de considerar a educação, à luz dos Direitos Humanos, um processo capaz de
construir a emancipação de todos os seres humanos, direcionando-lhes os rumos para trilhar o
caminho do exercício pleno da cidadania, permitindo uma existência digna e autônoma.
3 ABORDAGEM METODOLÓGICA
Na avaliação de Mercado (2016, p. 266) as práticas jurídicas preconizadas pelas diretrizes do
curso de Direito continuam sendo adotadas com uma abordagem de ensino tradicional,
geralmente associada às aulas expositivas, monólogas e cansativas.
A constante evolução tecnológica influenciando todo o modo de vida da sociedade, exige que
os profissionais universitários tenham uma formação com novas capacidades, competências e
habilidades para lidar com as transformações.
Com vistas a essa necessidade as Instituições de Ensino Superior intensificaram estudos e
discussões na busca por uma melhor metodologia, atribuindo um novo enfoque, valorizando o
aluno como protagonista do seu próprio aprendizado.
Essas metodologias ficaram conhecidas como Metodologias Ativas. Estudos realizados por
March (2006, p.42) demonstram que não existe um método melhor que outro de forma
absoluta, porém destaca algumas características. Por exemplo, para a aquisição de
conhecimento e compreensão da informação, qualquer método é adequado; já para
desenvolver o pensamento crítico, analítico e criativo, os métodos centrados nos alunos são
mais eficientes, concluindo o autor que, muitas vezes, os resultados dependem muito mais do
esforço, quantidade e qualidade do trabalho pessoal do aluno do que do método em si.
Existem diversos tipos de metodologias identificadas genericamente como ativas. O elemento
que assim as caracteriza é o foco que confere maior autonomia aos estudantes. Desenvolvem-
se sob práticas pedagógicas éticas, críticas, reflexivas e transformadoras (MITRE et al. 2008, p.
2.134).
March (2006, pp 45-50) descreve diversas metodologias, por exemplo: aprendizagem
cooperativo, aprendizagem orientado a projetos, contrato de aprendizagem, aprendizagem
baseado em problemas, estudos de casos e simulação e jogo, todas passíveis de serem
utilizadas com grandes chances de se obter resultados desejados.

57
A aprendizagem cooperativa é a técnica em que os alunos trabalham e são avaliados segundo a
produtividade do grupo, devendo ser determinas claramente as tarefas e as responsabilidades
de cada integrante, requerendo dos alunos a interdependência positiva, interação pessoal,
habilidades para trabalho em grupo.
A aprendizagem orientada a projetos pressupõe a existência de um projeto ou programa de
intervenção profissional, em torno do qual se articulam todas as atividades formativas. O
professor atua como tutor e orientador, permitindo o trabalho multidisciplinar; o aluno é o
protagonista, desenvolve prática de gestão de atividades e aprende a se autoavaliar.
No contrato de aprendizagem o professor desenvolve um trabalho autônomo, exclusivo,
mediante um acordo entre aluno e professor. Permite atenção individualizada do aluno por
parte do professor, que também responde pela definição dos objetivos, da sequência e
supervisão dos estudos. O aluno trabalha sozinho.
A aprendizagem baseada em problemas, é a estratégia, através da qual, os alunos aprendem a
partir de um problema, podendo ser individual ou coletivo. Descrito e delimitado o problema,
devem os alunos buscar a informação para compreendê-lo, refletir e propor a melhor solução.
O professor faz o papel de supervisor, assessor, tutor que gerencia e facilita o processo de
aprendizagem. Aos alunos cabe buscar informações necessárias, investigar, analisar, sintetizar,
trabalhando o aspecto individual e coletivo, desenvolvendo habilidades cognitivas e de
socialização, mantendo uma atitude positiva ante os problemas.
O estudo de casos é uma técnica na qual os alunos analisam situações de concepção
experimental. O professor apresenta um caso real e completo. Os alunos realizam pesquisas
permitindo a discussão e a análise do tema, propõe hipóteses que, ao final, poderão ser
comprovadas ou refutadas. Geralmente é bastante motivador.
A técnica de simulação e jogo é uma prática bastante útil no ambiente escolar, onde os alunos
ainda não estão totalmente preparados para enfrentar problemas reais. São utilizadas
situações inventadas. O professor dirige a situação e estabelece a dinâmica da atividade. Os
alunos experimentam novas ideias e se tornam ativos. Eles são estimulados a valorizar as
descobertas através da criatividade e interpretações, utilizando da própria experiência. É
considerada uma aprendizagem agradável.
Tem-se ainda a técnica do portfólio reflexivo que se constitui numa atividade na qual o
estudante documenta, registra e estrutura as ações, as tarefas e a própria aprendizagem por
meio de um discurso crítico e reflexivo, elaborado de forma contínua, avaliando a atividade
educacional vivenciada; tem como fundamento o intercâmbio de informações (COTTA,
COSTA & MENDONÇA , 2013, p. 1.849). Pode se constituir também numa coletânea de
impressos, registros, memórias, subjetividades, destacando opiniões, vivências, dúvidas,
análises críticas dos temas, práticas, relatos de dificuldades e sentimentos dos estudantes; é um
mecanismo de aprendizagem que utiliza a construção pelo próprio aluno, permitindo o

58
respeito à individualidade, o limite e a especificidade de cada ator, favorecendo o diálogo e
uma aprendizagem significativa (CARDOSO, OLIVEIRA, COSTA & ROZENDO, 2015, p. 444).
Para Mitre et al. (2008, p. 2.135) embora a graduação dure poucos anos, a atividade profissional
para o qual o aluno vai ingressar permanece por vários anos. Nesse espaço os conhecimentos
vão se inovando e as competências vão se modificando, exigindo do profissional "aprender a
aprender", ou seja, estar em constante processo de aprendizagem. Razão pela qual deve ser
pensada numa metodologia progressiva, que implique formar profissionais capacitados mas
flexíveis para intervir com sucesso nos "contextos de incertezas e complexidades".
Mas, adverte March (2006, p. 43), não basta apenas eleger uma determinada metodologia; é
necessário que os próprios docentes estejam preparados para refletir sobre o que fazer, como
fazer e qual resultado se deseja obter para que a estratégia escolhida seja eficiente, podendo,
sempre que necessário mudar os instrumentos utilizados; ter em mente que nas Metodologias
Ativas o aluno é responsável pelo seu próprio aprendizado, que busca, seleciona, analisa e
avalia as informações, assumindo papel mais ativo na construção de seu próprio
conhecimento.
Morán (2015, p. 22) analisa que a metodologia ativa pode trilhar quaisquer caminhos, o
importante é que os projetos estejam ligados à vida dos alunos e às suas motivações. Sua
implementação porém, explica este autor, exige adaptação à realidade de cada instituição seja
em termos físicos, humanos ou técnicos.
De uma forma genérica pode-se afirmar que na denominada Metodologia Ativa, qualquer que
seja o tipo utilizado, deve ser capaz de:
- desenvolver a capacidade intelectual e profissional dos alunos, principalmente a de reflexão,
análise, síntese, arrazoabilidade, avaliação;
- desenvolver destreza de comunicação, principalmente saber escutar, perguntar, defender
uma postura e responder à parte contrária;
- desenvolver valores e atitudes, como a autoestima, autoconfiança e responsabilidade;
- desenvolver capacidade de trabalho em equipe, como o planejamento, organização,
distribuição de tarefas, supervisão;
- desenvolver prática reflexiva, avaliar seus êxitos e fracassos, aprender com erros e planejar a
aprendizagem futura;
- aprimorar técnicas de pesquisa, elaborar hipóteses, sugerir propostas e soluções;
- apreender o enfoque integral, apresentando soluções criativas aos casos ou problemas
apresentados.
- saber colaborar com outras pessoas, mas ao mesmo tempo personalizar individualmente seu
próprio percurso de aprendizado;

59
- favorecer a participação ativa do aluno, de modo autônomo e independente, através da
observação, experimentação, criação e execução, de forma a aprendizagem se tornar
significativa.
Ao professor cabe a tarefa de direcionar, supervisionar, controlar, estimular, valorizar, atuar
como curador, tutor, orientador que cuide, estimule e inspire os alunos a agir.
É conveniente, afirma Morán (2015, p. 25) que o docente adote, equilibradamente, atividades
que desenvolvam competências individuais e coletivas, utilizando nos processos a inter, a
trans e a multidisciplinaridade.
4 O CINEMA COMO ESTRATÉGIA DIDÁTICA
As ferramentas e estratégias para o professor dinamizar o processo de ensino-aprendizagem
nas metodologias ativas são incontáveis. Numa sociedade extremamente digital e midiática,
como a que se apresenta atualmente, Mercado (2016, p. 264-265) sugere a utilização da TIC -
Tecnologia da Informação e Comunicação, a qual se configura como interface de produtos
interativos, multimídia, com incorporação de textos, narrativas, imagens, animações, filmes,
vídeo, som; um programa aberto e permanente, acessível e sem limitação geográfica, podendo-
se valer de toda a potencialidade da internet e recursos online nos seus próprios
computadores.
Dentre essas ferramentas, no presente trabalho escolheu-se o cinema. O cinema, assim
considerado uma produção cinematográfica, reconhecido como "sétima arte", foi sempre
apreciado como arte e entretenimento. O cinema há muito tempo tem contribuído para o
ensino de conteúdos didáticos em várias disciplinas escolares. Caparrós-Lera & Rosa (2013, p.
191) sintetizam que o uso do cinema na escola remonta à época da Primeira Guerra Mundial,
na Europa; no Brasil, tem-se notícia que se iniciou nos anos 1920, com os denominados "filmes
educativos". Desde então o cinema como instrumento didático tem sido difundido nas diversas
áreas de estudo e em diferentes níveis de ensino.
Do ponto de vista pedagógico, Martins (2014, p. 39), faz uma clara distinção entre ferramenta e
estratégia de ensino: o cinema utilizado como ferramenta de ensino, atua como auxiliar para
explicar um determinado tema ou lição. Tem como objetivo o uso meramente exemplificativo
ou ilustrativo. Já o cinema utilizado como estratégia de ensino é admitido em sua
substancialidade, ou seja, deve ser apreciada a película como um todo. Tem como objetivo
levar o aluno a pensar, sentir e refletir, o que implica numa participação ativa do aluno e do
professor.
O cinema como estratégia no ensino jurídico, explica a autora, implica algumas limitações. A
grande dificuldade se encontra no "esforço de contextualização" na qual há grande risco de a
representação dar margem a correlações distorcidas levando também a ignorar aspectos não
jurídicos (MARTINS, 2014, p. 43). E, como resultado do esforço de contextualização, poderá
provocar, não só a perda do foco da disciplina, como trazer risco de fragmentação se a
disciplina não dispuser de um período contínuo de tempo para preparação e execução da
60
atividade, além de lidar também com a questão da conveniência do uso em uma única
disciplina ou de um ciclo extracurricular (MARTINS, 2014, p. 44).
Tendo em mente essas limitações, ambas as formas poderão ser utilizadas, sugerindo uma
posição híbrida: ora como ferramenta, ora como estratégia (MARTINS, 2014, p.53),
dependendo dos objetivos a serem alcançados.
De todo modo, o cinema na educação pode assumir diversas funções (CASTRO, 2016, p. 446-
447):
(a) investigativa - em que os casos hipotéticos retratados no cinema permitem abordar
conceitos, discutir processos, auxilia na elaboração de hipóteses, estimulam pesquisas que se
convertem em informações úteis para a formação do aluno;
(b) interpretativa - como vertente criativa, o cinema incentiva a exploração reflexiva, podendo
o aluno aproveitar as potencialidades para analisar e constituir seu próprio ponto de vista, na
medida em que o leva a questionar e a demonstrar pensamento divergente.
(c) o cinema pode assumir também um papel de agente, na medida em que transmite
conceitos e valores vigentes no momento que retrata a película. Isto permite construir a
história, através da pesquisa para compreender o mundo em que vive o aluno. (CAPARRÓS-
LERA & ROSA, 2013, p. 199).
Sem dúvida, assistir a um filme, é momento de diversão, relaxamento e lazer; embora tenha
sido produzido como forma de entretenimento, a sua utilização no ambiente educacional traz
muitos benefícios: constitui uma inovação prática, facilita o processo ensino-aprendizagem, é
mais atraente para o aluno, promove aprendizagens significativas, estimula pesquisa,
desenvolve sentido crítico sobre temas e problemas, contextualiza o tema do ponto de vista
jurídico, desenvolve capacidade de reflexão, enriquece a capacidade argumentativa, permite
abstração fazendo conexão entre a ficção e a vida real, facilita o debate para um direito
comparado, promove uma visão multicultural promovendo o respeito pela diversidade, entre
tantos outros.
No cinema o direito se mostra em seu contexto social. Normalmente, a produção artística,
embora não retrate efetivamente um problema jurídico, traz em sua narrativa várias
dimensões sociais complexas que se entrelaçam na trama do filme. Este ponto de vista
holístico amplia a visão sobre o conjunto da realidade, levando o aluno à compreensão dos
significados inseridos na própria cultura, transcendendo as dicotomias conhecido-
desconhecido, realidade-ficção, verossimilhança-ilusão, presente-passado e futuro,
aprofundando o campo da visibilidade (SOUSA & NASCIMENTO, 2011, p. 122).
5 CONCLUSÕES
A aplicação das Metodologias Ativas no sistema de ensino jurídico embora indique ser uma
produção positiva, é necessário observar a implicação de algumas variáveis como o contexto,

61
os recursos disponíveis, as características dos alunos, os objetivos, o momento da intervenção,
entre outras.
Por ser uma metodologia é composta de regras o que exige passos para a sua implantação,
critérios e planejamento, portanto. Adiciona-se ainda a existência de diversos tipos, de modo
que a implantação de um, em especial, não significa método excelente, único e exclusivo, pois,
pode não lograr os objetivos esperados.
O importante a concluir é que a Metodologia Ativa propõe a participação ativa do aluno, cuja
responsabilidade pelo aprendizado depende diretamente de sua atividade, tornando-se,
portanto, um desafio para o estudante, de quem se espera alto grau de maturidade, e que seja
capaz de permanecer aprendendo, se inovando, se modificando em constante processo de
aprendizagem significativa.
A utilização do cinema como instrumento de ensino favorece uma visão mais completa da
prática jurídica, pois promove a capacidade de fazer uma transposição dos fatos narrados e
expressos no filme para os fatos convencionais da vida real, reconhecendo as consequências
reais dos efeitos das disposições jurídicas, como fruto de pesquisa, análise, crítica, reflexão,
buscando a argumentação e a fundamentação, sempre à luz das orientações dos Direitos
Humanos.
Ao professor cabe conscientizar-se de seu novo papel, não mais como o cátedra dominador,
mas como orientador, assessor, apoiador e incentivador para fortalecer a autonomia e a
independência do aluno.
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63
64
PENSANDO A EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL E O DIREITO HUMANO AO
DESENVOLVIMENTO PELA PROSPECTIVA DA COMPLEXIDADE DE EDGAR MORIN
36

37

Nos dias certos, nos dias exteriores da minha vida,


Nos dias de perfeita lucidez natural,
Sinto sem sentir que sinto,
Vejo sem saber que vejo,
E nunca o Universo é tão real como então,
Nunca o Universo está (não é perto ou longe de mim,
mas) tão sublimemente não-meu.38
Resumo
O trabalho reflexiona sobre o direito humano à educação socioambiental pela prospectiva da
complexidade, divulgada por Edgar Morin, indagando sobre referida realidade que, quando
afrontada, desperta valores da essência humana, trazendo à baila, mudanças de
comportamentos que desembocam atitudes proativas do homem em prol da sociedade, do
meio ambiente e do homem. Valores da essência humana, como é o caso da misericórdia e da
caridade, corroboram a construção da equidade dulcificadora, despertada pela hermenêutica
jurisdicional e celebrada pelo Papa Francisco ao invocar a Ecologia Integral na Encíclica
-natureza e do equilíbrio
ecológico.

36
Pós-Doutora em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra - Ius Gentium Conimbrigae.
Graduada, Mestre em Direito das Relações Sociais e Bi-Doutora em Direito Privado e em Direitos Difusos e
Coletivos, todos pela PUC/SP. Professora e pesquisadora nos Programas de Graduação e Pós-Graduação da PUC/SP
e do Mestrado em Direito do UNISAL-
Membro das Comissões de
Direito Civil e da Pessoa com Deficiência da OAB/SP. Avaliadora do INEPE. E-mail: regvboas@terra.com.br -
http://lattes.cnpq.br/4695452665454054

Pós-Doutora em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra - Ius Gentium Conimbrigae.
37

Mestre e Doutora em Direito das Relações Sociais pela PUC/SP. Professora e pesquisadora no Programa de
Mestrado em Direito do UNISAL-Lorena (SP). Diretora operacional do UNISAL. Líder do Grupo de Pesquisa

(UNESCO/UNISAL).Professora da FEG/UNESP. Membro da Academia de Letras de Lorena.


38
Fernando Pessoa. Poemas Escolhidos de Alberto Caeiro. Publicado em Portugal por Assírio & Alvim. 1ª Edição.
Porto Editora: Junho 2013, p.118. E-mail: contato@grasielenascimento.com.br -
http://lattes.cnpq.br/6018912730948860

65
Mergulhando no mundo da cultura e da educação socioambiental, reflexiona sobre padrões de
crenças, costumes e comportamentos sociais, deduzindo que a evolução intelectual, moral e
civilizatória é transmitida entre gerações pela linguagem, invisível e naturalmente, afirmando
a relação existente entre a cultura e o modo de vida, pensamento e ação humana.
Vale- preender que os
vícios, virtudes e conhecimentos acumulados por culturas comunitárias distintas, se
manifestam nas populações de nações que possuem regras político-econômico-jurídico-
ambientais distintas, e que, quando mantêm contato, propiciam o desenvolvimento de regras e
comportamentos comuns, arraigando à essência humana valores oriundos de condutas

ura massiva influencia o


desenvolvimento da consciência coletiva, e provoca o reencontro do caráter da cultura
folclórica, que alimenta mentes humanas pelas danças, jogos, filmes e novelas, propiciando a
universalização dos conteúdos das culturas, muitas vezes, manipuladoras.
Trazendo referidas lições à década atual, que enfrenta degradações de todas as ordens, nos
âmbitos social e ambiental, influenciando sobremaneira as culturas contemporâneas, diz-se
que é imperioso o exercício de um agir reflexivo, que concretize no sistema educacional a
obrigatoriedade do ensino socioambiental, capaz de afastar o cidadão da exploração massiva
do hiperconsumo e da participação na degradação do meio ambiente, ambos promovendo a
degeneração dos valores da essência humana, ao mesmo tempo em que influenciam culturas.

-07) é trazido aos estudos para mostrar que as carências do


pensamento redutor podem e devem ser superadas, integrando-se ambos os pensamentos - o
simples e o complexo -, facilitando o reencontro do homem (social) com a natureza, o que deve
ser observado a partir de olhar amplo, atento, articulado, abrangente das diversas e distintas
dimensões do conhecimento, tendo a certeza de ele (conhecimento) é incerto e incompleto. A
educação socioambiental pode propiciar esse ensino-aprendizado, unindo e articulando

(ind
necessidade da proteção aos direitos humanos, considerado em todas as suas dimensões, além
de lembrar o direito humano ao desenvolvimento, que reforça a necessidade de a sociedade
contemporânea compreender e praticar a pluri, a multi, a trans e interdisciplinaridade na
efetivação dos direitos humanos fundamentais, entre os quais o direito humano ao
desenvolvimento.
I - NOTAS INTRODUTÓRIAS: PENSAMENTO COMPLEXO, SOCIEDADE GLOBALIZADA E
EDUCAÇÃO SOCIOAMBIENTAL
Pela prospectiva da complexidade, pensada e divulgada por meio da doutrina de Edgar Morin,
torna-se necessário trazer-se à baila reflexões sobre o direito humano à educação

66
socioambiental, recordando que a realidade social e ambiental vivida pelo homem
contemporâneo é conturbadora e afronta, muitas vezes, valores já consagrados e arraigados na
essência humana, durante a trajetória da sua existência.
Existem valores que devem ser preservados na essência do homem. A misericórdia, a gratidão,
a compaixão e a bondade, entre outros, compreendidos a partir da aproximação e do
envolvimento do homem com o seu semelhante (o outro), são valores que implicam condutas
edificadoras da equidade dulcificadora, revelada pela hermenêutica jurídica, a qual deve ser
reproduzida nos âmbitos social, econômico, político, ético, jurídico, ambiental e educacional,
entre tantos outros, na busca da continuidade da humanidade.
Referidos valores essenciais que vêm sendo celebrados por muitos humanistas, notadamente
por pensadores do Direito, atualmente, estão sendo exaltados com muito entusiasmo pelo

O incrível jesuíta argentino, Papa Francisco, atualmente personagem maior do Estado Católico
Vaticano, conclama a harmonia simbiótica que deve pautar a integração entre o homem e a
sociedade com a natureza, viabilizada pela proteção e manutenção do equilíbrio ecológico,
mantenedor de todos os sistemas ecológicos, necessários à vida, humana ou não.
Entendimento melhor, desse contexto, requer um mergulho no mundo da cultura, da natureza
e da educação socioambiental, perquirindo-se sobre o significado de cada destes planos e
conceitos que envolvem referidas realidades. Requer trazer-se à apreciação, questões
cotidianas relevantes, relacionadas aos padrões das crenças, costumes e comportamentos dos
homens e dos distintos grupos sociais, buscando entender a respeito da evolução intelectual,
moral e civilizatória pelas quais eles passam.
Lembra-se que os valores agregados à consciência individual e/ou coletiva são transmitidos
aos homens e aos seus grupos, de maneira natural e invisível, estando a cultura relacionada aos
modos de vida, cognição e ação, transmitidos pelos homens às futuras gerações, o que se dá
por meio da linguagem.

cultura como vetores relevantes a serem considerados nas reflexões que envolvem a sociedade
globalizada. Esta se manifesta por nações integradas, de culturas comunitárias distintas, e que
buscam, pelo menos em tese, agregar regras políticas, econômicas, jurídicas e ambientais,
conforme necessidades e interesses dos grupos que dela participam. Reforça que a evolução, a
assimilação e a transmissão dos valores essenciais do homem, que se formam a partir da
repetição de comportamentos - que podem ser violentos e/ou virtuosos -, integram a cultura
dos homens e dos grupos de homens, chegando às gerações futuras, esquadrinhando sobre a
influência da cultura massiva, na formação e desenvolvimento da consciência social coletiva.
Extrai-se, também, que a sociedade massiva apresenta características marcantes, recordando o
reencontro do caráter da cultura folclórica nas danças e jogos, em razão da presença viva
67
destas tradições, que aguçam os sentidos humanos (audição e visão, notadamente), fazendo
com que referidas culturas se apropriem e universalizem os conteúdos dos folclores. Exemplo
disso são os filmes que retratam o antigo oeste americano, influenciando tantas outras
culturas, e manipulando sociedades. Perscruta que, somente um agir reflexivo, pode libertar
essa sociedade de referida manipulação, o que deve ser feito, por meio da efetivação de plano
envolvente de ensino-aprendizado de educação socioambiental, capaz de retirar o cidadão da
massa ignorante e vulnerável à ânsia exploratória do consumo e da degradação do meio
ambiente, inclusive cultural. (MORIN, 1977, pp. 54 e 62)
O pensamento complexo de que se vale Morin, para orientar seus principais estudos, supera as
privações do pensamento redutor, integrando o pensamento simples ao complexo,
propagando o conhecimento simbiótico entre o homem e a realidade natural, trazendo à
memória que a complexidade brota da fenda existente no pensamento simplificador, que
ignora resultados truncados, olha a realidade a partir de um só prisma. E mais: pretende o
pensamento complexo articular os campos disciplinares que se desdobram do pensamento
simplificador, porque ele - pensamento complexo - é inter, trans e multidimensional, na
medida em que abarca diferentes realidades e compreende que o conhecimento é incompleto
e incerto39.
Para tanto, imperiosa a efetivação de uma educação socioambiental, que promova um ensino-
aprendizado, que integre as diferentes realidades disciplinares, tendo norte na integração do

de uma educação para os


direitos humanos, que consiga ensinar a todos os valores humanos e ambientais relevantes,
contidos nestes direitos, de tal maneira que todos possam compreender as dimensões dos
direitos humanos fundamentais, a exemplo do direito ao desenvolvimento humano ao
desenvolvimento, que reforça a necessidade de a sociedade contemporânea se abrir para abrir
a sua visão para os estudos interdisciplinares.
II - DIREITO HUMANO AO DESENVOLVIMENTO E A COMPLEXIDADE
A Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento das Nações Unidas de 1986 inclui a

multidisciplinar, de forma a incluir a diversidade da realidade econômica e social dos países


integrados por fa
novos contornos ao direito ao desenvolvimento, notadamente nos âmbitos econômico,
cultural, social e político. A grande contribuição da Declaração de 1986 foi de trazer à tona as
mais diversas perspectivas contempladas pelo direito ao desenvolvimento social, político e
econômico, os quais repercutem nos demais âmbitos: cultural, ambiental, invadindo a esfera
dos direitos humanos e centralizando o homem como sujeito de direitos.

39
MORIN, idem, op. cit.pp.06 e 07.

68
Observa-

Estados, dá lugar ao Direito Humano ao Desenvolvimento (DHD), incentivando e priorizando


o direito preocupado com o indivíduo, o ser humano, identificando - nas dimensões individual
e coletiva - o sujeito do processo de desenvolvimento, indo além do desenvolvimento somente
econômico, na medida em que passa a se preocupar com outras realidades. (DELGADO, 2001,
passim).

não contempla somente realidades, indicadores e níveis de crescimento econômico, já que

E continua Sen, afirmando que na perspectiva da relação desenvolvimento-liberdade, o direito


ao desenvolvimento revela sua vulnerabilidade quando se encontra dissociado dos planos
econômico, social, político, cultural e civil, cultural, entre outros, na medida em que uma
vulnerabilidade pode desencadear outras vulnerabilidades, que se manifestam nos demais
âmbitos, revelando que a negação de uma liberdade implica a negação de outras liberdades.
Entende o autor que as liberdades se completam e não podem ser retiradas do indivíduo, para
que a plenitude do direito humano ao
desenvolvimento consiste na eliminação de privações de liberdade que limitam as escolhas e

10).
Importante a lembrança de que no mundo pós-moderno muitos sofrem privações de suas

associadas a saber ler e fazer cálculos aritméticos, ter participação política e liberdade de
e
-se afirmar, a partir dos ensinamentos de
em especial, no
que condiz ao direito à autodeterminação, no sentido individual e coletivo do indivíduo, para o

unicamente econômica, e abordando as dificuldades carreadas pela globalização, de maneira

rovérsia é a desigualdade no equilíbrio geral dos

somente considerar se os pobres ganham algo com a globalização, mas saber se, nela,
participam com equidade de oportunidades (SEN, 2010, p.32).

69
Pois bem: os estudos e lições de Amartya Sen apontam as dificuldades do homem,
notadamente, do homem pobre (de baixa ou nenhuma renda), em enfrentar as dificuldades
reservadas pelo do mundo globalizado. A desigualdade na distribuição das riquezas (e rendas)
é enorme, gerando desconforto e injustiça entre os homens de grande poder aquisitivo e o de
pequeno ou nenhum poder aquisitivo (o homem pobre), havendo imperiosa necessidade de se
reformar instituições e sistemas de controle sociais, em especial os que se referem à destruição
de rendas, havendo carência na oferta de oportunidades aos mais pobres (de baixa ou
nenhuma renda).
O pensamento de Amartya Sen revela a necessidade de se pensar o direito ao
desenvolvimento, pela prospectiva inter, trans, pluri e multidisciplinar, em que as variadas
realidades que circundam o homem e o meio ambiente se comuniquem, de maneira
integrativa, impondo a proteção, manutenção, tutela e efetivação dos direitos humanos,
notadamente, dos direitos humanos fundamentais, envolventes das dimensões social, coletiva
e difusa, em proveito da existência do indivíduo, notadamente do miserável, pobre e
desprotegido, cujos âmbitos frequentados estejam aquém de referidas proteções.
Nesse sentido, a doutrina do pensamento complexo, apresentada por Morin, perpassa os
caminhos divulgados por Amartya Sen, ao se reportar ao direito ao desenvolvimento, que
considera na sua formação, culturas e individualidades que precisam ser respeitadas, neste
processo de desenvolvimento, lembrando que o caráter universal e definidor da globalização
explica, entre outros, os conceitos de indivíduo, coletivo, costumes e culturas.
Tudo isso, selecionando meta-pontos que são considerados pela doutrina do pensamento
complexo, como vetores relevantes e, muitas vezes, imprescindíveis, no plano da
transversalidade, na medida em que dão o norte e auxiliam a compreensão, distinção e
fundamentação das realidades, as quais transpassam os direitos humanos, desafiando a
participação social, contributiva da distribuição do desenvolvimento, e que se mostra
necessária à doação das ideias sobre o desenvolvimento, consistente no procedimento de
ampliação das liberdades concretas usufruídas pelas pessoas, consideradas como protagonistas
das transformações mundial e das realidades da vida.
No plano internacional consagrado pela resolução n°41/128 da Assembleia Geral das Nações
Unidas, de 04.12.86 - manifestação jurídico normativa, reconhecida como Declaração sobre o
Direito Humano ao Desenvolvimento, restou reconhecida a relevância da participação dos
povos para o Desenvolvimento, reforçando-se a ideia do Direito Humano ao Desenvolvimento,
conforme disposto nos artigos 1º e 2º, que destacam: a) ser o direito ao desenvolvimento, um
direito humano inalienável, em razão de estarem, os povos e a pessoa humana, habilitados à
participação de amplo desenvolvimento, dele desfrutando, e reconhecendo que os direitos
humanos e as liberdades fundamentais são concretizados, plenamente; b) ser a pessoa humana
sujeito central do desenvolvimento, e participante ativa e beneficiária do direito ao
desenvolvimento; b) serem os humanos responsáveis pelo desenvolvimento, individual e
coletivo, considerado o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, além dos
70
deveres, junto à comunidade, os quais, sozinhos, podem assegurar a realização livre e
completa do ser humano, promovendo e protegendo uma ordem política, social e econômica
apropriada ao desenvolvimento; c) os Estados têm o direito e o dever de formular políticas
nacionais adequadas ao desenvolvimento, que busquem o constante aprimoramento do bem-
estar da população e dos indivíduos, com base em sua participação ativa, livre e significativa
no desenvolvimento e na distribuição equitativa dos benefícios daí resultantes.
Apesar de o direito ao desenvolvimento humano sustentável estar previsto em documentos
históricos, requeridos documentos, por si só, não criam melhores condições de vida e bem-
estar aos indivíduos, apesar do reconhecimento da sua importância, com base nas lutas sociais,
que almejam a transformação, envolvente das mudanças, que consideram a pluralidade e
multiculturalidade das sociedades, a partir da transformação e do controle social.
III NOTAS CONCLUSIVAS: DESENVOLVIMENTO HUMANO SUSTENTÁVEL,
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E TRANSDISCIPLINARIDADE
Não é suficiente à compreensão humana que o objetivo principal do desenvolvimento social,
econômico, jurídico, cultural e ambiental, entre outros seja somente a busca de ações
participativas para construí-lo, em conjunto com o Estado, sendo necessária a participação do
desenvolvimento humano sustentável, à plena realização do desenvolvimento pleno.
Necessário, também, que a pessoa humana se sinta empoderada e emancipada para poder
participar efetivamente da transformação, criação e manutenção do desenvolvimento humano
sustentável, entendendo-se que o desenvolvimento sustentável requer a participação ativa na
sociedade, a qual exige que os beneficiários deste desenvolvimento sejam, também, indutores
e construtores deste.
A participação social no desenvolvimento humano sustentável mostra-se muito importante,
quando enfrenta o contexto de uma sociedade plural e multicultural, lembrando que no
contraponto das múltiplas maneiras de viver e de ver o mundo, está um espaço globalizado,
orientado por valores do consumismo universal e do capitalismo, que tendem a querer reduzir
o desenvolvimento humano sustentável ao espectro econômico, colocando à apreciação, a
exclusão social e a miséria, notadamente.
Trazendo as lições de Edgar Morin no contexto do desenvolvimento humano sustentável,
aprecia-se, em primeiro lugar, o âmbito em que se realiza a interdisciplinaridade, lembrando,
que no plano educativo, se reúnem componentes curriculares de determinadas áreas de
conhecimento (cursos), interagindo em plataformas de diferentes complexidades, a partir de
perspectivas interdisciplinares, multidisciplinares, pluridisciplinares e transdisciplinares.
Farias e Sonaglio (2013, p. 72-80) conceitua o vocábulo: transdisciplinaridade como sendo
uma proposta relativamente recente no campo epistemológico e representa um nível de
integração disciplinar além da interdisciplinaridade. A importância deste novo método de
análise da problemática, a transdiciplinaridade, pode ser constatada por meio da

71
recomendação instituída pela UNESCO (1998) em sua conferência mundial para o ensino
superior. Jean Piaget afirmou, em 1970, durante um congresso sobre interdisciplinaridade, que
aquela etapa deveria ser sucedida por uma etapa transdisciplinar. A visão transdisciplinar é
deliberadamente aberta, na medida em que ela ultrapassa o domínio das ciências exatas pelo
seu diálogo e a sua reconciliação não somente com as ciências humanas, mas também com a
arte, a literatura, a poesia e a experiência interior
Veja-se, então, que o método interdisciplinar tanto autoriza a prática pedagógica na discussão
e reflexão crítica dos temas abordados em determinados currículos de cursos, propiciando
reflexões contemporâneas sobre as reformas educacionais, assim como, permite diálogos entre
as realidades da vida e as esferas dos saberes, das quais participam as pessoas, em proveito dos
seres, humanos ou não, tendo em vista que o amplo âmbito do meio ambiente deve aqui ser
considerado.
Invoca-se, por exemplo, no plano educacional, a Resolução CNE/CSE nº 9/2009, que instituiu
diretrizes curriculares do curso de graduação em Direito, as quais devem ser observadas e
incluídas no projeto pedagógico do curso de Direito pelas IES. Entre referidas diretrizes,
destaca-se o estabelecimento de eixos de formação geral, fundamental e a prática do bacharel,
com destaque para os eixos fundamental, profissionalizante e prático, relacionados os
conteúdos respectivos, não restritos ao âmbito dogmático, e que devem ser estudados de
maneira sistemática e contextualizada com as transformações sociais, econômicas, políticas e
culturais nacionais internacionais (BISSOLI FILHO, 2012, p. 32).
O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais e o Sistema Nacional de Avaliação
da Educação Superior (INEP/SINAES, 2012) esclarece sobre a importância da
interdisciplinaridade, lembrando que ela proporciona uma estratégia de abordagem do
conhecimento, que se realiza entre duas ou mais disciplinas ou unidades curriculares, as quais
são oferecidas, de maneira simultânea, facilitando a análise de seus conteúdos, de maneira a
serem pensados com maior abrangência, favorecendo, com isso, uma visão crítica e reflexiva.
Edgar Morin, entende que o conhecimento é melhor compreendido e transmitido a partir de
visão transdisciplinar que promove os saberes, a partir da transversalidade e do
comprometimento com a prática humanista das disciplinas ensinadas nos cursos.
A vigente Constituição da República Federativa do Brasil dispõe no texto do artigo 206, que o
ensino será ministrado baseado nos princípios da igualdade de condições para o acesso e
permanência na escola; da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento,
a arte e o saber; do pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de
instituições públicas e privadas de ensino, entre outros.
Observa-se, do texto constitucional, que referidos princípios norteadores do ensino pretendem
garantir ensino-aprendizagem compatível com a contemporaneidade, permitindo a busca de
padrão de qualidade e de reflexões que viabilizem a efetivação do sistema educacional, a partir

72
da construção, transmissão e renovação constante do conhecimento, que coloque em
destaque, entre os personagens do âmbito educacional, notadamente o aluno e o professor.
Edgar Morin, em entrevista concedida ao Programa Roda Viva, na TV Cultura/SP, em 18.12.00,
afirma que todo pensamento é uma construção e reconstrução do saber, que percebe e admite
falhas e imperfeições. Nesse sentido, alimentar a reforma do pensamento exige a não
fragmentação do mesmo, com a finalidade de se ganhar um maior conhecimento da
humanidade.
Saber o que existe no entorno do homem e do meio ambiente é compreender a existência
simbiótica de ambos - homem e meio ambiente -, que se revela harmoniosa, exigindo do
homem um agir reflexivo, em prol da vida, da saúde, da alimentação adequada, da educação
ambiental, do combate: à desnutrição, à pobreza, à miséria e ao desrespeito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, em proveito das presentes e futuras gerações.
No contexto, conhecer os problemas humanos, que invocam a problemática ambiental, de fato,
é um desafio que invoca as diferentes esferas dos saberes, unindo conhecimentos das ciências,
tecnologias e políticas públicas, conhecendo e expandindo as variadas culturas, em respeito às
diversidades.
Trazer o pensamento de Edgar Morin no contexto das lições do presente artigo, que procura
refletir sobre a cultura, a educação socioambiental, os direitos humanos, notadamente o
direito humano ao desenvolvimento, tudo realizado pela prospectiva da complexidade, requer
ir além das disciplinas; requer pensar na reforma do pensamento, a partir da compreensão da
transversalidade, que se utiliza do pensamento organizador que religa as realidades humanas,
selecionando meta-pontos de vista, que reúnem conhecimentos e aproxima as ciências da
humanidade, a partir de uma ética que produz um ensino-aprendizagem, concretizando o
direito fundamental à educação socioambiental, que valoriza o direito ao desenvolvimento
humano, resgatando valores da essência humana, respeitando os ecossistemas.
A transversalidade adotada vai além das disciplinas porque as atravessa, valendo-se de meta-
pontos, que sustentam à construção dos saberes e reforçam as reflexões humanizadas.
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76
O DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO ADEQUADA
40

41

Resumo
O artigo reflexiona sobre o direto que todo homem tem à alimentação adequada, abordando a
sua relação com a fome, a pobreza e a alimentação inapropriada, revelando questões
relevantes sobre a fome no Brasil e as maneiras existentes de se assegurar e garantir a
efetividade do direito à alimentação, adotando-se políticas públicas voltadas à alimentação
adequada, a partir de abordagem à Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Observa que
todo homem tem direito a um conjunto (mínimo) de direitos humanos, consagrados por
diversos ordenamentos jurídicos como direitos fundamentais, os quais devem ser respeitados
pelos demais, estando presente entre referidos direitos, o direito social à alimentação.
Inadmissível que nesta era contemporânea, milhões de pessoas, vivam, ainda, miseravelmente,
sem desfrutar uma alimentação, minimamente adequada às sobrevivências (o mínimo
existencial). O estudo constata que o cenário mundial, infelizmente, é dividido entre os ricos e
os pobres, estando estes privados de muitos dos seus direitos fundamentais, entre os quais,
notadamente, o direito social à alimentação. Diante do modelo social e econômico nacional,
principalmente com relação à ausência de programas e de política pública relacionada ao
abastecimento alimentar, um grande desafio nacional a ser enfrentado se refere à
concretização do acesso ao direito humano à alimentação adequada, saudável e sustentável, o
qual invoca a Lei nº 11.346/2006, que ao criar o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional (SISAN) objetiva assegurar à população carente, referido direito humano à
adequada alimentação. O estudo mostra que, nos últimos anos, ocorreram avanços sociais no
Brasil (e no mundo), relacionados ao combate à fome e à pobreza, mas que, ainda estão muito
distantes de consolidar a superação da fome e da miséria, no país (e no mundo). Conclui que
há muito, ainda, a ser fazer no tocante ao acesso à alimentação, e que uma sociedade baseada

40
Pós-Doutora em Democracia e Direitos Humanos pela Universidade de Coimbra - Ius Gentium Conimbrigae.
Graduada, Mestre em Direito das Relações Sociais e Bi-Doutora em Direito Privado e em Direitos Difusos e
Coletivos, todos pela PUC/SP. Professora e pesquisadora nos Programas de Graduação e Pós-Graduação da PUC/SP
e do UNISAL/Lorena. Coordenadora do Projeto de Pesquisas "Direito, Complexidade e risco" e do Projeto
"Fundamentos e efetividade da tutela dos Direitos", integrante Projeto "Direito Minerário", todos da PUC/SP.
Professora e Pesquisadora no Programa de Mestrado em Concretização dos Direitos Sociais, Difusos e Coletivos do
UNISAL-Lorena (SP), integrando do Grupo de Pesquisas Minorias, discriminação e efetividade de direitos e do
Observatório de Violência nas Escolas (UNESCO/UNISAL). Membro das Comissões de Direito Civil e da Pessoa
com Deficiência da OAB/SP. Avaliadora do INEPE. E-mail: regvboas@terra.com.br -
http://lattes.cnpq.br/4695452665454054
Mestranda em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo. E-mail: durcelana@hotmail.com
41

http://lattes.cnpq.br/1543810316645867

77
caminhos à uma nova e mais justa civilização.
Palavras-chave: Direito Humano; Fome; Alimentação Adequada. Justiça Social
Resumen: El artículo reflexiona sobre el derecho que todo hombre tiene a una alimentación
adecuada, dirigiéndose a su relación con el hambre, la pobreza y la dieta inadecuada,
revelando preguntas relevantes sobre el hambre en Brasil y las formas existentes para asegurar
y garantizar la eficacia el derecho a la alimentación, la adopción de políticas públicas a una
alimentación adecuada, a partir enfoque de la seguridad alimentaria y nutricional (SAN). Se
señala que toda persona tiene derecho a un conjunto (mínimo) de los derechos humanos
consagrados en los diferentes sistemas legales como los derechos fundamentales que deben ser
respetados por los demás, estando presente entre esos derechos, el derecho social a la
alimentación. Inaceptable que en esta era contemporánea, millones de personas viven, incluso
miserablemente, sin disfrutar de una alimentación, mínimamente adecuado para la
supervivencia (el mínimo existencial). El estudio revela que el escenario global, por desgracia,
se divide entre los ricos y los pobres, y éstos se ven privados de muchos de sus derechos
fundamentales, incluyendo, en particular, el derecho social a la alimentación. Antes de que el
modelo económico y social nacional, en particular en cuanto a la ausencia de programas y
políticas públicas relacionadas con el suministro de alimentos, un reto nacional importante
que se plantea se refiere a la ejecución del acceso al derecho humano a una alimentación
adecuada, sana y sostenible, que invoca la ley N ° 11.346 / 2006 para crear el Sistema Nacional
de Seguridad alimentaria y nutricional (SISAN) tiene por objeto garantizar a la población
necesitada, dijo derecho humano a una alimentación adecuada. El estudio muestra que en los
últimos años, ha habido progreso social en Brasil (y el mundo), en relación con la lucha contra
el hambre y la pobreza, pero son todavía muy lejos de la consolidación de la superación del
hambre y la pobreza en el país (y en el mundo). Se llega a la conclusión de que todavía hay
mucho por hacer en cuanto al acceso a la alimentación, y una sociedad basada en la justicia
social debe proporcionar a cada uno, el acceso al "pan de cada día", elogiando el camino a una
nueva y más justa la civilización.
Palabras clave: derecho humano; el hambre; Una alimentación adecuada. justicia social
INTRODUÇÃO
Este estudo aborda o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), considerado um
direito fundamental, internacionalmente, assegurado a todos os indivíduos, reconhecido,
desde 1948, na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Aborda a questão da pobreza, contudo, a pobreza aqui discutida é a pobreza extrema, aquela
que mata, pois nesse caso o cidadão não tem acesso ao mínimo existencial. Grande parte da
população mundial se encontra dentro dessa faixa de pobreza e isso acontece por não lhe ser
garantido o direito econômico, a falta de trabalho para adquirir o mínimo para seu sustento.

78
Alguns até tem um rendimento, contudo, esses rendimentos não são suficientes para que se
possa adquirir uma alimentação adequada.
Neste contexto temos no mundo mais de um bilhão de pessoas em situação de insegurança
alimentar, principalmente nos chamados países em desenvolvimento, segundo a Organização
das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO).42 Essa mesma FAO afirma que
vivemos em um planeta que tem potencial para alimentar o dobro da sua população, e mesmo
assim, muitos morrem de fome, ou doenças ligada a alimentação inadequada.
Diante desse cenário mundial o Brasil assumiu o compromisso de garantir de forma prioritária
as questões referentes ao direito à alimentação, acrescentando-o na Constituição Federal
dentre os direitos sociais ali assegurados, e, também, através da Lei nº 11.346, de 15 de setembro
de 2006, a chamada Lei Orgânica da Segurança Alimentar e Nutricional, criando o Sistema
Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN).
É bom ressaltar que a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) de que trata a lei acima,
consiste na disponibilização de alimentos bem como o acesso dos indivíduos a essa
alimentação e que seja de qualidade e quantidade suficiente para a ingestão dos nutrientes
para a nutrição humana.
Ainda há muito a se fazer nessa seara, pois diante do modelo social e econômico nacional,
principalmente com relação à ausência de programas e de política pública relacionada ao
abastecimento alimentar, um grande desafio nacional a ser enfrentado, diz respeito à
concretização do acesso ao direito humano à alimentação adequada, saudável e sustentável.
Hoje, o Brasil é referência no tocante às políticas públicas de combate à fome. O Programa
Fome Zero busca garantir a inclusão social e a conquista da cidadania da população mais
exposta à fome.
Muitos esforços estão sendo realizados para garantir o DHAA, existindo, porém, uma grande
insegurança alimentar no país, o que impõe a necessidade de uma revolução cultural da
sociedade e do Estado à efetividade dos direitos humanos.
1 A POBREZA E A FOME VIOLANDO DIREITOS HUMANOS
O artigo 3º III, da CF/88 estabelece como objetivos fundamentais da República a erradicação
da pobreza, da marginalização e a redução das desigualdades sociais. Tem-se, no Brasil, a
Constituição da Repúblic
voltada à proteção dos direitos sociais, entre outros, selecionado para a presente pesquisa, o
direito à alimentação, que conclama a problemática da pobreza.
De início, discute-se a respeito do conceito de pobreza. É certo que a pobreza não é um
fenômeno fácil de ser conceituado, podendo ser apreciada por vários prismas, entre outros o
do biológico, do médico, do político, do sociólogo, do economista, considerada situação de que,

42
Disponível em: <http://www.fao.org/news/story/es/item/20694/icode>.

79
para a maioria das pessoas, a pobreza está relacionada diretamente ao fator econômico, sendo,
pois, medida com base nos rendimentos, a partir de fundamentos que levam em conta,
unicamente análises econômicas.
Ocorre que o interesse atual é a pobreza, com a visão de violação dos direitos humanos, e a
partir de uma vida digna. Não se pode falar em dignidade da pessoa humana quando milhões
de pessoas vivem em condições indignas por causa da pobreza. A definição de pobreza ora
esperada é aquela que está em desacordo com os direitos sociais, econômicos e,
principalmente, aquela que ofende aos direitos humanos e não unicamente aos que estão
relacionados aos padrões econômicos.
No sentido de violação dos direitos da pessoa humana, (Grove 2006, p. 52) destaca-se que:
... la pobreza es una privación o violación de los derechos humanos económicos, junto con
violaciones asociadas de derechos humanos sociales, culturales, civiles y políticos
interdependientes e nterrelacionados. Esta definición de la pobreza basada en los derechos
humanos implica reconocer la dignidad y el valor de cada ser humano y el derecho por igual de
todas las personas a gozar de sus derechos humanos inherentes e indivisibles. El aceptar la no
discriminación y la igualdad, que son el centro de los derechos humanos, incluye el
compromiso con la igualdad sustantiva o de hecho (igualdad de circunstancias básicas, así
como de los resultados) además de una igualdad formal o de derecho (igualdad ante la ley, en
potencia, a pesar de las enormes desigualdades estructurales). Los derechos humanos surgen
ante la interrogante de cuáles son los requisitos para llevar una vida digna.
Amartya Sen analisa a influência da situação da pobreza como um fator de desnivelamento
social e de redução do potencial de capacidades básicas dos indivíduos, e não somente como
expressão de baixa renda, ou ainda, de renda inferior ao patamar pré-estabelecido, fontes que
são vinculadas à situação de pobreza, esta considerada em razão das questões econômicas,
sociais e ambientais, tudo isso considerado e em conformidade com o conceito rawlsiano de
bens primários, conforme expõe o autor, a seguir.
(...) pessoas diferentes podem ter oportunidades completamente diferentes para converter a
renda em outros bens primários... a relação entre os recursos e a pobreza é variável e
profundamente dependente das características das respectivas pessoas e do ambiente em que
vivem tanto natural como social. (...) vários tipos de contingências que resultam em
variações na conversão da renda (SEN, 2010, p. 289).
Na visão de Sonia Rocha a pobreza pode ser vista de duas maneiras: a pobreza absoluta
intimamente ligada às questões de sobrevivência física do ser humano, quando não se atende
as suas necessidades básicas (mínimas) da vida e a pobreza relativa definida por ela como

(Rocha, 2011, p. 11), assim, na pobreza relativa o mínimo vital para a sobrevivência do ser
humano já lhe é assegurado.

80
Ainda, analisando-se o fenômeno pobreza, tem-se a concepção de Tauã Lima Verdan Rangel
que a conceitua unindo o campo econômico e social, e sob o prisma da dignidade da pessoa
humana, assim afirmando
(...) a pobreza baseia-se na acepção de necessidades fundamentais, estando em debate
várias dimensões inerentes à noção de recursos, abarcando rendimentos, bens de
capital, benefícios em espécie associados ao trabalho. Nesta perspectiva, pode-se
considerar como pobre aquele que não tem o que comer, é analfabeto, não tem
moradia, vive em condição precária de higiene, ou seja, não tem acesso a condições
mínimas de uma existência digna. (Rangel, 2015, p.80/81)
Então, de maneira geral, tem-se a pobreza como uma situação econômica e social
caracterizada pela falta daquilo que é necessário à subsistência de um ser humano,
encontrando-se muitos conceitos de pobreza, ao qual se junta a fome.
A pobreza não pode ser considerada apenas como um problema social, vai muito além disso,
ela é a negação dos direitos humanos aos mais pobres, lembrando que os direitos humanos
devem ficar indignados com essa humilhação, porque violam a dignidade humana.
Nesse sentido, afirma Habermas que o direito humano surge após a constatação da opressão,
da humilhação, da violação da dignidade humana, que é considerada fonte moral dos direitos
humanos. (Habermas, 2012, p.11)
Quando se afirma ser a pobreza uma violação dos direitos humanos, constata-se que os
direitos dos mais pobres estão limitados, ficando eles, privados dos bens necessários à
sobrevivência, entre os quais se encontra, notadamente, a alimentação. Esta deveria ser
assegurada a todos, resguardando a dignidade de cada um.
A ausência de alimentação retira a dignidade do ser, promove a pobreza e a degradação do ser
humano, motivando conflitos sociais, razões pelas quais ela deve ser combatida, sempre. A
erradicação da pobreza é dever do Estado e direito assegurado a todo cidadão.
Não há dúvidas de que, em qualquer parte do mundo, a pobreza é entendida como ausência ou
a privação de uma necessidade básica do ser humano, oscilando, muitas vezes, quanto à
intensidade desta privação. A falta de rendimentos impede que o indivíduo se alimente e,
sendo a alimentação, a primeira condição básica à sua sobrevivência, caso não efetivada,
poderá ocasionar o seu estado de indigência e, também, a sua morte.

universal e mata milhões de pessoas.


Na década de 40, Josué de Castro constata pelas suas investigações, que existe um grande
número de pessoas passando fome no Brasil, e no mundo. Tanto é verdade que, naquela época,
já se desenhava o mapa da fome no Brasil e a geografia da fome no mundo. Quase oitenta anos
Castro (1984) ensina que o direito

81
à alimentação é o primeiro dos direitos humanos e, talvez, o mais essencial deles, pois sem os
nutrientes vitais básicos, o ser humano não pode, literalmente, ser humano (CASTRO, 1984).
Hoje, o cenário nacional e do mundo é bem parecido com o cenário dos anos 40 e, conforme
pesquisa de 2013, do IBGE, em cada quatro lares brasileiros um vive em algum grau de
insegurança alimentar, significando que sete bilhões e duzentos bilhões de pessoas convivem
com a fome no Brasil. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2017) lança alerta
de que um milhão e quatrocentas mil crianças, enfrentam o risco de morrer de fome, em
quatro países: Iêmen, Nigéria, Somália e Sudão do Sul, este último declarando, oficialmente,
-se que o acesso à
alimentação (incluída a água) é considerado um direito humano básico, porque da alimentação
depende a sobrevivência do homem, implicando a sua falta, violação grave aos direitos
humanos.
A fome está sempre relacionada às desigualdades sociais, em qualquer lugar do mundo. O
enfraquecimento da fome, enfraquecendo as desigualdades sociais, requer imperiosa prática
da equidade, por parte do Estado, o qual deve desenvolver políticas públicas voltadas à
satisfação de necessidades dos mais carentes. O Estado deve facilitar, nesse sentido, uma
melhor distribuição de rendas e um maior acesso de todos aos bens e serviços públicos, dando
celeridade às inclusões sociais.
A redução das desigualdades sociais, meta estabelecida pelo artigo 3º da vigente Constituição
da República Federativa do Brasil, só poderá ser alcançada concretizando-se direitos sociais,
entre eles, o direito à alimentação adequada que é prioritário e de todos os seres humanos,
corrobora o combate à fome, e reduz o número de vítimas desta fatalidade, que é mundial.
O direito de se ter, todos os dias, o alimento adequado sobre a mesa, é de todo ser humano. E,
veja-se, é um direito do homem, e não, somente, um ato de caridade esperado por ele. O
Estado e qualquer ser humano deve sempre prestar a caridade, ofertando alimentos a quem
estiver deles desprovido, porém, cada homem, antes de se dizer satisfeito com a alimentação
recebida, de maneira caridosa, deve sim, cobrar do Estado a efetividade desta prestação,
porque a alimentação adequada é dever do Estado perante os homens do seu povo.
Alimentar-se de maneira adequada propicia o enfrentamento do estado da fome, corrobora a
realização da dignidade de cada ser, estando ele alimentado, e reduz as desigualdades sociais,
caminhando sempre na direção da concretização do princípio da solidariedade.
Deseja-
frente, afastando-se tabus antigos que, no lugar de auxiliarem no combate à fome, de um lado,
propiciam um afastamento de todos da problemática, um sentimento de repulsa e de
distanciamento e, de outro lado, corroboram a vergonha, a baixa-estima e a indignidade
daquele que sente fome. O combate à fome é uma luta de toda a sociedade, que busca a
concretização da igualdade social, razão pela qual ela deve ser denunciada, sempre.

82
2 DESAFIOS PARA GARANTIR A EFETIVAÇÃO DO DIREITO HUMANO À ALIMENTAÇÃO
ADEQUADA (DHAA)
O pensador alemão Bertolt Brechet43 uma boa posição social, falar

O pensador, ao criticar situações da vida burguesa, se vale da comida, reforçando a


importância e a prioridade da alimentação à vida saudável. A alimentação adequada está
inserida no rol dos direitos sociais (artigo 6º da CF), todos conquistados, ao longo dos séculos,
pelos movimentos sociais, passando a ser reconhecidos na esfera internacional, por meio de
documentos importantes, entre outros, a Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948);
o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), e as Diretrizes
Voluntárias da FAO/ONU (2002).
Alexandre de Moraes, assim conceitua os direitos sociais
(...) são direitos fundamentais do homem, caracterizando-se como verdadeiras
liberdades positivas, de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo
por finalidade a melhoria das condições de vida aos hipossuficientes, visando à
concretização da igualdade social, sendo consagrados como fundamentos do Estado
Democrático, pelo art. 1º, IV, da Constituição Federal. (Moraes, 2002, p. 202).

República Federativa do Brasil, no dia 04 de fevereiro de 2010, pela Emenda Constitucional nº


64. Sua tramitação no Congresso Nacional durou em torno de sete anos com a PEC nº 47/2003.
Os atores sociais que militam na política de segurança alimentar compreenderam a
importância de se acrescentar a alimentação, no rol meramente exemplificativo dos direitos
elencados no caput do artigo 6º. E ao atribuir status constitucional ao direito à alimentação,
apreendido como direito social, o Estado assume o dever de alimentar adequadamente e
prioritariamente o seu povo.
Lembra-se que o artigo 1º da Lei nº 11.346/06 dispõe ser dever do Estado assegurar o Direito
Humano à Alimentação Adequada. Referida Lei Orgânica de Segurança Alimentar e
Nutricional - LOSAN - nº 11.346/06 - foi sancionada em 15 de setembro de 2006, criando o
Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), o qual se refere à
disponibilização de alimentos e ao acesso dos indivíduos à alimentação, que deve ser de
qualidade e suficiente quantidade à ingestão de nutrientes, de maneira a nutrir o indivíduo, já

Bertolt Brechet é um pensador alemão, nascido em Augsburg (Alemanha), em 1898, importantíssimo personagem
43

do teatro, do século XX, e autor de inúmeros poemas críticos da arte e da vida burguesa, corroídas pela Primeira
Grande Guerra. Deixa o seu país (1933), com a ascensão de Hitler, exilando-se na Dinamarca e, após, nos Estados
Unidos da América, onde sobrevive realizando trabalhos para Hollywood. Volta à Alemanha em 1948, após residir
na Suíça, falecendo em Berlim, em 1956. Disponível em: < http://lionel-fischer.blogspot.com.br/2013/04/bertolt-
brecht-reflexoes-e-poemas-muito.html >. Acesso em: 12 abr. 2017.

83
que a alimentação que nutre cada indivíduo, não pode ser considerada alimentação, mas sim,
um ato de atulhar o estômago.
Nessa esteira, o Direito Humano à Alimentação Adequada e Segurança Alimentar e
Nutricional, pode ser conceituado como
(...) realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de
qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades
essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras da saúde, que respeitem
a diversidade cultural e que seja social, econômica e ambientalmente sustentáveis.
(GAMBA e MONTAL, 2009; p.44).
O direito à alimentação saudável e adequada é derivado do próprio direito à vida. É um direito
humano e fundamental à existência humana, porque é indispensável à sobrevivência do
homem, garantindo a sua dignidade e liberdade, além da igualdade entre todos os homens. O
direito à vida é considerado, por muitos, como o mais fundamental de todos os direitos
humanos, na medida em que, por ele, todos os outros direitos fundamentais podem ser
realizados.
As políticas públicas devem corroborar a concretização do direito humano à alimentação
adequada, melhorando as condições de insegurança alimentar enfrentada por todos os
indivíduos.
Contemporaneamente, as políticas públicas nacionais de combate à fome, colocam o Brasil em

Alimentar e Nutricional (SAN), ao buscar a inclusão social e a conquista da cidadania da


população, que se encontra exposta à fome.
Na década de 90, o sociólogo Hebert de Souza, Betinho44, fica conhecido como símbolo da

popul
número de 32 milhões de brasileiros vivia na linha abaixo da pobreza, índice de pobreza este,
considerado como um dos maiores enfrentados pelo Brasil, e que acaba ensejando o programa

45

objetiva garantir a segurança alimentar da população brasileira, assegurando cidadania às


populações vulneráveis à fome. Projeto ambicioso, propõe medidas que objetivam combater a
fome, criando modelo de desenvolvimento que, no lugar de descartar pobres e miseráveis, os
congrega, o que ocorre em todas as esferas sociais (federal, estadual e municipal). É

44
Disponível em: <http://quemdisse.com.br/frase/quem-tem-fome-tem-pressa/13555/ Acesso em > 14 abr.2017.
45
Disponível em: <http://quemdisse.com.br/frase/quem-tem-fome-tem-pressa/13555/ Acesso em > 14 abr.2017.

84
coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), que
desenvolve mais de trinta programas complementares, os quais se dividem em quatro eixos
articulados de acesso: aos alimentos, ao fortalecimento da agricultura, à geração de renda, e à
articulação, mobilização e controle social.
Nesse sentido, o eixo nº 1 que cuida do acesso aos alimentos, contém os programas e ações de
transferência de renda, alimentação e nutrição, além do acesso à informação e educação. O
eixo nº 2, que versa sobre fortalecimento da agricultura, busca o desenvolvimento de ações
específicas na agricultura familiar, promovendo a geração de renda no campo, e o aumento da
produção de alimentos para o consumo. O eixo nº 3, que trata da geração de renda, discorre
sobre o incentivo à economia solidária e desenvolve ações de qualificação da população de
baixa renda, corroborando a sua inserção no mercado de trabalho. O eixo nº 4 cuida da
articulação, mobilização e controle social, estimulando a sociedade a firmar parcerias com o
governo federal, realizando campanhas de combate à fome e de incentivo à segurança
alimentar e nutricional.
O combate à efetivação do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) enfrenta
inúmeros desafios, lembrando que a população brasileira tem o direito de exigir do Estado a
prestação deste direito humano, cujo cumprimento tem sido negligenciado por grande parte
da população brasileira.
E a pergunta que se faz: a quem cabe a fiscalização do cumprimento desta prestação pelo
Estado? Cabe a todos e a cada um da população, cabe às organizações da sociedade civil,
envolvidas de maneira direta com a defesa destes direitos, cabe às entidades estatais, que
exercem esta função social de fiscalização e defesa destes direitos. Afinal, está-se diante de um
interesse e direito coletivo e difuso, que pertence a todos, e deve ser protegido e fiscalizado por
todos.
Necessária uma consciência humanizada para se entender o significado dos direitos humanos,
e no que consiste o desrespeito a eles, consciência esta que deve existir por parte de todos:
detentores destes direitos, representantes da população junto ao Estado, incluídas as
organizações da sociedade civil, além do próprio Estado, por meio dos órgãos encarregados
desta defesa.
Necessária a confiança do povo em seus governantes e representantes, os quais devem estar
comprometidos com a população, atentos às problemáticas sociais, fazendo com que os
direitos humanos conquistados sejam garantidos e concretizados para todos e,
prioritariamente, para os mais carentes e menos afortunados, que enfrentam situações de
miserabilidade, sentindo fome, frio e desesperança.
Ainda, desafiando a proteção do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), faz-se
necessário o fortalecido das relações internacionais entabuladas entre o Brasil e países, as
quais objetivam o fortalecimento destes direitos humanos, relativamente à alimentação
adequada e à soberania alimentar. O Brasil encara desigualdades socioeconômicas, étnico-

85
raciais e de gênero, bem como enfrenta situações lamentáveis que envolvem a saúde, a
alimentação e a nutrição, além do difícil acesso às políticas públicas do SAN.
Considera-se essencial a promoção e a erradicação da pobreza extrema e da insegurança
alimentar moderada e grave, que ocorre em todo o território nacional. A desestabilidade é
percebida em diversos âmbitos, entre os quais se alerta para a qualidade e quantidade
suficiente de água a ser consumida diariamente. Muitas famílias enfrentam situações de
insegurança hídrica relacionada à produção de alimentos da agricultura familiar, pesca e
aquicultura, entre outros. O robustecimento das políticas relacionadas à reforma agrária
acontece pelo acesso à terra realizando o reconhecimento, a demarcação e a regularização das
terras ou territórios indígenas, quilombolas e demais povos e comunidades tradicionais. E, a
implementação da Política Nacional de Abastecimento Alimentar (PNAA) reforça o acesso
regular e permanente, que propicia a alimentação adequada e saudável.
3 DIREITO FUNDAMENTAL SOCIAL À ALIMENTAÇÃO NO MUNDO GLOBALIZADO: (IN)
EFETIVIDADE DE UMA ALIMENTAÇÃO ADEQUADA
O cenário mundial contemporâneo mantém nítida a divisão entre os ricos e os pobres, estes
últimos desprotegidos e privados dos seus direitos fundamentais, entre os quais, notadamente,
o direito social fundamental à alimentação.
No Brasil, a vigente Constituição da República Federativa do Brasil insere os direitos sociais,
em seu texto, o que, toda
sociais não conseguem ser concretizados, imediatamente, a todos do povo, o que implica não
possuírem referidos direitos, o status de direito fundamental autoaplicável, eis que Estado
coloca inúmeras restrições à efetividade destes direitos. Veja-se, entre outros, o programa

vinculados à uma escola, ou seja, devem os menores estarem estudando para que a família
tenha direito à referida bolsa. Ocorre, porém, que o Estado, muitas vezes, não consegue
garantir a matrícula dos menores, devido à falta de escolas, na região.
Relativamente ao direito à alimentação, a situação não é muito diferente da situação
relacionada à bolsa família e a dependência do vínculo escolar dos menores. É certo que os
governantes do Brasil têm sinalizado para acabar com a fome e a pobreza extrema no país, no
entanto, esses mesmos governantes, não conseguem garantir o empoderamento da população
pobre e carente, porque entre outras situações que retiram esta força das pessoas, o
desemprego, que é uma realidade gritante e crescente no país, impede a conquista desta
condição de empoderamento.
A efetivação do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) é necessária, devendo a
segurança alimentar e nutricional serem respeitadas e concretizadas como fatores de
equilíbrio das políticas e do desenvolvimento de uma nação, de um país.
Nessa esteira, Amartya Sen (2000, p. 189) afirma que

86
Uma pessoa pode ser forçada a passar fome mesmo havendo abundância de alimentos ao seu
redor, se ela perder o seu potencial para comprar alimentos no mercado, devido a uma perda
de renda (por exemplo, em consequência de desemprego ou de um colapso no mercado dos
produtos que essa pessoa produz e vende para se sustentar). Por outro lado, mesmo quando
um estoque de alimentos declina acentuadamente em um país ou região, todos podem ser
salvos da fome com uma divisão melhor dos alimentos disponíveis (por exemplo, criando-se
emprego e renda adicionais para as potenciais vítimas da fome).
Sen revela que a fome enfrentada pelos mais carentes pode se dar, entre outros fatores, pela
perda da renda, em razão do desemprego ou, também, pela diminuição súbita ou derrocada do
mercado relacionado ao produto produzido ou vendido por aquele transformado em vítima da
fome. Afirma ser possível a realização de uma divisão dos alimentos disponíveis, adotando-se
medidas sociais como a de se criar empregos extras para as vítimas potenciais da fome.
Tendo em vista que a globalização aumenta as desigualdades sociais, alijando pessoas da
sociedade, primando pela integração do mundo em um só mercado econômico, sendo que, ao
integralizar, potencializa o poder econômico dos países mais fortes, enfraquecendo os países
de economia mais fraca, reflete-se sobre a possibilidade (ou não) de estes países - de economia
mais fraca - conseguirem assegurar o mínimo existencial para a sua população, o mesmo
sucedendo no Brasil.
Apesar de o Brasil possuir programas sociais excelentes, conforme já revelado, a efetividade
dos mesmos, não ocorre com a mesma frequência, descumprindo expectativas anunciadas,
conforme se extrai das comunidades que acomodam os mais empobrecidos.
Constata-se que falta a educação, e que quando ela acontece, muitas vezes, não é inclusiva,
faltando saneamento básico, em decorrência da ausência de saúde, além de que faltam
empregos para a população, a qual, sem renda, não consegue adquirir alimentação adequada,
considerada a alimentação como um direito humano, que deveria ser garantido pelo Estado,
mas que não o é, de maneira efetiva. Verifica-se, também, que ocorre um descaso dos políticos
em relação às demandas da sociedade, a qual empobrecida ao extremo, ainda hoje, não tem o
que comer e, muitas vezes, não possuem nem o teto para morarem e/ou morrerem.
E, por fim, contemporaneamente ocorre um visível esvaziamento dos programas de
transferência de renda, inclusão social e acesso aos serviços públicos, lembrando-se que sem
inclusão social, não se efetiva a alimentação adequada, que reclama ausência da fome e
qualidade da dieta, objetivando garantir a todos uma competente segurança alimentar.
CONCLUSÃO
Os estudos reportam o intérprete concluir que, de alguma maneira, as políticas de erradicação
da fome e da pobreza extrema, vêm apresentando alguma falha na sua concretização,
necessitando de uma revisão no que toca à inclusão social, pois, do contrário não se teria a
estimativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2017) de 1,4 milhão de

87
crianças, correndo o risco de morrer de fome, em quatro países: Iêmen, Nigéria, Somália e
Sudão do Sul, somente no ano de 2017.
Um dos grandes desafios enfrentado pelos atores sociais que militam na política de segurança
alimentar f
artigo 6º da vigente Constituição da República Federativa do Brasil. Atingido referido desafio,
o Estado Brasileiro assume de forma prioritária o compromisso com a erradicação da pobreza
extrema e da insegurança alimentar com a efetivação do Direito Humano à Alimentação
Adequada (DHAA).
São evidentes os avanços e as conquistas no que se refere ao Direito Humano à Alimentação
Adequada (DHAA), contudo a segurança alimentar ainda caminha lentamente, iniciando os
seus primeiros passos, em relação ao Estado brasileiro. A realização efetiva do Direito Humano
à Alimentação Adequada e da segurança alimentar e nutricional, no contexto da soberania
alimentar, implica uma série de desafios a serem encarados pelo Estado e pela população
brasileira, no mundo. Necessário ressaltar que grande parte da população desconhece os seus
direitos fundamentais, e ainda, observam a questão alimentar como uma caridade, produzida
pelo Estado, não como uma garantia de direitos, faltando a referidas pessoas, informações
sobre seus direitos humanos e, consequentemente, desconhecimento das políticas públicas
ligadas à segurança alimentar. Não se conhecendo, não se há de cobrar do poder público o
cumprimento e a efetivação destes direitos.
A erradicação da pobreza extrema é o maior desafio a ser enfrentando por todos os
governantes no mundo na efetivação do Direito Humano à Alimentação Adequada.
ls, faz constar no prefácio
uma reflexão que merece destaque ao afirmar que o que move as pessoas, com muita sensatez,
não é a compreensão de que o mundo é privado de uma justiça completa coisa que poucos
esperam mas que à volta das pessoas, existem injustiças, notadamente, claras e remediáveis,
para serem eliminadas (Sen, 2011, p.9).
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90
UMA REFLEXÃO SOBRE JUSTIÇA AMBIENTAL NO BRASIL DO SÉCULO XXI: A
PARTIR DO CONCEITO TOMASIANO DE JUSTIÇA
46

47

conceito
de justiça desenvolvido particularmente na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino. A
reflexão procura, antes de tudo, situar as questões 57 e 58 da segunda seção da Segunda Parte

ampla de toda a Suma. Os artigos especificamente considerados dessas questões dizem


respeito à relação entre Direito e Justiça e à essência da Justiça, definida como hábito de uma
vontade reta, perpétua e constante com o objetivo de dar a cada um o que lhe é devido,
ressaltando-se a característica da alteridade, pois a justiça é sempre relativa a outrem. A
retomada deste tema volta-se, nesse trabalho, à problemática específica da Justiça Ambiental
no Brasil, cuja noção implica um direito ao meio ambiente seguro e ecologicamente
equilibrado, tal qual o previsto no caput do art. 225 da Constituição Federal de 1988,
visualizado de forma sistêmica, sob os aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos.
Assim, a realização de uma verdadeira Justiça Ambiental no Brasil ensejaria um meio
ambiente ecologicamente equilibrado, que possa ser democraticamente usufruído, e que, ao
mesmo tempo, haja o respeito às identidades e à dignidade das comunidades e dos cidadãos.
Nesses termos, o conceito de Justiça tomasiano vai ao encontro dessa temática, e por meio da
ideia, sobretudo de alteridade, traz um contributo relevante e atual para a questão.
Palavras-chave: Direito; Justiça; Pensamento Tomasiano; Justiça Ambiental.
INTRODUÇÃO
O tema da justiça está situado no contexto da filosofia política, social e no âmbito do Direito.
Trata-se de uma categoria com definições oriundas da Antiguidade e que acompanharam o
processo civilizatório até os dias de hoje. Trata-se, portanto, de um tema que pode ser refletido
em várias áreas e diferentes contextos, inclusive no que concerne a problemas que envolvem a
relação entre o homem e o seu meio, e as consequências que podem advir dessa relação.
O estudo objetiva analisar a temática da justiça ambiental, a partir do conceito de justiça
desenvolvido particularmente na Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, enquanto
essência da justiça, definida como hábito de uma vontade reta, perpétua e constante com o

46
Doutor em Teologia pela Pontificia Università Lateranense (Roma). Pós-Doutor em Democracia e Direitos
Humanos pela Universidade de Coimbra. Professor e Pesquisador no Programa de Mestrado em Direito do Centro
Unisal U.E. de Lorena (SP). E-mail: lino.rampazzo@uol.com.br
47
Doutora em Direito pela Universidade Federal de Santa CatarinaUFSC. Pós-Doutoranda em Direito pela
Universidade de São Paulo USP. Professora e Pesquisadora no Programa de Mestrado em Direito do Centro Unisal
U.E. de Lorena (SP). E-mail: patricianbianchi@gmail.com

91
objetivo de dar a cada um o que lhe é devido, ressaltando-se a característica da alteridade, já
que a justiça é sempre relativa a outrem.
Atualmente enfrenta-se um momento crise, o que demanda uma reflexão a respeito da forma
como a Humanidade vem se relacionando com o mundo natural. Não se pode negar o quanto a
problemática ambiental afeta a vida dos indivíduos, e, por isso, faz-se também importante uma
investigação no sentido de se entender as diferenças apresentadas na distribuição dos riscos e
danos ambientais.
A pesquisa volta-se à problemática específica da Justiça Ambiental no Brasil, cuja noção
implica um direito ao meio ambiente seguro e ecologicamente equilibrado, tal qual o previsto
no caput do art. 225 da Constituição Federal de 1988, visualizado de forma sistêmica, sob os
aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos.
O estudo parte da ideia de realização de uma justiça ambiental que ensejaria um meio
ambiente ecologicamente equilibrado, que possa ser democraticamente usufruído, e que, ao
mesmo tempo, haja o respeito às identidades e à dignidade das comunidades e dos cidadãos.
Nesses termos, o conceito de justiça tomasiano vai ao encontro dessa temática, e por meio da
ideia alteridade, traria um contributo relevante e atual para a questão.
Assim, será abordado, no subitem 1, o tema a colocação dos temas do Direito e da Justiça na
Suma Teológica. No subitem 2, tratar-se-á da relação entre o Direito e a Justiça, além de, no
subitem 3, a Essência da Justiça, todos tendo-se em vista os trabalhos de São Tomás sobre o
assunto.
No subitem 4, tratar-se-á do tema justiça ambiental em seus aspectos mais relevantes, tendo-
se em vista o presente estudo e, ao final, far-se-á uma relação entre o conceito de justiça
tomasiano e a justiça ambiental. Para tanto, utilizar-se-á o método indutivo como método de
abordagem, com base em pesquisa bibliográfica e documental.
Ressalta-

Humanos organizado em Santiago (Chile) pela Universidad Católica Silva Henríquez. Parte-se,
pois, da teoria de Justiça, desenvolvida por Santo Tomás para aplicá-la na área especificamente
ambiental dos Direitos Humanos.
1 A COLOCAÇÃO DOS TEMAS DO DIREITO E DA JUSTIÇA NA SUMA TEOLÓGICA
A questão 57 da segunda parte da Segunda Parte da Suma de Santo Tomás, que é considerada
sua obra principal, leva por título: De Iure, Sobre o Direito. Antes, porém, de indicar os artigos
em que a questão se divide, Santo Tomás mostra como este tema específico está inserido na
divisão da Suma Teológica.
A estrutura dessa obra é articulada em três Partes. A Primeira Parte (questões 1-119),
dogmática, sobre Deus em si mesmo, sobre o mistério da Trindade e sobre a atividade criadora

92
de Deus (anjos, seres corpóreos, homem). Na Segunda Parte, moral, Santo Tomás considera o
homem, impelido pela Graça, na sua aspiração de conhecer e amar a Deus para ser feliz no
tempo e na eternidade. Esta Parte, por sua vez, está subdividida em mais duas seções: a
primeira seção da Secunda (prima secundae I-II: questões 1-114), e a secunda seção da Secunda
(secunda secundae II-II: questões 1-189).Primeiro (I-II), ele apresenta os princípios teológicos
do agir moral, estudando como, na liberdade de escolha humana para praticar o bem,
integram-se a razão, a vontade e as paixões, às quais se acrescenta a força que dá a Graça de
Deus, bem como a ajuda que é oferecida também pela lei moral. Analisam-se, aí,
especificamente os seguintes temas: o fim último, os atos humanos, as paixões, as virtudes, os
vícios e os pecados; a lei, a graça.
Sobre este fundamento, Santo Tomás delineia a fisionomia do homem que vive segundo o
Espírito e que se torna, assim, um ícone de Deus (II-II). Aqui, ele estuda as três virtudes
teologais - fé, esperança e caridade -, seguidas do agudo exame de mais de cinquenta virtudes
morais, organizadas em torno das quatro virtudes cardeais - prudência, justiça, temperança e
fortaleza. Termina, então, com a reflexão sobre as diferentes vocações na Igreja.
Na terceira Parte da Suma (questões 1-90), novamente dogmática, Santo Tomás estuda o
Mistério de Cristo por meio do qual se pode alcançar novamente a Deus Pai. Nesta seção,
escreve páginas sobre o Mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus e sobre os sete
sacramentos (TORREL, 2003).
Vê-se, pois, que a questão do Direito está inserida na temática mais ampla da Justiça; ou, em
outros termos, o Direito é considerado como que uma expressão da Justiça. De fato, a questão
57, Sobre o Direito, começa, desde seu

2 A RELAÇÃO ENTRE O DIREITO E A JUSTIÇA


Como foi acima afirmado, a questão 57 leva por título: De Iure, Sobre o Direito; e começa,

nossa, quando corresponde,


segundo certa igualdade, a uma ação de outro; assim, a paga da recompensa devida por um

Ele continua, depois, comparando a Justiça às outras virtudes, no que diz respeito ao ato
virtuoso. A retidão, nas outras virtudes, leva em conta o modo como o ato é praticado pelo
agente. Mas a retidão, na Justiça, diz respeito ao ato em si, independentemente do modo como

certamente

93
Na resposta às objeções, Santo Tomás esclarece que os termos podem ter vários significados.

passou a

qual conhecemos o justo; ulteriormente para significar o lugar onde se aplica o Direito: neste
-se

A afirmação de Santo Tomás fica mais clara se for considerada a língua latina na qual ele

ius (Direito) foi empregada


primeiramente para significar a coisa justa Aliás, isso fica ainda mais claro lendo o

Vê-se, pois, que ius (Direito) e iustitia (Justiça), começam com as mesmas letras. E, para
confirmar isso, lê-

(em latim iustari).


Pode-se, neste sentido, considerar a procedência mais remota do termo ius: trata-se da raiz
sânscrita yu, que continha a ideia de vínculo, obrigação; ou da raiz yoh, de onde provêm os
termos latinos iurare e iuramentum: quer dizer, jurar e juramento, fórmula religiosa que tem
valor de lei, com a ideia de sagrado, pois procede da divindade. No fundo, ius não vem de
iustum, nem de iustitia, mas o contrário (CAMELLO, 2002, p. 239).
Santo Tomás, pois, faz questão de distinguir sempre, para evitar a confusão dos possíveis
significados dos termos. é habitual serem os nomes desviados de sua primeira origem

às vezes,
Em suma, a Justiça é aquela virtude que regula as relações com os outros, à diferença das
outras virtudes. Por isso, o ato em si, independentemente da intenção do agente tem que ser
objeto da Justiça. Entende-se, pois, que o
Direito, por um lado, está subordinado à Justiça; e, por outro, é distinto dela ao ponto que

Como foi visto acima, é no tratado da justiça que se encontra o estudo de Santo Tomás sobre o

doutrina do direito de Santo Tomás nesta parte da Suma denominada tratado das leis (I- IIae,

94
O fato dele discutir a teoria do direito fora do tratado das leis evita a interpretação de que o
direito (ius) significa tão somente a lei (lex).
A esta altura pergunta-se qual seria a contribuição original de Santo Tomás na sua reflexão
sobre o direito. Pode-se dizer que ele demarcou, na questão, estes aspectos fundamentais: a
intrínseca relação entre ética e direito, pois este é considerado como objeto da justiça; e o
desfazimento do recorrente equívoco de muitos, até hoje, em circunscrever, confinar e
confundir direi -se no pressuposto de que o homem
comum, que nunca leu uma lei sequer, tem plena consciência da justiça, ou injustiça de seu
comportamento, graças à natural aptidão para apreendê-
2006, p. 349).
3 A ESSÊNCIA DA JUSTIÇA

apresenta dividida em doze artigos, dos quais vão ser considerados os dois primeiros: 1º o que é
a justiça; 2º se a justiça é sempre relativa a outrem.
O problema levantado no primeiro artigo é logo especificado nestes termos: Se foi
convenientemente definida pelo jurisperitos a justiça como a vontade constante e perpétua de
dar a cada um o que lhe pertence. A definição citada é trazida do primeiro livro do Digesto.
Santo Tomás responde que tal definição é apropriada se for entendida devidamente. E
raciocina da maneira seguinte: toda virtude é um hábito, do qual provêm os atos bons. Por isso
a virtude vai ser definida por um ato bom, conforme o específico de cada virtude. Mas o
específico da justiça diz respeito aos atos relativos a outrem. Neste sentido diz-se
corretamente que a justiça consiste em dar a cada um o que lhe pertence. Mas, para que o ato
seja virtuoso, é necessário que seja voluntário, estável e firme. A esse respeito, ele cita
Aristóteles, para quem o ato de virtude exige três condições: que o sujeito o pratique da
maneira consciente, com livre escolha para um fim devido; e de maneira constante. Mas a
primeira destas condições está incluída na segunda, pois, sempre segundo Aristóteles, o que
fazemos por ignorância é involuntário. Por isso, para definir a justiça, primeiro enuncia-se a
vontade. Em seguida, a constância e a perpetuidade designam a estabilidade de tal ato. Conclui
aceitando esta definição de justiça no sentido que o hábito é especificado pelo ato. Retoma,
pois a mesma definição, colocando antes o termo hábito. Aliás, ele diz que a forma devida de
tal definição seria a seguinte: a justiça é um hábito pelo qual, com vontade constante e
perpétua, atribuímos a cada um o que lhe pertence.
Na resposta às objeções ele especifica que está falando não de uma vontade qualquer, mas de
uma vontade reta, pois a justiça é um hábito pelo qual agimos e queremos com retidão.
Em seguida, quanto à perpetuidade, ele especifica que não é suficiente praticar a justiça por
algum tempo, pois até pessoas injustas de vez em quando praticam atos justos. Não basta
querermos observar a justiça por algum tempo [...] é preciso que tenhamos a vontade perpétua
de observar sempre a justiça.
95
Percebe-se claramente a referência à concepção de virtude, que se encontra em Aristóteles,
citado cinco vezes neste artigo. Neste sentido, para ter o bem não é suficiente conhecê-lo pelo
saber, como queria Sócrates, mas precisa praticá-lo: e não apenas uma vez, mas repetidas
vezes, com uma sucessão de atos até formar um hábito (MONDIN, 2003).
Logo em seguida explica os adjetivos perpétua e constante. O primeiro se refere ao propósito
perpétuo de observar a justiça. E o segundo ao firme perseverar em tal propósito.
Distingue, depois, a justiça praticada pelo juiz daquela praticada pelos súditos; no primeiro
caso, mandando e dirigindo; e no segundo, a modo de execução.
Em suma, a justiça se define como hábito de uma vontade reta, perpétua e constante com o
objetivo de dar a cada um o que lhe pertence.
Para a questão levantada no segundo artigo, Se a justiça é sempre relativa a outrem, Santo

que podem agir diversamente. Mas os atos humanos p

quem fere, através das mãos.

existam agentes diversos: por exemplo, a razão, o irascível e o concupiscível. Neste sentido
apenas metaforicamente pode-se afirmar que existe justiça, no mesmo homem, quando a

pôr
Foi nessa perspectiva de alteridade humana, como componente imprescindível da justiça

é aquela razão pela qual se mantém a sociedade dos homens entre si e também a comunidade

-se apenas o agente; e na

ma pessoa. Isso significa que,

aristotélica, ocupando posição de destaque no referido sistema, mas também marcou toda a
reflexão ético-jurídica da civilização ocidental (VAZ, 1999, p. 124). E não foi por outra razão que

96
Santo Tomás de Aquino incluiu a justiça entre as chamadas virtudes cardeais, as quais
estabelecem as necessárias e significativas articulações das ações virtuosas.
O tema da justiça tornou-se tão emblemático, no mundo ocidental, que ela acabou focalizada
como sendo, historicamente, a referência nuclear para as reflexões desenvolvidas a respeito da
alteridade, que caracteriza as relações pessoais.
Desse modo, tem-se afirmado que a questão da justiça, no mundo ocidental, conduziu a se
pensar em uma forma de razão holística e harmonizadora, que se constituiu em uma instância

coletivamente, parece conferir ao direito, ao poder e à liberdade um significado existencial,

Agora pode-se perguntar como a Justiça se refere à alteridade na temática ambiental.

4 JUSTIÇA AMBIENTAL: ASPECTOS RELEVANTES

-se em 1982, numa demanda promovida por uma comunidade de


afro-americanos de Afton, Estado da Carolina do Norte - EUA, contra a instalação de um aterro
de alta toxidade e alto risco para aquela comunidade. Estudos realizados na época
demonstraram que 75% de aterros formados por resíduos tóxicos estavam localizados em
locais onde havia a predominância de afro-americanos, embora tais comunidades
representassem apenas 20% da população da região. Na época já se alegava a distribuição
desigual dos riscos ambientais nos Estados Unidos, onde as comunidades negras eram mais
vulneráveis (BAGGIO, 2014, p. 106).
Esse representou um marco das reivindicações por justiça ambiental. Foi na década de oitenta
que o chamado Movimento de Justiça Ambiental constituiu-se nos Estados Unidos, numa luta
que agregou a defesa de questões de cunho social, ambiental, territorial, com a luta pelos
direitos civis. Aquele movimento consolidou-se como uma rede multicultural e multirracial
nacional, e, posteriormente, internacional, envolvendo grupos comunitários, entidades de
direitos civis, organizações de trabalhadores, igrejas e intelectuais, todos contra o chamado
racismo ambiental (ACSELRAD et al., 2009, p. 23).
Destaca-se que, naquela época, o pensamento hegemônico considerava democrática a
distribuição dos riscos ambientais. A ideia era de que problemas ambientais giravam em torno
de temas como escassez e desperdício, num contexto em que o mercado se apresentava como
entidade reguladora das questões ambientais.
O movimento em favor de justiça ambiental no Brasil obteve destaque após o Seminário
Internacional Justiça Ambiental e Cidadania, realizado em 2001, no Rio de Janeiro. No âmbito
desse evento foi criada a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, com o propósito de reverter os
quadros de injustiças ambientais no país. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental definiu
97
econômico e social, destinam a maior carga dos danos ambientais do desenvolvimento às
populações de baixa renda, aos grupos raciais discriminados, aos povos étnicos tradicionais,

Assim, com o advento do movimento por justiça ambiental, houve uma redefinição da questão
ambiental, incorporando-se ao tema também as lutas por justiça social. Nesses termos, a noção
de justiça ambiental estaria atrelada à ideia do direito a um meio ambiente seguro, salutar e
equitativo, onde a definição de meio ambiente seja alargada, abrangendo suas dimensões
ecológicas, físicas construídas, sociais, políticas, estéticas e econômicas (ACSELRAD et al.,
2009, p. 16).
Importante esclarecer que a desigualdade ambiental pode se manifestar tanto sob a forma de
proteção ambiental desigual, como pelo acesso desigual aos recursos ambientais. A proteção
desigual dá-se com relação à não implementação de políticas públicas ambientais, causando-se
riscos, intencionais ou não, normalmente para a população mais vulnerável e carente. Nesses
termos, Acselrad (2009, p. 73) destaca que
Se há diferença nos graus de exposição das populações aos males ambientais, isso não decorre
de nenhuma condição natural, determinação geográfica ou casualidade histórica, mas de
processos sociais e políticos que distribuem de forma desigual a proteção ambiental.
Nesse sentido a pobreza resultaria de processos sociais de aviltação de terras, de capital
cultural e de tradicionais meios que suportam as condições de existência, de disciplinamento
de corpos e mentalidades, além da exploração da força de trabalho para a produção de bens e
riquezas que são apropriados por outrem. Esse sistema apresentar-se-ia como um dos motores
centrais da produção da desigualdade social (ACSELRAD et al., 2009, p. 76).
Normalmente as causas da desigualdade na proteção ambiental são atribuídas: ao mercado,
como por exemplo, por meio de empresas poluidoras que se locomovem e instalam-se com
certa facilidade em países em desenvolvimento; por ações ou omissões políticas, como as
omissões políticas governamentais na instalação de grandes empreendimentos poluidores; à
desinformação, já que os riscos e perigos são geralmente ocultados, causando-se, com isso, um
retrocesso aos direitos mínimos, sobretudo aqueles ligados ao exercício da cidadania, o acesso
ao poder público e ao Poder Judiciário; à corrupção endereçada ao poder público local e às
populações, normalmente de baixa renda, com o propósito de se evitar ações ou críticas que
eventualmente possam ser pertinentes em razão de instalação de empresa ou
empreendimento que cause importante impacto ambiental.
A sociedade contemporânea pode ser caracterizada como uma sociedade pós-moderna, de
risco, uma sociedade globalizada. O modelo societário atual trouxe algumas benesses, porém
criou muitos problemas complexos e dentre eles a concentração de riquezas e a manutenção
ou aprofundamento das desigualdades tanto sócio-econômicas, quanto no que se refere à
sujeição aos riscos ambientais, e ao acesso aos bens ambientais.

98
Nesse ponto - apesar de entender que a globalização significa bem mais que o neoliberalismo,
e que a globalização neoliberal não representa a única de realização possível, definindo-a como

promovidas no universo econômico das políticas neoliberais - Bello Filho (2006, p. 83-85)
-lo, é a
globalização neoliberal ou globalismo. Os efeitos deletérios da globalização é que devem ser
atacados para perm
O fato é que, no Brasil, as políticas públicas implementadas nas últimas décadas não foram
capazes de diminuir sensivelmente as desigualdades sociais, o que levou ou manteve, no
mínimo, a prosperidade de uns e a miséria de outros, pela simples falta de condições de
desenvolvimento pessoal e/ou oportunidades. Isso porque a globalização econômica é
considerada essencialmente desigual, e se desenvolve em benefício de poucos.
Baggio (2014, p. 277) des
determinante para o estabelecimento de novas relações éticas e culturais que romperam com a
A autora afirma que dentre as transformações
encontra-se um diferente olhar valorativo dos seres humanos em relação à natureza. Assim, se
num primeiro momento houve o acúmulo de riquezas, num segundo - em razão da sociedade
de consumo e da exploração desordenada dessa natureza - veio a crise ambiental e todos as
nefastas conseqüências que a caracterizam.
Com o Estado Liberal houve a perspectiva de uma justiça distributiva, como possível solução
para as mazelas sociais e econômicas pós Revoluções Industriais. Veio, então, o Estado Social,
com perfil intervencionista, e, ainda assim, não cumpriu as promessas da modernidade.
O sistema capitalista produziu debates sobre a justiça na modernidade. Esses debates têm
como centralidade a concentração da riqueza e o aumento das desigualdades sociais, o
desequilíbrio e os riscos ambientais, que obscurecem a ideia de igualdade, tão defendida no
período das revoluções burguesas.
Importa destacar que, segundo Acselrad et al., a apropriação social do mundo material
representa processos de diferenciação social dos indivíduos, a partir das estruturas desiguais
de distribuição, acesso, posse e controle de territórios ou de fontes, fluxos e, inclusive,
estoques de recursos materiais. Estas práticas, segundo o autor, são historicamente
constituídas, gerando-se dinâmicas de reprodução dos diferentes tipos de sociedades, com seus
respectivos padrões de desigualdade. Para Acselrad et al (2009, p. 15-16), as técnicas
[...] são condicionadas pelas formas sociais e culturais, ou seja, pelas opções de sociedade e
pelos modelos culturais prevalecentes. Aquilo que as sociedades fazem com seu meio material
não se resume a satisfazer carências e superar restrições materiais, mas consiste também em
projetar no mundo diferentes significados - construir paisagens, democratizar ou segregar
espaços, padronizar ou diversificar territórios sociais etc.

99
Do acordo com o autor, em torno da ideia de sustentabilidade, abre-se a luta entre os que
pretendem alterar ou reforçar a distribuição de poder tanto sobre mercados como sobre
mecanismos de acesso a recursos do meio material, apresentando-se como portadores da nova
eficiência ampliada - a da utilização sustentável dos recursos. Assim, a noção de
sustentabilidade poderia trazer para a agenda pública sentidos extra-econômicos que
acionariam categorias como justiça, democratização e diversidade cultural (ACSELRAD et al.,
2009, p. 16)
O direito ao desenvolvimento foi inscrito na Declaração Universal dos Direitos Humanos de
1948. Contudo, o Brasil está longe da consecução daquele desenvolvimento proposto, tendo-se
em vista as profundas desigualdades em todos os âmbitos, vivenciadas no país. O rumo do
nosso desenvolvimento precisa ser reorientado, a fim de se promover, sobretudo, a inclusão
social e a sustentabilidade ecológica, além da manutenção de uma economia capaz de prover
às necessidades mínimas da população, conferindo-se, com isso, condições mínimas para o
desenvolvimento humano. Nesses termos, Sachs (2009, p. 15) afirma que:
O Brasil tem todas as condições para se tomar um laboratório desse desenvolvimento
incluclente e sustentável, valendo-se da sua extraordinária dotação de recursos naturais: a
maior biodiversidade do mundo, a maior floresta tropical em pé, recursos hídricos
abundantes, com a exceção do Polígono das Secas, climas variados e propícios à produção de
biomassas. Essas vantagens comparativas naturais poderão ser potencializadas pela pesquisa e
pela organização social adequada aos processos de produção.
Por fim, a existência de um direito a um desenvolvimento sustentável e o estabelecimento da
chamada justiça ambiental envolvem uma complexidade tão importante quanto à justiça em
qualquer âmbito que ela se faça necessária, já que aqueles dependem de políticas públicas
comprometidas com critérios de sustentabilidade, e com a visão de meio ambiente
(ecologicamente equilibrado) estabelecida como norma no art. 225 da Constituição Federal de
1988.
5 O CONCEITO DE JUSTIÇA TOMASIANO E A JUSTIÇA AMBIENTAL
Viu-se anteriormente que para Santo Tomás a justiça apresenta-se como uma virtude que
regula as relações com os outros, ao contrário das outras virtudes que se circunscreveriam ao
ser individual. Santo Tomás demarcou a intrínseca relação entre ética e direito, e este é
considerado por ele como objeto da justiça.
A desigualdade de exposição das comunidades aos danos ambientais, além da desigualdade de
acesso aos bens ambientais, não decorre de nenhuma condição natural, mas de políticas
públicas e sistemas sociais e políticos que distribuem de forma desigual a proteção ambiental,
assegurando um meio ambiente mais ou menos salutar, conforme a estratificação social em
que o indivíduo ou a comunidade se apresenta.
A justiça relaciona-se constantemente com as questões sociais, econômicas, políticas,
ambientais entre outras. A justiça está inserta no mundo contemporâneo e as discussões sobre
100
ela normalmente giram em torno tanto sobre o seu significado, quanto pela sua ausência ou
presença nas relações humanas.

como um hábito, não sendo essa algo nato ou natural ao ser humano, mas fruto de constante
exercício. Aristóteles (1999, p. 1134 a) divide as ciências em ciências teóricas, ciências práticas
e ciências produtivas. Para ele, a investigação da ética, o conhecimento do justo e do injusto,
do bom e do mau, apresenta-se como um argumento para que a ação humana se converta
numa ação socialmente justa, o que, conforme ele, se insere no âmbito das ciências práticas.
Hoje vivencia-se uma desarmonia da relação homem-natureza, um desequilíbrio que
aprofunda desigualdades, que desintegra e destrói. Daí a importância da revitalização de
valores essenciais como a justiça na sociedade e no Direito, a fim de se reverter a crise ética e
ecológica da contemporaneidade.
Atualmente, observa-se um esvaziamento ético, um afastamento da virtude justiça, já que o

difere do ser humano enquanto ser isolado do mundo e dos demais seres, revelando a miopia
capital acerca da sua condição de dependente do mundo que o circunda, exacerbando sua
ignorância para justificar a sua ganância, numa sociedade com fortes características
individualistas.
O homem pós-moderno é complexo, assim como a sociedade onde ele habita. Hoje se vivencia
uma separação entre o ético e o legal. A sociedade pós-moderna é marcada pela globalização
em vários níveis e setores, pelo antropocentrismo técnico-científico e pela falta de
compromisso com a ética decente: o que se revela, muitas vezes, como algo natural, como a
corrupção, ou qualquer outra forma de causar prejuízo ou banalizar o Outro.
Rocha
Modernidade, e se agrava ideologicamente com o advento do projeto político dos Estados de
Direito pós-modernos. O autor afirma que
A melhor saída, a única saída razoável e profícua, é o resgate do dever-ser como ética, tanto
mais necessário quanto a estética jurídica se debruça em reflexões hermenêuticas de condutas,
em um tempo virtual pós-fato. No fundo, esta saída sociojurídica aponta para uma relação e
um viver a política de forma crítica, contudo, extremamente ética. (ROCHA, 2011, p. 181)
Tal realidade, construída e definida por processos históricos, poderia ser reinventada ou
reconstruída por meio de lutas simbólicas, nos mais diversos âmbitos, seja social, político,
acadêmico, entre outros. Rocha (2011, p. 162) ainda argumenta que é possível reconhecer a
mutabilidade de qualquer valor social em sua construção material histórica na luta pela
sobrevivência humana coletiva. O autor entende que essa mudança está atrelada à consciência
da convivência do grupo e a sua capacidade de criar novas condições para tal, o que pressupõe
o respeito à condição humana, e ao Outro como parâmetro do Ser.

101
No âmbito do conceito de justiça tomasiano, a justiça diz respeito aos atos relativos a outrem.
Neste sentido diz-se que a justiça consiste em dar a cada um o que lhe pertence. Santo Tomás
diz que a justiça pode ser conceituada como um hábito pelo qual, com vontade constante e
perpétua, atribuímos a cada um o que lhe pertence. Desse modo, o ideal de justiça, sob o
enfoque ambiental, não pode ser apenas um compromisso, mas um comportamento cotidiano
que qualifique, com dignidade, a relação entre humanos e o mundo natural, no sentido da
preservação e do respeito aos ciclos naturais, como expressão máxima da sustentabilidade e
sua perspectiva intergeracional.
Isso vai ao encontro da ideia de Santo Tomás quando ele trata da perpetuidade que caracteriza
a justiça. Ele especifica que não é suficiente praticar a justiça por algum tempo, pois até
pessoas injustas de vez em quando praticam atos justos. Não basta querermos observar a
justiça por algum tempo [...] é preciso que tenhamos a vontade perpétua de observar sempre a
justiça. Em suma, a justiça se define como hábito de uma vontade reta, perpétua e constante
com o objetivo de dar a cada um o que lhe pertence.
Nesse diapasão, a justiça ambiental seria concretizada por meio do agir humano ético, que
respeite o mundo natural e seus ciclos regenerativos, além de se cultivas o respeito pelo outro,
necessariamente como um hábito de uma vontade reta, perpétua e constante.
Por fim, se a justiça é sempre relativa a outrem, deve-se reforçar a necessidade de uma justiça

aristotélica, e que Santo Tomás de Aquino incluiu entre as intituladas virtudes cardeais, por
serem consideradas necessárias e significativas articulações das ações virtuosas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Analisou-se a temática da justiça ambiental, a partir do conceito de justiça desenvolvido na
Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, no sentido de se situar as questões 57 e 58 da

Suma.
Nesses termos, a essência da justiça foi definida como hábito de uma vontade reta, perpétua e
constante com o objetivo de dar a cada um o que lhe é devido, ressaltando-se a característica
da alteridade, pois a justiça é sempre relativa a outrem.
A injustiça ambiental é um fenômeno de imposição desproporcional dos danos e problemas
ambientais às populações menos dotadas de recursos financeiros, políticos e informacionais.
Apesar de todos estarem abstratamente sujeitos aos riscos, na realidade os efeitos dos danos
ambientais atingem indivíduos, grupos ou países de forma desigual, em razão de que são as
comunidades vulneráveis que vivem em áreas de risco; encostas de morros etc., e

102
normalmente possuem menor articulação e força para reivindicar seu direito por justiça
ambiental.
A justiça ambiental no Brasil, cuja noção implica um direito ao meio ambiente seguro e
ecologicamente equilibrado, tal qual o previsto no caput do art. 225 da Constituição Federal de
1988, deverá ser visualizada de forma sistêmica, alargada, sob os aspectos políticos, sociais,
culturais e econômicos.
Por fim, a realização de uma verdadeira justiça ambiental no Brasil ensejaria um meio
ambiente ecologicamente equilibrado, que possa ser democraticamente usufruído, e que, ao
mesmo tempo, haja o respeito às identidades e à dignidade das comunidades e dos cidadãos.
Nesses termos, o conceito de justiça tomasiano vai ao encontro dessa temática, e por meio da
ideia, sobretudo de alteridade, da necessidade do resgate da capacidade de se colocar no lugar
do outro, com consideração num contexto dialógico. Isso certamente traria um importante
contributo para a solução dos atuais problemas de injustiça ambiental no país.
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104
A EFETIVIDADE DO DIREITO SOCIAL À MORADIA RELACIONADO AO BEM ESTAR
DO INDIVÍDUO NO CONTEXTO AMBIENTAL URBANO
48

49

Resumo
Este artigo destina-se a fazer uma avaliação sobre a efetividade do Direito Fundamental à
Moradia, levando em consideração quais seriam as características intrínsecas a este direito
social, sem as quais haveria prejuízo à esta garantia aqui tratada. O campo de delimitação
estabeleceu-se como o meio ambiente urbano e as típicas problemáticas à ele inerente, como a
poluição e a precariedade de serviços públicos essenciais. Entendendo o direito como
comunicações de elementos entre si, abordar-se-á a teoria de Luhmann e, além disso, situar-
se-á o contexto dentro da contemporaneidade, na qual se vislumbra uma sociedade de risco à
qual o Direito há de se incorporar. E, como o direito à moradia é de categoria fundamental, a
subordinação tanto do Estado como dos particulares também é ponto relevante para, em fim,
buscar-se caminhos que contribuam para o aperfeiçoamento da salvaguarda dessa proteção.
Abstract
This article is intended to make a study on the effectiveness of the Fundamental Right to
Housing, taking into consideration what would be the characteristics intrinsic to this social
right, without which there would be damage to this guarantee. The field of delimitation is the
urban environment and the typical problems inherent to it, such as pollution and the
precariousness of essential public services. Understanding the law as a communication of
elements between them, Luhmann's theory will be approached and, in addition, the context
will be situated within contemporaneity, in which society is at risk and the law has to consider
this. And since the right to housing is fundamental, the subordination of both the State and
private individuals is also a relevant point in order to search for ways that contribute to the
improvement of the safeguard of this protection.
Palavras-chave: Direito à moradia. Bem estar. Meio ambiente.
Sumário: 1. Introdução; 2. Conceitos de moradia digna; 3. Direito à moradia e direito ao meio
ambiente urbano; 4. Teoria dos sistemas de Luhmann; 5. Sociedade de risco; 6. Eficácia vertical
e horizontal dos direitos fundamentais; 7. Conclusão; 8. Referências.

Advogada, Especialista em Direito Processual e em Construções Sustentáveis. Mestranda em Direitos


48

Fundamentais junto ao Programa de Pós-Graduação em Direitos Fundamentais (PPGDF) da Universidade da


Amazônia (UNAMA). E-mail: conceicaoalvesadvocacia@gmail.com
Doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da
49

Universidade Federal do Pará (UFPA). Atualmente exerce atividade docente, como Professor Titular Pós-Stricto
Senso I, junto ao Programa de Pós-Graduação em Direitos Fundamentais (PPGDF) da Universidade da Amazônia
(UNAMA). E-mail: jorgeluiz_dossantos@hotmail.com

105
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como objetivo examinar o direito à moradia sob o enfoque de sua
efetividade, levando em conta o meio ambiente das cidades. Pelos estudos prévios, parte-se da
hipótese de que este direito social tem tido a sua aplicação comprometida por diversos
agentes, os quais impedem que as pessoas possam gozar do direito fundamental, mesmo
quando ele aparentemente se encontra já plenamente assegurado.
O método de pesquisa deste artigo parte de uma natureza hipotético-dedutiva, com fim
exploratório e um procedimento bibliográfico.
A pretensão é identificar, no que diz respeito ao direito à moradia, como o prejuízo ao bem
estar do indivíduo poderia representar também um comprometimento ao próprio direito
social em questão. Busca-se avaliar o quanto os danos ocasionados ao meio ambiente urbano
são da mesma forma prejudiciais à efetividade da moradia.
Como justificativa, fundamenta-se no contínuo, acelerado e desregrado crescimento das
cidades, o qual acaba por se ver acompanhado por um rastro de degradação ambiental, e, por
consequência, os efeitos dessa problemática extrapolam o âmbito do direito fundamental ao
meio ambiente saudável, comprometendo igualmente o bem estar do ser humano que não
obtém a garantia de uma moradia digna.
A complexidade da questão se dá pela multidisciplinaridade da matéria, pelo mixórdia de
conceitos e ausência de efetivas iniciativas de solução.
2 CONCEITOS DE MORADIA DIGNA
Uma inicial dificuldade no estudo desse tema é o desvirtuamento por algumas esferas de poder
econômico e político ou mesmo o desconhecimento pela sociedade civil de o que efetivamente
constituiria a definição de moradia.
Diz a Constituição do Brasil: "São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o
trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição." (grifo
nosso. CONSTITUIÇÃO.ART. 6º. 198850) Esse texto não é o original, mas já acrescentado
claramente a expressão moradia trazida pela 26/2000 além de outras mudanças das emendas
64/2010 e a 90/ 2015.
E quando se passa a usar este termo (moradia), que já se encontre subentendida a
característica de suprimento da dignidade humana que ele deve possuir, conforme o
entendimento dos organismos internacionais e respectivos documentos por eles produzidos.
Tais como:

50
BRASIL. Constituição (1988). Até Emenda Constitucional 95 de 15.12.2016 publicada no DOU dia 16.12.2016.
Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.
htm> Consultado em: 14.05.2017. Art. 6º.

106
A Declaração Universal dos Direitos do Homem (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS,
1948)51, de 1948, e ratificada pelo Brasil52 no mesmo ano, já cuidava do direito à moradia (apesar
de que o termo usado fosse habitação), registrando no seu artigo 25.1 que toda pessoa tem
direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, habitação
entre outros direitos.
Em 1966 houve o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos (ORGANIZAÇÃO DAS
NAÇÕES UNIDAS, 1992)53, ratificado pelo Brasil em 1992. Neste, é quando se faz por primeira
vez o registro do termo "moradia", no artigo 11 que diz que "Os Estados Partes do presente
Pacto reconhecem o direito de toda pessoa a um nível de vida adequando para si próprio e sua
família, inclusive à alimentação, vestimenta e moradia adequadas".
Quando um país se torna signatário do documento, passa a ter ligação com os termos nele
contidos, havendo a necessidade de o Estado prover esta tutela da moradia, entendendo este
como um direito humano.
Um termo produzido em campo internacional interamericano foi a Convenção Americana de
direitos Humanos, ou também chamada de Pacto de San José da Costa Rica (ORGANIZAÇÃO
DOS ESTADOS AMERICANOS, 1992)54. Nela se assegura de forma enumerada direitos civis e
políticos, inclusive o direito à moradia sob a expressão direito "residir".
Outro documento que merece destaque é o Pacto Internacional dos direitos Civis e Políticos
(ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS, 1966)55 no qual a expressão que tratada é
"domicílio", no art. 17. Em 1968 teve a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as
Formas de Discriminação Racial (NAÇÕES UNIDAS, 1968) 56, onde aparece a menção ao
direito à habitação (Artigo V, e, III, Direito à habitação). No ano de 1989, houve publicação da

51
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada em 10 de
dezembro de 1948.
52
A Declaração Americana dos Direitos e Deveres do homem de abril de 1948 (artigo XI: direito à habitação)
antecede a própria Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 12 de 1948, mas o Brasil não é signatário desta
primeira.
53
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais,
adotado em 16 de setembro de 1966. Ratificado pelo Brasil pelo Decreto No 591, De 6 De Julho De 1992.

54
ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS. Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São
José da Costa Rica), adotada em 22 de novembro de 1969. Promulgada pelo Brasil através do Decreto No 678, De 6
De Novembro De 1992.
55
ASSEMBLÉIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS. Pacto internacional sobre direitos civis e políticos. XXI Sessão,
1966
NAÇÕES UNIDAS. Convenção Internacional Sobre A Eliminação De Todas As Formas De Discriminação Racial.
56

Nova York. 1968.

107
resolução da Convenção Sobre Direitos da Criança (ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES
UNIDAS, 1989)57 e expressão utilizada neste caso foi "lar".
Importante evento internacional foi o ocorrido na América Latina, na cidade do Rio de Janeiro
- Brasil em 1992. Foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, mais conhecida como Rio 92, na qual foi elaborada a Agenda 21, onde é
possível ler no capítulo 7, item 7.6 (MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, 1992) 58:
O acesso a habitação segura e saudável é essencial para o bem-estar físico, psicológico, social e
econômico das pessoas, devendo ser parte fundamental das atividades nacionais e
internacionais. O direito a habitação adequada enquanto direito humano fundamental está
consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos e no Pacto Internacional dos
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais...
Em 1996 ocorreu o Habitat II em Istambul, cujo objetivo é a proteção do direito à moradia.
Esse encontro é realizado a cada 20 anos, e, em outubro de 2016, ocorreu uma outra edição na
capital do Equador, a cidade de Quito. Este foi o Habitat III, no qual foi elaborada uma agenda
propositiva de melhor qualidade de vida para as pessoas nas cidades.
Conforme o entendimento elaborado pela Conferência Habitat (HABITAT III, 2016) 59, uma
moradia digna perpassaria em assegurar salubridade aos seus habitantes, condições de vida
minimamente atendidas de serviços essenciais como água, saneamento básico e energia. Além
disso, elementos do entorno também se fazem relevantes para a efetividade esse direito, tais
como a segurança, o transporte coletivo e coleta de lixo, incluindo ainda serviços públicos
urbanos, como o fornecimento de saúde e educação.
É também nesse sentido que NOVELINO (2011)60 afirma que a plena garantia deste direito
exige o atendimento de mínimas dimensões da habitação, condições de higiene, de conforto e
com capacidade de preservar a privacidade e também a intimidade dos seus moradores.
Para corroborar com a afirmação de ligação do direito à moradia com o bem estar (em vez de
cuidar do assunto meramente como uma questão patrimonial), cite-se SOUZA (2008)61 para
quem a moradia é direito da personalidade, e, como uma modalidade de direito fundamental,

57
ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS, Convenção Sobre Direitos da Criança 1989
58
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Agenda 21. 1992. Disponível em < http://www.mma.gov.br/res
ponsabilidade-socioambiental/agenda-21/agenda-21-global> acessado em 21 fev 2017. Cap. 7. pág. 02.
HABITAT III. TERCEIRA CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE MORADIA E DESENVOLVIMENTO
59

URBANO SUSTENTÁVEL. QUITO. 2016


60
NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucional. 5. ed. São Paulo: Editora Método, 2011. 927 p.
61
SOUZA, Sérgio Iglesias Nunes de. Direito à moradia e de habitação: análise comparativa e suas implicações
teóricas e práticas com os direitos da personalidade . 2. ed. Rev, atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais, 2008.

108
consistiria em bem irrenunciável da pessoa natural. Esse direito social consistiria então em um
pressuposto essencial para a vida humana.
É possível notar que a moradia está compreendida como um direito humano protegido pelos
documentos internacionais, dentro de critérios de universalidade e indivisibilidade.
Da mesma forma, as conceituações doutrinárias também seguem o mesmo percurso protetivo
do ser humano, no que diz respeito à sua habitação.
Tratando-se do Estado Brasileiro, a tutela dessa modalidade de direitos humanos foi sendo
elaborada com a apreensão desses conceitos internacionalmente reconhecidos, com uma
busca legislativa de aproximação do entendimento desses tratados, resultando no texto da
Constituição de 1988, onde foram incluídos muitos dos valores de justiça e ética, fornecendo
ao sistema jurídico brasileiro os fundamentos da construção do Estado. Há se dizer, porém,
que o direito à moradia não emergiu de forma expressa no texto constitucional de 1988, mas
apenas através da emenda 26/2000.
Além da previsão constitucional de salvaguarda desse direito, em se tratando de legislação
brasileira, é possível destacar a LEI n.º 11.445, (2007)62 que trata de saneamento básico e aborda
princípios que relacionam este serviço à qualidade de morada humana, como se pode ver:
Art. 2o Os serviços públicos de saneamento básico serão prestados com base nos seguintes
princípios fundamentais:
I - universalização do acesso;
II - integralidade, compreendida como o conjunto de todas as atividades e componentes de
cada um dos diversos serviços de saneamento básico, propiciando à população o acesso na
conformidade de suas necessidades e maximizando a eficácia das ações e resultados;
III - abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo dos resíduos
sólidos realizados de formas adequadas à saúde pública e à proteção do meio ambiente;
IV - disponibilidade, em todas as áreas urbanas, de serviços de drenagem e manejo das águas
pluviais, limpeza e fiscalização preventiva das respectivas redes, adequados à saúde pública e à
segurança da vida e do patrimônio público e privado;
V - adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as peculiaridades locais e
regionais;
VI - articulação com as políticas de desenvolvimento urbano e regional, de habitação, de
combate à pobreza e de sua erradicação, de proteção ambiental, de promoção da saúde e

62
BRASIL. Lei 11.445 de 5 de janeiro de 2007. Estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico. Recuperado
de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/lei/l11445.htm

109
outras de relevante interesse social voltadas para a melhoria da qualidade de vida, para as
quais o saneamento básico seja fator determinante;
VII - eficiência e sustentabilidade econômica;
(...) (grifo nosso)
Outra LEI de relevância é n.º 10.257 (2001)63, o Estatuto da Cidade, que ao indicar as
características da política urbana a ser adota, diz:
Art. 2º. A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções
sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais:
I garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à
moradia, ao saneamento ambiental, à infra-estrutura urbana, ao transporte e aos serviços
públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações;
(...)
3 DIREITO À MORADIA E DIREITO AO MEIO AMBIENTE URBANO
O presente estudo, ao abordar o direito ambiental, não o faz aqui com o usual enfoque de
fauna e flora, mas em um viéis urbanístico, colocando o homem como partícipe desse meio
ambiente citadino e suscetível a influir com seus atos ou ser atingido pelo entorno.
É possível que em determinados momentos o direito urbanístico e o ambiental surjam como
figuras antagônicas como se o desenvolvimento do primeiro fosse impedido pelo segundo, ou
como se a vida das cidades fosse uma total ameaça ao meio ambiente.
Assim não deveria ser. Afinal, as premissas de cada qual desses conteúdos leva a uma
conciliação entre esses direitos fundamentais, onde, de um lado, não se pretende ver meio
ambiente estático, mas tratado com sustentabilidade. Da mesma forma, o ambiente urbano há
de seguir normas protetivas, inclusive frente aos atores desse locus.
Nesse sentido, DIAS (2010) publica sobre a necessidade de certos tipos de gestão para melhor a
vida urbana:
Desenvolvimento urbano com qualidade de vida nada mais visa do que compatibilizar
interesses individuais e sociais. A coexistência de interesses públicos e privados é condição
sine qua non para o gerenciamento da questão urbana, que há de ser calcada no bem-estar
social e na qualidade de vida para todos os habitantes. [...] A proteção do meio ambiente e a

63
BRASIL. Lei 10.257 de 2001. Regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais
da política urbana. Recuperado de http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001
/L10257.htm

110
qualidade de vida são valores que devem ser justificados e compreendidos por todos os ramos
do Direito. 64
O crescimento acelerado e não planejado das cidades, tem, contudo, elaborado uma situação
inóspita, não assegurando sequer às necessidades humanas básicas, surgindo contínuas
deficiências e conflitos.
A salvaguarda do meio ambiente está alocada em um panorama jurídico de difícil
enfrentamento posto se tratar de uma proteção muitas vezes dimensionada para o futuro, cuja
concretização precisa de uma gestão solidária e responsável
As funções básicas a serem cumpridas pela responsabilidade civil no campo ambiental seriam
a compensação das vítimas; retribuição; minimização dos custos administrativos; prevenção
de acidentes.65
E a responsabilidade civil nesses casos é objetiva e, para ser instaurada, depende da existência
do dano, de uma conduta e de uma relação de causa e consequência entre eles. Inclusive o
Estado pode ser sujeito passivo em demanda reparatória de direito ambiental, (art. 37, §6º da
CF).
4 TEORIA DOS SISTEMAS DE LUHMANN
Dentro dessa complexidade, cita-se a Teoria dos Sistemas de LUHMANN 66, através da qual ele
identifica o paradoxo de que as novas soluções que advém para conter os problemas
existentes, acabam por trazer, por si próprias novos problemas e desafios.
Uma das primeiras grandes questões sobre a Teoria dos Sistemas de Luhmann, que poderia ser
útil ao entendimento do problema estudado neste trabalho, seria a circunstância de cada
universo de sistema se formar a partir do meio em que se encontra com outros sistemas. Ou
seja, determinado sistema não tem como reconhecer nem a si próprio se não for levando em
conta o que é o outro ao seu redor, se não de acordo com aquilo que se configura como uma
complexidade "não sua".
TRINDADE (2008)67 afirma, a partir de sua leitura da teoria dos sistemas, que a síntese de cada
sistema se forma partir do meio dos outros sistemas. Esse entendimento provoca um

64
DIAS, Daniella Maria dos Santos. O direito à moradia digna e a eficácia dos direitos fundamentais sociais. Revista
do Ministério Público do Estado do Pará. Ano V, v. 1, p. 65-76, 2010. P 74.
65
BENJAMIN. Antonio Herman V. A Responsabilidade Civil pelo Dano Ambiental no Direito Brasileiro e as lições
do Direito Comparado. Recuperado de http://bdjur.stj.jus.br/jspui/bitstream/2011/8632/A_Re
sponsabilidade_Civil.pdf
66
LUHMANN. Niklas. [Die Moral der Gesellschaft] La moral de la sociedad. Trad. Goethe-Institut. Colección Título
Estructuras Y Procesos. Serie Ciencias Sociales. Madrid: Editora Trotta, SA, 2013.

67
TRINDADE, André Fernando dos Reis. Para entender Luhmann: e o direito como sistema autopoiético. Porto
Alegre. Livraria do Advogado Editora, 2008. 120 p. 20

111
rompimento epistemológico, quando o método racionalista clássico de estilo analítico passa a
ser insuficiente pois a busca de uma centralização do conhecimento em frações lineares não
soluciona a complexidade e interdependência sistêmica.
Hodiernamente, enfrentar o tema da pluralidade da sociedade é inevitável, o que não se
consegue através de método analítico, com seu foco no objeto, conjunto e aspecto disjuntivo,
sendo mais apropriado o método sistêmico com seu cerne no projeto ou processo, no sistema e
meio conjuntivo.
Luhmann visualiza na teoria dos sistemas aplicada às ciências sociais uma necessidade de
estudo da realidade, indicando como essencial a apreciação dos sistemas em suas
características e funções para, após, aplicar esses resultados a circunstâncias práticas. Em
razão dessa forma de construção da metodologia, foi até mesmo criticado como um pensador
anti-humanista.
Ressalte-se também que, na linha desse pensamento, há de se mencionar a característica de
conversão do rumo da ciência daquele trajeto de análise das partes constitutivas de um todo,
para um novo modelo de observação das relações deste todo. O outro ponto a destacar seria a
chance de alterar o centro de observação entre os mais variados escalonamentos hierárquicos,
sem que isso extinga a cientificidade do seu processo de verificabilidade, a partir de então
sendo entendido como um todo orgânico interdependente.
Segundo TRINDADE (2008)68, quando de sua leitura de Luhmann, o sistema tem como agente
principal a comunicação. O homem, neste caso, não poderia ser considerado como elemento
formador do sistema social. O que produziria o sistema social seriam as comunicações.
Ressalte-se que o autor das comunicações é o indivíduo, o qual não fica afastado do processo,
mas a proposta é apenas de mudança de eixo central no conceito, querendo demonstrar que a
simples união de sujeitos não cria sociedade mas sim a sua interação mediante comunicação.
Esses sistemas de Luhmann, são desenvolvidos e chegam a etapa da autopoiese69.
Ao se utilizar a teoria social de acordo com a concepção autopoiética70, ocorre uma mudança
no paradigma. A inclusão das ciências sociais nas modalidades de postulado autopoiético

68
Idem. p. 34.
69
Essa nomenclatura autopoiese advém da junção dos termos: auto, que se refere ao próprio objeto e poiese, que diz
respeito à produção/criação. Expressão usada inicialmente pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco
Varela para designar os elementos característicos de um sistema vivo em sua estrutura, como explica Reis Trindade
(TRINDADE, André Fernando dos Reis. Para entender Luhmann: e o direito como sistema autopoiético. Porto
Alegre. Livraria do Advogado Editora, 2008. 120 p., pág 71)
70
Conforme Teubner a autopoiese seria "A autonomia e constância de uma determinada organização das relações e
hoje elementos constitutivos deste mesmo sistema, organização essa que é auto-referencial no sentido de que sua
ordem interna é gerada a partir da interação dos seus próprios elementos e auto-reprodutiva no sentido de que tais
elementos são produzidos a partir dessa mesma rede de interação circular e recursiva." (TEUBNET, Gunther. O
Direito como sistema autopoiético. Trad. José Engrácia Antunes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 3.)

112
sugere a abertura de uma série de novas possibilidades, podendo-se dizer que os sistemas
sociais consistiriam em sistemas autopoiéticos, agindo de forma fechada em seu interior e que,
ao mesmo tempo, seriam abertos às entradas e pressões do entorno, com o qual estabelece
comunicação.
As causas ou efeitos são, neste caso, de difícil separação pois o modelo autopoiético circular
torna impossível falar dessas depurações, pois o que se dá em um sistema advém da sua
própria organização interna e, também, pelas influências e movimentos vindos do entorno.
O conhecimento humano não pode ser desconectado do meio ao qual o homem está inserido,
mas este sofre mudanças de acordo com o meio, assim como também produz influência neste.
Com isso, a circunstância à qual se pode chegar quando se avalia o direito à moradia inserido
no contexto do meio ambiente urbano é de que, no conteúdo jurídico, essas esferas do direito
interagem e são visíveis as intercomunicações típicas do que Luhmann define como sociedade.
De acordo com a teoria, é possível identificar o quanto a qualidade e efetividade do direito
social a uma digna moradia fica ligado, ou mesmo se poderia dizer, condicionado a um meio
ambiente saudável e de desenvolvimento auto-sustentável.
É a partir dessa presença humana, em que as ações e omissões se desencadeiam para as demais
camadas do entorno, que não se pode mais crer em um Direito estanque, mas sim em um
complexo normativo mais amplo que leve em conta as características da sociedade
contemporânea, e seus riscos intrinsecamente iminentes.
5 SOCIEDADE DE RISCO
LEITE e AYALA (2010)71 afirmam que o desenvolvimento sustentável ainda aguarda por se
comprovar eficiente, trazendo incertezas para a atual sociedade. E tal circunstância se daria
como BECH (1992)72 afirma em Risck society toward a new modernity, indicando que se está a
viver agora não em uma sociedade industrial, mas uma sociedade de risco e nessa transição se
encontram as dificuldades de se ter um instrumental jurídico ainda incapaz de absorver as
novas realidades e também alerta para a situação perigosa advinda da ciência e do
conhecimento.
CANOTILHO (1996)73 lembra o efeito irradiante dos atos das autoridades nas sociedades de
risco, quando os instrumentos jurídicos atuais se mostram insatisfatórios diante da
complexidade de tantos interesses contrapostos.

71
LEITE, José Rubens Morato; AYALA, Patryck de Araújo. Dano ambiental: do individual ao coletivo
extrapatrimonial. 3 ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2010
72
BECK, Ultrich. Risk society toward a new modernity. London: Sage, 1992. p. 2-8
73
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Privativismo, associativismo e publicisismo na justiça administrativa do
ambiente. Revista de legislação e jurisprudência. Coimbra, v. 128, n. 3857, p. 233, dez. 1995/1996

113
A sociedade de risco é a fase da modernidade, na qual começa a se materializar ameaças
latentes até então produzias pelo modelo econômico da sociedade industrial. Depois de
esgotado o modelo de produção e cuja característica marcante se torna exatamente o risco
permanente de desastres e catástrofes. Isso pode acontecer a qualquer tempo dada as
condições de existência desse modelo, com capitalismo predatório, uso desenfreado do bem
ambiental e elevação demográfica.74
Apesar das mudanças, a estrutura jurídica de soluções permaneceu a mesma, e há consciência
de que os riscos existem, mas, apesar disso, não são implantadas medidas de contensão, o que
dá origem ao chamado fenômeno da irresponsabilidade organizada.75
6 EFICÁCIA VERTICAL E HORIZONTAL DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
A responsabilização do Estado no cumprimento e proteção dos direitos fundamentais é
entendida como uma operação "vertical" do direito, como que afirmando o sentido de
superioridade do Estado e sua ação frente aos cidadãos. A questão é que o pensamento atual é
de que os particulares entre si também devem honrar uma responsabilidade pela eficácia dos
direitos fundamentais entre si, daí o uso da expressão de "horizontalidade" (porque estariam
no mesmo nível).
Apenas efetuando um ajuste terminológico, observa-se que a afirmação de que os particulares
têm um igualitário patamar de negociação entre si é algo idealizado, irreal pois acaba que uma
das partes sempre detém mais influência, seja econômica, seja política, ou outra. Assim,
indica-se como expressão mais adequada apenas "eficácia dos direitos fundamentais entre os
particulares".
No Brasil, a teoria adotada tanto pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) como no Supremo
Tribunal Federal (STF) foi a Eficácia imediata e direta, surgida na Alemanha, baseada em uma
construção teórica de que os direitos privados não têm permissão de estabelecer relações
contrárias que sigam em oposição aos direitos fundamentais e à Constituição, ou seja, a
Supremacia da Constituição e dos direitos fundamentais são o norte a guiar os direitos nas
relações privadas também.
Esta teoria não tem a pretensão de extinguir a autonomia da vontade, mas indicar que o
exercício desse atributo deve ser feito nos ditames do direito, não só sob as normas
positivadas, mas principalmente em situações que envolvem direitos fundamentais.
No constitucionalismo no mundo contemporâneo, a pretensão é um maior distanciamento do
plano liberal de supremacia do contrato privado (pacta sunt servanda), que representa a
liberdade de as partes contratarem e se obrigarem de acordo com suas vontades. Afinal a
presunção de que as pessoas estariam contratando em pé de igualdade não é verdadeira,

74
Idem LEITE e AYALA. p. 113
75
BECK, Ulrich. A ciência é causa dos principais problemas da sociedade industrial. Recuperado de
www.sj.univali.br/agenda21/contribuicoes-externas/ciencia-e-causa-dos-principais-problemas.html

114
conduzindo à uma necessidade de se impor o princípio da dignidade da pessoa humana com a
aplicação dos direitos fundamentais a todos.
Desta forma, não só o estado tem a responsabilidade de promover a eficácia do direito à
moradia, como também os particulares ficam condicionados a respeitar essa garantia
constitucional dos demais membros da sociedade. Não que ele se obrigue de forma direta
prestacional, não há obrigação76 de se promover a melhoria da saúde, do bem estar ou acesso à
moradia de outrem, mas, por outro lado, as obrigações de não provocar máculas a este direito
são absolutamente impositivas. Isso tudo em razão do respeito ao princípio da dignidade da
pessoa humana, à função social da propriedade e também à ditames positivados no direito
Civil como as normas do direito de vizinhança.
7 CONCLUSÃO
Neste artigo, de acordo com a conceituação de moradia apontada por juristas, e também pelos
tratados de organismos internacionais, foi possível perceber que a eficácia desse direito
humano não é plena. Isso se dá em decorrência de esta garantia fundamental ter como
requisito a dignidade, que, por sua vez, abrange a saúde, serviços essenciais de água, esgoto,
eletricidade, além de privacidade, segurança, dentre outros.
Em se tratando de meio ambiente urbano, identifica-se que a inter-relação entre os atores
sociais pode implicar em danos à efetiva proteção da moradia, tanto no que diz respeito à ação
ou omissão do poder público, como por condutas de particulares, os quais também tem, por si,
a responsabilidade de estar em obediência aos direitos fundamentais.
Essa relação havida entre o direito público e o privado, as diferentes matérias que são tratadas
quando se fala de moradia levam à percepção de que, como afirma Luhmann, um determinado
sistema (no caso, o da moradia) só reconhece a si próprio se levat em conta o que há ao seu
redor (segurança, transporte...). O contexto dessa realidade do direito à moradia nos centros
urbanos brasileiros há de considerar que trata-se de uma sociedade de risco.
Nesse sentido, a eficácia dos direitos fundamentais dá-se vertical e horizontalmente, ou seja,
tanto a partir do Estado com o cidadão, como nas relações entre particulares.
Depreende-se assim que a efetividade do direito à moradia não está preservada e, como uma
proposta de melhoria desse quadro, indica-se a adoção de políticas públicas concretas, as quais
considerem o aspecto amplo em que esse direito social está inserido; assim como a maior
responsabilização dos particulares que ocasionam danos aos demais.
Referências

76
Com exceção de alguns casos específicos como por exemplo o previsto no art. 227 da CF mencionando o poder
familiar com a responsabilidade de promoção da saúde de pais para com filhos e vice e versa.

115
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OS PRINCÍPIOS DO ESTADO DE DIREITO E SUA REPERCUSSÃO NA ESFERA
AMBIENTAL PELA TEORIA DO AGIR COMUNICATIVO DE HABERMAS
77

RESUMO
A sociedade moderna atingiu tamanha complexidade que vem exigindo cada vez mais
respostas de complexidades proporcionais. O direito não é um sistema fechado, muito menos a
Constituição Federal, mesmo sendo ela uma Constituição rígida, ou seja, difícil de ser
modificada, ela acaba por receber novas possíveis transformações que possam vir da
sociedade, principalmente no que diz respeito a um Meio Ambiente ecologicamente
equilibrado para as futuras gerações. Tecer-se-á neste artigo algumas considerações baseadas
em estudos bibliográficos para averiguar a aplicação dos Princípios do Estado de Direito e a
sua repercussão na esfera ambiental através da visão da teoria do agir comunicativo de
Habermas, o estudo comparativo da legislação nacional, proporcionando aplicações práticas,
promovendo oportunidades de pesquisas visando a participação popular na tomada de
decisões que digam respeito ao bem-estar coletivo.
PALAVRAS-CHAVE: Estado de Direito; Direito Ambiental; Teoria do Agir Comunicativo;
Habermas.
ABSTRACT
Modern society has reached such complexity that it is increasingly demanding answers of
proportional complexities. The law is not a closed system, much less the Federal Constitution,
even though it is a rigid Constitution, that is, difficult to be modified, it ends up receiving new
possible transformations that may come from society, especially with regard to a Medium
Ecologically balanced environment for future generations. Some considerations based on
bibliographic studies will be used to ascertain the application of the Principles of the Rule of
Law and its repercussion in the environmental sphere through the view of the Habermas
theory of communicative action, the comparative study of the national legislation, providing
applications Practices, promoting research opportunities aiming at popular participation in

77
Mestranda em Direito pelo CentroUniversitário Salesiano de São Paulo U.E. Lorena. e-mail:
fabiamaruco@hotmail.com

117
decision-making regarding collective well-being. Modern society has reached such complexity
that it is increasingly demanding answers of proportional complexities. The law is not a closed
system, much less the Federal Constitution, even though it is a rigid Constitution, that is,
difficult to be modified, it ends up receiving new possible transformations that may come from
society, especially with regard to a Medium Ecologically balanced environment for future
generations. Some considerations based on bibliographic studies will be used to ascertain the
application of the Principles of the Rule of Law and its repercussion in the environmental
sphere through the view of the Habermas theory of communicative action, the comparative
study of the national legislation, providing applications Practices, promoting research
opportunities aiming at popular participation in decision-making regarding collective well-
being.
KEY-WORDS: Rule of law; Environmental Rights; Theory of Communicative Action;
Habermas
INTRODUÇÃO.
Na ótica de sua função estabilizadora de expectativas, o direito apresenta-se como um sistema
de direitos. Os direitos subjetivos só podem ser estatuídos e impostos através de organismos
que tornam decisões que passam a ser obrigatórias para a coletividade. E vice-versa, tais
decisões devem a sua obrigatoriedade coletiva à forma jurídica da qual se revestem. Esse nexo
interno do direito com o poder político reflete-se nas implicações objetivas e jurídicas do
direito subjetivo.
A teoria do agir comunicativo propugnada por HABERMAS apresenta condições de
possibilidade à construção de uma nova cultura política que possibilite uma maior inclusão e
um maior engajamento dos cidadãos no processo de organização e de tomada de decisões da
sociedade. Entretanto, tal construção pressupõe a participação dos cidadãos na produção de
um discurso orientado para o entendimento, e pressupõe, sobretudo, um Estado efetivamente
democrático, em que os direitos fundamentais e a democracia entrem em um inseparável
contexto.
A sociedade moderna atingiu tamanha complexidade que vem exigindo cada vez mais
respostas de complexidades proporcionais. O direito não é um sistema fechado, muito menos a
Constituição Federal, mesmo sendo ela uma Constituição rígida, ou seja, difícil de ser
modificada, ela acaba por receber novas possíveis transformações que possam vir da
sociedade. É sabido que o direito haverá de passar por profundas transformações, bem como a
sociedade. Porém, terá de ter em mente os ideais que a sociedade já tenha legitimado como
indispensáveis para um Estado saudável e sustentável. O princípio da dignidade da pessoa
humana é a grande diretriz do direito moderno, tendo em vista o seu objeto central que é a
vida humana, mas não só quanto indivíduo, mas sim como cidadão igualmente visto pela lei.
Toda e qualquer modificação no direito deve seguir os parâmetros morais, tendo sempre como
norte o direito ambiental como direito fundamental e o princípio da dignidade da pessoa

118
humana, sendo este o alicerce central de um direito justo e próspero. Veremos a seguir a
repercussão dos Princípios de Direito e sua repercussão na esfera ambiental na visão
Habermasiana.
A RELAÇÃO INTERNA ENTRE DIREITO E POLÍTICA.
A razão deveria substituir a fonte sagrada do direito, que estava secando. O direito racional,
que ficara preso ao encanto dogmático da construção tradicional de um poder de dominação
autorizado por um direito superpositivo, não conseguiu sobrepujar a ideia de um antagonismo
primordial entre direito e poder. A implosão da abóbada do direito sagrado deixou para trás as
ruínas de duas colunas, a saber: a do direito instaurado politicamente e a do poder utilizável
instrumentalmente; impunha-se a busca de um substituto racional para o direito sagrado, que
se autorizava por si mesmo, capaz de recolocar a verdadeira autoridade nas mãos do legislador
político, entendido como um detentor do poder.
Mesmo que ela não seja mais do que a pequena força motivadora que está presente nos bons
argumentos, pode-se afirmar que o uso público de liberdades comunicativas é, sob este
aspecto, um gerador de potenciais de poder. Isso pode ser ilustrado através do modelo das
tomadas de posição em termos de sim/não em relação à oferta de um simples ato de fala. A
convicção comum entre falante e ouvinte, que é produzida ou simplesmente reforçada através
do reconhecimento intersubjetivo de uma pretensão de validade, significa a aceitação tácita de
obrigações relevantes para ação; nesta medida, ela cria uma nova realidade social.
Tal poder comunicativo só pode formar-se em esferas públicas, surgindo de estruturas da
intersubjetividade intacta de uma comunicação não deformada. Ele surge em lugares onde há
uma formação da opinião e da vontade, a qual, junto com a liberdade comunicativa que

produtividade de um "modo de pensar mais amplo". Este tem por característica "que cada um
atém o seu juízo ao juízo de outros possíveis, e
No Estado Democrático de Direito, o poder político se diferencia, como mostrará HABERMAS,
em poder comunicativo e poder administrativo.
A análise se dá mostrando a tensão entre facticidade e validade, imanente ao próprio direito.
HABERMAS mostrou essa tensão inicialmente na dimensão da validade jurídica, como tensão
entre a positividade e a legitimidade do direito, e dentro do sistema dos direitos, como tensão
entre a autonomia pública e privada. Com a ideia de Estado de Direito, a perspectiva se amplia.
Dos direitos passamos para uma dominação organizada em forma de direito, cujo exercício
tem de estar ligado ao direito legítimo. Com a aplicação reflexiva do direito ao poder político
que o direito pressupõe, desloca-se a tensão entre facticidade e validade para outra dimensão:
essa tensão retorna ao poder político constituído em termos de Estado de Direito. A
dominação política se apoia em um potencial de ameaça e sanção, que vem coberto através de
meios de violência aquartelados; mas, simultaneamente, vem autorizada pelo direito legítimo.

119
O entrelaçamento entre o direito e o poder político caracteriza a passagem das sociedades
organizadas por parentesco para as primeiras sociedades organizadas estatalmente, que
originariam os impérios antigos com suas culturas superiores.
Antes de entrar nos princípios do Estado de direito, HABERMAS mostra as condições nas
quais pode se formar o poder comunicativo. Para isso, partirá da lógica das distintas questões
pelas quais vem determinada a estrutura da formação da opinião e da vontade de um
legislador democrático.
O PODER COMUNICATIVO E A FORMAÇÃO LEGÍTIMA DO DIREITO.
O principio do discurso, segundo HABERMAS, tem inicialmente o sentido cognitivo de filtrar
contribuições e temas, argumentos e informações, de tal modo que os resultados obtidos por
este caminho têm a seu favor a suposição da aceitabilidade racional: o procedimento
democrático deve fundamentar a legitimidade do direito. Entretanto, o caráter discursivo da
formação da opinião e da vontade na esfera pública política e nas corporações parlamentares
implica, igualmente, o sentido prático de produzir relações de entendimento, as quais são
O poder
comunicativo de convicções comuns só pode surgir de estruturas da intersubjetividade
intacta. E esse cruzamento entre normalização discursiva do direito e formação comunicativa
do poder é possível, em última instância, porque no agir comunicativo os argumentos também
formam motivos.
Tal cruzamento se faz necessário, porque comunidades concretas que desejam regular sua
convivência com os meios do direito não conseguem separar as questões de regulamentação
de expectativas de comportamento das questões referentes à colocação de fins comuns, o que
seria possível numa comunidade idealizada de pessoas moralmente responsáveis. As questões
políticas distinguem-se das morais.
No caso de conflitos de ação, quando se impõem determinados problemas que precisam ser
enfrentados cooperativamente ou solucionados consensualmente, uma coletividade é
confrontada com a pergunta: "o que devemos fazer?" O tratamento racional dessas questões
exige uma formação da opinião e da vontade que leva a resoluções fundamentadas sobre a
persecução de fins coletivos e sobre a regulamentação normativa da convivência. No primeiro
caso, a coletividade se compreende como um quase sujeito capaz de agir teleologicamente; no
segundo, como uma comunidade de indivíduos que se entendem sobre o comportamento que
eles podem esperar legitimamente uns dos outros.
Até agora consideramos processos de uma formação política racional da vontade sob dois
aspectos. Em primeiro lugar, as deliberações servem para a ponderação e o discernimento de
fins coletivos, bem como para a construção e a escolha de estratégias de ação apropriadas à
obtenção desses fins; em segundo lugar, o horizonte de orientações axiológicas, no qual' se
colocam essas tarefas de escolha e de realização de fins, pode ser introduzido no processo da
formação racional da vontade pelo caminho de um auto entendimento que se apropria de

120
tradições. Em discursos pragmáticos, nós examinamos se as estratégias de ação são adequadas
a um fim, pressupondo que nós sabemos o que queremos. Em discursos ético-políticos, nós nos
certificamos de uma configuração de valores sob o pressuposto de que nós ainda não sabemos
o que queremos realmente. Em discursos desse tipo, é possível fundamentar programas, na
medida em que eles são adequados e, num sentido amplo, bons para nós. No entanto, uma boa
fundamentação precisa levar em conta outro aspecto - o da justiça. Antes de querer ou aceitar
um programa, é preciso saber se a prática correspondente é igualmente boa para todos. Com
isso desloca-se, mais uma vez, o sentido da pergunta: "o que devemos fazer?".
O princípio da universalização obriga os participantes do discurso a examinar normas
controversas, servindo-se de casos particulares previsivelmente típicos, para descobrir se elas
poderiam encontrar o assentimento refletido de todos os atingidos. Para superar esse teste as
regras morais têm que assumir uma versão geral, completamente descontextualizada; por isso,
elas só podem encontrar uma aplicação descontextualizada naquelas situações standart, cujo
componente "se" já foi levado em conta preliminarmente. Como, porém, nos discursos de
fundamentação, não se pode levar em conta todas as possíveis constelações de casos singulares
futuros, a aplicação da norma exige um esclarecimento argumentativo sui generis, sem
semelhança com nenhum outro.
Em tais discursos de aplicação, a imparcialidade do juízo não é garantida através de um novo
princípio de universalização, e sim através de um princípio da adequação. Habermas retoma
essa proposta de Klaus Günther, quando tratar da análise da prática da decisão judicial.
A fundamentação depende, em primeira linha, de uma interpretação correta situação da
descrição adequada do problema que se tem pela frente, da influencia de informações
relevantes e confiáveis, da elaboração correta dessas informações, etc. Nesse primeiro estágio
da formação da opinião e da vontade, torna-se necessário um certo saber especializado, que é
naturalmente falível e raras vezes neutro do ponto de vista valorativo, sendo, portanto,
controverso.
Em caso ideal, e esse é o nosso ponto de partida, as decisões são tomadas no nível em que a
controvérsia deve ser prosseguida com argumentos. O modo como se decide depende do
aspecto sob o qual a matéria a ser regulamentada e acessível a um esclarecimento posterior.
Entretanto, em sociedades complexas e até mesmo sob condições ideais, nem sempre
alternativas estarão abertas, especialmente quando se constata que todas as regulamentações
tocam de várias maneiras diferentes interesses, sem que se possa fundamentar um interesse
universalizável ou a primazia inequívoca de um determinado valor. Nesses casos, resta a
alternativa de negociações que exigem evidentemente a disposição cooperativa de partidos
que agem voltados ao sucesso.
Negociações naturais ou não reguladas apontam para compromissos aceitáveis pelos
participantes sob três condições. Tais compromissos preveem um arranjo que é: a) vantajoso

121
para todos; b) que exclui pingentes que se retiram da cooperação; c) exclui explorados que
investem na cooperação mais do que ganham com ela.
Processos de negociação são adequados para situações nas quais não é possível neutralizar as
relações de poder, como é pressuposto nos discursos racionais. Os compromissos obtidos em
tais negociações contêm um acordo que equilibra interesses conflitantes. Enquanto um acordo
racionalmente motivado se apoia em argumentos que convencem da mesma maneira todos os
partidos, um compromisso pode ser aceito por diferentes partidos por razões diferentes, É
verdade que a corrente discursiva de uma formação racional da vontade romperia com o elo
de um tal compromisso, caso o principio do discurso não pudesse valer, ao menos
indiretamente, em tais negociações.
Os princípios do Estado de Direito e a lógica da divisão de poderes
No princípio da soberania popular, segundo o qual todo o poder do Estado vem do povo, o
direito subjetivo à participação, com igualdade de chances, na formação democrática da
vontade, vem ao encontro da possibilidade jurídico-objetiva de uma prática institucionalizada
de autodeterminação dos cidadãos. Esse princípio forma a charneira entre o sistema dos
direitos e a construção de um Estado de direito. Interpretado pela teoria do discurso (a), o
princípio da soberania popular implica: (b) o princípio da ampla garantia legal do indivíduo,
proporcionada através de uma justiça independente; (c) os princípios da legalidade da
administração e do controle judicial e parlamentar da administração; (d) o principio da
separação entre o Estado e sociedade, que visa impedir que o poder social se transformasse em
poder administrativo, sem passar antes pelo filtro da formação comunicativa do poder.
Em primeiro lugar, a diferença lógica e argumentativa entre fundamentação e aplicação de
normas reflete-se nas formas comunicativas de discursos de fundamentação e de aplicação,
que precisam ser institucionalizados juridicamente, de diferentes maneiras.
O poder social tanto pode possibilitar como restringir a formação do poder comunicativo. No
primeiro caso, há condições materiais necessárias para uma assunção autônoma de liberdades
comunicativas ou de ação, formalmente iguais. Em negociações políticas, por exemplo, os
partidos envolvidos têm que conseguir credibilidade para suas promessas ou ameaças através
do poder social. No segundo caso, a disposição sobre o poder social abre a chance de
influenciar no processo político, o qual consegue precedência para interesses próprios, para
além do espaço dos direitos de igualdade dos cidadãos. Através deste modo interventor,
empresas, organizações e associações conseguem, por exemplo, transformar o seu poder social
em político, seja diretamente, através da influência na administração, ou indiretamente,
através de intervenções e manobras na esfera pública política".
Os princípios do Estado de direito, desenvolvidos se juntam numa arquitetônica construída
sobre a seguinte ideia: a organização do Estado de direito deve servir, em última instância, à
auto-organização política autônoma de uma comunidade, a qual se constituiu, com o auxílio
do sistema de direitos, como uma associação de membros livres e iguais do direito. As

122
instituições do Estado de direito devem garantir um exercício, efetivo da autonomia política de
cidadãos socialmente autônomos para que o poder comunicativo de uma vontade formada
racionalmente possa surgir, encontrar expressão em programas legais, circular em toda a
sociedade através da aplicação racional, da administrativa de programas legais e desenvolver
sua força de integração social - através da estabilização de expectativas e da realização de fins
coletivos.
Devido ao seu elevado grau de racionalidade, a prática da decisão judicial constitui o caso mais
bem analisado de uma interligação entre dois tipos de procedimento, ou seja, entre o
procedimento jurídico institucionalizado e um processo de argumentação que se subtrai, em
sua estrutura interna, à institucionalização jurídica. Neste cruzamento de procedimentos, se
revela que o universo do direito pode abrir-se, a partir de dentro, para argumentações, através
das quais argumentos pragmáticos, éticos e morais têm acesso à linguagem do direito, sem
suspender, de um lado, o jogo da argumentação e sem detonar, de outro lado, o código jurídico.
A clássica divisão de poderes é explicada através de uma diferenciação das funções do Estado:
enquanto o legislativo fundamenta e vota programas gerais e a justiça soluciona conflitos de
ação, apoiando-se nessa base legal, a administração é responsável pela implementação de leis
que necessitam de execução. Ao decidir autoritariamente no caso particular que é direito e o
que não é, a justiça elabora o direito vigente sob o ponto de vista normativo da estabilização
das expectativas de comportamento. A realização administrativa elabora o conteúdo
teleológico do direito vigente, na medida em que este confere forma de lei a políticas e dirige a
realização administrativa de fins coletivos. Sob pontos de vista da lógica da argumentação, os
discursos jurídicos servem para a aplicação de normas, ao passo que a racionalidade da
atividade administrativa é assegurada através de discursos pragmáticos.
Pois na perspectiva da teoria do poder, a lógica da divisão dos poderes só faz sentido se a
separação funcional garantir, ao mesmo tempo, a primazia da legislação democrática e a retro
ligação do poder administrativo ao comunicativo. Para que os cidadãos politicamente
autônomos possam ser considerados autores do direito, ao qual estão submetidos enquanto
sujeitos privados, necessário que o direito legitimamente estatuído por eles determine a
direção da circulação do poder político.
Se o direito deve ser normativamente fonte de legitimação e não simples meio fático da
organização do poder, então o poder administrativo tem que ser retro ligado ao poder
produzido comunicativamente. Essa retro ligação do poder administrativo teleológico ao
poder comunicativo, que produz o direito, pode realizar-se através de uma divisão funcional
dos poderes, porque a tarefa do Estado de direito democrático consiste, não apenas em
distribuir equilibradamente o poder político, mas também em despi-lo de suas formas de
violência através da racionalização. A domesticação jurídica do poder político natural não
pode, no entanto, ser entendida como disciplina de um poder contingente da vontade,
incontrolável em sua substância.

123
Por esta razão, o conceito de lei constitui o elemento básico nas construções do Estado de
direito burguês. Quando se entende a lei como uma norma geral que obtém validade através
do assentimento da representação popular num procedimento caracterizado pela discussão e
ela esfera pública, nela se unem dois momentos: o do poder de uma vontade formada
intersubjetivamente e o da razão do processo legitimador.
O direito a proteção ambiental como integrante indubitável do grupo de direitos fundamentais
A questão ambiental ganha espaço na sociedade dia após dia e a discussão sobre a proteção ao
meio ambiente não é recente. Vivenciamos a perspectiva de um desenvolvimento sustentável
que satisfaça todas as necessidades do presente sem comprometer a capacidade de gerações
futuras através do uso racional dos recursos naturais em especial o uso fontes de energia

iniciada com a Lei 6.938/81, à medida que reconheceu o direito ao um meio ambiente
ecologicamente equilibrado como direito fundamental da pessoa humana. Dá a ele a natureza

corresponsabilidade ao Poder Público e do cidadão pela sua defesa e preservação.


O Século XX retratou mudanças expressivas determinadas pelas atividades humanas, viu
multiplicarem as cidades de forma nunca antes ocorrida anteriormente, em número, tamanho
da população e áreas ocupadas, e complexidade dos impactos sobre os locais aonde elas vieram
se assentar.
Vivemos em um período de intensos contrastes, no concernente ao desenvolvimento
econômico-político-social da humanidade. Ao mesmo tempo em que a economia mundial se
aprimora para além da industrial e a sociedade se deslumbra com as habilidades de nossa
civilização para as grandiosas descobertas técnico-científicas, paradoxalmente nos
distanciamos, cada vez mais, da intimidade com o planeta onde vivemos.
Nossa civilização luta, incessantemente, para gerar e comercializar riquezas. Na luta por esses
objetivos, emerge um ambiente em constante desintegração dos recursos naturais e do próprio
humano, correndo o risco de gerar um mundo artificial. Nossas ações e omissões referentes ao
meio ambiente estão destruindo o planeta, colocando em risco a existência da própria
civilização. Embora o contraste entre nossa civilização e à dos nossos ancestrais seja quase
abissal, no condizente com o uso e desenvolvimento da tecnologia, por exemplo, temos, na
realidade, muito em comum: dependemos, também, totalmente, dos sistemas e recursos
naturais da Terra para o nosso sustento. Infelizmente, a expansão da economia global, na
forma em que está estruturada, tem subjugado nossos ecossistemas. Isso pode ser comprovado
diante das inúmeras questões ambientais globais emergentes, tais como o desaparecimento de
espécies vegetais e animais, o encolhimento das florestas, o aquecimento da temperatura do
planeta, a erosão dos solos, a produção avassaladora de lixo doméstico e tóxico, a poluição e a

124
escassez da água, a extinção da própria espécie humana em razão de sua face econômica
perversa.
Diante da presente realidade há de repensar a teoria jurídica tradicional, enfatizando a
urgência de uma reflexão inter e transdisciplinar e relacionando as ciências sócio humanas e
jurídicas em busca do bem comum.
A proteção ao meio ambiente como um princípio básico de nosso sistema jurídico posiciona o
direito a proteção ambiental como integrante indubitável do grupo de direitos fundamentais,
vincula ao princípio da dignidade da pessoa humana e ao próprio conceito de cidadania, em
uma ordem genuinamente democrática.
Tal vinculação ocorre, não somente pela inserção sistemática do meio ambiente no âmbito dos
direitos fundamentais, mas principalmente, por ser o Estado Democrático de Direito a
garantia, a promoção e a efetivação desses direitos.
A necessidade da participação popular na preservação do meio ambiente.
Partindo da análise interpretativa do disposto no artigo 225, da Constituição Federal, a
proteção do meio ambiente, para além de um direito fundamental do homem, é um dever
fundamental.
A fórmula empregada para balizar e justificar os deveres fundamentais em nossa Constituição
e, essencialmente, endossar àqueles relacionados à proteção do meio ambiente, tem como
linha mestra a proposta de uma vida digna e justa, do ponto de vista individual e coletivo, e
assumindo o pressuposto de que o meio ambiente necessita ser tutelado por diversos ramos do
Direito, emerge a necessidade de construção de uma esfera de deveres associadas ou não aos
direitos fundamentais.
Esses deveres fundamentais norteiam o ethos de obtenção de uma vida digna, solidária, com
liberdade e igualdade. Nesses termos, o dever fundamental à proteção do meio ambiente é um
dever associado ao direito fundamental de usufruir o meio ambiente saudável .
Assim, intrinsecamente vinculado ao direito de proteção ambiental existe um dever
fundamental caracterizado pela obrigação incumbida ao Estado e a cada um dos indivíduos
partícipes de nossa sociedade em manter um ambiente saudável, sadio e equilibrado, seja por
intermédio de cuidados básicos para com o meio seja através de grandes participações
populares na luta pela não destruição do habitat natural.
Os deveres fundamentais de cunho ambiental se filiam a classificação dos deveres
fundamentais de cunho sócio-econômico-cultural, estando associados e exprimindo,
sobretudo, a responsabilização dos indivíduos na conservação e na promoção de uma dada
sociedade. Dessa forma, o dever fundamental de defesa do meio ambiente pode ser classificado
como um dever fundamental de cunho positivo e negativo, uma vez que impõe ao indivíduo
um comportamento de defesa, ora através de uma ação, ora através de uma abstenção,

125
caracterizando uma dupla função deste dever fundamental de defesa ambiental diretamente
aplicável.
A participação popular, com o intuito de conservação do meio ambiente, está inserida em um
quadro mais amplo da participação diante dos interesses difusos e coletivos da sociedade. A
determinação da proteção ao meio ambiente sadio e equilibrado por meio da teoria dos
direitos fundamentais e estabelecendo que esses direitos provoca a existência de um dever
fundamental, faz com a comunidade participe da proteção seja em razão da existência de um
nível de consciência moral elevado, seja pela imposição jurídica da norma, quando da
efetivação dos deveres fundamentais.
O papel da sociedade civil e da esfera pública no cenário político se atualiza por intermédio de
um efetivo exercício da democracia no que concerne à defesa dos interesses difusos do
cidadão. Em especial, a defesa do meio ambiente constitui-se em parte deste processo; para a
produção de um corpo legislativo que corresponda aos anseios da comunidade que, de alguma
maneira direta ou indiretamente, imediata ou remotamente se relaciona com este meio
ambiente.
Os direitos fundamentais, portanto, são o resultado da positivação constitucional de
determinados valores básicos que, ao lado de nossos princípios fundamentais, formam o
núcleo basilar de nossa estrutura constitucional democrática. E é a partir deste ponto de vista
que iremos abordar a vinculação dos direitos fundamentais à ideia específica de exercício da
democracia, de uma democracia constitucional .
Segundo SARLET , os direitos fundamentais podem ser considerados ao mesmo tempo um
pressuposto, uma garantia e um instrumento do princípio democrático da autodeterminação
dos povos, por intermédio de cada indivíduo. Estas concepções tornar-se-ão concretas a partir
do reconhecimento de direitos como o direito de igualdade e de um espaço de liberdade real,
por meio do direito de participação.
A liberdade de participação política do cidadão, atuando como sujeito ativo e intervencionista
nos processos decisórios em virtude da incorporação das efetivas atribuições inerentes à
soberania, constitui ingrediente indispensável às demais liberdades protegidas pelos direitos
fundamentais .
SARLET ressalta que os direitos fundamentais exercem função decisiva em um e,
principalmente, no nosso regime democrático, haja vista agir como um garantidor dos direitos
das minorias ante aos eventuais desvios de poder praticados pela maioria detentora do poder;
salienta-se, portanto, a efetiva liberdade de participação.
Como representante basilar, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado
desenvolve uma nova forma de cidadania. Por ser este direito, um direito essencial à qualidade
de vida, amplia o próprio conteúdo dos direitos humanos e o próprio conceito de cidadania.
Por intermédio dele e devido a ele, todos têm direito a um meio ambiente sadio.

126
A concepção de deveres fundamentais, por sua vez, insere-se na procura por espaços de
moderação, de correção ou de superação de direitos não contemplados nos espaços sociais,
prevendo ações e a participação dos indivíduos, se o que se busca, realmente, é o
desenvolvimento sustentável alicerçado pela promoção da democracia.
Esse processo de democratização, que inclui as dimensões de participação, de solidariedade,
de liberdade, de igualdade, radica nas condições defendidas por HABERMAS que pressupõem:
(I) o envolvimento e o interesse de todos e de cada um; (II) a não-coação; (III) a factibilidade da
expressão e das condições de fazer-se entender; (IV) a possibilidade de que todos possam se
expressar e ser ouvidos; (V) a alternativa de colocar em dúvida de condição de legitimidade
qualquer fato, experiência ou norma que não se mostre socialmente legítima, embora possa ser
legal.
HABERMAS questiona o papel do indivíduo e da sociedade na preservação do meio ambiente.
Qual é o papel das esferas públicas de discussão, quais são os objetivos que esperamos ver
alcançados? Quais os processos a serem continuamente estimulados para manter o processo
dessa democracia radical em sua concretude? Como entender a verdade em sua factibilidade,
legitimidade e historicidade? Como analisar o direito do Direito nas condições, não de uma
verdade, mas de verdades que necessitam ser legitimadas em função de uma legalidade que
seja socialmente justa e individual e veraz?
É nossa obrigação como indivíduo e como sociedade civil organizada, manter o Meio
Ambiente saudável. O entendimento de saudável, no entanto, sofre das questões de significado
e de processos de sentido. HABERMAS entende esta questão pela relação entre interesses e
usos do conhecimento. Assim, essa própria sociedade que deveria protegê-lo, viola-lo,
desrespeitando regras, aproveitando-se de lacunas ou de falta de fiscalização, ou mesmo da
necessidade de reconstrução do direito individual e social .
O uso de espaços de esfera pública serve para conscientizar e, muito mais que conscientizar,
fazer com que a população se assuma em uma posição ativa, atuante, veja-se como parte do
problema e da solução. Os espaços de esfera pública têm como objetivo alcançar a verdade, a
veracidade e a justiça, por intermédio da legitimidade . Normas e direitos oriundos dos
questionamentos propiciados pelo uso dos espaços de esfera pública ao lado da interpretação
sistemática destas normas, cria o melhor direito de proteção ao meio ambiente ou uma forma
de pô-lo em prática mediante uma correta aplicação.
A importância dos espaços para discussão alicerçam-se no poder comunicativo realçado por
Habermas valendo-se da Ética do Discurso, na qual se pressupõe o questionamento de um fato,
no caso a proteção ao meio ambiente, no que diz com a sua verdade, autenticidade, e justiça.
Desta forma, não sendo legítimos os atos em suas manifestações, seja como fatos, como
experiência, ou seja como expressão de regras, estes podem ser negociados, superados ou
suprimidos, sendo reinstaurados em novas bases.

127
A preocupação com o meio ambiente é decorrente de alteração dos processos de formação de
opinião, alterações que alcançam uma maior preocupação com o público, com o universal em
sua processualidade e busca permanente, com o que é de todos. O Direito Ambiental
encontrou reflexo nos espaços de esfera pública, por se fazer necessária uma discussão
coerente e atual, preocupada e eficaz quanto à posição da sociedade civil organizada perante as
evidentes degradações ambientais.
Por estar apoiada em Direitos Fundamentais, a esfera fornece as primeiras referências acerca
de sua estrutura social. A liberdade de opinião e de reunião, bem como o direito de fundar
sociedades e associações, define o espaço para constituição de grupos, instituindo o espaço
para organizações livres que interferem na formação da opinião pública. O sistema político
passa assim a obrigar-se ou a isto é instado, a ser sensível a influências da opinião pública,
conectar-se com a esfera pública e com a sociedade civil, por meio da atividade eleitoral e da
manifestação ordenada dos cidadãos.
No concernente às barreiras e estruturas de poder que surgem no interior da esfera pública,
salienta que os conceitos da esfera pública política e da sociedade civil introduzidos não
representam apenas postulados normativos, pois têm referências empíricas. Em sociedades
complexas, a esfera pública forma uma estrutura intermediária que faz a mediação entre o
sistema político, de um lado, e os setores privados do mundo da vida e sistemas de ação
especializados em termos de funções, de outro lado. A esfera pública representa uma rede
supercomplexa que se ramifica especialmente num sem número de arenas internacionais,
nacionais, regionais, culturais, dentre outras. Em suma, no interior da esfera pública geral,
definida por intermédio de sua relação com o sistema político, as fronteiras não são rígidas em
princípio.
Quando dispõe sobre a superação das barreiras em situações críticas, Habermas retoma a
questão central, que consiste em descobrir o sujeito capaz de colocar os temas na ordem do dia
e de determinar a orientação do fluxo de comunicação. As estruturas comunicacionais da
esfera pública estão muito ligadas aos domínios da vida privada, fazendo com que a sociedade
civil possua uma sensibilidade maior para os novos problemas, conseguindo captá-los e
identificá-los antes que os centros da política.
A comunidade de comunicação instaura-se quando algum dos três mundos (mundo objetivo,
mundo subjetivo e mundo social) , ou todos eles, considera ilegítimo ou algum ato de fala de
um deles podendo vir a ser tematizado em um ambiente de debate e de busca de reconstruções
e restaurações de outros ordenamentos em novas bases, mais verdadeiras, mais justas e
verazes para cada um e para todos.
As discussões na esfera pública formalizam o alicerce intersubjetivo da comunicação,
caracterizando-se em um processo dialógico, no qual não se faz uso da coação. Assim, quando
uma norma não atende a cada um e a todos e essa comunidade decide que ela é ilegítima,
mesmo que esteja instituída no ordenamento jurídico, pode-se propor a sua transformação.

128
Cabe salientar, ainda, a importância dos espaços de esfera pública para o uso da comunidade
de comunicação no concernente a um desenvolvimento moral e de engajamento social do
cidadão nas questões ligadas à proteção e ao desenvolvimento de um meio ambiente saudável
e seguro.
A participação da sociedade nas questões vinculadas à proteção do meio ambiente está
vinculada ao direito fundamental de participação na organização e no procedimento.
Neste sentido, em destaque, encontram-se as organizações não governamentais (ONGs), que
por intermédio de discussões e tematizações públicas de temas ecológicos, com o uso de uma
linguagem pragmática, em todo o mundo conseguiram atrair a atenção dos governantes e da
sociedade civil organizada para o perigo do desenvolvimento insustentável.
Com o decorrer do tempo um número maior de entidades ligadas ao, assim denominado,
terceiro setor influenciam as discussões e as polêmicas acerca do que se dispõe sobre o meio
ambiente, especialmente em termos de políticas ambientais. Servindo-se da comunicação
empregada no mundo da vida, no mundo dos cidadãos, por intermédio da produção de bens
públicos as ONGs conseguiram trazer para o cerne das discussões o desenvolvimento
sustentável da economia e do meio ambiente, com o intuito de fazer permanecer a
biodiversidade do meio no qual estamos inseridos.
Cada vez mais estas organizações são as responsáveis pela elaboração de leis de proteção
ambiental e de conscientização do Poder Judiciário, tanto por influência deste quanto da
atividade ímpar praticada pelos membros do Ministério Público. A omissão participativa da
coletividade e dos órgãos do Poder Público poderá resultar em um prejuízo incalculável que
será suportado por toda a humanidade, haja vista a natureza difusa do direito fundamental à
proteção ambiental.
FIORILLO alerta que o fato de a administração desse bem ficar sob a custódia do Poder
Público não elide o dever do povo de atuar na conservação e preservação do direito do qual é
titular.
HABERMAS salienta os seguintes pontos com a finalidade de elucidar a compreensão da
constituição: sistema político, especializado na produção de decisão; política, responsável por
problemas que atingem a sociedade como um todo; e, além disso, as decisões que envolvem a
coletividade têm que ser vista como a concretização de direitos.
O referido autor sustenta que essa prática é perenizada nas formas de organização do Estado
democrático, perfectibilizado pela Constituição. HABERMAS afirma que, toda a constituição
histórica desenvolve uma dupla relação: como documento histórico e projeto de sociedade
justa. Para tanto, apresenta a síntese dos elementos a serem levados em conta pelo sistema
jurídico, dispondo que a reconstrução desses direitos revelou que os direitos fundamentais e
os princípios do Estado de Direito explicitam apenas o sentido performativo da auto
constituição de uma comunidade de parceiros do direito, livres e iguais.

129
O controle do cidadão sobre o aparato estatal torna-se cada vez mais atuante e capaz de
imprimir uma nova dinâmica à própria democracia representativa. Desta forma, o controle
popular caracteriza-se como instrumento que possibilita a participação direta dos
administrados no Poder Público.
Com relação à participação popular na preservação do meio ambiente, destaca-se o Princípio
10 da Declaração do Rio de Janeiro
do meio ambiente é assegurando a participação de todos os cidadãos interessados no seu nível

É dever do Poder Público e da Coletividade defender e preservar o meio ambiente para as


presentes e futuras gerações, sendo assegurado ao cidadão a possibilidade do cidadão de
participar de políticas públicas através: do plebiscito (esfera legislativa), do direito de
informação, de petição, estudo prévio de impacto ambiental (esfera administrativa) e de ação
civil pública, ação popular, mandado de segurança coletivo, mandado de injunção, ação civil
de responsabilidade por improbidade administrativa e ação direta de inconstitucionalidade
(esfera judicial).

como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir de sua cultura,

Assim, mediante um processo de justiça dinâmica, na qual, especialmente, uma lei não mais
atende à sociedade como um todo, quando passa a ser questionada quanto à sua legitimidade,
pode vir a ser revogada ou reformulada. Esses questionamentos são oriundos de discussões, de
atos de fala do cidadão comum, do leigo, não só do técnico.
A comunidade de comunicação torna-se viva dentro dos espaços de esfera pública, onde
organizações não governamentais discutem e tentam solucionar problemas ligados ao
interesse comum que, por ventura, não forem os mesmos interesses do Estado dominante.
As organizações não governamentais vão surgir quando a sociedade, representada pelo
conjunto de seus cidadãos, no mundo da vida, conflitar com os interesses do Estado político-
econômico dominante, buscando mais moralidade no agir e mais consciência ao desenvolver
tecnicamente a sociedade em conjunto com o meio ambiente. A função do poder
comunicativo, da comunidade de comunicação consubstancia-se no efetivo uso da democracia
nos espaços de esfera pública, nos quais se poderão realizar discussões acerca da proteção ao
meio ambiente, das leis ambientais, do desenvolvimento do capital, da exploração das forças
naturais.
O Estado de Direito demanda organização do Poder Público constituído conforme preceitos do
direito, mas só será legítimo quando o direito for legitimamente instituído, de modo que a
Administração Pública deverá regenerar-se a cada passo a partir do poder comunicativo.

130
Não há outro caminho de enfrentar as marcantes divisões sociais da sociedade, buscando
superar a cidadania de baixa intensidade, senão conferindo prioridade aos mecanismos
participantes que buscam garantir o sistema de direitos fundamentais assegurados pela
Constituição.
CONCLUSÃO
O direito apresenta-se como um sistema de direitos e só pode ser estatuído e imposto através
de organismos que tornam decisões que passam a ser obrigatórias para a coletividade.
O ponto central de reflexão do autor reside na reconstrução de partes do direito racional
clássico através da teoria do discurso. Para explicar a interação social, HABERMAS substitui a
razão prática pela razão comunicativa, e através da ética do discurso busca entender e
fundamentar uma comunicação da qual possa emergir uma razão partilhada pelos sujeitos.
A teoria propugnada por HABERMAS apresenta, pois, condições de possibilidade à construção
de uma nova cultura política que possibilite uma maior inclusão e um maior engajamento dos
cidadãos no processo de organização e de tomada de decisões da sociedade. Entretanto, tal
construção pressupõe a participação dos cidadãos na produção de um discurso orientado para
o entendimento, e pressupõe, sobretudo, um Estado efetivamente democrático, em que os
direitos fundamentais e a democracia entrem em um inseparável contexto. A proteção ao meio
ambiente é um princípio básico de nosso sistema jurídico, posicionando o direito a proteção
ambiental como integrante indubitável do grupo de direitos fundamentais, vinculado ao
princípio da dignidade da pessoa humana e ao próprio conceito de cidadania, em uma ordem
genuinamente democrática.
Vinculado ao direito de proteção ambiental existe um dever fundamental. Esse dever
fundamental caracteriza-se pela obrigação incumbida ao Estado e a cada um dos indivíduos
partícipes de nossa sociedade em manter um ambiente saudável, sadio e equilibrado, seja por
intermédio de cuidados básicos para com o meio seja através de grandes participações
populares na luta pela não destruição do habitat natural.
Em razão da existência do referido direito/dever de proteção ao meio ambiente, se faz
necessária uma maior e mais efetiva participação da população, utilizando os espaços públicos
constituídos para a concretização da discussão, através de um eficaz Estado Democrático, uma
vez que o direito ao ambiente de cada um é também um dever de cidadania na defesa do
ambiente.
Podemos afirmar, assim, que a participação popular constitui ainda um dos elementos do
Estado democrático e social de Direito, pois todos os direitos sociais integram a estrutura
essencial para uma saudável qualidade de vida, que é um dos pontos nucleares da tutela
ambiental, segundo FIORILO. E, para que se concretizem as ações participativa e consciente, é
imperativo desenvolvam-se, de forma paralela e intercomunicativa, a informação e a educação
ambiental. Somente será possível um desenvolvimento sustentável do planeta quando houver
o interesse de todos ou pelo menos de grande parte dos cidadãos do mundo, pois é o homem,
131
como instituição social, que desperta para o interesse de preservar o meio em que vive. A
responsabilidade por adequar, criticar e até mesmo aprimorar estas normas, recai, de certa
forma, sobre a própria população a elas submetida, uma vez que só o realmente envolvido
poderá julgar determinada norma ou regra como válida, legítima, certa ou errada na análise
historiada e circunstanciada a um tempo e a um espaço. Tal merece ainda maior relevo no que
diz com a proteção ambiental, já que em jogo está a vida de todos e a responsabilidade
solidária de todos.
Por fim, há necessidade de estabelecer metas eficazes de transformação de nosso Estado em
um Estado Constitucional Ecológico, com fulcro em um direito/dever fundamental de
proteção ao meio ambiente com a efetiva participação da comunidade em razão da prática de
uma democracia participativa. E, ainda, se o povo não possui garantidos os direitos
fundamentais, ele não terá capacidade de exercício de direito.
Referências.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988> Disponível em:
www.planaldo.gov.br. Acesso em: 10 nov. 2016.
BRASIL. Lei nº 6.938/81. Disponível em: www.planalto.gov.br. Acesso em: 10.nov.2016.
FIORILLO, Celso A. P. Curso de Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2000.
FRANCISCO, Papa. Laudato Sì. - Louvado sejas: sobre o cuidado da casa comum, São Paulo:
Paulus; Loyola, 2015. Disponível em:
<http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-
francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html>. Acesso em: 20 abr. 2017.
HABERMAS, Jürgen. A soberania popular como procedimento: um conceito normativo de
espaço público. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.º 26, p.107-113. mar. 1990,
_______. Direito e Democracia: entre facticidade e validade . Tradução de Flávio Beno
Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Fundamentais. Porto Alegre: Livraria do
Advogado, 1998.
_______. Dignidade da Pessoa Humana e Direitos Fundamentais na Constituição Federal de
1988. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.
SILVA, Dayse Rafaela da. Direito Social e Patrimônio Cultural. Campinas: Alínea, 2016.

132
LECIONANDO O DIREITO: ENSINAR A SER HUMANO
78

79

Resumo
As barbáries vivenciadas pela humanidade no século passado deram origem a legítima
preocupação de proteção humanitária a todos os indíviduos, assegurando não só direitos
individuais, como também liberdades coletivas e garantias para a sua efetivação. O Brasil tem
se preocupado também com a inserção da disciplina Direitos Humanos nos cursos superiores,
não obstante os esforços, os cursos de Direito não têm buscado alternativas às disciplinas
programáticas que moldam o acadêmico ao perfil velho e decadente de uma justiça belicista,
carecendo de oxigenação às molduras inseridas pelas legislações modernas inspiradas em
modelos democráticos de alternidade e fraternidade. A partir dessa necessidade, busca-se,
nesta pesquisa, o ponto medianeiro entre o pragmatismo e a dialética, pelas mãos de
Boaventura de Souza Santos, Eligio Resta e Luis Alberto Warat, enfatizando que a decadência
de modelos combativos está sendo superada por moldes alternativos que primam pelos
Direitos Humanos e introduzem no meio ambiente do trabalho profissionais pensadores.
Palavras-chave: Ensino jurídico. Multidisciplinaridade. Direito Fraterno.
Abstract
The barbarities experienced by humanity in the last century gave rise to the concern of
humanitarian protection for all individuals, ensuring not only individual rights, but also
collective liberties and guarantees for their realization. Brazil has also been concerned with
the insertion of the discipline Human Rights in the higher courses, despite the efforts, Law
courses have not sought alternatives to the programmatic disciplines that shape the academic
to the old and decadent profile of warlike justice. Lacking oxygenation to the frames inserted
by the modern legislations inspired by democratic models of alternation and fraternity. From
the point of view of necessity, we seek in this research the mediating point between
pragmatism and dialectics, by the hands of Boaventura de Souza Santos, Eligio Resta and Luis
Alberto Warat, emphasizing that the decadence of combative models is being overcome by
alternative molds Which emphasize human rights and introduce professional thinkers into the
work environment.

78
Mestre em Direito Público e Evolução Social pela Universidade Estácio de Sá. Bacharel em Ciências Jurídicas e
Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professora no Centro Universitário Augusto Motta.
Endereço eletrônico: lucianemara@uol.com.br. Acesso currículo Plataforma Lattes:
http://lattes.cnpq.br/7142619530244859.
79
Mestranda em Direitos Humanos pela Universidade Católica de Petrópolis (RJ). Bacharel em Direito pela
Universidade Iguaçu. Advogada. Professora na Universidade Iguaçu. Endereço eletrônico:
carmencaroline@gmail.com.

133
Keywords: Legal education. Multidisciplinarity. Fraternal Right.
1. INTRODUÇÃO
A sociedade presenciou durante a Segunda Guerra Mundial práticas que evidenciaram a
coisificação da vida e a banalização do mal, em condutas que vilipediaram os ideais iluministas
da liberdade, igualdade e fraternidade como a segregação de indivíduos, por indivíduos que se
viam como superiores e legitimados pelo ordenamento jurídico. A partir desta solução
aplicada a vida do ser humano, a usurpação patrimonial e o desrespeito à personalidade, é que
a comunidade internacional preocupou-se em forjar a expressão dignidade da pessoa humana,
como a satisfação de uma parcela das condições mínimas de uma existência pautada em
direitos universais e igualitários.
Diante deste quadro, a aprovação, em dezembro de 1948, pela Assembleia das Nações Unidas,
da Declaração Universal dos Direitos do Homem, reafirmou direitos individuais, outrora
expressados na Delcaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776, na Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão e na Revolução Francesa, para consignar que todo homem,
apesar de suas variáveis biológicas, socioeconômicas, psicológicas e culturais, deve ter
resguardada a sua identidade enquanto pessoa humana. Sendo assim, a partir do
reconhecimento da dignidade, da justiça social e dos direitos humanos, é possível refletir que
as constituições modernas delinearam a liberdade, como fonte de um novo começo. Esta
promoção deve ter como ponto de partida, o ensino dos Direitos Humanos, política pública
que sustenta a difusão dos conceitos e dos valores que comportam a efetivação em uma
sociedade das condições mínimas de tratamento dispensada ao indivíduo.
O Brasil a partir da Constituição de 1988, atribuiu a um rol de direitos, o adjetivo fundamental,
como sinônimo também de liberdade, evidenciando parâmetros mínimos para a vivência
digna em sociedade, tratando ainda, de igual forma, os mecanismos para a sua efetivação. No
entanto, o Direito atravessa a celeuma da construção de uma sociedade mais justa sem deixar
de garantir o desenvolvimento econômico que avoluma as desigualdades sociais,
vulnerabilidade, insegurança e incerteza.
Neste universo de novos direitos, reivindicações e ajustes, o sistema de justiça perpassa por
uma gama de reformas, que apontam para a transformação do judiciário através do ensino
jurídico. Não obstante a formação de profissionais de outras áreas do conhecimento, no Brasil
não se capacita o acadêmico nem o operador para casos complexos, questões de igualdade e
respeito a diferenças, enfim, aspirações que levam ao desenvolvimento pleno da personalidade
humana.
Noutro giro, a parcela mínima de conhecimento adquirido e absorvido pelo operador do
Direito capaz de apontar o direito fundamental num conflito, como àquele inerente à sua
condição humana, torna-se dominado pela cultura combativa, evidenciado nos modelos
replicados e tradicionais das escolas. A multidisciplinaridade contribui para uma formação

134
profissional mais humanística, sem deixar de conjugar as exigências feitas pelo poder público e
parte da comunidade acadêmica.
O problema está presente no desenvolvimento de competências, inserindo de forma
rudimentar a disciplina de Direitos Humanos sem consolidar estruturas mínimas que,
enveredam a sua concretização, como tratar o contato dos acadêmicos com o Direito Fraterno
e práticas de mediação e negociação de conflitos.
O objetivo da pesquisa é evidenciar dinâmicas que venham a romper com o modelo vencido-
vencedor e o clássico conceito de cidadania que está inserto nas legislações e políticas
públicas, para contribuir efetivamente com a formação humanizada, estabelecendo a distinção
entre ser homem e ter humanidade. No trabalho, busca-se especificamente estabelecer as
linhas mestras do Direito Fraterno, como conteúdo de Direitos Humanos; incorporar o ensino
das formas alternativas de resolução de conflitos e compreender o ensino de Direitos
Humanos e de Direito Fraterno, modo defensor da dignidade da pessoa humana advindo de
seu caráter harmônico.
A base teórica do trabalho bibliográfico funda-se em Elígio Resta, Luis Alberto Warat e
Boaventura Souza Santos, observando os resultados de algumas instituições de ensino superior
que desenvolvem timidamente o que se propõe, limitando-se territorialmente ao Estado do Rio
de Janeiro.
2. TRANSFORMAR PARA RESGATAR
Diante da proposta de inserir a disciplina de Diretos Humanos como meio de conscientizar os
profissionais oriundos dos saberes das Ciências Sociais Aplicadas, é partindo da idéia de
construir a formação por caminhos humanísticos que as instituições e ensino superior lançam
na matriz curricular disciplinas que envolvam os direitos humanos para consolidar os
princípios da liberdade, fraternidade e igualdade nos diversos campos da sociedade. Não
obstante, de acordo com a posição do Ministério da Educação e Cultura do Brasil, não é tão
simplificado adotar conceitos mínimos de cidadania, direitos fundamentais, ações afirmativas,
tratados e convenções internacionais.
Só isto não basta para orientar a instrução do acadêmico, que não incorpora o debate nos
bancos escolares, muito menos tem a amplitude da disciplina. É possível apontar que uma
parcela considerável da sociedade tem a equivocada visão que os direitos humanos têm como
destinatário os encarcerados. Não só, mas também, pois falar de direitos humanos é abordar a
proteção legal do ser humano, do direito do homem a não ter e de não sofrer restrições por
qualquer fator genético, ideológico ou biológico.
Deve-se recorrer, com o intuito de não se repetirem outros genocídios como na Alemanha,
Polônia, Sérvia, Ruanda ou Sarajevo, a implementação de técnicas destinadas a compreender
os valores da ética, da justiça e da igualdade entre povos, uma vez que a leitura dos tratados e
das convenções internacionais se restringem a afirmar o dogma de que os indivíduos são iguais
e não pode haver qualquer tratamento no sentido de distinguí-los pejorativamente. Neste
135
sentido, destaca-se a visão deturpada de que o Brasil, ao assumir a questão de cotas para
minorias étnicas, está sendo paternalista, mas não existe qualquer construção de justificativa
para estabelecer que o processo de colonização do Brasil eliminou a liberdade dos silvícolas,
bem como a destruição de grupos, aldeias e culturas. No caso dos afro descendentes, é
oportuno destacar que não se retrata a ausência de integração socioeconômica na extinção do
trabalho escravo. Tais relatos servem somente à guisa de exemplificação no tratamento das
ações afirmativas e a abordagem dos direitos humanos.
Deve-se considerar que ao lecionar a disciplina, tanto a instituição de ensino superior, quanto
o profissional docente, devem estar comprometidos com os seus conteúdos programáticos,
que servem a estruturação de técnicas e avaliações. Porém não podem se limitar a isto, pois o
recorte feito é que o ser humano necessita de parcelas mínimas e essenciais de manutenção,
preservação e proteção da vida, uma vez que o Estado assumiu a posição de garantidor.
Importante ainda considerar que o papel dos Direitos Humanos é a internalização do
reconhecimento pelos Estados daquilo que foi convencionado no âmbito internacional como
também a sua recepção pelos jurisdicionados.
Isto também implica em reconhecer que o fato do indivíduo ser mero portador do direito
posto na lei não surte o efetivo resultado prático quando o mesmo se identifica como
destinatário do direito. Esta conexão, quando realizada extramuros, deságua em ações de
inclusão democrática, afirmação feita a partir da análise de Boaventura de Souza Santos (2007,
p.63).
A hipótese vem contrastar que a disciplina de direitos humanos é elemento suplementar para
as carreiras, uma vez que, as instituições e ensino superior e os acadêmicos estão mais
inclinados a atingir as expectativas do mercado, ou seja, formar profissionais que cumpram
metas, elaborem projetos, resolvam os conflitos, o que culmina na falta de interesses dos
alunos (SANTOS, 2007, p. 62). Numa via reflexiva, algumas bancas de concursos públicos,
como no caso do curso do Direito, ao promoverem a inserção como requisito de aprovação,
tem melhora a sua condição como disciplina eletiva. Destaque merecido por se tratar de um
processo de educação intercultural, interdisciplinar e de responsabilidade cidadã.
Um salto humanitário se produz quando no ensino da disciplina efetivamente há a
investigação das legislações voltadas a assegurar direitos individuais e coletivos; a promoção
de liberdades públicas de natureza civil, política, econômica e social a todos
indiscriminadamente e o estudo dos mecanismos de obter as prerrogativas junto aos três
poderes seja na ausência do Estado, seja na sua aquiescência. Importante fazer o estudo por
situações do cotidiano da comunidade; observar os documentos elaborados pelos Tribunais e
cortes internacionais, bem como identificar as política públicas implementada para suprir a
deficiências na atuação estatal. Desta forma, é pela busca de uma cidadania fraterna onde o
indivíduo se coloca no lugar do ouro, sabendo ouvi-lo e, por este meio, reafirmar os ideais da
Revolução Francesa, do que se ocupa a próxima parte do trabalho.

136
3. MECANISMOS DE EFETIVAÇÃO O ENSINO DE DIREITOS HUMANOS
4. CIDADANIA FRATERNIZADA
A ruptura ao modelo hermeticamente fechado de concretização dos Direitos Humanos em
âmbito interno é o primeiro passo a contradizer o modelo tradicional de dizer o Direito, que
também apresenta o paradigma exigido pelo mercado. Os bancos da academia recepcionam
timidamente sob signo da cidadania. No entanto, o método apresentado por Eligio Resta
(2004), é o Direito Fraterno, com campo de estudo na necessidade universalista de respeito aos
direitos humanos, que vai se contrapondo ao egoísmo ou pelos poderes informais que à sua
sombra governam e decidem.
É de conhecimento universal que os ideais da Revolução Francesa, que receberam maior
destaque no século passado, foram a liberdade e a igualdade, em especial, em decorrência das
atrocidades cometidas. Posto em segundo plano, o principio da fraternidade passa a ocupar o
seu lugar, no contexto social, sob o ponto de vista do tratamento humanitário, sem deixar de
permear os dispositivos de etérea solidariedade entre as nações e de eminente desenho de
direito internacional. A consolidação da fraternidade, na seara do Direito é um novo caminhar
e como princípio a nortear as relações e dispositivos legais, é capaz de inaugurar uma nova
oportunidade no tratamento de conflitos (RESTA, 2004, p. 09-12).
Dessa forma, é pontual estabelecer a vinculação entre direito e fraternidade, por que além de
ser uma tentativa de valorizar uma possibilidade diferente, recoloca em destaque um modelo
de regra da comunidade política: onde não há vencedor, mas um possível. Destarte, é um
trecho do direito vivo que não deve ser analisado sempre como o direito vencedor. Ora, por

conjuntamente, mas não pro


Em decorrência disso, é decisivamente não violento, ou seja, capaz de não se apropriar da
caracterizadora violência pertencente ao querer combater. Em arremate, Humberto Dalla
Bernardina de Pinho e Michele Paumgartten (s.d.) evidenciam que um dos pilares mais
relevantes do Direito Fraterno encontra consolidação sob o alicerce de uma sociedade
humana, retratando um Direito não violento, despido da beligerância e dos enfrentamentos
desnecessários, buscando, doutro viés, a inclusão e a ruptura do binômio ganhador-
perdedor/amigo-inimigo, convenção arraigada do processo judicial tradicional. Nesta linha, o
que deve pautar tais debates é a existência do mio dialogal, onde os indivíduos em conflito
necessitam antes de decidir como se tratam, preservar a relação existente.
3.2 INTEGRAÇÃO PELO DIÁLOGO
Independentemente de qual seja a natureza do direito violado, é oportuno isolar o conflito e
lhe atribuir o tratamento adequado para solucionar os pontos de colisão. Nesta linha de
raciocínio, aponta-se que o conflito é comum ao ser humano e quando esta problemática
transborda a solução por intervenção estatal, é importante enfatizar que a sua composição
137
pela justiça tradicional, para as quais o egresso da faculdade de Direito é moldado para atuar
nos eixos demanda, custo financeiro, capital humano e entraves socioeconômicos.
Assim, nos Estados Unidos da América, na década de 1980 desenvolveu-
-Hakin (1997,
Apud, AMARAL, 2009, p.61), sendo originada das Alternative Dispute Resolution (ADR), como
opção aquela justiça tradicional centrada na figura do juiz. Esta alternância possibilita o
diálogo e promove a aptidão das partes em encontrar soluções consensuais para a resolução de
conflitos buscando substituir o - -
que o método tradicional privilegia o litígio, onde há a dicção do direito para uma das partes,
enquanto os meios alternativos preconizam o diálogo, para se chegar ao ponto onde todos os
envolvidos ganham por ajustar as controvérsias.
O artigo, por restrições metodológicas, toma o princípio da dignidade humana em seu sentido
mais amplo, pois tem na liberdade o seu núcleo central, apresentado como o principio da
autonomia das partes para decidirem a controvérsia. É preciso apontar que o exercício desta
liberdade somente será exercido de forma satisfativa se as partes forem educadas a dialogar e a
conhecer estes mecanismos, trazendo a solução efetiva de seus conflitos.
A mediação tem por finalidade a solução do conflito e, principalmente, a preservação da
relação amigável entre as partes, conservando os laços, garantindo a autonomia e, quiçá,
prevenindo litígios futuros. Indivíduos autônomos e conscientes de seus direitos e deveres têm
menor tendência ao litígio, em especial, aqueles chamados na expressão norte-americana de
frivolous lawsuit, ou, processos judiciais inúteis, considerados assim os que servem apenas
para abarrotar o judiciário.
A considerar que no caso das violações de direitos humanos, o poder judiciário interno não é
capaz de efetuar uma resposta célere e a resolução das celeumas precisa ser cada vez mais
rápida, o que as torna massificadas, insatisfatórias e pouco efetivas, não cabendo espaço para a
análise do caso concreto e significação da norma. Segundo Vasconcelos (2015, p.45):
O direito não se confunde com a norma textual, nem pode ser conquistado por meio de
processo puramente lógico de subsunção do fato a esse texto, pela via de conclusão silogística.
Daí por que, especialmente no direito constitucional, os pontos de vista da concretização
devem frequentemente ser deduzidos do texto normativo, mas a aplicação, de modo decisivo,
vai além do texto normativo, mas não vai além da norma, em seu âmbito material, na
significação obtida a partir do caso particular.
Deve-se aqui apontar que, a Comissão Internacional de Direitos Humanos aplica os meios de
solução amigável entre os Estados membros e aqueles que foram vítimas de violações
humanitárias, o que singulariza o atendimento das suas necessidades, objetivando a condução
das partes à solução do problema, utilizando técnicas de negociação, das quais os cursos de
Direito não têm se ocupado de preparar o acadêmico, evidenciando a cultura mercadológica
de formas combatentes, talvez por aspectos institucionais do Poder Judiciário brasileiro, onde

138
o custo de uma demanda é elevado, mas não o suficiente para desestimular a propositura de
uma ação.
Desta forma, é possível avaliar que algumas instituições de ensino superior estão formando
profissionais capazes de agir e atuar como mediador, reafirmando que faz parte de suas
habilidades a sensibilidade às nuances do sentimento humano, da mesma medida com que lida
com prazos e metas estabelecidos pelos Tribunais do Estados. Para tanto, insere conteúdos
multidisciplinares capacitantes para atuar ante a complexidade de sentimentos e ações
humanas, que devem ser levadas em conta quando da realização de uma mediação. Neste
sentido, para avaliar a formação profissional reporta-se a Luis Alberto Warat que analisa a
formação dos operadores de Direito em oposição a construção humanística.
[...] Os homens da ciência têm verdades, respostas prontas. Você é irrelevante, sua pergunta
não interessa; ela também é irrelevante. As respostas prontas estão na relação entre o real e os
discursos. [...] Os homens da ciência geralmente se escondem detrás dos discursos de verdade
para desperdiçar suas vidas. São verdades que têm cheiro de morte. (WARAT, 2001, p. 20).
Observa-se que a formação do mediador portanto, necessita de um processo de educação
participativa, como afirma Warat (2004, p.195):
"parte da idéia de que tenho que assumir e resolver, sair a procurar tudo aquilo que eu não sei.
A educação participativa me transforma em um procurador, um buscador, um bandeirante de
territórios desconhecidos, que descobrimos por nós mesmos. Com a educação Participativa
procuramos perder a fé nas crenças que nos foram impostas, nas crenças que se confundem
com o conhecimento, que em nome da verdade, não se pode ter divergências. Falo das crenças
que nos impuseram para adestrar-nos no fundamentalismo das crenças, das crenças às quais
nunca podemos ser infiéis, as crenças que nos castigam (nos destroem) se nos descobrem
infiéis a elas. Aprender, e isso um mestre tem que ajudar a descobrir, é perder a fé, ser infiéis
ao fundamentalismo de certas crenças. [...] A educação participativa procura que nós
adquiramos a responsabilidade de produzir nossa própria crença, ajudar-nos nós mesmos
(com a menor cota de ajuda terceirizada) a subtrair de qualquer outro com pretensões de
dominador, o poder de produzir-nos as crenças.
Seguindo os argumentos acima apontados, a inserção de disciplinas destinadas a colaborar
com a efetivação de Direitos Humanos deve trilhar por introduzir temas multidisciplinares,
como também habilitar o egresso ao exercício de técnicas que comungam garantias
processuais de um processo eficiente, como também destinado a assegurar os princípios
corolários dos documentos que alicerçaram as constituições hodiernas. É necessário ponderar
que as disciplinas integrantes do complexo pragmático do curso não serão excluídas, ante as
exigências formuladas pelo próprio Ministério da Educação no Brasil, contudo, integralizar o
Direito Fraterno e as disciplinas das Ciências Sociais Aplicadas e Ciências Humanas. Quiçá,
buscará oportunizar a consciência de que há uma ausência, socialmente produzida, da qual

139
Boaventura de Souza Santos (2002, p. 246) nomina sociologia das ausências e, poderá chegar a
perspectiva de ser e de compreender o Direito e pontualmente os Direitos Humanos.
5. CONCLUSÃO
Após a vivência de condições onde o ser reduzido a coisa diferenciado por sua origem, por sua
orientação sexual, seu gene, a sociedade global decidiu atribuir parâmetros mínimos ao
conceito de vida humana e moldando ano após ano a proteção aos Direitos Humanos.
Com a leitura de ser o direito do homem de ser humano, o Estado, preocupado com a
condução das relações, decidiu regulamentar a inserção das disciplinas de Direitos Humanos
nos cursos superiores, em especial nos cursos de ciências sociais aplicadas, com o objetivo de
orientar os bacharéis acerca das cotas mínima para uma vida justa na ordem social.
Num parâmetro, o agir foi no sentido de elaborar conteúdos programáticos impregnados de
conceitos, doutrinadores e tratados internacionais, dissociados de uma leitura mais
aprofundada das ações afirmativas, uma vez que, em grande parte das ações, os indivíduos
apenas conhecem e quando isto acontece que são portadores de direitos, alguns nominados
fundamentais.
Infere apontar que o abismo entre a efetivação e letra da lei evidencia sociedades de
modernidade tardia e que estiveram sob a precariedade de direitos essenciais ao viver bem.
Neste mesmo conector, a importância dos Direitos Humanos indica não existir na formação
dos egressos dos cursos de Direito uma matriz estrutura a compreender e preservar o
tratamento da fraternidade, ideal tão importante como o da liberdade e o da igualdade,
matrizes do pensamento moderno e fundante dos direitos humanos.
Idéia difundida por Eligio Gesta, tem como objeto a solidariedade, necessária entre as nações e
primordial para a vida em sociedade, uma vez que busca romper com a visão individualista e
adentrar ao campo da coletividade. Todavia, não mesmo vital, é a difusão do diálogo como
método de aferir uma acomodação do conflito entre as partes, afastado da forma velha e
decadente que é a cultura belicista.
A implementação de disciplinas que habilitam o acadêmico deve ser uma realidade, vez que a
codificação processual civil brasileira e os demais instrumentos reguladores trafegam no
sentido de composição de conflitos pelo diálogo, a exemplo da conciliação e da mediação no
âmbito interno e da solução amigável de conflitos na Comissão Interamericana de Direitos
Humanos. Neste sentido, a reforma no ensino do Direito caminha no sentido de ensinar a ser
humano.
REFERÊNCIAS:
AMARAL, Márcia Terezinha Gomes. O Direito de Acesso à Justiça e a Mediação . Rio de
Janeiro: Lumem Juris, 2009.

140
ARENDT, Hanna. Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das
Letras. 1989.
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GHISLENI, Ana Carolina; SPENGLER, Fabiana Marion. Mediação de conflitos a partir do
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Disponível em http://www.humbertodalla.pro.br/artigos.htm. Acesso em 13 de março de 2016.
RESTA, Elígio. O Direito Fraterno. VIAL, Sandra Regina Martini (trad.). Santa Cruz do Sul:
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justiça. Tradução de Hiltomar Martins Oliveira. Belo Horizonte: Líder, 2004.
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SANTOS, Boaventura de Souza. Pela mão de Alice. São Paulo: Cortez, 1985.
_______. Para uma revolução democrática da justiça. 3ª edicao revista e ampliada. São Paulo:
Cortez, 2007.
_______. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista crítica
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SPENGLER, Fabiana Marion. Uma nova abordagem dos conflitos sócios jurídicos por meio do
direito fraterno. Monografia (Graduação em Direito) - Direito em Debate, 2006.
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WARAT, Luis Alberto. O ofício do mediador. Florianópolis: Habitus, 2001.
______. Surfando na pororoca: o ofício do mediador. Vol. III. Florianópolis: Fundação Boiteux,
2004.

141
JUDICIAL: ANÁLISE DE CORRELAÇÕES NO ÂMBITO DO SISTEMA
INTERAMERICANO DE DIREITOS HUMANOS
80

81

Resumo
Num contexto de crise do sistema de democracia representativa e de crescimento de
demandas sociais por efetivação de direitos fundamentais, disciplinados na Constituição
brasileira de 1988, exsurge uma questão central à consolidação do Estado Democrático de
Direito: quais são os limites de atuação dos poderes constituídos na defesa e implementação
dos comandos constitucionais de direitos humanos. Ocorre que, em razão da omissão
inconstitucional dos Poderes Legislativo e Executivo no mister de implementação de políticas

direitos da pessoa humana, verifica- nâmica da separação de

poderes do juiz, em verdade. Nesse cenário, forçoso convir que as expectativas de realização
ente, na loteria do protagonismo do Poder
Judiciário, o que, frise-se, oferece condições para - ou potencializa - o risco de ativismo
judicial. Não se trata, contudo, de um processo afeto exclusivamente à Corte brasileira, haja

Interamericano de Direitos Humanos e dos Estados das Américas que a integram, inclusive no
Tribunal Constitucional do Chile. Não obstante a possibilidade de análise pontual com o
decote das particularidades processuais e substanciais de uma ou outra decisão isolada,
depreende-se que o Supremo Tribunal Federal se encontra num ambiente sociojurídico de

disciplinados (positivados) na Carta da República. Trata-se de um estudo descritivo e


funcional, realizado por meio de pesquisa bibliográfica e análise de jurisprudência, estudo de
caso e a metodologia de análise de decisões.
Palavras-chave: Neoconstitucionalismo. Constitucionalização do direito. Pós-positivismo.

INTRODUÇÃO

80
Doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor Adjunto da
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. (fabriciomuraro@uol.com.br).
Doutoranda em Filosofia do Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Bolsista Capes. Professora
81

convocada na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul. (murieljacob@hotmail.com).

142
Como cediço, é a partir da segunda metade do século XX, precipuamente, que exsurge a
necessidade de fundamentar e consolidar o paradigma do Estado de Direito contemporâneo.
Nesse sentido, são lançadas as premissas de um novo discurso jurídico que, divergindo
substancialmente do paradigma do positivismo, operacionaliza-se por meio de argumentos
construídos em valores ético-políticos.
Com efeito, vislumbra-se que esse novo discurso jurídico apresenta viés preponderantemente
pós-positivista, haja vista que vem pautado em concepção normativo-principiológica cuja
finalidade confessada é aproximar o direito da moral.
Em verdade, o fenômeno do neoconstitucionalismo floresce, de acordo com os teóricos que
admitem a sua existência, por óbvio-, como movimento de implementação e sustentação do
Estado Democrático de Direito, concepção de Estado esta que desponta na Europa continental
no pós segunda guerra mundial em razão da confluência dos ideários do constitucionalismo e
do princípio democrático, propugnando a constitucionalização do direito como processo de
subordinação total das leis a uma Constituição rígida transformadora.
Nesse contexto, depreende-se que para o reconhecimento da força normativa dos direitos
humanos fundamentais bem como à consolidação de instituições e processos democráticos em
tempos de pós-ditaduras e autoritarismos, fez-se mister a deflagração desse novo discurso
jurídico que inexoravelmente relativizasse a cultura da codificação para cravar suas bases
teóricas numa cultura da argumentação jurídica, ou seja, a teoria da argumentação
promoveria o encaminhamento da teoria da interpretação para a instância da aplicação do
direito em termos de ponderação de princípios82.
Não é por acaso, portanto, que hodiernamente se observa a absorção bastante sutil da teoria da
interpretação pela teoria da argumentação jurídica, fato que se pode comprovar, a título de
exemplificação, pela indicação de leitura obrigatória na academia jurídica das teorias de
Robert Alexy (2008) e Ronald Dworkin (2002), como também pelo protagonismo, inclusive
midiático, dos órgãos com atribuição de produção de decisões, estejam eles integrados na
estrutura do Poder Judiciário ou da Administração Pública, ou ainda no âmbito da Arbitragem
privada.
Feitas essas considerações iniciais, passa-se à análise de aspecto da realidade jurídica brasileira
pós Constituição de 1988 relativa à efetivação de direitos fundamentais e o reconhecimento de

Judiciário brasileiro, num cenário neoconstitucionalista e de desenvolvimento-construção da


teoria da argumentação jurídica marcada pela ausência de padrão decisório em ponderações
de princípios a indiciar ativismo judicial.

Nesse sentido, são as reflexões de Tércio Sampaio Ferraz Junior quanto ao tema da Hermenêutica e Intepretação
82

do Direito em tempos de protagonismo dos órgãos de decisão-aplicação-julgamento.

143
1 SEPARAÇÃO DE PODERES E FUNÇÕES DO ESTADO: DISCRICIONARIEDADE E
NORMATIVIDADE
Em certa medida, não há como negar ao advento, ainda que tardio, da Constituição Brasileira
de 1988 a função-responsabilidade pelo desenvolvimento de um novo direito constitucional
nacional, com consequências importantes no modo de se compreender a atuação dos Poderes
Públicos constituídos a partir de releitura contextualizada do princípio da separação de
poderes. Ademais, a Carta da República apresenta repertório de princípios que exigem
adequada interpretação reveladora e concretizante de seu conteúdo imperativo, sem a qual
não será possível verificar a abertura do sistema jurídico ao ideário de justiça pela via do
processo de constitucionalização do direito.
No Brasil, nesse ambiente neoconstitucional verificou-se que o crescimento de demandas
sociais por efetivação de direitos fundamentais contemplados na Constituição de 1988, - e pelo
reconheciment
sistema de democracia representativa, dentre outras razões, promovem o deslocamento das
atenções, antes focadas nos Poderes Executivo e Legislativo, para, precipuamente, o Poder
Judiciário e outros órgãos administrativos importantes de produção de decisões (v.g.: o
Conselho Administrativo de Defesa Econômica CADE).
Nesse sentido, discorrendo sobre o processo de constitucionalização do direito, Barroso o
explica enfatizando o
decorrente, in verbis:
Fruto desse processo, a constitucionalização do direito importa na irradiação dos valores
abrigados nos princípios e regras da Constituição por todo o ordenamento jurídico,
notadamente por via da jurisdição constitucional, em seus diferentes níveis [grifos nossos].
Dela resulta a aplicabilidade direta da Constituição a diversas situações, a
inconstitucionalidade das normas incompatíveis com a Carta Constitucional e, sobretudo, a
interpretação das normas infraconstitucionais conforme a Constituição, circunstância que irá
conformar-lhes o sentido e o alcance. A constitucionalização, o aumento da demanda por
justiça por parte da sociedade brasileira e a ascensão institucional do Poder Judiciário
provocaram, no Brasil, uma intensa judicialização das relações políticas e sociais. (Barroso,
2007, p. 249).
Com efeito, antes de qualquer outra consideração acerca do atual e reconhecido protagonismo
no Brasil do Poder Judiciário é imperioso tecer apontamento relacionado à consagrada
separação de poderes.
Não restam dúvidas de que os poderes constituídos têm sua autoridade derivada

enfraquecer o poder do Estado, complementando a função limitadora exercida pela


Constituição, que impôs a separação de poderes como um dos dogmas do Estado moderno,

144
chegando-
(Dallari, 2005, pp. 219-220).
Não obstante a consagração desse novel princípio de divisão de funções já na ocasião da
Declaração de Direitos da Virgínia, de 1776, e da Declaração dos Direitos do Homem e do
Cidadão, aprovada na França em 1789, fato é que o sistema de separação de poderes vem
sofrendo duras críticas quanto à sua indispensabilidade e adequação prática frente às sempre
novas demandas impostas ao Estado de hoje.
Dentre essas críticas, Dallari esclarece que:
A primeira crítica feita ao sistema de separação de poderes é no sentido de que ele é
meramente formalista, jamais tendo sido praticado. A análise do comportamento dos órgãos
do Estado, mesmo onde a Constituição consagra enfaticamente a separação dos poderes,
demonstra que sempre houve uma intensa interpenetração[grifo nosso].Ou o órgão de um dos
poderes pratica atos que, a rigor, seriam de outro, ou se verifica a influência de fatores
extralegais, fazendo com que algum dos poderes predomine sobre os demais, guardando-se
apenas a aparência de separação. (Dallari, 2005, p. 220).
De toda sorte, com esteio nos fundamentos da crítica acima referida, força é convir que o
aumento de demandas postas ao Poder Judiciário para a garantia e tutela de direitos não se
apresenta, de per si, como indicativo de suposta violação à separação de poderes ou de
funcionamento anômalo do aparato estatal, ainda mais quando esse suposto protagonismo
judicial é levado a efeito em tempos de neoconstitucionalismo.
Sem resquícios de dúvida, o certo é que há certa crença no dogma da separação de poderes
como alicerce inabalável da democracia, de sorte que a proclamação desse princípio pela
Constituição apresenta-se como cláusula imutável e imune ao poder de reforma, de modo que
essa simbologia não pode se prestar tão somente à manutenção de aparência de
funcionamento desvinculada de qualquer correspondência à prática dos comportamentos
estatais. No sentido desta assertiva, apresentam-se, a título de exemplo, pronunciamentos do
estrições
impostas ao exercício das competências constitucionais conferidas ao Poder Executivo,
incluída a definição de políticas públicas, importam em contrariedade ao princípio da
Ação Direta de Inconstitucionalidade4.102, rel.
min. Cármen Lúcia, j. 30-10-2014, P, DJE de 10-2-2015.; Vide Recurso Extraordinário 436.996
AgR, rel. min. Celso de Mello, j. 22-11-2005, 2ª T, DJ de 3-2-2006); e inconstitucional a
criação, por Constituição estadual, de órgão de controle administrativo do Poder Judiciário do
qual participem representantes de Súmula 649, 2003).
Com efeito, já que consagrado o princípio da separação de poderes, é preciso insistir na
definição das características inerentes, - -, das funções-atribuições
de cada um dos poderes constituídos sem a qual não se faz possível compreender sob qual
forma e em que espaço cada órgão pode e deve atuar, sempre nos limites da Constituição.

145
Nesse sentido, para melhor compreensão da temática em tela, Vieira (2002, p. 229) apresenta
buições constitucionais e os demais

Basicamente o que deveria caracterizar o processo decisório judicial [grifo nosso] é sua
submissão aos seguintes critérios: 1) tomar decisões com base em decisões anteriores que lhe
foram pré-ordenadas pelos Poderes representativos, portanto, seguir a normatividade (que é
composta por regras e princípios) e não outros critérios extraconstitucionais ou legais, como a
comumente invocada comoção popular ou a pretensa eficiência econômica, pois não tem
legitimidade democrática para fazer este tipo de escolha; 2) plena obediência ao princípio do
devido processo legal, que permita um procedimento justo, fair, onde as partes possam, com
igual peso e espaço, apresentar seus argumentos; 3) o imperativo da imparcialidade do juiz
[grifo nosso], que decorre do princípio da igualdade, do igual respeito e consideração com que
todos devem ser tratados; 4) a decisão deve ser a decorrência mais correta, mais bem
justificada, desse procedimento que busca a realização da justiça. (Vieira, 2002, p. 229).
Como se depreende, não cabe ao Poder Judiciário render-
as da
normatividade, dando azo à pura subjetividade do julgador que, não raro e no limite, pode
beirar a prática de arbitrariedade.
Não se pode olvidar que o princípio da inafastabilidade da jurisdição não é salvo-conduto para
sempre estará vinculado à razão (à racionalidade) de modo que
não se pode admitir a preponderância de sua vontade (sua pura subjetividade). As decisões
levadas a efeito pelo Poder Judiciário, na trama dessa divisão de poderes, devem sempre
exteriorizar fundamentos racionais que indiquem a observância de padrão na formulação do
ato decisório, sob pena de mácula da ilegitimidade.
Ainda quanto aos contornos de atuação dos demais poderes, Vieira (2002) esclarece, nos
termos seguintes:
O Legislativo e o Executivo, por sua vez, estão submetidos a uma outra ordem de critérios: 1)
embora também submetidos à Constituição, a atuação desses Poderes encontra-se imersa num
âmbito de maior discricionariedade. Ao Legislativo é dado, inclusive, o poder de alterar as
regras do jogo; portanto, a latitude de sua ação é, necessariamente, mais ampla. Isso é natural,
na medida em que sua função é fazer escolhas a respeito dos melhores meios, os mais
eficientes, para ordenar a sociedade, exercendo a função de representar a vontade dos
eleitores. Para tomar decisões em face novas circunstâncias é que são escolhidos. Se os
legisladores e executivos tivessem uma atividade absolutamente vinculada, a democracia
perderia completamente o seu sentido. O que lhes é vedado fazer é tomar decisões
expressamente contrárias à meta-norma da democracia, que é a Constituição; 2) a regra da
maioria, a luta entre grupos para alcançar a maioria, que inclui barganhas e compromissos, e
não a igualdade das partes, é o que define a decisão a ser tomada; 3) o Executivo (não a

146
Administração) e o Legislativo não são, portanto, imparciais, mas representam facções,
ideologias, classes ou partidos vitoriosos no pleito democrático [grifos nossos]; 4) logo, sua
decisões vincularão a coletividade como uma decorrência de um processo político, vencido
por quem mais poder alcançou. (Vieira, 2002, p. 229).
Interessante consignar que Vieira reconhece a legitimidade do Poder Legislativo para alterar
as regras do jogo, desde que produza atos normativos nos limites da Constituição. Nesse

discricionária e parcial do Legislativo é decorrência natural do processo político democrático


de representação de segmentos plurais da sociedade brasileira, não representando qualquer
anormalidade sistêmica capaz de colocar em xeque a higidez do Estado Democrático de
Direito.
Ademais, é relevante rememorar que a Constituição de 1988 veda proposta de emenda
tendente a abolir direitos e garantais individuais, de modo que o Legislativo, a contrario sensu,
não encontraria óbice à ampliação do rol de direitos fundamentais pelo reconhecimento de
-se sustentar que existem
determinados limites de normatividade aos quais o julgador está adstrito que podem ser
alterados pelo legislador no exercício da função legislativa na representação popular.
2 OMISSÃO INCONSTITUCIONAL DO PODER PÚBLICO E ATIVISMO JUDICIAL
A Constituição brasileira de 1998, tal qual as Constituições contemporâneas, não se limitou às
regras clássicas do constitucionalismo dos séculos XVIII e XIX. Como cediço, a Carta da
República é fruto de um processo político que se originou dos trabalhos de Assembleia
Nacional Constituinte instalad
Maior consolidou amplo rol de liberdades públicas e assumiu compromissos de ordem social,
econômica, cultural e ambiental, fixando metas e tarefas a serem perseguidas pelo Estado com
o objetivo de alcançar, por meio de mudanças estruturais da sociedade, um estágio mais
avançado de desenvolvimento social. Nesse sentido, não se apresenta como mero documento
jurídico de organização do governo e de limitação ao poder do Estado, mas também como
Constituição dirigente que retira sua legitimidade da busca de realização de justiça econômica
e social que idealiza e projeta ao futuro.

legislador (a Constituição) pode, através de antecipação espiritual, conformar a evolução da

dos direitos de prestação positiva consagrados, as Constituições dirigentes impõem ao


legislador e ao governante um rol de metas, diretrizes e programas que devem ser
implementados ao longo do tempo histórico, - em razão da existência de certa medida de
discricionariedade -, possibilitando assim o efetivo gozo e fruição dos direitos prestigiados.
Com efeito, como se depreende, a efetivação de muitos dos direitos acima referidos exige a
atuação positiva do Legislativo e Executivo que, malgrado e não rara as vezes, queda-se inerte

147
em estado de omissão flagrantemente inconstitucional. Não há se olvidar que a sanção eficaz
cabível aos governantes e legisladores indolentes que entregam a imperatividade da

particulares é aquela aplicada por meio das urnas. O banimento da vida pública por meio do
processo eleitoral democrático é a pena justa aos maus políticos.
Ocorre que o Brasil, como tantos outros Estados da américa latina, é um Estado de democracia
tardia e em processo de consolidação de suas instituições democráticas. As mazelas de seu
sistema político-eleitoral corrompido e ineficiente abrem chagas e dilaceram todo o tecido
social. O déficit de representatividade política dos mandatários do poder implica direta e
necessariamente na não efetivação de normas constitucionais consagradoras de certos e

de discussão parlamentar porque normalmente são temas (v.g., aborto; união homoafetiva;
descriminalização do porte de drogas; eutanásia etc.) que abrem amplo e sensível debate
público a exigir posicionamento político do mandatário a questão posta e isto pode custar a
perda de eleitores contrário à posição defendida.
Para Barroso (2009), existe uma face positiva e um aspecto negativo do ativismo judicial, in
verbis:
O fenômeno tem uma face positiva: o Judiciário está atendendo a demandas da sociedade que
não puderam ser satisfeitas pelo parlamento, em temas como greve no serviço público,
eliminação do nepotismo ou regras eleitorais. O aspecto negativo é que ele exibe as
dificuldades enfrentadas pelo Poder Legislativo e isso não se passa apenas no Brasil na
atual quadra histórica. A adiada reforma política é uma necessidade dramática do país, para
fomentar autenticidade partidária, estimular vocações e reaproximar a classe política da
sociedade civil. Decisões ativistas devem ser eventuais, em momentos históricos
determinados. Mas não há democracia sólida sem atividade política intensa e saudável, nem
tampouco sem Congresso atuante e investido de credibilidade. Um exemplo de como a agenda
do país deslocou-se do Legislativo para o Judiciário: as audiências públicas e o julgamento
acerca das pesquisas com células-tronco embrionárias, pelo Supremo Tribunal Federal,
tiveram muito mais visibilidade e debate público do que o processo legislativo que resultou na
elaboração da lei. (Barroso, 2009, p. 9).
Assim é que, nesse cenário de ampla omissão inconstitucional dos Poderes Legislativo e
Executivo, seja pelo descumprimento do mister de implementação de programas efetivadores
de direitos consagrados na Constituição, seja pelo não desempenho da função legislativa, -de
debate de questões sensíveis -, no exercício de representação popular, as demandas sociais por
efetivação de direitos não atendidas acabam ingressando no Poder Judiciário pela via
individual ou coletiva, dando ensejo ao que se aqui denomina de judicialização ou

148
Não há se negar que a aplicação do princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional (art.
5o., XXXV, Constituição da República Federativa do Brasil, 1988)levado a efeito num cenário
de omissão constitucional dos Poderes Públicos antes de representar eficiente funcionamento
do sistema de freios e contrapesos, revela indisfarçável risco ao próprio Estado Democrático
de Direito, seja pela exaustão e falência do Poder Judiciário pela carga de processos recebidos,
seja pela eventual perpetração de ativismo judicial. Certo é que a verificação de desequilíbrio

pode levar à hipertrofia da função jurisdicional e ao arbítrio do julgador.


3 ACESSO A
NEOCONSTITUCIONALISMO
Não se pretende aqui apresentar um conceito jurídico fechado daquilo que se convencionou

mormente, numa ou noutra categoria de direitos já consagrada pelas teorias dos direitos
fundamentais (ou direitos fundamentais humanos83). Nada obstante, é preciso consignar que a
ômenos
sociojurídicos:
(i.) o problema das vaguezas e ambiguidades dos textos jurídicos que enseja discussões acerca

constitucional, mas que é reconhecido socialmente; (b) direitos reconhecidos pela via da
abertura interpretativa de cláusulas gerais, princípios implícitos e expressos, e pelo resultado
da solução conferida às denomina das colisões de normas constitucionais;
(ii.) a concepção de universalidade dos direitos da pessoa humana promove uma expansão de

seja, por processo de integração ou diálogo entre Tribunais ou Cortes Constitucionais que
redunda no uso de referências estrangeiras nas decisões do Supremo Tribunal Federal; (b) em

Tribunal Federal com reforço de fundamento lastreado em decisões de Tribunais


supranacionais, ou seja, decisões de órgãos de sistema regional de justiça internacional
influenciam as decisões dos Tribunais ou Cortes nacionais-domésticas;
(iii.) a ampliação ou extensão d

verifica-se também a existência de direitos de titularidade indefinida ou indeterminada, como


no caso dos interesses difusos.

83
Também a definição de questão terminológica acerca de eventuais distinções entre direitos fundamentais,
direitos humanos, direitos da pessoa humana, direitos humanos fundamentais etc. não interferem no
desenvolvimento das ideias e em suas conclusões.

149
A partir dos aspectos acima colacionados, observe-se, por oportuno, que o reconhecimento ou

fundamentação complexa, haja vista que tais direitos se originam em processos de casos

padronização decisória.
Como já salientado nas linhas introdutórias, com o advento do neoconstitucionalismo (ou
constitucionalismo contemporâneo), o direito constitucional do segundo pós-guerra reafirma
a força normativa (e a expande) da Constituição com o fundamento-propósito de afastar a
indiferença do direito às injustiças sociais. Para tanto, a partir de teorias críticas ao
positivismo (teorias pós-positivistas), introduzem- -

normativa dos princípios é levada a efeito sob o manto metodológico da ponderação, de modo
que se apresenta para as teorias pós-positivistas o enfrentamento da difícil questão do controle
da discricionariedade judicial.

Ferraz Junior esclarece que a identificação do próprio direito (questão da validade e eficácia) e
de seus sentidos (questão das classificações dicotômicas) para aplicá-lo corretamente tornam-
se um dado entre outros, ou seja, tornam-se argumentos ao lado de outros empregados na
atividade de (interpretação) aplicação do direito denominada de ponderação de princípios. 84
Nesse contexto, aplicar o direito ou descobrir o verdadeiro sentido da norma resvala
sutilmente na ideia da prevalência do argumento mais forte, mas isto não pode significar, por
razões de segurança jurídica, que a tomada de decisão não tenha observado critérios objetivos,
abrindo espaço para a mera subjetividade do julgador.
A título de provocação reflexiva, Eros Roberto Grau (2005), quando ainda ministro do
Supremo Tribunal Federal, questionava a origem do poder que lhe fora conferido na
investidura do cargo para decidir a partir de uma suposta ponderação de princípios, que, não
obstante parecer um exercício de equilíbrio, representava na verdade um trabalho
discricionário se é que, no limite, não chegava a ser arbitrário.
Em crítica à subjetividade do julgador, Abboud (2011) adverte que:
... a função jurisdicional ganha força e legitimidade, não com o aumento inconsequente de suas
decisões dotadas de efeito vinculante, como tem acontecido no Brasil, mas, sim, por meio de
fundamentação constitucional rigorosa de suas decisões[grifo nosso]. Essa é a verdadeira fonte
de legitimidade das decisões do Judiciário, que não podem mais se basear em meras
convicções pessoais de seus julgadores [grifo nosso], mas em critérios racionais imputáveis e
contidos no próprio texto constitucional. (Abboud, 2011, p. 445).

84
Conferência sobre Hermenêutica e Argumentação proferida na EmagisTRF4 em 2013.

150
Segundo Streck (2011), a doutrina brasileira operou três recepções equivocadas: 1) dos
postulados da jurisprudência dos valores; 2) da ponderação alexyana; 3) do ativismo judicial
norte-americano. De toda sorte, assistindo ou não razão a Streck, o fato é que o cenário de
incertezas e insegurança jurídica acima descrito coloca em evidência a premente necessidade
de um Poder Legislativo brasileiro que exerça atividade política intensa e saudável, e que
desfrute de credibilidade frente à sociedade civil para debater e disciplinar questões de alta
complexidade que marcam o estágio atual de desenvolvimento da sociedade nacional.
Malgrado, enquanto a realidade se mostra diferente e se aguarda uma ampla reforma política
para o fortalecimento do Poder Legislativo e do sistema democrático brasileiros, as
tadas, - mesmo
porque não haverá outra opção doméstica -, na atuação ou protagonismo do Poder Judiciário.
O que se espera nessas circunstâncias é que o Supremo Tribunal Federal possa decidir, - é uma
referência, ao menos -, inspirado na sabedoria do juiz Hércules, figura criada, como cediço, por
Dworkin (2002) na tentativa de descobrir padrões para regular a aplicação do direito em
tempos de neoconstitucionalismo e de desenvolvimento de teorias de argumentação jurídica.
Não há olvidar, contudo, que, diante da pouca produtividade dos Poderes Públicos, mormente,
a omissão inconstitucional do Legislativo no enfrentamento de questões relevantes e
complexas à sociedade brasileira, multiplicam-se demandas sociais pleiteando o

jurisdicional, sendo inegável que esse estado de coisas fomenta à hipertrofia funcional do
Poder Judiciário e potencializa oportunidades políticas para o ativismo judicial.
Quanto ao ativismo judicial, discorda-se de Barroso (2009, pp.9-10) quando afirma que

que não admite eventualidades:


...o ativismo é pernicioso para o Estado Democrático de Direito não podendo, portanto,
diferenciar-se entre o bom e o mau ativismo. Ativismo é toda decisão judicial que se
fundamenta em convicções pessoais, senso de justiça do intérprete em detrimento da
legalidade vigente legalidade aqui entendida como legitimidade do sistema jurídico [grifos
nossos], e não como mero positivismo escrito ou subsunção do fato ao texto normativo.... Em
suma, ativismo, em termos brasileiros, deve ser considerado o pronunciamento judicial que
substitui a legalidade vigente pelas convicções. Daí nossa crítica à discricionariedade judicial,
uma vez que é por meio dela que, atualmente, legitima-se a utilização das convicções pessoais
do julgador em vez das fontes normativas. (Abboud, 2014, p. 421).
Nesse ponto, consigne-se que o Supremo Tribunal Federal (STF), guardião da Constituição de
1988, imerso nesse contexto de protagonismo do Poder Judiciário brasileiro, firmou alguns
entendimentos em decisões prolatadas em casos difíceis, precipuamente, no âmbito do
controle concreto e abstrato de constitucionalidade, que renderam muitas críticas da doutrina

151
jurídica nacional quanto à legitimidade das razões de decidir adotadas. A ausência de padrão
de racionalidade consubstanciado na indicação de quais critérios objetivos teriam sido levados
em conta em cada caso no ato de decidir e julgar fortaleceu as críticas centradas no argumento

A título de ilustração, faz-se referência àquelas decisões que reconheceram a


constitucionalidade da exigência de fidelidade partidária (Mandado de Segurança 26602,
Relator Min. Eros Grau, Tribunal Pleno, j. 04/10/2007, DJe-197), da união homoafetiva
(Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 132, Relator Min. Ayres Britto,
Tribunal Pleno, j. 05/05/2011, DJe-198), do aborto de feto anencefálico (Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental 54, Relator Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, j.
12/04/2012, acórdão eletrônico p. DJe-080) e de pesquisas realizadas com células-tronco
embrionárias (Ação Direta de Inconstitucionalidade 3510, Relator Min. Ayres Britto, Tribunal
Pleno, j. 29/05/2008, DJe-096). Anote-se aqui que as críticas formuladas pela doutrina não se

os aspectos formais e substanciais do processo estatal ilegítimo pelo qual formam


reconhecidos.
Não obstante a possibilidade de análise pontual para o decote das particularidades processuais
e substanciais dos julgados indiciados acima, depreende-se, em linhas gerais, que o Supremo
Tribunal Federal se encontra num ambiente sociojurídico de florescimento contínuo de

por incertezas e imprecisões do novo paradigma da cultura da argumentação jurídica.


As imperfeições do sistema devem ser corrigidas. A busca por um Direito Constitucional

no horizonte
à soberania de cada Estado Nacional, mas à inteira comunidade internacional. (Carducci,
2003, p. 58).
É certo, contudo, que não se trata de uma deformidade estrutural-institucional que graça

em ambientes de democracia tardia também se faz sentir no âmbito das Cortes de outros
Estados nacionais e que ecoam no sistema de justiça da Corte Interamericana de Direitos
Humanos, dentre outros, daí ser de relevância ímpar o diálogo entre Cortes nacionais e de
Justiça Internacional.
CONCLUSÃO

152
Nos termos propostos pelo neoconstitucionalismo e por concepções pós-positivistas, o
processo de constitucionalização do direito apresenta-se como condição indispensável à
efetivação do Estado Democrático de Direito, enquanto representação do Estado de Justiça.
A crise do sistema de democracia representativa no Brasil, dentre outras razões afetas à
ineficiência estatal, não raramente promove o deslocamento de debates políticos sobre
questões relevantes à sociedade brasileira da esfera do Poder Legislativo ao âmbito de atuação
jurisdicional do Poder Judiciário, em especial para o Supremo Tribunal Federal, seu órgão de
cúpula e guardião da Constituição.
Em tempos de neoconstitucionalismo, a adoção do novo paradigma da argumentação jurídica

ponderação de princípios que, se realizada no exercício da jurisdição constitucional,


oportuniza ampliação excessiva da discricionariedade do julgador e o risco de ativismo
judicial.
-se,
hodiernamente, à atuação jurisdicional do Supremo Tribunal Federal (STF), quando do
julgamento de casos (hard cases) de fundamental relevância à harmonia entre grupos e
segmentos plurais da sociedade brasileira. Todavia, frente as dificuldades enfrentadas pela
cultura da argumentação jurídica em definir padrões decisórios, os métodos e parâmetros
utilizados pelo STF no julgamento dos casos referidos não desfrutam de legitimidade
democrática porque indiciam a tomada de decisões políticas lastreadas em convicções
meramente pessoais, portanto, de subjetividade extremada.
Não obstante a especificidade da problematização apresentada e dos argumentos
desenvolvidos, é preciso refletir de forma ampla e desapaixonada sobre os reais avanços e
retrocessos que atingiram a ciência jurídica brasileira quando do enfrentamento da questão da
mudança de eixo do sistema jurídico da lei para a Constituição proposta pelo paradigma
neoconstitucionalista e da nova argumentação jurídica.
ondição de realização da
dignidade humana e, portanto, trabalho contínuo; é obra sempre por acabar. Mas é preciso um
cuidado: o reconhecimento de novos direitos fundamentais por meio da prática de ativismo
judicial pode representar certo retrocesso à construção e consolidação do Estado Democrático
de Direito. É que o tempo de concessão de direitos pela mera vontade ou capricho dos
soberanos é página virada na história da humanidade.
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153
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155
A EDUCAÇÃO CONGLOBANTE COMO PROPOSTA DE REALINHO DA CONSCIÊNCIA
SOCIAL E COMUNITÁRIA
85

86

RESUMO:
Este artigo analisa sob o prisma da sociologia jurídica e da filosofia aspectos e justificativas
pelos quais entendemos deve a educação ser repensada para edificação do ser humano,
estruturação de sua consciência moral e social com relação à sua comunidade, alinhando estas
aos anseios sociais para o aperfeiçoamento da comunidade global e concretização do direito
social à educação.
Palavras-chave: Educação. Direito social. Sociedade. Comunidade global. Consciência moral e
social.
SUMÁRIO
Introdução. 1. O ente social, seus valores morais e a consciência social. 2. A família e o berço da
consciência moral. 3. As limitações da liberdade e as relações externas de privação das
capacidades. 4. A orientação social da educação informal. Conclusão.
INTRODUÇÃO
O homem diferencia-se dos demais animais que caminha nesta terra por diversos motivos,
mas a racionalidade fez dele a criatura dominante do planeta. A capacidade do homem em
projetar-se no tempo, de maneira imaginativa, planejando seus próximos passos e seu
crescimento é o que faz dele um ser realmente especial.
Com estes aspectos em mente, devemos ainda pensar como o homem galgou alcançar o topo
da cadeia alimentar. O homem alcançou sua supremacia por sua capacidade diferenciada de
racionalização do mundo, mas também por ter em algum momento notado que, unido a
outros, era mais forte e surgiram os primeiros esboços da sociedade de homens, seres
gregários que são.
É da natureza humana associar-se a outros, aos seus iguais, mas também de transmitir o
conhecimento que possui, refletindo por seus erros e acertos, a fim de perpetuar a espécie e
aprimorar a sociedade a que pertence.

85
Graduado, mestre e doutor em Direito Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, ex-Vice-
Presidente e membro do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, IBCCRIM, professor de Direito Penal da
Universidade São Judas Tadeu, USJT. i.motta@terra.com.br
Mestrando em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Especialista em Docência do Ensino
86

Superior pela Universidade Iguaçu. Graduado em Direito pela Universidade Iguaçu. Professor de Direito Penal e
Processo Penal na Associação Brasileira de Ensino Universitário UNIABEU. pcleomonteiro@gmail.com

156
Vivemos claramente em uma época de conturbada realidade social e política, onde os valores
sociais e humanos, morais e coletivos, são subvertidos a fim de atender aos interesses de
determinados extratos da sociedade, ao interesse de uma minoria ou ao interesse de
instituições e sistemas que têm ambições próprias e, não necessariamente, ao bem-estar das
pessoas e a qualidade de vida destas em sociedade.
O interesse dessas minorias em propagar a ignorância entre os integrantes da sociedade,
adoecendo a comunidade e induzindo a coletividade a uma espécie de alucinação, restando
manipulada, usada, abusada, não conseguindo libertar-se ou impor suas posições e
necessidades. Isto é algo que, apesar de natural em razão do equilíbrio que o sistema moderno
exige, deve ser revisto para que esse entrelace de interesses necessários possa ser harmônico e
menos nocivo aos envolvidos no sistema.
A chave para libertação da sociedade e do povo desta doença manipuladora, e a retomada da
evolução social dos indivíduos e da comunidade, é certamente a retomada da reflexão e da
transmissão sincera dos conhecimentos e dos costumes. A solução reside no refletir sobre a
EDUCAÇÃO, num sentido amplo da palavra.
Objetivamos analisar os aspectos do pensar o homem em sociedade e suas relações
interpessoais, o desenvolvimento deste e o refletir filosófico sobre a posições deste e as
mazelas que afligem o indivíduo diminuindo suas liberdades e limitando suas capacidades,
estudar quais são os aspectos de vulnerabilização do cidadão que, enfraquecido, fragiliza por
via de consequência a sociedade a qual pertence.
Refletir sobre a necessidade de se pensar a pobreza e o interesse em se manter o cidadão
ignorante para manipular as massas em prol de uma ânsia exploratória e crônica é nosso foco
primário. Entender que a educação ampla é a ferramenta primária de defesa da sociedade e
que a valorização das múltiplas culturas é vital ao desenvolvimento do homem é entender que
educação é bem mais do que obter conhecimentos técnicos. Na verdade, são caminhos que
precisamos trilhar para que possamos tentar discutir uma proposta de cura para a doença
alienatória que assola a atual sociedade.
O ENTE SOCIAL, SEUS VALORES MORAIS E A CONSCIÊNCIA SOCIAL.
Partimos da reflexão sobre o significado do homem e o como ele se conecta com os seus pares

comunga desses valores com seus iguais, a fim de naturalmente proteger-se e evoluir.
Imaginemos o homem primitivo que, de maneira isolada, busca atender a suas necessidades
primárias como alimentar-se, abrigar-se, manter-se vivo, etc. A partir destas necessidades o
homem cria uma consciência instintiva e individual do bem.
É certo que cada qual terá uma consciência circunstancial do que é bom, do que é prazeroso,
dado os seus interesses e habilidades individuais. Nesse sentido, Rawls nos ensina no capítulo

157
dados seus interesses, habilidades e circunstâncias. Apenas na medida em que uma
semelhança de condições o permite é que podemos fazer uma abstração a partir da situação

Cada ponto de vista individual deve ser levado em consideração. Se pararmos para pensar que,
em linhas primárias, as pessoas encontram em seus conceitos individuais diversas interseções
entre as suas concepções pessoais de bem.
Se imaginarmos o valor que essas pessoas dão às suas concepções de bem e à aplicabilidade
que idealizam desses valores com as pessoas que com eles convivem, vislumbramos conceitos
pessoais do bem, aplicados aos dos demais indivíduos, além de observamos como deveria ser a
vida em sociedade e, também, como estes racionalizam a sociedade como uma comunidade
ideal, ou seja, como projeção de sua concepção intuitiva de bem, formando assim um conceito
primário de consciência moral.
Mas não podemos nos deter neste aspecto relativo da moral, pois a este turno analisamos um
conceito de bem, aplicado por uma pessoa à uma comunidade, sem que se leve em
consideração as outras muitas consciências morais, aplicadas por cada qual, à sociedade que se
imagina ideal. A imposição de uma consciência moral única poderia conduzir (e a experiência
histórica sinaliza, neste sentido) a uma repressão dominadora, que conduz e impõe mazelas
indesejadas à sociedade.
Neste sentido, a construção da sociedade deve levar em consideração um amálgama das
diversas consciências morais dos indivíduos, que desejam participar da comunidade que
constroem (ou a qual pertencem), sendo necessário acrescentar à esta fórmula: o tom da
tolerância, a negociação das posições e a sujeição dos interesses particulares específicos e
conceitos individuais do bem e do moralmente justo para a congregação de valores individuais
convergentes, que determinarão o que é socialmente valoroso, desvendando-se assim uma
consciência social, um sentir coletivo de bem que, não necessariamente, vai coadunar-se em
todos os seus aspectos com os sentires individuais, sujeitando-se estes àqueles já que são
intrínsecos, direta ou indiretamente, uns nos outros.
O Professor norte-
certa? que
como mais elevado objetivo moral, a maximização da felicidade e que a maximização da

verdade, a produção de prazer ou felicidade e o afastamento da dor ou sofrimento. (SANDEL,


2016, P 48).
Assim, Jeremy Bentham demonstra que o prazer e a dor orientam a nossa consciência moral e
que todos os valores em que nos fiamos para determinar o que é certo ou errado advém da
aproximação do prazer ou de felicidade e do afastamento da dor e do sofrimento.

158
A consciência social buscará assim atrair felicidade e afastar o sofrimento naturalmente
daqueles que a compõe, mas não na forma de uma equação matemática como sugere Bentham.
Devemos levar na verdade em consideração um amálgama de valores morais amplamente
reconhecidos pelas

A FAMÍLIA E O BERÇO DA CONSCIÊNCIA MORAL.


O ser humano da atualidade vive num mundo moderno e globalizado, de consumismo
exacerbado e de necessidades cada vez mais amplas e de difícil alcance. Muitos são os fatores
que orientam o ente social neste sentido, suas expectativas, seus anseios, a necessidade de
saúde, alimentação, vestuário, etc., mas todos esses conceitos são retransmitidos mesmo que
de maneira despercebida quando do início do primeiro convívio social que conhecemos, a vida
em família.
O ser humano passa a ser educado sem perceber. Observa; ouve; imita; repete, tudo de
maneira não planejada, intuitiva, nesse sentido ensina o professor Jimenez Serrano:
nimos a educação informal como aquele processo não planejado e espontâneo que se
desenvolve longe da escola, mas que repercute, de fato, na formação do ser humano. A nosso
ver, a educação informal se desenvolve no seio familiar e no meio social em que a criança

Na verdade, o indivíduo já nasce inserido em uma sociedade que gira em um ciclo de anseios e
se sente ensinado pelas informações que apreende no seio de sua família, entretanto os
conceitos de bem que lhes são primeiramente apresentados e podem estar contaminados (e
infelizmente estão) pelo que anteriormente denominamos como uma contaminação alienante.
Se a orientação moral primária do homem parte da família, estamos diante e uma espécie de
retroalimentação que é feita a partir das interseções encontradas na reunião de pessoas que
compõem esta microssociedade parental, numa tentativa de passar ao novo membro daquela
família os valores que todos que a compõem concordam serem acertados e aplicáveis aquela
pequena comunidade familiar, excetuando-se os valores discordantes, evoluindo assim o novo
membro daquela nova geração, que por suas concepções melhoradas tenderá a evoluir a
família em si, já que sua consciência moral será o reflexo de uma consciência social
aprimorada, que por conseguinte se reunirá com as consciências aperfeiçoadas dos demais
membros da nova geração, evoluindo para uma nova consciência moral aperfeiçoada.
Assim como as famílias são as sociedades, só que constituídas de grupos maiores, grupos
religiosos, grupos étnicos, grupos culturais, artísticos, profissionais, políticos e os mais
diversos possíveis. Numa sociedade ideal, o agir comunicativo entre os membros do grupo,
com uma reflexão aberta dos conceitos morais de seus membros, pautada em tolerância e
sinceridade, tenderia a evoluir a consciência social destes grupos e da sociedade como um
todo.

159
Mas as sociedades não são perfeitas e nem só do agir comunicativo se estabelecem as relações.
Bem como não são perfeitas as sociedades, também as famílias não são perfeitas, os diversos
grupos familiares tendem a ter núcleos de membros mais influentes, seja pelo poder de
persuasão dentro do grupo, seja pelo potencial econômico ou até mesmo pela capacidade de
congregar (solidarizar) as vontades entre os membros.
Os valores individuais de alguns membros tendem a sobressair sobre os de outros e até mesmo
uma disputa pela aprovação de outros membros dentro da família pode ocorrer. Barganhas e
negociações são comuns no modelo familiar, o pai dá o presente, mas mãe defere mais
liberdade, ao ensejo, guardemos a palavra liberdade para uma importante reflexão que
faremos a diante.
Os pequenos exemplos dados acima que inocentemente ocorrem no seio de qualquer família
ilustra uma disputa pela aprovação que legitima o poder parental sobre o filho. O filho não
pode se dizer subjugado por adotar um comportamento que aceita e adota por vontade
própria, uma vontade própria dirigida, induzida, mas ainda assim não obrigada e sim
negociada. Mas negociada a troco da manipulação, da troca de interesse por liberdade ou por
recursos (econômicos). A educação informal moral sinaliza ao ente social em construção que
esta negociação de seus valores morais é premissa válida de comportamento.
A educação informal obtida no seio da família é a bússola primária que norteia os rumos que a
sociedade do futuro adotará. Uma consciência moral deficiente congregada só poderá carrear
a uma consciência social deturpada, alheia às preocupações e facilmente vulnerável a
manipulações de todo o tipo.
O questionamento sobre o qual nos debruçamos neste ponto reside em identificar tais
vulnerabilidades e o real berço destas fraquezas para que possamos imaginar meios para se
pensar propostas de defesa da consciência moral primária a fim de afastar o ente social da
corrupção moral que corrói os alicerces da sociedade.
AS LIMITAÇÕES DA LIBERDADE E AS RELAÇÕES EXTERNAS DE PRIVAÇÃO DAS
CAPACIDADES.
Quando imaginamos nossa própria vida e curso de nossa pequena história enquanto seres
humanos, geralmente, nos vemos como seres livres, que podem tomar decisões por si só, de
escolher livremente, de ir e vir, fazer ou deixar de fazer e isso faz com que cresçamos
imaginando que tudo é possível.
O espectro de nossas liberdades nos projeta no mundo social e, como dito anteriormente, por
sua natureza gregária o ser humano quando nasce já começa a participar da microssociedade
familiar. Nesta microssociedade, valores são partilhados entre seus componentes, valores que
vão influenciar esta escolha livre ou que até mesmo vão tornar esta escolha, digamos, não tão
livre.

160
As matrizes familiares estabelecem uma expectativa de comportamental que vai limitar nossa
liberdade, seja pelo que é esperado de nós, seja para não atingir a esfera da liberdade de
outrem ou até mesmo pelo simples temor de uma reprimenda por outros membros da família.
De mesma sorte orientam-se as liberdades num contexto social mais amplo. As matrizes as
quais nos filiamos, nossa família, religião, cultura, etc., vão influenciar a abrangência e a
direção da liberdade que possuímos e exercemos. O filósofo e Nobel de economia Amartya Sen

livre da nossa vontade, fazendo com que identifiquemos dois aspectos que tornam valiosa a

exemplo do professor Sen:

atividade. Se ele consegue fazer exatamente o que


situação possível, alguns bandidos fortemente armados interrompem o sossego de Kim, tiram-
no a força de sua casa e o jogam em uma grande valeta. Essa situação terrível e repulsiva pode

Kim, ordenando que ele não saia de casa, ameaçando-o de punição severa caso viole essa

No exemplo podemos ver claramente que a esfera da liberdade de Kim sofreu influência do

oportunidade de fazê-lo, podendo ainda desistir de ficar em casa a qualquer tempo e


livremente dirigir-se a qualquer lugar, sendo livre em oportunidade e em processo (de escolha
de ficar em casa).
-se, mas o processo pelo qual isso se
deu nada teve a ver com a liberdade de Kim, o processo de escolha de Kim sofreu a ação de
fatores externos sobre os quais este não teria qualquer influência. Na verdade Kim até poderia
mudar de ideia e sair de casa, mas para isso teria que aceitar a hipótese de ser submetido a
severa punição decorrente da variação de seu processo pessoal de escolha frente as, digamos,
imposição sociais.

oportunidade de ficar onde quiser e pelos meios que entender melhores. A influência de
questões periféricas e externas sobre sua liberdade é contundente, não restam escolhas a Kim
num primeiro momento.

sobre o exemplo do mestre Amartya Sen pois, mesma jogado em uma valeta pelos bandidos,
precisará Kim avaliar os aspectos de suas oportunidades e os aspectos dos processos de
escolha pelos quais vai decidir como atuar exercendo a expressão de sua liberdade. Liberdade
limitada, vilipendiada, violada, mas ainda assim alguma liberdade, como por exemplo, a de pôr
a cabeça para fora da lama, a de poder rastejar para local menos imundo, etc.

161
Tudo isto em prol de melhorar o seu bem-estar ou de pelo menos tornar sua vida mais
suportável, consideradas as condições precárias as quais possa estar submetido. Tudo isso dar-
se-á diante das capacidades que possuir de exercício de sua liberdade e a direção que sua
liberdade naturalmente toma no sentido dos valores que possui. Ainda nesse sentido ensina
ções de funcionamentos

(AMARTYA SEN, 2011. p. 267).


As capacidades assim limitam-se por imposições de natureza diferenciada, que variam de
acordo com questões pessoais, sociais e do próprio ambiente, do mundo em si, Amartya Sen
identifica quatro variações que agregarão desiquilíbrio ou distinções entre as potenciais
capacidades dos indivíduos, sendo estas: 1. As heterogeneidades pessoais; 2. As diversidades no
ambiente físico; 3. As variações no clima social e 4. As diferenças nas perspectivas relacionais.
Quanto as heterogeneidades pessoais, não se sobressaem maiores duvidas, simplesmente as
pessoas são diferentes, mais ou menos hábeis a determinadas realizações, questões
relacionadas à idade, o gênero, a saúde, educação, etc., exercem nítida e indiscutível influência
sobre as oportunidades e processos de escolha que os entes sociais terão para realizar seus
anseios. Questões relacionadas a propensão a doenças, disfunções, deficiências, etc., atraem
logicamente uma gama de desvantagens específicas que, por conseguinte, vão limitar as
capacidades de conversão de recursos em bem-estar por esses entes.
As diversidades de ambiente físico influenciam de mesma sorte, positiva e negativamente, as
capacidades, lugares com melhores situações climáticas que propiciam a agricultura ou com
alguma incidência de catástrofes naturais, que atraem sucessivos prejuízos. Aquele cidadão
que pertence a uma comunidade situada em local com solo e clima propícios à agricultura, por
exemplo, terá privilégios com uma conversão mais eficientes de seus recursos, agregando
valor ao seu objetivo final, neste caso a produção.
Por outro turno, o ente inserido em uma comunidade que atravessa rotineiramente períodos
de enchentes, por exemplo, dependerá de mais recursos econômicos ou prestação continuada
de serviços públicos assistenciais, as suas capacidades se limitarão, por evidente, em razão das
intempéries ambientais.
Existem ainda as chamadas diferenças de perspectivas relacionais, onde o padrão de
comportamento entre os sócio indivíduos atrairá vantagens e desvantagens na perspectiva das
capacidades. Ter maior desenvoltura para falar em público e lidar com situação interpessoais
certamente fara aumentar o poder de conversão daquele indivíduo através da persuasão, por
exemplo, na outra ponta da balança minimamente encontraremos o persuadido, que saboreou
as desvantagens de ser persuadido.
O clima social também é fator sinalizado pelo ilustre escritor Amartya Sen como variável que
influi nas capacidades dos indivíduos e das sociedades. Uma sociedade de diminuta violência
ou onde a saúde pública é satisfatória, encontrará mais lastro para sua evolução e será

162
evidentemente menos conflituosa. É como se estivéssemos diante do solo fértil comentado
acima, quando ilustramos a variável relacionada ao ambiente físico, mas tratando-se agora de
um solo fértil social.
Em contrapartida, e infelizmente a realidade brasileira tem se desenvolvido neste sentido,
quando o clima social é ruim se torna expressão de uma realidade eivada de precariedades, os
aspectos de oportunidades e processos de escolha tornam-se mais truncados. Lembremos da
estória do Kim que depois de jogado na vala, não encontra amparo para de lá sair, ou
imaginemos ainda que lá ele tenha adquirido uma doença qualquer e que a estrutura de saúde
não o atenda, teremos um desamparo institucional por um lado e uma possível
desestabilização das relações comunitárias pois o desamparo de um membro da comunidade é
desamparo da sociedade como um todo.
A falência da educação no sentido mais amplo da palavra, da educação informal à educação
formal e especializada, a nosso modestíssimo sentir, faz com que a sociedade como um todo se
desestruture, a solidariedade social desejada se enfraquece, das fontes de variação da
conversão de renda ou recursos pessoais em bem-estar, é a educação a variável mais
significativa, tudo mais surge da educação, os parâmetros e valores da sociedade e das várias
comunidades que compõe esta dependem de uma educação para o bem, com valores morais
inseridos num contexto edificador do ente como membro da sociedade e que reflita uma
consciência social vinculada a uma solidariedade comunitária que será a grande mediadora
entre os sistemas que hoje, em prol de seus interesses, não se refreiam ao alienar as
capacidades dos sócio indivíduos.
A ORIENTAÇÃO SOCIAL DA EDUCAÇÃO INFORMAL.
A reflexão social sobre os parâmetros educacionais é certamente um tema delicado a se
abordar. Como vimos anteriormente, a sociedade é composta por vários grupos comunitários
que se reúnem e comungam de valores específicos que, eventualmente, demonstrar-se-ão
conflituosos com os valores de outros grupos, tão legítimos quanto, e que compõem com um
primeiro grupo a mesma sociedade que deseja idealmente evoluir em conjunto.
Essa relação que se espera de equilíbrio entre as microcomunidades pressupõe, em primeiro
lugar, uma tolerância entre elas que permita o convívio social, um sistema de concessões que
equilibre as relações entre as microcomunidades que comporão a sociedade lato sensu.
Teoricamente este equilíbrio entre as coletividades representativas de determinados extratos
sociais deveria atrair o equilíbrio de relações interpessoais entre os membros de grupos
distintos, entretanto, toda esta engenharia social somente seria efetiva se entre os envolvidos
de desenvolvesse uma relação comunicativa de maneira plena no sentido da estabilização de
uma solidariedade social.
Ensina Vanzella, ao citar Habermas, no artigo publica

163
corroborar sua afirmação:
santes e falantes podem tomar posição em relação a qualquer pensamento

Um agir comunicativo, sincero e construtivo é fundamental para edificação de uma


comunidade dotada de solidariedade social. Entretanto, uma comunidade não se constrói
somente de ideais e consolidação das vontades. Uma comunidade é mais que isso e depende da
geração de capital para equilibrar a balança das diferenças e variações sociais entre seus
extratos culturais e microssociedades. A sociedade precisa estruturar-se na forma de Estado e
suas múltiplas camadas devem ser representadas. Representações estas que devem ser
legitimadas pelos próprios membros da sociedade e que como refletimos anteriormente,
possuem valores pessoais morais que podem estar contaminados.
Essa contaminação moral das lideranças e representatividades tem a tendência de tecer uma
rede no sentido oposto ao idealizado na construção da sociedade, de fazer valer seus interesses
sobre os da coletividade, da ânsia pelo poder fomentada pela voracidade do capital e com isso
leva os que deveriam representar a consciência social e primar pela solidariedade social a
alienar seus legitimadores com intuito de perpetuação no poder para que possam servir-se e
servir ao capital.
Todo o engendramento lógico deturpante tem como origem uma doença primária que fica
estagnada, incubada, silenciosa até que a oportunidade maliciosa venha à tona, a corrupção
moral individual e primária.
Nesta esteira, somente a educação conglobante, que idealmente amalgamasse a educação
informal e sociocultural para o bem de maneira integralizadora com a educação formal,
respeitando as diferenças, mas ressaltando valores da consciência social aos envolvidos no
processo poderia afastar dos entes sociais a corrupção moral. Se os conceitos particulares do
bem e do justo constroem e edificam a sociedade idealmente, elevando seus membros
teoricamente mais aptos a representantes do todo, quando estes estiverem contaminados pela
corrupção moral, o todo que lhes foi confiado, contaminado também o será.
CONCLUSÃO
Buscamos analisar no presente trabalho a dinâmica das relações pessoais que alicerçam a
formação das comunidades e microssociedades e como estas microssociedades ligam-se
formando um todo maior e mais abrangente, a sociedade lato sensu.
Verificamos que as orientações humanas primárias fomentam uma concepção pessoal do bem
que, por via de consequência, dá subsídio para que o ente social estruture sua consciência
moral que reside no modo como o sócio indivíduo acredita que seu conceito do bem deveria
ser aplicado à sociedade.

164
Entendemos como a reunião das consciências morais individuais, de maneira tolerante e
sincera, dotadas do agir comunicativo, constroem um senso comum, conjunto e racional, de
valores que se entrelaçam formando a consciência moral.
Visualizamos a sociedade mais abrangente se erguer desta reunião de consciências sociais
derivadas das microssociedades oriundas dos diversos grupos comunitários e representativos.
Seguindo-se as reflexões, observamos o papel central da educação nesta dinâmica, da
orientação informal intuitiva e espontânea, passando pela educação informal de valores sociais
e culturais até a educação formal e especializada que, conglobadas, constroem o caráter e os
valores morais do ente social que, mais tarde, mostrando-se mais envolvido com a realização
dos com os valores integrados que constituem a consciência social, será eventualmente
legitimado para representar essas vontades amalgamadas e primar pela solidariedade social.
Destas observações depreendemos que apesar de toda a estrutura socializante negociada e
comunicativa, quando os valores morais são corrompidos, toda a sociedade estará à mercê
desta mazela representada por um desvio de valores e a sombra do mal da alienação social
estará sempre à espreita para adoecer a comunidade estruturada.
Concluímos que uma possível solução pode ser mais simples e de maior abrangência do que
podemos imaginar, colocar a educação conglobante como fator de estruturação da sociedade e
de diminuição (com pretensões a extinção) da corrupção moral pode ser uma proposta real
para repensar as relações interpessoais dos entes sociais de modo a estruturar um novo nível
de evolução das consciências sociais consolidando uma nova interação de solidariedade social.
REFERÊNCIAS:
HABERMAS, Jürgen. A nova obscuridade: pequenos escritos políticos V. Trad. Luiz Repa. São
Paulo. Ed. UNESP, 2015.
_____. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Vol. 1. Trad. Flávio Beno
Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997.
RAWLS, John. Uma teoria de justiça. Trad. Almiro Piseta e Lenita M. R. Esteves. São Paulo.
Martins Fontes, 2000. 1ª Ed. 2ª tiragem.
RODRIGUES, Marta M. Assumpção. Políticas Públicas. São Paulo: PubliFolha, 2015.
SANDEL, Michael J. Justiça O que é fazer a coisa certa. Trad. de Heloisa Matias e Maria Alice
Máximo. 20. Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
SEN, Amartya. A ideia de justiça. São Paulo: Companhia das letras, 2015.
SERRANO, Pablo Jiménez. O direito à educação: fundamentos, dimensões e perspectivas da
educação moderna. Rio de Janeiro: Jurismestre, 2015.
_____, Pablo Jimenez. Filosofia do direito. São Paulo: Alínea, 2014.

165
VANZELLA, José Marcos Miné (org.). A dialética entre valores e forma jurídica. São Paulo.
Alínea, 2015.

166
ACESSO À JUSTIÇA ATRAVÉS DA MEDIAÇÃO: UMA REALIDADE POSSÍVEL
87

88

RESUMO
A crise na oferta da justiça enfrentada em muitos países nos dias de hoje, faz com que as
sociedades se preocupem cada vez mais com o tema, ou melhor, com a efetividade do direito
fundamental ao acesso à justiça, positivado na Declaração Universal dos Direitos do Homem e
do Cidadão de 1948, portanto, reconhecidamente um direito humano. Essa efetividade significa
a possibilidade de encontrar elementos que garantam justiça para além do texto normativo.
Nessa esteira, aparecem o meios alternativos de solução de conflitos, hoje, melhor
denominados como meios adequados de tratamento de conflitos, dentre os quais se destaca a
mediação que é uma forma autocompositiva, baseando-se no empoderamento das partes para
juntas solucionarem as suas divergências de forma consensual. A presente pesquisa utiliza-se
do método dialético na busca da demonstração que a mediação pode dar efetividade ao acesso
à justiça no Brasil.
RESUMEN
La crisis en la oferta de la justicia enfrentada en muchos países en los días de hoy, hace que las
sociedades se preocupen cada vez más con el tema, o mejor, con la efectividad del derecho
fundamental al acceso a la justicia, positivado en la Declaración Universal de los Derechos del,
El hombre y el ciudadano de 1948, por lo tanto, reconocidamente un derecho humano. Esta
efectividad significa la posibilidad de encontrar elementos que garanticen justicia más allá del
texto normativo. En esta estera, aparecen los medios alternativos de solución de conflictos,
hoy, mejor denominados como medios adecuados de tratamiento de conflictos, entre los
cuales se destaca la mediación que es una forma autocompositiva, basándose en el
empoderamiento de las partes para juntas solucionar sus divergencias De forma consensuada.
La presente investigación se utiliza del método dialéctico en la búsqueda de la demostración
que la mediación puede dar efectividad al acceso a la justicia en Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
Acesso à justiça; efetividade; mediação, direito fundamental; direitos humanos.
PALABRAS- CLAVE:
Acceso a la justicia; De la efectividad; Mediación, derecho fundamental; derechos humanos.

87
Mestre em Direitos Fundamentais e Democracia pelo Centro Universitário Unibrasil. Professora do Curso de
Direito da Universidade do Contestado Campus Canoinhas/SC e Mafra/SC, servidora do Tribunal de Justiça de
Santa Catarina, e-mail: adrianeoliveira2501@gmail.com
Doutora em Educação Professora/Pesquisadora do Programa de Mestrado em Direito do Centro Universitário
88

UniBrasil em Curitiba/PR, e-mail: laura.both@unibrasil.com.br

167
1 INTRODUÇÃO
O acesso à justiça, como direito fundamental que é, está na pauta da agenda mundial como
sendo uma preocupação antiga, uma vez que há décadas discute-se quais seriam as melhores
formas para seu auxílio, ampliação e efetivação.
Dessa forma, verificada a crise geral instalada na oferta da justiça, muito se tem estudado
sobre o assunto, na busca de alternativas e/ou formas de que haja uma aproximação concreta
dos cidadãos.
A previsão formal do direito fundamental (humano) do acesso à justiça ocorre em muitas
sociedades, porém, o maior desafio consubstancia-se em estabelecer meios de sua efetivação
na prática, para além da conformação escrita no texto normativo. A busca de alternativas é
incessante, muitas soluções foram criadas e estão sendo criadas, no entanto, a descoberta da
prática ideal se tornou uma proposta desafiadora. Assim, nasce o objeto presente estudo, que
busca verificar, a partir de uma discussão dialética, se a mediação pode preencher essa lacuna
de efetividade.
Tal prática, resgatada do passado, vem para ofertar alternativas à decisão adjudicada por meio
da resolução não adversarial dos conflitos, com a construção mútua da solução das
divergências e a partir disso, possivelmente proporcionando acesso à justiça.
Sendo assim, o presente trabalho primeiramente faz uma incursão conceitual de justiça e de
acesso à justiça juntamente com notas sobre a crise de efetividade instalada no contexto
brasileiro.
Já num segundo momento, a pesquisa retrata a mediação como forma adequada, consensual e
autocompositiva de resolução de conflitos com vistas a buscar dentro do instituto a possível
resposta para a problemática enfrentada: acesso à justiça a partir da mediação, uma realidade
possível.
2 DO ACESSO À JUSTIÇA
A grande maravilha da justiça no mundo contemporâneo é dar a Ela o verdadeiro sentido, de
virtude mestra, não meramente formal, mas sim na prática (Fraser, 2014). Assim, o grande
desafio é que para além do reconhecimento formal dos direitos, eles tenham efetividade.
(Sadek, 2009).
Nessa toada, é oportuno dizer que a justiça do ponto de vista de uma revolução democrática da
justiça, não deve ser somente rápida, mas acima de tudo deve ser uma justiça cidadã (Santos,
2007), apta a atender a todos indiscriminadamente.
O conceito de justiça é bastante amplo, e pode ser definido como um fim social da mesma
forma que a igualdade, ou a liberdade, ou a democracia, ou o bem-estar. Ainda sim, a melhor
coisa é considerá-la como uma noção ética fundamental e não determinada (Santos, 2007).

168
Justiça - Conformidade com o direito, o preceito legal. Equilíbrio perfeito que estabelecem a
moral e a razão entre o direito e o dever. Poder de julgar, de aplicar os dispositivos legais. A
e e perpétua de dar a cada um

Apesar de alguns doutrinadores definirem a Justiça como sinônimo de Poder Judiciário, não se
pode limitar a conceituação a essa terminologia, até porque com a crise instalada no âmago do
Poder Judiciário, acesso à justiça seria algo extremamente relativizado. As situações próprias
da vida e das instituições de cada povo, determinam as reações do sentimento de justiça dos
Estados e das pessoas (Ihering, 2014), dando sentido e concretude a Ela, variando de povo para
povo conforme suas crenças.
A justiça é a primeira virtude das instituições sociais, como a verdade o é dos sistemas de
pensamento. Embora elegante e econômica, uma teoria deve ser rejeitada ou revisada se não é
verdadeira; da mesma forma leis e instituições, por mais eficientes e bem organizadas que
sejam, devem ser reformadas ou abolidas se são injustas (Rawls, 2000, pp. 03-04).

solução pacífica dos conflitos, à prestação jurisdicional, é um ideal fundamental do Estado de

Assim, no fim primeiro do direito está a pacificação social, para a qual há a existência de um
ambiente de paz, que quando negativa gera as condições para o estabelecimento da justiça (paz
positiva), sendo que sem aquela, não existe essa; sem essa, aquela não se mantém (Maliska,
2013).
O acesso à justiça, previsto no art. 5º, XXXV e LXXIV, Constituição Federal de 1988 deve
compor o mínimo existencial, porque na sua falta, os indivíduos não teriam meios de garantir
seus direitos. Ou seja, sem quem faça as devidas garantias, (um Poder Judiciário não só
acessível e estruturado, mas com ações que possam tutelar os direitos violados), o rol de
direitos previstos na Constituição seria uma mera quimera (Fonte, 2013).
Destarte, o acesso à justiça não é apenas um direito social fundamental, que dia após dia tem
alcançado destaque, mas também o ponto central e de aprofundamento dos objetivos e
métodos da atual ciência jurídica (Cappelletti & Garth, 2002).
Assim, quando o assunto é acesso à Justiça, o objetivo direto é torná-lo efetivo, dada sua
importância como um dos principais e fundamentais direitos do cidadão, garantindo sim o
direito e não somente a propositura da ação (Silva, 2005). Nesse sentido, a Constituição
Federal de 1988 foi o maior ganho da democracia na história do Brasil, e quis prever que todos
indistintamente tivessem condições de acessar o judiciário, com extensa garantia de que
nenhum direito sob ameaça fosse excluído de seu pálio.

sil, 1988),

169
remontando uma previsão já elencada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, declara
que o acesso à justiça é um requisito fundamental, talvez o mais básico dos direitos humanos
nos sistemas jurídicos modernos e igualitários, pretendendo garantir antes de só proclamá-los
como direito de todos (Cappelletti & Garth, 2002).
No entanto, apesar de seu caráter ufanista, o inc. XXXV do art. 5º da Carta Magna de 1988, não
marca o jurisdicionado como seu precípuo destinatário, e sim o legislador; também não
garante que sempre sejam examinados no mérito os históricos de danos temidos ou sofridos;
lembra-se, ainda, que a solução do conflito levado aos Tribunais depende do atendimento das
condições de admissibilidade da ação. O processo que lhe serve de instrumento deve atender
aos pressupostos de existência e validade, pois não atendidos esses elementos a lesão ou
ameaça ao direito, não terão guarida no judiciário (Mancuso, 2011).
Esse fato demonstra a fragilidade da aplicação do princípio, bem como as inúmeras variantes
que podem ser atreladas a sua garantia e aplicação, evidenciando o fato de que o acesso à
Justiça é, muitas vezes, deveras inaplicável.

O conceito de acesso à justiça não pode mais se manter atrelado a antigas e defasadas acepções
que hoje se podem dizer ufanistas e irrealistas atreladas à vetusta ideia de monopólio da
justiça estatal, à sua vez assentado numa perspectiva excessivamente elástica de
universalidade/ubiquidade da jurisdição e, também aderente a uma leitura desmesurada da
facilitação do acesso, dando como resultado que o direito de ação acabasse praticamente
convertido em dever de ação, assim insuflando a contenciosidade ao interno da sociedade e
desestimulando a busca por outros meios, auto e heterocompositivos (Mancuso, 2011, p. 24).
O efetivo acesso à justiça vem cada vez mais sendo aceito como um direito social básico nas
modernas sociedades. Todavia, o conceito de efetividade ainda é abstrato (efetividade
perfeita), posto que no contexto de um dado direito substantivo poderia ser demonstrada
como a plena igualdade de condições, ou seja, a plena certeza de que a condução final do
processo dependerá somente de méritos jurídicos em relação às partes divergentes, e que nada
estranho ao Direito possa interferir na relação processual (Cappelletti & Garth, 1988).
Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça, que são os direitos do cidadão, está em
jogo quando deixa de ser natural que um homem pertença a uma comunidade em que nasceu,
e quando o não pertencer a ela não é um ato da sua livre escolha, ou quando está numa
situação em que, a não ser que cometa um crime, receberá um tratamento independente do
que ele faça ou deixe de fazer. Esse extremo, e nada mais, é a situação dos que são privados de
seus direitos humanos. São privados não de seu direito à liberdade, mas do direito à ação; não
do direito de pensarem o que quiserem, mas do direito de opinarem. Privilégios (em alguns
casos), injustiças (na maioria das vezes) bênçãos ou ruínas lhes serão dados ao sabor do acaso e
sem qualquer relação com o que fazem, fizeram ou venham a fazer (Arendt, 1998, p. 330).

170
O acesso à justiça equaciona diretamente as relações entre processo civil e justiça social, entre
igualdade jurídico-formal e desigualdade socioeconômica, pois na seara da justiça civil, muito
mais do que no da justiça penal, pode-se falar de procura real ou potencial por justiça. Isto se
deve ao fato de que quando forem determinadas as suas características internas e medido o
seu âmbito em termos quantitativos, é possível compará-la com a oferta da justiça produzida
pelo Estado (Santos, 1994).
Os direitos só se realizam se for real a possibilidade de reclamá-los perante tribunais
imparciais e independentes. Em outras palavras, o direito de acesso à justiça é o direito sem o
qual nenhum dos demais se concretiza. Assim, a questão do acesso à justiça é primordial para
a efetivação de direitos. Consequentemente, qualquer impedimento no direito de acesso à
justiça provoca limitações ou mesmo impossibilita a efetivação da cidadania (Sadek, 2009, p.
173).
Portanto, o princípio fundamental do acesso à justiça vem estampado no rol de direitos
fundamentais extremamente básicos, o qual não pode ser submetido a falácias ou propostas
vazias ou aparentes, em razão de sua grande importância no mundo do direito e relevância
social, pois não há segurança jurídica se as pessoas não conseguem garantir direitos que lhes
forem ameaçados ou lesados.
3 MEDIAÇÃO: UMA PROPOSTA DE ACESSO À JUSTIÇA
Hoje, já se fala não só acesso ao Poder Judiciário, mas acesso à ordem jurídica justa, fazendo
parte do rol de direitos primeiros, fundamentais, humano em sua essência.
Urge a necessidade de aplicação de meios que possam mudar essa realidade de desesperança e
descrença. Como resposta, surgiram sistemas como a mediação e a conciliação, nos quais se
percebe um processo construtivo da decisão, de titularidade das partes (Warat, 1999).
Diversos autores afirmam que as origens da Mediação de Conflitos remontam a tempos
antigos. Confúcio, em sua época, em 700 A.C., já pregava que a melhor forma de resolução de
questões conflituosas entre as pessoas era pela utilização da mediação. É sabido que o
confucionismo sustentava que a ordem social ideal se fundamentava na observância de regras
morais entre os homens e que os conflitos deveriam ser resolvidos fora dos Tribunais, por um
processo em que o compromisso é a palavra-chave. Ao mesmo tempo defendia que a harmonia
entre as pessoas só seria alcançada quando houvesse respeito às individualidades, que é um
dos principais sustentáculos da mediação de conflitos.
Convém ressaltar que a partir da década de setenta no século passado, experiências empíricas
passaram a ser observadas e estudadas pela Escola de Direito da Universidade de Harvard, no
âmbito de seu projeto de Negociação. Foi dado início, com isso, ao processo histórico de tornar
a mediação de conflitos uma teoria, com a estruturação de mecanismos e técnicas de
comunicação para a sua institucionalização como Método de resolução de conflitos voltado
para os tempos atuais. Objetivo à época foi o de atender à realidade pós-moderna, oferecendo

171
uma roupagem teórica calcada na prática dos dias atuais. Nasceu, assim, o primeiro modelo de
mediação, um dos mais conhecidos no mundo (Braga Neto, 2014, p. 22).
Na palavra mediação há um problema semântico que leva à necessidade de redefinição do
espaço com o qual a tradição circunscreve o paradigma medio, mediare, mediazione,
semântica negligenciada sem culpa, mas que necessita significação adequada. Para isso, a
definição aristotélica serve perfeitamente, quando retrata a palavra medium ou mesòtes como
a medida do agir, não o meio justo, mas a medida justa de estar no meio. Ainda no caminho do
o valor medial
entre dois extremos, uma operação graças a qual se somam os extremos e se produz um valor.
Isto é, a média soma os extremos e os divide, repartindo exatamente em dois, efetuando
justiças distributivas paradoxais de forma salomônica (Resta, 2014).
A aposta feita pelo Ocidente na resposta adjudicada tem sido ineficaz, surgindo nesse contexto
a cultura da mediação como reencontro da cultura da solidariedade, esquecida pelo Ocidente,
porém inerente à própria vida (Fagundez, 2006).
A mediação tem como núcleo conceitual, independente das variações ideológicas acerca de
seu conteúdo, basicamente elementos como o de processo voluntário; mediador como terceira
parte desinteressada; mediador sem poder de decisão; solução talhada pelas partes em conflito
(Prudente, 2012).
Na maioria das vezes as pessoas envolvidas em uma disputa têm às mãos vários meios para
responder ao conflito ou resolvê-lo (Moore, 1995). Resta saber se essa escolha será satisfatória
e efetiva, uma vez que os meios colocados à disposição do cidadão muitas vezes são
inacessíveis ou ineficazes.
A mediação tem um caráter metabólico, porque vive no mesmo ambiente onde conflitos se
produzem e por esse motivo deve estar entre os conflitantes e não separada, alheia as partes
(Resta, 2014).
Pois, a parte ao buscar este meio de solução de conflitos, nega o encaminhamento das decisões
de sua vida, assumindo inconscientemente as rédeas do seu caminho e a solução de seus
problemas, revela-se, nisso, uma mudança de posição da figura passiva que tudo espera do
Estado, para a de cidadão, ator do próprio processo de transformação, construindo uma efetiva
cidadania quando desvia a solução do conflito da esfera pública estatal e passa tal decisão para
as partes envolvidas, proporcionando a conscientização do indivíduo de seu papel, não só
diante de sua vida, mas da sociedade à qual pertence (Sales, 2008).
O uso de meios complementares de resolução de conflitos auxilia o Poder Judiciário no
desenvolvimento de sua função constitucional e possibilita principalmente o atingimento dos
escopos da participação e da pacificação. Com efeito, o emprego de meios complementares de
solução de conflitos no âmbito do Poder Judiciário agrega participação popular na
administração da justiça, ajuda a obter a pacificação social e tem finalidade pedagógica, vez

172
que contribui para que os cidadãos decidam a respeito das questões em que estão envolvidos e
assumam a responsabilidade por essas decisões (Demarchi, 2007, p. 34).
Dessa mudança de postura e papel, floresce uma consciência transformadora, que não se
limita a somente aceitar as outras formas de resolução de conflitos, mas tem a convicção de
que as respostas devem ser satisfatórias, desde a sua implementação (Warat, 1999).
É a verdadeira assunção dos atos praticados e dos compromissos assumidos pelas partes
envolvidas no conflito, que se reflete maior e melhor interação social e exercício da cidadania
(Demarchi, 2007).
A colaboração da mediação, enquanto meio democrático, participativo e inclusivo na
resolução de conflitos para a cidadania e para a dignidade humana, está na relação entre as
características de sua prática, quais sejam: a inclusão, valorização do ser humano, respeito ao
outro, resgate de valores éticos, com os efeitos naqueles que procuram esse meio, a
preservação das relações sócio-afetivas, pacificação social, estimulando a conscientização das
pessoas acerca de suas potencialidades como ser humano e como cidadão (Sales, 2008).
Assim, a mediação pelas suas peculiaridades difere dos outros mecanismos de solução de
conflitos, mostrando-se eficaz no resgate da dignidade humana, o que se revela o primeiro
passo para a realização da verdadeira transformação social que garantirá tratamento digno e
justo para todos (Sales, 2008).
A mediação tem a capacidade de acordar o sentimento de cidadania naqueles que a procuram,
ao proporcionar a percepção de que todos são capazes de encontrar as soluções mais
adequadas. Isso implica no resgate da consciência de seu papel como ator social, podendo ser o
primeiro passo no caminho que conduzirá à discussão de valores, questionamentos sobre
atitudes adotadas e, consequentemente, à luta pela efetivação de direitos constitucionalmente
garantidos. Destacam-se dentre as contribuições da mediação para a cidadania as questões do
acesso à justiça, a inclusão social, e o resgate da dignidade humana (Sales, 2008).
O melhoramento do acesso à justiça é a primeira resposta à demanda da cidadania, tendo
como essência os direitos individuais subjetivação dos direitos, resultando num ideal de
amplitude de inserção social, garantindo a preservação da identidade, respeitando o princípio
constitucional da proteção à dignidade da pessoa humana (Barbosa, 2015).
O ponto de partida para a quebra de paradigmas das inovações legislativas que aumentaram o
sistemas de resolução de conflitos colocados à disposição da população, iniciou-se com a
Resolução 125 de 2010 do Conselho Nacional de Justiça (Nunes, 2016).
A preocupação com a crise que assola o acesso à Justiça e ao Poder Judiciário atinge todos os
setores do país. Assim, o Conselho Nacional de Justiça CNJ, nascido com a emenda 45/2004,
definiu por resolução a Política Judiciária Nacional de Tratamento Adequado dos Conflitos de
Interesses, a conhecida Resolução 125 de 2010, com o intuito de reduzir o congestionamento

173
dos tribunais; reduzir a excessiva judicialização de conflitos disseminando a cultura de
pacificação (Bacellar, 2012)
É relevante pontuar que as desigualdades socioeconômicas no Brasil, estão dentre as mais
elevadas nos países do Terceiro Mundo, promovendo uma grande distância entre os mais ricos
e os mais pobres, revelando a face perversa da sociedade brasileira, apontando graves
problemas, particularmente no que diz respeito à inclusão social (Sadek, 2009).
Parece sonho, mas ainda resta um fio de esperança de que num futuro próximo, a mediação
funcione como forma de verdadeiro acesso à justiça e não de acesso do judiciário, a expensas
de garantir e dar respostas concretas à sociedade, rumo à democratização do acesso à justiça,
princípio basilar do Estado Democrático de direito (Morais, 2012).
Sendo assim, a mediação através da novel legislação que a regulamenta vem na tentativa de
efetivação de direitos, proporcionando acesso à justiça a quem busca a tutela jurisdicional.
4 CONCLUSÃO
O presente estudo possibilitou a identificação e reconhecimento da crise de efetividade do
direito fundamental do acesso à justiça e do Poder Judiciário, com vistas à percepção de que
mudanças de paradigmas são necessários e urgentes. Surge nesse contexto o instituto da
mediação como proposta de uma nova cultura, a da paz.
A partir da utilização da mediação a solução do conflito passa a ser encontrada através da
autocomposição, ou seja, por meio do consenso que cria entre as partes um ambiente propício
para a solução rápida, eficaz e concreta dos conflitos.
A mediação, hoje institucionalizada, vem para garantir efetividade ao acesso à justiça, uma vez
que as partes deixam de esperar que um terceiro imparcial resolva seus problemas, para
solucionar por si mesmas as divergências apresentadas. Portanto, quando age diretamente
com o conflito e com as partes, a mediação cria uma sintonia capaz de resolver a discussão e
instalar o sentimento de justiça no coração das entes conflitantes. É não mais precisar da
resposta adjudicada, é sim construir uma resposta através do diálogo.
Dessa forma, diante de tudo o que foi exposto é possível extrair que a mediação proporciona,
sim, acesso à justiça porque lhe dá efetividade e concretude, transformando os conflitantes em
juízes de sua própria desavença e certamente construtores da paz.

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176
OS DIREITOS HUMANOS E A PROMOÇÃO DA JUSTIÇA
89

90

RESUMO
Este artigo se propõe a analisar os direitos humanos como pressupostos principiológicos de
promoção da vida humana e redução da desigualdade, por meio de uma pesquisa bibliográfica
e documental. Acredita-se que, assim como o homem evoluiu, as desigualdades também
evoluíram e o Direito tende a acompanhar o desenvolvimento da sociedade e, por conseguinte,
por meio de um direito positivado, tende a frear o desenvolvimento dessas desigualdades,
promovendo a justiça. Nesse sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos cria uma
base sólida de promoção dos direitos fundamentais dos seres humanos, em um universo social
dividido pelas discriminações raciais, econômicas, religiosas e sociais. Neste cenário de
evolução social, particularmente no cenário latino-americano, a aplicabilidade dos Direitos
Humanos exerce papel fundamental na formação do Estado Democrático e da consciência
social e nacional da criação de políticas públicas voltadas à garantia do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e a emancipação integral da pessoa.
Palavras-chave: Direitos Fundamentais. Desigualdades. Direitos Humanos. Justiça.
RESUMEN
Este artículo tiene como objetivo analizar los derechos humanos como principiologicos
supuestos promoción de la vida humana y la reducción de la desigualdad, a través de una
investigación bibliográfica y documental. Se cree que a medida que el hombre evolucionó, las
desigualdades también han evolucionado y la ley tiende a seguir el desarrollo de la sociedad y
por lo tanto a través de un derecho de positivado, tiende a ralentizar el desarrollo de estas
desigualdades, la promoción de la justicia. En este sentido, la Declaración Universal de los
Derechos Humanos crea una base sólida para la promoción de los derechos fundamentales de
los seres humanos en un mundo social dividido por la discriminación racial, económica,
religiosa y social. En este escenario de desarrollo social, en particular en el escenario
latinoamericano, la aplicabilidad de los derechos humanos juega un papel fundamental en la
formación de un estado democrático y la conciencia social y nacional de la creación de
políticas públicas para garantizar el derecho a la vida, la libertad, la igualdad, la seguridad y la
plena emancipación de la persona.

Graduando em Direito, aluno do 4º. ano do curso de Direito do Centro Universitário Salesiano de São Paulo /
89

UNISAL U.E. de Lorena/SP. E-mail: cruz_pedro97@yahoo.com.br


90
Advogado. Mestre em Direitos Sociais, Difusos e Coletivos pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo
UNISAL/SP. Especialista em Direito Empresarial. Professor do Curso de Direito no Centro UNISAL/SP.
Coordenador e Professor do Curso de Administração da Faculdade Canção Nova FCN/SP. E-mail:
rodolfoabueno@gmail.com

177
Palabras clave: Derechos fundamentales. Las desigualdades. Derechos humanos. Justicia.
INTRODUÇÃO
O ser humano vive no espaço social, em contrato com o outro, influenciando e sendo
influenciado pela sociedade. O ordenamento jurídico regula as relações humanas, com a
finalidade oferecer proteção e segurança para uma vida em que possa ser exercida de maneira
efetiva com pela dignidade humana, característica inerente ao existir e ao agir da pessoa.
Como reflexo do ordenamento jurídico, e originário da dinâmica sociocultural, fonte dialética
de formação do direito e da sociedade, surgem a preocupação com os direitos do homem.
A problematização da questão dos direitos humanos como elementos fundantes, necessários à
promoção da vida humana e à redução da desigualdade é em tese o que dá suporte e
estruturação da sociedade, formada por pessoas conscientes que gozam de autonomia dentro
de sua liberdade dentro de espaços iguais, ao mesmo tempo que diferentes, na medida da
desigualdade de cada ser humano.
O artigo, fiel a sua problemática proposta, com metodologia de pesquisa bibliográfica e
documental, aborda num primeiro momento a compreensão da formação dos direitos
fundamentais. Após, discute a respeito do processo de formação dos direitos humanos, e em
caráter de epílogo discute a promoção da justiça como consequência da efetivação dos direitos
fundamentais a todos os seres humanos, na proporção de suas necessidades específicas e
humanas.
1 DIREITOS FUNDAMENTAIS
Em um contexto político, social, econômico e cultural-religioso, surge o texto Constitucional.
Não apenas as constituições, assim como todos os outros textos legais são frutos deste
ambiente multifacetado e pluralista.
Neste contexto o Estado Democrático e Constitucional de Direito:
Caracteriza-se pela supremacia da Constituição, que informa e conforma todo o ordenamento
jurídico, tanto no âmbito público, como no privado. A supremacia da Constituição, por sua
vez, assenta dois fundamentais pilares de sustentação: a rigidez constitucional e a correlata
Justiça Constitucional. A primeira consiste na imposição de restrições e de procedimento mais
dificultoso do que aquele empregado no processo legislativo ordinário para a reforma da
Constituição (...). A segunda, caracteriza-se como jurisdição incumbida de elevada finalidade
de defesa e aplicação da Constituição e, para além disso da implementação dos princípios e do
programa Constitucionais. (SARLET; VIANNA, 2013, p. 97-98)
E dentro do texto Constitucional, algumas disposições são consideradas como de Direitos
Fundamentais, como pilares de sustentação de todo o ordenamento social.
Quanto ao ambiente histórico-social para a formação e construção do conceito de Direitos
Fundamentais cabe destacar o estudo de Jimenez Serrano (2005, p. 103) onde esclarece que as

178
primeiras declarações de direito parecem ter tido como fonte as ideias do homem abstrato do
jusnaturalismo antigo. No entanto foi a partir de século XIII que formalmente se formulou as
bases para uma doutrina acerca dos direitos naturais e consequentemente fundamentais.
Somente a partir do século XVIII, com a intersecção de três figuras basilares de todo o
ordenamento jurídico, qual seja o Estado, o Indivíduo e o Texto Normativo regulador da
relação entre Estado

fundamentais (DIMOULIS; MARTINS, 2011, p. 24; JIMENEZ SERRANO, 2005, p. 104).


Dentro dos ideais de Liberdade, Fraternidade e Igualdade, em meio a inúmeras desigualdades

Bill of Rights, ou Declaração de Direitos. No mundo europeu no ano de 1789 foi redigida na
Fra
os direitos à liberdade e à propriedade ressalvados os casos de utilidade pública, como se
aponta a seguir na transcrição dos artigos 1º e 17.
Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem
fundamentar-se na utilidade comum.
Art. 17.º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado,
a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de
justa e prévia indenização.

declarações norte-americanas e confia muito mais na intervencionista do legislador enquanto


representante do
O olhar atento às massas para a manutenção da estabilidade social passou a ser respirada pelo
mundo.

referidas Declarações de Direitos tinha por motor filosófico as ideias iluministas que

27).
Na esteira do constitucionalismo europeu, ainda que em outro continente, a primeira
Constituição que garantiu uma lista de direitos sociais foi a Constituição do México,
promulgada em 1917.

de agosto de 1919, a Constituição da primeira república alemã, conhecida como Constituição

179
No mesmo período do fim do Imperialismo Alemão, que culminou com a promulgação da
Constituição apontada anteriormente, surge na Alemanha uma forte classe de operários que
passam a organizar-se em sindicatos e partidos políticos.
Essa formação da classe operária com força organizativa irá ver em Hitler uma solução para a
convalescência do orgulho e sentimento de soberania, feridos com o final da Primeira Guerra
Mundial.
A República de Weimar durou apenas quatorze anos em meio a grande instabilidade política
de uma sociedade alemã que não conseguiu robustecer o vínculo ou compromisso social
firmado entre a burguesia e as demais forças sociopolíticas existentes à época.
-se um período de violações sistemáticas dos direitos fundamentais como política
-31). O mundo passa a
respirar ares de horror e de total destruição e aniquilação dos direitos fundamentais da
humanidade. Com o fim da segunda grande Guerra o mundo vê-se atônito, perplexo diante de
tamanha barbárie, e saliente-se, amparada pela legalidade imposta pelo positivismo
kelseniano.
No entendimento de Jimenez Serrano (2005, p. 105) a proteção ao ser humano ganharia um
reconhecimento nacional e internacional, sendo objeto de importantes documentos, a saber: a

Unidas que criaria a Comissão de Direitos, em 10 de Dezembro de 1948; a Declaração


Americana dos Direitos e dos Deveres do Homem, aprovada na IX Conferência Internacional
Interoamericana de Bogotá (1948); o Pacto Internacional relativo aos direitos econômicos,
Convenção

Interoamericana sobre Direitos Humanos, em novembro de 1969; a o Pacto Internacional dos


direitos civis e políticos de 3 de janeiro de 1976; a Declaração Universal dos Direitos dos Povos,
conhecida como a declaração de Argel datada de 1977, pelos dirigentes do Movimento de
Libertação Nacional e dos Estados.

individuais, a liberdade, a segurança, o bem-


a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, conhecida como constituição
dirigente, traz uma carta de valores, tendo como pressuposto a garantia dos direitos
fundamentais, sistematiza esse direitos fundamentais em várias partes do texto constitucional,
como já apontado no início deste artigo, com base em princípios morais e legais, contribuindo
sem preconceitos, fundada na
harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das

A necessidade de direitos para a proteção juntamente com a evolução histórica da sociedade


traz o contorno dos significados dos direitos fundamentais.

180
Para Perez-Luño (2007, p. 43 apud BENACCHIO et al., 2012):
Os direitos fundamentais são fruto de dupla convergência: (i) o encontro da tradição filosófica
humanista representada pelo iusnaturalismo de orientação democrática, com as técnicas de
positivação e proteção das liberdades pelo movimento constitucionalista do Estado de Direito
e; (ii) a mediação entre a liberdade individual e o sistema de caráter econômico, cultural e
coletivos a cuja satisfação e tutela se dirigem os direitos sociais.
Dimitri Dimoulis e Leonardo Martins (2011, p. 49) traz um conceito esclarecedor ao lado de
outros nobres juristas, a saber:
Direitos fundamentais são direitos público-subjetivos de pessoas (físicas ou jurídicas),
contidos em dispositivos constitucionais e, portanto, que encerram caráter normativo
supremo dentro do Estado, tendo como finalidade limitar o exercício do poder estatal em face
da liberdade individual. Esta definição permite uma primeira orientação na matéria ao indicar
alguns elementos básicos, a saber: (a) os sujeitos da relação criada pelos direitos fundamentais
(pessoa vs. Estado); (b) a finalidade desses direitos (limitação do poder estatal para preservar a
liberdade individual); (c) sua posição no sistema jurídico, definida pela supremacia
constitucional ou fundamentalidade formal.

norma que garante esse direito. (...) Direitos fundamentais e normas de direitos fundamentais

Alexy esclarece que:


Normas de direitos fundamentais são aquelas normas que são expressas por disposições de
direitos fundamentais; e disposições de direitos fundamentais são os enunciados presentes no
texto da Constituição alemã (...) o que apresenta dois problemas, consistente na pressuposição
da existência de um critério que permita dividir os enunciados da Constituição alemã entre
aqueles que expressam normas de direitos fundamentais e aqueles que não expressam, já que
nem todos os enunciados da Constituição Alemã expressam direitos fundamentais. O segundo
problema consiste em saber se, de fato, aos direitos fundamentais da Constituição alemã
pertencem somente aquelas normas expressas diretamente por enunciados da própria
Constituição alemã. (ALEXY, 2012, p. 65)
José Afonso da Silva (2013) defende que os direitos fundamentais consistem nas prerrogativas
e instituições existentes no mundo jurídico para garantir a convivência digna, livre e igual das
pessoas.

Acha-se a indicação de que se trata de situações jurídicas sem as quais a pessoa humana não se
realiza, não convive e, às vezes, nem mesmo sobrevive; fundamentais do homem no sentido de
que todos por igual devem ser, não apenas formalmente reconhecidos, mas concreta e
materialmente efetivados. (SILVA, 2013, p. 182).
181
os
Quanto à finalidade, os direitos fundamentais possuem a obrigação de oferecer às pessoas

co

-58).
O conceito de direito fundamental há muito se distanciou daquele conceito tradicional
daquele conceito tradicional no qual o Estado tinha somente obrigações negativas, de
abstenção frente às liberdades individuais, sendo que hodiernamente, até mais
frequentemente do que a figura da abstenção, verifica-se a imposição de obrigações positivas
ao Poder Público para a implementação desses direitos, já que constituem a sustentação e a
própria razão de existir do Estado Social de Direito. (GAIO; GAIO, 2011, p. 304).
O Poder Público se encontra vinculado umbilicalmente à Constituição e aos Direitos
Fundamentais, sendo que a atuação do Estado só se encontra justificada por ações que
racionalmente não afetem e não lesionem os direitos fundamentais.
O Estado intervenc
modelo jurídico de conformação da vida econômica e social e funcionalização crescente da

No tocante à classificação desses direitos constitucionais Joaquim José Gomes Canotilho (apud
RESENDE, 2007, p. 244) preleciona que hoje os autores adotam o conceito de dimensões dos
direitos fundamentais ao invés de realizar o uso de gerações, para não dar a ideia de
substituição de um direito fundamental pelo outro, visto que todos coexistem no ordenamento
jurídico.
Para Romita (2007) a palavra geração também é equivocada, pois transmite a ideia de que a
conquista de uma fase anularia a anterior. Nesse sentido o autor sugere a utilização do termo
família.
Bulos (2011, p. 518) entende que melhor seria o uso da palavra geração, uma vez que

De fato, as dimensões, ou gerações no sentido de dimensões, nascem dentro de uma evolução


sociocultural do Estado e uma não suprime a outra, sendo que todas são cumulativas e
concomitantes, não possuindo grau de importância diferenciado, apenas origem em dados
socioculturais diferenciados e construídos no espaço humano para garantir-lhe segurança no

chamados direitos fundamentais de primeira geração em especial a liberdade, que seriam

182
RLET, 2011, p. 58 apud BENACCHIO et
al., 2012, p. 70).
A primeira geração, séculos XVII a XIX, inaugura-se com o florescimento dos direitos e
garantias individuais clássicos, os quais encontravam-se na limitação do poder estatal seu
embasamento. Abrange os direitos referidos nas revoluções americana e francesa. Nessa fase
prestigiavam-

locomoção, à expressão, à religião, à associação, etc. (BULOS, 2014, p. 289).


Desta maneira, limita-se a atuação estatal devendo para tanto agir dentro dos limites do texto
legal, sendo que para os particulares estava liberada a realização de qualquer atividade desde
que não se enquadrasse nas proibições previstas no ordenamento jurídico.

oponíveis ao Estado, traduzem-se como faculdades ou atributos da pessoa e ostentam uma


subj
Ocorre que o paradigma liberal, ao incentivar o individualismo, por isso mesmo estava
incentivando uma característica não sustentável, que colocaria fim ao Estado Liberal.
O individualism
exploração dos trabalhadores por quem detinha o poder econômico, ferindo a dignidade

democrático, ao Estado Social de Direito, ou Estado do Bem-Estar Social, ou ainda Estado

Tal formatação social nos traz a emersão dos direitos fundamentais de segunda dimensão,
onde ser observam os direitos de liberdades sociais, como os direitos sociais, como o direito à
saúde, o direito à previdência social, assistência social, à educação e ao meio ambiente sadio
(SILVA, 2013).
Assim se expressa Bulos:
A segunda geração, advinda logo após a Primeira Grande Guerra, compreende os direitos
sociais, econômicos e culturais, os quais visam assegurar o bem estar e a igualdade impondo ao

homem. Aqui encontramos os direitos relacionados ao trabalho, ao seguro social, à


subsistência digna do homem, ao amparo à doença e à velhice. (BULOS, 2014, p. 289).
Ressalte-se que segundo Bonavides (2011, p. 567) nos direitos fundamentais de segunda

Nos direitos de terceira e quarta dimensão tem-se que são titulares não os indivíduos, mas sim
os grupos humanos, como família, povo, nação, coletividade regionais ou étnicas e a própria
humanidade (LAFER, 1988, p. 131 apud RESENDE, 2007, p. 249).

183
Como ensina Sarmento (apud BENACCHIO et al., 2012, p. 72) quando ao surgimento do Estado
pós-social, tem- -se por
uma série de instituições intermed -
social caminha em direção a um denominador comum entre os direitos sociais e os direitos
individuais.
Por este pensamento erigem-se os denominados direitos fundamentais de terceira dimensão,
os quais Paulo Bonavides (2011) entende como o direito à paz, direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado, essencial à sadia qualidade de vida, o direito de comunicação e o
direito de propriedade sobre o patrimônio comum da humanidade.
Assim, de maneira célebre, ensina Bonavides:
Com efeito, um novo polo de alforria do homem se acrescenta historicamente aos da liberdade
e da igualdade. Dotados de altíssimo teor de humanismo e universalidade, os direitos de
terceira geração tendem a cristalizar-se no fim do século XX enquanto direitos que não se
destinam a proteção dos interesses de um indivíduo, de um grupo ou de um determinado
Estado. Tem primeiro por destinatários o gênero humano mesmo, num momento expressivo
de sua afirmação como valor supremo em termos de existencialidade concreta. (BONAVIDES,
2011, p. 569).
Quanto aos direitos fundamentais de quarta dimensão trata-se de direitos fundamentais que
surgiram no processo de universalização no campo institucional, sendo entendido como o
direito à democraci
a concretização da sociedade aberta do futuro, em sua dimensão de máxima universalidade,
para o qual parece o mundo inclinar-
(BONAVIDES, 2011, p. 571).
Quanto à concretização dos direitos Bonavides expõe o seguinte:
Daqui se pode, assim, partir para a asserção de que os direitos da segunda, da terceira e da
quarta gerações não se interpretam, concretizam-se. É na esteira dessa concretização que
reside o futuro da globalização política, o seu princípio de legitimidade, a força incorporadora
de seus valores de libertação. (...) A nova universalidade dos direitos fundamentais os coloca
assim, desde o princípio, num grau mais alto de juridicidade, concretude, positividade e
eficácia. (BONAVIDES, 2011, p. 573)
Em entendimento diferenciado Bulos (2011) desloca os direitos fundamentais à democracia, à
e

sucessão de filhos gerados por inseminação artificial, clonagens, dentre outros acontecimentos
-521).

184
-a da terceira geração dos direitos fundamentais (BONAVIDES,
2011, p. 579; BULOS, 2011, p. 520).

mandamento insc
BONAVIDES, 2011, p. 592).
-se, assim, a paz ao
a concretização da associação da
justiça com a democracia e a união do Direito com a liberdade (BONAVIDES, 2011, p. 582).
No mundo globalizado na unipolaridade, das economias desnacionalizadas e das soberanias
relativizadas e dos poderes constitucionais desrespeitados, ou ficamos com a força do Direito
ou com o direito da força. Não há mais alternativa. A primeira nos liberta; o segundo nos
escraviza; uma é a liberdade; o outro o cárcere; aquela é Rui Barbosa em Haia, este é Bush em
Washington e Guantánamo; ali se advogam a Constituição e a soberania; aqui se canonizam a
força e o arbítrio, a maldade e a capitulação. (BONAVIDES, 2011, p. 592)
Nesse sentido Bulos (2011, p. 520) juridicamente poetiza:
Onde não há paz, não há amor; onde não há paz, não predomina a retidão no coração; onde
não há paz, não há verdade; onde não há paz, não há Deus. Deus está em tudo, embora nem
todos os homens alguns dos quais artífices dos poderes constitucionais dos Estados estejam
Nele, e, por isso, sofrem. Mas, se há beleza no caráter, reinará harmonia no lar. Havendo
harmonia no lar, haverá ordem nas nações. Se reina ordem nas nações, haverá paz no mundo.
E por fim, coroando o tópico faz-se referência a Isaías, Capítulo 32, Versículo 17, onde dispõe
justiça será a paz, e a obra da justiça consistirá na tranquilidade e na segurança

Implementando as dimensões, gerações, ou família ter-se-ia um mundo da vida apto para o


exercício da dignidade da pessoa humana, inerente à existência do homem.
Realçando as origens ideológicas sobre as quais deita raízes o texto Constitucional, Sarmento
ensina que:
Torna-se frequente a eclosão de conflitos entre as normas da Lei Fundamental, máxime em
países que, como o Brasil, adotaram constituições compromissárias. Estas são cartas nas quais
o processo constituinte não se desenvolveu sob o signo do consenso, traduzindo, ao revés, a
síntese dialética de concepções e ideais políticos diversificados. Assim, tais constituições
acabam abrigando normas derivadas de matrizes ideológicas antagônicas, que ao incidir sobre
os casos concretos, podem indicar soluções diametralmente opostas. (SARMENTO, 2001, p.
36).

185
De fato a harmonia perante as divergências que surgem no processo de interpretação e
aplicação do texto fundamental encontra sua fonte unificadora no próprio texto.
Nesse diapasão Sarmento afirmar que:
Inobstante é certo que a Lei Fundamental constitui uma unidade. O princípio da unidade da
Constituição, encarecido pela Corte Suprema alemã como o cânone mais importante da
hermenêutica constitucional, impõe ao intérprete a tarefa, nem sempre trivial, de buscar a
harmonia entre os ditames da Lei Maior, solucionando as situações de tensão que tendem a se
deflagrar em seu seio. (SARMENTO, 2001, p. 37).
2 DIREITOS HUMANOS
Os direitos fundamentais de todas as gerações, para poderem ser efetivados, precisam de um
novo suporte moral e, concomitantemente, não prescindem de uma nova epistheme jurídica
para que o Estado tenha como atuar de forma interventiva, efetivando os preceitos
fundamentais e constituindo a ação.
Nessa nova epistheme é o momento de repensar a matriz positivista do direito, com a

parâmetro ético voltado para a interdependência homem-natureza e a efetivação dos direitos

No tocante à associação dos direitos fundamentais aos direitos humanos interessante destacar
que de acordo com Pérez-Luño (2005, p. 27) é possível distinguir três tipos de definições de
direitos humanos:
a)Tautológicas, que no aportan ningún elemento nuevo que permita caracterizar tales
derechos (...); b) Formales, que no especifican el contenido de estos derechos, limitando-se a
alguna indicación sobre su estatuto deseado o propuesto. Del tipo de: los derechos del hombre
son aquellos que pertencen o deben pertencer a todos los hombres, y de los que ningún
hombre puede ser privado; c) Teleológicas, en las que se apela a ciertos valores últimos,
susceptibles de diversas interpretaciones: Los derechos del hombre son aquellos
imprescindibles para el perfeccionamiento de la persona humana, para el progresso social, o
para el desarollo de la civilización.
No entendimento de Gorczevski e Dias (2013, p. 284) os direitos humanos são entendidos como
normas jurídicas superiores, uma vez que são direitos inerentes ao ser humano, fazendo parte

fundamentais, porque sem eles o homem não é capaz de existir, de se desenvolver e de

Enquanto direitos do homem, os direitos fundamentais existem desde sempre, quando da


criação do homem enquanto ser pensante e atuante no universo social onde está inserido.

186
Nesse sentido, a Declaração Universal dos Direitos Humanos cria uma base sólida de
promoção dos direitos fundamentais, consagrados na nossa Carta Constitucional.
3 PROMOÇÃO DA JUSTIÇA
O direito apresenta-se assim como ciência capaz de dialogar com a sociedade e oferecer uma
solução que promova o bem de todos no mundo da vida, com base na promoção dos direitos
humanos, a partir da efetivação dos direitos fundamentais.
A garantia da proteção a esses direitos fundamentais inerentes ao ser humano foi sendo
construída gradativamente dentro de um processo de evolução e emancipação humano-sociais
em face de interesses particulares e individualistas.
A desigualdade reside exatamente nos interesses particulares e individualistas, que objetiva
dar mais a quem já tem tudo e por consequência, dar menos a quem não tem nada.
No

discutir o significado de igualdade para se alcançar a justiça, a saber, a distinção entre


igualdade formal e material.

Salienta Nunes Junior (2017, p. 827) que a desigualdade formal, em um país de enorme

Dizer que todos devem lutar com suas armas é injusto, quando as armas são de calibres tão

Ao contrário do que disposto acima, a igualdade pretendida pelo Estado será a igualdade
formal, que irá tratar cada pessoa na medida de sua desigualdade, de acordo com as suas

de
827). Desta forma, tratando os desiguais de maneira desigual, ou seja, dar mais a quem tem
menos e menos a quem tem mais, a igualdade se constrói de maneira concreta.
A promoção da justiça irá ocorrer justamente na medida em que houver uma inversão da
lógica da desigualdade e consequente consciência social da urgente necessidade de
emancipação da pessoa, de maneira equânime, objetivando o bem de todos no mundo da vida.
A moral e a ética postas sempre em função dos interesses particulares do homem de modo
arrogante deve, ao contrário, articular-se em função da pessoa humana, dotada de direitos
fundamentais e humanos, dentro de uma coletividade relacional, interdependente e vinculado
ao outro.

187
Nesse aspecto deve-se afastar o antropocentrismo predatório dos processos de tomada de
decisões, deslocando os processos de escolha para um ambiente mais solidário com tudo e com
- (CATSMAN; SIMIONATO FILHO,
2010, p. 45).
Dessa maneira a pessoa humana deve voltar-se para si e perceber-se no contato relacional com
o outro, promovendo um ambiente discursivo que levem à concretização dos direitos
humanos fundamentais e que contribua para o exercício da indelével característica do existir
da vida humana, qual seja a realização de sua dignidade e a promoção da justiça.
CONCLUSÃO
Toda a estrutura de normas, princípios, regras e direitos é estabelecida com a única finalidade
de melhoria da vida humana e efetivação da justiça.
Programar mecanismos que auxiliem na formação e amarração de uma estrutura social sadia
ao ser humano, juntamente com outras influências, quais sejam sociais, culturais, afetivas e
religiosas, é atividade precípua do Direito.
Nesse sentido os direitos humanos se irradiam dos direitos fundamentais, sejam eles
individuais ou coletivos, em suas diversas dimensões, dentro de uma evolução sociocultural do
Estado, sendo que todas as dimensões são cumulativas e concomitantes, não possuindo grau de
importância diferenciado, tendo o único condão de manter os pressupostos elementares de
uma vida humana na liberdade e na dignidade humana.
A promoção da justiça, a redução da desigualdade e a proteção da vida humana passam
necessariamente por uma sólida base de promoção dos direitos humanos fundamentais, de
onde se originará uma consciência social de emancipação da pessoa de modo a oferecer
soluções que suscitem o bem de todos no mundo da vida.
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2013.

189
A ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL POR MEIO DA EXPANSÃO DAS
CAPACIDADES PESSOAIS
91

92

RESUMO
Esta pesquisa procura questionar a respeito do trabalho infantil como fenômeno social que
está diretamente relacionado às condições econômicas do Estado e familiar, estrutura positiva
e questões de ordem cultural. Diante deste objetivo, por meio de uma pesquisa bibliográfica e
documental, com base em fontes primárias e secundárias de pesquisa, aborda-se, de forma
crítica, a falta participação efetiva do Estado, por meio das políticas públicas, no controle da
desigualdade social, processo este desencadeador do trabalho infantil, expondo os menores em
condições inadequadas e, muitas vezes, em atividades perigosas, o que leva à perda da infância
e reduz a oportunidade de uma boa educação, frente à ausência de escolha. Diante a
desigualdade social implantada, grande parte dos pequeninos cidadãos torna-se excluída,
ficando fora da rede de relacionamentos que leva ao desenvolvimento integral do ser humano.
Sentem-se, portanto, obrigados a utilizar das próprias armas em busca da sobrevivência,
fazendo uso de sua força infantil de trabalho. Em tempos de modernidade líquida, busca-se ao
máximo o derretimento dos sólidos, o que inclui a transformação das instituições protetivas
dos cidadãos em verdadeiras ruínas, de forma a quebrar as barreiras impeditivas da livre
circulação e do domínio econômico. O entendimento explanado por Amartya Sen, na obra

trazendo à tona a hipótese que para que haja a erradicação do trabalho infantil se faz
necessário refazer o sistema estatal implantado, através do desenvolvimento como liberdade,
pela afirmação das capacidades íntimas e pessoais como direito social fundamental,
implementando políticas públicas e oportunizando direitos, liberdades civis e políticas.
Palavras-chave: Trabalho Infantil. Erradicação. Políticas Públicas. Desenvolvimento Pessoal e
Social. Liberdade. Direito Fundamental.
Abstract
This research seeks to question about child labor as a social phenomenon that is directly
related to the economic conditions of the State and family, positive structure and cultural
issues. In view of this objective, a bibliographical and documentary research, based on
primary and secondary sources of research, critically addresses the lack of effective

91
Advogado. Mestre em Concretização dos Direitos Sociais, Difusos e Coletivos no Centro Universitário
Salesiano/SP. Pós-graduado em Direito Público. Técnico em Segurança do Trabalho. Professor do Curso de Direito e
da Pós-Graduação do Centro Universitário Salesiano de Lorena/SP junior.advogado@gmail.com
92
Advogado. Mestre em Direitos Difusos e Coletivos pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo/SP. Professor
do Curso de Direito do Centro UNISAL/SP. Professor e Coordenador de Curso da Faculdade Canção Nova
FCN/SP. rodolfoabueno@gmail.com

190
participation of the State, through public politics, in the control of social inequality. This
process is the trigger for child labor, exposing minors in inadequate conditions and often in
dangerous activities, which leads to the loss of childhood and reduces the opportunity for a
good education, faced with the lack of choice. Faced with the social inequality implanted, most
of the small citizens become excluded, being outside the network of relationships that leads to
the integral development of the human being. They feel obliged to use their own weapons for
survival, using their child labor power. In times of liquid modernity, we seek to the maximum
the melting of solids, which includes transforming the citizens' protective institutions into real
ruins, in order to break down barriers that impede free circulation and economic dominance.
The understanding explained by Amartya Sen in the book "Development as Freedom" is
confronted with the issue of child labor, bringing to the fore the hypothesis that for the
eradication of child labor it is necessary to redo the state system implanted through
development As freedom, by affirming personal and personal capacities as a fundamental
social law, implementing public policies and giving rights, civil liberties, law, and politics.
Key-words: child labor. eradication. public politics. Development personal and social.
fundamental law.
INTRODUÇÃO
Em tempos de modernidade líquida, busca-se ao máximo o derretimento dos sólidos, o que
inclui a transformação das instituições protetivas dos cidadãos em verdadeiras ruínas, de
forma a quebrar as barreiras impeditivas da livre circulação e do domínio econômico.
Neste cenário de liquefação, típico de um mundo pós-moderno, em que a balança demonstra
claro desequilíbrio a favor da liberdade, em detrimento da segurança, refletindo diretamente
nos princípios basilares do Direito, principalmente, Direito do Trabalho, fazendo com que as
instituições protetivas do trabalhador fiquem à mercê do crescimento econômico. Em meio a
estas mudanças, onde a economia se torna agressiva e manipuladora, há o interesse por parte
dos empregadores de afastar ao máximo a intromissão Estatal nas relações comerciais,
inclusive no tocante aos seus direitos fundamentais, os quais se enquadram como custo do
produto final produzido.
No presente trabalho se discutirá o trabalho infantil como fenômeno social que está
diretamente relacionado às condições econômicas da família, estrutura positiva e questões de
ordem cultural. Abordará, de forma crítica, a repercussão social negativa da exploração das
crianças obrigadas a trabalhar em condições inadequadas e muitas vezes em atividades
perigosas, o que leva à perda da infância e reduz a oportunidade de uma boa educação. Diante
a ausência de condições econômicas necessárias ao sustento básico, famílias contam com o
trabalho infantil na luta pela sobrevivência, na busca de liberdade. Evidente que tais práticas
incidem negativamente na edificação de valores e na reprodução de um modo de exclusão
social, pois, as crianças trabalhadoras,mesmo com oportunidade para estudar, têm o

191
aprendizado prejudicado, em razão da redução do tempo de estudo, bem como a perda de
direitos presentes e futuros.
Será identificado que o problema do trabalho infantil está atrelado diretamente à questão da
liberdade de escolha, em que as crianças se encontram privadas na exploração de sua mão de
obra, por meio de famílias desfavorecidas ou culturas empresariais e estatais impostas.
Esta pesquisa investigará o conceito de liberdade concebido nas obras de Amartya Sen
economista indiano que se consagrou ao receber o Prêmio Nobel em 1998, com sua abordagem
acerca do processo de desenvolvimento de liberdades substanciais principalmente do livro

Será identificado que o aumento das capacidades, a concessão de oportunidades de escolha


tem que ser objetivo fim das organizações estatais, sob pena dos direitos fundamentais
constitucionais não se efetivarem e o crescimento da pobreza, das desigualdades, das
privações sejam constantes. Quando as pessoas deixam de ter liberdades, sejam elas políticas,
econômicas, sociais, a condução para o desenvolvimento é restrita, ineficaz. A busca pela
sobrevivência ultrapassa a liberdade do indivíduo que vem a ser explorado e que se sujeita em
razão de sua necessidade.
Ao final, concluir-se-á que o combate do trabalho infantil está totalmente ligado ao processo de
desenvolvimento que o Estado deverá implantar para que a liberdade possa brotar. A
erradicação do trabalho infantil está atrelada diretamente ao desenvolvimento das
capacidades humanas, como direito social fundamental. Não há como esperar que o ser
humano identifique esta característica, se a ele falta meios de sobrevivência, onde o trabalho
está atrelado à necessidade. Quando há satisfação de necessidades essenciais, minimização do
grau de pobreza, desenvolvimento de habilidades, é possível identificar um crescimento ao
encontro de liberdades substantivas. Enquanto não reconhecer o processo de desenvolvimento
como primordial para o alcance da liberdade humana, as grades da prisão estarão pintadas
com cores de liberdade.
1 O TRABALHO HUMANO: CONCEITO, PRODUTO DA ATIVIDADE HUMANA COLETIVA
O vocábulo trabalho provém de uma raiz que indica algo penoso ao homem, em linguagem
cotidiana tem inúmeros significados. Algumas vezes lembra dor, sofrimento, e outras vezes
designa operação humana de transformação da matéria (SANTOS E FILHO, 1997).
Observando a mitologia bíblica, temos que o trabalho foi concedido àquele que desobedeceu a
ordem:
E a Adão [Deus] disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de
que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás
dela todos os dias da tua vida. Espinhos, e cardos também te produzirá; e comerás a erva do
campo. Do suor do teu rosto comerás do teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste
tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás (Gênesis, 3:17-19).

192
odificando-a
-de-troca do
trabalho, e no acúmulo do trabalho a mercadoria.
No transcorrer da história, o trabalho inspira o Cristianismo, através do valor-trabalho,
sacramentando, posteriormente, no Renascimento, incorporando o trabalho como algo
presente na essência humana.
Considerando em sua mais ampla acepção, o trabalho pode ser concebido como o exercício da
atividade humana, quaisquer que sejam a esfera e a forma sob as quais essa atividade seja
exercida. Muitos autores, ao conceituá-lo, enfatizam o fato de que também os animais, a seu
modo, o realizam, mas o trabalho animal, como o das formigas ou das abelhas, é produto de
comportamentos instintivos, enquanto o que caracteriza o trabalho humano é a adaptação a
situações imprevistas e a fabricação de instrumentos, bem como o fato de ele ser consciente e
proposital, na medida em que o resultado do processo existe previamente na imaginação do
trabalhador.
Diante desta perspectiva, a evolução econômica do trabalho se torna um importante
instrumento para identificação e solução de diversos problemas sociais relacionados com os
processos de ordem coletiva, como formação de empregos e quantificação de salários. Assim,
havendo problemas econômicos, toda a sociedade é afetada.
1.1 RAÍZES DO TRABALHO INFANTIL
Quando se pensa em história, o passado logo vem à mente. Será que o passado seria a própria
história?
A transformação é a essência da história e somente o ser humano pode executar tal tarefa.
Para tanto, pode-se afirmar que o homem é o objeto da história, isto é, o estudo da história
concentra-se no ser humano e a sucessão temporal de seus atos (CASTRO, 2010).
Fazendo um paralelo entre a história com o Direito, não há dúvida de sua real importância,
principalmente quando se tem em conta a percepção da normatividade extraída de um
determinado contexto definido como experiência pretérita que conscientiza e liberta o
presente (WOLKMER, 2009).
Como afirmava Bobbio, quanto aos direitos da pessoa humana,
por mais fundamentais que sejam, são direitos históricos, [...] nascidos em certas
circunstâncias, caracterizados por lutas em defesas de novas liberdades contra velhos poderes,
e nascidos de modo gradual, não todos de uma vez e nem de uma ve
2004, p. 5).
A partir dos primeiros traços de trabalho infantil, traduzidos nas literaturas pertencentes às
ciências sociais aplicadas, é que se buscará apresentar, de forma pormenorizada, a situação da
193
criança e do adolescente no decorrer da história laboral até a criação do sistema pós-moderno
de proteção integral, presentes em nossa Constituição Federal.
Mas não é só pela escravidão que os menores trabalhavam na civilização romana, pois também
haviam os menores que eram inseridos nas atribuições de seus pais, com o objetivo de
obterem conhecimento e aprendizagem.
Na antiguidade, as organizações sociais das civilizações possuíam características semelhantes
em diversos países do oriente ou ocidente, sendo o trabalho de aprendizagem notadamente
comuns aos processos de escravismos, em geral constituídos de prisioneiros de guerras e
combates entre grupos ou tribos93.
Podemos observar, portanto, que era inexistente a proteção contra o trabalho infantil, ainda
mais levando-se em conta o silogismo simples de que sendo a escrava uma propriedade de seus
senhores, do mesmo modo seriam os seus filhos, para, tão logo atingissem a força e idade
necessárias, fossem incluídos no mesmo direito de utilizar sua mão de obra escrava/infantil.
Com o enfraquecimento do regime feudal, sucedeu o fenômeno do corporativismo, definido na
Idade Média, especialmente centrado em características do trabalho livre e artesanal urbano.
Esses aprendizes encontravam-se na base da pirâmide tripartida das corporações de ofício,
onde deveriam possuir boa conduta, assiduidade ao trabalho e obediência ao seu mestre, que,
por sua vez, tinha o dever de ensinar-lhe o ofício, respondendo por uma educação moral,
podendo impor-lhe castigos corporais.
A utilização da mão de obra infantil nos campos e nos antigos feudos, com a presença de
menores como serviçais de senhores do campo, ainda se fazia presente em pleno século XVII,
durante o mesmo período em que as Corporações de Ofício funcionavam em franca evolução.
No que tange ao trabalho infantil e juvenil em atividades independentes, nas quais crianças e
adolescentes figuravam como verdadeiros empregados, exercendo funções intimamente
ligadas a aspectos econômicos, é salutar reportarmos aos séculos XVIII e XIX, quando iniciou-
se a Revolução Industrial.
2 DEMOCRACIA E DESENVOLVIMENTO HUMANO: LEGITIMIDADE E LIBERDADE
SUBSTANCIAIS
DESENVOLVIMENTO COMO LIBERDADE: EXPANSÃO DAS CAPACIDADES

4
Para compreender um pouco mais a história da escravidão afeita ao trabalho da criança, esclarece-
antiguidade remota, travados os combates, integrantes dos grupos ou tribos subjugados eram mortos. Era a forma
encontrada pelos vencedores de livrar-se do que consideravam estorvo. Depois, convenceu-se o homem de que, em
exterminar os inimigos, era mais vantajoso mantê-los cativos, utilizando sua força de trabalho. Nascia a escravidão.
Os mais poderosos logo começaram a vender, trocar ou alugar escravos que sobejavam. Não havia normas jurídicas
e

194
As liberdades humanas são expandidas a partir do desenvolvimento pessoal. A partir dos
conceitos elaborados pelo economista indiano, Amartya Sen (2010), este conceitua o
desenvolvimento como liberdade. Vejamos:
Se a liberdade é o que o desenvolvimento promove, então existe um argumento fundamental
em favor da concentração nesse objetivo abrangente, e não em algum meio específico ou em
alguma lista de instrumentos especialmente escolhida. Ver o desenvolvimento como expansão
de liberdades substantivas dirige a atenção para os fins que o tornam importante, em vez de
restringi-la a alguns meios que, inter alia, desempenham um papel relevante no processo
(2010, p.16).
Interessante observar que o conceito de liberdade é um notório tema de discussão na teoria e
história política das últimas duas décadas. Silva (2008) afirma que a principal justificativa
deste debate vem da crítica dos teóricos neorrepublicanos à concepção de liberdade da linha
dominante do pensamento liberal contemporâneo. Vejamos:
Há algo de profundamente contestável, sugerem os neorrepublicanos, numa compreensão da
liberdade que atenta exclusivamente para a ausência de impedimentos à realização das
escolhas por parte dos agentes individuais. A entronização do individualismo atomista de
parte da tradição liberal anglófona dos últimos dois séculos teria resultado numa filosofia
política e num ideal de liberdade refratários à aceitação da ideia de bem comum e,
consequentemente, inibidores da disposição dos cidadãos para o cumprimento de deveres
sociais indispensáveis à boa ordem republicana (SILVA, 2008, p. 151-152).
Mesmo que Amartya Sen correlacione sobre alguns dos temas dessa discussão, seu objetivo
não é simplesmente analisar o conceito de liberdade, mas suas implicações e efeitos em
relação ao desenvolvimento.
No entendimento de Amartya Sen, Aristóteles já dava indícios em sua preocupação,
associando a economia aos fins humanos, porque mesmo a economia sendo o estudo da
riqueza, esta deveria estar interligada a outros estudos, como a filosofia, política e ética, assim
queza

p. 28). As razões que temos para acumular riqueza estão na sua serventia como possibilidade
de termos mais liberdade e assim levar o tipo de vida que temos razão para valorizar.
Como bem salientado por Amartya Sen (2010), a utilidade da riqueza está nas coisas que ela
nos permite fazer as liberdades substantivas que ela nos ajuda a obter. O desenvolvimento
tem de estar relacionado, sobretudo, com a melhora da vida que levamos e das liberdades que
desfrutamos. Mais liberdade nos dá mais oportunidade de buscar nossos objetivos tudo
aquilo que valorizamos. Ela ajuda, por exemplo, em nossa aptidão para decidir viver como
gostaríamos e para promover os fins que quisermos fazer avançar. Esse aspecto da liberdade
está relacionado com nossa destreza para realizar o que valorizamos, não importando qual é o
processo através do qual essa realização acontece. Após, podemos atribuir importância ao

195
próprio processo de escolha, onde entra a questão do trabalho infantil. O objetivo da liberdade
é termos certeza de que não estamos sendo forçados a algo por causa de restrições impostas
por outros (SEN, 2010).
O aumento das capacidades, a concessão de oportunidades de escolha tem que ser objetivo fim
das organizações estatais, sob pena dos direitos fundamentais constitucionais não se
efetivarem e o crescimento da pobreza, das desigualdades, das privações sejam constantes.
Nas afirmações de John Rawls, o sistema legislativo tem muita importância na formação da
liberdade justa e equilibrada:
Na condição de delegados numa convenção constituinte, ou como membros de uma
legislatura, as partes devem decidir como especificar as diversas liberdades para produzir o
melhor sistema global de liberdade. Devem observar a distinção entre regulamentação e
restrição, mas, em muitos pontos, terão de equilibrar uma liberdade fundamental em relação a
outra; por exemplo, a liberdade de expressão em relação ao direito a um julgamento justo. O
melhor arranjo das diversas liberdades depende da totalidade das limitações às quais estão
sujeitas. (RAWLS, 2008, p. 249)
As organizações têm um papel primordial no desenvolvimento com liberdade, onde a
participação mercadológica, estatal, política, educacional são cruciais na interligação do
processo. A cultura social deixa claro o seu valor, sendo fundamental questionar as normas
comuns que influenciam os costumes locais, tais como igualdade, natalidade, meio ambiente,
ou seja, valores que devem ser criticados ao ponto de trazer a tona a importância da liberdade
em cada aspecto.
A promoção de uma sociedade igualitária, sem preconceitos, na busca constante pelo combate
à desigualdade social, priorizando a educação, a saúde, o saneamento básico, a segurança
jurídica e patrimonial, devem fazer parte da cultura de um povo e do objetivo Estatal. Ao
conceder Bolsa Família não estou concedendo oportunidades, mas apenas minimizando a
miserabilidade, pois não há trabalhos e projetos paralelos que oportunizem o desenvolvimento
das capacidades humanas, apenas a concessão de um mísero sustento alimentar. Este é apenas
um primeiro passo, mas não deve ser o único, sob pena de ser ineficiente e inalcançável o
objetivo de desenvolvimento como liberdade.
Partindo deste pressuposto, as políticas públicas devem ser recriadas buscando aplicar o
processo de isonomia, concedendo oportunidades aos menos favorecidos, a fim de libertá-los
do ciclo de exploração, de busca por satisfação de necessidades. Quando oportunizo o
desenvolvimento das capacidades humanas, juntamente com estrutura básica para todos, tais
como educação, saúde, saneamento, segurança jurídica e patrimonial, efetivamente estou
buscando liberdades substantivas, oportunizando escolhas. O aumento de redes faz com que as
relações se fortifiquem e o desenvolvimento econômico amadureça, consequentemente, a
busca pelo trabalho infantil não terá sentido, estando fora do contexto de desenvolvimento
como liberdade.

196
2.2 LIBERDADE DE ESCOLHA NO TRABALHO INFANTIL
Há uma grande diferença entre fazer algo e ser livre para fazê-lo.

predomínio do tempo sobre os espaços, ocupados, estes últimos, por apenas simples
momentos. Vivemos em uma sociedade pós-moderna, em que nada tem duração eterna, sendo

Sobre o tema, Daisy Rafaela da Silva, com grande precisão, ressalta que esta modernidade
liquida resume- -se em um tempo de exaustão, de perda do sentido
da vida, de perda do sentido do pertencimento e de perdas de interesses, da fuga fácil e da
pe
Sob este prisma de derretimento de sólidos e de liquefação, a modernidade líquida caracteriza-
se pela flexibilização, redução, e, até mesmo, extinção das instituições que seriam hábeis a
garantir segurança e proteção ao cidadão, entendidas como sólidos, as quais, conforme

estão mortas e ainda vivas, uma vez que não desempenham mais funções efetivas, apesar de
ainda
O problema do trabalho infantil está atrelado diretamente à questão da liberdade de escolha,
em que as crianças se encontram privadas na exploração de sua mão de obra, por meio de
famílias desfavorecidas ou culturas empresariais e estatais impostas.
Diante a ausência de condições econômicas necessárias ao sustento básico, famílias contam
com o trabalho infantil na luta pela sobrevivência. Por outro lado, famílias identificam o
trabalho infantil como fator educativo, edificador de valores. Porém, ao inserirem o trabalho
no menor, estão retirando o seu direito e dever de brincar, de explorar o mundo infantil, de
estudar e estruturar internamente conceitos de formação, onde os reflexos negativos são
nefastos, seja em curto prazo, com enormes possibilidades de acidentes laborais e, a médio e
longo prazo, com ausência de estrutura educacional e formação básica necessária.
Ao analisarmos o processo de inserção social desenvolvido pelo Estado, nos deparamos
fortemente com a sua contribuição na prática do trabalho infantil.
Por esta razão, o desenvolvimento requer que se removam as principais formas de privação de
liberdade, tais como carência de oportunidades econômicas, pobreza, ausência de saúde
adequada, fatores estes de primordial importância para a erradicação do trabalho infantil.
Apesar de muitos acreditarem que o trabalho infantil edifica valores, os autores desta prática
estão longe das condições básicas de sustento. A busca pelo trabalho infantil está mais ligada
ao fator econômico que ao desenvolvimento educacional do menor.

197
Reconhecer que o objetivo das políticas públicas exerce um papel fundamental no
desenvolvimento das capacidades humanas, é crucial para que a liberdade se faça presente e o
trabalho infantil seja gradualmente erradicado.
De acordo com as observações feitas até aqui, é possível identificar que no mundo
contemporâneo grande parte da população sofre privações de liberdades, devido à falta de
políticas públicas de inserção social efetivas, vivendo em busca da satisfação de necessidades.
A simples concessão de Bolsa Família não é suficiente para a expansão das capacidades, visto
ausência de trabalhos paralelos para tanto. O desenvolvimento das capacidades elementares
vão além da simples concessão de condições para um alimento básico, incluindo o combate à
subnutrição, à morte prematura, saber ler e escrever. Dessa forma, afirma Amartya Sen:
As liberdades substantivas incluem capacidades elementares como, por exemplo, ter
condições de evitar privações como a fome, a subnutrição, a morbidez evitável a morte
prematura, bem como as liberdades associadas a saber ler e fazer cálculos aritméticos, ter
participação política e liberdade de expressão etc. (SEN, 2010.p.55).
Por esta razão, a eliminação de privações de liberdades é constitutiva ao desenvolvimento,

que o tornam importante, em vez de restringi-la a alguns dos meios que, interalia,
16).
3 A PROTEÇÃO LEGAL INTERNACIONAL DO TRABALHO INFANTIL
O Direito Internacional do Trabalho é apenas um ramo do Direito Internacional que objetiva
tratar especificamente dos trabalhadores.
Em 1919, por força do Tratado de Versalhes, foi criada a Organização Internacional do
Trabalho (OIT), firmado com a Alemanha, onde o Brasil foi um dos vinte e nove participantes.
No preâmbulo da Constituição da OIT, há a ideia de que o direito internacional do trabalho é
justificado por meio de aspectos sociais, assegurando bases sólidas para a paz universal,
humanitários, garantindo condições dignas de trabalho e econômico, onde a alta concorrência
dificulta a melhoria das condições sociais internas. Vejamos:
Considerando que a Sociedade das Nações tem por fim estabelecer a paz universal e que tal
paz só pode ser fundada sobre a justiça social;
Considerando que existem condições de trabalho que implicam para grande número de
indivíduos miséria e privações, o que gera tal descontentamento que a paz e a harmonia
universais entram em perigo, e considerando que é urgente melhorar essas condições: por
exemplo, no que se refere à regulamentação das horas de trabalho, a fixação de uma duração
máxima do dia e da semana de trabalho, o recrutamento da mão de obra, a luta contra a
paralisação do trabalho, a garantia de um salário que assegure condições de existência
convenientes, a proteção dos trabalhadores contra as doenças graves ou profissionais e os
acidentes do trabalho, a proteção das crianças, dos adolescentes e das mulheres, as pensões de
198
velhice e de invalidez, a defesa dos interesses dos trabalhadores empregados no estrangeiro, a
afirmação do princípio da liberdade sindical, a organização do ensino profissional e técnico, e
outras medidas análogas;
Considerando que a não adoção por qualquer nação de um regime de trabalho realmente
humano cria obstáculos aos esforços das outras nações desejosas de melhorar a sorte dos
trabalhadores nos seus próprios territórios (RIBEIRO; MAURILLO, 1919, p.348-349). 94
A recomendação destina-se apenas a sugerir normas que podem ser adotadas no direito
nacional, por qualquer das fontes formais do Direito do Trabalho, tendo em vista que o assunto
tratado não permite a imediata adoção de uma convenção.
Atualmente, a OIT conta com 175 (cento e setenta e cinco) países-membros, cujos os
representantes reúnem-se anualmente em Genebra, na Suíça. Essas reuniões são denominadas
de Conferências Internacionais do Trabalho. Todas as deliberações das Conferências chamam-
se Convenções e influenciam as legislações trabalhistas de todos os países.Além das
Convenções, a OIT produz recomendações, cujo conteúdo é mais extenso e detalhado sobre o
tema.
Essa preocupação máxima legislativa cinge em torno de três importantes argumentos, de
cunho notoriamente liberal, sendo a pobreza dos pais que necessitavam dos valores obtidos
mediante o pagamento de seus filhos; a interferência no pátrio poder. Aos pais, cabia decidir
sobre o trabalho de seus filhos e sobretudo, a elevação do preço da mão de obra, diminuindo as
vantagens na concorrência internacional.
Desde a sua criação e até os dias atuais, a OIT adotou, entre convenções e recomendações,
dezessete normas sobre a idade mínima, para o início de trabalho do menor.
Os instrumentos normativos da OIT mostram que a comunidade internacional atribuiu
grande importância a questão do trabalho infantil, visto que são inúmeros temas envolvendo
essa proteção, dentre os quais: trabalho noturno, idade mínima, obrigatoriedade de exames
médicos admissionais e periódicos, peso máximo a ser transportado, escolas técnicas, férias,
entre outros.
Visando implementar seus objetivos, o IPEC procura realizar parcerias e convênios ou alianças
com Organizações de empregadores, de trabalhadores ou mesmo com instituições
educacionais, enfim, procurar por todos os meios, buscar elementos para proteger a criança
contra a exploração do trabalho infantil.
3.1 OUTRAS NORMAS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AO TRABALHO INFANTIL
A proteção internacional do trabalho infantil perpassou especialmente pela criação da Liga das
Nações, da Organização das Nações Unidas e pelas Organização Internacional do Trabalho,

94

199
sendo esta última responsável por editar normas versando o trabalho como gênero e o
trabalho infantil como espécie.
Diante o estreitamento de laços entre os países membros, integrantes das Organização das
Nações Unidas (ONU) e Organização Internacional do Trabalho (OIT), sendo o Brasil
integrante de ambas, em dezembro de 1948, foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos
Humanos, com a finalidade de proteger os direitos humanos universais, indivisíveis e
independentes, voltados para a dignidade da pessoa humana.
Ao introduzir a concepção contemporânea de direitos humanos, particularmente no tocante
ao artigo XXII, já se enunciava que:
Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e
favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego; direito a igual remuneração por igual
trabalho; direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegurasse uma existência
digna95; direito ao repouso e lazer, inclusive à limitação razoável de horas de trabalho e a férias
remuneradas periódicas96 (ONU, 2011).
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, instituída em 1948, constituiu um marco para a
elaboração de normas direcionadas à tutela dos direitos humanos em âmbito doméstico e
internacional, aqui notadamente o Direito do Trabalho e a proteção contra o trabalho infantil,
também considerado fundamento da dignidade da pessoa humana.
Para se ter uma ideia da preocupação com o trabalho infantil, o artigo 32 da Declaração
Universal dos Direitos Humanos determina a responsabilidade dos Estados-membros
protegida contra a exploração econômica e contra o
desempenho de qualquer trabalho que possa ser perigoso ou interferir em educação, ou que

fixação de uma ou mais idades mínimas para admissão nos empregos, horários e condições de
emprego, bem como estabelecimento de penalidades ao seu não cumprimento (ONU, 2011c).
Diante todas essas principais normas de caráter internacional, algumas ratificadas pelos
Estados e outras não; algumas convencionando, outras somente sugerindo o seu cumprimento;
e, algumas, no afã de promover o esforço de construir mecanismos jurídicos de proteção à
infância, outras desconstruindo a própria história tutelar desses indivíduos, resulta evidente
que são instrumentos pertencentes a vários campos do saber, instituindo normas para que os
Estados signatários realizem efetivamente os direitos nelas insculpidos.
Conclusão
Incialmente, sob o prisma das ideias de Zygmunt Bauman, pode-se concluir que vivemos em
um tempo de modernidade líquida, em que o poder econômico busca, ao máximo, o

95
Art. 23, da Declaração dos Direitos Humanos
96
Art. 24, da Declaração dos Direitos Humanos

200
derretimentos dos sólidos, mormente das instituições protetivas dos cidadãos, no intuito de
quebrar as barreiras impeditivas da livre circulação e do domínio econômico. Neste cenário,
há um predomínio do tempo sobre os espaços, ocupados, estes últimos, por apenas simples
momentos. Vivemos em uma sociedade pós-moderna, em que nada tem duração eterna, sendo

No atual cenário, a globalização incentivou, fortaleceu a liquefação das relações, refletindo


diretamente nos princípios basilares do Direito, principalmente, Direito do Trabalho, fazendo
com que as instituições protetivas do trabalhador fiquem à mercê do crescimento econômico.
Nesta seara, o Direito do Trabalho e seus princípios são importantes instrumentos protetivos e
de garantida da segurança jurídica dos trabalhadores, porém vem passando por turbulências
ao tentarem liberar a negociação de direitos clássicos, fundamentais, seguros, por meio de
interesses econômicos.
Outrossim, temos que cada vez mais o Estado vem autorizando o avanço da flexibilização do
Direito do Trabalho, em razão da ausência da sua própria implementação de políticas públicas
de incentivos econômicos, que viabilizem a relação laboral, conjuntamente com as normas
existentes. Portanto, a flexibilização pode ser considerada uma saída do Estado para a redução
das taxas de desemprego, mas às expensas do trabalhador, sendo que, na verdade, se houvesse
uma participação mais efetiva estatal, a flexibilização não teria espaço.
O que podemos constatar na história é que o trabalho das crianças sempre esteve atrelado à
situação econômica de um país e do grupo familiar inseridos. Conseguimos identificar que a
dificuldade econômica tem sido a principal responsável pela exploração de que são vítimas os
menores, desde a primeira infância e nas mais variadas épocas da humanidade.
Vejamos que a proteção à infância obriga que o Estado desenvolva ações governamentais no
sentido de reduzir as causas do trabalho infantil, dentre as quais os altos índices de
concentração de renda e desigualdade social, o número significativo de famílias em condições
de pobreza que tem o trabalho infantil como fonte auxiliar ou primordial de renda, o uso
tradicional da mão de obra infantil na agricultura familiar, doméstico, que permanecem
elevados.
Como apresentado no decorrer de todo o trabalho, a grande parte da incidência de trabalho
infantil não se dá exclusivamente por abuso dos empregadores. As razões se aglutinam num
possível ciclo de consequências. Constata-se a inserção da criança no labor precoce como um
intento da família em dar-lhe condições de inverter um quadro social já amargado pela
geração que lhe pôs em vida, e, também, como uma forma de trazer mais um contribuinte

convívio.
É plenamente identificável que o Estado tem um papel primordial na erradicação do trabalho
infantil, pois quanto maior a ausência estatal nas políticas públicas de enfrentamento da
201
desigualdade social, maior será a participação infantil no mercado de trabalho, em razão da
busca pela sobrevivência através da mão de obra barata ou, até mesmo, sem custo. Sem contar
a crença familiar que o trabalho edifica valores no menor.
Em razão das precárias condições socioeconômicas, é facilmente observada a forma como as
famílias de classes sociais mais baixas tem a percepção sobre os inúmeros percalços que a
sociedade demonstra e a maneira como ela procura agir para minimizar os problemas sociais.
O trabalho deixa de ser visto como algo idealizado para dar lugar ao meio de sobrevivência, à
satisfação de necessidades básicas.
O desenvolvimento do trabalho infantil em situação de exploração, violência, privação de
liberdade ou degradação, traz consequências nefastas que vão além do desgaste físico, visto
que perdem momentos de riso espontâneo, ficando presas nas dores de seu corpo e de sua
alma.
A dignidade da pessoa humana, somada à segurança jurídica, deve ser o alicerce de qualquer
avanço econômico, visto trazem equilíbrio e crescimento das partes envolvidas no processo,
onde podemos dizer que o desenvolvimento vem sendo feito com liberdade. Isto porque a
importância da ética diminuiu com o progresso da economia moderna, na qual as análises
normativas não levam em consideração a influência ética no comportamento humano.
Há várias formas do Estado agir no intuito de alterar a realidade de seu povo, trazendo um
desenvolvimento maduro, com minimização das desigualdades sociais. A maior delas é deixá-
lo participar de sua formação legislativa, ou seja, oportunizar liberdades políticas, civis e
sociais. Quando verificamos a participação do cidadão, através do chamado processo
discursivo (teoria do agir comunicativo) percebemos se tratar de condicionantes factíveis de
uma sociedade livre, estando, pois, configurado o princípio democrático de elaboração do
direito, o que no pensamento insuperável de Habermas, seria o necessário para legitimar um
direito positivo. A Democracia somente seria efetivada com o respeito à autonomia pública e
privada de cada indivíduo, de cada cidadão.
A promoção de uma sociedade igualitária, sem preconceitos, na busca constante pelo combate
à desigualdade social, priorizando a educação, a saúde, o saneamento básico, a segurança
jurídica e patrimonial, devem fazer parte da cultura de um povo e do objetivo Estatal.
O problema do trabalho infantil está atrelado diretamente à questão da liberdade de escolha,
em que as crianças se encontram privadas na exploração de sua mão de obra, por meio de
famílias desfavorecidas ou culturas empresariais e estatais impostas. De acordo com as ideias
de Amartya Sen,as piores violações da norma contra o trabalho infantil provêm da escravidão
em que na prática vivem as crianças e famílias desfavorecidas e do fato delas serem forçadas a
um emprego que as explora (em vez de serem livres e frequentar a escola).
Diante da ausência de condições econômicas necessárias ao sustento básico, famílias contam
com o trabalho infantil na luta pela sobrevivência. Por outro lado, famílias identificam o
trabalho infantil como fator educativo, edificador de valores. Porém, fica claro que ao
202
inserirem o trabalho no menor, estão retirando o seu direito e dever de brincar, de explorar o
mundo infantil, de estudar e estruturar internamente conceitos de formação, onde os reflexos
negativos são nefastos, seja em curto prazo, com enormes possibilidades de acidentes laborais
e, a médio e longo prazo, com ausência de estrutura educacional e formação básica necessária.
É plenamente identificável que os excluídos da sociedade, por meio de uma cultura em que o
desenvolvimento não é realizado com liberdade, utilizam do recurso mais próximo para
minimizar os impactos negativos que sentem, onde o ciclo de exploração e exclusão se
mantém. Há exclusão, pois não estão inseridos nas políticas públicas de inclusão social e há
exploração quando utilizam, desenfreadamente, a mão de obra infantil. Sob o prisma das
afirmações de Boltanski e Chiapello, excluído é aquele cujos elos de ligação com os outros
foram rompidos, o que o levou a ser rejeitado para as margens da rede, onde os seres perdem a
visibilidade, a necessidade e quase a existência. O indivíduo perde a sua conexão, não estando

Entretanto, Amartya Sen deixa claro em suas ideias que a abordagem não ética da economia
tem seu valor, porém ele gostaria de mostrar que a economia, como ela emergiu, pode tornar-
se mais produtiva se der uma atenção maior e mais explicita às considerações éticas que
moldam o comportamento e o juízo humano.
O desenvolvimento requer que se removam as principais formas de privação de liberdade, tais
como carência de oportunidades econômicas, pobreza, ausência de saúde adequada, fatores
estes de primordial importância para a erradicação do trabalho infantil. Apesar de muitos
acreditarem que o trabalho infantil edifica valores, os autores desta prática estão longe das
condições básicas de sustento. A busca pelo trabalho infantil está mais ligada ao fator
econômico que ao desenvolvimento educacional do menor.
É preciso que se oportunize às crianças a possibilidade de viver sua infância, seu momento,
garantindo-lhes um crescimento saudável. Faz necessário criar políticas públicas que
permitam o acesso à novas oportunidades de vida, com educação e lazer, afastando-as da
restrita e penosa dicotomia entre o trabalho e a marginalidade.
Partindo deste pressuposto, as políticas públicas devem ser recriadas buscando aplicar o
processo de isonomia, concedendo oportunidades aos menos favorecidos, a fim de libertá-los
do ciclo de exploração, de busca por satisfação de necessidades. O aumento de redes faz com
que as relações se fortifiquem e o desenvolvimento econômico amadureça, consequentemente,
a busca pelo trabalho infantil não terá sentido, estando fora do contexto de desenvolvimento
como liberdade.
Conclui-se, portanto, que ainda há possibilidade de reverter este jogo, com o claro intuito de
que o desenvolvimento seja com liberdade, com equilíbrio nas relações e respeito aos limites.
O fortalecimento das redes humanas e dos órgãos de representação, através da
conscientização é o caminho para a revalorização do Direito do Trabalho, dos seus Princípios,
em detrimento ao crescimento econômico unilateral desenfreado.

203
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206
A INVISIBILIDADE PERANTE OS MORADORES EM SITUAÇÃO DE RUA.
97

Resumo
O artigo terá como problema de pesquisa as questões afetas às Politicas Sociais Públicas
defendidas pelos Direitos Humanos para a população moradora em situação de rua. Trata-se
de pesquisa bibliográfica, de natureza qualitativa, que visa expor o problema e contribuir para
a construção de soluções. Os Direitos humanos com seus tradados, suas ferramentas de
fiscalização e força normativa em nosso ordenamento jurídico é o melhor aliado daquele que
perante todos é invisível. Ao final espera-se contribuir para o enriquecimento do debate acerca
das Politicas Sociais Públicas voltadas à essa população, bem como demonstrar a
indissociabilidade de uma política moral, humana e ética efetivas.
Palavras-chave: Direitos humanos. Politicas Públicas. Moradores em Situação de Rua.
Invisibilidade.
Abstract
The article will have as a research problem the issues related to Public Social Policies defended
by Human Rights for the homeless population. It is a bibliographical research, of qualitative
nature, that aims to expose the problem and contribute to the construction of solutions.
Human rights with its traditions, its tools of control and normative force in our legal system is
the best ally of the one who before all is invisible. In the end, it is hoped to contribute to the
enrichment of the debate about the Public Social Policies directed to this population, as well as
to demonstrate the indissociability of an effective moral, human and ethical policy.
Keywords: Human rights. Public policy. Residents in the Situation of Street. Invisibility.
INTRODUÇÃO
e praças da

buscará apontar durante o desenvolvimento as politicas sociais públicas envolvendo


moradores em situação de rua. Tais Politicas objetivam retomar o ser cidadão de cada pessoa
que se encontra à margem da sorte e da sociedade.
São incontáveis os desafios enfrentados por aqueles que fazem as estrelas por seu teto,
contudo o, maior entre eles, é o fato de se tornarem invisíveis perante toda a sociedade. Tem-
se por moradores de rua:
Grupo populacional heterogêneo, mas que possui, em comum, a pobreza extrema, os vínculos
familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, em
função do que as pessoas que o constituem procuram os logradouros públicos (ruas, praças,

97
Graduanda em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo UNISAL U.E. de Lorena/SP.

207
jardins, canteiros, marquises e baixos de viadutos), as áreas degradadas (dos prédios e
abandonados, ruínas, cemitérios e carcaças de veículos) como espaço de moradia e sustento,
por contingência temporária ou de forma permanente, podendo utilizar albergues para

p.136).
Comumente, também faz-se necessário o conceito de moradia, a partir do tema abordado que
trata daqueles que não há possuem. A moradia é um espaço físico e social, já abordado por F.

garante a inviolabilidade, art. 5°, inciso XI, propiciando uma correspondência entre a
estabilid

A partir dessas definições construiremos um trabalho que tratará das questões destes
conceitos acrescida das politicas sociais públicas defendidas pelos Direitos humanos.
Identificada pelo Movimento Nacional da População de Rua como O.S, já há cinco anos nas
ruas, uma moradora das ruas de Belo Horizonte contradiz a constituição ao nos contar, na

A prática muito se difere da teoria. Por isso o Estado através dos Direitos
Humanos tem a necessidade de intervim e realizar politicas que diminuam o sofrimento de
tais sentimentos presentes nas pessoas que se encontram em tal situação.
A ênfase no Movimento Nacional da População de Rua objetiva a educação que se constrói
dentro da academia universitária afinal a educação é que nos move, e ser movimento é não
estar parado (MPMG, 2010).
1 INTERDISCIPLINARIDADE.
A invisibilidade significa saber que não há percepção alguma sobre você. Ao tratar de um
grupo de pessoas como os moradores em situação de rua não há como não abordar o tema
invisibilidade. A literatura, psicologia e principalmente o direito, mas especificadamente os
Direitos Humanos, são ciências que amparam e produzem sobre o tema. A habitual
convivência social vem se mostrando cada vez mais indiferente e a indiferença esta associada a
insensibilidade, ao desapego e à frieza, características que não combinam com a condição
social que nós, seres humanos, vivemos que faz com que nos relacionemos contra outras
pessoas.
Para se concretizar os direitos e garantias previstas na Constituição da República Federativa
do Brasil de 1988, são necessárias as politicas públicas, que abordem os direitos sociais. Os
Direitos Humanos com os tratados98, convenções, pactos, conferências99, enfim, com a

98
O tratado é um acordo formal: ele se exprime, com precisão, em determinado momento histórico, e seu teor tem
contornos bem definidos. (REZEK 1998, p. 55).

208
amplitude que este possui consegue dar voz àqueles a quem esse dom foi suprimido, dar
publicidade a quem no cotidiano não é visto.
São necessários acordos firmados entre nações para ter força e fazer acontecer na vida de
quem realmente precisa. Os direitos humanos conseguem ir além do tecnicismo do direito
tradicional, consegue enxergar o humano que existe em cada pessoa e entende que o direito
serve à sociedade. A literatura por sua vez sempre alertou dos males, das ruinas, das misérias
da sociedade. Os sentimentos mais sórdidos, aqueles quais todos tentam esconder, são
revelados por ela. Também as mazelas e as misérias a qual todos tentam tornar invisíveis são
por ela desvendada.
Graciliano Ramos em Vidas Secas, Jorge Amado em Capitães de Areia, Aluísio Azevedo em O
Cort
brasileira durante a época em que seus livros foram publicados. Hoje ambos são considerados
obras primas, por tratarem da miséria social, e mesmo décadas depois, seus problemas são
atuais em nossa sociedade.
A mesma invisibilidade dos peregrinos do sertão (RAMOS, 1998), das crianças maltrapilhas
abandonadas à sorte no porto baiano (AMADO, 2009), tal como a comparação com animais
das famílias do subúrbio carioca (AZEVEDO, 2005), só foram retratadas por escritores que
tiveram a sensibilidade de enxergar os invisíveis.

que ficou conhecido nacionalmente. O bicho, escrito em 1948, retrata o problema que

lizar
Não era um gato, Não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem. (BANDEIRA, 2014, p.)
Inúmeros são os motivos que levam uma pessoa a se tornar um morador em situação de rua. A
interdisciplinaridade se faz necessária para constatar, documentar e o mais importante, agir
em favor desta minoria, neste trabalho tratando dos moradores em situação de rua. Essa
interdisciplinaridade resulta da soma de forças com um mesmo objetivo. Não somos bons em
todas as áreas, precisamos uns dos outros. Assim como uma ciência consegue enxergar a outra,
há necessidade também, de um ver o outro, colocando um fim na indiferença que acarreta a
invisibilidade. Que como já citado anteriormente traz inúmeros prejuízos para o ser humano.
2 DIREITOS HUMANOS E OUTROS RAMOS AFETOS AOS DIREITOS DOS MORADORES
EM SITUAÇÃO DE RUA.

99
A análise da experiência convencional brasileira ilustra, quase que à exaustão, as variantes terminológicas de
tratado, concebíveis, compromisso, constituição, contrato, convenção, convênio, declaração, estatuto, memorando,
pacto, protocolo e regulamento (REZEK 1998, p. 55).

209
A ausência ou a insuficiência dos direitos sociais, como, educação, trabalho, saúde, moradia,
alimentação, bem como a existência de circunstâncias sociais que prejudiquem o acesso a
esses direitos e à vida digna, criam sérios obstáculos ao exercício de todos os outros direitos
humanos. Para que não haja violação dos direitos humanos é necessária a adoção de medidas
concretas, planejadas e bem definidas para a realização desses direitos.
Para muitos os direitos humanos são a positivação daquilo que nasce com o indivíduo dos
direitos naturais, que são necessário à sobrevivência. Nas palavras de Hans Kelsen:
Mas, sendo assim, o único a priori admissível é um a priori não estático- como o das categorias
kantianas- mas essencialmente dinâmico: constituído pelas intenções espirituais que estão na
origem da inventiva humana e << cuja unidade viva>>, no dizer de BOIREL, <<forma o Ego
transcendental autêntico>>Aderimos, pois, ao ponto de vista do que alguns chamam
um<<transcendentalismo aberto>>, elemento motor e constituinte de uma <<aprendizagem>>
no decurso da qual ele próprio evoluciona e se redefine. (KELSEN, 2010, p.23).
No texto acima citado o transcendentalismo dos direitos encontra se inerte a todo e a qualquer
ser humano. É algo que se positiva para concretizar aquilo que o nosso próprio ser já considera
como direito, como forma de alcançar a justiça. Kelsen trabalha muito bem, a importância da
técnica dentro do direito, contudo afirma ele, haver direitos transcendentais que mesmo se
não fossem positivados saberíamos de sua existência.
Com base na história, durante a segunda guerra mundial, todos os direitos, aos quais falamos
acima, foram suprimidos. A politica nazista de extermínio perpetrada na Europa e que
culminou na morte de seis milhões de judeus (ROSSIGNOLI, 2013), fez com que a Organização
das Nações Unidas (ONU), tomasse medidas para assegurar e tornar indisponíveis aqueles
direitos fundamentais, principalmente o direito à vida.
Ao passar dos anos a Constituição Federal Brasileira de 1988 como tantas outras adotaram
uma forma de assegurar não apenas a sobrevivência, mas também o direito de viver a vida com
dignidade. Tudo isso derivado dos direitos assegurados a qualquer ser humano.
O Direito pertence à área das humanas, é necessário então ver o ser humano em cada caso,
analisar com particularidade cada um, envolvendo mais que legitimidade, mas também as
emoções e tudo o que possa ser acrescido a um ser humano.
2.1 A SUPREMACIA DOS DIREITOS SOCIAIS.
O artigo 6° da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 elenca de forma genérica
os direitos sociais, vale ressaltar, que este artigo não corresponde a um rol taxativo e sim
exemplificativo. Todos os demais direitos adquiridos por tratados que ampliem as garantias e
o a proteção ao ser humano devem então ser recepcionado pela constituição. O direito a
moradia, educação, alimentação, segurança, saúde são necessário a todos e são garantidos pela
constituição Federal Brasileira de 1988, sendo assim todas as demais leis, como a sociedade,
deve obedecer e toma-los como base para o seu desenvolvimento.

210
Os direitos sociais, como direitos de segunda dimensão, convém relembrar, são aqueles que
exigem do Poder Público uma atenuação positiva, uma forma atuante de Estado na
implementação da igualdade social dos hipossuficientes. São, por esse exato motivo,
conhecidos também como direitos a prestação, ou direitos prestacionais (TAVARES,
2011.p.837).
Infelizmente não é assim que acontece, pois se assim o fosse não haveria uma população com
números elevados em situação de rua. O ministério do Desenvolvimento Social e combate à
Fome da prefeitura de Belo Horizonte, realizou uma pesquisa pela PUC-Minas, INSEA e
Fórum da População de Rua, no seu 2° Censo da População de Rua e Pesquisa Qualitativa, e

de opção,
pois a própria constituição assegura a moradia e o viver com qualidade.
Para serem aprovados os tratados internacionais que versem sobre direitos humanos, com
força normativa de emenda constitucional, os tratados precisam passar, segundo o artigo 5°,
paragrafo 3° da Constituição Federal da República Federativa do Brasil de 1988, por um
quórum de aprovação de três quintos em dois turnos em cada casa do Congresso Nacional
Brasileiro. Essa aprovação tem como finalidade dotar o Brasil de seriedade na seara
internacional e, ainda, na interna (TAVARES, 2009).
Existe a supremacia formal para uma lei se tornar constitucional, mas na realidade, por vezes,
essa mesma supremacia não possui aplicabilidade para as minorias que não encontram nela a
opção contrária as ruas.
3 AS POLITICAS SOCIAIS PÚBLICAS.
A função maior do Estado é proporcionar o bem comum. E para alcançar frutos em diversos
campos o governo utiliza-se das politicas públicas. Sem elas as leis não possuem aplicabilidade
para quem realmente necessita de seus direitos fundamentais garantidos.
Ao faze um retrocesso na história percebe-se, por analogia, o quanto uma lei feita para ajudar
a população, sem sua devida politica pública, acaba não se concretizando com os resultados
pretendidos.
Exemplo histórico disso foi que no dia 13 de maio de 1888, a então Princesa Isabel sancionou a
lei imperial n°3.353 , conhecida como Lei Aurea. Uma lei que aboliu de vez o sistema
escravocrata brasileiro. Essa lei foi um grande passo para o desenvolvimento de suas
liberdades individuais e públicas.
Contudo, existem relatos de ex- escravos que preferiam voltar a servir seus senhores, até então

morar, quando se têm direitos e a quem recorrer em busca da sobrevivência. A lei tinha o
intuito de torná-los livre, mas os deixou a margem da sociedade. Inicia-se então a formação
das comunidades nos subúrbios das cidades grandes, a formação daquilo que hoje é chamado

211
iedade (WWP, 2009). Eram libertos das senzalas direitos para as ruas, sem
comida, sem saber como iriam fazer para garantir sua própria sobrevivência e de seus

aceitava o fato de ter que pagar salários àqueles que até pouco tempo faziam parte de sua
propriedade, com isso contratavam imigrantes e submetiam os negros, agora libertos, à
margem da sorte.
A suprema Constituição prevê moradia, saúde, educação a todos sem extinção, prevê ainda
que perante a lei que todos são iguais (artigo 5º). São palavras encantadoras, todavia, por si só,
não conseguem consolar aquele que sofre.
Para ter direito a concorrer à uma vaga de emprego é necessário um endereço, com um
número identificando a residência, geralmente os locais públicos onde essa parcela da
sociedade vive, não o possui. O governo utiliza das politicas públicas como força de suas mãos,
que materializam aquilo que foi de forma excelente escrita em nossa constituição.

3.1 O QUE É PRECISO PARA CONSTRUIR UMA POLITICA PÚBLICA?


O Estado nas esferas: federal. Estadual e municipal deve coordenar, gerir e programar a
politica pública. Ela deve ser destinada aos interesses de uma coletividade, a qual participa da
elaboração, gestão e controle dessas politica. O Estado deve garantir o financiamento regular
para que seja concretizado. Deve estar regulamentada em lei para que os cidadãos possam
reclamar seus direitos.
As principais etapas da construção de uma Politica Publica, são: (MNPR, 2010, p.22):
1) Identificação do Problema Social e dos Direitos. Pessoas vivendo nas ruas significa a violação
de vários direitos, que exigem formas especificas de ação do Estado.
2) Inserção na Agenda Politica. Identificado o problema, ele deve entrar na pauta de debate e
ação do Estado.
3) Definição das ações. O Estado e os beneficiários da política negociam os serviços
necessários, os princípios e diretrizes, os programas públicos e o financiamento regular.
4) Aprovação legal. É o processo de definição das leis necessárias à politica pública, o que exige
muita negociação com o Executivo e o Legislativo.
5) Implementação. É preciso definir estratégias para garantir a politica.
perfeiçoamento, como
os feitos pelos conselhos ou comitês de acompanhamento.
Segundo as palavras de Samuel Rodrigues, representante do Movimento Nacional da
População de Rua/MG e membro do Conselho Nacional da Assistência Social:

212
Veem em nós apenas objetos, uma espécie de coisa que está ali e que pode ser removida a
qualquer momento para um lado e para outro... por vezes somos alvos de projetos, tratados
como se fôssemos uma ponte ou uma obra qualquer que precisa de licitação, aprovação, entre
outras burocracias (MPMG, 2010, p.25)
3.2 MECANISMOS DE EFETIVAÇÃO DAS POLITICAS PÚBLICAS.
A função de uma politica publica é concretizar um direito. Garantir aos cidadãos a reprodução
da sua vida material, isto é, que todos possam comer se vestir, tenha moradia, estudar, entre
tantas outras garantias fundamentais. Dessa maneira, têm o objetivo de gerar segurança e
bem- estar à pessoa e à sua família. Toda pessoa que está em situação de rua é um cidadão!
Portanto, seus direitos e obrigações estão estabelecidos na Constituição Federal de 1988,
independente da cor, raça, religião, condição social ou econômica (MNPR, 2010, p.11).
4 MOVIMENTO NACIONAL DA POPULAÇÃO DE RUA.
Este movimento é um coletivo de pessoas com interesses comuns, que lutam contra a violação
de seus direitos econômicos, sociais, civis e culturais. É um sujeito coletivo histórico politico.
O Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) possui princípios que orientam sua
organização e prática politicas. São eles: democracia, valorização do coletivo, solidariedade,
ética e o trabalho de base. Diante de tantas violações de direitos, o MNPR destaca as seguintes
bandeiras de luta: Resgate da cidadania por meio da informação aos cidadãos que se
encontram em situação de rua.
Muito já se conquistou, mas ainda há muita luta pela frente. A Politica Nacional para a
População em Situação de Rua foi instituída em dezembro de 2009 pelo decreto presidencial
n°7053, durante encontro do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a população de
rua. Instituiu também o Comitê Inter setorial de Acompanhamento e Monitoramento dessas
politicas.
Como dito nos capítulo anteriores deste trabalho, uma politica para ser realizada é preciso o
projeto estar regulamentado por lei. Por isso usamos a frase muito já se conquistou. Um
primeiro passo já foi dado através do decreto, porém ainda há muito que se conquistar, afinal
decreto não tem a mesma força de lei, não produz os mesmos efeitos, pois seus meios de
criação são diferentes.
4.1 SER MOVIMENTO É NÃO ESTAR PARADO.
Em 2005, no I Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua, foram reunidos
representantes do governo municipal, pessoas nessa situação, e membros do Ministério do
Desenvolvimento Social e combate a Fome (MDS), para tratar dos desafios que tal politica
enfrentaria e desenvolver estratégias, para que juntos pudessem traçar o melhor destino para
o Movimento. No ano seguinte foi criado pelo presidente da república um Grupo de Trabalho
Interministerial (GTI), com representantes de seis ministérios, da Secretária Especial de
Direitos Humanos e sociedade civil, com o intuito de abrir um amplo processo de estudo e
elaboração de propostas com a participação social na definição do conteúdo da politica. Em

213
2009, realizou-se o II Encontro Nacional com o objetivo de discutir e consolidar a Politica
Nacional.
Sem pressão essa politica não sairá do papel, e só se consegue um movimento com capacidade
de pressionar quando possui adeptos a ele, e mais, é necessário que todos conheçam seus
utar por uma sociedade melhor, onde a justiça seja aplicada
com equidade e chegue a todos. Todos os indivíduos são constituídos de dignidade. O passo
necessário após a criação de uma política pública é pressionar até que se torne lei, em
especifico a politica trazida nesse trabalho.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A citação da qual trataremos agora explica nas palavras daquele que vive a realidade
apresentada e discutida neste trabalho, de forma que após toda cientificidade das informações
trazidas para este artigo, a comprovação se dá pelo relato:
É o que eu acho que eu faço parte de outra sociedade. Você faz parte de uma, eu faço parte de
outra. Porque agora você vai sair daqui, você vai deitar no seu colchãozinho. Não vai? Não vai
tomar o seu banhinho? Eu não vou p
Água gelada. Certo? Você vive, eu vegeto. Eu estou tentando e é o que acontece com todo
mundo, você tenta se manter vivo. [...] Agora, já, já você vai sair daqui, não vai? Eu vou deitar
ali. Eu faço parte da cidadania? Não, eu sou um número a mais. Eu sou um zero à esquerda.
Porque eu acho que nem no IBGE eu estou passando. Então, é triste. É a realidade, mas é triste.
(MDS, 2005, p.91).
O intuito deste trabalho foi realizar u
citada acima por um de seus cidadãos. As regras dessa sociedade são diferentes, mas assim o
são pela falta de comprometimento das efetivações das leis e politicas governamentais.
Contudo, o que pudemos aferir é que o pior sentimento da população que se encontra em
situação de rua, não são os medos, nem os desconfortos, mas a falta de visibilidade. Uma
sociedade capitalista mais que vender produtos vende a imagem, e a ideia de que o individuo
para ter sucesso e ser feliz precisa ser visto e prestigiado. A propaganda se pauta nessa
premissa. Roupas, emprego, casa, tudo o que se busca de material durante a vida, gira em
ada
um pode realizar dentro de si. Somente assim pode existir uma chama de esperança acesa
àqueles que deixaram de viver e buscam apenas sobreviver junto da sociedade.
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214
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215
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realizados nas cidades de Belo Horizonte (2005), Porto Alegre (2007), Recife (2005) e São
Paulo (2009).

216
O DIREITO AO ESQUECIMENTO: A NECESSIDADE E A IMPORTÂNCIA DE UMA
DISCUSSÃO ACADÊMICA.
100

101

102

Resumo
O Direito ao Esquecimento é, em síntese, o direito a ter informações sobre si esquecidas. O
objetivo do presente estudo é, num mundo cada vez mais interconectado, abrir uma discussão
sobre o Direito ao Esquecimento, para se debater a possibilidade de supressão de conteúdos
sobre pessoas que assim o desejarem. Este direito deve ser resguardado pelos Estados, mas sua
efetivação tem sido relegada às empresas particulares, o que pode causar prejuízos. A União
Europeia considerou o Direito ao Esquecimento um direito à dignidade da pessoa humana, o
que suscita um conflito entre este, em especial o direito à privacidade, e o direito ao acesso à
informação. No Brasil também se discutiu este tópico judicial e extrajudicialmente. A
discussão do Direito ao Esquecimento na internet ainda é uma novidade, mas seu estudo vem
aumentando. O problema central, apesar destes esforços iniciais, reside no fato de existirem
servidores espalhados por diversos países, cada qual com sua legislação. Por isso a importância
de uma discussão internacional sobre o tema, para que sejam delimitados objetivos, exceções e
obrigações relacionadas ao Direito ao Esquecimento em todo o mundo.
Abstract

The objective of the present study is, in an extremely interconnected world, to discuss about
the Right to be Forgotten, debating the possibility of suppressing contents about people that

often left only to private companies to decide upon, which may cause harm. The European
Union considered the Right to be Forgotten a right to the dignity of the human being, which
gives rise to a conflict between it, particularly the right to privacy, and the right of access to
information. In Brazil, this right has also been discussed both judicially and extra judicially.

increased lately. The main problem is that, despite the initial efforts, there are servers spread
acro
the matter internationally, in order to find mutual grounds in objectives, exceptions and
obligations related to the Right to be Forgotten all around the world.

100
Graduando em Direito pelo Centro UNISAL U. E.: Lorena-SP. E-mail: baiel18@gmail.com
101
Graduando em Direito pelo Centro UNISAL U.E.: Lorena-SP.E-mail: renan9088@hotmail.com
Doutora em Direito pela UFSC. Professora e Pesquisadora no Programa de Mestrado em Direito do Centro
102

Unisal U.E. de Lorena (SP). E-mail: patricianbianchi@gmail.com

217
1. INTRODUÇÃO
As novas mídias trouxeram avanço, evolução e diminuíram fronteiras. A internet, em especial,
quebrou paradigmas e praticamente eliminou qualquer espécie de distância. Atualmente é
praticamente impossível um acontecimento não ser noticiado para o mundo inteiro.
Aparelhos celulares tornaram-se máquinas de distribuição de conteúdo ao vivo, canais
pessoais online movimentam milhões de dólares e influenciam milhares de pessoas, as notícias
são consumidas através de uma tela e são compartilhadas em velocidades surpreendentes. Esta
é a cara do mundo digital.
Entretanto, como seres sociais que somos, o surgimento e avanço da internet trouxe consigo
mais do que apenas benesses, fomos invadidos também por diversas situações não tão
positivas. Hackers, roubo de dados pessoais, invasões de sistemas e, principalmente para o que
discutimos aqui, veiculação de notícias falsas ou irrelevantes, as quais são quase impossíveis
de combater e perpetuam-se na rede digital como ervas daninhas em terrenos abandonados.
É daí que surge o instituto conhecido como Direito ao Esquecimento, que significa ver

A internet, contudo, não faz disso uma tarefa fácil e, para piorar, este não é um direito que
pode ou deve ser absoluto, uma vez que é direito inerente a qualquer sociedade o de
informar-se, tanto quanto é direito de um indivíduo a sua privacidade.

ser a postura do direito em relação a novos institutos jurídicos que surgem mais rápido do que
os legisladores são capazes de trabalhar?
No presente artigo procura-se debater a importância do Direito ao Esquecimento e de uma
tutela jurídica sobre o tema, bem como a necessidade de que esta discussão alcance um
cenário global, e não apenas local, dado que a rede mundial de computadores ignorou toda e
qualquer limitação geográfica. Utilizando-se, para isso, de uma análise das legislações,
jurisprudências e estudos acadêmicos existentes sobre o tema.
2. Direito ao Esquecimento: noções GERAIS
O Direito ao Esquecimento consiste em uma pessoa ter fatos vexaminosos ligados a si

mais necessária para o restante da sociedade. Tal direito se faz através da não veiculação
destes fatos novamente pela mídia ou da desindexação de notícias antigas de buscadores, como

rápida da informação cria também outra adversidade: a armazenagem de forma duradoura,


103
. Isto é, o armazenamento em
um caráter quase perpétuo propiciado pela internet faz com que as informações não sejam tão

103
PINHEIRO, Patricia Peck. Direito Digital. 6 ed. rev., atual e ampl. São Paulo: Saraiva, 2016. p. 490.

218
facil -se disponíveis por um período de
tempo quase indefinido e cada vez mais acessível a quem quer que seja, tendo em vista a
globalização veloz do acesso à internet e ao conhecimento crescente das pessoas em lidar com
a ferramenta.
O Direito ao Esquecimento gera, ainda, outro debate acerca do acesso à informação. Tem-se,
desta forma, direitos contrapostos, se por um lado deve-se preservar o direito à privacidade e,
consequentemente, à dignidade, por outro não se pode ignorar o direito de acesso à
informação e à liberdade de expressão por parte dos cidadãos. A União Europeia recentemente
decidiu a respeito do Direito ao Esquecimento, aceitando-o como um direito dos cidadãos à
privacidade quando informações existente
104

inclusive, o papel que a pessoa sobre qual a informação trata tem para o público em geral se é
uma pessoa de interesse público ou não, como políticos e afins , a fim de verificar se trata-se

Outro questionamento que se levanta ao se debater a respeito deste direito é a quem recai a

esta incumbência a serviços particulares, como o Google, muito menos parece seguro
depender única e exclusivamente de uma empresa particular para tal tarefa. Atualmente, na
União Europeia105, esta função tem sido delegada às empresas particulares em detrimento de
órgãos públicos, ainda que esses estejam sujeitos à uma análise posterior pelo Poder Público, o
que tem gerado certo receio a respeito da idoneidade e do interesse, bem como na
concentração excessiva de decisões a respeito de informações pessoais de cidadãos, que uma
organização particular terá ao lidar com os pedidos de Direito ao Esquecimento.
Ademais, mais um problema que advém diz respeito ao caráter cíclico das informações, até
quando uma informação deverá ser esquecida? Indefinidamente? Ou deverá haver um outro
lapso temporal que poderá remover esta informação do rol de informações a serem
esquecidas? Porque se, por exemplo, uma informação a respeito de determinada pessoa que,
até aquele momento, não fazia parte da vida pública, mas posteriormente passa a fazer, seja
por iniciar participação na vida política ou por qualquer outro motivo, foi esquecida, não
significa que esta informação seja irrelevante ad eternum, uma vez que este inicio de
participação na vida pública pode fazer com que esta mesma informação passe a ser relevante
para a sociedade ainda mais do que o direito desta pessoa à privacidade, devendo, assim, ser

104
Disponível em:
<http://ec.europa.eu/justice/data-protection/files/factsheets/factsheet_data_protection_en.pdf>.
105
Ibidem.

219
reindexada e mantida ao alcance, para acesso dos cidadãos. Como regular uma situação como
esta? Deveria haver um novo lapso temporal em que uma reanalise deveria ser feita?106.
Todos estes questionamentos tornam evidente a necessidade de uma discussão acadêmica, que
deve ser feita, inclusive, a nível global, dado o caráter internacional da internet. Parece claro
que os Estados devem preocupar-se com o tema, mas ao mesmo tempo é necessário um
-se à pessoa interessada em
ter sua privacidade preservada, ao invocar o Direito ao Esquecimento, sujeitar-se a um
extenuante procedimento judicial para ver seu desejo satisfeito.
Se, por um lado, o Direito ao Esquecimento na internet é dificultoso dado o caráter cíclico
que as informações têm na rede mundial de computadores, por exemplo com o retorno de
uma informação antiga após certo período como se fosse recente (em especial o caso das
correntes ou dos boatos relacionados a diversos assuntos) por outro, sua garantia parece
coerente com o direito à privacidade, à intimidade e à dignidade da pessoa humana.
Contudo, o direito à informação e à liberdade de expressão, do outro lado da balança, não
podem ser ignorados e também devem ser sopesados quando se discute o direito de um
individuo ao esquecimento. Em uma situação clara de conflito de direitos fundamentais como
esta, será que realmente é sensato delegar a função de analisar e decidir às empresas
particulares? Se sim, deve haver alguma limitação? E, se não, até que ponto os Estados devem
se envolver e de que forma devem fazê-lo?
São estas as questões a serem tratadas a seguir.
3. CONFLITO ENTRE O DIREITO À PRIVACIDADE E O DIREITO AO ACESO À
INFORMAÇÃO
A colisão de normas fundamentais é matéria de intenso debate e difícil decisão, no ramo
teórico beira a impossibilidade de uma conclusão unânime. Embora alguns se sobressaiam aos
demais, como o direito à vida, sem o qual, por obviedade, não se poderia exercer nenhum
outro direito, outros podem variar de valoração de caso a caso, não sendo coerente ou sequer
adequado definir um valor específico a um ou a outro.
Sobre o tema, Gilmar Mendes e Paulo -se em colisão entre
direitos fundamentais quando se identifica conflito decorrente do exercício de direitos
107
, os autores continuam, em relação à uma possível
hierarquização de direitos fundamentais:
Questão embaraçosa refere-se ao direito ou bem que há de prevalecer no caso de colisão
autêntica. Formulada de maneira explícita: quais seriam as possibilidades de solução em caso

106
Blog Harvard, 2014. Righting the right to be forgotten. Disponível em:
<http://blogs.harvard.edu/futureoftheinternet/2014/07/14/righting-the-right-to-be-forgotten/>.
MENDES, Gilmar Ferreira, BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 8 ed. rev. e atual.
107

São Paulo: Saraiva, 2013. p. 235.

220
de conflito entre a liberdade de opinião e de comunicação ou a liberdade de expressão artística
(CF, art. 5º, IX)108 e o direito à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da
imagem (CF, art. 5º, X)? (...)
É possível que uma das fórmulas alvitradas para a solução de eventual conflito passe pela
tentativa de estabelecimento de uma hierarquia entre direitos fundamentais.
Embora não se possa negar que a unidade da Constituição não repugna a identificação de
normas de diferentes pesos numa determinada ordem constitucional, é certo que a fixação de
rigorosa hierarquia entre diferentes direitos acabaria por desnaturá-los por completo,
desfigurando, também, a Constituição como complexo normativo unitário e harmônico. Uma
valoração hierárquica diferenciada de direitos individuais somente é admissível em casos
especialíssimos.109
Assim, percebe-se que a tarefa de definir, em relação ao Direito ao Esquecimento, qual direito
fundamental se sobressai, se o direito à privacidade ou à liberdade de expressão e de
informação, não é somente árduo, mas, também, perigoso.
Não se faz possível e sequer coerente definir de maneira pétrea qual princípio fundamental
seria superior, por esta razão, acertadamente, a Comissão Europeia deixou claro que a situação
-se o que se sobressai naquela situação específica.
Se decidíssemos qual é superior em uma discussão teórica, estar-se-ia sob o risco de atirar ao
esquecimento informações relevantíssimas à população, ou, em contrapartida, de escancarar
indefinidamente erros que não prejudicam mais ninguém além do agente que os cometeu.
Apenas o caso concreto pode nos dar qual direito se sobressai e qual deve ser resguardado em
detrimento do outro, razão pela qual, embora discutamos o tema sob um ponto de vista
teórico, jamais poderemos nos afastar do debate prático que o direito nos proporciona.
Esta é a razão, inclusive, pela qual se traz exemplos a este debate, a fim de lastrear a
ponderação quando diante de casos práticos de conflito entre os direitos em comento. Ou seja,
como já se mencionou, se se tem entre os polos da relação, elevado interesse público, como
quando se tratar de pessoa pública, seja político ou alguém envolvido com diversas pessoas, o
direito à privacidade deste individuo possivelmente terá valor menor em relevância do que o
direito à informação da sociedade. Contudo, mesmo isso não é absoluto, afinal, quando se está
diante de uma pessoa pública que quer ver uma informação sobre imagens íntimas suas que
vieram à público quando era mais jovem, não haveria qualquer sentido em preponderarmos o
direito à informação no presente caso. Qual a relevância desta informação à sociedade?
Nenhuma. Agora, qual a relevância de protegermos a privacidade desta pessoa, ainda que
pública, nesta situação? Completa.
É exatamente este, inclusive, o entendimento da Suprema Corte brasileira:

108
Trata-se aqui da Constituição Federal Brasileira.
109
MENDES, Gilmar Ferreira, BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. ob. cit. p. 237.

221
No que se refere à tensão entre a liberdade de expressão e de crítica e o direito à honra e à
intimidade, existe, no Supremo Tribunal Federal, precedente que reconhece a possibilidade de
diferenciações, consideradas as diferentes situações desempenhadas pelos eventuais
envolvidos. Assim, admite-se, tal como na jurisprudência de outros países, que se estabeleçam
critérios diversos para a aferição de possível lesão à honra tendo em vista a maior ou a menor
exposição pública das pessoas.110
Ou seja, como já citado, nem o direito à privacidade, no excerto melhor exposto como direito à
honra, é supremo, nem o direito à liberdade de acesso à informação o é. Ambos devem ser
analisados à luz situações concretas, capazes de demonstrar qual prevalecerá sobre o outro em
virtude tanto da exposição pública das pessoas do caso, como da informação ali discutida. A
obra citada traz, ainda, citação ao julgado no Habeas Corpus nº 78.426:
Crime contra a honra e a vida política. É certo que, ao decidir-se pela militância política, o
homem público aceita a inevitável ampliação do que a doutrina italiana costuma chamar a
zona di iluminabilità, resignando-se a uma maior exposição de sua vida e de sua personalidade
aos comentários e à valoração do público, em particular, dos seus adversários; mas a tolerância
com a liberdade de crítica ao homem público há de ser menor, quando, ainda que situado no
campo da vida pública, do militante político, o libelo do adversário ultrapasse a linha dos
juízos desprimorosos para a imputação de fatos mais ou menos concretos, sobretudo se
invadem ou tangenciam a esfera da criminalidade: por isso, em tese, pode caracterizar o delito
contra a honra (...).111
Toma-se a liberdade, em relação ao julgado citado, de inserirmos a possibilidade do Direito ao
Esquecimento. Por tratar-se de decisão antiga, de 1999, o termo e a discussão deste direito não
estavam em voga, mas entende-se plenamente possível e plausível sua anexação a este direito
à honra mencionado, uma vez que similares na espécie.
O Ministro Gilmar Mendes e Paulo Gustavo Branco, seguem, em análise da citada decisão,
versando que:
Vê-se aqui que também o Supremo Tribunal Federal define tópicos (topoi) que hão de balizar o
complexo de ponderação, fixando-se que os homens públicos estão submetidos a exposição de
sua vida e de sua personalidade e, por conseguinte, estão obrigados a tolerar críticas que, para
o homem comum, poderiam significar uma séria lesão à honra. Todavia, essa orientação,
segundo o Supremo Tribunal Federal, não outorga ao crítico um bill de indenidade,
especialmente quando imputa a alguém a prática de atos concretos que resvalam para o
âmbito da criminalidade.
(...)

110
MENDES, Gilmar Ferreira, BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. ob. cit. p. 249.
111
HC 78.426, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, julgado em 06 de março de 1999, 1ª Turma, DJ de 7 de maio de 1999.

222
De ver-se, portanto, que a solução para a colisão entre direitos fundamentais dar-se-á à luz da
situação concreta trazida ao Tribunal.112
Assim, evidente que há necessidade de análise concreta para eventual ponderação entre os
direitos conflitantes. Sendo, por isso, impossível falar-se em hierarquização em sentido teórico
destes princípios.
Destarte, retoma-se questionamentos já trazidos anteriormente, mas que agora, com maior
sustentação, passamos a realizar, uma vez que apenas a presença de casos práticos nos
permitiria indagar qual direito sobressai em relação a outro, até que ponto os Estados devem
se envolver, ou se abster, e de que forma devem fazê-lo? Será que é mesmo sensato e correto
deixar toda esta análise à iniciativa privada?
4. A IMPORTÂNCIA DE UMA POSTURA ESTATAL
Ante o que já foi apresentado, e questionado, acredita-se que os Estados devem sim tomar uma
posição, sem, contudo, impor-se de maneira excessiva que possa limitar o avanço e as
liberdades que advieram com a internet. Ou seja, deve haver uma parceria entre as empresas
particulares e o Poder Público no que se refere ao tratamento do Direito ao Esquecimento.
Globalmente tem avançado a tutela jurídica sobre o tema, em especial na Europa, que decidiu
sobre o assunto em 2012. Entretanto, dada a velocidade que a internet possui, os avanços dos
Estados encontram-se lentos no tratamento do assunto, sendo que muitos não possuem
qualquer legislação sobre ele.
No Brasil a primeira orientação jurídica sobre o Direito ao Esquecimento veio com o
idade da

fundamentando no artigo 11 do Código Civil Brasileiro, e sustentando a seguinte justificativa:


Os danos provocados pelas novas tecnologias de informação vêm-se acumulando nos dias
atuais. O direito ao esquecimento tem sua origem histórica no campo das condenações
criminais. Surge como parcela importante do direito do ex-detento ressocialização. Não
atribui a ninguém o direito de apagar fatos ou reescrever a própria história, mas apenas
assegura a possibilidade de discutir o uso que dado aos fatos pretéritos, mais
especificamente o modo e a finalidade com que são lembrados.113
No restante do mundo, em igual forma, o Direito ao Esquecimento ainda não possui um
tratamento em evidência. São poucos os países que já legislaram sobre o assunto, restando, em
geral, apenas decisões dos tribunais sobre o tema, uma vez que a provocação com casos
concretos é mais comum, dado que a velocidade de transformação da sociedade é
imensamente superior à legislativa.

112
MENDES, Gilmar Ferreira, BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. ob. cit. p. 249-250.
113
Justificativa do Enunciado 531 da VI Jornada de Direito Civil do Conselho da Justiça Federal Brasileira.

223
Como exemplo podemos citar o Chile, no qual o Direito ao Esquecimento surge, também como
no Brasil, como um direito de ex-detentos à ressocialização. Não se fala, ainda, em Direito ao
Esquecimento no aspecto digital, ou de uma forma mais ampla, estendendo-se às situações
mais cotidianas. Apesar de existirem esparsas e raras legislações sobre o tema.
A Europa é, como já mencionado, o principal cenário do debate, mas mesmo lá existem países
que ainda não se mobilizaram para discutir e legislar acerca do assunto.
Apesar de existir quem acuse o Direito ao Esquecimento como uma forma de censura 114,
acredita-se ser importante uma definição legislativa sobre o tema, a fim de se evitar eventuais
abusos e contradições. Inclusive a fim de evitar que seja usado como forma de censura,
cerceando o acesso da população à informações imprescindíveis ao debate democrático. Neste
sentido, Patricia Peck Pinheiro assevera:

em plena era da informação, um dos direitos do indivíduo seria o de justamente deixar com
que um determinado fato ficasse no passado! Isso porque, em casos excepcionais, este
ociedade.115
A atuação estatal possui, ainda, relevante importância quando verifica-se que, atualmente, a
maior parte da análise sobre os pedidos de Direito ao Esquecimento são direcionados às
empresas privadas, como o Google, sendo que o procedimento para apuração do caso e a
decisão de remoção ou não do conteúdo acabam competindo única e exclusivamente a estas
empresas, sem qualquer participação estatal. Isto é perigoso e passível de gerar imensa
instabilidade. Pense-se, por exemplo, uma situação em que o Google decida remover um
conteúdo que era considerado relevante à população, mas, por interesses particulares desta
empresa, percebeu-se melhor a sua desindexação do buscador.
Há visível prejuízo à sociedade que, aliado à ausência de verificação estatal, possivelmente não
será descoberto. Quando verifica-se o inverso, ou seja, a negação do Direito ao Esquecimento
por parte da empresa particular, há, ao menos, a possibilidade de nos socorrermos ao
judiciário, o que poderia sanar eventual arbitrariedade lesiva ao indivíduo. Contudo, como
exposto, o mesmo não se pode dizer da informação desindexada indevidamente, que pode,
muitas vezes, sequer ser percebida, tornando-
indevida.
É por esta razão que acreditamos relevante e imprescindível uma atuação estatal, legislando
sobre o tema e atuando diretamente em sua execução, a fim de evitar censuras e
arbitrariedades indevidas. Ressaltamos, porém, que esta atuação governamental não deve, em

114
Folha de São Paulo. Reportagem publicada originalmente em 07 de agosto de 2016. Disponível em
<http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/08/1799831-direito-ao-esquecimento-nao-existe-e-e-usado-para-
censura-afirma-advogada.shtml>.
115
PINHEIRO, Patricia Peck. ob. cit. p. 493.

224
hipótese alguma, ser feita de forma a burocratizar excessivamente o instituto, sob pena de
contribuir à não aplicação do direito, e não o contrário, que é o que se busca. A internet é uma
ferramenta ágil e assim deve ser mantida, razão pela qual ao buscarmos uma atuação estatal,
esta deve acompanhar essa agilidade da vida online, e não o contrário.
5. A NECESSIDADE DE UM DEBATE ACADÊMICO INTERNACIONAL
O Direito ao Esquecimento na internet é um debate extremamente atual, o ramo de Direito
Digital é inovador, a rede mundial de computadores tem crescido em estonteante velocidade,
por esta razão acreditamos que a academia precisa se debruçar sobre o assunto e discuti-lo.

tornar um tópico que será estudado e analisado perante os novos conceitos e problemáticas
116

Mas não basta apenas um estudo sobre o tema, é necessário que este seja internacional. O
Direito Digital enquadra-se como um direito difuso e coletivo, como tal, por si só, já ensejaria
um debate menos local. Contudo, quando se trata de internet, este debate toma proporções
ainda maiores e deve ser internacional. Não é incomum acessarmos sites que se encontram
hospedados em diversos locais do mundo. Operações em defesa de Direitos Autorais, por
exemplo, já foram deflagradas nos Estados Unidos em parceria com os mais diversos países, a
fim de derrubar sites que compartilhassem conteúdo de maneira ilegal hospedados em locais
que não erram territórios norte-americanos. Entre os quais destacamos o ocorrido em 2012,
quando o FBI, em parceria com o governo da Nova Zelândia e da Austrália, derrubou um
portal de compartilhamento de mídias denominado Megaupload117.
Além da hospedagem, diversos serviços também são de diversos locais do mundo, alguns sem
qualquer representação no país em que estão atuando. É o caso do WhatsApp, que embora seja
atualmente de propriedade do Facebook, não possui representação no Brasil, mas, ainda assim,
é o serviço de mensagens instantâneas mais utilizado no país. Fato que, inclusive, gerou
imenso debate quando o serviço foi temporariamente bloqueado em terras brasileiras.
Por estas razões, o debate acerca do Direito ao Esquecimento, e do Direito Digital como um
todo, não podem se limitar a países específicos, devendo ser discutidos em âmbito global, a fim
de que acordos internacionais sejam firmados e os países possam comunicar-se de maneira
adequado no tratamento ao tema. Com o fito, inclusive, de evitar que tratamentos desiguais
sejam dados ao assunto, uma vez que a noção de privacidade e de acesso à informação podem
variar de local para local, o que muitas vezes ocorre, se verificarmos que na China, por
exemplo, diversos serviços e sites são bloqueados.
6. CONCLUSÃO

116
PINHEIRO, Patricia Peck. ob. cit. p. 492.
117
Tecnoblog. Megaupload é desativado depois de operação do FBI. Disponível em
<https://tecnoblog.net/88862/megaupload-desativado-fbi/>.

225
A internet é um retrato da liberdade, da agilidade e da colaboração. Serviços como o
Wikipedia, onde milhões de pessoas podem colaborar para trazer informações das mais
diversas a todos os internautas, são a prova viva destes três institutos. Ele é um retrato da
internet, embora seja bastante criticado para uso em meios acadêmicos, a revolução que este
serviço trouxe é inegável e ilustra muito bem o que representa a rede mundial de
computadores.
Mas excesso de liberdade e agilidade também geram problemas. Muitas pessoas, valendo-se de

discursos de ódio, mas também notícias falsas. Pior é quando a própria imprensa propaga estas
notícias falsas. Ou quando, ainda que verídicas, as informações ali veiculadas tornam-se
irrelevantes ou insignificantes, continuando, entretanto, a assombrar as pessoas sobre a qual
falam.
O Direito ao Esquecimento na internet surge como uma ferramenta para evitar estas
arbitrariedades e essa eternização de informações. Mas não podem ser geridos dando
possibilidades à outras arbitrariedades. É preciso que os Estados se movimentem e tutelem
este direito, colocando restrições e parâmetros a serem adotados quando de sua utilização.
O Direito ao Esquecimento não pode ser absoluto, pois acarreta conflito de normas
fundamentais, a privacidade e a liberdade de expressão e de informação. É somente diante de
casos concretos que somos capazes de sopesar os institutos e verificar qual deve superar o
outro. Mas é inegável que os governos não podem se manter inertes e esperar que apenas o
judiciário ou empresas particulares cuidem da efetivação do direito a ser esquecido. Este
não deve ser um papel exclusivo do judiciário ou de empresas particulares. O direito é mais do
que decisões jurídicas, ele é uma ferramenta de pacificação social e não pode ser relegado ao
campo do ativismo, sujeito a arbitrariedades, que por sua vez geram insegurança. É por esta
razão que leis são necessárias, discussões acadêmicas são necessárias e regulamentações são
necessárias.
Entendemos, ainda, que o Estado precisa entender o seu papel, mas não pode, com isso, querer
que a internet o acompanhe, ou seja, não pode burocratizar e tornar lento o processo. É
preciso que ocorra o contrário e ele torne-se mais célere, a fim de acompanhar e tutelar de
maneira adequada o mundo digital em toda sua integralidade e peculiaridades.
Por fim, a internet destruiu as barreiras físicas, as limitações geográficas e as fronteiras
artificiais. Unindo o mundo como uma grande e única massa. É possível morar em um país

por si só, demonstra a importância de que o debate acerca da internet e do direito digital,
como um todo, bem como do Direito ao Esquecimento, em particular, devam ser globais,
internacionais, pois só assim será possível tutelar de maneira adequada tanto um, quanto o
outro.

226
A sociedade humana passou, e passará, certamente, por diversas revoluções em sua história. É
inegável que a internet é uma delas. Mas é preciso cuidado e especial atenção, a fim de que
esta revolução não seja atrasada ou prejudicada pela ineficiência e lentidão de Estados, ao
mesmo tempo em que estes não podem se manter omissos e ignorar seu papel e importância
em lidar com os temas que esta revolução trazem, a fim de guiar os cidadãos sob sua guarda de
maneira ideal durante esta mudança gigantesca de paradigma.
Referências bibliográficas
MENDES, Gilmar Ferreira, BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 8
ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2013.
PINHEIRO, Patricia Peck. Direito Digital. 6 ed. rev., atual e ampl. São Paulo: Saraiva, 2016.
Blog Harvard, 2014. Disponível em:
<http://blogs.harvard.edu/futureoftheinternet/2014/07/14/righting-the-right-to-be-forgotten/>.

<http://ec.europa.eu/justice/data-
protection/files/factsheets/factsheet_data_protection_en.pdf>.
Folha de São Paulo. Reportagem publicada originalmente em 07 de agosto de 2016. Disponível
em <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/08/1799831-direito-ao-esquecimento-nao-
existe-e-e-usado-para-censura-afirma-advogada.shtml>.
Tecnoblog. Disponível em <https://tecnoblog.net/88862/megaupload-desativado-fbi/>.
Wikipedia. Disponível em <https://www.wikipedia.org>.

227
O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO MANDADO DE
OTIMIZAÇÃO DOS INSTRUMENTOS AMBIENTAIS DE INCENTIVO À PROTEÇÃO.
118

119

Resumo
Os direitos humanos estão sendo discutido de todas as formas para encontrar um ponto de
equilíbrio entre o desenvolvimento e sua aplicação na efetividade de uma sadia qualidade de
vida. A dignidade da pessoa humana é verificada, primordialmente, a partir de uma
necessidade extremada de vislumbrar-se garantida a estabilidade socioambiental, portanto,
nas intervenções públicas. Revela-se, dessa forma, como um segmento que orienta na
interpretação e efetiva aplicação dos demais direitos e garantias fundamentais das políticas
públicas ambientais. Assim, a dignidade da pessoa humana é efetivamente, uma qualidade
inerente ao próprio ser humano, sendo, portanto, irrenunciável e indisponível. Entretanto,
necessário se faz resguardar o meio ambiente para que tenha se vida com dignidade. Existem
princípios mestres, balizadores de todo ordenamento ambiental, procurando harmonicamente
sua aplicação de forma autônoma e independe. Apesar de ser bem novo o ramo ambiental em
relação ao ramo jurídico, o Direito Ambiental já conta com princípios específicos que o
diferenciam dos demais ramos do Direito. O princípio do desenvolvimento sustentável emerge
na teoria tridimensional, nacional e internacional, com a finalidade a compatibilização do
desenvolvimento econômico, social e do meio ambiente, sendo uma das tarefas mais difíceis,
para que se mantenha o meio ambiente para a sobrevivência humana. A intervenção do Estado
na simbiose do Direito Econômico com Direito Ambiental é feita por meio das políticas
públicas que asseguram o planejamento e a organização para alcançar suas finalidades, como
uma qualidade de vida a toda sociedade e seu desenvolvimento econômico sustentável. O
universo dos direitos humanos, e se associa de modo adequado ao contexto mais amplo das
relações entre os direitos humanos, a democracia e o desenvolvimento sustentável. Assim, não
se implanta uma política ambiental que não tenha como finalidade o desenvolvimento
sustentável que contempla os aspectos sociais, ambientais e econômicos, financeiros e
ideológicos. Todos os aspectos são orientados e interpretados à luz do princípio da dignidade
humana. A pesquisa se deu pelo método dedutivo, correspondendo à extração discursiva do
conhecimento a partir de premissas gerais aplicáveis a hipóteses concretas. Logo em seguida

Graduada em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia, especialização em Direito Processual Penal
118

Constitucional pela Escola Paulista de Magistratura, Mestre em Direitos Coletivos e Função Social do Direito pela
Universidade de Ribeirão Preto, doutora em Direitos Coletivos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
(Endereço eletrônico: damoraes@hotmail.com)
Professora da Universidade Federal de Rondônia - Unir- Doutora em Direito pela PUC-SP Mestre em Direito
119

Econômico pela Universidade de Marília. Especialista em Direito Ambiental pela Universidade Cândido Mendes.
Membro do Grupo de Pesquisa Cejam/ Unir. (Endereço eletrônico: tbmaga2@yahoo.com.br)

228
foi utilizado o método indutivo, para que, com base em fatos particulares, fossem formuladas
as conclusões gerais.
Palavras-chave: Princípio da dignidade da pessoa humana; desenvolvimento sustentável,
instrumentos ambientais.
1.MANDADO DE OTIMIZAÇÃO PRINCÍPIO DA DIGNIDDE DA PESSOA HUMANA
As transformações sociais ocorridas nas sociedades atingem diretamente o Direito, isto é,
quaisquer mudanças de comportamento, de pensamento influenciam o mundo jurídico.
Tratar de um assunto tão relevante, como o é os direitos humanos, não é tarefa fácil, tendo em
vista suas inúmeras implicações no cotidiano das pessoas, além de que os direitos humanos se
relacionam de forma direita com a dignidade da pessoa humana.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e, proclamada pela resolução 217 A
(III) da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, de 10 de dezembro de 1948,
protege e asseguram direitos a todos os seres humanos, sem distinção de qualquer espécie, seja
de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou
social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição, em face de que o reconhecimento da
dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e
inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.
Assim, pode-se considerar o princípio da dignidade da pessoa humana, como um
metaprincípio; estes como modais deônticos, dentro da Constituição Federal brasileira.
Mudanças no âmbito da estrutura do Estado, dos modelos econômicos liberais, sociais e
neoliberais contribuíram decisivamente para a busca de um desenvolvimento econômico que
visasse de forma mínima à preservação do princípio da dignidade da pessoa humana.
Desse modo, foram criadas ideologias de intervenção do Estado, visando a preservação dos
princípios constitucionais econômicos e ambientais, em busca de efetivar-se o Estado
Democrático de Direito e a República Federativa do Brasil.
Tendo em vista a busca pelo crescimento econômico de modelo capitalista não
intervencionista, gerou-se um desenfreado aumento da degradação ambiental, isto é, pregou-
se uma economia que visava somente o lucro, mesmo que de forma canibalesca, esquecendo-
se de preservar os direitos sociais dos indivíduos, bem como o meio em que os seres humanos
se desenvolvem.
A Constituição da República Federativa do Brasil estabelece, nos Arts. 3º e 4º os objetivos
fundamentais da ordem constitucional, sendo eles:
Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I- construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II garantir o desenvolvimento nacional;

229
III erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer
outras formas de discriminação.
Art. 4º. A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e
cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-
americana de nações. 120
Veja-se que a República brasileira objetiva a construção de uma sociedade livre, justa, solidária
e igualitária, pois com a igualdade conseguirá obter a erradicação da pobreza e a redução das
desigualdades sociais, além de conseguir a promoção do bem para todos. E, ao alcançar esses
pontos conseguirá obter uma dignidade plena para todos os indivíduos.
A Constituição da República do Brasil trouxe, como valor fundante, o princípio da dignidade
da pessoa humana, sendo, portanto, princípio regulador de toda a ordem jurídica.
A Constituição brasileira apresenta os direitos e garantias individuais no artigo 5º,
demonstrando que são direitos auto-aplicáveis, constituindo-se em cláusulas pétreas121. A
Carta Política brasileira está baseada na soberania, na dignidade da pessoa humana, nos
valores sociais do trabalho, na livre iniciativa e no pluralismo político, sob um Estado
Democrático de Direito. (art. 1º - I a V) Preceitua também, no que se refere às relações
internacionais, ao princípio da integração econômica, política, social e cultural entre os povos
da América Latina (Art. 4º - Parágrafo Único)
A Constituição brasileira enuncia que os direitos e garantias, nela protegidos não excluem
outros provenientes de tratados internacionais de que o Brasil seja parte, e que as normas
definidoras desses direitos e garantias fundamentais têm efeito direto.
O princípio da dignidade da pessoa humana encontra-se assentado em vários artigos, no
decorrer de todo Texto Constitucional, demonstrando que o Poder Constituinte, voltado para
os valores trazidos do seio da sociedade, já que afinal, o legislador representa o povo, por meio
do sufrágio universal, interagindo com essa sociedade, contribui para a constante manutenção
do sistema jurídico, aberto e sempre pronto para receber os valores sociais, transformando-os
em regras e princípios.
A dignidade da pessoa humana é verificada, primordialmente, a partir de uma necessidade
extremada de vislumbrar-se garantida a estabilidade social e a confiabilidade, portanto, nas
instituições públicas. Revela-se, dessa forma, como um segmento que orienta na interpretação
e efetiva aplicação dos demais direitos e garantias fundamentais.

120
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil, 1988.
O artigo 60, parágrafo 4º da Constituição Federal enaltece, entre outros dispositivos, que os direitos e garantias
121

constitucionais não podem ser alterados por Emenda Constitucional.

230
A dignidade da pessoa humana é uma qualidade intrínseca e inerente do ser humano, sendo,
portanto, irrenunciável e inalienável, na medida em que constitui elemento que qualifica a
própria pessoa humana. Sendo assim, não há como a pessoa se desfazer dessa qualidade, em
face de ser a mesma a ela intrínseca.
Ingo Wolfgang Sarlet também se filia ao entendimento que a dignidade seja inerente ao ser
humano, dissociado, portanto, das ocorrências externas.
Além disso, como já visto, não se deve olvidar que a dignidade independe das circunstâncias
concretas, sendo algo inerente a toda e qualquer pessoa humana, de sorte que todos mesmo o
maior dos criminosos são iguais em dignidade. Aliás, não é outro o entendimento que subjaz

nascem livres e ig
agir uns para com os outros em espírito e fraternidade122. (grifo do autor).
Há, ainda, o entendimento de que a dignidade da pessoa humana não seja considerada
somente como algo inerente à ela, em face da existência de um sentido cultural, por ser
decorrência do trabalho de diversas gerações, sendo assim, pertencente à humanidade como
um todo. Em face desse entendimento, a dignidade da pessoa humana passa a ser
simultaneamente o limite e a obrigação dos Estados.
Em relação à dignidade, pode-se afirmar que é algo que pertence a cada um, não podendo,
portanto ser transferido, ser doado etc., pois se assim o fosse deixaria de existir, não havendo,
desse modo, qualquer limite a ser respeitado. Além disso, como obrigação tem-se que ao
Estado somente é permitido seguir, desde que não desrespeite o princípio da dignidade da
pessoa humana.
Outro ponto de destaque, é que a dignidade da pessoa humana, deve ser averiguada, de forma
concreta, dentro do contexto social em que o indivíduo está inserido, posto que este não vive
isolado, como traz Rizzato Nunes:
[...] acontece que nenhum indivíduo é isolado. Ele nasce, cresce e vive no meio social. E aí,
nesse contexto, sua dignidade ganha ou como veremos, tem o direito de ganhar um
acréscimo de dignidade. Ele nasce com integridade física e psíquica, mas chega um momento
de seu desenvolvimento que seu pensamento tem de ser respeitado, suas ações e seu
comportamento isto é, sua liberdade -, sua imagem, sua intimidade, sua consciência
religiosa, científica, espiritual etc., tudo compõe sua dignidade123.
Vicente Greco Filho eleva a dignidade; o valor da pessoa humana, como fundamento do
próprio Direito, apontando a importância do conteúdo valorativo
as consagrações constitucionais dos direitos individuais supõem a existência de alguns direitos
básicos da pessoa humana, os quais pairam, inclusive acima do Estado, porquanto este tem

122
SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. Porto Alegre: Advogado, 1998, p.104.
123
NUNES, Rizzato. O Princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 49.

231
como um de seus fins principais a garant
talvez cronologicamente coincida com o homem e a sociedade, mas não pode ser entendido
senão em função da realização de valores, no centro dos quais se encontra o valor da pessoa
124
, até porque a ordem jurídica não teria sentido algum se não tivesse como
finalidade a realização dos referidos valores.
Assim, a dignidade da pessoa humana é efetivamente, uma qualidade inerente ao próprio ser
humano, sendo, portanto, irrenunciável e indisponível. A Constituição Federal, ao trazer este
princípio como fundamento da República o eleva à categoria de meta-princípio; de vértice
constitucional, que não pode, portanto ser infringido. A universalização da dignidade leva a
todos os indivíduos (sem distinção), a garantia de que deverão receber de todos (inclusive do
próprio Estado), o tratamento condizente com a sua qualidade de ser humano, já que todos
são, segundo o Texto Constitucional, iguais perante a lei.
A dignidade deve ser considerada em sua universalidade, pois todos são iguais em direito
(como se verifica da Declaração Universal dos Direitos Humanos) não devendo deixar de levar

ação humana pelo fato de sermos os mesmo, isto é, humanos, sem que ninguém seja
125

Para, que se possa compreender, efetivamente e, facilmente, o que seriam os direitos humanos,
é suficiente mencionar que tais direitos correspondem a necessidades essenciais da pessoa
humana. Trata-se daquelas necessidades que são iguais para todas as pessoas e que, portanto,
devem ser atendidas para que a pessoa possa viver com dignidade. Dessa maneira, tem-se
como exemplo principal, que a vida é um direito humano fundamental, porque sem ela a
pessoa não existe. E, por tal fato, a preservação da vida é uma necessidade de todos as seres
humanos. É claro, todavia, que a vida não é o único direito fundamental, podendo citar, ainda,
outras necessidades essenciais (para que a pessoa viva com dignidade), como a alimentação, a
saúde, a moradia, a educação, por exemplo. 126
Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery, ao comentarem o referido Art. 1º, no
tocante à dignidade da pessoa humana, apontam que este princípio é fundamento axiológico
do próprio Direito, sendo primordial a proteção do ser humano, o qual é sujeito e, nunca
objeto de Direito. Trazem, como embasamento para a análise, trechos de outros autores, como
do Papa João Paulo II; tendo apontado que:
Os valores fundamentais encartados na estrutura político-jurídica da Carta Magna, refletem-se
em princípios gerais de direito quando informam seus elementos e privilegiam a realidade

124
GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro. 17. ed., atual., São Paulo: Saraiva, 2003, p. 16.
125
ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 16.
126
O que são Direitos humanos? Direitos Humanos: Noção e significado. disponível em:
<http://www.ceut.com.br/mandacaru/O%20QUE%20SAO%20DIREITOS%20HUMANOS%20%20Dalmo%20Dallari
.doc> Acesso em: 02.08.2006.

232
fundamental do fenômeno jurídico que é a consideração primordial e fundamental de que o
homem é sujeito de direito e, nunca, objeto de direito. Esse reconhecimento principiológico se
alicerça em valor fundamental para o exercício de qualquer elaboração jurídica; está no cerne
daquilo que a Ciência do Direito experimentou de mais especial; está naquilo que o
conhecimento jus-filosófico buscou com mais entusiasmo e vitalidade: é a mais importante
consideração jus-filosófica do conhecimento científico do Direito. É o fundamento axiológico
do Direito; é a razão de ser da proteção fundamental da pessoa e, por conseguinte, da
humanidade do ser e da responsabilidade que cada homem tem pelo outro (João Paulo II,
Evangelium Vitae, Edições Paulinas, 1995, p. 22). Por isso se diz que a justiça como valor é o
núcleo central da axiologia jurídica (Antonio Hernandes Gil, Conceptos Jurídicos
Fundamentales, Obras Completas, v. I, Madrid, Escalpa Calpe, 1987, p. 44) e a marca desse
valor fundamental de justiça o homem, princípio de razão de todo o Direito.127 (grifo do autor)
Ressaltam, ainda, referidos autores que o princípio da dignidade da pessoa humana é o
princípio fundamental do Direito, sendo o mais importante; o primeiro. Esse princípio é a
razão de ser do próprio Direito, sendo que se bastaria para organizar de forma estruturada
todo o ordenamento jurídico. Além disso, ao se comprometer com a dignidade da pessoa
humana, o Estado brasileiro se compromete também, com a vida e com a liberdade de todo
ser.
Isso se justifica porque os direitos humanos se desdobram na sua conceituação e magnitude,
como se verifica com os direitos individuais, sociais, coletivos e difusos; e, primordialmente, se

de governo, ideologias e teorias econômicas. Situam- 128

Assim, é papel do Estado, como um todo, orientar-se de modo a preservar a dignidade do


indivíduo, assim como, a dar condições para que a dignidade possa ser efetivada. A dignidade
encontra-se emoldurada pelo senso de justiça, devendo, portanto, ser sempre adotada pelo
operador do direito.
José Afonso da Silva pondera que a dignidade da pessoa humana encontra-se arraigada no seio
da sociedade, sendo que, portanto, não se trata de uma criação constitucional. A Constituição
busca os valores da sociedade e os eleva ao patamar constitucional, tornando-os aqui neste
caso o princípio da dignidade da pessoa humana valores que servirão de vetor para a mesma
sociedade e para o Estado, como um todo, ou seja, valores absolutos que não permitem a
flexibilização dos mesmos.

127
NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria Andrade. Constituição Federal comentada e legislação constitucional:
De acordo com as recentes Emendas Constitucionais. atual. até 10.04.2006, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2006,
p. 118.
GARCIA, Maria. Limites da ciência: a dignidade da pessoa humana
128
a ética da responsabilidade. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2004, p. 140.

233
[...] a dignidade da pessoa humana, não é uma criação constitucional, pois ela é um desses
conceitos a priori, um dado preexistente a toda experiência especulativa, tal como a própria
pessoa humana. A Constituição, reconhecendo a sua existência e a sua eminência,
transformou-a num valor supremo da ordem jurídica, quando a declara como um dos
fundamentos da República Federativa do Brasil constituída num Estado Democrático de
Direito.
[...] Em conclusão, a dignidade pessoa humana constitui um valor que atrai a realidade dos
direitos fundamentais do homem, em todas as suas dimensões, e, como, a democracia é o
único regime político capaz de propiciar a efetividade desses direitos, o que signica dignificar o
homem, é ela que se revela como o seu valor supremo, o valor que a dimensiona e a humaniza.
129
(grifo do autor).

A constitucionalização da dignidade da pessoa humana e a elevação deste princípio a


fundamento da própria República, impedem a degradação do homem, na hipótese de sua
conversão em mero objeto do Estado, sendo que referido princípio trouxe conseqüências
importantes: o reconhecimento da igualdade entre os homens; a consagração da autonomia
dos indivíduos; a observância e proteção de seus direitos inalienáveis e a necessidade de ação
para garantia de condições mínimas de vida, a fim de que essa vida possa ser vivida de forma
-se abusos e lesões aos direitos, que, caso venham a ocorrer, deverão ser
130

Depreende-se, portanto, que somente haverá a observância da dignidade da pessoa humana, se


forem asseguradas condições mínimas para uma existência digna, de forma que a intimidade e
a identidade do indivíduo não sejam objeto de ingerências indevidas, bem como haja a
garantia da igualdade, indistintamente para todos. Isso porque a igualdade e a dignidade
devem andar lado a lado, embasando os direitos humanos.
2. MEIO AMBIENTE COMO DIREITO FUNDAMENTAL
O reconhecimento do direito a um meio ambiente saudável é uma necessidade do próprio
direito à sobrevivência humana, uma vez que, na inexistência de condições ambientais
satisfatórias, e sem os recursos naturais produzidos pelo meio, torna-se impossível a
manutenção da vida humana na Terra.
Além disso, segundo os critérios substanciais de vida e liberdade, para o gozo dos direitos
humanos é necessário não apenas estar vivo, mas dispor de condições dignas de vida num

SILVA, José Afonso da. A dignidade da pessoa humana como valor supremo da Democracia, in, Revista de Direito
129

Administrativo, São Paulo: Revista dos Tribunais, n.212, abr/jun. 1998, p. 91.
130
COELHO, Lilian Dias. O processo como instrumento de efetividade do princípio da dignidade humana: acesso à
justiça e duração razoável do processo. in DELGADO, Ana Paula; CUNHA, Maria Lourdes da. Estudos de Direitos
humanos: Ensaios interdiciplinares. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, p. 65.

234
ambiente saudável. A implementação do meio ambiente equilibrado faz-se, portanto,
imprescindível para o gozo dos demais direitos humanos.
A Declaração de Estocolmo, em 1972, que foi o marco inicial do Direito Ambiental, reconheceu
o meio ambiente ecologicamente equilibrado como um direito fundamental entre os direitos
sociais do homem, com sua característica de direitos a serem realizados e não perturbados.
José Afonso da Silva descreve que:
O que é importante escrevemos de outra feita é que se tenha a consciência de que o direito
à vida, como matriz de todos os demais direitos fundamentais do Homem, é que há de orientar
todas as formas de atuação no campo da tutela do meio ambiente. [...] a tutela da qualidade do
meio ambiente é instrumental no sentido de que, através dela, o que se protege é um valor
maior: qualidade de vida. 131
Já a Lei n.º 6.938/1981, que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente, foi a primeira a
tratar de tal matéria no ordenamento pátrio. Todavia, a referida lei ficou esquecida até o
advento da Constituição Federal de 1988, que trouxe em seu âmago dispositivos ambientais.
A Constituição Federal de 1988 estabeleceu em seu Título VIII, Capítulo VI, Art. 225, que

e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de


defendê-lo e preservá-
criando a existência de um meio ambiente ecologicamente equilibrado, estabeleceu-se
parâmetros constitucionais, ou seja, critérios fundamentais destinados à sua aplicação como
direito fundamental, e incumbindo ao Poder Público dar-lhe efetividade através da vedação às
práticas que coloquem em risco a ecologia.
O art. 225 da Constituição Federal traz expressamente dentro do capítulo destinado aos
direitos sociais, a importância do meio ambiente ecologicamente equilibrado para as presentes
e futuras gerações. Mesmo que o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado não
esteja previsto no rol dos direitos fundamentais, ele não perde sua característica fundamental,
pois está relacionado com a vida humana. Além disso, ganhou maior proporção quando foi
reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal como direito de terceira geração, que abrange a
todos sem distinção.
O direito fundamental ao meio ambiente saudável mostra com clareza a superação dos ideais
individualistas, característica da sociedade contemporânea, a qual passou a ser expressamente
consagrada na Constituição Federal de inúmeros países, dando margem ao desenvolvimento
do que se denomina Estados Ambientais, representados pelo modelo estatal pós-social, que
toma realmente por fundamento a busca do desenvolvimento sustentável.
A relação homem com seu meio ambiente foi sempre uma termodependência, pois primeiro
era a natureza quem atormentava os primeiros seres humanos, agora são os cidadãos que

SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 13. ed. São Paulo: Malheiros, 1997, p. 67.
131

235
destroem o meio ambiente. Devido ao fato de os limites ambientais estarem sendo
ultrapassados, o meio ambiente começou a dar sua resposta a esta agressão, como por
exemplo, as tempestades ácidas, terremotos e furacões como o Katrina e o Tsunami. Desta
forma, muitas famílias perderam seus lares, seus pertences e até a vida de entes queridos com
estas tragédias ambientais.
Insta salientar que é de fundamental importância a Amazônia para o planeta. Mas não
podemos esquecer que a educação ambiental deve ser priorizada principalmente no âmbito
municipal, em virtude de ser o local onde o homem nasce e adoece, ou seja, é o lugar
primordial para que o ser humano busque uma melhor qualidade de vida, compatibilizando-se
com o seu necessário desenvolvimento econômico.
Assim, o Estado deve, juntamente com a sociedade, implementar políticas públicas que
possam desenvolver o meio ambiente juntamente com a economia, de modo que ocorra a
melhoria na qualidade de vida dos cidadãos, respeitando assim o fundamento contido no art.
1º, III, da Constituição Federal.
3. DA INTERVENÇÃO DO ESTADO NA ORDEM ECONOMICA AMBIENTAL
Inserido no Art. 170, inciso VI, da Constituição Federal, o princípio da defesa do meio
ambiente está protegido também no Art. 225 da Constituição Federal e na Lei 6.938/81, que

tem por objetivo a preservação, a melhoria e recuperação da qualidade ambiental propícia à


vida, visando assegurar, no País, condições de desenvolvimento sócio econômico, aos
132
A defesa do meio
ambiente é um dos meios mais importantes para resguardar a qualidade de vida do ser
humano, garantindo o princípio da dignidade da pessoa humana. Não podemos esquecer que
para o crescimento da qualidade de vida é necessária a compatibilização do desenvolvimento
econômico e o meio ambiente; desta conjunção nasceu o desenvolvimento sustentável.
O legislador ao instituir o Art. 170, inciso VI, da Constituição Federal, buscou proteger o
desenvolvimento econômico saudável, isto é, um desenvolvimento que não pode, a qualquer
custo, degradar o meio ambiente para alcançar o lucro, mas sim encontrar um ponto de
equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e o meio ambiente.
O princípio da defesa do meio ambiente não pode ser caracterizado como absoluto, em
detrimento a outros princípios fundamentais como o da livre iniciativa e o desenvolvimento
econômico. Portanto, deverá ocorrer uma harmonização de princípios, conforme foi
explanado no item do princípio constitucional da ordem econômica, para buscar um
desenvolvimento econômico equilibrado com o meio ambiente, gerando qualidade de vida
para futuras gerações.

132
Lei 6.938/81 que dispõe sobre Política Nacional do Meio Ambiente.

236
Assim, a defesa do meio ambiente proporciona uma mudança de paradigma na atividade
econômica. Caso contrário, não existirão mais recursos naturais para o desenvolvimento
econômico acontecer.
A defesa do meio ambiente impõe uma modificação do modo de desenvolvimento da atividade
econômica, como esta tem ocorrido na ideologia dominante. A economia de mercado agora a
lei da oferta e da procura e cuja lucratividade está associada a mais consumo e a mais
produção, oculta a inverídica pressuposição de uma inesgotabilidade dos recursos naturais
[...]. Os recursos da natureza e a própria natureza não devem ser visto apenas como fonte de
lucro, mas sim como fonte de onde toda a vida brota.133
Desta forma, os agentes econômicos deveriam investir cada vez mais em estudos de

de suas empresas, para conciliarem as limitações dos recursos naturais e


134

o crescimento econômico.
Ademais, o Estado pode intervir na ordem econômica quando esta for utilizada de forma
contrária aos interesses ambientais, através de repressão ou incentivos no desenvolvimento
econômico - ambiental.
Desta forma, foi necessária a intervenção do Estado para regular e normatizar os efeitos de
uma economia desenfreada, utilizando-se para tanto, da intervenção direta e indireta do
Estado, através da economia, para induzir ações voltadas às políticas públicas de proteção ao
meio ambiente e aos direitos sociais.

CONCLUSÃO
A toda a ação decorrente do Estado deve ser avaliada, de acordo com o princípio da dignidade
humana, sob pena de ser declarada inconstitucional, sendo que cada pessoa deve ser
considerada como um fim em si mesma para que possam ambos, indivíduo e Estado
conviverem pacificamente.
O princípio da dignidade da pessoa humana é inerente ao ser humano e meio ambiente
saudável é uma necessidade do próprio direito à sobrevivência humana, uma vez que, na
inexistência de condições ambientais satisfatórias, e sem os recursos naturais produzidos pelo
meio, torna-se impossível a manutenção da vida humana na terra.
O desenvolvimento sustentável se faz necessário, uma vez que o homem inserido no meio
ambiente deve preservá-lo para sobreviver no tempo. Assim, obedecendo preceitos
constitucionais, o meio ambiente deve ser preservado para as presentes e futuras gerações

PETTER, LAFAYETE JOSUÉ. Princípios Constitucionais da Ordem Econômica. O significado e o alcance do art.
133

170 da Constituição Federal, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2005, p.244.
134
DERANI, Cristiane. Direito Ambiental Econômico. 2ed. São Paulo: Max Limonad, 2001, p. 237.

237
Assim, o meio ambiente constitui um direito fundamental, que deve ser prioridade de todos os
Estado na busca do desenvolvimento sustentável. Para a busca desse direito fundamental,
importante é a análise da aplicabilidade dos princípios constitucionais ambientais,
principalmente a base e o mandado de otimização que é o princípio da dignidade da pessoa
humana.
Desta forma, a intervenção do estado, por meio de políticas pública deve estar baseada nos
princípios da dignidade da pessoa humana e da defesa do meio, bem como nos princípios
fundamentais como o da livre iniciativa e o desenvolvimento econômico. Portanto, deverá
ocorrer uma harmonização de princípios, para buscar um desenvolvimento econômico
equilibrado com o meio ambiente, gerando qualidade de vida para presentes e futuras
gerações.
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240
EDUCAÇÃO E DIREITOS HUMANOS: A PERCEPÇÃO DE PROFESSORES
UNIVERSITÁRIOS DA ÁREA DE EDUCAÇÃO
135

136

137

Resumo
Este artigo busca compreender a percepção de professores universitários de cursos de
licenciatura sobre Direitos Humanos e Justiça Escolar no âmbito educacional, identificando se
há consonância com a Educação em Direitos Humanos. Trata-se de um recorte da pesquisa

pesquisa configura-se como survey, descritiva e exploratória, corte transversal, a amostra e os


dados foram coletados em um momento específico almejando a compreensão através da
análise quantiqualitativa. O instrumento aplicado foi um questionário composto por questões
abertas que visavam conhecer a percepção dos participantes sobre Direitos Humanos, Justiça
e Convivência Escolar. Participaram da pesquisa 27 professores equivalentes a uma
porcentagem de 64,3% do total da amostra de 42 professores que lecionam nos Cursos de
Licenciaturas do UNISAL/Lorena. A análise dos resultados evidencia que os professores
afirmam trabalhar conteúdos pertinentes aos Direitos Humanos utilizando materiais didáticos
e trabalhos em grupos. Poucos professores indicam a prática de estágio como um campo de
reflexão onde os alunos são estimulados a pensar sobre seu papel social, a categorização das
respostas dadas pelos professores e a análise também demonstrou que parte dos professores

manifestaram dificuldade para elucidar de que maneira acontece a prática em sala de aula.

Palavras-chave: Direitos Humanos; Educação e Direitos Humanos; Direitos Humanos e


Percepção do Professor; Observatório de Violências nas Escolas UNISAL, Lorena.

135
Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano: Instituto de Psicologia da USP IPUSP.
Professora Titular do UNISAL Lorena. Coordenadora do Observatório de Violências nas Escolas. Líder do grupo
de estudos do Observatório de Violências nas Escolas. Leitora da Cátedra UNESCO de Juventude, Educação e
Sociedade. E-mail: soniakoehler@hotmail.com.
Doutoranda em Psicologia: Programa Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da Universidade de São
136

Paulo USP; Psicóloga Clínica. Professora e Supervisora do curso de Psicologia e do curso de Pedagogia do Centro
Universitário Salesiano de São Paulo, UNISAL/Lorena. Vice-líder do grupo de estudos do Observatório de
Violências nas Escolas. E-mail: jessica.sousasv@gmail.com.
137
Graduanda em Psicologia no Centro Universitário Salesiano de São Paulo UNISAL/Lorena. Bolsista do
Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica PIBIC -CNPq. Membro do grupo de estudos do
Observatório de Violências nas Escolas UNISAL/Lorena. E-mail: alessandra.carvalho19@gmail.com.

241
Introdução
Este estudo é parte de uma pesquisa vinculada ao Observatório de Violências nas Escolas do
ão em Direitos Humanos: investigação da percepção de

UNISAL /Lorena/SP. Essa pesquisa é um desdobramento de um estudo anterior intitulado

e último anos do Centro Universitário Salesiano da Unidade de Lorena, dos seguintes cursos:
Administração, Ciências da Computação, Direito, Pedagogia, Psicologia (Licenciatura),
Matemática, Filosofia, História e Psicologia (Formação de psicólogo). Foi publicada em 2016

Ivar César Oliveira de Vasconcelos.


Por serem inerentes a todo ser humano, os Direitos Humanos devem ser promovidos em todos
os âmbitos da educação, de forma transversal, ou seja, não podem ficar a cargo de uma
disciplina específica, mas devem ser intrínsecos a todas elas, por meio de temas e atitudes dos
professores que corroborem para a construção de uma sociedade que vise o empoderamento
da cidadania e da justiça. Por exemplo, Rocha (in Castro 1999) expõe que o direito à vida não é

Dessa forma, uma Educação em Direitos Humanos não busca somente saber ou informar
sobre os direitos, mas compreender a real dimensão desse direito, especialmente
correlacionado aos direitos e acesso à educação de qualidade, liberdade e dignidade dentro da
conjuntura escolar, para usufruir a plenitude desse poderio com autoridade e sabedoria
visando a construção da cultura de paz.
Araújo (in Castro 1999) expõe de forma resumida os princípios centrais que regem a moderna
Lei de Direitos Humanos:
Todo ser humano tem certos direitos que lhe são inerentes. Tais direitos podem ser
enumerados ou deduzidos; não são conquistados nem adquiridos, mas são inerentes a todas as
pessoas, em virtude apenas de sua humanidade. Os direitos básicos de todo cidadão são
irrevogáveis ou alienáveis, isto é, tais direitos nunca podem ser anulados nem negados por
partes externas nem pelos próprios indivíduos envolvidos. Os conflitos entre os direitos
humanos devem ser resolvidos de acordo com leis e procedimentos justos e imparciais.
(Araújo in Castro 1999, p. 79).

242
A escola, nesse panorama, tem a missão de favorecer uma educação que auxilia na efetivação
desses direitos básicos, assim como conceber oportunidades para que seus integrantes tenham
conhecimento desses direitos e como acessa-los.
Diante desse quadro, torna-se relevante conhecer a percepção dos professores universitários

reconhecem, nas suas práticas, a abordagem de questões relativas aos Direitos Humanos na
sua área de docência.
EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS, A EDUCAÇÃO EMANCIPADORA.
A educação que proporcione uma conscientização para a prevenção de violações dos Direitos
Humanos, os direitos inerentes ao ser humano, e que colabore com a reflexão de que cada
pessoa é responsável para a construção de uma sociedade mais justa, mais democrática, pauta-
se na ideia de que cada indivíduo tem o dever de conhecer seus direitos e lutar por eles e, da
mesma forma, reconhecer e defender o direito do outro. Essa descrição ilustra uma das
perspectivas da Educação em Direitos Humanos.
O ambiente escolar é um espaço propício de socialização, interação e prática da cidadania.
Conforme orienta Delors (1998), a educação para a cidadania não se trata de ensinar preceitos
ou códigos rígidos, como uma espécie de doutrinação, trata-se de fazer da escola um modelo de
prática democrática que leve as crianças e demais atores envolvidos no contexto educacional a
compreender, a partir de questões atuais e cotidianas, quais são os seus direitos e deveres.
Da mesma forma, Freire (2002) aponta que a prática educativa não deve se limitar à

Portanto, tanto o professor quanto o aluno desempenham um papel ativo e problematizador


no cotidiano escolar fundamentado pela Educação em Direitos Humanos.
Quando um professor se relaciona com seus alunos com uma postura de igualdade e respeito,
considerando a cultura e as demais variáveis do contexto em que estes estão inseridos,
demonstra, a partir de seu exemplo e suas atitudes, o respeito à dignidade e à autonomia de
seus alunos.
É na compreensão do outro que se conhece melhor a si mesmo, é no contexto social que
desenvolvemos a socialização, logo, a educação tem responsabilidade na construção de um
mundo mais solidário e responsável, como ressalta o Plano Nacional da Educação em Direitos
Humanos (Brasil, 2007), é fundamental:
Destacar o papel estratégico da educação em direitos humanos para o fortalecimento do
Estado Democrático de Direito; estimular a reflexão, o estudo e a pesquisa voltados para a
educação em direitos humanos; incentivar a criação e o fortalecimento de instituições e
organizações nacionais, estaduais e municipais na perspectiva da educação em direitos
humanos. (Brasil, 2007, p. 26-27).

243
A problemática atual é conhecer o que são Direitos Humanos e garantir a sua efetivação, isto é,
trata-se de saber o que são e como efetuá-los de forma eficaz, buscando uma coerência,
portanto, entre o que se pensa, fala e faz. Conforme ressalta Paulo Freire (2002):
O papel do educador é não apenas ensinar os conteúdos, mas também ensinar a pensar certo,
ou seja, ser um professor crítico e não apenas um profissional mecanicamente memorizador.
... O intelectual memorizador, que lê horas a fio, domesticando-se ao texto, temeroso de
arriscar-se, fala de suas leituras quase como se estivesse recitando-as de memória não
percebe, quando realmente existe, nenhuma relação entre o que leu e o que vem ocorrendo no
seu país, na sua cidade, no seu bairro. Repete o lido com precisão mas raramente ensaia algo
pessoal. Fala bonito de dialética mas pensa mecanicistamente. Pensa errado. É como se os
livros todos a cuja leitura dedica tempo farto nada devessem ter com a realidade de seu
mundo. A realidade com quem eles têm que ver é a realidade idealizada de uma escola que vai
virando cada vez mais um dado aí, desconectado do concreto. (Freire, 2002, p. 29-30).

Quando a educação se dedica a propiciar um ambiente consciente e ativo, auxiliando no

refletir e questionar o que há no seu entorno.


Assim, a educação que instiga e problematiza as questões coletivas e democráticas, favorece o
desenvolvimento autônomo dos indivíduos, que, dessa maneira, aprendem a falar por si.
Delors (1998) descreve essa modalidade de educação da seguinte forma:
A educação não pode contentar-se em reunir as pessoas, fazendo-as aderir a valores comuns
forjados no passado. Deve, também, responder à questão: viver juntos, com que finalidades,
para fazer o quê? e dar a cada um, ao longo de toda a vida, a capacidade de participar,
ativamente, num projeto de sociedade. O sistema educativo tem, pois, por missão explícita ou
implícita, preparar cada um para este papel social. Nas sociedades complexas atuais, a
participação em projetos comuns ultrapassa em muito a ordem do político em sentido estrito.
É de fato no dia-a-dia, na sua atividade profissional, cultural, associativa, de consumidor, que
cada membro da coletividade deve assumir as suas responsabilidades em relação aos outros.
Há, pois, que preparar cada pessoa para esta participação, mostrando-lhe os seus direitos e
deveres, mas também desenvolvendo as suas competências sociais e estimulando o trabalho
em equipe na escola. (Delors 1998, p.60).
De fato, a educação tem o compromisso de educar além do conteúdo formal, também para a
prática da cidadania e democracia, segundo o Plano Nacional da Educação em Direitos
Humanos (Brasil, 2007):
Não é apenas na escola que se produz e reproduz o conhecimento, mas é nela que esse saber
aparece sistematizado e codificado. Ela é um espaço social privilegiado onde se definem a ação
institucional pedagógica e a prática e vivência dos direitos humanos. Nas sociedades
244
contemporâneas, a escola é local de estruturação de concepções de mundo e de consciência
social, de circulação e de consolidação de valores, de promoção da diversidade cultural, da
formação para a cidadania, de constituição de sujeitos sociais e de desenvolvimento de
práticas pedagógicas. (Brasil, 2007, p. 31).
Desta forma, é necessário considerar o desenvolvimento centrado no ser humano, na
interação com o meio, abrangendo o aluno, todo contexto escolar e a sociedade com suas
singularidades de valores culturais, auxiliando a promoção de uma cultura ética e de paz .
Assim, a partir da concepção ampliada da educação, que se fundamenta na formação integral
do educando, a partir do respeito aos Direitos Humanos, acreditamos que se faz urgente
repensar os sistemas e modelos educacionais desde a formação do professor.
Faz-se, portanto, necessário, compromisso com uma educação emancipadora, que agregue a
formação a uma prática pedagógica comprometida com o enfrentamento de qualquer tipo de
violação de Direitos Humanos, que penetre todas as práticas sociais e seja eficaz em propagar e
vivenciar os direitos inerentes a todas as pessoas, os Direitos Humanos.
JUSTIÇA E O COMPROMISSO COM A EDUCAÇÃO SOCIAL
A Educação em Direitos Humanos tem o intuito de contribuir para a construção de uma
sociedade mais democrata e justa, dessa forma promover a construção de culturas de paz. De
forma intrínseca aos direitos está a palavra justiça e o próprio significado da palavra a priori é
um desafio.
O Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Ferreira, 2009, p. 1165) define a palavra justiça da

faculda -se que o indivíduo


entende e percebe como justo e injusto conforme suas próprias vivências e conforme as
normas implícitas da cultura que está inserido, sem que exista algo explícito que determine

lei de caráter legislativo e regras jurídicas.


A vida em sociedade e em comunidade implica na necessidade de se organizar as relações, e a
justiça, enquanto valor e enquanto direito, auxilia na função de preservar a harmonia social
segundo as regras da própria sociedade que a determinou e construiu. Barbosa (1984) afirma

alcançamos certo discernimento das coisas, e possuindo um mínimo de capacidade intelectual,


desenvolvemos um senso de justiça e que de acordo com a nossa razão este senso nos induz a
julgar as coisas como justas e injustas.

245
E como aflorar o senso de justiça e saber julgar as coisas como justas e injustas? Suponha-se
que existe uma escola, que está inserida e atenda alunos de uma comunidade em condições de
vulnerabilidade, entre elas, falta saneamento básico, água potável, não tem asfalto e a coleta de
lixo está irregular, concomitante a isso, é ano de eleição. Durante uma aula para uma turma do
último ano do ensino médio, um professor ao recolher os trabalhos que havia solicitado,
percebe que um aluno não entregou e justificou-se afirmando que não fizera o trabalho porque
não tinha água em sua casa. Frente a essa situação, o professor considera útil elaborar uma
aula em que os alunos pudessem expor suas dificuldades enquanto comunidade e, em equipes,
pensar estratégias de solução alicerçados nos seus direitos e deveres e enquanto indivíduos de
uma sociedade democrática.
A escola é uma instituição que pode reproduzir condições de justiça ou injustiça, pode
colaborar com a estruturação de situações que favoreçam uma relação social investida de
poder que possibilite aos seus integrantes a percepção de que a justiça não está associada
apenas ao poder legislativo, mas é uma ação intrínseca às relações em comunidade.
O relacionamento social e a justiça estão interligados quando a mesma é comparada à
igualdade de tratamento e respeito mútuo entre as pessoas.
A justiça não se reduz à justiça legal ou penal, que configura o caráter legislativo, não obstante
agrega valores que transcendem a regras, instituições e órgãos; é um conceito que envolve o
convívio interpessoal, a relação social com respeito às regras sociais e morais, facilitando o
contato harmonioso embasado no respeito mútuo de forma igualitária. Em concordância com

como as pessoas vivem e não meramente à natureza das instituições que a (Werle,
2011, p.154).
Segundo Barbosa (1984), a justiça possui dois aspectos principais: valores (éticos, culturais e
morais) e dos direitos, que por sua vez compreende os sistemas sociais e as instituições;
direitos individuais; ordem jurídica da sociedade (as leis internas); ordem internacional (leis
internacionais e as relações entre diferentes nações). A justiça social envolve características
formais e informais, que destacam o papel primeiro de justiça, como finalidade de ordem
social. Segundo Barbosa (1984):
Falar de justiça social significa falar de vários aspectos da justiça, formais e não formais. ...
Significa falar de que maneira o sistema político e as circunstâncias socioeconômicas
determinam as expectativas de vida de cada um, qual o espaço que as pessoas tem para se
organizar e se articular na sociedade. ... a ideia de justiça social tangencia a ideia de igualdade,
mas não se reduz a ela, nem com ela pode ser confundida. Ademais, conforme mencionamos
anteriormente, a ideia de igualdade, por si só, não expressa a ideia de justiça, apesar de alguns
estudiosos do assunto sistematicamente reduzi-la á ideia de justiça igualitária. (Barbosa, 1984,
p.26-29).

246
A justiça social compreende todos os indivíduos de forma igual entre si em relação a direitos e
deveres em distintas áreas do aspecto da vida social, que estão relacionados à direitos
considerados básicos como saúde, educação, justiça, trabalho e manifestação cultural. A
justiça está intrinsicamente relacionada aos valores da sociedade, que permeia todas as formas
de relações entre seus semelhantes com o intuito de minimizar as diferenças sociais e
favorecer o desenvolvimento digno e justo que cada pessoa tem direito simplesmente por
existir.
Rodrigues (2016) pontua que:
A justiça social parte do preceito de que, para que se alcance um ponto em que a convivência
social torne-
começaram a vida social em desvantagem. É desse princípio que partem ações como a
instituição de um salário-mínimo, o seguro-desemprego, cotas raciais e as demais ações de
seguridade social. (Rodrigues, 2016).
A desigualdade social, alicerçada em situações como falta de saneamento básico, dificuldade de
acesso à escola e à saúde pública, falta de moradias dignas e segurança pública eficiente, está
entre os campos de atuação da justiça social, que visa favorecer medidas protetivas e
preventivas em diferentes áreas com o intuito de possibilitar a construção de uma sociedade
com características que vise à equidade e amplo acesso à justiça, seja ela social, jurídica, cívica
ou moral.
É importante destacar que a justiça não pode ser encarada como fenômeno isolado e
fragmentado, mas como um exercício que se dá através da democracia indissociável com a
liberdade. De acordo com Werle (2011), a justiça não é um fenômeno meramente teórico, mas
uma atitude que desperta para uma postura reflexiva e ativa, no exercício público, na prática
política. É uma tarefa que tem de ser levada adiante pelas próprias pessoas na vida social e no
exercício da razão pública, num debate crítico, reflexivo, aberto e ininterrupto sobre como
lidar com as exigências conflitantes entre o possível e o desejável.
Logo, nota-se que a escola, enquanto um meio de socialização, tem uma parcela significativa
de responsabilidade em relação a conhecer e educar com fundamentos alicerçados nos direitos
fundamentais de todo ser humano, torna-se um instrumento para a prática do exercício da
cidadania que corrobore em construir uma sociedade concentrada na formação plena do
indivíduo e que propague valores nos âmbitos técnicos, sociais e morais.
Assim, a escola de qualidade social será compreendida e efetivada coletivamente como espaço
de garantia de direitos via diálogo com a diversidade cultural, incluindo a igualdade e

quando a diferença os inferioriza, e o direito a serem diferentes quando a igualdade os

O exercício de uma cidadania empoderada corrobora com a construção de uma sociedade que

247
elaboradas em consonância com as necessidades da população, que sejam cumpridas por todos
(Barbosa, 1984, p.100).
Empoderar o indivíduo compreende um movimento que propicie a autonomia em relação aos
seus direitos e deveres sociais, que o mobilize de forma ativa no exercício de sua cidadania,
concedendo poder para o fortalecimento da democracia.

ABORDAGEM METODOLÓGICA
O presente estudo baseia-se no método de pesquisa survey com corte transversal, descritiva,
pois a amostra foi escolhida e os dados foram coletados em um momento específico, via

informações sobre características, ações ou opiniões de determinado grupo de pessoas, ... por
meio de um instrumento de pesquisa, normalmente um questio
Moscarola, 2000, p.105), aplicado ao público-alvo escolhido.
Ainda conforme Freitas at al. (2000), a amostragem é caracterizada como não probabilística,
obtida a partir do critério por conveniência, em que os participantes são escolhidos por
estarem disponíveis.
Participaram da pesquisa 27 professores do ensino superior dos Cursos de Licenciaturas de
uma universidade do interior do Estado de São Paulo, equivalente a uma porcentagem de
64,3% do total da amostra de 42 professores na instituição (tabela 1), sendo que 3 professores
optaram por não responder ao questionário: um alegou não se sentir preparado e dois
consideraram como um teste a aplicação do instrumento e, sendo assim, optaram por não se
submeterem à pesquisa.
Tabela 1- Amostra de Professores do Ensino Superior de Licenciaturas.
Primeiro semestre de 2016
Cursos Professores
Femininos Masculinos

Psicologia
3*** 1*
Licenciatura

Pedagogia 13***** 7****


Matemática 5** 4***
História 5**** 12*****
Filosofia 4** 9****

248
Nota. Fonte: Informações cedidas pela instituição, nas coordenações de Psicologia, Pedagogia,
Matemática, História e Filosofia.
*Professor que também leciona em outros cursos de graduação.
**Do total, 1 professor também leciona em outros cursos de graduação.
*** Do total, 2 professores também lecionam em outros cursos de graduação.
**** Do total, 3 professores também lecionam em outros cursos de graduação.
***** Do total, 6 professores também lecionam em outros cursos de graduação.
Observação: Os asteriscos indicam quando um mesmo professor leciona em outros cursos de
graduação, licenciatura ou bacharelado.
O INSTRUMENTO DE PESQUISA E O MÉTODO DE ANÁLISE
O instrumento de coleta de dados foi estruturado em duas partes. A primeira é composta por
questões que visam à caracterização dos participantes: formação, idade, sexo, cor, religião e
um espaço próprio para a declaração das disciplinas que o professor ministra. Todas as
questões são abertas, os participantes preencheram conforme sua percepção.
A segunda parte do instrumento é constituída por um questionário com nove questões, que
visam conhecer a percepção dos participantes sobre Direitos Humanos, Justiça e Convivência
Escolar. Para tanto, é dividido em quatro grupos de perguntas. O primeiro grupo, I-

O segundo grupo é nomeado II-


vo
O terceiro grupo, chamado III-

escola?
Por fim, o quarto e último grupo, chamado IV- Projeto Pedagógico

s questões relativas à

instrução de, em caso afirmativo, identificar a forma de abordagem do tema.


Para o presente estudo, foi feito um recorte e utilizamos as questões do terceiro e quarto
grupos, destacados novamente a seguir:
Grupo III-

grupo IV-
249
à

Para a análise das respostas dos participantes, utilizamos a técnica da análise de conteúdo, que
prevê três fases fundamentais: 1) Pré-análise, exploração do material; 2) Tratamento dos
resultados e 3) Inferência e interpretação.
As emissões foram analisadas de forma a detectar valores, crenças, opiniões e atitudes segundo
a técnica de análise de conteúdo de Bardin (1977). Conforme a perspectiva do autor, consiste
em uma técnica metodológica que se pode aplicar em discursos diversos e a todas as formas de
comunicação, seja qual for a natureza do seu suporte.
Mensagens obscuras que exigem uma interpretação, mensagens com um duplo sentido cuja
significação profunda só pode surgir depois de uma observação cuidadosa ou de uma intuição
carismática. Por detrás do discurso aparente, geralmente simbólico e polissêmico, esconde-se
um sentido que convém desvendar. (Bardin, 1977, p. 66).
Os temas que se repetem com muita frequência "se recortam do texto em unidades
comparáveis de categorização para análise temática e de modalidades de codificação para o

por unidades temáticas que são agrupadas conforme o mesmo significado. A análise das
categorias encontradas deve fornecer subsídios para sugerirmos e/ou elaborarmos estratégias
de ação durante a formação de futuros professores.
Resultados
A caracterização da amostra demonstra que um percentual de 48,2% de professores é do sexo
feminino e 51,8% do sexo masculino. A idade dos participantes varia entre 29 e 71 anos, sendo
que 60% têm mais de 45 anos. (Cf. tabela 2).
Tabela 2- Amostra de Professores Participantes do Ensino Superior de Licenciaturas.

Sexo Total (%) Participantes (%)


Masculino 59,5 51,8
Feminino 40,5 48,2
Base 42 27
Nota. Fonte: Dados organizados pelas autoras.
No que tange à religião, 88,9% dos participantes afirmam ser católicos e 11,1% não
responderam a questão.
Em relação ao item formação: 18,5% declaram ter doutorado, 63% mestrado, 11,1% pós-
graduação e 7,4% declaram ter concluido a graduação.

250
No que diz respeito à cor 92,6% participantes consideram-se brancos, apenas 3,7% mulatos e
3,7% consideram-se pretos. Diante desse quadro, o número de professores negros faz-nos
refletir sobre o porquê dessa pequena amostragem e sobre as variáveis que favorecem essa
diferença entre o número de docentes brancos e negros, visto que no Brasil a maioria da
população se declara negra (http://www.brasil.gov.br/educacao/2012/07/censo-2010-mostra-
as-diferencas-entre-caracteristicas-gerais-da-populacao-brasileira, recuperado em 31, maio,
2017) conforme os dados divulgados pelo governo federal no portal de educação.

para exemplificar as categorias, a partir das respostas dos participantes (Cf. Tabela 3):
Tabela 3-

Categorias Número total Porcentage


de Emissões m
I. Equidade. 17 54,84%
II. Relações e Regras Sociais. 6 19,35%
III. Prática do Bem Comum. 4 12,90%
IV. Ordem Jurídica 3 9,68%
V. Cultural 1 3,23%
Base 31 100%
Nota. Fonte: Dados organizados pelas autoras.
Observação: Encontramos o número total de 31 emissões, dentre os 27 participantes, pois
algumas respostas foram subdivididas nas categorias demonstradas na tabela.

Aurélio da Língua Portuguesa (Ferreira, 2009


reconhecer igualmente o direito de cada um, é um conjunto de princípios imutáveis de justiça
que induzem o juiz a um critério de moderação e de igualdade, ainda que em detrimento do
direito objetivo, é também um sentimento de justiça avesso a um critério de julgamento ou
tratamento rigoroso e estritamente legal. Foram selecionados três exemplos que representam

humano precisa respeitar o outro e ser respeitado em todos os quesitos sociais; econômicos,

eito à
igualdade de todos os cidadãos, podemos dizer que justiça é a particularidade do que é

251
-se a 19,35% das emissões dos participantes.
Percebe-se a relação da palavra justiça aos temas ligados à justiça e regras que visem o bem
comum, pré-estabelecidas socialmente, com a intenção de preservar a harmonia social em

exatamente, quando em sociedade estabelece regras em que as pessoas convivem e usufruem

conjunto de decisões, normas e princípios considerados razoáveis de acordo com um


determinado grupo social

justiça se relaciona com a vida em sociedade que visa o coletivo, o exercício da cidadania que

a virtude de faze e praticar o bem. Não há justiça sem a dimensão coletiva do bem-

referência que regulamenta a vida em sociedade em relação ao caráter legislativo, justiça legal
eber o que se tem direito, pelo trabalho realizado, é ser

raça, cre

relações sociais, do meio cultural, envolve valores éticos e morais e que pode passar por
algumas transformações atada as transições e mudanças que a sociedade atravessou e/ou

A maioria, 54,84% dos participantes considerou a pa


direitos de todos, pela igualdade de tratamento, isto é, sem qualquer tipo de distinção.
Observa-se, de modo geral, que a percepção em relação à justiça como algo que envolve uma
relação em que os indivíduos convivem e desfrutam dos mesmos direitos e deveres, o que pode

o intento de preservar e garantir a ordem e harmonia social com a finalidade do bem comum.
A Educação em Direitos Humanos consiste em contribuir para a criação de uma sociedade
mais democrata e justa socialmente, para a construção de culturas de paz, promovendo o
respeito entre as pessoas e suas diferenças. Nessa perspectiva, indaga-se: será que a justiça, em
relação à legislação, é concebida como um fator protetivo, ou como assinala Araújo (in Castro
rdade, uma

252
É necessário que exista uma juntura do pensamento e das teorias à ação, ao comportamento
em sociedade, que transcenda a ordem jurídica e as regras já pré-estabelecidas, que revele uma
justiça não como algo abstraído e distante da vida em sociedade, mas seja um exercício de
cidadania, associada aos valores da sociedade que compreende todas as pessoas.
Leis que assegurem os direitos fundamentais do ser humano são necessárias para promover
uma justiça com a índole orientada para o social e com o intuito de minimizar as injustiças
coletivas, de modo a empoderar a pessoa humana.

Elegemos de uma (1) a três (3) emissões para explanar as categorias, a partir das respostas dos
participantes (Cf. Tabela 4):
Tabela 4-

Categorias Número total Porcentage


de Emissões m
I. Igualdade de Tratamento. 14 50%
II. Regras e Normas. 6 21,43%
III. Escola que atenda a todos. 3 10,71%
IV. Papel da Escola 2 7,14%
V. Garantia de Educação e Cidadania. 2 7,14%
VI. Qualidade de Vida. 1 3,58%
Base 28 100%
Nota. Fonte: Dados organizados pelas autoras.
Observação: Encontramos o número total de 28 emissões, dentre os 27 participantes, pois
algumas respostas foram subdivididas nas categorias demonstradas na tabela.

importância que os participante atribuem ao tratamento igual e em conformidade com a lei,


que pode estar associada ao caráter legislativo ou senso de moral que rege aquela comunidade.

do ser humano. Pra que possa haver possibilidades de se pratica


escola é tratar todos iguais e ensinar para os alunos que devem tratar todos da mesma

253
É importante refletir em

une enqua
direito a ser iguais quando a diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando

A justiça no âmbito escolar está intimamente associada à igualdade de tratamento e


oportunidades, e que, educar para o pleno exercício da cidadania é o papel que a escola deve
desempenhar, em um cenário que atenda a todos, organizado e regulado na lei e na ordem.

justiça pode estar conectada ao estabelecimento de regras, leis, preceitos, um parâmetro que
indica a necessidade de que algum tipo de ordem seja estabelecido.
as no sentido de educar para as normas e leis de

eno espaço que reflete a sociedade, (deve) a justiça e ou injustiça,


presentes entre as pessoas, deve garantir regras para que haja o desenvolvimento de justiça.

pontuam a necessidade de

por pessoas com direitos iguais, contudo, diferentes em sua constituição enquanto

todos os alunos, independente, de qualquer distinção uma educação de qualidade baseado no

mesmas coisas, vendo tal ambiente como um espaço de afirmação das disciplinas, porém que

atribuição da prática da justiça na escola é uma conduta intrínseca do contexto escolar e que
fortalece a forma
escola é justa quando cumpre seu papel de formadora, educadora. Quando seus professores
ensinam de verdade e formam bons cidadãos. Quando os estudantes aprendem. Não se trata
de atender
ou ação desenvolvido por professor/alunos/Direção onde pudesse fortalecer o cumprimento
de medidas sócio-

o campo escolar como um agente que proporciona a garantia para o acesso a educação e
dicados no item

254
escola é o espaço de convívio das relações entre as pessoas, a justiça enquanto um pressuposto

instrumento que auxilie o acesso a melhores


ensino e aprendizagem deve fazer parte de um projeto para a melhoria de qualidade de vida

gorias encontradas contribuíram para uma visão mais ampla sobre a


percepção dos professores voltados para a justiça no âmbito escolar e a Educação em Direitos
Humanos. Os participantes parecem compreender que a justiça é alicerçada numa relação que
envolve igualdade de tratamento, relações pautadas em regras e normas, e que cada pessoa
têm direitos e deveres com o intuito de favorecer a construção de uma relação consolidada que
vise o bem comum.
Na comunidade escolar os temas referentes à Justiça e Educação em Direitos Humanos devem
ser experenciados de forma crítica, proporcionando reflexão e conscientização sobre os
direitos humanos, com questões atuais e que façam parte da realidade dos componentes
inseridos no contexto educacional. Nesse sentido, vai além dos professores e alunos, pois os
temas destacados agregam também todos os outros funcionários da escola, membros da
administração escolar, os inspetores escolares, o pessoal dos setores administrativo, os
funcionários encarregados do planejamento da educação no âmbito dos governos locais e
nacionais, os pais e a comunidade.
Nesse cenário a escola desempenha um papel importante por ser um local que o ensino em
relação a justiça necessita estar fundamentado com a sua prática, ou seja, a interação social no
ambiente escolar pode proporcionar uma oportunidade para desenvolver a empatia e o
respeito mútuo, troca conhecimentos e ampliar o senso de moral. É na relação com o outro
que se desenvolve a socialização com o diferente, que evolui a empatia e humanização.
Projeto Pedagógico de

o (5) categorias,

Selecionamos de duas (2) a três (3) emissões para exemplificar as categorias, a partir das
respostas dos participantes (Cf. Tabela 5):
Tabela 5-
que ministra são tratadas questões relativas a Justiça? ( )sim ( )não. Em caso afirmativo

Categorias Número total Porcentage

255
de Emissões m
I. Emissões que não responderam a questão. 8 29,63%
II. Diálogo e Debate. 8 29,63%
III. Disciplina específica e/ou fundamentação teórica. 5 18,52%
IV. Material didático. 4 14,81%
V. Projetos e práticas de estágios. 2 7,41%
Base 27 100%
Fonte: Dados organizados pelas autoras.
das respostas não
informaram o que foi solicitado na questão. Isto é, não esclareceu como acontece na prática o
exercício do conteúdo em sala de aula. Sim, quando uma avalição do professor em

participantes trabalham a temática da justiça através do dialogo e estimulam o debate em sala


nas
discussõe
que precisa aparecer em todas as disciplinas. Procuro fazer leituras do cotidiano da sociedade
estudo de caso debates.
Todos fundamentados por teóricos que tratam do tema: justiça social, democracia e

participantes afirmaram trabalhar o conceito de justiça em uma disciplina específica e com


Com relação a justiça essa é tratada nas disciplinas de
Políticas Públicas e Profissão docente de formar mais consistente em vários tópicos das
disciplinas Com relação a justiça essa é tratada nas disciplinas de Políticas Públicas e Profissão
estudo
de caso debates. Todos fundamentados por teóricos que tratam do tema: justiça social,
democracia e
moral, na perspectiva das virtudes cardeais, como uma vertente racional para a prática da

stão anterior, 14,81% dos participantes


afirmam que trabalham assuntos relacionados a Justiça através dos materiais didáticos, vídeos,
Em textos que são trabalhados em sala, em vídeos. No
dia a dia das aulas.Com o di
estudo de caso

256
participantes parecem compreender que a prática de estágio é uma experiência para colocar
em prática temas elaborados em sala e a teoria sobre a justiça, dessa forma, refletir de forma
No processo
de realização do estágio, os licenciando refletem sobre a prática pedagógica e a postura do
futuro professor, ou seja, sobre as práticas justas ou injustas p/a o desenvolvimento humano e

de justiça e indico livro


É possível observar que parte dos participantes, o equivalente à 29,63%, apresentaram
dificuldade para demonstrar como se dá na prática, na sua experiência docente, a aplicação
conseguiu explanar

comtemplada em sala de aula de forma dialógica e é estimulado o debate e reflexão sobre o


tema, como afirmam 29,63% dos participantes.
Diante dessa perspectiva, faz-se necessário pensar sobre ações e estratégias que proporcionem
uma reflexão no campo do ensino que instiguem ações mais eficazes para a elaboração de
metodologias que trabalhem, de forma ética e prática, a temática da Educação em Direitos
Humanos e Justiça pautada na qualidade social, uma vez que:
Nessa perspectiva, a escola de qualidade social não se fecha em si mesma, ou na relação
professor/aluno/conhecimento, mas considera os contextos em que vivem seus sujeitos, suas
necessidades e suas expectativas em relação à educação. Não fica alheia às discussões políticas,
sociais e econômicas que a circundam e que nela incidem. Aproveita todos seus espaços com a
finalidade de promover vivências e aprendizagens significativas. Assim, entende-se que, para a
instituição escolar ter qualidade social, precisa estar fundamentada e organizada de forma a
contemplar os diferentes aspectos que constituem aquilo que, em determinado contexto, está
sendo entendido como qualidade pelo conjunto de sujeitos. (Eyng, 2014, p. 204).
Com efeito, é importante que a escola favoreça a construção de uma vida em sociedade
democrática e justa, com pessoas que exerçam a colaboração entre si, que auxilie a formação
de sujeitos empáticos e que saibam conviver com as diferenças, como detalha Oliveira,
Caminha, Iraquitan & Freitas (2010):
... a escola pode ser um lugar de experiências compartilhadas na perspectiva da convivência
digna e justa. A educação pode oferecer oportunidades significativas para os educandos,
contribuindo na formação de sujeitos que primem por condutas cooperativas, justas e
respeitosas. Almejamos que o leitor contemple o nosso desejo de que a escola seja um espaço
indispensável na construção de um mundo social mais igualitário e tolerante, renegando

257
discursos utópicos que fazem do presente da sociedade um futuro perdido. (Oliveira at al.
2010, p. 269).
O papel da escola deve ser auxiliar a construção de uma sociedade mais ética, solidária e justa.
É necessário propagar uma educação moral no âmbito da escola, uma formação que vise além
do caráter profissional, e que, ao entrar em contato com o aspecto sociocultural de cada
sujeito, consiga dialogar com as diferenças, fortalecer vínculos interpessoais numa formação
que propicie condutas embasadas em valores éticos e morais.
Justiça e cidadania são duas condições da pessoa humana intimamente relacionadas entre si e
cuja existência é indissociável. Essa conjuntura expõe o grau de relevância e responsabilidade
que a educação possui e, diante desse horizonte, aponta a necessidade da formação cidadã,
alicerçada na liberdade e responsabilidade em relação aos direitos e deveres de cada sujeito
em relação à prática política e o exercício público.
Emerge, assim, a necessidade de refletirmos em relação à verdadeira missão da escola, sobre
qual o intuito de sua existência enquanto instituição e o seu papel na promoção da justiça,
concebida em suas múltiplas facetas. A escola, considerando a comunidade que a cerca, deve
se orientar para favorecer relações justas e uma educação na cidadania, processos que se
fundamentam desde uma postura de empatia e acolhida de seus integrantes, até a ascensão da
pessoa humana para pensar e atuar na sociedade a qual pertence.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É comumente verbalizada a crença de que a educação é o futuro da nação. E qual é o papel do
professor e de todo sistema educacional diante dessa afirmação? Será que estão realmente
preparados para tal exercício? O que motiva a prática da docência? E qual a finalidade em
relação do exercício docente?
A análise dos resultados da pesquisa indica que todos os professores afirmam trabalhar
conteúdos pertinentes aos Direitos Humanos por meio de métodos e materiais didáticos e
trabalhos em grupos em que os alunos são estimulados a refletir sobre seu papel social. No
entanto, a análise das emissões categorizadas demonstrou que a maioria dos professores não

bem como as estratégias para sua efetivação na sua área de docência.


O professor é um agente que está em contato direto com os alunos e desempenha, nesse
contexto, um indiscutível papel na formação integral do educando, assim, é necessário que
tenha uma formação humana, de modo a considerar e respeitar a dignidade de seus educandos
e, além disso, que saiba como trabalhar em sala de aula conteúdos alicerçados nos Direitos
Humanos, favorecendo uma formação crítica e responsável de seus alunos.
Em concordânci

sensível da humanidade, surge como um arco-íris que traz esperança após uma tempestade.

258
A Declaração prega a liberdade, defende o direito, clama por justiça, exige ética, propõe saídas,
pede compreensão, manifesta-se pelo amor, elenca sentimentos nobres- solidariedade, união,
fraternidade. Enfim, se seguida, reside na Declaração Universal dos Direitos Humanos um
sério e suficiente caminho para a real transformação da dura realidade em que vivemos. (Silva
in Castro 1999, p. 312).
Como fazer valer todos esses direitos, se a sociedade ainda se manifesta com tamanha
desigualdade social? Como sonhar com um mundo em que a paz não seja uma utopia, mas algo
concreto e tangível, se o olhar contempla competitividade e consumismo desenfreado, quando

O artigo XXV, afirma que temos o direito a um padrão de vida que assegure o bem-estar, a
alimentação, habitação, cuidados médicos e segurança, mas, como pontua Silva (in Castro
1999), se temos esse direito, a quem compete o dever?
Nesse contexto, desponta um novo horizonte, ainda que discretamente, e traz a esperança da
vida, do real significado do existir enquanto homem, enquanto indivíduo, que não jaz no
esquecimento de seus direitos, mas que prevalece em batalhar por cada um deles. A esperança
contida nos sonhos de infância pode ressurgir como a força de vontade presente na juventude
e nas experiências de vida em múltiplos âmbitos, como uma luta de todos e para todos, que se
fundamentará na reflexão estimulada em cada indivíduo sobre o real papel da escola e do
professor, que orientam e fazem a mediação do conhecimento não somente para a esfera
profissional, mas também para a vida.
Assim, a Educação em Direitos Humanos configura-se como uma das alternativas para a
constituição de espaços nos quais os conflitos devem ser solucionados por estratégias que
possibilitem o intercâmbio de saberes, vivências e ideias entre os atores do espaço escolar em
compromisso com a qualidade social.
Nesse sentido, a universidade tem como compromisso ofertar ao universitário uma formação
técnica e, ao mesmo tempo, humana, comprometida com o ser humano, sensível à dignidade e
a democratização nas relações sociais, bem como fomentar o desenvolvimento interpessoal de
seus alunos, os futuros profissionais da Educação. A universidade necessita refletir sobre
questões pertinentes a formação ampla, o que irá contribuir para a propagação de uma cultura
de paz na qual a convivência escolar permita o respeito não só às diferenças, mas aos direitos
de toda a comunidade escolar. Por fim, sugere-se que futuros projetos de intervenção no
Ensino Superior contemplem o desenvolvimento das relações interpessoais dos universitários,
sensibilizando-os para uma atuação docente pautada na justiça e na promoção da vida em sua
plenitude.
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261
PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA: UMA POLÍTICA SOCIAL PÚBLICA EM PROL
DOS DIREITOS HUMANOS

138

Resumo: O presente artigo faz uma perquirição sobre o prisma da eficácia de políticas públicas
na efetivação dos direitos sociais, destacando-se o direito à moradia. Por meio do Direito,
ilustrado em suas fontes como os tratados e convenções internacionais de Direitos Humanos, e
levando em consideração as limitações do ordenamento jurídico pátrio, analisou-se como as
políticas sociais são fundamentais para a realização dos DIREITOS HUMANOS, NO QUE
TANGE AOS DIREITOS ECONÔMICOS, SOCIAIS E CULTURAIS, ALÉM DE examinar como
são aplicados os recursos destinados ao Programa Minha Casa Minha Vida para que seja
realizada a efetivação de direitos, como o de moradia, de forma concreta.
Palavras-chave: Direitos Sociais. Políticas Sociais Públicas. Moradia. Direitos Humanos.
INTRODUÇÃO
Os direitos sociais surgem como garantia para aqueles que são considerados os
hipossuficientes e a igualdade formal, àquela cuja não enxerga as diferenças, propiciada com a
primeira dimensão dos direitos humanos, já não é mais suficiente para atingir tais pessoas.
Desde então, surge à necessidade de por em prática esses direitos de extrema importância,
mas agora com base numa igualdade que trata os desiguais na medida da sua desigualdade, que
é a igualdade real. Em contrapartida, as promoções de políticas sociais públicas tornam-se
cada vez mais difíceis, já que muito se questiona a respeito da natureza jurídica dos direitos
sociais, tratando-os como normas de princípio programático e condicionando ao legislador
ordinário o dever de complementação para que a norma constitucional seja de fato aplicada.
Dessa forma, o Estado Brasileiro, como um ente social, busca trazer a efetividade desses
direitos, por meio das políticas sociais públicas. Para tanto, criou o Programa Minha Casa
Minha Vida, permitindo o acesso à casa própria por famílias que não possuíam condição,
garantindo que o direito à moradia, como um direito humano, pudesse vir a se concretizar.
No entanto, a dependência dos direitos sociais para com o legislador tornou a efetividade desse
programa um tanto quanto tardia, visto que o programa só passou a ser implementado em
2009, mesmo após 21 anos da Constituição Federal de 1988 e 17 anos após do Pacto
Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, promulgado em 1992, consagrar
o direito à moradia em seu texto. Com isso, torna-se importante a pesquisa documental e
bibliográfica acerca do tema, com o intuito de analisar como os direitos sociais, aqui o direito à
moradia, são entendidos e tratados pelo ordenamento interno e internacional. Compete
também verificar como a aplicabilidade do Programa Minha Casa Minha Vida, vem se

Graduandas em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo - Unisal


138
U.E. de Lorena (SP). E-mails:
dryfariav@gmail.com; luisaclaudiafsantos@hotmail.com.

262
desenvolvendo desde sua implantação até os dias de hoje, bem como seus reflexos na
sociedade.
A efetivação dos Direitos Sociais como Direitos Fundamentais e Direitos Humanos
Muitos dos direitos do homem139 foram conquistados através de lutas e movimentos históricos,
sendo considerados como grande triunfo àquela época, porém tais direitos estão longe de se
esgotarem. Atualmente, a cada direito e/ou garantia novo conquistado, mais uma luta é
vencida. Como José Afonso da Silva expõe:
...cada passo da Humanidade importa na conquista de novos direitos. Mais que conquista, o
reconhecimento desses direitos caracteriza-se como reconquista de algo que, em termos
primitivos, se perdeu, quando a sociedade se dividira entre proprietários e não proprietários
(2014, p.151).
A doutrina moderna apresenta uma divisão meramente didática sobre Direitos Humanos em
dimensões, tendo o objetivo de simplificar o estudo, delineando os momentos históricos que
foram criados e também seu conteúdo material. Essa proposta é atribuída a Karel Vasak 140, que
inspirado nos princípios da Revolução Francesa141, determinou as três primeiras dimensões:
Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Paulo Bonavides (apud MAZZUOLI, 2015, p.53) se refere
ainda a uma quarta dimensão, onde estariam presentes, os direitos de Solidariedade. Sabemos
que todas as dimensões complementam-se para formarem as principais garantias da pessoa
humana (MAZZUOLI, 2015). Porém, para nosso estudo, daremos ênfase aos direitos de
igualdade ou direitos de segunda geração, conhecidos também como direitos econômicos,
sociais e culturais.
Segundo Mazzuoli (2015), tal geração iniciou-se no século XX, sendo introduzida após o
constitucionalismo no Estado Social142, atribuindo esses direitos a todo e qualquer ser humano.
Cabe ressaltar que tais direitos foram designados como programáticos, em virtude de não
possuírem as mesmas garantias de concretização e proteção dos direitos de primeira geração
ou de liberdade, ou seja, os direitos civis e políticos. Estes últimos foram instituídos em um
período onde se acreditava no ideal de Estado mínimo e só se fazia o suficiente para garantir a
liberdade do indivíduo contra o abuso do próprio Estado, em contraposição ao regime

139
-se de uma expressão jusnaturalista que conota a série de direitos naturais, (ou seja, ainda não positivados)

140
Karel Vasak é um jurista tcheco que contribuiu para a elaboração da Declaração Universal dos Direitos
Humanos. Ficou conhecido por criar a Teoria das Gerações de Direitos Humanos, que teve por base, o lema da
Revolução Francesa (DIÓGENES JÚNIOR, [20--]).
141
Movimento histórico, social e político ocorrido na França que buscou romper com o regime absolutista, baseado

ocidental, pois a formação de uma Assembleia Constituinte deu origem a um dos mais importantes documentos da
história: Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (FABER, [20--]a).
Modelo de Estado voltado à satisfação das necessidades individuais e coletivas dos cidadãos (NOVELINO, 2012, p.
142

43-44).

263
absolutista. Foi durante a Revolução Industrial143 que surgiram os movimentos reivindicatórios
dos operários anos mais tarde, devido aos grandes problemas sociais e econômicos, como a
desigualdade. Estabeleceram-se então os Direitos Sociais e uma nova concepção de Estado de
Bem Estar Social144.
Garantidos como direitos fundamentais no plano interno e como direitos humanos no plano
externo, os direitos sociais tem destaque na doutrina, sendo consolidados como direitos
fundamentais do homem, e com isso vêm ganhando cada vez mais notoriedade através da
efetivação das políticas sociais públicas. Como se sabe, esses direitos não são exclusivamente
questões de plano interno e passaram a ser interesse de toda a comunidade internacional.
Inicia-se este estudo então, pela definição de direitos sociais no âmbito interno.
Sempre tratando de direitos que visam trazer algum benefício para a sociedade, sua efetivação
tem fundamento constitucional. Logo, seus alicerces estão nos princípios gerais do Direito
para que sejam cumpridos, sempre se empenhando na busca pela justiça. Neste sentido, Uadi
Bulos (2015) disserta:
Direitos sociais são as liberdades públicas que tutelam os menos favorecidos, proporcionando-
lhes condições de vida mais decentes e condignas com o primado da igualdade real.
Funcionam como lídimas prestações positivas, de segunda geração, vertidas em normas de
cunho constitucional, cuja observância é obrigatória pelos Poderes Públicos. Tais prestações
qualificam-se como positivas porque revelam um fazer por parte dos órgãos do Estado, que
têm a incumbência de realizar serviços para concretizar os direitos sociais (BULOS, 2015,
p.809, grifo nosso).
De forma ainda mais clara, José Afonso da Silva conceitua direitos sociais como:
[...] prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em
normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos
que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que
se ligam ao direito de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na
medida em que criam condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o
que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade
(SILVA, 2014, p. 288-289, grifo nosso).

143
A Revolução Industrial teve início na Inglaterra do século XVIII, onde houve a transição dos mecanismos de
produção. Passou-se a utilizar máquinas, que geram mais lucro e menos despesas ao patronato. Devido às condições
sub-humanas em que se encontravam os trabalhadores, neste momento histórico, surgiram os movimentos
reivindicatório dos trabalhadores, que foram decisivos para o surgimento do Estado de Bem-Estar Social (FABER,
[20--]b).
A doutrina não faz diferença entre o Estado Social e o Estado de Bem Estar Social, conhecido também como
144

Welfore State (NOVELINO, 2012, p. 43-44).

264
No plano interno, a Constituição Federal de 1988 assegura tais direitos em diversas partes do
seu texto. Ganha maior destaque, o artigo 6º que determina:
São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o
lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos
desamparados, na forma desta Constituição.
Tais direitos têm disposições específicas ao longo do conteúdo dogmático de nosso texto
Constitucional, o que traz ao legislador a obrigação de dar efetividade a estes princípios
programáticos.
Scaff; Romboli; Revenga (2010) afirmam que este extenso rol de direitos sociais nos leva à
constatação de que estes direitos não possuem um núcleo jurídico unitário, mas heterogêneo,

Sua finalidade, portanto, é de assegurar a igualdade real.


No âmbito internacional, em 1945 com o advento da Carta das Nações Unidas, os direitos
humanos e liberdades fundamentais para todos foram internacionalizados e passaram a ter a
proteção universal merecida, baseado na cooperação internacional.145 Embora, a Carta não
tenha precisamente definido o conteúdo dos direitos humanos, mais tarde o Conselho
Econômico e Social da Organização das Nações Unidas (ONU) criou a Comissão de Direitos
Humanos, com o objetivo de corrigir essa fragilidade. Em 1948, foi proclamada a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, que elencou diversos direitos humanos e liberdades
fundamentais inerentes a toda pessoa humana. Foi neste diploma legal que os direitos sociais,
bem como econômicos e culturais, passaram a ser reconhecidos (artigos. 16, inc. 3; 22 ao 28).
Em seu artigo 22ª dispõe:
Toda a pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social; e pode
legitimamente exigir a satisfação dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis,
graças ao esforço nacional e à cooperação internacional, de harmonia com a organização e os
recursos de cada país.
A Declaração uniu o discurso liberal do valor à liberdade ao discurso social do valor a
igualdade, pós um período de preocupações com estes direitos e garantias. Esta contemplou os
direitos mínimos a serem garantidos pelos Estados, mas sem trazer em seu texto os
instrumentos e meios necessários para a fiscalização, bem como para que se pudessem
vindicar mais tarde os direitos assegurados. Com isso, procurou-se firmar pactos e convenções
internacionais com a finalidade de dar operatividade técnica aos direitos nela previstos.
Dentre os quais o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC)
aprovado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, em 16 de
dezembro de 1966 (MAZZUOLI, 2015, p.98). É neste pacto que direitos como ao trabalho, à

145
Seu art. 55 dispõe que a ONU "promoverá o respeito universal aos direitos humanos e às liberdades fundamentais
de todos, sem fazer distinção por motivos de raça, sexo, idioma ou religião, e a efetividade de tais direitos e
liberdades" (BRASIL, 1945).

265
educação, à saúde, à previdência, à moradia, à cultura, e outros vêm muito mais detalhados,
elaborados e aperfeiçoados, além dos novos direitos incorporados em seu texto. O Brasil foi
um dos países que o aprovou e promulgou, através do Decreto Legislativo n.º 226, de 112 de
dezembro de 1991 e do Decreto n.º 591, de 06 de julho de 1992, respectivamente.
Há também que se falar dos Sistemas Regionais de proteção aos direitos humanos: o Europeu,
o Interamericano e o Africano, cada qual com suas características e especificidades próprias. O
Brasil se encontra no Sistema Interamericano, sendo um dos Estados-membros da
Organização dos Estados Americanos (OEA) que tem por instrumento a Convenção
Americana de Direitos Humanos, também conhecido como Pacto de San José da Costa Rica,
celebrado em 1969. Esse pacto possui função de proteção complementar ao direito interno de
cada Estado-parte, ou seja, cada Estado possui competência primária para proteger e amparar
toda e qualquer pessoa dentro de sua jurisdição, mas que nos casos da falta de proteção e/ou
preservação ou até mesmo violação de direitos e garantias previstos na Convenção, por parte
de um indivíduo ou do Estado, o sistema interamericano pode vir a atuar de modo coadjuvante
para isso, após já ter dado a chance do Estado de agir (MAZZUOLI, 2015, p.98).
É em seu artigo 26, que a Convenção traz expressamente a proteção aos Direitos Sociais:
Os Estados Partes comprometem-se a adotar providências, tanto no âmbito interno como
mediante cooperação internacional, especialmente econômica e técnica, a fim de conseguir
progressivamente a plena efetividade dos direitos que decorrem das normas econômicas,
sociais e sobre educação, ciência e cultura, constantes da Carta da Organização dos Estados
Americanos, reformada pelo Protocolo de Buenos Aires, na medida dos recursos disponíveis,
por via legislativa ou por outros meios apropriados.
O Estado fica então, obrigado a desenvolver os direitos sociais. Porém, a Convenção prevê
genericamente quais seriam esses direitos de cunho econômico, social e cultural. Dessa forma,
para a garantia de tais direitos foi adotado um Protocolo Adicional à Convenção Americana ou
Protocolo de San Salvador de 1988, entretanto, a pouca adesão ao protocolo revelou a
dificuldade de tratar de matéria de direitos econômicos, sociais e culturais dentro de cada país.
Para Canotilho (2003), os direitos econômicos, sociais e culturais estão estritamente ligados
aos pressupostos dos direitos fundamentais. Esses pressupostos consideram uma
multiplicidade de fatores, ou seja, capacidade econômica do Estado, clima espiritual da
sociedade, estilo de vida, criatividade cultural, distribuição de bens, nível de ensino,
desenvolvimento econômico, entre outros. Porém, quando se trata de direitos sociais, estes
três últimos tem grande importância para sua efetividade.
Essa dificuldade de realização plena desses direitos está relacionada com ao fato de que tais
garantias pressupõem a existência de recursos financeiros para sua efetivação, o que se sabe
que não está ao alcance de todos os Estados, ou então simplesmente não é bem administrado.
Logo, pode-se afirmar que:

266
Os direitos sociais gozam de um nível de proteção menor que os direitos civis e políticos, e isto
estaria justificado porque os juízes não podem determinar a atuação do poder político
(legislativo e executivo), os únicos capazes de comprometer recursos para a satisfação das
prestações socia
(SCAFF; ROMBOLI; REVENGA , 2010, p.73).
É por esse motivo, que esses direitos têm a imputação de caráter programático, devido à
forma com que estão conjecturados no conteúdo dogmático146 das Constituições. Tais direitos
não geram compromisso ou dever vinculante algum a cargo do poder legislativo ou até mesmo
do poder executivo e, como consequência, sua implementação também não é imperativa. No
Brasil há divergências que José Afonso da Silva explica:
A eficácia e aplicabilidade das normas que contêm os direitos fundamentais dependem muito
de seu enunciado, pois se trata de assunto que está em função do Direito positivo. A
Constituição é expressa sobre o assunto, quando estatui que as normas definidoras dos direitos
e garantias fundamentais têm aplicação imediata. Mas certo é que isso não resolve todas as
questões, porque a Constituição mesma faz depender de legislação ulterior a aplicabilidade de
algumas normas definidoras de direitos sociais, enquadrados de direitos fundamentais. Por
regra, as normas que consubstanciam os direitos fundamentais democráticos e individuais são
de eficácia contida e aplicabilidade imediata, enquanto as que definem os direitos econômicos
e sociais tendem a sê-lo também na Constituição vigente, mas algumas, especialmente as que
mencionam uma lei integradora, são de eficácia limitada, de princípios programáticos e de
aplicabilidade indireta, mas são tão jurídicas como as outras e exercem relevante função,
porque, quanto mais se aperfeiçoam e adquirem eficácia mais ampla, mais se tornam garantias
de democracia e do efetivo exercício dos demais direitos fundamentais (2014, p.182, grifo
nosso).
A grande questão é: como garantir esses direitos? Sua efetivação está diretamente ligada com a
disponibilidade econômica de um país e seu serviço público. Em outras palavras, está
subordinada à elaboração de políticas sociais, sendo esta a única garantia que a sociedade
possui para a consumação de seus direitos, tal como o direito a moradia. É importante
ressaltar, que estando estes direitos inseridos no artigo 6º da Constituição, não se pode
considerar como se de menor expressão fosse do que os elencados no artigo 5º, pois sua
relevância da mesma forma é qualificada como imprescindível, irrenunciável, inviolável,
universal e, sobretudo, dotada de efetividade (VIANA, 2000, apud NOLASCO, 2008, p.33).
O Direito à Moradia e sua inserção no Direito Constitucional Brasileiro
Desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos, os direitos econômicos, sociais e
culturais, dentre eles o direito à moradia, aparecem expressamente em seu texto. Foi a partir

146
O conteúdo dogmático das constituições é elaborado a partir dos dogmas ou ideias fundamentais da teoria
política e do direito que eram imperantes à época com que esta é promulgada (PAULO; ALEXANDRINO, 2011).

267
do artigo 25, item 1, da Declaração147 que este direito passou a ser objeto de reconhecimento
expresso em diversos documentos, como no Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais das Nações Unidas, que em sua Observação Geral nº 4, pronuncia-se sobre o Direito
a uma habitação condigna:
O direito a uma moradia adequada significa dispor de um lugar onde se possa asilar, caso o
deseje, com espaço adequado, segurança, iluminação, ventilação, infraestrutura básica, uma
situação adequada em relação ao trabalho e o acesso aos serviços básicos, todos a um custo
razoável." (apud, PANSIERI,2012, p.22, grifo nosso).
O direito à moradia traduz a necessidade primária do homem, um direito natural do indivíduo,
condição indispensável para uma vida digna e para a proteção de outros direitos como à vida, à
saúde e à liberdade (NOLASCO, 2008). Trata-se este de um direito erga omnes148 que está
intimamente ligado com o princípio da dignidade da pessoa humana, considerado basilar para
todo e qualquer preceito e por isso explícito na Constituição Federal de 1988 como
fundamento da República Federativa do Brasil.149. Como demonstrado em diversas doutrinas
constitucionais, para que se dê ensejo a esse princípio o Estado fica obrigado a criar condições
para seu o pleno exercício e gozo, e sendo o direito à moradia um lugar íntimo de
sobrevivência e subsistência humana, fica claro o vínculo de dependência entre todos os
direitos. É por essa razão que a Comissão da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta
diretrizes e elementos básicos para a efetividade de ambos os direitos:
I) Segurança jurídica para a posse, independentemente de sua natureza e origem; II)
Disponibilidade de infraestrutura básica para a garantia da saúde, segurança, conforto e
nutrição dos titulares do Direito (acesso à água potável, energia para preparo da alimentação,
iluminação, saneamento básico, etc.) III) As despesas com a manutenção da moradia não
podem comprometer a satisfação de outras necessidades básicas; IV) A moradia deve oferecer
condições efetivas de habitabilidade, notadamente assegurado a segurança física aos seus
ocupantes; V) Acesso em condições razoáveis à moradia, especialmente para os portadores de
deficiência; VI) A moradia e o modo de sua construção devem respeitar e expressar a
identidade e diversidade cultural da população (apud, PANSIERI, 2012, p.27).
Como o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais das Nações Unidas em sua
Observação Geral nº 3 expressa, existe um núcleo mínimo obrigatório que o Estado deve

147

família a saúde e o bem-estar, principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, à assistência


médica e ainda quanto aos serviços sociais necessários, e tem direito à segurança no desemprego, na doença, na
invalidez, na viuvez, na velhice ou noutros casos de perda de meios de subsistência por circunstâncias
8).
148

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito
149

Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: III - a dignidade da pessoa
humana (BRASIL, 1988).

268
cumprir com relação a este direito e que a existência de um número significativo de pessoas
privadas a esse direito básico à moradia reflete o descumprimento do Estado com suas
obrigações assumidas n