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Superior Tribunal de Justiça

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 843.764 - SP (2016/0023254-0)

RELATOR : MINISTRO ERICSON MARANHO (DESEMBARGADOR


CONVOCADO DO TJ/SP)
AGRAVANTE : C D DE A
ADVOGADO : TIAGO CAPATTI ALVES
AGRAVADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO

DECISÃO
Agrava-se de decisão que negou seguimento ao recurso especial,
fundamentado no art. 105, III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal, contra
acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado:

ESTUPRO - Impetração visando a absolvição por


fragilidade probatória. Para tanto, alega negativa de autoria,
reconhecimento fotográfico irregular que induziu a vítima e as
testemunhas e não realização de exame - Pedidos subsidiários para
desclassificação da conduta, tentativa, redução da pena e alteração do
regime - POSSIBILIDADE PARCIAL - Autoria e materialidade
comprovadas - Negativa do apelante isolada nos autos - Vícios do
inquérito que não contaminam a ação penal, principalmente quando o
reconhecimento fotográfico é confirmado em juízo - Desnecessário
exame de corpo de delito, conduta que não deixa vestígios (atos
libidinosos diversos da conjunção carnal) - Inexistências de dúvidas
quanto aos fatos - Inviável a desclassificação da conduta e a alteração
do regime - Aumento pelos maus antecedentes reduzido para 1/6.
RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. (fl. 252)

O agravante alega violação dos arts. 14, II, e 226 do CP, 158 do CPP e
61 do Decreto-Lei 3.688/41, buscando a sua absolvição, por não ter sido realizado o
exame de corpo de delito, bem como por descumprimento da lei no reconhecimento
fotográfico.
Pretende alternativamente a desclassificação do delito para
importunação ofensiva ao pudor, ou o reconhecimento do crime na forma tentada.
Contrarrazões às fls. 315/318.
O Ministério Público Federal opinou pelo desprovimento do agravo.
É o relatório. Decido.
A irresignação não merece prosperar.
O Tribunal de origem, soberano na análise das circunstâncias fáticas
da causa, entendeu que ficou comprovada a autoria e a materialidade do delito de

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estupro, conforme se extrai do seguinte trecho do acórdão recorrido:

Consta da denúncia, em síntese, que no dia 27 de


dezembro de 2010, por volta das 19h, CLAUDEMIR DONIZETE
(DONIZETI) DE AVELAR, mediante grave ameaça, constrangeu a
vítima Adryele Galoro Silveira, na época com 16 anos de idade, a
permitir que com ela se praticasse ato libidinoso diverso da conjunção
carnal.
Por primeiro, nem se diga que o reconhecimento
fotográfico foi irregular. O reconhecimento fotográfico é uma das
formas de se produzir provas em relação à autoria, buscando a
elucidacão delitiva e comumente utilizada na investigação policial não
havendo nada de irregular em tal ato.
A formalidade a que se apega a defesa para anular tal
ato não é taxativa, é que o artigo 226, II menciona: "a pessoa, cujo
reconhecimento se pretender, será colocada, se possível, ao lado de
outras que com ela tiverem qualquer semelhança, convidando-se quem
tiver de fazer o reconhecimento a apontá-la".
Por outro lado, o ato de reconhecimento fotográfico na
delegacia foi confirmado pela vítima em Juízo e mesmo que
considerado irregular fosse, tem-se que os vícios do inquérito policial
não contaminam a ação penal.
O apelante, em Juízo, negou os fatos dizendo que sequer
conhecia a vítima e a testemunha Beatriz.
Por sua vez, a narrativa da vitima é segura e harmônica e
tanto ela quanto sua mãe, também ouvida como testemunha,
confirmaram a ocorrência e explicaram de forma satisfatória o fato de
terem comparecido à delegacia somente após dois dias.
A testemunha Beatriz veio aos autos após saber dos
fatos que ocorreram com a vitima, sua amiga, identificando-se com
uma ocorrência semelhante, motivo que a levou à delegacia para
efetuar o reconhecimento fotográfico e depor.
Quanto à não realização de exame de corpo de delito,
entendo desnecessária na medida em que o delito a que responde o
apelante é daqueles que nem sempre deixam vestígios, o que
dispensa tal prova. Anote-se ainda que a vítima narrou apenas puxões
de cabelo, carícias em seus seios e órgãos genitais, além de um beijo
na boca, contra sua vontade, tudo encaminhando para o prejuízo da
prova mesmo que fosse realizado o exame.
A exigência do exame de corpo de delito não é
obrigatória, podendo o magistrado se utilizar de outros elementos de
prova para chegar ao convencimento, em respeito ao princípio do livre
convencimento, o que foi feito.
[...]
A vítima narrou com unicidade e coerência tanto em juízo
como na delegacia como o apelante agiu e não há provas nos autos de
que tivesse a intenção de inventar os fatos ou mesmo apontar pessoa
inocente.
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Sua narrativa foi corroborada por sua genitora que
descreveu igualmente o relato de sua filha. Acrescentando que ela
chegou em casa chorando e transtornada.
Sem ferir o principio da inocência, mas como reforço à
convicção da autoria do apelante, não se pode descartar o fato do
apelante ter sido condenado por outro delito da mesma natureza.
Como se sabe, o crime aqui tratado normalmente é
cometido longe das vistas de terceiras pessoas, em local ermo, sendo
imprescindível a palavra da vítima que, livre de impugnações quanto a
sua veracidade e idoneidade, devem ser valoradas. Neste diapasão,
note-se que mesmo sendo 19 horas da noite e não estando totalmente
escuro, por ser horário de verão, o local ao qual a vítima foi
encaminhada era ermo e propício à prática delitiva.
Assim, a condenação do apelante não está baseada
apenas em suposições, nem há dúvidas capazes de afasta-la,
devendo ser mantida.
O reconhecimento do estupro afasta, por si só, o pedido
de desclassificação.
Igualmente, não se pode falar em tentativa de estupro. A
conduta do apelante buscando satisfazer sua lascívia, alisando os
seios e órgãos genitais da vítima e beijando-a contra sua vontade já
consumam o delito, pois evidenciam a prática de atos libidinosos
diversos da conjunção carnal, atacando diretamente a sexualidade e
intimidade da vítima, deixando traumas difíceis de serem superados.
(fls. 253/255)

Desta forma, inafastável, na hipótese, a incidência do enunciado


sumular n. 7/STJ, conforme bem anotado pelo decisório agravado. Com efeito, para
se entender de forma diversa do v. aresto recorrido, imprescindível o reexame do
conjunto fático-probatório, o que é vedado em recurso especial. Veja-se:

PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL


NO RECURSO ESPECIAL. DELITO DE ESTUPRO DE
VULNERÁVEL. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. (I) - TESE
JURÍDICA. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULAS
211/STJ, 282/STF E 356/STF. (II) - ART. 255/RISTJ.
INOBSERVÂNCIA. (III) - AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO DE
DISPOSITIVO DE LEI VIOLADO. RECURSO ESPECIAL COM
FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE. SÚMULA 284/STF. (IV) - PLEITO
DE ABSOLVIÇÃO. REEXAME DE MATÉRIA FÁTICA. VEDAÇÃO.
SÚMULA 7/STJ. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE NEGA
PROVIMENTO. [...]
4. É assente que cabe ao aplicador da lei, em instância
ordinária, fazer um cotejo fático probatório a fim de analisar a
existência de provas suficientes a a embasar o decreto condenatório
ou a ensejar a absolvição, porquanto é vedado, na via eleita, o
reexame de provas, conforme disciplina o enunciado 7 da Súmula
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desta Corte.
5. Agravo regimental a que se nega provimento (AgRg no
REsp 1.452.661/SC, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS
MOURA, SEXTA TURMA, DJe 16/09/2014).

PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL


NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ESTUPRO. 1. ALEGADA
VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. NÃO
CABIMENTO. 2. JULGAMENTO MONOCRÁTICO. ART. 544, § 4º, II,
ALÍNEA "B", DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL, C.C. O ART. 3º DO
CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. POSSIBILIDADE. 3.
SUSTENTAÇÃO ORAL EM AGRAVO REGIMENTAL. VEDAÇÃO DO
ART. 159 DO REGIMENTO INTERNO DESTA CORTE. 4.
CONCESSÃO DE HABEAS CORPUS, DE OFÍCIO.
IMPROPRIEDADE. 5. PEDIDO DE ABSOLVIÇÃO. ÓBICE DA
SÚMULA N. 7 DESTA CORTE. 6. AGRAVO REGIMENTAL
IMPROVIDO. [...]
5. A alegada insuficiência probatória para condenar o
agravante pelo crime de estupro demanda incursão no material fático
dos autos, o que é vedado pelo óbice da Súmula n. 7 do Superior
Tribunal de Justiça.
6. Ademais, com relação à palavra da vítima, esta Corte
decidiu que, em se tratando de crimes contra a liberdade sexual, que
geralmente são praticados na clandestinidade, ela assume
relevantíssimo valor probatório, mormente se corroborada por outros
elementos, como na hipótese.
7. Agravo regimental improvido (AgRg no AREsp
608.342/PI, Rel. Ministro WALTER DE ALMEIDA GUILHERME
(DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP), QUINTA TURMA,
DJe 09/02/2015).

HABEAS CORPUS. ESTUPRO TENTADO. ART. 213


C/C O ART. 14, II DO CPB. PENA: 2 ANOS E 4 MESES DE
RECLUSÃO EM REGIME INICIAL FECHADO. DESCLASSIFICAÇÃO
PARA CONTRAVENÇÃO PENAL. IMPOSSIBILIDADE. TESE CUJO
ACOLHIMENTO EXIGIRIA PROFUNDA IMERSÃO NO CONTEXTO
FÁTICO-PROBATÓRIO. CRIME COMETIDO EM 22.05.2005, ANTES
DE ENTRAR EM VIGOR A LEI 11.464/07. NÃO OBRIGATORIEDADE
DO REGIME INICIAL FECHADO. RÉU REINCIDENTE. REGIME
SEMIABERTO. SÚMULA 269 DO STJ. PARECER DO MPF PELA
PARCIAL CONCESSÃO DO WRIT. ORDEM PARCIALMENTE
CONCEDIDA APENAS PARA FIXAR O REGIME SEMIABERTO.
1. O acórdão afirma que a autoria e materialidade do
delito de estupro, na forma tentada, estão devidamente comprovados
pelas provas produzidas em Juízo. Afastar essas afirmações e acatar a
tese de que a conduta do paciente configura apenas contravenção
penal demandaria a profunda incursão em matéria fático-probatória, o
que é vedado em sede de Habeas Corpus. Nesse sentido: HC
149.082/SP, Rel. Min. OG FERNANDES, DJe 20.09.2010. [...]
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4. Ordem parcialmente concedida apenas para fixar o
regime semiaberto, em conformidade com o parecer ministerial. (HC
125.064/SP, Rel. Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, QUINTA
TURMA, DJe 01/08/2011)

Por outro lado, como já assentado "a jurisprudência deste STJ é firme
no sentido de que 'o reconhecimento fotográfico do réu, quando ratificado em juízo,
sob a garantia do contraditório e ampla defesa, pode servir como meio idôneo de
prova para fundamentar a condenação.' (HC 273.043/SP, Rel. Min. LAURITA VAZ,
QUINTA TURMA, DJe 03/04/2014) Incidência do enunciado 83 da Súmula deste
STJ" (AgRg no AREsp 680.035/DF, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS
MOURA, SEXTA TURMA, DJe 17/09/2015). No mesmo sentido:

AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO


ESPECIAL. ROUBO CIRCUNSTANCIADO. 1. PLEITO DE
ABSOLVIÇÃO POR CARÊNCIA DE PROVAS DA AUTORIA
DELITIVA. SÚMULA N. 7 DESTA CORTE. 2. RECONHECIMENTO
FOTOGRÁFICO RATIFICADO EM JUÍZO. VALIDADE. EXISTÊNCIA
DE OUTROS ELEMENTOS PROBATÓRIOS PARA FUNDAMENTAR
A CONDENAÇÃO. 3. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO. [...]
2. Esta Corte firmou o entendimento de que o
reconhecimento fotográfico, ratificado em juízo, é válido para
fundamentar a autoria delitiva, no caso de ser corroborado por outros
elementos probatórios. Precedentes.
3. Agravo regimental improvido. (AgRg no AREsp
523.026/RR, Rel. Ministro WALTER DE ALMEIDA GUILHERME
(Desembargador convocado do TJ/SP), QUINTA TURMA, DJe
05/11/2014)

De outra parte, "não prospera a alegação de que a ausência de exame


de corpo de delito impede o reconhecimento da configuração do delito cometido
pelo Paciente, pois 'a palavra da vítima, em sede de crime de estupro ou atentado
violento ao pudor, em regra, é elemento de convicção de alta importância,
levando-se em conta que estes crimes, geralmente, não há testemunhas ou deixam
vestígios' (STJ, HC 135.972/SP, 5.ª Turma, Rel. Min. FELIX FISCHER, DJe de
07/12/2009.) " (HC 273.447/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, QUINTA TURMA,
julgado em 22/04/2014, DJe 30/04/2014). A propósito:

PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL.


RECURSO ESPECIAL. ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR.
ABSOLVIÇÃO. SÚMULA 7/STJ. PALAVRA DA VÍTIMA. VALOR
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PROBANTE. LAUDO PERICIAL OFICIAL. NÃO OBRIGATORIEDADE.
VÍTIMA MENOR DE 14 ANOS. PRESUNÇÃO ABSOLUTA.
RESSALVA DO POSICIONAMENTO DA RELATORA. NATUREZA
HEDIONDA DO DELITO.
1. O acolhimento da pretensão recursal, a fim de reformar
o acórdão que concluiu pela suficiência de provas da autoria e
materialidade do delito de atentado violento ao pudor, demandaria a
alteração das premissas fático-probatórias estabelecidas na instância
ordinária, o que é vedado em sede de recurso especial, nos termos do
enunciado da Súmula 7/STJ.
2. Consolidou-se neste Superior Tribunal de Justiça a
tese de que a palavra da vítima tem alto valor probatório, considerando
que crimes dessa natureza geralmente não deixam vestígios e, em
regra, tampouco contam com testemunhas.
3. Não há falar em nulidade na hipótese de condenação,
por atentado violento ao pudor, em razão da ausência de laudo pericial
oficial, se demonstrada a materialidade e autoria do crime por outros
elementos contidos nos autos. [...]
6. Agravo regimental improvido. (AgRg no REsp
1289027/DF, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA,
SEXTA TURMA, DJe 28/11/2013)

Por fim, registra-se que a Corte local ao afastar a tentativa do crime de


estupro decidiu corretamente, pois este tipo penal não exige a introdução do pênis
na vagina da vítima para a sua consumação, tendo no caso o réu acariciado os
seios e órgãos genitais da vítima, além de tê-la beijado.
Diante do exposto, conheço do agravo e nego seguimento ao recurso
especial, com fulcro no art. 544, § 4.º, II, "b", do CPC.
Publique-se. Intimem-se.
Brasília, 12 de fevereiro de 2016.

MINISTRO ERICSON MARANHO


(DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJ/SP)
Relator

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