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Ensaio Filosófico – Deverá a eutanásia ser legalizada?

Neste ensaio filosófico irei abordar um tema que tem, cada vez mais, suscitado polémica entre a
população, devido a todas as dimensões que este desafia, tais como a ética e a religião. A eutanásia será o tema
que irei tratar, numa tentativa de responder ao seguinte problema: Deverá a eutanásia ser legalizada?
Etimologicamente, «eutanásia» significa “a morte boa” ou “a morte suave” e corresponde ao ato de
causar intensionalmente a morte de um indivíduo, esperando que esta o beneficie. Quem pratica a eutanásia
pretende pôr fim a uma vida com qualidade diminuída, como a de um doente terminal em sofrimento intenso, a
de um paciente que apenas pode pestanejar ou uma pessoa irreversivelmente inconsciente. Para podermos falar
de eutanásia, a morte tem de ser pretendida e causada para benefício daquele que morre, ou, pelo menos, sem
prejuízo para este.
Distinguem-se habitualmente três tipos de eutanásia. Se o indivíduo a quem é praticada a eutanásia
pediu explícita e consistentemente para morrer, estamos perante um caso de eutanásia voluntária, como acontece
nos casos de doentes terminais que sofrem dores insuportáveis, mas mantêm a capacidade de comunicar no
momento, ou antecipadamente, através de documentos escritos, como o testamento vital. Se o indivíduo é morto
não pode pedir ou negar a eutanásia por não ter capacidade para tal, trata-se de eutanásia não voluntária, como
acontece por exemplo com os bebés com deficiências ou doenças graves, pacientes em coma irreversível e
doentes em estados terminais de demências progressivas, como Alzeihmer. Quando o indivíduo, embora possua
capacidade para tal, não manifesta desejo de ser morto ou mostra interesse em continuar a viver, sendo assim
desrespeitada a sua vontade, estamos perante um caso de eutanásia involuntária.
Se atendermos ao modo como a morte ocorre, encontramos dois tipos de eutanásia. A eutanásia ativa
ocorre quando a morte é o resultado direto da intervenção humana, ou seja, quando se põe fim à vida através de
um procedimento que é ele próprio a causa direta da morte, como por exemplo a injeção letal de fármacos.
A eutanásia é passiva quando se “deixa morrer” o paciente, isto é, quando a morte ocorre por se deixar
prosseguir um processo natural. Quando são desligadas as máquinas que mantinham vivo um paciente, quando
se retira um medicamento que permitia a sobrevivência, ou ainda quando não se faz uma cirurgia que poderia
corrigir uma deficiência capaz de levar à morte num curto prazo.
Na minha opinião, se a eutanásia passiva é moralmente aceitável também o é a ativa, porque quando
podemos impedir a morte, ainda que não tenhamos provocado a circunstância causadora da mesma, estamos
colocados na posição em que a nossa ação vai ditar a vida ou a morte da pessoa. Se a eutanásia passiva
corresponde a deixar morrer e a ativa implica matar, então podemos afirmar que não são diferentes e se uma é
aceitável, a outra também o é. Muitas vezes se deixarmos morrer uma pessoa segundo a evolução natural da sua
condição orgânica, isso vai provocar um grande sofrimento, enquanto que se praticarmos a eutanásia, a pessoa
vai ter uma morte menos dolorosa e mais pacifica.
Não vejo nada de moralmente errado na prática de eutanásia voluntária, já que se poupa o sofrimento
de uma pessoa, tirando-lhe a vida por vontade expressa. Apenas no caso de um estado vegetativo irreversível,
ou no caso de bebés com doenças severas, em que o paciente não pode escolher, apoio a eutanásia não voluntária,
porque o paciente não retira qualquer benefício da própria vida e os recursos gastos com ele podem fazer falta
a outros.
A eutanásia involuntária é, na minha opinião, uma violação do direito à vida de uma pessoa que deseja
viver. Cada um é dono da sua vida. Mesmo que seja praticada para benefício do paciente, devemos respeitar a
sua decisão e não interferir.
Um argumento que acho pertinente em relação a este tema da eutanásia, é o de que estar vivo nunca foi
uma lei, e ter liberdade sim. Tirar a vida a uma pessoa é considerado um ato eticamente condenável. Todavia,
se houver um acordo mútuo entre o praticante e o paciente, penso que o pedido de morte por parte do último
seja uma expressão de liberdade. Restringir essa liberdade é que seria eticamente incorreto. Se aceitamos a
autonomia de cada ser humano, temos de aceitar que o mesmo tem o direito de escolher e tomar decisões sobre
a sua própria vida quando as circunstâncias assim o exigem. Claro está que estou apenas a referir-me a casos
singulares, de pessoas em circunstâncias difíceis e num profundo sofrimento.
Uma objeção bastante comum a esta prática é a de que o nosso instinto é o de sobrevivência. Nesta
perspetiva, a eutanásia pode ser encarada como um fenómeno contranatura. Mas se isso fosse verdade, o tabaco
seria ilegal, e não realizaríamos desportos radicais, ou outras coisas que nos podem aproximar da morte, pois
todos os dias estaríamos a colocar em risco a nossa vida.
Outra objeção à prática da eutanásia é, no caso de algumas religiões, considerá-la uma violação do
direito à vida, que foi criada por Deus, sendo este o único que a pode tirar. De modo a sustentar esta objeção
religiosa, é necessário admitir que Deus existe, o que levanta um problema ainda maior. Não sendo uma boa
objeção à prática da eutanásia.
Por fim, outra objeção à realização da eutanásia é ainda o facto de não sabermos o estado de sanidade
da pessoa no momento do pedido, devido a todos os fatores que influenciam a sua decisão, como o sofrimento
momentâneo por que está a passar. No entanto, a complexidade desta questão, que envolve muitas considerações
de ordem individual, legal e médica, requer um tempo de ponderação que tem vindo a demonstrar a seriedade e
certeza com que a decisão é tomada.
Concluo então respondendo à questão. A minha opinião é a de que a eutanásia deve ser legalizada, visto
que quem luta por este direito vive preso à frustração que é viver condicionado a um único movimento, ou então
frustrado com o saber do número de dias que lhe resta, por exemplo. Estas pessoas deveriam ter a liberdade de
escolher entre viver com a falta de condições básicas e em constante sofrimento ou morrer com a dignidade que
merecem como seres humanos.

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