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SUMÁRIO

1 – DEFINIÇÕES E TERMINOLOGIAS | p. 3
2 – AÇÃO CIVIL PÚBLICA | p. 5
3 – AÇÃO POPULAR | p. 30
4 – MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO | p. 37
5 – LEGISLAÇÃO ESPECIAL | p. 42

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DIREITOS DIFUSOS E COLETIVOS

1. DEFINIÇÕES E TERMINOLOGIAS

1.1. Interesses transindividuais: objeto do direito coletivo

Tais interesses são denominados trasindividuais, supraindividuais ou metaindividuais


por pertencerem a grupos, classes ou categorias mais ou menos extensas de pessoas, por vezes
indetermináveis, e, em alguns casos, não serem passíveis de apropriação e disposição indivi-
dual, dada a sua indivisibilidade.

1.1.1. Interesses difusos

*Características:

a) Indivisibilidade do objeto: a ameaça ou lesão ao direito de um de seus titulares


configura igual ofensa ao direito de todos os demais, e o afastamento da ameaça ou a repara-
ção do dano causado a um dos titulares beneficia igualmente e a um só tempo todos os demais
titulares;

b) Situação de fato em comum: seus titulares estão agregados em função de uma


situação fática homogênea;

c) Indeterminabilidade dos titulares: seus titulares são indeterminados e indetermi-


náveis.

1.1.2. Interesses coletivos em sentido estrito

*Características:

a) Indivisibilidade do objeto;

b) Relação jurídica em comum: seus titulares têm em comum uma relação jurídica
que os une entre si, ou que une cada um deles com a parte contrária. Importante ressaltar que
tal relação é preexistente à relação jurídica que surge após a lesão ou ameaça de lesão ao inte-
resse comum.

c) Determinabilidade dos titulares: em razão da relação jurídica existente entre os


titulares do direito coletivo, ou deles com a parte contrária, é possível determiná-los, identificá-
-los.

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1.1.3. Interesses individuais homogêneos

*Características:

a) Divisibilidade do objeto: a lesão sofrida por cada titular pode ser reparada na pro-
porção da respectiva ofensa;

b) Origem comum (situação fática ou jurídica comum): essa comunhão de origem


não significa que os direitos tenham se originado de um único fato, ocorrido ao mesmo tempo
e no mesmo lugar.

c) Determinabilidade dos titulares: pois tratam-se de direitos subjetivos individuais.

d) Recomendabilidade de tratamento conjunto em razão da utilidade coletiva dessa


tutela.

1.2. Tutela coletiva de direitos X Tutela de direitos coletivos: a questão sobre a abrangência
do gênero dos direitos coletivos em sentido amplo

Teori Zavascki diferenciava a tutela de direitos coletivos da tutela coletiva de direitos.


Aquela se refere à tutela dos direitos difusos e coletivos, e esta, dos direitos individuais homo-
gêneos.

Mazilli, por sua vez, partindo da premissa de que, do ponto de vista processual, a
principal característica dos interesses transindividuais é a possibilidade de que o acesso indivi-
dual dos lesados à Justiça seja substituído por um acesso coletivo, considera que, em sentido
lato, os direitos individuais homogêneos não deixam de ser também interesses coletivos.

1.3. Interesses essencialmente coletivos X interesses acidentalmente coletivos

Tendo em vista a semelhança entre os interesses difusos e coletivos em sentido es-


trito (principalmente por força da indivisibilidade do objeto), alguns autores os denonimam
interesses essencialmente coletivos por apresentarem uma transindividualidade real (material).

Por outro lado, os interesses individuais homogêneos apresentam uma transindivi-


dualidade meramente formal, razão pela qual são denominados interesses acidentalmente co-
letivos.

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2. AÇÃO CIVIL PÚBLICA

2.1. Princípios do Direito Processual Coletivo Comum

2.1.1. Princípio do acesso à justiça

Para viabilizar o efetivo acesso à justiça dos titulares de direitos transindividuais, a


relação processual foi sensivelmente modificada, sobretudo no tocante à legitimidade ativa,
admitindo-se que determinadas pessoas ou entes compareçam em juízo, em nome próprio, na
defesa de direito alheio.
2.1.2. Princípio da universalidade da jurisdição

Trata-se de princípio diretamente relacionado com o postulado anterior, tendo em


vista a necessidade de ampliar o acesso à justiça à um número muito maior de pessoas e de
causas.

2.1.3. Princípios da participação no processo e pelo processo

Participar no processo é ter assegurado o direito ao contraditório. Participar pelo pro-


cesso, consiste em utilizá-lo para influir nos destinos da nação e do Estado, ou seja, empregá-lo
com vistas ao seu escopo político.

2.1.4. Princípio da economia processual

O processo coletivo potencializa o alcance desse princípio, eis que possibilita decidir,
num único processo, questões que, relegadas aos métodos convencionais, restariam pulveriza-
das numa infinidade de ações individuais.

2.1.5. Princípio do interesse jurisdicional no conhecimento do mérito

No âmbito do processo coletivo é ainda mais necessário o abandono do formalismo


excessivo, com vistas à pacificação social dos conflitos de massa, o que justifica a maior contun-
dência do princípio da instrumentalidade das formas.

2.1.6. Princípio da máxima prioridade jurisdicional da tutela coletiva

Considerando que, em regra, o interesse social prevalece sobre os direitos individuais,


a prioridade de julgamento dos feitos coletivos é recomendável para evitar a proliferação dos
processos individuais e, por conseguinte, a prolação de decisões contraditórias.

2.1.7. Princípio da disponibilidade motivada da ação coletiva

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Dada a relevância social dos interesses objeto das ações coletivas, delas não se pode
desistir sem um justo motivo, tampouco simplesmente abandoná-las. Por força deste princípio,
a desistência infundada ou o abandono da ação coletiva demandam a assunção do polo ativo
pelo Ministério Público ou por outro legitimado.

2.1.8. Princípio da não taxatividade da ação coletiva

É possível o manejo da ação civil pública para a defesa de qualquer interesse difuso
ou coletivo, bem como quaisquer espécies de direitos individuais homogêneos.

2.1.9. Princípio do máximo benefício da tutela jurisdicional coletiva comum

O objetivo desse postulado é potencializar os efeitos benéficos da tutela jurisdicio-


nal, a fim de que uma única sentença beneficie um número expressivo de interessados, otimi-
zando a pacificação dos conflitos sociais, e evitando a proliferação de demandas individuais na
fase de conhecimento.

2.1.10. Princípio da máxima amplitude do processo coletivo

Para a defesa de interesses coletivos em sentido amplo são cabíveis todas as espécies
de ações (conhecimento ou execução), procedimentos, provimentos (declaratório, condenató-
rio, constitutivo ou mandamental), e tutelas provisórias (cautelares, antecipadas ou de evidên-
cia).

2.1.11. Princípio da obrigatoriedade da execução coletiva pelo Ministério Público

No processo coletivo comum, caso o autor deixe de executar a sentença, o Ministério


Público é obrigado a fazê-lo, tendo em vista a relevância social dos interesses objeto das ações
coletivas.

2.1.12. Princípio da ampla divulgação da demanda

A divulgação da demanda coletiva deve ser suficientemente ampla para levar a exis-
tência da ação ao conhecimento de todas as vítimas ou sucessores que poderiam ser beneficia-
dos pela eventual extensão da coisa julgada coletiva.

2.1.13. Princípio da informação aos órgãos legitimados

Qualquer pessoa pode – e o servidor público deve – levar ao conhecimento dos ór-
gãos legitimados para ajuizar uma ação coletiva a ocorrência de fatos que possam motivá-la.

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2.1.14. Princípio da maior coincidência entre o direito e sua realização

Ante a indisponibilidade material ou processual dos direitos coletivos em sentido


amplo, este princípio preconiza a prioridade da tutela específica da obrigação em detrimento
de outras formas de reparação do direito lesado.

2.1.15. Princípio da integração entre a LACP e o CDC

A LACP e o CDC contemplam as normas processuais de caráter genérico do micros-


sistema processual coletivo, razão pela qual suas disposições devem ser aplicadas de forma in-
tegrada.

2.2. Condições da ação

2.2.1. Legitimidade ad causam


2.2.1.1. Legitimidade ativa

Consoante o disposto no artigo 5º da LACP, tem legitimidade para propor ação civil
pública:

I - o Ministério Público;

II - a Defensoria Pública;     

III - a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;      

IV - a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de economia


mista

V - a associação que, concomitantemente:     

a) esteja constituída há pelo menos 1 (um) ano nos termos da lei civil;     

b) inclua, entre suas finalidades institucionais, a proteção ao patrimônio


público e social, ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica,
à livre concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos
ou ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.

Conclui-se, portanto, que o nosso sistema é misto ou pluralista, pois tanto entes pú-
blico quanto privados estão legitimados a agir na defesa de interesses coletivos em sentido
amplo.

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Além disso, trata-se de legitimidade concorrente, porque não foi deferida exclusiva-
mente a determinado ente, e disjuntiva, pois a formação de litisconsórcio entre os legitimados
é meramente facultativa.

2.2.1.1.2. Natureza jurídica

De modo geral, entende-se que a legitimidade para a defesa de direitos difusos, co-
letivos ou individuais homogêneos é extraordinária, na forma de substituição processual, res-
salvadas as associações que, segundo o STF, a partir da interpretação do artigo 5º, inciso XXI da
Constituição, atuam como representantes processuais de seus filiados (RE 193503).

No tocante ao ajuizamento de ações coletivas para a defesa de interesses difusos e


coletivos em sentido estrito, parcela da doutrina entende que se trata de legitimação ordinária,
porquanto os legitimados também são titulares do direito discutido em juízo.
Ainda, há quem entenda tratar-se de legitimação autônoma para a condução do pro-
cesso, tendo em vista que a legitimidade extraordinária pressupõe substituído certo, o que não
ocorre nas ações coletivas em que os titulares do direito são indetermináveis.

ATENÇÃO: Ações pseudocoletivas: embora propostas por um único legitimado extraordinário,


na verdade são pleiteados, específica e concretamente, direitos individuais de inúmeros
substituídos, caracterizando uma pluralidade de pretensões equiparável ao litisconsórcio
multitudinário.

2.2.1.1.3. Ministério Público

Apesar de prescindível a comprovação de pertinência temática, é mister verificar, em


cada caso, se a defesa dos interesses discutidos na demanda é compatível com o perfil constitu-
cional do órgão ministerial. Nesse contexto, o Ministério Público tem legitimidade para defen-
der qualquer interesse difuso, pois inegável a sua relevância social.

Por outro lado, no tocante aos direitos coletivos em sentido estrito e individuais ho-
mogêneos, a atuação do parquet está adstrita aos interesses indisponíveis ou afetos à coletivi-
dade. A relevância social pode ser objetiva (decorrente da própria natureza dos valores e bens
em questão, tal como a dignidade humana, a saúde, a educação, etc.) ou subjetiva (em razão da
qualidade especial dos titulares – um grupo de idosos ou de crianças por exemplo).

Embora a atuação do Ministério Público não esteja vinculada à respectiva Justiça, na


prática, os Ministérios Públicos Estaduais têm restringido a sua atuação às Justiças Estaduais, ao
passo que o Ministério Público Federal tem se limitado a atuar na seara federal, nas hipóteses
previstas no artigo 109 da Constituição Federal. Neste aspecto, ressalvam-se apenas as ações
propostas em litisconsórcio formado por membros de ramos diversos.

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2.2.1.1.4. Defensoria Pública

O artigo 5º, inciso II da lei 8429/92 incluiu expressamente a Defensoria Pública entre
os entes legitimados à propositura de ações coletivas, tal como o Código de Defesa do Consu-
midor e outros diplomas normativos.

Nos termos do artigo 134 da Constituição Federal:

Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à fun-


ção jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instru-
mento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídi-
ca, a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus,
judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma in-
tegral e gratuita, aos necessitados, na forma do  inciso LXXIV do art. 5º
desta Constituição Federal.       

Ante sua função institucional, é mister que a Defensoria atue em prol dos necessita-
dos, mas nada impede que, em virtude da natureza difusa do direito tutelado, a coletividade
substituída também seja composta por pessoas não necessitadas. Assim, consoante o entendi-
mento dos Tribunais Superiores, a Defensoria Pública detém legitimidade para propor ação civil
pública em defesa de qualquer interesse difuso e, em relação aos interesses coletivos em senti-
do estrito e individuais homogêneos, quando o grupo de lesados incluir titulares necessitados,
ainda que nem todos ostentem tal condição (STF, ADI 3943).

2.2.1.1.5. Entes da Administração Direta

Apesar de prescindível a comprovação de pertinência temática, há que se verificar,


em cada caso concreto, se existe conexão entre as competências, os serviços, as atividades ou
o patrimônio do ente, e a causa de pedir e o pedido formulados na ação. A doutrina interpreta
essa vinculação como interesse processual (interesse de agir).

2.2.1.1.6. Entes da Administração Indireta

Ao contrário dos entes da Administração direta, a legitimação das autarquias, fun-


dações, empresas públicas e sociedades de economia mista está condicionada à comprovação
de pertinência temática. Apesar de a lei exigir tal requisito apenas em relação às associações,
a atuação dos entes da Administração indireta está adstrita às finalidades para as quais foram
criadas, por força do princípio da especialidade. Portanto, a propositura de ação civil pública
pressupõe adequação entre o objeto da demanda e as funções institucionais da entidade au-
tora.

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2.2.1.1.7. Fundações privadas

A LACP cita o vocábulo “fundação” no inciso pertinente a outros entes da Adminis-


tração Indireta, mas não se refere expressamente às fundações públicas ou privadas. Por essa
razão, o STJ já se manifestou pela legitimidade de fundação privada para a propositura de ação
civil pública (AR 497).

2.2.1.1.8. Ordem dos Advogados do Brasil

A Ordem dos Advogados do Brasil não figura como legitimada à propositura de ação
civil pública no rol da Lei 7347/85. Porém, o Estatuto da OAB confere ao Conselho Federal e aos
respectivos Conselhos Seccionais a prerrogativa de ajuizar ações coletivas destinadas à defesa
dos interesses que lhes são afetos (artigos 54, inciso XIV e 57 da Lei 8906/94).

Na qualidade de entidade de classe, a OAB detém legitimidade para defender, via


ação civil pública, os interesses coletivos em sentido estrito e individuais homogêneos dos ad-
vogados a ela filiados. Quanto aos interesses difusos, apesar da divergência doutrinária e juris-
prudencial, prevalece o entendimento pela legitimidade da Ordem, quando o grupo de lesados
incluir titulares advogados, ainda que nem todos ostentem tal condição.

2.2.1.1.9. Entes despersonalizados

O CDC, em seu artigo 82, inciso III outorgou às entidades e órgãos da Administração
Direta ou Indireta, ainda que sem personalidade jurídica, a legitimidade para propor ações co-
letivas.

Tendo em vista a reciprocidade existente entre as normas da LACP e do CDC, não


apenas os entes administrativos despersonalizados de defesa dos consumidores, mas também
os voltados à defesa de outros interesses transindividuais, tem legitimidade para a propositura
de ação civil pública, desde que comprovada a pertinência temática.

2.2.1.1.10. Associações civis

No gênero associação civil encontram-se não apenas as associações tradicionais, mas


também as entidades de classe e as confederações (associação de associações).

A legitimidade das associações está condicionada à sua representatividade adequa-


da que decorre do preenchimento dos seguintes requisitos: a) constituição formal; b) pré-cons-
tituição pelo prazo de um ano e; c) pertinência temática (artigo 5º, V, a e b da LACP).

Em relação ao último requisito citado, o STJ tem reconhecido a legitimidade da asso-


ciação para propositura de ação civil pública, ainda que não prevista em seu estatuto, ipsis literis,

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a finalidade de defesa de determinado direito transindividual (REsp 31150).

No tocante à natureza jurídica da legitimidade das associações, segundo o STF, a par-


tir da interpretação do artigo 5º, inciso XXI da Constituição, trata-se de hipótese de representa-
ção processual, de sorte que a propositura da demanda pressupõe autorização específica dos
filiados, salvo para fins de impetração de mandado de segurança coletivo, por força de disposi-
ção legal expressa (RE 193503).

2.2.1.1.11. Partidos políticos

Prevalece o entendimento no sentido de que os partidos políticos constituem es-


pécie do gênero associação e, como tal, detém legitimidade para a propositura de ação civil
pública, dispensada, contudo, a comprovação de pertinência temática, dada a sua abrangência
programática.

2.2.1.1.12. Sindicatos

A legitimidade dos sindicatos para a defesa dos interesses coletivos e individuais da


categoria decorre do artigo 8º, inciso III da Constituição Federal. Não obstante, as entidades
sindicais tem personalidade associativa e, como tal, sua legitimação para a propositura de ação
civil pública também tem assento na Lei 7347/85.

Outrossim, a legitimidade dos sindicatos não está adstrita à defesa dos seus filiados,
mas abrange os integrantes de toda a categoria representada. Além disso, a entidade sindical
atua em juízo na qualidade de substituto processual, de sorte que, consoante o entendimento
do STF, a propositura da demanda independe de autorização específica dos substituídos (RE
193503).

2.2.1.1.13. Legitimidade ativa subsidiária

Denomina-se legitimidade ativa subsidiária a hipótese prevista no artigo 5º, § 3º da


LACP, de forma que, em caso de desistência infundada ou abandono da ação pela associação
autora, o Ministério Público ou outro legitimado assumirá a titularidade ativa. É subsidiária por-
que quem assume o polo ativo o faz em substituição ao autor original.

Se o magistrado discordar da recusa do membro do Ministério Público em assumir


a titularidade da ação, deverá, em analogia ao disposto no artigo 9º da LACP, remeter os autos
ao Conselho Superior. Por outro lado, qualquer outro legitimado, inclusive o Ministério Público,
pode desistir da demanda coletiva, comprovado justo motivo para tanto.

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2.2.1.2. Legitimidade passiva

Qualquer pessoa física ou jurídica, responsável pelo dano, efetivo ou potencial, a di-
reitos coletivos em sentido amplo, pode figurar como réu em ação civil pública, inclusive entes
sem personalidade jurídica, quando dotados de personalidade judiciária.

2.2.1.2.1. Legitimação extraordinária passiva

A princípio, todos os entes legitimados à propositura de ação civil pública poderiam


figurar como réus em demandas da mesma espécie. Todavia, a denominada ação coletiva passi-
va é objeto controvérsia doutrinária, destacando-se duas correntes, a saber:

a) Favorável: o artigo 5º, § 2º da LACP faculta aos legitimados habilitarem-se como


litisconsortes de “qualquer das partes”, inclusive do réu. Mister, porém, neste caso, que o juiz
analise a representatividade adequada do réu, tal como ocorre no modelo das class actions nor-
te-americanas.

b) Desfavorável: a substituição processual é instituto excepcional e as normas que


regem a ação coletiva autorizam a legitimação extraordinária somente no polo ativo. Entendi-
mento em sentido contrário é incompatível com o regime da coisa julgada coletiva, bem como
viola os postulados constitucionais do contraditório, da ampla defesa e do devido processo
legal. Ressalvam-se, apenas, as hipóteses de embargos à execução, embargos de terceiro, ação
rescisória e ação anulatória de compromisso de ajustamento de conduta.

ATENÇÃO: de acordo com a última corrente não é cabível reconvenção em sede de ação civil
pública, pois a substituição somente é admitida no polo ativo, ao passo que a reconvenção
pressupõe que o autor-reconvindo esteja legalmente autorizado à defesa em nome próprio
de interesses alheios no polo passivo.

2.2.2. Interesse processual

Considerando o binômio necessidade-adequação, a reparação do dano ou a adoção


de medidas destinadas e evitá-lo, afasta a necessidade de provimento jurisdicional para satisfa-
zer a pretensão e, portanto, o interesse processual.

ATENÇÃO: Falta ao autor interesse processual para a propositura de ação civil pública desti-
nada a impugnar atos jurisdicionais típicos. Isso porque os pronunciamentos judiciais dessa
natureza podem ser impugnados pela via recursal própria, ou através das ações autônomas de
impugnação, tais como o mandado de segurança e a ação rescisória.

Todavia, os atos expedidos pelo Poder Judiciário no exercício de função administrati-

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va, por sua vez, são atos judiciais atípicos e, nessa qualidade, podem ser objeto de ação popular,
desde que presentes os demais pressupostos caracterizadores do interesse processual.

2.2.3. Possibilidade jurídica do pedido

2.2.3.1. Controle de constitucionalidade

A argüição de inconstitucionalidade no bojo de uma ação civil pública somente é


admissível em caráter incidental, ou seja, como causa de pedir, sob pena de usurpação da com-
petência do STF, tendo em vista os efeitos erga omnes da coisa julgada coletiva.

2.2.3.2. Questões tributárias, contribuições previdenciárias, FGTS e outros fundos

Dispõe o artigo 1º, parágrafo único da LACP:

Não será cabível ação civil pública para veicular pretensões que envol-
vam tributos, contribuições previdenciárias, o Fundo de Garantia do
Tempo de Serviço - FGTS ou outros fundos de natureza institucional
cujos beneficiários podem ser individualmente determinados.

Sem embargo o STF reconheceu que o Ministério Público tem legitimidade para pro-
por ação civil pública visando à anulação de benefícios fiscais em defesa dos interesses de todos
os cidadãos, no tocante à integridade do erário e à higidez do processo de arrecadação tribu-
tária, valores de natureza metaindividual (RE 576155). Ademais, a vedação legal não abrange
tarifas ou preços públicos, pois não tem natureza tributária e envolvem relações de consumo.

2.3. Elementos da ação

2.3.1. Partes

A questão sobre quem pode ser parte em uma ação civil pública foi tratada no item
sobre legitimidade ad causam.

2.3.2. Causa de pedir

Na ação civil pública, não é preciso descrever a situação fático-jurídica peculiar a cada
um dos interessados, pois o que caracteriza os interesses coletivos em sentido amplo são as cir-
cunstâncias comuns a todos os titulares.

2.3.3. Pedido

2.3.3.1. Objeto imediato

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Por força do princípio da máxima amplitude do processo coletivo, para a defesa de
interesses transindividuais são cabíveis todas as espécies de ações (conhecimento ou execu-
ção), procedimentos, provimentos (declaratório, condenatório, constitutivo ou mandamental),
e tutelas provisórias (cautelares, antecipadas ou de evidência).

2.3.3.2. Objeto mediato

Qualquer bem que pode ser objeto de interesses coletivos em sentido amplo, pode
ser objeto mediato do pedido formulado em sede de ação civil pública.

Para fins de determinação do pedido mediato, deve-se considerar o bem da vida par-
ticularizado na petição inicial e não a mera identidade de gênero. Especificamente nas ações co-
letivas que versem sobre interesses individuais homogêneos, o pedido, e consequentemente,
eventual sentença condenatória será sempre genérico (artigo 95 do CDC).

2.4. Competência

2.4.1. Competência originária nos tribunais de superposição

A Constituição não prevê, expressamente, nenhuma hipótese que autorize o STJ a


processar e julgar, originariamente, ações civis públicas. Já o STF será originariamente compe-
tente para tanto nas seguintes hipóteses:

a) litígio entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e a União, o Estado, o


Distrito Federal ou o Território (artigo 102, I, e da CF);

b) causas e conflitos entre a União e os Estados, a União e o Distrito Federal, ou entre


uns e outros, inclusive as respectivas entidades da administração indireta (artigo 102, I, f da CF);

c) ação em que todos os membros da magistratura sejam direta ou indiretamente


interessados, e aquela em que mais da metade dos membros do tribunal de origem estejam
impedidos ou sejam direta ou indiretamente interessados (artigo 102, I, n da CF) e;

d) ações contra o Conselho Nacional de Justiça e contra o Conselho Nacional do Mi-


nistério Público (artigo 102, I, r da CF);

De outro lado, embora exista previsão constitucional de competência originária do


STF e do STJ para processar e julgar determinadas ações penais, não existe foro por prerrogativa
de função nas ações civis públicas.

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2.4.2. Competência de jurisdição

2.4.2.1. A presença do Ministério Público Federal e a questão da competência

A simples presença do Ministério Público Federal no polo ativo tem o condão de atri-
buir a competência à Justiça Federal. A esse respeito, destacam-se dois entendimentos, a saber:

a) O MPF é um órgão da União, de forma que, figurando como parte na relação pro-
cessual, caberá à Justiça Federal apreciar a demanda;

b) A presença do MPF no polo ativo não é suficiente para fixar a competência da Jus-
tiça Federal, pois, por força dos princípios da unidade e indivisibilidade, a atuação dos diversos
ramos do Ministério Público não está vinculada à respectiva Justiça.

2.4.3. Competência territorial

Conjugando as regras previstas no artigo 2º da LACP e 93 do CDC, bem como dispo-


sições específicas da legislação especial, temos:

EXTENSÃO DO DANO COMPETÊNCIA


LOCAL (um único ou poucos foros,
Qualquer dos foros atingidos
ainda que em dois Estados vizinhos)
REGIONAL (muitos foros de um único
Estado, sem abranger todo o territó- Foro da capital do Estado
rio Estadual)

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REGIONAL (vários Estados, e, even- Foros das capitais dos Estados atingi-
tualmente, o Distrito Federal, sem dos e foro do Distrito Federal (se atin-
abranger todo o território nacional) gido)
Foros das capitais de quaisquer dos
NACIONAL (todo o território nacio-
Estados atingidos e foro do Distrito
nal)
Federal
ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADO- Local da ação ou omissão (artigo 209
LESCENTE do ECA)
Foro do domicílio do idoso (artigo 80
ESTATUTO DO IDOSO
do Estatuto do Idoso)

Trata-se de competência determinada pelo local do dano, mas qualificada pela LACP
com funcional. Portanto, a competência estabelecida nas regras citadas é absoluta e insuscetí-
vel de prorrogação por causas voluntárias (não oposição de exceção de incompetência, eleição
de foro), mas prorrogável por causas legais (conexão e continência).

No tocante à continência, importante observar o enunciado da Súmula 489 do STJ,


de sorte que, verificada a identidade parcial, devem ser reunidas na Justiça Federal as ações civis
públicas propostas nesta e na Justiça Estadual.

2.4.3.1. Juizados Especiais Cíveis Federais

O artigo 3º, § 1º, inciso I da Lei 10259/01 exclui expressamente da competência dos
Juizados Especiais Federais as demandas sobre interesses difusos, coletivos em sentido estrito
e individuais homogêneos. Ressalte-se que, tal vedação diz respeito às ações coletivas e não às
demandas individuais acerca destes direitos.

2.4.3.2. Juizados Especiais Cíveis Estaduais

Apesar da inexistência de vedação legal expressa, os Juizados se destinam às causas


cíveis de menor complexidade, cujo valor não seja superior à 40 (quarenta) salários-mínimos.
Além disso, não podem figurar como parte no procedimento sumaríssimo as pessoas jurídicas
de direito público.

Por tais razões, o Fórum Nacional de Juizados Especiais realizado em 2009, editou o
Enunciado 32, com a seguinte redação:

Não são admissíveis as ações coletivas nos Juizados Especiais Cíveis.

No tocante aos Juizados Especiais da Fazenda Pública, por força de disposição legal
expressa, não se admite a veiculação, nesses juízos, de demandas sobre interesses difusos e co-

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letivos (artigo 2º, § 1º, I da Lei 12153/09).

2.5. Litisconsórcio, intervenção de terceiros e oposição

2.5.1. Litisconsórcio e assistência

2.5.1.1. Litisconsórcio ativo de colegitimados

A legitimidade para a propositura de ação civil pública é disjuntiva, mas nada impede
que dois ou mais colegitimados ajuízem a demanda em conjunto. Trata-se de listisconsórcio
facultativo e unitário.

Consoante o disposto no artigo 5º, § 2º da LACP:

Fica facultado ao Poder Público e a outras associações legitimadas nos ter-


mos deste artigo habilitar-se como litisconsortes de qualquer das partes.

Parte da doutrina entende que o nosso sistema processual não admite a formação de
litisconsórcio ulterior facultativo, salvo no caso de litisconsórcio necessário. Sob tal premissa, a
hipótese prevista no dispositivo acima reproduzido, por contemplar intervenção facultativa no
processo, não seria de litisconsórcio, mas de assistência litisconsorcial.

Outros, embora admitam o litisconsórcio facultativo ulterior, distinguem-no da assis-


tência litisconsorcial, sustentando que, naquele, o interveniente tem legitimidade para ajuizar
ação com o mesmo objeto litigioso da proposta pelo assistido; ao contário, na assistência litis-
consorcial, apesar de possuir relação jurídica com a parte contrária, o assistente não tem legiti-
midade para propor ação com objeto litigioso idêntico ao do assistido. Logo, sob tal ponto de
vista, o dispositivo legal citado representa hipótese de litisconsórcio.

2.5.1.2. Litisconsórcio ativo entre Ministérios Públicos

A formação de litisconsórcio facultativo entre membros do Ministério Público de di-


ferentes ramos decorre de disposição legal expressa. Nesse sentido dispõe o artigo 5º, § 5º da
Lei 7347/85:

Admitir-se-á o litisconsórcio facultativo entre os Ministérios Públicos da


União, do Distrito Federal e dos Estados na defesa dos interesses e direi-
tos de que cuida esta lei.

Porém, a validade do aludido dispositivo legal é controvertida na doutrina. Contra tal


possibilidade, argumenta-se que o Ministério Público é uma instituição una e indivisível e que
a atuação de cada ramo está vinculada à respectiva Justiça. Em sentido oposto, alega-se que o

17
princípio da unidade se verifica dentro de cada um dos ramos da instituição, bem como que a
sua atuação não está vinculada à respectiva Justiça.

Os Tribunais Superiores, por sua vez, admitem a atuação conjunta de membros per-
tencentes a ramos diversos da instituição, tendo em vista o princípio da unidade. Ressalte-se,
todavia, que, consoante o entendimento do STJ, a complexidade da causa, por si só, não justifica
a formação de litisconsórcio ativo entre membros do Ministério Público Estadual e Federal, que
pressupõe a comprovação de alguma razão específica para tanto.

Isso porque, a formação desnecessária do litisconsórcio poderá, ao final, comprome-


ter as finalidades do instituto (economia processual e efetividade da jurisdição), resultando, por
exemplo, em procrastinação do feito pela necessidade de intimação pessoal de cada membro
do órgão ministerial, que dispõe de prazo específico para manifestação (REsp 1254428).

2.5.1.3. Litisconsórcio, assistência simples e litisconsorcial de não colegitimados

Não há impedimento à assistência simples de não colegitimados no polo ativo ou


passivo. Igualmente, é possível o litisconsórcio e a assistência litisconsorcial no polo passivo. A
controvérsia, portanto, reside no polo ativo. Vejamos:

AÇÃO CIVIL PÚBLICA PARA LITISCONSÓRCIO E ASSISTÊNCIA LITISCONSORCIAL DE NÃO


A DEFESA DE: COLEGITIMADOS NO POLO ATIVO
Regra: impossíveis, pois: 1) a lei só admite litisconsórcio no
caso de colegitimados ou de interesses individuais homogê-
neos; 2) haveria risco de tumulto processual, pelo grande afluxo
Interesses difusos de novos sujeitos processuais.
Exceção doutrinária: possível o litisconsórcio somente ao ci-
dadão, nos casos em que também lhe for possível ajuizar ação
popular com idêntico objeto ou conexa.
Impossíveis, pois: 1) a lei só admite litisconsórcio no caso de
colegitimados ou de interesses individuais homogêneos; 2) ha-
veria risco de tumulto processual, pelo grande afluxo de novos
Interesses coletivos em
sujeitos processuais.
sentido estrito
Obs.: não se aplica a exceção doutrinária, pois os cidadão não
tem legitimidade para defender interesses coletivos em sede
de ação popular.
Interesses individuais ho-
Possíveis para os indivíduos lesados
mogêneos

2.5.1.4. Facultatividade do litisconsórcio passivo em ações ambientais

Considerando que a responsabilidade dos poluidores é solidária, a formação de li-

18
tisconsórcio entre eles, nas ações destinadas à reparação dos danos ambientais, é meramente
facultativa.

2.5.2. Denunciação da lide

O STJ e a doutrina majoritária não admitem denunciação da lide nas ações civis pú-
blicas fundadas na responsabilidade objetiva do réu, tendo em vista que a introdução da res-
ponsabilidade subjetiva de terceiro na discussão tende a procrastinar a conclusão do processo,
violando os princípios da celeridade e economia processual.

2.5.3. Chamamento ao processo

Tal espécie de intervenção de terceiro também não é admitida nas ações civis pú-
blicas fundadas na responsabilidade objetiva do réu, pelos mesmos motivos que vedada a de-
nunciação da lide, ressalvada, tão somente, a possibilidade de chamamento ao processo da
seguradora nas ações de responsabilidade do fornecedor de produtos e serviços (artigo 101, II
do CDC).

2.5.4. Oposição

No Novo CPC, a oposição não constitui mais espécie de intervenção de terceiros e


sim procedimento especial (artigos 682 a 686). De qualquer forma, o autor da ação civil pública
é legitimado extraordinário e, como tal, sua atuação está restrita ao polo ativo da demanda.

2.6. Conexão, continência e litispendência

2.6.1. Relação entre demandas coletivas e ações individuais

2.6.1.1. Identidade total

Não há litispendência ou coisa julgada entre demandas coletivas e ações individuais,


pois as partes sempre serão formalmente diversas. Além disso, nas ações coletivas o pedido é
genérico.

2.6.1.2. Identidade parcial

Pode haver conexão entre demandas coletivas e ações individuais por identidade
da causa de pedir. Neste caso, a ação individual deve ser suspensa até o julgamento do processo
coletivo.

19
2.6.2. Relação entre demandas coletivas

2.6.2.1. Identidade total

Pode haver litispendência ou coisa julgada entre demandas coletivas (a depender


do fundamento da improcedência da primeira ação). Neste caso, tratando-se da mesma parte
formal, a primeira ação deve ser extinta sem resolução de mérito ou, sendo as partes formais
diferentes, reunidas para julgamento conjunto.

2.6.2.2. Identidade parcial

Pode haver conexão ou continência entre demandas coletivas e ações individuais


por identidade da causa de pedir ou do pedido. Neste caso, uma das ações deve ser suspensa
ou reunidas para julgamento conjunto.

2.7. Inquérito civil e procedimento preparatório

Dispõe o artigo 8º, § 1º da LACP:

O Ministério Público poderá instaurar, sob sua presidência, inquérito


civil, ou requisitar, de qualquer organismo público ou particular, certi-
dões, informações, exames ou perícias, no prazo que assinalar, o qual
não poderá ser inferior a 10 (dez) dias úteis.

ATENÇÃO: Em razão do disposto no artigo 105-A da Lei 9504/97, o Procurador-Geral da Repú-


blica editou a portaria 499/2014, instituindo e regulamentando o Procedimento Preparatório
Eleitoral (PPE), para ser utilizado pelo Ministério Público na investigação de ilícitos eleitorais,
no lugar do inquérito civil.

2.7.1. Finalidades

PROCEDIMENTO PREPARATÓRIO INQUÉRITO CIVIL


Fornecer ao membro do Ministério Pú-
Fornecer ao membro do Ministério Pú- blico subsídios para a formação de seu
blico subsídios para a formação de seu convencimento sobre a necessidade ou
convencimento sobre a necessidade ou não de tutelar determinados interesses
não de instaurar um inquérito civil e sobre transindividuais, e identificar os meios
sua atribuição para instaurá-lo. adequados para tanto (judiciais ou extra-
judiciais)

20
2.7.2. Instauração

Possui atribuição para instaurar o inquérito civil ou o procedimento preparatório o


órgão do Ministério Público competente para ajuizar a futura ação civil pública. Em regra, esta
atribuição é conferida a um membro que oficie perante órgãos judiciários de primeira instância,
ressalvadas duas exceções:

a) Ação civil pública de competência originária do STF: Procurador-Geral da Repúbli-


ca (artigo 46, parágrafo único, inciso III da LC 75/93);

b) Ação civil pública em face do Governador do Estado, do Presidente da Assembléia


Legislativa ou dos Presidentes de Tribunais: Procurador-Geral de Justiça do respectivo Estado
(artigo 29, inciso III da Lei 8625/93).

2.7.3. Arquivamento

Diante da inexistência de fundamento para a propositura da ação civil pública, o Mi-


nistério Público deve promover o arquivamento do inquérito civil e demais peça de informação
e remeter os autos ao respectivo Conselho Superior. Nesse sentido dispõe o artigo 9º da LACP:

Art. 9º Se o órgão do Ministério Público, esgotadas todas as diligências,


se convencer da inexistência de fundamento para a propositura da ação
civil, promoverá o arquivamento dos autos do inquérito civil ou das pe-
ças informativas, fazendo-o fundamentadamente.

§ 1º Os autos do inquérito civil ou das peças de informação arquivadas


serão remetidos, sob pena de se incorrer em falta grave, no prazo de 3
(três) dias, ao Conselho Superior do Ministério Público.

§ 2º Até que, em sessão do Conselho Superior do Ministério Público,


seja homologada ou rejeitada a promoção de arquivamento, poderão
as associações legitimadas apresentar razões escritas ou documentos,
que serão juntados aos autos do inquérito ou anexados às peças de in-
formação.

§ 3º A promoção de arquivamento será submetida a exame e delibera-


ção do Conselho Superior do Ministério Público, conforme dispuser o
seu Regimento.

§ 4º Deixando o Conselho Superior de homologar a promoção de arqui-


vamento, designará, desde logo, outro órgão do Ministério Público para
o ajuizamento da ação.

21
Em sentido amplo, todos os elementos de convicção colacionados pelo Ministério
Público em um procedimento investigatório distinto do inquérito civil são peças de informação.
Portanto, o arquivamento do procedimento preparatório também deve ser submetido à homo-
logação do Conselho Superior.

O arquivamento implícito é incompatível com o princípio da obrigatoriedade, razão


pela qual se a medida (judicial ou extrajudicial) adotada pelo Ministério Público contemplar
apenas parte dos fatos investigados em sede de inquérito civil, aqueles que não foram objeto
de ação civil pública ou compromisso de ajustamento de conduta devem ser arquivados e sub-
metidos à revisão do órgão superior.

ATENÇÃO: o arquivamento do inquérito civil ou do procedimento preparatório promovido


pelo Procurador-Geral da República não se submete à homologação de órgão revisor. Dife-
rentemente, a Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, aplicável aos Ministérios Públicos
Estaduais, não isenta os arquivamentos promovidos pelos Procuradores-Gerais de Justiça da
necessidade de revisão perante os respectivos Conselhos Superiores.

2.7.4. Princípio da publicidade X sigilo

Em regra, os atos praticados no inquérito civil e no procedimento preparatório são re-


gidos pelo princípio da publicidade, portanto, nada obsta que o membro do Ministério Público
preste informações, inclusive aos meios de comunicação social, acerca das providências adota-
das para a apuração de fatos em teses ilícitos, vedada tão somente a emissão ou antecipação de
juízos de valor a respeito de apurações ainda não concluídas.

Excepcionalmente, a publicidade pode ser restringida nas hipóteses de sigilo legal,


em prol do êxito das investigações ou quando indispensável à segurança da sociedade ou do
Estado (artigo 5º, XXXIII da CF). Contudo, ainda que decretado o sigilo, o advogado constituído
tem direito de acesso aos autos do inquérito civil, relativamente aos elementos documentados
referentes ao investigado (Súmula Vinculante nº 14).

2.7.5. Princípio inquisitivo, contraditório e ampla defesa

A ausência de contraditório e ampla defesa são características dos procedimentos in-


vestigatórios, de natureza inquisitiva, tal como o inquérito civil e o procedimento preparatório.

Porém, nada obsta que a autoridade responsável pelo procedimento admita o exercí-
cio do contraditório na prática de alguns atos investigatórios, pois, desde que não comprometa
o resultado da investigação, tal permissão pode reforçar o valor probatório do ato.

22
2.7.6. Valor probatório

Em decorrência da natureza inquisitiva, os elementos de informação coligidos no in-


quérito civil e no procedimento preparatório tem valor probatório relativo. Ademais, eventuais
irregularidades na produção da prova não configuram nulidade processual, pois tratam-se de
procedimentos administrativos e informais que sequer constituem condição de procedibilida-
de ou pressuposto processual da ação civil pública.

2.8. Autocomposição

2.8.1. Autocomposição extrajudicial: Compromisso de Ajustamento de Conduta

2.8.1.1. Legitimação

De acordo com o disposto no artigo 5º, § 6º da Lei 7347/85:

Os órgãos públicos legitimados poderão tomar dos interessados com-


promisso de ajustamento de sua conduta às exigências legais, median-
te cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial.     

A expressão “órgãos públicos” constante do aludido dispositivo legal deve ser inter-
pretada no sentido de entes públicos, de forma a abranger não somente os órgãos, que, a rigor,
não detém personalidade jurídica, mas também as instituições, a exemplo do Ministério Públi-
co, e as pessoas jurídicas de direito público. Nesse contexto, autarquias e fundações públicas
tem legitimidade para celebrar Compromisso de Ajustamento de Conduta.

Ao contrário, a legitimação das empresas públicas e sociedades de economia mista é


controvertida na doutrina, tendo em vista possuírem personalidade jurídica de direito privado.
Por essa razão, prevalece o entendimento de que somente as empresas estatais prestadoras de
serviços públicos podem figurar como tomadoras do compromisso extrajudicial, pois, nessa
qualidade, equiparam-se aos entes dotados de personalidade jurídica de direito público.

2.8.1.2. Natureza jurídica

Apesar da controvérsia doutrinária, prevalece o entendimento de que o Compromis-


so de Ajustamento de Conduta não tem natureza jurídica de transação. Isso porque, o tomador
não é titular do interesse em questão e, portanto, o compromisso não envolve concessões mú-
tuas de direito material. Além disso, os interesses coletivos tem natureza transindividual e não
pertencem ao gênero dos direitos patrimoniais de caráter privado.

Seja uma espécie de acordo, seja um ato administrativo negocial, não há dúvida sobre
o caráter bilateral do compromisso que, por tal razão, está sujeito às mesmas condições de exis-

23
tência, validade e eficácia dos negócios jurídicos em geral.

2.8.1.3. Objeto

Embora o compromissário faça concessões em relação ao direito material contro-


vertido, o tomador não pode abdicar, ainda que parcialmente, do seu conteúdo, pois não é o
titular do interesse em questão. Logo, o compromisso deve versar apenas sobre o modo, lugar
e tempo no qual o dano ao interesse transindividual deve ser reparado, ou a ameaça afastada,
em sua integralidade.

2.8.1.4. Cominações

Conforme se infere da leitura do artigo 5º, § 6º da Lei 7347/85 citado acima, o Com-
promisso de Ajustamento de Conduta deve estabelecer medidas coercitivas adequadas e sufi-
cientes para desestimular o descumprimento das obrigações.

Assim, considerando as peculiaridades de cada caso concreto, podem ser fixadas


sanções pecuniárias com periodicidades diversas ou, ainda, obrigações de fazer ou não fazer.
Todavia, apesar da relevância da cominação, a ausência de previsão de multa cominatória não
acarreta a nulidade do compromisso. Neste caso, o próprio juiz pode fixá-la quando apresenta-
do o título para execução (artigo 814 do CPC).

2.8.1.5. Compromisso de ajustamento celebrado no âmbito de inquérito civil ou procedimento pre-


paratório

Celebrado o compromisso, antes mesmo de cumpridas as obrigações pactuadas, o


inquérito civil ou o procedimento preparatório deverá ser arquivado pelo membro que o presi-
dir e remetido ao Conselho Superior para hmologação.

2.8.1.6. Complementação, impugnação e novação

O Compromisso de Ajustamento de Conduta constitui garantia mínima em favor da


coletividade de lesados, nunca limitação máxima da responsabilidade do infrator. Portanto, a
princípio, tendo em vista a legitimidade concorrente para a propositura de ação civil pública
e a garantia constitucional da inafastabilidade da jurisdição, qualquer legitimado pode ajuizar
demanda relacionada ao mesmo fato objeto do compromisso.

Todavia, quando o compromisso é suficiente para a satisfação do direito tutelado


falta interesse processual para o ajuizamento de ação civil pública ao tomador e aos demais le-
gitimados. Logo, a propositura da demanda está condicionada à insuficiência ou invalidade do
acordo extrajudicial no que tange à tutela integral do interesse transindividual visado.

24
2.8.1.7. Execução

Embora a legitimidade para a celebração de Compromisso de Ajustamento de Con-


duta seja conferida apenas aos entes públicos, qualquer dos legitimados à propositura de ação
civil pública em defesa dos interesses versados no acordo extrajudicial poderá executá-lo.

Com efeito, entendimento em sentido contrário comprometeria demasiadamente a


eficácia da tutela coletiva, de sorte que existente o título, qualquer legitimado pode promo-
ver-lhe a execução, tal como se verifica em relação à sentença proferida em sede de ação civil
pública (artigo 15 da Lei 7347/85). Portanto, quando celebrado por entidade da Administração
direta, o Ministério Público ou qualquer outro legitimado detém legitimidade para promover a
execução do compromisso.

2.8.2. Autocomposição judicial

Ao contrário do Compromisso de Ajustamento de Conduta, a celebração de acordo


judicial não é privativa dos órgãos públicos legitimados à propositura da ação civil pública.

Após a homologação, litisconsortes, assistentes litisconsorciais e o Ministério Público


na qualidade de fiscal da ordem jurídica podem impugnar o acordo pela via recursal própria.
Igual direito detém o colegitimado que não atuou como parte no processo e, eventualmente, o
cidadão ou indivíduo lesado que poderiam ter atuado como assistentes litisconsorciais.

2.9. Sentenças coletivas

Se não foi possível obstar o dano ou o inadimplemento contratual através da adoção


de medidas preventivas, será cabível a tutela ressarcitória, voltada à sua reparação. Neste caso,
tem prioridade a tutela específica da obrigação, tendo em vista a indisponibilidade material do
direito.

Portanto, somente quando inviável a reprodução da situação anterior à lesão é cabí-


vel a tutela ressarcitória pelo equivalente em dinheiro, salvo tratando-se de obrigação de pagar
quantia certa, pois, neste caso, a entrega do numerário não representa a resolução da obrigação
em perdas e danos, mas a própria tutela específica.

ATENÇÃO: Por força do princípio da inafastabilidade da jurisdição, tendo em vista o direito à


tutela jurisdicional adequada e efetiva, prevalece o entendimento no sentido de que, a partir
do Novo CPC, é possível exigir imediatamente do réu o pagamento das multas cominadas li-
minarmente. Apesar do disposto no artigo 12, § 2º da LACP, a concessão de efetiva prevenção
e reparação judicial pressupõe a disponibilização de medidas liminares eficazes e, para tanto,
exigíveis de imediato.

25
A sentença proferida em sede de ação civil pública é recorrível via apelação, sem
prejuízo do pedido de suspensão da execução do pronunciamento judicial não transitado em
julgado, na forma prevista no artigo 12 da LACP.

2.10. Coisa julgada coletiva

O regime da coisa julgada coletiva é ditado pelo artigos 103 e 104 do CDC, associa-
dos aos polêmicos artigos 16 da LACP e 2º-A da Lei 9494/97. Em resumo, temos:

Interesses indivi-
Interesses difusos Interesses coletivos
duais homogêneos
Coisa julgada erga Coisa julgada ultra Coisa julgada erga
Procedência
omnes partes omnes
Improcedência por Coisa julgada erga Coisa julgada ultra Há coisa julgada em
pretensão infundada omnes partes relação aos colegiti-
mados, mas não erga
omnes (não impede
Improcedência por que as vítimas que
insuficiência de Não há coisa julgada Não há coisa julgada não atuaram como
provas litisconsortes bus-
quem a reparação
individual)

2.10.1. Coisa julgada material secundum eventum litis e secundum eventum probationes

Na ação civil pública destinada à defesa de qualquer interesse transindividual, a exis-


tência de coisa julgada erga omnes ou ultra partes está condicionada à procedência ou improce-
dência da demanda (secundum eventum litis).

Além disso, exclusivamente nas ações civis públicas destinadas à defesa de interesses
difusos e coletivos em sentido estrito, a coisa julgada material das sentenças de improcedência
depende do seu fundamento (secundum eventum probationes).

Ainda, nas ações civis públicas destinadas à defesa de interesses individuais homo-
gêneos, a coisa julgada material é secundum eventum litis, mas não é secundum eventum proba-
tiones.

2.10.2. Transporte in utilibus da coisa julgada coletiva

O transporte in utilibus da coisa julgada consiste na possibilidade de extensão dos


efeitos da sentença coletiva em favor de pretensões individuais não deduzidas no processo, a

26
depender do estágio procedimental das demandas:

a) Trânsito em julgado da sentença coletiva antes da propositura da ação individual:


basta que a vítima proceda à liquidação e execução do título;

b) Ação individual e ação coletiva em andamento: a vítima deve requerer, no prazo de


30 dias, a contar da ciência da existência da ação coletiva, a suspensão do processo individual;

ATENÇÃO: O STJ admite a suspensão de ofício dos processos individuais, tendo em vista os
princípios da economia processual, celeridade e harmonização dos julgados.

c) Trânsito em julgado da sentença individual antes da sentença coletiva: prevalece a


coisa julgada individual.

2.10.3. Transporte in utilibus da coisa penal

O aproveitamento da coisa julgada penal depende da espécie de crime praticado. Em


resumo, temos:

a) Crimes praticados em face de coletividades abstratas: aplica-se o regime da coisa


julgada coletiva, de forma que a sentença penal de improcedência, em nenhuma hipótese, pre-
judicará o direito à indenização das vítimas. Se procedente, basta a liquidação e execução da
sentença penal condenatória no juízo cível;

b) Crimes praticados contra vítimas determinadas: aplica-se o regime da coisa jul-


gada individual, de forma que a sentença penal absolutória fundada na inexistência do fato ou
da autoria prejudica o direito à indenização das vítimas no juízo cível.

2.10.4. Limites territoriais e subjetivos da coisa julgada

Acerca da validade dos artigos 16 da LACP e 2º-A da Lei 9494/97, o STJ, amparado
pelo entendimento da doutrina majoritária, concluiu que a eficácia da sentença não está cir-
cunscrita a lindes geográficos, mas aos limites objetivos e subjetivos do que foi decidido, sob
pena de violação ao princípio da igualdade, da segurança jurídica, da economia processual e do
devido processo legal no aspecto substantivo, considerando a natureza indivisível dos interes-
ses transindividuais.

27
ATENÇÃO: No STJ, prevalece o entendimento pela validade do artigo 16 da LACP nas ações
coletivas que versarem sobre interesses individuais homogêneos, de natureza divisível, por-
quanto possível o tratamento diferenciado entre os titulares.
Além disso, para o Tribunal, o artigo 2º-A da Lei 9494/97 aplica-se somente para
ações coletivas propostas contra o Poder Público e abrange qualquer corporação legitimada à
propositura de ações judiciais, inclusive os sindicatos.

2.11. Liquidação e execução de sentenças

2.11.1. Direitos difusos e coletivos em sentido estrito

No tocante à legitimidade para a execução da sentença coletiva, dispõe o artigo 15


da LACP:

Art. 15. Decorridos sessenta dias do trânsito em julgado da sentença


condenatória, sem que a associação autora lhe promova a execução, de-
verá fazê-lo o Ministério Público, facultada igual iniciativa aos demais
legitimados.

O procedimento executório depende da espécie de obrigação a ser cumprida (fazer,


não fazer, entregar, pagar quantia certa), podendo o magistrado adotar medidas coercitivas e
sub-rogatórias para tanto.

Os valores pagos a título de multa, em regra, reverterão ao fundo de reconstituição


do bem lesado criado pela LACP, exceto nas ações fundadas no ECA e no Estatuto do Idoso que,
neste caso, serão destinados, respectivamente, ao Conselho dos Direitos da Criança e do Ado-
lescente do Município e ao Fundo do Idoso ou ao Fundo Municipal de Assistência Social.

2.11.2. Direitos individuais homogêneos

2.11.2.1. Liquidação e execução individuais

A sentença condenatória proferida nas ações coletivas destinadas à defesa de inte-


resses individuais homogêneos é genérica, pois o âmbito cognitivo da decisão é restrito ao
núcleo de homogeneidade de tais direitos. Assim, na fase de liquidação, o interessado deve
comprovar, além do quantum debeatur, a condição de credor da obrigação reconhecida na sen-
tença. Por essa razão, tal procedimento é denominado liquidação imprópria.

A liquidação e a execução da sentença poderá ser promovida pela vítima e seus su-
cessores, no juízo da liquidação ou da condenação, de sorte que o produto da indenização é
revertido em benefício dos próprios lesados individuais (artigos 97 e 98 do CDC).

28
2.11.2.2. Liquidação e execução coletivas

A execução coletiva, promovida pelos colegitimados à propositura da ação, tem na-


tureza subsidiária, pois pressupõe o decurso do prazo de um ano sem habilitação de interessa-
dos em número compatível com a gravidade do dano (artigo 100 do CDC).

Neste caso, o valor apurado reverterá ao fundo de reconstituição do bem lesado cria-
do pela LACP. Esta forma de reparação é fluida (fluid recovery), pois não reverte concreta e indivi-
dualizadamente às vítimas, favorecendo-as apenas difusamente, mediante a recomposição de
bem conexo aos interesses individuais violados.

2.12. Custas processuais e ônus da sucumbência

A isenção de custas e despesas processuais previstas nos artigos 18 da LACP e 87 do


CDC beneficia somente aos autores da demanda, a fim de facilitar o acesso à justiça coletiva.
Portanto, na hipótese de procedência da ação, a parte vencida (réu) arcará com todas as custas
e despesas processuais, inclusive honorários advocatícios. Igual sistemática aplica-se ao autor,
nas hipóteses de litigância de má-fé.

ATENÇÃO: a execução de individual de sentença coletiva pela própria vítima pressupõe o pa-
gamento antecipado das respectivas despesas processuais, tendo em vista a tutela de interes-
se eminentemente privado nesta fase.

2.13. Prescrição

Ante a ausência de disposição legal expressa na LACP e no CDC, aplica-se, analogica-


mente, a prescrição quinquenal da ação popular, que integra o microssistema processual cole-
tivo ao lado da ação civil pública. Ressalvam-se, apenas a pretensão de ressarcimento ao erário
e reparação de danos ambientais, imprescritíveis.

ATENÇÃO: o despacho que determina a citação nas ações coletivas destinadas à defesa de in-
teresses individuais homogêneos interrompe a prescrição em favor de todos os lesados, pois,
do contrário, as vítima teriam que adotar atitudes incompatíveis com os objetivos do processo
coletivo para tal finalidade (habilitar-se como litisconsortes na ação coletiva ou ajuizar deman-
das individuais).

29
3. AÇÃO POPULAR

3.1. Condiçoes da ação

3.1.1. Legitimidade ad causam

3.1.1.1. Legitimidade ativa

A ação popular constitui importante instrumento de democracia participativa e ga-


rantia fundamental prevista no artigo 5º, inciso LXXIII da Constituição Federal:

Qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a
anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado
participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimô-
nio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento
de custas judiciais e do ônus da sucumbência.

Conforme se infere da leitura do aludido dispositivo constitucional, tem legitimidade


para propor ação popular qualquer cidadão, assim considerado o nacional em pleno gozo dos
direitos políticos. Portanto, a titularidade de capacidade eleitora ativa (direito de votar) é sufi-
ciente para tanto, dispensada, pois a capacidade eleitoral passiva (direito de ser votado).

A prova da cidadania, para ingresso em juízo, faz-se com o título de eleitor ou do-
cumento equivalente, mas não é necessário que o cidadão esteja inscrito como tal no mesmo
Município onde ajuizará a ação popular (artigo 1º, § 3º da LAP). Ainda que menor de 18 (dezoito)
anos (pode ser eleitor pessoa maior de 16 anos), a propositura da demanda independe de assis-
tência do autor por seus pais ou responsáveis.

Prevalece o entendimento de que a legitimidade para propositura de ação popular


é extraordinária, na forma de substituição processual. Há quem entenda, outrossim, trata-se de
legitimação ordinária, pois o cidadão, enquanto membro da coletividade, também é titular do
direito discutido em juízo.

3.1.1.2. Legitimidade passiva

De acordo com o disposto no artigo 6º da LAP:

  Art. 6º A ação será proposta contra as pessoas públicas ou privadas e


as entidades referidas no art. 1º, contra as autoridades, funcionários
ou administradores que houverem autorizado, aprovado, ratificado ou
praticado o ato impugnado, ou que, por omissas, tiverem dado oportu-
nidade à lesão, e contra os beneficiários diretos do mesmo.

30
A ação popular tem natureza predominantemente desconstitutiva ou declaratória
negativa, de sorte que o pedido principal consiste na invalidação do ato contrário ao interesse
tutelado. Porém, quando necessário, seja para fins de reparação do dano, seja para afastar o
risco de lesão, poderá ser formulado pedido condenatório.

No tocante ao pedido de invalidação, é obrigatória a inclusão no pólo passivo de todas


as autoridades que contribuíram para a formação do ato e os seus beneficiários diretos, por-
quanto produzirá como efeito a recondução ao status quo ante de todas as partes. Trata-se, no
caso, de litisconsórcio necessário e unitário.

Por outro lado, no tocante ao pedido condenatório, tendo em vista a responsabilida-


de solidária das autoridades que contribuíram para a formação do ato e os seus beneficiários di-
retos, o autor pode demandar apenas aqueles que dispuserem de recursos financeiros suficien-
tes para promover a reparação do dano. Trata-se, pois, de litisconsórcio facultativo e simples.

ATENÇÃO: a aprovação das contas pelo Tribunal de Contas não induz à inclusão dos seus
membros no polo passivo da ação popular, pois não atuam na formação dos atos controlados
que, tampouco dependem para serem eficazes, da ratificação desses órgãos.

3.1.2. Interesse processual

Como dito, a ação popular tem natureza predominantemente desconstitutiva ou de-


claratória negativa, de sorte que o pedido principal consiste na invalidação do ato contrário ao
interesse tutelado. Apesar de prescindível a existência de dano atual, é indispensável, ao menos
a existência de um ato capaz de gerar dano.

Em outras palavras, considerando que a ação popular sempre deve veicular pedido
declaratório de nulidade, falta ao autor interesse processual se ainda não existe ato a ser inva-
lidado. Se o ato lesivo ainda não foi praticado, os legitimados podem propor ação civil pública,
em caráter preventivo, a fim de evitar a sua prática. Pela via da ação popular, contudo, isso não
é possível.

3.1.3. Possibilidade jurídica do pedido

O pedido de invalidação pode recair sobre atos administrativos praticados pelo:

a) Poder Executivo e outros entes públicos;

b) Ministério Público;

c) Poder Legislativo (atos normativos de efeitos concretos sem a forma de lei e;

31
d) Poder Judiciário (atos judiciais atípicos)

ATENÇÃO: prevalece o entendimento pela possibilidade de invalidação de atos administrati-


vos discricionários, praticados em conformidade com a lei, mas contrários à moralidade admi-
nistrativa, que constitui, por si só, fundamento constitucional para a propositura da demanda.

3.2. Elementos da ação

3.2.1. Partes

A questão sobre quem pode ser parte em uma ação popular foi tratada no item sobre
legitimidade ad causam.

3.2.2. Causa de pedir

O êxito da ação popular pressupõe a descrição do ato que se pretende invalidar e sua
lesividade ao interesse tutelado, ressalvados os atos previstos no artigo 4º da LAP, cuja lesivida-
de é presumida, sendo suficiente, neste caso, a demonstração do dano, efetivo ou potencial, ao
direito objeto da demanda.

ATENÇÃO: prevalece o entendimento de que a ilegalidade do ato não constitui pressuposto


necessário para o ajuizamento da ação popular. É suficiente para tanto que o ato seja lesivo
à moralidade administrativa, ao meio ambiente, ao patrimônio público, histórico ou cultural.

3.2.3. Pedido

A ação popular tem natureza predominantemente desconstitutiva ou declaratória


negativa, de sorte que o pedido principal consiste na invalidação do ato contrário ao interesse
tutelado. Porém, quando necessário, seja para fins de reparação do dano, seja para afastar o
risco de lesão, poderá ser formulado pedido condenatório de qualquer espécie (obrigação de
fazer, não fazer, entregar ou pagar quantia certa).

ATENÇÃO: o ajuizamento da ação popular pressupõe, ao menos, a existência de um ato lesi-


vo, embora prescindível o dano efetivo ao interesse tutelado. Nesse contexto, tendo em vista
o princípio da inafastabilidade da jurisdição, é admissível, em sede de ação popular, pedido
declaratório de nulidade em caráter preventivo, ou seja, após a prática do ato, mas antes da
ocorrência do dano, cumulado, se for o caso, com pedido condenatório em obrigação de fazer
ou não fazer.

32
Com efeito, seria contraproducente exigir a ocorrência de dano efetivo para a pro-
positura da demanda, sobretudo em matéria ambiental, onde a tutela preventiva tem impor-
tante função instrumental, dada a dificuldade de reparação integral dos danos causados ao
meio ambiente.

3.3. Competência

A Constituição não prevê, expressamente, nenhuma hipótese que autorize o STJ a


processar e julgar, originariamente, ações populares. Já o STF será originariamente competente
para tanto nas seguintes hipóteses:

c) ações em que todos os membros da magistratura sejam direta ou indiretamente


interessados, e aquela em que mais da metade dos membros do tribunal de origem estejam
impedidos ou sejam direta ou indiretamente interessados (artigo 102, I, n da CF) e;

d) ações contra o Conselho Nacional de Justiça e contra o Conselho Nacional do Mi-


nistério Público (artigo 102, I, r da CF).

Consoante o disposto no artigo 5º da LAP:

Art. 5º Conforme a origem do ato impugnado, é competente para co-


nhecer da ação, processá-la e julgá-la o juiz que, de acordo com a orga-
nização judiciária de cada Estado, o for para as causas que interessem à
União, ao Distrito Federal, ao Estado ou ao Município.

§ 1º Para fins de competência, equiparam-se atos da União, do Distrito


Federal, do Estado ou dos Municípios os atos das pessoas criadas ou
mantidas por essas pessoas jurídicas de direito público, bem como os
atos das sociedades de que elas sejam acionistas e os das pessoas ou
entidades por elas subvencionadas ou em relação às quais tenham in-
teresse patrimonial.

§ 2º Quando o pleito interessar simultaneamente à União e a quaisquer


outras pessoas ou entidade, será competente o juiz das causas da União,
se houver; quando interessar simultaneamente ao Estado e ao Municí-
pio, será competente o juiz das causas do Estado, se houver.

§ 3º A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo para todas as


ações, que forem posteriormente intentadas contra as mesmas partes e
sob os mesmos fundamentos.

33
§ 4º Na defesa do patrimônio público caberá a suspensão liminar do ato
lesivo impugnado.

Todavia, é preciso fazer algumas ressalvas acerca do aludido dispositivo legal, à luz da
Constituição Federal. Em primeiro lugar, a competência da Justiça Federal é determinada pelo
artigo 109 da Constituição e não pelas normas de organização judiciária de cada Estado. Em
segundo lugar, o mero interesse patrimonial da União não é determinante para fixar a compe-
tência da Justiça Federal; é mister que a União atue como parte, assistente ou opoente e tenha
interesse jurídico na demanda.

No tocante à competência territorial:

a) Se a União for ré: aplica-se a regra prevista no artigo 109, § 2º da Constituição, de


forma que a ação pode ser proposta no foro de domicílio do autor, no local do ato ou fato, onde
situada a coisa ou no Distrito Federal;

b) Se a União for autora: aplicam-se as regras de competência da ação civil pública.

3.4. Conexão, continência e litispendência

Além do exposto no item 2.6 acerca das hipóteses de conexão, continência e litispen-
dência entre ações coletivas e individuais, prevalece o entendimento no sentido de ser possível
a conexão entre ação popular e mandado de segurança coletivo. Parte da doutrina, no entanto,
rechaça tal possibilidade considerando que a ação popular destina-se apenas à defesa de inte-
resses difusos, ao passo que o MS coletivo tutela exclusivamente direitos coletivos em sentido
estrito e individuais homogêneos.

3.5. Particularidades procedimentais

3.5.1. Liminares

Na ação popular, a liminar pode ser concedida independentemente de oitiva prévia


do representante judicial da Fazenda Pública, uma vez que o artigo 2º da Lei 8437/92 somente
se refere à ação civil pública e ao mandado de segurança coletivo.

As ações populares, quando em defesa do patrimônio público, não são ajuizadas con-
tra o Poder Público, mas em face dele, e, muitas vezes, em seu favor, pois visa à recomposição do
patrimônio da entidade lesada. Portanto, não incide, no caso, a proibição de conceder liminares
contra atos do Poder Público, prevista no artigo 1º da Lei 8437/97.

34
3.5.2. Possíveis atitudes para a entidade cujo ato é impugnado

A pessoa jurídica de direito público ou privado, cujo ato seja objeto de impugnação,
pode optar por alguma das seguintes atitudes processuais:

a) Contestar o pedido;

b) Abster-se de contestar o pedido, caso em que não incide a presunção de veracida-


de dos fatos decorrente da revelia;

c) Atuar ao lado do autor, quando tal postura se afigure útil ao interesse público.

Tal possibilidade é denominada pela doutrina de despolarização do processo ou in-


tervenção móvel.

3.6. Atuação do Ministério Público

Nos termos do artigo 6º, § 4º da LAP, o Ministério Público, obrigatoriamente, atuará


como fiscal da ordem jurídica nas ações populares. Como tal, a instituição não pode sustentar,
no mérito, a validade do ato impugnado, ou a ausência de responsabilidade dos seus autores.
Porém, nada impede a alegação de questão processual contrária aos interesses do autor ou o
pedido de improcedência da demanda.

Além disso, o Ministério Público exerce importante função de órgão ativador da pro-
va e auxiliar do autor, para que a instrução probatória seja concluída com celeridade, bem como
para que as requisições de documentos sejam atendidas no prazo legal.

Não obstante, o Ministério Público atua como sucessor do autor, em caso de desis-
tência ou abandono infundado da causa (artigo 9º da LAP), pode interpor recursos em face das
decisões contrárias ao autor (artigo 19, § 2º da LAP) e promover a execução, caso o autor não o
faça no prazo de 60 (sessenta) dias (artigo 16 da LAP).

3.7. Sentença e coisa julgada

A sentença que concluir pela carência ou improcedência da ação popular está sujeita
a reexame necessário, por força de disposição legal expressa constante do artigo 19 da LAP. Por
outro lado, a sentença de procedência é recorrível via apelação, com efeito suspensivo.

No tocante à formação de coisa julgada material, dispõe o artigo 18 da LAP:

Art. 18. A sentença terá eficácia de coisa julgada oponível “erga omnes”,
exceto no caso de haver sido a ação julgada improcedente por deficiên-

35
cia de prova; neste caso, qualquer cidadão poderá intentar outra ação
com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova.

Trata-se, pois de coisa julgada secundum eventum litis e secundum eventum probatio-
nes, tal como se dá nas ações civis públicas destinadas à defesa de interesses difusos e coletivos
em sentido estrito.

3.8. Liquidação e execução da sentença

Tem legitimidade para promover a execução da sentença proferida em sede de ação


popular:

a) o autor;

b) terceiros: outros cidadãos e as entidades previstas no artigo 1º da LAP, ainda que


tenham figurado no polo passivo da demanda (artigo 17 da LAP);

c) subsidiariamente, o Ministério Público, se o autor ou terceiros não promoverem a


execução no prazo de 60 (sessenta) dias (artigo 16 da LAP).

Lembrando que a execução provisória só é possível após a condenação em segunda


instância, pois o recurso de apelação tem efeito suspensivo.

36
4. MANDADO DE SEGURANÇA COLETIVO

Consoante o disposto no artigo 21 da Lei 12016/09, o mandado de segurança coleti-


vo destina-se à defesa de direitos coletivos em sentido estrito e individuais homogêneos. Não
obstante, parcela significativa da doutrina sustenta a possibilidade de impetração do manda-
mus em favor de direitos difusos, tendo em vista que a garantia constitucional em análise não
pode ser interpretada restritivamente.

4.1. Condições da ação

4.1.1. Legitimidade ad causam

4.1.1.1. Legitimidade ativa

4.1.1.1.1 Partidos políticos

Conforme se infere do artigo 21 da LMS, os partidos políticos tem legitimidade para


impetrar MS coletivo em defesa de seus interesses legítimos, relacionados aos seus integrantes
ou à finalidade partidária.
A necessidade de pertinência temática é objeto de controvérsia doutrinária. A finali-
dade partidária, por sua vez, compreende não apenas os interesses relativos aos fins institucio-
nais e programáticos de cada partido, mas também as finalidades inerentes a toda e qualquer
agremiação partidária em função de sua missão constitucional (autenticidade do sistema repre-
sentativo e defesa dos direitos fundamentais).

4.1.1.1.2. Organizações sindicais, entidades de classe e associações

Ao contrário da ação civil pública, o requisito da pré-constituição não pode ser dis-
pensado para fins de impetração de MS coletivo, pois, neste caso, decorre da própria Constitui-
ção, que não estabelece qualquer ressalva neste sentido.

ATENÇÃO: consoante o entendimento do STJ, associações de entes políticos (ex.: associações


de Municípios) não tem legitimidade para defender judicialmente o interesse de seus associa-
dos, nem mesmo via MS coletivo (REsp 141733).

4.1.1.1.3. Outros legitimados

Enquanto garantia constitucional fundamental, o MS coletivo não comporta inter-


pretação restritiva. Por essa razão, parte da doutrina entende que também detém legitimidade
para impetrar o mandamus todos os colegitimados previstos na LACP e no CDC para a proposi-
tura de ações coletivas destinadas à defesa de qualquer interesse transindividual.

37
Além disso, a legitimidade do Ministério Público e da Defensoria Pública decorre, so-
bretudo, da vocação constitucional de tais instituições para a defesa de interesses coletivos em
sentido amplo.

4.1.1.2. Legitimidade passiva

Predomina na doutrina o entendimento de que a autoridade coatora não é ré no


mandado de segurança, mas sim a pessoa jurídica à qual esteja vinculada.

4.1.2. Interesse processual

De acordo com a súmula 266 do STF, não cabe mandado de segurança contra lei em
tese. Isto significa que a simples entrada em vigor de uma lei não configura, por si só, lesão ou
ameaça a direito do administrado, caracterizadora do interesse processual necessário para a
impetração do mandamus. Não há óbice, porém, ao manejo de mandado de segurança contra
normas de efeitos concretos.

4.1.3. Possibilidade jurídica do pedido

Nos termos do artigo 5º da LMS, é vedada a impetração de mandado de segurança


quando se tratar:

I - de ato do qual caiba recurso administrativo com efeito suspensivo,


independentemente de caução; 

II - de decisão judicial da qual caiba recurso com efeito suspensivo; 

III - de decisão judicial transitada em julgado. 

Além das vedações expressas, não é cabível a impetração de MS em face de atos in-
terna corporis do Poder Legislativo e, segundo a literalidade da lei, para a defesa de interesses
difusos (ressalvada corrente doutrinária em sentido contrário).

4.2. Elementos da ação

4.2.1. Partes

A questão sobre quem pode impetrar MS coletivo foi tratada no item sobre legitimi-
dade ad causam.

38
4.2.2. Causa de pedir

O impetrante deve descrever ao ato impugnado, em que consiste a ilegalidade ou


abuso de poder, a lesão ou os fatos que indicam a ameaça de lesão e o direito líquido e certo,
não amparável por habeas corpus ou habeas data.

4.2.3. Pedido

O mandando de segurança tem natureza mandamental, portanto, o provimento ju-


risdicional postulado consiste em uma ordem judicial.

4.3. Competência

A competência para fins de impetração de mandado de segurança é definida confor-


me a qualidade da autoridade coatora ou a natureza do cargo ocupado.

Assim, compete ao STF:

a) processar e julgar originariamente o mandado de segurança e o habeas data con-


tra atos do Presidente da República, das Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal,
do Tribunal de Contas da União, do Procurador-Geral da República e do próprio Supremo Tribu-
nal Federal (artigo 102, I, d);

b) julgar, em sede de recurso ordinário o mandado de segurança decidido em única


instância pelos Tribunais Superiores, se denegatória a decisão (artigo 102, II, a);

E ao STJ:

a) processar e julgar originariamente os mandados de segurança contra ato de Mi-


nistro de Estado, dos Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica ou do próprio
Tribunal (artigo 105, I, b);

b) julgar, em sede de recurso ordinário, os mandados de segurança decididos em


única instância pelos Tribunais Regionais Federais ou pelos tribunais dos Estados, do Distrito
Federal e Territórios, quando denegatória a decisão (artigo 105, II, b);

ATENÇÃO: competência originária para julgar MS impetrado pela União, por entidade autár-
quica ou empresa pública federal – contra ato de autoridade que detém foro por prerrogativa
de função perante o Tribunal de Justiça: prevalece a competência da Justiça Federal que tem
assento constitucional, através do respectivo TRF, por força do princípio da hierarquia.

39
4.4. Particularidades procedimentais

4.4.1. Liminares

De acordo com o disposto no artigo 7º, § 2º da LMS:

Não será concedida medida liminar que tenha por objeto a compensa-
ção de créditos tributários, a entrega de mercadorias e bens provenien-
tes do exterior, a reclassificação ou equiparação de servidores públicos
e a concessão de aumento ou a extensão de vantagens ou pagamento
de qualquer natureza.
 
Especialmente no tocante ao MS coletivo, a concessão de liminar pressupõe a oitiva
prévia do representante judicial da pessoa jurídica de direito público interessada (artigo 22, §
2º da LMS).

4.4.2. Desistência

No MS coletivo, a extensão dos efeitos da coisa julgada pressupõe a desistência do


mandamus individual no prazo de 30 (trinta) dias, contados da ciência da impetração.
4.5. Sentença e meios de impugnação

O julgamento do mandado de segurança pode resultar na prolação de uma sentença


terminativa ou resolutiva do mérito (procedência ou improcedência).

ATENÇÃO: prevalece na doutrina e na jurisprudência o entendimento de que a ausência de


direito líquido e certo (ou seja, de prova pré-constituída acerca da existência do direito invo-
cado) conduz à extinção do processo sem resolução do mérito.

As sentenças denegatórias de indeferimento da inicial são recorríveis via:

a) apelação: se proferidas pelo juiz;

b) agravo, se proferidas pelo relator.

As demais sentenças denegatórias são recorríveis via:

a) apelação sem efeito suspensivo, se proferidas pelo juiz;

b) recurso ordinário para o STF ou STJ, conforme o caso.

As sentenças de procedência, além de sujeitas ao reexame necessário, são recorríveis

40
via:

a) apelação sem efeito suspensivo, se proferidas pelo juiz;

b) recurso extraordinário ou especial, conforme o caso.

4.6. Coisa julgada

Dispõe o artigo 22 da LMS:

Art. 22.  No mandado de segurança coletivo, a sentença fará coisa jul-


gada limitadamente aos membros do grupo ou categoria substituídos
pelo impetrante. 

Não se aplica, no caso, as restrições constantes do artigo 16 da LACP e 2º-A da Lei


9494/97. Com efeito, ao referir-se ao “grupo ou categoria substituídos pelo impetrante” o dispo-
sitivo legal compreende a totalidade dos titulares do direito objeto do mandamus, associados
ou não ao autor.

Em resumo, temos:

Interesses indivi-
Interesses difusos Interesses coletivos duais homogêneos
Coisa julgada erga Coisa julgada ultra Coisa julgada erga
Procedência
omnes partes omnes
Há coisa julgada em
relação aos colegiti-
mados, mas não erga
omnes (não impede
Denegatória por Coisa julgada erga Coisa julgada ultra
que as vítimas que
pretensão infundada omnes partes
não atuaram como
litisconsortes bus-
quem a reparação
individual)

Denegatória por Não há coisa julgada


insuficiência Não há coisa julgada Não há coisa julgada (inexistência de líqui-
de provas do e certo)

41
5. LEGISLAÇÃO ESPECIAL

Na sequencia, serão indicados os artigos mais importantes de algumas leis especiais


cobradas nas provas objetivas em matéria de direitos difusos e coletivos. Atenção!!! No tocan-
te à estes assuntos, basta a leitura do texto legal, ou seja, não é necessária, nem producente,
a leitura de doutrina a respeito! Portanto, para otimizar o estudo, o material se limitará, neste
aspecto, à indicação dos dispositivos legais mais relevantes, sem prejuízo da leitura dos demais
artigos pertinentes.

5.1. Estatuto do Idoso

**Ler artigos 12, 13, 17, 19, 23, 27, 34, 35, 36, 38, 39, 40, 41, 44, 45, 48, 52, 55, 60, 61, 65, 66, 67, 68,
71, 74, 75, 77, 80, 84, 94 à 108 (crimes em espécie).

5.2. Estatuto da Igualdade Racial

**Ler artigos 1º, 11, 22 e 25.

5.3. Estatuto da Pessoa com Deficiência

** Ler artigos 2º; 3º; 4º; 5º; 12; 13; 22; 28; 32; 34; 36,§§ 5º e 6º; 37; 40; 43; 45, 46; 47; 51; 52; 55; 58;
63; 75; 76; 84; 85; 86; 87; 88 à 91 (crimes e infrações administrativas).

5.4. Saúde e assistência social

**Lei 8080/90 – ler artigos 6º; 7º; 8º; 9º; 13; 15; 16; 17; 18; 19-C; 19-G; 19-I; 19-J; 19-Q; 19-R; 21; 23;
24; 28; 33; 36, § 2º; 38.

**LC 141/12 – ler artigos 2º; 4º; 5º; 6º; 7º; 13, §§ 2º e 4º; 18; 22; 26; 27.

** Lei 8142/90 – ler artigo 1º.

**Lei 9656/98 – ler artigos 1º; 8º; 10; 10-B; 11; 12; 13; 15; 17; 17-A; 18; 21; 23; 24; 24-A; 24-C; 27;
29; 30; 31; 32; 33.

**Lei 10216/01 – ler todos os artigos.

**Lei 8742/93 – ler artigos 1º; 3º; 4º; 6º; 6º-A; 6º-B; 6º-C; 9º; 11; 12; 17; 20; 21; 21-A; 22; 24; 25.

5.5. Educação

**Lei 9394/96 – ler artigos 4º; 5º; 7º; 16; 17; 18; 20; 24; 26; 28; 29; 30; 31; 32; 34; 36; 36-B; 33-C;

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38; 39; 42; 44; 45; 46; 47; 48; 49; 52; 56; 57; 58; 62; 65; 67; 69; 71; 77.

5.6. Urbanismo

**Estatuto das Cidades – ler todos os artigos

**Parcelamento do solo urbano (Lei 6766/91) – ler artigos 2º; 3º; 4º, § 2º; 5º; 9º; 12; 13; 16; 17;
18; 19, § 2º; 21; 22; 23; 25 à 52.

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