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A Era Vitoriana

Objetivo:
Ao final desta aula você sera capaz de identificar o
contexto histórico, social e literário da era Vitoriana
e os principais autores da época.
Caro aluno

O que você vai aprender nessa aula será muito importante


para a sua compreensão dos processos históricos que a
Inglaterra viveu no reinado da rainha Vitória e a contribuição
que esses fatos trouxeram para a Literatura Inglesa. Essa
compreensão é valiosa para o seu conhecimento acadêmico e
pessoal.

Mas, antes de iniciarmos nossa aula, quero relembrar


brevemente com você o significado da palavra “literatura”, que
tanto estudamos no Ensino Médio.

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De modo geral, a Literatura é uma manifestação artística, e
tem por finalidade recriar a realidade partindo da visão de um
determinado artista (o autor) com base em seus sentimentos,
concepções e claro, suas técnicas narrativas. É importante
ressaltar que a matéria-prima dessa arte é a palavra, é a
linguagem carregada de significado.

A produção literária é um reflexo do momento histórico que


o autor vivencia como a ciência, a filosofia, a religião, os
costumes e também as críticas e problemas políticos e sociais de
sua época.

Em nossas aulas, estaremos voltados para o estudo da


Literatura Inglesa e o contexto histórico que envolvem suas
produções literárias.

Ao falarmos em Literatura Inglesa, não nos referimos


apenas à literatura produzida na Ingleterra, no Reino Unido ou
nas Ilhas britânicas. Literatura Inglesa refere-se não a um país
mas a uma lííngua.

Portanto, a Literatura é uma arte que explora a língua e a


Literatura Inglesa é uma arte que explora a língua inglesa.

Vamos ver agora um dos períodos mais notáveis na história


da Ingleterra, a época Vitoriana.

Antes de estudarmos sobre os autores mais representativos


desse periodo e suas obras, vamos fazer um passeio pelo
momento histórico e social que a Inglaterra vivia.
Quais ideias você associa à época Vitoriana?

Rigidez?
Tabus?
Convencionalismo?
Burguesia?

Acertou!
Até mesmo o dicionário Aurélio registra:

“Vitoriano: adj. 1. Pertencente ou relativo à Rainha Vitória, da


Inglaterra, ou ao período de seu reinado (1837-1901). 2. Que
demonstra a respeitabilidade, o puritanismo, a intolerância,
etc., atribuídos geralmente à classe média da Inglaterra
Vitoriana.”

FERREIRA, A. B. H. Aurélio século XXI: o dicionário da Língua Portuguesa. 3. ed.


rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

Sabe-se que essa época foi o periodo no qual a Rainha


Vitória reinou sobre a Inglaterra durante o século XIX. Seu
reinado foi um dos mais longos durando 63 anos, entre Junho de
1837 a Janeiro de 1901, sendo coroada ainda muito jovem aos
18 anos.

Um pouco de biografia: quem foi a rainha


Vitória?

Vamos entender porque a rainha Vitória assumiu o trono tão


cedo. Ela era descendente da dinastia alemã dos Hanôver.
Com a morte de seu pai oito meses depois de seu nascimento e
de seu tio Guilherme IV em 1837, Vitória seria a próxima a
herdar a coroa.
Ela foi educada de forma austera, passando a infância
encerrada no Palácio de Kensington. Aprendeu francês, alemão
e outros conhecimentos indispensáveis para uma futura rainha.

pt.wikipedia.org

Vitória casa-se com seu primo Alberto de Saxe-Coburgo em


1840 e vão morar no Palácio de Buckingham. A rainha Vitória
declarava-se apaixonada por seu marido desde o primeiro dia
que o vira, e essa harmonia conjugal e hábitos puritanos
tornariam-se um modelo para a Inglaterra.
O casal real, diferentemente dos seus antecessores, viviam
uma vida sem escândalos e tiveram nove filhos.
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Em 1861 morre o príncipe Alberto e toda a Inglaterra junta-se à


tristeza da rainha que permaneceu de luto até o fim.
Vitória recebe o título de
Imperatriz da Índiaem 1876 e
em 1897 é comemorado 60
anos de reinado, o Jubileu de
diamante da rainha.
No dia 22 de janeiro de 1901,
Vitória Alexandrina more em
East Cowes, Inglaterra.

Para saber mais sobre a vida da rainha Vitória assista o filme:

The young Victoria (A jovem Rainha


Vitória) por Jean-Marc Vallée – 2009
https://www.youtube.com/watch?
v=r0akZZ8wpDo
A Inglaterra na era Vitoriana:
breve contexto histórico

Iniciava-se um período de prosperidade e


paz, conhecida como “Pax Britannica”. O país vivenciava
grandes avanços como a difusão do empreendimento colonial no
exterior e o ápice da Revolução Industrial.
Esse fatores foram fundamentais para impulsionar a classe
média e consolidar a Inglaterra como país imperialista e centro
econômico do mundo.
A entrada de produtos na Europa foi prejudicada devido às
lutas contra o exército napoleônico e o bloqueio continental. As
classes mais baixas da Inglaterra e da Irlanda foram as que mais
sofreram com essa situação.
A fome começou a tomar conta da população e por volta de
1844 uma praga atingiu as plantações de batata e uma epidemia
atacou o rebanho suíno. Essas tragédias forçaram mais de um
milhão de camponeses a abandonarem o campo e buscarem
trabalho nas fábricas.

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Você pode imaginar como Londres ficou superlotada! Como


consequência, uma epidemia de cólera se alastrou pela cidade
matando quase 2000 pessoas por semana.
Finalmente em 1846, para conter essa crise, algumas medidas
foram tomadas:

✓ Aboliram as leis protecionistas, permitindo assim a entrada de


trigo estrangeiro na Inglaterra
✓ Foi instaurado o sistema de livre câmbio, abrindo os
mercados da Europa para os manufaturados ingleses
✓ Construíram esgotos
✓ Pavimentaram e iluminaram as ruas
✓ Construíram casas conjugadas que abrigavam várias famílias

Over London by Rail


Gustave Doré – 1870
Fonte: Wikipedia

Características sociais

A era Vitoriana foi um período de grandes mudanças para a


sociedade inglesa. O progresso científico, econômico e o
questionamento religioso alcançaram todas as camadas sociais.
Um grande problema para os escritores vitorianos surgiu
com o desafio que a nova ciência dirigiu à fé cristã, com o
surgimento da teoria da evolução de Charles Darwin o livro de
Gênesis foi colocado em dúvida.
Em 1859, “A origem das espécies” apresentava uma ideia
revolucionária – o homem evoluíra a partir de formas inferiores
de vida e não fora criado por Deus. Outro desafio para a crença
ortodoxa foi o Materialismo, que negava a existência de tudo o
que não era matéria afirmando que o homem não tinha alma.
Marx, com o livro “O capital” publicado em 1867, marcou
época formulando uma nova concepção da sociedade e da
distribuição da riqueza.
Apesar de todo esse progresso como barcos à vapor mais
rápidos, locomotivas e estradas de ferro, a sociedade sofria o
medo da modernização, da alta tecnologia e as mudanças que
isso poderia trazer.
Portanto, podemos dizer que houve uma forte resistência de
uma sociedade extremamente tradicional. Exemplo disso é o
puritanismo e a repressão intelectual e sexual que veremos mais
à frente.

Princípios morais e puritanismo

Você se lembra do significado que o dicionário Aurélio traz


sobre o termo “Vitoriano?” Ele se encaixa na descrição dos
valores dessa época.
A sociedade Vitoriana foi caracterizada principalmente pela
rigidez dos princípios e pelo puritanismo. Assuntos como sexo
eram tabus e o lar era sagrado e incorruptível, sendo a base
moral da sociedade não permitindo que novas ideias
ameaçassem o equilíbrio e a harmonia da familia.
Essa rigidez convencional partia do exemplo da própria
rainha e do príncipe consorte, Alberto, que eram modelo de
família, decoro e total subordinação da mulher ao marido
fazendo do lar um abrigo seguro num país onde o otimismo e o
progresso reinavam.

As mulheres vitorianas
O símbolo da moral da sociedade recai sobre a mulher,
responsável pela harmonia de seu lar, figurando-a como um anjo
e um ser frágil até mesmo nas roupas e nas pinturas.

The Empress Eugenie Surrounded by her Ladies in Waiting'' by Franz


Winterhalter
Fonte: commons.wikimedia.org

"Na Inglaterra do século XIX, mais precisamente no


período vitoriano, o progresso das ciências e a sofisticação
da técnica, com reflexos em todas as camadas sociais,
criaram um ambiente propício para o surgimento de um
tipo feminino cujo perfil se pode nitidamente traçar. Nessa
época, com efeito, o questionamento religioso de par com
um processo evolutivo indiferente aos anseios sociais
suscitou a necessidade de se buscar um ponto de
equilíbrio entre o público e o privado, uma base que
refletisse solidez e estabilidade. Esta base, naturalmente,
era o lar, e como seu representante elegeu-se alguém
com as qualidades de guardião da moral e da castidade. A
exigência de um anjo do lar fez nascer a mulher
vitoriana."
(MONTEIRO, Maria da Conceição)

Você poderá ler mais sobre isso no artigo postado “A vida das
mulheres vitorianas”.
As mulheres vitorianas tinham muito pouco poder e tiveram
que lutar muito para conseguirem a mudança que queriam em
suas vidas. A filosofia da emancipação feminina, entretanto,
tornou-se um ponto em comum para muitas escritoras
vitorianas, como as irmãs Brontë sendo uma exceção à regra.
O Patriarcalismo foi fortemente arraigado na sociedade
vitoriana, sendo uma grande barreira para as mulheres que
tiveram que lutar muito para ganharem reconhecimento e
aceitação.
Para se ter uma ideia, algumas autoras como Mary Evans
publicou seus dois primeiros romances “Adam Bede” e “Scenes
of Clerical Life” utilizando o nome falso de George Eliot.

Características culturais e literárias

A literatura da era vitoriana foi muito promissora, sendo o


romance o gênero mais importante da época.

A dramatização foi atenuada nos textos literários


principalmente por Charles Dickens, que costumava ler seus
próprios textos para um publico pagante , arrancando lágrimas e
aplausos do publico. Essa prática foi muito utilizado por
Dostoievski e Turgueniev na Rússia como uma forma de
domesticar a arte dramatica, provocando uma libertação dos
sentimentos reprimidos além de espalhar os valores vitorianos.
A literatura vitoriana exerceu um papel social muito
importante, já que a leitura em familia era algo de maior
importância, numa sociedade que possuía na familia seus
alicerces. Neste periodo, surgiu a Literatura Pedagógica, que
tinha por finalidade treinar as pessoas quanto aos mais variados
assuntos, desde o comportamento das senhoritas até a educação
dos filhos. Embora fosse manipuladora, a leitura da época foi
uma forma de entretenimento que gerou monumentos da
literatura como as irmãs Brontë que estudaremos nas próximas
aulas.
Para a maioria dos escritores e filósofos, a desigualdade
presente na era vitoriana era um tipo de doença, e viam como
um dever lutar contra as injustiças que assolavam o povo por
meio de suas obras.

O romance vitoriano

O estilo literário mais apreciado foi o romance publicado


em fascículos, que a princípio serviam de entretenimento nos
serões de leitura das familias e deviam prestar-se à valorização
da moral. Os editores, embora envergonhados, cuidavam para
que nada ferisse os principios moralistas e que não pudesse ser
lido em voz alta em qualquer reunião familiar.
Diante de um cenário extremamente puritano, a arte
dramática do teatro foi praticamente colocada à margem, por se
caracterizar como vinculadora das expressões corporais e
sensuais.

“Em 1894, H. M. Alden, da Harper’s New Monthly Magazine, a


respeito de assegurar a Thomas Hardy que ‘se sentia verdadeiramente
envergonhado’ por intervir na publicação, julgou-se obrigado a lembrar a
Hardy seu ‘compromisso’ de não publicar ‘nada que não pudesse ser lido
em voz alta em qualquer círculo familiar”
(GAY, Peter. A educação dos sentidos – a experiência burguesa da rainha Vitória
a Freud, p. 297)

Em geral, os romances vitorianos são retratos idealizados de


vidas difíceis nas quais o trabalho duro, a perseverança, o amor
e a sorte saem vencedores no final, as personagens melhoram o
seu caráter e há sempre uma lição moralista.
Veremos brevemente a seguir, alguns autores notáveis da
época que escreveram obras relevantes e conhecidas até hoje.
Temática de algumas obras importantes

 Lewis Carrol ( 1832 – 1898)

As aventuras de Alice no Pais das Maravilhas, ou


simplesmente mais conhecida como Alice no País das
Maravilhas é a obra mais conhecida de Carrol publicada em 4
de julho de 1865, pertencente ao gênero literário nonsense. A
obra é repleta de referências satíricas tanto para amigos e
inimigos de Carrol como para a sociedade da época e referências
linguísticas e matemáticas por meio de enigmas, pois Carrol
também era matemático. Sendo uma obra de difícil
interpretação, podemos dizer que há dois livros num só texto,
uma para crianças e outro para adultos.

 William Makepeace Thakeray (1847 – 1848)

Romancista britânico de sucesso da era Vitoriana, uma de


suas obras mais renomadas foi “Feira das Vaidades” (Vanity
Fair). A obra situa-se na Inglaterra vitoriana e explora as
fragilidades de uma sociedade corrompida pela ambição e
ganância desmedidas. Feira das Vaidades começou a ser editado
em fascículos em 1847, sendo um sucesso tão grande que
disputou com Dickens o lugar de melhor escritor do século XIX.
É um relato satírico de uma sociedade presa pelas suas
regras, a ociosidade e a ambição proliferam e os vícios podem
passar por virtudes. A obra foi adaptada para o cinema
estrelando Reese Whiterspoon como a personagem principal
Becky Sharp, sendo nomeado para um Leão de Ouro em 2004,
no Festival de Veneza.

 Thomas de Quincey (1785 – 1859)

Escritor inglês, sua principal obra foi The Confessions of


an English Opium-Eater (Confissões de um comedor de ópio,
segundo o título da versão brasileira). Mesmo numa sociedade
moralmente rigorosa, muitas eram as práticas da cultura do ópio.
Foi um livro auto biográfico relatando sua luta contra o vício,
que inicialmente consumia ópio em forma de láudano para tratar
uma nevralgia dental e ficou viciado. O ópio era distribuído
livremente na corte real sendo considerado uma “droga social”
e, apenas com o tempo a sua concepção mudou e passou a ser
consumido nos prostíbulos.
Os grandes autores da época fazem referência à droga em
muitas de suas obras, como podemos lembrar em Sherlock
Holmes, que injetava cocaine frequentemente, uma vez que esta
droga era receitada a pessoas que pensavam demais (anciosas) e
muito nervosas.

Com esse panorama histórico, social e literário traçado,


vamos nos concentrar, nas próximas aulas, nos autores mais
populares e importantes da era vitoriana.

Na aula 2, conheceremos Charles Dickens - considerado o


maior contador de histórias vitoriano - e suas obras mais
famosas e relevantes.

Ainda na literatura destacam-se os romances de Charles


Dickens, Oscar Wilde, Lewis Carroll, Robert Louis Stevenson
entre outros; e a poesia de Tennyson, Dante Gabriel Rossetti,
Robert Browning entre outros.
No teatro, ficaram em evidência os trabalhos de Mary
Shelley do clássico Frankestein e também o gênero dramático de
Oscar Wilde e as polêmicas peças de Henrik Ibsen, James Joyce
e George Bernard Shaw.
Na próxima aula, iremos estudar o estilo mais apreciado da
época, o romance, e como ele contribuiu com as produções
literárias desse periodo.

Entram em cena o romance e o teatro, e autores importantes


como Dickens, Oscar Wilde entre outros.

Até a nossa próxima aula!

REFERÊNCIAS

BORGES, J. L. Curso de literatura inglesa. Rio de Janeiro: Martins


Fontes, 2003.

BURGESS, A. A literatura inglesa. Trad. Duda Machado. São Paulo:


Ática, 2007.

CEVASCO, M. E.; SIQUEIRA, V. L. Rumos da literatura inglesa. 4. ed.


São Paulo: Ática, 1993.

D’ONOFRIO, S. Literatura Ocidental – autores e obras fundamentais.


2.ed. São Paulo: Ática, 2007.

FERREIRA, A. B. H. Aurélio século XXI: o dicionário da Língua


Portuguesa. 3. ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
GAY, P. A educação dos sentidos – a experiência burguesa da rainha
Vitória a Freud

MONTEIRO, M. C. "Figuras Errantes na Época Vitoriana: A


Preceptora, a Prostituta e a Louca". Disponível em:
<https://periodicos.ufsc.br/index.php/fragmentos/article/viewFile/6038/56
08> Acesso em 5 jan. 2015.