Você está na página 1de 11

Girando a Lente Socioantropológica sobre o

Corpo: uma breve reflexão


Moving the Sociological and Anthropological Lens on the
Body: a brief reflection

Marco Antonio Separavich Resumo


Cientista Social. Mestrando em Saúde Coletiva, Pesquisador Bolsis-
ta Capes do Departamento de Medicina Preventiva e Social, Facul- O artigo reflete, a partir de revisão bibliográfica,
dade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas. sobre o corpo e o processo saúde e doença como fatos
Endereço: Rua Tessália Vieira de Camargo, 126, Caixa Postal 6111, não naturais. Vale-se de algumas ideias da história
Barão Geraldo, CEP 13083-970, Campinas, SP, Brasil.
E-mail: mseparavich@hotmail.com
da Medicina Ocidental para contextualizar as con-
Ana Maria Canesqui cepções do corpo, as diferenças sexuais e a saúde e
Professora Doutora e Livre-docente em Ciências Sociais Aplicadas à doença, assim como de outras racionalidades mé-
Medicina e colaboradora do Departamento de Medicina Preventiva dicas e cosmologias religiosas onde as concepções
e Social, Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual do corpo e da saúde e doença diferem da medicina
de Campinas.
Endereço: Rua Tessália Vieira de Camargo, 126, Caixa Postal 6111,
ocidental. Recorre a algumas abordagens antropo-
Barão Geraldo, CEP 13083-970, Campinas, SP, Brasil. lógicas para mostrar a modelagem cultural do corpo
E-mail: anacanesqui@uol.com.br e de seus usos; a dimensão simbólica e sua emersão
na teia das relações e normas sociais e nas relações
com o meio ambiente, assim como suas articulações
com a representação da pessoa, através de exemplos
etnográficos extraídos da literatura.
Palavras-chave: Corpo; Processo Saúde-Doença;
Saber Médico; Sistemas Tradicionais de Cura;
Pessoa.

Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010 249


Abstract Introdução
The article reflects on the body and on the health Segundo a antropóloga britânica Henrietta Moore
and illness process as non-natural facts. Starting (1997), quando se discute a sexualidade, as relações
from a bibliographic review, it uses some ideas of entre os sexos, a reprodução humana é comum sur-
the history of Western Medicine to contextualize girem referências à natureza inerente ao corpo e aos
body conceptions, sexual differences, and the health processos corporais. Da mesma forma, quando se
and illness process. In addition, it discusses other discute o processo saúde e doença não se prescinde
medical rationalities and religious cosmologies, in da discussão sobre o corpo, sendo ele objeto de in-
which the conceptions of body, health and illness tervenção da medicina.
differ from those of the Western Medicine. It em- Nas propagandas veiculadas na mídia, nas con-
ploys some anthropological approaches to show versas da vida comum e nos discursos acadêmicos
the cultural modeling of the body and its uses; the evoca-se, de forma conclusiva, a dimensão natural do
symbolic dimension and its inclusion in the network corpo, para justificar certos comportamentos sociais
of social relations and norms and also its links with e práticas biomédicas. Nestes contextos, a ideia do
the environment and the representations of the que é natural aparece como ordem universal inscrita
person, through ethnographic examples extracted na fisiologia do próprio corpo, trazendo em si uma
from the literature. explicação definitiva e irredutível (essencialista) da
Keywords: Body; Health-Illness Process; Medical realidade corporal: a dimensão biológica.
Knowledge; Traditional Systems of Cure; Person. No Ocidente, a correlação direta entre o natural
e o biológico funda-se nos marcos da constituição
e legitimação da biomedicina como ciência moder-
na, sendo hegemônica a explicação que valoriza
a dimensão biológica ou natural dos corpos e dos
processos corporais (Loyola, 2003).
Entretanto, estudos de pesquisadores da História
da Medicina (Laqueur, 2001; Stolberg, 2007), e de an-
tropólogos (Moore, 1997; Helman, 2003; Strathern,
2004), entre outros, têm problematizado a existência
de uma universalidade subjacente à ideia do corpo
natural, isto é, do corpo tal como concebido biologi-
camente no Ocidente.
Os primeiros demonstrando que o conhecimento
científico tem uma história e que as teorias médicas
ocidentais sobre os corpos e os processos corporais
variaram não só devido às concepções filosóficas,
políticas, mas, sobretudo, epistemológicas vigentes
em suas épocas. Os demais apontando para a cons-
trução sociocultural do corpo, não sendo possível
atribuir-lhe uma concepção única e essencialista,
já que a ideia do que é natural ou não é elaborada e
estabelecida social e culturalmente.
No que concerne à Antropologia, há que se notar
que a disciplina já consolidou um espaço de reflexão
teórica sobre o corpo, com estudos pioneiros como o
do etnólogo francês Marcel Mauss (2003 [1934]), que
definiu o corpo humano como o primeiro instrumen-

250 Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010


to sobre o qual incidem técnicas, atos tradicionais O Corpo tem História nas Ideias
capazes de orientá-lo, moldando a postura corporal
às imposições socioculturais. Médicas Antigas e Modernas
A antropóloga estadunidense Margaret Mead Antes da concepção moderna do corpo como uma
(2000 [1935]) evidenciou que em sociedades indí- ordem social de cerca de 75 trilhões de células
genas da Nova Guiné as diferenças sexuais eram organizadas em diferentes estruturas funcionais
interpretadas a partir de um repertório cultural (Guyton, 1989, p. 5), e da ideia de automaticidade
complexo e diversificado, no qual padrões culturais contínua corporal, a medicina ocidental atribuiu
distintos esculpiam temperamentos diferentes entre uma dimensão mais ampla ao corpo e ao processo
homens e mulheres, muitos deles diametralmente saúde-doença.
opostos de uma sociedade para outra. A Teoria do Equilíbrio dos Humores, do grego
Tanto os estudos de Mauss como os de Mead Hipócrates (460-377 a.C.), considerado pai da me-
revelaram que, embora possa ser atribuída uma dicina ocidental, propugnava que o corpo saudável
materialidade universal ao corpo, as definições, as era aquele no qual reinava o equilíbrio dos quatro
disposições corporais e seus significados são múlti- elementos fundamentais que o compunham: bile
plos. Decorrente dessa heterogeneidade nos modos amarela, bile negra, sangue e fleugma. A ideia hi-
de conceber o corpo, as concepções do que é saúde e pocrática de equilíbrio tinha como pressuposto a
doença também possuem tradução múltipla, já que noção filosófica da justa proporção, desenvolvida por
todas as sociedades, das ditas modernas às tradi- Alcmeon e levava em conta a interação do corpo com
cionais, elaboram saberes que orientam os grupos o meio ambiente, a saúde significando a justa adap-
sociais sobre as formas de intervir nos processos tação humana aos ambientes de trabalho e habitação
saúde-enfermidade (Menéndez, 1994). e à dieta, enquanto a doença possuía significado
O corpo é também espaço de hierarquia e poder, oposto (Helman, 2003; Barros, 2007).
e não por acaso o poder penetrou nos corpos (bio- Com Galeno de Pérgamo (130-200 d.C.), emi-
poder), nas sociedades modernas, disciplinando-os, nente anatomista, fisiologista e terapeuta italiano,
buscando uma docilidade necessária para que a a medicina experimentou um desenvolvimento
produção capitalista em expansão lograsse êxito surpreendente no campo da anatomia. Seu modelo
(Foucault, 1989). Os próprios processos corporais explicativo da fisiologia corporal perdurou por pelo
passaram a ser vistos por essa ótica; a explicação menos quatorze séculos, ou seja, durante todo o
biomédica por diversas vezes evoca, metaforicamen- medievo (Barros, 2007).
te, relações hierárquicas entre os órgãos do corpo, Se por um lado, o modelo galênico tornou-se
visando uma maximização da economia corporal. referência para o entendimento médico dos corpos,
É como se tudo se passasse, então, no interior do servindo como parâmetro para o estudo da estrutura
corpo, como uma miniaturização das relações so- fisiológica humana durante um longo período da
ciais: imensas redes de informações estabelecem história, por outro, é em Galeno que se encontra-
relações hierárquicas entre os órgãos e os sistemas ram evidências significativas de como as ideias
biológicos (Martin, 2006). de uma essência biológica, natural, determinada e
Desta forma, refletir sobre o corpo não apenas determinante do corpo, de seus processos e de suas
como fato natural é objeto deste trabalho que diferenças foram construídas historicamente.
adentra primeiramente algumas ideias médicas, Partilhando dos pressupostos hipocráticos sobre
tomando-se a seguir certas abordagens antropológi- o equilíbrio corporal, Galeno via o corpo como locus
cas, quando o corpo tanto é moldado culturalmente de fluxo humoral constante, sujeito às influências
quanto habita a ordem simbólica, ultrapassando a do meio e, portanto, passível de adquirir saúde ou
dimensão física, integrando-se em outras dimensões adoecer conforme a ausência ou não de ajustamento
à teia das relações e normas sociais, às atividades e ambiental e dietético.
ao meio ambiente, associando-se também às repre- Com relação à anatomia sexual dos corpos
sentações da pessoa. masculino e feminino, Galeno propunha aquilo que

Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010 251


Laqueur (2001) chamou de isomorfismo galênico, ou minina, teve seu primeiro registro médico no início
seja, a similaridade entre pênis e vagina, escroto e do século XIX, como doença predominantemente
útero, ou, dito nas palavras do grande anatomista, se masculina, baseada em tradições populares antigas
virarmos [os órgãos genitais] da mulher para fora e, que associavam problemas de saúde difusos com
por assim dizer, virarmos para dentro e dobrarmos envelhecimento (Stolberg, 2007).
em dois os do homem, teremos a mesma coisa em am- Esses apontamentos históricos resumidos re-
bos sob todos os aspectos (Laqueur, 2001, p. 41). gistram como a concepção do corpo elaborada pela
Galeno compartilhava de uma ideia científica medicina variou historicamente. A ideia newtoniana
comum em sua época: a natureza havia feito homens do corpo-máquina, o automatismo corporal, o pen-
e mulheres iguais. E mesmo com a descoberta da samento cartesiano que fragmenta o organismo,
próstata por Herófilo, anterior ao século XIV, o senso enfim, as teorias que fundamentam o entendimento
médico corrente era que homens e mulheres tinham biomédico atual do corpo erigiram-se em contextos
vasos espermáticos e sêmen, a conjunção do sêmen históricos definidos, bem como o sentido universal
de ambos se fazia necessária para a reprodução da e natural que lhe foi atribuído.
vida, respectivamente o primeiro e segundo princí- A ideia das diferenças sexuais intransponíveis
pios da geração, tal como Hipócrates havia postulado foi uma das muitas mudanças no modo de conceber
(Laqueur, 2003). o corpo operada pelo Iluminismo. Esta mudança
A diferença anatômica dos sexos de homens e representou uma resposta à crise do pensamento
mulheres, a despeito de a localização dos órgãos ser metafísico e das ideias religiosas, mas foi, sobre-
externa nos primeiros e interna nas segundas, não tudo, uma revolução epistemológica, à medida
repousava numa concepção biológica do corpo, mas que uma nova explicação para os corpos e para os
numa relação mais ampla, envolvendo discussões processos corporais foi elaborada, ancorando-se na
filosóficas profundas: feitos de uma mesma substân- ideia de uma natureza comum e universal dos corpos
cia, ambos os sexos gozavam de uma perfeição orgâ- (Laqueur, 2003).
nica necessária para reproduzir a vida. A diferença Deve-se à ciência biológica moderna este feito:
não era entendida, em si e por si mesma, como sinal a substituição do entendimento metafísico dos
de oposição biológica, mas de complementaridade corpos, que aliava o processo saúde-enfermidade à
de uma substância geradora única. interação do corpo com o meio, por uma explicação
O fato é que a biologia e a fisiologia dos corpos, na qual o corpo obedece a uma lógica reducionista,
naquele período, não pretendiam explicar o lugar individual e circunscrita na sua automaticidade
social e sexual de homens e mulheres, muito pelo biológica.
contrário, as teorias médicas acabavam por reforçar A racionalidade mecânica clássica, diz Camargo
uma visão de mundo permeada por hierarquias e di- Jr. (1997), isola os componentes discretos, reitegran-
ferenças sociais, nas quais a morfologia dos corpos do-os a posteriori em seus mecanismos originais,
sexuados não representava a instância última, defi- dividindo-se em três proposições, quais sejam,
nidora e definitiva, tal como aconteceu na Idade da dirige-se à produção dos discursos com validade
Razão até nossos dias, dos papéis sociais e sexuais universal; propõe modelos e leis de aplicação geral;
masculino e feminino (Laqueur, 2003). não se ocupa de casos individuais pelo seu caráter
A este respeito, a menstruação, que a partir do generalizante.
século XVIII revestiu-se de um caráter eminente- O modelo naturaliza as máquinas produzidas
mente feminino, era vista como o sangramento pela tecnologia humana, sendo o universo visto
involuntário do corpo, quer fosse de homens ou como imensa máquina subordinada ao princípio
mulheres. O fluxo hemorroidal e a hemorragia boa, de causalidade linear tradutível em mecanismos
isto é, o sangramento do corpo não adoecido, foram de caráter mecanicista. Assim, a abordagem expe-
concebidos como formas de menstruação (Laqueur, rimental adotada isola as partes do funcionamento
2003), e mesmo o climatério, atualmente sinônimo do todo, pressupondo que este funcionamento dá-se
biomédico do final do ciclo reprodutivo da vida fe- pela soma das partes. Nesta visão analítico-meca-

252 Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010


nicista, a medicina originária da anátomo-clínica pias e fantasias dos pesquisadores para liberar-se do
é a medicina do corpo, das lesões e das doenças “mal do corpo”, lembrando que “o homem continua a
(Camargo Jr., 1997). ser carne para não perder o sabor do mundo”.
Até finais do século XVIII estavam presentes Há a ideia do “corpo naturalmente saudável”,
várias teorias na interpretação do processo saúde- mas esta se apresenta, paradoxalmente, como matriz
doença, apesar da revolução científica de Vessálio cultural para o forte apelo da mídia ao consumo de
e da recusa dos clássicos. Tanto é que nas terapêu- produtos e serviços que possibilitam “modificar”
ticas eram ainda utilizadas no século XVIII aquelas o corpo. Para além do discurso do saudável, encon-
calcadas nas teoria humoral: as sangrias, purgantes, tram-se valores estéticos que trazem em si modelos
vesicatórios acrescidas da terapêutica química de de corpos masculinos e femininos inalcançáveis
Paracelso (Camargo Jr., 1997). (Goldenberg, 2005), refletidos na valorização estéti-
A emergência da anátomo-clínica, analisada por ca do corpo magro em oposição ao corpo gordo, não
Foucault em O Nascimento da Clínica, operou como saudável e estigmatizado socialmente.
uma transição na passagem do século XVIII à pri- A este respeito, ainda que o discurso e o saber
meira metade do século XIX, onde a doença, como biomédicos sobre o corpo sejam hegemônicos nas
categoria fundamental do saber e da prática médica, sociedades ocidentais, encontram seu limite na prá-
foi vista como expressão das lesões. Foi necessária tica da biomedicina, visto que hoje vem crescendo
a transformação profunda do hospital, na virada do a procura pelas terapias integrativas – medicina
século XIX, como lugar de formação e transmissão tradicional chinesa, ayurvédica, antroposófica, ho-
do saber médico, de isolamento dos indivíduos do- meopatia, acupuntura entre outras (Luz, 2005).
entes para serem observados, de disciplinarização As concepções diversas que essas medicinas por-
do espaço médico, dos registros sobre os indivíduos tam do corpo e do processo saúde-enfermidade têm
e da constatação dos fenômenos patológicos na a seu favor, como ideia central, a promoção da saúde
população (Foucault, 1989). Transformado em tec- no cuidado terapêutico. De forma oposta, decorrente
nologia médica, o hospital favoreceu a instauração de sua característica estrutural, o modelo biomédico
do poder da medicina sobre o corpo, simultâneo ao entende o corpo de maneira fragmentada (Pelizolli,
desenvolvimento de um saber fisiológico e orgânico 2007), gerando assim práticas que priorizam a er-
(Foucault, 1989, p. 99-111). radicação da doença em detrimento da promoção da
As ideias de Foucault, ao contrário de Laqueur, saúde (Luz, 2005).
mostram a insuficiência da revolução epistemológi- Tem sido observado que aqueles que buscam
ca na explicação das mudanças da clínica, cuja práti- as medicinas integrativas o fazem procurando, na
ca dependeu da instituição hospitalar, transformada maioria das vezes, a cura das chamadas “doenças
em espaço privilegiado da formação e investigação da modernidade”, tais como insônia, estresse, de-
médicas sobre a enfermidade e de poder e saber pressão, ansiedade e as dores e fadigas crônicas,
médico sobre o corpo. que, ironicamente, encontram mais dificuldades de
Na modernidade, segundo Le Breton (1999), o serem tratadas pela biomedicina (Giddens, 2004).
corpo no discurso científico contemporâneo das Os resultados obtidos pelas práticas integrativas
ciências biológicas e médicas tornou-se simples su- demonstraram-se positivamente efetivos, ainda
porte da pessoa, como algo a ser mudado, aprimora- que estas práticas não ultrapassem às oriundas da
do, diluindo-se a identidade pessoal. Transformou-se medicina oficial.
em acessório marcado pela subjetividade: lixo, uma
bula, um kit, um corpo-rascunho. Tornou-se objeto O Corpo Segundo Algumas
imperfeito a ser corrigido, não sendo fortuito o gran-
de sucesso das cirurgias estéticas, transformadoras
Correntes Antropológicas
do corpo, assimiladas pelos sujeitos como mudanças A craniologia do final do século XIX preocupou-se
do próprio corpo e da própria vida. Sugestivamente, apenas com as características físicas dos homens.
em Adeus ao Corpo, Le Breton (1999) percorre as uto- Se os primeiros estudos, notadamente eugênicos,

Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010 253


hierarquizaram os grupos humanos a partir de ca- além do balanceio dos quadris e então o observador
racterísticas físicas, tais como medidas de crânios e menos atento àquele costume poderá ver nesse
ossos, postulando que o “progresso do pensamento” andar não a obra humana, mas da natureza: eis o
caminhava pari passu ao desenvolvimento biológico trabalho de incorporação da dimensão sociocultural.
dos seres humanos, a vertente culturalista de Franz Mauss conclui o relato dizendo que no adulto talvez
Boas, antropólogo germânico naturalizado estadu- não exista “maneira natural” nas posturas corporais
nidense, demonstrou, no início do século passado, (Mauss, 2003, p. 405).
que eram nas diferentes disposições culturais que Receptáculo de técnicas da vida social, o corpo é
se encontravam as mudanças da vida mental e dos também matriz de múltiplos significados, servindo
comportamentos socioculturais humanos. como metáfora poderosa da sociedade. O que uma
Boas tinha como objeto de estudo os imigrantes determinada sociedade permite ou proíbe, o que
europeus que viviam nos EUA e a ideia de degene- promove ou interdita nas interrelações corporais
ração racial, tão em voga à época, era por ele con- expressa relações macrossociais de poder, pureza
testada enfaticamente: o homem não era produto e perigo (Douglas, 1991).
de seu corpo (Rodrigues, 2005), mas de uma matriz A sujeição do corpo à incorporação da dimen-
cultural – a tradição. são simbólica do social impulsionou a reflexão e
A despeito de esses estudos serem relevantes pesquisa antropológicas sobre o corpo e o processo
para a instauração de um campo antropológico saúde-enfermidade contemporaneamente. Da diver-
de reflexão sobre os corpos, o estudo inovador de sidade de símbolos sociais atribuídos ao corpo aos
Marcel Mauss (Vale de Almeida, 2004), etnólogo da distintos saberes e práticas médicas compondo um
Escola Sociológica Francesa, logrou estabelecer o vasto campo de estudos para a Antropologia, sendo
vínculo entre o corpo – não mais como dado cultural a concepção biomédica apenas uma delas, não obs-
envolto em uma subjetividade individualizante – e tante ser a mais hegemônica.
a dinâmica da vida social, e, consequentemente, a Como ressalta Helman (2003), nos sistemas tra-
ideia de que a sociedade está intimamente presente dicionais de cura, tais como a medicina tradicional
no indivíduo, não só em sua mente, mas também, e chinesa, a ayurvédica e a tibetana, o corpo apresen-
em grande medida, em suas posturas corporais. ta-se como portador de uma anatomia simbólica,
Em seu brilhante ensaio, As técnicas corporais ligada a uma cosmologia na qual o corpo físico
(2003, [1934]), Mauss se debruça sobre essa questão, interage com forças extra-humanas. Como exem-
e sobre ele se detém o antropólogo Lévis-Strauss plo, cita a medicina tradicional chinesa, cujo saber
(2003), analisando a visão profunda e visionária do anatômico compreende o corpo como perpassado
grande etnólogo ao apresentar o corpo como fato por meridianos dos quais flui e reflui a energia vital
social total, isto é, como portador de um caráter denominada chi.
tríplice, qual seja, as dimensões social, histórica e A saúde significa, para esta concepção de corpo,
fisiopsicológica. Para assim expressar o entendi- o equilíbrio de chi, a doença representando o dese-
mento tridimensional do corpo, Mauss cunhou o quilíbrio ou a suspensão do fluxo de energia vital.
conceito de “homem total”. A terapêutica, nos casos de adoecimento, passa pela
No transcorrer do ensaio, ao relatar uma etnogra- acupuntura, isto é, a inserção de agulhas em locali-
fia, Mauss ressalta que nada há no andar da índia zações precisas do corpo, que ao todo é composto por
maori adulta (Nova Zelândia), com seu rebolado 309 pontos, podendo assim ser descongestionado o
tão apreciado pelos homens da tribo, que remeta à fluxo vital.
construção social de sua postura, observada e orien- Diferente também é a concepção do corpo para
tada de perto, desde a infância, pela mãe. Quando os mekeo, povo nativo da Papua do Norte. Como ob-
o trabalho social de ensinar o andar se encontrar servou Strathern (2004), para eles o corpo saudável
concretizado, ou seja, quando a menina já não neces- envolve uma intrincada rede de relações entre a
sitar mais das intervenções e dos esforços maternos atividade humana, os processos corporais e o meio
constantes a orientá-la, nele nada mais se observará ambiente. A parte interna do corpo mekeo inclui o

254 Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010


exterior, isto é, tanto o trato digestivo quanto o ab- O Iqui’i existe antes do nascimento, em estado
dome não são concebidos como a parte mais íntima virtual. É somente quando se insere no ventre mater-
da pessoa, mas como conexões, passagens para o no que os toba concebem a pessoa corporificada, pois
mundo exterior. Da mesma forma, as excretas são há movimento. A concepção da vida não é entendida
vistas como partes internas, que são lançadas ao como decorrente de um único intercurso sexual, mas
exterior. de vários, nos quais o sêmen se mistura ao sangue
Na concepção mekeo, o corpo está constantemen- menstrual, dando forma ao corpo.
te susceptível ao mundo exterior e o que flui por ele. É o Iqui’i que possibilita à pessoa ouvir, falar,
O corpo saudável, quente, processa o doce, a comida raciocinar e seu afastamento, como por exemplo, no
cozida, eliminando o que é frio e sujo. De outra for- sono, não gera a morte, mas inconsciência, podendo
ma o corpo adoecido, frio, elimina o quente e esses nestes momentos ser aprisionado por outros, o que
restos podem contaminar outras pessoas, pois são torna a pessoa vulnerável a malefícios e, conse-
considerados veneno. quentemente, a doenças. Há a perda do controle de
A ideia que orienta esta concepção é que a comi- si, ficando a pessoa subjugada a outrem. A cura só é
da não é por si mesma quente e doce, mas adquire possível pela intermediação das rezas do xamã, que
estas qualidades pelo trabalho doce e quente do irá resgatar o Iqui’i (Tola, 2007).
corpo, transmitido na preparação e cultivo dos ali- Finalmente, e decorrente da interação entre a
mentos, bem como na confecção de casas e objetos pessoa corporificada, o meio e o Iqui’i, os toba veem
(Strathern, 2004). A saúde da pessoa é vista como a pessoa como composta, múltipla, se constituindo
um todo integrado de atividades, regras de condu- na e pelas relações entre o físico e o não físico, en-
tas, de relações com o meio ambiente, que borram, tre o visível e o invisível, constantemente mutável,
para nós, as fronteiras do que é externo e do que é ou seja, uma representação da pessoa distinta da
interno ao corpo. noção que pressupõe uma individualidade fixa
A pele como fronteira última do corpo não é constituindo-a.
uma ideia universal, e sociedades outras percebem A concepção de que há várias dimensões consti-
o corpo e aquilo que chamamos ocidentalmente de tutivas da pessoa não é característica exclusiva dos
pessoa de forma diferente. Assim sendo, estudando grupos humanos tidos por “exóticos”, sociedades
os indígenas do Chaco argentino, a antropóloga Flo- com características “modernas” há que concebem
rencia Tola (2007) analisou como eram concebidos essa interação em maior ou menor grau. O corpo é
o corpo e a pessoa entre os toba. visto nestes contextos como intérprete de relações
Primeiramente, a ideia toba de pessoa, ou me- que extrapolam o plano biológico, mas que podem
lhor, de pessoa corporificada é extensa, não sendo a nele se alojar, manifestando assim a saúde ou a
pele vista como barreira, como limite entre o corpo e doença.
as coisas, quer sejam elas tangíveis ou intangíveis. O antropólogo francês François Laplantine estu-
A pele é entendida antes como passagem, na qual dou, durante os anos de 1980, o sistema de cura da
se torna intercambiável o que é externo e o que é Umbanda, em Fortaleza/CE. Por meio de tipologias,
interno ao corpo. Este não inclui, entretanto, a carne, observou a forma como essa religião – que sincretiza
nem os fluidos e os órgãos, diferentemente do que em si os espíritos dos indígenas nativos, dos orixás
concebemos como corpo. africanos, dos santos protetores do catolicismo, bem
Em segundo lugar, a noção toba de pessoa só como retrabalha a ideia de reencarnação à luz do
pode ser entendida a partir de uma cosmologia, espiritismo kardecista – concebe o processo saúde-
na qual o corpo intercambiável ganha mobilidade enfermidade (Laplantine, 2001).
por meio do Iqui’i, isto é, da imagem-pessoa que o Para a Umbanda, o que faz a pessoa ter saúde
anima. Esta imagem-pessoa, contudo, não deve ser ou adoecer é, respectivamente, a manutenção ou o
confundida com a alma, no sentido que é dado oci- enfraquecimento do axé, palavra africana da etnia
dentalmente ao termo, pois não há oposição entre a nagô, que significa força vital. O axé não é força in-
pessoa corporificada e o Iqui’i. dividual, mas coletiva, que é transmitida às pessoas

Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010 255


nos rituais pelas várias entidades espirituais que marca a ideia de que o corpo, a sua fisicalidade e os
descem nos médiuns. Na cosmologia da Umbanda, processos saúde-enfermidade são concebidos como
do seu panteão, as divindades se apresentam como integrados à dimensão moral da vida social. Como
espíritos de pretos velhos, negros sábios, escravos ressaltou Duarte (2003), a experiência da saúde-
ou não, que viveram entre nós; orixás, divindades enfermidade envolve não somente a corporalidade
trazidas do continente africano, representando as imediata, mas uma gama de sentimentos, sentidos
forças da natureza; erês, espíritos infantis que, a e valores que são mobilizados pela sociedade e
despeito de se apresentarem como crianças, tam- pelos agentes sociais. Exemplares dessa dimensão
bém têm sabedoria; caboclos, espíritos nativos que moral agregada à noção do corpo nas sociedades
trazem consigo a sabedoria da tradição. contemporâneas são os casos das doenças mentais
O médium é invariavelmente um fiel que faz a e de situações corporais específicas, tais como a
intermediação entre as divindades e os consulentes. reprodução e a contracepção, por se remeterem às
Em cada sessão, a divindade se serve do seu corpo implicações explícitas de ordem moral.
– incorporação – e por meio dele realiza a consulta. Também revelam essas pesquisas concepções
A cada consulta, tanto o fiel quanto quem é atendi- distintas da ideia de pessoa entre sociedades di-
do são nutridos pelo axé, cabendo ao fiel ainda a ferentes, bem como entre grupos diversos de uma
obrigação das oferendas (despachos) à divindade, mesma sociedade. Duarte (2003) apontou esta dife-
como forma de agradecimento e reverência pelo axé renciação ao analisar o processo saúde-enfermidade
recebido (Laplantine, 2001). nas sociedades urbanas brasileiras, demonstrando
Nesse sistema há a interação entre o corpo e as que vários segmentos das classes populares não
fontes de energias que envolvem o meio, podendo ser compartilham a mesma ideologia individualista da
elas positivas, como no caso do axé, ou negativas, ideia de pessoa presente nos estratos sociais mais
como acontece com o mau-olhado, o quebranto, em elevados. Desta forma, a saúde-enfermidade para
que há uma quebra de equilíbrio energético, promo- aqueles segmentos apresenta-se como pertencente
vido por alguém, com consequente enfraquecimento a um sistema totalizante, em que a ideia de pessoa
da pessoa. Nas crianças apresenta-se fisicamente expressa a lógica relacional e hierárquica de suas
como diarreia ou vômito. vidas sociais.
Outra enfermidade tratada pela Umbanda e que
já se tornou de domínio popular é o encosto. O en-
costo é um estado difuso de angústia e apatia. É ex-
A Reabertura do Debate Natureza/
plicado pela presença de um espírito desencarnado, Cultura e os Processos Corporais
sem luz, que se aproxima e permanece com a pessoa, A visibilidade do corpo, tanto no sentido de como ele
transtornando-a. A terapêutica é o encaminhamento, é apresentado socialmente pelos meios de comuni-
promovido pelo médium, do espírito sofredor aos cação quanto pelas teorias contemporâneas das hu-
“hospitais astrais”, para ser tratado. manidades que o tomam como objeto de análise, tem
As observações de Laplantine (2001) apontam a sido relevante para aprofundar as críticas sobre as
Umbanda como um sistema de cura em que a pessoa dicotomias fundantes do pensamento moderno, em
é vista como partícipe de uma totalidade, de um sis- particular, natureza-cultura, e as relações de poder.
tema biopsicocosmológico, no qual ao biológico cabe Como propõe Judith Butler, filósofa estaduni-
uma parcela. Neste caso, a saúde ou a doença, ainda dense e estudiosa das relações de gênero, a ênfase
que se expressem no corpo físico, têm sua origem no aspecto da desnaturalização do corpo não reside
alhures, onde relações mais amplas são desenvolvi- tanto em seu aspecto de oposição à natureza, nem
das, relações de afeto e desafeto, humanas e extra- tampouco na primazia de um social abstrato a dar
humanas, enfim, dimensões outras que promovem forma aos processos corporais, mas nos argumentos
a saúde ou a enfermidade e que são compreendidas que justificam os limites da vida e das relações entre
como intimamente relacionadas ao próprio corpo. homens e mulheres tendo por base a natureza de seus
Esses estudos antropológicos trazem como corpos (Prins e Meijer, 2002).

256 Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010


Para Butler, a questão que subjaz ao debate postos que perpassam as relações sociais, sobretu-
entre natureza e cultura na análise do corpo são do aqueles legados pela tradição, que no ocidente
os efeitos provocados por determinados discursos associam a reprodução aos fatos da natureza, num
estabelecidos pelo pensamento, neste sentido onto- modelo que estabelece a continuidade imediata
lógicos, que tornam visíveis certos tipos de corpos entre reprodução social, concepção fisiológica e
em detrimento de outros. São instituídos critérios intercurso sexual (Strathern, 1995).
de aceitabilidade para uma determinada tipologia Neste aspecto, o parentesco, tema caro aos an-
corporal, baseados em códigos de inteligibilidade, tropólogos, e o processo conceptivo são afetados
deixando de fora aqueles que se encontram à mar- diretamente, uma vez que, por tradição, marcam
gem de tal construção, denominados corpos abjetos, concomitantemente o território específico do bioló-
pois pertencem às áreas não penetradas pela onto- gico, do natural e dos laços de consanguinidade, os
logia (Butler, 2008). pais biológicos são, por essa forma, os pais naturais
Corpos e processos corporais são, segundo a da criança. Com o advento das novas tecnologias
autora, resultados de uma materialidade que se da reprodução, tal processo altera-se, sofre uma
revela no discurso, porque são por ele habitados. fragmentação, porque com a intervenção técnica a
O corpo abjeto é negado ontologicamente, uma vez fertilização pode ocorrer com sêmen ou óvulos doa-
que a vida que o anima e a sua materialidade não dos por sujeitos exógenos às relações de parentesco,
são consideradas como relevantes. Tal entendimento havendo uma descontinuidade da ideia do biológico
não significa obviamente que não existam de fato, como demarcador do natural. A partir de então, surge
mas que se encontram obscurecidos por aqueles a necessidade de ser categorizado diferencialmente
critérios de inteligibilidade. Butler cita o modo os pais biológicos dos naturais, pois os primeiros
como a imprensa dos EUA retrata a vida dos não podem ser somente doadores do material genético
ocidentais e dos empobrecidos como ilustrativos (Rohden, 2002).
da concepção do corpo abjeto. O ponto crucial apon- Há, portanto, a cisão entre o biológico e o natu-
tado por ela é que os operadores ontológicos devem ral, mas isso não significa que essa ruptura não se
ser ressignificados à medida que tanto a ontologia recomponha socialmente. Strathern dá pistas sobre
quanto seus efeitos são resultados de relações de isto, ao dizer que as novas tecnologias reprodutivas
poder; seu discurso é proferido de um lugar social dissociaram o intercurso sexual da reprodução da
específico, seu território é regulamentado por aque- vida, porém, não separaram a díade procriação-rela-
la mesma tipologia. É necessário atribuir estatuto ções de gênero. Esse ponto específico aponta para as
ontológico àqueles que de forma sistemática foram assimetrias entre homens e mulheres nas sociedades
e são excluídos da existência, e, portanto, do poder, euro-americanas no processo da reprodução, no qual
para que se tornem visíveis, audíveis e sujeitos de a paternidade é sempre uma relação descontínua e o
direitos (Prins e Meijer, 2002). intercurso sexual masculino admissível como um fim
A discussão sobre natureza-cultura também está em si mesmo, sem a necessidade da procriação.
presente nas análises das novas tecnologias que A recomposição se dá por meio da essencializa-
intervêm sobre os corpos e os processos corporais, ção da maternidade, sendo culturalmente valoriza-
e ganham relevância para as ciências sociais à dos o intercurso sexual e o seu efeito, a concepção,
medida que encerram mudanças nas relações entre como elementos internos fundamentais ao processo
os sujeitos, configurando situações e arranjos até reprodutivo feminino e demarcadores sociais da
então inusitados. identidade das mulheres.
A antropóloga britânica Marilyn Strathern toma Essas análises têm ampliado a perspectiva dos
como base para suas reflexões, dentre outros temas, estudos do corpo e refletido nos saberes eruditos
as novas tecnologias reprodutivas. Pensá-las a partir e práticos do processo saúde-enfermidade, na re-
das transformações que promoveram, segundo a produção humana, nas relações entre os sexos e na
autora, implica questionamento de vários pressu- sexualidade.

Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010 257


Considerações Finais CAMARGO JR, K. R. A biomedicina. Physis
Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 7, n. 1,
Os estudos sobre a História da Medicina e as pesqui- p. 45-68, 1997.
sas antropológicas evidenciam que o conhecimento
sobre o corpo é diversificado, tanto no espaço quanto DOUGLAS, M. Pureza e perigo: ensaio sobre as
no tempo, e que, para cada concepção corporal há noções de poluição e tabu. Lisboa: Ed. 70, 1991.
uma forma correspondente de intervir no processo DUARTE, L. F. D. Indivíduo e pessoa na
saúde-enfermidade. experiência da saúde e da doença. Ciência & Saúde
O corpo como dado biológico elementar, porta- Coletiva, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 173-183, 2003.
dor de uma essência natural e, por conseguinte,
FOUCAULT, M. El nacimiento de la clinica: una
universal, é uma construção da ciência biológica
arqueologia de la mirada medica. Cidade do
moderna. Esta constatação, por si só, remete à
México, DF: Siglo XXI Ediciones, 1966.
elaboração sociocultural do próprio conhecimento,
pois corpos e processos corporais perdem o sentido FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de
quando descontextualizados das matrizes sociais Janeiro: Graal, 1989.
que os definem (Moore, 1997). GIDDENS, A. Sociologia do corpo: saúde, doença
A Antropologia aponta, apesar de suas diferentes e envelhecimento. In: GIDDENS, A. Sociologia.
vertentes, que o corpo não é apenas um dado natural, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. p.
nem tampouco individualizado, mas moldado pela 142-171.
cultura e sociedade, diferenciando-se, nos grupos
sociais, entre os gêneros e nos processos de socia- GOLDENBERG, M. Gênero e corpo na cultura
brasileira. Psicologia Clínica, Rio de Janeiro, v. 17,
lização que lhes são específicos. O corpo comporta
n. 2, p. 65-82, 2005.
diferentes concepções, que penetram os diversos
saberes e práticas de cura expressos nas várias GUYTON, A. C. Fisiologia humana e mecanismo
racionalidades médicas (ocidentais e orientais), das doenças. 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara,
interferindo nas concepções de saúde-doença. 1989
As concepções sobre o corpo integram-se ainda HELMAN, C. G. Definições culturais de anatomia
à ideia de pessoa, às cosmologias religiosas que não e fisiologia. In: HELMAN, C. G. Cultura, saúde e
portam a ideologia da pessoa/indivíduo presente na doença. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003. p. 24-48.
biomedicina e em certos setores sociais, não com-
partilhadas também entre segmentos das classes LAPLANTINE, F. Antropologia dos sistemas
populares que resistem à ideia de pessoa individu- de representações da doença: sobre
alizada, enquanto certas sociedades indígenas não algumas pesquisas desenvolvidas na França
apenas resistem a esta ideia, como também a do contemporânea reexaminadas à luz de uma
corpo como suporte do indivíduo/pessoa. experiência brasileira. In: JODELET, D. (Org.). As
representações sociais. Rio de Janeiro: EdUERJ,
2001. p. 241-259.
Referências
LAQUEUR, T. W. Inventando o sexo: corpo e
BARROS, J. A. C. Repensando o processo saúde- gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume
doença: a que responde o modelo biomédico? Dumará, 2001.
In: PELIZOLLI, M. (Org.). Bioética como novo
paradigma: por um novo modelo biomédico e LAQUEUR, T. W. Sex in the flesh. Isis, Gainesville,
biotecnológico. Petrópolis: Vozes, 2007. p. 40-58. n. 94, p. 300-306, 2003.

BUTLER, J. Cuerpos que importan: sobre los LE BRETON, D. Adeus ao corpo: antropologia e
límites materiales y discursivos del sex. 2. ed. sociedade. Campinas: Papirus, 1999.
Buenos Aires: Paidós, 2008.

258 Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010


LÉVI-STRAUSS, C. Introdução à obra de Marcel PRINS, B.; MEIJER, I. C. Como os corpos se tornam
Mauss. In: MAUSS, M. Antropologia e Sociologia. matéria: entrevista com Judith Butler. Revista
São Paulo: Cosac Naify, 2003. p. 11-45. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 10, n. 1, p.
155-167, 2002.
LOYOLA, M. A. Sexualidade e medicina: a
revolução do século XX. Cadernos de Saúde RODRIGUES, J. C. Os corpos na antropologia.
Pública, Rio de Janeiro, v. 19, n. 4, p. 875-899, In: MINAYO, M. C. S. et al. Críticas e atuantes:
2003. Ciências Sociais e Humanas em saúde na América
Latina. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 157-181.
LUZ, M. T. Cultura contemporânea e medicinas
alternativas: novos paradigmas em saúde no fim ROHDEN, F. As novas tecnologias reprodutivas
do século XX. Physis Revista de Saúde Coletiva, e a velha oposição natureza/cultura na visão
Rio de Janeiro, v. 15, p. 145-176, 2005. Suplemento. de M. Strathern. Ilha Revista de Antropologia,
Florianópolis, v. 4, n. 2, p. 175-195, 2002.
MARTIN, E. A mulher no corpo: uma análise
cultural da reprodução. Rio de Janeiro: Garamond, STOLBERG, M. From the climacteric disease to
2006. the male climacteric: the historical origins of a
modern concept. Maturitas, Amsterdam, v. 58, n.
MAUSS, M. As técnicas do corpo. In: MAUSS, M.
2, p. 111-116, 2007.
Antropologia e sociologia. São Paulo: Cosac Naify,
2003. p. 401-420. STRATHERN, M. Necessidade de pais, necessidade
de mães. Estudos Feministas, Rio de Janeiro, v. 3,
MEAD, M. Sexo e temperamento. São Paulo:
n. 2, p. 303-329, 1995.
Perspectiva, 2000.
STRATHERN, M. The whole person and its
MENÉNDEZ, E. L. La enfermedad y la curación:
artifacts. Annual Review of Anthropology, Palo
¿qué es medicina tradicional? Alteridades,
Alto, n. 33, p. 1-19, 2004.
Iztapalapa, v. 4, n. 7, p. 71-83, 1994.
TOLA, F. Eu não estou só(mente) em meu corpo:
MOORE, H. Understanding sex and gender. In:
a pessoa e o corpo entre os Toba (Qom) do Chaco
INGOLD, T. (Org.). Companion encyclopedia of
argentino. MANA,Rio de Janeiro, v. 13, n. 2, p. 499-
anthropology. London: Routledge, 1997. p. 813-830.
519, 2007.
PELIZOLLI, M. A bioética como novo paradigma:
VALE DE ALMEIDA, M. O corpo na teoria
crítica ao cartesianismo. In: PELIZOLLI, M. (Org.).
antropológica. Revista de Comunicação e
Bioética como novo paradigma: por um novo
Linguagens, Lisboa, n. 33, p. 49-66, 2004.
modelo biomédico e biotecnológico. Petrópolis:
Vozes, 2007. p. 128-150.

Recebido em: 16/04/2009


Reapresentado em: 02/10/2009
Aprovado em: 22/10/2009

Saúde Soc. São Paulo, v.19, n.2, p.249-259, 2010 259