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ROTEIRO DE ESTUDOS

HISTÓRIA ECONÔMICA

DO BRASIL
Universidade Federal de Minas Gerais
Avenida Antônio Carlos, 6627 – Pampulha – Belo Horizonte – MG
CEP 31270-901 – Fone: +55 (31) 3409.5000

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONOMICAS

CIÊNCIAS ECONOMICAS – 3° PERÍODO

HISTÓRIA ECONÔMICA DO BRASIL

Roteiro feito por

Pedro Oliveira de Sena Batista

+55 31 8848.9888

posbatista@gmail.com

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Faculdade de Ciências Econômicas - UFMG
Ciências Econômicas – História Econômica do Brasil – 3° Período
Aluno: Pedro Oliveira de Sena Batista - 2013436666
Universidade Federal de Minas Gerais
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SUMÁRIO
1. AULA 1 – PERÍODO COLONIAL BRASILEIRO À INDEPENDÊNCIA (05/02/2014) ... 5

2. AULA 2 – A ECONOMIA AÇUCAREIRA (10/02/2014) .......................................... 15

3. AULA 3 – A ECONOMIA DO OURO (12/02/2014) ................................................ 24

4. AULA 4 – PRODUTOS COLONIAIS E MERCADO INTERNO (17/02/2014) ............. 35

5. AULA 5 – O ARCAÍSMO COMO PROJETO (19/02/2014) ...................................... 45

6. AULA 6 – IMPÉRIO BRASILEIRO E PANORÂMA POLÍCO (24/02/2014) ............... 56

7. AULA 7 – A ECONOMIA CAFEEIRA (26/02/2014) ............................................... 66

8. AULA 8 – A ECONOMIA DE MINAS GERAIS (10/02/2014) .................................. 76

9. AULA 9 – PLANTATION AGROEXPORTADORA OU NÃO? (12/02/2014) ............... 86

10. AULA 10 – DO TRABALHO ESCRAVO PARA O LIVRE (17/03/2014) ..................... 97

11. AULA 11 – PRIMEIRA PROVA (19/03/2014) .................................................... 108

12. AULA 12 – REPÚBLICA VELHA I (24/03/2014) ................................................ 108

13. AULA 13 – REPÚBLICA VELHA II (26/03/2014) ............................................... 119

14. AULA 14 – BRASIL E CAPITALISMO INTERNACIONAL (31/03/2014) ............... 130

15. AULA 15 – TRANSIÇÃO CAPITALISTA (02/04/2014)........................................ 141

16. AULA 16 – REVOLUÇÃO DE 30 (07/04/2014) ................................................... 148

17. AULA 17 – A ERA VARGAS (09/04/2014) ......................................................... 158

18. AULA 18 – POLÍTICA ECONÔMICA NA ERA VARGAS (14/04/2014) .................. 170

19. AULA 19 – INSTITUIÇÕES NA ERA VARGAS (16/04/2014) ............................... 181

20. AULA 20 – ORIGENS DA INDUSTRIALIZAÇÃO (23/04/2014) ........................... 194

21. AULA 21 – SEGUNDA PROVA (28/04/2014) ..................................................... 203

22. AULA 22 – INTRODUÇÃO À QUARTA REPÚBLICA (30/04/2014) ....................... 204

23. AULA 23 – SEGUNDO GOVERNO VARGAS (05/05/2014) .................................. 216

24. AULA 24 – GOVERNO CAFÉ FILHO E JK (07/05/2014) ...................................... 227

25. AULA 25 – GOVERNOS JÂNIO QUADROS E JOÃO GOULART (12/05/2014) ....... 237

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26. AULA 26 – POLÍTICA ECONÔMICA NA QUARTA REPÚBLICA (14/05/2014) ...... 250

27. AULA 27 – O SETOR AGROPECUÁRIO BRASILEIRO (19/05/2014) .................... 263

28. AULA 28 – INDUSTRIALIZAÇÃO NA QUARTA REPÚBLICA (26/05/2014) .......... 275

29. AULA 29 – TERCEIRA PROVA (28/05/2014) ..................................................... 287

30. ANEXOS (QUESTÕES DE PROVAS ANTERIORES) ............................................... 288

31. BIBLIOGRAFIA DO CURSO ................................................................................ 310

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1. AULA 1 – PERÍODO COLONIAL BRASILEIRO À INDEPENDÊNCIA (05/02/2014)

Iremos entender os aspectos sociais, econômicos e políticos do período colonial até culminarmos
na independência do Brasil em 1822. O texto de Francisco Carlos Teixeira da Silva responde pelo
período do século XVI, XVII até metade do século XVIII e o texto de Ciro Flamarion Santana
Cardoso responde pelo restante do período colonial até a independência. Ambos são grandes
estudiosos do período colonial com bastante publicações a respeito do país nesta época.

O ponto de partida será o texto de Francisco Carlos que trata de um período anterior aos grandes
descobrimentos e a inserção da Europa dentro do contexto da expansão marítima dos séculos
XV e XVI com a incorporação posterior de novos territórios como a América Portuguesa e América
Espanhola.

Antes de pensarmos no colonialismo luso, precisamos entender a evolução histórica de Portugal


que permitiu a esse país possuir uma centralidade no século XVI e início do século XVII. Essa
especificidade está relacionada à formação do Estado português que tornou Portugal o primeiro
estado nacional europeu ainda no século XII. Essa precocidade é o primeiro fator que explica o
pioneirismo português na expansão marítima. Portugal é um país com um grande adensamento
populacional, pequeno território e grande expectativa das elites agrárias portuguesas em
expandir o número de suas terras. A restrição do espaço territorial é um fator impulsionador
para a busca de novas terras e novas zonas tributárias e de ocupação. Essa projeção marítima
está associada a essas peculiaridades específicas da formação territorial portuguesa. Outro fator
importante que contribuiu para a expansão marítima de Portugal foi a busca por novas rotas
comerciais que garantissem o monopólio no comércio com produtos orientais (especiarias).

Do ponto de vista político e administrativo, a expansão marítima está relacionada a uma crise
dinástica em Portugal a qual colocou em lados opostos setores sociais que confrontam projetos
distintos. Um visava a expansão territorial dentro da própria península ibérica e outro grupo
preferia a expansão para novas terras além mar e todos os benefícios que ela poderia trazer
para os novos colonizadores. Prevalece como motivação principal para a expansão marítima o
caráter comercial e de uma empresa comercial realizada por particulares, mas com forte
participação estatal. Temos uma associação entre empreendedores particulares e o Estado.

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Todos eles buscam a conquista e a apropriação de novas terras e territórios à partir de zonas
coloniais com estruturas burocráticas e administrativas comandadas por esses colonizadores.
Além disso, todos eles contavam com demais privilégios concedidos pelo rei de Portugal para
garantir maiores vantagens nas novas terras.

A expansão marítima ocorreu progressivamente. A primeira fase ocorreu com a conquista de


ilhas atlânticas e terras africanas situadas na costa do continente africano. Lá Portugal
estabelece seus fundamentos acerca do que acreditava ser o colonialismo e começa a tirar
proveito dos lucros das novas conquistas. Essa expansão, além das motivações já ditas, tinha
motivações demográficas e de abastecimento da população. Os recursos em Portugal eram cada
vez mais escassos para sustentar uma população que crescia cada vez mais rápido. Era
necessário garantir novas fontes de abastecimento. Essa expansão então tem um caráter
especifico para o mercado interno português.

O modelo colonial português que prevalece nos séculos XV e XVI era o de feitorias, implantado
na costa africana e na américa portuguesa. Ele se baseia em pontos fortificados de comércio na
costa e a partir deles o comércio predominantemente de escambo era feito com a troca de
produtos europeus com produtos africanos. O tráfico interatlântico de escravos foi um fenômeno
que ganha impulso nos séculos XVI e XVII. Inicialmente o tráfico de escravos não era o centro
do comércio com a costa africana. No caso das ilhas atlânticas como a Ilha da Madeira, Portugal
implanta um sistema distinto daqueles de feitorias estabelecendo um sistema de produção de
bens tropicais para o comércio europeu. Essa estrutura foi muito mais complexa do que o sistema
de feitorias.

O segundo estágio da expansão marítima culmina na chegada dos portugueses à Índia, Oceania,
China e Japão. A presença portuguesa na costa desses países foi estabelecida sob o regime de
feitorias.

O terceiro estágio da expansão marítima culmina na chegada dos portugueses à costa brasileira
(na América). Assim temos o início do império colonial português no mundo. A constituição desse
império criou estruturas funcionais e administrativas indispensáveis para a manutenção e
conservação das novas áreas além de garantir a exploração e extração de produtos oriundos

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das colônias. Tais estruturas mutáveis que sofreram alterações ao longo dos séculos XV, XVI,
XVII e XVIII. A história da administração colonial portuguesa é bastante rica e flexível associada
a mudanças de caráter, mudanças políticas e mudanças nas relações econômicas dentro do
próprio continente europeu. Constantemente novas estruturas administrativas eram criadas
para refletir a nova realidade referente às mudanças ao longo do tempo que ocorriam dentro do
estado português. O âmbito dessas estruturas converge para o monopólio estatal e particular.
O foco é garantir a exclusividade de Portugal às atividades e relações comerciais dentro do
império colonial.

No que tange o continente africano, a presença portuguesa manteve as mesmas características


ao longo do tempo. Lá Portugal procurou manter, renovar e ampliar a espoliação do continente
africano, uso intenso da violência sob a população nativa, ampliação e conquista de novos
territórios (a expansão de Portugal foi progressiva da costa ocidental para a costa oriental do
continente africano), continuação e renovação da ideologia colonizadora sustentada por
pressupostos de caráter raciais, civilizatórios e totalmente etnocêntricos com intenso racismo
que marca as relações sociais dentro do continente. A escravidão já existia na África antes
mesmo dos europeus chegarem nesse continente. Apesar disso, suas características eram bem
diferentes. Ela possuía outra natureza e outra dimensão. A escravidão moderna se difere
bastante da escravidão que já existia e a primeira trouxe para a África fortes modificações e
consequências sociais para a população nativa.

A colonização da América Portuguesa possuiu fases. A primeira delas é conhecida como período
pré-colonial em que não existia estruturas administrativas, mas marcada por um processo inicial
de centralização para garantir a presença mais sólida de Portugal no novo território. O sistema
de feitorias é instalado nessa fase e dura até o século XVI. Inicialmente os portugueses
instalaram feitorias pois o foco inicial era nas rotas comerciais para a Índia enquanto a América
Portuguesa ficou em segundo plano. No período pré-colonial predominou o extrativismo,
principalmente do pau-brasil. O sistema de feitorias significa ênfase na circulação de mercadorias
e de bens para o comercio português. Isso ajudou ao desenvolvimento de um capitalismo
comercial para a época. Nesse período histórico e no início do século XVI temos a consolidação
de um modelo e um tipo de mercantilismo que será a política econômica correspondente a época.
Cada país colonizador europeu trabalhou com o mercantilismo em distintas formas. No caso
português o mercantilismo diferiu de países como Inglaterra e Holanda. Essa política econômica

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pressupõe o monopólio comercial com a ideia de exclusivo metropolitano e domínio com


exploração apenas da metrópole sobre as novas terras. A relação com outras metrópoles era
bem restrita e nunca rompia a exclusividade comercial da metrópole com suas colônias e limites
do império. Monopólios sempre irão pressupor estruturas administrativas e militares que os
sustentem assegurando a exclusividade e impondo um acesso restrito às riquezas naturais e
produções coloniais. Esse aparato militar precisa estar sempre associado à empresa colonial e
ao processo de colonização principalmente na sua fase inicial de implantação, divisão e
conquista. Outro dado importante é o fato de que a empresa colonial é de elevado custo e risco.
Ela precisa de mecanismos que compensem esses riscos resumidos em riscos da navegação
marítima, riscos com as populações originais e riscos com a disputas intercoloniais entre as
potências europeias. Devido a isso a empresa colonial associava empreendedores particulares e
o Estado para que houvesse a garantia de mobilização de recursos elevados que cobrissem todos
os riscos e garantissem a expansão marítima comercial.

Ainda no século XVI temos a primeira crise do império colonial português no oriente em que
Portugal muda a sua política colonial voltando-se para a América Portuguesa. Essa mudança tem
o objetivo de assegurar a presença portuguesa na América ameaçada pela concorrência francesa
que se estabelece com a intenção de criar também colônias na área. Além disso, Portugal volta-
se para a América Portuguesa com o intuito de intensificar a exploração colonial que garantisse
retornos econômicos. A partir de 1530 temos a efetivação da colonização como sistema. Para
tal, era necessárias estruturas administrativas, funcionais, militares e produtivas que
permitissem a constituição de um sistema colonial para a exploração. No caso da América
Portuguesa essas estruturas não eram originais já que Portugal teve experiências anteriores em
outras áreas coloniais como nas ilhas atlânticas portuguesas de Açores, Cabo Verde e na Ilha da
Madeira. As estruturas coloniais nessas ilhas foram transplantadas para a América Portuguesa.
Essas estruturas compreendiam uma distribuição de terras sob o sistema de sesmarias. Não se
trata de uma inovação, mas sim uma transplantação do que Portugal já fazia em outras colônias.
Até meados do século XVI a América Portuguesa já estava dividida em terras concedidas a
Capitães Donatários com suas capitanias hereditárias em que o Rei fornecia benefícios e
privilégios a esses capitães. Tais benefícios eram administrativos, militares, econômicos e
extrativos. Portugal avançou primeiro do que outros países na montagem de sistemas coloniais
laboratórios para suas empresas coloniais.

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A partir da terceira década do século XVI que efetivamente começa a se produzir, de forma
crescente e irreversível, bens comerciais para o continente europeu. Aqui não temos mais
somente a extração, mas sim a produção de produtos. Essa produção se concentra no açúcar e
Portugal consegue dominar o comércio internacional de açúcar por dois séculos, inicialmente
pela Ilha da Madeira e posteriormente pelo Brasil entre meados do século XV até meados do
século XVII. A produção colonial requeria financiamento, técnicas, mão-de-obra escrava
(inicialmente indígena e posteriormente africana), circuitos comerciais de inserção da produção
em zonas de consumo europeias além da solução de problemas relacionados às estruturas
produtivas. Todas essas questões já existiam, mas foram transplantadas para uma nova área
de produção que foi o Brasil.

A questão fundiária na América Portuguesa se fez através da transplantação das sesmarias. Essa
distribuição de terras tem origens medievais. As concessões ocorriam com acordos entre os
empreendedores e o Estado. As sesmarias criavam oportunidades para produção e incentivava
a concentração fundiária e monopolização da terra. Esse processo foi irreversível e está na raiz
da nossa atual constituição fundiária que herdou historicamente a concentração fundiária
provocada pelo regime de sesmarias. A monopolização precoce das terras para a produção
colonial revela um caráter assimétrico e concentrador que marca a nossa estrutura fundiária
desde sempre. A distribuição de sesmarias era permeável de condicionalidades sempre existindo
uma carta de sesmarias com condições a serem realizadas. As condicionalidades eram
diferentes, pequenas e não de muita importância. Sesmaria não se trata de um tipo de
propriedade, mas sim de concessão de terras. Propriedades teremos apenas no século XIX.

O sistema de capitanias hereditárias perdura durante um período curto. Em meados do século


XVI há um movimento que visa uma centralização política-administrativa e constituição de
governos gerais que prevalecem do século XVI até a União Ibérica. Essa centralização se
relaciona com o êxito da fórmula anteriormente aplicada em outras coloniais e se relaciona com
as ameaças internas e externas enfrentadas por Portugal para garantir a colonização.
Inicialmente ela enfrentava problemas com a presença francesa na costa do Brasil e
internamente haviam ameaças referentes à resistência indígena.

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A montagem dos governos gerais representa a segunda mudança das estruturas administrativas
de Portugal para a colônia. Ouvidorias, provedorias e outras instituições foram criadas e
perduraram durante todo o período colonial. Portugal, em meados do século XVI, estimula
atividade produtiva ligada a agricultura e extração, principalmente de açúcar e outros produtos.
Essa ação estatal mais incisiva repercute no crescimento progressivo e irreversível do tráfico
internacional de escravos, apesar de no século XVI predominar a mão-de-obra indígena.
Câmaras e conselhos municipais são criados e foram fundamentais para a administração
portuguesa no período colonial. Uma série de prorrogativas eram criadas por tais instituições
para garantir a justiça, administração financeira, obras públicas e organização de mercados
urbanos. Elas serão por excelência o lugar onde os colonos exerciam sua influência, ou seja, as
câmaras foram apropriadas, controladas e dominadas pela elite colonial que era originária das
atividades agrícolas que produziam bens primários que seriam comercializados na Europa. As
câmaras eram a base da administração colonial e tinham funções amplas, complexas que se
alteravam ao longo do tempo colonial. No âmbito das câmaras é que temos as duas faces que
justificam a posição de controle e dominação da elite colonial associada a agro exportação. Uma
delas é o controle das funções públicas em um primeiro momento e em um segundo momento
ao longo do período colonial temos uma diminuição das prerrogativas das câmaras.

Os indígenas brasileiros ocupavam quase todo o território antes da presença portuguesa. São
povos pré-cabralianos com características muito variadas que se ocupavam de atividades
agrícolas itinerantes com práticas artísticas e diversidade linguística. Além disso eram
predominantemente nômades e as técnicas agrícolas eram as mesmas utilizadas pelos
portugueses. Em geral irão se opor à escravização e a metrópole irá agir de formas variadas aos
índios ao longo do tempo. A intenção inicial da coroa portuguesa era civilizar, catequisar,
aculturar as populações indígenas. Na prática o que se revelou foi uma intensa repressão diante
da forte resistência indígena à colonização. Guerras de extermínio eram comuns e à medida que
os portugueses adentravam ao território brasileiro, mais os índios migravam para o interior. A
Igreja tem uma participação decisiva no processo de justificação da civilização, catequização e
aculturamento das populações indígenas. Ela também legitima a escravidão africana e a apoia.

No final do século XVI ocorre uma vacância do trono português e o surgimento da União Ibérica
entre 1580 a 1640 onde Portugal e Espanha fundem suas coroas. Há uma série de consequências
para o colonialismo dos dois países diante dessa união. As duas coroas se associam com

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expectativas portuguesas de se inserirem em zonas coloniais espanholas tendo acesso a


mercados de metais preciosos na América Espanhola além de outras expectativas econômicas.
Os resultados negativos da união foram significativos para a Portugal. O aparato administrativo
colonial foi mudado para se adaptar à união das duas coroas. Outra mudança importante e mais
significativa foi a constituição da presença portuguesa no interior do Brasil. Anteriormente os
portugueses se concentravam mais na costa do novo território. Progressivamente e de forma
irreversível os portugueses foram adentrando ao território já que o Tratado de Tordesilhas
perdeu a sua validade com a união. Portugueses foram para o norte e nordeste do atual Brasil
ocupando, utilizando e defendendo os novos territórios. A união das duas coroas representa o
alinhamento entre Portugal e Espanha, mas também um acirramento de conflitos entre as duas
potências da época. As determinações do rei espanhol Filipe vigoram durante todo o período da
União Ibérica. A união prejudicou a Holanda, já que esse país era o grande responsável pelo
refino do açúcar produzido nas colônias portuguesas e também inimiga do Rei Filipe da Espanha.
A união torna impossível que persista a posição de financiamento e refinamento do açúcar
português por parte da Holanda. A exclusão holandesa do processo resulta na ocupação direta
da Holanda no nordeste brasileiro e em regiões africanas portuguesas. Nesse período temos as
invasões e ocupações holandesas e todas as suas consequências. A partir daí os holandeses se
apropriam de todo o conhecimento necessário para a produção e processamento do açúcar e
após a união ibérica e com a expulsão dos holandeses do Brasil, Portugal sofreu várias
consequências com a concorrência holandesas nas Antilhas e perde o monopólio de produção
açucareira, apesar de ainda produzir e exportar consideráveis quantidades de açúcar sendo esse
produto o mais importante de todo o período colonial português.

A restauração portuguesa em 1640 no século XVII significou a criação se uma série de


instituições que visavam reestruturar o aparato burocrático na colônia. A União Ibérica significou
a crise permanente do colonialismo português no oriente. Portugal foi deslocado e afastado do
oriente que será predominantemente dominado pela Inglaterra e Holanda a partir da segunda
metade do século XVII. No contexto da restauração portuguesa e expulsão dos holandeses,
Portugal firma acordos importantes com a Inglaterra que duraram durante todo o período
colonial. Tais acordos garantiram proteção militar a Portugal e vantagens comerciais a
Inglaterra. Outra consequência importante desse contexto é que os tratados com a Inglaterra
abortam quaisquer tentativas de desenvolvimento de industrias manufatureiras em Portugal e
em suas colônias já que a Inglaterra supria todas as áreas com seus produtos graças aos acordos
comerciais. Essas foram derrotas políticas de Portugal que passou a ter forte dependência de

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produtos ingleses. Essa política de alianças possibilitou que benefícios da acumulação da


exploração colonial fossem drenados para fora de Portugal em direção à Inglaterra. Isso vale
também para o período da extração mineral.

O conselho ultramarino criado em 1642 por Portugal após a restauração estava incumbido de
tomar conta de todas as decisões de Portugal dentro da América Portuguesa definindo a política
colonial. Ele elaborava e executava tais políticas. Na segunda metade do século XVIII esse
conselho deixa de ter importância.

Outras reformas portuguesas do século XVII visavam mudar a política econômica portuguesa
com a criação de companhias comerciais nos moldes das inglesas e holandesas. Com a
descoberta de metais preciosos um novo ciclo econômico é iniciado.

A crise do império colonial português com a perda da hegemonia do açúcar, perda de territórios
no oriente, crise financeira e fiscal faz Portugal estimular o reconhecimento intenso para a busca
por alternativas econômicas para a colônia. Essa busca se traduz na procura de metais preciosos
que serão de fato encontradas no final do século XVII e início do século XVIII inaugurando um
novo período colonial no Brasil. Não era uma inovação pois em São Paulo, no século XVI, metais
preciosos em baixa quantidade já haviam sido encontrados.

Uma ideia equivocada sobre o território português na América é a de que existia uma livre
apropriação de terras na colônia. Isso é verdade se pensarmos na fronteira, mas nas áreas
apropriadas a mais tempo e que concentram o núcleo das atividades econômica (como o açúcar)
isso não aconteceu. Nessas últimas áreas houve uma ocupação precoce com utilização da terra
bem como sua venda e concessões. Várias pessoas arrendavam suas terras para outros, ou seja,
havia um mercado de terras nas zonas mais dinâmicas de forte adensamento populacional.
Nesse contexto existiam grandes proprietários, pequenos proprietários e pessoas com desejo de
ascensão social.

A população colonial era fortemente estratificada e a escravidão estava fortemente inserida na


estrutura social. Em última instância a existência da escravidão definia as perspectivas de

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mobilidade social nessa sociedade. Escravidão é diferente de escravismo. A escravidão é uma


instituição social e o escravismo é baseado no trabalho escravo. Pode haver escravidão sem
haver escravismo, mas não pode haver escravismo sem escravidão. A presença indígena não
pode ser desconsiderada já que os índios eram muito importantes em algumas áreas coloniais
como São Paulo e no norte/nordeste da colônia. O trabalho indígena livre o semi-compulsório
era predominante durante todo o período colonial. Entre os séculos XVI e XVII temos a
escravidão africana intensa nos demais territórios da colônia.

A composição demográfica da colônia era desequilibrada já que existia a migração voluntária de


mais homens do que mulheres e também existia a migração involuntária compulsória pelo tráfico
internacional de escravos. A colônia apresentava um desequilíbrio entre os sexos. Toda a
atividade economia do período colonial está relacionada ao tráfico de escravos.

Os padrões de reprodução da população escrava no Brasil são marcados pela incapacidade de


reprodução dessa população de forma vegetativa, ou seja, ela só crescia pela entrada de novos
escravos vindos da África. Relações entre raças surgiram com o tempo sendo responsáveis pela
diversidade que hoje temos. A mobilidade social era muito variada no tempo e no espaço. Ela
era muito mais significativa em zonas urbanas do que em zonas rurais e isso ajudava a distinguir
tais áreas.

Tratando agora do texto de Ciro Cardoso, ponto de partida leva em conta que por volta de 1750
temos uma sobreposição de marcos políticos, econômicos e administrativos na história colonial.
É o momento em que a configuração colonial se consolida por meio de tratados internacionais
que afirmarão o desenho territorial de hoje, resultado de uma série de disputas entre Espanha
e Portugal. Uma série de conflitos é gerada e a solução de todos eles só chegam a um século
depois. Outra mudança importante é a ascensão de Dom José I no trono de Portugal junto com
o Ministro Marquês de Pombal que representa uma mudança significativa na história colonial
portuguesa na América. Nesse momento se atinge o auge e declínio da economia aurífera além
da América Portuguesa se projetar, nesse período, como o centro do império português, tanto
em temos políticos quanto econômicos. Além disso houve uma clara integração do espaço
colonial durante o período apenas durante a economia aurífera. Sem ela nunca houve integração
espacial existindo um isolamento das economias regionais com baixa ou ausente integração.

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Uma série de mudanças no campo político administrativo impactou a colônia no período como a
criação do sistema de frotas do século XVII associado à dinamização do comércio colonial,
questionamento acerca da decadência e desestruturação das atividades agrícolas no mercado
interno e externo e, por fim, os espaços econômicos de Portugal na América possuíram um
dinamismo muito variado com a ausência de integração e isolamento econômico.

A era de Pombal que perdura durante a era de Dom José I é marcada por uma série de
características que levam em conta uma modernização do aparato colonial mesclando
mercantilismo tradicional e iluminismo. As reformas pombalinas eram parecidas com as reformas
bourbônicas espanholas. Essas mudanças na administração colonial portuguesa nunca
prescindiram as elites coloniais, dando maior controle da terra a ela. As reformas pombalinas
impossibilitavam a substituição da elite agrária pela elite portuguesa e isso diferencia as
reformas de Pombal das reformas bourbônicas. Essas reformas foram muito amplas e com
resultados díspares. Elas foram exitosas no extremo norte, nordeste e Amazônia já que essa
porção da colônia se integra em circuitos mercantis para o abastecimento do comércio europeu
além da escravidão africana ganhar peso nessas regiões. Jesuítas foram expulsos dessas áreas
e como a agricultura em outras áreas estava declinando, essas regiões tiveram vantagens
durante o período. A expulsão dos jesuítas permitia uma maior exploração da área e de
indígenas. Os conflitos com a Igreja eram históricos entre colonos e jesuítas. Com a expulsão
desses, as terras ocupadas pelos mesmos foram tomadas e distribuídas para particulares.

No que se refere às medidas voltadas para modernização e dinamização das atividades


agroexportadoras como o açúcar, os resultados são poucos significativos por ferirem os
interesses de produtores e comerciantes. Também tem pouco impacto as tentativas de
industrialização já que os tratados comerciais com a Inglaterra impediam qualquer
desenvolvimento.

Com a morde de Dom José I e a queda de Pombal com ascensão de Dona Maria I temos o último
período colonial propriamente dito entre 1777 e 1808 já que em 1808 a corte migra para o Brasil
dando novo reordenamento político e econômico para a colônia que posteriormente irá se tornar
independente em 1822. Esse período é marcado pelo renascimento agrícola associado ao
crescimento das atividades agrícolas no mercado externo e interno com a crise do colonialismo

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europeu em outros locais do mundo como a independência das treze colônias, do Haiti e
desestruturação em outras áreas coloniais. Além desses fatores temos também a redução da
concorrência intra-colonial. Por fim, a independência das treze colônias representa uma fratura
na predominância europeia no novo mundo e abre processos relativos a independência e os
intensifica. Isso afeta Portugal e em 1822 o Brasil se torna independente.

2. AULA 2 – A ECONOMIA AÇUCAREIRA (10/02/2014)

A economia nordestina no período colonial se restringia na transformação da cana-de-açúcar.


Entre as atividades voltadas para o mercado externo, esse produto ocupava uma posição
importante. Podemos dizer que a economia do açúcar se situava no núcleo dinâmico do nordeste
colonial e depois também se propagou para outras regiões do Brasil colonial.

De forma introdutória devemos compreender a economia do açúcar. Primeiramente, o sistema


colonial estabeleceu, com a sua dinâmica, a primazia da dominação do capital mercantil sobre a
economia colonial. Essa dominação se dá privilegiando mercados externos. Se separássemos as
atividades econômicas da colônia, vemos que todas elas em sua maioria privilegiavam mercados
europeus. A formação do espaço econômico do nordeste não foi linear e nem homogêneo. Não
se trata de um espaço que guarda características comuns em toda a sua extensão. Outro dado
importante é que não podemos pensar a economia do açúcar se não como um complexo
açucareiro. Associado a essa atividade econômica está a não restrição à transformação da cana,
mas sim a presença de uma série de outras atividades integráveis à produção e o comércio do
açúcar. O mesmo vale para o café no século XIX. Essa atividade do período colonial estava
condicionada à presença da escravidão que guiava a estrutura produtiva do açúcar. Quando
pensamos no nordeste como uma região, macrorregião ou espaço econômico, temos um
contraste em relação a suas terras e a sua evolução histórica já que as diferenças já existentes
na própria topografia do nordeste já contribuíam para essa assimetria em relação ao próprio
nordeste e ao restante do país. Tivemos então assimetrias internas sociais e econômicas, bem
como assimetrias externas em relação à região centro-sul. Compreender a economia do nordeste
é indispensável para entender os problemas que até hoje vemos na região.

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No início do processo de apropriação do território colonial temos o extrativismo vegetal como


atividade principal. Além disso havia uma tentativa de integrar o território ao domínio de
Portugal. As atividades extrativistas persistem e ganham importância progressiva com o tempo,
não sendo prejudicadas pela economia do açúcar. A economia extrativista se estabeleceu sobre
o sistema de feitorias que não pressupunham a instalação de estruturas produtivas, mas em
alguns casos desenvolveu-se a prática do escambo com populações nativas.

A diversidade geográfica e econômica do nordeste precisa ser entendida para compreendermos


a economia canavieira. O nordeste compreende três ecossistemas bem distintos e a eles
correspondem formas específicas de exploração econômica e sistemas agrários distintos. Do
interior para o litoral temos a Zona da Mata que compreende a costa nordestina sendo uma área
variável em sua extensão, mas com uma faixa homogênea de floresta tropical em que se
estabelecerão os núcleos dominantes da atividade econômica do açúcar, tabaco e produção para
o mercado interno para abastecimento. O trabalho escravo predomina nessa faixa e a ocupação
colonial foi bem espaçada e nunca foi homogênea. Na sequência, a segunda faixa compreende
o Agreste com uma extensão variável e de transição, guardando características naturais
transitórias. Nessa área era produzido algodão para o mercado externo e a pecuária realizada
para o mercado interno. A escravidão está presente no Agreste, assim como o trabalho livre. A
estrutura fundiária é menos concentrada do que na Zona da Mata. Atividades subsidiárias e
complementares ao açúcar se desenvolvem no Agreste sendo ele parte do complexo açucareiro.
A terceira faixa nordestina é o Sertão sendo ela a mais extensa e com características peculiares.
O grande Sertão do nordeste é o Grande Sertão da pecuária extensiva não mais voltada para o
mercado interno. Predomina-se o trabalho livre, mas havia a utilização de escravos na pecuária
extensiva. Se na Zona da Mata o movimento de expansão da fronteira agrícola leva a um relativo
fechamento precoce da fronteira, no caso do Agreste isso ocorre de forma mais lenta e no Sertão
a fronteira não se fecha durante o período colonial. Quando falamos de fechamento de fronteira
não estamos falando do fechamento de toda a fronteira, mas sim de espaços apropriados para
ocupação e adensamento populacional. No Sertão havia uma imensa disponibilidade de terra.

Se considerarmos o conjunto da América e todos os seus espaços canavieiros, o nordeste


brasileiro foi o espaço canavieiro mais importante pela sua formação mais antiga e sua posição
hegemônica desde o século XVI. Algumas características serão invariáveis à produção do açúcar
em qualquer zona de colonização europeia na América. Alguns atributos foram invariáveis ao

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tempo como a presença do latifúndio, escravidão convertida em escravismo, especialização à


monocultura e produção direcionada a mercados externos. O grande capital mercantil europeu
comandava todo o processo e a maior parte do excedente era capturada por esse capital
mercantil e tirado da colônia.

A cana-de-açúcar é originária do oriente, particularmente do centro e sudeste asiáticos que


progressivamente ao longo dos séculos foi difundida gradualmente para zonas ocidentais. Nesse
processo tivemos três grandes estágios: A cana sendo produzida em espaços europeus nas ilhas
mediterrâneas e no sul da Europa em pequena escala, a expansão da cana para as ilhas
portuguesas do atlântico como a Ilha da Madeira que projeta a cana para fora do continente
Europeu e, por fim, a chegada da cana à América para ser amplamente produzida desde o sul
do atual Estados Unidos até países atuais como Paraguai, Argentina e Uruguai. Nesse movimento
do oriente para o ocidente, a atividade canavieira assume as mesmas características que
predominam na época moderna colonial (latifúndio, escravidão, monocultura e produção para
mercados externos) sendo eles constantes ao longo do tempo assim como a forte presença do
capital mercantil já que não é o produtor que se apropria do excedente, mas sim esse capital.

Portugal, primeiro com base na Ilha da Madeira e depois com a América, controla a produção de
açúcar por praticamente 200 anos. Essa produção deu a Portugal a hegemonia no mercado
internacional do açúcar. Nos 100 primeiros anos a Ilha da Madeira foi importante e nos próximos
100 anos a América foi importante. Podemos reafirmar que se a estrutura da produção canavieira
é constante no tempo, o pioneirismo de Portugal na Ilha da Madeira com o açúcar permite que
esse país mantenha essa hegemonia na América. Apesar disso, o primeiro espaço canavieiro na
América foi em São Domingos no atual Haiti com a Espanha que, ao sul da península ibérica, já
cultivava essa planta. Porém, com a mineração, esse país deixou de priorizar a economia
açucareira. São Domingo só retorna a produzir açúcar já no século XVII sob colonização francesa.
No caso do Brasil, a implantação dos engenhos e o peso do açúcar em colônias portuguesas só
começa em meados do século XVI quando a produção canavieira em São Domingos já perdeu
espaço no mercado internacional devido ao interesse espanhol pela mineração.

Os traços gerais que favorecem a implantação, rápida disseminação e que permitem Portugal
dominar o mercado açucareiro com a América por 100 anos são: As vantagens de ter praticado

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a monocultura de açúcar nas Ilhas Atlânticas como a Ilha da Madeira que foi considerada um
laboratório para a produção açucareira mais tarde na América e o fato do açúcar ser uma
atividade bastante vantajosa à atividade colônia.

O capital que financiou a montagem de engenhos não foram os mesmos ao longo do período
colonial. Progressivamente houve um declínio do capital europeu no processo e aumento do
capital colonial. Paralelo ao financiamento, o açúcar colonial português é refinado e distribuído
na Europa pelo capital holandês e não português. Isso significa que os estágios mais lucrativos
da economia açucareira não estavam inseridos em Portugal.

Ao contrário da Ilha da Madeira que é uma ilha pequena, vulcânica e com poucas terras, a
América Portuguesa possuía uma vasta extensão territorial permitindo uma constante expansão
da fronteira agrícola. Ainda que essa fronteira se feche em alguns momentos, as fronteiras
internas às próprias unidades produtivas já estabelecidas continuavam a aumentar. Além disso,
na América o solo era fértil, a rede hídrica era favorável à produção de energia hidráulica e
navegação até os portos, regime pluviométrico adequado ao ciclo biológico da cana, relevo
favorável ao contrário da Ilha da Madeira, muita madeira disponível para combustível de
fornalhas para o engenho (apesar dessa madeira ter custos, principalmente quando se tornava
escassa). Temos então um padrão de expansão dessa atividade que, a rigor, é o que vigora
desde a Idade Médica nas zonas mediterrâneas de maneira extensiva. Cada vez mais terras e
mais trabalhadores eram incorporados à atividade.

O Estado português preside a distribuição de terras em sesmarias favorecendo o latifúndio e a


concentração de capital mercantil para potencializar a capacidade de produção, especialização e
criação de atividades complementares, contribuindo para a formação do complexo açucareiro.

A base técnica para a produção do açúcar foi inteiramente importada que havia sido aperfeiçoada
suportando inovações que aumentavam a produção frente as demais áreas concorrentes.
Portugal estava em um estado técnico mais avançado do que os seus concorrentes.

A escravidão já existia na produção de açúcar no mediterrâneo e não será diferente no caso

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brasileiro. A diferença é que aqui a escravidão assumiu hegemonia em uma escala histórica
inédita dentro da produção açucareira. Essa foi uma inovação dada a sua dimensão. Portugal
então saiu na frente. Estava também presente na costa africana tendo acesso a mão-de-obra
africana a custos baixos e com oferta abundante.

Devemos também compreender a economia açucareira ao longo do tempo. O capital mercantil


estava amplamente presente e as determinações externas definiam os períodos da economia
açucareira. Os preços do açúcar no mercado internacional dividem esses períodos:

1 - Compreende um século se estendendo 1550 a 1650 onde houve a fase de implantação e de


rápido desenvolvimento da atividade açucareira. Nesse período Portugal protegia e incentivava
a expansão da atividade e os preços do açúcar aumentavam. O Estado português possuía o
monopólio da atividade e no final desse período temos a ocupação do nordeste pelos holandeses.

2 - O segundo período se estende de 1650 a 1690 sendo caracterizado pelo oposto do primeiro
período já que houve declínio dos preços e da lucratividade da atividade açucareira. Nesse
período temos a expulsão dos holandeses do nordeste e a implantação de concorrência antilhana
ao açúcar brasileiro levando à perda do monopólio de Portugal diante da atividade. Além disso
o período coincide com a crise geral portuguesa em seu império. Há uma recuperação no final
do século XVII e início do século XVIII, mas não foi muito importante. Foi um período de maior
depressão da atividade em que houve uma estagnação relativa devido ao declínio rígido de
expansão da atividade com aumento grande dos custos de produção e também com concorrência
interna dentro da colônia pelos meios de produção. A economia do ouro elevou o preço dos
escravos elevando o custo de se produzir o açúcar e isso também contribuiu para a crise. O
preço do açúcar no mercado internacional estava declinando e as reformas pombalinas não
alcançam êxito em recuperar atividade.

3 - O último período abre-se de 1770 até o fim do período colonial e foi caracterizado pela
aceleração da expansão da produção com novas unidades produtivas, favorecimento da
produção brasileira devido à crise do colonialismo inglês e francês que fez a produção colonial
desses dois países entrarem em colapso permitindo a produção portuguesa assumir os seus
postos (o açúcar de beterraba depois desbanca o açúcar português) e a crise da mineração que

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reduziu o custo para a aquisição de escravos ajudando a economia açucareira. Essa fase também
pode ser chamada de renascimento agrícola voltadas para o mercado externo. Outra grande
mudança na produção para o mercado externo está no surgimento de dois novos espaços
açucareiros no Brasil como o norte fluminense e planalto paulista. Ambas áreas superaram a
produção nordestina nesse período.

Para entendermos o complexo açucareiro devemos estudar as atividades complementares. Há


dois grandes setores na economia açucareira: o setor agrícola e o setor industrial. O primeiro
compreende o cultivo da cana e o segundo responde pela transformação do caldo da cana em
açúcar. Se as técnicas associadas à produção da matéria-prima e do seu processamento no setor
agrícola não se alteraram ao longo do tempo, as técnicas relacionadas ao setor industrial são
muito mais complexas e evoluíram ao longo do tempo.

As etapas de transformação da cana são: extração da cana com sua moagem sendo feita com
várias máquinas e forças motrizes, etc. (setor industrial que veio evoluindo com o tempo),
obtenção do caldo e acondicionamento em reservatórios, transporte do reservatório para os
recipientes de cozimento e, por fim, cozimento do caldo reduzindo-o para tirar o excesso de
água. Feito isso o açúcar é transportando por uma série de recipientes até ser purgado e adquirir
aspecto cristalizado no interior das formas. Assim tira-se o açúcar das formas para ser
acondicionado em outros recipientes para a exportação. Toda essa atividade era bastante
complexa e não existia no período colonial nenhuma outra atividade agroindustrial que rivaliza
em termos de complexidade com a produção de açúcar. Os relatos da época dão a dimensão
dessa complexidade e da divisão de trabalho complexa que existia dentro da população escrava
(divisão de sexo, de aculturação, compreensão do processo, experiência, etc.). Se no início o
açúcar contava com trabalho livre, posteriormente a escravidão predominou durante todo o
processo sendo auxiliada pela grande presença de máquinas.

Produzir açúcar exige atividades complementares como uma grande quantidade de animais
bovinos para alimentar escravos e para gerar força motriz nos engenhos e assim promover a
moagem da cana. Os animais também eram utilizados para transporte. Os engenhos também
precisavam de madeira e a sua extração era muito importante. Com o passar do tempo a
madeira das unidades produtivas se esgotaram e foi necessário buscá-la de outras fontes. A

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produção de alimentos como farinha de mandioca também constitui uma atividade


complementar para alimentação. Um engenho consome centenas de formas de barro por ano
para a purga do açúcar sendo a sua produção uma atividade complementar. O abastecimento
de escravos também era uma atividade complementar já que a população escrava só crescia
pelo tráfico. Não existia crescimento vegetativo entre a população escrava já que morriam mais
escravos do que nasciam. Indivíduos que prestam serviços para o engenho também entram na
gama de atividades complementares.

A produção de açúcar no nordeste colonial foi praticamente ininterrupta. Hoje a safra de açúcar
perdura em média 6 meses sendo uma atividade sazonal. Na época colonial a produção ocorria
no ano inteiro e só paravam quando os índices pluviométricos eram elevados, o transporte da
madeira era complicado ou a baixa disponibilidade de água que gerava cana de baixa qualidade.
A produção ininterrupta exigia um perfeito dimensionamento de uma série de fatores integrados
à produção como a cana (matéria-prima). Era necessário tê-la para se produzir o ano inteiro.
Era necessário ter escravos continuamente para trabalhar sem parar na produção todos os dias
do ano. Não existia então safras no período colonial. A variação das conjunturas impunha ao
engenho a transferência de fatores produtivos para atividades complementares como o caso de
escravos que cultivavam cana e também alimentos para evitar o custo de se adquirir alimentos
fora do engenho. As técnicas agrícolas, por estarem estagnadas ao longo do tempo, são as que
exigiam maior força e empenho. No interior do engenho havia especialização, divisão do trabalho
e adequação de escravos segundo suas habilidades e adequações. Tomado o período colonial
como um todo, podemos dizer que houve estagnação industrial relativa, mas duas inovações
foram muito importantes. A primeira delas é o surgimento do primeiro equipamento concebido
especificamente para a extração da cana. Pela primeira vez tem-se uma máquina de madeira
para extrair o caldo da cana (engenho de pau). Essa inovação técnica terá uma série de
consequências como forte redução do custo do trabalho na extração da cana e elevado ganho
de produtividade e capacidade extrativa. A segunda grande inovação, também no século XVII
assim como a primeira, é o surgimento das fornalhas que permitiam o uso do bagaço da cana
em detrimento da madeira. O problema da escassez de madeira e o seu elevado custo de
importação e transporte foi resolvido com a fornalha que permitia o uso do bagaço da cana. O
cozimento do caldo de cana visando reduzir o excesso de água e limpá-lo para iniciar o processo
de cristalização. Para tanto, houve também inovações no processo de cozimento.

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Durante o século XVI e início do século XVII a mão-de-obra predominante era a indígena já que
possuía baixo custo. Progressivamente esse custo foi aumentando já que a oferta da mão-de-
obra indígena declinou bastante devido aos ataques de colonizadores e devido a interiorização
dos índios que constantemente fugiram para dentro do território para fugir dos europeus. Esses
fatores contribuíram para a transição de mão-de-obra indígena para a africana. Aspectos
culturais também contribuíram para a transição já que os índios viviam para a sua subsistência
e não se adaptavam ao trabalho forçado. Outro fator que tem peso na transição é a oposição
jesuítica à escravização indígena. Fatores epidemiológicos foram também igualmente
importantes ao reduzir a oferta de mão-de-obra indígena. A falta de índios para o trabalho
forçado ocasionou o aumento de seus preços o que promoveu também a transição.

O trabalho no engenho era predominantemente escravo. A tendência secular é o declínio do uso


de mão-de-obra livre na produção de cana e o crescente uso de escravos de forma a diminuir
os custos de produção. Escravos eram submetidos a violência e vigilância. Apesar disso, eles
produziam algumas atividades de subsistência recebendo a brecha camponesa para cultivar
alimentos. Essas atividades ocorriam em lotes de terras específicas destinadas a famílias de
escravos e, quando estes não trabalhavam no engenho, podiam cultivar para se manterem. O
excedente poderia ser utilizado para que o escravo pudesse comprar a sua liberdade. Não
podemos entender a escravidão sem pensar na violência e na vigilância. Uma série de
mecanismos de cooptação era utilizada sobre os escravos. A cooperação dos escravos era
estimulada pelos senhores para que a produção ocorresse sem problemas.

A rentabilidade da produção açucareira está longe de um consenso. Custos de produção, grau


de endividamento estrutural do engenho, fatores naturais que incidem sobre a produção e há os
preços do produto no mercado bem como a sua demanda. São esses fatores que determinam a
rentabilidade da economia açucareira. A historiografia debate sobre esses aspectos. Se o retorno
pode ser variável para os produtores, é constante a apropriação de qualquer excedente pelo
capital mercantil.

Os senhores de engenho tinham a unidade industrial capaz de processar a cana. Eles a


produziam e a processavam. Lavradores possuíam aspirações sociais e sua relação com os
senhores de engenho era conflituosa em seus interesses já que os senhores queriam manter os

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lavradores nas suas condições originais. Independente da terra ser própria ou não, a renda da
terra era paga para produções e processamento de cana feitas em áreas arrendadas.

As principais camadas da sociedade açucareira eram compostas de senhores de engenho,


lavradores de cana e escravos. Há camadas intermediárias associadas a prestação de serviços,
artífices e pessoas que exerciam atividades para o mercado interno. Além desses podemos
também citar a elite mercantil concentrada nos portos e associadas aos negócios do açúcar sem
participar do seu processamento e a Igreja que atua fornecendo crédito e financiamento para a
produção de açúcar.

No nordeste brasileiro a produção se concentrava na Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco,


Paraíba e Maranhão. No sudeste o açúcar era produzido no norte fluminense (Campo dos
Goitacazes) e no planalto paulista (São Paulo, Campinas, Sorocaba, Jundiaí). Todos esses
espaços produziam açúcar para o mercado externo. Os outros espaços canavieiros da América
são as Antilhas francesas, inglesas, holandesas, colônias dinamarquesas, Florida espanhola e
posteriormente americana. Na zona colonial espanhola não havia produção açucareira
importante para mercado externo. A característica geral de todos esses espaços apresenta a
mesma estrutura de sempre (latifúndio, escravidão, monocultura e produção para o mercado
externo além da presença do capital mercantil). A esmagadora parte do excedente não fica com
os produtores, mas é apropriada pelo capital mercantil.

O outro paradigma de produção, cultivo e transformação da cana é o do mercado interno. Houve


difusão e crescimento igualmente constante para a produção de açúcar cristalizado em blocos
(rapadura) e destilados (cachaça). Esse paradigma apresenta características que se opõem ao
paradigma dos mercados externos. Os que se voltam para o mercado interno têm importância
em Minas Gerais e na primeira década do Brasil independente é a área mais importante na
produção de açúcar voltada para o mercado externo. O açúcar e seus derivados estava
inteiramente presente na dieta alimentar das pessoas. Áreas voltadas para o mercado interno
não sofriam influência do capital mercantil externo e não se especializavam na produção de
açúcar. É constante a produção de destilados nessas áreas que possuíam o cultivo sazonal da
cana, diferentemente das áreas com produção voltada ao mercado externo, mas também com
monocultura associada a outras atividades e cultivos. A produção também era artesanal (não

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haviam manufaturas). A estrutura e crescimento do mercado interno foi muito importante para
o período colonial, sendo ele bastante dinâmico, até mais do que se pensava.

3. AULA 3 – A ECONOMIA DO OURO (12/02/2014)

Em primeiro lugar é preciso contextualizar o período histórico que tem origem a economia do
ouro. Na segunda metade do século XVII temos a crise da economia açucareira como já
anteriormente discutido, juntamente com uma crise do colonialismo português no oriente. Essa
crise geral incide sobre a principal atividade desenvolvida pelo império (produção de açúcar)
além de comprometer a presença portuguesa nessa faixa do globo. Tal crise geral repercute nas
rendas tendo uma dimensão fiscal importante. O recuo nas receitas do estado desencadeia uma
série de medidas com vista a promover a recuperação econômica e, sobretudo, a constituição
de alternativas para as atividades em crise e ao colapso da crise imperial portuguesa.

Uma das respostas para resolver a crise foi a busca de alternativas econômicas visando a
pesquisa de ocorrências minerais, particularmente metais preciosos, que pudessem formar uma
economia extrativista. A expectativa era de que tais metais estivessem no interior da América
portuguesa. Essa expectativa se fundou em dois fatos: primeiro a presença prévia de
descobertas, no início do século XVI, de ocorrências minerais de pequena importância no que
hoje é o estado de São Paulo. Desde o século XVI a mineração de ouro se inicia na América
Portuguesa constituindo uma experiência em se localizar e explorar as jazidas minerais,
principalmente o ouro aluvional. O segundo fator que impulsiona as prospecções que
pressupõem a interiorização do território em busca de metais precisos é a constituição de um
imaginário/expectativa da existência de grandes riquezas minerais no Brasil. Esse imaginário
existe desde o início da colonização e foi alimentado pelas descobertas espanholas na América.

Quais são os indivíduos qualificados para as buscas adversas no interior do continente e aptos a
identificar as jazidas? Foram os paulistas, já que há mais de um século já realizam as buscas no
interior do continente para o apresamento de índios para mão-de-obra escrava no litoral. Devido
a isso os paulistas conseguiam viver por muito tempo no interior da colônia sob condições

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adversas por já possuírem experiências na área. Os fatores adversos eram muitos como doenças
típicas do interior e diversidade resultante da hostilidade de grupos indígenas.

No final do século XVII e início do século XVIII as prospecções obtém sucesso achando jazidas
minerais em vários pontos do interior brasileiro. Tais jazidas estavam fortemente concentradas
no território que hoje corresponde ao estado de Minas Gerais.

É impossível discutir a economia do ouro sem discutir aspectos de Minas Gerais. Essa região era
e é um território menor do que a macrorregião nordestina; porém, mais diversos do que esta.
Essa diversidade será mais predominante na interiorização do território do que no nordeste. A
diversidade demográfica, econômica, social será constante dentro da nossa história. Há um
consenso de que é impossível abordar a entidade político administrativa e geográfica de forma
unitária e homogênea. A diversidade e desigualdade já existia naquela região e existe até os
dias de hoje sendo uma constante na nossa história. Essas desigualdades e diversidades impõem
ao historiador e ao economista a necessidade de considerar o território como sendo
regionalizado. Na base da desigualdade e da diversidade está uma geografia complexa.

No século XVIII já existia a percepção da diversidade do território brasileiro e de Minas Gerais.


De um lado temos várias matas densas e do outro sertões e campos menos densos. Matas e
campos, matas e sertões e demais visões binárias estão presentes no discurso do colonizador
desde o início. O litoral era coberto pela Mata Atlântica que não mais existe hoje. Transpondo as
matas e obstáculos geográficos como a Serra da Mantiqueira encontramos os campos de cerrado
ainda que matas e campos conheçam variações importantes a configurar ecossistemas
relevantes. Há uma distinção muito clara que incide sobre a exploração do território: matas e
campos.

A topografia de Minas Gerais apresenta variações importantes. O centro-sul brasileiro apresenta


um relevo muito acidentado e fora dele há uma diminuição desse relevo acidentado e indo para
o oeste temos o planalto central brasileiro. Essas diferenças geográficas são importantes pois
são nelas que as ocorrências minerais foram descobertas. Além disso há uma série de cadeias
de montanhas e serras demarcadoras das bacias hidrográficas presentes no território mineiro e
limitadoras do território. Em Minas Gerais estão um grande conjunto de bacias hidrográficas que

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definem a ocupação do território e a navegação pluvial, mas também a definir obstáculos e


favorecer a utilização de energia hidráulica. Hoje Minas Gerais abriga todas as bacias
hidrográficas mais importantes e dinâmicas do país (Paraíba do Sul, Doce, Jequitinhonha,
Mucurí, São Francisco, Paraná). Apenas a bacia amazônica não incide no território mineiro. Minas
Gerais apresenta um relevo capilaridade por essas bacias. Se combinarmos todos esses fatores
junto com os associados com o clima, relevo, agricultura, minerais, etc., temos uma
configuração geográfica que demonstra grande diversidade. Se somarmos à geografia a
população indígena, temos muitos grupos e muitas etnias envolvidas no território. O ponto de
partida deve levar em conta a diversidade e a desigualdade que definem a ocupação do território
mineiro. Não regionalizar é um verdadeiro anacronismo por não captar a diversidade que temos
até os dias de hoje.

O sistema de transporte só é aplicado para uma estrutura moderna de transporte. Apesar disso,
na economia do ouro já temos um sistema de transporte em formação. Tal sistema reflete o fato
do isolamento geográfico de Minas Gerais. Isolamento esse que só não vigorou de uma forma
decisiva durante o período de formação, expansão e declínio da economia do ouro, mas que logo
depois e durante um período longo será decisivo para a compreensão da economia de Minas
Gerais. Esse isolamento está relacionado ao fato do território mineiro ser uma capitania interior
que requereria elevados custos para o sistema de transportes. Dado o ecossistema, relevo e
hidrografia, o sistema de transportes em Minas era de elevado custo. Isso cria um mercado
interno em Minas Gerais protegido de seu exterior, mas com muita dificuldade para de importar
o necessário para a reprodução das suas atividades econômicas e materiais. Os custos dos
transportes só começam a cair a partir de meados do século XX. Nem mesmo o transporte
ferroviário rompe os custos elevados anteriormente descritos, apenas o transporte rodoviário
consegue resolver o problema.

No período colonial os transportes são os tradicionais. De forma declinante no tempo, o


transporte era feito por escravos que iam progressivamente sendo substituídos pelo transporte
animal. Um peso pequeno pode ser atribuído para o transporte em carroças. A circulação e
mobilidade era dependente de animais de carga em médias e longas distâncias. A civilização das
tropas de transporte surge com a economia do ouro. Uma das repercussões da economia do
ouro foi a dinamização de zonas especializadas na criação de animais de carga e que não

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existiam antes. Anteriormente tais animais eram utilizadas em transportes de pequenas


distâncias.

Transposto o período inicial em que não havia animais suficientes, o transporte humano é
substituído pelo transporte animal. Outros meios de transporte também eram utilizados como a
navegação pluvial concentrada no Rio São Francisco. Uma navegação dispersa e de curta
distância também existia no território nos trechos de rios navegáveis.

Podemos definir os principais frutos e linhas de circulação no território mineiro. Predomina


largamente a circulação urbano-rural. Concentram-se populações em espaços urbanos que
precisavam ser abastecidos por meio do exterior e predominantemente de zonas que produziam
alimentos para a cidade mineradora de forma pulverizada, dinâmica e do tipo rural-urbana. Isso
predomina. É impossível cartografar essa miríade de vias de circulação regular voltada ao
abastecimento das cidades mineradoras. Para além há os grandes corredores entre as
capitanias. Existiam quatro corredores: Rio de Janeiro-Paraty-Minas Gerais, São Paulo-Minas
Gerais (principal corredor que deu início à ocupação do território mineiro), Bahia-Minas Gerais e
Centro-Oeste-Minas Gerais.

A maior parte do território mineiro era uma fronteira aberta ainda não ocupada. A primeira porta
de apropriação do território se deu pela ocupação indígena presente em todo o território de
Minas Gerais, principalmente nas matas e bacias hidrográficas do leste. A partir do momento
que os índios entram em contato com a ocupação europeia, muitos são obrigados a realizar
trabalhos compulsórios, sofreram aculturação lenta ou foram expulsos ainda mais para o interior
da colônia. O estado português eventualmente empregava guerras de extermínio a
determinadas populações indígenas. Há registros de ataques indígenas aos principais centros
mineradores, mostrando o quanto eram numerosos e resistentes à ocupação colonizadora.

A segunda etapa do processo de ocupação é anterior à economia do ouro. Temos então a


expansão via Rio São Francisco da pecuária sertaneja do nordeste que antes do século XVII
adentrou no território mineiro. Esse processo está associado à expansão da fronteira pecuária
nordestina. A partir desse movimento temos um espraiamento da pecuária sertaneja por todo o

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norte de Minas. A pecuária nordestina foi mais importante do que a pecuária paulista para a
mineração.

A terceira etapa do processo de ocupação foi de fato a mineração aurífera e diamantífera além
de outros metais e pedras preciosos que tem uma localização territorial geográfica bem precisa.
A atividade mineradora teve grande visibilidade estando presente nas áreas de relevo mais
acidentado como a Serra do Espinhaço (cadeira central que corta o território mineiro quase de
ponta a ponta) com ocorrências que ganharam maior projeção e maior volume de extração
mineral no centro sul da Serra (Ouro Preto, Mariana, Sabará, Caeté entre outras). Nesse miolo
temos a zona mineradora central. Além dessa área a mineração se espalha ao longo da Serra
do Espinhaço o que explica ocorrências em Diamantina, Serro e Conceição do Mato dentro. Um
pouco afastada da Serra da Mantiqueira houveram ocorrências em Minas Novas, Grão Mogol,
São João Del Rey, Tiradentes. Algumas ocorrências foram isoladas como em Campanha, Pitangui
e Paracatú. Há um adensamento e aglomerado de cidades mineradores próximas e em algumas
mais isoladas. Em torno dessas atividades mineradoras é que a dinâmica de formação da
economia do ouro apresenta os seus fatores importantes. Se esse movimento de ocupação do
território tem sentido centrípeto formando cidades e atraindo pessoas com rápida migração,
temos um movimento centrífugo progressivo e não descontinuado (a partir do centro em direção
a periferia) que gerou atividades novas visando o abastecimento das cidades mineradoras.

A quarta etapa do processo de ocupação de Minas Gerais está relacionada aos corredores ou
vias de acesso às minas. Esse tipo de ocupação deve ser distinguido da ocupação mineradora
pois não é esta que promove o adensamento populacional, mas sim a circulação de pessoas. A
circulação em base tradicional era lenta e, em determinadas épocas do ano era impraticável
devido as dificuldades topográficas. Devido a isso era necessário constituir uma rede de apoio
para aqueles que estavam em constante mobilidade. Essas redes de apoio promovem o
adensamento da população. Isso formou verdadeiros corredores de ocupação associados a
circulação. É um processo específico de ocupação do território gerando o surgimento de unidades
produtivas para abastecer as cidades.

As correntes migratórias associadas à ocupação do território mineiro são múltiplas. A primeira


está associada à São Paulo. Depois disso, outros pontos da colônia como o nordeste e o Rio de

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Janeiro, apresentarão forte migração para a área mineradora. Fora da colônia, a migração era
de escravos africanos e de portugueses de Portugal vindos do norte desse país para Minas Gerais.

Nos tempos iniciais de ocupação do território antes do estabelecimento de estruturas


administrativas não havia a presença do Portugal dando traços culturais distintos à área.
Portugal não ficará passivo diante da mineração. Este país procurava restringir a migração de
pessoas indesejáveis (estrangeiros) e evitar o esvaziamento populacional das áreas. A legislação
portuguesa tenta controlar ou impedir o afluxo de população, seja de zonas agrícolas do nordeste
(principalmente escravos que foram direcionados para Minas Gerais), seja de portugueses vindos
de Portugal. A ideia é proteger as atividades de bens para abastecer o mercado europeu e de
outro proteger as atividades de mercado interno em Portugal e na América Portuguesa já que a
disponibilidade de escravos em outras áreas diminuiu para abastecer áreas mineradoras.

A migração de pessoas para a economia do ouro foi um movimento avassalador, sem paralelo
ao que se conhecia na América Portuguesa. Um volume muito grande de adensamento
populacional para o interior, sendo este o primeiro a ser observador para o interior da colônia,
ocorreu de forma intensa durante o período. Isso pressupõe a montagem de estruturas
econômicas, sociais e político-administrativo para controlar a área mineradora. A sociedade, a
economia do ouro e a natureza dos minerais impõem de forma agressiva um aparato burocrático
novo, vigoroso e extenso para assegurar os direitos reais e fiscais da coroa portuguesa.

No que tange aos aspectos técnicos, não se trata de introduzir na colônia conhecimento técnico
associado a localização de jazidas, pois já se existia esse conhecimento. A extração do ouro era
fácil estando no leito de rios e córregos ou nas suas margens. São processos simples, ainda que
pouco eficientes. O grosso do ouro foi extraído em Minas Gerais, mas também em Goiás e no
Paraná. Há também a mineração de encostas com o desmonte de morros e formações rochosas
com seu processamento sendo assemelhado à mineração de ouro aluvião. O ouro de minas
também foi extraído apesar de ser bem complexo.

A extração de ouro de aluvião estava aberta a qualquer empreendedor que, com sua força de
trabalho, iria extrair o metal. Além disso existiam grandes empresas mineradoras que extraíam
o ouro. A extração em encostas e morros era de grande escala exigindo maior número de

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trabalhadores e a extração subterrânea era mais cara e complexa. A mineração de encostas era
muito maior do que a subterrânea que, a rigor, encontra diversos limites técnicos sendo
impraticável até o século XIX com a entrada de capital internacional britânico. O ouro de aluvião
e de encosta eram aqueles que se despregaram ou se soltaram da rocha matriz sendo
encontrado longe da sua área natural em uma área extensa. O ouro subterrâneo era extraído
da própria rocha matriz em concentração maior e de acesso difícil incidindo problemas técnicos
como drenagem de água, ventilação, condução do minério à superfície, etc., gerando riscos e
grandes acidentes. A extração nessas áreas era arriscada e investir capital nessas áreas não era
vantajoso.

Entre o final do século XVII e início do século XVIII a mineração assume um caráter temporário
único, ou seja, itinerante que não vigorará mais depois. Os primeiros mineradores são aqueles
que buscam o ouro de fácil acesso e extração associado ao imaginário anteriormente descrito.
Ocorre sim, durante um certo tempo, uma não fixação e uma mineração itinerante que não
interessava Portugal devido ao seu baixo controle e tributação fiscal. Por isso que a coroa
portuguesa estimula a formação de cidades nas áreas mineradoras facilitando a presença do
estado para cobrar impostos. Outra razão mais poderosa para não haver mineração itinerante
está relacionada com o abastecimento já que o movimento de mineradores por diversas áreas
comprometia o abastecimento da população que se formaria nelas. Sem abastecimento regular
há fome e crises sociais com mortalidade, fuga de população e retorno de população para suas
áreas de origem.

As repercussões da formação da economia do ouro para os demais espaços da colônia são


múltiplas. A primeira é demográfica e ocasionou forte migração de pessoas. O paradigma de
mercado interno em que a economia açucareira produz derivados do açúcar para a economia do
ouro faz parte desse processo. Temos um aumento de população muito rápido com a vinda de
muitos escravos e portugueses sendo que não era possível equilibrar a demanda com a oferta
de alimentos e escravos para trabalharem nas minas. Os preços destes sobem incidindo de forma
dramática nos espaços coloniais gerando problemas. A inflação de preços de alimentos e
escravos foi dramática para todos os espaços coloniais.

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A extração diamantífera surge bem depois do início da extração do ouro no final da década de
1720. Desde o início os Diamantes eram monopólio régio, ou seja, monopólio da coroa
portuguesa e podendo ser explorado por particulares apenas sob concessões. Forma-se no início
de 1730 a intendência dos diamantes demarcando-se o território diamantífero que hoje
abrangeria Diamantina, Serro e mais cidades no entorno de Diamantina. O regime de capitação
é o primeiro a vigorar, mas durou pouco tempo. Após isso o sistema de contratos passou a
vigorar em que o explorador extrairia o Diamante e pagaria taxas a coroa. Depois disso o Estado
português passou a monopolizar a extração diamantífera alugando escravos junto a seus
senhores. Nesse momento surge o regimento diamantífero, uma peça legal, originalíssima que
vai estabelecer uma série de particularidades econômicas, mas também a vida social e política
pela natureza muito particular desse arcabouço jurídico. Basta dizer que os intendentes dos
diamantes se reportam diretamente ao rei sem intermediários, evidenciando um estatuto muito
específico para área.

A produção de diamantes é bastante flutuante com picos de expansão em alguns períodos. Isso
nos leva a pensar a estatística da produção aurífera. A economia dos diamantes é secundária.
Havia uma dificuldade de se estimar o ouro não tributável (contrabando) e o ouro tributado era
fácil a determinação de seu volume. O ouro contrabandeado não podia ser exatamente
mensurado. Há uma convergência de projeções que tentam mensurar o volume de ouro total.
As mensurações são múltiplas e divergentes em termos absolutos, mas convergentes de acordo
com a produção. Temos uma curva ascendente de produção de ouro desde o final do século XVII
até a terceira quadra do século XVIII. Na terceira quadra do século XVIII é que a curva passa a
declinar e a produção de ouro diminui. Há então esse consenso. O volume de extração de ouro
em Goiás, Paraná, Bahia e Mato Grosso é bem pequeno quando comparado a Minas Gerais.

Há uma verdadeira obsessão do estado português em otimizar a fiscalização sobre o ouro. Essa
legislação fiscal portuguesa sobre a mineração era extremamente volumosa, complexa e
contraditória. O estado português irá realizar uma série de experiências de regimes fiscais
sempre em busca da melhor e mais eficiente forma de arrecadação. O regime fiscal não se
resume à cobrança de tributos, mas de tudo aquilo que diz respeito à obsessão em coibir o
contrabando que ocorria em uma escala considerável, daí a dificuldade de se estimar a produção
aurífera. Há vários regimentos das minas no período colonial, um em 1603 e outro 1618, sendo
ambos bastante complexos abrangendo demarcação de áreas, tributação, processos extrativos,

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concessões, administração pública, abastecimento. A ideia era abarcar um universo amplo que
cobrisse a extração e a fiscalização. O regimento das minas de 1702 estava associado à
mineração de Minas Gerais sendo mais complexo ainda enfatizando o combate ao contrabando
e mais complexo no que tange à distribuição de unidades extrativas. A esse regimento há uma
extensa legislação concebida para instigar estudos nos planos da lei e à verificação da qualidade
e vigência da legislação ligada à mineração colonial.

A participação de religiosos no contrabando de ouro, já no início do período colonial, definiu a


restrição de ordens religiosas em Minas Gerais. Essa consequência estimulou um tipo de
religiosidade específica que moldou a sociabilidade e a cultura na área mineradora. Portugal se
preocupou muito com os religiosos já que eles possuíam privilégios de mobilidade. Os
comerciantes também eram fontes de preocupação e não podiam ser expulsos das áreas para
garantir o abastecimento.

Portugal visa combater atividades que concorriam com a extração do ouro que comprometiam
fatores produtivos ou atividade que simplesmente favoreciam o extravio.

Há um processo de longo prazo que pode ser entendido como um eixo que facilita a compreensão
da economia do ouro desde a sua formação até o final do período colonial. Esse processo é o de
substituição de importações iniciado no século XVII. A sociedade da economia do ouro nasce
dependente do exterior e a mantém por um tempo longo. Gradualmente ela vai diminuindo a
dependência externa com o crescimento da produção interna. Esse longo processo de
substituição de importações explica porque surge e se desenvolve rapidamente, com vigor,
diversidade e complexidades inéditas na colônia um grande número de atividades
complementares que se autonomizam em relação a mineração. Se esta é o núcleo dinâmico da
economia aurífera além dela dinamizar todas as demais atividades, o seu declínio permite que
outras atividades complementares se autonomizem. Que atividades são essas? Agricultura e
atividades industriais (artesanato e manufatura) alcançando em Minas Gerais uma importância,
diversidade e volume de oficio inéditos na colônia.

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As atividades industriais ganha expressão com a siderurgia e com a produção de têxteis, ambas
ganhando força com o mercado interno. Durante todo o período colonial a tributação incidente
sobre importados está sobre o peso do bem e não sobre a sua natureza. Nada pesa mais do que
ferro e nada paga mais imposto do que ele. Daí surge a produção interna desse bem sendo a
mais importante substituição de importações. O artesanato era extremamente rico devido as
suas matérias-primas e a imensa quantidade de pessoas associadas a ele. A economia do ouro
exige vários profissionais e mais exigente ainda é a civilização urbana que se originou ao redor
dessa economia desenvolvendo todas essas atividades. Todas elas assumem uma feição
particular distinta daquelas presentes no litoral e em Portugal.

A agropecuária e a indústria são então as atividades mais importantes associadas a mineração


devido a presença da sociedade urbana que precisa ser abastecida. As maiores cidades do Brasil
no século XVIII estão em Minas Gerais, não necessariamente do ponto de vista demográfico. A
dinamização e o adensamento eram enormes exigindo um abastecimento interno importante.
Excedentes eram produzidos e exportados para outros mercados da colônia.

O abastecimento pode ser dividido em 5 períodos:

1 - Forte dependencia externa com tudo sendo importado.

2 - Abastecimento vindo do exterior, mas se constitui um fenômeno novo na América Portuguesa


na primeira quadra do século XVIII com o início do primeiro processo de integração
macrorregional no Brasil com a economia do ouro. Dada a imensa dependência externa dessa
economia durante um certo período, temos a integração macrorregional. Se constituem
mercados abastecedores das minas com o Nordeste (Bahia e Pernambuco), Rio de Janeiro, São
Paulo, extremo sul (Rio Grande do Sul), mercados europeus e mercados americanos. Essa
economia constitui o núcleo de integração de mercados próximos e distantes que nunca existiu
na colônia. Depois dessa integração macrorregional, só teremos outra integração significativa a
partir do início do século XX. Esses mercados fornecem TUDO para Minas Gerais segundo as
suas especialidades. Além disso, um novo mercado surge na colônia com a criação de animais
de carga.

3 - Segunda quadra do século XVIII com um equilíbrio de importações e abastecimento interno.


Agricultura, pecuária, indústria, artesanato, etc., substituem em parte as importações.

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4 - Terceira quadra do século XVIII em que há o predomínio do abastecimento a partir de


mercado mineiros. Há uma dependência de importações, mas a substituição das mesmas
aumenta bastante. Se antes a substituição estava relacionada ao crescimento da economia do
ouro, agora ela se torna cada vez mais uma imposição.

5 - Última quadra do século XVIII e primeira quadra do século XIX em que a substituição de
importações se completa alcançando seu teto. Tudo aqui que poderia ser substituído está sendo
substituído e o que resta não pode ser substituído, principalmente sal, escravos, pólvora e
manufaturas da Europa. O resto já era substituído.

As atividades creditícias na colônia cresceram muito com a economia do ouro. O endividamento


do minerador era estrutural assim como o endividamento do senhor de engenho. As modalidades
de crédito eram múltiplas desde grandes adquirentes de crédito até o crédito na sua forma mais
popular possível. Isso se deve à percepção de um dado cultural da necessidade permanente do
crédito e da sua dependência estrutural. Se o crédito em larga escala está associado a atividades
mercantis, o crédito em pequena escala envolve toda a sociedade. A inadimplência e o risco são
altos e por isso as taxas de juros são altas. Portugal intervém e protege os grandes mineradores
nesse caso.

O comércio era complexo com uma parte fica concentrada na cidade mineradora e ao longo de
seus caminhos e outra parte itinerante com o grande importador e também com o comércio
ambulante. As características eram muito peculiares já que o pequeno comércio era exercido
por mulheres com uma legislação muito pesada já que existiria a possibilidade de extravios e
contrabando por elas possuírem acesso irrestrito às áreas mineradores e aos escravos. Mulheres
também se prostituíam nessas áreas. Há também grandes comerciantes, ou seja, uma elite
mercantil que acumulou fortunas além de se afastar após um tempo das atividades mais
rentáveis da mineração migrando para atividades da terra. Isso é explicado pelo fato de existir
um certo caráter negativo atrelado à usura e ao crédito e também ao status de possuir terras e
escravos. A elite mercantil diversifica seus investimentos por esse motivo.

Portugal nunca esteve tão presente de maneira rigorosa na colônia quanto no período da
economia aurífera. A única forma de se organizar os direitos reais era com a montagem de uma
estrutura fiscalizadora junto com uma miríade de produtores que extraíssem o mineral (Portugal

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não queria poucas pessoas extraindo ouro e outros materiais). Grosso modo predominava os
tributos do quinto nas casas de fundição, a captação e várias outras formas de se tributar a
mineração. A legislação tributária referente a Minas Gerais era de longe a mais complexa da
América colonial em geral.

A sociedade mineradora está associada a várias matrizes que a forma. Ela possui caráter
democrático e as possibilidades de ascensão eram muito maiores do que a sociedade agrária. A
demografia era elevada com forte migração. A economia do ouro possuía forte caráter urbano
definindo uma série de atributos que já foram discutidos.

4. AULA 4 – PRODUTOS COLONIAIS E MERCADO INTERNO (17/02/2014)

Contemplaremos agora os outros produtos coloniais para além do açúcar e do ouro. Importante
aqui é o pau-brasil, tabaco, algodão e a economia das drogas do sertão para se referir a uma
série de produtos da floresta amazônica, também chamadas de especiarias. Somado com açúcar
e ouro são os produtos coloniais mais importantes ao longo da extensão do território da América
Portuguesa voltada para os mercados externos.

O primeiro produto colonial que ganhou projeção na América Portuguesa foi o pau-brasil e
demais vegetais tintoriais. Desde o início do processo de ocupação do território esse extrativismo
começou a ser praticado. Já na primeira navegação do retorno para Portugal, ainda na expedição
de Cabral, amostras de pau-brasil foram levadas para a metrópole. Essa amostra se adequava
perfeitamente a extração que alimentaria o comercio na Europa.

Brasis são muitos. O pau-brasil corresponde a um conjunto enorme de vegetais que também
existe em áreas da Ásia e da Oceania. Portugal não detinha o exclusivo comercial desses
vegetais. O valor desses vegetais era elevado, principalmente no mercado de tinturaria já que
corantes artificiais só surgiram na segunda metade do século XIX. No caso do Brasil, o pau-brasil
tinha a cor vermelha, além de sua madeira ser nobre e muito utilizada para fazer móveis, etc.
Os portugueses já extraíam o pau-brasil de outras áreas, mas o Brasil por ter os vegetais em
abundancia, passou a ser privilegiado. A ocorrência do pau-brasil também era grande na América

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Espanhola. A exploração do pau-brasil ocorreu por meio do arrendamento das zonas de extração
que foi se modificando ao longo do tempo, mas desde cedo foi definido como monopólio real que
inclui a extração e o comércio das madeiras tintoriais.

A centralidade do extrativismo vegetal de outras atividades também ocorria. No período pré-


colonial a exploração ainda não estava organizada em bases sistêmicas, ou seja, existiam apenas
feitorias e a ocupação ocorria apenas no litoral. É diante desse contexto que se inicia a
exploração do pau-brasil sendo que os colonizadores mal sabiam explorá-la. Predominava o
escambo e a exploração em pequena escala para depois tomar uma dimensão maior. Esse
período pré-colonial tem como atividade principal a exploração do pau-brasil organizada em
bases de arrendamento e monopólio real. Os contratos para exploração tinham várias cláusulas
como:

1 - Estabelecimento de um número de embarcações na América Portuguesa que responderiam


por esse comércio.

2 - Deveria haver um pagamento de impostos no valor de um quinto em relação ao valor total


da madeira extraída.

3 - Os arrematantes tinham a responsabilidade de estabelecer feitorias e assegurar o controle


territorial e presença portuguesa na América.

Assim como muda o quadro político administrativo da América Portuguesa na metade do século
XIX, também a extração do pau-brasil sofre mudanças e os arrematantes estavam submetidos
a novas normas ao longo do tempo. Isso não altera o fato de que a extração do pau-brasil é
monopólio real baseado em contratos anuais com os arrematantes. Progressivamente tais
contratos vão se tornando mais específicos quanto ao volume de madeira máximo e mínimo a
ser extraído, preço, entre outras cláusulas.

Do ponto de vista geográfico, a extração do pau-brasil se concentra no litoral nordestino já que


a presença portuguesa se concentra nessa área nos séculos iniciais. Com o tempo a exploração
se estende para o centro-sul à medida que o próprio processo de ocupação amplia a exploração
e o comércio.

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Durante muito tempo a atividade extrativa era feita por mão-de-obra indígena. As populações
originais respondem por todo o processo de extração, mas com o tempo, a mão-de-obra africana
assume o posto dos indígenas.

O autor do texto apresenta estimativas acerca dos volumes de extração. É citado que no início
do século XIX (início da exploração do pau-brasil), 5% da receita de Portugal provinha do pau-
brasil. No final do período colonial, 300 anos depois, o pau-brasil respondia por um valor alto da
receita portuguesa e, ainda no final do período colonial, o pau-brasil era monopólio real. O lucro
aproximado da atividade no século XVII era de 15% sobre o valor total da venda incluindo
extração, transporte e pagamento dos impostos. Essa remuneração é atraente posto que era
uma atividade que envolvia muitos riscos tais como a navegação marítima de alto risco,
mobilização de capitais necessários para a inserção da atividade no território.

Durante o século XVI e XVII a extração e comércio do pau-brasil sofreu séria concorrência
proveniente do contrabando praticado por franceses. A França se estabelece de forma mais
continuada em dois pontos do litoral brasileiro e também se insere na atividade do pau-brasil já
que tinha o maior mercado para esse bem colonial sendo a exploração dessa madeira uma
atividade muito atraente. O Estado francês apoiava o estabelecimento no litoral do Brasil. A
pirataria foi então frequente nesse período. Portugal tenta alternar ações diplomáticas para
afastar os franceses bem como expulsá-los com a força militar.

É certo considerar que o pau-brasil é a primeira atividade colonial que gera impacto ambiental
significativo. A extração continuada de pau-brasil durante todo o período colonial gerou uma
grande degradação ambiental no território brasileiro. Como o pau-brasil existia em abundância
na Mata Atlântica, esta foi sendo degradada continuamente ao longo do tempo.

A economia do norte da América Portuguesa (não é o norte que conhecemos hoje) ou região
amazônica, abrange toda a região norte como conhecemos hoje, mas também o nordeste
setentrional. A ocupação se restringe ao litoral, mas com penetrações restritas ao vale do
amazonas. A fronteira de ocupação agrícola é exclusivamente litorânea. No interior havia
populações indígenas e poucos colonizadores. A ocupação dessa área se realiza no final do século
XVI e início do século XVII no âmbito da União Ibérica. A exploração econômica efetiva só ocorre

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no final do século XVII e início do século XVIII. O objetivo primeiro era assegurar o domínio
exclusivo por parte das metrópoles ibéricas e afastar a influência estrangeira da região como
França, Holanda e Inglaterra. No século XVI as incursões nessa área eram feitas por espanhóis
em busca de metais preciosos. No final do século XVI e início do século XVII e motivação por
metais preciosos declina e pontos de fortificações são construídos tanto ao longo do rio
Amazonas quanto no nordeste setentrional. Quem faz isso são os portugueses e não os
espanhóis. Com o fim da União Ibérica surge uma série de litígios entre Portugal e Espanha e,
mais tarde, a área fica com os portugueses.

A ocupação efetiva da área no início do século XVII enfrentou problemas com a França. Este país
fundou uma colônia chamada França Equinocial cujo núcleo principal era a atual cidade de São
Luís. A zona de controle de extrativismo e comércio abrangia uma área significativa do
Maranhão, Pará e Tocantins. O avanço ibérico português se faz afastando perigos coloniais
concorrentes. O mesmo ocorre com a foz do rio Amazonas. Holandeses, ingleses também são
expulsos da região.

A navegação era um problema para a região norte colonial. Uma atividade político-administrativa
independente se formou nessa área norte colonial, atividade esta que conferia à região a
condição de vice-reino, ou seja, a América Portuguesa estava dividida em dois estados já que
não existia integração territorial efetiva na colônia e a navegação era extremamente difícil dadas
as técnicas de navegação vigentes na época. Na maior parte das vezes era necessário haver
uma triangulação para passar de uma margem do território para outra.

Não podemos entender o norte colonial como uma região integrada à América Portuguesa. Isso
só ocorre com a União Ibérica após um século de descobrimento. Podemos dividir o processo de
ocupação e exploração dessa área em períodos. O período inicial que se estende até o fim da
União Ibérica compreende o período em que não há interiorização e a ocupação era quase toda
no litoral. Apresar índios e escravizá-los para as áreas nordestinas era a principal atividade da
área na época. Não é à toa que os holandeses também ocuparam rotas para garantir o fluxo de
indígenas para trabalho escravo, conjugando-o com o trabalho escravo africano.

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Colonos e populações originais enfrentavam problemas. O Estado português criou legislações


específicas sobre as populações originais no que tange ao trabalho. Essa legislação buscou
conciliar os interesses dos colonos em geral que queriam escravizar os indígenas e do outro lado
os jesuítas que queriam impedir a escravização dessas populações e catequizá-las. Portugal se
inclinava para ambos os lados tentando conciliar esses interesses. A mão-de-obra indígena era
fundamental para a exploração e extração de todas as atividades econômicas do norte do país.
Mesmo quando o trabalho escravo africano é introduzido no século XVIII no norte da América
Portuguesa, os indígenas continuaram tendo grande importância para a região devido à natureza
das atividades que se desenvolvem por lá.

O contato entre europeus e ameríndios provocou forte impacto demográfico no sentido de causar
o declínio significativo de indígenas. Isso encarece a mão-de-obra indígena na região norte
colonial.

No final do século XVI surge o regimento das missões que nada mais foi do que um arcabouço
de normas e definições que irão regulamentar a expansão jesuítica no norte colonial. O
regimento incluía o aldeamento da região frente aos índios para utilizá-los como mão-de-obra
com objetivo de gerar lucros econômicos e catequizá-los. A presença jesuítica se torna
extremamente importante nessa porção do território, permanecendo assim até a expulsão dos
jesuítas no período pombalino.

Se no século XVI a região norte era desocupada, no século XVII ela já começa a ser ocupada
para exploração e no final deste século e início do século XVIII ocorre a interiorização da
presença portuguesa jesuítica formando a economia das drogas do sertão, que nada mais eram
do que especiarias. Uma série de produtos foram extraídos da floresta amazônica, ou seja, era
exclusivamente um extrativismo. Urucú, canela, cacau, castanha, pimenta, entre outras
especiarias eram extraídas da floresta amazônica. Tal extração era feita sob a coordenação dos
jesuítas que se instalaram em locais de fácil acesso através da navegação fluvial. Os índios
extraíam as drogas sob os olhos de jesuítas. A atividade aumentou em escala permitindo que
Portugal se reinserisse no comércio de especiarias no mercado europeu, já que havia perdido o
mercado de especiarias com o oriente.

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Com a ascensão de Pombal temos um terceiro período de mudanças na área norte colonial já
que as medidas tomadas para o norte da América Portuguesa obtiveram os melhores resultados
no período. Houve uma integração do território em circuitos mercantilistas com a plantation de
algodão, arroz, tabaco e açúcar. A mão-de-obra nesse caso era africana e não indígena. As
medidas de Pombal estão em sintonia com a tentativa de modernizar o mercantilismo português.
Os jesuítas foram então expulsos da área com essa nova política modernizadora por se
constituírem em uma administração paralela que foge dos regimentos reais. Nesse período de
Pombal ainda temos dois tratados internacionais que asseguram a presença portuguesa na área
norte: Tratado de Madri (1750) e outro tratado em 1777.

A economia das drogas do sertão entra em declínio com a expulsão dos jesuítas já que não havia
ninguém para substituir o trabalho que faziam antes da expulsão.

Entre os bens tropicais típicos dessas plantations do norte da América Portuguesa se destaca o
algodão. Esse destaque ocorre devido a Revolução Industrial e essa fibra não era produzida na
Europa. Isso estimulou o aparecimento da grande lavoura exportadora, escravista e monocultura
que surge na porção norte do território. Na segunda metade do século XVIII e início do século
XIX há fatores adversos que limitam a expansão do algodão devido as áreas concorrenciais em
outras partes. Além disso as lavouras brasileiras eram mais distantes do mercado europeu.

O tabaco é de origem americana, amplamente difundido e cultivado em várias porções do


território. A inserção do tabaco na economia colonial ocorre tardiamente no final do século XVII
em que há um cultivo para o consumo interno tendo baixa presença diante das exportações.
Apenas no final do século XVII que o tabaco se expande. Originalmente o tabaco se concentra
em três espaços da costa: Bahia-Alagoas, Rio de Janeiro e Maranhão. De longe a produção
baiana-alagoana era a mais importante. O tabaco era controlado pelo sistema de arrematação
e em 1674 é criada a junta de comércio do tabaco que regulamenta produção, preço e comércio.
Esses contratos de arrebatamento eram centralizados pela junta. Mais tarde em 1695 é criada
a junta no Rio de Janeiro evidenciando uma nova zona de cultivo de tabaco, mas que será abolida
1777 com a intenção de concentrar a produção no nordeste reduzindo a concorrência intra-
colonial e reforçar a especialização de áreas específicas da colônia. Segundo Antonil, o tabaco

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teria expressiva participação nas receitas portuguesas no início do século XVIII. Ele se dedicou
a narrar detalhadamente o açúcar, mineração e tabaco.

Os processos de cultivo do tabaco era indígena. Manejos e técnicas permitiam o cultivo em larga
escala do tabaco. Apenas o tabaco foi produzido sob adubação orgânica (???? não entendi essa
parte). Além disso o tabaco exige uma atenção muito maior e demanda um manejo muito maior
já que seu cultivo era minucioso. Assim como os outros bens coloniais o tabaco era uma
produção latifundiária, escravista e exportadora.

Os vetores do comércio do tabaco tem uma diferença importante por não se portar
exclusivamente para mercados europeus. Além desse destino o tabaco também era exportado
para Índia-Macau e o vetor Brasil-África era o mais importante já que o tabaco era um gênero
utilizado para realizar o escambo com escravos no continente africano. O tabaco português era
também utilizado por ingleses, holandeses para realizar o escambo. O último vetor do tabaco
era o próprio mercado interno brasileiro que, em termos gerais, foi o que mais cresceu durante
o período já que o mercado interno colonial cresce bastante.

O cultivo do tabaco explica porque a atividade era preferencial de indivíduos com recursos, que
eram escravistas e que queria ascender socialmente, migrando de atividades de mercado interno
para a produção de tabaco. Outras atividades requereriam recursos mais avantajados. Isso
ocorre especialmente no recôncavo baiano que era um microcosmos de uma série de relações
que poderiam ser estendidas para toda América Portuguesa. Nessa área temos açúcar, tabaco
e alimentos, principalmente mandioca. Era um espaço valioso para se observar as relações.
Vemos ali uma passagem do mercado externo para o interno e vice-versa. Isso também é
demonstrado na legislação portuguesa já que nesse período surge uma legislação que visa
interditar a migração do mercado interno para o externo por dois fatores: Primeiro por
enfraquecer o mercado interno e seu abastecimento (unidades que visavam o cultivo e
transformação da cana) e segundo porque isso significaria concorrência entre os fatores de
produção já que as fazendas de tabaco utilizavam recursos necessários para a produção do
açúcar em canaviais.

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A última consideração sobre o tabaco diz respeito a formação tardia de uma zona fumageira no
sudeste de Minas Gerais. Lá se produzia um tabaco de muita qualidade próximo de mercados
platinos e que visava abastecer esses mercados.

Voltando ao algodão que era nativo de várias áreas e não sendo exclusivo da América, era uma
produção voltada para mercados externos e isso ganha peso apenas na segunda metade do
século XVIII. Antes disso apenas o mercado interno era mais contemplado. Muito antes da
América Portuguesa ser uma grande área de produção de algodão para mercados externos, o
algodão já era amplamente usado para abastecer o mercado interno. Esse algodão era arbóreo
no Brasil e, apesar de difundido em todas as áreas do Brasil, predominava em áreas específicas.
Existiam zonas concorrentes internas e por isso, apenas algumas áreas foram escolhidas para
produzir para o mercado externo, levando em conta qualidade das fibras, etc.

Os métodos de cultivo de algodão combinam técnicas originais com técnicas europeias. O


beneficiamento era feito antes da exportação e o descaroçamento esse produto também era
feito. A produção para mercados externos era escravista em escala maior do que a do tabaco,
mas assim como este, era uma atividade mais aberta a microempreendedores já que os
requisitos para ascensão eram menores.

A produção em larga escala para mercados europeus coincide com a demanda europeia por
fibras de algodão. Com a revolução industrial a indústria têxtil se expande e a necessidade de
fibras de algodão aumenta, aumentando o preço do algodão e estimulando a sua produção.
Haviam janelas de oportunidade que permitiam a aceleração do crescimento em zonas coloniais
portuguesas enquanto zonas coloniais concorrentes entravam em crise no final do século XVIII
e início do século XIX. Essas crises na concorrência estão relacionadas à Revolução Francesa,
Revolução dos Escravos no Haiti, Segunda Guerra de Independência da América do Norte. Esses
conflitos favorecem a expansão do algodão brasileiro, mas quando a concorrência se recompõe
o algodão brasileiro sofre declínio por uma série de fatores, mas principalmente pela melhor
qualidade das fibras, custos de produção mais baixos e pelo fato de se produzirem em zonas
coloniais e países independentes que possuíssem maiores chances de inserção do produto no
mercado.

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O algodão brasileiro está concentrado no Maranhão, agreste nordestino em Pernambuco e nos


espaços de formação tardios no nordeste de Minas Gerais. Esse espaço tardio foi importante no
momento em que o mercado internacional sofre restrições na produção do algodão frente aos
conflitos.

O primeiro aspecto decisivo sobre o mercado interno é que ele se constituí um problema para a
historiografia. A pouco tempo atrás o interesse nesse mercado era pequeno. Nos últimos 20, 30
anos é que o mercado interno se destacou na historiografia. Havia interesse em estudar apenas
o interesse do colonizador, ou seja, priorizar o estudo no mercado externo. Nos último 20, 30
anos houve uma mudança significativa na percepção do mercado interno colonial. Hoje há
consenso de que o mercado interno colonial teve um peso demográfico indiscutível, peso
econômico muito importante (apesar da dificuldade de mensurar as cifras), mas de qualquer
forma o mercado interno foi reconhecido e estudado dada sua importância.

O primeiro dado da abordagem sobre o mercado interno é que ele é uma imposição para a
produção de alimentos que visam abastecer a população. Temos então uma economia
complementar de abastecimento que não pode ser realizado a partir do exterior já que a
agricultura portuguesa mal conseguia suprir Portugal. O mercado interno engloba pessoas
atuando em atividades especializadas e zonas urbanas se desenvolvem diante de atividades
relacionadas à administração pública. Todas essas regiões precisavam ser abastecidas. Outra
forma de determinar a importância do mercado interno é pensar no ordenamento jurídico já que
uma extensa legislação colonial regimentava o mercado interno. O legislador português estava
presente e preocupado com a concentração de fatores produtivos, bem como a preocupação em
abastecer as cidades coloniais que eram muitas no litoral e interior. Uma mudança cultural
transcendente era a necessidade de constituir técnicas cada vez mais produtivas, como as dos
indígenas, para se produzir alimentos. Três gêneros eram a base da alimentação da população:
mandioca, milho e feijão.

Qual o caráter da produção mercantil de alimentos? Temos dois: a produção mercantil e a


produção para o consumo. A primeira é essencialmente escravista ainda com diferenças já que
as áreas eram menores com menor distanciamento entre proprietários e escravos, muitos
produtores de alimentos eram arrendatários pagando renda da terra e estando sujeitos a

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contratos nos levando a pensar na fragilidade social e técnica da pequena produção. Para se
produzir era necessário vencer concorrências com grandes senhores de engenho, bem como as
ferramentas para se produzir.

O Estado português constantemente interfere no mercado de alimentos tabelando preços para


evitar problemas na produção, especulação e desabastecimento. Isso significa controlar preços.

O autor afirma que é recorrente o problema do desabastecimento e crises de fome. Toda as vez
que ocorre descompatibilização entre oferta e demanda de alimentos havia também crises de
fome. A produção de alimentos sofria concorrência de fatores produtivos para a produção
agroexportadora além de sofrer limitações técnicas associadas à produção itinerante e
diversificada enquanto que a produção mercantil escravista era especializada e fixa. Pragas eram
comuns nas pequenas propriedades de alimentos e a legislação portuguesa tributava os produtos
sendo esta uma outra legislação que complicava o mercado interno. Fatores climáticos também
prejudicavam a produção. Tudo isso faz o autor afirmar que a produção de alimentos está
subordinada a grandes lavouras agroexportadoras, ou seja, a agricultura de abastecimento são
subvalorizadas pelas razões já relacionadas: proprietários de terras agroexportadoras e zonas
urbanas. A produção de alimentos assume então um caráter subsidiário escravistas para
mercados externos. Segundo o autor, o que ocorria era “típico mecanismo de transferência de
trabalho da produção de alimentos para as atividades voltadas para plantation e para a
manutenção da colônia”. Ainda em relação a agro exportação e mercado interno, estes
promoviam a distribuição regressiva da renda em favor dos setores dominantes, subsidiando os
exportadores favorecendo-os e tornando a face interna menos onerosa. Não é por outra razão
que o autor salienta que os pequenos produtores de alimento escravistas aspiram se inserir em
atividades voltadas para o mercado externo, ou seja, visam ascensão social.

O paradigma de produção interna de derivados da cana foi a mais exuberante face do mercado
interno colonial. As relações entre os ecossistemas do nordeste, o caráter da economia do ouro
e a pecuária foram importantes para om mercado interno.

Sobre a pecuária, alguns fatores são importantes:

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1 - Atividade exclusivamente de mercado interno.

2 - Atividade reflexa da economia canavieira do nordeste, fornecendo alimento, transporte e


produtos para serem exportados. Essa pecuária era extensiva e itinerante.

3 - É a atividade que mais promoveu interiorização no território da América Portuguesa.

4 - Atividade que, por excelência, amplia as fronteiras da terra.

5 - Atividade típica e realizada por populações pobres.

6 - Escravidão presente sendo ela extensiva e itinerante e no nordeste forte escravidão indígena.

7 - Baixa intensidade de trabalho.

8 - O proprietário da terra e do gado ficava com parte das crias e os trabalhadores livres com
outras.

9 - Produção de alimentos associada a pecuária.

O nordeste era um foco grande de pecuária, assim como Minas Gerais que abastecia as zonas
mineradoras. No sudeste de Minas Gerais surgiu a pecuária intensiva para a produção de leite
para ser transformado em queijo sendo consumido no mercado interno e sendo exportado. Sul
de Goiás, Sul de Mato Grosso e Sul da colônia também experimentaram a pecuária produzindo
charque e garantindo a presença portuguesa nessas áreas.

5. AULA 5 – O ARCAÍSMO COMO PROJETO (19/02/2014)

Agora passaremos pelos modelos de interpretação do sistema colonial. O texto “Arcaísmo Como
Projeto” se refere as teses de doutorado dos autores. Elas encontram vários pontos de
convergência o que permitiu a publicação pelos autores do texto a ser estudado. Temos uma
formulação teórica sobre o sistema colonial.

No primeiro capítulo do texto os autores avançam sobre uma apresentação geral de um modelo
interpretativo do sistema colonial. Esse modelo foi formulado pelos próprios autores tendo muita
origem na tese de João Fragoso. Além de apresentar o novo modelo de interpretação do modelo
colonial, há também uma síntese dos modelos anteriores os quais são criticados. Os autores

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dialogam com os modelos anteriores e os confrontam. A apresentação dos modelos anteriores é


importante para que seja possível as comparações presentes no texto.

Outra consideração geral sobre o texto é a afirmação essencial de que a discussão, ainda que
teórica, é a melhor forma de compreensão dos fundamentos da economia colonial.
Compreendemos os fatores constitutivos da economia colonial os quais são invariáveis durante
o período além de compreendermos como a estrutura colonial evoluiu ao longo do tempo. Esse
movimento temporal preserva o caráter invariável dos fundamentos coloniais. É importante
lembrar que não existe nenhum modelo perfeitamente suficiente para explicar as
particularidades coloniais.

Seguiremos a ordem de apresentação do primeiro capítulo. Tal ordem guarda a apresentação


dos modelos vigentes sobre o sistema colonial para posteriormente apresentar o novo modelo.
Os autores criticam os modelos tradicionais ao longo do texto.

Fragoso e Tolentino utilizam um artifício de agrupamento dos modelos em duas escolas ou dois
movimentos historiográficos com ampla repercussão e ampla influencia na historiografia fazendo
com que os historiadores tomasses os modelos tradicionais para qualquer discussão.

A primeira escola é a do sentido da colonização. Essa escola se refere a um capítulo clássico da


principal obra de Caio Prado Junior sobre o período colonial chamado “A Formação do Brasil
Contemporâneo”. Essa interpretação é a primeira formulação teórica sobre o sistema colonial e
fez história de 1942 até os dias de hoje. A partir dessa obra vários outros trabalhos foram
produzidos além de terem sido fundamentados sobre a obra de Caio Prado Junior que pode ser
considerado o fundador da escola.

O que Caio Prado Junior, pertencente à escola do sentido da colonização, propõe para
entendermos o sistema colonial?

1 - A forma como se estruturou a sociedade e a economia colonial só podem ser compreendidos


quando inseridos na história comercial europeia. Ambas estão enraizadas na história da Europa.

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2 - A colonização, no seu fundamento maior, deve ser entendida como uma estrutura que foi
montada para assegurar uma transferência continuada e regular no tempo de excedentes da
colônia para metrópole.

3 - A economia colonial tem o seu núcleo na produção agroexportadora segundo os pilares já


mencionados: grande propriedade, monocultura, trabalho escravo. Essa combinação está na
base da economia colonial.

4 - O capital mercantil europeu domina a economia colonial assegurando a apropriação e a


transferência de grande maior parte dos excedentes coloniais. Essa economia está subordinada
ao capital mercantil lusitano que exerce dominação e assegura a apropriação dos excedentes.

Dada essa configuração da economia colonial Caio Prado Junior afirma que o mercado interno
colonial não era importante. A sociedade era polarizada entre senhores e escravos. Os setores
intermediários e livres assumem uma posição secundária e independente da elite colonial. Essa
elite que está no topo da hierarquia social corresponde ao agente interno da colônia que estava
submetida ao tratados do pacto colonial. Diante disso ela garantia a transferência de excedentes
para o exterior.

Por todas essas razões é que a colônia enfrentou obstáculos ao surgimento de qualquer
acumulação interna. A minúscula acumulação interna se defronta com uma incapacidade
estrutural que facilitaria a sua sobrevivência.

Quanto o tráfico internacional de escravos, Caio Prado Junior entende que ele é uma resposta à
necessidade de reproduzir e constituir a força de trabalho inserida na produção agroexportadora.
É adotado o trabalho escravo africano sobretudo pelo caráter histórico associado à escravidão
que já era existente em outras colônias, bem como pelo fato de Portugal já estar presente no
continente africano tendo acesso à mão-de-obra escrava.

O trabalho de Celso Furtado de 1959 contribui para os entendimentos do sistema colonial. Ele
corrobora as ideias de Caio Prado Junior e avança sobre algumas ideias que antes não tinham
havido sido exploradas. Para Celso Furtado a economia colonial estava submetida ao capital
mercantil europeu, assim como defendido por Caio Prado Junior. Além disso a evolução e as

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variações da economia colonial nada mais eram sobre as repercussões das flutuações e das
mudanças de ritmo dos bens coloniais no mercado internacional. Isso permitiu que uma mesma
entidade colonial (América Portuguesa) apresentasse economia regionais em momentos
distintos da sua evolução, ou seja, em momentos de ascensão e estagnação ou declínio, tendo
em vista o mercado internacional a qual respondem. O açúcar pode estar em ascensão e o
tabaco em declínio. O que importa para Celso Furtado é que a expansão ou declínio da economia
colonial ocorrida por fatores externos como os preços internacionais dos preços coloniais. São
eles que determinavam as flutuações da economia colonial.

Celso Furtado avança ao dizer que a economia colonial desenvolveu mecanismos capazes de
absorver as crises do mercado internacional por meio do deslocamento de parte dos fatores
produtivos dos mercados externos para o mercado interno. Assim os custos das unidades
produtivas foram reduzidos. Fatores produtivos que mantinham o açúcar foram transferidos para
a produção de alimentos. Isso reduz os custos de reprodução das unidades produtivas. Outros
mecanismos também podem ser utilizados em condições adversas.

Para Celso Furtado, o elevado grau de especialização dos setores produtivos orientados para
mercado externos impõe a existência de setores coloniais que abastecem o mercado interno.
Celso Furtado então reconhece a existência de mercados internos. A face mercantil desse
mercado estava inteiramente condicionada pela evolução da produção agroexportadora.
Significa dizer que se o setor agroexportador cresce, o mercado interno mercantil também cresce
voltado para o abastecimento. A condição colonial recai e se impõe sobre o mercado interno de
forma indireta, assim como recai sobre o mercado externo. Celso Furtado sublima as limitações
impostas sobre os impedimentos legais à produção de bens que concorriam com os monopólios
estabelecidos pela coroa portuguesa. Toda produção que concorresse com os monopólios não
era interessante para Portugal. A produção de mercado interno na colonia está duplamente
condicionada a limitações externas e limitações naturais.

Para Celso Furtado os setores voltados para o abastecimento do mercado interno eram
caracterizados pela prevalência do trabalho livre. Nesse caso específico, essa composição não
tem fundamentação histórica. Hoje sabemos que o setor mercantil de mercado interno se
baseava essencialmente em trabalho escravo e não no trabalho livre como afirmou esse autor.

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O setor de mercado interno e de autoconsumo era autônomo, não estando sujeito às limitações
do estatuto colonial (interdições) e nem às determinações externas já que não existiam limites
ao que era produzido para autoconsumo. Para Celso Furtado, com a expansão da colônia a face
do mercado interno cresce. A economia agroexportadora se expande se especializando mais e
exigindo um aumento do mercado interno para atender a demanda. A fração mercantil da
produção para o mercado interno é dependente e a fração de subsistência para autoconsumo é
independente.

Quanto o tráfico internacional de escravos Celso Furtado concorda com Caio Prado Junior dizendo
que determinados espaços coloniais o trabalho ameríndio foi mais importante do que a
dependência externa do tráfico internacional africano de escravo.

Mais adiante surge uma terceira contribuição de Fernando Novaes. Com ele completamos um
período de 60 anos em que houveram 3 contribuições importantes sobre o período colonial.

Para Fernando Novaes a reafirmação do comércio exterior como eixo maior da história colonial
estava integrado ao antigo sistema colonial mercantilista que por sua vez está integrado à
acumulação primitiva de capitais. Existe um refinamento ou complexidade teórica dessa escola
por ela se relacionar com Fernando Novaes. Ele incorpora noções que os autores anteriores não
tratavam como, por exemplo, transferência de excedentes e relações entre centro e periferia.
Independente disso, ele propõe uma formulação diferente mas ao mesmo tempo semelhante às
anteriores.

Fernando Novaes acompanha Caio Prado ao falar da centralidade do pacto colonial, mas o
entende como sendo a expressão maior do capitalismo comercial. A grande inovação de
Fernando Novaes, e que é importante, é o reconhecimento da peculiaridade das metrópoles
ibéricas, ou seja, o colonialismo espanhol e português. Isso ocorre por duas razões:

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1 - Não se verifica em nenhum dos dois casos os desdobramentos históricos que traduzem a
acumulação prévia de capitais em uma sociedade ou economia capitalista ou a industrialização
capitalista.

2 - Por meio de um mecanismo comum aos dois casos temos que Portugal se torna dependente
da Inglaterra. Assim os excedentes portugueses são transferidos para Inglaterra devido a
dependência econômica. Portugal se torna uma semiperiferia a Inglaterra se beneficia de sua
maior colônia.

Fernando Novaes reitera que a economia colonial se fundamenta na agro exportação e reafirma
mercado interno inexpressivo. Os setores de mercado interno estariam também subordinados à
metrópole, ainda que indiretamente. Ele ainda diz que a retenção de uma parcela pequena dos
excedentes produzidos pelos escravos teria sido suficiente para reproduzir a economia colonial.
Mesmo a burguesia metropolitana drenando os excedentes, os que ficaram retidos eram
suficientes para reproduzir a estrutura econômica e social. É por meio dessa percepção que
outros historiadores irão afirmar e demonstrar que a estreita faixa de retenção de excedentes
por parte da elite colonial a beneficiava, mas também era fruto do monopólio da terra e do poder
na administração colonial.

No que se refere à escravidão, Fernando Novaes a insere em um processo mais amplo como a
acumulação primitiva de capitais. Tanto a escravidão quanto o tráfico eram importantes para
essa acumulação, mais ainda do que para o sistema colonial. Fernando Novaes comete um erro
de inversão: não é a escravidão que implica a existência de tráfico internacional, mas sim o
tráfico internacional que possibilita a existência da escravidão. Antes da escravidão e do
escravismo está o tráfico. O sistema colonial mercantilista e suas relações com o capitalismo
comercial gerou o tráfico internacional de escravos. A escravidão ameríndia não estava
subordinada ao capital mercantil. Não interessa à lógica da exploração colonial que o tráfico de
indígenas fosse a principal dentro das colônias. Se assim fosse, uma esfera poderosa de
acumulação surgiria dentro da colônia portuguesa.

Concomitante ao trabalho de Fernando Novaes surgem trabalhos, na mesma época, que irão
conformar uma outra escola de interpretação do sistema colonial. Essa escola recebeu o nome
de escola do modo de produção escravista colonial. Essa escola nada mais é do que uma

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apropriação de uma obra literária que possui o mesmo título. Quem primeiro lança os
fundamentos dessa nova escola que confrontará a anterior é o Cardoso. Ele era um dos mais
versáteis historiadores brasileiros que transitou por diversas áreas da historiografia com
inúmeros trabalhos publicados. Ele se insere nessa discussão complexa criticando uma escola
anterior formada por historiadores importantes.

Cardoso critica e retira a ênfase que os autores anteriores deram às determinações externas à
economia colonial. Tais determinações explicavam o funcionamento da economia da colônia.
Cardoso muda a ótica e pretende que o estudo da economia colonial leve em conta as suas
estruturas internas. A ideia é compreender a economia colonial a partir de seus fatores internos
tentando relacioná-los e separá-los dos fatores externos. Para Cardoso a economia colonial se
baseava na agro exportação, mas existindo a figura do camponês que seriam os escravos
atuantes na brecha camponesa.

Gorender, mais ou menos na época de Cardoso, produz a obra do escravismo colonial e exacerba
a ideia que formulam as leis do modo de produção escravista, levando em conta os meios
produtivos. Os olhos são retirados da circulação e colocados na produção. Ele critica
pesadamente a circulação. Além disso, Gorender foi o primeiro a admitir a possibilidade de
acumulação dentro da colônia.

Os autores do texto a ser estudado criticam a escola do modo de produção escravista colonial:

1 - A produção desse modo de produção ocorreria externamente à colônia.

2 - Esse modo de produção é incapaz de gerar as suas flutuações próprias, sendo singular.

Os dois autores do texto “O Arcaísmo como Projeto” sistematizaram visão das escolas sobre o
tráfico internacional de escravos. Há uma concordância dos autores quanto a centralidade do
comércio negreiro internacional para a reprodução do trabalho, ou seja, a empresa colonial
depende do tráfico para sua reprodução. As escolas também assumem que o caráter extensivo
da produção colonial criou uma simetria entre os níveis internacionais de preço. Os preços dos

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escravos apresentam um comportamento simétrico a dos bens coloniais já que ambos estavam
intimamente relacionados. Temos uma sincronia entre tráfico e bens coloniais É um fato
consensual que a oferta de escravos tem de ser elástica e com preços baixos. Isso explica que
as taxas de exploração dos escravos é bastante alta. A expectativa de vida dos escravos era
baixa e por isso a o tráfico era intenso.

As duas escolas convergem para a impossibilidade da expansão da produção colonial em


conjunturas internacionais adversas. Se no mercado internacional temos uma elevação dos
preços, a economia colonial se expande. Se a economia mundial está em declínio, a economia
colonial também acompanha a economia mundial. É impossível uma disjunção.

As duas escolas também convergem ao ver a África como um viveiro humano. As escolas foram
negligentes em considerar as estruturas internas da África não buscando as razões pelas quais,
por tanto tempo, o continente forneceu tantos escravos.

As duas escolas concordam no caráter metropolitano dos negócios negreiros, ou seja, o capital
mercantil metropolitano é quem comanda o tráfico internacional de escravos.

Agora vamos ao modelo que os autores do texto “O Arcaísmo como Projeto” apresentam. Tal
modelo se contrapõe ou se afasta, na maior parte dos aspectos, das escolas anteriores.

O ponto de partida é a consideração de que a economia e a sociedade do Antigo Regime são a


chave para entender a sociedade e a economia colonial. Ambas eram fundamentadas em
estruturas agrárias tradicionais, espaços urbanos pouco desenvolvidos, indústria insipiente e a
impossibilidade de reproduzir as estruturas arcaicas com base nos seus recursos internos e é
isso que faz a expansão marítima tornar possível a sobrevivência dessas estruturas arcaicas que
persistem durante a época moderna. Enquanto isso os outros países europeus realizam
mudanças nessas estruturas. A transferência da renda e do excedente da colônia para a
metrópole criou uma estrutura social parasitária em Portugal. O nobre se insere na atividade
mercantil ou o mercador que aspira ser nobre. Essa estrutura mercantil impede que novas
formas mais modernas surjam, como companhias monopolísticas existentes na Inglaterra e na
Holanda. A ordem tradicional se via ameaçada pelo fortalecimento de novos setores
considerados corrosivos. Todos esses fatores explicam que os recursos acumulados pela esfera

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mercantil acabem sendo esterilizados no consumo de títulos, terras, etc, não sendo convertidos
em fatores de produção. O arcaísmo é então verdadeiro se baseando na apropriação do
excedente e da renda coloniais. Essa é a peça chave do modelo. O projeto de colonização que
prescinde de uma burguesia metropolitana forte.

Alguns aspectos das escolas anteriores são aceitos nesse novo modelo. Ambos os autores são
do Rio de Janeiro.

Entre os fatores comuns às escolas anteriores e o novo modelo está o fato de que a economia
não pode prescindir de escravos e alimentos para a reprodução. Os escravos precisam ser de
baixo custo e é necessário ter uma larga oferta de alimentos. Isso é consenso. O que é novo
para o modelo aqui dos autores é que, ao ser assim, o abastecimento de alimentos e a mão-de-
obra escrava devem se inserir no processo de agro exportação através do mercado. A estrutura
da produção colonial gera os seus mercados, de homens escravos e alimentos em geral. Por sua
vez, é viabilizado circuitos internos de acumulação para além da Europa. As outras escolas
afirmam que é necessário alimentos, escravos e que o mercado interno é pequeno, mas o novo
modelo afirma que:

1 - O mercado interno colonial tem uma dimensão muito mais importante do que a considerada.

2 - O tráfico mercantil de escravos era controlado pela elite mercantil colonial.

Temos então dois braços endógenos à colônia: abastecimento de alimentos (policultura,


agroindústria, etc.) e abastecimento de escravos. Há uma elite mercantil na colônia que irá
capturar essas duas esferas com imenso potencial de acumulação e monopolizá-las. É isso que
o novo modelo procura estudar. Ao examinarmos essa elite acabamos por estudar a elite do Rio
de Janeiro já que ela era a cidade mais dinâmica do ponto de vista econômico e mais importante
cidade da colônia. A expansão inicial do Rio de Janeiro começa com a economia do ouro, mas
com o declínio da exploração aurífera, outros centros surgem e mobilizam a dinâmica da cidade
posteriormente. Não temos aqui uma elite mercantil qualquer, mas sim a elite mais importante
da colônia. O modelo estuda bastante essa elite.

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Os mercados de alimentos e escravos eram indispensáveis para a colônia permitindo uma


acumulação mercantil pela elite colonial, ou seja, elite vinda de Portugal mas residente na
colônia. A elite se torna mais poderosa ao longo do tempo já que a realidade colonial propõe
uma rarefação do crédito e prevalência de capital mercantil. Ao longo de um processo a elite
monopoliza o grande crédito e financiamento sendo ela a origem dos recursos para a expansão
da própria economia agroexportadora. Além disso financia o tráfico internacional de escravos
armando embarcações, tripulá-las, promover o escambo, trazer escravos e os vende-los na
colônia. Não é qualquer empreendedor que faz isso, apenas a elite colonial enraizada na colônia.
Essa esfera altamente rentável não é comandada pela burguesia metropolitana, mas sim pela
burguesia colonial. Por controlar esses fatores é essa burguesia que controla a reprodução da
economia colonial por monopolizar o comercio de alimentos e insumos, além do tráfico de
escravos. Há uma abertura limitada para a inserção de capital estrangeiro, não proveniente da
elite, em alguns assuntos internos à colônia, mas os assuntos intercoloniais eram dominados
pela elite.

Uma consequência importante então era que o controle interno dos fatores de produção baratos
(alimentos e escravos) permitirá uma autonomia das flutuações coloniais frente ao mercado
internacional. Isso defronta um dos pilares da escola do sentido da colonização que diz que a
economia colonial não tem ritmos e flutuações próprias estando condicionada aos fatores
externos. Os autores não concordam com essa ideia por acreditar que, devido a existência da
elite colonial, uma certa autonomia externa existia. Em conjunturas adversas de mercado
externo, principalmente do açúcar, ao contrário da economia açucareira retrair ela se expande
já que como a colônia controla os fatores produtivos, ela poderia reduzir custos de produção e
adequar preços a essa nova conjuntura. Além disso ela poderia expandir multiplicando a
capacidade produtiva. O volume exportado aumenta apesar da redução da remuneração por
unidade exportada.

Essa economia é autônoma no processo de apropriação territorial não dependendo de alimentos


e aquisição de escravos por já possuir o controle dos mesmos. Assim é possível se adaptar frente
as mudanças externas.

Mais do que criar um sistema monocultor e agroexportador, o objetivo último da colonização era
reproduzir em continuidade uma hierarquia altamente diferenciada. A uma certa altura, a elite

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burguesa colonial se insere no comercio de escravos e alimentos adquirindo imóveis, terras e


participando de atividades de crédito. Ela faz isso já que a atividade comercial não estava sujeita
às leis sociais de distinção. Mais importante do que acumular era alcançar a posição aristocrática
e social diferenciada. Embora uma face desse comportamento tenha um outro significado já que
a acumulação que permitiu a inserção da atividade mercantil permitiu a saída da produção para
o comércio. A elite teve esse comportamento. Quando os autores falam que o objetivo era
reproduzir uma hierarquia altamente diferenciada, é exatamente isso que eles querem dizer.

A consequência mais importante é que a empresa escravista precisa crescer sempre para manter
todo o aparato usufruído pela elite. Qualquer estagnação ou declínio provocaria revoluções das
relações sociais existentes. Por isso que, quando a conjuntura era desfavorável, a elite conseguia
se mobilizar para não deixar que a conjuntura externa afetasse a produção de alimentos ou o
tráfico de escravos. Os fatores produtivos eram transferidos para que os ganhos aumentassem
em volume.

Posterior a esse novo modelo da escola do Rio temos o modelo surgido em São Paulo, sendo de
difícil compreensão por ser muito abstrato, teórico e baseado num tipo de reflexão não linear e
essencialmente dialética. Nesse modelo é assumido a existência na colônia do capital escravista
mercantil. Júlio Pires e Iraci formularam essa forma de capital acreditando estarem superando
as contradições aparentes entre os modelos resolvendo de forma definitiva os conflitos entre as
escolas. O ponto de partida é a crítica às escolas anteriores, principalmente as duas primeiras.
Eles se inclinam para o cerne na escola do sentido da colonização. A chave para a compreensão
da aparência está na essencial e ela está presente na escola dos sentido da colonização. Para
resolver o problema esse capital escravista mercantil é criado. Ele é produtor de mercadorias,
extrator de mais-valia, domina a produção e a circulação, condiciona a economia, fatores de
produção, projetava-se na vida social e política e ele dependia do capital comercial para a sua
reprodução. A realização da produção e a aquisição de mão-de-obra eram esferas comandadas
pelo capital mercantil o qual sustentava o capital escravista mercantil.

Apenas a pesquisa histórica resolve todos os debates levantados por todos esses modelos.

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6. AULA 6 – IMPÉRIO BRASILEIRO E PANORÂMA POLÍCO (24/02/2014)

Estudaremos a economia colonial com o apogeu e crise da economia escravista. Esse enunciado
identifica o período imperial como uma forma especifica de estruturação da economia brasileira
e forma um dos eixos que permite compreender o período de 70 anos denominado imperial.

Iremos introduzir o período imperial sem tratar de qualquer tema específico. Faremos uma
apresentação geral com ênfase a aspectos relativos a administração, sociedade e evolução
política ainda que aspectos econômicos também sejam introduzidos já que é impossível
estabelecer fronteiras rigorosas entre esses aspectos. Além disso há a necessidade de relacionar
tais aspectos entre si.

O texto de referência é o de Marcelo Basili. Antes de irmos ao texto será feita uma exposição de
apoio para outras leituras. O texto de Marcelo é extenso. Antes de irmos ao texto veremos o
período imperial de uma forma mais impressionista que não está em nenhum texto específico.
No decorrer do estudo será mais fácil entender o período após essa característica.

O primeiro aspecto é dizer que a emancipação política brasileira e o processo de construção do


estado nacional não teve como contrapartida a mudança nas estruturas econômicas e sociais.
Emancipa-se politicamente, constrói-se o estado nacional e as mudanças econômicas e sociais
são nulas. Associada a independência e a emancipação não existe então mudanças dessas
estruturas.

Do ponto de vista do sistema político que se constitui, temos a monarquia com a continuidade
dinástica portuguesa. Para muitos isso é uma continuidade política, ou seja, a emancipação não
significou rompimento e nem correção de nada. A dinastia de Bragança continua à frente do
poder.

O sistema político é híbrido, não sendo tipicamente liberal como era de se esperar devido a
constituição. É híbrido sobretudo pela presença de um poder originalmente associado a estados

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novos. A existência do poder moderador impede qualquer avanço liberal. O imperador poderia
vetar qualquer decisão do legislativo.

Ao longo dos aproximadamente 70 anos teremos a fundação de uma série de novas instituições
político-administrativas. A constituição de 1824 estava longe de definir as orientações que
prevalecerão em todos os campos da administração. Ela não adequa todas as relações sociais.
A partir dela, apesar disso, teremos a constituição das instituições. Elas não se definem de forma
linear e definitiva já que várias variações e retrocessos ocorreram no período. Houveram várias
reformas no campo eleitoral, tributário, político e econômico. Mas não tínhamos um quadro
institucional já definido e duradouro. A carta de 1824 foi um grande enunciado com os princípios
fundamentais que, ao longo dos 70 anos, possibilitaram mudanças apesar de retrocessos.

Uma forma de apreender as mudanças e as reformas ao longo do período é por meio da


percepção de que o período imperial conhece uma oscilação entre a prevalência de inclinações
centralizadoras e descentralizadoras. Desde sempre essa oscilação ocorreu.

O clientelismo foi o principal mecanismo de relação entre estado e sociedade. É por meio dele
que podemos caracterizar genericamente essas relações e a sociedade não englobava toda a
população já que alguns indivíduos não possuíam direitos políticos. Escravos eram excluídos e
alguns cidadãos livres também. O que restou praticava o clientelismo com o Estado. Existia
então uma democracia liberal esquisita já que poucas pessoas estavam incluídas nela e com
direitos políticos. O sistema de participação política era censitário definido pela renda. A
cidadania política era limitada.

As instituições burguesas liberais também estavam presentes de maneira limitada no período


colonial.

As estruturas de dominação e poder permanecem inalteradas. Elas continuam nas mãos das
oligarquias agrárias que se apoiavam no patrimonialismo que permeava as relações com o
estado e com outras esferas da sociedade. Essa dominação e poder continua devido a
prevalência do controle da terra. A concentração de terra era grande e a expansão da fronteira
agrícola se faz por meio do aumento da concentração da terra. Mecanismos de exclusão ao

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acesso democrático à terra eram praticados. Em 1850 a Lei de Terras faz surgir o direito à
propriedade juridicamente plena da terra.

Outra característica que singulariza o regime democrático liberal do período imperial é a


presença da escravidão. A presença dela já impõe uma grande contradição a essa democracia.
Esse sistema escravista irá se modificar de forma lenta ao longo do período imperial com o
surgimento e lenta disseminação de relações sociais de produção propriamente capitalistas. No
final do período as relações escravistas tradicionais foram substituídas. Essa transição para a
forma de trabalho capitalista será deliberadamente longa e conflituosa, fruto de uma decisão
das elites de acabar com a escravidão de forma lenta e gradual já que havia a preocupação em
manter as estruturas sociais e o controle das mesmas. Predomina nesse período um mosaico de
relações de trabalho não capitalistas e as capitalistas emergem de maneira lenta. É por isso que
nos centro da modernização está, dada a nossa tradição escravista e por ela estar no centro da
herança colonial, a transição que se arrasta por um período muito longo e que engloba vários
projetos: a primeira preconiza o trabalhador livre nacional e outra que preconiza a transição
para o trabalho imigrante estrangeiro. Há um consenso entre a elite e seus representantes
quanto a imperiosa necessidade de se preservar as estruturas sociais marcadas por exclusão
social e preservar também estruturas senhoriais que nos trazem aos mais nefastos eixos da
nossa história até o momento presente. Até hoje podemos perceber tais estruturas se
manifestando de forma explícita.

A nossa economia no período imperial é semelhante ao do período colonial, sendo uma economia
de inserção subordinada. Temos uma transição para o capitalismo periférico devido ao
fortalecimento do modelo primário exportador. O núcleo dinâmico da economia imperial era a
economia cafeeira localizada no centro-sul em um espaço muito restrito. As relações entre café
e indústria foram fundamentais para explicar os surtos de industrialização no Brasil.

O processo de modernização do Brasil que se inicia em 1850 devido as reformas ocorridas nesse
ano, conheceria no século XIX em sua segunda metade a emergência de uma série de atividades
e instituições de caráter moderno e capitalista, ainda que elas se estabeleçam em um período
de transição. Esse período de transição pressupõe de maneira genérica a desagregação de

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fatores com agregação de novos fatores. Essa transição ocorre de maneira gradual. O novo
então entra em compromisso para preservar algumas estruturas e mudar outras. As esferas ou
faces importantes do nosso processo de modernização, além da transição do trabalho, são a
modernização dos transportes, surgimento do sistema bancário e financeiro moderno no país,
caráter complexo e estatutos novos das atividades de mercado interno e externo e uma série de
outras reformas tipicamente modernas, mas que nunca serão implantadas e introduzidas de
forma pura e sólida já que elas se confrontavam com outros fatores conservadores no país. A
modernização é então conservadora e sem mudanças preservando estruturas econômicas e
sociais.

Temos no período um imenso alargamento do mercado interno e fluxos internos na economia


brasileira. O interesse pelo mercado interno cresce muito. Se na economia do ouro tivemos um
processo de integração macrorregional, aqui teremos outro que determina o início de formação
do mercado interno brasileiro sob bases capitalistas. Se nos século XIX tivemos a transferência
do eixo econômico do nordeste para o sudeste, no século XIX teremos a consolidação desse eixo
e o aprofundamento de algo que é quase a-histórico que é a desigualdade regional do Brasil.
Para entende-la, apesar de tudo, devemos recorrer à história. As desigualdades persistem até
hoje no Brasil. Por isso verificamos que, no século XIX, mais ainda que no século XX, a transição
para o capitalismo apresenta ritmos diferentes. Algumas regiões deram passos decisivos para
essa transição e outras nem a iniciaram.

No campo econômico tivemos um crescimento industrial. Discutiremos a sua origem além do


desenvolvimento urbano. No século XIX nós conhecemos, ainda que de forma embrionária, um
movimento no sentido de uma estrutura social mais moderna. Setores e classes sociais novas
surgem e ganham expressão no século XIX como a burguesia industrial, classe média, etc.

Iniciaremos o estudo do texto da aula. A apresentação será sumária servindo de apoio para os
demais textos que virão.

O ponto de partida do texto é a independência e a formação do estado imperial. Temos uma


série de tópicos referentes inicialmente ao período joanino que antecede a independência política
e que explica o processo de emancipação. Esse processo se inicia com a transferência da corte

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portuguesa em 1808 num âmbito de uma série de processos em curso na Europa. Como
consequência houveram implicações importantes para a colônia. É consenso na historiografia
que a transferência da corte inicia o processo de emancipação política do Brasil. Essa
transferência deve ser entendida dentro de um quadro muito mais amplo que remete a segunda
metade do século XVII, internos ao Brasil, à América e à Europa. Esses processos já foram
discutidos em outras disciplinas e em textos anteriores. É importante pensar todo o processo de
forma integrada com a expansão do mercado mundial devido a revolução industrial, ascensão
do liberalismo econômico e político, desagregação do absolutismo e surgimento do estado liberal
com suas instituições, fratura política que representou a independência das 13 colônias e a
revolução dos escravos do Haiti. Por fim temos a revolução francesa que teve consequências
muito importantes para todo o mundo da época. É diante desse contexto que a corte portuguesa
se transfere para o Brasil ainda com a política de aliança com a Inglaterra. Portugal se recusa
aceitar o bloqueio continental imposto por Napoleão e, convencido pela Inglaterra, a corte vem
para o Brasil

A transferência da corte já era cogitada desde antigamente e, diante do contexto da época, foi
acatada e realizada. Essa transferência fazia parte do processo de transforma o Brasil na sede
do império português. Quando a corte se transfere, várias instituições vem junto com ela para
o Brasil transformando a colônia e elevando-a a uma outra dimensão na relação. O Pacto Colonial
se extingue assim como outros acordos.

A quebra do Pacto Colonial significa abertura comercial e o fim do exclusivo metropolitano e o


fim das regalias da metrópole. A abertura comercial avança bastante. Além dessa consequência
temos outras como o surgimento da ideia de interiorização da metrópole com o enraizamento
dos interesses portugueses no centro sul brasileiro. Isso não era uma inovação, mas sim uma
expansão do que antes já existia. A transferência da corte impõe esse enraizamento.

A política econômica de Dom João VI foi marcada por ambiguidades. Ela tem um conteúdo de
reforma sendo portadora de um projeto de modernização e promoção de industrialização. Temos
uma série de medidas legais tomadas por Dom João VI em promover e fomentar o
desenvolvimento industrial retirando os fatores que impossibilitavam esse desenvolvimento. A
política mercantilista era seguida então de uma política liberal.

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Os tratados de 1810 entre Brasil, Portugal e Inglaterra foram um marco que quebra o estatuto
colonial. Esses tratados sempre privilegiaram a Inglaterra. O regime alfandegário não impedia a
entrada de produtos ingleses. As consequências foram imediatas para o Brasil já que a
Inglaterra, por ser a principal parceira comercial de Portugal, disseminou seus produtos de
maneira fácil pelos mercados latino americanos dada a dificuldade comercial vista na Europa
com o bloqueio continental. Para o Brasil as consequências foram negativas e imediatas além de
notáveis. Câmbio, balança comercial, etc., foram afetados. Consequências de longo prazo
também existiram e prejudicaram o processo de modernização que estava em curso no Brasil.

Os tratados de amizade e comércio com a Inglaterra concedia privilégios a cidadãos britânicos


no Brasil. Tais tratados, pela primeira vez, introduzem o compromisso do Brasil em abolir a
escravidão e o tráfico.

O período joanino é marcado por conflitos internos e externos importantes como a invasão da
Guiana Francesa e da província cisplatina. A presença da corte acelera muito a política de
integração econômica brasileira. Essa integração já existia, mas com a corte foi acelerada com
dois sentidos: um com a necessidade de abastecer as cidades que cresceram muito com a
presença da corte e de outro a evolução da região do Paraíba do Sul. A elite do Brasil ganha
projeção.

A política joanina é assimétrica privilegiando o centro sul da colônia e negligenciando o nordeste


que iniciou movimentos revolucionários e separatistas.

No início da década de 1820 a revolução liberal do Porto em Portugal se constitui um processo


acelerador da emancipação do Brasil. O contexto político dessa revolução inviabiliza qualquer
possibilidade de monarquia dual entre Portugal e Brasil. Essa revolução não é um movimento
autônomo estando relacionada aos acontecimentos da Europa em Geral. A presença francesa
em Portugal recaiu sobre a colônia e conflitos se estabeleceram entre aqueles que queriam
manter esse quadro novo de relação com a colônia e aqueles que queriam a recolonizarão
revogando as liberdades econômicas e comerciais. Aqueles que ganharam com a transferência

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da corte não queriam de forma alguma que a corte retornasse, mas as cortes do Porto exigiam
o retorno do rei. Os primeiros começaram a desenvolver um antilusitanismo. As províncias do
Brasil nesse momento que estavam desprivilegiadas com a vinda da corte queriam que ela fosse
embora e apoiaram as determinações vindas da revolução do Porto.

A corte retorna para Portugal no início da década de 1820 e o desdobramento gerou eventos
que culminaram na independência. Vale chamar a atenção que as cortes portuguesas tinham
representações das províncias do Brasil. Isso foi importante já que José Bonifácio produziu um
documento que deveria instruir a postura dos representantes das províncias sendo esse
documento um prenuncio que ganharam grande repercussão no período. Nele temos vários
assuntos ligados a terra, educação, economia, etc. Eles enunciam a necessidade de modernizar
e superar o estatuto colonial muito além da restrita dependência política ou da subordinação
forma política.

Os sucessos associados a emancipação estão na impossibilidade de conciliar os interesses


coloniais e da metrópole. Temos uma clivagem da elite brasileira no processo de independência
sendo ela importante por não se restringir ao processo de independência colocando em questão
a forma de poder que vigoraria após a emancipação. De um lado temos o setor moderado que
preconizava uma monarquia centralizada com o executivo controlando o legislativo e outro setor
radical que queria o legislativo prevalecendo sobre o executivo. A radicalidade deste último grupo
visava a formação do regime republicano. Antes da independência já há um conflito entre dois
projetos de nação distintos a partir de matrizes filosóficas distintas. Esse conflito não se resolve
com a independência e nem no primeiro período político do Brasil independente, ainda que
resolva algumas questões dentro do primeiro reinado.

A luta pela emancipação política e seus fatos mais importantes estão associados a uma base
urbana da cidade do Rio de Janeiro. Isso explica o motivo de vários cronistas afirmarem que a
população se quer tomou ciência, em geral, da ruptura com Portugal e a constituição da
independência.

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A independência não é um processo sem conflito no plano das ideias. Interesses divergentes se
confrontavam. Além disso, houve resistências militares ao processo emancipatório que foram
vencidas com o apoio de mercenários contratados pelo novo governo.

A solução monárquica e a opção pela tradição rejeitando o republicanismo, desde já estabelece


uma distinção do processo de formação do estado brasileiro e os processos vistos nos países de
colonização hispânica. A opção pela monarquia foi a mais conveniente para preservar as
estruturas já existentes. Optar pelo republicanismo era arriscado e colocava em risco o domínio
das elites.

A independência não é um processo linear sendo ambíguo já que a ideia de consciência nacional
não existia e nem mesmo a população participava em grande parte do novo país. A consciência
prevaleceu no ambiente urbano.

O grau elevado de isolamento e de autonomia das províncias fará com que, após a emancipação,
ainda demore alguns anos para que as elites se unam para formar a consciência de nação. Antes
disso existiram muitos conflitos dado o isolamento das elites e as divergências de interesses.

No primeiro reinado temos uma disputa de poder entre grupos. Dom Pedro I as vezes assumia
papel neutro e as vezes se inclinava para algum dos grupos. Dom Pedro I foi um imperador
autoritário. A elite política que comanda o processo político estava à frente das decisões e em
seu interior temos as determinações decisivas dos conflitos. Ela ocupa os cargos mais
importantes do estado.

A constituição de 1824, em sua primeira etapa, deveria ser fruto de uma assembleia constituinte
de 1823. Dom Pedro I dissolve a assembleia e rejeita as decisões da mesma por não aceitar
nenhuma limitação ao seu poder.

A constituição outorgada por Dom Pedro I é marcada por forte centralização política, mas não
se afasta muito da carta feita pela assembleia anteriormente dissolvida o que nos faz pensar
que a elite não estava muito descolada das opiniões de Dom Pedro I. Essa carta outorgada

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reflete um modelo monárquico centralizador próximo ou exatamente igual ao que o setor


moderado queria.

Não é linear e nem igual a percepção como a forma de emancipação foi vista. As assimetrias
geraram contestações, medidas deliberadas de contestação a decisões do poder central de Dom
Pedro I e isso só se resolve progressivamente.

Ainda no primeiro reinado temos, na negociação da independência, pagamento de indenização


a Portugal e assinatura de tratados com a Inglaterra com o compromisso de abolir a escravidão
em 1826. Nesse reinado temos uma grave crise econômico-financeira que teve múltiplas causas
expressas por uma série de desequilíbrios tais como: aspectos estruturais relativos as estruturas
das economias coloniais com déficit externo, desequilíbrio no balanço de pagamentos, aumento
das importações, problemas com políticas tarifárias, renovação de tarifas comerciais
desvantajosas com a Inglaterra, inflação, desvalorização monetária, aumento do custo de vida,
aumento da dívida externa com pagamento a Portugal para reconhecimento da independência,
conflitos externos na região do Prata que resultam na criação do Uruguai e conflitos que levarão
a abdicação de Dom Pedro I e início do período regencial. Os conflitos que derrubaram Dom
Pedro I estão relacionados à grande centralização política e o acumulo de problemas econômicos
que levaram a insatisfação da população. Além disso, grupo que havia sido derrotado no
processo de independência, no contexto desse cenário, ganha projeção. Dom Pedro I defendia
mais os portugueses do que brasileiros o que gerava insatisfação da população geral.

O período regencial é reconhecido por forte instabilidade. Inicialmente temos um processo de


descentralização no âmbio das políticas públicas e também no âmbito legal. Essa autonomia do
período regencial fez com que o governo central perdesse a capacidade de impor o seu projeto
e ter apoio das elites. Diversas revoltas revolucionárias ocorreram no período devido ao caráter
descentralizador. Os conflitos, de um lado expressam a incapacidade de gerar um projeto que
atendesse os interesses da elite e de outro conflitos que envolviam projetos de nação.

Do ponto de vista político-administrativo foi criado um conselho que precede o governo central.
Algumas instituições são criadas nesse momento e que desempenham funções importantes no
período e perduram no segundo reinado. A guarda nacional foi criada para proteger a nação.

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A regência se resume em descentralização e reforço dos poderes locais. Algumas instituições e


figuras foram privilegiadas como o juiz de paz. A regência falha com o projeto de forjar a nação
e controlar as revoltas. Daí a necessidade do regresso conservador e golpe da maioridade já que
as elites queriam reestabelecer a ordem e acabar com a anarquia. A alternância entre liberais e
conservadores é então rompida.

O aparato que visou a descentralização política regencial é revisto e o regresso conservador


regencial se inicia com a lei interpretativa do ato adicional. O projeto conservador está associado
ao período saquarema que se inicia em 1848 até 1862. Esse período consolida as estruturas do
estado nacional. Durante a hegemonia saquarema (conservadores) é que são realizadas as
importantes reformas em meados do século XIX e que lançam as bases para o processo de
modernização. Em 1850 temos a lei de terras, a reformulação da guarda nacional, código
comercial, abolição do tráfico e a lei de hipotecas.

Entre o fim do período regencial e o fim do império temos o auge do período imperial associado
a hegemonia saquarema de 1850-1860. Após esse período temos uma série de reformas que
visam a adaptar o regime às exigências da sociedade e do processo de modernização que estava
em vigência na época. As reformas são sucessivas e contínuas nas décadas de 60 e 70. Após
isso inicia-se a derrocada do período imperial até o gole republicano de 1889.

Outros aspectos importantes sobre a clivagem liberal e conservador é que ambos os grupos
queriam a mesma coisa, mas de formas diferentes. Ambos grupos eram formadores da elite do
Brasil.

O segundo reinado é marcado pela ascensão de Dom Pedro II que centraliza o poder e faz uso
do poder moderador. O conselho de estado era vitalício e recrutado no senado, participando das
decisões do governo central.

A década de 70 se inicia com reformas para modernizar o regime e preservá-lo. Essas reformas
não são acolhidas favoravelmente pela população. Existe resistência à modernização
principalmente na população mais excluída que não entendia as vantagens dessas reformas. A

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mesma população se recusava a participar de processos censitários. Outras tantas medidas


modernizadoras visavam colocar o Brasil em uma posição moderna no mundo.

Nos conflitos da região do Prata evidenciamos uma postura agressiva do Brasil, bem diferente
da postura que temos hoje. O Brasil, no século XIX, se insere deliberadamente em conflitos na
região como a guerra do Paraguai e a guerra da província Cisplatina. Existiam três correntes que
explicavam a guerra: uma que demonizava o Paraguai e justificava a guerra com genocídio,
outra que vê o conflito comandado pelos interesses britânicos e uma terceira corrente que vê o
conflito associado a fatores históricos da região.

A crise que leva ao fim do império é aquela que mina os pilares que o sustentavam como o fim
da escravidão. Os setores escravistas que sustentavam o império ficaram indiferentes a queda
do mesmo e a instauração da república.

7. AULA 7 – A ECONOMIA CAFEEIRA (26/02/2014)

Falaremos agora da economia cafeeira privilegiando a atividade econômica. Além dos dois textos
utilizados na biografia para o assunto, trataremos de noções de outros autores sobre a economia
cafeeira.

O ponto de partida são observações sobre os primórdios dessa atividade economia no Brasil. O
café é uma planta nativa e original da África. Seu primeiro processo de difusão se realizará no
mediterrâneo e já no século XVII, dois séculos antes de se expandir pelo Brasil, o café já era
consolidado como um produto importante no comércio europeu.

A primeira exploração colonial do café é holandesa datada desde o final do século XVII e início
do século XVIII na Indonésia e no Suriname. Os holandeses foram os primeiros a produzir o café
com vistas ao comércio europeu.

O primeiro país europeu que consome significativamente o café foi a França desde o século

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XVIII. Esse país se insere antes do Brasil na produção de café concentrada na colônia de São
Domingos e outras colônias como a Guiana francesa.

No início do século XIX quando a produção em larga escala ocorre no Brasil, a Inglaterra tinha
o domínio comercial do café na Europa. No início do século XVIII temos a introdução de mudas
de café no norte do Pará e depois uma lenta difusão em movimento à região centro-sul do Brasil.
Isso faz com que o século XVIII seja o início do cultivo do café para autoconsumo e de caráter
ornamental. Não havia uma produção voltada para um grande comércio.

No Rio de Janeiro a produção de café se inicia em 1760. Sua expansão e produção está associada
ao crescimento da cidade do Rio de Janeiro. No final do século XVIII o café aparece na pauta de
exportações da colônia, mas de maneira tímida. Temos nesse época a expansão do cultivo e do
hábito de consumo e isso ocorre de forma paulatina.

A historiografia procura explicar a história da produção e do comércio do café no Brasil. O período


que abrange a economia cafeeira foi um período largo de tempo. A partir do início do século XIX
a atividade cafeeira passa a ocupar um papel cada vez mais importante até a terceira quadra do
século XX. Não podemos entender a história do Brasil sem reconhecer a importância desse
produto.

O autor do texto propõe que a primeira fase da economia cafeeira antecede o cultivo no Brasil
já que as mudas estavam sendo trazidas para o país. O café deixa o seu espaço original nessa
época e passa a ser comercializado na Europa sendo comercializado em zonas coloniais. A partir
daí ele se introduz no Brasil.

A segunda fase se estende da introdução do café no Brasil em 1727 até 1810 em que temos a
difusão geográfica do café, difusão do consumo e início da produção comercial em larga escala.
Nesse processo de adaptação o café está em busca do seu espaço para a reprodução em larga
escala. Não é possível cultivar café comercialmente e de forma rentável em qualquer tipo de
latitude e solo, sobretudo em um período histórico em que há baixo progresso técnico e baixa
incorporações tecnológicas para plantar em áreas inadequadas.

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A difusão do café resulta, no final do século XVIII e início do século XIX, na ampliação do cultivo
dessa planta no vale do paraíba nas encostas da Serra do Mar, nas vertentes orientais próximas
à cidade do Rio de Janeiro para consumo interno e exportação de excedentes. Após isso o café
transpõe a Serra do Mar sendo cultivado nas vertentes ocidentais e indo até o vale do rio paraíba
do sul. Para o autor do texto, o terceiro período está associado à expansão do café nessa região
tornando o Brasil o maior produtor mundial de café, posição que o país irá manter por um longo
período, por mais de um século. Ao longo dele o café assume importância fundamental na nossa
economia. Esse terceiro período vai de 1810 a 1870 e por volta dessa última data abre-se o
quarto período que vai até 1897, coincidindo com a larga expansão e cultivo do café no oeste
(planalto) paulista. São Paulo nesse momento ultrapassa Rio de Janeiro e Minas Gerais como o
maior produtor nacional de café.

O último e quinto período se estende de 1897 até 1938, anos em que o autor elaborou suas
ideias sobre a economia cafeeira. Esse período se caracteriza a uma larga evolução da economia
cafeeira e ampla produção. O período coincide com as crises de superprodução, tanto a primeira
no início do século XX quanto as que se seguem em seguida.

Essa divisão em 5 períodos nos permite estudar e aprender melhor a economia cafeeira. Um
traço geral importante dessa economia é a associação com o processo de modernização do
mercado de capitais no Brasil. O café está no centro dessa modernização por ser o principal
produto da pauta econômica do país. Outro dado importante é que a expansão do cultivo ocorre
em áreas “vazias” nos termos de um regime de apropriação territorial que irá promover a
concentração fundiária e expulsão das populações originais das áreas. Temos o grande latifúndio
com o processo de legitimação legal e social dessa propriedade. No século XIX as relações sociais
de produção, a propriedade, e todos os aspectos tradicionais da produção da cafeeira estão
ligadas à modernização economia em trânsito no Brasil. As estruturas são tradicionais e em
constante modernização, apesar de lenta.

A produção do café não estava aberta a qualquer empreendedor já que a cafeicultura se realiza
essencialmente com base na grande produção. A atividade requeria recursos para uma larga
produção. A origem dos capitais a serem investidos na montagem das fazendas de café estão
nas atividades internas comerciais e em atividades agroexportadoras, ou seja, temos a migração

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de capitais dessas atividades para a produção do café. Isso explica porque, em larga medida, a
produção de café era cara e requeria muitos capitais. No caso de Minas Gerais, boa parte desses
capitais são originários de atividades do mercado interno.

Para abrir uma fazenda de café era necessário um amplo território baseado na grande
propriedade. A expansão do café ocorria no interior da unidade produtiva e na fronteira. No
interior da unidade existia reservas de terras que nem sempre eram contínuas. Tais reservas
eram ocupadas pela expansão do café e a produção do mesmo sempre dependia de mais fatores
produtivos como a terra já que nesse período histórico a produção era extensiva. O café era um
cultivo permanente e o cafeeiro poderia produzir por décadas, mas em um dado momento a sua
produção se torna inviável devendo ser substituída. O recultivo de café no mesmo solo não era
viável após o período de pico. A segunda necessidade para se produzir café era o investimento
em escravos, unidades industriais de processamento (mais simples do que o processamento da
cana), recursos para mão-de-obra (recurso mais caro). Os escravos só deixam de ser o principal
componente para a produção de café e de sua manutenção na terceira quadra do século XIX.
Até lá a produção de café era essencialmente escravista.

Não é qualquer espaço geográfico que permite a produção do café. O sudeste brasileiro possuía
as condições necessárias a sua expansão. O solo e o clima precisam ser favoráveis além da
combinação de fatores como ventilação, aeração e grau de insolação para a produção. Ao
contrário da cana que se desenvolve em um solo peculiar de massapê, o café se desenvolve em
solos mais acidentados e de encosta. A variação sazonal do clima precisa ser muito bem
delimitada para o cultivo da planta. Não é necessário elevada umidade para se produzir, mas as
chuvas precisam ocorrer para o crescimento da planta e a seca deve coincidir com a colheita. As
técnicas de cultivo são indígenas e com elevado impacto ambiental. A monocultura é extensiva
e requer elevada quantidade de terras. A cafeicultura de expande pelo Vale do Paraíba do Sul
derrubando florestas e Mata Atlântica. O plantio era manual e dependendo do tipo de muda o
trabalho era mais intensivo. O manejo do café era variado de uma região para outra, mas era
essencial na fase inicial de cultivo. O café era plantado na estação chuvosa (primavera, verão)
e a colheita se realizava no outono e no inverno. O florescimento era na primavera, a frutificação
no verão e a colheita no inverno.

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Durante os anos iniciais de produção o cafeeiro intercala a produção de café com mandioca e
milho até que o café ganhe maior altura. Isso é importante para a manutenção e reprodução da
população escrava. Os cultivos intercalares possuíam essa função. A colheita inteiramente
manual requeria intensa mão-de-obra e provocada a migração sazonal de trabalhadores durante
a colheita.

A secagem do café era manual nos grandes terreiros os quais incidia muito sol. Após isso o café
é beneficiado e tem a sua polpa retirada através de estágios técnico-industriais hidráulicas
inicialmente e posteriormente mecânica. Feito isso o café é peneirado, ensacado e encaixotado
para ser exportado. Áreas não mais produtivas eram substituídas por outros produtos.

As primeiras colheitas de café ocorriam após 4 ou 5 anos. O melhor rendimento ocorria após 7
anos. Dependendo da área cultivada o café poderia durar 40 anos. A queda da produção, em
geral, ocorria após 15 ou 20 anos. Uma fazenda de café irá se basear nos cultivos iniciais e por
um período relativamente longo. Essa era a ideia de uma fazenda de café com várias reservas
e espaços de cultivo, o que a permitia cultivar café por muito tempo. Após a queda na produção
a fronteira era ampliada. O investimento era feito dentro da própria unidade e também nas
fronteiras.

O complexo cafeeiro é constituído pela residência do proprietário, senzalas, depósitos e


industrias de beneficiamento. Além disso existia atividades secundárias como artesanato.
Quando o trabalho se torna livre, unidades comerciais surgiam dentro da própria unidade
produtiva. Reservas de terras não cultivadas, plantações, etc., compõem também a unidade
produtiva. O complexo cafeeiro também integra ativ

O Vale do Paraíba do Sul engloba o rio de mesmo nome com nascentes no extremo nordeste de
São Paulo. O rio corre na direção sul-norte mais ou menos paralelo ao litoral. Ao longo do curso
ele coincide com a fronteira de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Na margem esquerda temos o
vale do paraíba mineiro e na margem da direita o vale do paraíba fluminense. Temos nessa área
o mais importante espaço produtor de café do país. Quando o rio de direciona para oeste-leste
rumo ao mar temos a zona canavieira. Não é todo o Vale do Paraíba do Sul que produz café,
somente o curso alto e médio. O curso baixo não produz café, mas sim açúcar.

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As condições do vale atendem as condições climáticas importantes para produzir o café. Temos
na área também uma estreita relação com a escravidão. Durante todo o período cafeeiro a
escravidão prevaleceu no vale. Além disso, quando a fronteira agrícola se fecha a produção de
café no vale entra em decadência. A modernização dos transporte está fortemente associado a
agro exportação. A expansão ferroviária no vale do paraíba do sul está associada ao declínio da
produção de café nesse espaço. O declínio não foi abrupto, mas sim progressivo.

No caso da cafeicultura em Minas Gerais, temos o Vale do Paraíba do Sul e outras áreas como o
noite da zona da mata que engloba parte da bacia do Rio Doce. Em Minas a produção de café
conhece expansão para além do vale do paraíba do sul que permite que a cafeicultura mineira
encontre seu apogeu e experimentando um declínio no final do século XIX.

A decadência da cafeicultura em São Paulo é muito maior do que no Rio de Janeiro. Excluindo o
litoral de São Paulo delimitado pela Serra do Mar, ao transpô-la estamos no planalto paulista
que não é homogêneo. A expansão da cafeicultura começa na vertente ocidental da Serra do
Mar e se expande pelo oeste velho (São Paulo, Campinas, Jundiaí) substituindo, não
inteiramente, o cultivo da cana que se formou no final do século XVIII e que continuará
importante por todo século XIX. Gradualmente a cana foi sendo substituída pelo café já que a
fronteira não se fechou. O oeste novo compreende Araraquara, Ribeirão Preto e alcança o Mato
Grosso do Sul, sul de Minas e norte do Paraná. Essa imensa mancha de agricultura cafeeira
ocupa tais áreas. Em Minas, Mato Grosso e Paraná a expansão se dá no século XX.

Se o Vale do Paraíba do Sul é acidentado, no planalto paulista temos um relevo que favorece a
atividade por facilitar a expansão, circulação e introdução de técnicas agrícolas mais avançadas.
As terras são originalmente mais férteis no planalto. As ferrovias, associadas ao declínio no vale
do paraíba, no planalto elas são condição para a expansão da fronteira agrícola e sem elas o
café não se interiorizaria. Os custos de transporte inviabilizariam a cafeicultura se não
houvessem ferrovias. Na prática há uma perfeita consonância entre uma expansão da ferrovia
e a expansão da cafeicultura. Primeiro as ferrovias abrem caminho e depois o café se expande.

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Se no vale do paraíba a agricultura do café era escravista durante todo o período, no planalto
do oeste paulista é escravista na sua formação, mas a sua expansão ocorre no trabalho livre
imigrante. Além disso existe uma série de fatores específicos e conjunturais que respondem pela
vertiginosa expansão da cafeicultura paulista, associada à política econômica interna e fatores
externos como o preço do café no mercado internacional.

O café estava também presente no Espírito Santo de forma descontinuada e também no vale do
Mucuri em Minas Gerais. A experiência não era exitosa, mas precisa ser relatada.

No texto do autor temos um quadro sinótico com comparação entre as áreas produtoras de café.
A intenção do autor é facilitar a compreensão dos espaços cafeicultores e compará-los. São feitas
simplificações e anacronismos que necessitam cautelas. Quanto o autor diz que no vale do
paraíba existe fracionamento do latifúndio enquanto que no planalto paulista temos o latifúndio,
devemos nos atentar ao período. Inicialmente a fragmentação da terra no vale ocorreu já que
as fazendas cafeeiras estavam em declínio ou mesmo se tornam inviáveis do ponto de vista
econômico. Nesse momento a sua conversão para o mercado interno leva ao fracionamento. Ao
mesmo tempo o oeste paulista tem a sua fronteira expandida por meio da concentração
fundiária. Outra característica demonstrada é que temos no vale uma regressão urbana com
involuções impressionantes com o declínio da cafeicultura. Em São Paulo temos expansão urbana
com consolidação do oeste velho e do oeste novo. As relações sociais de produção capitalistas
não estavam consolidadas e nem eram hegemônicas em São Paulo no ano de 1910. É indevido
afirmar que houve indiferença política no vale e forte atividade política em São Paulo. Devemos
ter cautela nas situações a serem tratadas.

Os transportes devem ser estudados. Até meados do século XIX os transportes no Brasil são
exclusivamente tradicionais. Eles serão predominantemente terrestres apesar de existirem os
fluviais, marítimos, etc. A circulação se realiza com base em animais de carga (moares, tropas)
ou carros tracionados por animais. Temos a presença de algumas estradas com terrenos
acidentados. O sistema viário era tradicional e importante devido a circulação interna do país
até o surgimento das ferrovias. A manutenção era público e privada. As obras viárias também
seguiam a mesma tendência. Temos o surgimento de pontes e novas estradas. Obras públicas
viárias constituíam os maiores gastos do governo. Os transportes tradicionais se tornavam
intransitáveis sem manutenção.

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As ferrovias representam rapidez de escoamento para a produção. Isso era extensivo a todas as
atividades produtivas mercantis dependentes da circulação. As ferrovias reduziam os custos de
transporte já que tais custos eram elevados e inviabilizavam o transporte de longa distância
para a produção no mercado externo. A terceira vantagem da ferrovia era a regularidade já que
problemas climáticas não permitiam o transporte convencional. A quarta vantagem é que com
as ferrovias foi possível expandir a fronteira agrícola e interiorizá-la. A quinta vantagem era a
segurança dos produtos perecíveis já que as ferrovias permitiam que o produto exportado fosse
de maior qualidade não sendo exposto a chuvas. A sexta vantagem é que as ferrovias permitem
que as estruturas produtivas fossem mais especializadas já que o transporte ferroviário tornava
a produção mais eficaz. A expansão ferroviária não acabou com os transportes tradicionais
apesar de tudo, a menos que existisse um ramal ferroviário na porta de cada fazenda. O
transporte tradicional também era utilizado

A expansão ferroviária no Brasil ocorre com um elevado e decisivo subsídio público durante todo
o século XIX e XX. Todo capital utilizado na abertura e operação das ferrovias era assegurado
pelo estado sob o regime de juros como retorno. Esses retornos não encontram concorrentes.
Os capitais também eram remunerados, além dos juros, através do adiantamento de
pagamentos para cada quilometro a ser construído de ferrovia. Outra forma de remuneração era
o monopólio ou exclusividade de novas zonas de fronteira agrícola. Outra forma era assegurar
aos construtores a exploração das terras nas margens das ferrovias por exclusividade. Isenção
fiscal para a importação de maquinas e equipamentos também eram forma de atrair e remunerar
capitais para a expansão das ferrovias. Isso explica a expansão acelerada e irracional já que o
que importava era assegurar que eles fossem realizados sob tutela do estado.

Os capitais, além de serem estrangeiros, também eram nacionais públicos e privados. Foram
todos eles que permitiram a expansão das ferrovias no século XIX que se concentraram no
interior de zonas agroexportadoras. Há forte concentração no centro-sul, nordeste, norte e no
sul do país. Também temos concentração de ferrovias para além em zonas de forte adensamento
populacional e potencial de agro exportação. Tais ferrovias são a Central do Brasil (Dom Pedro
II) que sai do Rio de Janeiro, cruza Minas e para em São Paulo em diversas zonas
agroexportadoras. Temos a ferrovia Minas-Bahia e diversas outras menores em zonas

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agroexportadoras. A maior parte das ferrovias surge no século XIX, mas as de São Paulo não
dependiam de subsídios estatais para a sua expansão.

As ferrovias surgiam nos portos em direção às zonas agroexportadoras. Se aqui a expansão da


ferrovia está associada agro exportação, nos demais países centrais as ferrovias tem outro
traçado sendo elas voltadas para a integração do mercado interno. As ferrovias brasileiras não
foram construídas para integrar o mercado interno, sendo esse efeito muito parcial. Por isso
que, sair de São Paulo e chegar em Ouro Preto era uma jornada bastante cansativa já que era
necessário fazer uma grande volta e dispêndio de tempo e esforço muito maior. Se pensarmos
na província mais populosa do império (Minas Gerais) não era possível ligar Ouro Preto com as
cidades ao sul de Minas. A articulação era bimodal (ferroviária e transporte tradicional).

A comercialização e financiamento da produção de café envolvia o comissário do café. Esse


comissário financiava e comercializava o café suprindo necessidades no vale do paraíba do sul
já que existia isolamento das fazendas, dificuldade de comunicação e transporte, elevada
especialização produtiva, etc., levando a necessidade do comissário do café de suprir as
necessidades de tais fazendas, assegurando o abastecimento necessário à produção e
comercializa-la. Tais comissários eram agentes que predominam até 1870, 1880 sendo
substituídos por agentes modernos como instituições bancárias e ferrovias.

A exportação do café se concentra nos portos de Rio de Janeiro e Santos. Há portos menores,
mas esses dois são os principais.

A expansão urbana associada à cafeicultura cria novos espaços no Brasil. Alguns muito
importantes que causaram o declínio urbano em algumas áreas. A rede urbana que se
desenvolveu em São Paulo possibilitou a concentração de serviços e estruturas que antes não
existiam. Em São Paulo passam ferrovias, existem instituições modernas de crédito, máquinas
que beneficiam café, armazenamento de café, serviços modernos em geral, saneamento,
energia elétrica, etc. O mercado de trabalho com escravos e contratação de imigrantes,
administração-pública, saúde, educação segurança, tudo isso existia em São Paulo na época.

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Em 1860 a produção do Vale do Paraíba responde por toda a produção brasileira. Nessa época
e nas décadas seguintes São Paulo ainda não alcança a hegemonia. Com o declínio do vale São
Paulo começa a ganhar hegemonia, principalmente no período republicano. O declínio da
produção no Rio de Janeiro foi irreversível até que chegou ao ponto de não ter importância
alguma.

O café se torna o principal produto exportador no Brasil na década de 1830. Antes disso o
principal produto exportado era o açúcar. Os dados do início do século XX evidencia que o café
representa, no mínimo, um terço das exportações brasileiras até 1970. Em 1910, três quartos
da produção do café mundial era brasileira e por isso as políticas no país visavam priorizar a
produção de café. Durante um século e meio o café brasileiro é dominante no mercado
internacional, sendo isso quase um monopólio. Os dados absolutos também são
impressionantes. Sacas de café de 60kg era exportadas e no auge o Brasil exportava 9 a 15
milhões de sacas. A mancha de produção do café apenas crescia nessa época se apropriando de
áreas “vazias” pressupondo fronteira aberta permitindo a conclusão de que o café era a atividade
que mais crescia. O potencial de crescimento da atividade era inevitável até 1930. Após isso
temos um declínio absoluto e em 1960 o crescimento e retomado em outras áreas do país.

A superprodução de café começa a ocorre no final do século XIX e será recorrente até 1920.
Essas crises de superprodução estão associadas a fatores como a expansão do consumo mundial
de café nos Estados Unidos e Inglaterra devido à forte expansão urbana. A massificação do
consumo de certos bens como o café possibilitaram a superprodução. Temos uma demanda
inteiramente nova e a produção de café se adapta a ela organizando os transportes, expandindo
a fronteira agrícola, modernizando sistema bancário, garantido mão-de-obra, etc. Nesse
contexto a expansão da produção ocorre sem nenhum fator que a impeça ou a desestimule.
Todos os fatores eram favoráveis e garantidos por políticas econômicas governamentais. Os
preços do café flutuam no mercado internacional de forma ascendente, mas nos últimos anos
do século XIX começam a cair.

Os fatores que impediam a expansão da economia cafeeira foram resolvidos. O governo mexe
no câmbio para favorecer as exportações, mas no final do século XIX esse quadro muda
configurando em um excesso de produção para uma demanda que não era elástica. O estado
intervém com políticas que favorecem a economia cafeeira. O governo compra o excedente para
evitar a queda de preços assegurando a rentabilidade para os produtores. O convenio de Taubaté

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de 1906 reúne os três grandes estados cafeicultores do pais (RJ, SP e MG) sem a participação
do governo. Esse convenio visava a aquisição de empréstimos para a compra de café para evitar
a queda do preço. O resultado do convenio foi favorável já que o excedente foi posteriormente
vendido. Essa atitude ocorreu porque o Brasil tinha o monopólio da produção de café mundial
além da incapacidade de se substituir o café por qualquer outro produto. A concorrência era
também inexpressiva. Com o passar do tempo o governo federal passa a produzir políticas que
favoreciam os produtores de café. Para evitar queda de preço o Estado taxa a exportação e
controla a expansão das áreas produtoras. Na prática essas políticas não deram muito certo já
que não houve queda na exportação e o problema estrutural da superprodução persiste até a
crise de 29 com forte retração do crédito internacional (fim dos empréstimos para compra de
excedentes).

8. AULA 8 – A ECONOMIA DE MINAS GERAIS (10/02/2014)

Veremos agora a economia de Minas Gerais no século XIX durante o período imperial. A formação
econômica da época era pré-capitalista em uma extensão territorial muito grande. Isso vale não
só para Minas Gerais, mas para todo o território brasileiro. Existe um isolamento das economias
regionais com grau de integração pequeno ou ausente. Apenas na economia do ouro do século
XVIII que tivemos o primeiro processo de integração macro regional do país mas que não teve
continuidade temporal.

Uma tentativa de considerar a economia brasileira como uma entidade homogênea é um


anacronismo histórico. A abordagem regionalizada privilegia as economias mais dinâmicas e com
peso mais importante no cenário internacional. Além disso a ausência de integração interna não
exclui o fato de algumas economias terem efeito em outras partes do país. É consenso
historiográfico que até 1870 as economias eram escravistas. A economia brasileira em conjunto
era uma economia de base exportadora escravista com suas atividades voltadas para mercados
externos. O tamanho desses sistemas escravistas regionais evidencia que Minas Gerais possui o
maior sistema escravista do país no século XIX. Se o tamanho da população escrava indica
dinamismo econômico, temos o sistema escravista mais dinâmico do país em Minas. Apenas Rio
de Janeiro poderia superar Minas Gerais ou tinha potencial para superar. Esse fato coloca Minas
Gerais como uma economia importante para o Brasil da época. Outro fato é que Minas apresenta

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internamente, tanto no século XVIII quanto XIX, uma diversidade econômica interna sem
parâmetro com o resto do país. A desigualdade econômica em Minas é maior do que no resto do
país quanto a adesão e importância da escravidão e do escravismo como fundamento da
produção. Existem espaços sub-regionais de Minas em que o tamanho da população escrava
está rivalizando com os outros sistemas escravistas sub-regionais do país; porém, há também
superegos menos dinâmicas em que o peso da produção com base no trabalho escravo é muito
menor. Se buscarmos uma província (não falamos mais em capitanias) ou um estado com
diversidade interna capaz de refletir o conjunto do país, Minas Gerais é certamente a melhor
síntese do país no século XIX. Minas apresenta uma economia cafeeira muito dinâmica
constituindo o segundo espaço cafeeiro mais importante do país além de ser a principal província
com produção voltada para o mercado interno, ainda que pré-capitalista. A condição geográfica
interior e central de Minas Gerais é igualmente importante. Todas essas razões são suficientes
para justificar a ênfase para estudar a economia mineira conferindo destaque a ela. Por fim, a
razão principal pode ser tomada pelo dado regionalista. Nada mais legítimo do que todos nós
conhecermos a nossa realidade regional. A exposição aqui não irá se limitar a considerar o texto
do autor a ser estudado.

Antes de discutirmos a economia mineira no século XIX (economia mercantil escravista de


produção de gêneros básicos de subsistência), devemos lembrar que não é uma economia
exportadora. As considerações gerais virão a seguir. Primeiro é preciso destacar a vigência entre
o século XVIII (economia do ouro) e o século XIX (economia de base escravista) em que há uma
transição. Fatores da economia do ouro entram em declínio e outros fatores emergem
caracterizando a economia do século XIX. A historiografia estudou pouco essa transição existindo
apenas estudos pontuais no tempo e no espaço. Essa transição ainda é obscura e não sabemos
quando ela começa e quando ela termina. Ela abrange a última quadra do século XVIII e a maior
parte da primeira quadra do século XIX. Se considerarmos que a transição se inicia com o declínio
da produção aurífera de forma irreversível, teríamos um prenuncio de transição que se torna
cada vez mais clara quando os fatores da economia aurífera começam a deixar de existir. Há
uma reestruturação produtiva da economia escravista de gêneros básicos de subsistência.
Segundo temos o aprofundamento e consumação final do processo de substituição de
importações. A redução da dependência externa substitui as importações necessárias ao
funcionamento interno da economia mineira. Esse processo é constante e irreversível. Apenas a
importação de escravos não era passível de ser substituída. Terceiro temos a presença de um
movimento no século XVIII que, até certa altura, era um movimento centrípeto para o interior

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do centro mineiro. A partir daí temos um movimento lento e constante de polarização do centro
de Minas Gerais com a formação de zonas produtivas. Daí em diante temos a expansão da
fronteira de forma centrífuga e que se autonomiza ao longo do tempo visando suprir as
necessidades de abastecimento de uma economia urbana. Se fosse possível observar esse
processo de expansão, ela não ocorre apenas do centro para a periferia, mas de maneira
independente do centro. O que é comum a toda essa expansão é o caráter de ruralizarão
crescente. Se a mineração promove a urbanização, a constituição dessa outra estrutura
econômica promove a ruralizarão, apesar de não extinguir a urbanização. O que é comum a
ambas economias é que temos bases extensivas com necessidade permanente para manter
níveis de produção ou ampliá-las de se incorporar novas áreas agrícolas. As mesmas terras não
exibiam ganhos de produtividade e tal ganho só existia com a expansão da fronteira agrícola.
Esse fato não é peculiar de Minas, mas de todo o Brasil da época. Outra característica que associa
a economia do século XVII e do século XIX em Minas é o fato de que essa província, muito
provavelmente, seja o único caso na história da escravidão moderna em que uma economia
escravista dinâmica de base exportadora converteu-se em uma economia escravista dinâmica
voltada para o mercado interno. Não há registro de um outro caso exceto esse. Outras
experiências históricas similares foram em escalas pequenas. Grandes sistemas escravistas
poderiam existir apenas vinculados ao mercado externo. Minas Gerais rompe com essa
tendência. Entre o século XVIII e XIX temos um sistema escravista muito dinâmico (mais
importante do período colonial do século XVIII) se transformou em um outro sistema escravista
dinâmico distinto do que antes se havia. Outro dado importante é que no século XIX a economia
de Minas Gerais tem a esfera mercantil, por excelência, o potencial de maior acumulação.

Entraremos agora no tema que não pode ser abordado senão partindo dos modelos de integração
da economia de Minas Gerais no século XIX. Esse ponto de partida evidencia a importância dessa
economia regional. Não chegamos a um consenso quanto a interpretação do caráter geral dessa
economia no século XIX. Na realidade o que vigora são modelos de interpretação que se
estruturam em uma mesma base e que se complementam e se divergem ao mesmo tempo.
Iremos fazer um histórico muito rápido do momento em que surge cada um desses modelos e
quais eram suas características gerais teóricas e práticas.

Necessariamente, como está no texto, o início da discussão considera qual era a visão
predominante da economia mineira no século XIX antes do trabalho acadêmico do próprio autor.

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Até o final da década de 70 do século XIX a economia mineira era percebida segundo a atributos
gerais consensuais. A economia estagnada em decadência que conheceu um processo de
involução econômica entre o século XVIII e XIX. Com a decadência da economia do ouro há esse
processo de estagnação econômica e associado a ele temos um declínio demográfico,
principalmente declínio de escravos. Há registros de que Minas Gerais exportou escravos para
outras regiões do Brasil. A economia mineira também era de subsistência para autoconsumo.
Sob essas bases se estabelece uma visão consensual dentro da historiografia. Ainda caracteriza
essa visão a ausência de base empírica. Nenhum historiador que contribuiu decisivamente para
estabelecer esse quadro produziu conhecimento histórico que pudesse fornecer sustentação que
validasse esse modelo de interpretação. Teríamos aqui então a visão tradicional da economia
mineira do século XIX até o final da década de 70. O autor do texto critica bastante essa visão
tradicional e refuta todos os aspectos centrais dela, atacando autores muito prestigiados na
historiografia brasileira. O ponto de partida do autor é refutar a visão tradicional dizendo que ela
não tem base empírica sendo essencialmente teórica. Se considerarmos a produção
historiográfica sobre Minas Gerais no século XIX vemos um baixo interesse em estudá-la. Há
uma escassez de estudos que combinam com um desinteresse por um período em que a
economia de Minas não teria uma importância no cenário nacional. Roberto Martins refuta então
a visão tradicional e apresenta um modelo que substituiria essa visão. Tal modelo é
fundamentado em estudos históricos e justificativas indiretas.

A caracterização geral sobre o modelo do autor se baseia na escravidão vigorosa no século XIX
ao contrário do que se imaginava. A exportação de escravos fere a lógica demográfica observada
e não tem fundamentação empírica. Ao contrário, a população escrava cresceu em Minas e
tornou a província o principal destino de novos escravos importados. Em larga medida a
constituição da escravidão em um sistema escravista foi vigorosa já que a população escrava
era grande e tinha peso na economia. Trabalhos posteriores levaram o autor defender a tese de
que o sistema escravista mineiro do século XIX teve capacidade para importar escravos e fazer
isso em uma escala superior a outras regiões de base exportadora. Minas Gerais então seria o
principal destino dos escravos que entravam pelo porto do Rio de Janeiro. Foi Minas que recebeu
o maior número de escravos no novo mundo e eles não foram destinados a produção
agroexportadora. O sistema escravista mineiro é o que mais cresceu no período além de ser o
maior do país, crescendo com base em novas importações de escravos. Roberto Martins sempre
sustenta a tese de que o sistema cresce com base em novas importações até 1850. Quando o

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tráfico de escravos é proibido, a mobilidade interprovincial de escravos era grande com o intuito
de aumentar o número de escravos em Minas Gerais.

Minas Gerais não era uma economia sem dinamismo. Segundo o autor é uma economia não
exportadora, ainda que tenha faixar voltadas para o mercado externo. A produção era voltada
para o mercado interno nacional e para o seu próprio mercado interno. Roberto apresenta
evidência indiretas estruturas em pressupostos de que a produção de Minas Gerais era
consumida dentro da própria província e outra parte era exportada para províncias do próprio
Brasil. A pauta de produtos era muito diversificada com laticínios, animais, bens da agricultura,
café, algodão, etc. Subtraído algodão e café, os demais produtos circulavam internamente a
Minas e nas províncias vizinhas como Rio de Janeiro (região fluminense). O modelo do autor e o
modelo tradicional convergem ao dizer que a economia mineira era introvertida que não se volta
para o mercado externo. O isolamento externo, segundo o autor, visa reduzir a dependência
externa com as substituição de importações. A isso se soma a diversificação produtiva. É
consenso historiográfico que a rigor, nem mesmo a cafeicultura mineira, é totalmente
especializada. Comparando Minas com Rio, vemos que em Minas temos unidades produtivas
voltadas para o mercado interno que se misturam com as zonas produtoras de café. Parte dos
fatores produtivos eram distribuídos para o autoconsumo. A diversificação econômica era uma
imposição para a economia mineira. As evidencias na literatura e nas fontes primárias dizem
que as fazendas mineiras eram muito diversificadas, ou seja, a especialização produtiva era
ausente nessas fazendas do século XIX. Nenhuma fazenda se especializou na produção de um
único bem nesse período.

O autor busca mostrar que o sistema escravista não pode ser associado ao mercado externo. A
visão tradicional afirma que há uma estagnação, involução econômica, perda de dinamismo,
mas que se recupera com a cafeicultura. Teríamos um renascimento agrícola e econômico em
Minas em meados do século XIX. Roberto Martins busca demonstrar que, no período escravista,
não podemos associar escravidão com agro exportação. O autor busca mostrar que não é correto
associar escravidão à mineração de forma majoritária. A parcela de escravos da província
destinamos a mineração era pequeno. Além disso o autor diz que há uma associação importante
entre escravidão e cafeicultura, mas essa atividade absorve apenas um terço dos escravos de
Minas. É excluída a associação de escravidão e mineração e escravidão e café. A maior parte
dos escravos estaria em atividades voltadas para o mercado interno.

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No Brasil o autor divulgou a sua tese no início da década de 80 e houve ampla divulgação e
repercussão. Já nessa época surgiram reações ao seu trabalho devido ao caráter revisionista e
o tom da tese. Entre as reações, a única que perdurou como importante foi a do historiador
Robert que apresentou um modelo alternativo à tese de Roberto Martins. Esse novo modelo
aceita os principais aspectos da revisão feita por Roberto Martins. Nesse sentido o modelo não
revigora a visão tradicional. Ao contrário, esse novo modelo refuta todos os pressupostos do
modelo tradicional mas se opõe a Roberto Martins em alguns pontos. O mais importante é que
esse novo modelo afirma que a economia mineira era agroexportadora por possuir um setor
exportador importante com a cafeicultura e outras atividades que tem parte da sua produção
voltada a mercados externos a Minas e não ao país (gêneros anteriormente mencionados).
Robert diz que as exportações não eram pouco expressivas estando subestimadas. Mais do que
isso ele propõe que é preciso considerar efeitos multiplicadores originários das atividades
exportadoras (principalmente café, mas não só) sobre as atividades de mercado interno de Minas
Gerais. Essa província exportava toucinho e porcos em grande atividade. Existiam então
atividades de produção para alimentar os animais e que devem ser vinculados ao setor
exportador mineiro (o porco era exportado vivo ou em toucinho). Além disso as fazendas
precisavam ser abastecidas e esse abastecimento se dava no mercado externo. A economia
mineradora também experimentou um surto de produção de diamantes que estimularia
atividades de mercado interno para abastecer a região dos diamantes que era muito dependente
do mercado externo devido as áreas de produção agrícola e demais dificuldades geográficas. A
exportação de porcos, toucinho e diamantes introduz a ideia de que o setor exportador
englobaria tanto a produção para o mercado externo e as atividades complementares. O trabalho
de Robert era teórico e não agregou muito à historiografia, ou seja, não houve muitas
sustentações ao seu argumento. Apesar disso, esse modelo alternativo estabelece uma
influência no debate da economia mineira no século XIX, sendo adotado por outros historiadores.

Atualmente, os trabalhos do Roberto Martins e de Robert, além de outros que virão na sequência,
evidenciam um aumento do interesse sobre Minas Gerais. Hoje, o interesse pela economia de
Minas é maior do que aquele existente no século XIX e no século XVIII já que o trabalho de
Roberto Martins semeou o interesse por um período pouco estudado e de pouco interesse em
Minas Gerais. Esse fato implicou que os historiadores subsequentes tiveram que se posicionar
diante desses modelos. Dado que não há consenso sobre o que é certo ou errado, qualquer
trabalho que não abarque apenas o território mineiro, encontraremos uma discussão a economia

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mineira. Os resultados da pesquisa histórica irão favorecer um modelo ou outro. Teríamos


tipicamente um caso em que o revisionismo histórico criou um interesse gigantesco em um
período histórico pouco considerado pela historiografia. A polemica e o debate em torno da
economia mineira do século XIX suscitou interesse sobre esse período histórico.

Ainda na década de 1980, uma outra tese de doutorado introduziu um complemento feito por
Douglas que estudou o setor de transformação de Minas Gerais no século XIX. Esse complemento
é importante por apresentar um estudo significativo por um setor da economia mineira que antes
era desconhecido. O trabalho concentra-se na indústria têxtil, siderurgia e mineração
subterrânea de capital estrangeiro. Os três setores apresentam forte trabalho escravo. Além das
atividades de base agrária o estudo mostra que o contingente significativo de escravos estava
empregado em atividades industriais. As evidencias são de que, inclusive, as atividades de
siderurgia e mineração são as mais fortemente associadas ao trabalho escravo entre todas as
atividades econômicas desenvolvidas em Minas Gerais no período. Elas tem uma associação a
escravidão muito forte.

Ainda na década de 1990 e 2000 surgiram uma série de trabalhos que procuravam compreender
melhor a demografia escrava mineira no século XIX. Entre as críticas que surgiram a Roberto
Martins, duas foram importantes: Uma era de que, se Roberto afirmava o caráter autárquico da
economia mineira, de onde viriam os recursos pra justificar a tamanha importação de escravos?
Douglas explica dizendo que se a economia mineira exportava, daí vinha tais recursos escravos.
Outro ponto polêmico da tese de Roberto Martins se refere ao caráter do mecanismo de
reprodução da população escrava. Imediatamente surge um trabalho teórico propondo a
reprodução natural dos escravos, mas sem nenhuma evidência. Depois surgiram pesquisas que
visavam entender o comportamento demográfico dos escravos para verificar a incidência de
reprodução natural escravista. Em pequenos espaços agrários o peso da reprodução natural não
poderia ser desconsiderado. Há evidencias dessa reprodução que recomporia a população
escrava, ou mesmo para ampliá-la ao longo do tempo. Não há evidencia suficiente que essa
reprodução rivalizaria com o tráfico internacional. As evidencias estão a favor da importação de
escravos, mas não desconsidera a reprodução natural. Outra contribuição a essa discussão é o
debate sobre a questão regional ainda na década de 90. Nesta década surgem contribuições que
buscam formalizar a diversidade regional de Minas Gerais conferindo a ela uma formalização por

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meio da regionalização do território mineiro. Há contribuições nesse sentido que depois ganham
muito corpo na historiografia brasileira do século XIX. A regionalização dos estudos sobre a
economia mineira no século XIX ganhou muito corpo. A abordagem ainda se faz de forma
regionalizada. Para isso é decisiva a contribuição de outra tese de doutorado de Clotilde.

A tese de Clotilde Paiva forma um terceiro modelo. Ela propõe que o desenvolvimento econômico
de Minas Gerais no século XIX é bastante diferenciado. Por meio do reconhecimento desse
caráter é que podemos compreender a economia mineira. De tal sorte podemos inclusive
contornar essa provável exclusão de um modelo em relação ao outro, no caso dos dois
anteriores. Não são modelos excludentes se considerarmos o desenvolvimento econômico
regionalmente diferenciado. O que Clotilde fará é estudar Minas Gerais de forma regionalizada
com estruturas dinâmicas muito diferenciadas. É possível se inferir e apresentar projeturas de
que certas regiões mineiras são melhor compreendidas de acordo com o primeiro modelo ou
com o segundo. Esses modelos podem ser combinados e não se excluem. Clotilde Paiva irá além
e demonstra essa diversidade formalizando-a com dados, estabelecendo a base produtiva de
cada uma das regiões mineiras, bem como a dinâmica da circulação mercantil entre as regiões
mineiras e com tais regiões com o exterior de Minas. Isso ocorre tanto para importações e
exportações. Essa dinâmica mercantil seria a chave para entender a economia mineira no século
XIX. Se quisermos buscar o centro desse debate devemos olhar para a circulação. Se ela se
inclina para cada um dos três modelos, ai estará a chave para sedimentar a visão homogênea
sobre o que vem a ser a economia mineira do século XIX.

Sendo assim temos os três modelos que hoje vigoram a respeito da economia mineira do século
XIX. De alguma forma, todos os estudos de história economia incidem sobre os três modelos.

O trabalho em Minas no século XIX apresenta polivalência, ou seja, o escravo não era
especializado, mas sim versátil, já que o calendário agrícola mineiro é fortemente marcado pela
sazonalidade. Isso implica que o mesmo escravo, dependendo da época do ano, se dedica a uma
atividade em outra época se dedicará a outra ou concomitantemente a várias. Há várias
evidencias na historiografia que confirmam esse fato. As fazendas mineiras são marcadas pela
policultura combinada com várias modalidades de criação de animais (pecuária) com forte
presença do artesanato e com a presença associada a atividades mercantis próprias com meios
de circulação com tropeiros e moares. Muito comum na paisagem das regiões era a siderurgia

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para autoconsumo, mineração, entre outras atividades. Essa é a típica fazendo mineira. Os
escravos dela eram versáteis e polivalentes, ao contrário dos escravos especializados. Aqui não
vamos ter uma divisão social e técnica do trabalho tão enrijecida em relação ao caso da agro
exportação. Aqui prevalece o artesanato e o grau de especialização era parcial.

Em todo o território mineiro a agropecuária era dominante. Em todo lugar cultiva-se milho,
feijão, mandioca, cana, algodão e outros cultivos. Em todo lugar cria-se gado bovino, equino,
suíno, pequenas criações, etc. Isso é mais ou menos universal. Nas grandes propriedades
produtivas teremos esse quadro ampliado. De longe, a agropecuária e agroindústria. Qualquer
indicador que elegemos, a agropecuária será dominante. Ela é muito diferenciada se
considerarmos uma região comparada com outra. Um aspecto presente na tese de Clotilde Paiva
é importante aqui por evidencia que temos uma divisão inter-regionalizada do trabalho. Há uma
certa complementariedade entre as regiões de Minas Gerais, mais ainda se observarmos a
circulação mercantil estudada por Clotilde.

Em relação a agropecuária, tomada Minas como conjunto, é ela uma economia de base
escravista. O peso do setor camponês é muito diverso e ele, no conjunto do território, é em
termos de unidades produtivas, mais importante do que as unidades produtivas de base
escravista. A maior parte das unidades produtivas da agropecuária não utiliza trabalho escravo.

O setor que assalaria trabalho livre é muito pouco importante na economia mineira do século
XIX. Sua incidência é pequena. O aluguel de escravos tinha incidência maior do que remunerar
trabalhadores livres. No espaço de tempo essas tendências se alteram com as relações sociais
capitalistas.

A cafeicultura mineira no século XIX é matense ou da Zona da Mata. Não há cafeicultura


expressiva fora dessa região. As relações virtuosas entre café e indústria e Minas não serão tão
sustentáveis no tempo como no caso de São Paulo. Isso explica o motivo da industrialização em
Minas se iniciar na Zona da Mata em Juiz de Fora, mas sendo descontinuada ao longo do tempo.
Isso em larga medida devido ao capital mercantil fluminense que se apropria da maior parte dos
excedentes da economia cafeicultora mineira.

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O setor agroindustrial mineiro possui importância com os derivados da cana. Devemos lembrar
que ele é um outro paradigma não devendo ser comparado com o paradigma de produção de
açúcar para mercados externos. Além disso ele está associado exclusivamente ao mercado
interno. Existem estudos avançados que demonstram que a parcela da produção interna de
derivados da cana que é exportada é significativa, mas em termos relativos é irrisória. Ainda
que as exportações de rapadura e cachaça sejam significativas, no conjunto da produção, esses
montantes exportados não possuem peso nenhum e são produzidos para o mercado interno.
Isso explica os altos níveis de consumo de destilados e açucares em Minas, ainda mais no século
XX em que esses produtos se tornam massificados.

A mineração é o setor de atividade mais escravista dentre todas as atividades de Minas do século
XIX. Ela não foi uma só sendo dividida em mineração nacional e mineração de capital
estrangeiro. A primeira está associada ao escravismo, base técnica avançada, produção
significativa sob as mesmas técnicas do século XVIII. Essa mineração era livre e residual. Ela
cresceu muito no século XIX já que houve evoluções tecnológicas no setor. É retirado dessa
atividade apenas aquilo que garantiria a subsistência já que a exploração ocorria em leitos de
rios. A grande novidade do século XIX é a mineração de capital estrangeiro. A partir de 1820 o
capital britânico financiado por ações ingressam no setor de mineração não explorado pelo
mercado nacional que não tinha recursos e nem técnicas passíveis para exploração. Esses
capitais resolvem o problema do volume de investimento necessário e da tecnologia mineralógica
necessária como: drenagem das galerias, ventilação das mesmas, transporte de minério, etc.
Essa mineração era subterrânea com trituração do minério. Os ingleses trazem capital e técnica
e se apropriam desse setor dando importância a ele. A experiência mais exitosa foi em Morro
Velho que até hoje opera sendo a mina mais antiga em operação de toda a América. Nessa mina
tínhamos o maior plantel de trabalhadores escravos do mundo no século XIX com 1000 escravos
trabalhando. Se o setor de mineração aurífera se revigora, é fundamentalmente por conta dos
capitais estrangeiros.

O setor industrial mais importante, de longe, é o da indústria têxtil artesanal, doméstica e


feminina. Fios e tecidos eram produzidos para abastecer o mercado interno e o Rio de Janeiro.
Os panos mineiros talvez eram o bem mais conhecido fora de Minas Gerais no século XIX, junto
com destilados, toucinho, etc. Sustenta o mercado externo com outras províncias os tecidos.

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O algodão era cultivado em todo território mineiro ganhando novas projeções em outros espaços
com climas favoráveis, principalmente no nordeste de Minas em que algodão era produzido para
o mercado externo.

A indústria têxtil não foi apenas artesanal, mas no final do século XIX surgem as grandes
indústrias têxteis em Minas Gerais, com características específicas. No final do império Minas
Gerais era a província com maior número de unidades industriais têxteis; porém pequenas, que
abasteciam o mercado interno mineiro já que os custos de transporte para longas distancias era
alto. As industrias eram regionalizadas. A mão-de-obra era feminina, infantil e dura. A indústria
têxtil, em termos de mão-de-obra era a atividade mais importante do século XIX, mas sendo
também rivalizada com o artesanato independente.

A siderurgia no século XIX se expandiu com as pequenas forjas de processo medieval e antigo,
de origem africana. É uma atividade fortemente associada à escravidão africana já que escravos
africanos conheciam as técnicas de exploração.

O setor artesanal manufatureiro é o que cresce de forma mais acentuada e depois entra em
declínio.

9. AULA 9 – PLANTATION AGROEXPORTADORA OU NÃO? (12/02/2014)

Na primeira parte da aula veremos os outros espaços econômicos do Brasil do século XIX e na
segunda parte da aula veremos a indústria brasileira do mesmo século.

O texto de João Fragoso em seu título enuncia algo que devemos colocar no centro da discussão
que nos propomos na primeira parte. O autor ressalta que a economia brasileira no século XIX
não é apenas uma plantation agroexportadora. Principalmente no período imperial a economia
brasileira já tem o mercado interno bastante fortalecido. Se considerarmos o número de
unidades produtivas e trabalhadores livres e escravos, o tamanho da produção para o mercado
interno é muito mais importante do que o mercado externo. Mesmo no final do período escravista

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temos escravos em atividades não voltadas para mercados externos. Essa primeira dissociação
é fundamental já que o Brasil não é apenas uma economia agroexportadora. Mesmo
considerando o setor exportador é indevido atribuir a agro exportação apenas à cafeicultura.
Nesse sentido temos alguns dados que demonstram essa hipótese. Os dados são exclusivos do
período imperial. Em primeiro lugar tais dados demonstram que as três primeiras décadas do
século XIX o café se quer ocupa a posição de principal produto agroexportador, ou seja, ainda
temos o açúcar como principal produto exportado seguido do algodão. O café ainda não acendeu
à posição de liderança e isso só ocorre a partir de 1830 apesar da sua posição relativa de
liderança oscilar entre 40% e 60%. O café só supera a marca dos 50% a partir de 1870.

Qual a composição da pauta agroexportadora para além do café? O açúcar ocupa inicialmente a
liderança nas exportações. Ao longo das décadas do período imperial o açúcar é superado pelo
algodão em duas oportunidades em que a produção dos sul dos Estados Unidos é prejudicada
com a Segunda Guerra de Independência e a Guerra Civil. O segundo surto seria com o
crescimento industrial brasileiro de bens de consumo não duráveis com grande destaque para a
indústria têxtil e de alimentos. A expansão do sistema fabril de grande porte da indústria têxtil
está associada ao aumento da produção de algodão.

Mesmo considerando café, algodão e açúcar, os três somados alcançam dois terços das
exportações brasileiras. Um terço das exportações do período imperial é composto por cacau,
fumo e borracha. Temos uma pauta diversificada de exportações durante o período imperial.

Temos então duas dissociações: O Brasil imperial não possuía uma economia agroexportadora
e muito menos a exportação está associada a apenas um único produto.

Estudaremos agora as macrorregiões brasileiras e suas características. Quando falamos delas


nos referimos às regiões para além do sudeste e do nordeste em que temos uma largura ampla
da fronteira agrícola. Estamos falando então de regiões em que a ocupação e apropriação
econômica avançou muito pouco em termos de território. As parcelas ocupadas ainda deixam
uma fronteira potencialmente agrícola muito grande para ser ocupada efetivamente. É o caso
da região sul e muito mais da região centro-oeste. A ocupação não ameríndia é uma faixa muito
pequena desses territórios, inclusive também da região norte. A maior parte do território norte

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ainda não havia sido apropriado, nem mesmo por atividades pioneiras. O que nós temos é uma
faixa muito estreita de ocupação no extremo norte e no nordeste a fronteira estava aberta,
porém menos que em outras regiões. No sudeste a fronteira estava bastante aberta. Boa parte
do extremo sul só tem uma ocupação efetiva e parcial no final do Império com a migração
internacional. No caso do centro-oeste temos a ocupação das áreas antigas de mineração e uma
fronteira que se expande com a imigração de mineiros e paulistas para o extremo sul de Goiás.
O restante era um imenso vazio. Na Amazônia temos a ocupação apenas na faixa litorânea e
uma penetração interna na floresta pela navegação fluvial.

Quando falamos da economia brasileira do século XIX devemos considerar essa imensa fronteira
agrícola aberta, do contrário, enganos podem ser cometidos. Esses processos de ocupação, mais
tarde, provocarão uma imensa assimetria de adensamento populacional. Os primeiros censos
demográficos mostram que a população estava concentrada em determinadas províncias.

No caso do nordeste, no século XIX o açúcar ocupa o centro da dinâmica econômica voltada para
o mercado externo no litoral e com as mesmas características do período colonial (relações de
trabalho, apropriação do território, relações sociais, etc.). Do ponto de vista tecnológico, em sua
face agrícola a atividade é tradicional e na fase industrial transformações ocorreram. Desde já
podemos considerar que as verdadeiras transformações tecnológicas no mercado açucareiro
ocorrem nas unidades produtivas do nordeste. Tais transformações foram econômicas e
tecnológicas, mas não alteram algumas estruturas tradicionais. Essa primeira modernização do
setor canavieiro é conservadora por conservar estruturas econômicas e sociais deterioradas e a
posse da terra era extremamente concentrada assim como a renda e a riqueza. As relações
sociais de produção eram essencialmente tradicionais e não se alteram e as transições para
relações modernas de trabalho não ocorrem. As forças produtivas mudam devido a inovações
técnicas. A inserção do Brasil no mercado internacional no século XIX evidencia que recuperamos
a posição relevante no mercado internacional, mas não só do açúcar nordestino, mas sim no Rio
de Janeiro e São Paulo. Ao longo do período a posição do Brasil declina e no início do século XX
a posição do Brasil no mercado açucareiro é irrelevante apesar de a produção açucareira ser
maior do que antes. Isso é possível porque uma série de produtos produzidos na colônia
sofreram uma massificação de seus consumos e o açúcar é um desses produtos. O volume de
produção de consumo do açúcar cresce muito e o Brasil, mesmo ampliando a produção, tem
participação irrelevante no início do século XX. Além disso o setor canavieiro brasileiro sofre uma

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reprodução ampliada que explica o aumento de produção apesar da queda na participação no


mercado externo. Os fatores produtivos foram controlados permitindo o crescimento mesmo em
uma conjuntura externa desfavorável em que o preço do açúcar começa a cair. Mais do que isso
há também a modernização da produção do açúcar. Essa modernização é lenta fazendo o Brasil
perder espaço no mercado. Cuba, por outro lado, se torna o grande produtor mundial de açúcar
por se modernizar de forma acelerada financiada com capitais estrangeiros americanos. O
crescimento da produção de açúcar não explica a permanência do açúcar como o principal
produto da região nordeste. Isso ocorre devido a diversificação do mercado interno brasileiro
que redireciona crescentemente a produção do açúcar para outras províncias vizinhas.

A primeira modernização das atividades açucareiras foi aquela que se realiza com subsídios
estatais com a garantia de juros que permitiu a modernização ferroviária. O governo imperial
ou o governo federal justamente com governos províncias e estaduais garantiram retornos
mínimos aos investimentos do setor. A modernização priorizou o setor industrial e não alterou o
agrícola. As transformações mudaram os engenhos e geraram as usinas com a introdução da
química, mecânica moderna, grande maquinaria, matriz industrial, etc. No caso brasileiro essa
primeira modernização possui duas etapas no que se refere a configuração da organização da
produção. Num primeiro momento a modernização ocorre nos engenhos centrais com separação
entre setor agrícola e setor industrial. Por lei o engenho central transforma a cana em açúcar e
não produz a matéria-prima. O engenho central preserva a posição social de produtos que não
podem se modernizar. Esse conceito perdura por pouco tempo e não se torna exitoso. Ainda no
século XIX volta o conceito do engenho de forma tradicional permitindo que a transformação
ocorra juntamente com a produção da matéria-prima.

O nordeste não é só açúcar. O algodão concentra a sua produção para o mercado externos no
nordeste, havendo também na região o tabaco e o cacau. No nordeste temos um mercado
consumidor crescente. Inovações como a introdução de algodão é herbáceo juntamente com o
já existente algodão arbóreo foi importante, e a sua produção é organizada em bases tradicionais
coloniais com grande propriedade, trabalho escravo, agro exportação, etc. Bahia, Sergipe e
Alagoas produziam algodão. O cacau se concentra na Bahia e tem a sua expansão na última
quadra do século XIX.

No extremo sul do país podemos caracterizar a macro região reportando ao período colonial em

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que apenas o litoral está ocupado havendo baixa densidade demográfica e baixa interiorização.
Os pampas gaúchos já estava associado à criação de animais para o mercado interno integrado
à economia do ouro exportando bois, cavalos, moares e animais de carga para outras províncias
do Brasil. Essa atividade era a responsável pela ocupação do território associado ao século XVIII.
Antes disso a presença portuguesa era muito limitada. No final do século XVIII surge uma
atividade nova que é a produção de charque (carne salgada) no litoral do Rio Grande do Sul
(Pelotas e Rio Grande). A produção de charque era voltada para o mercado interno e no século
XIX essa será a principal atividade da região formando um sistema escravista importante. Se,
no período colonial, o Rio Grande possui um sistema escravista sem importância, no século XIX
ele se torna um dos 5 principais sistemas escravistas do país. Temos uma face industrial dessa
produção que é escravista e a criação dos animais era parcialmente escravista o que explica o
crescimento da escravidão na área no século XIX.

Atividades do mercado interno crescem em Santa Catarina e no Paraná. Assim como no período
colonial, no período imperial essa macro região sul era voltada para o mercado interno. Moares
eram exportados, antes para economia do ouro e agora para a economia cafeeira. As ferrovias
substituem os moares e as mulas no transporte de café a partir de 1870. Antes disso os animais
faziam o transporte já que as vias eram bastante acidentadas. Os moares eram muito
importantes por terem capacidade de carga maior do que as mulas e a tributação que incide
sobre a circulação de bens voltados para o mercado interno está associada a unidade de carga.

O extremo sul continua a exportar moares e carne salgada para o sudeste. A base da alimentação
dos escravos no sudeste cafeeiro era a carne seca e farinha de mandioca sendo a carne oriunda
do extremo sul.

A partir do final de 1870 temos a migração do extremo sul para zonas gaúchas e da serra
catarinense formando núcleos coloniais. Essa migração não ocorreu para a cafeicultura. Os
colonos da cafeicultura eram assalariados e esses colonos do sul do país migram para se
tornarem produtores independentes e terem acesso independente a terra sendo o trabalho
essencialmente camponês gerando mais excedentes. Ao se adensar essa população em tais
áreas forma-se um outro sistema agrário no extremo sul voltado para o mercado interno, seja
por ele ser camponês, seja por sua face mercantil ser voltada para a produção no sudeste. Isso
era comum ao charque e as tropas de moares. Tais atividades eram dominadas por capital

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mercantil externo a região, principalmente por capitais vindos do Rio de Janeiro que se
apropriam dos excedentes.

João Fragoso quer caracterizar todos as regiões brasileiras da época. O Brasil seria um mosaico
de formas de trabalho não ou pré-capitalistas. Isso ocorre em todos os lugares com algumas
variações. Tais relações não são modernas, mas serão modernas ou parcialmente modernas
apenas em poucos espaços ou sistemas agrários como São Paulo (cafeicultura do oeste com
forte imigração internacional).

No caso do charque no sul temos um declínio a partir de 1870 associado a dois fatos: Primeiro
a mão-de-obra era escrava e escravos se tornam caros após 1850 com o fechamento do tráfico
internacional. A mão-de-obra apresentava custos elevados. Segundo, o mercado consumidor
estava declinando já que o escravo produzia o charque ele próprio consumia. Mas o fator mais
importante para o declínio era a concorrência oriunda da região do prata. Além disso, a carne
salgada passou a ser substituída pela carne congelada com o surgimento dos frigoríficos. A carne
salgada passou a não ser mais produzida. Os frigoríficos foram uma inovação tecnológica do
século XIX.

O centro-oeste é, no início do século XIX aquilo que remanesceu da atividade mineradora do


século XVIII. As concentrações se davam em áreas de Goiás e Mato Grosso do sul. Assim como
Minas Gerais temos uma reestruturação produtiva dessas áreas que passaram de uma economia
mineradora para uma economia agropecuária com o cultivo de alimentos para abastecer o
mercado interno e outras províncias. A principal atividade que expande a fronteira agrícola era
a pecuária de base extensiva e com relações sociais baseadas no trabalho livre com escravos
sendo utilizados de forma secundária. Esse movimento alarga a fronteira com baixa densidade
demográfica sendo essencialmente agrária. Temos um movimento independente da
reestruturação produtiva que dá maior adensamento populacional no sul de Goiás já que
imigrantes de Minas e São Paulo conformam sistemas agrários semelhantes àqueles já em
expansão.

No caso de Goiás e em parte do Mato Grosso, temos o mesmo fenômeno que ocorre no centro-
sul, ou seja, o capital mercantil externo se apropria da produção e transfere os excedentes para

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fora da região. Esse capital externo mercantil vinha de Minas Gerais da elite mercantil que
compra o gado de Goiás e o conduz para Minas para posteriormente ser vendido para o principal
mercado que era o Rio de Janeiro.

O norte do país compreende a Amazônia e o nordeste setentrional com Piauí e Maranhão. Uma
pequena faixa do território estava efetivamente ocupada e essa ocupação foi diversa assim como
as atividades econômicas do período. O litoral continua sendo a base geográfica da agro
exportação com algodão, açúcar, arroz, tabaco, exportado nas mesmas bases da plantation com
grande propriedade, escravidão, etc. No interior temos duas atividades distintas na fronteira
agrícola com produção para autoconsumo, acesso independente a terra, pequena propriedade e
extrativismo. Este último persiste associado às drogas do sertão e a partir de meados do século
XIX surge a economia da borracha que era pouco importante inicialmente, mas no final do século
XIX e primeira década do século XX a borracha representa quase um terço das exportações
brasileiras.

A economia da borracha estava muito associada ao período republicano (República Velha) se


formando em meados do século XIX com grande expansão no final do século XIX com o
crescimento imenso da demanda mundial para borracha natural para a nascente indústria
automobilística. A produção era nova quanto a uma característica até então inexistente nas
outras atividades porque ela se integra diretamente ao mercado industrial internacional e se
integra quanto insumo associado a uma série de transformações tecnológicas recentes com a
revolução pneumática, indústria automobilística, etc., permitindo uma inserção diferenciada em
relação à indústria têxtil e ao açúcar.

A produção da borracha no interior da floresta amazônica se forma em seringais que ficam cada
vez mais demarcados ao longo do tempo. O proprietário era o seringalista e o trabalhador era o
seringueiro composto pela população original e imigrantes originários do nordeste. Há uma
conjunção de fatores que favorece a imigração interna de longa distância e mais importante do
Brasil da época. A imigração ocorria por conta dos distúrbios climáticos no final do século XIX
no nordeste fazendo a população migrar para o litoral provocando seu adensamento e
subemprego ou desemprego em larga escala. Essa mão-de-obra foi então muito facilmente
aliciada pelos seringalistas.

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A perspectiva era de salários muito bons e condições de trabalho vantajosas com posterior
retorno para o nordeste com acumulo de riqueza. As condições efetivas eram as piores possíveis.
O autor salienta o surgimento de uma relação de trabalho nova que são formas análogas à
escravidão por meio de endividamento. Os salários eram muito baixos e a reprodução dos
trabalhadores ocorria dentro da própria unidade produtiva. Baixos salários e endividamento faz
com que os trabalhadores se tornem escravos por dívida em condições muito precárias de
moradia, alimentação e trabalho. Tais indivíduos não estavam acostumados a isso e ficaram
sujeitos a doenças, endemias, etc. Isso faz o fluxo de imigração ser contínuo para substituir
aqueles que morriam durante a atividade. O trabalho análogo de escravidão por endividamento
surge e perdura por muito tempo no norte do país. Essa novidade vai apresentar uma
longevidade insuspeitada por aqueles que forjaram esse tipo de relação. O autor salienta que
essa relação é moderna, mas não há nada de moderno já que temos um tipo de escravidão
evidenciando o arcaísmo.

Os seringalistas mantém uma relação de dependência com os fornecedores que estão nas
cidades (Manaus e Belém) que provém as unidades produtivas de ferramentas e outros bens
gerando uma tendência de endividamento estrutural. Os fornecedores, por sua vez, dependiam
das áreas exportadoras. Nas cidades a exportação era comandada pelo capital mercantil externo.
Essa atividade gerava excedentes que eram drenados para o exterior e apenas uma parte menor
era retida para consumo conspícuo sem que isso tenha engendrado qualquer processo de
desenvolvimento regional ou qualquer processo de acumulação que gerasse uma economia
industrial moderna.

Assim terminamos a primeira parte da exposição e iremos para o próximo tópico.

Falaremos agora sobre indústria e industrialização. Devemos realizar uma separação entre o
conceito de crescimento industrial e industrialização. Nosso processo de industrialização começa
ainda no período imperial no século XIX sendo no final desse século e no início do período
republicano. Está associado ao processo de modernização em geral. A industrialização pressupõe
uma série de elementos prévios. É evidente que ela se apresenta com várias particularidades
em vários lugares. Ao falarmos de indústria no século XIX devemos falar do crescimento da
grande indústria, mas não do capital e da grandes unidades fabris. A indústria da época estava
associada à transformação.

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O texto de Vilela é reconhecido como referência na historiografia. É um estudo antigo mais


importante sobrea indústria brasileira no século XIX. A autora começa por caracterizar e discutir
a nossa indústria no período joanino, considerado já um período não colonial apesar da
dependência ainda existente de Portugal. O período joanino compreende a primeira década do
século XIX e vai até a terceira década do mesmo século. Temos aspectos novos e persistentes
relacionados a indústria da época. A autora ressalta a vigência no Brasil colonial de aspirações
industrialistas desde o século XVIII já que se via a necessidade de se modernizar a economia
colonial dada o declínio da economia do ouro. Esses fatos desdobrou uma discussão
historiográfica a respeito da industrialização posta como alternativa à desagregação da economia
do ouro. Temos então duas abordagens: Uma que prioriza aspectos técnicos, econômicos,
psicossociais, para explicar os motivos da não industrialização da colônia. Outros se inclinam,
reconhecendo alguns limites, afirmando que o estatuto ou produção colonial eram o grande
limite a industrialização. Essa discussão está presente no texto da autora e ela levanta os fatores
limitantes como mercado consumidor, base técnica, trabalhadores sem conhecimento, falta de
empreendedorismo, etc. Ela discute se os fatores teriam sido importantes ou não e conclui que
faltam estudos para explicar os reais motivos. Comumente compara-se o Brasil com as Treze
Colônias e o processo de industrialização lá desenvolvido. Aqui o potencial era muito maior. A
legislação portuguesa impedia o desenvolvimento de industrias segundo consenso. Alguns
alvarás impediam o desenvolvimento de atividade industriais limitando-a a pouca coisa. Não
existe um aparato de fiscalização que levantasse dados do período. A discussão fica no plano
legal e os tratados comerciais com a Inglaterra também limitaram o desenvolvimento industrial.
Os regimes alfandegários e tarifários foram importantes e a historiografia se limita ao explicar
as consequências dos mesmos. Alguns dizem que eles eram bastante limitadores e outros dizem
que não são tais tratados que explicam esse travamento, mas sim a política colonial. A autora
se inclina para a segunda opção apesar de reconhecer a importância do primeiro. Esse
posicionamento da autora ocorre devido a discussão do caráter da política industrial de Dom
João VI sendo que antes não existia nenhuma política assim. Dom João VI coloca efetivamente
em prática uma série de medidas que comporiam essa política industrial sendo essa a primeira
tentativa de industrialização. Vilela se inclina a essa visão identificando no estatuto colonial o
grande limitador da industrialização já que a política colonial era contraditória e anacrônica. A
política industrial de Dom João VI era múltipla e excludente tendo diversos focos que levam a
um quadro em que o desenvolvimento industrial estaria travado por diversos anacronismos.
Quando a autora tece essa política industrial ela percebe que as medidas eram todas tradicionais

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caracterizando-a como métodos medievais que englobavam concessão de privilégios e outras


medidas que não se configuram efetivamente como uma política industrial abrangente, e
sustentável no tempo.

A autora associa a política industrial do período joanino a um pensamento próprio e original do


Brasil. Evidentemente não era original já que possuía raízes europeias, mas uma elite ilustrada
surgiu com vertentes distintas de condução da economia colonial e de compreensão da
necessidade de transformações para modernizar essa economia.

Podemos dividir o pensamento econômico brasileiro em duas vertentes: uma corrente agrarista
e uma corrente industrialista. A autora fundamenta os supostos e entende que no início do século
XIX as condições eram favoráveis à imposição de uma corrente não-agrarista já que a economia
brasileira estava em transição e reforçava a visão periferia da divisão internacional do trabalho
priorizando a agro exportação. A economia da época estava ficando mais diversificada. A vitória;
porém, será da corrente agrarista.

Quais são os setores contemplados pela política industrial? Essa política é efetiva e existe. As
medidas estão lá e são passíveis de estudo e análises, não se passa por uma intenção. Temos
três setores privilegiados: indústria têxtil, construção naval e principalmente siderurgia. No caso
da construção naval as medidas se articulam privilegiando a industrial naval pré-existente sendo
agora mais subsidiada. Ocorridos na Europa recaem sobre a América no período havendo a
necessidade de constituir uma marinha de guerra. A indústria têxtil era, de longe, a mais
realizada na colônia, conhecendo medidas específicas de caráter protecionista. Esse setor foi o
que sofreu diretamente a concorrência dos tratados comerciais que abriram o mercado aos
produtos ingleses. A siderurgia foi o setor mais estimulado por Dom João VI com a construção
de duas usinas propriamente modernas com técnicas avançadas vindas do continente Europeu
para produção de ferro. Intendente Câmara foi uma pessoa importante no período por contribuir
para a siderurgia. Essa experiência dura pouco tempo produzindo ferro e depois é travada.

Daremos agora um salto e em 1844 temos a Tarifa Alves Branco introduzindo uma reforma
alfandegária. Os tratados comerciais de 1810 foram renovados em 1826 e expiraram em 1844.
A principal base de arrecadação do período eram as tarifas incidentes sobre importações. Era

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daí que o governo retirava a maior parte dos seus recursos e por isso as tarifas tinham caráter
protecionista. Em 1844 era a oportunidade de elevar as tarifas e aumentar a arrecadação, mas
no período existia uma tensão entre Brasil e Inglaterra devido às discussões sobre o fim do
tráfico internacional de escravos. As tarifas visavam maior arrecadação e melhor a concorrência;
porém, em alguns casos elas eram muito altas. As tarifas até que assumiam um caráter
protecionista, mas muitas vezes sem essa intenção. As condições para uma política econômica
voltada para a diversificação econômica e desenvolvimento estrutural eram muito mais
desfavoráveis em relação ao início do século já que o agrarismo prevaleceu com a expansão
cafeeira. Assim o reforço e a reinserção externa enquanto país produtos de alimentos já está
plenamente configurado. Isso explica, inclusive, o motivo das tarifas terem efeito protecionista,
mas sem a intenção, ocasionando a revisão das mesmas na década seguinte. As alíquotas são
baixadas e começam a favorecer importações.

Se observarmos a política econômica tarifária e alfandegária no período vemos grandes


oscilações em que os níveis não são mantidos em um patamar fixo. Para a autora isso decorre
do caráter essencialmente fiscal se relacionando com a necessidade do governo de aumentar ou
diminuir a sua arrecadação.

Esse surto industrial que ocorre na década de 40 e 50 do século XIX está relacionado à questão
tarifária e à libertação de capitais antes envolvidos no tráfico de escravos que se fecha em 1850
permitindo um reordenamento desses capitais para a indústria. Nesse período é que temos a
trajetória do Barão de Mauá, bem atípica com o governo e com o alcance das realizações. Apesar
disso não é atípico no sentido de que Mauá não era o único industrial com atividades importantes
no período.

Outro salto e nós vamos para o surto industrial do segundo reinado. Isso sugere que temos um
crescimento industrial crescente e constante no século XIX. Vários dados confirmam tais fatos.
Vários fatores explicam esse crescimento que é maior do que os anteriores. Tal surto está
associado ao ponto de partida do nosso processo de industrialização. Se nosso processo de
modernização começa em 1850, nas décadas seguintes temos uma série de transformações
fundamentais ao processo de industrialização. Temos a modernização de vários fatores e de
relações comerciais e financeiras. Bancos modernos surgem no período. Esse é o primeiro dado
conjuntural que explica esse surto. Ciclos curtos também existem como a abundância de

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matéria-prima no mercado interno, exportação de bens de capital e sem eles não há indústria
já que a base era a indústria têxtil e a alimentícia. A Guerra do Paraguai estimula a indústria
que manterá e fornecerá mantimentos para o exército. Todos esses fatores combinados
favorecem o surto industrial e na prática ele se desdobra na expansão já dá grande indústria,
ainda que ela seja pequena e já plenamente configurada.

O manifesto industrial de 1889 resultou em medidas realizaram propaganda para arregimentar


o interesse disperso de indivíduos atraindo-os para as atividades industriais.

No final do império temos uma indústria crescente e significativa com grandes industrias
estabelecidas no país em unidades concentradas no sudeste e no nordeste e já temos interesses
de classes organizados em associações industriais, mas, segundo a autora, ainda temos o
predomínio e a hegemonia dos interesses agrários e isso explica os limites que se colocam a
expansão do surto industrial n o final do período imperial. Por isso que se quer temos uma
política industrial.

10. AULA 10 – DO TRABALHO ESCRAVO PARA O LIVRE (17/03/2014)

Devemos ressaltar que é comum na historiografia encontrarmos referências sobre a transição


do trabalho escravo para o trabalho assalariado livre. A transição de um tipo de trabalho para o
outro deve ser avaliada com cuidado já que tais relações, no século XIX, se apresentam de forma
restrita. No caso específico do final do período imperial, o trabalho escravo era importante e as
formas modernas de trabalho e toda a transição não correspondem aos fatos históricos. Temos
um anacronismo. Não podemos tomar uma transição pela outra. Tal transformação de consuma
em 1888 no plano jurídico, mas a transição para formas modernas mal havia começado estando
longe de alcançar um resultado significativo. Há fortes desigualdades regionais.

Mesmo no caso da transição do trabalho escravo para o livre, se do ponto de vista jurídico tal
transição ocorre em 3 de maio de 1888, na prática essas formas tradicionais de trabalho
(análogas ao trabalho escravo) vigoraram por muito tempo até se tornarem relevantes. A rigor,
se considerarmos a extinção das formas associadas a escravidão (ou análogas a ela), nem

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mesmo no presente podemos dizer que tais formas estão extinguidas de nossa realidade social
e econômica. O trabalho escravo e suas formas análogas ainda são significativas nos dias de
hoje. Existe ainda uma mentalidade senhorial no que se refere a prestações de serviços
domésticos e relações semelhantes.

A transição do trabalho escravo para o livre não pode ser considerada homogênea o válida para
todo o território brasileiro. Na realidade o que é verificado é que na base de cada região temos
uma profunda diferenciação regional do próprio enraizamento da escravidão. Se a instituição da
escravidão se estabeleceu de forma diferente ao longo do tempo em diferentes regiões, a
transição para o trabalho livre também apresentará distinções específicas para cada região. Isso
está associado a base social e econômica da instituição da escravidão. Considerar a transição
como homogênea é também um anacronismo.

Em essencial essa transição é um processo de estreitamento e erosão das bases econômicas


que deram sustentação à instituição social da escravidão. A crise do sistema servil nada mais é
do que a decomposição progressivo dessas bases sociais econômicas. Ela só poderia perdurar
quando existe uma base que a sustente.

Além disso devemos lembrar do quadro geral internacional do século XIX. Não podemos pensar
a transição de trabalho escravo para o livre sem considerar o quadro internacional deste século,
juntamente com a decomposição dos fatores que davam legitimidade econômica para a
instituição da escravidão, bem como sua evolução. Não nos referimos apenas à perda de
legitimidade, mas também às mudanças econômicas em curso.

Outro dado geral sobre a transição tange à posição do Estado legal. Apesar dos governos
provinciais participarem do processo, temos uma centralidade do governo imperial diante do
processo da transição, bem como daqueles que o apoiavam. A transição de longo prazo visava
garantir uma transição sem mudança, preservando as estruturas tradicionais. De fato é o que
se verifica. Independente do processo de transição que se considere ou o processo analisado,
as estruturas tradicionais foram preservadas juntamente com o apoio do Estado.

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Dois congressos agrícolas realizados, um no nordeste e outro no sudeste, visavam projetos


distintos para a transição já no final da década de 1870. Um deles queria a substituição do
escravo pelo trabalhador nacional (projeto com grande abrangência territorial) e outro projeto
que queria substituir o escravo pelo imigrante. Temos duas vertentes da transição e ambas
possuem pressupostos comuns e convergentes querendo preservar as estruturas tradicionais.

A transição não acompanhou processos de reforma agrária e por isso é verificado que com o fim
da escravidão a estrutura fundiária permanece inalterada. A concentração da terra foi crescente
já que na fronteira a terra continua sendo ampliada de forma concentrada e os padrões de
distribuição de renda permanecem inalterados.

A formação do mercado de trabalho moderno e assalariado não coincide com o fim da escravidão
sendo ele lento, contraditório e incompleto, permeado por desigualdades. Todos países que
tiveram a escravidão como centro do processo produtivo conheceram na transição do trabalho
o aspecto mais importante de modernização econômica, bem como países que tiveram diversas
formas de trabalho, a terra tem posição fundamental. Terra e trabalho possuem estreita relação
nesse caso. Ordenamentos jurídicos que dão legitimidade a apropriação da terra andam junto
com leis relacionadas ao trabalho escravo. Em 1850 temos a abolição do tráfico de escravos e
também a lei de terras. Essas duas medidas de caráter reformista liberal são indissociáveis na
medida em que a transição do trabalho implicaria na mudança das relações com a Inglaterra,
mas mantendo as tradicionais formas de organização da terra e trabalho.

É necessário recuperar algumas características da economia e da sociedade brasileira do século


XIX. Assim poderemos entender como a transição se diferencia no espaço e porque ela se
apresenta distinta no território segundo as características mencionadas.

O século XIX representa uma transição de estruturas coloniais para estruturas modernas. A ideia
está associada a progressiva desestruturação de processos do tipo colonial para a montagem de
estruturas modernas capitalistas. O primeiro suposto que nos permite entender a transição de
forma heterogênea e diversa é a diversidade regional. As macrorregiões brasileiras eram
distintas e possuíam características únicas e distintas. Se olharmos para dados concretos
constataremos que existem diferenças entre as economias regionais, principalmente na forma

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de organização do trabalho, níveis de renda, tipo de produção, etc. Uma outra forma de aprender
essa diversidade é partir de uma compreensão da economia segundo um modelo que seja capaz
de sintetizar essa diversidade, não associando-a especificidades econômicas regionais. Temos
três setores da economia brasileira que são distintos:

1 – Agro exportação escravista.

a) Transferência do eixo econômico do nordeste para o sudeste em curso desde o século


XVIII e consolidado no século XIX. Isso explica porque a macrorregião do nordeste se
envolve em problemas de desníveis sociais.

b) Necessidade de impulsionar o mercado interno para atender às necessidades da


economia agro exportadora. Esse mercado interno precisa crescer proporcionalmente
para atender as necessidades de abastecimento de alimentos e insumos necessários
à produção agro exportadora.

c) Predominância do capital mercantil dentro da agro exportação escravista. Persistência


do padrão de acumulação por parte da dominação do capital mercantil ainda que ele
apresente características distintas em relação ao período colonial.

2 – Economia de subsistência escravista para a produção de gêneros básicos de subsistência. É


uma atividade mercantil voltada para o mercado interno. Essa economia cresce sendo a atividade
responsável pelo crescimento do mercado interno estando na base da integração desse mercado
de forma avançada em relação ao período colonial, mesmo comparada à integração
macrorregional promovida pela economia do ouro. O setor agro exportador não promove essa
integração do mercado interno. Existe uma tendência no século XIX dessa economia se
diversificar. Ela cresce significativamente no período. Essas atividades também estavam
submetidas ao capital mercantil mas foi de forma mais espraiada, estratificada e leve.

3 – Economia de subsistência para autoconsumo. Essa economia coincide com a própria


produção camponesa, ou seja, é uma economia que se integra ao mercado de forma natural. É
o maior setor da economia brasileira em termos de unidades produtivas e tamanho de população

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inserida nas atividades. Essa economia está dispersa espacialmente sendo um trabalho familiar
sustentado na terra.

Se nós olharmos para qualquer economia regional do Brasil do século XIX tendemos a identificar
esses três setores. A transição do trabalho passa por eles. Devemos lembrar que é impossível
compreende-la se esquecermos o fato de que ela estava associada a vários fatores que visavam
a modernização de transporte, ordenações jurídicas, bancos, etc.

Falaremos agora especificamente da transição do trabalho. Em seu fim não temos relações
modernas de trabalho instauradas. Em primeiro lugar podemos segmentar a transição dentro
dos projetos do nordeste e do sudeste. A transição para o imigrante estrangeiro se efetivou
apenas no oeste de São Paulo. Não que a presença desses imigrantes se limitasse nessa área,
mas foi nela em que os escravos foram substituídos por imigrantes. Significa dizer que essa
transição é espacialmente muito restrita. No restante do país temos a transição do trabalho
escravo para o trabalhador livre nacional, seja ele ex-escravo, seja ele indivíduo que nunca foi
escravo. É essa transição que foi majoritária. É um anacronismo associar a transição do
trabalhador escravo para o imigrante em todo o país. Ela só ocorreu em São Paulo já que essa
região se tornou mais dinâmica e importante no país. Esse modelo de transição não se aplica às
outras realidades regionais. É uma simplificação separar os dois padrões de transição (sudeste
e nordeste). Temos tipologias que explicam as transições. Apesar de não ser possível explicar a
transição em todas as regiões, podemos aprender sobre essa diversidade de transições com
tipologias.

A primeira tipologia define a transição como sendo um estabelecimento de relações sociais de


propriedade produção capitalista. Temos a transição de relações tradicionais de propriedade para
relações de propriedade modernas. Essa tipologia remete a agro exportação para mercado
externos e nesses espaços a transição foi mais rápida já que se formam mercados de trabalho
e fatores capitalistas sendo eles mais rapidamente constituídos nos espaços agro exportadores.
No caso dos espaços econômicos voltados para o mercado interno brasileiro (agropecuária de
subsistência) a transição para trabalhos modernos será mais lenta. Nos espaços camponeses,
agropecuária para autoconsumo prevalecia e a transição é inexistente, ou seja, se nós adotarmos
uma cronologia que considera que ao final da República Velha as relações modernas já são

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dominantes nos espaços econômicos mais dinâmicos e associados a agro exportação, esses
marcos anteriormente descritos não fazem sentido para áreas camponesas. Temos pelo menos
então três padrões de passagem de relações de propriedade e trabalho tradicionais para
modernos. Um mais avançado, rápido e completo, outro lento, menos avançado e incompleto e
outro que não se altera. Uma clivagem importante sobre essa tipologia é se compararmos os
setores urbano-rurais. Os espaços urbanos experimentam uma transição muito mais rápida e
ela ocorreu em todos os espaços urbanos de uma forma geral (áreas litorâneas). Os espaços
rurais em geral tiveram transições bem lentas.

Existe outra tipologia que explica a diversidade da transição. Ela parte, não do estabelecimento
da transição das formas tradicionais para as modernas, mas sim leva em conta o peso da
escravidão que leva a sua própria desagregação. O ponto inicial são os graus diferenciados de
enraizamento da instituição social da escravidão e, consequentemente, a formação ou não de
sistemas escravistas mais ou menos dinâmicos que variavam entre as províncias ou estados
(São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, etc.). Elas não eram homogêneas. Nos locais
em que a escravidão se tornou hegemônica e que constitui-se sistemas escravistas vigorosas, a
transição de trabalho escravo para o livre foi tardia e demarcada. É nesses espaços que podemos
verificar de uma forma muito clara, todas as etapas da transição do trabalho escravo para o livre
que termina em 1888. Os espaços em que a escravidão se tornou gradualmente menos dinâmica
e se tornaram frágeis ao longo da transição se tornando frágeis até 1888. O início dessa transição
seria o primeiro movimento no sentido de abolir o tráfico internacional de escravo. Todas as
transições do trabalho escravo para o livre na América se realizaram em duas grandes etapas:
abolição do tráfico negreiro e abolição da escravidão. A nossa primeira etapa ocorre em 1810
em que o governo português assume o compromisso de abolir o tráfico internacional de escravos
junto a demanda da Inglaterra. Mesmo sem efetividade, esse é o ponto de partida da transição
já que posteriormente outros movimentos convergem para o fim do tráfico. De 1810 a 1888
temos a transição de trabalhos no Brasil. Há espaços em que a escravidão já era hegemônica
em 1810 e continuam assim até 1888. Nesse intervalo temos a fragilização de sistemas
escravistas e nesse caso a transição do trabalho é PRECOCE e não tardia, não sendo bem
demarcada. No limite temos províncias que abolem a escravidão sendo que essa instituição
perde credibilidade ao longo do tempo.

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Por fim, o terceiro tipo são os espaços econômicos, regiões ou sub-regiões em que a escravidão
nunca alcançou expansão especifica. Nesse caso se quer tivemos transição.

Essas tipologias são formas de aprender a diversidade regional do país. O esforço é então
identificar todos esses tipos no espaço, caracterizando-os e distinguindo-os. O saldo de tudo isso
é a necessidade de aprender a diversidade de transições do trabalho escravo para o livre no
país.

A primeira etapa da transição é a supressão do tráfico internacional de escravos. Todos os países


escravistas da América possuem essa etapa como marco inicial da transição, exceto o sul dos
Estados Unidos e outras sem importância. Os demais sistemas escravistas dinâmicos da América
eram dependentes do tráfico internacional de escravos. Sem o tráfico tais sistemas tenderiam a
fracassar já que outros mecanismos não conseguiriam sustentar tais economias. As taxas de
crescimento vegetativo seriam negativas levando à queda da população escrava. Esse processo
não seria imediato já que existiria a possibilidade de remanejamento de escravos de uma região
para outra. Algum crescimento vegetativo também acabou ocorrendo permitindo minimizar os
efeitos da abolição do tráfico internacional de escravos sendo ele o marco inicial da transição. O
início da abolição, exceto o caso do Haiti, temos um intervalo de tempo significativo entre a
abolição do tráfico e a abolição da escravidão. A abolição do tráfico começa de forma sustentável
com a abolição do mesmo nas colônias inglesas na América. Tal abolição dá a partida ao processo
de pressão da Grã-Bretanha para que todos os países extinguissem o tráfico internacional de
escravos. A literatura afirma que as motivações da Grã-Bretanha eram diversas e não
necessariamente excludentes: motivação moral por parte de setores sociais britânicos,
necessidade de criar mercados consumidores novos, rentabilidade do tráfico (Grã-Bretanha
percebe a rentabilidade com o tráfico declinar) e custos de produção (o trabalho assalariado
diminuíam os custos).

No caso do Brasil, a chegada da corte em 1808 permite que em 1810 tratados com a Grã-
Bretanha iniciem a transição. As iniciativas para isso enfrentam resistências de amplos setores
sociais segundo motivações distintas à abolição. Isso explica porque demoramos 4 décadas para
abolir o tráfico. A razão econômica mais importante que justifica a permanência do tráfico está
relacionado ao crescimento da economia escravista no século XIX e não só aquela relacionada

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ao mercado externo. Tal economia estava em franco expansão, ou seja, os setores escravistas
estavam lucrando muito com o tráfico já que a ocorria a expansão da fronteira agrícola no país
e a diversificação do mercado interno. É essa então, do ponto de vista econômico, a principal
razão para a resistência ao tráfico. As atividades de base escravistas necessitavam de escravos
abundantes e de baixo custo para se manter.

Em 1810 inicia-se a tentativa de abolir o tráfico junto com os tratados comerciais. Temos o
primeiro marco. Em 1815 temos o congresso de Viena e o segundo marco que suprime o tráfico
ao norte do Equador. Em 1817 a Grã-Bretanha recebe o direito de policiar os mares e suprimir
o tráfico até 1846. Em 1826 e 1827 o Brasil assume o compromisso com a Grã-Bretanha de
suprimir o tráfico até 1831. Chega 1831 e nada ocorre. A fiscalização real sobre a validade
desses tratados não existia. Era a “Lei para Inglês ver”. Em 1845 temos o Bill Aberdeen, lei
inglesa arbitrária que visa combater o tráfico internacional de escravos no atlântico sul, até
mesmo em portos brasileiros. Essa lei leva a riscos de ruptura diplomática entre Brasil e
Inglaterra tendo em vista as ações da marinha inglesa no território brasileiro.

Entre 1845 e 1850 temos uma virada na posição da população brasileira em geral (escravistas
e população urbana) explicada pela inserção da discussão num quadro internacional muito mais
abrangente. Brasil foi o penúltimo país a abolir o tráfico sendo o último Cuba em 1864. Existia
uma pressão forte para a abolição do tráfico e um isolamento do país frente a outros. O governo
então, em 1850, instaura a lei Eusébio de Queiroz, abolindo o tráfico negreiro. Essa lei não
funcionou de imediato já que posterior a ela o tráfico continuou ocorrendo até 1857. Em 1850
temos o fim da primeira etapa do processo de transição do trabalho escravo para o livre. A
segunda etapa da transição ocorre de 1850 a 1888.

A transição ocorreu de duas formas anteriormente explicadas. Uma substituindo o escravo pelo
imigrante e outra substituindo o imigrante pelo trabalhador nacional. Na prática o imigrante
substitui pouco o escravo e apenas em São Paulo. A economia dessa região assume a maior
importância na economia do Brasil alcançando o oeste geográfico de São Paulo com agricultura.
Os imigrantes não chegam para substituir o escravo, mas sim para ser a força de trabalho que
trabalhará nessa fronteira em expansão. Em São Paulo a economia cafeeira conhece também a

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substituição típica em que sai o escravo e permanece o ex-escravo, ou seja, a mesma pessoa
muda de posição social e se insere em uma situação capitalista de outra natureza.

Os núcleos coloniais não podem ser confundidos com a imigração para o café ou imigrante que
irá substituir o escravo para produzir café. Os núcleos coloniais se caracterizam pelo fato de se
formarem através da imigração espontânea de estrangeiros com produtores independentes com
acesso direto a terra, os quais produziam para o mercado interno. O imigrante se insere em uma
unidade produtiva própria ou independente e produz para o mercado interno. Tais núcleos
surgem desde o início do século XIX (sua presença data do período joanino antes da
independência) e com uma série de objetivos técnicos, demográficos por parte do Estado. Essa
imigração espontânea teve efeito demográfico pequeno. A imigração está concentrada em áreas
atrativas para os imigrantes por inúmeras razões. Outro fluxo de imigração ocorre nas serras
gaúchas e catarinenses em espaços geográficos distintos e com a não convivência próxima com
escravos. Em termos demográficos essa imigração foi muito significativa, guardando
características comuns como a produção para o mercado interno. Essa segunda onda de
imigração foi financiada direta e indiretamente pelo estado. Diretamente já que companhias
intermediavam a vinda do imigrante e o estabelecimento dos mesmos.

A imigração para a cafeicultura possui duas etapas associadas a dois modelos de contrato do
trabalho que irão se distinguir. O primeiro é o sistema de parcerias, mas não pelo seu pelo
demográfico ou importância econômica. Foi uma imigração subvencionada pelos próprios
fazendeiros e, em meados do século XIX com o fim do tráfico de escravos, direcionada para o
oeste paulista. Os colonos estrangeiros nesse caso se estabelecem em fazendas escravistas em
que imigrantes e escravos ficavam separados. Alemães, suíços e portugueses vieram nessas
condições. Todos receberam empréstimos na Europa, recursos que serão necessários para que
possam se transportar para o Brasil. Tais empréstimos geram juros e as dívidas seriam familiares
e tais famílias recebiam um lote pelo fazendeiro e as obrigações era cultivar café com divisão da
colheita. Os fazendeiros controlam tudo. Os imigrantes também produzem alimentos em cultivos
intercalares possuindo áreas para os eu cultivo que não era independente já que existia divisão
bruta do que era produzido. Os contratos ainda estabelecem diversas cláusulas sobre a prestação
de serviços. As dívidas tendem a aumentar já que as formas de pagamento não eram
monetárias. Isso trava aquilo que é a expectativa de todo imigrante que sai da Europa no século
XIX: tornar-se um produtor agrícola independente. As aspirações se frustram. Há uma conexão

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entre a lei de terras e a transição do trabalho com abolição do tráfico. A lei de terras restringe o
acesso à terra permitindo esse acesso mediante compra.

O sistema de parcerias entra em crise em pouco tempo. Já em 1860 essas experiências já são
extintas em função de problemas que se acumulam. Tais problemas eram entre fazendeiros e
imigrantes. Os primeiros apresentaram razões para inviabilizar o trabalho com imigrantes e os
segundos reclamavam das condições de trabalho aqui impostas. Países europeus impedem a
vinda de seus cidadãos para o Brasil.

Uma série de transformações importantes facilitarão a segunda onda de imigrações para o Brasil.
Entre elas temos uma forte expansão da agricultura com elevação dos preços do café no mercado
internacional, presença de mecanismos de diversificação dos ativos, modernização dos
transportes que reduzem os custos de transporte viabilizando a interiorização brasileira,
mecanização do beneficiamento do café, processo de urbanização e avanço da discussão sobre
o trabalho no parlamento que, entre outras consequências, gera a lei de vocação dos serviços
de 1879 que será base para os novos contratos de trabalho com os imigrantes permitindo o
surgimento do colonato, forma que abrange os contratos de trabalhos em aspectos estritamente
ligados ao trabalho e aspectos da relação entre imigrantes e fazendeiros. Adicionalmente, fatores
europeus favoreceram a imigração como a unificação italiana e alemã. Essa segunda onda de
imigrações era supervisionada pelo governo imperial e governo federal. Espanhóis, portugueses
e italianos vieram para o Brasil nessa época. Todos eles recebiam um adiantamento para virem
para o Brasil, mas não existia ônus dessa vez. O seu estabelecimento foram nas fazendas de
café através da lei de votação dos serviços. Essa lei instaura um regime misto e moderno de
trabalho incluindo salários pagos segundo o número de pés de café cultivados pelos imigrantes
implicando uma série de compromissos, além de pagamentos sobre a quantidade de café
produzido, concessão de terras para cultivo independente dos imigrantes (seja em terras
próprias ou concedidas, tudo produzido pelos imigrantes era deles próprios). Por isso é que o
colonato permite que o imigrante tenha mais flexibilidade para vender o que produziu.

Tivemos também marcos que ajudam a entender o processo de transição do trabalho escravo
para o livre. Em 1850 é fechado o tráfico internacional de escravos gerando um tráfico interno
dos mesmos que foram redirecionados para outras áreas em favor das áreas mais dinâmicas,

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sejam regiões, sub-regiões ou áreas específicas. Essa redistribuição faz com que os escravos
sejam concentrados nessas áreas. O tráfico interno se subdivide em várias modalidade de tráfico
sendo o mais conhecido chamado de tráfico interprovincial. Proprietários de poucos escravos
vendem também seus escravos para proprietários que eram grandes escravistas.

A partir de 1870 começam a surgir obstáculos ao tráfico interprovincial de escravos. O preço dos
escravos sobe bastante impedindo os fluxos internos. A redistribuição vai ocorrer em benefício
dos sistemas agrários mais dinâmicos e, portanto, drenando os escravos de uma área para outra.
O tráfico interno não pode ser resumido a movimentos macrorregionais.

A distribuição dos escravos no final do período escravista se relaciona com a agro exportação
que era predominantemente escravista a 5 anos antes da abolição do tráfico. A presença de
trabalho livre nessa área era muito restrito. Em 1884, dois terços dos escravos do Brasil não
estavam na agro exportação (800 mil escravos) e 400 mil escravos estavam na agro exportação.
O peso da imigração há 2 anos do fim da escravidão se resume a 50 mil imigrantes. O número
de trabalhadores em atividades de mercado externo não contemplava grandes quantidades de
imigrantes, ou seja, enquanto existia escravidão o imigrante não substituiu o escravo.

Habitualmente alguns aspectos não são contemplados aqui por serem assuntos sociais e não
econômicos. Resume aqui dois fatores que erodem as bases da escravidão no Brasil no longo
prazo. Um é a resistência escravista, ou seja, o próprio escravo lutando pelo fim da sua condição
social escrava e isso se faz por vários meios como a fuga ou o suicídio. De forma a amenizar a
situação houveram leis que deram aos escravos direitos civis e leis que tornavam brandas as
relações entre senhores e escravos. O segundo aspecto é o abolicionismo que é, portanto, um
conjunto de atividades que erodem a instituição social da escravidão e a torna inviável.

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11. AULA 11 – PRIMEIRA PROVA (19/03/2014)

12. AULA 12 – REPÚBLICA VELHA I (24/03/2014)

Trataremos agora do período da Primeira República ou República Velha ou o período


compreendido entre 1889 e 1930. Faremos uma apresentação geral do período caracterizando
o sistema político predominante, a estrutura social e os aspectos econômicos. Nas demais aulas
os aspectos econômicos serão mais privilegiados do que agora com três abordagens
importantes.

O texto de referência agora é o da Maria Efigênia Resende. Ele é recente e trata da República
Velha até à revolução de 1930. O sistema político da primeira república era liberal, mas assume
características próprias do Brasil daquela época, sendo assim excludente. Maria Efigênia publica
o seu texto com base em sua tese de doutorado. Ela é professora aposentada do departamento
de história da UFMG.

O título do capítulo que trataremos remete ao liberalismo oligárquico e o processo político da


primeira república. O liberalismo oligárquico remete ao liberalismo da República Velha marcado
por desigualdades, exclusões e restrita participação política. No início do texto a autora ressalta
esse liberalismo oligárquico e remete também à ordem institucional que se vê consolidada em
uma série de aspectos que significam ruptura com o Brasil Imperial. A carta institucional de 1891
foi uma constituição liberal com estruturas políticas oligárquicas. Para compreendermos esse
sistema político é indispensável compreender conceitos indissociáveis a esse período histórico

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como o coronelismo, oligarquias estaduais que comandam os estados (não há mais províncias)
e a política dos governadores. Essa política em especial tem suas bases criadas ao longo da
primeira década republicana para que, na passagem para o século XX, pudesse ser concebida e
montada a partir de um acordo tácito e não consignado entre as grandes oligarquias do país
(Minas Gerais e São Paulo) e que perdurou nas décadas seguintes. A primeira república foi um
período de grande instabilidade política e econômica. No campo político a instabilidade está
associada à indefinição em estabelecer os padrões de relacionamento entre as esferas do poder.
Apenas com a política dos governadores temos uma estabilidade no período. As relações entre
as esferas política e econômica são fundamentais para entendermos esse período histórico. Não
compreender o sistema político é não compreender a forma como se estruturou a economia
brasileira no período, posto que essas relações políticas e econômicas são fundamentais.

A seguir a autora discute a constituição de 1891. Temos dois fundamentos importantes nela que
é a estadualização (federalismo) e negação da cidadania (caráter ausente de qualquer tipo de
política social sendo a cidadania política limitada com elevado grau de exclusão). Maria Efigênia
afirma que a proclamação da república se realiza em condições muito específicas assegurando
que um movimento militar pouco expressivo e de baixa adesão civil fosse exitoso já que um
processo de longo prazo de desagregação lenta do regime imperial ocorreu devido as erosões
das bases sociais e econômicas. Ao mesmo tempo temos a formação e expansão de um
movimento republicano que catalisa uma série se anseios por transformação em todos os
campos, mas que será capitaneado por forças políticas associadas à cafeicultura de São Paulo e
que ganharão grande projeção após o regime imperial. Outro dado importante para a
desagregação imperial se resume ao trabalho já que não houve acordo para abolição da
escravidão com os senhores, ou seja, a abolição ocorreu sem indenização prejudicando a elite
escravista que deixa de apoiar o império.

Para a autora, essa constituição de 1891 é o segundo momento em que o liberalismo político e
econômico é adaptado à realidade brasileira da época preservando estruturas econômicas e
sociais. Temos um traço de continuidade já que a constituição de 1824 e 1891 eram liberais,
mas preservam os interesses das elites. O modelo da constituição de 1891 é baseada na
constituição dos Estados Unidos, por isso o Brasil assume uma feição federalista com
individualismo político e econômico. A constituição dos EUA tinha essa organização federativa e
enfatizava essas individualidade. O que conecta a constituição de 1824 com a de 1891 é

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justamente esses individualismos, ou seja, aí sim temos um liberalismo autêntico e puro


almejando a aplicação à nossa realidade de uma matriz liberal. O federalismo seria a grande
inovação à constituição de 1891 em relação à carta de 1824 e em relação à realidade política
administrativa do período imperial que era bastante centralizado. De 1891 em diante temos uma
orientação descentralizadora no plano político. Isso significa mais uma rodada de disputa entre
forças centralizadoras de um lado e forças descentralizadoras de outro. Essas disputas ocorrem
e prevalece a ideologia descentralizadora com o máximo de autonomia possível para as esferas
do poder ainda que hierarquizadas.

A carta de 1891 tem também grandes distinções da constituição dos Estados Unidos já que neste
país a constituição foi feita em um momento que não expressa a realidade brasileira do final do
século XIX e nem a realidade internacional do momento. A autora entende que as realidades
eram distintas em contextos interno e externos e os objetivos das constituições também eram
diferentes. A carta americana reflete interesses a um certo modelo de construção nacional
enquanto a carta brasileira visa preservar estruturas econômicas e sociais. A constituição de
1891 leva ao limite a ênfase aos direitos individuais, mas por outro lado não há capítulos que
consideram bens públicos, ou seja, isso está ausente. Esse fato, para a autora, significa mais
uma etapa de barreira na criação da cidadania no Brasil. Os direitos políticos garantidos na
constituição eram restritivos com redução da participação da população no processo político
eleitoral. No cerne das discussões na assembleia torna claro que direitos civis, políticos e
aumento de cidadania são ausentes. Temos é a ênfase naquilo que está no centro da vida política
brasileira da época que era a preservação das bases tradicionais da sociedade. Além disso, a
assembleia procurava hierarquizar as esferas de poder. O poder era organizado e as definições
das instâncias de decisões eram as preocupações políticas da época. O rompimento dessa
estrutura política não ocorre e o próprio processo eleitoral na República Velha era extremamente
corrompido e marcado pelo uso da força e da violência. A corrupção e a violência eram
características do processo eleitoral. O traço de continuidade importante era o caráter
igualmente excludente do liberalismo no Brasil entre o império e a primeira república. Isso
significa que, se a participação política era corrompida e violenta, as elites permaneceram então
com uma desconfiança em relação ao povo querendo descredenciá-lo à participação política.
Grande parte da população não participa então da política.

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Quanto ao federalismo que era a grande novidade da constituição de 1891, temos uma discussão
de longo prazo. O caráter do federalismo brasileiro é um debate aberto desde o seu surgimento
na constituição. A inserção desse debate permeia as desigualdades no federalismo brasileiro.
Essas desigualdades ficaram claras na República velha já que os entes federados participavam
de formas distintas na política nacional. O federalismo no Brasil é uma discussão constante na
nossa história já que se trata de uma realidade nacional marcada por profundos desequilíbrios
e desigualdades regionais. Com o federalismo, ao contrário do período imperial, municípios e
estados adquirem poderes, bem como as elites locais (coronéis e elites oligárquicas). A elite
nacional se preocupava em formar elites oligárquicas que pudessem se manter no poder e
perpetuar as relações sociais. Temos uma ruptura, ou seja, uma descontinuidade com o período
imperial: “quebra do sistema de relação direta entre os detentores do poder local e o centro do
poder nacional”. Não há mais essa relação direta já que agora temos uma hierarquia de funções
e sistemas de compromissos.

Os presidentes de estado que depois serão os governadores deixam de ser nomeados pelo chefe
do executivo nacional e passam a ser eleitos e comandam os partidos estaduais. Outro atributo
da República Velha é que não temos partidos nacionais importantes. Todos os partidos são
estaduais revelando o elevado grau de autonomia e regionalismo desse período político. Se os
partidos representam interesses regionais, o regionalismo é levado ao limite na história
republicana. A nossa realidade está contaminada com regionalismos diversos e os interesses de
cada região estão associados a interesses hegemônicos e de unidades da federação marcadas
por profundo desalinhamento ou atraso em relação ao processo de desenvolvimento como um
todo.

Os estados passam a ter propriedade das minas e das terras (solo e subsolo). Além disso
possuem autonomia para dispor sobre a fiscalidade já que base tributária dos estados eram os
impostos interestaduais e impostos de exportação. Isso significa dizer que estamos em um
processo de integração pequena do mercado interno já que não há um mercado interno
integrado em bases capitalistas que suporte uma base fiscal eficiente. Essa base fiscal onera a
circulação interna e fortalece a autonomia dos estados e a defesa de certos modelos de
desenvolvimento autônomos ou sistemas econômicos completos no interior de cada estado.
Anteriormente com províncias isso não ocorria. Os estados também tinham autonomia para
pegar empréstimos externos e isso gerou endividamento estrutural do governo federal e dos

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estados com graves consequências econômicas. Esse tipo de atitude pode ser relacionada com
o convênio de Taubaté já que São Paulo foi um estado que primeiramente pediu empréstimos
para a compra de excedentes. Os estados tinha autonomia legislativa para estruturar o sistema
eleitoral e judicial, além de cada estado poder ter o seu exército ou força militar própria
independente daquela de caráter internacional. Isso explica o fato de no início da Era Vargas um
estado conseguir se opor militarmente a outro.

No plano dos municípios também temos um forte federalismo. Maria Efigênia ressalta que no
interior da assembleia constituinte existe uma pressão de correntes municipalistas. Isso leva a
exacerbação ou caráter avançado da descentralização no Brasil. O município está para o estado
assim como o estado está para a união. Isso significa a necessidade de uma negociação e um
acordo entre essas esferas posto que elas são autônomas. Minas Gerais, segundo a autora, será
o caso limite quanto ao excesso de descentralização porque em Minas o quadro transformou o
município em uma federação de distritos. A federação em Minas Gerais chegou ao limite em
fornecer autonomia aos distritos municipais.

No plano local dominam as elites jurídicas e econômicas e se identifica a figura dos coronéis. A
patente de coronel era a mais alta da guarda nacional e era, invariavelmente, atribuída apenas
a indivíduos que estavam no topo da hierarquia local. Temos uma associação histórica com essa
patente que até hoje se vê preservada já que o coronel seria um mandão ou chefe político local.
O coronel é um grande proprietário de terras. Temos uma estreita associação entre elite política
e controle da terra. O coronel seria um latifundiário detentor de largas extensões de terra.

Devemos entender o fenômeno do coronelismo. Temos um caráter histórico nesse caso,


associado a esse período da primeira república. Isso leva a autora afirmar que o coronelismo é
um fenômeno novo na política brasileira da época. Devemos dissociar o coronelismo de
mandonismo local. Este último é uma dimensão a-histórica (presente desde sempre) na esfera
privada do Brasil. Podemos falar em mandonismo local até hoje. Coronelismo é mais do que
mandonismo local. O coronelismo demarca uma mudança qualitativa na tradicional dominação
do poder privado. Essa mudança é na forma como se estrutura e prevalece esse poder local com
outras esferas de poder. O coronelismo tem uma identidade específica estando inserido em um
sistema político sendo um fenômeno datado desse período histórico. É impossível identificar o

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coronelismo antes ou durante o período imperial. Após a primeira república o coronelismo perde
força já que relações fundamentais que o caracterizavam em relação a situações de compromisso
deixam de existir.

O coronelismo é diferente de qualquer fenômeno a-histórico, ou seja, está associado a um


sistema político e a um período histórico concreto. Ele possui um caráter histórico decorrente da
excessiva concentração fundiária a qual é a fonte primordial de poder e dominação.
Tradicionalmente essa realidade convive com formas de sistemas representativos. Ainda que
haja desigualdades, há representação de interesses por meio de instituições representativas.
Temos uma associação entre essa vigorosa concentração de terra com sistemas representativos
o que resulta em um controle de uma vasta população dependente do latifúndio. E a população
que está fora da influência dos coronéis? Essa população, durante a República Velha, era muito
pequena. Nem 20% da população brasileira estava em áreas urbanas. A esmagadora maioria da
população vivia em áreas rurais em estruturas fundiárias concentradas. Tudo isso é um fato
histórico já consolidado e aprofundado pela República Velha. Esse aparato institucional favorece,
mais do que o império, o processo de consolidação dessa estrutura fundiária. Mecanismos que
legitimam a estrutura fundiária concentrada foram criados para impedir o acesso democrático à
terra já que todos esses mecanismos eram controlados pelos coronéis que também controlavam
todos os meios necessários para fazer valer essa legitimidade sobre ela. Eles controlavam
polícias, o judiciário, o executivo e outras esferas. As evidências são de que o processo de avanço
da concentração fundiária do Brasil é bastante significativo nesse período histórico dada a
conjuntura que o facilita.

Na essência da definição do coronelismo o que vigora é o compromisso entre os níveis de poder


(local, estadual e federal). Isso é consensual na historiografia. Nesse período histórico esse
sistema de compromissos se baseia em dois movimentos divergentes, mas que favorecem o
estabelecimento desses compromissos. O primeiro movimento é o que promove um poder
público cada vez mais fortalecido. O estado se constituindo em bases modernas cada vez mais
se torna mais forte. O segundo movimento é um enfraquecimento do poder privado. No meio do
caminho temos um estabelecimento de um acordo que gera uma série de compromissos e isso
está na base do coronelismo abarcando todas as esferas de poder. Na primeira década da
República Velha temos uma forte instabilidade por não haver inicialmente um acordo com tais
compromissos entre as esferas pública e privada. No plano local, as tensões entre os coronéis

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eram permanentes durante todo o período a ser estudado. O comando da política no plano
municipal era um processo construído ao longo do tempo mas nunca era definitivo. Havia sempre
um conflito entre aqueles que gostariam de assumir a chefia local.

O coronel para, alcançar o poder e mantê-lo deve, realizar alianças com outros coronéis
menores. Em geral um município é comandado por um coronel que tem como aliado coronéis
que comandam os distritos. Essa aliança precisa abarcar setores sociais modernos como
empresários, profissionais liberais e setores tradicionais da igreja. Era necessário costurar todas
essas alianças com as elites modernas. É também imprescindível, sempre, o uso da força.
Milícias privadas existiam gerando cangaceiros durante esse período. A força era utilizada para
impor a dominação. Os conflitos eram constantes entre coronéis locais que se opuseram à
coronéis estaduais. A favor dos coronéis estava o aparelhamento das instituições públicas. Serão
os coronéis mais influentes que se projetarão no plano estadual. As oligarquias estaduais se
dividiam em coronéis, bacharéis, empresários, técnicos, etc.

No plano regional temos a mesma coisa com uma estrutura de poder que se baseia nos partidos
republicanos estaduais. Os mais importantes eram o PRP e o PRM (partidos republicanos
paulistas e mineiros) que controlavam as funções públicas e com grande enfechamento de poder.
Além disso, esses partidos controlavam as forças públicas. Segundo a autora, no período
republicano temos três formas de dominação oligárquicas estaduais que se impõem. É o que ela
chama de geografia das oligarquias dominantes que não se constituíram da mesma forma. O
primeiro tipo são as oligarquias em que a disputa do poder estava mais institucionalizada, ou
seja, os interesses sub-regionais no interior dos estados acabam por estabelecer acordos
levando a uma institucionalização do poder com um apaziguamento entre as elites visando
eliminar conflitos o que gerou oligarquias coesas e homogêneas. O segundo tipo se dava pela
dominação de uma única oligarquia familiar sobre outras oligarquias como o que ocorreu em
Goiás, Mato Grosso, etc. O terceiro tipo é aquele em que há luta entre famílias oligárquicas
levando sempre a conflitos.

A autora também lembra que não podemos reduzir à participação política as próprias formas de
organização política da República Velha aos setores da elite e aos setores dominantes. Ela afirma,
sendo isso uma generalidade, que a participação política dos movimentos sociais na primeira

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república são mais ou menos enquadrados por uma percepção única das elites que leva em conta
a perspectiva elitista que criminalizava as organizações sociais. O próprio processo eleitoral foi
fortemente marcado pela corrupção e violência e também pela impossibilidade da existência de
uma soberania política. Os movimentos sociais ocorriam no campo e na cidade, embora os das
cidades serem os mais estudados principalmente por serem mais organizados, principalmente
os anarco-sindicalistas ou comunistas.

A autora também menciona um tópico restrito para entender a primeira década republicana,
bem como sua importância na resolução dos conflitos entre elites no interior dos estados com a
conformação de um sistema político estável que caracteriza as três décadas subsequentes. A
primeira década republicana foi marcada pela instabilidade pela presença de movimentos
armados com elevada participação dos militares os quais possuíam um peso decisivo para a
compreensão dessa primeira década republicana por gerarem instabilidade institucional. Tais
militares queriam um tipo de república diferente daquela que vigorou. Os militares já estavam
em projeção ascendente desde a guerra do Paraguai sendo aqui importante as vertentes do forte
espírito corporativo e, de outro lado, existe um ideário que associava os militares a um dever
cívico na construção de um país moderno, desenvolvido e que evidentemente vigorasse uma
ordem institucional sólida. Esses setores militares que se envolvem em disputas políticas são
formados em uma matriz positivista que dominou as escolas militares do Brasil durante um certo
período do fim do século XIX e início do século XX. Essa matriz positivista é que levou os militares
a formularem a atitude cívica baseada em uma ditadura positivista para promoção da ordem e
do progresso. A proclamação da república se efetiva em uma série de interesses que ganham
projeção desde 1870 com o confronto frente às estruturas do império. A república poderia
representar aquilo que se queria para o tempo, mas, no entanto, há também projetos políticos
distintos e em conflito durante a proclamação da república. Durante a República Velha os
militares tiveram uma participação na esfera política elevadíssima já que as revoltas
encabeçadas por militares visavam instaurar repúblicas em outros moldes.

O projeto vitorioso foi o liberal e já estava ele formulado no manifesto republicano de 1870 que
ganhou projeção com o passar dos anos já que entre 1870 e a república temos o crescimento
da economia de São Paulo. O ministério que se constitui durante o primeiro governo republicano
reflete a disputa entre militares. Os liberais se confrontam com os demais e vencem impondo
um custo específico na República Velha.

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A primeira década republicana possui várias características importantes. Elevada instabilidade


econômica associada a fenômenos que transbordam do império para a república e fenômenos
novos. Temos uma confluência de uma crise mais ou menos permanente assim como uma crise
econômica nos mesmos moldes, dando instabilidade à primeira década da república.

Logo abaixo temos agora um esquema que explica a política dos governadores:

O governo de Campos Salles, um republicano histórico, compreendeu os três últimos anos do


século XIX e os dois primeiros anos do século XX. Ele assume o governo sendo o segundo
presidente civil já que o primeiro foi paulista associado à elite política de São Paulo e à
cafeicultura. Esse quadro de crise política, econômica e financeira que marca a passagem de
século no Brasil está associado à não resolução dos conflitos que fazem com que as relações
entre as diversas esferas de poder fossem por demais conflituosas e que não houvesse solução
harmônica integrando essas diversas esferas pelas razões já ditas: falta de coesão, congresso
nacional fracionado em que as representações estaduais defendiam seus próprios interesses,
sistema partidário estruturado em bases unificadas e comandada pelas oligarquias, persistência

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dos militares em ações desestabilizadoras, falta de estabilidade nos planos locais em relação à
esfera estadual (conflitos entre coronéis e lideranças estaduais), insegurança, anarquia,
violência, instabilidade econômica e no plano social também temos inflação, desemprego, etc.

A política dos governadores é formulada no governo Campos Salles sendo ele um articulador da
mesma. Tal política alcançou um projeto de governo que pudesse alterar as estruturas de
representação do poder, pacificá-las e conferir estabilidade às mesmas. Há uma reunião de
Campos Salles com o então presidente e governador de Minas Gerais chamado Silviano Brandão
e uma participação de governadores de outros estados em que se estabelece esse pacto entre
os grandes estados, política e economicamente, mais influentes. A representação no congresso
nacional era marcada pelo peso que cada estado tinha na época. De fato, nessa altura, Minas
Gerais no governo Campos Salles alcançou estabilidade com um acordo com São Paulo. Antes
não existia possibilidade de acordo já que as elites regionais mineiras não tinham estabelecido
compromissos entre elas capazes de alcançar estabilidade política desejada para que a ação
parlamentar mineira fosse homogênea e unificada. Com Silviano Brandão e Campos Salles um
acordo é firmado visando reduzir os atritos em um estado marcado por grande diversidade e
desigualdade internas. Tais acordo nas esferas legislativas e federais foi fundamental. No final
do século XIX essa estabilidade é alcançada com Campos Salles e Silviano Brandão. Minas Gerais
e São Paulo então entram em acordo com suas elites. Minas tinha um peso muito grande na
representação política. Alguns intérpretes consideram que esse acordo foi o mais significativo
da época em que a elite política mineira se acorda com a elite econômica de São Paulo.

A política dos governadores queria alcançar a estabilidade entre as esferas de poder preservando
a autonomia dos estados fazendo com que os governadores tivessem suas bancadas e seus
governos leais ao governo federal e estadual. Isso leva a um acordo entre o governo federal,
governadores dos estados e os coronéis. Temos então a primeira pirâmide que formaliza a
organização desse sistema de compromissos. Os setores não oligárquicos eram o conjunto da
população. As lideranças políticas municipais eram os coronéis e os mandões locais que se
relacionavam com o conjunto da população que era controlada por eles por meio da detenção
de terras. Essas lideranças querem assegurar os votos dos setores não oligárquicos, seja por
meio de convencimento, troca de favores, proteção e acessos a bens e serviços públicos seja
também por meio da violência. Com os mecanismos de controle que temos hoje, ainda vemos
tudo isso ocorrer em algumas regiões. É diante desse contexto que se formam os currais
eleitorais que asseguram a eleição dos chefes locais. Acima desse estrato da pirâmide do

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esquema acima existem os governos estaduais ou oligarquias secundárias já que as principais


oligarquias são as que chegam ao governo federal (as oligarquias de Minas Gerais e São Paulo
em rodízio). As oligarquias secundárias eram as influentes que asseguravam a manutenção das
oligarquias federais. Há uma hierarquia entre as oligarquias sendo as principais as de Minas e
São Paulo seguidas das oligarquias de Bahia, Rio Grande do Sul. Os chefes locais garantiriam o
controle dos currais e a sua eleição por meio dos partidos republicanos estaduais sendo estas
comissões executivas que estabeleciam relações entre os governos e os coronéis. Estes
controlam e asseguram os votos e os governos estaduais davam verbas, nomeações e favores
destinados aos coronéis. No topo de pirâmide temos as oligarquias federais que controlava todo
o sistema. É no topo que está o centro e o coração da política dos governadores. Temos a
articulação entre coronéis, governadores e presidentes. A política dos governadores engloba
tudo isso.

Essa relação entre governo federal, estadual e municipal pode ser sintetizada na seguinte forma:
“são os coronéis os chefes políticos locais, a base e a origem de uma complexa rede de relações
que a partir dos municípios estruturam relações de poder que vão até ao presidente da república
envolvendo compromissos recíprocos. Tais relações são clientelistas se consolidam em uma
clientela que mantém o poder mediante trocas entre quem detém o poder e quem assegura a
perpetuação do poder”. Temos aqui um forte caráter de permanência patrimonialista nas
relações políticas.

O governo federal tem, a cada sucessão presidencial, renovar as alianças com os governos
estaduais assegurando o êxito da política dos governadores mantendo as oligarquias estaduais
e o poder local dos coronéis. Tal política consolida o domínio das oligarquias estaduais e a força
dos coronéis nos municípios. As oligarquias e os coronéis já existiam e já detinham o poder, mas
de uma forma mais instável e previsível. A política dos governadores confere a estabilidade e
impede a formação de partidos políticos nacionais, prevalecendo partidos políticos locais.
Existiam mecanismos legais que impediam a ascensão de inimigos políticos. Isso faz com que
as eleições no período tenham uma forte previsibilidade.

Essa interpretação toda apresenta divergências na historiografia. Essa política do café com leite
encontrou críticos quanto alguns aspectos importantes desse esquema. Tais críticos
questionavam o caráter hegemônico, permanente e isento de conflitos entre Minas Gerais e São

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Paulo. Essa crítica vê essa aliança muito mais instável do que agora apresentava. Alguns também
questionam a estabilidade da política dos governadores para a república, sendo essa crítica
bastante polêmica já que o que foi dito aqui defende a estabilidade. Essa crítica quer afirmar
que a estabilidade que ocorre durante o período é resultado da instabilidade das alianças entre
os estados mais importantes da federação impedindo que a hegemonia de uns fosse perpetuada
e que a exclusão de outros fosse definitiva. A favor disso estão fato de que a cada processo
sucessório existiria um risco real da política dos governadores ruir já que era necessário renovar
as alianças com os governos estaduais e locais. Ainda a favor disso está o fato de que quando
São Paulo se recusa a manter o esquema de rodízio temos uma crise intra-oligárquica que gera
a desagregação final desse sistema político levando à revolução de 1930.

13. AULA 13 – REPÚBLICA VELHA II (26/03/2014)

Discutiremos agora o processo que ocorre durante toda a República Velha que é a transição para
o capitalismo industrial. Começaremos agora a estudar o texto de Caio Prado Júnior que analisa
a República Velha como um todo enfatizando alguns aspectos particulares.

Caio Prado Junior é uma referência historiográfica obrigatória por uma série de razões. O livro
sobre a histórica econômica do Brasil foi publicado em 1945 em que Caio Prado discute o sentido
já colonização que já foi discutido anteriormente. Essa obra foi um marco na historiografia
brasileira tendo enorme importância para a nossa história econômica constituindo-se em uma
leitura forte.

Independente dessas referências é importante ressaltar que esse texto de Caio Prado é difícil de
ser classificado como um texto bom ou ótimo sobre história econômica. O autor é incapaz de
contemplar todos os aspectos imprescindíveis â história econômica total do Brasil.
Adicionalmente é um fato que o seu texto é importante quando visto no conjunto de todas as
suas produções, ainda mais por ser uma leitura coerente e que completa demais textos de suas
obras.

O título do capítulo a ser tratado é a República Burguesa de 1889 a 1930. Esse título já enuncia

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o caráter geral do período. Caio Prado defende que na primeira república temos a formação e
hegemonia de uma classe social moderna associada ao processo de desagregamento de um
sistema econômica anterior e à emergência de um novo sistema que se forma a partir da
desagregação do modelo primário exportador.

A ideia aqui é tratar da transição. Ela significa o máximo de desenvolvimento ou apogeu de um


sistema econômico primário exportador e ao mesmo tempo a sua desestruturação. A abordagem
dialética procura ressaltar as contradições no interior desse sistema econômico que levam a sua
decomposição progressiva e ao mesmo tempo tratar do surgimento ou emergência dos fatores
que geram um novo sistema.

O apogeu do sistema é destacado com base em fatores determinantes do contexto nacional e


internacional que criaram o quadro em que esse sistema se desenvolvesse em grau máximo.
Além disso, Caio Prado fala também das contradições do sistema que o levaram ao fim. Quando
o autor fala em apogeu ele não se refere apenas aos índices de produção de café ou de qualquer
outro produto agroexportador, apesar de sabermos que o café era o principal produto da pauta
exportadora brasileira. O apogeu se relaciona também com uma série de estruturas e mudanças
que não só permitem a adaptação da produção brasileira às exigências dos países centrais como
também nos torna dependentes do mesmo. As crises da primeira república eram crises de
crescimento que proporcionaram mudanças para a expansão do setor cafeeiro, modernização
de sistema financeiro, comercial, transportes, etc. Existe uma conjunção de fatores que visam
criar as condições para que o sistema econômico crescesse frente as exigências dos países
centrais. A primeira parte do texto põe em evidencia esses aspectos que estavam essencialmente
orientados para criar essas condições de mudanças para além do sistema primário exportador
brasileiro. O apogeu seria desse sistema primário exportador que encontra o seu melhor
momento durante o início da primeira república produzindo gêneros tropicais para mercados
externos, madeira, e outros produtos desse sistema que vigora desde sempre, ainda que com
mudanças políticas, laboriosas e sociais.

Os fatores externos que favorecem essa máxima expansão do sistema agroexportador foram:

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1 - Expansão do comércio e mercado mundiais sem paralelo histórico entre a última quadra do
século XIX até metade do século XX. Tal crescimento está associado a outros fatores que
repercutem nos países semi-coloniais como crescimento demográfico, industrialização tardia,
perda da hegemonia britânica no campo industrial, massificação do consumo de produtos
tropicais (café por exemplo), transformações tecnológicas (revoluções científicas que incidem
sobre os transportes), mudanças nas relações comerciais e financeiras, dentre outras.

2 - Presença ampla do liberalismo econômico que, apesar de predominar, incita a competição.


Dentro desse fator temos a larga utilização de capital estrangeiro na economia brasileira. As
atividades financeiras se desdobram em empréstimos para o setor público e o texto fornece
dados para confirmar essa afirmação. Os dados evidenciam tendências para a economia da
época. A dívida externa brasileira tendeu a aumentar bastante com a república, ou seja, temos
uma forte aceleração do endividamento externo em todas as esferas do país (estadual, federal).

Os fatores internos que favorecem essa máxima expansão do sistema agroexportador foram:

1 - Eficiente solução para o problema da mão-de-obra em que o escravo foi substituído pelo
trabalho livre assalariado e imigrante.

2 - Aperfeiçoamentos técnicos associados a fatores externos que originam as mudanças internas


já que as tecnológicas eram produzidas fora do Brasil. Tivemos a mecanização do café, novas
matrizes energéticas, eletricidade, modernização ferroviária, modernização da navegação dentro
outros.

3 - Alterações nos planos ideológicos e psicossociais. O fim do regime imperial com a emergência
da república representa uma libertação e estimula um espírito novo ou uma nova inclinação das
práticas ou atividades econômicas. Esse aspecto é inovador para o Brasil. A república significa
para boa parte da sociedade (aqueles que podem produzir coisas novas) uma ânsia pelo
enriquecimento.

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O texto de 1945 de Caio Prado iniciou um período de grande pesquisa na história econômica do
Brasil. Podemos perceber isso comparando os textos iniciais e os textos de Caio Prado e de
historiadores posteriores. No ano de 1945 não existia um sistema de pós-graduação no Brasil
que sustentava uma pesquisa histórica. Caio Prado tem mérito em inaugurar um novo período
na historiografia. Em outros termos, excetuando um ou outro aspecto, é difícil encontrar no texto
de Caio Prado inconsistências ou incompatibilidades a respeito do período histórico da República
Velha. Essas considerações anteriores, externas e internas, favoreceram o apogeu desse sistema
econômico. Certas atividades que eram secundárias no regime imperial ganham novas projeções
durante a república por ganharem novas perspectivas e oportunidades com as modernizações.
Caio Prado afirma que ocorre uma ruptura se uma estrutura ideológica antiga que não era mais
compatível com o grau de desenvolvimento das forças produtivas. É ressaltado os entraves do
império que travariam o desenvolvimento e a república tratou de superar tais obstáculos.

Ainda no auge do sistema econômico agroexportador, Caio Prado salienta o peso do crescimento
internacional do período e o concomitante crescimento das agro exportações brasileiras. Nesse
período a exportação primária obteve o máximo de desenvolvimento. Todos os índices relevantes
se desenvolveram como a área destinada ao mercado interno, número de unidades produtivas,
número de trabalhadores, capilaridade e intensidade dos fluxos destinados à exportação, etc. É
consensual que com a expansão do comércio mundial tivemos a integração do Brasil nas relações
comerciais internacionais que proporcionou o máximo desenvolvimento agroexportador do país.

Por outro lado, Caio Prado coloca em evidência uma contradição desse apogeu agroexportador.
Tivemos uma excessiva concentração de fatores produtivos para a exportação o que levou a
retração da produção de bens para o mercado interno. Assim iniciou-se a cultura das importações
no Brasil que era um país exclusivamente agrário na época. Alimentos começaram a ser
importados já que a atividade produtora de bens alimentícios visava os mercados externos. É
incontestável o fato de que o crescimento das importações foi significativo, principalmente de
bens transformados nos mercados internos, onerando o balanço de pagamentos do país. Somado
a isso, os compromissos com a dívida externa e com pagamentos de juros da mesma
aumentaram bastante. Os compromissos externos cresceram muito e só foram sustentados pelo
superávit comercial que sustentou a expansão do sistema agroexportador, ainda que os
superávits comerciais se tornem menores com o passar do tempo devido ao crescimento das
importações.

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Tivemos problemas com evasão de divisas e remessas de fundos de imigrantes, pagamentos de


dividendos para empresas estrangeiras, etc., o que evidencia um desequilíbrio do balanço de
pagamentos exigindo superávits comerciais para sustentar esse desequilíbrio. O problema é que
os superávits iam caindo cada vez mais.

Caio Prado listou aspectos que revelam contradições internas estruturais ao sistema econômico
agroexportador como anteriormente explicado. Essas contradições se tornam mais fortes à
medida que o sistema se expande. Na base temos a excessiva dependência da vulnerabilidade
externa e intensa concentração do sistema primário agroexportador. Mas, as manifestações
dessa crise se espraiam por mais aspectos gerais e particulares. Genericamente o autor diz que
a crise proporciona um problema de crescimento no período, mas não leva o sistema à crise.
Pequenas manifestações de crise revelam problemas estruturais com a produção de café como
a superprodução. Tais pequenas crises são devido a intensa dependência do mercado
internacional de café já que os preços sobem por um tempo e depois declinam vertiginosamente
havendo oscilações. Isso faz o estado intervir no setor para assegurar os subsídios à
continuidade da expansão da produção cafeeira. Essa é uma manifestação clara de um problema
estrutural. Outro problema foi o ciclo da borracha, bastante efêmero se considerado dentro do
período histórico. A borracha se expande na última década do século XIX e início do século XX
tendo um declínio rápido posteriormente a isso devido à concorrência externa. De uma forma
irreversível temos essa contradição central que leva em conta a excessiva concentração da
economia brasileira na produção de bens para o mercado externo. Outro fator que sustenta a
crise do sistema primário agroexportador no longo prazo é o caráter desintegrador da
propriedade exercida pelo trabalho livre. Caio Prado não apresenta dados que sustentam essas
afirmações e nem a produção historiográfica subsequente, mas acredita-se que houve um
caráter erosivo do trabalho livre sobre a grande propriedade. Para o autor, era difícil integrar o
trabalho livre à excessiva exploração dentro da grande lavoura. Isso leva à tendência a uma
irregularidade no mercado de trabalho livre devido a não sujeição do trabalhador às condições
impostas à produção em larga escala. Isso estimula a presença e o surgimento de mecanismos
coercitivos que visavam sujeitar o trabalhador aos padrões de exploração. Um exemplo claro
disso é a economia da borracha anteriormente discutida em que trabalhos análogos à escravidão
eram praticados sob intenso controle que prendia o trabalhador por endividamento. Não é casual
o surgimento desse tipo de trabalho, mas está ele associado a certos regimes de exploração. O

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imigrante é, particularmente, resistente a essas formas de exploração que vigoram durante a


grande produção e isso gera uma forte irregularidade e dificuldade para a manutenção de
trabalho com abundância de oferta. As irregularidades são vistas com as taxas de entrada de
imigrantes no início do século XX. Houve anos que mais imigrantes voltaram para os países de
origem do que ingressaram. Caio Prado se baseia em pressupostos sobre os imigrantes. O
imigrante chega ao país com o desejo de se tornar produtor independente. Essa é a expectativa
e que justifica a intensão de migrar, mesmo se sujeitando a condições de trabalho precárias. A
ideia era acumular recursos para se tornar um produtor independente justificando a inserção em
atividades primárias exploradoras. Essa entrada massiva de imigrantes e a necessidade
permanente de repor os imigrantes que abandonam as propriedades faz com que o estado
intervenha na situação garantindo subsídios para a agricultura. Sem o subsídio estatal a
imigração para o Brasil não se sustentaria tanto já que outras áreas da América eram mais
atraentes aos imigrantes. A presença estatal é indispensável para o crescimento do setor
cafeeiro. Como a cafeicultura é uma atividade que corresponde a uma mancha de
desenvolvimento em expansão, as áreas antigas ou decadentes estariam passando por um
processo de desconcentração fundiária na medida em que se tornar áreas poucos atrativas à
produção do café. Pequenas e médias propriedades surgiam sob administração imigrante
demonstrando que o trabalho livre imigrante estaria inserindo o Brasil no contexto de
desconcentração fundiária no longo prazo. Todas essas evidências não podem ser generalizadas
para todo país. Analisar especificamente São Paulo não nos permite ampliar a análise para todo
país. Faltam referências no texto para confirmar a evidência desse processo em larga escala.

A excessiva concentração no setor primário gera um problema estrutural de dependência externa


que estimula a diversificação econômica. Outros fatores estimulam essa diversificação como as
crises que se abatem pelo setor cafeeiro. As crises nesse setor fazem os investimentos se
diversificarem para outros setores como transporte e setores urbanos. A crescente dependência
externa impõe também a diversificação econômica como a industrialização.

Caio Prado finaliza essa parte dizendo que o sistema econômico primário agroexportador traz
dentro de si os problemas que levaram ao seu declínio. A crise de transição não deve ser
confundida com a crise do sistema agroexportador. A crise do sistema agroexportador é a crise
do crescimento que ocorre na primeira década republicana e que faz parte do processo de
adaptação e mudança que cria condições para acelerar a expansão do setor primário brasileiro

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(cafeicultura) no quadro das mudanças do sistema capitalista em curso no mundo. Algumas


associações sobre o sistema político da república são feitas. O autor se concentra na crise
financeira da primeira república que se estende por toda a primeira década republicana. Tal crise
é bancário financeira bem como a crise da cafeicultura. Na primeira década da República Velha
tivemos grandes instabilidades e crises. Essa crise é uma face das adaptações e dos ajustes para
a continuidade em nível histórico inédito do sistema agroexportador.

Caio Prado ressalta alguns pontos importantes em seu texto sobre a crise bancária e financeira
da primeira década da República Velha:

1 - Temos uma política econômica monetária marcada pela indefinição e com descontrole nas
emissões de moeda.

2 - A abolição da escravidão levou ao trabalho livre ampliando os meios para pagamentos de


salário o que aumenta as emissões de moeda. A abolição da escravidão sem indenização visou
a expansão do crédito para latifundiários como forma de compensar a falta de indenização. Essa
missão de crédito desenfreada contribuiu para a crise.

3 - O início do período republicano foi de forte expansão do lado real da economia, exigindo a
ampliação do meio circulante dadas as novas necessidades. Nesse sentido estamos diante de
uma situação em que a expansão econômica expande as emissões sem controle gerando crise.

4 - Mudanças da base fiscal do governo durante a república já que a descentralização tira do


governo federal a sua base de arrecadação. O federalismo proporciona isso e faz o governo
federal emitir moeda desenfreadamente levando a crise.

5 - Sociedades por ações que ascendem muito rápido aplicando na bolsa e gerando complicações
financeiras futuras. Essas sociedades estão associadas ao crescimento econômico sendo também
carregada de especulação. Em pouquíssimo tempo tais sociedades vão deter grandes somas em
dinheiro que, com especulação, gerou as crises futuras.

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Esses fatores convergentes se associam e formam um quadro de crise econômica financeira no


Brasil da época. No momento em que a crise se estabelece temos desvalorização generalizada
de títulos e quebra de empresas que geram efeitos em cascata. A emissão de moeda gerou
inflação e, junto com a crise, um baque econômico grande com uma consequência importante
que foi a retração da entrada de capital estrangeiro no país. Se os estrangeiros já desconfiavam
do Brasil, a instabilidade econômica contribuiu para essa retração de capital estrangeiro na
econômica brasileira.

Além do que foi falado, o autor diz que as emissões de moeda foram feitas para acompanhar o
cumprimento dos compromissos externos do governo, bem como os compromissos internos. A
expansão monetária foi descontrolada gerando inflação e outros problemas econômicos graves.

Se o quadro já era grave por esses fatores, em 1896 os preços do café param de subir e
começam a cair assim como a demanda. Nesse momento temos a primeira crise de
superprodução no país. Esses fatores todos se combinam juntamente com os anteriores.

Em 1898 a crise do setor público acontece e o governo decreta uma moratória nesse ano e,
negociando com estrangeiros, negocia empréstimo para honrar seus compromissos. Os
pagamentos foram congelados e aumentou-se a dívida principal com esses empréstimos. Para
o autor, o mais importante foi que os acordos com os credores e intermediários impuseram
compromissos ao governo brasileiro, ou seja, uma cartilha foi feita e deveria ser seguida pelo
nosso governo. Isso inaugura um período que começou nesse momento e durou até o presente
próximo em que o Brasil ficou refém de determinações externas para conseguir se manter
economicamente.

O governo do presidente Campos Salles promoveu acordos com a política dos governadores,
mas também assumiu acordos externos gerando um ponto de inflexão na nossa política
econômica, tanto interna quanto externa, na transição do século XIX para o XX. As repercussões
para a nossa economia foram grandes. Os compromissos eram pequenos e grandes como
arrendamentos de ferrovias, expansão da carga tributária, mudança na política cambial, etc. O
que importa para o autor é que resolve-se uma série de problemas do novo regime com o capital
estrangeiro e a solução ocorre por meio de acordos que privilegiam os interesses internacionais

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a partir das reformas de 1898. Os acordos implicam a fiscalização e o cumprimento do que foi
estabelecido entre o governo brasileiro e os credores. Para o autor estamos num estágio mais
avançado e complexo de dependência que vinha se formando a mais tempo e que agora alcança
o seu ponto mais alto. A partir do início do século XX o Brasil conhece um movimento histórico
inédito de entrada de capital estrangeiro que antes não existia. A explicação para isso é que o
Brasil se torna um ambiente seguro para investimos depois que o quadro de instabilidade e
desconfiança foi diminuído com os acordos com os credores que os beneficiavam e colocavam o
Brasil em posição desvantajosa. Temos então o último ingrediente necessário para a expansão
do setor primário exportador brasileiro.

O autor salienta que todos esses ajustes, mudanças e adaptações que modernizaram o Brasil
não mudaram as estruturas da economia brasileira já que a essência do país ainda era de agro
exportação privilegiando a grande propriedade, privilégio ao mercado externo e assim por
diante. Por isso que Caio Prado chama essa crise do final do século XIX de uma crise de
crescimento que não desagrega o sistema econômico primário, mas sim o reforça
potencializando as suas contradições e promovendo sua posterior desagregação.

A expansão e crise da economia agrária deve ser entendida em consonância com os subsetores
da economia brasileira. Caio Prado falará do setor cafeeiro abordando a economia da borracha,
cacau, açúcar e por fim volta a falar do mercado monetário. Não parece que Caio Prado tenha
acrescentado algo de novo ao que já discutimos. Uma inovação durante o período era uma
política cambial favorável para prevenir contra a oscilação dos preços. Além disso, todas as
instâncias do café eram controladas pelo exterior. O estado intervinha constantemente na
economia do café beneficiando o Brasil, mas beneficiando mais ainda o capital financeiro e
comercial que controla toda a dinâmica agroexportadora do produto. Com relação a borracha
não há nada de novo em relação ao que já foi discutido. A expansão dela foi rápida devido à
indústria automobilística, a origem e as condições dos trabalhos já foram discutidos assim como
a sua vulnerabilidade e o caráter predatório. Quanto ao cacau a produção se dava no sul da
Bahia baseada na mão-de-obra interna e migrante. O açúcar é o que apresenta menos novidade.
O autor quer apresentar um quadro geral das principais atividades econômicas de mercado
interno do Brasil e todas são pelo cultivo de gêneros tropicais a exceção da borracha que é
extrativismo vegetal.

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O autor afirma que um dos mais importantes fatos da moderna fase da economia agrária
brasileira era o retalhamento da propriedade latifundiária com o aparecimento da pequena
propriedade. Essa colocação é insustentável dada a tendência à concentração fundiária no nosso
país. É difícil aceitar essa colocação, embora ela possa ser verídica em alguns espaços específicos
como no caso de zonas cafeeiras antigas em processo de decadência devido à queda de
produtividade. O trabalhador nacional não tinha expectativa de se tornar um grande proprietário.
Não foi possível demonstrar isso. Também a grande propriedade não estava desassociada do
mercado agroexportador.

A industrialização é tratada pelo autor e ela começa nesse período histórico com substituição de
importações, diversificação econômica e crescimento da indústria brasileira. Caio Prado
caracteriza a indústria na República Velha. Além disso ele discute o que é a indústria brasileira
no século XIX.

Com relação à República Velha, Caio Prado se apoia em dados importantes como o censo das
indústrias de 1907 e 1920. Com esses dados o autor caracteriza a indústria brasileira na primeira
república. Além disso o autor discute a origem do capital industrial no Brasil sendo tal origem
proveniente do capital agrário cafeeiro que se torna capital industrial, além de mencionar a
importância da política econômica do período para a expansão da indústria. A política econômica
tarifária era protecionista e irregular, sem diretriz e muito mais associada à necessidade fiscal
do governo federal sendo seletiva quanto a alguns setores. O capital estrangeiro também era
presente com forte expansão principalmente do capital dos Estados Unidos.

O ponto de partida para o imperialismo é o fato de o Brasil ter uma economia dependente
subordinada ao estrangeiro sendo a economia brasileira do período ainda colonial. As
determinações do capitalismo internacional retiram a autonomia da economia brasileira, ou seja,
Caio Prado não reconhece a existência de uma economia nacional. O imperialismo é, por
excelência, um conjunto de mecanismos que asseguram a dominação do capital estrangeiro em
áreas coloniais e semi-coloniais. O objetivo é se inserir e controlar todas as esferas das
economias periféricas. O núcleo dinâmico destas era controlado pelo exterior e drenados para
lá. O capital financeiro quer assegurar o controle das economias coloniais para a sua produção
manufatureira. Daí a presença de mecanismos que buscam assegurar a dominação comercial. A
presença do capital financeiro também explorava e se apropriava das riquezas minerais.

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O capital financeiro na economia brasileira se apresenta nas seguintes formas:

1 - Concessão de empréstimos ao setor público gerando dívidas, juros e remessa de lucros e


dividendos para o exterior. O governo transfere para o exterior boa parte dos excedentes. Esses
empréstimos permitiam o capital financeiro se inserir em atividades internas. Um exemplo é o
capital financeiro comandando a expansão ferroviária.

2 - Dominação da economia de base primária agroexportadora. Nunca como antes o capital


financeiro penetrará e controlará amplamente todas as etapas de produção e comercialização
das nossas atividades agroexportadoras. Os planos de valorização ilustram essa fase mais
avançada de dominação. O capital financeiro financia as intervenções estatais no setor e o faz
ampliando o seu controle sobre o mesmo setor.

3 - Especulação financeira. A atuação do capital financeiro no mercado de câmbio associado às


exportações por meio da criação de bancos estrangeiros no Brasil.

4 - Empreendimentos industriais e em serviços urbanos. Rigorosamente todos os setores


modernos da economia brasileira são comandados a partir do exterior como ferrovias,
transportes, comunicações, saneamento, energia elétrica, gás, etc. Não há um único serviço
moderno que não seja comandado por capital financeiro.

5 - Indústria manufatureira. O capital estrangeiro predominava na indústria brasileira. Do


controle comercial para a inserção na produção de bens manufaturados ocorria por meio de
subsidiárias implantadas no país.

6 - Fornecimento de matéria-prima e suas reservas. Temos aqui uma etapa nova na nossa
história com um avassalador processo de aquisição de terras no Brasil pelo capital financeiro
reservando, para exploração futura, grandes reservas.

Tudo isso completa o quadro apresentado por Caio Prado que caracteriza o caráter global do
imperialismo no mundo e o caráter secundário da economia brasileira subordinada aos

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mecanismos do império estrangeiro. Temos um processo de internacionalização da economia


brasileira. Vemos um movimento de integração do Brasil na economia mundial muito grande em
relação aos períodos anteriores. O imperialismo será o fator de exploração nacional travando ou
transferindo excedentes para o exterior. Além disso o imperialismo mantém o Brasil como país
agroexportador, seja pela excessiva concentração econômica no sistema agrário exportador,
seja por impedir a diversificação econômica do Brasil. Esse mesmo imperialismo perturbou as
finanças nacionais e fator de desequilíbrio das contas externas, dívidas e balanço de
pagamentos. Apesar disso, Caio Prado afirma, em tom dialético, dizendo que o imperialismo
moderna e impulsiona a economia brasileira. Essas contradições e esta última por excelência
caracterizam o período.

14. AULA 14 – BRASIL E CAPITALISMO INTERNACIONAL (31/03/2014)

Estudaremos agora o texto de Paul Singer que trata o Brasil no contexto do capitalismo
internacional de 1889 a 1930. A ênfase é a inserção externa brasileira no período da República
Velha. Esse texto foi escrito em 1975 e apresenta uma série de dados que são referentes ao
tema a ser discutido. Paul Singer completa a abordagem de Caio Prado sendo convergente ou
complementar a este. As interpretações dos autores podem, às vezes, serem divergentes.

Paul Singer inicialmente contextualiza o período histórico de acordo com uma série de referências
relacionados a marcos e processos mundiais sem os quais seria impossível compreender a
inserção externa do Brasil. Além disso o autor apresenta uma periodização simplificada
colocando em evidência tendências ou mudanças gerais da econômica mundial sem ficar
discutindo particularmente qualquer período.

Ao tomar a história do capitalismo entre os séculos XVIII ao início do século XX o autor entende
que temos três períodos de difícil caracterização:

1 - O primeiro compreende a última quadra do século XVIII à terceira quadra do século XIX. O
seu fim ocorre com uma crise capitalista e com uma outra etapa do capitalismo.

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2 - O segundo compreende a última quadra do século XIX e vai até o fim da Segunda Guerra
Mundial. Esse período engloba boa parte da República Velha. Tal período significou o
esgotamento de processos que vigoraram nesse período além da emergência de uma série de
outros fatores que caracterizarão o terceiro período.

3 - O terceiro período vai da Segunda Guerra Mundial em diante.

O que importa é que a inserção da economia brasileira no mundo deve ser considerada dentro
desses períodos e dentro das mudanças de um período para outro.

Incidem sobre a inserção brasileira alguns processos:

1 - Construção da hegemonia britânica e a sua vigência.

2 - Alargamento e expansão do mercado mundial.

3 - Constituição específica de uma divisão do trabalho internacional no qual o Brasil irá se inserir.

4 - Imperialismo neocolonial em todas as suas formas.

5 - Industrializações retardatárias que quebram e hegemonia britânica.

6 - Conflitos interimperialistas incidentes na questão externa brasileira.

7 - Multiplicação de povos hegemônicos.

8 - Primeira Guerra Mundial, Revolução Russa.

9 - Redefinição da divisão internacional do trabalho com as industrializações retardatárias.

Todos esses aspectos devem ser pensados quando pensamos em inserção externa brasileira. Tal
inserção é periférica e primário exportadora sendo a posição do Brasil secundária nesse
capitalismo. O autor afirma que a influência da dinâmica capitalista mundial no Brasil é
secundária pelo fato de que a integração da economia brasileira com a economia mundial é
bastante parcial no século XIX e no início do século XX já que o setor de mercado externo

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brasileiro é muito restrito do ponto de vista parcial sendo pouco abrangente territorialmente
além da integração com o exterior ser restrita apenas com poucos portos na costa brasileira. Os
sistemas econômicos agrários exportadores brasileiros visavam os mercados externos mas
possuíam pouca expressão já que as características econômicas do Brasil eram distintas. Para o
autor predomina um mundo semi-fechado dentro do Brasil com as atividades de mercado
interno. Tais atividades são também chamados de setores de subsistência pelo autor. Ao setor
de mercado externo haveriam outros predominantes como o setor interno mercantil compostos
de atividades internas e autoconsumo (economia natural). A economia natural então se divide
no setor externo, setor interno mercantil e setor interno para autoconsumo sendo estes dois
últimos predominantes em relação ao setor externo e isso explica que a inserção da economia
brasileira na economia mundial bem como a sua influência é bastante restrita.

Ainda na introdução, o autor afirma que o crescimento do comércio brasileiro de 1870 em diante
se realizou a partir da expressão da demanda externa. Essa visão também é confirmada por
Caio Prado e diversos outros autores. As transformações da economia brasileira resultam de
estímulos, pressões, fatores exteriores à nossa economia. As transformações que ocorrem são
para adequar a economia brasileira à divisão internacional do trabalho, ou seja, adequa a
economia brasileira às exigências das economias centrais.

Os dados de crescimento do comércio brasileiro entre 1820 a 1930 se agrupam em três períodos
que nos permite entender a inserção econômica externa do Brasil:

1 - 1820 - 1860: Temos a tendência constante de pequenos déficits na balança comercial. Esse
período corresponde ao de formação e início de desenvolvimento da cafeicultura. Nesse período
a produção de café ocorre apenas no Vale do Paraíba estando longe de chegar de forma decisiva
no planalto paulista. Esse período é marcado por déficits comerciais que gerou um balanço de
pagamentos desequilibrado.

2 - 1860 - 1900: Temos a tendência de pequenos superávits com adaptações que permitem um
salto no próximo período. Incidem de forma decisiva transformações importantes relacionados
a terra, transporte, trabalho, finanças.

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3 - 1900 - 1930: Grandes superávits. Período em que temos a maior parte da República Velha
com a solução das necessidades e adaptações. A transição já estava resolvida bem como a crise
de crescimento estudada por Caio Prado.

Todas essas transformações se relacionam com a cafeicultura.

Paul Singer afirma que a partir de 1860 o Brasil enfrenta um problema nos balanços de
pagamentos que faz o Brasil ser um exportador livre de recursos sob forma de empréstimos e
pagamentos de juros gerando uma dívida externa para o país. Tal dívida é um fato essencial
para entender esse período histórico nas relações externas já que ele promove desequilíbrios
estruturais no balanço de pagamentos.

O autor entende que a transição do trabalho e a mudança do regime de imperial para republicano
são decisivos para a maior projeção do Brasil na divisão internacional do trabalho já que a
mudança referente a transição do trabalho e a mudança política são etapas decisivos dessa
transição. No caso do trabalho e no caso político, tais mudanças são essenciais para a expansão
de fluxos de capital e força de trabalho no Brasil. A transição do trabalho na cafeicultura se apóia
na imigração internacional em São Paulo e a mudança de regime aumenta os fluxos de capital
no país. Era preciso que as adequações necessárias ocorressem também no plano institucional
dando dinamização e eficiência à economia do país e facilitando a sua inserção no mercado
capitalista mundial.

O centro dinâmico da economia mundial (países centrais) realiza movimentos que incidem sobre
os países periféricos com o intuito de fazer estes se adequarem as suas exigências:

1 - Aquilo que movimenta as economias centrais são a massificação de produtos produzidos na


periferia e consumidos por países centrais, tal como ocorreu com o café, borracha, açúcar, etc.
As exportações brasileiras desses produtos crescem muito nesse período histórico já que a
demanda mundial por esses produtos brasileiros cresce bastante.

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2 - Avanço tecnológico e crescimento pelo uso de matérias-primas industriais como algodão,


borracha, etc. Temos uma expansão vertiginosa por essas matérias-primas e no caso do Brasil
ainda existem vários outros. Nosso país se insere em um dos setores mais importantes do
mercado externo por meio do reconhecimento do potencial do país como fornecedor de matéria-
prima para a indústria siderúrgica. Durante os conflitos imperialistas temos a demarcação de
jazidas minerais para posterior de exploração e o Brasil se insere nesse movimento por meio da
incorporação de terras (solo e subsolo) favorável à vigência no Brasil de ferro e manganês.
Vários outros países estavam interessados nesses metais.

3 - Formação e expansão e também concorrência entre as economias primário exportadoras.


Nesse período histórico temos o acirramento da concorrência de bens produzidos em países
periféricos em zonas tropicais e temperadas. Espaços cafeicultores, canavieiros, algodoeiros e
borracheiros mundiais se expandem para abastecer os países centrais. Temos aqui a chave para
entender porque os capitais de origem britânica não se inserem diretamente sobre a produção
de tais gêneros.

Até 1870 é incontrastável a hegemonia britânica no comercio mundial. Até 1870 o Brasil conhece
o livre câmbio e a partir daí temos um amplo liberalismo econômico nas relações internacionais.
A Grã-Bretanha, até 1870, podia impor as regras cambiais que desejasse e após esse ano a
lógica da concorrência imperialista foi contrária à vigência desses mecanismos. Outros fatores
que se opõem a essa lógica (protecionismo e formação de esferas de influência nos países
imperialistas) ganham força e a Grã-Bretanha perde essa capacidade. Tal fator que responde
pela concorrência imperialista faz o Brasil conhecer o seu verdadeiro deslocamento ou a sua
perda enorme de importância em certos mercados internacionais, em especial de açúcar,
algodão e borracha que, após o café, são os três principais itens de exportação. A saída do Brasil
desses mercados está associada às competições interimperialistas levando em conta razões
técnicas, econômicas (fatores externos) e também por fatores internos. Na tabela 2 do texto
podemos ver como isso fica claro já que a participação relativa dos produtos brasileiros no
mercado mundial sofre um forte declínio. O açúcar sofre forte declínio e o algodão tem picos de
exportações devido a guerra de secessão americana, mas depois forte declínio. A borracha é
atípica com pico muito esporádico. O café, por outro lado, tem a tendência de se expandir frente
as exportações brasileiras. Os demais produtos sofrem concorrência interimperialista além do
Brasil se especializar internamente no café e isso explica a queda das exportações dos outros

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produtos. O açúcar possuiu modernização lenta de produção o que nos faz perder para
concorrência externa com uma lógica de produção nova comandada pelo capital monopolista
americano além de uma série de mecanismos que interditam ou criam dificuldades para a
inserção do açúcar brasileiro no mercado mundial (reservas de mercado, subsídios,
protecionismo). No caso do algodão, a concorrência com os americanos era forte e a preferência
dos países centrais era pelo algodão de lá além da existência de protecionismos, subsídios e
reservas de mercado. O açúcar e o algodão passam assim a serem redirecionados para o
mercado interno e isso explica a não redução do volume físico produzido além do Brasil começar
a praticar também o protecionismo. No caso da borracha temos a mesma tendência e pelo texto
vemos o quanto que o extrativismo da borracha na floresta amazônica é incompatível com o
crescimento da demanda por essa matéria-prima. A extração no interior da floresta possuía
limites físicos e custos elevados, por mais que as relações fossem essas.

O autor ainda afirma que a escravidão é um travamento ao surgimento, estabelecimento e


generalização das relações modernas. Segundo ele, esse travamento foi pequeno por significar
uma certa lentidão do estabelecimento das relações modernas no que se refere ao que é decisivo
para a inserção externa, ou seja, relações modernas associadas a uma transformação capitalista
que retiraria o Brasil da dependência e da periferia é, portanto, apenas questão de compreender
um fenômeno mais abrangente que é o fato do padrão de acumulação ser o grande travamento
às relações modernas. Ou seja, o caráter do capitalismo da época impede a reinserção ou
redefinição do Brasil em relações modernas.

A economia brasileira está amplamente relacionada às disputas interimperialistas as quais fazem


o Brasil se especializar. Em 1924 à 1928, três quartos das exportações brasileiras são de café.
Esse número nunca se alcançou em nenhum período histórico anterior que evidencia a tendência
para a especialização. Essa tendência levará ao desequilíbrio da balança comercial brasileira. As
décadas anteriores, antes da década de 20, já temos evidências de que o crescimento relativo
das importações é maior do que o crescimento relativo das exportações. A especialização torna
a nossa economia desequilibrada por impedir a manutenção do superávit comercial para fazer
frente às necessidades das importações e dos compromissos externos. Os dados são claros
quando o autor diz que o saldo da balança comercial é positiva até 1930 já que o Brasil está
tendo uma industrialização que no período estava em curso e reduzia a dependência externa em
alguma medida. Além disso o autor lembra que existe um custo direto dessa balança comercial

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positiva que pesa no balanço de pagamentos já que a valorização do café sustenta a expansão
da cafeicultura, mas onera o balanço de pagamentos devido aos empréstimos que sustentam os
elevados preços do café. As obras infra estruturais de portos e rodovias também oneram balanço
de pagamentos endividando o país. Por fim, a bola de neve da dívida externa onera o balanço
de pagamentos. Devemos lembrar que a política econômica da República Velha é voltada para
atender prioritariamente os interesses da agro exportação, em particular, da cafeicultura. A
política econômica tarifária, cambial e relacionada à cafeicultura gera ônus no conjunto da
economia para beneficiar o crescimento do setor agroexportador.

Paul Singer parte de uma abordagem que não considera o Brasil em particular, mas o contexto
amplo que o permite chegar a especificidade do fluxo de capitais para o Brasil no período
histórico. Nessas generalizações está o fato de que as inversões de capitais nos países
industrializados ou em desenvolvimento é prioritária e muito mais importante do que os recursos
destinados aos países periféricos. Os dados dos fluxos de capitais demonstram que tais fluxos
não podem ser vistos como prioritários tendo como destino países como Brasil ou economias
semelhantes à nossa. O objetivo desses fluxos de capitais é claro nesse período histórico sendo
o foco o máximo lucro com empréstimos aos governos periféricos e investimentos em obras,
serviços públicos e setores controlados pelo governo mas cedidos a particulares. O autor afirma
que as economias coloniais têm os seus mercados internos comandados por países centrais. Isso
sem considerar uma outra esfera que considera investimentos diretos em indústrias. De qualquer
forma, ferrovias, navegação, portos, saneamento, eletricidade, iluminação, transporte urbano,
gás e todos os setores modernos dessa economia são controlados por capitais externos. No caso
da Grã-Bretanha, o seu predomínio até à Primeira Guerra Mundial é incontrastável. A América
Latina corresponde por exportações de capitais britânicos ao longo do tempo, mas existe um
teto. Após atingido, os capitais deixam a América Latina e vão para outras partes do mundo
como países centrais, África e Ásia (exceto Rússia e China). Os fluxos majoritários vão para os
países centrais, depois para países periféricos do mundo e depois para a América Latina. A
Argentina mesmo recebeu mais recursos estrangeiros do que o Brasil. já que existem
investimentos pesados de alguns países para constituir zonas de matérias-primas em outros
países da América Latina. No caso brasileiro os fluxos de capitais estrangeiros britânicos se
concentram em ferrovias, serviços públicos, etc.

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Quanto a dívida externa brasileira ela é fundamentalmente contraída com credores britânicos.
Entre 1825 e 1889 o Brasil contrai 17 empréstimos externos com elevadas taxas de juros sendo
dois deles para estradas, dois por motivações políticas (Guerra do Paraguai e Independência) e
dez são para pagar juros da dívida o que gera uma bola de neve ou ciclo vicioso para o
crescimento endividamento do país. Na república os empréstimos ocorriam para obras públicas
de infraestrutura para manter a cafeicultura (portos e ferrovias) além de dois empréstimos de
consolidação em 1898 e 1914 associados a momentos específicos em que a economia brasileira
entra num quadro especialmente fragilizado, crítico, em que as crises levam aos empréstimos.
Paul Singer salienta que nos dois casos as condições para os empréstimos de consolidação foram
relativas às contrapartidas dos credores externos para gerir recursos internos causando
travamento e comprometimento da economia brasileira além do aumento da dívida principal que
alimenta o ciclo vicioso de empréstimos.

O autor diz que o mecanismo da dependência financeira está associado à dependência de


importações pagas com exportações. A redução da receita leva à impossibilidade crescente do
pagamento de juros e amortização levando à necessidade novos empréstimos. Os gastos não
poderiam ser reduzidos já que o Brasil era dependente de importações. Entre 1890 e 1927 o
Brasil paga 345 milhões de libras na forma de amortização e pagamentos de juros e contrai
novos empréstimos no valor de 325 milhões de libras. Como se vê, o Brasil assume novas dívidas
para pagar os juros dos empréstimos anteriores. A dívida tem um enorme salto da época imperial
para a época republicana.

Na República Velha, entre 1893 e 1908 temos dez empréstimos feitos juntos a Grã-Bretanha
sendo quatro para ferrovias e portos e 1 ligado ao convênio de Taubaté. Entre 1908 a 1930
temos uma mudança importante já que o período inclui a Primeira Guerra Mundial e inicia-se a
transição com queda da hegemonia britânica e ascensão dos Estados Unidos. Nesse período a
nossa dependência aumenta. Entre 1908 a 1916 temos onze empréstimos sendo seis britânicos
e cinco franceses. Entre 1921 e 1927 temos empréstimos feitos juntos aos Estados Unidos,
França e Grã-Bretanha destinados a ferrovias e infraestrutura. Pós Primeira Guerra Mundial a
hegemonia financeira britânica acaba e começa a hegemonia dos Estados Unidos.

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No caso da expansão ferroviária a influência britânica não experimentou concorrentes por meio
de investimentos diretos e empréstimos. No que se refere ao comércio exterior a influência
britânica ainda é forte sendo esse fato incomum. Paul Singer afirma que o setor de mercado
externo da economia brasileira está, não só integrado ao capitalismo mundial, mas também está
controlado e esteve controlado a ele. O Brasil fica dependente externamente com isso. A
circulação de produtos primários transfere excedentes para o exterior.

O autor entende que o processo de industrialização brasileira é inevitável dados os problemas


estruturais da economia brasileira e a tendência a essas contradições levarem a colapso da
economia. Paul Singer afirma então que a industrialização brasileira é inevitável sem participação
britânica. É necessário evitar que os níveis de especialização produtiva fiquem elevados, mas é
notável o fato em que o início da diversificação da economia brasileira coincide com o declínio
da presença britânica, seja nas finanças ou no comércio externo, pela razão já mencionada que
é o desinteresse britânico na industrialização brasileira e o interesse americano crescente no
mesmo setor brasileiro. Isso explica o porquê de 1860 a 1920 a presença de instituições
britânicas no Brasil declina já que a presença americana aumenta bastante.

A hegemonia britânica no comércio externo durante o período de modernização brasileira nos


mostra que o Brasil passa de elevada dependência britânica para um forte declínio dessa mesma
dependência. Alemanha, Estados Unidos e França são agora os responsáveis por controlar
crescentemente depois de dominar as exportações brasileiras e, por outro lado, aumentam a
importância de fornecimento de recursos e importações para o Brasil. Há uma mudança na
composição de recursos destinados ao Brasil decisivamente no período da República Velha,
grosseiramente isso significa a perda da hegemonia britânica no comercio exterior e
multiplicação dos países compõem o principal do comércio exterior brasileiro embora devemos
lembrar que essa diversificação tem um destaque americano que dá o primeiro passo para a
constituição da sua hegemonia.

Estados Unidos e Alemanha já são os maiores países industriais no final do século XIX superando
a hegemonia britânica que perdurou quase um século, mas Grã-Bretanha manterá uma
hegemonia comercial mais duradoura além desses dois países. No que se refere ao Brasil, a
hegemonia britânica comercial é forte. O autor quer analisar o caráter do imperialismo americano

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na primeira república, ou seja, examinar como se processou o crescimento dos Estados Unidos
na nossa economia segundo os mecanismos de dominação imperialistas típicos desse período
histórico. Aqui se esclarece o porquê dos Estados Unidos se inserirem na produção, não só na
produção industrial, mas em outras também. É impossível se inserir de forma significativa no
setor ferroviário dado a dominação da Grã-Bretanha, mas também se salienta o fato desse último
país adotar uma estratégia de exploração de fora de economias. A exploração de fora se realiza
buscando comandar, controlar as esferas da circulação, financiamento e serviços modernos e é
isso que a Grã-Bretanha faz. A economia de fora também é a principal fonte de capitais e
empréstimos britânicos que chegam ao Brasil. Essa é a forma de controlar as atividades
produtivas do Brasil. Grã-Bretanha investe dessa forma no Brasil enquanto investe na produção
primária em suas colônias. Os Estados Unidos não podem adotar a mesma estratégia já que a
Grã-Bretanha comanda as esferas já mencionadas além de não possuir um império colonial do
tamanho do britânico, exceto com Cuba. Ou seja, ou não tem império e quando tem, apenas
Cuba, porto Rico e Filipinas são espaços importantes. O que cabe aos Estados Unidos é adotar
uma estratégia de inserção que prioriza o desenvolvimento de novas linhas de produção na
indústria, agricultura e em todas as atividades possíveis. Tais inversões não são possíveis no
continente Europeu, mas possíveis na América Latina inicialmente em Cuba, México etc. Isso
explica motivo que, até 1930, os Estados Unidos investem mais em outros países para depois
investir pesado no Brasil.

Existem modelos que explicam a dominação externa sobre o Brasil. O texto apresenta dados em
que podemos ver os percentuais investidos pelos países centrais no Brasil ao longo dos anos.

Durante o século XIX Paul Singer destaca que as relações entre Brasil e Estados Unidos foi
marcada, durante o império, por desalinhamento político. O autor cita o fato de que a posição
brasileira durante a guerra civil americana é favorável ao sul dado a semelhança escravistas das
duas regiões. De forma análoga, os Estados Unidos apoiam o Paraguai na Guerra do Paraguai.
Com a república esse desalinhamento deixa de existir dada a constituição de 1891 que se baseia
na constituição americana. Além disso há uma convergência dado o interesse do Brasil em
reduzir a presença britânica no país e o interesse dos Estados Unidos em aumentar a sua
influência no país. Por isso as exportações de café para os EUA se tornam ainda maiores, bem
como as importações que fizemos desse país. O Brasil reduz a dependência exclusiva de um país

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e inicia uma dependência a outro. Concretamente, no âmbito da política econômica o Brasil


estabelece acordos tarifários com os EUA explicitando o estreitamento que realizamos com ele.
Os EUA estarão sempre ao lado do Brasil de agora em diante.

Paul Singer também fala de concessões públicas nesse período histórico sendo elas a forma mais
importante de penetração de capitais de países industrializados nas economias coloniais e
neocoloniais. O autor nos diz que essas atividades de mercado externo são inteiramente
dependentes das concessões já que elas pavimentam a introdução e o desenvolvimento de
serviços modernos indispensáveis ao crescimento e a expansão de atividades de mercado
externo. Tais concessões seguem um modelo universal aqui e em qualquer lugar da América
Latina com variações regionais. As concessões significam exclusividade ou monopólio como
ocorreu no caso ferroviário com monopólio britânico. Elas também asseguram a garantia de
remuneração mínima do capital empregado. Todas elas eram asseguradas sob pressão. Temos
um mercado de concessões com uma série de autores históricos e concretos presentes nas
economias coloniais ou neocoloniais essenciais à montagem dessas formas de dominação e
inserção de capital externo por meio de concessões. Elas, na maior parte do tempo, não são
para aqueles que explorarão os recursos públicos. No meio do caminho temos os testas de ferro
compostos pela elite que, por meio do clientelismo patrimonialista, controlarão a s concessões
e as venderão para outros interessados. Isso leva Paul Singer a falar de companhias que
exploram concessões. Temos uma promiscuidade entre interesses externos e internos que
loteiam as concessões.

A parte final do texto de Paul Singer é examinar como as concessões funcionam a partir do
estudo de um único indivíduo que multiplica a sua inserção em uma série de campos e áreas de
interesse, quase todos mediados por concessões públicas, que o faz detentor de influência
grande permitindo-o controlar esferas múltiplas e integradas da economia brasileira. A aquisição
de uma concessão permite o lançamento de ações nas bolsas de Londres ou Paris. Tais ações
são subscritas por bancos que garantem o capital. Tais títulos também são vendidos
posteriormente permitindo que tudo ocorra, ou seja, permitindo que as concessões possam ser
exploradas com construção de ferrovias, construção de portos, etc. O caçador de concessões foi
notável e o texto explica como o seu império foi construído dadas as fragilidades e o seu caráter
emblemático. Esse modelo de concessão se vê fortemente abalado após a Primeira Guerra
Mundial já que a economia mundial se altera e o estado brasileiro passa a mudar a sua política
no sentido de favorecer cada vez menos a exploração privada de recursos públicos e assumir

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um ritmo cada vez mais rápido de investimentos no mesmo setor para se beneficiar as
possibilidades de renda, mas também para condicionar os serviços públicos aos interesses
crescimento e emergência. Temos dois exemplos claros no texto que são o caso da energia
elétrica e o setor ferroviário. O estado subsidia a expansão racional e altamente rentável
proporcionando uma acumulação imensa, pagando juros para operar ferrovias mesmo que
prejuízos ocorram. Isso é melhor do que investir no crescimento das próprias.

Para Singer, em 1930 temos o fim da etapa de penetração imperialista no Brasil. Ele fala de um
tipo específico de imperialismo já que outros se inicia a partir desse momento.

15. AULA 15 – TRANSIÇÃO CAPITALISTA (02/04/2014)

O primeiro texto, de Gustavo Franco, refere-se a uma análise política econômica da última
década do séc. XIX e primeira década do séc. XX, destacando-se em dois aspectos:

1) A instabilidade econômica associada ao período, para ele só pode ser explicada pelas
transformações de caráter estrutural que estão em curso no país – Destacam-se dois fatores: O
primeiro é a transição do trabalho (disseminação do trabalho assalariado), ele assume que a
transição do trabalho nessa primeira década do séc. XX, já tenha disseminado a forma moderna
de relação de produção, resultando na crescente necessidade da alteração da política econômica
monetária e reestruturação do sistema bancário. O segundo fator de instabilidade é o
reordenamento da inserção do país na economia internacional, Caio Prado denomina esse
mesmo momento como a Crise de Transição, esse reordenamento se expressa no florescimento
das relações financeiras do Brasil com o exterior.

2) Conflito político econômico entre metalistas x papelistas - os papelistas são eminentes do


início do séc. XX, durante a gestão de Rui Barbosa frente o Ministério da Fazenda e defendiam
a flexibilização da política monetária, elevando a crise bancária financeira desse período. Já em
meados da primeira década, os metalistas se projetam na política econômica e perduram até o
fim da segunda década, o autor chama esse momento de reação conservadora. Os metalistas

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tinham como política o saneamento monetário fiscal implementado pelo governo de Campos
Sales.

O segundo texto, analisa as três décadas posteriores da Primeira República. O autor (?) parte
da mesma premissa de Caio Prado, considerando as primeiras décadas um período de transição
que alcança o auge e os limites da desagregação de um modelo econômico e estrutura de poder
(apogeu e crise dos sistemas de controle político). Para compreender o período, o autor afirma
que as recorrentes crises econômicas resultaram de choques externos, pondo em evidencia o
caráter dependente e vulnerável da economia brasileira em relação a sua forma de inserção
externa. As crises levam ao declínio da credibilidade de um modelo padrão de liberalismo político
e econômico, nos campos comerciais e financeiros temos o esgotamento de um modelo padrão
de condução que vigorou nesse período histórico.

O autor se posiciona criticamente sobre algumas interpretações historiográficas correntes da


política econômica da República Velha, a historiografia se divide em duas tendências:

1) A historiografia tradicional, associa a história econômica do período à hegemonia do setor


cafeeiro e dos produtores de café no âmbito de dominação político. A favor dessa visão
tradicional estão fatos como a adesão do governo federal às políticas de sustentação e
valorização do café, que evidenciam a coincidência de interesses das elites agroexportadoras e
do Estado.

2) Contrapondo a visão tradicional, há a visão revisionista, ela afirma que a política econômica
se orientou pela prevalência de uma matriz ortodoxa no controle político econômico, colocando-
a em contradição com os interesses da cafeicultura. No plano político, os revisionistas
questionam um padrão harmônico dos setores econômicos e políticos aos interesses da
cafeicultura, sublinhando conflitos constantes entre esse setor e o conjunto da sociedade
brasileira.

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O autor rejeita ambas visões historiográficas e formula uma visão alternativa que possui como
chave para compreensão do período o exame dos períodos de crises. Constata que a política
econômica é de fato ortodoxa, mas restringe-se a uma resposta aos períodos de crise como uma
forma necessária e indispensável para a preservação da estrutura do Estado. Reconhece, assim
como Caio Prado Junior, que essas políticas se fazem da projeção de interesses externos a nível
de definir a própria política econômica interna do país, os credores externos impõem a política
ortodoxa como resposta as crises, sustentados por acordos de concessões de crédito e
mecanismos de financiamentos.

O texto de Francisco de Oliveira também compõe o quadro de interpretações gerais do período


da Primeira República, o autor recorrentemente parte de uma série de pressupostos
imprescindíveis para a interpretação do modelo teórico que orienta sua orientação. O ponto de
partida do seu texto é a crítica às interpretações correntes, propõe algo distinto apesar de não
existir evidências históricas novas e basear em evidencias secundárias amarradas em uma forma
teórica distinta.

1) Heranças Econômicas do Segundo Império (Reinado): As interpretações correntes consideram


a República Velha como extensão econômica do Segundo Império, visto que não houveram
mudanças significativas da inserção econômica externa do país, nem do caráter da economia.
Somente a crise de 1929 iria interromper o caráter geral do sistema econômico brasileiro,
portanto ele divide a historiografia em duas correntes distintas: A matriz histórica estruturalista
(ênfase na formação do mercado interno) e a matriz de teorização neoclássica e marginalista
(ênfase no processo de alocação dos fatores econômicos para o processo de modernização da
economia brasileira).

Destaca-se na crítica do autor a identificação do problema da natureza metodológica, visto que


visões antagônicas trazem o debate em torno da interpretação da República Velha, mas
apresentam uma mesma destinação histórica. Segundo Francisco de Carvalho em sua análise
econômica, são as relações sociais e conflitos que definirão a destinação histórica e resolução
dessas disputas. Não se pode perder de vista o único destino legítimo que é o ponto de partida
da formação da economia brasileira sujeitada ao processo de exploração colonial e inserido de
forma especifica à economia mundial. Logo, não há destinação pré-estabelecida, o destino é

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resultado de uma construção histórica e dos embates das relações sociais. Além desse fato, o
autor afirma que entre o Império e a República, é preciso reconhecer mudanças importantes no
conteúdo das formas de crescimento econômico como: Inversão das relações comerciais no
Império, pois no Período Colonial há uma completa subordinação das atividades econômicas
desempenhadas pela elite colonial, em relação à metrópole. Os setores dominantes criados pelo
Estado português se afastam do mesmo, isso permite que as elites agrárias desenvolvam maior
autonomia da estrutura institucional no período Imperial, levando posteriormente à República.

Apesar da abolição da escravidão estar ligada ao processo de desagregação do Período Imperial,


para o autor ela não possui grande relevância mesmo, mas associa a abolição a uma mudança
importante para a agro exportação, pois sobre a escravidão concentravam-se excessivamente
um capital constante que progressivamente iria onerar a produção posto que os meios de
subsistência seriam importados – significava um ônus crescente para a produção e ao converter
o escravo em força de trabalho, a abolição desconcentra o capital. Nesse período histórico criam-
se os meios para a máxima expansão da economia agroexportadora e dá certa inserção do Brasil
no cenário mundial.

A economia da República Velha mantém o caráter primário exportador e certo padrão da divisão
internacional do trabalho. As unidades produtivas deixam de ser autárquicas, há o surgimento
do campesinato com a transição do trabalho livre permitindo, segundo Francisco de Oliveira,
reduzir os custos de reprodução da força de trabalho por meio do controle da circulação mercantil
pelos setores dominantes - monopolizavam os meios de produção. O balonato, se converte em
uma nova classe social agora monopolizadora dos meios de produção e terra – o exclusivo agora
passa a ser apropriado pela elite agrária que também detém os meios de produção. O processo
de “aburguesamento” da economia brasileira depende do nível e qualidade do processo de
apropriação do excedente econômico, o mecanismo mais importante nessa fase é o da
acumulação primitiva a partir do controle da terra. As nascentes trocas entre unidades
produtivas distintas, também passa a ser controlada pela elite, a República portanto passa por
um novo quadro do campo, marcado pela perda da independência econômica das unidades
produtiva, divisão do setor do mercado externo e do setor de mercado interno.

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As instituições que caracterizam a República Velha, também passam a serem controladas por
essa elite, o trabalho livre promove a maior geração de excedentes do que no período escravista.
Uma contradição ressaltada pelo autor, é a passagem do controle para uma classe social interna,
porém seu controle é limitado pela presença de uma posição estratégica e que comanda em
última instancia a economia, de um setor que realiza as intermediações internas e externas.
Esse setor controla portanto, a maior parte da acumulação, no caso da circulação pelo controle
exercido pela Inglaterra e posteriormente EUA e no caso do financiamento pela Inglaterra, ou
seja, o limite da transformação está na persistência da intermediação comercial e financeira
externa – controlam o conjunto da economia brasileira nesse período. Surge uma forma de
produção de meios de subsistência nova, ao contrário do período anterior, temos trocas internas
que promovem um processo progressivo de divisão social do trabalho no campo (potencial de
longo prazo). A inclinação econômica para agro exportação, é fundamental para entender a
economia da República Velha pois trata de um binômio entre a intermediação comercial e
intermediação financeira que comanda toda a realização da economia. A drenagem para o
exterior da parte mais importante da acumulação para os países centrais, está presente na
economia brasileira desde o período colonial, logo ele reconhece a importância
quantitativa/qualitativa do que o autor chama de produção de acumulação interna. O circuito da
economia brasileira (produção, financiamento, comercialização, acumulação e produção),
projeta a política econômica cambial como a mais importante da República Velha, pois ele irá
conferir estabilidade da forma do valor (..), elemento fundamental para a formação da renda
dos produtores. A política econômica cambial da República Velha vigora sem controle por parte
do Estado, apesar de haver momentos de intervenções estatais que são decisivos para
compreender o processo de crescente divisão social interna do trabalho, diversificação da
economia brasileira e crescimento da indústria de transformação. A economia não possuía um
sistema financeiro conciso, o governo potencializa a constituição desse sistema interno, mas é
descontinuada pelo fato de serem intervenções pontuais. Segundo Francisco de Oliveira, a
política cambial brasileira é oscilante devido a duas causas: momentos de preservação da forma
de valor principal da economia agroexportadora (sustentação e valorização dos preços do café)
e quando o governo passa por problemas financeiros graves (as finanças do Estado são
vulneráveis pela dependência externa). Ao mesmo tempo que há uma retração da demanda
externa de café, as exportações retraem, aumenta ou mantem-se a recorrência de
financiamentos externos e gera déficits da receita federal. Nesse momento o governo promove
a desvalorização cambial, expande a base monetária e favorece a intermediação financeira
interna potencializando níveis de acumulação de capital interna, mesmo que baixos. Quando os

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níveis de exportação se reestabelecem, o governo reforça os fluxos de capital externo para


financiamento e reativa as importações, a base monetária contrai, deixando o câmbio sem
nenhum mecanismo de controle. A descontinuidade faz com que o desenvolvimento das
atividades internas fosse constrangido pela ausência de mecanismos que pudessem impor seu
crescimento, para o autor as oscilações cambiais criam um quadro de intermitência na formação
de um mercado interno de capital e por essa razão, o processo central no avanço da divisão
social do trabalho na indústria de transformação é descontinuado. Só a partir de 1930, com a
impossibilidade de financiamento externo do setor cafeeiro, a política econômica muda de forma
drástica e o governo passa a privilegiar os mecanismos de financiamento interno.

2) Divisão Social do Trabalho e Mercado Interno: O modelo de colonização portuguesa é


fundamental para entender a herança que recai sobre o período Imperial e Primeira República e
que trava a o salto (quantitativo/qualitativo) industrial e econômica do Brasil. O mercado interno
colonial apresenta forte concentração da renda e frágil eficiência comercial, a economia está
sujeita a uma serie de limites pelos mais diversos fatores. As relações com as economias centrais
também impediam as mudanças da economia brasileira, pelo caráter das trocas e dependência
das importações. A abolição da escravidão rompe com essas contradições, converter o
trabalhador escravo em força de trabalho e transferir pra fora da produção os custos da própria
reprodução leva ao surgimento do campesinato e novas formas de produção de mercadoria. O
quase campesinato não contribui com a economia em sua estrutura de trocas, pois a economia
camponesa é em sua maior parte de auto consumo, porém é ela que produz as cestas de bens
que alimentam o capital variável e sua subsistência. A acumulação primitiva se realiza pelo
comando e apropriação do controle da circulação do modo de produção de mercadorias interna,
mecanismos de exploração agrícola e relações sociais levam à constituição do latifúndio e
nascimento da renda da terra – a terra passa a ser vista como forma de valor. No processo de
transição do trabalho há uma separação do produtor e meios de produção, porém no
campesinato essas relações voltam, ainda que em termos de um campesinato parcial visto o
monopólio da terra pelos setores dominantes. O posterior desdobramento do próprio capitalismo
no Brasil, nasce primeiro no campo e na produção de bens agrícolas e pecuários. A divisão social
do trabalho no campo tem caráter diferente da divisão do trabalho nas cidades, porém, segundo
Francisco de Oliveira, a abolição apresenta os mesmos resultados nesses dois ambientes:
separam-se produtores dos meios de produção e cria-se uma oferta de trabalho. A acumulação
nas cidades está limitada por uma série de pressupostos: ausência de capitalização anterior
(máquinas e equipamentos), a força de trabalho não tem virtude técnica para transferência em

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capital (limite estrutural da capacidade técnica do trabalhador). Com essas mudanças novas
relações de produção e configuração das relações campo/cidade são estabelecidas, há o
aprofundamento da especialização no campo para a produção de bens de exportação e
abastecimento urbano. O quadro geral desenhado pelo autor é o de uma medíocre diferenciação
da divisão do trabalho social no mercado interno, no sentido do capitalismo industrial, pelos
seguintes motivos: ausência de uma economia de trocas anterior, divisão social do trabalho
“estanque” (restrita e isolada), concentração da renda pelo complexo agroexportador escravista,
ausência de qualidade técnica da força de trabalho, abolição de uma população para o capital e
intermediação comercial e financeira externa que privilegia a agro exportação, travando as
transformações internas.

3) Burguesia Agrária, reiteração agroexportadora e oligárquica anti-burguesa: Parte da


burguesia agrária se transforma no seu contrário ao transcurso da República Velha, a burguesia
agrária se desdobra em atividades não agrárias como indústria, finanças e comércios e por outro
lado, trava as transformações do campo. O processo de formação da burguesia agrária brasileira
não se inicia na República, ela se diferencia e reconhece o Estado inadequado aos interesses
dessa classe para a expansão comercial e econômica já no fim do Império, porém a plena
configuração dessa classe se dá com a transição do trabalho, momento em que a burguesia
muda a forma e conteúdo da apropriação do excedente e produto social. A chave para entender
o surgimento da oligarquia anti-burguesa é a fundação do processo de acumulação primitiva
pela burguesia agrária, o campesinato e quase campesinato são frutos do interesse de
acumulação da burguesia. O trabalho livre sujeita-se a uma série de dominações sociais,
econômicas e políticas, fazendo com que o campesinato inaugure uma economia de troca e terra
e assegure a produção dos meios de subsistência dos trabalhadores.

Por fim, conclui-se que a burguesia agrária trava a penetração do capitalismo no campo e o
avanço da divisão social interna do trabalho no campo, com o objetivo de perpetuar o mecanismo
de acumulação primitiva que além de proporcionar dividendos, proporciona a manutenção do
controle da subordinação econômica da população sujeita ao controle da terra. Como o Estado
é dependente dos mecanismos de financiamento externo, ele perde autonomia e não se
diferencia das classes sociais dominantes que o controlam, nesse sentido ele não se opõe aos
interesses da agro exportação e não favorece aos interesses de outros setores. Dessa forma,
para o autor, o Estado é puramente oligárquico e não liberal, essas relações a longo prazo são

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instáveis dada a deterioração crescente entre as atividades econômicas e o nível de


endividamento constante do Estado ao longo desse período.

16. AULA 16 – REVOLUÇÃO DE 30 (07/04/2014)

A revolução de 30 foi um ponto de inflexão na nossa história econômica por demarcar o fim de
uma era caracterizada por um sistema econômico com surgimento de uma nova estrutura
também econômica que perdura até a década de 60.

O texto a ser estudado é de Marieta e Sabino. Ele é um texto recente e atualiza a discussão
historiográfica sobre a revolução de 30. A interpretação dessa revolução não é um consenso
historiográfico já que existe grande divergência sobre o processo e significado dessa revolução
bem como as forças que a conduziram. Dependendo da interpretação utilizada teremos visões
distintas sobre o caráter do estado pós revolução, bem como o caráter histórico.

O texto é de autoras especialistas no período. Marieta participou e participa ativamente no


debate sobre o assunto. Elas conferem uma diretriz que depois será desenvolvida que é
importante para compreendermos a revolução de 30. “A Crise dos Anos 1920 e a Revolução de
1930” é o título do texto. A revolução de 30 é muito mais do que um evento e muito mais do
que uma ruptura política. Ela é uma transição que começa antes da década de 30, mas não
termina com a revolução se estendendo para os anos seguintes. A transição é de uma realidade
histórica para outra, sendo uma mudança gradual.

Devemos considerar a revolução de 30 como sendo nossa revolução burguesa.


Independentemente de ser uma revolução burguesa com traços peculiares, incompleta,
contraditória, ainda sim a historiografia considera a revolução de 30 como sendo uma revolução
burguesa lenta e gradual. As autoras concordam com essa perspectiva.

Na introdução as autoras salientam o fato de que a revolução de 30 é uma transição de longo


prazo que remonta ao início da década de 20 em que os processos que ocasionam a revolução

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se iniciam nesses anos e até mesmo a anos anteriores a estes, ou seja, os motivos que
desencadeiam a revolução são bem antigos. Não podemos compreender a revolução de 30 sem
entender que os aspectos causadores são bem anteriores.

As autoras contemplam o ano de 1922 em seu texto já que nesse ano temos vários eventos
importantes no país. Tais eventos evidenciam a transição em curso que anteriormente foi
mencionada. Neste ano tivemos o surgimento de eventos instituições que seriam a expressão
das transformações, tais como: Semana de Arte Moderna, criação do PCB, o primeiro movimento
tenentista da década de 20, criação de instituições conservadoras católicas e elitistas, etc. Todos
esses eventos e instituições são muito importantes na década de 20 e após a revolução de 30.
Além disso, em 1922 temos a comemoração do centenário da independência. Tudo que se
realizou na comemoração do centenário expôs o fato de que o Brasil estava mudando e se
modernizando. A sucessão presidencial de 1922 também foi importante. Não encontraríamos
outro ano em que há tamanha incidência e convergência de eventos e instituições que
observamos em 1922.

As autoras também apresentam um painel geral sobre o quadro econômico e social a respeito
da década de 20. Não há nada de novo em relação ao que já foi estudado. A década de 20 é a
década da primeira fase de transição que se culmina com a revolução de 30. O setor cafeeiro
inicia a década de 20 em crise sendo socorrido pelo estado que sustenta o preço do café. Na
segunda metade da década de 20 o setor se expande e atinge o seu ápice de produção
significando a máxima expansão da fronteira agrícola. Além disso, essa década deixa claro que
a economia brasileira está em processo de diversificação, ainda que esse processo não ocasione
mudanças na política econômica. O mercado interno é privilegiado nesse caso e a diversificação
corresponde à industrialização (forte relação com a Primeira Guerra Mundial) e a diversificação
no setor agropecuário. Nada mais falso do que imaginar que a agropecuária brasileira em geral
tenha se acomodado ao quadro de predominância da agro exportação e estagnação do mercado
interno. Isso é muito falso já que o mercado interno também se desenvolve já que com o seu
crescimento temos uma diversificação da agropecuária. O crescimento industrial está associado
ao crescimento urbano acelerado. Do ponto de vista social temos também um processo de
diversificação com assimetrias regionais entre campo e cidade. É notável o surgimento de
setores sociais novos com empresários industriais e operários urbanos associados à indústria. O
próprio crescimento do estado liberal e do aparato burocrático proporciona o crescimento dos

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setores de serviços que promovem o desenvolvimento da classe média brasileira. Não podemos
perder de vista que a transição ocorre em um quadro histórico específico interno para além do
quadro externo anteriormente estudado. A década de 20 tem então uma série de fatores
contextuais importantes.

As autoras também discutem os fundamentos políticos da década de 20. Não há novidade em


relação ao que já foi estudado. É fundamental para se compreender a revolução de 30 que se
tenha clareza quanto a natureza desse sistema político e do quadro econômico e social da época.
Devemos considerar todos esses aspectos. Os fundamentos serão novamente repassados para
melhor compreensão:

1 - Instabilidade política: Essa instabilidade é importante para a revolução de 30 já que na


primeira década republicana temos um embate sobre os projetos para a república. Esse embate
trava o surgimento de um novo sistema político que não surge na mesma hora em que a
proclamação da república ocorre. Com o passar do tempo o sistema político surge e vigora nas
primeiras décadas do século 20.

2 - Constituição de 1891: Essa carta trouxe aspectos importantes que influência a revolução de
30. Ela instaura o federalismo marcado pela desigualdade e ausência de isonomia entre os entes
federados com excessiva concentração de poder nas mãos das grandes oligarquias e dos grandes
estados. Essa carta também define a realidade da nossa democracia que marca o sistema político
eleitoral da primeira república refletindo na revolução de 30. Tal sistema político demora para
se enraizar e no centro dele temos a determinação das funções desempenhadas pelos agentes
políticos em todas as esferas de poder. A resolução de uma série de conflitos e problemas seriam
pressupostos para que o sistema político se consolidasse. Temos duas etapas então, a primeira
é resolver os problemas e depois elaborar as estruturas e mecanismos desse sistema político. A
estabilidade vem posteriormente sendo indissociável da Política dos Governadores. As relações
entre as esferas livres de poder bem como os mecanismos de interação entre essas esferas
podem ser entendidas pelo esquema das páginas anteriores. A política dos governadores foi um
grande acordo capitaneado pelos grandes estados (Minas Gerais e São Paulo) que montam, de
forma eficiente, as estruturas do sistema político estável que vigora pelas décadas seguintes.

3 - O texto também discute o coronelismo, tema decisivo para a manutenção do sistema político

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da época e já estudado anteriormente. Juntamente com Maria Efigênia as autoras assumem que
o coronelismo tem especificidade histórica, ou seja, retiram o caráter a-histórico do fenômeno
em que a constituição de 1891 permitiu que se desenvolvesse com forte desigualdade. Os
acordos envolvendo o coronelismo visavam preservar o sistema político da época e sustentar os
agentes e elites da época. Tudo isso foi discutido em aulas anteriores.

4 - Estrutura e dinâmica do sistema político: A perspectiva tradicional e dominante vê o sistema


político solidamente estabelecido, estável e previsível, baseado na aliança entre Minas Gerais e
São Paulo em que o primeiro tem importância política e demográfica e o segundo tem
importância econômica. Vê-se a necessidade de pactuação entre os dois estados tendo em vista
a excessiva concentração de poder existente. Temos uma relação entre esse sistema econômico
e esse sistema político sendo que o segundo enfrenta crises decorrentes do primeiro. Mudanças
e adaptações eram feitas para manter a estrutura política e econômica da época.

Após entender tais estruturas ficará mais fácil entender a década de 20 e os aspectos que se
relacionam com a revolução de 30.

Na cisão intra-oligárquica e a reação republicana se relaciona com as eleições de 1922 que foram
marcadas pelo tensionamento e conflitos entre as grandes oligarquias do país. A cisão, mesmo
que não seja definitiva, remete à divergência e confronto que as eleições de 1922 instauraram.
A sucessão presidencial de 1922 conhece um alinhamento político das oligarquias em oposição
ao candidato da situação dos grandes estados (Minas Gerais e São Paulo). Os quatro estados
brasileiros com suas oligarquias secundárias (Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Bahia e
Pernambuco) se unem contra o candidato das oligarquias centrais (Minas Gerais e São Paulo).
Esse conflito entre as oligarquias ficou denominado reação republicana em que as oligarquias
secundárias visando resgatar o caráter republicano.

Sobre as eleições de 1922 é importante como interpretamos esse momento de tensionamento


entre as oligarquias. Esse conflito reforça a visão de que a Política dos Governadores não conferia
estabilidade no período, apesar de amenizá-las, não as erradicaram. O federalismo da época,
mais uma vez, é visto como desigual e produtor de instabilidade.

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Temos interpretações sobre a reação republicana gerada pelo conflito entre as oligarquias. Esse
conjunto de interpretações evidencia a importância do ocorrido:

1 - Tradicional: Confere ênfase ao caráter meramente conjuntural da dissidência entre as


grandes oligarquias tradicionalmente excluídas do governo federal. Essa dissidência teria fundo
econômico em que as quatro oligarquias secundários reivindicavam mudanças econômicas que
priorizassem as suas economias já que o governo só privilegiava as economias de Minas Gerais
e São Paulo com o café. Isso gerava problemas já que a socialização das perdas ocorria quando
o estado socorria os cafeeiros comprando o café para evitar a queda de preço com a aquisição
de empréstimos.

2 - Esfera política: Em 1922 essa visão considera que o populismo surgiu no Brasil. Essa ênfase
é meramente social. Genericamente o populismo significa a emergência de setores sociais com
efetiva aspiração por maior espaço na esfera política.

3 - Interpretação de Marieta (uma das autoras): Ela afirma que a reação republicana é uma
reivindicação das oligarquias excluídas do poder por maior participação política. Não era visado
uma alteração nas bases políticas oligárquicas. Tal reivindicação revela a presença tumultuada
de uma série de interesses econômicos e industriais. Temos um prenuncio do que acontecerá de
forma vigorosa no final da década. Os setores dissidentes mais densos e encorpados crescem
politicamente dada o aumento da base social com a legitimidade dos anseios por mudanças
políticas. Temos aqui um prenuncio que, por não querer mudanças nas bases políticas, apresenta
um crescimento grande de base social que tinha reivindicações específicas.

O desenvolvimento do processo político das eleições de 1922 tem um resultado previsível com
uma derrota da reação republicana já que pelo sistema político eleitoral da época, apenas a
vitória das oligarquias dominantes era esperada. A reação republicana não tinha o propósito
exclusivo de apenas vencer as eleições, mas também de pressionar os setores dominantes para
que houvesse uma redefinição ou uma readaptação do sistema político para a incorporação das
oligarquias secundárias. A reação republicana não se desfaz com a derrota nas eleições já que
revoltas militares ocorrem no Rio de Janeiro. Os setores oligárquicos simpatizam com o levante
militar, mas não se associam publicamente a esse levante. O fato é que esses eventos militares

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geram repercussões que desagregam a reação republicana. No meio de 1922 o governo de


Arthur Bernardes reprime duramente as oligarquias dissidentes e mais tarde as incorpora de
maneira tímida ao governo. Aqui temos o primeiro momento de desarticulação dos setores
oligárquicos e sociais excluídos.

O movimento tenentista da década de 20 se compõe de dois grandes movimentos. Os tenentes


ou os oficiais de baixa patente já haviam se manifestado na primeira década republicana.
Segundo a historiografia o tenentismo da década de 20 seria um segundo tenentismo. No
movimento predomina oficiais de baixa patente e na época havia um travamento de promoções
de ascensão na carreira militar o que provocou uma inflação de tenentes na esfera militar.
Independente das motivações, o tenentismo tinha uma face corporativa associada aos tenentes.
Segundo as autoras o movimento deve ser considerado na década de 20 segundo as suas duas
rebeliões capitaneadas pelos militares. O primeiro ocorre em 1922, em junho, no Rio de Janeiro
com a rebelião dos 18 do Forte. Esse primeiro movimento não tem apoio de massas populares
sendo bem restrito (exceto por um civil que se integra aos revoltosos). O fato é que a
compreensão sobre a revolta de junho de 1922 se trata de um movimento que expressa a
materialidade do descontentamento das forças armadas que ultrapassa as questões militares. A
formação militar entre o final do século XIX e início do século XX é bacharelesca, ou seja, o peso
da formação militar era grande e informa o tipo de inserção política dos militares bem como
evidencia uma aspiração por ascensão na arena política vinda desde a Guerra do Paraguai.

Os militares serão derrotados nessa primeira manifestação tenentista. Além disso, é decretado
estado de emergência no Rio de Janeiro o que evidencia a dimensão do ocorrido. Isso fica claro
quando amplos setores sociais se mostram simpáticos e favoráveis às reivindicações dos
tenentes: setores urbanos, classes médias e oligarquias dissidentes. Os revoltosos defendiam
amplos fatores como reforma constitucional que corrigisse a excessiva autonomia que o caráter
conferido pelo federalismo que impedia um projeto modernizador de ordem constitucional
entendido por eles como imprescindível à aceleração desse processo. Além disso defendiam
reformas do judiciário, reformas fiscais, excessiva concentração de recursos nos estados,
reforma educacional, etc. As reivindicações eram amplas em aspectos estruturais e conjunturais.

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Após dois anos da primeira revolta tenentista temos a segunda revolta ocorrida em São Paulo
que já era o centro econômico do país na época. Dessa vez a escalada militar foi significativa e
os objetivos já eram muito radicais visando derrubar o governo. Após a rebelião na cidade de
São Paulo os revoltosos começam um périplo pelo interior do país indo primeiro para o oeste e
recebendo apoio militar do Rio Grande do Sul. A partir daí a coluna Prestes é formada e percorre
25 mil quilômetros no interior do país com 1500 participantes que peregrinam por 13 estados.
Os militares evitavam o confronto com forças públicas e andavam pelo interior dos estados
disseminando ideias e propostas. Posteriormente o movimento se desfaz após 3 anos com a
dispersão dos seus líderes.

Considerando esses dois movimentos tenentistas temos um grupo muito influente e numeroso
que se articula durante todo o período no sentido de se organizar e reivindicar diversos fatores.
Isso significa tentar quebrar o sistema político no interior da república e instaurar novas ordens
políticas e sociais.

No quadro da reação republicana, o tenentismo foi bastante importante. Existe divergências


sobre esse assunto específico e várias interpretações. O tenentismo chama a atenção pelo
caráter da coluna Prestes e pelo fato do movimento estar associado à revolução de 30. Uma
perspectiva tradicional associa os tenentes a setores da classe média, ou seja, burgueses. As
reivindicações estariam concentradas em maior participação política. Uma segunda interpretação
é que confere ênfase aos aspectos coorporativos ou militares. O tenentismo seria um movimento
que reivindicava aspectos apenas militares. A terceira visão mistura o caráter coorporativo com
a origem dos tenentes, ou seja, temos uma mesclagem de fatores sociais e institucionais
específicas da corporação militar. Por último temos uma interpretação que enfatiza o caráter
conservador e revolucionário do movimento com forte adesão popular.

As autoras do texto ressaltam que todas as interpretações acima descritas convergem para o
fato de o tenentismo ter uma função desagregadora com relação ao sistema político vigente,
seja no curto ou no longo prazo. No longo prazo o tenentismo é um poderoso fator de erosão
das bases sociais do sistema político da primeira a república.

Falaremos agora do processo político da revolução. O governo de Washington Luís e até mesmo

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a segunda parte do governo de Arthur Bernardes são marcados por estabilidades políticas. Esse
quadro é rompido com Washington Luís que recusa indicar um candidato mineiro para a sua
sucessão gerando então uma dissidência com Minas Gerais, ou seja, uma dissidência dentro da
própria Política dos Governadores. Isso favorece uma aglutinação das oligarquias dissidentes em
torno de uma candidatura alternativa. A aliança liberal articulada por essas oligarquias revela os
objetivos da oposição à candidatura de São Paulo já que Washington Luís indica outro paulista
para lhe suceder. A aliança liberal é composta pelas oligarquias de Minas Gerais, Rio Grande do
Sul e Paraíba que constrói a chapa com Getúlio Vargas e João Pessoa. Poucos estados apoiam a
aliança liberal e o partido democrata de São Paulo também a apoia sendo uma dissidência interna
dentro do estado. Além disso temos setores civis e uma parte dos militares que apoiam a aliança.
Essa frente então tem uma adesão significativa de setores sociais, mais ainda do que ocorreu
na reação republicana. A aliança liberal visava reformas políticas no campo eleitoral (não é um
rompimento com a ordem vigente, mas sim uma reforma com moralização das práticas políticas
com criação de justiça eleitoral, etc.), defesa do liberalismo político (representação política
igualitária e cidadania política mais ampla com incorporação de frações da elite excluídas da
estrutura de poder), incorporação de setores não oligárquicos à política do país (o crescimento
desses setores foi grande no período), anistia aos revoltosos militares da década de 20
(influência militar na aliança) e medidas que regulamentassem o trabalho com legislação
trabalhista (ela já existia, mas não nos termos defendidos pela aliança).

O processo político da revolução remete à conjuntura das eleições de 30. Temos um intervalo
entre o processo sucessório e a revolução. Esse quadro remete também à crise de 29 em que
os efeitos da mesma foram bastante severos e incidentes no setor agrário exportador e no
conjunto de toda a economia brasileira. Isso gerou um quadro de tensionamento social bastante
evidente já que a crise incide provocando desemprego e elevações de preço. O governo federal
de Washington Luís se recusa a acionar um mecanismo interno de financiamento que sustentaria
os preços do café e isso fere a sua base de apoio tradicional já que empréstimos também para
manter o preço do café não estão sendo viabilizados devido à crise. Diante dessa conturbação
as eleições de março em 1930 resultam na vitória do candidato indicado por Washington Luís
graças às práticas eleitoreiras vigentes. A aliança é derrotada mas não se desmembra. Os
tenentes que a apoiavam se dividem com uma parte se afastando da aliança e outra apoiando-
a por se identificarem com as ideias defendidas por ela. Entre a derrota eleitoral e a revolução
de 30 temos articulações internas dentro da aliança liberal com uma clara tendência de
composição com o novo governo. A solução revolucionária era pequena dentro da aliança liberal

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já que os setores procuraram se articular com o novo governo por serem todos representantes
oligárquicas. A solução revolucionária foi ganhando força quando passou a existir clivagens
dentro da própria aliança em que os setores mais jovens estavam mais inclinados a derrubar a
ordem vigente enquanto os mais velhos queriam se articular junto ao novo governo. O
assassinato do vice candidato à presidência, João Pessoa, culminou na impossibilidade de
solução articulada com o novo governo e o movimento político-militar a favor da revolução ganha
força e, sem encontrar muita resistência, toma o poder do país e Getúlio Vargas assume a
presidência do Brasil. A alta cúpula das forças armadas depõe o presidente e instaura uma junta
provisória. A pressão popular ajudou Vargas assumir o poder nessa conjuntura. Tais
interpretações estão associadas à compreensão sobre o período pós-1930.

Uma interpretação atribui a revolução de 30 um caráter burguês devido a presença da classe


média. Teria então a revolução um antagonismo entre a pequena burguesia e a grande burguesia
nacional que se oporia aos setores de classe média. Temos então um conflito que só seria
possível a partir da cisão intra-oligárquica provocada por Washington Luís. Os que queriam
mudanças teriam forte apoio dos tenentes que apoiaram a aliança liberal. Ao assumir o poder
Vargas nomeia tenentes que apoiaram a aliança liberal. As classes médias, em particular os
tenentes, chegam ao poder no pós-1930. Isso justifica a interpretação que diz que a revolução
foi feita pela classe média.

Outra interpretação dá a burguesia um papel principal na revolução de 30. O pressuposto é o


conflito que ocorreu antes da revolução entre os setores burgueses agrários tradicionais e os
setores burgueses modernos. Temos uma oposição entre o burguês industrial que emergiu com
a revolução e a burguesia tradicional agrária. O conflito interno entre as oligarquias abre caminho
para que a burguesia nacional divirja dos setores tradicionais e realize a revolução.

Uma terceira interpretação vê a revolução de 1930 como sendo um movimento sem controle
com vazio de poder em que os setores não assumiram papel significativo favorecendo a
emergência de um estado centralizador e mediador entre os vitoriosos. Não é atribuído nenhum
papel importante a nenhum setor.

As autoras afirmam que as interpretações anteriores não se sustentam do ponto de vista


histórico. Refutam a ideia de uma revolução burguesa por se quer reconhecerem a existência de

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uma burguesia industrial com um projeto revolucionário. Essa burguesia também não estaria
num estágio de consciência para se opor aos setores dominantes. As autoras também refutam
a ideia de que os tenentes e a classe média tiveram papel primordial na revolução já que não
existiu uma homogeneidade entre a origem dos grupos além da classe média se manter
subordinada aos interesses dos setores dominantes. O que é reconhecido são os conflitos no
interior das oligarquias que, ao terem apoio de setores sociais, ocasionam um ambiente para
que a revolução ocorra. O vazio de poder deixado com a revolução favorece a existência de um
estado centralizador que mantenha a ordem e atendesse os anseios dos vitoriosos. A própria
aliança liberal seria a expressão da diversidade e incapacidade de gerar um governo que
privilegiasse um setor social em específico. A primeira medida da aliança liberal foi atender os
interesses de vários setores sociais, principalmente das oligarquias dissidentes. A revolução de
1930 não altera as bases tradicionais da sociedade. Os tenentes têm ampla participação na
centralização do poder e o partido democrático de São Paulo ganha projeção. Uma política social
nova é criada favorecendo o operariado. O caráter do novo governo seria uma demonstração da
interpretação de que a revolução de 30 gerou um vazio de poder que precisava ser contornado
com a presença de um estado forte.

Uma última interpretação confere à revolução de 30 um caráter contrarrevolucionário, ou seja,


uma reação dos setores dominantes às formas de organização e articulação do setor operariado.
A reação imediata do empresariado cria repressão aos trabalhadores já que existia o risco de
um movimento de transformação social eclodir. Nesse sentido a revolução de 30 seria um golpe
que impediria a manifestação dos trabalhadores.

A historiografia também questiona a associação entre movimentos políticos e movimentos


econômicos sobrepostos e integrados como a crise de 29 e o processo político da revolução de
30. Essa interpretação evita sobrepor esses dois acontecimentos não considerando a revolução
de 30 como importante para entender a economia do país, mais sim a crise de 29.

OBS: O governo de São Paulo já tinha condição de enfrentar Minas Gerais na política por ser já
uma potência econômica e por isso que Washington Luís decidiu indicar um sucessor paulista
em vez de respeitar a ordem de indicar um mineiro.

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17. AULA 17 – A ERA VARGAS (09/04/2014)

A projeção nacional de Getúlio Vargas foi importante já que ele teve uma projeção no Rio Grande
do Sul que o levou ao governo do estado e que mais tarde o levou a ocupar o cargo de Ministro
da Fazenda no governo de Nelson Luís. Essa trajetória o projeta para o cenário nacional
culminando na sua presidência em 1930 permanecendo no poder até 1945.

Para além do período da era Vargas que começa na década de 30 e termina em 54 com seu
suicídio, excluindo o governo de Dutra, se estabeleceu uma clivagem na nossa história colocando
de um mesmo lado os getulistas e todos aqueles que participaram da era Vargas e, sobretudo,
aqueles que o apoiaram (não só a sua presidência mas aderiram ao projeto Vargas). Para além
da ação pública de Vargas podemos identificar o seu pensamento dado o extenso material
produzido por ele próprio que revelam seus pensamentos e ele próprio é o artífice de um projeto
que subsiste a sua morte, sendo identificado como um projeto varguista. A morte de Vargas não
põe fim a esse projeto, mas sim ao seu discurso e sua atuação política. Existiram os herdeiros
de Vargas alinhados ao projeto nacional. Em vida ou morto, o período de 1930 a 1945 ou de
1945 a 1954, a ascensão de Vargas significou o estabelecimento progressivo de uma clivagem
entre aqueles que se alinharam a ele e os que se opunham e criticavam o seu projeto. Não existe
oposição mais importante entre esse projeto e o outro que será gestado, bem como as oposições
gerais em torno da sua herança, e aqueles que se opõe a elas. O antivarguismo é então
contemporâneo.

A longevidade da era Vargas nos traz até o presente por considerar um intervalo de tempo muito
grande. O alinhamento político entre os herdeiros e os críticos de Vargas nos traz ao presente
gerando um eixo que nos permite compreender a nossa história desde 1930 até o presente. Tal
eixo é muito importante e revela um projeto que sobreviveu por um período histórico longo
sendo indissociável à nossa história econômica que considera a parte mais importante de
modernização da nossa economia. Ainda no presente e de 1930 até hoje, de forma progressiva,
essa clivagem e a divisão entre varguistas e não varguistas está presente e explicitada. Os
herdeiros de Vargas querem continuar o seu projeto adaptando-o para adequá-lo as
transformações de hoje e aqueles que se apresentam (ainda no presente) como críticos do
projeto assim como os antivarguistas de antigamente. Devemos entender que há algo que

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sobrevive para além da atuação publica de Vargas. Devemos entender a persistência das ideias
de Vargas até hoje. A longevidade das suas ideias está associada ao fato do projeto de Vargas
ser hegemônico por um longo período e por outro lado existe uma serie de referências e fatores
de identidade desse projeto que permaneceram muito fortes para além da trajetória publica de
Vargas nos trazendo até a atualidade. Além disso esse projeto se apresentou no campo político
como um divisor de águas entre uma trajetória em que não tivemos projetos nacionais
formulados e explícitos que orientaram grupos políticos e governos e/ou por ser um projeto que
rompe com determinações e tendências históricas que dominavam o Brasil. Quando hoje falamos
de herdeiros e críticos de Vargas, estamos falando daqueles que se apresentam como
desenvolvimentistas, trabalhistas, nacionalistas, intervencionistas (visando um estado forte) e
por oposição aqueles que são críticos de todos esses fatores. A força dessa clivagem se
apresentou clara na nossa última década e meia quando os dois últimos governos de FHC e
Lula/Dilma, já que o primeiro queria acabar com a herança de Vargas e os segundos se
apresentaram como herdeiros de Vargas querendo revigorar o projeto do mesmo. Existe então
uma longevidade insuspeitada dos contemporâneos e herdeiros de Vargas trazendo tal herança
para o presente estabelecendo uma tradução da divisão de campos políticos, ideológicos e de
projetos nacionais distintos na nossa atualidade.

No imediato da pós-revolução de 30 tivemos tendências que perduraram e se conflitam na área


Vargas. A primeira delas foi a tendência centralizadora de 1930 a 1945. Tivemos uma guinada
em sentido oposto à primeira república já que ela era descentralizadora e com Vargas temos
uma centralização política-administrativa do governo. As medidas provisórias pelo governo
Vargas são evidentes e deixam claro a tendência centralizadora que rompe com o sentido
descentralizador da República Velha. Vargas dissolve o congresso nacional e todos os legislativos
(municipais, estaduais e federais) governando sem ele. O executivo reúne as prerrogativas do
legislativo. Os governadores foram destituídos e passaram a ser nomeados pelo presidente
(assim como ocorria no império) e mais importante do que serem nomeados está o fato de eles
serem leais a figura de Vargas. No plano das prerrogativas dos estados federais temos um
conjunto de mudanças importantes já que as prerrogativas que confeririam autonomia aos
estados são reduzidas (os estados passaram a não ter autonomia para fazer empréstimos
externos tendo limitados poderes de organização das suas forças públicas, etc.) e o federalismo
brasileiro é modificado com o intuito de diminuir a desigualdade existente no federalismo
decorrente da primeira república.

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O autor Octávio Ianni entende que a revolução de 30 cria uma serie de rompimentos estruturais
que perduram nos próximos anos. Mesmo que em 1930 e 1945 temos estruturas sociais em
transformação, mesmo que elas não se modifiquem, o processo de mudança pos-1930 irá
produzir uma realidade muito distinta no final do período em relação a República Velha. Temos
uma mudança completa no estado já que o processo de modernização muda a feição do estado
brasileiro no sentido de ele ser mais intervencionista, moderno e com crescimento do aparato
estatal com a criação de novas instituições reveladoras desse processo de modernização.
Rompe-se com a estrutura oligárquica tanto econômica, quanto social e politicamente,
evidenciando a constituição de um estado burguês para o autor devido a ascensão de setores
urbanos (principalmente o empresariado industrial, operariados, setores médios) na participação
econômica e política, sendo tais setores influentes na burocracia estatal. Nessa burocracia do
estado temos a projeção de um corpo técnico que ganha projeção a partir de 1930. Temos então
uma tecnocracia que ganha muito poder sendo que os técnicos exerciam funções técnicas e
executivas no aparelho do estado. Além disso, temos mudanças já que o estado se coloca cada
vez mais a serviço do processo de modernização e desenvolvimento econômico. Antes de 1930
o estado tinha baixo intervencionismo (reativo, conjuntural) e era restrito em atender algumas
pequenas funções, mas a partir de 1930 o estado multiplica suas funções e passa a intervir
sistematicamente sendo o principal ator do desenvolvimento capitalista no país. A política
econômica muda a partir de 1930 sendo ela indissociável das reformas institucionais por se
integrar a uma serie de instituições, agências e órgãos de estado que assume o comando e a
concepção da política econômica. Isso significa para o autor que a associação entre estado e
economia muda em relação a República Velha. Octavio Ianni ressalta o fato de que as mudanças
não representam inovação já que a pauta de fatores, temas e aspectos que são discutidos e
incorporados ao estado a partir de 1930 já eram tratadas antes de 1930 sendo objetos de
organização de setores sociais, Elas são inovações no sentido de incorporar e dar prioridade a
essa incorporação. Existe uma anterioridade a 1930 no que seria a discussão dos problemas e
prioridades para os objetivos a serem assumidos. A democratização do sistema político, ainda
que se forma contraditória e interrompida, será priorizada pós-1930 e essa discussão já existia
anteriormente. A necessidade de políticas econômicas de feição protecionista para o setor
industrial já era também amplamente discutida antes de 1930. A reforma do sistema nacional
de ensino (as propostas reformistas antes de 1930 são feitas no pós-1930 apesar de não serem
uma inovação para esse período, mas foram postas em pratica com mais vigor com a criação do
ministério da educação e da saúde). Além disso o governo participa ativamente das

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transformações no ensino reformando o primário e o secundário, criação de universidades e um


conjunto de outras iniciativas que, a partir do governo central, promovem essas transformações
no ensino. Anterior a 1930 tivemos a necessidade de modernizar e regulamentar o conflito entre
trabalhadores e empresários, ou seja, entre capital e trabalho. Já havia uma necessidade
histórica de resolver os conflitos do trabalho, mas nem mesmo a legislação é inteiramente nova
(no sentido de não haver nada parecido anteriormente), mas a partir de 1930 a política social
trabalhista de Vargas alcança uma dimensão dando a entender que tal legislação fosse nova ou
inaugural. A intervenção estatal na esfera econômica toma uma nova dimensão dando a
entender que anteriormente tal intervenção não existia. Isso é falso, ela existia sim e a partir
de 1930 o estado assume medidas concretas efetivas e regulares com um leque de órgãos e
agências públicas que a rigor alcançam todos os grandes setores da economia brasileira além
de contemplar uma série de outros setores. Com Vargas temos a criação de autarquias e
agencias especificamente voltadas para o desenvolvimento da economia contemplando todos os
seus setores. Após 1930 temos uma política para o setor mineral que regulou a propriedade do
solo e subsolo e regulamentou a exploração das riquezas minerais. Essa discussão existia
também anteriormente a 1930 e assume papel mais vigoroso com Vargas. Octavio Ianni salienta
o fato de que, se 1930 representa ruptura e reformas estruturais, não significa que tais
mudanças já não estivessem em pauta antes mesmo de 1930. Ha uma agenda já em curso que
é priorizada apenas a partir de 1930.

Problemas estruturais também existiam antes de 1930 e ganham projeção com a revolução no
mesmo ano. Era amplamente reconhecido o caráter dependente da economia brasileira. A
excessiva dependência do setor primário exportador, o grande impacto dos choques externos
na economia via (o café), vigência de uma política econômica liberal (que já existia antes de
1930) em um quadro de desmonte progressivo das expectativas e promessas liberais que o
liberalismo político e econômico havia firmado (a nossa política econômica liberal representava
a certeza de que permaneceríamos com um padrão de transferência de excedentes para o
exterior, impossibilitando o desenvolvimento nacional) e, por fim, a consideração de que vigora
antes de 1930 (é preciso romper com essa realidade) um modelo de estado francamente
favorável a sua monopolização e controle por grupos restritos (sistema político que perdura
durante a República Velha priorizando as oligarquias) e isso deveria ser mudado a partir de
1930.

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Octavio Ianni estará sempre discutindo os processos de mudança social e a complexidade que o
setor social assume a partir de 1930 (o autor é um sociólogo). Da mesma forma como salientado
por Francisco de Oliveira, o autor estudará a crescente complexidade do trabalho e a divisão
social interna do trabalho junto com as medidas em curso na transformação do país. A essas
mudanças sociais corresponde o avanço dos processos de modernização e a redefinição entre a
relação entre as classes. A partir de 1930 a 1945 temos a ascensão de classes modernas como
trabalhadores, burgueses, industriais, etc., significando uma redefinição da composição que da
base ao estado brasileiro que está em modernização. Da mesma forma o autor entende que o
processo de modernização e permeado por conflitos e tensões não só originados da oposição de
setores sociais pelas mudanças bem como de setores oligárquicos e também de setores
conservadores que vão tentar barrar as transformações dentro do contexto da década de 30 que
faz com que uma série de processos internos se relacione intrinsicamente com o que ocorreu no
plano mundial. O autor acredita que tais conflitos ajudam a entender a escalada do autoritarismo
que permite Vargas implantar uma ditadura no brasil a partir de 1937. Os conflitos encontram
materialidade com o surgimento, desde o início da década de 30, de grupos e ações políticas
que promovem conflitos e ensinamentos sociais. Tais grupos eram a ação integralista brasileira,
sendo um grupo de direita e de caráter fascista representando uma forca política importante
nesse espectro que se conforma desde o início da década. Mais tarde a aliança nacional
libertadora surge com inspirações socialistas e contando com a participação do PCB adicionando
mais tensão social para época. Os grupos se confrontavam regularmente. A revolução
constitucionalista de 1932 em São Paulo também adiciona tensão ao período já que a oligarquia
paulista tenta retomar o poder (a revolução tem caráter regressista) através da luta armada.
São Paulo era o mais importante estado do Brasil e se coloca em confronto direto com o governo
Vargas. A revolução constitucionalista não recupera o poder mas sinaliza o não apoio das
oligarquias ao governo de Vargas e a não incorporação das mesmas. O levante comunista de
1935 e os levantes integralistas de 1937 e 1938 exemplificam mais tensões sociais no período.
Para além, se a década de 30 começa com a consolidação de instituições democráticas com a
constituição de 1934, na pratica esse movimento é contraditório e não se efetiva em função do
contexto histórico de tensões e pelo fato de existirem setores e grupos do governo Vargas que
se inclinam para a direção autoritária impondo um freio a constitucionalização e montagem de
instituições democráticas. O conflito de Vargas com as oligarquias excluídas do poder também
promove tensões sociais. O fato e que teremos uma escalada autoritária que tenta se justificar
com o fechamento do regime com o golpe do estado novo. Além disso esse autoritarismo
promove uma aliança entre a burguesia industrial, militares e uma burocracia federal que

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sustenta o processo político e econômico da época bem como o governo Vargas. A burocracia
estatal ficava cada vez maior e reunia cada vez mais poderes na época.

Um aspecto que diferencia a ditadura Vargas das demais é o fato de desde o início do seu
governo e de forma ampliada a partir de 1937 ter se empenhado pelo envolvimento e
participação de amplos setores sociais nas discussões das questões nacionais. Instituições e
movimentos permitiram a cooptação deliberada de setores sociais que participariam do governo
na ocupação de cargos públicos, adesão a iniciativas e projetos públicos e participação nas
discussões nacionais dando ao governo Vargas uma legitimação social em um período marcado
pelo autoritarismo a partir de 1937. Isso explica o motivo pelo qual a intelectualidade apoia o
regime de alguma forma e participa do governo. Isso explica o motivo do empresariado que,
mesmo não inclinado ao autoritarismo, se aproxima do governo e discute políticas do setor
conferindo apoio e legitimidade por meio de instituições classistas que surgem após 1930. Não
se trata de um período em que os setores intelectualizados e avançados economicamente
estavam submetidos ao governo e se estavam, o faziam de forma consensual dando apoio ao
regime entre 30 e 45. Tudo que foi falado ganha demonstração se apresentarmos um inventário
dos órgãos, instituições, agências empresas, atividades e eventos após 1930 que evidenciam a
modernização institucional, envolvimento de setores sociais a projetos de desenvolvimento
nacional trabalhista, nacionalista e estatista. O autor faz isso em seu texto apresentando tais
agencias instituições e órgãos de forma convincente com o caráter anteriormente dito. No plano
da administração pública a criação de ministérios e uma evidencia clara dessa tendência ainda
que, em 1930, não cria-se apenas os ministérios da educação e da saúde como também é criado
os ministérios de comércio e trabalho. A intervenção em setores produtivos passou a ocorrer
principalmente na agricultura e indústria. É um padrão de intervenção inteiramente novo pela
amplitude, pela extensão e pela forma como ocorreu e sobretudo pelos seus resultados. Um
exemplo notável que mostra o poder dessa intervenção estatal é a criação do instituto do açúcar
e do álcool criado em 1933 e que vigora até o início da década de 1990 quando então, no início
do governo de Fernando Collor e com a liberalização da economia, deixou de existir. Temos uma
autarquia que funciona e é efetiva por seis décadas. O instituto do açúcar e do álcool apresenta
um processo de modernização sem paralelo do espaço canavieiro brasileiro sem igual no mundo
ocidental. Se na década de 30 o setor agro açucareiro ocupava uma posição insignificante no
cenário nacional e mundial, no final do período esse setor não só se moderniza, mas o Brasil se
reinsere na produção mundial de açúcar liderando-a como ocorreu no passado. Todas as esferas
de produção e toda a cadeia produtiva do açúcar envolvendo a produção, comércio,

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financiamento, aquisição de equipamentos e constituição de uma indústria de bens de capital


exclusiva para o setor açucareiro. O instituto do açúcar e do álcool é um exemplo do alto grau
de intervenção que significará controlar todas as esferas desse setor. A intervenção em setores
mercantis também ocorreu a partir de 1930 com a criação de instituições específicas voltadas
para o controle do comércio externo e voltadas para a produção de conhecimento científico para
a administração pública. O governo Vargas cria agências que produzem especificamente
conhecimento que desenvolveram instruções para as políticas públicas. Da mesma forma são
criadas instituições voltadas para a pesquisa básica aplicada no setor industrial e agrícola. Surge
uma série de instituições que tiveram importância para a modernização do campo, indústria e
que vigoraram até 1980 sendo desmontadas pela onda liberal da época. As instituições ligadas
à regulação das atividades econômicas experimentaram intervenção estatal no que tange ao
sistema financeiro, políticas econômicas externas com o câmbio, políticas comerciais internas,
etc., Existe um aparato crescentemente intervencionista no sentido de regulamentar as
atividades econômicas em geral instruídas pelo planejamento estatal. Instituições classistas
existiam em pequena projeção sendo descontinuadas até antes de 30 a após a revolução elas
ganham nova importância, sejam elas de trabalhadores, empresários, ligadas a burocracia do
estado e que de fato representam interesses de setores de uma forma influente. Um exemplo
próximo de nós foi a criação da confederação das indústrias do estado de Minas Gerais. A partir
de 1930 o estado entra na produção e moderniza a infraestrutura e indústrias de base. A
intervenção não é então somente na regulamentação já que o setor se insere no processo
produtivo como um todo. Empresas estatais surgem principalmente nas atividades de pouca
atratividade ao capital estrangeiro seja pelo elevado nível de investimento ou tempo de
maturação muito longo ou pela lucratividade baixa ou pelo fato do estado querer controlar as
atividades, posto que são atividades estratégicas. A legislação trabalhista também sofre
mudanças significativas.

Para o autor a criação do conselho federal de comercio exterior criado em 1934 foi importante
já que possuía uma abrangência grande e amplo leque de atuações diante da crise mundial. O
conselho intervinha no planejamento, intervenção e dava estímulos econômicos para as
atividades do país. Esse conselho coordena outras instituições. Para o autor o conselho é o
primeiro órgão de planejamento federal que existiu no Brasil. Quando falamos em planejamento
estamos falando de algo incipiente que a rigor não está surgindo no Brasil, mas sim no mundo.
O planejamento em economias capitalistas e uma novidade e o governo Vargas incorpora essa
ação da mesma forma que os países desenvolvidos o fazem.

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A presença do corpo técnico no governo e no aparelho estatal é notável, inclusive com o conselho
federal de comércio exterior. Entende-se cada vez mais que gradualmente as funções das
instituições modernas só poderiam ocorrer por indivíduos qualificados e com formação técnica.
Isso explica a tecnocracia e a atribuição para esse período histórico. A projeção do corpo técnico
no estado pode ser vista nas instituições criadas no governo. Não serão economistas já que em
1930 não existiam cursos especializados para economia, apenas a partir de 1940 eles irão
aparecer. Os técnicos da época eram engenheiros e ocupariam as funções técnicas e executivas
no estado. Para o autor temos uma mudança paradigmática entre a primeira república e a era
Vargas, já que o estado deixa de ser reativo e descontinuado passando a ser planejado, regular
e muito mais amplo e não restrito como era antes de 1930.

Outro caso notável foi o da grande siderurgia, que, como ressaltado pelo autor, foi o centro de
uma série de inter-relações que encontram o seu centro nesse período histórico sendo
estratégicas e fundamentais. A siderurgia e o centro das indústrias de bases indispensável para
o sistema de transportes por produzir os meios do sistema viário moderno com máquinas e
equipamentos. A siderurgia também estava voltada para o aparato militar, principalmente dadas
as tensões mundiais da época da década de 30 em escala global. Há também uma clara
consciência de que era impossível avançar no processo industrialização sem uma indústria de
base siderúrgica, principalmente pelo que era observado nos países desenvolvidos em que tais
indústrias eram modernas e tecnologicamente avançadas. A indústria de base como a siderurgia
ampliou um debate no Brasil sobre qual tipo de desenvolvimento de indústria de base
deveríamos privilegiar para promover o desenvolvimento brasileiro. Aqui temos um exemplo
concreto de como o governo federal promoveu o envolvimento de amplos setores sociais na
discussão de problemas. Vargas estimula o debate com todos os setores sociais e, em Minas
Gerais, tal debate ganhou ampla repercussão estando materializado em documentos pelos
atores importantes da discussão. A decisão de Vargas foi pelo monopólio estatal do minério de
ferro e manganês (criando a Vale do Rio Doce) e um modelo que privilegiava a CSN (Companhia
Siderúrgica Nacional). Existem industrias que estão associadas ao modelo vitorioso, apesar de
existirem outras alternativas voltadas para o setor mineral e siderúrgico. O código de águas e o
código de minas são manifestações deliberadas do estado em relação aos recursos estratégicos
do país.

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Agora podemos discutir o traço distintivo ou o fato que mais identifica ou que criou identidade
para a era Vargas que foi a política social ou a legislação referente ao trabalho. Em primeiro
lugar essa legislação trabalhista é fruto de transformações em cursos antes de 1930, ou seja,
há uma mudança social com estrutura social nova crescendo o peso especifico de setores
emergentes. Assim o estado assume a responsabilidade de institucionalizar o trabalho e as
relações entre capital e trabalho. Isso foi mais importante no pós-1930. Podemos dizer que o
objetivo maior do estado era estabelecer um padrão de regulação que contivesse conflitos entre
capital e trabalho. A diretriz promoveu promover a colaboração de classes, ou seja, cooperação
de capital e trabalho, excluindo os conflitos entre essas classes. A matriz que orienta essa diretriz
e o corporativismo. É sabido que não podemos atribuir a essa política social um caráter fascista
como na Itália e já sabemos que a política trabalhista de Vargas era bastante avançada em
relação a qualquer outra sendo bastante inovadora não existindo em outros lugares dada a
existência de ingredientes inovadores. Essa nova orientação para o setor do trabalho se estrutura
em quatro dimensões inovadoras:

1 - Legislação trabalhista que regula as questões do trabalho.

2 - Legislação previdenciária que regula a distribuição de benefícios e serviços originários do


estado.

3 - Legislação sindical que alcançará uma regulação completa da participação não só dos
trabalhadores em órgãos sindicais, mas setores empresariais e patronais.

4 - Legislação voltada para mediar conflitos entre capital e trabalho que primeiro se faz através
das juntas de conciliação e depois por meio da justiça de trabalho que é criada nesse contexto.

Se olharmos para a historiografia verificamos que há muitas divergências entre os autores


quando o caráter das legislações, mas há uma convergência de que as legislações não podem
ser determinadas por fatores únicos. Ela precisa ser considerada como resultado das pressões e
reivindicações dos trabalhadores que são, em larga medida, agentes do processo e, por outro
lado, devem ser considerados como sendo um conjunto de medidas em que se objetiva o
controle ou a repressão dos trabalhadores. A primeira face em que está a presença dos
trabalhadores reivindicando e se organizando frente ao estado, devemos lembra que há um
movimento operário avançado antes da década de 30 e bastante ativo querendo se projetar
politicamente. Isso explica o fato dos trabalhadores serem agentes ativos do processo mas não
só, e quanto ao fato dessa legislação ser um mecanismo de controle, temos outras interpretações

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sobre a revolução de 30 que levam em conta esse argumento. Alguns consideram que a
revolução de 30 visava controlar os trabalhadores e operários e, diante dessa interpretação, a
legislação de 30 faz parte do processo revolucionário visando desestabilizar os trabalhadores,
reprimi-los e controla-los.

Já em 1930 com a criação do ministério do trabalho do governo Vargas regulamenta o trabalho


feminino infantil, o direito de férias e a regulamentação da jornada de trabalho.
Progressivamente essa legislação varia em complexidade e abrangência cada vez maiores ao
longo da era Vargas É promovida uma subordinação crescente e completa dos sindicatos ao
estado mesmo que essa não tenha sido o objetivo principal da legislação trabalhista. Já em 1931
o governo baixa um decreto que irá definir os mecanismos de sindicalização de trabalhadores e
empresários definindo o caráter dos sindicatos que assumiriam características consultivas em
relação ao governo e cooperariam com o poder público. O princípio da pluralidade sindical
perdura por um curto período e permanece intocada salvo as adaptações e mudanças ao longo
do tempo. Se pensarmos em termos de heranças da era Vargas, é evidente que a legislação
trabalhista e a mais significativa nos tempos de hoje.

Segundo a interpretação que o autor propõe de que a revolução de 30 constituirá na formação


e um estado de compromisso que não se subordina a nenhum setor social, a legislação
trabalhista que surge no governo provisório de Vargas mostra que a reação dos empresários não
é favorável ao processo de constituição da legislação trabalhista. O posicionamento do
empresariado e contraditório já que se verifica posteriormente um posicionamento que sinaliza
para a colaboração e para o apoio a essa mesma legislação. Esse caráter contraditório ocorre já
que a política social implicará em custos e progressivamente se observa um movimento em que
o empresariado assimila a legislação trabalhista contribuindo com sua implementação,
principalmente quando o empresariado consegue limitar as prerrogativas dessa legislação os
quais implicavam que a legislação se assumisse uma função redistributiva ameaçando-os, bem
como, em hipótese alguma, a legislação poderia ferir o direito da propriedade privada plena
ameaçando a iniciativa privada. O empresariado concorda em assumir a legislação trabalhista,
mas isso não ocorre de imediato. O saldo da legislação social na era Vargas não pode ser
compreendido sem levar em conta a promoção pelo governo de uma política de colaboração de
classes que prioriza o corporativismo. Além disso o empresariado é contemplado com vantagens
diante da legislação social já que entre 1935 e 1942 não ocorrem greves no país. Após 1942 as

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greves foram restringidas. A produtividade dos trabalhadores aumenta já que a legislação


contribuiu para isso promovendo mais cooperação dos trabalhadores. O saldo é que a legislação
trabalhista favoreceu a acumulação de capital no longo prazo sujeitando politicamente o
trabalhador e, sobretudo por constituir a aliança entre empresariado industrial, militares e a alta
burocracia que permitiu formar as bases do governo. Nessa altura a legislação social não
arrefece, mas se vê mais ampliada e consolidada no estado novo já que o governo amplia o
controle sobre os sindicatos, verticaliza e hierarquiza os órgãos dos trabalhadores para facilitar
o controle dos mesmos, cria o imposto sindical em 1940 que vigora até hoje e que financia os
sindicatos, cria a justiça do trabalho em 1939 consolidando uma instância específica da justiça
voltada para diminuir os conflitos entre capital e trabalho e, e 1943, cria a CLT e regulariza o
salário mínimo. Além disso, o estado novo associa a legislação social a figura de Vargas. O estado
novo associa a legislação social à figura pessoal de Vargas. Temos um plano cultural e de
propaganda que liga tais legislações ao presidente.

Sobre o planejamento temos algumas considerações a se fazer. O autor ressalta que tal
planejamento esteve presente por toda a era Vargas sendo decisivo a partir da segunda guerra
mundial. As condições específicas da guerra inclinaram o governo a avançar no processo de
incorporação das técnicas e instrumentos de planejamento à gestão estatal. A guerra impulsiona
o governo na gestão pública. O planejamento significou a criação de instituições e atividades
voltadas para a produção de conhecimento da realidade se traduzindo também na concepção de
políticas de intervenção planificadas e na centralização de políticas econômicas e o planejamento
significa a sua centralidade no processo de ação pública, sobretudo de políticas econômicas. Em
todas essas etapas vemos um avanço na incorporação do planejamento na gestão pública. É
fácil imaginar o quanto o planejamento se torna cada vez mais necessários à medida que os
processos em cursos se tornam mais complexos. Se a intervenção do estado na economia é cada
vez maior o planejamento se tornará cada vez mais necessária. Se o estado é o principal ator
no processo de diversificação do setor privado, o planejamento será imprescindível na
diversificação econômica no setor privado. O planejamento estratégico da defesa nacional
também é importante. Antes de 1930 o intervencionismo estatal era pontual, descontinuado e
setorial marcado pela política econômica liberal. A partir de 1930 o que se verifica é uma
mudança de tendências inversas às da República Velha. A materialização dessas mudanças pode
ser comparadas com as constituições anteriores e as constituições da era Vargas. Nas primeiras
o que vemos é que a matriz liberal econômica está instruindo as disposições constitucionais. As
constituições da era Vargas impõem outras matrizes como planejamento, intervencionismo, etc.,

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que contrapõem as constituições antigas. Os efeitos da Segunda Guerra Mundial na economia


brasileira conferiram maior planejamento nas ações do estado.

A coordenação da mobilização econômica criada em 1942 é o exemplo do aumento do


planejamento por parte do estado sendo um sub-ministério em economia de guerra. Esse
planejamento ocorre em decorrência da Segunda Guerra Mundial. Esse sub-ministério tem a
função de promover uma coordenação do estado em diversos níveis como economia,
administração, tecnologia, etc. Temos outras manifestações importantes como o primeiro
congresso brasileiro de economia presidido pelo próprio Getúlio Vargas sendo esse um momento
em que houve grande adesão de setores sociais. Não é um congresso oficial com a presença
apenas da burocracia, mas sim o contrário, o que reafirma a compreensão sobre a economia
brasileira e conclui a necessidade de mais intervenção do estado na economia e mais regulação.
Existem outras instâncias em que esses debates também surgem.

As condições históricas específicas são importantes para entendermos os processos da Era


Vargas como a Segunda Guerra Mundial e a industrialização planejada. Além disso temos a
defesa nacional em um período de guerra, modernização institucional e mudanças sociais. Todos
esses pontos são importantes fontes de planejamento para o governo Vargas.

O autor afirma que temos uma construção de um capitalismo nacional na Era Vargas. O
subsistema econômico capitalista poderia não se autonomizar, mas romper com a dependência
externa. Esse projeto varguista é que desenvolvimentista, nacionalista, trabalhista, etc., é um
processo que visa melhorar a situação do país de acordo com a ideologia do governo Vargas. O
autor apresenta que é possível demonstrar a presença do nacionalismo nas mais diversas
esferas. Os discursos de Vargas eram abundantes em que o nacionalismo estava presente. No
plano constitucional ocorre a mesma coisa. Nas realizações de governo o nacionalismo também
está presente. Com relação ao setor petrolífero, temos a criação do conselho nacional do petróleo
em 1938 é o primeiro passo no sentido da vitória de um modelo nacionalista associado ao setor
de petróleo. Em 1951 temos a criação da PETROBRÁS também no governo Vargas. A ideologia
nacionalista foi importante para promover a ideia de romper com a dependência e com a
vulnerabilidade da economia brasileira. Parece claramente que o nacionalismo permeava as
políticas de desenvolvimento econômico. Em um segundo momento o nacionalismo aparece em

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alta na discussão sobre o desenvolvimento industrial. Em terceiro momento o nacionalismo se


relaciona com a interiorização do território com a marcha para o oeste. Em quarto momento o
nacionalismo está relacionado às relações entre campo e cidade com vistas ao desenvolvimento
do mercado interno. Por fim, há a necessidade de rompimento com a herança colonial,
principalmente no plano cultural e isso engloba o nacionalismo. A ação de Vargas pela busca de
origens e matrizes que pudessem impulsionar uma cultura referenciada em valores foi grande,
principalmente em áreas difíceis de serem desenvolvidas por meio de eventos públicos com a
criação do ferido de primeiro de maio para privilegiar os trabalhadores.

18. AULA 18 – POLÍTICA ECONÔMICA NA ERA VARGAS (14/04/2014)

Hoje veremos o texto de Celso Furtado, um autor importante para a história econômica do Brasil.
Aqui abordaremos a crise de 29 e os efeitos na política econômica brasileira na Era Vargas no
início da década de 30. A interpretação de Celso Furtado sobre a política econômica no início da
era Vargas ainda e influente atualmente prevalecendo na nossa historiografia. E impossível
discutir o período sem fazer referência a interpretação de Celso Furtado já que ela e muito
influente.

Podemos questionar certos pressupostos adotados por Celso Furtado, mas como estamos lendo
poucos capítulos de sua obra, não conseguimos formular argumentos mais convincentes para
questionar o autor. Com relação a esses capítulos e preciso dizer que Celso Furtado utiliza
recorrentemente na sua análise uma abordagem com elevado grau técnico, ou seja, a sua
discussão se torna exaustiva já que o alto grau técnico do texto exige o domínio de conceitos e
instrumentos específicos, bem como uma formação suficiente para compreender as
tecnicalidades enquanto associadas a uma disciplina como a economia. O autor não faz isso
apenas com o propósito de exercitar a análise pela análise. Pode parecer para o leitor que a
argumentação não tem sentido amplo e pensar isso e um erro. O argumento do autor é
consistente e guarda um conjunto de interpretações ampla. Essa discussão técnica sobre política
econômica está no texto e exigirá a capacidade de entender conceitos, categorias e certos
elementos de teoria aplicada ou teoria econômica genérica. Existe outra clivagem no texto de
Celso Furtado já que a sua discussão se concentra em política econômica se tratando de uma
obra diferente de demais autores por ter um eixo de interpretação que abarca um período

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histórico amplo de colonização até o contexto mundial atual de nossa economia. Essa clivagem
que abarca toda a discussão técnica do autor se apresenta em dois planos sendo o primeiro
histórico e que será aqui abordado com mais ênfase já que o processo histórico é analisado com
evidencias factuais, objetivas e presentes no texto apoiado por estatísticas. Esse primeiro plano
histórico e usado pelo autor para explicar mudanças estruturais da nossa economia analisando
a economia tanto no curto quanto no longo prazo (em termos de conjuntura econômica)
articulando-as entre si. Tudo isso é feito por meio de um exame em que a explicação do autor
está referida a elementos de teoria aplicada à economia. O segundo plano é a recorrência de
exercícios contra factuais. A todo momento Celso Furtado abre reflexões sobre alternativas à
realidade histórica concretamente examinada por ele. O autor faz isso por meio de um espectro
de opções e alternativas levantando hipóteses alternativas para os desdobramentos dos fatos.
Além disso temos um inventário de cursos ou trajetórias distintas que nossa economia teria caso
se algumas variáveis da realidade (associadas ao processo histórico concreto) fossem alteradas
no plano econômico e também mais amplo. Esses dois planos seriam a explicação de todo o
ensaio realizado sobre a política econômica do Brasil. Celso Furtado não demonstra
exaustivamente tudo que afirma já que a historiografia já acumulou esse conhecimento
posteriormente além de levantar hipóteses que dão substância a seus argumentos. A chave para
entender essas abordagens é o fato de Celso Furtado ser um observador direto do período de
30 em diante já que a partir de 1930 temos um conjunto de mudanças estruturais na economia
do Brasil. Além disso Celso Furtado foi um ator importante no período já que ocupou cargos no
governo e era amplamente solicitado dado os seus conhecimentos. Portanto a sua posição era
privilegiada permitindo que ele realizasse projeções da economia brasileira para os anos
seguintes a publicação do seu texto. Há também desvantagens já que Celso Furtado era incapaz
de ter uma visão retrospectiva já que o processo analisado por ele estava em curso. Não havia
tempo suficiente para que Celso observasse de maneira satisfatória o processo de mudança no
qual estava inserido. Ele também não contou com a opinião de outros observadores que
poderiam se basear na pesquisa histórica. Nada disso é arbitrário ou ocioso já que estão
enquadrados na formação econômica do Brasil como um todo.

O texto começa com a crise da economia cafeeira que retrata período anterior a 1930. Celso
Furtado fala da estrutura dessa economia e explica porque essa economia não consegue
sobreviver à crise de 1929, seja por fatores conjunturais e estruturais contraditórios da economia
não permitindo que ela se reproduzisse. Não há nada de novo em relação ao que já foi discutido
anteriormente. Para Celso Furtado a última década do século 19 apresentou condições favoráveis

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a expansão da cafeicultura já que houveram mudanças políticas que alteraram as leis de


imigração regulamentando a transição do trabalho e mudanças que favoreceram a grande
inflação de credito que geraram efeitos estimulantes ao setor cafeicultor por financiar a expansão
da cafeicultura e por também causar a depreciação cambial elevando o preço do café em moeda
nacional. Por trás de boa parte das afirmações de Celso Furtado, existe em seu texto a
demonstração de todos esses aspectos. No final do século XIX temos um declínio dos preços do
café devido a desproporção entre oferta e demanda no mercado internacional. Essa
desproporção está associada a um fato especifico que de um lado coloca a elasticidade da mão-
de-obra e terra na base da expansão cafeicultora, a presença de políticas públicas favoráveis a
expansão do setor por meio de financiamento para a expansão ferroviária e modernização de
portos, levando a uma tendência de aplicação de capital do setor cafeeiro no mesmo setor
cafeeiro. O terceiro aspecto que se abate sobre a crise do setor cafeeiro se relaciona a posição
quase monopolística do Brasil em relação ao café que detém dois terços da produção mundial.
Isso é um monopólio por se tratar de uma cultura permanente que exige tempo de maturação
para posteriormente terem condições de produzir para exportar. Tais áreas requeriam tempos
significativos para se consolidar o que contribui para o monopólio. O que importa para Celso
Furtado é que esse monopólio faz o Brasil controlar a produção mundial de café manipulando-a.
Essa posição monopolística fará o Brasil se confrontar com a crise de superprodução que gerou
a queda dos preços do café. O Brasil então financia os estoques e isso que qualquer país que
detivesse monopólio sobre algum produto faria. Não haveria outra forma de intervir nesse
mercado para evitar a queda dos preços.

A crise se manifesta pelo acentuado declínio dos preços do café pela metade, acontecendo assim
no final do século XIX. Tradicionalmente o governo aciona mecanismos cambiais para proteger
o setor provocando depreciação cambial para favorece-lo. A queda abrupta dos preços não
conseguiu ser compensada pela manipulação cambial e assim houve um esgotamento dessa
forma de manter a rentabilidade do setor. Como alternativa um novo mecanismo foi gerado
visando reter a produção para elevar o preço do café no mercado, ou seja, o problema da
superprodução seria resolvido através de intervenção no mercado que restringisse a oferta. O
peso político das oligarquias cafeeiras (Minas Gerais e São Paulo) favoreceriam as medidas nesse
sentido. A descentralização republicana favoreceu o setor cafeeiro no contexto da
superprodução, do contrário, haveria dificuldades de acionar mecanismos de proteção ao setor
já que tais mecanismos privilegiavam certos setores e regiões do país levando ao ônus as demais
regiões. Esse regime descentralizado e o peso das oligarquias cafeeiras permitiram o surgimento

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do governo de Taubaté que protegia o setor cafeeiro como um todo com mecanismos para
assegurar a rentabilidade do produto. Celso Furtado diz que o convenio de Taubaté promoveu a
intervenção estatal na compra de excedentes por meio de empréstimos com outros países.
Concomitante a isso era necessário conter a expansão da produção mas isso de forma alguma
ocorreu. Ao proteger a remuneração do setor o convênio estimulou a expansão da plantação e
comercio do café. O convênio significou o primeiro plano de valorização do café, bancado por
São Paulo inicialmente e depois recebendo participação decisiva do governo federal. Inicialmente
o governo estava receoso de participar do processo já que era uma manobra perigosa com
contração de dividas enquanto que os benefícios favoreciam poucos e gerava grande ônus para
a sociedade. Durante um período curto o plano deu certo e foi perpetuado até a crise de 29.
Para o autor existe um problema estrutural já que essa política não resolve o problema da
superprodução. Transfere-se o enfrentamento desse problema para anos posteriores e ele vai
se agravando já que fica mais difícil e oneroso a intervenção estatal no setor cafeeiro com todos
seus mecanismos. A valorização do café sem medidas para limitar o seu crescimento era um
perigo. Garantir a rentabilidade do setor fez com que ele mesmo se expandisse. Nesse contexto
histórico os estímulos ao setor cafeeiro não encontram contrapartidas em investimentos de
outros setores da economia, o que significa que a expansão do café e cada vez maior tendo em
vista ser uma atividade rentável com retornos garantidos. O autor então diz que a política de
valorização dava privilegio ao café em meio aos produtos primários. Isso configura um ciclo
vicioso que gera reinversão de lucros na própria atividade cafeeira agravando o problema da
superprodução.

Na década de 20 temos vários fatores convergentes que não permitem que uma nova crise seja
resolvida pelos meios anteriores. A crise foi o principal, mas existem outros fatores combinados
que fazem a crise ser maior ainda e não podendo ser resolvida como as anteriores. A expansão
do café por estímulos artificiais causara uma expansão vertiginosa do produto já que o governo
federal estabelece um programa permanente de proteção do setor (institucionaliza os
mecanismos protetores). Apesar disso o descompasso entre oferta e demanda se agravou
gerando uma elevação dos estoques de café pelos mecanismos de proteção governamentais.
Esse foi o lado da oferta. Pelo lado da demanda houve uma pequena elasticidade da procura.
Temos três estágios no que se refere ao consumo mundial de café quanto a capacidade de
absorver a produção. O primeiro estágio remete ao consumo do café por países centrais sendo
ele restrito no início. Existe um período de transição no século XIX em que o consumo restrito
passou para consumo de massa. Durante esse período a procura era elástica na medida que se

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generaliza o consumo de café nos países centrais. Depois de massificada a produção de café
ficou restrita quanto a capacidade de absorver essa expansão já que os países centrais não irão
mais consumir café porque a oferta está muito grande ou porque o preço é menor. Os Estados
Unidos eram o principal consumidor de café brasileiro e os níveis per capta de consumo de café
chegaram no seu nível máximo. Assim a produção ficou maior do que aquilo que as pessoas já
desejavam consumir segundo seus hábitos. A crise de superprodução ocorre então no período
de massificação do café. No terceiro momento a procura e inelástica sendo independente da
oferta. Ela cresce em ritmo natural e não no ritmo mais que proporcional da oferta estimulada
pelos mecanismos artificias do governo. A demanda nos países centrais será lenta como é lento
o crescimento demográfico nos países centrais. O autor então afirma que estava posto uma
situação de desequilíbrio estrutural entre oferta e demanda. Os estoques se tornam um
anacronismo insustentável já que não paravam de crescer. Por mais que o café possa ser retido,
o produto e perecível e os estoques não poderiam ser mantidos para sempre. Para Celso Furtado,
a natureza dependente do país com uma economia idêntica a uma economia colonial
contemporânea exemplifica o problema de expansão incontrolada de atividades primarias e isso
ocorre já que existe uma imensa fronteira agrícola disponível a ser apropriada. A oferta de mão-
de-obra também era abundante e esses fatores levam a uma especialização produtiva do café
(aqui e necessário comparar os autores anteriores com Celso Furtado). Isso leva a uma
tendência de saturação da demanda dada a assimetria forte entre oferta e demanda. Isso leva
a uma outra tendência já que os produtos coloniais apresentaram queda nos preços ao longo do
tempo. A eficácia das políticas de valorização no longo prazo dependerá do controle da oferta
que não pode ser estabelecido sem que as condições estruturais sejam modificadas; porém, tais
condições não podiam ser alteradas sob risco e crise dos modelos econômicos do país. A única
forma, em tese, seria o efetivo controle da expansão da cafeicultura, mas o autor diz que isso
só poderia ocorrer se os capitais aplicados na cafeicultura fossem aplicados em outros setores.
Isso poderia ocorrer e na prática ocorre de forma lenta. Os espaços cafeicultores concorrentes.
Celso Furtado não analisa apenas o setor cafeeiro, mas sim a economia brasileira como um todo
dado os mecanismos de proteção do café. O primeiro fato preocupante era o excessivo
endividamento da economia brasileira (Paul Singer faz uma análise desse fato) além de efeitos
imediatos pelo fato do financiamento externo do café produzir uma expansão dos meios de
pagamentos. Os setores beneficiados pela compra de excedente geram uma pressão
inflacionária no conjunto da economia por meio da expansão dos meios de pagamento. Um efeito
pontual gerou um efeito em larga escala para toda a economia sendo assim socializados.

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Celso Furtado entra na Era Vargas se concentrando na política econômica do governo provisório,
o qual fornecerá as mudanças para o restante da década. Aqui temos um ponto de inflexão que
dará a base para outras mudanças que, ainda na década de 30, responderão pela mudança ou
transferência do centro dinâmico da economia brasileira do setor agroexportador para o mercado
interno. No período da crise de 29 a 33, temos em 1932 a pior fase e em 1933 a recuperação.
No início da crise o setor cafeeiro estava no ponto mais alto de sua produção. No entanto, essa
maior produção ocorre até a crise já que o autor afirma que existe um café por ser colhido que
faz, na realidade, as safras de 1930, 1931, 1932 e 1933 continuarem a serem colhidas. Safras
maiores eram alternadas com safras menores. Em 27, 28 e 29 não existiu essa alternância
agravando a crise de superprodução. Além disso, os recursos externos para financiar a retenção
de estoques não mais passaram a existir já que houve um estrangulamento de credito da crise.

A política econômica para o setor cafeeiro era o núcleo da política econômica do governo
provisório. A dinâmica da crise e as maneiras de reverte-la pelo governo são temas abordados
pelo autor. O quadro é que os estoques eram elevados, as reservas metálicas do país estavam
sendo drenadas para o exterior, não haveria perspectivas de financiamento externo, os preços
do café caem bruscamente, a queda dos preços para o produtor o afeta menos do que o
consumidor e o desnível da queda de preços para produtores e consumidores ocorrem pelos
intermediários (realizam a intermediação comercial financeira) que teriam o poder de transferir
as perdas para os produtores visando garantir a sua remuneração. O produtor de café então
assume toda a perda já que os intermediários controlam o comércio. A queda cambial visava
amortecer os efeitos da queda de preços aos produtores conferindo a eles um certo alívio já que
o grosso das perdas era dos produtores. A desvalorização cambial socializa para todos os efeitos
negativos para economia. De qualquer forma, o problema da superprodução não é resolvido já
que a quantidade de café nos anos seguintes da crise continuou a ser colhida já que havia café
plantado antes de 1929. O problema da superprodução persiste e a procura continua inelástica
quanto a preços. Celso Furtado chega a afirmar que o governo opta por forcar o mercado (isso
explica porque as exportações aumentam entre 29 e 31 para níveis superiores àqueles que
vigoravam antes de 29, mas também sendo uma medida com resultados insuficientes assim
como o mecanismo cambial que atenua os problemas da crise mas não resolve a superprodução
e a estimula). A continuidade da colheita e a expansão do café pressionam o mercado levando
a queda de preços e depreciação monetária. Esse ciclo vicioso leva a um quadro de colapso não
só do setor cafeeiro. No setor cafeeiro em particular a depreciação cambial não protegia os

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preços do café para os produtores que passaram a acumular mais perdas. Isso vai ocorrendo
até que se torna insuportável manter a colheita do café dado o preço baixíssimo do produto.
Isso explica a necessidade de entender a dinâmica da crise. Para o autor a saída para época
seria garantir recursos para manter a retenção de estoques que não poderiam mais ser
financiados pelo exterior, mas sim pela conjuntura interna do país. Assim existiram duas opções
sendo que a primeira visava reter parte da exportação do café e com isso financiar a compra de
excedentes, ou seja, o governo ficaria com parte das divisas da exportação e a segunda opção
era fornecer crédito para compra de excedentes por parte do governo. A segunda opção e a
utilizada em que o governo adota uma política monetária expansionista socializando os prejuízos
já que o crédito é ampliado agravando o desequilíbrio externos contribuindo para o problema da
depreciação monetária e os benefícios serão acumulados apenas no setor cafeeiro. O outro
problema era que não era possível formar estoques como anteriormente já que o volume de
café produzido era muito alto. Os estoques precisavam ser diminuídos e a destruição física de
parte dos excedentes começou a ser realizada e o autor defende essa ideia. Temos um novo
mecanismo de controle da oferta de café dissociado do preço do produto no mercado
internacional. A retenção de estoques com financiamento interno e destruição de estoques
recupera o preço do café estabilizando os preços e garantindo uma remuneração mínima para
os produtores, mas esse mecanismo não assegura o que ocorria antes, mas melhora a condição
dos produtores que puderam continuar colhendo e mantendo níveis de produção. Isso vigorou
nesse período pós-1930. A crise inicialmente levou ao colapso de produtores que produziam
pouco com altos custos (esses são expulsos do mercado no início da crise). Num segundo
momento, um outro mecanismo de seleção é instaurado quando a atividade deixa de ser
atraente para novos investimentos. A incompatibilidade entre oferta e demanda faz com que os
níveis de preços praticados tenham efeitos diferentes para os produtores já que os mais bem
estabelecidos com maior produtividade e menores custos ficarão na atividade e outros entram
quando a remuneração do setor se estabiliza. Outros saem quando a remuneração está baixa e
os custos muito altos. A inelasticidade da demanda internacional será um fator favorável diante
do novo mecanismo adotado pelo governo, posto que trata de uma situação estável e previsível.

Para Celso Furtado a política de retenção e destruição de estoques assegura preços mínimos de
compra, ou seja, a grande maioria dos produtores consegue ter remuneração suficiente
assegurada pelos mecanismos. O nível de emprego no setor do café se mantém estável sendo
o desemprego apenas marginal. Por decorrência Celso Furtado diz que o emprego em setores

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produtores do mercado interno é também preservado já que o mercado interno e um reflexo do


mercado externo. Para o autor os setores de subsistência internos têm uma faixa que opera
como economia natural fora da inserção do mercado. A economia natural aumenta se o setor
dinâmico da economia gera menos efeitos sobre o mercado interno. Se o mercado externo se
mantém dinâmico ele gera efeitos dinamizadores no mercado interno fazendo com que a face
mercantil da economia de subsistência e economia natural crescesse. A política com novos
mecanismos evita a contração da renda monetária do setor exportador impedindo efeitos
multiplicadores de desemprego de demais setores da economia. Se temos um centro dinâmico,
ele detém a capacidade de condicionar os outros setores que dele dependem. Ainda que os
preços caiam e se mantenham baixos, a renda dos produtores e mantida bem como a
continuidade das colheitas com posterior financiamento e destruição de estoques. Assim os
preços mínimos são garantidos e a renda mínima também. A redução do preço é compensada
pela expansão da produção e volume de produção já que o café plantado antes da crise deveria
ser colhido no ambiente da crise. O café não é como a cana. Com o café existe um cultivo
progressivo já que o cafeeiro produz por muitas décadas.

Seguindo adiante temos um deslocamento do centro dinâmico do setor agroexportador para o


setor de mercado interno para atividades industriais. A política de fomento da renda está
implícita nos interesses do setor cafeeiro. Até que ponto o governo provisório tinha consciência
do que estavam fazendo? Essa política por parte do governo seria inconsciente para o autor e a
pergunta passa a ser qual o grau de consciência do governo quanto as suas políticas. A política
de fomento da renda tende, para o autor, a produzir um desequilíbrio externo estrutural dado
que o contexto pós-30 e de insuficiência de divisas para atender a exportações. O desequilíbrio
externo está posto e a depreciação cambial agrava esse desequilíbrio já que o poder aquisitivo
da moeda nacional declina. Os preços externos estavam em patamares maiores do que os preços
internos. Isso contribui para o desequilíbrio da economia dependente brasileira. Todos esses
fatores combinados (contexto internacional, política economia, transição do setor cafeeiro, etc.)
converge com a ação decisiva do governo em dinamizar o mercado interno que passa a oferecer
melhores oportunidades do que o setor exportador. O setor de mercado interno passa a oferecer
melhores oportunidades do que o setor exportador. Isso leva a uma transição e posterior
predomínio do mercado interno. Essa transição e rápida por não ser natural com uma forte
intervenção do governo que muda a atração por alocação de recursos em setores do mercado
interno e externo. Assim se verifica a transferência de capital agrário para atividades de mercado

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interno que, para o autor, são mais rentáveis. Genericamente, antes de 1930 esses setores são
menos atraentes e rentáveis, mas ainda sim existem investimentos nesse mercado interno. A
capacidade industrial era ociosa antes de 1930, mas com o passar do tempo passaram a se
tornar atraentes. A partir da crise temos uma inflexão em que os investimentos no mercado
interno passam a ser mais atraentes, mas não só a indústria, mas sim outros setores internos.
Celso Furtado afirma que o setor algodoeiro cresceu bastante nesse contexto de crise. Os capitais
migram para indústria, atividades agrícolas de mercado interno e atividades agrícolas de
mercado externo. Para o autor, o que importa como dinâmica central e a transferência do centro
dinâmico para o mercado interno e no centro desse novo centro dinâmico compreende a
indústria. Só podemos compreender a economia brasileira posterior a isso se considerarmos o
mercado interno. A indústria sofre consequências da crise mas se recupera rapidamente devido
ao contexto histórico favorável a sua expansão. O setor agrícola também se recupera muito
rápido devido ao mercado interno. Esse mercado produz bens primários de consumo de
subsistência e a indústria substitui importações. O que e fundamental para o autor é que sem a
política de proteção ao sistema cafeeiro o nível de procura interna teria se deprimido e essa
recuperação com base no mercado interno não ocorreria. O setor de mercado externo é o ponto
de partida para a dinamização de mercado interno que se autonomiza em relação ao setor
externo que nunca irá se dinamizar por inteiro até a década de 1950, porque até essa década
as atividades de mercado interno mais avançadas retém as divisas do setor exportador para
adquirir bens de capital que não existem no Brasil. Existe, desde o século XIX, uma indústria de
bens de capital mas ela não é suficiente para atender o processo de expansão da indústria no
quadro que envolvem indústrias avançadas. Isso explica para o autor um gráfico que mostra um
declínio da taxa de lucro e rentabilidade do mercado externo e ascensão dos lucros e da
rentabilidade do mercado interno. No que se refere a indústria, esse setor tem duas fases a
partir da crise sendo a primeira baseada na capacidade ociosa e a segunda baseada na expansão
da capacidade produtiva a partir de reinversão dos lucros acumulados no setor. Essa segunda
mudança ocorre cedo. A expansão do mercado interno dependerá menos da acumulação do
mercado externo. A dependência é pelas divisas, mas a reinversão passa a ser a principal fonte
de recursos para a expansão do setor industrial já na década de 30. Nesta década a produção
interna de bens de capital é impossível e sua aquisição no exterior está fechada em função da
crise. A capacidade ociosa foi decisiva para a expansão do setor interno do país.

Para Celso Furtado existe um crescimento mais do que proporcional da indústria de bens de
capital na década de 30 além da indústria de bens de consumo não duráveis, mas essas

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evoluções não mudam a composição geral da indústria brasileira que era baseada em alimentos
e produtos têxteis. No final do período essa predominância se mantém e a indústria de bens de
capital cresce no período, continuando pequena em relação ao geral.

Qual síntese para o autor da dinâmica da economia brasileira para década de 30? Qual o seu
balanço? A visão do autor jamais pode ser criticada por não ser específica já que ele organiza o
seu argumento no longo prazo considerando processos históricos articulados. Isso é muito
comum em toda a coletânea Ordem e Progresso. Na década de 30 a economia não recupera a
capacidade de importar, mesmo no final da década. Temos acentuado decréscimo da renda
criada pelas exportações, crescimento da produção agrícola devido ao crescimento do mercado
interno (mesmo se o crescimento da agro exportação seja negativo e isso explica a diversificação
da economia agrícola de São Paulo em toda a década de 30). A produção industrial cresce e, por
fim, Celso Furtado afirma que países de estrutura econômica similares ao Brasil que adotam
políticas econômicas ortodoxas irão depender de impulsos externos. Por isso que em 1937,
quando a economia brasileira volta a crescer, países que adotaram políticas econômicas
ortodoxas encontram-se deprimidos. O autor faz uma história comparada nesse momento. Para
o autor, o ator principal desse processo é o Estado que, por meio de uma política econômica
heterodoxa que defende o setor cafeeiro e utiliza a capacidade ociosa da indústria estabelecendo
uma resposta do mercado interno por meio da substituição de importações, promove essa
diferença com economias ortodoxas.

A política econômica cambial foi o instrumento de política econômica mais importante entre 1930
e 1960 já que tínhamos grande desequilíbrio estrutural externo. Para o autor, os fatores que
levam a esses desníveis são estruturais e persistentes, não resolvíveis no período a ser aqui
tratado, ou seja está em curso, no limite, a nossa modernização econômica e a industrialização
que impõem a necessidade de conviver com essa fragilidade. O problema cambial consiste numa
série de fatores desestabilizadores e deficiências estruturais da nossa economia com oscilação
dos níveis de preços para os agentes de produção interna. A decisão de investimento no setor
industrial remete a essas oscilações. O setor de mercado interno dependia de estabilidade
cambial e não era possível praticar a política econômica cambial que vigorava antes de 1930.
Torna-se impraticável funcionamento do sistema cambial de taxa flutuante anterior a 30. Impõe-
se que o governo adote um câmbio fixo, ainda que alterável segundo as conjunturas. A oscilação

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do câmbio antes de 1930 seria insuportável para esse núcleo de setor de mercado interno que
é a indústria.

A centralidade do problema cambial para o pós-1930 está posta. A alta cambial reduz o poder
aquisitivo externo dos consumidores. Existe uma tendência de barateamento relativo das
mercadorias de produção interna e isso é a base de sustentação da produção industrial, mas
modificações na taxa cambial e alteração do nível de preços relativos de importados e bens
produzidos internamente põe em risco o crescimento do setor industrial. Por isso que a política
econômica consensual para o governo Vargas privilegia a indústria, mas também se compõe de
uma política econômica cambial, monetária, creditícia, fiscal e de comercio exterior favorável ao
setor industrial. O autor coloca em destaque a política econômica cambial. Podemos observar
que há, cada vez mais, uma série de instituições e de recursos instrumentais utilizados de forma
combinada e coordenada para favorecer o setor industrial. Temos uma política industrial ainda
que ela não seja passível de uma formulação única por um período tão longo, mas ela existe e
progressivamente é gestada e alterada na medida que o processo de industrialização avança ao
longo da década de 30 de maneira substantiva.

A variação cambial na década de 1930 sob o quadro da crise de 29 e depois na Segunda Guerra
Mundial deve ser algo a ser visto como destaque. Temos uma valorização entre 1934 e 1937 e
essa valorização na época do governo de Vargas coincide a um período de crescimento da
economia brasileira, gerando problemas para a indústria e para as atividades de mercado
interno. Uma nova depreciação partir do início da Segunda Guerra Mundial reestabelece os níveis
de preços relativos pós-crise de 29. O autor demonstra que existe uma política econômica
cambial até o governo provisório e outra para o governo constitucional e outra ainda que coincide
com a Segunda Guerra Mundial. Essa variação na política cambial produz efeitos no mercado
interno, particularmente na indústria. Temos um paralelo que nos permite comparar as
consequências internas da política cambial. Para Celso Furtado as consequências internas são
semelhantes ao da década anterior levando em conta contextos distintos, ou seja, o efeito
interna é distinto comparando o início da década de 30 com o início da década de 40. Entre 1929
e 1933 o mercado interno foi estimulado pela depreciação assegurando o dinamismo interno.
Entre 1937 e 1942 o crescimento do setor de mercado externo foi privilegiado, mas esse setor
externo não era só para a produção de café, mas também as exportações de bens
manufaturados. O Brasil tende a ocupar mercados que estão desamparados pelos seus

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tradicionais países fornecedores concentrados na guerra (mercados da América Latina, África,


etc.). Por isso que a fixação da taxa de câmbio fixa durante a Segunda Guerra Mundial trouxe
benefícios para um outro setor exportador que não é o mesmo do início da década de 30. Temos
então um desequilíbrio que permanecerá no período pós 1945. É impossível entender a economia
brasileira sem entender os contextos nos quais a economia brasileira está inserida.

19. AULA 19 – INSTITUIÇÕES NA ERA VARGAS (16/04/2014)

Hoje estudaremos o texto de Sonia que originalmente foi uma tese de doutorado publicada em
um livro em 1985. É um clássico da historiografia sobre modernização econômica entre 1930 e
1960.

O texto de Sonia fecha um conjunto de textos que são complementares segundo formações
distintas dos autores e uma natureza diferente acerca do período histórico da Era Vargas. Os
textos todos estudados são complementares nesse sentido apesar de existirem divergências.

A introdução do primeiro capítulo do texto visa discutir o Estado e a constituição de um Estado


moderno a partir de 1930, desde suas instituições e seu aparato legal, bem como as relações
sociais no interior do país. As forças sociais disputavam pelo processo de constituição do Estado
segundo um projeto hegemônico que não só terá que constituir sua base de sustentação, mas
também terá que negociar os termos desse processo de constituição de um Estado moderno. A
autora se concentra no que ela nomeia de constituição do aparelho econômico do Estado. Por
isso muitas instituições e esferas do governo estão ausentes. A própria tese da autora defendida
em 1981 salientou que o que se queria era estabelecer a relação entre o Estado e o processo de
industrialização e por isso ela se concentra no aparelho econômico do Estado. Nessa introdução
os atributos fundamentais são colocados em evidencia e são reafirmados, desdobrados e
qualificados no restante do texto. Primeiramente temos um caráter centralizado, em segundo
temos uma articulação nacional que compre com a desagregação e regionalização parcial da
ação estatal antes de 1930. De 1930 a 1945 a autora diz que temos a etapa fundamental de
consolidação do capitalismo no Brasil. Estamos numa etapa de transição para a forma avançada
e a fase definitiva é consolidada no capitalismo, nomeado como capitalismo industrial, bem como
também a fase avançada é consolidada em um estado capitalista. Nessa fase não temos um
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estado propriamente capitalista e nem a constituição do capitalismo de base urbana e industrial


no Brasil, mas o que importa é o caráter transitório que vivemos de 30 a 45. Portanto, durante
essa etapa histórica será necessário organizar as estruturas do Estado que aqui começa, em
termos modernos, a se constituir quanto Estado nação capitalista. Esse é um processo
progressivo. Apenas no final do período que esse processo progressivo se consolida. Temos
estruturas que emergiram na medida em que são concebidas e efetivadas, passando por
adaptações e ajustes, o que explica o porquê de algumas instituições chaves nesse período
mudarem suas funções, suas composições, tudo em função de estarem inseridas em um
processo dinâmico e aberto. A autora quer compreender a conformação das estruturas materiais
do Estado e entender a relação entre tais estruturas e o processo de industrialização. O foco da
autora são as instituições, instrumentos e aparatos legais associados a estrutura e dinâmica
econômica. Esse processo, dada a sua amplitude e extensão, abarcará também o que a autora
chama de graus elevados de estatização da luta econômica de classes. Isso é levado para dentro
do Estado na medida que ele arbitraria os conflitos. A modalidade de intervenção econômica ou
o intervencionismo estatal é algo novo não comparado com o período anterior e nem com o
período posterior já que o processo não termina em 1945. Após esse ano as condições políticas
também se alteram. Ainda na introdução a autora afirma que não podemos perder de vista o
contexto internacional da Era Vargas, desde a crise de 29 que se propaga para a década de 30
além da Segunda Guerra Mundial que incide como principal fator a definir o quadro mundial e o
contexto internacional e a imprimir um caráter especifico as relações econômicas internacionais.
Se nos reportarmos ao início do período, mais importante do que criar as condições para as
transformações, a crise de 29 será mais importante do que a Segunda Guerra Mundial no que
tange as transformações. A crise de 29 instaura um quadro político e econômico favorável as
mudanças e transformações no sentido intervencionista, estatista, nacionalizante,
industrializante e desenvolvimentista. A autora também afirma que o processo de constituição
de um estado nacional e capitalista no Brasil na fase de transição não foi um processo sem
conflitos, consensual e sem resistências, mas pelo contrário, existem confrontos permanentes
na área política ainda que com duas tendências distintas. Esse confronto se explicita no final do
texto entre forças sociais que apoiam e dão sustentação as transformações e opositores críticos
que se movimentam na arena política para minar e comprometer o alcance ou a execução das
transformações. Temos duas etapas porque, embora não esteja no texto, a autora reconhece
que há um declínio das forças opositoras verificado a partir do Estado Novo e depois um
recrudescimento ou uma tendência de crescimento da oposição com o fim da Era Vargas e
mudanças na conjuntura internacional. No cerne da mudança social em curso (sendo vista como

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crescimento e complexidade cada vez maior da divisão social do trabalho), ocorrerá na Era
Vargas metamorfoses que são a conversão de interesses de classe ou particulares em interesses
coletivos e nacionais. A rigor, no campo da teoria política, isso é algo universal mas que não tem
importância e validade que conferiria historicidade ao processo universal de mudanças. Esses
setores sociais emergentes operam exitosamente no processo em converter o interesse se
classes em interesses nacionais. O êxito ocorre por meio da conversão dos seus interesses em
políticas de Estado legitimadas pela própria natureza do projeto que está na base dessas
transformações. A ideia de um projeto claramente definido e que levaria a transformações não
está explícito no texto, mas no final está claro. A autora não nomeia esse projeto, mas e fácil
de ser identificado. É um projeto de construção de um capitalismo nacional discutido com Octavio
Ianni. O projeto é nacionalista e permeia as transformações com o desenvolvimentismo. Mais
do que projetar e fazer hegemônicos os interesses particulares no Estado, Sonia também assume
a posição de que o Estado condensa e exprime as relações e contradições da sociedade. A
posição da autora é pelo Estado de compromisso que interpreta a revolução de 30 e o caráter
do Estado logo após a revolução de 30. A autora assume essa posição de caracterização e isso
significa que a projeção e a hegemonia de certos setores sociais e de seus interesses na
condução do processo de transformação e na apropriação do Estado, este não estará a serviço
exclusivo dos setores sociais. O Estado se coloca na posição de arbitro e contemplador de
interesses e expectativas de outros setores sociais não hegemônicos. A nova forma de Estado
que resulta em um Novo Estado se realiza por meio da centralização, elevado intervencionismo
e constituição de um aparato econômico imprescindível ao projeto industrializante.

Quando a cronologia, a autora sugere dois períodos. O primeiro seria entre 1930 e 1937 em que
vigorou a crise econômica e política que travam as transformações. A partir de 1937, com o
Estado Novo, acelera o processo de construção de um Novo Estado já que as políticas serão
favoráveis a implantação do projeto.

O segundo item do texto faz a autora tecer comentários descritivos sobre as instituições, órgãos,
aparelhos, eventos, instrumentos e formas de regulação que compreendem a constituição do
aparelho econômico do Estado, essencialmente voltado ao processo de industrialização. É uma
parte do texto em que o volume de informações é grande. Não devemos memorizar todas as
instituições, nem o ano de criação e a exata composição dos seus atores e muito menos a exata
compreensão das suas funções, mas não podemos perder de vista a especialização que está em

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curso e o fato de cada instituição, cada organismo, cada instancia decisória, de debate e de
produção de conhecimento tem uma particularidade. Devemos reter pelo menos a
particularidade que confere identidade e justifica o surgimento das instituições. Trata-se para
autora de um processo de modernização administrativa em um quadro de forte centralização no
sentido de centralizar as decisões e os comandos. Essa centralização e verticalizada, mas quanto
ao aparato administrativo temos uma descentralização funcional e administrativa que
chamaremos de racionalização burocrático administrativa moderna. Em todo o processo de
modernização política teremos a especialização e a racionalização juntamente com a
descentralização funcional administrativa. Isso é universal e ocorre no Brasil. Isso não significa
que o quadro decisório seja descentralizado, mas estamos enfrentando uma centralização
política especializada com criação de instituições evidenciando todo o processo de modernização
que estamos passando no período. A autora salienta que esse processo será marcado por
modernizações administrativas contraditórias com sobreposições de funções exercidas por esses
organismos, conflitos e contradições nas determinações e operação das funções exercidas. Não
se trata de algo previamente arquitetado e implantado de forma coerente, sólida e simétrica já
que temos muita inexperiência e improviso dentro de todo o processo e que é de transcendente
importância para a nossa história econômica. A autora faz um tipo de história administrativa
particular ao aparelho econômico do Estado já que isso é imprescindível para entendermos as
mudanças econômicas e o processo de industrialização nessa etapa histórica do Brasil.

O Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP) de 1938 é uma instituição que ganha
grande projeção vendo suas funções se multiplicarem ao longo do tempo. O DASP é uma
instituição característica, quase paradigmática, desse processo de modernização administrativa.
O DASP deveria definir, racionalizar e regulamentar a carreira do funcionalismo público. Estamos
diante de um período que a burocracia do Estado cresce por meio de especialização e
racionalização, sem os vícios e as distorções ou contradições que caracterizavam o aparato
burocrático do Estado no período anterior. O DASP também organizava a estrutura
administrativa. Os limites da racionalização eram a persistência parcial de mecanismos de
favoritismo político, patronagem e clientelismo. Formas de relação entre Estado e sociedade que
não eram racionais e não modernas irão então persistir já que existem fatores que nos permite
cultura política aos padrões sedimentados entre Estado e sociedade que não podem ser alterados
de uma forma para outra. Nunca iremos encontrar uma racionalização absoluta das instituições,
ordenamentos, relações e estruturas já que elas são feitas por seres humanos e assim as
contradições e a incidência sobre os homens de uma série de fatores subjetivos e outros
impedem que a racionalização seja completa tornando os indivíduos impermeáveis a qualquer

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contradição. A autora está falando que não teremos uma racionalização absoluta das instituições
dado que temos a persistência de padrões anteriores pré-modernos que persistirão. O DASP
responde pela elaboração e controle orçamentário e isso é muito importante já que o orçamento
e algo decisivo nos processos de transformação das relações econômicas e nas tomadas de
decisão.

Além do DASP como instituição central, temos também os departamentos estaduais do serviço
público ou “daspinhos” que comprem as mesmas funções dos estados do país. Tais DASPs
juntamente com os interventores e ministério da justiça que forma tripé, no plano local do poder
centralizado executivo federal. Se quisermos entender como os “daspinhos” se espraiam e se
estabelecem no plano regional, devemos ter em mente que isso ocorre por estas instituições.
Esses “daspinhos” são chamados de centros de transmissão entre executivo federal e estados,
diferenciando daquilo que existia na República Velha. Ao longo do tempo o DASP irá ter cada
vez mais poder com extraordinária concentração de atribuições. Como temos o executivo
assumindo as funções do legislativo nesse período histórico, o próprio DASP assume funções
legislativas além da normativas e executivas. Entre 1930 e 1945, a ausência do legislativo
federal, estadual e municipal fez com que as suas atribuições fossem transferidas para o
executivo, mas não genericamente sem que houvesse instância ou forma especializada,
burocratizada, capaz de prover o governo de informações, estudos, análises e projetos. Essas
instituições criadas é que irão legislar. O governo federal assume a função de dar validade àquilo
que e elaborado pelas instituições do estado e que cumprem as funções legislativas. O DASP
fazia isso e por isso ele tem importância.

A autora passa a um inventario dos órgãos executivos e diretivos relacionados às políticas gerais
no âmbito econômico. Tais órgãos são responsáveis pela política cambial, comércio exterior,
política monetária e creditícia entre outros. Esse inventario e feito pela autora apresentando
todas as suas características.

O Banco do Brasil é o mais importante desses organismos executivos e diretivos que toma
decisões no âmbito econômico. Ele responde pelo sistema creditício comercial, sendo também
caixa do tesouro e responde pelas operações correntes do orçamento governo. Apenas isso já
seria necessário para remeter grande importância a essa instituição. No seu interior surgem

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instituições ou repartições que assumem funções especificas que, somadas a funções genéricas
do Banco do Brasil, mostram como esse banco é uma das mais importantes instituições dessa
natureza exercendo funções de Banco Central. Apenas no final do período é que surge uma
instituição que seria mais próxima de um Banco Central, chamada de SUMOC (Superintendência
da Moeda e do Crédito) surgida em 1945 assumindo algumas funções do Banco do Brasil, em
particular aquelas ligadas à regulação na área monetária, creditícia e cambial. A SUMOC não
teve tempo de assumir essas funções e desempenha-las já que surge apenas no último ano da
Era Vargas, mas na quarta republica ela terá uma importância transcendente. No campo desses
organismos executivos e diretivos relacionados às políticas na esfera econômica, a SUMOC será
a instituição mais importante na quarta república. Outra importância do Banco do Brasil era a
carteira de importação e exportação que surge em 1941 e o fato de ter surgido nesse ano nos
explica muito sobre o seu surgimento já que nesse período temos a Segunda Guerra Mundial.
Há outras instituições de crédito estatais tais como carteira de crédito agrícola e industrial do
Banco do Brasil (muito importante), crédito da borracha, comissões de financiamento da
produção e de investimentos entre outras. Temos então uma de racionalização crescente.
Quando falamos de instituições de credito, quando passamos por uma etapa histórica em que é
necessário pensar em mecanismos de financiamento para o país como um conjunto, é necessário
criar instituições modernas no campo da regulação das relações creditícias e financeiras que não
existiam antes de 30. Entre 30 e 45 damos um passo importante nessa direção. Outro organismo
era o Departamento Nacional de Seguros Privados e Capitalização subordinado ao ministério de
trabalho e indústria e comércio bem como o Instituto de Resseguros do Brasil e os nomes dessas
instituições já determina os seus campos de atuação. Além deles existe uma série numerosa de
órgãos voltados para setores ou subsetores específicos da economia brasileira e/ou regiões do
país, cuja função era regular o comércio, produção e distribuição incluindo financiamento e
política de preços. Notavelmente temos institutos do café e do álcool (discutido anteriormente)
sendo todos novos inaugurando uma etapa histórica e revolucionária no campo da intervenção
do governo em atividades econômicas específicas e seus setores. Antes de 1930 não há nada
que corresponda a essa mudança com o surgimento desses órgãos a partir do mesmo ano. É
um estágio muito mais avançado de intervenção do governo na esfera econômica,
especificamente para atividades privilegiadas ou consideradas mais importantes. Existe sim
intervenção antes de 1930, mas aqui temos uma outra modalidade de intervenção não sendo
estrutural ou planejada. Todos os órgãos também incorporam mecanismos de planejamento e
controle sendo assim uma diferença ao período histórico anterior. A VALE surgiu em 1942 e o
Departamento Nacional do Café foi a terceira instituição que surgiu na Era Vargas, uma em

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sequência da outra em um processo de centralização crescente. O DNC é estágio mais rápido de


intervenção no setor cafeeiro que alcançamos no período. O mesmo vale para o Instituto do
Álcool. Para tudo isso ocorrer era necessário o estabelecimento de ordenamentos modernos que
privilegiaram muito a VALE. O Conselho Nacional do Petróleo também surge nessa época e ele
será o embrião da PETROBRÁS. O Conselho Nacional e Água e Energia também surge sendo um
embrião da ELETROBRÁS.

A autora afirma que essas entidades inscrevem e corporificam dentro da estrutural estatal a
própria regulação da acumulação capitalista. Ela está dizendo que é o Estado que assume o
controle, direcionamento e regulação do processo de acumulação. Ao fazer isso o Estado
internaliza os conflitos inter-capitalistas de todo tipo e modalidade, os quais vão para o interior
do Estado. Independente da presença de interesses privados no interior dessas instituições (e
eles estavam presentes), o grande capital industrial, financeiro e comercial das atividades
econômicas se apropriam das instituições colocando-as a serviço de seus interesses. É o caso
dos grandes usineiros que comandam o Instituto do Álcool coordenando suas atividades de
acordo com seus interesses. Quando fazem isso eles irão criar condições adversas para os
pequenos produtores ou desprivilegiá-los das políticas para o setor. A autora não perde de vista
esse caráter, mas afirma que no interior do Estado temos instituições submetidas ao mecanismo
amplo presidido pelo vértice do poder do Estado rumo à modernização do Brasil. A autora
também diz que isso independe do formato institucional (autarquia ou órgão de administração
direta) já que o comando superior era hegemônico comandando tudo independentemente do
grau de alcance das instituições. Em outras palavras, ela está dizendo que as instituições são
especializadas e voltadas para setores, subsetores e regiões específicas possuindo alguma
autonomia e mais importância em relação a outra, mas todas elas estão subordinadas a todo
esse processo.

Para além dos organismos discutidos a autora também examina os órgãos de caráter consultivo,
normativo ou deliberativo, que são de outra natureza. Se eles possuem essas características,
eles possuem uma feição distinta. Todos eles cumprem as funções de prover o Estado de
informações para ação pública, fornecem espaço para discussão e produzem e gestão projeto
ou propostas submetidas ao executivo. Esses órgãos são numerosos e interligados que, em
geral, a partir do Estado, são convocados para a participação consultiva social adequados às
suas próprias naturezas. Alguns vão se especializar nas suas funções e irão perder o caráter

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normativo e consultivo se tornando mais tarde órgãos executivos. Dois exemplos são o Conselho
Federal do Comércio Exterior de 1934 e Conselho Técnico de Economia e Finanças de 1937.
Existe uma série de outros nesse âmbito.

A autora identifica um movimento de centralização hierarquizado na esfera econômica por parte


do Estado. Esse é o movimento, mas há uma deficiência estrutural que não se resolve nesse
período histórico. Apesar da constituição de 1934 prever a criação do Conselho da Economia
Nacional que seria o órgão geral a promover essa coordenação mais ampla de um processo
complexo que gera fragmentação e pulverização, tal órgão visaria promover coordenação e
regulação de base coorporativa não especializado. Mas ele não surge nesse período histórico
apesar de existir iniciativas que geram instituições intermediárias às funções de tal órgão que
deveria ser criado, bem como demais instituições que acabam assumindo em parte as funções
do suposto Conselho da Economia Nacional. Isso é um problema salientado pela autora.

O Ministério do Trabalho, da Indústria e do Comércio, criado em 1930, responderá por uma


esfera muito específica de regulação comandando as questões trabalhistas. Tudo mencionado
no texto sobre o Ministério (ideologias, políticas sociais, legislações) não é diferente daquilo que
já foi discutido. A autora caracteriza as atribuições do ministério em particular na
regulamentação das questões trabalhistas de uma forma primorosa que facilita entender o
sentido das mudanças nas regulações trabalhistas.

Esse período histórico também inaugura códigos e regulamentações de serviços de utilidade


pública relacionados à vida econômica. A autora se refere a atividades ou serviços associados a
recursos considerados essenciais e estratégicos, o que significa riquezas minerais ou serviços
públicos de caráter estratégico. Não havia regulamentação anteriormente nesse aspecto e ela
surge progressivamente nesse período. É bom lembrar que, para quase todos os casos, apesar
de não existir regulamentações anteriores, não conseguiremos compreender nenhuma das
regulamentações sem nos reportarmos ao período anterior. Isso significa que o surgimento dos
ordenamentos legais resulta de um processo de longo prazo que previamente instaura conflitos,
indeterminações e divisões quanto as alternativas postas para os recursos e serviços
estratégicos. Isso está de acordo com uma visão liberal do período anterior em que o Estado
tinha baixo controle das instituições e do que ocorria e que contrasta com uma visão nacionalista,

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desenvolvimentista que propõe o contrário. Para além, todos os países se defrontaram com a
necessidade de regulamentação para serviços e exploração de recursos estratégicos. Podemos
confrontar esse aspecto com o fato de o Estado ser um Estado de transição que já era capitalista
e está indo para a forma de capitalismo avançado. Se o Estado é intervencionista é evidente que
existe uma inclinação que visa conferir um caráter estratégico para os serviços e concessões.
Estamos falando do código de águas e de minas, serviço de radiocomunicação, código de caça
e pesca, código brasileiro de ar, código de propriedade industrial, código de exploração, etc. Se
tivéssemos que escolher um deles a respeito do seu caráter histórico e estratégico, com certeza
esse serie o código de minas. Há um nexo entre imperialismo, industrialização, riquezas
minerais, desenvolvimentismo e nacionalismo que incide de forma notável sobre as riquezas do
subsolo. O código de minas separa o solo e o subsolo sendo que o solo só se acessa por meio
de concessão regulada para a sua exploração e utilização industrial. Isso não vigora antes de
1930. Moderniza-se e se centraliza também os instrumentos estatísticos do Estado e o IBGE
surge nesse contexto em 1938. Antes dele surge instituições visando modernizar a estatística
brasileira nas riquezas minerais e econômicas.

O conjunto de todo esse movimento nos remete a considerar a presença de resistências a esses
processos de modernização e, em segundo lugar, ao tratar com a forma como o Estado lida com
as resistências, vemos que a autora assume a tese de que o Estado brasileiro era um Estado de
compromisso. Foi então definido e tomou forma uma direção econômica estatal que sintetizou
os diferentes interesses sociais sob os quais se erigia com autonomia, mas não se reduzia a eles.
O estado autonomizado atendia a todos os seus interesses e não se submetia a eles, ou seja,
temos aqui a ideia do Estado de Compromisso. Pressões e conflitos deveriam ser contemplados
pelo Estado.

A autora também afirma que o projeto central do governo e do grupo que está no poder seria a
industrialização pesada. Associado a isso temos a necessidade (para uma nova etapa do
processo de industrialização com industrias de bens de capital e outras) da incorporação de
coordenação e planejamento. Sem eles não podemos transitar para outras etapas do processo
de industrialização que é também sempre um processo evolutivo no sentido de termos
inicialmente indústrias menos complexas para indústrias mais complexas (industrias de bens de
consumo não suáveis para outras). Esse projeto de industrialização pesada será gestado
progressivamente e até o Estado Novo ele não ganha corpo, mas se explicita quando o Estado

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Novo se inicia. Isso não ocorre porque antes do Estado Novo as condições não existiam, mas
sim porque todo o processo apresenta maturação progressiva. Entre as indefinições que
ressaltam o caráter incipiente desse projeto estão as dúvidas sobre qual será o papel do Estado
e do setor privado. Temos também uma indefinição entre infraestrutura e indústria de base.
Tudo isso se resolve progressivamente até o Estado Novo. A industrialização para além desse
processo progressivo evidencia que a indústria brasileira até o final da década de 1930 era
composta de indústrias de base. Ainda que na década de 30 os setores de capitais tenham
crescido mais do que os setores de bens não duráveis, no final do período temos que os bens
não duráveis continuam hegemônicos. Ainda tínhamos uma indústria pouco avançada. Isso
começa a mudar num ritmo mais acelerado ao longo do Estado Novo. A industrialização pesada
ocorrerá só mais tarde para além do Estado Novo com JK. Havia a necessidade de impor um
outro nível de coordenação e financiamento convergindo para a necessidade da existência de
um órgão técnico central que coordena e articula os demais órgãos no sentido de imprimir o
desenvolvimento econômico com ênfase no setor de indústria pesada. No interior do próprio
DASP surgem ou ganha materialidade ou formaliza-se um projeto industrializante já que é o
DASP que toma as primeiras medidas para concretizar os projetos industrializantes do Estado
com base em investimentos estatais globais. Devemos lembrar que o DASP produz o plano
especial de obras públicas e aparelhamento da defesa nacional de 1939 e o plano de obras e
equipamentos de 1943. A industrialização nesse período histórico nunca será com base em
diretrizes nacionais tendo em vista o contexto da Segunda Guerra Mundial. Os militares têm um
peso importante e decisivo no processo de industrialização e eles nunca serão desconsiderados
dado o contexto histórico. Esses planos no interior do DAPS avançam no sentido de contemplar
os desafios do processo de industrialização nessa etapa (coordenação, financiamento,
planejamento) nos termos e requerimentos necessários para esse projeto.

O Conselho Federal de Comércio Exterior criado em 1934 é reformado em 1938 e 1939 e ele
será importante na constituição da indústria pesada por incorporar a planificação econômica. A
autora analisa as realizações do conselho entre 1941 e 1944 e identifica a incapacidade do
mesmo em elaborar um plano integrado de desenvolvimento econômico pelas mesmas razões
que impedem outros órgãos de instaurarem planos dessa natureza. A importância do conselho
é ressaltada dada a sua estrutura já consolidada e que o fará ser os órgãos mais influente de
política econômica nesse período histórico ou da Segunda Guerra Mundial. No caso do conselho
ele extrapola as suas funções tradicionais trabalhando com aspectos de infraestrutura, aspectos
fundiários, financeiros, etc. O conselho não foi criado para tratar dessas questões. Na ausência

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de órgãos centrais de coordenação, tais atividades serão experimentadas ou realizadas por mãos
de um órgão nesse período histórico. No mesmo sentido e no mesmo movimento histórico é
criado o Conselho Técnico de Economia e Finanças realizando uma comissão técnica entre Brasil
e Estados Unidos em 1942 além de ser criada a Comissão de Valorização Econômica no mesmo
ano. Isso confere identidade a esses órgãos. Se buscarmos os conceitos que estão na base
dessas realizações e criações, os conceitos são os mesmos (planificação, coordenação,
industrialização, economia de guerra, segurança, defesa nacional, política de preços,
financiamento, escassez de divisa, etc.). Na Comissão de Mobilização Econômica vemos uma
grande projeção do Estado e do seu caráter. Essa instituição visa coordenar amplamente a
economia. Isso vale também para o Conselho Nacional de Política Industrial e Comercial de 1944
e a Comissão de Planejamento Econômico também do mesmo ano.

A autora irá trazer de relevante que um passo avançado foi dado para formalizar as resistências
aos processos de transformação que visam a ascendência de intervencionismo, regulação e
Estado como empresário produtor. Como isso se resolve? Antes do Estado Novo nada disso
estava claro, principalmente a participação estatal no desenvolvimento. Forças sociais se opõem
à estatização, centralização e intervencionismo nacionalista. A autora recusa simplificações
quando se quer entender as resistências por meio de clivagens de industrialistas x não
industrialistas ou intervencionistas x liberais. Não se pode resumir essas resistências ou conflitos
a clivagens polares simplificadores já que temos mais do que isso.

As bases fiscais do Estado e as questões do financiamento da industrialização será agora


abordada. A parte final dessa parte do texto não remeterá a esse assunto já que faltou as
conclusões da autora em um tópico a parte. A uma certa altura a autora cessa a sua discussão
e finaliza o assunto. A primeira parte remete a um problema fiscal grave já que as bases fiscais
do Estado antes de 1930 são insuficientes, se quer para dar sustentação a essa imensa
ampliação do Estado e muito menos para fazer frente às necessidades e objetivos de
investimento. Outro dado é o recuo significativo das divisas do setor exportador após 1930.
Além disso temos dois estrangulamentos no mercado externo no início do período e que se
estende por alguns anos e ao longo do Estado Novo novas crises econômicas e institucionais
marcam a Era Vargas. De onde virão os recursos para a industrialização pesada? As opções eram
recorrer a recursos externos ou usar recursos internos. A fórmula da empresa pública então é
adotada conferindo autonomia ao governo e por atender a uma clara intenção nacionalista que

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marca o período histórico em todas as esferas, além de conter os investimentos estrangeiros.


Ainda que a base fiscal interna se altere (ela não é a mesma do período anterior) no final da
República Velha, mudanças estavam em curso diminuindo a base fiscal voltada para o comércio
exterior e crescendo a base fiscal associada a atividades internas. Imposto de renda, já no final
da República Velha, tinha um peso relativo maior na base fiscal do Estado em relação ao imposto
sobre exportações. Esse processo irá continuar pós-1930 com a base fiscal do Estado se
internalizando crescentemente. Há uma tendência de forte elevação da carga tributária incidente
sobre pessoa física e jurídica no período e, portanto, elevação dos recursos fiscais da União que
se atendem a despesas correntes e não atende as necessidades de financiamento associado a
um sistema financeiro moderno e embrionário. Basta dizer que só no segundo governo de Vargas
que surge a primeira agência nacional de financiamento de longo prazo (BNDE) e que mais tarde
vira o BNDES. O primeiro governo de Vargas suporta o intervalo do governo Dutra e no segundo
governo Vargas temos ações complementares que se iniciaram no seu primeiro governo
(PETROBRÁS, ELETROBRÁS, Bancos, etc.). É notável o problema do financiamento e a
incapacidade do sistema financeiro interno dar conta das necessidades de investimento postas
nesse período. A estrutura tributária era rígida assim como a pauta de importações (declínio das
divisas para importar). O governo opta então por contrair empréstimos externos, realização de
reformas tributárias e estabelecimento de fundos específicos vinculados. A forma da empresa
pública, dada a sua autonomia, é a que vigora e isso explica o motivo da indústria pesada ser
estatal (ferro, aço, tinta, motores etc.). Todas são públicas e pesadas assim como a CSN, VALE
e outras. Infraestrutura e indústria de base serão por meio de empresas públicas.

A síntese final da autora destaca que somente no final do Estado Novo que teremos inteiramente
montado o espectro de esferas de controle estatal que irão sendo gestados ao longo do período,
fazendo com que a amplitude e intensidade dos mecanismos de regulamentação e controle
sejam impressionantes ao que vigorava antes de 1930. Moeda, crédito, comércio externo,
preços, salários, etc, Tudo isso é feito pelo Estado que se torna muito presente de uma forma
moderna. A internalização no interior do Estado ocorreu na economia ao longo de todo o período
que vai de 1930 a 1945. Outra conclusão é que o controle e a regulação nesses níveis, nessa
amplitude, nessa abrangência, fragmentada, pontual e compartimentada ocorre durante todo o
período. Não tivemos a criação de agências adequadas ao financiamento e não foi criado um
Banco Central. A intervenção estatal era grande, mas não era planejada. O governo não
consegue criar órgãos centrais de planejamento por mais que se empenhe e reconheça essa
necessidade. Somente no segundo governo Vargas e com JK que isso é corrigido. Quanto ao

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setor privado, ele também está sob os mecanismos controladores do Estado já que vigora o
modelo corporativista que leva para o interior do Estado os representantes das classes, em
particular órgãos econômicos que particularmente são voltados para a concepção de políticas
públicas voltadas para esfera econômica. A rigor podemos dizer que o Estado após 1930 estimula
e controla entidades de representação de interesses de classes, seja de trabalhadores e
patronais. Se algumas já existiam antes de 1930, elas surgem de forma mais ampla após 1930
estimuladas pelo Estado que também mediava debates. Todos os grandes líderes empresariais
fizeram parte, de alguma forma, do governo de Vargas seja acolhendo o convite para a discussão
ou ao debate, seja ocupando funções executivas. As elites modernas empresariais e técnicas
ascendem no sentido de se fazerem cada vez mais influentes e hegemônicas ocupando posições
importantes no Estado. Há uma preocupação de Vargas em contar com as elites modernas para
conferir sustentação necessária ao processo de sustentação e legitimá-las. A autora sistematiza
o fato de que é na presidência da república que está o vértice real da convergência das decisões.
Por mais que o Estado racionalize e coordene o país, o presidente, por meio de múltiplos
mecanismos, seria o fiador de um projeto global que prevalece e orienta todas as transformações
do período, independente de todas as complexidades que ocorrem.

O final do texto é muito importante:

1- Temos o momento em que a autora ressalta a industrialização como imposição ao estado


moderno.

2- Além disso, em algum momento é preciso defrontar com o desafio da institucionalização


democrática desse modelo de industrialização em curso no Brasil. O desafio estava posto com o
fim do Estado Novo e o fim da Segunda Guerra Mundial.

3- Não se pode querer que o Estado seja liberal antes da sua constituição como estado
moderno já que não existe nenhuma experiência em que um Estado se torne liberal no período
da transição. Ele só pode ser liberal depois que ele se constitui. Essa transição nos permite dizer
que, apesar do Estado já ser capitalista e estar em transição para o estágio de capitalismo
avançado, ele promove a transição final para um estágio plenamente capitalista. Tudo será
assegurado pelo estado de transição.

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4- Havia limites a essas transformações com forças sociais que, desde 1930 e após esse
ano, se opõe a essas transformações, inclusive a própria burguesia industrial que possui uma
ação contraditória.

20. AULA 20 – ORIGENS DA INDUSTRIALIZAÇÃO (23/04/2014)

Trataremos hoje das origens da industrialização brasileira levando em conta as últimas décadas
do século XIX e início do século XX. Esse período englobara 50 anos e essa discussão não poderá
ser feita antes que façamos uma apresentação geral levando em conta fatores estruturais e
econômicos.

O texto de referência e o primeiro capítulo do livro Industria Brasileira de Wilson. Esse livro e
resultado da tese de doutorado do autor da década de 80 e publicada em 1984. Esse primeiro
capitulo corresponde ao momento em que o autor contempla a revisão bibliográfica necessária
além de incorporar considerações e evidencias que significa colocar em dialogo os resultados da
sua pesquisa com autores que antes haviam participado dos debates sobre as origens da
industrialização brasileira. Não se trata apenas de uma revisão bibliográfica que apresenta os
autores principais sobre o tema, mas vai além estabelecendo um diálogo em que o próprio Wilson
participa ativamente desse debate fornecendo subsídios e informações adicionais. O autor se
credencia, com autoridade, não só para criticar a visão de autores anteriores, mas também para
trazer contribuições para a discussão. Devemos compreender e verificar a demonstração das
contribuições de Wilson. O seu esforço se apoiou em um procedimento que já e conhecido, ou
seja, os participantes dos debates sobre o tema são organizados em duas grandes escolas em
que há aspectos essenciais na visão dos autores que os aproximam de fatores específicos
permitindo associa-los a um grupo de interpretação. Wilson faz essa distinção com um leque de
autores muito mais amplo dentro de um tema complexo. Para facilitar e para ser possível
dialogar com os autores anteriores era necessário agrupa-los em óticas interpretativas do
processo de industrialização brasileira. Caso isso não fosse feito Wilson teria que mencionar
individualmente cada autor e isso tornaria a sua obra repetitiva e maçante. Wilson agrega os
interpretes em um esforço pessoal que gera grupos interpretativos distintos quando o assunto
e a industrialização brasileira no seu período inicial. A sua obra facilita o acesso a vários trabalhos
importantes da nossa historiografia industrializante. Por meio da obra de Wilson estamos tendo

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acesso a uma serie de textos fundamentais a qualquer biblioteca de história econômica. Por
outro lado, agrupar autores em grupos distintos aproxima aquilo que e diverso. Os autores
apresentam pontos de convergências principais que os permitem ficarem na mesma vertente,
mas existem diferenças pontuais entre uns e outros. E por isso que Wilson as vezes argumenta
pontos específicos salientando algumas diferenças internas entre autores do mesmo grupo.

No primeiro capítulo da obra de Wilson, ele próprio objetiva apresentar os autores e agrupa-los
para posteriormente critica-los. Após isso ele apresenta uma síntese sobre qual seria a sua visão
da industrialização brasileira na sua gênese. Ele combina contribuições dos diversos autores que
surgiram juntamente com seus próprios resultados de pesquisa. Temos uma apresentação geral
do debate e as suas conclusões com o que Wilson entende ser a industrialização brasileira no
período citado. Ele considera três períodos distintos e demarcados sendo que o primeiro vai até
a Primeira Guerra Mundial (1914), de 194 até 1929 e de 1929 em diante. Será privilegiado a
apresentação das óticas interpretativas e as conclusões do autor. Não será discutido os períodos
acima com detalhes amplos.

Antes de iniciarmos a interpretação das óticas interpretativas, devemos salientar como primeiras
considerações alguns aspectos que precisam presidir qualquer abordagem que priorize aspectos
da industrialização brasileira. Eles fazem parte de uma moldura histórica, teórica e conceitual
que não podem ser excluídos. O primeiro desses aspectos e de que ocorre no Brasil, entre a
segunda metade do século XIX e início do século XX uma serie de transformações econômicas,
políticas, culturais e institucionais (além de mudanças externas) que irão, no nosso caso
particular, converter um processo de crescimento industrial (a indústria brasileira já existe no
século XVI e estava em constante crescimento apesar de lento) em um processo circunscrito
temporalmente, datado e especifico a realidade brasileira que seria o nosso início do processo
de industrialização. O crescimento industrial e convertido em processo de industrialização que
tem início, meio e fim. O surgimento das bases urbanas e da modernização econômica permitiu
esse ocorrido. No século XX a industrialização está consumada nas suas etapas fundamentais.
A industrialização não e um processo permanente e hoje nos perguntamos se seria possível
ocorrer uma desindustrialização gerando retrocessos. Esse e então o primeiro aspecto geral
estando na base dessa discussão. O segundo aspecto e que não existe consenso historiográfico
sobre essa discussão. Tal discussão possui elevado grau de divergência e debate em torno da
origem da industrialização brasileira. Estamos longe de estabelecer qualquer consenso. Ainda

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que as discussões sejam robustas sobre a origem da industrialização, ainda sim não foi mudado
o quadro geral, ou seja, o que foi estipulado por Wilson vigora até hoje e posteriormente outros
autores enriqueceram essa discussão sobre as economias regionais industriais, quadros
temporais específicos, etc. Tudo isso fez crescer o volume de conhecimento histórico sobre o
assunto sem alterar as óticas interpretativas. O terceiro aspecto decisivo e consenso na
historiografia e esse aspecto considera que 1930 e um marco de transição e esgotamento de um
sistema econômico. A partir dessa data vigora um outro sistema econômico em que a grande
maioria dos historiadores inclina-se por considerar os anos posteriores a 1930 como anos de
industrialização por substituição de importações. Tais anos seriam considerados homogêneos
por serem parte de um processo em curso. Nesse sentido esse processo tem identidade por
começar em 1930 e terminar por volta de 1950 consumando o processo de industrialização do
Brasil. Se considerarmos que nesse período histórico existe uma hegemonia das abordagens
histórico-estruturalistas, temos outro fator de identidade desse período histórico a ser
considerado. O quarto aspecto e que não temos apenas um projeto de industrialização. Isso já
foi mencionado e estudado em textos anteriores. Existiam projetos nacionais distintos e todos
eles conferem destaque a industrialização ainda que por caminhos diferentes. Não se trata de
industrialização orientada por um projeto consensual, muito pelo contrário, haviam distintos
projetos. O quinto aspecto refere-se ao período de 1930 a 1960 e o associa ao nosso processo
de revolução burguesa. Não podemos estudar o período sem levar em conta as transformações
econômicas que geram uma sociedade moderna, urbana, industrial e burguesa.

Iniciaremos agora a interpretação das óticas interpretativas em que Wilson agrupa autores em
diferentes vertentes facilitando a crítica e a concordância com as mesmas. Nenhum dos autores
vai para além da década de 1930. A primeira das óticas propostas por Wilson e aquela que
chamada de Ótica dos Choques Adversos. Os autores dessas óticas propõem que a
industrialização brasileira na sua gênese sofreu influência de fatores externos, ou seja, tais
choques repercutem na industrialização e economia brasileira dinamizando o setor industrial.
Houve restrições a importações já que houve aumento dos preços externos, divisas reduzidas e
estrangulamento do mercado internacional. Tais fatores combinados ou isolados geram efeitos
dos choques externos na economia e industrialização brasileiras levando a substituição de
importações. Tais crises externas produzem crises no setor exportador gerando redução dos
preços, diminuição da demanda, etc. Como o setor externo dependia desses fatores, ele também
se vê em crise. Independente desses fatores, existe um forte contingenciamento das
importações (restrição à manutenção dos níveis de importações) impedindo que elas

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mantenham seus níveis e isso estimula a substituição de importações sendo este o fator
fundamental para explicar o início da industrialização do Brasil. Essa Ótica dos Choques Adversos
se divide em duas versões. A versão extrema coincide com a teoria da CEPAL que explica o
subdesenvolvimento latino americano sendo válida de acordo com as experiências históricas
desses países. Ela entende que os diversos choques externos devem ser entendidos juntamente
com fatores que levam a corrosão das bases tradicionais da sociedade agro exportadora
favorecendo mudanças econômicas em direção a modernização (não foram apenas mudanças
econômicas nesse caso). Uma outra versão dessa mesma ótica está associada a Celso Furtado
e Maria da Conceição Tavares em que a centralidade dos choques adversos é assumida como o
principal fator propulsor do processo industrialização pelo que ele desencadeia (devemos pensar
na teoria da CEPAL sobre a internacionalização das decisões, perspectivas da industrialização e
desagregação do modelo econômico anterior) e por impulsionar o surgimento de uma outra
realidade que se constitui a partir das restrições ocasionadas pelos choques nas economias
desses países. Essa versão considera que os choques decisivos sobre as economias periferias
são aqueles do ano de 1929. Os choques anteriores não conseguiram gerar mudanças
significativas que pudessem gerar a industrialização visão a substituição de importações com
uma série de mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais com o surgimento de um Estado
com aparato moderno, novas políticas econômicas, industriais e expansionistas, crescimento do
mercado interno e sua integração, etc. Antes de 1930, o que está associado à dinâmica da
industrialização é a relação entre café e indústria em que as exportações crescem junto com o
setor industrial. O café e a indústria são indissociáveis e articuláveis. Em todas as óticas
interpretativas Wilson irá discutir as relações entre café e indústria na medida que, em algum
momento, a cafeicultura irá criar as condições ou parte das condições imprescindíveis ao
processo de industrialização. Tais condições são a transição do trabalho que irá constituir um
mercado de trabalho assalariado no pais principalmente nos estados em que a indústria ira se
desenvolver mais rapidamente (SP e RJ), criação de uma rede moderna de transportes, sistema
bancário moderno, mercado interno de consumo de bens industriais, arrecadação tributária,
geração de divisas imprescindíveis para importação de bens de capital, presença indireta do
Estado como estimulador ou investidor transferindo recursos públicos para o setor privado, etc.
Celso e Maria dizem que e impossível compreender a industrialização brasileira sem esses nexos
entre a expansão cafeeira e a expansão industrial. A partir de 1930 tudo muda sendo a crise de
29 um ponto de inflexão que gera uma crise do setor agro exportador (crise que não se resolve
nos mesmos termos que anteriormente) e uma série de mudanças que assumem caráter
econômico, político, social e cultural.

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A segunda ótica interpretativa chamada de Ótica da Industrialização Liderada pela Expansão das
Exportações propõe o contrário da ótica anterior. Essa ótica coloca ênfase as relações virtuosas
entre café e indústria. Os fatores anteriormente mencionados da cafeicultura geraram a
industrialização e seu processo. Existiria uma perfeita coincidência entre crescimento das
exportações e da produção e crescimento do parque industrial brasileiro. Wilson salienta que
dois autores se destacam nessa ótica Robert e Warren (?). O autor enumera e explica os
movimentos históricos associados a expansão cafeeira que cria condições e sustenta a
industrialização brasileira no período inicial. O setor cafeeiro exportador cria a renda, expansão
do mercado interno, criação da infraestrutura, promoção da modernização dos transportes que
integram o mercado interno e o amplia, constituição de um sistema de distribuição interna
(distribuição de bens importados) e secundariamente, distribuição da própria produção voltada
para o mercado interno. A imigração também está presente na mão-de-obra da indústria, não
atraída pelo setor industrial, mas sim pelo setor exportador, mas acaba sendo drenada para a
indústria. Todos eles são aspectos que já foram discutidos. Os autores divergem entre si já que
para Robert essa coincidência entre crescimento industrial e expansão do setor exportador é
válida até a crise de 29. Robert confere importância ao estado e do capital estrangeiro nessa
etapa de industrialização enquanto que o outro autor irá minimizar a importância do Estado e
do capital estrangeiro sendo responsável por um estudo que procura entender a origem do
capital empresarial industrial nessa fase da industrialização brasileira. Ele irá destacar que
atividades de comercio exterior como sendo a origem desses capitais investidos na expansão
industrial (principalmente importações que eram feitas por imigrantes). Essa combinação de
comercio de importação, independentemente de ser com a presença de imigrantes e a formação
da indústria brasileira nesse período, o que em síntese explica essa relação e que o comercio de
importação criou uma série de vantagens e prerrogativas para os agentes envolvidos que os
colocara em posição privilegiada no processo de expansão da indústria brasileira dadas as
condições do período incluindo a política econômica do governo até 1930. Entre essas vantagens
e privilégios está o fato dos importadores serem os que controlam a distribuição de bens
importados. Tais indivíduos conheciam o mercado interno brasileiros (demanda, capacidade)
melhor do que qualquer outro setor social. Além disso, esses indivíduos tinham relações
privilegiadas com os setores industriais Europeus podendo importar o necessário para promover
a industrialização no Brasil. O capital se origina dessa atividade e dada a elevada dependência
externa brasileira, trata-se de uma atividade com imenso potencial de acumulação dada a
dependência estrutural do Brasil na época.

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A terceira ótica e a mais complexa e a menos redutível a uma formulação simples que explica o
que se trata. A Ótica do Capitalismo Tardio agrega autores que poderiam ser apresentados como
autores que respondem por estudos e interpretações que não são necessariamente
convergentes. O que vigora e a reunião, em uma mesma ótica interpretativa, de autores que
possuem pontos de vistas poderosos e convergentes. Destacam-se aqui 3 autores que são Joao,
Wilson Cani e Sergio Silva. Todos os autores produziram seus trabalhos em anos seguidos e
todos eles eram formados na mesma matriz universitária e, portanto, com uma serie de pontos
convergentes. Todos esses trabalhos são clássicos da nossa história econômica e, para além
dessa convergência, trazem contribuições divergentes com ênfases distintas que não os fariam
reuníveis sob uma mesma identidade. Esses autores são alinhados nessa ótica e que não e
redutível a uma formulação simples que confere identidade e esclarece o que se trata. Os autores
essa ótica associam a industrialização brasileira a evolução do capitalismo no Brasil. Wilson
salienta pontos comuns na obra desses autores no que se refere a compreensão da evolução do
capitalismo no Brasil no final do século XIX e início do século XX. Ha um destaque em
transformações capitalistas que explicam o caráter da industrialização brasileira na sua gênese.
Tais transformações já foram discutidas anteriormente. Em especial os autores dessa ótica
conferem importância a transição do trabalho escravo para o assalariado, dinâmica da
acumulação de capital no setor agrário-exportador cafeeiro, tendem a convergir no surgimento
do capital industrial no Brasil na década de 1880 em que neste ano o processo de expansão
industrial já ocorre sob industrialização, consideração de que o complexo cafeeiro seria o
responsável pela constituição do mercado de trabalho moderno, sistema de transporte moderno,
criação de renda modernas, gerações de divisas para expansão industrial, etc. Para esses
autores, a partir do setor cafeeiro temos a transformação do capital agrário em capital industrial.
Ha uma relação decisiva entre setor exportador e crescimento industrial já dentro do processo
de industrialização. Essa relação seria contraditória e não seria direta e linear como defendido
pela ótica anterior. Essas contradições já foram discutidas por meio dos textos de Caio Prado,
Francisco de Oliveira, Octavio Ianni e Paul Singer. Tais contradições estão associadas ao fato do
capital industrial estar subordinado ao capital cafeeiro que estava subordinado ao capital
internacional que controla o setor agroexportador. Os autores dessa ótica entendem que o
capital industrial e originário do capital cafeeiro. Todos os autores dessa ótica convergem para
o fato de que a crise de 29 leva a desagregação do modelo e sistema econômico anterior e cria
condições para uma inflexão na construção de um novo modelo e sistemas econômicos.

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A quarta ótica e chamada de Ótica da Industrialização Intencionalmente Promovida por Políticas


de Governo ou autores que entendem que a industrialização nesse período histórico estaria
subordinada a políticas governamentais que favoreceram o crescimento industrial através de
policias cambiais e tarifarias que promoviam o protecionismo e conferiam subsídios ao setor
industrial. A combinação desses fatores para esses autores responde pela dinâmica da expansão
industrial nessa fase de gênese da industrialização. Os autores estudaram a indústria têxtil e
essa indústria era a mais importante até 1930. O estudo foi privilegiado no estudo do ramo
industrial mais importante da época.

Wilson acrescenta uma alternativa teórica a essas quatro óticas. O caráter e teórico por não
estar associado a nenhum estudo histórico ou ensaio de interpretação realizado até o momento.
O autor, por meio da apropriação e consideração de duas teorias, irá propor que a teoria do
crescimento induzido por um produto básico seria aplicada também a compreensão da
industrialização brasileira nesse período histórico. Trata-se de uma atividade ou produto básico
mais importante de uma economia que geraria efeitos multiplicadores com encadeamentos que
se espraiariam para o conjunto da economia promovendo o desenvolvimento de outras
atividades. No caso do Brasil tais produtos básicos serão café, borracha, algodão e outros
produtos básicos de menor importância. Os produtos básicos corresponderiam ao nosso setor
agroexportador. Esses encadeamentos que seriam gerados e remetem ao processo cafeeiro que
pode ter criado as condições que permitiram o surgimento e sustentação do processo de
industrialização sem que a economia perca o seu caráter original primário exportador. A
justificação teórica está na natureza dos encadeamentos levando a compreensão de efeitos
associados a produção, consumo, tributação e aqueles que se dividem entre efeitos internos e
externos. Isso tudo dá corpo teórico ao que já foi discutido. Os efeitos possuem duplo sentido
sendo aplicados à realidade brasileira quando ultrapassados o setor cafeeiro e incluímos outros
bens, considerando os produtos básicos e matérias-primas industriais como o algodão. O café
não tem tanto essa característica de encadeamento por não ser uma matéria-prima industrial
como o é o algodão.

Consideraremos agora as conclusões do autor sobre o nosso processo de industrialização. Ele


divide o período em três partes anteriormente descritas e que possuem identidade. Tudo aquilo
que o autor entendeu sobre as óticas anteriores e aplicado para explicar os três períodos, ou
seja, óticas divergentes são aproveitadas para caracterizar os períodos, juntamente agregando

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as suas conclusões sobres seus próprios trabalhos. Isso permite que Wilson entre no debate
criticando, questionando e qualificando os autores das óticas descritas acima.

O primeiro período que vai até a Primeira Guerra Mundial e marcado pelo crescimento induzido
por produtos básicos. O setor exportador se expande induzindo investimentos em indústrias de
insumos para o setor exportador (indústria que se especializou em produzir insumos para o setor
exportador), induziu investimentos em atividades econômicas complementares e subsidiárias
(transportes, bancos, comércio, etc.), induziu investimentos estatais (financiamentos, garantias
de juros, etc.), induziu investimentos em infraestrutura moderna, respondeu pela modernização
do setor açucareiro (único setor em que o Estado tem um peso decisivo), induziu investimentos
para imigração que naquela época era subsidiado. A indústria antes da Primeira Guerra Mundial
já induz reinvestimentos industriais, ou seja, o reinvestimento já ocorria antes de 1914 com o
intuito de produzir industrias que gerariam insumos para a própria indústria. Nesse período
existe uma relativa proteção da indústria nascente no campo tarifário e cambial e também na
relação entre preços internos e externos. A proteção continuada e deliberada só ocorre na
indústria açucareira. Mecanismos de proteção à indústria brasileira poderiam ser naturais em
que um deles está relacionado ao baixo valor agregado e grande volume unitário de certas
importações que acabavam com o custo de transporte muito alto entre os países centrais que
os produziam e os países periféricos que os consumiam. Os custos de transporte entre países
centrais e mercados brasileiros estimulavam a sua substituição já que o baixo volume agregado,
volume e pesos muito grandes favoreceram a substituição de importações. Outro fator natural
seria o custo de transporte entre os portos e os mercados anteriores. Tais custos levam em
conta fatores geográficos e econômicos protegendo os mercados internos (se impulsionamos a
substituição de importações, posteriormente essa substituição é travada) e no fim acaba
incidindo em uma mesma direção promovendo o crescimento industrial brasileiro permitindo a
expansão industrial no interior na medida em que ela está protegida da concorrência devido aos
elevados custos de transporte. A expansão da industrial interiorizada vai até o final da 1940 com
os chamados bolsões industriais que não eram compostas apenas de sistemas fabris mas de
artesanato visando mercados locais. Os bolsões cresceram bastante levando a modernização de
transportes, mas que não abriram tais bolsões a concorrência externa, exceto por aqueles
conectados por ferrovias. Se a somatória de todos os custos faz os produtos chegarem com um
preço elevado, a concorrência interna será privilegiada por isso vendendo seus produtos mais
barato. A proteção à indústria também é favorecida pelo Estado que financia a expansão
ferroviária, modernização de portos, etc. Além disso tivemos encadeamentos fiscais já que as

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tributações também produzem recursos que, de alguma forma, serão distribuídos para o
conjunto das atividades econômicas. Para o autor o capital industrial nesse período surge o
capital industrial proveniente do setor exportador (comércio externo) e também do comércio
interno. Esse capital industrial tem então múltiplas origens. Os agentes desse processo de
acumulação serão os imigrantes associados ao comercio externo. O setor industrial será muito
vulnerável nesse período já que a política econômica global não lhe favorece e também por
permitir que o setor esteja vulnerável ao setor externo.

O segundo período vai da Primeira Guerra Mundial até a crise de 29. Nesse período a indústria
brasileira ganha complexidade com uma composição que mantém a preponderância de bens de
consumo não duráveis e o surgimento de bens intermediários e bens de capital. O setor industrial
e, em parte, impulsionada pelo setor exportador, já que existem outros fatores impulsionadores
nesse período. A Primeira Guerra Mundial tem importância no período por ter efeitos no setor
industrial brasileiro. Tais efeitos seriam a substituição de importações que a guerra exigiu e isso
promoveu uma maior diversificação do parque industrial e uma busca de matérias-primas que
estavam suprimidas no mercado internacional. Para o autor, nesse período o crescimento do
mercado interno para produtos industrializados é determinado pelo setor exportador. E o setor
exportador que cria renda e o mercado interno para a produção industrial. Se mantem inalterada
a dependência de importação de bens de capital e reduz a dependência de insumos por algumas
matérias-primas. Para o autor a presença de capital estrangeiro cresce no período. A
vulnerabilidade do setor industrial permanece elevada sendo que a política econômica continua
orientada para atender os interesses do setor exportador que continua muito vulnerável aos
choques externos e as crises econômicas.

O último período se abre com a crise de 29 e se estende pela década de 30. Wilson está alinhado
com os autores que consideram a crise de 29 um ponto de inflexão ao incidir sobre o setor
exportador iniciando a transição para uma economia de base econômica industrial, processo
esse que o autor assume começar em 1930 e terminar na década de 1950. Além disso, o
investimento industrial deixa de estar associado a expansão do setor exportador. Não a mais
relação entre o impulsionamento industrial e a expansão do setor agroexportador, ainda que a
indústria dependa da agro exportação para importar bens de capital. O autor subscreve
inteiramente a visão de Celso Furtado quanto a importância do governo provisório para manter
a renda e o mercado interno imprescindíveis a forte expansão do setor industrial na década de

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30. Essa política econômica e diferente do que prevalece posteriormente. O crescimento


industrial estava concentrado em bens de consumo não duráveis em níveis mais elevados do
que nos períodos anteriores. A substituição de importações é decisiva no setor de bens
intermediários e bens de capital. Há uma mudança importante no mercado de trabalho já que
mão-de-obra industrial era imigrante antes de 1930 e após esse ano essa mesma mão-de-obra
será essencial e exclusivamente nacional. A partir da década de 20 até o final da década de 70
temos migrações internas vigorosas no Brasil sendo elas essenciais para entendermos a
dinâmica econômica do país nesse período. Essas migrações são complexas quanto aos fatores
de expulsão e atração, bem como complexos quanto a natureza desses fluxos migratórios já que
não são apenas migrações rurais-urbanas. As migrações internas estão na base da expansão do
mercado de trabalho, crescimento urbano e formação de um exército de reserva de
trabalhadores. Tudo isso gerou o crescimento das periferias brasileiras com subemprego,
marginalização, desemprego e as profundas desigualdades que são a expressão das contradições
da sociedade brasileira. Para o autor a proteção ao setor industrial passa a vigorar de forma
sistemática. Apenas a partir de 1930 podemos falar em políticas econômicas voltadas para a
promoção da industrialização. A partir do mesmo ano o Estado passa a ser o ator principal do
processo de industrialização capitaneando-o. A vulnerabilidade do setor industrial se vê reduzida
já que a política econômica favorece o setor que agora não está mais tão sujeito a fatores
externos.

21. AULA 21 – SEGUNDA PROVA (28/04/2014)

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22. AULA 22 – INTRODUÇÃO À QUARTA REPÚBLICA (30/04/2014)

Cobriremos agora o período da quarta república que vai de 1945 a 1954, também conhecido
como período democrático ou república populista. Antes de discutirmos o governo Dutra, será
apresentado considerações introdutórias ao período buscando destacar aspectos que mais à
frente serão discutidos. No momento tais aspectos terão forma genérica para depois assumirem
maior clareza.

A estrutura política e partidária da quarta república compreende a existência de grandes partidos


nacionais. A estrutura da primeira república foi desmantelada e os partidos naquela época eram
regionais. Os partidos nacionais ganham destaque no cenário político eleitoral no período. Na
literatura temos referências contraditórias quanto a composição e origem social de tais partidos,
bem como contradições sobre a vinculação dos partidos a determinados setores sociais. Também
existem contradições sobre a atuação, no campo político parlamentar, de seus representantes.

Em linhas gerais, o PSB (Partido Social Democrático) está associado às elites agrárias regionais,
burguesia nacional que tem participação variada quanto a sua atuação, classes médias e
burocracia estatal.

A UDN (União Democrática Nacional) foi um partido que teve duas etapas: a inicial com uma
frente ampla que agrega setores sociais diversos e político ideológicos distintos sendo uma
grande frente de oposição a Vargas. A final seria a posição direitista que a UDN assume se
opondo sistematicamente ao projeto varguista. Esse partido tem muito mais um discurso crítico
a esse projeto do que afirmativo a ele visando qualquer associação. A UDN tem uma base ampla
e heterogênea e depois se torna um partido conservador associado as recorrentes tentativas de
golpes governamentais. Em 1964 o golpe, apoiado pela UDN, é exitoso. Outros setores estão
presentes na composição da UDN como parcela das forças armadas e o grande capital financeiro
e industrial.

O PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) surge associado à burocracia do Estado ligado ao Ministério
do Trabalho e a sua estrutura verticalizada surgiu com a legislação social de Vargas. O PTB tem

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ampla difusão pela classe média, intelectuais e trabalhadores. Ao longo da quarta república o
PTB expande sua base social se tornando a mais larga no final do período, mas no início do
período era uma força política que estava atrás do PSB e da UDN.

O PCB (Partido Comunista Brasileiro) tem um curto período de legalidade no início da quarta
república e em 1947 volta a clandestinidade já que a licença do partido é caçada por Dutra no
âmbito do anticomunismo estrutural que vigora pelo período.

A transição do Estado Novo para a quarta república ocorreu sobre a presença de Vargas que
definiu os termos da transição, mas não da forma como ele queria. O próprio PSB e PTB são
criações de Vargas e ele próprio possui um desempenho eleitoral muito expressivo em 1945 se
elegendo senador por 2 estados e deputado por 9 estados, evidenciando a sua força política.

A constituição de 1946 foi rapidamente elaborada e colocada em vigência criando as bases


institucionais correspondentes ao período democrático em oposição ao quadro autoritário do
período anterior. Essa constituição apresenta uma estrutura e uma orientação distinta das
anteriores por possuir um caráter liberal ajudando a quebrar o que vigorava antes (peso do
Estado, ideologia nacionalista, desenvolvimentismo, etc.). Em muitos capítulos, apesar de tudo,
a constituição de 1946 preserva o corporativismo de Vargas visando mediar o conflito de classes.
Isso ocorre também pelo fato dessa constituição regular o direito de greve e paralisações, apesar
de nunca ter havido regulamentação. Uma série de mudanças no regime eleitoral, judiciário e
de representações classistas ocorreram com essa nova constituição.

A quarta república começa no governo Dutra (1946-1950) passando pelo segundo governo
Vargas (1951-1954) e posteriormente passando por um período tampão com Café Filho (1954-
1955) até chegarmos em JK (1956-1960), Jânio Quadros e João Goulart com a fase
parlamentarista e outra presidencialista. O período acaba com o golpe militar de 1964. Houve
então três interrupções de governo nesse período o que evidencia a grande instabilidade política.
Esse período de aproximadamente 20 anos tem esse traço geral de instabilidade. Além disso,
no início da quarta república até 1950 temos o apogeu e exaustão do modelo de industrialização
por substituição de importações. Os fatores que propulsionavam essa industrialização se
esgotam e as heranças dos governos pós-JK foram marcadas por contradições e conflitos que

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se acumularam ocupando o centro da agenda econômica e política nos primeiros anos da década
de 60.

O governo Dutra era de orientação liberal alinhado aos Estados Unidos. Havia dura repressão
aos trabalhadores, arrocho salarial, regressão dos mecanismos de intervenção do estado
(desaparelhamento do Estado).

O segundo governo Vargas retoma o projeto varguista e inicia uma longa trajetória em que
forças conservadoras se opunham a esse projeto até mesmo impedindo o retorno de Vargas.
Aqui temos o início de uma trajetória golpista no Brasil que, em 1964 alcança o seu objetivo
com presença forte da UDN. Vargas retoma o poder e tenta arbitrar, sem êxito, as diferenças e
conflitos entre as diversas classes sociais, já que as condições políticas eram outras. O projeto
varguista é retomado com o nacionalismo, desenvolvimentismo, planejamento, protagonismo
do Estado e com importância grande da legislação social. Durante seu segundo governo
houveram fenômenos que ganham expressão posteriormente sendo um deles o peso decisivo
das forças armadas como um árbitro durante a quarta república. Os militares ficavam sempre
no limiar entre deixar o governo quieto ou intervir no mesmo. Essas camadas militares se
dividem ao longo do período com setores nacionalistas (apoiavam o projeto nacionalista de
Vargas) e entreguistas (visavam a internacionalização da economia brasileira e associavam o
varguismo ao comunismo e por isso se inclinavam com uma política econômica ortodoxa
alinhada aos Estados Unidos). Outro fenômeno importante é a projeção política de Jânio Quadros
quando o próprio se elege prefeito e governador de São Paulo. Sua trajetória é marcada por
traços pessoais importantes já que ele está associado ao populismo de direita com discurso
invariavelmente conservador que visava combater a corrupção. Essa bandeira de combate a
corrupção é associada a projetos conservadores. Jânio Quadros também se estabelece à margem
do processo político partidário por possuir um partido pessoal (PTN) e não se associa aos grandes
grupos ou partidos nacionais. Temos então um voluntarismo com Jânio Quadros. Outra figura
importante era a de Carlos Lacerda que realizava oposições na imprensa e estava vinculado a
UDN. Por meio da ocupação de cargos eletivos importantes, Lacerda se torna uma figura
expressiva na quarta república. Ainda no governo Vargas temos uma mudança importante no
cenário internacional já que nos Estados Unidos temos a mudança de governo de Truman para
Eisenhower que ocasionou também uma mudança da política deste país para com os países
latino americanos (subdesenvolvidos) representando um enrijecimento ao acesso de recursos

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externos e financiamentos. Passou-se a ter uma série de condicionalidades para conseguir tais
vantagens. O segundo governo de Vargas é então interrompido com o seu suicídio que está
associado a um quadro de instabilidade política e econômica. Seu suicídio foi importante para
brecar um processo de golpe militar que estava acelerado até aquele momento. O suicídio
aglutina as forças sociais que apoiavam o seu projeto que passam a se opor à opção do golpe
dando uma sobrevida para a quarta república até 1964.

O governo de Café Filho preenche o restante de mandato presidencial de Vargas. A UDN chega
ao poder com Café Filho, ainda que seja um período governamental que apresente variações
importantes à política econômica, ainda que seja uma descontinuidade com as linhas mestres
da política econômica que vigorou com Vargas e vigorará com JK.

O governo de JK se inicia em 1956. O General Lott promove um contragolpe preventivo


possibilitando que JK assumisse o poder já que existia uma escalada golpista e conspiratória
contra o seu governo. O seu governo é de continuidade ao de Vargas e das transformações que
ocorriam no país de lá pra cá. Constantemente a historiografia atribui a JK um caráter
revolucionário ao seu governo, mas isso se deve a fatores anteriores, ou seja, existiam fatores
em curso que com o seu governo alcançam um estágio mais avançado. JK está associado ao
plano de Metas, Brasília, indústria automobilística e indústria pesada. Temos no período uma
relativa estabilidade política com crescimento econômico acelerado. Isso só ocorre aqui durante
a quarta república e os outros governos não experimentaram o mesmo fato. Ainda que os fatores
de continuidade com Vargas eram claros, existiram descontinuidades no campo de políticas de
desenvolvimento e orientação de governo. Enquanto Vargas priorizava o nacionalismo, JK
priorizou uma política nacional-desenvolvimentista com uma forte internacionalização da
economia brasileira quebrando mecanismos de controle de fluxo de capitais, forte endividamento
e ampliação da dependência ao contrário da sua redução proposta por Vargas. A dependência
com JK foi reconfigurada sendo de uma outra natureza, estando associada a uma inserção
externa diferente. Existem então diferenças já que se existe um processo que estava em curso
desde a década de 30 e que visava a substituição de importações, com JK foi experimentado o
auge desse processo e o início da industrialização pesada que não contemplou alguns setores
importantes. Temos um processo de longo prazo que continua com JK mas evidenciando
diferenças. Octávio Ianni sempre irá salientar diversos projetos de desenvolvimento nacional
com todas as suas diferenças. Ainda no governo JK tivemos o reconhecimento progressivo e

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maduro de que o processo de industrialização e a modernização econômica e social produz


desequilíbrios, contradições e desigualdades. Isso foi materializado na tomada de decisões
políticas do governo no sentido de promover a correção dessas distorções ainda que de forma
tímida. A criação da SUDENE é o reconhecimento de um desses mais graves desequilíbrios
regionais do seu governo. Houve a constituição de um polo nacional de concentração de capital
com desenvolvimento grande enquanto que outras macrorregiões não se desenvolviam. A
SUDENE estava voltada para políticas públicas que promovessem o desenvolvimento do
nordeste. Os desequilíbrios eram muitos como inflação, desequilíbrio externo, e outros
problemas estruturais que repercutirão no governo de Jânio Quadros e João Goulart. Os pontos
de estrangulamento do desenvolvimento brasileiro que antes eram estruturais, agora são
econômicos. É insustentável essa ordem institucional dada essa crise política e social que cresce
e são herdadas por governos posteriores.

Ao longo da quarta república temos um processo de crescente politização de amplos setores


sociais e polarização política e ideológica. Isso não significa que esse quadro não existia
anteriormente, mas aqui ele ganha cada vez mais importância, incidindo sobre os grandes
partidos nacionais. Existe uma tendência de manter uma homogeneidade interna aos grandes
partidos dando a eles uma feição própria. Com o passar do tempo essa feição é desfeita com
radicalizações dos setores internos desses partidos dando origem a outros. A própria UDN
apresentou divisões internas evidenciando a polarização do período que se relaciona com a
conjuntura internacional de Guerra Fria. Essas clivagens no interior da sociedade brasileira são
perfeitamente correspondidas no plano dos projetos que Octávio Ianni irá mencionar mais
adiante. Os movimentos sociais eram urbanos e rurais, crescendo muito nesse período da quarta
república. As expulsões dos trabalhadores rurais devido a exploração da terra ocasionaram
migrações para os setores urbanos culminando na conversão da sociedade em uma sociedade
moderna (também devemos levar em conta os processos de modernização que ocorreram no
período, juntamente com a expulsão dos trabalhadores rurais para áreas urbanas). João Goulart
estende os benefícios trabalhistas para o setor rural. Temos um quadro de forças sociais que
reivindicam reformas (não existe nenhum grupo social ou partido que tenha proposto um projeto
revolucionário, nem mesmo o PCB). Os setores que queriam revoluções só foram exitosos em
1964 chegando então ao poder definitivamente e que travestem ou atribuem a esse movimento
um caráter revolucionário. Isso expressa uma encruzilhada ao final do período já que
contradições foram crescendo. João Goulart promove reformas de bases envolvendo setores que

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estavam alheios ao poder, mas apesar isso não havia a aspiração de setores sociais para
qualquer tipo de revolução que traria quebra da ordem (isso só ocorre em 1964).

Os governos de Jânio Quadros e João Goulart são marcados por forte instabilidade política, social
e econômica. A crise econômica da década de 60 que se iniciou no final do governo de JK se
manifesta com clareza em Jânio Quadros e se torna sólida se estendendo para João Goulart e
para além de 1964. Essa crise econômica somada a crises políticas e sociais tornaram esses
governos conturbados.

Iniciaremos agora um estudo mais aprofundado do governo Dutra de acordo com o texto de
Octávio Ianni. Recorrentemente também iremos mencionar textos da coletânea “A Ordem e o
Progresso”. Aspectos de longo prazo e estudos mais aprofundados de cada um dos governos
serão aqui abordados. A ideia é contrapor a visão de Ianni com a de outros autores.

A política econômica de Dutra é uma política econômica liberal. Existe uma regressão de
intervencionismos, lugar do Estado, e desativação de um aparato institucional que ao longo da
Era Vargas ganhou crescente projeção. Isso tudo significa uma ruptura da política econômica
que vigorou na Era Vargas. Para Octavio Ianni, já no governo Dutra temos um forte antagonismo
entre uma política nacionalista e política internacionalista. Setores que apoiavam Vargas
entravam em conflito com outros setores que queriam internacionalizar a economia brasileira.

Os aspectos mais importantes do governo Dutra são:

1 – Constituição de 1946 de caráter liberal é feita em seu governo.

2 – Discussão recorrente, feita por Sergio Viana, no que tange à industrialização em curso no
Brasil e que sofre influência da política econômica. Sergio discute a efetividade ou não de
medidas que favoreceram o desenvolvimento industrial nesse período independente da
intencionalidade ou não das políticas governamentais. Octávio Ianni entende que se há
crescimento industrial, este ocorre à revelia das decisões do governo se verificando uma

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interrupção das políticas de promoção à industrialização e as condições econômicas seriam


desfavoráveis principalmente no início do governo Dutra.

O governo Dutra tem um plano que buscou coordenar as ações e investimentos do governo.
Esse plano foi elaborado em 1949 e foi chamado de PLANO SALTE (Saúde, Alimentação,
Transporte e Energia) e o governo privilegiou os setores estratégicos que julgou ser importante.
Tal plano não foi efetivo já que um governo liberal como o de Dutra não possuía recursos para
investir nesses setores, além de Dutra ter desmantelado as instituições que poderiam auxiliá-lo
na conclusão do plano.

Em 1948, ainda no governo Dutra, forma-se a comissão mista entre Brasil e Estados Unidos. Tal
comissão era um esforço de ambos os governos em reconhecer as condições da economia
brasileira (diagnóstico) e, por sua vez, também dar sugestões de medidas que deveriam ser
adotadas pelo governo brasileiro rumo ao desenvolvimento. Octávio Ianni considera essa
comissão privatista como sendo favorável ao grande capital privado e integrando o Brasil entre
economias periféricas.

Temos também política econômica salarial ou de mercado do trabalho. Nenhum dos textos da
bibliografia contempla esse assunto. Nesse período histórico a política salarial tem grande
importância devido ao processo inflacionário persistente, governos trabalhistas, políticas sociais,
etc. Essa política econômica salarial passa a ser recorrente durante a quarta república visando
o caráter redistributivista e o caráter de confisco salarial. Para Octavio Ianni o governo Dutra
favoreceu a acumulação de capital, o confisco salarial e a perda de poder aquisitivo dos
trabalhadores. Tudo isso será uma herança que terá importância no segundo governo de Vargas
que tem uma base social forte conferindo importância aos trabalhadores. Vargas adota medidas
contrárias ao governo Dutra.

A política econômica do governo Dutra é dividida em duas fases bem demarcadas:

1 – 1946-1947: Forte liberalização da economia brasileira, liberdade do fluxo de capitais,


liberalização do comércio exterior que, com a manutenção do câmbio sobrevalorizado desde

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1939, irão provocar um forte desequilíbrio na balança comercial e no balanço de pagamentos.


Temos uma série de consequências ao comércio exterior brasileiro que culminaram em medidas
punitivas e restritivas dos parceiros comerciais do Brasil no exterior. As divisas do país também
passam a ser consumidas (reservas que se acumularam durante o período em que o Brasil
ocupou nichos vagos no mercado já que países da Segunda Guerra Mundial passaram a não
exportar para os mercados do mundo).

2 – A segunda fase ocorre com a mudança da política econômica do governo Dutra que passa a
praticar o contingenciamento das importações (controle) que, a rigor, são mecanismos que
vigoraram desde o início da década de 30. O regime de licenciamento de importações controlado
pelo Banco do Brasil irá promover rápidos resultados positivos no sentido de corrigir os
desequilíbrios mencionamos favorecendo uma certa estabilidade política financeira na segunda
metade do governo Dutra.

Sergio Viana menciona um terceiro período ou subfase associado a mudanças no mercado


internacional com elevação dos preços do café e mudanças na política econômica interna do
governo com repercussão na política externa. Essa discussão não é importante para Octavio
Ianni já que trata dos efeitos da política econômica do governo Dutra no plano industrial. Ianni
salienta que a importação de bens de consumo não duráveis se constitui um anacronismo e
Sergio Viana defende que a liberalização do governo Dutra favoreceu setores que estavam
vivendo contingências no mercado exterior, principalmente a indústria que enfrentava restrições
e que passou a se aproveitar do contexto da guerra para se promover.

Independente de tudo o que foi falado, a discussão sobre as consequências da política econômica
de Dutra para a indústria se concentram na segunda parte do seu governo. Para Sergio Viana,
a política econômica favoreceu, por vários mecanismos, o desenvolvimento industrial,
identificando todos eles como importantes para a manutenção e reserva de mercado frente a
concorrência externa, implementação de subsídios, estabelecimento de relações favoráveis à
indústria. Esses efeitos são chamados de efeito subsídios, efeito protecionismo, efeito
lucratividade e todos eles culminam para a opinião de que, se não houve intenção deliberada
por parte do governo, Dutra beneficiou o setor industrial.

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Acima estão todos os aspectos importantes dos textos de Octávio Ianni e Sérgio Viana. Iremos
agora desdobrar esses aspectos principais.

A primeira parte do texto de Octavio Ianni é dedicada a pensar o final do Estado Novo e o
processo político que leva a deposição de Vargas, as eleições e ao início da quarta república com
a posse de Dutra. O autor ressalta que foram crescendo as contradições entre as políticas
internas que vigoravam no Estado Novo e a ordem política que se abriria após a Segunda Guerra
Mundial com a derrota do Eixo. Isso tornou insustentável a continuação do Estado Novo. Haviam
também movimentos internos de contestação, abertura política e redemocratização. Pressões
externas também existiam e foram importantes para a deposição de Vargas. Tudo isso leva ao
fim o Estado Novo e início da quarta república.

A quarta república poderia ser iniciada com o próprio Vargas que realizaria a transição de um
governo autoritário para um democrático, mas ela não ocorre já que Vargas é deposto. Para
Ianni, as condições políticas e econômicas no final do Estado Novo são muito favoráveis a uma
transição sobre a hegemonia de um projeto varguista. O autor faz um inventário desses aspectos
favoráveis, associados a modernização institucional, projeção crescente do planejamento,
presença de um aparato estatal técnico mais capacitado e mais experiente e a perspectiva de
continuar com a ruptura da dependência e da condição periférica do Brasil. As condições
econômicas e políticas seriam favoráveis à continuidade do processo. A esse moderno
nacionalismo temos a articulação de setores sociais que se alinham com um projeto antivarguista
que esvaziaria o intervencionismo e o lugar do Estado. Essa orientação nacionalista controlava
o fluxo de capitais e restringia o capital estrangeiro em certos setores e o alinhamento político
desses setores sociais ia contra ao que existia no governo Vargas e ia de acordo com a
subordinação periférica liderada pelos Estados Unidos. A política econômica do início da quarta
república era ortodoxa se contrapondo ao projeto desenvolvimentista, nacionalista, trabalhista,
intervencionista de Vargas. Ianni chama o projeto ortodoxo de construção do capitalismo
nacional que, em última instância, era um projeto de soberania e ruptura com a dependência,
mas tal projeto converge justamente para a dependência periférica. Aqui temos o nascedouro e
o ponto de partida de um antagonismo que crescerá ao longo do período. Esse antagonismo é
definido como uma contraposição de projetos nacionalistas e projetos internacionalistas. Esse
antagonismo, para o autor, é de fundo, estando presente ao longo da quarta república,
crescendo e se radicalizando para depois culminar no golpe de 64.

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Outra discussão importante busca caracterizar a quarta república como um período populista.
Essa atribuição guarda um sentido que, em geral, é negativo, já que o populismo é associado a
práticas criticáveis e mecanismos de democracia direta criticáveis além do populismo distorcer
as relações entre Estado e sociedade. Essa discussão é secundária aqui se considerarmos o tipo
de apropriação que, recorrentemente, a historiografia faz atualmente sobre os governos do
período. É por isso que temos um anacronismo e o surgimento de populismo de esquerda ou
direita. Grosso modo, temos a apropriação mais comum que chega ao senso comum. Essa
apropriação remete ao fato de o populismo não ser um fenômeno político indesejável. Hoje
fazemos o uso do termo para nos referirmos aos governos de centro e centro-esquerda. O
populismo seria o grande formato ou mecanismo de relação entre Estado e sociedade a produzir
os melhores resultados para os países latino-americanos. É sobre regimes populistas que a
América Latina mais se desenvolveu em políticas econômicas, sociais e políticas que visavam
romper com a dependência periférica. Recorrentemente encontraremos o populismo associado
a esse período político, tendo atenção ao sentido que o termo está sendo empregado.

O governo Dutra experimentou um conflito entre populistas e liberais/conservadores que se


opunham ao projeto varguista. Sergio Viana enfatiza o contexto internacional no pós-Segunda
Guerra Mundial. Não é possível entender a política econômica sem entender a conjuntura
externa. Esse autor enfatiza os acordos de Breton Woods que queriam estabelecer os termos
das relações financeiras e monetárias com o fim da guerra. Nesse sentido são criados o FMI,
BID, GATE, etc. No entanto, Sergio salienta que os acordos não podem ser implantados
imediatamente devido a uma série de fatores externos que inviabilizam o estabelecimento de
uma ordem liberal multilateral. Apesar disso, foi gerado um quadro no Brasil de liberalização
que explica o porquê da política econômica do governo Dutra possuir esse caráter inicial.
Posteriormente a política econômica foi alterada já que as promessas dos acordos internacionais
não ocorreram já que as condições econômicas e políticas dos países centrais são muito díspares
e também por iniciar o conflito da Guerra Fria e a formação de blocos políticos-ideológicos
distintos. Para Sergio é então impossível entender o governo Dutra e a sua política econômica
sem olhar para o setor externo.

Sobre a política econômica, o texto de Octavio Ianni é mais detalhado e minucioso. Isso não
revela contradições com Sergio Viana no que se refere a caracterização geral da política
econômica do governo Dutra. Ambos identificam as duas fases, mas dão ênfases distintas sobre

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alguns assuntos. Sergio Viana aprofunda na composição das divisas brasileiras no início do
governo Dutra. O Brasil tem grandes reservas acumuladas, mas esse autor chama a atenção
para uma ilusão já que as divisas refletem uma forte concentração em moedas não conversíveis.
Isso explica o porquê do Brasil, em pouco tempo, queimar suas divisas conversíveis de moedas
fortes e entra em um quadro de desequilíbrio imediato. Isso está associado à natureza do
comércio externo brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial já que o país priorizou mercados
africanos e asiáticos. Temos uma ilusão de divisas por conta disso. Viana também discute a
política econômica interna e isso está ausente em Ianni. A política interna era ortodoxa até 1949
com forte contingenciamento do crédito e no campo monetário, uma política fiscal de
austeridade, prioridade ao combate da inflação, liberalização do comércio exterior, etc. Os
resultados dessa política econômica interna são bastante positivos segundo esse autor no que
se refere aos objetivos principais do governo anteriormente mencionados. Em 1949 temos um
ponto de inflexão com a mudança ministerial e mudança da política econômica interna que
passou a ser expansionista gerando inflação, aumentando o crédito e o monetarismo. Para Viana
isso está associado a vários fatores como a elevação dos preços do café no mercado internacional
e a proximidade das eleições que ocorreriam no ano seguinte. Assim temos um mecanismo de
expansão do gasto público visando ganhos e benefícios no processo eleitoral que estaria em
curso em breve. Além disso temos os efeitos externos sobre a economia brasileira já que o
mundo estava passando por transições. Viana assume que a orientação econômica do governo
Dutra vai se esvaziando e perdendo sentido, seja pelas condições internas da economia
brasileira, seja pelas condições externas mal avaliadas e mal compreendidas.

Vale aprofundar observações sobre a comissão mista brasileira e americana de 1948. O


documento produzido por ela foi importante para os governos posteriores. Essa comissão
levantou as condições da economia brasileira apresentando sugestões aos governos Dutra e
seguintes. Essa comissão tem representantes de ambos os países, técnicos, economistas,
funcionários públicos, etc., tendo uma composição ampla visando interpretar o melhor possível
a realidade econômica. A comissão aponta pontos de estrangulamento na economia brasileira e
esses pontos deviam ser superados para o desenvolvimento do país. Os estudos são feitos em
todas as esferas e campos na economia brasileira. Para Octávio Ianni essa comissão tem uma
inspiração privatista e internacionalista nesse momento de reestruturação da economia
brasileira. Os pontos importantes aqui de estrangulamento e que precisavam ser superados são:

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1 – Tendência especulativa que tem efeito nos investimentos industriais constituindo uma busca
que pudesse remunerar o capital.

2 – Forte atração por propriedade imobiliária visando busca de terras para reserva de valor. Esse
era um comportamento indesejável.

3 – Incipiência do Brasil no mercado de capitais e a necessidade de criar mecanismos para o seu


desenvolvimento. Não existia agências necessárias ao crescimento de mercado de capitais.

4 – Irrealismo nas tarifas públicas. A orientação era reportar os subsídios presentes nas tarifas
privilegiando o setor privado.

5 – Excessivo protecionismo alfandegário com relação a indústria, sendo isso o contrário do que
ocorria no período anterior.

6 – Política salarial inflacionária.

7 – Desequilíbrio entre crescimento agrícola e industrial. Existe uma assimetria no ritmo de


crescimento do setor secundário e primário.

8 – Orientação específica para o setor petrolífero visando a sua abertura.

Para Octávio Ianni a orientação era para criar condições para favorecer investimentos
estrangeiros nos setores da economia brasileira e criar mecanismos institucionais para a atração
de capital para esses setores além de conter e definir limites para os mecanismos de regulação
e controle do Estado sobre a economia.

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Para Ianni, a combinação de liberalismo e política salarial assume um sentido restritivo quanto
a promover o confisco salarial, tendo em vista a persistência de um processo inflacionário e com
uma tendência de não reajustar o salário durante esse período histórico. Isso promove uma
concentração de renda e uma redistribuição regressiva da mesma. Isso não está presente no
texto de Sergio Viana. A contrapartida dessa política salarial seria a forte repressão do governo
Dutra sobre os movimentos dos trabalhadores. A constituição de 1946 visava regulamentar a
greve, mas isso não ocorre e o governo as considerada ilegais. Dutra também reprimiu o PCB e
todos os seus representantes perdem seus cargos (o PCB teve um bom desempenho eleitoral
nas eleições de 1945). O anticomunismo será constante durante a quarta república envolvendo
amplos setores sociais e abrindo as portas para colocar o movimento operário na ilegalidade.

23. AULA 23 – SEGUNDO GOVERNO VARGAS (05/05/2014)

Estudaremos agora o segundo governo Vargas e o texto de referência é o de Octavio Ianni. Com
o segundo governo Vargas temos um populismo de esquerda e o retorno do projeto estatista,
desenvolvimentista e nacionalista. Esse projeto é o mesmo daquele do primeiro governo de
Vargas. Devemos buscar entender qual e a base social que apoia esse projeto que se contrapõe
a outros. Ianni assume que o segundo governo de Vargas é marcado por obstáculos resumidos
ao quadro de crise política bem como econômica que caracteriza o período. No plano das ações
de governo o autor afirma que o segundo governo Vargas retoma o projeto de construção de
um Estado moderno na medida que são criadas novas instituições associadas ao projeto
desenvolvimentista. Temos então a retomada do intervencionismo posto que tais instituições
ganham sentido associadas a esse projeto já que todas elas estavam destinadas a ocupar
funções especificas no governo. O autor também fala de instrumentos que foram incorporados
a gestão pública que, assim como no primeiro governo de Vargas, são priorizados nesse segundo
governo sendo até mesmo mais avançados visando planejamento. O segundo governo Vargas é
a consolidação do planejamento por meio de instrumentos que estariam consolidados nessa
etapa histórica como instrumentos centrais e privilegiados da política desenvolvimentista.
Quando falamos em desenvolvimentismo não fazemos referência a um fenômeno, ideologia ou
característica de apenas um projeto. O desenvolvimentismo e a principal referência político-
ideológica desse período histórico, ou seja, políticas que se orientaram para promover o
desenvolvimento no âmbito da modernização econômica. Outra característica geral do texto de

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Octavio Ianni é o fato de que não é possível compreender todas as transformações sem pensar
em certos eixos e fios condutores que dão amarração histórica a esse período. Entre eles ganha
destaque a mudança e a divisão social do trabalho. Esse processo de mudança social ganha,
progressivamente, clareza e materialidade a medida que o autor procura captar os aspectos
mais importantes dessa mudança em curso que é uma mudança de longo prazo. Ela não se
realiza em intervalo de tempo curtos e tão pouco se apresenta clara na etapa inicial ou no
transcurso do processo. Ela enuncia o que virá progressivamente e ao final temos uma sociedade
moderna. O autor insere aspectos de análise da mudança social em curso associando-a com as
clivagens internas da sociedade brasileira e com os projetos nacionais em confronto. Setores
tradicionais e modernos se diferenciam internamente no Brasil da época. Ianni capta muito bem
as contradições e mudanças no tempo entre tais setores e os projetos de desenvolvimento do
país. O estado desenvolvimentista, para o autor, não tem a mesma base social que existia
anterior a 1930. Essa base social não era clara e homogênea antes da consolidação do Estado
desenvolvimentista. A sociedade e a economia eram complexas segundo o autor, não só pelo
fato das mudanças sociais significarem uma estrutura social cada vez mais complexa com o
desenvolvimento de setores novos ligados ao mundo urbano industrial. No início da década de
50 a maior parte da população brasileira está no campo (mais de 60%), mas os setores de base
urbana são cada vez mais influentes associados a atividades novas de peso e importância
(serviços, indústria e burocracia do Estado). O processo de urbanização altera essas relações
com o crescimento das cidades e ocasionando uma complexa migração interna que era o
principal fator de redistribuição social das pessoas no país. Essa inversão que ocorre entre a
década de 30 e 60 é resultado das intensas migrações internas que redistribuem a população
brasileira no território. Para Ianni, pensar no amadurecimento de formas de identidade de
representação de interesses de classe é impossível em termos imediatos, mas deve ser
considerada enquanto um processo progressivo em que cada vez mais se explicitam essas
formas de identidade e representação de interesses na medida que avançam as transformações
sociais, econômicas e políticas. Entre os processos que estimulam, intensificam e aprofundam
essas formas de identidade de representação de interesses é a inserção de amplos setores
sociais no debate, na discussão e na luta pelas grandes questões nacionais. Essa é a forma de
amadurecimento dessas formas de identicidade e representação de interesses, ou seja, a
inserção de amplos setores sociais nas questões nacionais. Uma emblemática do segundo
governo de Vargas é a luta pelo petróleo ou por um projeto nacionalista para o setor petrolífero.
A orientação de que o petróleo é nosso não é uma estratégia política do governo, mas é fruto
de um processo de longo prazo que se inicia na década de 20 e amadurece na década de 30

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sendo consumado na década de 50 resultando na criação da Petrobras em 1951. A emblemática


dessa discussão não se restringe a questão do petróleo, mas ele era estratégico ao
desenvolvimento de infraestrutura enérgica e de transporte do país. Podemos pensar a discussão
atual da Petrobras que não é em torno da gestão recente da empresa. A discussão atual envolve
interesses internos e externos poderosos sobre o modelo de exploração do petróleo brasileiro.
Não há nada na superfície que explique a importância dessa discussão se não mais uma rodada
de um debate que opõe setores sociais desde a década de 20 passando pela década de 40 e 50
(os que defendem a internacionalização da Petrobras e os que não defendem). O setor petrolífero
é estratégico para o Brasil e há uma atualidade sobre essa discussão que foi também intensa
durante o segundo governo Vargas. O debate da época envolveu um grau complexo e
especializado em torno de técnicos e especialistas. Não é um debate de leigos em torno dessa
questão e ela não merece ser tratada de forma superficial. Como o próprio autor cita no texto,
essa discussão é emblemática e não se restringe apenas ao petróleo mas também a criação de
um Estado moderno e a incorporação de instrumentos modernos. Ele coloca ênfase na Petrobras
para tratar de planejamento e outras questões. A Petrobras é, por excelência, a demonstração
do êxito da incorporação do planejamento pelo Estado e ela não poderia ser criada naquele
momento sem ele. Existem outras questões em debate e realizações que marcam o segundo
governo Vargas. Esse é um aspecto que nos permite fazer um paralelo entre o texto de Ianni e
de Sergio Viana já que no texto deste último não há referência a criação da Petrobras como se
a discussão de política econômica não incluísse decisões importantes e estratégicas, ainda que
no longo prazo, tenham se orientado para a criação de uma empresa estratégica ao
desenvolvimento como se apresentará a Petrobras. Há um aspecto comum nos dois textos já
que ambos os autores destacam a importância das relações internacionais no governo Vargas
para entender a política economia. No segundo governo Vargas temos fatores muito importantes
que incidem na condução de políticas econômicas:

1 - Guerra da Coreia e suas mudanças em relação ao comercio exterior seja com base na
realidade da repercussão da guerra, seja nas expectativas que ela gerou.

2 - Eleição de Eisenhower nos Estados Unidos e a mudança da política americana para a América
do Sul em desenvolvimento. Se Vargas assume com a perspectiva de financiamento e
desenvolvimento dos países subdesenvolvidos de acordo com o governo de Truman que
incorporava na sua política de governo uma ajuda aos países periféricos por meio de

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financiamentos, com Eisenhower temos uma mudança importante com o recrudescimento dos
fluxos de capital para os países da América Latina com exigências muito duras que significariam
uma ingerência maior na condução de políticas econômicas como contrapartida para a concessão
de recursos, além do encarecimento dos mesmos dada as condições em que os financiamentos
passam a ocorrer. Podemos estabelecer um nexo com a República Velha e o texto de Caio Prado
e outros autores que afirmam que há uma relação estreita entre o processo de endividamento e
a crescente ingerência dos países credores na condução de política econômica por meio das
exigências postas para conceder recursos. É uma trajetória de longo prazo em que se estabelece
uma interferência constante e crescente e isso configura uma das esferas da dependência mais
duras de serem superadas, ainda mais na quarta república em que tais empréstimos eram
imprescindíveis para o processo de industrialização.

O segundo governo Vargas, para Ianni, enfrentará uma série de problemas estruturais que não
se resolvem sendo eles a principal fonte de instabilidade do seu governo. Temos o problema
inflacionário, o desequilíbrio do balanço de pagamentos e os gargalos (pontos de
estrangulamento) infra-estruturais que, inclusive, inclinarão as políticas de desenvolvimento de
Vargas a priorizar os investimentos em ampliação da capacidade de geração de energia elétrica
e um vigoroso apoio as políticas associadas a modernização rodoviária (nossa segunda
modernização dos transportes já que a primeira se inicia nas três últimas décadas do século XIX
e avança pelo século XX com as ferrovias). A década de 30, juntamente com a década de 40,
seriam décadas de transição entre a hegemonia ferroviária para a hegemonia rodoviária. A
década de 50 não é mais de transição sendo aqui consolidado o modal rodoviário gerando a era
rodoviária. Temos uma divisão binária entre a era ferroviária e a era rodoviária sendo esta última
priorizada com recursos e investimentos nos tempos mais recentes constituindo um fenômeno
sem paralelo histórico auxiliado pela grande pavimentação ocorrida na década de 60.

O governo de Getúlio Vargas representa um surto de expansão rodoviário importante e expansão


da geração de energia hidrelétrica. Instituições surgem para regular os investimentos na
modernização rodoviária. Isso explica a criação da Eletrobrás e também a destinação regular em
bases legais de recursos para o departamento rodoviário e o BNDE. Temos outras instituições
associadas a grandes obras e investimentos (rodoviários e outros) no país. O estado responde
a todos os investimentos em expansão dessa infraestrutura de energia e transporte que são
verdadeiros pontos de estrangulamento e gargalos que impediam qualquer tipo de

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desenvolvimento. Temos um traço de continuidade ou um elo entre os governos de Vargas (o


segundo) e JK que, nessa altura, era o governador de Minas Gerais e é o grande responsável,
por meio do binômio energia e transporte, pela realização dos investimentos infra-estruturais na
expansão da malha rodoviária de Minas Gerais e na criação das duas maiores companhias de
energia elétrica do sudeste (Furnas e Três Marias). Temos uma estreita associação entre esses
dois governos sendo isso um processo continuo que não se restringe a nenhum dos dois e que
quebra qualquer tentativa de transformar o governo JK em um governo revolucionário e inovador
nessa questão.

Entre as instituições do segundo governo de Vargas temos o Banco Nacional de Desenvolvimento


(BNDE) que, na década de 60 se transforma em Banco Nacional de Desenvolvimento Social
(BNDES), Eletrobrás, Petrobras e o Banco do nordeste que é o primeiro banco macrorregional
voltado para o financiamento de longo prazo e voltado para o desenvolvimento econômico.
Temos uma solidariedade entre o Banco do Nordeste criado por Vargas e a SUDENE criada por
JK. Temos uma agência de financiamento e uma agência de planejamento nessa macrorregião.
Sobre o planejamento é decisivo dizer que Vargas incorpora a visão de planejamento da CEPAL
criada em 1948 e já em 1953 Vargas cria o grupo misto BNDE-CEPAL para estudar o caso
brasileiro orientado pelo modelo teórico da CEPAL, não só no sentido de estabelecer um
reconhecimento mais refinado da realidade brasileira, mas no sentido também de produzir
políticas de desenvolvimento. O documento misto produzido por esse grupo misto será o mais
importante depois do plano de metas elaborado e colocado em prática no governo de JK.

Outra dimensão importante do segundo governo Vargas está a necessidade de recomposição da


base social. Ela encontrará o seu apoio mais importante em setores de classe média,
trabalhadores e burguesia nacionalista que irá apoiar esse projeto. Em termos práticos o governo
Vargas avança na formalização e na tentativa de coordenação com o plano nacional de
reaparelhamento econômico (plano Lafer) que tem o propósito de usar o aparato institucional
coordenado para priorizar os investimentos em indústrias de base, transporte, energia e
agricultura. O plano Lafer ou plano nacional de reaparelhamento econômico estava
estreitamente relacionado ao BNDE juntamente com o resultado das comissões mistas entre
Brasil e Estados Unidos.

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Quanto a política econômica do segundo governo Vargas, Sergio Viana apresenta uma leitura
original na compreensão dessa política que nada se contrapõe a leitura que Octavio Ianni faz
sobre o mesmo assunto, embora a análise de Sergio seja muito mais informada quanto aos
dados que o autor apresenta e mais aprofundada e sofisticada já que a interpretação de Viana
é original, partindo de uma compreensão especifica sobre o caráter geral do governo Vargas
entendendo que o governo se orientou pela busca da divisão da política econômica em duas
grandes fases dependentes uma da outra:

1 - Primeira fase que visava alcançar a estabilidade econômica e financeira.

2 - Segundo fase voltada para realizar grandes investimentos e priorizar a política


desenvolvimentista.

Segundo Viana, o projeto original do segundo governo Vargas estava comprometido em meados
de seu governo já que a primeira fase se vê inviabilizada pelo insucesso dos objetivos que se
perseguiam e o governo terá que tentar alcançar essa estabilidade novamente já que ela era
imprescindível a qualquer processo de desenvolvimento. Os gestores de política econômica
estavam enredados em sucessivos insucessos para conseguir uma estabilidade sustentável,
dado que o próprio Viana afirma que a herança do governo Dutra para Vargas não foi positiva
deixando inflação elevada e desequilíbrio no balanço de pagamentos. A segunda tentativa de
estabilidade está associada a uma reforma cambial absolutamente imprescindível à política
cambial da quarta república e que é inovadora do ponto de vista instrumental pelo que ela propõe
e é fundamental para se pensar a industrialização brasileira para além dos problemas
conjunturais envolvidos ou com os quais se defrontam os governos da quarta república. Essa
modalidade de política econômica ou a política cambial está no centro da política da quarta
república. É o principal instrumento que se valem os governos da quarta república para implantar
reformas distintas no tempo e mecanismos que favorecessem a continuidade do
desenvolvimento e do desenvolvimento industrial.

Para Sergio Viana, o que Vargas tentará é conciliar tendências divergentes dentro do seu governo
e da própria sociedade brasileira. Essa tentativa explicaria a estratégia previamente definida de

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dividir a política econômica em duas fases visando primeiro a estabilidade com o combate à
inflação e ao desequilíbrio do balanço de pagamentos e posteriormente visando investimentos.

A reforma cambial no final de 1947 até 1948 do governo Dutra vigorara até 1953. As alterações
descaracterizam o caráter original da reforma de 47 e 48. Prevalece os mecanismos de controle
do câmbio, dos fluxos de capital e de licenciamento das importações definidos em meados do
governo Dutra. Prevalece uma política econômica contracionista (tributária, creditícia e fiscal) e
é por meio de ajustes feitos no governo Dutra que esse projeto original do segundo governo de
Vargas conhecerá a sua derrota definitiva já que o projeto original dependia do êxito da primeira
fase para que a segunda vigorasse. Essa derrota se manifesta de formas diversas com um
balanço de pagamentos e balanço comercial desequilibrados, inflação fora de controle, atrasos
comerciais que geram punições e um tensionamento resultante de um quadro econômico o qual
se soma um tensionamento político que, na realidade, remete a uma divisão muito mais ampla
do que a divisão que estaria no âmbito do debate econômico sobre condução de política
econômica e que considera os projetos mencionados com atores importantes em cena jogando
pesado pela desestabilização política do governo Vargas (internos e externos). Aqui devemos
lembrar do espirito golpista da UDN, Carlos Lacerda (imprensa opositora) e setores das forças
armadas. Isso leva a segunda tentativa de estabilização. Sergio Viana está com os autores que
não identificam nas mudanças de condução de política econômica do governo Vargas qualquer
inclinação decisiva pela realização de um projeto desenvolvimentista e nacionalista. O autor quer
explicar os fatores conjunturais. Aquilo que ganha destaque para Ianni está ausente no texto de
Viana. Apesar disso não há divergências com aquilo que e tratado por Octavio Ianni.

A SUMOC (criada no final do primeiro governo Vargas) cumpriria funções de um Banco Central
(Ianni também ressalta a criação da Superintendência da Moeda e do Crédito). Era a instância
principal para a definição política cambial dado controle e as formas de regulação associadas a
essas políticas quando elas assumem um caráter de intervenção do câmbio. Essa reforma
cambial de 1953 (exclusão 70 da SUMOC) irá mudar o regime cambial que vigorava desde
meados do governo Dutra e irá prevalecer até 1957 quando uma nova reforma cambial é então
feita no governo de JK. Grosso modo é que essa exclusão da SUMOC irá categorizar e estabelecer
categorias do comércio de exportação e estabelecer regimes cambiais diferenciados segundo
cinco categorias que enquadrariam bens importados. Haviam níveis de prioridade para a
categorização aos regimes cambiais relacionados a importações. Para Octavio Ianni trata-se de

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um regime que quer privilegiar as importações prioritárias ao desenvolvimento e a


industrialização estabelecendo um regime preferencial para as mesmas (tudo aquilo que não era
produzido internamente e até mesmo aquilo que era produzido mas não atendia a demanda para
a industrialização). Foram também criadas bonificações específicas para as exportações (regime
especial para o café e as demais outras). As operações de distribuição de câmbio presididas pelo
Banco do Brasil irão auferir renda não tributável e não dependente de aprovação do legislativo,
mas a regulação do intercâmbio comercial pelo governo gera receitas para o país que serão
consideradas importantes para alcançar divisas que cubram as despesas do governo em um
quadro de instabilidade econômica. O combate à inflação é uma prioridade da exclusão 70 da
SUMOC, mas uma série de contradições associadas a essa reforma cambial geram resultados
satisfatórios mas não sustentáveis no tempo. Em 1954 já temos um quadro de crise e
instabilidade e fatores econômicos e não-econômicos pioram o quadro tornando impossível
separar a crise econômica da crise política e institucional. O segundo governo Vargas então teve
uma crise forte próximo do seu fim levando ao suicídio de Getúlio Vargas.

A política salarial do segundo governo Vargas é diferente da política trabalhista do governo


Dutra. Vargas tenta recuperar o poder aquisitivo do salário mínimo dando aumento de 100%
em 1954. O autor salienta que o processo acumulativo de perda de poder aquisitivo do salário
mínimo do governo Dutra juntamente com o confisco salarial impedia a recuperação de salários
devido à alta inflação. Os aumentos do salário no governo Vargas visavam recompor as perdas
acumuladas. Isso explica o fato de que mesmo com os aumentos dados nos salários por Vargas,
os trabalhadores não o apoiaram de forma significativa devido aos problemas econômicos da
época.

Nessa altura o autor irá apresentar as divisões no interior da sociedade brasileira quanto ao
alinhamento dos setores, grupos e classes sociais a esses projetos distintos de desenvolvimento.
Ianni alterna as expressões que utiliza ao fazer referência a esses projetos em disputa. Nessa
altura, pela primeira vez, Octávio Ianni organiza as informações sobre esses projetos bem como
o alinhamento das classes sociais sobre os mesmos. No interior do setor social emergente
(burguesia industrial) já existiam divergências em relação às políticas de governo e os projetos
em disputa. Em relação à política do governo a burguesia industrial não apresentou unidade
quanto ao meio para se alcançar a consumação do processo de desenvolvimento industrial da
industrialização brasileira em curso.

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Ianni identifica uma pequena burguesia industrial associada a bens de consumo não duráveis
(indústria têxtil e alimentícia). Essa pequena burguesia era majoritária em termos de números
de empresários e trabalhadores. Ela estava associada aos bolsões industriais. Estamos em uma
etapa de integração do mercado interno em bases capitalistas e na constituição da nossa divisão
regional do trabalho ainda intermediária já que esse processo não alcançou etapas mais
avançadas que alcançaríamos com integração do mercado interno nacional. Se quer temos um
sistema de transportes moderno capaz de dar substrato a integração sendo a sua modernização
necessária. Alguns sistemas de transporte modernos regionais promoveram integração com base
na hegemonia ferroviária (caso de São Paulo), mas entre regiões a modernização não provocou
ainda integração. Apenas a modernização rodoviária fornecerá o substrato material para um
sistema viário moderno capaz de sustentar a integração do mercado interno. Na época do
segundo governo Vargas esse procedimento está em andamento, assim como ocorrerá com JK.
Isso permite que, ainda no início da década de 50, a indústria da pequena burguesia industrial
voltada para mercados regionais cresça muito e subsista. Ao contrário do que o senso comum
afirma, a nossa indústria cresce mais com base em industrias tradicionais nesse período. A única
região que se beneficia de uma integração regional é São Paulo e parte de outras regiões e
estados. A integração macrorregional estava longe de ser alcançada e as industrias regionais
prosperam devido a proteção concedida pelos custos de transportes altos e estágio inicial da
concorrência intercapitalista que não era capaz de sucumbir tais tipos de industrias. Sem o
sistema de transportes modernos e eficiente não há avanço para integração macrorregional.
Essa é a pequena burguesia que é nacionalista, favorável ao protecionismo alfandegário,
intervencionismo e apoia o projeto Varguista, mas ela depende de mercados locais e regionais
não tendo uma dimensão nacional. A grande burguesia industrial nacional está também nos
setores de bens de consumo tradicionais, mas se inserem em bens de consumo modernos,
duráveis e bens de capital. Ela é favorável ao protecionismo e intervencionismo estatal, embora
de forma contraditória já que o autor salienta que essa postura está voltada a um nacionalismo
tático, ou seja, quando as medidas do governo são favoráveis a esses segmentos industriais ela
o apoiará e quando não for ela não o apoiara. Essa é a típica burguesia associada ao liberalismo
sendo liberal por conveniência. Toda vez que o Estado intervém favorecendo seus interesses
conjunturais ela não criticará o Estado, mas sim apoiará a intervenção. Se o Estado assume um
caráter redistributivo ou fere os interesses da grande burguesia, a própria criticará o governo.
Ela nunca foi liberal no sentido pleno. Essa grande burguesia nacional foi a mais emblemática
do liberalismo contraditório associada ao setor agro açucareiro que foi o mais beneficiado pelas

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políticas governamentais. Ela se opunha a qualquer caráter redistributivo ou que questionasse


a sua posição de dominação nesse setor. Além disso, essa burguesia era a grande beneficiada
pela industrialização de tipo monopolístico (caráter monopolista), pela inflação de lucros e a
ponte que possibilitava a entrada de capitais estrangeiros sendo apta a alianças com o mesmo
nos setores de interesse. Segundo Ianni a grande burguesia industrial está associada aos setores
de grandes serviços públicos, bens de consumo duráveis e é a principal interessada em entrar
no setor de bens intermediários e bens de capital, além dos seus interesses no setor petrolífero.
A burguesia então tem essas divisões internas fundamentais que nos permite entender o porquê
dela não ter um posicionamento homogêneo, além de nos ajudar a caracterizar o proletariado e
a classe média.

Tanto classe média e classe proletária possuíam clivagens sendo heterogêneas. No caso do
proletariado a sua composição social e cultural heterogênea se relaciona com as imigrações
internacionais e migrações internas. Portanto, a heterogeneidade está relacionada ao seu
processo de formação e só com o tempo a homogeneidade será alcançada. Um fator de
instabilidade para qualquer grupo era a entrada de novos indivíduos sem ser pelo crescimento
vegetativo e as múltiplas origens geográficas explicam a clivagem. Os proletários são a classe
que mais crescerá em termos políticos nesse período histórico da quarta república favoráveis a
um Estado forte, nacionalista e estável. Os setores políticos da classe se dividiam entre os
trabalhistas de Vargas e o PCB que aumenta a sua influência no período. Muito mais heterogênea
do ponto de vista social é a classe média que constituiu um travamento a uma mobilização mais
ampla dos espaços urbanos já que ela adota uma posição contraditória e inconstante quanto as
grandes questões que conformam o quadro do grande debate nacional da quarta república.
Enquanto classe social era muito difícil mobiliza-la, apesar de em alguns momentos ela ser
importante para ações golpistas. Dentro dessa classe existiam setores de esquerda, direita e
setores vulneráveis a um discurso ideológico relacionado ao risco da proletarização que geraria
um quadro de instabilidade e desordem institucional levando a classe média a um declínio da
sua posição social, ou seja, sempre que existir mobilidade social ou perspectiva de mobilidade
social a classe média se opunha e se retraia frente ao governo. Esse segmento será o mais
facilmente cooptado pelos opositores do populismo de esquerda.

Octávio Ianni formaliza os projetos divergentes do período. Temos três vertentes:

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1 – A primeira vertente é a internacionalizante que significa um projeto de estreitamento e


aproximação com o grande capital internacional. É uma modernização econômica que se
inclinaria a aumentar a dependência das economias mais desenvolvidas. Para Ianni, esse projeto
é hegemônico no governo Dutra já que os setores sociais que apoiam esse projeto são os
principais beneficiários de relações tradicionais de dependência que só podem vigorar se
considerarmos a existência de setores internos que se beneficiam da mesma. Esse projeto
preconiza uma estratégia de desenvolvimento dependente. O autor diz que isso nada mais será
do que uma forma de reelaborar as estruturas e as políticas que vigoraram antes de 1930
(subordinação ao estrangeiro sem soberania). O autor critica esse projeto ao longo do seu texto.

2 – A segunda vertente é a socialista capitaneada pelo PCB associada a uma estratégia de


progressiva socialização dos meios de produção (socialismo reformista e não revolucionário por
não querer ruptura institucional). Seria priorizado um Estado forte, nacionalista e
intervencionista associado a classes com os mesmos objetivos.

3 – A terceira vertente é o projeto de Vargas com a construção de um capitalismo nacional junto


com um Estado nacionalista, intervencionista, desenvolvimentista, estatista, trabalhista, apoiado
por setores de classe média, operariado, burguesia nacionalista, parte das forças armadas,
intelectuais, etc. Esse projeto já foi detalhado nas páginas anteriores e ele não era avesso ao
capital estrangeiro, mas sim o aceitava sob controle nacional. Por excelência esse projeto é
hegemônico durante a quarta república.

Ianni também diz que o debate político, técnico e econômico sobre o setor petrolífero remonta
à década de 20. Temos um processo de longo prazo que perdura por décadas e se consuma na
vitória do projeto nacionalista que cria a Petrobras. Esse debate tem uma dimensão ideológica
nacionalista assim como dimensão técnica e econômica expressivas. Um passo no sentido de
um resultado nacionalista para a criação da Petrobras foi a criação do Conselho Nacional do
Petróleo em 1938. Sem a Segunda Guerra Mundial essa vitória nacionalista poderia não ocorrer
já que a guerra colocou o petróleo do Brasil em evidência segundo duas vertentes:

1 – Vertente do desabastecimento provocado pela Segunda Guerra Mundial fazendo avançar a


indústria de combustíveis alternativos e todo seu desenvolvimento.

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2 – Vertente da dependência externa. Isso era um problema evidenciado com o


desabastecimento provocado pela Segunda Guerra Mundial. O Brasil dependia de grandes
companhias petrolíferas sendo isso danoso a qualquer integridade ou soberanias nacionais
colocando em cheque o desenvolvimentismo, nacionalismo, etc.

Todo esse debate ganha uma dimensão maior no governo Dutra já que abre-se uma polarização
entre os setores que apoiam e os que se opõem ao projeto nacional para o petróleo. O setor
nacionalista sai vitorioso com o segundo governo de Vargas que vai na contramão da cartilha de
recomendações estrangeiras do grupo misto.

A criação da Petrobras significou o monopólio da prospecção, extração, refino e transporte do


petróleo. Não cobre toda a cadeia produtiva já que o setor comercial também englobava
empresas estrangeiras. Para Ianni o que importa é que a Petrobras tem um significado que
transcende a sua criação já que inicialmente ela não tinha muita expressão. A Petrobras significa
a vitória do projeto nacionalista para o petróleo e a vitória de um projeto capaz de criar as
condições institucionais e técnicas ao desenvolvimento de uma empresa que previa uma série
de requerimentos complexos que não poderiam ser atendidos internamente sem a priorização
do governo. É isso que o autor chama de tecnoestrutura.

24. AULA 24 – GOVERNO CAFÉ FILHO E JK (07/05/2014)

Hoje veremos o período JK que vai de 1956 e 1960 sendo este o terceiro governo da quarta
república se considerarmos o período de Café Filho que compreende o fim do mandato de Getúlio
Vargas. Iremos nos basear no texto de Octávio Ianni e consideraremos textos de outros autores.
Também veremos um pouco do governo de Café Filho que vai de agosto de 1954 até o início de
1956 e nos basearemos no texto de Demóstenes. Veremos o sumário das contribuições desses
autores para o período ressaltando os aspectos importantes. A visão confrontada de Octavio
Ianni com os demais autores encontra divergências já que Sergio Viana não reconhece a
presença de um projeto de desenvolvimento divergente que se contrapõe ao que vigora no
governo JK. Octávio Ianni considera que no governo JK tivemos o predomínio do projeto
capitalista associado a internacionalização da economia brasileira que se opõe ao projeto

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nacionalista que preconizava a cultura da independência da economia brasileira. Esse ponto de


divergência é importante.

O governo JK, ao contrário do segundo governo Vargas, associa o processo de industrialização


à dependência no que ele chama de reconfiguração dos termos da dependência. Esta significa
inclinar a economia brasileira em um processo amplo de internacionalização com forte
dependência externa. Um traço de continuidade importante é o fato de Ianni ver no governo JK
a continuidade do processo de aprofundamento da criação de instituições e mecanismos de
instrumento intervencionistas (regulação no sentido do Estado assumir funções diretamente
quando os campos de investimento são pouco atraentes para o investimento privado). O Estado
se multiplica como regulador possuindo agências e instituições próprias da regulação.

Octavio Ianni ressalta ambiguidades, no governo JK, características da burguesia industrial


brasileira que apoia o processo de crescimento do Estado quando isso atender os seus interesses
acumulativos, ou seja, quando o Estado assume uma postura classista e redistributiva essa
burguesia deixava de apoiar o Estado. Por isso que o movimento é contraditório sendo de defesa
e de crítica segundo as conveniências dessa burguesia. Para Ianni, no governo JK tivemos uma
forte ampliação do setor privado na indústria brasileira para a formação de capital. Houve
excepcionais condições de atração e criação de condições para que houvesse uma elevada
remuneração de capitais externos na economia brasileira. Por isso que o autor considera que
esse movimento de desenvolvimento gerou uma desnacionalização (internacionalização) sem
paralelo histórico na economia brasileira.

Um traço geral do governo de JK para Octavio Ianni é o fato de que há uma combinação entre
estabilidade econômica (preços estáveis), taxas elevadas de crescimento e uma relativa
estabilidade política. Só por meio dessa convergência que foi possível alcançar esses índices de
crescimento tão elevados e outros ainda dizem que a estabilidade política é consequência dos
níveis de crescimento econômico que amortizaram os conflitos internos no Brasil. O Estado teve
uma importante participação nesse crescimento econômico já que o governo priorizou alguns
campos com o plano de metas. Esses campos foram beneficiados com incentivos e mecanismos
de atração poderosos para investimentos privados em infraestrutura, energia, transporte e
indústria de base. Carlos Lessa depois dirá que foram criadas as condições para que se

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alcançasse, sob JK, o último processo da nossa industrialização completando assim a última
parte da pirâmide industrial que passou a ser integrada e verticalizada. Os governos anteriores
a JK contribuíram para esse processo que se culminou em seu governo. Os campos prioritários
de investimento eram aqueles que eram imprescindíveis a continuidade do desenvolvimento
(infraestrutura e indústria de base). Temos o fim da etapa de industrialização restringida e o
início da industrialização pesada, como veremos no texto de Marieta. Tais industrias existiam
antes, mas o caráter da expansão das mesmas se realiza sob o governo de JK.

Para Octavio Ianni, com JK, temos uma plena continuidade (que descontinua com Café Filho) de
uma estreita associação (em bases novas) entre desenvolvimento e planejamento. Os
instrumentos de planejamento continuam de forma mais avançada sob ideologias
desenvolvimentistas. A mudança social avançará nesse período sem nenhuma descontinuidade
sob JK. São amplas e importantes as evidencias de que é impossível entender o governo JK sem
se reportar ao período histórico anterior (em particular o segundo governo Vargas). Qualquer
grande realização no campo econômico ou de infraestrutura durante o governo JK remete a uma
continuidade com os governos anteriores. O modelo econômico que e hegemônico nesse período
histórico (industrialização substitutiva) tem continuidade e persiste sendo hegemônico até o
início da década de 60, independente das mudanças dos projetos de desenvolvimento e da
natureza da política econômica. É impossível entender o governo JK como sendo uma ruptura
ao que existia antes, apesar dos fatores que trazem a esse governo certa dose de
particularidade. Parte da historiografia quer atribuir ao governo JK um caráter revolucionário ou
um poder e capacidade de realização excepcional esvaziando os traços de continuidade. Isso
não é possível de ser feito.

O autor ainda diz que há uma convergência em considerar que o governo JK (e também o de
Café Filho) estava diante de uma encruzilhada histórica. Ianni remete a encruzilhada aos
projetos de desenvolvimento. Havia uma continuidade no processo de desenvolvimento e da
política de industrialização como opções e ambas eram legitimas. As condições da economia
brasileira requeriam uma combinação de medidas que monitorassem as condições gerais que
impedissem o agravamento de problemas estruturais que agravassem o desequilíbrio econômico
e financeiro e também havia a opção de retomar o processo de desenvolvimento. JK escolhe e
prioriza a segunda opção e submete as políticas para o desenvolvimento. Se as políticas
comprometessem as metas desenvolvimentistas do governo, elas ficariam em segundo plano e

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apenas aquelas convergentes com esse projeto eram priorizadas. Essa opção pelo
desenvolvimentismo significará a rejeição das recomendações políticas do FMI. Caso elas fossem
atendidas nos termos postos, haveria um impedimento intransponível das políticas
desenvolvimentistas. Por isso que JK estabelece um equilíbrio entre estabilidade e
desenvolvimento. Ao longo de seu governo se verifica que o governo acionará recorrentemente
politicas restritas que estejam voltadas a estabilização e ao final do governo foi pretendido a
adoção de uma política de estabilização monetária com mais fôlego alinhada as recomendações
do FMI. No geral, o governo não obedece as diretrizes do FMI.

As matrizes do plano de metas (diretriz de governo de JK) eram os resultados do grupo misto
BNDES e CEPAL criado por Getúlio Vargas que pretendia e alcançou um diagnóstico da economia
brasileira junto com uma serie de prescrições sobre o que deveria ser privilegiado para se
alcançar o desenvolvimento. O grupo misto era orientado sobre o processo histórico de
desenvolvimento da América Latina. Essa é a matriz que está na base do Conselho Nacional de
Desenvolvimento que tinha como objetivo promover em uma instancia especifica de governo um
debate com proposição de medidas associadas ao processo de desenvolvimento. Temos dois
documentos sendo um produzido pelo grupo misto, chamado “Análise e Projeções do
Desenvolvimento Econômico” e o outro é o documento produzido pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento, chamado “Diretrizes Gerais do Plano Nacional de Desenvolvimento
Econômico”. O plano de metas tem ambiciosas pretensões pela diversidade e amplitude dos seus
objetivos, mas também pelo alcance sobre o que se definiu como metas e a sua objetividade
para alcançá-las. É feito comparações pelos autores sobre o que era pretendido e o que foi
alcançado. Houve uma forte concentração de metas para expansão da energia elétrica,
rodoviarismo e indústria de bens de consumo duráveis (de produção) com destaque para a
indústria automobilística. O plano de metas também incorpora metas sociais com ênfase menor,
priorizando agricultura, investimentos em educação, etc. Uma meta especifica do plano era a
construção de Brasília e nesse sentido JK foi revolucionário por colocar em prática o projeto do
século XIX de levar a capital do país para o interior do território. A transferência da capital teve
significado imenso para o processo de desenvolvimento e significará, na pratica, a criação de
corredores de desenvolvimento associados a todo esse processo. De modo geral, quando
avaliamos o plano de metas, verificamos duas grandes ausências referentes ao setor primário e
os investimentos sociais. No final do governo JK temos um grande agravamento provocado por
uma série de desequilíbrios que foram acumulados de governos anteriores e que foram
potencializados e agravados no governo de JK. Esses desequilíbrios eram setoriais entre o ritmo

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e o alcance do setor industrial e a lentidão do processo de modernização do campo e também


desequilíbrios regionais pelo fato desse modelo não sofrer intervenções ou tentativas de controle
de centralização de capital no polo nacional (no longo prazo, a concentração de capital ocorre
em São Paulo sem ação governamental para impedir esse processo). Alguns dirão que a
concentração em São Paulo era inevitável e outros dirão que poderia existir políticas que
impedissem esse processo não levando aos desequilíbrios regionais no país. O governo JK já
sabia do agravamento desses problemas derivados de desequilíbrios regionais que levaram a
desequilíbrios sociais. A prova disso foi a criação da SUDENE no nordeste. A renda foi
concentrada e a desigualdade foi ampliada no curso dos desequilíbrios. As grandes cidades
brasileiras permitem que observemos as desigualdades de forma chocante. Se há uma herança
positiva ou virtuosa associada a esse grande crescimento econômico no governo JK, temos uma
herança negativa associada aos desequilíbrios regionais, sociais, inflacionários e do balanço de
pagamentos e todos eles serão herdados pelos governos posteriores. A ausência de metas sociais
e para o setor agrário fará com que o processo de desequilíbrio se agrave e outros autores
complementam dizendo que a política econômica do governo JK que visava atrair capital
estrangeiro contribuiu para a acumulação externa e prejudicou o Brasil internamente já que a
remessa de divisas para o exterior foi alta além de financiamento, subsídios, etc., que vigoraram
nesse período histórico. O texto de Octavio Ianni trata desses problemas e distorções e o texto
dos autores de sua coletânea também falam sobre o assunto considerando os mecanismos de
atração e financiamento durante esse período. O financiamento era o maior problema para a
realização do plano de metas. Dessa forma o governo improvisou pois não sabia como conseguir
recursos para os investimentos. Ele próprio não estabeleceu uma origem desses recursos, sendo
assim, combinou-se diversas fontes para financiar o plano. A política econômica era
tendenciosamente expansionista nos termos monetários. A inflação foi utilizada como
mecanismos de financiamento e favorecimento da acumulação industrial por meio da inflação
de lucros e a presença de poupanças forcadas incidentes sobre os trabalhadores (confisco
salarial). Isso ocorreu de forma genérica. Decisivamente houve a contração de empréstimos
volumosos e a atração de investimentos de capital de risco sem paralelos históricos para esse
momento. Essas entradas de capital serão sempre seletivas, pois não se trata de uma completa
ausência de controle e direcionamento dos capitais para os campos priorizados pelo governo.
Podemos verificar que os mecanismos de atração e estimulo a iniciativa privada são novos pela
sua natureza já que fórmulas novas foram combinadas com antigas juntamente com uma
intensidade ampla. Essas atrações podem ser contempladas se considerarmos que elas
combinaram reserva de mercado (política cambial decisiva), credito público em condições

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excepcionais, política alfandegaria favorável ao direcionamento de capitais para os setores


prioritários e assim temos a convergência de medidas para a ampliação do setor privado nacional
e estrangeiro. Não podemos pensar que essa ampliação foi natural e sem intervenção do
governo. O que se verifica é um forte intervencionismo e uma forte regulação no sentido de
atrair e direcionar recursos para os campos prioritários.

Os resultados do plano de metas tangem a criação de novos setores industriais, modernização


de outros setores industriais e início da conversão do nosso processo de industrialização para o
caráter monopolístico associado ao grande capital estrangeiro e a setores da burguesia nacional.
Para o autor, a reconfiguração da dependência ocorreu pelo fato da mudança do processo de
acumulação de 1930 em diante e a dependência está reconfigurada pois está posta em termos
mais difíceis de serem recuperados dada a dependência de capital e tecnologia estrangeiros e
dependência de recursos administrativos. A internacionalização da economia vem acompanhada
de elevada dependência externa com grande transferência de excedentes para o exterior.
Durante o período do governo JK, as tensões e problemas do nosso caráter de desenvolvimento
se resolverão quando as taxas de crescimento continuam elevadas. Quando elas diminuem os
problemas passam a ganhar peso e importância e uma nova agenda de mudanças foi priorizada
pelos governos posteriores. O modelo então se esgota já que não há como resolver as tensões
e desequilíbrios apenas impulsionando o crescimento e adiando o enfrentamento desses desafios
que estão postos para os governos da década de 60.

Combinando o texto de Ianni e os demais da coletânea, temos os pontos mais importantes


destrinchados acima.

A parte inicial do texto de Octavio Ianni remete a transição política do governo de Vargas para
o de JK. Isso já foi estudado. Na sequência o autor considera de maneira aprofundada a
conjuntura histórica em que se formulou e depois se efetivou o plano de metas. Sem as
tendências do contexto histórico o plano de metas não poderia ser concebido e efetivado. Temos
três aspectos que, para Ianni, permitiram o surgimento do plano de metas e o alcance das metas
para cada um dos setores:

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1 - Quadro interno. Para Ianni, se impunha naquele momento uma nova política econômica que
aprofundava investimentos prioritários em determinados campos para superar obstáculos
estruturais e avançar o processo de industrialização para outros setores. Tratava-se de dar
continuidade a um processo que já estava em curso atendendo os requisitos dessa etapa
histórica sem que isso represente qualquer ruptura com o que tínhamos antes. O plano de metas
seria isso, ou seja, um reconhecimento sobre o que deveria ser priorizado a partir do que se
realizou e do que é preciso ser feito no sentido de continuar com o desenvolvimento e avança-
lo. Para Ianni a política econômica então muda de maneira importante que, além de ser de longo
prazo, fica evidente as relações de “interdependência e complementariedade inerentes à
estrutura econômica brasileira” que estão na base dessas decisões que conduzem à elaboração
e implementação do plano de metas.

2 - Quadro externo. A posição central com o sistema capitalista mundial e as relações mutáveis
entre Brasil e Estados unidos devem ser consideradas. Essas questões mudam a política
econômica brasileira e a inclinam para uma determinada direção. Quando o governo americano
endurece as condições e exigências para manter fluxos de financiamento a partir de grandes
agências voltadas ao desenvolvimento de países subdesenvolvidos, a intenção era reorientar o
fluxo de capitais privados em substituição aos capitais públicos do Brasil. A continuidade do
processo de desenvolvimento deveria agora contar com uma maior presença de capitais
estrangeiros na indústria brasileira completando o movimento de crescente participação de
capital externo na economia brasileira. Esse capital ocupa espaços que não poderiam ser
ocupados pela burguesia nacional dado os requisitos de volume de investimento e requisitos
tecnológicos que vinham do exterior. Por isso que existe uma clara relação entre os resultados
da comissão mista entre Brasil e Estados Unidos, mudança da política externa para o Brasil e o
caráter do plano de metas. Se trata então de entendermos as opções feitas pelo governo que
estavam alinhadas com os interesses imperialistas dos Estados Unidos. “A doutrina Truman faz
parte do movimento histórico que produz a comissão mista entre Brasil e Estados unidos e o
plano de metas”. Entre esses movimentos era necessário haver uma articulação para
compreendê-los.

3 - Consolidação das experiências de gestação e implantação de políticas econômicas


planificadas. Sem planejamento não haveria plano de metas e a coordenação de políticas
desenvolvimentistas. O autor diz que o planejamento começou na década de 30 e que foi

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crescendo em complexidade técnica e em alcance do instrumental do planejamento na gestão


de governo. Para Ianni esse aspecto deve ser contemplado de uma forma histórica no sentido
de ver as experiências postas no campo do planejamento, independente do seu resultado, como
um movimento histórico único que leva a consolidação do debate técnico sobre aspectos
possíveis de planejamento e a sua definitiva incorporação no setor público associado as grandes
questões nacionais. Não se discute nesse período histórico o desenvolvimento, industrialização,
economia nacional, emancipação econômica sem se falar em planejamento. As crescentes
politizações de inserção de amplos setores sociais no debate sobre as grandes questões nacionais
terão necessariamente a presença do planejamento. Temos a transição da era dos engenheiros
para a era dos economistas que possibilitou um acréscimo significativo em termos técnicos sobre
os recursos de planejamento. Para Octavio Ianni, a associação entre planejamento e
desenvolvimento econômico é obrigatória e indissociável já que não falamos em
desenvolvimento sem remeter ao planejamento. Temos uma mudança importante para o autor
que é a crescente difusão da concepção da neutralidade técnica do planejamento, o que ele
chama de despolitização do debate sobre o planejamento. O planejamento nesse período
histórico é indissociável das teses da CEPAL e dos termos históricos predominantes. Os Estados
Unidos que eram reticentes a se opor a presença do planejamento como um poderoso
instrumento de superação do subdesenvolvimento passam a entender que o planejamento era
fundamental nesse processo. Para Ianni havia crescentes contradições dentro de países centrais
que precisavam ser resolvidas e o planejamento criaria condições favoráveis a aceleração do
processo de desenvolvimento que poderia levar a transformações sociais por meios
revolucionários e isso ocasionava preocupação.

Existem discussões em outros textos da coletânea sobre o quadro de crescente ampliação dos
fluxos de capital estrangeiro na década de 50 (liberalização). Para Ianni não há dúvida que a
abertura do capital estrangeiro no governo JK (elevada liberalização) começa com Café Filho
com a exclusão 113 da SUMOC de 1955 sendo uma ruptura com aquele tratamento que Vargas
dava ao capital estrangeiro (contingenciamento, limitações a remessa de lucros e colocar o
capital estrangeiro a serviço do processo de desenvolvimento). Os autores da coletânea pensam
que a liberalização não começa com Café Filho, mas ainda sim com Vargas em 1954 e a partir
daí foi sendo ampliada com Café Filho e JK. Essa discussão coloca em divergência os autores da
coletânea e Ianni já que para os primeiros não existe mudança entre Vargas e JK.

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A reforma cambial de 1957 ocorreu pela lei 3244 em meados do governo JK que tem como
objetivo maior acelerar o processo de substituição de importações em determinados setores e
ramos industriais (em particular bens de capital). Se as reformas anteriores priorizaram outros
setores, essa prioriza a substituição de importações em bens de capital sendo ela “coerente com
o estágio alcançado pelo processo de substituição da industrialização”. A diferença para a
reforma cambial de 1953 e que a de 1957 simplifica o sistema de taxas múltiplas que vigorava
desde 1953 e introduz mecanismos específicos de proteção a ramos industriais. Ela restringe o
emprego de receitas auferidas pelo governo com as operações cambiais simplificando o sistema
de categorias e introduz a mais importante reforma instrumental da política cambial do Brasil
que foi a criação de tarifas em que o que importa, por meio do Conselho de Política Aduaneira,
é que o governo passa de forma sistemática a promover a substituição de importações alterando
as alíquotas segundo o estágio do processo de substituição. Setores já estabelecidos terão tarifas
elevadas. Setores em processo de estabelecimento terão tarifas intermediárias. Setores não
estabelecidos terão tarifas baixas. À medida que o setor vai se desenvolvendo as tarifas vão
sendo elevadas. Além da reforma cambial de 1957 temos pequenas mudanças no comércio
exterior e no câmbio por meio de exclusões específicas da SUMOC entre 1959 e 1969 sendo tais
exclusões periféricas.

Falaremos agora sobre o governo de Café Filho e o texto de referência e o de Demostenes Neto
que tem o título “O Interregno Café Filho”. O próprio autor diz que o governo Café Filho não se
confunde com os governos anteriores e posteriores. A UDN chega ao poder com Café Filho sendo
este partido o mais influente durante a quarta república com a presença de partidários
importantes. A UDN chega ao poder e tenta não deixa-lo e ao perder as eleições seguintes o
partido tenta dar um golpe político que não foi viabilizado devido ao contragolpe realizado pelo
general Lott que empossa JK no governo. Demostenes salienta que o período de Café Filho não
pode ser compreendido como um período homogêneo já que, se dividirmos o seu governo em
duas tendências claras e divergentes para o autor, teríamos um primeiro momento com a
presença de Eugenio no ministério da fazenda de agosto de 1954 e março de 1955 que instaurou
uma gestão que priorizava a estabilidade e uma política econômica ortodoxa e uma segunda
gestão que começa em abril de 1955 a setembro de 1955 em que preside no ministério da
fazenda José Maria que não prioriza a estabilidade, mas sim a correção do que se entendeu
como sendo um desequilíbrio que promovia ônus no setor agrícola para favorecer o setor
industrial por meio do confisco cambial que mais ou menos vigora desde a década de 30. Temos

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duas tendências divergentes sobre a política econômica de Café Filho em que uma prioriza a
estabilidade e outra promovia a correção de desequilíbrios.

Eugênio era o mais importante crítico das políticas desenvolvimentistas que predominavam
nesse período histórico. Ele priorizava a orientação ortodoxa combatendo a inflação e uma série
de desequilíbrios estruturais (déficit fiscal e déficit público). A sua ascensão é festejada pela
comunidade financeira internacional já que ele estava alinhado às exigências do FMI. A sua
gestão foi favorecida por um acolhimento externo favorável.

O autor enfatiza a mudança da política americana para a América Latina que priorizava criar
condições para a ampliação do fluxo de capitais privados sobre o país. Eugenio então tinha uma
política econômica ortodoxa e alcançou êxito com os Estados Unidos. Apesar disso havia setores
conservadores que queriam mudanças da política econômica para priorizar o confisco cambial e
isso leva a substituição de Eugenio por José Maria em abril de 1955. Essa foi uma mudança que
se traduziu em uma mudança clara da política econômica que não a tornou homogênea durante
o governo Café Filho. José Maria foi um contundente crítico do regime de taxas múltiplas de
taxas de câmbio estabelecido pela exclusão 70 da SUMOC. Ele era um intransigente defensor
dos interesses da lavoura tendo como meta acabar com o confisco cambial colocando o problema
inflacionário e da estabilidade em segundo plano.

A medida de maior folego só viria com uma reforma cambial e ela começa a ser elaborada pelo
economista Roberto Campos em conjunto com o FMI. Ela seria implementada se as condições
políticas e econômicas fossem favoráveis, mas elas não eram e o congresso não aprova a
reforma. O que importa é que a rejeição da reforma cambial significa a derrota de um projeto
de desenvolvimento ou de uma determinada visão do processo de desenvolvimento econômico,
ou seja, temos visões distintas em confronto. É o único momento, em todos os textos estudados,
que explica claramente a discussão sobre política econômica. Ao assumir isso o autor reconhece
que existe uma outra visão ou projeto de desenvolvimento que preconiza uma outra orientação
para a política econômica, ainda que o autor esteja alinhado com o fato de não existir uma
política econômica nacionalista.

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Alguns índices mostram a efetividade da política econômica de Café Filho em relação a Vargas
em que o setor primário é priorizado. Com Café Filho temos políticas econômicas antagônicas.
Com Eugenio tivemos uma prioridade de ajustes internos através de uma política monetária
contracionista e com José Maria tivemos uma prioridade na eliminação do confisco com uma
ortodoxa reforma cambial que na prática não irá se efetivar.

O período Café Filho não foi homogêneo e teve períodos distintos. Não houve nesse governo um
ponto de inflexão em termos econômicos.

25. AULA 25 – GOVERNOS JÂNIO QUADROS E JOÃO GOULART (12/05/2014)

Hoje veremos os últimos governos da quarta república do início da década de 1960: Jânio
Quadros e João Goulart. Estamos no sexto capítulo do livro de Octávio Ianni que tem o título de
“Crise Econômica e Instabilidade Institucional”. O autor então já coloca no título a conjuntura
que prevalecerá nesse período. A interpenetração das crises política e econômica será decisiva
para a própria condução da política econômica do período. Marcelo de Paiva Abreu também adota
essa linha de pensamento. Abordaremos primeiro o texto de Octavio Ianni e posteriormente o
texto de Marcelo de Paiva Abreu.

O sexto capítulo do texto de Octavio Ianni apresenta uma clara linha de continuidade com relação
ao que foi desenvolvido nos capítulos anteriores. Os eixos de análises do autor são os mesmos
e ele não introduz nenhum outro que auxilie a compreensão do período em um processo histórico
mais amplo. Esses eixos encontram especificidade histórica e maturação. O golpe de 64 coloca
fim a homogeneidade da quarta republica dando início a um outro período com características
próprias, ainda que é possível identificar alguns eixos históricos de longo prazo que transbordam
a quarta republica e incidem sobre o período seguinte, não só em aspectos associados a uma
dimensão conjuntural como o problema da crise econômica do final da quarta republica e que
só será vencida com a abertura de um novo ciclo de crescimento na segunda metade da década
60. Esse é o processo de longo prazo mais duradouro que vincula os dois períodos no que se
refere a esfera econômica.

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Para Ianni, o final da quarta republica se caracteriza por uma exacerbação de uma série de
conflitos anteriores, em especial o esgotamento do modelo industrialização substitutiva e a
inevitável necessidade de contemplar uma serie de contradições e desequilíbrios que foram
produzidos ao longo do tempo e que, com a quebra do ciclo de crescimento no governo JK, irão
se exacerbar e se tornar mais graves, posto que as taxas de crescimento elevado atenuavam os
efeitos dessas contradições. Isso leva o autor e os demais autores a afirmarem mais de uma vez
que a agenda imposta para os governos da década de 60 era uma agenda nova. Nesse sentido
há descontinuidade já que não é mais possível se estabelecer continuidades econômicas
associadas aquele modelo que se esgota aqui. Nesse sentido temos mais descontinuidades dado
o esgotamento do crescimento nas bases que vigoravam desde a década de 30 e os governos
precisavam pensar em um outro modelo econômico que contemplaria essas contradições novas.
A política econômica dos governos do início da década de 60 irá refletir os dilemas básicos
(contradições produzidas nos últimos 30 anos). Isso que explica um certo caráter comum a
política econômica dos dois governos da década de 60, para além das suas variações especificas.
Elas não apresentavam diretrizes seguras e definitivas, mas eram ambivalentes, indefinidas e
cheias de hesitação. A razão dessas hesitações e mais experiências se referem a crise política e
econômica. Marcelo de Paiva Abreu considera que é possível isolar a política econômica dos
fatores de desestabilização originários da crise política e institucional do início da década de 60.
Temos um aspecto geral dos dois governos e comum a eles, independente de todas as mudanças
políticas e do ramo institucional.

As evidencias e os fatores que colocam em destaque o caráter de crise econômica no início da


década de 60 são objetivos e não são impressionistas, particularistas. São fatos da realidade
reconhecidos de forma generalizada:

1 - Redução do nível de investimento. A entrada de capital estrangeiro declina de forma


acentuada assim como as taxas de lucro.

2 - Alto processo inflacionário. A inflação vigorou durante todo o processo de industrialização


substitutiva e se torna gravíssima no início da década de 60. Essa inflação tinha inúmeras
explicações segundo um entendimento global do quadro econômico no início da década de 60.
A inflação perde a funcionalidade para o processo de acumulação já que antes era criava

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poupanças monetárias forcadas através do confisco salarial. Ela agora se converte em inflação
de custos sendo um problema para os setores produtivos.

Esses dois motivos são responsáveis pela manifestação de crise econômica no início da década
de 60.

Para Octavio Ianni, a formulação e a implementação de um novo modelo econômico enfrentarão


uma série de obstáculos no início da década de 60, sendo eles conjunturais associados a cada
um dos dois governos e alguns fatores mais amplos que perpassam os dois períodos
governamentais

O primeiro desses obstáculos e o fato de que a elaboração de uma nova política econômica e a
sua legitimação para que ela pudesse vigorar se inscreveria no campo de uma decisão política
não sendo resumida por uma opção técnica. Isso e um fato universal. Apenas uma compreensão
equivocada sobre o que vem a ser a econômica e a política econômica nos faz pensar que ambas
sejam informadas apenas por razões técnicas. Quem afirma isso está querendo ludibriar ou
forjar uma compreensão dessas relações como se elas fossem imunes as contaminações e
injunções que em última análise serão políticas. Esse fato universal que está na base de qualquer
decisão de política econômica é importante para entender os obstáculos já que o quadro político
da década de 60 era muito delicado e a beira da ruptura. Tanto mais temos um quadro dessa
natureza, mais as decisões de política econômica estarão inteiramente sujeitas a essas
injunções. Octavio Ianni lembra que estavam postas em disputa duas tendências ou orientações
em confronto no início da década de 60:

1 – Favorecimento da expansão do capitalismo nacional.

2 – Aceleramento da internacionalização.

O modelo de política econômica é uma decisão política. Em um quadro de problemas políticos e


disputa entre dois modelos cria-se um cenário de instabilidade. Para o autor esse quadro político

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econômico será revelador de ambivalências dos governos do período já que as contradições da


herança do governo JK estabeleceram a impossibilidade de conciliação desses dois modelos
(ideologia nacionalista e capitalismo internacional e ideologia nacionalista e capitalismo
independente).

Outro obstáculo era a exacerbação das contradições que se viram ampliadas no processo de
mudança social e divisão social do trabalho em curso desde a década de 30. Essas contradições
já não eram mais referidas nos espaços urbanos. Existia uma situação de exacerbação dessas
contradições e de resposta a ela pelos setores sociais no campo e que irão avançar a formas
novas e formas cada vez mais politizadas e de maior mobilização no sentido de fazer que os
movimentos sociais e políticos no campo reivindiquem a correção desses desequilíbrios.

Para Ianni, atender as necessidades e os desafios postos na elaboração dessa nova agenda
política não será uma tarefa histórica fácil e, na pratica, sabemos que todas as formulas ou
caminhos que se buscaram para superar o quadro de crise fracassaram. O fracasso definitivo
vem com o golpe de 64. Octavio Ianni identifica essas políticas econômicas como se elas
refletissem esses conflitos colocando em evidência alguns impedimentos de caráter estrutural
quanto a impossibilidade de vencer os desafios nos marcos da institucionalidade da quarta
república. Assim podemos afirmar que não havia outra alternativa senão optar por um dos dois
caminhos postos naquela altura que seriam a reforma ou a revolução. Isso seria entender que
o enfrentamento dessa crise pressupunha reformar a institucionalidade da quarta república para
vencer as contradições ou então romper com essa ordem pela revolução ou golpe. A rigor, se
avaliarmos as duas décadas seguintes ao golpe verificaremos que todos os desequilíbrios postos
no início da década de 60 se preservaram e se ampliaram. Talvez o único fator que foi atenuado
era o desequilíbrio setorial já que teremos a modernização dinâmica do campo após 1964. Os
outros desequilíbrios serão preservados e aprofundados, principalmente os regionais e sociais.

A política econômica de 1961 a 1964 é marcada por flutuações e ambiguidades juntamente com
a ausência de um sistema de diretrizes coerentes. Em outros termos é a dificuldade de uma
linha de ação que pudesse contemplar esses desafios e problemas. Em uma análise de
conjuntura temos essa instabilidade em que uma diretriz anula a outra gerando incapacidade de
resolver os problemas fazendo com que o período assuma essa característica.

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Ianni diz que a crise política da década de 60 se manifesta de várias formas tendo aspectos
integrados com um fundo comum se originando de um grande processo comum que abarca
todos os outros. Um dos fundamentos dessa crise política é um processo que está em curso
durante toda a quarta republica com ritmo variado no tempo no seu curso ou fluxo. Ele não
descontinua em nenhum governo e seria a crescente polarização política e ideológica e de
confronto de setores politizados da sociedade com tendências a radicalização. Temos um
esvaziamento dos setores de centro que asseguravam o equilíbrio e uma certa convivência no
período dos partidos políticos. No interior dos próprios partidos os setores de centro se esvaziam
e crescem os setores que refletem a polarização. Na prática, politização, mobilização,
movimentos sociais envolvendo vários setores sociais ganham projeção em torno de 3 fatores:

1 - Crise política decorrente do golpe frustrado de Jânio Quadros e toda a mobilização política
que se segue. A renúncia de Jânio acentuou os conflitos já que tentou-se impedir a posse de
João Goulart. A solução casuística do parlamentarismo representa o compromisso possível
naquela altura para resolver o problema. Para Ianni, a renúncia de Jânio fez com que os setores
conservadores se mobilizassem por entender que João Goulart representaria um imenso perigo
por aprofundar um projeto contrário aos interesses dos conversadores. Impedir a sua posse
legitimaria a tendência desses setores golpistas de acabar com a ordem democrática
constitucional. Com a saída de Jânio Quadros essa possibilidade passou a vigorar. O
parlamentarismo adiaria esse confronto desses setores com o governo. Temos uma acomodação
política aparente com o parlamentarismo já que a solução política viria com o golpe de 64.

2 - Problema inflacionário e reivindicação de reajuste salariais que corrigissem as perdas


acumuladas em um quadro político favorável e estimulado por João Goulart de manutenção mais
ou menos permanente de mobilização, reivindicação e greves no setor público que, se
aparentemente se constituem um instrumento de reivindicação coorporativa, salarial,
conjuntural, a ele está agregado um interesse de mobilização em benefício de algo mais amplo
do que o atendimento de reivindicações especificas. O que se pretendia era a reforma política.

3 – O terceiro fator se resume às reformas de base que abrangeriam grandes setores sociais,
inclusive com reformas que são específicas a certos setores e algumas até dissociadas dos
setores politizados e radicalizados. É o caso da reforma agrária. O espectro das reformas de

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base era muito amplo (reforma urbana, tributária, fiscal, universitária, judiciária, etc.). Todos
esses setores sabiam que a constituição de 1946 não suportaria ou não seria a base adequada
para atender as necessidades históricas postas no início da década de 60 (resolução de
contradições e desequilíbrios que estão na base da crise política e econômica do início da
década). Todos esses fatores convergem para os pontos de estrangulamento mencionados pelo
autor. Ianni fala das reformas e salienta que elas precisam recompor o sistema político
econômico.

Um dos antagonismos no interior da sociedade brasileira na década de 60 e associado a


modernização política é aquilo que Ianni coloca em evidência em seu texto: antagonismo entre
executivo e legislativo sendo a expressão dos limites da democracia da época. O autor sempre
faz referência a essa democracia representativa colocando-a em meio a limitações e contradições
que precisavam ser resolvidas para que ela assumisse um caráter mais amplo. Octávio Ianni
ressalta a contradição insustentável de que o legislativo era majoritariamente ocupado por
representantes de um mundo que perde a sua predominância (mundo agrário associado a
atividades que perdem a condição de constituírem o núcleo dinâmico da economia) e tudo
associado a ele. Então essa contradição ultrapassa a questão política e evidencia a falta de
compatibilidade com as mudanças em curso que transferem o centro dinâmico da economia
brasileira para os centros urbanos. Temos então um esvaziamento das relações e estruturas
socioculturais produzidas pela economia agroexportadora. A contradição maior em relação ao
mundo agrário está no fato de que suas estruturas de poder e dominação persistiram inalteradas
ao longo do tempo sendo o fator de maior resistência às mudanças (concentração da terra
principalmente). A maior contradição do nosso processo de modernização econômica foi a não
realização da reforma agrária independente do seu alcance ou seu caráter. Temos uma
concentração fundiária enorme que dificultava o acesso à terra. A representação no legislativo
estava associada a esse mundo agrário.

O poder executivo estava fortemente influenciado pelos interesses e valores ligados à sociedade
urbano-industrial. Isso significa dizer que as bases econômicas e sociais desse executivo são
diferentes daquelas do legislativo. Quanto as projeções e expectativas, os setores do executivo
priorizavam a industrialização substitutiva. Esse confronto entre legislativo e executivo não era
secundário no período. Se observarmos certos movimentos políticos ao longo desses dois
governos da quarta república, percebemos um movimento comum no sentido de esvaziar as

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prerrogativas do legislativo e ampliar as do executivo dando a ele mais autonomia para resolver
problemas e conflitos de curto e longo prazos que encontravam uma resistência intransponível
no legislativo. O fundo dessa resistência para o autor era a sua composição, sua origem,
representação de interesses de classes divergentes. Não é uma questão menor, mas sim uma
questão de fundo para o autor. Ele mesmo diz que o divórcio entre legislativo e executivo
alimenta e desenvolve a crise política e econômica. Marcelo de Paiva Abreu não menciona essa
discussão em seu texto.

O quadro econômico herdado pelo governo Jânio Quadros em relação ao governo anterior era
de:

1 - Crescente influência e importância do poder público no conjunto do sistema econômico


nacional.

2 – Agravamento dos desequilíbrios econômicos setoriais e regionais.

3 – Ineficácia de administração pública. Era necessário adequar o Estado moderno às novas


exigências postas ao estágio de desenvolvimento atual principalmente no que se refere na
resolução das contradições e desequilíbrios. Nesse sentido temos a criação de uma série de
instituições voltadas para o desenvolvimento regional ou macrorregional, além de instituições
de financiamento de políticas voltadas para certas regiões com vistas a enfrentar os
desequilíbrios ainda que tenham sido capturadas pelas elites e sendo convertidas em agências
que preservavam o poder político de certos grupos e seus privilégios.

4 – Necessidade e urgência de renegociar a dívida externa. A renegociação foi até exitosa no


governo de Jânio Quadros e muito pouco exitosas com João Goulart. Todo o êxito se dava pela
conjuntura da economia da época. As negociações se davam com os Estados Unidos que era o
maior credor brasileiro.

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5 – Agravamento do processo inflacionário que explica porque a estabilidade econômica e


financeira não mais poderia ser colocada em segundo plano precisando ser conjugada com
políticas que privilegiassem o desenvolvimento.

6 – Necessidade de propor e executar um programa de investimentos públicos. Esse ponto está


associado a investimentos que atendam não só o desenvolvimento e crescimento industrial, mas
também visavam corrigir os desequilíbrios observados.

7 – Fomentar uma política de incentivo a empresa privada, principalmente pequena e média. A


industrialização sobre JK era concentradora e centralizadora sendo monopolista agravando uma
série de problemas referentes a setores da economia brasileira que serão os que mais sofrerão
com a crise da década de 60. Essa crise levará a uma insolvência generalizada de pequenas e
médias empresas por montar um modelo, na década de 50, de indústria e crescimento que
favorece o processo de concentração que, em períodos de crise, serão favoráveis ao grande
capital.

A política econômica de Jânio Quadros é caracterizada pelo improviso e pragmatismo. Mais à


frente o autor associa esses dois aspectos ao curto tempo do governo Jânio Quadros e à ausência
de êxitos e péssimos resultados nas tentativas de estabilização no seu governo, ainda que a
conjuntura econômica da época fosse positiva.

A reforma cambial e financeira foi a mais importante do governo de Jânio. Exclusões as SUMOC
(204, 205, 206) visavam realizar a reforma combinando uma resposta aos problemas imediatos
refletindo uma mudança de fundo ampla que era a clara sinalização do esgotamento de uma
política econômica que vigorou de forma mais ou menos constante desde a década de 30. Se
temos um traço comum ao regime cambial que vigorou nas décadas anteriores é justamente o
fato de ele favorecer certas importações seletivas, prioritárias ao processo de desenvolvimento
e industrialização desestimulando e onerando o setor agroexportador por meio do confisco
cambial. Com Jânio Quadros temos a retomada da mesma orientação que prevaleceu sobre o
segundo ministério da fazenda do período de Café Filho que combina estabilidade e ortodoxia de
política econômica, mas que no campo cambial tem uma inclinação de reverter o quadro que
vigorou anteriormente. Isso põe fim as orientações da reforma cambial proposta pela exclusão

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70 da SUMOC. Isso significa o fim da política de subsídio prestado pela agricultura para a
industrialização. Coube à política cambial e financeira estabelecer, ao menos em parte, os
interesses do setor agroexportador.

A política externa era independente com a tentativa do Brasil em assumir uma postura
independente no que se refere ao quadro de conflito de políticas e ideológias na Guerra Fria e
ao êxito da Revolução Cubana.

Para Ianni, o golpe frustrado de Jânio Quadros produz no campo político e econômico, para João
Goulart, algumas evidências. Uma delas é a impossibilidade de combinar estabilidade financeira
e desenvolvimento econômico. Seja nos gabinetes parlamentaristas e seja no governo de João
Goulart, esse objetivo nunca alcançado vigorará por ser inconciliável devido à tentativa de
combinar compromissos financeiros externos e concessões ao setor primário exportador ou
combinar política inflacionária e intenção de retomada de desenvolvimento econômico e, para
além atender a exigências da democracia. Para Ianni, como a ordem institucional estava posta,
não seria possível combinar e atender todas essas propostas. Para o autor temos então uma
repetição da contradição entre as tendências da sociedade nacional e as tendências da economia
dependente. Os termos não eram conciliáveis pois a situação era de dependência econômica.
Apenas com reformas e rompimento da dependência as ações teriam êxitos.

Para Ianni o governo de Jango só verá o agravamento dos problemas políticos e econômicos. Se
já há um quadro herdado de crise política e econômica do governo Jânio Quadros juntamente
com a herança do governo JK, o governo João Goulart só verá o agravamento de todos os
problemas anteriores. Para Octávio Ianni existe uma continuidade importante no interesse e na
participação de amplos setores sociais em refletir, debater e propor medidas associadas ao que
o autor chama de contradições e limites do modelo de industrialização brasileira. Aqueles
projetos que de alguma forma contemplariam os desafios e proporiam a formulação de um
modelo que acolhesse os desafios e contradições no sentido de resolve-los refletem essa
tendência de maior reflexão e debate. Não se trata de uma sociedade passiva diante desses
problemas. Ela respondia e se mobilizava diante dessas discussões e defendia projetos.

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O autor apresenta alguns dados que espelham o quadro econômico do período. A taxa do
crescimento do PIB de 1961 a 1964 declina progressivamente. Temos um claro movimento
descendente do PIB e uma crescente inflação em termos anuais (movimento espiral). A taxa de
crescimento per capta também evidencia a quebra do processo de crescimento econômico.

Para além, o governo de João Goulart, na sua fase presidencialista, elaborou um plano altamente
avançado na busca da coordenação das ações de governo em investimentos e medidas. O plano
trienal elaborado por Celso Furtado (ministro do planejamento) se insere nesse contexto. A
incorporação crescente do planejamento era um instrumental decisivo e central nesse período.
O autor então diz que o plano trienal seria um estágio avançado dessa ideologia de planejamento
nas ações públicas. Esse plano seria o primeiro instrumento de política econômica global e
globalizante entre todos formulados até então. Em termos técnicos e em termos de conceituação
e estrutura, o plano trienal estava mais à frente em relação as tentativas anteriores além de
inovar no sentido de ser uma iniciativa vinda do âmbito do poder público não sendo terceirizado
ou apoiado em dados de fora da esfera pública. O plano trienal será, por excelência, o documento
mais importante em captar os desequilíbrios, estrangulamentos e perspectivas da economia
brasileira. Como diagnóstico o plano trienal não errou e contém uma variação correta da
realidade que foi muito diferente da sua implementação e efetivação, dada as condições
presentes em todas as esferas. O autor vê nesse plano e na sua caracterização formal e
instrumental a convergência das experiências práticas dos diversos governos anteriores. Esse
fio condutor é colocado em evidência no texto. Temos uma convergência de debates técnicos e
teóri