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SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO

BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRATICA
SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO
BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRATICA

Copyright © 2009
José Roberto de Oliveira Chagas

CHAGAS, José Roberto de Oliveira Noções de Homilética - Análise Crítica, Histórica e Teológica da
Pregação Cristã (Série CRESCER: Programa de Capacitação Bíblica-Teológica-Prática - Vol. 7)/ José
Roberto de Oliveira Chagas. Campo Grande (MS): Gênesis, 2009 índices para catálogo sistemático:
l.Pregação Bíblica: Cristianismo - CDD 251

Responsável pelo projeto editorial/gráfico/capa:


Egnaldo Martins dos Santos egna78@hotmail.com
Revisão de Arquivos: Mota Júnior
motajunior7@gmail. com Editor: Márcio Alves Figueiredo ' impressão:
Fevereiro de 2009 - Quantidade: 1.000 exemplares 2" impressão: Maio
2009 - Quantidade: 1.000 exemplares 3* impressão: Agosto 2009 -
Quantidade: 1.000 exemplares

IDEALIZAÇÃO E REALIZAÇÃO DO PROJETO:


EDITORAS MUNDIAL, KENOSIS E GÊNESIS
Contato: Gênesis Editora -Rua: Albert Sabin, 721,
Taveirópolis - Campo Grande/MS -FONE: 67
3331-8493/3027-2797
www.genesiseditora.com.br

DEDICATÓRIA:
A cada profissional/consultor de venda da Mundial Editora e Gênesis Editora, que faz seu trabalho com
empenho, prazer e dedicação, que está ciente de que não apenas vende livro, mas, sim, espalha saber, fomenta
a educação, ajuda o povo brasileiro a realizar sonhos:

"Oh! Bendito o que semeia Livros... livros à


mão-cheia... E manda o povo pensar! O livro caindo
nalma É gérmen - que faz a palma, E chuva - que faz
o mar" (Castro Alves)

Contato com o IBAC: Fone: (67) 3028.1788/9982.3881: IBAC - Instituto


Bíblico-Teológico Aliança Cristã (A.B.K. Associação Beneficente Kenosis) Rua:
Praça Cuiabá, na 111, Bairro: Amambaí -Campo Grande - Mato Grosso do Sul -
CEP: 79.008-281

E-mail: chagas.ibac@gmail.com
SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO
BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRATICA

INFORMAÇÕES GERAIS:

Diretrizes do IBA C - Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã -, entidade


vinculada a Associação Beneficente Kenosis, concernente a Série CRESCER -
Programa de Capacitação Bíblica-Teológica-Prática:
•Caráter (Objetivo e Reconhecimento do Curso).
• Matriz Disciplinar (Durabilidade do Curso).
•Metodologia (Ensino à Distância).
•Avaliação (Critérios Teóricos e Avaliativos).
•Conclusão e Certificação (Regras Gerais).

/ . Caráter (Objetivo e Reconhecimento do Curso).


A Série CRESCER - Programa de Capacitação Bíblica- Teológica-Prática -,
oferecida em parceria com instituições sérias que interessam pela construção e
socialização da Teologia, é de caráter informativo, mo formativo. Desde que a
Teologia tornou-se curso superior o M.E.C, formulou regras para
reconhecê-lo. A entidade que oferece o curso Bacharel em Teologia deve ser
credenciada pelo M.E.C., ter carga curricular e horária de acordo com a
portaria definida, cumprir periodização e créditos, exigir escolaridade mínima
dos interessados (ensino médio completo), corpo docente especializado, etc.
Também não há mais Curso Básico ou Médio em Teologia. Nossa instituição,
cristã e idônea, não tem a intenção de ludibriar o povo de Deus. Ratificamos,
assim, que o nosso programa não oferece vantagens acadêmicas. Nosso alvo é auxiliar a
Igreja Brasileira a se aperfeiçoar para servir a Deus e ao próximo.
Tão-somente.

2. Matriz Disciplinar (Durabilidade do Curso).


A matriz disciplinar da Série CRESCER, que visa aprimorar a comunidade
de fé no âmbito bíblico-teológico-prático, é composta de 10 (dez) opúsculos,
cada um com disciplina específica. 0/a aluno/a deverá estudar
sistematicamente as disciplinas conforme a proposta pedagógica da Direção
do IBAC - Instituto BMico-Teológico Aliança Cristã. O corpo discente terá até
12 (doze) meses após a aquisição do curso para finalizá-lo e, se quiser, solicitar
seu certificado.
*Veja no final das diretrizes a matriz disciplinar.

3. Metodologia (Ensino à Distância).


A metodologia didática empregada neste programa está fundamentada no
modelo de ensino à distância, doravante, a Diretoria do IBAC - Instituto
BMico-Teológico Aliança Cristã - recomenda ao corpo discente que estude
cada disciplina regular e sistematicamente, com zelo e dedicação, tendo em
vista que a sua capacitação bíblica-teológica-prática dependerá única e
exclusivamente do seu próprio esforço. Cabe, então, a cada aluno/a
comprometer-se rigorosamente com o próprio crescimento e esmerar-se nos
estudos das disciplinas.
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4. Avaliação (Critérios Teóricos e Avaliativos).


O/a aluno/a deverá estudar o livro, conforme o conteúdo programático,
responder as questões teóricas e avaliativas impressas no final de cada
opúsculo (ou, se preferir, tirar xerox ou fazer download no site da Gênesis
Editora), guardá-las em local seguro e, no final, se desejar receber o
certificado, enviá-las ao IBAC -Instituto Bíblico-Teológico Aliança Cristã -,
para correção, atribuição de notas e, estando de acordo com as normas da
entidade, autorizar sua confecção e postagem. A Gênesis Editora, parceira
exclusiva neste projeto, fará contato com os/as alunos/ as para averiguar o
interesse pelo certificado e as normas para recebê-lo.

5. Conclusão e Certificação (Regras Gerais).


O/a aluno/a que concluir as 10 disciplinas do módulo e atingir pelo menos
a nota média (6.0) poderá, se desejar, receber seu certificado de conclusão. O
mesmo não é obrigatório. Mas, caso queira-o, é mister efetuar o pagamento de R$
50,00 (taxa única); tal valor será aplicado para sanar gastos com assessoria de
contato, corpo docente (acompanhamento e revisão de provas), confecção e
postagem do certificado e despesas afins. O prazo para solicitá-lo é de até 1 2
(doze) meses após a compra do kit. A liberação em tempo menor ocorrerá se
o/a aluno/a tiver quitado o produto junto à editora e enviado as provas ao
IBAC.

*Matriz Disciplinar do Programa de Capacitação BMica-Teológica-Prática


1 . Noções de Prolegômenos - Análise Introdutória à Relevância, Natureza e
Tarefa da Teologia.
2. Noções de Teologia - Análise Bíblica e Teológica da Pessoa e Obra do
Deus Único e Verdadeiro.
3. Noções de Cristologia - Análise Bíblica e Teológica da Pessoa e Obra de
Jesus Cristo.
4. Noções de Paracletologia - Análise Bíblica e Teológica da Pessoa e Obra
do Espírito Santo.
5. Noções de Hermenêutica - Análise Crítica, Histórica e Teológica da
Interpretação Bíblica.
6. Noções de Liderança Cristã - Análise Bíblica da Filosofia Ministerial de
Liderança Cristã.
7. Noções de Homilética - Análise Crítica, Histórica e Teológica da
Pregação Cristã.
8. Noções de Gestão Ministerial - Como Fazer Projeto Eficiente e Eficaz
Para Gerar Receita.
9. Noções de História da Igreja Cristã - Análise Histórica, Bíblica e Te-
ológica da Eklesia (Primitiva e Medieval).
10.Noções de Teologia Econômica: Mordomia Cristã - Análise Bíblica e
Teológica dos Princípios da Contribuição Cristã (1).

*A Diretoria do IBAC pode, se julgar necessário, alterar agrade curricular em kits futuros.
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PRIMEIRA PARTE: PREGAÇÃO - E


PREGADORES - EM CRISE!

reludiarei esta disciplina de introdução àHomilética


compartilhando algumas histórias interessantes (e talvez cômicas) a respeito
de pregadores e suas pregações. Poderia evidentemente empregar outro estilo
de abordagem prefaciai. Acredito, todavia, que esta também será
indispensável.
Uma vez um clérigo anglicano preguiçoso. Há muito abandonara o trabalho
de preparar seus sermões. Bastante inteligente e excelente orador por
natureza, sua congregação consistia em pessoas simples. Assim, seus sermões
despreparados eram razoavelmente bem aceitos. No entanto, para poder
conviver com a própria consciência, fez um voto: sempre pregaria
extemporaneamente e confiaria no Espírito Santo. Tudo corria bem até que,
certo dia, poucos minutos antes de começar o culto matinal, quem entrou na
igreja e sentou em um dos bancos? O bispo! Estava desfrutando de um
domingo de folga. O pastor ficou constrangido. Durante anos, conseguiu
blefar sua congregação inculta, mas estava bem menos seguro quanto à
capacidade de ludibriar o bispo. Foi, então, dar boas vindas ao visitante
inesperado e, num esforço para diminuir as possíveis críticas da parte deste,
contou-lhes sobre o voto solene que fizera no sentido de sempre pregar
sermões extemporâneos. O bispo parecia compreender, e o culto começou.
No meio do sermão, entretanto, o bispo se levantou e saiu, deixando o
pregador muito consternado. E depois do culto, achou na mesa da sala
pastoral um recado que o bispo rabiscara rapidamente: "Absolvo você do seu
voto!"
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

Havia, ainda, um jovem pastor presbiteriano americano, cujo pecado


dominante não era a preguiça, mas a presunção. Frequentemente, jactava-se
em público que o único tempo que precisava para preparar seu sermão de
domingo eram os poucos momentos necessários para andar até à igreja, a casa
vizinha. Talvez você possa imaginar o que os presbíteros fizeram: compraram
para a igreja uma casa pastoral a oito quilômetros de distância! 1

PREGAÇÃO - E PREGADORES - EM CRISE!

As referidas históricas, compartilhadas pelo egrégio John Stott, um


gigante do púlpito dessas últimas décadas, reiteram duas grandes verdades
nesta era pós-moderna:
1. A pregação evangélicas está em crise em muitas igrejas. E quais são
os principais culpados? Deus? Jesus Cristo? O Espírito Santo? Ou seria
Satanás? Os demônios, talvez? A igreja? Ou os grandes culpados são, na
verdade, os próprios pregadores? E será que é possível, além de identificar os
culpados, encontrar a saída para esta terrível tragédia que invade as
comunidades de fé?
2. Os pregadores evangélicos, pelo menos muitos deles, também
vivem uma fase crítica. A crise na pregação, na verdade, deve-se
irrefutavelmente a crise que atingiu os próprios expoentes da Palavra de Deus;
uma coisa leva a outra, principalmente nesse caso, haja vista que pregador e
pregação devem estar sempre coesos, em compasso, em perfeita harmonia.
As ilustrações supracitadas, embora cômicas, são terrivelmente
trágicas. Elas refletem a indesejável e preocupante realidade de vários
segmentos evangélicos atuais. A pregação também está em crise em outras
ramificações denominacionais. Conquanto Stott tenha citado a título de
exemplo pregadores de igrejas históricas, a situação é similar no
Pentecostalismo e, pior ainda, no Neopentecostalismo brasileiro. Há,
inclusive, quem vaticina o fim da pregação; dizem, alguns, que a prédica cristã
não terá vida por muito tempo. E esperar pra ver. Ressalto, porém, que o
fracasso atual da pregação não está acontecendo por acaso. Vários fatores
estão comprometendo sua eficiência e eficácia.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

POR QUE A PREGAÇÃO ESTÁ EM CRISE?


QUAIS SÃO OS
PRINCIPAIS^RESPONSÁVEIS?

A crise da pregação não ficou circunscrita às denominações


tradicionalmente históricas. Atingiu em cheio também as comunidades
de confissão pentecostal, especialmente aquelas de segunda geração.
Presumo, porém, que a situação é mais grave nas igrejas
neopentecostais; basta observar o conteúdo de tais mensagens para
entender minha pressuposição.
Enquanto alguns pregadores de igrejas históricas engessaram
suas mensagens porque não querem atualizar seus métodos
discursivos, alguns oradores pentecostais destacam-se exatamente
porque são experts em inovação discursiva. Um problema grave, nesse
caso, é falta de conteúdo bíblico e teológico; quanto a vários
pregadores da ala neopentecostal (que segundo as últimas estatísticas é
o que mais cresce no Brasil), a deficiência crucial também está no
conteúdo da mensagem: suas "prédicas", se é que posso assim
classificá-las, são meras citações de textos fora do contexto que
prometem ao povo sucesso financeiro, saúde, felicidade plena, etc.
Não é sem razão que boa parte dos sermões pregados
atualmente não ajuda a igreja a adorar a Deus (na vida e no culto!), não
favorece a evangelização, não edifica os santos nem incentiva à ação
social (aréa esta imprescindível num país com tamanhas desigualdades
sociais, como o Brasil). E qual é a utilidade de um sermão que não traz
à memória da Igreja suas funções cruciais nem a capacita a realizá-las,
conforme os propósitos de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador?
Após pesquisar algumas obras de especialistas neste assunto
cheguei a algumas conclusões. As mesmas, conquanto tenha o respado
de outros pesquisadores, podem ser percebidas por qualquer pessoa
atenta. A seguir ressaltarei sucintamente quatro fatores que estão
comprometendo a pregação cristã. Confira-os:
1. Falta de conversão genuína dos próprios pregadores.
2. Excesso de "espiritualidade" (e falta de preparo).
3. Desprezo à capacitação bíblica e teológica.
4. Pluralismo e pragmatismo religioso: diluir a Palavra de Deus
para não perder fiéis.
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

1. FALTA DE CONVERSÃO GENUÍNA


DOS PRÓPRIOS PREGADORES

O descompasso entre a prédica e a vida do pregador é um dos


principais responsáveis pelo fracasso da pregação evangélica em
nossos dias. A sociedade está saturada de gente que prega mas não
vive, fala mas não faz. E tolice pensar que todos aqueles que pregam a
Palavra do Eterno também praticam-na. Grassa nas igrejas evangélicas
os oradores profissionais, animadores de auditórios, pregando sermões
com as piores motivações possíveis: ganância, inveja, sede de poder,
busca de popularidade, etc. E, uma motivação pecaminosa seguida de
um comportamento similar, só poderia ser trágico.
Al Martin alertou que todos os fracassos na pregação de nossos
dias envolvem, basicamente, as falhas do homem que prega e da
mensagem que ele anuncia. E a menos que queiramos degradar a
pregação ao nível de mera arte da elocução, nunca podemos
olvidar-nos de que o solo onde medra a pregação poderosa é a própria
vida do pregador. Essa é a grande questão que faz a arte da pregação ser
diferente de todas as demais artes de comunicação.2
César Cézar reitera que não existe nada que pregue mais alto do
que uma vida vivida segundo a vontade do Senhor, cheia de
testemunho, repleta de experiências que enriqueçam até o mais indouto
ouvinte.3
Hans Ulrich Reifler, autoridade neste tema, arremata: O pior
que pode acontecer ao pregador do evangelho é proclamar as verdades
libertadoras de Cristo e, ao mesmo tempo, levar uma vida arraigada no
pecado e em total desobediência aos princípios da Palavra de Deus. Por
isso, Paulo escreveu: "(...) esmurro o meu corpo, e o reduzo à
escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a
ser desqualificado" (1 Co 9.27).4
O Dr. Russel Shedd, pregador raro, ao destacar a autoridade da
Palavra, diz: "Mostre-me um crente que vive santa e piedosamente e eu
lhe mostrarei uma pessoa que leva a Bíblia a sério. Karl Rahner disse
que os cristãos são a razão de existirem ateus no mundo. "Aqueles que
proclamam Deus com a boca e o negam com o estilo de vida é o que
mundo incrédulo, acha incrível".5
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

2 . EXCESSO DE "ESPIRITUALIDADE" - DESCULPA PARA


NÃO ESTUDAR A PALAVRA DE DEUS COM ZELO E CONSTÂNCIA!

Este fator é oposto ao anterior. Se há, de um lado, pregador das


Boas Novas fracassando na exposição da mensagem por falta de
genuína conversão de vida, também há, de outro, um grupo igualmente
significativo tornando-a infrutífera por se achar "espiritual", "santo",
"puro" demais a ponto de não precisar estudar a própria Bíblia.
Há, sim, curiosa e lamentavelmente, "pregador" que presume
erroneamente que sua "santidade" basta para transformá-lo num
"gigante do púlpito". Imagina que quando tiver a oportunidade de
pregar uma mensagem precisa somente abrir a boca e as palavras
divinas, inspiradas pelo Espírito Santo, sairão naturalmente. Pensa que,
mesmo jamais fazendo sua parte, o Espírito Santo lhe dará uma unção
especial e o sermão será um sucesso retumbante. Ledo engano! Esta
mentalidade displicente precisa ser corrigida urgentemente!
Não há dúvida de que a "santidade" é uma exigência de Jesus
Cristo a qualquer pessoa que, tocada pelo Espírito Santo, confessa-o
como Senhor e Salvador e decide servi-lo. Em Lucas 14.25-33 há
algumas condições imprescindíveis para o discipulado:
1. Um amor sem rival (afeições do coração).
2. Levar a cruz (a conduta no viver).
3. Uma entrega sem reservas (bens pessoais).6
Novidade de vida é, sobretudo, característica de quem de fato
renasceu. O êxito na prédica bíblica, no entanto, depende também de
outros fatores: um deles é o estudo minucioso das Escrituras.
John Calvino, o egrégio reformador, declarou com veemência:
"Ninguém chegará a ser bom ministro da Palavra de Deus a não ser que
seja, em primeiro lugar, um estudioso da mesma". Charles H.
Spurgeon, um dos maiores pregadores de todas as épocas, acrescentou:
"Aquele que cessou de aprender cessou de ensinar. Aquele que já não
semeia na sala de estudos, não mais semeará no púlpito".7
Pregador algum terá a aprovação de Deus se não for santo; e,
pregador algum, terá a legitimação do público se preparar! Junte, então,
as duas coisas! Faça, pregador, uma junção de zelo e inteligência,
santidade e capacidade, poder e saber, pregação e prática...
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

3. FALTA DE CAPACITAÇÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA

Durante muitas décadas parte considerável das igrejas


evangélicas brasileiras desprezou a capacitação bíblica e teológica.
Julgava tais práticas irrelevantes e, em alguns casos, perniciosas à
manifestação do Espírito Santo.
Presumindo que a "letra" poderia sufocar a espiritualidade do
rebanho (e por ainda não ter conseguido se libertar de algumas idéias
oriundas do catolicismo romano, principalmente aquela que alegava ser
exclusividade da liderança religiosa a capacidade de estudar, assimilar e
ensinar a Palavra de Deus), repudiou-se categoricamente o estudo
bíblico e teológico e disciplinas afins.
Tal postura não atenuou a expansão quantitativa da Igreja no
Brasil; revelou, no entanto, sua profunda deficiência bíblica, teológica e
prática. A Bíblia, conforme foi dito na disciplina de Hermenêutica,
ainda é um livro desconhecido para muitos evangélicos. Falta leitura
sistemática, interpretação correta e prática condizente. O numericismo,
em suma, não favoreceu o conhecimento bíblico-teológico.
Pastores, teólogos, sociólogos, entre outros, concordam que o
vertiginoso crescimento numérico da Igreja Evangélica Brasileira
revelou sua capacidade de arregimentar novos súditos, bem como sua
visível fragilidade bíblica, teológica, doutrinária e prática.8
O Dr. Wander de Lara Proença, pesquisador deste tema, cita
alguns dos principais fatores que ocasionam tal situação:
1. Facilidade para se exercer o pastorado no Brasil (pessoas
ainda neófitas ou sem o mínimo de preparo bíblico e teológico
auto-intitulam-se pastores/as, alugam um salão e logo passam a ter um
grupo de seguidores).
2. Interesse em fazer a igreja crescer a qualquer preço (líderes,
seduzidos pela tentação dos números, tornam superficial o ensino da
Palavra).9
Imagina, então, o que acontece quando há facilidade para se
exercer o pastorado (além de fácil acesso, é promitente), o clima é
marcado pela competição e a concorrência, os pressupostos capitalistas
(números são indicadores de sucesso) moldam a visão e ação dos
pregadores? O resultado está diante dos olhos de quem quer ver.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

4. PLURALISMO E PRAGMATISMO RELIGIOSO: DILUIR A


MENSAGEM DE DEUS PARA NÃO PERDER FIÉIS!

Outro problema gravíssimo que a pregação autêntica da Palavra


de Deus enfrenta em nossos dias é movimento filosófico-teológico;
mencionarei, apesar da existência de outros, o pluralismo. Seus
pressupostos adentraram sorrateiramente os portais cristãos e,
alteraram, inclusive, o conteúdo da prédica. A mensagem, que deveria
preservar os ensinos de Jesus e dos apóstolos, não passa de um
discurso que apenas promete sucesso econômico, saúde física e
bem-estar à pessoa que assume o papel de herdeira de Deus. Este é um
dos fatores que estão no subsolo da conversão em massa nas igrejas
evangélicas brasileiras atualmente.
Para piorar a situação parte da liderança cristã, que infelizmente
já ingressou no ministério tendo uma motivação pecaminosa (ganhar
dinheiro, ter visibilidade, projeção social, etc), vendo que o homem
pós-moderno tem a disposição várias opções e pode fazer suas
escolhas preferenciais, entrou pra valer na competição. Não aceita
perder fiéis para os seus concorrentes seja ele tradicional, pentecostal
ou neopentecostal. Parece que vale tudo: desconstruir a imagem do
concorrente através de programas radiofônicos e televisivos, jornais,
revistas, livros... e, simultaneamente, usar os recursos midiáticos, para
exaltar a eficiência e eficácia da sua própria marca no afã de manter os
seus, atrair novos, e arrancar alguns adeptos que estão vinculados à
concorrência. Ademais, como diz Rubem Amorese, perder é um
péssimo negócio, afinal o desligamento de uma pessoa da igreja traz
vários prejuízos: perde-se em animação e movimento; perde-se
prestígio diante de outros ministros da cidade; perde-se sua capacidade
de influir na política local; perde-se, na geração de receita.10
As principais minudências do pluralismo, mesmo o religioso,
são as vastas alternativas oferecidas ao homem. O problema é quando
o pregador dilui a mensagem de Deus para "fidelizar" a clientela. Logo
igreja vira empresa, púlpito vira balcão, crente vira cliente, sacerdócio
vira negócio, vocação vira profissão, pastor vira mero gestor... A busca
por números a qualquer preço tem levado à ruína milhares de oradores.
E não é somente no Brasil.
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

Warren W. Wiersbe exortou que são numerosos os erros


cometidos quando o objetivo do líder é apenas "conseguir resultados".

Em primeiro lugar, a pessoa preocupa-se com números. Depois


começa a substituir a realidade espiritual por estatísticas, o que é
semelhante a alguém ler a receita em vez de alimentar-se.
Quantas pessoas estiveram presentes? Quantas se decidiram?
Quantas se tornaram membros? De quanto foi a oferta? Todas
essas coisas eram mais importantes do que se estávamos ou não
glorificando a Deus durante a reunião. Não demorou muito para
que a igreja deixasse de ser considerada pessoas em assembléia;
tornou-se nomes e números num arquivo e, mais tarde, num
computador. As pessoas já não eram uma finalidade em si
mesmas; tornaram-se meios para um fim - conseguir multidões
maiores e mais resultados".11

Howard Crosby, chanceler da Universidade da Cidade de Nova


Iork, há décadas já havia denunciado que as as igrejas estavam cheias de
apelo aos desejos carnais e aos paladares estéticos; oratória brilhante,
música científica, tópicos sensacionais e bancos de igrejas modernos
são iscas para atrair as pessoas; e, pior, uma igreja é chamada próspera
quando esses dispositivos miseráveis fazem sucesso.

"(...) Expedientes humanos são muito ilusórios e atrativos, mas,


infelizmente, muitos pregadores os empregam. Eles pensam
que atrairão multidões e encherão os bancos da igreja; e, na
verdade, isso até pode acontecer, mas estes não são os objetivos
para os quais o Senhor enviou seus arautos. O sucesso não deve
ser calculado por meio de casas cheias e aplauso popular, mas
por meio de corações convictos e convertidos, assim como pelo
fortalecimento da fé e da piedade do povo de Deus".12

Esses são, em suma, alguns fatores responsáveis pela crise.


Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

SEGUNDA PARTE: PREFÁCIO A


HOMILÉTICA E A PREGAÇÃO

várias razões, o ministério da pregação da Palavra de Deus está em crise


em muitas igrejas evangélicas atualmente. Alguns sermões são
infrutíferos porque os seus expoentes simplesmente não vivem o que
pregam. Outros fracassam porque os ministros, presumindo que a
inspiração virá no altar, deixam de meditar regular e sistematicamente
na Bíblia. Outros, porque o pregador não tem boa fundamentação
bíblica e teológica. Outros, porque a mensagem de Deus foi diluída
para agradar o povo quando deveria transformá-lo!
Esta é, por mais que seja desagradável, a decadente realidade de
algumas pregações e de alguns pregadores em nossos dias. Ambos, se
permanecerem desse jeito, não terão um futuro promissor. Cresce a
passos largos o abismo entre a Igreja e o mundo secular em parte
porque a mensagem bíblica, por não ser bem pregada, deixou de ser a
ponte através do qual esses dois mundos podem se conectar. Não raro
há quem acusa a sociedade pós-moderna de não ter fome de Deus. Mas
será que não há mesmo fome de Deus? O Dr. Hernandes Dias Lopes
afirma que há, sim, fome de Deus na atualidade; muitas pessoas,
doravante, vão à casa de Deus à procura de pão, mas em algumas não
conseguem encontrá-lo; outras, embora não tendo, estão substituindo
o pão do céu por outro alimento, pregando o que o povo quer ouvir e
não o que o povo precisa ouvir, pregando para agradar, não para
alimentar, dando palha em vez de trigo ao povo (Jr 23.28); outras têm
comercializado e mercadejado o Evangelho, além de adulterá-lo; e
algumas já estão dando veneno em vez de pão ao povo.14
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

O Dr. Luiz Wesley de Souza ressalta que hoje em dia, nossos


púlpitos estão cheios de tudo, menos de forte conteúdo bíblico. Há
púlpitos altamente prejudiciais à fé. Isto é, há muita pregação esvaziada
da supremacia de Deus, da centralidade de Cristo, do poder do
Espírito e da relevante consistência bíblica.15
O Dr. Russel Shedd vai mais além: reitera que os dias são difíceis
para aqueles que abrem a Bíblia para proclamar a vontade de Deus no
púlpito. Esta virada de século não se destaca particularmente pela
pregação bíblica poderosa. Nem tampouco se distingue pelo
expositores, cujos nomes marcarão a história. Ironicamente, os
gigantes do ensino no púlpito já morreram ou se aproximam do fim da
vida. A exposição poderosa da Bíblia definha-se exatamente quando as
melhores ferramentas para auxiliar os mestres da Palavra são de fácil
acesso.16
Quem irá substituí-los? Quanto? Como? Enquanto Deus cuida
de eleger os pregadores da nova geração, gostaria de mencionar alguns
fatores que podem, pelo menos, atenuar a crise que lamentavelmente
atingiu o ministério da pregação nas últimas décadas. Que Deus suscite
em nossa alma a mesma inquietação que havia na de Paulo no que
tange ao peso desta obrigação: "ai de mim se não pregar o Evangelho"
(1 Co 9.16).

COMO DIRIMIR A CRISE QUE AFETA O MINISTÉRIO DA


PREGAÇÃO CRISTÃ ATUALMENTE?

Apesar da evidente crise da pregação e dos pregadores


hodiernos estou esperançoso. Não perdi a fé na prédica: algumas são
mensagens dadas por Deus para levar o rebanho à adoração (no culto e
na vida!), à proclamação do Evangelho, à edificação dos santos, à ação
social! Nem perdi a fé em todos os pregadores: alguns são mensageiros
de Deus; ainda são e fazem a diferença: pregam e vivem, santificam-se
e capacitam-se, oram fervorosamente e estudam laboriosamente,
crescem em poder e em saber. Sim, Deus levantará novas gerações de
pregadores! Assim, ciente de tal fato, gostaria de nesta disciplina:
1. Ratificar a importância da homilética.
2. Ajudá-lo a elaborar um sermão eficiente e eficaz.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

DEFINIÇÃO E CONCEITUAÇÃO DE HOMILÉTICA

Claudionor Correia de Andrade define Homilética como arte de


elaborar e apresentar sermões; é a disciplina que nos leva a falar com elegância,
desenvoltura e propriedade bíblica e evangélica.17
Os teólogos Grenz, Guretzki e Nordling também resumem:
"disciplina que busca compreender o propósito e o processo da preparação e
apresentação de sermões". Acrescentam que a mesma visa entender e
integrar os papéis do pregador, da mensagem e do público.18
O termo "homilética" deriva do substantivo grego homilia, que
significa literalmente "associação", "companhia", e do verbo homileo,
que significa "falar", "conversar". O Novo Testamento emprega o
substantivo em 1 Coríntios 15.33.19

A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA HOMILÉTICA

A Homilética está inserida na ampla categoria da Teologia


Prática, junto com outras disciplinas igualmente significativas.20 Esta
teologia (a prática, evidentemente) abrange a homilética, o
aconselhamento pastoral, a educação religiosa e outras disciplinas
relevantes.21
Vale lembrar ainda que, a título de esclarecimento, a Teologia
Prática é muito mais do que a teologia da prática do pastor. Estudiosos
da mesma afirmam que devido uma concepção errada ainda há
problemáticas quanto à pastoral, de caráter eclesiológico, missiológico
e praxiológico. A princípio, observo que a prática pastoral não é
somente a prática do pastor, mas de toda a comunidade de fé. Mais
informações quanto à Teologia Prática estão na disciplina de
Prolegômenos. Revise-a. Leia-a novamente, se julgar necessário.
Agora, voltando ao nosso tema, como surgiu a Homilética?
Alguns estudiosos afirmam que a homilética, de certa maneira,
surgiu como oratória pictográfica (uma espécie de sistema primitivo de
escrita no qual as idéias são expressas por meio de desenhos das coisas
ou figuras simbólicas). Assim sendo, é correto presumir que deva ter se
originado nas imediações da Mesopotâmia primitiva há pelo menos
3.000 anos a. C.
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

Há vários nomes célebres que aparecem na lista dos notáveis


retóricos da antiguidade. O filósofo Empédocles (cerca de 440 a. C.)
teria sido o primeiro a sistematizar um estudo sobre o poder da
linguagem (persuasão). Também há menção a Córax e Tísias, os
possíveis autores da primeira obra/tratado de retórica em escrita ainda
rudimentar. Após a queda de Trasíbulo, tirano de Siracusa, surgiram
várias causas para a restituição, aos legítimos proprietários, cujas terras
foram outrora extorquidas. Os dois oradores se notabilizaram na
defesa das vítimas de Trasíbulo). Os mestres peripatéticos
(itinerantes), também conhecidos como "sofistas", estão na lista:
Protágoras (481-420 a. C), Górgias (483-376 a.C), Isócrates (436-338
A.C.)...
O discurso retórico que visava a ação levou os sofistas a
menosprezar a ciência daquilo que discutiam, contentando-se com
simples opiniões, concentrando a sua atenção nas técnicas de
persuasão. Os dois grandes sábios gregos, Sócrates e Platão, se
opuseram a este ensino, reiterando que a Retórica era uma espécie de
negação da própria Filosofia. Platão, no Górgias e no Fedro, distinguiu
um discurso argumentativo dos sofistas que através da persuasão
procura manipulação os cidadãos, e o discurso argumentativo dos
filósofos que procuram atingir a verdade através do diálogo. Já
Aristóteles foi o primeiro filósofo a expor uma teoria da argumentação,
nos Tópicos e na Retórica, no afã de encontrar um meio termo entre
Platão e os sofistas; viu a retórica como uma arte que visava descobrir
os meios de persuasão possíveis para os vários argumentos. A
conclusão de Aristóteles culminou, depois, numa arte de compor
discursos primando pela sua organização e beleza (estética),
desvalorizando-se a dimensão argumentativa (preconizada pelos
sofistas).
A referida arte expandiu-se na fase helenística. Mas foi em Roma
que sistematizou suas bases, graças a Cícero e Quintiliano. No sistema
imperial romano a retórica não teve tanto espaço para perpetuar-se,
pois a essência do homem comum era viver em função do Estado e
não questioná-lo (como os gregos faziam). A retórica foi, assim,
copiada e aperfeiçoada em forma de oratória. A mudança de rumos (de
retórica à oratótia) deve-se ao contexto em que as duas técnicas se
encontraram: a Retórica grega existiu em contexto democrático e a
Oratória desenvolveu-se em ambiente totalitário.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

As escolas argumentativas gregas tinham algumas diferenças das


romanas. Os gregos primavam pela valorização do conteúdo da
mensagem, a utilização de estratégias de argumentação, apelo à razão
comum (haja vista que a comunicação é concebida como meio de
persuadir pessoas e obter influência), enquanto os romanos
priorizavam a forma, utilização marcante de figuras de estilo, apelo
constante à emotividade do ouvinte (pois a comunicação é concebida
como meio de destacar a supremacia intelectual). Durante a Idade
Média a argumentação adquiriu enorme divulgação, principalmente
entre os cléricos, ocupando um lugar central na educação - Trivium.
Voltando à homilética, foi durante o Iluminismo, entre os
séculos 17/18, quando as principais disciplinas teológicas receberam
nomes gregos, como por exemplo, dogmática, apologética e
hermenêutica, que a mesma ficou assim definida. O termo "homilética"
firmou-se e foi mundialmente aceito para referir-se à disciplina
teológica que estuda a ciência, a arte e a técnica de analisar, estruturar e
entregar a mensagem do Evangelho.22

DEFINIÇÃO E CONCEITUAÇÃO DE PREGAÇÃO

Já foi dito anteriormente que a Homilética busca entender e


integrar os papéis do pregador, da mensagem e do público. Pois bem,
vamos analisar, embora sucintamente, a história da própria pregação.
Antes, porém, vamos definir e conceituar o que é pregação. O próximo
passo será pesquisar à luz das Escrituras sagradas a historificação da
pregação eficiente e eficaz.
A pregação tem tido uma conotação pejorativa para muitas
pessoas. David Larsen mencionou que o dicionário Webster da língua
inglesa, em sua terceira edição, apresenta uma acepção da palavra
"pregar" com o significado de "exortar de maneira instrusiva e
enfadonha". Tal definição se reflete na cultura popular, como se pode
ouvir na música de Madonna "Papa, don't preach" (Papai, não pregue).
Até os freqüentadores de igreja fazem coro ao desdém secular quando
dizem "Ora, não me venha com sermão!". A conotação pejorativa do
termo é clara e dolorosamente incisiva.24
Mas o que é, de fato, a pregação?
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

Para Philips Brooks, pregador norte-americano famoso no


século 19, a "pregação é a comunicação da verdade aos homens pelos
homens. Contém em si dois elementos essenciais: a verdade e a
personalidade. Não pode omitir-se a nenhum dos dois e ainda ser
pregação". A pregação, diz Ernest Pettry, também tem sido descrita
como "a verdade divina que passa pela peneira da personalidade
humana".25 Ronald F. Youngblood resume: "proclamação da obra
salvadora de Deus".26 Charles W. Koller enfatiza: "aquele processo
único pelo qual Deus, mediante seu mensageiro escolhido, se introduz
na família humana e coloca pessoas perante Si, face a face".28 Stott
avalia que a pregação não é somente exposição, como também
comunicação; não somente a exegese de um texto, mas a transmissão
de uma mensagem dada por Deus a pessoas vivas que precisam
escutá-la.29 Em o Novo Testamento, a pregação é "a proclamação
pública do Cristianismo ao mundo não cristão". Não se trata de um
discurso religioso para um grupo fechado de iniciados, mas antes a
proclamação aberta e pública da atividade redentora de Deus, em e
através de Jesus Cristo.30 John Piper ainda acrescenta outro detalhe
relevante acerca da pregação: o alvo da pregação: a glória de Deus; a
base da pregação: a cruz de Cristo; o dom da pregação: o poder do
Espírito Santo!31 Vamos conhecer mais a história da pregação.

ANÁLISE DO INÍCIO E EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PRÉDICA


NAS PÁGINAS DAS ESCRITURAS SAGRADAS

A história da pregação não começa com o surgimento da


retórica grega nem com a sistematização da oratória romana. Começa,
sim, nas páginas da Bíblia. David L. Larsen assevera que o sermão não
é um acidente histórico. Embora tenha sido culturalmente moldado de
modo a alcançar sua forma, o sermão, foi dado por Deus para a
instrução e a inspiração de seu povo e para a propagação do Evangelho
até os confins da terra. "No devido tempo, ele trouxe à luz a sua
palavra, por meio da pregação a mim confiada por ordem de Deus,
nosso Salvador" (Tt 1.3). De modo, não podemos considerar o sermão
um acontecimento fortuito e incidental. O sermão faz parte do
mandamento de Deus, vindo daí sua notável e extraordinária
longevidade.32
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

A arte de transmitir a Palavra de Deus é antiga. Deus, na


verdade, desde o início, segundo a Bíblia, comunicou pessoalmente sua
vontade e propósitos às suas criaturas (Gn 1-3). Depois vieram outros
mensageiros. Enoque foi, na opinião de alguns, o pregador pioneiro
(Jd 14). Noé também, pois alertou sobre o dilúvio iminente e
proclamou a arca da salvação de Deus, foi conhecido como o
"pregador da justiça" (2 Pe 2.5).33 Moisés, em Dt, fez um discurso
homilético, apesar de desconhecer os procedimentos atuais de tal
ciência. Mas os principais pregadores do Antigo Testamento parece
que são os profetas; alguns passaram pela "escola de profetas", outros
não, contudo, tanto uns como os outros, desempenharam com
eficiência e eficácia o egrégio ministério da pregação.
No ministério profético do Antigo Testamento, vemos
exemplos dos profetas falando como arautos de Jeová (Yahweh) e
servindo como seus embaixadores. Por exemplo, Jeremias disse
repetidas vezes: "Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo..." (Jr 1.4;
2.1,5). Ele e outros profetas falaram uma mensagem ao povo que
revelava a atitude de Deus para com as condições existentes. Elias,
Isaías e Oséias estão entre aqueles que proclamavam como arauto a
mensagem de Deus no âmbito do Antigo Testamento e representavam
fielmente a Deus diante do seu povo Israel. O ministério deles serviu
para conclamar a nação ao arrependimento e ao serviço fiel, e para
inspirar confiança em Deus para a salvação.34
John Stott reitera que a historificação da "fala" de Deus:
1. Deus falou por meio de profetas e interpretou para eles o
significado das suas ações na história de Israel, e, ao mesmo tempo,
mandou transmitir sua mensagem ao povo, quer pela palavra falada,
quer quer pela escrita, quer por ambas juntas.
2. Depois, e de modo supremo, falou por intermédio do Filho,
sua "Palavra que se tornou carne". As palavras da sua Palavra foram
transmitidas quer diretamente, quer mediante os apóstolos.
3. Fala por meio do seu Espírito, que pessoalmente dá
testemunho de Cristo e das Escrituras, tornando-os reais para o povo
de Deus hoje. Essa relação trinitária do Pai, do Filho e do Espírito
Santo, que falam mediante a Palavra de Deus que é bíblica, encarnada e
contemporânea é fundamental para a religião cristã. 35
Li SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO BÍBUCA-TEOLÔGICA-PRÃTICA

Na fase intertestamentária, com o surgimento da sinagoga, o


sermão judaico assumiu sua forma. Há quem diga que foi João Batista
o arauto que fez a ponte entre Antigo e Novo Testamento (Jo 1.8).
Jesus Cristo, após cumprir certas normas religiosas, também começou
a pregar (Mt 4.17,23), cheio do Espírito Santo (Lc 4.16-21; Is 61) e, por
fim, deu a msma ordem (Mc 16.15). A liderança apostólica, como
Jesus, dedicou-se à pregação (At 6.4). O sermão de Pedro, no
Pentecostes (At 2), resultou numa "colheita" em torno de 3 mil vidas!
Também pregou poderosamente na casa de Cornélio (At 10). E Paulo,
o notável apóstolo, pregou na sinagoga de Antioquia da Psídia (At 13),
no Areópago, em Atenas (At 17), em Mileto (At 20), testemunhou em
Jerusalém (At 22) e para Agripa (At 26); suas epístolas/cartas ratificam
sua a eficiência e eficácia como pregador.
Na história da Igreja há grandes pregadores. Do final do século
quarto e início do quinto - época de Crisóstomo, Ambrósio e
Agostinho - foi um tempo fantástico de pregação que antecedeu sete
séculos de declínio.36 Os frades, antes da Reforma, desempenharam
papel crucial na área da pregação. Eles, dizem, revolucionaram o nobre
ofício. Comenta-se que o próprio Francisco de Assis (1182-1226), além
do desprendimento, dedicou-se à pregação. Domingo (1170-1221),
Humberto de Romans (1277), Bernardino de Siena (1380-1444) não
foram menos empenhados na arte da pregação.
Já na Reforma destaco Lutero e Calvino. Martinho Lutero foi
um gigante da tribuna. Via no ofício privilégio raro. Disse que "Se hoje
pudesse me tornar rei ou imperador, ainda assim não renunciaria ao
meu ofício de pregador". Walther Von Loewenich disse que ele foi um
dos maiores pregadores da história da cristandade; pregou cerca de três
mil sermões. Fred Meuser finaliza: ele nunca tirou férias do trabalho de
pregação, ensino, estudo individual, produção, escrita e
aconselhamento.37 Há quem diga que John Calvino, o reformador, era
grande teólogo, mas não bom pregador. Outros, porém, repudiam tal
afirmação. Calvino pregou por todo o livro de Gn, Dt (200 sermões),
Jó (159 sermões), Jz, 1 e 2 Sm (194 sermões), 324 sermões sobre Is e
174 sobre Ez, os quatro Evangelho, At (189 sermões), etc. Outrossim,
foi sob a pregação de Calvino que Genebra se tornou, nas palavras de
Knox, "a mais perfeita escola de Cristo na terra".38
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

TERCEIRA PARTE: A RELEVÂNCIA DA


PREGAÇÃO EXPOSITIVA

prédica, em muitas comunidades evangélicas, está


em crise. Algumas razões, inclusive, foram citadas nesta disciplina. Mas
também é fato que Deus levantou grandes pregadores para anunciar a
Palavra: Hugh Latimer, Richard Baxter, Cotton Mather, John Wesley,
George Whitefield, John Henry Newman, Charles H. Spurgeon,
Martin Lloyd-Jones, Billy Graham, etc. Há outro número maior de
arautos anônimos que propagaram - e propagam ainda! - a Palavra de
Deus, com eficiência e eficácia, levando milhares de vidas a Jesus
Cristo, fundamentados em motivação santa, atitudes coerentes e
convincentes, sem perder a elegância e a desenvoltura.
A Homilética, disciplina ligada à categoria da Teologia Prática,
cuja finalidade é auxiliar o pregador "a elaborar e apresentar sermões"39
com elegância, desenvoltura, propriedade bíblica, teológica e relevância,
é imprescindível na labuta para transformar a decadente situação. A
disciplina está voltada à análise e prática dos fundamentos e princípios
da arte preparar e proferir sermões, em especial, nos cultos cristãos,
logo deve ser conhecida e praticada corretamente, pois desta forma a
crise no ministério da pregação será atenuada.
Os três principais objetos de análise homilética são: o pregador, a
mensagem e o ouvinte. Acerca do pregador, como já disse, parto do
pressuposto que o mesmo está ciente de que sua vida deve estar em
compasso com a sua pregação. Acerca da pregação, procurei defini-la
sucintamente, e citar em parte sua evolução histórica. E, agora, para
finalizar, ressaltarei, alguns Fundamentos Teológicos da Pregação
Cristã e, a seguir, destacar a importância da Pregação Expositiva.
SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO
BÍBLICA-TEOLÓGICA-PRÃTICA

ANÁLISE DE ALGUMAS CONVICÇÕES TEOLÓGICAS


FUNDAMENTAIS DA PRÉDICA CRISTÃ

John Stott esclarece que os segredos da pregação não são


técnicos, mas teológicos e pessoais, ou seja, a teologia precede e é mais
importante que a metodologia; o segredo essencial não é dominar
certas técnicas, mas ser dominados por determinadas convicções. Stott
ainda diz que a Homilética pertence apropriadamente ao departamento
da teologia prática e não pode ser ensinada sem um fundamento
teológico sólido. Enfim, "a técnica pode somente nos tornar oradores;
se quisermos ser pregadores, é da teologia que precisamos". Os cinco
argumentos teológicos que subjazem à prática da pregação como
exposição que serão apresentados, a seguir, são propagados pelo
próprio John Stott:
1. Uma convicção a respeito de Deus - Sua existência, atuação e
Seu propósito. O tipo de Deus no qual você crê determina o sermão
que você prega! Destarte o cristão, antes de aspirar ser um pregador,
deve ser, no mínimo, um teólogo amador.
Três afirmações categóricas e imprescindíveis a respeito de
Deus, o Supremo Senhor do Universo:
a) Deus é Luz (1 Jo 1.5), símbolo da santidade, pureza, mas, no
texto citado, representa a verdade (Jo 8.12; Mt 5.14-16). Também
significa que Deus quer se revelar (Mt 11.25,26) para banir as trevas e
seu principal expoente - Satanás (2 Co 4.4-6).
b) Deus tem agido - Ele tomou a iniciativa para se revelar em
ações; também é conhecido na Bíblia por sua atividade libertadora.
c) Deus tem falado - Ele se comunicou com o seu povo mediante
a fala, diferente dos deuses pagãos (SI 115.5; Is 40.5; 55.11) e através
das ações históricas (Am 3.8).
2. Uma convicção a respeito das Escrituras Sagradas. A doutrina
de Deus leva natural e inevitavelmente à doutrina das Escrituras.
Embora tivesse dado a esta seção o título de "uma convicção a respeito
das Escrituras", trata-se na realidade, de uma convicção múltipla que
pode ser analisada em pelo menos três crenças distintas, porém
mutuamente correlatas.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

a) A Escritura é a Palavra de Deus escrita - a ação, a fala e a


escrita, juntas fazem parte integrante do propósito de Deus; na autoria
da Bíblia há o fator divino e o humano, ou seja, ela é a Palavra de Deus
escrita, a Palavra de Deus através das palavras dos homens, falada por
meio da boca humana e escrita por meio de mãos humanas.
b) Deus continua falando através daquilo que Eleja disse - A
Bíblia não é simplesmente um compêndio de documentos antigos,
cheirando a mofo, nem é um museu, nem uma relíquia ou fóssil. E sim
a Palavra viva oriunda do Deus vivo para pessoas vivas, cuja mensagem
é contemporânea para o mundo contemporâneo! O Dr. J. I. Packer,
após estudar a doutrina das Escrituras por muito tempo, arremata: " A
Bíblia é Deus pregando".
c) a Palavra de Deus é poderosa - ela cumpre o propósito divino
(Is 55.11); sua Palavra tem poder (SI 33.9), é viva e eficaz (Hb 4.12)
3. Uma convicção a respeito da Igreja - A Igreja depende da
Palavra de Deus; não é superior a ela; antes de existir igreja Deus já
estava falando e fazendo. Outrosssim, a Palavraé o cetro mediante o
qual Cristo a governa, sustenta, santifica, guia, insipira. Também é fato
que o declínio da pregação é seguido de perto pela decadência espiritual
da igreja. Logo, compete aos pregadores proclamar a Palavra de Deus e
a igreja ouvi-la e praticá-la!
4. Uma convicção a respeito do pastorado - Há incerteza na
igreja moderna atinente à natureza e às funções do ministério cristão
profissional. Jesus, o Bom Pastor, cujas marcas incluem sacrifício,
liderança, proteção, cuidado... sempre será modelo de ministério
pastoral. A função principal do pastor é alimentar as ovelhas - ensinar a
igreja (At 20.28; 1 Pe 5.2), etc.
5. Uma convicção a respeito da pregação - Se o pastor é
pregador e mestre, qual sermão deve pregar? As listas de opções nos
manuais de Homilética são várias. Stott lembra que dizem existir
sermões temáticos e textuais; alguns são evangelísticos, apologéticos ou
proféticos; outros são devocionais, éticos ou exortativos. Ainda
acrescentam os sermões "exegéticos" ou "expositivos". Para o nobre
autor "toda pregação genuína é pregação expositiva".40
SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO
BÍBLICA-TEOLÓGICA-PRÃTICA

SÍNTESE DE CLASSIFICAÇÃO DOS SERMÕES

Primeiro vamos relembrar os demais tipos de sermões que


existem, classificando-os quanto à forma.
Sermão temático. E o que expõe a. verdade bíblica num tema
utilizado pelo pregador. Após a escolha ele faz a divisão do sermão para
enfatizar o texto lido. O esboço do sermão deriva do tema. Esse tipo de
pregação oferece algumas vantagens quando bem aproveitado e pode
contribuir para trazer clareza aos ouvintes. O pregador deve ter
cuidado para não se exceder no uso de sermões desse tipo, porque pode
inclinar-se a falar demais em conquistas, em ocorrências da vida
política, da técnica, e da ciência, e passar a apresentar suas próprias
opiniões, perdendo a capacidade de dizer; "Assim diz o Senhor". Falará
bem, como sociólogo, psicólogo, mas não como mensageiro de Deus.
Sermão textual. É a exposição da verdade contida num texto
bíblico escolhido. Suas divisões derivam do texto tomado, e não do
tema do sermão.
Sermão expositivo. Suas divisões vêm do texto tomado e ainda
apoiadas por referências bíblicas. É uma análise pormenorizada, lógica,
aplicada ao texto lido.
Sermão ocasional. É o preparado para ocasiões especiais, como
inauguração de templo, ceia, Natal...41

ANÁLISE DO SERMÃO EXPOSITIVO

O sermão expositivo recebeu uma atenção nesta disciplina de


noções de Homilética. Isso significa que tal "metodologia" está
totalmente imune a erros? Não. Alguns estudiosos, inclusive, dizem que
o sermão expositivo tem vantagens e desvantagens. As vantagens da
pregação expositiva são várias: tem menos probabilidade de deturpar a
legítima mensagem de Deus, honra as Escrituras, proporciona
alimentação saudável à comunidade de fé, favorece consideravelmente
a capacitação bíblica e teológica do próprio pregador. Outros, quanto às
desvantagens, são categóricos - ele apresenta alguns desafios ao
mensageiro que se dispõe a aderi-la. Destacarei dois pelo menos.

t
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

O primeiro é dificuldade para prepará-la: mensagens


divorciadas da Bíblia são facilmente fabricadas, mas uma bíblica, séria,
doutrinária e teologicamente correta, dá trabalho; não se faz em alguns
minutos um sermão que transformará a vida das pessoas!
O segundo desafio é o tempo para sua elaboração que o sermão
expositivo exige do pregador, afinal, entre outras coisas, precisará
identificar o autor/narrador, os prováveis destinatários, a datação do
texto, tempo/espaço, ocasião, objetivo, assunto, etc. Conseguir agregar
todas essas informações, de fato, é trabalhoso. O pregador que quer
agradar a Deus, porém, não teme o labor!
E o que é o sermão expositivo? Como defini-lo e empregá-lo?
George O. Wood esclarece que na pregação temática, o
pregador pode escolher seu esboço; na pregação textual, os pontos
principais são regidos pelo texto, e o pregador pode colocar entre os
pontos o que quer que se sinta levado a colocar; na pregação
expositiva, porém, o texto rege inteiramente o conteúdo da mensagem:
não se tem a liberdade de buscar ou escolher o que se quer enfatizar ou
deixar passar. Pregação é, em suma, diz Wood, tomar um trecho das
Escrituras - um versículo, um parágrafo, um capítulo, um livro) e
responder duas perguntas: (1) O que disse? e: (2) O que diz? A primeira
pergunta - "O que disse?" envolve exegese e hermenêutica. Entretanto,
nenhum sermão estará completo se tivermos respondidos apenas a
primeira pergunta. Também devemos considerar: "O que diz?" Em
outras palavras, tenho de passar da exegese para a aplicação. De que
forma essa clássica Palavra viva se relaciona com as necessidades
contemporâneas das pessoas a quem pregarei? Pregar sempre implica
em se ter um pé plantado firmemente na exegese e o outro na
aplicação.42
O Dr. Shedd alerta: "Pregar expositivamente significa, acima de
tudo, que nós nos comprometemos com a Palavra inspirada. Faltando
este compromisso, caímos no subjetivismo e abrimos espaço para
noções próprias, falhas e interesseiras. Misturar idéias humanas com as
Escrituras torna a pregação leite adulterado' (1 Pe 2.2). As limitações
pecaminosas da mente humana são tamanhas que, qualquer heresia ou
doutrina falsa, pode facilmente ser propagada, caso não seja mantido
este compromisso com o texto bíblico".43
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John Stott diz que exposição refere-se ao conteúdo do sermão


(verdade bíblica) mais do que ao seu estilo (comentário)", ou seja, fazer
exposição das Escrituras é aproveitar aquilo que já está no texto e
expô-lo à vista de todos, destampar o que parece fechado, tornar claro
o que parece obscuro. Stott complementa: "Quer o texto seja longo,
quer breve, nossa responsabilidade como expositores é desvendá-lo de
tal maneira que sua mensagem seja falada de modo claro,
compreensível, exato, relevante, sem acréscimos, sem omissões e sem
falsificação". O nobre autor ainda faz as seguintes ressalvas:
1. A exposição nos prescreve limites -a pregação expositiva
restringe-se à Bíblia.
2. A exposição exige integridade - o pregador não pode
corrompê-la e nem manipulá-la a seu bel-prazer. De modo algum.
Antes o faz primar pelo significado verdadeiro e fiel de todos os texto
da Palavra.
3. A exposição identifica as armadilhas que o pregador deve
evitar a todo custo; são elas: esquecimento e deslealdade; no primeiro
caso o pregador segue a própria imaginação; no segundo, o estica e o
força, deteriorando seu significado original e natural.
4. A exposição da confiança ao pregador - por estar pregando a
Palavra de Deus com respeito e integridade, torna-se muito mais
corajoso.44
Portanto, se você deseja ser um pregador fiel às Escrituras,
prepare-se para nela meditar!

COMO PREPARAR SERMÕES EXPOSITIVOS?

Não é suficiente alegar que a pregação expositiva é


recomendável aos pregadores da Palavra. E mister mostrar passos para
elaborá-la. O sermão expositivo não é fabricado por acaso nem
acidentalmente. Há etapas para sua preparação, explanação e aplicação.
George Wood, para citar exemplo, compartilhou algumas dicas
importantes. Veja:
1. Leia minuciosamente, medite e ore a respeito do texto das
Escrituras sobre o que vai pregar. Faça isso sem o auxílio de qualquer
estudos externos - só você e a Bíblia. Anote pensamentos e perguntas
que tiver.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

2. Consulte seus comentários. Use ampla seleção de recursos de


estudo. Tome abundantes notas.
3. Desenvolva o título, o assunto e o esboço. A mensagem
inteira pode ser expressa em uma só frase? O título é fiel ao texto e
desperta interesse?
4. Considere a introdução minuciosamente e em detalhes
(ponha as pessoas no texto e o texto nas pessoas). Prende a atenção?
5. Medite longamente na conclusão. Que tipo de apelo você está
fazendo? Que reação está buscando? O que você deseja que as pessoas
façam com a mensagem que foi pregada?
6.0 sermão tem janelas? As ilustrações se ajustam suavemente ou
são forçadas ou soam artificiais? Conte uma história para chegar ao
ponto desejado, não a conte só por contar.
7. Prestou atenção nos conectivos? As pessoas serão capazes de
seguir com clareza sua linha de raciocínio? Os pontos estão
relacionados uns com os outros? Emanam do assunto? Manteve os
pontos principais sucintos e fáceis de lembrar?
8. Sua mensagem é banhada em oração? Você sente que está
ungido? Sua sensação ao pregar é a de que está cumprindo função
profética, que está conclamando a verdadeira Palavra de Deus a essas
pessoas para essa ocasião?45
Preparar uma pregação expositiva eficiente e eficaz dá trabalho.
A recompensa, porém, será satisfatória. Ademais, como escreveu
Ramesh Richard, preparar um sermão é uma arte, uma ciência, uma
disciplina e um relacionamento; um sermão eficaz é filho da união
dinâmica espiritual com a mecânica da diligência; a dinâmica do
preparo do sermão surge do relacionamento do pregador com o
Senhor do texto. Ele é um exercício sério que precisa ser regado com
oração e engendrado pelo Espírito Santo desde o primeiro contato do
pregador com o texto.46
Para concluir este prefácio à Homilética gostaria de transcrever
três exemplos de sermão expositivo elaborados por Hans Ulrich
Reifler. Há, em outras obras, mais modelos. Incentivo cada leitor/a a
buscar em outras publicações mais propostas a respeito de como
elaborar e expor pregações expositivas. Este é um hábito indispensável:
estudar modelos de sermões expositivos.
SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO
BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÁTICA

1. TEMA: A Verdadeira Adoração e os Verdadeiros Adoradores.


2. TEXTO: João 4.19-24.
3. ESBOÇO: Introdução: A problemática da adoração em
nossas igrejas.
I. O significado da adoração
1. No grego clássico
2. No Antigo Testamento
3. No Novo Testamento
II. O lugar da adoração (4.20,21):
1. Para os samaritanos: Gerizim
2. Para os judeus: Jerusalém
3. Para os cristãos: não importa o lugar.
III. A Atitude de adoração (4.21-24):
1. O verdadeiro adorador adora o Pai (4.21,23).
2. O verdadeiro adorador adora em espírito (4.23,24).
3. O verdadeiro adorador adora em verdade (4.23,24).

1. TEMA: A Oração Sacerdotal de Cristo.


2. TEXTO: João 17.1-26.
3. ESBOÇO: Introdução: a importância da vida de oração
1. O nome desta oração (Jo 17.1).
2. O valor desta oração (Jo 17.1).
3. O motivo desta oração (Jo 17.2,3).
4. O tempo desta oração (Jo 17.1).
5. O receptor desta oração (Jo 17.1,5,11,21,24,25).
6. O conteúdo desta oração:
- A oração de Jesus por Si mesmo (Jo 17.1-5).
- A oração de Jesus por Seus apóstolos (Jo 17.6-19).
- A oração de Jesus por Sua Igreja (Jo 17.20-26).
7. O propósito desta oração:
- A revelação de Sua glória (Jo 17.1-5).
- A conversão dos Seus (Jo 17.6-16).
- A santificação dos Seus (Jo 17.17-19).
- A unificação dos Seus (Jo 17.20-23).
- A glorificação de Sua pessoa (Jo 17.24-26).
8. Conclusão desta oração (Jo 17.25,26).47
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

TEMA: Não Sejas Incrédulo, Mas Crente


TEXTO: João 20.24-29
ESBOÇO: Introdução: Dados biográficos do evangelho de
João a respeito de Tomé (Jo 11.16; 14.5; 20.24-29; 21.2).
I. O Ceticismo de Tomé (20.24-26).
1. Apesar dos encontros anteriores com Cristo.
2. Apesar do testemunho dos apóstolos (20.25).
3. Apesar de oito dias de reflexão (20.26).
4. Superado pela presença real do Cristo (20.26).
5. Superado pela presença real do Cristo que o desafia a
colocar seu dedo em Suas mãos (20.26).
6. Superado pela palavra de encorajamento do Cristo: não seja
mais incrédulo, mas crente (20.27).
II. A Confissão de Tomé:
1. Uma confissão pessoal: "Senhor meu, Deus m e u ” !
2. Uma confissão do Senhorio de Cristo: "Senhor meu".
3. Uma confissão da divindade de Cristo: "Senhor meu, Deus
meu!"
III. O Compromisso de Tomé
1. O grande apóstolo mencionado 4 vezes no Ev. de João.
2. O grande apóstolo que levou o Evangelho à índia.47

TITULO: Por Esta Bênção Orava Eu!


TEXTO: 1 Sm 1.27
/. Os GRAVES PROBLEMAS DE ANA:
1. Esterilidade de Ana e fecundidade de Penina (1 Sm 1.2).
2. Provação de Deus e humilhação (1 Sm 1.6).
3. Incompreensão do marido (1 Sm 1.8).
77. As ATITUDES DE ANA PARA ALCANÇAR O MILAGRE:
1. Ana levantou-se e, mesmo aflita, orou a Deus (1 Sm 1.9,10).
2. Compartilhou com Deus sua necessidade (1 Sm 1.11).
3. Não teve pressa de sair da presença de Deus (1 Sm 1.12). III.
AS A TITUDES DE ANA APÓS À ORAÇÃO:
1. Seguiu seu rumo com alegria (1 Sm 1.18).
2. Adorou a Deus (1 Sm 1.19).
3. Tentou novamente (1 Sm 1.19).
4. Cuidou da bênção e consagrou-a a Deus (1 Sm 1.22).
SÉRIE CRESCER: PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO
BÍBUCA-TEOLÓGICA-PRÁTICA

NOTAS

STOTT, John. Eu Creiom Pregação. São Paulo: Vida, ps.225,226.


-MARllX, AL O que Háde Errado Com a Pregação deHojerSzo Paulo: Fiel, p.7.
;CEZAR, César Augusto Arruda. Socorro!!! Tenho que Preparar um Sermão - Manual de pregação

dinâmica - Pregador crizõvo. Curitiba: A. D. Santos Editora, 2001, p.36.


^RETFLER, Hans Ulrich. Pregação ao Alcance de Todos. São Paulo: Vida Nova,
p.15 -'SHEDD, Rüssel P. Palavra Viva. São Paulo: Vida Nova, 2000, p.13.
*SANDERS, J. Oswald. Discipulado Espiritual. Rio de Janeiro: JUERP, 1995,
ps. 17-23. "STOTT, John, Op. Cit, ps.191,192.
sPROENÇA, Wander de Lara. "De Casa de Profetas a Seminários Teológicos". In KOHL,

Manfred W & BARRO, Antônio Carlos (orgs). Educação Teológica Transformadora. Londrina:
Descoberta, 2004, p.29.
'PROENÇA, Wander de Lara. "Uma Igreja Sem o Propósito da Maturidade na Palavra". In
BARRO, Jorge H. (org.). Uma Igreja Sem Propósitos. São Paulo: Mundo Cristão, 2004, ps.47-50.
10AMORESE, R. M. "Celebração e Liturgia Numa Sociedade Pluralista". In Excelentíssimo

Senhores. Viçosa: Ultimato, 1995, p. 167-169.


"WIERSBE, Warren W. A Crise de Integridade. São Paulo: Vida, ps.32,33.
12 TORREY., Reuben Archer (ed.). Os Fundamentos. São Paulo: Hagnos, 2005, p.461.
13ZABÄTTERO, Júlio P. T. "Novos Desafios da Leitura Bíblica no Pastorado

Contemporâneo". In KOHL, Manfred Wöc BARRO, Antônio Carlos (orgs). Ministério Pastoral
Transformador. Londrina: Descoberta, 2006, p.13.
"LOPES, Hemandes Dias. Fome de Deus. São Paulo: Hagnos, 2004, ps.20,21.
15SOUZA, Luís Wesley. "Uma Igreja Sem o Propósito da Pureza e da Santidade". In

BARRO, Jorge, Op. Cit., p.94.


"SHEDD, Russel, Op. Cit., p.ll.
"ANDRADE, Claudionor Corrêa. Dicionário Teológico. Rio de Janeiro: CPAD, 11« ed., 2002, p.178.
»GRENZ, Stanley J., GURETZKI, David e NORDILING, Cherith Fee. Dicionário de Teologia. São
Paulo: Vida, 2002, p.68.
"REIFLER, Hans Ulrich, Op. Cit., p.ll.
20BENTHO, Esdras Costa. Hermenêutica Fícil e Descomplicada. Rio de Janeiro: CPAD, 2003,

ps.31,32. ''FERREIRA, Franklin & MYATT, Alan. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova,
2007, p.23. 22REIFLER,idem,p.ll.
23GRENZ & GURETZKI & NORDILING, Op. Cit.,

p.68. 24REIFLER, idem.


2SLARSEN, David L. Anatomia da Pregação. São Paulo: Vida, 2005, ps.11,12. 26PETRY, Ernest.

Ministrando a Palavra de Deus - Homilética. Campinas: I.C.I., 2007, p.87. 27YOUNGBLOOD,


Ronald (org.). Dicionário Ilustrado da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 2004, p.1.155. 2sKOLLER,
Charles W. Pregação Expositiva Sem Anotações. São Paulo: Mundo Cristão, 1984, p.9. 2'STOTT,
idem, p.146.
»DOUGLAS, J. D. (ed.) & (SHEDD, Russel P.). O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida
Nova, 2006, 3« ed. rev., p.1.088.
31PIPER, John. A Supremacia de Deus na Pregação. São Paulo: Shedd Publicações, 2006, p.19.
32LARSEN, David L. Anatomia da Pregação. São Paulo: Vida, 2005, p.13.
33YOUNGBLOOD, Ronald, Op. Gt, p.1.155.
34PETRY, Ernest, Op. Cit.,ps.l00,101.
35ST0TT, ps.15,16.

"LARSEN, David L., Op. Cit., p.18.


"PIPPER, John. O Legado da Alegria Soberana. São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p.92.
3SHANKO, Ronald. Artigo: "Calvino, o Pregador". In

http://www.cprf.co.uk/languages/portuguese_ calvinpreacher.htm (16/07/2008).


"ANDRADE, Claudionor Correia de, Op. Cit.,
p.178. "STOTT, idem, ps.97-133.
■"SANTANA, Rodrigo Silva. Noções de Homilética - Coleção Ensino Teológico (5). Rio de Janeiro:
CPAD, 3a ed., 1983, ps.67,68.
tíWOOD, George O. "Prioridades na Vida do Pastor - Pregação Expositiva". In Pastor Pen

recostai. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, 5' ed.,p.84-89.


"SHEDD, Russel P., Op. Cit., p.55.
"STOTT, idem, ps.133-141.
^OOD, George O., Op. Cit., p.96.
4éPJCHARD, Ramesh. Homilética - Curso Vida Nova de Teologia - Vol.5. São Paulo: Vida Nova,

2005,
p.18.
*RErFLER,ps.l08,109.
Pr. José Roberto de Oliveira Chagas

QUESTIONÁRIO
HOMILÉTICA

*Nome: _________________________
Sexo: ( ) Data Nasc.__/__/_Natural:.
*End.: _______________________
_, Bairro:
Cidade:___________________________________ UF.
CEP: ___________________ Fone: ( __ ) ___________
Nome completo, sem rasuras, conforme constará no certificado. Endereço correto para
o qual será enviado o certificado.

I. QUESTÕES TEÓRICAS:

1. A pregação evangélica está em crise. Por quê? Cite algumas razões


expostas nesta disciplina.
Resp. _________________________________________________

2. Defina Homilética.
Resp. ____________

3. Cite alguma definição de Pregação.


Resp. _________________________

4. Quais são os três principais objetos de análise homilética?


Resp. ____________________________________________

5. Defina Pregação Expositiva, segundo o Dr. Shedd.


Resp. ______________________________________
II. QUESTÕES AVALIATIVAS:

1. Você gosta da mensagem proferida por algum pregador? Qual e por


quê?
Resp. ________________________________________________

2. Qual sua opinião sobre o conteúdo desta disciplina?


Resp. _______________________________________

3. Como você avalia o seu aproveitamento deste módulo - tempo


dedicado ao estudo da disciplina, comentários importantes suscitados,
possíveis descobertas?
Resp. _________________________________________________

4. De que maneira você pretende aplicar em sua vida e ministério o que


aprendeu nesta disciplina?
Resp. ________________________________________________

5. Como você avalia a forma como as informações foram transmitidas


pelo professor-escritor: você conseguiu compreender o que ele quis
lhe passar ou teve dificuldades? O que poderia ser melhorado?
Resp. _________________________________________________