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Psicanálise para Carl Gustav Jung

Brasília-DF.
Elaboração

Luciana Raposo dos Santos Fernandes

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário

Apresentação.................................................................................................................................. 4

Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa..................................................................... 5

Introdução.................................................................................................................................... 7

Unidade I
Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung....................................................... 9

Capítulo 1
Introdução à psicanálise freudiana................................................................................ 11

Unidade iI
Conceitos Psicológicos............................................................................................................... 38

Capítulo 1
Principais conceitos da psicologia analítica................................................................ 40

Unidade iII
Processos Psicopatológicos........................................................................................................ 74

Capítulo 1
Os complexos nas psicopatologias e outros temas correlatos................................ 75

Unidade iV
As diferentes formas de atuação.................................................................................................. 79

Capítulo 1
Desdobramentos na práxis da psicologia analítica ..................................................... 79

Para (Não) Finalizar...................................................................................................................... 83

Referências................................................................................................................................... 86
Apresentação

Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se


entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade.
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da
Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade


dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos
específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém
ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a
evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo


a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

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Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa

Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em


capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para
aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos
Cadernos de Estudos e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

5
Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

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Introdução
Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele
repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado,
quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se
como totalidade. A fim de descrever esse desenvolvimento, tal como se
processou em mim, não posso servir-me da linguagem científica; não
posso me experimentar como um problema científico.
(JUNG, 2002, p.19)

A citação acima inicia a obra biográfica de Jung (2002), “Sonhos, memórias e


reflexões”. Mediante esse trecho, podemos vislumbrar a complexidade e profundidade
da abordagem teórica contida na Psicologia Analítica.

Estamos iniciando a disciplina Psicanálise para Carl Gustav Jung. Desse momento,
em diante vamos imergir no trabalho complexo, e não raramente, incompreendidos
de Carl Gustav Jung. Mas, a incompreensão faz parte mediante a grandeza de um
conteúdo que deve ser esmiuçado, explorado e saboreado. E não será jamais a
exaustão, pois a abordagem desenvolvida por Jung nos remete a uma amplitude de
temas inesgotáveis.

Para compreender a Psicologia Analítica e o próprio modus operandi do Dr. Carl Gustav
Jung, faz-se necessário incorrer por uma breve revisão acerca de alguns conceitos
teóricos da Psicanálise e da própria relação entre Sigmund Freud e Carl Gustav Jung.

Figura 1.

Fonte: <http://www.deldebbio.com.br/wp-content/uploads/2013/01/freudjung.jpg>.

Jung foi uma das pessoas mais eruditas do seu tempo. E ele expressou toda essa erudição
em uma obra vasta, que englobou e engloba vários campos do conhecimento humano.
Como a Psicologia, a Religião, a Mitologia, o Folclore, o Cinema dentre outros campos.
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Ao descobrir a psique como um campo de atuação da personalidade de forma múltipla,
Jung provocou uma ruptura com o pensamento ocidental que, em consequência, tornou
seus conceitos de difícil compreensão – ou pelo menos essa é a forma como sua teoria
foi rotulada. Não remete a uma verdade absoluta.

O objetivo principal da nossa disciplina é compreender o espírito da Psicologia


Analítica, propiciando ao cursista da Faculdade UnYLeYa uma percepção do mundo
e da psique do pondo de vista mais próximo ao de Jung – nunca poderemos chegar ao
mesmo ponto de vista, afinal somos diversos. E assim, compreender os seus conceitos
principais, como o inconsciente coletivo, o fluxo da energia psíquica, os arquétipos e
suas atuações no conjunto da personalidade humana.

E por meio do entendimento de conceitos da Psicologia Analítica ou Junguiana, aplicá-


los à compreensão da psique e sua produção, que é a cultura humana.

Antes de dar sequência, apresentando os objetivos de nossa disciplina, pensamos


ser de profundo engrandecimento, assistir a algumas palavras do próprio Jung.

Assistam, por gentileza, ao breve vídeo através do link: <https://www.youtube.


com/watch?v=1V41tTBBMEQ>.

Nossa disciplina busca, acima de tudo, promover a interação entre tutor e cursista e a
troca de vivências, materiais e expectativas, ou seja, será um momento de profunda
interação entre nós. Através de vídeos, dos tópicos no ambiente virtual, fóruns de debates,
dentre outras possibilidades e desdobramentos dessa abordagem teórica fantástica.

Objetivos
»» Compreender os fundamentos da Psicologia Analítica desenvolvida por
Carl Gustav Jung.

»» Apresentar informações relevantes acerca da relação entre Sigmund


Freud e Carl Gustav Jung, que resultaram na ruptura de Jung com a
Psicanálise e fomentaram o desenvolvimento da Psicologia Analítica.

»» Introduzir conceitos teóricos da Psicologia Analítica.

»» Refletir acerca dos desdobramentos em Psicologia Analítica.

»» Observar aspectos fundamentais à praxis clínica do psicólogo junguiano.

»» Compreender os processos psicopatológicos à luz da abordagem junguiana.

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Fundamentos Da
Psicologia Analítica Unidade I
de Carl Gustav Jung
Figura 2.

Fonte: <https://www.biography.com/.image/ar_1:1%2Cc_fill%2Ccs_srgb%2Cg_face%2Cq_80%2Cw_300/
MTE5NTU2MzE2MjY4NjkzMDAz/carl-jung-9359134-1-402.jpg>.

A Psicologia Analítica de Jung (1981), também conhecida como Psicologia Junguiana, é


uma abordagem da Psicologia, desenvolvida por Carl Gustav Jung, que se distingue da
Psicanálise iniciada por Sigmund Freud, por apresentar um escopo mais ampliado da
libido e pela introdução do conceito de inconsciente coletivo.

A contribuição de Jung para Psicologia é gigante, de modo geral, não é ao acaso que
ele seja o segundo nome – logo após o próprio Freud – mais citado quando o tema
abordado é Psicologia.

Dr. Jung morreu em 1961 e deixou uma vasta obra, que contribui até os dias atuais – de
uma forma muito rica e também plural para a Psicologia e para a análise do mundo no
mundo que temos hoje.

O pressuposto da Psicologia Analítica é o inconsciente.

A Psicologia Analítica é uma das psicologias que leva em consideração o inconsciente,


além da divisão entre consciência e inconsciência.

Para Jung, a consciência é uma espécie de órgão de orientação do ser. Um órgão de


orientação da Psique, ou seja, é aquilo – o lugar, melhor dizendo – que faz com que

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

o homem consiga se situar de uma forma razoável dentro do mundo no qual ele está
inserido.

Então, a consciência estaria para tudo aquilo que é vívido, identificável, memorável
para o humano. Já o inconsciente estaria em tudo o que foge a esse conceito. Ou seja,
tudo aquilo que participa da nossa vida, tudo aquilo que faz parte do que somos; mas
que não temos uma compreensão tão direta, tão formal – como temos dos conteúdos
da consciência.

Jung desenvolveu um método interessante, mas vamos ver esse método e os demais
conteúdos de nossa disciplina ao longo do nosso caderno de estudos e pesquisa.

Ótimos estudos a todos!

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Capítulo 1
Introdução à psicanálise freudiana

Ao falar da história da psicanálise, uma das premissas da historiografia é que: toda


história é uma história social. Embora a ciência natimorta elitista, utilizada no contexto
filosófico, apregoe o contrário. Ou seja, Athenas não explica Platão.

Mas, essa visão é totalmente equivocada. E a perspectiva historiográfica contemporânea


e moderna nos traz a demanda de busca pelo conhecimento do contexto social.

Quando pensamos em recorrer a um acompanhamento psicológico, somos, por vezes,


tomados por um emaranhado de ideias que vem em um fluxo constante, invadindo
nossa mente: tem-se a impressão equivocada de que é preciso ter um transtorno
emocional ou mental para buscar ajuda. Na realidade, o psicólogo deve – ou deveria
– trabalhar em uma perspectiva muito mais de promoção à saúde que propriamente
no âmbito meramente curativo, porém, os preconceitos em relação ao nosso trabalho,
muitas vezes, criam barreiras que nos impede de atuar com base nessa perspectiva.

Há também quem imagina uma sala sombria, com decoração clássica e um divã. Atrás
do divã encontra-se alguém calado e de aspecto severo, fechado. Nada de sorrisos,
expressão facial inexpressiva, distanciada.

Uma pergunta retórica: essa visão remete ao profissionalismo ou ao distanciamento?


Qual a imagem que uma pessoa que entra pela primeira vez em um setting terapêutico
terá?
Figura 3.

Fonte: <http://2.bp.blogspot.com/-WJEV6G3y7Ls/Ubeoqi_yxCI/AAAAAAAAAk8/-vJO_icPgJY/s400/417850_10200737857756194_1
756554284_n.jpg>.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Muito desse imaginário coletivo faz parte do legado deixado pelo pai da Psicanálise,
Dr. Sigmund Freud (1856-1939).

Sigmund Freud – introdução à vida pessoal


Dr. Freud era um médico neurologista, que enfrentou o inimigo interior no campo de
batalha da mente. Suas ideias revolucionaram os conceitos que o homem tem de si.

Os poetas e filósofos que me antecederam descobriram o Inconsciente.


O que eu descobri foi o método científico de estudá-lo.

(Sigmund Freud)

Em 23 de outubro de 1896, Jacob Freud morreu em Viena, aos 80 anos. Seu filho
Sigmund ficou, profundamente, abalado. As anotações, cartas e diários sempre foram
uma constante na vida do pai da Psicanálise. Deixamos como uma sugestão de leitura,
acerca da vida de Freud o livro de Peter Gay intitulado “Freud – uma vida para o
nosso tempo”.

Mitos e verdades, a Psicanálise está impregnada deles. Entendemos que a melhor forma
de elucidarmos a ambos é mergulhando em nossas pesquisas.

Dito isso, vamos retornar a considerações desse momento da perda do pai, vivenciada
por Freud. Quando ela relata que “sinto como se algo fosse me arrancado”.

A assim, a perda do pai, segundo o próprio Freud, promoveu uma “revolução em


sua alma”.

A morte do pai reavivou o passado de Freud de forma contundente. Sua infância vinha
à memória em um fluxo de sonhos perturbadores. E lembranças quase esquecidas.
Diante dessa turbulência, Freud criaria uma tese mudaria para sempre conceitos
e ideias.

Entendemos que os conceitos e ideias da Psicanálise já estavam no mundo. Contudo,


ninguém antes de Freud tentou ou foi capaz de sistematizá-los, para assim, aliviar o
sofrimento humano com base neles. O que Freud fez foi algo totalmente novo.

Freud acreditava que o ser humano era um animal em conflito. Não somos nossos
senhores. Ao contrário disso, grande parte de nossa vida é guiada pelo Inconsciente
que desconhecemos.

É uma ideia assustadora. Afinal, ela desafia todos os nossos desejos de afirmar nosso
livre arbítrio e racionalidade.
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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Desejos inconscientes, lapsos verbais, impulsos reprimidos. Freud criou uma linguagem
para nossos medos, sonhos, nossos segredos mais íntimos e pesadelos mais tenebrosos.

Hoje isso é comum, porque as ideias freudianas fazem parte da nossa linguagem. “Você
é defensivo. Está racionalizando. Você está em conflito.”.

Na compreensão de Freud sobre a forma como a mente se divide, as formas pelas quais
travamos uma guerra interior mudam a concepção da natureza humana e mental.

Como disse, certa vez, Freud passou a vida enfrentando o demônio. O demônio da
irracionalidade. Mas, todas as suas crenças surgiram das descobertas que fizera quando
jovem, na virada do século 20. Quando aprendeu que para lutar com o demônio dos
outros teria de enfrentar o seu.

E como dito em nossa introdução, precisamos abordar aspectos relacionados a Sigmund


Freud e à Psicanálise para compreendermos o quantum de energia que foi empregue
por Jung no desenvolvimento de seus conceitos.

Viena, capital do Império Austro Húngaro. A população aumentava e surgiam novos


e deslumbrantes prédios públicos no final do século 19. A velha cidade fervilhava –
orgulhosa e confiante.

Sigmund Freud, o mais velho de sete filhos, cresceu em Viena. Ele conheceu os palácios
suntuosos, as ruas modernas, os parques e mercados locais. Destarte, Freud era
indiferente ao clima de animação. Enquanto, alguns sonhavam com champanhe e
valsas, o jovem Freud sonhava com a fama.

Em retrospectiva...

Antes da perda do pai

Em 1877, Sigmund Freud era um jovem ambicioso que planejava se dedicar à ciência.
O homem que um dia exploraria o tumultuado universo da mente, os desejos, sonhos,
ansiedades e impulsos, começou estudando a anatomia do cérebro.

Na Universidade de Viena, Freud publicou ensaios científicos bem embasados com


conclusões prudentes e por ele ilustrados com extremo esmero. Seu professor foi um dos
cientistas mais famosos da época, o Dr. Ernst Wilhelm von Brücke, dono de um intelecto
sagaz. Brücke era uma figura formidável que Freud descreveu como a maior autoridade
que já conhecerá.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Figura 4. Professor Ernst Wilhelm von Brücke.

Fonte: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ea/Ernst_von_Bruecke.jpg/150px-Ernst_von_Bruecke.jpg>.

Quarenta anos mais velho que Freud, Brücke foi o primeiro de vários homens que ele
respeitou e/ou imitou antes de seguir o próprio caminho.

Brücke era ríspido e muito exigente com seus alunos. Freud sentia por ele admiração e
medo, sentimentos nutridos por um pai – simbólico – inteligente e exigente.

Ao completar 26 anos, o trabalho de Freud no laboratório chegou ao fim. Martha Bernays


tinha 21 anos e descascava maças, quando Freud a conheceu. Logo passou a mandar-
lhe flores diariamente e a chama-la de princesa. Dois meses depois, eles ficaram noivos.

Há várias correspondências, aproximadamente mais de 1.500 cartas, trocadas entre


os dois que demonstram esse grande amor. Esses registros podem ser encontrados em
livros e em sites e blogs que abordam a vida de Freud.

A difícil decisão

Freud não possuía condições econômicas casar com Martha – e retornaremos a esse
tema mais adiante. Estudante de parcos recursos, ele ainda morava com os pais e não
poderia sustentar uma família.

Sem perspectiva de ganhar a vida como cientista e desesperado para se casar com
Martha, Freud tomou uma decisão difícil. Seis meses depois de conhecê-la ele sacrificou
as ambições cientificas pela mulher que amava. Decidindo ser médico.

Brücke conversou com ele, e disse “você não pode viver disso, meu jovem”. Se Brücke
tivesse pago os salários dele, nenhum de nós teríamos conhecido Freud.

Freud passaria 3 anos solitários no Hospital Geral de Viena, experimentando a cirurgia


e a medicina interna sem saber ao certo qual seria sua especialidade.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Ele raramente via Martha. Ela havia se mudado com a família para Hamburgo, no norte
da Alemanha, longe de Viena.

Tomado pela insônia, ele lia até tarde da noite Cervantes, Goethe, Shakespeare e escrevia
longas e apaixonadas cartas de amor à Martha, diariamente.

Ela foi o seu primeiro amor e Dr. Freud era muito atencioso e ardente.

Quero tanto ouvi-la falar, e calar sua boca – de vez em quando – com
um beijo para fazê-la parar.
Freud para Martha

Pesquisas...

Na faculdade de Medicina, Freud deu continuidade à sua pesquisa na esperança de


fazer uma descoberta. Ao fazer experiências com uma droga pouco conhecida à época,
ele acreditou que logo ganharia fama, fortuna e faria de Martha sua mulher. Era preciso
um golpe de sorte para galgar a posição desejada e reverter o quadro econômico no
qual se encontrava. Casar-se com Martha tornou-se a sua principal motivação para
desenvolver suas pesquisas, naquele momento. O que não retira o mérito de nenhuma
de suas pesquisas e descobertas. Nessa época Freud, estava imerso em leituras acerca
da cocaína.

A cocaína era um forte analgésico, porém tinha efeitos sobre a depressão.

Freud reclamava de depressão e falta de energia. Freud não anteviu que a cocaína
viciava. Ele encontrou algo “mágico”, que melhorava seu humor e lhe dava uma energia
incrível. Parecia ter descoberto o elixir da vida.

De acordo com Kaplan e Sadock (1993), em um dos seus episódios de depressão grave,
Freud relata que uma pequena quantidade da substância fez milagres em seu quadro
geral. Chegando a descrever como se estivesse “nas alturas”.

Segundo Cohen (2014), Freud publicou um ensaio sobre a cocaína e prescreveu a


substância para si, além de patentes e amigos. Até chegou a enviar um pouco a Martha
para que ela se fortalecesse e ficasse corada.

Entretanto, quando outros cientistas descobriram que a cocaína viciava, os sonhos


de sucesso e fortuna nutridos por Freud se dissiparam. Mas, embora fizesse uso da
substância nos anos subsequentes, Freud nunca se tornou viciado e mais tarde abandonou
definitivamente a droga.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Uma nova vida...

No outono de 1885, impaciente com o aprenderia em Viena, Freud foi a Paris.

Ela ganhou uma bolsa para estudar com um dos maiores neurologistas da época. No
auge da fama, Jean-Martin Charcot era chamado de “Napoleão da Neurose”.

Alguns pontos importantes, antes de prosseguir


com Charcot

Para compreender a Psicanálise, faz-se necessário entender também o cenário da


Psiquiatria praticada à época em que os estudos de Freud começaram a se desenvolver.

Freud nunca foi psiquiatra, em Fadiman e Frager (1986), isso foi esclarecido. Ele era
neurologista. Um médico de família, digamos assim, aos moldes dos que iam na casa de
seus pacientes e cuidavam de todos os membros da família.

Ele também nunca lidou diretamente com pessoas – psicóticas, esquizofrênicas –


asiladas em instituições manicomiais. Ao contrário de Jung que começou lidando com
essa problemática específica.

A Teoria de Freud surge do contato com a histeria. Essa foi uma questão fundamental,
além dos debates e discussões acerca da histeria que precedem a Freud. Remontando à
Grécia Clássica nos atendo à chamada Antiguidade helênica, principalmente em Atenas
nos séculos V e IV a.C. (antes de Cristo). Ou seja, a Grécia de Platão, de Sócrates, de
Aristóteles na Filosofia e de Hipócrates na Medicina.

A partir de Hipócrates, a Medicina clínica –tal como se entende ainda hoje – cria a díade
médico/paciente, constituindo como modelo de valor supremo a observação do corpo.
Não vamos ousar a falar em surgimento da Medicina científica, porém, é documental
que nesse contexto histórico cultural a Medicina se afasta da conotação de magia.
Aqui nesse momento, advém referências ao tema para o qual direcionamos nosso
interesse. Dentre os 72 livros hipocráticos – dos quais apenas alguns foram
comprovadamente escritos pelo próprio Hipócrates, segundo Nahoum (1989) – é
fornecida a descrição do corpo feminino, tal qual o olhar médico, reforçando, o olhar
masculino, o olhar do homem.

Devemos observar que esse olhar não era como um olhar do que era visto, mas sim do
que era imaginado. Afinal a observação não era direta. Isso só foi possível, mais tarde,
quando as necropsias, finalmente, permitiram ver o corpo feminino como realmente
era. Contudo, as representações fantasiosas permaneceram. A mulher era vista como
inferior, como um ‘homem invertido’ (visão de Galeno), com os órgãos de um homem,

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

dentro de si. Reforçando o conceito de que homens medrosos, acabavam por nascerem
como mulheres.

Se a proibição aos exames era da ordem do pudor – e isto pode ser observado ao longo da
história da civilização – provavelmente, na própria Grécia essa regra não era extensiva
às prostitutas. O corpo dessas, de acordo com Nahoum (1981), era de quem pagasse
pelo seu uso. Essas sim, eram expostas – tinham seus corpos examinados e expostos –
para o avanço da ciência.

Na Grécia Clássica já existia a noção da histeria como uma doença exclusivamente


voltada ao humor oscilante e a ausência da atividade sexual. Ou seja, o útero precisava
ser irrigado pelo sêmen como forma de controle da tendência histérica feminina.
Tendência ou sentença? Pois, até hoje a mulher é rotulada como histérica – mediante o
senso comum – ao chorar, gritar, quebrar algum objeto, enfim, ao se expressar.

Assim, Freud utiliza vários termos que não foram criados por ele. Entretanto, foram
associados à teoria freudiana, tais como histeria, neurose, recalque, dentre outros, que
acabamos associando fortemente à psicanálise freudiana.

Freud era docente em neuropatologia e estudou em Paris entre 1885 e 1886, com uma
bolsa de estudos da Universidade de Viena, realizando estudos sobre a histeria no
Hospital da Salpêtrière com seu professor Jean-Martin Charcot. Conforme colocado no
“Relatório sobre meus estudos em Paris e Berlim” (1886). Freud revelou sua admiração
pela proposta de Charcot em sua busca por respostas referentes a sintomas histéricos,
bem como o desenvolvimento de um tratamento para a histeria.

O primeiro método empregado por Freud na cura da histeria foi a sugestão hipnótica,
descrita no artigo “Hipnotismo”, de 1891. Tratava-se de hipnotizar o paciente com o
intuito de rebaixar sua consciência. A partir dessa pesquisa, Freud analisou as vontades
e contra vontades em conflito no paciente.

A psiquiatria surge na França com Pinel, quando ele revoluciona o tratamento dado
aos pacientes com transtornos mentais, inclusive havendo romanceado a imagem
do médico libertando os pacientes dos grilhões. Justamente, porque eles eram
tratados como prisioneiros que eram jogados ali (nos manicômios) e esperava-se
apenas que eles morressem. Eram um inconveniente à sociedade, exatamente, por
isso mantidos à distância. O Dr. Pinel altera essa metodologia e passa a dar um
tratamento humano a essas pessoas. Havia toda uma teorização fortemente filosófica
na formação de Pinel e fortemente literária. Mesmo seus discípulos mais próximos
começam a se afastar dele por isso, afinal o movimento que comandava era o da
psiquiatria biológica.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Mas, a psiquiatria biológica surge na Alemanha, em 1845, através do médico Wiehelm


Griesinger, que aos 28 anos lança um tratado sobre Psiquiatria com uma linguagem
médica, aludindo a uma base biológica – indispensável para a medicina. Essa base
biológica no trabalho de Griesinger surge de um debate anterior acerca da psiquiatria
romântica – ou seja, derivada do debate metafísico e teológico – o termo inclusive que
Freud continua a utilizar, provavelmente, pela influência romântica para psique, é alma.

Figura 5.

Fonte: <http://cienciasdasaude.med.br/img/744.JPG>.

Essa alma teria para nós, na língua portuguesa, o significado de mente, personalidade.
Ou como hoje utilizamos psique ou psiquismo.

Na psiquiatria romântica havia um debate que tratava a alma em um sentido teológico,


metafísico; e essa alma seria incorruptível. Logo, o que se corrompia nas doenças
mentais, nas neuroses, nas afecções seriam os processos mentais. Logo depois, seria
uma doença no corpo, onde o corpo ficaria com problemas. Contudo, a alma como uma
‘fagulha divina’ permanecia intacta.

Mas, Griesinger desenvolve toda uma teorização de base realmente biológica, para
utilizar as ciências naturais à psiquiatria, apresentando teorias bastante interessantes.
Ele já apresentava uma “teoria dos complexos” – se é que podemos nos referir dessa
forma categoricamente – anterior a Jung.

Freud tinha o livro de Griesinger. Enfim, todos que se interessavam pelo tema tinham
seu livro. Sendo um livro fundamental, pois representa uma revolução metodológica;
como foi a do Dr. Pinel. Porém, que lançava as bases para a psiquiatria de base biológica
e médica.

Griesinger não era um reducionista, muito pelo contrário, mas a partir dele as questões
vão se intensificando até se chegar ao reducionismo biológico – que por sinal ainda

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

está em voga. Esse reducionismo biológico ainda molda o nosso tempo. Se não for algo
que corresponda a algum aspecto físico, a maioria dos profissionais – principalmente
de orientação médica, não todos os médicos obviamente – mas, a orientação geral do
ensino médico é priorizar o sintoma físico.

A partir desse momento, surge uma discussão na Europa acerca de um modelo de


psiquiatria anatômica – ou melhor anotomopatológica – esse modelo surge da seguinte
premissa de que qualquer alteração da cognição, dos sentidos – a forma como eram
descritas as afecções ou problemas psicopatológicos – deveria ter como paralelo um
dano estrutural do cérebro, uma lesão anatômica.

Então, começou a se acompanhar os pacientes do momento que eles chegavam até a


sua morte. Então, eram realizadas autopsias, fazendo-se lâminas para realizar estudos
histológicos para detectar essa correspondência entre um dano anatômico e estrutural
do cérebro, em alguma região do cérebro, que ocasionava uma afasia, uma paralisia,
uma parestesia, problemas cognitivos, alucinações etc.

Esse movimento foi pioneiro e trouxe muitos progressos ao estudo e intervenção das
psicopatologias.

Foi mediante esses estudos que se descobriu que 30% das pessoas asiladas na Europa
com diagnóstico de clementia paralytico, ou demência paralítica, eram pessoas que
apresentavam sífilisna fase terciária – que causava essa lesão anatômica no cérebro que
era responsável pelo quadro de demência.

Através desse enorme sucesso, ocorre a queda do modelo anatomopatológico.


Pois, chegou o momento em que já haviam sido identificadas várias doenças que
correspondiam à teoria desenvolvida: a de que existia uma lesão cerebral. Mas, a
histeria e as neuroses, especialmente, embora não apenas, resistiam a isso. A quantidade
de sintomas que aparece na histeria é tão variada, que poderia corresponder à
hipótese de várias lesões e em áreas diversas. Mas, não era o caso. Não havia
lesão alguma.

Essa tendência era tão forte que chegava a ser uma discussão de saber o que era
próximo de um ser humano vivo, um ser humano morto ou um animal vivo. Porque os
pesquisadores também faziam essa psiquiatria comparada. Lesionavam o cérebro de
um rato e conferiam o que iria acontecer com a cognição dele.

Mas, o que acontece é que o campo das histerias permaneceu sem que fosse encontrado
o paralelo físico. O que levou muitos autores a considerarem que a histeria não era uma
doença. Ela era um teatro.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Além disso, havia um preconceito razoavelmente arraigado – Freud exagera nesse ponto
– de que a histeria era exclusiva das mulheres. Especialmente, pela descrição feita por
Hipócrates que associava a histeria a uma atividade incomum do útero. Mesmo nas
inscrições mais antigas, já havia uma correlação entre histeria e a atividade sexual ou a
ausência dela.

Ocorre que, no final do século 19, um dos maiores anatomistas, Jean-Martin Charcot,
que dirigiu um dos hospitais que fora dirigido por Pinel, o Hospital Salpêtrière,
tendo como principal discípulo Pierre Janet, outro autor extremamente influente que
conquistou respeito e fama com o tratado “Sobre a Psicodinâmica da Hipnose”, afirmava
o óbvio, que não havia lesão anatômicaestrutural alguma que explicasse a histeria.
Mas, ele ainda era um fisicalista, um materialista, então ainda achava que havia uma
lesão neurodinâmica, algo fisiológico – que não corresponderia ao aspecto anatômico
ao qual Charcot já avança. Primeiro, porque ele considera a histeria como algo real,
uma doença e não era um piti ou pitiatismo – como era denominada. Não era exclusiva
de mulheres e ele já propõe uma espécie de psicodinâmica.

Retornando a Charcot

Freud escreveu à Martha que “a sensatez de Charcot beirava a dos gênios”.

Charcot atraía as pessoas, era carismático e sabemos que Freud sempre gostou de
figuras masculinas fortes. Talvez para compensar a visão de fragilidade e impotência
que seu pai apresentava mediante a perseguição aos judeus.

O fato é que o ano que passou em Paris foi decisivo para Freud, assim como o trabalho
com Charcot.

Charcot apresentaria ao jovem estudante de medicina um mistério que ele passaria


a vida tentando solucionar o poder das forças mentais que se escondem por trás da
consciência.

Segundo Campbell (2000), quando Freud vai estudar com Charcot, ele estava
utilizando a hipnose. E obviamente, Freud ficou profundamente impressionado com a
demonstração do poder da mente até mesmo sobre o corpo. Foi o reconhecimento da
profundidade da mente através dos níveis de consciência e inconsciência interagindo.
Essa foi uma grande descoberta para Freud, pois foi a primeira pista de que a mente
não era clara.

Freud chegou a Paris fascinado pelos problemas do cérebro. Cinco meses depois ele
retornaria a Viena intrigado com os distúrbios da mente.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Na primavera, em um pequeno consultório no centro da cidade Freud começa a praticar


a Medicina, especializando-se em Neurologia e tratando de pacientes com distúrbios
físicos e nervosos. Nessa época, finalmente, conseguiu juntar dinheiro suficiente para
casar com Martha. Em 14 de setembro de 1886, depois de 4 anos de espera, Sigmund
Freud casou com o único amor de sua vida.

Martha se tornou o tipo de mulher que Freud esperava, devotada à família e ao lar.
Tiveram filhos – em 9 anos tiveram 6 filhos – e ela uma excelente mãe e dona de casa.
Muito econômica. Freud se tornou um homem de hábitos comuns: passeava pelas ruas,
jogava cartas com os amigos nas noites de sábado. Com 1,70 de altura e impecavelmente
vestido, ele gostava de um bom charuto – fumando mais de 20 por dia.

Trabalhando como neurologista

Quando começou a trabalhar como neurologista, Freud ainda estava intrigado com o
enigma da histeria. Como outros médicos da época, ele tratava a histeria com pequenos
choques elétricos.

O arsenal terapêutico de Freud continha duas armas: a hipnose e a eletroterapia.

Logo, Freud percebeu que a eletroterapia em nada ajudava. Assim, em busca de


tratamento mais eficaz, Freud recorreu a um novo mentor. Um médico fisiologista
austríaco brilhante que também utilizava a hipnose, chamado Josef Breuer, um médico
conceituado e bem-sucedido. Quinze anos mais velho que Freud; Breuer foi seu amigo
enquanto ele ainda estudava, lhe emprestou dinheiro e contou suas ideias. Os dois se
aproximaram tanto que Freud batizou a filha com o nome da mulher de Breuer.

Sobre a hipnose

O criador da hipnose foi o médico austríaco Franz Anton Mesmer. No século 18, ele
defendeu a tese de que a hipnose era desenvolvida por um fluído universal – uma
energia. E que dessa energia fazia parte todas as coisas do Universo. Incluindo as forças
de fluxo e refluxo; atração e repulsão a semelhança do magnetismo mineral.

Mesmer trouxe uma fama um tanto duvidosa à hipnose. Ou seja, a hipnose era vista
como charlatanismo na Áustria, especialmente em Viena. Mas na França, com a
utilização para pesquisa e terapêutica de Charcot e Pierre Janet, a hipnose passou a ser
vista de outra forma. O que não acontecia no mundo germânico.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Figura 6. Jean-Martin Charcot e Pierre Janet.

Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Martin_Charcot> e <https://pt.wikipedia.org/wiki/Pierre_Janet>.

Charcot entendia que quando se conseguia hipnotizar alguém (fase sonambúlica),


essa pessoa era histérica. Como suprimir ou causar sintomas histéricos com a hipnose
significava – na lógica de Charcot – que a pessoa teria que ser histérica de antemão para
ser hipnotizada.

Além disso, ele tinha uma espécie de teoria do trauma. Desse modo, havia um trauma
físico e com a predisposição para a histeria: um trauma físico lhe colocaria em uma
situação que permitiria ao sintoma aparecer. Ou seja, uma afasia, por exemplo, poderia
vir à tona no processo de hipnose.

E as demonstrações eram bem teatrais. Através da hipnose, foi desenvolvida uma


metodologia terapêutica para suprimir os sintomas e utilizava a hipnose também para
demonstrar as suas teses. Por isso, esse aspecto teatral.

Entretanto, apesar de representar o início da investigação psicanalítica, o método


hipnótico era difícil de ser aplicado pelos médicos e nem todos os pacientes eram
passíveis de hipnotização ou apresentavam melhora. Os que apresentavam melhora
nos sintomas regressavam em curto prazo.

Figura 7.

Fonte: <http://psicoativo.com/wp-content/uploads/2016/04/Charcot-hipnose-histeria-500x316.jpg>.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Pierre Janet já estava nesse cenário quando, Freud vai estudar com Charcot. Ele percebia
a hipnose como um método de estudos, porque ela provava a existência de associações
e pensamentos separados da consciência, e de fato ela demonstra isso.

Por exemplo, vamos supor que um de nós seja hipnotizado e o profissional que nos
deixou em estado de hipnose diga “vou contar até 3, você não vai lembrar do que eu disse,
mas quando você atravessar aquela porta você vai esquecer o seu nome”. Acordamos!
Estamos lá. Ele nos pergunta “tudo bem?, lembra de alguma coisa?” Afirmamos que
que não lembramos e que está tudo bem.

Mas, ao atravessarmos a porta, quando nos é perguntado nosso nome, não lembramos.

Figura 8.

Fonte: <https://www.altoastral.com.br/wp-content/uploads/2016/09/hipnose-depressao-750x500.jpg>.

Isso mostra que existem correntes em separado de memória, que mostram que a
consciência não é abrangente. Há questões que estão fora escopo da consciência. Mas,
que quando vemos pelo exemplo da hipnose, elas afetam a consciência.

Então, Janet já falava sobre o subconsciente, partes inferiores da função e abaixamento


do nível mental (que vem diretamente de Janet).

Freud vai, ao contrário, repensar a ideia de Janet. Pois ele afirmava que existiam elementos
psíquicos fortes na consciência e outros mais fracos. Quando havia o abaixamento do
nível mental era como se fosse um movimento de gangorra. Ou seja, esses que estavam
mais fracos – com a força diminuída – subiam, surgiam na consciência e faziam efeito.
Freud vai repensar essa psicodinâmica acrescentando a isso a ideia de recalque.

Há uma confusão entre repressão e recalque, mas o termo certo é recalque. Sendo o
recalque da ordem do inconsciente e a repressão um autocontrole consciente.

Freud se insere em todo esse panorama.

Freud era judeu, e toda a Europa era profundamente, antissemita. A vida dos judeus
na Europa sempre foi muito difícil, pois não eram bem aceitos. Jung aponta algo

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interessante a esse respeito, quando fala que o nazismo poderia ter sido desenvolvido
em qualquer país da Europa, pois o antissemitismo era extremamente arraigado.

Em 1891, quando Freud completou 35 anos, seu pai lhe deu a Bíblia da família para
que o filho se lembrasse da herança judia. Mas, os rituais e cerimonias judias não
interessavam a Freud. Ele não fora criado como judeu praticante. Ele celebrava o Natal
todo ano, com árvores iluminadas e presentes para as crianças.

Freud não era austríaco, ele nasceu na Morávia (Império Austro-Húngaro, mas não
faz parte do que hoje é a Áustria). Era filho de um comerciante judeu e de uma família
tradicional judaica, que imigrou para à Áustria – pois esse era um local mais favorável
à presença de judeus. Mesmo assim, o local tinha um prefeito que se elegeu a partir de
uma base de governo antissemita. Havia impostos específicos para os judeus. Proibição
aos judeus em contratar criadas cristãs, entre uma série de outras restrições.

Mas ainda assim, na Áustria, especialmente em Viena, era muito mais acolhedor para
os judeus. Inclusive, boa parte dos teatros e jornais da cidade – senão todos – eram
também de propriedade de judeus.

A família de Freud se muda para lá. Freud, inclusive, quando criança, presencia o pai
ser vítima de antissemitismo, sem nunca esboçar uma atitude.

Em uma determinada situação um grupo de jovens passou pelo pai de Freud, que usava
um quipá novo – que em hebraico ‫הפיכ‬, kipá, significa “cobertura”. Sendo o chapéu,
boina ou outra peça de vestuário utilizada pelos judeus, como símbolo da religião bem
como símbolo de temor a Deus.

O fato é que Freud acompanhava seu pai quando esse grupo xingou seu pai e retirou seu
quipá, jogando o no chão. Chão esse que à época era cheio de esterco de cavalos. O pai
de Freud se abaixou, pegou seu quipá, limpou e colocou na cabeça. Sem pronunciar uma
palavra. E essa atitude, dentre outras, deixavam Freud muito decepcionado com o pai.

Figura 9. Jacob Freud com Freud ainda menino.

Fonte: <http://www.lpm-blog.com.br/wp-content/uploads/2013/05/sigmundfreud_jacobfreud.jpg>.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Tanto que em uma ocasião os filhos de Freud foram ameaçados em um balneário na


Europa, por um grupo de antissemitas. E Freud pegou sua bengala e espantou essas
pessoas, garantindo a segurança de seus filhos.

Ele não agia como o pai, ele reagia às agressões antissemitas. Ele não se deixava
intimidar.

Freud optou pela medicina e era uma pessoa de poucos recursos. O dinheiro sempre foi
uma preocupação para ele. E as cartas trocadas entre ele e Marta, quando eram noivos
dão conta disso.

O pai de Freud já havia tido outros casamentos. Portanto, Freud tinha outros irmãos
bem mais velhos que moravam na Inglaterra. Ele foi à Inglaterra algumas vezes.

Houve um grande investimento da família em seus estudos. A mãe especialmente


vislumbrava para Sigmund um futuro brilhante. Enquanto ele estudava não poderia
haver barulhos em casa. Uma de suas irmãs que estudava piano, parou a mando da
mãe para que Freud não fosse incomodado. Falava fluentemente inglês, espanhol,
hebraico, alemão.

Ele não era um seguidor do judaísmo. Inclusive tinha um distanciamento religioso.


A teoria dele demonstra que a religião não era vista como algo genuíno. Vide o texto de
“O Futuro de uma Ilusão”.

A Psicanálise veio à tona através de Sigmund Freud, em 1900, com a publicação de


sua obra “Interpretação dos Sonhos”. Nessa época existia uma discussão em torno da
ciência e da sabedoria popular, ou senso comum. Os médicos ao ouvirem a narrativa de
um sonho, pensavam que aquilo era um transtorno elétrico das células cerebrais sem
nenhum significado. E o senso comum dizia o oposto, ou seja, que havia um significado
e atribuía significados fixos.

Exemplificando: quem de nós nunca viu em bancas de jornal ou em sites determinadas


listas de palavras que são utilizadas para interpretar os sonhos. Títulos chamativos
como “A interpretação dos sonhos de A à Z” ou “Livro dos sonhos”. Coisas do tipo:
sonhar com zebras correndo soltas em seu habitat é presságio feliz para as coisas do
coração e assim, por diante. Poderíamos sonhar que está montado em uma zebra, que
há zebras enjauladas, zebras mortas. Enfim, para cada objeto, animal ou situação, para
tudo existe uma interpretação à luz do senso comum.

Ou seja, quem sonha com uma zebra viva é prosperidade, com uma zebra presa é traição
à vista. Há inúmeros significados. Ás vezes de uma realidade interna, às vezes de uma
realidade externa.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Quando Freud começa a estudar o funcionamento mental, aconteceu algo muito


interessante e que precisamos mencionar; Freud era um pesquisador, trabalhava fazendo
experimentações, só que ele tinha recursos financeiros escassos, como mencionamos.
Ou seja, para se casar com sua noiva Marta, ele precisava atuar na clínica, pois precisava
ganhar dinheiro, sustentar sua família. Dessa forma, ele começou a atender as pessoas.
E quando começou a atender a doença da época era uma doença chamada histeria –
como podemos notar nas obras de Foucault a psicopatologia não é uma área do saber
médico, mas sim antropológico e social. Pois o normal de hoje, não o será daqui há
alguns anos e vice-versa.

É importante repassarmos esses conceitos ao finalizarmos o capítulo para que os eles


sejam bem entendidos e para fornecer a base entre Freud e Jung.

A grande questão da histeria: ela era uma doença física, sem uma contraparte física.
Então, imaginemos que o indivíduo não consegue mexer sua perna ou ela se mexe
desesperadamente sem que a pessoa exerça controle sobre ela. Isso é uma histeria.

Tecnicamente, a histeria não tem qualquer relação com gritos, escândalos. Equívoco do
senso comum.

Freud olha para essa questão e se pergunta: como pode essa doença ter acontecido se
não encontro para ela uma lesão? Como dissemos, não havia nenhuma lesão nos casos
pesquisados de histeria.

Não havia um músculo lesionado, um nervo lesionado, sem nenhuma lesão cerebral.
Ele segue estudando e pesquisando muito os pacientes atendidos, e percebe que existe
algo em suas vidas tão importante quanto os traumas físicos: os traumas psíquicos.
Antes de Freud não se usava a palavra trauma para descrever algum evento emocional.
A palavra trauma era utilizada para falar de uma queda, uma quebra, um traumatismo.

Freud estuda seus pacientes e se dá conta de que essa quebra não é necessariamente
física, que existe uma quebra psíquica. Ou seja, alguma coisa na sua história causa um
impacto tão grande quanto uma queda.

Assim, a pessoa pode deixar de movimentar a sua perna porque caiu e lesionou o
músculo. Ou uma pessoa pode deixar de movimentar a perna porque em um dado
momento da existência – um momento muito específico – alguém gritou de forma tão
marcante que não era mais possível movimentar a perna.

A queda e o grito surtem o mesmo efeito, causam o mesmo impacto na realidade


psicofísica. Outra tradução que Freud faz a partir dessa leitura muito importante é
justamente essa: existe uma ligação entre o seu organismo e a sua realidade psíquica.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Aquilo que se produz como pensamento, aquilo em que se crê, aquilo que se sente não
é separado do que você é como realidade corpórea.

Na época de Freud, toda a subjetividade estava vinculada à religiosidade. E estamos


narrando um momento em que ele está tentando romper com esse movimento,
pois a religiosidade vem com a culpa, com a proibição ao conhecimento. Tudo o que
conhecemos como sendo histórico nos sistemas religiosos.

Então a ciência, de maneira geral, tem uma rejeição muito grande, muito acentuada,
aos processos de subjetividade.

Quando Freud diz que “o que você vive como história afeta sua vida”, ele é traduzido
primeiro como um charlatão. A grande crítica que lhe doía mais era acerca de sua origem
judaica e que isso era típico de um pensamento judeu. Ele não estava descrevendo uma
ciência, mas sim uma perversão dos judeus.

Então, primeiro ponto: a Psicanálise é uma teoria que leva em consideração a história
pessoal de cada indivíduo, que afeta seu organismo. Não é uma questão, por exemplo,
desvinculada do seu corpo e nem com uma subjetividade que exista para fora de seu
corpo. É uma relação. Uma relação entre o seu corpo e a realidade mental que o afeta.
O movimento psicanalítico é cíclico. Então, toda a teoria psicanalítica existe para
explicar como isso acontece, quando isso acontece e como intervir nesse processo para
que seja vivenciado de uma forma saudável, satisfatória.

Segundo ponto: quando Freud começa a estudar esse tema, ele dizia aquilo que você
é, enquanto corpo afeta sua realidade psíquica que afeta o seu corpo. Quando ele começa
a estudar essa questão, se dá conta de que não é qualquer momento, não é qualquer
história. Isso acontece em um momento específico que é o momento de formação.

Quando o indivíduo se forma, ou seja, no processo da infância, são aprendidos


referenciais de como se relacionar com o seu corpo e com o seu psiquismo. De maneira
geral, esses referenciais são guardados durante toda a vida.

De outra maneira, tendemos a fazer na vida adulta aquilo que aprendemos a fazer na
infância.

Freud não acreditava que os indivíduos passavam por longos processos de aprendizado,
principalmente pensando em aprendizado psicofísico emocional. Ele acredita que o
ser humano tem um período de formação e os períodos subsequentes costumam ser
confirmações ou negações desse período inicial.

Ou seja, o período inicial permanece como referência. Esse período inicial onde o ser
humano aprende a lidar com a realidade física e que eu construo a minha realidade

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

psíquica; Freud chama de fases do desenvolvimento infantil ou fases do desenvolvimento


da libido.

Figura 10.

Fonte: <http://letras-equipe5.blogspot.com.br/2010/10/quem-foi-sigmund-freud.html>.

E a libido é um tópico que merece ser refletido.

Será que hoje poderíamos chegar na casa dos nossos pais.

Ou melhor, avós.

Afinal, temos pais mais abertos ao diálogo hoje, ou não. Mas, o fato é que queremos que
se imaginem chegando na casa de pessoas conservadoras do seu ciclo mais próximo de
relações e dizendo: “hoje tive uma experiência sexual que me deixou um imenso tesão”.
É possível falar dessa forma com a pessoa que vocês imaginaram?

Bem, na época do Freud a palavra equivalente a esse tesão que muitos dos nossos avós
não se sentem confortáveis em ouvir é libido.

Libido, antes de Freud, significava desejo consciente de relação sexual.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Figura 11.

Fonte: <http://www.clinicahorizontes.com.br/o-conceito-de-desejo-em-psicanalise/>.

Freud pega exatamente essa palavra, com essa conotação sexual acentuada e usa para
desenvolver um conceito muito importante. Para Freud, libido transcende o contato
sexual e caminha para as relações de prazer.

Então, Freud vai dizer que nós procuramos prazer no nosso desenvolvimento e que
essa busca de prazer motiva nosso crescimento, nossa curiosidade e nossa inteligência.
Então, primeiro temos um corpo que desenvolve subjetividade, através de um elemento
denominado por Freud de energia libido.

E a escolha do termo libido é de proposito, porque ele quer relacionar os nossos


movimentos vitais com a sexualidade. É daí que vem a noção de que Freud se preocupa
ou se ocupa bastante com o sexo e com a atividade sexual. Ele se apropria de um termo
que era referência ao contato genital e o coloca no cotidiano.

Dessa forma, Freud diz a todos que sexo é algo mais abrangente do que se pensa e, em
segundo lugar, que é muito importante.

O que ele pensava basicamente era que a energia que os animais convencionais, os
outros mamíferos, utilizam para manter a própria sobrevivência e para se reproduzir;
nós, humanos, utilizamos para fazer poesia. Nós somos mamíferos, portanto, temos a
mesma dinâmica de necessidade vital que a maior parte dos mamíferos. Entretanto, nós
não nos contentamos em comer. Tão logo começamos a comer bem, queremos enfeitar
o prato. Os programas de culinária e a gastronomia mostram isso.

Ou seja, um filé com aspargos pode ficar mais gostoso, porque colocamos alguns
ramos de alecrim no prato e o deixamos mais bonito. A beleza fará a comida ficar mais

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

gostosa? A isso se chama capacidade de subjetivação. É a isso que Freud descreve como
sendo a ação da nossa libido, a libido em movimento nos leva a não nos contentarmos
simplesmente com a satisfação de nossas necessidades primárias.

É a isso que nos referimos quando falamos em fazer poesia. Nós não nos contentamos
apenas em comer ou em ter algum tipo de contato sexual. Ao contrário, também
queremos fazer poesia, fazer música, fazer arranjo floral etc. queremos produzir para
além do que parece necessário para a vida convencional, para a vida de outros animais.
Assim, para outro animal, para outro mamífero, a expressão direta da libido faz todo
sentido. Nós somos capazes de sublimar. Ou seja, desviamos essa energia da libido para
algum outro fazer. Que segundo Freud constrói a sociedade humana.

O método catártico

Ele consistia na associação livre de ideias associadas ao trauma que desencadeou o


quadro histérico, conforme proposto nos “Estudos da Histeria” (1893-1895).

Figura 12.

Fonte: <http://www.olharrefletido.com/wp-content/uploads/2017/11/catarse-350x250.jpg>.

Na obra “Comunicação Preliminar” (1893), Introdução aos Estudos, Freud, mencionava


uma etiologia não orgânica à histeria e propõe causas externas aos indivíduos e se dá
na forma de vivência de um trauma psíquico. Nesse sentido, considerou a consciência
dissociada como uma consequência do trauma-histeria traumática – ou como uma pré-
disposição herdada dos pais – histeria disposicional. No caso da histeria traumática,
Freud afirmava que a vivência do trauma se tornou patológica pelo fato de o indivíduo
não ter associado o evento. O trauma, mesmo estando no passado, ainda pulsa dentro
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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

do indivíduo, atuando na formação de sintomas, ou seja, as histéricas sofriam de


reminiscências.

Nesse modelo, os sintomas histéricos crônicos observados nas paralisias, dores sem
etiologia orgânica, alucinações, se dariam pela passagem de material afetivo dessa
segunda consciência para a consciência original – fenômeno da conversão, enquanto
os sintomas agudos da histeria representavam uma consciência sobre o indivíduo.
O método catártico nesses moldes funcionava pela vazão do afeto inconsciente por meio
da fala, sem necessitar recorrer à conversão para tal. O método catártico promovia não
apenas a consciência dos traumas, mas também dos fatores inerentes a ele.

Freud, nesse período, apostava na divisão da consciência como patológica. Em


“Neuropsicoses de Defesa” (1894), assume o pressuposto para classificar a histeria como
um fenômeno da conversão, contudo, classifica diferentes tipos de histeria segundo
a forma como a consciência havia sido dividida. A histeria hipnoide corresponde à
divisão pelo trauma, já a histeria de defesa, a divisão se daria por uma força de vontade
do indivíduo em tirar da consciência o material traumático e, por fim, na histeria de
retenção não ocorreu divisão da consciência, mas o afeto não foi ab-reagido.

Figura 13.

Fonte: <https://www.youtube.com/watch?v=dXFm768GLR0>.

Em relação ao método utilizado na psicanálise, formulou-se o método interpretativo


pautado pelo método da livre-associação, reconhecido como a Regra de Ouro da
Psicanálise. Nesse método, o paciente deve dizer tudo o que lhe vier à mente sem pensar
muito sobre o que irá dizer. A aposta reside na percepção de que tudo o que o paciente
disser estará relacionado a conteúdos latentes. Dessa forma, era possível atingir material
relacionado a eventos traumáticos. A livre-associação do método interpretativo passou
a ser reconhecido como possibilidade de acessar o inconsciente ao longo do processo
de análise.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Na evolução teórica e técnica de Freud, a interpretação dos sonhos (1900) também


representou acesso ao inconsciente ou manifestação inconscientes de conteúdos
presentes na inconsciência. A interpretação psicanalítica, portanto, não ocorria apenas
através fala, mas também por meio dos sonhos, atos falhos e chistes, além dos próprios
sintomas queixados pelo paciente.

A primeira tentativa de Freud de mapear o funcionamento do psiquismo afirmou-se


como primeiro tópico do aparelho psíquico, em que considerou as pulsões, o recalque,
e o inconsciente pela organização de três instâncias: consciente, pré-consciente e
inconsciente.

Em 1915, por meio da compilação de estudos sobre a histeria, os sonhos, a psicopatologia


da vida cotidiana, bem como os chistes e atos falhos foi elaborada formalmente a primeira
teoria do aparelho psíquico, ou primeira tópica, mesmo já tendo na “Interpretação dos
Sonhos” a pedra fundamental da Teoria Psicanalítica.

Figura 14.

Fonte: <http://psicoativo.com/wp-content/uploads/2016/07/freud-sonhos.jpg>.

A pulsão possui caráter psicossexual e de autopreservação, caracterizando uma nova


classe de pulsões, as pulsões de vida e as pulsões de morte. A pulsão, de uma forma
geral, se constitui pela energia psíquica, pelo instinto, pela homeostase, como forma
de direcionar e descarregar energia psíquica. A pulsão orienta-se pelo princípio da
constância com finalidade de satisfação, de acordo com o princípio do prazer. Nesse
sentido, a pulsão, em busca de um objeto de satisfação, apresenta um espectro maior de
possibilidades em relação ao instinto, podendo focar-se em qualquer objeto, na medida
em que se relacione e satisfaça ao menos de forma parcial a pulsão enquanto afeto.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

O recalque, por sua vez, compõe uma barreira que divide a consciência do inconsciente,
contudo, permite a expressão de um conjunto de operações que se realizam sobre as
pulsões, conforme Freud coloca em seu artigo “Repressão” (1915). O recalque age de
acordo com o princípio do prazer e o princípio da realidade.

Na obra “O Inconsciente” (1915), Freud caminha mais além e a análise do inconsciente


passa a ser feita de três formas:

1. Topográfica que representa a localização e de onde advêm os materiais


recalcados, as formações, os afetos, entre outros.

2. Dinâmica que denota a movimentação dos materiais psíquicos.

3. Econômico no nível de gasto e conteúdo energético das pulsões.

Da análise dinâmica do funcionamento do inconsciente origina-se o pré-consciente que


seria o estado de afetos ou ideias que estão na instância consciente, mas em situação
inconsciente, ou seja, acessíveis pelo sujeito, apesar de não estar pensando nelas naquele
momento. Por exemplo, estudando para uma disciplina, o sujeito não está pensando no
que comeu na última refeição, mas tem acesso a essa informação.

O conteúdo inconsciente invoca diferentes vivências presentes ou passadas, como a


reconstrução de um evento traumático da infância.

Uma última contribuição importante desse texto, também presente nos artigos sobre a
técnica consiste na diferenciação que Freud faz entre verdade como realidade externa
compartilhada e, realidade psíquica que compõe a forma como o sujeito interpreta a
realidade externa. A realidade externa e sua interpretação podem ou não ser tangíveis
ou sobrepostas, dependendo da análise possível, a partir da realidade psíquica
do paciente.

A partir dessa diferenciação entre verdade e realidade psíquica, Freud dedica-se


ao tema da fantasia em “Lembranças Encobridoras” (1896). Para ele as lembranças
encobridoras seriam um derivado do inconsciente como um constructo inconsciente a
partir de uma realidade consciente que compõe a realidade psíquica do sujeito.

Em “A Interpretação dos Sonhos” (1900) e no artigo-síntese de suas análises, “Sobre


os Sonhos” (1901), Freud descreve o mecanismo onírico e qual sua função psíquica,
diferentemente das visões filosóficas que consideram o sonho como libertador da
alma, da visão médica em que os sonhos seriam consequências inúteis de processos
fisiológicos e das visões populares, o sonho como predição do futuro.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

Figura 15.

Fonte: <http://pedratoque.blogspot.com.br/2010/11/principio-do-prazer-vs-principio-da.html>.

Freud afirma que no sonho se manifesta pelo conteúdo manifesto, apresentado de forma
explícita, correspondendo a personagens, cenários e narrativas e, pelo conteúdo latente,
que seria um fragmento inconsciente que sofre um trabalho do sonho, transformando-se
em conteúdo manifesto.

O trabalho do sonho prioriza a expressão inconsciente sem comprometer seu conteúdo


por uma interpretação consciente. Ou melhor, corresponde aos processos de:

»» Deslocamento: substituição de um objeto latente por outro manifesto


que mantenham relações entre si.

»» Condensação: deslocamento e substituição de objetos latentes por


um objeto manifesto que, em alguma medida, represente cada um dos
objetos latentes.

»» Disposição pictórica: fornece a escolha dos objetos do sonho a partir


de restos diurnos recordação de vivências importantes.

»» Composição: após a formação do conteúdo, o sonho é recoberto por


uma fachada narrativa, como uma amarração lógica.

A interpretação dos sonhos na perspectiva psicanalítica é um rico instrumento de


trabalho no decorrer das sessões por representar o acesso ao inconsciente. As sensações
emocionais após o sonho consistem em nortes importantes para sua análise, já que o
conteúdo se mostra bastante variável e com muitos elementos.

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Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Ao discorrer acerca da sexualidade infantil, em “Três Ensaios sobre a Sexualidade”


(1905), Freud indica envolver processos primários e desenvolve a teoria a partir do
estudo da sexualidade infantil, incluindo as lembranças encobridoras que perpassam
as fantasias como projeções a partir de um lugar vazio, poderiam muitas delas estar
encobrindo lembranças de ordem sexual, o que causou espanto nos leitores de Freud
ao debater o tema, nos primórdios da psicanálise. O assunto em questão precisaria
estar relacionado ao movimento pulsional denominado sexual, o que ficou mais claro
na medida em que Freud desenvolvia sua teoria.

Para exercer a psicanálise de forma competente e em profundidade se faz necessário


possuir uma visão holística de sua evolução, procurando identificar e entender os
pontos de convergência e divergência entre as diferentes escolas.

De acordo com Zimerman (2010), essa forma de pensamento é válida e altamente


benéfica para a psicanálise, pois permite uma praxis mais abrangente e completa:

Embora ainda persistam manifestas querelas narcisistas entre os


seguidores das distintas correntes psicanalíticas, em que cada uma
delas arvora-se como representante da “verdadeira psicanálise” e luta
por excluir as demais, a nítida tendência atual consiste em evitar as
posições polarizadas, promover uma formação pluralista de cada analista
praticante e aproveitar as vantagens de pensarmos analiticamente a
partir de uma multiplicidade e diversidade de vértices, muitas vezes
convergentes, outras vezes divergentes e até contraditórias, porém, até
certo ponto possíveis de serem integradas e reversíveis entre si.

Para permitir uma melhor compreensão dessa evolução, a psicanálise pode ser dividida
nas suas diversas escolas, nas quais podem ser identificados alguns paradigmas
característicos relacionados com os caminhos a serem percorridos para obter a cura
dos pacientes. Somente depois de ter uma visão sobre as mudanças conceituais e as
novas descobertas que aconteceram nesses períodos, o analista estará fundamentado
e suficientemente aprofundado no seu conhecimento teórico e técnico, fato que
lhe permitirá ter uma definição clara dos rumos de sua própria práxis, aumentando
as possibilidades de obter uma melhor compreensão de si mesmo, através de uma
autoanálise muito mais abrangente e completa.

Partindo da base de pensamento considerada ortodoxa, desenvolvida por Freud, a


corrente psicanalítica se diversifica na sua etapa clássica, ocorrendo algumas dissidências
e afastamentos que resultam em novas escolas, as quais na sua divergência dariam
continuidade ao movimento psicanalítico, com algumas transformações e colaborações,
sendo muitas delas mantidas até nossos dias, na psicanálise contemporânea.

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UNIDADE I │ Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung

A psicanálise, hoje, se apresenta de várias formas, que são a psicanálise ortodoxa,


a psicanálise nova (ou neopsicanálise) e a psicologia de orientação analítica ou de
orientação psicanalítica (utilizada não só por psicanalistas com especialização, mas
também por psicólogos não especializados), todos com algumas peculiaridades.

A psicanálise é considerada a segunda grande força da Psicologia, e segundo o Conselho


Federal de Psicologia (CFP) e demais Conselhos Regionais de Psicologia (CRP), mesmo
com a formação generalista oferecida na graduação em Psicologia, a Psicanálise é
aceita no meio acadêmico, porém, só pode ser utilizada de forma integral com uma
especialização em Psicanálise. Caso contrário, deve-se utilizar a técnica de psicoterapia
de orientação psicanalítica.

A psicanálise foi considerada por Freud como um conhecimento firmado em um tripé


composto por técnica, teoria e pesquisa, principalmente. A Psicanálise é reconhecida,
de modo geral, pela investigação do inconsciente e a descoberta da sexualidade infantil,
tema polêmico até hoje. Freud não teve apenas um mestre, mas vários nomes inspiraram
a sua teoria, desde Goethe a Nietzsche e costumava ler sobre Antropologia, Biologias e
Fisiologia Animal.

Um personagem importante da Psicanálise foi Carl Gustav Jung. Primeiro presidente


da Sociedade Psicanalítica. Com o avanço da Teoria de Sigmund Freud em relação à
sexualidade infantil, Jung, deixou claro que não concordava com o que Freud afirmava
acerca do tema.

Não dá para falar de Freud, sem falar sobre à sexualidade. Pois, para o Pai da Psicanálise
o sexo é a raiz de todos os problemas humanos. Mas o sexo também é a nossa fonte de
energia. Ou seja, a nossa libido. Freud falava sobre à sexualidade das crianças – assunto
este abominável na época – e como já mencionado, continua a ser um tabu. Causando
pavor em muitas pessoas até hoje. Desse modo, Freud foi discriminado. Mesmo assim,
no século 19, contra tudo e contra todas as convenções morais, Freud explicitou que
criança também apresentava questões sexuais. O interessante é que ele não abordava
esse assunto de forma não abalizada – ao contrário – Freud foi um estudioso ao longo
de sua vida, um grande pensador. Ou seja, ele pesquisou a fundo para desenvolver a
Teoria que deu corpo à Psicanálise.

Uma das teorias mais importantes foi a do Inconsciente, na qual Freud afirma que até
os 5 anos toda nossa personalidade vai ser formada. E que desde então pouco poderá
ser alterado nela. Nosso núcleo de personalidade – quer seja neurótico, psicótico ou
perverso – está definido por volta dessa faixa etária. É interessante notar que a maioria
das pessoas não tem recordações claras de suas vivências até os 5 anos de idade.

36
Fundamentos Da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung │ UNIDADE I

Para onde vão esses pensamentos, flashes, acontecimentos etc.?

Freud nos diz que tudo aquilo que o ser humano vive até os 5 anos vai para o Inconsciente
– Ics. Por isso a importância das vivências de uma criança nos primeiros anos de sua
infância. Afinal, será a base para a construção da personalidade.

Freud também dava extrema importância à interpretação dos sonhos. Ele dizia que
através do conteúdo onírico (material dos sonhos), nossos desejos reprimidos aparecem.
Por isso, havia a técnica da associação livre. Freud acreditava que se as pessoas
falassem sem parar e sem pensar, verborragicamente, as ideias que eram expressadas
mostravam seus desejos reprimidos. Pois não havia a censura. Eram incentivadas a falar.
Apenas isso ou tudo isso servia para abrir uma porta de acesso ao inconsciente.

Assim, as pessoas começavam a se descobrir. Ou seja, o inconsciente vinha à tona a partir


do momento que as pessoas falavam, falavam, falavam ... e ele buscava compreender os
sentidos e fazer as relações.

Da repressão dos desejos brotavam as neuroses. Questões da psique que se manifestavam


através dos sintomas: manias, atos falhos. Isso porque temos à tendência a reprimir
muitas vezes nossos desejos. Isso porque nos punimos constantemente, frente as
vicissitudes de uma sociedade que julga. E não nos equivoquemos, a sociedade que
julgava a Freud ainda existe. O julgamento é constante. Com o advento das mídias e
redes sociais tudo piorou. Ou será que houve melhora?

Questões...

Elas sempre estarão surgindo em nossa área de atuação.

Afinal, o sintoma não existe sem a colaboração do meio em que o indivíduo se encontra
inserido.

As punições aos nossos desejos, os atos que não realizamos, os desejos que negamos
vão para o inconsciente. E em dado momento esse sistema, essa estrutura não dá conta
de absorver tantas questões recalcadas. Nesse momento, a energia represada necessita
ser expelida. E ela sai através dos sintomas – em alemão symptome.

A Psicanálise é uma ferramenta, uma disciplina científica capaz de transformar vidas.


Porque ela possibilita uma autocompreensão e essa compreensão leva o indivíduo a
uma capacidade de atuar de forma diferente em sua realidade.

37
Conceitos Unidade iI
Psicológicos
Figura 16.

Fonte: <https://2.bp.blogspot.com/-ECE5mJ4EvTk/VsM17P8IJUI/AAAAAAAAAmo/wYMqvBePiTI/s320/1.jpg>.

Freud desenvolveu a Psicanálise como um método para liberar os traumas sexuais


enterrados no inconsciente. Era uma nova fronteira no estudo da consciência. E apesar
de muito do trabalho de Freud ter sido contestado, sua obra propiciou os fundamentos
da Psicologia Moderna.

Conservador, Freud jamais se deixaria identificar como um ocultista, mas um de


seus seguidores provaria ser tanto um pioneiro nessa área quanto um praticante de
ocultismo.

Jung queria saber tudo a respeito de tudo. Ele lia de tudo. Viajou para África, viajou para
Índia, viajou para América. Carl Gustav Jung era alguém que tinha um apetite voraz pela
experiência e por tentar entender a Psique em todos os tempos, locais e em todos os
cantos do planeta.

Jung nasceu dez anos antes de Freud desenvolver a abordagem psicanalítica que
revolucionou o mundo. Filho de um pastor, Jung conduziu experimentos espiritualistas.
Ele se tornou psicólogo para explorar as dimensões da mente, mas por toda vida nunca
perdeu o fascínio pelo oculto. Seu herói, Freud, se tornou tanto seu mentor quanto seu
maior rival.

Jung não conhecia Freud até 1907 e quando eles se viram, conversaram por 13 horas
seguidas e uma das questões que vieram à tona foi o ocultismo.
38
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Jung havia sido um defensor da teoria sexual de Freud sobre a histeria antes de se
conhecerem, chegando a defendê-la publicamente. Entretanto, não achava que a teoria
sexual explicava tudo.

E quando eles conversaram por 13 horas, Freud assumiu uma expressão muito séria
olhando para Jung, dizendo: “você precisa fazer uma coisa, meu filho, precisa me
prometer que nunca vai abandonar à teoria sexual e que vai fazer dela um dogma, uma
fortaleza contra a maré negra de lama”, então, Freud hesitou um instante e concluiu
“do ocultismo”.

Jung se recusou a acreditar que a repressão sexual explicava tudo e não pensava em
desistir do ocultismo. E Freud garantiu que Jung pagaria o preço.

Na época da ruptura com Freud, Jung era presidente da Associação Internacional


de Psicanálise, e Freud não queria deixar a Instituição a cargo de Jung. Então, nos
bastidores, quase em uma prática ocultista ele formou um pequeno comitê e deu a cada
um dos membros um anel e fez com que cada um jurasse segredo. Então eles começaram
uma conspiração para se livrarem de Carl Jung.

Depois de romper com Freud, Jung caiu em uma depressão de seis anos. Ele se retirou para
sua casa de campo. Nesse momento ele estava em busca de sua própria pedra filosofal.

Jung lutou contra sua depressão e emergiu com um novo tipo de Psicologia imbuída de
pensamento místico. Ele usou cartas de tarô, usou Astrologia, mas mais importante que
cartas de tarô ou Astrologia é que Carl Jung acreditava na intuição.

Jung disse certa vez: “o que o terapeuta faz é pôr o seu paciente em contato com a
intuição e quando o terapeuta faz isso seu trabalho está feito”.

Durante seu retiro, Jung concluiu que era pela Astrologia, Alquimia, Mitologia e o I
Ching que os primeiros magos investigavam a consciência humana. E deu seu grande
salto, vendo a Psique como um campo de energia muito maior do que a personalidade
individual. Ele a chamou de Inconsciente Coletivo.

Vamos nos aprofundar nos conceitos desenvolvidos por Jung.

39
Capítulo 1
Principais conceitos da psicologia
analítica

Figura 17.

Fonte: <https://porque-se.com/wp-content/uploads/2015/12/La-psicologia-una-ciencia.jpg>.

Na verdade, o conceito de Ciência nunca foi unanimidade. Há várias correntes de


pensamento que nos mostram isso, bem como tipos de conhecimento lutando para
serem reconhecidos como tal: ser uma ciência.

Com a Psicologia não seria diferente.

Figura 18.

Fonte: <http://psicoativo.com/wp-content/uploads/2016/06/capa-de-psicologia-para-facebook.jpg>.

A ciência por definição busca o novo.

40
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

A ideia da ciência é que nós tentamos inventar o mundo porque, afinal de contas ela é
uma procura pelo que nós ainda não conhecemos. Então o caminho, ou caminhos, da
ciência é uma invenção daquilo que é desconhecido no momento.

Uma descoberta!

O que é uma descoberta? Algo que antes, não sabíamos que existia ou achava que talvez
pudesse existir usando a intuição. Mas, não havia uma certeza com relação a isso.

Então a ciência procura o que não conhecemos.

E, às vezes, ela encontra o inusitado. Muitas descobertas científicas são descobertas que
são inesperadas e que podem mudar profundamente a nossa visão de mundo. E isso
pode ocorrer em dados momentos sem um plano principal. Ou seja, a maioria das
grandes descobertas científicas – ao longo da história – foram feitas sem pensar muito
no que vai ocorrer depois delas. Elas eram, simplesmente, nutridas por essa urgência
que é tão profundamente humana de conhecer o mundo.

O ser humano é impulsionado por essa vontade, esse desejo existencial de sempre
querer saber mais. E nesse processo de sempre querer saber mais fazemos o possível
para obter o sentido das coisas.

A ciência é um mecanismo que nós temos. Porém, não é o único. As artes, a literatura,
entre outras. Tentamos expressar a nossa relação com o Universo de formas diferentes.
E a ciência é uma dessas formas de expressão.

Figura 19.

Fonte: <https://dialogosjunguianos.files.wordpress.com/2010/06/foto_mosaico1.jpg>.

41
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

No decorrer de sua vida e estudos, Jung (2002), desenvolveu à formulação de


Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente Coletivo inclui todas as questões que não nos são pessoais, que nos
transcendem. Que são conteúdos transpessoais e impessoais do inconsciente, aos
quais Jung chamou de arquétipos. São componentes que não têm nada a ver conosco
pessoalmente, não dizem respeito a experiências pessoais, não são sobre nossa mãe ou
nosso pai.

Tanto Jung quanto Freud praticaram os estados alterados da consciência usados por
magos para obter seus maiores insights.

Para Freud era o método de associação livre e para Jung era o método de imaginação
ativa onde você deliberadamente induz a fantasia e fala sobre aspectos de você que
estão personificados em formas imagéticas. É como no ocultismo, na mediunidade ou
nas sessões pensando que você fala com os mortos, quando na verdade você fala consigo
ou com diversos Eus interiores.

Freud havia isolado a personalidade em um pacote de neuroses, guiado apenas pela


repressão sexual. Ao passo que Jung levou o individual a um patamar maior, um lugar
mais vasto da humanidade com sentido e continuidade.

Jung e a Psiquiatria

Jung, como médico, foi ousado em optar pela especialização em Psiquiatria, mas
essa decisão lhe proporcionou o contato direto com os pacientes e as mais variadas
psicopatologias. Especialmente, quando acaba fixando residência no hospital de
Burghölzli, em Zurique, ao norte da Suíça.

Figura 20.

Fonte: <http://www.cardiffsciscreen.co.uk/sites/default/files/imce_uploads/Burgholzli.jpeg>.

42
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Passei meus anos de aprendizagem na clínica psiquiátrica Burghölzli


da Universidade de Zurique. O problema que ocupava o primeiro plano
de meu interesse e de minhas pesquisas era o seguinte: o que se passa
no espírito do doente mental? Nesse momento ainda não sabia e entre
meus colegas ninguém se interessava por isso. O ensino psiquiátrico
procurava, por assim dizer, abstrair-se da personalidade doente e se
contentava com os diagnósticos, com a descrição dos sintomas e dos
dados estatísticos.
(JUNG, 2002, p. 108)

Inserido nesse meio e sob essas condições, Jung teve o primeiro contato com a obra
de Freud. Para Jung, as pesquisas de Freud eram fundamentais, especialmente, pelos
estudos acerca da histeria e a interpretação dos sonhos. As pesquisas de Freud indicavam
um caminho a ser desbravado em pesquisas subsequentes e como ferramenta para a
compreensão dos pacientes atendidos por Jung.

Com o passar do tempo, a relação com Freud se tornou intensa e veio a culminar em
uma amizade, de cunho intelectual bem como afetivo. Era o mestre e seu discípulo em
trocas intermináveis.

Retrocedendo um pouco, não é segredo que trocavam cartas, pois Jung já se interessava
pela linha de pesquisa e estudos de Freud. E em seu primeiro contato pessoal, ficaram
conversando ou debatendo por 13 horas ininterruptas. Havia uma relação de vínculo e
admiração.

Bem, também sabemos que isso não aconteceu. Caso contrário, não estaríamos
estudando a Psicologia Analítica e seu contexto teórico.

A verdade é que houve um rompimento, posterior, dessa amizade motivada por pontos
de vista teóricos discrepantes.

Vejamos o seguinte trecho:

Quando estava quase acabando de escrever Metamorfoses e Símbolos


da Libido (Símbolos da Transformação), eu sabia de antemão que o
capítulo O Sacrifício me custaria a amizade com Freud. Nele expus
minha própria concepção do incesto da metamorfose decisiva
do conceito de libido e de outras ideias, que representavam meu
afastamento de Freud.
(JUNG, 2002, p. 149)

Ainda hoje, essas discussões são recorrentes à história do surgimento da Psicologia Analítica.

43
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Figura 21.

Fonte: <http://psicanaliseeamor.com.br/psicologia-e-psicanalise/>.

Não reconhecer a grandeza da obra de Jung é, no mínimo, um equívoco. Há que se dar


a devida importância à produção teórica de autor, pesquisador, estudioso, acima de
tudo um ser humano que trilhou seu caminho na busca pelo conhecimento e discussão
do humano.

A contribuição de Jung é vasta. E parafraseando Friedrich Nietzsche no prefácio de sua


obra “O Anticristo”, Jung e a Psicologia Analítica “se destina a pessoas raras”.

Achamos pertinente fazer uma breve elucidação a essa relação de amor e ódio, amizade
e inimizade, opostos e complementares que foi estabelecida entre Freud e Jung.

E novamente recorrendo a sabedoria de Nietzsche: “fale, não importa como. Apenas fale!”

Afinal, essa inimizade entre Jung e Freud ou Freud e Jung é responsável pela tensão
que existe ainda hoje entre ambas as abordagens.

A compreensão de conceitos teóricos tanto da Psicanálise quanto da Psicologia Analítica


começou a ser construindo muito antes desse encontro entre ambos. Na verdade, podemos
afirmar que a diferença entre eles iniciou a partir de sua criação, sua constituição
familiar, suas infâncias.

Não é nada diferente do que acontece com pessoas que se distanciam de amigos,
pois a mudança aconteceu e aquilo que existia, não voltará a acontecer. Perdeu se em
algum lugar.

44
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Retomando Freud e Jung, podemos fazer comparações entre as relações estabelecidas


durante a infância de ambos.

Tabela 1.

Jung Freud
Mãe – problemática, apresentava uma personalidade dividida,
Mãe – afetiva e protetora.
incoerente.
Pai – um homem convencional, mas que não foi sua fonte de Pai – austero, mas não era uma figura de força e resistência fora de
inspiração intelectual. casa, especialmente em relação à perseguição antissemita.
Religião – tinha um peso grande no ambiente familiar. O pai era
Religião – pais judeus, mas pouco participantes.
pastor luterano.
Contexto social – viveu na Suíça cercado por influências religiosas, Contexto social – instabilidade econômica, social e preconceito
culturais e filosóficas. étnico e religioso. Mesmo não sendo um judeu ortodoxo.
Influência acadêmica – psiquiatra, sempre esteve aberto a
questões espirituais e filosóficas. Suas experiências em Burghölzli Influência acadêmica – neurologista, orientou seus estudos e
despertaram o interesse pelo afeto e a criatividade presentes por trás pesquisas para à sexualidade e as psicopatologias.
das psicopatologias.

Fonte: própria autora.

Não podemos deixar de analisar o peso que tais influências e vivências tiveram no
desenvolvimento teórico de cada um. Mas, acima de tudo, no desenvolvimento pessoal
que obviamente causaria uma estranheza entre esses dois pensadores.

Pensem, já é impossível tentar equiparar o pensamento, comportamento, crenças de


pessoas que participam de uma mesma comunidade, vivem na mesma família, por
exemplo. Como tentar igualar os saberes de dois seres humanos totalmente opostos?

Os opostos se atraem na Física, e provavelmente, em um primeiro estágio de interesse.


Mas, posteriormente, cada um mostra o seu eu genuíno, verdadeiro.

Através da tabela 1 podemos ver as influências sofridas por Jung e Freud. E agora
vamos ver as consequências dessas influências tanto na Psicologia Analítica quanto
na Psicanálise.

Na Psicologia Analítica podemos observar a prevalência de um perfil maternal, no qual


se busca as partes mais profundas do inconsciente para possibilitar a valorização do
potencial que existe no humano. A imagem da mulher como protetora, mas também as
imagens da mulher como uma devoradora e destruidora também foram contempladas
com uma leitura, uma busca por entendimento.

No caso da Psicanálise temos um perfil paternal, com características deterministas,


noção de dever e punição, baseado na busca e forte valorização da consciência. O saber
está nas mãos do psicanalista ou, simplesmente, analista. Ele detém o conhecimento e
existem regras para o convívio no setting terapêutico.

45
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Outro tópico bastante interessante em relação à construção teórica das duas abordagens
foi a religião.

Figura 22.

Fonte: <http://paulorogeriodamotta.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Jung-e-Freud-Influ%C3%AAncias-religiosdas.jpg>.

Portanto, observamos que na Psicologia Analítica há uma marcante presença da


espiritualidade. Enquanto, a Psicanálise associa religiosidade à neurose.

A Psicologia Analítica demonstra um posicionamento otimista, considerando o indivíduo


como um ser em eterno processo de busca, e nesse processo ou caminho vão existir
conflitos; entretanto, faz parte do processo de cura interior. Nada é desconsiderado.
Temos o bem e o mal. Há opostos que devem ser observados.

Já a Psicanálise freudiana carrega uma visão pessimista. Cuja resignação, em muitos


momentos, é a saída mais viável à manutenção do equilíbrio psíquico.

Por um lado, temos uma abordagem voltada à busca de si e a um processo constante de


desenvolvimento, ou seja, a Psicologia Analítica. Enquanto, por outro lado, a Psicanálise
se baseia na sexualidade e nas psicopatologias.

Jung sempre atribuiu a Freud todo o crédito por haver introduzido a Psicologia na
Psiquiatria, embora Freud fosse neurologista.

46
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Jung teve contato com a obra de Freud por meio de alguns textos e, sobretudo, em 1900,
após a leitura de “Interpretação dos Sonhos”, Jung escolheu abertamente apoiar seus
trabalhos e fez conferências universitárias sobre os livros de Freud. Esses fatos, tiveram
consequências para Jung que foi advertido por colegas acerca do comprometimento
que tal atitude poderia trazer a sua promissora carreira. Demonstrando um risco.

Após 1906 começa a intensa troca de correspondência entre Jung e Freud. Em fevereiro
de 1907, encontram-se pela primeira vez. Iniciando a famosa conversa que se iniciou às
13 horas da tarde e seguiu ininterruptamente por 13 horas.

A relação de amizade foi tomando contornos de uma relação de pai e filho. De 1907 a
1912 ocorreu uma intensa colaboração entre Freud e Jung.

Freud, sem sombra de dúvida, significou muito para Jung durante o período em
que trabalhou em Burghölzli. Jung sempre teve grande respeito por Freud e sempre
reconheceu seu débito para com ele.

Hannah (2003), aponta que desde o início dessa aproximação Jung já pensava que os
caminhos de ambos não seguiriam na mesma direção, por muito tempo.

Segundo Young-Eisendrath e Dawson (2002), encontramos nas discussões de Jung


temas relacionados à religião, mitologia e artes.

Hoje temos uma reformulação nessa forma equivocada de pensar.

Jung – breve relato da vida pessoal


Após essa explanação é interessante fazer uma breve explanação acerca da vida e obra
do autor.

Em “Memórias, sonhos e reflexões”, Jung (2002) apresenta o seu perfil profissional.


Enquanto, Hannah (2003), apresenta a vida e a obra de Carl Gustav Jung, descrevendo
com um olhar observador a sua trajetória.

Carl Gustav Jung nasceu no Vilarejo de Kesswill, próximo ao lago de Constança, em


26 de julho de 1875, na região da Basiléia. Seu nome foi uma homenagem ao avô, que
era médico. O pai Paul Archilles Jung era pastor – como já mencionamos – e sua mãe
Emilie Preiswerk era descendente de uma tradicional família da Basiléia.

Jung sempre foi uma criança solitária, que gostava de brincar sozinho e que se irritava
ao ser julgado ou criticado. Interferências nas atividades que realizava também não
eram toleradas. Desde os 4 anos de idade, de acordo com Hannah (2003), Jung já se

47
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

demonstrava como uma criança sisuda, que não permitia que influências sentimentais
o afetassem. Sempre comparando os fatos. Esse perfil formou em Jung um extremo
senso de compreensão da imagem empírica. Esse realismo era reforçado pelo convívio
com seus colegas da escola rural. Digamos que ninguém é mais realista que pessoas de
origem rural ou que lidam em fazendas na Suíça.

Figura 23.

Fonte: <http://sandplay.jogodeareia.com.br/wp-content/uploads/2009/10/carl-jung-infancia.jpg>.

Com relação aos pais de Jung, a vida conjugal era cercada de problemas. O pai ficava
muito envolvido em questões religiosas, uma vez que era pastor, e sua mãe sofria de
transtornos emocionais. Os vínculos mais fortes eram voltados para a figura materna,
mesmo não compreendendo suas constantes mudanças de humor.

Figura 24.

Fonte: <http://principo.org/o-homem-e-seus-smbolos-carl-g-jung/3359_html_32965bf0.jpg>.

A família de Jung não era abastada e essa realidade ficou clara quando ele ingressa na
escola da Basiléia onde seus colegas vinham de famílias poderosas.
48
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Jung sempre demonstrou problemas em relação à matemática e não era muito propício
aos exercícios físicos. Mas, seu talento em outras disciplinas, amenizavam esse fato.

Mediante o seu desenvolvimento, as questões e dúvidas se faziam mais presentes, bem


como as discussões sobre religião com seu pai. Discussões essas que terminavam com
ressentimento. Jung não se sentia compreendido.

Podemos dizer que os anos no colégio foram uma provação. Poucos colegas, professores
intolerantes, dúvidas que não eram respondidas e o afastamento da religião. Esse
quadro resume bem o que foi o ensino para Jung.

Nesse contexto, o interesse de Jung pela religião diminui e começam a surgir novas
demandas. Especialmente, voltadas para à Filosofia. Foi a Filosofia que proporcionou
a Jung o contato com novas partes de si, através dela as suas dúvidas e inquietações
começaram a encontrar, finalmente, respostas.

Os livros sempre foram seus melhores amigos, pois a solidão e questões pertinentes a
totalidade das coisas insistiam e continuar em seu pensamento.

Com esse interesse por tudo, podemos imaginar que escolher um curso de ensino
superior seria um desafio. E foi! Suas principais áreas de interesse eram: Filosofia,
História, Arqueologia e Ciência. Após muita reflexão: Jung ingressa na Universidade
de Medicina.

De acordo com Hannah (2003), a escolha foi difícil para alguém que cogitava ser um
arqueólogo, voltado à assiriologia ou egiptologia. Entretanto, a Medicina resgatava a
ligação com o avô, e Jung não estava propenso a fazer aquilo que fora feito anteriormente
por seus familiares.

Antes, porém, é importante mencionar que mediante seu destaque foi chamado para
ocupar um cargo atraente em Munique, como assistente de Friedrich Von Muller,
cargo irrecusável para um médico recém-formado – se esse médico não fosse Jung.
Que declinou o convite e optou pela Psiquiatria.

No dia 10 de dezembro de 1900, Jung inicia seu trabalho como médico assistente no
Hospital Burghölzli, o principal hospital psiquiátrico de Zurique.

De certa forma, o estudo e pesquisas feitos ao longo dos anos sobre os chamados
fenômenos ocultos e outras vivências o conduziram à Psicologia.

No Hospital Burghölzli teve a oportunidade de trabalhar ao lado de Bleuler, reconhecido


pelo seu trabalho com as psicoses e por desenvolver o conceito de esquizofrenia. Nessa
mesma época teve contato com as obras de Freud.

49
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

O caráter místico da abra de Jung é apresentado pelo estudo das religiões. Contudo,
existem estudos sobre simbolismos, mitologia e outros temas que suscitam uma gama
profunda de conhecimento.

Profunda, pois o ser humano é plural. Quando estudamos um caso clínico, por exemplo,
não damos apenas uma resposta e definimos tudo. Geralmente, observamos a diversidade
que leva a aspectos culturais, intelectuais, familiares, ou seja, uma infinidade de questões e
possibilidades que podem ter ou não ter influenciado na resposta apesentada pelo indivíduo.

Jung apresenta a necessidade de pensar na totalidade, no conjunto das demandas


humanas, sem perder o foco no indivíduo.

Ao caminhar pela Psicologia Analítica encontraremos uma variedade de mitos,


personagens, histórias e autores. De modo que, por meio da visão que a teoria nos dá,
vamos identificar atualmente uma história mitológica ou uma lenda que se passou há
milhares de anos, mas que é vivenciada pelo indivíduo hoje.

Assim, a Psicologia Analítica nos convida a ler sobre tudo, ter contato com os universos
de seres humanos distintos.

Jung nunca nos incentivou a ficarmos fechados em uma teoria, mas a buscar o máximo
das demais. Logicamente, essa visão de Jung também é criticada.

Nós temos tanto o Inconsciente Pessoal como o Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente Pessoal está mais alinhado com a nossa alma e o Inconsciente Coletivo
é a sabedoria, os arquétipos, os mitos, as universalidades que qualquer um pode tatear.

Então, todos temos nosso caminho pessoal e todos temos um caminho coletivo.

As ideias de Jung inspiraram muitas práticas da nova era.

A mediunidade pode aflorar do Inconsciente Coletivo de Jung, provavelmente, a maioria


dos médiuns diria que vem de um nível mais alto de sabedoria e talvez seja a mesma
coisa. Sem dúvida esse é um conceito que se relaciona com o Inconsciente Coletivo.
Mas, a apresentação típica é como se uma entidade uma lama desencarnada, um grupo
delas que existisse em outra dimensão decidisse nos ajudar a incorporar sua sabedoria
em um de nossos amigos ou vizinhos.

Conceitos principais psicológicos


No decorrer de suas pesquisas e estudos, Jung se depara com constructos que o levaram
a definir conceitos psicológicos diretamente relacionados com os conteúdos conflitivos
50
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

à psique e, conteúdos, que remetiam a conhecimentos ancestrais presentes em um


coletivo para além do indivíduo.

Introversão e Extroversão

Dentro da Psicologia Analítica um dos conceitos mais utilizados é o da introversão e


extroversão. Cada pessoa é guiada para o seu interior ou para o exterior. Assim, temos
os introvertidos que concentram a energia voltada para si, para o interior. Enquanto, os
extrovertidos dirigem a energia ao mundo externo. Ou seja, esses dois movimentos
ou formas de agir se distinguem pela direção do interesse que movimenta a energia
psíquica.

Ou seja, quem determina a atitude da consciência é a direção do interesse em relação


ao objeto. Objeto, esse que devemos entender como não sendo o sujeito e não tendo
ligação com seu mundo interior.

Cabe assinalar que não existe uma pessoa totalmente introvertida ou extrovertida.

Figura 25.

Fonte: <http://cafecomjung.blogspot.com.br/2014/09/introversao-e-extroversao-limpando.html>.

Jung propôs uma comparação de introversão e extroversão com os batimentos cardíacos


– ora há uma contração (introversão) e ora a expansão (extroversão). De modo que
ambas existem e são necessárias. Contudo, somos humanos e ao contrário do músculo
com batimentos involuntários que nos permite apreciar a vida. Jung determina em sua
teoria que cada pessoa tende a favorecer uma ou outra tendência, atuando de acordo
com ela em sua vida.
51
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Figura 26.

Fonte: <https://i0.wp.com/souintrovertido.com/wp-content/uploads/2015/09/como-entender-introvertidos-com-essas-4-
situa%C3%A7%C3%B5es.png?resize=960%2C400>.

Ambas são exclusivas. Não podemos ser introvertidos e extrovertidos ao mesmo tempo.
Em cada situação uma irá assumir o controle ou se impor.

Caso você esteja se perguntando nesse momento: qual das duas é a melhor? Qual o
melhor modo de ser?

Jung não via essa questão como melhor ou pior. Elas existem e são igualitárias em
termos de importância. Em determinadas situações, a introversão será mais adequada,
em outras será a extroversão.

Agora, quando pensamos em saúde psíquica, o ideal é a flexibilidade. Saber o momento


de adotar qualquer uma delas quando por necessário. Sem se guiar exclusivamente por
uma. O equilíbrio provém dessa atitude.

Por quê? Porque basear a forma de lidar com o mundo articulando apenas um desses
conceitos seria desastroso. Por exemplo, uma pessoa introvertida hesita, recua, vê
o contato como algo massacrante e pesado. O mundo exterior traz desgastes e isso
a faz atribuir ao objeto um superpoder. O interesse primevo dos introvertidos está
direcionado aos seus sentimentos, emoções, em seu mundo interior. O risco de perder
o contato com o mundo interior é grande, pois são extremamente introspectivos. Seria
aquela pessoa distraída que não presta atenção a uma conversa.

Os extrovertidos, por sua vez, tendem a se entregar ao mundo exterior, se envolvendo


com o mundo externo das pessoas e coisas. Eles precisam se proteger para não se
entregarem em demasiado, sendo dominados pelas exterioridades e se alienarem de
seus próprios processos internos.

52
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Segundo Riesman (1950), os indivíduos guiados pela extroversão são orientados para
o outro, apoiando ideias de outros, não desenvolvendo assim sua própria forma ou
maneira de opinar.

Para Silveira (1981), na introversão há um recuo diante do objeto, pois este é uma
ameaça que mobiliza o indivíduo. Enquanto na extroversão a energia migra sem censura
ao encontro do objeto.

Inconsciente Coletivo

De acordo com Jung (1987), não podemos perder de vista a complexidade dos conceitos
relacionados ao inconsciente e a dificuldade de comprovação dos mesmos. Jung nos fala
sobre a experiência humana oferecer pontos de apoio sobre a existência do inconsciente.

Dessa forma, todo o conteúdo pode ser ou se tornar inconsciente, especialmente, se


pensarmos no inconsciente como a origem de tudo. Esse é um ponto fundamental da
Psicologia Analítica.

Afinal, o que delimitaria qual, como e quando o conteúdo se torna inconsciente está
vinculado a experiências e vivências individuais.

Exemplificando essa temática: um grupo de 10 pessoas no mesmo ambiente pode


passar por uma situação. Que pode ser o atraso do médico, uma situação de violência,
uma situação de preconceito, dentre outras. Contudo, cada uma dessas 10 pessoas
vai assimilar essa situação de uma forma diferente, única. Assim como poderão estar
inconscientes de formas diferentes.

Bem como existe a situação em que alguém nos fala algo, mas que não percebemos.
Essa não percepção, para Jung, é a nossa parcela inconsciente que, para a outra pessoa
que narra o fato, é óbvia e consciente.

Neste aspecto, Jung (2009, p. 425) diz:

Pela experiência sabemos também que as percepções dos sentidos,


devido à sua fraca intensidade ou desvio de atenção, não chegam a
uma percepção consciente, mas se tornam conteúdos psíquicos pela
percepção inconsciente, o que pode ser demonstrado novamente pela
hipnose, por exemplo. O mesmo pode acontecer com certas conclusões
ou outras combinações que ficam inconscientes, devido ao valor muito
pequeno ou ao desvio de atenção

De acordo com Jung (2000), uma parcela inconsciente apresenta camadas mais
superficiais, o que torna – muitas vezes complexo – precisar as fronteiras com a
53
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

consciência; uma vez que por mais que existam conteúdos que possam chegar à
consciência também há conteúdos que dificilmente atingiram esse lugar.

Figura 27.

Fonte: <https://2.bp.blogspot.com/-K7qBCKKZXOU/UOZl-SuIplI/AAAAAAAAI30/yzlJmP0-5fg/s1600/inconsciente+coletivo.jpg>.

Podemos ainda levantar a hipótese – baseada em nossos estudos acerca do inconsciente


para Jung – que por mais que tais conteúdos não apresentem relação direta com a
consciência, os mesmos têm total condição de influenciar a consciência levando ao
desencadeamento de transtornos emocionais e psicossomáticos.

E quando Jung se refere aos distúrbios, não fala no sentido apenas patológico. O distúrbio é
compreendido como qualquer tipo de alteração – boa ou ruim – que leva ao desequilíbrio
do sistema psíquico.

Jung (2002), ao formular a teoria que explica os processos inconscientes, chega à


conclusão que o Inconsciente é composto por duas partes, uma mais ligada à experiência
individual (conteúdos que se relacionam a vida pessoal e conteúdos mais acessíveis ao
indivíduo) e outra parte mais impessoal e coletiva (onde o sujeito se assemelha a um
ser genérico, não dissociado da humanidade e onde encontramos conteúdos referentes
à civilização humana como um todo).

Desse modo, Jung nos apresenta o Inconsciente Pessoal ou Subconsciente e o


Inconsciente Coletivo.

O Inconsciente Coletivo foi proposto por Jung como uma extensão do inconsciente
na acepção pensada inicialmente por Freud. Para Freud o inconsciente é uma forma

54
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

simbólica produzida por operações de negação, de repúdio, de exclusão, certas ideias


ou certas representações que apareciam ao Eu/Ego como incompatíveis, como causa
de sofrimento, como causa de uma experiência dissonante de si. Então para se libertar
dessas ideias que no fundo remetem a desejos inconciliáveis, o sujeito coloca isso no
inconsciente. Ou seja, afasta ‘isso’ da consciência.

Então, como característica fundamental do Inconsciente (Ics) freudiano temos o fato


dele ser recalcado, infantil – remete a desejos infantis, e de que ele é sexual (ou seja,
de natureza imanente as nossas experiências de prazer e de desprazer). Jung critica
essa concepção de Inconsciente, primeiro dizendo que o Inconsciente talvez não seja
só composto pela libido, enquanto energia sexual; mas pretende que a libido seja a
totalidade da energia psíquica, do psiquismo.

Para ampliar essa noção, ele reputa que existem processos de simbolização que não
decorrem de um recalcamento individual, mas uma espécie de negação cultural, um
repúdio coletivo a determinadas experiências que por outro lado são experiências
universais. Ou seja, acontecem com todas as pessoas, em todas as épocas, em todas as
culturas e religiões. Daí o fato importante para entender como funciona o conceito de
coletivo – Jung trabalhava como uma espécie de antropólogo comparativo. Ele via mitos,
expressões simbólicas, expressões artísticas de diversas épocas e encontrava certas
recorrências. Como, por exemplo, a presença repetitiva de símbolos que exprimem a
admissão do feminino. Então, ele chama esse simbolismo de arquétipo. Os arquétipos
que pertencem ao inconsciente coletivo – mas, sobre os arquétipos vamos discorrer no
próximo tópico.

Então, a ideia de que existe esse Inconsciente Coletivo que a gente não consegue abarcar
com a lógica, com o método científico ou com a consciência é a base da visão junguiana.

Há um espesso nevoeiro de maus entendidos de mistificações, de desonestidade


intelectual que recobrem esse conceito. Devemos ser críticos em relação aos demais
usos que são feitos da Teoria de Jung.

O inconsciente é um conceito limítrofe negativo, então, tudo aquilo que for dito acerca
dele é conjectural. Sobre a natureza do inconsciente não há como se dizer nada, porém, de
maneira indireta, a partir das manifestações desse inconsciente, eu tenho como tecer várias
conjecturas que têm um valor que nos permite compreender os fenômenos reais com os
quais vamos nos deparar. Seja na clínica, seja ao lidar com os fenômenos da cultura.

Dito isso, também é importante lembrar que o inconsciente – na estética de Jung, não
apenas a partir da ótica dele, mas de suas observações empíricas – é objetivo e autônomo.
A autonomia do Inconsciente representa que ele funciona independente da volição

55
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

consciente. Entretanto, não é absolutamente independente, ele estabelece uma relação


com a consciência. E essa relação é definida como compensatória e complementar.

Tendo abordado esses aspectos que são cruciais quando falamos em inconsciente Jung
propõe que o inconsciente é composto por duas camadas distintas: aquela que é mais
imediatamente acessível que aparece mais amiúde nas manifestações do inconsciente
pessoal – sonhos, delírios, fantasias, sintomas. Os conteúdos do inconsciente pessoal
podem ser rastreados pela história individual. Reconhecemos que um conteúdo é
pertencente ao inconsciente pessoal quando seus efeitos, manifestações e origem
podem ser apontados ou rastreados na história individual. Esses são conteúdos que
muitas vezes deveriam fazer parte da consciência e a perda desses conteúdos causa uma
sensação de inferioridade ou um ressentimento moral.

Lembrando que quando falamos dos conteúdos do inconsciente pessoal estamos falando
daquilo que se manifesta na consciência, que a atravessa, porque jamais teremos um
contato direto não mediado pela consciência com esses conteúdos.

Quais os conteúdos que podemos supor que fazem parte do inconsciente pessoal?
Primeiramente, tudo aquilo que é subliminar. A nossa consciência é focal, ela só pode
se concentrar em um objeto de cada vez – todo o restante das percepções se torna
subliminar. Essas percepções subliminares caem sobre o poder do inconsciente.
Além disso tudo o que foi esquecido e reprimido, Jung vai abandonar esse termo (em
um primeiro momento), preferindo o termo que tem relação com o conceito de atitude
que foi selecionado pela consciência. Num primeiro momento, utilizaremos reprimido.

Tudo aquilo que poderia ser consciente, mas não é justamente por conta dessa diferença
e das neoformações reativas. Pois o inconsciente não apenas retém coisas que chegam a
ele, mas também é capaz de se manifestar criativamente. É um dos paradoxos que Jung
aponta que são fundamentais para a teoria.

Figura 28.

Fonte: <https://4.bp.blogspot.com/-1v_x_6Q4Z7c/V208KcFo7FI/AAAAAAAABSo/Z6ydLUEsU8YjK92AUI9wKZ596yFzc1SKQCLcB/s320/
inconsciente-coletivo.jpg>.

56
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

A teoria junguiana está sempre lidando com formações paradoxais.

O inconsciente, simultânea e paradoxalmente, é a fortaleza do conservadorismo e a fonte


de onde brota tudo que é novo, que é diferente e revolucionário. Essa é a característica
do que vai compor o inconsciente pessoal.

O inconsciente coletivo, aliás, uma das causas de tantos mal-entendidos é o uso do


coletivo. Pois as pessoas imediatamente associam a uma mente universal ou algo que o
valha, que seja acessível a todos.

Mas coletivo, para Jung, é aquilo que simplesmente não pertence apenas a um indivíduo
e sim a muitos. O fato de respirarmos não pode ser entendido como algo pessoal, é
algo coletivo. Todos respiramos. Então coletivo é simplesmente aquilo que é geral.
Um sinônimo interessante para coletivo é esse, geral.

Não é como se fosse uma mente de colmeia, com todas as abelhas que têm a mesma
mente. Não é isso.

Em “Tipos Psicológicos”, Jung fala sobre esse tipo de pensamento místico, ao qual ele
diz ser estéril e esterilizante. Em determinados momentos, Jung era bem irônico em
relação ao misticismo que atribuíam a sua teoria.

A parapsicologia, por exemplo, com as vibrações. Quando se fala em vibrações, dá a


impressão de que algo foi esclarecido, explicado. Só que não foi. E paramos de pensar
sobre. Então é estéril, pois não explica nada e é esterilizante, pois faz parar de pensar.
O que houve foi uma pseudo-explicação.

O inconsciente coletivo é algo geral, inato – Jung sempre fazia a menção de que já
nascemos com o cérebro altamente complexo, pronto para a evolução. A mente para Jung
não pode ser uma tábula rasa, como afirmava o empirismo inglês. Como ser uma tábula
rasa se já nasce com aptidões, competências, evolução se possibilitando a mais. O melhor
termo em inglês poderia ser folha em branco. Algo que já vem da filosofia aristotélica,
quando os medievais traduzem Aristóteles e dizem que “não há nada no intelecto que
não tenha passado primeiro pelos sentidos”. Jung discorda disso! Isso é fundamental
perceber, pois quando estamos falando de inconsciente coletivo dessa camada geral, o
correlato indispensável ao inconsciente coletivo é a ideia de arquétipo.

No fundo, o que Jung propõe ao utilizar os conteúdos do inconsciente coletivo são os


instintos e os arquétipos. Os instintos permitem uma uniformidade comportamental
– que pode ser instintivo e acontece independente da vontade. Jung crê que o homem
possui instintos e a essa uniformidade de ação corresponde uma imaginação do instinto,
um aspecto espiritual do instinto – que é exatamente o arquétipo.

57
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Arquétipo

Um dos conceitos que diferencia a psicologia desenvolvida por Jung da Psicanálise é


justamente o conceito de arquétipo.

Esse conceito é de difícil entendimento, embora tenha sido banalizado. Hoje, as pessoas
falam do arquétipo como sendo alguma coisa bem simples. E na verdade não é tão
simples assim.

O conceito foi desenvolvido a partir da observação de que existem imagens que são
formadas a partir da vivência de cada um, mas que tem uma estrutura semelhante.

Por exemplo, todos os seres humanos têm pai e mãe. Então todos os seres humanos têm
a possibilidade de formar uma imagem de pai e uma imagem de mãe.

Então, o que diferencia basicamente a psicologia de Jung da Psicanálise, no caso, é


exatamente esse conceito que coloca o inconsciente não como algo desenvolvido durante
a sua vida pessoal, mas ao contrário, algo que é dado a priori.

Figura 29.

Fonte: <http://3.bp.blogspot.com/-6l5xfHT_OxE/UnvBvItj0CI/AAAAAAAAAVE/UR1AGNUEumc/s1600/botticelli_birth_venus.jpg>.

Esse conceito de arquétipo se aproxima do conceito de instinto. Portanto, o arquétipo


seria um padrão de comportamento herdado que proporciona uma estrutura de
comportamento, mas que vai ser preenchido, vai ser atualizado como falamos na
psicologia analítica.

Jung faz essa analogia. É como se estivéssemos no espectro da cor. No plano


inferior teríamos o vermelho (ou infravermelho) e no polo contrário o violeta (ou o
ultravioleta). O vermelho é uma cor primária. Neste polo temos o instinto. O violeta é
uma cor secundária uma mistura de azul com vermelho. Neste polo temos o arquétipo.
Resumidamente, o arquétipo é a imagem do instinto.

58
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Figura 30.

Fonte: <http://www.simoneelhage.com.br/files/2017/03/aequetipos.jpg>.

Ao falar em arquétipos, também se faz necessário revisitar o contexto dos mitos. Afinal,
foi por meio dos estudos mitológicos e simbólicos que Jung iniciou a construção do
conceito de Arquétipo – que estão em nós e para além de...

De modo geral, podemos dizer que os mitos são as expressões mais humanas dos
arquétipos.

Segundo Jung (2000), o arquétipo é uma matriz primitiva herdada pela psique,
ele é um conteúdo hipotético que faz parte das camadas mais profundas do ser.
Estamos falando aqui de um local onde podemos alocar os arquétipos, e esse local é
o inconsciente coletivo.

Por se localizar nas camadas mais profundas do ser e, consequentemente, não estar
sob o domínio de uma linguagem e expressão da consciência, Jung (2000) propõe
uma distinção entre arquétipo em si – algo irrepresentável, pertencente a um plano
além do humano – e a imagem arquetípica. Dessa forma, temos que ter em mente
e de forma clara que o primeiro se constitui de uma estrutura inerente à psique e a
segunda se expressas sob as diferentes formas de manifestações de imagem, formas
e símbolos.

Os arquétipos ou imagens primordiais, ambas as denominações utilizadas por Jung,


é o conteúdo do chamado inconsciente coletivo. O pertencente à coletividade. É nesse
sentido que ele afirma que o ser humano não nasce uma tábula rasa e que possui toda a
potencialidade e possibilidades humanas, independente, de sua cultura.

Os estudos referentes ao Inconsciente Coletivo e aos Arquétipos constituem um elo


entre a teoria junguiana e os estudos mitológicos e simbólicos. Todos os conteúdos
possuem, originalmente, uma raiz arquetípica.

Os arquétipos são modelos de pessoas, comportamentos, personalidades e entidades.

59
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Figura 31.

Fonte: <https://portal2013br.files.wordpress.com/2014/08/post-08-31-15.jpg?w=454&h=41>.

Esses conteúdos são formas mais antigas e universais que caracterizam a vida, Jung chega
a afirmar que essas imagens remetem a conteúdos anteriores ao desenvolvimento do
homem. Ou seja, estão relacionados com conteúdos pertencentes, inclusive aos animais
menos desenvolvidos. São conteúdos que relacionam sentimentos, pensamentos,
expressões que interagem com a vida como um todo.

Jung acreditava que essa forma da psique servia como uma forma de herança
psicológica, pois contém toda a herança e o conhecimento que compartilhamos com
o Universo. Ele sugeriu que esses modelos são inatos, universais e hereditários.
Os arquétipos são ignorantes e têm a função de organizar como nós vivenciamos
algumas questões.

Ainda afirma, em seu livro na “Natureza, da Psique” que todas as ideias mais poderosas
da história se voltam para os arquétipos.

O Self é um arquétipo que representa a unificação da consciência e inconsciência de


um indivíduo. A criação do self provem do processo de individuação, no qual os vários
aspectos da personalidade são integrados. O self foi muitas vezes representado por
Jung como um círculo, quadrado ou mandala.

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Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Figura 32.

Fonte: <http://i1.wp.com/femininosagrado.com.br/wp-content/uploads/2017/01/Mandala2.jpg?resize=274%2C300>.

O arquétipo da sombra é reconhecido como o lado mais sombrio da psique, o que


demonstra o primevo, o selvagem, o caos e tudo o que é desconhecido.

Disposições latentes existem em todos nós. Mesmo que o indivíduo negue esses elementos
em sua própria psique, ele pode projetar no outro, dessa feita que Jung informa que a
sombra pode aparecer em sonhos ou visões, tomando assim uma variedade de formas,
tais como um monstro, uma cobra, um dragão etc.

Anima é uma imagem feminina na psique masculina. Enquanto o Animus é uma


imagem masculina na psique feminina. Anima Animus representa o verdadeiro Self.
A essa combinação é dado o nome de ‘O Casal Divino’, de identificação e unidade.

A Persona é a forma como nos apresentamos ao mundo. Derivando do termo em latim


para máscara, a persona representa todas as diferentes máscaras sociais as quais
fazemos uso.

Segundo Jung, o arquétipo persona pode vir a aparecer no conteúdo onírico e ter
diferentes formas.

Os arquétipos não são fixos ou estáticos, eles podem se sobrepor em alguns momentos.

Outros arquétipos:

»» O pai – figura de poder, autoridade.

»» A mãe – acolhimento, nutrição, afeto.

»» O herói – campeão, defensor, salvador.

61
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

»» A donzela – inocência, desejo e pureza.

»» O malandro – enganador, mentiroso.

Os arquétipos podem exercer um fascínio sob o subconsciente. Na teoria junguiana,


vemos o grande papel que a mulher ocupa. Dessa forma, vamos apresentar os 4
arquétipos femininos mais importantes:

»» Atlantis – que representa as mulheres de Atlântida. Povo que não se sabe


ao certo se existiu ou não, mas que é bem provável que tenha. Platão chega a
mencionar Atlântida em seus textos. Essas mulheres possuem superioridade.

»» Grego Romano– mulheres fortes, decididas e que exerciam sua


sexualidade de forma livre. As prostitutas da época utilizavam sandálias
com uma inscrição na sola que ao pisar no chão deixava a marca de sua
ocupação. Não havia poderes em relação ao exercício do sexo ou dos desejos
carnais. Roupas leves e valorização da estética corporal atlética. Básicas.

»» Orientais – são tipos bem distintos: indianas, japonesas, árabes...


podemos encontrar semelhanças na vestimenta, nos adereços, na dança,
maquiagens – inclusive corporais. Adereços de braços e pernas. Orelhas
com vários furos, e uma diversidade de brincos.

»» Egípcia – o Egito sempre causou e causa fascínio nas pessoas.


E, particularmente, os adereços, penteados, maquiagem e joias já eram
muito avançados. Possuindo uma estética marcante.

Esses são alguns dos muitos arquétipos que existem. No decorrer de nossas aulas,
contaremos com a interação para que possamos apresentar os demais arquétipos –
quer seja através de fóruns ou de vídeos.

Figura 33.

Fonte: <http://3.bp.blogspot.com/_oZXvAej90RA/R54Li3WXauI/AAAAAAAAAIw/L29n6lv0l3U/s200/banner_worldmandala.jpg>.

62
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Complexo

A teoria dos Complexos surge a partir da experiência de Jung com o Teste de Associação
de Palavras. Nesse teste, a pessoa deveria responder as primeiras palavras que lhe
vinham à mente quando ouvisse certa palavra estímulo.

Figura 34.

Fonte: <http://www.posugf.com.br/thumbs.php?src=dyn_images/1/1737_jung_1.jpg&maxsize=200>.

Exemplificando: quando o profissional fala a palavra casamento, o indivíduo deve dizer


a primeira palavra que ele associa a casamento, e assim sucessivamente.

Nessas aplicações, Jung (1995) percebeu que em algumas palavras o estímulo do


indivíduo demora a responder, em outras situações sequer conseguem fazer associações
e, em outros, ainda mais comuns a associação era feita imediatamente. Isso ocorria,
muitas vezes, sem que o sujeito percebesse ou soubesse explicar o motivo da demora na
resposta. Assim, Jung iniciou uma pesquisa sobre os elementos e conteúdos que podem
estar envolvidos com essas relações tão adversas na mesma pessoa.

Desse modo, Jung admitia que a consciência era perturbada por esses estímulos verbais
e que havia fatores inconscientes envolvidos.

Os vários estudos de Jung comprovaram essa teoria, apresentada no volume II de suas


“Obras Completas” com o título de “Estudos Experimentais”, no qual ele descreve com
exatidão todo o resultado dos estudos realizados para se organizar a ideia de Complexo.
Contudo, Jung (1995) observa que não há necessidade de continuar com o Teste de
Associações, pois ele atingiu o conhecimento necessário que possibilitava acessar os
conteúdos geradores dos complexos.

Vejamos o que Jung menciona acerca desse tema:

Pessoalmente, não mais utilizo na prática, graças a esses métodos


adquiri bastante experiência para não ter necessidade de quintos de

63
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

segundo a fim de constatar certas hesitações ou certas perturbações


que percebo diretamente. Entretanto, as experiências de associações
constituem excelente procedimento no ensino, para demonstrar de modo
experimental a atuação dos complexos, dando ao estudante uma base
sólida para a compreensão dos mecanismos psíquicos inconscientes.
(SILVEIRA, 1997, p. 29)

Mediante a transcrição dessa citação, observamos a importância do teste aos que


estão adentrando à Psicologia Analítica. Jung (1995) o dispensou, mas incentivou aos
aprendizes não abrirem mão dessa ferramenta até que obtenham a compreensão do
complexo, a fundo.

A priori, pode ser dito, pelo que vimos, que o complexo representa um conjunto de ideias
e que esse conjunto não apresenta uma realidade má ou boa. São apenas conteúdos.

Contudo, Jung atribui ao Complexo a potencialidade para gerar transtorno mental,


haja vista que o mesmo perturba as ações normais da Consciência não é de se duvidar
que essa perturbação forneça elementos para o desenvolvimento de patologias.

Figura 35.

Fonte: <http://1.bp.blogspot.com/-DGi_RXE9gHo/UjZteA9MX-I/AAAAAAAAAVA/PSySZw1QgbM/s1600/depression2.jpg>.

Assim, os Complexos são formados a partir de um aglomerado de ideias e imagens


unidos por um núcleo afetivo em comum. Esse aglomerado de ideias e imagens vão se
organizando desde a nossa infância por meio dos conflitos emocionais recorrentes e
resultantes das interações do sujeito com o meio interno e externo. Assim, os complexos
se configuram como personalidades autônomas que podem direcionar nossas atitudes,
em muitos casos, sem haver a tomada de consciência. Podemos dizer que se assemelha
ao Ego sendo tomado pela força de um determinado complexo. Dessa situação provém
o esquecimento, os lapsos e atitudes peculiares à personalidade do indivíduo.

O Complexo pode promover conflitos com a realidade – ou realidades – que promovem


o desenvolvimento da personalidade, assim veremos que o complexo auxilia o
64
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

enfrentamento e o fortalecimento do Ego por meio desses entrechoques. Em ambos


os casos, o Complexo aparece apenas como algo a ser olhado e analisado pelo Ego.
De acordo com Jung (1990), a partir da resolução de um conflito (Complexo) o Ego
toma para si a energia dispensada na resolução desse conflito e se desenvolve.

O processo de assimilação da energia do Complexo, de acordo com Jung (1995), não


ocorre apenas de forma intelectual, posto que o Complexo não busca apenas seu
entendimento, mas também, uma experiência que considera sua carga afetiva.

Exemplificando: uma pessoa que tem uma relação de conflito com facas e ao ouvir essa
palavra – em algum assunto trivial no cotidiano – desperta reações psicossomáticas
nas quais o Ego não dá conta de manter o controle. Nesse caso, o entendimento do
conflito diminui o conflito em si.

Paralelamente a esse conhecimento intelectual, deve ser promovido – ou deveria ser –


um reviver emocional da situação. Esse movimento promove a resolução do conflito e a
energia até então contida no complexo se tornaria parte do ego, fazendo com que esse
indivíduo apresente uma nova postura com relação ao objeto (a faca).

Complexos são obsessores. E quando dizemos isso é obvio que não estamos dizendo que
tais obsessores se originam em um mundo transhumano, transpessoal. O que estamos
dizendo é que complexos são opressores do Ego. Eles obsediam o Ego, tentando ocupar
o lugar do Ego. Esse é o motivo pelo qual os complexos fazem o indivíduo sofrer.
Ou seja, eles querem convencer o Ego da realidade deles. E o Complexo de Inferioridade
tem a pretensão de tomar a posição central na consciência, isto é, fazer com que o
indivíduo realmente acredite que ele é um monte de asneiras, tolices etc. e o Complexo
de Inferioridade o tortura, dizendo coisas depreciativas como estas sobre ele próprio.
A pretensão, então, do complexo é ocupar o lugar principal como centro da consciência
que é o Ego, nesse caso. Então, o indivíduo se convence de que ele é exatamente aquilo
que o complexo disse para ele que ele é.

Figura 36.

Fonte: <http://2.bp.blogspot.com/-GN70841xRTA/TrbY8lS6BeI/AAAAAAAAA7g/3A5SEiJJim0/s320/inferior.jpg>.

65
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Nos casos mais graves das psicoses esquizofrênicas, de fato o componente arquetípico
– o complexo arquetípico – fragmenta o eu. E toma o lugar dele dominando, assim,
a personalidade total, e assim nós temos a famosa loucura. Loucura que observamos
nas vias públicas pessoas psicóticas falando exaltadamente, brigando com alguém que
parece estar fora dele, mas que são pedaços da própria mente dele ejetadas que ficam
obsediando o próprio indivíduo. Indivíduo que já não tem mais um eu para dialogar
com aquelas imagens, um processo de grande sofrimento.

Então, quando dizemos que complexos são obsessores não estamos nos referindo aos
obsessores tidos como reais em um escopo voltado a uma doutrina religiosa, ou seja,
não é algo de fora que entra no indivíduo (visão religiosa), mas sim algo que está no
indivíduo. E pela dificuldade de experimentar como sendo algo interno é projetado
para fora. A projeção é uma defesa de alívio.

Dessa forma, através do estudo e detalhamento dos complexos afetivos, Carl Gustav
Jung, desenvolveu toda a psicodinâmica psicopatológica: neuroses dissociativas,
despersonalizações e estados afetivos anormais podem ser atribuídos à influência dos
complexos sobre a consciência.

Sincronicidade

Figura 37.

Fonte: <https://searmedeamor.files.wordpress.com/2016/01/tumblr_nmc5gghwia1sy6m2qo1_540.jpg>.

66
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

O tema está relacionado a fase mais madura de Jung. A Sincronicidade é um conceito


psicológico com o qual Jung vai trabalhar as relações entre imagens arquetípicas da
nossa mente e fenômenos que acontecem no mundo real. É uma ideia difícil ao homem
contemporâneo acostumado à causalidade.

Nossos esquemas de raciocínio são fundamentalmente: tempo, espaço e causalidade.


Jung propõe a concepção de uma quarta hipótese para o entendimento dos fenômenos.
A hipótese de conexões que embora possam ser coincidentes, elas não são causais.
Elas são acausais.

O que é uma conexão acausal?

Ela existe e é percebida quando você não pode atribuir uma relação direta entre
antecedente e consequente entre causa e efeito; onde não podemos entender o porquê
isso aconteceu. Esse por que tem que ser alvo de uma elaboração pessoal muito maior
que vai procurar a busca do sentido do acontecimento. Então, seria mais para que isto
aconteceu e não por que isto aconteceu.

E essa é uma maneira difícil de pensar para nós, pois acreditamos no modelo de ciência
que é puramente causal. O próprio Freud expressa através da Psicanálise o ponto de
vista causal, uma vez que ele gostava de saber o que causava determinados aspectos
psicodinâmicos, acreditando que se conhecermos as causas podemos interferir nos
efeitos. Jung propõe que muito mais que a questão da causa, nós temos a questão
teleológica de finalidade. Os processos não têm necessariamente uma causa. Mas, tem
sempre uma finalidade do para que acontecem.

Então, só se pode falar de sincronicidade quando abordamos fenômenos que não


tem causa. Não é um fenômeno que não tem causa conhecida. Devemos fazer essa
diferenciação crucial. Uma doença nova que não tem uma causa conhecida não é um
evento sincronístico.

E Jung colocava a sincronicidade de modo muito similar à forma como os antigos


taoístas colocavam o conceito de tao – o conceito de todo.

Figura 38.

Fonte: <https://i0.wp.com/www.ishindo.org.br/wp-content/uploads/2014/07/Taoismo2.jpg>.

67
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Essa sincronicidade consiste em eventos que ou coincidem – exemplo, um estado


interno (sonho) com um estado externo – e essa coincidência só será descobertas
posteriormente, pois sonhamos e no dia seguinte pois recobramos o sonho ou
acontece o que foi sonhado; ou, por outro lado, coincide um estado interno, onde um
acontecimento futuro que tempos depois vem a ocorrer ou coincide um estado interno
da pessoa, como, por exemplo, um mal estar indefinido e na sequência alguém telefona
e dá um notícia ruim.

O importante da sincronicidade é que ela é altamente improvável.

Por que ela acontece? Não sabemos! Nós podemos dizer que ela acontece para que as
pessoas prestem atenção no fato de que há outras formas de conexão entre os eventos
do mundo que transcendem o tempo e o espaço.

Portanto, sincronicidade é um conceito que se aproxima muito mais da mecânica


quântica – da física moderna – do que da física clássica. E se aproxima muito mais do
micronanocosmos do que do macrocosmos.

Figura 39.

Fonte: <https://portal2013br.files.wordpress.com/2017/10/post-10-19-11.jpeg>.

Um exemplo de sincronicidade: a pessoa acorda pensando “hoje eu preciso escutar o


que o Jorge vai falar”. E o Jorge me liga. Isso é uma sincronicidade.

Coincidência? Apenas se for uma coincidência significativa, pois quais as chances de


alguém nos telefonar já que não faz isso nunca.

O significado?

Reside no enigma a ser decifrado.


68
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Sonhos

Vamos iniciar esse tópico com uma pergunta: qual o sonho que você recorda?

E deixe essas imagens presentes por alguns instantes. Vamos nutrir essa possibilidade
dentro de nós. Conseguindo resgatar através da lembrança a sua relação com o sonho
vai ajudar nesse momento.

Qual foi o sonho que mais lhe marcou? Aquele sonho que pode ter acontecido há 5, 10,
15 anos atrás, mas que quando alguém fala de sonho – o seu sonho volta.

Há muitas maneiras de percorrer esse tema que com certeza é vasto.

Até a década de 1950, as pessoas ainda acreditavam que nem todas as pessoas sonhavam
– só algumas – uma com maior frequência outras com menor. E que as pessoas que
tinham sonhos muito significativos eram uma exceção.

Com as pesquisas laboratoriais e as descobertas da atividade cerebral, da fisiologia


dos sonhos quando entramos no sono REM (sigla para Rapid Eye Movement ou
Movimento Rápido dos Olhos) – essa é a indicação que damos ao mundo externo de
que estamos sonhando. Mediante isso, muitas descobertas foram feitas a respeito da
biologia, da fisiologia dos sonhos e ainda tem muitos laboratórios no Estados Unidos
que vão procurar compreender o sono e esse grande momento que é o sono durante o
período da noite.

A cada noite, sonhamos de 3 a 4 vezes. Geralmente, nos lembramos só do último sonho.


Todos nós já tivemos a experiência de acordar com sede ou com vontade de urinar,
despertamos em um momento em que estávamos tendo um sonho. Geralmente, nessa
noite você vai se lembrar de 2 ou 3 sonhos. É claro que nossa sociedade descarta os
sonhos, por não saber o que fazer com eles. Os sonhos serão validados no processo
psicoterapêutico.

Mas, quando nos aproximamos da linguagem dos sonhos, cada vez ficamos mais
familiarizados. Haverá um aspecto comum na linguagem do sonho e um aspecto
particular. É como se o nosso inconsciente criasse figuras de linguagem, metáforas,
analogias, eufemismos que acabamos por reconhecer: nessa situação de novo?

No livro autobiográfico de Jung, “Memórias, sonhos e reflexões”, os sonhos do criador


da Psicologia Analítica, bem como os de seus atendidos foram descritos. Esse fato
justifica o pedido em que fosse publicado após a sua morte.

69
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Figura 40.

Fonte: <http2.mlstatic.com/livros-D_Q_NP_905844-MLB27088143584_032018-Q.webp>.

Jung revela que os sonhos e as visões que ele teve eram a matéria-prima para todo o
trabalho que ele desenvolveu. Ou seja, foram a fonte de toda a obra de toda a vida dele.

Se formos um pouco atrás nessa linha do tempo, na criação da Antropologia por Edward
Burnett Tylor, verificaremos que ele fala horrorizado sobre as sociedades primitivas –
como eram chamadas de maneira pejorativa, diminuindo seu potencial – que esses
povos bárbaros não conseguiam diferenciar o objetivo do subjetivo e neste ponto que
se constrói a ciência; nas palavras dele. E que esses povos davam muita importância
aos sonhos, não conseguindo fazer a diferenciação. Como se os sonhos estivessem
integrados ao dia a dia, tem uma escuta para essa dimensão.

Figura 41. Edward Burnett Tylor

Fonte: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Edward_Burnett_Tylor>..

E isso foi desqualificado, porque o que aconteceu e ainda acontece é colocar o que é
objetivo de uma maneira superior à nossa subjetividade. Então, aquilo que é material é

70
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

melhor que os nossos sentimentos. O tangível tem valor, mas o intangível – as sensações
– não vale nada.

Então, se eu tive uma experiência com um sonho, foi só um sonho. Descarta.

Se eu tenho uma experiência com uma pessoa eu levo em consideração. Ou talvez não.
Estamos vivendo a pós-modernidade. Tudo é imediato. Quem era a pessoa? O que ela
faz? O que ela tem? Quando as perguntas deveriam ser opostas: Essa pessoa agrega
emocionalmente ou intelectualmente? Como foi a qualidade dessa troca afetiva?

Muitas sociedades, muitas nações indígenas dão o mesmo valor ao sonho.

E Jung já totalmente imerso na Psicologia pensou: “temos muito a aprender com


esses povos”. Pois essa proximidade com o inconsciente é que nos leva à atualização; à
correção de distorções; a compreender como meu inconsciente compensa algo que deixo
de lado. E algo que também incomoda muito a essa mente objetiva – preocupada com
a matéria é a questão do tempo. No sonho, no inconsciente teremos uma circularidade
em relação ao tempo. Passado, presente e futuro não é algo cartesiano e definido em
tempos. Isso nos incomoda muito porque perdemos totalmente o controle. É comum
a pessoa dormir no avião, no trem, enfim, por 8 minutos, mas relatar um sonho de 20
minutos. Como é que cabe? Cabe, pois, na dimensão do inconsciente não existe essa
noção de tempo.

Outra questão que incomoda muito na tentativa de controlar é que podemos ter um
sonho que nos leva lá para trás ou então para frente. É comum esses sonhos acontecerem.
Jung os observou várias vezes. Você pode ter um sonho que lança luz sobre um evento
que não aconteceu ainda. É claro que só se saberá quando esse evento acontecer.

O inconsciente não age dessa forma para que evitemos a situação. O que achamos que
acontece é que acabamos nos preparando um pouco para ela.

Vamos assistir ao breve vídeo, no link: <https://www.youtube.com/watch?v=


168Vfuet0og&t=32s>.

Os sonhos são uma ligação importante entre os processos conscientes e inconscientes.


A dimensão do onírico traz em si uma gama ampla de simbologias e emoções.

Jung atribui um papel de grande importância aos sonhos em nossa psique, pois eles
auxiliam na compensação de influências dispersadoras.

Dessa forma, a função dos sonhos é favorecer o equilíbrio psíquico total através de uma
balança compensatória psicológica.

71
UNIDADE II │ Conceitos Psicológicos

Figura 42.

Fonte: <http://mundodapsi.com/jung-interpretacao-dos-sonhos/>.

Pintar ou desenhar os sonhos é uma forma de digerir seus conteúdos. Para Jung a livre
associação não ajuda na compreensão do sonho, pois ela traz à tona os complexos e não
o significado do conteúdo onírico.

Não existe um sistema simples de interpretação dos sonhos. Lembram lá no início


quando mencionamos as revistas que trazem a interpretação do sonho? Pois bem, agora
estamos resgatando esse detalhe.

Símbolos tem mais de um significado, como sonhar com uma zebra – por exemplo –
pode significar o mesmo para cada uma das pessoas que lê esse caderno de estudos
nesse exato momento. Isso é possível? E as nossas vivências.

Agora imaginem sites, livros, revistas e sabe lá mais o que que possa trazer o significado
e a interpretação dos sonhos de A à Z. O que representa o trabalho do Psicólogo?

Estamos diante de um material desenvolvido exclusivamente sobre a Psicologia


Analítica. Uma das disciplinas que vocês faram para obter sua Especialização.

Como uma lista de nomes irá substituir a atuação profissional de cada um de nós?

A resposta é: não irá!

E isso é triste, pois o papel da psicológica é fundamental em uma sociedade que se


propõe a ser saudável. A Psicologia é, antes de tudo, profilática. Quem lhe retirou esse
caráter? As pessoas não vão ao psicólogo por uma série de equívocos: é caro; é para
gente maluca; não resolve nada; falta do que fazer, e segue a lista. Entendamos que isso
é o fruto do desconhecimento a respeito de nossa atuação, de nossa função.
72
Conceitos Psicológicos │ UNIDADE II

Retornando aos sonhos e sua interpretação, para que essa seja uma prática
bem-sucedida é necessário que se leve em consideração o comportamento, as emoções,
as experiências de nosso atendido. O caráter da interpretação é experimental, até que
essa interpretação seja validada pelo nosso atendido.

A maneira como Jung interpreta os sonhos é mais complexa. E aqui não é uma crítica
em relação à Psicanálise, mas uma constatação.

Os que nos é produtivo compreender, agora, é que os sonhos são nossos amigos, pois
nos colocam em contato com nosso inconsciente.

73
Processos Unidade iII
Psicopatológicos

Figura 43.

Fonte: <http://psicoativo.com/wp-content/uploads/2016/07/ilusao-de-otica-sinistra-bailarina-palhaco-580x445.jpg>.

A psicopatologia, na perspectiva da Psicologia Analítica, é compreendida como um


desequilíbrio a ser transformado, de um mal propriamente dito.

Vamos trabalhar com a visão de que existe algo na psique que precisa ser entendido
através do processo psicoterápico.

Esse fato é entendido por meio da relação de troca entre o consciente e o inconsciente.
Quando há algo que é percebido como incomodo à consciência, devemos buscar a fonte
desse desequilíbrio em processos inconscientes.

A questão que precisa ser respondida é: qual parte da psique, qual conteúdo, está
precisando ser atendido, ser observado?

A busca a essa resposta nos leva as perceber quais complexos estão mais atuantes nos
processos normais executados pelo Ego (Eu).

74
Capítulo 1
Os complexos nas psicopatologias e
outros temas correlatos

Descrever o desenvolvimento do indivíduo pela ótica da Psicologia Analítica é algo


laborioso e complexo. Mas, atípico. Pensamos que este termo descreve de forma
adequada o tema que vamos dissertar. Primeiramente, porque Jung não escreve sobre
a infância. As suas produções estão focadas em estudos e pesquisas na fase adulta do
desenvolvimento humano. O segundo ponto nos mostra que outros teóricos e estudiosos
abordaram a infância na perspectiva teórica, são eles: Erich Neumann em sua obra
“História da Origem da Consciência” (2008), “A criança” (1991) e Michael Fordham em
seu livro “A criança como Indivíduo” (2003).

Entretanto, com o passar do tempo, os estudiosos da Escola Desenvolvimentalista –


segmento da Psicologia Analítica – começaram a preencher essas lacunas.

Figura 44.

Fonte: <http://psicoativo.com/wp-content/uploads/2016/04/cerebro-numa-cuba-hilary-putnam-500x445.jpg>.

O caminho sobre o desenvolvimento da criança sob o ponto de vista da teoria analítica


de Carl Gustav Jung incorre em uma pesquisa acerca do que ocorre com o indivíduo no
início de sua vida, em relação à estrutura da psique e a partir da investigação da história da
origem da consciência e dos estágios arquetípicos como etapas de seu desenvolvimento.

Existe a tentativa de apresentar os graus de consciência do Ego que atuam na psique


infantil, com o propósito de apontar – através da linguagem simbólica – conteúdos que
operam na psique infantil. Visando a compreensão de seu desenvolvimento psicológico
na formação de sua personalidade.

75
UNIDADE III │ Processos Psicopatológicos

Assim, para a teoria junguiana, a criança ao nascer se encontra ainda em um estado


psíquico, em que o Ego se encontra contido no inconsciente e, a personalidade e o Self,
existem antes do Ego tomar forma.

Desse modo, podemos dizer que o desenvolvimento da estrutura psíquica no início da


vida tem diferentes graus de consciência do Ego.

A visão que o indivíduo tem do mundo sofre modificações a cada estágio do seu
desenvolvimento, sendo as variações de arquétipos, símbolos, deuses e mitos, a expressão
e o instrumento para essa mudança. São essas representações que irão direcionar o
desenvolvimento do indivíduo juntamente com a relação com o meio externo.

Podemos concluir que o processo de desenvolvimento na perspectiva junguiana não


acaba, ao contrário, ele irá acompanhar o indivíduo ao longo da vida, com as oscilações
de intensidade.

De acordo com Neumann (1995), a história só se inicia com um sujeito capaz de fazer
experiências, ou seja, quando o Ego e a consciência já existem.

Em seu livro “A criança” (1991), Neumann relata que nos primeiros meses de vida o
ego se forma ou começa a se desenvolver. Nessa época, o núcleo do ego se encontra
presente, cresce e adquire unidade, podendo se referir a um ego infantil levemente
estruturado. Aqui podemos nos referir a existência do pré-ego.

Figura 45.

Fonte: <http://aquariusthewaterbearer.com/wp-content/uploads/2015/06/ouroboros.png-300x296.jpeg>.

Esse período é caracterizado perlo símbolo da Uroboros, a cobra que engole o próprio
rabo, uma das representações da totalidade.

A Uroboros é uma representação simbólica do estado mental (unificado e primevo) que


reflete a infância da criança e da humanidade.

76
Processos Psicopatológicos │ UNIDADE III

Para Jung a criança começa a tomar consciência de si, ao dizer “eu”. Nesse momento
ocorre o processo de emersão da consciência – que se diferencia do inconsciente.

Para a Psicologia Analítica, até os 20 anos vai ocorrer o maior e mais intenso
desenvolvimento da consciência e, depois desse período se torna menos provável que novas
partes da esfera inconsciente venham se juntar a ela. Sendo assim, o amadurecimento da
criança é um processo que só surge à medida que a consciência do ego e a individualidade
se desenvolvem, favorecendo o processo da individualização que, em geral, é processo de
formação e particularização do ser individual, distinto do coletivo.

Jung (1995) desenvolve a teoria dos complexos, quando chega à conclusão de que
todas as psicopatologias possuem complexos autônomos que perturbam a consciência
fazendo com que as pessoas adoeçam. Nesse sentido, o que gera a patologia é o conflito
entre um complexo autônomo e o Eu.

Sendo assim, para Jung, tanto as neuroses quanto as psicoses têm sua base na teoria
dos complexos.

Ou seja, o complexo pode – em algum momento – adquirir autonomia criando um


conjunto de relações que foge ao controle da consciência, fazendo com que o indivíduo
tenha atitudes e tome ações que provavelmente não executaria em seu estado de
domínio consciente.

Vimos que o complexo não é bom ou ruim, ele apenas é algo.

Não é um empecilho, barreira ou obstáculo à vida, pode inclusive ser um aliado no


processo de desenvolvimento.

Assim, a doença expressa um conteúdo profundo da psique e que a forma dessa doença
se expressar no campo emocional ou físico, depende da forma patológica de expressar
tal conteúdo. Assim, há a forma abstrata e a forma mais concreta, corporal.

A somatização pode ser o resultado da expressão de um conteúdo que ainda não foi convertido
em uma linguagem verbal, mas corporal. A linguagem corporal usada na patologia remete à
linguagem da infância, não verbal, uma linguagem arcaica onde o corpo fala.

Assim, o sintoma é uma representação simbólica de ruptura, podendo ser psíquica ou


corporal. Existe a impossibilidade de representar algumas perdas psíquicas, como a de
um ente querido, da saúde perfeita, de um membro etc. Assim, surge uma desarticulação
psicosoma.

O complexo traz suas representações, simbolicamente, no plano somático por meio de


conexões fornecidas no decorrer do desenvolvimento do indivíduo. Assim, concluímos

77
UNIDADE III │ Processos Psicopatológicos

que os sintomas são expressões simbólicas que de forma violenta violam e revelam a
existência do conflito entre o Eu e o Inconsciente.

Ou seja, entre as suas crenças e questões mentais com o mundo interior, que dá
sentido e significado à própria existência. Dessa forma quando surge um sintoma,
inevitavelmente surge uma sentença de morte.

Assim, surge a necessidade que aconteça uma transformação – essa morte é simbólica.
A visão de mundo do indivíduo tem que mudar. E se não acontecer essa mudança do
ponto de vista dos valores e crenças, não vai ocorrer a mudança das atitudes – que o
leva a desenvolver o mesmo modus operandi.

O sintoma acaba levando o indivíduo para a morte real.

78
As diferentes formas Unidade iV
de atuação

Capítulo 1
Desdobramentos na práxis da
psicologia analítica

Figura 46.

Fonte: <http://academiadopsicologo.tempsite.ws/uploads/2017/07/bigstock-132088565.jpg>.

A psicoterapia é algo que existe desde que o primeiro ser humano experimentou algo
desconfortante. Uma angustia, um sentimento existencial de que precisava encontrar
sentido e significado para o seu ser no mundo.

É essa questão existencial que habita o profundo de todo ser humano?

Que gera o desenvolvimento?

Ou gera o sofrimento psicopatológico?

O que é muito importante compreender, e esse é um dos grandes méritos de Jung, é


perceber que o sofrimento psíquico é sempre algo que está inundado de potencialidades
de desenvolvimento.

Nós sofremos não por causa do trauma, ou dos nossos traumas; porque todo ser humano
é traumatizado. O próprio nascimento é visto como uma experiência traumática.
Vide o famoso livro de Otto Rank: “Trauma do Nascimento”. Então, nascer é um trauma.
79
UNIDADE IV │ As diferentes formas de atuação

O início da vida é uma experiência nada simples. E sabemos das consequências de uma
intolerância a essas experiências iniciais sobretudo quando não há um bom apoio que
acolha ou seja capaz de receber o desespero do nascimento. Estamos falando da mãe
positiva junguiana.

Se nascer é traumático. A capacidade de lidar com isso é que vai determinar como nós
resolvemos os nossos dramas existenciais e, nesse caso, até mesmo um drama biológico.

Não são os traumas os nossos problemas, mas a forma como lidamos com eles.

Em “Memórias, sonhos e reflexões”, o livro autobiográfico de Carl Gustav Jung, ele diz
que quem vê sua a obra, vê a vida dele. Que não há nenhuma diferença entre o que ele
andou escrevendo e estudando e publicando e a vida interior dele.

Na verdade, os trabalhos acadêmicos de Jung e sua obra completa refletem o seu mundo
interior, a prática da psicoterapia dele é um reflexo do seu mundo interno, o qual ele foi
capaz de realizar.

E como era esse mundo interno de Jung?

Novamente, quando lemos “Memórias, sonhos e reflexões” nós vemos que Jung foi
uma criança extremamente problemática. Perturbada. A ponto de Donald Winnicott
chegar a dizer que na infância Jung desenvolveu uma esquizofrenia infantil. Pensamos
que Winnicott exagerou e era alguém que tinha problemas. Aliás como todos têm.

Mas, o fato é que Jung era uma criança com suas peculiaridades, atormentado, e em
constante sofrimento. Era uma criança muito angustiada.

O que podemos abstrair desse exemplo?

Para nós, enquanto psicólogos, o sinal indicador – a estrela guia – do terapeuta é na


verdade as suas próprias angustias.

Dito isso, costumamos dizer que o terapeuta é constituído de duas estrelas que se unem
em um jogo amoroso de encantamento.

A primeira é a dor. Uma estrela dor, que lateja, dentro da alma do próprio terapeuta.
E ele pode avistar desde o início da sua vida como Jung foi capaz de avistar. E tal como
é a biografia do Jung.

E a segunda estrela é a paixão. Paixão por essa dor. A paixão por compreender essa dor.
É uma espécie de sacerdócio de vida devotada à compreensão da alma humana e como
um ser humano é consonante a todas as coisas que existem no mundo. Quando alguém
desvenda alguma coisa de si é como de desvendasse algo sobre o resto do mundo. O todo.

80
As diferentes formas de atuação │ UNIDADE IV

Isso é extraordinário, pois pessoas as quais não conhecemos e que estão em lugares
distantes, ao resolver questões internas, “pulverizam” no ar esses “átomos psíquicos”,
como diria Demócrito.

São pensamentos que ficam por aí, no ar, no cosmos, e vai que pegamos um desses. E tenho
um insight extraordinário sem saber de ode veio, nem como chegou, simplesmente aparece.

A única precondição é que estejamos em sintonia. Sintonia com o quê? Com a minha
alma, com as minhas questões internas.

Então a prática da psicoterapia junguiana reflete a vida de Jung e a sua história.


Ele praticava a psicoterapia assim como praticava a psicoterapia em relação a ele
próprio, enxergando o mundo dele. E isso gerava, naturalmente, um grau de empatia
pelo seu sofrimento humano.

Como terapeutas temos nossas vivências – como todos as têm. Mas, a grande questão
é saber lidar criativamente com as dificuldades que constituem o fato de existir no
mundo para o desenvolvimento e se entender esses desafios. Essas situações de conflito
são situações naturais do próprio processo de individuação. E que sem esses processos,
sem esses conflitos, não há como haver um processo de individuação, na medida em
que tal processo constitui a integração desses componentes que estão distanciados da
consciência.

Figura 47.

Fonte: <https://cdn.culturagenial.com/imagens/o-grito-evard-munch-0.jpg>.

Então, nós podemos tranquilamente dizer que a vida é crise. Toda vida humana é crise
e não precisamos ficar entristecidos ou frustrados com o fato de a vida ser crise.

81
UNIDADE IV │ As diferentes formas de atuação

Portanto, é a nossa atitude em frente às crises que constituem a jornada de toda vida que
fazem com que nossa jornada seja bem aproveitada e integrada como autoconhecimento
e sabedoria.

Ou se essas crises vão afundar nosso atendido (cliente/paciente) em um mar de tristeza,


melancolia, depressão, tédio, ansiedade e pânico.

Efetivamente, a possibilidade de um livre arbítrio de qualquer forma.

Cremos que o fato de Jung ter percebido de forma positiva essas situações e ter descrito,
o método dele como teleológico; ou seja, tem um fim, uma meta.

Houve encontro com Freud que teve muito valor, mas que possibilitou perceber as
discordâncias – como as causas das neuroses. E mesmo sabendo da importância em
saber das causas, há uma complementação entre Freud e Jung. São os opostos, que
até podem não necessariamente se atrair sempre, mas que em determinados casos
apresentam a concatenação de ideias. Não devemos nos desesperar!

Esse fator é uma das contribuições mais valiosas da fala de Jung, aos que estão aqui para
conhecer mais sobre seu manancial de ideias e sobre a forma de acolher o sofrimento
do paciente. O desespero não conduz a lugar algum.

O processo terapêutico é para ser sentido, vivenciado; é o vínculo, a empatia. É preciso


dar tempo ao nosso paciente para ressignificar suas questões.

Crises, sofrimentos, dores e aflições são oportunidades de desenvolvimento. Esses eventos


devem ser entendidos dessa forma. E passados dessa forma ao paciente, para que o
equilíbrio seja reestabelecido.

Essa noção do posicionamento proativo mediante à crise, rupturas e ritos de passagem


tem sido ampliada no escopo das abordagens psicológicas, e em especial na terapia
junguiana.

A prática da psicoterapia junguiana obrigatoriamente precisa ter essa visão realística


do que nós somos.

De que matéria somos constituídos e facilitar a partir da decifração da linguagem dos


sonhos, das fantasias etc. o mito do significado que habita em cada um de nós.

Cada qual deve descobrir o seu mito pessoal e perceber com clareza qual o caminho deve
percorrer, estando ciente de que as dificuldades surgiram, mas haverá um Ego heroico
capaz de lutar – no sentido de se misturar com a coisa, extraindo dela a essência vital,
antes desperdiçada no inconsciente. Agora disponível para consciência.

82
Para (Não) Finalizar

Figura 48.

Fonte: <http://4.bp.blogspot.com/-BvajXaRBfwk/VXIpg2tUHwI/AAAAAAAALBs/KKaPNSiXtAI/s320/Espiral%2Bda%2BVida%2BII.jpg>.

Durante séculos, o estudo do Universo e da mente foram disciplinas separadas.

Em 1905, com 30 anos de idade, Carl Gustav Jung conheceu um jovem alemão que
trabalhava como escriturário em um escritório de patentes suíço. O jovem, em questão
se chamava Albert Einstein.

De certa forma, Einstein tinha um coração místico. Quando criança ele havia observado
os movimentos da agulha de uma bússola e jurou, a si próprio, que um dia ele iria
conhecer a mente de Deus.

Assim como Newton, Einstein entrava em estados alterados da consciência que chamava
de exercícios mentais e intuitivamente chegou às suas descobertas. Somente mais tarde
Einstein iria retomá-las com fórmulas e provas.

Em 1904, Einstein escreve cinco artigos sobre a “nova física” publicados na revista
“Annalen der Physik” – a revista mais importante sobre Física – sendo o primeiro
desses artigos escrito em 1901, quando ele tinha 22 anos. Nesses artigos havia teorias
que reescreviam as regras do Universo. Nelas ele apresentou a teoria da relatividade
defendendo que tempo e espaço são relativos. Conceitos mutáveis não absolutos.

83
Para (Não) Finalizar

Newton desenvolveu maravilhas como a lei do movimento, da gravidade e outras


que pareciam funcionar como o relógio e deixou todo mundo contente, por mais
revolucionário que fosse na época.

Afinal, se descobria que o Universo era como um relógio gigante e que tudo funcionava
de maneira ordenada. Einstein apareceu e disse bem isso pode ser assim, mas também
é relativo. E virou tudo de ponta cabeça de novo.

Nas notas autobiográficas de Einstein, ele pedia a Newton que o perdoasse, por
revolucionar a ciência da Física. Einstein, enfim, resolvia a contradição que Newton
havia observado no comportamento da luz. A luz age como uma onda, mas às vezes age
como partícula e no processo ele finalmente provou a intuição de Newton a respeito da
existência de átomos.

Isso afetou o universo!

Na Física Quântica não há absoluto, tudo muda de acordo com a observação.

Einstein rejeitou a Física Quântica. Mas, a Física Quântica não poderia ser ignorada.
Os conceitos do ocultismo iriam ajudar a entender algo sobre esse território não
mapeado.

Para os Físicos Quânticos, a própria mente tinha um papel integral. O comportamento


da matéria depende integralmente do observador.

A ideia de que a Física ou de que a realidade física é de certa forma um constructo


da mente ou que dependa dela é certamente uma das maneiras de se interpretar da
mecânica quântica e esse é um dos motivos pelos quais se gera tanta discussão, pois
algumas pessoas gostam muito dessa ideia e outras detestam.

Os físicos quânticos chamam isso de problema do observador.

Se apenas seres conscientes podem ser observadores, então estamos, intimamente,


conectados à própria existência da realidade. Sem nós, haveria apenas uma superposição
de possibilidades em expansão com nada definitivo acontecendo de fato.

Quinze anos depois da publicação dos artigos revolucionários de Einstein, Wolfgang


Pauli – mal saído da adolescência – escreveu uma exposição brilhante da teoria da
relatividade de Einstein. Os dois pioneiros da Mecânica Quântica, Max Born e Niels
Bohr, encorajaram Pauli a se juntar a eles em seu campo. As grandes questões se
tornaram a obsessão de Wolfgang Pauli – apesar de ser um homem difícil e descrito
como perturbado – era um mestre da intenção.

84
para (não) finalizar

Os cientistas falavam do Efeito Pauli. Seus colegas dos laboratórios experimentais de física
falavam a ele que, por favor, ficasse longe. Porque assim que ele chegava no laboratório,
todos os experimentos paravam de funcionar. Ele na verdade, nem precisava entrar no
laboratório, ao desembarcar do trem os experimentos paravam de funcionar.

Pauli era, como muitos outros que tomamos como grandes cientistas, um propositor
consumado. Ele podia projetar o que estava para acontecer e acontecia, de certa
maneira. Ele era um dos mais criativos pensadores da Mecânica Quântica, por isso.

Pauli, como Newton, mergulhou fundo em seu trabalho e acabou tendo um colapso
mental. Em 1948, ele foi ao recém-criado Instituto C.G Jung em busca de ajuda do,
agora, famoso psicólogo. Assim que ele entrou no consultório o Efeito Pauli ocorreu,
de repente, um vaso caiu no chão. Ambos diriam mais tarde que quando o vaso se
estilhaçou eles reconheceram seus destinos.

Juntos, Jung e Pauli tentariam compreender o Universo, usando tanto a Física quanto
a Psicologia.

Assim, Pauli se tornou um dos grandes colaboradores no desenvolvimento da Física


Quântica, em parte pelas intuições de que ele se valia e em parte em colaboração com o
grande pensador intuitivo Carl Jung. Campos diferentes, no entanto, essa parceria foi
essencial para que Jung expusesse suas ideias através das contribuições de Pauli.

O evento do vaso, seguido por outros semelhantes, levaram ao desenvolvimento do


conceito de sincronicidade. Onde eventos supostamente aleatórios colidem para criar
significado.

Sincronicidade, como Jung define, é a correspondência entre um estado psíquico


interior, um estado psicológico e algum evento externo. Essa correspondência tem um
alto grau de improbabilidade parecendo aleatória ou acidental, ou apenas coincidência,
ou então acaso.

Jung e Pauli combinaram seu brilhantismo ne sua intuição e chegaram a uma Teoria do
Universo. Se a matéria se comporta de acordo com a observação, teriam os homens feito
sua própria realidade? Teriam os pensamentos e sonhos das pessoas criado o mundo?
É uma noção que muitos cientistas rejeitam e que ecoam no ocultismo.

Antigas ideias ocultistas de uma consciência latente que permeia nosso mundo, tornam
muitas das interpretações da Mecânica Quântica mais simples. Pois se a consciência
é essencial para o ato da observação para trazer uma realidade definida dessas ondas
quânticas de probabilidade, a vida, de certa forma, se explica melhor se houver outras
fontes de consciência além da nossa.

85
Referências

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