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INTENSIVO TJPR

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

Sumário
Introdução ao Direito Processual Civil. Normas Fundamentais. Direito de Ação ............................ 4
1. EVOLUÇÃO METODOLÓGICA DO PROCESSO ............................................................................... 4
2. Novo Código de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015).................................................................... 4
3. NORMAS FUNDAMENTAIS ........................................................................................................... 5
4. DIREITO DE AÇÃO ....................................................................................................................... 12
Jurisdição. Competência ................................................................................................................ 18
1. Jurisdição .................................................................................................................................... 18
2. Competência .............................................................................................................................. 26
Processo – Pressupostos processuais – Sujeitos processuais ........................................................ 44
Processo ......................................................................................................................................... 44
Pressupostos processuais............................................................................................................... 45
Sujeitos processuais ....................................................................................................................... 49
Litisconsórcio – Intervenção de terceiros ...................................................................................... 60
Litisconsórcio .................................................................................................................................. 60
Intervenção de terceiros ................................................................................................................ 65
Intervenção do Ministério Público – Juiz – Auxiliares da Justiça – Ato processual........................ 83
Juiz .................................................................................................................................................. 83
2. Atos processuais ......................................................................................................................... 86
Ato processual (cont.) - Tutela Provisória ...................................................................................... 96
Ato Processual (continuação) ......................................................................................................... 96
Tutela provisória - Formação, suspensão e extinção do processo. .............................................. 106
Tutela jurisdicional. Tutela Provisória .......................................................................................... 106
Formação, suspensão e extinção do processo. ............................................................................ 120
Procedimento comum: fase postulatória, fase ordinatória ......................................................... 125
Procedimento Comum ................................................................................................................. 125
Petição inicial ............................................................................................................................... 126
Audiência de conciliação e mediação .......................................................................................... 138
Reconhecimento do pedido ou inércia ........................................................................................ 140
Apresentação de resposta ............................................................................................................ 143
Procedimento comum (continuação): Providências preliminares. Julgamento conforme o estado
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do processo. Saneamento e organização do processo. Provas.................................................... 149
Procedimento Comum (Continuação) ......................................................................................... 149
Providências preliminares ............................................................................................................ 149
Provas ........................................................................................................................................... 151
Procedimento comum (continuação): AIJ. Sentença. Coisa Julgada. Liquidação de sentença .... 174
Procedimento Comum (Continuação) ......................................................................................... 174
Audiência de instrução e julgamento .......................................................................................... 174
Sentença ....................................................................................................................................... 177
Liquidação de Sentença ............................................................................................................... 197
Procedimento comum (continuação): Cumprimento de sentença. Procedimento Especial de
Jurisdição Contenciosa ................................................................................................................. 202
Procedimento Comum (Continuação) ......................................................................................... 202
Cumprimento de sentença ........................................................................................................... 202
PROCEDIMENTOS ESPECIAIS DE JURISDIÇÃO CONTENCIOSA ...................................................... 207
Consignação em pagamento ........................................................................................................ 207
Ação de exigir contas ................................................................................................................... 209
Procedimento Especial de Jurisdição Contenciosa (Continuação) .............................................. 212
Ações possessórias ....................................................................................................................... 212
Inventário e partilha ..................................................................................................................... 216
Embargos de terceiro ................................................................................................................... 219
Oposição....................................................................................................................................... 221
Ação monitória ............................................................................................................................. 222
Procedimento Especial de Jurisdição Voluntária. Execução Judicial ............................................ 225
Introdução ao procedimento de jurisdição voluntária ................................................................ 225
Divórcio e separação consensuais................................................................................................ 226
Interdição ..................................................................................................................................... 227
EXECUÇÃO JUDICIAL..................................................................................................................... 228
Teoria geral da execução .............................................................................................................. 228
Competência na execução ........................................................................................................... 232
Partes na execução e responsabilidade patrimonial.................................................................... 234
Título executivo ............................................................................................................................ 243
Execução. Embargos à execução .................................................................................................. 248
Teoria geral da execução .............................................................................................................. 248
Competência na execução ........................................................................................................... 252
Embargos à Execução ................................................................................................................... 254
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Processos nos Tribunais ............................................................................................................... 271
Processos nos Tribunais ............................................................................................................... 271
Recursos ....................................................................................................................................... 291
Recursos ....................................................................................................................................... 291
Teoria geral dos recursos.............................................................................................................. 291
Recursos em espécie .................................................................................................................... 311

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Introdução ao Direito Processual Civil. Normas Fundamentais. Direito de Ação

1. EVOLUÇÃO METODOLÓGICA DO PROCESSO

Praxismo - O direito processual não tinha distinção com o direito material. Não era uma
ciência autônoma. O direito processual seria o próprio direito material.

Processualismo – O direito processual passou a ser visto como uma ciência autônoma, não
se confunde com o direito material. Oskar Von Bulow (1868) – Teoria dos pressupostos processuais
e exceções dilatórias (processo civil possui institutos próprios, é uma ciência autônoma –
autonomismo).

Instrumentalismo – Tem como base o processualismo. Há uma relação entre os direitos


processual e material, apesar de ser reconhecida a autonomia do direito processual. Há uma
relação circular entre estes dois ramos do direito, pois não existe direito oco. O direito processual
civil é o instrumento de realização do direito material.

Neoprocessualismo (formalismo valorativo ou positivismo reconstruído) – tem a mesma


ideia do neconstitucionalismo, pois traz as premissas metodológicas apontadas, além de toda
produção doutrinária a respeito do tema. O processo à luz da Constituição.

2. Novo Código de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015)

Constitucionalização do Processo Civil – Fase do neoprocessualismo. Aplicação das


cláusulas gerais. Dois pontos importantes: a) normatividade dos princípios: os princípios são
normas jurídicas, plena aplicabilidade aos casos concretos; b) criatividade da jurisdição: há
distinção entre texto e norma jurídica. O juiz ao aplicar a lei, ele vai extrair a norma jurídica mais
justa ao caso concreto. O juiz aplica uma norma jurídica ao caso concreto quando sentencia.

Modelo Cooperativo (coparticipativo) – É o nosso modelo do Direito Processual. Todos


aqueles que participam do direito processual devem cooperar, para que o juiz possa produzir ao
caso concreto a norma jurídica mais justa.
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3. NORMAS FUNDAMENTAIS

Estão previstas nos artigos 2o a 12 do NCPC. São geralmente estruturadas em cláusulas


abertas.

Devido Processo Legal (art. 5o, LIV, CF): é um direito fundamental, que ser revela por um
conjunto de normas (regras e princípios) que instituem garantias processuais e materiais para que
a norma jurídica produzida no processo seja a mais justa, tempestiva. Esse direito fundamental
tem origem na Carta Magna de 1215 (limita o poder do Rei/Soberano/Estado).

Aspecto Formal X Aspecto Material (substancial): quanto ao aspecto formal, o devido


processo legal é a observância das garantias processuais (juiz natural, regras de competência,
etc.). Quanto ao aspecto material (art. 8o., CPC), significa que o direito processual não pode se
sobrepor à regra material, deve-se garantir que a aplicabilidade do direito material no que tange
o campo da interpretação (o juiz consegue proteger as partes de uma aplicação legal abusiva). O
STF entende que o devido processo legal no seu aspecto material é o dever de o órgão jurisdicional
observar a proporcionalidade e a razoabilidade ao aplicar ao ordenamento jurídico.

Devido processo legal e relações jurídicas privadas: o devido processo legal aplica-se
também às relações privadas. Na verdade, qualquer direito fundamental pode ser aplicado ao
âmbito das relações jurídicas privadas.

Contraditório (art. 5o., LV, CF e art. 7o., CPC): Reação, participação e influência. É direito de
ambas as partes do processo.

Participação e informação – o princípio do contraditório exige que a parte participe dos


atos processuais e seja informada dos atos processuais.

Influência (art. 10 CPC)– o contraditório confere à parte o poder de influência, ou seja, a


parte pode influir de alguma forma a decisão judicial, por meio da sua defesa, das suas teses.

O art. 9o. do CPC prevê o contraditório diferido, ou seja, o contraditório será exercido em
momento posterior. Art. 332, CPC (improcedência liminar do pedido – o juiz pode julgar
improcedente o pedido liminarmente quando for verificada prescrição ou decadência, ou seja, o
juiz não ouvirá o autor).

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Liminar inaudita altera pars: não fere o contraditório em razão da sua provisoriedade. O
contraditório é diferido. Pode ser revista. Ela é uma técnica para proteger o direito do autor numa
ponderação entre direito do réu e o perigo.

Contraditório é o dever do juiz respeitar os limites do pedido. A parte ré se defende daquilo


que foi pedido, de forma a não poder se defender daquilo que o juiz determina além da peça inicial.
A parte fica impossibilitada de influenciar a decisão do juiz. Congruência entre pedido e sentença.

Ampla Defesa (art. 5o., LV, CF e art. 7o., CPC): a ampla defesa corresponde ao aspecto
substancial do princípio do contraditório. De acordo com o entendimento de Delosmar Mendonça
Jr.: “são figuras conexas, sendo que a ampla defesa qualifica o contraditório. Não há contraditório
sem defesa. Igualmente é lícito dizer que não há defesa sem contraditório. O contraditório é o
instrumento de atuação do direito de defesa, ou seja, esta se realiza do contraditório”.

Razoável Duração do Processo (art. 5o. LXXVIII, CF e art. 4o. CPC): o processo para ser
devido ele tem que ser realizado em um prazo razoável, o que não significa dizer que o processo
tem que ser célere. O processo tem que durar o tempo necessário para que ele possa ser
resolvido.

Publicidade dos atos processuais e motivação das decisões: os atos processuais devem
ser públicos e as decisões devem ser motivadas. O objetivo é a fiscalização das decisões por parte
da sociedade (art. 189 e art. 489, p. 1o. CPC).

A Publicidade, portanto, tem uma dupla dimensão:

• Publicidade interna: dirigida aos sujeitos do processo.

• Publicidade externa: dirigida a terceiros. É a mais relevante, já que não há maiores problemas com
a publicidade interna. Em razão de permissão dada pela própria CF, a publicidade externa pode ser
restringida nas hipóteses do art. 189/NCPC:

Art. 189. Os atos processuais são públicos, todavia tramitam em segredo de justiça os
processos:

I - em que o exija o interesse público ou social;

II - que versem sobre casamento, separação de corpos, divórcio, separação, união estável,

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filiação, alimentos e guarda de crianças e adolescentes;

III - em que constem dados protegidos pelo direito constitucional à intimidade;

IV - que versem sobre arbitragem, inclusive sobre cumprimento de carta arbitral, desde que
a confidencialidade estipulada na arbitragem seja comprovada perante o juízo.

Princípio da Isonimia (art. 5o., caput CF, art. 7o. CPC e art. 139 CPC): igualdade material.
Tratar os iguais igualmente e os desiguais desigualmente, na medida da sua desigualdade.

Paridade de armas (igualdade processual) - Deriva do princípio da igualdade em seu


sentido geral. Veja-se o que diz o NCPC acerca do tema, ao consagrar a “paridade de armas”:

Art. 7o É assegurada às partes paridade de tratamento em relação ao exercício de direitos


e faculdades processuais, aos meios de defesa, aos ônus, aos deveres e à aplicação de sanções
processuais, competindo ao juiz zelar pelo efetivo contraditório.

A igualdade processual deve observar 3 aspectos: 1) imparcialidade do juiz (equidistância


em relação às partes); 2) igualdade no acesso à justiça sem discriminação; 3) redução das
desigualdades que dificultam o acesso à justiça, como financeira (ex. Concessão do benefício da
justiça gratuita), geográfica (ex. Videoconferência), comunicação (ex. Comunicação por meio da
Língua Brasileira de Sinais).

Inafastabilidade do Poder Judiciário (art. 5o., XXXV, CF): direito de acesso à justiça. O
direito de ação é um direito público. A lei não pode afastar qualquer demanda da apreciação do
poder judiciário.

Há algumas mitigações a esse direito fundamental (flexibilizações):

1) Lide desportiva (art. 217, p. 1o., CF): exige-se o esgotamento do processo administrativo
(processo desportivo).

2) Habeas Data (lei 9.507/97): é imprescindível a negativa de informação pelo órgão.

3) Ações previdenciárias: STF – é necessário que a parte primeiro queira o benefício


perante o INSS, não é necessário o esgotamento da via administrativa. Se não houver primeiro o
requerimento administrativo não haverá lide (tem que caracterizar o interesse de agir).

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Ondas renovatórias do acesso à justiça (Mauro Capelletti):

1a. onda - O princípio do acesso à justiça tem que se renovar ao longo do processo
histórico. Cabe aos poderes afastar os impedimentos de acesso à justiça. Gratuidade da justiça às
pessoas hipossuficientes e Defensoria Pública

2a. onda - Tutela da coletividade. Lei da ação popular, improbidade administrativa, ECA,
etc.

3a. onda – Desburocratização da justiça. Sincretismo processual (junção em um único


processo as fases de conhecimento e execução). Atividade criativa do juiz (interpretação – melhor
norma jurídica ao caso concreto).

Princípio do Juízo Natural (art. 5o. XXXVII, LII CF): toda vez que houver um litígio na
sociedade é necessário que já se saiba quem é o juízo competente para dirimir a lide. Não se pode
permitir a criação de Tribunal de Exceção.

Existe o princípio do promotor natural? O entendimento majoritário é no sentido de que


aplica-se ao promotor natural a vedação para a criação de promotores específicos para a atuação
ao caso concreto. Mas é plenamente possível a criação de grupos de trabalho a partir do promotor
natural.

Duplo grau de jurisdição: possibilidade de a decisão proferida por um juízo ser revista por
outro juízo (possibilidade de revisão das decisões). Controle da jurisdição (é um controle interno).
Esse controle/fiscalização é político (pois esse controle é exercido pelo próprio judiciário). Não há
previsão expressa pela CF. A sua aplicação não é absoluta, pois há hipóteses em que as decisões
são irrecorríveis (ex. decisões interlocutórias na Justiça do Trabalho, etc).

Cooperação: modelo do NCPC. Sistemas de estruturação do processo: 1) Adversarial: ideia


dos adversários. O juiz é equidistante das partes, princípio do dispositivo (art. 2 o. CPC); 2)
Inquisitorial: juiz mais proativo, pois ele tem iniciativa e pode agir de ofício (ainda há resquícios
desse sistema no NCPC, arts. 370 e 371 – atividade probatória); 3) Cooperativo: todos aqueles que
participam do diálogo do processo devem cooperar (arts. 5o. e 6o. CPC), esse é o nosso modelo no
Código de Processo Civil.

O princípio da Cooperação traz alguns deveres que devem espelhar a atuação de todos
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que participam do processo:

1) Dever de esclarecimento e consulta: art. 10, CPC – o juiz deve consultar às partes

2) Dever de prevenção: art. 321, CPC (prevenir uma extinção prematura do processo)

3) Dever de lealdade: proibição de má-fé (litigância de má-fé) arts. 79 a 81 do CPC

4) Dever de proteção: proteger o patrimônio da pessoa que está tendo uma execução
contra o seu patrimônio. Art. 520, I CPC (responsabilidade objetiva) e art. 776, CPC (execução).

Primazia do julgamento de mérito (art. 4o. CPC): o objetivo do processo é produzir uma
norma jurídica individualizada, que se dá por meio do julgamento de mérito.

Para o NCPC o que importa é a apreciação do mérito pelo magistrado; ou seja, a decisão de mérito
é prioritária em relação à decisão que não é de mérito. (Arts. do CPC – 139, IX; 282, p. 2o., 488).

Boa-fé Processual (art. 5o. CPC): norma de conduta que impõe às partes um comportamento
ético e leal. Essa boa-fé é uma boa-fé objetiva, não se afere a intenção da parte. Funções da boa-
fé: 1) integrativa – sugere que as partes quando atuam no processo ajam de boa-fé; 2) interpretativa
– tanto as manifestações das partes devem ser interpretadas conforme a boa-fé, como a própria
decisão judicial deve ser interpretado conforme a boa-fé; 3) limitadora (controle) – vedação ao
abuso de direito.

A boa-fé objetiva está prevista na CF nos seus arts. 3o., I e 5o., LIV.

O princípio da boa-fé decorre de uma cláusula geral. Sendo assim, sua concretização depende da
experiência forense. E como esse princípio se concretiza no processo? Doutrina alemã:

1ª concretização: o princípio da boa-fé processual impede o abuso de direitos processuais. Ou seja, esse
princípio torna ilícito o exercício abusivo de um direito processual.

2ª concretização: o exercício abusivo de um direito processual é considerado ilícito, graças à previsão


contida no art. 5o, do NCPC. O CC/2002, por sua vez, contém dispositivo que proíbe de forma
genérica o abuso de direito: art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao
exercê-lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-
fé ou pelos bons costumes.

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3ª concretização: a função hermenêutica do princípio da boa-fé. Os atos postulatórios e as decisões
judiciais devem ser interpretados de acordo com a boa-fé.

Art. 322. O pedido deve ser certo.

[…]

§ 2o A interpretação do pedido considerará o conjunto da postulação e observará o princípio da boa-


fé.

Art. 489. São elementos essenciais da sentença:

[…]

§ 3o A decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação de todos os seus elementos e em
conformidade com o princípio da boa-fé.

4ª concretização: surgimento dos deveres processuais de cooperação.

5ª concretização: elaboração das convenções processuais, ou seja, ajustes processuais realizados


pelas partes (negócios processuais). Pode-se traçar um paralelo com a negociação (contratos)
no âmbito privado.

6ª concretização: a proibição de comportamentos contraditórios (genérica). Nemo potest venire


contra factum proprium. Ninguém pode comportar-se contra as próprias atitudes. Se assim
ocorrer, estar-se-á violando o princípio da boa-fé processual. Você frustra a expectativa que você
mesmo gerou na outra parte. Ex.1: Você aceita a decisão e depois recorre dela. Ex.2: Você é
executado, oferece um bem à penhora e, depois, alega que o bem é impenhorável.

Concretizações (vedações): 1) litigância de má-fé (arts. 79 a 81, CPC); 2) criação dolosa de


posição jurídica (art. 258, CPC); 3) responsabilidade pessoal e regressiva pelo juiz (arts. 143,
181, 184, 187, CPC); 4) abuso de direito (art. 311, CPC); comportamento contraditório
(“venire contra factum proprium” - art. 1000, CPC)

OBS: O que é “nulidade algibeira?” Trata-se de manobra processual na qual a parte,


estrategicamente, permanece silente, deixando de alegar a nulidade em momento oportuno,
para suscitá-la apenas posteriormente. A nomenclatura, já utilizada em precedentes do STJ
(REsp 1.372.802/RJ), decorre da noção de que se trata de uma nulidade que a parte “guarda
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no bolso” (algibeira) para ser utilizada no momento que melhor lhe convier. Tal estratégia é
rechaçada pelo STJ, por ir de encontro ao dever de lealdade das partes, em clara ofensa à
boa-fé processual.

Ordem Cronológica (art. 12 CPC): Tem por objetivo garantir o princípio da isonomia das
partes. Pela redação original do CPC, os magistrados e as Cortes deveriam julgar seguindo a ordem
cronológica - só poderiam julgar os casos mais novos após os mais antigos, acabando com as
chamadas preferências dadas pelos julgadores sem considerar o critério temporal. Criou uma
obrigação de os juízes e os Tribunais seguirem necessariamente a ordem cronológica dos
processos. Mudança Legislativa pela Lei 13.256/16: Não haverá mais a obrigatoriedade dos
julgamentos em ordem cronológica. Isso porque, o texto agora determina que a ordem de
chegada deve ser seguida “preferencialmente”. Art. 12. Os juízes e os tribunais atenderão,
preferencialmente, à ordem cronológica de conclusão para proferir sentença ou acórdão. A
modificação retira a obrigatoriedade do julgamento por ordem cronológica de conclusão. Trata
agora de uma possibilidade. A ordem cronológica não poderia resolver todos os problemas da
morosidade do Judiciário, mas era uma regra transparente, inclusive com a publicação da pauta.
Julgamento associado à cronologia de conclusão dos processos judiciais. A ordem cronológica só
se aplicaria às decisões finais (sentença e acórdão). A regra visa garantir a igualdade, posto que
torna impessoal a escolha da causa que vai ser julgada. Serve, ademais, à duração razoável do
processo, por inibir a demora injustificada do processo.

Há exceções a essa ordem cronológica: art. 12, p. 2o.CPC: I – as sentenças proferidas em audiência,
homologatórias de acordo ou de improcedência liminar do pedido; II - o julgamento de processos
em bloco para aplicação de tese jurídica firmada em julgamento de casos repetitivos; III - o
julgamento de recursos repetitivos ou de incidente de resolução de demandas repetitivas; IV – as
decisões proferidas com base nos arts. 485 (decisão sem exame do mérito) e 932 (decisões
monocráticas do relator); V - o julgamento de embargos de declaração; VI - o julgamento de agravo
interno(recurso contra decisão do relator); VII - as preferências legais (idosos, enfermos- § 3o) e as
metas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça; VIII - os processos criminais, nos órgãos
jurisdicionais que tenham competência penal(vara única); IX - a causa que exija urgência no
julgamento, assim reconhecida por decisão fundamentada.

Admite-se negócio jurídico processual para afastar essa regra? O negócio jurídico processual é
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admissível e podem ser formalizados tanto antes do processo quanto no curso do processo.
Entretanto, não se admite o negócio jurídico processual para afastar a regra da ordem cronológica.

Consequências do descumprimento da ordem cronológica pelo juiz: Segundo Fredie Didier, não
há nulidade da decisão que desrespeita a ordem cronológica, diante da ausência de prejuízo às
partes envolvidas (pas de nulitté sans grief). O terceiro que foi preterido, apesar de prejudicado,
nada ganha com a anulação da sentença. O desrespeito, todavia, pode ser apurado no plano
disciplinar/correcional. O desrespeito à cronologia, segundo Didier, pode significar indício de
suspeição do juiz; caso a suspeição fique demonstrada, aí sim pode-se falar em invalidação da
decisão. A invalidação dar-se-á pela suspeição, e não em razão do desrespeito à cronologia.

4. DIREITO DE AÇÃO

Conceito:

Ação é direito público, subjetivo, autônomo e abstrato de invocar o Estado para que preste
a tutela jurisdicional.

É público, pois envolve a atuação de um ente público, envolvendo a atuação do Estado em


um poder inerente à sua soberania.

É subjetivo, pois o seu titular tem o poder de exigir do Estado-Juiz esta prestação.

É autônomo, pois tem uma existência própria, que não decorre do direito material.

É abstrato, visto que o direito de ação continua independentemente da existência ou


inexistência do direito material.

Teorias sobre o direito de ação

Teoria imanentista (clássica): Savigny

Esta teoria visualizava o direito de ação como parte do direito material. O direito de ação
não era autônomo. Foi há muito tempo superada.

Teoria concreta: Adolf Wach

O direito de ação existe, mas somente existe se concretamente existir o direito material.
Portanto, o direito de ação não poderia ser apresentado de plano, no início do processo.
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Isto é, somente ao final do processo, em caso de uma sentença que julgasse procedente
o pedido, é que poderia dizer que o sujeito também tinha o direito de ação.

Para a teoria concreta, um seria o direito de ação e outro o direito material, mas o direito
de ação só existe se existir o direito material.

Teoria da ação como direito potestativo: Chiovenda

Essa teoria tem base concretista, pois para Chiovenda o direito de ação seria o direito à
obtenção de uma sentença favorável. Mas não era um direito exercido contra o Estado, e
sim contra a parte contrária, por isso seria um direito potestativo.

Teoria da ação como direito abstrato: Degenkolb e Plósz

A teoria abstrata diz que a ação se constitui no direito de obter do Estado uma prestação
jurisdicional, qualquer que seja o teor. Se o Estado julgar improcedente o pedido, ele
prestou a sua atuação jurisdicional, motivo pelo qual foi exercido o direito de ação.

O direito de provocar o Estado existe independentemente do direito material.

Teoria eclética: Liebman

A teoria eclética se vale dos mesmos postulados da teoria abstrata, apenas inovando
como condicionar o exercício ao direito de ação ao preenchimento de condições da ação
(legitimidade de ser parte, interesse de agir e possibilidade jurídica do pedido). Estas
condições da ação são extraídas da relação jurídica material.

Apesar de possuir as mesmas bases, para existir direito de ação é preciso ter condições
de ação.

A teoria eclética foi adotada no CPC/73, e apesar do Novo CPC não falar em condições
da ação, prevalece o entendimento de que também está mantida a teoria eclética no
NCPC.

Condições da ação

O NCPC não mais exige a possibilidade jurídica do pedido, permanecendo apenas a


legitimidade das partes e o interesse de agir.

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Legitimidade das partes (legitimatio ad causam):

Quando se fala em legitimidade de partes, é preciso entender que há uma legitimação


ordinária e uma legitimação extraordinária.

Na legitimação ordinária, a ação é promovida por quem é titular do próprio direito


material. Alguém defende em seu próprio nome direito próprio.

Na legitimação extraordinária, a ação é promovida por uma pessoa em nome próprio,


mas defendendo direito alheio. Há atuação como substituto processual.

A legitimidade para causa não se confunde com a legitimidade por processo (legitimatio
ad processum), que é a capacidade para estar em juízo, porque a legitimidade para causa
é uma condição para a ação, enquanto a legitimidade para o processo é um pressuposto
processual.

• Interesse de agir

Há quem diga que poderá ser dividido em: necessidade e adequação; e outros que dizem
se subdividir em trinômio: necessidade, adequação e utilidade.

Haverá necessidade, pois é necessário que se bata às portas do Poder Judiciário para ver
o seu direito respeita, efetivado e concluído. Isso porque não se pode usar
arbitrariamente as próprias razões.

Haverá adequação quando se utiliza a via processual adequada para obter o bem da vida
devido.

Haverá utilidade quando o feito for útil para a tutela pretendida. Alguns defendem que a
utilidade estaria dentro da adequação.

O CPC e a permanência das condições da ação

O NCPC, ao contrário do CPC/73, não adota mais a expressão condições da ação, apesar
de continuar exigindo a legitimidade de partes e o interesse processual.

Existem autores que sustentando que o NCPC não mais exige as chamadas condições da
ação, e que legitimidade de partes e o interesse de processual seria apenas pressupostos

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processuais.

Um dos motivos que contrariam esta tese é o fato de que o NCPC, quando fala das
sentenças terminativas, vai dizer que uma das hipóteses para se prolatar sentenças terminativas
é a falta de pressupostos processuais.

A outra hipótese do CPC, que está no art. 485, VI, é a ausência de legitimidade ou de
interesse processual de outra causa distinta. E portanto seriam elas outra fundamentação distinta
dos pressupostos processuais, havendo distinção entre estes e a legitimidade e interesse
processual.

Se o NCPC continua a fazer esta distinção, significa dizer que ainda há as condições da ação.

Execução é ação? SIM. Pois ação é um direito abstrato público formulado contra o Estado
buscando uma decisão de mérito. Na ação de execução se busca a satisfação de um crédito e se
desenvolve por meio de atos do Estado que avança contra o patrimônio do devedor para que se
satisfaça o crédito do credor.

Elementos da ação

Os elementos da ação tem como ideia principal o objetivo de identificar a ação, adotando-
se a teoria da tríplice identidade, ou seja, será individualizada a ação quando:

Partes: são demandante e demandado. Autor e réu.

Causa de pedir: é o fundamento fático (fato) e o fundamento jurídico do pedido. É o fato


que o autor apresenta como base do seu pedido, sendo denominado de causa de pedir
remota. Cabe também ao autor trazer a qualificação jurídica desses fatos, denominando
de causa de pedir próxima (consequências/repercussões jurídicas dos fatos). Art. 319, III,
CPC.

Pedido: é a pretensão deduzida em juízo. Pedido imediato e mediato.

o Imediato: provimento jurisdicional

o Mediato: Bem da vida

Para Cândido Dinamarco o pedido é bifronte, ou seja, o pedido é imediato e mediato.

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O fato de o demandante ter de apresentar a narrativa dos fatos vai justificar o
entendimento de que o Novo CPC adotou a Teoria da Substanciação. Isso porque a petição inicial
deve trazer a narrativa dos fatos. Não é obrigada a dizer o fundamento legal.

Existe ainda a denominada Teoria da Individualização, a qual se contenta apenas com a


indicação do fundamento jurídico da relação constitutiva do direito do autor. Esta teoria não foi
adotada pelo NCPC.

O NCPC adotou a teoria da substanciação, ou seja, o autor deve trazer a descrição dos
fatos. Dessa forma, para ingressar com a petição inicial, é necessário apresentar fundamentos de
fato e de direito para que a petição seja considerada apta.

Os elementos da ação terão diversas finalidades, e vão ajudar a verificar se há


litispendência, coisa julgada, prevenção, continência ou conexão, etc.

Perguntas:

1) É possível uma ação sem autor? SIM. Art. 738, CPC (arrecadação dos bens do ausente. O juiz
incia de ofício o processo)

2) É possível uma ação sem réu? SIM. Ex.: Investigação de paternidade post mortem sem
herdeiros.

3) O juiz está vinculado à causa de pedir (remota e próxima)? O juiz está vinculado aos fatos
(remota), mas não está vinculado aos fundamentos jurídicos (próxima).

4) O que é pretensão bifronte? É o pedido imediato e mediato

Classificação das Ações

1) Condenatória: diz respeito a uma prestação (dinheiro, obrigação de fazer ou de não fazer,
obrigação de dar coisa). Os direitos prestacionais se submetem a prazos prescricionais. As ações
condenatórias se submetem a prazos prescricionais.

2) Constitutiva: criação, extinção ou modificação de uma relação jurídica. Ex.: Divórcio (extinção
de uma relação conjugal), resolução de um negócio jurídico. Direito potestativo. Os direitos

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potestativos se submetem a prazos decadenciais.

3) Declaratória: certificação da existência ou inexistência ou o modo de ser de uma determinada


relação jurídica. Ex.: Ação declaratória de inexistência de débito tributário. As ações declaratórias
não se submetem a prazos, logo é imprescritível. Arts. 19 e 20, CPC. Súmula 181, STJ.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Jurisdição. Competência

1. Jurisdição

Introdução

A palavra jurisdição quer dizer: “dizer o direito”. Atualmente, deverá ser compreendida
não apenas como dizer o direito, mas também como “efetivar o direito”, de aplicar este direito.

A jurisdição é desempenhada por uma pessoa que tem poder para exercer a jurisdição.
Este desempenho se dá através da investidura, via de regra por concurso público de provas e
títulos. No entanto, é possível também pelo quinto constitucional e pela nomeação do presidente
da república.

Jurisdição anômala do Poder Legislativo

O Poder Legislativo, em caráter excepcional, exerce jurisdição, sendo denominado de


jurisdição anômala.

Esta jurisdição será exercida para o processamento e julgamento nos crimes de


responsabilidade.

Características da jurisdição

• Inércia

• Substitutividade

• Definitividade

a) Inércia

Quando se diz que a jurisdição tem como característica a inércia, significa dizer que o órgão
jurisdicional deve ser provocado.

Uma vez provocado, prestará o poder judiciário a sua atividade nos limites da sua
provocação, já que ele é inerte.

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Dessa característica, emana o princípio da congruência ou da correlação.

Por vezes, a jurisdição pode ser prestada de ofício, como nos casos de jurisdição
contenciosa, denominada de restauração de autos. Também é possível prestar jurisdição de
ofício quando se defere habeas corpus de ofício.

Isto é, no entanto, excepcionalíssimo, visto que via de regra é necessária a provocação.

b) Substitutividade

A substitutividade substitui a vontade das partes. Ex.: João quer A, Pedro quer B, mas o
juiz dá C. Como se vê, o juiz substituiu a vontade das partes.

No processo executivo, na verdade, não há substituição da vontade das partes, mas sim
a atividade das partes.

c) Definitividade

Aquilo que é fruto do exercício de jurisdição tem aptidão para fazer coisa julgada.

Nem todo ato praticado pelo magistrado possui esta característica. Ex.: uma sentença
terminativa não produz coisa julgada material. Despacho também não tem carga decisório.

Portanto, nem todos os atos têm todas as características da jurisdição.

Princípio da congruência ou da correlação ou da adstrição

Basicamente, o juiz não pode entregar uma prestação jurisdicional além do que foi pedido.
Neste caso, haveria uma sentença ultra petita.

O juiz também não pode entregar uma prestação distinta do que foi pleiteado. Neste caso,
a sentença também é nula, em razão de ser sentença extra petita.

Ainda, o juiz não pode deixar de analisar fundamento alegado pelas partes, isto é, não
pode decidir aquém do que foi pedido. Haveria aqui uma sentença citra petita.

Jurisdição contenciosa ou voluntária

A jurisdição contenciosa é aquela que nos mostra de forma evidente os sinais de uma
jurisdição. É aplicada a um processo judicial em que:

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Partes: deduzida uma pretensão

Litígio: partes contrapostas (em litígio)

Substitutividade: decisão judicial que substitui a vontade das partes

Coisa julgada: acobertada com força de coisa julgada

Na jurisdição voluntária, existem duas correntes. Uma que entende ser jurisdição, outra
entende que não é.

Prevalece a corrente que sustenta que a jurisdição voluntária não é jurisdição. Seria o
exercício de uma atividade administrativa feita pelo magistrado. Seria, portanto, uma
administração pública de interesses privados, eis que o legislador entendeu que alguns atos seria
necessária a chancela do poder judiciário.

Haveria aqui um procedimento conduzido por um magistrado, em que haveria apenas o


requerimento de interessados.

Portanto, neste procedimento, segundo esta corrente, não haveria partes, mas somente
interessados. Não haveria litígio.

Ou seja, a decisão proferida pelo magistrado não se revestiria da imutabilidade da


decisão, tampouco fazer coisa julgada material.

Ex.: separação consensual, antes da EC 2010, a qual foi feita perante o poder judiciário e
homologada pelo juiz. Esta separação não impede que as mesmas pessoas venham a contrair
novas núpcias.

Portanto, neste caso, não haveria coisa julgada material.

Equivalentes jurisdicionais

Os equivalentes jurisdicionais são mecanismos que são empregados para solucionar


litígios. Normalmente agrupam a autotutela, autocomposição, conciliação e mediação e a
arbitragem.

a) Autotutela, autocomposição, conciliação e mediação

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i. Autotutela

Autotutela é a imposição da vontade de uma das partes em detrimento da outra.


Atualmente, o Código Penal considera a autotutela como exercício arbitrário das próprias razões
(art. 334, CP).

No entanto, é possível, eventualmente, a utilização da autotutela. Ex.: desforço imediato,


também conhecida como legítima defesa da posse.

A autotutela é a imposição da vontade individual em detrimento da vontade do outro. Via


de regra, não é cabível.

ii. Autocomposição

Na autocomposição, os próprios litigantes conseguem se compor amigavelmente,


independentemente da atuação de um órgão, seja público ou privado.

iii. Conciliação e mediação

Diferentemente da autocomposição, tanto a conciliação quanto a mediação, demandam


da participação de um terceiro, que é o conciliador ou mediador.

Qual é a diferença entre o conciliador e o mediador?

Conciliador: conduz a conciliação. Se o terceiro interfere no diálogo entre os que


contendem haverá conciliação. Isso porque o sujeito interfere para mostrar o lado
positivo ou negativo do acordo.

Mediador: irá apartear os envolvidos, devendo eles mesmos chegar a uma solução.

O CPC, em suas normas fundamentais, impõe que no curso do processo judicial o Estado
promova, ou busque promover, a solução consensual do litígio, inclusive com uma audiência de
conciliação e mediação, que em regra é obrigatória.

Perceba que o NCPC é voltado da importância à conciliação ou mediação, podendo ser


judiciais ou extrajudiciais.

b) Arbitragem

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Arbitragem é regulada pela Lei 9.307/96 (Lei Marco Maciel). A ideia era desafogar o poder
judicial.

Rodolfo Hartmann sustenta que o efeito da lei foi contrário ao que foi proposto.

A sentença arbitral é considerada um título executivo judicial. Não se sujeita a uma


homologação do poder judiciário e nem pode ter o seu conteúdo modificado pelo poder
judiciário.

O poder judiciário poderá somente anular uma sentença arbitral, mas não reformar. O
que não pode é bater às portas de Poder Judiciário e dizer que o árbitro condenou João a pagar
10 e o juiz determinou que ele pagasse 15.

Atividade desempenhada pelo árbitro não é a mesma de um magistrado. Isso porque


não contém alguns atributos da jurisdição:

• Impossibilidade de o árbitro se valer de medidas coercitivas e medidas de


autossatisfação.

Rodolfo Hartmann diz que se as partes quiserem, o árbitro poderá buscar o Poder
Judiciário e pedir que se aplique medidas coercitivas e medidas de auto efetivação. Esta
é uma crítica que o professor Rodolfo faz, afirmando que esta medida não desafoga o
poder judiciário.

Qualquer pessoa capaz pode participar de uma arbitragem, seja pessoa física ou pessoa
jurídica, até mesmo integrantes da administração indireta, como empresas públicas e
sociedades de economia mista.

• A arbitragem somente pode versar sobre direito patrimonial disponível.

Isto já restringe e muito a atuação da arbitragem.

i. Convenção de arbitragem, cláusula compromissória e compromisso arbitral

Convenção de arbitragem é gênero, dos quais são espécies:

Cláusula compromissória: é uma cláusula prevista em contrato. As partes


comprometem-se a se submeter à arbitragem os litígios que eventualmente surjam em

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relação àquele contrato. A cláusula é prevista antes da ocorrência de um ato ilícito.

Compromisso arbitral: é formulado após a ocorrência do litígio. Trata-se de uma


convenção na qual as partes submetem um litígio à arbitragem. Perceba que não existe
arbitragem sem compromisso arbitral, visto que é ele que estabelece as regras da
arbitragem. Deverá constar do compromisso arbitral o nome, domicílio, estado civil das
partes, a matéria que será objeto de arbitragem, o lugar em que será proferida a sentença
arbitral, se a arbitragem será por equidade ou de acordo com a lei.

Como se vê, há aqui a regulação da forma como se dará a arbitragem. E portanto, toda a
arbitragem possui necessariamente de um compromisso arbitral.

Pode existir arbitragem sem cláusula compromissória?

SIM, mas toda a arbitragem deve ter compromisso arbitral.

Pode acontecer de que, no contrato firmado entre as partes, exista a menção à cláusula
compromissória e que, ocorrendo o dano, a parte venha propor uma demanda judicial. Neste
caso, a parte ajuizou a ação, apesar de estar previsto cláusula compromissória. Como não havia
compromisso arbitral, a parte ajuizou a ação. A outra parte, em questão preliminar, suscita a
existência de convenção de arbitragem, matéria que não pode ser conhecida de ofício pelo juiz.
Mas se a outra parte, em preliminar, suscita a convenção de arbitragem, deverá o juiz proferir
sentença no processo judicial para extinguir o processo sem resolução do mérito (art. 485, VII).

Situação diferente é aquela que ocorre quando as partes celebram cláusula


compromissória, e posteriormente ao fato que houve um dano, uma das partes se recusa a
elaborar o compromisso arbitral. Então há uma cláusula compromissória, mas é necessariamente
preciso que haja o compromisso arbitral.

Caso uma das partes não quer elaborar o compromisso arbitral, o interessado deverá
notificar a outra parte para que venha a realizar em dia e horário próprio o compromisso arbitral,
situação na qual, caso o interessado fique inerte, o interessado irá propor uma demanda perante
o poder judiciário.

Veja, o sujeito deverá propor uma demanda no poder judiciário com o objetivo de que o
outro venha a juízo para poder lavrar o compromisso arbitral. Caso o sujeito não venha ao
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processo, a sentença irá valer como compromisso arbitral.

Rodolfo Hartmann critica muito esta questão, pois não há desafogamento dos processos.

ii. Árbitro

Segundo o art. 13 da Lei de Arbitragem, o árbitro pode ser qualquer pessoa capaz e que
tenha a confiança das partes.

A sua nomeação deverá ser sempre em número ímpar.

O árbitro se submeterá às mesmas regras de impedimento e de suspeição dos


magistrados.

iii. O procedimento arbitral

O procedimento arbitral considera-se instituído quando o árbitro aceita a instituição de


seu nome para decidir o litígio.

Com isso, seguirá aquilo que consta do compromisso arbitral.

As partes podem ou não estar assistidas por advogados.

A Lei 9.307/96 foi alterada em 2015, passando a prever que as partes podem, antes da
instituição da arbitragem, recorrer ao poder judiciário para concessão de medidas de urgência e
medidas cautelares.

Rodolfo Hartmann afirma que o art. 22-B é de inconstitucionalidade desvairada ou


enlouquecida (Min. Carlos Ayres Brito e Eros Grau). Segundo o art. 22-B, o árbitro pode revogar
ou modificar as decisões concedidas em medidas de urgência ou medidas cautelares concedidas
pelo Poder Judiciário.

Veja, o juiz concedeu as medidas, e o árbitro poderá revogá-las.

Há quem entenda pela inconstitucionalidade.

O árbitro também poderá deferir tutelas de urgência. No entanto, não terá poder de
efetivação desta tutela de urgência, vista que é própria de juízes togados. Diante disso, o árbitro
deverá requerer a efetivação dessas medidas perante o Poder Judiciário, por meio da expedição
de carta arbitral.
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Carta arbitral é o meio pelo qual o árbitro requer ao poder judiciário que seja cumprida a
sua medida de urgência.

Após, correrá a instrução e depois de encerrada haverá a sentença arbitral. A sentença


arbitral deverá ter relatório, fundamentação e dispositivo, aproximando-se de uma sentença
judicial. Esta sentença arbitral pode ter vícios, que não observaram a lei.

Neste caso, o interessado pode vir a alegar esta questão sobre o vício da sentença arbitral
por meio de duas vias possíveis, sendo denominada de teoria da dupla porta:

Processo judicial será ajuizado no prazo de 90 dias, após a notificação da sentença


arbitral.

Aguardar a execução da sentença arbitral e, em sede de cumprimento da sentença


arbitral, alegar este vício da sentença arbitral.

Este vício inquina a sentença arbitral ou o próprio procedimento arbitral.

Quais as razões que levaram ao insucesso da arbitragem no Brasil?

A principal delas é de que um único processo arbitral poderá gerar diversas demandas
judiciais, além da possibilidade de se anular um procedimento arbitral.

iv. Homologação de sentença arbitral estrangeira

A homologação de sentença arbitral estrangeira também deverá ser homologada,


conforme art. 960, §3º, NCPC. A competência dessa homologação é do STJ, apesar de não haver
uma menção explícita nesse sentido.

v. Nulidade da cláusula compromissória

Recentemente, o STJ entendeu que o Poder Judiciário não pode decretar a nulidade de
cláusula arbitral (compromissória) sem que essa questão tenha sido apreciada anteriormente
pelo próprio árbitro. Isso porque, segundo o art. 8º, parágrafo único, da Lei de Arbitragem (Lei nº
9.307/96), antes de judicializar a questão, a parte que deseja arguir a nulidade da cláusula
arbitral deve formular esse pedido ao próprio árbitro (Info 591).

Segundo a Ministra Nancy Andrighi, a kompetenz-kompetenz (competência-

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competência) é um dos princípios basilares da arbitragem, que confere ao árbitro o poder de
decidir sobre a sua própria competência, sendo condenável qualquer tentativa, das partes ou do
juiz estatal, no sentido de alterar essa realidade. Em outras palavras, no embate com as
autoridades judiciais, deterá o árbitro preferência na análise da questão, sendo dele o benefício
da dúvida.

Vale ressaltar que essa questão da nulidade poderá ser apreciada pelo Poder Judiciário em
momento posterior. Isso porque, para fazer cumprir a sentença arbitral, o credor terá que ajuizar
uma execução judicial. Nesse momento, o devedor poderá se defender por meio de embargos à
execução alegando a nulidade da cláusula arbitral e, consequentemente, da sentença arbitral.

Excepcionalmente, é possível que o Poder Judiciário, nos casos em que prima facie é
identificado um compromisso arbitral "patológico", isto é, claramente ilegal, declare a nulidade
dessa cláusula, independentemente do estado em que se encontre o procedimento arbitral.

2. Competência

Conceito e natureza jurídica

O termo competência é conceituado como o limite da jurisdição. Isso porque dentro da


competência o juiz exerce a sua jurisdição .

Majoritariamente, a competência tem natureza jurídica de pressuposto processual para o


desenvolvimento válido de um processo.

Rodolfo Hartmann discorda, apesar de ser minoritário, sustenta que, sendo adotada uma
interpretação literal, a competência não deveria ser reputada como pressuposto processual. Isso
porque eventual declaração de incompetência somente atingirá os atos processuais, se o
magistrado que estiver lotado em um novo juízo entender por bem revogá-los (art. 64, §4º). Não
teria aqui então um pressuposto processual. Para ele, melhor seria reputar a competência como
um requisito para que o mérito possa ser regularmente apreciado.

Princípios reitores

a) Princípio da perpetuatio jurisdictionis

A competência de um juízo não mais se modifica por alterações de fato ou de direito

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relativas as partes, que venha a ocorrer após a determinação e a fixação da competência
jurisdicional.

São diversas as hipóteses em que este princípio é relativizado:

• União intervém no feito, passando para a Justiça Federal

• Conexão ou continência de processo

b) Princípio da competência sobre a competência (kompetenz-kompetenz)

Trata-se de um princípio que não está previsto na Constituição ou na legislação, mas todo
o órgão jurisdicional o tem. Mesmo o absolutamente incompetente tem o mínimo de
competência para reconhecer que é incompetente para o deslinde do feito.

É conhecido como kompetenz-kompetenz.

Critérios para identificar o órgão jurisdicional competente

Como saberemos qual o órgão jurisdicional competente?

Para atingir este desiderato, é necessário que haja critérios, separando-os em dois grandes
grupos:

• Critério da competência material

• Critério da competência funcional

a) Critério material

Competência material é a fixada por um dos critérios:

Competência em razão da pessoa: leva em conta a pessoa. Ex.: União é na Justiça


Federal.

Competência em razão da matéria: leva em conta a matéria. Ex.: família é na Vara de


Família.

Competência em razão do território: leva em conta o território. Ex.: comarca que é.

Competência em razão do conteúdo econômico da obrigação: leva em conta o conteúdo

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econômico da obrigação. Ex.: até 40 salários-mínimos, será do Juizado Especial Cível, e
sendo até 60 salários-mínimos será do Juizado Especial Federal.

Às vezes, é possível utilizar mais de um critério para fixar a competência. Ex.: competência
em razão da pessoa é da Justiça Federal, mas em razão do conteúdo econômico da obrigação é do
juizado especial federal.

b) Critério funcional

No critério funcional, será analisado a relação jurídica com base no direito processual,
valendo-se de uma relação horizontal ou de uma relação vertical:

Competência com base na relação horizontal: aqui há dois órgãos de mesma hierarquia
atuando e praticando determinados atos processuais em relação ao mesmo feito. Ex.:
Juiz da vara cível da comarca de Goiânia expede uma carta precatória para que seja
cumprida na comarca de Itumbiara. Os juízes possuem a mesma hierarquia, praticando
atos processuais em relação ao mesmo feito. Ademais, terá o juiz de Itumbiara
competência funcional para o cumprimento daquela carta precatória. E portanto, há uma
relação jurídica, que traz uma competência funcional horizontal.

Competência com base na relação vertical: aqui há dois órgãos de instâncias diversas,
atuando num mesmo processo. É o que ocorre quando um magistrado profere uma
sentença e a parte interpõe recurso. Este recurso será encaminhado ao Tribunal perante
o qual está vinculado aquele magistrado. Isso porque aquele Tribunal tem competência
funcional vertical.

Jurisdição interna e jurisdição internacional

Para identificar o órgão jurisdicional competente, é saber se a solução do litígio vai se dar
por meio da jurisdição brasileira ou não.

Existem situações em que a jurisdição brasileira é a única que pode atuar, quando por
exemplo o litígio envolver bens imóveis situados no Brasil, ou para proceder inventário ou partilha
de bens situados no Brasil.

Outras normas vão admitir que sejam propostas demandas simultâneas, tanto na justiça

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brasileira quanto na justiça estrangeira. No entanto, isto não implicará litispendência. Ex.:
sentença estrangeira que já tenha transitado em julgado não impede que seja ajuizado um feito
sobre o assunto no Brasil.

Todavia, esta sentença estrangeira transitada em julgada no estrangeiro poderá ser


homologada no Brasil, por meio do STJ. Ainda que haja uma ação em curso no Brasil, isto não
impede que haja a homologação de sentença estrangeira pelo STJ.

Quando transitar em julgado a decisão que homologou a sentença estrangeira, passará ela
a produzir efeitos no Brasil, devendo o feito que estaria correndo no Brasil ser extinto, mas não
por litispendência, e sim por coisa julgada.

É somente neste momento que o processo que tramitava no Brasil deverá ser extinto sem
resolução do mérito.

O inverso também é verdadeiro. Isto é, se durante o trâmite do processo de homologação


no STJ, a sentença, no Brasil, transitar em julgado, não haverá mais como fazer a homologação.

São hipóteses em que se destaca o ajuizamento de ação no Brasil e no estrangeiro:

Quando o demandado for domiciliado no Brasil (agência, filial ou sucursal), a demanda


poderá ser proposta no Brasil, ainda que o fato tenha ocorrido no estrangeiro.

Quando a obrigação tiver de ser cumprida no Brasil, demanda poderá ser proposta no
Brasil.

Quando o fato ou ato litigioso tiver ocorrido no Brasil, demanda poderá ser proposta no
Brasil.

Quando envolver o pagamento de alimentos, quando o credor tiver domicílio ou


residência no Brasil, a demanda poderá ser proposta no Brasil.

Jurisdição interna e a homologação de decisão estrangeira

Com a EC 45, a competência que era do STF passou a ser do STJ para homologar sentença
estrangeira.

Cabe ressaltar que o STJ não analisa o mérito da sentença estrangeira. A atuação do STJ se

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limita a verificar a forma, competência, autenticidade, se há ofensa ou não à ordem pública, ou
seja, há apenas um juízo de delibação.

Nos casos de competência exclusiva, a sentença estrangeira não pode ser homologada,
pelo que não produz efeito no Brasil. Pela interpretação a contrário senso, o juízo brasileiro
deveria reconhecer que não poderá conhecer de mesmas demandas quanto aos imóveis situados
no estrangeiro ou a inventário e partilhas situados no estrangeiro, casos que também escapariam
dos limites da jurisdição nacional.

Após a homologação da sentença estrangeira, o título executivo passa a ser a decisão


brasileira que homologou a sentença.

Esta decisão é título executivo judicial. Mas apesar disso, haverá a criação de uma nova
relação jurídica processual, a qual se processa e será executada perante a Justiça Federal de 1º
grau.

O regime anterior (CPC 1973) adotava a alcunha de homologação de sentença estrangeira.


No entanto, o CPC/2015 chama de homologação de decisão estrangeira, abrangendo também
acórdãos, decisões monocráticas e interlocutórias estrangeiras.

Existem exceções em que não se admite a homologação de sentença estrangeira, tal como
a ofensa que contraria manifestamente a ordem pública.

As decisões estrangeiras decididas em processo de jurisdição voluntária também


precisam ser homologadas, inclusive aquelas que tratem de estado de pessoas. Atente-se que a
única ressalva do CPC é a sentença estrangeira de divórcio consensual, a qual não necessita de
homologação e produz desde logo efeitos regulares no Brasil (art. 961, §5º).

Procedimento de homologação da decisão estrangeira

O procedimento de homologação da sentença estrangeira é do Presidente do STJ, salvo se


houver uma contestação ao procedimento, razão pela qual passará a ser da Corte Especial.

A petição inicial deverá conter:

• Certidão, ou cópia autenticada, do texto integral da decisão estrangeira que se quer


homologar.

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• Ato proferido por autoridade competente

• Partes tenham sido citadas, ou tenha ocorrido à revelia

• Prova do trânsito em julgado da sentença estrangeira

Havendo necessidade, poderá ser concedida alguma tutela provisória de urgência neste
processo. O CPC prevê que o exame de urgência deverá ser realizado pela autoridade
estrangeira, como diz o art. 962, §3º.

No entanto, Rodolfo Hartmann e Samer afirmam que a autoridade estrangeira poderá


verificar a urgência da medida liminar, mas isto não impediria que o STJ verificasse a medida
liminar.

Contudo, pelo NCPC este juízo é feito pela autoridade estrangeira.

A demandada é citada para contestar o pedido no prazo de 15 dias. Contestando, a defesa


não poderá versar sobre todo e qualquer fundamento, eis que não é o momento de questionar se
a decisão foi justa ou injusta.

O que poderá fazer é questionar sobre a autenticidade do documento, inteligência da


decisão (ex.: interpretação diversa), observância de requisitos, inclusive no regimento interno do
STJ.

Mas o mais importante é de que o STJ não poderá ingressar no mérito.

O MPF, após a contestação, terá vista dos autos, os quais retornarão ao STJ para
julgamento.

Ao final da instrução, é proferida uma decisão pelo presidente do STJ, caso não houve a
contestação. Caso tenha havido, a Corte Especial decidirá.

Caso o pedido de homologação seja acolhido, haverá uma decisão de mérito, a qual é de
natureza constitutiva, eis que atribui eficácia àquilo que ficou decidido.

Por fim, destaque-se que a homologação seja apenas uma homologação parcial.

Competência de justiça

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a) Justiça Federal

O art. 108 da CF trata da competência dos Tribunais Regionais Federais, estabelecendo que
compete aos Tribunais Regionais Federais processar e julgar, originariamente:

Os juízes federais da área de sua jurisdição, incluídos os da Justiça Militar e da Justiça do


Trabalho, nos crimes comuns e de responsabilidade, e os membros do Ministério
Público da União, ressalvada a competência da Justiça Eleitoral;

As revisões criminais e as ações rescisórias de julgados seus ou dos juízes federais da


região;

Os mandados de segurança e os habeas data contra ato do próprio Tribunal ou de juiz


federal;

Os habeas corpus, quando a autoridade coatora for juiz federal;

Os conflitos de competência entre juízes federais vinculados ao Tribunal;

Além disso, compete aos Tribunais Regionais Federais julgar, em grau de recurso, as causas
decididas pelos juízes federais e pelos juízes estaduais no exercício da competência federal da
área de sua jurisdição.

Atente-se que, se a autoridade coatora é juiz federal que titulariza competência em Juizado
Especial Federal, quem julgará este mandado de segurança é a Turma Recursal Federal.

Em relação à competência da Justiça Federal de 1ª instância, deve-se analisar o art. 109


da CF, o qual estabelece que aos juízes federais compete processar e julgar:

as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem


interessadas na condição de autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de
falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça Eleitoral e à Justiça do
Trabalho;

Lembrando que sociedade de economia mista é da competência, como regra, da Justiça


Estadual, salvo quando houver interesse da União. Ex.: verba sujeita à prestação de
contas perante órgão federal, ou então caso de concessão ou delegação de serviço

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público.

as causas entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e Município ou pessoa


domiciliada ou residente no País;

as causas fundadas em tratado ou contrato da União com Estado estrangeiro ou


organismo internacional;

os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou


interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as
contravenções e ressalvada a competência da Justiça Militar e da Justiça Eleitoral;

os crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a


execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou
reciprocamente;

as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º deste artigo;

os crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o
sistema financeiro e a ordem econômico-financeira;

os habeas corpus, em matéria criminal de sua competência ou quando o


constrangimento provier de autoridade cujos atos não estejam diretamente sujeitos a
outra jurisdição;

os mandados de segurança e os habeas data contra ato de autoridade federal,


excetuados os casos de competência dos tribunais federais;

os crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da


Justiça Militar;

os crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro, a execução de carta


rogatória, após o "exequatur", e de sentença estrangeira, após a homologação, as causas
referentes à nacionalidade, inclusive a respectiva opção, e à naturalização;

a disputa sobre direitos indígenas.

A doutrina, via de regra, diz que o art. 109 elenca os casos de competência da justiça

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33
federal, admitindo uma interpretação restritiva.

No entanto, o STF já temperou esse entendimento dado pela doutrina, reconhecendo que
compete à Justiça Federal de 1ª instância julgar ações ajuizadas em face do CNJ, desde que não
se trate de MS, MI, HD ou HC, pois nestes casos a competência é do Supremo Tribunal Federal.

O STF, ali, conferiu uma interpretação extensiva, ou analogia, em relação ao art. 109. Isso
porque compete ao STF as demandas em que o próprio CNJ ou CNMP, que não possuem
personalidade jurídica própria, figurarem no polo passivo. Assim, a competência do STF para
processar e julgar ações que questionam atos do CNJ e do CNMP limita-se às ações tipicamente
constitucionais: MS, MI, HC e HD.

No caso de serem propostas ações ordinárias para impugnar atos do CNJ e CNMP, quem
irá figurar como ré no processo é a União, já que os Conselhos são órgãos federais. Logo, tais
demandas serão julgadas pela Justiça Federal de 1ª instância, com base no art. 109, I, da CF/88.

Cabe ressaltar que o entendimento acima é a regra.

No informativo 851 do STF, a Min. Relatora Cármen Lúcia invocou dois argumentos para
fixar a competência no STF:

1) O caso concreto discutia os poderes do CNJ para afastar lei inconstitucional. Se o STF
não julgasse a causa, isso significaria conferir à Justiça Federal de 1ª instância a possibilidade de
definir os poderes atribuídos ao CNJ para o cumprimento de sua missão, subvertendo, assim, a
relação hierárquica constitucionalmente estabelecida.

2) Além da ação ordinária proposta pelo Sindicato, diversos servidores impetraram


mandados de segurança contra a decisão do CNJ. Assim, mesmo que a ação ordinária fosse
remetida para a Justiça Federal de 1ª instância, continuariam no STF os mandados de segurança
individuais. Desse modo, o mais recomendável seria a reunião dessas ações a fim de garantir, com
a tramitação e o julgamento conjuntos, a prolação de decisões harmônicas sobre a legitimidade
da situação jurídica afetada pelo CNJ.

Rodolfo Hartmann entende que a simples participação do MPF, como parte autora, não
tem o condão de deslocar o feito para a Justiça Federal. O fato do MPF ser parte autora não está
contemplado no art. 109 da CF.
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b) Justiça Estadual

A competência da justiça estadual é residual. Portanto, processa e julga a justiça estadual


por exclusão.

c) Hipóteses de delegação da competência da Justiça Federal em prol da Justiça Estadual

O art. 109, §3º, CF estabelece que serão processadas e julgadas na Justiça Estadual, no foro
do domicílio dos segurados ou beneficiários, as causas em que forem parte instituição de
previdência social e segurado, sempre que a comarca não seja sede de vara do juízo federal, e,
se verificada essa condição, a lei poderá permitir que outras causas sejam também processadas
e julgadas pela justiça estadual.

Trata-se de uma situação de excepcionalidade de delegação da competência da justiça


federal para a justiça estadual, trazida pela Constituição.

Neste caso, apesar da delegação, a matéria é federal, razão pela qual o recurso é de
competência do Tribunal Regional Federal.

Tramitando o processo na Justiça Estadual em razão da competência por delegação, a


intervenção de ente federal não acarreta a remessa dos autos ao juízo federal, considerando que
o juízo estadual nesse caso atua com competência federal delegada.

O juízo federal competente, ao receber os autos, decidirá sobre o pedido de intervenção


do ente federal. Após essa análise, de duas uma: acolhida a intervenção, a demanda prosseguirá
normalmente perante a vara federal. Rejeitada a intervenção, não haverá aplicação do art. 109, I,
da CF ao caso concreto, não se justificando a manutenção do processo perante a Justiça Federal,
que retornará à Justiça Estadual (art. 45, par. 3º, NCPC).

Aqui, há a consagração legislativa da Súmula 224 do STJ, a qual estabelece que, excluído
do feito o ente federal, cuja presença levara o juiz estadual a declinar da competência, deve o juiz
federal restituir os autos e não suscitar conflito.

O STF, por meio da Súmula 689, estabeleceu que o segurado pode ajuizar ação contra a
instituição previdenciária perante o juízo federal do seu domicílio ou nas varas federais da capital
do estado-membro. Veja, o segurado pode optar por estes foros.

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d) Exceções em que o pedido de ingresso de ente federal não acarreta a remessa dos
mesmos ao Juízo Federal

Há, todavia, exceções, ou seja, hipóteses em que o pedido de ingresso de ente federal nos
autos não acarreta a remessa dos mesmos ao Juízo Federal. São elas:

• Ações de recuperação judicial, falência, insolvência civil e acidente de trabalho;

• Ações sujeitas à justiça eleitoral e à justiça do trabalho.

O NCPC regulou, ademais, como o juiz deve proceder quando há cumulação de pedidos e
não possui competência para um ou alguns dos pedidos.

Embora os parágrafos 1º e 2º digam respeito à Justiça Federal, aplicam-se a qualquer caso


em que haja cumulação de pedidos e o juízo não seja competente para apreciar todos eles
(posição de Fredie Didier Jr.).

Se houver pedido cuja competência seja do juízo e pedido cuja competência seja da Justiça
Federal, o juiz deve inadmitir a cumulação e apreciar apenas o pedido para o qual seja
competente. O juiz não vai remeter os autos ao juízo competente. A parte que formule o pedido
perante o juízo competente.

Competência absoluta, relativa e concorrente

Competência absoluta:

A competência do órgão jurisdicional denota a existência de um motivo de ordem


pública. Consequentemente, não pode ser afastada pela vontade das partes.

Além disso, é possível que o magistrado conheça de ofício, a qualquer momento, até que
não tenha proferido a sua sentença. O Tribunal também poderá conhecer da
incompetência absoluta, independentemente de provocação das partes.

O vício da competência absoluta é tão grave que só é admitida a sua convalidação após
coisa soberanamente julgada. Isto é, apenas com o decurso do prazo decadencial de 2
anos para ação rescisória é que haveria a coisa soberanamente julgada, situação na qual
estaria convalidado o vício da incompetência absoluta.

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A incompetência absoluta pode ser conhecida pelo magistrado de ofício, enquanto não
prolata a decisão, ou pelo Tribunal.

• Competência relativa:

A competência é relativa, pois permite que a vontade dos interessados possa influenciar
na sua fixação. Os interessados, conforme art. 63 do CPC, podem modificar a
competência em razão do valor e em razão do território. A partir de então elegerão um
foro para julgar os interesses e obrigações ali firmadas. Trata-se da cláusula de eleição de
foro.

Vale lembrar que é vedado o juiz reconhecer de ofício incompetência relativa sem
provocação das partes.

Para alegação, o réu, quando da sua contestação, alegará a incompetência relativa em


sede de preliminar. O NCPC mudou, não havendo mais exceção de incompetência
relativa. Caso não o faça, haverá prorrogação da competência.

Nos casos em que o MP atua como fiscal da lei, é possível que o MP também levante a
incompetência relativa, devendo fazer no primeiro momento em que se manifestar nos
autos.

• Competência concorrente:

A competência concorrente se dá quando há dois juízos competentes. Por vezes a CF ou


outro ato normativo permitirá que a escolha do juízo se dê pelo demandante.

Ex.: art. 109, §2º, da CF, estabelece que as causas intentadas contra a União podem ser
aforadas no foro de domicílio do autor, onde houver ocorrido o ato, onde está situada a
coisa, ou ainda no distrito federal.

No CPC, art. 53, V, estabelece que há permissão para que o demandante proponha ação
que busque a reparação de dano em razão de dano sofrido ou em razão de delito ou
acidente de veículos, inclusive aeronaves. Neste caso, poderá propor ação no seu
domicílio ou no foro do local do evento. Com isso, percebe-se a existência de
competência concorrente.

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O art. 516, parágrafo único, do CPC, autoriza, no início da etapa de cumprimento de
sentença, que o exequente venha a promover a etapa de execução tanto no juízo em que
foi proferida a sentença quanto no foro do domicílio do executado, ou até mesmo no
foro em que o executado possua bens. Há aqui uma pluralidade de foros competentes.

Regras pormenorizadas sobre competência

Demandas fundadas em direito pessoal ou em direito real sobre móveis, a competência,


via de regra, é o domicílio do réu.

Se a ação é fundada em direito real sobre imóveis, o competente é o foro da situação da


coisa.

Mas o autor poderá optar por ajuizar o feito no foro de domicílio do réu ou mesmo um
foro de eleição, desde que o litígio não recaia sobre direito de propriedade, vizinhança,
servidão, divisão e demarcação de terras e de nunciação de obra nova.

Ação possessória imobiliária deverá ser proposta no foro do domicílio da coisa. Neste
caso, o foro terá competência absoluta.

No caso de inventário, a partilha, a arrecadação, o cumprimento de disposições de última


vontade, a impugnação ou anulação de partilha extrajudicial e para todas as ações em que o
espólio for réu, será competente o foro do domicílio do autor da herança, ainda que o óbito
tenha ocorrido no estrangeiro.

Na ação em que o ausente for réu, será competente o foro do seu último domicílio.

Na ação em que o incapaz for réu será proposta no foro de domicílio de seu representante
ou assistente.

O NCPC não mais consagra o foro privilegiado na mulher. O art. 53, I, estabelece que é
competente o foro para a ação de divórcio, separação, anulação de casamento e reconhecimento
ou dissolução de união estável será o do domicílio do guardião de filho incapaz.

Não havendo filho incapaz, será competente o último domicílio do casal. Se nenhuma
das partes mais residir no antigo domicílio do casal, será competente o foro de domicílio do réu.

Lembrando que, como regra, a incompetência relativa não pode ser reconhecida pelo juiz
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de ofício. No entanto, há um caso em que será possível o seu reconhecimento, desde que se trate
de cláusula abusiva de eleição de foro, situação na qual o juiz poderá reconhecê-la de ofício,
desde que o faça antes da citação do réu. Ou seja, após a citação, o juiz não mais poderá
reconhecê-la de ofício.

Feita a citação, quem deverá alegar em preliminar de contestação será o réu, sobre a
abusividade da eleição de foro.

Competência do juízo regional

Alguns Estados têm criados juízos pulverizados, espalhados pela cidade.

Estes juízos regionais são criados para gerar maior facilidade ao demandante com relação
ao acesso à justiça. E portanto, dá força normativa ao princípio da inafastabilidade do Poder
Judiciário.

Na opinião de Rodolfo Hartmann, não poderia o demandante deixar de ajuizar no seu


próprio foro regional para ajuizar num foro regional de outra região da cidade ou no foro central.
Isso porque a competência do juízo regional é absoluta, pois visa atender a um objetivo de ordem
pública.

Majoritariamente, a competência é territorial e nada impede que seja ajuizado num foro
regional diverso do que é o domicílio do demandante.

Causas de modificação da competência

a) Continência

Continência ocorre quando há duas ou mais ações, em que há identidade de partes, causa
de pedir e o objeto de uma é mais amplo do que o objeto da outra. Em outras palavras, uma
ação maior (demanda continente) contém uma ação menor (demanda contida).

Há basicamente uma tríplice identidade da ação:

• Partes

• Pedido

Causa de pedir.
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Na verdade, o pedido não é idêntico, mas um deles abarca o da outra ação. Diante de uma
situação de continência, o juízo do feito vai determinar a reunião dos feitos. O juízo prevento
será aquele em que a primeira ação tiver sido distribuída ou simplesmente registrada.

Quando houver continência e a ação continente (objeto maior) tiver sido proposta
anteriormente à demanda contida, será proferida sentença sem resolução de mérito no
processo em que corre a ação contida (objeto menor). Por outro lado, caso a ação continente
tenha sido proposta posteriormente à ação contida, as ações serão necessariamente reunidas.

b) Conexão

Conexão ocorre quando há duas ou mais ações, tendo entre elas um objeto comum ou a
causa de pedir comum.

A conexão terá estes elementos em comum, baseando-se na teoria da tríplice identidade


(partes, pedido e causa de pedir), a fim de estabelecer situações em que existe conexão.

Mas esta teoria se mostra insuficiente, de maneira que é recomendável aplicar em


determinadas situações não a teoria da tríplice identidade. Diante disso, seria interessante adotar
a teoria da identidade da relação jurídica. A ideia da conexão e da continência é evitar que haja
julgamentos contraditórios dentro do Poder Judiciário.

Rodolfo Hartmann cita um caso da ação de despejo e da ação em consignação de


pagamento dos alugueres. Neste caso, a ação de despejo não tem mesmo pedido e nem causa de
pedir com a ação de consignação de pagamento. Cabe ressaltar que a relação jurídica é a mesma,
motivo pelo qual o feito deve ser reunido para evitar julgamentos contraditórios.

Outro caso em que se reconhece a conexão é aquele em que quando a reunião dos feitos
é recomendável para facilitar a instrução processual. É a denominada conexão probatória. Ex.:
vários processos estão discutindo um dano ambiental, requerendo prova pericial complexa. Trata-
se da denominada conexão probatória.

O CPC recomenda que em situações como essa, os juízos envolvidos realizarão uma
cooperação nacional.

Ocorre conexão quando um dos processos já tiver sido sentenciado?

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Por exemplo, o processo foi sentenciado e a parte sucumbente recorreu. Neste caso, não
mais será possível a conexão, conforme Súmula 235 do STJ: a conexão não determina a reunião
dos processos, caso um deles já tenha sido julgado.

O tema passou a ser tratado no art. 55, §1º, do NCPC, estabelecendo que os processos de
ações conexas serão reunidos para decisão conjunta, salvo se um deles já houver sido
sentenciado.

Existe conexão entre processo de conhecimento e processo de execução?

Via de regra, não. Não parece técnico promover a conexão, eis que não existe risco de
julgamentos contraditórios entre processo de conhecimento e processo de execução.

É possível conexão entre processo de conhecimento e embargos à execução. Mas os


embargos de execução têm natureza cognitiva e não executiva, motivo pelo qual seria possível.

Ocorre que muitas vezes a reunião entre processo de conhecimento e processo de


execução acaba sendo recomendável. Isso porque um pode gerar reflexo no outro. Ex.: demanda
que está executando um título cambial, mas há uma sentença em outro processo que reconhece
a nulidade do título. Neste caso, o exequente perderá o título executivo extrajudicial que ele tinha.

O CPC passou a prever expressamente a possibilidade de conexão entre processo de


conhecimento e processo de execução, devendo os feitos serem reunidos no mesmo juízo,
conforme art. 55, §2º, I. Da mesma foram, o CPC passou a prever a possibilidade de conexão às
execuções fundadas no mesmo título executivo.

Conexão pode ocorrer em situação em que cuidam de incompetência relativa ou também


em situações em que há ou que possam gerar incompetência absoluta?

Com relação à incompetência relativa, é uma forma de prorrogação da competência.

Em caso de incompetência absoluta, deverá ser reunido os feitos? Em caso de


incompetência absoluta, sendo um absolutamente competente para o feito A e outro é
absolutamente competente para o feito B, mas o competente para o feito B é absolutamente
incompetente para o feito A, assim como o competente para o feito A é absolutamente
incompetente para o feito B.

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Neste caso, cada processo continua tramitar perante o próprio juízo em que se encontra,
podendo um deles ficar suspenso pelo prazo de 1 ano, enquanto aguarda a conclusão do outro
processo, desde que seja uma questão prejudicial externa ou questão prejudicial heterogênea.

Ou seja, o que é importante perceber é que não haverá conexão entre processo que
tramita na Justiça Federal e na Justiça Estadual, desde que seja o caso de competência absoluta.
Ex.: não é possível reunir na vara cível o julgamento do feito criminal que guarda conexão com o
feito cível.

c) Conflito de competência

Conflito ocorre quando um juízo não concorda com o outro juízo.

O conflito de competência é um incidente, tramitando exclusivamente em tribunais, tendo


como objetivo definir qual é o órgão competente para processar e julgar determinado processo.

Com isso, haverá vários conflitos de competência: positivo ou negativo.

A competência para julgar conflito de competência dependerá dos órgãos envolvidos:

• STF será competente quando o conflito envolver o STJ e quaisquer Tribunais, ou quando
o conflito envolver Tribunais Superiores.

• STJ será competente quando o conflito envolver Tribunais, desde que o caso não seja de
competência do STF, além de apreciar conflitos entre juízes e Tribunais, desde que os
juízes não sejam vinculados àqueles Tribunais.

• Tribunais de Justiça e Regionais Federais julgam conflitos que envolvem juízos que lhe
sejam vinculados.

O conflito pode ser positivo ou negativo:

Conflito positivo: ocorre quando mais de um órgão se diz competente.

Conflito negativo: ocorre quando nenhum dos órgãos se diz competente.

O conflito pode ser instaurado entre dois ou mais juízos quando surge controvérsia acerca
da reunião ou separação dos processos. Ex.: um dos juízos pede o processo alegando que é caso
de conexão, mas o outro não entrega sustentando que não é o caso.
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Este incidente do conflito de competência pode ser deflagrado por qualquer das partes
que integra o processo, inclusive pelo Ministério Público, e ainda o próprio magistrado pode
suscitar.

O CPC estabelece que este incidente não pode ser suscitado pela parte que
anteriormente tiver arguido incompetência relativa em sede de preliminar de contestação,
conforme at. 952.

Rodolfo Hartmann critica o NCPC neste ponto.

O conflito é suscitado perante a presidência do Tribunal, e após a distribuição, o Relator


manda ouvir os juízes em conflito, ou apenas o juízo suscitado, se o outro foi quem suscitou.

Durante o processamento do incidente, o Relator de ofício ou a requerimento de qualquer


das partes, poderá determinar que seja sobrestado o processo, ou mesmo designar que um dos
órgãos judiciais envolvidos seja competente para apreciar medidas urgentes que possam a vir a
ser pedidas no processo.

Se houver Súmula do STJ ou do STF sobre aquele tema que foi objeto de conflito, ou
mesmo se já tiver sido decidido o tema numa tese de incidente de recurso repetitivo, poderá o
Relator de plano decidir o conflito de competência.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Processo – Pressupostos processuais – Sujeitos processuais

Processo

Conceito

Processo é um instrumento por meio do qual o Estado exerce a sua atividade


jurisdicional.

Internamente, este processo é composto por uma sequência de atos processuais, tendo
como objetivo obter-se uma tutela jurisdicional.

Natureza jurídica

Discussão que existe é sobre a natureza jurídica do processo.

Existem diversas teorias que tentam explicar a natureza jurídica do processo.

No começo, o processo não tinha autonomia. E por isso seria apenas um procedimento,
com uma série de atos ordenados.

Após, o processo passou a ser vislumbrado como um contrato, em que as partes estariam
de comum acordo afastando as suas vontades para que a vontade de um juiz desse solução ao
litígio.

A tese de que o processo seria um contrato acabou não prevalecendo, eis que o processo
tem caráter público e o contrato tem caráter privado. Segundo, percebeu-se que o demandado
não participa do processo porque livremente escolheu participar. Terceiro, não existe ajuste de
vontade entre as partes estabelecendo que outra pessoa diga qual é a solução do litígio.

Em razão da ausência de vontade entre as partes, tentou-se dizer que o processo seria um
quase-contrato. Mas isto também foi superado.

Em seguida, foi criada a teoria segundo a qual o processo tem a natureza de uma relação
jurídica, criada por Oskar Von Büllow. Esta é a teoria que predomina.

A partir dessa teoria, reconhece-se a autonomia desse ramo do direito. Segundo esta
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teoria, o processo deve ser compreendido como um conjunto de atos, coordenados, o qual
adquire uma dupla noção, externamente é um procedimento, mas internamente é uma relação
de direitos e obrigações que vincula mutuamente as partes e o juiz, dando ensejo a uma relação
jurídica processual. Portanto, processo seria uma relação jurídica processual. Esta relação jurídica
se perfaz independentemente da relação jurídica de direito material, que é outra relação.

Professor Cândido Rangel Dinamarco estabelece que o processo é um procedimento


animado por uma relação jurídica processual.

Portanto, predomina que processo tem natureza jurídica de relação jurídica processual.

Pressupostos processuais

O NCPC, no art. 485, estabelece que o processo deve ser extinto sem resolução do mérito
quando ausente os pressupostos processuais.

Conjunto de exigências para que um processo exista, e uma vez existindo seja válido, por
meio de um desenvolvimento regular. Podemos dividir os pressupostos entre pressupostos de
existência e de validade. Só posso discutir os pressupostos de validade de um ato se ele existe, de
forma que eu nem examino a validade de um processo se ele não existe. O processo pode até ser
nulo, mas para ele ser nulo ele tem de ser existente. Alguns autores não gostam da expressão
pressupostos processuais de validade, falando em requisitos de validade. Não tem diferença
alguma. O processo é, a um só tempo, um conjunto de atos e um ato. Os atos do processo compõem
um processo e o processo também é ato, ato complexo. Os pressupostos processuais são
pressupostos do processo e não de cada um de seus atos. Há pressuposto de cada ato do processo,
que não se confundem com os pressupostos processuais aqui estudados. Ex.: a exigência de
motivação da sentença é um pressuposto de validade da sentença e não do processo. A
competência do juiz é um pressuposto do processo todo.

a) Pressupostos processuais de existência

As leis processuais não estabelecem um rol de quais seriam os pressupostos processuais


de existência. Mas de forma geral, para que um processo tenha existência jurídica, exige-se que o
processo:

• Tenha sido instaurado perante um órgão jurisdicional


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• Tenha partes

• Haja uma demanda.

b) Pressupostos processuais de validade ou de desenvolvimento

Os pressupostos processuais de validade ou de desenvolvimento também não estão


relacionados na lei, também sendo objeto de crítica em relação a sua nomenclatura.

Fredie Didier Jr. estabelece que não deveriam ser denominado pressupostos processuais
de validade, pois pressuposto pressupõe a existência do ato. Na verdade, o termo correto deveria
ser requisito de validade, e não pressuposto de validade.

No Direito Civil, para existir um contrato é preciso de partes, objeto, vontade e de forma.
Mas para ser válido, as partes devem ser capazes, a vontade deve ser livre, o objeto deve ser lícito,
determinado ou determinável, e a forma pode ser prescrita ou não defesa em lei.

No Direito Processual Civil ocorre a mesma coisa, ou seja, nos pressupostos processuais
de validade exige-se que existam:

• Órgão jurisdicional Competente (Órgão Jurisdicional)

• Partes capazes (Partes)

• Demanda regular (Demanda)

Para a demanda ser regular, é preciso que ela se inicie com uma petição inicial que se
observe os requisitos legais.

i. Capacidade processual

A capacidade processual é gênero, do qual são espécies: capacidade de ser parte,


capacidade de estar em juízo e capacidade postulatória.

Só existirá capacidade processual quando existir as três espécies conjuntamente.

• Capacidade de ser parte:

É muito semelhante à capacidade de direito. É a aptidão de a pessoa ser titular de uma


relação jurídica processual.

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No processo civil, há esta possibilidade de ser partes atribuída a entes despersonalizados,
como por exemplo o condomínio, massa falida, sociedade de fato, etc.

• Capacidade de estar em juízo:

Também se assemelha à capacidade de fato, ou seja, a capacidade de exercer o seu


direito. Ex.: o lesado tinha 16 anos de idade. Só poderá estar em juízo por meio de seu
assistente, a fim de suprir sua capacidade de estar em juízo.

É a aptidão para praticar os atos processuais sozinho, independentemente de


representante. Não se confunde com capacidade de ser parte, que é pressuposto de
existência. Também é reconhecida como capacidade para estar em juízo, legitimação
para o processo.

A capacidade processual está para o processo, como a capacidade de exercício está para
o direito civil. Tem capacidade processual quem tem capacidade civil. Essa é a regra. Pode
haver exceções. É possível que o sujeito tenha capacidade civil e não tenha capacidade
processual (incapacidade puramente processual). Ex.:pessoa casada tem capacidade civil,
mas em alguns casos não tem capacidade processual. Podemos identificar também quem
não tem capacidade civil e tem a capacidade processual (incapacidade material e
capacidade processual plena). Ex. sujeito com 17 anos, sendo eleitor, pode propor ação
popular.

• Capacidade postulatória:

É a aptidão de se dirigir, seja por meio de petição ou oralmente, diretamente ao juiz.


Quem detém é o advogado, membro do Ministério Público, Defensor Público.

Eventualmente é possível que a capacidade postulatória seja outorgada diretamente à


parte. Isto ocorre nos Juizados Especiais, nos casos de demandas com até 20 salários
mínimos. Para interpor recursos, deverá ter advogado.

Pressupostos processuais negativos

Pressupostos processuais negativos são aqueles que não podem estar presentes, estando
no art. 485, V, NCPC:

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• Litispendência

• Coisa julgada

• Perempção:

É uma sanção aplicada à pessoa que exercer abusivamente o seu direito de ação.

A parte deixou, por 3 vezes, de cumprir as condições da ação, seja por negligência ou por
abandono.

V. Espécies de processo

O processo poderá ser:

• Processo de conhecimento: busca-se a tutela satisfativa, devendo comprovar o fato


alegado.

• Processo cautelar: o interessado afirmará um fato e o demandado tem a chance de


apresentar a sua defesa, sendo possível a sua dilação probatória. A diferença é que no
processo cautelar não há uma tutela satisfativa, e sim uma tutela cautelar, visando
assegurar a tutela de um outro processo. É um instrumento do instrumento.

O CPC não trouxe um livro para cuidar do processo cautelar autônomo, e isto indica que
esta espécie no processo autônomo não mais existe. O outro indicativo foi o de que o
NCPC trouxe providências cautelares concedidas no bojo de um processo principal. Tem-
se aqui a ideia de que as medidas cautelares devem ser em regra concedidas não em
processo autônomo, mas no bojo de um processo principal.

O CPC manteve a cautelar autônoma de produção antecipada de provas.

• Processo de execução: há atuação jurisdicional que busca adotar as medidas para


satisfação de um direito, e não para satisfazer um direito que já foi comprovado e
reconhecido. Não há necessidade de prova.

Atualmente fala-se em processo sincrético. Isso porque no mesmo processo há finalidade


cognitiva, cautelar e executiva.

Causas de suspensão do processo


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Suspensão de um processo é uma situação temporária. Enquanto o processo estiver
suspenso, não poderão ser praticados atos processuais, salvo os atos processuais urgentes.

Mesmo que processuais urgentes, se houver alegação de impedimento ou suspeição, não


poderá o juiz praticar estes atos, em razão de não ter imparcialidade suficiente.

É muito comum que se distinga suspensão própria da suspensão imprópria:

• Suspensão própria: há a paralisação total do processo. Por exemplo, no bojo de uma ação
rescisória é concedida uma tutela para suspender uma execução que já estava em curso.
Esta suspensão é própria, pois foi suspenso todo o processo.

• Suspensão imprópria: há a paralisação de parte do processo. Por exemplo, ao arguir


impedimento ou a suspeição de um juiz, o processo será suspenso, mas o incidente
continuará tramitando, ainda que a outra parte do processo esteja suspensa.

O rol das hipóteses de suspensão não é exaustivo, mas deverá ser suspenso quando:

• Morte ou perda da capacidade processual de qualquer das partes, do seu representante


legal ou do seu procurador.

• Convenção das partes, não podendo exceder a 6 meses

• Arguição de impedimento ou suspeição do magistrado

• Incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR)

• Questão prejudicial a ser dirimida em outro processo, não podendo ser superior a 1 ano

• Motivo de força maior

• Possibilidade de suspensão por qualquer outra razão prevista no CPC (ex.: ação rescisória
em que foi concedida uma tutela provisória para suspender uma execução que estava em
curso)

Sujeitos processuais

I. Magistrado

A função de distribuir justiça é quase divina, pois se faz justiça na vida do outro. Para tanto,
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é necessário que seja imparcial. A imparcialidade é indissociável da figura do juiz.

A imparcialidade não se confunde com neutralidade. A verdade é neutralidade é utopia,


pois pressupõe um distanciamento absoluto do caso apresentado. É a ausência de memória e de
envolvimento.

O juiz traz consigo a sua história de vida e aquilo que vivenciou. E isto faz com que ele não
tenha um comportamento neutro diante de certas situações.

Portanto, neutralidade não existe.

O que existe, na verdade, é imparcialidade. No Direito, basta que o juiz seja imparcial.

E para que seja imparcial é preciso que não seja suspeito, não esteja impedido e não seja
caso de incompatibilidade.

a) Impedimento e suspeição do magistrado e formas de arguição

i. Impedimento

As hipóteses de impedimento trazem uma presunção absoluta de parcialidade. É uma


presunção iure et iure, podendo ser conhecida e alegada a qualquer momento, podendo inclusive
após o trânsito em julgado ser alegado, por meio de ação rescisória.

São causas de impedimento, aferíveis objetivamente, sendo vedado o juiz exercer suas
funções no processo:

• Está impedido o juiz que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito,
funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como
testemunha;

• Está impedido o juiz atuou em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão;

• Está impedido o juiz, quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado
ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente,
consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o 3º grau, inclusive;

• Está impedido o juiz, quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou
companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o
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50
terceiro grau, inclusive;

• Está impedido o juiz, quando for sócio ou membro de direção ou de administração de


pessoa jurídica parte no processo;

• Está impedido o juiz, quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de


qualquer das partes;

• Está impedido o juiz nos casos em que figure como parte instituição de ensino com a
qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços;

• Está impedido o juiz nos casos em que figure como parte cliente do escritório de
advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha
reta ou colateral, até o 3º grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de
outro escritório;

• Está impedido o juiz quando promover ação contra a parte ou seu advogado.

Em relação ao impedimento, percebe que são causas objetivas, e está resolvido. A


presunção é absoluta de parcialidade.

O impedimento previsto no inciso III também se verifica no caso de mandato conferido a


membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros advogado que individualmente
ostente a condição nele prevista, mesmo que não intervenha diretamente no processo.

ii. Suspeição

No caso de suspeição, há uma presunção relativa de parcialidade, devendo ser alegada


por petição, no prazo de 15 dias, contados do momento em que se tem ciência da suspeição.

Segundo o CPC, são casos de suspeição do juiz:

• Será considerado suspeito o juiz quando é amigo íntimo ou inimigo de qualquer das
partes ou de seus advogados;

• Será considerado suspeito o juiz que receber presentes de pessoas que tiverem
interesse na causa antes ou depois de iniciado o processo, que aconselhar alguma das
partes acerca do objeto da causa ou que subministrar meios para atender às despesas

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51
do litígio;

• Será considerado suspeito o juiz quando qualquer das partes for sua credora ou
devedora, de seu cônjuge ou companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o
terceiro grau, inclusive;

• Será considerado suspeito o juiz interessado no julgamento do processo em favor de


qualquer das partes.

• Poderá o juiz declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo, sem necessidade de
declarar suas razões.

O STJ decidiu que a autodeclaração de suspeição realizada por magistrado em virtude de


motivo superveniente não importa em nulidade dos atos processuais praticados em momento
anterior ao fato ensejador da suspeição.

iii. Formas de arguição de impedimento e suspeição

Tanto o demandante quanto o demandado podem arguir impedimento ou suspeição,


apresentando, em qualquer caso, uma petição ao órgão jurisdicional, da qual conste os motivos
da parcialidade do juiz, instruindo com as documentações que entenderem necessárias.

A partir de então será sobrestado o feito. O magistrado irá analisar a petição, podendo
reconhecer a sua parcialidade.

Caso reconheça, o processo continuará tramitando na mesma vara, e no mesmo órgão,


mas quem atuará no restante do processamento do feito será o juiz tabelar.

Por outro lado, caso o juiz não se considere impedido ou suspeito, deverá determinar a
atuação da peça em apenso, e no prazo de 15 dias apresentará as suas razões, e eventualmente
documentos e rol de testemunhas, encaminhando os autos ao Tribunal.

Se o Tribunal entender que o magistrado era parcial, os autos serão remetidos ao juiz
tabelar. Nesta hipótese, o magistrado, que era parcial, será condenado ao pagamento das custas
processuais.

Caso o Tribunal entenda pela imparcialidade do magistrado, o processo continua.

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52
O STF entende que não é possível oferecer arguição de impedimento ou de suspeição em
processo de fiscalização concentrada de constitucionalidade. Neste caso, o impedimento e
suspeição são típicos de processos subjetivos em que há partes. Na fiscalização concentrada de
constitucionalidade, a fiscalização recair sobre o caráter objetivo da demanda. E portanto não
caberia arguição de impedimento ou de suspeição.

As hipóteses de impedimento e suspeição são plenamente aplicáveis aos demais sujeitos


do processo:

• Ministério Público

• Auxiliares da justiça

• Conciliador

• Mediador

Existem algumas diferenças. O competente para decidir se o caso apresenta impedimento


ou suspeição será o magistrado de 1ª instância, salvo se se tratar de membro do Ministério
Público.

Outra diferença é de que não há efeito suspensivo neste caso.

b) Poderes e deveres do magistrado

O magistrado, como um dos personagens do processo, terá poderes, mas também terá
deveres:

• Poder de polícia na condução de audiência

• Poder de iniciativa probatória de ofício

Os deveres do magistrado estão espalhados, mas também é possível extrair alguns do art.
139:

• Assegurar às partes igualdade de tratamento;

• Velar pela duração razoável do processo;

• Prevenir ou reprimir qualquer ato contrário à dignidade da justiça e indeferir


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53
postulações meramente protelatórias;

• Determinar todas as medidas indutivas, coercitivas, mandamentais ou sub-rogatórias


necessárias para assegurar o cumprimento de ordem judicial, inclusive nas ações que
tenham por objeto prestação pecuniária;

• Promover, a qualquer tempo, a autocomposição, preferencialmente com auxílio de


conciliadores e mediadores judiciais;

• Dilatar os prazos processuais e alterar a ordem de produção dos meios de prova,


adequando-os às necessidades do conflito de modo a conferir maior efetividade à tutela
do direito;

• Exercer o poder de polícia, requisitando, quando necessário, força policial, além da


segurança interna dos fóruns e tribunais;

• Determinar, a qualquer tempo, o comparecimento pessoal das partes, para inquiri-las


sobre os fatos da causa, hipótese em que não incidirá a pena de confesso;

• Determinar o suprimento de pressupostos processuais e o saneamento de outros vícios


processuais;

• Quando se deparar com diversas demandas individuais repetitivas, oficiar o Ministério


Público, a Defensoria Pública e, na medida do possível, outros legitimados a que se
referem o art. 5o da Lei no 7.347, de 24 de julho de 1985, e o art. 82 da Lei n o 8.078, de
11 de setembro de 1990, para, se for o caso, promover a propositura da ação coletiva
respectiva.

O juiz também deverá prestar uma tutela jurisdicional eficiente, de modo que deverá
proferir sentença no prazo de 30 dias úteis, sendo possível dobrar este prazo (60 dias úteis), se
houver motivo justificável. Trata-se de prazo impróprio.

A dilação de prazos somente pode ser determinada antes de encerrado o prazo regular.

Convencendo-se de que autor e réu se utilizaram do processo para praticar ato simulado
ou conseguir fim vedado por lei, o juiz proferirá decisão que impeça os objetivos das partes,
aplicando, de ofício, as penalidades da litigância de má-fé.
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54
O juiz responderá, civil e regressivamente, por perdas e danos quando:

• No exercício de suas funções, proceder com dolo ou fraude;

• Recusar, omitir ou retardar, sem justo motivo, providência que deva ordenar de ofício
ou a requerimento da parte.

No caso da providência que deva agir de ofício ou a requerimento da parte, somente serão
verificadas se a providência ou o requerimento não for apreciado no prazo de 10 dias.

II. Partes principais e partes secundárias

É comum estabelecer esta distinção.

• Parte principal:

É quem deduz a petição e em face de quem essa petição é deduzida. Então, é parte
principal o demandante e demandado.

Como regra, apenas demandante e demandado serão atingidos pelos efeitos da coisa
julgada (art. 506).

• Parte secundária:

São sujeitos que participam secundariamente do processo, podendo formular


requerimentos, interpor recursos e mesmo ser intimados para o exercício do
contraditório, mas em relação a eles não é feita, em tese, coisa julgada.

Há o assistente simples, Ministério Público, quando atua como fiscal da lei.

III. Sucessão processual

Sucessão processual nada mais é do que a exclusão de uma das partes para ingresso de
outra. Uma das partes primitivas sai, advindo outro sujeito que vai ocupar este lugar, sucedendo-
lhe.

Esta sucessão poderá ocorrer tanto no polo ativo como no polo passivo, tanto em causa
mortis como em ato inter vivos.

Ex.: falece o demandante, assume o polo ativo o espólio, e posteriormente os herdeiros

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

55
que venham sucedê-lo processualmente.

No ato inter vivos, nada impede que no processo de conhecimento, o demandante venha
a transferir direito litigioso a terceiro. Neste caso, a legitimidade das partes não será alterada.

Cabe ressaltar que existe norma que autorize em caráter excepcional que haja a sucessão
processual, caso haja anuência da parte contrária. Neste caso, é possível que o sujeito que
transferiu o direito seja excluído da relação jurídico-processual, e ingresse no feito de quem
adquiriu o direito litigioso. Neste caso, haveria uma sucessão processual por ato inter vivos.

IV. Substituição processual

Substituição processual é conhecida como legitimação extraordinária. Aqui, alguém


pleiteia em nome próprio direito alheio.

O substituto processual é parte principal, não sendo procurador. A sua legitimidade


decorre de lei. O substituído não necessariamente participa do processo, mas a coisa julgada
também vincula o substituído. Ex.: Ministério Público quando atua na defesa de direitos
individuais homogêneos.

V. Gratuidade de justiça

A inafastabilidade do judiciário é uma garantia constitucional, assim como a prestação da


assistência jurídica e integral a quem comprovadamente dela necessitar.

O CPC estabelece que a gratuidade pode ser requerida tanto por pessoa física como por
pessoa jurídica.

O art. 98 diz que a gratuidade não afasta a responsabilidade do beneficiário pelas


despesas processuais e pelos honorários advocatícios decorrentes de sua sucumbência (§2º).
Mas, neste caso, a condenação tem a sua exigibilidade suspensa.

O prazo da suspensão será de 5 anos. Neste período, se houver alteração da situação


financeira, poderá executar os ônus sucumbenciais.

O mesmo dispositivo prevê que a gratuidade da justiça poderá ser para todos os atos do
processo, como também para alguns atos do processo.

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56
Poderá também ser o caso de gratuidade, ou mesmo de redução de despesas que devem
ser adiantadas, devendo o juiz analisar o caso concreto.

A gratuidade da justiça é instrumentalizada por meio de simples requerimento na petição


inicial, na contestação, ou mesmo por simples petição posterior, quando houver ingresso de
terceiro, ou numa alteração superveniente da situação econômica.

Conforme o caso, o juiz poderá conceder direito ao parcelamento de despesas


processuais que o beneficiário tiver de adiantar no curso do procedimento. No entanto, a
concessão de gratuidade não afasta o dever de o beneficiário pagar, ao final, as multas
processuais que lhe sejam impostas.

Segundo o STJ, é possível o deferimento de assistência judiciária gratuita a jurisdicionado


que tenha firmado com seu advogado contrato de honorários com cláusula ad exitum (ou quota
litis), sendo aquela na qual o advogado somente receberá os honorários contratuais se, ao final
da causa, esta for exitosa.

O juiz só pode indeferir o pleito de gratuidade da justiça se houver elementos nos autos
em sentido contrário. A lei cria uma presunção de veracidade de alegação de insuficiência
deduzida, em relação à pessoa natural especificamente. Há presunção da boa-fé.

De acordo com o NCPC, eventual questionamento contra a gratuidade da justiça concedida


ao autor deve ser apresentada pelo réu na sua contestação, ou na réplica, ou mesmo nas
contrarrazões de recurso, se o requerimento for superveniente.

O recurso para impugnar a decisão sobre a gratuidade da justiça é o agravo de


instrumento.

Ocorrendo a preclusão da decisão que indeferiu a gratuidade, caberá à parte recolher às


despesas pendentes, sob pena de extinção do processo sem resolução do mérito, caso seja o
autor. Ou então, sob pena de não poder ser deferida a prática de qualquer ato ou diligência se
quem requereu a gratuidade foi o demandado ou terceiro.

O STJ entende que é desnecessário o preparo do recurso cujo mérito discute o próprio
direito ao benefício da assistência judiciária gratuita. Assim, não se aplica a pena de deserção a
recurso interposto contra o indeferimento do pedido de justiça gratuita. Caso seja indeferido o
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

57
pleito em sede recursal, deve ser dada oportunidade de regularização do preparo.

O próprio CPC estabelece que, requerida a concessão de gratuidade da justiça em recurso,


o recorrente estará dispensado de comprovar o recolhimento do preparo, incumbindo ao relator,
neste caso, apreciar o requerimento e, se indeferi-lo, fixar prazo para realização do recolhimento.

Revogado o benefício, a parte arcará com as despesas processuais e pagará, em caso de


má-fé, até o décuplo de seu valor a título de multa, que será revertida em benefício da Fazenda
Pública estadual ou federal e poderá ser inscrita em dívida ativa.

Após o trânsito em julgado dessa decisão que revogou a gratuidade, a parte deverá efetuar
o recolhimento de todas as despesas no prazo fixado pelo juiz.

Se não recolher tais valores, o processo será extinto sem resolução de mérito, tratando-
se do autor, e, nos demais casos, não poderá ser deferida a realização de nenhum ato ou diligência
requerida pela parte enquanto não efetuado o depósito.

VI. Ministério Público e a sua atuação processual

O CPC, no art. 279, vai dizer que o processo é nulo, quando o MP não foi intimado para
acompanhar o feito que deveria intervir.

Rodolfo Hartmann promove os seguintes questionamentos:

A quem compete realizar o juízo de valor sobre se a hipótese é ou não é de intervenção do


MP?

A atuação do MP somente pode ocorrer quando houver interesse público envolvido, seja
em razão da lide envolvida ou das partes.

Se o membro do MP vislumbra um motivo autorizador da sua intervenção, cabe ao


membro do Parquet requerer o seu ingresso nos autos por simples petição, na condição
de fiscal da lei.

Pode ser que o magistrado indefira esta intervenção do MP, cabendo a ao juiz decidir.

Neste caso, caberá recurso para o Tribunal de Justiça. Veja, quem decide se há ou não
intervenção do Ministério Público é o próprio Poder Judiciário.

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58
• Se o membro do MP se recusa a atuar como fiscal da lei, qual é a posição do juiz?

Neste caso, basta fazer uma interpretação literal do CPC.

O CPC diz que há nulidade se o membro do Ministério Público não é intimado a se


manifestar no feito em que ele deveria participar. Ou seja, se o membro do MP foi
intimado, o processo não será considerado nulo. O juiz, neste caso, deverá determinar o
prosseguimento do feito, sem qualquer vício.

• A ausência de intimação do membro do MP na primeira instância, pode ser suprida pela


participação do MP que atue perante o Tribunal?

Neste caso, não está suprida a nulidade, sendo caso de nulidade absoluta.

Considerar-se-á o processo nulo desde o momento em que o membro do Ministério


Público de primeira instância deveria ter sido intimado, mas não foi.

Esta é a regra.

Excepcionalmente, a jurisprudência mantém, sem declarar a nulidade, desde que não


haja prejuízo às partes.

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59
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Litisconsórcio – Intervenção de terceiros

Litisconsórcio

I. Introdução e conceito

Litisconsórcio ocorre quando há consórcio na lide.

Ou seja, na mesma relação processual, há mais de um sujeito. Neste caso, deve-se observar
a norma que autoriza o litisconsórcio.

De acordo com o art. 113 do CPC, poderá haver litisconsórcio quando houver comunhão
de direitos, ou comunhão de obrigações, relativo a mesma relação jurídica.

Por exemplo, autor quer anular um contrato firmado com outras duas pessoas. Se o sujeito
alugou uma casa, a qual pertencia a duas pessoas (locatários), deverá o indivíduo ingressar o feito
contra os dois. Isso porque há uma única relação jurídica e uma comunhão de direitos deles e de
obrigações. Haverá um litisconsórcio passivo necessário.

Outra hipótese que autoriza o litisconsórcio se dá quando ocorre conexão, seja pelo
pedido ou pela causa de pedir.

Admite-se ainda o litisconsórcio em razão da afinidade de questões que, por um ponto


comum, de fato ou de direito, justifique o litisconsórcio. É o denominado litisconsórcio impróprio.
Ex.: motorista do ônibus freou, causando em Joana a quebra do dente e Maria a quebra de um
braço. Joana pode promover uma ação de danos morais e materiais e Maria também poderá
ingressar com a sua própria ação. No entanto, as duas poderão ingressar com a ação juntas. Veja,
há um ponto de fato em comum, justificando o litisconsórcio impróprio.

Veja, duas ou mais pessoas podem litigar, no mesmo processo, em conjunto, ativa ou
passivamente, quando:

• Entre elas houver comunhão de direitos ou de obrigações relativamente à lide;

• Entre as causas houver conexão pelo pedido ou pela causa de pedir;

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60
• Ocorrer afinidade de questões por ponto comum de fato ou de direito.

II. Classificação quanto ao polo processual

Quanto ao polo processual, o litisconsórcio pode ser:

Litisconsórcio ativo: quando há mais de um demandante no polo ativo.

Litisconsórcio passivo: quando há mais de uma parte no polo passivo.

Litisconsórcio misto: quando há mais de uma parte no polo ativo e no polo passivo.

III. Classificação quanto ao momento de formação

Quanto ao momento de formação, o litisconsórcio pode ser:

Litisconsórcio originário: quando o litisconsórcio é noticiado na própria petição inicial.

Litisconsórcio superveniente: forma-se após a instauração do processo. Ex.:


chamamento ao processo, em que o chamado passa a ser litisconsorte.

IV. Classificação quanto à obrigatoriedade de formação

Quanto à obrigatoriedade de formação, o litisconsórcio pode ser:

Litisconsórcio facultativo: o litisconsórcio é faculdade das partes.

Litisconsórcio necessário: o litisconsórcio é obrigatório, seja por imposição legal (ex.:


sujeito quer ver conhecida a usucapião do imóvel, mas a lei exige que no polo passivo
tenha que incluir os confinantes) seja porque a relação de direito material é incindível
(ex.: Ministério promove a ação, buscando a anulação do casamento, deverá propor a
ação em face dos dois cônjuges, pois a relação jurídica é incindível).

V. Classificação quanto à interdependência da atuação dos litisconsortes

Em regra, os litisconsortes atuarão no processo como partes distintas, de maneira que a


atuação de um ou de omissão de outro não gerará consequências para o outro. A regra é a
desvinculação, podendo o magistrado dar soluções diversas para as partes.

Neste caso, que é a regra, estamos diante de um litisconsórcio simples.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

61
Por outro lado, em determinadas situações, os atos praticados por litisconsortes vêm a
beneficiar o outro. Neste caso, o magistrado tem que dar uma decisão uniforme para ambos. Ou
seja, o litisconsorte é unitário, já que a solução deve ser a mesma para ambas as partes.

Quando o MP propõe a ação, visando anular determinado casamento, há um litisconsórcio


unitário no polo passivo, pois não se pode anular o casamento em face do cônjuge A e não anular
em face do cônjuge B.

O art. 345, I, autoriza que os fatos afirmados na contestação por um litisconsorte possam
aproveitar o outro litisconsorte. E aí, o fato apresentado por um litisconsorte irá aproveitar o
outro, afastando à revelia daquele que não apresentou resposta. Cabe ressaltar que o art. 345
trata de litisconsórcio geral, não se referindo especificamente ao litisconsórcio necessário.

Conclui-se, portanto, que, com base no art. 345, I, é possível, mesmo em caso de
litisconsórcio simples, que um ato levantado por um litisconsorte acabe aproveitando ao outro.
Ex.: um dos sujeitos afirma que o fato alegado pelo autor jamais aconteceu. Se isto se confirmar,
estará afastada revelia em relação ao outro, mesmo que não tenha apresentado contestação e se
trate de litisconsórcio simples.

Não se pode esquecer que os atos prejudiciais ao outro litisconsorte, como a confissão,
não se comunicam ao outro. Isto quer dizer que pode haver de uma situação beneficiar a outra,
mas não pode acontecer de uma conduta prejudicar o outro litisconsorte.

Via de regra, o litisconsórcio unitário também é necessário, já que está diante de uma
relação jurídica incindível. Da mesma forma, em regra, o litisconsórcio facultativo em regra é
simples.

Existem diversos exemplos que contrariam estas afirmações:

Litisconsórcio necessário simples: na ação de usucapião, os vizinhos devem figurar no


polo passivo. Há litisconsórcio necessário. Mas uma sentença de procedência do pedido
atingirá somente quem figura como proprietário do imóvel. O vizinho não será atingido.
Portanto, a sentença poderá atingir em relação a um, e atingir de efeitos diferentes em
relação a outro. Isso porque permite-se soluções distintas. Neste caso, o litisconsórcio
necessário será simples.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

62
Litisconsórcio facultativo unitário: é possível também que se tenha ao mesmo tempo
um litisconsórcio ativo facultativo e unitário. Os sujeitos podem ingressar juntos ou não.
Ingressando juntos, o resultado será o mesmo para eles. Ex.: dois acionistas tentarão
anular uma determinada assembleia de um S/A, alegando que não havia quórum. Veja,
eles querem anular a assembleia. Poderiam eles ingressar autonomamente, ou seja, é
facultativo. No entanto, será litisconsórcio unitário, pois o resultado, que é o resultado
da anulação da assembleia só pode ser o mesmo. Ou se anula a assembleia ou a mantém.

VI. Litisconsórcio multitudinário (litisconsórcio recusável)

O litisconsórcio multitudinário, ou litisconsórcio recusável, pode ocorrer tanto na fase de


conhecimento, de liquidação, ou mesmo na fase de cumprimento de sentença.

Somente quando se tratar de litisconsórcio facultativo, não se podendo falar em


litisconsórcio multitudinário nos casos de litisconsórcio necessário.

Pelo litisconsórcio multitudinário há possibilidade de limitação do número de litisconsortes


em razão da excessiva quantidade de sujeitos que acarretam:

• Dificuldades para a defesa

• Dificuldades para a rápida solução do litígio

• Dificuldades para o cumprimento da sentença

Neste caso, poderá limitar o litisconsórcio, excluindo aqueles que ele considerar como
excessivos. O juiz poderá agir sem ser provocado, ou seja, de ofício.

O problema é que o litisconsórcio multitudinário acaba gerando consequências que não


são geradas adequadamente, pois existem dúvidas quanto ao tratamento que deve ser
empregado aos litisconsortes excessivos.

O entendimento prevalente é no sentido de que o magistrado deverá desmembrar os


litisconsortes, situação na qual já estará prevento para julgamento. Ex.: um processo contra a
Caixa com 50 mutuários. O juiz desmembra em 10 processos com 5 mutuários em cada um. O juiz
passa a ter 10 processos.

VII. Questões pontuais sobre litisconsórcio necessário e facultativo


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a) Possibilidade ou não da inclusão pelo magistrado de litisconsorte necessário ausente

É possível ou não que o magistrado inclua um litisconsórcio necessário que está ausente?

O juiz não pode ordenar a inclusão de litisconsorte necessário no processo, visto que uma
das características da jurisdição é a inércia.

O CPC vai dispor que a ausência de um litisconsorte necessário torna aquela sentença
nula, quando deveria ser uniformo em relação a todos que deveriam ter integrado o processo, ou
ineficaz, nos outros casos, apenas em relação a todos que não foram citados.

Se o juiz perceber que o caso é de litisconsórcio necessário, deverá determinar que a


petição inicial seja emendada.

Caso não emende, o processo será extinto. Segundo Luiz Fux, o processo será extinto em
razão da ausência de pressuposto processual válido para desenvolvimento do processo, qual
seja, a presença de litisconsortes necessários.

Para o professor Alexandre Câmara afirma que o processo deverá ser extinto por
ilegitimidade ad causam.

b) Litisconsórcio ativo necessário

Existe litisconsórcio ativo necessário?

Na verdade, não existe. Isso porque não se pode submeter o direito de alguém ingressar
em juízo à vontade de outra pessoa.

No caso em que marido e mulher devam estar em juízo, caso um dos dois não queira
ingressar em juízo, deverá o demandante inserir a outra parte no polo passivo junto com o réu da
ação.

Após a citação, a doutrina entende que o demandado pode se manifestar sobre a intenção
de trocar de polo, migrando para o polo ativo.

Veja, não há litisconsórcio ativo necessário.

c) Possibilidade ou não de admissão de um litisconsórcio ativo, superveniente e


facultativo
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É possível ou não admissão de um litisconsórcio ativo superveniente facultativo?

Há aqui um litisconsórcio ativo posterior à petição inicial, situação em que as partes


poderiam atuar em litisconsórcio ou não.

Esta hipótese também não é permitida. Isso porque se autorizar o litisconsórcio ativo
superveniente facultativo estaríamos entendendo que a parte poderia escolher o órgão
jurisdicional que ela gostaria de litigar. Neste caso, haveria violação ao princípio do juiz natural.

VIII. Tratamento processual reservado aos litisconsortes

O art. 87 do CPC estabelece que, concorrendo diversos autores ou diversos réus, os


vencidos respondem proporcionalmente pelas despesas e pelos honorários.

O art. 229 dobra os prazos processuais quando os litisconsortes tiverem procuradores


distintos, ou seja, patrocinados por procuradores distintos.

Observa-se que o CPC expressamente proibiu essa dobra do prazo quando os


litisconsortes tiverem advogados distintos, mas pertencentes ao mesmo escritório.

Ademais, a Súmula 641 do STF estabeleceu que não se conta em dobro o prazo para
recorrer quando um só dos litisconsortes tenha sucumbido.

O CPC estabelece que não haverá prazo maior quando apenas um dos demandados
apresentar defesa.

Quanto ao processo eletrônico, não se aplicam o prazo em dobro, ainda que se tratem de
advogados distintos.

Intervenção de terceiros

Conceito de terceiro

Terceiro é aquele que está no processo, que exerce poderes, tem deveres processuais, mas
não é parte, e nem pode ser considerado parte.

Modalidades

São modalidades de intervenção de terceiros nominadas no NCPC:

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• Assistente simples

• Assistente litisconsorcial

• Denunciação da lide

• Chamamento ao processo

• Incidente de desconsideração da personalidade jurídica

• Amicus curiae

• Recurso de terceiro

Observa-se que no Juizado Especial não se admite qualquer modalidade de intervenção


de terceiro, com exceção do incidente de desconsideração da personalidade jurídica.

Assistência simples

a) Introdução à assistência simples

É uma modalidade clássica de intervenção de terceiros.

Trata-se de uma modalidade voluntária de intervenção de terceiros. Para que ingresse, é


necessário que o terceiro demonstre interesse jurídico em auxiliar uma das partes.

O assistente simples age com legitimação extraordinária subordinada. Isso porque age em
nome próprio, defendendo direito alheio. É subordinada, pois, apesar de autônoma sua atuação,
estará subordinada àquilo que decidir o assistido.

A assistência simples pode ser autônoma, no caso do assistido ser revel. Em outras
palavras, sendo revel ou omisso o assistido, o assistente será considerado seu substituto
processual.

Mas via de regra é extraordinária e subordinada.

b) Requisitos

São requisitos da assistência simples:

Exista causa pendente

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• Procedimento autorize o ingresso do terceiro

Terceiro apresente interesse jurídico

c) Interesse jurídico

Haverá interesse jurídico quando a decisão a ser proferida no processo puder atingir de
alguma a situação pessoal do assistente, ou mesmo uma outra relação jurídica de direito
material da qual participa o assistente.

O exemplo típico é o do contrato de locação. Locador promove uma ação de despejo contra
o locatário, situação na qual o sublocatário terá interesse jurídico, apesar de não haver relação
jurídica entre locador e sublocatário. Há interesse jurídico do sublocatário, já que o resultado do
processo atingirá a relação jurídica entre locatário e sublocatário.

Nos casos em que a União pretender ingressar, o juiz de direito não poderá dizer se cabe
ou não o ingresso. Isso porque deverá o juiz determinar o declínio da competência em prol do
juízo federal, tal como a Súmula 150 do STJ (Compete à Justiça Federal decidir sobre a existência
de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da União, suas autarquias ou empresas
públicas). Na Justiça Federal, se decidir que não há interesse da União, devolverá os autos ao juízo
estadual, sem que este possa suscitar conflito.

Rodolfo Hartmann diz que interesses econômicos, afetivos, etc. não justificam assistência
simples.

Se qualquer parte alegar que falta ao requerente interesse jurídico para intervir, o juiz
decidirá o incidente, sem suspender o processo.

d) Procedimento para ingresso do assistente simples

O sujeito fará um requerimento para ingresso na condição de assistente simples, expondo


o interesse jurídico. O magistrado poderá indeferir liminarmente, mas não sendo o caso, intimará
as partes para que se manifestem sobre a assistência no prazo de 15 dias.

Após o decurso do prazo, o juiz decide se o caso é de assistência simples ou não, através
de decisão interlocutória. Dessa decisão interlocutória cabe agravo de instrumento.

A partir da admissão da assistência simples, o assistente passa a ser uma parte secundária,
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devendo ser intimado para todos os atos ulteriores, passando a atuar como auxiliar da parte
principal, motivo pelo qual ficará proibido de praticar atos processuais dos quais o assistido não
esteja de acordo.

Lembre-se que a legitimação do assistente é extraordinária e subordinada ao interesse do


assistido. Por essa razão, a assistência simples não impede a que a parte principal:

• Reconheça a procedência do pedido

• Desista da ação

Renuncie ao direito sobre o que se funda a ação

• Transija sobre direitos controvertidos

A decisão, no processo em que o assistente figure, não fará coisa julgada material em
relação ao assistente, mas o assistente não poderá, em ulterior processo, discutir a justiça da
decisão, ou seja, os fundamentos daquela decisão.

No entanto, há exceções em que o assistente poderá discutir a justiça da decisão, desde


que prove que:

• Pelo estado em que recebeu o processo ou pelas declarações e pelos atos do assistido,
foi impedido de produzir provas suscetíveis de influir na sentença;

Desconhecia a existência de alegações ou de provas das quais o assistido, por dolo ou


culpa, não se valeu.

Assistência litisconsorcial

A assistência litisconsorcial não trata propriamente de um ingresso de um terceiro, eis que


há o ingresso de um litisconsorte. Aquele que ingressa, em verdade, não é terceiro, sendo parte
principal.

As hipóteses autorizadoras de ingresso, previstas no art. 124 do NCPC, podem ser


resumidas no sentido de que, caberá assistência litisconsorcial toda vez que a sentença puder
influir na relação jurídica entre ele e o adversário do assistido.

Perceba aqui que, na assistência simples, o assistente ajuda uma pessoa com quem tem
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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relação, pois há interesse jurídico, enquanto na assistência litisconsorcial o assistente ajuda o
assistido, tendo em vista que o assistente também possui uma relação jurídica com o adversário
do assistido, não querendo que ele ganhe.

Ex.: determinada pessoa A promove demanda em face de B. No curso do processo, este


transfere o direito litigioso a C (sucessão processual inter vivos). Neste caso, a pessoa C comprou
o imóvel da pessoa A. Logo, a relação jurídica, que agora existe, é entre A e C e não mais entre A
e B. Veja, C ingressa no feito, já que B não abriu mão de A (há uma assistência litisconsorcial).
Portanto, C ingressa no feito na condição de assistente litisconsorcial de A, pois ele quer a vitória
do direito litigioso. A relação jurídica é de C x B, de modo que C está ajudando A.

Pode haver assistência litisconsorcial sempre que houver legitimidade extraordinária:


quem pode ingressar como assistente é o substituído processual. No condomínio e na alienação
de coisa litigiosa, por exemplo. Se um bem pertence a vários proprietários, qualquer um deles tem
legitimidade para, isoladamente, propor ação reivindicatória ou possessória contra aqueles que
tenham a coisa consigo indevidamente. Aquele que a propuser o fará em defesa não apenas de
sua fração ideal, mas do bem todo. Será, portanto, legitimado extraordinário no que se refere às
frações ideais dos outros condôminos que, se não ingressaram conjuntamente, serão substituídos
processuais. Se decidirem ingressar depois de ajuizada a demanda, poderão fazê-lo como
assistentes litisconsorciais. Na alienação de coisa litigiosa, como se mantém a legitimidade das
partes originárias, o alienante ficará como substituto processual do adquirente, que é quem tem
o bem consigo. Mas o adquirente poderá ingressar como assistente litisconsorcial.

O procedimento da assistência litisconsorcial é o mesmo da assistência simples.

Denunciação da lide

a) Noções gerais

Denunciação da lide é gerar a possibilidade de uma das partes já discutir, nos mesmos
autos, o suposto direito de regresso.

Este mesmo direito de regresso já poderá ser exercido, caso aquela parte venha a sucumbir
na demanda primitiva.
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A denunciação da lide decorre do direito de ação, pois seria possível a parte ingressar com
feito autônomo, quando na verdade opta por fazer nos próprios autos.

Veja, há criação de uma nova relação jurídica processual dentro dos autos, visto que passa
a existir uma relação jurídico processual entre o denunciante, que passa a ser um demandante, e
o denunciado, que passa a ser um demandado.

A visão doutrinária tradicional vai dizer que a denunciação da lide é uma espécie de
demanda regressiva secundum eventum litis. Isso porque poderá acontecer de o denunciante ser
o vitorioso na demanda primitiva, não sendo necessário se analisar o pedido na demanda
regressiva.

Os arts. 127 e 128 do CPC traz a ideia de que o denunciado, uma vez admitido no
processo, assume a condição de litisconsorte do denunciante. Esta expressão foi trazida pelo
legislador.

Dizer que o denunciado assume a posição de litisconsorte do denunciante é para


eventualmente justificar que já haja a execução direta entre quem propôs a demanda primitiva e
o denunciado, não tendo o denunciante que pagar primeiro para somente então exigir o regresso
do denunciado.

Denunciação da lide em regime de litisconsórcio

Quando uma demanda é proposta em decorrência de acidente de veículo em via terrestre,


é muito frequente que o demandado tenha um contrato de seguro.

É interessante para o demandado tentar obter na sentença o reconhecimento desse seu


direito de regresso contra a seguradora.

Pelo entendimento tradicional, seria proibido que o denunciado fosse condenado a


efetuar o pagamento diretamente ao adversário do denunciante. Isso porque as relações jurídico-
processuais são distintas. Uma é a relação entre denunciante e o seu adversário e outra é a relação
entre denunciante e denunciado, que tem direito de regresso. Portanto, por inexistir relação
jurídica entre o adversário do denunciante e o denunciado, e pela visão tradicional, seria
impossível a possibilidade de o adversário do denunciante executar diretamente o denunciado.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Mas para simplificar esta situação, e para permitir que em caráter judicial a seguradora
venha a ser executada diretamente pela vítima de um acidente de veículo, o legislador, quando
criou o CDC, estabeleceu esta hipótese de chamamento ao processo, mas que na verdade se trata
de uma denunciação da lide, no sentido de possibilitar que diretamente a vítima receba da
seguradora do ofensor.

Cabe ressaltar que, apesar do nome do instituto, não se trata de chamamento ao processo,
eis que não existe obrigação solidária entre a seguradora e o segurado.

Vejamos a Súmula 529 do STJ, a qual estabelece que, no seguro de responsabilidade civil
facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente
em face da seguradora do apontado causador do dano.

O STJ está dizendo que, na verdade, a vítima do evento não pode acionar diretamente a
seguradora daquele que causou o prejuízo de forma exclusiva. O STJ diz que em litisconsórcio
poderia, mas exclusivamente não é possível, até porque a seguradora precisaria de elementos
para promover a ampla defesa e o contraditório, situação que depende de quem efetivamente
causou o dano, ou seja, o segurado.

Essa hipótese de convocação da seguradora para que venha a participar do feito, haveria
uma denunciação da lide que cria uma hipótese de litisconsórcio, eis que poderá a seguradora
ser condenada diretamente, não precisando executar primeiro o causador do dano, para em
seguida se valer da relação jurídica com a seguradora para executá-la.

c) Competência

Via de regra, a denunciação da lide tem o seu mérito apreciado no mesmo momento em
que o magistrado aprecia o mérito da demanda originária.

Logo, a competência é do mesmo juízo que julgou o processo originário.

d) Legitimados para oferecimento de denunciação da lide

A denunciação da lide pode ser apresentada tanto pelo demandante quanto pelo
demandado.

Se ela é oferecida pelo demandado, deverá ser apresentada na própria contestação.

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Como cria uma nova relação jurídica processual, nesta contestação, onde o sujeito requer
a denunciação da lide, deverá observar os mesmos requisitos de formalidades de uma petição
inicial. Isso porque está dando uma nova relação jurídica, motivo pelo qual deverá, por exemplo,
indicar um novo valor da causa.

Se esta denunciação da lide é oferecida pelo demandante, neste caso deverá constar na
própria petição inicial.

e) Observações importantes

1. Denunciação da lide não é possível em processo de execução, visto que não se está a
discutir conhecimento, pois o direito já foi reconhecido. Diante disso, o executado deverá pagar o
débito e exercer o direito de regresso noutro feito, por nova ação.

2. Naqueles processos que tramitam perante Juizado Especial não se admite denunciação
da lide. Isso porque não se admite intervenções de terceiros nos juizados especiais, salvo
desconsideração da personalidade jurídica.

3. Não é possível denunciação da lide efetuada por fabricantes ou prestador de serviços


nas demandas que lhe forem propostas pelo consumidor (art. 88, CDC).

f) Hipóteses de cabimento

O art. 125 contempla apenas 2 hipóteses de cabimento de denunciação da lide, casos em


que a denunciação poderá ser promovida por qualquer das partes:

Ao alienante imediato, no processo relativo à coisa cujo domínio foi transferido ao


denunciante, a fim de que possa exercer os direitos que da evicção lhe resultam;

Àquele que estiver obrigado, por lei ou pelo contrato, a indenizar, em ação regressiva,
o prejuízo de quem for vencido no processo.

A segunda hipótese já estaria abarcando a primeira, visto que a evicção decorre de lei.

Qualquer que seja o caso envolvido, a denunciação da lide é mera faculdade do


interessado. Veja, o denunciante poderá pleitear o seu direito de regresso numa futura ação
autônoma. Ou seja, a denunciação da lide não é obrigatória.

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g) Fatos novos na denunciação da lide

É possível ou não que a denunciação da lide introduza fatos novos completamente


estranhos ao processo que foi instaurado, pois isto acabará gerando a postergação da prestação
jurisdicional?

Há entendimentos nos dois sentidos, admitindo uma nova discussão e outros dizendo que
não, em violação à razoável duração do processo.

No entanto, prevalece o entendimento do STJ, no sentido de que não se admite fatos


novos completamente estranhos ao processo que foi instaurado.

h) Denunciação da lide realizada pelo Estado em desfavor do seu agente público

Prevalece o entendimento de que não é possível a denunciação da lide realizada pelo


Estado em desfavor do seu agente público. Isso porque o Estado responde objetivamente e o
agente responde subjetivamente.

Se isto fosse possível, estaríamos inaugurando, na fase regressiva, uma outra relação
jurídica, em que haveria a discussão de outros fatos, como culpa, as quais não são cabíveis nas
discussões entre a pessoa lesada e o Estado, visto que respondem objetivamente pelos atos.

Há ainda outro fundamento para não se admitir esta denunciação da lide realizada pelo
Estado em face do servidor que causou o dano, que é a teoria da dupla garantia. Esta teoria foi
consagrada pelo Novo CPC em diversos dispositivos (art. 143, 155, 184, 197, etc.).

Em resumo, os agentes públicos somente respondem de maneira regressiva em ação


própria, proposta pelo Estado, após o este ter sido condenado em outro processo. A dupla
garantia preceitua que o agente público não pode responder diretamente ao particular, somente
podendo responder perante o Estado, na hipótese em que este, primeiramente, já tiver sido
condenado a indenizar o particular.

Nesta situação, será possível ação de regresso em ação autônoma, situação na qual será
discutida a presença ou não de culpa, ou responsabilidade, do agente público.

i) Processamento da denunciação da lide

Efetuada a denunciação, o magistrado deverá analisar sua admissibilidade.


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Concluindo que é de rejeição liminar, rejeitará por decisão interlocutória, cabendo agravo
de instrumento.

Se não, caso entenda que é viável a denunciação da lide, determinará a citação do


denunciado, o qual virá ao processo para apresentar resposta em razão da denunciação que lhe
foi feita.

Na sua defesa, poderá se valer de uma das modalidade de intervenção de terceiros,


podendo inclusive, promover uma nova denunciação da lide. O CPC admite expressamente isso
nos casos em que envolve evicção. Isto é, admite-se que haja denunciação sucessiva, mas apenas
por mais uma vez.

Ou seja, será admitida uma única denunciação sucessiva, promovida pelo denunciado,
contra seu antecessor imediato, não podendo o denunciado sucessivo promover nova
denunciação, hipótese em que eventual direito de regresso será exercido por ação autônoma.

Denunciação da lide sucessiva ocorre quando José promoveu uma ação, dizendo que o
bem, que em tese era de Samer, não seria dele, pois José possuiria um direito anterior ao bem
(evicção). Ocorre que Samer alega que o vendedor do bem foi João. Na contestação, Samer
promove a denunciação da lide de João, de modo que, caso Samer tenha que entregar o bem à
José, João deverá pagar Samer. Com isso, João é denunciado, e, no momento em que foi
apresentar defesa, alega que comprou o bem de Antônio, promovendo a denunciação em
desfavor de Antônio. Há aqui denunciação da lide sucessiva.

Após a apresentação de defesa, feita a instrução, o juiz proferirá a sentença, situação em


que analisará a demanda originária e a denunciação da lide.

j) Sentença julgando procedente o pedido originário e aquele formulado na denunciação


da lide

Pode haver uma sentença julgando procedente o pedido originário e julgando procedente
o pedido formulado na denunciação da lide.

Adotando-se a premissa de que são duas relações jurídicas distintas, o denunciado não
poderia ser condenado a ressarcir diretamente o demandante primitivo. Isso porque seria
necessário primeiro que o denunciante fosse condenado a pagar para em seguida receber do
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denunciado.

Contudo, destaque-se os casos em que envolva denunciação da lide da seguradora, visto


que o regime será de litisconsórcio, hipótese em que o demandante vitorioso da demanda
primitiva poderá pedir o cumprimento da sentença diretamente da seguradora, nos limites da sua
responsabilidade.

k) Sentença julgando procedente o pedido originário e improcedente aquele formulado


na denunciação da lide

Pode haver uma sentença julgando procedente o pedido originário e julgando


improcedente o pedido formulado na denunciação da lide.

Aqui não há muitos problemas, pois o denunciante terá de pagar o demandante, mas não
terá direito de regresso contra o denunciado, bem como as custas dos dois.

l) Sentença julgando improcedente o pedido originário e reflexo para a denunciação da


lide

Se o denunciante não tiver de realizar o pagamento em favor do demandante, não será


necessário buscar a ação de regresso em favor do denunciado.

Mas e as custas processuais, honorários advocatícios e a outra demanda da denunciação?

No caso de se julgar improcedente o pedido do demandante contra o denunciante na


demanda principal, o CPC estabelece no art. 129, parágrafo único, que, se o denunciante for
vencedor, a ação de denunciação não terá o seu pedido examinado, sem prejuízo da condenação
do denunciante ao pagamento das verbas de sucumbência em favor do denunciado.

A mesma sentença terá um capítulo resolvendo o pleito originário, com a apreciação do


mérito, e outro capítulo da denunciação da lide em que o mérito não será analisado.

A importância disso é que se houver um recurso de apelação interposto pelo demandante


(autor) da ação principal, em caso de provimento de recurso, a decisão apenas irá vincular o
denunciante (réu), pois este é o réu da ação. Não vinculará o suposto denunciado, visto que o
processo, quanto àquele, foi extinto sem resolução do mérito.

Como foi extinto sem resolução do mérito, deverá o denunciante (réu) promover uma ação
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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regressiva em face do denunciado.

Para ser mais claro, André promoveu uma ação contra Samer. Samer denunciou à lide João.
Samer venceu a ação em face de André. O juiz não apreciou o mérito em relação à ação do Samer
contra João. André recorreu para o Tribunal, o qual proveu o recurso, mandando Samer pagar.
Como houve a extinção sem resolução do mérito da denunciação, esta fez coisa julgada formal.
Consequentemente, Samer pagará os valores a André, exercendo seu direito de regresso em face
de João, por meio de ação autônoma.

m) Denunciação da lide sucessiva e per saltum

A denunciação da lide admite que o denunciado efetue uma nova denunciação da lide
sucessivamente.

O CPC admite a denunciação da lide sucessiva apenas no caso em que se discuta evicção,
mas é plenamente possível que, através de analogia, se permita a aplicação da norma que autoriza
a denunciação da lide sucessiva em caso de evicção nos demais casos para intervenção de
terceiros, que é a denunciação da lide.

A denunciação da lide per saltum deve ser proibida. Em vez de acionar o alienante
imediato, o indivíduo aciona dois ou três alienantes posteriores.

Isto não é mais possível. Isso porque o Novo CPC passa a prever que somente é admitida
a denunciação da lide por evicção em relação ao antecessor imediato na cadeia dominial.

Chamamento ao processo

a) Conceito

O chamamento ao processo também é uma modalidade de intervenção de terceiros que


acaba gerando um litisconsórcio passivo superveniente.

É admitido nos casos de obrigação solidária. O objetivo aqui é reconhecer o direito de


regresso.

Acaba resultando num litisconsórcio passivo superveniente ulterior. Como é litisconsórcio,


poderá o juiz condenar o chamado a pagar diretamente o débito ao adversário do chamante,
visto que é litisconsórcio, passando a integrar a lide principal, apesar de ser denominado
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intervenção de terceiros.

b) Hipóteses

São hipóteses de chamamento ao processo, requerido pelo réu:

• Fiador pode chamar ao processo o afiançado, na ação em que o fiador for réu;

Neste caso, haverá direito de regresso, mas é possível que seja retirado no contrato de
fiança ao benefício de ordem, situação na qual o fiador responderá por uma dívida, ainda
que o afiançado devesse responder.

• Fiador também poderá chamar ao processo um ou todos os fiadores, na ação proposta


contra um ou alguns deles;

Por exemplo, seriam 5 fiadores e o autor somente acionou um deles. Poderá o fiador
chamar um ou todos os demais.

• Todos os devedores solidários, quando o credor exigir de um ou de alguns o pagamento


da dívida comum.

Se são devedores solidários, poderá chamar todos os demais para integrar o processo.

c) Momento de chamamento ao processo

O chamamento ao processo deve ser apresentado na própria contestação, sob pena de


preclusão.

Trata-se de preclusão lógica, visto que estaria contestando, mas deixou de chamar ao
processo os demais. Outros sustentam se tratar de preclusão temporal.

Na sequência, o chamado é citado para integrar a relação jurídica processual, e


acompanhar o desenvolvimento do processo em todos os seus termos.

Como a obrigação é solidária, poderá executar qualquer um dos demais devedores. E a


sentença de procedência do pedido será válida como título executivo em favor do réu que
satisfizer a dívida, razão pela qual poderá receber o restante dos demais devedores, nos próprios
autos.

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d) Chamamento ao processo e o art. 1.698 do CC

Não se trata propriamente de um chamamento ao processo.

Segundo o art. 1.698, se o parente, que deve alimentos em primeiro lugar, não estiver em
condições de suportar totalmente o encargo, serão chamados a concorrer os de grau imediato.
Sendo várias as pessoas obrigadas a prestar alimentos, todas devem concorrer na proporção dos
respectivos recursos, e, intentada ação contra uma delas, poderão as demais ser chamadas a
integrar a lide.

Por exemplo, um parente deve alimentos, mas este não tem condições para financiar. O
infante necessita de 1000 reais por mês para subsistência. O pai pode dar 300 reais. O jeito é
chamar o avô para dar os outros 700 reais. O avô é chamado para integrar a lide.

Apesar deste instituto previsto no direito de família, e ser denominado de chamamento ao


processo, na verdade é uma intervenção anômala, atípica, visto que é uma intervenção fundada
em responsabilidade subsidiária, e não solidária.

Isso porque, se o pai tiver condição de pagar 1000 reais por mês para pagar os alimentos,
não deverá ser chamado o avô. Portanto, não deverá ser denominado chamamento ao processo.

Mas há um litisconsórcio passivo superveniente ulterior. Aqui está instaurada a confusão.

Comumente é denominado chamamento ao processo sui generis, devendo ser assim


adotado em provas objetivas.

Incidente de desconsideração da personalidade jurídica

Com NCPC, o incidente de desconsideração da personalidade jurídica passou a ser uma


intervenção de terceiros.

O CPC confere legitimidade para requerer a instauração do incidente de desconsideração


da personalidade jurídica tanto à parte quanto ao Ministério Público, quando lhe couber intervir
no feito.

Este incidente também pode ser adotado nos Juizados Especiais, o que seria exceção à
regra de vedação de intervenção de terceiros nos juizados, pois isto está expressamente
autorizado pelo NCPC (art. 1.062).
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Com o NCPC passa a ser expressamente autorizada a desconsideração da personalidade
jurídica na:

Fase de conhecimento

Fase de cumprimento de sentença

Fase de execução de título extrajudicial

Esse incidente ficará em apenso aos autos principais, salvo se o requerimento de


desconsideração da personalidade jurídica tiver sido feito na petição inicial.

O processo primitivo ficará suspenso.

Após a instauração, o sócio ou a pessoa jurídica, a depender se é desconsideração da


personalidade jurídica direta ou inversa, serão citados para se manifestar ou requerer provas no
prazo de 15 dias (art. 135, CPC).

Citados, requerido provas e feita a instrução, o juiz profere uma decisão interlocutória,
acolhendo ou não a desconsideração da personalidade jurídica. Dessa decisão interlocutória cabe
agravo de instrumento.

O art. 136, parágrafo único, autoriza que este incidente se processe perante os Tribunais,
e aí poderá ser julgado monocraticamente pelo Relator. Nos Tribunais, só será possível a
desconsideração da personalidade jurídica nas causas de competência originária do Tribunal.

O art. 137 diz que, acolhido o pedido de desconsideração da personalidade jurídica, a


alienação ou a oneração de bens, havida em fraude de execução, será ineficaz em relação ao
requerente da medida de desconsideração da personalidade jurídica.

Por exemplo, a empresa passou o bem para o sócio. Samer requereu a desconsideração da
personalidade jurídica para atingir este bem. O bem vale 1 milhão, e a dívida é de 500 mil reais.
São dois lotes de 500 mil reais cada. Um deles é adjudicado ao Samer, enquanto o outro terá a
venda eficaz. Ou seja, a venda desse lote somente será ineficaz em parte, somente no valor em
relação ao Samer.

O NCPC passa a admitir expressamente a desconsideração da personalidade jurídica


inversa, sendo a possibilidade de alcançar bens da empresa numa execução em fase do sócio da
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empresa. Basta preencher os requisitos da teoria maior ou menor, neste último caso nos casos de
direito ambiental ou consumerista.

Amicus curiae

Amicus curiae é o amigo da corte. É o sujeito que chega ao processo para dar opinião sobre
determinado tema, importando que sejam muitos os interpretes da constituição (sociedade
aberta de Peter Häberle).

Esta regulamentação do NCPC é insuficiente para esgotar a matéria, sendo necessária


verificar com a doutrina e jurisprudência certas questões.

a) Termo final para ingresso do amicus curiae

O ingresso do amicus curiae, segundo a jurisprudência, poderá ser autorizado a qualquer


momento até que iniciado o julgamento.

Ou seja, iniciado o julgamento não cabe mais intervenção do amicus curiae.

b) Pertinência temática

O NCPC assinala a exigência de que estes entes comprovem representatividade


adequada, exigindo pertinência temática.

Numa situação de aborto anencéfalo, é necessário ouvir a igreja católica, pois tem
representatividade adequada, em razão de grande camada da população.

c) Amicus curiae e representação por advogado

Não há dúvidas de que o amicus curiae deve estar assistido por alguém que tenha
capacidade postulatória. Isso porque é necessário para apresentar peças, realizar sustentação
oral, etc.

d) Poderes processuais do amicus curiae

De acordo com o NCPC, os poderes do amicus curiae serão fixados pelo juiz.

Estes poderes devem se destinar a trazer argumentos e fundamentos que auxiliem o


amadurecimento da questão debatida.

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80
e) Amicus curiae e interposição de recursos

O amicus curiae não pode opor recursos, salvo em duas situações:

• Embargos declaratórios

• Recorrer da decisão que julgar Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR)

Recurso interposto por terceiro

O recurso interposto por terceiro, conforme o art. 996, possibilita que o recurso seja
interposto por terceiro juridicamente interessado, ou seja, se foi este prejudicado.

O terceiro juridicamente interessado não participou de qualquer etapa do processo, e


sofreu reflexos jurídicos da decisão em sua esfera pessoal, interpondo recurso.

A sua atuação ficará restrita a temas que sejam conhecíveis de ofício, ou que não se
sujeitam à preclusão. Ex.: nulidade do processo, violação à norma de ordem pública, ofensa à
coisa julgada, etc.

O termo inicial e final de interposição do recurso não são trazidos pela lei. A doutrina vem
sustentando que o termo final para interposição de recurso pelo terceiro coincide com o termo
final do manejo de recurso por qualquer das partes.

Só que há um ponto interessante. Muitas vezes este raciocínio deve ser mitigado.

O termo inicial deve ser o momento em que o terceiro toma conhecimento da decisão que
foi prolatada. Sendo este o momento em que o terceiro passa a ter conhecimento de que foi
atingido em sua esfera pessoal, e a partir daí poderia interpor recurso. Esta é uma interpretação
que a justiça vem dando.

Intervenção anômala

Em relação à intervenção anômala, é necessário destacar o art. 5º da Lei 9.469.

O art. 5º estabelece que a União poderá intervir nas causas em que figurarem, como
autoras ou rés, autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista e empresas
públicas federais.

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81
O parágrafo único diz que as pessoas jurídicas de direito público poderão, nas causas cuja
decisão possa ter reflexos, ainda que indiretos, de natureza econômica, intervir,
independentemente da demonstração de interesse jurídico, para esclarecer questões de fato e
de direito, podendo juntar documentos e memoriais reputados úteis ao exame da matéria e, se
for o caso, recorrer, hipótese em que, para fins de deslocamento de competência, serão
consideradas partes.

Portanto, pessoas jurídicas de direito público podem intervir, independentemente da


demonstração de interesse jurídico, a fim de esclarecer questões de fato ou de direito, e se for o
caso, recorrer. No caso de recurso, para fins de deslocamento de competência, serão consideradas
partes.

Veja, enquanto não houver a interposição de recursos, não serão consideradas partes, não
podendo ocorrer o deslocamento de competência.

Ou seja, não é apenas a União, mas qualquer pessoa jurídica de direito público poderá
intervir, mesmo que não tenha interesse jurídico.

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82
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Intervenção do Ministério Público – Juiz – Auxiliares da Justiça – Ato processual

Juiz

A função de distribuir justiça é quase divina, pois se faz justiça na vida do outro. Para tanto,
é necessário que seja imparcial. A imparcialidade é indissociável da figura do juiz.

A imparcialidade não se confunde com neutralidade. A verdadeira neutralidade é utopia,


pois pressupõe um distanciamento absoluto do caso apresentado. É a ausência de memória e de
envolvimento.

O juiz traz consigo a sua história de vida e aquilo que vivenciou. E isto faz com que ele não
tenha um comportamento neutro diante de certas situações.

Portanto, neutralidade não existe.

O que existe, na verdade, é imparcialidade. No Direito, basta que o juiz seja imparcial.

E para que seja imparcial é preciso que não seja suspeito, não esteja impedido e não seja
caso de incompatibilidade.

a) Impedimento e suspeição do magistrado e formas de arguição

i. Impedimento

As hipóteses de impedimento trazem uma presunção absoluta de parcialidade. É uma


presunção iure et iure, podendo ser conhecida e alegada a qualquer momento, podendo inclusive
após o trânsito em julgado ser alegado, por meio de ação rescisória.

São causas de impedimento, aferíveis objetivamente, sendo vedado o juiz exercer suas
funções no processo:

1. Está impedido o juiz que interveio como mandatário da parte, oficiou como perito,
funcionou como membro do Ministério Público ou prestou depoimento como
testemunha;

Está impedido o juiz atuou em outro grau de jurisdição, tendo proferido decisão;
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83
Está impedido o juiz, quando nele estiver postulando, como defensor público, advogado
ou membro do Ministério Público, seu cônjuge ou companheiro, ou qualquer parente,
consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o 3º grau, inclusive;

Está impedido o juiz, quando for parte no processo ele próprio, seu cônjuge ou
companheiro, ou parente, consanguíneo ou afim, em linha reta ou colateral, até o
terceiro grau, inclusive;

Está impedido o juiz, quando for sócio ou membro de direção ou de administração de


pessoa jurídica parte no processo;

Está impedido o juiz, quando for herdeiro presuntivo, donatário ou empregador de


qualquer das partes;

Está impedido o juiz nos casos em que figure como parte instituição de ensino com a
qual tenha relação de emprego ou decorrente de contrato de prestação de serviços;

Está impedido o juiz nos casos em que figure como parte cliente do escritório de
advocacia de seu cônjuge, companheiro ou parente, consanguíneo ou afim, em linha
reta ou colateral, até o 3º grau, inclusive, mesmo que patrocinado por advogado de
outro escritório;

Está impedido o juiz quando promover ação contra a parte ou seu advogado.

Em relação ao impedimento, percebe que são causas objetivas, e está resolvido. A


presunção é absoluta de parcialidade.

O impedimento previsto no inciso III também se verifica no caso de mandato conferido a


membro de escritório de advocacia que tenha em seus quadros advogado que individualmente
ostente a condição nele prevista, mesmo que não intervenha diretamente no processo.

ii. Suspeição

No caso de suspeição, há uma presunção relativa de parcialidade, devendo ser alegada


por petição, no prazo de 15 dias, contados do momento em que se tem ciência da suspeição.

Segundo o CPC, são casos de suspeição do juiz:

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Será considerado suspeito o juiz quando é amigo íntimo ou inimigo de qualquer das
partes ou de seus advogados;

Será considerado suspeito o juiz que receber presentes de pessoas que tiverem
interesse na causa antes ou depois de iniciado o processo, que aconselhar alguma das
partes acerca do objeto da causa ou que subministrar meios para atender às despesas
do litígio;

Será considerado suspeito o juiz quando qualquer das partes for sua credora ou
devedora, de seu cônjuge ou companheiro ou de parentes destes, em linha reta até o
terceiro grau, inclusive;

Será considerado suspeito o juiz interessado no julgamento do processo em favor de


qualquer das partes.

Poderá o juiz declarar-se suspeito por motivo de foro íntimo, sem necessidade de
declarar suas razões.

O STJ decidiu que a autodeclaração de suspeição realizada por magistrado em virtude de


motivo superveniente não importa em nulidade dos atos processuais praticados em momento
anterior ao fato ensejador da suspeição.

iii. Formas de arguição de impedimento e suspeição

Tanto o demandante quanto o demandado podem arguir impedimento ou suspeição,


apresentando, em qualquer caso, uma petição ao órgão jurisdicional, da qual conste os motivos
da parcialidade do juiz, instruindo com as documentações que entenderem necessárias.

A partir de então será sobrestado o feito. O magistrado analisará a petição, podendo


reconhecer a sua parcialidade.

Caso reconheça, o processo continuará tramitando na mesma vara, e no mesmo órgão,


mas quem atuará no restante do processamento do feito será o juiz tabelar.

Por outro lado, caso o juiz não se considere impedido ou suspeito, deverá determinar a
atuação da peça em apenso, e no prazo de 15 dias irá apresentar as suas razões, e eventualmente
documentos e rol de testemunhas, encaminhando os autos ao Tribunal.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Se o Tribunal entender que o magistrado era parcial, os autos serão remetidos ao juiz
tabelar. Nesta hipótese, o magistrado, que era parcial, será condenado ao pagamento das custas
processuais.

Caso o Tribunal entenda pela imparcialidade do magistrado, o processo continua.

O STF entende que não é possível oferecer arguição de impedimento ou de suspeição em


processo de fiscalização concentrada de constitucionalidade. Neste caso, o impedimento e
suspeição são típicos de processos subjetivos em que há partes. Na fiscalização concentrada de
constitucionalidade, a fiscalização recair sobre o caráter objetivo da demanda. E portanto não
caberia arguição de impedimento ou de suspeição.

As hipóteses de impedimento e suspeição são plenamente aplicáveis aos demais sujeitos


do processo:

• Ministério Público

• Auxiliares da justiça

• Conciliador

• Mediador

Existem algumas diferenças. O competente para decidir se o caso apresenta impedimento


ou suspeição será o magistrado de 1ª instância, salvo se se tratar de membro do Ministério
Público.

2. Atos processuais

Introdução

Ato processual é um ato jurídico que tem relevância para o direito. É processual porque é
realizado num processo, possível de gerar direitos e obrigações no curso daquele processo.

O NCPC trouxe o instituto denominado negócios processuais.

Princípios

Ao analisar os negócios processuais, é necessário ter uma íntima relação com os princípios:

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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• Princípio da liberdade de forma dos atos processuais

• Princípio da documentação

• Princípio da publicidade

a) Princípio da liberdade de forma dos atos processuais

O princípio da liberdade de forma dos atos processuais estabelece que, se a lei não
estabelecer nenhuma forma específica para a prática de determinado ato, qualquer forma é
válida.

Veja, a forma processual é livre, desde que respeitados os princípios constitucionais e não
haja forma prescrita em lei.

b) Princípio da documentação

Segundo o princípio da documentação, todos os atos processuais devem ser


documentados, ou reduzidos a termo. Ainda que seja oralmente, deverá ser reduzido a termo.

Nessa documentação, é necessária que seja empregada a língua portuguesa. Caso seja em
língua estrangeira, deverá reduzir a termo. Mas ainda será necessário que esteja acompanhado
da tradução em língua portuguesa.

c) Princípio da publicidade

Segundo o princípio da publicidade, todos os atos processuais devem ser públicos.

O art. 189 do CPC estabelece que tramita em segredo de justiça os processos que o
interesse público exigir. A regra é que o processo seja público e o segredo de justiça é exceção,
como é o caso em que haja uma intimidade enorme em juízo, como casamento, filiação,
alimentos, guarda, etc.

Nos processos em que há segredo de justiça, a publicidade fica restrita ao juiz, às partes
e ao Ministério Público. É lógico que o juiz se refere à Justiça, atingindo também os serventuários
da justiça, assim como aos advogados das partes.

Tempo para a prática dos atos processuais

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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De acordo com o NCPC, os atos processuais devem ser praticados em dias úteis, entre 6
horas e 20 horas.

O NCPC diz que, em caráter excepcional, alguns atos processuais podem ser praticados
fora desses dias, que não sejam úteis, como citação, intimação e penhora, independentemente
de autorização do juiz, quando o adiamento prejudicar a diligência ou causar grave dano.

Durante as férias forenses e nos feriados, não se praticarão atos processuais, salvo citação,
intimação e penhora, bem como a tutela de urgência.

Processam-se durante as férias forenses, e não se suspendem pela superveniência delas:

Procedimentos de jurisdição voluntária e os necessários à conservação de direitos,


quando puderem ser prejudicados pelo adiamento;

Ação de alimentos e os processos de nomeação ou remoção de tutor e curador;

• Processos que a lei determinar.

Lugar para a prática dos atos processuais

O art. 217 diz que os atos processuais devem ser praticados na sede do juízo. Este mesmo
dispositivo autoriza que estes atos sejam praticados em outros local, em caso de:

• Deferência

• No interesse da justiça

• Necessidade de que o ato seja praticado em outro lugar

• Se houver um obstáculo arguido pelo interessado e acolhido pelo juiz

Ex.: testemunha está internada. Neste caso, será a testemunha ouvida no hospital, visto
que há um obstáculo. Neste caso, irá o juiz, serventuário da justiça, advogado do autor, do réu,
autor, réu, MP, se estiver intervindo.

Prazo para a prática dos atos processuais

A princípio os prazos processuais estão previstos em lei.

Ocorre de a lei ser omissa, caso em que caberá ao magistrado estabelecer o prazo.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Caso tenha o magistrado sido omisso, a parte terá o prazo de 5 dias para praticar o ato.
Este é o prazo geral (art. 218, §3o).

Consequências processuais em razão da perda de um prazo

Quando a parte deixa de praticar um ato processual por inércia, este estado de inércia é
denominado contumácia. Esta contumácia, na maioria das vezes, gera preclusão.

Preclusão possui duas conotações possíveis:

Preclusão impede que as partes discutam questões já decididas no processo.

Preclusão é a perda da faculdade de praticar um ato.

Esta perda da faculdade de praticar um ato poderá ser classificada em:

Preclusão temporal: a parte deixa escoar o prazo previsto em lei ou fixado pelo
magistrado e não se manifesta. Segundo o art. 223 do CPC, decorrido o prazo, extingue-
se o direito de praticar ou de emendar o ato processual, independentemente de
declaração judicial, salvo se a parte provar que não o realizou por justa causa.

Preclusão lógica: é a perda da faculdade de praticar um ato em razão da parte já ter


praticado outro ato incompatível com o ato que pretende praticar. Ex.: condenado é
obrigado a pagar 1000 reais em sentença. O condenado paga a condenação sem qualquer
ressalva. Em seguida, o condenado interpõe recurso de apelação. Houve uma preclusão
lógica, pois o primeiro ato é incompatível com o segundo ato, não cabendo agora recurso.

Preclusão consumativa: é a perda da faculdade de praticar um ato em razão da parte já


ter consumado o ato, ou praticado aquele ato. Ex.: houve uma sentença de parcial
procedência em face de João para pagar mil reais. João interpõe recurso de apelação 5
dias após a publicação da decisão, sendo o prazo de 15 dias. No entanto, após a
interposição do recurso, o recorrente apresenta novo recurso de apelação no 14º dia,
inserindo uma nova tese jurídica. Não é mais possível, pois houve a preclusão
consumativa.

Perceba que a contumácia, que é o estado de inércia, poderá gerar preclusão, mas a
preclusão temporal.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Quando se fala em revelia, essa nada mais é do que uma espécie de contumácia específica
para o demandado, eis que se opera quando o sujeito deixa de apresentar contestação, a qual
gera como efeitos a presunção de veracidade dos fatos e a desnecessidade de intimação do réu
para ciência e participação dos atos posteriores do processo.

Classificação dos prazos

Os prazos processuais podem ser classificados em:

Prazos próprios: são destinados às partes principais ou acessórias, de forma que sua
inobservância gera consequências como a revelia e a contumácia.

Prazos impróprios: é um prazo que existe, geralmente destinado ao magistrado ou ao


serventuário da justiça. Mas se este prazo não for observado, não gerará consequências
processuais, ainda que possa haver consequências administrativas.

Prazos dilatórios: é prazo que pode ser reduzido ou prorrogado por vontade das partes.
Ex.: prazo para juntada de documentos.

Prazos peremptórios: não pode ser reduzido ou aumentado por vontade das partes. Ex.:
prazo para contestar e prazo para recorrer.

Esta classificação dos prazos dilatórios e peremptórios, segundo Rodolfo Hartmann passa
a ser desnecessária, pois mesmo o prazo peremptório poderá ser prorrogado (art. 222), como nos
casos em que seja difícil transporte para a base territorial do juízo, podendo o juiz prorrogar os
prazos por até 2 meses. Em se tratando de calamidade pública, o juiz poderá exceder a 2 meses.

O CPC prevê que ao juiz é vedado reduzir prazos peremptórios sem anuência das partes.

Contagem dos prazos

Definido o termo inicial, o primeiro dia da contagem processual será imediatamente o


primeiro dia útil seguinte, e na sequência serão apenas contados os dias úteis até que se alcance
ao termo final.

Destaque-se que no período do dia 20 de dezembro ao dia 20 de janeiro haverá a


suspensão todos os prazos processuais.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Em relação à contagem dos prazos em dias úteis, esta norma deverá ser interpretada
restritivamente, devendo apenas se referir às hipóteses em que o CPC fizer remissão a dias. Isso
porque muitas vezes o CPC faz remissão a prazo em meses ou em anos. Se o prazo está previsto
em meses ou em anos, a contagem será em dias corridos.

Essa contagem em dias úteis somente se aplica aos atos praticados intraprocessualmente.
Ex.: o mandado de segurança poderá ser impetrado em até 120 dias, devendo ser contado de
forma contínua, visto que não é um prazo intraprocessual, mas sim um prazo pré-processual.

Atos processuais praticados por meio eletrônico

O CPC trouxe os arts. 193 a 199.

O art. 193 vai determinar que os atos processuais podem ser totalmente ou parcialmente
digitais.

O art. 194 diz que estes atos devem ser praticados observando algumas garantias:

Disponibilidade: a informação deverá estar disponível.

Independência da plataforma computacional: não se pode priorizar a utilização


exclusiva de bens de determinada empresa. Ex.: acessar só por computador da Apple. É
necessário que, independente do computador, é possível acessar o sistema.

Acessibilidade: as informações devem ser acessíveis, principalmente às pessoas com


deficiência.

Interoperabilidade entre sistemas, serviços e dados: quer permitir que o sistema se


comunique adequadamente entre si, e não apenas com um Tribunal específico.

A competência para regulamentar a lei em relação à prática de atos processuais


eletrônicos é do Conselho Nacional de Justiça e apenas supletivamente aos Tribunais.

Negócios processuais

Negócios processuais são aqueles pontos afetos ao direito processual que poderão ser
objeto de convenção entre as partes, relacionados ao direito processual, rito, forma do ato
processual, etc.

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Entre as situações mais corriqueiras que possam ser objeto de convenção serão:

Possibilidade de as partes convencionar quanto à modificação do procedimento.

Possibilidade de as partes convencionar quanto à instauração de calendário processual.

Possibilidade de as partes convencionar sobre o saneamento do processo poder ser


efetuado pelas próprias partes.

Possibilidade de as partes convencionar sobre a inversão do ônus da prova ser realizado


pelas próprias partes extrajudicialmente.

Possibilidade de as partes convencionar quanto à renúncia de impenhorabilidade de


bens pelas próprias partes.

Possibilidade de as partes convencionar quanto à renúncia à força executiva de título


extrajudicial por convenção processual.

Possibilidade de as partes convencionar quanto à dispensa de caução para cumprimento


provisório de sentença.

Possibilidade de as partes convencionar quanto aos efeitos do recurso.

Possibilidade de as partes convencionar a permissão de sustentação oral, ainda que não


previstas em lei, ou aumentar o prazo para sustentação.

Há muitas críticas quanto a estes negócios processuais, mas deverá ser discutido pela
doutrina e jurisprudência.

a) Negócio processual para a modificação do procedimento

Segundo o art. 190, versando sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às
partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às
especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres
processuais, antes ou durante o processo.

O parágrafo único diz que, de ofício ou a requerimento, o juiz controlará a validade das
convenções processuais, recusando-lhes aplicação somente:

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Nos casos de nulidade ou;

Nos casos de inserção abusiva em contrato de adesão ou;

Nos casos em que alguma parte se encontre em manifesta situação de vulnerabilidade.

Ou seja, é possível que as partes, de comum acordo, alterem o procedimento. Mas isto,
desde que respeitados os princípios constitucionais, ajustando o procedimento às especificidades
da causa. Cabe ressaltar que tais convenções poderão ser antes ou durante o processo. Nada
obsta que as partes venham a convencionar.

b) Negócio processual para a criação de calendário para a prática de atos processuais

O art. 191 estabelece que é possível as partes convencionarem e criarem um calendário


para a prática dos atos processuais, apesar de ter sido outro estabelecido pela lei.

A vantagem que torna dispensável eventuais intimações para a prática de ato processual
ou para realização de audiência.

O calendário vincula as partes e o juiz, e os prazos somente serão modificados em casos


excepcionais, devidamente justificados.

c) Negócio processual para que o saneamento do processo possa ser efetuado pelas
próprias partes

O saneamento do processo é uma atividade desempenhada pelo magistrado, que vai


resolver questões pendentes, solucionar pontos controvertidos e determinar quais provas ainda
devem ser produzidas.

O art. 357, §2º, permitirá que as próprias partes apresentem ao juiz uma delimitação
consensual das questões de fato e de direito, apresentando o saneamento do processo que elas
mesmo fizeram, ao qual, se homologada, vincula as partes e o juiz.

É necessário lembrar que isto não vai subtrair do juiz a possibilidade de solucionar outros
pontos controvertidos, pois caberá a ele o julgamento da causa, ou ainda os meios de prova que
entender adequado, visto que cabe a ele julgar.

Veja, será possível o saneamento do processo pelas próprias partes, o qual será

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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homologado pelo juiz, mas esta homologação não lhe retira a iniciativa probatória.

d) Negócio processual para a inversão do ônus da prova ser realizada pelas próprias
partes extrajudicialmente

O art. 373, §4, autoriza que o ônus da prova seja convencionado pelas partes, exceto nas
seguintes situações:

Recair sobre direito indisponível da parte;

Tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.

Por exemplo, determinada prova será de ônus de uma das partes.

Isto somente será possível se o contrato apresentar manifestações de vontade paritárias


quando da sua formulação. Do contrário, poderá ser revestido de abusividade.

O dispositivo permite que esta inversão de ônus poderá ser realizada extrajudicialmente,
ou seja, antes mesmo de o processo ser instaurado. E isso será previsto em contrato.

e) Negócio processual visando à renúncia à impenhorabilidade de bens por convenção


entre as partes

Já era discutido pela jurisprudência. O CPC, ao dispor sobre os bens impenhoráveis, não
fala mais em bens absolutamente impenhoráveis (art. 833). Isso porque existe a possibilidade da
parte renunciar à impenhorabilidade de bens.

No entanto, é preciso tomar cuidado nos casos de disparidade de forças.

f) Negócio processual visando à renúncia à força executivo do título extrajudicial por


convenção processual

É inédito, previsto no art. 785. Segundo o dispositivo, a existência de título executivo


extrajudicial não impede a parte de optar pelo processo de conhecimento, a fim de obter título
executivo judicial.

Trata-se de negócio processual, feito no bojo do processo, por convenção processual, em


que a parte renuncia à força executiva de um título executivo extrajudicial que ela tem, devendo
discutir em processo de conhecimento.
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g) Negócio processual para renúncia prévia ao direito de recorrer ou de produzir provas

A parte poderá renunciar ao direito de recorrer ou de produzir provas.

Isto conferirá celeridade.

h) Negócio processual para alteração dos prazos peremptórios

Como é possível o negócio processual para alteração dos prazos peremptórios, aquela
classificação perde força. Ao magistrado é vedado reduzir prazos peremptórios, sem que haja
anuência das partes.

Veja, se as partes anuírem, o juiz poderá reduzir e alterar o prazo peremptório, mas poderá
ser objeto de negócio processual.

i) Meios para nulificar os negócios processuais

Na verdade, quando se fala de nulidade, fala-se de um vício do negócio processual.

O CPC pulverizou o tratamento do tema, tendo isso em vários dispositivos.

Rodolfo Hartmann defende que é preciso que se adote uma interpretação sistemática
quanto a este tema, sendo possível, e defensável, que, em qualquer caso de negócio processual,
seja possível ao magistrado negar àquela convenção tenha repercussão no processo, eis que
apresenta alguma nulidade.

Há normas no CPC autorizando ao juiz reconhecendo de ofício nulidades em convenções


processuais, como é o caso da eleição de foro e abusividade de contrato de adesão.

Rodolfo Hartmann estabelece que a regra acima deve ser expandida para todos os
negócios processuais. Isto é, se houver uma nulidade ou abusividade, o juiz deverá reconhecer de
ofício, sem permitir que produza efeitos no processo, a partir de uma interpretação sistemática
do NCPC.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Ato processual (cont.) - Tutela Provisória

Ato Processual (continuação)

Comunicação dos atos processuais

Esse estudo é divido em dois grupos:

• Citação e intimação

• Cartas

I. Citação

O art. 238 do CPC diz que citação é o ato pelo qual são convocados o réu, o executado ou
o interessado para integrar a relação processual.

Quem não integrava a relação processual, passa a integrar com a citação.

A citação é pressuposto de validade do processo, conforme estabelece o art. 239. O


processo não deixa de ser instrumento. Por conta disso, tal dispositivo afirma que para a validade
do processo é indispensável a citação do réu ou do executado, ressalvadas as hipóteses de
indeferimento da petição inicial ou de improcedência liminar do pedido.

E o § 1º dispõe que o comparecimento espontâneo do réu ou do executado supre a falta


ou a nulidade da citação, fluindo a partir desta data o prazo para apresentação de contestação ou
de embargos à execução.

a) Teoria da aparência

O art. 242 do CPC diz que a citação será feita pessoalmente ao réu, podendo ser feita na
pessoa do representante legal ou do procurador do réu, do executado ou do interessado.

A teoria da aparência ganha relevância nos casos de réu pessoa jurídica. O que vem sendo
admitido é a realização da citação na pessoa do funcionário que exteriorize esse poder de gestão,
esse poder de decisão no dia a dia das atividades empresariais.

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A teoria da aparência traz a ideia de que, ainda que este funcionário, no estatuto, não
contenha poderes para receber uma citação, se ele age e se exterioriza como tal, então é
considerada válida a citação daquela pessoa jurídica.

No caso da citação via postal o CPC admite expressamente que seja assinado pelo
funcionário responsável pelo recebimento de correspondências. Se quem recebe a citação é
pessoa que aparentemente tem poder para receber a citação, em caso de pessoa jurídica, ainda
que formalmente não tenha esse poder, valerá a citação. Visa coibir a fraude.

b) Situações em que a citação não pode ser realizada

Em regra, a citação pode ser realizada em qualquer lugar em que se encontre o réu, o
executado ou o interessado.

O militar em serviço ativo será citado na unidade em que estiver servindo, se não for
conhecida sua residência ou nela não for encontrado.

São hipóteses em que não poderá ser realizada a citação, salvo para perecimento do
direito:

a quem estiver participando de ato de culto religioso

ao cônjuge, ou companheiro ou de qualquer parente do morto, consanguíneo ou afim,


em linha reta ou na linha colateral em 2º grau, no dia do falecimento e nos 7 (sete) dias
seguintes

aos noivos, nos 3 primeiros dias seguintes ao casamento;

os doentes, enquanto grave o seu estado.

O CPC traz situações excepcionais que não admitem a citação naquele momento. É o CPC
positivando o bom-senso, e trazendo segurança jurídica.

Todavia, para evitar a prescrição ou qualquer outro perecimento de direito será possível
citar.

c) Modalidades de citação

É preciso diferenciar dois grupos de citação:


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• Citação pessoal

A diferença está no fato de que na citação pessoal o réu é efetivamente citado, enquanto
na citação ficta, presume-se que o réu tenha sido citado. Outra diferença reside na
ausência da manifestação do demandado após ele ter sido citado.

Se a citação é pessoal, é gerado o efeito da revelia, e aí está autorizado o julgamento


antecipado do mérito, conforme art. 355, II, CPC, caso em que o juiz julgará
antecipadamente o pedido, proferindo sentença com resolução de mérito, quando o réu
for revel, ocorrer o efeito previsto no art. 344 e não houver requerimento de prova, na
forma do art. 349.

Neste caso, por ter havido a citação pessoal do réu, sabe-se que ele teve o conhecimento
do feito. Se não apresentou a contestação há revelia, podendo julgar diretamente o
mérito, caso assim seja possível.

• Citação ficta

Quando há a citação ficta, há a presunção de que foi citado, havendo ausência de atuação
do réu, situação em que não vai motivar o julgamento antecipado do mérito, mas
poderá motivar a nomeação de um curador especial, o qual apresentará defesa, sem
ônus da impugnação especificada. Neste caso, o curado especial poderá apresentar
contestação por negativa geral. Ou seja, não será presumidamente verdadeiro os fatos
alegados pelo autor.

i. Citação pela via postal

A citação pela via postal é uma citação pessoal e é a modalidade preferencial.

O art. 248 vai dizer que determinada a citação postal, cabe ao serventuário remetê-la
com cópia reprográfica da petição inicial e do despacho do juiz que autorizou esta citação. Nesta
remessa feita pelo serventuário, já vai comunicar o prazo de resposta, bem como o endereço do
juízo.

No caso do procedimento comum, na demanda já vai constar a data e o horário da


audiência de conciliação e mediação.

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A Súmula 429 do STJ vai dizer que a citação postal, quando determinada por lei, exige o
aviso de recebimento.

ii. Citação por oficial de justiça

A citação pode ser dar também por oficial de justiça nas hipóteses em que é proibida a
citação postal. Também poderá ser feita a citação por oficial de justiça quando a citação postal
tiver sido frustrada ou mesmo quando houver dúvida se foi o próprio demandado quem assinou
o AR, ou se foi outra pessoa.

Nesse caso, o cartório emitirá um mandado de citação e o oficial cumprirá este mandado.

Ao chegar no local, o oficial promoverá a leitura do mandado de citação e entrega ao


demandado uma contrafé (cópia da petição inicial).

A citação por oficial de justiça pode ocorrer em dias úteis, entre 6 horas e 20 horas. Só
que a citação, por oficial, poderá ocorrer nos domingos, feriados, dias úteis, fora do horário acima,
independentemente de autorização judicial.

iii. Citação pelo escrivão ou chefe de secretaria, se o citando comparecer em cartório

A citação poderá ser feita pelo escrivão ou chefe de secretaria, se o citando comparecer
em cartório.

É uma modalidade de citação pessoal.

iv. Citação por meio eletrônico

Essa citação por meio eletrônico é considerada citação pessoal, visto que tomou
conhecimento da demanda contra o réu proposta.

v. Citação por edital

A citação por edital é espécie de citação ficta, não sendo citação real ou pessoal.

A citação por edital poderá ser realizada nas hipóteses autorizadas por lei:

• Desconhecido ou incerto o demandado:

• Incerto, ignorado ou inacessível o lugar em que o demandado se encontra

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• Previstos e autorizados em lei

No primeiro caso, o demandado é realmente desconhecido pelo demandante. Ex.: ação de


usucapião de bem móvel, mas não se sabe quem é o dono do bem.

No segundo caso, sabe-se quem é o demandado, mas não se sabe o lugar em que ele está,
ou tal lugar é inacessível. Ex.: réu não foi localizado após várias buscas, mas o único caminho que
resta é o da citação por edital.

Lembre-se que no Juizado Especial não cabe citação por edital.

Na terceira hipótese, por exemplo, pode se dar no caso da lei de execução fiscal, em que
prevê que o executado, quando residente no exterior, deve ser citado por edital. Esta
interpretação legal vem sendo mitigada, mas ao ponto de o STJ ter simulado pelo Enunciado 414,
em que estabelece ser a citação por edital cabível, na execução fiscal, quando frustradas as
demais modalidades.

O STJ diz que é preciso homenagear a ampla defesa e o contraditório, de maneira que se
sabe onde está e quem é o executado, deve-se citá-lo de modo pessoal. Caso frustradas estas
tentativas, aí sim faz-se citação por edital.

A citação por edital se dará por meio da publicação do edital na rede mundial de
computadores, no sítio do respectivo tribunal e na plataforma de editais do Conselho Nacional de
Justiça, que deve ser certificada nos autos.

Pode ainda ser determinada a publicação de editais em jornal local de ampla circulação. O
prazo dos editais vai variar entre 20 e 60 dias. Depois de escoado o prazo dos editais é que irá
contar o prazo para que o agora citado apresente a sua resposta.

Caso não apresente resposta neste prazo, a citação, que é considerada ficta, não gerará o
efeito da revelia, devendo o juiz nomear um curador para apresentar resposta sem o ônus da
impugnação especificada.

vi. Citação por hora certa

A citação também poderá ser por hora certa, sendo também espécie de citação ficta.

Caberá citação por hora certa quando o oficial tiver comparecido ao endereço demandado
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por 2 oportunidades, não encontrando o demandado e tendo uma suspeita de que ele está se
ocultando para não ser citado. Neste caso, caberá ao oficial retornar no dia seguinte, ou marcar
uma data, a fim de voltar pela terceira vez, situação na qual irá intimar alguém da família ou
vizinho, deixando lá a contrafé.

No caso da citação por hora certa, há ainda a necessidade de o servidor do judiciário


expeça uma carta registrada, com destino ao citando, para informar tudo que aconteceu.

O prazo para o sujeito apresentar a resposta será do primeiro dia útil seguinte à juntada
do mandado cumprido pelo oficial de justiça, e não da expedição da carta e nem pela juntada do
aviso de recebimento dessa carta registrada, noticiando ao demandado tudo que aconteceu.

Sendo certo que o demandado foi citado por hora certa, situação em que não apresentou
resposta, neste caso, como se trata de citação ficta, o juiz irá nomear curador especial para
apresentar resposta sem o ônus da impugnação especificada.

d) Efeitos da citação

A citação pode apresentar efeitos processuais e também materiais.

Efeito processual: induz litispendência, visto que se compara a relação jurídico-


processual com outra, visto que quem não integrava a relação jurídica anterior, passa a
integrar, sendo possível verificar se há litispendência ou não.

Efeito material: torna litigiosa a coisa e constitui em mora o devedor. Lembre-se que
essa constituição em mora é feita pela citação, quando a mora não tiver se dado por outra
forma, tal como ocorre com a mora ex re.

e) Consequências da falta de citação ou nulidade da citação

A falta de citação é o caso em que o sujeito não foi citado. Nulidade da citação é o caso em
que o sujeito foi citado, mas não foi válida.

Aquele processo em que a citação for inexistente ou nula está maculado.

Ainda que tenha sido proferida a sentença, ou que a sentença tenha transitado em
julgado ou ainda que tenha sido formado a coisa julgada material soberana (ou coisa
soberanamente julgada ou coisa julgada soberana), em todos esses casos, caso tenha havido a
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nulidade ou inexistência de citação, será questionável a validade do processo, visto que há
mácula insanável. Neste caso, será dito que a eventual ausência de citação autoriza uma querela
nulitatis insanabilis, em que há uma insanável nulidade que acomete o feito.

Quanto ao meio processual para que este vício da falta de citação ou que a nulidade de
citação venha a ser reconhecido, esta falta ou nulidade poderá ser arguida na fase de
conhecimento, contestação, impugnação ao cumprimento de sentença, embargos à execução,
inclusive de ofício.

II. Intimação

O art. 269 do CPC diz que intimação é o ato pelo qual se dá ciência a alguém dos atos e
dos termos do processo.

A intimação pode ser dirigida tanto à parte como a um terceiro (perito, testemunha, etc.).

Para alguns, a intimação é a ciência de um ato que já ocorreu e notificação é a ciência de


um ato que ocorrerá. Mas a legislação não traz esta diferenciação.

A regra é que a intimação se dê pela publicação no diário oficial, caso não se dê por meio
eletrônico. O meio eletrônico é o preferencial.

Pode ser realizada intimação de formas diferentes, inclusive pelo próprio magistrado, caso
se dê na presença das partes e dos respectivos advogados, considerando que foram intimados
desde já.

Em relação a intimação, há dois pontos de inovação do CPC.

O art. 272, §1º, traz a hipótese em que os advogados requerem a intimação apenas em
nome da sociedade a que pertençam, desde que devidamente registrada na Ordem dos
Advogados do Brasil.

Outra inovação é a necessidade de que as intimações tenham os nomes completos das


partes e dos advogados, vedado conter qualquer abreviaturas, inclusive com o respectivo número
de inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil, ou, se assim requerido, da sociedade de
advogados, sob pena de nulidade (art. 280).

Por vezes, a legislação autorizará que a intimação se realize com o encaminhamento dos
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próprios autos, como ocorre com o MP, AGU, DP, etc. Nestes casos, há intimação pessoal.

III. Cartas

a) Carta precatória

A carta precatória se faz presente quando um juízo requer a outro juízo de igual hierarquia
que seja cumprida uma decisão.

Isso ocorre pelo fato de que o primeiro juízo (deprecante) não tem competência territorial
para atuar naquela localidade (deprecado).

Esta carta precatória se dará por meio físico ou por meio eletrônico.

Deverá a carta precatória conter as peças processuais necessárias para aquela diligência e
cumprimento da carta precatória.

Ao chegar a carta precatória no juízo deprecado, as questões decididas pelo juízo


deprecado serão bem limitadas, visto que a competência é do juízo deprecante.

Todavia, apesar de bastante limitado, o juízo deprecado poderá decidir certas questões
relativas ao cumprimento da carta precatória.

Se a prova produzida na carta precatória for imprescindível à resolução do mérito, o juízo


deprecante não poderá julgar, devendo determinar o sobrestamento do processo até o
cumprimento da carta precatória. Este sobrestamento poderá se dar pelo prazo de até 1 ano, a
fim de que seja cumprida a carta precatória no juízo deprecado.

Atente-se que há uma suspensão imprópria do processo, visto que o processo continua
correndo. Isto é, a carta precatória faz parte do processo e ela está sendo cumprida, ou seja, parte
do processo continua em andamento.

A carta precatória poderá ser dispensada, quando se tratar de um ato que será praticado
numa localidade contígua ou naquelas que compõem a mesma região metropolitana.

A carta precatória é uma forma de cooperação nacional, dentre diversas outras formas.

b) Carta de ordem

A carta de ordem decorre da hierarquia entre o órgão que determina a prática do ato e
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aquele que vai cumpri-la. O juízo deprecado não poderá recusar cumprimento à carta. Isso
porque a carta é de ordem. Ex.: juiz determina ao órgão de primeira instância que cumpra a
medida.

c) Carta arbitral

A carta arbitral é a carta do árbitro.

O objetivo é dar cumprimento à decisão proferida pelo árbitro, pois os árbitros não têm
poder de efetivação de suas decisões, podendo o próprio árbitro buscar o poder judiciário para
adoção dos meios executivos, com o objetivo de satisfazer aquela obrigação.

d) Pedido de cooperação internacional: auxílio direto e carta rogatória

O pedido de cooperação internacional pode ser realizado de duas formas:

Auxílio direto: modalidade adequada para atos que não necessitam de prestação
jurisdicional.

Carta rogatória: é uma carta oriunda de um país, com destino a outro país. Neste caso,
serve para o cumprimento de medida judicial. Seria uma espécie de carta precatória
entre países diferentes.

O art. 27 enumerará de forma exemplificativa as medidas que podem ser objeto de


cooperação jurídica internacional:

• Citação

• Intimação

• Notificação (judicial ou extrajudicial)

• Colheita de provas

• Homologação de decisão

• Cumprimento de decisão

• Concessão de medida judicial de urgência

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• Assistência jurídica internacional

• Qualquer ato judicial ou extrajudicial, desde que não vedado pela legislação brasileira

i. Auxílio direto

Auxílio direto ocorre quando o pedido de cooperação não tenha por objeto uma decisão
judicial estrangeira que esteja sujeita a um juízo de delibação feita pela autoridade brasileira. O
auxílio direto é típico de medidas de cunho administrativo, extrajudicial.

O art. 29 diz que a solicitação de auxílio direto será encaminhada pelo órgão estrangeiro
interessado à autoridade central, cabendo ao Estado requerente assegurar a autenticidade e a
clareza do pedido. A autoridade central á o Ministério da Justiça. Caso não esteja claro, poderá a
autoridade central pedir esclarecimentos antes de decidir.

O art. 30 traz um rol das hipóteses que poderão ser caso de auxílio direto:

Auxílio direto para obtenção e prestação de informações sobre o ordenamento jurídico


e sobre processos administrativos ou jurisdicionais findos ou em curso;

Auxílio direto para colheita de provas, salvo se a medida for adotada em processo, em
curso no estrangeiro, de competência exclusiva de autoridade judiciária brasileira;

Qualquer outra medida judicial ou extrajudicial não proibida pela lei brasileira.

ii. Carta rogatória

A carta rogatória necessita passar por um filtro feito pelo Superior Tribunal de Justiça,
situação na qual concede o exequatur. Nesta situação será necessário um juízo de delibação.

Neste caso, um juiz federal dará cumprimento a esta carta rogatória na primeira instância.
Após, encaminhará ao STJ, o qual emitirá o envio à autoridade central (Ministério da Justiça).

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Tutela provisória - Formação, suspensão e extinção do processo.

Tutela jurisdicional. Tutela Provisória

Introdução

Tutela jurisdicional é proteção do Estado-juiz. As tutelas jurisdicionais podem sofrer


classificações distintas, a depender do ponto de vista empregado.

Existem dois grandes grupos:

• Tutelas materiais

• Tutelas processuais

No que toca às tutelas materiais, podemos obter as seguintes tutelas:

• Tutela declaratória

• Tutela constitutiva

• Tutela condenatória

• Tutela ressarcitória

• Tutela inibitória

• Tutela cautelar

No tocante às tutelas processuais, existem as seguintes:

• Tutela de evidência definitiva

• Tutela provisória

• Tutela específica

Tutelas materiais

No que toca às tutelas materiais, podemos obter as seguintes tutelas:

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• Tutela declaratória:

A natureza declaratória da tutela denota que existia uma dúvida que visava eliminar. Ex.:
o débito existe, ou o débito inexiste.

• Tutela constitutiva:

Há a criação de uma situação, ou seja, a modificação ou extinção de um vínculo, havendo


a alteração no mundo dos fatos. Ex.: sujeito era casado, mas deixou de ser.

• Tutela condenatória:

Há uma parte demandante buscando a condenação do demandado para que cumpra


uma obrigação de dar, fazer, não fazer, de entregar coisa.

Este tema será aprofundado no tema das sentenças.

• Tutela satisfativa ressarcitória:

Satisfativa significa que o direito material foi alcançado e ressarcitória significa que foi
recomposto o patrimônio que foi lesado.

Ela é pleiteada quando no plano do direito material ocorreu um fato ilícito que resultou
num dano a alguém. O autor da demanda não pretende que seja desfeito o
comportamento contrário ao direito que lhe causou a lesão. O que ele pretende é que o
seu patrimônio seja recomposto em razão da lesão que ele experimentou.

Por isso o cunho satisfativo, pois satisfaz a pretensão de direito material.

• Tutela satisfativa inibitória:

Satisfativa significa que foi alcançado o objetivo no plano material, e inibitória significa
que o impedimento de um dano que poderia acontecer. Ou seja, inibiu-se uma conduta
ilícita, tanto omissiva como comissiva.

Aqui há uma natureza preventiva, visando prevenir a ocorrência de um ilícito.

Esta tutela inibitória poderá ter uma feição positiva ou negativa.

a) Tutela inibitória negativa: poderá ocorrer quando o vizinho abusa do seu direito de

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construir. O demandante promove uma ação de tutela inibitória para que o vizinho pare
de construir, cessando um ilícito, através de um não fazer.

b) Tutela inibitória positiva: poderá quando o demandado é condenado a praticar algo


para evitar que a sua inércia implique um comportamento ilícito. Rodolfo Hartmann
exemplifica o caso de um fabricante de medicamento que não presta as informações
adequadas quanto aos produtos, descumprindo o ônus imposto pela legislação
consumerista. O MP vai a juízo com uma ação civil pública para que ele seja impelido a
prestar as informações. O consumidor nem comprou o remédio para o mês que vem, mas
no remédio que virá deverá vir com as informações, inibindo um futuro comportamento
ilícito da empresa.

• Tutela cautelar

A tutela cautelar é uma tutela não satisfativa.

Na tutela cautelar, busca-se reconhecer o direito a uma cautela. A ideia é tornar útil,
proveitoso, um provimento jurisdicional que já foi, ou que virá a ser, proferido no
próprio processo.

Ex.: João ganhou o processo de Pedro, mas este está liquidando os bens, motivo pelo qual
deverá ser obstada esta situação. Isso porque na hora que for executar não irá achar
nada.

A tutela cautelar visa encontrar proveito no processo principal, ou no bojo do processo.

Veja, o demandante não adquiriu o bem do devedor, mas quando for executar a sentença
haverá bens para promover a execução. Isso faz com que não seja satisfativa.

Como a tutela cautelar exige que haja alguma urgência, parece-nos intuitivo que possa
ser concedida no bojo de um processo, através de uma decisão interlocutória, ou mesmo
na própria sentença, situação na qual o juiz poderá conceder a tutela cautelar.

Perceba que é plenamente possível a cumulação no mesmo processo tanto de uma tutela
cautelar quanto de uma tutela satisfativa, até para que a tutela satisfativa venha a
ocorrer.

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Tutelas processuais

No tocante às tutelas processuais, existem as seguintes:

• Tutela de evidência definitiva

• Tutela provisória

• Tutela específica

a) Tutela de evidência definitiva

Se a tutela é de evidência, significa que o direito é evidente. Definitiva significa que poderá
gerar coisa julgada, não podendo mais suscitar discussões.

Veja, tutela de evidência definitiva é a tutela que pode ser imediatamente prestada ou
negada, se houver a existência ou a inexistência do direito pleiteado pelo demandante,
tornando-se esta tutela definitiva, com a formação de coisa julgada.

O CPC traz alguns casos de tutela de evidência definitiva, como a improcedência liminar,
o julgamento antecipado total do mérito e o julgamento antecipado parcial do mérito.

i) Improcedência liminar

O CPC autoriza que o juiz sentencie liminarmente o processo, resolvendo o mérito antes
mesmo de citar a parte contrária, desde que a sentença seja de total improcedência.

ii) Julgamento antecipado do mérito

Julgamento antecipado do mérito é uma autorização, dada por lei, para que o magistrado
sentencie o processo, seja o julgamento procedente ou improcedente do pedido.

Portanto, a sentença do juiz pode se mostrar favorável ou desfavorável ao demandante.


Neste caso, é necessário que tenha sido feita a citação do demandando, pois poderá ser
desfavorável ao demandado.

Quando é que se admite o julgamento antecipado do mérito?

O julgamento antecipado do mérito poderá ocorrer quando não houver necessidade de


produção de outras provas, ou seja, a prova carreada nos autos pela petição inicial e pela

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contestação são suficiente para promover o julgamento do mérito.

Ainda é possível o julgamento antecipado do mérito quando ocorrer à revelia.

iii) Julgamento antecipado parcial do mérito

O julgamento antecipado parcial do mérito é uma inovação do Novo CPC.

O art. 356 do NCPC vai estabelecer que o magistrado, quando verificar uma tutela de
evidência, diante de uma matéria que não é controvertida entre as partes (controvérsia parcial),
estaria autorizado a liminarmente decidir a parcela do mérito.

Esta medida do juiz teria como objetivo formar mais rapidamente o título executivo
judicial, visto que em relação à parcela incontroversa poderia o credor promover a execução do
título em autos apartados.

Ex.: Samer promove uma ação de cobrança contra João no valor de R$ 100.000. Na
contestação, João fala que não deve aquele valor, mas deve apenas R$ 70.000. Em relação à
parcela incontroversa (R$ 70.000), não há dúvidas, cindindo-se a causa em relação a R$ 30.000.
Portanto, o juiz poderá decidir em relação aos R$ 70.000, podendo inclusive Samer executar o
título. Este juízo, com relação aos R$ 70.000, é de cognição exauriente, motivo pelo qual esta
decisão interlocutória poderá fazer coisa julgada formal e material.

Perceba que neste caso, no julgamento antecipado parcial do mérito, é possível a


formação de coisa julgada formal e material.

O recurso cabível da decisão interlocutória que julga parcialmente o mérito é o agravo de


instrumento.

b) Tutela provisória

O NCPC inova substancialmente no tratamento das tutelas de urgência, eis que cria um
gênero: tutela provisória.

i. Classificação quanto ao momento que foram requeridas

Tutela provisória antecedente (inicial):

São requeridas antes mesmo de se postular a tutela satisfativa, ou então no mesmo


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momento em que se postulou a tutela satisfativa (pretensão de direito material), situação
em que também houve a postulação da tutela provisória, em caráter de urgência. A tutela
provisória será pleiteada ao juízo competente para apreciar o mérito daquela tutela
principal (satisfativa), a qual será concedida após a cognição da tutela exauriente.

O CPC apresenta uma ressalva. Isto é, quando for instaurado um incidente de resolução
de demandas repetitivas no Tribunal (IRDR), haverá o sobrestamento dos processos sobre
aquela idêntica matéria. Se a parte estiver numa situação de sobrestamento, e caso
deseje obter uma tutela provisória de urgência, deverá requerer tal medida ao juízo que
atua na 1ª instância, apesar de estar sobrestado no Tribunal.

Veja, não será sempre requerida a medida de urgência para o juiz que irá julgar o mérito
principal. Pode acontecer de haver uma divergência, ou seja, um será o que irá julgar o
incidente e outro será quem irá conceder a tutela provisória, no caso o juízo de 1ª
instância.

Tutela provisória incidental:

São requeridas após já ter sido ofertado a petição inicial. Esta tutela provisória incidental
é requerida por simples petição, após já ter sido apresentada a petição inicial.

ii. Classificação quanto a sua justificativa

Tanto na tutela provisória de urgência como na de evidência, em ambos os casos se está a


tratar de tutela provisória, em sede de cognição sumária, podendo o entendimento ser alterado,
a despeito de haver uma tutela provisória de evidência.

Veja, não se confunde com a tutela de evidência definitiva.

Tutela provisória de urgência:

Aqui há uma tutela baseada na urgência, tanto da pretensão satisfativa quanto da


pretensão cautelar. É necessário o fumus boni iuris e o periculum in mora.

Tutela provisória de evidência:

A tutela de evidência poderá ser deferida quando há evidência do direito ou da evidência


da falta do direito, podendo ser concedida ou não.
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iii. Tutela provisória de urgência

► Distinção entre tutela provisória de urgência antecipada e tutela provisória de


urgência cautelar

Na tutela provisória de urgência, há uma tutela provisória cujo fundamento é a urgência


da situação. Esta tutela pode ser denominada de antecipada ou de cautelar:

Tutela provisória de urgência antecipada: trata-se de uma tutela satisfativa, pois


corresponde à satisfação efetiva da pretensão de direito material do demandante.

Tutela provisória de urgência cautelar: trata-se de uma tutela provisória, mas não há a
efetiva satisfação do direito material. O que há é a tutela no sentido de garantir, ou de
tornar útil um provimento jurisdicional futuro. Cautelar significa um instrumento que visa
resguardar a satisfação de outro instrumento.

Em algumas situações será difícil diferenciar tais situações. Exemplo disso ocorre quando
João deve 100 mil à Samer. Samer ajuíza a ação e obtém a penhora sobre bens de João. Samer
quer levantar este dinheiro, tendo em vista que ele precisa do dinheiro para continuar as suas
atividades empresariais. O juiz aceita o levantamento, sob condição de que haja caução. Samer
indica um imóvel. No final do processo, se Samer sair vitorioso, somente a caução deixará de
existir, pois ele já estaria no gozo da satisfação do seu próprio direito. Quando for julgamento
procedente o pleito, só haveria a necessidade de dar baixa na caução, pois o resto já estaria
resolvido. Veja, esta tutela provisória foi antecipada.

Por outro lado, caso Samer prove ao juiz que João estaria dilapidando o seu patrimônio
para não arcar com os valores de 100 mil reais. Com isso, Samer pede a concessão de cautelar de
arresto. Concedendo o juiz a cautelar de arresto, o imóvel de João ficará penhorado. Veja, Samer
não obteve o imóvel de João, mas ficou resguardado o bem para fins de eventual procedência do
seu pedido, garantindo futuro eventual cumprimento de sentença. Nestes caso, houve uma tutela
provisória cautelar.

Existem situações em que é difícil analisar se o demandante está pleiteando uma tutela
provisória de urgência antecipada (satisfativa) ou de natureza cautelar.

A fim de evitar este problema, o Novo CPC autoriza a fungibilidade entre as tutelas de
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urgência, conforme art. 305, parágrafo único do CPC.

► Requisitos para a concessão da tutela provisória de urgência (antecipada ou cautelar)

São requisitos para a concessão da tutela provisória de urgência:

Probabilidade do direito (fumus boni iuris)

Perigo do resultado útil do processo (periculum in mora)

• Reversibilidade dos efeitos da decisão

Observe que, quando falamos em tutela provisória de evidência, só haveria dois


requisitos:

Probabilidade do direito (fumus boni iuris) e

• Reversibilidade dos efeitos da decisão

Veja, na tutela provisória de evidência é dispensado o periculum in mora (perigo de dano).

► Risco de dano fabricado (ou periculum in mora fabricado)

Por vezes, a tutela provisória é negada, sob o fundamento de que há, no caso, risco de
dano fabricado, ou periculum in mora fabricado.

Mas o que é risco de dano fabricado, ou periculum in mora fabricado?

Aqui há uma situação de risco que foi causada, ou potencializada, pelo interessado na
concessão da medida liminar. O sujeito cria o periculum in mora.

Ex.: sujeito busca uma tutela provisória de urgência em virtude de querer participar de
uma licitação ao arrepio das regras constantes do edital. Com isso, o sujeito ingressa com este
pedido momentos antes de ocorrer o certame. Ocorre que o sujeito tinha 2 meses para ingressar
com a ação, mas resolveu ingressar um dia antes. Quem criou, ou ao menos quem potencializou,
o perigo de dano foi o próprio sujeito. Neste caso, haveria periculum in mora fabricado.

Rodolfo Hartmann estabelece que no caso de periculum in mora fabricado deve ser negada
a antecipação dos efeitos da tutela, pois, do contrário, haveria o fomento da má-fé, sendo o sujeito
beneficiado pela própria torpeza.

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► Risco de dano inverso (ou periculum in mora inverso)

No caso do risco de dano inverso, o juiz, quando analisa a petição inicial, se depara com a
situação de que, se denegar a tutela provisória, o autor ficaria numa situação de risco, mas se
conceder quem ficará exposto a uma situação de risco muito maior é o demandado.

Neste caso, o juiz, no caso concreto, deverá ponderar os valores que estão em jogo para
chegar a uma situação justa, a fim de concluir se o perigo do autor deveria ser afastado, e portanto
concedida a tutela antecipada, ou não, situação na qual o perigo gerado ao réu seria mais gravoso.

► Irreversibilidade dos efeitos da decisão

Em algumas situação, a despeito da irreversibilidade dos efeitos da decisão, é possível a


concessão da tutela provisória de urgência.

Diante de um requerimento liminar, os efeitos da tutela provisória são no sentido da


irreversibilidade, situação na qual, via de regra, não seria concedido pelo juiz, pois é necessário:
fumus boni iuris, periculum in mora e reversibilidade dos efeitos da decisão.

No entanto, caso se trate de uma demanda da área médica, a fim de que o plano de saúde
cubra esse tratamento?

Como se sabe, se for concedida a cirurgia no valor de 100 mil reais em favor da parte em
detrimento do plano de saúde, caso haja a reversibilidade da decisão, a parte ré não ressarcirá o
plano de saúde, experimentando prejuízo. Trata-se de uma irreversibilidade dos efeitos da
decisão.

Todavia, a jurisprudência vem admitindo, ou seja, permite-se que o magistrado realize uma
ponderação de valores entre os bens jurídicos, no caso há: vida x prejuízo financeiro.

Nestes casos, excepcionais, é possível o deferimento da tutela provisória de urgência,


apesar da decisão ganhar contornos de irreversibilidade, através da ponderação de valores.

► Necessidade de requerimento para concessão das tutelas provisórias de urgência

Para conceder tutela provisória de urgência, é preciso de requerimento?

Existe uma divergência doutrinária, no sentido de ser necessário o requerimento da parte

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para que seja concedida uma tutela de urgência, ou ser desnecessário, podendo o juiz conceder
a tutela provisória de urgência de ofício.

Prevalece o entendimento de que é possível o juiz conceder a tutela provisória de


urgência de ofício. O fundamento para isso é a máxima de que quem pode o mais, que é conceder
a tutela definitiva, pode o menos, que é conceder a tutela provisória de urgência.

Rodolfo Hartmann chama a atenção para o fato de que o Novo CPC, no art. 304, estabelece
que se a decisão que concede a tutela provisória de urgência antecipada não for impugnada, esta
decisão se estabiliza. Com isso, o processo é extinto sem resolução do mérito.

Há autores que sustentam que, no caso de tutela satisfativa, o juiz não poderia conceder
a tutela provisória de ofício, pois, supondo que o autor não queira que o feito seja extinto sem
resolução do mérito, não pedindo a concessão da tutela provisória, visto que ele sabe que, se o
juiz conceder a tutela provisória, e a outra parte não impugnar, a decisão se estabilizará,
extinguindo o processo sem resolução do mérito.

A doutrina, por esta razão, vai dizer que, neste caso, o juiz não poderia conceder a tutela
provisória de ofício, pois poderia estar, inclusive, prejudicando o autor.

De qualquer forma, basta que haja um requerimento expresso numa petição, com o
objetivo de que seja concedida uma tutela provisória de urgência, a fim de que o magistrado tenha
que se manifestar sobre isso.

Se não houver esse requerimento, a maioria entende que o juiz poderá conceder de ofício.

Havendo esse requerimento, o magistrado deverá se pronunciar no prazo máximo de 60


dias úteis.

► Revogação das tutelas provisórias de urgência

A revogação da decisão que concedeu a tutela provisória é plenamente possível, podendo


ocorrer a qualquer momento enquanto o processo estiver pendente de julgamento. Não há
nenhum óbice para revogação da tutela provisória antes da sua sentença.

Todavia, quando a tutela provisória de urgência antecipada tiver sido concedida, e não
houver o recurso por parte do demandado, o processo é extinto sem resolução do mérito.

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Ou seja, extinto o processo, o juiz não poderá mais revogar esta decisão. Neste caso, a
modificação ou a revogação da tutela provisória de urgência, concedida pelo magistrado, não
poderá ser feita de ofício pelo juiz.

Veja, a revogação, neste caso, somente será possível a revogação da tutela provisória de
urgência se uma das partes se valer da propositura de uma nova ação, ou seja, uma demanda
específica com esta finalidade, observando o prazo decadencial de 2 anos, previsto no art. 304 do
NCPC.

►Tutela provisória de urgência antecipada no procedimento comum

Em uma situação de urgência, o interessado apresentará uma petição inicial, a fim de que
o magistrado conceda uma tutela provisória antecipada e determinar a citação do réu.

O demandado é citado para comparecer à audiência de conciliação ou mediação.

Esta audiência somente irá ocorrer se o demandado tiver interposto recursos de agravo
de instrumento da decisão que concedeu a tutela provisória. Lembrando que, não havendo
impugnação, o processo será extinto sem resolução do mérito, situação na qual a decisão se
estabiliza (art. 304).

A partir do momento em que o processo é extinto, começa o prazo de 2 anos para


qualquer parte vir a juízo para pleitear a alteração, reforma ou a invalidação da decisão da tutela
provisória. Esta ação busca revogar a tutela provisória anteriormente concedida.

Por isso, será denominada de ação revocatória, devendo ser distribuída por prevenção ao
mesmo órgão jurisdicional, e observado o procedimento comum.

Após os 2 anos sem a propositura da ação revocatória, a decisão da tutela antecipada vai
estabilizar, mas não haverá coisa julgada, visto que a decisão que extinguiu o processo se deu
sem resolução do mérito.

►Tutela provisória de urgência cautelar no procedimento comum

Lembremos que aqui a tutela não é satisfativa. O NCPC eliminou as disposições do


processo cautelar autônomo, reconhecendo a possibilidade dessa tutela cautelar prestada no
próprio processo principal.

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A parte interessada elabora uma petição inicial, indicando a lide, o fundamento dessa lide,
a narrativa do perigo de dano ou do resultado útil ao processo, já que estamos tratando de uma
tutela provisória de urgência (trazendo os requisitos para concessão: periculum in mora, fumus
boni iuris e reversibilidade dos efeitos da decisão).

Sendo deferida, ou não a tutela de urgência cautelar, o demandado é citado para


apresentar a sua resposta. Esta será a sua primeira resposta. O demandado será citado para
apresentar resposta no prazo de 5 dias.

Não sendo contestado o pedido, os fatos alegados pelo autor serão presumidamente
aceitos pelo réu como ocorridos, caso em que o juiz decidirá dentro de 5 dias. A partir daí o
procedimento passa a ser o comum.

Se hipoteticamente é deferida esta tutela provisória de urgência cautelar, que foi


requerida pelo demandante, cabe a ele emendar a sua petição inicial, a fim de incluir os fatos e
fundamentos, relacionados à pretensão de cunho satisfativo, já que a tutela cautelar tem
natureza instrumento (instrumento do instrumento).

Nada impede que esses elementos, que fundamentam a pretensão de cunho satisfativo,
já estejam na petição inicial apresentada anteriormente, motivo pelo qual se mostra
desnecessário promover emenda à petição (art. 308, §1).

Concedida a tutela, a emenda deverá ocorrer no prazo de 30 dias. Caso não realize o
aditamento da inicial, cessará a eficácia da tutela concedida.

Se o aditamento é feito regularmente, as partes são intimadas para a audiência de


conciliação e mediação. Não obtida a autocomposição, inicia-se o prazo de 15 dias para o
demandado apresentar a sua 2ª contestação.

Perceba que ao tratarmos de tutela provisória de urgência cautelar, haverá duas respostas:

• Uma no prazo da tutela cautelar que será de 5 dias;

• Outra para contestar o processo em que há um pleito de cunho satisfativo, e portanto de


cognição exauriente, sendo o prazo de 15 dias.

Tutela provisória de evidência

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O magistrado poderá deferir tutelas provisórias não calcado em situação emergencial, ou
seja, poderá deferir tutela provisória sem periculum in mora.

No entanto, isto somente ocorrerá quando estiver evidente o direito alegado.

A tutela provisória de evidência, por ser provisória, é dada em cognição sumária, razão
pela qual é revogável, não sendo definitiva e não fazendo coisa julgada.

Quando é que o juiz poderá conceder uma tutela provisória havendo evidência do direito,
sem a necessidade de demonstração de uma situação emergencial ou de periculum in mora?

São hipóteses em que haverá tutela provisória de evidência:

• Manifesto atuar protelatório da parte contrária

A lei traz o exemplo do manifesto atuar protelatório da parte contrária, ou seja, da


atitude manifestamente protelatória. Neste caso, a lei permitirá uma tutela antecipada
punitiva, nas palavras de Rodolfo Hartmann. Nesta hipótese, o magistrado concederá a
tutela provisória de evidência, mesmo sem exigir o periculum in mora, tendo em vista a
manifesta atuação protelatória.

• Alegações de fato puderem ser comprovadas apenas documentalmente e houver tese


firmada em julgamento de casos repetitivos ou em súmula vinculante;

Ainda, é possível a concessão de tutela provisória de evidência, sem a necessidade de


periculum in mora, quando as alegações de fato puderem ser comprovadas
documentalmente, e já houver tese firmada em julgamento de casos repetitivos ou em
súmula vinculante.

• Tratar-se de pedido reipersecutório fundado em prova documental adequada do


contrato de depósito, caso em que será decretada a ordem de entrega do objeto
custodiado, sob cominação de multa;

Poderá ainda ser concedida a tutela provisória de evidência, quando o pedido for
reipersecutório, portanto fundado em coisa, mas que tenha como base uma prova
documental do contrato de depósito. Neste caso, será decretado uma ordem de entrega
do objeto custodiado, sendo dispensada a comprovação do periculum in mora, mas deve

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haver a reversibilidade dos efeitos da decisão e o fumus boni iuris.

• Petição inicial for instruída com prova documental suficiente dos fatos constitutivos do
direito do autor, a que o réu não oponha prova capaz de gerar dúvida razoável.

Também será possível a tutela provisória de evidência quando for instruída com uma
prova documental suficiente que prova os fatos constitutivos do direito do autor e o
réu não opôs uma prova capaz de gerar uma dúvida razoável no juiz.

c) Tutela específica

Tutela específica consiste em assegurar ao autor especificamente o que ele quer, o que ele
busca, ou seja, aquilo que lhe é de direito.

Como o juiz concede exatamente aquilo que o autor tem direito?

O juiz faz isso por meio de medidas executivas, as quais buscarão assegurar a tutela
específica.

Estes meios poderão ser:

Sub-rogação:

Na sub-rogação há uma execução direta, focando diretamente no cumprimento da


obrigação. Ex.: obrigação de entrega de coisa. O devedor deve entregar 100 m² de um
piso, mas não entrega.

O juiz manda o oficial de juiz ir até o local, recolher 100m² de piso e manda entregar ao
credor.

Coerção:

Há uma execução indireta, não garantindo especificamente o cumprimento da


obrigação, mas busca influenciar a vontade do devedor.

A finalidade da execução indireta é estimular o cumprimento da obrigação pelo


executado, sendo típico em obrigações de fazer ou não fazer.

Ex.: o autor não consegue fazer o sujeito compareça à sua casa para pintar as paredes.

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No caso, somente este prestador de serviço é o indicado para pintar as paredes. Neste
caso, o juiz não pode determinar que qualquer outro preste o serviço, não podendo fazer
execução direta, somente cabendo coerção indireta, por meio de multa diária.

Cabe atentar que é amplamente fungível os meios executivos, isto é, poderá o juiz adotar
ora a sub-rogação, ora a coerção, a depender do caso concreto.

Formação, suspensão e extinção do processo.

Formação do Processo

• Princípio do Dispositivo (art. 2o, CPC): o processo começa pela iniciativa das partes e se
desenvolve por impulso oficial. Juiz, via de regra, não age de ofício.

• Petição Inicial (art. 319, CPC): a petição inicial deve observar requisitos que estão previstos
no CPC.

• Citação

• Emenda: prazo de 15 dias para emenda da inicial caso o Juiz verifique que os requisitos na
PI não estejam todos presentes.

A formação do processo será estuda quando iniciarmos o estudo procedimento comum.

Suspensão do Processo

A simples suspensão do processo não provoca a revogação ou a cassação da eficácia de uma


decisão judicial, a menos que haja uma decisão judicial em sentido contrário.

Enquanto o processo estiver suspenso não serão praticados atos processuais, salvo aqueles
urgentes, necessários para a preservação do direito das partes, a fim de evitar danos irreparáveis.

Art. 313 do CPC

I) A suspensão do processo na hipótese desse inciso é automática, ou seja, não precisa de decisão
judicial. Os efeitos dessa decisão é ex tunc. ED no REsp 270.191. Desde o momento da morte ou da
perda de capacidade o processo se considera suspenso, independentemente da decisão judicial. A
suspensão é automática e se os fatos só vierem ao conhecimento do julgador posteriormente terá
efeito ex tunc, sendo nulo todos os atos praticados anteriormente. A decisão judicial retroage à data
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120
da morte da parte.

II) Convenção das partes: é um negócio jurídico-processual. Essa suspensão não pode ultrapassar o
de 6 meses. Havendo concordância das partes o juiz não pode indeferir o requerimento. Se houver
prazos peremptórios em curso, a suspensão não atingirá o processo até que finde o prazo.

III) Arguição de impedimento ou suspeição. Ver art. 146, p. 2o. O relator da arguição de impedimento
ou suspeição vai declarar em quais efeitos ele recebe essa arguição (com ou não com efeito
suspensivo).

IV) IRDR. Ver art. 982, II, CPC (haverá estudo mais aprofundado sobre IRDR). O relator do IRDR vai
determinar a suspensão do processo e de todos os outros processos que estiverem tramitando no
Tribunal desde que tratem a mesma matéria de direito. O escopo do IRDR é fixar uma tese jurídica
e essa tese terá efeito vinculante.

V) Quando a sentença de mérito:

a) Nessa hipótese há 2 processos tramitando em juízos diferente, mas um deles é prejudicial


em relação ao processo que será suspenso. Prejudicialidade externa. Sempre que dois processos
tramitam em juízos diversos e há um risco de decisões conflitantes com uma relação de
prejudicialidade, o CPC diz que à luz da Teoria Materialista da Conexão deve haver a reunião dos
processos. Mas é possível também que ambos os juízos sejam absolutamente competentes para
cada processo. Assim, quando houver prejudicialidade externa o ideal é a reunião dos processos
(art. 55, p. 3o). Se não for possível a reunião de processos (mas havendo a relação de
prejudicialidade) haverá a suspensão do processo, mas é faculdade do juízo (STJ).

b) Nessa alínea não há dois processos diversos tramitando em juízos diversos com relação de
prejudicialidade. Tem um processo tramitando em um juízo, mas há provas necessárias produzidas
em outro juízo (pode ser prova emprestada). Nesse caso há 2 entendimentos doutrinários diversos:

1) Marcus Vinícius Rios Gonçalves: há uma prejudicialidade interna. O juiz


para julgar o mérito precisa saber do resultado daquela prova realizada em outro juízo.

2) Fredie Didier: há questão de preliminar. A análise desses fatos (prova


realizada em outro juízo) é preliminar à análise do processo.

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VI) Força Maior: evento imprevisível

VII) Decisões de competência do Tribunal Marítimo: O Tribunal Marítimo é órgão administrativo

vinculado ao Ministério da Marinha. Ele é órgão auxiliar do Poder Judiciário, que tem por atribuição
julgar os acidentes e fatos das navegações marítima, fluvial e lacustre e as questões relacionadas
com tais atividades. As conclusões do Tribunal Marítimo não vinculam o Poder Judiciário, que não
está impedido de concluir de forma diversa daquilo que foi decidido pelo Tribunal Marítimo.

VIII) As hipóteses de suspensão do processo não se esgotam no art. 313. Exemplos: incidente de
desconsideração da personalidade jurídica; art. 315 do CPC – há uma prejudicialidade externa.

IX) Parto ou adoção da única advogada da causa: o prazo para suspensão do processo é de 30 dias.
O termo inicial do prazo é a data do parto ou da concessão da adoção.

X) Único patrono da causa tornar-se pai: o prazo para suspensão do prazo é de 8 dias. O termo inicial
do prazo é a data do parto ou da concessão da adoção.

Extinção do Processo (arts. 485 e 487, II e III, CPC)

As sentenças que resolvem o mérito e têm natureza condenatória deixam de pôr fim ao
processo, pois, não havendo cumprimento voluntário da obrigação, prossegue-se com a fase de
cumprimento de sentença.

Sem resolução de mérito (art. 485 CPC)

I) Ver art. 330 do CPC – o indeferimento da PI deve ocorrer antes da citação do réu, pois as hipóteses
de indeferimento da PI pressupõem vício da PI ou vício da própria demanda. Se o Juiz citou réu
significa que os requisitos do art. 319 estão presentes.

II) Processo parado por mais de 1 ano por negligência das partes: antes de extinguir o processo é
necessário que se intime pessoalmente as partes.

III) Autor abandonar a causa por mais de 30 dias: há dois requisitos. a) intimação pessoal; b) se o réu
ainda não apresentou a contestação, o juiz pode intimar o autor para diligenciar, entretanto se o réu
já contestou, é necessário que o réu requeira essa intimação pessoal do autor. S. 240/STJ e art. 485,
p. 6o.

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IV) Pressupostos processuais: esse dispositivo trata dos pressupostos de validade, aos quais se
poderia acrescentar os de eficácia. São matérias que podem ser reconhecidas de ofício.

V) Pressupostos processuais negativos.

VI) Condições da ação (legitimidade e interesse de agir)

VII) Juízo arbitral: o juízo arbitral é competente para reconhecer a sua própria competência (ver art.
337 CPC). Caso haja uma Convenção de Arbitragem o Juiz não pode conhecer de ofício a existência
da convenção de arbitragem.

VIII) Desistência da ação: de acordo com o STF a desistência da ação pode ser requerida e
homologada até a prolação da sentença de primeira instância. Depois não mais.

a) Antes da contestação (art. 485, p. 4o): não precisa da concordância do réu

b) Depois da contestação (art. 485, p. 4o e 5o): precisa da concordância do réu

c) Fixação de tese em recuso repetitivo (art. 1040, p. 1o ao 3o): quando houver desistência da
ação em razão da fixação da tese em recurso repetitivo contrária à pretensão do processo não é
preciso a concordância do réu, ainda que seja após a contestação.

d) Execução e cumprimento de sentença (art. 775, p. único): precisa-se da concordância do


executado? Depende. Se o executado ingressou com os embargos à execução ou impugnação ao
cumprimento de sentença e essa resposta versa apenas sobre questões processuais, não precisa da
concordância do executado caso o exequente desista da execução ou do cumprimento de sentença.
Nas demais teses arguidas na impugnação ou embargos, será necessária a concordância.

e) Recuso (art. 998): o recorrente pode desistir do recurso independentemente da anuência


do recorrido.

IX) Morte da parte e ação for intransmissível por disposição legal: com o óbito da parte vai haver a
sucessão processual pelo espólio ou pelos herdeiros. Mas se o direito for intransmissível não poderá
haver a sucessão processual (ex. divórcio).

X) Demais casos previstos no CPC.

Consequências da extinção do processo sem resolução do mérito:

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1) Formação de coisa julgada formal (não impede, via de regra, a repropositura da ação e a
repropositura da ação fica condicionada à correção do vício que a extinguiu)

2) Repropositura da ação

3) Prevenção: art. 286, II, CPC. O juiz que extingui o processo é prevento para a repropositura da
ação

A extinção do processo sem resolução de mérito afasta o direito da interrupção da prescrição? STJ:
AgRg no AREsp 726.379/MA - se o processo é extinto sem resolução de mérito, por abandono ou
inércia do autor (incisos II e III) a eficácia interruptiva do despacho que ordenou a citação não
prevalece. Mas só nessas hipóteses, nas demais, ainda que venha a ser extinto sem exame de
mérito, a interrupção da prescrição persiste.

Com resolução de mérito (art. 487, II e III)

II) Prescrição e decadência: art. 10 do CPC – se o Juiz verificar de ofício a existência de prescrição ou
decadência o Juiz não pode surpreender a parte. Boa fé processual. Juiz deve intimar as partes para
que se manifestem sobre a prescrição e decadência. Entretanto, se o Juiz julgar improcedente
liminarmente o pedido do autor (art. 332, p. 1o ) com base na prescrição e decadência ele não precisa
aplicar o art. 10 do CPC (ver art. 487, p. único).

III) Autocomposição: nas 3 hipóteses há apenas homologação.

a) reconhecimento da procedência do pedido

b) transação

c) renúncia

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Procedimento comum: fase postulatória, fase ordinatória

Procedimento Comum

I. Distinção entre processo e procedimento

O processo de conhecimento é aquele instaurado pelo interessado que busca uma tutela
satisfativa, a qual vai satisfazer o seu direito material.

Processo é relação jurídica processual em que há uma sequência de atos processuais,


conforme uma determinação legal.

Procedimento é a sequência de atos processuais, também sendo denominado de rito.

Há quem diga que processo é procedimento animado pelo contraditório.

II. Indisponibilidade do procedimento

O procedimento, em regra, não pode ser objeto de escolha pelos litigantes, mas esta
máxima de indisponibilidade do procedimento sofreu mitigação, conforme art. 190 do CPC.

Por vezes, admite-se que haja a escolha de procedimentos pela parte.

Ex.: demandante pode optar, em uma ação cujo conteúdo econômico não ultrapassa o
limite de 40 salários-mínimos, entre propor uma ação perante a vara cível ou perante o juízo do
juizado especial cível. Veja, é possível escolher o procedimento em certas hipóteses.

Outro exemplo é aquele em que o autor pode optar por usar o mandado de segurança ou
por instaurar uma demanda, observando o rito comum.

III. Procedimento comum

O procedimento comum é o que deve ser observado quando não houver rito especial.

Basicamente, a ordem do procedimento comum é a seguinte:

• Petição inicial

• Deferimento da petição inicial e a consequente determinação de citação do demandado


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• Audiência, em tese, obrigatória de conciliação e mediação

• Demandado apresenta defesa, trazendo a contestação e a reconvenção (na própria


contestação)

• Providências preliminares

• Possibilidade de julgamento antecipado do mérito, seja parcial (decisão interlocutória)


ou total (sentença)

• Saneamento do processo, pode ser feito em gabinete, em audiência ou pelas partes e


submetido à homologação

• Audiência de instrução e julgamento, se necessária

• Sentença

Petição inicial

I. Requisitos

A petição inicial é a peça que inaugura o processo.

O art. 319 do CPC traz os requisitos da petição inicial:

• Indicação do juízo ou Tribunal

• Identificação e qualificação das partes

Causa de pedir: a causa de pedir vincula o julgamento (teoria da substanciação). O Juiz


não pode se afastar dos fatos declinados na inicial, sob pena de a sentença ser extra
petita. A causa de pedir dá os limites objetivos da lide.

• Pedido: é preciso que o autor indique com clareza o pedido imediato, o tipo de
provimento jurisdicional e pedido mediato (o bem da vida almejado). Ambos vincularão
o juiz.

• Valor da causa

• Provas com que o autor pretende demonstrar a verdade dos fatos alegados

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• Opção do autor pela realização ou não de audiência de conciliação ou de mediação

• Indicação do endereço do patrono e assinatura

O juiz, se verificar que a petição inicial não preenche tais requisitos ou que apresenta
defeitos e irregularidades capazes de dificultar o julgamento de mérito, determinará que o autor,
no prazo de 15 dias, emende ou complete a petição inicial, indicando com precisão o que deve
ser corrigido ou completado. Caso o autor não cumpra essa diligência, o juiz indeferirá a petição
inicial.

a) Identificação e qualificação das partes

São elementos identificadores e qualificadores das partes: nomes, os prenomes, o estado


civil, a existência de união estável, a profissão, o número de inscrição no Cadastro de Pessoas
Físicas ou no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica, o endereço eletrônico, o domicílio e a
residência do autor e do réu)

O nome poderá ser dispensado se for possível delimitar a pessoa ou as pessoas que
ocuparão o polo passivo (ex.: ocupação pelo MST).

Caso o demandante não disponha de todos estes elementos, ou ao menos suficientes para
delimitar o polo passivo, deverá requerer auxílio do poder judiciário para obter as informações
faltantes, conforme §1º do art. 319, que diz que, caso não disponha das informações relativas à
identificação e qualificação, poderá o autor, na petição inicial, requerer ao juiz diligências
necessárias a sua obtenção.

O demandante ficará dispensado dessas informações se for excessivamente difícil de se


obtê-las.

b) Causa de pedir

Lembrando que causa de pedir é um dos elementos da ação.

A causa de pedir tem fatos e fundamentos jurídicos. Fatos são causa de pedir remota e o
fundamento jurídico é causa de pedir próxima, que é como a ciência jurídica qualifica ou nomina
o fato.

Rodolfo Hartmann traz um exemplo interessante. Segundo o autor, basta imaginarmos


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uma demanda em que apresente na petição inicial a postulação, no sentido de se anular o
contrato, sob fundamento de que havia sofrido o demandante uma coação. A coação é o
fundamento jurídico, sem que precise dizer qual é o artigo que trata da coação, bastando afirmar
o fundamento jurídico.

c) Pedido

O pedido é o núcleo essencial de toda e qualquer petição inicial. É o pedido que limita a
atuação do juiz, pois, com base no princípio da congruência, não pode o juiz decidir nem aquém
e nem além do pedido.

É importante diferenciar o objeto imediato do pedido do objeto mediato.

Objeto imediato do pedido: é aquele dirigido ao Estado-Juiz, em que há o pedido para


que haja um provimento jurisdicional da tutela que o demandante pretende obter ao
final do processo.

Objeto mediato do pedido: é o bem da vida, ou seja, a providência de cunho material


que efetivamente quer obter.

O pedido deve ser certo e determinado. Pedido certo é pedido expresso. E pedido
determinado significa que está delimitado.

i. Pedido implícito

Embora frequentemente se diga que os pedidos devam ser interpretados restritivamente,


já que o princípio é da inércia, o CPC inova, prevendo que na interpretação do pedido deve se
considerar o conjunto da postulação, observando-se o princípio da boa-fé.

Por vezes, é possível o reconhecimento de pedido implícito, visto que não está no corpo
da petição, mas decorre de expressa previsão normativa. Ex.: condenação ao pagamento de juros.

Outro exemplo é a condenação de prestações periódicas que vão vencendo ao longo do


processo de uma ação decorrente de uma obrigação de caráter continuado. Neste caso, segundo
o art. 323, há a possibilidade de considerar procedente o pleito e condenar o pagamento das
prestações periódicas que forem vencendo ao longo do processo, pois o caráter é implícito.

Outro ainda é a ausência de pedido para que a parte pague as custas processuais e
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honorários, ainda que não tenha havido o pedido.

Embora a legislação autorize pedidos implícitos, a decisão do juiz que reconhece esses
pedidos devem ser expressa no que toca ao reconhecimento desses pedidos implícitos, pois, do
contrário, o advogado deverá opor embargos de declaração para suprir a omissão.

Convém registrar o art. 85, parágrafo 18 do Código de Processo Civil que disciplina que:
“Caso a decisão transitada em julgado seja omissa quanto ao direito aos honorários ou ao seu
valor, é cabível ação autônoma para sua definição e cobrança”. Assim, a Súmula 453 do STJ resta
superada, não obstante ainda não ter sido cancela (Súmula 43/STJ: “Os honorários sucumbenciais,
quando omitidos em decisão transitada em julgado, não podem ser cobrados em execução ou em
ação própria”).

A jurisprudência, no que diz respeito aos juros e correção monetária, poderão ser exigidos
mesmo nos casos em que a decisão transitada em julgado tiver sido omissa, sendo o fundamento
a vedação do enriquecimento sem causa.

ii. Pedido genérico

O pedido genérico é aquele que é expresso, mas não é delimitado.

Não é delimitado porque o autor não tem condições de delimitar a abrangência do bem
da vida que pretende obter. Nestas situações a lei vai admitir que a fixação do valor da causa
servirá para atendimento da lei.

As hipóteses pedido genérico, dentre outras, são:

• Ações universais, se o autor não puder individuar os bens demandados

Ações universais são aquelas demandas em que se discutem, por exemplo, a propriedade
de determinado bem, sem que se possa dizer quais são os bens exatamente. Como não
dá para delimitar, o pedido será genérico.

• Quando não for possível determinar as consequências do ato ou do fato praticado

É o caso do acidente, sendo necessário primeiro verificar os gastos com hospital, veículo,
cirurgia, etc., para somente depois verificar ainda se precisará de uma pensão vitalícia,
ou mesmo qual será a extensão da sequela.
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Neste caso, perceba claramente que não é possível delimitar, autorizando o pedido
genérico.

• Quando a determinação do objeto ou do valor da condenação depender de ato que


deva ser praticado pelo réu

Ou seja, somente com um ato praticado pelo demandado é que se saberá qual é a
delimitação exata do pedido. Ex.: ação de exigir contas. Neste caso, como o sujeito não
presta contas, não é possível saber o tamanho do furo do administrador. Este caso
autoriza que o pedido seja genérico.

O CPC proibiu expressamente o pedido genérico de danos morais. Então, o valor da causa
deverá ser exatamente o que o sujeito pretende receber.

iii. Pedido certo e determinado de danos morais: valor inferior ao postulado

Como dito, o valor dos danos morais deve ser determinado pela parte autora.

Caso na sentença o juiz fixa um valor inferior aquele que foi postulado, como será avaliada
a sucumbência?

Ex.: sujeito pediu 10 mil reais, mas o juiz fixou em 2 mil reais os danos morais. A
jurisprudência entende que, mesmo nesta hipótese, será o demandado que arcará
exclusivamente com as custas e honorários.

O fundamento é de que o pedido do autor foi integralmente acolhido, eis que o


arbitramento do dano moral é um desdobramento da procedência do pedido. O juiz realmente
reconheceu que houve o dano moral.

O outro fundamento é de que não seria razoável que quem fosse vitorioso no pleito tivesse
que arcar com as despesas processuais, eis que atingiria até mesmo o valor da indenização.

A Súmula 326 do STJ vai dizer que na ação de indenização por dano moral, a condenação
por montante inferior de danos morais não implica sucumbência recíproca. Neste caso, o
demandado vai ter de pagar as custas processuais e honorários.

iv. Cumulação de pedidos

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Cumulação de pedidos é a formulação de mais de um pedido dentro do mesmo processo.
Ex.: sujeito pede indenização de danos morais e materiais.

O art. 327 estabelece que é lícita a cumulação, em um único processo, contra o mesmo
réu, de vários pedidos, ainda que entre eles não haja conexão.

São requisitos para a cumulação de pedidos:

Pedidos sejam compatíveis entre si;

Juízo competente para ambos os pleitos;

• Seja adequado o mesmo tipo de procedimento para ambos os pedidos;

• Pedidos sejam formulados em face do mesmo réu.

São modalidades de cumulação de pedidos:

• Cumulação comum ou simples

A cumulação comum ou simples quando o demandante formula mais de um pedido no


mesmo processo, e entre estes pedidos há independência, podendo um ser acolhido e o
outro não.

Ex.: indenização por danos morais e materiais. Poderá tanto um quanto o outro ou os
dois ser acolhidos. O valor da causa, no caso de cumulação simples, será a soma de ambos
os pedidos.

• Cumulação sucessiva

Na cumulação sucessiva, a parte autora faz mais de um pedido, mas há um pedido


principal e um pedido sucessivo.

Ex.: autor pleiteia o reconhecimento de inexistência de uma dívida, e sucessivamente que


a instituição seja condenada ao pagamento de danos morais em razão de um protesto
realizado com base neste suposto débito indevido.

Se o juiz declarar que o débito inexiste, cabe a indenização por danos morais, razão pela
qual, acolhendo um acolherá o outro.

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Por outro lado, se disse que o débito existia, não é possível acolher o dano moral.

Com isso, verifica-se que há uma relação de prejudicialidade, ou seja, há uma ordem
hierárquica entre o pedido principal e o pedido sucessivo.

• Cumulação eventual ou subsidiária

Na cumulação eventual ou subsidiária, apenas um deles pretende que seja acolhido. Ou


seja, se o pedido primário for acolhido, nem será julgado o pedido subsidiário.

Se o pedido primário for julgado improcedente, o pedido subsidiário deverá ser


analisado.

Por isto a cumulação é subsidiária.

O valor da causa será o do conteúdo econômico do pedido principal.

Não existe a necessidade de se aplicar a exigência de que os pedidos sejam compatíveis


entre si. Isso porque, quando falamos de cumulação eventual ou subsidiária, pois só
haverá a apreciação de um se o outro for julgado improcedente.

• Cumulação alternativa

Na cumulação alternativa, o demandante vai apresentar dois pedidos, mas para que o
juiz acolha um deles. O valor da causa será o do conteúdo econômico do maior pedido.

Não confunda pedido alternativo com cumulação alternativa.

No pedido alternativo do art. 325, há um pedido único, que pode ser prestado de diversas
formas. Há a possibilidade de a obrigação de direito material ser satisfeita por mais de
uma maneira. Neste caso há o pedido alternativo, e não cumulação alternativa.

Ex.: Se “A” ingressar com o feito pedindo ou a anulação do contrato ou a redução da


vantagem da outra parte, haverá cumulação alternativa.

No caso de pedido alternativo, “A” contrata uma pessoa para pintar a casa, mas o sujeito
não foi. Logo, ele ingressa com o feito, pedindo que o juiz fixe multa, ou mande outro
indivíduo para pintar a casa, às custas do demandado, ou transferindo dinheiro para
pagar, etc. Veja, a pretensão de direito material pode ser cumprida de diversas formas,
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mas é só essa satisfação que “A” quer.

d) Indicação do valor da causa

A indicação do valor da causa deve corresponder ao proveito econômico que o


demandante pretende obter. Este valor da causa é considerado como de ordem legal.

Por conta disso, o art. 292, §3º, afirma que o juiz corrigirá, de ofício e por arbitramento, o
valor da causa quando verificar que não corresponde ao conteúdo patrimonial em discussão ou
ao proveito econômico perseguido pelo autor, caso em que se procederá ao recolhimento das
custas correspondentes.

Normalmente poderá determinar a emenda à petição inicial, a fim de que o demandante


corrija o valor da causa. Caso não corrija o valor da causa, o juiz indeferirá a petição inicial, por
meio de uma sentença terminativa, isto é, sem resolução do mérito.

e) Indicação das provas que se pretende produzir

Geralmente, o autor protesta pela produção de todas as provas em direito admissíveis.


Mas isto deve ao menos ocorrer.

Detalhe, em se tratando de processo de execução, não se faz necessária esta indicação,


visto que não se pretende produzir qualquer prova.

f) Indicação da opção pela realização ou não de audiência conciliação e mediação

Esta é uma inovação do CPC 2015.

Em regra, a audiência de conciliação e mediação será obrigatória, mas cabe ao


demandante informar expressamente ao juízo se pretende realizar uma audiência de conciliação
e mediação.

Lembrando que na conciliação alguém conduz a autocomposição, mas na mediação


quem se autocompõe são as partes.

Atente-se que esta audiência de conciliação e mediação somente não acontecerá quando
ambas as partes tiverem peticionado afirmando expressamente o desinteresse na conciliação e
mediação, ou quando o direito litigioso não permitir esta solução consensual.

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Se o réu, na sua resposta, disser que também não deseja, aí não haverá a audiência.

g) Indicação do endereço do patrono e assinatura

Deverá conter o endereço do patrono e assinatura. Lembrando ainda que deverá conter
o endereço eletrônico.

h) Forma da petição inicial: escrita ou oral

A petição inicial poderá ser escrita ou oral.

Nos Juizados Especiais Cíveis, a petição inicial pode ser oral, mas deverá ser reduzida a
termo.

II. Propositura da ação e seu juízo inicial

Vem uma petição inicial, uma vez elaborada, deverá ser registrada, se for num juízo único,
ou será distribuída, quando houver mais de um órgão jurisdicional competente.

a) Distribuição

A distribuição ocorrerá por meio de sorteio eletrônico, o qual deverá ser alternado e ser
aleatório, a fim de permitir a observância e obediência ao princípio do juízo natural.

Feita a distribuição, a qual ocorrerá na mesma base territorial, quando houver mais de um
juízo com igual competência.

A realização de distribuição poderá ser livre ou dirigida, sendo esta última denominada de
distribuição por dependência.

Na distribuição livre poderá cair em qualquer juízo.

Na distribuição por dependência, não. Isso porque já há uma distribuição vinculada, sendo
direcionada a determinado juízo.

São hipóteses de distribuição por dependência:

• Quando entre os processos existir vínculo de conexão ou continência

Se entre o novo feito e o feito antigo há conexão ou continência, será distribuído por
dependência ao juízo que já está prevento.
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• Quando o processo primitivo tiver sido extinto sem resolução de mérito, for reiterado
o pedido, ainda que em litisconsórcio com outros autores ou que sejam parcialmente
alterados os réus da demanda

Do contrário, poderia haver violação ao juízo natural.

• Quando houver ajuizamento de ações idênticas, sendo prevento o juiz que tramita a
ação anterior.

Este juízo extinguirá a nova demanda por litispendência ou coisa julgada.

O art. 290 do CPC vai dizer que a petição inicial, para ser distribuída, deverá vir
acompanhada do recolhimento das custas. Se ausente o recolhimento, deverá a parte ser
intimada para que, em 15 dias, regularize esta situação. Do contrário, haverá o cancelamento da
distribuição.

Apesar da expressão “cancelamento da distribuição”, há uma sentença terminativa, isto é,


sem resolução do mérito. Neste caso, caberá recurso de apelação, no prazo de 15 dias, admitindo-
se juízo de retratação pelo juiz.

Caso o sujeito proponha um novo feito, deverá ser distribuído ao mesmo órgão, pois ele
está prevento.

b) Possibilidade de emenda da petição inicial

Emendar é corrigir. O art. 321 autoriza que o magistrado determine a emenda da petição
inicial no prazo de 15 dias, quando constatar que esta petição inicial não observa os requisitos do
art. 319, ou que tenha vindo desacompanhada de documentos tidos como indispensáveis.

Caso não venha, poderá haver a extinção do processo sem resolução do mérito.

A autoridade judiciária, na sua decisão para que seja emendada a petição inicial, já deve
indicar o ponto que deve ser emendado.

Isso ocorrerá quando o vício encontrado comportar emenda. Do contrário, se for vício
extremamente grave, poderá desde logo indeferir a petição inicial (art. 330).

c) Indeferimento da petição inicial

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

135
Nessa situação, o juiz proferirá o que a lei chama de despacho liminar de conteúdo
negativo. E é isto que deverá ser marcado em provas objetivas.

Na verdade, não se trata de despacho, e sim sentença, ou, no mínimo, de decisão


interlocutória, se for caráter parcial.

Esse despacho liminar de conteúdo negativo tem natureza de sentença.

Se o indeferimento for apenas parcial, haverá decisão interlocutória.

São hipóteses de indeferimento da petição inicial (art. 330), sendo este rol meramente
exemplificativo:

• Petição inicial for inepta

São várias as formas em que a petição poderá ser considerada inepta, como quando não
tiver pedido, não tiver causa de pedir, contiver pedido genérico fora das hipóteses
admitidas, quando dos fatos narrados não decorrer da conclusão, pedido juridicamente
impossível ou incompatíveis entre si. Na maioria desses casos, o juiz deverá determinar
que haja a emenda à petição inicial.

• Ilegitimidade das partes

Ausência de interesse processual

• Não atendidas as prescrições dos arts. 106 e 321.

Frise-se que aquelas situações que admitem o indeferimento da petição inicial são
situações que não precluem. Isto é, quer dizer que o demandado na sua defesa, ou em qualquer
outro momento, o juiz poderá reconhecer esta ausência dos requisitos legais.

Percebendo o juiz que há uma ilegitimidade da causa ao longo do processo, não poderá
mais o juiz indeferir a petição inicial, situação na qual haverá um julgamento conforme o estado
do processo (art. 354).

No caso de indeferimento da petição inicial, por se tratar de sentença, caberá recurso de


apelação, no prazo de 15 dias, admitindo-se juízo de retratação pelo juiz.

III. Improcedência liminar


Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

136
O art. 332 autoriza que o magistrado sentencie liminarmente o processo, resolvendo o
mérito, antes mesmo de citar o requerido, mas desde que se trate de uma sentença de
improcedência e que se dispense a etapa instrutória (produção de provas).

Ou seja, é uma improcedência liminar, que é antes da citação, e não há necessidade de


produção de provas em audiência.

Na verdade, essa improcedência liminar é um caso de tutela de evidência, prestada em


caráter definitivo, fazendo coisa julgada material, visto que é evidente a falta do direito alegado
pelo demandante.

Para que seja proferida esta sentença, é preciso observar os demais requisitos do art. 332.

Ou seja, será possível julgamento liminar de improcedência quando o pedido contrariar:

Quando o pleito contraria enunciado de Súmula do Supremo Tribunal Federal ou


Súmula do Superior Tribunal de Justiça;

Quando o pleito contraria acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou acórdão
proferido pelo Superior Tribunal de Justiça em julgamento de recursos repetitivos;

Quando o pleito contraria entendimento firmado em incidente de resolução de


demandas repetitivas ou de assunção de competência;

Quando o pleito contraria enunciado de súmula de Tribunal de Justiça sobre direito


local;

Quando o pleito estiver prescrito ou já estiver operado a decadência do direito do autor;

Percebe a força que o NCPC trouxe para a jurisprudência.

Veja, aqui há uma sentença, sendo cabível o recurso de apelação, no prazo de 15 dias,
admitindo o juízo de retratação pelo juiz.

IV. Despacho liminar de conteúdo positivo

Não sendo caso de improcedência liminar do pedido, de indeferimento da petição inicial,


o juiz irá, tendo sido realizado emenda, ou não sendo realizada a emenda à petição inicial, o juiz
deferirá a petição inicial, sendo este ato denominado de despacho liminar de conteúdo positivo.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

137
Este despacho liminar de conteúdo positivo determina a citação do demandado.

No entanto, pode ser que este despacho liminar de conteúdo positivo tenha natureza de
decisão interlocutória.

Caso, no momento em que o juiz defere a inicial, também analise um requerimento, como
a concessão da antecipação dos efeitos da tutela em caráter provisório, haverá uma decisão
interlocutória, passível de agravo de instrumento.

Os arts. 240, §1º, do CPC, c/c 208, I, do CC, estabelecem que este ato proferido pelo
magistrado (despacho liminar de conteúdo positivo) tem o condão de interromper a prescrição.

Audiência de conciliação e mediação

I. Introdução

Feita a citação do demandado, ele deverá comparecer à audiência de conciliação e


mediação. Somente após a frustração de tentativa de solução consensual do conflito é que inicia
o prazo para o demandado apresentar a sua resposta.

Tanto a conciliação como a mediação demandam a presença de um terceiro.

Caso o terceiro conduza o diálogo, haverá uma conciliação. Se a postura do terceiro se


limita apenas a apartear o diálogo entre os envolvidos, será apenas um mediador.

Como o pagamento do conciliador ou do mediador é inicialmente suportado pelo


demandante, poderá o demandante optar que o próprio magistrado faça esta conciliação, a fim
de que ele não arque com esses valores.

O art. 165 do CPC estabelece que os Tribunais vão criar centros judiciários para solução de
conflitos para realizar audiência de conciliação e mediação.

O art. 166 traz a regra que impõe a confidencialidade de todas as informações produzidas
no procedimento, não podendo ser utilizada para outros fins, impondo sigilo ao conciliador,
mediador, para equipe envolvida, etc.

O CPC ainda proíbe que conciliadores e mediadores exerçam advocacia no juízo que
desempenhem suas atividades. Isso por conta de impedimento e moralidade. Além dessa

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

138
restrição, conciliadores e mediadores não podem assessorar, representar ou patrocinar
qualquer das partes que tenham participado de uma audiência que tiver conciliado ou mediado.
Este impedimento dura 1 ano.

O mediador não pode ser advogado no mesmo juízo que atuou como conciliador ou
mediador, nem mesmo ser advogado de uma parte que ele tenha feito a conciliação ou
mediação dentro do prazo 1 ano em qualquer juízo. A ideia é se buscar a imparcialidade do
conciliador e do mediador.

É possível que as partes, de comum acordo, escolham o conciliador ou mediador. O


trabalho desenvolvido pelo conciliador ou mediador poderá ser remunerado por meio de uma
tabela fixada pelo Tribunal, mas também é possível o trabalho voluntário.

O art. 174 diz que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios vão criar câmaras
de mediação e conciliação, com atribuições relacionadas à solução consensual de conflitos no
âmbito administrativo. Trata-se de desjudicialização do direito administrativo. É a possibilidade
de autocomposição dos conflitos no âmbito da administração pública.

II. Audiência de conciliação e mediação

O art. 334 estabelece que a audiência de conciliação e mediação só não vai ocorrer se as
partes manifestarem expressamente a sua não vontade de realizar. Portanto, o autor deverá se
manifestar na inicial de que não quer que seja realizada a audiência, assim como o demandado o
fará, por simples petição, até 10 dias antes da data fixada para a audiência.

Há ainda outra hipótese em que poderá ser dispensada a audiência de conciliação e


mediação, sendo aquelas hipóteses em que o litígio não permite autocomposição.

Caso uma das partes não compareça na audiência de conciliação e mediação é


considerado um ato atentatório à dignidade da justiça, podendo aplicar sanção pecuniária.
Rodolfo Hartmann critica esta previsão.

Obtida a solução consensual, o processo será encaminhado ao juiz para que prolate uma
sentença definitiva, estando encerrado o processo, inclusive fazendo coisa julgada material.

Mas se não houver a solução consensual, começará a correr o prazo para que o sujeito

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

139
apresente resposta (prazo de 15 dias).

III. Casuística envolvendo a incompetência do juízo em que audiência será realizada

João propõe uma ação perante o juízo incompetente. Primeiro o réu deverá aparecer na
audiência.

Mas caso o juiz seja incompetente, será necessário ir até a audiência? Caso contrário
haverá multa por ato atentatório à dignidade da justiça?

O art. 340 permite que a contestação já seja apresentada antes mesmo da audiência de
conciliação e mediação, levantando a incompetência relativa ou absoluta.

Reconhecimento do pedido ou inércia

I. Introdução

Realizada a citação do demandado, poderá ele realizar diferentes comportamentos,


podendo apresentar resposta ou reconhecimento de procedência do pedido, ou até mesmo ficar
inerte, podendo gerar revelia.

II. Reconhecimento da procedência do pedido

Uma vez citado, o demandado poderá constituir advogado e peticionar nos autos pelo
reconhecimento de procedência do pedido.

Neste caso, o juiz deverá julgar conforme o estado do processo, prolatando sentença
resolvendo o mérito, em virtude do reconhecimento da procedência do pedido.

No caso de reconhecimento parcial de procedência do pedido, o juiz poderá desde logo


proferir um julgamento antecipado parcial do mérito, sendo constituído imediatamente um título
executivo judicial, permitindo ao credor executar o devedor daquela parcela incontroversa.

III. Ausência de resposta (revelia)

Citado o demandado, caso não responda à demanda, poderá conduzir à revelia.

Em verdade, poderá conduzir à revelia a ausência de contestação.

A revelia é a consequência que advém ao demandado, caso ele não apresente a sua

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contestação tempestivamente.

A revelia gera efeitos materiais e efeitos processuais.

Mas destaque-se: revelia é efeito da falta de contestação.

a) Efeito material da revelia

O sujeito poderá apresentar outra resposta, mas a falta de contestação não impede a
revelia. Este é o fato de que a reconvenção não inviabiliza os efeitos da revelia.

No entanto, por vezes, admite-se que a reconvenção obste a verificação do efeito


material da revelia, como é o caso em que a reconvenção afirma que o fato é contrário do que foi
narrado na petição inicial do demandante, haverá uma controvérsia fática, não podendo a
sentença ser contraditória. Todavia, nesta situação, não obstará as consequências de efeitos
processuais pela revelia.

O efeito material é presunção de veracidade dos fatos afirmados pelo autor na sua petição
inicial.

Por vezes, o efeito material da revelia não vai se vislumbrar, conforme art. 345 do CPC:

Não haverá o efeito material da revelia quando houver pluralidade de réus, algum deles
contestar a ação;

Não haverá o efeito material da revelia quando o litígio versar sobre direitos
indisponíveis;

Não haverá o efeito material da revelia quando a petição inicial não estiver
acompanhada de instrumento que a lei considere indispensável à prova do ato, a
despeito da resposta do réu;

Não haverá o efeito material da revelia quando as alegações de fato formuladas pelo
autor forem inverossímeis ou estiverem em contradição com prova constante dos
autos.

b) Efeito processual da revelia

No caso de efeito processual da revelia, os prazos irão correr independentemente de nova


Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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intimação do demandado revel. Este é o efeito processual da revelia.

Todavia, o demandado revel poderá vir a interferir no processo, mas aí irá acompanhar o
processo no estágio em que se encontrar.

IV. Diferença entre contumácia, revelia e ônus da impugnação especificada da prova

A contumácia é estado de inércia de qualquer das partes. Equivale a contumácia à uma


desobediência deliberada, ou em estar presente ou atender a uma deliberação judicial.

A revelia é uma espécie de contumácia. Ou seja, é a inércia do demandado, que não


apresenta sua contestação no prazo legal.

O ônus da impugnação especificada da prova diz que o demandado tem que, por ocasião
da sua contestação, deverá impugnar os fatos afirmados pelo demandante, de forma que, se não
for impugnado um dos fatos pelo demandante, serão tido estes fatos como verdadeiros, e por isso
haveria o ônus da impugnação especificada.

O ônus da impugnação especificada é aplicado a qualquer das partes do processo e não só


ao demandado.

Pode acontecer da peça de defesa o réu levantar fatos extintivos, modificativos ou


impeditivos do direito do autor, neste caso, o juiz deverá dar vista ao autor para apresentar réplica.
Neste momento, o autor deverá impugnar os fatos extintivos, modificativos ou impeditivos
trazidos pelo réu.

V. Revelia em desfavor da Fazenda Pública

Via de regra, não há revelia em desfavor da Fazenda Pública, pois atua em juízo na defesa
de direito indisponível. Portanto, o efeito material não seria gerado na Fazenda Pública.

VI. Revelia nos embargos à execução

Como se sabe, o sujeito promove uma execução por título extrajudicial. Os embargos à
execução permitem que haja um novo processo, sendo processo de conhecimento.

Mas se o embargado, que é o demandado nos embargos à execução, não apresentar


resposta, não haverá revelia. O fundamento é que o embargado já tem presunção que lhe

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favorece, visto que tem um título executivo extrajudicial.

Apresentação de resposta

I. Contestação

Contestação é a modalidade de resposta por excelência, permitindo a apresentação tanto


de defesa de cunho processual como defesas de cunho material.

O momento de apresentação de contestação é o prazo de 15 dias, contados da


impossibilidade de solução consensual do conflito na audiência de conciliação e mediação.

Nos casos em que houver requerimento de tutela provisória de urgência cautelar, a


contestação deverá ser apresentada no prazo de 5 dias, a contar da citação.

a) Princípio da eventualidade

O princípio da eventualidade também é denominado de princípio da concentração de


defesa (art. 336). Segundo este princípio, o demandado deverá alegar na contestação todas as
matérias de defesa.

Esta regra comporta exceções, situação em que o réu apresentará teses após a
contestação:

Quando se tratar de uma matéria de ordem pública, podendo o juiz conhecê-la de ofício;

Quando se tratar de direito superveniente;

Quando houver expressa autorização legal no sentido de que o sujeito poderá


apresentar a tese defensiva após a contestação.

b) Questões preliminares

Questões preliminares são matérias defensivas que são apresentadas pelo demandado
no início da sua contestação.

Preliminar é uma defesa de cunho processual. A questão preliminar pode trazer uma
matéria processual de cunho dilatório ou de cunho peremptório.

Se o demandado alegar falta ou nulidade da citação, ou incompetência absoluta ou

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143
relativa, incorreção do valor da causa, incapacidade da parte ou defeito de representação, a
indevida concessão da gratuidade da justiça, tudo isto será matéria de cunho processual. Todavia,
todas estas são defesas dilatórias, pois em qualquer dessas o processo continuará a sua
tramitação. Atente-se que estas matérias poderão perder o cunho dilatório se não for solucionado
o problema.

Caso seja apresentado que a petição inicial é inepta, há perempção, litispendência ou


coisa julgada material, ou ainda que existe convenção de arbitragem, que a parte é ilegítima, ou
que falta interesse processual. Há aqui situações em que as matérias de defesa de cunho
peremptório.

Todas estas matérias processuais serão consideradas como objeções, ou seja, que podem
ser conhecidas de ofício, com exceção da convenção de arbitragem e incompetência relativas,
eis que não podem ser conhecidas de ofício.

O NCPC permite que o réu alegue a sua ilegitimidade passiva, e se o demandante


concordar com a alegação do réu, o CPC diz que a petição inicial será emendada para a exclusão
do demandado primitivo e para inclusão do demandado que se mostrou adequado. Neste caso,
a ilegitimidade de parte não implicará a extinção do processo.

O demandado que alega a sua ilegitimidade, deverá declinar na sua contestação,


apresentando quem deveria ter sido citado para figurar no polo passivo, sob pena do próprio
demandado arcar com as custas processuais e indenização ao autor.

c) Questões prejudiciais

Questão prejudicial é qualquer matéria ou tema que o magistrado deverá enfrentar antes
da resolução do mérito da causa, pois atinge o mérito da causa.

A questão prejudicial pode ser no mesmo processo (homogênea), ou pode ser em processo
distinto (heterogênea).

A questão prejudicial homogênea é analisada nos próprios autos, situação em que o


próprio juiz faz a análise da questão (ex.: prescrição).

A questão prejudicial heterogênea (externa) é analisada em outro processo, sendo

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144
necessário aguardar este outro processo para que então o primeiro possa ser decidido.

Ex.: ingressa-se com uma ação de alimentos, ainda que seja concedido os alimentos
provisórios. No entanto, João ingressou com uma ação negatória de paternidade. Se ficar provado
após que ele não era o pai, esta ação vai determinar o destino da ação de alimentos. Veja, é uma
questão prejudicial heterogênea (externa).

II. Reconvenção

A reconvenção corporifica o exercício do direito de ação. Um novo direito de ação é


exercido.

A reconvenção inaugura uma nova relação jurídica processual dentro dos mesmos autos,
trazendo novos fatos e uma nova pretensão. Todavia, estes fatos trazidos são conexos aos fatos
constantes na petição inicial ou na contestação.

A reconvenção não é acessória, de forma que, ainda que o demandante primitivo desista
da ação originária, a reconvenção continua e será julgada.

A reconvenção não impede os efeitos primários (materiais) e secundários (processuais)


da revelia, mas excepcionalmente será possível que a causa de pedir da reconvenção seja um
fato, que se alegado na contestação, constituiria uma defesa de mérito indireta.

A reconvenção se baseia num fato impeditivo ou modificativo no direito do autor. E nesse


caso, o sujeito se vale desse fato conexo da petição inicial, a fim de promover uma cobrança na
reconvenção.

a) Distinção entre reconvenção, pedido contraposto e as ações dúplices

Reconvenção: decorre do exercício do direito de ação. Cria uma nova relação jurídico-
processual nos mesmos autos. O demandante reconvinte pode trazer novos fatos, desde
que conexos àqueles constantes da petição inicial ou contestação.

Pedido contraposto: também é uma forma de exercício do direito de ação, mas só é


deduzido nas hipóteses autorizadas em lei, e no próprio corpo da contestação. Também
deverá ser com base nos mesmos fatos alegados pelo autor. Isto é, o pedido contraposto
não autoriza a inserção ou a introdução dos novos fatos conexos à contestação ou à

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petição inicial. Ele se baseia nos mesmos fatos. Também é autônomo em relação à
demanda primitiva, de modo que se for extinto a demanda originária não impede a
análise do pedido contraposto. A Lei 9.099/95 veda a reconvenção e permite o pedido
contraposto.

Ações dúplices: são ações em que se o pedido for julgado improcedente há um benefício
ao réu. Em outras palavras, o demandado poderá ter o reconhecimento do seu direito a
partir da improcedência da ação exercida pelo demandante, sem exercer o direito de
ação. Demandas declaratórias são essencialmente ações de caráter dúplice, se não é
reconhecido o que o autor pleiteia ser declarado, é forçoso convir que há uma declaração
em benefício do réu.

b) Processos e procedimento que admitem a reconvenção

Reconvenção é o instrumento utilizado apenas em processo de conhecimento, e apenas


nestes. A reconvenção só pode ser oferecida em processo que observa o procedimento comum.

A reconvenção não é cabível na execução.

Só haverá procedimento especial admitindo reconvenção quando eles possam ser


convertidos em processos que obedecem ao rito comum. Ex.: na ação monitória, se o sujeito
apresenta contestação, se tornará rito comum.

Em suma, caberá reconvenção quando:

• Processo de conhecimento pelo procedimento comum

• Procedimento especial que admite conversão para o rito comum.

Por isso, a Súmula 292 do STJ diz que a reconvenção é cabível na ação monitória. E esse
é o sentido do art. 700, §6º, do CPC, bem como da Súmula 339 do STJ.

Outro procedimento que admite reconvenção é o da ação rescisória. Isso porque se trata
de procedimento especial que admite conversão em procedimento comum.

c) Procedimento na reconvenção

A reconvenção deve ser apresentada na mesma peça da contestação. É novidade do

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

146
NCPC. Recomenda-se que venha num capítulo próprio na peça.

Nesta petição da reconvenção deverá constar o valor da causa, já que se está tratando de
um direito de ação.

O prazo para o oferecimento da reconvenção é de 15 dias, que é o prazo coincidente da


contestação, devendo ser exercida no mesmo momento da contestação.

Quanto à legitimidade da reconvenção, só poderá ser apresentada pelo demandado


originário em face do demandante primitivo.

Excepcionalmente, vem sendo admitido que outra pessoa figure num dos polos da
reconvenção, como é o caso do litisconsórcio necessário, permitindo que haja o alargamento de
um dos polos, subjetivamente falando.

Quando uma das partes primitivas estiver sendo substituída processualmente (substituto
processual), a reconvenção é possível?

SIM, desde que na reconvenção também seja possível a substituição processual. Neste
caso, claramente é possível apresentar a reconvenção em substituição processual.

Ao analisar a peça da reconvenção, o juiz deverá analisar se deve ser indeferida de plano
ou não. Caso indefira de plano, haverá decisão interlocutória, cabendo agravo de instrumento.

Se o juiz entender que deve ser deferida a reconvenção, será intimado na pessoa do
advogado do reconvindo (demandante da ação originária, mas deveria ser citado).

Intimado o reconvindo, apresentará a sua resposta no prazo de 15 dias.

Existe uma discussão se seria possível se o reconvindo pudesse oferecer a reconvenção da


reconvenção. Rodolfo Hartmann entende que não, pois se fosse autorizado, por via oblíqua,
admitiria uma emenda à inicial, visto que inseriria novos pedidos não incluídos na inicial. Além
disso, causa enormes prejuízos à marcha processual.

Vale dizer que o CPC, quando disciplina o procedimento monitório, veda expressamente a
reconvenção da reconvenção.

Uma vez apresentada a defesa do reconvindo, o juiz determinará o prosseguimento do

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147
processo.

Ao final do processo, prolatará uma sentença para a demanda originária com a


reconvenção.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Procedimento comum (continuação): Providências preliminares. Julgamento conforme o estado do
processo. Saneamento e organização do processo. Provas.

Procedimento Comum (Continuação)

Providências preliminares

I. Julgamento conforme o estado do processo no sentido da extinção

Os autos vindos conclusos ao juiz, deverá ele analisar se é possível sentenciar o processo
sem resolução do mérito ou reconhecer prescrição ou decadência.

Depois de apresentada a citação com a resposta do réu, os autos são conclusos ao juiz.
Neste caso, poderá o juiz proferir o julgamento conforme o estado do processo a fim de extinguir
o processo pela prescrição ou decadência, desde que intime a outra parte.

Pode também o juiz homologar a transação ou uma renúncia ao direito do autor, ou o


reconhecimento da procedência do pedido pelo réu.

II. Julgamento antecipado do mérito do processo

Não confundir o julgamento conforme o estado do processo com o julgamento antecipado


do mérito do processo. Para o julgamento antecipado do mérito é necessário que antes tenha
havido a citação do demandado.

E isso vai diferenciar do julgamento antecipado do mérito da denominada improcedência


liminar (art. 332). No julgamento antecipado do mérito há a possibilidade de inclusive se julgar
procedente o pedido, e na improcedência liminar dispensa-se a citação, visto que o pedido será
julgado improcedente.

Será cabível o julgamento antecipado do mérito do processo nas seguintes hipóteses:

• Quando não houver necessidade de produção de outras provas

• Quando houver revelia, produzindo o seu efeito material, e não houver requerimento de
prova

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III. Julgamento antecipado parcial do mérito

Pode ser que o julgamento antecipado seja parcial do mérito.

O art. 356 do CPC passou a admitir que seja realizado o julgamento antecipado seja parcial
do mérito por meio de uma decisão interlocutória, sendo possível nos casos de pedidos
contrapostos e nos casos em que é permitido o julgamento por ter havido parcela incontroversa
(não houve impugnação especificada dos fatos) ou que parte daqueles fatos que não demanda
produção de provas.

Em suma, segundo o art. 356, o juiz decidirá parcialmente o mérito quando um ou mais
pedidos formulados ou parcela deles:

• mostrar-se incontroverso;

• estiver em condições de imediato julgamento, quando não houver necessidade de


produção de outras provas e quando houver revelia, produzindo o seu efeito material, e
não houver requerimento de prova.

O credor fica autorizado a promover a execução da parcela que já foi julgada em autos
apartados. O processo seguirá com relação à parcela litigiosa do pedido.

Ainda se reconhece no CPC que esta decisão do julgamento antecipado parcial do mérito,
apesar de ser uma decisão interlocutória, produz coisa julgada material. Isso porque enfrenta o
mérito com cognição exauriente, ainda que seja parcial.

A despeito de coisa julgada material e de se tratar de cognição exauriente, da decisão


interlocutória caberá agravo de instrumento.

IV. Saneamento do processo

O saneamento do processo é uma decisão interlocutória.

O objetivo do saneamento é:

• Resolver as questões processuais que estão pendentes

• Fixar os pontos controvertidos

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• Definir a distribuição do ônus da prova

• Determinar quais as provas a serem produzidas

• Designar, se necessário, audiência de instrução e julgamento.

Lembrando que o CPC permite que haja convenção entre as partes para fins de
saneamento do processo, levando ao juiz para que homologue este saneamento.

Outra regra pontual é a previsão da possibilidade de audiência de saneamento.

Provas

I. Conceito

Prova é o meio que se permite persuadir alguém a respeito de alguma coisa. É como se
convence alguém de como o fato ocorreu.

II. Classificação das provas

a) Provas típicas e atípicas

Provas típicas: as provas típicas são aquelas expressamente previstas no CPC. Ex.:
depoimento pessoal das partes, prova pericial, etc.

Provas atípicas: são provas não positivadas no CPC. Podem ser empregadas por não
serem ilícitas. Ex.: exibição de um vídeo em audiência, inspeção in loco realizada pelo
oficial de justiça, etc.

b) Provas ilícitas

Provas ilícitas são as provas produzidas em violação ao ordenamento jurídico, em


desconformidade às normas constitucionais ou infraconstitucionais. A vedação das provas
ilícitas está prevista na Constituição, não se podendo admitir no processo qualquer prova obtida
por meio ilícito.

Lembrando que não apenas a prova ilícita deve ser desconsiderada, mas também a prova
que surgiu a partir daquela prova ilícita, como decorrência dela. É a aplicação da teoria dos frutos
da árvore da envenenada. Apesar da não previsão legal no CPC, surge da decorrência lógica da

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vedação constitucional das provas ilícitas.

c) Provas indiciárias

São provas que não têm expressa previsão no CPC. Trata-se de uma prova que é obtida
por meio de indícios. Por vezes, a prova vai recair sobre fatos que não são os que o magistrado
tem que analisar.

A prova vai recair sobre outros fatos, os quais irão permitir que o juiz faça um raciocínio
indutivo, a fim de chegar à conclusão de que uma das partes está afirmando.

Não é regulada pelo CPC.

d) Prova emprestada

Prova emprestada é uma prova de outro processo que é levada para outro processo.

O art. 372 do CPC passa a admitir expressamente o uso da prova emprestada, que é uma
prova que se junta no processo judicial, podendo ter sido produzida num processo judicial ou
mesmo num processo administrativo.

A prova emprestada receberá o direito processual civil o tratamento de uma prova


documental.

e) Prova de fora da terra

A prova de fora da terra, apesar do nome, é a prova produzida num juízo de outra base
territorial, distinta da base em que tramita o processo.

Quando uma prova é produzida por meio de carta precatória, por exemplo é ouvida uma
testemunha em outra comarca, há uma prova de fora da terra (da terra do juízo).

f) Prova diabólica

Prova diabólica é aquela que se faz presente nos casos em que a produção da prova é
impossível, ou então é extremamente difícil para a parte que alegou aquele fato.

Isto é típico de fato negativo. Ou seja, João não apareceu no escritório no dia X. Como
comprovar que João não compareceu nesse dia, se o escritório não tem câmera?

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Neste caso, o próprio João poderá comprovar que não compareceu ao escritório, pois é
mais fácil ele comprovar o fato positivo do que a outra parte comprovar o fato negativo.

III. Objeto da prova

A prova vai recair sobre fatos relevantes, os quais normalmente são pretéritos. A parte
tem o objetivo de demonstrar ao magistrado que aquele fato efetivamente ocorreu.

Se a tutela é inibitória, que é aquela que visa impedir que alguém venha a fazer algo, o
objeto da prova deverá recair sobre os atos preparatórios ou fatos que indicam que há uma
intenção de praticar o ilícito.

O objeto da prova também podem recair sobre atos normativos, apesar disso ser pouco
comum. O CPC autoriza que o juiz possa exigir prova da existência e da vigência de prova de lei
municipal, lei estadual, lei estrangeira ou mesmo de normas decorrentes de costumes.

IV. Fatos que independem de prova

Existem alguns fatos que não precisam ser provados:

Fatos notórios (ex.: dia 7 de setembro era feriado).

Fatos afirmados por uma parte e confessados pela parte contrária;

Fatos admitidos no processo como incontroversos;

Fatos em cujo favor milita presunção legal de existência ou de veracidade.

O que justifica os incisos II do III é que no caso de fatos afirmados por uma parte e
confessados pela parte contrária, a parte tem uma postura ativa, enquanto no caso de fatos
admitidos no processo como incontroversos a parte tem uma postura passiva.

V. Etapas para a produção da prova

As provas podem ser determinadas de ofício pelo magistrado. E isso não retira a sua
imparcialidade.

São etapas para a produção da prova:

• Requerimento da prova

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153
• Deferimento da prova

• Produção da prova

Nem sempre será necessário passar por cada uma dessas fases da prova, como é o caso da
prova documental. A parte requer a produção de prova documental, mas caso deferida é
produzida num único momento.

Em relação ao requerimento para produção de prova, via de regra deverá constar da


petição inicial e já da contestação. O juiz deferirá as provas, via de regra, na decisão de
saneamento. Sendo deferidas, as provas serão produzidas.

Sendo uma prova oral, ela será realizada numa audiência de instrução e julgamento.

Sendo uma prova pericial, será realizada provavelmente no local do evento, mas pouco
provável em juízo.

VI. Critérios para valoração da prova

Como se sabe, o sistema adotado no Brasil é o do livre convencimento motivado. Mas é


necessário entender como o juiz valora esta prova.

Uma vez produzida uma prova, esta passará a pertencer ao processo, é o princípio da
comunhão das provas. Dessa forma, é indiferente quem tenha produzido. A prova pode ter sido
produzida pelo demandante, que arrolou a testemunha, e ela se mostrar útil para o demandado.
Não há problema com isso.

Como será feita a valoração da prova?

Sistema da íntima convicção: sujeito decide sem necessidade de fundamentar. Não se


sabe como foi valorada a prova. Ex.: tribunal do júri. Não é adotado no processo civil.

Sistema da prova tarifada: a prova tem o seu valor determinado pelo próprio legislador.
Via de regra, não é adotado, mas encontra alguns pontos no NCPC. Por exemplo, o art.
406 do CPC diz: quando a lei exigir instrumento público como da substância do ato,
nenhuma outra prova, por mais especial que seja, pode suprir-lhe a falta. Há aqui o
critério da prova tarifada.

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154
Sistema do livre convencimento motivado (ou persuasão racional): o magistrado tem
plena liberdade para analisar os meios de prova, desde que motive adequadamente a
sua decisão. É o que se extrai do art. 93, IX, da CF, e do art. 371 do NCPC.

VII. Ônus da prova

O ônus da prova é a incumbência de provar.

Via de regra, o ônus da prova é estático, conforme o art. 373.

Isso porque compete ao demandante o ônus da prova quanto ao fato constitutivo de seu
direito e incumbe ao réu o ônus da prova quanto à existência de fato impeditivo, modificativo
ou extintivo do direito do autor.

Todavia, o NCPC adota expressamente a possibilidade do ônus da prova ter caráter


dinâmico quando prever que a prova deverá ser produzida pela parte que tem maiores condições
de produzir esta prova, independentemente de ter sido esta parte requerente ou não da medida.

a) Distinção entre inversão do ônus da prova e dispensa do ônus da prova

Na inversão do ônus da prova, o juiz determina que uma das partes produza a prova do
fato alegado pela outra parte.

Na dispensa do ônus da prova, o juiz dispensa o demandante de produzir a prova dos fatos
alegados. Se o demandando quiser produzir prova em contrário, poderá fazê-lo. É o que ocorre no
CDC nos art. 12, §3º, c/c art. 14, §3º, quando diz que o fabricante ou fornecedor somente não são
responsabilizados quando demonstrarem que não colocaram o produto no mercado.

b) Momento de inversão do ônus da prova

Até que momento é possível que o magistrado promova ou defira a inversão do ônus da
prova? Até o saneamento do feito? Até o momento da sentença?

É possível a inversão do ônus da prova até o saneamento do processo, com base no


contraditório e ampla defesa, conforme art. 373, §2º, CPC (regra de procedimento): a decisão de
inversão do ônus da prova não pode gerar situação em que a desincumbência do encargo pela
parte seja impossível ou excessivamente difícil. Ou seja, ao magistrado é vedado realizar a inversão
do ônus na própria sentença, pois tornaria impossível a incumbência do encargo pela parte.
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155
c) Ônus financeiro da prova determinada de ofício pelo juiz

No caso de prova determinada de ofício pelo juiz, terá o ônus de arcar com os custos o
demandante.

As próprias partes podem convencionar, de comum acordo, a inversão do ônus da prova,


inclusive em caráter extrajudicial e previamente ao processo. Trata-se de mais um negócio
jurídico-processual.

VIII. Produção antecipada de provas

Produção antecipada de provas é a prova produzida antes do momento em que ela


normalmente seria produzida.

Produção antecipada de provas é um processo cautelar autônomo. Com essa mesma


nomenclatura (produção antecipada de provas) também foram abrangidas as hipóteses de
arrolamento e a justificação.

A competência para produção antecipada de provas é do juízo do foro em que a prova


deva ser produzida ou do juízo do foro do domicílio do réu, conforme art. 381, §1º.

O órgão jurisdicional que produzir esta produção antecipada de provas não fica prevento
para eventual demanda posterior (art. 381, §2º).

O juízo estadual tem competência para produção antecipada de prova requerida em face
da União, de entidade autárquica ou de empresa pública federal se, na localidade, não houver
vara federal.

São hipóteses de produção antecipada de provas:

Quando houver fundado receio de que venha essa prova venha a se tornar impossível
ou muito difícil a verificação de certos fatos na pendência da ação (ex.: testemunha com
99 anos e internada).

Quando a prova a ser produzida seja suscetível de viabilizar a autocomposição ou outro


meio adequado de solução de conflito;

Quando o prévio conhecimento dos fatos possa justificar ou evitar o ajuizamento de

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156
ação.

O processamento da produção antecipada de provas seguirá o CPC com a possibilidade de


requerer outras provas não discriminadas na petição inicial.

O magistrado não se pronuncia sobre fatos que não sejam objetos de prova e nem sobre
as consequências jurídicas do fato. Ele apenas preside a instrução para que a prova seja
produzida.

Tanto é que é vedado o oferecimento de defesa ou de recurso neste procedimento, salvo


se o juiz indeferir a produção antecipada de provas. Produzida a prova, os autos da produção
antecipada de provas são entregues ao requerente.

IX. Provas em espécie

a) Ata notarial

O art. 384 do CPC traz uma nova espécie de prova.

Ata notarial é uma ata ou certidão lavrada pelo tabelião. Pode estar representada por uma
imagem ou som que ateste a existência ou modo de existir de algum determinado fato.

Logicamente, a ata notarial tem peso relativo.

b) Depoimento pessoal

Depoimento pessoal é a colheita em juízo das declarações de uma das partes principais do
processo (demandante ou demandado).

O depoimento pessoal é realizado na audiência de instrução e julgamento. Se houver


urgência poderá ser prestado em sede de produção antecipada de prova.

A parte poderá se recusar a depor em juízo. Neste caso, o juiz deverá interpretar a recusa
como confissão. O mesmo vai acontecer se a parte deixar de comparecer à audiência de instrução
em julgamento, ou se o depoente deixou de apresentar respostas ou foi evasivo. Nestes casos, o
juiz entenderá que houve confissão (art. 386).

O depoimento pessoal da parte que residir em outra comarca ou seção judiciária, poderá
ser colhido por meio de videoconferência ou outro recurso tecnológico de transmissão de sons
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157
e imagens em tempo real, podendo ocorrer durante a realização da audiência de instrução e
julgamento.

A parte deverá responder pessoalmente sobre os fatos articulados, não podendo utilizar
de escritos preparados, permitindo-se a consulta a notas breves, desde que objetivem completar
esclarecimentos.

O depoente não é obrigado a depor sobre:

Fatos criminosos ou torpes que lhe sejam imputados (direito a não autoincriminação);

Fatos a cujo respeito, por estado ou profissão, deva guardar sigilo;

Fatos acerca dos quais não possa responder sem desonra própria, de seu cônjuge, de
seu companheiro ou de parente em grau sucessível;

• Fatos que coloquem em perigo a vida do depoente ou de seu cônjuge, de seu


companheiro ou de parente em grau sucessível.

Cabe ressaltar que estes casos não se aplicam às ações de estado e de família.

c) Confissão

Confessar é admitir a ocorrência de um fato contrário ao interesse próprio em favor à outra


parte.

A confissão, que será judicial ou extrajudicial, ocorre quando a parte admite a verdade de
fato contrário ao seu interesse e favorável ao do adversário.

A confissão judicial pode ser espontânea ou provocada:

Confissão espontânea: pode ser feita pela própria parte ou por representante com poder
especial.

Confissão provocada: constará do termo de depoimento pessoal.

Confissão judicial: ocorrida nos próprios autos. Faz prova contra o confitente, não
prejudicando, todavia, os litisconsortes.

Confissão extrajudicial: ocorre fora do processo. Quando feita oralmente, só terá eficácia
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158
nos casos em que a lei não exija prova literal.

Confissão simples: é a confissão comum.

Confissão qualificada: é aquela em que o réu confessa o fato, mas apresenta a defesa de
mérito direta. Isto é, ele confessa os fatos, mas nega os efeitos pretendidos pelo
demandante.

Confissão complexa: é aquela confissão em que o réu reconhece os fatos, mas argui um
outro fato modificativo, extintivo ou impeditivo do direito do autor. Há uma defesa de
mérito indireta.

No caso de confissão na seara judicial ou na seara extrajudicial, deverá ser realizada pela
própria parte ou por mandatário com poderes especiais.

Nas ações que versarem sobre bens imóveis ou direitos reais sobre imóveis alheios, a
confissão de um cônjuge ou companheiro não valerá sem a do outro. A confissão valerá se o
regime de casamento for o de separação absoluta de bens.

A confissão não pode prejudicar os demais litisconsortes, independentemente da


natureza do litisconsorte, seja unitário, simples, necessário ou facultativo.

A confissão também não pode ser admitida quando ela se referir a fatos relacionados a
direitos indisponíveis, conforme art. 392.

A confissão será ineficaz se feita por quem não for capaz de dispor do direito a que se
referem os fatos confessados. A confissão feita por um representante somente é eficaz nos
limites em que este pode vincular o representado.

A confissão é irrevogável, mas pode ser anulada se decorreu de:

• Erro de fato

• Coação

A legitimidade para a ação é exclusiva do confitente e pode ser transferida a seus


herdeiros se ele falecer após a propositura.

O art. 395 diz que a confissão é, em regra, indivisível. Isto é, a parte não pode invocar a
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159
confissão como meio de prova num tópico que a beneficia e rejeitá-la num tópico que a prejudica.
Mas é possível que a confissão aborde mais de um fato, sendo possível que em relação a um dos
fatos seja verdadeiro e em relação a outro não admita.

d) Exibição de documento ou coisa

Qualquer parte pode requerer ou o juiz pode determinar a exibição de ofício que um
documento ou uma coisa que se encontre com qualquer um dos litigantes ou que estejam em
poder de uma terceira pessoa.

Na hipótese de requerimento cabe ao demandante demonstrar:

Individuação do documento ou da coisa;

Finalidade da prova, indicando os fatos que se relacionam com o documento ou com a


coisa;

• Circunstâncias em que se fundamentam a afirmação de que o documento ou a coisa


se acha em poder da parte contrária.

Nada impede que a exibição de documento seja requerida pelo réu. Ou seja, tanto o autor
como o réu pode requerer a exibição.

Feito o requerimento, o juiz determinará que a parte contrária apresente a coisa ou


documento, bem como se manifeste no prazo de 5 dias. Isso porque, por vezes, a legislação
autoriza que haja uma recusa, situação na qual a parte irá se manifestar nesse sentido.

Após a apresentação da resposta, caberá ao magistrado determinar a intimação do


requerente a fim de, em seguida, decidir.

O juiz não admitirá a recusa se:

Requerido tiver obrigação legal de exibir;

Requerido tiver aludido ao documento ou à coisa, no processo, com o intuito de


constituir prova;

Documento for comum às partes.

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160
Supondo que a parte recuse apresentar o documento, e o juiz entenda pela sua
necessidade de exibição, bem como pela falta de justa causa na recusa, o CPC autoriza que os
fatos que o documento ou a coisa atestariam serão considerados como verdadeiros.

Ou seja, serão presumidos como verdadeiros os fatos quando:

• Requerido não exibir e nem fizer nenhuma declaração no prazo de 5 dias da intimação;

• Recusar ilegitimamente a exibição.

Caso a coisa não esteja em poder das partes, mas sim em poder de terceiros, deverá haver
a emenda da inicial para que este terceiro seja incluído no polo passivo no prazo de 15 dias.
Haverá um litisconsórcio passivo necessário.

Estando em poder de terceiro, e se o juiz entender que a recusa não é legítima, não tem
como o juiz considerar legítima as alegações do autor contra o réu, visto que foi o terceiro que se
recusou. Nesta situação, o juiz determinará um mandado de apreensão, a fim de consolidar a
medida.

A parte e o terceiro podem deixar de exibir, em juízo, se o documento ou a coisa:

For relacionado a negócios da própria vida da família;

Puder violar dever de honra;

A publicidade redundar em desonra à parte ou ao terceiro, bem como a seus parentes


consanguíneos ou afins até o 3º grau, ou lhes representar perigo de ação penal;

Sua exibição acarretar a divulgação de fatos a cujo respeito, por estado ou profissão,
devam guardar segredo;

Houver outros motivos graves que, segundo o prudente arbítrio do juiz, justifiquem a
recusa da exibição;

Houver disposição legal que justifique a recusa da exibição.

Se os motivos de recursa disserem respeito a apenas uma parcela do documento, a parte


ou o terceiro exibirá a outra em cartório, para dela ser extraída cópia reprográfica, de tudo
sendo lavrado auto circunstanciado.
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161
e) Prova documental

Recomenda-se que sejam lidos os arts. 405 a 438 do CPC.

A prova documental deve vir acompanhada da petição inicial ou da contestação.

É lícito que o interessado traga aos autos, em qualquer momento antes da sentença, a
prova documental.

i. Força probante dos documentos

O documento público faz prova:

Da sua formação e;

Dos fatos que o escrivão, o chefe de secretaria, o tabelião ou o servidor declarar que
ocorreram em sua presença.

Se a lei exigir instrumento público como da substância do ato, nenhuma outra prova
poderá suprir sua falta. Vigora o princípio da prova tarifada por aqui.

O documento feito por oficial público incompetente ou sem a observância das


formalidades legais, sendo subscrito pelas partes, terá a mesma eficácia probatória do
documento particular.

As declarações de documento particular escrito e assinado ou somente assinado


presumem-se verdadeiras em relação ao signatário. Todavia, se contiver declaração de ciência
de determinado fato, o documento particular prova a ciência, mas não o fato em si, incumbindo
o ônus de prová-lo ao interessado em sua veracidade.

A data do documento particular, quando a seu respeito surgir dúvida ou impugnação


entre os litigantes, poderá ser provado por todos os meios de direito.

Em relação a terceiros, será considerado datado o documento particular:

• No dia em que foi registrado;

• Desde a morte de algum dos signatários;

• A partir da impossibilidade física que sobreveio a qualquer dos signatários;

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162
• Da sua apresentação em repartição pública ou em juízo;

• Do ato ou do fato que estabeleça, de modo certo, a anterioridade da formação do


documento.

Será considerado autor do documento particular:

• Quem o fez e o assinou;

• Aquele por conta de quem ele foi feito, estando assinado;

• Aquele que, mandando compô-lo, não o firmou porque, conforme a experiência comum,
não se costuma assinar, como livros empresariais e assentos domésticos.

Será considerado autêntico o documento quando:

• Tabelião reconhecer a firma do signatário;

• Autoria estiver identificada por qualquer outro meio legal de certificação, inclusive
eletrônico;

• Não houver impugnação da parte contra quem foi produzido o documento.

O documento de cuja autenticidade não se tem dúvida prova que o seu autor fez a
declaração que a ele é atribuída.

O documento particular admitido expressa ou tacitamente é indivisível, sendo vedado à


parte que pretende utilizar-se dele aceitar os fatos que lhe são favoráveis e recusar os que são
contrários ao seu interesse, salvo se provar que estes não ocorreram.

O telegrama, o radiograma ou qualquer outro meio de transmissão tem a mesma força


probatória do documento particular se o original constante da estação expedidora tiver sido
assinado pelo remetente.

A firma do remetente poderá ser reconhecida pelo tabelião, declarando-se essa


circunstância no original depositado na estação expedidora.

O telegrama ou o radiograma presume-se conforme com o original, provando as datas de


sua expedição e de seu recebimento pelo destinatário.

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163
As cartas e os registros domésticos provam contra quem os escreveu quando:

• Enunciam o recebimento de um crédito;

• Contêm anotação que visa a suprir a falta de título em favor de quem é apontado como
credor;

• Expressam conhecimento de fatos para os quais não se exija determinada prova.

O escrito pelo credor em qualquer parte de documento que expresse uma obrigação, ainda
que não assinada, faz prova em benefício do devedor.

Os livros empresariais provam contra seu autor, sendo lícito ao empresário, todavia,
demonstrar, por todos os meios permitidos em direito, que os lançamentos não correspondem à
verdade dos fatos. Se eles preencherem os requisitos exigidos por lei provam a favor de seu autor
no litígio entre empresários.

A escrituração contábil é indivisível, e, se dos fatos que resultam dos lançamentos, uns
são favoráveis ao interesse de seu autor e outros lhe são contrários, ambos serão considerados
em conjunto, como unidade.

O juiz pode ordenar, a requerimento da parte, a exibição integral dos livros empresariais
e dos documentos do arquivo:

• Na liquidação de sociedade;

• Na sucessão por morte de sócio;

• Quando e como determinar a lei.

Neste caso, o juiz pode, de ofício, ordenar à parte a exibição parcial dos livros e dos
documentos, extraindo-se deles a suma que interessar ao litígio, bem como reproduções
autenticadas.

Qualquer reprodução mecânica, como a fotográfica, a cinematográfica, a fonográfica ou


de outra espécie, tem aptidão para fazer prova dos fatos ou das coisas representadas, se a sua
conformidade com o documento original não for impugnada por aquele contra quem foi
produzida.

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164
As fotografias digitais e as extraídas da rede mundial de computadores fazem prova das
imagens que reproduzem. Se se tratar de fotografia publicada em jornal ou revista, será exigido
um exemplar original do periódico, caso impugnada a veracidade pela outra parte.

As reproduções dos documentos particulares, fotográficas ou obtidas por outros


processos de repetição, valem como certidões sempre que o escrivão ou o chefe de secretaria
certificar sua conformidade com o original.

Terão o mesmo valor do original a cópia de documento particular, desde que o escrivão,
intimadas as partes, conferir e certificar a conformidade entre a cópia e o original.

Fazem a mesma prova que os originais:

Certidões textuais de qualquer peça dos autos, do protocolo das audiências ou de outro
livro a cargo do escrivão ou do chefe de secretaria, se extraídas por ele ou sob sua
vigilância e por ele subscritas;

Traslados e as certidões extraídas por oficial público de instrumentos ou documentos


lançados em suas notas;

Reproduções dos documentos públicos, desde que autenticadas por oficial público ou
conferidas em cartório com os respectivos originais;

Cópias reprográficas de peças do próprio processo judicial declaradas autênticas pelo


advogado, sob sua responsabilidade pessoal, se não lhes for impugnada a autenticidade;

Extratos digitais de bancos de dados públicos e privados, desde que atestado pelo seu
emitente, sob as penas da lei, que as informações conferem com o que consta na origem;

Reproduções digitalizadas de qualquer documento público ou particular, quando


juntadas aos autos pelos órgãos da justiça e seus auxiliares, pelo Ministério Público e seus
auxiliares, pela Defensoria Pública e seus auxiliares, pelas procuradorias, pelas
repartições públicas em geral e por advogados, ressalvada a alegação motivada e
fundamentada de adulteração.

Os originais dos documentos digitalizados deverão ser preservados pelo seu detentor até
o final do prazo para propositura de ação rescisória.
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165
Tratando-se de cópia digital de título executivo extrajudicial ou de documento relevante
à instrução do processo, o juiz poderá determinar seu depósito em cartório ou secretaria.

Sendo declarado falso, cessará a fé do documento público ou particular.

A falsidade consiste em:

• Formar documento não verdadeiro;

• Alterar documento verdadeiro.

Cessa a fé do documento particular quando:

Impugnada sua autenticidade e enquanto não se comprovar sua veracidade;

Assinado em branco, for impugnado seu conteúdo, por preenchimento abusivo.

Haverá abuso quando quem recebeu documento assinado com texto não escrito no todo
ou em parte completá-lo, violando o pacto feito com o signatário.

Incumbe o ônus da prova:

Falsidade de documento ou de preenchimento abusivo: caberá à parte que arguir a


falsidade o ônus da prova;

Impugnação da autenticidade: caberá à parte contrária que produziu o documento


alegar a falsidade. Arts. 430 a 433 do CPC.

ii. Arguição de falsidade

A falsidade deve ser suscitada:

• Na contestação

Na réplica

No prazo de 15 dias da intimação da juntada do documento aos autos.

Arguida a falsidade, será resolvida como questão incidental, salvo se a parte requerer que
o juiz a decida como questão principal. Neste caso, a parte deverá os motivos que fundam a
falsidade e os meios com que provará o alegado.

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166
Após a oitiva da parte contrária no prazo de 15 dias, será realizado o exame pericial. Não
haverá perícia se a parte concordar em retirar o documento falso.

A declaração sobre a falsidade do documento, quando suscitada como questão principal,


constará da parte dispositiva da sentença e sobre ela incidirá também a autoridade da coisa
julgada.

iii. Produção da prova documental

Incumbe à parte instruir a petição inicial ou a contestação com os documentos destinados


a provar suas alegações.

Se o documento for produzido como reprodução cinematográfica ou fonográfica, a parte


deverá trazer nos autos a sua exposição, a qual será realizada em audiência, intimando-se
previamente as partes.

É lícito às partes, em qualquer tempo, juntar aos autos documentos novos, quando
destinados a fazer prova de fatos ocorridos depois dos articulados ou para contrapô-los aos que
foram produzidos nos autos.

Admite-se a juntada posterior de documentos formados após a petição inicial ou a


contestação, bem como dos que se tornaram conhecidos, acessíveis ou disponíveis após esses
atos, cabendo à parte que os produzir comprovar o motivo que a impediu de juntá-los
anteriormente e incumbindo ao juiz, em qualquer caso, avaliar a conduta da parte de acordo com
o princípio da boa-fé.

A parte, intimada a falar sobre documento constante dos autos, poderá:

• Impugnar a admissibilidade da prova documental;

• Impugnar sua autenticidade;

• Suscitar sua falsidade, com ou sem deflagração do incidente de arguição de falsidade;

• Manifestar-se sobre seu conteúdo.

O réu se manifestará na contestação sobre os documentos anexados à inicial, e o autor se


manifestará na réplica sobre os documentos anexados à contestação.

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167
Sempre que uma das partes requerer a juntada de documento aos autos, o juiz ouvirá, a
seu respeito, a outra parte, que disporá do prazo de 15 dias para impugnação.

Poderá o juiz, a requerimento da parte, dilatar o prazo para manifestação sobre a prova
documental produzida, levando em consideração a quantidade e a complexidade da
documentação.

O juiz requisitará às repartições públicas, em qualquer tempo ou grau de jurisdição:

• Certidões necessárias à prova das alegações das partes;

• Procedimentos administrativos nas causas em que forem interessados a União, os


Estados, o Distrito Federal, os Municípios ou entidades da administração indireta.

Recebidos os autos, o juiz mandará extrair, no prazo máximo e improrrogável de 1 mês,


certidões ou reproduções fotográficas das peças que indicar e das que forem indicadas pelas
partes, e, em seguida, devolverá os autos à repartição de origem.

As repartições públicas poderão fornecer todos os documentos em meio eletrônico,


conforme disposto em lei, certificando, pelo mesmo meio, que se trata de extrato fiel do que
consta em seu banco de dados ou no documento digitalizado.

f) Arguição de falsidade do documento

A arguição de falsidade do documento deve ser apresentado na contestação, caso tenha


sido apresentado na petição inicial, na réplica, caso tenha sido apresentado na contestação, ou
mesmo em qualquer outra petição caso tenha sido apresentado posteriormente, desde que tenha
sido apresentado no prazo de 15 dias, contados da juntada aos autos do documento.

O ônus da prova quanto à falsidade compete à parte que arguir a falsidade do


documento, salvo quando a impugnação se referir à autenticidade do documento. Neste caso,
competirá à parte que produziu o documento.

Após as manifestações das partes, haverá o exame pericial para averiguar a falsidade, salvo
se a parte que está sendo acusada da falsificação concordar em retirar o documento dos autos.

Esta questão é decidida por decisão interlocutória. Via de regra, essa decisão que encerra
a arguição de falsidade de documento é interlocutória.
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168
Mas é possível que qualquer das partes requeira que não seja analisada a questão da
falsidade do documento sob o viés de uma questão prejudicial, mas sim sob o viés de uma
questão principal. É o art. 430, parágrafo único. Nesses casos, a declaração de falsidade passará
a constar da parte dispositiva da sentença, situação na qual será cabível recurso de apelação.

g) Documentos eletrônicos

Os documentos eletrônicos são disciplinados pelo CPC.

Impõe que seja necessária a forma impressa dos documentos eletrônicos, bem como a
necessária certificação de sua autenticidade.

O CPC diz que em relação aos documentos eletrônicos somente serão admitidos os que
forem produzidos e conservados conforme a legislação específica (Lei 11.419/06).

h) Prova testemunhal

A prova testemunhal consiste na tomada do depoimento prestado por alguém que não é
parte principal no processo.

Deve a atuação da testemunha se limitar a informar se o fato ocorreu, como ocorreu, se


ele não ocorreu, em qual circunstâncias ocorreu.

A testemunha não pode realizar um juízo de valor dos fatos. Deve narrar os fatos.

Cada parte poderá arrolar até 10 testemunhas no processo. Se for deferida no


saneamento do processo, as partes terão mais 15 dias para que o rol de testemunhas seja
apresentado, se este rol não tiver sido apresentado anteriormente.

O CPC permite que a intimação de testemunha seja realizada diretamente pelo patrono
da parte (advogado), mas a ideia do CPC visa dar maior agilidade à intimação.

O art. 447 proíbe que sejam arroladas testemunhas incapazes (interditadas, menores de
16 anos, etc.), bem como as testemunhas impedidas (ascendentes e descendentes das partes,
etc.). Também não se permite a inquirição de testemunhas suspeitas (aquelas que têm algum
interesse no litígio, amigo íntimo ou inimigo das partes, etc.)

Apresentado o rol de testemunhas, poderá haver a substituição das testemunhas,

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169
quando, por exemplo, uma delas falecer, não tiver condições de depor (ex.: internada), ou ainda
quando uma tiver mudado de residência e não tiver mais sido encontrada.

A regra é a de que as testemunhas sejam ouvidas na audiência de instrução e julgamento.


No entanto, a própria parte pode se comprometer a trazer a testemunha em audiência,
independentemente de intimação.

Se a parte se comprometeu em trazer a testemunha, mas a testemunha não foi à


audiência, esta ausência será interpretada como desistência.

Caso a testemunha tenha sido intimada, mas a testemunha não compareceu, não haverá
desistência, autorizando a expedição de um mandado de condução coercitiva da testemunha.

Durante a audiência de instrução e julgamento, o juiz seguirá a seguinte ordem:

• Oitiva das testemunhas arroladas pelo demandante

• Oitiva das testemunhas arroladas pelo demandado

Esta é a ordem, podendo ser alterada se as partes de comum acordo não se opuserem a
isso.

Não sendo caso de impedimento, suspeição ou incapacidade da pessoa, o juiz vai exigir
que a testemunha preste o compromisso, ou ainda na qualidade de informante, bem como
advertirá à testemunha no sentido de que poderá incorrer no crime de falso testemunho.

São hipóteses em que a testemunha poderá se silenciar:

• Quando o seu depoimento puder gerar grave dano pessoal ou material a sua pessoa

• Quando o seu depoimento puder gerar grave dano patrimonial ao seu companheiro,
cônjuge ou a parente até 3º grau

• Quando o fato a cujo respeito deva guardar sigilo ou por estado ou por profissão.

A oitiva da testemunha se dá através do sistema cross examination. O advogado efetua


pergunta diretamente à testemunha.

i. Incidente de recusa de prova testemunhal

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

170
O art. 457, §1º autoriza que qualquer das partes contradite a testemunha arrolada pela
outra parte, arguindo incapacidade, impedimento ou suspeição, por meio de petição ou por
meio oral, no momento imediatamente anterior à tomada de compromisso daquela testemunha.

Caberá ao juiz indagar à testemunha a respeito dessa arguição. Se a testemunha concordar


será dispensada ou ouvida na qualidade de informante, visto que tenha se mostrado suspeita.

Se a testemunha discordar da contradita, é possível que pessoa prove a contradita, seja


por meio de prova documental ou por meio de oitiva de até 3 testemunhas que tenham sido
apresentadas no ato.

Finda a instrução, o juiz proferirá uma decisão interlocutória para resolver a contradita.

i) Prova pericial

Prova pericial é a prova do perito, sendo uma prova essencialmente técnica, visto que exige
conhecimento específico sobre o assunto em questão.

A prova pericial consiste em exame, vistoria ou avaliação.

No procedimento comum, cabe às partes requerer a produção da prova pericial, no


momento oportuno, isto é, até o momento do saneamento do feito.

Deferida a produção da prova, as partes serão intimadas para indicar assistente técnico e
arguir o impedimento ou suspeição do perito nomeado.

As partes poderão apresentar os quesitos no prazo de 15 dias, os quais serão direcionados


ao perito.

O perito não precisa prestar compromisso, mas a sua função e o seu encargo deve ser
prestado escrupulosamente (art. 466).

As partes serão previamente intimadas da data e do local em que será realizada a


diligência para que possam acompanhar aquela diligência.

Feita a diligência, o perito deverá apresentar um laudo no prazo em que o juiz determinar,
admitindo a prorrogação motivada do prazo.

Na hipótese de já ter sido uma audiência de instrução e julgamento, o laudo deverá ser
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

171
apresentado pelo perito com pelo menos 20 dias de antecedência da audiência.

Os assistentes técnicos apresentarão os seus pareceres no prazo de 15 dias após a


intimação do laudo juntado aos autos.

Se for necessário algum esclarecimento, o perito será intimado para realizar o


esclarecimento por escrito. Não sendo suficiente, será prestado em sede de instrução e
julgamento.

O art. 478 vai deixar claro que o sistema é o livre convencimento motivado, dizendo que o
juiz não fica adstrito ao laudo pericial.

O art. 464, §§3º e 4º, os quais consagram a possibilidade de o juiz determinar uma prova
técnica simplificada, para os pontos controvertidos que tiver deixado no saneamento do
processo. Esta prova técnica simplificada consiste na inquirição de um especialista em audiência.

j) Inspeção judicial

Inspeção é judicial, ou seja, do juiz. Esta inspeção poderá ser de ofício ou a requerimento
da parte, em qualquer fase do processo.

Sempre que for necessário ao magistrado deve verificar fazer esta inspeção judicial,

Neste caso, o juiz se desloca para onde está a pessoa ou a coisa. Isso quando não for
possível apresentar a coisa ou a pessoa em juízo sem grandes dificuldades, ou quando for
ordenada a reconstituição dos fatos.

Muito comum é a inspeção pelo oficial de justiça, quando o magistrado não puder
comparecer. Trata-se de prova atípica, mas é válida.

k) Interceptação de dados telemático e uso desta prova no processo civil

Segundo a CF, o afastamento do sigilo, e portanto da interceptação dos dados telemáticos,


só pode recair sobre comunicações telefônicas se estiverem presentes 3 requisitos:

• Ordem judicial

• Investigação penal ou instrução processual penal

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• Nas hipóteses em que a lei estabelece

A lei que regulamenta é a Lei 9.296/96.

Como se sabe, essa prova poderá ser utilizada no processo civil, desde que a
interceptação seja determinada no processo penal, situação em que será anexada ao processo
civil ou a processo administrativo, na qualidade de prova documental (prova emprestada).

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Procedimento comum (continuação): AIJ. Sentença. Coisa Julgada. Liquidação de sentença

Procedimento Comum (Continuação)

Audiência de instrução e julgamento

I. Conceito

A AIJ é um ato processual complexos, pois se começa com uma tentativa de conciliação,
após a produção de prova, podendo ter as alegações finais orais da parte, e, por fim, a sentença,
hipótese em que poderá haver interposição de recurso.

Veja como é um ato processo complexo.

O CPC permite que a audiência de instrução e julgamento seja realizada nos dias úteis
entre 6 horas e 20 horas, com a ressalva de que esta audiência possa terminar após às 20 horas,
desde que a interrupção gere prejuízo ao ato ou dano grave que justifique a continuidade da
audiência a despeito de passar do horário.

A audiência de instrução e julgamento deve ser considerada uma audiência una e


contínua. Ou seja, se houver a necessidade de prosseguimento em outra data, esta circunstância
não implica nova audiência e sim continuação da audiência que se iniciou.

II. Princípios informativos

São princípios informativos da audiência de instrução e julgamento:

Princípio da publicidade (art. 368): todos os atos processuais devem ser públicos. Não
se trata de um princípio pleno, pois poderão tramitar em segredo de justiça os processos
que assim exigir o interesse público ou interesse privado relevante (casamento, filiação,
separação, divórcio, alimentos, guarda de menores, etc.).

Princípio da concentração: como dito, a audiência é una, devendo ser praticados todos
os atos naquela audiência. Só poderá ser cindida excepcionalmente.

Princípio da oralidade: permite que os atos praticados durante a AIJ sejam praticados

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

174
oralmente, embora haja a necessidade de redução a termo desses atos, ou sua gravação.

Princípio da imediatividade: este princípio recomenda que a sentença seja proferida


pelo juiz que tiver contato direto com a prova, eis que conhece melhor o processo.

III. Adiamento da audiência de instrução e julgamento

É possível que se adie a audiência de instrução e julgamento, visto que tenha havido
convenção das partes ou por qualquer outro motivo (ex.: não compareceu uma das partes de
forma motivada).

Segundo o CPC, a audiência poderá ser adiada:

• Por convenção das partes;

• Se qualquer pessoa que dela deva necessariamente participar não puder comparecer,
por motivo justificado;

• Por atraso injustificado de seu início em tempo superior a 30 minutos do horário


marcado.

Poderá ainda adiar a audiência de instrução e julgamento se um dos advogados não


puder estar presente. Neste caso, bastará apresentar justificativa antes da audiência de instrução
e julgamento, pois do contrário irá se realizar com a dispensa das provas requeridas pelas partes
cujo advogado não se encontre presente no ato (art. 362, §2º).

IV. Estrutura da audiência de instrução e julgamento

A audiência de instrução e julgamento inicia-se com o pregão, que é a chamada das partes,
advogados e testemunhas, normalmente feito por oficiais de justiça.

Antes de iniciar a instrução, o juiz tentará conciliar as partes.

Não havendo a conciliação, passa-se diretamente à instrução.

Com relação à colheita de provas, o art. 361 diz que as provas orais serão produzidas em
audiência, ouvindo-se nesta ordem, preferencialmente:

• Esclarecimento do perito e dos assistentes técnicos, caso não respondidos anteriormente

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175
por escrito;

• Depoimento do autor e, em seguida, depoimento do réu;

• Oitiva das testemunhas arroladas pelo autor e pelo réu, que serão inquiridas.

Isto é denominado PART (perito, autor, réu e testemunhas).

Adota-se o sistema do cross examination, que autoriza que as perguntas sejam realizadas
diretamente pelos advogados das partes.

Após a instrução, as partes realizarão suas alegações finais orais, as quais serão reduzidas
a termo. O prazo é de 20 minutos para cada parte, sendo possível prorrogação por mais 10
minutos, a critério do juiz.

Sendo caso de litisconsórcio ou intervenção de terceiros, o prazo para alegações finais


orais será de 30 minutos, sendo divididos igualmente entre os litisconsortes ou entre os
intervenientes e partes, salvo se dispuserem de forma diferente.

Pode ocorrer de a situação se mostrar bastante complexa, ou seja, a situação de fato ou


de direito de maior complexidade. O art. 364, §2º, autoriza que nestes casos as alegações finais
orais sejam substituídos por memoriais escritos, fixando o juiz o prazo de 15 dias, contados
sucessivamente os seus memoriais escritos.

Em seguida, o juiz prolatará a sentença. O juiz poderá prolatar imediatamente ou no prazo


de 30 dias, podendo ser dobrado se houver justificativa (60 dias). Trata-se de prazo impróprio.

Existem duas normas no §5º e §6º do art. 367 que autorizam a gravação da audiência, seja
por áudio seja por imagem, por meio digital, analógico ou análogo. Mas é a previsão do §6º que
causa certo receio na doutrina, pois traz uma previsão que permite a gravação da audiência de
instrução e julgamento por qualquer das partes, independentemente de autorização judicial.

Prolatada a sentença, é possível que a parte interponha recurso de apelação.

Quanto às decisões interlocutórias, é possível que apresente agravo de instrumento,


desde que se trate de hipótese prevista em lei.

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Sentença

I. Conceito

Sentença é um pronunciamento do juiz que vai resolver ou não o mérito, colocando fim à
fase de conhecimento ou extinguindo a execução.

II. Fundamentos da sentença

O CPC pontua qual é o conteúdo constante na sentença (arts. 485 ou 487).

a) Fundamento sem resolução do mérito (coisa julgada formal)

No art. 485 há a sentença terminativa, em que não há resolução do mérito e que gera
coisa julgada formal:

Autoriza a extinção do processo por motivo de indeferimento da petição inicial;

Autoriza a extinção quando o processo ficar parado durante mais de 1 ano por
negligência das partes ou quando o autor abandonar a causa por mais de 30 dias por
não promover os atos e as diligências que lhe cabia. Atente-se que neste caso, o CPC
impõe que o juiz determine a intimação pessoal da parte para que ela dê andamento
ao processo no prazo de 5 dias, antes de extinguir o feito sem resolução do mérito.

Autoriza a extinção do processo quando verificar a ausência de pressupostos


processuais de constituição e de desenvolvimento válido e regular do processo;

Autoriza a extinção do processo quando verificar presença de pressupostos processuais


negativos, os quais autorizam a reconhecer a existência de perempção, de litispendência
ou de coisa julgada;

Autoriza a extinção do processo quando verificar ausência de legitimidade ou de


interesse processual. Lembre-se que se tratam de condições da ação.

Autoriza a extinção do processo quando acolher a alegação de convenção de arbitragem


ou quando o juízo arbitral reconhecer sua competência. Lembre-se que o juiz não
poderá reconhecer de ofício.

Autoriza a extinção do processo quando o juiz homologar pedido de desistência


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177
formulado pelo demandante da ação. Não se confunde com a renúncia, visto que gera
apenas coisa julgada formal, ao contrário do reconhecimento do pedido.

Autoriza a extinção do processo em caso de morte da parte, e a ação for considerada


intransmissível por disposição legal. Exemplo disso ocorre com o credor de alimentos
que no curso do processo vem a falecer.

Autoriza a extinção do processo nos demais casos prescritos neste Código. Exemplo é o
cancelamento da distribuição em razão de o demandante não ter efetuado o pagamento
das custas após a sua intimação para recolhimento.

b) Fundamento com resolução do mérito (coisa julgada material)

Prevista no art. 487, a sentença, nestes casos, estará acobertada pelo manto da coisa
julgada formal e material.

Haverá resolução de mérito quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido formulado na


ação ou na reconvenção;

Haverá resolução de mérito quando o juiz decidir, de ofício ou a requerimento, sobre a


ocorrência de decadência ou prescrição;

Haverá resolução de mérito quando o réu reconhece a procedência do pedido


formulado pelo autor na ação ou na reconvenção. Não se confunde com a confissão,
visto que esta poderá não gerar procedência do pedido do autor. No caso do
reconhecimento, o réu entende que o autor deverá ganhar a ação.

Haverá resolução de mérito quando as partes transigirem, situação em que o juiz


homologará.

Haverá resolução de mérito quando o demandante renuncia à pretensão formulada na


ação ou na reconvenção.

O CPC adota o princípio da primazia da resolução do mérito, visto que o juiz deverá se
esforçar para possibilitar efetivamente a análise da pretensão material.

Quanto aos fundamentos que justificam a extinção do processo, tem-se em regra

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178
sentenças terminativas ou sentenças definitivas.

Em caráter excepcional, uma mesma sentença poderá ter um conteúdo terminativo e um


conteúdo definitivo, nos casos em que o ato decisório possuir mais de um capítulo.

Ex.: autor postulou dois pedidos e o juiz julgou procedente um desses pedidos e em relação
ao outro reconheceu a ilegitimidade ativa.

III. Espécies de sentença

a) Quanto às suas consequências: terminativas e definitivas

• Sentença terminativas

• Sentença definitivas

O que é sentenças falsamente terminativa?

Atenção ao que Cândido Rangel Dinamarco chama de sentenças falsamente terminativas.

Sentenças falsamente terminativas são atos decisórios que têm conteúdo definitivo, mas
que por um grave equívoco do juiz, neles constam conteúdos terminativos.

Por exemplo, o juiz reconhece que a parte é ilegítima, e portanto extingue o processo sem
resolução do mérito analisando o acervo probatório. Na questão de ilegitimidade ad causam deve
ser levado em conta a teoria da asserção. Se o juiz está analisando prova há análise do mérito, de
modo que esta sentença será falsamente terminativa.

Outro exemplo de sentença falsamente terminativa é o caso de uma sentença terminativa


numa demanda em que há o reconhecimento da usucapião, mas a sentença diz que o autor não
conseguiu demonstrar o lapso temporal para obter o reconhecimento do seu pedido e que
portanto deverá ser extinto sem resolução do mérito. Veja, se o autor não conseguiu provar,
deverá ser julgado improcedente o pedido. É falsamente terminativa.

Uma sentença falsamente terminativa é apta a fazer coisa julgada material, já que o
conteúdo já analisou a pretensão de direito material após uma cognição exauriente.

b) Quanto ao seu conteúdo

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179
Leva-se em conta a natureza da pretensão de direito material que foi posta em juízo. Há
duas correntes doutrinárias:

• classificação trinária

• classificação quinária

i. Classificação trinária

Esta corrente trinária estabelecerá que a sentença poderá ser:

• Sentença declaratória:

É a sentença que julga procedente um pedido de natureza declaratório. A finalidade do


pleito é eliminar o estado de incerteza ou de dúvida, declarando a existência ou
inexistência de um direito. O pleito declaratório não está sujeito a prazo prescricional e
nem a prazo decadencial.

Esta sentença, uma vez proferida, possui duas características peculiares:

i. Não há necessidade de executar esta sentença;

ii. Só produzirá efeitos após o trânsito em julgado, inclusive com efeitos retroativos, pois
só reconhecerá a existência ou inexistência do direito. Isso porque, caso haja a
possibilidade de recurso, é possível que exista alguma dúvida. Por isso, é indispensável o
trânsito em julgado.

Hoje, até se admite a execução da sentença declaratória, apesar de via de regra não estar
sujeita à execução. Ex.: o objeto da declaração recaia sobre uma obrigação, seja de pagar,
fazer ou não fazer, entrega de coisa, como é o caso de sentença declaratória da existência
de um crédito, situação na qual poderá ser promovida uma execução desse crédito, caso
o sujeito não pague.

Outra observação importante é que toda a sentença de improcedência possui natureza


declaratória, pois declarará que o demandante não tem o direito alegado.

• Sentença constitutiva:

A sentença constitutiva altera alguma coisa, criando, alterando ou extinguindo uma


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180
relação jurídica de direito material. Via de regra só produzirá efeitos após o trânsito em
julgado, dispensando o cumprimento da sentença.

A diferença para a sentença declaratória é que os efeitos produzidos pela sentença


constitutiva é que são ex nunc, ou seja, não retroagem. Por exemplo, sentença que
decreta o divórcio não retroage.

É possível observar hipóteses em que uma sentença constitutiva tenha efeitos


retroativos. Professor Rodolfo Hartmann traz um exemplo em que uma sentença
desconstitui um negócio por vício de consentimento. Neste caso, será anulado o negócio,
mas terá efeitos retroativos.

Por vezes a sentença constitutiva também poderá gerar efeitos antes do trânsito em
julgado, quando a lei assim autorizar, como é o caso de sentença de interdição. A
sentença de interdição produz efeitos imediatamente, ainda que interposto o recurso de
apelação. O recurso contra a decisão que decreta a sentença de interdição tem efeito
apena devolutivo, não tendo efeito suspensivo.

• Sentença condenatória

A sentença condenatória é aquela em que o juiz impõe ao demandado uma obrigação,


seja de fazer, não fazer, dar, entregar um bem. A sentença condenatória, portanto, se não
for cumprida voluntariamente, deverá ser executada.

A condenatória costuma ter efeitos retroativos, pois se o réu for condenado ao


pagamento de uma dívida, deverá ser condenado ao pagamento desde o nascimento
dessa dívida, correndo correção monetária e juros.

Em relação à eficácia, a sentença condenatória deverá ter eficácia imediata,


independentemente do trânsito em julgado, visto que já é possível promover a execução
provisória, caso o recurso de apelação não seja recebido com efeito suspensivo.

ii. Classificação quinária

Esta corrente quinária estabelecerá que a sentença poderá ser:

• Sentença declaratória

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• Sentença constitutiva

• Sentença condenatória

• Sentença mandamental

• Sentença executiva latu senso

Tanto a sentença mandamental quanto a sentença executiva latu senso têm um conteúdo
condenatório, mas estas sentenças já trazem ínsitas a elas um meio executivo. Este meio executivo
poderá ser a sub-rogação ou coerção:

Sub-rogação: o magistrado estabelece um meio como dar o cumprimento direto da


obrigação. O juiz promove a execução direta, permitindo que um terceiro cumpra a
obrigação ao invés do executado. Quando um meio de sub-rogação já é fixado na
sentença, há uma sentença executiva latu senso. Ex.: ação de reintegração de posse ou
ação de despejo, pois se o sujeito não sair, o oficial de justiça, com auxílio policial, retira
o réu do local. Veja, é sub-rogação por execução direta. A sentença é executiva latu senso.

Coerção: é a sentença que traz em seu conteúdo meios de coerção, ou seja, são meios
de execução indiretos. Estes meios de coerção são fixados com a finalidade de estimular
o cumprimento da obrigação pelo próprio executado. Quando este meio for adotado na
sentença, esta passará a ter um conteúdo, tendo natureza mandamental, pois traz uma
coerção ínsita. É típico das ações de fazer ou não fazer, visto que o não cumprimento
poderá ensejar a fixação de astreintes.

c) Sentenças determinativas

Sentenças determinativas podem ser compreendidas como aquelas sentenças que impõe
obrigação ou condenação que perdurarão no tempo. Neste caso, trata-se de uma obrigação de
trato sucessivo.

Exemplo disso ocorre nos casos de sentença que condena o demandado a pagar alimentos,
benefício previdenciário, etc.

A discussão reside no fato de esta sentença fazer ou não coisa julgada material. Mas isto
será visto mais à frente.
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IV. Estrutura da sentença

Segundo CPC, a sentença deverá ter:

• Relatório

• Fundamentação

• Dispositivo

a) Relatório

Relatório é narrativa dos acontecimentos do processo.

No relatório conterá os nomes das partes, a identificação do caso, com a suma do pedido
e da contestação, e o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo.

A ausência de relatório enseja nulidade da sentença. Excepcionalmente poderá ser


dispensado, como nos Juizados Especiais.

b) Fundamentação

É a motivação dos atos decisórios. No CPC foi criada uma norma indicativa das hipóteses
em que a decisão judicial não é considerada fundamentada.

Na fundamentação é a situação em que o juiz analisará as questões de fato e de direito.

No CPC foi criada uma norma indicativa das hipóteses em que a decisão judicial não é
considerada fundamentada:

Quando a decisão se limitar à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo,


sem explicar sua relação com a causa ou a questão decidida;

Quando a decisão empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo


concreto de sua incidência no caso;

Quando a decisão invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra


decisão;

Quando a decisão não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes


de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador;
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Quando a decisão se limitar a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem
identificar seus fundamentos determinantes nem demonstrar que o caso sob
julgamento se ajusta àqueles fundamentos;

Quando a decisão deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente


invocado pela parte, sem demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento
ou a superação do entendimento.

c) Dispositivo

Dispositivo é a conclusão do ato.

No dispositivo o juiz externa o ato, se foi concluída com ou sem resolução do mérito.

A ausência de dispositivo implica inexistência do ato. Apenas a conclusão do dispositivo


é acobertada pela coisa julgada.

Por isso se a questão prejudicial é enfrentada como questão principal, estará ela no
dispositivo.

d) Assinatura

O juiz não poderá deixar de assinar a sentença, seja manualmente seja eletronicamente,
sob pena de o ato ser considerado inexistente.

V. Fixação da sucumbência: honorários e custas

Os critérios para fixação da sucumbência são:

Critério da causalidade: quem deu causa para a propositura da demanda vai arcar com a
sucumbência, e não necessariamente o vencido. Há casos em que o vencedor foi quem
deu causa à demanda, como na consignação em pagamento, pois é julgado procedente
o pedido, mas a recusa do credor foi que deu causa à propositura da ação.

Critério da dupla sucumbência: é o critério adotado pelo Juizados Especiais. Nessa


situação, o demandante ingressa em juízo, independentemente do pagamento das
custas. Após a sentença, o recorrente apresenta o seu recurso, acompanhado do preparo
ou faz o pagamento em até 48 horas após a interposição independentemente de uma

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nova intimação. Depois, somente se perder novamente na análise do seu recurso, é que
será fixada uma verba honorária em prol do advogado da outra parte. É por isso que se
diz que se adota o modelo da dupla sucumbência.

VI. Fixação da sucumbência à luz do art. 85 do CPC

O art. 85 do CPC traz 19 parágrafos, que buscam esclarecer os critérios que os honorários
advocatícios serão fixados.

Este dispositivo diz que os honorários advocatícios serão fixados em percentuais entre 10%
e 20% da condenação. Não sendo possível mensurar o valor da condenação, serão fixados entre
10% e 20% do valor da causa.

Nas causas em que for inestimável o proveito econômico ou que for irrisório o proveito
econômico, ou valor muito baixo do valor da causa, o juiz fixará os honorários com base na
apreciação equitativa.

O art. 85, §3º, regulamenta os honorários quando a Fazenda Pública for vencida. Nestes
casos, quanto maior for a condenação da fazenda pública, menor será o percentual dos honorários
que cabem ao advogado do vencedor.

O Tribunal, quando for apreciar o recurso, majorará os honorários, levando em conta o


trabalho adicional do advogado em grau recursal. É vedado ao tribunal, mesmo majorando,
ultrapassar os limites fixados no CPC.

Cabe ressaltar que o STF entendeu que é cabível os honorários para o recorrido, ainda
que não tenha ofertado contrarrazões recursais.

Quanto à Fazenda Pública, quando o CPC dispõe no art. 85, §7º, no sentido de que não são
devidos honorários advocatícios na execução de sentença contra a fazenda pública que enseja
a expedição de precatório, desde que não tenha sido embargada esta execução, o CPC apenas
consagra aquilo que já vinha sendo previsto na Lei 9.494/97.

O art. 85, §14, vai consagrar o entendimento de que os honorários advocatícios têm
natureza alimentar. E por isso gozam do mesmo privilégio oriundo da legislação do trabalho. Por
conta disso, fica vedada a compensação de honorários em sucumbência parcial.

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Atente-se que o STJ entendeu que é possível ser o advogado obrigado, em ação de
cobrança, a devolver os valores que recebeu a título de honorários, no caso em que a decisão
judicial que ensejou a fixação de honorários de sucumbência seja parcialmente rescindida por
meio de ação rescisória, ainda que o causídico, de boa-fé, já a tenha levantado.

O art. 85, §18, disciplina que é possível que uma ação autônoma seja ajuizada para
definição e cobrada, quando não tiverem sido fixados honorários advocatícios na sentença que
foi prolatada no processo anterior.

O art. 85, §15, autoriza que o advogado faça um requerimento para que o pagamento dos
honorários seja feita à sociedade a que ele pertence. Isto traz um benefício tributário, já que será
a incidência de imposto de renda pessoa jurídica.

O art. 85, §19, passa a permitir que advogados públicos recebam honorários de
sucumbência nos termos da lei. Haverá de vir uma lei para tratar do assunto.

VII. Sucumbência na cumulação subjetiva de ações (litisconsórcio)

A cumulação é subjetiva, pois há mais de um sujeito num dos polos da ação. Há aqui um
litisconsórcio.

O art. 87 diz que, concorrendo diversos autores ou diversos réus, os vencidos irão
responder pelas despesas e honorários em proporção. Deve a sentença distribuir de forma
expressa o montante a cada um dos vencidos.

Se a sentença for omissa, os vencidos responderão solidariamente pelas despesas e


honorários fixados ou existente.

VIII. Sucumbência e gratuidade de justiça

Ainda que a parte seja beneficiária da gratuidade da justiça, esta parte deverá ser
condenada a arcar pela sucumbência.

O que acontece aqui é que o art. 98, §3º, diz que esta condenação fica suspensa pelo prazo
de 5 anos, prazo este prescricional. Durante este tempo, o credor poderá provar que superou a
situação de hipossuficiência do devedor, ou seja que é possível a cobrança das custas processuais,
honorários advocatícios, sem prejuízo do sustento próprio ou da família do devedor.

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IX. Sucumbência no mandado de segurança e habeas data

Mandado de segurança não permite que a parte vencida seja condenada a pagar
honorários. Admite-se, porém, a condenação do vencido ao pagamento das custas processuais.

A jurisprudência adota idêntico raciocínio no caso de habeas data.

X. Sucumbência na ação civil pública

Segundo o art. 18 da Lei 7.347, nas ações civis públicas, não haverá adiantamento de
custas, emolumentos, honorários periciais e quaisquer outras despesas, nem condenação da
associação autora, salvo comprovada má-fé, em honorários de advogado, custas e despesas
processuais.

Este dispositivo vem sendo interpretado de forma ampliativa, de maneira que qualquer
legitimado não é condenado ao pagamento de custas, despesas e honorários advocatícios, salvo
se houver má-fé.

Contudo, isso ocorre se a associação autora for a vencida. No entanto, se o réu perder a
ação civil pública, deverá arcar com custas, despesas e honorários advocatícios.

XI. Sucumbência na ação popular

Segundo o art. 5º, LXXIII, da CF, qualquer cidadão é parte legítima para propor ação
popular, que vise anular ato lesivo ao patrimônio público, à moralidade administrativa, ao meio
ambiente, ao patrimônio histórico-cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de
custas judiciais e do ônus da sucumbência.

Perceba que, se o autor vencer a ação, a parte ré deverá arcar com custas, despesas e
honorários advocatícios.

XII. Vícios na sentença

a) Sentença ultra, extra e citra petita

Tais vícios na sentença violam o princípio da congruência, ou seja, são hipóteses em que
o magistrado julga em desconformidade com aquilo pedido na petição inicial.

Nesses casos, a sentença poderá ser:


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Ultra petita: o magistrado decidiu além dos limites da provocação. O seu ato decisório
foi além daquilo que o autor deduziu na petição inicial. Neste caso, há uma nulidade na
sentença. É necessário arguir esta nulidade. Caso não seja arguida a nulidade, poderá
haver coisa julgada material e o vício restar sanado. Deve arguir, por exemplo, em
apelação.

Extra petita: o magistrado profere uma sentença distinta dos limites da provocação.
Rodolfo Hartmann diz que a sentença extra petita deve ser considerada inexistente, pois
não há sequer provocação. Há quem entenda que esta sentença extra petita seja apenas
nula.

Citra petita: o ato decisório não enfrenta todas as questões levantadas pela parte e que
sejam relevantes para o mérito. Neste caso, por conta de uma omissão relevante, caberá
embargos de declaração para sanar esta omissão, ou mesmo optar por recurso de
apelação, visando a anulação da sentença, no que toca ao fato de ter sido citra petita.

Não confundir sentença citra petita com sentença infra petita.

A sentença citra petita é uma sentença que contém um vício, visto que o magistrado
apreciou menos do que deveria ter apreciado. Na sentença infra petita, o magistrado apreciou
tudo que deveria, mas concedeu apenas em parte o pleito autoral. O juiz julgou parcialmente
procedente o pedido, razão pela qual é plenamente válida.

b) Sentença condicional

Sentença é um título executivo judicial. A obrigação constante num título deve ser líquida,
certa e exigível. Isto é, a obrigação deve estar vencida (exigível), com relação à liquidez, há
necessidade de saber o quantum. Em relação à certeza, é necessário saber qual a obrigação deve
ser cumprida (certeza).

A sentença condicional acaba sendo incerta. Isto é, ela não decide conclusivamente sobre
a existência ou não de um direito, ou uma obrigação, submetendo isso a um evento futuro. Não
resolve a questão de dúvida existente antes do pleito autoral. Por conta disso, a sentença é nula.

Ex.: juiz julga procedente o pedido, resolvendo o mérito, a fim de declarar a paternidade
do demandado se este se submeter a exame de DNA, e este for procedente.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Veja, esta sentença é condicional, ficando a condição de ser pai sujeito a um evento futuro
e incerto, ou seja, uma condição efetivamente. A sentença condicional equivale a dizer que é
uma sentença incerta.

Pode ser que a sentença seja certa e líquida, e ainda assim tenha a sua eficácia
subordinada a um termo ou a uma condição. Neste caso a sentença é válida, pois ela é certa.

Há sentença condicional quando a sentença é incerta, não dizendo se existe o débito, a


obrigação ou o vínculo, ou seja, afirma apenas que poderá existir se o direito for afirmado.

Isto não ocorre quando a sentença condena o vencido ao pagamento das custas
processuais. Isso porque, neste caso, apesar de ficar suspensa a exigibilidade das custa do vencido,
caso ele mude de situação econômica, poderá o vencedor ou o Estado executar o vencido. Em que
pese tratar de um evento futuro e incerto, ou seja, de ser uma condição, a sentença é certa, ou
seja, ela traz a certeza, diferentemente do que ocorre com a sentença condicional, que é incerta.

c) Correção da sentença

A sentença quando é publicada não pode mais ser modificada (art. 494), salvo algumas
exceções. Segundo o dispositivo, publicada a sentença, o juiz só poderá alterá-la:

para corrigir, de ofício ou a requerimento da parte, inexatidões materiais ou erros de


cálculo;

por meio de embargos de declaração.

Ex.: juiz ter declarado na fundamentação que o dano moral seria de 3 mil reais, mas no
dispositivo apareceu 30 mil reais. Há erro material, podendo ser corrigido de ofício.

Só os embargos de declaração terão o prazo de 5 dias, desde que o ato seja omisso,
contraditório, obscuro ou erro material.

Eventualmente, o juiz poderá corrigir a sentença nos casos em que a lei autoriza juízo de
retratação em sede de recurso de apelação. Neste caso, poderá exercer este direito, alterando a
sentença, mesmo após a sua publicação.

XIII. Coisa julgada

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a) Conceito

Coisa julgada é um valor ou instituto valoroso, pois prestigia a segurança jurídica.

Chiovenda dizia que coisa julgada é a eficácia que decorre da própria sentença. Apesar
disso, o entendimento não prevalece.

Liebman diz que coisa julgada é a autoridade da sentença que a torna imutável quanto
ao seu conteúdo e quanto aos seus efeitos.

Segundo o CPC, no art. 502, denomina-se coisa julgada material a autoridade que torna
imutável e indiscutível a decisão de mérito não mais sujeita a recurso.

b) Cognição e atos que podem gerar coisa julgada

i. Cognição que pode gerar coisa julgada

Cognição é o grau de aprofundamento do juiz quanto às questões de fato e de direito


submetidas ao magistrado. Há uma cognição superficial ou sumária, e uma cognição exauriente,
que é aprofundada.

Cognição exauriente: significa que o ato decisório decorre de um juízo de certeza. Por
conta disso, poderá transitar em julgado, ou seja, poderá haver coisa julgada material.

Cognição sumária: o magistrado profere uma decisão não com base no juízo de certeza,
mas sim juízo de probabilidade. Como a instrução não chegou ao fim, poderá ela ser
alterada. Dessa forma, não fará coisa julgada. Ex.: tutela provisória de urgência
antecipada.

ii. Atos que podem gerar coisa julgada

Existem atos proferidos pelo juiz que podem sofrer os efeitos decorrentes da coisa julgada
material:

• Acórdão;

Decisões monocráticas do Relator, quando decide questão conforme jurisprudência


pacífica do Tribunal;

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190
Sentenças, desde que tenham julgamento decorrente de cognição exauriente ou que
resolvam em caráter definitivo a pretensão de caráter material (reconhecendo prescrição
ou decadência).

Decisão interlocutória, desde que não tenha sido interposto agravo de instrumento:
ocorrerá quando houver o julgamento antecipado do mérito. Ex.: João deve 100 mil a
Pedro. Pedro ajuíza a ação, mas Pedro contesta dizendo que deve 80 mil, e não 100 mil.
Há uma parcela incontroversa de 80 mil. Em relação a este valor já haverá trânsito em
julgado, e poderá ser concedido por meio de tutela de evidência. Este valor será
reconhecido em decisão interlocutória, por meio de decisão interlocutória que proferiu
o julgamento antecipado do mérito.

c) Coisa julgada, preclusão e estabilidade da decisão

Coisa julgada: é uma qualidade que torna imutável o conteúdo de um ato decisório que
não se sujeita mais a qualquer recurso. Depende, em regra, de cognição exauriente.

Preclusão: é a imutabilidade de um ato decisório se não for interposto qualquer recurso.


A preclusão atinge qualquer ato decisório, diferentemente da coisa julgada.

Estabilidade da decisão: significa que essa esta estabilidade da decisão judicial poderá
até gerar preclusão no processo, mas não irá gerar coisa julgada. Este termo é utilizado
para designar o regime da tutela provisória de urgência antecipada, quando a mesma é
deferida e não é interposto qualquer recurso pela parte ré. O processo será extinto e os
efeitos da liminar serão extintos, não mais passíveis de alteração nos próprios autos. Há
uma estabilidade da decisão judicial. A parte endereçada terá 2 anos, por meio de uma
ação própria de impugnação para reverter essa decisão. Após não mais será possível.

d) Classificação da coisa julgada

A coisa julgada poderá ser:

Coisa julgada formal: atua exclusivamente no processo em que a sentença foi proferida.
Tem efeito endoprocessual. Todo processo possui coisa julgada formal. Caso não tenha
havido recurso contra a decisão, ela terá transitou em julgado formalmente, não podendo
mais ser discutido o que foi decidido naquele processo, mas poderá ser julgado noutro.
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191
Há uma sentença terminativa.

Coisa julgada material: ocorre quando os efeitos da coisa julgada extrapolam aquele
processo, não se permitindo uma nova discussão sobre aquele fato em qualquer outro
processo. Típico de sentença definitiva.

Coisa soberanamente julgada: ocorre quando uma decisão transita em julgado e há o


prazo de 2 anos para a propositura de ação rescisória. Neste caso, passado este prazo de
2 anos, surge a denominada coisa soberanamente julgada, pois não é possível sequer
ação rescisória.

e) Coisa julgada pro et contra

Basicamente, todas as decisões que possuem coisa julgada terão também a coisa julgada
pro et contra.

Coisa julgada pro et contra quer dizer que a coisa julgada se forma independentemente,
via de regra, do resultado do processo ter sido ou não ter sido favorável aos intentos do
demandante. A coisa julgada será tanto pró quanto contra o autor.

f) Limites subjetivos da coisa julgada

A coisa julgada só vai vincular demandante e demandado no processo em que foi


proferida. A sentença faz coisa julgada às partes, não prejudicando terceiros, como regra.

Excepcionalmente, a coisa julgada poderá atingir terceiros que não participaram do


processo, como por exemplo:

Substituto processual: alguém age em nome próprio defendendo direito alheio. Logo,
eventual sentença proferida, atingirá a esfera subjetiva de terceiro, a despeito de não ser
parte no processo.

Litisconsórcio facultativo unitário: dois ou mais acionistas tentam obter judicialmente a


nulidade de uma assembleia, fundamentando na mesma causa de pedir (ausência de
quórum para deliberação). Se é a mesma causa de pedir, o acionista poderá ingressar
sozinho ou em litisconsórcio facultativo. Neste caso, há um litisconsórcio facultativo
unitário, pois será a assembleia anulada ou não, seja para um seja para o outro. O teor

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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da sentença, portanto, irá vincular não apenas o que participou do processo, mas todos
aqueles que figuraram no processo como litisconsórcio facultativo unitário. Ada Pellegrini
Grinover discorda desse entendimento.

Dissolução parcial da sociedade: o CPC estabelece que nestas demandas deverão figurar
na demanda todos os sócios e também a pessoa jurídica. O próprio CPC dispensa a
citação da pessoa jurídica quando todos os sócios estiverem citados. Neste caso, a pessoa
jurídica será atingida pela coisa julgada, apesar de não participar do processo.

g) Limites objetivos da coisa julgada

Coisa julgada alcança objetivamente o dispositivo da sentença ou do ato decisório.

Atente-se que o art. 503, §1º, passou a prever que a coisa julgada também vai abranger,
além da questão principal, a questão prejudicial interna, desde que p enfrentamento dessa
questão seja necessário para resolver o mérito. Neste caso, tendo sido respeitado o contraditório
prévio e a competência do juiz, tal decisão fará coisa julgada material.

São requisitos para que haja a resolução de questão prejudicial, decidida expressa e
incidentemente no processo, se:

• Dessa resolução depender o julgamento do mérito;

• A seu respeito tiver havido contraditório prévio e efetivo, não se aplicando no caso de
revelia;

• O juízo tiver competência em razão da matéria e da pessoa para resolvê-la como questão
principal.

No sistema anterior, para isso acontecer, era necessário propor uma ação declaratória
incidental.

Professor Rodolfo Hartmann entende que deverá ser feita uma interpretação restritiva
para formar a coisa julgada da questão prejudicial interna apenas se houver o requerimento da
parte, a fim de não julgar em desconformidade com o pedido do demandante.

No entanto, o próprio CPC não traz essa necessidade de requerimento da parte, motivo
pelo qual haveria automaticamente essa possibilidade.
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h) Efeitos da coisa julgada

São três efeitos da coisa julgada:

Efeito vinculativo: os limites subjetivos da coisa julgada material, alcançando a coisa


julgada apenas as partes principais.

Efeito sanatório: os vícios processuais são convalidados com o trânsito em julgado


material. Ex.: incompetência absoluta após o trânsito em julgado, situação na qual haverá
o efeito sanatório da coisa julgada material. Existem exceções como a inexistência (falta
de citação) não será sanado, alguns casos de rescindibilidade (nulidades absolutas que
permitem instauração de ação rescisória).

Efeito preclusivo: no momento em que a coisa julgada se forma estarão repelidos todos
os argumentos que a parte poderia invocar no processo, tenha ou não sido invocado. Ex.:
A cobra de B 100 mil reais. B entende que A merece 80 mil reais, pois não prestou o
serviço adequadamente. Na contestação, B alega apenas a prescrição, mas não fala nada
sobre a má prestação do serviço. Neste caso, o juiz não acolheu a alegação da prescrição
e julgou procedente o pedido. Transitando em julgado a decisão, não poderá B alegar
mais a má prestação, visto que houve o efeito preclusivo da coisa julgada.

i) Coisa julgada no mandado de segurança

No mandado de segurança não há dilação probatória. A prova trazida pelo impetrante


deverá ser uma prova pré-constituída.

Denegada a segurança, é necessário verificar se a decisão foi com ou sem resolução de


mérito.

A discussão reside na situação em que a segurança é denegada por ausência de direito


líquido e certo, não havendo prova pré-constituída do direito.

Muitas vezes a denegação por este fundamento, o direito líquido e certo é considerada
como uma condição específica da ação de mandado de segurança, situação na qual implicaria
decisão terminativa, o que autorizaria a utilização do procedimento comum, já que não seria
necessário direito líquido e certo.

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194
Veja, não haveria coisa julgada material.

Rodolfo Hartmann, na linha de Cândido Dinamarco, vai dizer que a afirmação do juiz de
que a segurança deverá ser denegada por ausência de direito líquido e certo configura o
julgamento improcedente do pedido por falta de provas. Neste caso, haveria uma decisão
definitiva, razão pela qual haveria coisa julgada material, não sendo possível ajuizar ação sequer
pelo procedimento comum.

j) Coisa julgada nas sentenças determinativas

Sentença determinativa é a sentença que o juiz impõe ao vencido uma obrigação de trato
sucessivo. É típica da ação de alimentos.

A grande dúvida é se essa sentença tem ou não aptidão para gerar coisa julgada material,
já que o conteúdo poderá ser alterado numa demanda posterior.

A verdade é que sentença determinativa pode gerar coisa julgada formal e coisa julgada
material. Isso porque, se o sujeito propõe posteriormente uma ação de revisão de alimentos, esta
ação se fundará numa nova causa de pedir e há um novo pedido.

Primeiro porque o pedido anterior era do reconhecimento de alimentos e o segundo é de


revisão de alimentos, motivo pelo qual não há identidade de pedidos.

E segundo, porque agora a causa de pedir está fundada na alteração do binômio


necessidade x possibilidade, visto que já está reconhecida a paternidade.

Como se vê, não se está repetindo a ação de pedir, pois inexiste identidade de causa de
pedir e pedido. Portanto, poderá dizer que a sentença anterior transitou em julgado.

k) Relativização da coisa julgada nas ações de desapropriação

Esse tema ganhou relevância em razão de indenizações que foram sendo estabelecidas em
ações de desapropriação que já haviam transitado em julgado, mas cujo valor da indenização
fixado em sentença era absolutamente desproporcional e injusto. Era uma fonte de
enriquecimento ilícito do particular em detrimento do Erário.

O STJ decidiu que sentenças dessa natureza nem sempre transitam em julgado, visto que
haveria um interesse público afeto à sociedade em corrigir estas distorções que causam grave
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

195
prejuízo ao Erário, autorizando ainda questionamentos no título no decorrer dessa sentença em
face do Erário.

Veja, nesses casos o interesse público desautorizaria a formação de coisa julgada.

l) Relativização da coisa julgada nas ações de estado

Ações de estado são processos instaurados com o objetivo de criar, modificar, extinguir um
estado, conferindo um novo estado àquela pessoa. Ex.: ação de paternidade, divórcio, etc. são
ações de estado.

A relativização da coisa julgada ganha importância nas ações de reconhecimento de


paternidade julgadas improcedentes por falta de provas, mas à época não havia e/ou não foi
realizado o exame de DNA. Se não foi realizado o exame de DNA e foi julgado improcedente o
pedido, o STJ entende que a coisa julgada, nesse caso, deverá ser relativizado. O STF foi na
mesma linha.

Portanto, será possível o ajuizamento de uma nova ação de paternidade sem que a anterior
tenha sido desconstituída. Não é preciso ação rescisória.

O argumento é de que, se a ação não tiver sido peremptoriamente negada, seria possível
um novo processo, instruído com novas provas.

Apesar do STJ não usar a expressão, há uma coisa julgada secundum eventum probationis,
ou seja, se o sujeito fez o exame de DNA, e deu que ele não seria o pai, não há mais o que discutir.
Por outro lado, se não fez o exame de DNA, mas a sentença disse que ele não era o pai. Caberá
a relativização para submeter ao exame.

m) Coisa julgada inconstitucional

Prolatada uma sentença que contraria frontalmente a Constituição, e transitando em


julgado, haverá uma coisa julgada inconstitucional.

O art. 525, §12, disciplina que é inexigível uma sentença fundada num ato normativo
reputado inconstitucional pelo STF, ou sentença tido como incompatível com a Constituição
Federal pela Suprema Corte.

Aqui há uma sentença já transitada em julgada.


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O CPC normatiza que (§15) se a sentença for proferida antes da decisão do STF, que
declarou o ato normativo inconstitucional ou a interpretação dada como incompatível com a CF,
caberá ação rescisória dessa decisão. Essa proposta deverá ser oferecida no prazo de 2 anos,
cujo termo inicial é o trânsito em julgado da decisão prolatada pela Suprema Corte.

Liquidação de Sentença

A liquidação da sentença pode ser conceituada como a etapa do processo que ocorre após
a fase de conhecimento e que se destina a descobrir o valor da obrigação (quantum debeatur)
quando não foi possível fixar essa quantia diretamente na sentença.

O objetivo da liquidação é descobrir o quantum debeatur e, assim, permitir o


cumprimento da sentença (execução). Ou seja, a sentença diz o an debeatur, mas falta dizer a
delimitação do conteúdo da prestação.

Eventualmente será necessário fazer a liquidação da sentença.

A liquidação é regulada por disposições específicas do CPC (art. 509 a 512), sendo
considerada como uma outra etapa que eventualmente vai ser inserida entre a etapa de
conhecimento e a etapa de execução.

A liquidação da sentença não gera um processo autônomo, pois é penas de uma nova fase
do processo. Sua natureza é, portanto, de fase procedimental. A liquidação tem natureza
cognitiva, ou seja, trata-se de uma fase de conhecimento, não sendo considerada como uma fase
executiva (execução).

A regra é que, na ação de obrigação de pagar quantia, ainda que a parte tenha formulado
pedido genérico, a decisão deverá definir desde logo a extensão da obrigação ("quanto se deve"),
o índice de correção monetária, a taxa de juros, o termo inicial de ambos e a periodicidade da
capitalização dos juros.

Em duas situações será permitido que o magistrado deixe de fixar os parâmetros acima:

quando não for possível determinar, de modo definitivo, na sentença, o montante


devido;

quando a apuração do valor devido depender da produção de prova de realização

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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demorada ou excessivamente dispendiosa, assim reconhecida na sentença.

Ocorrendo um desses dois casos, o valor devido deverá ser apurado por meio de liquidação
de sentença.

Todavia, nem sempre a liquidação é necessária. Isso porque, em algumas hipóteses, a


própria lei veda o juiz de proferir sentença genérica ou ilíquida, como é o caso do Juizado
Especial.

Outro caso ocorre quando a liquidação é dispensada porque a decisão judicial não precisa
ser liquidada, pois depende apenas de cálculos aritméticos.

No curso da liquidação, é proibido tentar discutir novamente a lide, ou tentar modificar a


sentença que julgou. O an debeatur já está decidido.

Em regra, o juiz deverá prolatar a sentença líquida (art. 491). O CPC prevê, no entanto, duas
situações excepcionais em que será autorizado que o magistrado profira sentença ilíquida.

Quando a apuração do valor depender apenas de cálculo aritmético, o credor poderá


promover, desde logo, o cumprimento da sentença (§ 2º do art. 509 do CPC). Nestes casos, o
próprio credor (com o auxílio do seu advogado e de programas existentes na internet) elabora os
cálculos e, após eles estarem prontos, apresenta-os em juízo, instaurando-se logo em seguida o
cumprimento de sentença.

Vale ressaltar que quando na sentença houver uma parte líquida e outra ilíquida, o credor
poderá promover simultaneamente a execução da parte líquida e a liquidação da outra parte (em
autos apartados).

No tocante à parte ilíquida, caso seja feita uma liquidação é possível ao julgador, na fase
de liquidação de sentença por arbitramento, acolher as conclusões periciais fundadas em
presunções e deduções para a quantificação do prejuízo sofrido pelo credor a título de lucros
cessantes. Este é o entendimento do STJ (Info 590).

Segundo a Corte, as presunções não são apenas admitidas pelo direito processual, como
em algumas situações são fundamentais para a decisão do juiz. Quando se fala em lucros
cessantes estamos tratando sobre o ganho que a parte prejudicada deixou de obter e que ela

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198
conseguiria naturalmente com o exercício do seu trabalho normal. Na apuração dos lucros
cessantes a utilização de deduções e presunções é, na maioria dos casos, imprescindível. Isso
porque não se pode exigir do credor que aponte uma conta exata do quanto deixou de lucrar em
decorrência do ato ilícito praticado pelo devedor, sob pena de se exigir do credor a prova de fatos
que não aconteceram. Essa exigência é considerada como prova diabólica e impossível. O
resultado disso seria praticamente negar a reparação integral do dano considerando que o credor
não teria condições de provar algo que não ocorreu (um lucro que não aconteceu por culpa do
devedor).

O art. 512 autoriza que haja a liquidação provisória, a qual será promovida pelo interessado
na pendência de um recurso perante o Tribunal. E por isso, admite-se a liquidação provisória,
ainda que o recurso interposto tenha o efeito suspensivo.

Existem duas espécies de liquidação:

• Liquidação por arbitramento

• Liquidação em procedimento comum

a) Liquidação por arbitramento

A liquidação por arbitramento ocorre quando for necessária a realização de uma perícia
para se descobrir o quantum debeatur.

A liquidação por arbitramento deverá ser feita quando:

• o magistrado assim determinar na sentença;

• as partes convencionarem que será feito dessa forma;

• a natureza do objeto da liquidação exigir que seja feita dessa forma.

Requerida a liquidação por arbitramento, o juiz nomeará o perito e fixará o prazo para que
ele entregue o seu laudo.

Ex.: João estava construindo um prédio, tendo essa construção causado danos na estrutura
do imóvel vizinho. O juiz condena João a indenizar o autor da ação. Na fase de liquidação, um
engenheiro fará um laudo dos prejuízos causados.

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b) Liquidação em procedimento comum

A liquidação em procedimento comum é a antiga liquidação por artigos, ocorrendo


quando for necessário alegar e provar um fato novo para que se possa determinar um valor exato
da condenação (quantum debeatur).

Será utilizada quando forem necessários outros meios de prova para se determinar o valor
da condenação, além da perícia. Deve-se esclarecer que, na liquidação por artigos, também pode
ser realizada perícia se esta for necessária para provar um fato novo. O critério que a diferencia
da liquidação por arbitramento é que na liquidação em procedimento comum será necessário
provar um fato novo.

Obs.: fato novo é aquele que não tenha sido analisado e decidido durante o processo. Não
significa necessariamente que tenha surgido após a sentença. Novo é aquele ainda não apreciado
no processo.

O procedimento da liquidação em procedimento comum vai prever a intimação do


advogado requerido para que ele apresente uma contestação no prazo de 15 dias.

Ex.: Pedro foi vítima de infecção hospitalar. O juiz condena o hospital a pagar todas as
despesas que ele já teve por conta da moléstia, bem como as que ainda terá após a sentença. Na
fase de liquidação da sentença, Pedro alegará e provará os gastos que teve após a sentença.

Se houver necessidade de produção de provas em audiência, será necessário observar o


rito do procedimento comum.

Vale destacar que a súmula 344 do STJ diz que a liquidação por forma diversa estabelecida
na sentença não ofende coisa julgada. Ex.: juiz disse na sentença que a liquidação será feita por
arbitramento, mas a liquidação se deu em procedimento comum, não haverá ofensa à coisa
julgada.

Todas as decisões proferidas no curso da liquidação comportarão agravo de instrumento.

Mas o ato final que julga a liquidação vem sendo considerado pela doutrina e pela
jurisprudência como sentença, apesar de desafiar recurso de agravo de instrumento.

O fundamento é de que, quando há sentença ilíquida, a primeira sentença reconheceu o

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

200
an debeatur, mas após há uma segunda sentença que reconhece o quantum debeatur. Neste
caso, compõe-se as duas para formação do título executivo judicial.

Este é o entendimento de Fredie Didier, Guilherme Marinoni, Alexandre Câmara e do


Superior Tribunal de Justiça.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Procedimento comum (continuação): Cumprimento de sentença. Procedimento Especial de
Jurisdição Contenciosa

Procedimento Comum (Continuação)

Cumprimento de sentença

• Há o requerimento para início do cumprimento da sentença.

• O devedor é intimado do cumprimento. Caso não cumpra em 15 dias, incide multa de


10% sobre o valor da condenação e 10% de honorários advocatícios

• Inicia-se do momento em que é intimado, via de regra, o prazo de 15 dias para impugnar
o cumprimento de sentença.

• Depois é julgada a impugnação, acolhido ou não o pleito.

• Após é feita a expropriação dos bens e o pagamento dos credores

• Sentença declarando satisfeita a obrigação e extinguindo a execução.

a) Requerimento

O requerimento é uma simples petição.

O credor, normalmente autor, requer através de uma petição que inicie a fase executiva.

O exequente poderá indicar os bens do devedor que pretende penhorar, bem como
requerer a penhora, inclusive a online.

Esse requerimento deve vir acompanhado de uma planilha com o valor atualizado da
dívida.

O CPC permite que o credor pegue a sentença e a proteste, após o esgotamento do prazo
voluntário fixado em sentença.

Pode ainda requerer que o magistrado inclua o nome do executado no cadastro de


inadimplente.
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202
Esses são meios de coerção para obrigar o credor a cumprir a obrigação.

b) Multa de 10%

A multa ocorrerá após a intimação para pagamento voluntário no prazo de 15 dias.

Essa intimação é realizada na pessoa do advogado constituído pelo devedor, através de


publicação no Diário da Justiça.

Caso tenha sido defendido pela Defensoria Pública, a intimação irá se dar por carta de aviso
de recebimento (AR).

Feita a intimação, e caso não cumpra voluntariamente o pagamento, incidirá a multa de


10%, incidindo novos honorários advocatícios no valor de 10%, como regra.

Em relação à possibilidade de utilizar essa multa de 10% em procedimentos especiais, não


há óbice em seu emprego.

É bom ressaltar que se a executada é Fazenda Pública, não é possível que incida a multa
de 10%, visto que há norma proibindo essa regra expressamente (art. 534, §2º), além da Fazenda
Pública não poder pagar voluntariamente, devendo pagar por meio de precatório ou RPV.

c) Fixação de honorários advocatícios

O art. 523, §1º, diz que se o executado não cumprir a obrigação no prazo de 15 dias,
incidirão honorários advocatícios no valor de 10%.

Destaque-se que se o pagamento for realizado parcialmente no prazo de 15 dias, a multa


incidirá e os honorários também, mas recairão sobre a parcela em aberto (art. 523, §2º).

d) Cumprimento do mandado de penhora e avaliação

O credor foi intimado, não cumpriu a obrigação no prazo de 15 dias, sendo expedido o
mandado de penhora e avaliação, sendo realizado tais atos, via de regra, pelo oficial de justiça.

Existe a necessidade de uma garantia prévia do juízo para o oferecimento de impugnação


em sede cumprimento de sentença?

Existia essa regra no CPC 1973, mas o NCPC passou a dispensar a prévia penhora para fins
de recebimento da impugnação (art. 525).
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203
Após os 15 dias para cumprimento da obrigação, automaticamente se inicia os 15 dias para
que o sujeito possa oferecer a impugnação.

Caso não sejam localizados bens passíveis de penhora, a execução ficará suspensa (art.
921, III).

e) Natureza jurídica da impugnação

A impugnação é um incidente cognitivo, de conhecimento, instaurado no curso de


cumprimento de sentença.

Há uma sentença que condena o demandado a uma obrigação de pagar, mas no momento
em que é realizado o procedimento de cumprimento, é instaurado pelo executado um incidente
cognitivo no cumprimento de sentença.

f) Diferença entre impugnação e embargos

A impugnação e os embargos têm em comum o objetivo de desconstituir um título


executivo e de encerrar uma execução.

A diferença entre eles é:

• Embargos à execução tem natureza de ação. Impugnação é incidente.

• Embargos não possui restrição de matérias. Impugnação tem um rol de teses fixadas em
lei.

• Embargos criam uma nova relação jurídica processual, exigindo a citação do embargado.
Impugnação ocorre apenas a intimação.

• Embargos são decididos por sentença, comportando apelação. Impugnação comporta


decisão interlocutória ou por meio de sentença, motivo pelo qual comportará agravo de
instrumento ou apelação.

g) Procedimento na impugnação

A impugnação deve ser apresentada no prazo de 15 dias após a intimação do devedor


(art. 513, §2º).

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Se há litisconsortes passivos, com diferentes procuradores, há a dobra do prazo de 15
dias para apresentar impugnação.

De acordo com o STJ, se o devedor estiver assistido pela Defensoria Pública, o prazo
deverá ser contado em dobro, ou seja, o executado terá 30 dias para o débito (Inf. 594).

Atente-se que há dúvidas se o entendimento permanece válido com o novo CPC. Isso
porque o art. 513, § 2º, II, do CPC/2015 determina que se o devedor for assistido da Defensoria
Pública, ele deverá ser intimado para cumprir a sentença por meio de carta com aviso de
recebimento. Essa previsão não existia no CPC/1973. Assim, em tese, a intimação para
cumprimento da sentença não demandaria mais nenhum ônus para o Defensor Público. Logo, em
princípio, não haveria motivo para se aplicar o prazo em dobro, já que o cumprimento voluntário
teria deixado de ser um ato de natureza dúplice e seria, agora, um ato a ser praticado apenas pela
parte. É preciso, no entanto, aguardar para se ter certeza. Qualquer novidade, você será alertado
no site.

Apresentada a impugnação, a qual não tem automaticamente efeito suspensivo, razão pela
qual atos como penhora, avaliação e até expropriação do bem já poderão ser realizados, pois a
impugnação, via de regra, não tem esse efeito suspensivo.

Poderá haver efeito suspensivo, desde que o juízo esteja garantido, e desde que os
fundamentos sejam relevantes, de forma que exista a possibilidade de que o prosseguimento da
execução cause um dano grave ao executado.

O CPC não menciona, mas geralmente se costuma a dar o mesmo prazo para o exequente
apresentar uma resposta, uma resistência, a essa impugnação, que será uma manifestação após
15 dias.

A impugnação irá se processar dentro dos mesmos autos da execução, ou poderá se


processar em apenso. O que irá definir isso é se ela terá efeito suspensivo ou não.

Tendo efeito suspensivo, processa-se nos mesmos autos, pois a execução não vai continuar.
Não tendo efeitos suspensivos, a impugnação correrá por conta própria.

Ainda que tenha efeito suspensivo, o legislador continuou permitindo que o exequente possa
requerer o prosseguimento da sua execução, mas desde que ofereça uma caução idônea e
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

205
suficiente nos próprios autos.

OBS.: Art. 513, parágrafo 2o: Intimação do Executado:

I) Inciso I – Intimação na Pessoa do Advogado:

• Na pessoa do advogado – prazo de 1 ano do Trânsito em Julgado (depois desse prazo a


intimação será pessoal);

II) Inciso II – Intimação Pessoal: nesses dois casos, a intimação será pessoal:

• Executado sem advogado constituído – executado sem advogado desde o início (réu revel);
ou está sem advogado no cumprimento de sentença;

• Defesa pela defensoria Pública

III) Inciso III – Meio Eletrônico: diz que sempre que possível, a intimação será eletrônica. Havendo a
necessidade da intimação do executado sem advogado, diz que deve ser feita a intimação pessoal
preferencialmente pelo meio eletrônico, no endereço fornecido na fase de conhecimento.

- Art. 1050, 1052: o judiciário tem um cadastro de endereços eletrônicos, e há um dever da pessoa
jurídica de DPU e DPR de inscrever-se nesse prazo de 30 dias no cadastro. Só não precisa a Micro
Empresa e as Empresas de Pequeno Porte.

IV) Inciso IV – Intimação por Edital: prevê que se na fase de conhecimento houve uma citação por
edital, a intimação para o cumprimento de sentença também será por edital.

- Mas, se na fase de conhecimento teve a citação por edital e teve a defesa apresentada por
advogado constituído, aplica-se o inciso I do artigo, e não o IV – faz a intimação na pessoa desse
advogado constituído.

- Aqui, pensou-se na defesa por curador especial – em regra, a defesa é pela Defensoria Pública.

OBS.: A citação ficta por hora certa leva a uma citação pessoal. A citação ficta por edital leva a
intimação por edital.

Art. 520, parágrafos 2o e 3o:

• Prevê que passa a ser cabível a multa na execução provisória.

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206
• Prevê recurso contra o Título Executivo Judicial pendente de julgamento – o pagamento
não torna prejudicado esse recurso.

PROCEDIMENTOS ESPECIAIS DE JURISDIÇÃO CONTENCIOSA

Consignação em pagamento

I. Introdução

A consignação em pagamento pode ser realizada tanto extrajudicialmente como


judicialmente.

II. Consignação extrajudicial

Com relação à consignação extrajudicial, o art. 539 vai dizer que o devedor ou um terceiro
vai se dirigir a uma instituição financeira e irá lá fazer a consignação.

Esta consignação se dará por uma abertura de conta bancária que receberá o depósito. Em
seguida, a instituição financeira cientificará o credor a respeito do numerário.

Se o credor aceita expressamente o valor depositado, poderá sacar e encerrar o


problema. Mas se ele não se manifestar no prazo de 10 dias, o devedor ficará livre da sua
obrigação e o credor passa a ser titular daquele numerário.

III. Consignação judicial

Mas e se não houver concordância do credor?

O credor terá o prazo de 10 dias para recusar, contado da data de ciência do depósito.

Nesse caso de recusa do credor, o devedor terá o prazo de 1 mês para que proponha a
ação de consignação em pagamento. Neste caso, o depósito anteriormente perderá sua eficácia.

Poderá haver consignação judicial diretamente, ou seja, não é necessário passar pela
consignação judicial.

O art. 530 do CPC diz que em se tratando de valores, a demanda deverá ser proposta no
lugar do pagamento. Este é o juízo competente.

É legitimado ativo para propor a ação é o devedor, mas também é o terceiro, seja

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207
juridicamente ou não juridicamente interessado. No polo passivo irá figurar o credor.

O art. 541 permite que a consignatória possa ter por objeto prestações periódicas,
devendo o devedor depositar as prestações.

Ponto polêmico da ação consignatória é saber se poderá estar acompanhada de um pedido


de revisão dos valores da prestação. Isto é, se é possível consignar revisão com consignação em
pagamento.

Segundo o STJ, a consignação em pagamento pode ser usada para o “acertamento” da


relação jurídica de direito material, sendo possível a cumulação de pedidos entre pleito
consignatório com pleito revisional.

Feita a petição inicial, e verificada sua regularidade, determinará o juiz que o réu seja
citado.

Citado, mas não havendo contestação, haverá revelia, possibilitando o julgamento


antecipado do mérito.

Caso deseje apresentar resposta, terá o prazo de 15 dias para apresentar a contestação.

O réu até poderá apresentar reconvenção, mas é difícil vislumbrar uma situação. Não se
admite, por falta de interesse processual, já que a via seria inadequada, que o demandado
apresente reconvenção com o intuito de obter uma decisão judicial que condene o autor a pagar
ao demandado eventuais diferenças.

Isso porque a consignatória já possui este caráter dúplice. Isto é, o credor já deverá trazer
esta alegação em sede de contestação, e não em sede de reconvenção.

O devedor deposita 80 mil, o credor alega que deve 100 mil. Isto poderá ser dito em
contestação, não sendo admissível a reconvenção, visto que a via eleita é inadequada.

Então se for outra situação, poderá ser possível a reconvenção.

O valor incontroverso numa consignação em pagamento poderá ser imediatamente


levantado pelo credor. Ao término da instrução irá o juiz proferir uma sentença.

Após ser alegada a insuficiência do depósito pelo credor, é possível que o devedor

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208
complemente o depósito feito dentro do prazo de 10 dias.

O que há aqui é o reconhecimento do que consta na contestação. É uma espécie da


improcedência, mas não é. Com esse reconhecimento, o juiz irá julga procedente o pedido e
liberará o autor.

Nesse caso, quem pagará os ônus da sucumbência será o autor, apesar de ter sido julgado
procedente o feito, pois ele deu causa à instauração da ação, com base no princípio da
causalidade.

Se o magistrado vier a entender que o valor depositado pelo autor é o correto, e que não
subsistem as defesas apresentadas pelo réu, haverá uma sentença de procedência do pedido. Esta
sentença tem natureza declaratória, pois declara a inexistência de débito, liberando o devedor, e
o credor será o responsável pelo pagamento da sucumbência, já que deu causa ao feito.

Há ainda um outro rito, quando se tratar em consignatória fundada em outro motivo, que
é a consignatória fundada quando o devedor tiver dúvidas sobre quem é o credor.

O CPC, no art. 547, impõe que o autor (devedor), na inicial, já decline o motivo de suas
dúvidas e indique quem são os supostos credores.

Na sequência, os réus serão citados. Se estes réus não questionarem a obrigação do valor,
mas subsistir a dúvida de quem é o legítimo a receber o valor, o juiz irá proferir uma decisão para
liberar o devedor do feito, condenando os réus a arcar com os honorários advocatícios e custas
processuais.

Após, o processo prosseguirá em relação aos dois supostos credores, sendo um adversário
do outro.

Ao final, se ficar evidenciado de quem é o numerário, julgará procedente o pedido e


determinará que o valor seja levantado.

Caso não fique demonstrado quem é o credor, a lei vai dizer que este valor será convertido
em arrecadação de coisas vagas (art. 542, II).

Ação de exigir contas

I. Introdução
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209
Não há mais ação de prestação de contas.

A partir de agora, alguém exige a prestação de contas.

Para que a ação de exigir contas possa ser empregada, é necessário que haja um vínculo
material entre as partes. Uma delas é a gestora ou administradora do patrimônio da outra e esta
exige a prestação de contas daquela. Ex.: contrato de mandato.

Quanto às demandas que envolvem condomínio, sabe-se que o síndico deve prestar
contas. Mas em relação à Lei 4.591, o condomínio não tem obrigação de oferecer contas a um
condômino isoladamente, e sim a todos os condôminos, perante uma assembleia no
condomínio.

Então, eventuais demandas de exigências de contas exigidas por um condômino serão


extintas sem resolução de mérito, pois haveria ilegitimidade ativa.

Nesta ação, o mérito será duplo, pois será apreciada em dois momentos distintos:

1º: Aprecia-se se existe o dever de prestar contas. Existindo o dever.

2º: Aprecia-se o momento em que estas contas vão ser liquidadas/prestadas.

Eventualmente estas duas questões serão julgadas no mesmo instante, quando o réu, em
vez de apresentar resposta, irá simplesmente oferecer as contas dentro do prazo de 15 dias.

Neste caso, não há discussão do demandado quanto ao vínculo obrigacional, pois


realmente deveria prestar contas. Diante disso, o juiz intimará o autor sobre as contas prestadas.

O autor terá 15 dias para se manifestar. Caso haja um saldo favorável ao réu, poderá este
executar o autor. Isso porque a ação de exigir contas tem caráter dúplice. Nesta situação, haverá
o cumprimento de sentença pelo réu.

Contudo, o demandado pode optar por oferecer resposta, sendo o rito dilatado, pois o juiz
deverá analisar se existe esta relação obrigacional, ou este dever de prestar contas por parte do
réu.

Existindo o dever de prestar contas, passará à liquidação das contas. Neste caso, a
resposta do réu, num primeiro momento, deverá ser apresentada em 15 dias, sendo feita a

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

210
instrução.

Feita a instrução, o magistrado sentencia.

Em caso de procedência, é prolatada uma sentença condenatória, condenando o réu a


prestar contas, o qual deverá fazê-la em 15 dias, sob pena de considerar aquelas apresentadas
pelo demandante como corretas.

Finda a 1ª etapa, com o trânsito em julgado da sentença condenatória para que o


demandado preste contas no prazo de 15 dias. Após, o autor será intimado sobre as contas
apresentadas pelo réu.

Caso estas contas não sejam prestadas pelo demandado, o próprio demandante irá prestar
essas contas, o qual vai carreá-las aos autos em 15 dias também.

Havendo necessidade, vão ser determinadas outras provas, e o magistrado, após apreciar
tudo, vai proferir sentença declaratória do valor que foi prestado.

Esta sentença poderá apresentar um saldo, favorável ao autor ou ao réu, o qual poderá ser
objeto de cumprimento de sentença por qualquer das partes.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Procedimento Especial de Jurisdição Contenciosa (Continuação)

Ações possessórias

I. Introdução

É possível que a posse, que é um dos atributos da propriedade, sofra diversos tipos de
moléstia.

Poderá haver esbulho, turbação ou de ameaça àquela posse.

Esbulho: o sujeito, que tinha a posse legítima, tem a perda total da posse.

Turbação: o sujeito tem o comprometimento parcial da posse, perdendo em parte o


exercício da posse.

Ameaça: o sujeito ainda não perdeu a posse, mas há um temor fundado de que a sua
posse venha a sofrer esbulho ou venha sofrer uma turbação.

Havendo esbulho ou turbação, o próprio código admite que haja uma autotutela,
denominado de desforço imediato.

Supondo que não seja o caso de desforço imediato, é necessário buscar a tutela do poder
judiciário.

Havendo a necessidade de pleitear a tutela da posse, o legitimado terá de propor ação


possessória.

Esbulho: o autor deverá propor ação de reintegração de posse, pois havia perdido.

Turbação: haverá a ação de manutenção da posse.

Ameaças de efetiva ofensa à posse: haverá uma ação de interdito proibitório.

O art. 554 vai consagrar uma fungibilidade entre as ações possessórias, ou seja, se o
sujeito ingressa com um interdito proibitório, tendo em vista que havia uma ameaça, mas durante
o trâmite processual houve o esbulho, a decisão determinará a reintegração de posse.

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212
Veja, há uma fungibilidade entre as ações possessórias.

II. Reintegração de posse

É o procedimento base, servindo para as demais ações possessórias.

Na reintegração de posse, a competência dependerá da natureza do bem cuja posse foi


perdida:

Bem móvel: a competência será do foro do domicílio do réu.

Bem imóvel: a competência será do foro em que o imóvel se encontra.

No caso de haver um número enorme de demandados, a lei autoriza que a citação seja
realizada aos ocupantes que estiverem no local, e por edital aos demais que não tiverem no local
no momento em que o oficial de justiça chegar ao local para fazer a citação.

É admitido que o autor peça apenas a proteção possessória, mas também é permitido
que o autor peça a condenação em perdas e danos. Veja, são possíveis pedidos cumulativos na
ação possessória, cumulando o pedido possessório e perdas e danos. É possível inclusive que haja
o pleito de outras providências, mas se o autor resume seu pleito à reintegração de posse e à
indenização por perdas e danos, haverá a continuidade do procedimento possessória.

Mas se ele cumular pedidos de outra natureza, como a rescisão de um contrato, deixa de
observar o procedimento especial possessório para observar o rito comum.

O procedimento possessório especial só é admitido se a moléstia à posse tiver ocorrido


dentro do período de 1 ano e 1 dia, ou seja, são as ações de posse nova ou ações de força nova.

Quando ultrapassado o prazo de 1 ano e 1 dia, haverá ação de posse velha ou ação de
força velha. Neste caso, observa-se o pleito comum, ainda que seja possível uma tutela
antecipada, mas não se admitindo mais o rito específico.

Segundo o art. 561, incumbe ao autor provar na petição inicial:

• Sua posse;

• Turbação ou o esbulho praticado pelo réu;

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213
• Data da turbação ou do esbulho;

• Continuação da posse, embora turbada, na ação de manutenção; a perda da posse, na


ação de reintegração.

A peculiaridade é de que a petição inicial, no rito específico possessório, deve vir


acompanhada da prova da posse do autor e da prova do esbulho que o autor sofreu, e da data
que o esbulho ocorreu. Provada que havia a posse, provado que havia o esbulho e provado que o
esbulho ocorreu dentro do prazo de 1 ano e 1 dia, o juiz irá deferir, inaudita altera pars, isto é,
sem a oitiva do réu, a liminar, a fim de determinar a reintegração da posse.

Quando a ré for a Fazenda Pública, esta liminar deverá ser concedida após a oitiva da
pessoa jurídica de direito público.

Observe que antes de o autor ajuizar a ação de reintegração de posse não é necessário
que ele notifique extrajudicialmente o invasor para que ele saia do imóvel, eis que não se trata
de documento essencial à propositura da ação possessória de que trata o art. 560. Este é inclusive
o entendimento do STJ (Inf. 594).

Já o art. 565 vai dizer que nos casos em que esta liminar tiver sido deferida, em litígio
coletivo pela posse, se o provimento não for cumprido no prazo de 1 ano, não há mais como
cumprir simplesmente, devendo designar uma audiência de mediação. Isso porque há uma
posse coletiva do imóvel, devendo encontrar uma solução razoável para ambas as partes.

Mas e se a petição inicial não tiver sido instruída com a prova da posse, prova do esbulho
ou data do esbulho? Ou seja, se o magistrado não estiver convencido dos requisitos para a
concessão da liminar...

Neste caso, há a designação de uma audiência de justificação, situação na qual o réu será
citado para comparecer à audiência, a qual terá o objetivo exclusivo de permitir com que o autor
prove os fatos exigidos pela lei. O réu não apresentará qualquer defesa.

O art. 562 do CPC/2015 afirma que o réu deverá ser citado para comparecer a essa
audiência, porém, não será, em regra, ouvido na audiência. Em regra, o réu irá participar da
audiência ouvindo as testemunhas arroladas pelo autor, não podendo levar testemunhas suas,
considerando que ainda haverá o momento para isso, qual seja, a audiência de instrução.
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214
Durante a audiência de justificação, o réu poderá formular perguntas ou oferecer
contradita, sempre por meio de advogado. Nessa audiência, o juiz também deverá tentar obter
a conciliação entre as partes.

Tanto é que a lei vai dizer que o prazo para o réu contestar somente irá iniciar quando ele
tiver sido intimado da decisão, quer deferindo a medida antecipatória quer indeferindo.

É vedado ao autor e ao réu discutir qualquer questão de direito de propriedade, discutindo


apenas a posse.

Se o réu não for citado para comparecer à audiência de justificação, não haverá nulidade
absoluta do processo. Segundo entendeu o STJ, o termo “citação” foi utilizado de forma
imprópria no art. 562 do CPC/2015, pois o réu não é chamado para se defender, mas sim para,
querendo, comparecer e participar da audiência de justificação. Na audiência de justificação, a
prova é exclusiva do autor, cabendo ao réu, caso compareça, apenas fazer perguntas.

Após a realização da audiência de justificação prévia: Depois de colher as provas, o


magistrado deverá decidir sobre a medida liminar, podendo fazê-lo na própria audiência ou no
prazo de 10 dias. Se o juiz se convencer dos argumentos do autor, deverá conceder a liminar.
Nesse caso, fala-se que o juiz considerou suficiente a justificação (art. 563 do CPC/2015). Se o juiz
considerar que os argumentos não foram suficientes mesmo após a audiência, deverá denegar a
liminar.

O recurso cabível contra a decisão que concede ou denega a liminar é o agravo de


instrumento.

Concedida ou não a liminar, o réu será citado para contestar a ação, no prazo de 15 dias.
Quando for ordenada a justificação prévia, o prazo para contestar será contado da intimação da
decisão que deferir ou não a medida liminar.

De acordo com o art. 566, aplica-se, quanto ao mais, o procedimento comum.

III. Ação de manutenção da posse

Tudo que foi dito para reintegração de posse será aplicado para a manutenção da posse. O
que muda é apenas o fato gerador.

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IV. Interdito proibitório

A única diferença é que aqui a demanda é preventiva. O ilícito ainda não ocorreu.

Portanto, o requerimento da liminar é para que o juiz estabeleça uma pena pecuniária para
que, caso o réu desrespeite a decisão, venha a ser condenado ao pagamento daquela verba ou da
pena pecuniária.

V. Caráter dúplice das ações possessórias

Vale lembrar que as ações possessórias possuem caráter dúplice. Então, se o juiz julga
improcedente em relação ao demandante, significa que a posse do réu não tem vício.

Ademais, é cabível pedido contraposto do réu para que o autor o indenize por perdas e
danos. Não é necessária a reconvenção.

Inventário e partilha

I. Introdução

Como se sabe, a transmissão da propriedade se dá com a morte (princípio de saisine).

Este procedimento é necessário para que os sucessores tenham um título para


regularização de todos os bens. Este título é denominado de formal de partilha ou a carta de
adjudicação dos bens.

O CPC, no art. 672, autoriza a cumulação de inventário para partilha de herança de


pessoas diversas. Mas o juiz pode determinar a separação e que não ocorra essa cumulação.

Nem sempre existe a necessidade de se instaurar um inventário. Por exemplo, o


levantamento de valores que estão em contas de FGTS, PIS/PASEP, saldos bancários, caderneta de
poupança, podem ser realizados através de simples alvará.

Também nos casos em que não exista discordância entre herdeiros maiores e capazes a
regularização dos bens pode ser realizada no cartório extrajudicial diretamente, não sendo preciso
o ajuizamento da ação.

II. Inventário judicial

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216
Caso não seja nenhuma dessas situações, é necessário a instauração de inventário judicial,
que é um processo de conhecimento e procedimento de jurisdição contenciosa.

Neste rito, é comum falar em alguns sujeitos:

autor da herança: é o falecido

inventariante: é o administrador dos bens do falecido

espólio: é a massa patrimonial formada pelos bens do de cujus. Tem personalidade


judiciária, mas não tem personalidade jurídica, representado pelo inventariante.

A competência para o inventário e partilha é o juízo estadual do local do último domicílio


do autor da herança.

O CPC prevê duas modalidades de inventário:

Inventário litigioso: há discordância entre os herdeiros ou presença de incapazes.

Arrolamento: é um procedimento simplificado, realizado em caráter amigável, a despeito


de ser em caráter judicial.

O inventário deverá ser requerido em até 2 meses da abertura da sucessão (morte do autor
da herança), devendo ser concluído nos 12 meses subsequentes.

O inventário se inicia com petição inicial com a certidão de óbito do autor da herança, já
que não se pode discutir herança de pessoa viva.

O juiz nomeará inventariante, o qual terá 5 dias para prestar compromisso de fiel e bem
desenvolver o seu cargo.

Nos 20 dias seguintes ao compromisso, o inventariante irá apresentar suas primeiras


declarações, descrevendo os bens do falecido, os créditos que possuía, as obrigações do espólio,
atribuição de valores aos bens, a nomeação dos sucessores, etc.

Na sequência, serão citados o cônjuge ou companheiros, os herdeiros e os legatários.


Além disso, serão intimados a Fazenda Pública federal, estadual e municipal.

O Ministério Público atuará quando estivermos diante de um caso em que há herdeiros

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217
incapazes ou herdeiros ausentes.

Após essas intimações e citações, os citados têm o prazo comum de 15 dias para impugnar
as primeiras declarações do inventariante.

Findo o prazo, ou após ter sido decididas essas impugnações, o juiz irá nomear um perito
para avaliar os bens do espólio.

Apresentado o laudo, as partes serão intimadas a se manifestar no prazo de 15 dias.

Não há necessidade de se nomear perito se houver concordância de todos quanto aos


valores constantes nas primeiras declarações do inventariante. Neste caso, só será viável se não
houver herdeiro incapaz. Do contrário, ou seja, havendo herdeiro incapaz, será nomeado perito
independentemente da concordância de todos.

Superada essa etapa de avaliação, o inventariante presta as últimas declarações,


possibilitando alteração ou emenda das primeiras declarações.

Se o juiz aceitar essas novas declarações, determinará que seja realizado o cálculo do
ITCMD. Após, proferirá decisão homologando esses cálculos do imposto, encerrará a primeira
etapa do inventário, devendo ser iniciada a segunda etapa.

III. Partilha dos bens

É a segunda etapa do inventário.

O art. 649 do CPC vai dizer que nos casos de bens insuscetíveis de divisão cômoda, será
feita uma licitação entre os interessados e o valor apurado será partilhado, ou seja, cada um
receberá o seu quinhão.

Não existindo dúvidas quanto ao quinhão de cada herdeiro, os autos serão remetidos ao
partidor judicial que fará o esboço da partilha.

Na sequência será recolhido o ITCMD, devendo ser juntada a certidão de inexistência de


dívidas para com a Fazenda Pública.

Juntada a certidão, o juiz profere uma sentença apreciando essa partilha e essa sentença
terá força de título executivo judicial entre os sucessores e o inventariante.

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IV. Arrolamento

O arrolamento é hipótese de jurisdição voluntária, e não jurisdição contenciosa.

Lembrando que todos os herdeiros são capazes, e não há entre eles qualquer discordância.

Se houver herdeiro incapaz, será encaminhado para o inventário e partilha.

Poderá haver:

Arrolamento sumário: é o caso em que o valor do patrimônio que está sendo arrolado é
irrelevante. Pode ser de 1 bilhão e não faz diferença. Vinda a petição inicial, o juiz nomeia
o inventariante, situação na qual informará a existência dos bens, as suas respectivas
avaliações, não sendo necessária citação e avaliação dos bens. A fazenda pública é
cientificada para verificar o recolhimento dos tributos que sejam pertinentes. Ao final, é
homologado a partilha ou o arrolamento, expedindo-se o formal de partilha ou a carta
de adjudicação. Esse procedimento do arrolamento sumário pode ser feito inclusive
extrajudicialmente.

Arrolamento comum: é o arrolamento mais simplificado ainda, pois envolve bens de


pequeno valor, quando o patrimônio é igual ou inferior a 1.000 salários mínimo. Mesmo que haja
incapaz, é possível que se adote o arrolamento comum, desde que todas as partes concordem e
também o Ministério Público.

Embargos de terceiro

I. Introdução

A natureza jurídica dos embargos de terceiro é de processo de conhecimento.

São utilizados quando um terceiro tem a sua esfera jurídica atingida por um ato de
apreensão judicial. É o que a doutrina chama de esbulho judicial.

O sujeito tem a penhora de um bem que pertence a um terceiro.

A competência para apreciar os embargos de terceiro é do mesmo juízo que determinou a


constrição judicial do bem.

Os embargos de terceiro ficam autuados em apenso daquele processo que teve a


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219
constrição do bem decretada.

A legitimidade ativa é do terceiro, proprietário do bem ou possuidor da coisa. Também se


reconhece a legitimidade ativa do cônjuge para ajuizar embargos de terceiro para defesa de sua
meação.

Na legitimidade passiva, quem vai figurar poderá ser o exequente ou o executado, a


depender quem foi que indicou o bem para ser constrito por ordem judicial, e quem beneficia
essa constrição. Pode acontecer ainda de os dois exequente e executado figurar no polo passivo
dos embargos de terceiro.

Em sede de execução, o art. 675 estabelece que o termo final para utilização de embargos
de terceiro se dá após os 5 dias posteriores à adjudicação, à alienação ou à arrematação do bem.

Após esses 5 dias, já não cabem mais estes embargos de terceiro.

A lei ainda afirma que este prazo final deve ser antes da assinatura da respectiva carta de
adjudicação, situação na qual não caberá sequer embargos de terceiro.

Na petição inicial, o embargante deverá apresentar os fundamentos do seu pedido. Caso


seja deferida a liminar, serão suspensas as medidas constritivas que recaíam sobre o bem que é
objeto dos embargos.

Os embargados (demandados) têm o prazo de 15 dias para apresentar contestação. E a


finalidade dos embargos de terceiro é fazer cessar o esbulho judicial.

Após a apresentação de resposta, o procedimento se converte em comum.

Atente-se que por vezes o próprio embargante foi o responsável pela situação. Por
exemplo, o embargante emprestou determinado móvel para ficar em poder do executado. Neste
caso, houve a penhora do bem móvel do terceiro. O embargante acabou induzindo a erro o
exequente. Nessas hipóteses, os embargos serão julgados procedentes, mas quem deu causa foi
o próprio embargante, deverá ele arcar com a sucumbência.

Nesse sentido, o STJ entendeu que, nos embargos de terceiro cujo pedido foi acolhido para
desconstituir a constrição judicial, os honorários advocatícios serão arbitrados com base no
princípio da causalidade, responsabilizando-se o atual proprietário (embargante), se este não

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220
atualizou os dados cadastrais. Os encargos de sucumbência serão suportados pela parte
embargada, porém, na hipótese em que esta, depois de tomar ciência da transmissão do bem,
apresentar ou insistir na impugnação ou recurso para manter a penhora sobre o bem cujo
domínio foi transferido para terceiro (Info 591).

Oposição

I. Introdução

No CPC 73, a oposição era tratada como intervenção de terceiros, mas agora, com o NCPC,
passou a ser um procedimento especial de jurisdição contenciosa.

Na verdade, a oposição é uma demanda autônoma, situação na qual o sujeito opõe a


demanda em face do demandante e do demandado de um processo que já foi instaurado.

Nesse processo, o terceiro busca obter no todo ou em parte uma coisa ou um direito que
está sendo discutido no processo primitivo.

Logo, a competência para apreciar o feito é o mesmo do juízo competente para o processo
primitivo.

Nada impede que esta ação seja proposta após a ação primitiva, contra aquele que se saiu
vitorioso na demanda primitiva.

A oposição cria um litisconsórcio passivo necessário entre o demandante e demandado da


ação primitiva.

Esta oposição distribuída antes da audiência de instrução e julgamento da demanda


primitiva será autuada em apenso e vai correr simultaneamente ao processo primitivo. Ambos
serão julgados na mesma sentença.

Primeiro o juiz deverá enfrentar a oposição para somente então resolver o mérito do
processo primitivo (art. 686).

Porém, se no primeiro processo já tiver sido realizada a audiência de instrução e


julgamento, a oposição tramitará no mesmo juízo, mas não vai tramitar em apenso e nem
necessariamente irá ser julgada na mesma sentença.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

221
Nada impede que o juiz determine a suspensão do feito primitivo até o encaminhamento
da oposição, julgando ambas na mesma sentença.

Ação monitória

Ação monitória é utilizada sempre que alguém busca obter uma soma em dinheiro ou a
entrega de uma coisa, seja fungível, infungível, seja de um bem móvel seja de um bem imóvel,
mas que haja o cumprimento dessa obrigação para considerar que houve o adimplemento dessa
obrigação de fazer, não fazer, dar ou entregar coisa.

A ação monitória é um processo de conhecimento.

A ideia é ter por finalidade uma rápida formação de um título executivo judicial.

O grande diferencial da ação rescisória ocorre no início do processo, quando defere a inicial
determinando a citação, pois no mesmo ato o juiz determinará que seja expedição a citação com
uma ordem de cumprimento da obrigação.

Se o sujeito já cumpre a obrigação no prazo de 15 dias, ficará isento das custas do processo
(art. 701, §1º).

Caso não cumpra e não apresente resposta, por meio dos embargos monitórios, ocorrerá,
de imediato, a conversão do mandado inicial de cumprimento em mandado executivo por
sentença, formando um título executivo judicial.

Essa conversão do mandado inicial em mandado executivo por sentença é dado pelo juiz,
mas é, em verdade, de uma conversão automática, obrigatória, decorrente de lei.

A súmula 339 do STJ diz que é cabível ação monitória contra a fazenda pública.

Com isso, o NCPC trouxe expressamente permissão de ajuizamento de ação monitória em


face da fazenda pública (art. 700, §6).

Há muitas súmulas para ação monitória:

Súmula 531 do STJ diz que, em ação monitória fundada em cheque prescrito, ajuizada
contra o emitente do cheque, é dispensável a menção do negócio jurídico subjacente à emissão
da cártula. Ou seja, não discute-se o negócio.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

222
Petição inicial, numa ação monitória, deve vir acompanhada da prova escrita do crédito,
mas sem força do título executivo, pois, do contrário, promoverá uma execução.

A Súmula 299 do STJ vai autorizar a ação monitória fundada em cheque prescrito.

É bom lembrar da Súmula 247 do STJ, estabelecendo que o contrato de abertura de crédito
em conta corrente, acompanhado do demonstrativo de débito, constitui documento hábil para o
ajuizamento de ação monitória. Portanto, considera-se que há uma prova escrita, mas que não
tem força de título executivo.

A Súmula 513 vai dizer que o prazo para ajuizamento da ação monitória em face de cheque
sem força executiva é quinquenal de 5 anos, os quais são contados do dia seguinte à data da
emissão que está estampada na cártula.

Em relação à nota promissória, a Súmula 504 diz que o prazo para ajuizamento da ação
monitória em face do emitente de nota promissória sem força executiva terá o prazo quinquenal,
mas é contado do dia seguinte ao vencimento do título.

A citação na ação monitória pode ser realizada pessoalmente ou citação ficta (por edital
ou por hora certa). Ou seja, é possível qualquer modalidade de citação na ação monitória.

Essa citação por edital é inclusive teor da súmula 288 do STJ, que diz caber citação por
edital em ação monitória.

Após realizada a citação, o mandado é juntado aos autos, iniciando o prazo de 15 dias para
o cumprimento da obrigação ou para apresentação de resposta.

O CPC inova ao permitir que o demandado parcele a dívida, pagando 30% à vista e o
restante em 6 vezes com a incidência de 1% de juros ao mês. Trata-se de uma moratória legal, em
que o credor tem que se submeter.

No caso do parcelamento, no entanto, o credor não fica isento das custas processuais que
ficaria se tivesse pagado à vista.

Pode ser que o demandado apresente resposta através dos embargos monitórios e
inclusive poderá opor reconvenção. Em relação à resposta, os embargos monitórios serão
juntados aos próprios autos.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

223
Neste caso, o rito especial torna-se procedimento comum.

Cabe reconvenção em ação monitória, mas no momento em que o sujeito impõe embargos
monitórios. Este é o teor da súmula 292 do STJ, que diz que a reconvenção é cabível na ação
monitória após a conversão do procedimento em rito ordinário (leia-se procedimento comum).

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Procedimento Especial de Jurisdição Voluntária. Execução Judicial

Introdução ao procedimento de jurisdição voluntária

A jurisdição voluntária é jurisdição, ou é o exercido de uma atividade administrativa pelo


juiz?

Há quem defenda que seja exercício da jurisdição. Mas a doutrina tradicional ainda
sustenta que a jurisdição voluntária é uma atividade meramente administrativa, já que estão
ausentes a maior parte das características da jurisdição, sendo uma administração pública de
interesses privados.

Portanto, a jurisdição voluntária seria uma atividade administrativa, se distinguindo da


jurisdição contenciosa:

• Seria um procedimento administrativo conduzido pelo magistrado.

• Neste procedimento não há partes, mas apenas interessados.

• Não há litígio, mas interesses convergentes.

• A decisão proferida pelo juiz não faz coisa julgada, não se tornando imutável.

Por tudo isso é que não há jurisdição, mas administração pública de interesses privados.

O rito básico nestes processos de jurisdição voluntária funciona da seguinte forma:

• Há um requerimento do interessado ou do Ministério Público, instruindo com os


documentos que se mostram necessários

• São citados os interessados para apresentar resposta no prazo de 15 dias. Caso o MP não
tenha sido requerente, deverá se manifestar, caso haja hipótese de atuação.

• A Fazenda Pública poderá ser intimada a participar do feito, quando houver interesse
evidenciado da Fazenda.

• Apresentado ou não resposta, se houver necessidade de produção de provas.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

225
Caso sejam produzidas, o juiz produzirá uma sentença. É autorizado que o magistrado
decida por equidade (art. 723).

• Da sentença caberá recurso de apelação, e não há coisa julgada material.

Divórcio e separação consensuais

O CPC trata da separação, mas Flávio Tartuce entende que com a EC 66/10 não há mais
separação.

No entanto, o CPC continua tratando do tema.

I. Separação ou divórcio consensual extrajudicial

A separação ou divórcio podem ser realizados extrajudicialmente, mas é preciso que


preencham alguns requisitos:

haja caráter consensual

não existam nascituros e nem filhos menores ou incapazes

os requerentes estejam representados ao menos por 1 advogado

deve ser dar através de escritura pública, estando autorizada inclusive a tratar de temas
como o nome que vão adotar, divisão de patrimônios, eventuais alimentos prestados por
um cônjuge ao outro, etc.

II. Separação ou divórcio consensual judicial

O legitimado para uma ação de divórcio ou separação só pode ser quem está casado.

A competência é do foro do guardião do filho incapaz. Como o caso é de jurisdição


voluntária, estarão de comum acordo quanto ao foro.

A petição inicial virá com a certidão de casamento.

• Na própria petição inicial já poderá constar a descrição dos bens do casal, a sobrepartilha,
a estipulação de acordo dos filhos menores, como será o regime de visitação, eventual
pensão alimentícia de um ex-cônjuge ao outro, bem como questões envolvendo nome a
ser utilizado.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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O restante do procedimento seguirá o regramento geral dos procedimentos especiais.

Interdição

A finalidade de uma interdição é declarar a incapacidade de uma pessoa, a qual não poderá
firmar contrato, assumir a obrigação, vender ou comprar, etc.

Na petição inicial, o interessado deverá especificar os fatos que revelam essa anomalia. E
então irá assinalar a incapacidade do interditando de gerenciar a sua própria vida, bem como os
seus bens.

O juiz receberá essa petição inicial e determinará a citação do interditando, a fim de que
compareça em dia e hora designados pelo juiz.

O juiz irá examinar o interditando, não se trata de perícia, mas de uma simples conversa
para verificar o grau de incapacidade.

Após ser feita a audiência de entrevista do interditando, terá ele o prazo de 15 dias para
impugnar o prazo de interdição, findo o qual o juiz nomeará um perito para proceder ao exame
pericial.

Feito o laudo, o juiz designará audiência de instrução e julgamento, caso haja a


necessidade.

Após, haverá o juiz profere sentença, acolhendo o negando o pedido.

Se for acolhida, essa sentença terá natureza declaratória, visto que reconhece a existência
de uma interdição, bem como natureza constitutiva, pois será averbada no registro civil de
pessoas naturais, implicando a nomeação de um curador.

Essa sentença produzirá efeitos desde logo (efeitos ex nunc), não retroagindo, situação
que reconhecerá o estado de interdição. A partir daquele momento, os negócios firmados por
aquele sujeito serão considerados inclusive nulos.

Com relação aos negócios anteriores, se restar demonstrado que essa pessoa sabia da
incapacidade do contratante, aí haverá a nulidade do negócio, visto que o direito não tutela a
má-fé. Por outro lado, se o agente contratou de boa-fé, o negócio será mantido.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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No caso de recurso de apelação de sentença de interdição, não haverá efeito suspensivo.

EXECUÇÃO JUDICIAL

Teoria geral da execução

I. Introdução

A execução já foi apenas um processo. Hoje poderá ser processo, mas poderá ser uma
etapa de um processo sincrético (fase de conhecimento e fase de execução).

O magistrado, nesta fase ou processo, determina medidas executivas para o cumprimento


de obrigação que consta em título executivo.

Este título executivo pode ser judicial ou extrajudicial.

II. Características da execução

Dentre as características da execução, 3 delas irão se destacar:

• Substitutividade:

A substitutividade se faz presente na execução, eis que ela substitui a atividade da outra
parte.

Ex.: João está devendo a Francisco 100 mil reais. O juiz penhora o valor das contas de
João. Houve a substituição da atividade de João.

Definitividade:

É bastante controvertido se a sentença proferida em execução pode ou não pode gerar


coisa julgada.

Há entendimento de que não pode porque a cognição é desenvolvida de forma sumária,


não havendo necessidade de produzir prova (Humberto Theodoro Jr.).

O art. 794 do CPC disciplina que a sentença executiva pode ter por fundamento:
indeferimento da petição inicial (pode ser uma execução de título extrajudicial cuja
execução vai inaugurar o processo), reconhecendo ou extinguindo a obrigação por
qualquer meio ou qualquer modo, renúncia do crédito, reconhecendo prescrição

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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intercorrente, etc.

Veja, há fundamentos de uma sentença executiva muito próximos aos fundamentos de


uma sentença em processo de conhecimento. Quando há uma sentença, em sede de
execução, que reconhece que houve prescrição intercorrente, é forçoso convir que não
há como julgar novamente depois.

Por essa razão, é possível chegar à conclusão que uma sentença executiva poderá
transitar em julgado materialmente. Há inclusive precedentes do STJ nesse sentido.

• Subsidiariedade:

A execução vai admitir a aplicação das regras do processo de conhecimento quando não
tiver um regramento específico próprio.

III. Princípios da execução

a) Princípio da disponibilidade ou do desfecho único

Na execução, o exequente pode desistir da execução a qualquer momento,


independentemente da anuência do executado.

O CPC, no art. 775, vai estabelecer que somente se forem apresentados embargos, ou se
houver impugnação versando sobre a relação jurídica de direito material, é que haverá
necessidade de concordância da outra parte.

Mesmo assim, se houver embargos ou impugnação, como no caso em que não houve
concordância, e o exequente quer desistir da execução, neste caso, a execução será extinta, mas
a defesa prosseguirá com a feição de demanda autônoma.

Portanto, o princípio da disponibilidade no âmbito da execução, é possibilidade do


credor/exequente desistir da execução a qualquer momento sem a necessidade de anuência da
outra parte. A lei ressalva os casos de embargos ou impugnação, questionando a relação jurídica
de direito material.

b) Princípio do menor sacrifício do executado (menor onerosidade ao devedor)

Se o juiz vislumbra que o devedor possui vários bens e que são suficientes ao pagamento

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da dívida, o juiz deverá optar pelo bem que se mostre menos gravoso ao devedor.

Por outro lado, há uma outra limitação, visto que este bem deva ser suficiente.

Se não for suficiente, não poderá sofrer esta escolha, visto que o mínimo é a suficiência.

O art. 805, parágrafo único, impõe ao executado que, quando ele alegar que a medida foi
a mais grave, e que ele poderia optar pela menos grave, indique outros meios mais eficazes ou
tão eficazes quanto aquele, mas menos onerosos, sob pena de serem mantidos os meios
executórios atuais.

IV. Espécies de execução

Existem execução provisória e execução definitiva:

• Execução definitiva

• Execução provisória

a) Execução definitiva

Execução definitiva é aquela lastreada em título definitivo, ou seja, título judicial já


transitado em julgado ou título executivo extrajudicial.

b) Execução provisória

A execução provisória é aquela que ainda pode ser revertida, pois se baseia numa decisão
que sofre algum recurso que possa mudar o seu sentido.

É baseada em título judicial não transitada em julgado.

O art. 522 vai dizer que o requerimento do início do cumprimento provisória da sentença
deve ser dirigido ao juiz competente.

O art. 516 estabelece que, se o processo não for eletrônico, este pedido requerendo a
execução provisória deverá trazer junto as cópias reprográficas de peças relevantes para o objeto
da medida do processo. Isso porque o título executivo judicial é provisório, significa que a outra
parte apelou (pois senão seria definitivo), razão pela qual os autos estão no Tribunal.

Caso a execução provisória seja promovida, mas depois haja reforma da decisão, o

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

230
exequente terá responsabilidade objetiva pela reparação dos prejuízos que eventualmente tenha
sofrido o suposto devedor.

A execução provisória se desenvolve praticamente da mesma forma que a execução


definitiva. Há alguns detalhes que se diferenciam.

Se no curso da execução provisória, o exequente pretender levantar o depósito feito em


dinheiro, ou de alienação dos bens depositados, deverá ele prestar caução (contracautela).

Existem situações em que a caução é dispensada:

• diante de créditos de natureza alimentar

• quando pender agravo de decisão que não admitiu recurso extraordinário e recurso
especial

• quando a sentença estiver de acordo com a súmula de jurisprudência dominante do STF


ou do STJ

• acórdãos relativos a julgamento de casos repetitivos

• quando o credor demonstrar situação de necessidade. Cuidado, pois o art.521, parágrafo


único, traz uma observação importante, no sentido de que não será dispensada a caução
em nenhuma hipótese que ocorrer situação de grave dano ou de difícil ou incerta
reparação.

O credor poderá até levantar o valor, mas se for o caso em que não conseguirá reparar, não
caberá o levantamento.

A execução provisória poderá ser convertida em execução definitiva.

Mas e a execução definitiva poderá se tornar provisória?

Apesar de alguma divergência, prevalece o entendimento de que não, devendo ser


considerada definitiva até o final.

Este é inclusive o entendimento da Súmula 317 do STJ que diz que é definitiva a execução
de título extrajudicial, ainda que pendente a apelação da sentença que tenha julgado
improcedente o pedido deduzido em embargos à execução.
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Competência na execução

A competência vai variar de acordo com a natureza do título envolvido.

I. Título executivo extrajudicial

Em se tratando de título executivo extrajudicial, a execução poderá ser proposta no:

• foro de domicílio do executado

• foro de eleição constante no contrato

• foro do local dos bens sujeitos à execução

Se houver mais de um domicílio, o executado poderá ser demandado em qualquer deles.

Se for incerto o domicílio do executado, a execução pode ser proposta no lugar em que o
executado for encontrado ou no foro do domicílio do exequente.

Se houver mais de um executado, cada um com domicílio diferente, a execução poderá


ser proposta no domicílio de qualquer um desses devedores.

A execução poderá ainda ser proposta no foro do local em que se praticou o ato que deu
origem ao título.

II. Título executivo judicial

Em se tratando de execução de título executivo judicial:

• se for o caso de competência originária de Tribunal, a competência será do TJ ou TRF.

• se for caso de primeira instância, a etapa executiva deverá se dar no mesmo órgão
jurisdicional que o processo foi deflagrado para dar cumprimento da decisão.

Existem algumas hipóteses em que se inicia a etapa executiva distinto daquele juízo em
que o título executivo judicial foi constituído:

• quando a execução é no juízo cível, mas os efeitos civis decorrem de uma sentença penal
condenatória.

• quando há sentença arbitral, a qual será considerada título executivo judicial.

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232
• quando há sentença estrangeira homologada pelo STJ, situação em que será competente
o juiz federal de 1ª instância.

Haverá essa distinção de juízos quando se está diante de uma execução individual no juízo
cível de uma sentença proferida em sede de processo coletivo. Neste caso, poderá haver
alteração, não necessariamente o mesmo juízo que julgou o processo coletivo é que vai dar
cumprimento à execução individual do beneficiado, quando se tratar, por exemplo, de direitos
individuais homogêneos.

Também é possível essa distinção quando se está diante de execução de alimentos perante
um juízo diferente do que proferiu a decisão, dependendo do atual do atual domicílio do credor
dos alimentos. Por exemplo, se o credor de alimentos mudou de domicílio, poderá propor a ação
no novo domicílio.

Na execução contra devedor insolvente, se a execução está lastreada em um título


executivo de competência cível, é possível que as regras de organização judiciário do Estado
prevejam que a competência para executar, no caso de devedor insolvente, seja uma outra vara,
que não aquela que adveio o título executivo judicial. Neste caso, também haverá essa distinção.

Há ainda a distinção em execução fundada em título judicial, proferido pela justiça


estadual, quando o seu segmento se dá com a União intervindo e sucedendo processualmente o
executado, situação na qual haverá o deslocamento da execução para a justiça federal. A União
passa a ser executada e nesse caso, não poderá ser na justiça estadual, apesar de o título executivo
ter ali se formado.

Além dessas hipóteses, o art. 516 do CPC prevê a possibilidade de o credor escolher a base
territorial em que promoverá a execução entre:

• o juízo que tiver proferido a sentença

• a base territorial em que se encontra o executado (domicílio do devedor)

• o foro em que este executado possuir bens para constrição judicial (lugar da obrigação)

• localidade em que a obrigação de fazer ou não fazer deverá ser cumprida (lugar que tenha
bens)

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III. Competência para o processamento e julgamento dos embargos e da impugnação

Os embargos serão oferecidos e julgados no mesmo juízo que tramita a execução por título
extrajudicial. Estes embargos serão distribuídos por dependência e serão autuados em apartados
aos autos da execução.

Tratando-se de impugnação, há execução de título judicial. Neste caso, a impugnação


deverá ser apresentada nos mesmos autos. Neste caso, a competência é do mesmo órgão
jurisdicional.

Partes na execução e responsabilidade patrimonial

I. Legitimação ativa

O art. 778 do CPC vai trazer os legitimados ativos para a execução:

• Credor

• MP, caso haja interesse social ou interesse individual indisponível

• Espólio

• Herdeiros

• Sucessores do credor (ex.: empresa que incorporou uma empresa que era credora)

• Cessionário

• Sub-rogado

No caso do título executivo judicial, o CPC também dá legitimação ativa ao próprio


devedor para iniciar a execução.

II. Legitimação passiva

No caso da legitimação passiva, via de regra, será:

• Devedor

• Espólio

• Herdeiros do devedor
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• Sucessores do devedor

O novo devedor, que assumiu a obrigação com consentimento do credor, também passará
a ser legitimado passivo.

É possível que a legitimação passiva venha a recair sobre o fiador judicial. Lembre-se que
o fiador não tem débito, mas apenas responsabilidade (haftung).

Poderá também ser legitimado passivo o responsável do bem vinculado por garantia real
ao pagamento do débito, bem como o responsável tributário.

III. Intervenção de terceiros na execução

A princípio, não se admite intervenção de terceiros na execução, com exceção de:

• Incidente de desconsideração da personalidade jurídica

• Recurso interposto por terceiro

• Arguição por preferência

Há uma modalidade ainda de intervenção de terceiros que é própria da execução,


denominada de arguição por preferência.

Essa arguição por preferência ocorre na petição de um dos credores que é protocolado em
outro processo. Ou seja, o credor vai até o outro processo e argui a sua preferência no valor que
será apurado com a alienação do bem que foi penhorado naquele processo.

Essa preferência pode decorrer tanto da hipoteca judiciária como da realização da


penhora.

A arguição por preferência tem de ser empregada nos casos em que há vários credores,
em execuções distintas, e o dinheiro recebido pela expropriação de um bem, por exemplo, vai ser
distribuído e entregue aos credores, de acordo com as respectivas preferências (prelações).

Dessa forma, cabe a terceiros estranhos ao processo peticionar informando essa situação
de preferência ao juízo em que os bens foram expropriados, ou então este terceiro poderá
requerer que o juízo faça comunicação ao outro juízo em que tramita a outra execução.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Essa modalidade de intervenção de terceiros não gera deslocamento de competência,
ainda que se trate de União. Inclusive este entendimento está súmula pela súmula 270 do STJ, que
diz que o protesto pela preferência de crédito apresentado por um ente federal numa execução
que tramita na justiça estadual não desloca a competência para a justiça federal.

IV. Responsabilidade patrimonial primária e secundária

No caso de responsabilidade patrimonial primária e secundária, devemos lembrar do


schuld e do haftung.

A responsabilidade patrimonial é a sujeição de um patrimônio a medidas executivas.

O art. 789 vai dizer que o devedor ou o responsável responde por todos os bens presentes
e futuros, salvo restrições estabelecidas em lei (bens impenhoráveis).

O CPC não fala mais em bens absolutamente impenhoráveis.

Geralmente, quem tem o débito (schuld) é o responsável pelo pagamento, tendo o seu
patrimônio responsável pela obrigação. Normalmente quem tem o schuld tem o haftung. Neste
caso, há uma responsabilidade patrimonial primária.

No entanto, caso esteja numa situação em que um terceiro, apesar de não dever,
responder com o seu patrimônio pela dívida, não terá o schuld, mas terá o haftung. Neste caso,
há uma responsabilidade patrimonial secundária. O exemplo clássico é o contrato de fiança.

O CPC busca estabelecer as hipóteses de responsabilidade, ou seja, estará sujeito à


execução de bens:

• Sucessão singular de bem afetado ao cumprimento da sentença

Quando há um bem afetado ao cumprimento de sentença, mas o sujeito aliena este bem,
estará alienando coisa litigiosa. Esse negócio jurídico não é oponível ao credor exequente,
sendo ineficaz. Rodolfo Hartmann diz que este negócio é insensível ao credor exequente.

• Sujeição dos bens do sócio

Não se trata de desconsideração da personalidade jurídica, mas responsabilidade


subsidiária do sócio. Pelas obrigações da sociedade, o sócio poderá ter responsabilidade

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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subsidiária.

• Responsabilidade do devedor, ainda que em poder de terceiros;

• Estarão sujeitos à execução os bens do cônjuge ou companheiro, quando houver dívida


contraída em prol da entidade familiar, independentemente do regime de casamento.

Neste caso, quem está respondendo é o terceiro por uma dívida que foi contraída pelo
devedor. Mas a lei traz uma justificativa, no sentido de que a obrigação foi contraída em
prol da entidade familiar.

• Ficam sujeitos à execução os bens do devedor que foram alienados ou gravados com
ônus real em fraude à execução;

Aqui, a alienação será tida como ineficaz.

• Ficam sujeitos à execução os bens do devedor alienados em fraude contra credores,


cuja alienação ou gravação com ônus real tenha sido anulada;

Aqui, a alienação é anulável, devendo ser ajuizada ação pauliana.

• Ficam sujeitos à execução os bens do devedor responsável, nos casos de


desconsideração da personalidade jurídica.

V. Fraude de execução

Fraude à execução consiste no ato do devedor de alienar ou gravar com ônus real (ex.:
dar em hipoteca) um bem que lhe pertence, em uma das situações previstas nos incisos do art.
792 do CPC. A fraude contra a execução, além de causar prejuízo ao credor, configura ato
atentatório à dignidade da Justiça (art. 774, I, do CPC).

Fraude à execução é uma modalidade fraudulenta de alienação de bens extremamente


grave. Ocorrerá quando há a transferência de um bem do devedor ou do responsável para um
terceiro no curso de uma execução. Essa alienação será tida como ineficaz.

Caberá ao credor informar o juiz dessa alienação por meio de uma simples petição.

Neste caso, o juiz vai reconhecer a fraude à execução, não desconstituindo o negócio, pois
ele é válido, mas será ele ineficaz perante o credor.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Por exemplo, se o sujeito vendeu um apartamento na praia por 500 mil reais, mas devia
250 mil ao credor. O apartamento será penhorado e depois alienado judicialmente, situação na
qual se arrecada os 500 mil e o credor recebe os 250 mil, devendo o valor remanescente ser
devolvido ao adquirente do apartamento. Isso porque o negócio jurídico é válido, mas só era
ineficaz em relação ao credor.

Para que a fraude à execução seja reconhecida, atualmente necessita de 2 elementos:

Elemento objetivo: insolvência do executado.

Elemento subjetivo: demonstrada a má-fé do adquirente.

O art. 844 do CPC traz uma hipótese de presunção absoluta de má-fé, estabelecendo que,
para presunção absoluta de conhecimento por terceiro, cabe ao exequente providenciar a
averbação do arresto ou da penhora no registro competente.

Neste caso, haverá presunção absoluta do conhecimento do terceiro quando o sujeito


promover a averbação da penhora realizada.

Se não promover a averbação não haverá presunção absoluta. Então não se está discutindo
se há ou não boa-fé.

Portanto, na fraude à execução deve-se demonstrar a má-fé do comprador.

O entendimento inclusive está sumulado pelo STJ, por meio do enunciado 375, que diz que
o reconhecimento da fraude à execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da
prova de má-fé do terceiro adquirente.

a) Hipóteses em que há fraude à execução

Segundo o art. 792, a alienação ou a oneração de bem é considerada fraude à execução:

• Quando sobre o bem pender ação fundada em direito real ou com pretensão
reipersecutória, desde que a pendência do processo tenha sido averbada no respectivo
registro público, se houver;

• Quando tiver sido averbada, no registro do bem, a pendência do processo de execução,


na forma do art. 828;

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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• Quando tiver sido averbado, no registro do bem, hipoteca judiciária ou outro ato de
constrição judicial originário do processo onde foi arguida a fraude;

• Quando, ao tempo da alienação ou da oneração, tramitava contra o devedor ação capaz


de reduzi-lo à insolvência;

• Nos demais casos expressos em lei.

Se o devedor alienou ou gravou com ônus real determinado bem praticando fraude à
execução, esse bem continua respondendo pela dívida e poderá ser executado (poderá ser
expropriado pelo credor).

Veja que não é possível que ocorra fraude à execução se a alienação ou oneração ocorrer
antes que a execução tenha sido proposta, tendo em vista que, para se falar em fraude à
execução, é necessário que a execução tenha sido ao menos ajuizada.

b) Termo inicial da fraude à execução

Em regra, para que haja fraude à execução, é indispensável que a alienação ou oneração
tenham acontecido após o devedor ter sido citado. Quando o devedor é citado, existe a certeza
de que, a partir daquele momento, ele tem consciência da existência do processo.

Logo, se o devedor vender ou onerar o bem depois de a execução ter sido ajuizada, mas
antes de ele ser citado, em regra, não haverá fraude à execução.

Fala-se “em regra”, pois, mesmo sem citação válida, haverá fraude à execução se, quando
o devedor alienou ou onerou o bem, o credor já havia realizado a averbação da execução nos
registros públicos (art. 828 do CPC). Presume-se em fraude de execução a alienação ou oneração
de bens realizada após essa averbação (§ 4º do art. 828) (art. 792, II).

Ainda em relação à delimitação do seu termo inicial. Segundo o art. 792, IV, será
considerada fraude à execução quando, ao tempo da alienação ou ao tempo da oneração do bem,
corria contra o devedor demanda capaz de reduzi-lo à insolvência.

Essa demanda capaz de reduzi-lo à insolvência é processo de conhecimento ou deve ser


execução?

A redação não é clara, surgindo várias correntes:


Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

239
1ªCorrente: Basta um processo de conhecimento, que seja capaz de reduzi-lo à insolvência
para haver fraude à execução.

2ªCorrente: Min. Luiz Fux diz que para fraude à execução, é necessário que se tenha
iniciado uma execução.

3ªCorrente: Não basta que a execução tenha começado, é necessário que o executado
tenha ciência prévia contra si, o que se dá por meio da citação.

Em relação à 3ª corrente, há precedente do STJ.

O CPC buscou estabelecer um critério mais objetivo para caracterização do momento a


partir do qual há fraude à execução. Por esse motivo, manteve-se a norma anterior do art. 828 do
CPC/73.

Esta norma autoriza que o exequente promova a averbação da certidão de distribuição da


execução, admitida pelo juiz. Neste caso, pegará a certidão da execução que foi distribuída e vai
averbar perante órgãos em que constam registros de bens do executado. Neste caso, não é
necessário aguardar a penhora. Caso o sujeito venda, poderá dizer que houve a má-fé.

Recentemente (Inf. 594), com base na aplicação do CPC/73, o STJ entendeu que a fraude à
execução só poderia ser reconhecida se o ato de disposição do bem for posterior à citação válida
do sócio devedor, quando redirecionada a execução que fora originariamente proposta em face
da pessoa jurídica. Ex: havia uma execução tramitando apenas contra a sociedade empresária;
durante o curso deste processo, um dos sócios vendeu bem que estava em seu nome; algum
tempo depois, o juiz determinou a desconsideração da personalidade jurídica e o
redirecionamento da execução contra o sócio; esta alienação realizada pelo sócio não ocorreu
mediante fraude à execução; isso porque, quando ele vendeu o bem, ainda não tinha sido citado.

Com o novo CPC, este entendimento gerará polêmica. Isso porque o CPC/2015 traz uma
nova regra, que não havia no Código passado, afirmando que a fraude à execução tem como
marco a data da citação da pessoa jurídica que é objeto da desconsideração.

De acordo com o art. 792, §3º, nos casos de desconsideração da personalidade jurídica, a
fraude à execução verifica-se a partir da citação da parte cuja personalidade se pretende
desconsiderar. Desse modo, os efeitos da desconsideração deverão retroagir à data em que a
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

240
pessoa jurídica foi citada.

No caso da desconsideração inversa (ou invertida) da personalidade jurídica, em que o juiz


autoriza que os bens da pessoa jurídica sejam utilizados para pagar as dívidas dos sócios, deverá
ser entendido que, primeiro, haverá a citação da pessoa física, que está sendo executada; depois,
o juiz faz a desconsideração e determina a citação da pessoa jurídica;. Logo, os efeitos da fraude
à execução irão retroagir para a data da primeira citação (da pessoa física).

O art. 828, §4, vai dizer que caso a averbação seja realizada, serão presumidos em fraude
à execução a alienação ou oneração dos bens feitas após esta averbação.

O art. 828, §1, vai dizer que o exequente deverá realizar essa averbação da certidão da
distribuição da execução e deverá comunicar essa averbação ao órgão jurisdicional no prazo de
10 dias.

c) Terceiro adquirente do bem fruto da fraude à execução

Ao mesmo tempo que se deve evitar a fraude à execução, é também necessário que se
proteja o terceiro de boa-fé. Pensando nisso, o STJ firmou o entendimento de que somente será
possível reconhecer a fraude à execução se:

Ficar provada a má-fé do terceiro adquirente; ou

Se, no momento da alienação, o bem vendido já estava penhorado na execução e essa


penhora estava registrada no cartório de imóveis (art. 844).

Para tanto, o STJ editou a Súmula 375, estabelecendo que o reconhecimento da fraude à
execução depende do registro da penhora do bem alienado ou da prova de má-fé do terceiro
adquirente.

O ônus de provar que o terceiro adquirente estava de má-fé dependerá se o bem


adquirido pelo terceiro era sujeito a registro ou não:

• Bem adquirido pelo terceiro era sujeito a registro público para averbar processo de
execução ou de constrição judicial (Ex: bens imóveis no registro de imóveis e os
automóveis no DETRAN).

Se o exequente fez a averbação no registro informando que havia uma execução contra
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

241
o proprietário do bem ou uma constrição judicial (ex: penhora) sobre a coisa, neste caso,
a má-fé do adquirente é presumida pelo registro público.

Se o exequente não fez a averbação no registro, neste caso, o exequente terá que
comprovar a má-fé do adquirente.

• Bem adquirido pelo terceiro era sujeito a registro público para averbar processo de
execução ou de constrição judicial (Ex: um quadro, uma joia etc.).

Nesta hipótese, o terceiro adquirente é quem terá o ônus de provar que adotou as
cautelas necessárias para a aquisição, mediante a exibição das certidões pertinentes,
obtidas no domicílio do vendedor e no local onde se encontra o bem. Se não provar, será
reconhecida a fraude à execução e ele perderá o bem. Isso porque, se o terceiro
adquirente não fizer a comprovação de que tomou tais cautelas, será presumivelmente
adquirente de má-fé, e o juiz declarará a fraude à execução.

d) Registro de penhora e averbação

Como se sabe, penhorar significa apreender judicialmente os bens do devedor para utilizá-
los, direta ou indiretamente, na satisfação do crédito executado. A penhora ocorre depois que já
existe execução em curso e o executado já foi citado e não pagou.

Após ser realizada a penhora, o exequente, para se resguardar ainda mais, pode pegar na
Secretaria da Vara onde tramita a execução uma certidão de inteiro teor narrando que foi realizada
a penhora sobre determinado bem. Após, de posse dessa certidão, ele poderá ir até o cartório
de registro de imóveis e pedir que seja feita a averbação da penhora. Isso está previsto no art.
844 do CPC.

Caso faça a averbação, ela irá gerar uma presunção absoluta de que todas as pessoas
sabem que esse bem está penhorado. Logo, se alguém adquirir o bem, tal pessoa será
considerada terceiro de má-fé e essa venda não será eficaz.

Em outras palavras, o terceiro, mesmo tendo pago o preço, perderá a coisa porque adquiriu
bem cuja penhora estava registrada.

e) Contraditório prévio

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Outra importante novidade do CPC/2015 está na obrigatoriedade de oportunizar
contraditório ao terceiro adquirente antes que seja declarada a fraude à execução. Esta previsão,
que não existia no Código passado, foi expressamente inserida nos seguintes termos art. 792, §4º.

Segundo o dispositivo, antes de declarar a fraude à execução, o juiz deverá intimar o


terceiro adquirente, que, se quiser, poderá opor embargos de terceiro, no prazo de 15 dias.

VI. Fraude contra credores

A fraude contra credores tem previsão no código civil (art. 158), ocorrendo quando o
executado, de forma dolosa, capciosa ou ardilosa, aliena a integralidade do seu patrimônio com o
objetivo de frustrar o pagamento de seus credores.

Portanto, a fraude contra credores exige:

Elemento subjetivo: é o conluio fraudulento entre o devedor/vendedor e o terceiro


adquirente, a fim de prejudicar terceiros.

Elemento objetivo: é a diminuição do patrimônio do devedor ao ponto de reduzi-lo à


insolvência.

Se o ato de alienação é praticado a título gratuito, o conluio fraudulento será presumido.

Só pode ser reconhecida a fraude contra credores no bojo de conhecimento, denominado


de ação pauliana. Essa ação é proposta em face do devedor que vendeu o bem e em face do
terceiro que adquiriu, sendo hipótese de litisconsórcio passivo necessário.

Apesar de parte da doutrina entender que a fraude contra credores seria caso de ineficácia
da alienação, a verdade é que o Código Civil consagram que a fraude contra credores torna o
negócio anulável.

Título executivo

I. Conceito

A despeito de alguma divergência, o título executivo é um pressuposto processual


específico à execução.

O título executivo é um ato jurídico a que a lei atribui eficácia executiva, e portanto torna
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

243
adequada a utilização da via executiva como forma de fazer atuar essa responsabilidade
patrimonial. Este é o conceito de Alexandre Freitas Câmara.

Caso a parte tenha em mãos um título executivo extrajudicial, o CPC autoriza que a parte
abra mão da força executiva e opte por iniciar um processo de conhecimento.

O CPC ainda autoriza que haja a cumulação de execução, hipótese em que serão
executados dois ou mais títulos no processo. E por isso, haverá cumulação de execução.

Ex.: Samer possui 3 cheques em face de João, cada um de 5 mil reais. Samer resolver
promover a execução dos 3 cheques, havendo 3 títulos de crédito cumulados.

II. Classificação dos títulos executivos

Os títulos executivos podem ser classificados em:

• Títulos executivos judiciais

• Títulos executivos extrajudiciais

a) Títulos executivos judiciais

O art. 515 traz nove incisos sobre o que seriam títulos executivos judiciais:

• são títulos executivos judiciais as decisões proferidas no processo civil que reconheçam
a exigibilidade de obrigação de pagar quantia, de fazer, de não fazer ou de entregar coisa;

• é título executivo judicial a decisão homologatória de autocomposição judicial;

• é título executivo judicial a decisão homologatória de autocomposição extrajudicial de


qualquer natureza;

é título executivo judicial o formal e a certidão de partilha, exclusivamente em relação


ao inventariante, aos herdeiros e aos sucessores a título singular ou universal;

Ou seja, só haverá título executivo judicial em relação àqueles que participaram do feito,
e não em relação as outras.

é título executivo judicial o crédito de auxiliar da justiça, quando as custas, emolumentos


ou honorários tiverem sido aprovados por decisão judicial;

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244
é título executivo judicial a sentença penal condenatória transitada em julgado;

é título executivo judicial a sentença arbitral;

Se houver alegação de nulidade da sentença arbitral, é possível fazer isso de duas formas,
conforme a teoria da dupla porta: a primeira é o ajuizamento da ação com o objetivo de
reconhecer a nulidade da sentença arbitral dentro do prazo de 90 dias; a segunda
ocorrerá no momento em que o sujeito for cumprir a sentença arbitral, situação na qual
será apresentada pelo suscitante uma impugnação ao cumprimento dessa sentença
arbitral.

é título executivo judicial a sentença estrangeira homologada pelo Superior Tribunal de


Justiça;

Na verdade, não é a sentença estrangeira que será título executivo judicial, e sim o
acórdão proferido pelo STJ que homologou a sentença estrangeira.

é título executivo judicial a decisão interlocutória estrangeira, após a concessão do


exequatur à carta rogatória pelo Superior Tribunal de Justiça;

b) Títulos executivos extrajudiciais

Os títulos executivos extrajudiciais estão num rol exemplificativo no art. 784 do CPC.

O inciso XII do art. 784 inclusive autoriza que serão títulos executivos extrajudiciais todos
os demais títulos aos quais, por disposição expressa, a lei atribuir força executiva. Ex.: Estatuto da
OAB diz que o contrato escrito que estipula honorários de advogado é título executivo
extrajudicial.

São títulos executivos extrajudiciais:

• a letra de câmbio, a nota promissória, a duplicata, a debênture e o cheque;

Neste caso, é necessário de apresentação da via original do título, pois é título de crédito
(cartularidade). Para os demais títulos abaixo, basta cópia autenticada.

• a escritura pública ou outro documento público assinado pelo devedor;

O STJ entende que esta hipótese abrange também contratos administrativos.


Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

245
o documento particular assinado pelo devedor e por 2 (duas) testemunhas;

a transação referendado pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela


Advocacia Pública, pelos advogados dos transatores ou por conciliador ou mediador
credenciado por tribunal;

Transação referendada por defensoria pública é título executivo extrajudicial.

o contrato garantido por hipoteca, penhor, anticrese ou outro direito real de garantia e
aquele garantido por caução;

o contrato de seguro de vida em caso de morte;

o crédito decorrente de foro e laudêmio;

o crédito, documentalmente comprovado, decorrente de aluguel de imóvel, bem como


de encargos acessórios, tais como taxas e despesas de condomínio;

a certidão de dívida ativa da Fazenda Pública da União, dos Estados, do Distrito Federal
e dos Municípios, correspondente aos créditos inscritos na forma da lei;

o crédito referente às contribuições ordinárias ou extraordinárias de condomínio


edilício, previstas na respectiva convenção ou aprovadas em assembleia geral, desde
que documentalmente comprovadas;

Estes créditos de rateio das despesas do condomínio serão considerados títulos


executivos extrajudicial se assim tiver sido estabelecido na convenção ou na ata da
reunião que foi convocada especialmente para este fim.

a certidão expedida por serventia notarial ou de registro relativa a valores de


emolumentos e demais despesas devidas pelos atos por ela praticados, fixados nas
tabelas estabelecidas em lei;

• todos os demais títulos aos quais, por disposição expressa, a lei atribuir força executiva.

III. Requisitos para o título executivo: certeza, liquidez e exigibilidade

O título executivo deverá conter uma obrigação. Esta obrigação deverá possuir os
seguintes requisitos para o título executivo:
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246
Certeza: é a obrigação certa é o an debeatur, ou seja, é a afirmação de que a obrigação
existe.

Liquidez: é a obrigação líquida é o quantum debeatur, ou seja, a obrigação existe e ela já


está delimitada quanto ao seu conteúdo.

Exigibilidade: é a obrigação vencida, ou seja, o devedor já se encontra em mora e é


possível executá-lo.

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247
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Execução. Embargos à execução

Teoria geral da execução

I. Introdução

A execução já foi apenas um processo. Hoje poderá ser processo, mas poderá ser uma
etapa de um processo sincrético (fase de conhecimento e fase de execução).

O magistrado, nesta fase ou processo, determina medidas executivas para o cumprimento


de obrigação que consta em título executivo.

Este título executivo pode ser judicial ou extrajudicial.

II. Características da execução

Dentre as características da execução, 3(três) delas irão se destacar:

• Substitutividade:

A substitutividade se faz presente na execução, eis que ela substitui a atividade da outra
parte.

Ex.: João está devendo a Francisco 100 mil reais. O juiz penhora o valor das contas de
João. Houve, portanto, a substituição da atividade de João.

Definitividade:

É bastante controvertida se a sentença proferida em execução pode ou não pode gerar


coisa julgada. Há entendimento de que não pode, porque a cognição é desenvolvida de
forma sumária, não havendo necessidade de produzir prova (Humberto Theodoro Jr.).

Mas a verdade é que o art. 794 do CPC vai dizer que a sentença executiva pode ter por
fundamentos: 1) indeferimento da petição inicial (a exemplo de uma execução de título
extrajudicial cuja execução inaugurará o processo), reconhecendo ou extinguindo a
obrigação por qualquer meio ou qualquer modo, e 2)renúncia do crédito, reconhecendo
prescrição intercorrente, etc.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

248
Veja, há fundamentos de uma sentença executiva muito próximos aos fundamentos de
uma sentença em processo de conhecimento. Quando há uma sentença, em sede de
execução, que reconheça que houve prescrição intercorrente, é forçoso convir que não
há como julgar novamente depois.

Por essa razão, é possível chegar à conclusão de que uma sentença executiva poderá
transitar em julgado materialmente. Há, inclusive, precedentes do STJ nesse sentido.

Subsidiariedade:

A execução vai admitir a aplicação das regras do processo de conhecimento, quando não
houver um regramento específico próprio.

III. Princípios da execução

a) Princípio da disponibilidade ou do desfecho único

Na execução, o exequente pode desistir da execução a qualquer momento,


independentemente da anuência do executado.

O CPC, no art. 775, vai estabelecer que somente se forem apresentados embargos, ou se
houver impugnação versando sobre a relação jurídica de direito material, é que haverá
necessidade de concordância da outra parte.

Mesmo assim, se houver embargos ou impugnação, como no caso em que não houve
concordância, e o exequente queira desistir da execução, neste caso, a execução será extinta, mas
a defesa prosseguirá com a feição de demanda autônoma.

Portanto, o princípio da disponibilidade no âmbito da execução, é possibilidade de o


credor/exequente desistir da execução a qualquer momento sem a necessidade de anuência da
outra parte. A lei ressalva os casos de embargos ou impugnação, questionando a relação jurídica
de direito material.

b) Princípio do menor sacrifício do executado (menor onerosidade ao devedor)

Se o juiz vislumbra que o devedor possui vários bens e que são suficientes ao pagamento
da dívida, o juiz deverá optar pelo bem que se mostre menos gravoso ao devedor.

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249
Por outro lado, há uma outra limitação, visto que este bem deva ser suficiente.

Se não for suficiente, não poderá sofrer esta escolha, visto que o mínimo é a suficiência.

O art. 805, parágrafo único, impõe ao executado que, quando ele alegar que a medida foi
a mais grave, e que ele poderia se optar pela menos grave; deverá, então, indicar outros meios
mais eficazes ou tão eficazes quanto aquele, mas menos onerosos, sob pena de serem mantidos
os meios executórios atuais.

IV. Espécies de execução

Existem estas espécies de execução:

Execução definitiva, e

Execução provisória.

a) Execução definitiva

Execução definitiva é aquela lastreada em título definitivo, ou seja, título judicial já


transitado em julgado ou título executivo extrajudicial.

b) Execução provisória

A execução provisória é aquela que ainda pode ser revertida, pois se baseia numa decisão
que sofre algum recurso o qual possa mudar o seu sentido.

É baseada em título judicial não transitado em julgado.

O art. 522 vai dizer que o requerimento do início do cumprimento provisório da sentença
deve ser dirigido ao juiz competente.

O art. 516 estabelece que, se o processo não for eletrônico, o pedido requerendo a
execução provisória deverá trazer junto as cópias reprográficas de peças relevantes para o
objeto da medida do processo. Isso porque o título executivo judicial é provisório, significando,
assim, que a outra parte apelou (pois senão seria definitivo), razão pela qual os autos estão no
Tribunal.

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250
Caso a execução provisória seja promovida, mas depois haja reforma da decisão, o
exequente terá responsabilidade objetiva pela reparação dos prejuízos que eventualmente
tenha sofrido o suposto devedor.

A execução provisória se desenvolve praticamente da mesma forma que a execução


definitiva. Há alguns detalhes que as diferenciam.

Se no curso da execução provisória, o exequente pretender levantar o depósito feito em


dinheiro, ou de alienação dos bens depositados, deverá ele prestar caução (contracautela).

Existem situações em que a caução é dispensada:

diante de créditos de natureza alimentar;

quando pender agravo de decisão que não admitiu recurso extraordinário e recurso especial;

quando a sentença estiver de acordo com a súmula de jurisprudência dominante do STF ou


do STJ;

acórdãos relativos a julgamento de casos repetitivos;

quando o credor demonstrar situação de necessidade. Cuidado, pois o art.521, parágrafo


único, traz uma observação importante, no sentido de que não será dispensada a caução em
nenhuma hipótese que ocorrer situação de grave dano ou de difícil ou incerta reparação.

O credor poderá até levantar o valor, mas se for o caso em que não consiga reparar, não
caberá, portanto, o levantamento.

A execução provisória poderá ser convertida em execução definitiva.

Mas e a execução definitiva poderá se tornar provisória?

Apesar de alguma divergência, prevalece o entendimento de que não poderá, devendo ser
considerada definitiva até o final.

Este é inclusive o entendimento da Súmula 317 do STJ que diz ser definitiva a execução de
título extrajudicial, ainda que pendente a apelação da sentença que tenha julgado improcedente
o pedido deduzido em embargos à execução.

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Competência na execução

A competência vai variar de acordo com a natureza do título envolvido.

I. Título executivo extrajudicial

Em se tratando de título executivo extrajudicial, a execução poderá ser proposta nos


seguintes foros:

foro de domicílio do executado;

foro de eleição constante no contrato;

foro do local dos bens sujeitos à execução.

Se houver mais de um domicílio, o executado poderá ser demandado em qualquer um


deles.

Se for incerto o domicílio do executado, a execução pode ser proposta no lugar em que
o executado for encontrado ou no foro do domicílio do exequente.

Se houver mais de um executado, cada um com domicílio diferente, a execução poderá


ser proposta no domicílio de qualquer um desses devedores.

A execução poderá ainda ser proposta no foro do local onde se praticou o ato que deu
origem ao título.

II. Título executivo judicial

Em se tratando de execução de título executivo judicial:

se for o caso de competência originária de Tribunal, a competência será do TJ ou TRF;

se for caso de primeira instância, a etapa executiva deverá se dar no mesmo órgão
jurisdicional que o processo foi deflagrado para dar cumprimento da decisão.

Existem algumas hipóteses em que se inicia a etapa executiva distinta daquele juízo em
que o título executivo judicial foi constituído:

quando a execução é no juízo cível, mas os efeitos civis decorrem de uma sentença penal
condenatória;
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252
quando há sentença arbitral, a qual será considerada título executivo judicial;

quando há sentença estrangeira homologada pelo STJ, situação em que será competente o
juiz federal de 1ª instância.

Haverá essa distinção de juízos quando se está diante de uma execução individual no juízo
cível de uma sentença proferida em sede de processo coletivo. Nesse caso, poderá haver
alteração, não necessariamente o mesmo juízo que julgou o processo coletivo é que vai dar
cumprimento à execução individual do beneficiado, quando se tratar, por exemplo, de direitos
individuais homogêneos.

Também é possível essa distinção quando se está diante de execução de alimentos


perante um juízo diferente do que proferiu a decisão, dependendo do atual domicílio do credor
dos alimentos. Por exemplo, se o credor de alimentos mudou de domicílio, poderá propor a ação
em seu novo domicílio.

Na execução contra devedor insolvente, se a execução está lastreada em um título


executivo de competência cível, é possível que as regras de organização judiciária do Estado
prevejam que a competência para executar, no caso de devedor insolvente, seja de uma outra
vara, que não aquela de onde adveio o título executivo judicial. Nesse caso, também haverá essa
distinção.

Há ainda a distinção em execução fundada em título judicial, proferido pela justiça


estadual, quando o seu segmento se dá com a União intervindo e sucedendo processualmente o
executado, situação na qual haverá o deslocamento da execução para a justiça federal. A União
passa a ser executada e nesse caso, não poderá ser na justiça estadual, apesar de o título
executivo ter ali se formado.

Além dessas hipóteses, o art. 516 do CPC prevê a possibilidade de o credor escolher a base
territorial em que promoverá a execução entre estas a seguir:

o juízo que tiver proferido a sentença;

a base territorial onde se encontra o executado (domicílio do devedor;

o foro em que este executado possuir bens para constrição judicial (lugar da obrigação);

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253
localidade em que a obrigação de fazer ou não fazer deverá ser cumprida (lugar que tenha
bens).

III. Competência para o processamento e julgamento dos embargos e da impugnação

Os embargos serão oferecidos e julgados no mesmo juízo no qual tramita a execução por
título extrajudicial. Esses embargos serão distribuídos por dependência e serão autuados em
apartados aos autos da execução.

Tratando-se de impugnação, há execução de título judicial. Nesse caso, a impugnação


deverá ser apresentada nos mesmos autos, bem como a competência é do mesmo órgão
jurisdicional.

Embargos à Execução

Embargos à execução

Embargos à execução é uma ação em face da execução promovida. O executado estará se


opondo à execução.

Os embargos têm natureza de ação, instaurando-se um processo de conhecimento.

Essa demanda é autuada em apenso aos autos da execução.

Nos embargos, a pretensão é de natureza constitutiva negativa, eis que se quer desfazer
um título executivo extrajudicial, ou no mínimo a revisão do valor constante no título.

i. Prazo oferecimento de embargos

O prazo oferecimento de embargos será de 15 dias, contados do respectivo mandado de


citação juntado aos autos.

Aqui, ainda que no polo passivo da execução haja um litisconsórcio facultativo, não deve
ser aguardada a juntada do último mandado para fluência do prazo de 15 dias para o sujeito
embargar.

Ainda que tenha litisconsórcio facultativo com procuradores diferentes, não haverá dobra
do prazo, visto que se trata de norma específica dos embargos.

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254
Existem embargos que são oferecidos com prazos diferenciados, mas via de regra têm
prazo de 15 dias, como nestes casos de contagem diversa:

insolvência civil: embargos deverão ser oferecidos em 10 dias;

execuções fiscais e execuções promovidas em face da fazenda pública: embargos serão


oferecidos no prazo de 30 dias.

ii. Efeito suspensivo nos embargos

O mero oferecimento dos embargos não vai gerar a suspensão da execução (art. 919).

Se a execução é garantida, então poderá ser discutido o efeito suspensivo.

Garantindo-se a execução, e se estiverem presentes os fundamentos para uma tutela


provisória, ou seja, fundamentos relevantes, risco de dano ao executado, então o juiz poderá
proferir uma decisão, a fim de conceder o efeito suspensivo aos embargos.

O art. 919, §1º, o efeito suspensivo só pode ser concedido se houver requerimento por
parte do embargante, ou seja, o juiz não poderia conceder de ofício o efeito suspensivo. Esse é o
entendimento que prevalece, apesar de doutrina minoritária entender em sentido contrário.

Havendo autorização legal, poderá haver a imediata expropriação dos bens, realizada
ainda que os embargos tenham sido recebidos com efeito suspensivo. O art. 852 autoriza a
alienação antecipada dos bens nas hipóteses de deterioração ou depreciação do bens. O fato de
ter sido recebido com efeito suspensivo não impedirá a alienação, mas apenas o levantamento
do produto obtido com a alienação pelo exequente.

Da mesma forma, não se pode esquecer que o efeito suspensivo concedido nos embargos
pode não ser total. Isso porque se os embargos têm fundamento no excesso de execução, pode
continuar a execução em relação à quantia incontroversa, de forma que poderá ser autorizada a
realização de atos tendentes à expropriação dos bens constritos.

Vale ressaltar que os embargos são oferecidos independentemente de garantia, mas caso
vise conceder efeito suspensivo, então deverá garantir o juízo.

iii. Exceção de pré-executividade

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A exceção de pré-executividade é uma defesa que é aceita pela doutrina e jurisprudência
há tempos, pois possibilita ao executado trazer uma matéria que poderia ter sido conhecida de
ofício pelo juiz.

Havia muita importância quando era necessário garantir o juízo para oferecer os
embargos. Mas agora não há mais essa necessidade.

Todavia, isso não significa que a exceção de pré-executividade tenha acabado. Como se
trata de uma simples petição, poderá ser apresentada em qualquer tempo, até mesmo após a
oposição de embargos à execução.

O STJ vem alargando as matérias da exceção de pré-executividade, de forma que não seja
apenas matérias que possam ser conhecidas de ofício pelo juiz, e sim defesas indiretas, as quais
sejam extintivas da execução, como é o caso de executado que já tenha feito o pagamento do
débito.

iv. Procedimento nos embargos

O procedimento nos embargos é o seguinte:

Embargos são apresentados por petição inicial, que trará o valor da causa, que é o
proveito econômico pretendido pelo embargante. Não necessariamente será o valor da execução,
pois no caso de excesso à execução, o proveito econômico é a diferença entre aquilo que se alega
dever e o que o exequente acha que deve.

O art. 917 estabelece quais são as matérias que podem ser veiculadas por meio de
embargos, porém este rol é meramente exemplificativo.

A petição dos embargos é oferecida ao mesmo juízo onde tramita a execução.

Os embargos serão autuados em apenso, já que se trata de uma nova ação.

Eventualmente, os embargos podem ser oferecidos e até mesmo julgados perante o juízo
deprecado, sendo essa uma autorização do art. 914, §2º, a depender da matéria e de onde reside
o executado.

O CPC impõe que os embargos, por serem autuados em apartado, sejam acompanhados
das peças processuais relevantes.
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256
Se a execução procede e os embargos não, como é o caso em que há recurso, o Tribunal
irá analisar se aqueles embargos merecem ou não ser acolhidos. Para isso, é necessário ter a cópia
de documentos importantes da execução.

Não sendo caso de rejeição liminar dos embargos, o juiz determina a citação do
exequente, que é agora o embargado, sendo citado na pessoa do seu advogado, embora o CPC
se utilize da expressão intimação.

O embargado vai apresentar uma resposta no prazo de 15 dias.

Caso não apresente resposta, não haverá efeito material da revelia, pois a seu favor tem
um título que traz uma presunção de que aquilo que ele fala seja verdade. A ausência de resposta
nos embargos gera o efeito processual da revelia.

Após o oferecimento da resposta, o juiz está autorizado a julgar a pretensão, salvo se for
necessária instrução probatória e audiência.

Com a apresentação de resposta, caso o pedido formulado nos embargos venha a ser
acolhido, ou seja, julgado procedente, a execução será extinta.

Caso não sejam acolhidos os embargos, haverá início da etapa expropriatória.

Caso tenham sido acolhidos os embargos, mas não tenham efeito suspensivo, a etapa
expropriatória começa.

Na etapa expropriatória, o objetivo é alienar o patrimônio do devedor para satisfazer o


crédito do credor.

São modalidades de expropriação:

adjudicação;

alienação;

apropriação de frutos e rendimentos.

Com a alienação dos bens e consequente pagamento do credor, a execução também


estará extinta.

III. Penhora
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

257
Penhora é o ato judicial de natureza executiva que gera ao credor um direito de
preferência sobre aquele bem. Penhorar significa apreender judicialmente os bens do devedor
para utilizá-los, direta ou indiretamente, na satisfação do crédito executado

O CPC traz uma ordem de preferência para penhora, ou seja, existem bens que devem ser
penhorados antes de outros. Essa lista de prioridades está prevista no art. 835 do CPC/2015:

dinheiro, em espécie ou em depósito ou aplicação em instituição financeira;

títulos da dívida pública da União, dos Estados e do Distrito Federal com cotação em
mercado;

títulos e valores mobiliários com cotação em mercado;

veículos de via terrestre;

bens imóveis;

bens móveis em geral;

semoventes;

navios e aeronaves;

ações e quotas de sociedades simples e empresárias;

percentual do faturamento de empresa devedora;

pedras e metais preciosos;

direitos aquisitivos derivados de promessa de compra e venda e de alienação fiduciária em


garantia;

outros direitos.

A penhora em dinheiro é prioritária. Isso significa que, pela redação legal, não se pode
penhorar nenhum outro bem se houver dinheiro disponível. Para fins de substituição da penhora,
equiparam-se a dinheiro a fiança bancária e o seguro-garantia judicial, desde que em valor não
inferior ao do débito constante da inicial, acrescido de 30%.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

258
O juiz pode, nas demais hipóteses, alterar a ordem prevista no art. 835 do CPC, desde que
existam circunstâncias do caso concreto que justifiquem a medida.

Dinheiro abrange as seguintes formas:

em espécie (ex: dentro de um cofre, “debaixo do colchão”; é o “dinheiro vivo”);

em depósito (ex: na conta corrente do devedor);

em aplicação em instituição financeira (ex: dinheiro investido em CDB).

Segundo o STJ, a cota de fundo de investimento não se subsume à ordem de preferência


legal disposta no inciso I do art. 835 do CPC/2015 (art. 655 do CPC/1973). Em outras palavras, as
cotas de fundo de investimento não podem ser consideradas como dinheiro aplicado em
instituição financeira (recurso repetitivo). As cotas de fundo de investimento se enquadram no
inciso dos títulos e valores mobiliários com cotação em mercado.

No mesmo julgado, o STJ decidiu que a recusa da nomeação à penhora de cotas de fundo
de investimento, reputada legítima a partir das particularidades de cada caso concreto, não
encerra, em si, excessiva onerosidade ao devedor, violação do recolhimento dos depósitos
compulsórios e voluntários do Banco Central do Brasil ou afronta à impenhorabilidade das
reservas obrigatórias.

Como a penhora é de natureza processual, qualquer lei que discipline a penhora terá
aplicação imediata. Esse é um dos fundamentos para a Súmula 205 do STJ que diz que a Lei 8.009,
que trata da impenhorabilidade dos bens de família, com aplicação aos processos cujas penhoras
tenham sido efetivadas antes da sua vigência. Isso porque se trata de norma de ordem pública e
a penhora é ato processual.

A penhora deve ser instrumentalizada por termo ou por um auto.

Termo de penhora: lavrado por um servidor da justiça. Há indicação de bens por uma das
partes.

Auto de penhora: é lavrado pelo oficial de justiça, no momento em que promove a constrição
desses bens.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

259
Atualmente, esse mandado de penhora não se trata apenas de penhora, mas também de
avaliação do bem.

Portanto, vem o mandado de penhora e avaliação, e atualmente esta avaliação é realizada


no mesmo momento da penhora pelo oficial de justiça. Tanto uma quanto a outra são atos
processuais de atribuição do oficial de justiça.

a) Nomeação de bens

A iniciativa para indicar bens à penhora será do credor, desde a sua petição inicial, quando
requer o início da execução, ou mesmo com a petição que requeira o início do cumprimento de
sentença.

O executado também pode realizar a nomeação de bens. Isso ocorrerá quando

o devedor alegar, e provar, que o bem que está indicando é menos oneroso que o bem
indicado pelo credor;

houver determinação judicial nesse sentido, situação em que quem irá escolher será o
devedor;

houver execução fiscal (art. 8 da Lei 6.830/80).

b) Objeto da penhora

A penhora pode recair sobre bens corpóreos (ex.: veículo) ou bens incorpóreos (ex.: direito
de crédito de alguém).

Se a penhora recai sobre um imóvel que está localizado em outra cidade, não é preciso
carta precatória, podendo ser efetivada por termo nos autos, dispensando carta precatória para
esta finalidade.

Poderá ser penhorado qualquer bem que já se encontra constrito por uma outra
determinação judicial. Nessa hipótese, deverá se observar a ordem das respectivas penhoras.

c) Bens impenhoráveis

O CPC fala apenas em bens impenhoráveis, não fazendo mais a diferença entre bens
relativamente impenhoráveis e bens absolutamente impenhoráveis.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

260
O professor Rodolfo Hartmann faz esta diferença.

A verdade é que o art. 833 vai enumerar os casos de impenhorabilidade:

são impenhoráveis os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à
execução;

são impenhoráveis os móveis, os pertences e as utilidades domésticas que guarnecem a


residência do executado, salvo os de elevado valor ou os que ultrapassem as necessidades
comuns correspondentes a um médio padrão de vida;

são impenhoráveis os vestuários, bem como os pertences de uso pessoal do executado, salvo
se de elevado valor;

são impenhoráveis os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os


proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as quantias
recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e de sua família,
os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional liberal, salvo no caso de
prestação alimentícia;

são impenhoráveis os livros, as máquinas, as ferramentas, os utensílios, os instrumentos ou


outros bens móveis necessários ou úteis ao exercício da profissão do executado;

são impenhoráveis o seguro de vida;

são impenhoráveis os materiais necessários para obras em andamento, salvo se essas forem
penhoradas;

são impenhoráveis a pequena propriedade rural, assim definida em lei, desde que trabalhada
pela família;

são impenhoráveis os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação
compulsória em educação, saúde ou assistência social;

são impenhoráveis a quantia depositada em caderneta de poupança, até o limite de 40


(quarenta) salários-mínimos (para conta corrente será necessária uma interpretação
extensiva);

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

261
são impenhoráveis os recursos públicos do fundo partidário recebidos por partido político,
nos termos da lei;

são impenhoráveis os créditos oriundos de alienação de unidades imobiliárias, sob regime


de incorporação imobiliária, vinculados à execução da obra (é uma forma de garantir uma
obrigação regida pelo direito do consumidor e garantir o direito fundamental à moradia).

Para Rodolfo Hartmann ainda há a possibilidade de impenhorabilidade relativa, que é


aquela hipótese em que as partes podem renunciar a proteção outorgada por lei, como é o caso
do art. 834.

Este dispositivo diz que podem ser penhorados, à falta de outros bens, os frutos e os
rendimentos dos bens inalienáveis. Há uma possibilidade de penhora que num primeiro momento
não seria possível. Isso porque o fruto do bem inalienável não pode ser objeto de penhora, mas
se não houver outros bens penhoráveis, apesar do bem em si ou do bem inalienável não poder
ser penhorado.

d) Modificações da penhora

O CPC prevê diversas modalidades de modificação da penhora:

modificação da penhora por remição (pagamento);

modificação da penhora por substituição;

modificação da penhora por repetição;

modificação da penhora por redução;

modificação da penhora por ampliação da penhora.

i. Modificação da penhora por remição (pagamento)

A modificação da penhora por remição se dá pelo pagamento.

O executado, antes de serem adjudicados ou alienados os bens, objetos de penhora, pode


remir a execução, consignando a importância atualizada da dívida e dos demais consectários.

ii. Modificação da penhora por substituição

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262
A modificação da penhora por substituição da penhora se dá quando ocorre uma das
hipóteses previstas no CPC, como, por exemplo, se a penhora tiver recaído sobre bem objeto de
gravame, mesmo o executado tendo outros bens livres, poderá fazer a substituição da penhora
(art. 848).

iii. Modificação da penhora por repetição, por redução ou por ampliação da penhora

Essas hipóteses de modificação da penhora por repetição, por redução ou por ampliação
da penhora são mais simples.

As hipóteses que autorizam a repetição estão no CPC. Se estão executados os bens, o


produto da alienação chega até as mãos do credor, mas ele não é suficiente para o pagamento
do exequente; poderá, então, haver a repetição da penhora.

A redução da penhora ocorrerá quando a penhora tiver abrangido bens mais que
suficientes à satisfação do débito, podendo reduzi-los para que apenas os bens suficientes sejam
penhorados.

A ampliação da penhora é o reforço, abrangendo bens que se mostrem inferiores ao valor


do débito, motivo pelo qual deve ser reforçada a penhora.

e) Depositários dos bens penhorados

Os bens penhorados ficam preferencialmente em poder do exequente, caso não haja


depósito judicial.

Só ficarão estes bens em poder do executado, apesar de penhorados, nos casos em que
seja de difícil remoção do bem ou com a autorização do credor.

Existe a possibilidade de ser nomeado um depositário judicial, que é uma terceira pessoa,
a qual poderá declinar dessa tarefa, tanto é que a Súmula 319 do STJ diz que o encargo de
depositário de bem penhorado pode ser expressamente recusado.

f) Modalidades de penhora

São modalidades de penhora:

penhora em dinheiro ou em depósito numa instituição financeira;

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

263
penhora de crédito;

penhora de quota ou penhora de ação;

penhora de empresa, estabelecimento ou de semovente;

penhora de um percentual de faturamento de empresa.

i. Penhora em dinheiro ou em depósito numa instituição financeira

Essa penhora em dinheiro ou penhora em depósito numa instituição financeira é


popularmente conhecida como penhora on line.

O art. 854 diz que o juiz, se houver requerimento do exequente, vai requisitar à autoridade
supervisora do sistema bancário que lhe dê informações sobre a existência de ativos em nome do
executado, podendo o juiz determinar que haja a indisponibilidade de ativos até o valor indicado
na execução.

Essa providência não viola a intimidade do executado, visto que as informações se


restringem à existência de um depósito ou de uma aplicação até o valor indicado na execução.

Embora não esteja claramente expresso no CPC, a jurisprudência vem admitindo inclusive
a hipótese de arresto on line, e não apenas de penhora.

Em termos técnicos, a penhora é realizada após a citação, e o arresto ocorre


anteriormente à citação.

ii. Penhora de crédito

A penhora poderá ser em dinheiro, mas também poderá ser penhora de créditos.

Nessa hipótese, o título ou documento que representa o crédito deverá ser apreendido.

O CPC prevê que seja designada uma audiência especial na execução para que haja
depoimento do executado e do terceiro sobre o crédito.

Portanto, há possibilidade de se instaurar um incidente cognitivo nesse caso, durante a


execução, caso tenha sido de crédito a penhora.

iii. Penhora das quotas ou penhora das ações de sociedades

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

264
A penhora poderá se dar sobre as quotas ou sobre as ações de sociedades.

Aqui há uma penhora extremamente complexa, visto que há a necessidade de que a


sociedade, num prazo não superior a 3(três) meses, cumpra uma série de providências, como a
apresentação de um balanço especial, já que será feita a penhora das quotas ou penhora das
ações de sociedades.

Existe uma previsão de que a própria sociedade, se houver a penhora, poderá comprar
essas quotas em questão, desde que se trate de sociedade limitada.

A sociedade anônima não poderá realizar a compra das suas próprias quotas nesses
moldes.

Existem normas prevendo a possibilidade de que haja um leilão judicial específico, caso
em que ocorrerá a venda das quotas e a expropriação dos bens.

iv. Penhora de empresa, estabelecimento ou de semovente

A penhora poderá ser de empresa, de estabelecimento ou de semoventes (ex.: navios,


aeronaves, etc.).

Essa modalidade de penhora de empresa, de estabelecimento ou de semoventes deve ser


adotada em caráter subsidiário, conforme o art. 865. Isso porque o risco é que o administrador
judicial nem saiba gerenciar a empresa ou aquela atividade, situação que levará a empresa à
situação de ruína.

v. Penhora de um percentual de faturamento de empresa

A penhora poderá ser de um percentual do faturamento de empresa.

Nessa hipótese, é recomendável que o juiz exija do executado um demonstrativo que


apresente a média do seu faturamento diário e de suas despesas, a fim de que possa fixar a
penhora num percentual que não vá comprometer a continuidade e o capital de giro da empresa.

O juiz irá nomear um administrador depositário, este prestará contas mensalmente ao


juiz, entregando em juízo as quotas recebidas com os respectivos mensais.

IV. Etapa expropriatória

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

265
O objetivo da etapa expropriatória é promover a alienação de bens do devedor que foram
constritos para que o pagamento do credor fosse viabilizado.

O art. 825 vai dizer que a expropriação poderá ser:

adjudicação;

alienação;

apropriação de frutos e rendimentos de empresa ou de estabelecimentos e de outros bens.

a) Adjudicação

A adjudicação consiste na possibilidade de o exequente ficar com o bem penhorado para


si, pagando o valor que tiver sido avaliado o bem.

O art. 876, §5º, também outorga a possibilidade de adjudicar o bem aos credores
concorrentes que tenham penhorado o mesmo bem.

Também poderá adjudicar o bem o cônjuge, companheiro, descendente ou ascendente


do executado.

Em caso de concurso de legitimados, vencerá quem ofereceu a melhor oferta.

No caso de igualdade de condições, terá preferência o cônjuge, companheiro,


descendente ou ascendente do executado, nesta ordem.

A lei processual não estabelece pontualmente qual é o termo final para que a adjudicação
seja requerida.

Como a arrematação em leilão é considerada perfeita após a assinatura do auto pelo juiz,
a doutrina vai entender que antes dessa assinatura poderá ser desfeita essa arrematação se um
dos legitimados requerer a arrematação. Depois da assinatura não poderá mais. Portanto, este
será o termo final, apesar de o CPC não dizê-lo expressamente.

Realizada a adjudicação, e após ser assinado o seu auto, a adjudicação deverá ser
considerada perfeita e acabada.

b) Alienação por iniciativa particular

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

266
Se não foi efetivada a adjudicação, o requerente poderá requerer a alienação por sua
própria iniciativa.

Nesse caso, poderá ser por intermédio de um leiloeiro, desde que credenciado no órgão
judiciário, ou corretor de imóveis.

O juiz fixará um prazo para que a alienação seja efetivada, fixando a forma de como irá se
dar a publicidade, preço mínimo da alienação particular, condições de pagamento, as garantias e,
se for o caso, as condições de como será a comissão de corretagem, caso haja corretor (art. 880,
§1º).

Corretores e leiloeiros públicos para participar da alienação por iniciativa particular devem
estar em exercício profissional há pelo menos 3 anos, a fim de garantir a idoneidade do ato.

Com a assinatura do auto, há a alienação perfeita e acabada.

Caso seja necessário, será expedido uma carta de alienação do imóvel, a qual servirá para
registro imobiliário, ou, se for um bem móvel, será expedido um mandado de entrega daquele
bem móvel.

c) Alienação em leilão judicial eletrônico ou presencial

A alienação poderá se dar por leilão judicial, seja eletrônico ou presencial.

Essa alienação em leilão judicial acaba sendo a mais comum e tradicional entre todas as
modalidades, embora somente possa ser realizada, caso nenhum legitimado tenha requerido a
adjudicação do bem, ou não tendo havido o requerimento de alienação particular.

A preferência de alienação é por meio eletrônico.

d) Atos preparatórios da etapa expropriatória

Na primeira etapa é elaborado um edital, contendo todas as exigências elencadas no CPC,


tais como a informação do valor do bem, descrição do bem, existência de eventuais ônus reais
sobre o bem, preço mínimo e alerta sobre a possibilidade de segundo leilão, caso o primeiro não
tiver sido frutífero por ausência de interessados.

Tanto a publicidade como a arrematação poderão ocorrer por meio da internet.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

267
O leilão é realizado preferencialmente por meio eletrônico.

O devedor será intimado da data da realização do local em que ocorrerá o leilão. Será
intimado, pois poderá comparecer ao leilão e manifestar seu interesse em remir o bem, conforme
autoriza o CPC.

i. Licitação

No dia e horário previsto no edital, será realizado o primeiro leilão.

O exequente tem legitimidade para participar do leilão, visto que ele pode pagar um preço
menor no leilão.

A condução da arrematação poderá ser feita de forma isolada para cada bem penhorado
ou em favor do interessado em arrematar o bem globalmente (art. 893).

O magistrado poderá decidir, durante o leilão, sobre eventuais propostas convenientes


para o pagamento, tal como o pagamento parcelado.

Como regra, aquele que arremata deve pagar imediatamente o preço, seja por meio de
um depósito judicial seja por meio eletrônico, salvo pronunciamento judicial em sentido
contrário.

Se o arrematante não apresentar o preço, o que acontece?

Nesse caso, o juiz vai impor, em favor do exequente, a perda da caução.

Se o arrematante arrematou, oferecendo uma caução de 10 mil reais, mas na hora desistiu
de efetuar o depósito. Consequentemente, ele perderá o valor da caução, pois será necessário
realizar um novo leilão.

ii. Assinatura do auto

Feita a arrematação será considerada feita, acabada e irretratável com a assinatura do


auto pelo magistrado, pelo arrematante e pelo leiloeiro.

Após assinado o auto, será expedido em favor do vencedor do leilão uma carta de
arrematação, sendo título idôneo para averbar no registro de imóveis, desde que se trate de
arrematação de um bem imóvel.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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iii. Causas de nulidade, ineficácia ou resolução da arrematação

As hipóteses que tornam a arrematação sem efeito estão no CPC.

Tais matérias podem ser alegadas por qualquer interessado no prazo de 10 dias, contados
da assinatura do auto, que torna perfeita a arrematação.

O magistrado irá analisar essa alegação nos próprios autos do processo.

Poderá haver a nulidade da arrematação se tiver havido o preço vil (art. 891). Há decisão
do STJ no sentido de que menos de 50% do valor da avaliação é preço vil.

Pode-se considerar a arrematação ineficaz se o bem gravado por hipoteca, anticrese ou


penhor tenha sido objeto da arrematação, mas o credor pignoratício, hipotecário ou anticrético
não foi intimado para participar.

Ainda, será resolvida a arrematação, caso não tenha sido pago o preço pelo devedor, ou
sequer exibida a caução.

Portanto, há causas de nulidade da arrematação, ineficácia da arrematação e causas de


resolução da arrematação, esta última ocorrendo quando o sujeito arremata, mas não paga a
arrematação.

Passado o prazo de 10 dias, e ninguém apresentou petição nenhuma. Nesse sentido,


haverá a expedição da carta de arrematação pelo juiz.

Caso a arrematação tenha sido realizada antes do julgamento de pedido constante nos
embargos, e o embargante vencido o pleito nos embargos, isto não implicará ineficácia ou mesmo
nulidade do ato expropriatório.

O que vai acontecer é que o embargante terá direito de obter do embargado o valor que
este recebeu pela arrematação, mas a arrematação continua perfeita.

V. Evicção

Na evicção há a perda de um bem por motivo de rescisão judicial, relacionada à causa pré-
existente ao contrato.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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O art. 447 diz que, nos contratos onerosos, o alienante responde pela evicção. Subsiste
essa garantia ainda que a aquisição tenha se dado em leilão.

Nessa situação, em que alguém que não participa do feito teve um bem constrito irá opor
embargos de terceiro.

Caso a execução já esteja extinta, poderá opor embargos de terceiro? NÃO, mas poderá
exercer a sua pretensão em demanda autônoma.

VI. Penhora de frutos e rendimentos de coisa móvel ou imóvel

Essa penhora vem sendo adotada quando se revela menos gravosa ao devedor.

O art. 868 prevê a necessidade de ser nomeado um administrador depositário, no caso de


penhora de frutos e rendimentos de coisa móvel ou imóvel.

Se for possível que uma das partes assuma a condição de administrador depositário não
haverá problema, desde que a outra parte concorde com isso.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Processos nos Tribunais

Processos nos Tribunais

Os incidentes processuais são etapas que ocorrem durante o processamento para criação
de uma decisão, devendo passar por dois órgãos distintos do mesmo Tribunal.

Os incidentes nos tribunais implicam deslocamento funcional, mas horizontal, fazendo que
com isso haja implicações na resolução da decisão final.

I. Incidente de assunção de competência

Este incidente pode ser instaurado durante o julgamento de um recurso, remessa


necessária ou causa de competência originária de Tribunal.

Deve ser adotado quando houver uma questão de direito repetitiva, mas que não possa
ser considerada como uma demanda serial, ou seja, que justificaria sobrestamento de recurso, ou
que fosse decidido por embargos de divergência.

Aqui há uma questão de direito de relevante.

Quais são as atividades que um amicus curiae tem no processo?

O CPC não é claro. Sem dúvida é possível verificar que se trata de uma questão relevante
de direito, mas isto não dará ensejo a processos repetitivos, visto que terá intervenção do amicus
curiae em processos que sejam absolutamente distintos entre si. E esses processos não têm
ligação entre eles, não havendo falar em demanda serial.

De qualquer modo, por se tratar de uma questão relevante, será necessário discutir o
ponto por meio do incidente de assunção de competência.

a) Finalidade

A finalidade do incidente é prevenir eventuais divergências em decisões proferidas no


mesmo Tribunal em diferentes Turmas ou Câmaras.

b) Legitimidade
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O próprio Relator do processo poderá propor o início do incidente, seja de ofício ou por
meio de requerimento das partes, ou ainda do Ministério Público ou da Defensoria Pública (art.
974, §1º).

c) Procedimento

Aceito o incidente, os autos serão encaminhados para o órgão colegiado que tem a
competência para dirimir a questão, segundo o regimento interno do Tribunal.

Após, será proferida uma decisão pelo órgão colegiado, estabelecendo a tese que será
aplicável àquele caso e aos casos futuros.

Essa tese fixada deverá ser observada por todos os órgãos do Tribunal, inclusive pela
primeira instância.

d) Incidente de assunção de competência x embargos de divergência

O incidente de assunção de competência não se confunde com os embargos de


divergência.

No incidente de assunção, há um incidente processual, o qual é empregado antes da


decisão final do processo que gerou o incidente.

Nos embargos de divergência há um recurso, devendo ser empregado após a decisão final
do órgão.

II. Incidente de arguição de inconstitucionalidade

O incidente de arguição de inconstitucionalidade é utilizado apenas para o controle de


constitucionalidade difuso perante tribunal, pois é aqui que há a cláusula de reserva de plenário.

Durante o processamento de um recurso ou mesmo de um caso de remessa necessária,


ou competência originária, pode ocorrer o controle de constitucionalidade difuso.

Esse controle difuso poderá ser suscitado para fins de reconhecimento de


inconstitucionalidade, e isto poderá ser suscitado por qualquer ministro ou desembargador que
esteja atuando no caso, ou mesmo pelo Ministério Público ou pela parte. A lei autoriza até mesmo
que um terceiro interessado levante essa inconstitucionalidade.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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Feita esta questão, o órgão fracionário do Tribunal vai deliberar se é ou não consistente a
arguição de inconstitucionalidade levantada.

Se por maioria, ou por unanimidade, for entendido que a questão é relevante, então será
lavrado um acórdão, sendo determinada uma suspensão imprópria do processo, pois irá
continuar correndo para resolver esta questão da inconstitucionalidade do dispositivo.

Há a suspensão imprópria do processo para que a questão de inconstitucionalidade seja


definido pelo Pleno do Tribunal ou pelo Órgão Especial do Tribunal. Veja que há uma cisão
horizontal da competência.

A CF, em seu art. 97, ressalta o princípio da reserva do plenário, estabelecendo que
somente pelo voto da maioria absoluta de seus membros ou dos membros do respectivo órgão
especial, poderão declarar a inconstitucionalidade de lei ou de ato normativo do poder público.

Este dispositivo é que desautoriza o órgão fracionário, quando ele levanta uma questão de
inconstitucionalidade, ele mesmo resolver. E portanto deve remeter ao órgão especial ou ao pleno
do tribunal.

Não há essa necessidade de fazer essa remessa quando já houver manifestação do


plenário do Tribunal ou do órgão especial sobre o tema, ou ainda quando o STF já tiver
enfrentado a alegada inconstitucionalidade.

Durante o processamento do incidente, pessoas jurídicas de direito público, responsáveis


pela edição do ato, poderão se manifestar.

A parte legitimada para a propositura de uma ação de controle abstrato de


constitucionalidade daquele ato normativo também, se quiser, poderá se manifestar.

Considerando a relevância da matéria e representatividade dos postulantes, é possível que


o relator venha admitir a manifestação de outros órgãos. É a ideia do amicus curiae participando,
permitindo maior legitimidade de atuação do Judiciário.

Após a decisão pela maioria absoluta do Pleno ou do Órgão Especial, os autos retornam ao
órgão fracionário, o qual irá prolatar a decisão final, seguindo a tese jurídica adotada pelo pleno
ou pelo órgão especial.

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III. Incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR)

O incidente de resolução de demandas repetitivas é uma novidade.

Para se instaurar este incidente é necessário que haja repetição de processos que tenham
controvérsia sobre questão unicamente de direito, implicando risco à isonomia e à segurança
jurídica.

Veja os requisitos:

• processos repetitivos

• mesma questão de direito

• risco de violação à isonomia e à segurança jurídica

São legitimados para levantar o IRDR:

• Partes

• Ministério Público

• Defensoria Pública

• De ofício pelo juiz

O IRDR é instaurado através de um requerimento dirigido à Presidência do Tribunal.

O órgão responsável pelo julgamento do IRDR é aquele que o regimento interno do


tribunal indicar.

Admitido o IRDR, será distribuído. O Relator irá determinar a suspensão dos processos
individuais e coletivos pendentes, bem como requisitará informações aos órgãos em cujo juízo
discuta o objeto do IRDR.

Esse sobrestamento poderá durar até 1 ano. Esgotado esse prazo, voltarão a correr,
independentemente do julgamento.

Pode o desembargador determinar que a suspensão permaneça por mais de 1 ano, desde
que haja motivação.

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O Relator poderá admitir que o amicus curiae se manifeste no processo. Poderá ainda
designar audiência pública para ouvir pessoas com experiência e conhecimento na matéria
repetitiva.

Após, é designada data de julgamento.

No julgamento, o Relator expõe os fatos para julgamento. Na sequência, é aberta


sustentação oral das partes pelo prazo de 30 minutos. Feita a sustentação oral, será proferida a
decisão. Depois, será firmada a tese jurídica.

No caso do IRDR, ainda é apreciado o recurso, a remessa necessária ou o caso de


competência originária, situação na qual, além de resolver a tese fixada, resolverão também o
caso que originou o incidente.

Firmada a tese, todos os órgãos do tribunal deverão seguir a tese.

A falta de observância da decisão por qualquer magistrado, será admissível reclamação,


dirigida ao Tribunal.

IV. Incidente de suspensão da segurança ou da tutela provisória de urgência

Este incidente é utilizado pela Fazenda Pública, sendo reconhecido como requerimento de
suspensão da segurança, ou suspensão de tutela provisória de urgência antecipada.

A natureza jurídica desse incidente é objeto de divergência:

1ªC: o incidente de suspensão da segurança ou da tutela provisória de urgência é um


recurso.

2ªC: é sucedâneo recursal.

3ªC: é um incidente de suspensão da segurança, tendo natureza de incidente processual


(Samer e Hartmann).

Este incidente é absolutamente inábil para promover a reforma ou anulação de uma


decisão jurisdicional.

Este incidente tem o objetivo de sustar a eficácia de uma decisão, a fim de que uma lesão
seja evitada.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

275
a) Legitimidade

É legitimado para fazer o requerimento da suspensão da segurança:

• pela Fazenda Pública (art. 4º da Lei 8.437)

• pelo Ministério Público

A jurisprudência amplia esse rol, autorizando que este pleito possa ser dar por empresa
pública, sociedade de economia mista e por pessoas jurídicas de direito privado que se
encontrarem em exercício de alguma função pública.

Esse incidente vai se justificar em razão da supremacia do interesse público.

b) Competência para decisão

Esse requerimento é formulado ao Presidente do Tribunal.

Depois de preclusas as vias para impugnar a decisão do tribunal inferior, é possível que a
suspensão da segurança ou a suspensão da tutela provisória de urgência sejam dirigidos ao STJ
ou ao STF, desde que haja uma questão constitucional ou de lei federal envolvida.

c) Procedimento

O interessado apresenta o requerimento, narrando o motivo pelo qual a decisão judicial


deve ser suspendida, como é o caso de grave lesão à ordem, saúde, segurança, economia pública,
etc.

O presidente do tribunal, diante do caso, poderá:

• determinar que a peça seja emendada

• indeferir a suspensão

• deferir a suspensão sem oitiva da outra parte

• determinar que primeiramente seja ouvida a outra parte para depois se manifestar.

O prazo para oitiva da outra parte e o prazo para oitiva do MP é de 72 horas.

Concedida ou não a suspensão, é cabível o recurso de agravo interno, já que a decisão foi

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

276
do presidente do tribunal.

Concedida a suspensão, está suspendida a eficácia da decisão que concedeu a segurança


ou a tutela provisória. Essa suspensão irá vigorar enquanto não transitar a decisão de mérito
posteriormente nos autos principais.

Só quando ela transita em julgado é que esta suspensão cai, passando a produzir efeitos.

IV. Ação rescisória

A ação rescisória é o meio processual por meio do qual se busca rescindir uma decisão
transitada em julgado e eventualmente não apenas rescindir, mas também rejulgar a matéria que
ali está.

A ação rescisória tem a finalidade de desconstituir um ato decisões transitado em julgado,


e que está impregnado de um vício muito grave, o qual é denominado de rescindibilidade.

Essa desconstituição da decisão transitada em julgada é denominado juízo rescindente. E


toda ação rescisória que tem o seu pedido julgado procedente implica juízo rescindente.

Ultrapassado o juízo rescindente, o Tribunal irá analisar se a hipótese autoriza o juízo


rescisório, que é o novo julgamento da pretensão material, sendo este o juízo rescisório.

Perceba que toda a ação rescisória terá um juízo rescindente, caso tenha um julgamento
procedente, muito embora nem sempre ocorrerá juízo rescisório.

a) Decisões judiciais que podem ser rescindidas

A rescindibilidade é um vício processual de enorme gravidade, surgindo este vício após o


trânsito em julgado. Antes disso é denominado nulidade absoluta.

São diversas as decisões judiciais que podem ser rescindidas.

Se houver há análise do mérito e ocorrer coisa julgada material, esta decisão é passível
de ação rescisória. Então, poderá ser um acórdão, sentença, decisão monocrática, decisão
interlocutória que tenha resolvido parcialmente o mérito, etc.

• O CPC passa a admitir a ação rescisória contra decisões que não enfrentaram o mérito
da causa também. Naqueles casos em que há decisões de cunho terminativo, mas que
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

277
impede a propositura de uma nova demanda. Ex.: decisão que pronuncia litispendência
não faz coisa julgada material, pois não enfrenta o mérito da decisão. Porém pode-se
oferecer ação rescisória, pois a partir daquele momento não se pode propor outra ação,
já que se reconheceu que havia litispendência ou coisa julgada. Apesar de ela não fazer
coisa julgada material, ela impede a propositura de nova ação. Neste caso, cabe ação
rescisória.

• O CPC admite que, quando haja uma decisão que não tenha recebido um recurso. Ex.:
Relator tenha agido com corrupção, situação na qual não recebeu um recurso. Neste
caso, caberia ação rescisória.

Portanto, são esses os casos em que, ainda que não haja coisa julgada material, seria
possível ação rescisória.

b) Competência

A ação rescisória é uma ação de competência originária de Tribunal.

Se estamos tratando de juízo federal de 1ª instância ou TRF que decidiu, será de


competência do TRF a ação rescisória. Se estamos tratando de juízo estadual de 1ª instância ou TJ
que decidiu, será de competência do TJ a ação rescisória.

Existe uma divergência quando se tratar de uma sentença proferida por um juízo
estadual, cuja ação rescisória tenha sido ajuizada pela União, na condição de terceiro
interessado.

A competência aqui será do TJ ou do TRF?

O STF e o STJ têm entendido que a competência é do Tribunal Regional Federal, havendo
o deslocamento de competência, já que a União interveio no feito.

Havendo recurso extraordinário ou especial, tendo sido este recurso conhecido e


prolatado uma decisão de mérito pelo Tribunal Superior, caberá a este Tribunal Superior processar
e julgar eventual ação rescisória. Isso porque, a partir do momento em que conheceu da decisão,
há o efeito substitutivo do recurso.

É preciso mencionar que existe norma nos Juizados Especiais que proíbe a via de ação

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

278
rescisória no procedimento dos juizados, seja qual for a espécie (federal, estadual ou fazendário).

c) Prazo para ajuizamento

O prazo para ajuizamento da ação rescisória é de 2 anos, contados do trânsito em julgado


da decisão de mérito.

i. Prazo para ajuizamento quando o recurso não tiver sido conhecido

Atente-se que, se o recurso não tiver sido conhecido, o prazo para ajuizamento da ação
rescisória será contado dessa inadmissão a fim de que o sujeito possa interpor ação rescisória.

Ex.: sujeito teve uma decisão contra ele no TJ. Interpôs recurso especial. Após 3 anos, saiu
a decisão inadmitindo o recurso especial. Já havia transitado em julgado a decisão do TJ. No
entanto, o STJ editou a súmula 401, estabelecendo que o prazo decadencial da ação rescisória só
se inicia quando não for cabível qualquer recurso do último pronunciamento judicial.

Se for o caso de não cabimento do recurso, o prazo para a ação rescisória será contado a
partir do momento em que transitou em julgado da decisão que não cabia o recurso.

É o que consta literalmente no CPC (art. 975).

Ou seja, se houve recurso, e este recurso foi inadmitido, este prazo de 2 anos será
contado dessa inadmissão a fim de que o sujeito possa interpor ação rescisória.

ii. Prazo para ajuizamento da ação rescisória quando se tratar de decisão objetivamente
complexa, sem que todos sejam impugnados

A decisão objetivamente complexa é aquela que tenha mais de um capítulo.

Ex.: há dois pedidos: indenização por danos morais e indenização por danos materiais. O
autor foi vitorioso nos dois pleitos, mas impugnou um deles só, em relação ao valor arbitrado para
danos morais, sustentando a sua majoração.

Houve um fracionamento da resolução do mérito.

Neste caso, há no mesmo processo a possibilidade de duas ações rescisórias, pois uma
transitou em julgado e a outra irá transitar dentro de dois anos.

O STF adotou o entendimento de que se admite ação rescisória contra sentença transitada
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

279
em julgado, ainda que contra ela não se tenha esgotado todos os recursos. (Súmula 514).

Haveria, portanto, a possibilidade de fracionamento da coisa julgada.

Veja, o CPC diz, no art. 966, §3º, que a ação rescisória pode ter por objeto apenas 1 (um)
capítulo da decisão.

Perceba que o NCPC vai na linha do STJ, estabelecendo que o trânsito em julgado da
sentença tenha momento distintos, podendo cada capítulo transitar em julgado em momentos
diferentes, apesar de outro capítulo estar sendo discutido.

O STJ, porém, vem propondo uma solução distinta. Para o STJ, bastaria o ajuizamento de
uma única ação rescisória. E esse prazo bienal se iniciaria apenas com a formação da coisa julgada
no último capítulo meritório. Este entendimento é minoritário. Trata-se da denominada coisa
julgada progressiva.

A coisa julgada progressiva é a hipótese em que capítulos autônomos não teriam


transitado em julgado autonomamente, e sim conjuntamente, ou seja, quando ocorresse a
preclusão máxima da última decisão proferida no processo. A ideia é ter apenas o trânsito em
julgado conjunto, tendo a coisa julgada apenas quando houvesse a preclusão máxima.

Vale atentar a relevância do assunto, pois o trânsito em julgado em capítulos diferentes


gera reflexos diretos à competência. Isso porque se foi transitado em julgado um ponto com o juiz
de primeira instância, caberá ao TJ analisar a ação rescisória. Caso fosse com o trânsito em julgado
máximo, poderia a questão ser julgada pelo STJ.

iii. Prazo para ajuizamento da ação rescisória fundada em simulação ou colusão das
partes

Há aqui uma ação rescisória com intuito de reconhecer que a decisão de mérito foi
prolatada num processo em que ambas as partes atuaram em conluio.

Haverá o prazo de 2 anos para ajuizamento da ação rescisória, mas o termo inicial desses
2 anos é o momento em que a simulação ou a colusão vieram à tona, ou seja, foram descobertas
(art. 975, §3º).

iv. Prazo para ajuizamento da ação rescisória fundada em prova nova

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

280
Aqui, há uma ação rescisória quando o autor da ação rescisória tiver obtido uma prova
nova, cuja existência ignorava, pois não se podia fazer uso, ou seja, capaz de, por si só, assegurar
o pronunciamento desfavorável.

É necessário que essa prova seja forte, ao ponto de garantir, por si só, o julgamento
favorável.

A parte poderá propor a ação rescisória no prazo de 2 anos, sendo contado da descoberta
desta prova. Contudo, o CPC estabeleceu que esta descoberta deva ocorrer em até 5 anos,
contados da data em que ocorrer o trânsito em julgado.

Então, haveria um limite máximo para propositura da rescisória neste caso.

v. Prazo para ajuizamento da ação rescisória fundada em violação à norma jurídica, após
o STF declarar a inconstitucionalidade da lei em que tiver se baseado a decisão de mérito com
efeito retroativo

O STF considerou a lei inconstitucional, não modulou os efeitos da declaração, tendo o


sujeito uma decisão contra ele proferida transitada em julgado, a qual se baseou naquele
dispositivo legal, e agora quer propor ação rescisória.

É a situação denominada sentença inconstitucional.

O CPC passa a prever que é possível ajuizar ação rescisória em cada processo em que tenha
aplicado essa lei inconstitucional, alegando que haveria a violação à norma jurídica.

O prazo é de 2 anos, contado a partir da decisão do STF que reconheceu a


inconstitucionalidade da lei.

O art. 1.057 do CPC diz que este raciocínio só é aplicado a decisões que transitaram em
julgado após a vigência do CPC. A decisão que transitou em julgado, por exemplo, em julho de
2016, mas em agosto de 2016, o STF julgou inconstitucional, haverá o prazo de 2 anos para propor
a rescisória, a partir da decisão do STF (agosto de 2016) para que possa ver rescindida a decisão.

Se a decisão do STF foi proferida em agosto de 2016, mas a sentença contra ele foi em
janeiro de 2015, ou seja, sob a vigência do CPC/73, não poderá propor esta rescisória.

Ou seja, a decisão deve ter transitado em julgado após o início da vigência do CPC/2015.
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d) Legitimidade para o ajuizamento da ação rescisória

Poderá ajuizar a ação rescisória pela:

• Próprias partes da relação processual primitiva

• Ministério Público

• Terceiro juridicamente interessado

A ação rescisória pelo MP poderá ser ajuizada quando ele tiver sido parte principal ou
como fiscal da lei no processo originário.

Ademais, poderá o Ministério Público ajuizar ação rescisória para rescindir decisão de
mérito, ainda que não tenha sequer participado como parte ou como fiscal da ordem jurídica,
desde que se perceba que no processo primitivo houve colusão ou simulação entre as partes.

e) Hipóteses em que se autoriza o ajuizamento da ação rescisória

i. Juiz peitado

O art. 966, I, estabelece que caberá ação rescisória quando a decisão tiver sido proferida
por um juiz que está lotado em primeira instância, e que tenha praticado com essa sua decisão,
um crime de prevaricação, concussão, corrupção ou peculato. Ou seja, ele se vale da sua decisão
como um meio para praticar um rime.

Também é possível quando tais crimes tiverem sido praticados por um desembargador ou
ministro.

Atente-se que deverá ser verificado que, sendo desembargador ou ministro, e se o voto
proferido foi determinante ou não para a conclusão do julgado. Isso porque se não foi
determinante não irá mudar nada do voto.

Não existe a necessidade de que tenha sido instaurado processo penal para que se
proponha ação rescisória.

Se o juiz peitado se limitou a proferir apenas uma sentença e o Tribunal realizou o juízo
rescindente, o Tribunal poderá fazer também o juízo rescisório.

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282
Se o juiz peitar e proferir uma sentença com o crime de concussão, caberá rescisória neste
caso.

Se outro juiz presidiu a audiência e conduziu o processo todo, mas na hora em que o
processo estava concluso para a sentença, o juiz entrou de férias, tendo o substituto, cometendo
o crime de prevaricação, prolatado a sentença, o Tribunal promoverá o juízo rescindente, mas
nada impede que também promova o juízo rescisório, já decidindo o mérito.

Se o juiz que comete o crime praticar outros atos no processo, como presidiu a audiência,
não poderá o Tribunal realizar o juízo rescisório, limitando-se apenas ao juízo rescindente.

ii. Incompetência absoluta do juízo e magistrado impedido

O art. 966, II, contempla duas situações distintas:

• Incompetência absoluta do juízo: como apenas as decisões serão potencialmente


atingidas, o Tribunal poderá realizar o juízo rescindente e o juízo rescisório.

• Magistrado impedido: se tiver apenas prolatado a sentença, o Tribunal irá realizar o juízo
rescindente e o juízo rescisório. No entanto, se o magistrado impedido tiver praticado
todos os atos do processo, aí o Tribunal deverá apenas fazer o juízo rescindente.

iii. Colusão, simulação, coação ou dolo da parte vencedora

A colusão e a simulação são atos bilaterais, enquanto a coação ou dolo são unilateral.

Com relação aos atos bilaterais, o termo inicial será a partir do momento em que tiverem
ciência dessa situação de colusão ou simulação entre as partes. Neste caso, é correto concluir
que se o tribunal rescindir a decisão por esse motivo, em seguida o Tribunal deverá julgar o mérito,
fazendo juízo rescisório e julgar improcedente o pedido.

Quando a ação rescisória for motivada por ato unilateral, deverá ser feito uma distinção:

• Em caso de dolo, o prazo de 2 anos da ação rescisória se inicia apenas quando a parte
prejudicada tenha ciência desse dolo engendrado pelo vencedor.

• Em caso de coação, o prazo de 2 anos deve ser contado a partir do término da coação.

Nesses casos de atos unilaterais, o Tribunal sempre fará juízo rescindente. Mas o exercício
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

283
do juízo rescisório vai depender do caso concreto, podendo ou não acontecer.

iv. Ofensa à coisa julgada

Neste caso, um processo anterior já tinha uma sentença transitada em julgado, a qual
deverá ser rescindido, pois violou a coisa julgada material.

O Tribunal realiza apenas um juízo rescindente, já que não é possível realizar um juízo
rescisório por uma sentença idônea anterior.

A controvérsia maior ocorre quando passa o lapso de 2 anos para oferecer ação rescisória
com ofensa à coisa julgada.

Nesse caso, como não cabe rescisória, e se está diante de duas sentenças de mérito
transitadas em julgadas, e completamente distintas, qual delas irá prevalecer?

A jurisprudência e a doutrina vêm se inclinando que deve prevalecer a segunda decisão


em detrimento da primeira. Isso porque há o prazo de 2 anos para rescindir a segunda decisão. Se
não for rescindida a primeira decisão, então deverá prevalecer a segunda decisão.

v. Violação manifesta à norma jurídica

Será cabível ação rescisória quando houver violação manifesta à norma jurídica.

Segundo a Súmula 343 do STF, não cabe ação rescisória por ofensa a literal dispositivo de
lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação
controvertida nos tribunais. Não se pode dizer que há violação manifesta quando o juiz deu uma
interpretação já dada por outros tribunais ou juízes.

Neste caso, não é possível dizer que aquela decisão viola manifestamente norma jurídica.

É de se destacar que o art. 966, §§ 5º e 6º, diz que é cabível ação rescisória contra decisão
baseada em enunciado de súmula ou acórdão proferido em julgamento de casos repetitivos que
não tenha considerado a existência de distinção entre a questão discutida no processo e o padrão
decisório que deu fundamento à súmula ou acórdão proferido em julgamento de casos repetitivos

É a possibilidade de ajuizar ação rescisória quando o juiz sustentar que aplicou a súmula,
mas na verdade aplicou súmula completamente equivocada. O que justificou o enunciado da

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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súmula é justamente o inverso do caso que está agora no feito.

Segundo o §6º, quando a ação rescisória fundar-se na hipótese acima, caberá ao autor,
sob pena de inépcia, demonstrar, fundamentadamente, tratar-se de situação particularizada
por hipótese fática distinta ou de questão jurídica não examinada, a impor outra solução jurídica.

vi. Decisão proferida com base em prova falsa

A decisão teve como fundamento principal uma prova falsa, cabendo ação rescisória.

vii. Juntada de prova nova

Caberá ação rescisória para fins de juntada de prova nova.

Neste caso, a juntada de prova nova é a única situação em que há uma rescisória que não
conheça um vício na decisão que transitou em julgado, e sim para discutir a justiça da decisão.

Para ser considerada uma prova nova, esta prova deve ter sido preexistente à prolação da
decisão em virtude de a parte desconhecer aquela prova, ou em virtude não ter podido apresentar
naquele momento.

Essa prova nova deve ser muito forte a ponto de assegurar um pronunciamento favorável
ao indivíduo.

viii. Decisão proferida com erro de fato

O art. 966, §1º, diz que há erro de fato quando a decisão rescindenda admitir fato
inexistente ou quando considerar inexistente fato efetivamente ocorrido, sendo indispensável, em
ambos os casos, que o fato não represente ponto controvertido sobre o qual o juiz deveria ter se
pronunciado.

Considera que um fato aconteceu e haverá o julgamento improcedente, porém o fato não
aconteceu, ou vice-versa.

Se o erro da decisão é de fato é cabível a ação rescisória.

f) Procedimento da ação rescisória

O procedimento da ação rescisória é da seguinte forma:

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285
• Petição:

A petição virá acompanhada com seus requisitos preenchidos. Sendo hipótese de juízo
rescisório, deverá a decisão conter o pedido de juízo rescindente e o pedido para novo
julgamento.

Essa petição inicial deverá conter caução de 5% sobre o valor da causa, a fim que o valor
da calção poderá ser invertido eventualmente à parte contrária. O valor não poderá ser
superior a mil salários mínimos.

A caução será revertida em prol do demandado quando for proferida decisão


monocrática ou acórdão unânime que reconheçam a inadmissibilidade ou a
improcedência do pedido formulado na ação rescisória.

• Despacho liminar de conteúdo negativo:

Após o oferecimento da ação rescisória, poderá haver uma decisão monocrática tanto
terminativa quanto definitiva, admitindo ou rejeitando ação rescisória.

Esse despacho liminar é em verdade uma decisão.

A decisão que conclui que a ação rescisória foi ajuizada fora do prazo decadencial de 2
anos é uma decisão de mérito, pois reconhece a decadência do direito.

• Despacho liminar de conteúdo positivo:

Se o desembargador ou membro do Tribunal entender que os requisitos estão previstos,


determinará a citação do demandado. O art. 970 estabelece que o prazo para resposta
do demandado será fixado entre 15 e 30 dias, a depender do ministro ou desembargador
relator.

• Efeito suspensivo e a concessão de tutela provisória:

O art. 969 diz que propositura de ação rescisória não impede o cumprimento de decisão
rescindenda, ressalvada a concessão de tutela provisória. Via de regra, ação rescisória
não tem efeito suspensivo e não impede a execução da decisão transitada em julgada.

• Defesa do demandado:

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O sujeito é citado para apresentar defesa. Esta poderá ser apresentada por meio de
contestação ou por meio de reconvenção da mesma peça da contestação.

Após a citação, e a defesa do réu (15 ou 30 dias, a depender do desembargador)


apresentará a sua contestação e pode inclusive apresentar reconvenção na mesma peça
da contestação.

Esta reconvenção será admitida quando o demandado também intentar a rescisão do


julgado, mas agora por um fundamento distinto.

Apresentada a defesa, passa-se à instrução processual.

• Instrução processual e etapa superveniente

A dilação probatória é possível, podendo ou não acontecer, sendo feita ou não pelo
Tribunal.

O art. 972 autoriza que sejam expedidas ao juízo de primeira instância cartas de ordem
para que no juízo de primeira instância sejam realizadas provas ou a instrução probatória
(ex.: prova testemunhal).

Se a ação rescisória não tiver sido ajuizada pelo MP, deverá o MP ser intimado para atuar
na condição de fiscal da ordem jurídica.

Encerrada a instrução, o juiz abrirá vista para o demandante ou demandado, a fim de que
sejam apresentados memoriais no prazo de 10 dias. Em seguida, vem a decisão judicial.

• Decisão e recursos

Inicialmente, o Tribunal vai fazer inicialmente o juízo rescindente. Em caso de julgamento


procedente da ação rescisória, ele poderá ou não fazer um juízo rescisório, a depender
do caso.

Quando ambos forem realizados: juízo rescindente e juízo rescisório, haverá, em verdade,
de uma decisão objetivamente complexa, visto que enfrenta dois pedidos distintos.

Essa decisão colegiada desafia embargos de declaração, recurso especial, recurso


extraordinário.

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Pode-se estar diante da técnica processual de julgamento, quando há o pedido da ação
rescisória julgado procedente, mas por maioria.

Poderá ainda convocar magistrados tabelares quando se tratar de decisão não unânime,
no sentido da procedência do pedido.

g) Distinção entre ação rescisória, ação anulatória e querella nullitatis

A ação rescisória já foi falada.

A ação anulatória é um processo de conhecimento, mas a ação anulatória tem natureza


constitutiva negativa, mas é um processo de competência de órgão jurisdicional de 1ª instância.
Essa ação está sujeita a prazo prescricional e não decadencial. O prazo prescricional da ação
anulatória é o mesmo do direito material, motivo pelo qual estaria regulado pelo direito civil.

A querella nullitatis é usualmente interessada quando o réu não foi sequer citado. Para
ele o processo não existiu. Não se está diante de uma ação constitutiva. A competência também
é do juízo de primeira instância, diferentemente do juízo da ação rescisória.

Essa ação não se submete a qualquer prazo decadencial e a qualquer prazo prescricional,
visto que há uma decisão meramente declaratória, a qual declara a inexistência do processo para
aquela parte.

II. Reclamação

A reclamação é um processo de conhecimento, de competência originária de Tribunal.

No art. 988, o CPC diz quando é cabível a reclamação pela parte interessada ou pelo
Ministério Público para:

• preservar a competência do tribunal;

• garantir a autoridade das decisões do tribunal;

• garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo


Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade;

• garantir a observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de


demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência;
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A reclamação pode ser proposta perante qualquer Tribunal e o seu julgamento compete
ao órgão jurisdicional cuja competência pretende-se que seja observada ou preservada.

A reclamação não poderá ser utilizada quando a decisão já tiver transitada em julgado.

A petição inicial de uma reclamação deve vir acompanhada de prova documental.

Não sendo o caso de indeferimento de plano da petição inicial, o Relator despacha,


requisitando informações para que sejam prestadas no prazo de 10 dias.

O Relator poderá inclusive de ofício conceder uma liminar suspendendo a eficácia da


decisão que está sendo questionada na reclamação.

Além disso, deve ser determinada a citação do beneficiário por aquela decisão, o qual
terá 15 dias para apresentar sua contestação.

Apresentada a contestação, será aberta vista ao MP, o qual irá se manifestar, sendo os
autos concluso para julgamento.

Segundo o STF, não é cabível a propositura de reclamação preventiva. A reclamação não


tem caráter preventivo, de modo que não serve para impedir a eventual prática de decisão judicial
ou ato administrativo. O ajuizamento da reclamação pressupõe a existência de um ato que
efetivamente já tenha usurpado a competência do Tribunal, violado a autoridade de alguma de
suas decisões que possua efeito vinculante ou incidido em alguma das outras hipóteses de
cabimento deste instituto.

Recentemente, o STF entendeu que o art. 988, § 5º, II, do CPC/2015 prevê que é possível
reclamação dirigida ao Supremo Tribunal Federal contra decisão judicial que tenha descumprido
tese fixada pelo STF em recurso extraordinário julgado sob o rito da repercussão geral. O CPC
exige, no entanto, que, antes de a parte apresentar a reclamação, ela tenha esgotado todos os
recursos cabíveis nas "instâncias ordinárias".

O STF afirmou que essa hipótese de cabimento prevista no art. 988, § 5º, II, do CPC deve
ser interpretada restritivamente, sob pena de o STF assumir, pela via da reclamação, a
competência de pelo menos três tribunais superiores (STJ, TST e TSE) para o julgamento de
recursos contra decisões de tribunais de 2º grau de jurisdição. Assim, segundo entendeu o STF,

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quando o CPC exige que se esgotem as instâncias ordinárias, significa que a parte só poderá
apresentar reclamação ao STF depois de ter apresentado todos os recursos cabíveis não apenas
nos Tribunais de 2º grau, mas também nos Tribunais Superiores (STJ, TST e TSE). Se ainda tiver
algum recurso pendente no STJ ou no TSE, por exemplo, não caberá reclamação ao STF.

Em suma, nos casos em que se busca garantir a aplicação de decisão tomada em recurso
extraordinário com repercussão geral, somente é cabível reclamação ao STF quando esgotados
todos os recursos cabíveis nas instâncias antecedentes.

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DIREITO PROCESSUAL CIVIL
Recursos

Recursos

Teoria geral dos recursos

I. Conceito de recurso

Conceitua-se recurso como sendo um remédio voluntário, idôneo, apto a ensejar, dentro
do mesmo processo, a reforma, invalidação, esclarecimento ou integração de uma decisão que se
impugna (Barbosa Moreira).

Como o recurso é um remédio voluntário, isto quer dizer que se o duplo grau é garantido
de forma involuntária, não haverá recurso. Portanto, o reexame necessário (recurso de ofício) não
se trata de recurso.

Como o recurso é um remédio voluntário, idôneo, apto a ensejar, dentro do mesmo


processo, a reforma, invalidação, esclarecimento ou integração de uma decisão que se impugna,
isto significa dizer que mandado de segurança, habeas corpus, mandado de injunção, habeas data,
não são recursos, pois não são dentro do mesmo processo.

O recurso mexe com a reforma, invalidação, esclarecimento ou integração.

Quando se busca recorrer de algo, significa que se busca consertar um erro:

• error in judicando

• error in procedendo

a) Error in judicando

No error in judicando há um erro de conteúdo da decisão judicial, ou seja, aquilo decidido


não foi o melhor caminho.

b) Error in procedendo

No error in procedendo a questão não está no conteúdo da decisão judicial, mas há um

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291
vício intrínseco à decisão judicial ou intrínseco ao momento em que a decisão foi proferida. Não
se refere àquilo que está decidido, mas a forma pela qual ou ao momento pela qual foi decidida.

II. Distinção entre recursos e sucedâneos recursais

Sucedâneo recursal é o mecanismo processual que não é recurso, mas que poderá gerar
reforma ou invalidação de uma decisão. Ex.: pedido de reconsideração da decisão.

Ex.: decisão que defira a antecipação dos efeitos da tutela (tutela provisória). Nada obsta
que a outra parte venha peticionar nos autos, requerendo ao magistrado que revogue a tutela.
Esse pedido não tem o condão de suspender a marcha processual, mas pode ser que o juiz
reconsidere a sua decisão.

Neste caso, haverá a reforma da decisão por meio de um sucedâneo recursal.

III. Distinção entre recursos e remessa necessária

Remessa necessária não é recurso, pois não há voluntariedade, apesar de ser possível a
reforma de uma decisão, ou mesmo uma invalidação da decisão.

A remessa necessária se faz presente por conta da necessidade de que a decisão tenha
eficácia, ou seja, relaciona-se com a eficácia de um ato decisório, e ao mesmo tempo tenha de
ser observada para transitar em julgado.

A súmula 423 do STF diz que não transita em julgado a sentença por haver omitido o
recurso "ex-oficio", que se considera interposto "ex-lege".

Se está diante de uma remessa necessária, não há trânsito em julgado enquanto não é
observado.

Haverá remessa necessária nos casos de condenação da Fazenda Pública em que o valor
supere 50 OTN’s.

A Súmula 325 do STJ diz ainda que a remessa oficial devolve ao Tribunal o reexame de
todas as parcelas da condenação suportadas pela Fazenda Pública, inclusive dos honorários de
advogado.

Perceba que quando a fazenda pública perde, há reexame necessário. Quando ela ganha,

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

292
não há.

No entanto, quando sofre parcial procedência, em relação à parte que perdeu, haverá o
reexame necessário, e o Tribunal não teria que apreciar a parte que ela venceu.

A remessa necessária poderá ser dispensada nos casos previstos no art. 496, p. 3o e 4o, do
CPC.

A Súmula 490 do STJ diz que a dispensa de reexame necessário, quando o valor da
condenação ou do direito controvertido for inferior a sessenta salários mínimos, não se aplica a
sentenças ilíquidas.

Entretanto, o art. 496 do novo Código de processo Civil previu que não se aplica o disposto
neste artigo quando a condenação ou o proveito econômico obtido na causa for de valor certo e
líquido inferior a:

I - 1.000 (mil) salários-mínimos para a União e as respectivas autarquias e fundações de


direito público;

II - 500 (quinhentos) salários-mínimos para os Estados, o Distrito Federal, as respectivas


autarquias e fundações de direito público e os Municípios que constituam capitais dos Estados;

III - 100 (cem) salários-mínimos para todos os demais Municípios e respectivas autarquias
e fundações de direito público.

Caso a sentença seja ilíquida, deverá ser submetido ao reexame necessário, pois não se
sabe qual é o valor.

IV. Decisões não sujeitas a recurso

Existem decisões não sujeitas a recurso, tais como despachos, mas aqui se refere a
decisões propriamente ditas.

Existem decisões que não podem ser impugnadas por recursos, por expressa previsão
legal ou por interpretação dada pelos Tribunais Superiores. Ainda que a decisão não admita
recurso, ela irá admitir os embargos de declaração.

Dentre as hipóteses que não se admite recurso estão:

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

293
• acórdão do Pleno do STF que nega reconhecimento de repercussão geral ao recurso
extraordinário interposto.

• sentença terminativa proferida em Juizado Especial Federal

• decisões interlocutórias em sede de Juizado Especial Cível Estadual

É comum para tais hipóteses empregar mandado de segurança, diante da impossibilidade


de se recorrer de decisão interlocutória em sede de Juizado Especial, o qual será julgado pela
Turma Recursal.

Este entendimento não é pacífico, encontrando-se precedente do STF para fazer frente à
impossibilidade de se interpor recurso em face decisão interlocutória em sede de Juizado Especial.

Tais decisões poderão ser impugnadas ou questionadas, mas apenas poderão quando da
sentença. Neste caso, a sentença será prolatada e caberá recurso inominado no prazo de 10 dias.
Neste recurso, questiona-se o conteúdo da sentença, bem como o das decisões interlocutórias
que foram sendo prolatadas ao longo do feito.

V. Princípios recursais

a) Princípio do duplo grau de jurisdição

Não há uma previsão explícita desse princípio na Constituição, apesar de muita gente
defender o contrário. O STF entende que não está previsto.

O princípio do duplo grau de jurisdição permite que o órgão hierarquicamente superior, ou


eventualmente de mesma hierarquia, possa reexaminar a decisão que foi proferida.

b) Princípio da taxatividade

O rol dos recursos é taxativo.

Isto é, a parte só poderá se valer de recurso que tenha previsão legal.

Um dos requisitos de admissibilidade do recurso é justamente o seu cabimento.

O recurso será admissível quando houver previsão legal.

c) Princípio que veda a reforma para pior (reformatio in pejus)

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

294
O princípio da reformatio in pejus tem o objetivo de tranquilizar o recorrente, ou seja,
possibilitando que o recorrente recorra a fim de não agravar a situação pessoal.

Esse princípio, apesar de ter previsão para a defesa na seara processual penal, não tem
previsão expressa no Código de Processo Civil.

Existe uma certa discussão se existiria ou não este princípio, porém normalmente é
observada a existência desse princípio da seara processual civil.

Serão vistos algumas situações de aplicação desse princípio.

i. Sentença terminativa impugnada exclusivamente pelo demandante

Sentença terminativa é sentença que não apreciou o mérito. Ou seja, no caso, o


demandante teve contra si uma sentença terminativa, razão pela qual o demandante apela.

Pode ser que o Tribunal venha a aplicar a teoria da causa madura (art. 1.013, §3º). Essa
teoria estabelece a possibilidade de o Tribunal julgar diretamente o mérito da causa, em virtude
de já estar em condições de imediato julgamento (leia-se: madura).

O CPC/2015 repetiu a regra do § 3º do art. 515 do Código passado. Além disso, acrescentou
três novas hipóteses (incisos II, III e IV). Algumas delas já eram admitidas pela jurisprudência, mas
agora constam expressamente na legislação.

Segundo o referido dispositivo, se o processo estiver em condições de imediato


julgamento, o tribunal deve decidir desde logo o mérito quando:

• reformar sentença que não julgou o mérito;

• decretar a nulidade da sentença por não ser ela congruente com os limites do pedido ou
da causa de pedir;

• constatar a omissão no exame de um dos pedidos, hipótese em que poderá julgá-lo;

• decretar a nulidade de sentença por falta de fundamentação

Aplicando essa teoria, o Tribunal vem e resolve o mérito da causa de forma desfavorável
ao recorrente (demandante). Ou seja, o demandante tinha uma sentença terminativa que não
apreciava o mérito, porém o demandante interpôs o recurso, situação na qual o Tribunal resolveu
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

295
o mérito, julgando improcedente o pedido.

Não haveria aqui a violação à reformatio in pejus?

Professor Rodolfo Hartmann diz que não há. Isso porque não houve reforma, visto que o
mérito não tinha sido apreciado pelo juiz na primeira instância.

ii. Sentença terminativa impugnada exclusivamente pelo demandado

Há uma sentença terminativa impugnada exclusivamente pelo demandado. A situação é


basicamente a mesma.

A questão é saber se o Tribunal, aplicando a teoria da causa madura, poderia resolver o


mérito, mas de forma desfavorável ao demandado.

A verdade é que perfeitamente possível, já que não houve apreciação do mérito e reforma
não há.

iii. Sentença definitiva de procedência parcial impugnada pelo demandante e a


possibilidade de o Tribunal pronunciar de ofício a prescrição

Como houve uma sentença definitiva, houve uma apreciação do mérito, sendo que o
pedido foi julgado parcialmente procedente.

Como esta sentença foi impugnada pelo demandante, seria possível o Tribunal pronunciar
de ofício a prescrição? Veja, o sujeito tem uma sentença em parte favorável, mas resolve recorrer
da parte prejudicial.

Nesta situação, há uma mitigação do princípio que veda a reformatio in pejus, pois
prescrição e decadência são matérias de ordem pública, podendo ser reconhecidas de ofício.
Portanto, a lei permite que se faça a reforma para pior, pois a ordem pública prevalece.

iv. Recurso interposto por uma das partes e decisão mantida pelo Tribunal, embora com
fundamento modificado

O sujeito interpôs o recurso, mas o Tribunal mantém o conteúdo da decisão (ex.: pedido
continua sendo improcedente), mas por outra fundamentação.

Esta situação não implica agravamento da situação do recorrente e nem do recorrido, pois
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

296
acaba sendo mantido o dispositivo da sentença.

Existem casos que a modificação do fundamento traz efeitos reflexos e efeitos negativos.

Rodolfo Hartmann exemplifica o processo coletivo. Neste processo, há o julgamento de


improcedência com base na insuficiência de provas. Como se sabe, esse pedido não transita em
julgado materialmente. Neste caso, o sujeito interpôs recurso, o Tribunal manteve a
improcedência, mas não por fundamento de ausência de provas, e sim por ausência de direito.

Como se vê, houve alteração do fundamento, a qual trouxe prejuízos ao recorrente. Isso
porque a sentença que conclui pela insuficiência de provas não transita materialmente. A ação
pode ser proposta posteriormente, desde que fundada em novas provas.

Caso ela tenha sido julgada improcedente por inexistência de direito, haverá o trânsito em
julgado material. Isso porque, no processo coletivo, há a denominada coisa julgada secundum
eventum probationis.

Portanto, neste caso, a alteração do fundamento trouxe prejuízo ao sujeito, havendo uma
reforma para pior, razão pela qual Barbosa Moreira entende que deve ser vedada essa reforma
(majoritário).

d) Princípio da singularidade, unicidade, ou unirrecorribilidade

Com base no princípio da unicidade, só haverá um recurso para cada decisão. Ou seja, só
é possível a interposição de um recurso.

Este princípio não viola a possibilidade de a lei prever vários recursos possíveis para
impugnar a mesma decisão.

Se cada um desses recursos tiver uma finalidade específica, não haverá violação à
singularidade.

Ex.: se a decisão afrontar lei federal, caberá o recurso especial; se essa mesma decisão
afrontar a CF, caberá recurso extraordinário.

Vale ressaltar que há exceção a este princípio, como é o caso de omissão da decisão. Neste
caso, caberá embargos de declaração, mas também apelação, como ocorre com a alegação de
que a sentença tenha sido citra petita. Para fins de omissão, então há dois recursos, havendo uma
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

297
mitigação ao princípio da unicidade.

e) Princípio da fungibilidade

O princípio da fungibilidade é a substituição de um recurso por outro e alcançar o mesmo


resultado.

Portanto, será possível a interposição de um recurso erroneamente, se estão preenchidos


os requisitos de admissibilidade do recurso que deveria ter sido interposto.

Essa fungibilidade de recursos exige que exista uma fundada dúvida a respeito de qual é o
recurso adequado.

Atente-se que não há fungibilidade se o erro é grosseiro. Isto é, se o juiz prolatou uma
sentença, mas o recorrente interpõe agravo de instrumento, haverá erro grosseiro.

Também não se admite a fungibilidade se houver má-fé do recorrente. Isso ocorre


quando os prazos dos recursos são distintos. Ex.: recurso inominado é de 10 dias da sentença, mas
o sujeito interpõe apelação no 14º dia. A má-fé é presumida quando o prazo é maior do que o
prazo de que o recurso que efetivamente seria o adequado.

VI. Classificação dos recursos

a) Recurso de fundamentação vinculada e de fundamentação livre

i. Recurso de fundamentação vinculada

O recurso de fundamentação vinculada é aquele cujas hipóteses de cabimento são


taxativamente previstas em lei. Ex.: o fundamento do recurso deve ser a contrariedade à lei federal
(recurso especial), ou violação à Constituição Federal (recurso extraordinário).

Os embargos de declaração também são recursos de fundamentação vinculada, pois só


cabem quando houver omissão, contradição e obscuridade.

ii. Recurso de fundamentação livre

No caso de recurso de fundamentação livre, permite-se que o recorrente possa abordar


qualquer ponto da decisão, permitindo que haja esse revolvimento de matéria probatória fática.

Exemplo disso é o recurso de apelação.


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298
b) Recurso ordinário e o recurso extraordinário

i. Recurso ordinário

O recurso ordinário é aquele que tem como objetivo tutelar um direito que interesse
exclusivamente a uma parte, autorizando que ela possa questionar fatos decidido ali. Há
revolvimento de matéria fática.

ii. Recurso extraordinário

No recurso extraordinário, a preocupação do legislador é de zelar pela higidez do sistema


e pela segurança jurídica. Há a necessidade com o processo objetivo.

Aqui, não há revolvimento de matéria fática, podendo haver controvérsia de aplicação da


norma quanto ao fato.

c) Recurso interposto na modalidade autônoma ou adesiva

i. Recurso autônomo

Recurso autônomo é um recurso que independe de outro, não sendo acessório e nem se
subordina a outro.

ii. Recurso adesivo

Recurso adesivo é o recurso que se subordina ao outro, estando ligado ao recurso


anteriormente interposto pela outra parte.

Se o recurso da outra parte não for recebido, o segundo, adesivo, não será recebido, pois
se subordina ao primeiro.

São requisitos para interposição do recurso adesivo:

• Legitimidade:

Via de regra, somente pode interpor recurso adesivo quem é parte (demandante ou
demandado).

• Necessidade (interesse):

Nasce da sucumbência recíproca.


Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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• Dentro do prazo:

É o mesmo prazo que a parte tem para responder ao recurso interposto pela outra parte.

Ex.: recurso de apelação é de 15 dias. Terá este prazo para recorrer adesivamente.

• Recorrente não possa ter impugnado a matéria anteriormente com outro recurso

• Espécie recursal admita a modalidade adesiva

São eles: recurso de apelação, recurso extraordinário e recurso especial.

É necessário que ambos os recursos (autônomo e adesivo) sejam da mesma espécie


recursal.

Existe uma hipótese que ocorre quando a parte fundar a sua tese numa questão
constitucional e uma questão federal. O Tribunal acolhe o pleito da parte, mas valendo-
se apenas do argumento federal, sem acolher o argumento constitucional.

A parte vencida interpõe um RESP, alegando a violação da lei federal. Em tese, a parte
recorrida não teria interesse em recorrer, pois ela venceu.

Mas e se for dado provimento ao RESP? E a questão constitucional perdida?

Se for dado provimento ao RESP, ficará a parte impossibilitada de questionar o texto


constitucional, pois teria havido a preclusão.

Nessa situação, a doutrina vem admitindo o recurso especial cruzado, de forma que se
permita a interposição de RESP pelo vencido, mas se autorize que a parte vencedora
venha aderir ao RESP, por meio de um recurso extraordinário (Barbosa Moreira e Fredie
Didier).

Veja, João queria um carro. O Tribunal disse que pela questão constitucional alegada, não
seria possível. Todavia, O Tribunal entendeu que João mereceria o carro, mas por questão
federal, motivo pelo qual foi acolhido o pedido. Ocorre que a outra parte entende que
pela questão federal João também não faria jus ao carro, motivo pelo qual estaria
violando questão federal, situação na qual foi interposto RESP.

A parte vencedora, em tese, não teria interesse em recorrer, visto que venceu o feito.
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300
Mas há uma situação delicada, pois se a outra parte obtiver o provimento do RESP, João
terá alterado o seu processo.

Nesse caso, a doutrina entende que será admitido o recurso especial cruzado, que é uma
forma adesiva, que a depender do julgamento do RESP será remetido ao STF, para que
ele julgue o recurso extraordinário.

VII. Desistência e renúncia do recurso

a) Desistência

Desistência do recurso ocorre após a interposição do recurso. A desistência pode ser


manifestada a qualquer tempo.

Existem hipóteses em que a desistência do recurso não é admitida:

• Recurso extraordinário ou de recurso extraordinário que tenha sido selecionado como


representativo de controvérsias.

• Desembargadores ou Ministros já tiverem exposto parcialmente a conclusão dos seus


votos.

A desistência do recurso não se confunde com a desistência da ação.

Isso porque a desistência do recurso não necessita da manifestação da parte contrária,


dispensando a manifestação volitiva da parte contrária.

b) Renúncia

Renúncia do recurso depende da anuência da parte contrária, mas é manifestada antes da


interposição do recurso.

O art. 1.000 diz que a parte que aceitar expressa ou tacitamente a decisão não poderá
recorrer. Considera-se aceitação tácita a prática, sem nenhuma reserva, de ato incompatível com
a vontade de recorrer.

Este dispositivo traz uma hipótese de preclusão lógica, situação na qual a parte cumpre a
decisão e após interpõe o recurso. No entanto, se tiver feita uma ressalva expressa, poderá
recorrer!
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301
VIII. Juízo de admissibilidade e de mérito dos recursos

Sempre que um recurso é interposto, ele objeto de duas análises diferentes: juízo de
admissibilidade de juízo de mérito.

No tocante ao juízo de admissibilidade, o juiz verificará se estão presentes os requisitos


extrínsecos e intrínsecos do recurso, a fim de que ele seja admitido.

Sendo positivo o juízo de admissibilidade, passa-se ao juízo de mérito. Neste caso, verifica-
se se o juiz tem razão ou não.

Não confundir conhecimento do mérito do recurso com conhecimento da ação. O recurso


poderá estar levantando uma nulidade processual, uma prova que foi indeferida erroneamente,
situação na qual é interposto o recurso, e no juízo de admissibilidade é confirmado a
admissibilidade do recurso. No juízo de mérito, será anulada a instrução e determina que se
produza a prova.

Veja, houve juízo de admissibilidade e juízo de mérito do recurso, mas não houve o
julgamento de mérito do processo.

IX. Requisitos de admissibilidade do recurso

Esses requisitos podem ser:

• Requisitos intrínsecos

• Requisitos extrínsecos

a) Requisitos intrínsecos

É necessário verificar se estão presentes:

• Legitimidade

• Interesse em recorrer

• Cabimento

i. Legitimidade

A legitimidade para recorrer significa que existe autorização para esta pessoa recorrer.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

302
Normalmente, esta autorização cabe às partes.

Existem também outras pessoas que podem recorrer, valendo-se de determinados


instrumentos em certas hipóteses, como o art. 996, o qual autoriza que o recurso seja interposto
pelo demandante ou pelo demandado, mas também pelo Ministério Público ou por terceiro que
tenha interesse jurídico.

ii. Interesse em recorrer

Não confundir interesse em recorrer com sucumbência, pois é possível ter ganhado e ainda
assim existir interesse em recorrer. Ex.: indenização abaixo do esperado.

iii. Cabimento do recurso

É necessário que tenha havido uma decisão judicial, visto que recurso desafia decisão
judicial.

É preciso que a lei preveja um determinado recurso para aquela decisão.

b) Requisitos extrínsecos

É necessário verificar se estão presentes:

• Tempestividade do recurso

• Recolhido preparo

• Regularidade formal

i. Tempestividade

Tempestividade é a necessidade de interposição do recurso observando o prazo legal.

No NCPC, os recursos têm o prazo de 15 dias, salvo embargos de declaração que é de 5


dias.

O Ministério Público e a Defensoria Pública tem prazo em dobro.

Também tem prazo em dobro nos casos de litisconsortes com procuradores distintos (art.
229). Não há prazo diferenciado quando se está diante de litisconsortes, com procuradores
distintos, se eles pertencem ao mesmo escritório de advocacia.
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

303
Se o processo for eletrônico, não há prazo em dobro para recorrer, ainda que se trate de
litisconsortes com procuradores distintos.

A Súmula 641 do STF diz que não se conta em dobro o prazo para recorrer quando um
dos litisconsortes apenas tiver sucumbido.

Existe divergência se é possível o recebimento do recurso interposto antes da fluência do


prazo (recurso prematuro). A Súmula 418 do STJ está superada com o NCPC, pois diz que é
considerado tempestivo qualquer ato processual praticado antes do seu termo inicial (art. 218,
§4º).

Além disso, o CPC dispensa a necessidade de ratificar recurso anteriormente interposto


quando a outra parte tiver interposto embargos de declaração que interromperam o prazo para
interposição do outro recurso.

ii. Preparo

Preparo é pagar ou recolher as custas.

É uma exigência de que o recorrente recolha os custos necessários para que o recurso seja
admitido.

O art. 1.007 exige que, no ato da interposição, o recorrente venha comprovar o respectivo
preparo, sob pena de deserção.

Caso o preparo se mostre insuficiente, o juiz deve determinar a intimação do recorrente


para que regularize essa situação, recolhendo essa diferença no prazo de 5 dias. Essa norma só
tem aplicação quando o sujeito recolheu em parte o preparo, mas não recolheu integralmente.

Quando o recurso é interposto sem qualquer recolhimento de custas, a parte é intimada


para regularizar a situação, mas será recolhido em dobro o valor das custas.

A legislação pode dispensar o recolhimento de preparo para recursos interpostos pelo


Ministério Público, pela União, Estados, Municípios e Distrito Federal e pelas suas autarquias.

O art. 1.023 dispensa o preparo para os embargos de declaração.

O art. 1.042 dispensa o recolhimento das custas na hipótese de interposição de agravo

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

304
aos Tribunais Superiores.

iii. Regularidade formal

A regularidade formal decorre de alguma especificidade da lei, que deve ser observado de
acordo com aquele recurso interposto.

O agravante, sujeito que interpôs recurso de agravo de instrumento, interpõe diretamente


no Tribunal, devendo o agravante juntar cópia do agravo de instrumento em 3 dias perante a
primeira instância. Se ele não juntar, o agravo de instrumento não será recebido por ausência de
regularidade formal.

c) Consequências da inadmissibilidade de um recurso

A decisão da inadmissibilidade de um recurso tem natureza declaratória, visto que declara


a ausência de um ou mais requisitos extrínsecos do recurso.

Como a decisão tem cunho declaratório, terá efeito retroativo (ex tunc).

A importância disso é que o trânsito em julgado da decisão não será a partir da decisão
que negou seguimento ao recurso por ter sido considerado inadmissível.

Na verdade, o trânsito em julgado terá ocorrido em momento anterior, quando forem


preclusas as vias impugnativas, já que foi interposto um recurso sem observar os seus requisitos.

Portanto, a decisão que não admite embargos de declaração por intempestividade dos
embargos gera efeitos retroativos, caso em que o trânsito em julgado da decisão se opera no dia
seguinte do prazo para a interposição do recurso.

d) Consequências da admissibilidade de um recurso

i. Juízo de retratação

O recurso admitido pode gerar alguns efeitos, tais como o efeito regressivo, que é a
possibilidade do juízo de retratação.

Pelo NCPC, o juízo de retratação deixa de ser como regra a consequência de


admissibilidade do recurso.

Isso porque, hoje em dia, é possível fazer o juízo de retratação antes mesmo de fazer o
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

305
juízo de admissibilidade. É o que ocorre com relação ao recurso de apelação, o qual admite juízo
de retratação, e mesmo em recurso extraordinário e recurso especial repetitivos.

Nesses casos, a doutrina faz uma crítica.

No entanto, eventualmente, é possível primeiro a admissibilidade do recurso para depois


ser feito um juízo de retratação, como é o caso do agravo de instrumento. Isso porque nesse caso
o Tribunal admite o recurso, requisita informações ao juiz, o qual, quando for informar o Tribunal,
poderá se retratar da sua decisão, comunicando o desembargador.

Veja, que no caso acima o juízo de retratação foi posterior ao juízo de admissibilidade.

ii. Efeitos do recurso

São efeitos dos recursos:

• Efeito regressivo

• Efeito devolutivo

– Efeito regressivo

É o efeito típico do juízo de retratação, permitindo que o recurso tenha tanto a sua
admissibilidade quanto o seu mérito resolvido pelo mesmo órgão jurisdicional que prolatou a
decisão impugnada. O poder de voltar atrás volta para o juiz que prolatou a decisão.

Os embargos de declaração têm efeito regressivo, pois é o próprio juiz que vai analisar se
admite os embargos e poderá alterar a sua decisão.

– Efeito devolutivo

O efeito devolutivo permite a devolução da matéria a outro órgão jurisdicional de maior


hierarquia.

Apesar da doutrina se confundir de onde vem esta expressão. A verdade é que o professor
Flávio Buonaduce explica esta expressão. Antigamente, quem julgava as causas era o Rei, dizendo
de quem era o direito. O que acontece é que as demandas foram se multiplicando, de forma que
o Rei não conseguia mais resolver os problemas de todas as pessoas. Com isso, o Rei delegou a
decisão para pessoas que estaria abaixo dele. Se as pessoas não concordassem com a decisão
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

306
daqueles que estavam abaixo do Rei, eles recorriam, e as causas eram devolvidas ao Rei para que
ele julgasse. Daí o efeito devolutivo.

Efeito devolutivo na extensão e na profundidade

Na extensão do recurso, o efeito devolutivo é definido em razão da vontade do


recorrente. Se o demandante instaurou um processo, objetivando o ressarcimento de danos
morais e materiais, o seu recurso impugnará, por exemplo, o capítulo da sentença que cuida dos
danos materiais. Neste caso, o Tribunal não poderá tratar dos danos morais, pois a limitação da
extinção do recurso é feita pelo recorrente.

Já o efeito devolutivo na profundidade decorre da lei, e não da vontade das partes. Ou


seja, é a lei que traz os fundamentos que poderá ser utilizado pelo Tribunal, bem como o que
poderá analisar em relação àquele recurso que foi interposto pela parte. Neste aspecto, os
membros do Tribunal podem analisar diversas questões que não foram sequer impugnadas pelas
partes, inclusive matérias que sequer foram decididas pelo juízo de primeira instância, mas que
estão dentro da linha de profundidade do pleito recursal.

Análise do art. 1.013, § 1º

O art. 1.013, § 1º, diz que serão objeto de apreciação e julgamento pelo tribunal todas as
questões suscitadas e discutidas no processo, ainda que não tenham sido solucionadas, desde
que relativas ao capítulo impugnado da decisão.

Por exemplo, há uma demanda que pretenda receber um crédito. O sujeito promover uma
ação de cobrança. O demandado alega que era incapaz na época e mesmo assim alega que
adimpliu a dívida. O juiz julga improcedente o pedido e julga incapacidade da parte, nem
apreciando o pagamento de adimplemento da dívida.

O demandante recorre e o Tribunal aprecia o recurso, entendendo pela capacidade do


recorrido, situação na qual poderá dar provimento ao recurso, afastando esse tema, mas se vale
de outra matéria, que é o pagamento, e pronuncia de ofício que houve o pagamento, situação
na qual mantém a improcedência do pedido, mas por fundamento diverso.

Veja, isto será possível fazer ainda que o juiz a quo não tenha analisado, tendo em vista
que a alegação de pagamento estaria inserida dentro do capítulo impugnado.
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Análise do art. 1.013, § 2º

Segundo o art. 1.013, § 2º, quando o pedido ou a defesa tiver mais de um fundamento e
o juiz acolher apenas um deles, a apelação devolverá ao tribunal o conhecimento dos demais
fundamentos.

Veja, há um pedido e o juiz acolhe o pedido, mas com base num fundamento. Em relação
aos demais fundamentos, apesar de ter enfrentado, não os acolheu.

Perceba que nesse caso o juiz enfrentou os dois fundamentos: sujeito era incapaz, mas não
pago, julgando improcedente. No Tribunal, foi entendido de que o sujeito era capaz, mas pagou o
débito. O Tribunal inverte os fundamentos, ainda que a conclusão do acórdão permaneça a
mesma (improcedência).

Análise do art. 1.013, § 3º

No §3º está a teoria da causa madura.

Essa teoria possibilita que o Tribunal analise diretamente o mérito da causa na apelação,
mesmo que esse mérito não tenha sido apreciado pelo juízo de primeira instância, por conta da
prolação de uma sentença terminativa.

Portanto, essa possibilidade pode ser realizada quando não houver necessidade de dilação
probatória, ou já tiver sido feita a dilação probatória.

Inclusive o desembargador poderá aplicar de ofício a teoria da causa madura.

Segundo o dispositivo, se o processo estiver em condições de imediato julgamento, o


tribunal deve decidir desde logo o mérito quando:

• reformar sentença sem julgamento do mérito (art. 485);

• decretar a nulidade da sentença por não ser ela congruente com os limites do pedido ou
da causa de pedir;

• constatar a omissão no exame de um dos pedidos, hipótese em que poderá julgá-lo;

• decretar a nulidade de sentença por falta de fundamentação.

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Essa norma pode ou não ser utilizada em outros recursos que não o recurso de apelação?

Rodolfo Hartmann entende que, apesar de estar inserido no capítulo da apelação, não há
obstáculo para aplicar a teoria da causa madura para o recurso de agravo de instrumento
suficientemente instruído que permita a resolução do mérito diretamente. Para isso, o agravo
deve estar bem instruído com o máximo de cópias do processo.

Este é inclusive o entendimento majoritário da doutrina, e agora também é o


entendimento do STJ, o qual explicita que se admite a aplicação da teoria da causa madura (art.
515, § 3º, do CPC/1973 / art. 1.013, § 3º do CPC/2015) em julgamento de agravo de instrumento.
STJ. Corte Especial. REsp 1.215.368-ES, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 1/6/2016 (Info
590).

Em relação ao recurso ordinário, o NCPC permite expressamente, pois foi expresso ao


afirmar que a teoria da causa madura terá perfeita aplicação, quando admitido, ao recurso
ordinário constitucional (ROC).

– Efeito translativo

O efeito translativo permite que o Tribunal possa pronunciar de ofício, sem provocação,
determinados fundamentos ou matérias de ordem pública, independentemente de iniciativa da
parte.

Isso pode ocorrer quando o Tribunal admite, mas entende que falta pressuposto
processual, ou ainda quando houve violação à coisa julgada material.

– Efeito suspensivo e efeito ativo

No efeito suspensivo há uma decisão que impõe determinado comportamento. Caso não
se queira adotar este comportamento, é necessário interpor recurso.

Esse recurso, se tiver efeito suspensivo ou se for concedido a ele o efeito suspensivo, faz
com que os efeitos da decisão sejam suspensos (efeitos suspensivos).

No efeito ativo há o caminho inverso, visto que se tem uma decisão que não impõe
determinado comportamento, mas o recorrente quer que durante o processamento do recurso
venha uma decisão do Tribunal que permita que seja feito algo. A decisão anterior, de cunho

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309
negativo, não permitiu, mas agora quer que seja permitido que se faça algo.

Ex.: a decisão negou a tutela provisória para que João participe da licitação. Juiz indeferiu.
João recorreu com agravo de instrumento, pedindo que o Tribunal suspenda a decisão do juiz,
sem que modifique nada. O Tribunal estaria dando efeito ativo à decisão, de forma que a decisão
do Tribunal conceda a tutela antecipada, podendo então participar da licitação.

– Efeito expansivo subjetivo

Expansivo quer dizer que abrangeu mais. Sendo subjetivo, significa que o efeito abrangeu
mais gente.

Em caso de litisconsórcio, a regra é de que o litisconsorte é litigante distinto em relação ao


outro. Isso significa que um ato do litisconsorte não prejudica nem beneficia o outro litisconsorte.

Numa situação envolvendo litisconsorte facultativo simples, o juiz poderá proferir uma
sentença de improcedência, a qual poderá ser impugnada por um dos litisconsortes, e eventual
decisão não prejudica ou beneficia os outros litisconsortes. É o princípio da pessoalidade do
recurso.

Em outros casos, o recurso poderá aproveitar o litisconsorte. Segundo o art. 1.005, o


recurso interposto por um dos litisconsortes a todos aproveita, salvo se distintos ou opostos os
seus interesses. Havendo solidariedade passiva, o recurso interposto por um devedor
aproveitará aos outros quando as defesas opostas ao credor lhes forem comuns.

Como se vê, há uma situação de litisconsórcio unitário, de forma que o feito deva ser
julgado igualmente para todos, ou há uma situação que apesar de o litisconsórcio ser simples, o
argumento é comum às partes. Neste caso, haverá o efeito expansivo subjetivo.

Ex.: João e José eram litisconsortes, mas quem recorreu foi José, mas a decisão do recurso
acaba beneficiando João, de forma que haverá o efeito expansivo subjetivo, ou seja, a decisão
deverá ser rigorosamente a mesma para ambos os litisconsortes.

– Efeito expansivo objetivo

O efeito expansivo objetivo é aquele que o efeito é expansivo em relação ao objeto. Neste
caso, há o objeto do recurso.

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310
Então, quando o provimento do recurso gerar, além da anulação ou da revisão, que foi
objeto daquele recurso, mas trouxer ainda uma série de consequências a diversos outros atos
processuais (que foram praticados posteriormente à decisão) há um efeito expansivo objetivo.
Isso porque o recurso produz efeitos do recurso para outros objetos ou atos processuais, que não
foram objeto do recurso.

Ex.: há uma decisão interlocutória indeferindo determinada prova. O sujeito interpõe


agravo de instrumento. Antes do julgamento do agravo de instrumento, que não tem efeito
suspensivo, o juiz julga improcedente o feito por falta de prova. Daí, o recurso de agravo de
instrumento é julgado provido, de forma que seja determinada que seja produzida aquela prova.

A reforma da decisão interlocutória que indeferiu a produção de prova vai implicar a


reforma dos atos subsequente, inclusive da sentença, pois deverá reabrir a instrução e proferir
outra sentença.

Neste caso, o objeto do recurso era um, mas houve o efeito expansivo objetivo.

Para compreender, basta se valer, por analogia, do art. 281 do CPC, que diz que anulado o
ato, consideram-se de nenhum efeito todos os subsequentes que dele dependa. Todavia, a
nulidade de uma parte do ato não prejudica a de outras partes que dele sejam independente.

Se o ato for dependente, e o ato principal for anulado, haverá a nulidade dos atos
posteriores.

– Efeito substitutivo

O efeito substitutivo é aquele em que substitui a decisão anteriormente recorrida.

Segundo o art. 1.008, o julgamento proferido pelo tribunal substituirá a decisão


impugnada no que tiver sido objeto de recurso.

Recursos em espécie

I. Recurso de apelação

A apelação tem por objetivo impugnar uma sentença, seja definitiva ou terminativa.

Há um recurso de fundamentação livre, que permite o reexame de provas.

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311
a) Casos em que uma sentença não comportará o uso da apelação

São casos em que uma sentença não comportará recurso de apelação:

• da sentença que julga o feito no Juizado Especial cabe recurso inominado.

• da sentença que decreta a falência, cabe agravo de instrumento.

• da sentença que julga processo de conhecimento perante a 1ª instância da Justiça


Federal, em que há num dos polos pessoa física ou jurídica estabelecida no Brasil, mas
no outro polo há estado estrangeiro ou organismo internacional, cabe recurso ordinário
ao STJ.

• da sentença proferida em execução fiscal, cujo valor não ultrapasse equivalente a 50


OTN’s, caberá embargos infringentes.

Veja que aqui há sentenças que não admitem apelação.

b) Casos em que o recurso de apelação impugnará ato decisório que não é sentença

São casos em que o recurso de apelação impugnará ato decisório que não é sentença:

• recurso de apelação que não questiona apenas aquilo previsto na sentença, mas
questione também os fundamentos constantes em decisões interlocutórias que foram
proferidas ao longo do processo, desde que elas não pudessem sido questionadas por
meio de agravo de instrumento.

Ex.: a parte derrotada, no mesmo recurso de apelação da sentença, apresenta


argumentos contrários a uma decisão interlocutória que indeferiu prova pericial. Ela vai
combater os argumentos da sentença também, mas em preliminar irá questionar o que
ficou decidido.

• Pode ocorrer de a parte não tenha interesse em recorrer da sentença, mas sim apenas
de uma decisão interlocutória. Neste caso, por não caber agravo de instrumento, deverá
interpor apelação, a fim de questionar o conteúdo da decisão interlocutória.

Ex: durante o feito tenha havido uma decisão interlocutória que mudou o valor da causa
de 1 milhão para 100 mil reais. Neste caso, a decisão fixou o valor dos honorários em 10%

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

312
sobre o valor da causa. Então, se o pedido foi julgado procedente, em tese não teria
interesse em recorrer, mas sobre o valor da causa, o demandante tem interesse em
recorrer da decisão interlocutória que alterou o valor da causa.

Portanto, em caráter excepcional, o recorrente poderá interpor apelação e no corpo dela


deverá esclarecer apenas para combater uma decisão interlocutória.

c) Efeitos da apelação

Em regra, a apelação tem efeito suspensivo e efeito devolutivo.

Existem situações em que o recurso de apelação não tem efeito suspensivo (art. 1.012,
§1º):

• não tem efeito suspensivo a sentença que homologa divisão ou demarcação de terras

• não tem efeito suspensivo a sentença que condena a pagar alimentos

• não tem efeito suspensivo a sentença que se extingue sem resolução do mérito ou julga
improcedentes os embargos do executado;

• não tem efeito suspensivo a sentença que julga procedente o pedido de instituição de
arbitragem;

• não tem efeito suspensivo a sentença que confirma, concede ou revoga tutela
provisória;

• decreta a interdição

Nesses casos, a apelação não tem efeito suspensivo.

O recorrente, no entanto, mesmo nessas situações, poderá tentar obter o efeito


suspensivo, sendo necessário fazer um requerimento a ser analisado pelo desembargador,
cabendo ao apelante demonstrar a probabilidade de que seu recurso seja provido, ou se for
relevante o fundamento, de que haja risco dano ou grave de um dano grave ou de difícil reparação,
para então o desembargador relator conceda efeito suspensivo ao recurso.

d) Processamento da apelação em primeira instância

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313
O recurso de apelação deve ser interposto perante o órgão que prolatou a sentença,
acompanhado do seu respectivo preparo.

O prazo para a apelação é de 15 dias.

Na peça do recurso deverá constar o nome, qualificação das partes, fundamentos de fato
e de direito e o requerimento de uma nova decisão.

É possível que questões de fato não propostas no juízo inferior sejam suscitadas na
apelação. Isso ocorre quando a parte provar que deixou de suscitar estas questões fáticas por
motivo de força maior (art. 1.014 do CPC). Nestes casos, o Relator poderá determinar que estas
provas produzidas para comprovar estes fatos alegados como novidade pela parte recorrente.

O CPC prevê que o juiz poderá se retratar da sentença.

Se isso ocorrer, será exercido antes mesmo da admissibilidade do recurso, pois o juízo de
admissibilidade da apelação é feito pelo Tribunal apenas.

Após, o recorrido é intimado para apresentar contrarrazões ao recurso de apelação no


prazo de 15 dias.

Pode o apelado postular, em preliminar de apelação, para que o Tribunal se manifeste


acerca de determinada decisão interlocutória que foi anteriormente proferida e que não está
acobertada pela preclusão, já que não cabia agravo de instrumento.

Se houver esse pedido, nas contrarrazões, para análise de pedido de decisão interlocutória
que lhe tenha sido desfavorável, deverá o juiz intimar o apelante para que ele se manifeste quanto
a este teor, antes de encaminhar essa peça para o Tribunal. Perceba que o CPC permite nesse caso
que haja contrarrazões das contrarrazões

e) Processamento da apelação em segunda instância

Ao chegar no Tribunal, será feito o juízo de admissibilidade.

Os autos vão para o Tribunal, serão registrados e distribuídos para um dos órgãos internos,
seja câmara ou turma.

No momento da distribuição é sorteado um Relator.

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314
Após, os autos seguem ao Relator, tento o prazo de 30 dias para elaborar o seu voto e
restituir os autos com o relatório para a secretaria.

O Relator pode proferir decisão monocrática, mas, via de regra, é devolvido para secretaria
o voto.

Por decisão monocrática, poderá o relator negar seguimento ao recurso por


inadmissibilidade, mas antes disso deverá intimar o recorrente para que, em 10 dias, regularize a
sua situação.

Não caberá essa regularização quando o recurso for intempestivo, devendo negar
seguimento por decisão monocrática.

Ainda, o CPC autoriza que o Relator determine a realização ou renovação de um ato


processual.

Essa nova instrução poderá se dar no próprio Tribunal ou no 1º grau de jurisdição, quando
ficar constatado que houve um vício e esse vício é sanável e que será sanado.

Se for necessária a produção de prova, o Relator pode converter o julgamento em


diligência. Feita a diligência, poderá ser decidido o recurso.

No dia da sessão, os Relatores põem as suas causas aos seus pares, e o presidente da
câmara ou da turma dá a palavra ao recorrente para sustentação oral. Em seguida, o recorrido
sustenta oralmente.

Feito isso, o Relator inicia a votação. Em seguida, os demais irão votar.

Sendo apelação ou agravo serão 3 os julgadores.

O redator do acórdão, como regra, se dá pelo Relator, salvo se ele tiver sido vencido,
motivo pelo qual caberá a redação do acórdão ao primeiro prolator do voto vencedor.

II. Agravo de instrumento

O objetivo do agravo de instrumento é impugnar uma decisão interlocutória. A decisão


foi proferida por um juiz de primeira instância e se quer impugnar essa decisão por meio de agravo
de instrumento.

Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

315
Excepcionalmente caberá agravo de instrumento em face de sentença quando houver
expressa previsão legal.

O agravo de instrumento é recurso de fundamentação livre.

Para que a parte interponha o agravo de instrumento, deverá extrair cópias reprográficas
do processo, se forem autos físicos, a fim de que essas cópias venham a instruir o recurso.

A parte irá atravessar uma petição, protocolizando diretamente no Tribunal, com as cópias
tidas como importantes.

Segundo o art. 1.017, a petição de agravo de instrumento será instruída:

• obrigatoriamente, com cópias da petição inicial, da contestação, da petição que ensejou


a decisão agravada, da própria decisão agravada, da certidão da respectiva intimação ou
outro documento oficial que comprove a tempestividade e das procurações outorgadas
aos advogados do agravante e do agravado;

• com declaração de inexistência de qualquer dos documentos acima referidos, feita pelo
advogado do agravante, sob pena de sua responsabilidade pessoal;

• facultativamente, com outras peças que o agravante reputar úteis.

Como o art. 425, VI, dispõe que fazem a mesma prova que os originais as reproduções
digitalizadas de qualquer documento público ou particular, quando juntadas aos autos pelos
órgãos da justiça e seus auxiliares, pelo Ministério Público e seus auxiliares, pela Defensoria
Pública e seus auxiliares, pelas procuradorias, pelas repartições públicas em geral e por
advogados, ressalvada a alegação motivada e fundamentada de adulteração.

O CPC não exige que o agravante junte as peças originais. Desse modo, se ele apresentar
as peças em formato eletrônico (mídia contendo imagens) acompanhada da declaração de
autenticidade pelo advogado, tal apresentação deverá ser considerada válida, salvo se a parte
adversária demonstrar que sejam inautênticas. Este é inclusive o entendimento do STJ (Info 591).

O agravo de instrumento só é possível das hipóteses previstas em lei (art. 1.015).

Os casos que permitem agravo de instrumento são:

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316
• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre tutelas provisórias;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre mérito do processo (ex.: juiz
profere julgamento antecipado parcial do mérito ou quando o juiz pronuncia a prescrição
de um dos cheques que embasam a demanda)

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre rejeição da alegação de


convenção de arbitragem;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre incidente de desconsideração da


personalidade jurídica;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre rejeição do pedido de gratuidade


da justiça ou acolhimento do pedido de sua revogação;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre exibição ou posse de documento


ou coisa;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre exclusão de litisconsorte;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre rejeição do pedido de limitação


do litisconsórcio;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre admissão ou inadmissão de


intervenção de terceiros;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre concessão, modificação ou


revogação do efeito suspensivo aos embargos à execução;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre redistribuição do ônus da prova


nos termos do art. 373, § 1o;

• contra as decisões interlocutórias que versarem sobre outros casos expressamente


referidos em lei (ex.: sentença que decreta falência)

O art. 1.015, parágrafo único, vai dizer se admite agravo de instrumento contra decisões
interlocutórias proferidas na:

• fase de liquidação de sentença


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317
• fase de cumprimento de sentença

• processo de execução

• processo de inventário.

O recurso de agravo de instrumento deverá ser instrumentalizado por meio de petição,


contendo a exposição do fato, do direito, das razões, pedido de reforma da decisão ou anulação,
bem como o nome e endereço dos advogados para que sejam intimados.

O prazo para interposição do agravo de instrumento é de 15 dias.

A petição vem obrigatoriamente com cópias reprográficas de várias peças do processo.


Atente-se que para processos que tramitam em meio eletrônico, não há necessidade de juntada
desses documentos, pois o Tribunal poderá ter acesso aos autos do juízo de primeira instância.

A cópia da petição inicial, da contestação e da peça que ensejou a decisão agravada são
relevantes e devem estar no agravo de instrumento.

Ainda, há necessidade de apresentar a certidão de intimação da decisão agravada, pois é


com base nela que o Tribunal verificará a tempestividade.

Após a interposição do recurso, o agravante deverá providenciar a juntada de cópia do


agravo de instrumento ao órgão de primeira instância no prazo de 3 dias.

Tratando-se de processo que tramita por meio eletrônico, a juntada de tal peça na
primeira instância é uma faculdade do recorrente, já que a outra parte terá livremente acesso ao
agravo de instrumento.

Após a interposição do agravo de instrumento, será distribuído a uma das câmaras do


Tribunal, sendo autuado, existindo um sorteio do Relator, situação na qual poderá não conhecer
do recurso.

Nesta hipótese de não conhecimento do recurso, o relator irá admitir o recurso, inclusive
poderá julgar o seu mérito diretamente, desde que seja no sentido de desprover o agravo de
instrumento.

Não sendo caso de decisão monocrática, no sentido de ser inadmissível o recurso, ou no

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318
sentido de improvimento do recurso, o Relator poderá de ofício, ou a requerimento da parte,
conceder o efeito suspensivo ao agravo de instrumento ou mesmo efeito ativo ao agravo de
instrumento, se entender cabível.

Na sequência, o Relator ordenará a intimação do agravado, o qual irá responder no prazo


de 15 dias.

Da mesma forma, se for o caso, determinará a intimação do Ministério Público, a fim de


que se manifeste no prazo de 15 dias.

Após, o Relator irá requerer ao presidente da Câmara ou Turma, no prazo não superior a 1
mês, que seja designado dia e hora para realização do julgamento do agravo de instrumento.

No dia do julgamento do agravo de instrumento, o Relator narrará aos seus pares a respeito
do conteúdo do recurso, proferindo o seu voto. Os outros julgadores poderão acompanhá-lo ou
não.

Processos nos tribunais e meios de impugnação das decisões judiciais: Recursos em espécie
(continuação). Ações autônomas de impugnação nos tribunais.

III. Agravo interno

O agravo interno é o recurso adequado para impugnar decisão monocrática, proferida por
um desembargador ou ministro.

Por exemplo, uma decisão monocrática que não admite uma apelação.

O prazo para o agravo interno é de 15 dias úteis.

O agravo interno é instrumentalizado por meio de petição, dirigida ao Relator, sendo


determinada a intimação do agravo para contrarrazões. Após, o relator poderá se retratar. Caso
não o faça, o órgão irá se manifestar.

No agravo interno não existe sustentação oral.

Declarado manifestamente inadmissível ou improcedente o agravo interno, o colegiado vai


condenar o agravante ao pagamento de 1% a 5% do valor atualizado da causa ao agravado, a fim
de evitar o exercício irregular do direito de recorrer.

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319
IV. Embargos de declaração

Os embargos de declaração são recurso que tem por objetivo sanar eventual omissão,
contradição, obscuridade ou erro material.

Nos embargos de declaração há o juízo de admissibilidade e o juízo de mérito feito pelo


mesmo órgão jurisdicional que prolatou a decisão embargada.

Os embargos de declaração são utilizáveis para impugnar qualquer decisão judicial, de


qualquer natureza.

Os embargos de declaração não se sujeita a preparo, mas o prazo é de 5 dias, único


diferenciado do CPC.

O art. 1.024, §3º, diz que o órgão julgador conhecerá dos embargos de declaração como
agravo interno se entender ser este o recurso cabível, desde que determine previamente a
intimação do recorrente para, no prazo de 5 (cinco) dias, complementar as razões recursais, de
modo a ajustá-las às exigências do art. 1.021, § 1º.

O art. 1.025 vai dizer que os embargos de declaração poderão ser utilizados para sanar
omissão ou para fins de pré-questionamento. Segundo o dispositivo, consideram-se incluídos no
acórdão os elementos que o embargante suscitou, para fins de pré-questionamento, ainda que
os embargos de declaração sejam inadmitidos ou rejeitados, caso o tribunal superior considere
existentes erro, omissão, contradição ou obscuridade.

O processamento dos embargos de declaração se dá da seguinte forma, o recurso é


interposto e é submetido a um exame de admissibilidade. Se os embargos de declaração não
forem recebidos, existe uma discussão se teriam efeito interruptivo ou não. O STJ entende que a
interposição dos embargos de declaração interrompe o prazo para os demais recursos, mesmo
na hipótese de inadmissão, salvo se houver intempestividade dos embargos.

Não se pode esquecer que no Juizado Especial passam também a interromper o prazo para
interposição de recursos no caso de embargos de declaração.

O CPC não prevê a oitiva da parte contrária, pois será admitida essa oitiva se houver a
possibilidade de haver efeitos modificativos (infringentes), situação em que intimará o embargado

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320
para se manifestar.

A decisão que enfrenta os embargos de declaração tem a mesma natureza da decisão que
enfrenta os embargos de declaração. Ex.: se uma sentença é embargada, a decisão que enfrenta
os embargos de declaração será tida como sentença.

É de se destacar o entendimento pacífico de o Desembargador decidir monocraticamente


a embargos de declaração opostos de uma decisão colegiada.

Se os embargos de declaração são manifestamente protelatório, haverá a imposição de


multa de até 2% do valor da causa, sendo ela revertida em favor da parte contrária.

Se houver a reiteração dos embargos de declaração protelatórios, sendo a multa elevada


em até 10%, podendo o juiz determinar que haja o imediato recolhimento da multa, sob pena de
não conhecer mais quaisquer recursos interposto pela parte.

O art. 1.026, §4º, diz que não serão admitidos novos embargos de declaração se os 2
(dois) anteriores houverem sido considerados protelatórios.

V. Recurso ordinário

O recurso ordinário é como se fosse uma apelação. É um recurso de fundamentação livre,


revolvimento de matéria fática e de competência exclusiva do STJ e do STF.

São hipóteses de cabimento de recurso ordinário:

• caberá recurso ordinário contra decisão denegatória de mandado de segurança, habeas


corpus, habeas data ou mandado de injunção decidido por Tribunal Superior (STF julga)
ou por TJ ou TRF (STJ julga).

A diferença é de que caberá tais remédios ao STF contra decisão denegatória originária
de Tribunais Superiores, e para o STJ quando se tratar de decisão denegatória originária
de TRF ou TJ.

No caso de sucumbência parcial, na parte em que não é vitorioso, irá opor recurso
ordinário. Com relação à parte vencida, somente poderá ingressar com recurso
extraordinário ou especial, pois na parte em que a segurança foi concedida não cabe
recurso ordinário da concessão.
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Ressalte-se que recentemente foi decidido que não se admite recurso ordinário da
decisão que concede habeas corpus, cabendo apenas recurso extraordinário ou especial.
Mas admitiu-se recurso ordinário em decisão concessiva de habeas corpus, quando o
objetivo do recurso era questionar o número de medidas cautelares impostas pelo
Tribunal.

Ex.: o Tribunal fixou 10 medidas cautelares para o réu. No entanto, o réu recorreu
ordinariamente, alegando que seriam suficientes apenas 5 medidas cautelares. Neste
caso foi admitido o recurso, pois a ideia seria melhorar ainda mais a situação do paciente.

• caberá recurso ordinário, a ser julgado pelo STJ, nas causas em que forem parte de um
lado estado estrangeiro ou organismo internacional e do outro pessoa residente ou
domiciliada no Brasil.

O processamento do recurso ordinário seguirá o da apelação, conforme art. 1.028.

O recurso ordinário, via de regra, não possui efeito suspensivo.

VI. Recurso extraordinário e recurso especial

O recurso extraordinário e o recurso especial são recursos de fundamentação vinculada,


ou seja, para interpor um ou outro, deverá estar dentro das hipóteses admitidas
constitucionalmente.

Não poderão ser utilizados para revolvimento de matéria fática.

São hipóteses de cabimento de recurso extraordinário (art. 102, CF):

• é cabível recurso extraordinário quando a decisão judicial contrariar dispositivo da


Constituição Federal.

• é cabível recurso extraordinário quando a decisão judicial declarar a


inconstitucionalidade de tratado ou lei federal.

• é cabível recurso extraordinário quando a decisão judicial julgar válida lei ou ato de
governo local contestado em face desta Constituição.

• é cabível recurso extraordinário quando a decisão judicial julgar válida lei local

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322
contestada em face de lei federal (não há hierarquia entre União, Estados e Municípios,
motivo pelo qual há necessidade de o STF dizer de quem é a competência da matéria).

São hipóteses de cabimento de recurso especial (art. 105, III, CF):

• é cabível recurso especial quando a decisão judicial, decorrente de TRF ou TJ, contrariar
tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigência.

O STJ vem entendendo essa situação de modo ampliativo, de forma a abranger a medida
provisória, decretos autônomos e regulamentos editados pelo Presidente da República.

Não se trata apenas de lei federal, e sim qualquer ato normativo primário federal.

• é cabível recurso especial quando a decisão judicial, decorrente de TRF ou TJ, julgar
válido ato de governo local contestado em face de lei federal.

Não é lei local contestada em face de lei federal, pois seria hipótese de recurso
extraordinário.

• é cabível recurso especial quando a decisão judicial, decorrente de TRF ou TJ, der a lei
federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal.

O recurso especial só é admitido para impugnar decisão de Tribunal, diferentemente do


recurso extraordinário.

a) Requisitos de admissibilidade comuns ao recurso extraordinário e ao recurso especial

Tanto a interposição desses recursos como o juízo de admitido serão realizado pelo
Tribunal de origem.

São requisitos comuns:

• Exaurimento das vias recursais

Isso porque os recursos excepcionais só podem ser utilizados em única ou em última


instância.

• Tempestividade dentro de 15 dias úteis

• Pré-questionamento

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Pré-questionamento é o enfrentamento prévio da matéria pelo tribunal a quo. Poderá
ser explícito ou implícito.

Quando é explícito, o Tribunal a quo vai indicar textualmente qual é o dispositivo da CF


ou da lei federal. Quando for implícito, haverá a abordagem da matéria ou da norma, mas
não há menção de qualquer artigo.

Embargos de declaração podem ser utilizados para provocar pré-questionamento.

São requisitos específicos do recurso extraordinário:

• Repercussão geral:

A repercussão geral é um requisito específico do recurso extraordinário (natureza


jurídica). Na prática, observamos também que se utiliza a expressão "repercussão geral"
como sinônima de recurso extraordinário repetitivo. Algumas vezes o STF, por meio de
seu Plenário, julga um recurso extraordinário repetitivo e fixa uma tese que vale para
todos os casos semelhantes que estavam aguardando a posição da Corte. O requisito
constitucional da repercussão geral aplica-se aos recursos extraordinários em geral,
incluindo também as causas criminais.

O art. 102, §3º, da CF diz que, no recurso extraordinário o recorrente deverá demonstrar
a repercussão geral das questões constitucionais discutidas no caso, nos termos da lei, a
fim de que o Tribunal examine a admissão do recurso, somente podendo recusá-lo pela
manifestação de dois terços de seus membros. Ou seja, deve-se trazer como preliminar
a denominada repercussão geral. O Tribunal pode não entender que haja repercussão
geral, mas para tanto é necessário que 2/3 dos membros assim se manifestem
negativamente.

Para efeito de repercussão geral, será considerada a existência ou não de questões


relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapassem os
interesses subjetivos do processo. Percebe-se que a repercussão geral tem como tema
não apenas fixar tese com relação às partes do processo, e sim à sociedade,
ultrapassando os limites subjetivos do processo.

Esse requisito deve ser alegado na própria peça, sob pena de irregularidade formal,
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324
mesmo que a matéria já tenha sido reconhecida em processo diverso. Em outras palavras,
ainda que o STF já tenha afirmado em outros processos que aquele tema possui
repercussão geral, deverá o recorrente abrir um tópico explicando isso. Atente-se que o
Tribunal inferior não poderá dizer se há ou não repercussão geral.

O STF pode reconhecer que há repercussão geral com base em razões diferentes daquelas
alegadas pela parte recorrente, ou seja, a fundamentação apresentada pelo recorrente
para demonstrar que existe repercussão geral não vincula o STF, podendo o Tribunal
admiti-lo por fundamento diverso.

Havendo o preenchimento da repercussão geral, o STF passará a análise do mérito por


um das Turmas, seja em decisão monocrática ou de acórdão, devendo ser apreciado em
até 1 ano.

Se o Pleno do STF vier a negar repercussão geral ao recurso, esta decisão é irrecorrível.
A partir dessa decisão, todos os Tribunais poderão adotar este precedente para negar a
admissibilidade dos recursos extraordinários por falta de repercussão geral.

O art. 1.035, § 3º e o art. 987, § 1º do CPC/2015 preveem 3 hipóteses nas quais há


presunção absoluta da existência de repercussão geral:

o Acórdão impugnado tenha contrariado súmula ou jurisprudência dominante do


STF;

o Acórdão impugnado tenha reconhecido a inconstitucionalidade de tratado ou de


lei federal (respeitada a reserva de plenário).

o Acórdão impugnado tenha julgado o mérito de incidente de resolução de


demandas repetitivas.

O Relator do RE poderá admitir, na análise da repercussão geral, a manifestação de


terceiros, subscrita por procurador habilitado, nos termos do Regimento Interno do STF
(art. 1.035, § 4º). Dessa feita, é possível a intervenção de amicus curiae no procedimento
de análise da repercussão geral em recurso extraordinário.

Em regra, é o Plenário do STF que decide se há repercussão geral. No entanto, se a 1ª

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325
Turma ou 2ª Turma decidir pela existência da repercussão geral por, no mínimo, 4
(quatro) votos, ficará dispensada a remessa do recurso ao Plenário para deliberar sobre
a repercussão geral, pois já não mais seria possível a negativa de 2/3 dos membros do
STF.

A decisão que não conhece o RE por ausência de repercussão geral pelo STF é irrecorrível.

Recentemente, o STF entendeu que, mesmo a repercussão geral tenha sido reconhecida
pelo Plenário Virtual, é possível que seja posteriormente afastada em sessão presencial.
Isso porque a repercussão geral é um pressuposto de admissibilidade específico do
recurso extraordinário, e o juízo de admissibilidade recursal não preclui por tratar-se de
matéria de ordem pública.

O Plenário Virtual é uma sistemática adotada pelo STF por meio do qual os Ministros
julgam se há ou não repercussão geral nos recursos extraordinários interpostos. No
Plenário virtual as manifestações são feitas de forma eletrônica, sem a necessidade que
os Ministros se reúnam presencialmente, o que visa a otimizar os trabalhos. No Plenário
Virtual, a critério do Relator, também poderão ser julgados agravos regimentais e
embargos de declaração.

• Violação direta e frontal ao texto constitucional

Este requisito também é próprio do recurso extraordinário.

O art. 1.033 diz que, se o Supremo Tribunal Federal considerar como reflexa a ofensa à
Constituição afirmada no recurso extraordinário, por pressupor a revisão da
interpretação de lei federal ou de tratado, não irá admitir o recurso, situação em que
remeterá ao Superior Tribunal de Justiça para julgamento como recurso especial.

São requisitos específicos do recurso especial:

• Comprovação da divergência

O RESP será cabível quando um acórdão der uma interpretação à lei federal diversa da
interpretação dada por outro Tribunal. Ex.: TJ-RJ entende diferente do TJ-SP.

Se interpor o RESP com base neste fundamento, deverá comprovar a divergência, a qual

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se dará por meio de cópia autenticada ou de citação do repositório de jurisprudência que
comprove a divergência.

Não se conhece do recurso especial pela divergência, quando a decisão de Tribunal tenha
se firmado no mesmo sentido da decisão recorrida (Súmula 83, STJ).

b) Procedimento

i. Interposição e não recebimento

1. Tanto o recurso especial quanto o recurso extraordinário são interpostos perante o juízo
a quo, vindo as peças contendo a exposição do fato, do direito, demonstração de que cabe o
recurso especial ou o recurso extraordinário.

2. Após, é intimada a parte contrária, a fim de apresentar contrarrazões.

3. O Tribunal realizará juízo de admissibilidade, podendo negar seguimento quando se


tratar de recurso extraordinário em que o STF não conheceu da repercussão geral ou quando o
acórdão impugnado estiver de acordo com o entendimento do STF.

4. Poderá ainda o Tribunal negar seguimento ao recurso se se tratar de recurso


extraordinário ou especial que esteja em conformidade com o entendimento firmado pelo STF ou
STF, em sede de recurso repetitivo ou repercussão geral. Essa decisão monocrática pelo Presidente
do Tribunal poderá ser impugnada por agravo interno. Consoante o STJ, se, em vez disso, a parte
interpuser o agravo em recurso especial para o STJ (art. 1.042), cometerá erro grosseiro. Chegando
ao STJ este agravo, ele não será conhecido e ele não retornará para que seja julgado pelo Tribunal
de origem como agravo interno, como ocorria anteriormente. Assim, após a entrada em vigor do
CPC/2015, não é mais devida a remessa pelo STJ, ao Tribunal de origem, do agravo interposto
contra decisão que inadmite recurso especial com base na aplicação de entendimento firmado
em recursos repetitivos, para que seja conhecido como agravo interno.

5. Poderá o Tribunal encaminhar o processo ao órgão julgador, a fim de que o órgão


julgador possa realizar um juízo de retratação, caso tenha manifestado decisão contrária à decisão
prolatada em repercussão geral ou em sede de recurso repetitivo.

6. O Presidente do Tribunal poderá determinar o sobrestamento do recurso, quando se

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tratar de controvérsia de caráter repetitivo ainda não decidido pelo STF ou STJ.

7. O Presidente do Tribunal poderá selecionar o recurso como representativo de uma


controvérsia constitucional ou infraconstitucional.

8. O CPC permite que o Tribunal venha a admitir o recurso extraordinário ou o recurso


especial, com a posterior remessa, quando o recurso ainda não tenha sido submetido como
representativo no regime de repercussão geral ou recursos repetitivos.

9. Se o Tribunal recorrido tiver refutado o juízo de retratação, pois o juízo a quo não exerceu
o juízo de retratação, cabendo a remessa ao STF.

10. Se forem admitidos ambos os recursos, o recurso extraordinário e o recurso especial


deverão ser encaminhados primeiramente ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). Chegando ao
STJ, irá ocorrer a distribuição de uma das Turmas, com sorteio do Relator, situação na qual haverá
um exame de admissibilidade do recurso especial.

11. Se o recurso extraordinário tiver um cunho prejudicial ao RESP, poderá o Relator do STJ
determinar a remessa do processo ao STF para julgamento do recurso extraordinário. Caso o STF
venha a divergir, determinará novamente o processo ao STJ, caso em que o STJ será obrigado a
julgar o recurso especial primeiro para depois o STF julgar o recurso extraordinário.

12. O tribunal superior realiza o exame de admissibilidade (é o 2º), podendo negar


seguimento ao recurso por uma decisão monocrática do Relator. Neste caso, caberá da decisão o
agravo interno.

ii. Interposição e recebimento. Recursos não repetitivos. Efeito.

Como se sabe, recurso especial e extraordinário, via de regra, não têm efeito suspensivo.

O efeito suspensivo poderá ser concedido, desde que a parte interessada apresente
petição requerendo a concessão desse efeito.

No período compreendido entre a interposição do recurso e a publicação de decisão de


admissão do recurso, bem como no caso de recursos sobrestados na origem, o requerimento para
concessão de efeito suspensivo deverá ser apresentado na presidência do Tribunal a quo.

Mas este requerimento também poderá ser feito ao Tribunal ad quem (superior) no
Material elaborado por Eduardo Defaveri e atualizado por Carolina Carvalhal

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período entre a publicação de admissão do recurso e a distribuição no STJ ou STF.

No recurso especial, o processamento de recurso no Tribunal Superior, não há qualquer


especificidade que chame atenção.

O Relator no STJ profere um decisão monocrática, a qual poderá ser impugnada por meio
de agravo interno. Caso não seja o caso de decisão monocrática pelo Relator, deverá aguardar a
realização de julgamento pelo órgão colegiado, sendo possível sustentação oral.

Vale lembrar que recurso especial ou recurso extraordinário também vão admitir a
modalidade de recurso adesivo.

iii. Interposição e recebimento. Recursos repetitivos

O CPC regulamenta a matéria de forma mais aprofundada no tocante a recursos


excepcionais repetitivos.

No Tribunal de origem, dois ou mais recursos representativos daquela controvérsia serão


escolhidos, os quais serão afetados e encaminhados ao STJ ou ao STF, a depender se for recurso
especial ou extraordinário.

Os demais recursos ficarão sobrestados no Tribunal a quo.

Com a chegada dos recursos afetados ao STF e ao STJ, cabe ao Ministro Relator identificar
a questão a que será submetida a julgamento.

Poderá determinar a suspensão do processamento de todos os processos pendentes,


sejam individuais ou coletivos, que versem sobre aquela questão e que estejam tramitando no
território nacional.

Ainda, se for o caso, requisitará aos presidentes dos Tribunais de Justiça ou aos Tribunais
Regionais Federais que façam a remessa de um recurso representativo de controvérsia.

Durante o processamento do recurso extraordinário e do recurso especial afetado ao


Tribunal Superior, há previsão de que se admita a participação de terceiros, inclusive de órgãos e
entidades com interesse na controvérsia, possibilitando a oitiva de amicus curiae, bem como a
possibilidade de se convocar audiências públicas para debater o tema.

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Ainda, é possível que o Relator requisite informações aos tribunais inferiores e intime o
Ministério Público para se manifestar.

Após o julgamento dos recursos afetados, os órgãos colegiados declararão prejudicados os


demais recursos que versam sobre idêntica controvérsia, quando o Tribunal Superior tiver
decidido no mesmo sentido do Tribunal inferior, ou então irão decidir pela aplicação da tese
firmada pelo Tribunal.

Após a publicação do acórdão paradigma, o Presidente do Tribunal irá negar seguimento a


recurso extraordinário e especial que estiverem sobrestados, se o acórdão recorrido coincidir com
a orientação do Tribunal Superior.

Mas se for detectado que o acórdão paradigma contraria a orientação do Tribunal Superior,
o próprio órgão que proferiu o acórdão recorrido na origem irá reexaminar a questão, podendo
exercer juízo de retratação.

Caso não seja realizado o juízo de retratação, a fim de que seja aplicada a tese, poderão os
recursos serem encaminhados ao STJ e ao STF. Após, será feito um juízo de admissibilidade e
encaminhado aos Tribunais Superiores, já que não houve juízo de retratação.

O art. 1.040 permite que a parte autora desista do processo individual na pendência de
um recurso especial ou extraordinário repetitivo, logo após ter sido proferido o acordão do
respectivo processo paradigma.

Essa desistência independe da manifestação ou concordância do réu, podendo ser feita a


qualquer momento, desde que não tenha sido proferida uma sentença e acompanhado do
pagamento de honorários, caso haja uma contestação.

VII. Agravo ao tribunal superior

Tribunais inferiores fazem juízo de admissibilidade de recurso extraordinário e de recurso


especial.

Nos casos de inadmissão recurso extraordinário e de recurso especial pelo tribunal inferior,
é possível que o interessado se valha de um recurso que é o agravo ao tribunal superior.

O art. 1.042 diz que cabe agravo contra decisão do presidente ou do vice-presidente do

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tribunal recorrido que inadmitir recurso extraordinário ou recurso especial, salvo quando
fundada na aplicação de entendimento firmado em regime de repercussão geral ou em
julgamento de recursos repetitivos

A petição do agravo é dirigida ao Presidente do Tribunal de origem, sendo certo que, em


seguida, será intimado a apresentar contrarrazões.

Caso não haja juízo de retratação pelo Presidente do Tribunal, será o agravo remetido ao
Tribunal superior competente.

VIII. Embargos de divergência

Embargos de divergência são recurso de competência exclusiva do STF e do STJ.

O objetivo é encerrar ou uniformizar a interpretação de um texto normativo.

São hipóteses de embargos de divergência:

• quando no mesmo tribunal superior for detectada uma divergência entre uma decisão
proferida em recurso extraordinário ou recurso especial com outra decisão proferida por
qualquer órgão do mesmo tribunal relativamente ao mérito de um recurso, caberá os
embargos de divergência.

• quando se tratar de uma decisão que enfrentou o mérito com outra que não tenha
conhecido do recurso, embora tenha abordado a controvérsia e tenha abordado de
forma diversa daquela.

A competência para apreciar embargos de divergência é do Órgão Especial do STJ ou do


Pleno do STF.

A Súmula 420 do STJ diz que é incabível, em sede de embargos de divergência, discutir
valor de indenização de danos morais.

A divergência que autoriza a interposição desse recurso pode se verificar tanto na


aplicação de direito material quanto na aplicação de direito processual, desde que se trate de
interpretação de texto normativo.

O prazo de interposição dos embargos de divergência é de 15 dias úteis.

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Vale destacar que a interposição dos embargos de divergência no STJ vai interromper o
prazo para interposição de recurso extraordinário.

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