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| E-ISSN 1808-2599 |

Contratos comunicativos
e ação situada: uma
abordagem pragmática
Ricardo Fabrino Mendonça

1 Introdução 1/17
Resumo
O presente artigo busca discutir o conceito de A noção de contrato tem ganhado crescente
contrato comunicativo, explorando as bases
atenção em pesquisas das áreas de lingüística e de
e os contornos gerais da idéia. Criticando os
comunicação social. Merecem destaque estudos

Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação | E-compós, Brasília, v.11, n.2, maio/ago. 2008.
enfoques que restringem o contrato a uma análise
textual, bem como as abordagens excessivamente preocupados com o chamado campo da recepção,
centradas no sujeito, realizamos uma leitura da
noção que tem em seu cerne a idéia de situação análises voltadas para a apreensão do receptor
comunicativa. Nessa trilha, buscaremos realizar nas próprias estruturas textuais de um bem
uma aproximação entre a noção de contrato e a
de ação situada, estabelecendo diálogo com uma
simbólico e trabalhos orientados para avaliar as
tradição sociológica que remonta às conversações propostas interativas de um (ou mais) produto(s)
de Tarde, à reflexividade de Dewey e Mead, aos
de comunicação, sendo marcante, nestes últimos,
frames de Goffman e aos contextos institucionais
de Quéré. O objetivo é chamar a atenção para a a presença do conceito de gênero.1
fertilidade do conceito de contrato se abordado
a partir de um enfoque pragmático. O pressuposto geral que alicerça tais estudos é o
Palavras-chave
Contrato comunicativo. Ação situada. Frames.
de que o ato comunicativo envolve uma espécie
de pacto, que possibilita o estabelecimento
da relação entre as instâncias interlocutivas.
A idéia é a de que a comunicação, seja ela
midiatizada ou face-a-face, formal ou informal,
escrita ou oral, depende de um acordo tácito que
Ricardo Fabrino Mendonça | ricardofabrino@hotmail.com possibilita a própria instauração da interlocução
Doutorando em comunicação social pelo Programa de Pós-Graduação
em Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. e é atualizada por meio dela. Bastante rica, a
Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais – FAPEMIG.
Integra o Grupo de Pesquisa em Mídia e Espaço Público da UFMG e o perspectiva permite conceber a comunicação
Deliberative Democracy Group da ANU.
para além de um enfoque unilateralizante.
Agradeço a Vera França por sua valiosa contribuição na elaboração Operacionalizável, ela possibilita pensar
deste artigo. Também sou grato à FAPEMIG pelo apoio financeiro
concedido ao pesquisador sob a forma de bolsa. uma abordagem complexa e relacional dos
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processos comunicativos, fomentando análises atenção para a fertilidade do conceito de contrato


contextualizadas e sensíveis à atuação conjunta se abordado a partir de um enfoque pragmático.
dos interlocutores.
2 Contratos de comunicação:
É importante perceber, contudo, que a ampla pactos relacionais
utilização da noção de contrato não é despida de
A idéia de contrato de comunicação encontra
perigos. Algumas pesquisas permanecem muito
suas raízes em três autores: Umberto Eco, Eliseo
presas ao texto, acabando por reduzir o processo
Verón e Patrick Charaudeau. De maneiras
comunicativo às materialidades simbólicas.2
distintas, cada um deles buscou refletir
Outras parecem encarar o contrato comunicativo
sobre acordos tácitos que regem práticas 2/17
a partir da mesma lógica do homônimo no campo
comunicativas. Tais acordos permitem a ligação
jurídico e assumem que tal contrato é uma ação
de interlocutores, ao mesmo tempo em que
deliberada e consciente dos parceiros envolvidos.
são gerados no próprio ato por meio do qual os

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O objetivo do presente artigo é discutir o sujeitos se ligam.

conceito de contrato em diálogo com alguns


Umberto Eco desenvolve tal perspectiva sem fazer
dos textos fundadores da noção. Pretende-se
referência explícita ao termo contrato. Em seu
explorar os contornos gerais da idéia, de modo
clássico ensaio sobre o Leitor-Modelo, Eco (1986)
a extrair princípios importantes para a análise
aponta como o interlocutor-receptor atravessa
de fenômenos comunicativos. Criticando os
a própria construção de uma forma simbólica,
enfoques que restringem o contrato a uma análise
sendo previsto pelo texto e nele se inscrevendo.
textual, bem como as abordagens excessivamente
Um texto demanda e delineia seus receptores,
centradas no indivíduo, realizamos uma leitura da
prevendo quem são os interlocutores hábeis a
noção que tem em seu cerne a idéia de situação
cooperar para sua atualização. “O Leitor-Modelo
comunicativa. Nessa trilha, buscaremos realizar
constitui um conjunto de condições de êxito,
uma aproximação entre a noção de contrato e a
textualmente estabelecidas, que devem ser
de ação situada, estabelecendo diálogo com uma
satisfeitas para que um texto seja plenamente
tradição sociológica que remonta a Tarde, Dewey,
atualizado no seu conteúdo potencial” (ECO,
Mead, Goffman e Quéré. O objetivo é chamar a
1986, p. 45). O autor de um bem simbólico

1 Para alguns exemplos, ver, além dos clássicos textos de Eco (1986); Verón (1983; 2004); Charaudeau (1996; 2006) e
Maingueneau (2002), alguns trabalhos desenvolvidos no Brasil: Ferreira (2006); Natansohn (2005); Souza (2003); Castro (2003);
Oliveira (2003); Mari (2002); Duarte e Castro (2001); Gomes (2005).
2 Adota-se, aqui, uma visão ampla de texto¸ compreendendo-o como uma “construção social tipificada pela experiência
comunicacional dos agentes” (SOUZA, 2003, p. 64). Como aponta Maingueneau (1996), trata-se de uma totalidade coerente que,
seja oral ou escrita, é estruturada de modo a perdurar.
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antecipa expectativas e lida com elas na própria O maior problema de Eco talvez seja a restrição
geração do texto. de tal contrato às estruturas textuais. Seus
insights são ricos, mas oferecem poucos
Com a imagem do Leitor-Modelo, Eco (1986)
operadores para que se analise a situação
não deseja, todavia, eliminar a importância
comunicacional de um modo mais amplo. Essa
do leitor real. A interpretação depende
crítica também pode ser dirigida a Eliseo Verón,
dos movimentos cooperativos de um leitor
um dos precursores na defesa explícita de uma
concreto. O interlocutor-receptor tem um papel
abordagem guiada pela idéia de contrato no
fundamental exatamente porque é capaz de
campo dos estudos de linguagem.
atualizar os não-ditos do texto. Isso só pode ser
3/17
feito porque existe uma trama tácita unindo Verón (2004) propõe uma análise de discurso
os interlocutores. É ela que permitirá ao leitor orientada pela noção de contrato de leitura,
compreender esses não-ditos, que são supostos atentando para a centralidade da enunciação.

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pelo interlocutor-emissor. Também é ela que Para Verón, a maneira de dizer algo é tão
lhe permite hipostasiar um Autor-Modelo, cujos importante como aquilo que é dito (VERÓN, 2004,
traços são inferidos a partir das estratégias p. 177). Ele afirma que, em cada discurso, as
textuais. Existe uma espécie de contrato modalidades do dizer instauram um dispositivo de
subterrâneo que possibilita tanto a criação como enunciação, que constitui a figura do enunciador
a interpretação do texto. e a do destinatário. Percebe, assim, de modo
semelhante a Eco, que estes são entidades
Não se trata, obviamente, de um acordo
discursivas que se interpelam textualmente.
transparente em que os não-ditos são
“Pelo funcionamento da enunciação, um discurso
estrategicamente silenciados por um emissor e
constrói uma certa imagem daquele que fala (o
limpidamente deduzidos pelo receptor. Eco (1986)
emissor), uma certa imagem daquele a quem
percebe as opacidades das trocas comunicativas
falamos (o destinatário) e, em conseqüência, um
e destaca que os interlocutores podem operar
laço entre estes ‘lugares’” (VERÓN, 1983, p. 3-4).
com enciclopédias distintas. O leitor pode traçar
E essa enunciação não é autônoma, mas produzida
trilhas distintas das previstas pelo autor, seja
no interior do próprio contrato.
porque trabalha com outras referências, seja
porque suas competências foram calculadas de Verón (1983) reflete, particularmente, sobre os
modo insuficiente (ECO, 1986, p. 41).3 contratos de leitura constituídos por jornais

3 Julgamos, assim, inadequada a crítica de Mari (2002) a Eco. A Mari parece insensato “admitir que o ‘destino interpretativo deve
fazer parte do próprio mecanismo gerativo’ do texto, pois isso implica supor que o autor possa diagnosticar as condições de sua
interpretabilidade” (MARI, 2002, p. 50). Em Eco, esse diagnóstico não é dado como preciso e acurado. Ele existe como uma teia de
expectativas recíprocas socialmente partilhadas.
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impressos, que, em suas capas, imagens, Efeitos esses que não são causais e automáticos,
diagramações, escolhas lexicais, classificações do mas se inserem em uma semiose que é “ternária,
material e propostas de percurso, estabelecem social, infinita, histórica” (VERÓN, 1980, p. 188).
tipos singulares de laço com seus leitores. De
Embora Verón proponha a ultrapassagem de
acordo com o lingüista, os âmbitos de emissão e
perspectiva imanentista, defendendo uma
recepção de um jornal não podem ser abordados
abordagem social, sua visão do contrato
separadamente. Para Verón, periódicos que
permanece bastante centrada no texto. Ele
tratam de temáticas muito semelhantes podem
continua lendo a enunciação na própria
ser muito diferentes, porque enunciam tais
materialidade textual, nas escolhas e marcas
conteúdos de maneiras distintas, estabelecendo 4/17
que se manifestam por meio dela. Deixa escapar,
contratos díspares. O que caracteriza o contrato
assim, parte de seu insight, na medida em que
é a recorrência de determinadas modalidades
foca as operações de investimento: a “colocação do
discursivas, que podem delinear uma configuração

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sentido no espaço-tempo, sob a forma de processos
mais ou menos coerente de uma publicação
discursivos” (1980, p. 191).
ou de um suporte. Configuração essa que afeta
a leitura feita pelas pessoas. São os contratos François Jost (2004) aponta exatamente essa
que estabelecem o liame entre a materialidade questão, quando analisa o trabalho de Verón. O
simbólica e o leitor. Nesse sentido, para que uma pesquisador francês critica a virtualidade dos
publicação seja bem sucedida, ela deve dialogar sujeitos textuais, opondo-se à “consideração de
com as expectativas, motivações e interesses que o contrato está no texto, dentro do texto”
compartilhados pelo público (VERÓN, 1983, p. 3). (JOST, 2004, p. 10). Atribuímos esse problema
mais ao pioneirismo de Verón do que a uma não
Verón (2004) defende, ainda, que a consumação
percepção das múltiplas relações sociais que
de um contrato só ocorre no momento da leitura
atravessam e constrangem a tessitura de um texto.
com o reconhecimento deste pelos receptores.
O autor parece mais preocupado em defender a
“Um discurso é um espaço habitado, repleto de
própria idéia de contrato do que em aprofundá-la.
atores, de cenários, de objetos, e ler é ‘colocar
em movimento’ esse universo [...]. Ler é fazer” Uma abordagem mais articulada da noção, e
(VERÓN, 2004, p. 181). Apreender as gramáticas menos restrita à dimensão textual da mesma,
de produção e as gramáticas de reconhecimento, pode ser encontrada em Patrick Charaudeau
bem como o funcionamento da circulação de um (1996; 1997; 2006). O expoente da chamada
texto, é algo fundamental para captar seus efeitos. Nova Análise de Discurso francesa4 tem se

4 Charaudeau (1996) apresenta a chamada Nova Análise do Discurso como alternativa à lingüística pura hard. Ele busca re-
introduzir a linguagem na vida social e frisar a dimensão relacional do intercâmbio linguageiro.
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destacado na discussão da idéia de contrato Os contratos não representam, contudo, um


e na sua aplicação empírica a diversos completo cerceamento dos sujeitos. Contratos
fenômenos comunicativos. Para Charaudeau, também são um espaço de abertura de campos
contratos regulam as expectativas recíprocas de possibilidades estratégicas (stratégies
dos sujeitos comunicantes. discursives), demandando a ação dos sujeitos
interlocutores. “O espaço das estratégias
[...] toda troca linguageira se realiza num qua-
dro de co-intencionalidade, cuja garantia são discursivas representa a margem de manobra que
as restrições da situação de comunicação. O o sujeito comunicante dispõe para executar seu
necessário reconhecimento recíproco das res-
projeto de fala” (COURA-SOBRINHO, 2003, p. 272).
trições da situação pelos parceiros da troca lin-
guageira nos leva a dizer que estão ligados por 5/17

uma espécie de acordo prévio sobre os dados A compreensão dos elementos constituintes de
desse quadro de referência (2006, p. 68). um contrato de comunicação requer, segundo
Charaudeau, a consideração de um conjunto de
Para o autor, é a existência de contratos de

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dados fixos (externos e internos). Se se tem
comunicação que possibilita e molda o intercâmbio
em vista que o discurso tem um componente
linguageiro. A condição mínima de qualquer
lingüístico (material verbal) e um situacional
contrato é o reconhecimento recíproco dos sujeitos
(material psicosocial), que “são simultaneamente
(CASTRO, 2003). Além de se reconhecerem,
autônomos, em sua origem, e interdependentes
os parceiros precisam se embasar em um
em seu efeito” (CHARAUDEAU, 1996, p. 6),
conjunto de referências comuns que permitam o
fica claro que os dados externos remetem ao
estabelecimento do laço comunicativo.
componente situacional do discurso ao passo que
Os atributos específicos de cada contrato variam os internos se referem ao componente linguístico.
em função da situação comunicativa. “A situação
Habituado a sub-categorizar suas categorias,
de comunicação é como um palco, com suas
Charaudeau (2006, p. 68-71) agrupa os dados
restrições de espaço, de tempo, de relações, de
externos que moldam um contrato em quatro
palavras, no qual se encenam as trocas sociais
condições: 1) A identidade dos interlocutores;
e aquilo que constitui o seu valor simbólico”
2) A finalidade das trocas estabelecidas; 3) O
(CHARAUDEAU, 2006, p. 67). Essas restrições
propósito ou domínio de saber de que se trata; e
(contraintes discursives) são regulações,
4) O dispositivo e a ambiência que permitem a
convenções e normas que possibilitam a
materialização da comunicação (CHARAUDEAU,
interlocução na medida em que a governam. Assim,
2006, p. 105). O autor defende que variações em
“nem a produção, nem a recepção processam-se
qualquer um desses elementos instauram pactos
à revelia de restrições que devem ser impostas ao
interlocutivos diferentes.
seu funcionamento” (MARI, 2002, p. 36).
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Os dados internos, por sua vez, também são sub- do lugar que cada um vê lhe ser atribuído”
categorizados “em três espaços de comportamentos (MAINGUENEUAU, 1996, p. 10).
linguageiros, a saber: o espaço de locução, o
Assim como Verón, Charaudeau (1997; 2006)
espaço de relação, o espaço de tematização”
dedica grande parte do seu trabalho à análise
(CHARAUDEAU, 2006, p. 70). Nesses espaços,
de contratos estabelecidos pelos meios de
reside o ponto nodal de que tratam tanto Eco
comunicação. Ele propõe uma abordagem atenta
(1986) como Verón (1983). O espaço da locução
às interfaces entre as instâncias de produção
diz respeito à justificativa da tomada da palavra
e de recepção. Cada uma destas se configura
pelo enunciador, que constrói uma imagem de si e
simultaneamente como agência social e agência
identifica o interlocutor-destinatário. O espaço da 6/17
discursiva, ou, nas palavras de Charaudeau (1996;
relação refere-se ao tipo de laço estabelecido pelos
2006), como parceiros (Sujeito comunicante X
interlocutores. Por fim, o espaço de tematização
Sujeito Interpretante) e protagonistas (Sujeito
é aquele da organização do discurso (descritivo,

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Enunciador X Sujeito Destinatário).5
argumentativo, narrativo), dadas as possibilidades
de uma certa situação. Apesar da riqueza dessa perspectiva, e
contradizendo os próprios alicerces de sua teoria,
Importante ressaltar que, na perspectiva de
Charaudeau afirma que não há troca efetiva
Charaudeau, os contratos comunicativos não
entre as instâncias de produção e recepção: “Por
estão inteiramente dados e nem são estáticos.
mais que as mídias recorram a técnicas ditas
Eles se constroem e se atualizam nas próprias
interativas, não há diálogo e troca, somente o
relações ao mesmo tempo em que as in-formam.
seu simulacro” (2006, p. 124). Ele diz tratar-se
Se produzir um discurso é inserir-se em uma
de um discurso unidirecional, cujo poder reside
rede de intertextualidades, como assinala
na influência. Charaudeau parece, desse modo,
Charaudeau (1996), é preciso perceber que
negar o primado da interação que está na base de
a proposta vislumbra tanto um diálogo com
sua abordagem. Ele negligencia a configuração
quadros de referência já existentes como uma
relacional do contrato que embasa a inserção dos
inserção ativa nesses quadros. É na própria
interlocutores no ato comunicativo.
proferição de um ato de linguagem que se define
a “relação de lugares de ambas as partes [e Com isso, fortalece os argumentos de certos
se apresenta] um pedido de reconhecimento críticos da noção de contrato, como François

5 Para o autor, “a instância de produção deve ser considerada de modo diferente, ora como organizadora do conjunto do sistema
de produção, num lugar externo, ora como organizadora da enunciação discursiva da informação” (2006, p. 72). Do mesmo modo
a “instância de recepção também deve ser desdobrada: de um ponto de vista interno à instância midiática, é designada como
destinatário – a ‘instância-alvo’; de um ponto de vista externo, como instância de recepção propriamente dita, com uma atividade
própria de consumo, é designada como ‘instância-público” (idem, p. 72-3).
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Jost. Em seus estudos sobre a televisão, Jost contexto mais amplo. Se se analisa o fenômeno
(2004) alega que o fenômeno midiático é tão puramente em termos de ‘como falar para
repleto de incertezas que não se pode falar muita gente ao mesmo tempo?’, a observação
de acordo tácito. Ele restringe o contrato ao parece plausível. Mas, quando se percebe o
que chama comunicação recíproca e afirma profundo imbricamento social dos media, com
que tal reciprocidade não seria possível na uma história de interlocuções travadas que
televisão. No lugar do contrato, Jost (2004) comunalizam padrões interpretativos, nota-se
propõe uma abordagem norteada pela idéia de que esse aumento da audiência pode exatamente
promessa, a qual ocorreria em dois tempos: o da reduzir incertezas e solidificar pactos.
enunciação e o de sua posterior verificação pelos 7/17

interlocutores-receptores. 3 Para além do texto


e dos atores, a situação
A grande diferença da proposta de Jost é a
Entendemos que grande parte dos problemas

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da distensão temporal do processo em dois
da noção de contrato advém dos seus
momentos. Com isso, no entanto, Jost mina as
desenvolvimentos e aplicações, que acabam
próprias bases pragmáticas do contrato, que
por complexificar uma idéia bastante simples.
nos parecem a dimensão mais rica do conceito.
Acreditamos que a riqueza do contrato está
Ele esvazia o sentido da atualização em ato de
no foco que ela coloca sobre a situação
um acordo tácito e acaba por re-conduzir a uma
comunicativa. Calcada em pressupostos
leitura centrada nos atores: a instância midiática
pragmáticos, a perspectiva evidencia que a
que promete e a audiência que avalia. Como
interação social só se realiza em ato, sendo
Charaudeau, ele deixa escapar a dialogicidade
atravessada por uma série de variáveis que
da comunicação midiática. Ainda que Jost
se combinam de modos específicos a cada
deseje exatamente o oposto, sua proposta pode
interação. A compreensão do contrato, nesse
fortalecer perspectivas calcadas no individualismo
sentido, ultrapassa os aspectos discursivos
metodológico, ao negligenciar a intersubjetividade
de uma interação e as intencionalidades dos
que funde esses dois momentos.
interlocutores. O contrato está calcado em um

Além disso, Jost (2004) assume uma premissa acordo que não é consciente, nem inteiramente

contestável: a de que os media elaboram seus formulado na textualidade.

discursos em um campo muito mais incerto


O contrato comunicativo, com suas
do que o da comunicação face-a-face. Não
parametragens contextuais, alicerça-se sobre
necessariamente. Tal premissa só faz sentido
memórias intersubjetivamente partilhadas e que
se o ato comunicativo for recortado do seu
atravessam o ato comunicativo. Em cada situação,
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essas memórias se articulam de modos específicos, Os autores da escola de Palo Alto também
balizando as relações estabelecidas entre sujeitos serão propagadores da necessidade de uma
(SOUZA, 2003). A situação comunicativa é, interpretação contextualizada das ações sociais,
portanto, elemento estruturante de sua prática. aí se inscrevendo as trocas comunicativas.
Buscando compreender a natureza de distúrbios
Essa preocupação de entender a interação
psíquicos, Watzlawick et al (1967) sugerem
comunicativa dentro de sua situação de
que se pense a interação no interior de uma
ocorrência remonta a várias correntes de
seqüência ininterrupta de trocas, que é marcada
estudo, que se aproximam em virtude de suas
por um processo permanente de organização.
orientações microssociológicas e pragmatistas.
“Culturalmente, compartilhamos de muitas 8/17
Já Gabriel Tarde, no início do século XX, foi
convenções de pontuação que [...] servem para
capaz de tratar a noção de conversação de
organizar comuns e importantes seqüências
uma maneira refinada e contextualizada.
de interação” (WATZLAWICK et al, 1967, p.

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Embora restrinja a conversação aos diálogos
51). Deixam claro, assim, que a comunicação é
em que se fala por falar, por prazer, por
regida por regras implícitas e naturalizadas, que
distração, ou por polidez (TARDE, 1992, p.
são atualizadas e testadas no próprio momento
95), em uma definição que se aproxima do
da interação.
conceito simmeliano de sociabilidade, Tarde
percebe que mesmo esse tipo específico de Antes dos autores de Palo Alto, dois dos chamados
interação pode assumir facetas variadas pais fundadores do pragmatismo, Dewey e Mead, já
em distintos contextos. Há conversações percebiam a importância de se situar a interação
marcadas pela maior ou menor simetria entre em uma cadeia de relações sociais, atentando
os participantes, conversações obrigatórias ou para as regras que a precedem, mas que são
facultativas, formais e informais, simultâneas reflexivamente retomadas no momento em que
a outras atividades ou não. Para o autor, essas são mobilizadas. A começar por Mead (1934),
variações não são resultado de simples escolhas lembramos que ele atenta para a importância de
dos interlocutores. O autor assinala que até se pensar a ação dos sujeitos em seu contexto. Ele
mesmo a velocidade com que falamos é fruto da propõe pensar as ações não a partir da suposição
sociedade em que vivemos e que os elementos das causas que as motivaram, mas da observação
situacionais são centrais no desenrolar de de sua materialização em uma situação interativa.
uma conversa. Evidencia-se, dessa maneira, Percebe, assim, que os sujeitos engajados em uma
que há acordos sociais subjacentes às trocas troca simbólica estão envoltos por laços sociais que
linguageiras. Já estão insinuadas as idéias se traduzem em expectativas recíprocas e padrões
centrais à noção de contrato. de comportamento atualizados no próprio ato da
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interação. Há, portanto, uma espécie de acordo Dewey, o público é diferente da massa porque
tácito, que se manifesta na interação. tem a percepção daquilo que o afeta e age sobre
essa afetação. Tal resposta é formulada não como
Para explicar essa questão, Mead (1934) recorre
uma reação mecânica, mas no interior de um
à noção de Outro Generalizado, conceito que se
arco-reflexivo, em que a resposta interfere no
refere ao social pensado de maneira universal. Em
estímulo antes mesmo que ele se produza. Nessa
sua trajetória de experiências sociais, os sujeitos
perspectiva pragmatista, o público aparece como
são socializados, internalizando padrões, regras e
um tipo de associação efêmera e contingente que
parâmetros interativos. Na sucessão de encontros
só se realiza no momento em que age. Ou seja, ele
com os outros, aprendem o que se espera deles e
só se configura situacionalmente, sendo moldado 9/17
o que podem esperar dos outros em determinadas
e conformado por elementos contextuais, ao
situações. Assim, a cada interação, passam a
mesmo tempo em que age sobre eles. É a situação
operar com essas balizas. A edificação da ação
que oferece um leque de restrições que se impõem

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é guiada pela reflexividade que envolve uma
aos sujeitos, mas é essa mesma situação que lhes
relação tríplice: 1) do gesto com o próprio ator que
abre campos de possibilidades para que ajam de
o executa; 2) do gesto com o outro; e 3) do gesto
forma criativa e reflexiva.
em seus desdobramentos. Para Mead (1934), a
reflexividade é uma espécie de ponderação; uma Embora Tarde, Watzlawick, Mead e Dewey
ação de ligação entre o gesto e o significado que ofereçam insights fundamentais para pensar o
conduz à interposição (entre estímulo e resposta) caráter situado da ação, é sem dúvida Goffman
de uma organização. Os seres humanos selecionam quem mais desenvolve essa idéia. Herdeiro
e organizam estímulos, refletem sobre alternativas da Escola de Chicago e em diálogo com os
e fazem escolhas interativamente. pesquisadores de Palo Alto, Goffman sempre se
dedicou ao estudo das interações sociais de um
Mead trabalha essa idéia de reflexividade em
modo contextualizado. Suas descrições perspicazes
estreito diálogo com o pensamento de John Dewey.
examinam seqüências (strips) interativas com
Ao discorrer sobre o conceito de público, Dewey
profundidade, permitindo o mapeamento de
(1954) evidencia a existência de um misto de
diversas formas de relação social.
sofrer e reagir: “aqueles indireta e seriamente
afetados, por bem ou por mal, formam um grupo Seu enfoque não busca, todavia, uma incontável
suficientemente distinto para merecer um nome. enumeração descritiva de situações. Como
O nome escolhido é Público” (DEWEY, 1954, p. 35). ele mesmo explica, seu projeto acadêmico
Esse grupo não apenas é afetado pelos efeitos de voltou-se para captar a ordem da interação; ou
algo, mas se posiciona e responde a eles. Segundo seja, os padrões, regras e procedimentos que
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conduzem as ações reciprocamente referenciadas (ready-made interpretativos), que atuam como


(GOFFMAN, 1999). Esteja ele preocupado com as esquemas, orientando a compreensão do mundo
interações corriqueiras e ordinárias (GOFFMAN, e o engajamento dos sujeitos em situações
1986; 1996), com as práticas e adaptações específicas (GOFFMAN, 1986, p. 345).
secundárias de internos de instituições totais
Esses parâmetros não verbalizados são a
(GOFFMAN, 2003) ou com o modo como os
condição de possibilidade da própria interação,
sujeitos manipulam seus atributos e identidades
sendo continuamente testados. A competência
de modo a lidar com certos estigmas (GOFFMAN,
comunicativa é o conhecimento das regras
1988), há sempre uma busca pelos parâmetros
e do uso adequado delas. Goffman (1986)
que regulamentam e regem a interação social. 10/17
aponta que essa competência também envolve
Nessa perspectiva, os atores sociais não são reparações e a contínua adaptação mútua, em
inteiramente autônomos e independentes, mas uma espécie de permanente alinhamento de

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são o resultado de determinadas situações. quadros. Os sujeitos coordenam e organizam
Se não se pode negligenciar a importância suas interações continuamente, sendo que é o
da agência dos indivíduos, é preciso perceber teste intersubjetivo que permite a aplicação e a
que essa só ganha corpo em determinadas atualização das regras.
situações que estabelecem balizas e parâmetros,
Mas qual a relação entre a noção goffmaniana
porque atravessadas por acordos prévios e
de frames e os contratos comunicativos que
intersubjetivos. Na microssociologia de Goffman,
vínhamos abordando na primeira seção do
“não é o indivíduo que constitui a unidade
texto? A noção de quadros, com seu foco na
elementar da pesquisa, mas a situação” (JOSEPH,
ação situada, traz consigo a própria idéia de
2000, p. 10-11). Assim, o contexto atua como um
contrato, expandindo-a para além de textos e da
quadro ordenador da experiência.
consciência dos sujeitos. Ela diz desses acordos
Esse é o aspecto centralmente trabalhado por não explícitos que fundam o ato de linguagem,
Goffman (1986) em Frame Analysis, obra em porque incluem sua possibilidade de validação
que ele se volta para o conceito de Frames (MAINGUENEAU, 2002, p. 69).
(quadros) proposto por Gregory Bateson. Em
Para Goffman, a conversação está assentada em
Goffman, a idéia de frame refere-se às estruturas
um acordo que o sujeito estabelece com os outros
que organizam a percepção da realidade e a
e consigo mesmo e que é dado pela situação. É
ação dos sujeitos no mundo. O conceito tem,
por isso que ele indica uma profunda relevância
portanto, uma dimensão cognitiva e uma
de frames na organização da fala (1986, p. 511). Os
prática. Trata-se de princípios estruturadores
interlocutores estão, desde o início de qualquer
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interação comunicativa, ligados por conjuntos ainda que o efetivo desenrolar desta só se realize
de regras, padrões interpretativos e expectativas no próprio ato do interagir. Os interlocutores
recíprocas que consideram socialmente precisam construir imagens recíprocas para
partilhados. Para interagir, eles precisam definir estabelecer uma interação, sendo que essas
a situação em que se encontram, e essa definição imagens só podem ser construídas se existem
não é criada pelos atores engajados na interação, quadros socialmente partilhados, que lhes
mas provém de frames socialmente partilhados. permitem compreender o que está acontecendo e
que opções de agência estão disponíveis.
São esses quadros que permitem ao enunciador
organizar o enunciado, tendo em vista aquele a No entanto, diferentemente da proposta de Eco
11/17
quem ele fala. Eles restringem as possibilidades (1986) e da de Verón (1983), a perspectiva de
de ação do enunciador, delineiam imagens de Goffman (1986) permite-nos perceber que esses
destinatários e abrem campos estratégicos para enunciadores e destinatários são não apenas

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que o enunciador faça suas escolhas e percursos. papéis actanciais construídos pelo texto. Se é
Do mesmo modo, também o interlocutor- preciso reconhecê-los como estratégias textuais,
receptor age a partir dos parâmetros colocados é fundamental vê-los também como actantes
pelo frame. São tais quadros que permitem a fora do texto. Charaudeau (1996) já segue
destinatários interpretar enunciados e atribuí-los nessa direção quando assinala que a relação
a determinados atores. Ainda que os interlocutores comunicativa envolve, simultaneamente, inter- e
possam operar com quadros distintos, o intra-locutores. Os actantes se conformam na
estabelecimento da relação comunicativa necessita própria interação comunicativa, materialiazada
de um acordo mínimo capaz de vinculá-los. no texto, mas que joga para fora dele.

Os quadros funcionam, assim, como um terreno Vera França (2006) trabalha esse aspecto
intersubjetivo tácito que emoldura e possibilita em artigo que procura definir quem são os
a interação, manifestando-se por meio delas. sujeitos da comunicação e qual é a ação que
No capítulo em que propõe uma frame analysis os constitui. De acordo com ela, o “sujeito da
da conversação, Goffman (1986) frisa que a comunicação ou em comunicação [...] nomeia
enunciação só se constrói em um ambiente um sujeito enredado numa teia de relações.
e que retirá-la de seu contexto é torná-la São as relações que constituem esse sujeito”
incompreensível. Como também reconhecem (FRANÇA, 2006, p. 76-77). Relações essas que
Charaudeau (2006) e Verón (1980), a situação são estabelecidas e balizadas pelos quadros
comunicativa delineia as possibilidades de socialmente partilhados. Tais frames articulam
desenvolvimento das trocas comunicativas, os sujeitos em comunicação, que são pensados
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como actantes para além do texto que os vincula comunicação requer, pois, ultrapassar as análises
momentaneamente. Imersos em uma teia de centradas em textos (materialidades simbólicas)
relações, esses sujeitos tornam-se agentes em e em indivíduos. O contrato não é firmado por
um processo mais amplo que não começa nem sujeitos conscientes, nem existe inteiramente
termina com o enunciado e que é regido por em sua inscrição textual. Ele é colocado em
pressupostos normativos partilhados. cena pela situação comunicativa e atua, como
um contexto institucional, como percebe Quéré
Remetendo diretamente a Goffman, França
(2003): um conjunto de regras, formatos, padrões
(2006, p. 79) aponta que as interações são
e modelos partilhados que orientam a ação dos
ordenadas pelo contexto, “fundadas em
sujeitos e criam suas condições de possibilidade. 12/17
expectativas recíprocas” e mutuamente
“Esse contexto, que fornece as regras de
coordenadas. Como se nota, está em questão
comportamento, releva de uma ordem do sentido
uma abordagem atenta à situação, à prática
instituído” (QUÉRÉ, 2003, p. 121). É esse contexto

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dos sujeitos e à interação que estabelecem. O
institucional que pauta a ação dos sujeitos.
desempenho dos indivíduos constitui-se em ato,
na situação comunicativa, sendo orientado pela Nessa perspectiva, os indivíduos não podem ser
ordem da interação, para usar os termos de tomados como o elemento central e definidor
Goffman (1999) Ordem essa que atua como um das ações. Ao contrário, como indica Quéré
contrato, permanentemente firmado e atualizado (2003), eles são configurados pela ação, devendo
nas situações interativas. ser compreendidos como advérbios. “O sujeito
não é ele mesmo mais que um complemento do
Nesse sentido, o questionamento da noção de
verbo: como os advérbios, ele completa o verbo ao
contrato feito por Guimarães (1999, p. 116),
precisar uma modalidade de ação expressa por ele”
que “insist[e] em perguntar como e quando
(QUÉRÉ, 2003, p. 126). É a ação, moldada por uma
ele é firmado”, não nos parece muito frutífero.
dada situação, que demanda determinada forma
Tais respostas só podem ser respondidas
de agência dos sujeitos e os orienta. Nessa visão, a
contextualmente porque esses acordos
ação discursiva é precedida pela situação relacional
intersubjetivos são firmados, refeitos e atualizados
que a conforma.
no próprio ato da interação. Tais pactos
subterrâneos podem ser cristalizados, fortalecidos
4 Considerações finais
ou derrubados na medida em que os quadros que
O presente artigo buscou analisar a noção de
permitem a interação mostram-se úteis, ou não,
contrato que vem sendo bastante utilizada
para o estabelecimento do vínculo com o outro.
no campo da comunicação. Iniciamos com a
Pensar a noção de contrato no campo da apresentação das propostas de Eco (1986), Verón
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(1980; 1983; 2004) e Charaudeau (1996; 1997; 2006). comum criado e atualizado pelos interlocutores.
Em seguida, buscamos discutir quão frutífero tal Embora não tenhamos espaço, no presente
conceito pode ser se pensado à luz da idéia de ação artigo, para discorrer sobre a aplicação dessa
situada. Para tanto, exploramos uma tradição de noção no estudo dos media, salientamos tratar-
pesquisa pragmatista que remonta a Gabriel Tarde se de um veio muito frutífero. Se Goffman e
(1992), à Escola de Palo Alto, a Mead (1934) e a Mead permanecem muito presos às interações
Dewey (1954). Detivemo-nos, com mais vagar, na face-a-face e Charaudeau (2006) negligencia,
proposta de frames elaborada por Goffman (1986) em certa medida, a relação interativa
e concluímos com uma breve menção aos insights estabelecida pelos media, é preciso extrair os
apresentados por Quéré (2003). insights presentes nas teorias deles, projetando- 13/17

os para a compreensão das relações entre


O objetivo desse trajeto foi evidenciar que
media e sociedade. Tal tarefa requer analisar
a situação comunicativa é um elemento
os discursos midiáticos não como enunciados

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central para qualquer análise de interações
isolados, mas como partes de uma tessitura
comunicacionais. Isso não apenas porque tal
social mais ampla. Tessitura essa que impõe
situação é mais uma variável no desenrolar
seus limites a cada enunciado, mas que também
dessas interações, mas porque criam as próprias
abre infindáveis possibilidades a cada instante.
condições de sua possibilidade, mobilizando
quadros partilhados que são essenciais para seu
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estabelecimento. Como lembra Lucília Marcos
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Ressaltamos que essa concepção de contrato, CHARAUDEAU, Patrick. Le discours d’information


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norteada pela idéia de frames e pela de contextos
Nathan, 1997.
institucionais, pode mostrar-se extremamente
CHARAUDEAU, Patrick. Para uma nova análise do
rica em pesquisas empíricas, visto que tal
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Communicative contracts Contratos comunicativos


and situated action: y acción situada:
a pragmatic approach un enfoque pragmático
Abstract Resumen
This paper discusses the concept of communicative Este artículo quiere discutir el concepto de contrato
contract, exploring its basis and its general comunicativo, explorando las bases generales y los
outlines. It criticizes both the approaches that contornos de esta idea. Criticando los enfoques
restrict the contract to a textual analysis and que restringen el contrato a un análisis textual y
that are excessively focused on the subject, as los enfoques demasiado centrados en el individuo,
it proposes an understanding of the notion of llevamos a cabo una lectura del concepto que tiene
contract guided by the idea of communicative en su centro la idea de situación comunicativa. Por
situation. In this track, the paper promotes a esta vía, procuramos lograr un acercamiento entre 16/17
connection between the notions of contract and el concepto de contrato y el de acción situada,
situated action, establishing dialogue with a haciendo dialogar una tradición sociológica basada
sociological tradition that goes back to Tarde’s en la noción de conversaciones de Tarde, en la
conversations, Mead’s and Dewey’s reflexivity, reflexividad de Dewey y Mead, en los frames de

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Goffman’s frames and Quéré’s institutional Goffman y en los contextos institucionales de Quéré.
contexts. The paper aims to draw attention to the El objetivo es llamar la atención a la fertilidad del
fruitfulness of the concept of contract, once it is concepto de contrato en caso de abordarse desde un
conceived through a pragmatic approach. enfoque pragmático.

Keywords Palabras clave


Communicative contract. Situated action. Frames. Contrato comunicativo. Acción situada. Frames.

Recebido em: Aceito em:


10 de agosto de 2008 11 de novembro de 2008
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A revista E-Compós é a publicação científica em formato eletrônico da Revista da Associação Nacional dos Programas
Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação de Pós-Graduação em Comunicação.
(Compós). Lançada em 2004, tem como principal finalidade difundir a Brasília, v.11, n.2, maio/ago. 2008.
produção acadêmica de pesquisadores da área de Comunicação, inseridos A identificação das edições, a partir de 2008,
em instituições do Brasil e do exterior. passa a ser volume anual com três números.

CONSELHO EDITORIAL

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Universidade Estadual de Londrina, Brasil Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil
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