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Revista de Economia Política, vol. 27, nº 3 (107), pp.

495-503, julho-setembro/2007

Resenhas

Direito, Economia e Mercados


Armando Castelar Pinheiro e Jairo Saddi (orgs.)
São Paulo: Editora Campus, 2005.

O estudo das relações entre Direito, Econo- ral norte-americanos — e, por conta disso, os
mia e Mercados insere-se no debate sobre estra- exemplos práticos e as aplicações remetem a uma
tégias de desenvolvimento econômico e melhoria realidade distinta.
do ambiente de negócios, levando em considera- Considerando a carência desse tipo de lite-
ção as características de uma dada sociedade. Pa- ratura no Brasil, cumpre saudar a oportuna e per-
ra ser proveitoso, tal estudo deve, a um só tem- tinente publicação do livro de Armando Castelar
po, lançar mão do ferramental econômico para Pinheiro e Jairo Saddi que, espera-se, possa ser-
discutir desenhos jurídico-institucionais, bem co- vir para conferir maior destaque ao tema nos
mo ser sensível à lógica interna ao sistema jurídi- meios acadêmicos de Direito e Economia.
co e sua estrutura normativa. Dessa forma, se, Dividido em três blocos, o livro oferece ao
num passado recente, Direito e Economia anda- estudante de direito noções básicas de economia
ram em paralelo, atualmente encontram-se fato- e de funcionamento dos mercados, elementos in-
res importantes para que o fosso entre eles seja dispensáveis para proporcionar uma perspectiva
transposto. Para tal, torna-se necessário identifi- econômica ao pensamento jurídico. O economis-
car os ganhos mútuos em se fazer a ponte entre ta também se beneficia com a obra ao se afastar
essas duas disciplinas. Daí a relevância do tema. de modelos teóricos abstratos e aproximar-se da
Diferentemente do que ocorre em outros realidade através de noções sobre as instituições
países, no Brasil a produção acadêmica sobre o jurídicas e suas principais características, elemen-
assunto é bastante restrita. Muito embora a rela- tos igualmente indispensáveis na formulação de
ção entre estes ramos do conhecimento seja bas- políticas econômicas.
tante evidente, infelizmente sua abordagem ana- O primeiro bloco apresenta uma introdu-
lítica tem sido estanque, com prejuízo para o ção teórica sobre a relação entre direito e econo-
entendimento de fenômenos multifacetados. Isso mia, explicando a necessidade de estudantes de
pode ser constatado nos cursos de economia nas ambos os cursos terem conhecimentos recíprocos
faculdades de direito, bem como nos cursos de sobre suas respectivas áreas. Nesse sentido, apre-
direito nas faculdades de economia, que têm re- senta de forma sucinta alguns dos principais con-
fletido essa visão fragmentada e, na maior parte ceitos necessários à compreensão da relação en-
das vezes, pouco estimulante para os alunos (Dé- tre as duas disciplinas.
cio Zylbersztajn et Rachel Sztajn (orgs.), Direi- O resumo dos principais pontos de cada dis-
to&Economia — Análise Econômica do Direito ciplina auxilia estudantes e profissionais de cada
das Organizações, São Paulo: Campus, p. 12). área a se situarem no tema. A redação demons-
Adicionalmente, os livros-texto que tratam do as- tra uma preocupação genuína dos autores em não
sunto são em sua maioria estrangeiros — em ge- permitir que termos jurídicos ou econômicos aca-

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bem predominando em determinada seção do tex- ra explicar em termos práticos a racionalidade
to. A leitura do livro desperta a sensação de que, dos agentes econômicos, inclusive criticando al-
quando Jairo Saddi começa a se destacar, Arman- gumas premissas para institutos apresentados em
do Castelar Pinheiro surge para retomar o equi- capítulos anteriores, como a teoria do consumi-
líbrio. O contrário também é verdadeiro, mas não dor. A teoria dos jogos também foi uma impor-
na mesma intensidade. Em determinados tópicos, tante ferramenta para demonstrar que conside-
tais como os referentes à “Teoria da Empresa” e rações sobre eqüidade podem atingir resultados
“Estruturas de Mercado”, os vocábulos técnicos diferentes se feitas isoladamente ou ao longo do
econômicos acabam predominando, alterando a tempo. Por fim, o capítulo sobre a lei de falências
harmonia do texto. De todo modo, a tônica ge- apresenta um exemplo claro de um diploma le-
ral dos capítulos desse primeiro bloco reflete um gal que foi idealizado levando em consideração
equilíbrio bastante salutar, aspecto digno de re- aspectos econômicos. Apresenta-se como mode-
conhecimento, haja vista tratar-se de capítulos lo de instituto, uma vez que trabalha com os in-
voltados à apresentação dos principais tópicos de centivos dos agentes econômicos, direcionando-
cada área. os ao resultado almejado pelo Estado. Deve-se
Após apresentar esses conceitos introdutó- observar, no entanto, que na sua disposição atual,
rios sobre as duas disciplinas, no segundo bloco o capítulo encontra-se pouco integrado à obra.
da obra os autores partem para a análise especí- Talvez esse estudo merecesse ser inserido como
fica da relação entre direito e economia, a partir apêndice e não como um capítulo propriamente
de uma perspectiva clássica de análise econômi- dito.
ca do direito, referida pelos autores como “teo- O terceiro e último bloco propõe-se a rea-
ria de Direito & Economia”. Nesses capítulos, lizar uma análise entre direito, economia e mer-
eles trabalham dois campos principais de aplica- cado, aplicada à realidade brasileira. Para tal, ele-
ção do tema, quais sejam: propriedade e contra- ge alguns dos principais tópicos de interação entre
tos. (A escola da análise econômica do direito os institutos para demonstrar seu modo de fun-
(economic analysis of law ou Law & Economics) cionamento na prática.
nasce nos Estados Unidos influenciada pela Es- Por uma questão de limitação do objeto, foi
cola de Chicago. Para uma visão clássica de te- necessário restringir a análise realizada em cada
mas centrais como propriedade, contratos, res- um dos capítulos desse bloco. Essa limitação apre-
ponsabilidade civil e processo, ver Richard Posner. senta-se bastante adequada à maioria dos tópi-
Economic Analysis of Law, Aspen Publishers. Pa- cos, em especial os referentes à “Defesa da Con-
ra uma visão mais moderna, ver Robert Cooter corrência e Proteção do Consumidor” e
and Thomas Ulen. Law and Economics. Addison “Regulação dos Mercados Financeiros”, mas in-
Wesley). felizmente no capítulo sobre “Regulação Setorial
O capítulo sobre propriedade e contratos da Infra-Estrutura” não se logrou o mesmo êxi-
apresenta uma boa síntese da matéria, compro- to. Esse capítulo foca em demasia a evolução his-
vando a importância da disciplina e, principal- tórica e o marco regulatório de cada setor, que
mente, demonstrando a aplicabilidade e atuali- embora sejam aspectos importantes a considerar,
dade dos temas. Merece destaque a seção sobre acabam predominando no texto, atribuindo um
o teorema de Coase e os custos de transação, que aspecto mais narrativo à obra, destoando do tom
mostra com clareza ao leitor como direito e eco- analítico que marca o restante do livro. Há tam-
nomia se relacionam e demonstra a utilidade de bém certo desequilíbrio no capítulo na medida
se avaliar regras jurídicas a partir de uma pers- em que, sem aparente justificativa, setores igual-
pectiva de eficiência econômica. No entanto, os mente importantes, tais como o setor elétrico e
autores tomam o cuidado de ressaltar que o cri- de telecomunicações recebem tratamento consi-
tério de eficiência não deve ser o único, nem ne- deravelmente distinto em termos de espaço dedi-
cessariamente o preponderante, no desenho de cados a cada um.
regras jurídicas. Ressalte-se, ainda, que os auto- As características presentes nesse bloco ser-
res retomam muitos dos conceitos apresentados vem para lhe dotar certa ambivalência. Em alguns
nos capítulos anteriores, contribuindo assim pa- momentos, os autores dedicam tratamento mais
ra a organicidade da obra. superficial a uma matéria, enquanto que em ou-
O capítulo sobre teoria dos jogos serve pa- tros, realizam uma abordagem mais aprofunda-

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da, de conteúdo mais apropriado a profissionais especial podem ser de grande utilidade, especial-
com conhecimento prévio na área. Nesse aspec- mente em cursos de graduação, permitindo de-
to, um exemplo são as referências ao método monstrar a aplicabilidade dos conceitos, a atua-
Ramsey de precificação de tarifas, que não chega lidade da discussão e contribuindo para o
a ser objeto de tratamento aprofundado ao lon- equilíbrio entre uma abordagem analítica e prag-
go do capítulo. Essa diferença de tratamento é mática na obra.
compreensível, haja vista tratar-se de bloco am- Em conclusão, pode-se dizer que o livro
bicioso, voltado à análise de temas que, por si só, atende aos interesses de alunos de graduação e de
seriam merecedores de estudo isolado e exausti- profissionais do mercado. Os dois primeiros blo-
vo. O resultado geral é positivo, servindo para cos, mais introdutórios, apresentam uma siste-
direcionar a obra não apenas a estudantes, mas matização adequada sobre a importância do te-
também aos profissionais de cada área. Merece ma e a relação entre direito e economia. Ademais,
destaque o capítulo sobre a “Regulação dos Mer- esses blocos propiciam uma boa introdução ao
cados Financeiros”. Em decorrência da expertise ferramental desenvolvido pela denominada aná-
dos autores no tema, este acaba apresentando-se lise econômica do direito. O último bloco, com
como o melhor capítulo desse bloco, inclusive seus devidos temperamentos, pode ser indicado
com apêndice rico em informações sobre o setor, a profissionais já versados na área. As observa-
indicado a profissionais que estejam realizando ções realizadas a respeito desse último bloco não
pesquisas neste campo. diminuem de forma alguma os méritos acima re-
Por fim, cabe salientar outros aspectos me- feridos, e nem o fato de ser esse um dos mais
recedores de atenção na obra. Os autores evitam abrangentes estudos sobre o tema realizados no
recorrer excessivamente a anglicismos, procuran- Brasil. Em suma, trata-se de trabalho original e
do definir termos em português para expressões extremamente relevante, de modo que tanto os
como “law & economics” e “price cap”, dentre estudiosos de direito quanto os de economia têm
outras. Essa preocupação, aliada aos exemplos muito a ganhar com sua leitura.
práticos e aplicações referentes à realidade brasi-
leira, incentivam o desenvolvimento da literatura Caio Mário da Silva Pereira Neto
nacional sobre o tema. Há ainda que se ressaltar Professor de Direito Econômico da Escola
os quadros explicativos inseridos nos capítulos. de Direito de São Paulo (FGV/SP)
Estes se encontram muito bem situados e servem
Gustavo Mathias Pinto
para introduzir um agradável corte na explicação
Bacharel em Direito pela USP e em
teórica, apresentando a aplicação prática deste
Administração de Empresas pela EAESP-FGV
ou daquele instituto. Os recortes de jornais em

The New Development Economics — After the Washington Consensus.


Editado por Jomo KS e Ben Fine
Tulika Books e Zed Books, 2006.

O termo Consenso de Washington, cunha- ideal de desenvolvimento econômico. O estudo


do por John Williamson em 1990, continua ren- específico sobre o Desenvolvimento Econômico
dendo críticas de economistas ao se observar que tornou-se um ramo particular da economia a par-
o apregoado liberalismo econômico não respon- tir dos anos 50, no contexto da reconstrução do
deu às demandas sociais e econômicas, ao menos pós-guerra e, principalmente, durante a Guerra
das sociedades menos desenvolvidas. Fria, como forma de acelerar o desenvolvimento
No livro The New Development Economics econômico. Eventos históricos importantes, co-
— After the Washington Consensus, onze dife- mo a experiência da Grande Depressão, haviam
rentes economistas criticam o pensamento ainda provocado uma revolução no pensamento econô-
dominante baseado no liberalismo como modelo mico, principalmente a partir da análise de Key-

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