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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra.

Filomena Carvalho

● Parte I – Introdução
● 1. Noção Jurídica e Social de Família
● 1.1 Noção Jurídica de Família
●O nosso Código Civil não define explicitamente o conceito jurídico de família. No
entanto, o art. 1576º dá uma noção implícita.

● Art. 1576º do CC
“São fontes das relações familiares o casamento, o parentesco, a afinidade e a
adopção”

● Sendo as relações familiares as referidas neste preceito, pode dizer-se que a família
abrange todas as pessoas ligadas por essas relações.
●À família de uma pessoa pertencem, pois, não só os conjugues, como ainda os seus
parentes, afins, adoptantes e adoptados, correspondendo este conceito lato à noção
jurídica de família.
● Não obstante, o já referido e embora a lei reconheça o grupo familiar como portador
de interesses próprios, a família não é ela própria uma pessoa jurídica, o interesse
da família é perseguido através das próprias pessoas singulares que integram o grupo
familiar.
Ex: art. 1671º, nº2; 1673º; 1677º-C, nº1

● Posição do Prof. Guilherme de Oliveira:

● Apenas se deve considerar o casamento e a adopção, como actos jurídicos que


constituem verdadeiras fontes de relações familiares;

● No que concerne ao parentesco e à afinidade, considera que são apenas relações


derivadas respectivamente da geração e do casamento.

● 1.2 Aspectos sociológicos de Família

● 1.2.1 Noção
●A noção supracitada é uma pura noção jurídica a que não corresponde qualquer
realidade social.
●Actualmente, a família é considerada a “pequena família”, isto é, constituída pelos
cônjuges e pelos filhos menores.
●Mas por vezes a família é muito mais ampla, uma vez que há inter-relações entre
gerações, como sejam com os sogros, pais, etc.

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● Como quer que sejam, com o desenvolvimento da sociedade passou-se de um conceito


de grande família, para um conceito de família nuclear.

● Socialmente a família:
● É uma comunidade particularmente propícia à realização pessoal dos seus membros;
● É um grupo social primário, uma vez que se consubstancia no principal agente de
desenvolvimento e progresso na vida em que existem relações de parentesco e
afinidade;
● Tem necessidade de protecção, independentemente dos modelos que possa assumir;
● Influencia e é influenciado por outras pessoas e instituições;
● É um grupo de pessoas, ou número de grupos domésticos ligados por descendência a
partir de um ancestral comum, matrimónio ou adopção;
● É unida por múltiplos laços capazes de manter os seus membros moralmente,
materialmente e reciprocamente unidos durante uma vida e durante gerações;
● É a base da sociedade, daí ser importante manter a coesão da família e
solidariedade entre os seus membros, pois essa coesão contribui para o nível de
honradez da sociedade.

● Conceito democrático de família:


● Pretende-se que cada membro da família se possa realizar individualmente
(=”gratificação afectiva dos seus membros” – Guilherme de Oliveira);
● Mediador cultural (relacionada com a passagem de testemunho das culturas entre
gerações);
● Socialização dos filhos: ligada à relação entre família/outros e homem/mulher.
● Família existencialista ou igualitária – Guilherme de Oliveira: tendência para que o
homem e a mulher tenham funções mais próximas.
● Estamos na era do “divórcio sem culpa”. Os divórcios por mútuo consentimento têm
a particularidade de os cônjuges não terem que dizer por que se querem divorciar;
● Economicamente, há uma diminuição da natalidade e um aumento da esperança de
vida;
● Também estamos na altura da união de facto = outras formas de viver a
conjugalidade.
● Resumo: a família é o elemento fundamental do Estado e da sociedade. O Estado
confere uma protecção social, jurídica e económica, reconhecendo, no entanto, a
privacidade à família. Mas, intervém sempre que os direitos sejam postos em causa
e para dirimir conflitos.

● 1.2.1 Funções da família


● A evolução da família, ao longo dos tempos, mostra-nos que esta tem perdido algumas
das suas funções tradicionais, como sejam a função política, a função económica

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(embora ainda seja uma unidade de consumo), a função educativa, de assistência e


segurança passando estas agora a pertencer à sociedade.

● Podemos então, actualmente destacar como funções da família:


● Assegura o afecto entre os seus membros;
● Realiza actividades satisfatórias para os membros promovendo a satisfação, bem
como o sentido de utilidade;
● Promove a segurança e a aceitação pessoal de cada membro;
● Assegura a duração nas relações com os seus membros, promovendo a
continuidade das relações;
● Proporciona estabilidade e socialização na sua respectiva cultura;
● Delimitação do “correcto” e imposição de autoridade, incutindo aos seus membros
as regras, normas, direitos e obrigações típicas da sociedade.
● Assegura a saúde física e mental, protegendo os seus membros na saúde e na
doença.

● Parte II – O Direito da Família e os


Direitos Familiares
● 1. Noção de Direito da Família
● Pode-se definir direito da família como o conjunto das normas jurídicas que regulam as
relações de família, as relações parafamiliares e ainda as que, não sendo em si mesmas
familiares ou parafamiliares, todavia se constituem e desenvolvem na sua dependência.

●Como ramo da ciência jurídica, é um ramo do Direito Civil Comum e porquanto privado
a que pertence o estudo das normas supracitadas; a sua interpretação e aplicação, a
construção de conceitos com base nas soluções legais e a ordenação sistemática desses
conceitos.

● 2. O direito da família e as suas divisões


● 2.1 Direito Civil
● O Direito Civil da família pode-se distinguir em três grandes ramos:

2.1.1 Direito matrimonial

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2.1.2 Direito da filiação

2.1.3 Direito da tutela

● 2.1.1 Direito matrimonial


●Pertence-lhe o estudo do casamento e dos seus efeitos, ou, por outras palavras e
talvez com mais rigor, o estudo da constituição, modificação e extinção da relação
jurídica matrimonial.

● 2.1.2 Direito da filiação


● Tem por objecto as relações de filiação e no qual se insere ainda por vezes a matéria
da adopção.

● 2.1.2 Direito da tutela


● Estuda a organização tutelar na sua constituição e funcionamento.

● 2.1.4 Outras divisões


● O estudo das relações de parentesco distintas da filiação, bem como as relações de
afinidade, é em regra regulado na introdução à exposição do direito da família. E há
autores que também versam nessa introdução o regime da obrigação de alimentos de
corrente das relações familiares previstas no art. 1576º do CC

● 2.2 Direito Não Civil

● 2.2.1 Direito Penal


● Refere alguns “crimes contra a família”
● Pune a homossexualidade praticada com adolescentes (art. 175º)
● Pune a bigamia (art. 247º)
● Pune a falsificação do estado civil (art. 247º)
● Pune a violação da obrigação de alimentos (art. 250º)
● Pune maus tratos ao cônjuge (art. 152º)
● Pune mãe que mata filho pós-parto (art. 136º)

● 2.2.2 Direito Fiscal


●Uma das incumbências do Estado para a protecção da família é a de “regular os
impostos e os benefícios sociais de harmonia com os encargos familiares” (art. 67º,
nº2 al.f da CRP). No desenvolvimento deste princípio, dispõe o art. 104º, nº1 que o
IRS deve ter em conta “as necessidades e os rendimentos do agregado familiar”.

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● 2.2.3 Direito Laboral


● O princípio constitucional de que a maternidade e a paternidade constituem valores
sociais eminentes, tendo os pais e as mães direito à protecção da sociedade e do
Estado (art. 68º da CRP) traduz-se fundamentalmente no direito do trabalho, na
atribuição de direitos aos pais e às mães trabalhadores.

● 2.2.4 Direito da segurança social


●As relações de família têm ainda considerável relevância nas várias eventualidades
em que o sistema de segurança social concede prestações pecuniárias ou de outra
ordem aos respectivos beneficiários ou aos familiares destes.

● 2.2.5 Direito Constitucional


● A nossa CRP, contém alguns princípios constitucionais que devem ser respeitados no
âmbito do direito da família.

● 3. Fontes de direito da família


●O direito da família ocupa o Livro IV (artigos 1576º a 2020) do Código Civil ao qual
a Reforma de 1976 (DL 496/77, de 25 de Novembro) introduziu várias e profundas
alterações. Posteriormente ainda foi alterado por vários decretos-leis.

●Das outras fontes do direito da família destacam-se como as que têm maior
importância a Concordata entre o Estado Português e a Santa Sé, de 7 de Maio de
1940, o Protocolo Adicional à Concordata entre o Estado Português e a Santa Sé e a
Republica Portuguesa, de 14 de Fevereiro de 1975, o Código do Registo Civil. Importa
também ao direito da família o Código de Processo Civil, principalmente os Capítulos
XIV, XVII, XVIII (Secção II, Secção III e Secção VII).

● 4. Princípios Constitucionais do Direito da Família


● 4.1 Generalidades
●Os arts. 36º, 67º, 68º e 69º da CRP, consagram certo número de princípios, que
delimitam, neste domínio, o âmbito em que o legislador ordinário se pode mover.
● São assim princípios constitucionais os abaixo referidos, sendo que do ponto 4.2 a 4.10
estão inseridos nos DLG e porquanto nos termos do art. 18º da CRP, são directamente
aplicáveis e vinculam as entidades públicas e privadas.

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●Os restantes estão inseridos nos direitos e deveres económicos, sociais e culturais,
têm assim uma força jurídica menor mas que deve ter tida em conta pelos tribunais.

● 4.2 Direito à celebração do Casamento


● Art. 36º, nº1, 2º parte
● Este artigo não pode entender-se literalmente.
● A afirmação constitucional de que “todos têm direito a contrair casamento
em igualdade de condições” levaria a que fossem inconstitucionais quaisquer
impedimentos ao casamento e tal estaria fora do propósito do legislador.
● O que aqui está em causa é impedir que a legislação ordinária estabeleça
impedimentos que não estejam fundamentados em interesses públicos, como sejam
os impedimentos com base em religião, raça, nacionalidade, pelo facto de ser
divorciado, de ter determinada profissão ou até mesmo que proibisse ao transexual,
na sua nova identidade contrair casamento com pessoa do sexo oposto.
● Acentua este princípio o art. 16º da Declaração dos Direitos do Homem.
● Este artigo não é apenas um direito fundamental, vai para além disso, é uma
garantia institucional do casamento que não permite ao legislador suprimir ou
esvaziar o conteúdo de tal instituto.

● 4.3 Direito de constituir família


● Art. 36º, nº1, 1º parte
● Este artigo tem sido alvo de bastantes divergências doutrinais:
● Castro Mendes
Segundo este Prof. a conjugação destes dois direitos num mesmo artigo é algo
de estranho, já que segundo o art. 1576º do CC, contrair casamento é construir
família. É talvez um pouco infeliz partir do efeito (constituir família) para a
causa (contrair casamento).

● Gomes Canotilho e Vital Moreira


Consideram que este nº1 do art. 36º se pretende referir à união de facto,
justificando assim a destrinça feita pelo legislador entre constituir família e
casamento.

● Guilherme de Oliveira e Pereira Coelho


Para estes autores este preceito pretende apenas dirigir-se por um lado ao
direito de procriar e por outro ao estabelecimento das relações de paternidade
e maternidade, sendo inconstitucionais normas que impusessem um limite
máximo de filhos, normas que sancionassem casais (unidos pelo casamento) que
não tivessem filhos…
● 4.4 Competência da lei civil para regular os requisitos
e os efeitos do casamento e da sua dissolução,
independentemente da forma de celebração

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● Art. 36º, nº2


● Visa fundamentalmente, retirar ao direito canónico a regulamentação das matérias
que estão previstas neste preceito.
● No que concerne aos efeitos, tais não oferecem grande dificuldade, uma vez que já
eram regulados pelo direito civil antes da CRP.
● Mas, relativamente aos requisitos do casamento católico, diz o art. 1625º do
CC que o conhecimento das causas respeitantes à nulidade do casamento são da
competência dos tribunais eclesiásticos, não obstante o já referido é necessário
ter em conta o disposto no art. 1596º do CC.
● O art. 1625º tem sido alvo de dúvidas de constitucionalidade, mas a maioria da
doutrina considera-o constitucional.

● 4.5 Admissibilidade do divórcio, para quaisquer casamentos


● Art. 36º, nº2 in fine
● Seria inconstitucional a norma que proibisse o divórcio, em geral ou até mesmo só
quanto ao casamento católico.
● Este preceito legal proíbe exactamente esta situação.
● Este art. ao estabelecer que a lei regula os requisitos e os efeitos da
dissolução do casamento por divórcio, independentemente da forma de
celebração, tem um duplo sentido:
● O primeiro é o de garantir a igualdade de todos os cidadãos,
independentemente da forma de celebração do casamento, quanto ao divórcio.
Consagra-se aqui um verdadeiro direito ao divórcio dos cônjuges.
● O segundo é uma consagração do princípio da igualdade aplicado a todos os
cônjuges.

● 4.6 Igualdade dos conjugues


● Art. 36º, nº3
● É uma aplicação do princípio geral do art. 13º (P. Igualdade), e tem um grande
interesse prático quer no âmbito do direito matrimonial como no direito da filiação:

● No direito matrimonial, foi com este preceito legal que desapareceram


o chamado “poder marital” e a proibição da mulher exercer comércio sem
autorização do marido. Actualmente a mulher pode exercer livremente qualquer
profissão ou actividade (art. 1677º-D do CC) e pode administrar bens próprios
ou comuns (ex: art. 1678º, nº1 e al.c) do nº2 do CC)

● No direito da filiação, o princípio assume relevo sobretudo quanto ao poder


paternal, que, tratando-se de filho nascido do casamento, é exercido por ambos
os pais (art. 1901º, nº1 do CC) , ao contrário do que acontecia no Código de 1966,
em que o poder paternal era exercido pelo pai e a mãe apenas tinha o direito
de “ser ouvida”. Outro corolário parece ser o de que a acção de impugnação de
paternidade deverá ser concedida tanto ao marido da mãe como à própria mãe
(art. 1839º, nº1 do CC).

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● 4.7 Atribuição aos pais do poder-dever de educação dos filhos


● Art. 36º, nº5
● Esta disposição legal tem duas faces distintas:
● Por um lado, trata-se de um poder em relação aos filhos, cuja a educação
é dirigida pelos pais (art. 1878º, nº1 do CC), embora com respeito pela
personalidade dos filhos (arts. 1874º, nº1 e 1878º, nº2 do CC), embora quanto à
liberdade religiosa tem que se ter em conta o art. 1886º do CC.
● Por outro lado, trata-se de um poder em relação ao Estado, ao qual pertence
“cooperar com os pais na educação dos filhos” (art. 67º, nº2 al. c) da CRP, mas
sem que possa programar a educação e a cultura nos termos do art. 43º, nº2 da
CRP.
● Entende-se como educação relativamente aos filhos a sua manutenção física,
a sua educação espiritual, a transmissão dos conhecimentos e técnicas, a
coabitação com os pais

● 4.8 Inseparabilidade dos filhos dos seus progenitores


● Art. 36º, nº5
● Como se pode verificar este artigo é comum a dois princípios, assim têm de ser
compreendidos em íntima conexão, por se completarem um ao outro. Deles resulta
que a educação dos filhos é pertença dos pais.
● Segundo este artigo, os filhos não podem ser separados dos pais, salvo quando
estes não cumpram os seus deveres fundamentais para com eles e sempre mediante
decisão judicial.
● Neste contexto, os pais podem ser separados dos filhos, sempre que se verifique
um dos condicionalismos do art. 1915º, nº1 do CC.
● Pode ainda o tribunal confiar o menor a terceira pessoa ou a estabelecimento de
educação e assistência se se verificarem os termos do art. 1918º do CC.
Nestes termos, seria inconstitucional a norma que no processo de adopção,
permitisse ao organismo de segurança social decidir a confiança administrativa
do menor havendo oposição de quem exerça o poder paternal, ou, sendo a situação
do menor objecto de processo tutelar ou tutelar cível, lhe permitisse decidir a
confiança administrativa sem a intervenção do tribunal.

●4.9 Não discriminação entre filhos nascidos do casamento e


fora do casamento
● Art. 36º, nº4
● Este princípio pode ser entendido em dois sentidos:
● A 2º parte da disposição enuncia o sentido formal, não permitindo o uso de
designações discriminatórias, como sejam filho “ilegítimo”, “natural”, “bastardo”
ou outras que não se limitem a mencionar o puro facto do nascimento fora do
casamento dos progenitores. Note-se que esta circunstância nem sequer é
mencionada no assento de nascimento, sendo no entanto necessário que o estado

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dos pais conste do registo (art. 102º, nº1, al.e) e sendo mandado averbar o
casamento dos pais posterior ao registo de nascimento do filho (art. 69º, nº1
al.e) do mesmo código.)
● A 1º parte desta disposição formula o princípio em sentido material, não
permitindo assim a lei que os filhos fora do casamento sejam objecto de
qualquer discriminação que lhes seja desfavorável e que, além disso, não
seja justificada pela diversidade das condições de nascimento. Apesar da lei
pretender concretizar tais objectivos, há diferenças de regime que na verdade
desfavorecem os filhos nascidos fora do casamento, mas que aparentam ser
conciliáveis com o princípio da não discriminação.
Ex: presunção pater is est (art. 1826º, nº1) só vale para os filhos dentro do
casamento, porém é possível conciliar tendo em conta o disposto nos arts. 1871,
nº1, al.c) e 1883º do CC.

● 4.10 Protecção da adopção


● Art. 36º, nº7
● O princípio de que adopção “é regulada e protegida nos termos da lei” tornou
a adopção objecto de garantia constitucional, isto é a nossa CRP, assegura a
existência deste instituto, bem como o seu núcleo essencial de direitos. Assim seria
inconstitucional extinguir a adopção.
● O princípio de que a lei deve estabelecer formas céleres implicará por exemplo:
● A proibição do retrocesso da matéria;
● A obrigação positiva do legislador de abreviar os prazos, sem prejuízo de uma
certa razoabilidade e segurança jurídica.

● 4.11 Protecção da família


● Art. 67º da CRP
● Confere à família, seja ela conjugal, natural ou adoptiva um direito de protecção da
sociedade e do Estado, tornando-se assim objecto de garantia constitucional.
● Não é aplicável a este artigo por não se tratar de um DLG, o art. 18º da CRP e
porquanto não goza de aplicabilidade directa.
● Assim conclui-se que o seu conteúdo é apenas programático, sendo que o art. 67º,
nº2 enumera a titulo exemplificativo algumas das acções que o Estado deverá
promover em ordem à protecção da família.

● 4.12 Protecção da maternidade e paternidade


● Art. 68º da CRP
● O art. 68º também é apenas programático.
● Considera a paternidade e maternidade como “valores sociais eminentes” e concede
aos pais e às mães, nesta qualidade, sejam ou não unidos pelo matrimónio, um

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direito à protecção da sociedade e do Estado na realização da sua acção em relação


aos filhos, nomeadamente quanto à educação destes, para que a maternidade e a
paternidade não os impeçam de se realizarem profissionalmente e de participarem
na vida cívica do país.
● Os pais e mães desempenham, no momento da geração e da educação dos filhos,
uma tarefa do mais profundo interesse social. O art. 68º CRP, garante-lhes por
parte do Estado uma particular protecção.
Ex: Atribuindo, desde logo, às mulheres trabalhadoras dispensa do trabalho pelo
período adequado durante a gravidez e após o parto, sem perda de retribuição ou
de quaisquer regalias.
● 4.13 Protecção da infância
● Art. 69º da CRP
● Atribui igualmente às crianças um direito à protecção da sociedade e do Estado,
com vista ao seu desenvolvimento integral.
● O nº2 do preceito, concede especial protecção às crianças contra o exercício
abusivo da autoridade na família, devendo ter-se em conta as disposições
respeitantes à inibição do poder paternal (artigo 1915º) e às providências
limitativas desse poder (artigo 1918º).

● 4.14 Consequências da inconstitucionalidade



As normas que infrinjam os princípios constitucionais supracitados são
inconstitucionais (art. 277º da CRP), não podendo ser aplicadas pelos tribunais se a
inconstitucionalidade for suscitada no processo (art. 280º, nº1, al.b)) e competindo ao
TC declarar a sua inconstitucionalidade com força obrigatória geral, nos termos dos
arts. 281º e 282º (nº1 à mais importante).
● Os três últimos princípios podem ainda ser inconstitucionais por omissão (art. 283º da
CRP)
● No que concerne ao direito anterior à entrada em vigor da constituição, há que ter em
conta o art. 290º, nº2 da CRP.

● 5. Caracteres do Direito da Família


● O Direito da Família tem um conjunto de características que o individualiza no quadro
do Direito Civil e em face de outros ramos de Direito.

● 5.1 Predomínio de normas imperativas


●O Direito da família é caracterizado por um acentuado predomínio de normas
imperativas e, como tais, inderrogáveis pela vontade dos particulares.
●Distingue-se assim do Direito das Obrigações onde predominam normas de carácter
supletivas ou dispositivas.
●Esta característica abrange a generalidade das legislações, actos e negócios
familiares, o que revela o interesse público atinente à organização da vida familiar.

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Ex: são imperativas as normas que regulam os requisitos do casamento, as que definem
os direitos e deveres pessoais dos cônjuges, as que enunciam os fundamentos do
divórcio e da separação judicial de pessoas e bens, e enfim, a generalidade das normas
do direito da família.
●Pode dizer-se, grosso modo, que apenas as relações familiares patrimoniais são
regidas por normas de carácter dispositivo, sendo de salientar, todavia, que ainda aqui
deparamos, não raramente, com normas imperativas, como as dos artigos 1699º, 1714º,
nº1, 1720º CC.

● 5.2 Institucionalismo
● O direito da família é um direito institucional;
●É uma concretização da concepção institucionalista ou ordenalista em que a lei é só
uma das formas de revelação do direito, pois o direito vive sobretudo nas próprias
instituições ou ordens.
●O direito da família, é uma das instituições mais antigas do Estado, é um organismo
natural, que preexiste ao direito escrito, e dentro do qual vive uma ordenação intima,
complexa e difícil de racionalizar.
● Diz-se que o Direito da Família é um direito institucional porque o legislador se limita,
em alguma medida, quando regula as relações de família, a reconhecer esse “direito”
que vive e constantemente se realiza na instituição familiar.
● Sem dúvida, não foi o legislador que criou as normas que impõem certas obrigações aos
cônjuges (art. 1672º do CC) ou as que dizem quais os deveres dos pais com os filhos
e destes para com os pais (art. 1874º do CC). Note-se que o facto de estas normas
serem algo vagas impõe recorrer ao institucionalismo familiar.
●É devido ao seu carácter institucional que o legislador utiliza diversos conceitos
indeterminados;
●Este institucionalismo não pode ser tido como absoluto, é obvio que também pode
existir e pode ser decisivo, um momento técnico e outro racional, pois o legislador
pode querer modificar, um sentido ou noutro, a ordenação institucional da família. O
legislador pode adiantar-se aos costumes sociais pretendendo actuar pedagogicamente
sobre eles, embora esta questão seja controversa.

● 5.3 Coexistência, na ordem jurídica portuguesa, do direito


estadual e do direito canónico na disciplina da relação
matrimonial.
● É uma característica do direito matrimonial português e não uma característica geral
do Direito da Família.
●Nos termos do art. 1625º do CC, o conhecimento das causas referentes à nulidade do
casamento católico e à dispensa do casamento rato e não consumado pertence aos Tribunais e
repartições eclesiásticas competentes.
●Assim as normas do art. 1627º a 1646º só pertencem ao casamento civil e não ao
católico.

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●O legislador português terá renunciado à sua soberania, devolvendo para o


direito canónico, portanto, para uma ou outra ordem jurídica a regulamentação de
determinados aspectos do regime dos casamentos católicos.
● Há, portanto, uma coexistência do Direito Canónico e Direito Civil, vigorando o primeiro
quanto à forma de certos casamentos e quanto a algumas das suas consequências.

●5.4 Permeabilidade do direito da família às transformações


sociais
●O Direito da família é um ramo do direito civil muito permeável às modificações das
estruturas políticas, sociais e económicas.
●A solução a dar a problemas como o da confessionalidade ou inconfessionalidade
do casamento, o da admissibilidade do divórcio, o da posição da mulher casada em
face do marido, o da situação dos filhos nascidos fora do casamento, etc., depende
naturalmente dos condicionalismos sócio-económicos e das opções de cada Estado em
matéria política e religiosa.
Ex: Influencia da Revolução Francesa e evolução do Direito da Família
●Daqui se tem partido, por vezes, para afirmar o carácter nacional do direito da
família e embora a conjuntura do direito comparada tenda a formar um mundo só, uma
tentativa de unificação total não seria de certo realista.

● 5.5 Ligação a outras ciências humanas


● O direito da família está estreitamente ligado a outras ciências humanas, bem como,
por exemplo, o direito da filiação é largamente tributário da biologia e a sua evolução
esta marcada significativamente pelos progressos científicos.
●Também relativamente ao poder paternal e à adopção, são exigidos conhecimentos
adequados de psicologia e pedagogia.

● 5.6 Afectação de certas questões de direito da família a


tribunais de competência especializada: os tribunais de
família e menores
●A “especialidade” da ordem familiar levou a atribuir questões do Direito da Família a
Tribunais especializados.
●A Lei de Organização e funcionamento dos Tribunais judiciais atribui assim
competência especializada aos “tribunais de família e menores” onde os haja, ou onde
não haja aos tribunais de comarca para julgarem questões de Família.
●O legislador terá considerado aqui a existência de uma zona, radicalmente estranha
ao Direito estadual, na qual só com particulares preocupações e com profundos
conhecimentos é possível penetrar. Nesta ordem de ideias, criou órgãos jurisdicionais
de competência especializada, com juízes, em princípio particularmente treinados,
que intervirão com a necessária delicadeza no domínio do Direito da Família. Tribunais
que, reflectindo esta ideia, compreenderão um corpo de assessores, constituído por

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indivíduos com conhecimentos especializados em matéria de ciências do homem e


ciências sociais, para constituírem uma ponte entre a frieza e a abstracção do direito
escrito, e a cambiante realidade social.
● Ex: são pois estes os tribunais que julgam as acções de divórcio e separação judicial de
pessoas e bens litigiosos, anulação do casamento civil, entre muitas outras

● 6. Caracteres dos Direitos Familiares


● São vários os caracteres que permitem distinguir os direitos familiares dos restantes
direitos. Os caracteres de seguida enunciados apenas dizem respeito aos direitos
familiares pessoais, não abrangendo portanto os direitos familiares patrimoniais.

● 6.1 Os direitos familiares pessoais como poderes funcionais


●Os direitos familiares não são direitos subjectivos propriamente ditos mas poderes
funcionais, poderes-deveres e como tais irrenunciáveis e indisponíveis.
●Os direitos familiares pessoais, não podem ser definidos satisfatoriamente de um
ponto de vista estrutural, é justamente a sua função que os define, enquanto é ela que
vai determinar o próprio conteúdo do direito.
● Estes direitos não se ajustam assim à noção tradicional de direitos subjectivos, isto é,
não são direitos que o seu titular possa exercer como queira.
●Pelo contrário, o seu titular é obrigado a exercê-los; e é obrigado a exercê-los de
certo modo, do modo que for exigido pela função do direito, pelo interesse que ele
serve.
●Os direitos familiares pessoais são irrenunciáveis, intransmissíveis (inter vivos e
mortis causa (salvo no caso de transmissão do poder paternal para os adoptantes)), e
são direitos cujo exercício é controlado objectivamente (legalmente).
● A sua função é de favorecer e garantir o cumprimento dos particulares deveres morais
que incumbem ao seu titular para com a pessoa contra quem se dirigem.

● 6.2 Fragilidade da garantia


●Outra característica dos direitos familiares pessoais seria a de que estes teriam
uma garantia mais frágil que a dos direitos de crédito, pois não existiria uma sanção
organizada para o não cumprimento dos deveres respectivos.
● Com efeito, essa sanção não poderia ver-se no divórcio ou na separação de pessoas e
bens em si mesmos, nem tão-pouco nos efeitos previstos nos arts. 1790º e 1791º do
CC; e as regras gerais da responsabilidade civil (art. 483º do CC) não teriam aplicação
à violação dos deveres familiares pessoais, devendo fazer-se, em conformidade, uma
interpretação restritiva dessas regras gerais.
●Neste contexto o divórcio não pretende ser sanção, mas remédio para uma vida
matrimonial intolerável.
● Art. 483º do CC

Tânia Belo - 13 -
Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● A interpretação restritiva deste artigo, justifica-se pela essência ética do


casamento, a defesa da paz familiar e o propósito de evitar uma excessiva
intervenção do Estado na vida da família. Ora tais justificações perdem peso depois
de um dos cônjuges intentar contra o outro uma acção de divórcio ou separação.
● Assim actualmente, o art. 483º do CC não exclui a possibilidade de,
independentemente de ter sido requerido o divórcio ou a separação judicial de
pessoas e bens, se deduzir pedido de indemnização dos danos causados pela
violação dos deveres do artigo 1672º - isto embora não se verifique na prática,
pois mal se imagina que um dos cônjuges não queira divorciar-se nem separar-
se do outro e pretenda obter deles uma indemnização desses danos. Será nesta
impossibilidade prática que radica, de alguma maneira, a fragilidade da garantia que
assiste aos direitos familiares pessoais.
● A aplicação das regras da responsabilidade civil à violação dos deveres conjugais,
por exemplo, no âmbito de uma acção de divorcio ou de separação não levanta
duvidas na doutrina, pelo que é permitido ao cônjuge, para além de pedir o divorcio
ou separação, pode ainda pedir uma indemnização por danos patrimoniais ou não
patrimoniais.

● 6.3 Carácter duradouro: os “estados de família”


●Os direitos ou relações de família são permanentes, duradouras, em oposição às
relações obrigacionais em regra transitórias.
●As relações familiares são sempre duradouras, de tal modo que geram verdadeiros
estados da pessoa (o estado de casado, o estado de filho, afim, adoptante ou
adoptado).
●Porque assim é, existe nas relações familiares uma grande necessidade de certeza e
segurança, o que explica o registo civil obrigatório, para muitas das relações familiares
(a adopção, o divórcio, regulação do poder paternal, casamento, etc.), sendo este a
única prova legal admitida nestes casos.
● É ainda esta particular necessidade de segurança e certeza que explica que não seja
permitido apor às relações familiares condições ou termos.

● 6.4 Carácter relativo


●Embora os direitos familiares pessoais sejam relativos, por vezes os
respectivos casos gozam de protecção absoluta, como por exemplo:
● Arts. 475º, nº3 e 496º, nº2 do CC
● No caso de “lesão de que proveio a morte”, os familiares do lesado que lhe podiam
exigir alimentos (art. 2009º do CC) têm o direito de pedir ao lesante indemnização
dos danos patrimoniais sofridos.
● E os familiares referidos no art. 496º, nº2, podem exigir-lhe indemnização dos
danos não patrimoniais que a morte do seu familiar lhes causou.

● 6.5 Tipicidade dos direitos familiares

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●Os direitos e negócios familiares estão sujeitos aos “numerus clausus”, ao contrário
do que acontece com o direito das obrigações e à semelhança do que se passa com os
direitos reais.
● Este princípio de “numerus clausus” vigora não só quanto ao número dos negócios, mas
também quanto ao seu conteúdo.
●Em matéria de Direito da Família, não só se podem celebrar unicamente os negócios
previstos na lei, como as relações familiares estão sujeitas, em princípio, a um
conteúdo pré-fixado na lei.
Ex: Não seria válido o contrato, feito por duas pessoas de sexo diferente, em que
estas assumissem uma para com a outra as obrigações que a lei impõe aos verdadeiros
cônjuges mas sem quererem recorrer à forma matrimonial. Como não poderão duas
pessoas fazer um contrato, submetido ao regime geral dos contratos, pelo qual uma
delas fique na situação de filha da outra.

● Parte III – Relações Familiares e


Parafamiliares
● 1. Relações familiares

1.1 Relação matrimonial

1.2 Relações de parentesco

1.3 Relações de afinidade

1.4 Relações de adopção

● 1.1 Relação matrimonial


● Surge em consequência do casamento, ligando dois conjugues entre si;
● É uma condição que afecta a condição dos conjugues de maneira profunda e duradoura;
●O regime que a estabelece influencia a generalidade das relações jurídicas
obrigacionais ou reais de que os conjugues sejam titulares, uma vez que tais relações
não são reguladas respectivamente pelo regime comum afecto às obrigações e aos
direitos reais, mas sim pelas disposições legais de direito da família.
Ex: Relações obrigacionais – arts. 1691º, nº1, als. b) e c) e 2015º do CC
Relações reais – arts. 1682º, nº3 al. a) e 1682º - A, nº s 1 e 2.

● 1.2 Relações de parentesco

Tânia Belo - 15 -
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●São aquelas que se estabelecem entre pessoas que têm o mesmo sangue, porque
descendem uma das outras ou porque provenham de um progenitor comum.
Ex: relação entre o filho e o pai ou a mãe, as relações entre irmãos, entre primos etc.
●As relações de parentesco mais importantes são as relações de filiação, isto é, a
relação de maternidade e paternidade.
●À semelhança do que acontecia com as relações matrimoniais também existem aqui
alguns aspectos obrigacionais e reais que não se reconduzem pelo regime geral, mas sim
pelo Direito da Família.
Ex: - A obrigação de alimentos aos filhos menores (art. 1878º e 2009º do CC e art.
186º e ss da OTM) ou mesmo maiores (art. 1880º do CC);
- Direito de propriedade dos pais sobre certos bens dos filhos menores (art. 1895º
do CC);
- Direito conferido aos pais de utilizar os rendimentos dos bens dos filhos (art.
1896º do CC)

● 1.3 Relações de afinidade


● Consubstanciam-se num efeito das relações matrimoniais;
●Aquelas que, em consequência do casamento, ficam a ligar um dos conjugues aos
parentes do outro conjugue.

● 1.4 Relações de adopção


●Aquelas que, à semelhança da filiação natural mas independentemente dos laços de
sangue, se estabelecem entre adoptante e adoptado ou entre um deles e os parentes
do outro.
● 2. Relações parafamiliares
●As relações familiares mencionadas no art. 1576º do CC são as verdadeiras e próprias
relações de família.

●No entanto, existem outras, que apesar de não merecerem a classificação como
relação familiar, são conexas com estas, estando igualmente a estas equiparadas para
determinados efeitos legais, podendo ainda ser condição para certos efeitos que a lei
atribui à relação conjugal e às relações de parentesco, afinidade e adopção.

●São os casos da união de facto e da vida em economia, a que o prof. Guilherme de


Oliveira designa por relações parafamiliares.

● Parte IV – Relações familiares distintas


da relação matrimonial

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● 1. Parentesco
● 1.1 Noção e limite

● 1.1.1 Noção

● O parentesco é uma relação de sangue e porquanto também pode ser designada por
consaguinidade.

● Art. 1578º do CC – Noção de parentesco


“Parentesco é o vínculo que une duas pessoas, em consequência de uma delas
descender da outra ou de ambas procederem de um progenitor comum.”

● No 1º caso o parentesco é em linha recta ou directa e no 2º em linha transversal ou


colateral (art. 1580º do CC, nº1)

● 1.1.2 Limites
● Existe porém, um limite à relevância jurídica do parentesco regulado no art. 1582º do
CC.
●No entanto, os limites legais não se esgotam no artigo supracitado. Existem
disposições legais ainda mais restritivas da relação jurídica do parentesco.
Ex: 2133º, al. d) do nº1;1639, nº1;1677º-C, nº2; 2009º, nº1 do CC

● São poucos os casos em que a lei dá relevância jurídica a relações de parentesco na


linha colateral para além do 6º grau.
Um dos poucos exemplos está postulado no art. 2042º do CC

● 1.2 Contagem
● A multiplicidade das relações de parentesco actualmente existentes, bem como os seus
diversos graus, não são factos alheios ao direito.
● É assim, através da contagem do parentesco que se torna possível definir, ordenar e
estabelecer uma hierarquia entre elas.
● O parentesco conta-se por linhas e graus;

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● Art. 1579º do CC – Elementos do parentesco


“Cada geração forma um grau, e a série dos graus constitui a linha de parentesco.”

● 1.2.1 Linhas

● Art. 1580º do CC – Linhas do Parentesco


● nº1 – distinção entre linha recta e colateral
● nº2 – distinção entre linha recta ascendente e
descendente

● No que concerne à importância prática da distinção entre linha recta


ascendente e descendente, pode-se ver o exemplo do art. 2133º do CC,
sendo que os descendentes ocupam a 1º classe sucessória ao lado do conjugue
sobrevivo e os ascendentes ocupam a 2º classe sucessória

● Pode ainda distinguir-se entre linha paterna e materna, tanto quanto à linha recta
como quanto à transversal.
Ex: art. 1952º, nº3; 1955º, nº2 do CC

●Pode ocorrer parentesco duplo ou bilateral, isto é podem existir parentes, ao


mesmo tempo na linha materna e paterna.
Ex: - irmãos germanos (parentes nas duas linhas) – ver art. 2146º do CC
- Dois irmãos que casam com duas irmãs, os filhos de ambos são primos na linha
materna e paterna.

● 1.2.2 Graus
● Definida a linha de parentesco, importa saber qual é o grau de parentesco dentro da
respectiva linha.

● Art. 1581º do CC – Cômputo do grau.


● Regras para a contagem dos graus.
Ex: os irmãos, ou os avós e os netos, são parentes em 2º grau, os tios e os
sobrinhos em 3º, os primos direitos em 4º grau.

● 1.3 Efeitos

●Os efeitos do parentesco variam consoante a relação de parentesco que se


considere. Assim, as relações adquirem maior ou menor relevância consoante sejam
respectivamente mais próximas ou mais afastadas.

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●Efeitos comuns às várias relações de parentesco ou a uma generalidade


delas.
● Sucessório
● Art. 2133º, nº1 à 2157º do CC

● O art. 2133º do CC estabelece uma hierarquia entre relações de parentesco com


base no principio da proximidade de classe ou grupo sucessório, bem como
no princípio da proximidade de grau de parentesco dentro de cada classe
sucessória.

● Obrigação de alimentos
● Art. 2009º, nº1 e 2 à 2010º à 2009º, nº3 do CC

● Só se refere aqui aos alimentos familiares, e dentro destes apenas aos devidos
iure sanguinis. Coisa diversa, são os alimentos devidos por iure matrimonni
durante o casamento ou mesmo já depois de se ter dissolvido (art. 2009º, nº1
al.a) e 2016º do CC)

● Por morte do arrendatário e na falta de cônjuge sobrevivo, o direito ao


arrendamento para habitação se transmite .

● Exercer a tutela ou fazer parte do conselho de família


● Art. 1931º, nº1 e 1952º, nº1 do CC respectivamente.

● Legitimidade para a anulação do casamento


● Art. 1639º; 1640º, nº2 e 1641º do CC

● Efeitos afectos a certas relações de parentesco


● Relações de filiação (a relação de maternidade e paternidade)
● Poder Paternal – art. 1877º e ss
Complexo de poderes e deveres que a lei atribui ou impõe aos pais para regerem
as pessoas e os bens dos filhos menores.
● Relações de parentesco que se traduzem em limitações ou restrições à
capacidade jurídica.
● Art. 1602º, al. a) e b); 1604º, al.c); 1609º, nº1 al.a); 1809º, al. a); 1866º, al. a) do
CC.

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● 2. Afinidade
● 2.1 Noção; fonte e duração

● 2.1.1 Noção
●As relações de afinidade são distintas das de parentesco. Fala-se por vezes de
“parentes por afinidade” mas a terminologia deve-se evitar. A afinidade não é, uma
relação de sangue.

● Art. 1584º do CC – Noção de afinidade


“Afinidade é o vínculo que liga cada um dos cônjuges aos parentes do outro.”

● Afinidade não gera afinidade


Ex: não são afins os concunhados; o padrasto não é afim da mulher do enteado, etc.

● 2.1.2 Fonte
● A fonte da afinidade, ou das várias relações de afinidade, é, pois, o casamento.
● Posição diferente, defende o direito canónico que além de considerar como fonte da
afinidade o casamento, também considera o concubinato notório ou público.
● Acresce que o casamento já dissolvido não cria relações de afinidade.

● 2.1.3 Duração
●A afinidade só começa após a celebração do casamento e não tem efeitos
retroactivos, isto é, não opera para trás.
●Mas a afinidade cessará igualmente quando se dissolve o casamento que
lhe deu origem? Caída a causa, também cairá o efeito?
● Para estas questões dá resposta o art. 1585º do CC

“A afinidade determina-se pelos mesmos graus e linhas que definem o parentesco


e não cessa pela dissolução do casamento”

● Posições doutrinais

● Antunes Varela
● Entende que a solução se justifica mesmo no caso do divórcio, sobretudo à
medida que este se vai tornando fenómeno na vida corrente na vida social.

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● Guilherme de Oliveira
● Tal solução legal compreende-se no caso de dissolução por morte, em que
geralmente o falecimento de um dos cônjuges não faz cessar as relações
do sobrevivo com os parentes do finado.
● Tratando-se de dissolução por divórcio, geralmente as relações de
afinidade perdem relevância social, mas se justificando por isso, que
mantenham a sua relevância jurídica. Considera que o art. 1585º, pelo
menos em caso de divórcio suscita de iure condendo as maiores reservas.
● Guilherme de Oliveira critica ainda Antunes Varela. Admitindo que seja
assim, não parece todavia realista pensar que cada um dos ex-cônjugues,
em particular se contrai 2ºs, 3ºs ou 4ºs núpcias , continue a manter com os
seus vários sogros, sogras ou cunhados, laços afectivos que justifiquem a
permanência de relações de afinidade com os efeitos previstos na lei.

●E se o casamento foi declarado nulo ou anulado, o vínculo da afinidade


manter-se-á?
● A questão deve resolver-se de harmonia com os princípios do casamento putativo
O vínculo da afinidade só se mantém se ambos os cônjuges estiverem de boa fé ao
contrair casamento.

● 2.2 Contagem
● Também nestas relações, à semelhança do que se verifica nas relações de parentesco é
necessário defini-las e ordená-las procedendo à sua contagem;
● As regras para tal contagem são as mesmas que se aplicam às relações de parentesco.
Ex: Um cônjuge é afim em linha recta dos parentes em linha recta do seu cônjuge e
afim na linha colateral dos parentes do seu cônjuge na linha colateral; por outro lado, é
afim no 2º grau dos parentes em 2º grau do seu cônjuge, afim no 3º dos parentes em 3º
grau…

● 2.3 Efeitos
● Efeitos comuns às várias relações de afinidade
● Obrigação de alimentos
● Art. 2009º, al. f) do nº1.

● Os afins na linha recta podem também suceder no direito de arrendamento


para habitação (art. ?????) e no direito de arrendamento rural (art. ?????) no
caso de falecimento do arrendatário, mas só na falta de parentes.

● Obrigação de exercer tutela ou fazer parte do conselho de família


● Art. 1931, nº1 e 1952º, nº1 do CC

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● Efeitos que se traduzem em restrições à capacidade e incompatibilidade


● Art. 1602º, al. c); 1809º, al. a)

● 2.4 Limites
No que concerne aos limites, teoricamente é aplicável à afinidade o mesmo limite do
parentesco, isto é até ao 6º grau, embora sejam restritos os casos em que a lei atribui
efeitos às relações de afinidade, na linha colateral para além do 2º grau.

● 3. Adopção – 1973º e ss

● 3.1 Conceito jurídico

●Uma inovação do Código de 1966 foi o reconhecimento da adopção como fonte de


relações familiares.

● O código civil actual, define adopção.


● Art. 1585º do CC – Noção de adopção
“Adopção é o vínculo que, à semelhança da filiação natural, mas independentemente
dos laços do sangue, se estabelece legalmente entre duas pessoas.”

● Quer isto dizer, que a adopção em antítese com o parentesco natural (verdadeiro), é
considerado um parentesco legal em muito semelhante ao primeiro.
● No entanto, não se pode dizer que a adopção é uma criação utópica da lei, mas sim uma
realidade legal com uma matriz afectuosa, que se distingue do parentesco por este
possuir uma matriz biológica.

●Por tal facto é importante considerar aqui a destrinça legal entre as


expressões “filiação” e “adopção”.
● Em regra na lei, a palavra filiação é utilizada quando o legislador se pretende
referir à filiação biológica, seja esta real ou presumida. No entanto, como regra não
o é, sem excepção, o art. 60º do Código Civil utiliza a expressão “filiação adoptiva”,
que parece tratar-se de caso único na nossa lei civil, caso diferente é a expressão
“filhos adoptivos” utilizada em enumeras disposições legais.

● Com a destrinça estes dois conceitos, pretende a lei alertar para o facto de a
adopção não se constituir como uma modalidade da filiação.

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● 3.2 Conceito social


●Socialmente “ a adopção é hoje entendida como a medida ideal e privilegiada de
protecção de menores privados de meio familiar, na medida em que permite a sua
inserção, em termos estáveis e seguros, no seio de uma família substitutiva (…)”, uma
vez que cabe à família “um papel fundamental no processo de identificação da criança
e no quadro da sua socialização: é efectivamente no seio da família que se moldam
as estruturas afectivas, intelectuais e sociais da criança e é ela que melhor garante
as condições psicológicas e afectivas indispensáveis ao seu bom desenvolvimento e
integração social”

Rui Epifânio, in Organização Tutelar de Menores, 1987,pág. 241.

● 3.3 Consagração Constitucional


●Este instituto não se esgota nas disposições legais civilísticas, tem também
consagração constitucional.

● Art. 36º da CRP


● nº1; nº5; nº6; nº7

● Art. 67º da CRP


“A família, como elemento fundamental da sociedade, tem direito à protecção
da sociedade e do Estado e à efectivação de todas as condições que permitam a
realização pessoal dos seus membros”.
● Ora, tal disposição legal justifica a interferência do Estado e da Comunidade
na adopção, de forma a assegurar o direito fundamental de toda a criança a
desenvolver-se numa família.

● Art. 69º da CRP


● nº1; nº2.

● 3.4 Objectivos e o espírito do sistema


● O Adopção, despertou um novo interesse no legislador, após a transformação radical do
seu espírito.

Tânia Belo - 23 -
Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Enquanto que antigamente este instituto era centrado na pessoa do adoptante e servia
os seus interesses, como sejam a perpetuação da família e a transmissão do nome e
do património; actualmente visa servir o interesse dos menores desprovidos de meio
familiar.

● É inegável que a adopção serve também o interesse do casal infértil, ou até de pessoa
singular que tem o desejo de ter um filho, mas em primeira linha está sempre o
interesse do menor.

● Art. 1974º, nº1 do CC


“A adopção visa realizar o superior interesse da criança e será decretada quando
apresente reais vantagens para o adoptando, se funde em motivos legítimos, não
envolva sacrifício injusto para os outros filhos do adoptante e seja razoável supor
que entre o adoptante e o adoptando se estabelecerá um vínculo semelhante ao da
filiação”

● Quando a família biológica é ausente ou apresenta disfuncionalidades que


comprometam o estabelecimento de uma relação afectiva gratificante e
securizante com a criança, impõe a constituição que se salvaguarde o superior
interesse da criança particularmente através da adopção.

●Em suma, a adopção constitui o instituto que tem como objectivo proporcionar às
crianças desprovidas de meio familiar o desenvolvimento absoluto e harmónico da sua
entidade e personalidade num meio amoroso e compreensível, através da sua integração
numa nova família.
● 3.5 Evolução Legislativa – pg. 53 à 57 do livro

● 3.6 Modalidades da adopção

● A modalidade em que se pretende constituir o vínculo da adopção, tem implicações no


regime jurídico aplicável, isto é, determina as condições e efeitos a aplicar.

● A lei civil admite-se duas modalidades distintas de adopção:

● Por um lado, a adopção plena e restrita, consoante a extensão dos seus efeitos.
A adopção restrita pode ser convertida em adopção plena a todo o tempo, caso
o adoptante apresente um requerimento do adoptante, e consiga preencher os
pressupostos de facto para tal. (art. 1977º do CC)

● Por outro pode ser singular ou conjunta, sendo ambas as modalidades compatíveis
com a adopção plena ou restrita, isto é a adopção seja ela plena ou restrita, pode
igualmente ser singular ou conjunta.

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● Adopção singular – se requerida por uma só pessoa, seja esta casada ou


não.
● Adopção plural – se requerida por um casal seja ele casado ou unido de
facto.
● Ver art. 1º da Lei 7/2001

● Distinta da adopção é a chamada “dação de nome”, prevista no art. 1876º do CC, que
não tem outro efeito senão a atribuição ao menor dos apelidos do marido da mãe.

● 3.7 Requisitos comuns da adopção


● Embora as diferentes modalidades de adopção influenciem o regime jurídico
a adoptar, existem regras que lhe são comuns:

● 3.7.1 Disposições Gerais da Adopção presentes no CC


● Art. 1973º do CC – Constituição
● nº1
● No nosso ordenamento jurídico, a constituição do vínculo da adopção só é
possível através de sentença judicial, excluindo-se assim qualquer outra
possibilidade.
● Esta constituição rege-se por um processo próprio regulado nos art. 162º
e ss da OMT, que se consubstancia numa forma de processo de jurisdição
voluntária.
● Tendo em conta as condições legais exigidas para o estabelecimento do vínculo
da adopção, o tribunal deverá analisar casualmente se estas se encontram ou
não reunidas.

● nº2
● “O processo será instruído com um inquérito…determinantes do pedido de
adopção.”

● O art. 36º, nº7 da CRP refere-se à constituição do vínculo da adopção,


impondo que a sua tramitação seja célere.

● Art. 1974º do CC – Requisitos gerais


● nº1
● (1) Visa realizar o superior interesse da criança
● Será decretada quando:
● (2) Apresente reais vantagens para o adoptando;
● (3) Se funde em motivos legítimos *;
● (4) Não envolva sacrifício injusto para os outros filhos do adoptante;
●(5) Seja razoável supor que entre o adoptante e o adoptando se
estabelecerá um vínculo semelhante ao da filiação **.

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● * Põe-se aqui a questão de a adopção poder apresentar reais vantagens para o


adoptando e todavia não se fundar em motivos legítimos.
Ex: - Suponhamos que A, querendo instituir B seu herdeiro, pretende adoptá-
lo para que B, como seu filho, pague imposto sucessório inferior ao que
pagaria como herdeiro testamentário.
- A adopção que deriva de uma barriga de aluguer. Em que a esposa do
marido a quem pertencia ao esperma adopta a criança como filha do
conjugue.

● ** Este requisito é o responsável por certas divergências doutrinas como


sejam a diferença de idades entre o adoptado e o adoptando, ou quando se põe
a questão da adopção para casais homossexuais ou heterossexuais que vivam
em união de facto.
O meio de prova deste requisito é o relatório elaborado pelo organismo
de segurança social que acompanhou a situação do menor no período de pré-
adopção (art. 9º do DL nº 185/93), embora o juiz não esteja vinculado pelo
resultado do inquérito constante do relatório e forme livremente a sua
convicção, segundo as regras gerais (art. 389º do CC).

● nº2
“O adoptando deverá ter estado ao cuidado do adoptante durante prazo
suficiente para se poder avaliar da conveniência da constituição do vínculo”.

● A lei não fixa este prazo uma vez que este depende das circunstâncias, mas
terá de existir obrigatoriamente confiança judicial e/ou administrativa, bem
como um período de pré-adopção. Este período não será superior a 6 meses,
em que o organismo da segurança social acompanha a situação do menor e
elabora o inquérito a que se refere o art. 1973º, nº2 do CC.

● Art. 1975º do CC – Proibições de várias adopções do


mesmo adoptando
● Este artigo proíbe assim a adopção sucessiva, isto é, não pode existir
relativamente ao mesmo adoptando qualquer adopção anterior, uma vez que
tal circunstância levaria à coexistência de duas relações de paternidade e
maternidade adoptiva.
● Excepções:

● Se a anterior adopção for revogada ou a sentença seja


revista;
● Por falecimento de um dos adoptantes e se o sobrevivo contrair segundo
casamento o novo conjugue pode adoptar o menor que já tinha sido adoptado;
● Já o caso de falecimento de ambos os adoptantes, embora subsistindo a
adopção, o menor pode ser confiado com vista a futura adopção (1978º, nº1, al.
a) e nº4 do CC).

Tânia Belo - 26 -
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● Art. 1976º do CC – Adopção pelo tutor ou administrador


legal de bens

● 3.7.2 Consentimento
●Embora o consentimento esteja regulado na parte que cabe à adopção plena, isto
é, nos arts. 1981º e ss, o art. 1993º, faz com que este seja igualmente aplicável à
adopção restrita e porquanto consubstancia-se num requisito comum aos dois tipos de
adopção.

● 3.7.2.1 Prestação e dispensa do consentimento

● A lei exige em determinados casos que para a adopção de um menor seja necessário
o consentimento de algumas pessoas.

● Art. 1981º, nº1 e nº2 do CC


● Embora este artigo não refira, é óbvio que é necessário antes de tudo o
consentimento do próprio adoptante para a constituição da adopção.

● No entanto, existem casos que não obstante a necessidade de consentimento este


pode ser dispensado.

● Art. 1981º, nº3 do CC

●A falta de consentimento ou a dispensa indevida do mesmo, constitui fundamento


da revisão da sentença nos termos do art. 1990º e 1991º do CC.
● Cabe aqui salientar que se o consentimento se encontrar viciado por vício ou
coacção moral este não determina a anulabilidade ou nulidade da adopção como
se passa nas regras gerais dos negócios jurídico, apenas e só determina a
revisão da sentença.

● 3.7.2.2 Como, quando e onde se presta o consentimento

● Para ser válido o consentimento tem ainda de cumprir os seguintes


pressupostos:

● Art. 1982º do CC – Forma e tempo do consentimento


● nº1
A declaração do consentimento é uma simples declaração receptícia, sendo
que não pode ser sujeita a qualquer termo ou condição.
A declaração deve – se reportar de forma clara e inequívoca à adopção
plena, quando não o for presume – se que os pais deram consentimento para a
adopção restrita (cfr. Art 1993º, nº2)

● nº2

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É possível o consentimento “em branco”, no qual os pais dão o consentimento


independentemente da existência de um processo de adopção e sem
referência à pessoa do futuro adoptante.
É ainda possível o consentimento prévio, isto é, anterior à data em que
deveria ser prestado. Permite a confiança do menor com vista a adopção
futura (art. 1981, nº1 3 nº3)

● nº3
Esta imposição tem como objectivo salvaguardar o risco de um
consentimento precipitado, devido a efeitos traumáticos e perturbações
psicológicas.

● Art. 1984º do CC – Audição obrigatória


● Esta audição é obrigatória para que se possa dar o consentimento
efectivado.

● 3.7.2.3 Revogação e caducidade do consentimento

● Art. 1983º do CC – Caducidade do consentimento

A prestação do consentimento é irrevogável, quer seja prestado antes ou


durante a pendência do processo da adopção, sendo que apenas é válido durante
3 anos a contar da data em que foi prestado, findos os quais caduca, isto
é se o menor em questão não for adoptado ou confiado mediante confiança
administrativa ou judicial ou até a medida de promoção e protecção de
confiança, terá de haver lugar a novo consentimento.

● 3.7.3 Processo da adopção

● O processo de adopção é complexo e é ao mesmo tempo


administrativo e judicial.

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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● 3.7.3.1 Apresentação da candidatura ao organismo de segurança


Social

●Quem pretenda adoptar um menor deve comunicar essa intenção ao organismo


de segurança social da área da sua residência (art.5º, nº1, do DL nº 185/93, na
redacção que lhe deu o art. 3º do DL nº 120/98), quer ainda não tenha quer já
tenha o menor a seu cargo.
● A lei não exclui que, na primeira hipótese, o candidato a adoptante ponha condições
ou reservas ou mostre preferências na declaração da candidatura.
●O organismo, verificados os requisitos legais, emite e entrega ao candidato
adoptante um certificado de comunicação e do respectivo registo e no prazo
de seis meses, procede ao estudo da pretensão e profere decisão notificando o
interessado.
● Se a candidatura for aprovada permite a medida de protecção e confiança à
pessoa seleccionada para adopção.
● Se for rejeitada, deve-se notificar o candidato, sendo que essa notificação
deve conter os termos em que pode apresentar recurso.

● 3.7.3.2 Confiança Administrativa


● O candidato a adoptante só pode tomar o menor a seu cargo, com vista a adopção
futura, mediante confiança administrativa, confiança judicial ou medida de
protecção de confiança a pessoa seleccionada para a adopção.
●A confiança administrativa resulta da decisão da segurança social de entregar o
menor candidato adoptante, ou, confirma a permanência do menor a seu cargo.
● O candidato pode requerer ao tribunal a sua nomeação como curador provisório do
menor.
● O processo de confiança administrativa é apensado ao de confiança judicial ou ao
de adopção.

● 3.7.3.3 Confiança Judicial e medida de promoção e protecção de


confiança a pessoa seleccionada para a adopção ou a instituição
com vista a futura adopção.
● A confiança do menor a casal, a pessoa singular ou a instituição com vista a futura
adopção pode ainda ser decidida pelo tribunal, quando se verifiquem algumas das
situações previstas no art. 1978º, nº1 do CC.
●É competente o tribunal de família e menores da área de residência do menor,
sendo que tem legitimidade para requerer os constantes do art. 1878º, nº5 e nº6 do
CC
● A confiança judicial protege o interesse do menor de não ver protelada a definição
da sua situação face aos pais biológicos, pois torna desnecessário o consentimento
dos pais ou do parente ou tutor que, na sua falta, tenha a seu cargo e com ele viva
(art. 1981º, nº1 al.c e nº2 do CC) e inibe os pais do exercício do poder paternal (art.
1978º-A), permitindo que o investimento afectivo e educativo no período de pré-
adopção se faça com segurança e serenidade, sem incertezas prejudiciais ao êxito

Tânia Belo - 29 -
Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

do processo de integração da criança na nova família.

● 3.7.3.4 Período de pré- adopção


● Estabelecida a confiança administrativa e judicial e após o começo do processo de
vinculação adoptiva observada, inicia-se a pré-adopção, não superior a 6 meses,
em que o organismo de segurança social acompanha a situação do menor e realiza o
inquérito previsto no art.1973º do CC.
● O relatório do inquérito deve estar pronto no prazo de 30 dias, a contar da data
em que a SS considera verificadas as condições para ser requerida a adopção ou o
termo do período de pré-adopção.
●O resultado do inquérito deve ser notificando ao adoptante, sendo que após este
momento a adopção pode ser requerida num prazo não superior a um ano, sob pena
de reapreciação da situação.

● 3.8 Adopção e o Registo Civil


●O registo civil é obrigatório e tem por objecto entre outros factos, a adopção (art.
1, nº1, al.c)), assim nos termos do art. 69º, nº1 al f), a adopção deve ser averbada
especialmente no assento de nascimento do adoptado.
●No entanto, no que concerne à adopção plena, é possível criar um novo assentimento
de nascimento nos termos do art.123º, nº1 da CRC, facto que funciona como protecção
dos pais adoptivos que conseguem assim eliminar o historial do adoptado. Deste modo
no novo assentimento de nascimento consta o nome dos pais adoptivos e em princípio só
deste podem ser extraídas certidões (art.213º, nº2 do CRC).

● Mas o princípio contém excepções:


● Art.123º, nº3 CRC;
● Art.213º, nº3, 2ºparte;
● Entre a família natural e o adoptado vigoram os impedimentos matrimoniais
previstos no art. 1602º e 1604º do CC (art. 1986º, nº1 in fine);
● Constitui ainda excepção o segredo de identidade dos pais naturais do adoptado
(art.213º/3. 1º parte CRC e art.1985º CC);
● Por último, a identidade do adoptante só será revelada nos termos do art. 214º, nº2
do CRC e aos pais naturais do adoptado se o adoptante declarar que não se impõem
a tal revelação (art.1985º, nº1 CC).

●Na opinião de Francisco Pereira Coelho e de Guilherme de Oliveira, a lei protege


essencialmente o segredo de identidade (previsto no art.1985º CC) do adoptante
em detrimento do segredo de identidade dos pais naturais: “o primeiro não pode ser
revelado aos pais naturais do adoptado, salvo se o adoptante declarar que não se opõe
à revelação do segredo (no silêncio do adoptante, o segredo não pode ser revelado
aos pais naturais), ao passo que o segundo só não é revelado ao adoptante se os pais
naturais declararem que se opõem a essa revelação (no silêncio deles, o segredo pode
ser revelado ao adoptante).

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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● 3.9 Adopção Plena

● 3.9.1 Efeitos
● De acordo com o art. 1986º, do CC, a adopção plena atribui ao adoptado, o estatuto
de filho do adoptante, podendo este integrar-se com os seus novos descendentes
e afins. Existe então, um corte dos laços familiares entre o adoptado e os seus
descendentes e colaterais biológicos, com respeito pelos limites legais previstos no
art.1602º a 1604º.
● O adoptado apenas adquire a situação de filho, após a data de trânsito em julgado da
sentença, uma vez que a adopção é constitutiva.
●A nossa lei admite em situações excepcionais, uma adopção aberta, ou seja a
manutenção dos laços familiares do adoptado com a sua família natural. É o caso das
situações previstas no art. 1986º, nº2 do CC, em que um dos conjugues ou unidos de
facto adopta o filho do outro.
● O adoptado pleno goza de todos os direitos que goza um filho natural, mormente em
termos sucessórios, de alimentos, de poder paternal, de impedimentos matrimoniais
relativos à sua nova família.

● 3.9.1.1 Nome

●Como já foi referido, o adoptado plenamente, em regra integra-se na família


adoptiva cortando os laços com a família natural, é portanto lógico perca os seus
apelidos de origem. O adoptado vai assim adquirir os apelidos da família adoptiva
nos termos do art. 1875º e 1988º do CC.
● O art. 1875º, por força do art. 1988º do CC, refere então que o adoptado “usará
apelidos do pai e da mãe ou só de um deles”, sendo essa escolha feita de mutuo
acordo entre pais, ou caso contrário pelo juiz.
●Relativamente ao nome próprio diz o nº2 do mesmo artigo que a sua possível
alteração é a titulo excepcional, só podendo ocorrer se for a pedido do adoptante
ao tribunal e se salvaguardar o interesse do menor, nomeadamente o direito à
identidade pessoal (art. 26º,nº1 da CRP e art. 8º da Convenção sobre os direitos da
criança.) , e favorecimento da integração na família.
● O art. 104º, nº1 e nº2 al. a) do Código de Registo Civil, admite a alteração de nome
próprio em virtude da constituição do vínculo da adopção mediante autorização do
Ministro da Justiça.

● 3.9.1.2 Nacionalidade

●O adoptado plenamente por um indivíduo de nacionalidade portuguesa adquire a


nacionalidade portuguesa, nos termos do art. 5º da Lei da Nacionalidade (lei nº 37/
81) de 3 de Outubro.

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● O adoptado adquire assim a nacionalidade portuguesa, coisa diversa é a atribuição


originária, após a adopção ter sido decretada.
●O art. 13º do Regulamento da Nacionalidade Portuguesa (DL nº 322/82, e 12 de
Agosto) dispõe que esta aquisição da nacionalidade por parte do adoptado, ocorre
por mero efeito legal, quando no seu assentimento de nascimento conste que foi
adoptado plenamente por cidadão português.

● 3.9.1.3 Irrevogabilidade
● Art. 1989º do CC – Irrevogabilidade da adopção plena
● A adopção plena é irrevogável uma vez que pretendendo suprir o vínculo da
filiação por vezes inexistente, é coerente que esteja submetido a semelhantes
disposições legais como seja a mera redução à disponibilidade das partes. Quer
isto dizer que a partir do momento em que adopção seja decretada, as partes já
mais poderão dispor se querem ou não a manutenção desse vínculo, ele tende a
adquirir característica de perpetuidade.

● 3.9.1.4 Proibição de estabelecer a filiação natural


● A estabilidade e a perpetuidade do vínculo da adopção plena é assegurada pelo art.
1987º do CC.
● Art. 1987º - Estabelecimento e prova da filiação natural

● 3.9.2 Capacidade do adoptado e do adoptante

● 3.9.2.1 Capacidade do adoptante (quem pode adoptar)


● Art. 1979º do CC – Quem pode adoptar plenamente

● 3.9.2.2 Capacidade do adoptado (quem pode ser adoptado)


● Art. 1980º do CC – Quem pode ser adoptado plenamente

● 3.9.3 Revisão da sentença


● Como já foi referido a nossa lei civil não admite a declaração de nulidade ou anulação
do vínculo da adopção.
●Assim a sentença que decretou a adopção apenas pode ser revista quando tiver na
base da sua constituição uma das situações previstas na lei.
● Art. 1990º - Revisão da sentença
● Art. 1991º - Legitimidade e prazo para a revisão

● Efeitos da efectivação da revisão


●A adopção é um acto jurídico dotado de complexidade, sendo integrado pela
declaração de vontade do adoptante e pela sentença que constitui o vínculo, sendo
que só é possível destruir retroactivamente os seus efeitos através da revisão da
sentença fundando-se num vício originário.

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● Em termos práticos se a revisão for aceite, o adoptado deixa assim de ser filho
do adoptante, quer em termos ex nunc como ex tunc, ou seja, como nunca tivesse
sido adoptado. Assim todas as relações com a família do adoptante são apagadas,
sendo restabelecidos os laços familiares biológicos.

● 3.10 Adopção Restrita

● 3.10.1 Efeitos

● Os efeitos da adopção restrita são mais limitados:

● O adoptado não corta relações com a sua família natural, mantendo com esta
todos os direitos e deveres.
● Não adquire a situação de filho do adoptante, pelo que não se torna descendente
deste (art.1994º e 1996º do CC);
● Não perde os seus apelidos, mas o adoptante pode pedir ao tribunal que este lhe
atribua os seus apelidos (art.1995º do CC);
● A filiação natural coexiste com a filiação adoptiva (art.2001º do CC);
● O art.1999º, nº1 do CC prevê que o adoptado não é herdeiro legitimário do
adoptante, nem este daquele. Porém, o adoptado pode sê-lo no caso da falta
de cônjuge, descendestes e ascendentes (nº2 do predito artigo). Além disso,
o adoptante também pode ser sucessor do adoptado na falta de cônjuge,
descendentes, ascendentes, irmão e sobrinho do falecido (nº3 do supra citado
artigo);
● O adoptante só poderá depender do rendimento dos bens do adoptado a quantia
que o tribunal fixar de alimentos deste (art. 1998º)
● O art.2000º do CC prevê o dever de direitos recíproco entre o adoptado e o
adoptante;
● O poder paternal do adoptado está a cargo do adoptante (art.1957º do CC), deste
modo, este administra os bens do adoptado mediante inventário (ar.2002º do CC);
● A adopção restrita gera impedimento matrimonial (art.1604º al.e) e1607º do CC);

● 3.10.2 Capacidade do adoptado e do adoptante

● 3.10.2.1 Capacidade do adoptante (quem pode adoptar)


● Art. 1992º do CC – Quem pode adoptar restritamente

● 3.10.2.2 Capacidade do adoptado (quem pode ser adoptado)


●Nos termos do art. 1993º do CC, aplica-se para determinar quem pode ser
adoptado restritamente, o mesmo artigo (1980º do CC) que se aplica a quem pode
ser adoptado plenamente, embora com as necessárias adaptações, sendo que as

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característica do adoptado restritamente são iguais às do adoptado plenamente.

● 3.10.3 Revisão e revogação da sentença


● A revisão
Por imposição do nº1 do art. 1993º, aplica-se à adopção restrita com as necessárias
adaptações o mesmo regime previsto para a adopção plena regulado nos art. 1990º e
1991º do CC.

● A revogação

Ao contrário do que acontece na adopção plena, na adopção restrita, embora


a irrevogabilidade constitua a regra, existe a possibilidade de revogação em
determinadas situações:
● Art. 2166º do CC – Deserdação
● Art. 2002º-B – Revogação
● Art. 2002º-C – Revogação a requerimento de outras pessoas

● Art. 2002º-D – Efeitos da revogação

● Ver arts. 173º-A da OTM e art. 69º, nº1, al.d) do CRC

● 3.10.3 A conversão em adopção plena


● Art. 1977º, nº2 do CC
“A adopção restrita pode a todo o tempo, a requerimento dos adoptantes, ser
convertida em adopção plena, desde que se verifiquem os requisitos para esta
exigidos”

● Os requisitos exigidos a que se refere a disposição legal, são os que determinam


quem tem capacidade de ser adoptante, uma vez que, os requisitos dessa
capacidade são diferentes conforme se trate de uma adopção plena ou restrita,
daí o art. 1979º, não constar na lista enunciativa do art. 1993º.
● Assim pode-se concluir que a conversão em adopção plena apenas se concretizará
se os adoptantes preencherem os requisitos da capacidade para adoptar
plenamente.
● A conversão em adopção plena rege-se pelas normas previstas na OTM, nos
artigos 162º e ss, por força do art. 173º do mesmo diploma.
● Acresce ainda, que a conversão da adopção deve constar no assento de
nascimento do adoptado nos termos do art.69º, nº1 al.d) do CRC

● 3.11 A natureza jurídica da adopção


● Relativamente à natureza jurídica da adopção, põe-se a questão se esta terá carácter
negocial ou contratual. Têm sido inúmeras as propostas de resposta a esta questão. No
entanto, aceita-se actualmente o vínculo da adopção como misto.

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●Assim, na opinião de Pereira Coelho e Guilherme de Oliveira, a adopção é um acto


complexo ou misto o qual está reflectido no art. 1990º do CC. É assim classificado
porque pressupõe a existência de um acto direito privado (consentimento do adoptante
ou outros consentimentos necessários) e um acto de direito público (sentença que
decreta a adopção) que se justifica pelos interesses particulares das pessoas, bem
como os interesses gerais.

● Parte V – Relações Parafamiliares


● 1. União de facto
● 1.1 Noção
● A lei não define união de facto, mas oferece algumas directrizes para essa definição.
● Assim considera-se existir uma união de facto quando:
● Exista “vida em condições análogas às dos cônjuges”;
● Se viva em comunhão de leito, mesa e habitação, como se fossem casadas, apenas
com a diferença de que não o são, pois não estão ligadas pelo vínculo formal do
casamento;
● É esta circunstância de viverem como se fossem casados que cria a aparência
externa do casamento (coabitação notória), em que terceiros podem confiar,
que justifica alguns efeitos atribuídos à união de facto.
● Exista unidade e exclusividade, isto é, só se pode viver em união de facto com uma
pessoa.

●Distingue-se assim união de facto de relações sexuais fortuitas e concubinatos


duradouros.
●A lei 7/2001, veio dar ainda relevância às uniões de facto entre pessoas do mesmo
sexo equiparando à união de facto com pessoas de sexo diferente mas só para os
efeitos previstos nos nº3 e 5º da mesma lei.

● 1.3 Forma e motivações


● São várias as formas que a união de facto pode revestir, assim como as motivações que
a determinam, entre elas:
● Convivência pré-matrimonial, assumida como situação transitória, isto é, quando
existe um impedimento temporário o casal vive durante um certo tempo em união de
facto, chegando por vezes esta situação definitiva
● Muitas vezes, assume desde o início um carácter definitivo, uma vez que se
rejeita o casamento como instituição.

Tânia Belo - 35 -
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● Coabitação juvenil, os jovens não querem logo numa primeira fase assumir um
compromisso, mas admitem vir mais tarde a casar;
● Estratos de população mais desfavorecidos, muitas vezes nestas classes não
ocorre o casamento por falta de meios económicos, ficando apenas o casal a viver
em união de facto;
● O casamento implicaria desvantagens, portanto opta-se pela união de facto.
Ex: pensão de sobrevivência

● 1.4 União de facto e a Constituição da República


● A nossa CRP não fala sobre a união de facto nem dispõe directamente
sobre ela.

● Art. 36º da CRP – Família, Casamento e Filiação


● Divergência doutrinal:
● Vital Moreira e Gomes Canotilho, dizem que este artigo ao referir-se ao
direito de constituir família se refere também à união de facto.
● No entanto Guilherme de Oliveira, defende que este artigo não se aplica às
uniões de facto, uma vez que é dirigido à matéria de filiação, isto é, em primeiro
lugar é o direito de procriar e em segundo o direito de estabelecer relações
de maternidade e a paternidade. Acresce ainda que não se pode considerar
igualmente uma vertente negativa do direito ao casamento, porque o que aí
estaria em causa era não casar e não o direito de estabelecer uma união de
facto.
● Art. 26º da CRP – Outros direitos pessoais
● Se a união de facto não está directamente prevista na Constituição, está porém
abrangida no “direito ao desenvolvimento da personalidade” plasmado no art. 26º,
nº1, uma vez que a união de facto é claramente uma manifestação ou forma de
exercício desse direito. Assim caso existisse uma lei a proibir a união de facto,
esta seria inconstitucional.
● Este artigo não obriga, no entanto, que o legislador dê à união de facto efeitos
idênticos aos do casamento. (ver art. 2133º e 2020º do CC)
● Assim, não se pode dizer que o diferente tratamento do casamento e da união de
facto é uma violação do princípio de igualdade (art. 13º)
● Em conclusão, a nossa CRP não permite penalizar a união de facto nem equipara-la
ao casamento: entre estas duas balizas vale o princípio democrático, que permite
ao legislador ordinário conformar livremente o regime da união de facto, de acordo
com a opção mais progressista ou conservadora da política familiar adoptada.

● 1.5 A União de facto, relação de família?


● Põe-se a questão de saber se a união de facto, ela própria é uma relação
de família.

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● Em consequência do art. 1576º do CC, conclui-se que não é uma relação de família
para a generalidade dos efeitos.
● Em termos práticos, a questão da qualificação da união de facto como relação de
família assume relevância para saber se a lei que atribua um direito, imponha uma
obrigação ou confira legitimidade para certa acção aos “familiares” de determinada
pessoa compreende não só o conjugue, os parentes, os afins e o adoptado ou
adoptantes, mas também vivi em união de facto com ela. Em princípio a resposta
é negativa, pois a união de facto não é relação de família para a generalidade
dos efeitos; mas há que saber se não estaremos num daqueles domínios em que,
excepcionalmente, ela merece essa qualificação, como seja o direito social e o
direito fiscal.

● 1.6 A institucionalização da união de facto


●Ao longo das últimas décadas o legislador tem vindo cada vez mais a atribuir mais
efeitos à união de facto.
● A lei que actualmente regula as uniões de facto é a lei 7/2001 que tem como objectivo
adoptar medidas da protecção da união de facto e não se esgota num mero sumário de
legislação precedente, uma vez que contém algumas disposições inovadoras.

● 1.7 Constituição da relação


●A união de facto constitui-se quando os sujeitos da relação “se juntam”, ou seja, em
que há como já foi referido uma comunhão de leito, mesa e habitação.
● Não sendo este instituo objecto de Registo Civil, nem de registo administrativo não se
torna fácil saber quando a união de facto se inicia. E é importante sabê-lo, pois só a
partir dessa data se contam os dois anos que devem decorrer para que a união de facto
produza os efeitos previstos no art. 3º da Lei nº7/2001.
● Neste contexto, a prova da união de facto é normalmente testemunhal; não há em
regra, uma prova pré-constituída.
● No entanto, pode também existir prova documental, através de:
● Atestado comprovativo passado pela Junta de Freguesia;
● Declaração realizada pelos progenitores, perante o conservador de registo civil
(art. 1911º do CC)
● Instrumento notarial em que os sujeitos da relação disponham sobre aspectos
patrimoniais da união de facto se esta se verificar. Este documento prova que
os interessados pretenderam tal intenção, mas não prova a efectivação dessa
intenção.

● 1.8 Conteúdo da relação: efeitos pessoais e patrimoniais

● 1.8.1 Princípios gerais

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●A união de facto só tem os efeitos que a lei lhe atribuir em particular, não sendo
legítimo estender à união de facto as disposições referentes ao casamento. A maior
parte dos efeitos estão enumerados no art. 3º da Lei 7/2001, mas esta enumeração
não é taxativa, como resulta do nº2 do art.1º.

● 1.8.2 Condições de eficácia

●Liminarmente, cumpre advertir que os efeitos da união de facto só se


produzem quando estejam preenchidos alguns requisitos, como sejam:
● Heterossexualidade, actualmente este requisito em termos de protecção jurídica
é indiferente, uma vez que a união de facto entre duas pessoas de sexo diferente
é equiparada à união de facto de duas pessoas do mesmo sexo.
● No que concerne ao art. 3º e 5º da Lei 7/2001, estes são extensíveis a
homossexuais e heterossexuais que vivam em união de facto.
● Este requisito só releva quando se trata de adopção, uma vez que o art. 7º
da lei 7/2001, só permite a adopção conjunta de menores prevista no art.
1979º do CC, a duas pessoas de sexo diferente que vivam em união de facto.
Tal requisito estende-se também aos arts. 1911º, nº3 e 1871º, al. c) do Código
Civil.

● A união de facto só produz efeitos se já dura há mais de dois anos (art.1º da


Lei nº7/2001)

● Não pode existir um impedimento dirimente ao casamento dos membros da


união de facto (art. 2º da mesma lei, que reproduz o disposto no art. 1601º e
1602º do CC)
● Deve-se aqui referir que pode existir um impedimento impediente, não
acarretando este, qualquer consequência em termos de eficácia.
Ex: união de facto entre tio e sobrinha

● Art. 2º da Lei 7/2001


● Este artigo consubstancia-se numa enumeração de factos impeditivos dos
efeitos jurídicos favoráveis à união de facto e que se traduzem na atribuição
de direitos, como os referidos no art. 3º da mesma lei.
● Estes impedimentos apenas são válidos para a atribuição de efeitos
jurídicos desta lei, no que respeita a outras disposições legais estas não são
influenciadas.
Ex: art.1871º e 1691º do CC
● Cumpre salientar que no que concerne à al. c) do art. 2º que a separação
pode ser judicial ou administrativa de pessoas e bens, mas nunca uma mera
separação de facto.

● 1.8.3 Efeitos pessoais

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●Os membros da união de facto não estão vinculados por qualquer dos deveres
pessoais que o art. 1672º do CC impõe aos conjugues.

● Nenhum deles pode acrescentar aos seus apelidos, os apelidos do outro. (art. 1677º
do CC)

● A união de facto não releva para efeitos de aquisição de nacionalidade (art. 3º da Lei
37/81, de 3 de Outubro).

● O direito não desconhece porém, a relação pessoal que liga os membros da união de
facto um ao outro. O art. 7º da Lei das uniões de facto permite aos membros da
união de facto de sexo diferente adoptar conjuntamente em condições análogas às
prevista para o conjugue (art. 1979º do CC). Este artigo não exclui a possibilidade de
um dos unidos de facto adoptar singularmente sem o consentimento do outro.

● Quem conviva ou tenha convivo em união de facto com uma das partes de uma causa
pode recusar-se a depor como testemunha (art. 618º, nº1, al.d) do CPC).

●As pessoas que cumpram os requisitos do art.1º, nº1 da Lei 7/2001 e trabalhem na
mesma empresa têm o direito de gozar férias no mesmo período (art. 3º, al.c) da dita
lei). Da mesma forma têm também preferência na marcação de férias coincidentes
quando trabalhem para o Estado.

●Quanto aos filhos, há que notar que os filhos nascidos de união de facto estão
equiparados aos nascidos dentro do casamento por força do art. 36º, nº4 da CRP.

● Assim, aplicam-se igualmente os arts. 1871º, nº1 al.c); art. 1911, nº3;1901º a 1907º
e art. 1912º do CC.

● 1.8.4 Efeitos patrimoniais

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●Os membros da união de facto em princípio são estranhos um ao outro,


ficando as suas relações patrimoniais em princípio sujeitas ao regime geral
das relações obrigacionais e reais.

●(1) Cada um pode vender bens móveis ou imóveis, dar ou tomar de arrendamento,
contrair dividas. Podem também os dois contratar um com o outro, fazendo inúmeros
contratos. O art. 1714º do CC, proíbe determinados contratos entre conjugues, no
entanto este preceito não tem aplicação na união de facto.
● Pode colocar-se assim a questão da “comunhão de mesa”, isto é, todas as
vicissitudes que implica a vida comum, como sejam em geral interferências nos
patrimónios de ambos os unidos de facto. Será que os unidos de facto podem
regular estes aspectos em instrumento notarial? Parece a Guilherme de Oliveira
que sim, desde que não exceda os limites da autonomia privada e que não regule
efeitos pessoais, nem existam pactos sucessórios.

● (2) O princípio enumerado no primeiro ponto dos efeitos patrimoniais, comporta uma
excepção prevista no art. 953º do CC, que manda aplicar às doações o disposto no art.
2196º do CC.

●(3) Os unidos de facto criam a aparência de vida matrimonial, que pode suscitar
a confiança de terceiros que contratem com ambos ou com cada um deles. Parece
assim razoável estender à união de facto o art. 1691º al.b) do CC, entendendo que os
sujeitos são solidariamente responsáveis (art. 1695º do CC) pelas dívidas contraídas
por qualquer deles para ocorrer aos encargos normais da vida comum. Ao aplicar
estes artigos aplica-se a tutela da aparência.

● (4) Põe-se a questão de saber se a união de facto, ela própria, impede ou permite a
constituição de um direito a alimentos ou extingue a pensão ou direito existente.
● A lei não é absolutamente clara relativamente a esta questão. Várias são as
disposições legais que extinguem direitos já existentes pela indignidade de
comportamentos morais. No entanto, a união de facto não é uma indignidade
moral, mas apenas uma opção de vida. Assim conclui-se que a união de facto não
extingue a pensão ou direito existente.
● No que concerne à prestação de alimentos por um ex unido de facto ao outro.
Conforme o art. 2009º os unidos de facto não são obrigados a prestar alimentos
no entanto com fundamentação no abuso de poder (art. 334º) pode ter o ex unido
de facto de pagar uma prestação de alimentos.

●(5) O art. 3º, al. d) da Lei 7/2001 torna aplicável aos membros da união de facto
o regime do imposto sobre o rendimento das pessoas singulares (IRS) nas mesmas
condições dos sujeitos passivos casados e não separados de pessoas e bens.

● (6)Os unidos de factos não têm direito à ADSE.

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● 1.9 Extinção da relação


● 1.9.1 Princípios gerais
●A união de facto pode extinguir-se quer pela ruptura da relação, podendo esta ser
por mutuo consentimento ou por iniciativa de um dos membros, quer em consequência
da morte de um deles. O art. 8º da Lei 7/2001 acrescentou ainda a possibilidade de
dissolução por casamento.

● Extinta a relação há que proceder à liquidação e partilha do património. Não valendo


aqui os arts. 1688º e 1689º do CC, uma vez que estas só respeitam ao casamento, as
regras a aplicar são aquelas que tenham sido acordadas no “contrato de coabitação” e
na sua falta o direito comum das relações reais ou obrigacionais.

● 1.9.2 Ruptura. Destino da casa de morada comum


● Após a ruptura (só ruptura, não cabe aqui a situação de morte), põe-se a questão do
destino da casa de morada comum. Neste contexto, há que distinguir se se trata de
uma casa própria (comum ou apenas de um deles) ou tomada de arrendamento.

● Tratando-se de casa própria, o art. 4º, nº4 da Lei 7/2001 remete para a aplicação
do art. 1793º do CC.
● Se em casa pertencer em compropriedade a ambos, qualquer deles pode pedir
ao tribunal que lhe dê de arrendamento a casa. Este pedido deve ser cumulado
com a declaração de dissolução da união de facto.
● Se a casa for propriedade apenas de um, pode o outro fazer idêntico pedido.

● Tratando-se de casa tomada de arrendamento, podem os dois acordar a qual dos


dois fica a pertencer a posição de arrendatário. Se não existir acordo, cabe ao
tribunal decidir. (art. 4, nº4 da lei das uniões de facto).

● 1.9.3 Morte
● Por último, recai o estudo sobre os direitos que assistem ao sobrevivo no
caso de morte de um dos sujeitos da união de facto.

●(1) Se o falecido não era casado ou estava separado de pessoas e bens (embora o
casamento se tenha dissolvido apenas com a morte ou com divórcio há menos de dois
anos), o sobrevivo que vivia com ele em união de facto cumprindo as condições de
eficácia, tem direito a exigir alimentos da herança nos termos do art. 2020º do CC.
A medida destes alimentos determina-se nos termos do art. 2003º e 2004º do CC,

Tânia Belo - 41 -
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e não nos termos do art. 1675º, uma vez que na união de facto não existe dever de
assistência.
● (2) A Lei nº 7/2001 concede ainda ao sobrevivo o direito real de habitação da casa
de morada comum pelo prazo de 5 anos nos termos do art. 3º, al.a) e art. 4º, nº1 e 2.
● (3) O sobrevivo tem direito de preferência na venda casa por 5 anos (art. 4º, nº1 in
fine e nº2 da predita lei).

● (4) Transmissão do direito ao arrendamento para a habitação cumpridos os requisitos


da união de facto e do novo RAU.

● (5) No caso de lesão de que proveio a morte de um dos membros da união de facto, o
sobrevivo pode exigir ao autor da lesão uma indemnização pelos prejuízos sofridos?
● Danos patrimoniais – Sim, art. 495º do CC
● Danos não patrimoniais – Não, art. 496º, nº2 (lista taxativa) do CC

●(6) A lei dá ainda ao sobrevivo o direito ao subsídio de morte e à pensão de


sobrevivência, nos termos do art. 6º da Lei das uniões de facto. Ver arts. 2020º e
2004º do CC.

● (7) Art. 3º, al.f) e g) da lei 7/2001.

● (8) O art. 227º, nº2 do C. Trabalho permite ao trabalhador faltar justificadamente


5 dias consecutivos por da falecimento da pessoa com quem vivia em união de facto,
sempre considerando os termos do nº1 da lei das uniões de facto.

● 2. Outras relações parafamiliares


● 2.1 Relações entre esposados
● Os esposados são as pessoas que estão para casar.

● Esta relação já é tida em conta pela lei para vários efeitos, como sejam:
● Contrato-promessa de casamento (1591º a 1595º do CC)
● Doações entre esposados (1753º e 1760º do CC)
● Presunção da paternidade (1871º/1 d do CC)

● 2.2 Relações entre ex-cônjuges


● O divórcio extingue a relação matrimonial, mas a relação entre os ex-cônjuges continua
a ter relevância jurídica, veja-se:
● O cônjuge que tenha adoptado os apelidos do outro pode conserva-los com o
consentimento do mesmo ou se o tribunal ou o conservador do registo civil o
autorizar (1677º-B CC);

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● Um dos ex-cônjuges pode ser obrigado a prestar alimentos ao outro (2016º CC);
● Após o falecimento de um deles, pode o sobrevivo ter direito a uma pensão de
sobrevivência (40º, nº1, al. a) e 41º, nº1 do DL 142/73, de 31 de Março).

● 2.3 Vida em economia comum


● A vida em economia comum, encontra-se institucionalizada pela lei nº6/2001, de 11 de
Maio. Segundo esta lei, entende-se que vivem em economia comum:
● Art.2º da Lei 6/2001 – Economia comum
● nº1
● (1) Pessoas que vivam em comunhão de mesa e habitação;
● (2) Há mais de dois anos. Este prazo só é necessário para produzir os
efeitos previsto nº1 do art.4º
● (3) Tenham estabelecido uma vivência comum de entreajuda ou partilha
de recursos.
● nº2
● (4) Agregado constituído por duas ou mais pessoas, desde que uma seja
maior de idade
● Podem ser familiares ou estranhos;
● De diferente ou do mesmo sexo;

●A vida em economia comum não tem conotação sexual, daí que possam viver nestas
circunstâncias pai e filhos ou até mesmo irmãos.

● Na falta de entreajuda ou partilha de recursos, não existe vida em economia comum,


nomeadamente nas situações previstas no art.3º, al. a) e b) da supracitada lei.
● Note-se que a falta de entreajuda e partilha de recursos surgem em alternativa,
não se exige portanto que tenham de se verificar cumulativamente, basta que
apenas uma se verifique. Assim não se exige que as pessoas ponham em comum os
seus rendimentos e recursos; é suficiente uma vivência em comum de “entreajuda”,
em que as pessoas vivem em comunhão de mesa e habitação contribuindo para os
respectivos encargos.

●Quem vive em união de facto vive em economia comum, mas não necessariamente ao
contrário.
●Assim, as leis 6/2001 e 7/2001 podem ser aplicáveis, desde que não se verifique
nenhum dos factos enunciados no art. 2º da lei 7/2001 e art. 3º da lei 6/2001. Os
interessados podem assim invocar os direitos decorrentes de uma ou outra lei. Em
regra os heterossexuais invocam mais a lei 7/2001 e os homossexuais a lei 6/2001,
embora também possa invocar a lei da união de facto se provarem que vivem em tais
circunstâncias.
● Os direitos atribuídos às pessoas que vivem em economia comum cumpridos
os requisitos do art.2º são:
● Os enumerados no art. 4º da respectiva lei.

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● No que concerne à casa de morada no art. 5º da mesma lei.


● Transmissão do arrendamento por morte – art. 6º da predita lei.
● Quando não se verificar nenhuma das excepções do art. 3º, as pessoas que vivem
em economia comum beneficiam do regime jurídico de férias, faltas e preferência
na colocação dos funcionários da função pública, bem como dos contratos
individuais de trabalho.
● Beneficiam do regime do IRS (art. 7º da mesma lei)

● 2.4 Relação entre tutor e tutelado


● O tutor pode ser frequentemente da mesma família do tutelado, mas também pode não
o ser (art. 1931º do CC);
● Caso seja uma relação familiar é considerada parafamiliar, tanto mais que o tutor tem
em princípio os mesmos direitos e obrigações dos pais (art. 1935º, nº1 do CC).

● 2.5 Pessoa a cargo de outra


● Não sendo propriamente uma relação de família, tem importantes efeitos no âmbito da
família.
● Assim, por exemplo:
● É requisito da adopção que o adoptado tenha estado ao cuidado do adoptante
durante certo prazo (1974º, nº2 do CC);
● A lei exige, para que a adopção seja decretada, o consentimento do ascendente, do
colateral até ao 3º grau ou do tutor, quando, tendo falecido os pais do adoptando,
tenha este a seu cargo e com ele viva (art. 1981º, nº1, al.d)):
● Entre outros…

● 2.6 Pessoa criada e sustentada por outra


●Merece ainda referencia o artigo 5º, nº2, al.b) do DL nº 466/99, que permite que
seja estabelecida em beneficio da pessoa que tenha criado e sustentado o falecido
a pensão de preço de sangue, valendo o regime idêntico quanto à pensão por serviços
excepcionais e relevantes prestados ao país (art. 6º).

● 2.7 Tabela comparativa do casamento com duas relações para


familiares

União de Casamento Vida em


facto economia

comum

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Direitos Deveres Direitos Deveres Direitos e deveres

vários Coabitação vários Respeito


fidelidade
respeito
Coabitação

Cooperação

assistência

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● Parte VI – Direito matrimonial


● Cap. I - Constituição da Relação matrimonial: O
casamento como acto.

● O estudo do casamento como acto constitutivo da relação matrimonial obriga a colocar-


se a questão da unidade do instituto matrimonial.
● Nos termos do art. 1587º, nº1 do CC, o casamento pode ser católico ou civil.
● Apesar desta divisão, em regra, o casamento conserva a sua unidade podendo-se assim
abstrair da dualidade casamento civil e casamento católico, só quando se trate da forma
de celebração do acto é que deverá distinguir-se entre forma civil e católica.
● Sendo diferentes, o casamento civil e católico têm muitas características comuns.

● Divisão I - Conceito e Caracteres Gerais do Casamento


● 1. Conceito de casamento
● 1.1 Noção geral de casamento
●Poucas legislações definem casamento, até porque as características do casamento
são de tal modo conhecidas que não será possível confundi-lo com uma união de facto.
●Apesar de todos termos a ideia do que é o casamento, não se torna fácil definir
os seus caracteres até porque uma definição geral de casamento seria errónea em
virtude deste ramo do Direito ser influenciados social e economicamente.
● Assim, tendo em conta o nosso espaço cultural pode-se que casamento é o acordo
entre um homem e uma mulher feito segundo as determinações da lei e dirigido ao
estabelecimento de uma plena comunhão de vida entre eles.
● Se se considerar ainda a vertente de casamento como estado, deve acrescentar-se
que esta comunhão de vida deve ser exclusiva, isto é, que nenhum dos cônjuges pode
fazer igual acordo com terceira pessoa enquanto o anterior vigorar.
●É um acordo tendencialmente perpétuo, ou seja, indissolúvel ou pelo menos não
livremente dissolúvel.
● 1.2 Conceito de casamento civil
● É o caso do direito português que define casamento nos termos do art. 1577º
do CC como:

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● “O contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem


constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das
disposições deste código”.
● Embora, o conceito de plena comunhão de vida seja indeterminado, o Código considera
que comunhão de vida é aquela em que os cônjuges estão reciprocamente vinculados
pelos deveres de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência (art.
1672º do CC), comunhão de vida exclusiva (art. 1601º, al.c)) e tendencialmente ou
presuntivamente perpétua (art. 17773º do CC).
●Importa referir que a procriação, embora seja um fim normal ou natural, não
é todavia essencial, pelo que não deve constar de tal definição. Até porque a
impotência não é impedimento matrimonial e a nossa lei não dá relevo à consumação
do matrimónio, ao contrário do direito canónico (casamento rato ou não consumado).

● 1.3 Conceito de casamento católico


●O direito canónico define o casamento católico como “ acto de vontade pelo qual o
homem e a mulher, por pacto irrevogável, se entregam e recebem mutuamente a fim
de constituírem o matrimónio”.
●Embora actualmente o “bem dos cônjuges” e a “educação e procriação” sejam dois
fins do casamento que andam lado a lado, a consumação é ainda necessária para que o
casamento católico goze de indissolubilidade intrínseca e extrínseca. Acresce ainda
que a impotência é um impedimento dirimente do casamento católico.
●O casamento católico exige: mutua fidelidade, indissolubilidade e procriação e
educação dos filhos, sob pena de invalidade.

● 2. Caracteres gerais do casamento


● 2.1 Caracteres do casamento como acto

● 2.1.1 O casamento como acto por que se interessam o Estado


e as Igrejas


2.1.1.1 O casamento, o contrato e o sacramento. Causas da
secularização.
●No direito português, o casamento é um acto por que se interessam
profundamente não só o Estado como também as Igrejas.
●A ligação do casamento com a religião é muito antiga, mas assume especial
importância para a Igreja Católica, que o considera um sacramento.
●A Igreja Católica considera que a disciplina do acto matrimonial é da sua
competência cabendo somente ao estado aos efeitos meramente civis.
● No entanto, o facto do art. 41º da CRP, constituir um DLG impõe a necessidade de
um direito matrimonial que justifica a existência do casamento civil.

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● 2.1.1.2 Os sistemas matrimoniais


● Existem diversos sistemas matrimoniais:

● Sistema de casamento religioso obrigatório


Os nubentes, para se casarem, têm obrigatoriamente de observar a forma
religiosa e os ritos subjacentes à religião em causa, independentemente da
religião e da nacionalidade.

● Sistema de casamento civil obrigatório


O Estado não admite outra forma de casamento senão o casamento civil,
celebrado segundo as suas leis e regulado por elas; o direito matrimonial do
Estado é obrigatório para todos os cidadãos, independentemente da religião
que professem.
Os nubentes poderão casar-se pelas normas da sua confissão religiosa, mas o
Estado não lhe atribuirá efeitos jurídicos.

● Sistema de casamento civil facultativo


Os nubentes podem escolher livremente entre o casamento civil e o casamento
católico (ou celebrado segundo os ritos de qualquer outra religião), atribuindo
o Estado efeitos civis ao casamento em qualquer caso.
● Este possui duas modalidades:
● Primeira modalidade
Os cidadãos apenas podem escolher o tipo de cerimónia, sendo tudo o
resto tratado pelo Código Civil; as pessoas apenas escolhem se querem
casar na Conservatória ou na Igreja (somente há uma celebração). De
acordo com esta modalidade, o Estado permite que os seus nacionais
celebrem casamento católico (protestante, judaico, etc.) e dá a esse
casamento efeitos legais, mas dá-lhe os mesmos efeitos e sujeita-o ao
mesmo regime do casamento laico ou civil.
● Segunda modalidade
O Estado admite como válido e eficaz o casamento católico, admite-o
como tal, ou seja, como é regulado pelo direito da Igreja. Portanto, o
Estado não reconhece apenas a forma de celebração religiosa; o Estado
reconhece a própria legislação (e até a jurisdição) eclesiástica sobre o
casamento, como que renunciando nessa medida à sua soberania.

● Sistema de casamento civil subsidiário


O Estado subordina-se à Igreja e como que faz seu o direito matrimonial
canónico. Assim, em princípio, o casamento católico é o único que o Estado
reconhece; o casamento civil só é admitido subsidiariamente, isto é, para os
casos em que é considerado legítimo pelo próprio direito canónico, como por
exemplo nos casos em que ambos não são baptizados.

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● 2.1.1.3 Evolução do direito português – pág. 226 a 231 do Livro

● 2.1.1.4 Caracterização do sistema actual

● O sistema matrimonial português pode ser caracterizado por:

● (a) Concretizar um sistema de casamento civil facultativo.


● Enquanto a lei da liberdade religiosa não tiver aplicação, o casamento civil
é facultativo (art. 1625º do CC) para os católicos e só para eles; para os
evangélicos, os judeus, os muçulmanos, etc. o casamento civil é obrigatório,
pois a lei não dá valor à respectiva cerimónia religiosa.
● Quando esta lei for regulamentada o casamento passará a ser o casamento
civil a ser facultativo para todos, independentemente da religião a que
pertençam, podendo estes optar pelo casamento civil ou religioso.
● O nosso direito conhece qualquer princípio de preferência do casamento
católico sobre o casamento civil ou deste sobre aquele. São duas formas
de casamento igualmente admitidas e válidas.

● (b) Consagra a 2º modalidade do sistema de casamento civil facultativo.


● Por força do art. 1625º, o nosso sistema matrimonial, adopta a 2º
modalidade do sistema de casamento civil facultativo.
● Assim o casamento civil e o casamento católico não serão, pois, apenas
duas formas diversas de celebração do casamento, mas dois institutos
diferentes, um regulado pelo direito civil, o outro pelo direito canónico,
direito reconhecido ou recebido genericamente pelo Estado. Nesta
modalidade, o sistema do casamento civil facultativo poupa aos nubentes
de uma dupla celebração do matrimónio, mas agora à custa da unidade do
direito matrimonial.

● (c) Implicações da consagração da segunda modalidade


● Consagrando “a segunda modalidade”, o direito português procurou,
todavia, evitar os inconvenientes do sistema em alguns pontos
fundamentais.
● Tentou aproximar o mais possível os dois sistemas de
impedimentos.
● Art. 1596º do CC;
● Todos os impedimentos ao casamento civil (dirimentes e impedientes)
são também do casamento católico;
● Proíbe, a lei o pároco, sob pena de graves sanções (art. 296º, al.a) do
nº1 do CRCivil), a celebração do casamento católico sem que lhe seja
presente certificado, passado pelo conservador de registo civil, a
declarar que os nubentes podem contrair casamento (art. 1598º, nº1
do CC e 146º e 151º do CRCivil);

Tânia Belo - 49 -
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●O pároco tem igualmente sob pena do art. 296º, al.c) do nº1, a


obrigação de enviar à conservatória do registo civil competente o
duplicado do assento paroquial, a fim de ser transcrito no livro de
casamentos (arts. 1655º, nº1 do CC e art. 169º do CRCivil); sendo esta
uma condição de eficácia civil do casamento, não permitindo que o
casamento seja invocado (art. 1669º do CC)
●Finalmente, atentando ao divórcio, tento o casamento civil como o
católico pode ser dissolvido por divórcio, nos tribunais civis, com os
mesmos fundamentos e nos mesmos termos
● (d) O casamento civil continua a ser diferente do casamento católico
●Em consequência desta diferença, cabe averiguar por que normas se rege o
casamento católico.
● Promessa do casamento
Aplica-se ao casamento católico as mesmas disposições do casamento civil,
isto é, arts. 1591º e ss, se estes nada tiverem decidido sobre a respectiva
modalidade de celebração.

● Requisitos de fundo
No que respeita ao consentimento (divergências intencionais, não
intencionais entre a vontade e a declaração, vícios da vontade, casamento
sob condição ou termo) é o direito canónico que se aplica, uma vez que
se tratam de requisitos da validade do acto reservada aos tribunais
eclesiásticos, que naturalmente aplicam o seu direito.
No que concerne à capacidade, isto é, quanto aos impedimentos
matrimoniais, aplica-se em primeiro lugar o direito canónico, mas também o
de direito civil por força do art. 1596º do CC.

● Forma
A forma tanto é regulada pelo direito civil como pelo direito canónico.
Relativamente às formalidades preliminares, temos por um lado as
formalidades canónicas (leitura das proclamas na igreja) e por outro
as formalidades civis, isto é, o processo de publicações que corre na
conservatória do registo civil (art. 134º a 148º do CRCivil).
Quanto à celebração é regido apenas pelo direito canónico
No que se refere ao registo, tanto o direito canónico, como o direito
civil interferem (art. 167º a 179º do CRCivil), sendo que é da transcrição
do registo na conservatória que reconhece efeitos civis ao casamento
católico.

● Causas de nulidade do casamento e regime processual das respectivas


acções.
Só o direito eclesiástico é que é competente (art. 1625º do CC), mas é ao
Direito Civil que pertence, uma vez declarada a nulidade do casamento
católico, regular os efeitos da nulidade e eventual aplicação do instituto do
casamento putativo (arts. 1647º, 1648º do CC)

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● Efeitos do casamento
Os efeitos do casamento sejam pessoais sejam patrimoniais só cabem na
aplicação do direito civil.

● Separação de pessoas e bens


As disposições legais civis são igualmente aplicáveis aos casamentos
católicos.

● Dissolução do casamento católico


Aplicam-se as duas ordens jurídicas. A disciplina da dissolução por morte
ou divórcio compete exclusivamente à lei civil (art. 36º, nº2 da CRP), mas
o casamento católico admite ainda uma causa de dissolução própria, a
dispensa do casamento rato e não consumado (art. 1625º do CC)

●Por continuarem a existir diferenças pode o Estado recusar a transcrição


do casamento católico: a solução da lei é a de recusar a transcrição que está
estabelecida nos arts. 1654º e ss.

● 2.1.2 Outros caracteres do casamento como acto

● 2.1.2.1 O casamento como negócio jurídico


● O casamento tem carácter negocial
●É um negócio jurídico e porquanto um instrumento por excelência da autonomia
privada.
● É uma declaração de vontade dirigida a certos efeitos e que a ordem
jurídica tutela em si mesma e na sua direcção determinada, atribuindo-lhe
efeitos jurídicos em geral correspondentes aos fins que o declarante ou os
declarantes têm em vista.

● O casamento é um dos mais importantes negócios familiares e embora


a autonomia privada seja muito limitada, evidencia-se em alguns
aspectos:
● Os efeitos pessoais do casamento, mormente os direitos e deveres conjugais,
são imperativos da lei, não podendo os nubentes alterá-los (art. 1699º, nº1 al.b
do CC);
● Não pode igualmente inserir neste contrato condição ou termo (art. 1618º, nº2
do CC)
● No entanto, tem os nubentes liberdade que se manifesta em várias
vertentes:
● Escolher Casar ou não;

Tânia Belo - 51 -
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● Escolher a pessoa com quem vão casar;


● Escolher entre casamento civil e católico;
● Escolher entre casar pessoalmente ou por procurador;
● Podem igualmente, apesar de não poderem alterar os deveres (art. 1672º
do CC) que a lei impõe, decidir livremente sobre o modo de cumprimento de
alguns desses deveres.
● Devem acordar sobre a vida em comum (art. 1671º, nº2);
● Escolher a residência da família (art. 1673º do CC)
● Por fim, pode ainda escolher a forma como cada um cumpre o dever de
contribuir para os encargos da vida familiar (art. 1676º do CC)

● 2.1.2.2 O casamento como contrato


● Como negócio jurídico que é o casamento é um contrato, tanto o civil (art. 1577º
do CC) como o católico.
● No entanto, esta contratualidade tem sido bastante contestada.
●Existem autores que defendem o casamento como acto administrativo (uma vez
que o consentimento é um simples pressuposto), outros como negócio plurilateral
(relação entre os conjugues e o conservador civil) ou até mesmo como acto
complexo (um negócio bilateral, integrado pelas declarações dos nubentes e por
um acto administrativo).
● Não obstante tais opiniões o prof. Guilherme de Oliveira considera que defini-
lo como contrato seja a forma mais correcta, tendo a seu favor o disposto no
art.1577º; a existência de casamento urgentes; onde não interfere o conservador
do registo civil (arts. 156º e ss do CRCivil) e o facto de o consentimento ser o
núcleo essencial do matrimónio.

● 2.1.2.3 O casamento como contrato entre pessoas de sexo diferente


● Esta característica é comum ao casamento civil e católico.
● A diversidade de sexos é exigida pelo fim do matrimónio, que é o de estabelecer
entre os cônjuges uma plena comunhão de vida (art. 1577º do CC). Se os cônjuges
forem do mesmo sexo, o casamento é inexistente (art. 1628º, al. e) do CC).
● Se existir falta ou defeituosa conformação dos órgãos genitais, o casamento só
poderá ser anulado com fundamento na impotência.
●No que respeita à transsexualidade, designadamente em casos em que ocorra
operação cirúrgica para mudança de sexo, sendo esta mudança reconhecida
por sentença judicial, o casamento do transsexual torna-se inexistente. Se
o casamento contraído entre pessoas de mesmo sexo é inexistente, deve,
logicamente, deixar de ter existência jurídica se os cônjuges passam a ter
o mesmo sexo, embora fossem de sexo diferente à data da celebração do
casamento. Saliente-se que o casamento é válido até à sentença que decretou a
inexistência.
● Existem autores que defendem o divórcio como forma de dissolução do casamento
entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, não parece o expediente mais
correcto, uma vez que apesar de se poder invocar aqui uma violação do dever

Tânia Belo - 52 -
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de respeito, por um dos cônjuges ter procedido a tal operação sem autorização
do outro, havendo fundamento para divórcio litigioso (art. 1779º, nº1 do CC), no
entanto não se compreenderia que a dissolução do casamento ficasse à vontade
dos cônjuges, uma vez que estes poderia não requerer o divórcio.
●Põe-se a questão de saber qual o meio processual ajustado ao reconhecimento
judicial da mudança de sexo: uma acção de estado com processo ordinário,
em que requer uma declaração em que se peça a mudança de sexo no registo
e em consequência, a rectificação por averbamento do assento de nascimento
relativamente ao sexo e ao nome registado? Ou uma simples acção de rectificação
do registo com processo de justificação judicial, visando os mesmos objectivos?
●Afigura-se mais correcto o recurso a uma acção de estado. Uma acção de
rectificação do registo só será apropriada na hipótese de, sendo o sexo
indeterminado ou indefinido quando foi lavrado o assento de nascimento, se vir
a mostrar inexacta a menção constante do assento relativamente ao sexo do
registado, que a operação cirúrgica, na realidade, se terá limitado a definir em
sentido oposto.
● 2.1.2.4 O casamento como negócio pessoal
●O casamento é um negócio familiar e porquanto pessoal com as características
que lhe estão afectas, isto é, regulado por normas imperativas e só podem ser
celebrados pessoalmente (fora o caso de casamento por procuração).
●Têm como negócio pessoal os que não se destinam a constituir, modificar e
extinguir relações de carácter patrimonial, mas a influir no estado das pessoas,
familiar ou de outra ordem.

● 2.1.2.5 O casamento como negócio solene


● Pelo facto de o casamento ser um negócio solene, a vontade dos contraentes não
pode ser manifestada de qualquer modo, mas sim do modo como a lei prevê.
● Ao contrário do que acontece na maioria dos negócios solenes a forma exigida não
é um documento solene, mas a cerimónia da celebração do acto.
● No que respeita à celebração do casamento católico estas são regidas pelo direito
canónico.
●No que concerne ao casamento civil, o acto tem de ser celebrado perante o
funcionário do registo civil conforme as formalidades descritas no art. 155º do
CRCivil. Com tais factos pretendeu a lei assegurar a segurança e a rectidão dos
negócios jurídicos bem como alertar os nubentes para o acto que estão a realizar.

● 2.2 Caracteres do casamento como Estado

● 2.2.1 Unidade e exclusividade


●A unidade ou exclusividade, implicam que uma pessoa não pode estar casada ao
mesmo tempo com duas ou mais.
●Nem a poliandria (homens) nem a poligamia (mulheres) é admitida, sendo esta
característica comum ao casamento civil e católico.

Tânia Belo - 53 -
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●Esta característica ressalta do art. 1601º do CC e deve ainda notar-se que a


bigamia é punida pelo C.Penal nos termos do art. 2247º.
●Só não é permitida a bigamia simultânea, pois a sucessiva (2º núpcias) esta é
livremente admitida tanto pelo Direito Civil, como pelo Direito Canónico.
● A morte dissolve o vínculo matrimonial.

● 2.2.2 Vocação de perpetuidade


● A doutrina tradicional falava de perpetuidade do casamento para exprimir a ideia
de que este só se dissolve quando algum dos cônjuges falecer;
● Actualmente, o casamento não é perpétuo, neste sentido, nem no casamento civil,
nem mesmo no católico. Será portanto preferível atribuir-lhe uma tendência ou
presunção perpétua.
●A perpetuidade é mais notória no casamento católico, quase podendo afirmar
que se trata dum casamento perpétuo, com a excepção do casamento rato e não
consumado.
●Não obstante o supracitado, esta característica continua a ter interesse prático
uma vez que é esta característica que justifica que não possam ser apostos ao
casamento condições ou termos resolutivos e que haja um numerus clausus das
causas de divórcio, tendo de se respeitar os arts. 1779º e 1881º do CC

● Divisão II – Promessa de casamento


● 1. O regime da promessa de casamento: descrição
geral e justificação
● Art. 1591º do CC – Ineficácia da promessa
● Qual seria então, o regime da promessa do casamento, no silêncio da lei, isto é, se
se aplicasse aqui o regime geral dos contratos de promessa?
● A especialidade da promessa do casamento relativamente aos contratos de
promessa em geral consiste apenas no facto de que o contraente que não
cumpre a promessa de casamento, não responde pela totalidade dos prejuízos
causados, nos termos gerais do contrato, ou pela cláusula penal convencionada:
responde só por certas despesas, sem que as partes possam estipular cláusula
penal de montante superior.
● Acresce ainda que ainda a promessa de casamento fosse plenamente eficaz,
nunca dela resultaria a obrigação de casar cujo cumprimento fosse exigível
judicialmente. Pois embora o art. 830º admita em geral, a execução específica
das obrigações derivadas de contrato-promessa, a natureza pessoal da
obrigação assumida excluiria a possibilidade de execução específica.
● A especialidade deste regime não se consubstancia na inexequibilidade em
espécie da obrigação mas sim, na menor extensão do dever de indemnizar que
deriva do não cumprimento dessas obrigações.
● Esta menor extensão de indemnizar (art. 1594º do CC) justifica-se por:

Tânia Belo - 54 -
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● Consentimento para o matrimónio


seria menos livre;
● Para não pagar uma indemnização avultada, o contraente que estivesse na
disposição de romper a promessa preferiria talvez…casar.
● Assim consegue a lei assegurar o consentimento livre e espontâneo dos
nubentes em detrimento do rígido princípio do respeito pela palavra.
● Pode-se dizer que este é o fundamento ou a explicação prática deste artigo.

● 2. Natureza jurídica: a promessa como negócio


jurídico
●Já se sabe que o contrato-promessa não dá direito a reclamar, na falta de
cumprimento, outras indemnizações que não sejam as previstas no art. 1594º do CC.
● Acresce agora acrescentar que os efeitos previstos nos arts. 1591º a 1595º do CC são
efeitos da promessa como verdadeiro negócio jurídico válido. Embora esta explicação
ofereça dificuldades como por exemplo que normas aplicar à capacidade se as do
matrimónio ou as dos negócios jurídicos, se pode colocar-se termo ou condição , etc.
●Por fim, oferece dizer que a responsabilidade em que incorra o nubente que se
retracte ou dê justo motivo à retracção do outro nos limites do art. 1594º, deverá ter-
se como responsabilidade contratual.

● 3. Efeitos
●Concebia a promessa do casamento como verdadeiro negócio jurídico,
resulta dela:
● Duas obrigações de casar igualmente válidas;
● A garantia, esta será mais frágil, uma vez que é excluída a execução em forma
específica e o dever de indemnizar reduz-se a certas obrigações e despesas;
● No que se refere aos sujeitos da obrigação de indemnizar, esta pode ser
pedida, nos termos do art. 1584º, nº1:
● Pelo esposado inocente;
● Pelos pais do esposado inocente;
● Ou terceiro que tenha agido em nome dos pais;
● Pode ser pedida ao:
● Nubente culpado, que rompeu a promessa sem justo motivo; este pode ser
equiparado ao nº2 do art. 1594º do CC.
● “Justo motivo” é um conceito indeterminado, pertencendo por um lado à
jurisprudência fixar o seu conteúdo na aplicação ao caso concreto, e por
outro ao réu a sua prova (art. 799º, nº1 do CC).
● De um modo geral há justo motivo quando a continuação do noivado e a
celebração do casamento não podem razoavelmente ser exigida a um ou a
ambos os esposados
● Ou ao nubente que por culpa sua, deu lugar a que o outro se retractasse.

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● A obrigação de indemnizar levanta também alguns problemas relativamente ao


seu objecto.
● O dever de indemnizar só se estende à totalidade dos prejuízos causados, é
restrito às despesas e obrigações contraídas na previsão do casamento, ficando
de fora os lucros cessantes e os danos emergentes e os danos não patrimoniais
(art. 1594º, nº1 do CC)
● A indemnização é fixada segundo o prudente arbítrio do tribunal nos termos do
art. 1594º, nº3
● O montante da indemnização só pode ir além do fixado no art. 1594º se um dos
nubentes ao mesmo tempo rompe a promessa de casamento que pratique um
acto constitutivo de responsabilidade extracontratual, como seja injuriar ou
difamar ou ir contra a autodeterminação sexual do outro conjugue. Aqui sim a
indemnização pode ir além das despesas.
● Outro efeito dos esposais é a obrigação de restituir os donativos feitos em
virtude da promessa e na expectativa do casamento no termos do art. 1592º e
1593º do CC.
● Tanto as doações como os donativos caducam pela não realização do casamento
e porquanto devem ser restituídos.
● Art. 1592º
nº 1
● Impõe a obrigação de restituir em termos amplos: tanto no caso de
retractação como de incapacidade, tanto ao esposado culpado como ao
inocente, e tanto em relação aos donativos recebidos do outro esposado
como aos recebidos de terceiros.
● A imposição ao próprio esposado inocente justifica-se pela total liberdade
do consentimento, uma vez que o outro esposado poderia casar só para não
perder o donativo efectuado.
nº2
● Exige também a restituição de cartas e retratos pessoais do outro
esposado, mas não que hajam sido consumidas antes da retractação.
Fundamento
● A obrigação de restituir reside na ineficácia dos donativos, equiparando a
lei esta ineficácia à anulabilidade e à nulidade, remetendo assim para o art.
289º do CC
● O art. 1593º, estabelece um regime particular para o caso do casamento não
se realizar por morte.
● Nos termos do nº1 o esposado sobrevivo pode exigir aos herdeiros do outro
esposado os donativos que tenha feito restituindo os que recebeu, mas pode
também conservar os donativos do falecido, perdendo, neste caso, o direito
de exigir os que por sua parte lhe tenha feito.
● Nos termos do nº2, quanto à correspondência e aos retratos pessoais do
falecido o sobrevivo pode reter o que tenha recebido e exigir a restituição
do que tenha dado, ficando, pois, com tudo.

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● Entende assim a lei que deve ser o sobrevivo depositário do património moral
que as cartas e os retratos constituem.

● O art. 1595º, marca o prazo de caducidade de um ano, para a acção destinada


a exigir a restituição dos donativos ou as indemnizações previstas no art. 1594º
do CC.

● Divisão III – Casamento Civil


Esta divisão implica o estudo do casamento como acto jurídico, focando os requisitos de
fundo, as formalidades e a invalidade do casamento.

● 1. Requisitos de fundo
● 1.1 Consentimento
● 1§ - Generalidades

● 1.1.1 Necessidade do consentimento e modo como deve ser


prestado
●O casamento exige o consentimento dos nubentes, uma vez que como negócio
jurídico que é exige uma declaração de vontade.
● O consentimento traduz a vontade de casar dos nubentes, e sem que esta vontade
tenha sido manifestada, nos termos da lei, não pode haver casamento válido.
● O consentimento é que faz o casamento.
●Em matéria de casamento, tende-se para o respeito e valorização do princípio da
vontade, dando o mais possível de certeza e estabilidade ao casamento e para tudo
isto é necessário o consentimento.
● As questões respeitantes ao consentimento estão reguladas nos art. 1617º e ss.

● 1.1.2 Caracteres que devem revestir o consentimento


● O consentimento matrimonial deve possuir certas propriedades ou características,
isto é, deve ser pessoal, puro e simples, perfeito e livre.

● 2§ - Carácter pessoal do consentimento

● 1.1.3 Princípio Geral


●O consentimento deve ser pessoal, isto é, há-de ser expresso pelos próprios
nubentes, pessoalmente, no acto da celebração (art. 1617º e 1619º do CC)
● Art. 1619º do CC
● A ideia de que o casamento é um negócio pessoal tem aqui uma das mais
importantes manifestações.

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● 1.1.4 Casamento por procuração


● A lei admite porém, o casamento por procuração que não abre excepção ao princípio
da actualidade do mútuo consentimento, uma vez que o consentimento continua a
ser prestado no acto de celebração, apenas é prestado por outro que não o nubente.
● O instituto do casamento por procuração está regulado nos arts. 1620º
do CC e 44º CRCivil, impondo algumas exigências e limitações:
● De carácter formal
● A procuração deve ser outorgada por instrumento público ou por documento
escrito assinado pelo representado com reconhecimento presidencial da
letra e da assinatura (art. 43º, nº2 do CRCivil);

● De carácter substancial
● Só um dos nubentes pode fazer-se representar por procurador (art. 1620º,
nº1 do CC e art. 44º, nº1 do CRCivil);
● A procuração deve conferir poderes especiais para o acto, onde se indique a
pessoa do outro nubente e a modalidade de casamento (art.1620º, nº2 e 44
do CRCivil).
.

● Art. 1628º, al.d) do CC


● Art. 1621º - Revogação e caducidade da procuração

● Face das exigências do artigo 1620º, nº 2, é necessário esclarecer se o


procurador é um verdadeiro representante ou um simples núncio.
● Verdadeiro representante – emite uma declaração de vontade própria, no
lugar e em nome do representado, pode este decidir sobre as condições do
negócio e até mesmo sobre a sua conclusão.
● Núncio – não declara a sua vontade, mas transmite a vontade do principal; é
um mensageiro, um porta-voz que se limita a transmitir uma declaração de
vontade completamente formada, como quem leva um recado, não pode aqui
decidir absolutamente nada.
● Pode-se optar pela que se considerar mais correcta desde que se justifique.

● Outra dúvida que se levanta é a de saber se o procurador se pode recusar a


celebrar o casamento quando saiba de qualquer circunstância superveniente e
que em face dela tenha dúvidas que tal casamento se constituísse. A resposta
reside no conteúdo do acordo. Se o acordo obrigar o procurador a celebrar o
casamento sobre qualquer circunstância, terá este de o fazer. Se o acordo nada
disser ou atribuir ao procurador o poder de intervir, deve este actuar como
representante.

● 3§ - Carácter puro e simples do consentimento

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● 1.1.5 O casamento como negócio incondicionável e inaprazável

● O consentimento deve ser puro e simples, isto é, não pode ser aposto ao casamento
qualquer termo ou condição.
● Art. 1618º - Aceitação dos efeitos do casamento

●A ratio destas normas reside na própria dignidade da instituição matrimonial


e sobretudo na ideia de que o casamento é um negócio que afecta o estado das
pessoas e que por isso não pode estar sob condição (acontecimento futuro e
incerto) ou termo (acontecimento certo) sejam estes resolutivos ou suspensivos.
●Por fim, cabe perguntar se caso ocorra um casamento com termos ou condições,
se este continua a ser válido. O art. 1618º, nº2 responde a esta questão, dizendo
que as cláusulas que impliquem uma condição ou termo são tidas como não escritas,
donde se conclui que o casamento é válido como se tivesse sido puro e simples o
consentimento prestado.

● 4§ - Perfeição do consentimento

● 1.1.6 A divergência entre a vontade e a declaração e suas


formas: princípios gerais

● O consentimento deve ser perfeito.


● Dever ser perfeito, não só no sentido de que devem ser concordes uma com a
outra as duas declarações de vontade que o integram, como também no sentido
de que em cada uma dessas declarações de vontade deve haver concordância
entre a vontade e a declaração.
● Esta concordância é então presumida nos termos do art. 1634º do CC.
● No entanto esta presunção é iuris tantu, ou seja admite prova em contrário (art.
350º, nº2 do CC).
● Por vezes consciente ou inconscientemente, pode ocorrer que a vontade
manifestada ou declarada seja diferente da vontade efectiva ou real.
● Então o consentimento é imperfeito.
● Põe-se a questão de saber se o declarante ficará vinculado à declaração que
prestou sem embargo de ser outra a sua vontade e em que termos.
● Em matéria de casamento, o legislador mistura as noções de falta da
vontade e de vícios da vontade, referindo-se a uns e a outros no mesmo
preceito: artigo 1631º, alínea b).
● Os casos de divergência entre a vontade e a declaração estão regulados no
art. 1635º do CC, que enumera quatro hipóteses em que o casamento pode ser
anulado por “falta de vontade”, devendo entender-se, dado o disposto no art.
1627º, que o casamento só é anulável com fundamento neste tipo de divergência
se verificar uma hás hipóteses típicas.

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● 1.1.7 Casamento simulado

● A questão do casamento simulado é muito debatida na jurisprudência e na doutrina.


●Simulam-se casamento para adquirir nacionalidade, para obter uma autorização
de residência ou até mesmo para adquirir uma situação vantajosa decorrente do
estado de casado.
● Decerto que qualquer destes motivos podem determinar as pessoas a casar e esses
motivos são irrelevantes.
●Se embora determinados por um desses motivos os nubentes têm disposição de
fazer e fazem realmente vida em comum, não há simulação e o casamento é
válido.
●Mas se apenas pretendem seguir o fim visado e recusam a “comunhão de vida”
que constituiu a essência do casamento, este é simulado, a declaração que
prestam perante o conservador do registo civil (art. 155º, nº1, al.e) do CRCivil não
corresponde à sua vontade real.
● Se é simulado é anulável nos termos do art. 1635º, al.e).
● A anulação pode ser requerida nos termos do art. 1640º, nº1 e 1644º do CC
●Não poderão os conjugues porém, provar por testemunhas (art. 394º, nº2) ou por
presunções (art. 351º) o acordo simulatório, a solução não resultaria do art. 371º,
uma vez que o casamento só faz prova plena de que os nubentes declaram perante o
conservador e não da vontade com que o fizeram. Mas já resultaria o art. 394º, nº2.
●A anulação do casamento simulado, não poderá ser oposta aos terceiros que
acreditaram, de boa fé, na validade do casamento (art. 243º do CC).

● 1.1.8 Erro na declaração

●As hipóteses de erro na declaração são diferentes umas das outras, podendo
distinguir-se entre:
● Os casos em que falta ao declarante a própria vontade da acção ou até a
vontade da declaração.
● O casamento é anulável nos termos do art. 1635º, al.a), que constitui desvio
ao art.246º do CC, segundo a declaração “não produz qualquer efeito” nessas
hipóteses.

● E os casos de simples desvio na vontade negocial.


● O sujeito executa voluntariamente o comportamento declarativo e tem
vontade de realizar um negócio jurídico, mas não o negócio jurídico de
conteúdo correspondente ao significado exterior da relação. Será o caso de
erro acerca da identidade física do outro nubente (art. 1635º, al.b)

●Em qualquer das hipóteses a anulação só pode ser requerida nos termos do art.
1640º, nº2 e 1644º, mas pode ser continuada pelos seus parentes, afins na linha
recta, adoptantes ou herdeiros se o autor falecer na pendência da causa.

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● 5§ - Liberdade do consentimento

● 1.1.9 Vícios do consentimento: princípios gerais

● O consentimento deve ser livre e a lei presume também (art. 1634º do CC);
● Para que o consentimento seja verdadeiramente livre é preciso:
● Que a vontade dos nubentes, tenha sido esclarecida, ou seja formada com
exacto conhecimento das coisas;
● Relaciona-se com o erro
● E que se tenha formado com liberdade exterior, isto é, sem a pressão de
violências ou ameaças;
● Relaciona-se com a coacção

●Nos termos do art. 1627º, só são relevantes em matéria de casamentos os vícios


da vontade previstos especialmente pela lei, justamente o erro e a coacção e não
os restantes. Não assume pois significado o dolo (releva como erro) e o estado de
necessidade (só releva nos termos no art. 1638, nº2).
● O art. 1627º diz também que o erro e a coação só são relevantes nos termos do art.
1636º e ss, isto é, aplicam-se as regras especiais e não as dos negócios jurídicos em
geral.

● 1.1.10 Erro
● O erro releva nos termos do art. 1636º.
●O regime restritivo dos vícios da vontade, em matéria de casamento,
traduz-se quanto ao erro em algumas limitações:
● A relevância do erro no casamento depende dos seguintes
pressupostos:
● É necessário que o erro recaia sobre qualidade essencial da pessoa do
outro cônjuge;
O erro só é relevante se versar sobre qualidade essencial da pessoa do
outro cônjuge. Qualidade essencial é um conceito indeterminado e porquanto
cabe à jurisprudência aplicá-lo e defini-lo caso a caso.
Em abstracto, são qualidades essenciais, aquelas que sejam idóneas para
determinar o consentimento, o estado civil do outro cônjuge, nacionalidade,
a prática de um crime infamante, vida e costumes desonrosos e a impotência.
● Que seja próprio;
Isto é, não pode recair sobre qualquer requisito legal de existência ou de
validade do casamento.
Ex: Assim, se um dos cônjuges supunha erradamente que o outro já atingiria
a idade nupcial. O casamento será anulável, não propriamente por erro, mas
sim, independentemente dele, por falta de um requisito legal.

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● Que seja desculpável;


Resulta expressamente do art. 1636º do CC.
O erro indesculpável ou grosseiro, em que não teria caído uma pessoa
normal perante as circunstâncias do caso, não pode pois ser invocado como
motivo de invalidade do casamento. Compete à jurisprudência, em cada caso
concreto, aferir a desculpabilidade.
Ex: a mulher que intente uma acção de invalidade com base no facto do
marido ser viúvo e não solteiro

● E que a circunstância sobre a qual o erro versou tenha sido


determinante da vontade de contrair casamento, tanto objectiva como
subjectivamente.
Este erro tem de ser de tal maneira decisivo que se o erro não existisse e o
sujeito tivesse conhecimento exacto dessa circunstância, não teria querido
celebrar o casamento.
A existência do carácter determinante da circunstância sobre a qual o erro
versou deve aqui fazer-se todavia em termos particulares.
É então necessário que tenha sido determinante subjectivamente e
objectivamente.
● Subjectivamente
Não basta que o erro tenha sido determinante subjectivamente; não
basta que a circunstância sobre que recaiu o erro tenha sido essencial
para o nubente na determinação da vontade de contrair casamento, tem
de lhe acrescer uma essencialidade objectiva.

● Objectivamente
Ou seja, há-de ser legítimo, razoável, em face das circunstâncias do caso
e à luz da consciência social dominante, que na determinação da vontade
de casar tenha sido decisivo a circunstância sobre que versou o erro.
Não tem aqui a essencialidade objectiva função de índice ou meio de
prova da essencialidade subjectiva, tem verdadeiro relevo autónomo.
Esta exigência está igualmente consagrada no art. 1636º, segundo o qual
é preciso que se mostre que sem o erro, “razoavelmente”, o casamento
não teria sido celebrado.

● 1.1.11 Coacção
● O casamento também pode ser anulado com fundamento em coacção, nos termos do
art. 1638º do CC.
● Define-se coacção como o receio ou temor ocasionado no declarante pela cominação
de um mal, dirigido à sua própria pessoa, honra ou fazenda ou de um terceiro. É
exactamente em tal receio que se consubstancia como vício da vontade.

Tânia Belo - 62 -
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● É de salientar que o mal que se receia tem de ter sido cominado precisamente com
intenção de extorquir o consentimento do declarante que celebra assim o contrato
sob coacção (art. 255º, nº1).

● Condições gerais da relevância jurídica da coação:


● Se a coacção é exercida pelo outro contraente:

● A coacção deve ser essencial ou determinante da vontade e não meramente


incidental. É preciso que o negócio nunca tivesse sido concluído se não fosse
aquele receio.
● Tem de haver intenção de extorquir a declaração.
● A cominação deve ser injusta e ilícita.
Será justa se a ameaça se traduzir no exercício normal de um direito e
será injusta se se pretender obter uma vantagem desproporcionada ou sem
qualquer relação com o direito.

● Se a coacção é proveniente de terceiro


● Além dos três requisitos já referido exige a lei mais dois.
● Que seja grave o mal cominado e justificado o receio da sua consumação.

●Note-se porém, que a coação é relevante mesmo que ameaça vise interesses
patrimoniais, qualquer que seja a relação entre o ameaçado e o declarante coagido.

● 1.1.12 Anulabilidade por erro ou coação; seu regime


●Quando o casamento for prestado por erro ou coação e se verifiquem as
respectivas condições de relevância, o casamento é anulável (art. 1631º, al.b).
● A acção de anulação só pode ser intentada nos termos do art. 1645º e 1641º do CC
● Além disso, a anulabilidade é sanável mediante confirmação, nos termos gerais do
art. 288º.
● A declaração pode ser expressa ou tácita (art. 288º, nº3).

● 1.2 Capacidade
● 1§ - Generalidades

● 1.2.1 Conceito de impedimento matrimonial


● Além do consentimento o casamento exige como requisito de fundo a
capacidade;
● A matéria oferece igualmente muitas especialidades:
● A natureza própria do casamento faz com que sejam diferentes, o número
e de certa maneira a própria qualificação das incapacidades nupciais.
● As incapacidades nupciais não são as mesmas dos negócios jurídicos em
geral.

Tânia Belo - 63 -
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● O casamento tem por fim a constituição da família e plena comunhão


de vida entre os cônjuges e portanto pressupõe uma capacidade natural
que contende com interesses eugénicos, morais e sociais justificando as
incapacidades previstas no art. 1601º al.c) e art. 1602º, als. a) a d).
● É também em prol destes interesses que a lei determina a anulabilidade do
casamento (por incapacidade) em termos mais rigorosos (art. 1639º do CC),
uma vez que não se pretende proteger só os interesses do menor, mas o
interesse público.
● A lei pretende encorajar o casamento e promovê-lo e portanto não lhe
aplica algumas incapacidades dos negócios gerais, consagrando muitas vezes
para o caso do casamento leis imperfeitas que não consagram verdadeiras
incapacidades.
● No casamento existe uma averiguação prévia de capacidade matrimonial
● Sendo a anulação do casamento sempre um mal, a lei procura aqui, não só
salvar os efeitos já produzidos dos casamentos invalidamente celebrados,
como também atalhar preventivamente aquele mal, evitando que cheguem a
celebrar-se esses casamentos.
● Para tal, dá-se larga publicidade ao projecto de casamento visando que deste
modo que se alguém souber de alguma incapacidade a denuncie.

● É neste contexto que surge o conceito de impedimentos


matrimoniais
● São as circunstâncias que de qualquer modo, impedem a celebração do
casamento, que aquando de verificação o casamento não se pode celebrar, sob
pena de anulabilidade do acto ou de sanções de outra natureza.
● Os impedimentos não são propriamente incapacidades, mas as circunstâncias
onde elas se originam. São as causas das incapacidades ou das outras proibições
legais de concluir matrimónio. Tais incapacidades e proibições são os efeitos que
os impedimentos matrimoniais produzem antes do casamento se celebrar; depois
da celebração os impedimentos determinam a anulação ou outras sanções.
Ex: art. 1649º, 1650º do CC; 296º e 297º do CRCivil e art. 247º do CPenal.
● A apreciação dos impedimentos reporta-se ao momento da celebração do
casamento.
● É preciso não confundir incapacidades matrimoniais com incapacidades
conjugais. As primeiras dizem respeito aos impedimentos, isto é, àquelas
circunstâncias que uma vez verificadas impedem a realização do próprio
casamento. As segundas referem-se já aos efeitos patrimoniais e ocorrem já
após a realização do casamento (exemplo: há negócios que a pessoa deixa de
poder realizar depois de casado).

● 1.2.2 Classificações dos impedimentos matrimoniais

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● A regra geral da capacidade no âmbito do casamento está consagrada no art. 1600º


e traduz a tendência permissiva da lei para o casamento.
● No entanto há que ter em atenção os impedimentos matrimoniais previstos na lei,
dos quais se podem fazer várias distinções.
● A distinção mais importante é a que a lei faz nos arts. 1601º, 1602º e
1603º, assim os impedimentos podem ser dirimentes ou impedientes.
● Se conhecidos antes do casamento produzem o mesmo efeito, isto é, impedem a
sua realização.
● Se conhecidos depois do casamento:
● Se for impedimento dirimente
O casamento é anulável (art. 1631º, al.a)

● Se for impedimento impediente


Aplicam-se algumas sanções, mas nunca se põe em causa a validade do
casamento. Aqueles que são dispensáveis (art. 1609º do CC), podem ser
afastados mediante autorização.

● Classificação diferente é a que distingue entre impedimentos absolutos e


relativos
● Impedimentos absolutos
São verdadeiras incapacidades, filiam-se numa qualidade (ou deficiência) da
pessoa e impedem-na seja com quem for.
● Impedimentos relativos
São mais propriamente ilegitimidades, que se fundam numa relação da pessoa
de que se trata com outra ou outras e só lhe proíbem o casamento com essa ou
essas pessoas.
● O código define os impedimentos dirimentes podendo estes ser absolutos ou
relativos, respectivamente nos arts. 1601º e 1602º do CC.
● Os impedimentos impedientes absolutos e relativos encontram-se ambos
agregados no art. 1604º do CC.
● Outra classificação é a distinção entre impedimentos dispensáveis e não
dispensáveis
● Impedimentos dispensáveis
Admitem dispensa. Diz-se dispensa o acto pelo qual uma autoridade, atendo
às circunstâncias do caso concreto, autoriza o casamento nesse caso não
obstante a existência de determinado impedimento. É o caso dos impedimentos
impedientes. Ver art. 1609º, nº1 e nº2 e nº3 do CC. O processo de
dispensa está regulado no CRCivil, arts. 253 e 254º.

● Impedimentos indispensáveis
Não admitem dispensa.

● 2§ - Impedimentos dirimentes

Tânia Belo - 65 -
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● 1.2.3 Impedimentos dirimentes absolutos

● 1.2.3.1 Falta de idade nupcial


●O casamento é anulável se algum dos nubentes não tinha tingido ao conclui do
matrimónio a idade nupcial, isto é, a idade mínima que indicia suficiente maturidade
física e psíquica que a lei exige para que se possa celebrar casamento válido.
● Segundo o art. 1601º, al. a) é impedimento dirimente absoluto “ a idade inferior a 16
anos” seja qual for o sexo do nubente
●No que se refere à legitimidade para a acção de anulação e respectivos prazos,
regem os arts. 1639º e 1643º, nº1 al.a) (1ºP – prazo subjectivo e 2ºP – prazo
objectivo).
●Note-se porém que esta anulabilidade pode ser sanada nos termos do art. 1633º,
nº1, al.a).

● 1.2.3.2 Demência

● Art. 1601º al. b) do CC – Demência notória / interdição ou inabilitação


por anomalia psíquica
● Demência notória
● Demência para o direito civil, é simplesmente o mesmo que anomalia mental ou
psíquica, ou seja é qualquer anomalia psíquica, quer se projecte no domínio da
vontade ou da inteligência e que impeça o individuo de reger convenientemente
a sua pessoa e os seus bens.
● O fundamento deste impedimento tem por base interesses públicos, como
seja os de ordem social e eugénica e não interesses particulares. Pretende a
lei evitar a transmissão de determinadas doenças, evitando famílias que não
sejam sãs e úteis.
● No caso da demência notória importa fazer prova não apenas da demência,
mas também da data em que ela se manifestou.
● Como decorre das regras gerais, a demência só releva se já existia antes da
data em que o casamento foi celebrado, uma vez que a demência posterior não
é impedimento nem pode fundar uma acção de anulação, mas só uma acção de
divórcio ou separação judicial de pessoas e bens (art. 1718º, al.c)
● A demência implica notoriedade, sendo esta notoriedade deve aqui ser
entendida não nos termos do art. 257º, nº2, mas no sentido de tal demência
seja certa, inequívoca, não duvidosa, sendo este o sentido que a lei pretende
dar à al.b) do art. 1601º em virtude de se defender aqui interesses públicos e
não particulares.
● A questão dos intervalos lúcidos, deve ser encarada no sentido de que a
demência constitui impedimento à celebração do casamento mesmo durante
esses intervalos. Diverge aqui do direito canónico que admite a celebração do
casamento em intervalos lúcidos.

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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Interdição ou inabilitação por anomalia psíquica


● O impedimento de interdição ou inabilitação por anomalia psíquica só existe
desde a data do trânsito em julgado da respectiva sentença, sendo que essa
sentença deve fixar sempre que possível, a data do começo da incapacidade
(art. 954º do CPCivil), presumindo-se que a incapacidade já existia desde essa
altura.
● Assim, o casamento que tenha sido celebrado posteriormente à data que a
sentença tenha fixado como a do começo da incapacidade poderá ser anulado,
com fundamento no art. 1601º, al. b), sem que o requerente tenha de se fazer
prova da anomalia psíquica invocada.

● Acção de anulação com fundamento na b)


● Haja ou não sentença de interdição, encara a demência como estado permanente
ou habitual, não abrangendo no conceito os casos de demência acidental.
● Se o nubente, no momento da celebração não tinha consciência do acto que
praticava, o casamento é anulável por falta de vontade nos termos do art.
1635º, al.a), sendo o regime da anulabilidade o previsto no art. 1640º. E o
casamento será válido se a alteração das faculdades mentais não retirava ao
nubente a consciência do acto.
● Rege-se pelos artigos 1639º, 1643º al.a) e 1633º, nº1, al.b) do CC

● 1.2.3.3 Vínculo matrimonial anterior não dissolvido


● Art. 1601º, al. c)
● Visou a lei com este impedimento evitar a bigamia, assegurando protecção, no
plano civil, ao bem da unidade matrimonial, um dos caracteres essenciais do
casamento como estado.
● Quem for casado não pode pois contrair matrimónio sem que se ache dissolvido,
declarado nulo ou anulado o seu casamento anterior. Não interessa aqui a causa
de dissolução. E o facto de não ser necessário registo, sendo este obrigatório,
só acentua o carácter de impedimento dirimente absoluto.
● No que se refere à morte presumida deve-se ter em conta o preceituado no
art. 115º e 116º do CC. A morte presumida não dissolve o casamento (art. 115º),
facto que se compreende, dado a respectiva declaração pode ser requerida
por qualquer dos interessados a que se refere o art. 100º. O casamento só se
dissolverá se o cônjuge do ausente se fizer vale do art. 1781º, al.c) pedindo o
divórcio, nunca através do decorrer dos prazos fixados no art. 114º do CC.
● Não obstante o já referido, a declaração de morte presumida torna o casamento
dissolúvel, podendo o cônjuge do ausente contrair novo casamento dissolvendo o
primeiro pela celebração do segundo.
● Art. 116º do CC;
● Problema, já colocado é o de saber se constituirá impedimento o vínculo
matrimonial anterior entre os mesmo cônjuges que pretendam casar de novo um
com o outro. Nestes termos dá a lei resposta no art. 1589º, nº 1 e nº2

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● A acção de anulação com fundamento em impedimento do vínculo, como é


chamado, rege-se nos termos do art. 1639º, nº1; 1639, nº2; 1643º, nº1, al.c).
● No que concerne a este impediente há a considerar o art. 1643º, nº3, Note-se
que a lei não fala em acção de divórcio, mas antes em acção que pôs em causa a
validade do primeiro casamento (nulo para o casamento católico, anulável para
o casamento civil), o quer destrói todos os efeitos do primeiro casamento. Ou
seja, em caso de ser decretada a anulabilidade desse primeiro casamento, o
alegado bígamo deixará de o ser e desaparece o impedimento dirimente.

● 1.2.4 Impedimentos dirimentes relativos

● 1.2.4.4 Parentesco e afinidade


● Art. 1602º, al.a); 1602º, al.b) e 1602º,al. c)
● São estes os únicos vínculos familiares que constituem impedimentos dirimentes
relativos, devendo ter-se em conta o art. 1986º do CC;
● No que respeita ao parentesco, o fundamento de tal disposição legal trata de
proteger o valor da proibição do incesto, bem como de proteger todas as razões
de ordem ética, eugénica e social.
● No que se refere aos impedimentos de afinidade e adopção plena, são aqui
decisivas as razões de moral da família e o respeito pelas convenções sociais que
censurariam se fosse outro o preparo da lei.
● Note-se que estes impedimentos valem mesmo que a maternidade ou
paternidade não se encontre estabelecida (art. 1603º do CC), admitindo a lei que
a prova se faça nos termos do art. 245º e ss do CRCivil ou se o casamento tiver
sido celebrado, em acção de nulidade ou anulação do casamento.
● O reconhecimento do parentesco não produz qualquer outro efeito (art. 1603º,
nº1), o que constitui um claro desvio à regra da indivisibilidade do Estado, mas
tal só ocorre porque a lei admite que uma pessoa seja tida como filha de outra
só para efeito de não poder casar com ela.
● Art. 1603º, nº2 – faculta o recurso a meios ordinários para obter a declaração
de inexistência de impedimento.
● A acção de anulação rege-se pelo art. 1631º, al.a); 1639º, nº1; 1643º, nº1, al.c) do
CC

● 1.2.4.5 Condenação por homicídio


● Art. 1602º, al. d)
● Trata-se de uma sanção imposta ao autor do homicídio, embora não consumado,
homicídio que a lei suspeita tenha sido cometido com intenção de permitir o
casamento do agente com o cônjuge da vítima.
● O impedimento só existe a partir da data do trânsito em julgado da sentença,
no entanto como se frustraria tal objectivo se a sentença demorasse muito

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tempo admitiu o código um impedimento impediente de pronúncia por homicídio


nos termos do art. 1604º, al.f).
● Note-se porém que a lei só exige que o homicídio seja voluntário; não requer
que tenha sido praticado com essa intenção. No entanto que a condenação
por homicídio involuntário não constitui impedimento. Mas o impedimento vale
quando se trate de homicídio não consumado e portanto mesmo que tenha sido
só tentativa.
● A acção de anulação rege-se pelos arts. 1639º, nº1 e 1643º, nº1, al.b);
● 3§ - Impedimentos impedientes

● 1.2.8 Falta de autorização dos pais ou do tutor para o


casamento de menores
● Art. 1604º, al.a)
● Este impedimento refere-se aos menores de 18 anos, mas maiores de 16. Os
menores de 16 anos estão feridos de incapacidade de gozo em relação ao
casamento, constituindo a falta de idade núbil impedimento dirimente e não
simplesmente impediente.
● A autorização deve ser concedida pelos progenitores que exerçam o poder
paternal (1902º, nº1) ou pelo tutor (art. 149º do CRCivil), antes da celebração do
casamento ou no próprio acto da celebração.
● Art. 150º, nº1 do CRCivil e art. 149º, nº2 do CC.
● Art. 155º, nº1, al. b) e (150º, nº3 e 181º al.d) do CRCivil).
● Pode o menor pedir o suprimento da autorização para casamento que lhe seja
negada pelos pais em processo que segue nos termos do art. 255º e ss do
CRCivil.
● Se o menor contrair casamento sem autorização dos pais ou do tutor ou o
respectivo suprimento, não fica plenamente emancipado (art. 132º do CC), tendo
de se ter em conta o disposto no art. 1649º e 1678º, nº2 al.f) do CC

● 1.2.9 Prazo internupcial


● Art. 1605º
● As razões destes prazos encontram fundamento no tempus lugendi, um luto
imposto pelas convenções sociais (180 dias atribuídos aos homens) e no turbatio
sanguinis, ou seja, dissipar as dúvidas que poderiam suscitar-se sobre a
paternidade do filho nascido depois do 2º casamento (300 dias para a mulher) e
afastar uma possível presunção de paternidade errada (art. 1826º, nº1).
● No entanto a regra geral enunciado no art. 1605º, nº1, tem excepções, previstas
nos nº 2 a 5 do mesmo artigo, que se consubstanciam em reduções destes
prazos ou diferentes formas de contagem.
● Finalmente, aquele que contrair novo casamento sem respeitar o prazo
internupcial perde todos os bens que tenha recebido por doação ou testamento
do primeiro cônjuge (art. 1650º, nº1), sendo esta a única sanção que a lei comina
para a infracção do disposto na al.b) do art. 1604º do CC.

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● 1.2.10 Parentesco no 3º grau da linha colateral


● Art. 1604º,al.c) do CC
● Não podem assim casar tios com sobrinhas, nem tias com
sobrinhos.
● O impedimento é todavia dispensável (art. 1609º, nº1 al.a) e nº2 e
3)
● O processo de dispensa decorre nos termos do art. 253º e 254º
do CRCivil.
● Se não houver dispensa e o casamento se celebrar, o art. 1650º, nº2 comina a
sanção aplicável.

● 1.2.11 Tutela, curatutela e administração legal de bens


● Art. 1604º,al.d) e art. 1608º do CC
● A extensão do art. 1608º deixa claro que o impedimento não atinge só o tutor,
mas o curador ou administrador, mas também os seus parentes ou afins na linha
recta, irmãos, cunhados e sobrinhos.
● As razões deste impedimento são: por um lado para evitar que o tutor se exime
através do casamento na obrigação de prestar contas, exigindo-se assim que as
contas tenham sido prestadas e aprovadas; por outro lado pretende evitar que o
consentimento do até ai incapaz seja influenciado pelo ascendente que o tutor,
curador ou administrado exercia sobre ele, exigindo assim o decurso de um ano
sobre a cessação da tutela, curatutela ou administração.
● O impedimento pode ser dispensável nos termos do art. 1609º, nº1 al.b) e nº2 e
3) e arts. 253º e 254º do CRCivil.
● A sanção legal para a violação deste impedimento está prevista no art. 1650º,
nº2.

● 1.2.12 Vínculo da adopção restrita


● Art. 1604º,al.e) e art. 1607º do CC
● O impedimento pode ser dispensável nos termos do art. 1609º, nº1 al.c) e nº2 e
3) e arts. 253º e 254º do CRCivil.
● A sanção legal para o desrespeito deste impedimento está expressa no art.
1650º, nº2.

● 1.2.13 Pronúncia por homicídio


● O impedimento da condenação por homicídio plasmado no art. 1602º, al.d) só
existe a partir da data do trânsito em julgado da sentença, no entanto como se
frustraria tal objectivo se a sentença demorasse muito tempo admitiu o código
um impedimento impediente de pronúncia por homicídio nos termos do art.
1604º, al.f).

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● Nesta pronúncia deve-se ter em conta as disposições do código de processo


penal.
● Saliente-se que a lei não prevês qualquer sanção para o caso do casamento não
se celebrar o que poderá por em causa a criação desde impedimento.

● 2. Formalidades do casamento
● 2.1 Generalidades
● O casamento é um negócio formal ou solene. O formalismo negocial tem vantagens e
desvantagens
● Vantagens
● Defende as partes contra a sua leviandande ou precipitação;
● Obtém-se uma clara e completa expressão da vontade;
● Separam-se as condições e os termos definitivos;
● Facilita a prova da declaração negocial fugindo aos perigos da prova
testemunhal.

● Desvantagens
● Embaraça a conclusão válida dos negócios jurídicos;
● Obriga a delongas que causam incómodos e despesas;
● Pode haver lugar a injustiças, por não ficar válido o negócio que as partes
concluíram mas ao qual não deram a forma legal;

●A lei terá querido em acto de tanta responsabilidade e transcendência como é


o casamento, defender as partes Cintra a sua precipitação, aqui especialmente
perigosa.
● A particular natureza do acto matrimonial não consiste num documento escrito a que
sejam reduzidas as declarações dos nubentes, mas numa cerimónia, a cerimónia de
celebração do casamento, justificando assim o seu carácter de solenidade.
● A cerimónia civil terá sido imitada da religiosa, tendo o funcionário do Estado, uma
função semelhante ao ministro de casa religião.
●O intuito desta cerimónia consubstancia-se em vincar no ânimo dos nubentes a
importância e seriedade do acto, para gravar profundamente neles, a ideia de que se
trata de um passo decisivo e transcendente nas suas vidas.

● 2.2 Formalidades preliminares. Incidentes do processo


de casamento
●As formalidades a cumprir antes da celebração são várias e constituem um
encadeamento de actos, um “processo”, o chamado processo de casamento ou
processo preliminar de publicações, regulado nos arts. 134º a 177º do CRCivil e 1610º
e ss do CC, que tem como objectivo averiguar a existência ou não de impedimentos.
● Nos termos do art. 134º do CRC, a organização do processo preliminar compete
à conservatória de registo civil da área em que qualquer dos nubentes tiver

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domicilio. Trata-se de uma norma imperativa uma vez que pretendendo-se


averiguar a capacidade dos nubentes, deverá logicamente fazê-lo onde são
conhecidos;
● A primeira peça processual do processo preliminar é a declaração para casamento
que deve ser instaurada no respectivo processo (art. 135º do CRC) e deve conter
os elementos constantes do art. 136º do CRC e ser instruída com os documentos
previstos no art. 137º do CRC. Acresce que as partes não se vinculam pelo decurso
do processo, mas só quando dizem o “sim” perante o conservador.
● Segue-se a afixação do edital nos termos do art. 140º do CRC, que pode ser
substituída por um auto de inquirição nos termos do art. 141º, nº1 do CRC) e que
pretende publicitar a intenção dos nubentes em casar.
● Findo o prazo das publicações e efectuadas as diligências eventualmente
necessárias deve o conservador agir conforme o art. 143º do CRC, lavrando
despacho final a autorizar os nubentes a celebrar casamento ou a arquivar o
processo (art. 144º, nº1 do CRC e art. 1613º do CC).
● Embora o processo preliminar termine com o despacho final a ainda a
considerar alguns incidentes.
● Os nubentes podem querer celebrar casamento em conservatória diferente de
onde correu o processo preliminar (art. 146º, nºs 1, 2,4 do CRC)
● Pode tornar-se necessário obter dispensa dos impedimentos impedientes, nos
termos do art. 1609º, regendo-se este processo nos moldes enunciados no art.
253º e 254º do CRC.
● Finalmente podem ser denunciados impedimentos.
● A existência de impedimentos pode ser declarada nos termos do art.
1611º, nº2 e 3 do CC e 142º, nº1 e 2 do CRC.
● O processo de impedimento do casamento está regulado nos art. 245º a
252º do CRC.

● 2.3 Celebração do casamento


●Se o despacho final for favorável, o casamento deverá celebrar-se dentro dos 90
dias seguintes (art. 1614º do CC), no entanto o processo pode ser revalidado nos
termos do art. 145º do CRC.
● Art. 153º do CRC
● Art. 154º, nº3 do CRC
● A cerimónia da celebração está regulada no art. 155º do CRC

● 2.4 Registo do casamento


● O casamento é um dos factos que constituem objecto de registo civil (art.1, al.d) do
CRC.
●O registo do casamento reveste-se de grande importância, pois só através de
certidões dele extraídas (arts. 212 e ss do CRC) pode fazer-se prova do casamento
(art. 211º do CRC).
● Na realidade o registo só contende com a prova do casamento; sendo a única prova
legalmente admitida ao casamento (art. 1669º do CC e art. 2º do CRC).

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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

●O registo do casamento pode ser lavrado por inscrição (art. 52º al. e)) ou por
transcrição (art. 53º, nº1 al.b), c) e d), havendo ainda a considerar o caso do art. 179º
do CRC.
●No que se refere ao casamento civil é lavrado por inscrição no livro próprio da
conservatória.
●O assento de casamento deve ser lavrado, lido e assinado após o acto solene da
celebração (art. 180º do CC) e deve conter as menções do art. 181º do CRC.
●Inalterável (art. 62º do CRC, salvo os casos de vícios de registo), como qualquer
outro assento, pode todavia ser rectificado (art. 92º e ss do CRC).
● A omissão do registo de casamento só é possível nos termos do art. 83º, nº1, al.a ) do
CRC).
● O registo do casamento pode ser declarado inexistente, nulo ou cancelado.
● Importa ainda referir o princípio da retroactividade plasmado nos arts. 1670º, nº1 do
CC e art. 188º, nº1 do CRC, em que os efeitos do casamento não se produzem só ex
nunc, desde a data do registo, mas ex tunc, desde a data da celebração do acto.
● Os efeitos do registo do casamento constam dos arts. 1669º e 1670º do CC.

● 2.5 Casamentos urgentes


● Quando haja fundado receio de morte próxima de algum dos nubentes ou iminência de
parto, o casamento pode celebrar-se independentemente de processo preliminar de
publicações e sem intervenção do funcionário do registo civil (art. 1622º, nº1 do CC e
art. 156º CRC);
●Os casamentos celebrados nestas circunstâncias denominam-se urgentes e o seu
formalismo é muito simples.
● Caso o casamento não seja celebrado por um funcionário do Registo Civil ou ministro
da religião, tem de se ter em conta o disposto no art. 1590º do CC.
● As formalidades preliminares reduzem-se à proclamação a que se refere a al. a) do
art. 156º do CRC.
● À celebração refere-se a al.b) do art. 156º do CRC
● No que se refere ao registo dispõe o art. 156º, al.d) do CRC
● Deve lavrar-se nestes casamentos um assento provisório do casamento nos termos do
art. 157º e 158º do CRC.
● Nestes casos o processo de averiguações é posterior e não preliminar
● Se o “processo preliminar” já estiver organizado e concluído segue-se os termos do
art. 159º, nº3; se ainda não tiver ocorrido, deve organizá-lo o funcionário de modo a
estar concluído 30 dias após o assentimento provisório, para que se possa declarar
no despacho final se homologa ou não o casamento (art. 1623º, nº2 do CC e art. 159º,
nº1, 5 e 6 do CRC).
● As causas justificativas da não homologação estão referidas nos arts. 1624º do CC e
art. 160º do CRC.
●O casamento urgente não homologado é juridicamente inexistente (art. 1628º,
al.b) do CC. Embora a regra de que são inexistentes os casamentos celebrados
perante quem não tem competência funcional para o acto comporte a excepção dos
casamentos urgentes (art. 1628º, al.a), esta excepção só se concretiza se tiver

Tânia Belo - 73 -
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ocorrido homologação. Este é o único caso (casamento civil urgente) em que a nossa
lei exige a homologação do casamento.
● Note-se, contudo, que esta causa justificativa da não homologação prevista no artigo
1624º, nº1, alínea c) é aferida no momento da celebração do casamento; ou seja, um
impedimento superveniente não impede a homologação do casamento urgente, mas um
impedimento existente no momento da celebração e depois desaparecido, obsta a que
tenha lugar a homologação do casamento.
● Pode existir ainda a impossibilidade de transcrição de um casamento católico urgente
para casamento civil (art. 1657º, nº1 al.e)
●Os casamentos urgentes consideram-se sempre celebrados no regime da separação
(art. 1720º, nº1 al.a) do CC.

● 2.6 Casamentos de portugueses no estrangeiro e de


estrangeiros em Portugal – mais desenvolvimentos pg.
337 a 341.
●O casamento de portugueses no estrangeiro e de estrangeiros em Portugal está
regulado nos arts. 51º do CC e 161º e ss e 251º do CRC.

● 2.7 Casamentos civis celebrados por forma religiosa –


pg. 341 e 342.

● 3. Invalidade do casamento. Casamento putativo


● 3.1 Generalidades. Inexistência, nulidade e
anulabilidade
● A doutrina da invalidade, tem aspectos diferentes para a direito
matrimonial.

● 3.2 Inexistência do casamento

● 3.2.1 Como surgiu a doutrina da inexistência e razões que a


justificam
● A inexistência surgiu com fundamento em duas razões essenciais:
● O regime da anulabilidade não se mostra adequada aos casamentos portadores de
vícios mais graves, como sejam o casamentos entre pessoas do mesmo sexo ou em
que falta a declaração da vontade de um dos nubentes, até porque não pode ser
declarado oficiosamente pelo tribunal (art. 1632º do CC)

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● Os casamentos anuláveis mesmo nos casos mais severos produzem efeitos


putativos previstos no art. 1647º e 1648º do CC. Ora não parece razoável que seja
atribuída eficácia putativa a casamentos tão gravemente viciados.

● 3.2.2 Casos de inexistência


● Os casos de inexistência do casamento estão previstos no art. 1628º do
CC e reconduzem a três grandes hipóteses:
● Casamentos celebrados por quem não tinha competência funcional para o
acto: al. a) e b)
● Casamentos contraídos entre pessoas do mesmo sexo: al. e)
● Casamentos em que falta a declaração de vontade dos nubentes ou de um
deles: al. c) e d)

●Não é porém inexistente, nem sequer anulável, o casamento celebrado por


funcionário de facto (art. 1629º do CC). Entende-se por funcionário de facto
aquele que sem ter competência funcional para o acto, exercia publicamente as
correspondentes funções, salvo se os nubentes tenham conhecimentos desse facto.

● 3.2.3 Regime da inexistência


● O casamento inexistente não produz efeitos, nem mesmo putativos.
●A inexistência pode ser invocada a qualquer tempo, e por qualquer interessado,
independentemente de declaração judicial (art.1630º do CC).
● A inexistência pode ser reconhecida por sentença em acção que não seja intentada
para esse fim, pode ser invocada por via de excepção e declarada oficiosamente
pelo tribunal.
●Se, porém, o casamento estiver registado e a inexistência do casamento não
resultar do próprio contexto do registo, o registo do casamento não é inexistente
(art. 85º, nº1 al.a) e pode tornar-se necessária uma acção para ilidir a prova
resultante do registo (nº3). Acção essa que será de processo ordinário (art. 233º,
nº3 do CRC e art. 460º, nº2 do CRCivil), em que se peça a declaração de inexistência
do casamento e acessoriamente, o cancelamento do registo (art. 91º, nº1, al. b) do
CRC).

● 3.3 Anulabilidade do casamento

● 3.3.1 Casos de anulabilidade


● Os casos de anulabilidade são exclusivamente os do art. 1631º do CC

● 3.3.2 Regime jurídico da anulabilidade


● De um modo geral:
● Pode dizer-se que a anulabilidade não opera ipso iure, não sendo invocável para
qualquer efeito, judicial ou extrajudicial, enquanto não for reconhecida por
sentença em acção especialmente intenta para esse fim (art. 1632º do CC).

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● Além disso, a acção de anulação só pode proposta por certas pessoas (art.
1639º a 1642º do CC) e dentro de certos prazos (art. 1643º a 1646º do CC),
considerando-se sanada a anulabilidade a válido o casamento em determinadas
hipóteses (art. 1633º do CC).
● Não há porém um só, mas vários regimes de anulabilidade.
● Varia muito de caso para caso, o círculo das pessoas que podem intentar a acção
de anulação e o prazo dentro do qual lhes é permitido fazê-lo, e a possibilidade
de a anulabilidade ser sanada é admitida por lei em alguns casos mas não
noutros.
● Há na lei três tipos de regimes diferentes de anulabilidade, consoante os
interesses e vista:

● Há casos em que a lei prescreve a anulabilidade no interesse dos cônjuges


e suas famílias e também no interesse público. São os casos de casamento
contraído com impedimento dirimente em que tem de se aplicar o art. 1639º
e 1643º do CC.
Há todavia, dentro desta ampla esfera de casos, uma distinção a fazer:
● Quando o motivo da anulabilidade é temporário, admite aqui a lei
que a anulabilidade seja sanada (art. 1633º). É o que acontece quando é
contraído com os impedimentos previstos no art. 1601º do CC.
● Quando o motivo da anulabilidade é permanente, não admite a lei que
a anulabilidade seja sanada (art. 1633º a contrario) e esta pode ser
arguida em prazo muito mais longo. É o caso dos impedimentos referidos
no art. 1602º do CC.

● Pode também a anulabilidade ser estatuída no interesse público. É o caso do


art. 1631º, al.c) em que só o, Ministério Público pode intentar a acção dentro
de um ano posterior à celebração do casamento (art. 1646º do CC).
● Finalmente, há casos em que a anulabilidade és estatuída no interesse
particular de um dos cônjuges e só esse cônjuge pode então requerer a
anulação. São os casos do art. 1635º em que a anulabilidade se deve ter em
conta pelos arts. 1640º do CC e 1644º do CC.

● 3.4 Casamento putativo

● 3.4.1 Noção e razão de ser do instituto


●Declarado nulo ou anulado o casamento, os efeitos que este produziu até à
data da declaração de nulidade ou da anulação podem manter-se quando certos
pressupostos se verifiquem (má fé à 1827º do CC ou boa fé)
● O instituto está regulado nos arts. 1647º e 1648º do CC.
● Na verdade, em face do princípio da retroactividade da declaração de nulidade ou
anulação (art. 289º do CC), ao casamento declarado nulo ou anulado não se deveriam
atribuir quaisquer efeitos.

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Ex: Os filhos nascidos dentro do casamento, seria tidos como filhos fora do
casamento pelo que não se plica o art. 1826º do CC. Nenhum dos cônjuges poderia
invocar a emancipação que lhe atribui o casamento, etc.
● O instituto do casamento putativo visa evitar estes inconvenientes.
●Em face de uma união conjugal eu interessa à sociedade fazer cessar, é preciso,
mas basta, que ela cesse, não sendo necessário apagar os efeitos jurídicos que
produziu no passado, sendo certo que não podem apagar-se os efeitos que de facto
ela já produziu.

● 3.4.2 Natureza jurídica


● A questão da natureza jurídica do casamento putativo tem tido várias soluções na
doutrina, há quem fale de ficção de validade do casamento, quem considere que
é apenas uma excepção ao art. 289º e há ainda quem entenda que o casamento
putativo é uma instituição autónoma.
● É de facto esta última que defende o Guilherme de Oliveira, os efeitos putativos
têm a sua fonte exclusiva, não num acto jurídico, mas numa situação de facto,
resultante da errónea convicção da legalidade do vínculo.
●A lei, ao dizer que o casamento é nulo produz os seus efeitos jurídicos, exprime
a ideia de que os efeitos a produzir pelo casamento putativo são aqueles que
teria produzido o casamento se fosse válido, isto é, a lei determina os efeitos
do instituto por um processo indirecto, remetendo para os efeitos de uma outra
instituição.
●O casamento putativo é o facto material, que se releva pela aparência dum
casamento, e a que a lei atribui efeitos análogos ao desse acto.
● 3.4.3 Pressupostos
● A produção de efeitos putativos depende de três pressupostos:
● É necessária a existência de casamento. Se o casamento é inexistente, por
se verificar algumas das situações previstas no art. 1628º, não tem efeitos
putativos (art. 1630º, nº1 do CC).
● É preciso que o casamento tenha sido declarado nulo ou anulado (art. 1647º, nº1
e 3 do CC) ou casamento católico que não tenha sido transcrito: a invalidade do
casamento não opera ipso iure (art. 1632º) e, enquanto não for reconhecida por
sentença em acção especialmente intentada para esse fim, o casamento produz
todos os seus efeitos.
● O terceiro pressuposto é a boa fé dos cônjuges ou de algum deles, esta
é necessária para que o casamento produza efeitos para os cônjuges e
reflexamente para terceiros.
● A lei presume a boa fé dos cônjuges (art. 1648º, nº3) a qual, em princípio,
consiste na ignorância desculpável do vício causador da nulidade ou anulabilidade
(art. 1648º, nº1 - noção subjectiva). Considera igualmente de boa fé o cônjuge
cujo consentimento tenha sido extorquido por coacção (noção objectiva e
moral).

Tânia Belo - 77 -
Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● A boa fé dos cônjuges deve existir no momento da celebração do casamento, e


só nele é o que se conclui do art. 1647º do CC.
● Note-se por último, que, pertencendo ao direito civil, uma vez declarada
a nulidade do casamento católico pelos tribunais eclesiásticos, regular os
efeitos da nulidade e a eventual aplicação do casamento putativo é da exclusiva
competência dos tribunais do Estado o conhecimento judicial da boa fé (art.
1648º, nº2).

● 3.4.4 Efeitos

● 3.4.4.1 Princípio Geral


●Mantêm-se para o futuro, até ao momento da declaração de nulidade ou da
anulação (1647º nº1 e nº3 CC), os efeitos do casamento já produzidos, mas não se
produzem novos efeitos. Assim sendo, o casamento putativo produz efeitos até à
sentença como se fosse válido.
● Desde modo, a declaração de nulidade e a anulação só operam ex nunc (futuro) e
nunca ex tunc

● 3.4.4.2 Efeitos em relação aos cônjuges


● Há que distinguir três situações possíveis:
● Se os cônjuges estavam ambos de boa fé;
O casamento produz todos os efeitos entre eles até à data de declaração de
nulidade ou da anulação (art. 1647º, nº1);
Ex: Se A, casado com B, faleceu, sendo B herdeiro de A, e depois do
casamento entre A e B é declarado nulo ou anulado, o efeito sucessório já
produzido mantém-se. Outra aplicação do princípio: as alienações efectuadas,
p.ex, pela mulher sem outorga do marido putativo continuam a ser anuláveis
mesmo depois da declaração de nulidade ou da anulação do casamento.

● Se só um estava de boa fé;


O casamento inválido produz naturalmente, em relação a ambos os cônjuges)
os efeitos que forem favoráveis, concretamente ao cônjuge de boa fé (art.
147º, nº2).
Ex: Se A, casado com B, faleceu, e B foi herdeiro de A, o efeito sucessório
mantém-se se B era cônjuge de boa fé; a convenção antenupcial terá efeitos
se o regime estipulado beneficiar o cônjuge de boa fé (art. 1716º do CC)

● Se ambos os cônjuges estavam de má fé;


O casamento não tem eficácia putativa em relação a eles.

● 3.4.4.3 Efeitos em relação aos filhos

Tânia Belo - 78 -
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● Não há agora que distinguir entre boa fé e má fé dos cônjuges. Mesmo que estes
tenham contraído o casamento de má fé, a presunção pater is est aplica-se aos
filhos nascidos fora do casamento, nos termos do art. 1827º do CC

● 3.4.4.4 Efeitos em relação a terceiros


●O instituto do casamento putativo também visa proteger terceiros pelo que a
eficácia putativa deve estender-se igualmente a estes.
● Há que distinguir três situações possíveis:
● Se os cônjuges estavam ambos de boa fé;
O casamento inválido produz todos os seus efeitos em relação aos terceiros,
até ao trânsito em julgado da sentença de anulação do casamento civil ou a
averbamento da decisão do tribunal eclesiástico que declarou a nulidade do
casamento (art. 1647º, nº1 e 3)

● Se só um estava de boa fé;


● Tratando-se de relações que se estabeleceram entre os próprios
cônjuges que vão afectar terceiros.
Os respectivos efeitos “mero reflexo, relativamente a terceiros, das
relações havidas entre cônjuges (art. 1647º, nº2) produzem-se ou não
conforme sejam favoráveis ou desfavoráveis ao cônjuge de boa fé.
Ex: alienação de imóvel sem o consentimento do outro cônjuge

● Tratando-se de relações que se estabeleceram directamente entre


cada um dos cônjuges e terceiros mas que estejam dependentes do
estado pessoal de casado;
Não estando estas relações abrangidas pelo art. 1647º, nº2, o princípio a
aplicar deve ser o da invalidade, pelo que o casamento não produz neste
caso quaisquer efeitos. Tal razão justifica-se porque seria injusto que o
terceiro merecesse mais ou menos protecção porque esteja de má fé ou de
boa fé o cônjuge com quem contratou.

● Se ambos os cônjuges estavam de má fé;


O casamento não produz efeitos em relação a eles, e por conseguinte também
não produz efeitos em relação a terceiros.

● Divisão III – Casamento Católico – pág. 355 a 375

● Cap. II – Efeitos do casamento: O Casamento como


Estado

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● Estudar o casamento como acto é estudar os efeitos do


casamento.
●O estado de casado define-se precisamente em função dos efeitos que o casamento
opera.
●Uma pessoa casa e, depois, é juridicamente outra a condição da pessoa, bem como a
situação dos seus bens.

● Divisão I – Efeitos Pessoais


● 1. Generalidades
● 1.1 Observações prévias
● Os efeitos pessoais do casamento podem resumir-se assim: o casamento constitui a
família, impõe aos cônjuges um conjunto de deveres e tem efeitos sobre o seu nome e
nacionalidade.

● 1.2 Princípios fundamentais: igualdade dos conjugues e


direcção conjunta da família
●O artigo 1671º do CC enuncia os dois princípios fundamentais por que se rege a
matéria dos efeitos pessoais do casamento: o principio da igualdade dos direitos e
deveres dos cônjuges (nº1) e o da direcção conjunta da família (nº2).

● 1.2.1 Princípio da igualdade dos cônjuges


● É um princípio constitucional plasmado no art. 36º, nº3 da CRP
● Na verdade este artigo é um mero corolário do princípio geral do art. 13º, nº2, que
proíbe qualquer discriminação em razão do sexo. O homem e a mulher são iguais
perante a lei (art. 13, nº2) e não deixam de o ser pelo facto de serem casados um
com o outro (é este o alcance deste preceito).
● Acentua-se esta norma o art. 16º da DUDH e art. 12º CEDH
●O art. 36º, nº3 teve aplicação imediata (art. 18º da CRP) ferindo de
inconstitucionalidade as numerosas disposições legais em que o princípio da
supremacia do marido se reflectia.
●As únicas desigualdades que naturalmente subsistem são as que se fundam na
natureza biológica da mulher. Ex: art. 1605º, nº1

● 1.2.2 Princípio da direcção conjunta da família


● Está expresso no art. 1671º, nº2 do CC;
● É um corolário do da igualdade dos cônjuges. Se os cônjuges são iguais, a direcção
da família deve pertencer aos dois e não exclusivamente a um deles.
●No entanto, a compreensão deste princípio nos termos do CC, exige
alguns desenvolvimentos:

Tânia Belo - 80 -
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● É um preceito imperativo, e porquanto a direcção da família pertence a ambos


os cônjuges pelo que seria nulo o contrato em que estes acordassem em que esta
direcção ficasse a pertencer a um deles.
● A lei impõe aos cônjuges o dever de acordar sobre a orientação da vida comum,
tendo em conta o bem da família e os interesses de um e outro, considerando
inclusive que este é um dever pessoal dos cônjuges acrescido aos cinco previstos
no 1672º CC.
Ex: Violaria este dever o cônjuge que quisesse decidir por si em assunto da
vida matrimonial, recusando deliberadamente qualquer disposição para chegar a
acordo com o outro.
● O objecto do acordo sobre a orientação da vida em comum e só sobre ela; o
poder de executar a orientação acordada pertence a qualquer um deles.
Ex: repartição de recursos (o que se faz com o dinheiro); planeamento familiar
(filhos), residência familiar, etc.
● Fica aqui de fora a vida pessoal e privada do marido e da mulher, pode assim
cada um deles sem ouvir o outro vestir-se, pentear-se, escolher os amigos, a
religião ou a profissão (art. 1677º-D do CC) … como queira.
● O casamento não limita os direitos de personalidade dos cônjuges (opiniões,
pensamentos, direito à intimidade da vida privada), salvo o direito à liberdade
sexual em prol do débito conjugal.
● A igualdade tem o seu preço, e estando os cônjuges em desacordo sobre a
orientação da vida familiar, há que saber como se resolve este diferendo.
● O direito recusa em princípio, a intervenção judicial no âmbito das relações
pessoais, no entanto:
● Desacordo sobre a residência de família (art. 1673º, nº3);
● Desacordo sobre o nome dos filhos (art. 1875º, nº2);
● Desacordo sobre o Exercício do poder paternal (art. 1901º, nº2 do CC)

● 2. Deveres dos cônjuges


● 2.1 Princípios gerais
●Nos termos do art. 1672º do CC, estão os cônjuges vinculados pelos deveres de
respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência.
●São portanto absolutos (a falta de um dos cônjuges não desonera o outro) e
recíprocos (para ambos, não há hoje deveres próprios do marido ou da mulher).
●A violação culposa de qualquer destes deveres é causa de divórcio ou separação
judicial de pessoas e bens. Só relevando essa violação culposa quando pela sua
gravidade, comprometa a possibilidade de vida em comum (art. 1779º, nº1 do CC).
● Põe-se a questão de saber se a enumeração do art. 1672º é taxativa.
● A solução seria afirmativa se, se considerasse a “plena comunhão de vida” (art. 1577º
do CC). Mas não se vêem facilmente deveres que não estejam implícitos ou explícitos
no art. 1672º do CC.

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● O art. 1672º do CC é imperativos conforme resulta dos arts. 1618º, nº2 e 1699, nº1,
al.b), ou seja não é possível excluir convencionalmente nenhum deles.
● Mas a lei oferece por vezes a possibilidade de estes os cumprirem de modo diverso,
de acordo com os interesses e conveniências. Isto significa na prática que o conteúdo
dos deveres conjugais, ou de alguns deles, depende da conformação da relação dos
cônjuges (art. 1779º, nº2)

● 2.2 Dever de respeito


● O dever de respeito é um dever residual, isto é, são violações do dever de respeito
actos ou comportamentos (que sejam opostos às convenções sociais) que não
constituam violações directas dos outros deveres mencionados no art. 1672º do CC.
● O dever de respeito tem uma vertente positiva e negativa:
● Vertente negativa, implica non facere:
O dever que incumbe a cada cônjuge de não ofender a integridade física ou moral,
do outro, compreendendo-se na integridade moral, todos os bens ou valores de
personalidade, cuja violação, constituiria injúria em face da “Lei do Divórcio”.
Ex: Infringe o dever de respeito o cônjuge que maltrata ou injuria o outro;
o cônjuge que, reiteradamente, ridiculariza a religião que o outro pratica
ou a formação politica de que ele é fervoroso militante; o cônjuge que, sem
o consentimento do outro, introduz no lar conjugal filho concebido fora do
matrimónio; a mulher que, sem o consentimento do marido, recorre a técnicas
de procriação assistida com esperma de dador, ou, estando grávida de um filho
do casal, interrompe voluntariamente a gravidez; o marido que fez doação de
esperma sem o consentimento da mulher; entre outros.
É ainda o dever de cada um dos cônjuges não se conduzir na vida de forma
indigna, desonrosa e que o face desmerecer do conceito público.
Ex: embriaguez e droga ou crime difamante

● Vertente positiva, implica facere:


Ex: o cônjuge que não fala do outro; que não mostra interesse pela família;
desrespeito pela personalidade do outro.

● 2.3 Dever de fidelidade


● O dever de fidelidade obriga cada um dos cônjuges, a:
● Não cometer adultério, ou seja, a não ter relações sexuais (abrange a cópula
e o coito anal e oral) consumadas com pessoa de outro sexo que não seja o seu
cônjuge. As relações sexuais com pessoas do mesmo sexo podem caber aqui ou no
dever de respeito.
Note-se aqui que o dever de fidelidade não é só constituído pelo elemento
objectivo (relações sexuais consumadas) mas também pelo elemento subjectivo (a
intenção), só estes dois elementos juntos é que dão origem a divórcio.
● Não tentar sequer adultério. Este facto é assim uma conduta licenciosa ou
desregrada de um dos cônjuges nas suas relações com terceiro, a ligação
sentimental e a correspondência amorosa que mantém com ele. Este facto

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constitui também a violação do dever de fidelidade.


● 2.4 Dever de coabitação
● “Coabitar” não quer dizer apenas habitar conjuntamente, na mesma mesa, ou viver em
economia comum, mas viver em comunhão de leito, mesa e habitação.

● 2.4.1 Comunhão de leito

● O casamento obriga os cônjuges ao chamado “débito conjugal”.


●É uma limitação lícita do direito à liberdade sexual, no duplo sentido de que a
pessoa fica obrigada a ter relações sexuais com o seu cônjuge e a não ter relações
com terceiros. Esta limitação não resulta da união de facto.
● A recusa de consumar o casamento ou manter relações sexuais com o outro cônjuge
constitui violação do dever de coabitação e assim pode ser a causa de divórcio ou
separação de pessoas e bens.
● No entanto, só se viola este dever se não estiver em causa impotência ou doença,
se tal acontecer, não é justificação de divórcio o desrespeito da comunhão de leito.
A imposição de relações sexuais ao cônjuge doente pelo outro poderia constituir
violação do dever de respeito.

● 2.4.2 Comunhão de mesa

● A comunhão de mesa e a vida em economia comum é outro dos aspectos que se inclui
no dever de coabitação.

● 2.4.3 Comunhão de habitação

●De acordo com o princípio da igualdade dos cônjuges, são estes que devem de
escolher de comum acordo a residência da família, ou seja a terra ou o local onde
vão viver.
●Devem os cônjuges atender nomeadamente às exigências da sua vida profissional,
ao interesse dos filhos e à salvaguarda da unidade da vida familiar (art. 1673º, nº1
do CC).
● A residência da família é o lugar do cumprimento do dever de coabitação. Escolhida
a residência da família, ambos os cônjuges têm obrigação de viver aí, salvo motivos
poderosos em contrário (emprego temporário longe; injúrias - art. 1673º, nº2).
● Se a vida profissional determinar que por algo tempo um dos cônjuge não vida nesta
residência, não implica este facto que exista separação de facto (art. 1781º als.
a) e b)), se ambas tiverem os propósitos de estabelecer comunhão de vida quando
possível (art. 1782º, nº1)
● Art. 1673º, nº3;

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● 2.5 Dever de cooperação


● Importa para os cônjuges a obrigação de socorro e auxílio mútuos e a de assumirem
em conjunto as responsabilidades inerentes à vida da família que fundaram (art.
1674º do CC).
● Não se trata aqui de cada um ajudar o outro. Trata-se de que família é obra dos
dois, e ambos devem assumir em conjunto as inerentes responsabilidades.
Ex: O cônjuge que mostra um absoluto desinteresse pela saúde e pela educação dos
filhos não infringe apenas um dever em relação a estes, mas também um dever em
relação ao outro cônjuge, o dever de assumir em conjunto as responsabilidades.

● 2.6 Dever de assistência


●O dever de assistência compreende a obrigação de prestação de alimentos e a
obrigação de contribuir para os encargos da vida familiar.

● 2.6.1 Obrigação de prestação de alimentos

●Esta obrigação só tem autonomia em face da segunda quando os cônjuges vivam


separados. Se vivem juntos esta obrigação inclui-se no dever de contribuição para
os encargos da vida familiar.
●A lei em certas condições obriga cada um dos cônjuges a prestar alimentos ao
outro.
●Art. 1675º; aplicação analógica do art. 2016º para a al. c) do art. 1675º do CC;
2003º;2004º do CC; 399º e ss do CPCivil.

● 2.6.2 Obrigação de contribuir para os encargos da vida familiar


● Art. 1676º, nº1;
● O acordo sobre a repartição de tarefas é um dos mais importantes acordos sobre a
orientação da vida em comum a que os cônjuges estão obrigados (art. 1671º, nº2 do
CC);
●A violação grave ou reiterada desta obrigação é causa de divórcio ou separação
judicial de pessoas e bens (art. 1779º do CC).
● Art. 1676º, nº2 e nº3

● 3. Nome e nacionalidade
● 3.1 Nome
● Os efeitos do casamento quanto aos apelidos dos cônjuges estão regulados nos arts.
1677º a 1677º-C do CC.
● Regra geral: art. 1677º e art. 104º, nº2, al.d) do CRCivil

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● O art. 1677º pretende possibilitar aos cônjuges que o desejarem a adopção de um


nome comum.
● A faculdade de cada um dos cônjuges acrescentar aos seus apelidos do outro
costuma ser exercida na ocasião do casamento, mas a lei não impede que seja mais
tarde (art. 69º, nº1, al.j) do CC).
● Acrescente-se que casa um dos cônjuges pode adoptar o apelido do outro e
intercalar com os seus não sendo obrigatório que o apelido do outro cônjuge
conste no fim dos apelidos próprios.
● Excepções:
● Viuvez
Se declarar: Art. 1677-A e 1677º, nº2
Se não declarar: Art. 1677-A a contrario e art. 1677, nº1
● Separação judicial de pessoas e bens
Art. 1677º-B, nº1, 1ºP e art, 104º, nº2, al.d) do CRCivil.
● Divórcio
Art. 1677º-B 2º P
● 1677º-C
● 1677º-D

● 3.2 Nacionalidade
● Há que ter em conta o art. 3º e 8º da Lei da nacionalidade.
●O estrangeiro casado há mais de três anos com nacional português pode adquirir a
nacionalidade portuguesa mediante declaração feita no casamento (art. 3º, nº1 da Lei
da nacionalidade).
● Nos termos do nº2, a declaração de nulidade ou anulação do casamento não prejudica
a nacionalidade adquirida pelo cônjuge que o tenha contraído de boa-fé.

●O português que case com estrangeiro não perde por esse facto a nacionalidade
portuguesa, salvo se, tendo adquirido pelo casamento a nacionalidade do seu cônjuge,
declarar não quer ser português.

● Divisão II – Efeitos Patrimoniais

● 1. Efeitos patrimoniais do casamento independentes


do regime de bens
● 1.1 Administração dos bens dos cônjuges

● 1.1.1 Princípios gerais


● As regras sobre a administração dos bens do casal são imperativas;

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● Assim, os nubentes não podem convencionar regras diferentes, de acordo com a sua
conveniência (art. 1699º, nº1, al.c).
● Como se compreende, esta imperatividade não exclui que um dos cônjuges ceda ao
outro todos ou parte dos seus poderes sobre bens próprios ou bens comuns, desde
que o faça por mandato, que é livremente revogável (art. 1678º, nº2 al.g) e 1170º,
nº1)
●O legislador apenas quis proibir aqui a concessão de poderes em convenção
antenupcial, que vincularia o cedente até uma eventual revogação por mútuo
consentimento (se ela alguma vez existisse).

●O art. 1678º enuncia as regras gerais da administração de bens do


casal:
● Bens próprios
● Regra: Cada cônjuge administra os seus próprios bens (art.
1678º, nº1)
● Excepções: Cada um dos cônjuges pode administrar os bens próprios do
outro cônjuge. Em que situações:
● (1) Dos bens móveis, próprios do outro cônjuge, por ele exclusivamente
utilizados como instrumento de trabalho (art. 1678º, nº2, al.e);
● (2) No caso de ausência ou impedimento do outro cônjuge (art. 1678º,
nº2, al.f);
● (3) Quando o outro lhe confira, por mandato revogável, poderes de
administração (art. 1678º, nº2, al.g);

● Bens comuns
● Regra: Ambos os cônjuges são administradores do património comum (art.
1678º, nº3, 2º Parte).
● Excepções: O art. 1678º, nº2 atribui a cada um dos cônjuges a
administração exclusiva:
● (1) Dos porventos que receba pelo seu trabalho (al.a), embora os bens
sejam comuns por força do regime que vigora no casamento (cfr. Art.
1724º, al.a) e 1734º);
● (2) Dos seus direitos de autor (al. b), vale a observação da alínea
anterior no que concerne aos direitos patrimoniais de autor, uma vez que
os direitos pessoais são incomunicáveis e são administrados pelo titular
(art. 1733º, nº1, al.c), aplicado a todos os regimes que incorporem os
direitos de autor como património comum.
● (3) Dos bens comuns que levou para o casal a título gratuito e dos sub-
rogados em lugar deles (al.c)), bem como dos rendimentos advenientes
deles.
● (4) Dos bens que tenham sido doados ou deixados a ambos os cônjuges
com exclusão da administração do outro cônjuge, salvo se tratar de bens
doados ou deixados por conta da legítima desse outro cônjuge (al.d))

Tânia Belo - 86 -
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● (5) Dos móveis comuns por ele exclusivamente utilizados como


instrumento de trabalho (al.e) (cfr. 1681º do CC)
● (6) De todos os bens do casal, se o outro se encontrar ausente ou
impedido de administrar (al.f), por maioria de razão;
● (7) De todos os bens do casal ou de parte deles, se o outro cônjuge lhe
conferir por mandato revogável (al.g)), por maioria de razão;

● Art. 1678º, nº3 – Fora dos casos supracitados


● Regra:
● Actos de administração ordinária: cada cônjuge tem legitimidade para os
praticar;
● Actos de administração extraordinária: vigora a administração conjunta,
em que é necessário o consentimento de ambos os cônjuges

● 1.1.2 Especialidades da administração dos bens do casal:


poderes do cônjuge administrador. Responsabilidade pela
administração.
●Os poderes do cônjuge administrador vão além da mera administração (art.
1682º, nº2), abrangendo poderes de disposição dos móveis comuns ou próprios do
cônjuge administrador.
● No que toca à responsabilidade da administração:
● Nos casos em que o cônjuge tem o poder, por força da lei, de administrar bens
que não são seus (art. 1678º, nº2 al.a) a f)), o administrador não é obrigado a
prestar contas da sua administração e só responde pelos actos intencionalmente
praticados em prejuízo do casal ou do outro cônjuge (art. 1681º, nº1)
● Para além destes casos, os nº2 e 3 do art. 1681º estabelecem uma
responsabilidade ampla, sendo o administrador de bens comuns ou bens próprios
do outro cônjuge obrigado a prestar contas da sua administração dos últimos
cinco anos, por aplicação das regras de mandato (+art. 1161º, al.d);
● O administrador responde pelos actos e pelas omissões nos termos em que um
mandatário responde, nos termos gerais do incumprimento das obrigações. E
responde mesmo como possuidor de má fé (1681º, nº3). Isto é:
● Responde pela perda da coisa mesmo que tenha agido sem culpa (art. 1269º
do CC);
● Deve restituir os frutos que não colheu mas que um proprietário diligente
poderia ter obtido (art.1271º do CC);
● Perde em qualquer dos casos, as benfeitorias voluptuárias que tenha feito
(art. 1275º, nº2)
● No caso de se pedir responsabilidades a um cônjuge administrador, vai ser
necessário decidir se o crédito da indemnização é próprio ou comum:
● Se o dano indemnizado for um dano num bem próprio, o crédito será
incomunicável (art. 1733º, nº1, al.d)

Tânia Belo - 87 -
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● Se o dano indemnizado for um dano em bens comuns deve-se reconhecer um


crédito integral pertence ao património comum, reconhecendo ao cônjuge
autor a qualidade de defensor da comunhão, protege mais o património
comum, embora possa parecer estranho que o cônjuge lesado pague
indemnização no que diz respeito ao prejuízo total.
● O momento em que se pode pedir este crédito é o momento da partilha (art.
1697º do CC).
● Quando a administração seja ruinosa a ponto do cônjuge não administrador
correr o risco de perder o que é seu: pode pedir a simples separação judicial de
bens (art. 1767º e ss do CC).
● Art. 1680º do CC

● 1.1.3 Poderes do cônjuge não administrador


● Art. 1679º do CC
● Visam-se aqui apenas os casos de impedimento ou impossibilidade temporária,
ficando o cônjuge não administrador com poderes de administração mas só para
o efeito de poder requerer as providências a que se refere este artigo.

● 1.2 Ilegitimidades conjugais

● 1.2.1 Generalidades
●s restrições à livre actuação jurídica derivadas do casamento são
A
tradicionalmente designadas por incapacidades.
●No entanto, devem-se chamar ilegitimidades conjugais e não incapacidades, uma
vez que não são estabelecidas para cada um dos cônjuges, por se reconhecer que
ele é inapto ou menos idóneo, por causa do casamento, para governar a sua pessoa
e os seus bens, mas sim em vista de proteger o cônjuge e os interesses gerais da
família.

● 1.2.2 Ilegitimidades conjugais nos regimes de comunhão


● Cada um dos cônjuges não pode, sem o consentimento do outro:
● (1) Alienar bens imóveis, próprios ou comuns (art. 1682º-A, nº1, al.a))
● O simples contrato de promessa de alienação não carece de consentimento,
uma vez que só vincula o cônjuge que o realizou, o outro nunca poderá ser
obrigado a ressarcir qualquer espécie de dano.
● Não necessita de consentimento o empreiteiro que vende os apartamentos
que constrói, apenas precisaria de consentimento no caso da venda da
empresa de construção civil.
● (2) Onerar bens imóveis, através da constituição de direitos reais de gozo ou
de garantia, e ainda dar por arrendamento esses bens ou constituir sobre eles
outros direitos pessoais de gozo (art. 1682º-A nº1 al. a))

Tânia Belo - 88 -
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● A constituição de direitos como o usufruto, direito de superfície, etc. –


significa uma limitação pesada do uso e da fruição, que pode ser equivalente
em termos práticos, à perda do valor do bem; inclui-se aqui a proibição de
arrendamento, o comodato.
● (3) Alienar o estabelecimento comercial, próprio ou comum (art. 1682º-A, nº1,
al.b)
● O estabelecimento comercial é um bem móvel
● (4) Onerar ou locar o estabelecimento comercial próprio ou comum (art. 1682º-
A, nº1, al.b)
● A lei aplicou ao estabelecimento comercial as restrições que valem para a
oneração de imóveis, embora seja um bem móvel.
● (5) Alienar a casa de morada de família (art. 1682º - A, nº2);
● Protege o interesse da estabilidade da habitação familiar
● (6) Onerar a casa de morada de família através da constituição de direitos reais
de gozo ou de garantia, e ainda dá-la de arrendamento ou constituir sobre ela
outros direitos pessoais de gozo (art. 1682º-A nº2)
● Protege o interesse da estabilidade da habitação familiar
● (7) Dispor do direito de arrendamentos da casa de morada de
família - 1682º-B
● (8) Alienar os móveis próprios ou comuns, utilizados conjuntamente pelos
cônjuges na vida do lar (art. 1682º nº3 al. a)
● Esta utilização pode ser indispensável, útil ou até supérflua.
● (9) Alienar os móveis, próprios ou comuns, utilizados conjuntamente pelos
cônjuges como instrumento comum de trabalho (art. 1682º nº3 al. a);
● Protege o exercício da profissão de cada cônjuge
● (10) Alienar os seus bens móveis e os móveis comuns, se não for ele a
administrá-los (art. 1682º, nº2 e nº3 al. b);
● Este regime pressupõe a concessão de poderes de administração nos termos
do art. 1678º, nº2 do CC.
● 11) Repudiar heranças ou legados (art. 1683º, nº2)
● Este repudio significaria uma perda patrimonial equivalente a qualquer outra
perda económica.
● 1.2.3 Ilegitimidades conjugais nos regimes da separação.
● Nos regimes de separação, as ilegitimidades conjugais têm muito menor amplitude,
pois são restritas à prática dos actos mencionados supra, nos nºrs 5 a 10.
● A prática dos restantes actos é permitida a qualquer dos cônjuges.

●1.2.4 Consentimento conjugal: forma; possibilidade de


suprimento judicial; invalidade, por falta de consentimento
ou do respectivo suprimento, dos actos carecidos de
consentimento.

Os apontamentos a partir daqui pertencem à Soraia

Tânia Belo - 89 -
Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● 1.2.4.1 Consentimento Conjugal


● Forma
● O consentimento conjugal para a prática dos actos que dele legalmente
carecem deve ser especial para cada um desses actos – 1684º nº1. O que não
obsta a que o consentimento possa ser expresso ou tácito.
● O consentimento conjugal está sujeito à forma exigida para procuração –
1684º nº2, ou seja, à forma exigida para o respectivo negócio ou acto jurídico.
Porem o artigo 17º do Código do Notariado admite que a procuração revista
outras formas – 262º nº2 do CC. Normalmente é através da intervenção
simultânea dos dois cônjuges no negócio ou acto jurídico que o consentimento
é prestado.
● O efeito da autorização é o de evitar os actos que o outro cônjuge praticar,
no caso de não ter legitimidade para eles. Quando o outro cônjuge já
tinha legitimidade (ex: art. 1690º, nº1) o efeito da autorização é o de
responsabilizar o cônjuge que a concede.

● Possibilidade de suprimento judicial


● O art. 1684º, nº3 prevê a possibilidade de suprimento judicial.
● Esta possibilidade são serve quando o cônjuge pretenda praticar actos que
pode praticar validamente, ou actos que não lhe digam respeito.
● O suprimento é admitido no caso de “impossibilidade” e de “injusta recusa”.

● Invalidade
● Caso um cônjuge pratique actos para os quais carecia do consentimento do
outro, consubstancia uma ilegitimidade conjugal. As ilegitimidades, diferem
das invalidades, assim:

Invalidade Ilegitimidade

Prende-se com um vício Consiste numa circunstância


originário quanto à constituição ocorrida, aquando do nascimento
do negócio. do negócio que desconsidera
interesses da outra pessoa.

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● As ilegitimidades conjugais podem ocorrer:


● No regime de comunhão de bens: cada um dos cônjuges não pode sem
o consentimento do outro, praticar os actos previstos nos artigo 1682º/
2 e 3, artigo 1682º-A, artigo 1682º-B, artigo 1683º/2 CC, sob pena de
incorrer na pratica de uma ilegitimidade conjugal, susceptível de anulação,
nos termos do artigo 1687º CC.
● No regime de separação de bens: cada um dos cônjuges não pode sem o
consentimento do outro, praticar os actos previstos nos artigo 1682º/2 e
3, artigo 1682º-A/2, artigo 1682º-B CC, sob pena de incorrer na pratica de
uma ilegitimidade conjugal, susceptível de anulação, nos termos do artigo
1687º CC.
● Regime da anulabilidade
● Art. 1687º do CC
● A anulabilidade pode ser sanada conforme o art. 288º tendo a confirmação
de se reger pelos termos do consentimento conjugal.

● 1.3 Poderes dos cônjuges relativamente aos bens que


integram as várias massas patrimoniais

● 1.3.1 Poderes de disposição inter vivos

● 1.3.1.1 Quanto a bens imóveis


● Aplica-se o artigo 1682º-A CC, segundo o qual:
● Sendo o regime de comunhão
● A disposição de bens imóveis próprios ou comuns carece de consentimento,
nos termos do artigo 1682º-A/1 a) CC.
● Sendo o regime da separação
● Cada cônjuge tem legitimidade para actos de disposição sobre bens imóveis
próprios.

● 1.3.1.2 Quanto a bens móveis


● Aplica-se o artigo 1682º-A CC, segundo o qual:
● Sendo o regime de comunhão
● (1) Cada cônjuge tem legitimidade para praticar actos de
disposição sobre:
● Móveis próprios - artigo 1682º/2 CC
● Móveis comuns de que tenha administração - artigo 1682º/2 CC

● (2) Carece do consentimento, a pratica de actos de disposição


sobre:
● Móveis cuja administração pertença aos dois – artigo 1682º/1 CC

Tânia Belo - 91 -
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● Móveis utilizados por ambos na vida do lar ou como instrumento comum


de trabalho – artigo 1682º/3 a) CC
● Móveis pertencentes a um dos cônjuges, mas administrado pelo outro -
artigo 1682º/3 b

● Sendo o regime da separação


● Cada cônjuge pode dispor de bens móveis próprios, se os administrar, porém,
a alienação ou oneração de móveis utilizados por ambos na vida do lar ou como
instrumento comum de trabalho, carece de consentimento (artigo 1682º/3 a)

● 1.4 Responsabilidade por dívidas dos cônjuges

● 1.4.1 Dívidas da responsabilidade de ambos os cônjuges

●Existem dívidas cuja responsabilidade é de ambos os cônjuges, são as


mencionadas no artigo 1691º nº1 e 2, artigo 1694º/1 e 2/2ª parte CC. Por estas
dívidas, respondem os bens comuns, e subsidiariamente, os bens próprios dos
cônjuges, segundo o artigo 1695º/1 CC.
● Assim sendo, são da responsabilidade de ambos:
a. Dívidas contraídas pelos dois cônjuges ou por um deles com o consentimento
do outro;
b. Dívidas contraídas por qualquer dos cônjuges para ocorrer aos encargos
normais da vida familiar – dívidas pequenas, como vestuário, alimentação,
farmácia;
c. Dívidas contraídas na constância do matrimónio pelo cônjuge administrador e
nos limites do seu poder de administração, em proveito comum do casal;
Pode estar em causa um interesse material, económico, intelectual ou moral.
Tem de haver uma intenção subjectiva (em relação ao cônjuge) e objectiva (a
figura do homem médio) de proveito comum.
d. Dívidas contraídas por qualquer dos cônjuges no exercício do comércio;
e. Dívidas que onerem doações, heranças ou legados, quando os respectivos bens
tenham ingressado no património comum
f. Dívidas contraídas antes do casamento por qualquer dos cônjuges em proveito
comum do casal, vigorando o regime da comunhão geral de bens;
g. Dívidas que onerem bens comuns;
h. Dívidas que, nos regimes de comunhão, onerarem bens próprios, se tiverem
como causa a percepção dos respectivos rendimentos (impostos sobre o
rendimento).

● 1.4.2 Dívidas da responsabilidade exclusiva dos cônjuges

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● Existem dívidas cuja responsabilidade é de um dos cônjuges, são as mencionadas


no artigo 1692º, artigo 1693º nº1, artigo 1694ºnº2 1ª parte CC. Por estas dívidas,
respondem os bens próprios, e subsidiariamente, a sua meação nos bens comuns,
segundo o artigo 1696º/1 CC, contudo, podem ainda responder bens comuns,
segundo o artigo 1696º/2 CC, situação que implica uma compensação nos termos
do artigo 1697º/2 CC.
● São, então, da responsabilidade exclusiva de um dos cônjuges:
a. Dívidas contraídas por um dos cônjuges sem o consentimento do outro
b. Dívidas provenientes de crimes ou outros factos imputáveis a um dos
cônjuges
c. Dívidas que oneram bens próprios de qualquer dos cônjuges
d. Dívidas que oneram doações, heranças ou legados, quando os respectivos bens
sejam próprios.
● 1.4.3 Bens que respondem pelas dívidas de responsabilidade
comum
● O caso dos bens de um dos cônjuges responder por dívidas de responsabilidade
comum, está previsto no artigo 1697º nº1.

● 1.5 Termo das relações patrimoniais. Partilha


●As relações patrimoniais cessam com a dissolução, a declaração de nulidade ou
anulação do casamento – 1688º - ou com a separação de pessoas e bens – 1795º-A.
● Cessadas as relações patrimoniais entre os cônjuges, procede-se à partilha dos bens
do casal – 1689º.
● Cada cônjuge receberá na partilha os seus bens próprios e a sua parte no património
comum – 1689º nº1.

● 1.5.1 Separação dos bens próprios


● Em primeiro lugar tem de fazer-se a separação dos bens próprios de cada cônjuge.
Separam-se para que as operações seguintes incidam apenas sobre os bens comuns,
e estes sim, carecem de divisão.
●Excepcionalmente, esta separação torna-se mais relevante no caso de um bem se
tornar objecto de litígio.

● 1.5.2 Liquidação do património comum

● 1.5.2.1 Relacionamento dos bens comuns


● Inclui os bens e os direitos qualificados como comuns pelas regras do regime de
bens que vigorou durante o casamento, salvas as excepções dos artigos1719º e
1790º. Em princípio trata-se de uma simples descrição pacífica do activo comum.

● 1.5.2.2 Compensações

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● Implicam nada mais, nada menos, do que correcções.


● Durante o casamento, operam-se transferências de valores entre os patrimónios,
quer porque se utilizam verbas comuns para financiar obras num imóvel próprio,
quer porque se adquire a casa de morada de família com capital próprio de um dos
cônjuges sem se formalizar a sub-rogação real, entre outros.

● 1.5.2.3 Pagamento de dívidas


●Quanto às dividas dos cônjuges um ao outro, são pagas em primeiro lugar pela
metade do cônjuge devedor no património comum e, não havendo bens comuns, ou
sendo estes insuficientes, pelos bens próprios do cônjuge devedor – 1689º nº3.
●Estas dívidas podem nascer, designadamente, da responsabilidade civil por
administração de bens do outro cônjuge, intencionalmente prejudicial – 1681º nº1
– ou abusiva – 1681º nº3.
●O artigo 1689º nº2 dispõe acerca da satisfação do passivo relativamente a
terceiros.
●O património comum paga em primeiro lugar as dívidas comuns e só depois as
dívidas próprias.

● 1.5.3 Partilha
● A partilha faz-se em princípio segundo o regime de bens adoptados, mas a regra
comporta as excepções previstas nos artigos 1719º e 1790º.
●O 1719º permite aos esposados convencionar, para o caso de dissolução do
casamento por morte de um dos cônjuges quando haja descendentes em comum,
que a partilha dos bens de faça segundo o regime da comunhão geral, embora o
regime adoptado seja outro.

● 1.6 Contratos entre os cônjuges


● A lei estabeleceu alguns limites aos contratos entre os cônjuges:

● 1.6.1 Contrato de sociedade (art. 8º do CSComeciais)


●Dentro da mesma sociedade, só um dos cônjuges pode ter responsabilidade
ilimitada, ou, os dois com responsabilidade limitada.
●Hoje, é permitida a constituição de sociedades entre os cônjuges, bem como a
participação destes em sociedades, desde que só um deles assuma responsabilidade
ilimitada.

● 1.6.2 Doações – art. 1761º do CC

Entre casados 1762º - é nula a doação entre casados, se vigorar o regime da


separação de bens;

1763º - coisas móveis, só com documento escrito;

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1764º - só podem ser doados bens próprios;

1765º - pode ser revogado a todo o tempo

1766º - caducidade

Para 1753º - feita a um dos esposados, ou a ambos, em vista do seu


casamento casamento;

(esposados) 1756º - só podem ser feitas na convenção antenupcial, mas,


a doutrina admite uma escritura pública pré-nupcial (feita no
Notário)

1760º - caducidade: se o casamento não for celebrado dentre de 1


ano; casamento putativo

● 1.6.3 Compra e venda


● Conforme o artigo 1714º nº2, consideram-se abrangidos pelas proibições do numero
anterior os contratos de compra e venda (…) entre os cônjuges, porque se estas
vendas fossem validas, os cônjuges poderiam fazer um ao outro, sob a aparência
das vendas, verdadeiras doações.

● 2. Regimes de bens
● Chamam-se regimes de bens ao conjunto de regras cuja aplicação define a propriedade
sobre os bens do casal, isto é, a sua repartição entre património comum, o património
do marido e o património da mulher.

● 2.1 Casos de Regime Imperativo


●São apenas os das alíneas a) e b) no nº1 do artigo 1720º, que trata os casamentos
celebrados sem precedência do processo de publicações e por quem tenha
completado mais de 60 anos de idade.
● Só nestes dois casos pode fala-se de imperatividade absoluta, no sentido de que a lei
impõe aos nubentes, sem lhes oferecer alternativa, o regime de bens do casamento.

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● 2.2 Princípio da liberdade do regime de bens


● Art. 1698º - Liberdade de convenção
● Os nubentes portugueses gozam de grande liberdade, podendo:
● Criar um regime novo;
● Combinar os vários regimes tipo.
● Art. 1699º - Restrições

● 2.3 Regime supletivo


●É o regime que vale na falte de convenção antenupcial ou no caso de caducidade,
invalidade ou ineficácia da convenção, é o da comunhão de adquiridos – 1717º.

● 2.4 Convenção antenupcial


●Acordo entre os nubentes destinado a fixar o seu regime de bens. É um contrato
acessório do casamento. A celebração do casamento traduz assim a eficácia da
convenção antenupcial.

● 2.4.1 Princípios dominantes


● A convenção antenupcial baseia-se em dois princípios fundamentais.

● 2.4.1.1 Princípio da liberdade


●Os esposos podem fixar, na convenção, dentro dos limites da lei, o regime de
bens do casamento, quer escolhendo um dos regimes previsto no Código, quer
estipulando o que a esse respeito lhes aprouver. Mas não têm apenas a liberdade
de escolher o regime de bens, pode dizer-se que a liberdade lhes permite incluir
quaisquer negócios que possam constar de escritura pública, tanto de natureza
patrimonial como de natureza não patrimonial.

● 2.4.1.2 Princípio da Imutabilidade


●No que se refere a este princípio o artigo 1714º nº1 dispõe que fora os casos
previstos na lei não é permitido alterar, depois da celebração do casamento, nem
as convenções antenupciais nem os regimes de bens legalmente fixados.

● 2.4.2 Requisitos de fundo

●Capacidade – 1708º – tem capacidade para celebrar convenção antenupcial, quem


pode casar.
● Consentimento dos sujeitos

Tânia Belo - 96 -
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●Sujeição às regras gerais respeitantes à divergência entre a vontade e a


declaração e aos vícios da vontade;
● Possibilidade de fazer uma convenção.

● 2.4.3 Formalidades
●Nos termos do artigo 1710º, as convenções só são validas se forem celebradas
por escritura pública ou auto lavrado perante o conservador do registo civil, no
processo de publicações para o casamento (189º CRegCiv).
● Se as convenções se reconduzirem à estipulação de um regime tipo - pode
celebrar-se na própria Conservatória;
● Se se estipula um regime diferente - tem de ser outorgada escritura pública.

● Efeitos em relação a terceiros: 1711º/1.

● 2.4.4 Nulidade ou Anulabilidade


●As convenções antenupciais, como quaisquer outros negócios jurídicos, podem ser
inválidas, ou seja, nulas ou anuláveis, de acordo com as regras gerais. Só há que
ressalvar o disposto no artigo 1709º, no caso de ser celebrada por incapaz.

● 2.4.5 Caducidade
●Prevista no artigo 1716º. A convenção caduca se o casamento não for celebrado
dentro de um ano ou se este for declarado nulo ou anulado.

● 2.5 Regime de Bens

● 2.5.1 Regime da comunhão de adquiridos


●No regime da comunhão de adquiridos há ou pode haver bens comuns e bens
próprios de cada um dos cônjuges. Mas o regime distingue-se do da comunhão
geral, porque enquanto neste regime, em principio, são comuns todos os bens
dos cônjuges, presentes e futuros, no regime da comunhão de adquiridos só se
comunicam os bens adquiridos depois do casamento a título oneroso.

● 2.5.1.1 Casos em que vigora


● Como regime supletivo - aplicável na falta de convenção antenupcial;
(1717º)
● Nos casos de caducidade, invalidade ou ineficácia da convenção;
● Como regime convencionado – será rara a estipulação neste caso.

● 2.5.1.2 Natureza jurídica da comunhão


● Aqui convém saber de quem são os chamados bens comuns.
●Assim, os bens comuns constituem uma massa patrimonial a que, em vista da
sua especial afectação, a lei concede certo grau de autonomia, e que pertence
aos dois cônjuges, mas em bloco, podendo dizer-se que os cônjuges são, os dois,

Tânia Belo - 97 -
Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

titulares de um único direito sobre ela.

●2.5.1.3 Participação dos Cônjuges no património comum. A regra da


metade – Art. 1730º do CC
Composição das massas patrimoniais:

Bens próprios Bens comuns

- 1722º; - 1724º;

- 1723º; - 1726º

- 1726º; - Frutos e rendimentos dos bens


próprios e
- 1727º;
benfeitorias úteis feitas nesses bens.
- 1728º/1;
- bens móveis.
- 1729º -2163º

- bens considerados próprios por natureza,


por disposição legal ou por vontade das
partes.

● 2.5.2 Regime da Comunhão Geral


● Este regime é caracterizado, como o próprio nome indica, por uma comunhão geral
de bens, isto é, pelo facto de o património comum ser constituído por todos os
bens presentes e futuros dos cônjuges que não sejam exceptuados por lei (1732º).
Comunhão não é só de domínio mas também de posse e de administração.

● 2.5.2.1 Casos em que vigora


●O regime de comunhão geral vigora quando for estipulado pelos nubentes na
escritura antenupcial.

●2.5.2.2 Aplicação das disposições relativas à comunhão de adquiridos –


art. 1734º do CC

● 2.5.2.3 Composição das massas patrimoniais


● Bens próprios – art. 1733º do CC
● Bens comuns – art. 1732º do CC

● 2.5.3 Regime da Separação

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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

●Há agora uma separação absoluta e completa entre os bens dos cônjuges. Nos
termos do 1735º, cada um deles conserva o domínio e fruição de todos os seus bens
presentes e futuros, podendo dispor deles livremente.
●A separação não é só de bens mas também de administrações, mantendo os
cônjuges uma quase absoluta liberdade de administração e disposição dos seus bens
próprios.

● 2.5.3.1 Casos em que vigora


● Como regime imperativo – nos casos previstos no artigo 1720º nº1;
● Como regime convencional.

● 2.5.3.2 Composição das massas patrimoniais:

Bens próprios Bens comuns

- do marido - não há aqui bens comuns;

- da mulher - presunção de compropriedade dos bens


móveis – 1736º/1 e 2

● Cap. III – Modificação da relação matrimonial


● A extinção da relação matrimonial compreende três institutos: o instituto do casamento
“rato e não consumado”, a morte e o divórcio.
● Há que diferençar cuidadosamente a invalidade do casamento e o divórcio.
●No que se refere ao casamento católico, a proibição do divórcio levou a um
aprofundamento técnico das causas de invalidade.
● Pelo contrário, no casamento civil a abertura cada vez mais vasta concedida ao divórcio, a
nível do Direito e dos costumes, tem “permitido” um certo desprezo, a nível da prática e
da própria técnica, da invalidade do casamento.

● Divisão I – Simples separação judicial de bens


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● A simples separação de bens, ou simples separação judicial de bens, caracteriza-se, como


as palavras indicam, por ser uma separação restrita aos bens, que deixa imperturbados
os efeitos pessoais do casamento.
● Quanto às pessoas a relação matrimonial não se modifica, continuando os cônjuges a ter
direito de estar vinculados pelos deveres previstos no Código Civil. A relação matrimonial
só se modifica quanto aos bens.
●O instituto está previsto nos artigos 1767º a 1772º CC. Trata-se de uma providencia
concedida ao cônjuge que se achar em perigo de perder o que for seu pela má
administração do outro.
●Para que um cônjuge possa pedir esta separação devem verificar-se os
seguintes pressupostos:
● Que o cônjuge esteja em perigo de perder o que for seu, sendo que o conceito de
perigo não será muito fácil de precisar
● É necessário que o recorrente esteja em perigo de perder o que é seu desde que
sejam bens próprios ou bens comuns de que o outro cônjuge tenha a administração
● É preciso que o perigo de o autor perder o que é seu resulte da má administração do
outro cônjuge e não de quaisquer outras causas.

● Quanto aos efeitos


● Pode dizer-se que a simples separação de bens opera uma modificação do regime
de bens, do estado de casado, ficando os cônjuges, embora casados, no estado de
separados de bens – 1770º.

● Divisão II – Separação de pessoas e bens


●Na separação de pessoas e bens, como o próprio nome indica, implica a separação dos
bens e também a separação das próprias pessoas dos cônjuges. Assim, separados de
pessoas e bens, os cônjuges continuam a ser casados. Mas, porque são casados, nenhum
deles pode contrair novo casamento sob pena de bigamia.
● Existem hoje dois tipos de separação de pessoas e bens (tal como o divórcio), a litigiosa
e a por mútuo consentimento.
●As causas de separação litigiosa são as mesmas do divórcio litigioso, mandando
aplicar o artigo 1794º CC, os princípios dos artigos 1779º e 1781º CC, quanto ao divórcio
litigioso.
● Note-se, que, sendo as causas as mesmas, o autor que tenha decaído numa acção de
divórcio, não pode intentar uma acção de separação judicial de pessoas e bens com
o mesmo fundamento. Tudo se deverá passar, para efeitos de caso julgado, como se
ambas as acções tivessem o mesmo objecto.
●O processo de separação litigiosa é o mesmo do divórcio litigioso, regulado nos
artigos 1407º e 1408º CPC.

Tânia Belo - 100 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Uma vez intentada a acção de divórcio, ou a acção de separação judicial de pessoas


e bens, o réu pode reconvir, pedindo a separação judicial de pessoas e bens quando
tiver sido proposta a acção de divórcio, e vice-versa (artigo 1795º CC). Nos termos
do artigo 1795º/2 CC, se o pedido de divórcio proceder, a sentença decretará o
divórcio entre os cônjuges. Assim, se foi intentada a acção de separação judicial de
pessoas e bens e o cônjuge réu veio, em reconvenção, pedir o divórcio, a procedência
do pedido de separação implicará a pronúncia do divórcio contra um dos cônjuges.
●Também no que se refere aos requisitos e ao processo de separação por
mútuo consentimento, o regime aplicável a esta modalidade é o mesmo do divórcio por
mútuo consentimento (artigos 1775º a 1778º-A CC, e 1419º e seguintes CPC).
●Quanto aos efeitos, esta separação judicial de pessoas e bens afecta, não só as
relações pessoais entre os cônjuges, mas também o seu regime de bens.
●Quanto aos efeitos pessoais mantém-se o dever de fidelidade conjugal (artigos.
1795º-A e 1795º-A/3 CC). Sendo o dever de fidelidade conjugal um dos efeitos
essenciais do matrimónio, a simples modificação da relação matrimonial não deve revogá-
lo, sob pena de deixar de haver “verdadeiro” casamento. Mantêm-se também os deveres
recíprocos de respeito e de cooperação, embora, como é evidente, a separação dos
cônjuges leve ao seu afrouxamento.
Extingue-se a obrigação de vida em comum (artigo 1795º-A CC). Cessando também a
obrigação de assistência e mantendo-se o direito a alimentos (artigo 1795º-A CC).
No plano patrimonial, o artigo 1795º-A CC, dispõe que, relativamente aos bens, a
separação produz os efeitos que produziria a dissolução do casamento. Com efeito, o
casamento é compatível com a separação de bens entre os cônjuges. Para substituir
sob a sua forma mais simples, não e preciso que se mantenham quaisquer relações
patrimoniais entre os cônjuges.

● 1. Reconciliação dos cônjuges separados de


pessoas e bens e conversão da separação em
divórcio
● A separação judicial de pessoas e bens, mantendo o casamento só o nome, mas não nos
seus efeitos, é um estado inconveniente, não só pessoal mas também socialmente, que
deve terminar o mais depressa possível, ou pela reconciliação dos cônjuges, ou pelo
divórcio.
● Os cônjuges podem a todo o tempo restabelecer a vida em comum e o exercício pleno
dos direitos e deveres conjugais (artigo 1795º-C/1 CC). A reconciliação pode fazer-
se por termo no processo de separação ou por escritura pública, estando submetida a
homologação judicial, e só produzindo efeitos a partir da homologação (artigo 1795º-
C/2 e 4 CC). Quando tenha corrido os seus termos na Conservatória do Registo Civil, a
reconciliação faz-se por termo no processo de separação e está sujeita a homologação

Tânia Belo - 101 -


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do conservador respectivo (artigo 1795º-C/3 CC). Quanto a terceiros, os efeitos só


se produzem a partir do registo de sentença (artigos. 1669º e 1670º CC, aplicáveis por
força do artigo 1795º-C/3 CC).
●A lei faculta o pedido de conversão, porque considera que a separação é um estado
necessariamente transitório. Estabelece um prazo, por entender que os cônjuges
devem ter um prazo para reflectirem e eventualmente se reconciliarem, ou
amadurecerem a sua decisão de se divorciarem.
● O processo de conversão é regido pelo artigo 1417º CPC. Na falta de contestação,
ou se esta for julgada improcedente, será a separação convertida em divórcio.
● O divórcio assim proferido é, para todos os efeitos legais, equiparando ao divórcio
litigioso. A sua causa é aquela que deu lugar à separação.
● Nos termos do artigo 1795º-D/4 CC, a sentença de conversão não pode alterar o
decidido sobre a culpa dos cônjuges no processo de separação.
● Nos termos do artigo 1795º-D/3 CC, a lei permite que qualquer dos cônjuges peça a
conversão da separação em divórcio, independentemente do prazo fixado no n.º 1 do
artigo, se outro cometer adultério depois da separação.

● Cap. IV – Extinção da relação Matrimonial


● A extinção da relação matrimonial compreende três institutos:
● O instituto do casamento “rato e não consumado” o privilégio pauliano e o privilégio
petrino, exclusivos dos casamentos católicos;
● A morte;
● E o divórcio.

● A doutrina da extinção da relação matrimonial abrange, pois, a extinção por dissolução


(quando se dissolve) e a extinção por invalidação (quando é declarado nulo ou anulado).
Por agora tratamos só e dissolução.

● Divisão I – Princípios Gerais

● 1. Causas de dissolução
● As causas de dissolução admitidas, em geral, no direito português são a morte de um
dos cônjuges e o divórcio entre eles, cabendo à lei civil regular o respectivo regime
quanto aos seus requisitos e efeitos independentemente da forma do casamento.

● 2. A morte como causa de dissolução

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● A primeira das causas é a morte de um dos cônjuges; ou de ambos, pois podem morrer
os dois simultaneamente.
● No que respeita à morte presumida, como sabemos, a declaração de morte presumida
não dissolve o casamento, mas o cônjuge do ausente pode contrair novo casamento,
que por sua vez, com a sua celebração dissolve o anterior. Se o ausente regressar ou
houver notícia de que era vivo quando foram celebradas as novas núpcias, considera-se
o primeiro casamento dissolvido por divórcio à data da declaração de morte presumida
– ver artigos 115º e 116º do CC.

● Divisão II - Divórcio
● Entende-se por divórcio a dissolução do casamento decretada pelo Tribunal ainda
em vida de ambos os cônjuges, a requerimento de um deles ou dos dois, nos termos
autorizados por lei.

● 1. A questão do divórcio
● A questão do divórcio consiste em determinar qual é a solução melhor no caso de crise
do casamento.
● A resposta dos católicos é a negação do divórcio, assente o princípio da
indissolubilidade.
● Quanto ao casamento civil, na nossa sociedade parece difícil recusar a sua
dissolução pelo divórcio. A “questão do divórcio” estará assim ultrapassada.
● A favor do divórcio, apontam-se o direito à felicidade de cada um e a liberdade
humana. Como o casamento, diz-se, visa a felicidade de cada um dos cônjuges, a sua
extinção é a consequência normal da impossibilidade de se atingir esta felicidade.
● Depois, e dado que os cônjuges são adultos livre e responsáveis, dependerá deles, e
não da lei, determinar se querem contrair matrimónio e quando o querem extinguir.
● Contra o divórcio, dir-se-á que o casamento envolve também uma elevada dose
de responsabilidade, para com o próprio, o outro, os filhos e a sociedade. Pelo que
o divórcio, a admitir-se, deve conter os ingredientes necessários para obrigar os
cônjuges a reflectir e a assumir as suas responsabilidades. O casamento tem muito
de “solidariedade” que não se pode denunciar de ânimo leve.

● 2. Evolução Legislativa
● A história do divórcio divide-se em duas grandes épocas:
● A do Divórcio-sanção e, hoje, a do Divórcio constatação da ruptura do casamento,
com uma época intermediária, a do Divórcio-remédio.

● 3. Modalidades de divórcio
● Divórcio por mútuo consentimento
● Divórcio litigioso.

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● O primeiro é pedido por ambos os cônjuges de comum acordo. O segundo é o pedido por
um dos cônjuges contra o outro, com fundamento em determinada causa.

● 4. Característica do Direito do Divórcio


●O direito ao divórcio é um direito potestativo, pois se traduz no poder de produzir
determinado efeito jurídico na esfera jurídica de outrem, a dissolução do vínculo
conjugal. Embora, para produzir os seus efeitos, tenha de ser integrado por um acto
judicial.
● É um direito potestativo extintivo.
● É um direito pessoal, atribuído exclusivamente aos cônjuges. Nestes termos, não é
transmissível, quer entre vivos quer “mortis causa” (artigos 1785º/3 e 1787º CC).
● Além disso, o direito ao divórcio é um direito irrenunciável, quer em termos de
renúncia antecipada, quer por renúncia superveniente. Sendo interdita genérica ou
renúncia específica, a renúncia total ou renúncia parcial. A lei quer que os cônjuges
estejam sempre em condições de por termo a uma relação conjugal inviável. É bom
não confundir a renúncia ao direito de pedir o divórcio, proibida com o perdão.
O perdão pressupõe que o cônjuge, tendo tido conhecimento de um facto que
permitiria o divórcio, decidiu esquecer esse fato, reatando ou mantendo a vida em
comum.

● 5. Divórcio por mutuo consentimento


● 5.1 Noção e espírito do instituto
●O artigo 1773º CC, estabelece o recurso “directo” ao divórcio por mútuo
consentimento.
● O divórcio por mútuo consentimento vem regulado nos artigos 1775º seguintes CC e
nos artigos 1419º seguintes CPC.
● Esta modalidade de divórcio terá evidentemente uma causa, mas não revelada.
● Para além da existência do consentimento dos cônjuges, existem certos pressupostos
para que o divórcio seja declarado: os cônjuges têm de estar casados há mais de
três anos; tem de haver acordo sobre a prestação de alimentos ao cônjuge que deles
careça; sobre o exercício do poder paternal relativamente aos filhos menores e
sobre o destino da casa de morada de família.
● A exigência de um prazo mínimo de duração do casamento parece justificada.

● 5.2 O processo
●Apenas no caso de divórcio litigioso, na tentativa de conciliação ou em qualquer
outra altura do processo, os cônjuges acordarem em se divorciar é que o processo
é judicial; à parte deste caso, o processo de divórcio por mutuo consentimento é
administrativo.

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● O processo de divórcio por mútuo consentimento (artigos 1775º seguintes CC e 1419º


seguintes CPC) assenta do “desejo” de conciliar os cônjuges, se possível.
● Assim, na primeira conferência deverão estar presentes os cônjuges, e o juiz tentará
conciliá-los.
● Se a conciliação não for possível, o juiz advertirá os cônjuges de que deverão renovar
o pedido de divórcio após um período de reflexão de três meses, a contar da data da
conferência, e dentro do ano subsequente a essa data, sob pena de pedido ficar sem
efeito. A partir dessa data, fica suspenso o dever de coabitação, podendo qualquer
dos cônjuges requerer o arrolamento dos seus bens próprios e dos bens comuns.
●Perante a renovação do pedido de divórcio, o juiz designará dia para a segunda
conferência, em que haverá nova tentativa de conciliação. Se esta não resultar, será
proferida sentença que homologará os acordos entre os cônjuges.

● 6. Divórcio litigioso
●Litigioso diz-se o divórcio pedido por um dos cônjuges contra o outro e com
fundamento em determinada causa. Nisto se distingue do divórcio por mutuo
consentimento, que é pedido pelos dois cônjuges de comum acordo.

● 6.1 Divórcio-sanção, divórcio-remédio e divórcio-


constatação da ruptura do casamento
●O divórcio litigioso pode conceber-se como sanção, como remédio ou como simples
constatação da ruptura do casamento.

● 6.1.1 Divórcio-Sanção
●Qualquer dos cônjuges pode requerer o divórcio, dispõe o artigo 1779º CC, se
o outro violar culposamente os deveres conjugais, quando a violação, pela sua
gravidade ou reiteração, comporta a possibilidade da vida em comum (artigo 1779º/
1 CC).
●Na apreciação dos factos invocados, acrescenta o artigo 1779º/2 CC, deve o
Tribunal tomar conta, nomeadamente, a culpa que possa ser imputada ao requerente
e o grau de educação e sensibilidade moral dos cônjuges.
● A exigência de se levar em conta a culpa do requerente deve ser conexionada com o
artigo 1780º-a CC: tratar-se-á de culpa do outro cônjuge nos actos praticados pelo
faltoso; e não de violação culposa pelo outro cônjuge de deveres conjugais como
pode sugerir o artigo 1779º CC.
●O comprometimento da possibilidade de vida em comum deve ser aferido pela
existência ou não de separação de facto. Relevando, necessariamente, a separação
de facto a impossibilidade de vida em comum, transformará em causas de divórcio
factos que, de outro modo, pareceriam desprovidos de relevo suficiente; como
injurias “ligeiras”, violações menos graves do dever de cooperação, etc.
● O artigo 1779º/1, exige que a violação dos deveres conjugais seja culposa.

● 6.1.2 As causas do divórcio remédio

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● A ausência, sem que de ausente haja notícias, por tempo não inferior a quatro anos
(artigo 1781º-b CC), e a alteração das faculdades mentais do outro cônjuge, quando
dure há mais de seis anos, e, pela sua gravidade, comprometa a possibilidade de vida
em comum (artigo 1781º-c CC), são fundamentos do divórcio litigioso (artigo 1781º
CC). Trata-se de situações para as quais o único “remédio” é o divórcio.

● 6.1.3 Divórcio-constatação da ruptura do vínculo conjugal:


● A separação de facto por três anos consecutivos é fundamento de divórcio litigioso
(artigo 1781º CC e art. 1782º, nº1 e 2).
● A referência à inexistência de comunhão de vida como pedra de toque da separação
de facto, permite esclarecer certas situações que se deparam na doutrina e na
jurisprudência.
● Comunhão de vida, é a disponibilidade permanente de ambos os cônjuges, um para o
outro, em todos os aspectos da vida.
● A separação de facto não existe uma total destruição da comunhão de vida.
● O propósito de não restabelecer a comunhão de vida deve considerar-se resultante
de uma separação de facto, com alguma duração, sobretudo se os cônjuges
não habitam a mesma casa, ou, habitando-a o fazem por razões estritamente
económicas.

● 7. Outras considerações importantes


● Não pode obter divórcio o cônjuge que:
● Induzir o outro a praticar o acto que dê fundamento ao pedido ou
propositadamente criar circunstâncias para que tal aconteça

● Comportamento que não considere impeditivo o acto praticado da vida em comum


Ex: perdão expresso / tácito

● Legitimidade:
● Direito potestativo extintivo – um cônjuge instaura a acção o outro cônjuge tem
que se sujeitar;
● Direito pessoal – cônjuge ofendido;
● O seu representante legal com autorização do conselho de família – excepto se o
representante legal for o outro cônjuge;
● A acção pode ser continuada pelos herdeiros do autor para efeitos patrimoniais;
● Direito irrenunciável – artigo 1780º, nº2.

● Caducidade:
● Dois anos a contar da data do conhecimento do facto – artigo
1786º, nº1
● Facto continuado – a partir da sua cessação

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Ex: relação extra-conjugal durante e após

● 8. Efeitos do divórcio
● 8.1 Data a partir da qual se produzem os efeitos do
divórcio
● Art. 1789º, nº1, nº2, nº3 do CC

● 8.2 Termo da Comunhão. Partilha dos bens do casal.


Casa de morada de família.
● O principal efeito patrimonial do divórcio é a partilha dos bens do casal, nos termos
do regime de bens do casamento.
● Art. 1790º CC.
● Assim, se os cônjuges forem casados no regime de separação de bens ou comunhão de
adquiridos, aplicar-se-ão as regras decorrentes do regime de bens do casamento.
●Mas, se o regime convencionado for da comunhão geral, terá lugar o disposto no
artigo 1790º CC. O cônjuge declarado único ou principal culpado, não terá direito
a meação dos bens que seriam próprios no outro cônjuge se o regime estabelecido
fosse o da comunhão de adquiridos. Porém, o cônjuge inocente, terá direito a metade
dos bens próprios do outro cônjuge, e a metade dos bens adquiridos a título oneroso
depois do casamento.
● O artigo 1793º, nº1 CC
● O interesse dos filhos do casal só será ponderado se estes forem menores. Se forem
maiores, passarão a ser, neste sentido, estranhos à partilha dos bens e a atribuição
da casa da morada da família, devendo as suas necessidades ser consideradas só
através da prestação de alimentos.

● 8.3 Perda dos direitos sucessórios


● O cônjuge sobrevivo é herdeiro legitimário e legítimo do cônjuge falecido, nos termos
dos artigos 2132º segs., e 2157º segs. CC.
● Contudo, há que ter conta o disposto no art. 2133º/3 CC.

● 8.4 Perda dos benefícios


● Art. 1791º, nº1 do CC
● Pelo contrário, o cônjuge inocente ou que não seja o principal culpado, conserva todos
os benefícios recebidos ou que haja de receber do outro cônjuge ou de terceiro,
ainda que tenham sido estipulados com cláusula de reciprocidade. Pode renunciar
a esses benefícios por declaração unilateral de vontade mas, havendo filhos do
casamento, a renúncia só e permitida a favor destes (artigos 1791º/2, 1766º/1-c CC).

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● Para além das doações, caducarão também as liberalidades de uso feitas por um dos
cônjuges ao outro desde o momento que o seu valor ultrapasse o valor normal das
liberalidades entre pessoas estranhas.

8● .5 Efeitos do casamento mesmo depois do divórcio:


Obrigação de indemnizar
● O artigo 1792º CC.
● Note-se que não se tratados danos não patrimoniais causados ao outro cônjuge, pela
violação dos deveres conjugais.
● Também não se trata da indemnização pelos danos não patrimoniais causados por um
cônjuge ao outro, independentemente do estado de casado: das agressões físicas,
das injúrias, etc. Esta indemnização está sujeita às regras gerais da obrigação de
indemnizar.
●Estão em causa os danos não patrimoniais causados por um dos cônjuges ao outro
com o divórcio, com o facto de ter dado causa ao divórcio ou de o ter pedido com
fundamento na alteração das faculdades mentais do outro.
 
● 8.6 Prestação de alimentos
●O artigo 2016º CC, dispõe as regras do direito a alimentos em caso de divórcio e
a separação judicial de pessoas e bens, tendo assim de relevar todo o conteúdo do
artigo.
● O dever de alimentos deve durar só durante um curto período transitório. Durante
o período necessário para a adaptação do ex-cônjuge mais necessitado, a uma vida
economicamente independente, em que é a sua responsabilidade a angariação dos
meios necessários à sua subsistência.
● A regra geral sobre a medida dos alimentos está fixada no artigo 2004º CC.
● Os alimentos a prestar não visam colocar o ex-cônjuge alimentando ao nível de vida
em que esteve casado. O casamento extingui-se, e com ele o estatuto patrimonial
de cada um dos cônjuges, dele dependente. Os alimentos visam, sim, garantir ao
cônjuge alimentando, durante o espaço de tempo que indicado, a satisfação das
suas necessidades de modo condigno, em termos dependentes das possibilidades do
obrigado.
●Se os filhos são maiores, não terá se de levar em conta o tempo que os cônjuges
terão de dedicar à criação de filhos comuns…por estarem criados.
●Resuma-se: os alimentos serão concedidos durante um prazo intercalar, entre a
extinção do casamento e a retomada da actividade económica normal pelo cônjuge
alimentando; prazo necessariamente curto. Estes alimentos não visam colocar o
cônjuge alimentando no nível de vida que tinha enquanto casado, mas unicamente
garantir-lhe a satisfação das suas necessidades, embora de modo condigno.
●O artigo 2013º contém os motivos de cessação da obrigação de alimentos entre
cônjuges e ex-cônjuges.
 

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● 8.7 Efeitos em relação aos filhos


● Art. 1905º do CC
● O poder paternal é exercido pelo progenitor a quem o filho foi confiado (artigo 1906º
CC).
●Quanto ao direito a alimentos que assiste aos filhos menores, a medida deste está
sujeita às possibilidades de quem o presta e às necessidades de quem o exige.
Se os filhos viverem com um dos ex-cônjuges, terão direito a exigir do outro só
o necessário para suprir às suas despesas de educação, alimentação, vestuário,
etc., não podendo ser tomado como referência o nível de vida que tinham antes do
divórcio.

● Parte VII – Direito da filiação

● 1. Noções Fundamentais
● Conjunto das normas jurídicas que regulam as relações paterno-filiais e
materno-filiais. Trata-se da mais importante relação de parentesco.
● O Estado tem grande interesse na socialização dos novos membros da sociedade
e cada vez mais intervém neste domínio. No entanto, são os pais que tem um primeiro
direito (é um poder-dever) de educar os filhos. Este direito deve ser exercido no
interesse dos filhos. Aí a intromissão do Estado no sentido de fiscalizar se esse poder-
dever é exercido no interesse dos filhos (artigo 36º, nº6 da CRP).
● As relações de filiação distinguem-se das relações de adopção, na medida
em que as primeiras se baseiam no vínculo biológico ao passo que as segundas se
reconduzem a um vínculo sociológico. Distinguem-se igualmente do direito dos menores
e ainda do direito de tutela.
● Os princípios constitucionais relativos ao direito da filiação são os seguintes:
direito a constituir família (artigo 36º, nº1), a atribuição aos pais do poder-dever
de educar os filhos (artigo 36º, nº5 ), não discriminação dos filhos nascidos fora
do casamento (artigo 36º, nº4), protecção da maternidade e da paternidade (artigo
68º) e protecção da infância (artigo 69º). Convém notar que a não discriminação
dos filhos nascidos fora do casamento não implica, necessariamente, uma igualdade
de tratamento por completo: veja-se, por exemplo, a presunção de paternidade na
constância do casamento e fora do casamento (artigos 1901º e 1911º).

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● 2. Princípios do Direito da filiação


● Os princípios do direito de filiação são:
● Abertura à vertente biológica
Ao contrário do que sucedia anteriormente, facilita-se hoje a impugnação da
paternidade presumida; a lei deixou de ter o intuito principal de proteger a
sociedade, por via duma “hipócrita” organização familiar, para dar lugar a uma “ratio”
que se reconduz à sobrevalorização do interesse do sujeito em ter acesso à verdade
biológica (saber quem são os seus pais biológicos).
A lei põe limites a este princípio, nos termos do art. 1866º al.c); 1839, nº3 e 1857º,
nº1

● Igualdade de tratamento dos filhos nascidos dentro e fora do casamento

● O interesse superior do filho


Este interesse deve relevar quanto a três situações concretas: qual dos progenitores
fica com a guarda do filho, nos casos previstos no artigo 1905º, nº1; em que termos
deve ser salvaguardado o direito de visita do progenitor a quem não tenha sido
confiada a guarda do filho, conforme preceitua o artigo 1905º, nº2; a escolha do
nome próprio, nos termos do artigo 1875º, nº2.

● O direito da filiação comporta dois capítulos:


● Estabelecimento da filiação – arrt. 1796º e ss
● Efeitos da filiação
● Conteúdo do poder paternal – art. 1874º e ss
● Exercício do poder paternal – art. 1901º e ss
● Suprimento do poder paternal – art, 1921º e ss

● Art. 1796º do CC
● Contém os alicerces do sistema de filiação.

● A paternidade e a maternidade são factos biológicos a que a lei dá relevância


jurídica, divergindo no entanto no modo da sua prova:

● Estabelecimento da maternidade – art. 1796º, nº1


● Estabelecimento da paternidade – art. 1796º, nº2

● O nosso direito distingue a filiação e o reconhecimento.


● Quanto à mãe, a lei adoptou inequivocamente o sistema da filiação.
● Quanto ao pai, sendo marido da mãe, a lei adoptou, igualmente, o sistema da
filiação;
● Quanto ao pai de filho de mãe não casada, já o sistema escolhido é o do
reconhecimento.

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● Na filiação (art. 1796º e ss), basta provar o nascimento para que se


estabeleça o vínculo jurídico da filiação.
● No reconhecimento (1847º e ss), além do nascimento, é necessário
estabelecer o vínculo, quer voluntariamente, quer por via de recurso à
investigação.

● No estabelecimento da filiação há que ter em atenção:


● Art. 1797º - Atendibilidade da filiação
● Nº1
O estabelecimento da filiação significa a jurisdição do vínculo natural que, só por
si, é irrelevante: a filiação biológica carece sempre de ser convertida num vínculo
jurídico (registo). Somente assim, serão atendíveis os poderes e os deveres
emergentes da filiação.

● Nº2
O estabelecimento da filiação tem efeitos retroactivos, ou seja, o legislador
aceitou claramente o carácter simplesmente declarativo, e não constitutivo, do
estabelecimento da filiação: a filiação jurídica recua ao tempo em que começa a
filiação biológica.

● Art. 1798º - Momento da concepção


● Este artigo é a regra,
sendo que as excepções são
enumeradas nos artigos ss.
● A lei estabelece a data da concepção em qualquer dos dias de um “período legal”,
sendo os dias todos equivalentes, para este efeito.
● O período legal, por sua vez, é determinado a partir do nascimento do filho, com
base na duração mínima e máxima da gravidez.
● Este período legal de concepção está desdobrado em três presunções:
● Que a gravidez não durou menos de cento e oitenta dias
● Nem mais de trezentos dias
● E que a concepção pode ter ocorrido em qualquer um dos
cento e oitenta dias.

● Interesse na fixação do momento de concepção


(principais motivos):

● Presunção de paternidade (artigo 1826º),


● Tipo de impugnação adequada (artigos 1828º, 1839º e 1840º),
● Provar presunção de paternidade dos filhos nascidos fora do casamento
(artigo 1871º, nº1, alíneas c) e d),
● Ajuizar da validade da perfilhação do nascituro (artigo 1855º),
● Capacidade sucessória (artigo 2033º),
● Administração de herança (artigo 2240º, nº2).

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● Art. 1799º - Gravidez anterior


● Neste caso já não se aplica a presunção do artigo 1798º,
nº1.

● Art. 1800º - Fixação judicial da concepção


● Este modo de resolver a necessidade de encontrar o momento da concepção
é prático e garante a certeza jurídica mas pode ser evitado pelos mecanismos
correctores que o artigo 1800º estatui.
● Este artigo vem precisamente temperar a aplicação rígida do artigo 1798º; é
assim possível adequar a lei à verdade biológica de cada caso.
● Deste modo, as presunções atrás citadas a propósito do artigo 1798º podem ser
ilididas (presunções iuris tantum).

● Art. 1801º - Exames de sangue e outros métodos científicos


● Os meios de prova admitidos nas acções relativas á filiação

● 3. Estabelecimento da Filiação
● 3.1 O estabelecimento da maternidade
● Art. 1796º, nº1

● Este preceito legal visa vincar a total sujeição da lei ao facto biológico da
maternidade, que é reconhecido pura e simplesmente (uma vez que é ostentivo), e
retirar à mãe qualquer possibilidade de impedir a constituição do estado.
● Com efeito, a mãe não “perfilha”, não manifesta qualquer vontade de admitir o
filho, nem pode rejeitar o facto da maternidade

● O estabelecimento da maternidade pode observar quatro regimes


diferentes, a saber:

● 2.1.1 Regime Regra


● Art. 1803º - Menção da maternidade
● Possui três requesitos:
● A declaração de nascimento;
● A identificação da mãe do registando
● Registo

● A declaração de nascimento compete, obrigatória e sucessivamente, às


pessoas indicada nos artigo 97º, nº1 do CRC e deve ter lugar no prazo de vinte
dias em qualquer conservatória do registo civil, nos termos do artigo 96º do CRC e
dentro do prazo de uma ano, conforme estabelece o artigo 1804º, nº1.

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● O declarante do nascimento tem o dever jurídico de identificar a mãe


sempre que essa identificação lhe for exigível; isto é, sempre que tiver elementos
que lhe permitam fazer um juízo seguro sobre quem é a mãe e saiba designá-la.
O declarante deve fazê-lo ainda que ela se oponha, permitindo assim a lei que o
interesse público e o do filho prevalecem sobre os da mãe.
● A menção da maternidade terá relevo jurídico diverso consoante se refira
o nascimento ocorrido há menos de um ano ou há mais de um ano (art. 1804º do
CC).
● A indicação da maternidade feita nos termos destes artigos 1803º e
1804º, poderá ser objecto de impugnação nos termos do art. 1807º do CC.

● 2.1.2 Declaração tardia


● Art. 1805º do CC e 99º do CRC
● A lei parte do princípio de que todos os legitimados para fazer declaração de
nascimento são declarantes “qualificados” e não vão mentir sobre tal assunto.
● A questão que se levanta é a do tempo que pode mediar entre o nascimento
e a declaração: se igualou ou ultrapassou um ano, o legislador suspeita ou sente
necessidade de confirmar a declaração, para não se correr o risco de a declaração
ser errada e o meio de controlo previsto pelo artigo 1807º não funcionar por se ter
perdido, eventualmente, a frescura das provas. Há então que ter em conta o nº1, 2,
3 e 4 do art. 1805º do CC
● Com efeito nos casos em que a maternidade não fica estabelecida, segue-se, nos
termos dos artigos 1808º e ss, a averiguação oficiosa.
● A tentativa de confirmação pela mãe exprime somente uma cautela especial do
legislador que quer evitar declarações falsas cuja impugnação poderia tornar-se um
pouco difícil pois que, na situação de que se trata, já passou, necessariamente, um ano
ou mais sobre o nascimento.

● 2.1.3 Declaração de maternidade


● Art. 1806º do CC – Registo omisso quanto à maternidade
● Nestes casos, houve já uma anterior declaração de nascimento na qual não se
identificou a mãe.
● Permite-se, agora, que a mãe venha efectuar o estabelecimento da maternidade
dizendo que o filho é seu. (nº1)
● O preceito, todavia, admite uma importante excepção prevista no nº2 deste
artigo.
● A “ratio” subjacente é que se a mãe pudesse efectuar aquela declaração de
maternidade faria funcionar a presunção de paternidade do artigo 1826º, ou
seja, provocaria uma indesejável contradição entre a perfilhação (de pessoa
diferente do marido) e a referida presunção de paternidade (que recai sobre
o marido). Nestes casos, o estabelecimento da maternidade deve seguir o
disposto no artigo 1824º.

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●2.1.4 Maternidade estabelecida como resultado duma


averiguação oficiosa
● Art. 1808º do CC – Averiguação oficiosa de maternidade
● A averiguação oficiosa de maternidade segue o predito neste
artigo.
● Tendo lugar esta acção de investigação, podem ocorrer duas consequências:
reconhecimento judicial da maternidade ou despacho de arquivamento.

● O reconhecimento judicial da maternidade pode ter lugar em quatro <4>


casos distintos:
● (1) Art. 1808º, nº4 - Averiguação oficiosa da maternidade.
● (2) Art. 1814º - Acção intentada pelo filho
● Tem que se ter aqui em conta o art. 1815º, 1816º; 1817º, nº1
● (3) Art. 1822º, nº2 - Acção intentada pelo marido da
pretensa mãe
● A lei manifesta aqui a mesma preocupação de trazer a juízo todos os
interessados no esclarecimento global dos vínculos de filiação materna e
paterna.
● A diferença está em que se protege agora o interesse que pode ter o
marido da pretensa mãe em tomar a iniciativa do esclarecimento jurídico
da filiação que os outros podem eventualmente negligenciar. Note-se
que o marido pode ainda fazer valer-se da presunção de paternidade.
Ou comprometer a sua impugnação da paternidade presumida, mormente
pelo envelhecimento ou perda das provas.
● (4) Art. 1824º, nº1 - Acção de investigação intentada pela própria
mãe.
● Esta hipótese surge na sequência da impossibilidade de a mãe declarar a
maternidade, em conformidade com o artigo 1806º, nº1, parte final.
● O artigo 1824º, nº2 remete para as normas que disciplinam a acção
complexa de investigação de maternidade. As “devidas adaptações”
consistem, principalmente, na circunstância de a mãe desempenhar
o papel de autora e de o filho ser réu, juntamente com o marido e o
eventual perfilhante.
● Estes últimos intervêm do mesmo modo e pelas mesmas razões pelas
quais a lei lhes dá legitimidade no artigo 1822º; o filho, além de ser
o “legítimo contraditor” da relação de maternidade que se pretende
estabelecer, relação jurídica cuja correspondência à verdade biológica
pode querer discutir, deve ainda ter a ocasião adequada para exercer o
seu direito de impugnar a paternidade do marido da mãe.
● Notas:

Tânia Belo - 114 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Pode ter lugar uma acção nos termos do artigo 1822º, quando tiver ocorrido a
situação prevista no artigo 1810º.
● Na interpretação do artigo 1818º, atender à diferença de situações que o
preceito abrange na primeira e segunda parte.

● 3.2 O estabelecimento da paternidade


● Art. 1796º, nº2
● Limita-se a sintetizar vagamente as formas de estabelecimento jurídico do
vínculo. Contudo, o texto legal merece duas observações.
● A paternidade também é um facto biológico, um facto que a lei recolhe e ao qual
dá relevância jurídica. A diferença que o separa da maternidade, do ponto de
vista que nos interessa, está somente no seu carácter menos ostensivo, na maior
dificuldade da sua prova.
● A lei também quer que o pai biológico assuma o estatuto jurídico
correspondente, o que está bem denunciado pela existência dos meios oficiosos
de investigação. Mas como não se consegue fazer a prova ostensivamente
continua a restar um lugar vasto para a paternidade incógnita e para a
perfilhação tardia.

● A questão prévia a resolver a propósito do estabelecimento da


filiação é a seguinte: a mãe à data do nascimento do filho era casada ou
solteira?

● Sendo casada
Aplica-se, desde logo, o preceito chave da paternidade: artigo 1796º, nº2 ,
primeira parte (sistema de filiação).

● Não sendo casada


Temos de recorrer ao reconhecimento voluntário (ou perfilhação) ou judicial (tem
lugar quando não há perfilhação e implica sempre uma averiguação oficiosa): artigo
1796º, nº2, segunda parte.
● O estabelecimento da paternidade vai ter lugar com base na presunção de
paternidade prevista no artigo 1826º, nº1.
● O legislador acolheu a concepção, nos termos da qual a atribuição da paternidade
ao marido assenta numa forte possibilidade de ele ser o autor da fecundação,
segundo juízos objectivos de experiência. Marido e mulher vivem em plena
comunhão de vida e estão obrigados pelos deveres conjugais; logo, se a mulher
tem um filho, há uma elevada probabilidade de o pai dessa criança ser o seu
marido.
● Para proporcionar o funcionamento da presunção, estabelece o artigo 1826º,
nº2, os limites temporais, dentro dos quais aquela paternidade pode ocorrer.

Tânia Belo - 115 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● A presunção, para além dos filhos nascidos ou concebidos na


constância do casamento, abrange ainda outras situações:
● Os filhos concebidos antes, mas nascidos depois do casamento,
● Os filhos concebidos na constância do casamento, mas nascidos depois da sua
dissolução (exemplo paradigmático: a mulher que é mãe já viúva),
● Os filhos nascidos de um casamento invalidado (exemplo: casamento putativo), e
ainda,
● A situação da dupla presunção, prevista no artigo 1834º (filhos concebido no
âmbito de um casamento, mas que vem a nascer na constância de um outro
casamento).

● Em certas situações, a presunção de paternidade nem sequer chega a ter


lugar, sendo eliminada logo no momento da declaração do nascimento, sem que,
para tal, seja proposta qualquer acção judicial. Há cessação da presunção de
paternidade nos seguintes casos:
● (1) Artigo 1828º - Filhos concebidos antes do casamento
● Esta circunstância leva o legislador a admitir que o marido é o pai mas a
não fazer um juízo de probabilidade tão forte como aquele que faria se
o filho tivesse sido concebido durante o casamento da mãe. Assim, a uma
probabilidade menor corresponde uma presunção de paternidade mais frágil,
isto é, susceptível de ser desmentida através de mera declaração, que faz
fé: para o efeito, basta que a mãe ou o marido declarem no acto do registo do
nascimento que o marido não é o pai.

● (2) Artigo 1829º - Filhos concebidos depois de finda a


coabitação
● É o caso dos filhos concebidos depois de finda a coabitação. As condições em
que falta a probabilidade qualificada de o marido ser o pai resumem-se, nos
termos deste preceito, ao facto de o filho ter nascido trezentos dias depois
da data em que os cônjuges deixaram de coabitar.
● Considerado que, em princípio, o prazo máximo de gestação é de trezentos
dias, a concepção do filho ocorreu depois daquela data e pode legitimamente
supor-se que ela resulta da coabitação com outrem que não o marido.
● Este regime legal poderia valer para todos os casos em que, provada a data
em que tivesse cessado a coabitação dos cônjuges, se verificasse que o
nascimento ocorrera mais do que trezentos dias depois.
● A lei, porém, não aceita a prova livre do termo da coabitação, certamente
por dificuldades de que se reveste e pelos consequentes riscos de erro,
involuntário ou até provocado pelo conluio dos cônjuges.
● Assim, o artigo 1826º, nº2 estabelece um numerus clausus de hipóteses
em que se considera a coabitação; fora destes casos não releva a prova do
termo real da coabitação entre os cônjuges, para o efeito de fazer cessar a
presunção.

Tânia Belo - 116 -


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● (3) Artigo 1832, nº1 - Filhos concebidos depois de finda a


coabitação
● Trata-se dos casos em que a mulher casada, separada de facto do marido e
vivendo com outro homem, tem um filho deste último. A Reforma de 1977
entendeu que não devia presumir a paternidade do marido nos casos em que
ela se mostre francamente improvável.
● Esta improbabilidade de concepção resulta do preenchimento de três
requisitos:
● A declaração de nascimento feita pela mãe;
● A indicação de que o filho não é do marido;
● A declaração da mãe de que o filho, na ocasião do nascimento, não
beneficiou de posse de estado (instrumento técnico-jurídico), nos termos
do artigo 1831º, nº2, relativamente a ambos os cônjuges.
● A prova consegue-se, habitualmente, através do recurso a juízos de
probabilidade que habitualmente assentam sobre provas indirectas; de
entre estas, a posse de estado constitui o índice preferencial da verdade
– fornece uma probabilidade tão forte que vale como certeza. E quando
uma relação de posse de estado não radica num vínculo natural, ainda assim
pode merecer tutela jurídica por força do vínculo afectivo, sociológico, que
exprime.

● (4) Artigo 1834 – Dupla presunção de paternidade


● A lei procura evitar o conflito entre duas presunções da paternidade. A
atribuição simultânea e contraditória da paternidade a dois maridos da
mãe poderia ocorrer em dois casos típicos:
● Bigamia
● Casamento sucessivo com desrespeito do prazo internupcial.

● A solução legal manda assim prevalecer sempre a presunção da paternidade


do segundo marido, funda-se na convicção de que é muito mais provável
que a mulher tenha tido um filho do segundo do que do primeiro marido;
as circunstâncias em que se verifica o segundo casamento desabonam a
paternidade do primeiro marido.
● Contudo, esta presunção pode cessar e assim, consequentemente, fazer
renascer a presunção da paternidade do primeiro marido; tal inversão da
presunção da paternidade pode ocorrer em três casos:
● Nos termos do art. 1834º, nº2: se o segundo marido impugnar a
paternidade e a respectiva acção for julgada procedente;
● Nos termos do art. 1831º, nº1
● Nos termos do art. 1832º, nº3: a presunção da paternidade pode
renascer por menção oficiosa, se decorridos sessenta dias sobre o
registo, a mãe não provar que pediu a declaração a que se refere o artigo
1832º, nº2 (declaração de que o filho não beneficiou de posse de estado

Tânia Belo - 117 -


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relativamente a ambos os cônjuges) ou se o seu pedido for indeferido.

● 3.3 Perfilhação

● 3.3.1 Noção de perfilhação e a sua natureza jurídica

● Noção
● A Perfilhação está regulada nos artigos 1849.º e ss, e consubstancia-se no acto
pelo qual um homem afirma que determinado indivíduo é seu filho, admitindo
e «confessando», assim, a sua paternidade. É o pai convencido que pertence a
iniciativa ou impulso deste acto confessório.

● Natureza jurídica
● Quanto à sua natureza jurídica, tem duas faces:
● Uma de declaração de ciência
● Outra de declaração de vontade. Esta face resulta claramente da lei uma
vez que esta admite a anulabilidade da perfilhação com fundamento em vício
de vontade. Perfilhar é, aos olhos do direito constituído manifestar uma
vontade.
● Por outro lado, a perfilhação é um quase – negócio jurídico ou um simples
acto jurídico (art. 1852º, nº1 do CC)
● Porque, celebrado ou realizado este, os seus efeitos jurídicos resultam
automaticamente da lei, não havendo lugar para um conteúdo privado
de tal acto. Não se trata, portanto, de um negócio jurídico. Com efeito,
mesmo no caso de perfilhação de maiores, sempre o conteúdo ou efeito de
perfilhação resulta da lei; e daí que não se possa falar de um contrato entre
o perfilhante, embora exista uma norma – artigo 295.º - que manda aplicar
as disposições do capitulo relativo ao negócio jurídico.
● Para a Reforma 1977, perfilhação e declaração de maternidade são coisas
diferentes.
● Digamos que, vestidas da mesma forma, elas se distinguem pelo sexo do
respectivo autor:
● A perfilhação é um acto masculino, isto é, um acto do pai;
● A declaração de maternidade é feminino, ou seja, um acto da mãe.
● Além disso, os dois conceitos ou figuras distinguem-se pela sua
diferença parcial de natureza jurídica:
● A declaração de maternidade – é pura declaração da
ciência;
● A perfilhação tem carácter duplo de declaração de ciência e de
declaração de vontade

● 3.3.2 Caracteres

Tânia Belo - 118 -


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● 3.3.2.1 Liberdade
● De acordo com o texto do artigo 1849.º, a perfilhação é um acto livre. E é-
o no sentido de que a vontade de perfilhar não há-de estar viciada por erro ou
coacção. O consentimento deve ser são. Além disso a iniciativa ou o impulso de
perfilhar tem de provir do próprio perfilhante e não ser coactivamente imposta.
● Em vista do exposto, existirá, para o pai biológico, uma obrigação
de perfilhação e, correspondentemente, a sua omissão será fonte de
responsabilidade civil, constituindo o faltoso na obrigação de indemnizar os
danos causados ao filho, designadamente os de natureza não patrimonial?
● Para a doutrina tradicional, não existe qualquer dever de perfilhar.
● Para a doutrina moderna, essa obrigação existe.
● Mas a nossa lei, ao estabelecer a liberdade como uma das características que
o acto de perfilhar supõe, o que implica iniciativa própria, isenta de coação,
logo aponta para a solução segundo a qual a omissão de perfilhação não é
acto ilícito, e, consequentemente, não constitui fonte de responsabilidade
civil. A lei não prescreveu relativamente àquele cuja paternidade viria a ser
posteriormente reconhecida, uma obrigação de reconhecimento voluntário
(perfilhação) do filho para além do reconhecimento judicial.

● 3.3.2.2 Pessoalidade
● A perfilhação é, por outro lado, um acto pessoal (artigo 1849.º do CC)
● Admite-se a intervenção de procurador com poderes especiais para o acto.
● O que a lei não permite é a substituição de vontades, neste sentido a
perfilhação é acto pessoal, não podendo, por exemplo, ser feita pelos sucessores
do pai biológico.
● É também, o é, no sentido de que é um acto não patrimonial, embora possa ter
reflexos patrimoniais – à semelhança do que acontece com o casamento

● 3.3.2.3 Irrevogabilidade
● Outra característica de perfilhação é a sua irrevogabilidade, qualquer que seja
a forma que ela tenha revestido (artigo 1858.º), sendo de considerar intolerável
uma paternidade a prazo.
● É sabido que uma das formas que pode revestir a perfilhação é o
testamento.

● Na prática é-o muitas vezes, para evitar o choque que o perfilhante receia
sofrer pelas possíveis reacções (desfavoráveis) à perfilhação.
● Pois bem, a lei acautela especialmente esta hipótese, para esclarecer que a
perfilhação é irrevogável mesmo neste caso, sendo certo que o testamento
é um negócio jurídico essencialmente revogável (artigo 2311.º), mesmo que
o testador diga que renuncia à revogação. É costume distinguir-se entre
conteúdo típico e conteúdo atípico de testamento. O conteúdo típico é

Tânia Belo - 119 -


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constituído pela vontade do testador relativamente à disposição de bens. O


atípico é constituído pelas outras disposições, e não há nenhum limite neste
aspecto. Pode, por exemplo, o testador dispor sobre o destino a dar aos seus
órgãos corporais; reconhecer uma dívida; perfilhar…
● A revogação do testamento não arrasta consigo a revogação da perfilhação
nele feita.
● Neste ponto, esclarece a lei como solução especial, mantém-se o conteúdo
atípico do testamento.

● 3.3.3 Características particulares

● 2.3.3.1 Inexistência de outra paternidade presumida


● O n.º 1 do artigo 1848.º do CC consagra o princípio cronológico como meio de
prevenção de conflitos de filiação paterna extramatrimonial. De prevenção e
não tanto de solução, uma vez que ele proíbe o estabelecimento de outra, nova,
filiação enquanto primeira não for destruída. Significa, pois, que uma perfilhação
contrária a uma filiação já estabelecida só pode ser admitida sob condição de se
ter previamente contestado judicialmente, com êxito, a veracidade da primeira.
● Assim, a perfilhação pode ser, pelo menos provisoriamente, impedida,
paralisada, pela existência de uma filiação anterior atribuída a outra pessoa do
mesmo sexo.
● Art. 1849.º, nº1 do CC
● O conservador do registo civil não pode registar a perfilhação enquanto, no
registo de nascimento, a paternidade não estiver em branco, omissa. Se constatar
que a perfilhação está em contradição com outra paternidade já estabelecida
deve abster-se de fazer menção dela no registo de nascimento do filho e avisar
o Ministério Público. Pertencerá a este tomar, no interesse do menor, as medidas
que julgue necessárias.
● Com efeito, admite-se que a perfilhação se possa fazer fora do registo (artigo
1848.º, n.º 2 do CC), mas que, sendo válida, fica, pelo menos provisoriamente,
desprovida e eficácia.
● Esta solução constitui uma derrogação do regime geral do artigo 294.º do
CC, segundo a qual a segunda perfilhação deveria ser nula; e, todavia, é apenas
ineficaz o estabelecimento da paternidade anterior paralisa o da segunda
enquanto a inexactidão da primeira não for demonstrada, quer ela tenha sido
estabelecida por outra perfilhação, quer por reconhecimento judicial, quer por
presunção.

● 2.3.3.2 Perfilhação de nascituro


● Outra contradição para que a perfilhação seja válida é que o perfilhando esteja
concebido. Pode ela, como se vê, ter lugar antes do nascimento (artigo 1854 do
CC), mas é nula se o filho ainda não estiver concebido (artigo 1855.º do CC).

Tânia Belo - 120 -


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● Em certos casos os nascituros já têm direitos antes do nascimento, sendo, para


efeito, importante saber a data da concepção.
● Além do filho dever estar concebido, o perfilhante deve ainda, para que a
perfilhação de nascituro seja válida, identificar a mãe (artigo 1855.º do CC). Não
teria sentido uma perfilhação de nascituro sem que a mãe fosse identificada,
querendo a lei, com essa exigência, afastar a possibilidade de perfilhações em
branco.
● A Reforma de 1977, antecipou o momento em que a perfilhação é admissível,
mas pode hoje pôr-se o problema, complexo, de saber se já o perfilhante estava
concebido, intentando-se as acções previstas nos artigos 1799.º, n.º 2 e 1800.º,
n.º 1 do CC
● A razão desta possibilidade legal de perfilhação in útero oferece várias
vantagens ao perfilhante que, por exemplo, está gravemente doente, aguardando
o termo da sua vida, ou vai viajar ou emigrar, e que perfilha num momento de
talvez seja o único em que o pode fazer.
● Também a mãe, grávida e solteira, tem interesse no estabelecimento da
paternidade do nascituro, porque fica identificado o pai do filho que traz no
ventre. Do mesmo modo, o filho não precisará intentar a acção de reconhecimento
de paternidade, numa altura de envelhecimento das provas e sempre do êxito
incerto.

● 2.3.3.3 Perfilhação de filho falecido


● Ao fixar o momento em que a perfilhação pode ter lugar, a lei (artigo 1854.º do
CC) diz, claramente, que ela pode ser realizada depois do falecimento do filho:
não é necessário que o filho exista, basta que ele tenha existido.
● Já as perfilhações tardias ou póstumas, são, pelo menos, suspeitas de não serem
ditadas pelo interesse do filho. Por isso, rejeita a lei, qualquer liberalismo e
determina que a perfilhação de filho falecido só produza efeitos a favor dos seus
descendentes.
● Quis-se, com efeito, evitar situações em que o perfilhante obedecesse
exclusivamente a alguma razão mesquinha, designadamente, porque destruído de
meios de fortuna, entendesse fazer valer os seus direitos e alimentos, previstos
nos artigos 2005.º e seguintes do CC, constituindo-se credor do perfilhando ou
seu herdeiro, convertendo a perfilhação num instrumento de caça à fortuna do
perfilhando.
● Para afastar ou neutralizar estas motivações egoístas, a perfilhação póstuma
só produz efeitos unidireccionais: para os descendentes do filho falecido (artigo
1856.º do CC) – não existindo estes, a perfilhação é ineficaz.
● Se os descendentes forem maiores ou estiverem interditos a perfilhação só
produz efeitos se aqueles ou os descendentes destes derem o seu assentimento
(artigo 1857.º, n.º 1 do CC).
● O consentimento tem de ser dado por uma das formas previstas no n.º 2
do artigo 1857.º do CC A primeira destas formas é a declaração prestada
na conservatória, perante o oficial do registo civil, averbada ao assento de

Tânia Belo - 121 -


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nascimento, e ao de perfilhação, se existir.


● Outra forma possível é por documento, autêntico ou autenticado, com
intervenção dos serviços do notariado.
● Finalmente, o assentimento pode constar de termo lavrado em juízo, isto é, no
tribunal, no processo em que haja sido feita a perfilhação.

● 2.3.3.4 Perfilhação de maiores


● A perfilhação de filho maior ou casado (emancipado pelo casamento) só produz
efeitos se o filho perfilhando der o seu assentimento à perfilhação (artigo
1857.º, n.º 1), quer dizer, neste caso, a lei exige outra condição de eficácia da
perfilhação.
● Em que momento deve ser dado tal consentimento? Pode ser um consentimento
prévio, um consentimento simultâneo, ou um consentimento posterior à declaração
de perfilhação (artigo 1857.º, n.º 2).
● A exigência legal do consentimento do filho é uma excepção muito importante
à abertura à verdade biológica. Através desta restrição, a lei, à primeira vista,
tutela o interesse do filho maior ou emancipado em não querer assumir o estatuto
jurídico-social de filho do perfilhante. Este terá interesse na perfilhação, mas a
lei ordinária aparentemente não tutela este interesse.
● No nosso direito actual o consentimento do perfilhando maior ou emancipado
parece ter uma natureza híbrida: é simultaneamente critério de verdade biológica
e de convivência posta nas suas mãos.
● O perfilhando tem na sua mão o poder imotivado de recusar o assentimento,
nesta parte sendo visível o lado da convivência; mas, pela facilidade de impugnação
da perfilhação, de acordo com o regime do n.º 3 do artigo 1859.º, tempera-se
aquele poder, aparecendo a face biológica da perfilhação de maiores.
● Poderá, legitimamente, pôr-se em dúvida a constitucionalidade desta norma
que exige o consentimento do filho (maior ou casado) para a perfilhação, atento
o disposto no n.º 1 do artigo 36.º da Constituição. Com efeito, segundo o direito
ordinário (artigo 1857.º, n.º 1), se o filho maior ou casado ou dos descendentes
maiores de filho falecido quiserem, o pai biológico não poderá estabelecer a sua
paternidade, os correspondentes laços jurídicos da filiação.

● 2.3.4 Forma de perfilhação


● A perfilhação – que é um reconhecimento voluntário, pelo pai, de filho nascido
fora do casamento – é o acto solene que deve revestir forma autêntica, isto é, há-
de constar de documento lavrado por um funcionário público no exercício dos seus
poderes (artigo 369.º do CC), apenas podendo revestir uma das formas indicadas no
artigo 1853.º do CC. É, pois, inválida por falta de forma uma perfilhação feita em
documento particular.
● A perfilhação pode revestir várias formas (1853º do CC):
● A primeira forma que a perfilhação pode revestir é de «declaração prestada
perante o funcionamento do registo civil» – é o modo normal de perfilhar.

Tânia Belo - 122 -


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O momento em que tem lugar é no acto de registo de nascimento ou


posteriormente, nele se fazendo o respectivo averbamento.
● Outra forma que pode revestir a perfilhação é de escritura pública, feita nos
serviços do notariado.
● Além disso pode revestir a forma de testamento, quase sempre elaborado nos
mesmos serviços de notariado, mas ao passo que, no caso anterior, a perfilhação
é o acto jurídico único, aqui, ela está contida num acto de notariado relativo a
outra operação jurídica: o negócio unilateral do testamento.
● Finalmente, a perfilhação pode revestir a forma de termo lavrado em juízo, o
que acontecerá naquelas hipóteses em que se desencadeou de averiguação ou
de investigação de paternidade e o averiguado ou investigado faz declaração de
ser o pai. Tal declaração será feita, conforme o processo ou a fase processual,
perante o curador de menores, perante o juiz de 1.ª instância ou, se o processo
se encontra na fase de recurso, perante o juiz relator da Relação ou no
Supremo.

● 2.3.5 Registo da perfilhação


●A perfilhação não pode sequer ser invocada enquanto não for lavrado o
respectivo registo (artigos 3.º e 1.º, al. b), do Cód. Reg. Civil).
● Por isso, é da maior importância saber como se regista a perfilhação; como
ingressa ela no registo civil.
● Se a perfilhação foi realizada perante o funcionário do registo civil, regista-se
por meio de assento, e, conforme o momento em que tenha lugar, figura desde logo
no registo de nascimento do filho ou em registo próprio (artigos 159.º e 153.º do
Cód. Reg. Civil).
● Não tendo ela sido feita directamente na repartição do registo civil, mas
antes nos serviços de notariado (por escritura ou testamento) ou no tribunal, a
perfilhação entra no registo através de averbamento (artigos 157.º e 159.º do Cód.
Reg. Civil).

● 2.3.6 Impugnação da perfilhação – art. 1859º do CC


● A perfilhação encerra em si a presunção de verdade da filiação que ela
estabelece.
● A nossa lei actual, embora muito mais preocupada com a verdade biológica
do que a anterior, não exige qualquer controlo prévio quanto à sinceridade do
perfilhante, não estando a perfilhação sujeita a qualquer verificação: qualquer
indivíduo (do sexo masculino) a pode subscrever a ela importará presunção de
veracidade, isto é, de correspondência com a realidade biológica. Mas não se trata
senão de uma presunção simples, removível, que pode ser combatida e destruída por
meio de uma acção de impugnação, onde se faça prova do contrário (artigo 1859.º
do CC).
● Quem pode intentar a acção de impugnação de paternidade
estabelecida por perfilhação?

Tânia Belo - 123 -


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● Artigo 1859.º, nº2 do CC


Ex: Tem interesse moral ao parentes do perfilhante e os do perfilhado, e
também o verdadeiro pai, que eventualmente pretenda fazer ele declaração
de perfilhação. Com interesse patrimonial, podem impugnar, por exemplo, os
donatários, se a doação houver de ser reduzida por inoficiosidade, o legatário
universal ou o Estado, que não existindo perfilhação, receberiam todos os bens
do de cujos.

● Legitimidade passiva
● A lei é omissa quanto à indicação das pessoas contra quem a acção deve
ser dirigida. Assim, aplica-se regra geral do Código de Processo Civil: têm
legitimidade os titulares da relação material controvertida que é o critério
prático subsidiário para se aferir da legitimidade das partes – artigo 26.º, n.º 3
do CC
● A previsão do artigo 1846.º do CC postula a existência de uma relação jurídica
matrimonial estabelecida, ao passo que no artigo 1859.º do CC as coisas não se
desenvolvem no quadro do casamento, não se apoiam numa instituição e a mãe
não terá, por isso, interesse directo em contradizer, tanto mais que o eventual
resultado negativo da acção de impugnação da perfilhação de modo algum mexe
com a maternidade estabelecida. Naturalmente, a mãe poderá intervir na acção,
mas numa posição subalterna, de auxílio, isto é, como assistente (artigo 335.º do
C.P.C.).
● No caso de morte do pai ou do filho, contra quem deve a acção ser proposta?
Deverá, a acção ser instaurada, no caso de falecimento do perfilhante, contra
o cônjuge não separado de pessoas e bens que não seja a mãe do perfilhado, os
descendentes e os ascendentes; na hipótese de morte do filho, contra o cônjuge
não separado judicialmente de pessoas e bens e os descendentes. Na falta
destas pessoas, deverá a acção ser proposta contra curador especial (artigo
1846.º do CC).

● Prazo
● A acção de impugnação de perfilhação pode ser proposta «a todo o tempo»
(artigo 1859.º, n.º do CC). Não há, portanto, qualquer limite temporal ao
direito de impugnar: tal direito é imprescritível. Compreende-se que assim
seja em homenagem à verdade biológica, pois é o critério e fundamento da
filiação fora do casamento, mais que na filiação matrimonial, em que o peso
da instituição «casamento» se faz sentir, e já se sabe que a perfilhação é
um dos meios privativos de se estabelecer a filiação paterna dos filhos não
matrimoniais (artigo 1847.º do CC).

● Efeitos de impugnação
● Julgada procedente a acção de impugnação da perfilhação, esta é declarada sem
efeito, operando-se a destruição retroactiva da filiação.

Tânia Belo - 124 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Em consequência de tal facto, pode o filho sofrer graves danos, quer de


natureza patrimonial quer de natureza mora, designadamente pela privação do
nome, que vinha usado.
● Serão de tomar em conta estes danos quando a impugnação foi intentada pelo
próprio perfilhante e que este perfilhou em conhecimento de causa, quer dizer,
fez uma perfilhação deliberadamente falsa. Com efeito, deve considerar-se que
o facto de se ter conscientemente perfilhado quem não era seu filho biológico,
constitui ilícito, fonte de responsabilidade civil, constituindo o seu autor na
obrigação de indemnizar os danos sofridos pelo filho, em consequência da
destruição da sua filiação paterna.

● 2.3.7 Nulidade da perfilhação

● Enquanto acto jurídico, põe-se o problema da validade da perfilhação.


● Vimos que a perfilhação tem de obedecer a um acto número de condições de
fundo e de forma.
● Uma perfilhação feita em documento particular, ou público desde que não
reveste uma das formas previstas no artigo 1853.º do CC, é nula. Assim, a nulidade
da perfilhação é uma consequência da falta de forma (artigo 220.º do CC).
● A nulidade tem, como é sabido, o seguinte regime específico: não se torna
necessário intentar uma acção ou emitir uma declaração nesse sentido e pode ser
declarada oficiosamente pelo tribunal – opera ipso iure e ipsa vi legis; é invocável
por qualquer interessado; é insanável pelo decurso do tempo, o que significa
possibilidade de invocação perpétua (artigo 286.º).
● No caso, por certo de verificação difícil de coação física do perfilhante, a
perfilhação «não produz qualquer efeito» (artigo 246.º e artigo 295.º do CC).
Parece tratar-se, aqui, mais de inexistência de perfilhação do que de nulidade.

● 2.3.8 Anulabilidade da perfilhação


● Já foi acentuado que a perfilhação tem uma faceta de declaração de vontade.
Se esta estiver viciada, em certos termos, a perfilhação é anulável, por não
se verificarem as analisadas condições de fundo relativas ao perfilhante:
consentimento e capacidade (artigos1860.º e 1861.º do CC).

● 2.3.8.1 Erro
● O autor pode alegar factos, circunstâncias da vida real, de onde o tribunal
conclua que, ao fazer a declaração de perfilhação, o perfilhante lavrou um erro, e,
consequentemente, declare a perfilhação anulável.

● 2.3.8.2 Coacção Moral


●O autor articulará factos demonstrativos de que a sua liberdade de não
perfilhar foi ameaçada, e que foi tal ameaça de um mal, e que por causa dela que
omitiu a declaração de perfilhação.

Tânia Belo - 125 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Os termos gerais da relevância da coacção são os do artigo 255.º e devem ser


articulados factos que integram a previsão deste artigo. Assim, o receio do mal
(concreto), a ilicitude deste e o ânimo de extorquir a declaração de perfilhação.

● 2.3.8.3 Incapacidade
● Vimos que os requisitos do fundo para a validade da perfilhação, relativamente
ao perfilhante eram o consentimento e a capacidade.
● Se o consentimento estiver viciado, a perfilhação é anulável, como acabámos
de ver nas duas números procedentes, nos termos de no artigo 1869.º do CC
estabelece.
● E também o é por incapacidade para perfilhar (artigo 1861 do CC), como
consequência de falta de qualidades naturais do perfilhante para querer e
entender os efeitos da declaração de perfilhação e o seu sentido e fundamento.
● Para obter a anulação da perfilhação tem o autor da acção de alegar os factos
constantes da previsão do n.º 1 do artigo 1850.º do CC, lido em sentido inverso.
● O prazo para que esta acção seja instaurada é sempre de um ano. Se for
proposta fora do prazo, o juiz indeferirá liminarmente a petição inicial com esse
fundamento, uma vez que se está no domínio das relações jurídicas indisponíveis,
sendo, portanto a caducidade de conhecimento oficioso (artigo 333.º do CC e
artigo 474.º, n.º 1, al. c), do Código Processo Civil).
● Art. 1860º; 1861º e 1862º do CC

● 2.3.8.4 Efeitos da declaração de anulação


● Sendo a acção de anulação da perfilhação julgada procedente, a filiação
(paterna) é destruída retroactivamente.
● Inversamente ao que acontece em matéria de impugnação da veracidade
da perfilhação a pedido do próprio perfilhante, não haverá, aqui, lugar de
indemnização por danos sofridos a cargo do perfilhante. Só o terceiro que
desencadeou o processo enganatório incorrerá em responsabilidade civil,
verificados que sejam os respectivos pressupostos.

Tânia Belo - 126 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● 2.3.9 Caducidade da perfilhação feita depois da intentada acção


de investigação julgada procedente.

● Pode acontecer que esteja pendente uma acção de investigação de paternidade


contra determinado individuo mas que no decorrer da acção o investigante venha a
ser perfilhado por pessoa diferente do réu, investigado. É claro que se fosse este a
perfilhar, a acção findaria, por extinção da instância em consequência de inutilidade
superveniente da lide. Mas, no primeiro caso, se vier a ser julgada procedente, põe-
se o problema de resolução de um conflito de filiação.
● A lei (artigo 1963.º do CC) resolve expressamente o caso.
● Um dos princípios fundamentais de solução ou de prevenção de conflitos de
filiação é o princípio cronológico. É este princípio que está consagrado em termos
gerais no artigo 1848.º do CC, para o caso de conflito da paternidade.
● Nos casos especiais de a paternidade ser estabelecida por perfilhação, feita
enquanto se encontrava pendente a acção de investigação de paternidade, proposta
contra pessoa diferente do investigado, o princípio de solução de conflito de
paternidade é outro: o princípio da verosimilhança. Com efeito, para que a acção
fosse julgada procedente, nela foi alegada e provado que o réu era (biologicamente)
o pai ou em que se alegou e provou algum dos factos que constituem presunções
de paternidade (artigo 1871.º do CC), sem que sobre esta se tivessem levantado
dúvidas sérias.
● É certo que o tribunal talvez não tenha procurado achar a verdade biológica,
mas também só lhe era exigido que determina-se a verosimilhança biológica. Por
isso se considera que a perfilhação anterior era falsa, isto é, não correspondente à
realidade biológica sendo que o estabelecimento judicial, pela apreciação concreta
das provas que fez, deu maiores garantias tanto mais que, nenhum controlo prévio
existe sobre a veracidade da perfilhação.

Tânia Belo - 127 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Caso Prático 1
Albertina, casada com Francisco, teve 2 filhos: Josefa e Manuel. Os avós – Diana
e Hélder – tiveram 3 filhos, além de Francisco: Carla e Bernardo. O cunhado de
Francisco, após o divórcio, uniu-se de facto com Gilberta, com a qual teve um filho –
Rui. Este é meio-irmão de Noémia, que é filha de Carla e Tomé.
Estabeleça a relação de parentesco e afinidade entre os diferentes intervenientes na
hipótese prática.

● Resolução:

Fundamentação legal: 1578º a 1582º CC


Manuel e Diana: parentesco em linha recta, ascendente, no 2º grau (não se conta o
progenitor)
Manuel e Noémia: parentesco em linha colateral em 4º grau
Josefa e Diana: parentesco em linha recta, ascendente em 2º grau
Josefa e Albertina: parentesco em linha recta, ascendente, 1º grau
Diana e Francisco: parentesco em linha recta, ascendente, em 1º grau
Josefa e Rui: não há relação de parentesco, porque a Carla é que é descendente
de Diana e Hélder. Com o divórcio, é afim de Francisco e Bernardo.
Albertina e Bernardo: (cunhados) parentesco ???em linha colateral, 2º grau
Albertina e Hélder: afim no 1º grau da linha recta = não podiam casar – 1602º CC
Nas uniões de facto, pode existir parentesco, mas não afinidade.

Irmãos uterinos – da mesma mãe


Irmãos germanos – do mesmo pai e mãe
Irmãos consanguíneos – do mesmo pai
Linha recta – pais, filhos, netos, bisnetos
Linha colateral – tios, primos, etc.
Casamento anulado (não há afinidade) ≠ dissolvido (mantém a afinidade)

Tânia Belo - 128 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

● Caso Prático 2
Ismael e Miriam são judeus, nascidos e educados na fé judaica. Namoram há 5
anos e resolveram casar. Para o efeito, contrataram o rabino Josef para celebrar o
casamento. Acresce que Ismael e Miriam desconhecem as formalidades exigidas pela lei
civil portuguesa.
a. Imagine que Ismael e Miriam vinham ter consigo para os informar das formalidades
a observar para contraírem casamento válido perante a lei portuguesa, como os
aconselharia?
b. E se Ismael e Miriam quisessem celebrar o casamento segundo os ritos da religião
judaica e do preceituado Torah?

● Resolução:

Resposta: Lei da Liberdade religiosa – 16/2001


Casamento civil, artº 19º, nº 1 e nº 2

● Caso Prático 3
António Vieira da Silva, solteiro, maior, residente em Amor, Parceiros, Leiria e Maria
da Silva Parreira, solteira, maior, residente em Andrinos, Pousos, Leiria, marcaram
casamento para Sexta-feira, pelas 15h na Conservatória do registo Civil de Leiria.
Hoje, pela manhã, António recebe a notícia de que seu pai, Manuel, residente na
Africa do Sul, havia falecido e que o funeral do mesmo seria precisamente na próxima
Sexta-feira. Não querendo adiar o casamento em virtude de todas as despesas
que haviam sido efectuadas e dos convites terem já sido expedidos, António decide
constituir o seu padrinho, João Manuel Sousa, casado, residente na Marinha Grande,
seu bastante procurador, para em seu nome, casar com a Maria.
1. 1. Redija os termos da procuração para que a Conservatória possa celebrar o
casamento de António e Maria.
2. 2. Imagine que no dia designado para o casamento, João descobre que Maria
mantém há vários anos um caso amoroso com Francisco. João tenta, sem sucesso,
comunicar tal facto ao António e decide recusar-se a celebrar o casamento.
Aprecie a conduta do João face à problemática dos poderes do procurador ad
nuptias.

● Resolução:

Procuração I:
Eu, António Vieira da Silva, solteiro, maior, residente em Amor, Parceiros, Leiria,
concedo poderes especiais a João Manuel Sousa, casado, residente na Marinha Grande,
para ser meu bastante procurador e em meu nome casar com Maria da silva Parreira,
solteira, maior, residente em Andrinos, Pousos, Leiria, na sexta-feira, pelas 15 horas na
Conservatória do Registo Civil de Leiria. O casamento deverá ser contraído no regime de
comunhão geral de bens. Nº contribuinte:………..

Tânia Belo - 129 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

Leiria, 7 de Novembro de 2005.


(assinatura).
2. Se o procurador for visto como “núncio”, ele apenas diz o “sim” pelo António.
Se o procurador for visto como representante, tem a obrigação de dizer que não vai
casar porque tem conhecimento de um facto que vai fazer com que o casamento não se
celebre.

Procuração II:
Teodoro Pinto, solteiro, maior, contribuinte nº …., natural da freguesia de …. concelho de ….,
residente em ….., constitui seu bastante procurador, Fausto Pinto, solteiro, maior, contrib.
Nº …, residente no lugar de …., * ao qual confere poderes especiais p/ promover o casamento
dele outorgante com Gracinda Pires, divorciada, nautral de …, o qual será regulado pelo
regime de comunhão de adquiridos.
O outorgante…… (assinatura)
Eu aceito os poderes que me foram conferidos.
(assinatura)
* representante na declaração

● Caso Prático 4
António e Bela vivem maritalmente há dois anos. Bela grávida de 9 meses entrou há
nove horas em trabalho de parto. O parto não decorreu como se esperava e os médicos
temem pela vida de Bela e do bebé. António e Bela decidem casar ali mesmo.
a. Imagine que era enfermeiro/a de serviço. Quais as formalidades a observar neste
casamento? 1622º
b. Redija a acta de António e Bela a submeter ao conservador para lavrar o assento
provisório.
c. Se se apurar que António e Bela são parentes no 4º grau da linha colateral, o
casamento urgente pode ser homologado? Até 3º grau
d. Suponha que Bela sobrevive ao parto e que nenhum impedimento obsta à
homologação do casamento. Qual o regime de bens que vigorará no casamento de
António e Bela? 1720º/1 a).

● Caso Prático 5
Ana, de ascendência cigana e menor de 17 anos de idade, deseja contrair casamento
com Bernardo, maior.
Ana possui um filho, criança de poucos meses fruto de uma ligação anterior.
Ana escondeu de Bernardo não só a sua ascendência, como a existência desse filho,
dado o seu receio que este desistisse da sua intenção de casar com ela. Ambos
contraem casamento em Março de 2001.
Bernardo, volvidos 3 anos da data da celebração do casamento, descobre a existência
do filho de Ana e, desgostoso com os enganos em que caíra, decide invalidar o seu
casamento com base nos mesmos. Quid Iuris?

Tânia Belo - 130 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

1612º/1 – autorização dos pais para casar, (149º CRCivil)


132º emancipação do menor pelo casamento
133º - efeitos da emancipação
1631º b) – anulabilidade à falta de vontade esclarecida à erro de vício: 1636º
1623º - erro de vício da vontade
1641º - acção intentada pelo cônjuge vítima
1645º - 6 meses
Na data de hoje, Nov de 2005, já passou o prazo. Se fosse nos seis meses seguintes à
tomada de conhecimento podia.
Concluindo, o casamento é válido.

Solução apresentada pela colega Rita:


Ana ∞ Bernardo
Ü 03/2001 Ä presunção da
<18 anos vontade -------- consentimento: pessoal
Ü puro e
simples
Precisa de autorização perfeito
Livre
Capacidade: impedimento impediente : 1604º a)
Sanção: 1649º/1

Quanto à 1ª situação – omissão da existência do filho


Ü
Consentimento: livre? à erro de vício: 1636º
Ü
Verificam-se os requisitos cumulativos (…)
Ü
Erro desculpável (?)
Recorrer à anulabilidade c/ base no 1627º e 1631º b)
Bernardo é quem tem legitimidade para arguir – 1641º - nos 6 meses subsequentes – 1643º.
Conclusão: casamento civil válido.

Quanto à 2ª situação: ascendência da Ana:


Erro indesculpável (?). Não se verificam os requisitos do 1636º à não há possibilidade de
arguir a anulabilidade do casamento. É válido o casamento!

● Caso Prático 6
Diana de 16 anos, contrai casamento civil com Eduardo, maior, em Janeiro de
1992. Diana apenas pretendia casar para se ver livre da tutela de sua avó e
obter a emancipação.
Por sua vez, Eduardo, com o seu casamento, visava obter emprego de gerente
na empresa panificadora da avó de Diana.

Tânia Belo - 131 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

Eduardo teve, aliás, conhecimento das intenções de Diana antes do casamento,


mas, interessado nas vantagens materiais que poderia obter com o casamento,
não procurou explicar-se com Diana.
Em 1995, Diana veio a saber que o seu marido era duas vezes divorciado
sempre por culpa sua, pois havia cometido adultério.
Tendo já obtido aquilo que desejava quando contraíra o matrimónio, Diana
pretende socorrer-se deste pretexto para invalidar o casamento.
Comente as probabilidades de Diana nesta acção e pronuncie-se sobre a
validade do casamento.
Questão dos 16 anos:
1612º/1 – autorização…
132º - emancipação pelo casamento
133º - efeitos da emancipação
Diana ∞ Eduardo
(16 anos)
Ü
Impedimento impediente
Superado pelo 1612º/1
Capacidade | consentimento:
- | - pessoal
-… | - puro e simples
| - perfeito --------à declaração de vontade
| -livre --------------à erro de vício
Ü
1636º - erro desculpável (pode arguir)
Erros indesculpável (não pode arguir a anulabilidade)

Diana casou com Eduardo para obter a emancipação, e este sabe!


Eduardo casou com Diana para obter um emprego e esta não sabe! -à simulação relativa.
Ü
Reserva mental – 224º/2 – converte em simulação 1635º
d)
Ü
Arguir: 1640º/1: cônjuge
Prazo: 1644º/1: 3 anos após 1992.

De notar que o casamento não foi celebrado com o intuito de obter plena comunhão de vida –
1577º!! O casamento é válido!

● Caso Prático 7
Cristina e Daniel, ambos maiores, conheceram-se em Nov. 2001. Fascinado pela beleza
de Cristina, Daniel propôs casamento imediatamente, mas ela recusou. Enraivecido pela

Tânia Belo - 132 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

recusa, Daniel ameaça Cristina dizendo-lhe que caso ela não aceda à sua proposta,
ele, como médico cardiologista, deixaria de tratar uma tia-avó de Cristina, sua doente
desde alguns anos.
O pai e o irmão de Cristina, eram médicos altamente especializados em cardiologia, e
só não tratavam a velha tia, uma vez que esta dizia sempre que “santos da casa não
fazem milagres”.
Cristina casou com Daniel em Janeiro de 2002.
Daniel provinha de uma família de epilépticos, mas conseguiu esconder esta de Cristina.
Esta vem a saber em Abril de 2004, pela própria mãe de Daniel que a sua epilepsia era
uma doença hereditária na sua família.
Ao mesmo tempo, a tia-avó de Cristina zanga-se com Daniel e passa a tratar-se com
o irmão de Cristina, das suas palpitações cardíacas, coisa de pouca importância e que
toda a família sabia. Aliviada com esse facto, Cristina procura-o hoje a si, para se
desfazer do seu casamento.

Estamos perante um erro que vicia a vontade: 1636º.


1638º + 255º coacção moral
1641º - anulação fundada em vício da vontade
1645º - prazo
Resultado: inválido: à 1627º

● Caso Prático 8
Anna, holandesa, empregada doméstica do casal Carapinha, tinha o hábito de os
acompanhar no Monte Alentejano de que são proprietários.
Bento Carapinha, casado há 18 anos com Diana Carapinha, desaparecida há 4 anos,
ficou encantado com a dedicação de Anna, que nunca o abandonou nas horas mais
difíceis da sua vida.
Foi tal o fogo da paixão que se acendeu no coração de Bento, que resolveu casar com
Anna.
Dois anos passaram após as segundas núpcias de Bento. Este, numa viagem de negócios
à Holanda, resolveu conhecer as raízes familiares da sua amantíssima esposa.
Tendo tido conhecimento que esta havia fugido de um orfanato para se casar de facto
com um viúvo de 73 anos de idade.
E, como uma surpresa nunca vem só, Bento Carapinha, de regresso a Portugal, há 15
dias, confrontou-se com Diana no Monte Alentejano.
a) poderia Bento contrair segundas núpcias com Anna?
b) pode anular o casamento de Anna? Que acontecerá ao 1º casamento?

1636º -erro que vicia a vontade, desculpável


1645º - instaurar acção dentro dos seis meses subsequentes
a. sim. 1871 d) – ausência, causa de fundamento de divórcio litigioso. Pode contrair novas
núpcias, mas 1601º c) impedimento dirimente absoluto é anulável o casamento pelo 1631º a),
pedida pelo 1639º/1.

Tânia Belo - 133 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

Casamento dissolvido por divórcio – 116º.

A ∞ B – 1º casamento não foi dissolvidoà 1781º 6 meses


A B – 2º casamento: 1643º c)

● Caso Prático 9
J e T casaram em 1980 sem convenção antenupcial. T praticou os seguintes actos sem
o consentimento de J:
Comunhão de adquiridos = regime supletivo 1717º, (1698º liberdade de convenção ou escolha
de um regime do CC)

a) mandou pintar a casa que adquiriu há 1 ano;


bem imóvel comum. Regra: 1678º/3 2ª parte
pintura: acto de adm. ordinária (benfeitoria necessária). Tinha legitimidade 1678º/3 1ª
parte
acto de adm. extraordinária (benfeitoria voluptuária), carece de consentimento
1681º/3.

b) em 2002, vendeu o carro que herdara de seu pai e que ambos os cônjuges utilizavam
como instrumento de trabalho, tendo desta forma efectuado um bom negócio;
bem próprio. Acto de disposição 1682º/3 a)
sanção: anulabilidade 1687º/1 e 2
confirmação: 288º

c) em 2003, vendeu a cortiça e a madeira de 2 sobreiros que pertenciam a J;


sobreiros: bem próprio de J (administrador)
cortiça madeira
bem comum 1728º disposição (1687º/4 e 892º)
adm. ordinária 1678º/31ªp
adm. conjunta

d) em 2004, prometeu vender a D um prédio rústico que pertencia a ambos.


Contrato-promessa, na prática o comprador vai exigir que assinem ambos.

● Caso Prático 10
A e B casaram em 1986 sem escritura antenupcial e fixaram residência no Canadá, onde têm
vivido desde então, tendo vindo a Portugal em Setembro último. B não teve conhecimento
que A vendera a K em 2002, por escritura outorgada num dos cartórios notariais , um prédio
rústico que B herdara do pai falecido em 80. Pretendendo invalidar a venda, poderá fazê-lo?
Casamento sem escritura antenupcial = aplica-se o 1717º, regime de bens supletivo.
O prédio: bem próprio de B, 1722º a).
A vendeu coisa alheia = venda nula 1687º/ e 892º
Cônjuge administrador daquele bem: B

Tânia Belo - 134 -


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Prazo: 1687º/2: não tem, é invocável a todo o tempo.

● Caso Prático 11
Carlos e Perpétua casaram em 1987 no regime supletivo. Carlos é comerciante, e
dono de uma pequena engorda de suínos. Desde Julho de 1990, Carlos e Perpétua
encontram-se separados de facto e desde 15 de Março de ’91 que Carlos deixou de
contribuir com qualquer quantia para os encargos da vida familiar.
Em Fevereiro de ’91, comprou à “Promor – abastecedora de produtos agro-pecuários,
SA”, 425 sacos de farinha e 75 sacos de ração, no valor de 5.000€, quantia esta que
não pagou. A sociedade credora pretende saber quem é o responsável por esta dívida.
1. Temática: responsabilidade por dívidas
2. Existem dois tipos de dívidas; da responsabilidade de ambos os cônjuges e da
responsabilidade de só um deles.
3. O nosso caso insere-se no âmbito do artº 1691º d)
4. Neste âmbito, é necessário aferir o que se entende por “proveito comum”
a. intenção subjectiva – interesse do casal;
b. critério objectivo
5. Quanto à separação de facto, a doutrina divide-se quanto ao facto de ser motivo
bastante para não se considerar o proveito comum.

● Caso Prático 12
Heleno da Silva está casado com Ana Silva desde 1985 no regime supletivo (1717ª
regime de comunhão de adquiridos). Heleno trabalha para a sociedade “Manuel Joaquim
Lopes, Lda.”, na qualidade de motorista profissional.
Em Julho de 1989, Heleno adormeceu ao volante do veículo pesado de mercadorias
“JT-01-15”, pertencente à entidade empregadora, causando por virtude deste facto
grave acidente.
A sociedade entendeu que o acidente se deveu a culpa exclusiva de Heleno. Deste
modo, pretende ser indemnizada pelos prejuízos sofridos. Que bens respondem por esta
dívida?
1. Temática: trata-se de um caso que se insere no âmbito dos efeitos patrimoniais, em
concreto a responsabilidade por dívidas.
2. In caso, estamos perante um facto ilícito, culposo, praticado por Heleno, pelo que se
deve aplicar o artº 1692º b),
3. Sendo uma dívida da responsabilidade exclusiva de Heleno, respondem os seus próprios
bens e subsidiariamente a sua meação nos bens comum – 1696º.

● Caso Prático 13

Tânia Belo - 135 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

Maria e João casaram em Maio de 2003. Passadas algumas semanas, Maria


apercebeu-se que a casa para onde o casal foi viver necessitava de reparações
e melhoramentos. A casa era antiga e João herdara-a do seu tio-avô. Enquanto
João estava de viagem, Maria contratou pessoal para proceder às reparações
necessárias. Maria era sócia de uma sociedade por quotas e em Setembro de
2003, vendeu a sua quota e com o produto da venda adquiriu um automóvel.
Este era utilizado por João nas suas deslocações. Maria, que não estava
satisfeita com isso, vendeu o carro há 2 meses sem dar conhecimento a João.
Regime supletivo: 1717º: comunhão de adquiridos.
Benfeitorias: 216º + 1273º
Administração de bens próprios: 1678º/1; 1722º/1 a); 1681º/3.
Prédio urbano: herdado antes do casamento, casa de morada de família. É bem
imóvel 202º, 204º próprio do João 1722º/1 a).

Benfeitorias: reparações = necessárias = administração ordinária


Melhoramentos = voluptuárias = adm extraordinária

Maria ausência de João, - 1678º/ adm compete ao João = regra


sem o seu consentimento: - 1679º - excepção (poder tomar providências

Assim, para legitimar a administração de Maria: 1678º/2 f) mas. 1681º/2 não é


possível
1679º legitimar a adm. de
Maria.

Quanto ao bem próprio de Maria: 1722º a). Vendeu e comprou um carro 1723º João
pode administrar? Sim, no âmbito do 1678º/2 e).
Maria vendeu o carro 1682º à esta venda é anulável 1687º/2. Prazos: 1687º/2

A venda de um bem próprio carece da autorização do outro cônjuge.

● Caso Prático 14
Álvaro e Cristina casaram em 2001, sem convenção antenupcial. Em Maio do ano
seguinte, Cristina licenciou-se em engenharia agrícola. Como necessitou de comprar
um pequeno tractor para o seu trabalho, Cristina vendeu algumas libras em ouro que
possuía e que lhe haviam sido oferecidas por seu pai. Vendeu ainda o selo de prata do
diploma da sua licenciatura. A venda rendeu 600€ e com mais 1000€, provenientes do

Tânia Belo - 136 -


Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

seu ordenado, adquiriu o tractor.


1º Estamos no âmbito dos efeitos patrimoniais do casamento.
2º Tipo de regime: comunhão de adquiridos, 1717º.
3º Determinar os bens
4º Administrador: Cristina 1678º/2 e)
5º falar do proveito comum do casal- não se presume.???

1-quem é o proprietário do tractor agrícola?


Libras em ouro: bem próprio 1722º/ a) ou b)
Licenciatura – selo em prata: bem próprio 1733º f). aplica-se mutatis mutandis ao
regime supletivo.
Ordenado: bem comum: 1724º a)
Libras + selo = 600€ aplica-se o 1726º/1 (a + valiosa das prestações)
Ordenado = 1000€ ä
Logo: o tractor é um bem comum.

2-O tractor necessitou de uma reparação, que orçou em 400€, e que Cristina não
pagou. Quem é o responsável por esta dívida? Ambos. 1690º/1 – pode contrair a
dívida.
1691º/ c) à divida que responsabiliza ambos.

● Caso Prático 15
João, serralheiro, Maria empregada fabril, estão casados desde 1993- Em Outubro
de 1998, João comprou a Pedro 2 televisões de último modelo e 1 microondas. Tudo no
valor de 5,000€. Convencionaram o pagamento em prestações mensais durante 3 anos.
João nada disse a Maria, que desconhecia o negócio, porque João não levou para casa
os aparelhos.
João faltou ao pagamento das prestações. Pedro pretende executar determinados
bens:
- um prédio rústico, no valor de 4,000€ , que os cônjuges compraram com o produto da
venda de um automóvel, que Maria levara para o casamento. Bem próprio 1722º ou bem
comum 1723º.
- um pinhal que Maria adquiriu na constância do matrimónio, em virtude de um direito de
propriedade anterior ao casamento. Bem próprio, 1722º/ c)
- um colar de pérolas que Maria trouxe para o casamento. Bem próprio 1733º f) mutatis
mutandis; ou 1722º a).
1. que tipo de dívida está em causa? Dívida da responsabilidade de um dos cônjuges 1692º a),
1690º
2. que bens respondem? Os próprios do João 1696º
● Caso Prático 16

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Apontamentos de Direito da Família Docente: Dra. Filomena Carvalho

1. Como se constitui a adopção?


Por sentença judicial. 1973º/e precedido do constante no nº 2.
2. O que é o consentimento em branco?
Não se conhece a identidade futura dos adoptantes, nem é necessário o
consentimento dos pais, 1981º/2
3. O que é a adopção aberta?
Não se sabe quem é um dos progenitores, ex: uma mãe que foi violada por um
desconhecido.
Ou, quando a um cônjuge ou unido de facto adopta o filho do outro.
4. Poder-se-á adoptar uma criança com pouca diferença de idade do
adoptante? Não.
a. é possível uma adopção entre uma pessoa de 14 e outra de 19?
Não. 1979º/1 na plena e 1992º na restrita.
b. E um de 18 por outro de 25?
Mais de vinte e cinco anos, inclusive.
5. Podem ser adoptadas crianças com as quais já há um vínculo familiar?
Alguma doutrina entende que não, mas a lei consente.
6. Como, quando e onde se presta o consentimento?
Como: 1981º. Quando: 1982º. Onde: audição obrigatória 1984º a), 1982º/1.
O consentimento tem de ser pessoal e mediante declaração oral perante o juiz.
7. Como se processa a revogação ou caducidade do consentimento?
Plena: 1983 – 3 anos. É irrevogável 1989º
Restrita: 2002~-B: a requerimento
8. É possível a adopção sucessiva? Em que consiste?
Não. 1975º
9. Como ligar a adopção e o segredo de identidade? Base legal?
A lei protege mais o adoptante do que os pais naturais.
Plena: 1985º = corta. Restrita: 1994º = mantém.

● Caso Prático 17
Noémia nasceu a 13 de Novembro de 1935, foi registada apenas como filha de
Bárbara, que era solteira. 2 anos antes do nascimento, Manuel, também solteiro,
visitava a casa de Bárbara. Esta não conheceu sexualmente outro homem e o
nascimento ocorreu nos primeiros 120 dias dos 300 que antecederam o nascimento.
Todos quantos conheceram Bárbara, sabiam que ela não queria outro companheiro.
Dessas relações sexuais, engravidou Bárbara e nasceu Noémia. Manuel visitou Bárbara
durante toda a gravidez e afirmava a todos a gravidez provinha de si. Manuel afirmava
desde o nascimento de Noémia que tinha uma filha e este deixava que ela o tratasse
como pai. Nas conversas de relações pessoais com 3ºs, ambos se referiam a pai
e filha. Esse tratamento aconteceu até cerda de 15 a 20 dias antes da morte de
Manuel, em 1985, altura em que deu entrada no hospital, inconsciente e sem fala.

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Até à morte, nunca mais recuperou a fala. Noémia visitou-o até ao momento do seu
falecimento. No funeral, as pessoas apresentavam-lhe as condolências. Noémia, em 12
de Junho de ’86, propõe uma acção de investigação da paternidade. Poderá fazê-lo?
Estabelecimento de filiação. Paternidade. Estamos perante um registo em branco. Existe
alguma presunção: 1871º/1ª) – Posse de Estado, requisitos: actos públicos; continuados e
inequívocos. Prazo: 1 ano. 1817º/4 1ª parte: por remissão do 1873º.

● Caso Prático 18
José Coelho e Ana Guerreiro celebraram matrimónio em 31 de Outubro de 1942. Em
1957 separaram-se. José passou a viver desde então com Clotilde como se fosse sua
mulher. Viviam em comunhão de mesa, leito e habitação.
Clotilde Coelho era, na altura mulher de Manuel Rosa. Em Abril de 1965, nasceu Maria
Coelho fruto das relações sexuais fecundantes, havidas entre José e Clotilde.
José, no dia do nascimento de Maria, dirigiu-se à Conservatória onde declarou o
nascimento de Maria.
Quando o Conservador lhe perguntou quem era a mãe da criança, José respondeu que
era sua mulher, Ana Guerreiro.
Na posse destes dados o Conservador lavrou o respectivo assento de nascimento.
Maria sempre viveu com José e Clotilde, sendo por ambos tratada como filha quer em
casa quer em público.
José e Clotilde sempre a ampararam, vestiram e alimentaram, desde que nasceu.
Os amigos familiares e vizinhos consideram Maria filha de José e Clotilde.
Em 1983 Ana Guerreiro pediu o divórcio contra José.
Em 1987 Maria intentou no Tribunal da Comarca de Loulé, acção de investigação e
declaração da maternidade, impugnação e rectificação do registo de nascimento.
Quid iuris?
1. Introdução
Temática: estabelecimento da filiação, mais concretamente o estabelecimento da
maternidade.
Problemas levantados:
a) Declaração da maternidade;
b) Impugnação da maternidade;
c) Acção de investigação contra a verdadeira mãe ou reconhecimento judicial;
2. Desenvolvimento
a) A maternidade infere-se de um facto visível que é o nascimento – art. 1796.º C.C.- e
estabelece-se de acordo com as regras do art. 1803.º - 1825.º C.C.) 1
b) Aquele que declarar o nascimento deve indicar a mãe da criança – art. 97.º
c) No nosso caso o pai fez a declaração no dia em que Maria nasceu, logo deve aplicar-se o
art. 1804.º C.C.
d) Maria Coelho pretende que no seu registo conste o nome da sua mãe biológica. Pelo que
deve instaurar uma acção de impugnação da maternidade – art. 1807.º C.C.. Esta acção não
prescreve, uma vez que está em causa o interesse público da verdade biológica e a sua

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correspondência jurídica. (art. 1815.º C.C. e art. 124.º n.º1 C.R.C.)


e) Posteriormente deveria instaurar acção de investigação da maternidade – art. 1814.º
ss -, tendo Maria legitimidade activa para o efeito. Esta acção deve ser proposta contra a
pretensa mãe, conforme estatui o art. 1819.º C.C.
f) Maria terá que trazer para o processo factos que provem a maternidade – art. 1816.º C.C.
g) No caso em apresso, Maria integra o conceito de posse de estado 2 e até do próprio
tratamento, pelo que o prazo para instaurar a acção, pese embora ela já tenha 22 anos (ano
de 1987), não deve entender-se como expirado.
2. Nota conclusiva:
Não foi este o entendimento do acórdão da Relação de Évora, que consideraram o pedido
intempestivo, por não se enquadrar na regra e nas excepções enunciadas no art. 1817.º C.C.

1 No caso de prova da paternidade esta pode ser feita de duas formas: prova directa e
indirecta. Na prova directa inclui-se a prova da existência de relações sexuais fecundantes
no período legal de concepção entre a mãe do investigante e o investigado (pretenso pai) e
bem assim a prova da exclusividade das relações sexuais. A prova indirecta abrange a prova
dos factos em que assentam determinadas presunções legais (art.1871.º C.C.)

2 Posse de Estado: elemento subjectivo: reputação pelo pai e pelo público; elemento
objectivo: tratamento – exteriorização de um comportamento que se traduz em actos
continuados e inequívocos.

● Caso Prático 19
Abel e Berta casaram em 1884, sem convenção antenupcial.1717º (comunhão de adquiridos)
a. em Maio de ’95, Abel comprou um automóvel, no valor de 8,000€, com dinheiro que
ganhara no concurso televisivo; Negócio oneroso. O dinheiro é um bem comum, ainda
que sub-rogado pelo automóvel – 1724º a) e b).
b. Berta vendeu em ’95, um colar em ouro, que recebera de sua tia por ocasião do Natal;
bem móvel, adquirido por doação, 1722º/1 b), logo, bem próprio.
c. Abel em ’99 comprou um computador ultimo modelo. Bem móvel comum, nada indica
mas, supõe-se que adquirido com os salários, logo 1724º b).
d. Berta que era dona de um prédio rústico onerado com uma servidão de passagem,
comprou em ’97 o prédio confinante, sendo que a servidão era anterior ao casamento;
bem imóvel, próprio, 1722º/1 a)- A servidão = era dela 1722º/2 a). O novo prédio = é
dela 1722º/2 d) + 1722º/1 c).
e. Berta vendeu um quadro que tinha herdado do avô e com 1000€ das poupanças do
seu salário, investiu na bolsa e comprou uma carteira de acções; quadro = bem móvel
adquirido a título gratuito antes ou depois do casamento = bem próprio 1722º/a ou
b). Eventualmente 1723º a) (se os 1000€ não existissem). Se o valor do quadro for
inferior: 1726º/1.
f. Berta adquiriu um par de brincos valiosos com as rendas do apartamento, que era seu, e
que arrendara a Carlos; rendas = bem comum (= frutos) 1728º/1, logo, brincos são bem
comum, adquiridos a título oneroso.

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g. Abel era solicitador a iniciar carreira e comprou um apartamento para aí instalar o seu
escritório, com dinheiro dos seus pais; 1722º/1 b) e 1723º c).
Diga em que massa patrimonial se inscrevem os mencionados bens e fundamente.
Introdução: o que são regimes, e timos, quais os imperativos (1720º), convenção antenupcial,
estamos no âmbito da autonomia da vontade.

● Caso Prático 20
Manuel e Sandra casaram em 1986, sem convenção antenupcial. Manuel, sem o consentimento
de Sandra, praticou os seguintes actos: Regime supletivo: 1717º

a. deu de arrendamento a casa de praia do Algarve, durante os meses de Verão, casa


esta que igualmente levou para o casamento.
1682º-A/1 a) à consentimento
$
Mas, à interpretação (da doutrina) restritiva e teleológica: 1024º é de
administração
ordinária à não é necessário consentimento.
b. Vendeu um automóvel que era seu e que tinha trazido para o casamento e que servia
unicamente para as deslocações de Sandra.
Bem próprio de Manuel à é um bem móvel sujeito a registo, a administração deste
bem cabia a Sandra (1678º/2 e)) à cônjuge não proprietário.
Logo, Manuel não podia vender o automóvel 1682º/3 b).
1687º/1 à anulável
1687º/2 à prazo de 6 meses.

● Caso Prático 21
Filipe e Carla, ambos maiores, contraíram casamento em 1984, sem prévia celebração
de convenção antenupcial. Em Dezembro de ’97, Filipe recebeu por herança de seu pai,
uma quota numa sociedade de lanifícios, ramo que não lhe merecia qualquer interesse,
por estar muito afastado da sua área de actividade.
Em Novembro do ano anterior (2005), recebeu uma vantajosa oferta de compra e
decide aceitá-la. Em Janeiro do presente ano, Filipe e Carla foram convidados a
assistir a um casamento de um rico industrial, amigo do casal, convite que decidiram
aceitar. (Nota: Filipe e Carla eram provenientes de família bastante abastadas).
Sabendo da predilecção do amigo pela pintura, Carla envia-lhe, mesmo antes de
consultar Filipe, e como presente de casamento, um quadro de um afamado pintor
português e cujo custo se cifrou em largas centenas de euros, que Carla não pagou na
altura.
Filipe ficou indignado com o comportamento individualista de Carla. Comportamento esse
que já tinha, no entender de Filipe, ocorrido demasiadas vezes ao longo do casamento,
pelo que entendeu consultar um advogado para requerer o divórcio litigioso. Quid Iuris?
Casados em regime de comunhão de adquiridos 1717º.

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Quota = um direito ou um bem móvel? A doutrina divide-se. Se considerarmos que é um bem


móvel, aplicamos do 205º .
É um bem próprio dele, foi adquirido por sucessão, administração por ele 1678º/1. Podia
vender a quota? Sim, 1682º/2.
Em relação à dívida: comum ou própria? 1691º. Definir proveito comum.
Dívidas da responsabilidade de um dos cônjuges /1692º a) + 1690º). E possível ela contrair
dívidas sem o consentimento. O 1692º exceptua as alíneas b) e c) do 1691º. Analisando a al.
c) do 1691º: os dinheiro é bem comum, logo, a sua administração cabe a ambos. No entanto,
esta administração (compra do quadro) é extraordinária, logo, compete ao outro cônjuge dar
consentimento (1672º/2). Ele não está a agir dentro dos seus limites de administração.
Conjugar conceitos dentro dos limites dos seus poderes de administração com proveito
comum do casal. Será que ao comprar presente para casamento é proveito comum, sabendo
que eles são abastados? No caso, como é muito avultado, é dúbio.
Deveríamos tomar uma posição. 1691 c) – refere estes dois conceitos que são requisitos
cumulativos. Para afastar a aplicação deste artigo, dever-se-ia ir 1º pelos “limites dos seus
poderes de administração” e só depois para “proveito comum do casal”.
Dívida da responsabilidade dela, logo, iam responder os bens próprios dela ou a meação dos
bens comuns 1696º.

Adopção

Plena

Restrita

Albertina ∞ Francisco ? Carla ∞ Tomé – Gilberta Bernardo

Diana ∞ Helder

Conjunta

Singular

Josefa Manuel Noémia Rui

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