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organização
Adriana Vianna

O fazer e o desfazer
dos direitos
experiências etnográficas
sobre política, administração
e moralidades

Rio de Janeiro, 2013


© Adriana Vianna/E-papers Serviços Editoriais Ltda., 2013.
Todos os direitos reservados a Adriana Vianna/E-papers Serviços Editoriais Ltda. É proibida a reprodução
ou transmissão desta obra, ou parte dela, por qualquer meio, sem a prévia autorização dos editores.
Impresso no Brasil.

ISBN 978-85-7650-369-9

Projeto gráfico e capa Conselho Editorial


Andréia Resende Beatriz Maria Alasia de Heredia Laura Moutinho
Eliane Cantarino O’Dwyer Luiz Fernando Dias Duarte
Diagramação
Carla Costa Teixeira Maria Filomena Gregori
Juliana Jesus Carlos Guilherme Octaviano do Valle Mariano Baez Landa
Revisão Cláudia Lee Willians Fonseca Mario Pecheny
Débora Castro Cristiana Bastos Patricia Ponce
Gustavo Blazquez Sérgio Luís Carrara
Produção Editorial Jane Araújo Russo Stefania Capone
Thaís Garcez João Pacheco de Oliveira

Este livro foi viabilizado por recursos do projeto Diverso – Políticas para a Diversidade e os Novos
Sujeitos de Direitos: estudos antropológicos das práticas, gêneros textuais e organizações de governo,
realizado com financiamento da Finep através do Edital de Ciências Sociais 2006 (Convênio Finep/FUJB
nº 01.06.0740.00, REF: 2173/06), coordenado por Antonio Carlos de Souza Lima, Adriana Vianna e Eliane
Cantarino O’Dwyer. Recebeu, também, apoio da Faperj, através do projeto “Às portas dos direitos: as
dinâmicas entre relações de gênero, redes sociais, instituições de Justiça e ação política”, edital Jovem
Cientista do Nosso Estado, 2010 e do CNPq, através do projeto “Instituições de justiça, redes sociais
e relações de gênero: uma antropologia da experiência dos ‘direitos’ e do fazer político”, bolsa de
produtividade em pesquisa, nível 2.

Esta publicação encontra-se à venda no site da


E-papers Serviços Editoriais.
http://www.e-papers.com.br
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Rio de Janeiro – Brasil

CIP-Brasil. Catalogação na Fonte


Sindicato Nacional dos Editores de Livro, RJ

F295
O fazer e o desfazer dos direitos : experiências etnográficas sobre política,
administração e moralidades / organização Adriana Vianna. - 1. ed. - Rio de
Janeiro : E-papers, 2013.
216 p. ; 23 cm. (Antropologias ; 10)
Inclui bibliografia
ISBN 9788576503699
1. Direitos humanos. 2. Antropologia. I. Vianna, Adriana. II. Série.

13-04590
CDU: 342.7
Lista de quadros

Quadro 1. Palestrantes que se apresentaram nas Mesas 47

Quadro 2. Temas debatidos no encontro organizados por Mesa 48

Cronologia 1. Sentença da corte no caso Damião Ximenes (4.7.2006) 201

Cronologia 2. Ação Penal n. 647/2000 – Comarca de Sobral


sobre o caso Guararapes (7.2009) 209

Cronologia 3. Caso Guararapes na sentença da Corte IDH


sobre o caso Damião Ximenes 211

Lista de tabelas

Tabela 1. Notícias sobre infanticídio indígena publicadas


em Jornais e Revista brasileiras no período de 1970 a 2009 120

Tabela 2. Quadro comparativo das matérias e ONG analisadas


ao longo do texto 134
Sumário

Apresentação 11

Introdução: fazendo e desfazendo inquietudes


no mundo dos direitos 15
Adriana Vianna
1.“Dentro” e “fora” do Estado 17
2. Para a dor da gente sair no jornal: dramas, casos, causas 22
3. Do direito, dos direitos: nos jogos vivos da fala e da ação 28
Referências 34

O desaparecimento de pessoas no Brasil contemporâneo:


a ausência como matéria-prima de um problema social 36
Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira
1. Introdução 36
2. Investigando a ausência: entre o álbum de família e o registro policial 38
3. Enfrentando a ausência: um evento e muitas causas 45
4. Multiplicando a ausência: do que é feito um problema social 51
4.1. “Há famílias desestruturadas em todas as classes sociais” 53
4.2. “Minha família se desestruturou depois que minha filha desapareceu” 56
4.3. “Não temos a estrutura necessária” 61
5. Considerações finais 64
Referências 66

Os direitos e os “avessos”: contradições e ambiguidades


em torno das decisões e “direitos, sexuais e reprodutivos”,
de jovens vivendo com HIV/Aids 68
Claudia Carneiro da Cunha
1. Introdução 68
2. A etnografia: jovens e Aids entre dramas e representações 71
Dramas em cena 72
Invertendo os papéis 81
3. Contradições e ambiguidades em torno das decisões e “direitos, sexuais e
reprodutivos”, de jovens vivendo com HIV/Aids 90
Referências 93
Estratégias tutelares para a “garantia de direitos”: uma análise da
construção da “pedofilia” como problema político 96
Laura Lowenkron
1. A construção da “pedofilia” como problema político 101
2. Estratégias tutelares para a “garantia de direitos” 114
Referências 116

Sentidos e usos sociais do infanticídio indígena


em alguns veículos da mídia brasileira 118
Rita de Cássia Melo Santos
1. Sentidos e usos do infanticídio e do infanticídio indígena 120
2. Notas e notícias 122
2.1. Revista Veja: “Crimes na floresta” 122
2.2. IstoÉ: “barbárie” 127
2.3. Folha de S. Paulo: “em xeque respeito à tradição indígena –
ONG levanta debate sobre a vida; antropólogos condenam imposição
de lei e defendem que mudança ocorra por meio do diálogo” 129
3. ONG Atini: “Quebrando o silêncio” 130
4. Do particular ao coletivo 133
5. Considerações finais 138
Referências 142

Polícia e movimento social em Altamira, Pará:


o “caso dos meninos emasculados” 147
Paula Lacerda
1. Introdução 147
2. A instrução policial 154
2.1. O caso do menino Fernando 154
2.2. As diligências com base na violência contra Pedro 155
2.3. Judirley da Cunha Chipaia, a primeira morte 157
2.4. Jaenes da Silva Pessoa: o andamento das investigações 162
2.5. O primeiro indiciado: Amailton Madeira Gomes 164
2.6. A chegada da equipe da Polícia Federal 166
2.7. Construindo uma unidade: inclusão e exclusão de “casos” 167
3. Trajetórias sociais, trajetórias de mobilização 170
4. Perspectivas finais 180
Referências 182
Condições de possibilidade do caso Damião Ximenes: uma análise da
primeira condenação do Brasil por violação de direitos humanos 185
Martinho Braga Batista e Silva
1. Introdução 185
2. A entrada em campo 189
3. Uma narrativa jornalística do caso Damião Ximenes 192
4. A denúncia, o caso e a condenação 199
5. Denúncias, casos e condenações 203
6. Considerações finais 208
Referências 212
Apresentação

Administrando o mal comum na chave dos “direitos”


A polissemia da palavra direito contém, dentre outros sentidos, o do con-
junto de normas de conduta instituídas que balizam as relações sociais,
marcando o certo e o errado, o bem (de uns) e o mal (de outros). No seu
plural o termo, aponta também (juntamente com deveres) para o sistema
de obrigações e prerrogativas que traduz de modo prescritivo tais normas
no plano individual e coletivo. Esta referência simplista me serve a evocar
que tais sentidos têm sido apreendidos na disciplina antropológica pelo
campo da chamada antropologia do direito e/ou jurídica1. Ainda que na
busca de não substancializar um espaço próprio à regulação jurídica do
social, em si mesma a antropologia jurídica e/ou do direito supõe “o direi-
to” e a crença de que se tem direito aos “direitos”. Ainda que em perspec-
tiva interpretativa ou construcionista, constitui-se um universo específico
como matéria de análise para esse subcampo disciplinar.
Sem desconhecer as conquistas e virtudes de tais abordagens, os es-
tudos etnográficos compilados em O fazer e o desfazer dos direitos se-
guem em outras direções, como bem o sinaliza Adriana Vianna na densa e
abrangente introdução à coletânea. Os estudos resultantes do investimento
de pesquisadores que, relacionando-se às linhas de pesquisa e projetos da
organizadora, trabalharam a partir de seus cursos e/ou orientação, trazem
os direitos em outra clave. Aqui, como podemos ver ao longo da coletânea,
e está claramente marcado na introdução – que utiliza termos como narra-
tivas, textos, linguagem, vocabulário, gramática em associação a tal ideia
–, os direitos surgem como categoria associada ao que chamarei de comu-
nicação entre esferas sociais, esferas estas que tradicionalmente surgem
separadas. Assim, emoções, sentimentos e afetos circulam e entrelaçam-se

1 Para alguns aspectos da diferença entre antropologia do direito e antropologia jurídica,


e seus ecos no Brasil, ver: KANT DE LIMA, Roberto. Antropologia jurídica. In: SOUZA
LIMA, Antonio Carlos (coord. geral). Antropologia e Direito: temas antropológicos para
estudos jurídicos. Rio de Janeiro; Brasília: Contra Capa/Laced/Associação Brasileira de An-
tropologia, 2012, p. 35-54.
em instituições como a Polícia, o Legislativo, ou instâncias do Judiciário,
em suma com o que também os atores sociais concretos chamam de Es-
tado, aqui não apenas tomado enquanto conceito científico, mas também
categoria dos pesquisados falados e articulados via luta pelos direitos.
A sociedade – os movimentos sociais, as ONGs – e o Estado não
surgem dissociados, como reinos autônomos, mas como construções do-
tadas de realidade e força expressiva: se são desconstruídos nas certezas
que partilhamos no dia a dia seja no senso comum, seja no senso comum
intelectual, o são para serem percebidos em sua realidade mais profunda.
Como crenças essenciais e partilhadas, tais categorias adquirem realidade
ao tomarem parte essencial nestes códigos comunicacionais. Ter direitos,
reivindicá-los, organizar-se para lutar por eles postando-se contra o Es-
tado, ou pela sua eficácia nunca realizada é, pois, enfocado aqui também
como forma de sua (auto)validação e (auto)afi rmação como interlocutores
(receptores e emissores, partícipes ativos, portanto) privilegiados nos pro-
cessos contemporâneos de permanente construção do Estado, simultânea
e inseparavelmente como crença (logo como entramados de afetos e sen-
timentos) e realidade materializada em códigos, normas, e instituições da
administração governamental.
Mas isto é feito por meio de pesquisa etnográfica (utilizando-se de ob-
servação participante, entrevistas e análise documental), em torno de uni-
versos empíricos tão variados quanto o desaparecimento de pessoas (por
Leticia Carvalho de Mesquita Ferreira), jovens vivendo com HIV-Aids
(por Claudia Carneiro da Cunha), a construção da pedofilia no cenário
político (por Laura Lowenkron), as imagens do infanticídio indígena na
mídia (por Rita de Cássia Melo Santos), as relações entre polícia e mo-
vimentos sociais no caso do crime dos meninos emasculados (por Paula
Lacerda) ou a condenação do Brasil como Estado Nacional na Comissão
Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Ameri-
canos (OEA) por Martinho Braga Batista e Silva. Das etnografias assomam
mundos de horrores inomináveis, cenários de terror de variadas ordens.
Cada um desses estudos dialoga com a literatura sobre os campos
temáticos específicos que aborda, complexificando e enriquecendo uma
perspectiva crítica comum, assim como uma malha analítica, teórica e
metodológica. Produz-se assim um recorte distinto do que se tem chamado
quer de antropologia do direito, quer de antropologia do Estado, quer ain-
da das abordagens mais comuns da chamada antropologia das emoções,
afi rmando um local de enunciação – para continuarmos na terminologia
comunicacional – claramente declarado na introdução da organizadora.

12 Adriana Vianna
Num certo plano, lê-los sugere-me uma brincadeira com o título do
texto de Hastrup, citado por Vianna2: podemos pensar que estamos aqui
diante de etnografias do potencial dos direitos numa administração do
mal comum, tomando para isso administração seja no sentido de gerência,
governo, regência, seja nas acepções de ministração, aplicação, infl ição,
cominação do mal que é banalizado, e/ou coletivizado?
Que em breve outras coletâneas e etnografias completas presididas por
essa perspectiva e contidas nas teses que geraram a maioria desses pode-
rosos trabalhos e outros mais circulem com tanta fluência e rapidez como
os “idiomas” por eles tratados se fi zeram presentes em amplos setores das
coletividades e agências englobadas pelo Estado Nacional brasileiro.

A NTONIO C ARLOS DE SOUZA LIMA


LACED/DA – Museu Nacional/ UFRJ

2 HASTRUP, Kirsten. Representing the common good: the limits of legal language. In: WIL-
SON, Richard A.; MITCHELL, Jon P. Human Rights in Global Perspective: Anthropologi-
cal Studies of Rights, Claims and Entitlements. London: Routledge, 2003. p. 16-32.

O fazer e o desfazer dos direitos 13


Introdução: fazendo e desfazendo inquietudes
no mundo dos direitos

Adriana Vianna1

A proposta desta coletânea organiza-se com base em um conjunto de in-


quietudes sobre formas de conceber, operacionalizar e conceituar experi-
ências sociais em torno de “direitos”. 2 Tomando a polissemia contempo-
rânea do termo como material primordial e eixo condutor das análises
etnográficas realizadas, partimos do princípio de que nos cabe aqui menos
defi nir de modo apriorístico o que seja seu significado e mais buscar perce-
ber sua complexidade em práticas, situações sociais e contextos de dispu-
ta.3 Assim, embora normativas legais de diferentes ordens estejam sempre
presentes em tais universos, não são elas necessariamente o foco central da
coletânea. Aparatos institucionais variados, mobilizações políticas, estra-
tégias de coletivização, dramas morais e sofrimentos pessoais igualmente
entrelaçam-se às gramáticas dos “direitos”, revelando a dimensão social-
mente produtiva da elasticidade presente em tais gramáticas.
O “fazer e desfazer” destacado no título procura enfatizar essa escolha
analítica, pondo em primeiro plano tanto a dimensão de ação social dos
“direitos” – seja como normativas legais, como tradições administrativas
ou como forma de construção e posicionamento de sujeitos morais e políti-
cos – quanto sua dimensão processual e dinâmica. Não se trata, que fique
claro, de menosprezar a força do complexo campo formal do direito em ter-

1 Professora do PPGAS/Museu Nacional/UFRJ e pesquisadora do Laced/UFRJ.


2 As questões aqui tratadas estão relacionadas com o projeto “Às portas dos direitos: as
dinâmicas entre relações de gênero, redes sociais, instituições de Justiça e ação política”,
fi nanciado pela Faperj por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado, 2010, e com a
bolsa de produtividade do CNPq, nível 2, “Instituições de Justiça, redes sociais e relações de
gênero: uma antropologia da experiência dos ‘direitos’ e do fazer político”.
3 Dos seis artigos que compõem a coletânea, apenas o de Rita de Cássia Melo Santos não é
resultado de suas pesquisas de doutorado, mas foi apresentado como trabalho de fi nal de cur-
so em uma disciplina por mim ministrada no PPGAS/Museu Nacional/UFRJ. Os trabalhos
de Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira, Claudia Carneiro da Cunha, Laura Lowenkron,
Paula Lacerda e Martinho Braga Batista e Silva são fruto de suas pesquisas de doutorado em
andamento na época e que resultaram posteriormente em suas respectivas teses defendidas no
PPGAS/Museu Nacional/UFRJ.
mos de enquadramento e mesmo de definição de mundos sociais, mas sim
de tomá-lo em diálogo com usos, contradições e conflitos movimentados
com base na própria ideia de que há algo que sejam “os direitos” ou de que
há modos de agir que sejam corretos e devidos. Modos direitos, portanto.
Os elementos que são mais facilmente identificados a esse campo for-
mal, como legislações, aparatos judiciais ou instituições policiais, frequen-
temente surgem nas situações etnográficas desafiados a adequarem-se ao
“fazer direito”, acusados de serem insuficientes ou injustos. Assim, em que
pese a assimetria entre atores ou entre corpus argumentativos presentes
nos diferentes contextos tratados, buscamos destacar as dissidências, os
jogos morais e as estratégias para fazer valer posições ou para ver reconhe-
cidas trajetórias e esforços pessoais e coletivos em face da letra da lei, do
balcão da delegacia ou de um universo público percebido como insensível e
desinteressado. Atravessando e transitando entre domínios que podem ser
classificados pelos próprios atores como “políticos”, “judiciais”, “adminis-
trativos” ou de “políticas públicas”, a linguagem dos direitos reafi rma dis-
sensões morais, oferecendo espaço para que sejam tecidas contranarrativas
e para que novos sujeitos se façam presentes em cenas públicas.
A pluralidade de sentidos que permite a colocação em uso dessa lingua-
gem, porém, não deve ser pensada como estando à margem ou se dando
por entre as fímbrias de algo mais estável, seja este chamado de “Direito”
ou, mais amplamente, de “Estado”. Como as pesquisas aqui apresentadas
permitem discutir, as ações empreendidas por esses sujeitos – e que os fa-
zem como sujeitos – extraem sua força política e moral de uma espécie de
crença compartilhada na legitimidade desses mesmos entes como dotados
de coesão. Nesse sentido, não apenas são atingidas por esse “efeito de
Estado” (MITCHELL, 2006), como o reforçam: na disputa por versões,
visões, formas e medidas corretas de ação, subscrevem a existência de um
horizonte “justo” que pode e deve ser atingido. A sentença judicial que
defi nirá culpados e inocentes, a investigação policial a ser empreendida de
forma isenta, a política de saúde que produzirá novos sujeitos conscientes
e ativos, a indenização que reparará danos e perdas, entre outras ações,
corroboram essa espécie de ilusão que orienta continuamente as possibili-
dades dos atores em meio a um vasto mundo de indignidades, incorreções
e desigualdades de toda ordem.
A diversidade de focos etnográficos dos trabalhos aqui apresentados
não deixa, desse modo, de estar atravessada por certos eixos compartilha-
dos que procurarei apresentar de forma sintética e relativamente simplifi-
cada. Seriam eles: as relações entre agentes e agências alocados em pontos

16 Adriana Vianna
distintos da malha administrativa do Estado e outros atores sociais que
se representam ou percebem como “fora” do Estado; as conexões entre
dramas singulares e causas políticas, considerando a produção de atores
coletivos nesses processos, bem como a dimensão afetiva e moral aí pre-
sente; e, por fi m, a complexidade de níveis, planos e sentidos do Direito e
dos “direitos”.

1.“Dentro” e “fora” do Estado


Partindo das formulações de Philipp Abrams (2006) acerca de nossas cren-
ças ilusórias na existência de um “Estado de fato” por trás de sua máscara
ideológico-representacional, Timothy Mitchell (2006, p. 170) destaca em
especial a produção de duas fronteiras significativas que reforçariam tais
crenças: a “sociedade” e a “economia”. Sua representação contínua como
os “outros” do Estado permitiria a reificação deste e, o que é mais impor-
tante, a obliteração dos efeitos de poder advindos da própria distinção
entre esses supostos domínios. Como ele nos alerta, não estamos lidando
com domínios ou esferas distintos, e sim com modos de articulação e sepa-
ração entre práticas (2006, p. 175).
Nos casos envolvendo de algum modo o horizonte das leis – ou do
Direito – a distinção entre Estado e sociedade comumente assumiria a ima-
gem da legislação como código abstrato e da sociedade como universo
em que sua aplicação se daria, gerando efeitos de autonomia e coerência.
Ao nos perguntarmos sobre os atores envolvidos, instâncias e, sobretudo,
práticas, porém, tal separação não se revelaria viável. Profissionais, corpos
de saberes, pluralidades de organizações, entre outros elementos, podem
colaborar para confeccionar imagens de trânsito intenso entre as supostas
fronteiras, de modo que passa a ser difícil não percebê-las como extrema-
mente móveis e dinâmicas. Compreender a instabilidade desses limites não
significa negar-lhes existência social, mas sim deslocar o tipo de pergunta
a ser feita a eles. De modo semelhante ao que Abrams faz ao considerar
o Estado-sistema e o Estado-ideia, chamando nossa atenção para a rele-
vância do plano representacional do Estado como algo que faz parte do
próprio fazer político do Estado, as formulações de Mitchell nos incitam
a levar a sério os esforços dos atores sociais na demarcação daquilo que
cabe ao Estado ou à sociedade, do que deve ser feito – e não está sendo
feito – por um ou por outro, ou que os coloca imagética e politicamente
como colaboradores ou antagonistas.4

4 Nas palavras de Abrams (2006, p. 125): “In sum: the State is not the reality which stands

O fazer e o desfazer dos direitos 17


Esse tipo de atenção é semelhante àquilo que Teixeira e Lima optam
por chamar de “administração” em texto recente sobre a antropologia da
administração e da governança no Brasil. Como bem precisam os autores,
sua escolha para o termo procura considerar não apenas a chamada ad-
ministração “pública” ou governamental direta, mas também “a própria
forma social acreditada como ordenando uma coletividade”, na qual se
encontram combinadas “crença e materialidade”.5 A reiteração contínua
da unidade e da idealização que a cerca e sustenta não estaria em contradi-
ção, desse modo, com as denúncias constantes sobre o mal proceder ou o
desajuste de suas “partes”. As ações insuficientes, contaminadas ou mesmo
política e moralmente incorretas daqueles que responderiam concretamen-
te pela administração – ocupando cargos, por exemplo –, mas também das
próprias normativas e outras peças “administrativas” – leis, regulações,
normas administrativas de ordens variadas –, só seriam possíveis porque
referidas de algum modo sempre a esse horizonte ideal da unidade. É no
cotidiano de certas interações sociais, assim, que podemos perceber com
clareza a positividade dessa tensão existente entre as práticas ou materia-
lidades criticadas por diferentes atores sociais e essa espécie de “centro
exemplar” nunca plenamente atingido, mas também nunca totalmente de-
sacreditado do Estado ou da lei como “deveriam ser”.6

behind the mask of political practice. It is itself the mask which prevents our seeing political
practice as it is.”
5 Reproduzo aqui o raciocínio dos autores mais extensamente: “por administração não
entenderemos apenas a administração (‘pública’) governamental direta (municipal, estadual
e federal), seja em sua morfologia, operação cotidiana – nas práticas estruturantes e estrutu-
radas pela história institucional e pela interação de seus funcionários –, seja em seus aspectos
normativos. Consideraremos como parte desse domínio a própria forma social acreditada
como ordenando uma coletividade (no caso do Estado nacional brasileiro, o regime republi-
cano e a democracia), na qual se combinam crença e materialidade, por exemplo, na divisão
de poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário). Incluímos, assim, o jogo político partidário
e a esfera do Direito, entre tantas outras coisas, como, por exemplo, organizações ditas não
governamentais que exercem ‘funções de Estado’ à luz dos diplomas legais que jurídico-po-
liticamente ordenam a coletividade brasileira; e redes articuladas de agências de cooperação
técnica internacional governamental e não governamental, sem as quais o próprio funciona-
mento do que é tido como administração direta no Brasil não é compreensível neste momen-
to. Juntem-se a isso segmentos do empresariado e do ‘mundo do mercado’ imbricados pro-
fundamente no funcionamento real da ‘máquina pública’” (TEXEIRA e LIMA, 2010, p. 57).
6 Talvez seja possível fazer uma aproximação entre o Estado-ideia de Abrams e o centro
exemplar do Negara, o Estado-teatro balinês tratado por Geertz (1991), na medida em que
ambos nos apontam para a relevância do plano representacional do Estado, algo que parado-
xalmente só se conecta com sua “materialidade” por uma espécie de produção contínua da
falta, da imperfeição e da limitação.

18 Adriana Vianna
No conjunto de textos que se seguem, algo dessas interações pode ser
visto com riqueza. Ao acompanhar, por um lado, o registro policial de
desaparecimento de pessoas e, por outro, a formação de uma rede insti-
tucionalizada envolvendo familiares, organizações civis e agentes locali-
zados em diferentes pontos da organização administrativa estatal, Letícia
Carvalho de Mesquita Ferreira conduz-nos por entre zonas de desconfian-
ça mútua, acusações, responsabilizações e irresponsabilizações. “Proble-
ma de família”, “problema de polícia” ou, de modo sugestivamente vago,
“problema do Estado”, os desaparecimentos de pessoas vão demarcando
múltiplas ausências e engendrando a defi nição de faltas e de faltosos. A
produção de diagnósticos, justificativas, demandas e cobranças vai sendo
recolocada de acordo com seus contextos, revelando processos dinâmicos
em que os próprios limites da família, da polícia ou do Estado – esses focos
paradoxais de problemas e soluções que explicam o “desaparecimento” –
são deslocados.
Tensões semelhantes aparecem em outros textos da coletânea, revelan-
do-nos o quanto os processos de fabricação de certos “problemas sociais”
podem colaborar para discutir os efeitos de separação entre Estado e so-
ciedade e suas implicações. Adolescentes soropositivos que são o centro
de projetos implementados por organizações não governamentais – elas
mesmas parte fundamental dos recursos e tecnologias de gestão estatais –,
como nos traz a pesquisa de Claudia Carneiro da Cunha; o “infanticídio
indígena” colocado no centro de tramas de acusações feitas por e mediante
revistas e jornais, como aborda Rita de Cássia Melo Santos; ou o drama
moral e político da “pedofilia”, matéria de uma Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) que clama pela participação da “sociedade de bem”, como
discute Laura Lowenkron, apresentam-se completamente atravessados por
essas linhas fronteiriças que ora são reforçadas como se estáveis e nítidas
fossem, ora são diluídas nas imagens da “colaboração” ou da “participa-
ção” de segmentos da sociedade interessados na questão.
O recorte de um conjunto de práticas, relações e, consequentemente,
sujeitos sociais como sendo um “problema” no qual se deve intervir é si-
multaneamente resultado e produtor das indagações sobre as formas e os
agentes adequados para realizar tais intervenções. Nesse processo, capitais
políticos e técnicos são definidos e acumulados, reputações singulares po-
dem surgir ou ser transformadas e novas categorias são organizadas para
localizar diferentes sujeitos e os papéis que desempenham nesse “proble-
ma”. A evocação das obrigações do Estado ou da ação da sociedade, desse

O fazer e o desfazer dos direitos 19


modo, longe de servir com precisão para descrever o que ocorre, delineia a
linguagem fundamental exigida nessas disputas e arranjos.
O político que se torna o protagonista moral da “cruzada contra a pe-
dofi lia” transita, simbólica, moral e estrategicamente, entre as fronteiras
imaginadas do Estado e da sociedade, conclamando a uma reforma do
primeiro, sob forma da aprovação fetichista de uma nova lei, com base em
sua posição de porta-voz e incitador da segunda. Os “jovens protagonis-
tas” criados no bojo de técnicas de gestão de corpos, vírus e subjetividades
são simultaneamente as imagens exemplares da sociedade e do Estado,
materializando a biopolítica levada a cabo com perfeição, na medida em
que se tornariam militantes da mesma forma política que os tem como ob-
jeto.7 A emergência midiática do “infanticídio indígena” coloca sob acusa-
ção alguns atores sociais, notadamente certas organizações não governa-
mentais e a categoria curiosamente moralizada dos “antropólogos”, bem
como organismos da administração estatal e parte da legislação. Tornados
coniventes em face de práticas desumanas, são confrontados com outros
atores, sejam eles organizações não governamentais com posição oposta à
das primeiras, políticos ou indivíduos que buscam defender os sujeitos-ví-
timas centrais nesse “problema”: as crianças indígenas sob ameaça. Aquilo
que ganha contornos de um grande embate moral e fi losófico, desafiando
os limites do que seria representado como um relativismo perverso, pode
ser tomado também como parte do processo contínuo de produção do Es-
tado, suas formas, limites e horizontes.
Em outras situações etnográficas, porém, o que surge é um arranjo ain-
da mais radical, em que o próprio “Estado”, tornado sinônimo do Estado
nacional, é materializado em entidade a ser responsabilizada e penalizada,
como nos mostra o trabalho de Martinho Braga Batista e Silva. Ao ex-
plorar dimensões do “caso Damião Ximenes”, termo que enfeixa vários
processos sociais e judiciais de ordem distinta, Martinho Silva discute a
condenação do “Brasil” por violação dos direitos humanos no âmbito da
Corte Interamericana de Direitos Humanos. Responsabilizado como ente
político internacional, o Estado nacional afigura-se aqui como ponto limi-
te e unificador de uma cadeia complexa de aparatos, redes e formatos de
gestão de indivíduos compreendidos como estando em situação especial,
nesse caso como “pessoa portadora de transtorno mental”. Morto em vir-
tude de maus-tratos sofridos enquanto internado em uma clínica privada

7 Materializa-se com clareza aqui a formulação de Foucault sobre uma das dimensões do
biopoder como algo a ser pensado no plano dos mecanismos, técnicas e tecnologias de poder
especialmente centradas no corpo individual (FOUCAULT, 2000, p. 288).

20 Adriana Vianna
conveniada ao Sistema Único de Saúde (SUS) em Sobral (CE), Damião
Ximenes converte-se em centro de uma denúncia “inédita”, tanto mais ex-
pressiva porque erigida contra um Estado nacional tido como exitoso em
sua política de saúde mental. O que passa a figurar como a faceta pública
mais conhecida do “caso”, porém, encobre diversas outras ordens de dis-
puta, como processos locais que resultam em indenização a alguns mem-
bros de sua família e a reformas na organização administrativa de serviços
locais de saúde. A coesão da imagem quase antropomórfica do “Brasil no
banco dos réus” ofusca, mas não desfaz, desse modo, outras dimensões
contraditórias e plurais que compõem as dimensões judiciais, políticas,
administrativas e familiares em torno dessa morte específica.
A representação de parte do aparato da administração como antago-
nista – indo além, portanto, das acusações de mera ineficiência – aparece
de forma distinta também no trabalho de Paula Lacerda sobre o “caso dos
meninos emasculados” de Altamira (PA). Ao se articularem politicamente
para exigir a investigação dos bárbaros crimes que atingiram meninos da
região, os “familiares” e outros ativistas constroem-se como atores em
oposição a uma polícia local tida como omissa e corrupta. Para tanto,
recorrem tanto a estratégias diversas de mobilização, como passeatas e
atos públicos, quanto aos apelos a atores vistos como aliados potenciais,
tanto mais valiosos porque colocados fora desse plano local. Para tornar
os crimes merecedores de atenção da própria polícia e conectá-los a qua-
dros maiores de violências e indignidades, foi preciso delinear e destacar
com especial força o antagonismo entre “movimento social” e “polícia”,
produzindo-os como unidades ativas e polares. Estar “contra” a polícia,
porém, pode significar estar ao lado (ou trazer para seu lado) parte do
“Estado” e da “sociedade”, encarnados na figura de políticos, segmentos
da Igreja, Polícia Federal, procuradores e promotores de justiça, represen-
tantes de organismos das Nações Unidas e outros.
As experiências etnográficas presentes nos textos capturam, portan-
to, algo desses processos de fi xação e destituição de limites, fronteiras e
unidades organizacionais, políticas e morais. O “dentro” e o “fora” do
Estado, como expus, não se referem a localizações ou estatutos precisos,
mas a possibilidades de nomeação, qualificação, aliança e oposição entre
atores diversos. O acionamento de determinadas estratégias argumentati-
vas é fundamental para que se produza, em níveis e contextos variados, a
credibilidade dos atores sociais como estando comprometidos com o “fa-
zer direito” que pleiteiam, tenha esse “fazer direito” a forma de denúncia,
reivindicação, protesto ou projeto. No item a seguir, procurarei esboçar

O fazer e o desfazer dos direitos 21


outro plano de questões que creio ser fundamental na construção da via-
bilidade dos dramas, causas e demandas em que “direitos” são evocados.

2. Para a dor da gente sair no jornal: dramas, casos, causas


Se a formalização de direitos em peças jurídico-normativas ou em políticas
públicas supõe a necessidade de constituir sujeitos relativamente homogê-
neos e descarnados, como “mulheres”, “crianças” ou mesmo “cidadãos”,
seus usos e menções na vida cotidiana parecem sugerir movimento con-
trário, de constante detalhamento sobre quais mulheres, crianças, jovens,
homens, fi lhos, irmãos ou mães teriam tido seus direitos violados e des-
respeitados. Mergulhados em narrativas repletas de “quando”, “como” e
“onde” sofreram violências, desapareceram ou viram suas vidas ser alte-
radas, essas pessoas de carne e osso, objeto de afetos e desafetos, vão sen-
do tornadas personagens e protagonistas de falas e ações balizadas pelas
gramáticas dos direitos. Elas são o ponto fulcral de projetos de reforma
legal, de processos judiciais, de causas políticas e de manifestações públi-
cas. Formam, assim, o centro de redes de sofrimento a distância, para usar
o termo de Boltanski, que permitem os jogos de identificação, comoção e
engajamento que transformam uma multiplicidade de experiências e situa-
ções em “casos” e, eventualmente, em “causas”.8
Como fica claro na formulação de Boltanski e pode ser visto de ângu-
los distintos nos textos deste livro, não é qualquer sofrimento que produz
a afetação e o chamado à ação que caracterizaria tal engajamento. Em
primeiro lugar, é fundamental a existência de mediações que permitam
transformação de acontecimentos variados em matéria moral de justa in-
dignação ou empatia, como veículos de mídia em geral ou espaços pú-
blicos de exibição e construção narrativa do sofrimento. Nesse processo,
que pode ser bem ou malsucedido em termos da capacidade de produzir
adesão e identificação com o que é narrado, o desafio à ocupação e esta-
bilização de certos espaços morais é constante: a “causa justa” ou o “caso
infame” são se defi nem de uma vez por todas, mas podem ser sempre alvo
de desconfiança, descrédito ou reviravoltas. Na forma exemplar da denún-
cia, a conexão entre sofrimento e indignação depende da produção de um

8 Em sua “tópica da denúncia”, Boltanski destaca a forma “affaire” como aquela que mais
eficazmente fornece elementos para que a indignação e a acusação possam ser recebidas
no espaço público, fazendo com que virtualmente todos tenham de se posicionar. O caso
Dreyfus seria um dos exemplos históricos exemplares desse processo, em que um aconteci-
mento é transformado, pela constituição de um sofredor e daqueles que estão comprometidos
em defendê-lo da injustiça sofrida, em uma causa coletiva (BOLTANSKI, 1993, p. 94-95).

22 Adriana Vianna
perpetrador, um causador do mal que possa ser identificado com clareza
(BOLTANSKI, 1993), o que acaba por obrigar também à elaboração de
conexões e causalidades que vinculem o dano a seu causador. O sofrimen-
to deixa, assim, de ser descarnado não apenas no que diz respeito àquelas
que seriam suas vítimas, mas, o que é vital para sua dimensão pública e
política, em relação aos que ocuparão o lugar de apoiadores engajados e
indignados.
O espetáculo público da CPI da Pedofilia analisado por Laura Lo-
wenkron traz-nos um quadro nítido das dinâmicas de fabricação de ví-
timas, defensores e perpetradores com tonalidades morais marcantes. O
vocabulário aí movimentado varia da malignidade à monstruosidade, não
deixando espaços para a ambiguidade interpretativa. As vítimas têm seus
corpos exibidos em fotografias que operam como artefatos de constran-
gimento e adesão políticos, tornando-se paradoxalmente imateriais nesse
processo, já que passam a constituir o espectro vago das “crianças” abs-
tratas a ser defendidas. De modo semelhante, o “pedófilo” como monstro
incompreensível e indefensável vai sendo fabricado narrativamente como
sombra virtualmente presente em qualquer lugar e em (quase) qualquer
um. O espetáculo da violação de direitos das crianças alardeado nesse
contexto tem como efeito mais concreto e material não apenas a alteração
de uma legislação específica, retratada como parte do problema por ser
insuficiente e precária, mas sim a produção de novas figuras morais, os
heroicos defensores dessa “causa”.
O “interesse desinteressado” daqueles que se indignam é, assim, peça-
-chave da veracidade sempre em suspenso de seu engajamento, devendo ser
reiterado e provado continuamente.9 Pode não ser suficiente, portanto, atu-
ar como um profissional da produção política de direitos – caso daqueles
que têm mandatos legislativos, por exemplo –, sendo importante demons-
trar que a obrigação do cargo vai além desses limites, configurando-se
como compromisso moral profundo. A indignação e a repulsa performati-
zadas são as do “pai de família”, do “homem de bem”, que conclama seus
iguais a agir em conjunto, traçando uma linha clara e indelével que não
permite contestação ou variações. A exacerbação das imagens do sofri-

9 Ao discutir as implicações de se pensar em termos de “interesse” ou “desinteresse”, com


toda a carga de polarização entre consciência e inconsciência, virtude e cinismo que os ter-
mos carregam, Bourdieu (1996, p. 153) propõe que, “se o desinteresse é sociologicamente
possível, isso só ocorre por meio do encontro entre habitus predispostos ao desinteresse e
universos nos quais o desinteresse é recompensado”. Podemos pensar, assim, que há econo-
mias variáveis de exibição e convencimento entre formas de interesse e desinteresse que são
cruciais para produzir a verdade e a credibilidade dos atores.

O fazer e o desfazer dos direitos 23


mento extremo e da crueldade intolerável opera, estando também presente
na discussão trazida por Rita de Cássia Melo Santos sobre o “infanticídio
indígena”, como produtora de indagações emocionadas sobre os limites da
eficácia e da dinâmica dos direitos já formalmente consagrados. Diante
do inimaginável das violações cometidas contra as “crianças”, vítimas tão
exemplares quanto genéricas, como discutir políticas de privacidade ou
o estatuto daquilo que pode ser simplificadamente denominado “práticas
culturais” ou “tradição”? E, o que é mais relevante, como perceber os que
não se indignam senão como cúmplices e, por isso, tão responsáveis quan-
to os perpetradores das atrocidades denunciadas?
A produção dos “casos”, como nos permitem pensar não apenas os
textos mencionados, mas os demais artigos, envolve também o delinea-
mento de zonas morais abrangentes, ao longo das quais se distribuem e se
enfrentam personagens distintos. As gramáticas dos direitos mobilizadas
em torno de tais “casos” realizam parte do trabalho de conexão entre
histórias singulares e seu potencial político. Não à toa, entre os recursos
mobilizados por diferentes atores sociais na construção das “causas” co-
nectadas aos “casos” está a reiteração das biografias próprias de vítimas
diretas e indiretas. As narrativas emocionadas sobre o fi lho ou fi lha desa-
parecido são reeditadas seguidas vezes como parte da construção social e
política do “desaparecimento” e das soluções e expedientes administra-
tivos demandados. De modo semelhante, o complexo de violências que
poriam em questão a existência concreta dos “direitos de crianças e ado-
lescentes” preconizados na legislação não engloba integralmente os nomes
e as histórias peculiares de vários dos “meninos” de Altamira que voltam
a ser lembrados em atos públicos, cartas abertas ou conversas com a pes-
quisadora. Não estamos lidando, portanto, com um movimento de mão
única, que segue do particular às formas coletivizadas, mas também com
retornos, zigue-zagues e imersões constantes em memórias, idiossincrasias
e afetos que impedem a colonização completa das histórias pessoais por
sua politização.
Também no plano das interações relativamente mais rotineiras, ou
seja, que não estão marcadas pela fala pública e pela constituição de uma
plateia mais ampla, o recurso tático às emoções não deixa de estar presen-
te, embora opere em outro registro.10 As tentativas de fazer com que o in-

10 Em The tactical uses of passion, Bailey critica a oposição entre razão e emoção que nos
seria cultural e politicamente cara. Como ele argumenta, “there can be no purposive activity
without emotion, for purpose implies goal, and goal, in the end, entails passion: the fi nal
goal must always be cathected. Reason has no power to move: without passion, one remains

24 Adriana Vianna
terlocutor compreenda a importância do caso singular indicam a presença
de um embate de fundo entre relações pessoalizadas, de cunho fortemente
afetivo e moral, e categorias de enquadramento ou classificação que fazem
parte das rotinas de gestão administrativa. Vemos, assim, que os esforços
de particularização defrontam-se com a previsibilidade dos roteiros em
que as denúncias de desaparecimento podem ser distribuídas no setor da
polícia delas encarregado, bem como com as deduções nem sempre explici-
tadas acerca das práticas e trajetórias sexuais de adolescentes e, sobretudo,
com os diagnósticos sociais e morais embutidos na categorização quase
imediata das “famílias” faltosas que são antevistas por trás das crianças e
jovens que ocupam o centro de boletins de ocorrência, de políticas de saú-
de ou de denúncias de ordens variadas. Nesse sentido, é importante notar
que, para cada figura ou personagem que ocupa o centro de uma denúncia
ou de um “problema”, como jovens soropositivos ou pessoas portadoras de
transtornos mentais, há toda uma rede de relações que é posta sob suspei-
ta, ambiguamente localizada entre a posição de vítimas indiretas dos dra-
mas em torno desses personagens e de relativamente responsáveis por eles.
Ver-se ou sentir-se na situação de suspeição em relação ao que é narrado
ou, sobretudo, aos próprios sentimentos de angústia, afl ição e dor diante
do diagnóstico recebido, do filho desaparecido ou morto pode constituir a
experiência extrema de dissolução moral de si.
Nesses contextos, o acionamento da gramática dos direitos é combina-
do frequentemente com noções de (des)respeito e (in)sensibilidade, como
forma de reação a experiências de não reconhecimento. A utilização de
termos como “buscar os direitos” ou “conhecer/não conhecer os direitos”,
que aparecem em situações etnográficas distintas, fala-nos não somente do
controle da legislação, mas desse aprendizado surgido das arriscadas e às
vezes penosas interações com aqueles que ocupam de algum modo o lugar
de “autoridades”. A denúncia da indiferença, insensibilidade, desconside-
ração ou mesmo má-fé identificadas em funcionários, policiais, médicos e
psicólogos de serviços de saúde e projetos sociais, bem como em muitos
outros ocupantes dessas posições de autoridade, torna-se parte do hori-
zonte dos direitos a serem buscados e defendidos. Os relatos em torno das
experiências e sensações de desrespeito têm papel importante na cotidiani-
zação e subjetivação da própria ideia de direitos, estabelecendo, portanto,

inert, unmoved oneself and unable to move others” (1983, p. 24). A exibição de emoções
precisaria ser pensada, assim, em relação a estratégias de persuasão e convencimento, e mo-
vimentando retóricas distintas, e não como antagônica à razão, o que permite pensar a di-
mensão propriamente tática de sua utilização.

O fazer e o desfazer dos direitos 25


uma espécie de biografia não só do engajamento, mas da transformação
profunda de cada um.
A dimensão pedagógica dessas interações também não deve ser posta
de lado, no que tange tanto ao controle de expedientes e procedimentos
administrativos – como acompanhar as etapas de um processo judicial,
protocolar corretamente um ofício, contestar a eventual interdição a um
bem social qualquer etc. – quanto à utilização de certos recursos performá-
ticos e dramáticos. A peregrinação por repartições, arenas políticas públi-
cas, audiências judiciais e outras instâncias vai sendo alinhavada e recon-
tada como parte de um percurso simbólico, moral e político, em que mães
transformam-se em “defensoras de direitos das crianças”, adolescentes em
“protagonistas”, adotantes em “militantes contra o infanticídio” e irmãs
em protagonistas de conquistas inéditas no campo internacional dos direi-
tos humanos. Cada etapa pode ser – e frequentemente é – inserida lógica e
moralmente em narrativas que combinam as obrigações pessoais que leva-
ram à “luta” com o modo como esta foi se concretizando na aquisição de
conhecimentos e expertises que deslocaram ou ampliaram essas mesmas
obrigações. Sem desfazer a importância de continuamente prestar contas
à relação primordial que produziu a movimentação inicial para “buscar
justiça” ou “fazer valer os direitos”, essas narrativas também incluem ou-
tras solidariedades concretas ou virtuais que se engendraram no tempo.
Com outras “mães” ou “familiares de vítimas”, com aqueles que podem
se encontrar na mesma posição ocupada pela pessoa desaparecida ou em
risco de morte, mas também com uma comunidade de sujeitos vulneráveis
hipoteticamente localizados no futuro. “Para que não aconteça de novo”,
“para que não aconteça com mais ninguém” poderiam ser, com formatos
distintos, os motes renitentes dessa ação que desliza entre passado e futu-
ro, entre a experiência pessoal intransferível e a comunidade de sofrimento
imaginada.11
As conexões entre a “micropolítica das emoções” e a produção de
causas e atores coletivos percorrem, desse modo, diversas e intrincadas

11 Em etnografi a feita com base em grupos de ajuda mútua, Carolina Branco de Castro
Ferreira destaca a importância tanto da imaginação da experiência de sofrimento comum
quanto da participação nas práticas padronizadas das reuniões para que se crie nos sujeitos
a percepção profunda de pertencer a uma “irmandade universal imaginada” (FERREIRA,
2012, p. 68). Com isso, estabelece-se o que ela chama de um “processo imaginativo e de
identificação dos sujeitos” a uma gama muito mais ampla e transnacional de sofredores si-
milares. Processos semelhantes, guardando as devidas diferenças em termos de contextos
etnográficos, podem ser vistos nos textos desta coletânea.

26 Adriana Vianna
rotas.12 Para vislumbrá-las, é preciso considerar também o lugar que emo-
ções, afetividades e desejos têm nos próprios aparatos complexos de gestão
de recursos e coletividades. Como destaca Stoler, a distribuição dos sen-
timentos faz parte também das racionalidades políticas e administrativas,
sendo seu domínio e regulação elementos relevantes nas artes de gover-
nar.13 Embora o universo a que a autora faz menção tenha uma série de
especificidades próprias à situação colonial analisada no texto, é possível
identificar em outros cenários a existência de preocupações semelhantes
com o excesso, a escassez ou as formas assumidas pelos sentimentos nas
ações administrativas.14
Na etnografia de Claudia Carneiro da Cunha sobre os jovens soropo-
sitivos, essa disposição à modulação e à pedagogia sentimental aparece de
forma nítida. Incitados a falar, refletir e mimetizar práticas, imaginações e
moralidades sexuais, os jovens vão adquirindo e performatizando vocabu-
lários atravessados pelo que deve ser dito e pelo que não pode ser dito ou
escutado. O formato técnico dos dramas encenados propicia experiências
de subjetivação política em que a forma assumida pelos sentimentos tem
papel central, sendo exagerada, posta no centro, examinada e, fi nalmente,
reajustada em economias de expressão e contenção. Na modalidade pro-
tegidamente ficcional assumida por esses experimentos de gestão, tanto
os jovens que são alvo dos projetos quanto os diversos “técnicos” neles
envolvidos põem em movimento memórias de suas relações prévias com

12 Seguindo a proposta contextualista de Catherine Lutz e Lila Abu-Lughod (1990), Maria


Claudia Coelho e Claudia Rezende sublinham que é essa perspectiva que nos permite conce-
ber uma “micropolítica da emoção”, entendida como “capacidade de dramatizar, reforçar ou
alterar as macrorrelações sociais que emolduram as relações interpessoais nas quais emerge
a experiência emocional individual. É assim, então, que as emoções surgem perpassadas por
relações de poder, estruturas hierárquicas ou igualitárias, concepções de moralidade e demar-
cações de fronteiras entre os grupos sociais” (COELHO e REZENDE, 2010, p. 78).
13 Em seu artigo, Stoler chama a atenção que a preocupação do governo colonial holandês se-
ria menos com as explosões de revolta e mais com as sensibilidades mantidas e com os padrões
políticos a que elas se referem. Como ela apresenta, “sentiments mattered not because it was
in confl ict with reason but because it demanded specifi c sorts of reason that indicated social
knowledge of expectations and a rich evaluative vocabulary of social critique” (2007, p. 17).
14 O escrutínio, a gestão, a promoção e o deslocamento de uma gama de sentimentos, como
afeto maternal/paternal ou fi lial e todo o correlato de cuidados e de descuidos a eles associa-
dos, formam teias de obrigações morais que, como eu e Maria Gabriela Lugones tentamos
demonstrar em nossas respectivas pesquisas em torno de aparatos judiciais da infância no Rio
de Janeiro e em Córdoba, não se exercem unilateralmente, da administração para as “famí-
lias”, mas sim encobrem percursos e tramas mais complexas (VIANNA, 2006; LUGONES,
2012). São formas de produzir possibilidades de ação e moralidades por e para funcionários
e instituições administrativas estatais, “gestando e gerindo”, nos termos de Lima (2002, p.
11-22), tutores e tutelados; cuidadores e cuidados; governantes e governados.

O fazer e o desfazer dos direitos 27


familiares, enfermeiros, médicos e outros jovens. Sentimentos e sensações
ali incorporados, atualizados e dissecados dizem respeito, desse modo, não
apenas aos afetos que supostamente circulariam “fora” dos circuitos ad-
ministrativos, mas também àqueles que os constroem como dispositivos
cotidianos de gestão. De personagens de seus corpos, de suas histórias
familiares e sorológicas, de seus desejos e de suas experiências, os jovens
vão se convertendo em “protagonistas” de uma forma política específica,
a da gestão “participativa” da Aids, que não deixa de ser também a de um
ideal de equalização sentimental em relação ao diagnóstico, aos cuidados
consigo e com os demais e a seu lugar como parte de uma coletividade
biopolítica.
Em todos os textos somos chamados a perceber esses processos de
transformação, remodelação e conversão de histórias, vivências e relações
em categorias, universos morais distintos, causas políticas. O trânsito en-
tre linguagens que não são identificadas como semelhantes à primeira vis-
ta, como a do afeto e a das classificações administrativas, ou do sofrimento
e da objetivação política, torna-se possível e eventualmente eficaz porque
se dá em um campo intrinsecamente polissêmico, o dos “direitos”. Nessa
última parte da Introdução, gostaria de propor que é justamente a plura-
lidade de sentidos, bem como a heterogeneidade e a variabilidade mor-
fológica do universo contemporâneo dos “direitos”, que lhe confere esse
estatuto de “confusão produtiva” com que nos defrontamos em diferentes
situações etnográficas.

3. Do direito, dos direitos: nos jogos vivos da fala e da ação


Ao fazer, no fi nal do século XX, um balanço dos 50 anos da chamada
“antropologia legal”, Sally Falk Moore destaca o desfazimento de certezas
como marca do estado atual do “campo” (MOORE, 2001). Nascida de
uma série de trabalhos localizados no cenário colonial e pós-colonial na
África, a rubrica teria sido tensionada ao longo das décadas não apenas
por perspectivas distintas em relação a qual seria seu universo efetivo de
interesse – leis, cortes, práticas judiciais, políticas, movimentos sociais,
desigualdades de toda ordem –, mas pelas inquietações em torno das esca-
las, frentes de pesquisa e recursos metodológicos. Em um mundo marcado
pelo entrelaçamento entre corpus legais de ordem distinta, com destaque
para aqueles que compõem a arquitetura normativa e institucional dos
direitos humanos, a imagem consagrada da antropologia e dos antropó-
logos como concentrados na dimensão “local” dos confl itos e resoluções
torna-se precária. Como a autora indica, a possibilidade de acionamento

28 Adriana Vianna
de recursos transnacionais, como as cortes internacionais, o estatuto mi-
noritário de grupos e populações, os debates e articulações políticos em
torno do acesso desigual ao mundo judicial, entre outros elementos, levou
a questionamentos teóricos e metodológicos importantes.
Mais do que uma discussão sobre divergências culturais ou formas de
composição entre lógicas e sistemas de ordem diversa, o que está em jogo é
a crescente utilização de espaços de contradição inerentes ao universo dos
“direitos” por atores sociais posicionados, entre os quais frequentemente
também se encontram antropólogos. Se disputas, discordâncias e desajustes
sempre ocuparam lugar de destaque nas discussões da antropologia legal
e correlatos, o que viria se alterando, sobretudo a partir de meados dos
anos 1990, seria a utilização da linguagem dos direitos humanos como
gramática primordial para denunciar abusos e injustiças (WILSON e
MITCHELL, 2003, p. 2-4). Nesses termos, as próprias linguagens “locais”
e mais circunscritas da injustiça se veriam combinadas a narrativas,
valores, práticas, estratégias e personagens dos direitos humanos, como
“mulheres”, “crianças”, “minorias” etc. Como indicado por Richard
Wilson, o trabalho de cientistas sociais passa cada vez mais a ser o de
refletir sobre as interconexões estabelecidas entre legislações sobrepostas
e ordens de regulação que se interpelam e influenciam mutuamente,
erodindo as polarizações entre “universalismo” e “relativismo” que em
outros momentos pareciam oferecer os mapas teóricos e políticos mais
abrangentes no campo (WILSON, 2007, p. 239).
Por outro lado, como esse mesmo autor destaca, falar em tais circuitos,
redes e fluxos de ideias, códigos e recursos institucionais não implica dei-
xar de lado a centralidade dos processos levados a cabo por e em Estados
nacionais. É nessa escala ou, poderíamos dizer, retomando discussões já
feitas no primeiro eixo do texto, nessa malha de materialidades e crenças
que se produzem as possibilidades de organização de atores, ações e reper-
tórios de “direitos”, seja como demandas politizadas e/ou judicializadas,
como denúncias e projetos de alteração do acesso a bens sociais, políti-
cos e simbólicos, ou ainda como espaço de articulação de coletividades.
Tensões políticas constituídas em torno de personagens transnacionais,
como “crianças abusadas”, “pessoas com transtornos mentais” ou “jovens
soropositivos”, se, por um lado, colocam em questão limites desses mes-
mos Estados nacionais, inclusive pelas imagens de fronteiras perigosamen-
te fluidas ou por descuidos locais inadmissíveis, por outro reforçam seus
contornos. Penalidades internacionais, políticas públicas exibidas como
exitosas ou combates contra inimigos assustadoramente imateriais se fa-

O fazer e o desfazer dos direitos 29


zem tendo por referência projetos de Estado nacional e a própria soberania
como valor. Afi nal, o que se disputa e confecciona nesses processos de evo-
cação e trânsito entre escalas diferenciadas não deixa de ser reconfigura-
ções das normas legais, dos aparatos de justiça e das formas de legitimação
de autoridade no nível dos Estados nacionais.15
A linguagem dos direitos humanos desempenha, desse modo, papel
fundamental na produção de formas legítimas de acusação e questiona-
mento das defi nições ou do exercício de autoridades em diversos níveis. O
trabalho de transformação de certos danos em “violação de direitos huma-
nos” é feito por meio do exercício de competências específicas em relação
a essa linguagem e à sua operacionalização. De modo semelhante ao que
foi apontado na produção de “casos” e de “causas”, parte desse processo
supõe uma ação de equalização, em que alguns danos podem ser aproxi-
mados de outros já consagrados como sendo dessa ordem simultaneamen-
te abrangente e essencial do “humano”. Ao mesmo tempo que o diagrama
de responsabilidades é constituído de modo que se possa considerar com
clareza quem ocupa qual posição – vítima, culpado ou responsável, cúm-
plice ou omisso etc. –, a natureza do dano é qualificada em uma ordem que
a transcende e, de certo modo, a universaliza e insere em uma “economia
moral global”.16
É sempre importante notar, porém, que a relativa abertura tanto desse
diagrama de responsabilidades quanto dos contornos do que seja o dano
vivido – ou o direito violado – não é atributo simplesmente da escala ou da
heterogeneidade dos atores envolvidos na construção de um caso, uma cau-
sa ou um processo político ou judicial. Uma das marcas fortes do comple-
xo e sinuoso trajeto de constituição da linguagem dos direitos humanos a
partir da segunda metade do século XX tem sido justamente a combinação
nada simples entre possibilidades de universalização e de diferenciação.

15 Wilson defende a relevância de uma antropologia legal da ação, da transformação e da


interação entre ordens legais e o contexto mais amplo de projetos hegemônicos de Estado
(2007, p. 243). Ao fazer isso, o autor fi lia-se aqui à perspectiva centrada na atenção etnográ-
fica aos processos legais em lugar das tipologias, como postulado por Sally Falk Moore (ver
MOORE, 1978). Como ele e Jon P. Mitchell defendem em outro texto: “‘Legal systems’ […]
or ‘legal cultures’ are themselves products of social practices – the practices of the state”
(WILSON e MITCHELL, 2003, p. 4).
16 Em seu artigo sobre os limites da linguagem legal, Kristen Hastrup argumenta que: “In
the process of producing a legitimate, standardized language, sociologically and historically
pertinent differences of various kinds are expressed in different uses of the same language
and are evaluated accordingly. People will show more or less competence of expressing their
rights within the idiom of international legal language, which now functions as the legitima-
te representation of a global moral economy” (2003, p. 21).

30 Adriana Vianna
Fruto das próprias críticas epistemológicas e políticas à generalização do
“indivíduo” mitológico e historicamente marcado que teria dado origem
à concepção de direitos humanos, a “era dos direitos”, nos termos con-
sagrados por Norberto Bobbio (1992), encontraria na especificação dos
sujeitos um de seus sentidos e caminhos. Nesses termos, a elaboração dessa
linguagem implicaria também o delineamento das distinções, diferenças e
desigualdades que atravessam coletividades, recursos e dinâmicas de po-
der. O modo pelo qual esses limites serão tornados válidos, tematizados e
transformados em matéria de alguma ordem de “direito” implica, por sua
vez, a movimentação por entre paradigmas complementarmente tensos,
do ponto de vista das reflexões jurídicas. Como indica Rios com base nas
discussões de Nancy Fraser, a tensão entre paradigmas de distribuição ou
de reconhecimento, cruciais nos debates contemporâneos em torno dos
direitos ligados à discriminação e à desigualdade, fala-nos da relação in-
dissociável – embora contraditória – entre igualdade e diferença que está
na base dos direitos humanos (RIOS, 2012, p. 248-250).
Sem querer avançar nessa discussão, gostaria apenas de destacar que
esses atritos estão muito longe de se revelar matéria apenas do conheci-
mento de expertos ou mesmo de atores que se percebam como diretamente
implicados em dramas políticos ou judiciais específicos. Como demonstra
com propriedade o trabalho de Rita Santos, em certos contextos é o pró-
prio “relativismo” que pode ser transformado em vilão da história. Em
defesa de outro personagem, as “crianças indígenas”, capazes de simbo-
lizarem tanto as marcas sociais da diferença quanto as da universalida-
de, jornalistas e leitores transformam “antropólogos”, agências estatais e
organizações governamentais em artífices ou cúmplices de uma violação
de direitos ou, mais precisamente, de um crime. Os “direitos” e, mais pre-
cisamente, os “direitos humanos” abrem-se como terreno de discordân-
cia tanto em termos de sua natureza ou composição, por meio da crítica,
por exemplo, aos limites dos direitos culturais ou de um grupo específico,
quanto em termos da legitimidade de se relativização daquilo que deve ser
moralmente universal. Como a autora mostra, nesse processo de discussão
ganham forma certas figuras morais e afetivas projetadas como universais,
como as “mães”, cujas “dores” permitem questionar por dentro o que seria
visto como uma defesa perversa de “tradições” ou “culturas”.
Em cenário distinto, envolvendo as regulações sobre os direitos de
crianças e adolescentes, Laura Lowenkron mostra-nos que a contradição
intrínseca à condição desses “sujeitos especiais de direito” no que tange à
temática da sexualidade só pode ser suprimida quando, em nível nacional,

O fazer e o desfazer dos direitos 31


todas as sutilezas e complexidades são tragadas pela imagem genérica da
“violência” e das crianças e adolescentes como vítimas inquestionáveis.
Transformando debates em aberto sobre os direitos de pessoas em con-
dições específicas (“crianças” e “adolescentes”) em um espetáculo da (i)
moralidade e da patologia inquestionáveis, os protagonistas da CPI ope-
ram a redução das incertezas e ambiguidades intrínsecas à discussão das
sexualidades e das variadas formas de violência que atravessam as vidas
dessas pessoas.
Mesmo em situações nas quais os debates não se apresentam de modo
tão polarizado e com artifícios morais/moralizantes tão evidentes, porém,
a defi nição dos danos, do modo de repará-los e da justa medida dessa re-
paração parece nunca se dar de modo exato ou completo. A polissemia dos
direitos, podemos pensar, é constituída também por seu caráter de incom-
pletude perpétua. Seus jogos de escala podem ser tomados, assim, como
trânsitos não apenas entre instâncias ou normativas, mas entre campos de
significado e formas de fabulação acerca das dores da vida. O irmão mor-
to que se transforma em centro de um processo internacional de direitos
humanos é também uma espécie de “ego judicial” de uma rede familiar
que deve ser indenizada em outro processo, inscrito em ordem judicial
administrativa diversa, como vemos no artigo de Martinho Braga Batista
e Silva. Acompanhando o percurso do trabalho de Letícia Carvalho de
Mesquita Ferreira, por sua vez, somos instados a pensar que a criança que
desaparece revelará ausências múltiplas cujo foco se altera dependendo de
quem vê ou é visto. Afi nal, ela revela a ausência de uma política? De uma
legislação? De uma família? Seu sumiço coloca quem no lugar de culpado
ou responsável? Como o reconhecimento de alguma dessas “culpas” po-
derá sanar seus vários custos afetivos e políticos? O que representa para
uma “polícia” ou um “Estado”, como entidades que podem, contextual e
situacionalmente, ser acusadas de faltosas, essa ausência? Quantas vítimas
cabem em um mesmo “caso dos meninos emasculados”, como trazido por
Paula Lacerda? A condenação criminal daqueles considerados culpados
cumpre a reparação necessária em face do crime inimaginável? O que cabe
como reconhecimento da obrigação do “Estado” em relação aos sobrevi-
ventes? A articulação de um movimento coletivo que ultrapasse os casos
específicos constrói efetivamente um deslocamento dos direitos no tempo,
operando com outra ordem de escala, a que transforma a linguagem da
reivindicação, reparação e punição pelo acontecido em uma aposta propo-
sitiva, localizada no futuro, no vir a ser que é parte igualmente fundamen-
tal do universo dos “direitos”?

32 Adriana Vianna
A pluralidade de sentidos dos direitos fala-nos, assim, de processos e
configurações sociais que vão sendo demarcados com base na inscrição
daquilo que foi conseguido e, simultaneamente, do que permanece perdi-
do; no que vai se consagrando como sendo da ordem da alteração ou da
transformação e no que vai sendo vivido crescentemente como congelado,
estagnado e, por isso mesmo, intolerável. A justiça que não foi feita, o des-
caso que permanece, a reparação que é insuficiente, a indenização que foi
endereçada a quem não merecia.17 Isso se dá, entre outros motivos, porque
as formas e os tempos mais organizados dos “direitos”, tenham eles a fei-
ção de processos judiciais, de protestos políticos ou de formulação e gestão
de uma política, não esgotam sua penetração na vida cotidiana. As dores
ou os cuidados reclamados por meio desses recursos e gramáticas são tam-
bém da ordem do cotidiano, das relações morais e afetivas fundamentais,
das condições rotineiras de existência. Deslocando um pouco a preciosa
imagem forjada por Veena Das, trata-se de pensar a “descida dos direitos”
para a dimensão do ordinário, e não apenas o inverso.18 É também no tem-
po continuado dos que permanecem e sobrevivem que a pluralidade dos
“direitos” vai ganhar sentido, como estratégias e expertises adquiridas,
decepções que se acumularam, percepções sobre desigualdade, narrativas
de resiliência ou de esperança.
Como apresentado no começo desta Introdução, os artigos da coletâ-
nea não procuram resolver essas tensões e complexidades, mas as tomam
como guia para etnografias construídas com base em pessoas, coletivi-
dades, moralidades, institucionalidades e linguagens que, ao fazerem e

17 Borneman (2011) discute algumas tensões em torno das indenizações por perdas rela-
cionadas em especial com processos que acabam sendo constituídos como crimes políticos,
comparando situações em que o dinheiro se apresenta como um componente desmoralizante
e outras em que pode ser trabalhado moralmente de modo a não “contaminar” o sentido
da perda e, o que é especialmente importante, a memória da perda. Em todas as situações
tratadas por ele, fica claro que o processo de “troca” ou “compensação” realizado por essas
indenizações recoloca de maneira socialmente delicada os lugares estabelecidos pelos diferen-
tes atores, sobretudo por aqueles que recebem diretamente o dinheiro.
18 Em Life and words, Veena Das defi ne como uma das linhas mestras de sua atenção et-
nográfica o modo como os eventos dramáticos penetram no cotidiano e, ao mesmo tempo,
como é nesse espaço do rotineiro e do ordinário que o sentido para o mundo temporaria-
mente perdido e tornado inabitável se restabelece. Como ela apresenta, “[…] just as I think
of the event as attached to the everyday, I think of the everyday itself as eventful” (DAS,
2007, p. 8). Fiona Ross, por sua vez, em seu texto centrado nas falas das mulheres durante
as audiências para a Comissão de Verdade e Reconciliação na África do Sul, mostra-nos o
quanto narrativas centradas no que chama do “idioma da esfera doméstica” desenham luga-
res políticos distintos, bem como modulações hierarquizadas sobre o que seja violência ou
sofrimento (ROSS, 2001).

O fazer e o desfazer dos direitos 33


desfazerem “direitos”, também desenham contornos e limites de mundos
possíveis e imaginados.

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O fazer e o desfazer dos direitos 35


O desaparecimento de pessoas no Brasil
contemporâneo: a ausência como matéria-prima
de um problema social

Letícia Carvalho de Mesquita Ferreira19

1. Introdução
No dia 9 de março de 2009, a enfermeira Clara Gonçalves, de 56 anos,
dirigiu-se a uma delegacia policial (DP) do Rio de Janeiro para comunicar
o desaparecimento de seu sobrinho, Domingos Mota, 36 anos, solteiro,
desempregado. Segundo Clara, Domingos saiu de sua residência “sem des-
tino certo”, na tarde de 15 de fevereiro do mesmo ano. Ele estaria passan-
do por “problemas emocionais” e fora visto pela última vez no município
de Belford Roxo. Antes de ir à delegacia, Clara fez contato com amigos de
seu sobrinho “e procurou por Domingos em diversos hospitais, abrigos e
necrotérios, mas não teve êxito em encontrá-lo”. Ao solicitar o registro do
desaparecimento, entregou à polícia uma foto dele.
A fotografia foi anexada a um registro de ocorrência (RO), assim como
outros documentos posteriormente produzidos acerca do desaparecimento
de Domingos. Esse conjunto de papéis compôs uma ficha que permaneceu
por cerca de um mês na DP e, em seguida, foi encaminhada ao Setor de
Descoberta de Paradeiros (SDP) da Delegacia de Homicídios (DH) do Rio
de Janeiro – setor dessa delegacia especializada que se dedica exclusiva-
mente a investigar casos de desaparecimento. No SDP, a ficha em nome de
Domingos passou a integrar um processo intitulado Sindicância.
Dia 11 de junho de 2009, passados três meses da comunicação do desa-
parecimento de Domingos, Clara compareceu ao SDP. Informou a um dos
inspetores que trabalhavam no setor que o paradeiro de Domingos já era
conhecido e disse estar ali para oficializar o fato. Em 27 de março, Clara
recebeu telefonema de uma comadre informando que Domingos estava in-
ternado em um abrigo no Centro da cidade e vinha sendo atendido em um
centro psiquiátrico. Em suas declarações, esclareceu que seu sobrinho de-

19 Doutora em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ e pesquisadora bolsista do


CPDOC/FGV.
saparecera “quando se encontrava deprimido, por ter sido demitido, após
trabalhar cerca de 10 anos na Universidade Santa Úrsula”. Prestadas essas
informações, Clara solicitou ao inspetor que lhe devolvesse a fotografia
de Domingos anexada aos registros policiais, “por ser pertencente a um
álbum de família”. 20
Domingos protagoniza um dos milhares de casos de desaparecimento
comunicados anualmente em delegacias de polícia brasileiras. Idosos aco-
metidos por perdas temporárias ou defi nitivas de memória, adolescentes
que fogem de casa e vítimas fatais de acidentes ou crimes cujos cadáveres
não são identificados compõem, juntamente com Domingos, o múltiplo
universo de sujeitos designados por policiais, conselheiros tutelares, mi-
litantes de movimentos sociais, gestores de políticas públicas e cientistas
sociais como pessoas desaparecidas. 21 Em conjunto, as experiências por
elas vividas são encaradas por todos esses atores como manifestações par-
ticulares de um fenômeno mais amplo, visto como passível de combate: o
desaparecimento de pessoas.
O presente capítulo tem por objetivo compreender a construção desse
fenômeno como um problema social. O texto é resultado parcial de uma
pesquisa etnográfica iniciada no SDP da DH do Rio de Janeiro e estendi-
da para o II Encontro da Rede Nacional de Identificação e Localização
de Crianças e Adolescentes Desaparecidos (ReDesap). 22 O SDP é o setor
da Polícia Civil do Rio de Janeiro a que Clara, a tia de Domingos Mota,
compareceu ao obter notícias de seu sobrinho. A equipe que trabalha no
setor é composta por cinco inspetores de Polícia Civil e realiza suas tare-
fas, segundo uma escala de horas de trabalho predefi nida, em uma sala da
DH. 23 A ReDesap, por sua vez, é uma instância de debates e formulação de

20 Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância n. 018/08 do SDP/DH. De


modo a preservar a identidade dos envolvidos, todos os nomes próprios referidos são fictícios.
21 É preciso ressaltar que Oliveira (2007) faz uso dos termos desaparecidos civis, e não
pessoas desaparecidas, de modo a diferenciar casos contemporâneos dos desaparecimentos
políticos ocorridos, no Brasil e em outros países, em períodos de ditadura militar.
22 A referida pesquisa deu origem à tese de doutorado “Uma etnografi a para muitas ausên-
cias: o desaparecimento de pessoas como ocorrência policial e problema social”. Durante sua
realização, pude contar com bolsas de estudo do CNPq e do Programa Aluno Nota 10 da Fa-
perj, além de recursos do projeto “Políticas para a diversidade e os novos sujeitos de direitos:
estudos antropológicos das práticas, gêneros textuais e organizações de governo – Diverso”,
realizado no Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (Laced),
Museu Nacional/UFRJ, em convênio com a Finep.
23 Em linhas gerais, as tarefas dos cinco inspetores do SDP consistem em investigar casos
de desaparecimento registrados em delegacias comuns da capital do estado. As delegacias
que realizam os registros têm 15 dias para levar a cabo investigações em torno de cada caso
e dar-lhes desfecho. Extinto esse prazo, centralizam-se no SDP a competência e a responsa-

O fazer e o desfazer dos direitos 37


estratégias de enfrentamento do desaparecimento de pessoas que articula
ONGs e diversos órgãos de administração pública, entre conselhos tutela-
res, delegacias de polícia e a Secretaria Especial de Direitos Humanos da
Presidência da República (SEDH/PR). Os instrumentos metodológicos que
permitiram a produção deste texto foram a observação participante e a
análise de documentos oficiais no SDP e na reunião da ReDesap.
Em linhas gerais, mais do que um fenômeno consolidado e indisputado,
o desaparecimento de pessoas é objeto de múltiplos embates enunciativos:
apresentado como problema social dotado de um incidental e controverso
componente policial, é apresentado no interior da Polícia Civil e da ReDe-
sap, alternadamente, como “problema de família”, “problema de polícia”
e/ou “problema do Estado”. O artigo explicita essa disputada concepção
tripartite do desaparecimento, colocando em relevo sua centralidade para
a construção do fenômeno como problema social. A hipótese aqui sus-
tentada é a de que a própria controvérsia em torno de seu caráter plural
(“de família”, “de polícia”, “do Estado”) constitui o desaparecimento de
pessoas como questão a ser combatida no Brasil. A análise empreendida
revela que, situado em uma tensa interseção entre competências e respon-
sabilidades mutuamente atribuídas, o desaparecimento constitui-se não só
em uma, mas em várias ausências.

2. Investigando a ausência: entre o álbum de família e o registro


policial
No cotidiano das delegacias brasileiras, o desaparecimento de pessoas é
classificado como “fato atípico”. 24 Não constitui crime, não possui mate-
rialidade, não prescreve em prazos determinados e não pode gerar inquéri-
to policial. É tratado somente em processos administrativos, como a Sindi-

bilidade por todos os casos de desaparecimento comunicados àquelas delegacias (Secretaria


de Estado de Segurança Pública, 1991). Tais investigações originam registros documentais
que são arquivados, organizados e contabilizados no próprio SDP. Até o mês de setembro
de 2008, encontravam-se arquivados no setor casos de 9.293 pessoas que desapareceram,
algumas delas mais de uma vez, desde o ano 1993. Diariamente, segundo a escala de alter-
nância e horas de trabalho seguida pelos inspetores, há sempre pelo menos dois funcionários
presentes no setor.
24 Paes (2008) revela a defi nição policial de “fato atípico” ao descrever a rotina de atendi-
mento a cidadãos realizada por policiais de delegacias do Rio de Janeiro: “em primeiro lugar,
os policiais realizam uma pequena entrevista com as pessoas para saber de que se trata o
evento (classifi ca o fato como crime ou não), depois, […] procuram impor uma defi nição legal
ao crime, ver qual artigo do Código Penal pode ser atribuído ao fato – em caso de suspeita ou
se estiver sendo sustada a existência de crime, são atribuídas algumas categorias administrati-
vas, tais como remoção de cadáver, fato atípico ou auto de resistência” (p. 173).

38 Adriana Vianna
cância em nome de Domingos Mota arquivada pelo SDP. Em documentos
como a Sindicância de Domingos, pessoas desaparecidas figuram como
“vítimas” de uma ocorrência intitulada “Desaparecimento (outros)”. Não
obstante, no cotidiano de conselhos tutelares, associações de mães de desa-
parecidos e serviços de assistência social como os chamados “SOS Crian-
ças Desaparecidas”, presentes em diferentes estados brasileiros, familiares
e conhecidos de pessoas desaparecidas são recebidos, assistidos e classifica-
dos também como “vítimas” de casos de desaparecimento. Nessas institui-
ções, parte-se da premissa de que os casos incidem dramaticamente sobre
familiares e conhecidos dos desaparecidos, de modo semelhante ao que
ocorre com as chamadas vítimas ocultas da violência urbana (SOARES
et al., 2006). 25 Em suma, instituições que lidam diariamente com casos
de desaparecimento não abordam o fenômeno com base em uma mesma
gramática e, por isso, situam diferentes sujeitos na posição de “vítimas” do
desaparecimento de pessoas.
Para além das abordagens de atores que lidam institucionalmente com
o desaparecimento, tampouco operam segundo uma mesma gramática os
(poucos) estudiosos dedicados ao fenômeno. De modo excludente, há inter-
pretações que classificam o desaparecimento como uma das faces da “vio-
lência urbana” (ESPINHEIRA, 1999), enquanto outras o encaram como
consequência direta da “violência intrafamiliar” (OLIVEIRA e GERAL-
DES, 1999) e de valores do patriarcalismo e seus impactos sobre relações
de gênero e geração no interior de famílias brasileiras (OLIVEIRA, 2007).
Pesquisar o cotidiano e os arquivos do SDP e ainda integrar reuniões
da ReDesap, participando de debates entre seus membros, permitiram-me
confi rmar a inexistência de uma única gramática pela qual instituições,
estudiosos e demais atores sociais encaram o desaparecimento de pessoas.
Não obstante, o dia a dia do SDP e os encontros da rede levaram-me ainda
a concluir que abordagens excludentes e dicotômicas pouco iluminam o
fenômeno. Afi nal, como sugere a foto que a tia de Domingos, protagonista
do caso com que abri este capítulo, retirou de documentos policiais para
recolocar em um álbum de família, o desaparecimento de uma pessoa pode
inscrever-se, a um só tempo, tanto na seara da segurança pública quan-
to em tramas familiares. Ademais, pode não consistir em acontecimen-
to decorrente de qualquer tipo de violência facilmente classificável como
“intrafamiliar” ou “urbana”, como sugerem, respectivamente, Oliveira e
Geraldes (1999) e Espinheira (1999).

25 Sobre os impactos de casos de desaparecimento em grupos familiares, ver Oliveira (2008).

O fazer e o desfazer dos direitos 39


Contudo, embora o desaparecimento de Domingos não decorra de ne-
nhum desses tipos de violência, ao menos não como os autores supracita-
dos os compreendem, entre as ocorrências registradas pela polícia como
desaparecimentos há, de fato, casos que enredam a chamada “violência
intrafamiliar”. Ao longo da pesquisa me foi relatado, dentre outros exem-
plos, que os inspetores do SDP certa vez apuraram que um homem que
comunicara o desaparecimento de sua esposa e fi lho recém-nascido havia
agredido fisicamente aqueles que afi rmou terem desaparecido. Nesse caso,
a esposa deixara sua residência sem aviso, levando consigo o bebê para
proteger-se (e à sua prole) de novos episódios de violência conjugal.
Não obstante, junto a casos desse tipo, delegacias de polícia lidam tam-
bém com ocorrências de desaparecimento que revelam tratar-se de crimes
como sequestro, homicídio e/ou ocultação de cadáver, encarados como
manifestações da violência urbana na contemporaneidade. Exemplos no-
tórios são a chamada Chacina de Acari, analisada por Araújo (2007) e
Nobre (2005), e o “caso dos meninos emasculados”, objeto análise em
outro capítulo deste livro. Um terceiro exemplo, sem dúvida menos visível,
mas não menos representativo, é o caso investigado pelo SDP de um ho-
mem que, segundo a esposa, “já esteve preso no artigo 12 [Tráfico Ilícito]
da antiga Lei de Entorpecentes, ficando encarcerado cerca de três anos;
que também é usuário de drogas e, atualmente, estava desempregado”.
Policiais do SDP apuraram que o homem, dias após ter desaparecido, fora
assassinado.26
Ainda que haja exemplos como esses, uma coleção heterogênea de
acontecimentos registrados como desaparecimento em delegacias brasilei-
ras escapa à dicotomia classificatória que separa casos decorrentes de “vio-
lência intrafamiliar” daqueles vistos como parte da “violência urbana”.
Os arquivos do SDP, bem como relatos de seus funcionários, não deixam
dúvidas sobre isso. Dentre as pastas arquivadas no setor, encontra-se o
registro do desaparecimento de um homem que, enquanto era atendido
em um hospital, sumiu do campo de visão de todos os profissionais que o
atendiam e de sua mãe, que o acompanhava; dias depois, foi encontrado
“caído pela rua na praia de Ipanema” e levado para uma clínica psiqui-
átrica. 27 Ao lado dos documentos sobre esse caso, encontra-se também
a investigação sobre o desaparecimento de uma jovem que, segundo sua
irmã, após ter fugido de casa algumas vezes, fugira novamente por estar

26 Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância n. 008/08 do SDP/DH.


27 Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância n. 004/08 do SDP/DH.

40 Adriana Vianna
“aborrecida com a vida, cansada e extremada”. 28 Na mesma gaveta, por
fi m, há o caso comunicado por moradores de um edifício cujo síndico teria
roubado o condomínio e desaparecido em seguida; o registro solicitado
por uma mulher que afi rmara a policiais que seu sobrinho “vivia vagando
pelas ruas como pedinte”; e, ainda, o caso de desavença entre marido e
mulher que engendrou o desaparecimento do primeiro.29
Embora tão distintos entre si, tais exemplos não só convivem em uma
mesma gaveta de arquivo como também foram igualmente registrados
como casos de desaparecimento. O que chama atenção nessa coleção é
que, de modo geral, as ocorrências não têm componentes especificamente
criminais, constituindo, nos termos de Mota (1995), “casos sociais”. 30 A
especificidade dos “casos sociais” abarcados pelo nome de desaparecimen-
to, entretanto, é que componentes criminais eventualmente se fazem pre-
sentes, não podendo ser excluídos a priori.
A presença eventual e por vezes apenas virtual de componentes cri-
minais faz com que policiais não reconheçam casos de desaparecimento
como parte constitutiva de suas atribuições profissionais (cf. OLIVEIRA,
2007), ao menos não sem submetê-los a severos questionamentos. Assim
como nas Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher (DEAMs) estu-
dadas por Soares (1999), setores e delegacias que, como o SDP, dedicam-
-se a desaparecimentos são vistos como “delegacias de papel” e têm sua
importância posta em dúvida por seus próprios funcionários, entre outros
policiais.31 Essa questão é, inclusive, um dos mais recorrentes objetos de
reflexão no interior do SDP.

28 Os documentos relativos a esse caso compõem a Sindicância n. 020/08 do SDP/DH.


29 Os documentos relativos a esses casos compõem, respectivamente, as Sindicâncias n.
003/08, n. 009/08 e n. 025/08 do SDP/DH.
30 Mediante trabalho de campo, Mota (1995) constata alta frequência de “casos sociais” em
meio às demandas que as camadas pobres levam às delegacias de polícia do Rio de Janeiro.
A autora trata como “casos sociais” questões e confl itos que escapam às defi nições jurídicas
utilizadas no cotidiano das delegacias e afi rma que sua afluência a essas repartições policiais
reflete uma carência experimentada pela população. Por falta de acesso a outros recursos ins-
titucionais, o “segmento pobre da população” levaria problemas das mais diversas naturezas
às delegacias, demandando que seus funcionários exerçam funções de mediação e resolução
de confl itos diante de problemas desprovidos de componentes criminais. Muniz (1996) mos-
tra que também nas DEAMs do Rio de Janeiro policiais são levados a atuar como mediadores
e a negociar confl itos, buscando “soluções distintas daquelas oferecidas pela lógica em uso do
mundo jurídico formal” (p. 127).
31 “Delegacia de papel” ou “delegacia seca” é aquela que “não prende, não promove batidas,
não desempenha ações espetaculares” (SOARES, 1999, p. 53) – isto é, que lida mais com
procedimentos burocráticos do que com operações de rua.

O fazer e o desfazer dos direitos 41


Segundo um dos inspetores do setor, cerca de nove mil casos de de-
saparecimento foram registrados no Rio de Janeiro entre 1993 e 2008,
tendo ali chegado para apuração e posterior arquivamento. De seu ponto
de vista, embora o número de casos seja alto, o trabalho do SDP não é
valorizado, lida com condições precárias e é guiado por uma legislação
falha e contraditória. Segundo o policial, o desaparecimento de pessoas
não tem a visibilidade que merece, não recebe tratamento adequado pelas
autoridades competentes e tampouco é de fato conhecido pelos cidadãos.
Ademais, sobrepondo-se a esses problemas, para o inspetor a grande difi-
culdade enfrentada pelos policiais é o fato de o desaparecimento não ser
crime e não constar no Código Penal brasileiro. De seu ponto de vista, essa
é a razão da desimportância atribuída ao fenômeno.
Ao refletir sobre o trabalho executado no SDP, o inspetor afi rma que
muitas vezes faz algo parecido com “atendimento psicológico”, embora
não tenha nem formação nem responsabilidade para isso. Em diversas oca-
siões, relata que a maior parte dos casos enreda pessoas que deixaram suas
casas sem intenção de retorno, embora suas famílias ainda as aguardem,
não sem sofrimento. Diz que, como espectador desse sofrimento, por vezes
fornece o número de seu telefone celular para familiares de desaparecidos
e se envolve realmente com os casos, “perdendo noites de sono”, mas que a
sensibilidade e a técnica necessárias para lidar com os dramas das famílias
são difíceis de desenvolver na precariedade de condições de trabalho que
lhe são disponíveis. Diferentemente de todos os departamentos da DH, o
SDP é o único setor em que acontecem eventuais “atendimentos ao públi-
co”, o que torna seu serviço bastante específico e delicado. A importância
desses atendimentos, segundo o inspetor, reside no fato de que “a família
é que encontra o desaparecido”. Para o policial, são as informações forne-
cidas pela “família”, e apenas elas, que podem facultar à polícia localizar
um desaparecido. Policiais atuariam como mediadores: procuram os desa-
parecidos com base no que as “famílias” fornecem em termos de dados e
pistas e, posteriormente, retornam às “famílias” com dados e pistas sobre
paradeiros.
Reflexões semelhantes já me foram relatadas, também no SDP, por
uma inspetora que afi rma que muitas atividades realizadas ali não são
atribuição de seus funcionários e podem ser classificadas como atividades
de “assistência social”. Para a inspetora, nessas tarefas os policiais primei-
ramente precisam lidar com o fato de que “as famílias podem mentir”. Um
de seus relatos que evidenciariam tanto o caráter assistencial do serviço
do setor quanto a possibilidade da mentira por parte das “famílias” é o

42 Adriana Vianna
caso de um senhor de avançada idade que foi registrado por seus vizinhos
como desaparecido. As investigações do SDP permitiram concluir que os
vizinhos solicitaram o registro para que a polícia tomasse conhecimento
de que ele vinha sendo explorado por uma jovem, que passara a morar
em sua residência e ter acesso a seus bens. Segundo a policial, os vizinhos
esperavam da polícia alguma atitude em relação à jovem, e fi zeram uso
do termo desaparecimento para acioná-la. Executando o que ela chama
de serviço de “assistência social”, a inspetora foi, em companhia de outro
inspetor, até a casa onde o casal estaria vivendo, no intuito de averiguar
se haveria entre eles uma relação de exploração. Constatou então que, em-
bora a mulher estivesse de fato usufruindo dos bens do senhor, por outro
lado estava cuidando dele diariamente. A situação que, do ponto de vista
dos vizinhos, seria de submissão do senhor pela jovem, para a inspetora
era uma troca justa de favores, já que o homem não tinha familiares e/ou
pessoas que dele cuidassem tão de perto quanto a jovem vinha fazendo.
Casos como esse, nas palavras da policial, não são “problemas de
polícia”, e sim “problemas do Estado”, que devem ser solucionados por
medidas que fogem ao alcance da polícia. São, portanto, exemplares da
“atipicidade” do desaparecimento, característica da maioria dos casos que
chegam ao SDP: “problemas de família” desprovidos de componentes cri-
minais que, por sua própria natureza, exigiriam soluções adequadas por
parte “do Estado”, e “não da polícia”. Segundo a inspetora, desapareci-
mentos são experiências de pessoas que deixam suas casas, vizinhanças e
comunidades em decorrência de circunstâncias e fatos de natureza familiar
e privada, nos quais a polícia não deve intervir.32 Logo, não consistem em
eventos que permitam identificar vítimas e perpetradores. Apenas o agente
moralmente responsável por assistir (BOLTANSKI, 1993) os envolvidos
nos casos seria facilmente reconhecível: “o Estado”.
Em um esforço para classificar a natureza dos casos de desaparecimen-
to, portanto, relatos e reflexões de policiais que lidam com o fenômeno
promovem não só a divisão entre “problemas de polícia” e casos que não
contam com componentes criminais, mas também a contraposição entre
o que seriam “problemas de família” e o que lhes parece ser efetivamente
atribuição da polícia. Ao fazê-lo, policiais procuram depurar o que é de

32 Soares (1999) apresenta dados de uma pesquisa sobre decisões judiciais em torno de casos
de violência conjugal em que fica claro o recurso a esse mesmo tipo de separação privado
versus público. Nos acórdãos e pronunciamentos citados pela autora, impera “a noção de
que o que acontece no domínio da intimidade (e que, se ocorrido entre estranhos, configura
claramente um delito penal) não é de responsabilidade da Justiça” (p. 36).

O fazer e o desfazer dos direitos 43


sua competência e responsabilidade e situar em um polo oposto o que jul-
gam ser de responsabilidade de unidades domésticas, parentelas, casas e
outros conjuntos de pessoas que denominam, genericamente, “famílias”.
Os casos relatados por policiais do SDP, bem como depoimentos regis-
trados em trabalhos sobre o tema (OLIVEIRA, 2007; ARAÚJO, 2007),
sugerem que nas delegacias brasileiras o desaparecimento é objeto de atos
de fala que, como as acusações de feitiçaria analisadas por Favret-Saada
(1977), compõem um jogo de forças de caráter enunciativo em que respon-
sabilidades são distribuídas.33 Encarado por policiais como fenômeno do-
tado de um controverso e virtual componente criminal, o desaparecimento
é alternadamente classificado como “problema de família” ou “problema
do Estado”. Tal classificação carrega consigo a ideia de que as competên-
cias necessárias para o enfrentamento do fenômeno encontram-se fora das
repartições policiais, em instituições providas de meios eficazes para lidar
adequadamente com dramas “familiares”.
Não obstante, gestores governamentais de políticas públicas e ONGs
que reúnem familiares de desaparecidos acrescentam outras perspectivas
a tais classificações, também por meio de atos de fala que atribuem res-
ponsabilidades. Situando-se em debates públicos como respectivos e le-
gítimos representantes do “Estado” e das “famílias”, esses atores sociais
questionam sua responsabilidade diante do desaparecimento de pessoas.
Conforme busco explicitar a seguir, relações e embates entre concepções
contrastantes do desaparecimento de pessoas são o ponto nodal de sua
constituição como problema social. Eventos promovidos pela ReDesap,
que reúne policiais, associações de mães de desaparecidos e gestores go-
vernamentais, são instâncias em que tais relações e embates tornam-se
especialmente visíveis, o que faz deles fontes de pesquisa frutíferas. Se,
como sugere o cotidiano do SDP, o desaparecimento de pessoas compõe-se
de um jogo de forças de caráter enunciativo em que responsabilidades são
distribuídas, um encontro da ReDesap é contexto propício para avaliar
essa sugestão.

33 Inspiradores para se pensar embates enunciativos em torno de responsabilidades e compe-


tências, os casos de acusação de feitiço apresentados por Favret-Saada (1977) evidenciam que
a feitiçaria consiste em um jogo de forças de caráter discursivo, por meio do qual diferentes
atores se colocam em posições relacionais, atribuindo a seus interlocutores e a terceiros posi-
ções específicas por meio de atos de fala (paroles). Em cada situação particular em que esse
jogo de forças se faz presente, ou seja, em cada caso de feitiçaria, emerge uma configuração
específica em que um sujeito é acusado de feiticeiro, sendo visto como portador de uma ca-
pacidade extraordinária que o torna hábil a causar infortúnios em série à vida alheia. Nessa
configuração, o desenfeitiçador (désorceleur) comparece como sujeito dotado de competên-
cias específicas que lhe facultam interromper aquela série de infortúnios.

44 Adriana Vianna
3. Enfrentando a ausência: um evento e muitas causas
Entre os dias 2 e 5 de dezembro de 2008 teve lugar no Rio de Janeiro o II
Encontro da ReDesap. Eu soube do evento uma semana antes que ele acon-
tecesse, em uma manhã de pesquisa no SDP, por intermédio de uma inspe-
tora do setor. Seguindo sugestão da policial, inscrevi-me e soube então que
o evento fora organizado por órgãos do governo federal e do governo esta-
dual do Rio de Janeiro. Os principais responsáveis pela estrutura, logística
e programação do encontro foram a SEDH/PR e a Fundação para Infância
e Adolescência da Secretaria de Assistência Social do Rio de Janeiro. Não
obstante, policiais da DH também auxiliaram na organização, tendo um
dos inspetores do SDP ficado encarregado de providenciar transporte para
56 delegados de polícia de diferentes estados que participariam do evento.
O encontro foi a segunda reunião aberta ao público promovida pela
ReDesap, rede criada em 2002 que articula 42 organizações (entre órgãos
públicos, policiais e assistenciais, e iniciativas não governamentais) que li-
dam com o desaparecimento de crianças e adolescentes no Brasil.34 A rede,
como informam folhetos distribuídos no evento, apresenta-se como “pilar
decisivo no enfrentamento do problema em foco” e “tem como objetivos
constituir um cadastro nacional de casos, criar e articular serviços espe-
cializados de atendimento ao público e coordenar um esforço coletivo e de
âmbito nacional para busca e localização dos desaparecidos”. Desde sua
criação, foi construído um website que tem funcionado como embrião do
referido cadastro nacional de casos.35 As organizações da rede alimentam,

34 O I Encontro da ReDesap ocorreu em Brasília, entre os dias 23 e 26 de novembro de


2006. Além dele e do II Encontro, únicos abertos à participação de qualquer pessoa que se
interessasse e inscrevesse, a rede promove reuniões regulares entre os membros de seu comi-
tê gestor, composto por um representante da Secretaria Especial de Direitos Humanos da
Presidência da República (SEDH), três delegados de Polícia Civil, a representante do Fórum
Colegiado Nacional de Conselhos Tutelares, o representante de um serviço governamental de
assistência a famílias de crianças e adolescentes desaparecidos e a representante de uma as-
sociação de mães de desaparecidos. A convite desse comitê, tive a oportunidade de participar
de três de suas reuniões e, ainda, de um quarto encontro entre seus membros e representantes
da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) do Ministério da Justiça (MJ). Embo-
ra tais reuniões não sejam objeto de referência e análise aqui, participar delas certamente
auxiliou-me na construção da hipótese e dos argumentos apresentados neste texto.
35 Tal cadastro será intitulado “Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas”, amplian-
do seu escopo para além das crianças e dos adolescentes desaparecidos. Contemplado pelas
discussões do evento, o Cadastro Nacional é também objeto de um projeto de lei (PL n.
01842/2007) aprovado e transformado em norma jurídica (Lei Ordinária n. 12.127/2009)
em dezembro de 2009. Paralelamente à tramitação do referido projeto de lei, o Ministério da
Justiça (MJ) constituiu uma comissão que vem discutindo e formatando o referido cadastro.
Membros do comitê gestor da ReDesap integram essa comissão.

O fazer e o desfazer dos direitos 45


embora ainda de forma pouco sistemática, o cadastro ora disponível no
website.
O evento contou com a presença de policiais, assistentes sociais, conse-
lheiros tutelares, psicólogos, mães de pessoas desaparecidas que se encon-
tram vinculadas a ONGs, gestores governamentais de políticas públicas,
operadores do Direito, vereadores, deputados e, como eu, alguns pesqui-
sadores. Dentre os presentes, 28 pessoas representando diferentes organi-
zações ocuparam as cadeiras principais do evento e apresentaram, em oito
mesas distribuídas ao longo de quatro dias, suas abordagens sobre o de-
saparecimento de crianças, adolescentes, adultos e idosos, bem como suas
perspectivas de como o fenômeno pode ser combatido no Brasil.36
Diante de tantas autoridades presentes, nos almoços, intervalos e com
a participação nos debates que seguiram cada Mesa, estabeleci relações
com o grupo de servidores da SEDH/PR e da Fundação para a Infân-
cia e Adolescência (FIA) que organizou o evento, e ainda pude conhecer
e conversar com três mães de pessoas desaparecidas, todas fundadoras
de ONGs dedicadas, entre outras tarefas, a dar visibilidade ao desapa-
recimento e a assistir outras mães e pessoas que buscam desaparecidos.
Ademais, no evento ouvi e conversei com outros policiais, entre delegados
e inspetores de Polícia Civil de outros estados da Federação, agregando
novas reflexões produzidas por policiais ao que a pesquisa do SDP vinha
me apresentando. Ratificando o que as Mesas descortinaram ao longo do
encontro, meus contatos com tantos participantes deixaram claro que o
evento podia ser visto como momento privilegiado de discussão sobre o
desaparecimento de pessoas – e isso não simplesmente por reunir atores
variados. O evento aglutinou, em discursos e diálogos, posições, relações e
responsabilizações em torno de questões apresentadas como centrais para
combater o desaparecimento de pessoas no Brasil.
Os Quadros 1 e 2 sistematizam os atores presentes e os temas debati-
dos nas Mesas do encontro. Evidentemente, deles estão excluídos assuntos
que foram objeto de conversas paralelas às Mesas e nomes de participantes

36 Muitas vezes foram intercambiados, sem constrangimentos ou mais justificativas, os con-


juntos de termos “desaparecimento de crianças e adolescentes” e “desaparecimento de pes-
soas”. Em uma das poucas falas que explicitaram tais trocas ao longo do evento, a mãe de
uma pessoa que desapareceu na infância, mas, atualmente, conta cerca de 30 anos de idade,
afi rmou que “melhor do que especificar faixas etárias é pensar em pessoas”. Ainda que, no
evento em questão, não tenha havido clara distinção entre os conjuntos de termos, pensar
as especificidades do que se defi ne como “desaparecimento de crianças e adolescentes” e o
que se quer designar, mais genericamente, como “desaparecimento de pessoas” enriqueceria
e tornaria mais densa a análise empreendida neste texto. Em razão do limite de espaço e do
objetivo aqui traçado, contudo, não enfrentarei tal questão.

46 Adriana Vianna
do evento que não falaram nas Mesas programadas, mas apresentaram
tópicos em discussão nos almoços e intervalos. Apesar dessas limitações,
os quadros são úteis para a visualização dos pontos centrais discutidos no
evento em sua relação com as autoridades presentes. Os tópicos reunidos
no Quadro 2, nesse sentido, explicitam o que as autoridades listadas no
Quadro 1 julgaram relevante à compreensão, ao combate e à prevenção de
casos de desaparecimento no Brasil.

Quadro 1. Palestrantes que se apresentaram nas Mesas

Nome da Mesa Palestrantes


Representante da Secretaria de Assistência Social e
Direitos Humanos do Rio de Janeiro
Representante da Subsecretaria de Promoção dos
Direitos da Criança e do Adolescente (SPDCA) da Se-
cretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência
Abertura da República (SEDH/PR)
Representante da Fundação para a Infância e Adoles-
cência (FIA/RJ)
Representante da Subsecretaria de Programas Sociais
do Rio de Janeiro
Psicóloga e autora de dissertação de mestrado sobre
o luto das mães de crianças desaparecidas
Crianças e adolescentes desapareci-
Representante da SPDCA/SEDH/PR
dos: uma realidade invisível
Representante do Programa SOS Crianças Desapare-
cidas da FIA/RJ
Representante da SPDCA/SEDH/PR e autor de tese de
doutorado sobre crianças e adolescentes que fogem
Causas e fatores que levam ao desa- de casa
parecimento de crianças e adoles-
Representante da organização Mães da Sé e mãe de
centes no Brasil
pessoa desaparecida
Representante da Autoridade Central/SEDH/PR
Juiz de direito de SP, representante da Associação
Brasileira de Magistrados e Promotores de Justiça da
Infância e da Juventude (ABMP)
Marcos legais do desaparecimento Desembargador, representante do Conselho Estadual
de crianças e adolescentes, proteção da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro
jurídica e acesso à Justiça Promotor de justiça do Rio Grande do Norte
Defensora pública, representante da Coordenadoria
de Defesa de Direitos da Criança e do Adolescente
(CDEDICA/RJ)

O fazer e o desfazer dos direitos 47


Nome da Mesa Palestrantes
Agente da Polícia Civil do Rio de Janeiro, represen-
tante das delegacias DPCA, DCAV, DAS e DH
Balanço dos serviços e políticas de Representante do programa Disque-Denúncia (Dis-
notificação, identificação e localiza- que 100) da SEDH/PR
ção de crianças desaparecidas Representante do Programa SOS Crianças Desapare-
cidas da FIA/RJ
Conselheiro tutelar (RJ)
Representante da Secretaria de Assistência Social e
Direitos Humanos do Rio de Janeiro
Políticas de atenção e projetos de Representante do Departamento de Proteção Social
intervenção do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate
à Fome
Representante da SPDCA/SEDH/PR
Representante da ONG Projeto Meninos e Meninas
de São Bernardo do Campo
Representante do Projeto Caminho de Volta (SP) da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
Projetos (FMUSP)
Representante do consórcio de ONGs Projeto Trama
(RJ)
Representante da ONG Projeto Legal (RJ)
Representante do jornal Extra (RJ)
Informação, prevenção e divulgação:
Representante do Instituto Pró-Mundo
mídia e campanhas
Representante da Rede ANDI-Brasil

Quadro 2. Temas debatidos no encontro organizados por Mesa

Nome da Mesa Temas apresentados e discutidos


Importância do engajamento do poder público, da
iniciativa privada e do terceiro setor na questão; an-
gústia dos que buscam desaparecidos; necessidade
Abertura
de maior divulgação do fenômeno e dos casos; ne-
cessidade de melhor articulação entre membros da
ReDesap.
Escassez de estudos sobre o tema e registros não
policiais dos casos; necessidade de combater mitos
Crianças e adolescentes desapareci- em torno do desaparecimento; como enfrentar a
dos: uma realidade invisível subnotificação de casos; necessidade de proteger a
família para prevenir novos casos; como atender e
acompanhar as famílias dos desaparecidos.

48 Adriana Vianna
Nome da Mesa Temas apresentados e discutidos

Sequestros intrafamiliares; violência doméstica e cas-


Causas e fatores que levam ao desa-
tigos físicos; famílias recombinadas e novos modelos
parecimento de crianças e adoles-
de família; fugas de casa; precariedade e despreparo
centes no Brasil
da polícia para lidar com dramas familiares.

A imprecisão conceitual do desaparecimento; vazio


legal em torno do tema; possibilidade de não se falar
em desaparecimento, e sim em “busca” e “localiza-
ção”; relação entre “busca” e “invasão de privacidade”;
Marcos legais do desaparecimento
possibilidade de a polícia atuar apenas em casos
de crianças e adolescentes, proteção
com suspeita de crime; os limites e as possibilidades
jurídica e acesso à Justiça
oferecidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA) e por todo o sistema de garantias dos direitos
da criança e do adolescente; a situação jurídica do
adolescente vítima.

Os trabalhos da polícia do Rio de Janeiro, do Disque-


Balanço dos serviços e políticas de
-Denúncia 100, da SEDH/PR, do SOS Crianças De-
notificação, identificação e localiza-
saparecidas e dos conselhos tutelares em casos de
ção de crianças desaparecidas
desaparecimento.

Possibilidades de prevenção e combate de desapa-


recimentos oferecidas pela Política Nacional de Assis-
Políticas de atenção e projetos de
tência Social (PNAS), pelo Plano Nacional de Convi-
intervenção
vência Familiar e Comunitária (PNCFC) e pela Política
Nacional de Enfrentamento do Tráfico de Pessoas.
Objetivos e resultados de projetos voltados para me-
ninos de rua e crianças e adolescentes necessitados
de proteção e defesa judicial; objetivos e resultados
Projetos de programas de prevenção de violência doméstica,
enfrentamento do tráfico de pessoas, atendimento
psicológico de famílias de desaparecidos e criação de
bancos de DNA.

Informação, prevenção e divulgação: A importância da mídia para a divulgação de casos


mídia e campanhas específicos e do tema dos desaparecimentos em geral.

Se os relatos e as reflexões dos policiais do SDP sugerem que o desa-


parecimento é objeto de atos de fala em que responsabilidades são distri-
buídas, o encontro da ReDesap não só seguiu na mesma direção, como
também tornou complexo esse jogo. Reunidos em torno das Mesas e dos
temas listados, representantes de órgãos governamentais, repartições poli-
ciais de vários estados e ONGs com atuação em todo o território nacional
posicionaram-se diante uns dos outros e em relação uns aos outros durante
o evento. Ao se posicionarem, conforme espero demonstrar, multiplicaram

O fazer e o desfazer dos direitos 49


as forças enunciativas (e as ausências) por meio das quais responsabilida-
des e competências em torno do desaparecimento são distribuídas.
Embora muitos dos presentes no evento se conhecessem, tratando-se
até mesmo nas Mesas por apelidos pessoais e referindo-se uns aos outros
em seus discursos, saltava aos olhos no decorrer de cada fala que tanto as
maneiras de se pronunciar sobre o desaparecimento quanto a concepção
do fenômeno sustentada por cada um deles eram bastante divergentes. En-
tre queixas e responsabilizações cruzadas, três grandes frentes de debate
aglutinaram tais divergências: as questões apontadas como causas do desa-
parecimento, as maneiras como o problema deve ser combatido e, por fi m,
a relação que há entre os atores envolvidos na questão.
Ao longo dos quatro dias de evento, foi possível notar que percepções
similares dessas frentes de debate eram compartilhadas por atores que
se apresentavam de maneira semelhante tanto na estrutura de suas falas
quanto em suas apresentações de si e dos organismos que representavam.
Em outras palavras, a circulação de atos de fala no encontro engendrou a
distinção entre posições e desdobrou-se na formação de grupos reunidos
em torno de perspectivas específicas sobre o desaparecimento de pessoas
no Brasil e sobre as formas por meio das quais ele deve ser enfrentado. O
jogo de forças estabelecido no evento, portanto, confi rmou que um dos
efeitos de atos de fala de situações de sofrimento e de ações destinadas
a combatê-las é a constituição de unidades e “pessoas coletivas” (BOL-
TANSKI, 1993, p. 87).
As divergências expostas nas Mesas e nos debates instituíram três gru-
pos: primeiro, o grupo dos funcionários de órgãos governamentais; segun-
do, o grupo das mães de desaparecidos; e terceiro, o grupo dos policiais.
Sem dúvida, houve posições dissidentes no interior desses grupos, algu-
mas das quais foram inclusive explicitadas em Mesas e debates. Contudo,
considerando-se as três frentes de debate referidas, posições dissidentes
não impediram que tais grupos pudessem ser identificados como unidades
delimitadas. A seguir, busco descrever a tessitura do jogo de forças que se
estabeleceu entre esses grupos e, ao mesmo tempo, os instituiu como gru-
pos. Com base nessa descrição, sugiro que o desaparecimento se faz, como
problema a ser combatido, em uma espécie de vazio plural decorrente da
maneira como responsabilidades são mutuamente atribuídas entre gestores
governamentais, mães de desaparecidos e policiais.

50 Adriana Vianna
4. Multiplicando a ausência: do que é feito um problema social
Além de remeterem uns aos outros em suas falas, os representantes de
membros da ReDesap que se pronunciaram e debateram ao longo do en-
contro demonstraram partilhar de alguns pressupostos do desaparecimen-
to de pessoas. Ainda que tenham se posicionado uns em relação aos outros
de forma distinta, e mesmo que tenham apresentado abordagens divergen-
tes quanto às causas e maneiras de enfrentar o fenômeno, representantes
de variados órgãos governamentais, associações de mães de desaparecidos
e repartições policiais não apenas concordaram, como foram até redun-
dantes no tocante a algumas questões.
O desaparecimento compareceu em quase todas as falas como fenôme-
no invisível, pouco conhecido e que não pode prescindir de eventos como o
II Encontro da ReDesap. De encontros como esse dependeria a visibilidade
da gravidade adquirida pelo fenômeno no Brasil e, ainda, a conscientiza-
ção de toda a população quanto à importância de registrar e divulgar casos
que ocorrem rotineiramente e, no entanto, não recebem atenção. Dita logo
na Mesa de abertura do evento e rememorada em diferentes momentos, a
frase “o desaparecimento é uma questão invisível, mas que não pode ser
silenciosa” sintetiza, portanto, um dos pontos partilhados pelos presentes.
Casos célebres foram mencionados repetidas vezes por distintos pales-
trantes e tiveram enfatizados, ao mesmo tempo, tanto seu caráter represen-
tativo (de todo um universo de casos que acontecem diariamente) quanto
sua excepcionalidade (em função da divulgação que tiveram).37 A recor-
rência de referências a um mesmo repertório de casos sugeriu que certos
desaparecimentos, aos quais foi conferida ampla divulgação e visibilidade
por diferentes meios de comunicação, compõem uma fonte comum que ali-
menta imaginações e sustenta enunciados proferidos acerca do fenômeno
(BOLTANSKI, 1993, p. 103), ainda que tais enunciados sigam em direções
divergentes.
Igualmente presente em todas as Mesas, outro ponto comum foi o uso
indiferenciado das combinações de palavras “famílias de desaparecidos/
crianças e adolescentes desaparecidos” e “mães de desaparecidos/crianças e
adolescentes desaparecidos”. Chamando a atenção para a dor dessas “famí-

37 Os casos citados como objeto de ampla divulgação e repercussão foram “o caso Pedrinho”,
“o caso Carlinhos” e o “o caso Madeleine”. Este último diz respeito a uma menina inglesa que
desapareceu em um hotel na praia da Luz, em Portugal, na noite de 3 de maio de 2007. “O
caso Carlinhos”, por sua vez, refere-se ao sequestro de um menino, na noite de 2 de agosto de
1973, no Rio de Janeiro. Por fi m, “o caso Pedrinho” diz respeito a um caso de subtração de
incapaz em que um bebê foi levado da maternidade em 21 de janeiro de 1986, em Brasília, por
uma mulher que o registrou como seu fi lho e o criou em Goiânia.

O fazer e o desfazer dos direitos 51


lias” e para a angústia da espera por elas vivenciada, falas variadas especi-
ficaram esses sentimentos como experiências de mães e trataram o desapa-
recimento como um sofrimento infindável enfrentado por mães. Ademais,
tais falas apresentaram o desaparecimento como um problema que se es-
tende no tempo e tem como desdobramento a falta de desfecho, a falta de
notícias e a falta de informações sobre o paradeiro de um fi lho ou filha. Tais
ideias foram sintetizadas com expressões como “um tipo de luto”, “o luto
das mães de desaparecidos” e “morte inconclusa”.38
Dois outros pontos, por fi m, foram objeto de concordância e repetição
entre falas e Mesas. Recorrendo aos termos “Estado” ou “poder público”,
“polícia” ou “delegacias” e “famílias” ou “mães”, diversos palestrantes
enfatizaram que o desaparecimento só pode ser enfrentado adequadamen-
te se reunir as forças de atores classificados, de modo excludente, nesses
três grupos. Sem que a composição específica de cada um deles tenha sido
questionada ou explicitada, tais grupos foram objeto de todas as falas do
evento. Embora a eles tenham sido atribuídas responsabilidades e compe-
tências divergentes, houve convergência na visão geral de que é entre eles
que se divide o encargo do enfrentamento do desaparecimento de pessoas.
Em suma, os presentes repetidas vezes afi rmaram que a força da ReDesap
e a possibilidade de combater o desaparecimento residem na articulação
entre esses grupos de atores.
A questão encarada como maior obstáculo a ser enfrentado por todos
eles, último ponto comum entre falas e Mesas a ser destacado, é a falta de
instrumentos legais que tratem do desaparecimento de pessoas no Brasil.39
A falta de diretrizes normativas que determinem como devem ser geridos
tanto o fenômeno em geral quanto casos particulares foi apresentada como
algo que precisa ser transformado o quanto antes. Como justificativa para
tal demanda, foram evocadas supostas idiossincrasias de desaparecimen-
tos de sujeitos vistos como especialmente vulneráveis e necessitados de pro-

38 Expressões semelhantes aparecem no trabalho de Catela (2001) sobre as famílias de desa-


parecidos políticos argentinos e são o mote do trabalho de Oliveira (2008).
39 Os únicos instrumentos legais que regulam a forma pela qual a polícia deve lidar com
casos de desaparecimento no Brasil e no Rio de Janeiro são a Lei Federal n. 11.259, de
dezembro de 2005, e a Resolução n. 513 da Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro
(hoje integrada à Secretaria de Segurança Pública), de dezembro de 1991. O curtíssimo texto
daquela lei federal determina apenas que casos de desaparecimento devem gerar investiga-
ções imediatas. Relativamente mais detalhada, a resolução, por sua vez, normatiza prazos
e diretrizes para a investigação policial de desaparecimentos no Rio de Janeiro e é também
utilizada como base legal em outros estados da Federação. A lei federal foi incorporada ao
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990), dele constando
como um parágrafo do art. 208.

52 Adriana Vianna
teção: crianças, adolescentes, idosos e deficientes mentais A inexistência de
leis que regulem a gestão e o combate do fenômeno do desaparecimento no
Brasil seria, enfi m, uma primeira ausência a ser enfrentada.
As referências ao desaparecimento feitas nas Mesas, nos debates e nos
intervalos do encontro carregaram consigo certo ar de certeza, como se de-
saparecimento e desaparecidos fossem categorias autoevidentes, que pres-
cindissem de mais explicações. Interlocutores diversos, entre palestrantes
e público, policiais, gestores governamentais e membros de associações de
mães de desaparecidos, apresentaram-se e dialogaram como se operassem
com base em uma mesma gramática e uma mesma defi nição do que é o
desaparecimento de pessoas no Brasil. Entretanto, no decurso dos dias,
descortinou-se a olhos vistos a circulação de diferentes abordagens do de-
saparecimento entre todos esses atores. A diversidade de abordagens, con-
tudo, só foi apontada por um dos palestrantes, em uma única Mesa, e não
foi questionada ou ecoada nas Mesas e nos debates seguintes.40
Conforme já apontado, três frentes de debate aglutinaram divergências
no evento: as causas apontadas como raízes do desaparecimento, as manei-
ras como o problema deve ser combatido e, por fi m, a relação que há entre
os atores envolvidos na questão. Tais divergências revelaram a distinção
entre três grupos de atores no interior dos quais vigem supostos específicos
acerca do desaparecimento: o grupo dos funcionários de órgãos governa-
mentais, o grupo das mães de desaparecidos, reunidas em organizações
não governamentais, e o grupo dos policiais. A seguir, busco explicitar as
posições desses grupos em torno daquelas três frentes de debate. Apresen-
to, então, o jogo de forças de caráter enunciativo que a descrição de tais
posições revela.

4.1. “Há famílias desestruturadas em todas as classes sociais”


Representando órgãos e programas nacionais e estaduais de diferentes mi-
nistérios e secretarias, gestores de políticas públicas das áreas de direitos
humanos, assistência social, segurança pública e relações internacionais
compartilharam não só uma mesma abordagem quanto a causas e formas
de combater o desaparecimento, mas também uma mesma maneira de se
apresentar. Recorrendo a um mesmo número e estatística, suas falas colo-

40 Nessa fala, destoante e com pouca ou nenhuma repercussão, o palestrante afi rmou que,
diante da variedade de casos de diferentes naturezas e da multiplicidade de concepções que
o termo desaparecimento abrange, melhor seria não utilizá-lo. Juiz de direito, esse locutor
dissonante esteve presente no encontro como representante da Associação Brasileira de Ma-
gistrados e Promotores de Justiça da Infância e da Juventude (ABMP).

O fazer e o desfazer dos direitos 53


caram-se como diagnósticos do problema, avaliações do que deve ser feito
para preveni-lo e alertas dirigidos a todos os presentes. Consistiram, nos
termos de Boltanski (1993), em “enunciados de saberes”, caracterizados
por suprimir singularidades em prol da produção de afi rmações categóri-
cas e verificáveis. De forma sucinta, os enunciados dos gestores apresenta-
ram o problema como consequência de confl itos e violência intrafamiliar,
afi rmaram que para prevenir desaparecimentos é preciso investir na “fa-
mília” e, fi nalmente, advertiram os presentes de que é preciso não culpabi-
lizar “famílias” por casos de desaparecimento.
Segundo diversos gestores, 40 mil crianças e adolescentes desaparecem
anualmente no Brasil. Desse total, cerca de 75% dos casos consistem em
fugas de menores que sofrem violência e castigos físicos dentro de suas
casas e, por isso, preferem viver nas ruas e/ou em abrigos públicos. Esse
entendimento é de tal forma consolidado entre gestores que muitos utili-
zaram indiferenciadamente os termos desaparecimentos e fugas, tratando-
-os como sinônimos. Contudo, para os gestores aquela cifra não significa
que “famílias” sejam culpabilizáveis pelos desaparecimentos. Ao contrá-
rio, para eles “famílias” são vítimas desse fenômeno, que sobre elas inci-
de causando angústia, dor e traumas diversos. Para compreender o papel
das “famílias”, apresentadas em suas falas como instâncias produtoras de
desaparecimentos (OLIVEIRA, 2007), vários gestores afi rmaram ser ne-
cessário refletir sobre a atual “crise da família” e, ainda, sobre “o fi m da
comunidade”. O movimento percorrido nessas falas, nesse sentido, visou
a substituir a responsabilização das unidades familiares por episódios de
violência e casos de desaparecimento entre seus membros pela vitimação
dessas mesmas unidades. Para os gestores, enfrentar o desaparecimento de
pessoas de modo eficaz depende de admitirmos que “famílias” são, atual-
mente, as unidades mais afetadas por um irrestrito processo de desestru-
turação de relações e vínculos sociais e morais.
Deslocando a responsabilidade aparentemente atribuída à “família”
em suas falas, gestores afi rmaram que as raízes do desaparecimento con-
temporâneo residem no atual “descuido de relações”, que tem acompanha-
do o “fi m da família extensa e das redes comunitárias” e “o predomínio
da família monoparental chefiada por mulheres”, que faria recair sobre os
ombros de mães solteiras o dever do cuidado e da disciplina de seus filhos.
Esse quadro comporia um cenário mais que propício a relações familiares
violentas e, portanto, responderia como causa fundamental dos desapare-
cimentos. Compreendê-lo seria imprescindível para que todos aqueles que
lidam com a questão não culpabilizem “famílias” de pessoas desapareci-

54 Adriana Vianna
das pelos episódios por que passaram, mas, ao contrário, identifiquem o
perverso agente perpetrador de desaparecimentos e possam indignar-se
diante dele (BOLTANSKI, 1993, p. 98): o fenômeno da “violência intra-
familiar”. Compreendê-lo, enfi m, permitiria reconhecer, a um só tempo,
“famílias” específicas como vítimas particulares e a “violência familiar”
como causa geral dos casos de desaparecimento.
Assim entendido o fenômeno do desaparecimento, fundamentalmente
as formas de prevenção a serem adotadas devem ser dirigidas às “famílias”
e às “comunidades”. Em função disso, muitos gestores descreveram os li-
mites e as possibilidades abertos por serviços públicos de assistência social
e pelo Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC),41
e afi rmaram a necessidade de fornecer atendimento psicológico e progra-
mas de reintegração de crianças e adolescentes a suas “famílias”. Tornan-
do possível essa reintegração, abrigos e outras medidas temporárias de
acolhimento seriam “de fato temporárias”, nas palavras de gestores, já que
as “famílias” estariam mais bem preparadas para receber e “proteger”
seus fi lhos, prevenindo novos desaparecimentos.
Em múltiplas falas, gestores afi rmaram que é preciso dar atenção às
“famílias” sobretudo porque “as mães perdem seus referenciais, seus em-
pregos e nem podem contar com seus companheiros” quando seus fi lhos
desaparecem. Chamando a atenção para sua “força”, nomearam algumas
mães presentes e associações de mães representadas no evento e ecoaram
trabalhos como os de Araújo (2007) e Nobre (2005), dizendo que “muitas
mães só reencontram sentido para viver ao se reunirem” e integrarem as-
sociações, ONGs e movimentos sociais.
Ainda que, segundo os gestores, o alvo fundamental de ações de pre-
venção deva ser “a família”, para eles é preciso, também, “capacitar aque-
les que recebem as denúncias: nossos policiais”. Treinando “a polícia” e
conscientizando seus funcionários quanto à gravidade do problema, seria
possível estabelecer as bases para “o atendimento adequado das famílias”
e, assim, reverter o fato de que atualmente muitos casos não são objeto de
registros policiais. Além disso, seria necessário que “a polícia” comparti-
lhasse com conselhos tutelares as ações de busca e localização de desapa-

41 Instituído em 2006, o plano é apresentado como “um marco nas políticas públicas no
Brasil, ao romper com a cultura da institucionalização de crianças e adolescentes e ao fortale-
cer o paradigma da proteção integral e da preservação dos vínculos familiares e comunitários
preconizados pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A manutenção dos vínculos fami-
liares e comunitários – fundamentais para a estruturação das crianças e adolescentes como
sujeitos e cidadãos – está diretamente relacionada ao investimento nas políticas públicas de
atenção à família” (BRASIL, 2006, p. 17).

O fazer e o desfazer dos direitos 55


recidos, já que a maior parte dos casos não envolve crimes ou suspeitas de
crime. Em convergência com o que afi rmam inspetores do SDP, a ausência
de componentes criminais justificaria, também para os gestores, que ou-
tros órgãos assumissem responsabilidades que têm sido equivocadamen-
te atribuídas a repartições policiais. Ainda que seja necessário que toda
“família” dirija-se a uma delegacia para comunicar um desaparecimento,
para eles é preciso que a polícia não monopolize a gestão dos casos e que
“os conselheiros tutelares sejam mais presentes”.
Por fi m, gestores afi rmaram repetida e enfaticamente que, para com-
bater as causas do desaparecimento, é preciso dissociá-lo do fenômeno
da pobreza. Para eles, castigos físicos e psicológicos, entre outras formas
de “violência familiar”, não ocorrem apenas em determinadas camadas
sociais. Por conseguinte, desaparecimentos também não se confi nariam a
certas porções da população. Esse entendimento foi expresso, entre outros
momentos, na frase “há famílias desestruturadas em todas as classes so-
ciais”, proferida na Mesa de abertura do evento.
Em suma, a perspectiva dos gestores governamentais apresentada no
Encontro da ReDesap é a de que, na contemporaneidade, não se pode mais
contar com “famílias” que protejam crianças e adolescentes. Vítimas de
processos que as transcendem, “famílias” em que há violência, castigos
físicos e relações confl ituosas, ao não proteger e oferecer “carinho e aco-
lhimento” a suas crianças e adolescentes, provocam suas fugas de casa.
São tais fugas que constituem, do ponto de vista dos gestores, os casos
de desaparecimento. Essa situação é ainda agravada pela inexistência de
serviços de assistência social adequados e repartições policiais com pro-
fissionais preparados para lidar com casos de fuga. Para os gestores, é na
ausência dessa “família que protege” e de profissionais que a auxiliem que
cresce, em número e gravidade, o problema do desaparecimento de pessoas
no Brasil.

4.2. “Minha família se desestruturou depois que minha filha desapareceu”


Embora apenas uma delas tenha se apresentado em Mesas, quatro mães de
pessoas desaparecidas, fundadoras de organizações não governamentais,
fi zeram-se ouvir nos debates levados a cabo no encontro. As quatro eram
conhecidas de muitos palestrantes, tendo sido citadas repetidas vezes não
só por meio de referências a seus nomes e/ou aos nomes das organizações
que fundaram, mas também por evocações às histórias dos desapareci-
mentos de seus fi lhos. Das quatro, uma não só fundou uma organização
para assistir famílias e buscar medidas de combate ao desaparecimento

56 Adriana Vianna
de crianças e adolescentes em seu estado de origem como também seguiu
carreira política como vereadora.
Em suas falas, diferentemente dos gestores governamentais, as mães
não destacaram números e estatísticas, nem apresentaram diagnósticos do
desaparecimento. Emitindo “enunciados de opinião”, e não “enunciados
de saberes” (BOLTANSKI, 1993), seu relatos foram construídos na pri-
meira pessoa (ora do singular, ora do plural), apresentaram suas trajetórias
como mães, como parte de famílias vitimadas por um mesmo infortúnio
e, ainda, como fundadoras de associações que buscam suprir a falta de
assistência que cada uma delas enfrentou ao vivenciar o desaparecimento
de um fi lho.42 Fazendo uso do que Boltanski (1993) designa como “estilo
emotivo”, as mães inscreveram-se em seus enunciados, tornando-se elas
próprias objeto de suas falas. Ao fazê-lo, transportaram suas experiências
de sofrimento para o amplo espaço de debate propiciado pelo encontro,
generalizando suas emoções, expectativas e posições diante dos desapa-
recimentos específicos de seus filhos para tratar do desaparecimento de
pessoas no Brasil. Nesse sentido, referiram-se a suas trajetórias tanto como
fundamentais para a apresentação de si quanto como representativas de
uma coletividade: as mães de pessoas desaparecidas.
Frases impactantes e reveladoras da articulação entre singularidade e
generalização empreendida pelas mães foram repetidas vezes enunciadas.
Melhor que qualquer descrição, alguns exemplos descortinam e sintetizam
sua posição no evento:

“Pra onde foram nossas crianças?”

“Se eu tivesse enterrado minha fi lha, eu teria me acostumado com a ideia


de não vê-la mais.”

“O que me mata aos poucos é a incerteza.”

“Ter um fi lho desaparecido é ter a vida suspensa.”

“Não sabemos se estão vivos, mortos, passando frio ou fome. Quando


chove, pensamos onde eles estão dormindo, se estão na rua, se têm aga-
salho.”

42 “Enunciados de opinião” carregam afi rmações originais, derivadas de experiências sin-


gulares, e emitem julgamentos indissociáveis do sujeito da enunciação e de sua perspectiva
(BOLTANSKI, 1993, p. 87).

O fazer e o desfazer dos direitos 57


“Não queremos a piedade de ninguém, queremos atenção, somos vítimas
de uma situação grave.”

“Eu tenho vergonha de viver num país que tem um cadastro nacional de
veículos roubados, mas não tem sequer um banco de dados nacional sobre
pessoas desaparecidas.”

Em um dos intervalos programados para acontecer entre duas Mesas,


as quatro mães atuantes no encontro, às quais se juntaram outras cinco
que integravam o evento como parte do público, foram homenageadas.
Inesperadamente, uma senhora pediu o microfone aos organizadores do
evento e recitou uma poesia de sua autoria escrita para uma das mães ali
presentes. Intitulada “Uma frágil mulher de aço”, a poesia foi lida por
sua autora enquanto as nove mães se postaram, de pé e de mãos dadas,
de frente para o público presente. Ao fi nal da leitura, a autora da poesia
chamou a atenção para palestrantes que se ausentaram do evento, embora
estivessem listados na programação, e deixou no ar a indagação: “Onde
estão nossos governantes?”43
Essa interrogação revela a perspectiva das mães do desaparecimento de
pessoas no Brasil. Segundo elas, por falta de uma assistência que lhes deve-
ria ser prestada por “governantes” ou pelo “Estado” e também por falta de
uma atuação sensível e adequada por parte da “polícia”, suas “famílias”
se desestruturam ao vivenciar o desaparecimento de um de seus membros.
Em outros termos, as mães identificam a omissão de agentes responsáveis
por assistir “famílias” de pessoas desaparecidas como a principal causa do
fenômeno. Contrapondo-se à perspectiva dos gestores governamentais, as
mães afi rmaram diversas vezes que “o desaparecimento não acontece por-
que a família é desestruturada”. Invertendo os termos da equação enun-
ciada pelos gestores, relataram que seus casamentos foram devastados,
outros fi lhos foram afetados e suas contas bancárias acabaram “zeradas”
em função do desaparecimento de seus filhos. Enfatizando que sempre fo-
ram “boas mães” e provedoras de “bens de cuidado” (VIANNA, 2006) no
limite do possível, situaram o desaparecimento de seus fi lhos como pontos
de inflexão em suas vidas, que as fi zeram sair de uma rota de vida familiar
“cheia de carinho” para um tortuoso caminho de faltas e sofrimento.

43 Houve duas ausências na Mesa programada para tratar do papel dos meios de comuni-
cação na prevenção e no combate aos desaparecimentos. Como os organizadores não foram
avisados previamente, no horário programado para a Mesa esperamos por alguns minutos
que os palestrantes chegassem, supondo apenas um atraso.

58 Adriana Vianna
Afi rmaram que suas vidas “perderam o sentido” quando seus fi lhos
desapareceram e narraram experiências pessoais de divórcio, perda de em-
prego, dívidas contraídas com detetives particulares e noites consumidas
em angústia. Indo ao encontro de uma das afi rmações repetidas por ges-
tores, relataram que tentam reencontrar esse “sentido” reunindo-se em
organizações e tentando suprir a carência de assistência vivida por outras
mães. Citaram, nesse sentido, exemplos de estratégias por elas desenvol-
vidas para enfrentar a “negligência do poder público”, como a chamada
“Mãe da Vez”, rede de cuidados idealizada por uma associação de mães de
desaparecidos em que uma mãe fica responsável por várias crianças de sua
vizinhança quando outras precisam se ausentar. Afi rmaram, enfi m, que
“juntas vamos guardar nossas crianças”, mas que pra isso é também ne-
cessário o engajamento do “Estado”, visto como responsável pela questão.
Nas palavras de uma das mães, “não importa se a criança fugiu de casa, o
Estado tem que se responsabilizar”.
A ausência do “Estado” manifesta-se, do ponto de vista das mães, so-
bretudo na inexistência de legislação pertinente que regule a gestão e o
enfrentamento de casos, de tecnologia (sistemas de informação, bancos de
DNA e sistemas de envelhecimento de fotografias são por elas vistos como
essenciais) e de serviços de assistência social de qualidade. A ela soma-se,
ainda, outra ausência de que as mães se queixam enfaticamente: a falta de
sensibilidade, conhecimento e capacidade para lidar com casos de desapa-
recimento, característica da “polícia” ou das “delegacias”. Evocar tanto a
ausência do “Estado” quanto de sensibilidade por parte de funcionários
de repartições são formas pelas quais cidadãos lidam com a humilhação
e a indiferença que eventualmente sofrem por ocasião de encontros bu-
rocráticos (cf. HERZFELD, 1992). No caso das mães de desaparecidos,
humilhação e indiferença são apenas dois dos vários sentimentos elencados
em suas denúncias daquelas ausências.
Também recorrendo a relatos em primeira pessoa, as mães narraram
cenas de maus-tratos, preconceito, negligência e desconfiança por que pas-
saram nas delegacias de polícia a que se dirigiram para reportar o desa-
parecimento de seus fi lhos. Afi rmaram que policiais demonstraram desco-
nhecimento do tema e, por vezes, ofensivamente associaram seus fi lhos e
fi lhas a redes de prostituição e diversas suspeitas de crime. Tais afi rmações
permitiram compreender a defesa de um “atendimento adequado” nas de-
legacias proferida por muitos gestores governamentais.
As quatro mães afi rmaram ter sido orientadas a retornar às delega-
cias 24 e/ou 48 horas depois da constatação do desaparecimento de seus

O fazer e o desfazer dos direitos 59


fi lhos, sustentando que se faz presente entre policiais o chamado “mito
das 48 horas”. Segundo esse “mito”, assim classificado por ser objeto de
amplo conhecimento e uso entre policiais, embora não tenha sido jamais
formalizado por qualquer instrumento legal, um desaparecimento só pode
ser comunicado à polícia passados dois dias de sua constatação. Segundo
as mães, o “mito das 48 horas” evidencia a desconfiança com que todas
foram recebidas nas delegacias, onde “sempre pensam que nossos fi lhos
saíram de casa por motivos ruins ou por nossa culpa, e que só não vão
voltar se não quiserem”.
Suas narrativas de atendimentos em repartições policiais, também
transitando entre descrições de experiências particulares e generalizações
e acusações amplas, foram apresentadas de modo a sinalizar que a polícia
não só não acredita no que elas e outros familiares dizem, como também
escolhe não agir diante dos desaparecimentos de seus fi lhos. Nesse sentido,
seus relatos denunciaram que a imposição da espera de 48 horas é um re-
curso de que policiais lançam mão para se eximir de sua responsabilidade
ou, ao menos, adiar o quanto possível sua atuação. Se o intervalo temporal
entre prestações e contraprestações condensa o caráter tão generoso quan-
to obrigatório da reciprocidade (BOURDIEU, 1996), a espera das 48 horas
condensaria, para as mães de desaparecidos, o caráter tão discricionário
quanto obrigatório da atuação de policiais diante de suas demandas. Ao
denunciar a vigência do “mito das 48 horas”, portanto, essas mulheres
apontaram para a inação e o desrespeito a elas (contra)prestado pela po-
lícia quando se dirigiram a delegacias para prestar queixa do desapareci-
mento de seus filhos.
Uma das mães presentes disse, inclusive, que sua experiência em uma
delegacia de polícia, compartilhada com outras mães, motivou-a a ter sido
responsável pela redação do texto da Lei Federal n. 11.259, de 30 de de-
zembro de 2005, que institui que:

A investigação do desaparecimento de crianças ou adolescentes será rea-


lizada imediatamente após notificação aos órgãos competentes, que deve-
rão comunicar o fato aos portos, aeroportos, Polícia Rodoviária e compa-
nhias de transporte interestaduais e internacionais, fornecendo-lhes todos
os dados necessários à identificação do desaparecido. (BRASIL, 2005)

O tempo é apresentado pelas mães como um dos grandes inimigos de


todos aqueles que buscam pessoas desaparecidas. Os efeitos do “mito das
48 horas”, assim como da desconfiança e da falta de dedicação de policiais
às investigações de desaparecimentos, seriam agravados pela passagem do

60 Adriana Vianna
tempo. Duas mães perguntaram a policiais, em distintos momentos do
evento, “o que acontece com as investigações dos casos com a passagem
dos anos?”, revelando o descompasso entre temporalidades (HERZFELD,
1992) inerente a encontros entre cidadãos e funcionários de repartições
burocráticas. Depositando esperanças no desenvolvimento de tecnologias,
perguntaram também se já há disponibilidade em alguma repartição po-
licial de sistemas de envelhecimento de fotografias que permitam divulgar
fotos de seus fi lhos que os retratem não como eram quando desaparece-
ram, mas como seriam em qualquer momento presente.
Enfi m, confi rmando o que me foi dito por inspetores do SDP, as mães
sentem que há desconfiança por parte da polícia diante de suas narrativas.
Se, conforme me disseram no setor, “famílias mentem”, da perspectiva
das mães é exatamente essa premissa que orienta policiais no atendimento
rotineiro a todos aqueles que se dirigem a delegacias. Tal desconfiança le-
varia policiais a sequer iniciar as investigações, “muito menos levar a sério
que existe tráfico de órgãos e tráfico de pessoas no Brasil” – fenômenos
que, nas palavras de algumas das mães presentes no encontro, seriam as
reais causas de muitos desaparecimentos.
Para essas mulheres, o desaparecimento não deriva da falta de uma
“família que protege” os seus, como afi rmaram os gestores, mas é a causa
da desestrutura de grupos familiares. As causas do fenômeno residiriam
em outros fenômenos, igualmente complexos e de imprescindível combate,
como o tráfico de seres humanos, o tráfico de órgãos e, ainda, a falta de
serviços públicos de assistência social que forneçam apoio e proteção a
“famílias” e lhes permitam manter-se “unidas”. Para as mães, em suma,
o desaparecimento é um problema de que são vítimas, que lhes causa um
sofrimento continuado e que evidencia a ausência do “Estado” nas vidas
daqueles que necessitam de assistência seja para cuidar, seja para localizar
seus fi lhos. Não obstante, o sofrimento que o fenômeno causa é ainda
agravado pela maneira como policiais agem diante delas e de seus relatos.
De seu ponto de vista, para caracterizar a atuação da “polícia” diante do
fenômeno, melhor seria falar em omissão, indiferença e inação.

4.3. “Não temos a estrutura necessária”


Representando diferentes delegacias e setores da Polícia Civil de vários es-
tados brasileiros, delegados e inspetores de polícia contabilizaram a maior
parte dos participantes do evento. Contudo, apenas um deles proferiu uma
fala programada, integrando uma Mesa como representante de quatro de-
legacias especializadas do Rio de Janeiro: a Delegacia de Proteção à Crian-

O fazer e o desfazer dos direitos 61


ça e ao Adolescente (DPCA), a Delegacia da Criança e Adolescente Vítima
(DCAV), a Divisão Antissequestros (DAS) e a Delegacia de Homicídios
(DH). Em seu discurso, o policial apresentou números de casos de desapa-
recimento atendidos pelo Setor de Descoberta de Paradeiros (SDP) da DH,
números estes que lhe foram apresentados previamente por um dos cinco
inspetores que trabalham no setor. Esse inspetor foi, inclusive, o único
funcionário do SDP presente e atuante em debates durante todo o evento.
Assim como ele, os outros policiais presentes no encontro integraram o
público do evento, tendo participado de debates e se reunido nos intervalos
com o intuito de trocar experiências.
As falas dos policiais foram, em geral, mais curtas e diretas que os
relatos pessoais das mães e que as afi rmações categóricas dos gestores go-
vernamentais. O mote central de suas participações nos debates foi, sem
dúvida, um reconhecimento de que é preciso modificar a maneira como
agentes e repartições policiais lidam com o desaparecimento, sobretudo
em função dos relatos de atendimentos frustrantes e desrespeitosos fei-
tos pelas mães ao referirem-se a delegacias de polícia. Afi rmaram repeti-
das vezes que a troca de experiências entre os presentes no encontro seria
fundamental para que medidas bem-sucedidas possam ser adotadas em
diferentes estados. Em convergência com relatos de inspetores do SDP, no
evento policiais colocaram-se na posição de espectadores comovidos dian-
te do sofrimento experimentado por mães e familiares de desaparecidos.
Restringindo-se a responder às mães e, em dado momento, pedindo
desculpas pelos episódios por elas vividos em delegacias, de forma sintéti-
ca os policiais a um só tempo se responsabilizaram e se eximiram de res-
ponsabilidade pela forma como lidam com o desaparecimento. Também
recorrendo ao “estilo emotivo” (BOLTANSKI, 1993), figuraram nas falas
como parte do objeto de suas próprias enunciações. Afi rmando que em ge-
ral não sabem como lidar com o fenômeno, que desconhecem suas causas
e que não são treinados para enfrentar as suscetibilidades das “famílias”
de desaparecidos, sustentaram que o problema central a ser enfrentado é
a ausência do tema nos cursos de formação oferecidos pelas Academias de
Polícia e a inexistência de modelos de investigação de casos de desapareci-
mento. Nas palavras de um delegado, “a gente vem aqui de público fazer
um mea culpa diante das mães, mas de fato a maior parte dos policiais
não sabe como lidar com o desaparecimento”. De modo análogo ao dos
gestores governamentais, que apontaram o fenômeno da “violência fami-
liar” como causa geral de desaparecimentos que recai sobre “famílias”
particulares, os policiais falaram de uma ampla falta de conhecimento e

62 Adriana Vianna
meios de investigação como característica geral da “polícia” que recai es-
pecificamente sobre cada um deles e cada delegacia policial, engendrando
um tratamento inadequado dos casos.
Do ponto de vista de delegados e inspetores presentes no evento, o de-
saparecimento é um problema invisível e mal investigado por policiais em
função de três ausências específicas: o tema não consta dos cursos de for-
mação e capacitação de policiais, não é objeto de instrumentos legais ade-
quados e muitas repartições policiais não têm os meios necessários para in-
vestigar casos com celeridade. A falta de viaturas, computadores, sistemas
de informação, tecnologia e outros bens imprescindíveis a seu trabalho,
portanto, seria uma das raízes da maneira falha com que a polícia tem
lidado com o desaparecimento. Nos termos de um policial, “não temos a
estrutura necessária” e “não sabemos lidar com as tragédias das famílias”.
À falta de estrutura deve ainda ser acrescentado, segundo os policiais,
o fato de que “famílias” de pessoas desaparecidas que retornam a suas
casas frequentemente não notificam a volta do desaparecido. Muitas inves-
tigações policiais, por isso, restariam abertas, embora os casos já tenham
sido solucionados. Esse seria um indício de que, nas palavras de um delega-
do de polícia, “as famílias fornecem informações precárias” e dificultam o
trabalho policial – palavras essas que ecoaram e ampliaram dizeres de ins-
petores do SDP já apresentados aqui. Portanto, ainda que tenham pedido
desculpas às mães presentes por atendimentos pouco respeitosos e/ou ine-
ficazes, policiais também afi rmaram que parte das dificuldades de se lidar
com o desaparecimento de pessoas decorre da maneira como as “famílias”
se aproximam da “polícia”. Se, conforme enunciaram as mães, a “polícia”
encara as “famílias” de forma omissa, desrespeitosa e indiferente, para
os policias tal relação consiste em uma via de mão dupla. Somando-se as
perspectivas desses dois grupos de atores, portanto, nota-se que o encontro
entre “policiais” e “famílias” engendra o crescente distanciamento entre
os dois grupos, vistos como unidades facilmente diferenciáveis e tipificá-
veis, e perpetua estereótipos (HERZFELD, 1992) construídos por ambos
a respeito uns dos outros e de suas condutas.44

44 A circulação de estereótipos entre atores e sua mútua concepção como unidades estan-
ques e facilmente tipificáveis é mais um traço característico de encontros burocráticos, con-
forme apontado por Herzfeld (1992), que se faz presente nas falas sobre o atendimento de
mães e “famílias” por policiais. Nas palavras do autor, “the art of bureaucrat game-playing,
whether from client to bureaucrat or the other way about, lies in esentializing one’s own
actions as logical on the strongly implied grounds that they rest on eternally valid rights or
self-evidence. The other side’s actions, by contrast, are capricious and irrational, based on
personal or cultural fl aws, and wrongheaded” (HERZFELD, 1992, p. 86).

O fazer e o desfazer dos direitos 63


Em suma, enquanto mães apontaram para a ausência do “Estado” e
a inação da “polícia”, gestores governamentais trataram da ausência de
relações familiares de proteção entre indivíduos como causas do desapare-
cimento de pessoas no Brasil. Policiais, por sua vez, em vez de discutir as
causas do fenômeno, identificaram a ausência de conhecimento e de meios
materiais característica de sua rotina de trabalho como razão da maneira
falha como o desaparecimento é enfrentado no Brasil. Cada um deles e
cada repartição policial, assim, seriam vítimas dessa ausência de conheci-
mento e de meios materiais para lidar de modo adequado com o fenômeno
do desaparecimento.
Se, conforme venho sugerindo até aqui, encararmos o posicionamento
desses atores diante uns dos outros como um jogo de forças de caráter
enunciativo, poderemos encontrar a questão que os reúne, o desapareci-
mento de pessoas, situada na interseção entre múltiplas ausências. As falas
dos atores presentes e atuantes na Polícia Civil do Rio de Janeiro e no II
Encontro da ReDesap revelam que faltas alternadamente evocadas, ora
“do Estado”, ora “da polícia”, ora “da família”, somam-se ao elemento
central de todo caso de desaparecimento: a ausência da pessoa desapareci-
da entre aqueles que por ela procuram.

5. Considerações finais
A análise de Boltanski (1993) da introdução da compaixão na política,
processo constitutivo da própria ideia de espaço público, revela que formas
de compadecimento diante de episódios de sofrimento desempenham pa-
pel central no estabelecimento de laços sociais e políticos. Precipitando-se
em “causas” pelas quais é moralmente imperativo mobilizar-se, a exibição
de experiências de sofrimento engendra a modulação de enunciados, a de-
limitação de grupos e a identificação, em processos variados, de “vítimas”,
“espectadores” e “agentes” implicados em episódios de sofrimento (BOL-
TANSKI, 1993, p. 95).
Casos de desaparecimento de pessoas comparecem em falas e relatos
de policiais, gestores governamentais e mães de desaparecidos como epi-
sódios causadores de sofrimento que exigem empatia, mobilização e com-
prometimento por parte de múltiplos atores sociais. Conforme revelam as
posições e reflexões registradas no presente trabalho, para inspetores do
SDP da DH do Rio de Janeiro e para membros diversos da ReDesap, casos
de desaparecimento permitem identificar “vítimas” e “agentes” de sofri-
mento, bem como “agentes” capazes de combatê-los. Contudo, policiais
e diferentes membros da ReDesap identificam de modo bastante distinto

64 Adriana Vianna
quem são essas “vítimas” e “agentes” do sofrimento específico causado
pelo desaparecimento de uma pessoa.
Distribuindo responsabilidades por meio de atos de fala, gestores go-
vernamentais diagnosticam o desaparecimento como fenômeno causado
pela “violência intrafamiliar” e passível de combate por “famílias” que,
apoiadas em redes de assistência social, protejam seus membros e evitem
suas fugas de casa. Para eles, a ausência de uma “família” que proteja seus
membros tem como consequência o desaparecimento de alguns deles. Já
para mães de desaparecidos, o desaparecimento deve ser encarado como
consequência da ausência de um “Estado” que disponibilize redes de as-
sistência social de qualidade e serviços policiais sensíveis e competentes
para prevenir e solucionar casos como os de seus fi lhos. Para policiais,
fi nalmente, o fenômeno é objeto de desconhecimento e, se recebe trata-
mento inadequado, isso se deve à ausência de saberes e meios materiais ne-
cessários à boa investigação dos casos no interior de repartições policiais.
Situado na interseção entre tantas ausências, portanto, o desaparecimento
comparece nas falas e reflexões desses atores como um problema social
constituído por vazio plural.
Sintetizando o que argumentei até aqui, o vazio que constrói o desapa-
recimento de pessoas não concerne simplesmente à falta do desaparecido em
meio àqueles que o procuram. Sem dúvida, essa ausência causa impactos
profundos em todos que venham a se envolver com um caso de desapareci-
mento. Entretanto, a análise aqui empreendida sugere que uma multiplici-
dade de outras ausências faz da falta da pessoa desaparecida a manifestação
particular de um problema social. A relação entre cada caso e o fenômeno
do desaparecimento, nesse sentido, não consiste simplesmente na dupla par-
te versus todo. Em vez disso, cada caso se torna parte do problema social
mais amplo por ser encarado como consequência de um conjunto maior de
ausências: a ausência de um “Estado” assistente, a ausência de uma “polí-
cia” sensível e competente e, ainda, a ausência de uma “família” protetora.
Buscando estabelecer limites rígidos de competências diante do desa-
parecimento, gestores governamentais, mães de pessoas desaparecidas que
se tornaram, também, membros de organizações não governamentais e
inspetores e delegados de polícia referem-se de forma recorrente a três uni-
dades delimitadas como “a polícia”, “as famílias” e “o Estado”. Essas uni-
dades são substancializadas no jogo enunciativo que tece o desaparecimen-
to como problema a ser combatido. Mais do que um fenômeno em função
do qual indivíduos desaparecem sem deixar vestígios, fazendo sofrer suas
“famílias” e demandando atenção da “polícia” e assistência do “Estado”,

O fazer e o desfazer dos direitos 65


o desaparecimento de pessoas é construído, enfi m, como um problema que
manifesta a ausência de atuação adequada por parte dessas três unidades.
Contudo, antes de encerrar este texto, convém relembrarmos o caso de
Domingos Mota, cujo desaparecimento foi notificado à polícia por sua tia
Clara. Como apresentado na introdução deste texto, ao dirigir-se ao SDP
para comunicar que Domingos já havia sido encontrado, Clara solicitou
que o inspetor que a atendeu devolvesse a fotografia de seu sobrinho que
até então estava anexada a registros policiais. Clara afi rmou tratar-se de
um retrato pertencente a um álbum de família, daí sua solicitação.
O vaivém do retrato de Domingos entre o álbum de família e uma Sin-
dicância de desaparecimento repleta de carimbos, assinaturas e registros
policiais adverte-nos de que é preciso encarar cuidadosamente a delimi-
tação de unidades construída pelos atores que se envolvem com casos de
desaparecimento. Se “a polícia”, “o Estado” e “as famílias” são objeto de
enunciados que lhes atribuem, de forma excludente, responsabilidades es-
pecíficas diante do desaparecimento de pessoas, a fotografia de Domingos
indica que casos de desaparecimento não se situam estaticamente na esfera
de competências de uma ou outra dessas unidades. Para fins de análise, é
preciso encarar a vida social “como uma justaposição de redes de nego-
ciação em torno de objetos relativamente predeterminados” (DUARTE,
1996, p. 164). Procedendo-se assim, nota-se que o desaparecimento de
pessoas, exatamente como a fotografia de Domingos, transita entre re-
gistros policiais, carimbos oficiais e memórias familiares. Mais do que
isso, procedendo-se assim, nota-se que, tanto quanto o desaparecimento
de pessoas, unidades como “a polícia”, “o Estado” e “as famílias” podem
(e devem) ser objeto de interrogação e reflexão.

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O fazer e o desfazer dos direitos 67


Os direitos e os “avessos”: contradições e
ambiguidades em torno das decisões e “direitos,
sexuais e reprodutivos”, de jovens vivendo
com HIV/Aids

Claudia Carneiro da Cunha45

1. Introdução
Os adolescentes e jovens vivendo com HIV/Aids têm despontado como
figuras privilegiadas das ações mais recentes no campo da Aids. Apesar de
“jovens” infectados pelo vírus HIV não serem uma novidade na epidemia
(CRUZ, 2005), o que se tem configurado como “novo” é a emergência da
ideia de jovens e de uma juventude vivendo com HIV/Aids, a partir, so-
bretudo, do crescimento das crianças infectadas por transmissão vertical
(da mãe para o bebê), cuja promessa de vida esteve fortemente ameaçada
até o advento dos antirretrovirais de alta potência, o “coquetel”, surgido
em meados da década de 1990.46
A etnografia que embasa este trabalho47 revela a complexidade de ques-
tões em torno do surgimento da figura de jovens vivendo com HIV/Aids.
Como indicam as discussões baseadas nas observações de campo, não se
trata de compreender as “especificidades” de uma “juventude sobreviven-
te” afetada pela Aids, mas sim entender como esses sujeitos se constroem,
vão sendo gestados e gestam a si próprios, com base em determinadas
imagens, representações e linguagens consolidadas nesse mundo social. A
sexualidade é o locus privilegiado dessa gestão, uma vez que é percebida

45 Doutora em Antropologia Social no PPGAS/MN/UFRJ e pós-doutoranda no IMS/UERJ,


com o apoio do CNPq.
46 No corpo do texto, o itálico corresponde a expressões êmicas, os meus grifos encontram-
-se entre aspas, bem como as expressões de autores citados.
47 O presente capítulo é parte da minha pesquisa de doutoramento, realizada entre os anos
2006 e 2011, vinculada ao PPGAS/MN/UFRJ. Para a realização da pesquisa, contei com o
apoio da Capes, que me concedeu bolsa de estudo ao longo do doutorado, da Faperj (Jovem
Cientista do Nosso Estado/Adriana Vianna) e da Finep (“Políticas para a diversidade e os
novos sujeitos de direitos: estudos antropológicos das práticas, gêneros textuais e organiza-
ções de governo – Diverso”), realizado no Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e
Desenvolvimento (Laced), Museu Nacional/UFRJ.
socialmente como exacerbada na juventude, podendo resultar em novas
infecções pelo HIV e gravidezes “indesejadas”. As diferentes pedagogias
implicadas nesse processo apontam para a obrigação de dizer a verdade
sobre si mesmo por meio da sexualidade, configurando a obrigação de
certo deciframento de si (FOUCAULT, 2008). E a dimensão normativa
como eixo privilegiado da análise, por toda a carga de idealidade, parece
iluminar, por contradição, os “avessos”: as situações que contrariam as
prescrições; os sujeitos, que, ao representarem um “perigo coletivo” e des-
pertarem forte comoção social, colocam em xeque o “sujeito de direitos”
idealizado (RIOS, 2003).48
Em face dos direitos diferenciados, os jovens soropositivos,49 pela du-
pla condição de vulnerabilidade (soropositividade e menoridade), apare-
cem situados em um entroncamento. De um lado, estariam respaldados
pelos direitos das pessoas vivendo com HIV/Aids, que, no entanto, não
contemplariam as especificidades da condição juvenil, notadamente a au-
tonomia reduzida. De outro, estariam cobertos, ao menos até os 18 anos,
pelos princípios legais do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA),
que garantiria “o respeito a sua peculiar condição de pessoa em desenvol-
vimento”, entre outros aspectos de “proteção”.
Entretanto, para além do HIV/Aids, como sinalizam Ventura e Corrêa
(2006), são notórias as ambivalências em torno da dimensão da tutela e
da autonomia dos adolescentes, que podem ser identificadas nas práticas
sociais e no conteúdo da própria legislação específica sobre adolescência,
em especial quando se trata das esferas da reprodução ou da sexualidade.
Assim, é no cotidiano das experiências – que podem ser dramáticas nos
casos em que os jovens infectam parceiros ou engravidam, como visto na
pesquisa que embasa este trabalho – que se tornam visíveis e agudizadas

48 O autor salienta que, apesar das disputas teóricas, “no senso comum jurídico, sujeito de
direito é o ser humano concreto, capaz de adquirir direitos subjetivos e contrair obrigações.
É uma categoria que abrange tanto seres humanos quanto pessoas jurídicas” (RIOS, 2003,
p. 100). Trata-se de uma categoria socialmente construída, tendo sua compreensão condicio-
nada à história.
49 Na pesquisa que subsidia este trabalho, percebe-se uma distinção entre os termos
“adolescente”/“adolescência” e “jovem”/“juventude”. Os primeiros estariam associados a
uma visão mais “problemática”, relacionada com a “idade” e seus “hormônios”. Os últimos,
por sua vez, estariam associados a uma visão mais positiva, de sujeitos propositivos, capazes
de tomar decisões acertadas e de agir com certa “independência”. Neste trabalho, privilegia-
rei a palavra “jovem” por ser aquela que predomina no universo do projeto estudado, ainda
que preserve os termos “adolescente”/“adolescência” nas expressões êmicas e nos trechos de
autores citados. Cabe dizer que o termo “soropositivo(a)” será utilizado ao longo do texto
como sinônimo de “pessoa vivendo com HIV/Aids”. Para um melhor entendimento dessas
nomenclaturas na história da epidemia, ver Valle (2002).

O fazer e o desfazer dos direitos 69


essas ambiguidades e contradições em torno dos “direitos” desses sujeitos,
em especial dos direitos sexuais e reprodutivos.
Tais aspectos parecem ser compensados pela “exigência”, no que con-
cerne aos jovens, de uma excelência do controle de si, pela doença e por
meio da prevenção, bem como pelo cultivo (no plano da participação em
instâncias de controle social) de uma retórica que demanda “o singular do
singular” no que diz respeito aos “direitos” desses jovens. Isso significa,
em especial, no movimento de Aids, pleitear o reconhecimento de necessi-
dades bastante específicas em relação a esse grupo.
A modulação político-moral dos jovens soropositivos, que precisam ser
exemplares na gestão de seus corpos e desejos, faz com que, em certo sen-
tido, eles não sejam contemplados pela tolerância da irresponsabilidade
parcial da idade. Tais jovens estariam em uma posição híbrida, entre serem
os loci cruciais de certa biopolítica objetivada e os militantes dela mesma,
sendo (con)formados como “quadros” que devem ser mais eficientes ainda
na aplicação das ações biopolíticas do que os “adultos” que os “orientam”.
É nessa perspectiva que se defi ne, no âmbito da etnografia, o papel de jo-
vem protagonista com base em um ideal de jovem responsável.
Note-se que a noção de responsabilidade é central nas discussões aqui
engendradas, por sua dimensão ideal e, ao mesmo tempo, difusa. Afi nal,
o que é ser responsável no exercício da sexualidade? No caso dos jovens
vivendo com HIV/Aids, essa noção remete às tecnologias de si que possibi-
litam aos indivíduos realizar, por seus próprios meios ou com o auxílio de
outros, determinadas operações sobre seu corpo e sua alma, pensamentos,
ações ou qualquer forma de ser, alcançando, por conseguinte, uma trans-
formação de si mesmos (FOUCAULT, 2008, p. 48). 50
Dessa forma, o presente trabalho analisa, do ponto de vista antropoló-
gico, um conjunto de experiências de constituição de jovens vivendo com
HIV/Aids, com base na etnografia de um projeto social voltado a jovens
soropositivos e profissionais de saúde que atuam com essa clientela. Com
foco no lugar social (e legal) desses jovens, especialmente nas esferas da
sexualidade e reprodução, serão privilegiadas, no âmbito do projeto, as
observações em torno de uma proposta de dramatização teatral, na qual
os jovens e os profissionais de saúde deveriam “trocar os papéis”. Tal pro-

50 “[…] tecnologías del yo, que permiten a los individuos efectuar, por cuenta propia o con
la ayuda de otros, cierto número de operaciones sobre su cuerpo e su alma, pensamientos,
conducta, o cualquier forma de ser, obteniendo así una transformación de sí mismos con el
fi n de alcanzar cierto estado de felicidad, pureza, sabiduría o inmortalidad” (FOUCAULT,
2008, p. 48).

70 Adriana Vianna
posta expõe as vísceras de um processo tenso de cuidado e responsabiliza-
ção no qual os jovens soropositivos, entre “vítimas” e “algozes”, vão sendo
desenhados e projetam a si mesmos.

2. A etnografia: jovens e Aids entre dramas e representações


O projeto social etnografado encontrava-se estruturado sob o formato de
oficinas, encontros e eventos com vistas à formação de jovens protagonis-
tas. Sua viabilização deu-se por meio de parcerias entre uma organização
não governamental (ONG) de comunicação em jornalismo, uma ONG
pioneira na luta contra a Aids no Brasil (Ong-Aids) e um hospital do Mi-
nistério da Saúde do Brasil. Os dois últimos apresentam uma trajetória de
trabalho com crianças e jovens vivendo com HIV/Aids. As oficinas eram
realizadas no hospital e na ONG-Aids. Vale dizer que o projeto contou
com o fi nanciamento de ONGs internacionais e com o apoio do Programa
de Aids do Ministério da Saúde.51
Como parte do projeto, estava prevista não só a formação dos jovens,
mas também de um grupo de profissionais de saúde, em sua maioria mu-
lheres, que atuam em serviços de saúde públicos e em ONGs com jovens
vivendo com HIV/Aids. Tais encontros de capacitação consistiram, pre-
dominantemente, em palestras e debates com especialistas de várias áreas
sobre temas que articulassem Aids, adolescência e juventude, à exceção da
atividade de “troca de papéis”, que reuniu esses profissionais de saúde e os
jovens em uma mesma ação pedagógica.
A referida atividade de capacitação, com base em técnicas teatrais, ob-
jetivou estreitar o contato entre jovens e profissionais, com vistas, segundo
uma das idealizadoras do projeto, a modificar o olhar do profi ssional de
saúde que não acredita que o jovem vivendo com HIV/Aids tenha poten-
cial. Essa era uma ideia predominante no projeto, que pretendia contrapor
a concepção corrente de que os “órfãos da Aids”, hoje adolescentes e jo-
vens, não iriam “vingar” (cf. CRUZ, 2005).
Algumas oficinas precederam esse encontro de “troca de papéis”. Tais
oficinas, tanto para os jovens como para os profissionais, pretendiam ins-
trumentá-los para lidar com questões consideradas importantes. No caso
dos jovens, para que eles pudessem falar de seus “dramas” em relação à
experiência com a Aids, com destaque para o tema sensível da “revelação
do diagnóstico”. Além do estímulo à expressividade corporal desses sujei-
tos, estava em jogo a ideia de dar voz aos jovens. Em relação aos profissio-

51 Recentemente denominado Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.

O fazer e o desfazer dos direitos 71


nais, para que estes, sensibilizados e munidos de conhecimentos sobre a
“realidade” dos jovens vivendo com HIV/Aids, pudessem compreendê-los
ao máximo, o que, em última instância, impactaria a assistência à saúde
desses grupos.
Nesse sentido, antes de descrever a atividade de “inversão dos papéis”,
retratarei uma oficina com os jovens sobre o tema da “revelação do diag-
nóstico”, realizada com fi ns de preparação para aquela atividade. Cabe
dizer que as mencionadas palestras destinadas à capacitação dos profis-
sionais de saúde, apesar de não receberem aqui um tratamento específico,
irão subsidiar algumas discussões travadas na parte fi nal deste trabalho.

Dramas em cena
Como forma de trazer à tona a experiência dos jovens com a Aids, a ofi-
cina sobre o tema da “revelação do diagnóstico” consistiu na proposta de
criação de histórias reais ou imaginadas sobre essa temática e na posterior
encenação teatral de uma das histórias eleitas pelos jovens. Os jovens fo-
ram organizados em duplas e auxiliados pela coordenadora das oficinas,
que lhes propunha “casos típicos” de situações de revelação do diagnósti-
co, de modo que não precisassem, necessariamente, “falar de si mesmos”.
Cabe sinalizar que o grupo, predominantemente constituído por jovens
infectados por transmissão vertical e marcados por perdas em decorrência
da Aids, como a orfandade, apresentava uma particularidade. Parte dele
era composta por jovens de camadas populares, moradores de bairros de
baixa renda, inseridos em arranjos familiares diversos (netos vivendo com
avós ou tios, adotados por familiares ou não etc.), e outra parte era for-
mada por jovens moradores de uma casa de apoio52 voltada para crianças
“órfãs da Aids” ou de famílias em situação de pobreza.
Os jovens da casa de apoio, apesar da origem pobre (e do retorno a
ela com a saída da casa de apoio em razão da maioridade), parecem viver
durante determinado tempo de suas vidas em uma espécie de “bolha so-
cial”: estudam em escola particular, viajam com frequência, têm uma vida
cultural intensa, entre outros aspectos. A ideia de “bolha social” também
serve para representar as fortes restrições quanto ao trânsito dos jovens
fora da casa de apoio e desacompanhados de educadores. Esses elementos
impactam profundamente a forma como os jovens lidam com a Aids, con-
sigo mesmos e com os outros.

52 Para uma discussão sobre casas de apoio voltadas a crianças e jovens vivendo com HIV/
Aids, ver Cruz (2005).

72 Adriana Vianna
Retomando a oficina, após a criação das histórias, as duplas de jovens
deveriam relatá-las para todos os presentes e, em seguida, dramatizar uma
história de escolha do grupo. A primeira história, relatada por uma dupla
de rapazes, tinha como personagens “o pai e o fi lho”. O pai não revelou
para o filho que este era portador do HIV. Assim, o filho só foi informado
pelo pai sobre sua condição sorológica quando já jovem, após uma relação
sexual sem preservativo. O fato de a mãe do rapaz não ter realizado o pré-
-natal e o protocolo de prevenção da transmissão vertical estaria relacio-
nado com a transmissão do vírus da mãe para o filho. Nota-se que, após
descobrir ser soropositivo, o rapaz teria iniciado o tratamento. Segue o
modo pelo qual a dupla relatou a história:

o fi lho não sabia que tinha o vírus e transou, o pai não contou para ele.
Só depois que o menino nasceu que o pai soube [que ele e a esposa eram
portadores do HIV], a mãe não fez o pré-natal. Foi isso: rolou sem cami-
sinha, descobriu [o HIV] e começou a se tratar. (grifo nosso)

Nessa primeira história, a relação sexual sem preservativo do rapaz


revela forçosamente o HIV, e o se tratar parece encerrar a situação, sendo
silenciada a possibilidade de a parceira dele ter sido infectada. O fato de
os pais só terem tomado conhecimento do HIV após o nascimento do filho
parece suprimir a ideia de uma contaminação intencional de uma das par-
tes do casal, da mãe para o fi lho ou mesmo do fi lho/rapaz para a parceira.
E a situação de o rapaz e a parceira não terem usado o preservativo é lida
pelos jovens autores da história como descuido dos dois (grifo nosso).
Em seguida a esse primeiro relato, outra dupla, composta por uma moça
e um rapaz, contou uma história que insinua um episódio de transmissão ver-
tical: “uma gestante fez o pré-natal, fez o teste [anti-HIV], mas só soube do
resultado [de soropositividade para o HIV] depois do nascimento do filho”.
Nas duas histórias relatadas, a falta do pré-natal ou o pré-natal sem
o resultado do teste anti-HIV em tempo hábil à prevenção da transmis-
são vertical caracterizam fatalidades e situações percebidas pelos jovens
como evitáveis. Sinalizam não só o entendimento do pré-natal como parte
dos cuidados em saúde reprodutiva, mas, principalmente, apontam para a
angústia dos jovens, na medida em que a soropositividade deles próprios
poderia ter sido impedida – ainda que o protocolo de prevenção da trans-
missão vertical não fosse uma realidade na época do nascimento deles.53

53 O Sistema Único de Saúde (SUS) passou a cobrir os custos da redução da transmissão do


HIV da mãe para o fi lho, por meio da Portaria n. 822, de 2003.

O fazer e o desfazer dos direitos 73


Tais histórias revelam, pela ausência de explicitações e supressão de
palavras, o temor dos jovens, e o peso que sobre eles recai, diante da pos-
sibilidade de transmitirem o vírus ao parceiro sexual e afetivo, ou mesmo
ao fi lho, em caso de gravidez.
Assim, ainda como parte da dinâmica da oficina, abriu-se um debate
no grupo sobre os motivos que levaram o pai da primeira história a não
contar para o filho sobre a soropositividade deste. A maior parte dos jo-
vens justificou que o pai omitiu a condição sorológica do filho por medo
de o filho não aceitar e ficar com raiva dos pais por não terem se cuidado
direito (grifo nosso). Essa questão gerou outra discussão no grupo sobre
a melhor pessoa para revelar o diagnóstico: o médico ou os pais/família?
Chama atenção nesses diálogos a polarização das esferas pessoalidade/
proximidade da família versus impessoalidade/distância profissional do mé-
dico na abordagem de um tema deveras delicado, entrelaçadas com o tipo de
transmissão (via sexual versus transmissão vertical) e suas moralidades dife-
renciadas, já que os jovens infectados por transmissão sexual seriam consi-
derados “culpados”, como se houvessem “procurado” a infecção, e os jovens
infectados por transmissão vertical, “vítimas” das circunstâncias, ressoan-
do representações estigmatizantes do início da Aids (cf. CRUZ, 2005).
Vê-se também o predomínio de um padrão de família “pais e fi lhos”
avesso à realidade da orfandade, do abandono, da adoção ou da tutela pela
casa de apoio, vivenciada pela maior parte dos jovens do grupo. Ilustra tais
dimensões um diálogo do grupo:

Jovem 1: Para o médico, é mais fácil dar o diagnóstico, o médico não tem
relação pai e fi lho, é o trabalho dele.

Jovem 2: Nem sempre é fácil.

Jovem 3: A melhor pessoa para contar [sobre a soropositividade do fi lho]


é o pai e a mãe, têm jeitinho. O médico falar antes seria traição. A não ser
que não tivesse os pais acompanhando.

Jovem 4: [se foi infectado por] via sexual mais fácil é o médico [contar
sobre a soropositividade do jovem].

Jovem 5: Minha avó [com quem morava por conta da orfandade] nunca
me contou. Perguntava para ela e não me contou por ignorância: [pensa-
va] “ela [neta] vai morrer mesmo”. Não aceito, era para ter contado, senão
[eu] ia saber por boca de médico.

74 Adriana Vianna
Nas demais histórias do grupo, destacam-se aquelas produzidas pela
maior parte dos jovens da casa de apoio. Nessas histórias, o jovem se infec-
ta por via sexual (o oposto da experiência de todos: a transmissão vertical)
na ocasião de uma festa, em decorrência do uso de álcool e do descontrole
quanto às medidas preventivas. É frequente uma marca de gênero, uma vez
que quem se “descontrola” com o álcool é do sexo feminino.
A história escolhida pelo grupo para a dramatização é exemplar desse
tipo de narrativa. Trata-se de uma jovem que recebe a primeira permissão
dos pais para ir a uma festa. Nesse contexto, ela ingere bebida alcoólica,
relaciona-se sexualmente sem o preservativo e se infecta pelo HIV. A des-
coberta da condição sorológica se dá depois que a jovem se sente mal e
realiza o teste anti-HIV. Após a descoberta do diagnóstico, sem saber o
que fazer, ela conta o fato aos pais. Interessante perceber nesses enredos
que, após a relação sexual desprotegida, sentir-se diferente ou mal é o
sinal necessário à busca imediata pelo teste anti-HIV, com um recorrente
desfecho de vida normal ou de não deixar de ser uma pessoa normal,
apesar da infecção pelo HIV e do decorrente tratamento da Aids. Vale
destacar a construção da narrativa pela dupla de jovens: “Clara foi a uma
festa, a primeira permitida pelos pais, bebeu, dormiu junto, sentiu-se mal
e fez o teste [anti-HIV], deu positivo e não sabia o que fazer e contou para
os pais” (grifo nosso).
Na dramatização dessa história, um personagem médico foi criado
para mediar a situação de revelação do diagnóstico de Clara aos pais. O
médico foi dramatizado por Camila, jovem órfã, adotada pelos tios depois
de viver a infância com a avó, que omitia a doença à neta. Clara, a per-
sonagem principal, foi protagonizada pela coordenadora das oficinas do
projeto. Os personagens do pai e da amiga (Fernanda), que promoveu a
festa, foram desempenhados por um rapaz e uma moça da casa de apoio.
E o papel de mãe foi representado pela psicóloga da ONG-Aids. Vale dizer
que tais cenas foram feitas em sequência, de improviso, sem roteiro ou
ensaios, com base na história destacada construída pela dupla de jovens.
Segue a dramatização:

Cena 1 (Clara no consultório médico)

Médico: [com a mão no queixo, diz]: Tenho uma fi lha da sua idade…

Clara: Não conta pros meus pais…

O fazer e o desfazer dos direitos 75


Médico: Vou contar, mas não do jeito que você me falou. Rolou? Sem
camisinha? Ele [o parceiro] era legal… podia ser o pai [do bebê]? Aids
dá na pessoa que transa sem camisinha, faz besteira. Não se deve chorar
pelo leite derramado. Faz os exames e no mês que vem volta. Se pegou [o
HIV], você vai vir com seus pais. Prefere trazer ou prefere que eu ligue
[para eles]?

Cena 2 (Clara no consultório médico)

O médico: Tudo bom, mocinha? Não tenho uma notícia muito boa. Você
está com o vírus [HIV]. Você não tem Aids. Se você se cuidar, não vai
te deixar na cama… [mas se você não se cuidar] a Aids praticamente te
mata.

Clara [repetidas vezes, pergunta]: Mas qual a diferença [entre estar com
o vírus HIV e ter Aids]?

Médico [a jovem altera a voz, impaciente, e, nervosa, pede água para


a coordenadora das oficinas]: Tem como se cuidar com o vírus, se não
tomar [remédio]… fundo do poço, internar, morrer. Barra agora contar
para seus pais… Eu preciso contar para seus pais. Se você cair doente, vai
ser melhor [contar para eles]. Traz a sua amiga Fernanda [a amiga que
deu a festa].

Cena 3 (Clara e Fernanda no consultório médico)

Médico [dirigindo-se a Fernanda, a amiga]: Você contou pra mãe dela [de
Clara] que ia ter bebida na festa?

Médico [dirigindo-se a Clara]: Você foi à casa dela, e de quem é a respon-


sabilidade?

Amiga: É dela [de Clara].

Médico [dirigindo-se à amiga]: Poderia ser você [ter transado sem o pre-
servativo e se infectado].

Amiga: Eu, não, porque eu não sou burra!

Cena 4 (Clara e os pais no consultório médico)

76 Adriana Vianna
Médico: Sua fi lha andou cansada… Você deixou ela ir para a festinha,
cada um tem uma reação… Sua fi lha está com uma doencinha, ela pegou
Aids, HIV. É só ela se cuidar!

Mãe [grita para o pai, estupefato]: Ela está com o vírus da Aids!

Médico: Vou encaminhar para um hospital decente, e essa mocinha aí


pode, infelizmente, estar grávida.

Fim de cena.

Observa-se no diálogo que compõe a cena um jogo de atribuição de


responsabilidades em relação aos atores envolvidos na trama, em face dos
“desvios”54 do não uso do preservativo por Clara, da iniciativa da amiga
Fernanda em dar uma festa com o consumo de bebida alcoólica e dos pais
de Clara em consentirem que a filha fosse a uma festa com esse perfil. Cau-
sa admiração o mimetismo da jovem Camila na representação do papel de
médico, valendo-se de uma expressão verbal e corporal masculinizadas
e paternais, indicando o trabalho social contínuo de construção de uma
relação assimétrica. Um médico que apura os fatos com uma lente moral,
buscando no escrutínio da situação pela qual a jovem Clara teria se infec-
tado sanear “os erros” e encaminhar à reparação dos “danos”.
É importante perceber a frequente retórica do “descuido”, a exemplo
das ideias constantes na dramatização de quem pega Aids é burro, faz
besteira. Todavia, a gravidade da doença que mata, que atinge jovens, que
se transmite na relação sexual e amorosa, e de mãe para fi lho, pode ser
amenizada pelo discurso tem HIV, mas não tem Aids (tem o vírus, mas
não desenvolveu a doença), utilizado frequentemente no campo investiga-
do a fi m de minimizar as percepções negativas em relação à doença, que
de outro ângulo pode ser percebida como uma doencinha.
Se a ideia de ter HIV, mas não ter Aids, remete aos critérios da biome-
dicina55 em relação à manifestação da doença e seus marcadores labora-
toriais, nas relações sociais tal distinção recebe uma força extraordinária,
uma vez que amplia as possibilidades de elaboração das imagens de si e de
ser aceito pelo outro. No campo investigado, a expressão tem HIV, mas

54 Sigo aqui as proposições de Becker (1977) sobre desvio. Para o autor, o desvio não é algo
que exista no próprio comportamento, mas decorre da interação entre a pessoa que comete
um ato e aqueles que reagem a ela.
55 Sobre esse conceito, ver Camargo Jr. (2005) e Luz (2007).

O fazer e o desfazer dos direitos 77


não tem Aids é frequente, sendo uma variação da ideia de que é soroposi-
tivo, mas não tem Aids.
Em situações como a encenada, pode-se perceber que a autonomia re-
duzida associada à gravidade e ao estigma da doença atinge diretamente
a questão da privacidade, da possibilidade de autodeterminação e escolha
dos jovens diante das situações que a vida apresenta, colocando em ques-
tão os limites do ideário normativo dos adolescentes e jovens como “sujeito
de direitos”, do modo como a legislação nacional e as diretrizes interna-
cionais propõem.56
Reconhecendo essa tensão entre autonomia e proteção, a coordenadora
das oficinas promoveu junto aos jovens um segundo debate, no sentido de
pensar a história de Clara sob o ponto de vista do adolescente. O grupo
avaliou que o médico fez certo, e somente um jovem achou a história en-
graçada. Destacam-se trechos da discussão do grupo:

Coordenadora das oficinas: Vocês fariam diferente? Uma palavra que


vocês gostariam de escutar? Um adolescente pode ir sozinho ao médico?
O médico pode contar ou não [o diagnóstico de soropositividade] sem a
permissão do adolescente? Por que seria melhor [o médico] contar [aos
pais sobre a soropositividade da filha]?

Jovem 1: Ele [o médico] tem obrigação [de contar], se ela [Clara] é de me-
nor. Se fica doente, a culpa é dos pais.

Jovem 2: [O médico conta para os pais] para impedir [a jovem] de passar


o vírus [nas relações sexuais].

Coordenadora das oficinas: Pai e mãe impedem [os fi lhos] de transar?!

Jovens (em coro): Não!

Jovem 3: O menino é soropositivo [o que infectou Clara], e ele não se


cuida, [ele] é amigo? Ele é um zé-ninguém!

Jovem 4: Ele [jovem que infectou Clara] podia não saber que tinha o HIV.

56 Refi ro-me aqui à Convenção sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989) e ao Estatuto da
Criança e do Adolescente (BRASIL, 1990).

78 Adriana Vianna
Coordenadora das oficinas: O médico conta [para os pais sobre a
soropositividade do adolescente] quando minha vida está em risco, 57
ele [o médico] poderia ter perguntado ao adolescente: tem alguém [em]
que[m] você confia [para trazer à consulta]?

O debate que se seguiu a essa discussão girou em torno da importân-


cia ou não de o médico tomar conhecimento das condições nas quais a
personagem Clara teria se infectado. A coordenadora das oficinas ainda
pontuou criticamente a reação da amiga (Fernanda), que teria dito para
Clara: a culpa é sua, você que se vire! Lançando outro questionamento ao
grupo: o médico chama a amiga para culpá-la?
Camila, a jovem que protagonizou o papel de médico, então se posi-
cionou no grupo: “Melhor que o médico soubesse da história. Foi difícil
[desempenhar o papel de médico], porque prometi que não ia falar de cara
[para os pais de Clara], mas os pais iam perguntar [para a fi lha]: ‘Como
você pegou [o HIV]?’ Por isso contei a história.”
Antes mesmo da dramatização dessa história, Camila havia defendido
no grupo que a personagem de Clara poderia ter contado diretamente aos
pais o modo pelo qual se infectara. Assim: “A primeira festa que vocês
[pais] me liberam [permitem ir], aconteceu isso e por isso eu fiquei com isso.
Aconteceu isso, por causa disso e por isso está com isso” (grifos nossos).
A palavra “isso” no discurso de Camila refere-se aos acontecimentos,
mas remete, sobretudo, de uma forma codificada, tanto à relação sexual
como ao HIV, consequência tão “indesejável” quanto a gravidez – em es-
pecial na adolescência, aliada à condição de soropositividade. O “isso”
significa o que não pode ser dito, aspecto também percebido em outra his-
tória criada por uma dupla de jovens: “Um garoto de programa, pam pam
psi pereré [sons que acompanhavam gestos em menção ao ato sexual] e se
infectou. O médico falou para o garoto: ‘Quem procura acha’.”
Já no fi nal da oficina, a coordenadora retomou a discussão com o gru-
po sobre o fato de Camila, no papel de médico, ter se irritado ao explicar
a diferença entre ter HIV e Aids, e, dirigindo-se ao grupo, perguntou:
“Vocês viram como ela [Camila] ficou nervosa? Por que o médico naquela
hora precisa de água?” Um jovem respondeu: “Porque é difícil…” Camila
então desabafou: “Me senti médica! Me coloquei no lugar de uma mãe.

57 Observa-se que a coordenadora das oficinas fala frequentemente em nome de um “nós”,


como se quisesse minimizar as “diferenças” e “distâncias” construídas entre os “jovens so-
ropositivos” e os “profi ssionais soronegativos”. No caso em questão, a frase seria: “o médico
conta quando a vida do jovem está em risco”.

O fazer e o desfazer dos direitos 79


Agi como mãe… e de repente tem uma filha como a Clara!” A coordena-
dora então sinalizou ao grupo: “Médico não pode reagir como mãe.”
A dramatização da história de Clara traz em cores vivas as “diferen-
ças” (sempre marcadas pelos atores sociais nesse campo da pesquisa) entre
os jovens infectados por transmissão vertical e aqueles infectados por via
sexual. Nessa distinção, observa-se que a mesma Aids, que pode levar para
o fundo do poço, internar e morrer, mostra uma face mais dócil quando
se nasce com ela.
Há, portanto, uma economia moral que se constrói em torno das ex-
periências dos jovens com a doença e o tratamento, tributárias às formas
de infecção (vertical ou sexual) e suas marcas sociais diferenciadas, em
especial em termos de estigma, como mostram alguns depoimentos:

Se nasceu [com o HIV], mais fácil se conformar, [se infectar por via] se-
xual é mais difícil… nunca tomou remédio… pegou Aids, tem que tomar
remédio, chatéssimo! Uma pessoa que nunca tomou [os remédios] e come-
ça a tomar, chatão… [lidar com os] sintomas… de uma hora para outra
descobrir que pegou. Se pegasse [o HIV] agora ia me sentir mal. (Camila,
15 anos, transmissão vertical)

O médico [falou]: “Tenho uma notícia nada boa. Você é soropositivo.”


[Falei:] “que isso, compadre?!” Mas antes de fazer o exame estava com
o psicológico preparado. Será que eu tinha ou não [o HIV]. Lógico que
foi uma porrada. Vou fazer o quê? Vou me matar? (Ricardo, 19 anos,
transmissão sexual)

Tem gente que se mata. (Paulo, 18 anos, transmissão vertical)

Oitenta por cento dos casos das pessoas que sabem mais tarde têm uma
reação e se mata… É mais fácil uma pessoa que nasceu cega do que aquela
que já enxergava. Tem muito do costume. Eu nunca tomei remédio pra
nada. [Ter de tomar] três comprimidos todos os dias… A pessoa que nas-
ceu [com o vírus] tomava [remédio] na mãozinha da mamãe. (Ricardo, 19
anos, transmissão sexual)

Percebe-se, então, que os jovens consideram a revelação do diagnóstico


nos casos de transmissão vertical como mais fácil – o pai contar para o
filho – em comparação com os casos de transmissão sexual – o filho contar
para o pai que é portador do vírus.

80 Adriana Vianna
Observa-se ainda nas dramatizações e relatos apresentados a presença
de tecnologias de reforma do sujeito calcadas na emoção, que se afigura
como meio de expressão e veículo privilegiado de comunicação da expe-
riência de viver com Aids na juventude. Com base nessas mesmas tecno-
logias, estruturou-se a atividade subsequente de “troca de papéis”, que
envolveu jovens e profissionais de saúde. Descrevo a seguir essa atividade.

Invertendo os papéis
Para a participação das ações de capacitação do projeto social, foram ins-
critos 36 profissionais, a maioria mulheres, com o seguinte perfil: 11 en-
fermeiras, 1 técnica de enfermagem, 9 psicólogas, 2 médicas (1 pediatra e
1 infectologista), 1 estudante de medicina, 1 bióloga, 1 ativista de ONG-
-Aids, 1 pedagoga, 4 assistentes sociais (3 cursando pós-graduação) e 1
assistente administrativo. No entanto, apenas 11 profissionais permanece-
ram até o fi nal das ações do projeto, que ofereceu encontros de capacita-
ção mensais durante um ano.58
O grupo de jovens incluídos no projeto somava um total de 20 partici-
pantes, 10 vinculados ao serviço de saúde do Ministério da Saúde (hospi-
tal) e 10 vinculados à ONG-Aids. Todavia, apenas três jovens, os poucos
que frequentavam as oficinas nos dois espaços (ONG-Aids e hospital), se
dispuseram a participar da atividade aqui analisada. Cabe dizer que os
jovens da casa de apoio dependiam da autorização e da companhia dos
educadores da instituição, o que dificultava sua presença nessa atividade
“extra”, pois esta era realizada fora do dia e horário habituais do projeto.
Por sua vez, os jovens ligados ao hospital estavam distantes em termos de
localização da ONG-Aids, onde a atividade foi realizada, o que foi um
empecilho à sua participação.
Quanto ao perfil dos três jovens envolvidos na atividade, todos eram
maiores de idade, sendo dois deles irmãos, Paulo e Rita, de 18 e 20 anos,
respectivamente. Esses irmãos, órfãos e infectados por transmissão vertical,
eram egressos da casa de apoio, cursando os últimos anos do ensino médio.

58 Esses encontros de capacitação consistiram, predominantemente, em palestras e debates


com especialistas de várias áreas (sobretudo médicos, mas também psicólogos e advogados)
sobre temas que articulassem Aids, adolescência e juventude. Tais encontros, realizados na
sede da ONG-Aids, assumiam também um caráter de confraternização e troca de experi-
ências. Como produto dos encontros estava prevista a confecção de uma pequena cartilha,
destinada a profi ssionais de saúde, que abordaria as principais questões ao atendimento de
adolescentes soropositivos. Vale dizer que os profi ssionais se inscreviam no projeto por inicia-
tiva própria, com base em sua divulgação em serviços de saúde e ONGs que atendem pessoas
vivendo com HIV/Aids.

O fazer e o desfazer dos direitos 81


Estudaram a maior parte da vida em escola particular da Zona Sul do Rio
de Janeiro, e ambos iniciaram o tratamento para o HIV/Aids ainda quando
crianças. O terceiro jovem, João, de 20 anos, infectado por via sexual, até
então assintomático,59 era morador de favela, negro, com baixa escolarida-
de, tendo trabalhado desde cedo em atividades de baixa remuneração e vín-
culo precário, contando com algum apoio financeiro e emocional dos pais e
da namorada, também participante do projeto, apesar de soronegativa.
Os perfis desses jovens conferiam certa “materialidade” à recorrente
diferenciação no campo estudado entre os jovens infectados por “trans-
missão vertical” e aqueles que adquiriram o vírus por “transmissão sexu-
al”. Como espécies de “tipo ideais”, tais perfis balizavam diferentes experi-
ências, olhares e concepções dos jovens e dos profissionais de saúde acerca
dos temas-chave da atividade, que eram: “revelação do diagnóstico”, “pre-
venção” e “aderência ao tratamento”.60 A escolha desses temas deve-se ao
fato de serem eles pontos nevrálgicos no cuidado dos jovens soropositivos,
tanto para os profissionais de saúde quanto para os pais/responsáveis, ain-
da que de modo diferenciado.61
Assim, para o início da atividade, os profissionais de saúde foram di-
vididos em três grupos. Cada grupo ficaria responsável por uma das te-
máticas descritas, devendo, separadamente, criar cenas que abordassem a
temática de escolha. Posteriormente, cada grupo de profissionais deveria
dramatizar uma cena, baseada em uma história de autoria própria, para
todos os presentes na oficina. Por sua vez, os três jovens, que assumiriam o
lugar de profissionais de saúde (médicos),62 atuariam,, cada qual, em uma

59 Expressão oriunda da biomedicina que indica a presença do vírus HIV no organismo,


mas a não manifestação de sintomas, a Aids. Tal expressão no uso comum caminha junto à
ideia “tem HIV, mas não tem Aids”.
60 Trata-se de uma categoria de uso corrente entre profi ssionais de saúde no campo da Aids,
muitas vezes como sinônimo de “adesão” ao tratamento. O termo adherence expressa o sen-
tido de “concordância autônoma” do doente com o tratamento. As medidas de aderência va-
riam conforme o método de medida utilizado e a defi nição do que seja uma “boa aderência”.
A maior parte dos estudos trabalha com um padrão mínimo de quantidade de medicação
tomada (JORDAN et al., 2000).
61 Os temas “revelação do diagnóstico”, “prevenção” e “aderência ao tratamento”, de algum
modo articulados, são constantes em trabalhos voltados a crianças, adolescentes e jovens
vivendo com HIV/Aids. Eles condensam uma série de questões, dilemas e confl itos presen-
tes nesse universo, sobretudo pelo horizonte de exercício da sexualidade na juventude, e as
possíveis consequências indesejáveis para a saúde dos jovens soropositivos e de seus parceiros
sexuais. Para um melhor detalhamento dessas temáticas, ver Moreira e Cunha (2003); Ayres
et al. (2004); e Cruz (2005).
62 Note-se a primazia da figura do médico (no masculino) na representação do papel de
“profi ssional de saúde”.

82 Adriana Vianna
única cena, de forma espontânea, desconhecendo previamente o enredo das
histórias e os personagens que seriam protagonizados pelos profissionais.
A primeira dramatização era sobre o tema “revelação do diagnóstico”.
Tratava-se de um casal que, acompanhado da fi lha, buscava auxílio de
um médico para lidar com o fato de a filha ter menstruado, entrando na
adolescência. Estava subentendida a possibilidade de a filha soropositiva
exercer a sexualidade, mesmo que esse tema não tenha sido mencionado
nas falas dos pais da jovem. Essa possibilidade se fazia sentir pela urgência
e afl ição, demonstradas pelos pais, quanto à revelação do diagnóstico para
a fi lha.
Na maior parte da dramatização, o pai e a mãe trocaram ferozes acu-
sações, em uma busca de culpados e responsáveis pela infecção do HIV
no seio da família. A mãe culpava o pai por tê-la infectado, por via sexual,
e ela, por sua vez, era acusada pelo pai de ter infectado a filha, por trans-
missão vertical. O confl ito era testemunhado pelo médico, protagonizado
pelo jovem João, que desde o início da “consulta” mostrou-se indiferente à
demanda do casal, por meio do silêncio e de uma postura de impaciência,
pouca disponibilidade e pressa.
No momento em que os pais pararam de discutir, como se aguardas-
sem um retorno do médico, este os encaminhou, sem mais explicações, ao
DIP (ambulatório de doenças infectoparasitárias). Os pais, atônitos com a
resposta do médico, recomeçaram a discussão, sinalizando total descon-
certo quanto ao manejo da puberdade da fi lha em meio à Aids. Logo em
seguida, o médico se levantou e saiu do consultório, benzendo-se com o
sinal da cruz no peito, deixando os pais falando sozinhos.
Nota-se que, apesar de algumas tentativas, a filha do casal, protago-
nizada por uma profissional de saúde, pouco conseguiu se manifestar,
restando-lhe um papel infantilizado e secundário na trama. É interessante
perceber a retórica de “desconhecimento” do diagnóstico por parte da jo-
vem, quando esta esteve presente o tempo todo na cena, demonstrando por
meio de poucos gestos e meias-palavras estar a par de sua situação.
Por fi m, João afi rmou a todos os presentes sua intenção de compor um
personagem frio, impaciente e descomprometido com a situação trazida
pelos pais da jovem. Buscava marcar a desigualdade de poder na relação
médico-paciente, reproduzindo o que ele próprio teria vivido.
O jovem descobriu ser portador do HIV ao doar sangue no hospital onde
atualmente se trata. Fora esse contexto, não teria descoberto sua condição
sorológica, pois não se percebia como “vulnerável” ao HIV. Por tudo isso, o

O fazer e o desfazer dos direitos 83


jovem guardava fortes ressentimentos em relação ao momento do diagnós-
tico, dado, segundo ele, de forma abrupta e sem o devido aconselhamento.
***

Já a segunda cena abordou o assunto da “aderência ao tratamento”.


Essa cena, a exemplo da primeira, também se desenrolou no consultório
médico, mas nesse caso quem assumiu o lugar de médica foi a jovem Rita.
Na história, uma avó analfabeta e com pressão alta era a responsável
pelo neto adolescente e seus cuidados de saúde. Segundo as profissionais de
saúde que compuseram a cena, tratava-se de uma família perdida, que não
sabia como lidar com o adolescente soropositivo, o único da família com
a doença. Ainda que a forma de infecção do adolescente não tenha sido
mencionada, estava implícito tratar-se de um caso de transmissão sexual.
Destaca-se que a avó, com base em seus parâmetros de vida, conside-
rava o neto saudável, não vendo sentido no tratamento ao qual ele estaria
submetido. Essa compreensão da avó em relação à saúde do neto, aliada
à pobreza da família e à experiência de doença crônica da avó, compunha
o quadro com base no qual o problema da aderência ao tratamento do
adolescente emergia.
Na dramatização, a médica e a avó travavam uma conversa sem a par-
tilha de significados comuns, enquanto o adolescente, encarnado por uma
profissional de saúde, não se manifestava verbalmente durante a consulta
médica. Sua presença se fazia notar por uma expressão corporal infantili-
zada e pueril e, ao mesmo tempo, inquieta e “desobediente”, na medida em
que não correspondia às expectativas de comportamento naquele setting,
burlando todo tipo de mando, seja por parte da avó ou da médica.
Já no fi nal da dramatização, a médica, mostrando-se bastante into-
lerante diante da observação da interação caótica entre o neto e a avó,
disse, como quem conclui uma situação: “O adolescente está queimando
remédio à toa!” A expressão utilizada, “queimar remédio”, corrente no
campo estudado, significa um uso inadequado das medicações por parte
do paciente, tendo como grave consequência a resistência viral e a perda ou
redução de alternativas de tratamento. Mais do que isso, tal expressão vem
revertida de forte peso e responsabilização do “paciente” pelo insucesso de
seu tratamento.
Destaca-se que Rita, ao atuar como médica, baseou-se no caso de uma
amiga, também jovem e soropositiva, que não conseguia engolir os remé-
dios antirretrovirais. Por conta disso, essa jovem passou a ingerir as medi-
cações sob a forma líquida (destinada às crianças soropositivas). Rita rela-

84 Adriana Vianna
tou que, ao acompanhar a amiga em uma das consultas, teria escutado da
médica que as assistia a seguinte declaração: “Vou [a amiga] te deixar de
lado porque você não tem mais jeito… ela [Rita] correndo atrás de remédio
[com as possibilidades terapêuticas esgotadas] e você desperdiçando: [não
vou] aturar adolescente queimando remédio à toa!”
Ao fi nal dessa cena, uma das profissionais de saúde participantes da
atividade exclamou: “Tá vendo o que a gente faz? Chama de ‘aborrecente’
e eles se sentem assim.”
***

Finalmente, a terceira dramatização girou em torno do tema da “preven-


ção”. Com base no estímulo da coordenadora das oficinas, os profissionais
encarregados desse tema decidiram encenar um grupo de prevenção de
adolescentes composto por diversos personagens: o gay, a heterossexual, a
lésbica e a virgem. Na discussão do grupo, os personagens, ali agregados
sob a categoria adolescentes, iam se colocando um a cada vez, expres-
sando seus conhecimentos, práticas e experiências quanto ao tema sexo
e prevenção. O ponto principal do debate do grupo girou em torno das
dificuldades da jovem heterossexual em “negociar” o preservativo com
o namorado, uma vez que ele não aceitava a entrada desse elemento na
relação sexual.
É interessante observar que havia um consenso implícito de que todos
os personagens do grupo eram soronegativos, paradoxo de um contexto de
ações voltado aos jovens soropositivos e reflexo de práticas e concepções de
prevenção que conservam a referência à “proteção” de soronegativos dos
soropositivos (PAIVA, 2007). Isto é, apesar da ampla difusão da ideia de
que “a Aids atinge igualmente a todos”, “[…] programas e pesquisas, inter-
venções na mídia ou em pequenos grupos face a face traduzem sempre seu
público-alvo como o cidadão ‘soronegativo’, sinônimo de ‘todos’, que deve
se proteger de alguém potencialmente ‘soropositivo’” (PAIVA, 2002, p. 21).
O primeiro a se colocar no grupo de discussão, o gay, mostrava-se
muito informado a respeito das formas de infecção do HIV e das práticas
sexuais consideradas mais ou menos seguras em relação à infecção pelo
vírus. Esse personagem, durante toda a cena, se apresentava sempre de
forma propositiva e exemplar, encabeçando as explicações relativas aos
assuntos em debate. Vale sinalizar que o profissional que protagonizou o
gay afi rmava ser essa a sua orientação sexual, baseando sua atuação na
vivência como voluntário de grupo de prevenção dirigido a jovens de uma
ONG-Aids.

O fazer e o desfazer dos direitos 85


Posteriormente, a lésbica, protagonizada por uma profissional de saú-
de, de forma tímida e sem muito jeito, fez algumas menções às práticas se-
xuais tidas como homossexuais femininas, revelando pouco conhecimento
quanto a esse universo. Seu discurso ressoava a invisibilidade das práticas
sexuais e de prevenção dessa população no âmbito dos cuidados e ações
de saúde.
Em seguida, falaram a virgem e a heterossexual. A primeira fora mo-
tivo de chacota, na medida em que alegava total desconhecimento sobre
sexo e prevenção. Para o grupo, era inconcebível alguém, nos dias de hoje,
desconhecer essas temáticas. Já a segunda, a heterossexual, era represen-
tante da questão mais espinhosa do grupo, já que, a despeito do conhe-
cimento das práticas sexuais e das formas de transmissão e prevenção do
HIV, não conseguia negociar o uso do preservativo com o namorado. Tal
situação provocava uma perplexidade geral entre os presentes, uma vez
que não eram encontradas saídas para reverter o quadro de risco da moça.
Nesse sentido, no depoimento dos personagens, chama a atenção a
exemplaridade do gay nas ações de prevenção; o modo estereotipado e
pouco convincente pelo qual a lésbica fazia menção a suas práticas sexuais
e de proteção contra a infecção pelo HIV; a ausência de veracidade no dis-
curso da virgem, ao demonstrar total desconhecimento sobre o tema sexo
e prevenção; e a desorientação da jovem heterossexual, em especial diante
das normas de gênero, que a impediria de “negociar” o preservativo com
o namorado.
O interlocutor do grupo, o jovem Paulo, no papel de médico mediador
do debate, permaneceu boa parte do tempo calado, observando os discur-
sos dos personagens. O jovem, diante da precisa performance do “gay pre-
venido” e do modo “irreal” da apresentação da lésbica e da virgem quanto
ao tema sexo e prevenção, parecia não ter muito o que dizer. Contudo,
diante do dilema da jovem heterossexual, que não usava o preservativo por
dificuldades de negociá-lo com o namorado, Paulo, no lugar de médico,
parecia não vislumbrar outra solução, além de dizer, repetidas vezes: tem
que usar [o preservativo]!
***

Após a apresentação das três cenas, abriu-se um debate entre os jovens e o


grupo de profissionais de saúde. O retorno ao assunto de como João rece-
bera o diagnóstico, de modo descuidado e abrupto ao doar sangue, gerou
um clima tenso entre os presentes. O clima mudaria para o de consterna-
ção com o relato seguinte da jovem Rita.

86 Adriana Vianna
Segundo a jovem, na casa de apoio o diagnóstico de soropositividade
não assumia o caráter de um momento específico de “revelação”, sendo
maioria menor, vai explicando devagarinho, em reuniões. Isto é, como um
espaço que “respira Aids”, as crianças vão sendo introduzidas no tema e
em sua condição sorológica desde muito pequenas.
Rita rememorou a longa estada na casa de apoio, para ela um sonho
que virou pesadelo, em referência à saída da instituição e à volta às con-
dições de vida anteriores. Tais lembranças conduziram os pensamentos da
jovem aos pontos críticos na lida com a doença, a exemplo de uma interna-
ção prolongada e sofrida por causa de uma tuberculose que quase a levou à
morte. Ao fi nal desse relato, a jovem chorou, e com ela vários profissionais
de saúde ali presentes.
Nesse momento, os profissionais se entreolhavam, como se reconheces-
sem por meio da cumplicidade de olhares que teriam ido “longe demais”
no diálogo com os jovens. O silêncio que se seguiu foi interrompido por
uma profissional de saúde que falou com um tom conclusivo: lidar com
HIV ainda é um mito!
É importante perceber nesse ponto da atividade o quanto a emoção
atenuou a distância “médico-paciente” em termos de suas posições sociais.
Um clima de “grupo de ajuda mútua” parecia englobar a todos em um
mesmo plano. Nesse contexto, os profissionais entusiasticamente começa-
ram a lançar depoimentos pessoais, por exemplo, sobre a experiência de
viver com uma doença crônica, que, “ainda que não fosse a Aids”, trazia
a dificuldade de tomar remédio todos os dias. Ou, ainda, teceram consi-
derações no sentido de baixar o grau de exigência em relação à aderência
ao tratamento: a recaída também faz parte do tratamento, recair faz parte
do recomeçar.
E, nesse movimento de “igualar as dores” e “minimizar” o poder da
ciência, da biomedicina e dos médicos, alguns profissionais faziam menção
aos remédios alternativos,63 que, em certo sentido, poderiam até substituir
os antirretrovirais: “Comer inhame levanta o sistema imunológico! Mas,
cuidado, três vezes por semana corta o efeito do coquetel!” Nessa caco-
fonia, os antirretrovirais eram personificados: “A gente fala mal do Kale-
tra!” E tema de brincadeira: “Um paciente me diz: ‘Não tomo T20… eu
tomo todas!’ [expressão popular em relação às bebidas alcoólicas].”

63 Os remédios alternativos “igualam a Aids às demais doenças”e, com isso, “igualam as


pessoas” no trato social, isto é, diminuem o sentimento das pessoas que vivem com HIV/Aids
de serem “diferentes” em razão da soropositividade (cf. CUNHA, 2004).

O fazer e o desfazer dos direitos 87


Finalmente, a temática da prevenção veio à tona no “debate” entre os
jovens e profissionais de saúde. O preservativo assumiu um lugar central
no diálogo. Os jovens relataram o modo pelo qual haviam tomado conhe-
cimento da existência do preservativo. Enquanto Paulo e Rita foram socia-
lizados – na casa de apoio – de modo a conhecer e manejar o preservativo,
desde pequeno, que na brincadeira virava balão, João só veio a tomar
ciência do preservativo no início da juventude, durante uma palestra na
escola, considerada um porre [maçante], pois se restringia às explicações
da professora de como se usa [o preservativo].
Após essas discussões, já no fi nal da atividade, a coordenadora das
oficinas lançou aos jovens e aos profissionais de saúde a pergunta que ficou
latente durante todo o encontro: vocês usam o preservativo em todas as
relações [sexuais]? Segue o debate:

Jovens (em coro): Agora, sim [usamos preservativo]!

Profi ssional de saúde 1: Quando eu comecei a trabalhar com Aids. Sou


casada, normalidade que todo mundo tem. E quando fui orientar [os pa-
cientes], não usava [preservativo], não tinha intenção [de usar]. E fui para
casa e pensei o que ia falar. Eu comecei a trabalhar com gestante e fi z o
teste [anti-HIV], sou negativa. E a única coisa que posso pedir é fidelidade
[do marido]. [Fala para o marido]: “Se você tiver uma relação extracon-
jugal, use camisinha.”

Coordenadora da oficina: É uma situação de risco.

Jovem (Paulo): Eu acho muito imprudente.

Profi ssional de saúde 2: E se, como [já] aconteceu, de se infectar com


material [perfurocortante], não foi traição [do marido]…

Jovem (Paulo) pergunta para a Profi ssional de Saúde 1: Você quer ter
fi lho? Por que não usar [o preservativo]?

Profi ssional de saúde 1: Porque eu sou igual às mulheres aqui, e você acha
que não vai ser traída.

Jovem (João): Alguém que fale para o paciente: “use camisinha” e não
usa… porque a questão não é ética, é da cabeça da pessoa.

Profi ssional de saúde 1: Casamento é uma loteria!

88 Adriana Vianna
Profi ssional de saúde 3: Negociar [o preservativo] é muito difícil, infor-
mação não muda atitude.

Profi ssional de saúde 4: Eu tenho certeza [de] que a maioria dos profissio-
nais de saúde não usam [preservativo] e não assumem…

No diálogo, chama a atenção que, enquanto os jovens se referiram a


usar o preservativo no momento – podendo inclusive ser interpretado como
um não uso prévio e um atual uso exemplar –, o depoimento de uma das
profissionais de saúde revelou o descompasso entre a prática profissional,
que preconiza o uso do preservativo, e a experiência cotidiana marcada
pelas normas de gênero, que a igualaria às demais “mulheres”, que correm
o risco de contrair o HIV de seus “maridos”.
Destaca-se o quanto os jovens egressos da casa de apoio, infectados
por transmissão vertical, são modelados no sentido de valorizar uma éti-
ca e estética da prevenção, tendo em vista que o preservativo e a retórica
da proteção fazem parte, desde tenra idade, de sua experiência no mun-
do, diferentemente do jovem infectado por transmissão sexual, que, até a
descoberta de sua soropositividade, já na juventude, tinha o preservativo
como uma realidade distante, sendo algo pouco familiar e sem sentido na
vida ordinária.
Sem reificar as “diferenças” tão propaladas no campo investigado entre
os jovens infectados por transmissão vertical e os de transmissão sexual,
há de se considerar, além das moralidades diferenciadas, antes menciona-
das, alguns aspectos que modelam de forma distinta a experiência desses
jovens: o tempo de convívio com a condição sorológica, com ou sem sinto-
mas; a Aids; a experiência ou não com o tratamento medicamentoso; pas-
sagens por internações; marcas no corpo decorrentes de infecções opor-
tunistas e/ou efeitos colaterais das medicações; tipo de arranjo familiar e
relação de tutela; acesso a benefícios, bens materiais e simbólicos, decor-
rentes da soropositividade e apoio social,64 entre outros aspectos. Todos
esses elementos, conformados por determinado momento político, social e
cultural da epidemia, conferem diferentes densidades à experiência de ser
jovem vivendo com HIV/Aids.
Finalmente, cabe assinalar que a espécie de “confissão” presente no
fi nal do diálogo, de que os profi ssionais de saúde não usam preservativo e
não assumem, só poderia ter lugar naquele momento específico do encon-
tro dos jovens com os profissionais de saúde, na medida em que foi preciso

64 Sobre esse conceito, ver Valla (1999).

O fazer e o desfazer dos direitos 89


construir, via emoção e exposição do sofrimento, uma relação mais hori-
zontalizada entre os profissionais de saúde e os jovens.

3. Contradições e ambiguidades em torno das decisões e “direitos,


sexuais e reprodutivos”, de jovens vivendo com HIV/Aids
As cenas dramatizadas pelos jovens e profissionais de saúde mostraram
controvérsias do ponto de vista ético e legal no quadro da assistência à
saúde dos jovens soropositivos, em especial pela proeminência da sexuali-
dade em meio à Aids, tensionando o referencial normativo dos adolescen-
tes e jovens como “sujeitos de direitos”. Os jovens soropositivos, em certas
condições e posições, (a)parecem privados do direito à assistência à saúde
sem anuência dos responsáveis, da autonomia de escolha nas intervenções
de saúde, bem como do direito ao sigilo e à ampla informação sobre seu
estado de saúde.65
É interessante perceber como esses aspectos se traduzem performatica-
mente na forma pela qual os profissionais de saúde interpretam o papel de
adolescente, compondo personagens infantilizados, com baixa capacidade
de expressão verbal e compreensão do que se passa consigo mesmos e em
seu entorno. A exemplo da noção de aborrecente, a representação do ado-
lescente como “problemático” é potencializada com a soropositividade, o
que impacta as práticas de profissionais de saúde que atuam junto a essa
clientela (CUNHA et al., 2001; MOREIRA e CUNHA, 2003).
Salta à vista como o lugar de “adolescente”, nos termos antes coloca-
dos, se defi ne em relação (de oposição e complementaridade) a uma con-
cepção de indivíduo “adulto”. Nesse sentido, observa-se, nos discursos dos
jovens, que ser médico ou ser mãe/pai/pais se equivalem como figuras de
“autoridade”, em uma relação marcada e construída o tempo todo como
desigual, ainda em termos de desigualdade de poder, aliada à economia
moral que se constrói em torno das diferentes vias de infecção, que os
jovens percebem como mais fácil o pai contar para o filho que este é porta-
dor do HIV do que o contrário – o filho contar para o pai que é portador
do vírus.
A via de infecção e suas moralidades diferenciadas são aspectos privile-
giados na defi nição e na autopercepção dos jovens vivendo com HIV/Aids.
Enquanto os infectados por transmissão vertical constituem uma espécie
de “milagre”, pela sobrevivência pré-coquetel, e são vistos como “vítimas

65 Para mais informações sobre os direitos dos adolescentes e jovens no âmbito da saúde,
ver Brasil (2005).

90 Adriana Vianna
inocentes” de pais percebidos como descuidados, os infectados por trans-
missão sexual são compreendidos como “culpados”, “displicentes” no cui-
dado de si, pela não prevenção e uso do preservativo.
As noções de “vítimas” e “culpados” remetem às representações do
início da epidemia. A Aids foi vinculada a grupos específicos, inicialmente
atingidos: homossexuais e bissexuais masculinos, os hemofílicos e demais
pessoas que receberam sangue e hemoderivados e usuários de drogas in-
jetáveis (cf. CAMARGO JR., 1994; CZERESNIA, 1997). Os hemofíli-
cos e demais pessoas que receberam sangue e hemoderivados foram tidos
como “vítimas”, seja do desconhecimento da doença – por exemplo, de sua
transmissão pelo sangue – ou mesmo da negligência de alguns bancos de
sangue que não realizavam o teste anti-HIV. Nos demais casos, a ideia de
que o indivíduo “procurou” a doença atribuiria a infecção a seu compor-
tamento “errado”, sendo ele próprio, portanto, o único “culpado”.
Vale ressaltar a permanência da ideia de “comportamento de ris-
co”, apesar da abertura conceitual e da prática proposta pela noção de
“vulnerabilidade”,66 calcada no ideário dos direitos humanos. A ênfase no
comportamento individual acaba por restringir a infecção pelo HIV à ado-
ção ou não de medidas preventivas por parte de indivíduos. A noção de um
indivíduo racional capaz de fazer escolhas acertadas e “saudáveis”, com
base na aquisição de “informações”, sustenta esse tipo de compreensão.
As contradições relativas aos jovens soropositivos como sujeitos de di-
reitos especiais aparecem nas descrições das cenas teatrais e nos discursos
dos jovens e profissionais de saúde vinculados ao projeto. Tais profissio-
nais, não obstante a familiaridade com os princípios legais do ECA,67 reco-
nhecem na assistência aos adolescentes soropositivos pobres uma lacuna
entre teoria e prática, quando os sujeitos de quem cuidam devem ser pro-

66 O conceito de vulnerabilidade visa a substituir as noções de “grupo de risco” e “com-


portamento de risco”: “[…] busca estabelecer uma síntese conceitual e prática das dimensões
sociais, político-institucionais e comportamentais associadas às diferentes susceptibilidades
de indivíduos, grupos populacionais e até mesmo nações à infecção pelo HIV e às suas con-
sequências indesejáveis (doença e morte). […].” (AYRES et al., 1997, p. 32). De acordo com
Ayres et al. (2003), o termo vulnerabilidade, originário da área da advocacia internacional
pelos Direitos Universais do Homem, adentra mais amplamente o campo da saúde a partir da
publicação nos Estados Unidos, em 1992, do livro Aids in the world, parcialmente reeditado
no Brasil em 1993 (MANN et al., 1993).
67 O ECA substitui o regime anterior da Lei n. 6.697, de 10 de outubro de 1979 (Código de
Menores – revogado), que se restringia às crianças e aos adolescentes em “situação irregular”,
passando a reconhecer todas as crianças e todos os adolescentes como “sujeitos de direitos”
na pluralidade de condições sociais e individuais. O estatuto dá cumprimento aos compro-
missos internacionais assumidos na Convenção sobre os Direitos da Criança das Nações
Unidas (1989) e regulamenta o art. 227 da Constituição Federal de 1988 (cf. BRASIL, 2005).

O fazer e o desfazer dos direitos 91


tegidos, pois “vulneráveis” – pela pobreza e pela soropositividade –, e, ao
mesmo tempo, controlados, pela possibilidade de disseminação do vírus
a “outros”.
Nesse sentido, os discursos dos profissionais revelam o confl ito entre
deixar o jovem (muitas vezes lido como abandono) ou controlar, diante
do conhecimento de que esses jovens exercem a sexualidade em contextos
sociais marcados pela pobreza e, muitas vezes, pela violência. Verificam-
-se questionamentos variados durante o trabalho de campo, como: Como
lidar com a questão da disseminação [do HIV] quando o jovem tem múl-
tiplos parceiros? Tem uma pessoa que dissemina [o HIV] porque quer; o
programa [de saúde] pode quebrar o sigilo? A outra pessoa está em risco!
Como fazer quando [o paciente] é um bandidão, e se chamar [a parceira
dele no serviço de saúde], [o profi ssional de saúde] vai levar teco [tiro]?
Nesses questionamentos, observam-se vários fatores. Um deles é a as-
sociação corrente no campo da Aids entre “ter múltiplos parceiros” e “dis-
seminar o vírus”. Outro é o reconhecimento de que, apesar da necessidade
de proteção e do respeito “à inviolabilidade da integridade física, psíquica
e moral” do jovem,68 quando o sujeito representa um “risco” para parcei-
ros sexuais, para o fi lho (em caso de gravidez), ou, de modo diverso, para
os próprios profissionais de saúde (no caso de quebra de sigilo), tais reco-
mendações podem ser colocadas em questão.
Donde se vê que a condição de adolescentes soropositivos (pobres) re-
vela desigualdades sociais e de poder, que, sobrepostas, abalam critérios
(já bastante ambíguos em sua defi nição) dos marcos legais dirigidos aos
jovens, tais como aqueles que prezam o “desenvolvimento intelectual” e a
“condição de discernimento” ao exercício dos direitos à saúde, incluindo
a sexual e reprodutiva.
No âmbito da atenção aos jovens, tais questões ganham um colori-
do especial em função da “menoridade” como “relação de dominação”
(VIANNA, 2002). Ser “menor”, segundo o entendimento da autora, sig-
nifica ser objeto de uma ação tutelar cuja legitimidade advém do compro-
misso moral em proteger aqueles que não podem proteger a si mesmos. No
caso estudado, os jovens são igualmente percebidos como incapazes ou

68 Conforme prevê o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (arts. 3o, 15 e 17), a


“condição de pessoa em desenvolvimento” não subtrai da criança e do adolescente “o direito
à inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral, abrangendo a identidade, a auto-
nomia, os valores e as ideias, o direito de opinião e expressão, de buscar refúgio, auxílio e
orientação”.

92 Adriana Vianna
não totalmente capazes de “proteger os outros”, notadamente da infecção
pelo HIV, o que traria um ônus à sua própria “proteção”.
Quando se percebe um coletivo ameaçado pela possibilidade de dissemi-
nação do vírus, como garantir “o melhor interesse do adolescente”? Como
conciliar a tolerância à irresponsabilidade parcial da idade com a noção que
prega que sejam os jovens soropositivos, antes de tudo, responsáveis?
Se os jovens devem, como condição de seu “bem-estar”, exercer a se-
xualidade, sendo a “saúde sexual” algo a ser garantido no escopo dos
direitos, como fica o caso dos jovens soropositivos, por tudo o que foi dito
até aqui, diante da máxima que reza que os jovens devem “assumir sua
sexualidade de modo positivo e responsável”?
Tal “embaraço”, revelado quando da junção Aids, adolescência, juven-
tude e sexualidade, se expressa por uma linguagem cifrada, partilhada por
todos os atores sociais do campo investigado. Esse “embaraço” parece ser
“resolvido”, por um lado, reforçando-se a “menoridade”, o que significa
enfatizar uma posição subalterna dos jovens em relação aos indivíduos
“adultos”, em uma constante avaliação negativa dos primeiros em relação
aos atributos dos últimos. Por outro lado, intensificando-se o controle de
si, que deve traduzir-se na exemplaridade do “cuidado de si e do outro”.
Trata-se da conversão dos sujeitos em seus maiores e melhores “gover-
nantes de si”, por meio de pedagogias de reforma moral, e, na medida em
que os jovens passam a se enxergar e a ser vistos a partir desse lugar de
“protetores” de si e do outro, que eles podem ocupar o lugar de protago-
nistas. O estímulo ao protagonismo do jovem pode ser parte fundamental
do jogo de responsabilização ilustrado nas cenas etnografadas, sendo uma
forma de condução dócil desses sujeitos, partindo da ideia de “defesa de
seus próprios interesses”.

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O fazer e o desfazer dos direitos 95


Estratégias tutelares para a “garantia de direitos”:
uma análise da construção da “pedofilia” como
problema político

Laura Lowenkron 69

No fi nal do século XX, observa-se uma proliferação de denúncias e notí-


cias sobre “violência sexual contra crianças e adolescentes”70 e o tema tor-
na-se também importante objeto de atenção política. A aversão ao “pro-
blema” é marcada por uma adesão coletiva e uma quase unanimidade, de
modo que seu enfrentamento constitui foco privilegiado de convergência
entre grupos heterogêneos e de conciliação entre discursos aparentemente
contraditórios.
Antes de analisar como esse tema vem sendo tratado no cenário político
brasileiro contemporâneo, é importante salientar que a militância contra
essa modalidade de violência apareceu, no início dos anos 1990, no entron-
camento de duas agendas dos direitos humanos, a saber: os direitos da crian-
ça e do adolescente e os chamados “direitos sexuais”. Essas duas agendas
estão inseridas em um processo mais amplo de especificação que os direitos
humanos foram sofrendo ao longo da segunda metade do século XX.71

69 Doutora em Antropologia Social no PPGAS/MN/UFRJ e pós-doutoranda no Núcleo de


Estudos de Gênero Pagu/Unicamp. O texto é baseado, em parte, na pesquisa realizada para
a tese de doutorado, intitulada O monstro contemporâneo: a construção social da pedofi lia
em múltiplos planos, defendida em 2012. A pesquisadora foi bolsista de doutorado CNPq e
contou com o apoio fi nanceiro da Finep por meio do projeto “Políticas para a Diversidade
e os Novos Sujeitos de Direitos: Estudos Antropológicos das Práticas, Gêneros Textuais e
Organizações de Governo – Diverso”, realizado no Laboratório de Pesquisas em Etnicidade,
Cultura e Desenvolvimento (Laced), Museu Nacional/UFRJ.
70 Neste texto, a expressão “crianças e adolescentes” baseia-se na noção jurídica dessas
categorias etárias, defi nida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): considera-se
criança a pessoa até 12 anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre 12 e 18 anos
de idade incompletos (art. 2º do ECA/1990).
71 “Partindo de uma concepção genérica do indivíduo – ou Homem – sucessivas decla-
rações, convenções e conferências internacionais foram se voltando para novos sujeitos de
direito, concebidos como igualitários em uma perspectiva mais geral, mas sendo portadores
de demandas ou especificidades que exigiriam tratamento diferenciado. Encontram-se nesse
quadro os diferentes textos voltados para a problemática da mulher, da criança, das minorias
étnicas e culturais etc.” (VIANNA, 2005, p. 2).
Assim, o primeiro ponto que pretendo destacar é que as discussões
contemporâneas em torno do tema da violência sexual infantojuvenil estão
localizadas em um contexto no qual crianças e adolescentes passaram de
um estado de total subordinação à família ou aos tutores para se torna-
rem “sujeitos de direitos” – a partir da aprovação da Convenção Universal
de Direitos da Criança pela Organização das Nações Unidas (ONU) em
1989, no plano internacional; e do Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA/1990), no plano nacional. Com isso, a crítica à violência contra eles
não apenas ganha força, como passa a ser objeto de uma nova compreen-
são política e ética: “uma questão de cidadania e de direitos humanos, e
sua violação como um crime contra a humanidade” (FALEIROS e CAM-
POS, 2000, p. 18).
Surge, então, a necessidade de encontrar formas de conciliar a com-
preensão de crianças e jovens como sujeitos especiais, ou seja, tendo de ser
protegidos e (con)formados, mas também compreendidos como indivíduos
titulares de direitos, o que produz um dilema entre o direito de liberdade e
o de proteção desses “sujeitos de direitos” (cf. VIANNA, 2002a). O equilí-
brio dessa tensão tem como suporte a definição naturalizada de crianças e
adolescentes como “pessoas em desenvolvimento” (art. 6º do ECA/1990),
o que significa uma condição peculiar de autonomia reduzida e de inca-
pacidade de autogestão plena, em especial no que se refere ao exercício da
sexualidade.
Paralelamente, observa-se nas últimas décadas um movimento de
enunciação da sexualidade com base no paradigma dos direitos humanos.
Destacam-se duas conferências internacionais que explicitam a inclusão
do tema como parte integrante de tais direitos: a Conferência Internacio-
nal de População e Desenvolvimento, ocorrida no Cairo em 1994, e a IV
Conferência Mundial sobre a Mulher, realizada em Pequim no ano seguin-
te (cf. VIANNA e LACERDA, 2004).
Inicialmente vinculado aos temas da violência/exploração sexual con-
tra mulheres e meninas e da reprodução, o complexo de políticas e de
reivindicações abarcado – de modo frouxo – pelo rótulo dos “direitos se-
xuais” passa a incluir demandas de novos sujeitos políticos – como gays,
lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e profissionais do sexo – defi ni-
dos com base em práticas e/ou identidades sexuais não convencionais, ou
seja, que se afastam da norma heterossexual e reprodutiva.
Como aponta Vianna (2009), observa-se, então, um desejo de transfor-
mar as maneiras pelas quais determinados atos e sujeitos sexuais dissidentes
são social e politicamente percebidos – de transgressões, patologias e/ou cri-

O fazer e o desfazer dos direitos 97


mes a direitos, por exemplo. É importante lembrar que a emergência desses
sujeitos políticos e desse novo universo de reivindicação de direitos está re-
lacionada com a trajetória mais longa de atuação do movimento feminista e
do movimento homossexual ou LGBT,72 principais responsáveis por trazer a
sexualidade para o centro dos debates políticos desde os anos 1960 e 1970.
A politização da sexualidade desencadeou um processo de alteração da
economia moral do uso dos prazeres nas últimas décadas do século XX,
deslocando (ou ao menos questionando) os principais critérios que orde-
nam as hierarquias de legitimidade na ordem sexual: do “sexo heterosse-
xual e reprodutivo” ao “sexo consentido e seguro”. Nesse contexto, a “res-
ponsabilidade” – que corresponde ao ideal moderno de sujeito racional,
livre e senhor de si – aparece como noção mediadora capaz de “equilibrar
a tensão insolúvel entre liberdade individual e proteção coletiva” (VIAN-
NA, 2005, p. 3) e de traduzir o dever fundamental de cuidado, respeito e
consideração aos direitos de terceiros (RIOS, 2006, p. 19).
Tanto no Cairo como em Pequim, o ideário da “responsabilidade”
atravessa as recomendações em relação à reprodução e à sexualidade den-
tro do paradigma dos direitos humanos (VIANNA e LACERDA, 2004, p.
32). De acordo com o § 96 da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim:

Os direitos humanos das mulheres incluem seus direitos a ter controle e


decidir livre e responsavelmente sobre questões relacionadas à sua sexua-
lidade, incluindo a saúde sexual e reprodutiva, livre de coação, discrimi-
nação e violência. Relacionamentos igualitários entre homens e mulheres
nas questões referentes às relações sexuais e à reprodução, inclusive o
pleno respeito pela integridade da pessoa, requerem respeito mútuo, con-
sentimento e divisão de responsabilidades sobre o comportamento sexual
e suas consequências. (apud MATTAR, 2004, p. 4; grifos nossos)

Como se pode notar pelas palavras-chave destacadas, a “responsabi-


lidade”, o “consentimento” e a “igualdade” constituem as condições de
possibilidade e os novos limites para o exercício legítimo dos direitos de
liberdade sexual reivindicados nesse cenário político. Daí a condição de li-
minaridade das interações sexuais intergeracionais envolvendo menores,73

72 A sigla significa “Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Transgêneros” e é a atual


denominação usada pelos movimentos políticos, sucedendo o que inicialmente – anos 1960-
1970 – se conhecia como movimento homossexual.
73 Entendo a noção de menoridade de acordo com a defi nição de Vianna (1999, p. 168):
“não como um atributo relativo à idade, mas sim como instrumento hierarquizador de direi-
tos”, como categoria relacional de subordinação que evoca a “maioridade” como contraponto

98 Adriana Vianna
em razão do caráter “naturalmente” assimétrico dessas interações e da
condição especial desses sujeitos, considerados (ainda) irresponsáveis para
consentir livremente em relações sexuais e mais vulneráveis à “violência”
e a outros “riscos”.
Vale destacar que, na medida em que crianças e adolescentes são reco-
nhecidos como “sujeitos de direitos”, o fundamento utilizado para legiti-
mar a proibição (no caso de menores de 14 anos)74 e a restrição (entre 14
e 18 anos)75 da atividade sexual envolvendo menores de idade não é a re-
pressão da sexualidade – o que iria de encontro ao ideal de “liberdade” dos
direitos humanos –, mas a garantia dos direitos de crianças e adolescentes
à “proteção integral” e ao “desenvolvimento sexual saudável”.
Portanto, embora procure emancipar as discussões políticas sobre se-
xualidade tanto das premissas religiosas (que separam o sexo em moral
e imoral) quanto dos modelos médicos (que dividem o sexo em normal e
patológico), a ordem sexual que emerge no fi nal do século XX, pautada
pelos princípios dos direitos humanos, reorganiza as hierarquias e estabe-
lece novas fronteiras entre sujeitos e comportamentos sexuais.76
Para que fosse possível construir a sexualidade como um valor e, as-
sim, um “direito”, foi preciso criar os “inimigos” da “boa sexualidade”,
de modo que essa nova ordem sexual também produziu seus próprios re-
síduos: os “irresponsáveis”, que não tomam o cuidado devido (consigo e
com os outros), e, no limite mais extremo e monstruoso, os “pedófi los” ou
“abusadores” de crianças, que desrespeitam os três critérios – “responsabi-
lidade”, “consentimento” e “igualdade” – que defi nem o sexo livre, seguro
e legítimo, de acordo com o paradigma dos direitos humanos. É nesse qua-

e enfatiza a posição desses indivíduos em termos legais ou de autoridade (VIANNA, 2002a).


74 Idade do consentimento na legislação penal brasileira.
75 A relação sexual com adolescentes entre 14 e 18 anos não é proibida pela lei penal. No
entanto, sua autonomia sexual não é plenamente reconhecida, pois é crime envolver-se em
qualquer atividade sexual comercial envolvendo adolescentes (pessoa entre 12 e 18 anos in-
completos), bem como produzir, dirigir, publicar, vender, divulgar, comprar, trocar, oferecer,
distribuir, contracenar, possuir ou armazenar imagens (fotos e vídeos) pornográficas envol-
vendo a participação de menores de idade.
76 Observa-se, por exemplo, o esforço do movimento lésbico e gay para se distinguir dos
grupos pedófi los, o que culminou na expulsão da associação americana “Man-boyLove”
(Nambla) da International Lesbian and Gay Association (ILGA), a fi m de garantir reconhe-
cimento pelas Nações Unidas (cf. WAITES, 2005, p. 25). Essa associação de “boy lovers”
permanece atuante – especialmente, na internet (<http://www.nambla.org>), em razão da
possibilidade de anonimato que o meio permite a seus militantes – e reivindica a aceitabili-
dade do sexo “consentido” entre homens e meninos, a descriminalização dessas condutas, a
despatologização da “pedofi lia” e a abolição das leis da “idade do consentimento”.

O fazer e o desfazer dos direitos 99


dro mais amplo que pretendo situar a construção da “pedofi lia”77 como
problema político, como discutirei adiante.
Vale destacar que, de acordo com o art. 22778 da Constituição Federal
(CF/1988), que serviu de base para a elaboração do ECA/1990, o compro-
misso de proteger – com “absoluta prioridade” – a criança e o adolescente
contra toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão é entendido como uma tarefa coletiva do “Estado”,
da “família” e de toda a “sociedade”. Conforme frequentemente enfatiza-
do nas arenas políticas e jurídicas que lidam com o tema, a única vez em
que a CF/1988 utiliza a expressão “com absoluta prioridade” é no art. 227,
que trata dos direitos da criança e do adolescente, ou, em outros termos,
dos deveres e compromissos da “família”, da “sociedade” e do “Estado”
para com esses “sujeitos de direitos especiais”.
Assim, a temática das “violências sexuais infantojuvenis” foi incluída
na agenda dos movimentos sociais como questão relacionada com a luta
nacional e internacional pelos direitos humanos de crianças e adolescentes
desde o início dos anos 1990. Desde então, os atores e as agências sociais e
o poder público têm reunido esforços para o desenvolvimento de políticas
de enfrentamento desse tipo de “violência”, o que revela, ao mesmo tempo,
certa autonomização do tema em relação a outras agendas dos direitos da
criança e do adolescente.
No âmbito internacional, os destaques são os três Congressos Mun-
diais de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescen-
tes79 e o Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança
referente à venda de crianças, à prostituição infantil e à pornografia infan-
til, de 2000. No Congresso Nacional, o tema foi objeto de atenção política
mais detalhada, pela primeira vez, com base nos trabalhos da Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) da Prostituição Infantojuvenil, realizada

77 Vale destacar que os debates em torno da “violência sexual contra crianças” são entre-
meados por um léxico amplo e variado – como “abuso sexual infantil”, “exploração sexual
de crianças e adolescentes” e “pedofi lia” –, e os próprios termos fazem parte das disputas
políticas. A construção e o sentido dos diferentes termos e esse universo de embate categórico
foram objeto de análise de outro texto (cf. LOWENKRON, 2010).
78 Art. 227 da CF/1988: “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e
ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação,
ao lazer, à profi ssionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discrimina-
ção, exploração, violência, crueldade e opressão.”
79 O primeiro Congresso Mundial aconteceu em Estocolmo, na Suécia, em 1996, o segundo
foi realizado em 2001, em Yokohama, no Japão, e o terceiro, no Rio de Janeiro, no Brasil,
em 2008.

100 Adriana Vianna


entre 1993 e 1994 na Câmara dos Deputados. Em 2000, elaborou-se o Pla-
no Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infantojuvenil, e, entre
2003 e 2004, foi realizada a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito
(CPMI) da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, nas duas Casas
do Congresso Nacional, liderada por parlamentares da Frente de Defesa
da Criança e do Adolescente.
No início de 2008, o tema ressurgiu com bastante força e com nova
roupagem no Congresso Nacional, a partir da criação da CPI da Pedofi lia,
que é parte importante de minha pesquisa de doutorado e será objeto de
atenção mais detalhada neste capítulo. Essa CPI trouxe para o centro dos
debates políticos nacionais uma nova modalidade ou abordagem da “vio-
lência sexual contra crianças” – “a pedofilia na internet” – e outros atores
que não são tradicionalmente ligados aos movimentos sociais de defesa dos
direitos de crianças e adolescentes e, menos ainda, dos direitos sexuais,
como o senador Magno Malta,80 presidente da CPI.
Passo, então, para a análise da CPI da Pedofi lia, apontando as estraté-
gias utilizadas para a construção da “pedofi lia na internet” como proble-
ma político. Meu intuito é mostrar como a politização desse tema concilia
a retórica de “garantia de direitos” com um discurso de segurança social e
de defesa da ordem, que se apoia em técnicas tutelares de gestão de crian-
ças e adolescentes.

1. A construção da “pedofilia” como problema político


No fi nal de 2007, o senador Magno Malta apresentou no Congresso Na-
cional um requerimento para a criação de uma CPI da Pedofilia. O ob-
jetivo dessa CPI seria “investigar e apurar a utilização da internet para
prática de crimes de ‘pedofi lia’, bem como a relação desses crimes com o
crime organizado” (Requerimento n. 200 de 2008, do Senado Federal).81
Um dos requisitos legais para a criação de uma CPI é que haja um “fato
determinado” a ser apurado (§ 3º do art. 58 da CF/1988).82 Segundo cons-

80 Membro da bancada evangélica, o parlamentar é um dos principais opositores de uma


série de reivindicações associadas à agenda dos chamados “direitos sexuais” no Congresso
Nacional, como a legalização do aborto, a união civil dos homossexuais e a criminalização
da homofobia.
81 Como em qualquer Comissão Parlamentar de Inquérito, o requerimento de criação da
CPI da Pedofi lia, assim como outros documentos relativos a essa comissão e as notas taqui-
gráficas de suas audiências públicas e reuniões, fica disponível no site do Senado Federal
(<http://www.senador.gov.br>).
82 Art. 58 da CF/1988: “§ 3o As comissões parlamentares de inquérito, que terão poderes de

O fazer e o desfazer dos direitos 101


ta na justificativa do requerimento, o “fato determinado” que serviu de
base para a proposição dessa CPI foram matérias sobre “violência sexual
contra crianças e adolescentes” veiculadas cotidianamente na imprensa e,
em especial, uma notícia sobre uma megaoperação da Polícia Federal de
combate à pornografia infantil na internet (Operação Carrossel).
Como indica o requerimento, o principal foco de atuação da CPI da Pe-
dofi lia é o combate à difusão da “pornografia infantil” na rede mundial de
computadores,83 uma modalidade de crime sexual contra crianças e ado-
lescentes que se tornou visível muito recentemente, com a popularização
da internet no país e no mundo. Ao levar o tema para o centro dos debates
políticos brasileiros, essa CPI atraiu a atenção dos meios de comunicação,
das autoridades públicas e da sociedade civil para esse “problema social”.
No dia 25 de março de 2008, a CPI da Pedofilia foi instalada no Se-
nado Federal, composta por sete titulares e cinco suplentes. Na primeira
reunião, foram eleitos o senador Magno Malta, como presidente da CPI,
e o senador Romeu Tuma, como vice-presidente. O senador Demóstenes
Torres foi designado como relator. Magno Malta é pastor evangélico, Ro-
meu Tuma é ex-delegado de Polícia Federal e Demóstenes Torres é membro
do Ministério Público Estadual de Goiás. Essa composição ajuda a com-
preender os rumos que os trabalhos da CPI da Pedofi lia vão tomar: um
enfoque bastante criminal e um formato de uma “cruzada antipedofilia”,
como defi niu o presidente da comissão.
Na primeira reunião, os senadores discutiram o que caracteriza a “pe-
dofi lia” e a ameaça que ela oferece e falaram sobre o papel da CPI e os
interesses de quem ela representa. O que apareceu nessa discussão e ao
longo da CPI foi um discurso que convocava a união de todos os “cidadãos
de bem” em torno de uma “cruzada” contra um “inimigo” – ou “monstro”
– que, ao “corromper a criança”, ameaça a sociedade como um todo e os
valores da “família” em particular.

investigação próprios das autoridades judiciais, além de outros previstos nos regimentos das
respectivas Casas, serão criadas pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, em con-
junto ou separadamente, mediante requerimento de um terço de seus membros, para a apura-
ção de fato determinado e por prazo certo, sendo suas conclusões, se for o caso, encaminhadas
ao Ministério Público, para que promova a responsabilidade civil ou criminal dos infratores.”
83 Ao longo dos trabalhos da CPI da Pedofi lia, outras modalidades de crimes sexuais contra
crianças foram sendo incorporadas a seus debates, conforme casos de “abuso” e “exploração
sexual” de menores eram denunciados na imprensa e/ou tinham alguma repercussão pública
especial. No entanto, vou me concentrar na análise do combate à pornografi a infantil na
internet, que é o principal objeto dessa comissão.

102 Adriana Vianna


“Não é a criança, é a sociedade que é submetida a tudo isso, a criança
é parte frágil, indefesa, pela qual nós temos que, realmente, voltar a nos-
sa preocupação”, afi rmou o senador Sérgio Zambiasi, durante a primeira
reunião. Na sessão seguinte, o senador Magno Malta disse que “o valor
dessa CPI é ter a direção única da sociedade, ter a direção da família”, e,
em outra ocasião, lembrou: “já passamos todos os limites de todas as aber-
rações contra a família. Se nós não tomarmos a causa da criança agora,
eu não sei o que nos espera nos próximos 10 anos”. Ou, como defi niu o
senador Romeu Tuma: “o objetivo principal é o cidadão, seus filhos e a sua
família, a proteção à família. Eu acho que a coisa mais importante na vida
da gente é a família”.
Ao se apresentar como um instrumento de proteção dos interesses da
“criança”, da “família” e da “sociedade”, desde o início, a CPI procurou
construir sua “causa” como uma luta coletiva e unânime: “essa CPI não
tem oposição, não tem governo, não tem interesses políticos subjacentes”,
afi rmou o senador Demóstenes Torres. Em discurso semelhante, o senador
Magno Malta, ao assumir a presidência da CPI, afi rmou:

O Senado da República instala essa CPI, que não é CPI de coloração


partidária, que não é CPI de disputa política, é uma CPI da sociedade, é
uma CPI das crianças. É uma CPI que vai tratar de emoções perdidas, de
infâncias perdidas, de noites indormidas, de lágrimas choradas em nome
do prazer de meia dúzia de desgraçados.

Mais do que uma psicopatologia,84 a “pedofi lia” aparece, ao longo da


CPI, como um conjunto de crimes sexuais contra crianças e adolescentes,
que é entendido como um continuum de manifestação da mesma monstru-
osidade, incluindo desde colecionadores de imagens de pornografia infan-
tojuvenil a estupradores de recém-nascidos. Assim, o “pedófi lo” aparece
menos como doente que poderia ser terapeuticamente administrado do
que como uma espécie de anormal permanente e irreversível, que oferece
um perigo criminal constante, uma vez que está em toda parte, pode ser

84 A “pedofi lia” não é, originalmente, uma categoria jurídica, mas uma categoria diagnós-
tica da psiquiatria, que se refere menos aos desvios do comportamento do que aos desejos e
fantasias sexuais. De acordo com o DSM-IV-TR (Diagnostic and Statistical Manual of Men-
tal Desorders, da Associação Americana de Psiquiatria), a “pedofi lia” é uma modalidade de
“parafi lia” caracterizada pelo foco do interesse sexual em crianças pré-púberes (geralmente,
com 13 anos ou menos) por parte de indivíduos com 16 anos ou mais e que sejam ao menos
cinco anos mais velhos que a criança, ao longo de um período mínimo de seis meses. O diag-
nóstico de pedofi lia pode ser feito, segundo o manual, se a pessoa realizou esses desejos ou se
os desejos ou fantasias sexuais causaram acentuado sofrimento ou difi culdades interpessoais.

O fazer e o desfazer dos direitos 103


qualquer um e é difícil de ser identificado.85 Como afi rma, repetidas vezes,
o senador Magno Malta: “a pedofi lia, no Brasil, é doutora, é analfabeta,
está na faculdade, bebe uísque, bebe cachaça, tem dentes de porcelana,
é banguela, mora em condomínio, mora em cobertura, está nas colunas
sociais, reza missa, dirige culto, anda de gravata, tem mandato, disputa
eleição”. Na justificativa do requerimento para a criação da CPI da Pedo-
fi lia, os autores argumentaram que:

A pedofi lia é um transtorno da sexualidade, um padrão de comporta-


mento sexual anormal observado em todas as classes sociais, raças e ní-
veis educacionais. Difícil de ser tratada, pois tanto o abusador quanto o
abusado demandam tratamento intensivo e longo, que além de dividir
famílias – alguns acusam o abusador, enquanto outros creditam a prá-
tica parafílica à própria vítima – implicam [sic] gastos governamentais
(não apenas com o tratamento psiquiátrico, mas também físico, em con-
sequência, muitas vezes, do espancamento associado à prática sexual) e
prejuízos de ordem comportamental, devido à irreparável separação da
criança do seio familiar. Via de regra, a criança chegará à fase adulta com
consequências emocionais gravíssimas, tornando-se deprimida, insegura,
com problemas de relacionamento íntimo.

Nos discursos dos senadores, a “pedofi lia” é defi nida como um “cri-
me”, uma “tara”, um “vício” e uma “chaga”, e os “pedófilos”, como “cri-
minosos desgraçados”, “compulsivos”, “insaciáveis” e “monstros”. Na
matemática do presidente da CPI, senador Magno Malta: “para mim, a
pedofi lia é 5% de doença e 95% de safadeza”. Nos termos do senador
Romeu Tuma, os pedófi los são “monstros, eu não poderia dizer que são
animais, porque o animal respeita, mas são verdadeiros monstros que não
podem conviver em sociedade”; “são verdadeiros monstros que não têm
uma formação digna e eu acho que viraram as costas para Deus”; “é uma
coisa terrível, que é antagônica à condição de ser humano”.
O primeiro objetivo da CPI da Pedofi lia era revelar essa “monstruo-
sidade” para a sociedade brasileira, transformando-se em uma espécie de
vitrine do horror: “essa CPI, entre outros papéis, cumprirá o papel de se
transformar numa grande vitrine para constranger, de fato, para sobre-
tudo constranger, para inibir, para constranger e, futuramente, para pu-

85 Segundo Vigarello (1998, p. 239), “o temor durante muito tempo focalizado no inimigo
público se desloca para o homem comum, o vizinho de quem se deve desconfiar”. Justamente
por se parecer conosco de maneira inquietante, o “pedófi lo” se torna uma ameaça permanente.

104 Adriana Vianna


nir”, afi rmou o senador Geraldo Mesquita na primeira reunião da CPI da
Pedofi lia. Além de apostar no efeito coercitivo dessa visibilidade, os par-
lamentares queriam também “provocar nas pessoas a indignação dos jus-
tos”, nos termos de Magno Malta, atraindo a atenção e o apoio dos mais
diversos segmentos sociais para a sua “cruzada antipedofi lia”. Por isso, a
imprensa86 foi constantemente apontada e convocada pelo senador Magno
Malta como uma importante parceira, uma vez que desempenha um papel
mediador fundamental na produção de temas sensíveis para a sociedade.
A principal estratégia utilizada pelo presidente da CPI da Pedofi lia
para sensibilizar e atrair seguidores e afastar opositores consistiu na ampla
divulgação de imagens de pornografia infantil. Ele não apenas descreveu
as fotos e os vídeos (que não podem ser exibidos publicamente) durante
as audiências públicas da CPI e nas sessões plenárias do Senado Federal,
como também mostrou as imagens, reservadamente, para todos aqueles
que pretendia mobilizar: juízes, representantes das empresas de provedores
de internet e operadoras de telefonia, senadores, deputados e até o presi-
dente da República.
As imagens de “estupro de bebês” ou cenas de crianças de tenra idade
envolvidas em diversos tipos de interações sexuais com adultos revelaram-
-se um dispositivo de sensibilização particularmente eficaz ao qual o pre-
sidente da CPI frequentemente recorria para mobilizar o interesse público
em torno de sua “causa”, garantir a aprovação de projetos e inibir a pos-
sibilidade de qualquer manifestação de oposição às propostas da CPI da
Pedofi lia. Segundo Magno Malta, as imagens não funcionariam apenas
como um dispositivo de choque, mas como um instrumento pedagógico
para “despertar” a sociedade brasileira para a “realidade da pedofilia”.
Segundo ele, as pessoas desconhecem a “verdade absoluta” do fenômeno,
pois não conseguem imaginar os casos mais extremos, como os abusos
sexuais de bebês.

O cidadão nunca registra na sua mente a verdade absoluta do que é pedo-


fi lia; normalmente o registro é alguém abusando, um adulto abusando de
um adolescente, normalmente uma adolescente de 12, 13 anos de idade,
14. Nunca registra o abuso de um menino a nossa mente, e não registra
abuso na tenra idade, ou seja, criança de 30 dias, criança de 27 dias,
criança de dois anos, de três anos; quatro ou cinco homens abusando de

86 É importante destacar que, mesmo quando outros órgãos de imprensa não comparecem
às sessões das CPIs, estas contam, ao menos, com a cobertura da TV Senado e da Agência de
Notícias do Senado, que, por sua vez, serve de fonte para outros veículos.

O fazer e o desfazer dos direitos 105


uma criança de três anos; uma mulher abusando de uma criança de dois
anos; crianças de oito anos participando de rodas de sexo.

O repertório de aberrações constantemente evocado na CPI da Pedo-


fi lia importa menos pelos casos singulares e localizados que denuncia do
que por funcionar como exemplar de um problema mais geral, servindo
de suporte para a construção de uma “causa” política e de uma denúncia
pública, nos termos de Boltanski (1993). Como sugerem as formulações do
autor (BOLTANSKI, 1993, p. 38-39), ao tomar conhecimento dessa “rea-
lidade da pedofi lia”, construída com base em casos e imagens, não resta ao
observador do “espetáculo do sofrimento” outra alternativa a não ser se
engajar na “causa”, pois, ao se omitir, poderia ser acusado (ou acusar-se a
si mesmo) de responsabilidade passiva por indiferença, ou até mesmo por
cumplicidade com o causador direto do sofrimento das “crianças abusa-
das”, o “pedófi lo”.
Outra estratégia acionada pelo presidente da CPI da Pedofi lia para mo-
bilizar seguidores para sua “cruzada” foi o frequente recurso à retórica de
que “todos” devem se colocar no lugar de “pais e mães de família”: “Pre-
cisamos da sociedade unida conosco, nós precisamos da mídia conosco,
precisamos que, juntamente conosco, tenham o mesmo sentimento, que
trabalhemos com o coração de pais, com coração de mães, com coração
de quem tem família, de quem tem criança”, afi rmou Magno Malta em
audiência pública da CPI.
Constructo ideológico poderoso que prescreve e inscreve nos sujeitos
afeições e compromissos obrigatórios, já que fundados na ordem inques-
tionável da “natureza”, a figura da família funciona como um eficiente ca-
talisador de emoções. Assim, o presidente da CPI convocou e sensibilizou a
todos a se engajarem em sua luta contra a “pedofi lia”: a mídia noticiando,
os cidadãos denunciando, os políticos votando e aprovando seus projetos
e as famílias ensinando e protegendo seus filhos. E, aos poucos, foi-se
revelando que os “pedófilos” não eram os únicos alvos dessa “cruzada” e
que um dos principais efeitos dessa CPI seria a construção (ou conversão)
de uma rede de responsáveis pela proteção das “crianças” contra a ameaça
da “pedofi lia”.
Apesar de a espetacularização e a sensibilização serem elementos-chave
da CPI, vale lembrar que ela é um instrumento que confere aos legisladores
poderes de investigação próprios das autoridades judiciais (§ 3º do art. 58 da
CF/1988). Logo, uma das principais propostas da CPI da Pedofilia era resol-
ver os entraves que os órgãos policiais, judiciais e os ministérios públicos en-

106 Adriana Vianna


frentavam na identificação e punição dos criminosos envolvidos no intenso
fluxo de imagens de pornografia infantil na rede mundial de computadores.
Para isso, o presidente da CPI elaborou um requerimento pedindo que
os Ministérios Públicos Federal e Estaduais e o Departamento de Polícia
Federal indicassem procuradores, promotores e delegados que trabalhas-
sem na área para que pudessem prestar assessoria permanente à comissão.
O parlamentar convidou ainda o advogado Thiago Tavares, presidente
da ONG SaferNet – entidade que trabalha no combate aos crimes contra
os direitos humanos na rede mundial de computadores e que coordena a
central nacional de denúncias pela internet –, para compor a equipe de
assessores técnicos da CPI da Pedofilia. Foi a consultoria desse “grupo de
trabalho” que permitiu o mapeamento do problema, o diagnóstico dos
entraves e a defi nição de estratégias para aprimorar o combate aos “crimes
de pedofilia” na internet.
Uma das dificuldades enfrentadas por aqueles que atuam no combate
aos crimes praticados por meio da internet é a inerente tensão entre os
direitos e as garantias individuais de “privacidade” e “intimidade”, de um
lado, e a segurança coletiva, de outro. Esse talvez seja um dos principais
motivos de conflito entre as empresas de telecomunicações e os órgãos de
repressão policial e judicial que trabalham no enfrentamento dos crimes
cibernéticos. Falando sobre o tema durante uma audiência pública da CPI
da Pedofi lia, um delegado de Polícia Federal argumentou que os direitos
de proteção da criança devem se sobrepor aos direitos de privacidade dos
criminosos:

Isso está muito próximo do que a gente chama de “confl ito de princípios”.
A gente tem o princípio da intimidade, da privacidade, mas, ao mesmo
tempo, você tem o princípio de proteção de uma criança que está sendo
violada. […] Mas um princípio pode se sobrepor, até certo ponto, em
relação ao outro, [sic] quando se entende que para aquele caso ele é mais
relevante.

Além de outras dificuldades inerentes ao combate aos crimes ciberné-


ticos – como a internacionalização do crime, o conflito de jurisdições e a
dificuldade de regular um fenômeno transnacional com base em sistemas
legais nacionais –, os principais entraves destacados pelos órgãos de com-
bate criminal à pornografia infantil na internet eram algumas lacunas le-
gislativas e a falta de cooperação dos provedores de internet e operadoras
de telefonia no fornecimento de dados cadastrais dos usuários investigados.

O fazer e o desfazer dos direitos 107


A principal lacuna legislativa apontada no início da CPI era o fato de
não existir uma tipificação das condutas de aquisição, posse e armazena-
mento de material pornográfico infantil. Com relação à falta de coopera-
ção dos provedores de internet e operadoras de telefonia, o que acontecia é
que essas empresas não atendiam em tempo hábil às ordens da Justiça bra-
sileira de quebra de sigilo telemático e fornecimento de dados cadastrais
dos usuários suspeitos de disponibilizar imagens de pornografia infantil
na rede mundial de computadores, o que inviabilizava muitas das investi-
gações. Os representantes da maior parte dessas empresas argumentavam
que esses dados já tinham sido apagados de seus arquivos, por falta de
espaço, ou que as imagens ficavam hospedadas em um servidor situado em
outro país, de modo que o controle das informações nele contidas estava
subordinado à Justiça desse local.
Com base nesse cenário, foram defi nidas as estratégias de atuação da
CPI da Pedofi lia. A primeira delas consistiu na elaboração de um projeto
de lei que pudesse preencher o que então foi identificado como lacunas do
ECA.87 Segundo consta no texto de justificação desse projeto, seu objetivo
era “aperfeiçoar e atualizar a legislação, sempre visando garantir os direi-
tos das crianças e adolescentes (prioridade absoluta) e colocá-las a salvo de
toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade
e opressão, especialmente a pedofi lia”.
Além de tipificar a aquisição, a posse e o armazenamento de material
pornográfico envolvendo crianças e adolescentes (menores de 18 anos), o
aliciamento e o assédio online de crianças (menores de 12 anos) e a foto ou
videomontagem que simulem a participação de menores de idade em cenas
de sexo, a nova lei aumenta as penas para os crimes relacionados com a
produção, venda e divulgação de pornografia infantojuvenil na internet.
No que diz respeito à responsabilização dos provedores que viabilizam a
publicação do material pornográfico na internet, a lei prevê uma condição
objetiva de punibilidade, precisando o momento da consumação do crime:
“quando o responsável pela prestação do serviço, regularmente comunica-
do, deixa de desabilitar o acesso ao conteúdo ilícito” (§ 2º do art. 241-A
do ECA/1990).
Além da responsabilização criminal, a CPI da Pedofilia investiu for-
temente na coação moral dos provedores de internet e das operadoras de

87 Outros projetos de lei, que ainda estão tramitando no Congresso Nacional, foram apre-
sentados pela CPI da Pedofi lia, com propostas de outras alterações no ECA, no Código Penal
e no Estatuto do Estrangeiro. Por questões de espaço e de foco, não tratarei desses outros
projetos neste texto.

108 Adriana Vianna


telefonia para que eles se comprometessem com a “causa” política da co-
missão. A estratégia do presidente da CPI foi colocar os executivos em uma
situação de exposição pública, obrigando-os a se posicionar como “alia-
dos” para não serem acusados de “inimigos” do combate à “pedofi lia na
internet”, sabendo que eles se esforçariam para garantir uma boa imagem
pública da empresa diante da sociedade:

Sei que são empresas e elas concorrem, são concorrentes entre si, e acho
que quando o Brasil se levanta na defesa dos seus fi lhos, principalmente
das suas crianças hoje, há um levante da sociedade, ganhará com a socie-
dade a empresa que mais tiver à disposição da família e perderá aquela
que estiver mais à disposição do criminoso, ou seja, de proteger quem co-
mete crime na internet principalmente nesse viés familiar. (Magno Malta
em audiência pública da CPI da Pedofi lia)

Ao receber o diretor-presidente da Google Brasil, Alexandre Hohagen,


na CPI da Pedofi lia, Magno Malta o convidou a assumir um compromis-
so que é, ao mesmo tempo, pressuposto como voluntário e exigido como
obrigatório: “queremos a Google no Brasil como companheira da socieda-
de, das famílias, da Justiça, no combate ao crime e ao criminoso, porque,
quando a empresa faz isso, ela se limpa aos olhos da sociedade”, disse ele,
acrescentando ainda que “os diretores da Google têm filhos”. Essa retórica
era acionada insistentemente pelo presidente da CPI ao negociar com os
representantes das empresas de telecomunicações:

Eu falava agora com o diretor de uma empresa importante, e ele me dizia:


“fique tranquilo que nós vamos atender o seu pleito”. Eu falei: “Meu plei-
to? Meu pleito coisa nenhuma, rapaz, o pleito é da sua família, é dos seus
fi lhos. Não me fale como empresário, não, me fale como pai de família.
Eu estou lutando é pela sua família, rapaz. Você é brasileiro, você vai
continuar vivendo no Brasil. Você trabalha para uma multinacional, mas
você é brasileiro, rapaz. Que história é essa? Os seus fi lhos não estão
livres disso, não.”

Vale mencionar que, quando a CPI foi instalada, no início de 2008, o


Ministério Público Federal de São Paulo (MPF/SP) já estava envolvido em
uma longa batalha com a Google, desde 2006, por conta das inúmeras
denúncias relacionadas com a divulgação de pornografia infantil em perfis
e comunidades do Orkut. O MPF/SP procurava impor que a empresa res-
pondesse, de maneira satisfatória, às ordens da Justiça brasileira. A Goo-

O fazer e o desfazer dos direitos 109


gle Brasil, por sua vez, argumentava que somente a Google sediada nos
Estados Unidos tinha acesso ao servidor no qual ficavam armazenadas as
imagens dos álbuns do Orkut e que só ela poderia responder às ordens da
Justiça americana. Depois de muita discussão e poucos consensos, o litígio
foi levado para a CPI da Pedofi lia, servindo de motor para o início dos
trabalhos dessa comissão, como se pode perceber no discurso do senador
Magno Malta: “O Ministério Público Federal de São Paulo e a própria
Polícia Federal têm uma briga de anos, e eles se recusam em fazer. Então,
quer dizer, a partir dessa iniciativa da CPI, nós vamos facilitar a vida das
famílias e a vida daqueles que estão fazendo a defesa da sociedade.”
Em audiência pública da CPI da Pedofilia, o procurador da República
(MPF/SP), Sérgio Suiama, contrapôs o alto interesse pelo lucro à baixa
responsabilidade social das empresas, em especial da Google, destacando
a importância da CPI em forçar as empresas a virem a público, diante de
toda a sociedade brasileira, para “dizer que esse problema é nacional e que
eles também são responsáveis por resolvê-lo”. Referindo-se às denúncias
de divulgação de pornografia infantil no Orkut, ele comparou a Google
com uma empresa que despeja lixo e polui o mar, afi rmando que custa
caro para o Estado sustentar isso. Ao enfatizar o alto lucro da empresa e
acusá-la de causar prejuízo fi nanceiro aos cofres públicos, como parte da
estratégia de negociação de um acordo de cooperação, o procurador da
República revelou como é possível converter valores econômicos em dívi-
das morais e vice-versa.88
Na manhã do dia 23 de abril de 2008, em uma sessão considerada
“histórica” pelos parlamentares, os diretores da Google entregaram à CPI
da Pedofi lia o conteúdo da quebra de sigilo de 3.261 álbuns de fotografia
do site de relacionamento Orkut. As páginas que tiveram o sigilo quebrado
foram alvo de denúncias encaminhadas pela ONG SaferNet ao MPF/SP,
por supostamente abrigarem imagens de pornografia infantil e estarem
protegidas por uma ferramenta de bloqueio (os chamados “álbuns fecha-
dos”), que permite que apenas pessoas autorizadas pelos donos tenham
acesso ao conteúdo.
Além dos senadores da CPI e dos membros de seu grupo de trabalho,
essa sessão reuniu outros parlamentares da Casa, inclusive o presidente do
Senado Federal, e inúmeros órgãos de imprensa, revelando a importância
política do evento. Dentre os parlamentares presentes na sessão, destacou-
-se a senadora Patrícia Saboya, que se sentou à mesa ao lado do senador

88 Durante os dois anos de litígio, o MPF/SP chegou a aplicar multa à Google por dia de
atraso em responder às ordens judiciais.

110 Adriana Vianna


Magno Malta. Integrante da Frente Parlamentar de Defesa da Criança e
do Adolescente, ela presidiu a Comissão Parlamentar Mista de Inquéri-
to (CPMI) da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, realizada
entre 2003 e 2004. Apesar de ser conhecida como militante da “causa”
das crianças e dos adolescentes no Congresso Nacional, até então ela não
participara das sessões da CPI da Pedofi lia. Nesse dia, a senadora fez um
longo discurso de solidariedade a essa CPI e, ao mesmo tempo, justificou-
-se por não fazer parte dela:

Um dia desses, eu fui questionada pelo senador Geraldo Mesquita – por


quem tenho enorme carinho – por que eu não fazia parte desta CPI. O
senador Magno Malta sabe do que eu passei, o que eu vivi e o quanto
isso custou para mim, até para a minha saúde. Durante muito tempo, foi
muito difícil, para mim falar sobre esse tema. Eu, que milito na causa da
criança e do adolescente, pensei que já tivesse visto tudo de ruim que pode
acontecer com as nossas crianças, mas fiquei muito chocada, muito en-
tristecida, muito envergonhada e, em alguns momentos, muito impotente
para resolver o drama de tantas crianças que precisam da nossa voz, mas,
acima de tudo, do nosso coração. Essa CPI presidida pelo senador Magno
Malta renova a nossa fé e esperança de que é possível, com a militância de
tantos e tantos, construir uma nação muito mais justa.

O discurso da senadora Patrícia Saboya ajuda a compreender a efi-


cácia moral e a força política da CPI da Pedofi lia. Ao acionar exemplos
extremos e uma retórica que não admite ponderação, a apropriação do
“drama” da pedofi lia por Magno Malta e seus seguidores acabou por des-
locar para segundo plano outros atores que já tinham uma trajetória em
relação ao tema, ao mesmo tempo que não lhes deixou outra alternativa
a não ser manifestar apoio público à CPI, ainda que as críticas possam
aparecer nos bastidores. Em conversa com os assessores da Secretaria de
Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (MJ) – que é o setor do MJ
que se relaciona diretamente com o Congresso Nacional com base na emis-
são de pareceres sobre os projetos de leis –, soube que os parlamentares
sentiam-se moralmente coagidos a aprovar os projetos formulados na CPI
da Pedofi lia, pois receavam parecer contrários à “causa” se manifestassem
qualquer restrição a eles.
Meses depois da quebra de sigilo dos álbuns do Orkut, a vitória políti-
ca da CPI foi consolidada com a assinatura do Termo de Ajustamento de
Conduta (TAC) entre a Google e o MPF, colocando fi m ao litígio com a
empresa. O TAC assinado pela Google estabelece que, para atuar no país,

O fazer e o desfazer dos direitos 111


ela deve respeitar a legislação brasileira (no caso de crimes cibernéticos
praticados por brasileiros ou por meio de conexão de internet efetuada no
Brasil), e delimita prazos e obrigações89 para a empresa atender às deman-
das das autoridades públicas brasileiras. O documento prevê também que
o descumprimento de qualquer cláusula do termo importará na imposição
de multa diária de 25 mil reais.
O acordo com a Google abriu um precedente que fortaleceu a nego-
ciação com outras empresas, e pouco a pouco a CPI conseguiu fazer com
que outros provedores de internet, operadoras de telefonia e operadoras de
cartão de crédito também assinassem termos de ajustamento de conduta
(TACs) similares, segundo os quais as empresas se comprometem a coo-
perar com as autoridades públicas brasileiras no combate à pornografia
infantil na internet.
A aprovação da Lei n. 11.829/2008 (que alterou os crimes de porno-
grafia infantil no ECA), a quebra de sigilo dos álbuns do Orkut e as as-
sinaturas dos TACs com as empresas de internet, de telefonia e de cartão
de crédito não são apenas marcos do combate criminal à “pedofi lia na
internet”, mas também conquistas políticas importantes para os senadores
da CPI e, em especial, para o presidente Magno Malta, pois revelam sua
capacidade de liderança para mobilizar seguidores em torno de sua “cau-
sa”. O senador comemorou o efeito de sua campanha – “Todos contra a
Pedofi lia” – pelo Brasil afora: “É uma felicidade, porque o movimento vai
tomando corpo no Brasil. Desse movimento, já nasceram: Jovens contra a
Pedofi lia, Cortadores de Cana contra Pedofi lia, Perueiros contra a Pedofi-
lia, Taxistas…, Jovens Músicos contra a Pedofilia. E o Brasil vai acordando
para esse fato.”
Para concluir a apresentação do processo de construção da “pedofilia”
como uma “causa” política, destaco um último aspecto da atuação de
Magno Malta como “líder” dessa “cruzada”, que é a missão que ele assu-
miu para si de ensinar às famílias a exercer seu papel. Segundo ele, para
defender seus fi lhos da pedofi lia, as famílias precisam aprender quatro coi-

89 O TAC estabelece um conjunto de compromissos e obrigações por parte da empresa,


como: a notificação das autoridades públicas sobre qualquer ocorrência de pornografi a infan-
til no Orkut, a retirada do ar do material ilícito e a preservação de todos os dados necessários
para as investigações pelo prazo mínimo de 180 dias, o fornecimento desses dados aos Minis-
térios Públicos e às polícias brasileiras (mediante autorização judicial), o desenvolvimento de
ferramentas tecnológicas (fi ltros) que empeçam o upload de conteúdo “pedófi lo” no Orkut,
a reformulação do setor de atendimento ao consumidor do serviço, a elaboração de campa-
nhas educativas para o uso seguro e não criminoso da internet e o fi nanciamento de 100 mil
cartilhas a serem distribuídas a crianças e adolescentes de escolas públicas brasileiras com
informações sobre navegação segura na rede.

112 Adriana Vianna


sas: (i) como reconhecer o pedófi lo; (ii) como ele atua; (iii) como identificar
os sinais de uma criança abusada; e (iv) como imunizar a criança para se
prevenir de abusos.90 Em seu pronunciamento no Plenário do Senado no
dia 13 de agosto de 2009, o senador destacou a importância da família
nessa batalha, elegendo-a como a principal instância responsável pela pro-
teção das crianças brasileiras:

As famílias precisam tomar paternidade da sua situação e chamar para si


a responsabilidade, entendendo, pois, que os fi lhos de vocês que estão me
ouvindo em casa são fi lhos meus, que os seus são fi lhos meus, os fi lhos
de todos nós são fi lhos nossos. […] Cabe a mim usar esta tribuna, porque
são milhões de brasileiros que me mandam e-mails. E eu não posso ir à
escola de cada um, não posso atender audiência pública em todos os lu-
gares, mas acho que o de mais importante que tenho tratado por aí, neste
Brasil afora, é de falar de lei, nova lei, lei a ser feita, lei a ser criada, termo
de ajuste de conduta, quebra de sigilo, descoberta de pedófi los –, o mais

90 Nas palavras do presidente da CPI da Pedofi lia: “O que a família precisa aprender? Pri-
meiro, quem é o pedófi lo. […] É alguém acima de qualquer suspeita. Ele não é truculento, ele
é uma pessoa amável, fácil de fazer amizade. De cada dez casos, seis têm pai no meio. Pode
ser um tio, pode ser o próprio avô da criança, pode ser o melhor empregado, pode ser aquele
sujeito que leva as crianças para a escola […]. Como eles agem? Eles não são truculentos.
O estuprador é truculento. […] O pedófi lo não; o pedófi lo é amável, um conquistador […].
É alguém que gosta de presentear, de andar com a criança no colo, se prontifica sempre a
tomar conta dos seus fi lhos. O modus operandis deles é sigiloso. Eles operam, conquistam,
oferecem, trocam a emoção, a confi ança da criança por um brinquedo, por um doce, por um
lanche, por um tênis. Depois, bolinam a criança, manipulam a criança; depois, levam para o
abuso defi nitivo. E aí impõem o império do medo sobre a cabeça da criança. E o império do
medo é sempre assim: ‘Olha, é um segredinho nosso. Ninguém pode saber, nem seu pai nem
sua mãe. Se alguém ficar sabendo, pode acontecer uma coisa ruim.’ E a criança, debaixo do
império do medo, começa a sinalizar. E mãe e pai precisam aprender, perceber uma criança
abusada. Uma criança abusada dá sinais, […] volta a fazer xixi na cama […], cai em rendi-
mento na escola; […] come compulsivamente […] ou para de comer; fica depressiva; […] tem
pesadelo, grita dormindo; reclama de dor nas pernas; ou fi ca malcriada, mal-humorada. […]
Mas a quarta coisa mais importante é imunizar uma criança. […] Como imunizar a criança?
É preciso quebrar os tabus. É pegar a criança, na hora do banho – a mãe, pai não – e dizer
assim: ‘Meu fi lho, isto aqui é seu órgão…’ Criança não entende o que é órgão genital. Mas
falar assim: ‘Meu fi lho, isto aqui é seu piu-piu’… ‘Isto aqui, minha fi lha, é sua perereca. Aqui
é seu bumbum.’ É assim que tem que fazer: ‘Isto aqui, Papai do Céu deu para fazer xixi. Nin-
guém pode tocar, ninguém pode botar a boca aqui, ninguém pode colocar o dedo, ninguém
pode. Carinho em criança, meu fi lho, faz no rosto, faz na mão, faz na testa. Quem põe a mão
aqui não gosta de você, não gosta de papai, não gosta de mamãe. Ele quer ver você triste, ele
quer ficar alegre e deixar você triste. Você vai crescer um homem triste, você vai crescer uma
mulher triste, você vai chorar de noite, vai ter pesadelo. Meu fi lho, se alguém fi zer isso, você
corre, você grita.’ […] E aproveita e pergunta logo se alguém já não fez. É preciso imunizar,
com informação, os nossos fi lhos, porque o abuso acontece em todos os lugares” (Magno
Malta, pronunciamento no Plenário do Senado Federal, 13 ago. 2009).

O fazer e o desfazer dos direitos 113


importante é ensinar a família a cumprir o papel dela, a partir do mo-
mento da orientação, da imunização, com as informações a serem dadas
às crianças. A partir da família. Porque o papel de imunizar, de criar, não
é da polícia, não é da classe política, não é do Ministério Público, não é
da Justiça e nem de Conselho Tutelar, é da família. Porque Justiça, Polícia
e Ministério Público agem depois de a porta ter sido arrombada. E o que
nós não queremos é porta arrombada, porque não queremos ver crianças
abusadas no Brasil.

Portanto, apesar de o compromisso de proteger a criança e o adolescen-


te ser apresentado como uma tarefa coletiva do “Estado”, da “sociedade”
e da “família”, como prescreve o art. 227 da CF/1988, existe uma divisão
de responsabilidades e uma hierarquia entre os responsáveis por essa pro-
teção. Nos termos do senador Magno Malta, “de zero a cinco é o papel da
família; e de cinco a dez é o papel das autoridades. Porque fi lho é dádiva
de Deus. Filho foi dado, e é privilégio criar filho”.

2. Estratégias tutelares para a “garantia de direitos”


Na introdução deste capítulo, procurei mostrar como o tema das “violên-
cias sexuais contra crianças” articula e tensiona duas agendas dos direi-
tos humanos que têm como foco as diferenças: o direito da criança e do
adolescente e os chamados “direitos sexuais”. Argumentei que esses dois
campos de reivindicação de direitos são marcados por um dilema entre os
princípios de liberdade, de um lado, e de proteção/segurança, do outro.
Nesse contexto, a noção de responsabilidade funciona como critério me-
diador fundamental entre esses dois polos, ao defi nir que as “liberdades
descontroladas” devem ser excluídas da legitimação pelo direito.
Com isso, procurei compreender como as relações sexuais envolvendo
“adultos” e “crianças” aparecem como uma espécie de “monstruosidade”
residual que não pode ser incluída no universo de reivindicação de direitos
à diferença, evidenciando os limites dos direitos da criança no que se refere
ao exercício da sexualidade e os limites dos direitos sexuais no que tange
às práticas sexuais envolvendo menores. Em função do caráter inconteste
do horror e da repulsa a essa modalidade de relação, ela só pode ser des-
crita com base no enquadre da “violência”, o que a torna um foco privile-
giado de conciliação entre grupos heterogêneos e discursos contraditórios,
bem como alvo de saberes e técnicas de poder diferenciadas.
Em seguida, mostrei um dos desdobramentos possíveis da temática da
“violência sexual contra crianças”, ao apresentar a construção da “pedo-

114 Adriana Vianna


fi lia” como problema político. Ao mesmo tempo que a CPI da Pedofilia se
defi ne como instrumento de garantia de direitos, não é a criança sobera-
na, “sujeito de direitos”, que aparece nessa “cruzada”, mas a criança em
perigo, que deve ser tutelada e protegida contra a ameaça de um inimigo
particular: o “pedófi lo”.
A “criança-vítima” funciona, então, como suporte para sensibilização e
denúncia, com base no qual a atenção vai se orientar para o(s) culpado(s).91
Aparecem, assim, dois focos e duas estratégias de delimitação de respon-
sáveis: a responsabilização criminal dos pedófi los, que prioriza técnicas
punitivas; e a responsabilização social de toda a sociedade, que priori-
za técnicas pedagógicas. Essas duas técnicas aparecem, simultaneamente,
como complementares e contrapostas, na medida em que a guerra contra o
“monstro” e a ameaça de ser confundido com ele fazem parte das estraté-
gias de mobilização de seguidores e de neutralização de opositores.
Observou-se também que tanto o dispositivo das imagens de “pedofi-
lia” e a estética do horror quanto o idioma do parentesco e a linguagem
dos sentimentos comparecem como estratégias privilegiadas para sensi-
bilização, mobilização e engajamento do interesse público em torno da
“cruzada antipedofi lia”. A “família” pode ser entendida como a principal
figura moral dessa “cruzada”, aparecendo ora como “ator” fantasmático
acionado por Magno Malta, ao exigir que todos orientem suas condutas
e decisões como “pais de família”, ora como locus da proteção e como
alvo de ameaça. Além disso, ao se apresentar como a mais “natural” das
relações e das unidades sociais, a “família” funciona como um importante
hierarquizador moral, que evoca um modelo específico de ordenação das
relações e de atribuição de responsabilidades, em especial no que se refere
à gestão das crianças.
Nota-se, ainda, que existe uma constante oscilação entre níveis de res-
ponsabilização pela administração das crianças, uma vez que cada um
(políticos, empresários, jornalistas etc.) aparece, simultaneamente, como
cidadão responsável, a serviço dos interesses da família, e como integran-
te de um núcleo familiar (como pais, mães, avós, tios etc.). A dimensão
tutelar das estratégias empregadas pela CPI da Pedofi lia aparece, assim,
“através da articulação de níveis de mediação e responsabilidade, de modo
que nunca é o indivíduo sujeito de direitos o foco primordial da ação […],
e sim as relações nas quais ele está inserido ou nas quais deve ser alocado”
(VIANNA, 2002b, p. 300). Como foi enfatizado pelos senadores desde

91 Como destaca Boltanski (1993, p. 91), a transformação da compaixão em acusação supõe


um afastamento da vítima e de seu sofrimento para buscar um culpado e se centrar nele.

O fazer e o desfazer dos direitos 115


a primeira reunião da CPI da Pedofi lia, é a “família” – e não o “indiví-
duo” portador de direitos – que é entendida como a maior interessada e o
principal alvo dessa “cruzada”, pois é ela que deve ser, simultaneamente,
protegida e ensinada.
A “pedofilia” aparece, então, menos como um atentado contra a “dig-
nidade sexual” da criança, como diriam os militantes dos direitos huma-
nos, e mais como o exemplo mais extremo dentre tantas outras ameaças
de degradação da ordem familiar, com as quais se preocupam os religiosos
e, em especial, os políticos evangélicos, como o senador Magno Malta.
Assim, ao mobilizar “todos contra a pedofi lia”, os efeitos da CPI consistem
não apenas na construção de uma arquitetura legal e jurídica de proteção
e de punição (entendidas como dois lados da mesma moeda), mas em uma
divisão social entre “monstros” e “homens de bem”, que, por sua vez,
coincidem com os sujeitos “responsáveis” dos direitos humanos.

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Éditions Métailie, 1993.
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VIANNA, Adriana de Resende Barreto. Limites da menoridade: tutela, família e autoridade
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116 Adriana Vianna


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República, 1988.
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Sites
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<http://www.nambla.org>. Acesso em: 20 mar. 2010.
PORTAL DO SENADO FEDERAL. Disponível em: <http://www.senado.gov.br>. Acesso
em: 18 fev. 2010.

O fazer e o desfazer dos direitos 117


Sentidos e usos sociais do infanticídio indígena
em alguns veículos da mídia brasileira92

Rita de Cássia Melo Santos93

O infanticídio indígena ascende ao status de questão nacional no ano 2007,


quando o deputado federal Henrique Afonso (PT-AC) apresenta um pro-
jeto de lei para combater práticas infanticidas perpetradas por populações
tradicionais;94 e, em seguida, a revista Veja publica uma longa matéria95
em que tal prática é detalhadamente discutida. A partir de então, inicia-se
um processo, parlamentar e civil, para aprovar uma legislação com o fi m
de penalizar e coibir a prática infanticida entre as populações tradicionais,
notadamente indígenas. Assim, conforma-se um locus de tensão no qual
ao direito às práticas étnicas e culturais é sobreposto o direito, mais amplo
e tido como universal, à vida. A essa disputa soma-se ainda o status dos
sujeitos em questão: as crianças.
O presente capítulo investiga uma das faces civis do debate. Com base
em notas e notícias publicadas em revistas e jornais brasileiros, objetiva re-
cuperar os modos pelos quais, nesse domínio, a prática infanticida foi sig-
nificada e quais soluções a ela foram destinadas. Para tanto, investiguei as
menções às práticas de infanticídio e de infanticídio indígena nos seguintes
jornais (versões online): Folha de S. Paulo (FLSP) e Estadão, de São Paulo;
O Globo e Jornal do Brasil (JB), do Rio de Janeiro; e Correio Braziliense
(CB), do Distrito Federal. Realizei, ainda, igual pesquisa nos arquivos das
revistas Veja e IstoÉ (versões impressas e online).
A contraposição entre diferentes veículos de comunicação, ou melhor,
entre diferentes tipos de textos jornalísticos (notas, notícias, matérias, opi-

92 Este texto está marcado pela seguinte padronização de grafi as: itálico para expressões
conceituais; aspas para categorias e transcrições de atores e autores referidos; e sublinhado
para destaque.
93 Mestre e doutoranda em Antropologia Social no PPGAS/MN/UFRJ.
94 Projeto de Lei n. 1.057, de 2007: “Dispõe sobre o combate a práticas tradicionais nocivas
à proteção dos direitos fundamentais de crianças indígenas, bem como pertencentes a outras
sociedades ditas não tradicionais.”
95 Crimes na Floresta – Muitas tribos brasileiras ainda matam crianças e a Funai nada faz
para impedir o infanticídio (Veja, edição 2.021, p. 104-106, 15 ago. 2007).
niões etc.), nos permitiu perceber a existência de duas ordens de análise.
A primeira, referida às tipologias de gêneros narrativos próprias a cada
um dos textos, ou, segundo Boltanski (1993), as estratégias que garantem
a eficácia na produção do “sofrimento a distância” – identificações entre
pessoas e situações narradas, que não são diretamente relacionadas (BOL-
TANSKI, 1993, p. 95), e que parecem conduzir o objetivo dos textos anali-
sados neste capítulo. E a segunda torna-se evidente na contraposição entre
os domínios impresso e online, realizada na análise das revistas. Essa con-
traposição permite iluminar as estratégias narrativas quando as condições
de leitura e acesso (por exemplo, se a leitura do veículo é exclusivamente
paga ou se há possibilidade de lê-la gratuitamente; se é necessário identi-
ficar-se para publicar um comentário ou se é permitido o anonimato) são
modificadas. Essa distinção será, mais à frente, detidamente trabalhada.
Por meio dessas ordens de análise, propus-me identificar e analisar os
elementos que corroboraram as significações da prática infanticida entre
os grupos indígenas. Para tanto, coloquei-me, a cada texto jornalístico
analisado, os seguintes objetivos: a) identificar as categorias recorridas e os
significados a elas associados; b) localizar os contextos em que o infanticí-
dio é associado a práticas étnicas; c) identificar quais são os responsáveis e
as vítimas apontados; d) identificar quando e de que modo o infanticídio e
o infanticídio indígena são aceitáveis ou condenáveis; e, e) quando conde-
náveis, quais são as soluções apontadas por nossos interlocutores.
Pretende-se que essa investigação possa iluminar como, em alguns dos
domínios discursivos da mídia brasileira, deu-se a circulação de sentidos
e de localidades verificada em relação às práticas infanticidas. O interes-
se nesse tipo de proposta é compreender não apenas como determinadas
produções sociais foram circundadas por sentidos pré-moldados ou como
nelas atuaram sujeitos recorrentes, mas também os modos pelos quais,
por meio de um conjunto de casos reiteradamente narrados, constituem-se
em um problema social com agenda de demandas próprias e para o qual
soluções são exigidas.96

96 Gostaria, antes de iniciar a análise proposta, de destacar as contribuições devidas à


redação deste texto. Os dados iniciais de pesquisa que o compõem foram anteriormente dis-
cutidos em diversas situações. Primeiramente, no trabalho de curso para a disciplina Teorias
da Identidade, ministrada por Adriana Vianna, no PPGAS/MN em 2009.1. Em um segundo
momento, na comunicação oral do GT Estratégias Interétnicas e Fronteiras Identitárias (33º
Encontro Nacional da Anpocs), coordenado por João Pacheco de Oliveira e John Manuel
Monteiro. Em seguida, no paper apresentado no I Seminário Interno dos Alunos do PPGAS/
MN. E, por fi m, em um texto discutido na disciplina Antropologia e Literatura, ministrada
por Adriana Vianna e Moacir Palmeira, no PPGAS/MN em 2009.2. Agradeço, pelos valiosos
comentários e sugestões, a todas as pessoas envolvidas nas disciplinas e nos encontros citados.

O fazer e o desfazer dos direitos 119


1. Sentidos e usos do infanticídio e do infanticídio indígena
Ao realizar uma busca livre da palavra infanticídio nos jornais e revistas
de maior circulação das principais capitais brasileiras, o que se obtém é
intrigante. Os resultados das buscas nos mostram uma profusão de casos
difusos, espaçados temporalmente e segmentados em dois eixos geográfi-
cos. Marcadamente, há um conjunto de notícias que promove a associação
entre infanticídio e práticas internacionais contemporâneas, com destaque
para o assassinato de meninas recém-nascidas na China e na Índia. Em
âmbito nacional, o que temos são dois subconjuntos de abordagens. O
primeiro, relacionado com práticas abortivas e o assassinato de crianças
atribuídos a motivações diversas (crimes passionais, abandono de incapaz
e casos espetaculares, em que o tema é tratado com destaque e recorrência
unânime em todos os veículos de comunicação, como o caso Nardoni97); e
o segundo, que promove a vinculação entre infanticídio e práticas étnicas.
Para o último caso, é necessário registrar que, estatisticamente, ao
longo das séries pesquisadas, as matérias não formam um constante de
recorrências. De modo geral, temos registros bastante espaçados que se
adensam a partir de 2007, conforme quadro a seguir.98
Tabela 1. Notícias sobre infanticídio indígena publicadas
em Jornais e Revista brasileiras no período de 1970 a 2009
JORNAIS REVISTAS
Veículo de
comuni- Folha Jornal
Correio
cação Estadão de S. O Globo do Veja Veja IstoÉ IstoÉ
Braziliense
Paulo Brasil
Anos DF SP RJ Impressa Online Impressa Online
1970 – – – – – 1 – – –
1976 – – – – – 1 – – –
1990 – – – – 1 – – –
1997 – – – – – 1 – – –
2001 – – 1 – – – – – –
2005 – – – – – – – – –
2006 – – – – – – – – –
2007 – – – – – 1 – – –
2008 – – 3 – 1 – – 1 –
2009 1 1 5 3 2 0 8 – –

97 Referência à morte da menina Isabella Nardoni ocorrida em 29 de março de 2008 e cujos


réus são o pai e a madrasta dela. O caso alcançou notória cobertura midiática, sendo divul-
gado em jornais e revistas nacionais e internacionais.
98 São indicados apenas os anos nos quais há matérias referidas à temática “infanticídio indígena”.

120 Adriana Vianna


Há ainda duas características que precisam ser destacadas. Nenhuma
das matérias analisadas neste capítulo é matéria de capa das revistas ou
consta na primeira página dos jornais – o que atesta seu posicionamento
secundário nas edições em que foram publicadas. A outra é a recorrência
de matérias no mês de abril – quando se comemora o Dia do Índio. Ao
fi nal, há uma relação das matérias tratadas ao longo do texto que poderá
ser livremente consultada.
Analiticamente, esse conjunto de matérias apresenta ainda outras pe-
culiaridades. Há diferentes modos de caracterização das práticas infantici-
das quando estas são correlacionadas com grupos étnicos. Em um primei-
ro nível, essa associação dá-se de modo incidental, ou seja, não constitui o
elemento central de análise e poderia ser facilmente retirada do texto sem
prejuízo do argumento. Trata-se, nos casos analisados, de uma caracterís-
tica, dentre outras, atribuída aos grupos indígenas brasileiros (Jornal do
Brasil, 21/4/2008; Folha de São Paulo, 6/4/2008, 17/4/2009a; Veja im-
pressa, 15/4/1970, 19/9/1990, 1/10/1997; O Globo, 2/7/2009) ou de uma
resposta à provocação de leitores ou entrevistadores (Estadão, 14/7/2009;
Veja impressa, 29/12/1976).
Em outro nível, ela constitui o tema da matéria. Nesse caso, há duas
formas de abordagem aí presentes: uma, em que o infanticídio indíge-
na constitui o alinhavo da matéria, e outra, na qual ao infanticídio são
apensados motes narrativos diversos e que o ofuscam. Este é o caso, por
exemplo, de cobranças de posicionamentos institucionais à Funai (FLSP,
6/4/2008; JB, 11/2/2009) e à Funasa (FLSP, 6/4/2008), ou de crítica a vi-
deodocumentários sobre o tema (FLSP, 23/1/2001; CB, 8/10/2009).
Nos próximos quatro tópicos, nosso foco de análise será ajustado às
matérias em que sua tessitura é executada com o infanticídio indígena
como tema central. Nessas reportagens, a prática do infanticídio constitui
o ponto de fuga para o qual todos os demais dados e comentários conver-
gem. As imagens, as omissões e citações – tudo gravita em torno dela. Tal
construção ocorre em três casos dos veículos analisados: Veja (15/8/2007;
Veja online 99), IstoÉ (20/2/2008) e Folha de S. Paulo (6/4/2008). Em se-
guida, analisaremos a atuação da ONG Atini, em razão de sua recorrente
menção nos casos analisados. Por fi m, traçaremos algumas linhas possí-
veis de compreensão.

99 A Veja online, pela recorrência de postagens sobre o tema, será analisada em continui-
dade com as notícias publicadas na revista Veja impressa. Não foram localizadas quaisquer
postagens na Época online.

O fazer e o desfazer dos direitos 121


2. Notas e notícias

2.1. Revista Veja: “Crimes na floresta”


Após a última referência incidental ao infanticídio indígena (Veja,
1/10/1997), serão precisos mais 10 anos para que a Veja impressa volte
a ocupar-se do tema. Somente em 2007 retoma-se a temática, com mais
destaque que em qualquer outro momento e com argumentos bastante pe-
culiares ao contexto de publicação. A matéria é veiculada após a apresen-
tação da primeira versão do projeto de lei para criminalização do infanti-
cídio indígena, o qual já consta mencionado em seu corpus. Com o título
“Crimes na floresta – muitas tribos brasileiras ainda matam crianças e a
Funai nada faz para impedir o infanticídio”,100 a matéria narra a história
da menina Hakani Zuruahã,101 salva do infanticídio por um casal de mis-
sionários protestantes que posteriormente a adota.
Constituída por três momentos, a matéria inicia por estabelecer uma
clivagem entre a vida de Hakani na aldeia e depois, com seus pais adotivos.
Na primeira, Hakani é condenada à morte quando completa dois anos
“porque não se desenvolvia no mesmo ritmo das outras crianças”. Porém,
ainda mais dramática e lacônica que a condenação à morte são as condi-
ções em que esta é apresentada pela revista. Os pais, “escalados para serem
os carrascos”, suicidam-se para não cumprir a pena. Após a dupla morte, a
“tribo, enfurecida”, pressiona seu irmão mais velho Aruaji, com 15 anos, a
cumprir a tarefa. No entanto, Aruaji desiste da prática e desenterra a irmã,
que é acertada “no ombro por uma flecha disparada por seu avô, que, to-
mado de remorso, também se suicida com timbó”. É nesse momento que a
narrativa associa a atuação missionária à ação salvacionista.102
Márcia e Edson Susuki, segundo a revista, missionários atuantes na
região, “tratam os ferimentos da menina às escondidas e apelam por sua

100 Todas as passagens marcadas entre aspas nesse tópico foram extraídas da matéria publi-
cada na revista Veja, edição 2.021, p. 104-106, 15 ago. 2007.
101 As grafi as dos nomes indígenas seguirão as utilizadas pelo Instituto Socioambiental
(ISA) (<http://pib.socioambiental.org/pt>). Nos casos de transcrição das matérias, serão man-
tidas as grafi as utilizadas pelos redatores.
102 Para uma análise detida dos contextos em que se inscreve a gênese da ação salvacionista
na tradição indigenista, ver Lima (1987, p. 161). Com outro objetivo, Vianna (2005) também
sugere uma interessante linha de compreensão desse fenômeno, ao analisar os elementos sig-
nificativos nas narrativas míticas de elaboração de fi liações nos casos de guarda e adoção de
crianças no período de implementação do Estatuto da Criança e do Adolescente. Para esse
caso, ela indica a “cena de salvação” como um de seus elementos operantes (VIANNA, 2005,
p. 39-40).

122 Adriana Vianna


vida”. No entanto, Hakani “passou a dormir ao relento e comer as sobras
que encontrava pelo chão. Era tratada como um bicho”, até que, após
três anos, a “tribo” autoriza os missionários a levá-la ao “Hospital das
Clínicas de Ribeirão Preto, em São Paulo. Com menos de 7 quilos e 69
centímetros, Hakani tinha a compleição de um bebê de 7 meses”. À ciên-
cia é alocado o poder de cura da menina, que tinha “hipotireoidismo, um
distúrbio contornável por meio de remédios”. Hakani passa, então, a ser
cuidada pelos missionários e a partir daí inicia-se o terceiro momento na
narrativa da vida da menina, em que ela é “alfabetizada em casa pela mãe
adotiva”, passa a receber “ajuda de uma fonoaudióloga” para superar os
problemas de dicção e de um “psicólogo” para superar o trauma.
A foto de abertura da matéria promove uma síntese dramática do caso.
Nela está Hakani fotografada em dois momentos que marcam o início e o
fi m de sua história. Primeiro, em sua festa de aniversário de 12 anos, em
que aparece feliz, sorridente, abraçando a mãe adotiva e o presente de ani-
versário, e, no outro, com cinco anos, em “sua tribo”, onde é apresentada
suja, sozinha e sentada ao chão sob uma folha de palmeira. A contraposi-
ção entre os dois momentos – na aldeia, com registro de maus-tratos, e na
saída para o mundo dos brancos, com cuidados médicos, educacionais e
emocionais – é reforçada ao longo da matéria pela apresentação de outros
casos postos como semelhantes ao de Hakani.
Conta-se a partir daí a história da fi lha de Muwaji,103 que, por ter
paralisia cerebral, “a aldeia exigiu que ela fosse morta”; a de Tititu, cuja
mãe é combatida pelos Zuruahã, porque “se recusava a matar a filha her-
mafrodita”; e a de Amalé, menino Kamaiurá que “deveria ser morto por
ser fi lho de mãe solteira”. Esses casos compõem o conjunto de narrativas
complementares à formação de um consenso sobre a prática infanticida
entre os Zuruahã.
Após a apresentação desse conjunto de narrativas, a matéria passa à
localização e defi nição do infanticídio. Este é tratado como prática co-
mum entre primatas inferiores e superiores (saguis, chimpanzés e gorilas)
e “recorrente em civilizações de séculos atrás”. Reforçada ainda pela ideia
de seleção dos mais aptos, citada na matéria como no caso espartano, a
matéria faz alusão a uma continuidade entre o estado selvático (em que o
infanticídio não precisa ser justificado, pois é animalesco) e as primeiras
civilizações (em que a eugenia constitui-se em justificativa). O caso da prá-
tica infanticida no Brasil tenta ser explicado pela via da aculturação – que

103 Nome posteriormente associado ao projeto de lei do deputado Henrique Afonso (PT-
-AC), apresentado em 2007.

O fazer e o desfazer dos direitos 123


permite aos redatores da matéria localizar os indígenas brasileiros nesse
interstício entre a animalidade e o advento das primeiras civilizações. A
matéria distingue ainda os grupos que superaram tais práticas daqueles
que nela permanecem. Estes últimos são localizados, “principalmente, em
tribos remotas”.
Em seguida, inicia-se, na narrativa da matéria, um processo de alarga-
mento dos espaços em que o infanticídio indígena pode ser localizado. Os
dados sobre casos ocorridos são apresentados e afi rma-se que pelo menos
13 etnias nacionais o praticam, e que, segundo a Fundação Nacional de
Saúde (Funasa),104 ocorreram no mínimo 201 mortes entre os ianomâmis
no período de 2004 a 2006. Ao fi m da matéria, o projeto de lei do depu-
tado Henrique Afonso (PT-AC), que prevê a criminalização da prática e
classifica sua tolerância como “omissão de socorro”, é apresentado como
uma solução devida.
É com essa longa matéria transpassada por argumentos contrários à
Funai, à antropologia e à proteção de práticas culturais colocadas em opo-
sição direta à vida que a Veja inaugura o tratamento mais recente da temá-
tica nos veículos impressos.

2.1.1. Veja online: “Homicídios”


No tópico anterior, analisamos as edições da revista Veja desde setembro
de 1968 até junho de 2009. Dessa série, como explicitado antes, o infan-
ticídio indígena foi abordado somente em cinco momentos (1970, 1976,
1990, 1997 e 2007). No domínio de publicações da Veja online temos um
quantitativo em muito superior ao do veículo impresso. Somente para o
primeiro semestre de 2009, as postagens da Veja online superam o núme-
ro de menções da versão impressa em toda a sua história de publicação.
Para esse período, temos oito postagens relacionadas diretamente com o
infanticídio indígena. Pela indisponibilidade de arquivos de publicações
anteriores da Veja online, não nos foi possível, infelizmente, contrapô-los
às séries da Veja impressa.
Em relação aos conteúdos, as postagens da Veja online analisada cons-
tituem um espelho em que as matérias apresentadas na versão impressa e
em outros veículos de comunicação nele são refletidas.105 Algumas especifi-
cidades, no entanto, as distinguem das versões impressas nela comentadas.

104 Não foram citadas quaisquer fontes precisas de onde os dados foram extraídos, como
relatórios, anais, sites etc.
105 Um caso exemplar é a postagem de 11 de agosto de 2007, na qual os dados veiculados

124 Adriana Vianna


Há um vasto acesso público, uma vez que apenas com um breve ca-
dastro (não acessível às demais pessoas) é permitido aos leitores expressa-
rem sua opinião, a favor ou contra, sobre as postagens veiculadas. Não é
preciso pagar, sair de casa, ir aos Correios – tudo é realizado do mesmo
lugar de onde se lê a matéria, ou seja, da casa de cada leitor, ao alcance de
um clique do computador. Não é necessário identificar-se, o anonimato
está igualmente ao alcance de quem quiser expressar-se. Também não é
preciso esperar a próxima edição nas bancas para verificar se seu comen-
tário foi aceito pelo editor. Aqui, todos o são. Com essas características,
a versão da Veja online apresenta uma rede de discussões estabelecida. O
redator, a matéria e os comentadores106 constituem a triangulação que põe
a informação em movimento. Encontramos nas leituras dos comentários
postados referências a matérias anteriores, falas dirigidas diretamente ao
redator, sugestões de leituras complementares, entre outros. A réplica aos
comentários é praticada livremente, o que permite aos leitores e comenta-
dores acompanharem, em funcionamento, um verdadeiro fórum de discus-
são instaurado com base nas postagens do redator.
Ao realizarmos uma busca semelhante à que fi zemos para os meios
impressos, o resultado é em parte semelhante. Permanece a separação ge-
ográfica, postagens com o infanticídio referido a espaços internacionais
e nacionais, no mesmo padrão apresentado pelas matérias analisadas an-
teriormente. A peculiaridade está nas postagens que mencionam o infan-
ticídio indígena. Todas foram realizadas por um único redator, Reinaldo
Azevedo. Apesar do superior quantitativo de postagens realizadas por ele
sobre a temática infanticídio indígena, a matéria da Veja impressa ante-
riormente analisada não foi confiada a Reinaldo de Azevedo. Suas incur-
sões no domínio impresso dão-se, em geral, sobre temáticas de moralidade
e religião. Seus posicionamentos públicos, explicados por breve biografia,
podem em parte explicar tais preferências temáticas.

Eis aí. Vocês já me conhecem o bastante para saber que não sou tipo que
acredita que todas as culturas se igualam. Eu, de fato, defendo a superio-
ridade da nossa, a ocidental e cristã. De que superioridade falo? Aquela
traduzida no reconhecimento dos direitos individuais e da inviolabilidade

pela Veja impressa são literalmente transcritos: “Treze etnias ainda eliminam as crianças que
apresentam alguma deficiência. Segundo levantamento da Fundação Nacional de Saúde, só
os ianomâmis mataram, entre 2004 e 2006, um total de 201 crianças. O que dizer desses
‘especialistas’ que se calam diante da morte? Seu relativismo cultural os torna cúmplices de
homicídio” (sábado, 11 ago. 2007, 05:32).
106 Para as implicações da análise de situações sociais com três elementos, ver Simmel (1964).

O fazer e o desfazer dos direitos 125


do corpo […]. Sim, sou cristão. Mesmo quando, admito, a minha crença
fraqueja […], afi rmo que foi o cristianismo que inventou o homem uni-
versal […]. Nem sempre a história da Igreja Católica foi edificante. […]
Negar o caráter civilizador do cristianismo é praticar obscurantismo. (sá-
bado, 11 ago. 2007, 20:53; grifos nossos).

São os aspectos por nós destacados na autobiografia que permeiam


suas elaborações da prática do infanticídio indígena. A superioridade da
cultura cristã aparece nos textos de Reinaldo Azevedo por meio da de-
núncia perpetrada contra o relativismo cultural107 atribuído à ação direta
de antropólogos e da Funai, também apontados como responsáveis pelo
assassinato das crianças. “O que dizer desses ‘especialistas’ que se calam
diante da morte? Seu relativismo cultural os torna cúmplices de homicí-
dio” (sábado, 11 ago. 2007, 05:32). Várias são as chamadas de suas pos-
tagens que remetem a essa acusação. “Um canto infanticida da Funai no
coração das trevas” (sexta-feira, 17 abr. 2009, 04:43) e “Delinquência an-
tropológica e ‘antalógica’” (domingo, 6 abr. 2008, 05:19) são dois deles.
Em suas postagens, a prática infanticida é generalizada para a tota-
lidade das populações indígenas. Tão genéricos quanto os índios são as
crianças, os antropólogos e os brancos.108 Não há espaço para especificida-
de, diferenças, peculiaridades. Qualquer diálogo que fuja à universalidade
cristã é tratado como relativismo cultural criminoso.109
Por fi m, Reinaldo propõe uma dupla qualificação às ONGs. As “diabó-
licas” e/ou “corruptas” e as que são tratadas de modo neutro. As primeiras
são aquelas que defendem o relativismo cultural, a atuação da Funai e dos
antropólogos e para as quais são atribuídas acusações de conspiração e
manipulação dos índios aculturados.110 As últimas são as que realizam in-

107 Para uma análise da relação entre relativismo, moral e antropologia, ver Diniz (2001,
p. 32-33).
108 “Se estes índios estivessem internados na floresta, sem qualquer forma de contato com
a nossa civilização, não seria um caso de condescendência dos ‘brancos’, mas de ignorância.
Estando, no entanto, ao abrigo das leis que regem o Estado brasileiro (e eles estão), fazer
vistas grossas diante do crime ou, pior, criar obstáculos a que se o impeça constitui, a um
só tempo, ato imoral e também criminoso. É o momento em que o relativismo cultural se
torna homicida. São menos os índios a matar aquelas crianças do que os ‘brancos’ dispostos
a condescender com aqueles hábitos” (sábado, 11 ago. 2007, 20:53).
109 “Tenho tratado aqui do relativismo cultural. Com frequência, ele flerta com as práticas
as mais estúpidas sob a desculpa de que é preciso respeitar as diferenças culturais” (sexta-
-feira, 17 abr. 2009, 04:43).
110 “E que diabo de ONG é essa tal Secoya? Fui procurar: ‘Serviço e Cooperação com o
Povo Yanomami’. Em sua página eletrônica, ao apresentar os índios, o texto começa com a
seguinte pérola: ‘Os Yanomami representam uma das etnias que mais recentemente manteve

126 Adriana Vianna


tervenções protecionistas e para as quais não se aplica o padrão acusatório
com que trata os assuntos discutidos. A única ONG com atuação entre
grupos indígenas a receber essa deferência na Veja online é a Atini, por seu
apoio “ao vídeo que mostra a história de Hakani e depoimentos contra o
infanticídio, na voz de índios” (domingo, 6 abr. 2008, 05:21).

2.2. IstoÉ: “barbárie”


A revista IstoÉ, assim como a Veja, permite a livre consulta às edições
anteriores. Assim, foi-nos possível realizar buscas dos casos de infanticídio
e infanticídio indígena publicados nas matérias ao longo de 11 anos – de
janeiro de 1999 a janeiro de 2010. Dessa busca, identificamos em apenas
uma reportagem o infanticídio indígena como elemento central ao qual a
matéria refere-se.
Com o título “O garoto índio que foi enterrado vivo – Amalé quase
foi morto em nome dos costumes indígenas. E a Funai faz vista grossa ao
infanticídio de algumas tribos” (IstoÉ, 2008, 20/2/2008111), a revista con-
ta o caso de Amalé, menino indígena soterrado pela mãe por ter nascido
gêmeo. Tal ato, legitimado pelos avôs e “determinado pelo código cultural
dos Kamaiurá”, foi contrariado pela tia do menino “num gesto que desa-
fiou toda a aldeia” e que permitiu ainda, segundo a revista, transformar
Amalé em um “sobrevivente de sua própria história”.
Além desse caso-chave, a matéria apresenta dois outros casos que com-
põem, secundariamente, a narrativa. São os casos de Hakani, analisado
anteriormente no tópico sobre a revista Veja; e o de Sheila, menina tam-
bém Kamaiurá, que deveria ser morta pela distrofia muscular progressiva,
mas que conseguiu se “refugiar” com a mãe em um abrigo de Brasília e
hoje é tratada no Hospital Sarah Kubitschek.

[sic] contato com a sociedade envolvente.’ Em que língua essa porcaria é escrita? Português é
que não é. Gente que escreve assim merece chicote” (sexta-feira, 17 abr. 2009, 04:43).
“A Declaração dos Povos Indígenas, adotada pela maior ONG do mundo – corrupta, diga-
-se, como quase todas – tem 46 artigos (íntegra em: <http://www.cimi.org.br/pub/publicaco-
es/1191526307_Encarte299.pdf>). É ela que fundamenta a militância das ONGs e da Funai.
(quinta-feira, 18 abr. 2008, 17:57).
“É mesmo o conjunto dos índios que quer a saída ou só aqueles já devidamente instruídos
por ONGs e outras entidades que sonham com comunidades indígenas vivendo em completo
isolamento – o que, ali, de resto, é impossível? Estamos falando de índios já aculturados, que
convivem há muito tempo com a nossa, vá lá, civilização. Alguns antropólogos da Funai que
justificam até infanticídio em nome da diversidade cultural devem estar contentes” (quarta-
-feira, 9 abr. 2008, 06:21).
111 Todas as citações entre aspas neste tópico são dessa referência, salvo quando houver a
indicação explícita de outra referência.

O fazer e o desfazer dos direitos 127


A essas descrições somam-se os motivos da prática: fi lhos de mães sol-
teiras, recém-nascidos portadores de deficiência físicas ou mentais e gême-
os; e a identificação daquela que deve executá-lo, segundo a matéria – a
mãe; e seus eventuais coniventes – os funcionários da Funai. Os motivos
são ainda qualificados como “fúteis”, e os dados apresentados lançam o
domínio do infanticídio indígena para muito além dos grupos cujos casos
foram narrados.112
Se, por um lado, a caracterização do infanticídio é apresentada como
prática delimitada pelo conjunto de características e de abrangência des-
critos, por outro, a caracterização dos indígenas como primitivos não o é.
Eles são classificados como em fase de transição, na saída da “barbárie”
conduzida pela intervenção de ONGs, notadamente a Atini – que supre a
ausência da Funai no incentivo à transformação.
Algumas falas transcritas pelo redator tornam complexa a relação en-
tre infanticídio e indígenas. Em alguns momentos, por exemplo, é dado
espaço à fala de Aloysio Guapindaia, presidente em exercício da Funai
que critica o próprio alcance das denúncias realizadas pela revista: “Não
é verdade que entre os povos indígenas há mais violência e mais crueldade
com seus infantes do que na população em geral” (Aloysio Guapindaia,
IstoÉ, 1998). Entretanto, tal fala é logo neutralizada pela justaposição às
falas de Henrique Afonso, deputado federal do PT-AC, e de Edson Suzuki,
diretor da ONG Atini, as quais fornecem o ponto de contraste em que a
matéria ratifica seu argumento: “a Funai está contagiada com esse relati-
vismo cultural que coloca o genocídio como correto” (Henrique Afonso,
IstoÉ, 1998); “Não se pode preservar uma cultura que vai contra a vida”
(Edson Suzuki, diretor da ONG Atini, IstoÉ, 1998).
Por fi m, há uma única saída, coincidente com a dada pela Veja: a cri-
minalização do infanticídio indígena com a promulgação do projeto de
lei do deputado Henrique Afonso. Desse modo, a revista IstoÉ encerra os
esforços descritivos do infanticídio indígena.

112 “Os pesquisadores já detectaram a prática de infanticídio em pelo menos 13 etnias,


como os ianomâmis, os tapirapés e os madilhas. Só os ianomâmis, em 2004, mataram 98
crianças. Os Kamaiurás, a tribo de Amalé e Kamiru, matam entre 20 e 30 por ano.”

128 Adriana Vianna


2.3. Folha de S. Paulo: “em xeque respeito à tradição indígena – ONG
levanta debate sobre a vida; antropólogos condenam imposição de lei
e defendem que mudança ocorra por meio do diálogo”
Por um lado, a matéria da FLSP (6/4/2008, caderno Brasil113) assemelha-se
às outras duas reportagens aqui analisadas. Ela inicia sua narrativa com a
apresentação de um caso-chave, Mayutá Kamaiurá, cuja mãe, grávida de
gêmeos, deveria matá-los em conformidade com a tradição. Com a inter-
venção do pai de Mayutá e por intermédio de seu avô – pajé –, há o impe-
dimento da morte de apenas uma criança. A possibilidade de mudança na
tradição dos Kamaiurás é introduzida pela revista com a intervenção dos
não indígenas. O caso de Amalé, salvo pela tia de Mayutá, possibilitou o
contato com a ONG Atini, que foi convidada por Paultu, pai de Mayutá,
a “conscientizar os índios de sua aldeia”. O caso e a trajetória da menina
Hakani Zuruahã completam as narrativas secundárias e introduzem o de-
bate sobre o projeto de lei para a criminalização do infanticídio ao tratar
do documentário homônimo à menina.
Por outro lado, há distinções claras. Ao contrário das demais matérias
até aqui analisadas, a FLSP enfatiza a existência de diferentes posicio-
namentos sobre o infanticídio indígena. Logo na chamada da matéria, a
ONG é apontada como responsável pela promoção do “debate sobre o
direito à vida”, que coloca “em xeque respeito à tradição indígena”. A res-
posta dos antropólogos, por sua vez, é imediatamente destacada: “que a
mudança ocorra por meio do diálogo”.
Entretanto, a caracterização do infanticídio indígena não deixa espa-
ços para questionamentos ou contraditos. Ela é apresentada de modo fe-
chado e estabelecido. É dada por existente “em cerca de 20 das mais de
200 etnias do país”, que o fazem guiadas pelo “costume [que] leva à morte
gêmeos, fi lhos de mães solteiras e crianças com deficiência”. As ONGs,
antropólogos e índios são ainda tratados em blocos monolíticos, por meio
de opiniões que são postas pela matéria como consensuais.
A partir daí e até o fi nal da matéria, a FLSP produz um mosaico com
falas de diferentes atores envolvidos. O projeto de lei de criminalização do
infanticídio indígena é o mote ao qual se juntam 1) o depoimento de Maíra
Barreto, doutoranda em direitos humanos pela Universidade de Salamanca
e conselheira da Atini sobre a superioridade do direito à vida em detrimen-
to do direito à cultura; 2) trechos da declaração da Organização Interna-
cional do Trabalho (OIT) e da Organização das Nações Unidas (ONU), em

113 Todas as citações neste tópico são dessa matéria, salvo quando houver outra indicação.

O fazer e o desfazer dos direitos 129


que é reiterada a licença à prática dos “costumes” somente quando estes
não “violentam a vida”; 3) depoimentos de antropólogos que manifestam
a violência da imposição da lei do infanticídio aos grupos indígenas; e, por
fi m, 4) a fala de missionários do Conselho Indigetista Missionário (CIMI),
para os quais “ninguém é a favor do infanticídio. Agora, enquanto prática
culturalmente e moralmente aceita, não pode ser combatida de maneira
intervencionista”. Foi desse modo, portanto, que a FLSP constituiu um
mosaico em que diferentes linhas argumentativas foram sequencialmente
alinhavadas sem provocar, com isso, sobreposições valorativas.
***

Em face das recorrentes menções à ONG Atini em todos os veículos de


comunicação analisados, passaremos, a partir de agora, à análise de sua
atuação.
***

3. ONG Atini: “Quebrando o silêncio”


De acordo com postagens no site <http://www.atini.org>, a Atini é uma
organização não governamental (ONG) brasileira que se atribui a missão
de “erradicar o infanticídio nas comunidades indígenas, promovendo a
conscientização, fomentando a educação e providenciando apoio assisten-
cial às crianças em situação de risco e àquelas sobreviventes de tentativas
de infanticídio”. A fundação da organização, realizada por Edson e Márcia
Suzuki, deu-se entre 2006 e 2007. Os fundadores têm formação acadêmica
em etnolinguística e atuam na área de educação, saúde e desenvolvimento
sustentável entre o grupo indígena brasileiro da etnia Zuruahã.114 Os fun-
dadores da ONG Atini compõem ainda a equipe brasileira da organização
evangélica norte-americana Youth with a Mission (denominada no Brasil
Jovens com uma Missão – Jocum115).
Edson e Márcia Suzuki são ainda os responsáveis pela retirada da meni-
na Iganani Zuruahã, filha de Muwaji, para tratamento médico em São Pau-
lo, fato ocorrido em 2005 e noticiado no programa “Fantástico”, da Rede
Globo, no mesmo ano.116 E, por fim, porém não menos importante, eles são

114 Cf. Suzuki (1997a) e Suzuki (1997b).


115 Disponível em: <http://www.survivalinternational.org/informacao/hakani>.
116 Trata-se do caso da mulher indígena Muwaji Suruuarrá, disposta a permanecer em con-
vívio com os brancos para tratamento médico da fi lha, Iganani, que apresentava problemas
de paralisia cerebral e por isso era ameaçada de morte pela tribo.

130 Adriana Vianna


os pais adotivos de Hakani, menina também Zuruahã, cuja história de vida
foi noticiada nas três matérias analisadas neste capítulo. Hakani é ainda a
personagem central de um documentário homônimo produzido, em 2007,
pelo diretor David Cunningham, filho do fundador da organização Youth
with a Mission,117 nos Estados Unidos da América (EUA).
O principal canal de comunicação da ONG Atini é constituído por
um conjunto de páginas na internet por meio das quais são apresentados
dados, históricos, casos etc. sobre a prática de infanticídio entre grupos
indígenas brasileiros. Os domínios pelos quais veicula tais informações
são: <http://www.atini.org/>; <http://artesanatocontemporaneo.blogspot.
com/>; <http://www.apadrinhamento.atini.org.>; <http://www.hakani.
org/>. Além desses sites, as ações da ONG são divulgadas por meio de
postagens de vídeos no domínio <http://www.youtube.com/>, de partici-
pações em matérias jornalísticas e da formação de uma campanha difu-
sa.118 Nessas ações, a ONG apresenta-se ora como entrevistada, ora como
agente de soluções possíveis, conforme analisado anteriormente.
Contrariamente ao conjunto de matérias e notícias que aqui temos ana-
lisado, a Atini procura demonstrar um diálogo contínuo com antropólo-
gos, advogados, religiosos, indígenas, indigenistas e educadores, ao mesmo
tempo que sua vinculação evangélica e missionária tende a ser minimizada.
Ao tratar do infanticídio indígena, a Atini inicia por promover um du-
plo movimento, em que as categorias mulher e Zuruahã são postas em re-
lação. A prática é apresentada como corrente entre os Zuruahã, mas quem
sofre as dores é a mulher. O deslocamento é igualmente realizado entre as
categorias mulher e mãe. A maternidade juvenil e a tradição cultural são
recuperadas na argumentação da Atini como um fator para instabilidade
da maternidade, tomada como um valor universal. Assim temos: “Ela sai
sozinha, mesmo que seja muito jovem e aquele seja seu primeiro bebê”; “É
ali, na hora do parto, que essa jovem mãe tem a grande responsabilidade
de decidir o futuro da criança”.
O argumento da eugenia é então apresentado como o critério primor-
dial para escolha da mãe: “ela [a mãe, não mais qualificada como indíge-

“Se eu levá-la para a casa dos Zuruahã e ela não andar, vou ter de dar veneno pra ela. O meu
coração não está nem pensando em voltar para os Zuruahã por causa da minha fi lha. Eu fi-
caria muito tempo com os brancos para ela melhorar.” O programa cita ainda que oito índios
foram levados pelos missionários a um sítio em São Paulo (“Fantástico”, 18 set. 2005. Dispo-
nível em: <http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL695084-15605,00.html>.)
117 Disponível em: <http://www.survivalinternational.org/informacao/hakani>.
118 Esta formada, sobretudo, pelo incentivo a reuniões para divulgação do material publici-
tário disponível no site <http://www.hakani.org>.

O fazer e o desfazer dos direitos 131


na] só poderá ficar com o bebê se ele for perfeito”. Após esses primeiros
movimentos de significação da prática infanticida entre os Zuruahã, o
discurso da Atini passa a alocá-la no lugar do silêncio. “O infanticídio é
um tabu […] Ninguém fala, ninguém enfrenta, ninguém toma posição. A
posição mais cômoda continua sendo a omissão.”
No entanto, o momento atual é apontado pela Atini como favorável à
“mudança de atitudes”. Aqui, retoma a mulher associada á categoria indí-
gena para apresentar sua denúncia mediada pela “mídia nacional”:

Estamos vivendo um momento de mudança de atitudes. Algumas mulhe-


res indígenas resolveram abrir a boca sobre esse assunto, tão polêmico e
ao mesmo tempo tão doloroso para elas. A partir da iniciativa dessas mu-
lheres, o tabu começou a ser quebrado e a mídia nacional vem veiculando
diversas matérias sobre o assunto.

O discurso da ONG é estabelecido em uma oscilação entre apropria-


ção e denúncia dos argumentos utilizados contra a intervenção nas ditas
práticas culturais. Ao falar da ausência de dados confiáveis, a Atini lança
a acusação por duas linhas aparentemente opostas. Os dados apresentados
podem ser tanto menores quanto maiores do que aqueles por ela já anun-
ciado.119 Para o primeiro caso, são “minimizados” pelo governo, que na
fala da Atini trata a prática como localizada e restrita a poucos grupos
indígenas; e, para o segundo, são decorrentes de uma ampliação da “noção
de infanticídio”. O infanticídio indígena, até então associado ao homicídio
neonatal, tem sua faixa etária ampliada pela Atini. Aqui, a ONG promove
outro deslocamento de sentido, não visto nos meios de comunicação ana-
lisados anteriormente: “É importante ressaltar que não são apenas recém-
-nascidos as vítimas de infanticídio. Há registros de crianças de 3, 4, 11 e
até 15 anos mortas pelas mais diversas causas.”

119 Os dados são tanto apresentados de modo genérico e impreciso (“números alarmantes”,
“centenas de casos”) quanto posicionados em dados censitários (“Com base no Censo Demo-
gráfico de 2000, pesquisadores do IBGE constataram que, para cada mil crianças indígenas
nascidas vivas, 51,4 morreram antes de completar um ano de vida, enquanto, no mesmo pe-
ríodo, a população não indígena apresentou taxa de mortalidade de 22,9 crianças por cada
mil. A taxa de mortalidade infantil entre índios e não índios registrou diferença de 124%. O
Ministério da Saúde informou, também em 2000, que a mortalidade infantil indígena che-
gou a 74,6 mortes nos primeiros 12 meses de vida. Curiosamente, nas notícias do IBGE e do
Ministério da Saúde não há qualquer explicação da causa mortis”). Todo o contexto social
de expropriações, insuficiências de recursos médicos, sanitários e alimentares, em que vive
parcela significativa da população indígena brasileira, é pela ONG Atini desconsiderado sob
o argumento de que não há qualquer explicação.

132 Adriana Vianna


Semelhante movimento argumentativo é realizado para os casos de
violência contra crianças não indígenas. Atos reconhecidos pela Atini
como “uma marca triste da sociedade brasileira”, mas que são ainda mais
dramáticos para o caso das crianças indígenas, pois, segundo a ONG,
“elas não podem contar com a mesma proteção com que contam as outras
crianças, pois a cultura é colocada acima da vida e suas vozes são abafadas
pelo manto da crença em culturas imutáveis e estáticas”.
Temos aqui mais uma virada de sentido. É por meio do viés da ausência
de direitos específicos para a proteção da criança indígena que Atini lança
as bases de sua campanha perpetrada amplamente em diferentes domínios
de comunicação.

4. Do particular ao coletivo
Ao longo dos tópicos anteriores, vimos como os casos citados nas posta-
gens da Veja online espelham as matérias da Veja impressa, que, por sua
vez, tem argumentos e caso principal (que fundamentam a identificação da
vítima, agressor e da denúncia) diretamente associados a Márcia Suzuki
(fundadora da ONG Atini) e a Hakani, criança Zuruahã por ela adota-
da. A construção narrativa da Veja impressa assemelha-se igualmente ao
caminho proposto pela Atini, ou seja, apresentação de casos particulares;
generalização da prática aos índios brasileiros (em um domínio difuso,
sempre indicado por “mais de…”, “já são conhecidos… casos”); e, por fi m,
denúncia de violação dos direitos humanos, materializada pela identifica-
ção das situações de ameaça sofridas pelas crianças.
As matérias destacadas da Folha de S. Paulo e da revista IstoÉ ten-
tam dinamizar suas abordagens ao introduzir, no primeiro caso, diferentes
pontos de vista, e ao indicar, no segundo, que os costumes são passiveis de
transformação. No entanto, o quadro a seguir recupera sucintamente os
atores e as ações referidos pelos textos jornalísticos analisados e permite
perceber, apesar das variações na composição dos argumentos, o núcleo
duro das matérias analisadas, o qual remete a dois eixos comuns: a vitima-
ção das crianças e a ameaça da tradição cultural.

O fazer e o desfazer dos direitos 133


Tabela 2. Quadro comparativo das matérias e ONG analisadas ao longo do texto120

Veículo de
comunicação Vítima Denunciador Agressor Denúncia*
analisado
Índios orientados pela cultura
Veja Crianças Imprensa e apoiados pela Funai e pelos Crime
antropólogos
IstoÉ Crianças Imprensa Costumes/tradição Barbárie
Folha de S.
Crianças Imprensa Tradição Maldição
Paulo
Atini Crianças Atini Tradição cultural Tabu
* A denúncia é aqui entendida como a acusação pública a que está submetido um agressor face a
vitimização de um sujeito identificado.

Além desse núcleo, os textos compartilham ainda uma mesma opera-


ção: a de fabricação de tipos ideais – crianças, mães, índios e antropólogos
– e de caracterização da ação de infanticídio indígena. Os sentidos desses
elementos não são descritos individualmente e constituem uma trama den-
sa de significados que tentaremos desmontar em seguida. Desmontar aqui
não se refere a revelar uma verdade oculta, mas compreender as situações,
os acontecimentos e as intencionalidades presentes nos jogos de constitui-
ção dos sujeitos e conceitos, tal como preconiza Bensa (2006a).
A construção do personagem criança (e do conjunto de direitos a ela
recorrido), nos textos analisados, só é possível pela disjunção desses sujei-
tos do contexto cultural nos quais eles são inscritos, a fi m de reforçar sua
dimensão universal. Quando se referem à criança, os textos nunca a asso-
ciam à categoria índios/indígenas. Trata-se de uma tentativa de solução do
impasse indicado por Vianna (2002) em sua análise de guarda e circulação
de menores no contexto de transição entre o Código de Menores (1979)
e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990). Para a autora, os
discursos em torno da participação de minorias encontram um limite im-
posto pela imagem da infância. Esse limite deve-se à constatação da dupla
vinculação da infância: ao mesmo tempo que se lhe atribui uma dimensão

120 Aqui, tentamos realizar uma aproximação das indicações de Boltanski et al. (1984)
acerca da análise de denúncias publicadas pelo Le Monde. Nestas, os autores orientam perce-
ber como se dá a instauração do sistema de relações entre 1) aquele que denuncia, 2) aquele
em favor do qual a denúncia é realizada, 3) aquele em detrimento do qual a denúncia é rea-
lizada, 4) aquele junto ao qual ela é operada (p. 6) e como se opera, ou não, a generalização
de casos particulares. Para uma compreensão detalhada do método actancial de análise, ver
Boltanski et al. (1984).

134 Adriana Vianna


universal, atribui-se-lhe também uma dimensão local, seu pertencimento
cultural, ora postulado como um “direito”, ora tematizado como um “im-
passe” (VIANNA, 2002, p. 77).
No entanto, no contexto analisado, esse limite constitui-se apenas na
medida em que determinada concepção de família (interdependente daque-
le) também é constituída. Se, por um lado, a disjunção transforma aquelas
crianças indígenas em crianças sujeitos de direito, por outro, ela demoniza
as condições de composição familiar indígena. Para tanto, recorre à adje-
tivação da animalidade (criar, abater, refugiar); localiza-as em um ponto
ideário de processo civilizador, entre a barbárie e as primeiras civilizações;
e, geograficamente, em locais remotos e de condições insalubres.121 Trata-
-se dos mecanismos de constituição do que Vianna denominou “famílias
perigosas” – “não no sentido da família que não forma corretamente os
indivíduos sob sua alçada, mas da família que os ameaça e ataca enquanto
sujeitos de direito” (VIANNA, 2002, p. 77).
Aqui, é importante reter os elementos da ameaça e do ataque indicados
por Vianna na citação anterior e que permitem compreender os limites do
alcance de um caso para o qual foram produzidas várias matérias e que,
a despeito de ter mobilizado Funai, Funasa e MPF, não conseguiu alçar-
-se ao status de caso principal tal como defi nido no início deste capítulo.
Trata-se de uma menina ianomâmi, sem nome indicado, e que, por ter
hidrocefalia, foi retirada da aldeia para tratamento (O Globo, 20/4/2009,
22/4/2009; FLSP, 16/4/2009, 17/4/2009a). A partir de sua retirada, inicia-
-se, em face do “risco” de infanticídio a que estava submetida, uma disputa
entre as instituições citadas e os indígenas de sua aldeia para defi nição dos
tratamentos a ela destinados.
Há algumas características que, a meu ver, contribuem para a “secun-
darização” desse caso nas matérias analisadas. Além de não ter nome, ela
não havia sobrevivido à tentativa de infanticídio, nem era objeto de dispu-
ta por um “protetor” externo ao “mundo indígena”. A associação de seu
caso com o infanticídio indígena dava-se unicamente pela possibilidade de
ela vir a ser morta quando retornasse à aldeia. Era a ameaça, o risco,122 e
não a concretização efetiva do infanticídio, o ponto de tensão da narrativa.

121 Para uma crítica recente aos usos e classificações jornalísticos sobre indígenas brasilei-
ros, ver Oliveira (2010). Para uma discussão sobre o uso de estruturas de localização para
conformação de ideários de submissão e de domínio, ver Said (1999, p. 88).
122 Para os limites da eficácia da ameaça, ver Boltanski (1993, p. 136), para o qual a ame-
aça não tem a força necessária para acionar o vocabulário dos sentimentos para comoção.
Mais adiante nos deteremos na análise da linguagem da comoção.

O fazer e o desfazer dos direitos 135


Se o caso da menina ianomâmi pode, por um lado, significar a ruptura
com um modelo até então recorrente nos textos analisados, por outro,
ajuda a iluminar alguns dos mecanismos de triagem dos demais casos al-
çados a principais. Para estes, temos como elemento recorrente a ênfase na
sobrevivência. Assim, a revista Veja (edição 2.021, 15/8/2007) indica que
Hakani foi “condenada à morte”; a IstoÉ (edição 1.998, 20/2/2008), que
Amalé é um “sobrevivente de sua própria história”; e a Folha de S. Paulo
(6/4/2008), que Mayuta “deveria estar morto”. Os motivos que conduzem
à decisão pela morte são apresentados, no texto jornalístico, como não
consensuais e levianos, cujas motivações são facilmente contornáveis no
mundo dos brancos. É o problema de tireoide de Hakani, o hermafroditis-
mo de Titiu, a paralisia cerebral de Iganani, que ao serem curados pelo ho-
mem branco, mediados pelos missionários, inauguram um novo momento
que é contraposto, pelas matérias, à barbarização da “vida infantil” e aos
cuidados dispensados à “criança” no mundo indígena.
Vianna (2005, p. 40), em um trabalho sobre direitos, moralidades e de-
sigualdades, reconhece a importância do que denominou “cena da salva-
ção” para eficácia narrativa e constituição moral dos salvadores. No con-
texto deste capítulo, também são as cenas de salvação que constituem os
pontos densos das narrativas. Estas não apenas investem os salvadores123
de valor moral, como constituem o próprio evento da narrativa. Tomo aqui
a noção de evento como defi nida por Bensa (2006b, p. 176): “L’événement
ne se donne jamais dans sa vérité nue, il se manifeste – ce qui implique
aussi qu’il est manifesté, c’est-à-dire qu’il résulte d’une production, voire
d’une mise en scène: il n’existe pas en dehors de sa construction.” Pois,
ainda segundo o autor, “ce qui caractérise l’événement, ce sont donc à
la fois l’évidence d’une rupture et l’incertude quant à sa signification. Et
c’est ce double point de départ, ambigu et complexe, que prennent les
sciences sociales pour parler de l’événement” (BENSA, 2006b, p. 191).
Gostaria, agora, de recuperar dois importantes sentidos do infanticídio
indígena tal como o estamos analisando. Trata-se dos sentidos atribuídos
à maternidade e ao parentesco diante do ataque do infanticídio indígena.
O primeiro sentido é produzido pela conversão das dores e sofrimentos
das mulheres indígenas envolvidas nos casos narrados em dor de mãe. Tal
conversão é tanto realizada pela supressão dos etnônimos étnicos, quando
os textos são referidos a mulheres indígenas e, em seu lugar, há apenas a

123 Os salvadores são sobretudo as ONGs, missionários e indígenas “conscientizados do


valor da vida”. Note-se que os antropólogos e a Funai, embora mencionados em várias das
situações, jamais são classificados como salvadores.

136 Adriana Vianna


indicação do status de mãe, quanto pelas denúncias de restrições impostas
à maternidade pela tradição indígena.
O reconhecimento da figura materna naquela que protagoniza a “cena
de salvação” e não mais a continuidade da descendência sanguínea e/ou
cultural124 constitui o elemento que sacraliza a preponderância da mater-
nidade sobre o domínio cultural e permite o uso dos sofrimentos individu-
ais para objetivação de demandas por implementação de direitos, notoria-
mente o ideário dos direitos humanos. Tal objetivação é ainda reforçada
pelo conjunto de denúncias de “ausência de direitos específicos para [a]
criança indígena” (Atini)125 e de “perversidade do relativismo cultural [in-
dicado pelos textos jornalísticos como o elemento de defesa das “práticas
culturais”]” (Veja, edição 2.021, 15/8/2007).
O efeito dessas ações é que, ao associar uma prática particularizada a
uma dor coletivizável para obter maior eficácia, os veículos de comunica-
ção impõem uma significação completamente diversa daquela interjeição
que constituiria o caso particularizado.126 Trata-se, conforme nos alerta
Boltanski (1993, p. 99), do contínuo processo de fabricação da fronteira
entre alienações genéricas e alienações específicas, que é produzida pela
lógica da denúncia.
Por fi m, a leitura atenta dos casos, principais e secundários, não em sua
dimensão individualizada, mas em seu conjunto, nos revela uma inespera-
da surpresa. De todas as particularidades citadas até agora, há, no entan-
to, uma ênfase em apenas dois povos indígenas: Zuruahã e Kamaiurá, a
despeito dos variados grupos aos quais os textos jornalísticos atribuíram
a prática infanticida; e quatro crianças notoriamente recorridas para com-
posição das matérias: Hakani Zuruahã, citada em FLSP, 6/4/2008, IstoÉ,
20/2/2008, e Veja, 15/8/2007; Amalé Kamaiurá, citado em CB, 8/10/2009,
e IstoÉ, 20/2/2008; Iganani Zuruahã, citado na FLSP, 6/4/2008; e Titiu
Zuruahã, citado no JB, 11/2/2009.
Se, no entanto, essa produção de sentidos, a qual tentamos esmiuçar
neste tópico, é realizada por incontáveis deslocamentos de ênfases e sen-
tidos, somente a conformação de uma rede de comentadores estrategica-
mente posicionados e de uma retórica comum permitiu a consolidação de
sentidos tal como vimos aqui.

124 Ver, por exemplo, a fala do menino Amalé, transcrita na revista IstoÉ: “Minha verda-
deira mãe não é a minha mãe. Minha mãe é Kamiru [indígena de etnia distinta da de Amalé.
É identificada como a mulher que o salvou].”
125 Disponível em: <http://www.hakani.org>.
126 Para uma análise dos usos sociais das emoções, ver Mauss (1980, p. 60-61).

O fazer e o desfazer dos direitos 137


5. Considerações finais
Gostaria, neste espaço fi nal, de tecer apenas duas breves observações.
Primeiramente, com base na defi nição de problema social proposta por
Sayad, compreender os limites de sua aproximação com o processo que
aqui descrevemos. E, em segundo lugar, estender o campo de visualização
da etnografia aqui descrita ao domínio jurídico e moral no qual esse mes-
mo processo se insere.
Como indica Sayad (1998), compreender a gênese e a elaboração de
um problema social não é tarefa das mais simples. A conexão entre o que
se classifica como problema social e a realidade fenomênica ao qual ele
está associado não é de modo algum direta, causal e interdependente – ela
possui condições sociais de possibilidade próprias. O problema social é
ainda historicamente datado e não pode ser defi nido por uma característi-
ca inerente. As dinâmicas pelas quais ele é engendrado demonstram que ele
pode aparecer muito tempo depois do surgimento do fenômeno que está
designando e, muitas vezes, desaparecer como tal, embora o fenômeno
subsista (SAYAD, 1998, p. 56-57).
O problema social é ainda limitado pela existência de uma ordem so-
ciológica específica destinada aos objetos sociais dominados e pelos ins-
trumentos metodológicos de análise possíveis, e caracterizado pela desim-
portância, marcada pela ausência de uma tradição de estudos, de arquivos,
de documentos objetivos, de dados sociais rigorosamente coletados e gra-
vados, de séries estatísticas suficientemente longas e homogêneas (SAYAD,
1998, p. 21).
Sayad, nas referências citadas, denuncia os horizontes impostos aos
estudos de migração por sua correspondência com estudos de grupos po-
pulacionais menos importantes socialmente e, por isso, desmerecedores da
atenção dos registros das ciências do Estado. Contudo, sua crítica pode ser
estendida a outros objetos para os quais a relação de subalternidade e de-
simportância social também foi estabelecida e que, no entanto, não estão
necessariamente ligados ao fenômeno da migração.
A construção da noção de infanticídio indígena no Brasil pode ser,
nos termos apontados por Sayad, classificada como um problema social.
Como vimos anteriormente, sua origem não está de modo algum associada
ao surgimento da situação que lhe deu causa;127 ela igualmente se submete

127 Ver, por exemplo, relato do viajante português Diego de Castro e Albuquerque, que, em
1778, realizou uma expedição ao Pantanal, na qual registrou práticas infanticidas entre os
índios Kadiwéus. Para registros mais recentes, ver a revista Veja, edição 84 (15 abr. 1970),
ou ainda a edição 1.148 (19 set. 1990).

138 Adriana Vianna


à ausência de arquivos e dados sistematizados;128 e, ainda, os horizontes
disciplinares responsáveis por sua análise não dão conta da polifonia e do
dinamismo constitutivos da cultura.129
Como então explicar os mecanismos pelos quais tal prática, ofuscada
pelas condições de pesquisa e análise indicadas, passou a ser significada
pelo sentido que aqui delimitamos ao conceito de problema social?
Aqui, gostaria de iniciar a minha segunda e última consideração: algu-
mas observações dos domínios mais amplos em que essa ação se inscreve.
Patrice Schuch (2009), em seu estudo sobre as práticas de justiça no
contexto pós-ECA, aponta para uma importante transformação ocorrida
com a inserção da linguagem dos direitos no Brasil, qual seja, a introdução
de um “novo ideário de formação de novos sujeitos éticos, corresponsáveis
pela gestão de políticas públicas, novas maneiras de fazer justiça e admi-
nistração de populações” (p. 278). A introdução da linguagem dos direitos
e seus efeitos não apenas dão-se, como alerta Schuch, nos domínios das
práticas de justiça, mas conformam novas expectativas sobre quem são os
sujeitos de direitos e as formas adequadas para sua gestão.
Essa administração de populações, no entanto, não se dá desprovida
de marcas históricas ou de princípios de classificação.130 Como nos indica
Vianna (2002, p. 47), “é preciso pensar a ação do juizado como ação so-
berana e disciplinar para todos, mas como ação pacificadora para alguns,
aqueles que supostamente se encontram mais próximos das representações
de desregramento e da guerra”. Aqui, por meio das noções de “ações pa-
cificadoras” e de “representação de desregramento e guerra” aplicadas a
grupos populacionais, pretendemos realizar uma dupla aproximação das
situações analisadas neste texto. Antes, só por um instante, gostaria de me
deter um pouco mais na indicação de Vianna.
O sentido da ação pacificadora ao qual se refere a autora está intrin-
secamente vinculado ao conceito mais amplo de poder tutelar, tal como o
defi ne Lima (1995). Segundo o autor (LIMA, 1995, p. 74), o poder tutelar
trata da

128 Antonio Carlos Souza Lima (1995), por exemplo, ao mencionar a pesquisa desenvolvida
nos arquivos nacionais do Brasil sobre as populações indígenas, correlaciona-os com verda-
deiras selvas para as quais o pesquisador necessita conceber expedições de reconhecimento
do terreno – isto é, passar fi lme a fi lme, fotograma a fotograma, até conseguir estabelecer um
mapa mínimo de documentos a serem abordados (1995, p. 27).
129 Para uma crítica dos pressupostos impostos pela antropologia aos estudos dos grupos
étnicos, ver Oliveira (2004).
130 Para alguns caminhos de compreensão da administração de populações indígenas no
Brasil, ver Lima (1995).

O fazer e o desfazer dos direitos 139


ação de sedentarizar povos errantes, vencendo-lhes – a partir de ações
sobre suas ações e não da violência – sua resistência em se fi xarem em
lugares defi nidos pela administração. […] O exercício do poder tutelar
implica em [sic] obter monopólio dos atos de defi nir e controlar o que seja
a população sobre a qual ele incidirá.

No entanto, não é objetivo deste trabalho discutir a o alcance do con-


ceito de poder tutelar. Apresento-o neste momento com o intuito apenas
de tornar mais clara a argumentação precisa de Vianna, a qual acredito ser
útil à compreensão do que aqui está sendo analisado: a emergência da no-
ção de infanticídio indígena em alguns veículos de comunicação da mídia
brasileira e as soluções a ela propostas.
Retomando Vianna (2002, p. 54),

a conotação de um esforço sempre tutelar [dá-se] na medida em que su-


põe que o encontro entre especialistas e não especialistas faz parte de um
processo de aprendizado em que cabe aos primeiros iluminar os demais
(sobre como se construir e conduzir enquanto unidade doméstica), mas,
ao mesmo tempo, supõe que tal aprendizado tem limites que não serão
superados.

Posto isso, podemos, a partir de agora, recuperar os elementos ana-


lisados no tópico anterior (vocabulário da animalidade, localizações re-
motas, motivações para prática infanticida tomadas como fúteis etc.) não
apenas com expedientes retóricos de construção de uma alteridade radical
e assimétrica, mas principalmente como mecanismos de subordinação de
populações para melhor governá-las, tal como nos indica Lima (1995) e
Vianna (2002).
Além de esses expedientes narrativos produzirem as “representações de
desregramento e guerra” que legitimam as ações de subordinação dessas
populações, há ainda outro viés, ora subjacente, ora explícito, que per-
meia o conjunto de textos analisados: o horizonte normativo dos direitos
humanos. As matérias analisadas e a Atini recorreram constantemente à
universalidade dos direitos humanos para formação de sua plataforma de
reivindicações em prol da vida das crianças indígenas. A ameaça à vida
pela tradição cultural foi reforçada ao longo de toda a campanha jornalís-
tica em uma tentativa de promover o consenso de que a vida é superior à
origem étnica. Tal campanha ressoou de diferentes modos nas matérias e
notícias analisadas.

140 Adriana Vianna


Primeiramente, pelas falas e entrevistas proferidas pelos atores citados.
Por exemplo, o depoimento do deputado Henrique Afonso, do PT-AC,
na revista Veja, no qual afi rma que “o Brasil condena a mutilação genital
de mulheres na África, mas permite a violação dos direitos humanos nas
aldeias” (Veja, 15/8/2007).
Pelas generalizações produzidas com base nos deslocamentos de senti-
do das noções de infanticídio, infância, índios, indígenas, mulher e mãe,
que permitiram o cruzamento entre os sujeitos objeto das ações e os instru-
mentos legais que compõe o universo dos direitos humanos.
Pela ressignificação destes mesmos instrumentos legais. Assim, o tex-
to do Unicef, que denuncia internacionalmente as condições de vida das
populações indígenas, é, no site da Atini, destituído de seu contexto de
produção e do significado mais amplo para ser exclusivamente pinçado no
reforço da ideia de que são as práticas culturais que ameaçam as crianças:
“As crianças indígenas fazem parte dos grupos mais vulneráveis e mar-
ginalizados do mundo, por isso é urgente agir a nível [sic] mundial para
proteger sua sobrevivência e direitos […].”131
Ou, ainda, pela justaposição de convenções internacionais132 a legisla-
ções nacionais133 e projetos ainda em estudo,134 em que hierarquias, domí-
nios e esferas de atuação legais são desfeitos, assim como a própria especi-
ficidade de cada caso a que a lei pode e deve ser aplicada.
O resultado fi nal do emaranhado jurídico proposto por nossos atores
(veículos de comunicação e ONG Atini) constituiu a supremacia do direito
à vida sobre o direito à cultura. Esta é indicada em vários dos veículos ana-
lisados, seja pela via da completa inaceitabilidade (“É um absurdo fechar
os olhos para o genocídio infantil, sob qualquer pretexto”; “Não se pode
preservar uma cultura que vai contra a vida. Ter escravos negros também

131 Relatório do Centro de Investigação do Unicef, em Florença, Madri, fev. de 2004 apud
<http://www.hakani.org>.
132 Um dos princípios-chave que têm vigência no Direito internacional estabelece que o
indivíduo deve receber o mais alto nível possível de proteção e que, no caso de crianças, “o
interesse superior da criança [art. 3º da Convenção sobre os Direitos da Criança] não pode
ser desatendido ou violado para salvaguardar o interesse superior do grupo”.
133 O Decreto brasileiro n. 5.051, de 2004, em seu art. 8º, n. 2, “garante aos povos indí-
genas o direito de preservar seus costumes e instituições próprias desde que eles não sejam
incompatíveis com os direitos fundamentais defi nidos pelo sistema jurídico nacional nem com
os direitos humanos internacionalmente reconhecidos”.
134 No estudo do Instituto Innocenti, do Unicef, chamado “Assegurar os direitos das crian-
ças indígenas”, há uma referência às práticas tradicionais nocivas: “Por outro lado, as reivin-
dicações de grupo que pretendem conservar práticas tradicionais que pelos demais são consi-
deradas prejudiciais para a dignidade, a saúde e o desenvolvimento do menino ou da menina.”

O fazer e o desfazer dos direitos 141


já foi um direito cultural” [Edson Suzuki, diretor da ONG Atini, IstoÉ,
20/2/2008]), seja pela obrigatoriedade da ordem do direito (“Nós vivemos
sob uma ordem legal e a lei diz que o direito à vida é mais importante que
a cultura” [Maíra Barreto, doutoranda em direitos humanos pela Univer-
sidade de Salamanca e conselheira da Atini, FSP, 6.4.2008]).
Os direitos humanos, quando utilizados como linguagem de compre-
ensão e de legitimidade para a intervenção tutelar em populações minori-
tárias, nos jogam em um impasse moral indissolúvel:

o paradoxo imposto pela cultura dos direitos humanos é a constatação de


que não há possibilidade de desenlace para os confl itos morais que honre
os interesses da forma como foram inicialmente confrontados pelas par-
tes discordantes. A condição de todo e qualquer desfecho para a discórdia
moral implica no [sic] constrangimento de uma das partes interessadas na
questão ou mesmo, em casos mais extremos, na [sic] ofensa de ambas as
partes. (DINIZ, 2001, p. 35)

Não constituiu nosso objetivo desfazer o impasse ou mesmo o parado-


xo que ele apresenta, tampouco indicar a que lado cabe a ofensa. Na ela-
boração deste capítulo, buscamos primeiramente indicar os modos pelos
quais tal impasse constituiu-se em um contexto etnográfico preciso. A es-
tratégia adotada, conforme explicitado na apresentação do texto, compôs-
-se basicamente da identificação da recorrência de sujeitos e categorias,
e dos modos de semantização do infanticídio indígena. Esperamos que
as descrições aqui realizadas auxiliem na compreensão não apenas dessa
situação, mas dos usos sociais possíveis dos direitos humanos e da impli-
cação que esses usos sociais têm para os grupos aos quais são tomados por
objeto.

Referências
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-indios-tentam-levar-menina-para-aldeia-755374048.asp>. Acesso em: 4 jul. 2009, 13:52.
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PARAJARA, Fabiana. Caso raro de trigêmeos entre ianomâmis mobiliza aldeia na Ama-
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O fazer e o desfazer dos direitos 145


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MÃES DA ARTE. Disponível em: <http://artesanatocontemporaneo.blogspot.com>.
UMA VOZ PELA VIDA… HAKANI. Disponível em: <http://www.hakani.org>.

146 Adriana Vianna


Polícia e movimento social em Altamira, Pará:
o “caso dos meninos emasculados”

Paula Lacerda135

1. Introdução
O “caso dos meninos emasculados de Altamira” é como ficou conheci-
do o conjunto de crimes contra meninos com idades entre oito e 14 anos
que ocorreu na cidade de Altamira, sudoeste do Pará, entre 1989 e 1993.
Além da tentativa de assassinato – em alguns casos consolidada – e casos
de desaparecimento sobre os quais é difícil caracterizar o que ocorreu,
alguns meninos foram torturados e tiveram seus órgãos sexuais mutilados,
com o auxílio de instrumentos cortantes de precisão cirúrgica, como ficou
atestado pela perícia. As variações em torno da extensão e característi-
cas da mutilação sexual, no contexto do processo judicial instaurado, na
mídia e no dizer dos familiares, tenderam a ser tratadas sob o mesmo ter-
mo, “emasculação”, inicialmente empregado pelo médico responsável pelo
atendimento a dois dos sobreviventes.
Como veremos ao longo deste capítulo, a referência à “emasculação”
funciona como um classificador de crimes de que foram vítimas crianças
de certo perfil (do sexo masculino, com idades entre oito e 14 anos, de
origem humilde), em determinada cidade (Altamira), durante um período
de tempo preciso (de 1989 a 1993). Esses “contornos” são importantes de
ser assinalados, uma vez que o número de vítimas não é consensual entre
aqueles agentes que atuam no caso, mas, ao contrário, é alvo de disputa e
controvérsias. Enquanto a polícia instaurou sete inquéritos policiais, defi-
nindo, assim, que houve sete vítimas, para o movimento social, represen-
tado sobretudo pelo Comitê em Defesa da Vida da Criança Altamirense,

135 Doutora em Antropologia Social no PPGAS/MN/UFRJ e pós-doutoranda na mesma ins-


tituição com bolsa da Faperj. A referida pesquisa deu origem à tese de doutorado O caso dos
meninos emasculados de Altamira: polícia, Justiça e movimento social. Durante sua realiza-
ção, pude contar com bolsas de estudo da Capes e recursos do projeto “Políticas para a Diver-
sidade e os Novos Sujeitos de Direitos: Estudos Antropológicos das Práticas, Gêneros Textuais
e Organizações de Governo – Diverso”, realizado no Laboratório de Pesquisas em Etnicidade,
Cultura e Desenvolvimento (Laced), Museu Nacional/UFRJ, em convênio com a Finep.
o número é bem maior: afi rma-se que 29 meninos foram vítimas desses
crimes.136
Este texto é resultado parcial da pesquisa de doutorado sobre o “caso
dos meninos emasculados de Altamira”, que tem como objetivo perceber
as formas de ação e articulação de setores da administração pública en-
volvidos no caso, como a polícia e a Justiça, entre si e também sua relação
com o movimento social ligado aos direitos da infância, na região e no
Brasil. Até o momento, foram consultados os inquéritos policiais instaura-
dos a partir da morte, desaparecimento ou sequestro dos meninos vítimas;
o processo judicial dos casos; documentos (impressos, eletrônicos, audio-
visuais) produzidos ou divulgados pelas organizações da sociedade civil;137
e gravações do julgamento dos casos, ocorrido em 2003. Além desses ma-
teriais, a pesquisa vem sendo realizada com entrevistas com pessoas que
atuaram no “caso” (como juiz, promotora, advogado de defesa e assistente
de acusação) e com os(as) integrantes do Comitê em Defesa da Vida da
Criança Altamirense.
Os inquéritos policiais instaurados com base em ocorrências de violên-
cia contra meninos em Altamira, que passam a ser, posteriormente, enten-
didas como parte do “caso dos meninos emasculados”, compõem grande
parte do material empírico do presente texto. Os inquéritos foram obtidos
por meio do Processo Judicial n. 2002.2.20272063, aberto em dezembro
de 1992, a partir da morte de Jaenes da Silva Pessoa. Considerando que
as ações da polícia, como quaisquer outras, não podem ser compreendidas
senão em relação ao contexto mais amplo que as cercam, optei por cotejá-
-las com o processo de formação e de atuação do movimento social com-
posto por familiares das vítimas, o Comitê em Defesa da Vida da Criança
Altamirense, posteriormente parceiro do Centro de Defesa da Criança e
do Adolescente (Cedeca). Essa opção, no entanto, pode ser entendida como
somente uma das possibilidades, ainda que, neste momento, me pareça
bastante central. Deste texto, assim, fica de fora a análise dos mais de 10

136 A parte judicial do caso, por motivo de espaço, não será trabalhada aqui, mas é im-
portante esclarecer que, em relação ao processo judicial, foi construída uma situação ainda
mais complexa: aberto no nome de uma vítima, pouco tempo depois, recebeu como anexos
inquéritos policiais não fi nalizados de mais seis casos, alguns deles ocorridos antes do crime
contra a vítima em nome da qual o processo foi aberto. Outros quatro casos, apesar de não
terem resultado em inquérito policial, aparecem no processo por meio de depoimentos de seus
familiares. Contudo, somente os crimes relativos a cinco vítimas foram a julgamento.
137 Trata-se, basicamente, do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca-
-Emaús) e do Comitê em Defesa da Vida da Criança Altamirense. As características desses
grupos, bem como sua participação no caso, serão discutidas adiante.

148 Adriana Vianna


anos de ações da Justiça, que é também fonte importante de produção de
representações sobre os casos.
***

O primeiro caso de emasculação que ficou conhecido na cidade de Altami-


ra ocorreu no ano 1989. Pedro,138 de 10 anos, estava caminhando sozinho
pelo centro da cidade quando foi abordado por um estranho, que o con-
vidou a colher mangas na mata. Assim que saíram da região mais movi-
mentada, o estranho agarrou a vítima, colocando um pano embebido em
uma substância de cheiro forte sob seu nariz, fazendo-a desmaiar. Quando
Pedro acordou, não sabendo ao certo quanto tempo ficou desacordado,
percebeu-se ensanguentado, muito fraco e despido, mas ainda assim con-
seguiu correr e pedir ajuda. A vítima, apesar de ter sangrado muito e de ter
tido seu órgão sexual extirpado, sobreviveu. Depois da mutilação sexual,
Pedro caiu em um solo de tipo argiloso, denominado tabatinga, que, por
sua baixa temperatura e propriedades cicatrizantes, impediu que ele san-
grasse até morrer.
Quando ocorreu o crime contra Pedro, havia na cidade de Altamira
uma única delegacia da Polícia Civil, responsável por supervisionar, regis-
trar boletins de ocorrência, patrulhar e acompanhar casos em uma área
de grande extensão, superando os limites da cidade de Altamira, que é o
maior município do mundo. Se fosse um país, a cidade seria o 91º mais ex-
tenso do mundo. Algumas vezes, o 51º Batalhão de Infantaria na Selva (51
BIS) foi acionado por parentes das vítimas que buscavam ajuda na procura
de seus meninos. Todavia, não era incomum que a própria delegacia so-
licitasse ajuda do batalhão, sobretudo para efetuar operações na floresta,
que requeriam conhecimento especializado. Além dessa delegacia, havia
na cidade um hospital da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e nenhum
conselho tutelar.139

138 Os nomes das vítimas sobreviventes foram alterados e estão em itálico. Os nomes dos
meninos mortos e de todas as outras pessoas aqui citadas, no entanto, são reais. Essa decisão
foi resultado de um acordo prévio com os familiares das vítimas participantes do comitê, oca-
sião na qual concordamos que seria certo preservar a identidade dos sobreviventes e divulgar
o nome das vítimas mortas, inclusive com o propósito de visibilizar os crimes e colaborar
com a politização em torno dos casos.
139 De competência municipal, os conselhos tutelares foram instituídos pela Lei n. 8.069,
de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), e funcionam como órgão au-
tônomo, não jurisdicional e encarregado de zelar pelo cumprimento dos direitos da criança e
do adolescente. O papel do Conselho Tutelar pode ser entendido tanto como “passivo”, uma
vez que é encarregado de receber denúncias de maus-tratos, evasão escolar etc., quanto como
“ativo”, caracterizado pelo atendimento às crianças que tiveram seus direitos ameaçados e

O fazer e o desfazer dos direitos 149


A cidade de Altamira foi oficialmente fundada em 1917, mas foi ape-
nas nos anos 1970 que ganhou um aumento populacional significativo,
com projetos do governo militar para povoamento e “desenvolvimento” da
região Norte do país. Até então, Altamira era majoritariamente povoada
pelas mais de 10 populações indígenas que vivem no local e por pequenos
comerciantes e agricultores espalhados não apenas pelo território que hoje
é conhecido como Altamira, mas pelas cidades de Medicilância, Anapu e
Vitória do Xingu (cf. VELHO, 1981). A abertura da “rodovia Transama-
zônica”, que corta a cidade de Altamira, foi um dos grandes projetos da
época que necessitaram de contingentes expressivos de mão de obra para
sua execução, atraindo trabalhadores de vários estados brasileiros.140
É nesse contexto de suposta abundância de trabalho e promessa de de-
senvolvimento à região que vários dos familiares dos meninos vítimas do
caso pesquisado chegaram a Altamira. Completando o contexto social da
cidade na época, a região é marcada por diversos conflitos de terra, o que
contribui para a violência e a sensação de insegurança na região.141 Os ga-
rimpos e seu contexto característico – violência, prostituição, drogas – tam-
bém são parte do contexto da época, embora ainda hoje serem realidade.
Poucos dos familiares de vítimas que integram o Comitê em Defesa da
Vida da Criança Altamirense são naturais de Altamira, e mesmo os que o
são vêm de partes afastadas da cidade, como a fronteira com o Mato Gros-
so e reservas indígenas. De acordo com as entrevistas realizadas, a promes-
sa de trabalho e de terra foi o que atraiu para a cidade aqueles que mora-
vam no Ceará, na Bahia, em Minas Gerais. O deslocamento interestadual
foi facilitado pela regularidade com que ônibus fretados faziam o percurso
até Altamira, levando trabalhadores que desejavam investir na promessa
de uma vida melhor. De modo geral, relataram-me os(as) entrevistados(as)
que a promessa foi, na verdade, uma decepção. Embora eles e elas tenham

fazer com que seja cumprido o Estatuto da Criança e do Adolescente. Na cidade de Altamira,
o Conselho Tutelar foi criado em 1994, após os crimes de emasculação, podendo ser enten-
dido como um reflexo direto da militância em torno do caso. D. Rosa Pessoa (mãe da vítima
Jaenes Pessoa) e Antonia Melo (militante pelos direitos das mulheres) foram duas das cinco
primeiras conselheiras tutelares da cidade.
140 Para um relato jornalístico da abertura da rodovia, ver Morais, Gontijo e Campos (1970).
141 Almeida (1993), em seu trabalho sobre ações dos movimentos camponeses, instituições
religiosas e setores do Estado na Amazônia durante os anos 1970-1990, apresenta um qua-
dro detalhado da situação fundiária na Amazônia da década de 1990. Observando os dados
relativos aos confl itos de terra na Amazônia, notamos a concentração de boa parte desses
confl itos nos estados do Pará e do Maranhão. Em 1980, por exemplo, a Comissão Pastoral da
Terra (CPT) identificou 87 confl itos no Pará, número esse só superado pelos dados relativos
ao Maranhão, que chegam a 128 (1993, p. 99).

150 Adriana Vianna


sido empregados(as) logo ao chegar à cidade, as condições encontradas não
eram satisfatórias: o pagamento era pouco, o custo de vida era elevado e,
sobretudo, a vontade dos patrões determinava as condições de contrata-
ção, dispensa, moradia etc.
Dona Carolina, baiana, mãe de Maurício, desaparecido aos 14 anos,
chegou a Altamira depois que seu marido a deixou. Com o dinheiro de
suas economias, comprou um veículo e, junto com seu sobrinho, que o
dirigia, saíram de Minas Gerais e foram para a cidade de Repartimento,
no Pará. Lá chegando, ouviram falar da cidade de Altamira, referida como
um local em que tinha emprego. Para lá foram. Chegando à cidade, Dona
Carolina passou por situações muito difíceis, sobretudo depois de rompida
a parceria com seu sobrinho. Com fi lhos pequenos, morou em condições
precárias até conseguir se estabelecer melhor na cidade (empregou-se em
casas de família, como cozinheira e, paralelamente, vendia roupas, costu-
rava tapetes). Assustada com os crimes que vitimavam meninos na cidade,
Dona Carolina juntou novamente algumas economias e alugou uma casa
na cidade de Imperatriz, no Maranhão, para onde partiriam nos primeiros
dias de 1993. Dias antes da partida, porém, durante o período de festas de
fi m de ano, Maurício saiu de casa e nunca mais foi encontrado. As inces-
santes buscas do fi lho e seu engajamento no caso fi zeram com que Dona
Carolina ficasse na cidade.
O contexto social da Altamira do fi nal dos anos 1980 e início dos anos
1990, quando ocorreram os crimes contra meninos que aqui tratamos,
caracterizava-se ainda pela falta de assistência à infância, marcada pela
mortalidade, trabalho infantil, evasão escolar e analfabetismo. Apesar do
então aprovado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990,
muitas de suas orientações e diretrizes não apresentavam correspondência
com o cotidiano da cidade de Altamira, como também ocorreu e ocorre
em várias outras partes do país. Os princípios que apresenta, por outro
lado, como a “prioridade absoluta”142 e a “proteção integral”,143 foram

142 No art. 4º da Lei n. 8.069/1990 (que institui o Estatuto da Criança e do Adolescente),


lê-se que: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público
assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profi ssionalização, à cultura, à dignidade, à
liberdade e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade
compreende: a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) pre-
cedência no atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na for-
mulação e na execução das políticas sociais públicas; d) destinação privilegiada de recursos
públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.”
143 Entende-se que a criança e o adolescente precisam de condições especiais de desenvol-
vimento por não terem capacidade plena de garantir e de lutar, sozinhos, por seus direitos,

O fazer e o desfazer dos direitos 151


bastante utilizados pelo movimento social para embasar críticas e formu-
lar cobranças ao poder público.
A modesta condição econômica das famílias contribuiu para que as
vítimas, apesar de sua pouca idade, começassem a realizar pequenas ati-
vidades remuneradas. Alguns meninos eram engraxates ou vendedores,
outros ajudavam na lavoura. Todos eles circulavam sozinhos pela cidade,
tendo responsabilidades – sobretudo os que lidavam com vendas – de levar
e trazer dinheiro, ir ao banco, pagar contas, fazer compras. No dia em que
desapareceu, Maurício tinha saído de casa para receber o dinheiro sema-
nal que lhe pagava uma senhora, para quem vendia salgados na cidade.
Com parte desse dinheiro, ele compraria açúcar e levaria para sua mãe
fazer uma canjica, a seu pedido.
Assim como no caso de Dona Carolina, outras famílias também eram
compostas por mãe e fi lhos, o que tornava mais difícil a manutenção da
casa. Desse modo, a remuneração de seus filhos, ainda que pouca, pode-
ria ser imprescindível para a economia doméstica. A participação desses
meninos no sustento familiar, porém, não deve ser compreendida como
resultado último da condição social dessas famílias, uma vez que o traba-
lho tem propriedades sociais valorizadas, representando um exercício de
responsabilidade, educação para a vida, ética etc.
Em Altamira, as mães das vítimas desempenharam atividades em casas
de família, restaurantes, comércio ou, menos frequentemente, na lavoura.
Uma delas, exceção, é professora, tendo ingressado no magistério aos 15
anos de idade, lecionando na zona rural da cidade. Em relação aos pais dos
meninos, em sua maioria, eles trabalhavam na lavoura. Atualmente, esses
pais e mães têm idades em torno dos 55 anos e já são avós. Exceto pela
professora, a maioria deles tem pouco estudo. Declaram que no período da
morte ou do desaparecimento de seus filhos tiveram bastante dificuldade
para lidar com a polícia ou com a Justiça, o que significa dizer, em sua
linguagem, que “não tinham consciência de seus direitos”.
Quando os pais dos meninos foram à delegacia registrar o
desaparecimento,144 sobretudo nos primeiros casos, a polícia se recusou

sendo mais suscetíveis a diversos tipos de violências e violações de seus direitos.


144 É interessante notar que a primeira visita à delegacia é em geral feita por uma figura
masculina. As visitas subsequentes, todavia, nem sempre registradas nos documentos poli-
ciais, mas relatadas nas entrevistas e conversas com os familiares, são realizadas por mulhe-
res, mães, irmãs ou tias da vítima. Esse fato pode apontar para propriedades da delegacia
relacionadas com um ambiente “masculino” (impessoal, pública, ofi cial, perigosa). Conse-
quentemente, podemos dizer que o engajamento de mulheres na “luta” em torno do “caso
dos meninos emasculados” implicou um processo significativo de “masculinização”, a iniciar

152 Adriana Vianna


a produzir um registro e a iniciar as buscas. Diziam os policiais que era
comum que crianças demorassem um pouco mais para voltar para casa,
não avisando de seu paradeiro. Segundo pais e mães entrevistados, a orien-
tação da polícia era a de que eles procurassem seus fi lhos em casas de
amigos e parentes e só depois, passadas no mínimo 48 horas desde seu
desaparecimento, comparecessem à delegacia. De acordo com as narrati-
vas dos familiares das vítimas, policiais condicionaram o início das buscas
ao pagamento do combustível da viatura e depoimentos foram tomados
sem a presença obrigatória de um promotor de justiça e assinados sem que
fossem lidos. Todos estes procedimentos, segundo o relato dos familiares,
foram aceitos nem tanto por eles acharem que poderiam ficar em uma situ-
ação ainda mais difícil se exigissem a lisura de certos trâmites, mas porque
não tinham mesmo ciência de sua irregularidade.
À medida que mais casos de violência contra meninos iam ocorrendo,
os familiares passaram a contar com a assistência de movimentos sociais
já existentes na região (como o Movimento de Mulheres de Altamira do
Campo e da Cidade), de padres da Igreja Católica envolvidos na defesa dos
direitos humanos (ligados à Prelazia do Xingu) e de outros pais e mães de
vítimas que já tinham passado pela mesma situação de perda de um fi lho.
Em junho de 1993, foi formado oficialmente, por familiares das vítimas,
amigos e “aliados da causa”, o Comitê em Defesa da Vida da Criança Al-
tamirense. A primeira atividade realizada foi a organização de passeatas,
que denunciavam a “omissão do Estado” e cobravam apurações por parte
da polícia, do Judiciário e do Ministério Público. Durante os primeiros
anos de suas atividades, quando ainda ocorriam casos de mortes e o pro-
cesso judicial estava ainda em seus trâmites iniciais, o comitê se concen-
trou no relativo ao “caso dos meninos emasculados”, realizando passeatas,
escrevendo cartas abertas, fazendo viagens para divulgar os casos, pedin-
do apoio de políticos e até mesmo seguindo pistas que poderiam ajudar
a descobrir o responsável pelos crimes. Com a relativa diminuição das
demandas específicas do caso e sobretudo após o julgamento, em 2003, o
comitê passou a se ocupar com questões ligadas à questão da infância em
sentido amplo (trabalho escravo, exploração sexual, pedofilia etc.). Duas
outras frentes de luta do comitê são fomentar o acesso à Justiça e combater
a impunidade.
Conforme explicitado na introdução, este capítulo tem o objetivo de
colocar em relação as práticas da polícia e da militância em torno dos ca-

pela quebra de barreiras entre espaços masculinos e femininos.

O fazer e o desfazer dos direitos 153


sos, entendendo que suas ações estão intimamente relacionadas. Somente
como ponto de partida, podemos considerar que é com o entendimento da
polícia como uma instituição omissa e corrupta que pais, mães, irmãs e
outros familiares saíram às ruas para manifestar, cobrar procedimentos,
sensibilizar a população. Para a análise que segue será conferida especial
ênfase às ações dos sujeitos, representantes e/ou integrantes da polícia e
do movimento social, instituições essas que, cada uma a seu modo, têm
identidades sociais que perpassam os sujeitos. A análise buscará levar em
conta, assim, esta dupla dimensão: ao mesmo tempo que são formados
por pessoas concretas que agem em nome da instituição, o sentido social
de “polícia” e de “movimento social”, em certas ocasiões, ultrapassa a
existência dos sujeitos específicos, tendo uma “ideia” maior, no sentido de
Abrams (1988).
Desse modo, por meio da análise das práticas de agentes sociais – seja
como coletivos (polícia e associações ativistas), seja como sujeitos que ocu-
pam posições determinadas (delegados, inspetores, integrantes de movi-
mentos sociais) –, será possível entrever que “o caso dos meninos emascu-
lados”, a despeito de uma unidade que se mostra aparente em notícias de
jornais, na forma como o caso ficou conhecido e também em algumas pas-
sagens deste texto, é/foi composto por múltiplas versões de acontecimentos
violentos que vitimaram crianças em uma mesma localidade. Considero
que a formulação de episódios de violência contra crianças como fazendo
parte de um mesmo “caso” é parte de um processo social que deve ser ana-
lisado com base nos agentes e também em relação ao tempo e à história de
suas ações, e é isso que me proponho fazer aqui.

2. A instrução policial

2.1. O caso do menino Fernando


No dia 2 de agosto de 1989, Fernando, de oito anos, aguardava seu pai em
uma das margens do rio Xingu. Dali, os dois seguiriam juntos para casa,
como de costume. Nesse dia, no entanto, Fernando soube que alguns de
seus amigos jogavam futebol em um campinho e seguiu para lá. Antes de
chegar ao local, porém, foi abordado por um homem desconhecido que o
convidou para procurar aves na mata. Depois de ter aceitado o convite,
Fernando só se lembra de ter sido agarrado, jogado no chão, sedado, e de
ter suas roupas arrancadas. Quando o pai do menino não o encontrou no
local combinado, resolveu ir até sua casa ver se por algum motivo o meni-

154 Adriana Vianna


no tinha se antecipado no retorno. Como ele não estava lá, seus familiares
começaram a ficar preocupados. Seu pai foi até a delegacia da cidade e deu
queixa do desaparecimento; solicitaram ajuda dos policiais para que bus-
cas fossem feitas. Segundo relato do Comitê em Defesa da Vida da Criança
Altamirense (2001), as buscas não foram iniciadas e essa ida à delegacia
não resultou em qualquer registro. Familiares e conhecidos organizaram
algumas buscas, que foram infrutíferas.
Alguns dias depois, a polícia local apresentou uma ossada encontra-
da na região do aeroporto da cidade como sendo a do menino, embora
não tivesse sido realizada perícia no material. Nem o pai nem a mãe de
Fernando assinaram qualquer documento de “reconhecimento” da ossada,
de modo que não houve registro de óbito nem sepultamento. Todos esses
procedimentos – comunicação do desaparecimento na delegacia, encontro
de uma ossada e pressuposição de morte – foram realizados de maneira
verbal, não havendo documentação policial referente ao caso. No entanto,
alguns dias depois, Fernando reapareceu em casa, bastante ferido e grave-
mente lesionado na região da genitália. A vítima teve a extremidade de seu
pênis arrancada; os testículos foram preservados. O episódio de violência
contra o menino Fernando (que poderia ser enquadrado pela polícia como
sequestro, lesão corporal, tentativa de homicídio e tortura) não chegou ao
conhecimento da polícia, para quem o menino estava morto. Os pais de
Fernando não reportaram o erro em relação à ossada, que não era a de seu
filho. Também não retornaram à delegacia para registrar a violência contra
o menino. A família se mudou de bairro e o crime provavelmente continu-
aria desconhecido se não fosse uma reportagem de televisão que divulgou,
em abril de 1993, a mutilação sexual de que o menino tinha sido vítima.

2.2. As diligências com base na violência contra Pedro


Dessa maneira, quando os pais de Pedro foram à delegacia registrar o de-
saparecimento de seu filho, ainda não se sabia do caso de Fernando. Na
delegacia de polícia, assim como os pais de Fernando, os de Pedro rece-
beram a informação de que o registro só seria lavrado depois de passadas
48 horas de seu desaparecimento. Da mesma maneira, buscas não seriam
iniciadas.145 Diferentemente do que ocorreu em relação ao crime contra

145 No Brasil, não existe nem jamais existiu uma lei ou normativa que condicionasse o
início das buscas de desaparecidos (fossem menores de idade ou não) ao prazo de 48 horas.
Contudo, essa prática é a tal ponto cotidiana – não apenas em Altamira, mas em todo o
Brasil – que, em dezembro de 2005, foi sancionada uma lei que acrescenta o seguinte pará-
grafo ao art. 208 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): “A investigação do desa-

O fazer e o desfazer dos direitos 155


Fernando, no caso de Pedro, as condições em que ele foi encontrado (sem
os órgãos sexuais e com outros ferimentos pelo corpo) repercutiram por
toda a cidade. Apesar disso, foi apenas em maio de 1991, ou seja, decor-
ridos 18 meses desde o crime, que um inquérito policial (doravante IP) foi
instaurado na delegacia de Polícia Civil da cidade de Altamira. Após esse
período, passaram-se mais seis meses até que o próximo delegado de po-
lícia produzisse um documento chamado Relatório, que supostamente en-
cerrava o IP, e continuava apresentando à Justiça o resultado da apuração
da materialidade e da autoria do crime. O prazo previsto para a conclusão
do IP é de 10 dias (se o indiciado estiver preso) ou 30 (se estiver solto).
No Relatório em questão, o então delegado, José Maria Alves Pereira,
queixa-se dos atrasos anteriores, particularmente do tempo decorrido entre
o crime e a instauração do IP. Segundo suas justificativas, esse atraso repre-
sentava uma das dificuldades para a elucidação do crime, de maneira que
não podia, até aquele momento, apresentar um suspeito. Em suas palavras:

Infelizmente, até o presente momento não foi possível chegar ao autor,


ou autores do crime. E que algumas dificuldades foram encontradas nas
investigações. A primeira foi o espaço de tempo entre o fato delituoso e
o início das investigações. […] A segunda, a ausência de testemunhas. A
terceira, o drama sofrido pela vítima, [que] tem dificuldade em relatar o
drama vivido […]. Diante do exposto, ainda não foi possível chegar ao
autor, ou autores do crime. Recomendo ao senhor escrivão [que] proceda
[com] a remessa dos presentes autos, para a Justiça, entretanto [informe]
que as investigações continuaram, na expectativa de chegar ao autor ou
autores do crime. SMJ.146 (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 956)

Apesar de esse Relatório tratar da apuração do crime de lesão corporal


contra Pedro, como parte do item “Da Apuração” o delegado informa que
foi ouvido o menor Luciano, “outra vítima de emasculação”, que brincava
com seu primo na porta de casa quando se aproximou um desconheci-
do em uma bicicleta vermelha e o sequestrou. Luciano foi levado para
a mata fechada e depois sedado. O menino relata que chegou a ver, por
baixo da venda que lhe cobria os olhos, pernas de várias pessoas que o
circundavam, antes de ter novamente desmaiado – dessa vez em razão da

parecimento de crianças ou adolescentes será realizada imediatamente após notificação aos


órgãos competentes, que deverão comunicar o fato aos portos, aeroportos, Polícia Rodoviária
e companhias de transporte interestaduais e internacionais, fornecendo-lhes todos os dados
necessários à identificação do desaparecido” (Lei n. 11.259, de 30 de dezembro de 2005).
146 Salvo melhor juízo.

156 Adriana Vianna


forte dor causada pelo objeto cortante que atingiu sua genitália (Processo
n. 2002.2.20272063, fls. 956). O crime contra Luciano também não era
recente; ocorrera em setembro de 1990, um ano e dois meses antes da con-
clusão do Relatório.
Como parte dos procedimentos investigativos adotados pela polícia,
tinham sido registrados os depoimentos de sete testemunhas, dentre elas
as vítimas sobreviventes Pedro e Luciano, o pai de ambos e outra vítima,
não citada no Relatório do delegado José Maria Alves Pereira, o menino
Gabriel, de 13 anos. Como as outras duas vítimas, Gabriel disse ter sido
sequestrado por um estranho e levado para um local ermo (Processo n.
2002.2.20272063, fls. 950). Tendo perguntado para seu algoz o que iria
acontecer, ele teria respondido que iria “matá-lo, sangrá-lo e o jogaria em-
baixo da ponte” (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 951). Gabriel chegou
a ser amarrado em uma árvore, mas, aproveitando uma desatenção do se-
questrador, conseguiu fugir. Ocorrido em 13 de maio de 1991, o sequestro
de Gabriel, apesar de contido nos autos, passa despercebido não apenas
nesse Relatório policial, mas ao longo das demais instruções policiais e da
Justiça. O menino, apesar de ter visto seu algoz, tendo inclusive conversa-
do com ele, não foi chamado para prestar outros depoimentos ou convida-
do a elaborar um retrato falado. O crime de que foi vítima – sequestro, art.
148 do Código Penal (1940) – nunca foi alvo de ação penal.

2.3. Judirley da Cunha Chipaia, a primeira morte


Logo nos primeiros dias de 1992, a polícia recebeu a notificação do desa-
parecimento de mais uma criança: Judirley da Cunha Chipaia, de 13 anos.
Na tarde do dia 1º de janeiro, o menino estava com seus familiares em
uma chácara, comemorando o ano-novo. Segundo o depoimento de Lúcia
à polícia, irmã da vítima, por volta das 13 horas e 30 minutos diversas
pessoas foram se banhar no igarapé, entre as quais estava Judirley. Às
15 horas, um grupo voltou, mas o menino decidiu ficar mais um pouco.
Quando Lucenira, outra de suas irmãs, retornou à chácara já no fi nal do
dia, perguntou pelo paradeiro do menino e seus familiares então se deram
conta de seu sumiço.
Antes de irem à polícia, seus parentes procuraram Judirley por mais de
cinco horas: vasculharam a mata em torno da chácara, foram em casas de
parentes e em sítios próximos. No dia seguinte, o pai da vítima dirigiu-se à
delegacia para comunicar o fato e solicitar providências. Segundo o depoi-
mento de Lúcia, os policiais procuraram o menino em hospitais e foram ao
local do desaparecimento, mas não encontraram nada. Por intermédio do

O fazer e o desfazer dos direitos 157


patrão de Lúcia, a Polícia Militar auxiliou na procura, nada encontrando.
No terceiro dia a contar do desaparecimento, a mesma irmã da vítima foi
até o comandante do quartel do Exército, que consentiu que 10 soldados
colaborassem nas buscas, desde que a declarante providenciasse transporte
para eles, o que foi feito. Algumas horas depois, um grupo de soldados,
que seguia orientações do cunhado da vítima, encontrou o corpo já em
estado de decomposição. Judirley foi encontrado sem roupas, com sinais
visíveis de violência e sem a genitália.
Judirley foi sepultado na cova onde estava sua mãe, Luzia. Alguns dias
depois do enterro, o delegado da cidade, Carlos Augusto Mota Lima, soli-
citou ao chefe da Seção de Polícia Científica de Santarém (PA) a exumação
do corpo do menino para que fossem avaliadas as lesões sofridas. No dia
seguinte, dirigiu-se para Altamira o perito Francisco Armando Aragão
(hoje em dia vereador da cidade), que, na presença do pai da vítima e sob a
direção do coveiro do cemitério, encontrou a cova do menino, procedendo
à exumação. Do exame, concluiu-se que a causa da morte fora “choque
hipovolêmico devido a hemorragia aguda por lesão de vasos sanguíneos
no pescoço”. Das características do corpo, o perito ressaltou a presença
de diversas lesões contusas ou cortantes (na face, nas costas, na coxa, no
supercílio, na mandíbula, na barriga, no tórax), além das lesões em vasos
do pescoço. Foi excluída a presença de perfurações por arma de fogo. Na
região da genitália externa observou-se a amputação completa do pênis e
da bolsa escrotal (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 10).
Concluído no dia 8 de janeiro de 1992, cinco dias após o encontro do
corpo, o laudo de exumação visibiliza parte dos procedimentos adotados
pela polícia. Por outro lado, até os 10 meses seguintes ao crime não foram
produzidos outros documentos que explicitassem as atividades policiais,
como o registro de desaparecimento ou mesmo termos de depoimento dos
familiares da vítima. As declarações de Lúcia, a irmã da vítima, descor-
tinam parte das instruções policiais e do Exército no tocante ao crime
contra seu irmão. Esse depoimento, no entanto, não foi prestado logo após
o crime, mas foi tomado somente no dia 20 de outubro de 1992. Adiante,
entenderemos o porquê.
Além de retomar as circunstâncias do desaparecimento do irmão – das
quais retiramos as informações citadas –, Lúcia acrescenta informações
sobre os possíveis autores do crime. Nesse sentido, informa que sua irmã
Lizandra teria visto nas imediações do igarapé, no dia do desaparecimen-
to, uma caminhonete de cor vinho, que depois soube ser o mesmo tipo e
cor do automóvel que dirigia Amailton Madeira Gomes, filho de um im-

158 Adriana Vianna


portante comerciante na cidade. Lúcia esclarece que esse fato foi relatado
ao delegado poucos dias após o encontro do corpo de Judirley. Informa,
ainda, que Luciclene, sua irmã, lhe contou que um vizinho fora assediado
por Amailton Madeira Gomes ao pegar uma carona com ele. Além dis-
so, Lúcia afi rmou conhecer uma ex-namorada de Amailton que disse ter
presenciado várias atitudes violentas do rapaz, achando, inclusive, que ele
poderia ser o autor dos crimes contra os meninos da cidade.
Todos esses elementos – o veículo, o assédio sexual, o caráter violento
relatado por uma ex-namorada – contribuíram para que Lúcia conside-
rasse que Amailton Madeira Gomes, de 23 anos, pudesse ser o assassino
de seu irmão.147 Tal suspeita foi acentuada quando Lúcia soube que, dias
depois do crime, Amailton saiu de Altamira rumo a Fortaleza, onde per-
maneceu por quatro meses. As suspeitas de Lúcia, no entanto, não parti-
ram apenas de informações que obteve sozinha, ou junto a seus familiares
e conhecidos. Ao contrário, a moça revela que o próprio delegado disse ter
dois suspeitos: Luís Kapiche e Amailton Gomes. A respeito do segundo,
Lúcia informou saber que ele, até aquele momento, não tinha sido ouvido
pela polícia.
O depoimento de Lúcia, dessa forma, visibiliza os procedimentos po-
liciais adotados logo após a morte de seu irmão. Percebe-se que buscas fo-
ram feitas, apesar de infrutíferas. Da mesma maneira, os familiares foram
ouvidos, mas sem qualquer registro que pudesse ser futuramente consul-
tado. Das investigações surge o nome de Amailton, de família influente.
Apesar disso, a polícia não o interrogara. A inexistência de registros dos
depoimentos prestados pode ser apontada como um dos elementos cau-
sadores da morosidade nas apurações. Todavia, apesar dessas lacunas na
investigação, é possível perceber um empenho maior na apuração das cir-
cunstâncias da morte de Judirley quando comparado aos trâmites adota-
dos em relação aos crimes que vitimaram Pedro e Luciano.
Essa fase do trâmite policial demonstra ter sido orientada por uma
conduta extremamente personalista dos delegados, que recebiam as de-
clarações e não as deixavam registradas para o conhecimento de sua equi-

147 Analisando o caso de Febrônio Índio do Brasil, Peter Fry (1982) chama a atenção para
a relação, anunciada pela psiquiatria, entre sadismo, homossexualidade e violência. Em suas
palavras: “As ligações feitas pela psiquiatria entre homossexualidade/misticismo e sadismo,
erigindo a figura de Febrônio ao status de um princípio universal, atingiram em cheio a cons-
ciência dos indivíduos e conquistou [sic] seu lugar no senso comum dos cidadãos. Foi, sem
dúvida, um, momento importante na produção da figura doente e agressiva do ‘homossexual’
que sobrevive até o presente, apesar dos trabalhadores contestadores dentro da ciência e fora
dela” (p. 80).

O fazer e o desfazer dos direitos 159


pe policial e para os delegados que poderiam substituí-los no cargo. A
importância dos registros cresce ainda mais quando levamos em conta a
alta rotatividade de delegados na cidade: somente nos 20 meses decorridos
entre março de 1991 e outubro de 1992, passaram pela delegacia quatro
delegados. Uma possível interpretação disso é que os delegados entendiam
as investigações, bem como seus possíveis resultados, como produto de
seu esforço e empenho individual, e não como resultado da função que
desempenhavam.
Por outro lado, percebemos que a ausência de registro dos trâmites
policiais não caracteriza a rotina de apenas um delegado. Tampouco as
irregularidades foram alvo de denúncia, indicando que certos procedimen-
tos, ainda que contrários à norma expressa no Código de Processo Penal
(1941), devem ser mais mal compreendidos como “falha” ou “omissão”
de tal ou tal delegado e mais relacionados com a estrutura maior de que
fazem parte, na qual a oralidade parece ser/ter sido uma marca com for-
tes contornos. Nesse sentido, embora o bacharel José Maria Alves Pereira
tenha registrado em seu Relatório que a administração anterior falhou em
abrir um inquérito policial após 18 meses do crime contra Pedro, tal men-
ção se presta a justificar suas dificuldades, não assumindo qualquer feição
de denúncia.
Até novembro de 1991, como vimos, não havia suspeitos para os crimes
contra Pedro e Luciano. É após a morte de Judirley que a polícia informal-
mente aponta Luís Kapiche e Amailton Madeira Gomes como suspeitos.
O primeiro deles, capixaba, com 38 anos, respondera a um processo por
estelionato em Minas Gerais. Em outra ocasião, chegara a ser preso por
furto. Em Altamira, segundo informou ao delegado Carlos Augusto Mota
Lima, foi novamente preso, dessa vez por ameaçar uma juíza na cidade
(acusação que negou), junto com seus dois companheiros, Araquém Gomes
e Amadeu Gomes, respectivamente tio e pai de Amailton Madeira Gomes,
o outro suspeito.
Foi nesse contexto de investigações esparsas e infrutíferas, em con-
traste com a repercussão que os casos de “emasculação” iam alcançando,
que uma equipe de policiais da capital do estado foi enviada para Alta-
mira, com o intuito de agilizar as investigações. Após um breve período
na cidade, a equipe apresentou Rotílio Francisco do Rosário, negro, 47
anos, lavrador, como autor dos crimes contra meninos. Logo, Rotílio fi-
cou conhecido como o “monstro de Altamira”. Pesavam contra ele um
estupro confessado, o porte de três facões conhecidos como “terçados” e
o encontro de uma das vítimas no mesmo terreno em que morava. Depois

160 Adriana Vianna


de preso pelo estupro de uma jovem da cidade,148 foi reconhecido pelos
meninos Luciano e Pedro como seu algoz e pelas irmãs de Judirley como
sendo o homem que estava nas proximidades do igarapé de onde a vítima
desapareceu (Processo Judicial n. 2002.2.20272063, fls. 931, 958, 992 e
993, respectivamente).
Depois do auto de reconhecimento, Rotílio foi levado ao quartel da
Polícia Militar, onde morreu. No laudo de sua morte consta que a causa
teria sido “complicações advindas de cirrose aguda, insuficiência cardíaca
e edema pulmonar”. No entanto, na cidade, suspeita-se que o acusado
tenha sido morto como “queima de arquivo” (Comitê em Defesa da Vida
da Criança Altamirense, 2001). Mesmo depois que outras pessoas foram
acusadas dos crimes, a polícia não desmentiu a confissão de Rotílio, mas
também não sustentou que, junto com os outros acusados, ele tivesse par-
ticipado dos crimes. Não se procurou demonstrar que Rotílio conhecesse
as pessoas que depois foram formalmente acusadas. O caso foi deixado
sem providências pela polícia, apesar da pressão do movimento social da
cidade, que cobrava esclarecimentos sobre o caso.149

148 A ocasião da prisão de Rotílio se deu da seguinte forma: após a jovem Ana Patrícia ter
ido à delegacia de Altamira dar queixa do crime de estupro de que tinha sido vítima, alguns
policiais a acompanharam ao local do crime e lá encontraram Rotílio, prontamente reconhe-
cido pela moça como seu violador. Imediatamente algemado, Rotílio foi levado à delegacia e
prestou depoimento ao delegado de polícia Carlos Augusto da Mota Lima, tendo confessado
o crime de estupro. No processo que apura o “caso dos meninos emasculados” há duas ver-
sões desse depoimento, mas somente uma está devidamente assinada e registra a necessária
presença de um promotor de justiça. Vejamos as diferenças das duas versões. Na versão
assinada, Rotílio teria confessado o estupro de Ana Patrícia e, quando perguntado “como
praticou o crime contra os menores vítimas”, o acusado disse não se lembrar. Em perguntas
anteriores, Rotílio teria dito que não bebia com regularidade, mas, quando o fazia, perdia
a memória. No depoimento sem assinaturas, ao contrário, Rotílio afi rma que não cometeu
crime contra nenhuma criança. Argumenta que, assim como confessara o estupro, confessa-
ria as mortes dos meninos se as tivesse cometido. Quando perguntado pelo delegado quem
eram seus parceiros nos crimes de emasculação, ele teria respondido não saber o que seria
isso. Todos os dois depoimentos (o assinado e o não assinado) são iniciados pelas mesmas
perguntas (cidade natal, trajetória social) e apresentam como data o dia 9 de janeiro de 1992.
Processo Judicial n. 2002.2.20272063, fls. 961 e 969. Como no processo não existe qualquer
menção a esses depoimentos divergentes, nem mesmo denúncia dos procedimentos policiais,
no mínimo suspeitos, considero que os dois depoimentos foram anexados como cópias de um
mesmo documento.
149 Na “Carta Aberta à Comunidade Altamirense”, incluída nos autos às fl s. 9, lê-se “So-
mos sabedores que até o presente momento os órgãos responsáveis não mostraram eficiência
em desvendar os referidos crimes, sendo vítima dessa incompetência o Sr. Rotílio do Rosário,
que foi acusado dos crimes de emasculação e morte dos menores, e que veio a falecer no
Quartel General da Polícia Militar em Altamira, em circunstâncias que deixam muito per-
plexa a população.”

O fazer e o desfazer dos direitos 161


2.4. Jaenes da Silva Pessoa: o andamento das investigações
Mesmo após a prisão e a morte de Rotílio, outros crimes contra meninos
voltaram a ocorrer. Um deles, o homicídio, tortura e lesão corporal contra
Jaenes da Silva Pessoa, de 13 anos, seria decisivo para que as investigações
ganhassem novos rumos. No dia 1º de outubro de 1992, Jaenes saiu para
tocar o gado de propriedade de seus pais e nunca mais foi visto. Como não
retornou a tempo de ir para o colégio, como fazia todos os dias, seus pais
ficaram preocupados. Era cada vez mais disseminado na cidade o medo de
que crianças fossem vítimas dos crimes que estavam ocorrendo, de modo
que, tão logo Jaenes desapareceu, seus pais organizaram um mutirão de
buscas.
Perguntando nas redondezas se alguém tinha notícias do menino, seus
pais souberam que um vizinho ouviu gritos, mas não se preocupou em
saber de onde vinham por achar que o barulho corresponderia ao de qual-
quer pessoa que estivesse tocando o gado, até mesmo um de seus filhos
(Comitê em Defesa da Vida da Criança Altamirense, 2001). Quando o
lavrador Juarez, pai do menino, foi à delegacia registrar o desaparecimen-
to, mais uma vez foi orientado a voltar depois de 48 horas. Em relação às
buscas, os pais foram informados de que não poderiam ser realizadas, pois
as viaturas da polícia estavam ocupadas fazendo a segurança das urnas da
eleição que ocorreria dias depois.
Dois dias depois do desaparecimento, o corpo do menino foi encon-
trado. O grupo de pessoas que integrava o mutirão achou o menino na
mata, sem um dos globos oculares, o pulso dilacerado e genitália extirpa-
da. Jaenes Pessoa era o quarto caso de emasculação na cidade e a segunda
vítima letal. A seu velório compareceram muitas pessoas, inclusive polí-
ticos. Era um dia de eleição. Na presença de uma delas, posteriormente
identificada como Dr. Anísio, médico e candidato a vereador, o cadáver do
menino teria expelido sangue, conforme o depoimento do pai da vítima ao
delegado de polícia (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 19). Acreditando
que um cadáver verte sangue na presença do assassino, o pai considerou
que o médico poderia estar envolvido, o que foi registrado no depoimento
que posteriormente integrou o Relatório Conclusivo. Conhecido na cidade
por condutas médicas suspeitas ou criminosas (como oferecer carne de
porco a pacientes no pós-operatório, ter feito aborto em uma mulher sem
seu consentimento, deixado outra com uma grande cicatriz desnecessária,
entre outras), não era improvável que o médico tivesse participação nos

162 Adriana Vianna


crimes.150 Já havia, inclusive, rumores na cidade sobre esse suposto envol-
vimento, como afi rmou Lúcia Chipaia ao delegado, no depoimento que
prestou após a morte de Jaenes.
O prefeito da cidade, o candidato a prefeito e o vice-governador do
estado do Pará, Carlos Santos, também estiveram presentes ao velório.
Segundo o mesmo depoimento do pai da vítima, este último lhe teria dito:
“Seu Juarez, nós vamos falar com o governador Jader Barbalho, mandar
uma comissão para analisar esse caso e colocar a mão nesse elemento”
(Processo n. 2002.2.20272063, fls. 22). Pelo encaminhamento do proces-
so de apuração dos casos, parece não haver correlação entre a influência
do governador e a promoção de investigações eficazes. Por outro lado, é
indiscutível o peso de declarar ao delegado responsável pela apuração dos
casos que o governador prometera solucionar o caso. Não por acaso, a
menção aos políticos e em particular ao governador foi devidamente inclu-
ída no depoimento.
Após o crime contra Jaenes, foram chamadas a depor outras 20 pes-
soas, além do pai da vítima, dentre as quais destacamos a presença de
Luciano e seu pai, parentes de Amailton (pai e tio advogado), e Lúcia
Chipaia, que, embora tivesse ido à delegacia mais de uma vez no mês de
janeiro (quando seu irmão fora assassinado), teve seu depoimento registra-
do somente em outubro, no contexto do crime contra Jaenes. Amailton,
cujo nome já tinha sido aventado como suspeito na época do crime contra
Judirley, após o homicídio de Jaenes saiu novamente da cidade, dessa vez
fazendo uma longa viagem de motocicleta de Altamira até a Argentina,
passando pelo Sul do Brasil. Essa outra viagem parece ainda mais suspeita,
pois Amailton e Jaenes eram primos. Antes de sair da cidade, Amailton
teria encontrado com um colega e lhe disse que estava saindo da cidade
rumo ao “Sul” porque por ali “a barra estava pesada para ele”. Antes de
despedirem-se, Amailton teria advertido o colega de que não comentasse
com ninguém que tinham conversado. Em depoimento prestado no dia 3
de dezembro de 1992, Gilberto Denis relata esses acontecimentos para o
delegado Brivaldo Pinto Soares (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 162).

150 Chamamos a atenção novamente para semelhanças com o caso de Febrônio Índio do
Brasil. Antes do crime cometido contra meninos e rapazes no Rio de Janeiro, Febrônio iden-
tificava-se como Bruno Ferreira Gabina, falso médico e dentista que desnecessariamente ex-
traía dentes e realizava amputações em braços e pernas, provocando extremo sofrimento
físico em seus pacientes (cf. FRY, 1982; CASOY, 2004).

O fazer e o desfazer dos direitos 163


2.5. O primeiro indiciado: Amailton Madeira Gomes
Boa parte das pessoas que foram ouvidas entre outubro e novembro infor-
mou à polícia fatos que denegriam a figura de Amailton: alguns sabiam de
sua fama na cidade de oferecer carona a rapazes e assediá-los em seu carro;
outro disse ele mesmo ter sido vítima desse “golpe”; outros simplesmente
repetiram que “a cidade” comentava sobre seu envolvimento nos crimes,
especialmente em razão de suas viagens após os assassinatos. Um dos de-
poimentos oferece um fato concreto à investigação: relata Benedito Olivei-
ra que, no dia do desaparecimento de Judirley, Amailton teria sido visto
por sua empregada doméstica com a camisa suja de sangue. A empregada
chegou a ser procurada pela polícia e pela Justiça para depor, mas nunca
foi encontrada.
Em vista das suspeitas contra Amailton, o delegado Brivaldo solicitou
autorização judicial para realizar busca e apreensão de objetos que pudes-
sem elucidar o crime em sua residência. Dr. Brivaldo justificou o pedido en-
fatizando que o suspeito encontrava-se fora da cidade, que eram crescentes
os comentários sobre seu envolvimento nas mortes e que seu pai impunha sé-
rias dificuldades às investigações. Concedido o mandado, a polícia recolheu
no quarto de Amailton livros, fitas em VHS, agenda pessoal, fotografias
com imagens de crianças e outras fotografias nas quais aparecia nu e ma-
quiado em diferentes situações151 (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 117).
Os passos seguintes foram a decretação da prisão preventiva de Amail-
ton e a efetivação dessa prisão, ocorrida na cidade de Mundo Novo, no
Mato Grosso do Sul, quando voltava de moto para Altamira. Ao ser preso,
foi imediatamente levado para Belém e prestou depoimento ao delegado
Brivaldo no dia 2 de dezembro de 1992, apresentando a história de sua
vida (nascido em Fortaleza, foi para Altamira ainda pequeno, estudou em
bons colégios, nunca se envolveu com gangues). Respondeu às insinuações
sobre sua homossexualidade (que negou, mas confi rmou ter tido relações
sexuais com outros homens “na condição de ativo e passivo”) e sobre uso
de drogas (que negou, embora confi rmasse ter usado maconha “uma única
vez”). Em relação a ter saído da cidade depois que ocorreram os crimes

151 Segundo listou o delegado de polícia Brivaldo Pinto Soares, o material apreendido con-
sistiu em 15 fotos do indiciado; uma fotografi a de painel fotográfico; cinco cartões comemo-
rativos de festejos natalinos com motivos infantis; uma carteira porta-cédulas com brasão da
República com os dizeres Infantaria do Exército; oito fotos com crianças na faixa dos oito
aos 12 anos; dois livros pornográficos (Êxtase e Os amantes); sete livros (A terceira visão,
Holocausto, A senhora da magia, Aids, A fúria, A erva do diabo, Perfume e O satanista);
uma fita cassete na qual consta o nome de César; três fitas VHS (“Querelle”, “My beautiful
Laundrette”, “The alchemist”).

164 Adriana Vianna


contra Judirley e Jaenes, Amailton respondeu que suas viagens nada tive-
ram a ver com os homicídios, pois elas eram planejadas com antecedência.
Por fi m, negou que tivesse chegado à sua casa com a camisa suja de sangue
(Processo n. 2002.2.20272063, fls. 147).
O depoimento de Amailton confi rmou boa parte das declarações de
moradores de Altamira sobre seu caráter “desviante”. Os crimes ocorridos
no município não eram quaisquer crimes, mas tinham aparente relação
com a sexualidade – além de terem seus órgãos sexuais extirpados, algu-
mas vítimas sofreram violência sexual –, resultando que um “homossexu-
al, “sádico” e com hábito de assediar jovens em seu automóvel, como foi
descrito, se encaixasse no “perfil do criminoso”.152
Com tudo isso, o delegado Brivaldo concluiu suas diligências afirman-
do que:

Diante das diligências efetuadas, ficou patenteado o indiciamento de


Amailton Madeira Gomes, de 23 anos de idade, morador em Altamira
desde sua infância, sendo natural de Fortaleza, estado do Ceará […].
Ficou caracterizado a) O indivíduo AMAILTON MADEIRA GOMES,
ora indiciado como suspeito desses hediondos crimes, é homossexual, vi-
ciado em drogas, pervertido sexualmente e o que lhes desperta mais pra-
zer é o ato da prática da felação; b) O indiciado não tem nenhuma afi nida-
de afetiva com seus familiares, principalmente com seu genitor AMADEU
GOMES; c) Não gosta de crianças; d) Sua leitura e vídeos são sempre vol-
tados para a prática do mal, sexo com sadismo ou da magia negra; e) Não
é de causar estranheza o indiciado, em seu interrogatório, ter negado os
crimes, entretanto, nada argumenta para provar a sua não participação.
(Processo n. 2002.2.20272063, fls. 169-187; destaques originais)

Em certo sentido, podemos afi rmar que, mesmo depois da morte de


Judirley e de Jaenes, a polícia não tinha quaisquer provas a mais do que
no momento posterior aos crimes contra Pedro e Luciano. Ninguém tinha
visto qualquer suspeito nas imediações dos crimes, nenhuma testemunha
informou à polícia mais que “rumores” que circulavam na cidade, ou fatos
acerca da conduta “desviantes” dos nomes citados. No entanto, a conexão
entre os crimes estava traçada: a existência de um mesmo perfi l entre as

152 Em Lacerda (2005), analisando crimes contra homossexuais, busquei demonstrar como
a polícia e a mídia construíam um “perfi l” do criminoso com base no “perfi l” da vítima e
de certas características dos crimes. Vianna e Carrara (2004), analisando processos judiciais
de latrocínio e homicídio contra vítimas supostamente homossexuais, também observaram a
construção do “perfi l criminoso” por parte da Justiça.

O fazer e o desfazer dos direitos 165


vítimas (meninos de certa faixa etária, pobres, trabalhadores), as caracte-
rísticas da abordagem (o sequestro entre meio-dia e 4 da tarde, promessas
de trabalho ou de brincadeiras) e, sobretudo, as características do crime
(lesão corporal na região da genitália, violência sexual, tortura, tentativas
de homicídio) apontavam para a existência de um único culpado, ou grupo
de culpados.
Desse modo, nesse relatório policial já aparecem outras vítimas além
de Judirley, Jaenes e dos sobreviventes Pedro e Luciano: a morte e emas-
culação de Klébson, de 12 anos, ocorrida em novembro de 1992, e os ho-
micídios contra Ailton Fonseca do Nascimento (desaparecido em julho de
1991, cuja ossada foi posteriormente encontrada) e Fernando (ainda dado
como morto). O indiciamento de Amailton foi elaborado, dessa forma,
pelos crimes ocorridos contra sete vítimas, todas menores de idade.
A prisão de Amailton, todavia, não representa um desfecho para o
“caso dos meninos emasculados de Altamira”. Como diversas fontes já nos
mostraram, havia a forte suspeita de que não houvesse apenas um crimino-
so, mas vários. Uma das declarações de maior peso no sentido de que era
um grupo de pessoas que praticava os crimes, o menino Luciano afi rmava
ter visto pernas de várias pessoas quando de sua emasculação. Amailton
seria somente o primeiro dos criminosos a ser pego pela polícia.

2.6. A chegada da equipe da Polícia Federal


À medida que as investigações ganhavam continuidade, mas sobretudo
com a chegada de uma equipe da Polícia Federal especialmente designa-
da, depoimentos de testemunhas que viram suspeitos em locais próximos
aos crimes começaram a aparecer. Assim, uma testemunha declarou, em
julho de 1993, ter visto alguém saindo do mato segurando um saco plás-
tico ensanguentado, perto de onde o corpo de Jaenes foi encontrado. Essa
pessoa foi reconhecida como Césio Brandão, médico capixaba que atuava
em Altamira há alguns anos. Essa mesma testemunha declarou ter visto
Amailton em um cavalo, próximo de onde estava o Dr. Césio nesse mesmo
dia. Mais de uma testemunha declarou saber que o Dr. Anísio era frequen-
tador de cultos de umbanda e quimbanda, além de serem conhecidas as
irregularidades de suas práticas médicas.
Segundo Edmilson Frazão, uma testemunha-chave nas investigações,
em 1991 ele tinha sido convidado a participar de um culto religioso na
chácara do Dr. Anísio. Consta em seu depoimento que os participantes
cultuavam o “deus das trevas”, que a sala estava escura, com velas acesas
em formato de triângulo, e que uma mulher de sotaque diferente coman-

166 Adriana Vianna


dava as “orações” (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 819). Tendo sido
lhe apresentada uma fotocópia em preto e branco de uma foto de revista,
Edmilson reconheceu a mulher que comandava o culto religioso como sen-
do Valentina Andrade, paranaense, então com 60 anos. Valentina estava
sendo investigada pela polícia do Paraná como suspeita no desaparecimen-
to do menino Leandro Bossi, de sete anos, na cidade de Guaratuba (PR).
Sua fotografia foi divulgada em uma extensa reportagem da revista Veja
sobre o caso, publicada em julho de 1992. Nessa reportagem, Valentina
Andrade foi apresentada como sócio-fundadora de uma seita conhecida
como Lineamento Universal Superior (LUS), registrada na cidade de La
Plata, Argentina.
Como resultado das investigações da Polícia Federal, foram indiciados
Anísio Ferreira de Souza, Césio Flávio Caldas Brandão, Carlos Alberto dos
Santos Lima, Aldenor Ferreira e Valentina Andrade, somando-se ao já indi-
ciado pela Polícia Civil Amailton Madeira Gomes. Suspeitava-se que essas
pessoas de diferentes inserções sociais estivessem ligadas em razão da prá-
tica da “magia negra”. Conforme interpretação da Polícia Federal, a cada
um desses participantes cabia uma função na prática dos crimes, de modo
que as lesões na genitália seriam de competência dos médicos (perícias nos
corpos dos sobreviventes atestaram a precisão cirúrgica do corte); os ex-
-policiais Aldenor e Carlos Alberto fariam a segurança nos locais onde os
crimes eram perpetrados; Valentina comandaria a seita que orientava como
os crimes – ou “sacrifícios” – deveriam ocorrer; enquanto Amailton seria
um dos integrantes da seita, possivelmente beneficiário dos rituais.

2.7. Construindo uma unidade: inclusão e exclusão de “casos”


O Relatório escrito pelo delegado Brivaldo ao fi nal das investigações sobre
a morte de Jaenes Pessoa, além de marcar uma importante etapa das inves-
tigações policiais – é com base nesses dados que a denúncia do Ministério
Público foi elaborada –, é a primeira iniciativa a apresentar as vítimas
reunidas em um mesmo “caso”. Como vimos, o delegado Brivaldo inclui
nesse Relatório os crimes ocorridos contra os meninos Pedro, Luciano,
Judirley, Jaenes, Klébson, Fernando e Ailton, apresentando as diligências
que foram promovidas com o intuito de apurar as mortes e elucidar todos
esses crimes. O que justifica a ação desse delegado em reunir certos casos
em torno de um mesmo reporte oficial, nesse momento, é o perfi l das víti-
mas e o contexto de seu aliciamento:

O fazer e o desfazer dos direitos 167


Dando prosseguimento às investigações, ficou constatado que as vítimas
são menores na faixa etária de 8 a 13 anos, são fi lhos de famílias humil-
des, moram na área da periferia, sempre são sequestradas no horário de
12 a 16 horas, aproximadamente, e que esses sequestros são previamente
planejados. (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 169)

A mutilação na região da genitália, ou a “emasculação”, no entanto,


não é menos significativa nesse contexto. Apesar de a mutilação de Fer-
nando ser ainda desconhecida, ele aparece como vítima nos casos. Da mes-
ma maneira, o menino Ailton, de 10 anos, cuja ossada foi identificada por
seus pais pelos pertences encontrados a seu redor, foi incluído como vítima
nos crimes que “envolviam menores emasculados”. Com isso, nota-se a
eficácia da “emasculação”, que funciona como o elemento que promove a
unidade de casos que aparentam certas diferenças entre si.
No caso dos sobreviventes e dos meninos mortos cujos corpos foram
alvo de perícia, ela estava ali, cientificamente comprovável. Já no caso das
vítimas em que tudo o que foi encontrado foram suas ossadas – insufi-
cientes para afi rmar a presença ou não de lesões corporais nos tecidos –,
a emasculação comparece como possibilidade. Supõe-se, assim, que nesse
momento havia uma única forma de violência envolvendo crianças e que
apenas um sujeito, ou um mesmo grupo, estivesse à frente desses crimes. A
centralidade da “emasculação” nos casos é ativa a tal ponto que, simulta-
neamente, “descreve” casos e constrói alguns outros (BOURDIEU, 1996).
Pode-se dizer, assim, que é dessa maneira que casos de meninos que desa-
pareceram puderam ser classificados como vítimas desses mesmos “casos”.
O homicídio de Flávio Lopes da Silva é um evento-chave para verificar-
mos como, com a repercussão dos casos, a “emasculação” torna-se mais
do que uma característica de um crime, passando a tipificar e a esclarecer
o próprio crime. Vejamos: Flávio, então com 10 anos, desapareceu no dia
27 de março de 1993, quando retornava para casa já à noite, depois de aju-
dar uma senhora que vendia espetinhos no centro da cidade. Alguns dias
depois, o corpo do menino foi encontrado em um matagal, com a glande
decepada e parte da bolsa escrotal arrancada, além de sinais de tortura e
mordidas espalhadas pelo corpo.
O delegado que sucedeu aos trabalhos de Dr. Brivaldo, o bacharel
Evandro Guimarães Martins, assinala em seu Relatório que:

Durante o levantamento do local do crime e demais diligências foi pos-


sível concluir que o caso do menor FLÁVIO LOPES DA SILVA não tem
qualquer ligação ou semelhança com os casos anteriores de menores que

168 Adriana Vianna


foram mortos e emasculados, pois, o “modus operandi” do autor da ação
contra FLÁVIO LOPES DA SILVA é radicalmente diferente dos casos
anteriores. (Processo n. 2002.2.20272063, fls. 1.058)

De acordo com o delegado, esse crime teria sido realizado com o ob-
jetivo de tão somente causar confusão de raciocínio à polícia. Uma vez
que o réu Amailton Madeira Gomes estava detido em Belém do Pará, o
crime teria sido perpetrado com o objetivo de insinuar sua inocência. Para
o delegado, alguns aspectos do cadáver do menor provariam sua evidente
distinção em relação aos casos anteriores. E é desta forma que o Relatório
se conclui:

Diante do que foi exposto acima é fácil concluir que neste caso na realida-
de ocorreu o crime de Homicídio com requinte de perversidade contra um
menor. E o autor deste Homicídio tentou usar o álibi de retirar o pênis do
menor objetivando causar confusão de raciocínio à Polícia, ao Judiciário
e à sociedade em geral, porém os indícios deixados eliminam qualquer
dúvida em se afi rmar que não se trata na verdade de caso de emasculação.
(Processo n. 2002.2.20272063, fls. 1.059)

O Relatório, fi nalizado um mês após o crime contra a vítima, demons-


tra uma considerável mudança no proceder da polícia em relação às inves-
tigações de crimes que vitimaram crianças na cidade, sobretudo no que se
refere à sua rapidez. Mais interessante do que isso, no entanto, é a conver-
são da “emasculação” como um tipo específico de crime, diferente de um
“homicídio com requinte de perversidade”, como assinalado. Em relação
à morte de Flávio, segundo a tipologia desse delegado, ter parte do órgão
sexual arrancado não caracterizaria “emasculação”, pois a pessoa que co-
meteria tais atrocidades estava sob a custódia do Estado. Apesar da inter-
pretação, por parte do delegado, da morte de Flávio e de seu entendimento
de que se tratava, na verdade, de um caso de “homicídio com requintes de
perversidade”, o caso do menino é efetivamente incluído no processo que
foi aberto após a morte de Jaenes, sendo também julgado em 2003. Tanto
a relativa rapidez na conclusão do Relatório quanto a inclusão desse caso
no processo devem ser entendidas no contexto de atuação de movimentos
sociais da cidade, que passamos a analisar.

O fazer e o desfazer dos direitos 169


3. Trajetórias sociais, trajetórias de mobilização
Após o terceiro caso conhecido de emasculação, que levou à morte Judir-
ley Chipaia, a ativista Antonia Melo, então engajada na luta por direitos
humanos na cidade, procurou o pai da vítima e o estimulou a formar um
movimento, cobrar investigações das autoridades. D. Antonia vinha de
uma trajetória de militância iniciada nas Comunidades Eclesiais de Base
(CEBs), ligadas à Igreja Católica, tendo depois colaborado na articulação
do Movimento de Mulheres Trabalhadoras de Altamira do Campo e da
Cidade.153 As investigações da morte de Judirley, que, mesmo após um
mês, mal tinham sido iniciadas, fi zeram com que D. Antonia tomasse a
decisão de “lutar”.154
Em resposta à negligência policial, ela, à frente do Movimento de Mu-
lheres, organizou uma passeata pelas ruas da cidade, da qual participaram
cem pessoas, a que D. Antonia se refere como “apenas cem pessoas”. Para
ela, a restrita adesão à manifestação deveu-se ao medo da população, que
se mostrava acuada diante dos brutais crimes e temerosa dos “poderosos
locais” que poderiam estar envolvidos.

Então nós fomos para a rua, nós éramos apenas umas cem pessoas e era
tão grave a situação de medo na população que por onde nós passávamos
na rua, em plena passeata, as pessoas fechavam as janelas. A gente deduz
que era para que alguém não visse que eles estavam vendo a passeata. Foi
uma situação de muito terror, de muito medo. (D. Antonia Melo)

153 A respeito de sua atuação nas CEBs, que foi considerada como o início de sua mili-
tância, D. Antonia declara: “Nas CEBs eu aprendi bastante; aprendi que é importante estar
organizado, lutando para conseguir direitos, para conseguir que a cidadania seja efetivada e
que as pessoas aprendam a ter conhecimentos dos seus direitos, que saibam exercer a cidada-
nia para que a cidadania funcione; tanto a cidadania individual quanto a coletiva…”
154 Comeford (1999) nos oferece uma brilhante análise dos diferentes signifi cados que o
termo “luta” assume no discurso de sujeitos ligados a organizações sociais. Na pesquisa
do autor, sobre as organizações camponesas, o termo “luta” faz referência ao sofrimento
envolvido no engajamento social, que em geral apresenta como “causa” um “problema” de
difícil solução, em que será necessário grande envolvimento. Acredito que essa defi nição –
dentre outras possíveis apresentadas pelo autor – se enquadre perfeitamente no discurso de
D. Antonia, e aqui reproduzo um trecho de nossa entrevista que, para mim, é ilustrativo
dessa concepção de “luta”: “Há momentos em que a gente percebe que eles [os familiares das
vítimas, associados do Comitê em Defesa da Vida da Criança Altamirense] estão cansados,
desacreditados, mas a gente reanima, estamos dando este total apoio para que as famílias se
levantem, se reanimem e continuem lutando [breve pausa] conosco. Então, é uma luta perma-
nente. Eu sempre digo para eles assim: ‘essa é uma luta que ninguém sabe quando vai parar’.
É uma luta de muitos anos, que nós não temos nem ideia” (D. Antonia Melo).

170 Adriana Vianna


A mobilização, para D. Antonia, não apenas funcionou como um ins-
trumento de pressão para as autoridades, mas também transmitiu uma
mensagem bastante clara para a sociedade: era preciso unir esforços para
que tais crimes não se repetissem mais, e que os que já tinham ocorrido
deveriam ser solucionados pelos poderes públicos. No contexto de pâni-
co que marcava a cidade, uma manifestação percorrendo as ruas poderia
estimular pessoas que tivessem alguma informação a repassá-las para a
polícia.
Essa manifestação foi o primeiro movimento realizado para significar
os crimes contra meninos como uma perda pública, como um aconteci-
mento que dizia respeito a toda a sociedade, e não apenas a seus familia-
res. A passeata pelas ruas da cidade, reunindo todos os episódios de vio-
lência contra meninos como parte de um único caso, retirou os crimes do
contexto do extraordinário, da exceção, demonstrando que, ao contrário,
eles vinham se tornando cada vez mais parte do cotidiano da cidade, fa-
zendo cada vez mais vítimas. Podemos ainda dizer que, enquanto a polícia
ainda tratava os crimes como acontecimentos sem conexão, a manifesta-
ção insistia em que as vítimas faziam parte de um mesmo “caso” e que,
com os criminosos à solta, novas mortes voltariam a ocorrer. Nesse senti-
do, acontecimentos violentos de certa natureza passam a ser politizados e
alvo de uma denúncia formulada com contornos precisos: a polícia, com
suas ações ineficazes, é responsabilizada pela sucessão dos crimes, mas a
sociedade, por sua omissão, por seu não engajamento, estava assumindo
um papel passivo e cúmplice em tão brutais crimes.
Cabe aqui lembrar a análise, por parte de Boltanski et al. (1984), do
fenômeno social da “denúncia”. Analisando cartas enviadas à redação do
jornal francês Le Monde que tinham o propósito de denunciar alguém ou
alguma situação, os autores constroem uma “gramática” específica das
formas possíveis de apresentar publicamente uma “injustiça”. Nesse senti-
do, Boltanski et al. (1984, p. 14) assinalam que um ato “injusto” ou “es-
candaloso” pode ser sempre alvo de denúncia, pois a denúncia em si não
tem nada de anormal. Por outro lado, existem propriedades sociais que
podem lhe conferir credibilidade ou, ao contrário, torná-la vazia em seu
significado, ou mesmo, quando ela é totalmente esvaziada de propósito,
torná-la ridícula.
O privilégio das causas coletivas em detrimento dos incômodos indivi-
duais é o que dá o “tom” da denúncia aceitável. Desse modo, uma denúncia
que apresente como vítima o próprio denunciador e que não esteja inscrita
em um âmbito minimamente coletivo – por exemplo, o aumento de um tri-

O fazer e o desfazer dos direitos 171


buto, que atinge o denunciador, mas também um grupo maior de pessoas
– pode cair no vazio, tendo possibilidades restritas de escuta. A “distância
relativa” entre aquele que é apresentado como vítima da injustiça, o que
funciona como seu porta-voz, o perpetrador da injustiça e a instância me-
diadora é fundamental para caracterizar uma denúncia como válida.
Podemos dizer, assim, que é significativo o fato de que essa primeira
passeata pelas ruas de Altamira tenha sido organizada por uma ativista,
reconhecida na cidade, mas que não conhecia intimamente nenhuma das
vítimas nem seus familiares. A “distância relativa” entre a porta-voz e as
vítimas torna-se adequada, na medida em que ela apresenta as proprie-
dades sociais condizentes com o papel de “porta-voz”: não é uma pessoa
qualquer, é uma ativista reconhecida, engajada em causas sociais, mas, por
outro lado, não tinha envolvimento emocional com as vítimas, tampou-
co lograria qualquer benefício particular com a punição do criminoso. A
denúncia de D. Antonia e de seu movimento, percebemos, não é vaga; ao
contrário, ela aponta aquele que seria o “perpetrador” da violência. E essa
é mais uma das condições para a produção de uma escuta eficaz.
O “caso” é também construído como de interesse coletivo, e por isso
todos são chamados para a “luta”. Está em jogo a passagem da significa-
ção dos crimes como um acontecimento “distante” – vítimas desconheci-
das, filhos de ninguém – para um crime contra as “crianças da cidade”. A
manifestação, assim, revela um exemplo concreto de engajamento em uma
causa social, ao mesmo tempo que positiva a capacidade de sensibilizar-se,
de criar empatia. De acordo com Sontag (2003), essa capacidade seria um
qualificativo central dos sujeitos, que, ao se mostrarem sensíveis ao sofri-
mento alheio, demonstram sua própria humanidade.
A dosagem correta entre “emoção” e “objetividade” em causas sociais
como a que temos em análise foi analisada por Frederik Bailey (1970). Para
esse autor, os “jogos políticos” estão pautados por um conjunto de regras
que orientam a conduta das pessoas que transitam por esses espaços. Em
seus termos, uma espécie de “sabedoria política” orientaria a escolha das
palavras certas nas horas certas.155 Poderíamos entender como parte dessa
“sabedoria” os movimentos de alternância entre o sentimento provocado

155 Embora pensar sobre as “estratégias” de afastamento ou de aproximação de mediado-


res seja parte mais do ofício do analista social do que da práxis dos sujeitos, para quem as
“estratégias” simplesmente se concretizam no nível da experiência, acredito ser importante
ressaltar a existência de uma dimensão mais “objetivável” de discursos, falas públicas que
não deixam de ser um objeto de reflexão das próprias pessoas.

172 Adriana Vianna


pelas mortes, o “ser afetado”156 como prova da humanidade que vimos em
Sontag (1970) e o sentimento de objetividade que permite falar em nome
de um terceiro, ou ainda convencer a plateia da pertinência da demanda
que se apresenta.157
Na entrevista realizada com D. Antonia Melo, em maio de 2009, per-
cebe-se que, em sua opinião, quanto mais pessoas estivessem envolvidas na
“luta” e fossem capazes de mostrar publicamente sua indignação com as
mortes, menores seriam as chances de que os crimes se repetissem. Apesar
de ter reunido “apenas” cem pessoas, segundo D. Antonia, a partir dessa
passeata passaram-se oito meses sem que novos crimes ocorressem.

Então, depois dessa nossa mobilização, passaram-se oito meses sem que
se matasse alguma criança. Aí nós não tivemos suficientes condições para
que mais pessoas se juntassem à nossa luta, continuassem essa pressão
contra os assassinatos de crianças. Os criminosos perceberam que estava
enfraquecida a luta e mataram o fi lho da Rosa, e mais crianças foram. (D.
Antonia Melo)

No contexto de medo e de pânico que marcava a cidade de Altamira,


a morte de Judirley oferece uma nova forma de revolta e indignação: ele
não só era a terceira vítima conhecida, mas era uma vítima letal. Podemos
relacionar a manifestação ocorrida após a morte de Judirley com a toma-
da de certos procedimentos investigativos policiais até então inéditos, não
adotados na ocasião dos crimes contra Pedro e Luciano.
Judirley foi a terceira vítima de mutilação sexual em um curto espaço
de tempo, o que contribuiu para a sensação de que os casos iam se acu-
mulando, tomando os contornos de uma “matança”. A morte da vítima,
no sentido penal, é um homicídio, mais grave do que os crimes de lesão
corporal que tinham ocorrido antes. No entanto, isso não explica por que
manifestações públicas e o processo de politização dos casos se iniciam

156 Embora tratando de aspectos da pesquisa de campo, Favret-Saada (2005) discute a


importância do “ser afetado” como uma condição necessária à aproximação entre pessoas,
argumento esse que se enquadra no sentido proposto por Sontag (1970).
157 A esse respeito, Bailey (1970) acrescenta características menos pragmáticas à sabedoria
política, afi rmando que ela funciona aos moldes de um jogo: saber as regras, e até mesmo
saber jogar, não elimina o perigo de uma performance malsucedida que resulte em derrota.
Na atividade política existe sempre uma margem de entendimento das regras do jogo que
está fora do conhecimento daqueles que jogam; trata-se da margem de imprevisibilidade de
como a ação representada pode soar àqueles que se busca convencer (p. 7). Nesse sentido,
certo conjunto de “regras” que funcionam como guia para as ações deve ser entendido menos
como regras e mais como hipóteses que indicam chances de sucesso em determinadas ações.

O fazer e o desfazer dos direitos 173


precisamente nesse momento, e não logo após os crimes anteriores. O
assassinato de Judirley apresenta as condições necessárias para que um
“porta-voz” pudesse assumir a tarefa de denúncia dos casos, significando
os acontecimentos como um problema de todos.
Um crime que resulta em morte tem um aspecto mais público do que
outros crimes cujas vítimas estão vivas e podem elas mesmas (ou seus res-
ponsáveis) tomar a frente da reclamação, da publicização do acontecimen-
to. No caso de Pedro e Luciano, ressalte-se a gravidade de suas lesões,
perpetradas em seus órgãos sexuais, espaços íntimos de seus corpos. Res-
salte-se ainda que as vítimas, ainda meninos, teriam de conviver com as
lesões e suas decorrências durante toda a vida, de modo que repercutir o
fato tem o risco de resultar em uma exposição dramática, uma nova forma
de violência.158 Em outro plano, apesar de a eficácia de um movimento ter
relação com a figura do “mediador” que se sensibiliza com um problema
alheio e promove uma denúncia em seu nome, essa passagem entre o co-
nhecimento do problema (ou da injustiça) e a efetivação da denúncia, que
implica uma espécie de divulgação da violência sofrida, deve ser realizada
com o consentimento e até mesmo apoio daqueles que são diretamente en-
volvidos, das vítimas. Conforme o delegado José Maria Alves escreveu no
Relatório do IP, os meninos tinham dificuldade em relatar o drama vivido.
Logo após os crimes que sofreram, Pedro e Luciano passaram por uma
série de tratamentos de saúde em Belém. Suas vidas sofreram grande revi-
ravolta, que envolveu não apenas deslocamentos frequentes para a capital,
mas desemprego do pai de um deles, viagens para São Paulo, assédio da
mídia, separação familiar. As demandas das vítimas e de seus familiares
não estavam concentradas na busca e prisão dos criminosos, mas em ga-
rantir uma assistência médica e social contínua e eficiente. No caso de Ju-
dirley, seus familiares lutavam para encontrar o responsável pela morte do
menino. O pai e suas irmãs iam até a delegacia cobrar do delegado que ele
adotasse medidas eficazes, que ouvisse os nomes suspeitos, que mandasse
realizar perícia no corpo.
De acordo com Seu Marialves Chipaia, pai da vítima, foram feitas vá-
rias visitas à polícia mesmo antes de o corpo ser encontrado. Ele reconhece
as ações da polícia como poucas e infrutíferas, em entrevista realizada em
maio de 2010. Segundo ele, o caso só teve reconhecimento porque ele acio-
nou uma instância governamental específica, a Funai. Em suas palavras:

158 Bauman (1998) assinala que o sentimento de “vergonha” é rotineiramente utilizado


por pessoas que sobreviveram ao Holocausto. É como se a condição de vítima reduzisse sua
humanidade.

174 Adriana Vianna


Esse caso só foi assim, estourado, porque eu fui logo, no segundo dia, eu
fui com o perito da Funai, era o senhor Paulo César, um gaúcho. Por que
o senhor recorreu a ele? Eu recorri com ele porque ele era chefe da Funai,
eu sou índio. Ele mexe só com área indígena, a Funai, né? Eu fui recorrer
com ele. O senhor já conhecia ele? Não, eu já tinha ouvido falar nele, mas
não conhecia, não. Conheceu nessa ocasião? Nessa ocasião. Perguntei
quem era o chefe lá e disseram que era o Dr. Paulo César. Falei com ele,
contei a história para ele e ele disse, “olha, você vem amanhã, sete horas,
que eu vou dar a oportunidade de o senhor conversar com o assessor de
imprensa”. Eu disse, “tá bom”. Quando foi o outro dia, cedinho, eu fui
pra lá. (Seu Marialves Chipaia, pai de Judirley)

Ao movimento que começava a se formar, contando com a participa-


ção de familiares de vítimas, ativistas da cidade e religiosos, somou-se a
presença de D. Rosa Pessoa, depois da morte de Jaenes. A visibilidade que
D. Rosa já tinha na cidade, tendo sido professora de catecismo e partici-
pante do movimento sindical dos professores, colaborou para que o crime
contra seu filho reunisse mais pessoas dispostas a colaborar com os protes-
tos. No dia 3 de outubro, data em que o corpo de seu filho foi encontrado,
uma passeata foi organizada em Altamira, promovida pelas organizações
populares, igrejas e escolas. Em resposta a mais esse episódio de violência,
foi criado o Movimento contra a Violência e a Favor da Vida. Outra mani-
festação ocorreu seis dias após o velório, quando uma grande caminhada
em protesto à negligência das autoridades percorreu as ruas da cidade,
dessa vez reunindo cerca de 10 mil pessoas (COMITÊ EM DEFESA DA
VIDA DA CRIANÇA ALTAMIRENSE, 2001).
Apesar de ter participado das manifestações em resposta aos casos e
da vontade de se envolver na “luta por justiça”, é somente com a morte e
a emasculação de Klébson Ferreira, de 12 anos, um mês depois da morte
de seu fi lho, que D. Rosa recupera suas forças e começa a atuar junto ao
grupo que se formava. Apesar de ela não conhecer a vítima nem qualquer
de seus familiares, sentiu-se ligada àquele caso. Em suas palavras:

Eu tinha jurado perante o túmulo do meu fi lho que eu ia lutar para encon-
trar os assassinos dele, mesmo que tivesse que andar os quatro cantos do
mundo. Mas depois disso me veio uma grande fraqueza. E as coisas foram
acontecendo. Houve um outro caso, com o irmão da Esther, e aquilo me
motivava muito para lutar, sair da cama e fazer alguma coisa (D. Rosa
Pessoa, mãe de Jaenes)

O fazer e o desfazer dos direitos 175


O sentimento desencadeado pela morte do menino Klébson funcionou
para D. Rosa, de acordo com seu relato, como um reavivamento de sua
própria dor, lembrando o que Mauss (1980) diz sobre as expressões coleti-
vas dos sentimentos. O choro coletivo, bem como qualquer tipo de expres-
são coletiva, não exclui as causas e motivações particulares. Assim, é pos-
sível afi rmar que, no contexto de um velório, ou mesmo no caso de uma
morte que se acompanha a distância, pode estar em jogo a lembrança de
um conjunto particular de mortes na família e experiências de sofrimento
anteriores, acionadas pelo caso que se observa ou se compartilha.
Tendo recobrado parte de suas forças, D. Rosa foi procurar a família
do menino recém-assassinado e parentes de outras vítimas.159 Segundo seu
relato, ela deparou com mães que estavam ainda mais fragilizadas do que
ela e decidiu que poderia e deveria ajudá-las. Aos poucos, com a ajuda de
D. Antonia Melo e dos padres Sávio Corinaldesi e Bruno Secchi, foi ini-
ciando os caminhos da militância. Alguns avanços na investigação foram
concomitantes à estruturação dos familiares e amigos em torno de um
coletivo, mas ainda não partiam de uma organização de direitos humanos
que pudesse lhes conferir um caráter “oficial” perante as autoridades, de-
monstrando para os poderes públicos que a “luta” seria contínua. Apesar
de os familiares das vítimas já formarem uma rede social relativamente
coesa, foi após dois acontecimentos que o Comitê em Defesa da Vida da
Criança Altamirense foi formado e registrado.
O primeiro deles foi a chegada a Altamira de Augustino Pedro Veit,
representante do Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (CO-
NANDA), que, em seu relatório conclusivo, registrou a importância de que
a Polícia Federal e a Procuradoria Geral da União assumissem a respon-
sabilidade pelo andamento das investigações. O segundo acontecimento,
em parte resultado desse primeiro, foi a efetiva chegada da Polícia Federal
à cidade, iniciando suas investigações, das quais, como vimos, surgiram
nomes de novos envolvidos no caso.
O encadeamento dessas duas ações soa como decisivo para a formação
oficial do comitê, porque, por um lado, o andamento das investigações
funcionou como um sinal de que havia chance de punição dos criminosos,
mas, por outro, essa chance dependia intimamente de um movimento or-

159 Leite (2009), em seu artigo sobre mobilização de parentes de vítima da violência no Rio
de Janeiro, nos relata um pouco do processo de formação dessas redes: as mães que já expe-
rimentaram “a dor da perda” e que integram um movimento por “justiça” ficam atentas a
notícias de jornais que divulguem casos de violência semelhantes. O próximo passo é anotar
o nome completo, buscar na lista telefônica e fazer uma chamada, prestando apoio, solida-
riedade e convidando para fazer parte do movimento.

176 Adriana Vianna


ganizado que tivesse autoridade para cobrar o andamento das investiga-
ções e a condenação dos culpados. Nas palavras de D. Rosa:

Nós registramos o comitê nessa época [em junho de 1993], para que a
gente tivesse mais força para lutar por justiça. Quando estivéssemos pe-
rante o ministro da Justiça, nós diríamos “quem está aqui é o comitê,
representado pelas famílias dos meninos emasculados de Altamira”. (D.
Rosa Pessoa, mãe de Jaenes)

A partir da formação do comitê, seguiu-se que a cada nova ação da


Justiça ou da polícia os familiares organizados saíam a comemorar ou a
protestar nas ruas de Altamira. Tal foi o ocorrido em abril de 1994, quan-
do o comitê organizou um grande protesto em razão da decisão do pro-
motor de justiça Roberto Pinho de absolver todos os réus. Em dezembro
desse mesmo ano foi também organizada uma vigília na praça do bairro
Brasília, em Altamira, ao mesmo tempo que uma caravana de familiares se
juntava a entidades de defesa dos direitos humanos em frente ao Tribunal
de Justiça do Estado (TJE) em Belém, onde seria julgado o recurso contra
a pronúncia dos réus. Nessa mesma noite, o recurso foi negado e os indi-
ciados passaram a réus.
À medida que o comitê crescia em suas ações, alcançando visibilidade
na cidade e no estado, alianças foram estabelecidas e novos espaços foram
conquistados. No campo das associações da sociedade civil, passou a ser
assistido pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA),
localizado na capital do estado. Durante alguns anos, a advogada e dire-
tora do Cedeca, Celina Hamoy, atuou como assistente de acusação nos
casos, sendo a representante direta dos familiares perante a Justiça.
Na relação com a administração pública, como representante do Comi-
tê em Defesa da Vida da Criança Altamirense, D. Rosa Pessoa participou,
em 1996, de uma reunião da Comissão de Direitos Humanos solicitada
especialmente para tratar das “violências praticadas contra crianças no
estado do Pará”. Nesse encontro, ela falou perante procuradores da Repú-
blica, promotora de justiça, representante do Unicef, além de deputados e
senadores, sobre a trajetória de mortes de crianças em seu município. Em
2008, quando a conheci, D. Rosa estava na cidade de Belém em razão da
II Conferência Estadual de Direitos Humanos, uma prévia à Conferência
Nacional, da qual participava como delegada e representante do comitê.
Esses dois eventos são apenas alguns dos quais D. Rosa participou desde
que se iniciaram as atividades do comitê. Perguntada se não tinha sido difí-
cil lidar com a burocracia da polícia e da Justiça, falando com advogados,

O fazer e o desfazer dos direitos 177


políticos e promotores sobre o complexo processo judicial em questão, D.
Rosa disse que sim, mas que teve a oportunidade de participar de um cur-
so de “acesso à Justiça” promovido pela Prelazia do Xingu e assim “ficar
menos leiga no assunto”.160
O envolvimento de D. Rosa na causa tem propriedades diferentes da-
quele iniciado por D. Antonia, ainda que as estratégias políticas traçadas
por esta última tenham sido adotadas pela primeira, como a organização
de passeatas, cartas abertas etc. Dissemos que poderíamos pensar em ter-
mos de “mediação” o papel de D. Antonia Melo; consideramos seu “dis-
tanciamento relativo” como uma propriedade imprescindível para um de
seus principais objetivos, qual seja, o entendimento de que as mortes de
meninos na cidade eram um problema de todos. D. Rosa, diferentemente,
não ocupa o papel supostamente “neutro” em relação aos casos: sendo
mãe de uma das vítimas, é capaz de apresentar publicamente a superação
de sua dor e sua “força”, sendo isso que a faz lutar para que os casos não
caiam no esquecimento. Sua militância não se limita, porém, ao “caso de
seu fi lho”, mas a todos os demais, fossem desaparecidos, assassinados ou
sobreviventes, e mesmo a outros problemas da situação da infância na
cidade.161
Na ocasião da reunião na Comissão de Direitos Humanos, observamos
como D. Rosa fala do caso de seu filho com base no enquadramento mais
geral das outras mortes na cidade:

No dia 1º de outubro de 1992, meu fi lho saiu de casa às 9h30 para prender
alguns bezerros que a gente criava, e a partir de 11h ele já não se encontra-
va mais no local. Foi dada a notícia. Toda a comunidade foi procurá-lo, e
não foi encontrado. Dois dias depois, no dia 3, nós o encontramos morto,
emasculado, com seus olhos arrancados e suas genitais e pulso cortados.
Não tivemos o direito de chegar perto, de abraçá-lo, de despedir. Não ti-
vemos esse direito, tanto eu quanto as outras mães. Sete mães sabem onde
estão suas crianças, as demais não sabem, pois desapareceram; outras
foram sequestradas. Temos três crianças que sobreviveram e hoje vivem
as suas agonias, os seus sofrimentos. Foram desprezadas também pelas

160 Essa informação me foi dada durante o período em que estive em sua casa, no mês de
maio de 2010, e faz parte do caderno de campo, não tendo sido gravada.
161 Na Carta Aberta à comunidade altamirense, ainda sob as iniciativas do Movimento
contra a Violência e a Favor da Vida, anterior à formação do comitê, lê-se: “Contudo, o
problema é bem maior: em Altamira, as crianças e os adolescentes são vítimas de outras for-
mas de violência: prostituição infantil, maus-tratos, estupros, falta de assistência médica, de
oportunidades para estudar, de alimentação suficiente, de morada digna…”

178 Adriana Vianna


nossas autoridades… (notas taquigráficas da sessão organizada pela Co-
missão de Direitos Humanos, incluída no Processo n. 2002.2.20272063,
fls. 3.852, verso)

Algumas das características dos sujeitos que atuam como líderes ou re-
presentantes de movimentos sociais ou mesmo políticos foram sociologica-
mente estudadas. Um desses autores, Bourdieu (1984) eleva a “modéstia” a
um papel central na conduta de sujeitos que agem como representantes ou
como mandatários de grupos. Ao termo modéstia, o autor pretende vincu-
lar a capacidade de fazer uma passagem correta, no tempo correto, entre
o “eu” e o “nós”, ou seja, entre o ato de apresentar para a plateia perante
a qual se apresenta seu envolvimento com a causa – pois é necessário ter
algum – e, de maneira hábil, passar a tratar dos problemas da coletividade,
deixando os interesses meramente individuais de lado.
Por fi m, resta sublinhar a importância da crença na demanda pleitea-
da. Não obstante as ações ineficientes conduzidas pela polícia, as decisões
da Justiça que impronunciaram os acusados, os habeas corpus que lhes
permitiram voltar às ruas da cidade, os integrantes do comitê disseram
jamais terem perdido as esperanças de que “houvesse justiça”. Paul Ri-
coeur (2008) traça uma distinção importante entre vingança e justiça, no
contexto da discussão mais geral sobre a própria ideia de Direito, que se
baseia, por sua vez, na premissa de que o Estado tem o poder legítimo da
violência e dos julgamentos de violência, não tendo a sociedade – nem mes-
mo as partes ofendidas – competência para julgar ou punir. Em um trecho
da fala de D. Rosa Pessoa nessa mesma reunião da Comissão de Direitos
Humanos, a distinção entre justiça e vingança aparece bem marcada:

Já tivemos a oportunidade para fazer vingança, mas não queremos isso.


Acreditamos na nossa Justiça da Terra e temos fé em Deus que Ele vai dar
essa força para a nossa Justiça, que tem falhado várias vezes, mas que
uma hora pode ser iluminada pelo Espírito Santo e pode dar certo. (notas
taquigráficas da sessão organizada pela Comissão de Direitos Humanos,
incluída no Processo n. 2002.2.20272063, fls. 3.852, verso)

O ingresso de pessoas na militância ou em atividades políticas deve ser


ainda pensado à luz dos “custos sociais” envolvidos nesse ato. No caso
dos familiares das vítimas, no mesmo momento em que abriram mão de
uma possibilidade de vingança e acreditaram que o Estado – algum dia –
“faria a justiça valer”, assumiram os custos de sua atividade política sem
nem mesmo considerar os malogros e riscos que poderiam suceder. Em

O fazer e o desfazer dos direitos 179


se tratando de pessoas influentes na cidade que apareciam envolvidas nos
crimes, o fazer repercutir dos casos era uma atividade perigosa. Efetiva-
mente, fui informada de ameaças de morte e intimidações aos familiares
de vítimas, desde o início de suas atividades militantes. No entanto, per-
cebi que, quando o que está em jogo é a punição de culpados pela morte
violenta de seus fi lhos, os pais e as mães desses meninos não pensaram nas
desvantagens de pressionar as autoridades, organizar um manifesto em
praça pública, cobrar que os “poderosos” locais fossem colocados atrás
das grades. O ingresso na atividade política a partir de um evento dra-
mático, como foi o caso dos familiares das vítimas de Altamira, parece
sobrepor-se a qualquer possibilidade de cálculo de “perda social”, ou mes-
mo de perigo de vida.

4. Perspectivas finais
Neste capítulo, analisando as ações da polícia no “caso dos meninos emas-
culados”, procurei demonstrar, por um lado, a força do movimento social
organizado na “luta” contra ações policiais entendidas como ineficientes e
negligentes, e, por outro, o intenso entrecruzamento das ações da polícia
e do movimento social, que, ao longo do período analisado, apresentaram
questionamentos, justificativas e respostas que foram mutuamente condi-
cionados ao longo do caso. No entanto, como foi dito, as relações – e
interações – entre polícia e ativismo não são as únicas possíveis, mas, ao
contrário, perfazem apenas uma das dimensões que o caso nos possibilita
observar.
Por um lado, temos a polícia como instância oficial do Estado, “a ser-
viço do cidadão”. Conforme aparece no trabalho de Letícia Carvalho de
Mesquita Ferreira, “O desaparecimento de pessoas no Brasil contempo-
râneo: a ausência como matéria-prima de um problema social”, incluído
nesta coletânea, as delegacias de polícia são os braços do Estado mais
acessíveis à população, abertos 24 horas por dia, sete dias por semana. A
delegacia é o local ao qual primeiro se comparece quando alguém desapa-
rece, ou quando seu corpo, com ou sem vida, é encontrado. Não obstante
a avaliação de que a polícia era ineficaz, de que não havia registro dos
casos nem buscas eram realizadas, isso não impediu que os familiares das
vítimas de Altamira fossem atrás de seus serviços. No entanto, em nenhum
dos casos a ida à delegacia excluía outros caminhos ou a tentativa com
outras instituições, fossem elas hierarquicamente superiores, inferiores ou
não concorrentes, como a Polícia Federal, o Exército, o Ministério Público,
a Funai.

180 Adriana Vianna


Por outro lado, a relação com a polícia e com outros aparatos adminis-
trativos do Estado, se não foi responsável pelo próprio surgimento de um
movimento social dos familiares, ao menos traçou seus contornos, suas
demandas principais, sua forma de militância. Em um primeiro momento,
temos pais, mães e irmãs indo à delegacia na tentativa de registrar casos.
Posteriormente, essas mesmas pessoas passam a ser revestidas de determi-
nadas propriedades sociais: são membros de uma coletividade, é a repre-
sentante do comitê, é o pai da vítima a cujo enterro compareceram autori-
dades políticas, são todos eles vítimas da perda brutal de um fi lho, irmão.
A marca da relação entre polícia e ativismo é também de oposição, de
confronto e de troca de acusações: polícia que não investiga os crimes;
pais que deixam seus fi lhos soltos na rua. Para a polícia, alguns casos nada
tinham a ver com os “casos de emasculação”; para o movimento social,
mesmo os meninos desaparecidos também podiam ser vítimas daqueles
bárbaros crimes. No entanto, creio que a dimensão da relação e da inte-
ração entre polícia e ativismo rende melhores frutos quando analisada em
sua positividade, no sentido empregado por Vianna (2002), ou seja, na
produção de discursos e contradiscursos que não estão apenas em posição
de contradição, mas que se recriam ao longo do tempo, se misturam, em
um processo contínuo de negociação. Não foi apenas o confronto com a
polícia que estimulou a criação do comitê, mas também os primeiros resul-
tados positivos das investigações.
A análise das ações da polícia nesse caso aponta para a importância de
deslocar o foco das “instituições” para as práticas dos sujeitos concretos.
Assim, notamos que, no contexto da categoria profissional composta por
“delegados”, encontramos sujeitos que adotaram posicionamentos distintos
em relação aos casos, revelando um pouco dos limites e das condições de
possibilidade que orientara suas ações. A ênfase nas práticas que se buscou
operar aqui parte da distinção proposta por Philip Abrams (1988) entre
“Estado-sistema” e “Estado-ideia”, ou seja, entre a dimensão das práticas
efetivas e da estrutura institucional do Estado e sua dimensão abstrata e
conceitual, partindo dos significados que a “ideia” de Estado assume.
Dessa maneira, muitas vezes optei por manter o termo “Estado” com o
intuito de remeter justamente à sua dimensão mais abstrata, como quando
o movimento dos familiares se refere à “omissão do Estado”. Apesar dessa
possibilidade de uso do termo “Estado”, inclusive por parte dos familia-
res das vítimas, considero que no caso em questão ele apareça mais como
“parte” nos momentos de disputa sobre os casos – ainda que uma “parte”
com muitos braços, como a polícia, o Judiciário etc. – do que como instân-

O fazer e o desfazer dos direitos 181


cia de resolução de confl itos. Nas palavras de Bourdieu (1996), podería-
mos dizer que, junto com o movimento social atuante nos casos, o Estado
luta, tanto quanto o movimento social, pelo “poder de descrever, que é
prescrever”.
Com isso, não pretendemos acentuar a dimensão da agência individual
de cada sujeito – embora, em alguma medida, ela sempre esteja presente
–, mas nos reportamos a algo de caráter eminentemente social: trata-se do
contexto das declarações dadas, dos procedimentos adotados e das orien-
tações seguidas ou não seguidas. Alban Bensa (1996) se refere à ideia de
“contexto” como um conjunto de atitudes e de pensamentos dotados de
lógica própria que se fazem presentes em determinada marcação de espaço
e de tempo. A diferença da ideia de “contexto” para um simples “quadro
de referências”, que também poderia ser usado para demonstrar as condi-
ções de uma declaração dada ou de uma prática efetivada, é que, em qual-
quer situação, é ampla a variedade dos possíveis “quadros de referência”.
A ideia de contexto leva em questão o tempo e o espaço como forma de
defi nir as margens de possibilidades, buscando maior precisão.
Dessa maneira, é importante deixar claro que se subentende, com base
na ideia de contexto, um conjunto de condições variáveis. Assim, é possí-
vel dizer que o contexto da época permitiu que os delegados que atuaram
nos casos dos meninos Pedro e Luciano, quando poucos registros foram
feitos e buscas não foram realizadas, assim agissem sem que a situação
se transformasse em um escândalo. Por outro lado, à medida que novos
crimes foram ocorrendo e o que eram entendidos como crimes isolados
se transformaram em “partes” do “caso dos meninos emasculados”, com
a formalização de um movimento social, a divulgação dos casos na im-
prensa nacional e internacional, tornou-se cada vez mais comprometedor
deixar de realizar diligências, de colaborar com as buscas.

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3 de outubro de 1941 – Código de Processo Penal, relativos ao Tribunal do Júri, e dá outras
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______. Lei n. 11.259, de 30 de dezembro de 2005. Acrescenta dispositivo à Lei n. 8.069/90
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adolescente. Brasília: Presidência da República, 2005.

184 Adriana Vianna


Condições de possibilidade do caso Damião
Ximenes: uma análise da primeira condenação
do Brasil por violação de direitos humanos162

Martinho Braga Batista e Silva163

1. Introdução
Em julho de 2006, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte
IDH) condenou o Brasil por violação de direitos humanos, abrindo um
precedente nacional e internacional.164 Considerado um marco histórico
por muitos, nem tanto na história da psiquiatria e do asilo quanto naque-
la da luta em defesa dos direitos humanos, esse episódio ficou conhecido
como caso Damião Ximenes. Trata-se da primeira condenação do Brasil por
violação de direitos humanos, bem como a primeira vez em que um país
foi condenado por violar direitos humanos de pessoas portadoras de trans-
torno mental. Algumas condições de possibilidade da condenação serão
apresentadas neste capítulo.
A condenação da Corte IDH de 2006 aconteceu quase sete anos após
a denúncia enviada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos
(CIDH) em novembro de 1999, segundo a qual uma pessoa portadora de
transtorno mental tinha sido morta por maus-tratos em uma clínica priva-
da conveniada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Após a condenação, uma
indenização no valor de 156 mil dólares foi concedida à família da vítima,
em setembro de 2007, cuja maior parcela foi dada à mãe e à irmã, e a me-

162 O material documental com base no qual o texto foi elaborado chegou ao autor princi-
palmente por meio do contato regular com interlocutores-chave. Agradeço especialmente aos
professores doutores Jackson Sampaio e Luis Fernando Tófoli, à professora doutora Maria
Gabriela Godoy e a Irene Ximenes os arquivos generosamente cedidos.
163 Doutor em Antropologia Social no PPGAS/MN/UFRJ e professor-adjunto do Departa-
mento de Ciências Humanas e Saúde (IMS) da Uerj. O estudo publicado é produto do projeto
de pesquisa “O Desafio da Tutela no Processo de Reforma Psiquiátrica Brasileira”, desenvol-
vido entre 2006 e 2011, durante o doutorado, sob fi nanciamento do CNPq.
164 Isso apesar das muitas denúncias de indivíduos, grupos e organizações da sociedade civil
a organismos internacionais, que nunca resultaram em condenação, acontecidas em diferen-
tes décadas do século XX. Nenhuma corte internacional havia julgado e condenado o Brasil
por violação de direitos humanos até então, nem havia condenado um país por violações des-
sa ordem contra pessoas com problemas psiquiátricos, eis os “precedentes” (BORGES, 2009).
nor, ao pai e ao irmão. Denúncia, condenação e indenização apreendidas
de diferentes maneiras, por diferentes atores sociais situados em variadas
posições institucionais e geográficas, como membros da Coordenação Na-
cional de Saúde Mental em Brasília (DF), da organização não governamen-
tal (ONG) Justiça Global no Rio de Janeiro (RJ) e da TV Verdes Mares em
Fortaleza (CE).
O Brasil, à época, era um país reconhecido internacionalmente pelo
êxito da política nacional de saúde mental, seguindo as recomendações
da Declaração de Caracas no sentido de privilegiar a atenção comunitária
mais do que a hospitalar (BRASIL, 2001a). Entretanto, um tribunal inter-
nacional de proteção aos direitos humanos condenou esse mesmo Estado
nacional por violar os artigos do Pacto de San José, por não ter sido capaz
de garantir direito à vida e à integridade pessoal, nem o de garantias e
proteção judiciais a Damião Ximenes Lopes. Documentos menos legais do
que morais, essa declaração e esse pacto, regulamentações cujas sanções
são mais dependentes da opinião pública do que da imposição de normas
escritas, são o produto do acordo entre grupos sociais especializados em
gerar consensos e cartas de intenções, como é o caso de parte dos membros
da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização dos Estados
Americanos (OEA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O nome do paciente psiquiátrico morto na Casa de Repouso Guarara-
pes era Damião Ximenes Lopes. Tanto o episódio da morte quanto a con-
denação ficaram conhecidos internacionalmente como caso Damião Xi-
menes; a denúncia e a indenização, nem tanto. Assim também foi nomeado
um serviço extra-hospitalar de atendimento em saúde mental, o Centro de
Atenção Psicossocial (CAPS), criado na cidade de Sobral (CE) em 2000,
pouco depois do fechamento de Guararapes: o Caps Damião Ximenes Lo-
pes (cf. PEREIRA e ANDRADE, 2001). Isso também aconteceu com uma
das salas nas quais teve lugar a III Conferência Nacional de Saúde Mental,
em 2001, realizada pouco depois da promulgação da Lei n. 10.216/ 2001
– relativa à proteção dos direitos humanos de pessoas portadoras de trans-
torno mental e que modificou uma legislação vigente desde 1934 no Brasil
–, a Sala Damião Ximenes (BRASIL, 2001a). Para não falar do Instituto
Damião Ximenes (IDX), criado por sua irmã – a denunciante – em 2009
na cidade de Ipueiras (CE), ONG inaugurada para lutar em defesa dos
direitos de pessoas portadoras de transtorno mental no estado do Ceará.
Centro, Sala e Instituto que apontam para uma homenagem póstuma a
esse morador de Varjota (CE), que esteve por três vezes internado em Gua-
rarapes e uma vez em consulta médica no hospital psiquiátrico de Messe-

186 Adriana Vianna


jana, bairro da capital do estado do Ceará, Fortaleza. Damião Ximenes
Lopes não conheceu outros serviços públicos de atendimento em saúde
mental, como os Caps e outros extra-hospitalares, apesar de apresentar
problemas psiquiátricos desde os 17 anos e ter falecido aos 30, ou seja, o
período entre 1986 e 1999.165
No contexto do SUS, Damião era usuário de um serviço integrado a
um sistema municipal de saúde, enquanto no contexto do Sistema Intera-
mericano de Direitos Humanos (SIDH) o Brasil era um país signatário de
uma convenção: em outras palavras, do ponto de vista dessas entidades
institucional e legalmente constituídas, o indivíduo Damião e o Estado
nacional Brasil são unidades. Dito de outro modo, o Brasil, no contexto da
análise aqui empreendida, é considerado uma unidade política no contexto
da cena internacional.
Procurar-se-á neste texto responder às seguintes perguntas: Como a
denúncia se tornou um caso? Como o caso resultou em condenação? Do-
cumentos como a “carta-denúncia” enviada pela irmã de Damião Ximenes
à CIDH nos fornecem pistas para responder a essa pergunta. Contribui-
ções teóricas de Boltanski serão relevantes para esse empreendimento ana-
lítico, reunindo elementos da sociologia crítica que colaboram na compre-
ensão da montagem do caso, como as passagens das queixas particulares ao
interesse coletivo.
Embora as análises do caso Damião Ximenes costumem privilegiar o
ineditismo do acontecimento (o “precedente” destacado por ANDRADE,
2006; FRIEDRICH, 2006; BORGES, 2009; SEIXAS e NAGADO, 2009),
procurei anteriormente apontar suas implicações para a compreensão de
eventos críticos e processos de alocação de responsabilidades (SILVA,
2009a).
Desse modo, indiquei em que medida a análise do caso Damião Xime-
nes poderia se beneficiar da compreensão do episódio como evento crítico
(DAS, 1996, p. 5-6), marcante na história do país e capaz de redefi nir va-
lores nacionais, desdobrando-se em formas de ação não concebíveis moral-
mente antes do acontecimento, como pode ser entendida a convocação da
família de portadores de transtorno mental a permanecer com ele durante
a internação.

165 Segundo Amarante (1998), desde 1978 o processo de reforma psiquiátrica estava em
curso no Brasil, tendo sido o primeiro Caps criado justamente em 1987, em São Paulo (SP), e
a primeira rede de atenção em saúde mental substitutiva ao asilo em 1989, em Santos (SP). O
primeiro Caps do estado do Ceará é do ano 1991, instalado em Iguatu, tendo sido a primeira
rede criada em Quixadá em 1998, e não havia Caps em Sobral (CE) quando da morte de
Damião Ximenes Lopes (SAMPAIO e CARNEIRO, 2007, p. 9).

O fazer e o desfazer dos direitos 187


Pode-se dizer que os desdobramentos da condenação, mais do que suas
condições de possibilidade, foram colocados em relevo. Destaquei as des-
continuidades históricas nas formas de gerir a loucura no espaço urbano,
não apenas isolando no hospício o indivíduo rotulado de doente mental
ou mesmo mantendo-o em casa, mas também incluindo a família como
acompanhante necessário na situação de internação hospitalar; as descon-
tinuidades históricas que permitiram localizar a condenação em si como
inédita pelas entidades de proteção aos direitos humanos, como “prece-
dentes”, foram, dessa maneira, colocadas em segundo plano.
Além disso, busquei demonstrar que a alocação de responsabilidades
pelo infortúnio (EVANS-PRITCHARD, 2005) – conceito criado para
compreender as acusações de bruxaria e feitiçaria entre os Azandes – di-
rige-se a Estados nacionais, e não a indivíduos no caso Damião Ximenes,
diferentemente de situações sociais já descritas e analisadas na história da
psiquiatria e do asilo. Assim, diferentemente dos casos Febrônio Índio do
Brasil (cf. FRY, 1986) e Custódio Serrão (cf. CARRARA, 1998), ambos
referidos ao surgimento do manicômio judiciário no Brasil, os rótulos e
as acusações apontam não exatamente para a produção de diagnósticos
médicos, e sim de um “país que viola direitos humanos”, tendo em vista se
tratar de “um crime cometido por um manicômio”.166
Neste capítulo, apresentarei algumas das condições de possibilidade
desse drama social (TURNER, 2008), cujo início pode ser considerado
a morte por maus-tratos de Damião Ximenes Lopes na Casa de Repouso
Guararapes, em Sobral, e o ápice, a audiência pública realizada em 2005
na cidade de San José, Costa Rica, sede da Corte IDH, reunindo os dife-
rentes envolvidos na situação social: usuários, familiares, profissionais e
gestores do campo da saúde mental, bem como membros de órgãos go-
vernamentais dos setores da saúde, justiça, educação e cultura, dos níveis
municipal, estadual e federal, ou ainda de ONGs.
Ao longo deste texto, procurar-se-á mesclar a pesquisa documental
com a interacional, reunindo tanto informações escritas sobre o assunto –
publicadas em livros, revistas e jornais, como também disponíveis na inter-
net – quanto entrevistas formais com envolvidos no caso Damião Ximenes
e conversas informais com a família de Damião Ximenes Lopes. Com Be-
cker (2008), poderíamos dizer que, mais do que privilegiar os rotulados ou
os rotuladores e ficar a oscilar entre eles durante a análise, procurar-se-á

166 As aspas serão usadas em todas as palavras, expressões e frases nativas, sendo elas reti-
radas de documentos – como estas acima, retiradas de notícias sobre o caso Damião Ximenes
– ou de entrevistas com atores sociais envolvidos no caso.

188 Adriana Vianna


estudar o conjunto dos envolvidos na situação social de desvio social, aqui
não exatamente a “doença mental”, mas a “violação de direitos humanos”.

2. A entrada em campo
Soube do caso Damião Ximenes por meio de uma mensagem recebida em
agosto de 2006, mais ou menos um mês após a sentença de condenação do
Brasil por violação de direitos humanos pela Corte IDH. Participo desde
essa época de um grupo virtual designado “Em defesa da Reforma”, tendo
sido convidado a fazê-lo – como muitos outros militantes do movimento
pela reforma psiquiátrica brasileira – pela Coordenação Nacional de Saúde
Mental do Ministério da Saúde (CNSM).
O grupo virtual “Em defesa da Reforma” foi criado pelo órgão federal
de gestão da política pública de saúde mental no Brasil, a CNSM, tendo
sido convidadas a participar pessoas envolvidas no movimento conhecido
como Reforma Psiquiátrica Brasileira (a partir de agora, Reforma), que
desde a década de 1970 vinha lutando por mudanças no “modo da [sic]
sociedade lidar com a loucura” (BIRMAN apud AMARANTE, 1998),
entre outras transformações em âmbito cultural, assistencial e legislativo
que terminaram por se resumir em dois lemas: “por uma sociedade sem
manicômios” e “cuidar sim, excluir não”.
Quando a condenação foi divulgada nesse grupo virtual, em 2006,
fazia pouco mais de um mês que ele tinha começado a funcionar, com
pouco menos de 50 participantes, congregando hoje mais de 500. Outros
dois outros grupos surgiram dentro dele: um deles destacando um cargo
de gestão relevante na montagem de uma rede nacional de Caps e outros
serviços extra-hospitalares, os “supervisores da saúde mental”, e outro se-
parando dos demais os profissionais que mais foram se extinguindo nos
Caps ao longo dos anos, os “psiquiatras da saúde pública”.
Embora o caso Damião Ximenes tenha sido divulgado nesse grupo
virtual primeiramente por meio da condenação, foram as denúncias de
mortes em manicômios – como a de Damião – que mobilizaram os parti-
cipantes que também eram ligados ao governo federal; a notícia da indeni-
zação pouco mobilizou os participantes.
Em agosto de 2006, o então gestor público municipal de saúde mental
de Sobral enviou essa notícia, levando-me a ficar curioso do assunto e
chamando minha atenção para a cidade, local da morte de Damião Xime-
nes Lopes, como também – tal como a mensagem faria constar – para o
fechamento da Casa de Repouso Guararapes e o surgimento da Rede de
Atenção Integral em Saúde Mental de Sobral-CE (RAISM).

O fazer e o desfazer dos direitos 189


Foi assim que, em setembro de 2007, conheci Irene Ximenes Miranda,
esposa de Airton Miranda e irmã de Damião Ximenes Lopes, também fi-
lha de Albertina Ximenes Viana e irmã de Cosme Ximenes Lopes. Enfi m,
foi por meio dessa notícia recebida em 2006 que parti para o estado do Ce-
ará em 2007, conhecendo os parentes da vítima do caso Damião Ximenes,
a RAISM que o “poder público” criou no lugar do hospício Guararapes e
outras famílias que também tinham “doidos” em casa.167
Não conheci Irene em Sobral-CE, mas em Ipueiras-CE, tendo primei-
ro acionado dois dos membros da RAISM que sabiam onde sua cunhada
morava. Estive na casa da cunhada e ela me contou que Irene vinha toda
semana a Sobral-CE, para levar a fi lha ao tratamento médico, o que a
princípio me fez pensar que não teria que me deslocar para entrevistá-la.
Quando a cunhada me colocou em contato telefônico com ela, apresentei-
-me brevemente como pesquisador do atendimento em saúde mental na
cidade de Sobral e pedi para conversar sobre o caso Damião Ximenes,
dado seu impacto sobre o tema de meu estudo. Irene muito gentilmente
me convidou para visitá-la, explicando-me como fazer para ir de “topic” –
transporte – até Ipueiras e adiantando que outros pesquisadores já tinham
a procurado para falar do assunto.
Uma das profissionais da RAISM que tinha me colocado em contato
com a cunhada se dispôs a me levar até lá, pois ela conhecia Irene desde
a época da denúncia e tinha interesse em revê-la. Cheguei a perguntar a
Irene se poderia ir acompanhado dela; ela não se lembrava do nome da
profissional e não colocou nenhum empecilho. Após uma viagem de carro
de três horas aproximadamente, chegamos à casa de Irene pela manhã,
que nos recebeu em companhia de uma de suas fi lhas, chegando logo em
seguida seu marido e a outra fi lha. Ao fi nal de uma conversa de aproxi-
madamente uma hora e meia, em volta da mesa da sala de estar, ela nos
convidou para almoçar em restaurante próximo à sua casa, não nos dei-
xou pagar a conta e depois enviou fotos do almoço, tendo se lembrado da
profissional – psicóloga – durante a conversa, e, ao encontrá-la na rua em
Sobral após esse almoço, disse que estávamos convidados a retornar.
Irene nos recebeu em casa pouco depois de receber a indenização, mo-
mento no qual, segundo Borges (2009, p. 29), ela frequentemente lidava

167 Detalhes sobre a pesquisa no âmbito do doutorado em antropologia social podem ser
conferidos em três publicações do autor: Silva (2009a), sobre os desdobramentos do caso Da-
mião Ximenes; Silva (2009b), acerca dos mediadores entre comunidade e nação da RAISM; e
Silva (2010), no que tange à relação entre profissionais, usuários e familiares no período entre
o fechamento de Guararapes e a construção da RAISM.

190 Adriana Vianna


com a seguinte situação: pessoas que tinham prestado depoimento na dele-
gacia de Sobral, participado da audiência pública da Corte IDH e contado
informalmente histórias sobre parentes que tinham sido internados e mal-
tratados em Guararapes batiam à sua porta solicitando e mesmo exigindo
parte do dinheiro. Nessa mesma época, a TV Verdes Mares e jornais como
o Diário do Nordeste haviam divulgado notícias sobre o caso Damião
Ximenes, acentuando mais a indenização que a família recebera do que a
condenação ou mesmo a denúncia.
Eu viria a saber pela própria Irene Ximenes que ela colheu esses de-
poimentos em máquina de escrever, para juntar provas ao processo, já
que acreditava que a delegacia não faria esse trabalho. São pessoas que
estiveram em Guararapes ou são parentes de alguém que esteve, testemu-
nhando acerca do descaso para com os pacientes internados, das precárias
condições de assistência e, principalmente, das suspeitas e declarações de
maus-tratos perpetrados pelos funcionários contra os pacientes.
Quando cheguei à sua casa, apresentei-me, novamente, como pesquisa-
dor – ela diria depois “o pesquisador do Rio” para se referir a mim junto
a outras pessoas – interessado no atendimento da RAISM e que tinha sido
informado da importância do caso Damião Ximenes para o fechamento
de Guararapes. Ao perguntar “como foi que aconteceu” esse caso, escutei
o que já tinha sido escrito por ela e publicado em uma coletânea do Conse-
lho Federal de Psicologia em 2001 (SILVA, 2001), ou seja, a versão oficial:
sua mãe denunciou a morte de Damião primeiramente na Secretaria Mu-
nicipal de Saúde de Sobral, depois na delegacia, em ambas em companhia
do genro; Irene só enviou a mensagem para a CIDH depois que desconfiou
que “não obteria nada assim”, após pesquisa na internet, tendo enviado
para outras entidades de direitos humanos além da CIDH (Unesco, ONU,
entre outras).
Dessa maneira, a denúncia à CIDH que gerou o caso Damião Ximenes
foi subsequente a outra publicização da dor, quando de outra denúncia,
realizada não pela irmã, mas pela mãe de Damião Ximenes Lopes, à Se-
cretaria Municipal de Saúde de Sobral pessoalmente, e não à comissão via
mensagem. Essa denúncia realizada pela mãe de Damião na secretaria e
depois na delegacia aconteceu menos de uma semana depois da morte dele,
enquanto a realizada pela irmã aconteceu mais de um mês depois. Como
veremos mais adiante, a denúncia que a mãe de Damião realizou à dele-
gacia resultou no caso Guararapes, enquanto aquela realizada pela irmã
de Damião à CIDH resultou no caso Damião Ximenes, tendo a morte de

O fazer e o desfazer dos direitos 191


Damião ficado conhecida internacionalmente e sido divulgada na mídia
nacional em razão da denúncia da irmã.
Insisto na pergunta sobre o passo a passo da denúncia, aproveitando
a presença da profissional da Secretaria Municipal de Saúde e Ação Social
de Sobral (SAAS) na conversa para levantar a possibilidade de alguém do
Movimento da Luta Antimanicomial (MLAM) ter a auxiliado nesse pro-
cesso. Irene mencionou que, após o envio da “carta-denúncia” pela inter-
net, veio a ser contactada por membros do movimento, por meio do qual
a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa
do Estado do Ceará (CCDH) foi acionada, desencadeando uma audiência
pública em Fortaleza ainda em 1999, algo que colaborou em muito para a
formação de uma junta interventora pela SAAS e o posterior descredencia-
mento de Guararapes.
Só saberia anos depois, voltando a Ipueiras para colher mais infor-
mações sobre o caso Damião Ximenes com a denunciante, quando ela
estava inaugurando o IDX, que a colaboração do MLAM era secundária
a outro atributo desse ator social: o fato de Irene ter sido anteriormente
funcionária pública em Varjota, acostumada a fazer ofícios e outros do-
cumentos oficiais em seu dia a dia. Além do que Borges (2009) acentuou
como condição de possibilidade do caso Damião Ximenes, o fato de Irene
ser uma das poucas pessoas em Ipueiras que dispunham de computador
em 1999, acredito que outros elementos também contribuíram para a le-
gitimidade da denúncia. Primeiramente, o conhecimento que ela tinha dos
trâmites burocráticos, do formato dos documentos governamentais, algo
que pode ter tornado sua “carta-denúncia” mais passível de ser conside-
rada pela Corte IDH uma acusação plausível, no sentido que Boltanski et
al. (1984) apontam como o senso de normalidade dos jornais que recebem
denúncias. Em segundo lugar, a indignação que foi adquirindo em contato
com informações sobre verbas e recursos governamentais que não eram
aplicados devidamente, verbalizada por Irene algumas vezes durante con-
versas informais sobre os empregos públicos que exerceu antes da morte
do irmão.

3. Uma narrativa jornalística do caso Damião Ximenes


A notícia divulgada pela BBC Brasil em 18 de agosto de 2006, conhe-
cida por meio do grupo virtual “Em defesa da Reforma”, é uma maneira
entre outras de iniciar os leitores no caso Damião Ximenes. Nota-se que
ela destacava a condenação do “Brasil” pela “Corte Interamericana” e a
vitória dos “familiares” da “vítima” sobre o Brasil, sendo dividida em três

192 Adriana Vianna


tópicos: “Caso”, “Responsabilidades” e “Decisão histórica”. Há trechos
dessa reportagem que se repetirão em outras e que já tinham sido repetidos
em vários outros momentos e veículos de comunicação, sintetizando o fato
e suas implicações:168

O caso diz respeito à morte do cearense Damião Ximenes, em novembro


de 1999, enquanto estava internado na Casa de Repouso Guararapes,
uma instituição psiquiátrica à época fi liada ao Sistema Único de Saúde
(SUS). Damião morreu quatro dias depois de ser internado na clínica,
que fica a 200 km de Fortaleza. Embora o laudo do Instituto Médico
Legal – redigido pelo mesmo médico que trabalhava na Casa de Repou-
so – apontasse “causa (de morte) indeterminada”, Damião apresentava
marcas de tortura e maus-tratos. Em mais de 80 páginas de justificativas,
a Corte decidiu que o país violou a Convenção Americana de Direitos
Humanos em quatro artigos. A sentença determina que o país investigue
os responsáveis pela morte de Damião e realize programas de capacitação
para profissionais de atendimento psiquiátrico, além de elevar o valor da
indenização aos familiares.

Damião morreu em outubro, e não em novembro de 1999; além disso,


o laudo citado era do IML de Fortaleza, e não daquele de Sobral, este úl-
timo aquele ao qual pertencia o referido médico, cujo laudo aponta mor-
te por parada cardiorrespiratória. Tirando esses equívocos, a reportagem
permite grifar alguns elementos-chave do caso Damião Ximenes: a morte,
a instituição, a perícia, a violação e a sentença.
Apesar de o laudo do IML declarar a morte como por causa indetermi-
nada, a corte considerou a mesma violação de direitos humanos, enquanto
a denunciante a considera um crime, um assassinato. Assim, esses elemen-
tos são ponderados de diferentes modos pelos atores e instâncias sociais
envolvidos, já que:

[…] a irmã de Damião, a contadora […], aplaudiu a decisão, mas lamen-


tou que tenha sido necessário recorrer a um órgão internacional para
conseguir as reparações pelo caso. “Fomos à corte porque no Brasil um
crime cometido por um manicômio nunca seria julgado”, disse ela à BBC
Brasil. “O do meu irmão seria apenas mais um.”

168 Ao fi nal do texto há uma lista de notícias sobre o caso Damião Ximenes, impossíveis de
citar uma a uma, mas possíveis de ser consultadas pelo leitor.

O fazer e o desfazer dos direitos 193


Ou seja, a morte teria sido um “crime” cometido por um “manicô-
mio”, crime esse que teria se mantido impune caso fosse levado em conta
apenas o “laudo”. Por meio do julgamento na “corte”, a morte tornou-se
uma “violação”, resultando em uma “sentença” condenando o “país”.
São pelo menos três versões da morte: um crime para a denunciante,
algo produzido por causa indeterminada para o perito e uma violação de
direitos humanos para a Corte IDH. A primeira versão era uma acusação,
que se tornou denúncia; a segunda, um parecer de especialista médico, que
se tornou um documento questionável; a terceira, uma suspeita, que veio
a ser comprovada ao longo de um trâmite burocrático entre órgãos locais,
nacionais e internacionais.
Nota-se ainda que outros órgãos que não aqueles ligados ao Estado na-
cional acentuam a descontinuidade histórica que representou a sentença,
bem como a questão dos direitos humanos. A Corte IDH “[…] enfatizou
que é a primeira vez que julga a violação dos direitos de uma pessoa por-
tadora de deficiência mental”. Além disso, a sentença foi uma “decisão
histórica”, segundo a diretora da Justiça Global, ONG peticionária da
denunciante. Para a representante dessa mesma ONG, “[a decisão] é uma
referência para a proteção dos direitos humanos e, em particular, dos pa-
cientes psiquiátricos. O Brasil tem agora a oportunidade de mostrar que
quer combater violações [desse tipo]”. Já um dos juízes da Corte IDH “[…]
criticou a legislação brasileira de direitos humanos, e em particular uma
mudança constitucional realizada em 2004, que dificultou a aprovação no
Congresso de tratados internacionais na área”, novamente sublinhando a
questão dos direitos humanos e a descontinuidade histórica que representa
a sentença.
Enquanto a ONG e a corte ressaltam os direitos humanos e a descon-
tinuidade histórica apontada com base na condenação, o governo federal
destaca a política nacional de saúde mental e a continuidade histórica que
tem significado o investimento nessa área no país. Para o “governo brasi-
leiro”, representado pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Pre-
sidência da República (SEDH), “a decisão reconheceu ‘avanços’ no sistema
de atenção à saúde mental no país”.
Desse modo, se para a denunciante a sentença da Corte IDH é “digna
de aplausos”, para a ONG que é sua peticionaria é “histórica”, enquanto
para o Estado nacional é um “reconhecimento” e para a Corte IDH, “uma
primeira vez”. ONG e corte convergem em seu modo de valorar a sentença,
enquanto a denunciante lamenta o fato de ter de recorrer à Corte IDH para
obter a reparação e o Estado nacional diverge desses pontos de vista.

194 Adriana Vianna


Se optamos por apresentar o caso Damião Ximenes como “caso”, a
Corte Internacional de Direitos Humanos como “corte”, a organização
não governamental como “ONG” e o Estado nacional como “Brasil” até
o momento, foi apenas para facilitar a descrição do caso. Tendo em vista
essas primeiras análises, já podemos diagramar de outra forma a correla-
ção de forças em jogo.
Antes de mais nada, é importante destacar que o caso expõe relações de
confl ito entre agentes com um dado pertencimento institucional, tornando
visível o pertencimento de alguns e não o de outros. A denunciante, por
exemplo, não é apresentada como representante de nenhuma instituição,
seja ela governamental ou não governamental, nacional ou internacional.
Em conversas informais ao longo da pesquisa, fica claro que ela foi funcio-
nária pública em órgãos da cidade de Varjota antes de se tornar contadora
e na época da denúncia tinha um escritório de contabilidade na cidade de
Ipueiras, nunca tendo tido qualquer vinculação ao Movimento pela Luta
Antimanicomial antes da denúncia.
Ou seja, a irmã de Damião Ximenes é apresentada na mídia mais pelo
parentesco com a vítima do que pelos pertencimentos e lealdades institu-
cionais que carregava consigo, bem diferente dos membros de ONGs e do
governo federal, estadual e municipal, também apresentados nas notícias
de jornais. O que é visibilizado e encoberto nas notícias de jornal – bem
como em outros documentos no site da ONG ou da SEDH – torna-se re-
levante para mostrar as motivações da denúncia e os nexos causais entre
os implicados nela. O fato de a denunciante ser irmã da vítima a retira da
condição de imparcial (BOLTANSKI, 1993, p. 226), e seu ato, da condição
de desinteressada (BOURDIEU, 1996, p. 140).
Entretanto, essa denúncia na condição irmã e não de ex-funcionária
pública acostumada a produzir “ofícios” a inscreve no rol das demais fa-
mílias cujos parentes foram vítimas dos manicômios, “mortes violentas em
hospitais psiquiátricos”, essa “instituição sinistra” (SILVA, 2001), inscre-
vendo-a em uma comunidade política (DAS, 1996), o Movimento da Luta
Antimanicomial, órgão do qual nunca fez parte oficialmente, mas com o
qual é identificada ao longo do tempo.
Além disso, a rede de relações sociais entre os agentes e as instituições
aponta para algo que atravessa os limites do Estado nacional, havendo
uma convergência entre as versões que a ONG e a corte apresentam sobre
o caso. Enquanto Irene é uma desconhecida que também é uma pessoa co-
letiva, “familiar de paciente psiquiátrico vítima do manicômio” (PEREI-
RA, 2001), o Brasil é uma unidade política que se faz representar perante

O fazer e o desfazer dos direitos 195


a Corte IDH como parte no cenário internacional (BOLTANSKI, 1993, p.
231 e 239), ambos tendo suas ações permeadas por entidade convergentes
em princípios e objetivos: a ONG e a Corte IDH.
Agindo com base nas regulamentações internacionais relativas à pro-
teção dos direitos humanos e buscando gerar “precedentes” que venham a
se tornar “casos exemplares” no futuro, a ONG e a corte amparam, assim,
decisões que pressionam Estados nacionais a cumprir tais regulamenta-
ções e inscrevem cada vez mais indivíduos nisso que pode ser considerado
uma comunidade política em defesa dos direitos humanos, nem sempre
em convergência com aquela mencionada anteriormente, “Em defesa da
Reforma”.
Enfi m, se, por um lado, a morte de Damião assumiu o significado de
violação com base na atitude de sua irmã de denunciá-la à corte, a senten-
ça desta acentuou mais a responsabilidade do Estado nacional Brasil do
que aquela da instituição Guararapes e do perito que também era médico
dessa instituição, tornando essa situação de acusação uma ocasião para
criar um precedente, uma “primeira vez”, algo minimizado pelos porta-
-vozes do Estado nacional e maximizado por aqueles da ONG e da corte.
Guardemos desse conjunto de perspectivas sobre o caso Damião Xi-
menes mais dois elementos, a perícia e a instituição, no sentido de acom-
panhar o relato da morte de Damião em Guararapes e o procedimento de
atribuir uma causa e buscar culpados para ela:

No dia 1º de outubro de 1999, Damião foi levado por sua mãe […] à
Casa de Repouso Guararapes. Ela temia pelas crises do fi lho, que tam-
bém sofria de epilepsia. Na segunda-feira seguinte, […] [a mãe] voltou à
clínica, mas teve a notícia de que o paciente “não estava em condições de
receber visitas”. Segundo a irmã de Damião […], a mãe resolveu entrar
à força. Lá, encontrou o fi lho “amarrado, com as roupas rasgadas, san-
grando, coberto de hematomas e andando com dificuldades”, relata […]
[a irmã]. Caído aos pés da mãe, Damião teria dito: “Polícia, polícia…”
“Vendo o fi lho naquele estado, […] [a mãe] solicitou aos funcionários
que o levassem para tomar um banho, indo em seguida procurar por um
médico que pudesse atendê-lo na clínica”, relata o processo encaminhado
à Corte pela Organização Não Governamental Justiça Global, que repre-
sentou a família. “Encontrou fi nalmente o Dr. […] – diretor da Casa de
Repouso Guararapes e legista do IML de Sobral –, que se limitou a pres-
crever alguns remédios, sem sequer examiná-lo. Sem opção, a mãe voltou
à sua casa, no município de Varjota, a 70 km de Sobral. Mal chegou, foi
chamada de volta à clínica. Lá, descobriu que o fi lho havia morrido. A

196 Adriana Vianna


morte de Damião foi atribuída a “parada cardiorrespiratória” e “causa
indeterminada” pelo mesmo médico que assinou os laudos da instituição
psiquiátrica e do IML, respectivamente. Indignada, a família procurou
grupos de direitos humanos e a comissão de direitos humanos da Assem-
bleia Legislativa do Ceará.

A perícia médica foi elemento relevante na construção do caso, sendo


o médico da clínica de repouso também perito do IML de Sobral, mas o
laudo apontando morte por “causa indeterminada” foi dado pelo IML de
Fortaleza, este procurado pela família depois de o referido médico ter de-
clarado morte por “parada cardiorrespiratória”, suscitando “indignação”.
Desconfiada do resultado da perícia médica inicial, a família procurou
outro IML, na capital do estado do Ceará, como dito, cujo laudo também
não correspondeu às expectativas, quais sejam, atestar que a morte de
Damião fora um “crime cometido por um manicômio”. Parece que o resul-
tado da perícia é determinante na atitude da irmã de Damião, a denúncia
à corte.169
Inclusive, outras perícias se seguiram a essa, de modo que a morte de
Damião pudesse se tornar uma “violação de direitos humanos”. Não perí-
cias médicas, laudos sobre a causa mortis, mas pareceres de especialistas
sobre a “condição de vulnerabilidade” de Damião, por exemplo. Além dis-
so, outros especialistas foram mobilizados, também para apresentar pare-
ceres (relatórios de sindicância, auditorias, entre outros), nem tanto acerca
de Damião, mas da instituição na qual ele morreu.
Essa clínica de repouso, uma “instituição psiquiátrica à época fi liada
ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, não se manteve em funcionamento por
muito mais tempo, de modo que, “em julho de 2000, a pressão da opi-
nião pública levou a uma intervenção de 120 dias na Casa de Repouso
Guararapes, que foi fechada”. A instituição psiquiátrica foi considerada
pela irmã de Damião o algoz – “um crime cometido por um manicômio”
–, embora o julgamento tenha sido do Brasil, um Estado nacional, res-
ponsabilizado e condenado pela corte. No item “Responsabilidades” da
reportagem, consta que:

A Corte condenou o Brasil de violar quatro artigos da Convenção Ame-


ricana de Direitos Humanos: o 4º (direito à vida), o 5º (direito à integri-
dade física), o 8º (direito às garantias judiciais) e o 9º (direito à proteção
judicial). Ao longo do processo, o Brasil reconheceu que havia violado os

169 Ver Ferreira (2007) sobre a instituição IML e o dispositivo perícia.

O fazer e o desfazer dos direitos 197


dois primeiros artigos, mas dizia ter tomado providências para melhorar
a fiscalização e o credenciamento de instituições psiquiátricas no país.

Esse processo de alocação de responsabilidades, no qual se caminha


do médico (que também é perito) à clínica de repouso (que também é ins-
tituição psiquiátrica credenciada pelo SUS), para enfi m chegar ao Brasil
(que também é um Estado nacional em julgamento por uma corte inter-
nacional), não deixa de ser outro importante elemento do caso. A ONG
e a corte novamente convergem no que tange a esse ponto, ressaltando a
responsabilidade internacional, por violação de direitos humanos, de paí-
ses que assinam os tratados, convenções e pactos, como a Convenção Inte-
ramericana de Direitos Humanos, assinada pelo Brasil. O Brasil assume a
responsabilidade parcialmente, reconhecendo que violou o direito à vida e
à integridade física, ao mesmo tempo que reafi rma que ações governamen-
tais foram tomadas no sentido de minorar a situação de instituições como
Guararapes.
Então temos um “Caso”, com “Responsabilidades” e uma “Decisão
histórica” nessa reportagem, caso esse que envolve uma morte, uma insti-
tuição, uma perícia, uma violação e uma sentença, e os jornais destacam
comumente, desse conjunto de elementos, a menção ao ineditismo da sen-
tença, em convergência com as ONGs e a Corte IDH.
Por meio dessa notícia, que condensa muitas outras sobre o caso, foi
possível explicitar os principais atores e instituições sociais envolvidos,
bem como dar os primeiros passos para montar o sistema actancial for-
mulado por Boltanski et al. (1984, p. 6): denunciante, vítima, perseguidor
e juiz, partindo da indignação e acusação da denunciante, transitando do
individual ao coletivo, do singular ao universal e do privado ao público,
tanto em direção à divulgação de causas quanto à reparação de danos.
Assim, podemos nos deslocar da descrição do caso Damião Ximenes
no interior das etapas do processo na CIDH e na Corte IDH – denúncia,
condenação e indenização – em direção ao sistema de relações em torno
da denúncia – com uma denunciante, uma vítima, um perseguidor e um
juiz, partindo ora de indivíduos singulares, ora de coletivos, ora de repre-
sentantes de instituições, ora de desconhecidos, mobilizando em torno da
ação um conjunto de relações sociais e desdobrando-se em demandas ao
governo, por exemplo.
No episódio em análise, pode-se dizer que a vítima é Damião Ximenes
Lopes, a denunciante, sua irmã, Irene Ximenes Miranda, o perseguidor,
o Estado brasileiro, e o juiz, a Corte IDH, embora a denúncia tenha ad-
quirido mais legitimidade à medida que a vítima se tornava mais uma

198 Adriana Vianna


das pessoas portadoras de transtorno mental “violentadas” ou ainda “as-
sassinadas” pelos “manicômios”, que a denunciante equivalia-se a outros
tantos parentes de pessoas mortas nessas “casas de torturas” em uníssono
no “clamor por justiça”, que o perseguidor deslocava-se do médico para
o manicômio e deste para o Estado nacional responsável por “garantir”
o bom desempenho dos profissionais e instituições sob sua gestão e que o
juiz ocupava-se mais com a “inviolabilidade dos direitos humanos” que
com sua partição em civis e sociais, ganhando relevo o teor “internacio-
nal” do tribunal e da responsabilidade em jogo.

4. A denúncia, o caso e a condenação


Dessa maneira, uma das condições de possibilidade da denúncia que de-
sencadeou o caso Damião Ximenes deve-se à trajetória social dos agentes
envolvidos, como a da denunciante, anteriormente indicada. Já uma das
condições de possibilidade da condenação do Brasil na Corte IDH diz res-
peito à relação entre os órgãos e instituições, apontada anteriormente.
Apresentada na coletânea do Conselho Federal de Psicologia sobre
mortes violentas em hospital psiquiátrico como uma “Antígona do Ser-
tão” (PEREIRA, 2001, p. 120), em texto realizado por um militante do
Movimento da Luta Antimanicomial que também era usuário de serviços
extra-hospitalares de saúde mental, Irene dá um “depoimento” a esse mili-
tante, que se torna porta-voz dela por meio dessa publicação. Nas citações
do depoimento, nota-se o esforço por representar Damião Ximenes Lopes
como o irmão mais “sovina”, “interesseiro”, “safado” e “astucioso”, com
“excelente memória”, tendo começado a apresentar choros, ficar isolado e
calado, “[…] olhar para determinado ponto e ficar rindo” após “pancadas
na cabeça”. Esforço maior ainda para evitar que os momentos em que
“agitou dentro do carro” não dessem a entender que ele fosse violento,
tentando apontar a violência para o pai – que batia nele – e o manicô-
mio – onde aconteciam brigas e de onde saiu por vezes machucado: “não
estava agressivo” (PEREIRA, 2001, p. 131). Segundo seu depoimento, fei-
to público por seu porta-voz, mais do que o fato de que “rosto e corpo
apresentavam sinais de ter sido impiedosamente espancado” após o último
internamento em Guararapes, foi o laudo apontando como “causa mortis
natural parada cardiorrespiratória”, realizado pelo médico de Guararapes
que também era perito no IML de Sobral, que efetivamente a fez “gritar
por justiça”.
Esse depoimento reproduz grande parte da “carta-denúncia” enviada
pela denunciante a vários órgãos (PEREIRA, 2001, p. 129-130), que co-

O fazer e o desfazer dos direitos 199


meça com “Clamo justiça! Justiça!” e descreve em detalhes os anteceden-
tes da entrada de Damião em Guararapes na sexta-feira à noite, dia 1º de
outubro de 1999 – ele não estava tomando remédios, tendo ficado insone e
sem se alimentar, tendo sido levado pela mãe ao hospital –, e o desenrolar
dos acontecimentos que culminaram na morte dele na manhã da segunda-
-feira, dia 4 de outubro de 1999. Logo após a descrição pormenorizada da
morte, Irene menciona que “fomos à polícia dar queixa, e pedir laudo pe-
ricial, mas nada adiantou, porque o médico-legista da polícia era também
o Dr. Ivo” (PEREIRA, 2001, p. 201). Eis uma das justificativas do envio
do documento à CIDH: a impunidade, elemento importante na construção
da legitimidade das queixas.
Como chamam a atenção Boltanski et al. (1984, p. 15), a aceitação de
uma denúncia depende de vários elementos, compondo certo “senso de
normalidade” dos receptores dela, e fazer parecer um interesse coletivo
aquilo que se está exigindo ajuda a tornar razoável a acusação. Assim, na
carta-denúncia consta que:

Quero tornar público que, no Guararapes, reina a humilhação, e a cruel-


dade. Seres humanos são tratados como bichos. As famílias das vítimas
são pessoas pobres, sem voz e sem vez. E a impunidade continua. […] As
mulheres são igualmente agredidas e estupradas. Já houve denúncia de
casos iguais e piores que do meu irmão, mas foram arquivados por falta
de prova […]. Assim como eu, muitos clamam por justiça e estão prontos
a dar seu depoimento. Em nome da JUSTIÇA, e dos DIREITOS HUMA-
NOS. AJUDEM-ME! (PEREIRA, 2001, p. 201-202)

Dessa maneira, sendo irmã de Damião, ou seja, necessariamente impli-


cada na busca de justiça para a morte do irmão, Irene deveria esforçar-se
para conectar sua demanda individual a interesses mais abrangentes, das
“mulheres”, dos “pobres”, das “famílias”, entre outros.
O que se percebe na análise da denúncia é que o formato dos docu-
mentos, as propriedades sociais das denúncias e os atributos presentes nas
trajetórias dos denunciantes em muito contribuem para sua legitimidade,
aceitação e admissão. Assim, a denúncia foi admitida pela CIDH, mas
outro elemento contribuiu para que ela se tornasse um caso para a Corte
IDH: a ação do tempo, o intervalo de tempo entre solicitações e respostas
a estas.
A apresentação que fi z do caso Damião Ximenes no início do texto,
destacando a denúncia, a condenação e a indenização, leva em conta a
sentença da Corte IDH, acontecida em 2006. Foi o formato de processo

200 Adriana Vianna


judicial, e não o formato de caso, que informou a descrição, não sendo a
cronologia – a sequência de fatos e documentos – mesmo algo secundário
na análise desse episódio.
Da leitura da sentença dada pela Corte IDH à unidade política integra-
da ao SIDH ficam várias perguntas. Uma delas diz respeito ao intervalo
entre a denúncia à CIDH, o pedido de explicação desta ao Estado brasi-
leiro e a resposta desse órgão. Menciona-se que, pouco depois da morte
de Damião Ximenes Lopes (a partir de agora Damião), sua irmã enviou
uma denúncia (“petição”) à CIDH, que logo em seguida foi acolhida por
esse órgão, tendo ele enviado um ofício ao Brasil solicitando esclarecimen-
tos. Segundo a sentença, esse ofício não foi respondido a tempo, e o caso
Damião Ximenes foi considerado admissível pela CIDH três anos depois
da denúncia. Contudo, o Brasil só veio a se pronunciar sobre isso mais de
quatro anos após o ofício ter sido enviado.

Cronologia 1. Sentença da corte no caso Damião Ximenes (4.7.2006)

Damião dá entrada em Guararapes, à noite, tendo sido levado de táxi por sua
1.10.1999
mãe
Morte de Damião em Guararapes, após procedimento de contenção, aplica-
4.10.1999
ção de injeção e quedas do leito
22.11.1999 Denúncia realizada pela irmã junto à CIDH
14.12.1999 Envio da petição/denúncia ao Brasil pela CIDH
O caso Damião Ximenes foi considerado admissível pela CIDH, após ausência
25.11.2002
de resposta por parte do Brasil à petição enviada
Sem pronunciamento do Estado brasileiro, CIDH concluiu que o país era res-
8.5.2003
ponsável por violação de direitos humanos
10.2003 Justiça Global (ONG) torna-se peticionária da irmã de Damião, denunciante
31.12.2003 CIDH envia ofício ao Brasil, com suas conclusões
17.3.2004 Primeiro pronunciamento do Estado brasileiro: pede prazo
23.10.2004 Segundo pronunciamento do Estado brasileiro: contesta conclusões da CIDH
30.10.2004 CIDH envia o caso Damião Ximenes à Corte IDH
3.11.2004 Corte IDH notifica o Brasil sobre o envio
Brasil contesta admissibilidade do caso Damião Ximenes, procedimento que,
8.3.2005 para evitar envio do caso para julgamento na Corte IDH, precisaria ter sido
feito em 2000
30.11.2005 Audiência pública em Costa Rica

Uma notícia do Correio Braziliense, em 21 de fevereiro de 2003, con-


densa essa problemática no trecho designado “No manicômio”:

O fazer e o desfazer dos direitos 201


A Organização dos Estados Americanos (OEA) pode condenar o Brasil
por não responder a nenhuma das três inquirições sobre o caso Damião
Ximenes Lopes, morto em 1999 na Casa de Repouso Guararapes em
Sobral (CE). Damião estava internado por sofrer de transtorno mental
e morreu em circunstâncias desconhecidas. Ele foi encontrado de mãos
amarradas e com ferimentos no rosto. A família da vítima apresentou de-
núncia à OEA e pediu a apuração do caso. A Comissão Interamericana
de Direitos Humanos da OEA assume a investigação e deve discutir o
caso na próxima assembleia geral. (grifos nossos)

A admissibilidade do caso pela CIDH parece ter resultado, em grande


parte, da ausência de resposta por parte dos órgãos governamentais do
Brasil. Como compreender essa relação entre órgãos e esse intervalo de
tempo entre pedidos de esclarecimento e explicações por ofício?
Bourdieu (1980, p. 167-182) procura revisar as teorias vigentes sobre
a troca de dons, muitas vezes vistas como sequências irreversíveis e orien-
tadas de atos relativamente imprevisíveis (p. 167). Procura distanciar-se
de dois pontos de vista vigentes, principalmente a recuperação que Lévi-
-Strauss faz da obra de Mauss, uma teoria da reciprocidade, que supõe
que as leis mecânicas do ciclo de reciprocidade sejam o princípio das obri-
gações de dar, receber e retribuir, mas também a teoria da ação racional.
No primeiro caso, teríamos passos necessários e sequências lineares no
processo de troca; no segundo, teríamos escolhas balizadas por suposta
intenção ou vontade soberana do indivíduo. Assim, mantém-se interessado
na sequência de atos, embora pense a ação do tempo de modo diverso, e
também continua atento às escolhas dos agentes, apesar de não atribuir a
eles, como seres isolados, a motivação exclusiva das ações.170
Com base nesse autor, poderíamos dizer que a ação do tempo nas tro-
cas seria a instalação de uma probabilidade de o “dar-receber-retribuir”
não acontecer de modo linear nem obrigatório. Esquematicamente, parece
que, entre o previsível e o imprevisível de um ato no interior de uma su-
posta cadeia de reciprocidades, Bourdieu procura inserir o provável; as-
sim, “[…] o intervalo de tempo que separa o dom e o contradom é o que
permite perceber como irreversível uma relação de troca sempre ameaçada
de parecer e aparecer como reversível, quer dizer, ao mesmo tempo como
obrigatória e interessada” (BOURDIEU, 1980, p. 179-180). Desse modo:

170 “Reintroduzir a incerteza é reintroduzir o tempo, com seu ritmo, sua orientação, sua
irreversibilidade, substituindo a mecânica do modelo pela dialética das estratégias…”
(BOURDIEU, 1980, p. 170).

202 Adriana Vianna


“Abolir o intervalo é abolir também a estratégia…” (p. 180). Ou seja, para
esse autor, o intervalo é um elemento fundamental na análise das trocas,
inclusive entre mensagens, ofícios e outros documentos entre órgãos.
Ao que parece, a admissibilidade do caso tem estreita relação com a
ação do tempo (BOURDIEU, 1980), com o fato de que a demora na res-
posta do Estado brasileiro à comissão pode ter ganhado o significado de
desprezo pelo órgão, ou pelo menos indiferença.
Ficam as questões: Qual a razão dessa demora? Trata-se de algo inten-
cional, casual ou usual, algo condicionado por uma estratégia, um trâmite
burocrático, um descaso ou mesmo por desinformação das implicações?
Essa demora foi apontada na sentença do caso Damião Ximenes, di-
vulgada na mídia impressa e pela internet e confirmada por órgãos gover-
namentais do Brasil, e durante a audiência pública em 2005 o advogado do
Brasil não apresentou justificativa, mesmo tendo sido perguntado por um
dos juízes da Corte IDH sobre o assunto. Posteriormente, durante entrevis-
tas informais com representantes de setores do governo federal envolvidos
no caso, soube que “não havia pessoal suficientemente especializado para
responder à petição enviada pela comissão na época”, ano 2000, algo que
só veio a ocorrer em 2003. O trâmite burocrático do documento começa
no Ministério das Relações Exteriores (MRE), passa pela Secretaria Es-
pecial de Direitos Humanos da Presidência da República (SEDH), segue
em setores governamentais da esfera federal (Ministério da Saúde [MS]),
estadual (Ministério Público [MP]) e municipal (comarcas), e termina na
Advocacia Geral da União (AGU).
Entretanto, algumas entrevistas apontaram como motivo para a demo-
ra o puro e simples “engavetamento” do caso, ou seja, tornou-se mais um
ofício esquecido nas gavetas do governo federal. Há ainda quem atribua
essa morosidade não às instituições, mas aos agentes de tal ou tal órgão.
Não importa aqui destacar uma ou outra versão do caso Damião Xi-
menes, em busca do que seria “a verdade”, mas mobilizar essa dúvida
acerca da admissibilidade do caso e da demora na resposta governamental
para investigar as condições de possibilidade do caso Damião Ximenes.

5. Denúncias, casos e condenações


Uma notícia do Correio Braziliense (jornal diário da capital do Brasil),
em 21 de fevereiro de 2003, dizia respeito a outra denúncia além daquela
que ocasionou o caso Damião Ximenes. Realizada pelo representante de
uma “pastoral”, a denúncia era relativa à situação da população prisional
em uma casa de detenção superlotada no estado de Rondônia, conhecida

O fazer e o desfazer dos direitos 203


como Urso Branco. Ela tinha se tornado um “caso” e estava em discussão
na Corte IDH, e dizia-se que “o Brasil corre o risco de sofrer este ano a
primeira condenação internacional por violação aos direitos humanos”,
pois “[…] alguns diplomatas admitem que, se a Corte decidir levar o caso
Urso Branco a julgamento, é muito provável que o Brasil seja condena-
do”. Dada a recorrência das violações de direitos humanos (mortes por
espancamento) após a determinação da Corte IDH no sentido da proteção
à integridade física dos detentos, essa condenação era provável, mas não
chegou a acontecer.
O caso Urso Branco e outros, diferentemente do caso Damião Xime-
nes, não vieram a resultar em condenação do Brasil pela Corte IDH. Vá-
rias outras denúncias – que nem sempre vieram a se tornar caso – são cita-
das ao fi nal da notícia, algumas delas nomeadas pelo estabelecimento ou
pela cidade em que aconteceu o crime; outras, pelo nome do algoz; outras
ainda, pelo ato criminoso:

Fábrica de fogos – A explosão de uma fábrica clandestina de fogos de


artifício em 11 de dezembro de 1998 em Santo Antônio de Jesus (BA)
matou 64 empregados;
Wallace de Almeida – O jovem negro era soldado do exército e foi morto
em 13 de setembro de 1998 por policiais militares no Morro da Babilô-
nia, Rio de Janeiro (RJ); Eduardo Rocha e Raimundo Nonato Filho – Os
garotos foram assassinados em junho de 1997 em Paço do Lumiar (MA).
Os corpos apresentaram sinais de tortura e extirpação dos órgãos geni-
tais; Corumbiara – Onze trabalhadores sem-terra foram mortos (foto)
após uma ação violenta da polícia. Militares levaram galões de gasolina
e querosene para executar a missão; Francisco de Assis Ferreira – O tra-
balhador rural foi assassinado em 5 de novembro de 1991 na cidade de
Codó (MA). Houve falhas das autoridades nas investigações, no processo
e na punição dos responsáveis; Fátima de Oliveira e Tatiane Ferreira Al-
ves – Mães adotivas questionam a sentença do Supremo Tribunal Federal
em que elas passam a não ter os mesmos direitos conferidos a mães bioló-
gicas; Grampo telefônico – Entidades ligadas ao MST do Paraná tiveram
os telefones grampeados. O conteúdo das gravações foi divulgado de for-
ma ilegal pelas autoridades de Segurança Pública à imprensa; Sebastião
Camargo – O trabalhador rural sem-terra foi assassinado em Marilena
(PR) em 7 de fevereiro de 1998; Gilson Nogueira Carvalho – Advogado
ligado aos direitos humanos foi morto em Natal (RN) em 26 de outubro
de 1996. (grifos da matéria)

204 Adriana Vianna


Apenas duas dessas denúncias vieram a se tornar casos: a nomeada
na notícia pelas vítimas – Eduardo Rocha e Raimundo Nonato Filho – e
que ficou conhecida na Corte IDH como caso dos garotos emasculados do
Maranhão; e a do “grampo telefônico”, que veio a resultar em condenação
do Brasil na Corte IDH no ano 2009, após a condenação em 2006 do caso
Damião Ximenes.
Além disso, no segundo relatório nacional de direitos humanos (MES-
QUITA NETO, 2002) consta que a conhecida Lei Maria da Penha teria
surgido também de uma condenação do Brasil por essa mesma corte, acon-
tecida em 2001, ou seja, antes do caso Damião Ximenes:

Destaque-se a omissão do sistema de justiça e do estado cearense dian-


te da tentativa de homicídio, ocorrida em 1983, que deixou paraplégica
Maria da Penha Maia Fernandes. Passados mais de 18 anos do crime, o
processo ainda não tinha sido concluído. A Comissão Interamericana de
Direitos Humanos, em abril de 2001, responsabilizou o Estado Brasileiro
condenando-o por negligência, tolerância e omissão em relação à violên-
cia doméstica. (MESQUITA NETO, 2002, p. 114; grifo nosso)

Mais adiante, nesse mesmo documento institucional da SEDH, fica


esclarecido que não se tratou propriamente de uma condenação, mas da
aprovação do relatório fi nal sobre o caso, ou seja, parte das etapas entre
o envio da denúncia e o julgamento dela pela Corte IDH, que antecede
o julgamento. Nessa situação, o “precedente” teria sido outro: foi a pri-
meira vez que a violência doméstica foi considerada violação de direitos
humanos pela CIDH (MESQUITA NETO, 2002, p. 289). Nesse mesmo
relatório já se falava do caso Damião Ximenes (p. 290), incluindo-o entre
os casos admitidos pela CIDH.
Seixas e Nagado (2009) esclarecem em detalhes tanto o trâmite pela
CIDH quanto pela Corte IDH, podendo o trâmite pela comissão ser re-
sumido aqui da seguinte maneira: a comissão é a “porta de entrada das
denúncias” (p. 295), que chegam por meio de petição ou preenchimento de
um formulário pela internet, seguindo-se à análise da admissibilidade da
petição uma notificação ao Estado e, dependendo da resposta do Estado
nacional à notificação, uma discussão do mérito. A partir daí é enviado
pela CIDH à Corte IDH, momento no qual a denúncia se torna um caso
(SEIXAS e NAGADO, 2009, p. 298). Já o trâmite pela Corte IDH começa
com a notificação do Estado, que pode apresentar uma contestação, ao que
se seguem audiências preliminares e uma audiência final, a partir da qual
a sentença será realizada (p. 300-301).

O fazer e o desfazer dos direitos 205


Entre a CIDH e a Corte IDH, quando a denúncia já virou caso mas ain-
da não foi encaminhada para a Corte IDH, a discussão do mérito resulta em
um relatório, com recomendações ao Estado nacional. Essa era a situação
do caso Maria da Penha citado anteriormente. Segundo os autores, a Corte
IDH aplicou medidas provisórias ao caso Urso Branco citado anteriormente
(SEIXAS e NAGADO, 2009, p. 304), enquanto no caso Damião Ximenes
“[…] o Estado brasileiro teve, até então, a única experiência de ser condena-
do pelo Tribunal” (p. 305). Vale dizer que o caso do grampo telefônico ainda
não tinha resultado em condenação em 2009.
Assim, muitas outras denúncias ficaram em meio a esse trâmite na
CIDH, algumas delas sendo admitidas, poucas delas tornando-se casos
(ou seja, sendo enviadas pela CIDH à Corte IDH após discussão do mé-
rito) e menos ainda resultando em condenações por parte da Corte IDH.
Até o ano de 2013, apenas o caso Damião Ximenes, o caso do grampo
telefônico e outros dois resultaram em condenações pela Corte IDH.
No terceiro relatório nacional de direitos humanos (BRASIL, 2008, p.
137 e 144), a primeira condenação do Brasil por violação de direitos hu-
manos é mencionada, com destaque para o caso Damião Ximenes em uma
matéria designada “Os prisioneiros da medicina”, escrita por um militante
da luta antimanicomial. Já na revista de direitos humanos da SEDH, mes-
mo órgão que produz esse relatório, o artigo sobre saúde mental e direitos
humanos sequer cita o episódio (cf. LANCETTI, 2009), embora também
tenha sido escrito por um militante do movimento pela reforma psiquiá-
trica brasileira.
Nota-se, da leitura desses e de outros relatórios, que tornar “caso” um
“precedente” é algo extremamente valorizado nessas entidades de prote-
ção aos direitos humanos. Além disso, percebe-se que algumas denúncias
viram casos, enquanto outras, não, bem como alguns casos resultam em
condenação, enquanto outros, não. O caso Damião Ximenes foi uma de-
núncia que se tornou caso e um caso que resultou em condenação, tendo
sido muitos – nessa espécie de disputa pela precedência – os que acentu-
aram o fato de ele ser a primeira condenação do Brasil por violação de
direitos humanos.171

171 Borges (2009) principalmente, autora também atuante na ONG peticionária do caso,
ou seja, no órgão que defendeu a denunciante, diferentemente de Seixas e Nagado (2009),
atuantes na SEDH, que participou da defesa do Estado brasileiro. Clínico, pesquisador e mi-
litante do movimento pela reforma psiquiátrica na época do caso Damião Ximenes, o autor
deste texto atualmente é consultor técnico de saúde no sistema penitenciário no Ministério da
Saúde, ou seja, atua como gestor federal e integra o que no contexto do jogo de forças entre
ONGs, cortes e Estados nacionais seria descrito como “o Estado brasileiro”.

206 Adriana Vianna


Na mesma notícia citada anteriormente, de 2003, no Correio Brazi-
liense, diz-se que a CIDH não é punitiva, mas suas recomendações ainda
assim têm poder de constrangimento diante da opinião pública, ocasio-
nando aceitação:

O caso foi remetido inicialmente para a Comissão Interamericana de Di-


reitos Humanos, em Washington (EUA). A Comissão não tem caráter pu-
nitivo e pediu que a Corte (com sede em São José, Costa Rica) ordenasse
medidas preventivas ao Brasil […]. A Corte pode determinar ao governo
brasileiro o pagamento de até US$ 50 mil para cada família com parentes
mortos no presídio. Uma soma superior a US$ 2 milhões, se considerados
os assassinatos ocorridos em 2002 e 2003. A conta é alta, mas o prejuí-
zo maior não seria fi nanceiro. O constrangimento internacional de ser
identificado como um país que viola os direitos humanos é o que mais
atormenta o governo brasileiro. (grifos nossos)

Isso é confi rmado por Seixas e Nagado (2009, p. 299 e 304), acentu-
ando o caráter mais moral do que legal das recomendações proferidas pela
CIDH Interamericana e sentenças da Corte IDH, pois a sanção “[…] pre-
judica sua imagem [do país] no cenário internacional […]”, mas seu “poder
coercitivo” é limitado, sem sanções econômicas, por exemplo, buscando
em grande parte um “efeito didático”.
Contudo, o que torna uma denúncia admissível para um tribunal in-
ternacional, ou seja, o que faz de uma denúncia um caso? O fato de a
denúncia ser realizada pela “família”, pela “pastoral” ou outro órgão tem
participação na admissibilidade do caso e no desdobramento do julgamen-
to? As ONGs, movimentos sociais e outros organismos têm alguma co-
laboração na produção e no resultado das denúncias? Como certos casos
vêm resultar em condenações, e outros, não? Todas essas perguntas foram
aqui resumidas na seguinte: quais são as condições de possibilidade da
primeira condenação do Brasil por violação de direitos humanos, ou seja,
do caso Damião Ximenes?
Vimos anteriormente que o elemento moral, mais do que o legal, pre-
valece, não só no que tange à relação entre a Corte IDH e os Estados na-
cionais, mas também na própria formulação das denúncias.
Boltanski (1993, p. 94-97) retoma outros “casos” historicamente da-
tados, por meio da análise documental, para postular pelo menos duas
maneiras pelas quais a forma caso é construída: suscitando a indignação
comunitária/unânime por meio da indicação de uma pessoa inquestiona-
velmente culpada, ou a indignação esclarecida por meio de acusações que

O fazer e o desfazer dos direitos 207


podem até inverter a posição entre acusador e perseguidor, nas duas situ-
ações partindo de uma indignação que se torna acusação em meio ao que
o autor designa como “tópico” da denúncia. Considerada pelo autor uma
lógica social inaugural no século XVIII e uma forma social consagrada
pelo caso Dreyfus, tornado exemplar, o formato caso mostra o processo
pelo qual um sofrimento sai da esfera individual e privada para ascender
à esfera coletiva e pública, remetendo ora à tradição e aos laços entre os
espectadores e a vítima, ora à opinião esclarecida e aos compromissos dos
espectadores imparciais com a Justiça, no primeiro caso clamando por
uma decisão urgente e, no segundo, por uma ponderada.

6. Considerações finais
No dia 12 de março de 2000, o Diário do Nordeste divulgou matéria com
o título “Hospital psiquiátrico de Sobral sofre intervenção” e o subtítulo
“Instituição é acusada de maus-tratos desde outubro de 1999”, acompa-
nhada de uma foto dos pacientes psiquiátricos da Casa de Repouso Guara-
rapes no pátio. A matéria trata da junta interventora instituída pelo gestor
municipal da saúde em Sobral, justificando a intervenção e apresentando o
nome dos diferentes envolvidos. Na justificativa, menciona-se a denúncia
realizada em diferentes órgãos, não constando o nome da denunciante e
mencionando-se apenas entidades estaduais de direitos humanos, saúde e
justiça.
Nessa mesma data e jornal, outra matéria voltou a destacar a inter-
venção em processo em Guararapes. Com o título “A morte de Damião
Ximenes motivou a realização de auditorias”, caracterizou a instituição
com vagar – referência de atendimento psiquiátrico para toda a região nor-
te do Ceará, funcionando há 26 anos, média de 300 a 400 atendimentos
por mês, no momento com 58 pacientes internados – e destacou o papel
de outra comissão que não a CIDH: a Comissão de Direitos Humanos e
Cidadania da Assembleia Legislativa (CDHCAL), na qual aconteceu “en-
trevista coletiva” para colaborar na apuração da morte de Damião.
Essas notícias não estão a tratar do caso Damião Ximenes, mas do
caso Guararapes, ou seja, não se faz referência à denúncia junto à CIDH,
mas àquela junto à delegacia de Sobral, que se desdobrou em um processo
penal e civil na comarca da cidade. Outro caso, outra cronologia, não mais
entre 1999 e 2006, mas de 1999 a 2009, esta última data na qual foram
condenados os acusados pela morte de Damião Ximenes Lopes. Não mais
o Estado nacional como responsável, mas o dono da clínica psiquiátrica, o
médico, a enfermeira, o auxiliar de enfermagem e os “auxiliares de pátio”

208 Adriana Vianna


que participaram do atendimento a Damião entre a sexta-feira à noite do
dia 1º de outubro de 1999 e a manhã da segunda-feira do dia 4 de outubro
do mesmo ano.
Como os jornais locais divulgaram – Diário do Nordeste –, o dono
da clínica era um “Ferreira Gomes”, Sérgio Antunes Ferreira Gomes, en-
quanto o médico era da família “Vasconcelos”, Francisco Ivo Vasconcelos.
Ambas as famílias detêm prestígio na cidade, em especial aquela do dono
da clínica, e a divulgação de seus nomes nos jornais locais não se seguiu
à divulgação em jornais nacionais e mesmo pela internet. Junto com o
resultado da perícia, a condição socioeconômica privilegiada do dono da
clínica e do médico – que também era perito no IML local – foi considera-
da por Irene Ximenes fator que concorreu para ela enviar a carta-denúncia
à CIDH.

Cronologia 2. Ação Penal n. 647/2000 – Comarca de Sobral sobre o caso Guararapes (7.2009)

Ministério Público (MP) do Estado do Ceará apresenta acusação à Comarca


de Sobral (comarca): quatro acusados, o dono de Guararapes, a enfermeira e
20.3.2000*
os dois auxiliares de enfermagem que estavam presentes no dia da morte de
Damião [atuação governamental estadual/Judiciário]**
Autos do inquérito são enviados pelo delegado ao juiz da comarca [atuação
25.2.2000 governamental municipal/segurança pública], que incluem o laudo do Insti-
tuto Médico Legal (IML) de Fortaleza (CE), datado de 17.2.2000
Documentos enviados pela Secretaria de Saúde e Ação Social de Sobral
3.3.2000 (SAAS) à comarca [atuação governamental municipal/saúde], mostrando que
está a tomar providências: menciona comissão de sindicância
Documentos da CCDH [atuação governamental estadual/Legislativo], infor-
mando da audiência pública acontecida no dia anterior, reunindo conselhos
de classe (de medicina e psicologia), OAB e outros, exigindo apuração das
denúncias e anexando documentos da SAAS
Audiência não mencionada na sentença do caso Damião
11.11.1999 Conselho de Classe da Enfermagem não participou
Documentos da SAAS anexados revelam mais informações do que as
enviadas pela própria SAAS anteriormente, por exemplo a citada abaixo
9.11.1999: Proposta para implantação da Rede Municipal de Assistência à
Saúde Mental, que demonstra a intenção governamental municipal de man-
ter Guararapes
São escutadas as testemunhas, entre elas o médico que atendeu Damião, que
11 e 12.1999
se tornará réu ao longo do processo
Relatório conclusivo da delegacia é enviado à comarca de Sobral [governo
8.12.1999** municipal/segurança pública], apontando provável responsabilidade de Gua-
rarapes na morte de Damião
Relatório da auditoria da SAAS é enviado à comarca [governo municipal/
7.1.2000 saúde], tendo sido escutados 18 pacientes psiquiátricos internados em Gua-
rarapes

O fazer e o desfazer dos direitos 209


Data de Relatório da Coordenação Estadual de Saúde Mental, enviado à
CCDH, encaminhado à comarca [governo estadual/saúde], anexando o rela-
2.12.1999
tório realizado pelo Grupo de Avaliação da Assistência Psiquiátrica Hospitalar,
idêntico àquele enviado anteriormente pela SAAS
Data de Relatório do Conselho de Classe da Enfermagem, enviado à CDHCAL,
encaminhado à comarca: documento em defesa dos acusados, tanto a en-
fermeira quanto o auxiliar de enfermagem, incluindo nos autos do processo
27.12.1999
trechos de prontuários e livros de ocorrências que não constavam antes
Os trechos contradizem o depoimento dos acusados, embora o teor do
documento seja uma defesa deles
CCDH pressiona a comarca para que não haja arquivamento do caso Guarara-
1.2.2000
pes
Irmã de Damião envia à comarca depoimentos de maus-tratos em Guarara-
pes, tendo sido anexados dois dias depois ao processo
9.2.2000 Depoimentos colhidos pela própria irmã de Damião junto a pessoas que
também tinham ficado internadas – ou cujos parentes ficaram – em Gua-
rarapes
Delegacia envia à Ouvidoria Geral do Estado justificativa para a demora na
15.2.2000 apuração do caso Guararapes, anteriormente denominado caso Casa de Re-
pouso Guararapes
10.2000 a
Audiências adiadas ou que não chegam a acontecer
3.2001
12.2000 Pedido de aditamento da denúncia, ou seja, inclusão de novos acusados
5.2002 a Audiências adiadas ou que não chegam a acontecer “por motivo de força
1.2005 maior”
Aditamento da denúncia, inclusão de mais dois além dos quatro acusados:
24.9.2003 o médico que atendeu Damião, antes testemunha, e o “auxiliar de pátio” que
atendeu Damião na noite anterior ao óbito
Ofício da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da Repúbli-
ca (SEDH) solicita celeridade no julgamento do caso Damião Ximenes [gover-
7.6.2004 no federal]
Escrito por Mario Mamede, autor da lei de reforma psiquiátrica do CE
Provável efeito do caso Damião Ximenes sobre o caso Guararapes
Carta enviada pela ONG Justiça Global à CCDH é encaminhada à comarca,
constando parecer de perito da CIDH (corte), especialista internacional em
1.2004 proteção de direitos humanos de pessoas com deficiência
Segundo a capa do parecer, era para ter sido mantida em sigilo
Provável efeito do caso Damião Ximenes sobre o caso Guararapes
11.2005 a
Audiências
7.2007
7.2009 Sentença
* Por ordem documental, não cronológica.
** Também presente na sentença.

210 Adriana Vianna


Então temos, de um lado, as notícias em torno da divulgação da sen-
tença do caso Damião Ximenes, em 2006, de âmbito regional, nacional e
internacional, e, de outro, as notícias em torno do caso Guararapes, em
2000, de âmbito regional, principalmente, e em volta da intervenção em
Guararapes. São dois conjuntos de versões sobre o caso Damião Ximenes
que também dão pesos diferentes ao processo judicial dos acusados da
morte de Damião, processo esse que aparece da seguinte forma na senten-
ça do caso Damião Ximenes:

Cronologia 3. Caso Guararapes na sentença da Corte IDH sobre o caso Damião Ximenes

Denúncia da mãe de Damião à SAAS [saúde municipal], nove dias após a


13.10.1999
morte de Damião
Denúncia da irmã de Damião junto à CDHCAL, supondo que delegacia não
10.1999
iria apurar o caso Guararapes
8.11.1999 MP solicita investigação
9.11.1999 Delegacia instrui investigação
Após ouvir acusados e testemunhas, delegacia envia relatório ao MP: “prová-
8.12.1999
vel responsabilidade da Casa Guararapes” na morte de Damião
2.2000 Acareação das testemunhas e envio dos autos ao juiz
MP apresenta acusação à comarca: quatro envolvidos, os outros dois seriam
27.3.2000 incluídos em 17.6.2004, ocasionando aditamento da denúncia e demora no
processo
Audiências são marcadas e adiadas; até a audiência pública do caso Damião
2000-2004
Ximenes em Costa Rica não houve nenhuma em Sobral (CE)

O caso Damião Ximenes, nesse sentido, pode ser considerado, como


outros casos, um apelo à indignação esclarecida, já que muitas vezes a
denúncia à comissão pela internet é subsequente a outra tentativa de bus-
car justiça no próprio local onde se vive. Em outras palavras, acionar um
tribunal internacional pode ser uma maneira de se fazer escutar quando
isso não aconteceu – ou não parece possível de acontecer – no âmbito local,
correndo-se o risco de pulverizar o culpado – o manicômio, o médico, o
Estado –, mas acionando um espectador imparcial, diferente daqueles que
compartilham da mesma cidade ou estado e que estariam – seja por mo-
rosidade, por alianças políticas ou parentais – impedidos de pronunciar-se
em favor da vítima.
A indignação unânime parece ter sido acionada pela mãe de Damião
Ximenes Lopes, apontando como culpado a Clínica de Repouso Guara-
rapes e obtendo, 10 anos depois, uma decisão judicial no sentido da con-

O fazer e o desfazer dos direitos 211


denação do dono da clínica, do médico e de outros funcionários. Mas
voltemos ao apelo à indignação esclarecida.
Ainda segundo Boltanski et al. (1984), investigar a maneira pela qual
denúncias são formuladas e tornam-se legítimas de ser investigadas por ór-
gãos governamentais pode nos oferecer elementos para pensar a passagem
entre o particular e o coletivo, o privado e o público, e, inclusive, a forma-
ção de uma opinião pública. Falar em nome do interesse geral, revelar per-
tencimento a instituições de defesa de interesses coletivos e apontar como
algoz um órgão reconhecidamente opressor, por exemplo, são estratégias
recorrentes nesse tipo de pronunciamento, em sua maioria denúncias de
injustiça. Parece que foi justamente isso o que aconteceu no caso Damião
Ximenes, em que sua irmã denuncia à CIDH o “Estado brasileiro”, por
meio de “carta-denúncia” cujo conteúdo é, segundo ela, um “clamor por
justiça”.
Tornado unidade política no SIDH, o “Brasil” assumiu parcialmente
responsabilidade internacional por violação de direitos humanos, enquan-
to o SUS apontava para a atribuição municipal na fiscalização de hospícios
como Guararapes. Como em outros momentos da história da psiquiatria e
do asilo, e agora da defesa dos direitos humanos, trata-se de uma questão
de negociação, delegação e divisão de responsabilidades.

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Matérias publicadas em jornais sobre o “caso Damião Ximenes”


Mídia impressa
A MORTE de Damião Ximenes motivou a realização das auditorias. Diário do Nordeste
Regional, Fortaleza, domingo, 12 mar. 2000.
ATENÇÃO com humanização e inclusão. O Povo, Fortaleza, 15 jul. 2006.
CASA de Repouso em Sobral é descredenciada do SUS. O Povo, Fortaleza, 11 jul. 2000.
CASO Damião Ximenes. Brasil condenado por corte internacional. Diário do Nordeste Ci-
dade, Fortaleza, 19 ago. 2006.
___. Família vai receber U$ 146 mil. Diário do Nordeste Cidade, Fortaleza, 19 ago. 2006.
___. Justiça Global aponta falhas do Estado. Diário do Nordeste Cidade, Fortaleza, 19 ago.
2006.
CLÍNICA no CE espancava paciente. Folha de S. Paulo, São Paulo, domingo, 13 ago. 2000.
DIREITOS Humanos. Governo acata a decisão. Diário do Nordeste Cidade, Fortaleza, 19
ago. 2006.
DIREITOS Humanos visita hospital psiquiátrico em Sobral. Diário do Nordeste Regional,
Fortaleza, quarta-feira, 17 maio 2000.
DOENTES mentais pintam mural. Diário do Nordeste Regional, Fortaleza, domingo, 30
abr. 2000.
HOSPITAL Guararapes deve falir por falta de demanda. Diário do Nordeste Regional, For-
taleza, quinta-feira, 13 jul. 2000.
HOSPITAL psiquiátrico de Sobral sofre intervenção. Diário do Nordeste Regional, Fortale-
za, domingo, 12 mar. 2000.
INTERVENÇÃO no hospital Guararapes prossegue até final de março. Diário do Nordeste
Regional, Fortaleza, domingo, 30 abr. 2000.
MÉDICO responde à acusação. Diário do Nordeste Regional, Fortaleza, quinta-feira, 13
jul. 2000.
MELHOROU o atendimento público a doentes mentais no Ceará?. O Povo, Fortaleza, 21
dez. 2003.

214 Adriana Vianna


MORTE de presos no Brasil preocupa OEA. Correio Braziliense, Brasília, sexta-feira, 21
fev. 2003.
ÓBITOS de doentes mentais estão sob suspeita. Diário do Nordeste Cidade, Fortaleza, sá-
bado, 7 abr. 2001.
OEA condena Brasil a pagar US$ 146 mil por morte violenta. Folha de São Paulo, São Pau-
lo, domingo, 18 ago. 2006.
ORGANISMO internacional avalia dois casos no Ceará. Diário do Nordeste Cidade, Forta-
leza, segunda-feira, 14 fev. 2005.
PRORROGADA intervenção do Hospital Guararapes. Diário do Nordeste Regional, Forta-
leza, quinta-feira, 8 jun. 2000.
SECRETÁRIOS participam de oficina com ênfase para a saúde mental. Diário do Nordeste
Regional, Fortaleza, domingo, 28 maio 2000.

Notícias na internet
CASO Damião Ximenes é julgado: Justiça condenou a seis anos de reclusão os acusados do
crime. TV Verdes Mares, Fortaleza, 1º jul. 2009. Disponível em: <http://tvverdesmares.com.
br/bomdiaceara/caso-damiao-ximenes-e-julgado>. Acesso em: 23 jul. 2010.
FUNCIONÁRIOS de hospital são presos: eles foram acusados da morte de um interno, em
1999. TV Verdes Mares, Fortaleza, 1º jul. 2009. Disponível em: <http://tvverdesmares.com.
br/cetv1aedicao/funcionarios-de-hospital-sao-presos>. Acesso em: 23 jul. 2010.
LOUCURA é alvo de tortura e morte. URA Online, Uberaba, 4 fev. 2005. Dis-
ponível em: <http://www.uraonline.com.br/especial/especial.html>. Acesso em:
20 mar. 2010.
REDE de saúde mental de Sobral é reconhecida em todo o Brasil. O Noroeste Online, So-
bral, quinta-feira, 7 set. 2006.

O fazer e o desfazer dos direitos 215