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IMPACTOS CLIMÁTICOS E (IN)JUSTIÇA AMBIENTAL:

contribuição ao debate nas escalas inferiores do clima


LUCAS BARBOSA E SOUZA1
JULIANA RAMALHO BARROS2

Resumo: Este artigo tem como objetivo discutir as relações entre os impactos climáticos
produzidos pelo homem, as escalas inferiores do clima (como a escala local) e a ideia de (in)justiça
ambiental ou, mais especificamente, de (in)justiça climática. Constitui um esforço para contribuir com
a abordagem crítica acerca dos impactos sobre o clima, suas motivações e origens, por meio de um
debate teórico capaz de auxiliar pesquisas empíricas no campo da Climatologia, especialmente
quando praticadas por geógrafos.

Palavras-chave: impacto climático, conceito de escala em Climatologia; justiça climática.

Abstract: This paper aims to discuss the relationships between the man-made climatic impacts, the
lower scales of climate (such as the local scale) and the ideia of the environmental (in)justice or, more
specifically, of the climatic (in)justice. Constitutes an effort to contribute with a critical approach of the
impacts on the climate, its motivations and origins, through a theoretical debate that can aid empirical
research in the field of the Climatology, especially when practiced by geographers.

Key-words: climatic impact; scale concept in Climatology; climatic justice.

1 – Introdução

As atividades humanas e as alterações promovidas sobre o espaço


geográfico implicam em diferentes tipos de repercussões ou impactos climáticos
(AYOADE, 1991; GARCÍA, 1996; CUADRAT; PITA, 2009; MONTEIRO, 2015). Tais
impactos e suas consequências manifestam-se especialmente nas escalas inferiores
do clima, como as escalas local e microclimática (RIBEIRO, 1993; BASTOS;
FREITAS, 2002).
A vida cotidiana transcorre nessas mesmas escalas e é por meio delas que
tomamos consciência do clima. Segundo Sorre (1984, p.37), “o camponês passa a

1 Professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Pós-Doutorando em Geografia pela


Universidade Federal de Goiás (UFG), Bolsista CAPES/PGPSE pelo projeto DESENVOLVIMENTO
TERRITORIAL E SOCIOBIODIVERSIDADE: perspectivas para o mundo do Cerrado. E-mail de
contato: lbsgeo@uft.edu.br

2Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Programa de Pós-Graduação em Geografia.


E-mail de contato: juliana.ufg@superig.com.br

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maior parte de sua existência em meio ao clima local. O homem das cidades exerce
quase toda a sua atividade encerrado em microclimas”. Em outras palavras, é a
percepção do ritmo habitual dos tipos de tempo, na escala do vivido, que nos
permite conhecer o clima e, consequentemente, notar os impactos e as alterações
que atingem essa regularidade relativa.
As investigações aplicadas na área da Climatologia têm se dedicado a
compreender os climas derivados desses impactos, a exemplo das ilhas de calor
nas cidades e das alterações promovidas pelo desmatamento no campo. Todavia,
considera-se que abordagem empírica da temática pode se beneficiar de uma
contribuição conceitual que seja capaz de ressaltar as motivações e as
consequências desses impactos climáticos sob outro prisma analítico, como é o
caso da (in)justiça ambiental e da (in)justiça climática.
A ideia de (in)justiça ambiental está atrelada a um movimento iniciado nos
EUA, nos anos 1980, cujo argumento se baseia na existência de uma divisão social
do ambiente e de uma distribuição desigual dos benefícios e custos ambientais
relacionados a um modelo de desenvolvimento. Mais recentemente, a ideia de
justiça climática se refere a uma especialização temática introduzida pelo Fórum de
Justiça Climática, ocorrido durante a 6ª Conferência das Partes da Convenção
Mundial sobre Mudanças Climáticas (COP 6), em Haia (Holanda), no ano 2000
(ACSELRAD, 2002; ACSELRAD et al, 2009).
As definições de (in)justiça ambiental e seus princípios cobrem uma variada
gama de processos, suas origens e formas de enfrentamento. Todos esses
aspectos, por sua vez, se refletem nas abordagens sobre a (in)justiça climática, o
que reforça o intricado vínculo entre os dois conceitos, inclusive a derivação de um a
partir do outro. Especialmente na última década, inúmeros têm sido os trabalhos
dedicados à (in)justiça climática, especialmente na literatura de língua inglesa, a
exemplo de Barret (2013), Schlosberg; Collins (2014), Bulkeley et al (2014), Hulbert
(2015) e Steele et al (2015).
Neste artigo, a discussão centra-se na questão da escala dos impactos
climáticos e nas implicações sobre a ideia de injustiça climática norteadora de
estudos empíricos em Climatologia, buscando-se realçar especialmente o papel das

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escalas inferiores como lócus, por excelência, das derivações climáticas e das ações
de agentes político-econômicos responsáveis por essas derivações.
Trata-se, pois, de uma discussão de fundo, uma proposição teórica que se
dispõe a anteceder e, consequentemente, a direcionar pesquisas climatológicas
aplicadas, para que estas não se distanciem de seus propósitos geográficos e de
sua acepção social. Assim como defendido por Sant’anna Neto (2008), em sua ideia
de Geografia do Clima, e por Mendonça (2010; 2011), na abordagem socioambiental
que guia seus estudos no campo dos riscos e das vulnerabilidades, procura-se, mais
do que produzir conhecimento sobre o clima, produzir e reforçar o sentido desse
conhecimento.

2 – A (in)justiça climática e a questão da escala dos impactos sobre


o clima

Uma breve revisão dos trabalhos que empregam a ideia de (in)justiça


climática, conforme levantamento realizado no Portal CAPES no início de 2017,
mostra que, em relação à escala, o nível global do clima prevalece como norteador
do raciocínio. Conforme Schlosberg e Collins (2014, p.364), “[...] the climate justice
movement began with a critique of de carbon economy as a symptom of large
inequities created and exploited by global capital”. E ainda: [...] this approach is
articulated as a response to the ‘climate debt’ of developed nations [...]”
(SCHLOSBERG; COLLINS, 2014, p.365). Assim, a ideia de (in)justiça climática
permanece fortemente atrelada às supostas mudanças do clima global em
decorrência da liberação de gases estufa e às possíveis consequências desse
fenômeno sobre populações vulneráveis de diferentes países.
O tratamento do tema à luz das mudanças climáticas globais de origem
antrópica, fortemente alicerçada nas emissões de CO², continua sendo a tônica
mesmo quando o foco da pesquisa empírica encontra-se nas escalas inferiores do
clima. Em um exemplo mexicano, Rivera e Galicia (2016) apresentam a concepção
dos Planos de Ação Climática Municipal (PACMUN), cuja primeira tarefa diz repeito
a um inventário local de emissões de CO². Essa preocupação centrada nas

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emissões de CO², a nosso ver, pode negligenciar outros fatores com repercussão
imediata e inequívoca sobre a própria escala local.
Outro viés muito explorado nas investigações diz respeito às adaptações ou
ajustamentos locais a uma eventual nova configuração climática global (BARRET,
2013). Essas adequações, por sua vez, privilegiam claramente o papel das técnicas
e da tecnologia como principal solução para o problema climático (BULKELEY et al,
2014), em detrimento de enfrentamentos estruturais, que considerem os agentes
sociais e suas práticas relacionadas à reprodução e acumulação do capital, cujas
repercussões implicam, direta ou indiretamente, em injustiças climáticas.
Steele et al (2015) mostra que as discussões no campo da justiça climática
vêm gradualmente incluindo as questões locais, como os problemas de ordem
comunitária, os ativismos sociais e as ações promovidas por organizações não
governamentais (ONGs). Porém, verificamos que o modo de se conceber o tema
permanece inalterado, uma vez que essas questões locais situam-se, quase
sempre, no campo das reações pontuais ou localizadas a um processo degenerativo
que, supostamente, ocorre na amplitude do espaço terrestre e cujos responsáveis
encontram-se abstratamente dispersos e sem identidade.
Todas essas preocupações implicam uma ideia de escala como arena de
lutas, como as forças em disputa se constituem e se embatem sobre o espaço. Os
diferentes impactos climáticos promovidos nas próprias escalas inferiores do clima,
com destaque para mudanças de superfícies, bem como suas consequências nesse
mesmo nível, são aqueles de maior interesse. Logo, é importante ter clareza acerca
dos fenômenos que se pretende abordar, não apenas do ponto de vista de sua
ocorrência em si, mas da abrangência de suas origens e repercussões, e, para isso,
é preciso adotar uma escala de análise coerente.
Para Ribeiro (1993), o clima só pode ser compreendido em sua totalidade se
considerado o conjunto de fenômenos que o integram em determinado tempo e
espaço, fatores essencialmente determinados pela escala. Considerando que tais
fenômenos constituem-se por um conjunto de elementos de naturezas diversas,
qualquer discussão que os envolva deve ser pensada a partir de um referencial

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escalar que abarque tanto sua extensão quanto sua duração, assim como seus
fatores intervenientes.
Ainda para este autor, as escalas superiores do clima, como a escala zonal,
encontram-se diretamente submetidas às forças externas ao planeta, a começar
pela atividade solar. Em contrapartida, as escalas inferiores do clima, como a escala
local, são determinadas especialmente pelas características da superfície terrestre,
uma vez que o próprio alcance vertical desse tipo de escala o limita
fundamentalmente ao contato direto com a superfície (RIBEIRO, 1993).
Segundo Monteiro (1964), a verdadeira unidade geográfica do clima está na
escala regional, o que se justifica pela abrangência regional das massas de ar. Já na
escala local, o regional se decompõe e se individualiza pela interação das massas
de ar com as variações de superfície (relevo, vegetação, urbanização, corpos
hídricos etc.). Assim, quando ocorrem mudanças na superfície, tais como as
relacionadas à cobertura do solo, ocorrem repercussões inevitáveis sobre o balanço
de radiação. Consequentemente, acentuam-se ainda mais as respostas locais e
microclimáticas à atuação das massas de ar, o que aprofunda os gradientes que
caracterizam os complexos mosaicos inferiores do clima.
Conforme argumentam Rivera e Galícia (2016), muitos fenômenos
geográficos não podem ser estudados a partir de um simples redimensionamento
escalar, seja espacial ou temporal. Deve-se considerar, todavia, que as qualidades
de um fenômeno, tanto físico-natural quanto humano ou social, mudam com a
escala, o que exige um cuidado especial em termos metodológicos. Tal ressalva é a
mesma que sustenta a crítica de Monteiro (1962) à caracterização do clima regional
simplesmente a partir do somatório de dados locais.
Outra ressalva importante refere-se à limitação humana para perceber e para
conceber os fenômenos espaciais. A respeito disso, nos respaldamos em Marandola
Jr. (2013, p.98), que explica:

[...] espacialmente, ordens de grandeza que fogem à nossa


capacidade perceptiva são potencialmente de difícil apreensão, uma
vez que dependem da abstração e de esquemas conceituais para se
sustentar. A escala global, ou mesmo o país, é abstrata para a mente
humana, assim como a escala microscópica. Ambas são percebidas

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por abstrações ou mediações, o que introduz outra dimensão à
discussão da escala: os horizontes de alcance.

Nesse sentido, a discussão acerca das mudanças climáticas sob um viés


global, acaba por tornar-se generalista e distante do espaço vivido diretamente pelo
cidadão, desconectada das realidades locais, a ponto de comprometer e de dificultar
o entendimento do que, a nosso ver, seria o mais importante, qual seja: a origem, a
repercussão e o enfrentamento dos impactos climáticos que afetam diretamente
esse espaço vivido.

3 - Algumas questões norteadoras

Com base no que fora exposto até aqui, algumas questões norteadoras
surgem para problematizar a discussão e, por conseguinte, tentar colaborar com a
operacionalização de pesquisas envolvendo os impactos nas escalas inferiores do
clima, na perspectiva da (in)justiça ambiental e climática.
Quem produz o impacto sobre o clima? Entende-se que o discurso sobre os
impactos climáticos a partir da escala global pode levar à omissão ou à negligência
do papel dos grupos dominantes locais, bem como do poder público, como agentes
fundantes do processo. Proprietários fundiários no campo e na cidade, negociadores
e incorporadores imobiliários, grandes agricultores e empresários, além dos políticos
locais encontram-se diretamente envolvidos nas iniciativas e atividades que resultam
em impactos sobre o clima, ainda que existam forças supralocais motivadoras (como
empresas internacionais, capital financeiro, bancos etc.). Os empreendimentos
transcorridos na escala local dificilmente serão operacionalizados sem o
consentimento e a participação direta dos agentes locais que, em maior ou menor
grau, devem ser responsabilizados pelas consequências negativas ocasionadas.
Esses impactos ocorrem sob quais interesses e circunstâncias? Os
empreendimentos potencialmente impactantes sobre o clima local e os microclimas,
tais como os grandes projetos agropecuários, industriais, comerciais e imobiliários,
decorrem de arranjos empresariais e políticos voltados à garantia da irrestrita
reprodução do capital, com ganhos financeiros fortemente concentrados. Dizem

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respeito, assim, a ações majoritariamente voltadas à terra (rural ou urbana) em sua
condição de mercadoria e/ou de meio de produção. Ações orientadas por critérios de
mercado e, frequentemente, incentivadas por políticas públicas e viabilizadas pela
omissão do setor público em seu papel de regulação de interesses e de
licenciamento de obras e atividades impactantes. Configura-se, assim, uma
conjuntura potencialmente geradora de injustiças, tomando-se como base os
argumentos de Acselrad et al (2009).
Sobre quem recaem as consequências desses impactos? No contexto em
debate, as diferentes consequências sobre o clima ocorrem por intermédio das
alterações no balanço de radiação e aumento das temperaturas; das mudanças no
regime hidrológico e da redução da evaporação e da evapotranspiração; das
transformações de superfícies capazes de ampliar o impacto meteórico das chuvas;
e das modificações na composição atmosférica (AYOADE, 1991; GARCÍA, 1996;
CUADRAT; PITA, 2009; MONTEIRO, 2015). Tais consequências, que se
manifestam de maneira inequívoca em nível local, são especialmente sentidas pela
população mais pobre e vulnerável, em geral instaladas em áreas desprovidas de
amenidades e ameaçadas por riscos ambientais, o que mais uma vez denota o
caráter de injustiça do processo, assim como assinalado por Acselrad et al (2009).
Nessas camadas sociais, principalmente nas cidades, concentram-se os
cidadãos que convivem com os menores índices de habitabilidade em suas
moradias, quase sempre localizados em áreas vulneráveis, notabilizadas por lotes e
habitações em tamanhos reduzidos, uso de materiais de construção com
desempenho térmico desfavorável, baixos índices de áreas verdes no entorno, entre
outros problemas. Já no campo, estão vinculados a comunidades cuja sobrevivência
está atrelada diretamente à utilização e consumo dos recursos naturais. Esses
recursos, por sua vez, estão sujeitos ao relativo equilíbrio do clima, como a
disponibilidade de água e a manutenção de condições ambientais favoráveis à
reprodução de diferentes espécies vegetais e animais das quais dependem (SOUZA
2015; 2016).
Não se pode, então, negar a complexidade diante do número de variáveis e
de agentes envolvidos ao tratar-se de temas relacionados ao risco, à exposição, à

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vulnerabilidade e à adaptação, especialmente quando são abordados no contexto
das mudanças climáticas. Novamente, deparamo-nos com a discussão sobre a
escala, visto que, em determinado nível, a vulnerabilidade é, por si só, algo
multidimensional e intricado, que deve ser pensado em suas diferentes formas de
ocorrência e produção (MARANDOLA Jr., 2009; 2013).
Quais os possíveis mecanismos de enfrentamento a esse quadro de injustiça
climática? Além de se ter clareza a respeito das bases político-econômicas onde os
impactos climáticos estão enraizados, é fundamental dar visibilidade a essas
relações no plano das pesquisas empíricas sobre os climas derivados das ações
humanas.
Nesse aspecto, a adoção de uma postura dialética acerca dos impactos
climáticos pode contribuir para desvelar as contradições inerentes ao tema, as
injustiças, as disputas de sentido, as interpretações sobre o estado da natureza,
considerando os diferentes grupos sociais envolvidos na problemática, o que vai ao
encontro da defesa de Robbins (2004) sobre o modo de operar próprio da Ecologia
Política. Tem-se, assim, um propósito que transcende a produção de conhecimento
em Climatologia, avançando para uma construção de sentido com o conhecimento,
de modo semelhante à abordagem territorial sugerida por Castilho e Chaveiro (2010)
para o caso do Cerrado3.
Por fim, em sua abordagem dialética, a temática pode ser encarada em seu
movimento e dinâmica, de maneira processual e complexa, em um constante jogo
de forças e de interesses entre elementos humanos e não-humanos (ROBBINS,
2004). Tal posicionamento é próprio da ciência geográfica e, por consequência,
também deve ser a tônica da Climatologia Geográfica ou, mais propriamente, de um
enfoque verdadeiramente geográfico e engajado do clima.
Além disso, cumpre aos pesquisadores envolverem-se em outros meios de
atuação, buscando transcender a atividade puramente acadêmica e

3 Nesse caso, os autores consideram que a abordagem do Cerrado unicamente como bioma não
contribui para a sua compreensão como território, em especial em função das disputas ocorridas
entre diferentes grupos (comunidades tradicionais, agronegócio etc.) nesse contexto. (CASTILHO;
CHAVEIRO, 2010). Essa concepção também coaduna com a ideia de sociobiodiversidade, segundo
proposto por Diegues (2005), de modo mais abrangente e alternativo à ideia consolidada de
biodiversidade.

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desempenhando uma práxis, também a exemplo do exercício da Ecologia Política,
conforme defendida por Robbins (2004). Nesse caso, a própria linguagem artística,
bem como a atividade de militância política, constituem exemplos viáveis para esse
exercício de resistência, de difusão de conhecimento e de enfrentamento às
injustiças ambiental e climática.

4 – Considerações Finais

Buscou-se, com este texto, chamar atenção para o cuidado com o viés da
discussão acerca dos impactos climáticos na atualidade, de modo que não se
contribua para ofuscar a compreensão de suas origens e motivações, especialmente
quando os esforços se concentram nas explicações de sua mecânica físico-natural.
Considera-se que a reprodução acrítica da teoria hegemônica relacionada às
mudanças climáticas globais e de sua concepção escalar não constitui um exercício
construtivo no âmbito da Climatologia Geográfica, especialmente se for considerada
a sua constituição no seio da ciência geográfica. Em outras palavras, pretende-se
instigar e defender a necessidade premente de um olhar crítico nos estudos
geográficos sobre o clima, bem como seu papel de produção de sentido.
Para isso, recorremos às ideias de (in)justiça ambiental e climática, que
compõem um campo teórico relativamente recente e em processo de consolidação.
Por meio desse campo, vislumbra-se a possibilidade de se construir explicações
para aquilo que se observa com frequência nas pesquisas empíricas e nas incursões
a campo: as iniquidades e as contradições relacionadas à origem e aos efeitos dos
impactos sobre o clima.
Por fim, avaliar o contexto em que os impactos sobre o clima são gerados,
seus principais agentes, motivações e estratégias, bem como as suas repercussões
desproporcionais sobre os diferentes grupos sociais constitui, a nosso ver, um ponto
de partida auspicioso para a operacionalização desse tipo de abordagem. Em um
plano mais abrangente, este pode ser um caminho possível para um exame crítico
das repercussões dos diferentes modelos de desenvolvimento sobre o clima e sobre
o bem estar humano, orientado pela ética e pelo anseio por equidade.

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