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Colecção Montanha Mágica

Yasmina

Khadra

O que o dia deve à noite

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Eleitf

í èmio Rdmlllti"

-» melhor livro do ano pela revista Lire

BizancK
«Um livro pleno de força e beleza. A voz de 1 um grande escritor.»

Lhe

«O meu tio dizia-me: 'Se uma mulher te amar, e se tiveres a presença de


espírito para avaliar a extensão desse

privilégio, nenhuma divindade te chegará aos calcanhares. I Orão sustinha


a respiração nessa Primavera de 1962. A guerra iniciava as suas
derradeiras loucuras. Eu procurava Emilie. Tinha medo por ela. Tinha
necessidade dela. Amava-a e regressava para lho provar. Sentia-me capaz
de enfrentar furacões, trovões, todos os anátemas e as misérias „ do
mundo inteiro.»

Yasmina Khadra oferece-nos neste livro um grande romance da Argélia


colonial (entre 1936 e 1962) — uma Argélia torrencial, apaixonada e
dolorosa — e lança uma nova luz, numa escrita soberba e com a
generosidade que se lhe reconhece, sobre a separação atroz de duas
comunidades apaixonadas por um mesmo país.

WiM

3881818281 ao

ISBN 978-972-53-0417-4

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9789725304174

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clamado em todo o mundo 'asmina Khadra é autor, entre iutros, de Com que
Sonham os obos, As Andorinhas de Cabul, ) Atentado (Prix des
Librairies. ,006) e As Sirenes de.Bagdade, )dos editados em Portugal pela
izâncio. A sua obra está tradu-Ida em trinta e quatro países. jj>
Atentado está a ser adaptado tara o cinema em Hollywood e [s Andorinhas
de Cabul será >vado ao ecrã pelo cinema
Yasmina

Khadra

O que o dia deve à noite

Tradução de Maria Carvalho

Editorial Bizâncio Lisboa, 2009


Título original: Ce que lejour doit à la nuit

© Publicado por acordo com Editions Julliard, Paris, 2008

© da imagem da capa: Getty Images

l.a edição: Abril de 2009

Tradução: Maria Carvalho

Revisão: Sandra Pereira

Capa: Editorial Bizâncio

Composição e paginação: Editorial Bizâncio

Impressão e acabamento: Tipografia Peres

Depósito legal n.° 291 843/09

ISBN: 978-972-53-0417-4

Todos os direitos para a publicação desta obra em Portugal

reservados por Editorial Bizâncio, L."

Largo Luís Chaves, 11-1 IA, 1600-487 Lisboa

Tel.: 21 755 02 28/Fax: 21 752 00 72

E-mail: bizancio@editorial-bizancio.pt

URL: www.editorial-bizancio.pt
«Em Orão, como no resto do mundo,

por falta de tempo e de reflexão,

é-se obrigado a amar sem o saber.»

Albert Camus, A Peste

«Gosto da Argélia, pois senti-a bem.» Gabriel Garcia Marquez


L

I. Jenane Jato
J

1.

O MEU PAI SENTIA-SE FELIZ. Não o acreditava capaz disso.

Por momentos, o semblante liberto das suas angústias per-turbava-me.

Acocorado num monte de cascalho, com os braços em torno dos joelhos,


contemplava a brisa a enlaçar a esbelteza do restolho, a estender-se
sobre ele, a revolteá-lo febrilmente. Os trigais ondeavam como a crina de
milhares de cavalos a galope pela planície. Era uma visão idêntica à do
mar quando as vagas o engravidam. E o meu pai sorria. Não me recordo de o
ter visto sorrir; não estava nos seus hábitos deixar transparecer a
satisfação — tê-la-á sentido realmente?... Temperado pelas provações, com
um olhar permanentemente desesperado, a sua vida mais não era que uma
enfiada interminável de desventuras; desconfiava, como de uma moléstia,
dos volta-faces de um amanhã desleal e inatingível.

Não lhe conhecia amigos.

Vivíamos reclusos no nosso pedaço de terra, semelhantes a espectros


entregues a si próprios, no silêncio sideral dos que não têm grande coisa
a dizer uns aos outros: a minha mãe à sombra do seu casebre, curvada
sobre o seu caldeirão, remexendo maquinalmente um caldo à base de
tubérculos de sabores discutíveis; a minha irmã Zahra, mais nova que eu
três anos, esquecida num canto, tão discreta que muitas vezes não nos
dávamos conta da sua presença; e eu, rapazinho enfezado e solitário, qual
flor acabada de
12

O QUE O DIA DEVE À NOITE

brotar e já murcha, carregando os meus dez anos como outros tantos


fardos.

Não era vida; existíamos apenas.

Acordarmos de manhã era milagre e, de noite, quando nos preparávamos para


dormir, interrogávamo-nos se não seria sensato fechar os olhos de uma vez
por todas, convictos de termos pesado todas as coisas e concluído que não
mereciam que gastássemos tempo com elas. Os dias assemelhavam-se uns aos
outros desesperadamente; nunca nos traziam nada, limitando-se, ao partir,
a roubar-nos as raras ilusões que balouçavam na ponta do nosso nariz,
como as cenouras que fazem andar os burros.

Na década de 1930, a miséria e as epidemias dizimavam as famílias e o


gado com uma perversidade incrível, obrigando os sobreviventes ao êxodo
ou transformando-os em mendigos. Os poucos familiares que tínhamos já não
davam sinais de vida. Quanto aos farrapos humanos que se desenhavam ao
longe, tínhamos a certeza de que se limitavam a passar como uma aragem,
pois o carreiro que se arrastava até à nossa choça estava prestes a
apagar-se.

O meu pai não se preocupava com isso.

Gostava de estar só, apoiado na charrua, os lábios brancos de espuma. Por


vezes confundia-o com uma divindade a reinventar o seu mundo e ficava
horas a observá-lo, fascinado pela sua robustez e obstinação.

Quando a minha mãe me encarregava de lhe levar a comida, eu não tinha


interesse em ficar por perto. O meu pai comia logo, frugalmente, com
pressa de voltar ao trabalho. Quanto a mim, teria gostado que me dissesse
uma palavra carinhosa ou que me prestasse um minuto de atenção; o meu pai
só tinha olhos para as suas terras. Só nelas, no meio do seu universo
dourado, se sentia no seu elemento. Nada nem ninguém, nem sequer os entes
mais queridos, conseguia distraí-lo.

À tarde, quando regressava ao casebre, o brilho dos olhos ate-nuava-se


com o pôr-do-sol. Era outra pessoa, um ser qualquer, sem atractivos nem
interesse; chegava a desiludir-me.

Porém, havia semanas que estava em êxtase. A colheita anun-ciava-se


excelente, superava as suas previsões... Crivado de dívi-
JINANEJATO 13

das, havia hipotecado a terra ancestral e sabia que travava o derradeiro


combate, que gastava o último cartucho. Desdobrava-se em dez, sem
descanso, dominado pela fúria; o céu imaculado exas-perava-o, a mais
pequena nuvem electrizava-o. Nunca o vira orar e esforçar-se tão
obstinadamente. E quando chegou o Verão e o trigo cobriu a planície de
palhetas resplandecentes, o meu pai ins-talou-se no montículo de pedras e
não se mexeu mais. Curvado sob o chapéu de alfafa, passava a maior parte
dos dias a contemplar a colheita que, ao fim de tantos anos de ingratidão
e de vacas magras, prometia finalmente uma hipótese de aberta.

A ceifa estava para breve. À medida que se aproximava, o meu pai ia


perdendo a calma. Já se via a ceifar o cereal às braçadas, a enfeixar os
seus projectos às centenas e a enceleirar tantas esperanças que não
saberia o que fazer delas.

Cerca de uma semana antes, instalara-me ao seu lado na carroça e


dirigimo-nos à aldeia, umas centenas de amarras atrás da colina. Não
costumava levar-me a parte nenhuma. Talvez tenha pensado que as coisas
estavam prestes a melhorar e que era necessário reajustar as nossas
maneiras e descortinar novos reflexos, uma nova mentalidade. No caminho,
pôs-se a cantarolar uma ária beduína. Era a primeira vez na vida que o
ouvia cantar. A sua voz projectava-se em todas as direcções, desafinada
ao ponto de afastar qualquer pileca; para mim, era uma festa — um
barítono não lhe chegaria aos calcanhares. Depois recompusera-se,
surpreendido por se ter deixado ir, ou até envergonhado por dar
espectáculo diante do filho.

A aldeia não valia nada. Era um buraco perdido, triste de morrer, com os
seus casebres em barro amassado e rachado sob o peso das misérias, e as
suas ruelas desamparadas que não sabiam onde esconder a feiura. Algumas
árvores esqueléticas, erectas como forcas no seu martírio, deixavam-se
devorar por cabras. Acocorados ao pé, os ociosos amedrontavam-se. Dir-se-
iam espantalhos sem préstimo, abandonados até os tornados os dispersarem
na natureza.

O meu pai parara a carroça diante de uma tenda horrível em redor da qual
se entediavam garotos. Vestiam, à laia de
14

O QUE O DIA DEVE À NOITE

gandouras1, sacos de juta grosseiramente atamancados e estavam descalços.


A cabeça rapada e mosqueada de escaras purulentas conferia-lhes ao rosto
algo de irreversível, como a marca de uma condenação. Haviam-nos rodeado
com a curiosidade de um clã de raposinhos que vê o seu território
profanado. O meu pai afastara--os com a mão antes de me empurrar para
dentro da mercearia onde um homem cabeceava no meio de prateleiras
vazias. O homem nem sequer se deu ao trabalho de se levantar para nos
receber.

— Vou precisar de homens e de material para a ceifa — dis-sera-lhe o meu


pai.

— Mais nada? — perguntara o merceeiro enfadado. — Também vendo açúcar,


sal, óleo e sêmola.

— Mais tarde. Posso contar contigo?

— Para quando os queres, os homens e o equipamento?

— Na próxima sexta?...

— O patrão és tu. Assobias e a gente vem.

— Então, será sexta da próxima semana.

— Combinado — resmungara o merceeiro, compondo o turbante na cabeça. —


Fico satisfeito por saber que salvaste a estação.

— Sobretudo salvei a alma — retorquira o meu pai, afas-tando-se.

— Para isso, era preciso que a tivesses, meu velho.

0 meu pai tremera ao sair da tenda. Parecia ter entendido uma insinuação
venenosa nas palavras do merceeiro. Depois de coçar a parte de trás da
cabeça, subira para a carroça e rumara a casa. A sua susceptibilidade
levara um rude golpe. Na manhã refulgente, o olhar ensombrara-se. Devia
ter lido um mau presságio na réplica do lojista. Era assim, com ele;
bastava contrariá-lo para o preparar para o pior, elogiar-lhe o ardor
para o expor ao mau-olhado. Estou certo de que, no íntimo, lamentava ter-
se permitido cantar vitória antes do tempo.

Durante o trajecto de regresso, ex;roscara-se sobre si como uma serpente


e não parara de golpear a garupa da mula com o chicote; os gestos estavam
carregados de uma cólera sombria.

1 Túnica comprida sem mangas que se usa nos países árabes. (N. da T.)
JENANE JATO

15

Enquanto esperava pela sexta-feira, desenterrara podões antigos, foices


vacilantes e outros utensílios para reparar. Acompanhado do meu cão, eu
seguia-o à distância, à espera de uma ordem que me teria tornado útil. O
meu pai não precisava de ninguém. Sabia exactamente o que fazer e onde
encontrar aquilo de que necessitava.

Depois, uma noite, sem dizer água-vai, a infelicidade abateu--se sobre


nós. O cão ladrava, ladrava... Pensei que o sol se desprendera e caíra
nas nossas terras. Deviam ser três horas da manhã e a nossa choça estava
iluminada como se fosse dia. Imobilizada na soleira da porta, a minha mãe
agarrava a cabeça com as mãos. As reverberações do exterior lançavam
sombras múltiplas nas paredes à minha volta. A minha irmã escondia-se no
seu canto, de pernas cruzadas na esteira, com os dedos na boca e os olhos
sem expressão.

Corri para o pátio e vi uma vaga de chamas histéricas a destruir os


nossos campos; a luminosidade subia até ao firmamento onde nem uma
estrela velava pelo cereal.

Com as costas nuas vergastadas por marcas negras, a escorrer suor, o meu
pai enlouquecera. Mergulhava um balde miserável no tanque, corria para o
incêndio, desaparecia no meio das chamas, vinha buscar água e regressava
ao inferno. Não se dava conta do ridículo que sancionava a sua recusa de
admitir que nada podia fazer, que nenhuma oração, nenhum milagre
impediriam os seus sonhos de se esvair em fumo. A minha mãe percebia bem
que estava tudo perdido. Observava o marido a debater-se como um
desgraçado e temia não voltar a vê-lo sair do braseiro. O meu pai era
capaz de se abraçar a molhos de espigas e de se deixar queimar. Não era
só no meio dos campos que estava no seu elemento?

Ao nascer do dia, o meu pai continuava a aspergir as volutas de fumo


exaladas pelos tufos calcinados. Já nada restava dos campos mas ele
obstinava-se em não o reconhecer. Por despeito.

Não era justo.

A três dias do início da colheita.

A dois dedos da salvação.

A um sopro da redenção".
16

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Manhã avançada, o meu pai acabou por se render à evidência. Com o balde a
pender-lhe do braço, atreveu-se finalmente a erguer os olhos para a
extensão do desastre. Durante muito tempo, vacilou nas pernas, com os
olhos ensanguentados e o rosto descomposto; a seguir, caiu de joelhos,
estendeu-se de barriga no chão e entregou-se, sob o nosso olhar
incrédulo, ao que um homem nunca deve fazer em público — chorou... todas
as lágrimas que tinha dentro de si.

Compreendi então que os santos patronos acabavam de nos renegar até ao


Juízo Final e que a infelicidade se tornara o nosso destino desde então.

O tempo parara para nós. É certo que o dia continuava a fugir da noite,
que a tarde se seguia à aurora, que as aves de rapina revolteavam no céu,
mas, para nós, era como se as coisas tivessem chegado ao fim. Abria-se
uma nova página e não figurávamos nela. O meu pai não parava de
calcorrear os campos destruídos. De madrugada ao pôr-do-sol, deambulava
por entre sombras e escombros. Dir-se-ia um fantasma cativo das suas
ruínas. A minha mãe observava-o pelo buraco na parede que servia de
lucarna. Sempre que ele batia nas coxas e nas faces com a palma da mão,
ela benzia-se, evocando, um a um, o nome dos marabutos da região; estava
convencida de que o marido havia perdido a razão.

Uma semana mais tarde, um homem veio ver-nos. Tinha o ar de um sultão nas
suas vestes opulentas, barba cuidadosamente aparada e peito carregado de
medalhas. Era o caide, escoltado pela sua guarda pretoriana. Sem descer
da caleche, intimou o meu pai a pôr as impressões digitais nos documentos
que um francês macilento e lívido, vestido de preto da cabeça aos pés, se
apressara a retirar da sua pasta. O meu pai não se fez rogado. Rolou os
dedos numa esponja encharcada de tinta e pressionou-os nas folhas. O
caide retirou-se logo que os documentos foram assinados. O meu pai ficou
plantado no pátio, a olhar ora para as mãos manchadas de tinta, ora para
a caleche prestes a atingir o alto da colina. Nem a minha mãe nem eu
tivemos coragem de nos aproximar dele.
JENANE JATO

17

No dia seguinte, a minha mãe arrebanhou os seus miseráveis pertences e


amontoou-os na carroça...

Era o fim.

Lembrar-me-ei toda a vida desse dia em que o meu pai passou para o outro
lado do espelho. Um dia macilento, com um sol crucificado por cima da
montanha e um horizonte fugidio. Apesar de ser cerca do meio-dia, sentia-
me a dissolver num claro-escuro em que tudo se imobilizara, em que os
ruídos se haviam retraído, em que o universo batia em retirada para
melhor nos isolar na nossa aflição.

O meu pai segurava nas rédeas, com o pescoço enterrado nos ombros, os
olhos pregados no chão, deixando a mula levar-nos sabia lá eu para onde.
A minha mãe encolhia-se num canto dos taipais, oculta pelo véu, quase
irreconhecível no meio das suas trouxas. Quanto à minha irmãzinha,
continuava com os dedos na boca, o olhar ausente. Os meus pais não se
davam conta de que a filha já não comia, que qualquer coisa se quebrara
no seu espírito desde essa noite em que o inferno lançara as suas vistas
sobre os nossos campos.

O cão seguia-nos de longe, de cabeça baixa. Parava de vez em quando no


alto de um montículo, sentava-se nas patas traseiras para ver se era
capaz de aguentar até nós desaparecermos, depois lançava-se na nossa
pista e esfalfava-se a apanhar-nos, com o focinho a rasar o chão. O passo
abrandava à medida que ganhava terreno e, depois, afastava-se novamente
da pista e parava, infeliz e desamparado. Adivinhava que não haveria
lugar para ele no sítio para onde íamos. O meu pai tinha-lho dado a
entender, atirando--lhe pedras à saída do pátio.

Eu gostava muito do cão. Era o meu único amigo, o meu único confidente.
Interrogava-me o que nos iria acontecer a ambos agora que os nossos
caminhos se separavam.

Percorremos léguas intermináveis sem encontrar vivalma. Dir-se-ia que o


destino despovoara a região para nos ter só para ele... O caminho corria
à nossa frente, descarnado, lúgubre. Asse-melhava-se à nossa deriva.

Tarde avançada, causticados pelo sol, apercebemo-nos finalmente de um


ponto negro ao tonge. O meu pai dirigiu a mula para
18

O QUE O DIA DEVE À NOITE

lá. Era a tenda de um vendedor de hortaliças, uma hipotética construção


de estacas e panos de juta erguida no meio de parte nenhuma, como uma
alucinação. O meu pai mandou a minha mãe esperar por trás de um penedo.
Entre nós, as mulheres devem man-ter-se afastadas quando os homens se
encontram; não há pior sacrilégio que ver a esposa ser olhada pelo canto
do olho por qualquer outro homem. A minha mãe obedeceu e, levando Zahra
ao colo, acocorou-se no lugar indicado.

O vendedor era um homenzinho desidratado, com olhos de furão enterrados


no fundo de uma cara crivada de pústulas escuras. Vestia um hábito árabe
esfarrapado por cima de uns chinelos de onde se escapavam dedos informes.
O colete gasto até à trama dificilmente camuflava a extrema magreza do
peito. Espiava-nos, à sombra da sua cobertura improvisada, empunhando um
cacete. Quando percebeu que não éramos ladrões, largou-o e deu um passo
em frente, na direcção da luz.

— As pessoas são maldosas, Issa — lançou ele de imediato ao meu pai. —


Está-lhes na massa do sangue. Não serve de nada querer-lhes mal por isso.

O meu pai parou a carroça e accionou a manivela dos travões. Compreendeu


a alusão do vendedor, mas não respondeu. O vendedor agitou as mãos com um
ar escandalizado.

— Quando vi o incêndio ao longe, esta noite, compreendi que um desgraçado


iria regressar ao inferno, mas estava longe de saber que eras tu.

— É a vontade do Senhor — disse o meu pai.

— É falso, e tu sabes. Quando são os homens a maltratar, o Senhor é


desqualificado. Não é justo atribuir-lhe malfeitorias que só nós tornamos
possíveis. Quem poderia querer-te mal ao ponto de queimar as tuas
colheitas, amigo Issa?

— Deus decide como nos atinge — disse o meu pai. O vendedor encolheu os
ombros:

— Os homens só inventaram Deus para distrair os seus demónios. Quando o


meu pai pousou os pés no chão, um pedaço dãgan-

doura ficou preso ao banco. Deduziu que era mais um sinal de mau augúrio.
O rosto congestionou-se de cólera interior.
JENANE JATO

19

— Vais para Orão? — perguntou o vendedor.

— Quem te disse?

— As pessoas vão sempre para a cidade quando perderam tudo... Toma


cautela, Issa. Não é sítio para nós. Orão formiga de patifes sem fé nem
lei, mais perigosos que cobras, mais astutos que o Demo.

— Porque me contas essas tolices? — disse o meu pai, irritado.

— Porque não sabes onde te vais meter. As cidades são malditas. A baraca
dos antepassados não vigora lá. Os que se aventuraram nelas nunca mais
voltaram.

O meu pai ergueu uma mão para lhe pedir que guardasse para si esses
pensamentos.

— Proponho-te a minha carroça. As rodas e o fundo são sólidas e a mula


não tem quatro anos. Pagas-me o que quiseres.

O vendedor lançou um olhar furtivo à carroça.

— Temo não te poder oferecer grande coisa, Issa. Sobretudo não penses que
me aproveito da situação. Passam por aqui poucos viajantes e muitas vezes
acabo por ficar com os meus melões.

— Contento-me com o que me deres.

— Na verdade, não preciso da carroça, nem da mula... Tenho alguns cobres


na caixa que partilharei contigo de bom-grado. Li-vraste-me de apuros
muitas vezes. Quanto à tua carroça, podes deixá-la ao meu cuidado.
Acabarei por encontrar quem a compre. Virás buscar o teu dinheiro quando
quiseres. Não tocarei nele.

O meu pai nem sequer reflectiu na sugestão do vendedor. Não tinha


escolha. Estendeu-lhe a mão.

— És boa pessoa, Miloud. Sei que não fazes falcatruas.

— Quando fazemos falcatruas é sempre contra nós.

O meu pai entregou-me duas trouxas, encarregou-se do resto e, guardando


no bolso algumas moedas que o vendedor lhe entregou, apressou-se a ir ter
com a minha mãe sem olhar para o que deixava atrás de si.

Caminhámos até deixarmos de sentir as pernas. O sol esma-gava-nos; os


seus reflexos, que uma terra árida e tragicamente deserta nos remetia à
cara, feriam-nos os olhos. Fantasma mumi-
20 O QUE O DIA DEVE À NOITE

ficado no seu sudário, a minha mãe cambaleava atrás de nós, parando


apenas para mudar a minha irmã de um ombro para outro. O meu pai
ignorava-a. Caminhava erecto, com um passo inflexível, obrigando-nos a
andar depressa. Nem eu nem a minha mãe pensávamos em lhe pedir que
abrandasse um pouco. Eu tinha os calcanhares esfolados pelas sandálias, a
garganta em fogo, mas aguentava. Para enganar o cansaço e a fome,
concentrava-me nas costas fumegantes do meu progenitor, no seu modo de
carregar os fardos e no rasto regular e bruto que parecia pontapear os
maus espíritos. Nem uma vez se virou para ver se continuávamos atrás
dele.

O sol começava a declinar quando atingimos a «via dos rumis», quer dizer
a estrada alcatroada. O meu pai optou por uma oliveira solitária por
detrás de um cabeço, ao abrigo de indiscrições, e começou a sachar as
silvas à volta para nos podermos instalar. A seguir, verificou se um
ângulo morto não escondia a estrada e, depois, satisfeito, ordenou-nos
que pousássemos os fardos. A minha mãe depositou Zahra adormecida ao pé
da árvore, co-briu-a com um pano e retirou de uma cesta uma caçarola e
uma espátula de madeira.

— Fogo não — disse-lhe o meu pai. — Hoje comeremos carne seca.

— Não temos. Restam-me alguns ovos crus.

— Nada de fogo, já te disse. Não quero que se saiba que estamos aqui...
Contentar-nos-emos com tomates e cebolas.

A fornalha perdeu alento, e uma brisa começou a agitar as folhas nos


ramos da oliveira. Ouviam-se correr os lagartos nas ervas secas. O sol
espalhava-se no horizonte como um ovo partido.

O meu pai permanecia deitado numa rocha, com um joelho no ar, o turbante
a tapar-lhe a cara. Não comera nada. Parecia zangado connosco.

Pouco antes do cair da noite, um homem ergueu-se no cimo de uma elevação


e fez-nos grandes sinais. Não podia aproximar--se devido à presença da
minha mãe. Por pudor. O meu pai man-dou-me perguntar o que nos queria.
Era um pastor coberto de farrapos, com o rosto enrugado e mãos rugosas.
Oferecia-nos abrigo.
JENANE JATO

21

O meu pai recusou a hospitalidade. O pastor insistiu — os vizinhos não


lhe perdoariam se deixasse uma família dormir ao relento, perto da sua
choça. O meu pai recusou categoricamente. «Não quero ficar a dever nada a
ninguém», resmungara. O pastor ficou indignado. Regressou ao seu magro
rebanho de cabras, grunhindo e pontapeando furiosamente o chão.

3 Passámos a noite ao relento. A minha mãe e Zahra ao pé da oliveira. Eu,


debaixo da minha gandoura. O meu pai de guarda num rochedo, com um sabre
entre as coxas.

De manhã, quando acordei, o meu pai era outra pessoa. Bar-beara-se,


lavara a cara numa nascente e vestira roupa limpa; um colete por cima de
uma camisa sem cor, um sarouaP turco com a parte inferior plissada que
nunca lhe vira vestido e chinelos de cabedal descorados mas acabados de
polir.

O autocarro chegou no momento em que o sol nascia. O meu pai empilhou os


nossos pertences no tejadilho do veículo antes de nos instalar num banco,
nas traseiras. Era a primeira vez na vida que eu via um autocarro. Quando
se lançou pela estrada, agarrei--me ao assento, subjugado e enlouquecido
ao mesmo tempo. Alguns viajantes dormitavam aqui e ali, na maioria rumis
enfiados em roupas miseráveis. Não me cansava de contemplar a paisagem
que desfilava de um lado e do outro das janelas. O condutor, à frente,
impressionava-me. Só lhe via as costas, largas como uma muralha, e os
braços vigorosos que manobravam o volante com muita autoridade. À minha
direita, um velhote desdentado baloiçava ao sabor das voltas, com um
cesto deformado aos pés. A cada curva, mergulhava a mão no cesto e
verificava se estava tudo em ordem.

O odor insuportável do carburante e as curvas apertadas acabaram por me


vencer; adormeci, de barriga e cabeça encolhidas como a pele de um
intestino de carneiro.

O autocarro parou numa zona cercada de árvores, diante de um grande


edifício em tijolo vermelho. Os viajantes precipitaram--se para as suas
bagagens. Na sua pressa, houve quem me pisasse

1 Calças largas usadas no Sara. (N. da T.)


22

O QUE O DIA DEVE À NOITE

os pés; nem me dei conta. Estava tão siderado com o que via que me
esqueci de ajudar o meu pai a recuperar os nossos pertences.

A cidade!...

Não suspeitava que pudessem existir aglomerações tão tentaculares. Era


delirante. Por um momento, interroguei-me se o mal-estar contraído no
autocarro não me estaria a pregar partidas. Por trás da praça, alinhavam-
se casas a perder de vista, encastra-das umas nas outras, com varandas
floridas e janelas altas. As calçadas eram asfaltadas, orladas de
passeios. Não caía em mim, não conseguia sequer atribuir um nome às
coisas que me saltavam aos olhos como relâmpagos. Casas belíssimas
erguiam-se de todos os lados, por trás de gradeamentos pintados de preto,
imponentes e refinadas. Famílias pavoneavam-se nas varandas, à roda de
mesas brancas, guarnecidas de garrafas e de copos altos de laranjada,
enquanto garotos de tez vermelha e ouro nos cabelos pulavam nos jardins;
o seu riso cristalino jorrava do meio da folhagem como jactos de água.
Desses lugares privilegiados emanava uma quietude e um bem-estar que eu
não acreditava possíveis — nos antípodas do mau cheiro que corrompia o
meu bled] onde as hortas rendiam a alma ao Criador sob a poeira e onde os
cercados dos animais eram menos aflitivos que os nossos casebres.

Estava noutro planeta.

Arrastava-me atrás do meu pai, siderado pelos espaços verdes delimitados


por pequenos muros em pedra ou por vedações em ferro forjado, as avenidas
largas e soalheiras, e os candeeiros de rua majestosamente erectos,
semelhantes a sentinelas iluminadas. E os carros!... Contara uma boa
dezena. Surgiam sabia-se lá de onde, barulhentos, tão vivos como estrelas
cadentes, e desapareciam nas esquinas das ruas antes de formularmos um
desejo.

— Que terra é esta? — perguntei ao meu pai.

— Cala-te e anda — retorquiu. — E olha para a frente se não queres cair


num buraco.

Era Orão.

1 No Norte de África, designa o interior do país, o campo. Significa


igualmente a terra natal. (N. da T.)
JENANE JATO 23

O meu pai caminhava a direito, seguro do seu passo, nada intimidado pelas
ruas rectilíneas, com edifícios vertiginosos, que se ramificavam sem
descanso à nossa frente, tão idênticos que tínhamos a impressão de estar
a marcar passo. Coisa estranha, as mulheres não usavam véu. Passeavam de
rosto destapado; as velhas com chapéus estranhos; as jovens meias
desnudas, com os cabelos ao vento, nada incomodadas com a proximidade dos
homens.

Mais à frente, a agitação diminuiu. Metemos por recantos sombreados e


tranquilos, mergulhados num silêncio que a passagem de uma caleche ou o
barulho de uns estores de ferro mal rompiam. Alguns europeus idosos
pavoneavam-se diante das suas portas, de rosto escarlate. Vestiam amplos
calções curtos, camisas abertas por cima das enormes barrigas e grandes
chapéus.^Derro-tados pelo calor, discutiam ninharias, com um copo de
aniseta, pousado no chão, agitando maquinalmente leques para se
refrescarem. O meu pai passava à frente deles sem os cumprimentar nem
olhar. Tentava agir como se eles não estivessem lá, mas o seu passo
perdeu subitamente alguma agilidade.

Desembocámos numa avenida onde havia basbaques a ver montras. O meu pai
deixou passar o eléctrico antes de atravessar a calçada. Indicou à minha
mãe o lugar onde ela devia esperar, confiou-lhe todas as nossas trouxas e
ordenou-me que o seguisse até uma farmácia, ao fundo da rua. Começou por
olhar através da montra para garantir que não se enganava na morada,
ajustou o turbante, alisou o colete e entrou. Um homem alto e frágil
escrevinhava num livro de registos por trás do balcão, cingido num fato
de três peças, com um fez vermelho na cabeça loura. Tinha olhos azuis, um
rosto fino no meio do qual um debrum de bigode acentuava a incisão que
fazia as vezes de boca. Quando viu entrar o meu pai, franziu as
sobrancelhas, ergueu uma tábua do lado do balcão e contornou-o para nos
receber.

Os dois homens lançaram-se nos braços um do outro.

O abraço foi breve, mas bastante apertado.

— É o meu sobrinho? — perguntou o desconhecido, aproxi-mando-se de mim.


24

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Sim — disse o meu pai.

— Meu Deus! Como é bonito.

Era o meu tio. Ignorava completamente a sua existência. O meu pai nunca
falava da família. Nem de ninguém. Mal nos dirigia a palavra.

O meu tio agachou-se para me abraçar.

— Que belo rapaz tens aqui, Issa.

O meu pai preferiu não acrescentar nada. Pelo movimento dos seus lábios,
compreendi que estava a recitar, para si, versículos corânicos para
afastar o mau olhado.

O homem ergueu-se e encarou o meu pai. Após um silêncio, voltou para trás
do balcão e continuou a observá-lo.

— Não é fácil tirar-te do teu covil, Issa. Suponho que aconteceu algo de
grave. Há anos que não vens visitar o teu irmão mais velho.

O meu pai não esteve com rodeios. Contou de imediato o que nos acontecera
ao bled, as colheitas desfeitas em fumo, a passagem do caide... O meu tio
escutou-o atentamente, sem interromper. Via as suas mãos agarrarem-se ao
balcão, ou cerrarem-se. No fim do relato, empurrou o fez para o alto da
cabeça e limpou a testa com um lenço. Estava abatido, mas encaixava o
golpe o melhor que podia.

— Terias podido pedir-me dinheiro em vez de hipotecar as nossas terras,


Issa. Sabes muito bem em que consiste esse tipo de prorrogação. Muitos
dos nossos morderam o anzol e viste como acabaram. Como te deixaste
enganar?

Não havia recriminações nas palavras do meu tio, só uma imensa decepção.

— O que está feito está feito — disse o meu pai sem argumentos. — Deus
decidiu assim.

— Não foi ele que ordenou a devastação dos teus campos... Deus nada tem a
ver com a malvadez dos homens. Tão-pouco o diabo.

O meu pai levantou a mão para pôr fim à discussão.

— Vim instalar-me na cidade — disse. —A minha mulher e a minha filha


estão à minha espera na esquina.
JENANE JATO

25

— Venham primeiro a minha casa. Descansem lá uns dias, enquanto vejo o


que posso fazer...

— Não — atalhou o meu pai. — Quem quer voltar a subir a ladeira, deve
recomeçar logo. Preciso de um tecto para mim, e já hoje.

O meu tio não insistiu. Conhecia sobejamente a obstinação do irmão mais


novo para tentar incutir-lhe bom senso. Levou-nos ao outro lado da
cidade... Não há nada de mais grosseiro que as reviravoltas da cidade...
Basta contornar um grupo isolado de casas para passar do dia para a
noite, da vida para a morte. Ainda hoje não consigo evitar um arrepio
quando me lembro dessa experiência fulminante.

5 O «arrabalde» onde aterrámos destruiu subitamente os encantos que me


haviam maravilhado horas antes. Continuávamos em Orão, mas estávamos do
outro lado do cenário. As belas casas e as avenidas floridas cederam o
lugar a um caos infinito eriçado de casebres sórdidos, de espeluncas
nauseabundas, de kheimas1 de nómadas abertas aos quatro ventos e de
cercados de animais.

— Eis Jenane Jato — disse o meu tio. — É dia de souk2. Costuma ser
mais.calmo — acrescentou ele para nos tranquilizar.

Jenane Jato: uma confusão de silvados e de pardieiros a formigar de


carroças lamurientas, de mendigos, de pregoeiros, de burriqueiros em luta
com os seus animais, de aguadeiros, de charlatães e de fedelhos
esfarrapados; um matagal ocre e tórrido, saturado de poeira e de mau
cheiro, enxertado nas muralhas da cidade como um tumor maligno. Nesses
lugares indefiníveis, a lama ultrapassava os limites. Quanto aos homens —
esses dramas itinerantes —, diluíam-se nas suas sombras. Dir-se-iam
condenados expulsos do inferno, sem julgamento e sem pré-aviso, e
abandonados nessa galera por defeito; incarnavam as penas perdidas da
terra inteira.

O meu tio apresentou-nos um homenzinho enfezado, com um olhar instável e


nuca curta. Tratava-se de um intermediário cha-

' Tendas tradicionais. (N. da T.)

2 Nos países árabes, mercado coberto. (N. da T.)


26

O QUE O DIA DEVE À NOITE

mado Bliss, uma espécie de abutre à espreita de uma miséria para


fecundar. Na época, os predadores da sua laia eram numerosos; os êxodos
disentéricos que submergiam as cidades tornavam-nos tão inelutáveis como
um sortilégio. O nosso não se afastava da regra. Estava consciente do
nosso naufrágio e sabia-nos à mercê dele. Lembro-me que tinha uma
barbicha de duende que parecia alongar desmesuradamente o seu queixo e
uma chéchia1 na enorme cabeça calva e cheia de mossas. Desagradou-me de
imediato, por causa do sorriso viperino e da maneira de esfregar as mãos
como se se preparasse para nos engolir crus.

Cumprimentou o meu pai com um aceno de cabeça enquanto ouvia o meu tio
explicar-lhe a nossa situação.

— Creio que tenho qualquer coisa para o seu irmão, doutor — disse o
interaiediário que parecia conhecer bem o meu tio. Se for a título
provisório, não encontrará melhor. Não é um palácio, mas o sítio é
tranquilo e os vizinhos honestos.

Levou-nos a um pátio com ar de estrebaria, escondido ao fundo de uma


espécie de buraco pestilencial. O intermediário pediu-nos que
esperássemos na rua, pigarreando fortemente à entrada do pátio para
intimar as mulheres a desaparecerem — como era hábito quando um homem
entrava numa casa. Quando a via ficou livre, fez-nos sinal para o
seguirmos.

0 pátio era constituído por um espaço interior com quartos separados, de


um lado e outro, onde se empilhavam famílias sem norte, fugidas da fome e
do tifo que grassavam no campo.

— É aqui — disse o intermediário, afastando uma cortina que dava para uma
sala vaga.

Nua e sem janela, a divisão era pouco maior que um túmulo e igualmente
frustrante. Cheirava a mijo de gato, a criação morta e a vomitado. As
paredes mantinham-se de pé por milagre, enegrecidas e ressumando
humidade; espessas camadas de excrementos de rato, moles e secos,
atapetavam o chão.

— Não encontrará renda mais baixa por estes lados — assegurou o


intermediário.

1 Barrete em forma de calote usado em certos países muçulmanos. (N. da


T.)
JENANE JATO

27

O meu pai ficou a olhar para uma colónia de baratas que se apoderara de
um buraco a derramar sujidade, ergueu a cabeça para as teias de aranha
ornamentadas de mosquitos mortos — o intermediário vigiava-o pelo canto
do olho, como um réptil a observar a presa.

— Fico com ela — disse o meu pai para grande alívio do homem.

Pôs-se logo a empilhar os nossos pertences num canto da divisão.

— As latrinas colectivas são ao fundo do pátio — disse entusiasticamente


o intermediário. — Também há um poço, mas está seco. Convém não deixar os
garotos abeirarem-se demasiado. O ano passado tivemos a lamentar a morte
de uma garota, porque um cabeça no ar se esqueceu de voltar a tapar o
buraco. À parte isso, nada a assinalar. Os meus inquilinos são pessoas
correctas, que não causam agitação. Vêm todos do interior para
trabalharem no duro e nunca se queixam. Se tiver necessidade de qualquer
coisa, dirija-se a mim e só a mim — insistiu zelosamente. — Conheço gente
e sou capaz de arranjar seja o que for, de dia ou de noite, desde que
tenha com que pagar. Caso não saiba, alugo esteiras, cobertas, candeeiros
e fogareiros de petróleo. Basta pedir. Trar--lhe-ei o mundo na palma da
mão se me pagar.

O meu pai não o ouvia; já o detestava. Enquanto punha em ordem a nossa


nova casa, vi o meu tio afastar o intermediário e passar-lhe
discretamente qualquer coisa para a mão.

— Com isto pode deixá-lo em paz durante um bom bocado de tempo.

O intermediário expôs a nota ao sol e mirou-a com um júbilo malsão.


Levou-a à testa e depois à boca e guinchou:

— Talvez o dinheiro não tenha perfume, mas a verdade é que cheira bem,
meu Deus!
C«*>y? < ' Z,

&

O meu pai não tinha tempo A perder. Queria subir a ladeira sem tardar. No
dia seguinte, de madrugada, levou-me com ele à procura de um trabalho
susceptível de lhe render duas ou três moedas. Só que não conhecia bem a
cidade e não sabia por onde começar. Regressámos ao cair da noite, sem
nada conseguir e esgotados. Entretanto, a minha mãe limpara o nosso antro
e pusera alguma ordem nas nossas coisas. Jantámos como brutos e
adormecemos imediatamente.

No dia seguinte, antes da aurora, voltámos a sair, o meu pai e eu, à


procura de trabalho. Ao cabo de uma longa marcha forçada, uma desordem
atraiu a nossa atenção.

— Que se passa? — perguntou o meu pai a um mendigo envolto em trapos.

— Estão à procura de bestas de carga para um descarregamento no porto.

O meu pai acreditou que era a sorte da sua vida. Mandou-me esperar na
esplanada de uma taberna antediluviana e avançou impetuosamente. Vi-o
abrir caminho à cotovelada antes de desaparecer na multidão. Quando o
camião a abarrotar de forçados partiu, o meu pai não reapareceu;
conseguira entrar nele.

Esperei-o horas a fio, sob um sol de chumbo. À minha volta, maltrapilhos


aglutinavam-se perto das tendas, de cócoras, incrivelmente imóveis à
sombra do seu abrigo ocasional. Tinham todos um olhar inexpressivo e um
fragmento de noite no rosto. Pareciam
JENANE JATO

29

espiar, com uma paciência obscura, algo que não se manifestaria em parte
alguma. À tarde, cansados de roer o freio, a maioria dispersou em
silêncio. Nas proximidades só ficaram mendigos, alguns loucos aos gritos
e indivíduos suspeitos com pupilas de répteis. De repente, alguém gritou
«Agarra, que é ladrão!» e foi como se se abrisse a caixa de Pandora: as
cabeças ergueram-se e os corpos descomprimiram-se como molas; e vi, com
os meus próprios olhos, um punhado de energúmenos hirsutos precipitar-se
sobre um rapaz andrajoso que tentava bater em retirada. Era o ladrão. Foi
linchado num abrir e fechar de olhos, no meio de gritos que ensombraram o
meu sono durante semanas. Executado o castigo, no meio da poeira só ficou
o corpo desconjuntado do adolescente, banhado em sangue. Chocado, dei um
enorme salto quando um homem se inclinou sobre mim.

— Não te queria assustar, miúdo — disse-me o homem, erguendo as mãos para


me tranquilizar. — Estás aí desde manhã. Agora é altura de voltares para
casa. Isto não é sítio para ti.

— Estou à espera do meu pai — disse-lhe. — Foi no camião.

— E onde é que está a besta do teu pai? Não lembra ao diabo deixar um
fedelho num sítio destes... Moras longe?

— Não sei...

O homem pareceu embaraçado. Era um latagão de braços peludos, com um


rosto queimado pelo sol e um olho negro. Olhou à sua volta, com as mãos
nas ancas, e depois, constrangido, empurrou um banco na minha direcção e
convidou-me a sentar a uma mesa enegrecida de sujidade.

— Daqui a pouco tempo é noite e tenho de fechar. Não podes ficar por
aqui, topas? Não é bom. Só há malucos à tua volta... Comeste?

Fiz que não com a cabeça.

— Bem me parecia.

Entrou na tasca e trouxe-me um prato de metal no qual coagulara uma sopa


espessa.

— Já não tenho pão...

Sentou-se ao meu lado e observou-me tristemente a emborcar a gamela.


*
30

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— É mesmo uma besta o teu pai! — disse, suspirando.

A noite caiu. O taberneiro fechou a loja, mas não se foi embora. Pendurou
uma lanterna numa trave e fez-me companhia, com ar mal-humorado. No lugar
mergulhado na obscuridade, agitavam--se sombras aqui e ali. Um
contingente de sem-abrigo tomava posse do lugar, alguns em torno de uma
fogueira, outros deitando-se no chão para dormir. As horas passaram, os
ruídos atenuaram-se; o meu pai continuava sem vir. A cólera do taberneiro
aumentava à medida que o tempo passava. Não havia meio de ir para casa
mas, ao mesmo tempo, tinha a certeza de que, se me deixasse só um minuto,
eu estava perdido. Quando o meu pai apareceu por fim, lívido de
inquietação, o taberneiro repreendeu-o vivamente:

— Pensas que estás onde, sua besta? Em Meca? Que te deu para deixar o
fedelho num sítio como este? Aqui, nem mesmo os duros estão ao abrigo de
uma estocada.

O meu pai ficou tão aliviado por me voltar a ver que bebeu as censuras do
taberneiro como se fossem um elixir benzido. Compreendia que tinha errado
gravemente e que nunca me teria reencontrado se o taberneiro me tivesse
abandonado ao meu destino.

— Fui no camião — tartamudeou, desvairado. — Pensava que nos iam trazer


de volta depois. Enganei-me. Não sou da cidade, e o porto não fica ali ao
lado. Perdi-me. Não sabia onde estava e como voltar aqui. Há horas que
ando às voltas.

— E na tua cabeça que as coisas não andam às voltas, homem — gritou-lhe o


taberneiro, retirando a lanterna da trave. — Quando se procura trabalho,
deixa-se o puto em casa... Agora, venham os dois atrás de mim, e atenção
onde metem os pés. Vamos atravessar o pior fosso de víboras que Deus
escavou na terra.

— Muito obrigado, irmão — disse o meu pai.

— Não fiz nada de especial. Só não gosto é que toquem nos garotos. Teria
ficado com ele até de manhã. Neste inferno, não teria sobrevivido, e eu
não ficaria corn a consciência tranquila.

Ajudou-nos a sair daquele local perigoso sem dificuldade, ex-plicou-nos


como contornar os bairros mal-afamados para regressarmos inteiros a casa
e desapareceu nas trevas.


JENANE JATO 31

O meu pai aplicou À letra as recomendações do taberneiro. Entregou-me à


minha mãe. De manhã, quando eu acordava, já tinha partido. A noite,
quando voltava, eu dormia.

Deixei de o ver.

Fazia-me falta.

Não havia nada que me interessasse no pátio. Aborrecia-me. Criado


sozinho, tendo por único companheiro um cão a envelhecer, não sabia como
juntar-me aos garotos que brigavam sem tréguas no pátio. Pareciam
espíritos espancadores em transe. Eram mais novos que eu, tamanhinhos,
mas faziam uma algazarra dos diabos. Sentado na soleira da porta,
contentava-me em observá--los, mantido à distância pelas suas
brincadeiras de aturdir que terminavam, invariavelmente, com uma arcada
aberta ou um joelho esfolado.

0 nosso pátio era partilhado por cinco famílias, todas vindas do


interior; camponeses arruinados ou khammès1 com a renda em atraso. Na
ausência dos homens, que saíam de madrugada para se matarem de trabalho,
as mulheres juntavam-se à volta do poço e tentavam insuflar uma alma no
nosso buraco de ratazanas, nada incomodadas com as escaramuças a que se
entregava a sua prole. Para elas, os garotos iniciavam-se nas durezas da
vida. E quanto mais cedo melhor. Ficavam quase encantadas de os ver lutar
violentamente e, depois de uma boa cena de choro, reconciliarem-se antes
de retomar as hostilidades com uma espantosa combatividade... As mulheres
entendiam-se bem entre si, entreajudavam-se. Quando uma adoecia, as
outras lá conseguiam meter-lhe qualquer coisa na panela, tomar conta do
bebé e revezarem-se à cabeceira. Acontecia-lhes partilharem uma guloseima
e pareciam enfrentar as pequenas infelicidades com uma sobriedade
tocante. Achava-as admiráveis. Havia a Badra, uma amazona elefantina, que
adorava contar obscenidades. Era a nossa lufada de oxigénio. A crueza das
suas palavras punha a minha mãe pouco à vontade, mas as outras adoravam-
na. Badra era mãe de cinco miúdos pequenos e de dois adolescentes
difíceis. Tinha estado casada uma primeira vez com

1 Trabalhador agrícola sazonal, geralmente remunerado em espécie. (N. da


T.)
32

O QUE O DIA DEVE À NOITE

um pastor imbecil, quase autista, segundo ela bem equipado como um burro,
mas sem saber nada da poda... Havia a Batoul, magra e morena como um
cravo-da-índia, encanecida aos quarenta anos, com tatuagens no rosto, que
se torcia de riso antes mesmo de Badra abrir a boca. Casada à força com
um velho com a idade do seu avô, pretendia ter dons de vidente — lia as
linhas da mão e interpretava sonhos. As mulheres da vizinhança e não só
vinham consultá-la regularmente. Previa-lhes o futuro a troco de umas
batatas, de uma moeda ou de um pedaço de sabão. Para os inquilinos do
pátio, era grátis... Havia a Yezza, uma ruiva avantajada de peito
opulento, que o bêbado do marido espancava noite sim, noite não. Tinha a
cara massacrada pelas tareias sucessivas que levava, e praticamente
nenhum dente. O seu erro era não procriar, o que tornava o marido
particularmente odioso. Havia a Mama, mergulhada até ao pescoço na sua
caterva de diabretes, activa como dez criaditas, pronta a qualquer
concessão para impedir que o tecto lhe desabasse na cabeça... E depois
havia a Haddá, bela como uma huri, já com dois catraios mas ainda
adolescente. O marido saíra uma manhã para procurar trabalho e nunca mais
regressara. Entregue a si própria, sem referências nem recursos, devia a
sobrevivência à solidariedade das vizinhas.

As mulheres encontravam-se todos os dias à volta do poço e passavam


grande parte do dia a remoer o passado como quem remexe uma faca na
ferida. Falavam dos pomares confiscados, das queridas colinas para sempre
perdidas, dos familiares que deixaram na terra de todos os infortúnios
que estavam longe de vir a rever um dia. Então o rosto enrugava-se de
tristeza e a voz fal-tava-lhes. Quando a tristeza ameaçava dominá-las,
Badra retomava as delirantes confusões coitais do primeiro marido e, como
que sob o efeito de uma fórmula mágica, as recordações tristes deixavam
de morder, e as mulheres atiravam-se para o chão, tremendo de riso; o bom
humor derrotav." as lembranças assassinas e o pátio recuperava parte da
sua alma.

As brincadeiras continuavam até ao cair da noite. Por vezes, encorajado


pela ausência dos homens, o intermediário Bliss vinha ao pátio dar-se
ares. Logo que o ouviam pigarrear no corredor, as
JENANE JATO fl 33

mulheres volatilizavam-se. O intermediário penetrava no pátio deserto,


descompunha os catraios de que não gostava, pegava-se com ninharias e
chamava-nos campónios ingratos e gentalha, se via a mínima esfoladela na
parede. Plantava-se ostensivamente à frente da casa da bela Hadda e, tão
pérfido como um piolho zarolho, ameaçava pôr-nos a todos na rua. Quando
se ia embora, as mulheres saíam das suas tocas, cacarejando, mais
divertidas do que intimidadas com as fanfarronices do intermediário.
Bliss fazia imensas, mas não metia grande medo. Nunca ousava mostrar o
seu focinho de rato quando havia um homem no pátio, mesmo acamado ou
moribundo. Badra estava convencida de que Bliss andava atrás de Hadda. A
jovem era uma presa fácil, sem dinheiro e vulnerável, fragilizada pelos
atrasos no pagamento da renda; o intermediário pressionava-a para a
vergar.

Para me poupar às grosserias de Badra, a minha mãe deixava--me sair à rua


— se é que lhe podíamos chamar assim. Era um caminho de terra batida,
bordejado de ambos os lados de uma fileira de casotas em zinco e de
barracas apodrecidas. Só havia duas casas em cimento: o nosso pátio e uma
espécie de estábulo onde se amontoavam yárias famílias. No canto oficiava
o barbeiro, um peralvilho sem idade precisa, pouco mais alto que um
espargo, tão lingrinhas que os matulões se recusavam a pagar-lhe. A sua
loja a céu aberto era constituída por um caixote de munições de guerra,
trazido de um depósito militar, por um pedaço de espelho recuperado de um
armário e por uma tábua na qual se exibiam uma caçarola, um pincel de
barba a desfazer-se, uma tesoura torta e um sortido de lâminas
inutilizáveis. Quando não estava a barbear os velhos sentados no chão,
acocorava-se encostado ao caixote e cantava. A voz era rouca, as palavras
nem sempre exactas, mas havia na sua maneira de esconjurar a dor qualquer
coisa que acertava no alvo. Não me cansava de o ouvir.

Ao lado do barbeiro, erguia-se um aglomerado de coisas esquisitas que se


fazia passar por uma mercearia. O lojista chamava--se Perna-de-Pau; um
velho reformado do contingente militar indígena, que perdera parte do
corpo num campo de minas. Era a primeira vez que eu via uma 'perna de
pau. Causou-me uma im-
34

O QUE O DIA DEVE À NOITE

pressão estranha. O lojista parecia orgulhar-se dela; adorava brandi-la


contra os garotos que esquadrinhavam os seus frascos.

Perna-de-Pau não estava satisfeito com o negócio. Sentia falta da


algazarra e do ambiente das casernas. Sonhava regressar às fileiras e
bater-se com o inimigo. Enquanto esperava que a perna mutilada voltasse a
crescer, vendia conservas de mercado negro, pães doces e óleo adulterado.
Nas horas vagas, arrancava dentes — vi-o várias vezes a extrair pequenos
fragmentos cariados a garotos com um alicate enferrujado; como se lhes
arrancasse o coração.

Depois, havia o descampado que dava para o mato. Aventu-rei-me lá uma


manhã, distraído pelas batalhas campais entre dois bandos de garotos, um
dirigido por Daho, um selvagem de cabeça rapada só com um tufo de cabelos
encrespados na testa, e outro por um jovem adulto, provavelmente débil,
que se tomava por conquistador. Foi como se o chão me tivesse fugido dos
pés. Numa fracção de segundo, fui engolido por um tornado de braços,
aliviado dos chinelos, da gandoura e da chéchia antes de ter tempo de
compreender o que me estava a acontecer. Chegaram a tentar arrastar-me
para trás dos arbustos para me desonrar. Ignoro como consegui escapar da
matilha; profundamente traumatizado, nunca mais pus os pés nesse
território maldito.

O meu pai trabalhava como um forçado, mas não ia longe. Os madrugadores


eram muitos e o trabalho uma mercadoria raríssima. Eram muitos os
miseráveis que se arrastavam pelas lixeiras, com o umbigo colado às
vértebras, e os sobreviventes não hesitavam em se estripar por uma côdea
de pão bolorenta. Os tempos eram difíceis, e a cidade, que de longe
sugeria tantas esperanças, revelava-se uma assustadora patranha. Uma vez
em cada dez, o meu pai conseguia descobrir um trabalho à tarefa que nem
sequer lhe rendia o suficiente para comprar sabão para se barbear.
Algumas noites, voltava para casa a cambalear, o rosto desfeito e as
costas golpeadas pelos inúmeros fardos que carregava ou descarregava
durante o dia, em tão mau estado que dormia de barriga para baixo. Estava
exausto, desesperado acima de tudo. A sua obstinação abria brechas sob o
peso da dúvida.
JENANE JATO

35

Passaram semanas. O meu pai emagrecia a olhos vistos. Tor-nava-se cada


vez mais irascível e descobria sempre um pretexto para virar a cólera
contra a minha mãe. Não lhe batia; ficava-se pelos gritos, e a minha mãe,
estóica, baixava a cabeça e não dizia nada. As coisas escapavam-nos e as
noites enchiam-se de amargura. O meu pai já não dormia. Não parava de
resmungar e de bater nas mãos. Ouvia-o calcorrear o quarto, perdido no
escuro; às vezes saía para o pátio e sentava-se no chão, com o queixo
entre os joelhos e os braços à volta das pernas até ao nascer do sol.

Uma manhã, mandou-me vestir uma gandoura menos gasta e levou-me a casa do
irmão. O meu tio estava na farmácia, a arrumar caixas e frascos nas
prateleiras.

O meu pai hesitara antes de entrar na farmácia. Orgulhoso e embaraçado,


andou muito tempo às voltas antes de falar do motivo da visita: precisava
de dinheiro... O meu tio meteu logo a mão na gaveta da caixa registadora,
como se estivesse à espera, e tirou uma grande nota. O meu pai olhou para
a nota com um ar atormentado. O meu tio compreendeu que o irmão não
estenderia a mão. Contornou o balcão e meteu-lhe o dinheiro no bolso. O
meu pai estava petrificado, de cabeça baixa. A voz soou-lhe abatida,
surda, quase inaudível, quando disse «obrigado».

O meu tio voltou para trás do balcão. Via-se bem que tinha qualquer coisa
no coração, mas que não ousava remexer no abcesso. O olhar não parava de
procurar o do meu pai, e os dedos brancos e limpos tamborilavam
nervosamente na madeira. Depois de ter pesado conscienciosamente os prós
e os contras, ganhou coragem e disse:

— Sei que é duro, Issa. Mas sei que podes sair do buraco... se me
deixares ajudar.

— Reembolsar-te-ei até ao último tostão—prometeu o meu pai.

— Não se trata disso, Issa. Reembolsar-me-ás quando quiseres. Se depender


só de mim, nem sequer tens de o fazer. Posso em-prestar-te mais. Não me
causa qualquer problema. Sou teu irmão, estou disponível a qualquer
momento e para qualquer coisa... Não sei como to dizer — acrescentou,
pigarreando... — Sempre tive muita dificuldade em discutir^contigo. Tenho
medo de te ofender
36 O QUE O DIA DEVE À NOITE

quando me esforço apenas por ser teu irmão. Mas chegou a altura de
aprenderes a ouvir, Issa. Não há mal nenhum nisso. A vida é uma
aprendizagem permanente; quanto mais pensamos saber, menos sabemos, a tal
ponto as coisas mudam e, com elas, as mentalidades.

— Hei-de desenrascar-me...

— Não duvido, Issa. Nem um segundo. Mas as boas vontades exigem meios.
Crer muito não chega.

— Que estás a insinuar, Mahi?

O meu tio torceu os dedos, extremamente nervoso. Procurou as palavras,


deu-lhes voltas e voltas na cabeça e, depois, respirando profundamente,
disse:

— Tens mulher e dois filhos. É um estorvo para um homem sem dinheiro.


Manieta-te, destrói-te as asas.

— É a minha família.

— Eu também sou da tua família.

— Não é a mesma coisa.

— É a mesma coisa, Issa. O teu filho é meu sobrinho. É do meu sangue.


Entrega-mo. Sabes muito bem que não chegará longe se seguir o teu
exemplo. Que contas fazer dele? Um carregador, um engraxador, um
burriqueiro? Tens de encarar a realidade de frente. Contigo, não irá a
parte nenhuma. O rapaz precisa de frequentar a escola, de aprender a ler
e a escrever, de crescer bem. Eu sei, os meninos árabes não nascem para
os estudos, mas antes para os campos e os rebanhos. Mas posso mandá-lo
para a escola e fazer dele um homem instruído... Suplico-te, não me leves
a mal. Reflecte um minuto. Contigo, o garoto não tem futuro.

O meu pai meditou demoradamente nas palavras do irmão, de olhos baixos e


maxilares cerrados. Quando levantou a cabeça, já não tinha rosto; uma
máscara baça substituíra-o.

Disse, com a morte na alma:

— Decididamente, nunca hás-de compreender, irmão. • — Erras em reagir


assim, Issa.

— Cala-te... Se fazes favor, não digas mais nada... Não tenho os teus
conhecimentos, e lamento-o. Mas se os conhecimentos consistem em rebaixar
os outros, não os quero.
JENANE JATO 37

O meu tio tentou dizer qualquer coisa; o meu pai travou-o firmemente.
Tirou a nota do bolso e pousou-a no balcão.

— Tão-pouco quero o teu dinheiro.

Pegou-me no braço com tamanha cólera que por pouco não me deslocava o
ombro e empurrou-me para a rua. O meu tio tentou apanhar-nos; não ousou
aproximar-se e ficou imóvel diante da loja, certo de que a falta que
acabara de cometer nunca seria perdoada.

CA

O meu pai não andava, rolava como um rochedo no flanco de uma colina.
Nunca lhe vira um acesso de cólera semelhante. Estava a dois dedos de
implodir. O rosto estremecia com tiques; os olhos tentavam enterrar o
mundo. Não dizia nada, e o seu silêncio em ebulição conferia à sua
atitude uma tensão que me fazia temer o pior.

Quando já estávamos longe, empurrou-me contra uma parede e mergulhou o


seu olhar demente nos meus olhos amedrontados; uma chumbada não me teria
abalado da cabeça aos pés com tamanha brutalidade.

— Achas que não valho nada? — disse ele, com a garganta contorcida. —
Achas que pus no mundo um garoto para o ver morrer a fogo lento?...
Enganas-te. E o hipócrita do teu tio engana-se. E o destino que parece
humilhar-me engana-se redondamente... Sabes porquê? Porque eu posso ter
perdido o meu lugar, mas não perdi a alma. Ainda estou vivo e cheio de
força. Tenho uma saúde de ferro, braços capazes de erguer montanhas e um
orgulho a toda a prova.

Os seus dedos enterravam-se-me nos ombros, magoavam-me. Não se dava


conta. Os olhos reviravam-se no rosto como berlindes ao rubro.

— É verdade que não consegui salvar as nossas terras, mas, lembra-te, fiz
crescer trigo!... O que aconteceu a seguir não foi culpa minha. As preces
e os esforços reduzem-se muitas vezes a nada perante a cupidez dos
homens. Fui ingénuo. Agora já não sou. Mais ninguém me baterá nas
costas... Parto do nada. Mas prevenido. Vou trabalhar como nenhum negro
trabalhou, enfrentar os
38

O QUE O DIA DEVE À NOITE

sortilégios, e tu verás, com os teus próprios olhos, como o teu pai é


digno. Vou sair do buraco que nos engoliu, vou livrar-me dele, juro. Ao
menos tu acreditas em mim?

— Sim, papá.

— Olha-me bem nos olhos e diz que acreditas em mim.

Já não tinha olhos, mas dois papos de lágrimas e sangue que ameaçavam
engolir-nos aos dois.

— Olha para mim!

A mão dele pegou-me violentamente no queixo e obrigou--me a levantar a


cabeça.

— Não acreditas em mim, é isso?

Eu tinha um enorme coágulo na garganta. Não conseguia falar nem aguentar


o seu olhar. O que me mantinha de pé era a mão dele.

Subitamente, a outra mão atingiu-me a face.

— Não dizes nada porque pensas que deliro. Fedelho ranhoso! Não tens o
direito de duvidar de mim, ouviste? Ninguém tem o direito de duvidar de
mim. Se a porcaria do teu tio não dá nada por mim, é porque não vale mais
do que eu.

Era a primeira vez que levantava a mão para mim. Eu já não compreendia
nada, não sabia que mal fizera, porque se virava contra mim. Tinha
vergonha de o encolerizar e medo que me renegasse, ele que, a meus olhos,
era o que mais importava no mundo.

O meu pai voltou a erguer a mão. Deixou-a suspensa no ar. Os dedos


vibravam. As pálpebras inchadas desfiguravam-lhe o rosto. Emitiu um
estertor de animal ferido, puxou-me contra o peito a soluçar, e apertou-
me, com tanta força e durante tanto tempo que me senti como se estivesse
a morrer.
3.

10

As mulheres estavam instaladas num canto do pátio, à volta de uma mesa


baixa. Bebiam chá enquanto apanhavam sol. A minha mãe estava com elas,
reservada, com Zahra ao colo. Acabara por se juntar ao grupo sem tomar
parte nas discussões. Era tímida e, muitas vezes, quando Badra se lançava
nas suas histórias lascivas, a minha mãe corava, sufocando o mal-estar.
Nessa tarde, saltava-se de um assunto para outro, só para lutar contra o
calor que assolava o pátio. A ruiva Yezza exibia um olho negro; o marido
regressara bêbado a casa mais uma vez. As outras faziam de conta que não
viam. Por uma questão de decência. Yezza era orgulhosa; aturava as
infâmias do marido com dignidade.

— Há umas noites que tenho tido um sonho estranho — disse Mama à vidente
Batoul. — O mesmo sonho: estou às escuras, deitada de barriga para baixo,
e há alguém que me espeta uma faca nas costas.

As mulheres voltaram-se para Batoul, à espera da interpretação. A vidente


esboçou uma careta, coçou os cabelos; não via nada.

— O mesmo sonho, dizes tu?

— Exactamente o mesmo.

— Estás estendida de barriga para baixo, às escuras, e apu-nhalam-te nas


costas? — perguntou Badra.

— Tal e qual — confirmou Mama.

— Tens a certeza de que se trata mesmo de uma faca? — perguntou novamente


Badra, divertida, revirando os olhos.
40

O QUE O DIA DEVE À NOITE

As mulheres levaram alguns segundos a decifrar as insinuações de Badra


antes de desatarem a rir. Como Mama não compreendia o que fazia rir as
companheiras, Badra deu-lhe uma pequena ajuda:

— Devias dizer ao teu marido para avançar de mansinho.

— Como podes ser obcecada! — enervou-se Mama. — Estou a falar a sério.

— E eu também, imagina.

As mulheres recomeçaram, gemendo espasmodicamente com a boca aberta. Mama


ficou um pouco amuada, desgostada com a sua falta de decência, mas,
vendo-as dobradas em dois, pôs-se a sorrir por sua vez e depois a dar
pequenas gargalhadas.

Só Hadda não ria. Estava curvada sobre si, minúscula mas encantadora, com
os seus grandes olhos de sereia e as lindas covinhas nas faces. Parecia
triste e não dissera nada desde que tomara o seu lugar entre as outras.
De repente, estendeu o braço por cima da mesa baixa e virou a palma da
mão para Batoul.

— Dizes-me o que vês?

Havia uma enorme tristeza na sua voz.

Batoul hesitou. Perante o olhar desesperado da jovem, pegou--lhe na


mãozinha pela ponta dos dedos e aflorou com a unha as linhas que
apergaminhavam a palma translúcida.

— Tens mãos de fada, Hadda.

— Diz-me o que vês, vizinha. Preciso de saber. Já não aguento mais.

Batoul observou demoradamente a palma. Em silêncio.

— Vês o meu marido? — apressou-a Hadda. — Onde está? Que faz? Arranjou
outra mulher ou morreu? Suplico-te, diz-me o que vês. Estou pronta para
enfrentar a verdade seja ela qual for.

Batoul suspirou e curvou os ombros:

— Não vejo o teu marido nesta mão, pobre querida. Em parte alguma. Não
lhe sinto a presença nem o menor dos vestígios. Ou partiu para muito
longe, tão longe que te esqueceu, ou já não está neste mundo. Uma coisa é
certa, não vai voltar.

Hadda engoliu em seco, mas aguentou. Observou avidamente os olhos da


vizinha.
JENANEJATO 41

— Que me reserva o futuro, vizinha? Que me vai acontecer a mim, sozinha


com dois garotos de tenra idade, sem família, sem ninguém?

— Não te abandonaremos — prometeu Badra.

— Se o meu marido me abandonou, ninguém me vai aguentar — disse Hadda. —


Diz-me, Batoul, que me vai acontecer? Preciso de saber. Quando se está
preparada para o pior, amortece-se os golpes.

Batoul inclinou-se para a mão da vizinha, passou e voltou a passar a unha


nas linhas que se cruzavam.

— Vejo muitos homens à tua volta, Hadda. Mas muito pouca alegria. A
felicidade não é para ti. Vejo pequenas clareiras que a maré dos anos não
tarda a engolir, zonas de sombra e de tristeza. Mas não cedes.

— Muitos homens? Enviuvarei ou serei repudiada muitas vezes?

— Não se percebe. Há gente a mais à tua volta, barulho a mais. Parece um


sonho, mas não é. E... é muito curioso. Talvez eu esteja a tresvariar...
Estou um pouco cansada hoje. Desculpa...

Batoul ergueu-se e entrou em casa, desanimada. A minha mãe aproveitou a


partida da vidente para se retirar também.

— Não tens vergonha de te juntares às mulheres? — invectivou ela em voz


baixa, atrás da cortina do nosso reduto. — Quantas vezes tenho de te
dizer que um rapaz não deve ouvir o que dizem as mães?... Vai para a rua
e não te afastes.

— Não há nada na rua que me interesse.

— Também não há nada que te interesse junto das mulheres.

— Vão bater-me outra vez.

— Só tens de te defender. Não és uma menina. Vais ter de te virar


sozinho, mais tarde ou mais cedo, e não é a ouvir as comadres que lá
chegas.

Não gostava de sair. O acidente, no descampado, marcara--me como um ferro


em brasa. Só me aventurava fora depois de passar a pente fino os
arredores, pronto a fugir ao mínimo movimento suspeito. Tinha um medo
louco dos garotos, sobretudo de um certo
42 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Daho, atarracado, feio e maldoso como um djim. Aterrorizava-me. Logo que


lhe via a ponta do nariz no canto da rua, sentia-me desfeito;
atravessaria paredes para o evitar. Era um rapaz estranho, tão
imprevisível como um raio. Encabeçava um bando de jovens hienas tão
velhacas e cruéis como ele. Ninguém sabia de onde vinha nem quem eram os
pais, mas todos achavam que acabaria pendurado numa corda ou com uma
estaca na cabeça.

E, depois, havia El Moro, um antigo prisioneiro que sobrevivera a


dezassete anos de trabalhos forçados. Era grande, quase um gigante, com
uma testa maciça e braços hercúleos. Tinha tatuagens por todo o corpo e
uma venda de couro num dos olhos. Um golpe cortara-lhe a cara da
sobrancelha direita ao queixo, ra-chando-lhe o beiço. El Moro era o
terror em tamanho natural. Quando aparecia em qualquer sítio, fazia-se
subitamente silêncio e as pessoas esgueiravam-se, encostadas às paredes.
Uma manhã vi-o de muito perto. Estava uma caterva de miúdos à volta do
Perna-de-Pau, o nosso merceeiro. O velho soldado contava-nos os seus
feitos de armas no Rif marroquino — combatera o insurrecto berbere Abd
el-Krim. Estávamos absortos na história quando o nosso herói ficou
lívido. Dir-se-ia prestes a sofrer uma crise cardíaca. Mas não era isso:
El Moro erguia-se atrás de nós, solidamente plantado nas pernas, com as
mãos nas ancas. Olhava o merceeiro desdenhosamente, rindo.

— Queres enviar os miúdos para a guerra, cabeça dura? É para isso que
lhes enches os miolos com as tuas aldrabices de louco? Porque não lhes
contas como, depois de anos de leais serviços, os teus oficiais te
lançaram aos cães, com uma pata a menos?

Perna-de-Pau perdera subitamente o uso da palavra; a boca abria-se e


fechava-se no vazio como um peixe fora de água. El Moro continuara, cada
vez mais furioso:

— Enches de fumo os douars1, massacras o gado, atacas desgraçados com o


teu mosquetão, e depois vens exibir os teus troféus de porco na praça
pública. E chamas guerra a isso?... Queres saber

1 No Norte de África, agrupamento em círculo de tendas de nómadas. (N. da


T.)
JENANE JATO

43

o que penso? És um cobarde e metes-me nojo. Fico com vontade de te


empalar no cacete que te serve de perna até os olhos te saírem pelas
orelhas... Os heróis do teu género não terão monumento, nem sequer um
epitáfio numa fossa comum que lhes servirá de campa. És um porco de um
vendido que pensa esconder o rosto, assoando-se ao estandarte dos seus
senhores.

O pobre soldado estava verde e tremia; a maçã-de-adão subia e descia


feita louca na garganta. De repente, começou a cheirar mal — defecara na
túnica. ^ No entanto, não havia só gaiatos e brutamontes em Jenane Jato.
As pessoas, na sua maioria, não eram más. Nem a miséria conseguira
viciar-lhes a alma nem as dificuldades lhes erradicaram a bonomia.
Sabiam-se encurraladas, mas não haviam renunciado ao maná celeste,
convencidas de que, de um dia para o outro, a humilhação que se lhes
colava ao passo iria acabar por se dissipar e a esperança por renascer
das cinzas. Eram boas pessoas, algumas atraentes e divertidas;
conservavam a fé em tudo, o que lhes insuflava uma paciência inaudita. O
dia de souk, em Jenane Jato, era uma espécie de feira popular, e todos
davam o seu contributo para alimentar a ilusão. Com a concha da sopa tão
eficaz como um cacete, os vendedores de sopa defendiam-se com firmeza dos
mendigos. Por um demi-doro, tinha-se direito a uma beberagem à base de
grão-de-bico, água fervida e cominhos. Além disso, havia umas baiucas
obscuras em torno das quais deambulavam como fantasmas cachos de
esfomeados que aspiravam a plenos pulmões o vapor agradável das carnes. É
evidente que os predadores não faltavam à chamada; vinham dos quatro
cantos da cidade, à procura de um mal-entendido ou de uma imprudência de
que pudessem tirar proveito. As pessoas de Jenane Jato não cediam às
provocações. Compreendiam que não se educam espíritos retorcidos e
preferiam os bufões. Toda a gente, dos grandes aos pequenos, delirava com
eles. Entre as coqueluches da «feira» figuravam os gouals1, que causavam
ajuntamentos tumultuosos em torno da sua tribuna. Não se percebia
completamente o que contavam — as histórias

1 Contadores de histórias. (N"!"da T.)


44

O QUE O DIA DEVE À NOITE

eram tão descosidas como os seus atavios —, mas tinham o dom de enganar o
auditório e de o manter em suspenso de uma ponta à outra das suas
elucubrações. Eram um pouco a nossa ópera dos miseráveis, o nosso teatro
ao ar livre. Foi com eles que aprendi, por exemplo, que a água do mar era
doce antes de as viúvas dos marinheiros derramarem nela as suas
lágrimas... Depois dos gouals, vinham os encantadores de serpentes.
Amedrontavam-nos, segurando nas mãos os répteis e balançando-os na nossa
direcção. Vi alguns que engoliam, até meio, víboras inquietas antes de as
escamotearem sub-repticiamente nas mangas das suas gandouras — um
espectáculo ao mesmo tempo repugnante e hipnótico; à noite, tinha
pesadelos... Os mais velhacos eram os charlatães, de toda a casta,
gesticulando por trás dos seus balcões sobrecarregados de frascos com
beberagens misteriosas, amuletos, bolsinhas talismâ-nicas e cadáveres de
animaizinhos mirrados célebres pelas suas virtudes afrodisíacas.
Propunham remédios para todas as espécies de doenças: surdez, cárie,
gota, paralisia, angústias, esterilidade, tinha, insónia, sortilégios,
enguiços, frigidez; e as pessoas mordiam o anzol com uma credulidade de
pasmar. Havia até algumas que, três segundos depois de ingurgitarem um
filtro, se punham a gritar «Milagre!», rojando-se na poeira. Causava
estupefacção. Por vezes, vinham iluminados arengar à multidão, com gestos
graves e voz sepulcral. Erguiam-se no seu pedestal improvisado e en-
tregavam-se a arroubos líricos, denunciando a depravação dos espíritos e
a aproximação inexorável do Juízo Final. Falavam do Apocalipse, da cólera
dos homens, da fatalidade e das mulheres impuras; apontavam com o dedo os
passantes e fustigavam-nos de perto ou lançavam-se em teorias esotéricas
cujo fim não se entrevia... «Quantos escravos se revoltaram contra
impérios antes de acabarem na cruz?», tonitruava um deles, agitando a
barba enredada. «Quantos reis acreditaram mudar o rumo da história antes
de apodrecerem em calabouços? Quantos prvfetas tentaram melhorar--nos as
mentalidades antes de nos tornarem ainda mais loucos que antes?» «Quantas
vezes temos de repetir que és chato como a morte?», retorquia a multidão.
«Enfia uma cogula na tua tromba de mocho e mostra-nos como fazes a dança
do ventre, em vez de
JENANEJATO : 45

nos chateares com as tuas tontices de débil...» Entre os centros de


atracção, havia Slimane com o seu realejo a tiracolo e o seu sagui ao
ombro; calcorreava a praça, rodando a manivela da caixa de música,
enquanto o minúsculo macaco estendia o seu quépi de groom aos curiosos;
quando estes lhe atiravam moedas, o maca-quito gratificava-os com caretas
hilariantes... A uma certa distância, perto dos cercados de animais,
oficiavam os burriqueiros, hábeis angariadores e temíveis alquiladores
com um falatório tão convincente que eram capazes de fazer uma mula
passar por um puro-sangue. Adorava ouvi-los elogiarem os seus animais; as
pessoas quase sentiam prazer em deixar-se embarretar por eles tal a
impressão que tinham de ser tratadas com uma diligência que supunham
exclusivamente reservada aos bachaghas1... Por vezes, no meio da
balbúrdia, desembarcavam os Karcabo, uma trupe de negros carregados de
amuletos, que dançavam como deuses, arregalando os olhos leitosos.
Ouvíamo-los ao longe a tocar castanholas de metal e a rufar o tambor numa
algazarra dos diabos. Os Karcabo só se manifestavam nas festas
morabíticas de Sidi Blal, seu santo patrono. Conduziam um novilho
expiatório ornamentado com as cores da confraria e andavam de porta em
porta a recolher os fundos necessários à realização do rito sacrificial.
A sua passagem por Jenane Jato transtornava sistematicamente os lares: as
mulheres acorriam à porta, apesar das proibições, e os garotos fugiam
como gerbos dos pátios para se juntarem ao bando, limi-tando-se a tornar
mais vertiginosa a confusão.

De todas estas personagens fabulosas, era Slimane quem levava a melhor. A


sua música era bela e doce como uma nascente, e o seu sagui adoravelmente
divertido. Contava-se que Slimane tinha nascido cristão, numa família
francesa próspera e culta, e que se tinha apaixonado por uma beduína de
Tadmait antes de se converter ao islão. Também se dizia que teria podido
viver à grande porque a família não o renegara, mas que optara por ficar
junto do seu povo de adopção, com ele partilhando tristezas e ale-

1 Sob a administração colonial francesa, alto-funcionário muçulmano que


ocupa um cargo superior ao do agá e do caide. (N. da T.)
46

O QUE O DIA DEVE À NOITE

grias. Isso tocava-nos muito. Nenhum árabe nem nenhum berbere, mesmo
entre os menos recomendáveis, lhe faltava ao respeito ou levantava a mão
contra ele. Gostei imenso desse homem. Tanto quanto me consigo lembrar,
no mais profundo das convicções do velho em que me tornei, nenhum ser
reflectiu, com uma clareza tão esplêndida, o que creio ser a mais
perfeita das maturidades: o discernimento — esse valor, tão raro nos
nossos dias, que engrandecia o meu povo na época em que pouco se dava por
ele. ^5 Entretanto, conseguira arranjar um amigo pouco mais velho do que
eu. Chamava-se Ouari. Era frágil, até famélico, louro, quase ruivo, com
as sobrancelhas fartas e o nariz como o bico de um pássaro, tão cortante
como uma foice. Não é que fosse realmente um amigo; a minha presença não
parecia incomodá-lo e, como eu tinha necessidade da dele, esforçava-me
por merecê-la. Ouari era provavelmente órfão — ou um garoto em fuga,
porque nunca o vi a sair ou a entrar de uma casa. Vegetava por trás de um
gigantesco amontoado de ferro-velho, numa espécie de enorme gaiola de
pássaros atapetada de dejectos. Passava o tempo a caçar pintassilgos para
vender.

Nunca dizia nada. Eu podia falar com Ouari durante horas que ele não me
prestava atenção nenhuma. Era um rapaz misterioso e solitário, o único no
bairro que usava calças compridas e uma boina enquanto todos nós nos
cobríamos com gandouras e usávamos ché-chias na cabeça. À noite,
confeccionava armadilhas com ramos de oliveira que mergulhava em visco.
De manhã, ia com ele para o mato e ajudava-o a esconder os engodos nas
silvas. Sempre que um pássaro pousava num deles e se punha a bater as
asas como louco, atirávamo-nos a ele e metíamo-lo numa gaiola enquanto
apanhávamos outros. A seguir, andávamos pelas ruas a oferecer os nossos
troféus de caça aos aprendizes de passarinheiros.

Foi com Ouari que ganhei os meus primeiros tostões. Ouari não fazia
batota. No fim da nossa volta, que durava vários dias, convidava-me a ir
com ele para um lugar tranquilo e despejava no chão o conteúdo da sacola
que lhe servia de bolsa. Puxava uma moeda para ele, empurrava outra na
minha direcção, e assim sucessivamente até não haver mais nada a
partilhar. Depois le-
1 JENANE JATO
47

vava-me ao pátio e desaparecia. No dia seguinte, era eu que ia ter com


ele à sua gaiola. Creio que nunca veio buscar-me, a tal ponto parecia
capaz de dispensar a minha ajuda e a de fosse quem fosse.

Sentia-me bem com Ouari. Confiante e sereno. Até o diabo do Daho nos
deixava em paz. Ouari tinha um olhar sombrio, metálico, impenetrável, que
mantinha os importunos à distância. É verdade que não dizia grande coisa
mas, quando franzia as sobrancelhas, os garotos afastavam-se tão depressa
que as suas sombras levavam algum tempo a ir ter com eles. Creio que me
sentia feliz na companhia de Ouari. Tomara gosto à caça aos pintassilgos
e aprendera algumas coisas sobre armadilhas e a arte da camuflagem.

Depois, uma noite, quando pensava que o meu pai se iria orgulhar de mim,
tudo caiu por terra. Esperara pelo fim do jantar para tirar a minha bolsa
do esconderijo. Com a mão a tremer de emoção, estendera o fruto do meu
trabalho ao meu progenitor.

— O que é isso? — perguntara ele, desconfiado.

— Não sei contar... E o dinheiro que ganhei a vender pássaros.

— Que pássaros?

— Pintassilgos. Apanho-os com ramos cobertos de visco...

O meu pai agarrou-me a mão, encolerizado, para me interromper. Os seus


olhos voltaram a parecer berlindes ao rubro. Trémulos alteraram-lhe a voz
quando me disse:

— Abre-me bem essas orelhas, menino. Não preciso do teu dinheiro nem de
um imã à cabeceira.

O aperto aumentava à medida que a dor acentuava as minhas caretas.

— Estás a ver?... Estou a magoar-te. O teu sofrimento, sinto--o no mais


íntimo do meu ser. Não quero esmagar-te a mão; estou só a tentar meter na
tua cabeça que não sou um fantasma, que sou de carne e osso, que estou
bem vivo.

Sentia as falanges a desfazerem-se no seu punho. As lágrimas turvavam-me


a visão. Sufocava de dor, mas nem pensar em gemer ou chorar. Entre o meu
pai e eu, era tudo uma questão de honra; e a honra só se media em função
da nossa capacidade de superar as provações.
48

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Que é isso que vês debaixo do nariz? — perguntou, mos-trando-me a mesa


baixa juncada de restos de comida.

— O jantar, papá.

— Não é um festim, mas mataste a fome, não foi?

— Sim, papá.

— Desde que aterrámos neste pátio, já te aconteceu deitares--te de


barriga vazia?

— Não, papá.

— Esta mesa baixa, na qual comes, tínhamo-la quando chegámos?

— Não, papá.

— E o fogareiro a petróleo, ali no canto, ofereceu-no-lo alguém?


Apanhámo-lo na rua?

— Foste tu que o compraste, papá.

— Quando cá chegámos, iluminávamos a casa com mare-poza, não era? Uma


mecha tristonha a flutuar numa mancha de óleo, hás-de estar lembrado?...
E esta noite de onde nos vem a luz?

— De um candeeiro de bomba.

— E as esteiras, as cobertas, as almofadas, o balde, a vassoura?

— Compraste-os a todos, papá.

— Então, porque não tentas compreender, filho? Disse-to no outro dia:


perdi o meu lugar, mas não perdi a alma. Não fui capaz de te deixar a
terra dos teus antepassados, e lamento-o. Não podes imaginar como o
lamento. Não se passa um instante sem que me culpe por isso. Mas não
baixo os braços. Mato-me de trabalho para recuperar. Porque é a mim, e só
a mim, que compete voltar a subir a ladeira. Estás a perceber o que te
estou a dizer, filho? Não quero que te sintas culpado do que nos
acontece. Não tem nada a ver contigo. Não me deves nada. Não te vou pôr a
trabalhar no duro para conseguir juntar as pontas. Não é esse o meu
jeito. Caio e le-vanto-me, é o preço a pagar, e não quero mal a ninguém.
Porque hei-de conseguir, prometo-te. Os meus braços conseguem levantar
montanhas, lembras-te? Então, em nome dos nossos mortos e dos nossos
vivos, se queres aliviar-me a consciência, nunca voltes a fazer o que
acabaste de me fazer, e diz para com os teus botões
JENANE JATO 49

que cada moeda que trouxeres para casa me afundará mais um pouco na
vergonha.

Largou-me. A minha mão e a bolsa haviam-se fundido uma na outra — estava


incapaz de mexer os dedos. O entorpecimento chegava ao cotovelo.

No dia seguinte, fui devolver os meus ganhos ao Ouari.

Ouari franziu levemente as sobrancelhas ao ver-me meter a minha bolsa na


sua sacola. A sua estupefacção desapareceu imediatamente. Voltou a
ocupar-se das armadilhas, como se o meu gesto não tivesse existido.

A reacção do meu pai perturbava-me. Como tinha podido levar a mal o meu
modesto contributo? Eu não era o seu filho, a carne da sua carne? Que
volta absurda transforma uma boa intenção em ofensa? Teria ficado tão
orgulhoso se ele tivesse aceitado o meu dinheiro. Em vez disso, magoara-
o.

Foi a partir dessa noite, creio eu, que comecei a desconfiar da justeza
das minhas boas intenções. A dúvida apossava-se do meu ser, invadindo-o
totalmente.

Não compreendia.

Já não tinha certeza de nada.

O MEU PAI RETOMAVA O DOMÍNIO DAS COISAS. Procurava SO-

bretudo provar-me que o meu tio se enganava grosseiramente acerca dele.


Esfalfava-se sem tréguas e não no-lo escondia. Ele que, habitualmente,
não falava dos seus projectos para os preservar do mau-olhado, ei-lo que
contava à minha mãe, em pormenor, as diligências que empreendia para
alargar o seu campo de manobra e ganhar uns tostões — erguia a voz
propositadamente para eu o ouvir. Prometia-nos mundos e fundos, fazia
tilintar as moedas quando chegava, de olhos a faiscar, falava da nossa
futura casa, uma casa verdadeira, com portadas nas janelas, uma porta de
madeira à entrada e — quem sabe? — um pequeno pomar onde plantaria
coentros, hortelã, tomate e muitos tubérculos suculentos que se
dissolveriam na ponta da língua mais depressa que uma guloseima. A minha
mãe escutava-o; estava contente por ver o marido arquitectar sonhos até
não pt)der mais e, ainda que não tomasse

(
50

O QUE O DIA DEVE À NOITE

por certo o que ele dizia, fingia acreditar e extasiava-se quando ele lhe
pegava na mão — coisa que nunca o vira fazer antes.

O meu pai afadigava-se em todas as direcções. Queria endireitar a barra,


safar-se sem demora. De manhã, trabalhava como ajudante de um ervanário;
à tarde, substituía um vendedor ambulante de hortaliças; à noite, era
massagista nuns banhos turcos. Pensava até em montar um negócio próprio.

Eu arrastava-me pelas ruas, só e desamparado.

Uma manhã, Daho, o patife, surpreendeu-me a vaguear longe de casa. Tinha


um réptil à volta do braço, uma serpente esverdeada e hedionda.
Encurralou-me num canto e pôs-se a agitar a boca do réptil junto ao meu
nariz, revirando uns olhos vorazes. Eu não suportava ver serpentes;
morria de medo delas. Daho gozava o mais possível, divertido com o meu
pânico; chamava-me cobardolas, maricas... Ia ter um chilique quando Ouari
caiu do céu. Daho parou imediatamente a sua pequena tortura, prestes a
escapulir-se se o meu amigo viesse socorrer-me. Ouari não veio socorrer-
me; olhou-nos fixamente um instante e seguiu o seu caminho como se nada
se passasse. Fiquei pasmado. Tranquilizado, Daho recomeçou a meter-me
medo com a seipente, rindo a bandeiras despregadas; podia rir
desbragadamente que nada me importava. A tristeza suplantava o medo: já
não tinha amigo.
4.

Perna-de-Pau dormitava por trás do balcão, com o turbante na cabeça, a


prótese rudimentar ao alcance da mão, prestes a pegar nela caso um
espírito curioso se atrevesse a gravitar em torno das suas guloseimas. A
humilhação infligida por El Moro não era mais que uma vaga lembrança. A
sua longa carreira de soldado ensinara-lhe a relativizar as coisas.
Suponho que, tendo passado a existência a aguentar as partidas dos subo-
ficiais, aos quais opunha uma submissão obtusa, considerava os excessos
de zelo dos brutamontes de Jenane Jato como outros tantos abusos de
autoridade. Para ele, a vida era feita de altos e baixos, de momentos de
bravura e de momentos de cedência; o importante era erguer-se depois das
quedas e recuperar dos golpes... O facto de não zombarem dele depois da
«derrota» perante El Moro provava que ninguém negociaria semelhante
confronto sem perder parte da sua alma. Com El Moro, não era um duelo
normal; El Moro era a morte em movimento, o pelotão de execução. Ter de
lidar com ele e perder apenas algumas plumas era uma proeza; quanto a
sair ileso, só com uma parte dos fundilhos suja, era milagre.

O barbeiro estava a acabar de rapar a cabeça de um velhote. O cliente


sentava-se na posição de faquir, com as mãos nos joelhos e a boca aberta
a mostrar um toco de dente cariado. O raspar da navalha no couro cabeludo
parecia proporcionar-lhe um enorme prazer. O barbeiro contava-lhe t>s
seus dissabores; o velhote não o
52

O QUE O DIA DEVE À NOITE

ouvia; mantinha os olhos fechados e deleitava-se sempre que a lâmina


patinava na sua cabeça polida como um seixo.

— Já está — gritou o barbeiro ao acabar o seu relato. — Tens a cabeça tão


desimpedida que se poderia ler os teus pensamentos ocultos.

— Tens a certeza de que não te esqueceste de nada? — perguntou o velho. —


Ainda sinto sombras nas minhas ideias.

— Que ideias, pobre diabo? Não me vais convencer que ainda reflectes.

— Talvez seja velho, mas ainda não sou senil, aviso-te. Olha bem, há
certamente um pêlo ou dois que faltam à chamada e isso perturba-me.

— Não há nada, garanto. Está tão lisa como um ovo.

— Faz favor — insistiu o velho, — olha bem.

O barbeiro não era parvo. Sabia que o velho estava a arrastar a situação.
Contemplou o trabalho, verificou minuciosamente se não teria esquecido um
cabelo na nuca manchada do velhote antes de pousar a navalha, mostrando
ao cliente que a sessão de relaxamento chegara ao fim.

— Põe-te na alheia e depressa, tio Jabori. Vai lá ter com as tuas cabras.

— Se faz favor...

— Já foi tempo que baste. Tenho mais que fazer.

O velhote levantou-se a contragosto, contemplou-se no bocado de espelho


e, depois, remexeu laboriosamente nos bolsos.

— Acho que voltei a esquecer-me do dinheiro em casa — disse ele,


fingindo-se contrariado.

O barbeiro sorriu; já calculava.

— Claro, tio Jabori.

— Pensava que o tinha guardado no bolso esta manhã, juro. Talvez o tenha
perdido pelo caminho.

— Não é grave — disse o barbeiro, resignado. — Deus há-de pagar-me.

— Nem pensar — regougou o velho, hipocritamente. — Cá vou eu buscá-lo.

— Que comovente. Mas não te percas tu pelo caminho.


JENANE JATO

53

O velho enrolou o turbante à volta da cabeça e apressou-se a pôr-se ao


largo.

O barbeiro ficou a vê-lo afastar-se, cansado, e acocorou-se diante do


caixote de munições.

— É sempre a mesma história. Acham que me esfalfo por prazer? — rosnou. —


É o meu ganha-pão, bolas! Como vou comer esta noite?

Dizia isto na expectativa de provocar uma reacção no Perna--de-Pau.

Perna-de-Pau ignorava-o.

O barbeiro esperou bastante; como o ex-soldado não reagia, respirou


profundamente e, fixando uma nuvem no céu, pôs-se a cantar:
.,;

Sinto falta dos teus olhos '•¦. '

Efico cego

Quando olhas para outro lado > •:

Morro todos os dias , > •

Quando entre os vivos ".- ' '

Não te vejo em parte alguma >

O que é a vida meu amor

Quando tudo neste mundo

Me recorda a tua ausência

De que me serviriam as mãos

Se o teu corpo não fosse >,;

O pulso do Senhor...

— Para te limpar o cu, é para isso! — gritou-lhe Perna-de-Pau. Foi como


se tivessem lançado um balde de água fria sobre o

barbeiro. Ficou revoltado com a vulgaridade do lojista que quebrou a


magia do instante e a beleza da canção. Eu também fiquei desgostoso;
acabava de ser expulso do alto de um sonho.

O barbeiro tentou não prestar atenção ao merceeiro. Depois de balançar a


cabeça, limpou novamente a garganta para recomeçar a cantar, mas as
cordas vocais recusaram-se a descontrair; a emoção já desaparecera.
34

O QUE O D[A DEVE A NOITE

— Como podes ser chato.

— Dás-me cabo dos ouvidos com as tuas canções tolas — vociferou Perna-de-
Pau, saracoteando-se preguiçosamente.

— Olha à tua volta — protestou o barbeiro. — Não há nada. Aborrecemo-nos,


chateamo-nos, morremos de tédio. Os casebres engolem-nos, o fedor gaseia-
nos, e nenhuma cara se dá ao trabalho de mostrar um sorriso. Se também já
não podemos cantar, que nos resta, ora bolas?

Perna-de-Pau apontou para um rolo de cordinhas de cânhamo pendurado num


gancho por cima da sua cabeça.

— Resta-te isto. Escolhes uma que penduras no ramo de uma árvore e,


depois, enrolas ao pescoço, e contrais as duas pernas num golpe seco.
Deixas de te ralar de uma vez por todas e mais nada perturbará o teu
sono.

— E porque não fazes tu isso antes, visto seres o mais infeliz de todos
nós?

— Não posso. Tenho uma prótese, e ela não se dobra.

O barbeiro atirou a esponja para longe. Encolheu-se debaixo do caixote e


meteu a cabeça entre as mãos, provavelmente para continuar a cantarolar
para si próprio... Sabia que cantava por nada. A sua ninfa não existia.
Inventava-a ao sabor dos suspiros, perfeitamente consciente da sua
incapacidade de vir a merecê-la um dia. Lá estava o pedaço de espelho
para reflectir o absurdo do seu físico, indissociável da incongruência
das suas esperanças. Era pequeno, quase corcunda, magricela, feio e tão
pobre como Job; não tinha tecto, nem família, nem qualquer hipótese de
melhorar por pouco que fosse a sua vida de cão. Portanto, contentava-sc
com incarnar o seu próprio sonho, apenas para se agarrar a qualquer coisa
enquanto o resto do mundo lhe escapava — um sonho reprimido, impossível,
difícil de reivindicar sem se cobrir de ridículo e que ele roía, no seu
canto, como um osso saboroso e desesperadamente nu.

Cortava-me o coração.

— Vem cá, pequeno — disse-me Perna-de-Pau, rodando a tampa de um frasco


de doces.

Estendeu-me uma guloseima, convidou-me a sentar ao seu lado e observou-me


demoradamente.
JENANE JATO

55

— Deixa-me ver a tua fronha, filhinho — disse ele, levan-tando-me o


queixo com a ponta do dedo. — Hum! Dir-se-ia que Deus estava
particularmente inspirado no dia em que te esculpiu, rapaz. Realmente.
Que talento!... De onde te vêm esses olhos azuis? A tua mãe é francesa?

— Não.

— Então é a tua avó?

— Não.

A sua mão rugosa revolveu-me os cabelos antes de deslizar lentamente para


a minha cara.

— Tens mesmo uma cara de anjo, pequeno. I

— Deixa o miúdo em paz — ameaçou Bliss, o intermediário, que surgia do


canto da rua.

O velho soldado retirou a mão vivamente.

— Não estou a fazer nada de mal — resmungou.

— Sabes muito bem do que estou a falar — disse Bliss. — Aviso-te de que o
pai é rude. Arranea-te a outra perna sem que te dês conta, e desagradar-
me-ia ter um homem estropiado das duas pernas na minha rua. Parece que dá
azar.

— Que estás para aí a dizer, caro Bliss?

— Pira-te daqui, perverso. Porque não vais para Espanha, tu que gostas
tanto de combater, em vez de te encheres de mofo no teu buraco, a salivar
por garotos? A situação continua séria lá, e falta carne para canhão.

— Não pode ir — disse o barbeiro. — Tem uma prótese que não se dobra.

— A ti, barata, esmago-te — disse Perna-de-Pau, para salvar a face. — Ou


faço-te engolir uma a uma as tuas nojentas navalhas infectadas.

— Tinhas de me apanhar primeiro. Além disso, não sou uma barata. Não saio
de uma valeta nem tenho antenas na cabeça.

O intermediário Bliss fez-me sinal para me pôr ao fresco.

No momento em que me levantava, o meu pai surgiu de um buraco. Corri ao


seu encontro. Voltava para casa mais cedo do que o habitual; adivinhei
que estava satisfeito pelo seu rosto radioso e pela embalagem que trazia
debaixo do braço. Perguntou-me a
56

O QUE O DIA DEVE À NOITE

origem do doce e aproximou-se logo do lojista para lho pagar. Perna-de-


Pau tentou recusar o dinheiro, pretextando tratar-se de uma simples
guloseima dada por gosto; o meu pai não o ouviu e insistiu com ele para
que recebesse o que lhe era devido.

Depois, dirigimo-nos a casa.

O meu pai abriu, à nossa frente, um enorme embrulho de papel pardo, e


entregou, a cada um de nós, uma prenda: um lenço para a minha mãe, um
vestido para a minha irmãzinha e um par de botas de borracha novas em
folha para mim.

— Que loucura — disse a minha mãe.

— Porquê?

— É muito dinheiro e precisas dele.

— É só para começar — respondeu o meu pai, entusiasmado. — Prometo que


vamos mudar de casa dentro em pouco. Estou a trabalhar muito e vou
conseguir. As coisas parecem estar a andar, porque não aproveitar? Na
quinta-feira, vou encontrar-me com um comerciante que tem uma casa sua. É
um tipo sério, com experiência no negócio. Vai aceitar-me como sócio.

— Peço-te, Issa, não fales dos teus projectos se os queres realizar.


Nunca tiveste sorte.

— Não te conto tudo, ora essa. Vai ser uma bela surpresa. O meu futuro
sócio exigiu uma quantia precisa para me aceitar, e essa quantia...
tenho-al

— Peço-te, não digas mais nada — assustou-se a minha mãe, cuspindo sob o
xaile para afastar as influências malfazejas. — Deixemos as coisas
acontecerem discretamente. O mau-olhado não perdoa aos tagarelas.

O meu pai calou-se, o que não impediu que os olhos lhe brilhassem com um
júbilo que nunca vira nele. Nessa noite, fez questão de festejar a sua
reconciliação com a sorte; degolou um galo no vendedor de criação,
depenou-o e limpou-o antes de o trazer para casa no fundo de uma alcofa;
jantámos tarde, às escondidas, por respeito pelas pessoas do pátio que,
frequentes vezes, não tinham muito para comer.


[

JENANE JATO 57

O meu pai exultava. Um bando de garotos à solta numa quermesse não


estaria mais feliz. Contava os dias pelos dedos. Ainda faltam cinco;
ainda faltam quatro; ainda faltam três...

Continuava a ir para o trabalho, mas regressava mais cedo. Para me ver


correr ao seu encontro... Dar comigo a dormir estra-gar-lhe-ia o prazer.
Preferia que eu estivesse de pé quando regressava; desse modo, garantia
que eu estava bem consciente de que o vento mudava, de que o nosso céu se
alargava, de que o meu próprio pai era tão sólido como um carvalho, capaz
de erguer montanhas só com a força dos punhos...

E chegou essa quinta-feira tão esperada.

Há dias que as estações renegam. A fatalidade é preservada e os demónios


também. Os santos patronos figuram entre os ausentes, e os homens,
entregues a si próprios, perdem-se para sempre. Essa quinta-feira foi um
desses dias. O meu pai reconhecera o facto imediatamente. Desde o nascer
do dia que tinha o sinal na cara. Lembrar-me-ei para sempre. Era um dia
feio, miserável, violento, que não parava de se lamentar com aguaceiros e
trovões que soavam como anátemas. O céu entregava-se à melancolia sem
saber como sair dela, de nuvens acobreadas como outros tantos humores
massacrantes.

— Não vais sair com um tempo assim — disse a minha mãe.

O meu pai estava à entrada do nosso quarto, os olhos postos nessas


equimoses escuras que juncavam o céu como um mau presságio. Interrogava-
se se não deveria adiar o encontro. Mas a sorte não sorri aos indecisos.
Sabia-o e supunha que o pressentimento que o atormentava era apenas o
Demo a tentar desviá-lo. De repente, virou-se para mim e intimou-me a
acompanhá-lo. Talvez tivesse pensado que o facto de me levar com ele
enterneceria a sorte, atenuando-lhe os golpes baixos.

Enfiei a minha gandoura com capuz e as botas de borracha, e apressei-me a


ir ter com ele.

Chegámos ao sítio do encontro encharcados até aos ossos. Os meus pés


chiavam nas botas cheias de água e o capuz pesava--me nos ombros como uma
golilha. A rua estava deserta. Além de uma carroça tombada no passeio,
não havia ninguém... ou quase.
58

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Porque El Moro estava lá; dir-se-ia uma ave de rapina empoleirada sobre o
destino de um homem. Logo que nos viu chegar, surgiu do seu abrigo. Os
seus olhos faziam lembrar o cano de uma caçadeira; chocavam a morte no
fundo das órbitas. O meu pai não esperava encontrá-lo lá. El Moro não
esteve com meias medidas; atacou, primeiro com o pé, depois com o punho.
Surpreendido, o meu pai levou algum tempo a cair em si. Defendeu-se
corajosamente, respondendo taco a taco, decidido a vender cara a sua
pele. Mas El Moro era hábil; as suas fintas e esquivas de bandido
aguerrido levaram a melhor à coragem do meu pai, camponês apagado e
taciturno, pouco habituado a passar a vias de facto. Caiu, apanhado por
uma rasteira. El Moro não o largou, não lhe dando nenhuma hipótese de se
levantar. Continuou a desferir golpes com a intenção manifesta de acabar
com ele. Eu estava petrificado. Como num pesadelo. Queria gritar,
socorrer o meu pai; nem uma veia nem um músculo respondiam à chamada. O
sangue do meu pai misturava--se com a água da chuva, escorria para a
sarjeta. El Moro não se importava. Sabia exactamente o que queria. Quando
o meu pai deixou de se debater, o predador acocorou-se junto da presa,
arregaçou-lhe a gandoura; o rosto iluminou-se como a noite sob um
relâmpago ao descobrir a bolsa atafulhada de dinheiro debaixo do braço.
Com uma facada, cortou os atilhos que a prendiam ao ombro do meu pai e
sopesou-a com satisfação antes de se afastar sem me olhar.

O meu pai ficou muito tempo estendido no chão, a cara desfeita, a


gandoura erguida, revelando-lhe a barriga. Nada podia fazer por ele.
Estava noutro planeta. Não me recordo de como voltámos para casa.

«Fui vendido», dizia o meu pai, encolerizado. «Esse cão estava aí por
minha causa. Estava à minha espera. Sabia que eu tinha dinheiro comigo.
Sabia, sabia... Não foi azar, não; esse monte de esterco estava à minha
espera.»

Depois calou-se.

Durante dias e dias, não abriu a boca.

Vi derreterem-se círios, esboroarem-se os torrões de terra sob o


aguaceiro; o meu pai proporcionava-me o mesmo espectáculo.
JENANE JATO

59

Desfazia-se fibra a fibra, inexoravelmente, metido no seu canto, sem


beber nem comer. O rosto contra os joelhos e os dedos cruzados na nuca,
ruminando em silêncio o seu rancor e o seu despeito. Dava--se conta de
que, fizesse o que fizesse, dissesse o que dissesse, a má sorte teria
sempre a última palavra, e nem os sermões sobre a montanha nem os votos
mais piedosos podiam alterar o curso do destino.

Uma noite, houve esse bêbado que vomitava a sua cólera na rua. As suas
invectivas obscenas redemoinhavam furiosamente no meio do pátio, como um
vento maléfico a entranhar-se numa campa. Era uma voz feroz, feita de
raiva e de desprezo, que chamava cães aos homens e porcas às mulheres e
que prometia dias sombrios aos miseráveis e aos cobardes; uma voz
soberana, tirânica, perfeitamente consciente da sua impunidade, o que a
tornava ainda mais vil; uma voz que a arraia-miúda havia aprendido a
identificar entre mil rumores apocalípticos: a voz de El Moro!... Ao
reconhecê-la, o meu pai levantou a cabeça com tanta força que a parte de
trás do crânio chocou violentamente contra a parede. Durante uns
segundos, ficou petrificado; a seguir, à semelhança de um fantasma a
emergir da penumbra, levantou-se, acendeu o candeeiro, esquadrinhou o
monte de roupa que atravancava um canto, retirou de lá uma velha sacola
em couro gasto, abriu-a. Os olhos luziam nos reflexos do morrão. Susteve
a respiração, meditou e, depois, num gesto firme, mergulhou a mão na
sacola. A lâmina de uma faca de magarefe faiscou-lhe na mão. Levantou-se,
enfiou a gandoura e escondeu a arma branca no capuz. Vi a minha mãe
agitar-se no seu canto. Compreendeu que o marido enlouquecera, mas não se
atreveu a chamá-lo à razão. Este tipo de histórias não dizia respeito às
mulheres.

O meu pai saiu das trevas. Ouvi o seu passo a perder-se no pátio, qual
oração nas rajadas do vento. A porta do pátio rangeu antes de se fechar;
a seguir, o silêncio... um silêncio abissal que me manteve em sentido até
de manhã.

O meu pai voltou de madrugada. Furtivamente. Desfez-se da gandoura,


atirou-a para longe à toa, guardou a faca na sacola e voltou para o canto
que tinha passado a ocupar desde essa maldita quinta-feira. Acocorou-se e
não se mexeu mais.
60

O QUE O DIA DEVE À NOITE

A notícia espalhou-se em Jenane Jato como palha a arder. O intermediário


Bliss rejubilava. Andava de porta em porta a gritar: «El Moro morreu,
tranquilizem-se, meus velhos. Já não maltratará ninguém; deram cabo dele
com uma faca no coração.»

Dois dias mais tarde, o meu pai levou-me à farmácia do meu tio. Tremia
como uma pessoa atacada de febre, com os olhos vermelhos e a barba em
desalinho.

O meu tio não contornou o balcão para vir ao nosso encontro. A nossa
intrusão matinal, a uma hora em que os lojistas estão a começar a erguer
os estores de ferro, não lhe dizia nada. Pensava que o meu pai iria lavar
a ofensa do outro dia e ficou muito aliviado quando o ouviu dizer, numa
voz átona:

— Tinhas razão, Mahi. O meu filho não tem futuro comigo. O meu tio ficou
de boca aberta.

O meu pai pôs-se de cócoras à minha frente. Os seus dedos magoaram-me


quando me pegou nos ombros. Olhou-me nos olhos e disse:

— É para teu bem, meu filho. Não te estou a abandonar nem a renegar;
estou apenas a tentar dar-te uma oportunidade.

Beijou-me na cabeça — hábito reservado aos decanos venerados —, tentou


sorrir-me, não conseguiu, ergueu-se e deixou bruscamente a loja quase a
correr, sem dúvida para esconder as lágrimas.
5.

4>

O meu tio habitava na cidade europeia, ao fundo de uma rua asfaltada,


ladeada de casas de cimento, garridas e tranquilas, com gradeamentos em
ferro forjado e portadas nas janelas. Era uma bela rua com passeios
limpos, ornamentados de figueiras cuidadosamente podadas. Havia bancos
dispersos nos quais os velhotes se sentavam para ver passar o tempo.
Crianças saltavam nas praças. Não exibiam farrapos como os garotos de
Jenane Jato, nem sinais fatídicos nas suas carinhas, e pareciam aspirar a
vida a plenos pulmões, com um deleite evidente. Reinava, no bairro, uma
quietude inimaginável; só se ouviam os guinchos das crianças e a
chilreada dos pássaros.

A casa do meu tio tinha primeiro andar, com um jardinzinho à entrada e um


pequeno caminho de lado. A buganvília transbordava do murozinho que
cercava a casa e caía no vazio, salpicada de flores violetas. Por cima da
varanda, uma latada não parava de se enredar.

— No Verão, há cachos de uvas por toda a parte — disse-me o meu tio,


empurrando o portão. — Só tens de te pôr em bicos de pés para os apanhar.

Os olhos brilhavam-lhe intensamente. Estava em êxtase.

— Vais gostar de aqui estar, rapaz.

Uma mulher ruiva, de cerca de quarenta anos, abriu-nos a porta. Era bela,
de rosto redondo com dois enormes olhos verde--água. Quando me viu no
patamar, levou as mãos ao coração e
62

O QUE O DIA DEVE À NOITE

ficou uns instantes sem voz, subjugada. O seu olhar não tardou a
interpelar o do meu tio, e grande foi o seu alívio quando ele acenou com
a cabeça.

— Meu Deus! Como é bonito — gritou ela, agachando-se à minha frente para
me observar mais de perto.

Os seus braços agarraram-me tão depressa que quase caí de costas. Era uma
mulher robusta com gestos por vezes bruscos, quase viris. Apertou-me com
muita força contra o peito; cheguei a sentir os batimentos do seu
coração. Cheirava bem como um campo de alfazema, e as lágrimas que
hesitavam no bordo das pálpebras acentuavam o verde dos seus olhos.

— Querida Germaine — disse o meu tio com a voz a tremer, — apresento-te


Younes, ontem meu sobrinho e hoje nosso filho.

Senti um tremor a atravessar o corpo da mulher; a lágrima que cintilava


de emoção no bordo das pestanas tombou-lhe subitamente na face.

— Jonas — disse ela, tentando sufocar um soluço, — Jonas, se soubesses


como me sinto feliz!

— Fala-lhe em árabe. Ele não frequenta a escola.

— Não é grave. Havemos de tratar disso. Levantou-se, trémula, pegou-me na


mão e fez-me entrar

numa sala que me pareceu mais vasta que um estábulo, adornada de


mobiliário imponente. A luz do dia jorrava por uma imensa porta
envidraçada, ladeada de cortinados, que dava para a varanda onde
descansavam duas cadeiras de balouço com uma mesa redonda no meio.

— É a tua nova casa, Jonas — disse Germaine.

O meu tio seguia-a, com um sorriso de uma ponta à outra do rosto e um


pacote debaixo do braço.

— Comprei-lhe alguma roupa. Comprar-lhe-ás mais, amanhã.

— Muito bem, tratarei disso. Os teus clientes devem estar impacientes.

— Ora, ora, quere-lo só para ti?

Germaine agachou-se de novo para me contemplar.

— Acho que nos vamos entender, não é, Jonas? — disse-me em árabe.


JENANE JATO

63

O meu tio pousou o pacote de roupa em cima de uma cómoda e instalou-se


confortavelmente num divã, com as mãos nos joelhos, o fez empurrado para
trás.

— Não fazes tenções de ficar por aí a espiar-nos? — perguntou Germaine. —


Volta para o trabalho.

— Nem pensar nisso, minha querida cara-metade. Hoje é feriado para mim.
Tenho um filho em casa.

— Estás a falar a sério?

— Nunca falei tão a sério na vida.

— Bom — aquiesceu Germaine, — o Jonas e eu vamos tomar um bom banho.

— Chamo-me Younes — relembrei.

Gratificou-me com um sorriso enternecido, passou a palma da mão na minha


face e murmurou-me na orelha:

— Já não, meu querido... E dirigindo-se ao meu tio:

— Como estás aí, torna-te útil e aquece-me água. Empurrou-me para uma
pequena divisão onde se erguia uma

espécie de caldeirão em ferro fundido, abriu uma torneira e, enquanto a


cuba enchia, começou a despir-me.

— Vamo-nos livrar desses trapos, não é, Jonas?

Não sabia o que dizer. Acompanhava com os olhos as suas mãos brancas a
percorrerem-me o corpo, desfazendo-me da ché-chia, da ganáoura, da
camisola interior desfiada, das botas de borracha. Sentia-me como se ela
estivesse a desfolhar-me.

O meu tio chegou com um balde em ferro a fumegar. Permaneceu no corredor,


pudicamente. Germaine ajudou-me a entrar na cuba, ensaboou-me da cabeça
aos pés, lavou-me várias vezes, fric-cionando-me vigorosamente com uma
loção perfumada, secou-me com uma grande toalha e foi buscar a minha
roupa nova. Depois de vestido, pôs-me à frente de um grande espelho;
transformara-me noutra pessoa. Vestia uma blusa curta de marinheiro com
um grande cabeção e realçada com quatro botões de cobre na frente, uma
calça curta com bolsos de lado e um boné idêntico ao de Ouari.

O meu tio levantou-se para me receber no salão. Estava tão feliz que me
perturbava.
64 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Não é magnífico, o meu principezinho descalço? — exclamou.

— Pára com isso, vais atrair o mau-olhado sobre ele... A propósito de pés
descalços, não te lembraste de lhe comprar sapatos.

O meu tio bateu na testa com a palma da mão.

— É verdade, onde tinha eu a cabeça?

— Nas nuvens, com certeza.

O meu tio saiu imediatamente. Regressou algum tempo depois, com três
pares de sapatos de diferentes tamanhos. Os mais pequenos serviam-me bem.
Eram sapatos com atacadores, pretos e flexíveis, que me incomodavam nos
tornozelos mas que me envolviam admiravelmente os pés. O meu tio não me
deu os outros; guardou-ospara os anos que aí vêm...

Não se afastaram nem um passo, gravitando à minha volta como duas


borboletas em torno de uma fonte de luz, levaram-me a visitar a casa
cujas grandes divisões com tectos altos teriam podido albergar todos os
inquilinos do intermediário Bliss. Cortinados tombavam em cascata de um
lado e do outro das janelas com vidros imaculados e portadas pintadas de
verde. Era uma bela casa soalheira, um pouco labiríntica no princípio,
com os seus corredores, as suas portas secretas, as suas escadas de
caracol e os seus armários nas paredes que eu confundia com divisões.
Pensei no meu pai, na choça nas nossas terras perdidas, no nosso
esconderijo de ratazanas de Jenane Jato; a diferença pareceu-me tão
grande que senti vertigens.

Germaine sorria-me sempre que eu erguia os olhos para ela. Já me


estragava com mimos. 0 meu tio não sabia por que ponta me pegar, mas
recusava-se a deixar-me um segundo que fosse. Mostravam-me tudo ao mesmo
tempo, riam a propósito de qualquer coisa; por vezes, pegavam na mão um
do outro e limitavam--se a observar-me, enternecidos até às lágrimas,
enquanto eu descobria, embasbacado, as coisas dos tempos modernos.

A noite jantámos no salão. Outra curiosidade: o meu tio não precisava de


candeeiro para iluminar as suas noites; bastava carregar num interruptor
para acender no tecto um punhado de lâmpadas. Sentia-me muito pouco à
vontade à mesa. Habituado a
JENANE JATO

65

comer do mesmo prato que o resto da família, sentia-me desnorteado por


dispor de um prato só para mim. Não comera praticamente nada, incomodado
pelo olhar constante que acompanhava os meus actos e gestos, e pelas mãos
que não paravam de me alisar os cabelos ou de me beliscar uma bochecha.

— Não o pressiones — estava sempre a dizer Germaine ao meu tio. — Convém


dar-lhe tempo para se familiarizar com as novas referências.

O meu tio aguentava-se durante uns instantes e depois lan-çava-se de


novo, tão desajeitado como entusiástico. Depois do jantar, subimos ao
primeiro andar.

— Este é o teu quarto, Jonas — anunciou Germaine.

O meu quarto... No fundo do corredor, duas vezes maior do que aquele que
a minha família partilhava em Jenane Jato. Uma grande cama ao centro,
guardada de perto por duas mesas-de--cabeceira. As paredes estavam
cobertas de quadros, alguns representando paisagens de sonho, outros
pessoas a rezar, com as mãos juntas debaixo do queixo e a cabeça
aureolada de ouro. A estatueta em bronze de uma criança alada pavoneava-
se num soco, por cima da chaminé, encimada por sua vez por um crucifixo.
Um pouco afastada, uma pequena secretária fazia companhia a uma cadeira
estofada. Um odor estranho flutuava na divisão, doce e fugidio. Pela
janela, podia ver-se as árvores da rua e os telhados das casas em frente.

— Agrada-te?

Não respondi. O luxo brutal que me rodeava assustava-me. Temia deitar


tudo ao chão ao mínimo passo em falso, a tal ponto a ordem espartana à
minha volta parecia equilibrada nos mínimos pormenores, aguentando-se por
um fio.

Germaine pediu ao meu tio para nos deixar. Esperou que ele saísse antes
de começar a despir-me, deitou-me na cama, como se eu fosse incapaz de o
fazer sem ajuda; a minha cabeça desapareceu no meio das almofadas.

— Bons sonhos, meu menino.

Puxou as cobertas sobre o meu corpo, depôs-me um beijo interminável na


testa, apagou ò*candeeiro da mesa-de-cabeceira e
66

O QUE O DIA DEVE À NOITE

afastou-se na ponta dos pés, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.

A escuridão não me perturbava; era um menino solitário, sem grande


imaginação, e adormecia com facilidade. Mas, nesse quarto opressivo, um
mal-estar insondável dominou-me. Sentia falta dos meus pais. Contudo, não
era a sua ausência que me indispunha. Havia qualquer coisa estranha no
quarto que não conseguia localizar e que sentia no ar, invisível e pesada
ao mesmo tempo. O que me subia à cabeça seria o cheiro das cobertas ou o
cheiro que flutuava nos cantos? Ou essa respiração ofegante que ecoava
aqui e ali, por vezes na chaminé? Tinha a certeza de que não estava
sozinho, de que uma presença escondida na penumbra me espiava. Com a nuca
eriçada e sem conseguir respirar, senti uma mão fria a tocar-me ao de
leve no rosto. Lá fora, uma lua cheia iluminava a rua. O vento soprava
contra o gradeamento enquanto as árvores se arrepelavam os cabelos sob as
rajadas. Fechei os olhos com força, agarrando-me aos lençóis. A mão
glacial não me largava. E a presença tornava-se cada vez mais invasiva.
Sentia-a de pé junto à cama, prestes a saltar sobre mim. A atmosfera
começava a rarefazer-se; o meu coração estava quase a implodir. Abri os
olhos e surpreendi a estátua prestes a girar lentamente sobre a chaminé.
Fixava-me com os seus olhos cegos, a boca imobilizada num sorriso
triste... Aterrorizado, saltei da cama e barriquei-me atrás do colchão. A
estátua da criança alada torceu o pescoço para me olhar de frente; a sua
sombra monstruosa cobria inteiramente a parede. Mergulhei por baixo da
cama, em-brulhei-me numa ponta do lençol, com o coração a ceder, fiz-me
pequenino e fechei os olhos, na certeza de que, se voltasse a abri-los,
surpreenderia a estátua de gatas, a olhar para mim.

Tinha tanto medo que não sei se adormeci ou se desmaiei...

— Mahi!

O grito fez-me dar um salto; a minha cabeça chocou contra as traves da


cama.

— Jonas não está no quarto — uivou Germaine.

— Não está no quarto? — disse o meu tio, alterado. Ouvi-os correrem pelo
corredor, baterem com as portas, descerem precipitadamente as escadas.
Não saiu de casa. Aporta está
JliNANE JATO
67

fechada com duas voltas, disse o meu tio. A porta envidraçada da varanda
também está fechada. Viste nas casas de banho?... — Acabei de ver, não
está lá, respondeu Germaine em pânico... — Tens a certeza de que não está
no quarto?... Se te estou a dizer que a cama está vazia... Procuraram no
rés-do-chão, afastaram alguns móveis, subiram de novo as escadas e
voltaram a entrar no meu quarto.

— Meu Deus! Jonas — gritou Germaine, descobrindo-me sentado na beira da


cama. — Onde estavas?

Tinha o lado direito anquilosado e dores nas articulações. O meu tio


debruçou-se sobre o pequeno galo que acabava de surgir na minha testa.

— Caíste da cama?

Estendi um braço dormente para a estatueta:

— Não parou de se mexer toda a noite. Germaine disse logo com toda a
ternura:

— Jonas, meu querido, porque não me chamaste? Estás tão pálido.

Na noite seguinte, a estátua da criança alada já não estava no meu


quarto; o crucifixo e os ícones tão-pouco. Germaine ficou à cabeceira da
cama, a contar-me histórias numa mistura de árabe e de francês, e a
acariciar-me os cabelos até que o João-Pestana a veio substituir.

Passaram semanas; morria de saudades dos meus pais. Germaine não se


poupava a esforços para me tornar a vida agradável. De manhã, quando ia
às compras, levava-me às lojas e só me trazia para casa com uma guloseima
ou um brinquedo nas mãos. A tarde, ensinava-me a ler e a escrever. Queria
inscrever-me na escola, mas o meu tio não fazia tenções de precipitar as
coisas. Por vezes, dei-xava-me ir com ele para a farmácia. Instalava-me
numa pequena secretária, nas traseiras da loja, e, enquanto se ocupava
dos clientes, mandava-me copiar as letras do alfabeto num caderno.
Germaine achava que eu aprendia depressa e não compreendia por que motivo
o meu tio hesitava em entregar-me a um verdadeiro professor. Ao cabo de
dois meses, eu já sabia ler as palavras sem
68

O QUE O DIA DEVE À NOITE

tropeçar demasiado nas sílabas. O meu tio manteve a sua posição;


recusava-se a ouvir falar da escola antes de estar absolutamente seguro
de que o meu pai não se retrataria nem me viria buscar.

Uma noite, quando eu deambulava pelos corredores da casa, convidou-me a


fazer-lhe companhia no escritório. Era uma divisão austera, apenas com
uma janelinha a iluminá-la debilmente. As paredes estavam submersas de
livros encadernados; havia-os por toda a parte, nas prateleiras, nas
cómodas, na mesa. O meu tio estava sentado numa poltrona, debruçado sobre
uma obra volumosa, com os óculos em equilíbrio na aresta do nariz.
Sentou-me nos joelhos e virou-me para o retrato de uma senhora pendurado
na parede.

— Tens de ficar a saber uma coisa, rapaz. Não caíste de uma árvore
directamente para um fosso... Vês esta senhora na fotografia?... Um
general chamou-lhe Joana &Arch. Era uma viúva rica, tão autoritária como
abastada. Chamava-se Lalla Fatna, e possuía terras tão vastas como um
país. O seu gado povoava as planícies, e os notáveis da região vinham
comer-lhe à mão. Até os oficiais franceses a cortejavam. Diz-se que se o
emir Abd el-Kader a tivesse conhecido, teria mudado o rumo da história...
Observa-a bem, meu rapaz. Esta senhora, esta figura lendária, é a tua
bisavó.

Era bela, Lalla Fatna. Refastelada em almofadas, com o pescoço direito e


a cabeça altaneira sobre um cafetã bordado de ouro e pedras preciosas,
parecia reinar quer sobre os homens quer sobre os seus sonhos.

O meu tio passou para uma segunda fotografia com três homens em
albornozes de senhores, de rosto pesado e barba cuidada, de olhar tão
intenso que quase saía da moldura.

— O do meio é o meu pai, quer dizer, o teu avô. Os outros dois são os
irmãos dele. A direita, Sidi Abbas. Partiu para a Síria e nunca mais
voltou. A direita, Abdelmoumène, brilhante erudito. Teria podido tornar-
se o mais importante dos Ulemas, a tal ponto a sua erudição ultrapassava
o entendimento, mas muito depressa cedeu ao apelo das tentações.
Frequentava a burguesia europeia, negligenciava as suas terras e o seu
gado e esbanjava o dinheiro em lupanares. Encontraram-no morto numa
ruela, apunhalado nas costas.
JENANE JATO

69

Virou-me para um terceiro retrato, maior que os dois anteriores.

—Aqui posam, no centro, o teu avô e os cinco filhos. Teve três filhas de
um primeiro casamento das quais nunca falava. À direita, o mais velho da
fratria, Kaddour. Não se entendia muito bem com o patriarca e foi
deserdado quando se mudou para a metrópole a fim de se dedicar à
política... À esquerda, Hassan; levava uma grande vida, frequentava
mulheres de maus costumes que inundava de pedras preciosas e, nas costas
da tribo, fazia negócios que engoliram grande parte das nossas terras e
coudelarias. Quando o teu avô foi levado a tribunal, só pôde constatar os
prejuízos. Nunca se recompôs. Ao lado de Hassan, Abdessamad, um homem
corajoso que teve de bater com a porta porque o patriarca lhe proibiu que
casasse com uma prima cuja tribo jurara obediência aos Franceses. Morreu
em combate, algures na Europa, em finais da guerra de 14-18... E os dois
fedelhos, sentados aos pés do patriarca, são o teu pai Issa, o mais novo,
e eu, dois anos mais velho. Gostávamos muito um do outro... Depois fiquei
muito doente, e nem os médicos nem os curandeiros puderam tratar-me.
Tinha mais ou menos a tua idade. O teu avô estava desesperado. Quando
alguém lhe recomendou as irmãs da caridade, recusou categoricamente. Como
eu definhava a olhos vistos, deu com ele uma manhã a bater à porta das
religiosas...

Mostrou-me um retrato com um grupo de freiras:

— São as irmãzinhas que me salvaram. Levou anos e acabei por terminar o


ensino secundário. O teu avô, arruinado pelas hipotecas e epidemias,
aceitou pagar-me o curso de Farmácia. Talvez tenha compreendido que eu
teria mais hipótese de ser bem sucedido com os livros do que com os seus
credores. Quando conheci Germaine na faculdade de Química onde ela
estudava Biologia, o teu avô, que teria decerto debaixo de olho uma prima
ou a filha de um aliado, não se opôs à nossa união. Quando obtive o
diploma, perguntou-me o que contava fazer da minha vida. Optei por viver
na cidade e dispor de uma farmácia. Deu a sua opinião sem me impor
condições. Foi assim que comprei esta casa e a loja... O teu avô nunca
veio ver-me à cidade. Nem quando me casei com Ger-
70

O QUE O DIA DEVE À NOITE

maine. Não me renegou, quis dar-me a minha oportunidade. Como o teu pai
quando te entregou a mim... O teu pai é um homem corajoso, honesto e
trabalhador. Tentou salvar o que podia mas estava sozinho. A culpa não
foi dele. Limitou-se a ser a última roda de uma carroça já à deriva. A
dois, há-de ele pensar, teríamos conseguido endireitar a barra, mas o
destino decidiu de modo diferente.

Segurou-me o queixo entre o polegar e o indicador e olhou--me nos olhos:

— Hás-de estar a perguntar por que te conto tudo isto, meu rapaz... Ora
bem, para que saibas de onde vens. Corre-te nas veias o sangue de Lalla
Fatna. Podes ser bem sucedido tendo o teu pai fracassado, e subir a
ladeira até ao topo de onde vens.

Beijou-me na testa.

— Anda, vai ter com a Germaine. Deve estar no salão cheia de saudades
tuas.

Saltei do seu colo e corri para a porta.

Franziu as sobrancelhas quando me viu parar bruscamente.

— Diz lá!...

Foi a minha vez de o olhar nos olhos e de perguntar:

— Quando me levas a ver a minha irmã? Sorriu.

— Depois de amanhã, está prometido.

O meu tio chegou mais cedo do que o habitual. Germaine e eu estávamos na


varanda, ela a ler na cadeira de balouço, e eu a tentar descobrir uma
tartaruga que tinha surpreendido na véspera entre as plantas do jardim.
Germaine pousou o livro na mesa redonda e franziu as sobrancelhas; o meu
tio não viera beijá-la como fazia todos os dias. Esperou alguns minutos;
como o meu tio não voltou a aparecer, levantou-se e foi ter com ele.

O meu tio estava na cozinha, sentado numa cadeira, com os cotovelos na


mesa e a cabeça apoiada nas mãos. Germaine compreendeu que tinha
acontecido qualquer coisa grave. Vi-a sentar--se à frente dele e pegar-
lhe no punho.

— Problemas com clientes?


JENANE JATO

71

— E porque achas tu que tenho problemas com os clientes? — enervou-se o


meu tio. — Não sou eu que lhes receito os medicamentos que devem tomar...

— Estás completamente alterado. *

— Claro, venho de Jenane Jato. Germaine teve um ligeiro sobressalto:

— Não devias levar o miúdo lá amanhã?

— Preferi apalpar o terreno antes.

Germaine foi buscar uma garrafa de água e serviu um copo ao marido, que o
bebeu de um trago.

Viu-me de pé no meio do salão e apontou para o tecto:

— Espera por mim no teu quarto, Jonas. Vamos já recapitular as lições.

Fiz de conta que subia as escadas, deixei-me ficar uns instantes no


patamar, voltei a descer alguns degraus e prestei atenção. O nome de
Jenane Jato deixara-me com a pulga atrás da orelha. Queria saber o que
havia por trás da cara murcha do meu tio. Teria acontecido algum mal aos
meus pais? O meu pai teria sido identificado e preso pelo homicídio de El
Moro?

— Então? — perguntou Germaine em voz baixa.

— Então o quê? — disse o meu tio com um ar cansado.

— Viste o teu irmão?

— Não tinha grande aspecto, mesmo nada.

— Deste-lhe dinheiro?

— Nem por sombras! Quando levei a mão ao bolso, ficou hirto como se me
preparasse para sacar uma arma. «Não te vendi o meu filho. Confiei-to.»
Essas palavras abalaram-me tremendamente. Issa está em queda. Faz-me
temer o pior.

— Que queres dizer com isso?

— Mas é evidente. Se visses os olhos dele! Parecia um zumbi.

— E o Jonas, vais levá-lo amanhã a ver a mãe?

— Não.

— Prometeste-lhe.

— Mudei de opinião. Está a começar a arrebitar; não faço tenções de o


empurrar para baixo.
— Mahi...
72

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Não insistas. Sei o que não se deve fazer. Doravante o nosso rapaz terá
de olhar em frente. Para trás só há desolação.

Ouvi Germaine a agitar-se nervosamente na cadeira.

— Baixas os braços depressa demais, Mahi. O teu irmão precisa de ti.

— Achas que não tentei? Issa é um detonador, basta tocá-lo ao de leve


para ele explodir. Não me deixa nenhuma saída. Cor-tar-me-ia o braço se
lhe estendesse a mão. Para ele, tudo o que vem dos outros é esmola.

— Tu não és os outros, és irmão dele.

— Achas que não sabe?... Na sua cabeça, é o mesmo. O problema está em que
se recusa a admitir que caiu muito baixo. Neste momento em que não é mais
que uma sombra de si próprio, tudo o que brilha o queima. Além disso,
quer-me mal. Não consegues imaginar o quanto me quer mal. Se tivéssemos
ficado juntos, pensa ele, teríamos podido, entre nós, salvar as terras.
Está convencido disso. Hoje mais do que nunca. Estou certo de que se
tornou uma fixação para ele.

— Tu é que te culpabilizas...

— Talvez, mas ele está obcecado. Conheço-o. Cala-se para ruminar melhor a
sua cólera. Despreza-me. Em seu entender, vendi a alma ao diabo. Reneguei
os meus, casei com uma infiel, vendi ao desbarato as minhas terras a
troco de uma casa na cidade, troquei a gandoura por um fato europeu e,
ainda que eu use fez, cri-tica-me por me ter desfeito do meu turbante.
Nunca mais nos entenderemos.

— Devias ter deixado umas notas à mulher.

— Não teria aceitado. Sabe que Issa a mataria.

Voltei precipitadamente para o quarto e fechei-me a duas voltas.

IV

No dia seguinte, ao meio-dia, o meu tio baixou os estores de ferro da


loja e veio buscar-me. Deve ter reconsiderado ou talvez Germaine o tenha
convencido. Fosse como fosse, queria saber o que tinha de enfrentar.
Estava cansado de viver na angústia de ver o meu pai retractar-se. A
incerteza hipotecava a sua felicidade; tinha projectos para mim, mas a
eventualidade de uma reviravolta
JENANE JATO

73

na situação transtornava-o. O meu pai era capaz de aparecer sem aviso,


pegar-me na mão e levar-me sem sequer se dignar a dar explicações.

O meu tio levou-me a Jenane Jato. E Jenane Jato pareceu-me mais atroz do
que antes. Lá, o tempo andava em círculos. Sem sequência. Os mesmos
rostos castanho-escuros dardejavam um olhar opaco pelas redondezas, as
mesmas sombras chinesas confun-diam-se com a penumbra. Perna-de-Pau
empurrou com um gesto seco o seu turbante para o topo da cabeça ao ver-
nos chegar. O barbeiro por pouco não cortava a orelha do velhote cuja
cabeça estava a rapar. Os garotos interromperam o que estavam a fazer e
ali-nharam-se ao longo do caminho para nos observar. Os seus andrajos
condiziam com os corpos mirrados.

O meu tio evitava prestar atenção à miséria circundante; caminhava a


direito, com o queixo erguido, o olhar impenetrável.

Não entrou comigo no pátio, preferindo esperar lá fora.

— Fica o tempo que quiseres, pequeno.

Entrei a correr no pátio. Dois rebentos de Badra lutavam ao lado do poço,


agarrados um ao outro num combate de cortar o fôlego. O mais pequeno
mantinha o mais velho no chão, tentando deslocar-lhe o cotovelo. Num
canto, perto das latrinas, Hadda lavava a roupa, curvada sobre um
alguidar talhado num barril. O vestido arregaçado até meio das coxas
permitia que o sol acariciasse as suas lindas pernas. Estava de costas
para mim e não parecia nada incomodada com a luta livre a que se
entregavam com rara ferocidade os dois marotos da vizinha.

Levantei a cortina do nosso reduto e tive de esperar uns segundos que os


meus olhos se habituassem à obscuridade que reinava na divisão. Vi a
minha mãe estendida num catre, com uma coberta sobre o corpo e a cabeça
envolta num lenço.

— És tu, Younes? — gemeu.

Corri e lancei-me sobre ela. Os seus braços rodearam-me a cintura e


apertaram-me contra o peito; o aperto era mole. A minha mãe ardia em
febre.

Empurrou-me suavemente; o meu peso devia impedi-la de respirar.


74

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Porque voltaste? — perguntou.

A minha irmã estava perto da mesa baixa. Não dera por ela imediatamente,
de tão silenciosa e apagada. Os grandes olhos vazios observavam-me,
interrogando-se de onde me conheceria. Só estava ausente há uns meses e
ela já não se recordava de mim. A minha irmã continuava a não falar. Não
se assemelhava às outras crianças da sua idade e parecia não querer
crescer.

Tirei de um saquinho o brinquedo que comprara para ela e pousei-o na


mesa. A minha irmã não pegou nele; contentou-se com uma vista de olhos
antes de voltar a observar-me. Peguei no brinquedo — uma bonequinha de
pano — e meti-lho nas mãos. Nem se deu conta do meu gesto.

— Como deste com o pátio? — perguntou-me a minha mãe.

— O tio está à espera na rua.

A minha mãe lançou um grito estridente ao sentar-se. Os seus braços


voltaram a enlaçar-me e a puxar-me contra o peito.

— Estou contente por te ver. Como é em casa do tio?

— Germaine é muito simpática. Dá-me banho todos os dias e compra-me tudo


o que eu quero. Tenho muitos brinquedos, frascos de compota e sapatos...
Sabes, mamã, a casa é grande. Há muitos quartos e lugar para toda a
gente. Porque não vêm viver connosco?

A minha mãe sorriu, e todo o sofrimento que lhe amarfanhava o rosto


desapareceu como por encanto. Era bela a minha mãe, com os cabelos pretos
até às ancas e enormes olhos como pires. Muitas vezes, quando ainda
vivíamos nas nossas terras e eu a via contemplar os campos do alto de um
outeiro, tomava-a por uma sultana. Tinha o porte e a graça de uma sultana
e, quando descia pelo outeiro, a miséria que se pegava à bainha do seu
vestido como uma matilha de cães não conseguia agarrá-la.

— É verdade — insistia eu, — porque não vêm viver connosco em casa do


tio?

— Não é assim que as coisas se passam entre adultos, filho — disse,


limpando-me qualquer coisa no rosto. —Além disso, o teu pai nunca quererá
morar com ninguém. Quer recuperar sozinho e não dever nada a ninguém...
Tens bom aspecto — acrescentou. —
JENANE JATO

75

Tenho a impressão de que engordaste... E ficas tão bonito nessa roupa!


Pareces um rumi.

— A Germaine chama-me Jonas.

— Quem?

— A mulher do tio.

— Não faz mal. Os Franceses pronunciam mal os nomes. Não fazem de


propósito.

— Sei ler e escrever...

Os seus dedos remexeram-me nos cabelos.

— Isso é muito bom. O teu pai nunca te teria deixado como teu tio se não
esperasse dele o que não pode oferecer-te.

— Onde está o pai?


'¦'

— A trabalhar. Sem parar... Um dia irá buscar-te para te levar para a


casa dos seus sonhos... Sabes que nasceste numa linda casa? A choça onde
cresceste pertencia a uma família de camponeses que tinham sido
empregados do teu pai. No princípio, éramos quase ricos. A aldeia toda
festejou o nosso casamento. Uma semana de canto e festim. A nossa casa
era de alvenaria, com jardim à volta. Os teus três irmãos mais velhos
nasceram como príncipes. Não sobreviveram. Tu vieste depois e brincaste
sem descanso nesses jardins. Depois Deus decidiu que o Inverno ocuparia o
lugar da Primavera, e os nossos jardins morreram. É a vida, filho. O que
nos dá com uma mão, tira-nos com a outra. Mas nada nos impede de o
recuperar. E tu vais sair-te bem. Perguntei à vidente Batoul. Leu na água
que te vais sair bem. É por isso que sempre que tenho saudades tuas,
acho-me egoísta e digo para comigo: ele está bem onde está. Está a salvo.
6.

Z/1

NÃO fiquei muito tempo com a minha mãe. Ou talvez tenha ficado uma
eternidade. Não me recordo. O tempo não contava; havia qualquer outra
coisa, mais densa e essencial. Tal como acontece no parlatório das
prisões, o que interessa é o que conservamos do instante partilhado com o
ser que nos faz falta. Na minha idade, não me dava conta do mal que a
minha partida infligia aos meus, da mutilação em que me havia tornado. A
minha mãe não derramou uma lágrima. Choraria mais tarde. Sem deixar de me
agarrar a mão, falava enquanto sorria. O sorriso da minha mãe era uma
absolvição.

Dissemos um ao outro o que tínhamos para dizer, ou seja, pouco, nada que
não soubéssemos já.

Isto aqui não é bom para ti, decretara a minha mãe.

No momento, as afirmações dela não me causaram grandes problemas. Era


apenas um garoto para quem as palavras raramente ultrapassavam o contorno
dos lábios. Tê-las-ei assimilado, voltado a pensar nelas?... E que
importância teria isso? Fosse como fosse, já estava noutro sítio.

Foi ela que me recordou que me esperavam na rua, que tinha de me ir


embora; e a eternidade desfizera-se tal como as lâmpadas se apagam quando
carregamos no interruptor, tão depressa que fui apanhado de surpresa.

Lá fora, o pátio estava em silêncio. Nem vozearia nem ruídos de luta. O


pátio calava-se; estaria a escutar à nossa porta? Ao sair
JENANE JATO

77

para o pátio, surpreendi todos os vizinhos à volta do poço. Badra, Mama,


a vidente Batoul, a bela Hadda, Yezza e a sua petizada ob-servavam-me à
distância. Dir-se-ia que temiam dar cabo de mim se se aproximassem. Os
diabretes de Badra quase não respiravam. Eles que estavam sempre a meter
os dedos em toda a parte tinham as mãos coladas às ancas. Bastara-me
mudar de roupa para os desnortear. Ainda hoje me pergunto se, afinal, o
mundo não seria só aparência. Temos uma cara de desenterrado e um saco de
juta por cima de uma barriga côncava e somos pobres. Lavamos a cara,
penteamos o cabelo, enfiamos umas calças limpas e somos outra pessoa.
Dependia de tão pouca coisa. Aos onze anos, são ideias que nos
desconcertam. Como as perguntas não têm resposta, ha-bituamo-nos às que
nos convêm. Estava convicto de que a miséria não dependia da fatalidade,
que se inspirava exclusivamente na mentalidade. Tudo se molda na cabeça.
O que os olhos descobrem, o espírito adopta, e pensamos que essa é a
realidade imutável dos seres e das coisas. Contudo, basta desviarmos um
instante a atenção do caminho difícil para detectarmos outro, novinho em
folha, e tão misterioso que damos por nós a sonhar... Em Jenane Jato, não
se sonhava. As pessoas haviam decidido que o seu destino estava selado e
que não havia mais nada em torno delas, por detrás ou por baixo. À força
de olhar para a vida do lado onde o pau fere, haviam acabado por
incorporar totalmente o seu estrabismo.

O meu tio estendeu-me a mão. Agarrei-a rapidamente. Quando os seus dedos


se fecharam à volta do meu punho, deixei de olhar para trás.

Já estava noutro sítio.

'12

Não recordo grande coisa do meu primeiro ano de adopção. Tranquilizado, o


meu tio inscrevera-me numa escola a dois quarteirões de distância da
nossa rua. Era um estabelecimento vulgar, com corredores sem atractivos e
dois enormes plátanos no pátio. Parece-me que era sombrio, que a luz do
dia só aflorava a parte de cima do edifício. Ao contrário do mestre-
escola, um homem enrugado e severo, qíle nos ensinava francês com um
forte
78

O QUE O DIA DEVE À NOITE

sotaque de Auvergne que certos alunos imitavam na perfeição, a professora


era paciente e meiga. Usava a mesma bata desbotada sobre vestidos
ligeiros e, quando passava no meio das filas de carteiras, o seu perfume
seguia-a como uma sombra.

Só havia dois árabes na minha turma, Abdelkader e Brahim, filhos de


dignitários que, à saída da escola, tinham criados à espera.

O meu tio cuidava de mim como da menina dos seus olhos. O seu bom humor
dava-me ânimo. Convidava-me de vez em quando para o seu escritório e
contava-me histórias cujo sentido e alcance eu não captava.

Orão era uma cidade magnífica. Possuía um tom singular que conferia à sua
jovialidade mediterrânica um encanto imarcescível. Tudo aquilo em que se
lançava lhe assentava como uma luva. Sabia viver e não o ocultava. A
noite, era mágica. Depois da ca-nícula, a atmosfera refrescava e as
pessoas puxavam as cadeiras para o passeio e passavam horas a conversar
enquanto bebericavam aniseta. Da nossa varanda, podíamos vê-las a queimar
cigarros e ouvir o que diziam umas às outras. As suas indecências
sibilínas derramavam-se na noite como estrelas cadentes e as suas fortes
gargalhadas rolavam até aos nossos pés, como vagas que nos vêm lamber os
dedos à beira-mar.

Germaine estava feliz. Não podia erguer os olhos para mim sem agradecer
ao céu com uma oração. Tinha consciência da felicidade que eu lhe
proporcionava, a ela e ao marido, o que me lisonjeava.

Por vezes, o meu tio recebia pessoas, algumas vindas de muito longe;
árabes e berberes, uns vestidos à europeia, outros arvorando trajes
tradicionais. Era gente importante, muito distinta. Falavam todos de um
país chamado Argélia; não daquele que nos ensinavam na escola nem o dos
bairros ricos, mas de um outro país espoliado, reprimido, amordaçado e
que ruminava a sua cólera como um alimento deteriorado — a Argélia de
Jenane Jato, das fracturas abertas e das terras queimadas, das vítimas e
dos carregadores... um país a redefinir e onde todos os paradoxos do
mundo pareciam ter escolhido viver dos rendimentos.
JENANE JATO

79

Creio que era feliz em casa do meu tio. Jenane Jato não me fazia grande
falta. Tornei-me amigo de uma garota que morava à nossa frente. Chamava-
se Lucette. Estávamos na mesma turma e o pai autorizava-a a brincar
comigo. Tinha nove anos, não era muito bonita, mas era meiga e generosa e
eu apreciava muito a sua companhia.

Na escola, as coisas normalizaram a partir do segundo ano. Conseguira


integrar-me. E certo que os pequenos rumis eram crianças estranhas.
Podiam acolher-nos de braços abertos e rejei-tar-nos imediatamente depois
do abraço. Entendiam-se muito bem entre eles. Podiam brigar no recreio,
desenvolver ódios implacáveis, mas mal aparecia um intruso — geralmente
um árabe ou um «parente pobre» da sua própria comunidade —, formavam
bloco contra ele. Punham-no de quarentena, troçavam dele e apontavam--no
sistematicamente como culpado quando se tratava de descobrir um. No
princípio, encarregaram Maurice, um cábula enorme e belicoso, de me
perseguir. Quando perceberam que eu era apenas um «molengas» incapaz de
reagir aos ataques ou de me queixar, dei-xaram-me tranquilo. Contudo,
quando descobriam outros bodes expiatórios, toleravam-me na periferia do
grupo. Não era um deles e não perdiam qualquer ocasião de mo recordar.
Curiosamente, bas-tava-me tirar o meu lanche da pasta para os acalmar;
tornavam-se repentinamente meus amigos e evidenciavam um respeito desar-
mante. Partilhado o lanche e engolida a última migalha, renega-vam-me tão
depressa que as suas volta-faces me causavam vertigens.

Uma tarde, voltei para casa louco de raiva. Queria explicações, e logo
ali. Estava furioso com o Maurice, com o professor e com a turma toda.
Havia sido magoado no meu amor-próprio e, pela primeira vez, compreendia
que a minha dor não se limitava à da minha família e que podia estender-
se a pessoas que não conhecia de lado algum mas que se tornavam, durante
o tempo que durava uma afronta, tão próximas de mim como o meu pai e a
minha mãe. O incidente ocorrera durante as aulas. Tínhamos entregado os
deveres, e Abdelkader estava confuso. Esquecera-se de fazer os seus. O
professor segUrara-o pela orelha, mandara-o subir
80 O QUE O DIA DEVE À NOITE

ao estrado e exibira-o perante a turma. «Pode explicar-me porque não fez


a cópia que devia apresentar-me, ao contrário dos seus colegas, senhor
Abdelkader?» O aluno apanhado em falta permanecia de cabeça baixa,
vermelho de vergonha. «Porquê, senhor Abdelkader? Porque não fez os seus
deveres?» Não obtendo resposta, o professor dirigiu-se ao resto da turma:
«Será que alguém me pode dizer por que motivo o Sr. Abdelkader não fez os
seus deveres?» Sem levantar o dedo, Maurice respondera num ímpeto:
«Porque os Árabes são preguiçosos, senhor.» A hilaridade desencadeada
esmagara-me.

De regresso a casa, fora directamente ter com o meu tio ao escritório.

— É verdade que os Árabes são preguiçosos?

O meu tio surpreendera-se com a agressividade do meu tom. Pousara o livro


que estava a folhear e voltara-se para mim. O que lera no meu rosto
enternecera-o.

— Anda cá, meu rapaz — dissera-me, abrindo os braços.

— Não... Quero saber se é verdade. Os Árabes são preguiçosos?

O meu tio pegara-me no queixo entre o polegar e o indicador, olhando-me


de frente. O momento era grave; devia-me explicações.

Depois de ter reflectido, pusera-se à minha frente e dissera:

— Não somos preguiçosos. Limitamo-nos a aproveitar o tempo para viver. O


que não é o caso dos Ocidentais. Para eles, o tempo é dinheiro. Para nós,
o tempo não tem preço. Basta-nos um copo de chá para sermos felizes, ao
passo que, para eles, não há felicidade que baste. A diferença está toda
aí, meu rapaz.

Nunca mais dirigira palavra ao Maurice e deixara de ter medo dele.

Depois, houve esse dia — mais um — que, porque estava a aprender a


sonhar, me apanhou totalmente desprevenido.

Acompanhara Lucette a casa da tia, uma costureira de calças com ateliê em


Choupot, dois quarteirões acima do nosso, e regressava a casa a pé. Era
uma manhã de Outubro, e um sol grande
JENANE JATO

81

como uma abóbora ornamentava o céu. O Outono despojava as árvores das


últimas folhas enquanto um vento em transe entontecia braçadas de folhas
mortas. Na avenida, onde Lucette e eu gostávamos de ver montras, havia um
bar. Não me recordo da tabuleta pendurada no frontão, mas ainda me lembro
dos bêbados que a frequentavam; gente ruidosa e irascível que a polícia
acalmava muitas vezes à pancada. Ao chegar perto do bar, rompeu uma
violenta disputa. Os impropérios foram seguidos por um estrondo de mesas
e cadeiras, e vi um homem enorme em fúria a agarrar num mendigo pelo
pescoço e pelos fundilhos e a atirá-lo pelas escadas. O desgraçado
aterrou aos meus pés com o barulho de um fardo de feno. Estava a morrer
de bêbado.

— Não te atrevas a andar pelas redondezas, piolhoso! — intimou o


empregado, de pé nas escadas. — Não é sítio para ti.

O empregado entrou no estabelecimento e voltou com um chinelo.

— E leva a tua babucha, palhaço. Corres para a tua perda muito melhor e
mais depressa.

O mendigo encolheu o pescoço quando o chinelo lhe acertou na cabeça. Como


me estava a barrar o caminho, estendido ao longo do passeio, e como eu
não sabia se devia contorná-lo ou atravessar a calçada, deixei-me ficar
onde estava.

O mendigo farejou o canteiro, com a cara esborrachada no chão e o


turbante na nuca. Estava de costas viradas para mim. As mãos febris
tentavam agarrar-se a qualquer coisa, mas estava bêbado demais para
descobrir pontos de referência. Após várias escorregadelas, conseguiu
sentar-se, procurou o chinelo às apalpadelas, enfiou-o no pé, apanhou o
turbante e enrolou-o à roda da cabeça às três pancadas.

Não cheirava bem; creio que urinara.

A vacilar sobre o rabo, uma mão contra o chão para evitar a queda,
procurou com a outra a bengala, viu-a perto de uma valeta e rastejou para
a agarrar. De repente, deu-se conta da minha presença e imobilizou-se. Ao
erguer a cabeça para mim, o seu rosto desintegrou-se.

Era o meu pai!


82 O QUE O DIA DEVE À
NOITE

O meu pai... que era capaz de erguer montanhas, de forçar as incertezas a


ajoelharem-se, de torcer o pescoço ao destino!... Ali estava ele, aos
meus pés, no passeio, enfiado numas calças mal-cheirosas, o rosto
inchado, as comissuras dos lábios a espumarem, o azul dos olhos tão
trágico como as nódoas negras na cara!... Um destroço... um farrapo...
uma tragédia!

Olhou-me como se eu fosse uma alma do outro mundo. Os olhos remelosos e


inchados enevoaram-se e o rosto enrugou-se como um velho papel de
embrulho nas mãos de um trapeiro.

— Younes? — deixou escapar.

Não era um grito... tão-somente um sussurro suspenso entre a exclamação


átona e o soluço...

Eu estava aturdido.

Bruscamente, dando-se conta da gravidade da situação, tentou erguer-se.


Sem deixar de me olhar nos olhos, a fisionomia tensa com o esforço,
apoiou-se na bengala e ergueu-se, tentando não emitir nenhum gemido. Os
joelhos traíram-no e caiu lamentavelmente na valeta. Para mim, era como
se o meu castelo de areia se desmoronasse, como se as promessas de ontem
e os meus desejos mais queridos se esboroassem sob o sopro do siroco. A
minha dor era imensa. Teria querido debruçar-me sobre ele, passar--lhe um
braço em torno do pescoço e erguê-lo. Teria querido que me estendesse a
mão, que se agarrasse a mim. Teria querido mil outras coisas, mil
pranchas, mil varas, mas só dispunha dos olhos para me recusar a admitir
o que via, pois nenhum dos meus membros respondia ao apelo. Gostava
demasiado do meu pai para o imaginar a meus pés, enjorçado como um
espantalho, com as unhas negras e as narinas fugidias...

Incapaz de controlar a embriaguez, deixou de fazer esforços inúteis e,


com a mão, pediu-me que me afastasse.

Num último sobressalto de orgulho, o meu pai respirou fundo e apoiou-se


novamente na bengala. Deve ter ido ao mais fundo da dignidade que lhe
restava buscar forças para se recompor, inclinou--se para a frente,
oscilou para trás, apoiou-se na parede, com as pernas bambas; lutava com
todas as forças para se manter de pé. Afer-rava-se ao seu hipotético
suporte, fazendo lembrar um velho cavalo
JENANE JATO

83

doente prestes a cair no chão. Depois, passo a passo, com o ombro a roçar
a fachada do bar, começou a afastar-se. Tentava, a cada passo, corrigir a
marcha, afastar-se um pouco da parede para me provar que era capaz de
andar direito; havia, nessa batalha patética consigo próprio, o que a
miséria tinha, ao mesmo tempo, de mais corajoso e de mais grotesco.
Demasiado bêbado para se afastar muito, perdeu o fôlego ao cabo de poucos
metros e virou-se para ver seja me tinha ido embora. E lá estava eu, de
braços caídos, tão embriagado como ele. Então, lançou-me um olhar que me
perseguirá para sempre; esse olhar privado do estado de graça no qual
naufragará qualquer juramento, incluindo o que o mais corajoso dos pais
faria ao melhor dos filhos... Um olhar que só se lança uma vez durante a
vida porque, antes ou depois, já não há mais nada... Compreendi que era a
última vez que mo destinava; que os seus olhos, que me haviam fascinado e
aterrorizado, amimado e defendido, amado e enternecido, nunca mais se
ergueriam para mim.

Z.4

— Está assim desde quando? — perguntou o médico, arrumando o estetoscópio


na sacola.

— Voltou ao meio-dia — disse Germaine. — Tinha um ar normal. Sentámo-nos


à mesa a seguir. Comeu um pouco e, de repente, foi a correr vomitar no
bidé.

O médico era um homem alto e ossudo, com o rosto afilado e macilento. O


fato antracite conferia-lhe um certo ar de mara-buto. Apertou as correias
da sacola com um gesto autoritário enquanto olhava para mim.

— Não vejo o que possa ter — confessou. — Não tem febre, não está a
transpirar e não apresenta quaisquer sinais de constipação.

O meu tio, que se mantinha com Germaine aos pés da cama, não dizia nada.
Acompanhara atentamente a auscultação, lançando de vez em quando um olhar
inquieto ao médico. Este último olhara para dentro da minha boca,
passeara uma pequena lanterna pelas minhas pupilas, passara e voltara a
passar os dedos por baixo das minhas orelhas, escutara a minha
respiração. Ao erguer-se, esboçara um trejeito circunspecto?

/:
84

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Vou receitar-lhe medicamentos para controlar as náuseas. Deve ficar na


cama hoje. O mal-estar deverá desaparecer por si. Deve ter comido
qualquer coisa que o organismo não aguentou. Se não lhe passar, chamem-
me.

Depois da partida do médico, Germaine ficara comigo. Não estava


tranquila.

— Comeste alguma coisa na rua?

— Não.

— Tens dores de barriga?

— Não.

— Então o que é que tens?

Ignorava o que tinha. Sentia-me a fugir em todos os sentidos. Tinha


vertigens sempre que levantava a cabeça. Parecia que as tripas se me
enredavam, que a minha alma entorpecia...

Era noite quando acordei. Os ruídos da rua tinham desaparecido. Uma lua
cheia iluminava o quarto e uma aragem divertia--se a puxar as tranças às
árvores. Devia ser muito tarde. Os vizinhos só costumavam deitar-se
depois de contarem todas as estrelas. Tinha na boca um travo a bílis e a
garganta ardia. Afastei as cobertas e pus-me de pé. As pernas tremiam.
Aproximei-me da janela e, com o nariz colado ao vidro, esperei que
passasse uma silhueta. Queria reconhecer o meu pai em cada noctívago.

Germaine surpreendeu-me assim, com o rosto aureolado pelo vapor de água e


o corpo gelado. Apressou-se a meter-me de novo na cama. Não ouvia o que
ela me dizia. Por intermitências, o seu rosto desaparecia por trás do da
minha mãe; depois, o do meu pai impunha-se aos dois, desencadeando
espasmos fulgurantes na minha barriga.

Ignoro quanto tempo estive doente. Quando voltei à escola, Lucette


confessou que eu tinha mudado, que já não era o mesmo. Quebrara-se
qualquer coisa em mim.

O intermediário Bliss veio ver o meu tio à farmácia. Reco-nheci-o mal se


pôs a pigarrear. Tinha uma maneira de aclarar a voz que não se encontrava
em mais ninguém. Eu estava nas tra-
JENANE JATO 85

seiras da loja a recapitular as aulas quando ele chegou. Podia observá-lo


pela cortina entreaberta que isolava a oficina. Molhado até aos ossos,
vestia um velho albornoz remendado, demasiado grande para ele, um saroual
cinzento manchado de lama e sandálias de borracha que deixavam marcas
enlameadas no chão.

O meu tio parou de esmiuçar as contas e ergueu a cabeça. A visita do


intermediário não lhe dizia nada. Bliss raras vezes se aventurava pelo
bairro europeu. Pelo seu olhar de animal encurralado, o meu tio adivinhou
que um vento funesto soprava na sua direcção.

— Sim?...

Bliss mergulhou a mão por baixo da chéchia e coçou energicamente o


cocuruto da cabeça, o que era, nele, um sinal de grande embaraço:

— Tem a ver com o seu irmão, doutor.

O meu tio fechou bruscamente o livro e virou-se para mim. Deu-se conta de
que os observava. Contornou o balcão, pegou no cotovelo de Bliss e levou-
o para um canto. Desci do tamborete e aproximei-me da cortina para ouvir.

— Que se passa com o meu irmão?

— Desapareceu...

— O quê?... Que é que queres dizer, desapareceu?

— Bom, não voltou para casa.

— Desde quando?

— Há três semanas.

— Três semanas? E só agora me avisas?

— É por culpa da mulher. Sabe como elas são, as nossas mulheres, na


ausência dos maridos. Preferem que a casa pegue fogo antes de pedirem
ajuda ao vizinho. Aliás, foi a vidente Batoul que mo disse esta manhã. A
mulher do seu irmão consultou-a ontem. Pediu-lhe que lhe lesse na palma
da mão o que acontecera ao marido, e foi assim que Batoul soube que o seu
irmão já não dá sinais de vida há três semanas.

— Meu Deus!

Regressei precipitadamente à minha mesa de trabalho. O meu tio afastou a


cortina e deu comigo curvado sobre o caderno de textos para recitar.
86 O QUE O DIA DEVE À
NOITE

— Vai dizer à Germaine para me vir substituir na farmácia. Tenho coisas


urgentes a tratar.

Peguei no caderno e saí para a rua. Ao passar por Bliss, tentara ler no
seu olhar, mas ele desviara os olhos. Pus-me a correr pelas ruas como um
louco.

Germaine não ficava quieta. Mal aviava um cliente, punha--se por trás da
cortina a vigiar-me. A minha calma inquietava-a. De vez em quando,
incapaz de se conter, vinha ter comigo na ponta dos pés e inclinava-se
por trás de mim enquanto eu decorava os textos. A sua mão acariciava-me
os cabelos antes de passar pela minha testa para me medir a temperatura.

— Tens a certeza de que estás bem? Não lhe respondia.

O último olhar que o meu pai me lançara naquele dia, quando titubeava de
embriaguez e de vergonha, começara a roer-me com a voracidade de um
verme.

A noite caíra há horas e o meu tio tardava a regressar. Na rua deserta


sob o dilúvio, um cavalo tombara, arrastando na queda a carroça que
puxava. O carregamento de carvão espalhara-se pela calçada, e o
carroceiro, barafustando contra o animal e o mau tempo, tentava em vão
descobrir uma solução para o seu problema.

Através da montra, Germaine e eu observávamos o cavalo estendido no chão,


com as patas da frente dobradas e o pescoço de lado. A água da chuva
fazia ondular a crina do animal sobre as pedras da calçada.

O carroceiro foi buscar ajuda e regressou com um punhado de voluntários


para arrostar a chuva e os raios. Um deles agachou-se diante do cavalo.

— A tua pileca morreu — disse em árabe.

— Nem pensar, escorregou apenas.

— Digo-te que está rígida.

O carroceiro recusou-se a admiti-lo. Agachou-se por sua vez diante do


animal sem se atrever a tocar-lhe com a mão.

— Não é possível. Estava bem de saúde.

— Os animais não se sabem queixar — disse o voluntário.


JENANE JATO

87

— Deves ter abusado do chicote, homem.

Germaine pegou na manivela e baixou os estores de ferro da farmácia até


metade; a seguir, passou-me para a mão o seu guarda--chuva, apagou a luz
da sala e empurrou-me para fora da loja. Depois de pôr os cadeados, pegou
no guarda-chuva, puxou-me para ela e apressámo-nos a regressar a casa.

O meu tio chegou muito tarde. Pingava por todos os lados. Germaine tirou-
lhe o casaco e os sapatos no vestíbulo.

— Porque é que ele não está deitado? — resmungou, indi-cando-me com o


queixo.

Germaine encolheu os ombros e subiu rapidamente os degraus que levavam ao


primeiro andar. O meu tio olhou-me atentamente. Os cabelos molhados
luziam sob o candeeiro do tecto, mas o olhar era sombrio.

— Devias estar no quarto pronto para dormir. Amanhã tens escola.

Germaine regressou com um roupão que o meu tio vestiu imediatamente.


Enfiou os pés numas pantufas e avançou para mim.

— Faz o que te digo, rapaz. Vai para o teu quarto.

— Ele sabe do pai — achou por bem informá-lo Germaine.

— Soube-o antes de ti, e não é razão.

— Seja como for, não pregará olho sem te ouvir. Trata-se do pai dele.

O meu tio meditou nas últimas palavras de Germaine. Lan-çou-lhe um olhar


ameaçador. Ela não desviou os olhos. Estava inquieta e compreendia que
não seria sensato esconder-me a verdade.

O meu tio pousou as mãos nos meus ombros:

— Procurámo-lo em toda a parte — disse. — Ninguém o viu. Nos sítios que


frequentava, as pessoas não se lembram de o ter visto por perto nos
últimos tempos. A tua mãe não sabe onde ele está. Não compreende por que
motivo se foi embora... Ainda vamos procurá-lo. Encarreguei o
intermediário e três homens de confiança de percorrerem a cidade para
encontrar a sua pista...

— Sei onde ele está — disse eu. — Foi-se embora para fazer fortuna e há-
de voltar num belo carro.
88

O QUE O DIA DEVE À NOITE

O meu tio consultou Germaine com os olhos, temendo que eu estivesse a


delirar. Ela tranquilizou-o, movendo ligeiramente as pálpebras.

Mal entrei no quarto, olhei para o tecto e imaginei o meu pai algures a
amontoar fortunas, como nos filmes aonde me levava o pai de Lucette, nas
tardes de domingo. Germaine veio várias vezes ao meu quarto assegurar-se
de que eu tinha adormecido. Eu fingia que estava a dormir. Germaine
esquadrinhava a cabeceira da cama, tocava sub-repticiamente na minha
testa, ajustava as almofadas e ia-se embora depois de me cobrir bem. Mal
a porta se fechava, eu empurrava as cobertas e, com os olhos fixos no
tecto, como um garoto extasiado com uma visão extraordinária, seguia as
aventuras do meu pai como num ecrã.

O intermediário Bliss e os três homens de confiança que o meu tio


encarregara de encontrar o meu pai voltaram de mãos vazias. Haviam
procurado nos comissariados, no hospital, nas casas de passe, nos
baldios, nos souks, junto de coveiros e de vagabundos, de bêbados e de
alquiladores... O meu pai volatilizara-se.

Várias semanas depois do seu desaparecimento, fui a Jenane Jato sem dizer
nada a ninguém. Aprendera a conhecer a cidade e fazia questão de visitar
a minha mãe sem pedir autorização a Germaine e sem ir acompanhado pelo
meu tio. A minha mãe repreen-deu-me vivamente. Achou a minha iniciativa
estúpida e fez-me prometer que não voltaria a fazê-lo. Os subúrbios
estavam infestados de pessoas pouco recomendáveis, e um garoto bem
vestido poderia muito bem ser feito às postas por patifes que operavam em
locais isolados. Expliquei-lhe que tinha vindo saber se o meu pai
regressara. A minha mãe informou-me que o meu pai não precisava que se
preocupassem com ele e que, segundo a vidente Ba-toul, estava bem de
saúde e já a fazer fortuna. «Quando voltar, irá buscar-te primeiro a casa
do teu tio antes de nos vir buscar a nós, a tua irmã e a mim, para nos
levar a todos para uma grande casa rodeada de jardins e de um sem-número
de árvores de fruto.»

Dito isto, mandou o filho mais velho de Badra buscar o intermediário


Bliss para me levar imediatamente ao meu tio.
JENANE JATO 89

A rejeição peremptória da minha mãe atazanou-me durante muito tempo.

Tinha a sensação de estar na origem de todas as infelicidades do mundo.

i
7.

Durante meses, só adormecia depois de esquadrinhar minuciosamente o


tecto. De uma ponta à outra. Ao comprimento e à largura. Deitava-me de
costas e, com a cabeça enterrada na almofada, tricotava e desfazia as
atribulações do meu pai cujo filme sem nexo se desenrolava em cima da
minha cama. Imaginava-o nababo hierático no meio dos cortesãos, salteador
roubando regiões longínquas, pesquisador de ouro a desenterrar, com um
golpe de picareta, a pepita do século, ou ainda gangster cingido num fato
de três peças impecável, com um enorme charuto no canto da boca. Por
vezes, na viragem de uma angústia insondável, sur-preendia-o a deambular
pelos bairros suspeitos, bêbado e descomposto, perseguido por bandidos
que o queriam linchar. Nessas noites, um torno esmagava-me o pulso — um
torno idêntico ao que, por um pouco, não me enterrara as minhas moedas na
carne, na noite em que pensara fazer feliz o meu pai, entregando-lhe o
dinheiro que ganhara a vender pintassilgos.

O desaparecimento do meu pai estava-me atravessado na garganta; não


conseguia ingurgitá-lo nem expectorá-lo. Considerava--me responsável pela
sua deserção. O meu pai não teria ousado abandonar a minha mãe e a minha
irmã na miséria se não me tivesse encontrado no caminho nesse dia. Teria
regressado a Jenane Jato ao cair da noite e teria curtido a bebedeira num
canto sem despertar a suspeita dos vizinhos. Era um homem de princípios;
esforçava-se por separar as coisas e por tentar não as juntar. Dizia
JENANE JATO

91

que se podia perder a fortuna, as terras e os amigos, a sorte e os pontos


de referência, mas que havia sempre uma possibilidade, por ínfima que
fosse, de reconstruir tudo noutro sítio; em contrapartida, se se acabasse
por perder a dignidade, deixaria de ser necessário um esforço para salvar
o resto.

O meu pai deve ter perdido a dignidade nesse dia. Por minha causa.
Surpreendi-o no extremo da sua decrepitude, o que ele não podia suportar.
Esforçara-se tanto por me provar que fazia ponto de honra em não deixar
que os maus momentos manchassem a sua imagem... O olhar que me lançara
perto do bar, em Choupot, enquanto tentava ridiculamente aguentar-se nas
pernas, decidira noutro sentido... Há olhares que dizem muito sobre o
desespero das pessoas; o do meu pai era irremediável.

Fiquei ressentido comigo por ter enveredado por essa rua, por ter passado
diante do bar no momento em que o «segurança» atirava ao chão o meu pai e
o meu mundo; por me ter separado de Lu-cette cedo demais, por me ter
demorado mais que o habitual a ver montras...

Na escuridão do quarto, limitava-me a ruminar o meu tormento, sem saber


que circunstância atenuante implorar. Sentia--me tão infeliz que, uma
noite, fui à arrecadação buscar a estátua do anjo que me aterrorizara na
primeira noite passada em casa do meu tio. Dera com ela no fundo de um
caixote a abarrotar de velharias, limpara-a da poeira e reinstalara-a na
chaminé, à frente da cama. E não tirara os olhos dela, certo de acabar
por a ver a abrir as asas e a virar o queixo na minha direcção... Nada.
Mantivera--se imóvel no seu soco, impenetrável e lamentavelmente inútil,
e eu tivera de a voltar a guardar no caixote podre antes do nascer do
sol.

— Deus é mau!...

— Deus não tem nada a ver com isto, rapaz — retorquira o meu tio. — O teu
pai partiu, mais nada. Não foi o Demo que o empurrou nem o anjo Gabriel
que lhe deu a mão. Tentou agarrar--se o melhor que podia e depois falhou.
É tão simples quanto isso. A vida é feita de altos e baixos, e ninguém
sabe onde localizar o meio-termo. Nem sequer somos obrigados a só nos
agarrarmos a nós próprios. A infelicidade que nos atinge não premedita o
golpe.
92 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Como o raio cai-nos em cima e como o raio retira-se, sem atender aos
dramas que nos inflige e sem os imaginar. Se queres chorar, chora; se
queres ter esperança, reza, mas, por favor, não procures um culpado onde
não encontras um sentido para a tua dor.

Chorara e rezara; depois, com a passagem do tempo, o ecrã por cima da


minha cabeça apagou-se e o tecto recuperou a sua insipidez. Não servia de
nada identifícarmo-nos com os nossos fantasmas. Retomei o caminho da
escola, e a mão de Lucette. Os muitos garotos à minha volta não estavam
errados, e elas tão-pouco. Eram garotos, simplesmente garotos entregues a
infortúnios, que se livravam de penas arbitrárias e se conformavam. Não
se interrogavam demasiado porque muitas vezes as respostas nada traziam
de bom.

O meu tio continuou a receber os seus misteriosos convivas. Chegavam


separadamente, no meio da noite, fechavam-se no salão durante horas,
fumando como fábricas. O cheiro dos cigarros empestava a casa. O
conciliábulo começava e acabava sempre da mesma maneira: discreto no
início, entrecortado de silêncios meditativos a seguir, inflamava-se e
ameaçava amotinar a vizinhança. Ouvia o meu tio a recorrer à sua condição
de dono da casa para conciliar os humores. Quando as divergências não
descobriam um terreno de entendimento, os convidados saíam para o jardim
para apanhar ar. As pontas dos cigarros brilhavam furiosamente na
obscuridade. Acabada a reunião, retiravam-se na ponta dos pés, uns a
seguir aos outros, perscrutando as paragens, e desapareciam na noite.

No dia seguinte, dava com o meu tio no escritório a lançar notas


intermináveis num livro encadernado.

Uma noite, que não se assemelhava às anteriores, o meu tio autorizou-me a


juntar-me aos convidados no salão. Apresentou--me a eles com orgulho.
Reconhecia algumas pessoas, mas a atmosfera era menos tensa, quase
solene. Só uma pessoa discursava. Quando abria a boca, os companheiros
ficavam suspensos dos seus lábios e bebiam-lhe as palavras com enorme
deleite. Tratava-se de um convidado especial, carismático, perante o qual
o meu tio se
JENANE JATO

93

extasiava... Só muito mais tarde, ao folhear uma revista de política,


consegui dar um nome ao seu rosto: Messali Hadj, figura de proa do
nacionalismo argelino.

A guerra rebentou na Europa. Como um abcesso.

A Polónia caiu sob o ataque brusco dos Nazis com uma facilidade
desconcertante. As pessoas esperavam uma resistência feroz e só tiveram
direito a escaramuças patéticas, depressa esmagadas pelos tanques
marcados com a cruz gamada. O êxito fulgurante das tropas alemãs
suscitava tanto medo como fascínio. A atenção do comum dos mortais virou-
se em bloco para o norte e focali-zou-se naquilo que se passava do outro
lado do Mediterrâneo. As notícias não eram boas; o espectro de uma
conflagração geral assombrava os espíritos. Não havia um único basbaque
na esplanada de um café sem um jornal aberto sobre as suas inquietações.
Os passantes detinham-se, interpelavam-se, enxameavam os balcões dos
bares ou os bancos dos jardins públicos para tomar o pulso de um Ocidente
em perdição acelerada. Na escola, os professores andavam menos em cima de
nós. Chegavam de manhã com um monte de notícias e de questões e partiam à
tarde com as mesmas interrogações e as mesmas ansiedades. O director
instalara um rádio no escritório e consagrava grande parte dos dias às
informações, negligenciando os patifes que, curiosamente nesses tempos
perturbados, proliferavam no pátio da escola.

No domingo, depois da missa, Germaine já não me levava a parte nenhuma.


Calafetava-se no quarto, ajoelhada diante de um crucifixo, e salmodiava
intermináveis litanias. Não tinha família na Europa, mas rezava com todas
as forças para que a circunspecção se impusesse à loucura.

Como o meu tio também nos fugia, com a sacola a abarrotar de panfletos e
de manifestos debaixo do casaco, voltei-me para Lucette. Perdíamo-nos nas
brincadeiras até uma voz nos informar que eram horas de nos sentarmos à
mesa ou de nos deitarmos.

O pai de Lucette chamava-se Jérôme e era engenheiro numa fábrica que não
ficava longe do nosso bairro. Mergulhado num livro técnico ou enterrado
num velho canapé em frente de um gra-
94

O QUE O DIA DEVE À NOITE

mofone que não parava de tocar Schubert, nem se dava ao trabalho de ver o
que fazíamos. Grande e magro, emboscado por trás de uns óculos com aros,
parecia mover-se no interior de uma bolha talhada à sua medida, mantendo
escrupulosamente as distâncias de tudo e de todos, incluindo da guerra
que se preparava para devorar o planeta. Tanto no Inverno como no Verão,
vestia a mesma camisa de caqui com dragonas e enormes bolsos a
transbordar de lápis. Jérôme só falava quando lhe faziam perguntas a que
respondia invariavelmente com alguma irritação. A mulher deixara--o uns
anos depois de Lucette nascer, o que o afectara gravemente. É verdade que
não recusava nada à filha, mas nunca o vi abraçá--la ou apertá-la contra
si. No cinema, onde nos enchia de filmes mudos por episódios, dir-se-ia
que adormecia mal as luzes se apagavam. Por momentos, assustava-me,
sobretudo depois de ter declarado ao meu tio, num tom desinteressado, que
era ateu. Na altura, eu não pensava que existisse esse tipo de pessoas. A
minha volta só havia crentes; o meu tio era muçulmano, Germaine católica,
os vizinhos judeus ou cristãos. Tanto na escola como no bairro, Deus
existia em todas as línguas e em todos os corações, e espantara-me ver
que Jérôme passava sem Ele. Ouvira-o dizer a um evangelista que viera
trazer-lhe a boa nova: «Cada homem é o seu próprio deus. É ao escolher
outro que se renega e se torna cego e injusto.» O evangelista olhara-o
com desdém, como se ele fosse Satã em pessoa.

No dia da Ascensão, levou-nos, a Lucette e a mim, a contemplar a cidade


do alto da montanha Murdjadjo. Começámos por visitar a fortaleza medieval
antes de nos juntarmos aos contingentes de peregrinos que gravitavam em
torno da capela de Santa Cruz. Eram centenas de mulheres, velhos e
crianças a agitarem-se à volta da Virgem. Alguns haviam trepado os
flancos da montanha de pés descalços, agarrando-se às giestas e aos
tojos, outros de joelhos, as rótulas cheias de golpes e ensanguentadas.
Toda esta multidão cambaleava sob um sol de chumbo, com os olhos
revirados e o rosto exangue, implorando aos santos patronos e suplicando
ao Senhor que poupasse as suas miseráveis vidas. Lucette explicou-me que
os fiéis eram espanhóis que, todos os anos na
JENANE JATO

95

Ascensão, se infligiam esta provação para agradecer à Virgem ter poupado


Vieil Oran da epidemia de cólera que enlutara milhares de famílias em
1849.

— Mas sofrem atrozmente — disse eu, chocado com a amplitude do martírio.

— Fazem-no por Deus — respondeu Lucette, fervorosamente.

— Deus não lhes pediu nada — atalhou Jérôme.

A sua voz soara como uma chicotada, aniquilando o meu entusiasmo. Já não
via peregrinos, mas condenados em transe, e nunca o inferno me parecera
tão próximo como nesse dia de grandes rezas. Haviam-me advertido contra
as blasfémias desde a nascença. Não era preciso proferi-las para sofrer
as consequências; o simples facto de as ouvir já era um pecado. Lucette
deu-se conta da minha perturbação. Senti-a zangada com o pai, mas não
respondia aos seus sorrisos constrangidos. Queria voltar para casa.

Apanhámos o autocarro para regressar à cidade. O caminho às curvas


apertadas para Vieil Oran acentuou o meu mal-estar. Tinha vontade de
vomitar a cada curva. Habitualmente, Lucette e eu gostávamos de andar
pela Scalera, saborear umapaella ou um caldero numa baiuca espanhola e
comprar bugigangas a artesãos sefarditas no Derb. Nesse dia, não estava
para isso. A enorme estatura de Jérôme lançava a sua sombra sobre as
minhas preocupações. Temia que a sua «blasfémia» atraísse a infelicidade
sobre mim.

Apanhámos o eléctrico para a cidade europeia e continuámos a pé, em


direcção ao nosso bairro. Estava bom tempo. O sol de Orão excedia-se, mas
sentia-me estranho à luz que me rodeava e às piadas que jorravam. Apesar
de a mão de Lucette apertar a minha, não conseguia afastar-me de mim
mesmo...

E aquilo que temia caiu sobre a minha cabeça como uma telha: havia
pessoas na nossa rua. Os vizinhos estavam de um lado e do outro da
calçada, de braços cruzados no peito e dedo na cara.

Jérôme interrogou com os olhos um homem de calções, enfiado no vão da sua


porta. O homem, que estava a regar o jardim, fechou a torneira, pousou o
regador, enxugou as mãos na parte da
96

O QUE O DIA DEVE À NOITE

frente da camisola interior e afastou os braços em sinal de ignorância:

— Decerto que é um erro. A polícia prendeu o Sr. Mahi, o farmacêutico.


Acabam de o meter na ramona. Os bófias não tinham um ar nada à vontade.

Li i

O MEU TIO FOI SOLTO APÓS UMA SEMANA DE DETENÇÃO. Teve de

esperar que a noite caísse para voltar a casa. Encostado às paredes. De


cara abatida e olhar sombrio. Uns dias de calabouço haviam bastado para o
transformar de alto a baixo. Estava irreconhecível. Uma barba nascente
acentuava o enrugar das feições, somando ao seu ar perdido um toque
espectral. Dir-se-ia que o tinham privado de comer e de dormir dia e
noite.

O alívio de Germaine durou apenas o tempo do encontro. Depressa se deu


conta de que o marido não lhe fora devolvido na íntegra. O meu tio
parecia estupidificado. Não compreendia de imediato o que se lhe dizia e
sobressaltava-se quando Germaine lhe perguntava se precisava de alguma
coisa. A noite, ouvia-o calcorrear o quarto, vociferando imprecações
ininteligíveis. Por vezes, no jardim, quando erguia os olhos para a
janela do primeiro andar, adivinhava a sua silhueta por trás das
cortinas. O meu tio vigiava incansavelmente a rua como se esperasse que
os demónios do inferno desembocassem em sua casa.

Germaine encarregou-se dos negócios da família e ocupou--se pessoalmente


da gestão da farmácia. Entre a casa e o trabalho, não tardou a
negligenciar-me. O estado mental do marido degra-dava-se a olhos vistos,
e a sua recusa caregórica de se deixar examinar por um médico
aterrorizava-a. Por vezes, Germaine des-controlava-se e rompia em soluços
no meio do salão.

Jérôme encarregou-se de me levar à escola. Todas as manhãs, Lucette


esperava por mim à frente da nossa porta, entusiasmada, com as tranças
ornamentadas de fitas, regava-me na mão e obri-gava-me a correr para
apanhar o pai ao fundo da rua.

Pensava que o meu tio acabaria por recuperar ao cabo de umas semanas; a
sua situação piorava. Emparedava-se no quarto e recusava-se a abrir
quando lhe batiam à porta. Era como se um
JENANE JATO

97

espírito maligno oficiasse na casa. Germaine estava desesperada. Eu não


compreendia. Porque tinham prendido o meu tio? Que se passara no posto da
polícia? Porque se obstinava ele em não revelar nada sobre a estadia na
prisão, nem sequer a Germaine?... Mas o que as casas se esforçam por
calar, a rua tarde ou cedo acaba por espalhar aos quatro ventos: homem
culto, leitor assíduo e atento aos tumultos que agitavam o mundo árabe, o
meu tio era intelectualmente solidário com a causa nacional prestes a
propa-gar-se nos meios eruditos muçulmanos. Decorara os textos de Cha-kib
Arslane1 e recortava todos os artigos militantes que surgiam na imprensa;
artigos que enumerava, anotava e comentava por meio de intermináveis
dissertações. Absorvido pelo lado teórico das convulsões políticas, não
parecia medir concretamente os riscos dos seus compromissos, e do
militantismo conhecia apenas os arroubos verbais, o financiamento das
lojas clandestinas para as quais contribuía e as reuniões secretas que os
responsáveis do movimento organizavam em sua casa. Nacionalista dedicado,
mais próximo dos preceitos que da acção radical que caracterizava os
aderentes do Partido Popular Argelino, nunca se imaginara prestes a
franquear o átrio de um comissariado ou a passar a noite numa cela
nauseabunda, na companhia de ratazanas e de malfeitores. Na realidade, o
meu tio era um pacifista, um democrata abstracto, um cerebral que
acreditava nos discursos, nos manifestos, nas palavras de ordem, nutrindo
uma hostilidade visceral pela violência. Cidadão respeitador das leis,
consciente da posição social que lhe conferiam os seus diplomas
universitários e o seu estatuto de farmacêutico, estava a léguas de
esperar que a polícia o surpreendesse em casa, confortavelmente instalado
na sua poltrona, com os pés num tamborete e a cabeça em El Ouma, a
revista do seu partido.

1 Político e intelectual druso-libanês (1869-1946). Apóstolo do


nacionalismo árabe e do movimento de renovação do islão, contribuiu para
desenvolver o ideal da unidade magrebina como instrumento de luta contra
o colonialismo e como etapa para a unidade árabe. Foi representante dos
países árabes na Sociedade das Nações. (N. da T.)*"
98 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Constou que estava num estado lastimoso ainda antes de entrar no carro
celular e que confessara logo nos primeiros interrogatórios, tão
cooperante que o libertaram sem o acusarem de nada — coisa que iria negar
até ao fim da vida. Não suportando ser objecto de tal infâmia, várias
vezes perdeu a razão por causa disso.

Ao recuperar alguma lucidez, o meu tio deu conta do seu projecto a


Germaine: já não fazia sentido ficarmos em Orão; era imperioso mudarmos
de horizonte.

— A polícia quer-me virar contra os meus — confidenciou o meu tio, com a


morte na alma. — Dás-te conta? Como puderam imaginar apresentar-me como
um denunciante? Tenho ar de traidor, Germaine? Por amor de Deus, sou
capaz de entregar os meus companheiros?

Explicou-lhe que passara a ter ficha, que iriam vigiá-lo de muito perto e
que, dessa maneira, poria em perigo os seus próximos e os seus amigos.

— Ao menos tens um destino preciso? — perguntou-lhe Germaine, aflita por


ter de deixar a cidade natal.

— Instalar-nos-emos em Rio Salado.

— Porquê Rio Salado?

— É uma localidade calma. Fui lá no outro dia para estudar a


possibilidade de abrir uma farmácia. Encontrei uma, no rés-do--chão de
uma grande casa...

— Vais vender tudo, aqui, em Orão? A casa, a farmácia?...

— Não temos escolha.

— Então não teremos hipótese de regressar a este sítio onde tanto


sonhámos...

— Lamento.

— E se as coisas correrem mal em Rio Salado?

— Iremos para Tlemcen, Sidi Bei-Abbès ou para o Sara. A terra de Deus é


grande, Germaine, já te esqueceste?

Estava escrito algures que eu tinha de partir, partir sempre, e deixar


para trás uma parte de mim próprio.
JENANE JATO

99

Lucette estava à frente de sua casa, de pé, com as mãos atrás das costas
e encostada ao muro. Não quisera acreditar em mim quando lhe disse que me
ia embora. Agora que o camião estava ali, estava ressentida comigo.

Não tive coragem de atravessar a calçada para lhe dizer quanto lamentava,
eu também. Contentei-me em observar os carregadores a porem os nossos
móveis e caixotes no camião. Como se desossassem os meus deuses e anjos-
da-guarda.

Germaine empurrou-me para a cabina. O camião buzinou. Debrucei-me para


ver Lucette. Esperava que libertasse a mão, que me acenasse; Lucette não
fez nada disso. Parecia não perceber realmente que me ia embora. Ou
talvez se recusasse a admiti-lo.

O camião partiu, e o motorista ocultou a minha amiga. Torci o pescoço


quase até quebrar as vértebras para tentar levar comigo pelo menos a
ilusão de um sorriso, a prova de que ela reconhecia que a culpa não era
minha, que me sentia tão infeliz como ela. Em vão. A rua desfilou num
rugido de ferragens e depois desapareceu...

Adeus, Lucette!

Durante muito tempo, pensei que eram os seus olhos que enchiam a minha
alma de uma quietude tema. Hoje dou-me conta de que não eram os seus
olhos, mas o seu olhar — um olhar doce e bondoso, acabado de despontar
mas já maternal, e que, quando se detinha em mim... 30

Rio Salado ficava a oeste de Orão, a uma distância de cerca de sessenta


quilómetros. Nunca uma viagem me parecera tão comprida. O camião
gargarejava pela estrada como um velho camelo completamente esgotado. O
motor desorganizava-se a cada mudança de velocidade. O motorista tinha
umas calças manchadas de óleo e uma camisa que conhecera melhores dias.
De perna curta, os enormes ombros ornamentados com uma caranto-nha de
lutador convalescente, guiava em silêncio, as mãos peludas como
tarântulas agarradas ao volante. Germaine mantinha-se em silêncio, colada
à porta, sem prestar atenção aos pomares que desfilavam de um lado e de
outro da cabina. Pelos dedos discretamente cruzados no colo, compreendi
que rezava. ;
100

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Atravessámos Misserghine em dificuldade por causa das carroças que


obstruíam a calçada. Era dia de mercado, e as donas de casas afadigavam-
se em torno dos balcões onde raros beduínos, reconhecíveis pelos
turbantes, ofereciam os seus préstimos como carregadores. Um agente da
ordem pavoneava-se, rodopiando a matraca com desenvoltura. Cumprimentava
obsequiosamente as senhoras, com a pala do quépi a rasar as sobrancelhas,
e voltava--se quando elas passavam para se deleitar com o seu traseiro.

— Chamo-me Costa — disse o motorista subitamente. — Coco, para os mais


chegados.

Lançou um olhar a Germaine. Como ela sorriu delicadamente, ganhou


coragem:

— Sou grego.

De repente, pôs-se a bambolear no assento.

— Metade deste camião é meu. Não parece, não é? Mas é verdade. Dentro de
pouco tempo, serei patrão de mim próprio e não sairei mais do meu
escritório... Os dois tipos que vão lá atrás são italianos.
Descarregariam um navio em menos de um dia. Trabalham em mudanças desde
que estavam na barriga da mãe.

Os olhos brilharam no fundo das suas almofadas de gordura.

— Sabe que se parece com a minha prima Melina, minha senhora?... A


chegada, achei que estava com visões. E uma loucura como se parece com
ela. Os mesmos cabelos, a mesma cor de olhos, o mesmo corpo. Por acaso,
não é de origem grega, minha senhora?

— Não, senhor.

— É de onde, então?

— De Orão. Quarta geração.

— Uau! Talvez o seu antepassado tenha guerreado com o santo patrono dos
Árabes... Quanto a mim, só estou na Argélia há quinze anos. Era
marinheiro. Fizemos escala aqui. Num fondouk{,

1 Albergue, regra geral com três ou quatro andares, cada um com uma
galeria sustentada por pilares em madeira que dá acesso às inúmeras
divisões do edifício. O rés-do-chão costumava abrigar tradicionalmente os
animais e as mercadorias dos comerciantes. (N. da T.)
JENANEJATO 101

encontrei Berte. Disse logo para comigo «ponto final». Casei com Berte e
instalámo-nos em Scalera... Orão é uma cidade muito linda.

— Sim — disse Germaine, tristemente, — é lindíssima.

O motorista guinou para evitar uma parelha de burros plantada no meio da


via. Os móveis chocalharam violentamente nas traseiras, e os dois
carregadores praguejaram num calão elástico.

O motorista endireitou o camião e acelerou, fazendo estalar a tubagem por


baixo da capota.

— Mais valia que prestasses atenção à estrada em vez de dares à língua,


Coco — gritaram-lhe das traseiras.

O motorista acenou com a cabeça e calou-se.

Os pomares voltaram a desfilar. Os laranjais e as vinhas aco-tovelavam-se


para conquistar colinas e planícies. Soberbas quintas emergiam aqui e
ali, geralmente num promontório para dominar o bled, enquadradas de
árvores majestosas e jardins. Os caminhos que levavam às quintas eram
bordejados a intervalos regulares por oliveiras ou palmeiras altas. Por
momentos, via-se um colono a subir os campos a pé ou num cavalo a galopar
junto à terra, rumo a sabia-se lá que felicidade. Depois, sem aviso, como
que para indispor as magias ao redor, surgiam casebres por entre as
colinas, incrivelmente sórdidos, esmagados sob o peso da miséria e dos
sortilégios. Alguns barricavam-se por trás de muralhas de cactos, por
pudor — mal se lhes distinguia as coberturas prestes a abaterem sobre o
seu mundo; outros agarravam-se aos lados dos rochedos, a porta tão
horrível como uma boca desdentada, com barro amassado nas paredes como
uma máscara mortuária.

O motorista voltou-se de novo para Germaine e disse:

— É uma loucura como se parece com a minha prima Melina, minha senhora.
6 ^ ''

II. Rio Salado


8.

Gostei muito de Rio Salado — Fulmen Salsum para os Romanos, El-Maleh nos
dias de hoje. Aliás, não deixei de gostar, incapaz de me imaginar a
envelhecer sob outro céu que não o seu ou a morrer longe dos seus
fantasmas. Era uma soberba aldeia colonial com ruas verdejantes e casas
opulentas. A praça, onde se organizavam os bailes e desfilavam os grupos
musicais mais prestigiados, desenrolava o seu tapete de lajes a dois
passos do átrio dos paços do concelho, enquadrado de palmeiras arrogantes
ligadas umas às outras por grinaldas com luzes. Exibiram-se nessa praça
Aimé Barelli, Xavier Cugat com o seu famoso chihuahua escondido no bolso,
Jacques Hélian, Pérez Prado, nomes e orquestras lendárias que Orão, com a
sua afectação e o seu estatuto de capital do Oeste, não podia oferecer a
si própria. Rio Salado adorava dar nas vistas, vingar-se dos prognósticos
que a tinham apresentado como perdedora em toda a linha. Os solares, que
arvorava com uma insolência diligente ao longo da avenida principal,
constituíam a sua maneira de dizer aos viajantes que passavam por lá que
a ostentação é uma virtude quando consiste em condenar o pião a sentenças
arbitrárias, a recensear os caminhos da cruz que foi necessário desbravar
para atingir a lua. Havia sido um território acidentado, entregue a
lagartos e calhaus, onde raros pastores se aventuravam uma vez por acaso
para não mais voltar; um território de silvas e de ribeiros secos, onde
hienas e javalis reinavam como senhores absolutos — em resumo, uma terra
renegada
106

O QUE O DIA DEVE À NOITE

pelos homens e os anjos que os peregrinos atravessavam rapidamente como


se se tratasse de um cemitério maldito... Depois, os rejeitados e os
trabalhadores nómadas em fim de viagem, na sua maioria espanhóis,
lançaram os olhos para esse recanto nojento que se assemelhava à sua
miséria. Arregaçaram as mangas e decidiram domar as planícies bravias, só
arrancando um lentisco para o substituir por uma cepa, só limpando um
terreno para nele traçar os contornos de uma quinta. E Rio Salado nasceu
dessas apostas fabulosas tal como nos ossários brotam rebentos.

Sentado no chão no meio das vinhas e das caves vitícolas — havia uma
centena —, Rio deixava-se saborear ao jeito dos seus crus, aguardando,
entre duas vindimas, a embriaguez dos amanhãs que cantam. Apesar de um
mês de Janeiro mais para o frio, com um céu açoitado pela neve, emanava
dos seus recônditos uma perpétuo aroma estival. As pessoas trabalhavam
tranquilamente, num passo vigoroso, quando não se juntavam nas barracas,
ao pôr-do--sol, em torno de um copo ou de uma notícia; era possível ouvi-
las rir ou indignar-se a léguas de distância.

— Vais gostar deste lugar — prometeu-me o meu tio ao re-ceber-nos, a


Germaine e a mim, na entrada da nossa nova casa.

Os habitantes de Rio Salado eram, na sua maioria, espanhóis ou judeus


orgulhosos de terem construído com as próprias mãos cada edifício e de
terem arrancado a uma terra crivada de tocas uvas capazes de embriagar os
deuses do Olimpo. Eram pessoas agradáveis, espontâneas e íntegras;
adoravam interpelar-se à distância, com as mãos em funil à roda da boca.
Tinham o ar de se conhecer tão bem que pareciam oriundas da mesma
fundição. Não tinha nada a ver com Orão, onde se passava de um bairro
para outro com a sensação de mudar de época, de planeta. Rio Salado
rescendia a convívio, festivo até mesmo por trás dos vitrais da sua
igreja, à direita dos paços do concelho, um pouco afastada para não
indispor os foliões.

O meu tio tivera razão. Rio Salado era um bom sítio para começar uma vida
nova. A nossa casa erguia-se no lado leste da aldeia, com um jardim
magnífico e uma varanda que dava para um oceano de vinhas. Era uma grande
casa, vasta e arejada, com
RÍO SALADO 107

um rés-do-chão de tecto alto, recuperado para farmácia, que prolongava


umas traseiras misteriosas recheadas de prateleiras e de compartimentos
secretos. Uma escada em caracol levava ao primeiro andar e desembocava
num imenso salão em torno do qual se articulavam três grandes quartos e
uma casa de banho revestida de cerâmica, cuja banheira em ferro fundido
assentava sobre patas de leão em bronze. Senti-me no meu elemento no
instante em que, debruçado sobre a balaustrada inundada de sol, o meu
olhar foi captado, quase irremediavelmente, pelo voo de uma perdiz.

Fiquei extasiado. Nascido no meio dos campos, reencontrava um antigo


ponto de referência, o cheiro da terra lavrada e o silêncio das colinas.
Renascia na minha pele de camponês, satisfeito por verificar que os meus
hábitos de citadino não haviam desnaturado a minha alma. Se a cidade era
uma ilusão, o campo seria uma emoção cada vez maior; cada dia que nasce
recorda a alvorada da humanidade, cada noite surge como uma paz
definitiva. Gostei imediatamente de Rio. Era um sítio abençoado. Dir-se-
ia que os deuses e os titãs haviam encontrado sossego nesses lugares.
Tudo parecia sereno, liberto de velhos demónios. E de noite, quando os
chacais vinham perturbar o sono dos homens, dava vontade de os seguir até
às profundezas das florestas. Acontecia-me ir para a varanda, tentar
entrever as suas silhuetas furtivas entre a folhagem frisada dos
vinhedos. Esquecia-me da passagem das horas, prestando atenção aos
mínimos sussurros e contemplando a lua, aflorando-a com as minhas
pestanas...

... E depois houve Émilie.

A primeira vez que a vi, estava sentada no portão da nossa farmácia, a


cabeça oculta pelo capuz do casaco, os dedos a triturarem os atacadores
das botinas. Era uma linda menina com olhos assustados, negros como
carvão. Tê-la-ia confundido com um anjo caído do céu se o seu rosto, de
uma palidez de mármore, não tivesse a marca de uma doença maligna.

— Bom dia — disse. — Em que posso ajudar-te?

— Estou à espera do meu pai — respondeu, encolhendo-se para me deixar


passar.

— Podes esperar por ele lá dentro. Está um gelo na rua.


108

O QUE O DIA DEVE A NOITE

Ela disse que não com a cabeça.

Uns dias mais tarde, regressou, escoltada por um colosso talhado num
menhir. Era o pai. Confiou-a a Germaine e esperou diante do balcão,
dentro da farmácia, tão direito e impenetrável como uma baliza. Germaine
levou a menina para as traseiras e de-volveu-a ao pai uns minutos depois.
O homem pousou uma nota no balcão, pegou na mão da filha e saíram ambos
para a rua.

— O que é que lhe fizeste? — perguntei a Germaine.

— Dei-lhe uma injecção... como faço todas as quartas-feiras.

— É grave a doença dela?

— Só Deus sabe.

Na quarta-feira seguinte, despachei-me de propósito à saída da escola


para voltar a vê-la. E lá estava ela, na farmácia, sentada no banco
diante do balcão coberto de frasquinhos e caixas. Folheava distraidamente
um livro encadernado.

— Que é que estás a ler?

— Um livro ilustrado sobre Guadalupe.

— O que é isso?

— Uma grande ilha francesa nas Caraíbas. Aproximei-me dela, na ponta dos
pés para não a incomodar.

Parecia tão frágil e vulnerável.

— Chamo-me Younes.

— E eu Emilie.

— Faço treze anos dentro de três semanas.

— Fiz nove anos em Novembro passado.

— Passas muito mal?

— Nem por isso, mas incomoda.

— Que é que tens?

— Não sei. No hospital, não compreendem. Os medicamentos que me


receitaram não servem de nada.

Germaine veio buscá-la para a injecção. Émilie deixou o livro no banco.


Havia uma jarra de flores na cómoda ao lado; tirei uma rosa e coloquei-a
dentro do livro antes de subir para o meu quarto.
Quando voltei, Emilie tinha-se ido embora.

Na quarta-feira seguinte, não veio para a injecção. E nas seguintes


também não.
RIO SALADO

109

— Certamente que ficou hospitalizada — supôs Germaine.

Ao cabo de algumas semanas, como Émilie não deu mais sinal de vida, perdi
a esperança de voltar a vê-la.

A seguir, conheci Isabelle, a sobrinha de Pépé Rucillio, a maior fortuna


de Rio. Isabelle era um belo pedaço de rapariga com grandes olhos cor de
pervinca e cabelos compridos lisos que lhe chegavam à cintura. Mas, meu
Deus, como era sofisticada. Olhava o mundo de alto. Contudo, quando
pousava os olhos em mim, tor-nava-se muito pequena, e desgraçada da
imprudente que se atrevesse a aproximar-se demasiado de mim. Isabelle
queria-me só para ela. Os pais, temíveis negociantes de vinho,
trabalhavam para Pépé, que era uma espécie de patriarca deles. Habitavam
numa enorme vivenda perto do cemitério israelita, numa rua com fachadas
cascateando de buganvílias.

Isabelle não herdara grande coisa da mãe, uma francesa complicada —


constava que descendia de uma família sem dinheiro e que não perdia
nenhuma oportunidade de recordar aos seus detractores que tinha sangue
azul nas veias —, excepto, talvez, um gosto pronunciado pela ordem e a
disciplina; em contrapartida, era a cara do pai cuspida e escarrada — um
catalão de pele bronzeada, quase moreno. Como ele, Isabelle tinha maçãs-
do-rosto salientes, uma boca incisiva e um olhar penetrante. Aos treze
anos, com o nariz empinado e o gesto soberano, sabia exactamente o que
queria e como obtê-lo, vigiando com tanto rigor as suas relações como a
imagem que queria dar de si própria. Confidenciou--me que tinha sido
castelã numa vida anterior.

Reparara em mim na praça, num dia santo. Aproximara-se de mim e


perguntara: «Você é que é o Jonas?» Tratava toda a gente, grande e
pequena, por você, e fazia questão que a tratassem da mesma maneira...
Sem esperar pela resposta, acrescentara num tom firme: «Faço anos na
quinta-feira. Convido-o para aparecer em minha casa.» Era difícil saber
se se tratava de um pedido ou de uma ordem. Na quinta-feira, num pátio
efervescente de primos e primas, quando me sentia um pouco perdido na
confusão, Isabelle pegara-me pelo cotovelo e apresentara-me à família: «É
o meu colega preferido!»
110

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Devo-lhe o meu primeiro beijo. Estávamos no salão, em casa dela, ao fundo


de uma alcova encaixada entre duas portas envidraçadas. Isabelle tocava
piano, com as costas hirtas e o queixo erguido. Sentado ao seu lado no
banco, observava-lhe os dedos afuselados que corriam como fogos-fátuos
pelo teclado. Era muito talentosa. De repente parara e, com imensa
delicadeza, pousara a tampa no teclado. Após uma curta tergiversação, ou
uma curta meditação, vi-rara-se para mim, segurara-me o rosto entre as
mãos e pousara os lábios nos meus, fechando os olhos com um ar inspirado.

O beijo parecera-me interminável.

Isabelle reabrira os olhos antes de se afastar.

— Sentiu qualquer coisa, senhor Jonas?

— Não — respondi.

— Nem eu. É curioso que no cinema me tenha parecido grandioso... Suponho


que temos de esperar pela idade adulta para sentir realmente as coisas.

Mergulhando o olhar no meu, decretara:

— Não importa! Esperaremos o tempo que for necessário. Isabelle tinha a


paciência daqueles que estão convencidos de que

o dia seguinte é deles. Dizia que eu era o rapaz mais bonito do mundo,
que tinha sido, de certeza, um príncipe encantado noutra vida e que, se
me tinha escolhido para noivo, era porque eu valia o investimento.

Nunca mais nos tínhamos beijado, mas encontrávamo-nos quase todos os dias
para arquitectar, ao abrigo do mau-olhado, projectos faraónicos.

E de repente, sem aviso, o nosso namorico acabou como que sob o efeito de
um sortilégio. Era domingo de manhã e eu aborre-cia-me em casa. O meu
tio, que recomeçara a fechar-se no quarto, não se ouvia, e Germaine tinha
ido à igreja. Eu não parava de andar às voltas, saltando sem entusiasmo
de um jogo solitário para um livro. Estava bom tempo. A Primavera
anunciava-se lustral. As andorinhas haviam-se adiantado, e Rio, célebre
pelas suas flores, cheirava a jasmim em toda a parte.

Saí para deambular pela rua, com as mãos atrás das costas e a cabeça
noutro lugar. Sem me dar conta, dei comigo em frente da casa dos
Rucillio. Chamei Isabelle pela janela. Isabelle não desceu
RIO SALA DO

111

para me abrir a porta como era costume. Depois de me ter observado


durante muito tempo através das persianas, abriu as portadas com um gesto
enfurecido e gritou:

— Mentiroso!

Compreendi, pela secura do tom e pela incandescência do olhar, que me


queria ver morto. Isabelle usava sempre esse tom e esse olhar quando se
preparava para manifestar inimizade.

Ignorando o que me censurava e não esperando ser recebido desse modo,


fiquei sem voz.

— Não quero voltar a ver-te — disse ela, sentenciosamente. Era a primeira


vez que a ouvia tratar alguém por tu.

— Porquê?... — gritou, horrorizada com a minha perplexidade. — Porque me


mentiste?

— Nunca lhe menti.

— Ah não?... O teu nome é Younes, não é? You-nes?... Então porque te


chamam Jonas?

— Todos me chamam Jonas... Isso muda alguma coisa?

— Tudo! — berrou, prestes a sufocar.

O rosto congestionado tremia de despeito:

— Muda tudo!...

Depois de recuperar o fôlego, disse-me, terminantemente:

— Não pertencemos ao mesmo mundo, senhor Younes. E o azul dos teus olhos
não basta.

Antes de me bater com as portadas da janela no nariz, emitiu um soluço de


desprezo e acrescentou:

— Sou uma Rucillio, já te esqueceste?... Imaginas-me casada com um


árabe?... Prefiro morrer!

Numa idade em que o despertar é tão doloroso como a primeira menstruação


numa rapariga, uma situação destas marca-nos como ferro em brasa. Estava
chocado, perturbado como se tivesse saído de um sono artificial. Nunca
mais iria captar as coisas da mesma maneira. Certos pormenores, que a
ingenuidade da infância atenua ao ponto de ocultar, reaparecem à
superfície e começam a puxar-nos para baixo, a atormentar-nos sem
tréguas, ao ponto de, mal fechamos as pálpebras, ressurgirem no nosso
espírito, tenazes e vorazes, semelhantes"a remorsos.
112 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Isabelle tirara-me de uma gaiola dourada para me lançar num poço.

Adão expulso do paraíso não se teria sentido tão desnorteado como eu, e a
sua maçã seria menos dura que o calhau que me ficou atravessado na
garganta.

A partir dessa chamada à ordem, passei a prestar mais atenção a onde


punha os pés. Notei sobretudo que nenhum haique de moura flutuava nas
ruas da nossa aldeia, que os andrajosos com turbante, que labutavam nos
pomares desde a aurora até ao cair da noite, nem sequer ousavam
aproximar-se da periferia de um Rio ciosamente colonial onde só o meu tio
— que muitos tomavam por um turco de Tlemcen — conseguira integrar-se,
sabia-se lá por que descuido.

Isabelle deitara-me ao chão.

Várias vezes os nossos caminhos se cruzaram. Passava diante de mim sem me


ver, com o nariz tão erguido como um gancho de açougue e agia como se eu
não existisse... E não se ficava por aí. Isabelle tinha o defeito de
impor aos outros os seus gostos e desgostos. Quando não acolhia alguém no
coração, exigia que o seu círculo o vomitasse. Vi então o meu terreno de
brincadeiras encolher, os meus colegas de turma evitarem-me
ostensivamente... Aliás, foi para a vingar que Jean-Christophe Lamy me
procurou sem mais nem menos no recreio da escola e me deu uma sova.

Jean-Christophe tinha mais um ano que eu. Filho de um casal de porteiros,


a sua condição social não lhe permitia pavonear-se, mas estava loucamente
apaixonado pela inexpugnável sobrinha de Pépé Rucillio. Se me deu um
grande sova foi para lhe mostrar quanto a amava e até onde era capaz de
ir por causa dela.

Horrorizado com a minha figura maltratada, o professor fez--me subir ao


estrado e ordenou-me que apontasse o «selvagem» que me pusera naquele
estado. Não obtendo qualquer denúncia, desancou-me nos dedos com a régua
e pôs-me de castigo até ao fim das aulas. Esperava arrancar-me o nome do
bruto, mantendo-me na sala depois da saída dos alunos. Após algumas
ameaças, compreendeu que eu não cederia e mandou-me embora com a promessa
de que trocaria umas palavras com os meus pais.
RIO SALADO

113

Germaine iniciou o ataque quando me viu regressar da escola com a cara


desfeita. Também ela quis saber quem me pusera naquele estado e nada
obteve de mim a não ser um mutismo resignado. Decidiu levar-me
imediatamente à escola para tirar a história a limpo. O meu tio, que
estiolava num canto do salão, dissuadiu--a: «Não vais levá-lo a parte
alguma. Já é mais que tempo de ele aprender a defender-se.» 3>- Uns dias
depois, quando passeava pelos limites das vinhas, Jean-Christophe Lamy
assim como Simon Benyamin e Fabrice Scamaroni, os seus dois inseparáveis
comparsas, atravessaram o campo para me interceptar. A sua atitude não
era agressiva, mas as-sustei-me. Nunca iam para aquele sítio, preferindo
de longe a algazarra da praça municipal e os clamores dos descampados
onde jogavam futebol. A sua presença naquelas paragens não era bom sinal.
Conhecia mal Fabrice, que andava um ano à minha frente e que costumava
ver no recreio mergulhado num livro ilustrado. Era um garoto tranquilo,
embora estivesse pronto para servir de álibi ao patife do Jean-
Christophe. Nem estava excluído que o defendesse no caso de uma luta se
complicar. Jean-Christophe não necessitava de reforços; sabia bater e
esquivar-se com destreza; como ninguém o derrubara, eu não tinha a
certeza de que o seu companheiro se abstivesse de intervir se as coisas
corressem mal para ele. Simon, por seu lado, não me inspirava qualquer
confiança. Imprevisível, podia sem aviso dar uma cabeçada a um colega só
para atalhar uma discussão enfadonha. Estava na minha turma, a fazer o
inferno na última fila e a moer o juízo aos alunos mais esforçados e bem-
com-portados demais. Era um dos poucos cábulas que protestavam quando o
professor lhe dava má nota, e nutria uma franca aversão pelas meninas,
sobretudo pelas bonitas e trabalhadoras. Tive contacto com ele logo que
cheguei à escola. Juntara os cábulas à minha volta e troçara abertamente
dos meus joelhos pelados, da minha cara de «miúda estúpida» e dos meus
sapatos novos que, em seu entender, tinham algo de batráquio. Como eu não
reagira às suas graças, chamara-me «mariquinhas» e ignorara-me.

Jean-Christophe trazia um pacote debaixo do braço. Vigiei--lhe o olhar, à


espreita de um sinal codificado destinado aos seus
114 O QUE O DIA DEVE À NOITE

companheiros. Não tinha o ar maldoso que lhe conhecia, nem essa tensão
que acentua as feições quando uma pessoa se prepara para dar uma sova a
outra.

— Não te queremos mal — garantiu de longe Fabrice.

Jean-Christophe aproximou-se de mim. Com um passo tímido. Estava confuso,


ou mesmo contrito, e os ombros pareciam esmagados por um fardo invisível.

Estendeu-me o pacote com um gesto humilde.

— Peço-te desculpa — disse.

Como eu hesitava em pegar no pacote, temendo uma brincadeira, meteu-mo


nas mãos.

— É um cavalo de madeira. Tem muito valor para mim. Ofe-reço-to. Se me


perdoas, aceita-o.

Fabrice encorajava-me com o olhar.

Quando Jean-Christophe retirou a mão e verificou que a prenda se mantinha


na minha, murmurou:

— Obrigado por não me teres denunciado. Acabávamos de selar, os quatro,


uma das mais belas amizades que me foram dadas partilhar.

Mais tarde, soube que fora Isabelle, incomodada pela infeliz iniciativa
de Jean-Christophe, que lhe exigira que se desculpasse, e em presença de
testemunhas.

v O nosso primeiro Verão em Rio Salado começou mal. No dia 3 de Julho de


1940, o país foi abalado pela operação Catapult, em que a esquadra
britânica «Force H» bombardeou os navios de guerra franceses ancorados na
base naval de Mers el-Kcbir. Três dias depois, não nos deixando sequer
tempo para avaliar a amplitude da catástrofe, os aviões de sua majestade
vieram acabar o seu trabalho de sapa.

O sobrinho de Germaine, cozinheiro no couraçado Dunker-que, figurava


entre os mil duzentos e noventa e sete marinheiros mortos nesses raides.
O meu tio, afundando-se progressivamente numa espécie de autismo crónico,
recusou-se a acompanhar-nos ao funeral, e tivemos de partir sem ele,
Germaine e eu.

Encontrámos Orão em estado de choque. A cidade inteira aco-tovela-se na


marginal, siderada pela agitação aflitiva em torno da
RIO SALADO

115

base em chamas. Alguns navios e edifícios ardiam desde o primeiro ataque;


o seu fumo negro asfixiava a cidade e cobria a montanha. As pessoas
estavam horrorizadas e ultrajadas, tanto mais que os navios alvejados
estavam a ser desarmados em virtude da convenção de armistício assinada
duas semanas antes. A guerra, que não se supusera capaz de se estender
pelo Mediterrâneo, estava agora às portas da cidade. Depois do horror e
da emoção, o delírio. As especulações desencadearam-se em todas as
direcções e deram livre curso às elucubrações mais alarmantes. As pessoas
começaram a falar em incursões alemãs, em lançamentos de pára--quedas
durante a noite no interior, em desembarques iminentes, em novos
bombardeamentos maciços que visariam desta vez a população civil e que
mergulhariam a Argélia na tormenta abissal prestes a devolver a Europa à
Idade da Pedra.

Tinha pressa de regressar a Rio.

Depois das exéquias, Germaine deu-me algum dinheiro e au-torizou-me a ir


a Jenane Jato, fazendo-me acompanhar por Ber-trand, um dos seus
sobrinhos, para que me trouxesse são e salvo da «expedição».

A primeira vista, Jenane Jato pareceu-me diferente. A extensão da cidade


empurrara em direcção ao Petit Lac os bairros de lata e os acampamentos
de nómadas. Os matagais recuaram perante a avançada do cimento armado e,
em lugar das clareiras a abarrotar de detritos e das passagens perigosas
a céu aberto, os estaleiros exibiam o seu arsenal tentacular. No local
onde fora o souk, emergiam no meio dos bosques as muralhas de uma
guarnição militar ou de uma prisão civil. Uma barafunda inextricável
cercava os postos de engajamento, alguns reduzidos a uma única mesa no
meio de uma montanha de ferro-velho... Contudo, a miséria permanecia,
inabalável; resistia a tudo, incluindo aos projectos municipais mais
entusiásticos. As mesmas silhuetas caquécticas rasavam os muros, os
mesmos andrajosos apodreciam no meio do papelão; os mais maltratados
mantinham-se em sentido diante de baiucas putrescentes a fim de molharem
o pão seco nos cheiros da comida cozinhada, com o corpo sujo de cinza, o
olhar coagulado, parecidos com múmias nos seus albornozes atados com
guitas. Viam-nos passar como se
116 O QUE O DIA DEVE À NOITE

fôssemos o tempo em pessoa, como se surgíssemos de um mundo paralelo.


Bertrand, que parecia aguerrido, apressava o passo sempre que se ouvia um
dichote ou que um olhar turvo se demorava na nossa roupa bonita. Havia
alguns rumis que se afadigavam de um lado para o outro, muçulmanos em
traje europeu, com o fez na cabeça, mas sentia-se no ar a fermentação
inexorável das tempestades adiadas. De vez em quando, deparávamo-nos com
algazarras que se prolongavam em rixas ou que se interrompiam de repente,
dando lugar a um silêncio incómodo. O mal-estar era enorme, e as
expectativas esgotavam-se. A dança tilintante dos aguadeiros, a
redemoinhar nos seus arreios multicores ornados de campainhas, não
conseguia esconjurar as influências malsãs. Havia muito sofrimento,
demasiado... T Jenane Jato ruía sob o peso dos sonhos destruídos. Garotos
entregues a si mesmos balanceavam-se à sombra dos mais velhos, bêbados de
fome e de insolação; eram dramas nascentes à solta na natureza,
repugnantes na sua imundície e agressividade, correndo descalços para se
agarrarem às traseiras das carroças, zigueza-gueando no seu caricou no
meio das carroças, hilares e inconscientes, namorando com a morte ao
sabor das acelerações. De quando em quando, agrupavam-se em torno de uma
bola de trapos ou de um jogo violento; havia nas suas brincadeiras
aterradoras ânimos exaltados, suicidários, que causavam vertigens.

— É muito diferente de Rio, não é? — perguntou Bertrand para se animar.

O seu sorriso não se aguentava; o medo escorria-lhe pelo rosto como se o


estivesse a lavar. Eu também tinha medo, mas a bola que me incendiava as
tripas desapareceu no momento em que reconheci Perna-de-Pau à porta da
sua loja. O pobre diabo emagrecera e envelhecera terrivelmente.

Olhou para mim com o mesmo franzir de sobrancelhas com que me acolhera na
última visita, simultaneamente ofuscado e maravilhado.

— Não me podes dar as coordenadas da tua boa estrela, olhos azuis? —


lançou ele, apoiando-se num cotovelo. — Se Deus existe, porque é que
nunca olha para este lado?
RÍO SALADO 117

— Não blasfemes — apostrofou o barbeiro que eu não vira, de tanto que se


confundia com os seus apetrechos improvisados. — Talvez seja por causa do
teu aspecto nojento que Ele nos vira as costas.

O barbeiro também não mudara, à excepção de uma feia cicatriz de


navalhada a atravessar-lhe o rosto.

Não me prestou atenção.

Jenane Jato movia-se, mas eu não sabia em que direcção. As barracas em


zinco que se emboscavam por trás das sebes de ju-jubeiras arborescentes
haviam desaparecido. No seu lugar, no meio de uma vasta superfície nua,
de um vermelho escuro, ti-nham-se cavado aberturas resguardadas de redes
de arame. Tra-tava-se das fundações de uma grande ponte que iria em breve
passar por cima da via-férrea. Por trás do nosso pátio, onde acabavam de
se esboroar as ruínas de um posto secular de cantoneiros, uma gigantesca
fábrica começava a erguer-se, escorada nas paliçadas da sua cerca.

Perna-de-Pau apontou com o polegar para o frasco de bombons:

— Queres um, garoto?

— Não, obrigado.

Agachado sob um bico de gás antediluviano, com um bidão de recuperação a


tiracolo, um vendedor de coscorões, fazia estalar as suas válvulas
metálicas. Ofereceu-nos os seus fritos em forma de corneta; o clarão no
seu olhar causou-nos calafrios nas costas.

Bertrand empurrou-me prudentemente para a sua frente. Nenhum rosto,


nenhuma sombra lhe pareciam dignos de confiança.

— Espero-te cá fora — disse-me, perto do pátio. — Fica o tempo que


quiseres.

Em frente do pátio, onde se erguia outrora a gaiola de Ouari, crescera


uma casa de alvenaria, e um muro de pedra, que partia do seu lado
esquerdo, subia o caminho que nos servia de ruela até ao descampado onde,
pouco tempo antes, quase fui linchado por garotos.

A recordação de Ouari atravessou-me o espírito. Voltei a vê--lo a


iniciar-me na caça aos pintassilgos e perguntei-me o que seria feito
dele.
11

118 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Badra franziu os olhos ao ver-me entrar no pátio. Estava a estender a


roupa, com a bainha do vestido presa à corda colorida que lhe servia de
cinto, as pernas nuas até às coxas. Pousou as mãos nas ancas elefantinas
e afastou as pernas como um polícia a impedir o acesso a um edifício.

— É agora que te lembras que tens família?

Estava metamorfoseada a Badra. A sua obesidade amolecera, e o rosto,


outrora voluntarioso, derretera sobre o queixo. Passara a ser um
amontoado de flacidezes, sem vigor e sem relevo.

Não percebi se estava a implicar comigo ou a repreender-me.

— A tua mãe saiu com a tua irmã — disse ela, apontando a porta fechada do
nosso reduto. — Mas não vai demorar.

Com o pé, afastou o alguidar com a barreia, para libertar um tamborete e


empurrá-lo na minha direcção.

— Senta-te, anda — disse. — Vocês, os miúdos, são todos iguais. Mamam até
não termos mais leite e, logo que se aguentam nas pernas, esgueiram-se,
deixando-nos na pior. Tal como os vossos pais, saem na ponta dos pés e
não se importam com o que nos vai acontecer.

Voltou-me as costas, ocupada a pendurar a roupa. Só lhe via os ombros


descaídos que se mexiam pesadamente. Parou para se assoar ou limpar uma
lágrima, balouçou a cabeça e pôs-se a estender a roupa numa velha corda
de cânhamo que dividia o pátio a meio.

— Ela não está bem, a tua mãe — disse-me. — Nada bem mesmo. Estou certa
de que aconteceu uma desgraça ao teu pai, mas ela recusa-se a aceitar. Há
muitos homens que abandonam a família para se estabelecerem noutro sítio
e partirem da estaca zero, é verdade, mas não é só isso. As agressões são
moeda corrente hoje em dia. Sinto que o teu pobre pai se deixou matar e
lançar para um fosso algures. O teu pai era um homem de bem. Não andaria
na companhia desses tipos. De certeza que foi morto. Como o meu pobre
marido. Morto por três soldies, três miseráveis cêntimos. Em plena rua!
Zás! De uma facada na barriga. Uma facada e acabou tudo. Tudo. Como se
pode morrer tão facilmente quando se tem uma caterva de bocas para
alimentar? Como é que
RÍO SALADO 119

uma pessoa se deixa enganar por um garoto pouco mais alto que um
espargo?...

Badra falava, falava... sem respirar. Dir-se-ia que a caixa de Pandora se


abrira subitamente dentro dela. Falava como se não houvesse mais nada que
pudesse fazer, saltando de um drama para outro, ora esboçando um gesto
desinteressado, ora calando-se bruscamente. Via-lhe os ombros vibrarem
por trás da primeira fila de roupa, as barrigas das pernas nuas por baixo
e, de vez em quando, refegos disformes da anca no intervalo das roupas
penduradas. Disse-me que a bela Hadda tinha sido expulsa do pátio pelo
intermediário Bliss, com os dois catraios nos braços e uma pequena trouxa
às costas; contou-me como, numa noite de tempestade, gravemente
maltratada pelo bêbado do marido, a infeliz Yezza se atirara ao poço para
morrer; falou-me da vidente Batoul que conseguira subtrair bastante
dinheiro aos miseráveis que a vinham consultar para se oferecer um
estabelecimento de banhos turcos e uma casa na Village Noir; contou-me da
nova inquilina vinda sabia-se lá de que inferno e que, quando todas as
portadas se fechavam, abria a porta do seu quarto a depravados; de Bliss
que, agora que já não havia mais homens no pátio, adquiria jeitos de
proxeneta.

Depois de estender a roupa, despejou na vala a água do alguidar, baixou a


saia do vestido e entrou em casa. Continuou a vociferar e a indignar-se
no seu buraco até a minha mãe chegar.

A minha mãe não se surpreendeu por me descobrir sentado no tamborete no


pátio. Se é que me reconheceu. Quando me levantei para a abraçar, recuou
ligeiramente. Foi só quando me apertei contra ela que os seus braços,
depois de flutuarem no vazio, consentiram em me abraçar.

— Porque voltaste? — perguntou ela algumas vezes.

Tirei o dinheiro que Germaine me entregara para ela e mal tive tempo de
lho estender. A mão da minha mãe baixou como um raio sobre as notas e
escondeu-as com a rapidez de um prestidigitador. Empurrou-me para o nosso
reduto e, uma vez ao abrigo de olhares, tirou-o do regaço e contou-o
várias vezes para se assegurar de que não sonhava. Eu tinha vergonha do
seu ar febril, ver-
120 O QUE O DIA DEVE À NOITE

gonha dos seus cabelos hirsutos que, de certeza, não viam pente havia
muito, vergonha do seu haique usado até ao fio que lhe pendia dos ombros
magros como uma velha cortina, vergonha da fome e das dificuldades que a
desfiguravam, ela que fora tão bela como o nascer do dia.

— É muito dinheiro — disse ela. — É o teu tio que mo manda? Temendo uma
reacção desastrada semelhante às do meu pai,

menti:

— São as minhas poupanças.

— Trabalhas?

— Sim.

— Já não andas na escola?

— Sim.

— Não quero que deixes a escola. Quero que te tornes um sábio, que vivas
tranquilo até ao fim da vida... Compreendes?... Quero que os teus filhos
não tenham de vegetar como cachorros.

Os olhos brilharam-lhe intensamente quando me agarrou nos ombros.

— Promete-me, Younes. Promete-me que terás tantos diplomas como o teu


tio, e uma verdadeira casa, e uma profissão respeitável.

Os dedos enterraram-se-me tão profundamente na carne que quase me


esmagaram os ossos.

— Prometo... Onde está a Zahra?

Recuou um passo, na defensiva, e depois, recordando-se de que eu era


apenas o seu filho e não uma vizinha invejosa e maléfica, sussurrou-me ao
ouvido:

— Está a aprender um oficio... Será costureira de calças. Ins-crevi-a


numa costureira, na cidade europeia. Quero que também ela se saia bem.

— Curou-se?

— Não estava doente. Não era louca. É só surda e muda. Mas compreende e
aprende depressa, disse-me a costureira. É uma boa mulher, a costureira.
Trabalho para ela três dias por semana. Limpo a casa. Aqui ou em casa dos
outros, é tudo a mesma coisa. E é preciso sobreviver.

— Porque não vêm viver connosco em Rio Salado?


RÍO SALADO

121

— Não — gritou, como se eu acabasse de proferir uma obscenidade. — Não


saio daqui enquanto o teu pai não voltar. Imagina que regressa e que não
nos encontra onde nos deixou. Procura-nos onde? Não temos família nem
amigos nesta maldita cidade. Além disso, onde é Rio Salado? Não passaria
pela cabeça do teu pai que tivéssemos saído de Orão... Não, fico aqui no
pátio até que ele volte.

— Pode estar morto...

A sua mão agarrou-me pela garganta e empurrou-me a cabeça contra a parede


por trás de mim.

— Louco! Como te atreves?... A vidente Batoul é categórica. Leu-o várias


vezes nas linhas da minha mão e na água. O teu pai está são e salvo. Está
a fazer fortuna e voltará para nós rico. Teremos uma bela casa, com uma
linda escadaria e um quintal, e uma garagem para o automóvel, e o teu pai
há-de vingar-nos das misérias do passado e do presente. Quem sabe? Talvez
regressemos às nossas terras para recuperar palmo a palmo todas as
alegrias que nos forçaram a hipotecar.

Falava depressa a minha mãe. Falava muito, muito depressa. Com a voz a
tremer. E com centelhas estranhas nos olhos. As mãos febris desenhavam no
ar ilusões imensas. Se tivesse sabido que estava a falar com ela pela
última vez, teria acreditado em todas as suas quimeras e teria ficado com
ela. Mas como teria podido saber?

Mais uma vez, foi ela que se apressou a mandar-me embora, a ir ter com os
meus pais adoptivos sem demora.
I

9.

CHAMAVAM-NOS OS DENTES DO GARFO. Éramos inseparáveis.

Havia o Jean-Christophe Lamy, com dezasseis anos e já um gigante. Mais


velho, era o chefe. Louro como um feixe de feno, com um sorriso de eterno
pretendente nos lábios; a maioria das raparigas de Rio Salado sonhava com
ele. Mas, desde que Isabelle Rucillio consentira em aceitá-lo
provisoriamente como «noivo», defendia-se.

Havia o Fabrice Scamaroni, mais novo que eu dois anos, um rapaz sublime,
com o coração nas mãos e a cabeça nas nuvens; ambicionava ser romancista.
A mãe, uma jovem viúva um pouco louca, possuía lojas em Rio e em Orão.
Vivia como lhe dava na gana e era a única mulher da região a guiar um
carro. As más-lín-guas salivavam a seu propósito até à desidratação; a
Sra. Scamaroni não se preocupava. Era bela, rica, independente. Que mais
poderia querer?... No Verão, metia-nos aos quatro no banco de trás do seu
robusto automóvel de tracção à frente e seis cilindros de quinze cavalos
e levava-nos à praia de Terga. Depois do banho, improvisava um churrasco
e enchia-nos de azeitonas pretas, espetadas de cordeiro e sardinhas
assadas na brasa.

E depois havia o Simon Benyamin, judeu autóctone, com quinze anos como
eu; de perna curta, com barriga, para o gordo e retorcido até mais não.
Era jovial, um pouco desiludido devido aos seus reveses afectivos, mas
sedutor quando queria dar-se a
RÍO SALADO 123

esse trabalho. Sonhava com uma carreira no teatro ou no cinema. Em Rio, a


família não estava bem cotada. O pai era um azarado; todos os negócios
que montava davam para o torto, a ponto de dever dinheiro a toda a gente,
até aos trabalhadores sazonais.

Simon e eu estávamos juntos sempre que podíamos. Morávamos à distância de


uma pedrada, e Simon vinha buscar-me todos os dias antes de nos
encontrarmos com Jean-Christophe, na colina. A colina era a nossa
guarnição. Gostávamos de nos encontrar debaixo da oliveira centenária que
se pavoneava no seu topo e ver Rio a cintilar de calor aos nossos pés.
Fabrice era o último a chegar, com uma cesta repleta de sandes de paio
kosher, de pimentos marinados e de fruta da época. Ficávamos lá até
tarde, a arquitectar projectos improváveis e a ouvir Jean-Christophe que
nos contava, em pormenor, as desgraças a que Isabelle Rucillio o
sujeitava. Quanto a Fabrice, embriagava-nos com os seus poemas e a sua
prosa disentérica, alinhando vocábulos que só ele sabia desencantar no
dicionário.

Por vezes, conforme os humores, tolerávamos a intrusão de outros colegas,


nomeadamente dos primos Sosa: José, o parente pobre do clã, que
partilhava um quarto de criada com a mãe e que comia gaspacho de manhã e
de noite; e André, vulgo Dédé, digno filho do pai, o inflexível Jaime
Jiménez Sosa, proprietário de uma das mais importantes quintas do país.
André era uma espécie de tirano ordinário, rigorosíssimo com os
empregados, mas encantador para os amigos. Menino mimado, dizia muitas
vezes enormidades cujo alcance não media. Nunca consegui detestá-lo,
apesar das suas afirmações chocantes contra os Árabes. Comigo, era mais
cortês. Convidava-me para ir a sua casa com a mesma frequência com que
convidava os meus amigos, sem distinção de espécie alguma, excepto o
facto de que não se coibia de maltratar os muçulmanos na minha presença
como se se tratasse de práticas naturais. O pai punha e dispunha no seu
feudo onde instalava como animais as inúmeras famílias muçulmanas que
trabalhavam para ele. Com o capacete colonial atarraxado à cabeça, o
pingalim encostado às botas de montar, Jaime Jiménez Sosa, o quarto com o
mesmo nome, era o primeiro a levantar-se e o último a deitar-se,
124 O QUE O DIA DEVE À NOITE

fazendo com que os seus «forçados» trabalhassem até caírem para o lado, e
desgraçados dos simuladores! Tinha pelas suas vinhas uma veneração
absoluta e considerava como uma profanação qualquer intrusão não
autorizada nos seus campos. Contava-se que abateu uma cabra que ousara
tasquinhar nos bacelos e que disparara sobre a pastora aturdida que
tentara recuperá-la.

Era uma época estranha.

Do meu lado, o destino seguia o seu curso. Fazia-me homem: crescera cerca
de trinta centímetros e, quando lambia os lábios, começava a sentir o
buço na língua.

O Verão de 1942 apanhou-nos na praia, a bronzearmo-nos ao sol. O mar


estava magnífico e o horizonte tão claro que se podia ver as ilhas
Habibas. Fabrice e eu preguiçávamos por baixo do guarda--sol ao passo que
Simon, satisfeito com os seus calções grotescos, dava espectáculo dando
mergulhos loucos na água. Esperava assim dar nas vistas de uma rapariga,
mas os seus gritos de apache assustavam os catraios e irritavam as
senhoras de idade afundadas em espreguiçadeiras. Jean-Christophe, por seu
lado, exibia-se calcorreando a praia, com o ventre encolhido sob os
peitorais e as mãos nas ancas para sublinhar o V do seu dorso. Perto de
nós, os primos Sosa haviam erguido uma tenda. André adorava exibir-se.
Quando os outros traziam cadeiras desdobráveis, ele trazia uma tenda de
campismo; se montavam tendas na areia, ele instalava um caravansará. Com
dezoito anos, dispunha de dois automóveis, um deles um descapotável com o
qual se pavoneava em Orão quando não atravessava Rio num ronco
ensurdecedor, precisamente à hora da sesta. Nesse dia, não descobrira
nada melhor para fazer do que maltratar Jelloul, o seu criado para todo o
serviço. Acabava de o mandar três vezes à aldeia sob um sol de chumbo. A
primeira, para lhe comprar cigarros; a segunda, fósforos; a terceira
porque o senhor pedira Bastos e não cigarros de carpinteiro. Até à aldeia
era uma estirada. O pobre Jelloul derretia como um pedaço de gelo.

Fabrice e eu seguíamos a manobra desde o início. André adivinhava que a


sua maneira de tratar o criado nos humilhava e sentia um prazer danado em
nos enfurecer. Mal Jelloul regressou, mandou-o à aldeia pela quarta vez
para lhe comprar um abre-latas.
RIO SALADO

125

O criado, um adolescente magricela, girou estoicamente nos calcanhares e


subiu o talude incandescente a essa hora da tarde.

— Poupa-o um pouco, Dédé — protestou o primo José.

— É a única maneira de o manter acordado — respondeu André, cruzando as


mãos por trás da nuca. — É deixá-lo à solta que, no momento seguinte,
está a roncar.

— Estão 37° no mínimo — argumentou Fabrice. — O pobre diabo é de carne e


osso como tu e eu. Vai apanhar uma insolação.

José levantou-se e apressou-se a chamar Jelloul. André agar-rou-o pelo


punho e obrigou-o a sentar-se.

— Deixa-te disso, José. Não tens criados e não sabes o que é... Os Árabes
são como os polvos; temos de lhes bater para os tornar tenros.

Dando-se conta de que eu era um deles, rectificou: ; /

— Enfim... alguns árabes.

E, tomando consciência da intolerável abjecção das suas palavras, deu um


salto e correu em direcção ao mar.

Vimo-lo nadar, levantando enormes jorros de água na sua esteira.


Instalara-se o mal-estar na tenda. José tinha dificuldade em conter a
indignação; mexia furiosamente os maxilares. Fabrice fechou o livro que
estava a ler e encarou-me severamente.

— Devias ter-lhe calado o bico, Jonas.

— A que propósito? — disse eu, desanimado. r

— Dos Árabes. Achei inadmissível o que ele disse e esperava que o


metesses no seu lugar.

— Já lá está, Fabrice. Eu é que ignoro qual é o meu.

Com essa resposta, peguei na toalha e dirigi-me à estrada, com o polegar


virado para Rio. Fabrice juntou-se a mim. Tentou dissuadir-me de
regressar tão cedo. Eu estava desalentado, e a praia parecia-me, de
repente, tão pouco hospitaleira como uma ilha deserta... Foi então que um
avião quadrimotor perturbou a tranquilidade dos banhistas ao passar rente
à colina. Uma faixa de fumo escava-se do seu flanco.

— Está a arder — gritou José, aterrado. — Vai despenhar-se... O avião em


dificuldades desapareceu por trás das cristas. Na

praia, estavam todos de pé, Com uma mão a formar pala. Espe-
126

O QUE O DIA DEVE À NOITE

rava-se uma deflagração, ou uma nuvem de fogo a indicar o local do


embate... Nada. O avião continuou a sua deriva no meio da desorganização
dos motores, mas não se despenhou, para grande alívio de todos.

Seria um mau presságio?

Uns meses mais tarde, a 7 de Novembro, enquanto a noite se instalava na


praia deserta, sombras monstruosas emergiram no horizonte... Começara o
desembarque nas costas de Orão.

— Três tiros disparados — vociferava Pépé Rucillio, de pé na praça


municipal, ele que, habitualmente, não se exibia em público. — Que é do
nosso valoroso exército?

Em Rio Salado, a notícia do desembarque fora recebida como se se tratasse


de granizo no bacelo. Todos os homens da aldeia se encontraram no átrio
dos paços do concelho. A incredulidade e a cólera liam-se nos rostos. Os
mais desorientados chegaram a sentar-se no passeio e batiam nas mãos em
sinal de desespero. O presidente da câmara regressara de urgência ao
gabinete e, no dizer dos colaboradores próximos, estava em contacto
telefónico permanente com as autoridades militares da guarnição de Orão.

— Os Americanos troçaram de nós — fulminava a maior fortuna da região. —


Enquanto os nossos soldados esperavam nos bunkers, os navios inimigos
contornaram as nossas linhas de defesa pela montanha dos Leões e
acostaram nas praias de Arzew sem dificuldades. Depois, abriram caminho
até Tlélat sem encontrar vivalma antes de se lançarem sobre Orão peia
rct£i guarda... Os Americanos desfilavam no boulevard Mascara ainda os
nossos os esperavam nas falésias. E atenção, nem uma escaramuça nem nada
que se parecesse! O inimigo entrou em Orão com toda a facilidade... E
agora que nos vai acontecer?

Durante todo o dia, notícias e comentários surgiram e desfí-zeram-se em


fumo a um ritmo demencial. A noite caiu sem que ninguém se apercebesse, e
muitos só voltaram para casa ao nascer do dia, desnorteados — havia quem
jurasse ter ouvido tanques a rugir no meio dos vinhedos.
RIO SALADO

127

— Que te deu para ficares na rua até tão tarde? — repreen-deu-me Germaine
quando me abriu a porta. — Estava morta de inquietação. Por onde
andaste?... O país está a ferro e fogo, e tu de-moras-te na rua.

O meu tio saíra do quarto. Estivera enterrado numa poltrona, no salão, e


não sabia o que fazer.

— É verdade que os Alemães desembarcaram? — perguntou--me ele.

— Os Alemães não, os Americanos...

Franziu o sobrolho: ^
»;

— Porquê os Americanos? Que querem eles de nós? Retesou-se, torceu o


nariz num desdém incomensurável e vociferou:

— Vou para o quarto. Quando chegarem, diz-lhes que não os quero ver e que
podem incendiar a casa.

Ninguém veio incendiar-nos a casa, e nenhum raide aéreo perturbou a


quietude dos campos. Uma única vez, dois motociclistas, que se haviam
enganado na estrada, foram vistos para os lados de Bouhdjar, uma aldeia
vizinha. Depois de terem andado às voltas, voltaram para trás. Houve quem
falasse de soldados alemães e também de uma patrulha americana; como
nenhum dos especuladores vira de perto os dois exércitos inimigos, pôs-se
cobro ao mal-entendido e regressou-se às tarefas diárias.

André Sosa foi o primeiro a deslocar-se a Orão.

Regressou completamente transtornado.

— Os Americanos compram tudo — declarou. — Com ou sem guerra, comportam-


se como turistas. Estão em toda a parte, nos bares, nos bordéis, nos
bairros judeus e até na Village Noir apesar das proibições dos seus
superiores. Tudo lhes interessa — tapetes, esteiras, chéchias,
albornozes, pintura em tecido —, e não discutem o preço. Vi um a largar
um maço de notas para livrar um velho soldado de uma baioneta enferrujada
da Primeira Guerra Mundial.

A laia de argumento, tirou uma nota do bolso de trás das calças e pousou-
a na mesa.

— Mirem só como tratam o seu dinheiro. É uma nota de cem dólares. Alguma
vez viram uma nota francesa tão rabiscada? São
128

O QUE O DIA DEVE À NOITE

assinaturas. É idiota, mas é o jogo preferido dos ianques. Cha-mam-lhe


Short Snorter. Podes juntar notas em diferentes divisas. Há quem tenha
rolos de notas deste tipo. Não para enriquecer. Só para coleccionar...
Vêem estes dois autógrafos? São do Bucha e Estica. Garanto-vos que são. E
este é do Errol Flynn, o nosso Zorro mundial... Joe trocou-a por um
caixote das nossas garrafas de vinho.

Pegou na nota, meteu-a no bolso e, esfregando as mãos, prometeu voltar a


Orão antes do fim-de-semana para tratar de negócios com os GI.

Quando a desconfiança diminuiu e as pessoas compreenderam que os


Americanos não estavam ali como conquistadores, mas como salvadores,
houve gente de Rio que se deslocou a Orão para ver o que se passava.
Pouco a pouco, os últimos focos de tensão abrandaram e passou a haver
menos vigílias em torno das quintas e das casas.

André andava excitadíssimo. Todos os dias pegava no carro e rumava para


novas negociatas de troca. Depois de dar a volta pelas messes, regressava
com o seu saque para nos encher os olhos. Tínhamos de ir a Orão para
verificar com os nossos próprios olhos as histórias que circulavam a
propósito desses famosos ianques. Jean-Christophe pressionou Fabrice, e
Fabrice pressionou a sua mãe no sentido de nos levar a Orão. A Sra.
Scamaroni resistiu mas acabou por ceder.

Partimos de madrugada. O sol mal começava a despontar quando chegámos a


Misserghine. Na estrada, sulcada por jipes nervosos, magalas descompostos
lavavam-se nos campos, nus da cintura para cima e a cantar em voz alta;
havia camiões avariados nas bermas, de capota aberta, cercados de
mecânicos indolentes; nas portas da cidade, havia colunas de veículos à
espera. Orão mudara. A febre soldadesca que se apoderara dos seus bairros
dava--lhe um ar de feira popular. André nao estava a exagerar; havia
americanos em toda a parte, tanto nas avenidas como nos estaleiros de
obras, passeando os seus blindados meia-lagarta no meio dos dromedários e
carroças de duas rodas, instalando as suas unidades nas proximidades dos
douars nómadas, saturando a atmos-
RÍO SALADO 129

fera de poeira e de vozearia. Os oficiais, descontraídos nos seus jipes


minúsculos, abriam passagem por entre a multidão à buzi-nadela. Outros,
vestidos como deuses, descansavam nas esplanadas em galante companhia
enquanto um fonógrafo difundia canções de Dina Shore. Orão acertara o
relógio pelos Americanos. O Tio Sam não desembarcara apenas as suas
tropas, trouxera também a sua cultura: latas de rações acompanhadas de
leite condensado, chocolate, carne enlatada; pastilha elástica, Coca-
Cola, rebuçados Kindy, queijo vermelho, tabaco louro, pão de forma. Os
bares iniciavam-se na música ianque, e os yaouled, pequenos en-graxadores
reconvertidos em ardinas, corriam de uma praça pública para uma paragem
de eléctrico gritando Stars and Stripes numa língua indecifrável. Nos
passeios, agitadas pelo vento, farfalhavam revistas e semanários como a
Esquire, o New Yorker e a Life. Os amantes dos filmes de Hollywood já
começavam a iden-tificar-se com actores fetiches, adoptando-lhes o andar
e torcendo a boca de lado; e os comerciantes começavam a mentir
desavergonhadamente sobre os preços em inglês...

De repente, Rio Salado afigurou-se-nos desinteressante. Orão acabava de


se apoderar da nossa alma. A sua algazarra vibrava-nos nas veias, o seu
descaramento revigorava-nos. Parecíamos bêbados, literalmente embalados
pela vitalidade das avenidas com lojas refulgentes e bares a formigarem
de pessoas. As carruagens, carros, eléctricos que caracoleavam em todos
os sentidos faziam-nos vertigens, e as raparigas que deixavam um rasto
enfeitiçante, desenvoltas sem ser frívolas, adejavam à nossa volta,
semelhantes a huris.

Regressar a Rio nessa noite estava fora de questão. A Sra. Scamaroni


voltaria sozinha. Emprestou-nos uma divisão por cima de uma das suas
lojas, no boulevard des Chasseurs, e fez-nos prometer que não faríamos
asneiras na sua ausência. Mal o carro desapareceu no canto da rua,
tomámos a cidade de assalto. Apode-rámo-nos da place d' Armes, com o seu
teatro em estilo rococó e os seus paços do concelho ladeados por dois
leões em bronze hieráticos e colossais, àopromenade de 1'Étang, da place
de la Bastille, da passage Clauzel onde se encontravam os namoricos
recentes, dos quiosques de gelados onde se serviam as limonadas mais
130

O QUE O DIA DEVE À NOITE

refrescantes do mundo; dos cinemas luxuosos e dos Grands Ma-gasins


Darmon... Nada faltava a Orão, nem encantos nem audácia. Brilhava como
fogo-de-artifício, transformando em clamor uma piada e em regozijo uma
boa piela. Generosa e espontânea, nem lhe passava pela cabeça desencantar
uma alegria sem a partilhar. Orão detestava o que não a divertia. Uma
cara desfeita ofenderia o seu orgulho, as pessoas enfadonhas anuviar-lhe-
iam o humor; não suportava que uma nuvem ocultasse a sua bonomia. Queria
ser encontro feliz em cada esquina, e quermesse nas esplanadas, e onde
chegava a sua voz florescia o hino à vida. Fazia da jovialidade um estado
de espírito, uma regra fundamental, a condição sem a qual tudo no mundo
seria um desperdício. Bela, atraente, consciente do fascínio que exercia
nos estrangeiros, aburguesava--se às escondidas, sem artifícios nem
fanfarras, convicta de que nenhuma borrasca — nem mesmo a guerra prestes
a salpicá-la — conseguiria impedi-la de desabrochar. Nascida de uma
necessidade de seduzir, Orão era, em primeiro lugar, le chique, a ilusão.
Chamavam-lhe a Cidade Americana, e todas as fantasias do mundo convinham
aos seus estados de alma. De pé na sua falésia, olhava o mar, falsamente
lânguida, fazendo lembrar uma bela cativa aguardando, do alto da sua
torre, o seu príncipe encantado. Contudo, Orão não confiava demasiado nem
no mar alto nem no príncipe encantado. Observava o mar apenas para o
manter à distância. A felicidade residia nela, e tudo lhe saía bem.
Tínhamo-nos deixado seduzir.

;. — Eh! pacóvios — gritou André Sosa.

Estava sentado na esplanada de uma loja de gelados, em companhia de um


soldado americano. Percebemos, pelos seus gestos, que queria deixar-nos
atónitos. Estava todo elegante, com os cabelos penteados para trás e
colados nas têmporas sob uma espessa camada de brilhantina, os sapatos
acabados de engraxar e óculos escuros que lhe tapavam metade da cara.

— Juntem-se a nós — convidou, levantando-se para ir buscar mais cadeiras.


— Fazem o melhor chocolate duplo com malte, aqui, e os melhores caracóis
com molho picante.
RÍO SALADO

131

O soldado mexeu-se para nos dar lugar e mediu-nos com um olhar confiante.

— É o meu amigo Joe — disse André, encantado por nos apresentar o seu
ianque que devia exibir por toda a parte como uma peça de museu. — O
nosso primo da América. Vem de uma terra parecida com a nossa. Salt Lake
City, que significa Lago Salgado. Como a nossa terra, Salt River, Rio
Salgado.

Deitou a cabeça para trás numa gargalhada discutível, excessivamente


orgulhoso do seu «achado».

— Fala francês? — perguntou-lhe Jean-Christophe.

— Vagamente. Joe diz que a sua bisavó era uma francesa da Alta Sabóia,
mas que ele nunca falou francês. Tem aprendido desde que chegou ao Norte
de Africa. Joe é cabo. Esteve em todas as frentes.

Joe abanava a cabeça para pontuar as palavras entusiásticas do seu


companheiro, divertido com o movimento admirativo das nossas
sobrancelhas. Apertou-nos a mão a todos os quatro, enquanto André nos
apresentava como os seus melhores amigos e os melhores garanhões de Salt
River. Apesar dos seus trinta anos e das sequelas das batalhas, Joe
conservava um rosto juvenil de lábios finos e maçãs-do-rosto demasiado
estreitas para um tamanhão do seu género. O olhar vivo, sem autêntica
acuidade, confe-ria-lhe um ar simplório quando sorria abertamente; e ele
sorria sempre que o olhávamos.

— Joe tem um problema — anunciou André.

— Desertou? — perguntou Fabrice.

— Joe não é cobardolas. Só pensa em combater, mas há seis meses que não
ejacula e tem os testículos tão cheios de esperma que já não consegue pôr
um pé diante do outro.

— Porquê? — perguntou Simon. — Já não lhes dão sabonete no regimento?

— Não é isso — respondeu André, batendo amigavelmente no pulso do cabo. —


O que Joe deseja é uma verdadeira cama, com abajures vermelho-sangue de
cada lado, e uma mulher com alguma chicha capaz de lhe arrulhar
indecências ao ouvido.

Desatámos a rir, e Joe fez o mesmo, acenando com a cabeça


insistentemente. O sorriso coftava-lhe a cara ao meio.
132 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Então, decidi levá-lo ao bordel — declarou André, afastando os braços


em sinal de extrema generosidade.

— Não te deixarão entrar — advertiu Jean-Christophe.

— Quem ousaria impedir André Jiménez Sosa de ir onde quer? Até pode
acontecer que me estendam a passadeira vermelha na Camélia. A patroa é
minha amiga. Untei-lhe tanto as mãos que se derrete como manteiga quando
me vê. Vou levar lá o meu amigo Joe, e vamos comer umas passarinhas até
nos fartarmos, não é, Joe?

— Yeh! Yeh! — disse Joe, torcendo o boné entre as mãos enormes.

— Gostava de ir convosco — afoitou-se Jean-Christophe. — Nunca toquei de


verdade numa mulher. Achas que podes arranjar a coisa?

— És maluco? — admirou-se Simon. — Vais a esses sítios nojentos, com


todas as doenças vergonhosas que as prostitutas transmitem?

— Estou de acordo com Simon — disse Fabrice. — Não é lugar para nós. Além
disso, prometemos à minha mãe que nos íamos portar bem.

Jean-Christophe encolheu os ombros. Inclinou-se para André e murmurou-lhe


na orelha. André torceu o nariz num trejeito altaneiro e disse:

— Faço-te entrar no inferno, se isso te diverte. Aliviado e animado,


Jean-Christophe virou-se para mim.

— Vens connosco, Jonas?

— Com certeza!

Fui o primeiro a surpreender-me com a minha espontaneidade.

' A zona da prostituição de Orão ficava por trás do teatro, na rue de


1'Aqueduc, uma viela mal afamada servida por duas escadarias a feder a
urina e ocupadas por bêbados... Mal entrei na «boca do lobo», senti-me
pouco à vontade e tive de fazer um grande esforço para não recuar. Joe e
André iam à frente, com pressa de chegar. Jean-Christophe seguia-os;
estava intimidado e a desenvoltura que
RIO SALADO

133

arvorava não era convincente. Virava-se de vez em quando para me dar uma
piscadela de olhos completamente ousada, a que eu respondia com um
sorriso crispado, mas logo que um indivíduo suspeito nos surgia ao
caminho, saltávamos para o lado, prontos a fugir. Os bordéis alinhavam-se
do mesmo lado, uns a seguir aos outros, por trás de enormes portões
pintados de cores gritantes. Havia muita gente na rue de 1'Aqueduc;
soldados, marinheiros, árabes furtivos temendo ser reconhecidos por
familiares ou vizinhos, garotos descalços à cata de comissões, americanos
e senegaleses, proxenetas atentos vigiando o seu rebanho, com a navalha
de ponta e mola escondida no cinto, soldados «indígenas» com chéchias
altas vermelhas; uma enorme agitação febril e estranhamente silenciosa.

A patroa do Camélia era uma mulher gigantesca que lançava gritos


sísmicos. Geria o estabelecimento com mão de ferro, tão intratável com os
clientes habituais como com as raparigas. Estava justamente a dar uma
ensaboadela a um cliente indelicado, na soleira do bordel, quando
chegámos.

— Voltaste a fazer merda, Gégé, e não está certo. Queres voltar a dormir
com as minhas raparigas?... Isso depende de ti, Gégé, sabes? Continua a
portar-te como um animal e não voltas a pôr os pés na minha casa... Já me
conheces, Gégé. Quando marco uma pessoa, também podia atirar-lhe terra
para cima. Topaste, Gégé, ou queres que te faças um desenho?

— Não me estás a dar uma esmola — protestou Gégé. — Venho aqui com a
minha massa, e a tua puta só tem de curvar-se e fazer o trabalho dela.

— A tua massa, limpa-te a ela, Gégé. Estamos numa casa de prostituição e


não numa sala de tortura. Se o serviço não te agrada, vai a outro sítio.
Porque se voltares a fazer o que fizeste, arranco--te o coração com estas
mãos.

Gégé, que era quase anão, ergueu-se na ponta dos sapatos para enfrentar o
olhar da patroa, encheu as bochechas, controlou--se; o rosto vermelho
vibrava de cólera. Voltou a assentar nos calcanhares e, furioso por ser
repreendido em público por uma mulher, empurrou-nos e desapareceu
rapidamente na multidão que deambulava pela rua.
r

134 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Bem feito — gritou um soldado. — Se o serviço não lhe agrada, só tem de


ir a outro sítio.

— Também é válido para ti, sargento — disse-lhe a patroa. — Também não


cheiras a santo, e sabe-lo bem.

O sargento enterrou o pescoço nos ombros e encolheu-se.

Como a patroa estava de mau humor, André compreendeu que as negociações


não correriam bem para ele. Conseguiu que Jean-Christophe entrasse,
apostando na sua corpulência, mas nada pôde fazer por mim.

— É um garoto, Dédé — disse a mulher, intransigente. — Ainda cheira ao


leite da mãe. Quanto ao louro, fecho os olhos, mas nem pensar em deixar
entrar esse querubim de olhos azuis. Deixar--se-ia violar no corredor
antes de chegar à porta mais próxima.

André não insistiu. A patroa não era do género de mudar de ideias.


Deixou-me esperar pelos meus amigos por trás do balcão e ordenou-me que
não mexesse em nada nem falasse com ninguém... Estava aliviado. Agora que
descobria o bordel, já não queria ir mais longe. Tinha o estômago às
voltas.

Na grande sala coberta de fumarada dos cigarros, havia clientes a


aguardar as presas, amontoados como animais. Alguns estavam bêbados e não
paravam de rosnar e de se agitar. As prostitutas exibiam-se num banco
estofado, no fundo de uma alcova escavada no próprio corredor que levava
aos quartos. Estavam sentadas em frente dos clientes, algumas
sumariamente vestidas, outras recortadas em xailes transparentes. Parecia
uma tela de um Eugène De-lacroix depressivo, representando odaliscas
decadentes. Havia gordas a derreterem-se em refegos, com o peito apertado
em soutiens tão grandes como camas de rede; magras saídas directamente de
um hospício, com olhares tenebrosos; morenas com vulgares perucas louras;
louras maquilhadas como palhaços, com um pedaço de seio negligentemente
descoberto; todas fumavam em silêncio e olhavam desdenhosamente para o
rebanho da frente, coçando pacientemente o sexo.

Sentado atrás do balcão, eu contemplava esse universo, lamentando ter-me


aventurado nele. Dir-se-ia um covil de bandidos. Cheirava a vinho
adulterado e aos eflúvios dos corpos no cio. Uma
RIO SALADO

135

tensão insondável, como um bolor funesto, oprimia o sítio. Bastaria uma


faísca, uma palavra deslocada, talvez um simples olhar para pegar fogo à
barraca... Contudo, a decoração, ainda que artificial e ingénua,
pretendia distrair, com as suas cortinas suaves, quase vaporosas,
enquadradas de reposteiros de veludo, os seus espelhos dourados, os seus
quadros representando ninfas em trajes de Eva, os seus candeeiros a
condizer com as paredes cobertas de mosaicos, os pequenos assentos vazios
nos recantos. Mas os clientes não pareciam nada atentos a esses aspectos.
Só viam as raparigas desnudas no banco estofado e pulavam de impaciência
de passar à abordagem, com o pescoço vergado por veias palpitantes.

Começava a achar que já passara muito tempo. Jean-Chris-tophe partira com


uma delambida enorme, Joe com duas raparigas a destilarem maquilhagem, e
André desaparecera.

A patroa ofereceu-me uma pratada de amêndoas e prometeu--me a sua melhor


rapariga para festejar a minha maioridade.

— Sem rancor, rapazinho?

— Sem rancor, minha senhora.

— Que comovente... E pára de me chamar «senhora» que me causas prisão de


ventre.

Acalmada, a patroa parecia conciliadora; eu temia que ela me fizesse um


favor e me autorizasse a escolher entre o monte de chi-cha que se exibia
no banco.

— Tens a certeza que não me levas a mal?

— De modo algum — gritei, aterrorizado com a possibilidade de ela passar


uma esponja sobre a minha idade e distribuir--me uma rapariga. — Para ser
franco — apressei-me a dizer para fazer face a qualquer eventualidade, —
não queria vir. Ainda não estou preparado.

— Tens razão, pequeno. Nunca se está preparado quando se trata de


enfrentar uma mulher... Há limonada atrás de ti, se tiveres sede. Ofereço
eu.

Abandonou-me à minha sorte e dirigiu-se ao corredor para ver se tudo


corria bem.

Foi então que a vi. Acabava de sair com um cliente e de se juntar às


companheiras no banco. O seu regresso à cena provocou
136 O QUE O DIA DEVE À NOITE

logo uma reacção na sala de espera. Um soldado hercúleo lembrou aos


outros que já lá estava antes de todos, desencadeando uma vaga de
grunhidos. Não prestei atenção à agitação que se apoderava dos clientes.
De repente, o barulho extinguiu-se e tudo no salão desapareceu. Só a via
a ela. Como se um feixe luminoso, jorrando sabia-se lá de onde, se
focasse nela, relegando o resto. Reconhecera-a imediatamente, apesar do
sítio onde estava a mil léguas de a imaginar. Não ganhara uma única ruga,
com o seu corpo de adolescente envolto num xaile cavado, os cabelos de
azeviche em cascata sobre o peito e as duas covinhas a debicarem-lhe as
faces: Hadda!... Abela Hadda; o meu amor secreto de antigamente, o meu
primeiro fantasma de catraio... Como fora parar a um sítio tão feio, ela
que, ao sair para o pátio, o iluminava como um sol?

Estava perturbado, chocado, petrificado de incredulidade...

Essa aparição inesperada catapultou-me para o passado e aterrei no pátio


interior da nossa habitação, em Jenane Jato, no meio das vizinhas a rirem
às gargalhadas da algazarra da criançada... Hadda não ria nessa manhã...
Estava triste... Voltei a vê-la a estender bruscamente a mão por cima da
mesa baixa, com a palma virada para o céu... «Diz-me o que lês, vizinha.
Preciso de saber. Não aguento mais...» E a vidente Batoul: «Vejo muitos
homens à tua volta, Hadda. Mas muito pouca alegria... Parece um sonho,
mas não é... »

Batoul fizera uma previsão correcta. Havia demasiados homens em torno da


bela Hadda e muito pouca alegria. O seu novo pátio, com as lantejoulas de
pacotilha, as luzes veladas, a decoração fantasmagórica, as bebidas,
assemelhava-se a um sonho, mas não o era... Dei comigo de pé atrás do
balcão, de braços ao longo do corpo, a boca aberta, incapaz de dizer essa
coisa terrível que me envolvia como uma bruma e me dava vontade de perder
as estribeiras.

Na sala, um latagão de cabeça rapada agarrou dois homens pelo pescoço e


atirou-os contra a parede, acalmando de repente os espíritos. Passeou o
seu olhar de ogre pela assistência, com as narinas frementes. Quando se
apercebeu de que nenhum cliente contestava a irregularidade do seu acto,
soltou os dois patifes e avan-
RÍO SALADO 137

çou decididamente para Hadda. Pegou-lhe pelo cotovelo com brutalidade e


empurrou-a à sua frente. O silêncio que os acompanhou ao longo do
corredor era de cortar à faca.

Apressei-me a sair para a rua para reencontrar uma atmosfera menos


alterada e controlar a minha respiração.

André, Jean-Christophe e Joe encontraram-me acabrunhado, sentado num


degrau. Pensaram que era por causa da recusa da patroa e acharam
desnecessário discutir o assunto. Jean-Christophe estava vermelho de
raiva. Aparentemente, as coisas não tinham corrido bem. André, por seu
lado, só tinha olhos para o seu ianque e parecia disposto a satisfazer a
totalidade dos seus desejos. Pro-pôs-nos, a Jean-Christophe e a mim, que
fôssemos buscar Simon e Fabrice e nos encontrássemos com ele no Majestic,
uma das cervejarias mais concorridas da cidade europeia.

Acabámos a noite os seis num grande restaurante chique, às custas de um


André excessivamente generoso. O vinho caía mal ao Joe. Depois da
refeição, pôs-se a fazer das suas. Começou por importunar um jornalista
americano que, no fundo da sala, aperfeiçoava tranquilamente a notícia a
enviar por telégrafo. Joe foi ter com ele para lhe contar os seus feitos
e descrever em pormenor as frentes nas quais arriscara a pele. O
jornalista, homem cortês, aguardou simpaticamente uma oportunidade de
voltar ao trabalho, muito contrariado mas demasiado tímido para o
confessar, e ficou aliviado quando André foi buscar o seu militar. Joq
regressou, agitado e sombrio como um vagalhão; de vez em quando, voltava-
se para o jornalista e gritava, por cima das mesas e das cabeças: «Vê lá
se me desencantas a primeira página, John. Quero o meu nome na primeira
página. Se queres uma fotografia minha, não há problema. Está bem, John?
Conto contigo.» O jornalista compreendeu que não conseguiria terminar o
artigo com um energúmeno daqueles por perto; pegou no rascunho, largou
uma nota na mesa e saiu do restaurante.

— Sabem quem é? — perguntou Joe, com o polegar por cima do ombro. — É


John Steinbeck, o romancista. Trabalha como repórter de guerra para o
Herald Tribune. Já publicou um artigo sobre o meu regimento.
138 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Após a saída do jornalista, Joe procurou outros bodes expiatórios.


Precipitou-se para o balcão e exigiu uma peça de Glenn Miller; a seguir,
em sentido em cima da cadeira, entoou Home on the Range e, depois,
encorajado pelos soldados americanos que jantavam no terraço, forçou um
empregado a repetir com ele a canção You 'd Be So Nice To Come Home To.
Pouco a pouco, os risos que provocava transformaram-se em sorrisos, os
sorrisos em caretas, e as pessoas exasperadas pediram a André que levasse
o seu ianque dali para fora. Joe já não era o homem bonzão e afável que
fora durante o dia. Perdido de bêbado, os olhos injectados de sangue e as
comissuras da boca a espumar, foi além das marcas e subiu para cima da
mesa para fazer um número de sapateado. Enredou os sapatos na toalha e
fez cair os pratos, os copos e as garrafas que se estilhaçaram no chão. O
gerente da cervejaria veio pedir-lhe delicadamente que acabasse com o seu
circo; Joe não o quis ouvir e deu um soco no nariz do gerente. Dois
empregados acorreram em auxílio do patrão; não tardaram a fazer--lhe
companhia. As mulheres levantaram-se aos gritinhos. André segurou o seu
protegido pela cintura e suplicou-lhe que se acalmasse. Joe já não estava
em condições de ouvir fosse quem fosse. Os seus socos partiam em todas as
direcções. A briga estendeu--se aos clientes, depois os militares que
estavam no terraço também se envolveram, e as cadeiras voaram pelos ares
numa desordem indescritível.

Foi necessária a intervenção autoritária da Polícia Militar para


neutralizar Joe.

O restaurante só recuperou alguma tranquilidade quando o jipe da PM


desapareceu na noite, com Joe fortemente imobilizado.

De regresso ao quarto no boulevard des Chasseurs, não consegui adormecer.


Agitei-me debaixo dos lençóis toda a noite, com a imagem de Hadda,
prostituta, a encher-me a cabeça. A voz espectral de Batoul ricocheteava
contra as minhas têmporas, obce-cante, intrometia-se-me nos pensamentos,
atiçava as minhas angústias, desenterrava os silêncios soterrados nas
profundezas do meu ser. Tinha a impressão de assistir ao nascimento de um
mau
RÍO SALADO

139

presságio que não tardaria a atingir-me em cheio. Por muito que me


escondesse debaixo da almofada, que me sufocasse, a imagem de Hadda
despida na alcova do bordel rodava lentamente sobre si própria, como uma
bailarina de uma caixinha de música, enquanto a voz da vidente soprava
sobre ela uma brisa maléfica.

No dia seguinte, pedi a Fabrice que me emprestasse algum dinheiro e


dirigi-me sozinho a Jenane Jato, isto é, ao outro lado da cidade, por
onde não se exibia nenhuma farda e onde as preces e os suspiros não
paravam de exalar mau cheiro. Queria voltar a ver a minha mãe e a minha
irmã, tocá-las, na esperança de dissipar o pressentimento que me roubara
a respiração até de manhã e que continuava a seguir-me de perto...

A minha intuição não me enganara. Tinham-se passado coisas em Jenane Jato


desde a minha última visita. O pátio estava deserto. Dir-se-ia que uma
borrasca o destruíra, arrastando consigo os ocupantes. Alguém colocara
arame farpado na fachada para impedir o acesso, mas mãos temerárias
haviam conseguido abrir uma brecha, por onde pude introduzir-me. O pátio
estava juncado de detritos calcinados, de excrementos de gato. A
cobertura do poço estava pousada no bocal, retorcida. As portas e as
janelas dos quartos tinham desaparecido. O fogo destruíra completamente a
ala esquerda do pátio; as paredes abateram e algumas vigas enegrecidas
ainda se mantinham presas ao tecto aberto para um céu desesperadamente
azul. O nosso compartimento era apenas um monte de ruínas no meio do qual
se viam, aqui e ali, utensílios de cozinha destruídos e chinelos meio
queimados.

— Não há ninguém — disse uma voz nas minhas costas. Era Perna-de-Pau.
Cambaleou por trás de mim, envolto numa

gandoura excessivamente curta, com a mão apoiada na parede. A sua boca


desdentada penetrava no rosto descarnado, cavando um buraco feio que uma
barba branca tentava em vão dissimular. O braço tremia, e tinha
dificuldade em manter-se direito na perna pálida, crivada de manchas
avermelhadas.

— Que é que se passou? — perguntei.

— Coisas terríveis... •-
• ¦
] 40 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Coxeou até mim, apanhou um bidão de passagem, voltou-o para ver se


continha qualquer coisa recuperável antes de o atirar por cima do ombro.

O braço descreveu um arco:

— Vê só este desperdício... Que triste que é!

Como eu permanecesse em silêncio, à espera de explicações, prosseguiu:

— Eu tinha avisado Bliss. É um pátio respeitável, disse-lhe. Não mistures


essa puta com essas boas mulheres; vai dar mau resultado. Bliss não quis
ouvir. Uma noite, dois bêbados vieram ter com ela. Como já tinha um
cliente, entraram no quarto de Badra. Nem te conto. Uma autêntica
sangueira. Os dois bêbados não chegaram a compreender o que lhes
acontecia. Degolados pelos dois filhos da viúva. A seguir foi a vez da
puta. Defendeu-se melhor que os clientes, mas não tinha força. Alguém
derrubou o candeeiro sobre os seus pertences e o fogo pegou mais depressa
que um raio. Foi uma sorte não se ter estendido às outras casas... A
polícia prendeu Badra e os filhos, e selou o pátio. Há dois anos que está
fechado. Há quem pense que está assombrado.

— E a minha mãe?

— Não faço ideia. Uma coisa é certa, escapou ao fogo. Vi-a, na manhã
seguinte, com a tua irmãzinha ao fundo da rua. Não estavam feridas.

— E Bliss?

— Volatilizou-se.

— Havia outros inquilinos. Podem dar-me informações.

— Ignoro para onde foram. Tenho muito pena. Regressara ao boulevard des
Chasseurs, com a morte na alma.

Os meus amigos limitaram-se a exasperar-me com as suas perguntas. Fora de


mim, saíra e andara ao deus-dará. Mil vezes parei no meio da calçada para
levar as mãos à testa e mil vezes tentei re-compor-me, repetindo que a
minha mãe e a minha irmã estavam certamente bem e melhor do que antes. A
vidente Batoul não se enganava. Possuía verdadeiros poderes extra-
sensoriais. Não previra o destino de Hadda?... O meu pai ia regressar —
estava escrito na água, e a minha mãe já não teria de sofrer incertezas.
RÍO SALADO 141

Estava a dizer tudo isto para mim próprio quando me pareceu vê-lo...

O meu pai!

Era mesmo ele. Tê-lo-ia conhecido entre cem mil espectros a recortarem-se
na noite, entre cem mil desgraçados a correrem para a sua perda... O meu
pai! Regressara... Atravessava a praça da Vil-lage Noir, no meio da
multidão, vergado sob um casaco grosso apesar da canícula. Andava a
direito, arrastando o pé. Corri atrás dele, por entre uma selva de braços
e pernas. Avançava um passo e recuava dois, lutando para forçar a
passagem, os olhos postos na sua silhueta que se afastava
inexoravelmente, vergada sob o casaco verde. Não queria perdê-lo de
vista, com medo de não voltar a encontrar-lhe o rasto... Quando consegui
escapar da multidão e chegar ao outro lado da esplanada, o meu pai
volatilizara-se.

Procurara-o nas tascas, nos cafés, nos banhos turcos... Debalde.

Nunca mais via minha mãe e a minha irmã. Ignoro o que lhes aconteceu, se
ainda estão vivas ou seja só são pó entre o pó. Mas vi várias vezes o meu
pai. Mais ou menos de dez em dez anos. No meio de um souk ou de um
estaleiro de construção; ora só, à esquina de uma ruela, ora à porta de
um hangar abandonado... Nunca consegui aproximar-me dele... Uma vez,
segui-o até um beco, na certeza de que iria emboscá-lo, e qual foi o meu
espanto quando não vi ninguém perto da paliçada... Foi porque continuava
a usar o mesmo casaco verde, que escapava ao desgaste do tempo e às
inclemências das estações, que acabei por compreender que ele não era de
carne e osso...

Mesmo hoje, com a minha idade avançada, ainda me acontece entrevê-lo ao


longe, com as costas curvadas sob o eterno casaco verde, coxeando
lentamente até desaparecer.
10.

O mar estava tão calmo que teria sido possível caminhar em cima dele. Nem
uma pequena onda marulhava na areia, nem um estremecimento enrugava a
superfície da água. Era um dia de semana e a praia pertencia ao nosso
bando. Fabrice dormitava a meu lado, deitado de costas, com um romance
aberto sobre a cara. Jean-Christophe exibia-se à beira-mar, narcisista
até mais não. André e o primo José tinham montado a tenda e o grelhador a
uma centena de metros do local onde estávamos; esperavam amigas de
Lourmel. Eram poucas as famílias que preguiçavam ao sol, dispersas de uma
ponta à outra da baía. Sem as palhaçadas de Simon, dir-se-ia que
estávamos numa ilha deserta.

Os raios de sol caíam a pique, semelhantes a chumbo líquido. No céu


lustral, gaivotas esvoaçavam, embriagadas de espaço e de liberdade. De
vez em quando, picavam sobre as ondas, perse-guindo-se umas às outras em
voo rasante, e erguiam-se, depois, em flecha, confundindo-se na tela
azulada. Muito ao longe, um pescador regressava ao porto, com uma nuvem
de pássaros na sua esteira; a pescaria era boa.

Estava um lindo dia.

Uma senhora solitária contemplava o horizonte, sentada debaixo de um


guarda-sol. Tinha um enorme chapéu com fitas vermelhas e óculos escuros.
O fato de banho branco colava-se ao seu corpo bronzeado como uma segunda
pele...
RÍO SALADO

143

As coisas teriam ficado por aí se não tivesse havido uma gol-pada de


vento.

Se me tivessem dito que um simples pé-de-vento podia mudar o rumo de uma


vida, talvez me tivesse prevenido. Mas, aos dezassete anos, sentimo-nos
capazes de nos sair bem de seja o que for...

A brisa do meio-dia desencadeara-se e, emboscado atrás dela, o pé-de-


vento aproveitou para se precipitar sobre a praia. Levantou alguns
turbilhões de pó, arrancando, de passagem, o guarda-sol da senhora que só
teve tempo de deitar a mão ao chapéu para o impedir de voar. O guarda-sol
redemoinhou no ar, rolou na areia, executou uma série de acrobacias.
Jean-Christophe tentou apanhá-lo mas não conseguiu. Se tivesse sido
capaz, a minha vida teria prosseguido o seu rumo. Mas a sorte decidiu de
maneira diferente: o guarda-sol deteve-se aos meus pés e estendi a mão
para o agarrar.

A senhora observou o gesto. Viu-me avançar para ela, com o guarda-sol


debaixo do braço, e levantou-se para me receber.

— Obrigada — disse-me.

— Não tem de quê, minha senhora.

Ajoelhei-me aos seus pés, alarguei o buraco onde o guarda--sol estava


enterrado antes de levantar voo, escavei-o vigorosamente, voltei a pôr o
guarda-sol no sítio e calquei com os pés a areia à volta para que
resistisse a outra golpada de vento.

— É muito simpático, senhor Jonas — disse ela... — Desculpe —


acrescentou, — ouvi os seus amigos chamarem-no assim.

Tirou os óculos; os olhos eram um esplendor.

— É de Terga?

— De Rio Salado, minha senhora.

O seu olhar intenso perturbava-me. Via os meus amigos rirem à sorrelfa


enquanto me observavam. Deviam estar a troçar de mim. Despedi-me depressa
e fui ter com eles.

— Estás vermelho como uma papoila — serrazinou Jean--Christophe.

— Cala-te — disse-lhe.

Simon, que saíra da água, secou-se energicamente numa toalha de praia,


com um esgar brejeiro nos lábios. Deixou-me sentar antes de perguntar:
*"
144 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Que te queria a Sra. Cazenave?

— Conhece-la?

— Claro! O marido era director de uma prisão nas Guianas. Parece que
desapareceu na floresta durante um cerco a forçados evadidos. Como nunca
mais deu sinal de vida, a mulher regressou à terra natal. É amiga da
minha tia. A minha tia acha que o director deve ter cedido aos encantos
de uma bela amazona bem cu-zuda antes de se despedir à francesa.

— Não gostaria de ter a tua tia como amiga.

Simon desatou a rir. Balançou a toalha na direcção da minha cara, bateu


no peito com os punhos como os gorilas e dirigiu-se de novo para o mar,
lançando um horrível grito de guerra.

— Completamente louco — suspirou Fabrice, erguendo-se sobre os cotovelos


para o ver executar um mergulho digno de um palhaço.

As amiguinhas de André chegaram por volta das duas horas. A mais nova
devia ser quatro ou cinco anos mais velha que o mais velho dos dois
primos. Beijaram os Sosa na cara e instalaram-se nas cadeiras de lona que
as esperavam. O criado Jelloul atarefava--se em torno do grelhador;
acendera o fogo e agitava um enorme leque sobre as brasas enquanto uma
nuvem de fumo branco se espalhava pelas dunas circundantes. José tirou um
caixote do meio dos sacos amontoados junto ao mastro central da tenda,
retirou de lá espetadas de merguez1 e foi pousá-las no grelhador. O
cheiro de gordura a arder não tardou a perfumar a praia.

Ignoro por que motivo me levantei e me dirigi à tenda de André. Talvez


tenha querido apenas atrair a atenção da senhora, rever os seus olhos
magníficos. Dir-se-ia que liam os meus pensamentos. Quando cheguei perto
dela, tirou os óculos e, de repente, tive a impressão de estar a andar em
areias movediças.

Voltara a vê-la uns dias mais tardp, na avenida principal de Rio. Saía de
uma loja, com um chapéu branco a coroar-lhe o

' Salsicha vermelha temperada com cominhos e pimenta, à base de carne de


vaca e de carneiro, originária da Argélia. (N. da T.)
RIO SALADO

145

rosto lindo. As pessoas viravam-se para trás à sua passagem; ela nem
sequer reparava. Refinada, com um porte nobre, não andava; marcava a
cadência do tempo.

Eu estava hipnotizado.

Fazia-me lembrar essas heroínas misteriosas que enchiam de carisma as


salas de cinema, tão credíveis que a nossa própria realidade nos parecia
irrisória.

Estava sentado com Simon Benyamin na esplanada do café da praça. Ela


passou ao nosso lado sem nos ver, deixando-nos o seu perfume à laia de
consolação.

— Calma, Jonas! — murmurou Simon.

— Hem?

— Há um espelho no bar. Vai lá dar uma vista de olhos à beterraba em que


a tua cara se transformou. Estarás apaixonado por essa respeitável mãe de
família?

— Que estás para aí a dizer?

— O que vejo. Estás à beira de perder a cabeça.

Simon exagerava. Não era amor; sentia pela Sra. Cazenave uma admiração
profunda. Pensava nela sem maldade.

No fim-de-semana, foi à nossa farmácia. Atarefado por trás do balcão,


ajudava Germaine a tratar de um grande número de encomendas que recebera
desde que uma epidemia gástrica se declarara na vila. Quando ergui a
cabeça e dei com ela à minha frente, quase caí de costas.

Esperava que tirasse os óculos escuros; ela conservou-os no lindo nariz,


e não fiquei a saber se olhava para mim por trás das lentes opacas ou se
me ignorava.

Estendeu uma receita a Germaine. Num gesto gracioso, como para um beija-
mão.

— A preparação do seu medicamento vai levar tempo — disse Germaine,


depois de decifrar as garatujas do médico no papel. — Neste momento,
estou um pouco assoberbada — acrescentou, mostrando os embrulhos
amontoados no balcão.

— Estará pronto quando?

— Se correr tudo bem, à tarde. Mas não antes das quinze horas.
146

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Não faz mal. Mas não poderei vir buscá-lo. Estive fora durante muito
tempo e a minha casa precisa de uma boa limpeza. Pode fazer-me o favor de
o enviar por portador? Pagarei o que for preciso.

— Não será necessário, senhora?...

— Cazenave.

— Muito gosto em conhecê-la... Onde mora?

— Atrás do cemitério israelita, na casa isolada no atalho do marabuto.

— Estou a ver onde é... Não há problema, senhora Cazenave. O seu


medicamento ser-lhe-á entregue esta tarde, entre as quinze e as dezasseis
horas.

— Perfeito.

Retirou-se com um aceno imperceptível de cabeça na minha direcção.

Não consegui ficar quieto, espreitando Germaine que se atarefava atrás da


porta escancarada para as traseiras da loja que lhe serviam de
laboratório. Os ponteiros do relógio de parede recusa-vam-se a avançar;
temia que a noite caísse antes da hora da entrega. E a hora da entrega
chegou finalmente, semelhante a uma lufada de ar depois de uma apneia. Às
quinze horas em ponto, Germaine saiu do laboratório com um frasco
envolvido em papel de embalagem. Mal teve tempo de mo entregar e muito
menos de me descrever o modo de emprego; arranquei-o das mãos e montei na
minha bicicleta.

Agarrado ao guiador, com a camisa enfunada pelo vento, não pedalava,


voava. Contornei o cemitério israelita, atalhei por um pomar e cheguei ao
atalho do marabuto a toda a velocidade, zi-guezagueando por entre os
buracos.

A casa dos Cazenave erguia-se num terreno elevado, a trezentos metros da


aldeia. Grande e pintada de branco, dominava a planície, virada para o
sul. A cavalariça, à esquerda, estava deserta e um pouco degradada, mas a
casa mantinha a sua magnificência. Chegava-se a ela por um pequeno
outeiro, ladeado de palmeiras anãs, que partia do atalho. O gradeamento
em ferro forjado assentava num pequeno muro de pedras cuidadosamente
cinzeladas
RÍO SALADO 147

a que uma latada varicosa tentava agarrar-se. No frontão abobadado por


cima de duas colunas cobertas de lajes, podia ler-se um grande «C»
gravado na rocha, com a data de 1912, ano em que havia terminado a
construção.

Pousei os pés no chão, abandonei a bicicleta à entrada da propriedade e


empurrei o portão que rangeu fortemente. Não havia ninguém no pequeno
pátio ornamentado com um repuxo. Os jardins à volta haviam secado.

— Senhora Cazenave — chamei.

As portadas das janelas estavam fechadas; a porta em madeira que dava


acesso à casa também. Esperei perto do repuxo, à sombra de uma Diana em
estuque, com o medicamento na mão. Não se via vivalma. Só ouvia a brisa a
soprar ao fundo da latada.

Ao cabo de uma longa espera, cujo fim não antevia, decidi bater à porta.
Os meus murros ecoaram no interior da casa como o fariam em fossos
subterrâneos. Era evidente que não estava ninguém em casa, mas eu
recusava-me a admiti-lo.

Sentei-me no rebordo do repuxo. A espera de ouvir ranger a gravilha.


Impaciente por a ver surgir do nada. No momento em que começava a perder
a esperança, um «Boa-tarde!» estralejou nas minhas costas.

Estava por trás de mim, com um vestido branco, o chapéu com fitas
vermelhas delicadamente afastado para a nuca.

— Estava no pomar, lá em baixo. Gosto de passear no meio do silêncio das


árvores... Já aí está há muito tempo?

— Não, não — menti, — acabo de chegar.

— Não o vi subir o atalho.

— O seu medicamento, minha senhora — disse-lhe, esten-dendo-lhe o pacote.

Hesitou antes de lhe pegar, como se se tivesse esquecido da sua passagem


pela farmácia e, depois, num gesto elegante, retirou o frasco da
embalagem, desenroscou a tampa e cheirou o conteúdo, que tinha o aspecto
de uma preparação cosmética.

— O bálsamo cheira bem. Desde que me acalme as dores. Encontrei a casa


numa tal desordem que passo a maior parte dos dias a tentar devolver-lhe
o aspecto que tinha dantes.
148 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Se tiver coisas para transportar ou consertar, estou à sua disposição.

— É muito simpático, senhor Jonas.

Apontou-me uma cadeira de verga perto de uma mesa na varanda, esperou que
me sentasse e sentou-se à minha frente.

— Suponho que tem sede, com este calor — disse-me, ofe-recendo-me uma
garrafa cheia de limonada.

Encheu um grande copo e empurrou-o suavemente na minha direcção. O


movimento do braço causou-lhe uma careta de dor; mordeu o lábio
deliciosamente.

— Tem dores, minha senhora?

— Tive de erguer uma coisa muito pesada. E tirou os óculos.

Senti o estômago liquefazer-se.

— Quantos anos tem, senhor Jonas? — perguntou, mergulhando o seu olhar


soberano até ao mais profundo do meu ser.

— Dezassete, minha senhora.

— Suponho que já tenha noiva.

— Não, minha senhora.

— Como não? Com um rosto tão bonito e olhos tão límpidos. Não quero crer
que não tenha um harém a suspirar por si.

O seu perfume inebriava-me.

Voltou a morder os lábios e levou a mão ao pescoço.

— Dói-lhe muito, minha senhora?

— E terrível. Pegou-me na mão.

— Tem dedos de príncipe.

Tinha vergonha de que ela percebesse a perturbação que estava prestes a


dominar-me.

— Que quer fazer quando for mais velho, senhor Jonas?

— Quero ser boticário, minha senhora. Meditou antes de concordar:

— É uma profissão nobre.

Pela terceira vez, teve dor no pescoço e curvou-se.

— Tenho de experimentar imediatamente a pomada. Levantou-se. Com muita


dignidade.
RIO SALADO

149

— Se quiser, minha senhora, posso... posso dar-lhe uma massagem nos


ombros...

— Conto com isso, senhor Jonas.

Não sei por que motivo algo quebrou, subitamente, a solenidade do local.
Mas apenas por uma fracção de segundo. Quando os seus olhos se voltaram
de novo para mim, tudo reentrou na ordem.

Mantivemo-nos de pé de cada lado da mesa. O meu coração batia com tanta


força que me interroguei se ela não o ouviria. Tirou o chapéu, e os
cabelos caíram sobre os ombros, deixando-me quase atónito.

— Venha comigo, jovem.

Empurrou a porta de casa e convidou-me a entrar. Uma ligeira penumbra


velava o vestíbulo. Sentia-me como seja tivesse vivido a situação, como
se o corredor à minha frente não me fosse estranho. Tinha sonhado ou era
eu que estava a perder o fio da história? A Sra. Cazenave ia à minha
frente. Num relampejo, con-fundi-a com o meu destino.

Subimos uma escada. Os meus pés tropeçavam nos degraus. Agarrava-me ao


corrimão, só via o ondular do seu corpo à minha frente, majestoso,
sedutor, quase irreal a tal ponto a sua graça ultrapassava o
entendimento. Chegada ao patamar, passou pela luz encandeante de uma
lucarna; foi como se o vestido se tivesse desintegrado, revelando-me nos
mínimos pormenores a configuração perfeita da sua silhueta.

Ao virar-se bruscamente, surpreendeu-me em estado de choque. Compreendeu


logo que eu já não estava em condições de a seguir, que as minhas pernas
iam vacilar sob o peso das vertigens, que eu era um pintassilgo apanhado
numa armadilha. O seu sorriso vibrou o golpe derradeiro. Caminhou direita
a mim, num passo leve, aéreo, e disse-me qualquer coisa que não percebi.
O sangue martelava-me nas fontes, impedindo-me de me recompor. Que se
passa, senhor Jonas?... A sua mão segurou-me no queixo, levan-tou-me a
cabeça... Tudo bem?... O eco da sua voz perdeu-se no barulho das minhas
fontes... Sou eu que o ponho nesse estado?... Talvez não fosse ela a
falar-me assim. Talvez fosse eu, embora não reconhecendo a minha voz. Os
seus dedos percorreram-me o rosto.
150 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Senti a parede contra as minhas costas como uma muralha a barrar--me a


retirada. Senhor Jonas?... Os seus olhos envolveram-me, es-camotearam-me
num truque de prestidigitação. Diluía-me no seu olhar. O seu hálito
adejou à roda do meu, aspirou-o; os nossos rostos já se fundiam. Quando
os seus lábios afloraram os meus, senti--me a desintegrar; como se ela me
apagasse para me reinventar com a ponta dos dedos. Ainda não era um
beijo, tão-somente um toque, furtivo, vigilante — estaria ela a apalpar
terreno? Recuou; para mim, era como se uma vaga se retirasse, revelando a
minha nudez e a minha emoção. A boca reaproximou-se, mais confiante, mais
conquistadora; uma nascente não me teria saciado tanto. A minha boca
entregou-se à sua, fundiu-se nela, tornou-se água por sua vez, e a Sra.
Cazenave sugou-me completamente, num sorvo que não parava de se renovar.
Eu tinha a cabeça nas nuvens e os pés num tapete voador. Atemorizado com
tanta felicidade, talvez tenha tentado fugir ao seu domínio, pois a sua
mão agarrou-se-me fortemente à nuca. Então entreguei-me. Sem opor a
mínima resistência. Maravilhado por me ter deixado apanhar na armadilha,
febril e con-sentidor, e, encantado com a minha capitulação, solidarizei-
me com a língua prestes a absorver a minha. Com imensa ternura, desabo-
toou-me a camisa, deixando-a cair algures. Eu já só respirava através do
seu sopro, já só vivia através da sua pulsação. Tinha a vaga sensação de
estar a ser desfolhado, levado para um quarto, atirado para uma cama tão
profunda como um rio. Mil dedos espalhavam--se pela minha carne como
outros tantos fogos-de-artifício; eu era a festa, a alegria, o êxtase na
sua embriaguez absoluta; sentia-me morrer e renascer ao mesmo tempo.

— Desce à terra — ralhou Germaine na cozinha. — Partiste metade da minha


loiça no espaço de dois dias.

Dei-me conta de que o prato que lavava no lava-loiças me escapara e se


quebrara a meus pés.

— Estás muito distraído...

— Desculpa...

Germaine observou-me com curiosidade, enxugou as mãos ao avental e


pousou-mas nos ombros.
RIO SALADO

151

— Que é que não está a correr bem?

— Nada. O prato fugiu-me das mãos.

— Sim... O problema é que estão sempre a fugir-te .

— Germaine! — gritou o meu tio do quarto.

Salvo pelo gongo. Germaine não tardou a esquecer-me e correu para o


quarto ao fundo do corredor.

Já não me reconhecia. Desde a minha aventura com a Sra. Cazenave, deixei


de saber onde tinha a cabeça, errando através dos meandros de uma euforia
que se recusava a desaparecer. Era a minha primeira experiência de homem,
a minha primeira descoberta íntima, o que me estonteava. Bastava-me estar
sozinho durante um segundo para reencontrar a deliciosa tormenta do
desejo. O meu corpo esticava-se como um arco; sentia os dedos da Sra.
Cazenave percorrerem-me a carne, as suas carícias semelhantes a
mordeduras redentoras ocuparem o lugar das minhas fibras, trans-formando-
se em arrepios, tornando-se no sangue que me batia nas fontes. Ao fechar
os olhos, chegava a sentir o seu arfar, e o meu universo enchia-se do seu
hálito capitoso. De noite, era-me impossível dormir. A cama, repleta de
recontros platónicos, manti-nha-me em transe até de manhã.

Simon achava que eu andava com um ar enfadado. As suas piadas não


produziam efeito em mim. Enquanto Jean-Chris-tophe e Fabrice se
contorciam de riso com todas as suas graças, eu mantinha-me impassível.
Via-os divertidíssimos sem perceber do que se tratava. Quantas vezes
Simon agitara a mão diante dos meus olhos para verificar se eu continuava
vivo? Despertava por uns instantes, voltava a cair numa espécie de
catalepsia, e os ruídos que me cercavam dissipavam-se de repente.

Tanto na colina, ao pé da oliveira secular, como na praia, já só era uma


ausência entre os meus amigos.

Esperara duas semanas antes de ganhar coragem e regressar à grande casa


branca no atalho do marabuto. Era tarde e o sol estava prestes a
extinguir-se. Deixei a minha bicicleta ao lado do portão e entrei no
pátio... E lá estava ela, acocorada sob um arbusto, com uma tesoura na
mao; tratava do jardim.
152

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Senhor Jonas — disse-me, erguendo-se.

Pousou a tesoura num monte de seixos, esfregou as mãos uma na outra para
lhes tirar a poeira. Tinha o mesmo chapéu com fitas vermelhas e o mesmo
vestido branco que, à luz do sol poente, fazia sobressair com uma
fidelidade generosa os contornos sedutores da sua silhueta.

Olhámo-nos sem nada dizer.

No silêncio que me oprimia, o cricri das cigarras penetrava--me nas


fontes.

— Bom dia, minha senhora.

Sorriu, os olhos maiores que o horizonte.

— Que posso fazer por si, senhor Jonas? Algo na sua voz fez-me temer o
pior.

— Passava por aqui — menti. — Fiz questão de vir cumprimentá-la.

— É simpático da sua parte.

O seu laconismo imobilizou-me.

Olhava-me fixamente. Como se eu devesse justificar a minha presença ali.


Não parecia apreciar a minha intrusão. Dir-se-ia que lhe causava
transtorno.

— Não precisa de... Tinha-lhe dito que... Haverá coisas a consertar ou a


transportar?...

— Há criados para isso.

Sem desculpas, ridículo, detestava-me. Não estaria prestes a estragar


tudo?

Avançou para mim, deteve-se e, sem deixar de sorrir, esma-gou-me com os


olhos.

— Senhor Jonas, não se deve aparecer assim em casa das pessoas


irreflectidamente.

— Pensei...

Pousou um dedo na minha boca para me interromper.

— Não se deve pensar em seja o que for.

O meu constrangimento transformou-se numa cólera obscura. Porque me


tratava assim? Não se passara nada entre nós? Devia adivinhar por que
motivo tinha ido vê-la.
Como se lesse os meus pensamentos, disse:
RÍO SALADO

153

— Far-lhe-ei um sinal quando precisar de si. As coisas devem acontecer


por si próprias, compreende? Forçá-las só serve para as estragar.

O seu dedo acompanhou ternamente o contorno dos meus lábios, afastou-os e


insinuou-se entre os meus dentes. Demorou-se na ponta da minha língua,
retirou-se docemente e voltou a pousar na minha boca.

— Tem de ficar a saber o seguinte, Jonas: nas mulheres, as coisas passam-


se dentro da cabeça. Só estão dispostas quando tudo está arrumado no seu
espírito. São senhoras das suas emoções.

Não afastava os olhos de mim, inflexível e soberana. Tive a impressão de


ser apenas o fruto da sua imaginação, um objecto nas suas mãos, um
cachorro que ela não tardaria a deitar de costas para lhe acariciar a
barriga com a ponta do dedo. Não queria forçar as coisas, não queria
destruir as minhas oportunidades de lhe passar pela cabeça. Quando ela
retirou a mão, compreendi que era altura de me ir embora... e de esperar
que me fizesse um sinal.

Não me acompanhou ao portão.

Esperara semanas. O Verão de 1944 chegava ao fim e nem um sinal. A Sra.


Cazenave nem sequer descia à aldeia. Quando Jean-Christophe nos reunia na
colina, enquanto Fabrice lia os seus poemas, eu só tinha olhos para a
grande casa branca no atalho do marabuto. Parecia-me que a via, por
vezes, às voltas no pátio, que lhe reconhecia o vestido branco nas
reverberações da planície. A noite, em casa, ia para a varanda e ouvia o
uivar dos chacais na esperança de apaziguar o silêncio dela.

Apesar de a Sra. Scamaroni levar regularmente o nosso grupo a Orão, ao


boulevard des Chasseurs, não me recordo dos filmes que via e das
raparigas que lá encontrava. Simon começava a can-sar-se de me ver sempre
distraído. Um dia, na praia, derramou um balde de água na minha roupa
para me trazer à terra. Sem Jean--Christophe, a brincadeira ter-se-ia
transformado em luta.

Transtornado com a minha irascibilidade, Fabrice foi a minha casa


perguntar-me qual era o problema. Não obteve qualquer resposta.
154

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Finalmente, num domingo ao meio-dia em ponto, aniquilado pela


expectativa, trepei para a bicicleta e corri para a grande casa branca. A
Sra. Cazenave contratara um velho jardineiro e uma mulher-a-dias que
surpreendi a comer à sombra de uma alfarrobeira. Com a bicicleta
encostada a mim, esperei no pátio. A tremer da cabeça aos pés. A Sra.
Cazenave teve um sobressalto imperceptível quando me viu perto do repuxo.
O olhar dela procurou os criados, viu-os na outra extremidade do jardim e
voltou a pousar em mim. Observou-me em silêncio. Senti-a irritada por
trás do sorriso.

— Não fui capaz — confessei-lhe.

Desceu a pequena escadaria e encaminhou-se tranquilamente na minha


direcção.

— Mas devia — disse-me firmemente.

Convidou-me a segui-la até ao portão. E lá, sem se preocupar com


indiscrições, como se estivéssemos sozinhos no mundo, agar-rou-me pela
nuca e beijou-me a boca com toda a força. A voracidade do seu beijo era
tal que percebi nela algo de definitivo, como um sinal irrevogável de
adeus.

— Sonhou, Jonas — disse-me ela. — Foi só um sonho de adolescente.

Os dedos soltaram-se e ela recuou.

— Nunca se passou nada entre nós... Nem sequer este beijo. Os seus olhos
encurralavam-me:

— Está a perceber?

— Sim, minha senhora — ouvi-me tartamudear.

— Muito bem.

Deu-me uma palmadinha na face, bruscamente maternal:

— Sabia que era um rapaz sensato.

Tive de esperar pela noite para voltar a casa.


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4í ! ^

OUSEI ESPERAR UM MILAGRE; NÃO ACONTECEU. O Outono libertava as árvores


das folhas; chegara a altura de me render à evidência. Era apenas um
fantasma. Entre a Sra. Ca-zenave e eu, não se passara nada.

Reencontrei os meus amigos, as palhaçadas de Simon e o romantismo febril


de Fabrice. Jean-Christophe suportava Isabelle Rucillio com jeito. Dizia-
nos que o importante era encontrar um equilíbrio nas concessões, que a
vida era um investimento a longo prazo e que o êxito final acabava sem
falta por sorrir aos que sabiam apostar na paciência. Tinha o ar de saber
o que queria, e embora as suas teorias não se preocupassem com
argumentos, éramos extremamente indulgentes com ele.

O ano de 1945 chegou com vagas de informações contraditórias e


elucubrações. Em Rio Salado, as pessoas adoravam confabular enquanto
saboreavam a sua aniseta. Amplificava-se a mínima escaramuça, ornamentada
com feitos de armas rocambolescos e atribuída a protagonistas que, muitas
vezes, não tinham participado nela. Nas esplanadas dos cafés, os
diagnósticos faziam-se depressa. Os nomes de Estaline, Roosevelt e
Churchill soavam como o clarim das cargas derradeiras; alguns engraçados,
que lamentavam a silhueta filiforme de de Gaulle, prometiam enviar-lhe o
melhor cuscuz do país para que ganhasse a gordura sem a qual o seu
carisma não teria credibilidade aos olhos dos Argelinos, incapazes de
dissociar a autoridade de uma pança imponente. As pessoas voltaram
156

O QUE O DIA DEVE À NOITE

a rir e a embebedar-se a ponto de confundirem um cavalo com um licorne. O


ambiente era de optimismo. As famílias judaicas, que se tinham refugiado
sob outros céus na sequência das deportações maciças de que a comunidade
em França fora alvo, começavam a voltar à terra natal. O regresso à
normalidade processava-se gradualmente, em segurança. As vindimas foram
fantásticas, e o baile, que encerrou a estação, faraónico. Pépé Rucillio
casou o filho mais novo, e o bled vibrou durante sete dias e sete noites
ao som das guitarras e castanholas de uma célebre trupe oriunda de
Sevilha. Chegaram a oferecer-nos um espectáculo equestre grandioso em que
os cavaleiros eméritos da região se mediram sem complexos com os
fabulosos guerreiros dos Ouled N'har.

Na Europa, o império hitleriano metia água. As notícias da frente


anunciavam diariamente o seu naufrágio, e todos os dias os torpedos
ripostavam às bombas. Cidades inteiras desapareciam sob dilúvios de
chamas e cinzas. O céu estava desfigurado pelas batalhas aéreas, e as
trincheiras afundavam-se sob as lagartas dos tanques... Em Rio Salado, a
sala de cinema não esvaziava. Muitas pessoas só lá iam para as Pathé
Actualités, projectadas no começo da sessão. Os Aliados tinham libertado
boa parte dos territórios ocupados e avançavam inexoravelmente sobre a
Alemanha. A Itália já só era uma sombra de si própria. Os resistentes e
os partisans derrotavam o inimigo apertado entre o rolo compressor do
Exército Vermelho e a vaga americana.

O meu tio estava colado ao seu rádio. Enfiado numa camisola interior que
traía a sua magreza extrema, formava um todo com a poltrona. Debruçava-se
sobre o rádio de manhã ao cair da noite, com os dedos a rodarem o botão à
procura de estações com menos interferências. O ruído de fritura e os
silvos estridentes das ondas enchiam a casa de rumores galácticos. Havia
muito que Ger-maine baixara os braços. O marido só fazia o que queria;
exigia que lhe servissem as refeições no salão, perto do rádio, para não
perder nenhuma informação.

E lá chegou o dia 8 de Maio de 1945. Enquanto o mundo festejava o fim do


Pesadelo, declarou-se na Argélia outro pesadelo, tão fulminante como uma
pandemia, tão monstruoso como o Apo-
RIO SALADO

157

calipse. O júbilo popular transformou-se em tragédia. Muito perto de Rio


Salado, em Am Témouchent, as manifestações pela independência da Argélia
foram reprimidas pela polícia. Em Mosta-ganem, os tumultos estenderam-se
aos áouars limítrofes. Mas o horror atingiu o seu paroxismo nos Aures e
no Nord-Constanti-nois onde milhares de muçulmanos foram massacrados
pelos serviços de ordem reforçados por colonos reconvertidos em milícias.

— Não é possível — balia o meu tio, tremendo no seu pijama de entrevado.


— Como se atreveram? Como se pode massacrar um povo que ainda não acabou
de prantear os filhos mortos pela libertação da França? Porque nos abatem
como gado só porque reclamamos a nossa quota-parte de liberdade?

Estava fora de si. Lívido, com a barriga colada às costas, tropeçava nas
pantufas enquanto calcorreava o salão.

A estação árabe do seu rádio contava a repressão sangrenta que atingia os


muçulmanos de Guelma, Kherrata e Sétif, os locais onde apodreciam os
restos mortais de milhares de pessoas, a caça ao Árabe pelos campos e os
pomares, as largadas de cães de fila e os linchamentos nas praças
públicas. As notícias eram tão horrorosas que nem o meu tio nem eu
tivemos coragem de nos solidarizar com a manifestação pacífica que
desfilou na avenida principal de Rio Salado.

O meu tio acabou por ceder sob a amplitude da catástrofe que enlutou o
povo muçulmano. Uma noite, levou a mão ao coração e caiu de cara no chão.
A Sra. Scamaroni ajudou-nos a transportá-lo no seu carro para o hospital
e confiou-o aos bons cuidados de um médico seu conhecido. Perante o
pânico crescente de Germaine, achou prudente ficar junto dela na sala de
espera. Fabrice e Jean--Christophe fizeram-nos companhia durante a noite,
e Simon teve de pedir emprestada a mota do vizinho para ir ter connosco.

— O seu marido teve um ataque cardíaco, minha senhora — explicou o médico


a Germaine. — Não recuperou os sentidos.

— E vai recuperar, senhor doutor?

— Fizemos o que tínhamos de fazer. Agora depende dele. Germaine não sabia
o que dizer. Não dissera uma palavra

desde o internamento do marido. Os olhos espantados moviam-se


158

O QUE O DIA DEVE À NOITE

de um lado para o outro no rosto pálido. Juntou as mãos sob o queixo e


baixou as pálpebras, rezando.

O meu tio saiu do coma no dia seguinte, de madrugada. Reclamou água e


exigiu que o levassem para casa imediatamente. O médico manteve-o em
observação durante alguns dias antes de consentir na sua alta. A Sra.
Scamaroni propôs-nos uma enfermeira conhecida para tratar a tempo inteiro
do doente. Germaine recusou com delicadeza, prometendo-lhe que se
ocuparia dele pessoalmente, e agradeceu-lhe pelo que tinha feito por nós.

Dois dias mais tarde, quando estava à cabeceira do meu tio, ouvi alguém
chamar-me da rua. Aproximei-me da janela e vi uma silhueta agachada atrás
de uma elevação de terreno. Ergueu-se e acenou-me. Era Jelloul, o criado
de André.

Saiu do esconderijo no momento em que eu chegava ao atalho que separava a


nossa casa das vinhas.

— Meu Deus! — gritei.

Jelloul coxeava. Tinha o rosto tumefacto, os lábios rebentados e um olho


negro. A camisa estava raiada de listras vermelhas, provavelmente marcas
de chicotadas.

— Quem te pôs nesse estado?

Jelloul olhou primeiro à sua volta, como se tivesse medo de que alguém o
ouvisse; a seguir, olhando-me nos olhos, proferiu em tom cortante:

— André.

— Porquê? Que fizeste?

Sorriu, achando absurda a minha pergunta:

— Com ele, não preciso de fazer asneiras. Encontra sempre um pretexto


para me rebaixar. Desta vez, foi por causa do descontentamento dos
muçulmanos nos Aures. Agora, André desconfia dos árabes. Ontem, chegou
bêbado da cidade e desan-cou-me.

Ergueu a camisa e virou-se para me mostrar as escoriações nas costas.


André excedera-se.

Voltou-se de novo para mim, enfiou as fraldas da camisa nas calças


poeirentas, fungou com toda a força e acrescentou:
RIO SALADO

159

— Disse que era para me advertir contra falsas ideias, para me meter na
cabeça de uma vez por todas que o patrão era ele e que não toleraria
insubordinações entre a criadagem.

Jelloul esperou qualquer coisa de mim que não se declarou. Tirou a


chéchia e pôs-se a esfregá-la nas mãos enegrecidas:

— Não vim contar-te a minha vida, Jonas. André mandou--me embora sem me
dar um tostão. Não posso voltar para casa sem nada. A minha família só me
tem a mim para não morrer de fome.

— De quanto precisas?

— Do suficiente para podermos comer qualquer coisa durante três ou quatro


dias.

— Volto dentro de dois minutos.

Subi ao quarto e regressei com duas notas de cinquenta francos. Jelloul


pegou nelas sem pressa, virou-as e revirou-as entre os dedos, indeciso:

— É dinheiro a mais. Não poderia pagar-te.

— Não tens de o fazer.

A minha generosidade causou-lhe surpresa. Meneou a cabeça, reflectiu e,


depois, cerrando os lábios num trejeito embaraçado, disse:

— Nesse caso, basta-me uma nota.

— Leva as duas. É com gosto.

— Não duvido, mas não é preciso.

— Tens um trabalho em vista?

O trejeito transformou-se num sorriso enigmático:

— Não, mas o André não consegue passar sem mim. Há-de vir à minha procura
antes do fim-de-semana. Não encontra no mercado um cão melhor do que eu.

— Porque és tão severo contigo?

— Não podes compreender. És dos nossos, mas vives a vida deles... Quando
se é o único ganha-pão de uma família composta por uma mãe meia louca, um
pai com os dois braços amputados, seis irmãos e irmãs, uma avó, duas tias
repudiadas com a respectiva prole, e um tio doente todo o ano, uma pessoa
deixa de ser um ser humano... Entre o cão e o chacal, o animal reduzido a
nada escolhe um dono.

Estava siderado com a violência das suas palavras. Jelloul não tinha
vinte anos, mas emanava da sua pessoa uma força se-
160

O QUE O DIA DEVE À NOITE

creta e uma maturidade que me impressionavam. Nessa manhã, deixara de ser


o criado servil a que nos habituara. O rapaz que estava à minha frente
era outra pessoa. Curiosamente, descobria-lhe traços nos quais nunca
reparara. Tinha uma cara sólida com maçãs do rosto salientes, um olhar
perturbador e exibia uma dignidade de que não o imaginava capaz.

— Obrigada, Jonas — disse-me. — Pagar-te-ei mais tarde ou mais cedo.

Virou-se e afastou-se, coxeando dolorosamente.

— Espera — gritei. — Não vais longe com um pé tão maltratado.

— Consegui cá chegar assim.

— Talvez, mas só agravaste a ferida... Moras onde, exactamente?

— Não muito longe. Por trás da colina dos dois marabutos. Hei-de lá
chegar.

— Não te deixo dar cabo do pé. Vou buscar a bicicleta e venho já.

—Ah! não, Jonas. Tens outras coisas para fazer em vez de me levares a
casa.

— Insisto!...

Pensava ter presenciado a miséria extrema em Jenane Jato; enganava-me. A


miséria do douar onde Jelloul e a família viviam ultrapassava os limites.
O lugarejo contava com uma dezena de casebres sórdidos, no leito de um
ribeiro seco ladeado de cercas onde sobreviviam algumas cabras
esqueléticas. Cheirava tão mal que tive dificuldade em acreditar que as
pessoas pudessem aguentar dois dias seguidos. Incapaz de me aventurar
mais, arrumei a bicicleta na berma do caminho e ajudei o criado a descer.
A colina dos dois marabutos distava escassas amarras de Rio Sa-lado;
contudo, não me recordava de ter alguma vez chegado àquelas paragens. As
pessoas evitavam-nas. Como se se tratasse de um território maldito. De
repente, tive medo de lá estar, do outro lado da colina; medo de não sair
ileso, seguro de que, se acontecesse um acidente, ninguém iria buscar-me
a um sítio onde não havia
RÍOSALADO i™ 161

qualquer razão para eu me aventurar. Era absurdo, mas o medo era forte e
bem real. De repente, o lugarejo assustava-me. E esse fedor infernal, tão
próximo do cheiro da decomposição!

— Anda — disse Jelloul. — Vou apresentar-te ao meu pai.

— Não — gritei, aterrorizado com o convite. — Tenho de voltar para o pé


do meu tio. Está muito doente.

Garotos nus brincavam na poeira, de barriga inchada e narinas cercadas de


moscas — sim, era isso; além do fedor, havia o zumbido das moscas, voraz,
obsessivo; não parava de somar à atmosfera viciada uma litania funesta,
como um sopro diabólico a planar sobre um sofrimento humano tão velho
como o mundo e igualmente aflitivo. Perto de um pequeno muro em toube,
próximo de um burro adormecido, um grupo de velhos dormitava, de boca
aberta. Com os braços descarnados erguidos para o céu, um louco falava
com uma árvore-marabuto ornamentada de fitas talismâni-cas e de círios
derretidos... Depois, mais nada; dir-se-ia um lugarejo abandonado pelas
pessoas válidas e entregue a garotos fau-nianos e a moribundos.

Um bando de cães localizou-nos e avançou para mim a ladrar. Jelloul


escorraçou-o à pedrada. Restabelecido o silêncio, vol-tou-se para mim e
lançou-me um sorriso estranho.

— É assim que vivem os nossos, Jonas. Os nossos que também são os teus.
Mas não evoluem, ao contrário de ti para quem a vida corre bem... Que
tens? Porque não dizes nada? Estás chocado? Custa-te a crer, não é?...
Espero que me compreendas agora quando te falo do cão. Nem os animais
aceitariam descer tão baixo.

Eu estava estupefacto. A pestilência revolvia-me o estômago, o zumbido


das moscas perfurava-me o cérebro. Tinha vontade de vomitar, mas temia
que Jelloul me levasse a mal.

Jelloul troçava, divertido com o meu mal-estar.

Mostrou-me o douar.

— Olha bem para este cu-de-judas. É o nosso lugar neste país, no país dos
nossos antepassados. Olha bem, Jonas. Nem mesmo Deus passou por aqui.

— Porque dizes essas coisas horrorosas?


162

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Porque as penso. Porque são verdade.

O meu medo acentuou-se. Desta vez, era Jelloul quem me aterrorizava, com
o seu olhar penetrante e o seu ricto sardónico. Subi para a bicicleta e
dei meia volta.

— É assim mesmo, Younes. Volta as costas à verdade dos teus e vai a


correr ter com os teus amigos... Younes... Espero que ainda te lembres do
teu nome... Eh! Younes... Obrigado pelo dinheiro. Prometo que to devolvo
um destes dias. O mundo está a mudar, dás-te conta?

Pus-me a pedalar como um louco, com os gritos de Jelloul a soarem aos


meus ouvidos como tiros de intimidação.

Jelloul não estava errado. As coisas estavam a mudar, mas para mim
aconteciam num mundo paralelo. Dividido entre a fidelidade aos meus
amigos e a solidariedade com os meus, contemporizava. Depois de tudo o
que se passara no Constantinois e da consciencialização das massas
muçulmanas, tornava-se-me evidente que seria obrigado a optar, mais tarde
ou mais cedo, por um dos lados. Ainda que me recusasse a decidir, os
acontecimentos acabariam por escolher por mim. A cólera avançava:
transbordara dos locais secretos onde se desenrolavam os conciliábulos
militantes e estava prestes a espalhar-se nas ruas, a ramificar-se pelas
franjas desfavorecidas e a insinuar-se nos bairros negros e nos douars
isolados.

No grupo de Jean-Christophe, mantínhamo-nos longe dessas transformações.


Éramos homens jovens, maravilhados com os nossos vinte anos, e se o buço
por cima dos lábios ainda não era suficientemente consistente para se
erguer ao nível de bigode, já sublinhava claramente a nossa vontaae de
sermos adultos e senhores das nossas opções. Inseparáveis como dentes de
um garfo, vivíamos para nós próprios, e o mundo éramos nós os quatro.

Fabrice obteve o primeiro prémio no concurso nacional de poesia. A Sra.


Scamaroni levou-nos aos quatro a Argel para a cerimónia. O laureado
estava nas nuvens. Além de uma quantia substancial, o júri encarregava-se
de publicar a colectânea premiada na Edmond Charlot, uma importante
editora argelina. A Sra. Scamaroni alojou-nos num hotelzinho asseado,
relativamente perto
RIO SALADO

163

da rue d'Issy. Depois da entrega do troféu, que Fabrice recebeu das mãos
de Max-Pol Fouchet em carne e osso, a mamã do laureado ofereceu-nos um
jantar sumptuoso, à base de peixe fresco e marisco, num soberbo
restaurante de La Madrague. No dia seguinte, impacientes por regressar ao
nosso querido Rio Salado onde o presidente da câmara previra uma colação
em honra do menino-prodígio da terra, fizemo-nos à estrada, com uma curta
escala em Orléansville para petiscar e uma segunda em Perrigault onde
fizemos provisões de laranjas — as mais belas do mundo. Meses mais tarde,
Fabrice convidou-nos a estar presentes numa livraria de Lourmel, uma
aldeia colonial perto de Rio. A mãe estava lá, encantadora no seu fato de
saia e casaco grená. Tinha um enorme chapéu com plumas que lhe dava um ar
distinto. O livreiro e algumas personalidades locais ocupavam os seus
lugares na ponta de uma enorme mesa em ébano, imobilizados numa
solenidade quase oficial e sorrindo benevolentemente. Sobre a mesa,
pilhas de livros novinhos em folha, acabados de sair dos caixotes. Na
capa, por cima de um belo título em itálico, lia-se «Fabrice Scamaroni».

— Caramba! — exclamou Simon, sempre a um passo de perverter a seriedade


das cerimónias.

Quando se acabaram as apresentações e os discursos, Simon, Jean-


Christophe e eu precipitámo-nos para a colectânea de poesia e pusemo-nos
a folheá-la, a acariciá-la, a virá-la e revirá-la nas mãos com deleite,
tão maravilhados que a Sra. Scamaroni não conseguiu apanhar com o dedo a
lagrimazinha que lhe rolou na face, deixando no seu rasto um filamento de
rímel.

— Li com imenso prazer a sua obra, senhor Scamaroni — disse um


sexagenário. — Possui um talento real e todas as hipóteses de devolver os
títulos de nobreza à poesia que sempre foi a alma secreta da nossa
querida região.

O livreiro estendeu ao nosso autor uma carta de felicitações assinada por


Gabriel Audisio, fundador da revista Rivages, na qual este lhe propunha
uma bela colaboração.

Ein Rio Salado, o presidente da câmara prometeu abrir uma biblioteca na


avenida principal, e Pépé Rucillio comprou, sozinho, uma centena de
exemplares da colectânea de Fabrice que enviou
Z04

O QUE O DIA DEVE À NOITE

aos seus conhecimentos em Orão — que, em seu entender, o tratavam como


campónio endomingado mal ele lhes virava as costas — para lhes provar
que, na sua aldeia, não havia só vinhateiros abastados e obtusos, e
bêbados.

O Inverno retirou-se um dia na ponta dos pés para dar lugar à Primavera.
De manhã, as andorinhas dentearam os cabos de electricidade, e as ruas de
Rio Salado exalaram mil perfumes. O meu tio voltava progressivamente à
vida. Reencontrara um pouco das cores e uma parte dos hábitos; a paixão
pelos livros. Consumia-os sem parar, com bulimia, fechando um romance só
para se lançar num ensaio. Lia nas duas línguas, passando de um El Akkad
a um Flaubert sem aviso prévio. Ainda não saía de casa, mas recomeçou a
fazer a barba todos os dias e a vestir-se decentemente. Tomava as
refeições connosco, na sala de jantar, trocando algumas fórmulas de
delicadeza com Germaine. As suas exigências tornaram-se mais sensatas, e
os gritos deixaram de se fazer ouvir por dá cá aquela palha. De hábitos
muito regulares, levantava-se de madrugada, fazia a sua oração matinal,
sentava-se à mesa para o pe-queno-almoço às sete horas em ponto,
retirando-se depois para o escritório até eu lhe levar o jornal. Depois
das notícias, abria os cadernos de espiral, mergulhava a caneta num
tinteiro e escrevia até ao meio-dia. Às treze horas, fazia uma pequena
sesta; a seguir, pegava num livro e alheava-se até ao cair da noite.

Um dia, deslocou-se ao meu quarto.

— Tens de ler este autor. Chama-se Malek Bennabi1. Como personagem não é
claro, mas o seu espírito é-o.

Pousou um livro na mesa-de-cabeceira e esperou que eu pegasse nele; coisa


que fiz. Era um livrinho com cerca de cem páginas, intitulado Les
Conditions de la renaissance algérienne.

' Intelectual argelino (1905-1973), autor de uma vintena de obras sobre


civilização, cultura, ideologia e problemas sociais. Pretendia despertar
a consciência dos muçulmanos e estimular o renascimento da sociedade
muçulmana. Criticou vivamente a administração colonial francesa em
escritos e conferências e nunca aceitou a colonização da Argélia pela
França. (N. da T.)
RIO SALADO

165

Antes de se retirar, disse-me:

— Não te esqueças do que diz o Alcorão: Quem matar uma pessoa matará toda
a humanidade.

Não me perguntou se tinha lido o livro de Malek Bennabi e muito menos o


que pensava dele. A mesa, só se dirigia a Germaine.

A casa recuperava uma aparência equilibrada. Ainda não era a alegria;


contudo, o facto de ver o meu tio compor a gravata à frente do espelho do
armário era, só por si, um encantamento. Esperávamos que passasse a
soleira da porta da rua e que regressasse ao mundo dos vivos. Tinha
necessidade de voltar a ouvir os barulhos da rua, de ir a um café ou de
se sentar num banco de um jardim público. Germaine fazia questão de abrir
de par em par as portas das varandas. Sonhava vê-lo reajustar o fez,
alisar a parte da frente do colete, lançar um olhar para o relógio de
bolso e apressar-se a reunir com um grupo de amigos para um debate de
ideias. Mas o meu tio temia a multidão. Tinha um medo mórbido da
promiscuidade e entraria em pânico se tivesse de se cruzar com pessoas.
Só em casa se sentia protegido.

Germaine estava convencida de que o marido envidaria esforços titânicos


para recuperar.

Coitada! Um domingo, quando acabávamos de comer, o meu tio bateu


bruscamente na mesa e, com uma mão, varreu os pratos e os copos para o
chão. Tememos um ataque cardíaco, mas não. O meu tio levantou-se,
derrubando a cadeira, recuou até à parede e, com o dedo apontado para
nós, gritou:

— Ninguém tem o direito de me julgar! - ti Germaine olhou para


mim, estupefacta: ¦ '< - ¦

— Disseste-lhe alguma coisa? — perguntou. ¦ • •

— Não.

Examinou o marido como se se tratasse de um desconhecido.

— Ninguém te está a julgar, Mahi.

O meu tio não se dirigia a nós. Os olhos, ainda que pousados em nós, não
nos viam. Franziu as sobrancelhas como se, de repente, saísse de um
pesadelo, repôs a cadeira no sítio, sentou-se, apoiou a cabeça nas mãos e
não se mexeu mais.

De noite, cerca das três horas, uma disputa arrancou-nos da cama, a


Germaine e a mim. O meu tio discutia com um intruso no
166

O QUE O DIA DEVE À NOITE

seu escritório fechado à chave com duas voltas. Desci a correr para
verificar se a porta da ma estava aberta, se havia alguém na rua. A porta
estava fechada e o ferrolho colocado. Subi ao primeiro andar. Germaine
tentava ver o que se estava a passar no escritório, mas a chave na
fechadura impedia-o.

O meu tio estava fora de si.

— Não sou cobarde — gritava. — Não traí ninguém, entendes? Não me olhes
assim. Proíbo-te de troçares de mim. Não denunciei ninguém, ninguém,
ninguém...

A porta do escritório abriu-se e o meu tio saiu, lívido de cólera, com os


cantos da boca a escorrerem baba. Empurrou-nos e encaminhou-se para o seu
quarto sem dar por nós.

Germaine foi a primeira a entrar no escritório; fui atrás dela... Não


havia ninguém lá dentro.

Voltei a ver a Sra. Cazenave no princípio do Outono. Chovia e Rio não se


parecia com o que era. Os cafés, com as mesas nas esplanadas, lembravam
lares para desempregados. A Sra. Cazenave continuava com o seu porte
aéreo, mas o coração não me saltou no peito. Seria a chuva que temperava
as paixões ou a atmosfera monótona que desmistificava as lembranças? Não
tentara apurar. Atravessara a calçada para não me cruzar com ela.

Em Rio Salado, que só vivia para o sol, o Outono era uma estação morta.
As máscaras caíam como as folhas das árvores e os amores deparavam-se com
uma pusilanimidade enfadonha. Jean--Christophe Lamy passava por isso.
Encontrou-me em casa de Fa-brice onde esperávamos o regresso de Simon,
que estava em Orão. Sem dizer palavra, sentou-se num banco na varanda e
aí permaneceu entregue à melancolia.

Simon Benyamin não foi bem sucedido em Orão para onde tinha ido a fim de
fazer valer os seus talentos de cómico. Lera no jornal que estavam a
recrutar jovens humoristas e pensara tratar-se da oportunidade da sua
vida. Com o anúncio no bolso, aperaltara--se muito bem e apanhara o
primeiro autocarro rumo à glória. Ao olhar-lhe para a boca descaída sobre
o queixo, compreendemos que as coisas não se tinham processado como ele
teria desejado.
RIO SALADO

167

— Então? — perguntou Fabrice.

Simon deixou-se cair numa cadeira de verga e cruzou os braços sobre a


barriga, com um péssimo humor.

— Que aconteceu?

— Nada. Não aconteceu nada. Não me deram nenhuma hipótese, os sacanas...


Desde o princípio que senti que não era o meu dia. Esperei quatro horas
nos bastidores antes de entrar em palco. Primeira surpresa: a sala do
teatro estava completamente vazia. Só lá estava um velho idiota sentado
na primeira fila, e uma fedú-cia desidratada ao lado dele, que parecia
uma coruja com os seus óculos de aros. E um enorme projector virado para
a minha cara. Parecia um interrogatório. «Chegou a sua vez, senhor
Benyamin», disse o velho idiota. Juro que me pareceu ouvir os meus
antepassados a chamarem-me do fundo das suas campas. Era glacial,
impenetrável; uma capela ardente não o teria comovido. Interrom-peu-me
mal comecei. «Qual a diferença entre um palhaço e um palhaço ordinário,
senhor Benyamin?», lançou ele. «Bom, vou dizer-lhe. Um palhaço faz rir
porque é patético e engraçado; um palhaço ordinário faz rir porque é
ridículo.» E fez sinal para mandarem entrar o seguinte.

Fabrice estava dobrado em dois.

— Levei duas horas a acalmar-me nos vestiários. Se o idiota do velho


tivesse vindo ter comigo para se desculpar, ter-lhe-ia dito das boas...
Bastava vê-los, aos dois, naquela imensa sala vazia, com as suas caras
terrosas.

Jean-Christophe estava furioso por nos ver rir.

— Há problema? — perguntou Fabrice. Jean-Christophe baixou a cabeça e


suspirou:

— Isabelle começa a irritar-me.

— Só agora percebes? — disse-lhe Simon. — Tinha-te dito que não era


rapariga para ti.

— O amor é cego — disse Fabrice, filosoficamente.

— Torna as pessoas cegas — corrigiu Simon.

— É grave? — perguntei a Jean-Christophe.

— Porquê? Ela continua a interessar-te? Fixou-me de uma maneira estranha


e acrescentou:
168

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— A corrente entre vocês nunca se quebrou, pois não, Jonas?... Bom, Já


tive que bastasse dessa imbecil. Fica com ela.

— Quem te garante que me interessa?

— É de ti que ela gosta — gritou, batendo na mesa.

O silêncio instalou-se na sala. Fabrice e Simon olharam-nos. Jean-


Christophe estava mesmo zangado comigo.

— Que é que estás a dizer? — perguntei.

—A verdade... Quando sabe que estás por perto, perde o controlo. Procura-
te com os olhos e só se acalma quando te localiza... Se a tivesses visto,
no último baile! Estava agarrada ao meu braço, depois tu chegaste e ela
pôs-se a fazer parvoíces para te chamar a atenção. Quase lhe dei uma
bofetada para a meter na ordem.

— Se o amor torna as pessoas cegas, Chris, o ciúme provoca--Ihes


alucinações — disse-lhe.

— Tenho ciúmes, é verdade, mas não estou a delirar.

— Vá lá! — interveio Fabrice que pressentia que as coisas iam dar para o
torto. — Isabelle adora manipular as pessoas que a cercam, Chris.
Querpôr-te aprova, mais nada. Se não gostasse de ti, já te tinha deixado.

— Seja como for, já tive que bastasse. Se a eleita do meu coração é capaz
de olhar por cima do meu ombro, será melhor eu desaparecer da vista dela.
E depois, sinceramente, acho que não sinto um grande amor por ela.

Sentia-me embaraçado. Era a primeira vez que um mal-en-tendido gerava


constrangimento no nosso grupo. Para meu grande alívio, Jean-Christophe
apontou-me o dedo e disse:

— Pum! Apanhei-te, hem? E tu foste nisso.

Ninguém achou a situação divertida. Estávamos convencidos de que Jean-


Christophe estava a falar a sério.

No dia seguinte, ao subir a rua com Simon em direcção à praça, vimos


Isabelle de braço dado com Jean-Christophe. Iam ao cinema. Não sei
porquê, escondi-me imediatamente por baixo de uma porta para não me
verem. Simon ficou surpreendido com a minha reacção, mas compreendeu-me.
1e~iK*e~

lã *>*

III. Émilie
12.

André convidou todos os jovens de Rio Salado para a inauguração do seu


bar. Ninguém esperava ver o filho de Jaime J. Sosa num sítio daqueles.
Imaginavam-no antes bem direito nas suas botas de senhor feudal, com o
pingalim encostado à coxa e o grito como primeiro e último recurso, a dar
pontapés no rabo dos trabalhadores sazonais e a querer o Olimpo só para
ele... Vê-lo patrão de uma espelunca, a abrir garrafas de cerveja,
deixou-nos sem voz. Na verdade, desde o seu regresso dos Estados Unidos
onde efectuara uma peregrinação prodigiosa na companhia do amigo Joe,
André mudara. A América fizera-o ter consciência de uma realidade que nos
escapava e a que ele chamava, com um vago fervor místico, o sonho
americano. Quando se lhe perguntava o que queria dizer precisamente com
«sonho americano», enchia as bochechas, bamboleava-se e respondia,
torcendo a boca para o lado: viver a vida como se quer, mandando passear
os tabus e as conveniências. André tinha certamente uma ideia clara
daquilo que tentava trans-mitir-nos, mas a sua pedagogia deixava muito a
desejar. Contudo, o que era perceptível era a sua vontade de actualizar
os nossos habitozinhos de provincianos criados à sombra dos mais velhos.
Obedecer sem protestar, mexer-se só com autorização, esperar pelas festas
para sair de casa, era inadmissível para André. Em seu entender, uma
sociedade distingue-se pelo entusiasmo da sua juventude e renova-se
graças à vivacidade e insolência dela; ora, no nosso país, a juventude
limitava-se a ser um adorável rebanho açor-
1 72 O QUE O DIA DEVE À NOITE

rentado aos automatismos de uma era passada e incompatível com uma


modernidade conquistadora e desenvolta, reclamando audácia e exigindo
vitalidade ou discórdia — como em Los Angeles, São Francisco, Nova Iorque
onde, desde o fim da guerra, os jovens torciam o pescoço a essa
sacrossanta devoção familiar, para se libertarem do seu jugo e voarem com
as suas próprias asas, ainda que correndo o risco de se despenharem como
ícaro.

André estava convencido de que o vento mudava e que passara a soprar no


sentido que os Americanos atribuíam aos seres e às coisas. Para ele, o
estado de saúde de um país dependia da sua sede de conquistas e
revoluções. E, em Rio Salado, as gerações sucediam-se e assemelhavam-se
umas às outras. Era preciso introduzir reformas urgentes nas
mentalidades. André não encontrara melhor forma de as desencadear que um
snack ao estilo ca-liforniano, para nos afastar dessa obsolescência
grosseira em que se tornara a nossa subordinação gregária e para nos
lançar, de corpo e alma, na fúria de viver.

O snack ficava por trás da cave R. C. Kraus, no descampado onde, em


crianças, jogávamos futebol, fora da aldeia. No empedrado, colocaram-se
cerca de vinte mesas, rodeadas de cadeiras brancas e guarda-sóis. Ficámos
mais sossegados quando vimos os caixotes de garrafas de vinho e de
limonada, as caixas de fruta e os grelhadores nos quatro cantos do pátio.

— Vamos empanturrar-nos à grande — entusiasmou-se Simon. Jelloul e alguns


empregados afadigavam-se à volta das mesas,

ocupados a cobri-las de toalhas e a guarnecê-las de garrafas e de


cinzeiros. André e o primo José pavcneavam-se à entrada do snack, com
chapéus de cowboy desenvoltamente descaídos sobre a nuca, as pernas
afastadas, os polegares sob a fivela do cinturão.

— Devias comprar uma manada de bois — disse Simon a André.

— Agrada-te o meu snack?

— Desde que haja bebida e comida.

— Então regala-te e arrasa...

Desceu o degrau para nos apertar contra ele, aproveitando o abraço para
tocar no entrepernas de Simon.
EMILIE

173

— No instrumento não — protestou Simon, recuando.

— Como se fosse um tesouro! Aposto que te renderia menos do que uma


aldraba torta numa feira de velharias — disse André, empurrando-nos aos
três para o bar.

— Quanto apostas?

— O que quiseres... Olha, esta noite hão-de aparecer por aqui umas
belezas. Se conseguires cair no goto de uma, pago eu o quarto do hotel. E
no Martinez, se quiseres.

— Combinado!

— Dédé não falha — fez questão de recordar solenemente José, para quem o
primo era um monumento de rectidão e de intrepidez. — Quando promete,
cumpre.

Após o que, com a consciência de ter lisonjeado a fibra mais sensível do


primo mais velho, se afastou para nos deixar passar.

André levou-nos a visitar a sua «revolução». Nada semelhante aos cafés da


região. O snack era mais colorido, com — por trás do balcão — um enorme
espelho no qual se adivinhava, em filigrana, a envergadura espectral da
Golden Gate Bridge, e — em frente — bancos altos estofados. As
prateleiras em latão abatiam sob o peso das garrafas e dos bibelôs,
decoradas com belos anúncios luminosos e pequenas bugigangas práticas.
Nas paredes estavam afixados grandes retratos de actores e actrizes de
Hollywood. Os candeeiros de tecto difundiam uma luz velada na sala, que
as cortinas nas janelas mergulhavam numa doce penumbra, ao passo que, nos
recantos, candeeiros de parede vermelhos pintalgavam as proximidades de
sombras sanguinolentas. Os assentos estavam presos ao chão e dispostos,
em compartimentos, de forma semelhante aos bancos dos vagões, separados
por uma mesa rectangular sobre a qual se podia admirar paisagens da
América selvagem.

Numa sala ao lado, precisamente no meio da divisão, exibia--se uma mesa


de bilhar. Nenhum café em Rio ou em Lourmel possuía bilhares. O que André
oferecia à sua clientela era uma verdadeira obra de arte, iluminada por
um candeeiro de tecto tão baixo que quase tocava na mesa.

André pegou num taco, pintalgou-lhe a ponta de giz, debru-çou-se sobre a


mesa, ajustou-o no punho transformado em suporte,
174 O QUE O DIA DEVE À NOITE

visou um triângulo de bolas multicores agrupadas no centro do tecido


verde e desferiu-lhe uma tacada seca. O triângulo desfez-se e as bolas
dispersaram em todas as direcções, ricocheteando nos rebordos da mesa.

— A partir de hoje — declarou, — as pessoas já não irão ao bar embebedar-


se. Aqui, começarão por jogar ao bilhar. E atenção, trata-se apenas de
uma primeira entrega, pois espero mais três antes do fim do mês. Estou a
pensar organizar um campeonato regional.

José ofereceu-nos cerveja e um refrigerante para mim, e pro-pôs-nos que


ocupássemos uma mesa no pátio enquanto esperávamos a chegada dos
convivas. Eram cerca de dezassete horas. O sol deslizava lentamente por
trás das colinas, dardejando a sua luz rasante nos vinhedos. Do pátio,
tínhamos uma vista desobstruída sobre a planície e a estrada que se
dirigia a toda a brida para Lourmel. Um autocarro largou os passageiros à
entrada da aldeia: pessoas de Rio que regressavam de Orão e camponeses
árabes provenientes dos estaleiros da cidade. Estes últimos, extenuados,
atravessavam os campos em direcção ao caminho que os conduzia aos seus
lugarejos, com as trouxas debaixo do braço.

Jelloul seguiu o meu olhar; quando o último operário desapareceu no


atalho, virou-se para mim e fixou-me com uma acuidade que me perturbou.

O clã dos Rucillio apoderou-se das instalações no momento em que o sol se


escondia por trás das colinas. Era composto pelos dois filhos mais novos
de Pépé, por dois primos deles e pelo cunhado António, cantor de cabaré
em Sidi Bel-Abbès. Chegaram num Citroen colossal, acabado de sair da
fábrica, que e siacionaram à entrada do pátio de modo a ser visto por
toda a gente.

André recebeu-os com palmadas nas costas e sonoras gargalhadas de ricaço,


antes de os instalar nos primeiros compartimentos.

— Uma pessoa pode ter muito dinheiro e espalhar à sua volta um cheiro a
merda de cavalo — vociferou Simon, que detestava que os Rucillio
passassem por nós sem nos cumprimentar.

— Sabes como eles são — disse eu, para o apaziguar.

— Mesmo assim podiam ter dito boa-tarde. Custava-lhes alguma coisa serem
cordiais? Nós não somos uns borra-botas. Tu
ÉMILIE 175

és farmacêutico, Fabrice é poeta e jornalista e eu sou funcionário


público.

Ainda não era noite quando o pátio se pôs a formigar de raparigas


radiosas e de rapazes bem vestidos. Outros casais, menos jovens, chegavam
em carros resplandecentes, as senhoras trajadas como rainhas e os
senhores de fato, com os laços a atravessarem--lhes a garganta como
facas. André convidara a elite de Rio e os burgueses mais destacados das
redondezas. Reconhecemos, na confusão furta-cor, o filho da maior fortuna
de Hammam Bouhdjar, cujo pai dispunha de um avião privado, de braço dado
com uma estrela em ascensão da canção judaico-oranesa que uma multidão de
admiradores assediava com cumprimentos quando não era ela a misturar-se,
estendendo-lhes ora um isqueiro ora um maço de cigarros.

Acenderam os balões que pairavam sobre o pátio. José bateu palmas a pedir
silêncio; o zunzum diminuiu, extinguindo-se gradualmente. André subiu a
um estrado para agradecer aos convidados terem vindo festejar com ele a
inauguração do seu snack. Começou por uma anedota porca que embaraçou uma
galeria habituada ao comedimento, lamentou que a atmosfera não o
encorajasse a prosseguir o discurso no mesmo tom, encurtou a intervenção
e deu lugar a um grupo de músicos.

A noitada começou com um concerto de música até então inédita, à base de


trompetes e contrabaixos, que não tardou a desinteressar o auditório.

— É jazz, bolas! — vociferou André. — Como é que uma pessoa pode ser
insensível ao jazz sem parecer um troglodita?

Os músicos acabaram por se render à evidência: cerca de sessenta


quilómetros separavam Rio Salado de Orão, mas as distâncias entre as duas
mentalidades eram estonteantes. Profissionais como eram, continuaram a
tocar no vazio, após o que, à laia de volta à pista, executaram uma peça
que, no meio da indiferença geral, soou como um anátema.

Retiraram-se sem que ninguém se apercebesse.

André não excluía essa derrota; no entanto, esperava que os convidados


dessem provas de um mínimo de correcção para com
176 O QUE O DIA DEVE À NOITE

o grupo de jazz mais aclamado do país. Vimo-lo desfazer-se em desculpas


perante o trompetista que, fora de si, parecia jurar nunca mais pôr os
pés num bled tão atrasado culturalmente como um curral de animais.

Enquanto as coisas corriam mal nos bastidores, José convidou uma segunda
orquestra — desta vez local — a subir à tribuna. Como por encanto, logo
que se ouviu o primeiro compasso, o auditório entusiasmou-se, dando
gritos de alívio, e a pista de dança cobriu-se de uma vaga de bamboleios
frenéticos.

Fabrice Scamaroni perguntou à sobrinha do presidente da câmara se lhe


dava o prazer de uma dança e conduziu-a jovialmente para a pista, Quanto
a mim, levei uma tampa delicada de uma jovenzinha petrificada de timidez,
antes de convencer a sua companheira a ser o meu par. Simon estava nas
nuvens. Com as bochechas de bebé gorducho apoiadas nas mãos, olhava
apenas para a mesa vazia do outro lado do pátio.

Quando houve uma pausa na música, acompanhei o meu par ao seu lugar e
regressei ao meu. Simon não me prestou atenção. Continuava com o rosto
pousado nas mãos, não franzia as sobrancelhas e sorria vagamente. Agitei
a mão à frente dos seus olhos; não reagiu. Segui o seu olhar e... vi-a.

Estava sentada sozinha, numa mesa afastada das outras — colocada lá


tardiamente pois não tinha toalha nem louça — que os movimentos
irregulares dos dançarinos escondiam de vez em quando... Compreendi o que
tanto acalmava Simon, que costumava transformar os bailes em circos
desopilantes: a rapariga era uma beldade de cortar a respiração!

Cingida num vestido leitoso, com os cabelos pretos apanhados na nuca, um


sorriso tão leve como uma voluta de fumo, contemplava os dançarinos sem
os ver. Parecia absorta nos seus pensamentos, com o queixo delicadamente
pousado na ponta das mãos enluvadas de branco até ao cotovelo. De vez em
quando, desaparecia por trás das sombras que se contorciam â sua volta,
reaparecendo depois em toda a sua majestade, como uma ninfa a sair de um
lago.

— Não é sublime? — ofegou Simon, subjugado.


EMILIE

177

— É magnífica.

— Olha-me para aqueles olhos cheios de mistério. Aposto que são tão
negros como os cabelos. E o nariz! Admira-me o nariz. É o fim do mundo.

— Calma, rapaz!

— E a boca, Jonas, viste o botão de rosa que faz as vezes de boca? Como é
que ela come?

— Atenção, Simon, estás a levantar voo. Desce um pouco à terra, amigo.

— Para quê?

— Há poços de ar nas nuvens.

— Estou-me nas tintas. Uma tal maravilha merece que se quebre a cabeça
por ela.

— E contas seduzi-la como?

Olhou para mim finalmente e disse, com uma expressão de tristeza a


crispar-lhe as feições:

— Sabes muito bem que não tenho hipótese nenhuma.

A prostração súbita do seu tom de voz cortou-me o coração. Recuperou


imediatamente:

— Achas que é de Rio?


¦•¦ •

— Há muito que teríamos dado por ela. Simon sorriu:

— Tens razão. Há muito que teríamos dado por ela. Curiosamente, retivemos
ambos a respiração e endireitámos

as costas quando um homem novo se aproximou da rapariga isolada e a


convidou para dançar. Ficámos aliviadíssimos quando ela recusou
delicadamente.

Fabrice voltou da pista de dança a suar, sentou-se no seu lugar e,


secando-se com um lenço, inclinou-se para nós e cochichou:

— Já viram aquela beleza solitária, à direita, ao fundo do pátio?

— Estás a brincar? — respondeu Simon. — Parece que toda a gente só a vê a


ela.

— Acabo de ser abandonado por causa dela — confidenciou Fabrice. — O meu


par por pouco me furava os olhos quando se apercebeu de que eu tinha a
cabeça noutro sítio... Fazem alguma ideia de quem possa ser?
178 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Uma citadina de passagem em visita a familiares, quase de certeza —


respondi. — Pela maneira de se vestir e comportar, tem aspecto de ser uma
rapariga da cidade. Nunca vi uma das raparigas de cá sentada à mesa
daquela maneira.

Bruscamente, a desconhecida olhou para nós, imobilizando--nos aos três


como se acabasse de nos surpreender com a mão numa carteira. O sorriso
alargou um tudo-nada, e o medalhão que ornamentava o decote cavado do
vestido fez lembrar um farol no fundo da noite.

— Ela é espantosa — admitiu Jean-Christophe, surgido sabia--se lá de


onde.

Virou uma cadeira livre e escarranchou-se nela.

— Cá estás tu, finalmente — disse-lhe Fabrice. — Por onde andaste?

— Ora essa!

— Voltaste a brigar com a Isabelle?

— Digamos que, desta vez, lhe dei uma corrida. Imaginem! Ela não
conseguia decidir que jóia pôr. Esperei no salão, esperei no vestíbulo,
esperei no pátio, e a menina continuava a não ser capaz de escolher entre
o seu ferro-velho.

— Deixaste-a em casa? — perguntou Simon, incrédulo.

— Nem hesitei!

Simon levantou-se, bateu os tacões e levou a mão à testa numa saudação


militar:

— Bravo! Mandaste pastar essa imbecil enjoada e, por isso, tens o meu
respeito. Orgulho-me de ti.

Jean-Christophe puxou Simon pele braço para u obrigar a sentar-se.

— Estás a esconder a grande atracção, gordalhufo — disse Jean-Christophe,


aludindo à bela desconhecida. — Quem é?

— Só tens de ir lá perguntar-lhe.

— Com o clã dos Rucillio no canto? Sou corajoso, mas não sou louco.

Fabrice amarfanhou o guardanapo, respirou profundamente e afastou a


cadeira:

— Bom, vou lá eu.


EM1LIE

179

Não teve tempo de sair da mesa. Um carro estacionou à entrada do pátio. A


rapariga levantou-se e encaminhou-se na direcção dele. Vimo-la sentar-se
ao lado do condutor e sobressaltámo--nos os quatro quando ela fechou a
porta.

— Sei que não tenho nenhuma hipótese — disse Simon, — mas vale bem a pena
experimentar. Amanhã, muito cedo, irei levar o meu chinelo a todas as
raparigas da aldeia para desencantar uma que me sirva.

Desatámos a rir.

Simon pegou na colher abandonada na mesa e pôs-se a mexer o café num


gesto maquinal. Era a terceira vez que mexia a bebida, na qual ainda não
tocara. Estávamos sentados no terraço do café da praça, a aproveitar o
bom tempo. O céu estava límpido e o sol de Março espalhava a sua luz
prateada pela avenida. Nem uma brisa agitava as folhas das árvores. No
silêncio matinal, que o arrulhar da fonte municipal ou o ranger de uma
carroça mal quebravam, a aldeia ouvia-se viver.

Com as mangas da camisa arregaçadas até aos ombros, o presidente da


câmara vigiava um grupo de trabalhadores que pintalgava de vermelho e
branco a berma dos passeios. Diante da igreja, o cura ajudava um
carroceiro a descarregar sacos de carvão que um garoto amontoava contra a
parede de um pátio. Do outro lado da esplanada, donas de casa conversavam
à roda de uma barraca de venda de hortaliças, sob o olhar divertido de
Bruno, um polícia quase adolescente.

Simon pousou a colher.

— Não preguei olho desde aquela noite no Dédé — disse.

— Por causa da rapariga?

— Não se te pode esconder nada... Acho que estou seriamente apaixonado


por ela.

— Aié?

— Não sei o que te diga. Nunca senti o que sinto por essa morena de olhos
cheios de mistério.

— Encontraste-lhe a pista?

— Sabes lá! No dia seguinte, já andava à procura dela. O pro-blema, como


não tardei a topar, é que não era o único. Até o palerma
180

O QUE O DIA DEVE À NOITE

do José anda ao mesmo. Entendes? Já nem se pode fantasiar sobre um pedaço


de chicha sem ter um monte de idiotas atrás de nós.

Perseguiu uma mosca invisível, com um gesto repleto de fria animosidade.


Voltou a pegar na colher e a mexer o café.

— Ah! Se eu tivesse os teus olhos azuis, Jonas, e a tua cara de anjo!...

— Para quê?

— Para tentar o golpe, claro. Olha para a minha fronha, e para esta
barriga a tremer em cima dos meus joelhos como um bloco de gelatina, e
para estas patas curtas que nem sequer sabem andar direito, e para os
meus pés chatos...

— As raparigas não olham para isso apenas.

— É possível, mas acontece que não tenho muito mais para lhes oferecer.
Nem vinhas, nem caves, nem conta no banco.

— Tens outras qualidades. O humor, por exemplo. As raparigas adoram que


as façam rir. Além disso, pode-se confiar em ti. Não és bêbado nem
hipócrita. E isso também conta.

Simon varreu as minhas palavras com um gesto. Após um longo silêncio,


torceu os lábios em sinal de embaraço antes de murmurar:

— Achas que o amor leva a palma à amizade?

— O quê?

— Vi Fabrice fazer a corte à nossa vestal anteontem... Ga-ranto-te que é


verdade. Vi-o como te estou a ver a ti, perto da cave Cordona. Não
parecia um simples encontro. Fabrice estava encostado ao carro da mãe, de
braços cruzados no peito, muito descansado... e a rapariga não parecia
ter pressa de voitar para casa.

— Fabrice é a principal atracção de Rio. Toda a gente o aborda na rua.


Tanto as raparigas como os rapazes. E as pessoas de idade. É normal, é o
nosso poeta.

— Sim, mas não foi essa a impressão que tive quando os vi juntos. Tenho a
certeza de que não era uma mera conversinha sem futuro.

— Eh, labregos! — gritou André, estacionando o carro no passeio em frente


— Porque não estão no meu snack a iniciarem--se nos segredos do bilhar?
EMILIE

181

— Estamos à espera de Fabrice.

— Vou à vossa frente?

— Vamos ter contigo.

— Conto convosco?

— Com certeza.
••¦' l ¦.?.¦ André levou os dois dedos à testa e arrancou a toda a
velocidade, eriçando os pêlos de um velho cão aninhado nos degraus de uma
loja.

Simon agarrou-me com a ponta dos dedos.

— Não me esqueci do mal-entendido entre Chris e tu por causa da Isabelle.


Não quero que nos aconteça o mesmo, ao Fabrice e a mim. A nossa amizade é
essencial para mim...

— Não vamos pôr o carro à frente dos bois.

— Só de pensar nisso, tenho vergonha do que sinto pela rapariga.

— Não devemos ter vergonha de sentimentos que são belos, mesmo que nos
pareçam injustos.

— Estás a falar a sério?

— No amor, todas as hipóteses valem e não temos o direito de não tentar a


nossa.

— Achas que tenho alguma possibilidade contra o Fabrice? E rico e


célebre.

— Achas, achas, achas... Não sabes dizer outra coisa. Queres saber o que
eu acho? Que és um cobardolas. Procuras pretextos e achas que isso te
leva a algum sítio... Bom, mudemos de assunto. Vem aí o Fabrice.

Havia muita gente no snack do André e a barulheira impe-dia-nos de


saborear os caracóis com molho picante. Além disso, havia o Simon. Não
estava nada bem o Simon. Senti várias vezes que se preparava para fazer
confidências ao Fabrice e que desistia mal abria a boca. Fabrice não se
dava conta de nada. Tirara o livro de apontamentos do bolso e, de olhos
franzidos, garatujava um poema que golpeava com riscos. A sua madeixa
loura balouçava por cima do nariz, semelhante a uma barreira erguida
entre as suas ideias e os pensamentos de Simon.
182 O QUE O DIA DEVE À NOITE

André veio ver se nos faltava alguma coisa. Debruçou-se sobre o ombro do
poeta para ler o que ele estava a escrever:

— Se não te importas — disse Fabrice, irritado.

— Um poema de amor!... Posso saber quem te põe o coração aos pulos?

Fabrice fechou o livro de apontamentos, pôs-lhe as duas mãos em cima e


mediu de alto a baixo André que resmungou:

— Queres dizer que faço sombra aos teus arroubos líricos?

— Cortas-lhe as pernas — fulminou Simon. — Bloqueia-lo e ponto.

André empurrou o seu chapéu de cowboy para o alto da cabeça e levou as


mãos às ancas:

— Anda lá, vá. Comeste vaca com raiva esta manhã? Que é que eu fiz?

— Não vês que está inspirado?

— Lamechas!... Não é com belas frases que se conquista o coração de uma


rapariga. A prova é que me basta estalar os dedos para ter quem eu
quiser.

A grosseria de André transtornou Fabrice que pegou no livro de


apontamentos e saiu do snack, furibundo.

André viu-o partir, estupefacto, e depois tomou-nos como testemunhas:

— Mas eu não disse nada... Tornou-se alérgico às minhas piadas ou quê?

A partida precipitada de Fabrice surpreendeu-nos. Não estava nos seus


hábitos bater com a porta no nariz das pessoas. De nós os quatro, era o
mais cortês e o menos susceptível.

— Talvez sejam os efeitos secundários do amor — disse Simon com


amargura.

Acabava de compreender que, efectivamente, entre o seu amigo e o seu


«fantasma com os olhos cheios de mistério», não se tratava apenas de uma
conversinha sem íuturo.

A noite, Jean-Christophe convidou-nos para irmos a sua casa. Tinha coisas


importantes para nos revelar e necessidade de conselhos. Reuniu-nos, a
Fabrice, a Simon e a mim, na oficina do
EMILIE

183

pai, um cubículo no rés-do-chão do velho edifício familiar, e, depois de


nos ter deixado bebericar o nosso sumo de fruta e mordiscar batatas
fritas em silêncio, declarou:

— E pronto... rompi com a Isabelle!

Esperávamos ver Simon dar um salto até ao tecto, revigorado pela notícia;
mas não.

— Acham que foi parvoíce?

Fabrice apoiou o queixo numa mão para reflectir.

— Que se passa? — surpreendi-me a perguntar-lhe, quando tinha jurado não


voltar a meter-me nas histórias deles.

Jean-Christophe só esperava um pretexto para despejar o saco. Afastou os


braços para o lado para expressar como estava farto.

— Ela é muito complicada. Sempre a embirrar sem motivo, a corrigir-me


erros, a recordar que sou filho de gente pobre e que é ela que me puxa
para cima... Quantas vezes a ameacei de romper?... E ela só dizia «Faz
isso!»... Esta manhã, foi a gota de água que fez transbordar o vaso. Por
um pouco que não me linchava. Na rua. A vista de toda a gente...
Simplesmente porque vi a rapariga da outra noite a sair de uma loja...

Deu-se um abalo telúrico infinitesimal na oficina; a mesa à volta da qual


estávamos sentados tremeu. Vi a maçã-de-adão de Fabrice a subir e a
descer na sua garganta e os dedos de Simon a embranquecerem nas
articulações.

— O que foi? — perguntou Jean-Christophe, perturbado com o manto de


chumbo que acabava de se abater sobre o cubículo.

Simon olhou de soslaio para Fabrice. Este tossicou, tapando a boca com a
mão, e, olhando de frente para Jean-Christophe, perguntou:

— Isabelle apanhou-te com a rapariga?

— Nada disso. Foi a primeira vez que a vi depois dessa noite. Fui levar
Isabelle à modista, e a rapariga estava a sair da drogaria do Benhamou.

Fabrice pareceu aliviado. Descontraiu-se e disse:

— Sabes, Chris, nenhurn.de nós está em condições de te dizer o que deves


fazer. Somos teus amigos, mas ignoramos a natureza
184

O QUE O DIA DEVE À NOITE

exacta das vossas relações. Estás sempre a gritar que vais deixá--la e,
no dia seguinte, continuamos a vê-la de braço dado contigo. Deixámos de
acreditar. Além disso, diz respeito a vocês. O problema é vosso e
resolve-se ao vosso nível. Há anos que namoram, desde o secundário. Estás
em melhor situação para saber em que pé estão realmente as coisas e que
decisão deves tomar.

— Justamente, conhecemo-nos desde o secundário e não consigo, juro, não


consigo saber se sou feliz nesta história. Parece que Isabelle se
apoderou da minha alma. Há alturas, apesar do seu péssimo carácter e das
suas maneiras de sargento, há alturas em que... estranhamente... digo
para mim próprio que não sou capaz de passar sem ela... Garanto-vos que é
verdade. Nessas alturas, todos os seus malditos defeitos a engrandecem a
meus olhos e dou comigo a adorá-la como um louco furioso...

— Esquece essa palerma — disse Simon, com os olhos em brasa. — Não te


serve. Vais passar a vida a aturá-la como uma doença crónica. Quando se
tem bom aspecto como tu, não se deve perder a esperança... Além disso,
francamente, começo a ficar farto das vossas histórias de amor.

Levantou-se — como Fabrice se levantara, de manhã, no snack do André — e


foi para casa a resmungar.

— Disse alguma parvoíce? — perguntou Jean-Christophe, estupefacto.

— Ele não anda bem ultimamente — disse Fabrice.

— Que tem ele exactamente? — perguntou-me Jean-Christophe. — Estás sempre


com ele. Que se passa?

Encolhi os ombros:

— Não sei.

Simon estava mal. As frustrações dominavam o seu bom humor, amarfanhando-


o como um lenço. Os complexos que amortalhara sob toneladas de palhaçadas
voltavam à superfície. Os factos que recusava ver, o ridicularizar-se em
que se barricava contra certas feridas, todas essas pequenas coisas que
lhe destruíam a existência em segredo — a barriga demasiado grande, as
pernas demasiado curtas ou ainda capacidades de sedução mínimas, ou
EMILIE

185

mesmo irrisórias e patéticas — forneciam-lhe uma auto-imagem que


detestava. A intrusão dessa morena na sua vida, embora ela se mantivesse
apenas na periferia, desestabilizava-o.

Os nossos caminhos cruzaram-se por acaso uma semana mais tarde. Simon ia
aos correios buscar impressos e não viu inconveniente na minha companhia.
As sequelas do mau humor altera-vam-lhe as feições; o olhar sombrio
parecia querer mal a todo o mundo.

Atravessámos metade da aldeia em silêncio, semelhantes a duas sombras


chinesas a deslizar pelas paredes. Com os impressos na mão, Simon não
sabia o que fazer do resto do dia. Estava um pouco perdido. A saída dos
correios, deparámo-nos com Fabrice... Que não estava sozinho... Ela
estava com ele, e dava-lhe o braço. O espectáculo que eles nos
ofereceram, Fabrice num fato de tweed e ela num vestido amplo e plissado,
convenceu-nos. Numa fracção de segundo, o azedume no rosto de Simon
esfumou-se... Como não se render à evidência? Eles eram tão belos!

Fabrice apresentou-nos prontamente:

— Estes são o Simon e o Jonas de que lhe falei. Os meus melhores amigos.

A rapariga era ainda mais bela, agora que a luz do dia a realçava. Não
era de carne e osso; era um salpico de sol.

— Simon, Jonas, apresento-vos a Émilie, filha da Sra. Caze-nave.

Um duche frio fustigou-me da cabeça aos pés.

Incapazes de articular uma sílaba, cada um de nós por uma razão pessoal,
Simon e eu contentámo-nos em sorrir.

Quando voltámos a nós, eles tinham-se ido embora.

Ficámos algum tempo parados no passeio em frente dos correios. Como


podíamos querer-lhes mal? Como podíamos contestar uma completude tão
terna sem passarmos por vândalos ou brutamontes?

Simon devia passar uma esponja no assunto, o que fez com classe.
13.

A Primavera ganhava terreno. As colinas cobertas de erva reverberavam ao


nascer do sol como um mar de orvalho. Uma pessoa tinha vontade de se
despir e de mergulhar de cabeça, de nadar na erva até à exaustão, de se
estender por baixo de uma árvore e de sonhar, uma a uma, com todas as
coisas belas que Deus criava. Era inebriante. Cada manhã era um golpe de
génio; cada instante roubado ao tempo concedia-nos uma parcela de
eternidade. Rio, sob o sol, era pão bento. Onde quer que se pusesse a
mão, erguia-se um sonho; em parte alguma a minha alma esteve tão próxima
da paz. Os rumores do mundo chegavam-nos livres das cacofonias que podiam
falsear o sussurro terapêutico das vinhas. Sabia-se que a situação no
país se inflamava, que a cólera se propagava nas camadas populares; as
pessoas da aldeia não ligavam importância. Erguiam muralhas inexpugnáveis
à volta da sua felicidade, coibindo-se de abrir janelas. Só queriam ver o
seu belo reflexo no espelho, piscando-lhe o olho antes de se dirigirem
aos pomares, onde colhiam sóis aos cestos.

Não havia pressa. As uvas prometiam vinhos festivos, bailes rodopiantes e


alianças bem regadas. O céu conservava intacto o seu azul imaculado, e
nem pensar em permitir que inquietações alheias o ensombrassem. Depois do
almoço, eu ia para a varanda alhear-me uma boa meia hora na cadeira de
balouço, a contemplar o verde que atapetava a planície, o ocre das terras
ardentes que o sulcavam e as miragens grotescas que oscilavam ao longe.
EMILIE

187

Era um espectáculo fascinante, de uma quietude cósmica; bastava--me


deixar o olhar deambular à vontade para adormecer. Germaine dava muitas
vezes comigo de boca aberta e cabeça abandonada no encosto da cadeira;
voltava pelo mesmo caminho na ponta dos pés para não me acordar.

Em Rio Salado, aguardávamos o Verão, confiantes. Sabíamos que o tempo era


nosso aliado, que as vindimas e a praia não tardariam a insuflar em nós
uma outra alma, para podermos aproveitar plenamente festas e bebedeiras
homéricas. Do ócio já nasciam namoricos, como flores a desabrochar de
manhãzinha. As raparigas falavam mais alto na rua, espampanantes nos seus
vestidos leves que desvendavam braços de sereias e uma parte das suas
costas bronzeadas; os rapazes distraíam-se cada vez mais nas esplanadas
dos cafés e pegavam fogo como fósforos quando se esquadrinhava nos seus
segredinhos, feitos de suspiros e de devaneios tórridos.

Porém, o que faz bater o coração a alguns exerce noutros uma pressão
impiedosa: Jean-Christophe acabou o namoro com Isa-belle. Nos portões, só
se falava do seu idílio turbulento, O meu pobre amigo definhava a olhos
vistos. Na rua, costumava descobrir inevitavelmente uma maneira de atrair
a atenção. Gostava de interpelar um conhecido ao fundo da rua, com as
mãos a formar um funil em torno da boca, de parar um automobilista no
meio da calçada ou de encomendar aos berros um copo de cerveja antes de
chegar ao bar, narcisista e omnipresente, orgulhoso de ser, sozinho, o
centro do mundo. E lá estava ele incapaz de suportar o olhar das pessoas,
a fingir que não tinha ouvido alguém chamá-lo de uma loja ou do passeio
do outro lado da rua. O mais inocente dos sorrisos atormentava-o; e moía
e remoía em todos os sentidos cada palavra para verificar se não escondia
insinuações assassinas. Colérico, distante e meio louco de tristeza,
causava-me inquietação. Uma noite, depois de ter deambulado por trás da
colina, ao abrigo de mexericos, embebedara-se de caixão à cova no snack
do André. Depois de emborcar algumas garrafas, já não se aguentava de pé.
Quando José lhe propusera levá-lo a casa, Jean-Christophe enfiara-lhe um
murro na cara;'a seguir, pegara numa barra de ferro
188

O QUE O DIA DEVE À NOITE

e começara a incomodar a clientela no exterior do snack. Uma vez senhor


do lugar, de pé por entre mesas e bancos abandonados, Jean-Christophe
trepara para o balcão e, titubeando, com as narinas a escorrer, afastara
as pernas e regara o chão com jactos de urina torrenciais, gritando que
seria assim que afogaria «os porcos que contassem mentiras nas suas
costas»... Fora necessário manobrar para o apanhar de costas, retirar-lhe
a barra, atá-lo e levá--lo a casa numa padiola improvisada. Esse
incidente suscitou enorme indignação em Rio: nunca antes se vira coisa
semelhante. A hchoumaV Nas aldeias argelinas, uma coisa dessas não se
perdoa. Uma pessoa tem o direito de ceder, de tropeçar, de cair, e o
dever de se levantar, mas quando desce tão baixo, perde a estima dos
outros e, muitas vezes, perde-os a eles. Jean-Christophe compreendia que
ultrapassara os limites. Nem pensar em aparecer na aldeia. Escondeu-se em
Orão onde passava os dias em espeluncas, sem fazer nada.

Simon enfrentava o destino com pragmatismo. O seu estatuto de subalterno


a ganhar mofo num gabinete a cheirar a bafio e a litígios pendentes
acabara por afectá-lo. A sua natureza galhofeira não se prestava a esse
tipo de carreira. Não se imaginava a passar a vida a arquivar pastas e a
respirar a papelada húmida e as beatas esmagadas. A profissão
semicarcerária de guarda-livros sem dinheiro não lhe servia. Não tinha
perfil nem estoicismo. E se estava de mau humor a maior parte da semana,
tal devia-se, em parte, a essas paredes insípidas que o apertavam,
reduzindo o seu campo de acção à superfície de uma folha amarelecida,
desagradável ao toque. Simon sufocava no seu cubículo; recusava-se a
assemelhar--se à sua mesa, à sua cadeira, ao seu armário metálico, a
esperar um assobio para sair da jaula como um animal selvagem embrutecido
pela inércia, a que o pressionassem para lhe recordar que era de carne e
osso e que podia angustiar-se, ao contrário dos móveis impenetráveis que
vigiavam o seu descontentamento. Demitiu-se uma manhã, na sequência de
uma bela pega com o director, e prometeu a si próprio lançar-se nos
negócios, ser patrão dele mesmo.

1 Vergonha. (N. da T.)


EM1LIE

189

Já quase não o via.

Por seu lado, Fabrice afastava-se um pouco de mim, o que era bom sinal. O
seu namorico com Émilie parecia dar frutos. En-contravam-se todos os dias
por trás da igreja e, ao domingo, da minha varanda, via-os passearem
pelas vinhas, quer a pé, quer de bicicleta, ele com a sua camisa a
flutuar, e ela com a abundante cabeleireira a esvoaçar ao vento. Vê-los
subirem a colina, afastarem--se da aldeia e dos diz-que-diz-que era um
regalo e, muitas vezes, os meus pensamentos seguiam no seu encalço.

Uma manhã, deu-se um milagre. Estava a pôr em ordem as prateleiras da


farmácia quando o meu tio desceu as escadas num passo comedido,
atravessou a grande sala do rés-do-chão, passou por mim e, em roupão...
saiu para a rua. Germaine, que o seguia passo a passo, vigilante, não
acreditou no que estava a ver. Havia anos que o meu tio não saía de casa
voluntariamente. Parou no patamar, com as mãos enfiadas nos enormes
bolsos do roupão, permitindo que os olhos passeassem pela luz do dia e
que aflorassem as vinhas antes de acariciarem as colinas no fundo do
horizonte.

— Lindo dia! — disse, e sorriu. Os cantos da boca quase se desfaziam a


tal ponto os lábios haviam perdido a elasticidade desse tipo de movimento
facial, e vimos uma multidão de rugas pre-guearem-lhe a face, como os
círculos sucessivos que um pequeno seixo desencadeia na superfície da
água.

— Queres que te traga uma cadeira? — sugeriu Germaine, comovida até às


lágrimas.

— Para quê?

— Para aproveitares o sol. Instalo-te aí, debaixo da janela, com uma


mesinha e um bule bem cheio. Assim, podes bebericar o teu chá enquanto
vês as pessoas passarem.

— Não — disse o meu tio, — nada de cadeiras hoje. Tenho vontade de andar
um pouco.

— De roupão?

— Se só dependesse de mim, ia nu — disse o meu tio, afas-tando-se.

Um profeta a caminhar sobre a água não nos teria maravilhado tanto, a


Germaine e a mim. *
190

O QUE O DIA DEVE À NOITE

O meu tio chegou ao atalho, sempre com as mãos nos bolsos e a coluna
direita. O passo era certo, quase marcial. Dirigiu-se para um pequeno
pomar, deambulou entre as árvores, atalhou caminho e, depois,
provavelmente desviado pelo voo catastrófico de uma perdiz, seguiu a
direcção da ave e desapareceu no meio dos vinhedos. Germaine e eu ficámos
sentados no patamar, de mãos dadas, até ao seu regresso.

Umas semanas mais tarde, comprámos um carro em segunda mão, que Bertrand,
o sobrinho de Germaine que se fizera mecânico, nos entregou pessoalmente.
Era um carrinho verde--garrafa, redondo como a carapaça de uma tartaruga,
com assentos duros e um volante digno de um camião. Bertrand convidou--
nos a ocuparmos os nossos lugares, a Germaine e a mim, e levou-nos a dar
uma volta, a pretexto de nos mostrar a robustez do motor. Parecia que
estávamos dentro de um tanque. Mais tarde, as pessoas de Rio acabaram por
o reconhecer ao longe. Logo que o ouviam rugir, gritavam «Atenção! Aí vem
a artilharia!», e perfilavam-se no passeio para saudar a sua passagem com
uma continência.

André voluntariou-se para me dar aulas de condução. Levava--me a um


descampado onde, por cada manobra malfeita, me cobria de insultos. Muitas
vezes as suas admoestações me desconcertaram e estivemos à beira de um
desastre. Quando aprendi a contornar uma árvore sem roçar nela e a
arrancar sem afogar o motor, André regressou ao seu snack a grande
velocidade, satisfeito por ter escapado sem uma esfoladela.

Um domingo, depois da missa, Simon propôs me que fôssemos dar um passeio


perto do mar. Passara uma semana difícil e tinha necessidade de ar
fresco. Optámos pelo porto de Bouzedjar e partimos depois do almoço.

— E o teu chaço velho, compraste-o onde? Numa caserna?

— E verdade que não tem bom aspecto, mas leva-me onde quero e até agora
nunca me deixou no meio da estrada.

— Não te doem os ouvidos?... Parece um bote a resfolegar no fim da


carreira.

— Habituamo-nos.
EMIL1E

191

Simon baixou o vidro e expôs a cara ao vento. Os cabelos, ao embaraçarem-


se na testa, traíram um princípio de calvície. Notei de repente que o meu
amigo envelhecera e olhei para o retrovisor para ver se eu também tinha
envelhecido. Atravessámos Lourmel muito rapidamente e dirigimo-nos a
grande velocidade para o mar. Em certos pontos, a estrada atingia o cume
das colinas e punha o céu ao alcance das nossas mãos. Era um belo dia que
o mês de Abril prestes a acabar queria de uma limpidez cristalina, com
horizontes olímpicos e um sentimento de plenitude sem igual. Era sempre
assim que a Primavera se despedia na nossa terra; fazia ponto de honra em
acabar em beleza. Os pomares meditavam no meio da saraivada precoce das
cigarras, e os mosquitos brilhavam por cima das águas paradas,
semelhantes a punhados de poeira dourada. Sem os lugarejos arruinados que
estagnavam aqui e ali, dir-se-ia que estávamos no paraíso.

— Não é a carripana dos Scamaroni? — disse Simon, apontando para um


automóvel estacionado sob um eucalipto solitário, ao fundo de um matagal.

Estacionei na berma e vi Fabrice e duas raparigas a fazerem um


piquenique. Intrigado com a nossa presença, Fabrice ergueu--se e levou as
mãos às ancas, ostensivamente na defensiva.

— Tinha-te dito que ele era míope — murmurou Simon, abrindo a porta para
sair.

Fabrice teve de andar uma boa centena de metros na nossa direcção antes
de identificar o carro. Aliviado, parou e convidou--nos a ir ter com ele.

— Pregámos-te um cagaço — disse-lhe Simon, depois de o abraçar


vigorosamente.

— Que andam a fazer por aqui?

— A ver a região. Tens a certeza que não incomodamos?

— Não estava a contar com mais pessoas. Mas se conseguirem ficar


tranquilos enquanto as minhas amigas e eu saboreamos as nossas tartes de
maçã, não há problema.

As duas raparigas alisaram os camiseiros e taparam os joelhos com as


saias para nos receberem decentemente. Emilie Ca-
iyz

O QUE O DIA DEVE À NOITE

zenave concedeu-nos um sorriso benevolente; a outra preferiu interrogar


Fabrice com os olhos, que se apressou a tranquilizá-la:

— Jonas e Simon, os meus melhores amigos... A seguir apresentou-nos a


desconhecida:

— Hélène Lefèvre, jornalista em L 'Écho d'Oran. Está a fazer uma


reportagem sobre a região.

Hélène estendeu-nos uma mão perfumada que Simon agarrou no ar.

A filha da Sra. Cazenave pousou os seus olhos negros e intensos em mim,


obrigando-me a desviar o olhar.

Fabrice foi ao carro buscar uma esteira de praia que pousou numa língua
de terra para nos podermos sentar. Simon acocorou--se imediatamente junto
de um cesto de vime, remexeu o interior e encontrou uma fatia de pão; a
seguir, com um canivete que tirou do bolso de trás das calças, cortou
rodelas de chouriço. As raparigas trocaram olhares rápidos, divertidas
com o à-vontade do meu companheiro.

— Aonde iam? — perguntou-me Fabrice.

— Ao porto ver os pescadores descarregarem peixe — respondeu Simon, com


as bochechas deformadas. — E tu, que fazes por aqui com umas raparigas
tão lindas?

Emilie voltou a olhar para mim com insistência. Estaria a adi-vinhar-me


os pensamentos? Nesse caso, que decifraria? Ter-lhe-ia a mãe falado de
mim? Teria descoberto o meu cheiro no quarto da mãe, detectado algo que
eu não soubera apagar a tempo, o vestígio de um beijo em suspenso ou a
recordação de um abraço inacabado? Porque teria eu, de repente, a
sensação de que ela lia em mim como num livro aberto? E os olhos, meu
Deus, irresistíveis, como fariam para saturar os meus, substituir-se a
eles, joeirar cada um dos meus pensamentos, interceptar a mínima
interrogação que me atravessava o espírito?... Contudo, apesar da sua
indiscrição, eu não podia deixar de admitir que eram o melhor que a
Beleza conseguira. Numa breve cedência, revi os olhos da sua mãe, nessa
grande casa no atalho do marabuto — olhos tão radiosos que já nem era
necessário acender a luz no quarto para ver com clareza a mais funda das
coisas caladas, a mais secreta das fraquezas recalcadas... Estava
perturbado.
v

EMILIE

193

— Parece que já nos encontrámos algures, há muito tempo.

— Não creio, senão lembrar-me-ia.

— É curioso, a sua cara não me é estranha — disse. E logo acrescentou:

— Que faz na vida, senhor Jonas?

A sua voz tinha a doçura de uma nascente de montanha. Pronunciara «senhor


Jonas» exactamente como a mãe, apoiando-se nos «s», produzindo o mesmo
efeito em mim, revolvendo as mesmas fibras...

— Reduz-se à insignificância no seu canto — disse Simon, ciumento do


interesse que eu suscitava junto da sua primeira paixão. — Eu sou um
homem de negócios. Lancei uma empresa de importação-exportaçâo e, dentro
de dois, três anos, nadarei em dinheiro.

Émilie não prestou atenção às piadas de Simon. Senti o seu olhar negro
como carvão pousado em mim, aguardando a minha resposta. Era tão bela que
eu não conseguia olhá-la mais de cinco segundos sem corar.

— Sou farmacêutico, menina.

Uma madeixa agitou-se-lhe na testa; afastou-a com um gesto elegante, como


se erguesse uma cortina para mostrar o seu esplendor.

— Farmacêutico onde?

— Em Rio.

Algo fulgurou no seu rosto, e as sobrancelhas arquearam-se muito. O


pedaço de tarte que segurava partiu-se entre os dedos. A sua perturbação
não escapou a Fabrice que, confuso por sua vez, se apressou a servir-me
um copo de vinho.

— Sabes muito bem que ele não bebe — lembrou Simon.

— Oh! Desculpa.

A jornalista pegou no copo e levou-o à boca. V Quanto a Émilie, não


desviou os olhos de mim. , r\ r

Foi visitar-me duas vezes à farmácia. Consegui que Ger-maine se


mantivesse sempre ao pé de mim. O que decifrava no seu olhar perturbava-
me; nãtf queria fazer mal a Fabrice.
194 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Comecei a evitá-la, a pedir a Germaine que lhe dissesse que eu não estava
quando ela telefonava, que não sabia a que horas eu regressaria. Emilie
compreendeu que eu não aceitava nada bem o seu interesse por mim, que o
género de amizade que me propunha não me convinha. Deixou de me
incomodar.

O Verão de 1950 começou com a ostentação de um feirante hercúleo. As


estradas pululavam de veraneantes e as praias rejubilavam. Simon
conseguiu o seu primeiro contrato chorudo e ofere-ceu-nos um jantar num
dos restaurantes mais elegantes de Orão. O nosso animador superara-se
nessa noite. O seu bom humor contaminara a sala, e as mulheres à nossa
volta saracoteavam-se sempre que Simon erguia o corpo para se lançar em
tiradas hilariantes... Era uma noite soberba. Havia Fabrice e Emilie, e
Jean-Christophe que estava sempre a convidar Hélène para dançar. Vê-lo
divertir--se à grande depois de semanas e semanas de depressão
engrinaldava particularmente a festa. Estávamos novamente juntos,
soldados uns aos outros como os dentes de um garfo, maravilhados por
conservarmos fervorosamente a nossa alegria de viver. Tudo teria corrido
bem no melhor dos mundos se não tivesse havido esse gesto inesperado,
desastrado, deslocado que ia dando cabo de mim, quando a mão de Emilie
deslizou por baixo da mesa e pousou na minha coxa. A golada de
refrigerante caiu-me no goto e quase morri sufocado, de gatas no chão,
enquanto me batiam violentamente nas costas para me soltar o peito...
Quando dei por mim, tinha grande parte da clientela debruçada à minha
volta; Simon gritou de alívio quando me viu agarrar-me ao pé de uma mesa
para me erguer. Quanto aos olhos de Emilie, nunca foram tão negros de tão
lívida que estava.

No dia seguinte, uns minutos depois da saída do meu tio e de Germaine —


que tinham ganhado o hábito de ir passear de manhã pelos pomares —, a
Sra. Cazenave surpreendeu-me na farmácia. Apesar da contraluz, reconheci
a sua silhueta sinuosa, o seu porte altivo, o seu modo singular de se
manter de pé, com o queixo erguido e os ombros encolhidos.

Hesitou um instante no vão da porta, decerto para se assegurar de que eu


estava só; a seguir, investiu pela sala dentro numa
EMILIE

195

mistura difusa de sombras e frufrus. O seu perfume dominava claramente o


odor das prateleiras.

Vestia um fato de saia e casaco cinzento que se lhe ajustava como uma
camisola, como se proibisse o seu corpo eufórico de sair para a rua nu, e
um chapéu ornamentado de centáureas, imperceptivelmente inclinado sobre o
seu olhar tempestuoso.

— Bom dia, senhor Jonas.

— Bom dia, minha senhora.

Tirou os óculos escuros... A magia não funcionou. Fiquei na mesma. Era


apenas uma cliente entre tantas outras, e eu já deixara de ser o garoto
de outrora prestes a desmaiar ao menor dos seus sorrisos. Esse facto
desestabilizou-a um pouco porque se pôs a tamborilar com os dedos no
balcão que nos separava.

— Diga, minha senhora?...

A neutralidade do meu tom desagradou-lhe. : ,

O clarão, no fundo dos olhos, vacilou.

A Sra. Cazenave manteve a calma. Só se sentia inteira se impusesse as


suas próprias regras. Era o género de pessoa que preparava minuciosamente
o golpe, escolhendo o terreno e o momento de entrar em cena. Se bem a
conhecia, teria passado a noite a construir gesto a gesto e palavra a
palavra o seu reencontro comigo, mas apostara num rapaz que já não
existia. A minha impassibilidade desconcertava-a. Não a esperava. Na sua
cabeça, tentava rever os planos rapidamente, mas as cartas haviam sido
mal distribuídas, e a improvisação não se adequava à sua natureza.

Mordeu a haste dos óculos para camuflar o tremor dos lábios. Não havia
muito a camuflar. O tremor estendia-se às faces e todo o rosto parecia
esboroar-se como um pedaço de cré.

Arriscou:

— Se estiver ocupado, voltarei mais tarde. t. . ,. Procurava


ganhar tempo? Batia em retirada para regressar à

carga mais bem armada?

— Não tenho nada de especial para fazer, minha senhora. Diga o que
pretende. - ;«
±yo

O QUE O DIA DEVE À NOITE

O seu mal-estar agravou-se. De que tinha medo? Compreendia que não tinha
vindo comprar medicamentos; no entanto, não percebia o que a tornava tão
pouco segura de si.

— Desengane-se, senhor Jonas! — disse, como se lesse os meus pensamentos.


— Estou na posse de todos os meus recursos. Só não sei por onde começar.

— Sim?...

—Acho-o bastante arrogante... Na sua opinião, porque estou aqui?

— Cabe-lhe a si dizer-me.

— Não faz uma pequena ideia?

— Não.

— Não mesmo?

— Não mesmo.

O peito ergueu-se muito; susteve a respiração durante vários segundos. A


seguir, enchendo-se de coragem, disse num fôlego, como se temesse ser
interrompida ou ter falta de ar:

— E por causa da Emilie...

Dir-se-ia um balão a desinchar de repente. Vi a sua garganta contrair-se


e engolir convulsivamente a saliva. Estava aliviada, desembaraçada de um
fardo insuportável, ao mesmo tempo que tinha a sensação de ter gasto as
últimas reservas numa batalha que nem sequer se iniciara.

— Emilie, a minha filha — explicou.

— Entendi. Mas não estou a ver a ligação, minha senhora.

— Não faça esse joguinho comigo, jovem. Sabe muito bem do que lhe quero
falar... Qual a natureza das suas relações com a minha filha?...

— Engana-se na pessoa, minha senhora. Não tenho quaisquer relações com a


sua filha.

A haste dos óculos torceu-se entre os seus dedos; não se deu conta. O seu
olhar vigiava o meu, aguardando uma retirada. Não o desviei. Já não me
impressionava. As suas suspeitas mal me tocavam; porém, despertavam-me
curiosidade. Rio era uma pequena aldeia onde as paredes eram
transparentes e as portas depressa se arrombavam. Os segredos mais bem
guardados não resistiam
EMILIE

197

muito tempo ao apelo das confidências, e a bisbilhotice era moeda


corrente. Que se contaria a meu respeito, eu que não tinha história e que
não suscitava interesse?

— Só fala de si, senhor Jonas.

— O nosso grupo...

— Não falo do seu grupo. Falo de si e da minha filha. Quero inteirar-me


da natureza das vossas relações e das vossas perspectivas. Saber se têm
projectos comuns, intenções sérias... se se passou algo entre vocês.

— Não se passou nada, senhora Cazenave. Emilie está apaixonada por


Fabrice, e Fabrice é o meu melhor amigo. Não me passaria pela cabeça
destruir-lhe a felicidade.

— É um rapaz sensato. Penso que já lhe disse isso. Juntou as mãos à volta
da aresta do nariz, sem desviar os

olhos de mim. Após uma curta meditação, ergueu o queixo:

— Irei direita ao assunto, senhor Jonas... É muçulmano, um bom muçulmano


segundo as minhas informações, e eu sou católica. Cedemos, numa vida
anterior, a um momento de fraqueza. Ouso esperar que o Senhor não nos
trate severamente. Tratava-se tão-so-mente de uma derrapagem sem
futuro... No entanto, existe um pecado da carne que Ele não absolveria ou
suportaria: o incesto!...

Os seus olhos fuzilaram-me ao pronunciar a palavra.

— Não há abominação pior.

— Não percebo aonde quer chegar.

— Mas já lá estamos, senhor Jonas. Não se dorme com a mãe e com a filha
sem ofender os deuses, os santos, os anjos e os demónios!

Fez-se vermelha e o branco dos olhos coalhou como leite. O seu dedo
parecia um gládio quando ela trovejou:

— Proíbo-o de se aproximar da minha filha...

— Isso nunca me passou pela cabeça...

— Penso que não me compreendeu bem, senhor Jonas. Não me interessa nada o
que lhe passa ou não pela cabeça. É livre de imaginar o que quiser. O que
eu quero é que se mantenha o mais longe possível da minha filha. E vai-me
jurar que o faz, aqui e agora. *
198

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Mi... r

— Jure!

Escapara-lhe. Teria gostado tanto de manter a calma, de mostrar como era


senhora da situação. Desde que entrara na loja que não fizera outra coisa
senão conter a cólera e o medo que transportava em si, só proferindo uma
palavra depois de se assegurar de que não corria o risco de a receber de
volta como um boomerang. E ei-la a perder o controlo no momento em que
precisava a todo o custo de ganhar terreno. Tentou recompor-se; demasiado
tarde, pois estava à beira de uma crise de lágrimas.

Ergueu as mãos à altura da testa, tentou pôr ordem nas ideias,


concentrou-se num ponto fixo, aguardou que a respiração se disciplinasse
e disse-me, numa voz inaudível:

— Desculpe. Não estou habituada a erguer a voz em frente das pessoas...


Esta história aterroriza-me. As hipocrisias que vão para o diabo! As
máscaras caem sempre e não desejo que isso me aconteça depois de ter
perdido a reputação. Estou totalmente desorientada. Já não durmo... Teria
preferido mostrar-me firme, forte, mas trata-se da minha família, da
minha filha, da minha fé e da minha consciência. É demais para uma mulher
que estava a léguas de suspeitar o precipício que se cavava a seus pés...
Se fosse só o precipício! Para salvar a minha alma, saltaria sem hesitar
no vazio. Não resolveria o problema... Esta história não deve acontecer,
senhor Jonas. A história da minha filha e de si não deve acontecer. Não
tem qualquer razão de ser. Tem de o entender de forma categórica,
definitiva. Quero regressar a casa tranquilizada, senhor Jonas. Quero
reencontrar a paz. Emilie é apenas urna menina. O coração palpita-lhe ao
sabor dos seus humores. E capaz de se apaixonar por qualquer riso,
entende? E não quero que sucumba ao seu. Também lhe suplico, por amor de
Deus, dos Seus profetas Jesus e Maomé, que me prometa que não a
encorajará. Seria horrível, amoral, incrivelmente obsceno, totalmente
inadmissível.

As suas mãos abateram-se sobre as minhas, amassaram-nas. Já não era a


mulher com a qual eu sonhara havia pouco tempo. A Sra. Cazenave
renunciara aos seus encantos, à suculência dos seus sortilégios, ao seu
trono etéreo. Já só tinha diante de mim
ÉMILI1Z

199

uma mãe aterrorizada com a ideia de desgostar o Senhor, de ter de se


decompor no opróbrio até ao fim dos tempos. Os seus olhos apegavam-se aos
meus; bastar-me-ia piscá-los para a enviar para o inferno. Estava
envergonhado de dispor de tanto poder ao ponto de estar em condições de
condenar um ser que amara sem associar, em momento algum, a nobreza da
sua generosidade a um ignóbil pecado carnal.

— Não se passará nada entre mim e a sua filha, minha senhora.


;;

— Prometa.

— Prometo...

— Jure.

— Juro. *,

Só então ela se deixou cair sobre o balcão, livre e esmagada ao mesmo


tempo, meteu a cabeça entre as mãos e desatou a soluçar.
14.

Epara ti — disse Germaine, agitando o auscultador do telefone. Do outro


lado, Fabrice repreendeu-me:

— Fiz-te algum mal, Jonas?

— Não...

— Simon chateou-te nos últimos tempos?

— Não.

— Tens alguma coisa contra o Jean-Christophe?

— Claro que não.

— Então, porque nos evitas? Há dias que te enterras no teu canto. E ontem
esperámos por ti. Tinhas prometido aparecer e fomos obrigados a comer
comida fria.

— Não tenho um momento para mim...

— Pára... Não há epidemia na aldeia para a tua farmácia te dar tanto


trabalho. E não te escondas por trás da doença do teu tio, porque o vi
várias vezes a passear pelos pomares. Goza de boa saúde.

Tossicou do outro lado e acalmou:

— Fazes-nos falta, pá. Vives a dois passos de mim e tenho a impressão de


que desapareceste da superfície da terra.

— Estou a pôr em ordem a farmácia. Tenho de fazer lançamentos nos livros


e de elaborar um inventário.

— Precisas de ajuda?

— Cá me arranjo.
ÉMILIE 201

— Então sai do buraco... Espero-te esta noite em casa. Para jantar.

Não tive tempo de recusar o convite; Fabrice desligara. Simon foi buscar-
me às dezanove horas. Estava com um humor execrável:

— Dás-te conta? Dei-me a uma carga de trabalhos para nada. E é a mim que
acontece!... Enganei-me redondamente como um imbecil. Em teoria, eram só
benefícios. À chegada, tive de pagar a diferença do meu bolso. Não
consigo compreender como me deixei enganar tão estupidamente.

— É o mundo dos negócios, Simon. Jean-Christophe esperava-nos na avenida,


dois quarteirões

mais à frente. Estava nos trinques, acabado de barbear, com os cabelos


penteados para trás sob uma espessa camada de brilhantina, tão febril
como um actor estreante, com um enorme ramo de flores na mão.

— Fazes-nos ficar mal — censurou Simon. — Que ar é que vamos ter, o Jonas
e eu, a aparecer de mãos vazias?

— É para a Émilie — confessou Jean-Christophe.

— Foi convidada? — gritei, desapontado.

— Claro! — disse Simon. — Os nossos dois pombinhos já andam sempre


juntos... Dito isto, não percebo por que motivo lhe levas flores, Chris.
A rapariga pertence a outro. E acontece que esse outro é o Fabrice.

— No amor, vale tudo.

Simon franziu o sobrolho, chocado com as palavras de Jean--Christophe.

— Achas mesmo?

Jean-Christophe deitou a cabeça para trás, rindo divertido:

— Não, palerma. Estou a brincar.

— Se queres o meu conselho, não te faças de parvo — disse Simon, muito


rigoroso.

A Sra. Scamaroni mandara pôr a mesa na varanda. Foi ela que nos abriu a
porta. Fabrice e a sua dulcineia repousavam em cadeiras de verga no meio
do jardim, debaixo de uma latada. Émilie estava resplandecente no seu
vestido de cigana de corte simples.
202

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Com os cabelos soltos pelas costas, os ombros desnudos, era de se


trincar. Envergonhei-me com a ideia e afastei-a da minha cabeça. A maçã-
de-adão de Jean-Christophe parecia um ioiô; a gravata estava prestes a
desfazer-se. Sobrecarregado com o ramo de flores, ofereceu-o à Sra.
Scamaroni.

— São para si, minha senhora.

— Obrigada, Chris. És um anjo.

— Quotizámo-nos — mentiu Simon, ciumento.

— Não é verdade — defendeu-se Jean-Christophe. Desatámos a rir.

Fabrice fechou o manuscrito que certamente estava a ler a Émilie e veio


receber-nos. Agarrou-me e abraçou-me um pouco mais vigorosamente do que
aos outros. Por cima do seu ombro, surpreendi o olhar de Émilie a vigiar
o meu. A voz da Sra. Caze-nave ressoou-me nas têmporas: Émilie é apenas
uma menina. É capaz de se apaixonar por qualquer riso e não quero que
sucumba ao seu. Um mal-estar atroz, mais assustador que os anteriores,
im-pediu-me de ouvir o que Fabrice me murmurava ao ouvido.

Durante toda a noite, enquanto Simon divertia toda a gente com as suas
histórias malevolentes, bati em retirada perante os assaltos incessantes
de Émilie. Não que a sua mão me procurasse debaixo da mesa ou que me
dirigisse a palavra; estava sentada à minha frente e ocultava-me o resto
do mundo.

Permanecia tranquila, fingia interessar-se pelas piadas à volta, mas o


seu riso era forçado. Ria formalmente, por pura cortesia. Vi-a cruzar os
dedos, triturá-los, nervosa e um pouco perdida, como uma estudante
angustiada à espera da sua vez de ir ao quadro. De vez em quando, no meio
da hilaridade, erguia os olhos para mim para ver se eu estava tão
divertido como os outros. Era só com um ouvido que eu ouvia os meus
amigos rirem. À semelhança de Émilie, ria por rir. À semelhança de
Émilie, a minha cabeça não estava ali e essa situação incoaiodava-me. Não
gostava do que me passava pela cabeça, das ideias prestes a desabrochar
como flores venenosas... Tinha prometido; tinhajurado. Curiosamente, os
escrúpulos apertavam-me a garganta sem me estrangular. Deixava-me tentar
sem saber por que prazer maligno. Em que
EMILIE

203

vespeiro me estava a enterrar? Por que motivo, subitamente, os juramentos


já não significavam grande coisa para mim? Recom-pus-me, prestei atenção
às histórias de Simon, concentrei-me nelas — esforço inglório. Ao cabo de
algumas passagens, perdia o fio à meada e dava comigo a sustentar o olhar
de Émilie. Um silêncio sideral afastava-me dos rumores da noite e da
varanda; estava suspenso num vazio infinito, tendo como único ponto de
referência os enormes olhos de Émilie. Essa situação não podia durar.
Estava prestes a enganar, a trair, a cheirar mal até à ponta das unhas,
até à raiz dos cabelos. Tinha de sair da mesa, de regressar a casa o mais
depressa possível; temia que Fabrice suspeitasse de alguma coisa. Não o
suportaria. Tal como não suportava o olhar de Émilie. Sempre que pousava
no meu, roubava-me uma parte do meu ser — velha muralha, ruía sob os
golpes do pêndulo.

Aproveitei um momento de desatenção para ir ao salão telefonar a Germaine


e pedir-lhe que me telefonasse, o que ela fez dez minutos depois.

— Quem era? — perguntou Simon, intrigado com o ar que eu tinha quando


regressei à varanda.

— Germaine... O meu tio não está bem.

— Queres que te deixe em casa? — propôs Fabrice.

— Não vale a pena.

— Se for grave, avisas-me. Acenei com a cabeça e fugi.

Nesse ano, o Verão foi tórrido. E as vindimas miríficas. Os bailes


estavam no auge. Durante o dia, havia uma corrida às praias; à noite,
acendiam-se centenas de lanternas, teciam-se grinaldas com elas e as
pessoas divertiam-se loucamente. As orquestras desfilavam sob os capitéis
e dançava-se até à exaustão. Os casamentos sucediam-se aos aniversários,
as festas municipais aos esponsais; em Rio Salado, as pessoas eram
capazes de fazer festins à volta de um grelhador rudimentar, de suplantar
um baile imperial com um simples gramofone.

Não gostava de ir a festas e só lá ficava muito pouco tempo; chegava em


último lugar e ia-me embora tão depressa que nin-
204 O QUE O DIA DEVE À NOITE

guém se apercebia. Na verdade, como toda a gente convidava toda a gente,


o nosso grupo encontrava-se frequentemente na pista de dança e eu temia
destruir o slow de Émilie e de Fabrice; eram tão belos, ainda que fosse
evidente que a felicidade coxeava de um dos lados. Os olhos podem mentir,
mas o olhar não, e o de Émilie perdia o seu dinamismo. Bastava-me estar
ao seu alcance para ele me lançar sinais de sofrimento. Mesmo virando-lhe
as costas, as suas ondas de choque atingiam-me, cercavam-me. Porquê eu?,
gritava para dentro. Porque me assediava ela de longe, sem dizer
palavra?... Émilie movimentava-se num terreno que não era o seu, não
havia dúvida. Evocava um equívoco. A sua beleza só igualava a dor que
calava por trás do brilho dos olhos e do alongamento caritativo do seu
sorriso. É verdade que não o mostrava, que fazia questão de parecer
alegre e feliz de braço dado com Fabrice, mas faltava-lhe serenidade. Não
via as estrelas quando, à noite, sentados numa duna, Fabrice lhe mostrava
o céu... Vira-os duas vezes a ambos, enroscados um no outro na praia, à
noite, quase indistinguíveis na escuridão; embora não me fosse possível
ver-lhes o rosto, estava convencido de que, enquanto um comprimia
fortemente o outro, esse outro esquivava-se.

E depois havia Jean-Christophe, com os seus ramos de flores. Nunca


comprara tantos. Todos os dias, passava pela florista na praça da aldeia
antes de se dirigir a casa dos Scamaroni. Simon não via com bons olhos
essa galanteria suspeita, mas Jean-Christophe não se importava; parecia
ter perdido todo o discernimento, toda a noção de correcção. Fabrice
acabou por perceber que o seu namoro com Émilie era muitas vezes
perturbado, que Jean-Chris-tophe se mostrava cada vez mais ousado, cada
vez mais invasivo. No princípio, não prestava atenção. Depois, à força de
ter de adiar os beijos, começou a interrogar-se. Jean-Christophe já não
os largava; parecia espiar os mínimos gestos...

E o que tinha de acontecer aconteceu.

Estávamos na praia de Terga, numa tarde de domingo. Os veraneantes


saltitavam como gafanhotos na areia abrasadora, antes de se atirarem à
água. Simon entregava-se à sua incontornável sesta pós-prandial, com o
umbigo a pingar suor; tinha engolido
EMILIE

205

várias enfiadas de merguez e emborcado uma garrafa de vinho. A sua enorme


barriga peluda fazia lembrar o fole de um ferrador. Fabrice mantinha os
olhos abertos, com o caderno de apontamentos em desordem aos seus pés.
Não lia para não se distrair. Estava à espreita, como que de uma presa.
Andava qualquer coisa no ar... Observava Jean-Christophe e Émilie a
molharem-se um ao outro, rindo, a competirem para apurar quem aguentava
mais tempo em apneia, e depois a nadarem para o alto mar, desaparecendo;
via-os executarem cabriolas no meio das ondas, porem-se de pernas para o
ar, com as mãos na areia e as pernas fora de água; durante esses
exercícios, um sorriso melancólico flutuava-lhe nos lábios e os olhos
brilhavam de interrogações... E quando os viu surgirem, subitamente,
entre a ressaca e agarrarem-se um ao outro pela cintura, num ímpeto cuja
espontaneidade os surpreendeu a ambos, uma ruga vincou-lhe a testa:
compreendeu que os belos projectos que arquitectara lhe escapavam
inexoravelmente de entre os dedos como os grãos do tempo num relógio de
areia...

Não gostei desse Verão. Foi o Verão dos mal-entendidos, das tristezas
secretas e da renúncia; um Verão canicular que nos fazia frio nas costas
a tal ponto mentia a toda a gente. O nosso grupo continuou a ir à praia,
mas o coração estava noutro lugar e o olhar também. Não sei por que
motivo viria a chamar-lhe mais tarde a estação morta. Talvez por causa do
título que Fabrice deu ao seu primeiro romance, que começava assim:
Quando o Amor nos prega uma partida, é a prova de que não o merecemos; a
nobreza consistiria em restituir-lhe a liberdade — só por esse preço é
que se ama realmente. Corajoso como sempre, nobre até ao fim, Fabrice
manteve o sorriso embora o coração lhe batesse a custo no peito, tão
infeliz como um pássaro engaiolado.

Simon não apreciou nada a reviravolta do fim da estação estival. Havia


demasiada hipocrisia, demasiadas tempestades reprimidas. Achou repugnante
a má-fé de Émilie. O que é que ela criticava no Fabrice? A gentileza? A
polidez excessiva? O poeta não merecia ser abandonado pelo subterfúgio de
um mergulho. Em-penhara-se de corpo e alma nessa ligação e, na aldeia,
toda a gente estava de acordo em admitir que formavam um casal de sonho,
206

O QUE O DIA DEVE À NOITE

que tinham tudo para serem felizes. Simon tinha pena por Fabrice sem
incriminar abertamente Jean-Christophe, que tinha a desculpa de ter
ficado deprimido depois da perda de Isabelle e que não parecia dar-se
conta do mal que causava ao seu melhor amigo. Para Simon, as coisas eram
claras: a culpa cabia a essa «louva-a-deus» criada noutro sítio,
ignorante dos valores e das regras que condicionavam a vida em Rio
Salado.

Eu fazia questão de ficar de fora dessa história. Quatro em cada cinco


vezes, descobria um pretexto para não me juntar ao grupo, para fazer
gazeta a um banquete, para escapar a uma noitada.

Incapaz de continuar a suportar a presença de Emilie, Simon também se


desmarcava; preferia a minha companhia e levava-me ao snack de André para
jogarmos ao bilhar até já não aguentarmos com as pernas.

Fabrice exilou-se em Orão. Fechado no apartamento da mãe, no boulevard


des Chasseurs, empenhou-se em melhorar as crónicas para o seu jornal e em
esboçar as grandes linhas do seu romance. Já quase não ia à aldeia. Fui
vê-lo uma vez; tinha um ar resignado.

Jean-Christophe convidou-nos, a Simon e a mim, para irmos a sua casa.


Como sempre que havia uma grande decisão a tomar. Confessou-nos que
estava perdidamente apaixonado por Émilie e que tencionava pedi-la em
casamento. Reparara sobretudo na cara desconcertada de Simon e esforçou-
se por nos dissuadir de comprometer a sua felicidade.

— Sinto-me renascer... Depois de tudo o que passei — acrescentou,


aludindo às consequências da ruptura com isabelle — necessitava realmente
de um milagre para recuperar. E o milagre aconteceu. Esta rapariga, é
Deus que ma envia.

Simon esboçou uma careta que não escapou a Jean-Christophe:

— O que é? Não pareces estar convencido.

— Não sou obrigado a estar.

— Porque te ris, Simon?

— Para não chorar, se queres saber... Sim! Ouviste muito bem: para não
chorar, para não vomitar, para não me despir e sair para a rua.
ÉMIL1E 207

Simon estava quase de pé, com o pescoço sulcado por veias salientes.

— Vá lá — convidou Jean-Christophe, — despeja o saco.

— Não era de um saco que eu precisava mas de um aerós-tato. Vou ser


franco contigo. Não só não estou convencido, como não estou nada
contente. O que fizeste a Fabrice é indesculpável.

Jean-Christophe encaixou o ataque calmamente. Compreendia que nos devia


explicações e parecia ter reunido argumentos. Estávamos na sala, à roda
da mesa, com uma garrafa de limonada e outra cheia de água com alcaçuz. A
janela estava aberta para a rua, a cortina enfunada pela brisa. Muito ao
longe, ladravam cães; os seus latidos perseguiam-se no silêncio da noite.

Jean-Christophe esperou que Simon se sentasse de novo antes de levar um


copo de água à boca. Com a mão a tremer, bebeu deglutindo; as goladas
guinchavam na garganta como uma roldana.

Pousou o copo, enxugou a boca na ponta de um guardanapo que alisou


maquinalmente, pousando-o na toalha.

Sem erguer os olhos para nós, disse vagarosamente, num tom ponderado:

— Trata-se de amor. Não roubei nem desviei nada. Uma paixão como as há
aos milhares no mundo. É um momento de graça, a paixão; o instante
privilegiado dos deuses. Não penso que não a mereça. Tão-pouco tenho
motivos para corar. Gostei da Émilie logo que a vi. Não há nada de
ignóbil nisso. Fabrice continua a ser meu amigo. Não sei como dizer as
coisas. Acolho-as como me ocorrem.

Os seus punhos,bateram bruscamente na mesa, abalando-nos da cabeça aos


pés:

— Sou feliz, caramba! É um crime ser feliz? Ergueu os olhos inflamados


para Simon:

— Que mal há em amar e ser amado? Émilie não é um objecto, uma obra de
arte que se compra numa loja ou uma concessão que se negocia. Só pertence
a si própria. É tão livre de escolher como de renunciar. Trata-se de
partilhar uma vida, Simon. Acontece que os meus sentimentos não lhe são
indiferentes, que ela sente o mesmo por mim. "Onde está a ignomínia?
208

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Simon não se deixou intimidar. Mantinha os punhos crispados na mesa, as


narinas dilatadas de cólera. Olhou Jean-Christophe nos olhos e,
articulando cada sílaba, disse-lhe:

— Então, por que motivo nos fizeste vir cá se estás convencido da tua
decisão? Por que motivo estamos aqui, o Jonas e eu, a suportar o teu
palavreado se achas que não tens nada a censurar--te? Pensas que, assim,
alivias a tua consciência ou nos associas aos teus golpes baixos?

— Não é essa a questão, Simon. Não vos chamei para saber se tinha a vossa
bênção e muito menos para vos forçar. O que está em questão é a minha
vida, e sou suficientemente adulto para saber o que quero e como obtê-
lo... Faço tenções de casar com Émilie antes do Natal. E preciso de
dinheiro, e não dos vossos conselhos.

Simon percebeu que tinha ido longe demais, que não tinha o direito de
contestar a decisão de Jean-Christophe. Abriu os punhos. Recuou contra o
espaldar da cadeira, fez uma série de caretas enquanto olhava para o
tecto. A sua respiração ressoava na sala.

— Não achas que estás a precipitar um pouco as coisas? Jean-Christophe


virou-se para mim:

— Achas que estou a precipitar um pouco as coisas, Jonas? Não respondi.

— Estás seguro de que ela gosta mesmo de ti? — perguntou Simon.

— Porquê, tens motivos para duvidar?

— É uma rapariga da cidade, Chris. Não tem nada a ver com as nossas.
Quando vejo a maneira como largou o Fabrice...

— Ela não largou o Fabrice — gritou Jean-Christophe, exasperado.

Simon acalmou-o com um movimento das mãos:

— Está bem, retiro o que acabo de dizer... Falaste à rapariga das tuas
intenções?

— Ainda não, mas fá-lo-ei em breve. O problema é que não tenho dinheiro.
As poucas economias que tinha, queimei-as nos bordéis e nos bares em
Orão. Por causa do que se passou entre mim e a Isabelle.
ÉMILIE 209

— Justamente — disse Simon. — Mal te recompuseste dessa ruptura. Estou


convencido de que não recuperaste toda a lucidez e de que a paixão por
essa rapariga da cidade é só fogo de palha. Devias esperar, não te
comprometeres antes de teres a certeza. Aliás, interrogo-me se não
estarás a tentar fazer ciúmes à Isabelle?

— A Isabelle é passado.

— Não se fecha a porta a um amor de infância com a mesma facilidade com


que se estalam os dedos, Chris.

Magoado com as palavras de Simon e exacerbado pelo meu mutismo, Jean-


Christophe levantou-se e encaminhou-se para a porta do salão que abriu
com um gesto seco.

— Estás a pôr-nos na rua, Chris? — indignou-se Simon.

— Digamos que já vos vi que bastasse. Quanto a ti, Simon, se não queres
emprestar-me dinheiro, não é grave. Mas, por favor! Não te escondas por
trás de considerações que te escapam e, sobretudo, tem a elegância de não
me acusares ainda por cima.

Jean-Christophe sabia que não era verdade, que Simon daria a sua última
camisa por ele; procurava ser desagradável e vexante e atingiu o alvo
pois Simon saiu da sala como um tornado; tive de correr atrás dele na rua
para o apanhar.

O meu tio chamou-me ao seu escritório e pediu-me para me sentar no canapé


onde gostava de se reclinar a ler. Ganhara cores e algum peso e
rejuvenescera. Ainda mantinha um ligeiro tremor nos dedos, mas o olhar
tornara-se vivo. Fosse como fosse, cau-sava-me satisfação reencontrar o
homem que me encantava em Orão antes da chegada da polícia. Lia,
escrevia, sorria, saía regularmente a passear, com Germaine pelo braço.
Adorava vê-los caminhar lado a lado fosse onde fosse, tão fundidos que
pouca atenção prestavam ao mundo circundante. Havia, na simplicidade da
sua relação, na fluidez da sua comunhão, uma ternura, uma profundidade,
uma autenticidade que quase os santificava. Formavam o casal mais
respeitável que me foi dado admirar. Observá-los, enquanto se bastavam a
si mesmos, insuflava-me algo da sua plenitude e enchia-me de uma alegria
tão bela como a sua felicidade pudica. Eram o amor sem concessão, o amor
perfeito. Na charia,
210

O QUE O DIA DEVE À NOITE

é obrigatório um não-muçulmano converter-se ao islão antes de casar com


um muçulmano. O meu tio não foi dessa opinião. Pouco lhe importava que a
mulher fosse cristã ou pagã. Dizia que, quando duas pessoas se amam,
escapam às restrições e aos anátemas; que o seu amor apazigua os deuses e
que não se negocia pois qualquer arranjo ou concessão ofenderia o que há
de mais sagrado.

Pousou a caneta no tinteiro e observou-me pensativamente:

— O que é que não anda bem, rapaz?

— O quê?

— Germaine acha que tens um problema.

— Não estou a ver qual. Queixei-me de alguma coisa?

— Não é necessário no caso de pessoas que acham que os seus problemas só


lhes dizem respeito... Ficas a saber que não estás só, Younes. E
sobretudo não penses que me incomodas. És a pessoa que mais quero no
mundo. És o que resta da minha história... Estás na idade das grandes
preocupações, agora. Sonhas em casar, em ter uma casa tua, uma vida
independente. É normal. Todos os pássaros acabam por voar com as próprias
asas mais dia, menos dia.

— A Germaine diz o que lhe vem à cabeça.

— Não é defeito. Sabes como gosta de ti. Reza sempre por ti. Por isso,
não lhe escondas nada. Se precisas de dinheiro, ou de seja o que for,
estamos à tua inteira disposição.

— Não duvido nem por um instante.

— Isso tranquiliza-me.

Antes de me mandar embora, pegou na caneta e garatujou qualquer coisa num


papel que me entregou:

— Fazes o favor de passar pela livraria para me trazeres este livro?

— Com certeza, vou já.

Meti o pedaço de papel no bolso e saí, interrogando-me o que teria levado


Germaine a pensar que eu ílnha problemas.

A caloraça das últimas semanas abrandara. No céu esgotado pela canícula,


uma enorme nuvem fiava a sua lã, com o sol afazer as vezes de roda; a sua
sombra deslizava sobre as vinhas como um navio-fantasma. Os velhos
começavam a sair dos abrigos, felizes
EMILIE

211

por terem sobrevivido à vaga de calor. Sentados em tamboretes, de calças


e camisola interior manchada de suor, saboreavam a sua ani-seta na
soleira da porta de casa, com a cara congestionada meio escondida por
baixo de enormes chapéus. A tarde aproximava-se; a brisa proveniente do
litoral tudo refrescava, até os nossos humores... Com o pedaço de papel
do meu tio no bolso, dirigi-me à livraria com montras recheadas de livros
e de guaches toscos assinados por aprendizes de pintores locais; e qual
foi a minha surpresa quando, ao empurrar a porta, deparei com Émilie por
trás do balcão.

— Bom dia — disse-me ela, igualmente apanhada de surpresa.

Durante uns segundos, fiquei sem saber o que lá tinha ido buscar. O
coração batia como um ferreiro louco na sua bigorna.

— A Sra. Lambert está doente há uns dias — explicou-me Émilie. — Pediu-me


que a substituísse.

A minha mão levou algum tempo a conseguir retirar do fundo do bolso o


pedaço de papel.

— Que deseja?

Sem voz, limitei-me a estender-lhe o papel.

— A Peste, de Albert Camus — leu ela. — Da Gallimard... Acenou com a


cabeça e apressou-se a desaparecer por trás

das estantes, provavelmente para se refazer da emoção. Pelo meu lado,


aproveitei para recuperar o alento. Ouvi-a trepar a um escadote, procurar
nas prateleiras, repetir «Camus... Camus...», descer do escadote,
caminhar pelos corredores estreitos entre as estantes e depois gritar:

— Aqui está ele...

Voltou, os olhos mais vastos que uma pradaria.

— Estava mesmo por baixo do meu nariz — acrescentou, cada vez mais
confusa.

A minha mão tocou na dela quando peguei no livro. Fui atingido pelo mesmo
raio que me electrocutara no restaurante em Orão, quando ela me
interpelara debaixo da mesa. Olhámo-nos como se estivéssemos a verificar
se sofríamos a influência de elementos semelhantes. Émilie corara
violentamente. Suponho que se limitava a devolver-me o meu reflexo.
212

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Como está o seu tio? — disse, para superar o seu embaraço.

Não percebia o que ela queria dizer.

— Estava com um ar preocupado, na outra noite...

— Ah!... Sim, sim, agora está melhor.

— Espero que não fosse grave.

— Não era.

— Fiquei muito inquieta depois de se ter ido embora.

— Foi maior o medo que o mal.

— Fiquei inquieta por sua causa, senhor Jonas. Estava tão pálido.

— Ah! sabe, eu... *

O seu rubor atenuava-se. Estava a superar o constrangimento. Os seus


olhos apoderaram-se dos meus, decididos a não os largar.

— Teria desejado que não tivesse havido esse alerta. Começava a habituar-
me a si. Não falou muito.

— Sou tímido.

— Também eu. Acaba por ser terrível. E penaliza-nos bastante... Aborreci-


me muito depois de se ter ido embora.

— Mas o Simon estava inspirado.

— Eu não...

A mão deslizou do livro e aventurou-se pelo meu punho; retirei vivamente


o braço.

— De que é que tem medo, senhor Jonas?

Aquela voz!... Livre de tremores, tornava-se mais segura, mais firme,


clara, poderosa, tão soberana como a da mãe. A mão apoderou-se da minha;
nã" a repeli.

— Há muito tempo que lhe queria falar, senhor Jonas. Mas fugia-me como
uma miragem... Porque me fugia?

— Não fujo...

— Está a mentir... Há coisas que nos traem desde a primeira vez que
fingimos. Por muito que tentemos esconder o nosso jogo, ele transparece
no nosso corpo que se defende... Ficaria muito contente se pudéssemos
dispor de um momento. Estou certa de que temos imensas coisas em comum,
não acha?...
EMILIE

213

— Podíamos combinar um encontro, se quisesse?

— Tenho estado sobrecarregado ultimamente.

— Gostava de falar consigo em privado. -

— Sobre que assunto?

— Aqui e agora não... Gostaria muito de o receber em minha casa. No


atalho do marabuto... Não lhe tomarei muito tempo, prometo.

— Sim, mas não estou a ver do que poderíamos falar. Além disso, Jean-
Christophe...

— Jean-Christophe o quê?

— Vivemos numa aldeiazinha, menina. As pessoas são indiscretas. Jean-


Christophe poderia não gostar...

— Não gostar de quê?... Não fazemos nada de repreensível. Além disso, não
lhe diz respeito. É só um amigo. Não há nada de concreto entre nós.

— Não diga isso, peço-lhe. Jean-Christophe é louco por si.

— Jean-Christophe é um rapaz formidável. Gosto muito dele... mas não o


suficientemente para partilhar com ele a minha vida.

As suas palavras foram um murro no estômago para mim. Os seus olhos


tinham o brilho de uma lâmina de cimitarra.

— Não me olhe assim, senhor Jonas. É verdade. Não há nada entre nós.

— A aldeia inteira acha que estão noivos.

— Enganam-se... Jean-Christophe é um amigo, mais nada. O meu coração


pertence a outra pessoa — explicou, apertando docemente a minha mão
contra o seu peito...

— Bravo!

O grito teve o efeito de uma deflagração, petrificando-nos, a Émilie e a


mim: Jean-Christophe estava no vão da porta, com um ramo de flores na
mão. O ódio, que lhe jorrava do olhar como lava em erupção, imolou-me.
Repugnado, incrédulo, fora de si, vibrava à entrada da livraria,
literalmente sepultado pelo céu que acabava de lhe cair em cima, as
feições alteradas e a boca agitada por uma incomensurável indignação.

— Bravo! — gritou.
<•¦< *
214 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Atirou o ramo para o chão e esmagou-o com o sapato:

— Pensava oferecer estas rosas ao amor da minha vida, e elas só servem


para florir o túmulo dos meus sonhos... Que imbecil!... Que palerma que
sou!.. E tu, Jonas, grande porco!

Saiu, batendo tão furiosamente com a porta envidraçada que ela se


estilhaçou.

Corri atrás dele. Cortou por ruelas secundárias, apressando o passo,


pontapeando raivosamente os objectos que encontrava no caminho. Quando se
apercebeu de que estava atrás dele, enfrentou--me e ameaçou-me com o
dedo:

— Fica onde estás, Jonas... Não te aproximes de mim se não queres que te
esmague como um pedaço de merda.

— É um mal-entendido. Juro-te que não há nada entre mim e ela.

— Vai-te lixar, porco! Vai para o diabo com ela! És é um grande porco, um
estupor de um porco de merda!

Frenético, atirou-se a mim, ergueu-me no ar e encostou-me a uma paliçada.


A sua saliva cobria-me de salpicos enquanto me insultava. Bateu-me
violentamente no meio do estômago. Sem conseguir respirar, pousei um
joelho no chão.

— Porque te metes sempre à minha frente quando tento correr para a minha
felicidade? — urrava numa voz lacrimosa, os olhos injectados de sangue, a
boca efervescente de baba. — Porquê, com os diabos! Porque te ergues no
meu caminho como um mau presságio?

Deu-me um pontapé nas costas.

— Maldito! Maldito o dia que te pôs no meu caminho! — urrava, afastando-


se a correr. — Não quero mais ver-te, não quero ouvir falar de ti nunca
mais, porco, desprezível, ingrato!

Contorcido no chão, não conseguia perceber se o que me fazia sofrer mais


era a tristeza ou a violência do meu amigo.

Jean-Christophe não regressou a casa. André contou que o tinha visto


atalhar caminho através dos campos a correr, como um louco; depois não
houve mais sinal de vida. Esperámo-lo dois dias, uma semana e nada. Os
pais estavam mortos de inquietação.
EMILIE

215

Jean-Christophe não tinha o hábito de deixar a família sem notícias.


Quando rompera com Isabelle, volatilizara-se da mesma maneira, mas não se
esquecia de telefonar à noite à mãe para a tranquilizar. Simon veio
várias vezes a minha casa fazer-me perguntas sobre a situação. Não estava
tranquilo e não escondia o medo. Jean--Christophe estava a recuperar de
uma depressão. Não sobreviveria a uma recaída. Eu também temia o pior.
Tinha tanto medo que as hipóteses de Simon me impediam de dormir. Passava
as noites a imaginar toda a espécie de cenários dramáticos e, muitas
vezes, levantava-me para ir buscar uma garrafa de água que esvaziava
enquanto andava a passos largos pela varanda. Não queria contar nada do
que se tinha passado na livraria. Tinha vergonha; tentava con-vencer-me
de que esse terrível mal-entendido nunca acontecera.

— Essa putinha deve ter-lhe dito qualquer coisa — rosnava Simon, aludindo
a Émilie. — Punha a minha mão no fogo. Essa sedutora tem
responsabilidades no caso.

Não ousava olhá-lo nos olhos.

Ao oitavo dia, depois de ter contactado os seus conhecimentos em Orão e


de ter feito investigações discretas para não alvoraçar a aldeia, o pai
de Jean-Christophe alertou a polícia.

Fabrice regressou a Rio em pânico logo que soube do desaparecimento de


Jean-Christophe.

— Caramba! O que se passou?

— Não sei nada — respondeu Simon, despeitado.

Partimos os três para Orão, procurámos o nosso amigo nos bordéis, nos
bares, nos fondouks de má fama da Scalera onde, por umas notas, era
possível uma pessoa fechar-se dias a fio na companhia de prostitutas
envelhecidas, a encher-se de vinho de má qualidade e a fumar cachimbos de
ópio; nem uma pista. Mostrámos a fotografia de Jean-Christophe às patroas
dos bordéis, aos taberneiros, aos seguranças dos cabarés, aos moutchosx
dos banhos turcos; ninguém o vira nessas paragens. Nem no hospital nem
nas esquadras de polícia.

1 Empregado de banhos turcog, encarregado das massagens e esfoliações.


(N. da T.)
216 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Émilie visitou-me na farmácia. Quis atirá-la porta fora. A mãe tinha


razão; quando os nossos olhares se cruzavam, desen-cadeavam-se demasiadas
influências malsãs, demasiados elementos demoníacos. Curiosamente, quando
entrou na loja, as forças abandonaram-me. Estava furioso com ela,
considerava-a responsável pela fuga de Jean-Christophe e por aquilo que
lhe podia acontecer; contudo, só vi no seu rosto uma grande tristeza que
não tardou a inspirar-me compaixão. Com os dedinhos a torcerem uma ponta
do lenço, os lábios exangues, parou junto ao balcão, aflita, impotente e
desesperada.

— Estou terrivelmente angustiada.

— E eu!

— E angustia-me tê-lo metido nesta história.

— Não há nada a fazer.

— Rezo todas as noites para que não tenha acontecido nada ao Jean-
Christophe.

— Se ao menos se soubesse onde está.

— Continua sem notícias?

— Sim.

Olhou para os dedos.

— Em seu entender, Jonas, que devo fazer? Fui muito franca com ele. Desde
o início que lhe disse que o meu coração pertencia a outra pessoa. Ele
não quis acreditar. Ou talvez tenha pensado que tinha hipóteses. Terei
culpa que ele não as tivesse?

— Não estou a entender de que me quer falar. Aliás, não é o momento nem o
sítio oportunos para...

— É sim — atalhou. — É exactamente o momento de dizer as coisas como elas


são. Foi porque não tive coragem, por pudor, que despedacei dois
corações. E não sou uma destruidora de corações. Nunca esteve nas minhas
intenções fazer mal a fosse quem fosse.

— Não acredito em si.

— Mas deve acreditar, Jonas.

— Não, não é possível. Não respeitou Fabrice; até se atreveu a tocar em


mim debaixo da mesa enquanto lhe sorria. Depois, magoou Jean-Christophe
quando me tornou cúmplice do seu jogui-nho...
EM1LIE

217

— Não é um jogo.

— Que me quer, afinal?

— Dizer-lhe que... o amo.

Os elementos desencadearam-se subitamente. Senti que a loja, as


prateleiras atrás de mim, o balcão, as paredes se desintegravam.

Émilie não se mexia. Fixava-me com os seus olhos imensos, os dedos


imobilizados na ponta do lenço.

— Peço-lhe, menina, volte para casa.

— Não compreendeu?... Só me atirava para os braços de outro para que me


visse, só ria às gargalhadas para que me ouvisse... Não sabia como chegar
a si, como lhe dizer que o amava.

— Não deve dizê-lo.

— Como calar o mais belo apelo do coração?

— Não sei. E não quero ouvi-lo.

— Porquê?

— Peço-lhe...

— Não, Jonas. Não se tem o direito de exigir uma coisa dessas. Amo-o. É
imperativo que o saiba. Não pode avaliar quanto me custa, a vergonha que
tenho de me desnudar à sua frente, de insistir e de me bater por um
sentimento que não o atinge em cheio enquanto me aniquila a mim, mas
sentir-me-ia duplamente infeliz se continuasse a calar o que os meus
olhos não param de gritar; amo-o, amo-o, amo-o. Amo-o sempre que respiro.
Amei-o mal o vi... há mais de dez anos... nesta mesma farmácia. Não sei
se ainda se lembra, mas eu não me esqueci. Chovera nessa manhã, e as
minhas luvas de lã estavam encharcadas. Vinha todas as quartas--feiras
tomar uma injecção aqui. E, nesse dia, o Jonas chegava da escola. Lembro-
me da cor da sua pasta com correias presas por taxas, do feitio do seu
casaco com capuz, até dos atacadores desapertados dos seus sapatos
castanhos. O Jonas tinha treze anos... Falámos das Caraíbas... Enquanto a
sua mãe tratava de mim nas traseiras da farmácia, o Jonas apanhou uma
rosa para mim e meteu-a no meu livro de geografia.

Um relâmpago atravessou-me o cérebro, e uma nuvem de recordações


revolteou vertiginosamente no meu espírito. De repente,
218 O QUE O DIA DEVE À NOITE

lembrei-me de tudo: Émiliel... acompanhada por um homem enorme talhado


num menhir. Finalmente compreendi por que motivo, naquele dia do
piquenique, essa expressão singular fulgurara no seu rosto quando lhe
tinha dito que era farmacêutico. Ela tinha razão: tínhamo-nos mesmo
encontrado algures, havia muito tempo.

— Lembra-se?

— Sim.

— Perguntou-me o que era Guadalupe. Respondi-lhe que era uma ilha


francesa nas Caraíbas... Quando encontrei a rosa no livro de geografia,
tive uma sensação estranha e apertei o livro contra mim. Lembro-me desse
dia como se fosse ontem. Havia uma jarra de flores precisamente ali, numa
velha cómoda bojuda. Por trás do balcão, à esquerda dessa estante, havia
uma figura a representar Maria, em estuque, de cores claras...

Enquanto evocava essas lembranças que me acudiam com uma precisão


inaudita, a sua voz terna e inspirada entorpecia-me. Tinha a impressão de
estar a ser arrastado lentamente por uma enorme enchente. Como se se
opusesse a ela, a voz da Sra. Caze-nave erguia-se contra a da filha,
espalhava-se na minha cabeça, suplicante, lamentosa, semelhante a uma
litania. Apesar da sua densidade, do clamor que provocava, a voz de
Emilie conseguia chegar até mim, nítida, límpida, tão penetrante como uma
agulha.

— Younes — disse-me ela, — não é? Lembro-me de tudo.

— Eu...

Pousou um dedo na minha boca:

— Peço-lhe, não diga nada agora. Tenho medo do que me irá dizer. Preciso
de recuperar o alento, percebe?

Pegou na minha mão e pousou-a no seu peito:

— Veja como o meu coração bate, Jonas... Younes...

— O que estamos a fazer é errado — disse eu, sem ousar retirar a mão,
hipnotizado pelo seu olhar.

— E qual é o mal?

— Jean-Christophe ama-a. Está apaixonadíssimo por si — disse eu, para


dominar as vozes da mãe e da filha que lutavam ti-tanicamente na minha
cabeça... — Dizia em toda a parte que iria desposá-la.
EMILIE

219

— Porque me fala dele? Trata-se de nós.

— Lamento, menina, Jean-Christophe é muito mais importante para mim do


que uma velha recordação de infância.

Acusou o golpe. Graciosamente.

— Não quis ser desagradável — tentei desculpar-me, consciente da minha


grosseria.

Pousou o dedo na minha boca:

— Não precisa de se desculpar, Younes. Compreendo. Provavelmente tem


razão, o momento não é oportuno. Mas quis que soubesse. Para mim, é mais
do que uma velha recordação de infância. E tenho direito de o pensar. No
amor, não há vergonha nem crime, excepto quando o sacrificamos, ainda que
por bons motivos.

Dito isso, retirou-se. Silenciosamente. Sem olhar para trás. Nunca


sentira uma solidão tão profunda como no instante em que ela desapareceu
no barulho da rua.
15.

Jean-Christophe estava vivo. Rio Salado deu um enorme suspiro de alívio.


Uma noite, contra todas as expectativas, telefonou à mãe para lhe dizer
que estava tudo bem. Segundo a Sra. Lamy, o filho estava lúcido. Falava
tranquilamente, com palavras simples e precisas, e a sua respiração era
normal. A mãe perguntara-lhe por que motivo partira e de onde estava a
telefonar. Jean-Christophe contentara--se com fórmulas vagas, formais —
Rio não era o mundo, havia outros territórios a explorar, outras vias a
inaugurar —, fugindo, assim, de dizer onde estava e como fazia
diariamente para sobreviver, visto ter-se ido embora sem dinheiro e sem
bagagens. A Sra. Lamy não insistira; finalmente o filho dava sinais de
vida e isso já era bom. Pressentia que o traumatismo era profundo, que a
«lucidez» ostentada pelo rebento era apenas uma maneira de o esconder, e
tinha medo de provocar uma hemorragia se tentasse remexer com a faca na
ferida.

Depois, Jean-Christophe escreveu uma longa carta a Isabelle, na qual


confessava o grande amor que lhe tinha e como lamentava não ter sabido
fazer com que frutificasse. Era uma espécie de carta-testamento; Isabelle
Rucillio chora;a amargamente, convencida de que o seu «noivo» rejeitado
se teria lançado do alto de uma falésia ou sob as rodas de uma locomotiva
depois de ter posto a missiva no correio — como o carimbo no selo era
ilegível, não se soube de onde tinha sido expedida.
ÉMILIE 221

Três meses mais tarde, Fabrice recebeu a sua carta, feita de desculpas e
remorsos. Jean-Christophe admitia ter sido egoísta e, dominado pelo
desejo e a posse, ter perdido de vista as regras elementares do decoro e
os seus deveres perante um ser que amava desde a escola e que continuaria
a ser o seu melhor amigo... Não deixou as suas coordenadas.

Oito meses depois do incidente da livraria, Simon — que, entretanto, se


associara à Sra. Cazenave no lançamento de um estabelecimento de alta-
costura em Orão — descobriu, entre o seu correio, a sua carta; uma
fotografia recente de um Jean-Christophe fardado de soldado raso, com a
cabeça rapada e uma espingarda, com algumas palavras no verso: Cest la
vie de château, merci mon adjudantx. No envelope, o carimbo indicava a
localidade de Khemis Méliana. Fabrice decidiu ir lá. Nós acompanhámo-lo,
Simon e eu, até à caserna da cidade em questão, onde nos garantiram que,
havia três ou quatro anos, a escola já só recebia «indígenas»; sugeriram-
nos Cherchell. Christophe não estava em Cher-chell, nem em Koléa. Batemos
a diferentes portas, verificámos nas guarnições de Argel, de Blida; sem
êxito. Estávamos a perseguir um espectro... Regressámos a Rio tão
derreados como derrotados. Fabrice e Simon continuavam a não ter
explicações para a decisão tomada pelo nosso amigo mais velho.
Suspeitavam de uma desilusão amorosa, mas não estavam seguros. Émilie não
parecia culpada de nada. Víamo-lo quer na livraria, a ajudar a Sra.
Lambert, quer na avenida principal da aldeia a contemplar as montras com
um ar melancólico. Contudo, a decisão de Jean-Christophe per-turbava-nos
a todos. Alistar-se nas forças armadas não era ideia que aflorasse ao
espírito de um rapaz de Rio Salado; não era o nosso mundo e não
conseguíamos dissociar a escolha de Jean--Christophe de uma vontade
absurda e insuportável de se autofla-gelar. Nas suas cartas, nunca
deixara transparecer as frustrações que o haviam levado a renunciar à
liberdade, à família, à aldeia, para se entregar de pés e mãos atadas aos
regulamentos militares e às tarefas da despersonalização consentida e da
submissão.

1 À letra: É uma vida em grande, obrigado meu ajudante. (N. da T.)


222

O QUE O DIA DEVE À NOITE

A carta enviada a Simon foi a última. f

Nunca recebi a minha. ,1 Émilie continuou a visitar-me. Por vezes,


ficávamos à frente um do outro sem trocar uma palavra, nem sequer uma
fórmula de delicadeza. Teríamos coisas a acrescentar? Tínhamos dito o
essencial do que havia para dizer. Em seu entender, eu precisava de
tempo, e ela devia ter paciência; em minha opinião, o que ela me propunha
era irrealizável, mas como fazê-la compreender sem a ofender e causar uma
catástrofe em toda a aldeia? Era uma ligação impossível, contranatura.
Sentia-me perdido. Não sabia o que fazer. Portanto calava-me. Émilie
esforçava-se; tentava não perturbar a ordem estabelecida, ao mesmo tempo
que fazia questão de manter o contacto, a todo o custo. Pensava que eu me
culpabilizava por causa do Jean-Christophe, que acabaria por ultrapassar
esse caso de consciência, que os seus enormes olhos conseguiriam, com o
tempo ou o esforço, acabar com as minhas inibições. Depois de se ter
sabido na aldeia que Jean-Christophe estava são e salvo, a tensão entre
nós diminuiu ligeiramente... sem que, com isso, as nossas relações se
tivessem normalizado. Jean--Christophe não estava lá, mas a sua ausência
cavava um fosso que nos separava, lançava uma sombra sobre os nossos
pensamentos, obscurecia as nossas intenções. Émilie lia-o nas minhas
feições. Chegava determinada, trazendo no regaço tudo o que passara a
noite a aperfeiçoar para mim, e depois, no momento da verdade, recuava;
já não se atrevia a pegar-me na mão ou a pousar--me o dedo na boca.

Inventava um mal-estar incongruente, pedia um medicamento para justificar


a presença na loja. Eu anotava no livro a encomenda, aviava-a quando o
produto estava disponível e mais nada. Permitia-se uns minutos de
meditação, arriscava uma ou duas reflexões, uma ou duas perguntas
práticas acerca do modo de emprego do medicamento, após o que regressava
a casa. Para dizer a verdade, esperava provocar em mim um sobressalto, um
clique que aguardava desesperadamente para abrir de novo o seu coração;
eu não a encorajava. Fingindo não reparar na sua insistência muda,
tragicamente açaimada, lutava para não ceder, com a certeza de
EMILIE

223

que, se viesse a mostrar um sinal de fraqueza, ela aproveitaria para


relançar o que eu me esfalfava por dissuadir.

Durante esta manobra grosseira que me repugnava assumir, enquanto fazia


de conta que não me apercebia de nada, eu sofria. De visita em visita —
mais exactamente, de separação em separação —, apercebia-me de que Emilie
se apoderava das minhas preocupações, que ganhava terreno, que se tornava
o meu principal centro de interesse. De noite, só conseguia adormecer
depois de passar em revista os seus gestos e silêncios. De dia, por trás
do balcão, esperava que ela aparecesse; cada cliente que entrava tra-zia-
me uma parcela da sua ausência a tal ponto que dava por mim a ansiar por
ela, a sobressaltar-me quando a campainha da entrada tocava e a enervar-
me quando não era ela a empurrar a porta. Que mudança se estava a operar
em mim? Por que motivo me detestava por ser uma pessoa sensata! Deveria a
correcção impor-se à sinceridade? De que serviria o amor se não
suplantasse os sortilégios e os sacrilégios, se tinha de se sujeitar às
proibições, se não obedecia à sua própria fixação, ao seu próprio
descomedimento?... Não sabia o que pensar. E a aflição de Emilie parecia-
me pior que todas as abjurações, que todas as profanações e todas as
blasfémias reunidas.

— E isto vai durar até quando, Younes? — perguntou-me ela, esgotada.

— Não percebo do que está a falar.

— No entanto, entra pelos olhos dentro. Quero falar de nós... Como me


pode tratar assim? Venho várias vezes a esta farmácia sinistra, e o
Younes parece ignorar a minha dor, a minha paciência, as minhas
expectativas. Dir-se-ia que faz de propósito para me humilhar. Porquê? O
que é que me censura?

— É por causa da religião? Porque sou cristã e o Younes é muçulmano? É


isso?

— Não.

— Então, de que se trata? Não me diga que lhe sou indiferente, que não
sente nada por mim. Sou mulher e a minha intuição é forte. Sei que o
problema nâ*ò se situa a esse nível. Aliás, nem
224

O QUE O DIA DEVE À NOITE

percebo sequer que problema possa haver. Disse-lhe o que sinto por si.
Que terei de fazer mais?

Estava furiosa e fora de si ao mesmo tempo, à beira de uma crise de


lágrimas. Os punhos crispados à altura do peito teriam querido agarrar-me
pela garganta e sacudir-me até me desfazer.

— Lamento.

— O que é que quer dizer?

— Não aguento mais.

— O que é que não aguenta mais?

Sentia-me constrangido. Infeliz, sem dúvida. Furioso, também, com a


ambiguidade da minha atitude, com a minha cobardia, com a minha
incapacidade de resolver as coisas de uma vez por todas e de restituir a
liberdade e a dignidade a essa rapariga feita refém da minha indecisão,
quando eu sabia que a nossa história não teria continuação. Não estaria a
mentir a mim próprio, a pôr--me à prova quando não havia nada a provar e
nada a ultrapassar? Seria outra vez autoflagelação? Como decidir sem me
decapitar, sem perder a cabeça? Emilie não se enganava; os meus
sentimentos por ela eram fortes. Sempre que tentava apresentar uma razão,
o meu coração insurgia-se; detestava-me por procurar amputá-lo. Que
fazer? Que amor seria este que se ergueria sobre o sacrilégio, sem
nobreza nem bênção? Como faria para sobreviver à abjecção que o inundaria
como água poluída?

— Amo-o, Younes... Está a ouvir-me?

— Vou-me embora. Não volto mais. Se sentir o mesmo por mim, sabe onde me
encontrar.

Uma lágrima escapou-se-lhe; não a enxugou. Os seus enormes olhos


inundavam-me. Lentamente, reuniu todas as suas forças em torno das mãos
pequenas que afundou junto ao estômago, e saiu.

— Que pena...

O meu tio estava atrás de mim. Levei algum tempo a pensar a que se
referia. Ter-nos-ia escutado? Detestaria escutar atrás da porta. Não era
o seu jeito. Entre nós, falava-se de tudo, excepto de mulheres. Era um
assunto tabu, e apesar da sua erudição e
ÉMILIE

225

emancipação, um pudor atávico impedi-lo-ia de abordar essa questão comigo


de uma maneira frontal. Por tradição, na nossa comunidade, recorria-se a
alusões ou a interpostas pessoas — teria encarregado Germaine de me falar
no assunto.

— Estava nas traseiras e a porta não estava fechada.

— Não é grave.

— Talvez seja melhor assim. As indiscrições involuntárias podem ser


úteis. Quem sabe?... Escutei a tua conversa com essa rapariga. Disse para
comigo: Fecha a porta. Não a fechei. Não foi por uma curiosidade malsã,
mas porque sempre adorei ouvir falar os corações. Para mim, não existe
sinfonia mais formidável... Posso?

— Evidentemente.

— Mandas-me parar quando quiseres, filho.

Sentou-se no banco e começou a olhar para os dedos um a um e, depois, com


a nuca dobrada, disse numa voz longínqua:

— O homem não é mais do que inépcia e equívoco, erro de cálculo e falsa


manobra, temeridade inconsiderada e objecto de fracasso quando crê
avançar rumo ao seu destino, desqualificando a mulher... É certo que a
mulher não é tudo, mas tudo assenta nela... Olha à tua volta, consulta a
História, olha demoradamente para o mundo inteiro e diz-me o que são os
homens sem as mulheres, o que são os seus votos e preces quando não as
louvam... Rico como Creso ou tão pobre como Job, oprimido ou tirano,
nenhum horizonte bastaria para a nossa visibilidade se a mulher nos
virasse as costas.

Sorriu como se se dirigisse a uma recordação vaga:

— Quando a mulher não é a ambição suprema do homem, quando não é o fim de


qualquer iniciativa neste mundo, a vida não merece as suas alegrias e
tristezas.

Bateu nas coxas e pôs-se de pé:

— Quando eu era pequeno, ia muitas vezes ao Grande Rochedo contemplar o


pôr-do-sol. Era fascinante. Em meu entender, tratava-se do verdadeiro
rosto da Beleza. Depois, vi a neve cobrir de branco e de paz as planícies
e as florestas, e os palácios no meio de jardins fabulosos, e tantos
outros esplendores inimagináveis, e
226

O QUE O DIA DEVE À NOITE

interroguei-me como seria no paraíso... A sua mão pousou no meu ombro:

— Ora bem, o paraíso seria uma natureza morta sem as suas huris...

Os seus dedos enterrados na minha carne difundiam vibrações por todo o


meu ser. Como uma salamandra, o meu tio renascia das cinzas; procurava
transmitir-me o milagre da sua ressurreição. Os seus olhos estavam
prestes a sair das órbitas tal o entusiasmo com que parecia dar à luz
cada palavra:

— O pôr-do-sol, a Primavera, o azul do mar, as estrelas da noite, todas


essas coisas que chamamos cativantes só possuem magia quando gravitam em
torno de uma mulher, filho... Porque a Beleza, a verdadeira, a única, a
beleza farol, a beleza absoluta, é a mulher. O resto, tudo o resto, são
meros acessórios de sedução.

A sua outra mão pousou no meu ombro livre. Descobriu qualquer coisa no
fundo do meu olhar. Os nossos narizes quase se tocavam e os hálitos
confundiam-se. Nunca o tinha visto naquele estado, excepto, talvez, no
dia em que fora ter com Germaine para lhe anunciar que o seu sobrinho se
tornara filho deles.

— Se uma mulher te amar, Younes, se te amar profundamente, e tu tiveres


a presença de espírito para avaliar a extensão desse privilégio, nenhuma
divindade te chegará aos calcanhares.

Antes de subir para o escritório, com a mão pousada no corrimão, disse-


me:

— Vai ter com ela a correr... Um dia, sem dúvida, será possível agarrar
um cometa, mas nem todas as glórias da terra conseguirão consolar a
pessoa que deixar fugir a verdadeira oportunidade da sua vida.

Não o escutei.

Fabrice Scamaroni casou com Hélène Lefèvre em Julho de 1951. Foi uma bela
festa; houve tanta gente que o casamento foi celebrado em dois actos. O
primeiro para os convidados da cidade e da profissão — um contingente de
jornalistas incluindo a redacção de L 'Echo d'Oran, artistas, atletas e
uma grande parte da elite de Orão entre a qual se reconheceu o escritor
Emmanuel Robles.
EMILIE

227

Esta primeira parte das festividades desenrolou-se em Ain Turck, em casa


de um industrial abastado muito chegado à Sra. Scama-roni, numa enorme
propriedade aberta para o mar. Eu sentia-me pouco à vontade nessa festa.
Émilie estava lá, de braço dado com Simon. A Sra. Cazenave também lá
estava, um pouco perdida. Os seus negócios com Simon prosperavam; o seu
estabelecimento de alta-costura já vestia as maiores fortunas de Rio
Salado e de Ham-mam Bouhdjar e, apesar de uma concorrência feroz,
impunha-se progressivamente nos meios endinheirados de Orão. Num
ajuntamento junto da comida, Simon pisou-me o pé. Não pediu desculpa. Com
o prato nas mãos, procurou Émilie no meio das pessoas e foi direito a
ela. Que lhe dissera Émilie sobre mim? Por que motivo o meu amigo de
sempre fazia de contas que eu não estava lá? Estava cansado demais para
lhe perguntar.

0 segundo acto foi consagrado às pessoas da aldeia. Rio Salado fazia


questão de festejar as núpcias do filho prodígio na intimidade. Pépé
Rucillio ofereceu cerca de cinquenta carneiros e mandou vir de Sebdou os
melhores especialistas de méchoui1. Jaime Jiménez Sosa, o pai de André,
pôs à disposição dos Scama-roni uma vasta ala da quinta dividida por
palmeiras, que foi ornamentada com cortinas sedosas, grinaldas, bancos
estofados e mesas carregadas de vitualhas e de ramos de flores. No meio
do pátio, ergueu-se uma imensa tenda juncada de tapetes e almofadas. A
criadagem, composta de árabes e jovens efebos negros, vestia roupa de
eunuco, com coletes bordados, sarouals tufados que terminavam na barriga
da perna, e turbantes cor de açafrão a brilharem de goma. Dir-se-ia que
estávamos no tempo das Mil e Uma Noites. Também aí me senti constrangido.
Émilie não largava o braço de Simon, e a Sra. Cazenave vigiava-me sem
descanso, temendo uma crise de ciúmes. A noite, uma prestigiada orquestra
de música árabo-judaica, trazida de Constantina, a mítica cidade
suspensa, ofereceu à assistência um repertório prodigioso. Só escutava
com um ouvido, sentado num caixote do outro lado da festa, debaixo de uma
lâmpada fraca. Quando Jelloul me trouxe

1 Carneiro ou cordeiro assado inteiro num espeto. (N. da T.)


228

O QUE O DIA DEVE À NOITE

um prato de grelhados, murmurou-me no ouvido que o enfado que eu


incarnava estragaria todas as alegrias do mundo. Deí-me conta de que,
efectivamente, não tinha boa cara e que, em vez de ficar por ali a
estragar a alegria de centenas de convidados, mais valia voltar para
casa. Não teria sido sensato: Fabrice levaria a mal, e eu não queria
perdê-lo, a ele também.

Com Jean-Christophe fora, Fabrice casado e Simon fora do alcance desde


que se associara à Sra. Cazenave, o meu mundo des-povoava-se. Levantava-
me de manhã cedo, fechava-me na farmácia durante o dia; a seguir, depois
de baixar os estores de ferro, não sabia o que fazer da minha noite. No
princípio, ia ao snack de André jogar três ou quatro partidas de bilhar
com José e regressava a casa, pois já não ousava andar pelas ruas ao cair
da noite. Subia para o quarto, pegava num livro e lia várias vezes o
mesmo capítulo sem o assimilar. Não conseguia concentrar-me. Nem sequer
com os clientes. Quantas vezes decifrei mal as garatujas dos médicos numa
receita, servi um produto em lugar de outro, me deixei ficar esquecido
diante das prateleiras, incapaz de me lembrar onde estaria guardado este
ou aquele medicamento? Às refeições, Germaine beliscava-me debaixo da
mesa para me despertar. Distraído, esquecia-me de comer. O meu tio tinha
pena de mim, mas não dizia nada.

Depois as coisas aceleraram. Como era mole demais para me colar a elas,
distanciaram-se, deixaram de fazer caso de mim. Fabrice teve um primeiro
bebé, um adorável botãozinho cor-de-rosa e bochechudo, e instalou-se com
Hélène em Orão. A mãe não tardou a vender os seus bens em Rio para se
mudar para Aín Turk. Quando passava diante da sua casa silenciosa e
fechada a cadeado, não me podia impedir de engolir em seco. Era uma parte
da minha existência que não respondia à chamada, uma ilha que desaparecia
do meu arquipélago. Comecei a andar por outras ruas. A contornar o bloco
de casas. A fazer de conta que essa parte da aldeia nunca existira... Por
seu lado, André casou com uma prima três anos mais velha e partiu para os
Estados Unidos. Devia passar lá um mês; a lua-de-mel prolongava-se
indefinidamente... Só restava José no snack que já não atraía a afluência
anterior, pois as pessoas tinham-se cansado à força de jogar bilhar de
manhã à noite.
EMILIE

229

Aborrecia-me.

A praia não me dizia nada. Com os amigos cada um para o seu lado, a areia
abrasadora já não me contava as delícias do ócio, e as ondas apagavam um
a um os meus devaneios, agora que já não tinha ninguém com quem os
partilhar. Muitas vezes, não sentia necessidade de sair do carro.
Preferia ficar atrás do volante, estacionado no alto de uma falésia, e
contemplar os rochedos taciturnos contra os quais as vagas se confundiam
com géiseres. Gostava de me perder durante horas, à sombra de uma árvore,
com as mãos no volante ou os braços levantados contra o encosto do meu
assento. Os gritos das gaivotas e das crianças adejavam no meio das
minhas preocupações e proporcionavam-se uma espécie de paz interior à
qual só renunciava mais tarde, durante a noite, quando já nenhuma ponta
de cigarro brilhava na praia.

Tinha pensado em voltar para Orão. Rio Salado indispunha--me. Já não


conhecia os seus pontos de referência, já não me prestava às suas
fantasias. Vivia num mundo paralelo. Sabia bem que as pessoas eram as
mesmas, que os rostos me eram familiares, mas tinha medo de só encontrar
vento quando estendesse o braço para lhes tocar. Terminara uma era; uma
época virara a página, e eu estava diante de outra, branca, frustrante,
desagradável ao toque. Tinha de me afastar. De mudar de céu e de
horizonte. E, porque não, de cortar as pontes que não me retinham em
parte alguma.

Sentia-me só.

Pensei em relançar, de forma concreta, investigações para reencontrar a


minha mãe e a minha irmã. Meu Deus, a falta que me faziam! Sem elas,
sentia-me doente e inconsolável. Aconteceu--me, ao sabor das conjunturas,
voltar a Jenane Jato na esperança de descobrir uma informação susceptível
de me orientar. Mais uma vez, enganei-me nas distâncias. Chegara a hora
da sobrevivência. Das prioridades. Das urgências. Das fúrias em gestação.
Quem se lembraria de uma mulher miserável com uma filha deficiente? As
pessoas tinham mais que fazer. Havia gente a mais a chegar a Jenane Jato,
de dia e de noite. O local isolado de outrora, escondido por trás de
silvas e choças, transformava-se num verdadeiro bairro, com ruelas
turbulentas, carroceiros acrimoniosos, lojistas à defesa,
230

O QUE O DIA DEVE À NOITE

banhos turcos a abarrotar, calçadas asfaltadas e barracas carregadas de


fumo. Perna-de-Pau continuava no seu sítio, encurralado no meio da
concorrência. O barbeiro já não rapava as cabeças de velhos sentados no
chão; passara a dispor de um pequeno salão em alvenaria, com espelhos nas
paredes, uma cadeira giratória, um lavatório e uma prateleira em latão
para os seus instrumentos de trabalho. O nosso pátio fora completamente
recuperado; o intermediário Bliss retomava o controlo das coisas.
Declarou-me que, mesmo que desse de caras com a minha mãe, não a
reconheceria pois nunca se aproximara dela. Ninguém sabia onde se
encontravam a minha mãe e a minha irmã, ninguém as voltara a ver depois
do drama. Eu conseguira localizar a vidente Batoul; trocara as suas
cartas e a sua panela mágica pelo comércio e geria melhor o seu negócio
do que as angústias dos outros; contudo, como os seus banhos turcos não
se esvaziavam, prometera-me que me avisaria logo que desse com uma pista
— dois anos depois ainda não tinha dado sinal de vida.

Eu pensava que o recomeço das pesquisas me afastaria do tormento que


sofria depois do que se passara com Jean-Chris-tophe, das ausências
através das quais me desfiava, da dor insondável que me vencia sempre que
pensava em Emilie. Já não suportava viver na mesma aldeia, cruzar-me com
ela na rua e continuar como se não fosse nada, quando ela reinava sem
restrições nos meus dias e noites. Agora que já não me visitava, eu media
a amplitude do meu isolamento. Sabia que a sua ferida não estava prestes
a sarar, mas que fazer? Emilie não me perdoaria, fosse como fosse. Já me
queria mal. Muito. Creio que me odiava. A voracidade do seu olhar era tal
que sentia as suas mor-didelas até no cérebro. Não precisava de levantar
os olhos para mim. Aliás, evitava fazê-lo; contudo, bem podia interessar-
se por outra coisa, fixar o chão ou um pedaço de céu, que eu detectava
imediatamente, no fundo das suas órbitas, as brasas a arderem debaixo das
cinzas, semelhantes às lavas oceânicas que nem milhares de milhões de
toneladas de água nem as trevas abissais extinguiriam.


ÉMILIE 231

Estava a almoçar num restaurantezinho à beira-mar, em Orão, quando alguém


bateu na parede envidraçada. Era Simon Be-nyamin, agasalhadíssimo num
casaco, num capuz de malha que lhe cobria o queixo e o alto da testa
marcado por um início de calvície.

Estava louco de alegria.

Vi-o correr para a porta de entrada, e depois na minha direcção,


arrastando atrás de si uma onda de frio.

— Anda daí — disse. — Vou levar-te a um restaurante de verdade onde o


peixe é tão sumarento como uma nádega de adolescente.

Fiz-lhe notar que já estava quase no fim da refeição. Fez uma careta
contrariada, desfez-se do casaco e do lenço e sentou-se à minha frente.

— O que é bom nesta espelunca?

Gritou pelo empregado, encomendou espetadas de carneiro, salada e meia


garrafa de vinho tinto; a seguir, esfregando as mãos entusiasticamente,
interpelou-me:

— Estás a fazer-te desejado ou foges de mim?... No outro dia, acenei-te,


emLourmel, e não me respondeste.

— Em Lourmel?

— Sim, quinta-feira passada. Ias a sair da tinturaria.

— Há uma tinturaria em Lourmel?

Não me lembrava. Nos últimos tempos, acontecia-me pegar no carro e andar


às cegas. Por duas vezes dera comigo em Tlem-cen, no meio de um souk em
ebulição, sem saber porquê nem como acabara naquelas paragens. Era
atacado por um sonambulismo diurno que me levava a sítios desconhecidos.
Germaine per-guntava-me onde tinha estado e era como se me puxasse para
fora de um poço profundo e sem memória.

— Além disso, emagreceste terrivelmente. Que é que não está a correr bem?

— Tenho andado a pensar nisso, Simon, tenho andado a pensar nisso... E


tu? Que é não está a correr bem contigo?

— Estou muito bem.

— Então porque viras a cara quando passas por mim na rua?


232 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Eu?... E porque havia eu de me desviar do meu melhor amigo?

— Caprichos de humor. Há mais de um ano que deixaste de me ir buscar a


casa.

— São os negócios. Estão a progredir, e a rivalidade é feroz. Por cada


palmo que avançamos, deixamos um pedaço de pele. Estou muito mais em
Orão, a combater os predadores e os rivais, que em Rio. Pensavas o quê?
Que te estava a evitar por snobeira?

Limpei a boca. A conversa irritava-me. Desnaturava-a um excesso de notas


falsas. O Simon que me admoestava não me servia. Não era o meu Simon, o
meu animador, confidente e aliado. O seu novo estatuto social afastara-o
do meu. Talvez eu lhe invejasse o êxito, o seu automóvel espampanante
novinho em folha que gostava de deixar na praça para os garotos o
rodearem, o seu aspecto cada vez mais radioso e a sua barriga que
encolhia? Talvez lhe quisesse mal por se ter tornado sócio da Sra.
Cazenave?... Nada disso! Eu é que mudara. Jonas desaparecia por trás de
Younes. A minha amargura impunha-se à minha natureza. Tornara-me mau.
Profundamente mau. De uma maldade recalcada, nunca revelada, mas que
surgia em mim como uma indigestão. Já não suportava as festas, os
casamentos, os bailes, as pessoas sentadas nas esplanadas. Era alérgico à
sua bonomia. E odiava!... Odiava a Sra. Cazenave. Odiava--a com todas as
forças... E uma toxina corrosiva, o ódio: consome--nos as tripas, invade-
nos a cabeça, possui-nos como um djim. Como tinha chegado a esse estado?
Que motivos me haviam levado a detestar uma mulher que já não me
interessava?... Quando uma pessoa não encontra solução para a sua
infelicidade, procura um culpado. No meu caso, a Sra. Cazenave era o
culpado oficioso. Não me tinha seduzido e abandonado? Não tinha sido por
causa dessa derrapagem sem futuro que eu tivera de renunciar a Emilie?

Émilie!

Desfalecia só de pensar nela...

O empregado trouxe um cestinho de pão, uma salada com azeitonas pretas e


pepinos de conserva. Simon agradeceu, insistiu para que lhe trouxesse as
espetadas o mais cedo possível porque tinha reunião e, depois de duas ou
três garfadas barulhentas, de-
EMILIE

233

bruçou-se sobre o prato e disse-me em voz baixa, como se tivesse medo de


ser ouvido:

— Deves estar a perguntar porque estou tão excitado?... És capaz de


guardar segredo do que te vou dizer? Conheço as pessoas e o seu mau-
olhado...

O seu entusiasmo diminuiu perante a minha indiferença. Franziu as


sobrancelhas:

— Escondes-me qualquer coisa, Jonas. Qualquer coisa grave.

— É que o meu tio...

— Tens a certeza de que não tens nada contra mim?

— Porque achas que tenho algo contra ti?

— Bom, preparo-me para te anunciar uma excelente notícia, e tu, tu exibes


um ar que põe um tanque em debandada...

— Anda lá, conta. Talvez me descontraia.

— Creio que sim... Ai vai: a Sra. Cazenave propôs-me a mão da sua filha e
eu disse que sim... Mas atenção, ainda não é oficial.

Eliminado!

A minha imagem no vidro não se alterou, mas, por dentro, desintegrara-me.

Simon rebentava de felicidade — ele que apelidava Émilie de louva-a-deus,


de sedutoral Eu já não escutava o que ele dizia, só lhe via os olhos
rejubilantes, a boca sorridente a brilhar de azeite, as mãos que
desfaziam o pão, amarrotavam o guardanapo, hesitavam entre a faca e o
garfo, e os ombros que estremeciam com uma alegre excitação... Devorou as
espetadas, engoliu o café, fumou um cigarro, sem parar de falar...
Levantou-se, disse qualquer coisa que não ouvi dado o assobio contínuo
que cobria os meus ouvidos... Saiu para a rua a vestir o casaco, acenou-
me do outro lado da parede envidraçada e desapareceu...

Deixei-me ficar na mesa, colado à cadeira, com a cabeça vazia. Foi


preciso o empregado dizer-me que o restaurante ia fechar para eu me
recompor.

O projecto de Simon não manteve a confidencialidade. Bastaram umas


semanas para acabar com as suas negociações subterrâneas. Em Rio Salado,
as pessoas saudavam Simon quando ele
234

O QUE O DIA DEVE A NOITE

passava de carro. «Sortudo!», gritavam-lhe com um ar jovial. As raparigas


felicitavam publicamente Émilie. As más-línguas davam a entender que a
Sra. Cazenave sacrificara a filha; as menos irracionais antegozavam os
festins que o eleito da vestal prometia.

O Outono partiu na ponta dos pés, seguido de um Inverno particularmente


agreste. A Primavera anunciou um Verão muito quente e cobriu as planícies
de um verde fosforescente. As famílias Cazenave e Benyamin decidiram
celebrar o noivado dos filhos em Maio, e o casamento na altura das
primeiras vindimas.

Uns dias antes do noivado, no momento em que me preparava para baixar os


estores de ferro, Émilie empurrou-me para dentro da farmácia. Deslocara-
se até lá colada às paredes, como uma ladra, para evitar as indiscrições.
A laia de disfarce, trazia um lenço de camponesa, um vestido cinzento
vulgar e sapatos rasos.

Desvairada, tratou-me por tu:

— Penso que estás ao corrente. A minha mãe impôs-se. Quer que me case com
Simon. Ignoro como conseguiu obter o meu consentimento, mas nada está
decidido... Pois tudo depende de ti, Younes.

Estava pálida.

Emagrecera, e os olhos leitosos não reinavam sobre nada. Agarrou-se-me


aos pulsos, puxou-me contra si, tremendo da cabeça aos pés:

— Diz que sim... Diz que sim e anularei tudo.

O medo desfeava-a. Dir-se-ia que acabara de sair da cama depois de uma


convalescença difícil. Os cabelos escapavam-se do lenço, despenteados. As
maçãs do rosto tremiam espasmodica-mente e o seu olhar expectante já não
sabia se devia vigiar-me ou vigiar a rua. De onde vinha? Os sapatos
estavam brancos de poeira; o vestido cheirava a folhas de vinha; o
pescoço brilhava de suor. Devia ter contornado a aldeia e cortado através
dos campos para vir ter comigo sem despertar a curiosidade dos vizinhos.

— Diz que sim, Younes. Diz que me amas tanto como te amo, que sou tão
importante para ti como o és para mim, abraça-me e fica comigo para
sempre... Younes, és o destino que gostaria de viver, o risco que
gostaria de correr, e estou pronta a seguir-te até
EMILIE

235

ao fim do mundo... Amo-te... Não há nada nem ninguém tão essencial para
mim como tu... Por amor de Deus, diz que sim...

Não disse nada. Embrutecido. Transido. Interdito. Horrivelmente mudo.

— Porque não dizes nada?...

— Diz qualquer coisa, que diabo! Fala... Diz sim, diz não, mas não fiques
assim... Que te aconteceu? Perdeste a voz?... Não me tortures, diz
qualquer coisa, caramba!

O tom subia. Já não aguentava parada. As pupilas incendia-vam-se.

— Que se passa, Younes? Que significa o teu silêncio? Que sou imbecil?...
És um monstro, um monstro...

Os seus punhos bateram-me no peito, miseravelmente furiosos.

— Não tens um pingo de humanidade, Younes. És a pior coisa que me


aconteceu.

Bateu-me na cara, martelou-me nos ombros, gritando surdamente para


ocultar os soluços. Eu estava siderado. Não sabia o que dizer. Tinha
vergonha da dor que lhe infligia, vergonha de não ser mais que um
espantalho plantado no meio da loja.

— Maldito sejas, Younes. Nunca te perdoarei, nunca... E fugiu.

No dia seguinte, um rapazinho trouxe-me um pacote. Não me disse quem era


o remetente. Desfiz a embalagem, com as cautelas de um pirotécnico. Algo
me advertia contra o que iria encontrar. Dentro do pacote, havia um livro
de geografia sobre as ilhas francesas das Caraíbas. Ergui a capa e fiz
cair os restos de uma rosa, velha como o mundo; a rosa que metera nesse
mesmo livro um milhão de anos antes, enquanto Germaine tratava de Emi-lie
nas traseiras da farmácia.

No dia do noivado, estava em Orão, com a família de Germaine. Para Simon,


que fazia questão de me ter a seu lado juntamente com Fabrice, pretextei
um óbito.

• ri';-
236

O QUE O DIA DEVE À NOITE

O CASAMENTO CELEBROU-SE COMO SE PREVIA, no COmeCO das

vindimas. Desta vez, Símon pediu-me insistentemente que não saísse de


Rio, acontecesse o que acontecesse. Encarregou Fabrice de me vigiar. Eu
não fazia tenções de desertar. Não tinha de desertar. Seria ridículo. Que
iriam pensar as pessoas da aldeia, os amigos, os invejosos? Como poderia
desenfiar-me sem causar suspeitas? Seria honesto despertar suspeitas? A
culpa não era de Simon. Teria feito tudo por mim, como o fizera por
Fabrice, aquando do seu casamento. Que ar teria eu se lhe estragasse o
dia mais feliz da sua vida?...

Comprei um fato e sapatos para a cerimónia.

Quando o cortejo nupcial atravessou a aldeia num alarido de buzinas,


vesti o fato e dirígi-me a pé à grande casa branca no atalho do marabuto.
Um vizinho tinha-se oferecido para me levar no seu carro; agradecera-lhe.
Precisava de andar a pé, de cadenciar os passos ao sabor dos pensamentos,
de enfrentar as coisas, uma a uma, com toda a lucidez.

O céu estava encoberto e um vento fresco açoitava-me o rosto. Saí da


aldeia, contornei o cemitério israelita e, ao chegar ao atalho do
marabuto, detive-me para contemplar as luzes da festa.

Uma chuvinha começou a cair, como que para me despertar.

Só se toma consciência do irreparável quando ele acontece. Nenhuma noite


me parecera de tão mau presságio; nenhuma festa me parecera tão injusta e
cruel. A música, que me chegava aos ouvidos, soava a sortilégio;
esconjurava-me como um demónio. As pessoas, que se divertiam em torno da
orquestra, excluíam-me da sua alegria. Avaliava o imenso desperdício que
incarnava... Porquê? Porque era obrigado a passar tão perto da felicidade
sem me atrever a apoderar-me dela? Que fizera de tão revoltante para
merecer ver a mais bela das histórias fugir-me entre os dedos como o
sangue de uma ferida? Que é o amor se só pode verificar as perdas? Que
são os seus mitos e lendas, as suas vitórias e milagres, se os amantes
são incapazes de se superar, de enfrentar a fúria dos céus, de renunciar
às alegrias eternas por um beijo, um abraço, um instante junto do ser
amado?... A desilusão espalhava-me nas veias uma seiva venenosa,
inundava-me o coração de uma cólera
EMILIE

237

imunda... Detestava-me por me assemelhar a um fardo inútil abandonado na


berma da estrada.

Regressei a casa embriagado de tristeza, apoiando-me às paredes para não


cair. O meu quarto não conseguiu acolher-me. Encostado à porta, com os
olhos fechados, o queixo virado para o tecto, ouvia as fibras da minha
carne entrechocarem-se, após o que cambaleava até à janela; não era o meu
quarto que atravessava, mas o deserto.

Um raio iluminou as trevas. A chuva caía suavemente. Escorriam lágrimas


dos vidros das janelas. Não estava habituado a ver as janelas chorarem.
Era um mau sinal, o pior de todos. Foi então que disse para comigo:
Atenção, Younes, estás a ter pena de ti. E então? Não era exactamente
isso que eu via, as janelas a chorar? Queria ver lágrimas nas vidraças,
sentir pena de mim, mal-tratar-me, confundir-me de corpo e alma com a
minha dor.

Talvez seja melhor assim, repetia. Emilie não me estava destinada. Era
tão simples quanto isso. Não se muda o que foi escrito... Balelas!...
Mais tarde, muito mais tarde, haveria de chegar a esta verdade: Nada está
escrito. Se assim fosse, os processos não teriam razão de ser; a moral
seria apenas uma megera, e a vergonha não teria de corar perante o
mérito. É evidente que há coisas que nos ultrapassam, mas, na maior parte
dos casos, continuamos a ser os principais artífices das nossas
infelicidades. Os nossos erros, somos nós que os fabricamos com as nossas
mãos, e ninguém se pode vangloriar de ter menos razões para se lamentar
que o vizinho. Quanto ao que chamamos fatalidade, trata-se apenas da
nossa obstinação em não assumir as consequências das nossas pequenas e
grandes fraquezas.

Germaine deu comigo junto da janela, com o nariz colado ao vidro. Dessa
vez não interferiu. Voltou a sair na ponta dos pés e fechou a porta
silenciosamente.

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16.

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Pensara em Argel. Em Bougie. Em Timimoun. Em saltar para um comboio e


deixar-me levar para longe de Rio Salado. Ima-ginara-me em Argel. Em
Bougie. Em Timimoun. Mais do que uma vez me vi a passear pelas avenidas,
a contemplar o mar sentado num rochedo, a meditar numa gruta ao pé de um
erg... Tinha contas a ajustar comigo mesmo. E de si mesmo nunca se foge.
Podia apanhar todos os comboios do mundo, todos os aviões, todos os
navios, que transportaria para toda a parte aonde fosse essa coisa
indomável que segregava a sua bílis em mim. Mas já não aguentava mais
ruminar a amargura num canto do quarto. Tinha de partir. Para qualquer
sítio. Longe. Ou então para a aldeia vizinha. Isso não tinha importância.
Tinha era de partir. Tornara-se impossível viver em Rio Salado desde que
Simon casara com Emilie.

Lembro-me de um louco desgrenhado que ia dar a boa nova sempre que havia
souk em Jenane Jato. Era um pemalta tão delgado como uma azagaia,
enrolado numa velha sotaina presa à cintura por uma abraçadeira retirada
de uma cortina. Punha-se de pé em cima de uma pedra e vituperava: «A
infelicidade é um beco sem saída. Leva-nos direitos à parede. Se queres
sair dela, abre caminho às arrecuas. Desse modo, ficar, a pensar que é
ela que se afasta enquanto tu a enfrentas.»

Regressara a Orão. Ao lindo bairro do meu tio. Talvez tenha tentado


recuar no tempo até à escola e, depois, prevenido, iniciado, voltar ao
tempo presente virgem de corpo e alma, com as possibi-
EMILIE

239

lidades intactas e mil advertências para não as desperdiçar... A casa do


meu tio não aliviou a minha dor. Pintada de verde, tornara-se--me
estranha, como a sua fachada reforçada, o seu muro órfão das buganvílias
e as janelas de portadas fechadas; os meus gritos de criança não
ressoavam em parte alguma...

Bati à porta da casa em frente; Lucette não a abriu. «Mudou--se», disse-


me uma desconhecida. «Não, não deixou morada.»

Que azar!

Andara às voltas pela cidade. Um clamor erguia-se de um estádio de


futebol. Não suplantou o rumor que vociferava em mim. Em Médine Pdida — a
aldeia negra onde os árabes e os cabilas «guetizados» eram mais brancos
que os próprios brancos —, sen-tara-me na esplanada de um café e
observara sem descanso a multidão na esplanada Tahtaha, certo de que iria
acabar por distinguir lá o fantasma do meu pai, com o seu casaco grosso
verde... Os albornozes brancos misturavam-se com os farrapos dos
mendigos. Re-construía-se um mundo na sua autenticidade secular, com os
seus bazares, os seus banhos turcos, as suas lojecas, as minúsculas
oficinas de ourives, de sapateiros, de alfaiates macilentos. Médine
J'dida não baixara os braços. Sobrevivera à cólera, às abjurações e aos
abastardamentos, muçulmana e árabo-berbere até à ponta dos dedos.
Entrincheirada por trás das suas barricadas mouriscas e das suas
mesquitas, transcendia as misérias e as afrontas, apresentava-se digna e
corajosa, bela apesar das cóleras em gestação, orgulhosa dos seus
artesãos, dos seus bandos folclóricos como S'hab elBaroud e dos seus
«Raqba» — veneráveis latagões ou bandidos honrados com um carisma
rocambolesco, que encantavam os garotos e as mulheres da vida e davam
segurança às pessoas modestas do bairro. Como tinha podido passar sem
essa parte de mim mesmo? Deveria ter ido lá regularmente tapar as
fissuras, forjar certezas. Agora que Rio Sa-lado já não me falava com a
mesma língua, que língua deveria adoptar? Dei-me conta de que andara a
mentir a mim próprio em grande. Que tinha sido eu, em Rio? Jonas ou
Younes? Por que motivo, quando os meus amigos riam francamente, o meu
riso se arrastava atrás do deles? Por que motivo tinha sempre a impressão
de ter de arranjar espaço entre os meu? amigos, de ser culpado de
qualquer
^-tu O QUE O D[A DEVE À
NOITE

coisa quando o olhar de Jelloul se cruzava com o meu? Tinha sido


tolerado, integrado, domesticado? Que me impedia de ser plenamente eu, de
encarnar o mundo no qual me mexia, de me identificar com ele quando
virava as costas aos meus? Uma sombra. Eu era uma sombra, indecisa e
susceptível, à espreita de uma crítica ou insinuação que por vezes
inventava, semelhante a um órfão numa família de acolhimento, mais atento
às inépcias dos seus pais adoptivos do que à sua dedicação. Ao mesmo
tempo, ao tentar resgatar--me à vista de Médine J'dida, interrogava-me se
não continuaria a mentir a mim próprio, a fugir às minhas
responsabilidades empur-rando-as para os outros? De quem era a culpa de
Emilie me ter escapado das mãos? De Rio Salado, da Sra. Cazenave, do
Jean-Chris-tophe, do Simon? Feitas as contas, o meu ezro residia em não
ter assumido corajosamente as minhas convicções. Podia encontrar todas as
desculpas do mundo que nenhuma me daria razão. Na realidade, agora que
perdera a dignidade, procurava uma máscara. Tal como um desfigurado,
escondia-me atrás das ligaduras que me serviam também de moucharabiehs'.
Observava às escondidas a verdade dos outros, de maneira exagerada, para
me distanciar da minha. A Tahtaha afastava as tenazes que me apertavam. A
sua multidão distraía-me. A dança dos seus aguadeiros reabsorvia as
minhas enxaquecas. Eram seres fabulosos, os aguadeiros, infatigáveis e
espectaculares. Com as campainhas a tilintarem, o odre a tiracolo, o
grande chapéu multicor erguido ao vento, revolteavam nos seus trajes aos
folhos, despejando a água fresca tingida de óleo de zimbro em copos de
latão que os basbaques engoliam como se fossem poções mágicas. Dava
comigo a engolir com o sedento que matava a sede, a sorrir quando o
aguadeiro executava passos de dança, a franzir o sobrolho quando um mau
pagador lhe estragava o bom humor... — Tem a certeza de que está bem? —
despertou-me o empregado.

1 Na arquitectura tradicional árabe, grelha geralmente composta de


pequenos elementos em madeira torneada, segundo um plano geométrico
complexo, que dá sombra e permite ver sem ser visto, e que ornamenta
janelas, varandas e sacadas. (N. da T.)
EMILIE

241

Não estava certo de nada...

Além disso, porque não me deixavam em paz?

O empregado encarou-me com perplexidade quando me levantei contrariado e


me fui embora. Só quando cheguei à cidade europeia é que compreendi:
saíra sem pagar o que consumira...

Num bar enevoado pelas pontas de cigarro que as pessoas se esqueciam de


apagar nos cinzeiros, olhei para o meu copo que me enfrentava no balcão.
Queria embebedar-me até perder a razão — não me sentia digno de resistir
a tentações. Dez vezes, vinte vezes, trinta vezes a minha mão apoderou-se
do copo sem ousar levá-lo à boca. «Tens um cigarro?», perguntou-me a
minha vizinha de balcão. «Diga...» «Ninguém tem o direito de estar triste
quando tem uma cara como a tua.» O seu hálito avinhado incomodava-me.
Estava exausto, previa sarilhos. Era uma mulher sem rosto de tão maqui-
lhada que estava. Os olhos desapareciam por trás de pestanas postiças
grotescas. Tinha uma enorme boca exageradamente vermelha e dentes
estragados pela nicotina. «Estás com problemas, lindinho? Mas não por
muito tempo. Eu resolvo isso. Foi Deus que me enviou em teu socorro.»
Meteu o braço dela no meu. Com um safanão, afastou-me do balcão. «Anda...
Não há nada que te interesse aqui...»

Sequestrou-me durante sete dias e sete noites. Num quarto infecto no


último andar de um fondouk a feder a haxixe e a cerveja. Não sou capaz de
dizer se era loura ou morena, nova ou velha, gorda ou magra. Só me lembro
da sua enorme boca vermelha e da voz devastada pelo tabaco e o álcool
baratos. Uma noite, anunciou--me que o meu dinheiro chegara ao fim.
Empurrou-me em direcção à porta, beijou-me na boca — «Uma atenção da
casa!» — e, antes de me mandar embora, disse: «Recompõe-te, homem. Só há
um deus na terra, e és tu. Se o mundo não te serve, reinventa outro, e
não permitas que nenhuma tristeza te faça descer da tua nuvem. A vida
sorri sempre a quem sabe retribuir-lhe na mesma moeda.»

De uma forma estranha como acontece por vezes, as verdades que nos fazem
falta agarram-nos nos sítios que menos se prestam a isso. Estava a dois
dedos de cair, e foi uma prostituta meia bêbada que me endireitou. Só com
umas palavras lançadas no meio de baforadas de cigarro, à saída de um
quarto sórdido que dava para um corredor
Z42

O QUE O DIA DEVE À NOITE

insalubre e sem iluminação, numa casa de passe que encontros or-gíacos e


tumultos titânicos faziam oscilar... A minha embriaguez dis-sipou-se
antes de chegar à entrada âofondouk. A brisa nocturna des-pertou-me
completamente. Andei de uma ponta à outra da marginal, contemplando os
barcos no porto, as gruas e os cais sob as luzes dos projectores e, na
escuridão da noite, os pescadores que sulcavam as ondas, parecidos com
pirilampos a imitar as estrelas; a seguir, fui a um estabelecimento de
banhos turcos lavar-me de alto a baixo e dormir o sono dos justos; na
madrugada do dia seguinte, apanhei o autocarro e regressei a Rio,
decidido a arrancar o coração do peito se viesse a condoer-me um instante
que fosse do meu destino.

Recomecei a trabalhar na farmácia. Um pouco mudado, é verdade, mas


sóbrio. Acontecia-me perder a paciência quando não conseguia decifrar as
garatujas dos médicos nas receitas, não suportar que Germaine me fizesse
as mesmas perguntas, que descobrisse no meu rosto as mesmas olheiras, o
mesmo ar obstinado; contudo, depois de um grunhido, recompunha-me e pedia
desculpa. A tarde, depois do fecho da farmácia, saía para desenferrujar
as pernas. Ia à praça ver o jovem polícia Bruno pavonear-se, enrolando e
desenrolando o cordão do apito à volta do dedo. Apreciava o seu zelo
plácido, a sua maneira de inclinar o quépi para o lado e a cortesia
teatral que exibia abundantemente quando passavam raparigas. Sen-tava-me
na esplanada do café e bebericava a limonada cheia de cristais,
aguardando o cair da noite para regressar a casa. Por vezes, metia-me
pelos pomares dentro e abstraía-me de mim. Não era infeliz; sentia falta
de companhia. O regresso de André relançara o snack, mas os jogos de
bilhar cansavam-me; José ganhava-me regularmente... Germaine sonhava
casar-me. Convidou muitas das suas incontáveis sobrinhas na expectativa
de que uma delas me impressionasse; nem sequer dava conta de que já
tinham partido.

De vez em quando via Simon. Cumprimentávamo-nos, acenávamos com a mão, às


vezes sentávamo-nos uns minutos a tomar uma bebida refrescante enquanto
falávamos de coisas vagas e sem interesse. No princípio, levou-me a mal
ter «gazetado» ao seu casamento como a uma vulgar aula maçadora, após o
que passou a esponja sobre o assunto, sem dúvida devido a outras
preocupa-
EMIL1E

243

ções prioritárias. Simon vivia em casa de Émilie, na grande casa no


atalho do marabuto. A Sra. Cazenave insistira muito. Além disso, não
havia casas vagas na aldeia e a dos Benyamin era pequena e sem encantos.

Fabrice teve um segundo filho. O feliz acontecimento juntou--nos a todos


— à excepção de Jean-Christophe que não voltara a dar notícias desde a
carta enviada a Simon — numa bela vivenda nas escarpas de Orão. André
aproveitou para nos apresentar a prima e mulher, uma robusta andaluza de
Granada, alta como uma torre, de rosto maciço e belo ornamentado por dois
enormes olhos verdes esplêndidos. Era divertida, mas rigorosa quando se
tratava de ensinar boas maneiras ao marido. Foi nessa festa que reparei
que Émilie estava grávida.

Uns meses mais tarde, a Sra. Cazenave partiu para a Guiana onde o
esqueleto do marido — director do estabelecimento prisional de Saint-
Laurent-du-Maroni, desaparecido na floresta amazó-nica durante uma fuga
de forçados — fora encontrado por contrabandistas e identificado graças a
objectos pessoais. Nunca regressou a Rio. Nem sequer para festejar o
nascimento de Michel, o seu neto.

No Verão de 1953, conheci Jamila, filha de um advogado muçulmano que o


meu tio conhecia dos tempos da faculdade. En-contrámo-nos por acaso num
restaurante em Nemours. Jamila não era muito bonita, mas fazia-me lembrar
Lucette; gostara do seu olhar tranquilo, das mãos finas e brancas que
pegavam nas coisas — guardanapo, colher, lenço, mala, fruta — com muito
cuidado, como se fossem relíquias. Tinha olhos pretos e inteligentes, uma
boca redonda e minúscula, e uma seriedade que traía uma educação severa
mas moderna, virada para o mundo e para os seus desafios; estudava
Direito e aspirava a uma carreira de advogada como o pai. Foi ela quem me
escreveu primeiro; umas linhas nas costas de um postal, elogiando um
oásis de Bou Saada onde o pai exercia. Levei meses a responder. Trocámos
cartas e postais durante muitos anos, sem que nenhum de nós ultrapassasse
o quadro dos salamaleques e declarasse ao outro o que o pudor ou a
prudência excessiva calavam.

- •
244

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Na primeira manhã da Primavera de 1954, o meu tio pediu--me que tirasse o


carro da garagem. Exibia o fato verde que não voltara a pôr desde o
jantar por ele oferecido em honra de Messali Hadj, treze anos antes, em
Orão, uma camisa branca realçada por um laço, o seu relógio de bolso em
ouro pendurado no colete, os sapatos pretos pontiagudos e um fez acabado
de comprar numa velha loja turca em Tlemcen.

— Quero recolher-me junto ao túmulo do patriarca — anunciou.

Como eu ignorava onde era o túmulo do patriarca, foi o meu tio que me
guiou por povoações e atalhos. Andámos de carro toda a manhã, sem
pararmos para descansar ou comer qualquer coisa. Germaine, que não
suportava as emanações do combustível, estava verde de enjoo, e as
viragens incessantes que nos levavam de um lado para o outro por pouco a
liquidavam. Atingimos o cume de uma montanha rochosa durante a tarde. Em
baixo, a planície quadriculada por olivais resistia corajosamente à
aridez. Em alguns pontos, a terra abria fendas sob os ataques da erosão,
e os matagais desertificavam-se. Algumas poças de água tentavam salvar as
aparências, mas era evidente que a seca iria esgotá-las. Rebanhos de
carneiros passavam no sopé das colinas, tão afastados uns dos outros como
os lugarejos poeirentos esmagados pelo sol. O meu tio pôs a mão em
viseira e interrogou o horizonte. Aparentemente, não detectou nada do que
viera procurar. Subiu um outeiro pedregoso até uma espécie de bosque no
meio do qual uma ruína continuava a esboroar-se. Era o resto de um
marabuto, ou de um mausoléu de outrora que os Invernos rudes e os Verões
caniculares haviam destruído de alto a baixo. Ao abrigo de um pequeno
muro escorado pelo seu próprio entulho, um túmulo descorado contava os
seus lagartos. Era o túmulo do patriarca. O meu tio estava aflito por o
encontrar num estado tão lastimoso. Ergueu uma viga, encostou-a a uma
ruína em terra batida e observou-a com uma tristeza infinita, após o que
afastou respeitosamente uma porta em madeira carunchosa e entrou no
santuário. Germaine e eu esperámos num pequeno pátio coberto de silvas.
Em silêncio. Como o meu tio se demorava no túmulo do patriarca, Germaine
foi sen-tar-se numa rocha e pôs a cabeça entre as mãos. Não tinha dito
EMILIE

245

nada desde que saíramos de Rio Salado. Quando se calava dessa forma,
fazia-me temer o pior.

O meu tio veio ter connosco no momento em que o sol se punha. A sombra do
mausoléu alongara-se desmesuradamente e uma brisa fresca começava a
rumorejar nas silvas.

— É hora de regressar — disse o meu tio, dirigindo-se para o carro.

Esperava que falasse do patriarca, da tribo, de Lalla Fatna, dos motivos


que o haviam levado, subitamente, a deslocar-se a esta montanha golpeada
pelo vento; nada. Instalou-se no banco ao meu lado e não voltou a desviar
os olhos da estrada. Viajámos uma boa parte da noite. No banco de trás,
Germaine adormecera. O meu tio não se mexia. Estava noutro sítio, perdido
nos seus pensamentos. Não tínhamos comido nada desde a manhã; ele nem se
dava conta do facto. Notei que o seu rosto tinha empalidecido, que as
faces se tinham cavado, que o olhar me recordava aquele atrás do qual se
entrincheirava antigamente, quando tombava sem aviso no mundo paralelo
que fora a sua prisão e asilo durante anos.

— Mete-me medo — confessou Germaine, umas semanas mais tarde. .

O meu tio não parecia ter tido uma recaída. Continuava a ler e a
escrever, juntava-se a nós à mesa e saía a passear nos pomares todas as
manhãs. Mas já não falava connosco. Acenava, sorria por vezes para
agradecer a Germaine quando ela lhe levava chá ou lhe alisava uma ruga do
casaco, mas não proferia uma palavra. Também podia ocupar a cadeira de
baloiço na varanda e contemplar as colinas; a seguir, quando a noite
chegava, ia para o quarto, vestia o roupão e calçava as pantufas, e
aferrolhava-se no escritório.

Uma noite, deitou-se na cama e chamou-me. A sua palidez acentuara-se e a


mão estava fria, quase gelada, quando lhe peguei no pulso.

— Teria gostado de conhecer os teus filhos, meu rapaz. Ter-me--iam


decerto causado muita alegria. Nunca tive um bebé no meu colo.

Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

— Arranja uma mulher, Younes. Só o amor consegue vingar--nos dos golpes


baixos da vida. E lembra-te: se uma mulher te
246

O QUE O DIA DEVE À NOITE

amar, nenhuma estrela estará fora do teu alcance, nenhuma divindade te


chegará aos calcanhares.

Senti o frio prestes a dominá-lo estender-se até mim, penetrar entre os


tremores que ele desencadeava a partir do meu punho e ramificar-se pelo
meu ser. O meu tio falou durante muito tempo; cada palavra afastava-o
mais e mais do nosso mundo. Estava quase a partir. Germaine chorava,
abatida num canto da cama. Os seus soluços abafavam as palavras do meu
tio. Foi uma noite estranha, profunda e irreal ao mesmo tempo. Lá fora,
um chacal uivava como nunca ouvi uivar um animal. Os dedos do meu tio
imprimiam no meu pulso uma marca violácea; como um garrote, impediam o
meu sangue de circular; eu tinha o braço entorpecido. Só quando vi
Germaine fazer o sinal da cruz e fechar os olhos do marido é que admiti
que um ente querido tinha o direito de se extinguir como o sol ao cair da
noite, como um círio ao vento, e que o mal que nos inflige ao partir faz
parte integrante das coisas da vida.

O meu tio não verá o seu país pegar em armas. O destino não o achou digno
disso. De outro modo, como explicar que tenha falecido cinco meses antes
do braseiro tão aguardado e adiado da Libertação? O dia de Todos os
Santos de 1954 apanhou-nos desprevenidos. O dono do café vociferava, com
o jornal aberto em cima do balcão. A guerra da independência começara,
mas, para o comum dos mortais, à excepção de um breve acesso de
indignação depressa suplantado por uma piada de rua, não eram umas
herdades queimadas na Mitidja que o impediriam de dormir descansado.
Contudo, houve mortos em Mostaganem; guardas surpreendidos por agressores
armados. E depois? retorquiam as pessoas. A estrada mata outros tantos. E
os bas-fonds também... O que se ignorava era que, desta vez, começara
mesmo e que não se previa nenhuma marcha-atrás. Um punhado de
revolucionários decidira passar à acção, abanar um povo aturdido por mais
de um século de colonização, gravemente maltratado pelas diferentes
insurreições desencadeadas por tribos isoladas ao longo de gerações, que
o exército colonial, omnipotente e mítico, reduzia invariavelmente ao
silêncio ao cabo de algumas batalhas campais, de algumas expedições
punitivas, de alguns anos de desgaste. Até a famosa OS
ÉMILIE " 247

(Organization secrète), que se tornara conhecida em finais da década de


1940, arregimentara apenas um pequeno número de militantes muçulmanos
sedentos de confrontos brutais. O que se declarou nessa noite, um pouco
por toda a parte no Norte da Argélia, à meia-noite em ponto, no primeiro
minuto do dia 1 de Novembro, não seria apenas um fogacho, uma centelha
fugaz no alento reduzido das sempiternas agitações das populações
autóctones deslocadas, incapazes de se mobilizar em torno de um projecto
comum?... Desta vez não. Os «actos de vandalismo» multiplica-vam-se por
todo o país, esporádicos, depois mais importantes, por vezes com uma
temeridade estarrecedora. Os jornais falavam de «terroristas», de
«rebeldes», de «fora-da-lei». Havia escaramuças aqui e ali, nomeadamente
nos djebels\ e acontecia os militares mortos serem aliviados de armas e
bagagens. Em Argel, um comissariado foi destruído num abrir e fechar de
olhos; abatiam-se polícias e funcionários em cada esquina da rua; os
traidores eram degolados. Em Cabília, assinalava-se movimentos suspeitos,
como grupúsculos com fardas e espingardas rudimentares que emboscavam os
guardas antes de desaparecerem na paisagem. Nos Aures, havia coronéis e
esquadrões inteiros, um exército de guerrilheiros impossíveis de capturar
e zonas interditas. Relativamente perto da nossa aldeia, no Fellaoucène,
os douars esvaziavam-se de homens que, durante a noite, se deslocavam
para os cerros acidentados onde constituíam unidades de resistentes. Mais
perto, a uns quilómetros em linha recta, Am Témouchent registava
atentados em pleno coração da cidade. Três iniciais cobriam os grqffiti
das paredes: FLN. Frente de Libertação Nacional. Todo um programa. Com as
suas leis, directivas, apelos ao levantamento geral. Os seus toques de
recolher. As suas interdições. Os seus tribunais. As suas secções
administrativas. As suas redes inextricáveis, labirínticas, eficazes. O
seu exército. A sua rádio clandestina que se insurgia todos os dias nas
casas de portadas fechadas... Em Rio Salado, vivíamos noutro planeta. Os
ecos de outros sítios chegavam-nos amortecidos por uma interminável
sucessão de filtros. E verdade que os árabes

1 No Norte de África, montanha ou terreno montanhoso. (N. da T.)


248

O QUE O DÍA DEVE À NOITE

que se matavam a trabalhar nos pomares tinham um brilho estranho nos


olhos, mas nada havia mudado nos seus hábitos. Trabalhavam desde o nascer
do sol e só erguiam a cabeça quando a noite caía. Por outro lado, as
pessoas continuavam a conversar no café enquanto saboreavam a sua
aniseta. Nem mesmo o polícia Bruno achava necessário destravar a sua
pistola; dizia que não era nada, que se tratava de um fenómeno passageiro
e que tudo ia entrar novamente na ordem. Foram necessários vários meses
para a nossa tranquilidade ser finalmente atingida pelos salpicos da
«rebelião». Desconhecidos incendiaram uma quinta isolada; a seguir, por
três vezes, pegaram fogo às vinhas antes de sabotar com dinamite uma cave
vitícola. Era demais. Jaime J. Sosa organizou uma milícia e montou um
dispositivo de segurança em torno das suas vinhas. A polícia tentou
tranquilizá-lo, explicando-lhe que tinha tomado as medidas que se
impunham; em vão. Durante o dia, os agricultores passavam a pente fino a
zona, com as caçadeiras ostensivamente apontadas; de noite, as rondas
efectuavam-se segundo as regras da arte militar, com senhas e tiros de
intimidação.

A excepção de uns quantos javalis abatidos por membros da milícia mais


nervosos, nenhum suspeito foi interpelado, t) '> Com o tempo, a
vigilância acabou por afrouxar um pouco, e as pessoas voltaram a circular
de noite sem medo de ser atacadas.

As vindimas foram devidamente celebradas. Para o baile, mandou-se vir


três grandes orquestras de uma vez, e Rio dançou até à exaustão. Pépé
Rucillio aproveitou o bom tempo para voltar a casar com uma cantora de
Nemours, quarenta anos mais nova. Os herdeiros começaram por protestar,
após o que, como a fortuna do patriarca era incalculável, se
empanturraram como ogres e sonharam com outros ágapes. Foi durante a
cerimónia nupcial que dei de caras com Émilie. Saía do carro do marido,
com o filho ao colo; eu saía do salão de festas com Germaine pelo braço.
Durante uma fracção de segundo, Émilie empalidecera. A seguir, virara-se
para Simon que me endereçara um vago sorriso antes de empurrar a esposa
para o meio dos foliões. Voltei para casa a pé, sem me lembrar que o
carro estava estacionado ao lado do do meu amigo.

E depois deu-se o drama!


ÉMILIE

249

Ninguém esperava. A guerra entrava no seu segundo ano e, à excepção das


poucas sabotagens atrás referidas, não se registara mais nenhum incidente
em Rio. As pessoas lá viviam o seu dia-a--dia como se nada se passasse,
até essa manhã de Fevereiro de 1956. Um manto de chumbo abateu-se sobre a
aldeia. As pessoas pareciam petrificadas; olhavam-se sem se verem,
literalmente ultrapassadas pelo acontecimento. Mal vi o ajuntamento à
volta do snack de André, compreendi.

O corpo estava estendido no chão, à entrada do bar, as pernas no pátio e


o resto no interior da sala. Faltava-lhe um sapato; devia tê-lo perdido
ao defender-se do agressor ou ao tentar fugir. Uma esfoladela partia do
calcanhar até à barriga da perna, raiada de minúsculos fios de sangue...
José!... Arrastara-se cerca de vinte metros antes de morrer. O rasto da
sua reptação desesperada estava impresso na poeira. A mão esquerda estava
agarrada ao batente, com as unhas reviradas. Fora atingido por várias
facadas, algumas visíveis na parte desnudada das costas pois a camisa
estava rasgada de uma ponta à outra; espesso, grumoso, o charco de sangue
onde se banhava ultrapassava a entrada do snack. Tive de passar por cima
do corpo para entrar. A luz do dia iluminava uma parte do rosto de José;
dir-se-ia que estava a escutar o chão, como fazíamos antigamente quando
encostávamos as orelhas aos carris para saber se um comboio se
aproximava. O seu olhar vítreo fazia lembrar o de um fumador de ópio;
abria-se para o mundo mas não captava nenhum sinal.

— Dizia que era a bosta bendita que o Senhor pisara — suspirou André, no
chão junto ao balcão, com o queixo pousado nos joelhos e as mãos à volta
das pernas.

Mal se via na penumbra. Chorava.

— Queria que ele tivesse uma boa vida, como qualquer primo de Dédé
Jiménez Sosa, mas sempre que lhe oferecia um banquete, ele contentava-se
com uma côdea. Tinha medo que eu achasse que se estava a aproveitar.

Simon também lá estava, igualmente abatido. Com os cotovelos pousados no


balcão e a cabeça entre as mãos. O polícia Bruno
250

O QUE O DIA DEVE À NOITE

estava sentado ao fundo da sala; tentava superar o choque. Outros dois


homens estavam encostados à mesa de bilhar, estupidificados.

— Porquê ele? — gemia André, do fundo da sua mágoa. — Era o José, com os
diabos! Teria oferecido a sua última camisa a quem lha tivesse pedido.

— Não é justo — disse alguém nas minhas costas.

O presidente da câmara chegou a correr. Quando reconheceu o corpo de


José, levou as mãos à boca para abafar um grito. O pátio do snack foi
invadido por carros. Ouvi portas baterem. «O que é que aconteceu?»
Ninguém respondeu. Em poucos minutos, aparecera toda a aldeia. O corpo de
José foi coberto. Uma mulher começou a gritar lá fora. Era a mãe.
Familiares impediram-na de se aproximar do corpo do filho. Desencadeou-se
uma agitação surda quando André se ergueu e saiu para o pátio. Estava
verde de raiva: os olhos transbordavam de ódio.

— Onde está o Jelloul? — trovejou, e todo o corpo se alteou de cólera. —


Onde está a besta do Jelloul?

Jelloul atravessou o ajuntamento e postou-se diante do patrão. Estava


aturdido, não sabia o que fazer das mãos.

— O que estavas a fazer enquanto o José se deixava matar à facada?

Jelloul olhou fixamente para a ponta dos chinelos. André le-vantou-lhe a


cabeça com a ponta do pingalim.

— Por onde andavas, estupor? Tinha-te dito que não saísses do snack por
nenhum motivo.

— O meu pai estava doente.

— Sempre esteve. Porque não me disseste que ias para a tua choça? José
não teria vindo substituir-te e estaria vivo neste momento... Além disso,
porque é que isto acontece precisamente na noite em que não estás cá,
hem?

Jelloul baixou a cabeça e André teve de lhe erguer novamente o queixo com
a ponta do pingalim:

— Olha-me nos olhos quando estou a falar contigo... Quem foi o cobarde
que matou José?... Deves conhecê-lo, não é? Enten-deste-te com ele. Foi
por isso que foste para a tua choça. Para entregar José ao teu cúmplice,
não é? Para arranjares um álibi, cão...
EMILIE

251

Olha para mim. Se calhar foste tu, afinal. Há muito tempo que ruminas
rancores. Estou enganado, porco? Porque olhas para o chão? José está ali
— gritou, apontando para o corpo à entrada do bar. — Foste tu certamente.
José não se teria deixado surpreender por um desconhecido. Só um tipo que
lhe merecesse confiança se aproximaria. Mostra-me as tuas mãos.

André observou as mãos, a roupa de Jelloul, à procura de uma mancha de


sangue, revistou-o e, não encontrando nada, pôs-se a bater-lhe com o
pingalim.

— Achas-te esperto? Matas o José e depois vais para casa mudar de roupa e
voltas. Poria a mão no fogo em como foi assim que se passou. Bem te
conheço.

Enfurecido com as próprias palavras, cego pela mágoa, deitou Jelloul ao


chão e começou a bater-lhe. Ninguém mexeu um dedo. A dor de André era
demasiado forte para ser contestada. Voltei para casa, dividido entre a
cólera e a indignação, envergonhado e humilhado, duplamente mortificado
com a morte de José e o martírio de Jelloul. Foi sempre assim, repetia eu
para me proteger: quando não se encontra uma razão para a infelicidade,
pro-cura-se um culpado, e não havia melhor bode expiatório nessa manhã no
lugar do drama que Jelloul.

Jelloul foi preso, algemado e levado para o posto. Corria o boato de que
tinha confessado, que o homicídio não tinha muito a ver com as convulsões
que agitavam o país. Ainda assim, houvera uma morte, e ninguém podia
jurar que não houvesse outras na calha. Os agricultores reforçaram a
milícia e, de vez em quando, entre dois uivos de chacal, soavam tiros na
noite. No dia seguinte, falava-se de intrusão suspeita repelida, de
indesejáveis levantados como caça, de incêndio criminoso impedido. Uma
manhã, ao di-rigir-me a Lourmel, vi agricultores armados na berma da
estrada. Estavam excitados. Aos pés deles jazia o corpo ensanguentado de
um jovem muçulmano andrajoso. Era exposto como um troféu de caça, com uma
velha espingarda ao lado como prova material do crime. ?~r> Semanas mais
tarde, um rapaz enfezado e miserável entrou na farmácia e pediu-me que
fosse com ele até à rua. Uma mulher em
1

252 O QUE O DIA DEVE À NOITE

pranto esperava-nos no passeio da frente, rodeada de garotos com ar


desamparado.

— É a mãe do Jelloul — disse-me o rapaz.

Eia precípitou-se para mim e atirou-se ao chão. Eu não compreendia o que


estava a tentar contar-me. As palavras confundiam--se com os lamentos e
os seus gestos de desorientação confundiam--me. Levei-a para dentro da
farmácia a fim de a acalmar e decifrar o que tartamudeava. Falava
depressa, misturava tudo, não terminava uma frase sem entrar em transe.
As faces estavam esfoladas, o que provava que lacerara o rosto com as
unhas em sinal de grande infortúnio. Finalmente, extenuada, aceitou beber
a água que lhe ofereci e deixou-se cair num banco. Contou-me as
vicissitudes da família, a doença do marido com os dois braços amputados,
as frequentes rezas feitas em todos os marabutos da região, antes de se
me jorrar de novo aos pés e de me implorar que salvasse Jelloul. «Não há
razões para ele lá estar. Todo o douar te dirá o mesmo. Jelloul estava
connosco na noite em que o rumi foi morto. Juro. Fui ter com o presidente
da câmara, com a polícia, com os cádis; ninguém me quis ouvir. Es a nossa
última esperança. Dás-te bem com o Sr. André. Ele há-de ouvir-te. Jelloul
não é um assassino. O pai teve uma crise nessa noite, e fui eu que mandei
o meu sobrinho buscá-lo. Não é justo. Vão cortar-lhe a cabeça sem razão.»
O rapazito era o dito sobrinho. Asseverou-me que era verdade, que Jelloul
nunca andara com uma faca e que sentia afecto por José.

Não estava a ver o que podia fazer, mas prometi-lhes relatar fielmente as
suas declarações a André. Depois de se irem embora, não me senti capaz e
decidi não o fazer. Sabia que a decisão do tribunal não tinha recurso,
que André não me ouviria. Depois da morte de José, andava permanentemente
furioso, molestando os árabes nos campos por qualquer coisa. Passei uma
noite agitada. O meu sono foi interrompido por pesadelos nauseabundos,
que me obrigaram várias vezes a acender o candeeiro da mesa-de--
cabeceíra. A miséria daquela mulher meia louca e do seu rancho de miúdos
causava-me um mal-estar vertiginoso. A cabeça crepitava de lamentos e de
gritos ininteligíveis. No dia seguinte, não tive forças para trabalhar na
farmácia. Pesei os prós e os contras,
EMILIE

253

inciinando-me para a abstenção. Não me estava a ver a defender a causa de


Jelloul diante de um André irreconhecível devido à amargura e
brutalidade. Era capaz de só ver em mim um muçulmano a solidarizar-se com
um assassino da sua comunidade. Não me afastara quando o tentara consolar
no cemitério, durante o enterro de José? Não rosnara, na intenção
manifesta de me ferir, que todos os árabes eram ingratos e cobardes? Por
que motivo proferira tais palavras num cemitério cristão onde eu era o
único muçulmano, se a sua intenção exclusiva não era magoar-me? ':
Passados dois dias, dei comigo a estacionar o carro no grande pátio da
quinta de Jaime Jiménez Sosa. André não estava em casa. Pedi para falar
com o pai. Um criado pediu-me que esperasse no carro enquanto ia saber se
o patrão me receberia. Voltou passados uns minutos e levou-me à colina
que dominava a planície. Jaime Jiménez Sosa regressava de um passeio a
cavalo. Estava a entregar a montada a um palafreneiro. Olhou-me fixamente
durante um instante, intrigado com a minha visita e, depois de ter dado
uma palmada na garupa do cavalo, dirigiu-se a mim.

— Que posso fazer por ti, Jonas? — perguntou-me de longe, expedito. — Não
bebes vinho e ainda não estamos no tempo das vindimas.

Um criado acorreu para o libertar do capacete colonial e do pingalim;


Jaime mandou-o embora com um gesto de desprezo, sem lhe dar tempo de se
aproximar.

Passou à minha frente sem se deter e sem me estender a mão.

Fui atrás dele.

— Qual é o problema, Jonas?

— É um pouco complicado. ;. ,.

— Então vai direito ao assunto. ¦-,'•

— Não me facilita a tarefa ao apressar o passo. Abrandou e, metendo uma


mão debaixo do capacete, virou-

-se para mim.

— Estou a ouvir...

— É sobre Jelloul.

Teve um sobressalto. Os maxilares crisparam-se. Ergueu completamente o


capacete e secou a testa com um lenço.
254

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Desiludes-me, rapaz — disse. — Não és feito da mesma massa e estás


muito bem onde estás.

— Há certamente um mal-entendido.

— Ah sim?E qual?

— Jelloul pode estar inocente.

— Pois! Emprego árabes há gerações, e sei o que são. São todos serpentes.
Essa víbora confessou. Foi condenado. Zelarei pessoalmente para que a sua
cabeça caia no cesto.

Caminhou na minha direcção, pegou-me no cotovelo e con-vidou-me a dar uns


passos na sua companhia.

— É muito sério, Jonas. Não se trata de trinta e um de boca, mas de uma


verdadeira guerra. O país treme e não é altura de não tomar partido. É
preciso bater forte e feio. Não se tolera nenhum laxismo. Esses loucos
assassinos têm de compreender que não cederemos. Qualquer porco que nos
caia nas mãos deve pagar pelos outros...

— A família dele veio ter comigo...

— Jonas, pobre Jonas — interrompeu, — não sabes do que estás a falar. És


um jovem bem-educado, integrado e inteligente. Mantém-te afastado dessas
histórias de bandidos. Sentir-te-ás menos deslocado.

Estava irritado com a minha insistência. E indignado por ter de descer ao


nível de um criado indigno de ter um destino pois a sorte, por hipotética
que fosse, já lhe bastava. Largou-me, teve um trejeito de indecisão,
voltou a pôr o lenço no bolso e, depois, com um aceno, pediu-me que o
acompanhasse.

— Anda daí, Jonas...

Caminhou à minha frente, agarrando de passagem um copo de sumo de laranja


que um criado, vindo sabia-se lá de onde, lhe estendeu. Jaime Jiménez
Sosa era baixo e gordo, atarracado como um marco quilométrico; contudo,
parecia ter ganho uns centímetros. Uma enorme mancha de suor evaporava-se
da camisa que a brisa enfunava dos lados. Apertado nas r,uas calças de
montar, com o capacete colonial na nuca, parecia conquistar o mundo a
cada passo que dava.

\ Quando chegámos ao alto da colina, abriu as pernas e o braço


descreveu um arco largo, com o copo como um ceptro. Em baixo,
EMILIE

255

a planície exibia as suas vinhas a perder de vista. Nos terrenos mais


distantes, que a bruma acinzentava, as montanhas evocavam monstros pré-
históricos adormecidos. Jaime observou a paisagem, acenando com a cabeça
sempre que um local lhe chamava a atenção. Um deus a contemplar o seu
universo não se mostraria tão inspirado como ele.

— Olha, Jonas... Não é uma paisagem a perder de vista? O copo oscilou na


extremidade do braço.

Virou-se lentamente para mim, com um vago sorriso nos lábios.

— É o mais belo espectáculo do mundo.

Como eu não respondia, balouçou a cabeça e pôs-se a contemplar as vinhas


que se encordoavam umas nas outras até ao horizonte.

— Muitas vezes — disse, — quando aqui venho admirar tudo isto, penso nos
homens que fizeram o mesmo, há muito tempo, e pergunto-me o que viam eles
realmente. Tento imaginar este território ao longo dos tempos e ponho-me
no lugar desse nómada berbere, desse aventureiro fenício, desse pregador
cristão, desse centurião romano, desse precursor vândalo, desse
conquistador muçulmano, de todos esses homens que o destino trouxe para
cá e que se detiveram no alto desta colina, exactamente no sítio onde
estou agora...

Os seus olhos procuraram os meus.

— Que podiam ver daqui, nessas épocas diferentes? — perguntou. — Nada...


Não havia nada para ver, excepto uma planície bravia infestada de répteis
e de ratos, alguns cabeços cobertos de ervas, talvez um lago que
entretanto desapareceu ou uma senda improvável que levava a todos os
perigos...

O braço varreu furiosamente a paisagem, e gotinhas de sumo brilharam no


ar. Recuou um pouco para se pôr do meu lado, e disse:

— Quando o meu bisavô lançou as vistas para este cu-de--judas, estava


certo de que ia morrer antes de tirar dele o mínimo proveito... Tenho
fotografias, em casa. Não havia um casebre léguas à volta, nem uma
árvore* nem uma carcaça de animal bran-
256

O QUE O DIA DEVE À NOITE

queada pela erosão. Mas o meu bisavô não desistiu. Arregaçou as mangas,
fabricou com os seus dez dedos os utensílios de que tinha necessidade e
pôs-se a sachar, a desmatar, a limpar a terra ao ponto de deixar de poder
servir-se das mãos para cortar uma fatia de pão... Eram os trabalhos
forçados durante todo o dia e toda a noite, e o inferno em todas as
estações do ano. E a minha família não baixou os braços; nem uma vez, nem
um instante. Uns morriam de esforços sobre-humanos, outros sucumbiam às
doenças, e nem um duvidou um segundo que fosse do que estava a realizar.
E graças à minha família, Jonas, graças aos seus sacrifícios e à sua fé,
que o território bravio se deixou dominar. De geração em geração, foi--se
transformando em campos e em pomares. Todas as árvores que vês à nossa
volta contam um capítulo da história dos meus familiares. Cada laranja
que espremes dá-te um pouco do suor deles, cada néctar conserva ainda o
sabor do seu entusiasmo. Com um gesto teatral, mostrou-me a sua quinta:

— Este grande edifício que me serve de fortaleza, esta enorme casa toda
branca onde nasci e onde, em criança, corri como um louco, foi o meu pai
que construiu com as próprias mãos como uma estela em honra dos seus...
Este país deve-nos tudo... Traçámos as estradas, colocámos os carris do
caminho-de-ferro até às portas do Sara, lançámos pontes por cima dos
cursos de água, construímos cidades umas mais belas do que outras, e
aldeias de sonho junto das matas... transformámos uma desolação milenar
num país magnífico, próspero e ambicioso, e uma rocha miserável num
fabuloso jardim do Éden... E querem-me fazer crer que nos matámos a
trabalhar para nada?

Gritou de tal maneira que a sua saliva me salpicou a cara. Os olhos


ensombraram-se quando agitou sentenciosamente o dedo sob o meu nariz:

— Não estou de acordo, Jonas. Não usámos os nossos braços e corações por
volutas de fumo... Est" terra reconhece os seus, e esses somos nós, que a
servimos como raramente se serve a própria mãe. Ela é generosa porque
sabe que a amamos. As uvas que nos oferece, bebe-as connosco. Presta-lhe
atenção e ouvi-la-ás dizer que valemos qualquer palmo das nossas terras,
qualquer fruto
EMILIE

257

das nossas árvores. Deparámo-nos com uma região morta e insu-flámos-lhe


uma alma. É o nosso sangue e o nosso suor que irrigam os seus ribeiros.
Ninguém, senhor Jonas, e digo bem, ninguém, nem neste planeta nem
noutros, poderá negar-nos o direito de continuar a servi-la até ao fim
dos tempos... Sobretudo nunca esses calaceiros piolhosos que acreditam
que, ao assassinar desgraçados, nos passam adiante.

O copo vibrava-lhe na mão. O rosto estava completamente transtornado e o


olhar tentava atravessar-me de um lado ao outro.

— Estas terras não são deles. Se elas pudessem, amaldiçoá--los-iam como


eu os amaldiçoo sempre que vejo chamas criminosas reduzirem a cinzas uma
quinta ao longe. Se pensam que nos impressionam dessa maneira, perdem o
tempo deles e o nosso. Não cederemos. A Argélia é uma invenção nossa. Foi
o que fizemos de melhor, e não permitiremos que nenhuma mão impura
profane os nossos cereais e as nossas colheitas.

Jorrando de um recanto do meu subconsciente quando eu acreditava tê-la


enterrado definitivamente, a imagem de Abdelka-der vermelho de vergonha
no estrado da sala de aula da minha escola primária explodiu na minha
cabeça. Voltei a vê-lo com nitidez, a contrair o rosto de dor enquanto os
dedos do professor lhe torciam a orelha. A voz estridente de Maurice
explodiu na minha cabeça: «Porque os Árabes são preguiçosos, senhor!» A
onda de choque repercutiu-se através do meu corpo como uma detonação
subterrânea nos fossos de uma fortaleza. A mesma cólera que se apoderara
de mim nesse dia na escola inundou-me. Do mesmo modo. Como lava a jorrar-
me das entranhas. De repente, perdi de vista o objecto da minha visita,
os riscos que Jelloul corria, a angústia da mãe, e passei a ver só o Sr.
Sosa no auge da sua arrogância, o brilho malsão da sua sobranceria
hipertrofiada que conferia algo de purulento à luz do dia.

Sem me dar conta, e incapaz de me conter, empertiguei-me diante dele e,


com uma voz firme, cortante e nítida como a lâmina de uma cimitarra,
disse-lhe:

— Há muito tempo, senhor Sosa, muito antes do senhor e do seu tetravô, um


homem estava no sitio onde o senhor está agora. Quando
258

O QUE O DIA DEVE À NOITE

erguia os olhos para esta planície, não podia impedir-se de se


identificar com ela. Não havia estrada nem carris, e os lentiscos e
espinheiros não o incomodavam. Cada ribeiro, morto ou vivo, cada pedaço
de sombra, cada pedra devolviam-lhe a imagem da sua humildade. Esse homem
estava confiante. Porque era livre. Só tinha consigo uma flauta para
acalmar as cabras e um cajado para dissuadir os chacais. Quando se
deitava por baixo desta árvore que aqui vemos, bastava-lhe fechar os
olhos para se ouvir viver. O naco de pão e a rodela de cebola que comia
valiam mil festins. Tinha a sorte de encontrar bem-estar até na
frugalidade. Vivia ao ritmo das estações, convicto de que era na
simplicidade das coisas que residia a essência da tranquilidade. Era
porque não queria mal a ninguém que acreditava estar protegido das
agressões até ao dia em que, no horizonte que mobilava com os seus
sonhos, viu chegar o tormento. Confisca-ram-lhe a flauta e o cajado, as
terras e os rebanhos, e tudo o que lhe proporcionava bálsamo à alma. E
hoje querem levá-lo a acreditar que estava nestas paragens por acaso, e
espantam-se e insurgem-se quando ele reclama um pouco de respeito... Não
estou de acordo consigo, senhor. Esta terra não lhe pertence. Pertence a
esse pastor do antigamente cujo fantasma está precisamente aí ao seu lado
e que o senhor se recusa a ver. Como não sabe partilhar, pegue nos seus
pomares e nas suas pontes, no seu asfalto e nos seus carris, nas suas
cidades e nos seus jardins, e restitua o resto a quem de direito.

— És um rapaz inteligente, Jonas — retorquiu, nada impressionado. — Foste


educado onde devias e é aí que te deves manter. Os fellagas1 não são
construtores. Se lhes confiássemos o paraíso, reduzi-lo-iam a ruínas. Só
trarão ao teu povo infelicidade e desilusões.

— Talvez devesse lançar um olhar pelos lugarejos das redondezas, senhor


Sosa. A infelicidade grassa neles desde que haveis reduzido homens livres
a bestas de carga.

Dito isto, deixei-o lá e voltei para o carro, com a cabeça a sibilar como
as cabaças de um moinho aos quatro ventos.

1 Tunisinos (1952-1956) ou argelinos (1954-1962) que combatiam pela


independência do país então sob o domínio francês. (N. da T.)
I'''

17.

l -,..(;,.,.}¦. .

Jean-Christophe reapareceu na Primavera de 1957. Sem aviso prévio. Foi o


polícia Bruno que mo anunciou à porta do posto:

— Então esse reencontro? :

— Que reencontro? f-

— Como? Não estás ao corrente? Chris regressou a casa há dois dias.

Dois dias?... Jean-Christophe regressara a Rio Salado há dois dias e


ninguém me falara no assunto... Cruzara-me com Simon na véspera.
Chegáramos a trocar umas palavras. Porque não me dissera nada?

De volta à farmácia, telefonei para o escritório de Simon, a dois passos


do posto. Não sabia por que tinha preferido telefonar--lhe em vez de ir
ter com ele. Talvez tivesse tido medo de o embaraçar ou de ler nos seus
olhos o que pressentia: que Jean-Christophe ainda me queria mal e que não
desejava ver-me.

A voz de Simon vacilou ao telefone: r

— Pensei que estavas ao corrente.

— Não me digas! [

— Garanto-te que é verdade. >:

— Ele disse-te alguma coisa? v Simon pigarreou. Estava


constrangido. !¦

— Não te estou a perceber — disse. :

— Está bem, compreendo. l-


260

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Desliguei.

Germaine, que chegava do mercado, pousou a alcofa no chão e olhou-me de


soslaio.

— Quem era?

— Um cliente a protestar — tranquilizei-a.

Pegou na alcofa e subiu a escada para o primeiro andar. Ao chegar ao


patamar, deteve-se dois segundos e desceu uns degraus para me encarar.

— Que é que me estás a esconder?

— Nada.

— Pois... Convidei Bernadette para o baile. Espero que não a desiludas


também. E uma rapariga como deve ser. Não se dá ares, mas é
desempoeirada. E verdade que não tem muita instrução, mas não encontrarás
melhor dona de casa. Além disso, é bonita!

Bernadette... Conhecera-a tamanhinha, no funeral do pai morto no ataque


contra a base naval de Mers-el-Kébir em 1940. Uma miudinha de tranças no
ar que se mantinha à distância enquanto as primas brincavam com o arco.

— Sabes muito bem que já não vou a bailes.

— Precisamente. E subiu as escadas.

Simon telefonou-me. Tinha tido tempo para regularizar a respiração.

— Compreendeste o quê, Jonas?

— Acho estranho que me tenhas escondido o regresso do Chris. Pensava que


a nossa amizade era indefectível.

— E não se alterou nada. Continuo a gostar de ti como dantes. E verdade


que o trabalho não me dá tréguas, mas penso em ti. Tu é que estás
distante. Nunca viestes a minha casa. Estás sempre com pressa de ir para
qualquer lado quando nos cruzamos. Não sei o que te passa pela cabeça,
mas eu, não mudei. Quanto ao Chris, juro que pensava que estavas ao
corrente. Aliás, não estive muito tempo com ele. Deixei-o entregue à
família. Se isso te tranquiliza, ainda não telefonei ao Fabrice para lhe
dar a boa notícia. Vou fazê-lo agora. E podemos encontrar-nos os qua-
EMILIE

261

tro, como nos bons velhos tempos. Pensei num jantar na estrada das
arribas. Conheço uma taberna excelente em Am Turk. Con-vém-te?...

Mentia. Falava depressa demais, como se declamasse uma lição decorada. No


entanto, concedi-lhe o benefício da dúvida... Para me provar a sua
sinceridade, prometeu passar a buscar-me depois do trabalho para irmos
juntos a casa dos Lamy.

Esperei todo o dia; não apareceu. Fechei a loja e continuei à espera. A


noite encontrou-me sentado nos degraus da farmácia a espiar as silhuetas
que passavam ao longe na esperança de reconhecer a sua. Não veio. Decidi
ir sozinho a casa de Jean-Chris-tophe... Não devia tê-lo feito. Porque o
carro de Simon estava lá, estacionado sob uma avalanche de mimosas,
diante da porta dos Lamy, ao lado de outros carros — de André, do
presidente da câmara, do merceeiro da esquina, de sei lá mais quem.
Fiquei louco de raiva. Algo me intimou a recuar, mas não o fiz. Toquei à
porta. Uma portada rangeu algures e fechou-se. Levaram eternidades a
abrir a porta. Uma desconhecida, decerto uma pessoa de família vinda de
fora, perguntou-me o que queria.

— Sou Jonas, um amigo de Chris.

— Tenho muita pena, está a dormir. - , Tive


vontade de a afastar e de entrar, de entrar de rompante

no salão onde as pessoas sustinham a respiração e de surpreender Jean-


Christophe no meio de familiares e amigos. Não fiz nada. Não havia nada a
fazer. Estava tudo claro, perfeitamente claro... Acenei, recuei, esperei
que a desconhecida fechasse a porta e voltei para casa... Germaine
absteve-se de me repreender; foi simpático da parte dela.

No dia seguinte, Simon chegou com uma cara constrangida.

Tartamudeou:

— Garanto-te que não compreendo.

— Não há nada para compreender. Não quer ver-me, nada mais. E tu sabias
desde o princípio. Foi por isso que não me disseste nada quando nos vimos
anteontem.

— É verdade, sabia. Aliás, foi a primeira condição que ele me pôs logo.
Proibiu-me de falar no teu nome. Chegou mesmo a
262

O QUE O DIA DEVE À NOITE

encarregar-me de te dizer que não queria que o fosses cumprimentar.


Recusei, como é evidente.

Levantou o pequeno alçapão do lado do balcão e aproximou--se de mim,


apertando os dedos. Tinha a testa suada; a sua calvície cintilava sob o
reflexo da janela.

— Não lhe queiras mal. As coisas não foram fáceis para ele Esteve na
Indochina, na linha da frente. Foi feito prisioneiro. Ferido duas vezes.
Foi desmobilizado ao sair do hospital. É preciso dar-lhe tempo.

— Não é grave, Simon.

— Devia ter passado a buscar-te ontem. Como prometi.

— Esperei por ti.

— Eu sei. Fui vê-lo primeiro... para o convencer a receber-te. Pensa lá


bem, não ia levar-te assim, sem mais nem menos. Ele teria levado a mal, e
as coisas ter-se-iam complicado.

— Tens razão, não devemos forçá-lo.

— Não é isso. Ele está imprevisível. Mudou. Mesmo comigo. Quando o


convidei a ir lá a casa para lhe apresentar o garoto e Emilie, saltou
como se eu tivesse blasfemado. Nuncal, gritou... Nunca! Dás-te conta? Se
lhe tivesse dito para regressar ao inferno não teria reagido com tal
violência. Fiquei chocado. Talvez tenha sido por causa da guerra que teve
de suportar lá. É uma porcaria a guerra. Por vezes, quando olho bem para
ele, parece-me estar um pouco apanhado da cabeça. Se visses os seus
olhos, vazios como o cano duplo de uma caçadeira. Faz-me pena. Não lhe
queiras mal, Jonas. Devemos armar-nos de paciência.

Como eu não respondia, experimentou outra via:

— Telefonei ao Fabrice. A Hélène disse-me que ele está em Argel por causa
do que se passa na Casbá. Não sabe quando ele chega. Até lá, o Chris pode
mudar de opinião.

Não gostei da sua esquiva e fui direito ao assunto, animado por uma
espécie de rancor tão imperioso c mordente como um prurido.

— Estavam todos com ele ontem.

— Sim — suspirou, abatido. Debruçou-se sobre mim para captar qualquer


tremor na minha

cara:
EMILIE

263

— Que se passou entre ti e ele?

— Não sei.

— Achas que engulo isso? Foi por tua causa que se foi embora, não foi?
Alistou-se nas forças armadas, aceitou ser feito aos pedaços por malucos
por tua causa?... Que se pode ter passado entre vocês os dois?... Não
preguei olho durante a noite a dar voltas ao assunto. Tentei todas as
hipóteses, e nenhuma me levou a parte alguma...

— Tens razão, Simon. Deixemos o tempo passar. Ele não sabe calar-se.
Acabará por nos dizer um dia.

— Foi por causa de Isabelle?... ¦ ,

— Simon, se faz favor, vamos ficar por aqui.

Otfp Vi Jean-Christophe no fim-de-semana. De longe. Eu saía do sapateiro


e ele dos paços do concelho. Estava tão magro que parecia ter crescido
cerca de vinte centímetros. Tinha os cabelos curtos de lado, com uma
madeixa loura a cair-lhe na aresta do nariz. Vestia um casaco inadequado
para a estação do ano e coxeava um pouco, apoiando-se numa bengala.
Isabelle acompanhava-o, agar-rando-se-lhe ao braço. Nunca vira Isabelle
tão bela e sóbria. A sua humildade era quase admirável. Caminhavam
tranquilamente enquanto conversavam; quem falava era Isabelle; Chris
acenava com a cabeça. Resplandeciam de uma felicidade serena, que vinha
de longe e parecia decidida a não mais os abandonar. Gostei do casal que
formavam nesse dia; um casal que amadurecera no langor e nas
interrogações, atento a si próprio, enriquecido pelas suas dificuldades.
Não sei por que motivo o meu coração se sentiu impelido para eles, como
uma oração que os acompanhasse rumo ao que pudesse consolidar para sempre
o seu reencontro. Talvez me tenham recordado o meu tio e Germaine a
passearem pelos pomares. Estava feliz por vê-los juntos de novo, como se
o que se passou não tivesse acontecido. Dei-me conta de que não me era
possível não continuar a sentir afecto por um e ternura pelo outro. Ao
mesmo tempo, uma tristeza tão grande como a que a morte do meu tio me
infligira enevoou-me os olhos com uma lágrima espessa e amaldiçoei Jean-
Christophe por voltar a apanhar o comboio da vida, abandonando-me no
cais. Tinha a sensação de que
264

O QUE O DIA DEVE À NOITE

não aceitava inteiramente a sua sentença arbitrária, de que lhe guardaria


rancor durante muito tempo e de que não me sentia capaz de lhe abrir os
braços se me desculpasse... De quê? De que era culpado? Pensava ter pago
em grande pela minha lealdade, pensava que o mal que cometera havia-o
sofrido antes dos outros, mais que os outros, integralmente. Era curioso.
Eu era o amor e o ódio amarrados no mesmo pacote, presos numa mesma
camisola. Resvalava para algo que era incapaz de definir e que me puxava
em todas as direcções, deformando o meu discernimento, as minhas fibras,
os meus pontos de referência, os meus pensamentos, como um licantropo que
abusa das trevas para nascer na sua monstruosidade. Estava encolerizado;
uma cólera interior, dissimulada, corrosiva. Sentia inveja por ver os
outros reencontrarem as suas referências enquanto o meu mundo se
desarticulava à minha volta; inveja quando Simon e Emilie se passeavam na
avenida, com o garoto a correr à frente deles; inveja do olhar cúmplice
que trocavam e que, em meu entender, se devia a mim; inveja dessa aura
que aureolava o casal Jean-Christophe e Isabelle a caminho da redenção;
queria mal a todos os casais com que me cruzava em Rio, em Lourmel, em
Orão, nas estradas que percorria ao acaso, tal como um deus perdido à
procura do universo e que se apercebia de que já não era capaz de o
reinventar à sua medida. Sem o saber, dava comigo, nos dias livres, a
deambular nos bairros muçulmanos de Orão, a sentar-me à mesa com gente
desconhecida cuja proximidade rompia o meu isolamento. Ia a Médine J'dida
matar a sede com água tingida de óleo de zimbro, familiarizar-me com um
velho livreiro moabita com um saroual tufado, instruir-me junto de um
jovem imã com uma emdição espantosa, ouvir os yaouled esfarrapados
comentarem a guerra que despedaçava o país — estavam mais bem informados
do que eu, o letrado, o instruído, o farmacêutico. Pus-me a decorar nomes
até então desconhecidos e que ressoavam na boca dos meus como o apelo do
muezim: Ben M'hidi, Zabana, Boudiaf, Abane Ramdane, Hamou Boutlilis, a
Soummam, o Ouarsenis, Djebel Llouh, Ali la Pointe, nomes de heróis e de
lugares indissociáveis de uma adesão popular que eu estava a milhas de
imaginar tão concreta, tão determinada.
EMILIE

265

Estaria a compensar a defecção dos meus amigos?...

Fora ter com Fabrice em sua casa, na estrada das arribas. Ficara contente
de me ver, mas eu não digerira a frieza de Hélène, sua mulher. Não voltei
a pôr os pés em casa deles. Quando me cruzava com Fabrice, aceitava de
bom-grado ir com ele a um café ou restaurante, mas recusava
sistematicamente os convites para ir a sua casa. Não estava disposto a
suportar a atitude distante da mulher. Dissera-lho uma vez. «Estás a
imaginar coisas, Jonas.» — replicara, contrariado. «Aonde vais buscar
essas ideias? Hélène é uma rapariga da cidade, mais nada. Não é como as
raparigas da nossa terra. Admito que é um pouco sofisticada, mas é por
ser citadina...» Fosse como fosse, nunca mais voltei a casa dele.
Preferia alhear-me em Vieil Oran, na Calère, em torno da Mesquita do
Pachá ou para os lados do Palácio do Bei, a contemplar os garotos a
descompo-rem-se nas fontes de Raz el-Ain... Eu que não gostava de barulho
assobiava ao árbitro nos estádios de futebol, comprava bilhetes no
mercado negro para ir às praças de Eckmul ovacionar Luis Miguel Dominguin
a dar a estocada no touro. Não havia melhor do que um clamor tonitruante
para banir as interrogações que me recusava a analisar demoradamente. Era
por isso que o procurava sem tréguas. Tornara-me um fervoroso apoiante do
USMO, o clube muçulmano de futebol, e corria as galas de boxe. Quando os
pugilistas muçulmanos derrubavam os adversários, sentia-me a parir a
ferros uma fúria de que não me acreditava capaz — os seus nomes inebria-
vam-me tanto como baforadas de ópio: Goudih, Khalfi, Cherraka, os irmãos
Sabbane, o prodigioso marroquino Abdeslam... Já não me reconhecia. Era
atraído pela violência e pelas multidões delirantes como uma mariposa
pela chama das velas. Não havia dúvida: estava em guerra aberta comigo
próprio.

:} ¦

Jean-Christophe casou com Isabelle no fim do ano. Fiquei a sabê-lo no dia


seguinte. Ninguém se dera ao trabalho de mo dizer antes. Nem sequer Simon
que não fora convidado para o casamento. Nem Fabrice que regressara a
casa de madrugada para não ter de se desculpar sabia-se lá de quê. Isso
só me afastou mais um pouco do mundo deles. Era atroz...
266

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Jean-Chrístophe decidiu instalar-se longe de Rio Salado. A aldeia não


saciava a sua sede de recuperar o tempo perdido, a sua sede de vingança
de certas lembranças. Pépé Rucillio ofereceu--lhe uma bela casa num dos
bairros mais elegantes de Orão. Eu estava na praça do município quando os
recém-casados mudaram de casa. André levava o casal no seu carro, seguido
do camião carregado de móveis e presentes. Ainda me acontece, com esta
idade, ouvir as buzinas do cortejo e sentir a mesma mágoa que me
provocaram nesse dia. Contudo, curiosamente, ficara aliviado de os ver
partir; era como se uma veia do meu corpo, havia muito obstruído, se
tivesse descongestionado.

Rio despovoava-se; as minhas perspectivas assemelhavam--se aos de um


náufrago longe das rotas. As ruas, os pomares, o zunzum dos cafés, as
piadas de campónios de uma pertinência sempre atrasada já não me diziam
nada. De manhã tinha pressa de reencontrar a noite para fugir ao caos dos
dias; de noite, na cama, temia acordar no meio das ausências. Comecei a
confiar a farmácia a Ger-maine e a recorrer aos bordéis de Orão, sem
tocar nas prostitutas. Contentava-me em ouvi-las contar a sua vida
tumultuosa e em bor-rifar-se nos sonhos perdidos como se fossem traças. O
seu desprezo pelo ilusório reconfortava-me. Na verdade, procurava Hadda.
De repente, tinha importância para mim. Queria encontrá-la, saber se se
lembrava de mim, se me podia ser útil em qualquer coisa, em chegar até à
minha mãe — também aí voltava a não ser sincero comigo próprio: Hadda
deixara Jenane Jato antes do drama que enlutara o nosso pátio; não me
teria sido de nenhuma utilidade nessa história. Mas era o que me
preparava para lhe dizer a fim de a enternecer. Tinha necessidade de
alguém, de um confidente ou de um velho conhecido que me pudesse
proporcionar alguma cumplicidade, com quem pudesse estabelecer uma
relação de confiança pois a dos meus amigos de Rio estiolava... A patroa
do Camélia disse--me vagamente que Hadda saíra uma i;oite com um
proxeneta e que nunca mais voltara. O proxeneta em questão era um
brutamontes de braços tatuados, com corações trespassados e juras
gravadas na sua pele peluda; aconselhou-me a não me intrometer se não
queria que a minha descrição aparecesse nas notícias sem im-
EMILIE

267

portância do jornal local... No mesmo dia, ao sair do eléctrico, pa-


recera-me reconhecer Lucette, a minha amiga de infância, a passear um
bebé num carrinho. Era uma mulher nova, bem vestida, enfiada num fato de
saia e casaco, com um chapéu de pano branco. De certeza que não era
Lucette; teria situado o meu sorriso, detectado uma margem evocadora no
azul dos meus olhos. Apesar da sua indiferença eloquente, seguira-a ao
longo da avenida; depois, consciente do aspecto indecente da minha
perseguição, retrocedera.

A seguir, deparei-me com a guerra... com a guerra em tamanho natural; o


súcubo da Morte; a concubina fecunda da Infelicidade; a outra realidade
que não queria olhar de frente. Os jornais expunham ostensivamente os
atentados que abalavam cidades e aldeias, os raides nos douars suspeitos,
os êxodos em massa, as disputas destruidoras, as buscas, os massacres;
para mim, era ficção, um obscuro folhetim constantemente repetido... E um
dia, enquanto bebericava uma laranjada na marginal, travou bruscamente
diante de um edifício um carro de tracção à frente, preto como uma
carrinha mortuária, de cujas portas esguicharam espingardas-
metralhadoras. As rajadas duraram alguns segundos antes de se afogarem no
rangido dos pneus; continuaram a ecoar na minha cabeça durante muito
tempo. Corpos jaziam no passeio enquanto os basbaques dispersavam a
correr. O silêncio foi tal que o grito das gaivotas me perfurou as
fontes. Acreditava-me num sonho. Com os olhos pregados nos corpos
ceifados, pus-me a tremer, a tremer. A mão batia com uma persiana ao
vento, salpicando-me de sumo de laranja; o copo esca-pou-se-me e
estilhaçou-se aos meus pés, arrancando um uivo incongruente a um vizinho
de mesa. Pessoas saíam dos prédios, das lojas, dos carros, aturdidas,
sonâmbulas, e aproximavam-se prudentemente do local do drama. Uma mulher
desmaiou nos braços do companheiro. Não me atrevi a mexer um dedo; fiquei
petrificado na cadeia, de boca aberta, com o coração demente. Apitadelas
anunciaram a chegada da polícia. Bem depressa se formou um ajuntamento em
torno das vítimas; chorava-se a morte de três pessoas, entre as quais uma
jovem, e cinco feridos em estado grave.

Regressei a Rio e fechei-me no quarto durante dois dias.


268 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Passei a ter insónias. Mal me metia na cama, um terror abissal puxava-me


para o fundo. Como se me afundasse num abismo. O meu sono já não era
habitável; os pesadelos catapultavam-me através de inúmeros horrores.
Cansado de olhar para o tecto, sen-tava-me na cama, punha a cabeça entre
as mãos e fixava o chão. Os pés imprimiam manchas húmidas no pavimento.
As rajadas, na marginal, ricocheteavam nos meus pensamentos. Mesmo que
tapasse as orelhas, voltavam à carga, ensurdecedoras, funestas. O meu
corpo estremecia com as detonações. Deixava o candeeiro aceso até de
manhã, para manter à distância os fantasmas que, por trás da porta do meu
quarto, aguardavam a mínima modorra para se atirarem a mim. Agarrava-me
ao mais pequeno tremor, ao latido mais improvável para me manter
acordado. Quando o vento fazia ranger os forros de madeira, a minha
cabeça arrebentava, abria fissuras. «É o choque», disse-me estupidamente
o médico... Não me dizia nada de novo. O importante para mim era como
superá-lo. O médico não tinha uma receita milagrosa. Prescreveu-me
calmantes e comprimidos contra a insónia que não resolveram a situação.
Estava deprimido, consciente da minha deriva, mas não sabia o que fazer.
Sentia-me uma pessoa diferente, um ser exasperante, frustrante, embora
indispensável: era o meu único porto de amarração.

Claustrofóbico, corria à varanda para apanhar ar. Germaine vinha fazer-me


companhia muitas vezes. Tentava falar comigo; não a ouvia. As suas
palavras cansavam-me, exacerbavam-me as tensões. Queria estar sozinho.
Portanto, saía. Noite após noite. Semana após semana. O silêncio da
aldeia fazia-me bem. Gostava de andar pela praça municipal deserta,
calcorrear a avenida, de um lado para o outro, sentar-me num banco e não
pensar em nada.

Uma noite sem lua, enquanto soliloquiava num passeio, vi chegar uma
bicicleta. O farolim baloiçava e os rangidos da corrente despedaçavam-se
contra os muros numa multidão de gemidos agudos. Era o jardineiro da Sra.
Cazenave. Parou à minha frente e por um pouco não voou por cima do
guiador, pálido, descomposto. Mostrou-me qualquer coisa atrás dele e,
incapaz de articular uma sílaba, montou na bicicleta; na sua
precipitação, bateu contra o passeio e caiu de costas.
EMILIE

269

— Que se passa? Dir-se-ia que és perseguido por um demónio?

Levantou-se a tremer, voltou a subir para a bicicleta e, depois de um


esforço sobrenatural, balbuciou:

— Vou alertar a polícia... Aconteceu uma desgraça em casa dos Cazenave.

Foi então que vi um grande clarão avermelhado erguer-se por trás do


cemitério israelita. «Meu Deus!», gritei. E pus-me a correr.

A casa dos Cazenave estava em fogo. Chamas gigantescas iluminavam os


pomares em volta. Atalhei pelo cemitério. Quanto mais me aproximava do
sinistro, mais avaliava a sua extensão. O fogo já devorava o rés-do-chão
e atirava-se ao andar de cima num zumbido voraz. O carro de Simon ardia
no pátio, mas eu não o via nem a Émilie. O portão estava aberto. A latada
crepitava sobre a paliçada, contorcendo-se no meio de uma nuvem densa de
fagulhas. Tive de proteger o rosto com os braços para atravessar um muro
de chamas e chegar ao repuxo. Dois cães jaziam no pátio, mortos.
Impossível chegar à casa que era apenas um braseiro furioso lançando os
seus tentáculos histéricos em todas as direcções. Quis chamar Simon;
nenhum som saiu da minha garganta ressequida. Uma mulher estava acocorada
debaixo de uma árvore. A mulher do jardineiro. Com o rosto entre as mãos,
fixava com um olhar ausente a casa prestes a esvair-se em fumo.

— Onde está o Simon?

Virou a cabeça na direcção da antiga estrebaria. Lancei-me na fornalha,


atordoado pelo tumulto das chamas e o estrépito das vidraças. Um fumo
acre, rodopiante, cobria a colina. A antiga estrebaria estava mergulhada
numa calma que me pareceu mais aterradora do que o sinistro por trás de
mim. Um corpo estava estendido na erva, de barriga para baixo, os braços
em cruz; a luz das chamas chicoteava-o por intermitências. Os meus
joelhos bloquearam. Dei-me conta de que estava sozinho, absolutamente
sozinho, e não me senti em condições de enfrentar a coisa sem ajuda de
alguém. Aguardei, na esperança de que a mulher do jardineiro viesse ter
comigo. Não veio. Além do rugido do incêndio e do
270

O QUE O DIA DEVE À NOITE

corpo inerte na erva, não via ninguém. O corpo não se mexia. Estava nu,
só com umas cuecas que mal tapavam as nádegas; o charco de sangue em que
se banhava parecia um buraco. Reco-nheci-o pela calvicie: Simon!... Seria
novamente um pesadelo? Estaria na minha cama a dormir?... A esfoladela no
meu braço ardia; estava mesmo acordado. O corpo de Simon cintilava no
reflexo do sinistro. Virado para mim, o seu rosto evocava um pedaço de
cré; o brilho que se fixara no fundo das pupilas era irreversível. Estava
morto.

Agachei-me diante do cadáver do meu amigo, aturdido. Já não estava seguro


dos meus gestos nem dos meus pensamentos. A minha mão ia pousar
automaticamente nas costas do morto para o tentar despertar...

— Não toques nele! —explodiu uma voz na penumbra. Émilie estava agachada
no canto da estrebaria. A palidez do

seu rosto tinha qualquer coisa de fosforescente. Os olhos irradiavam um


fogo tão vasto como as chamas por trás de mim. De cabelos soltos,
descalça, vestia uma camisa de noite sedosa que quase a desnudava e
apertava contra a anca o filho Michel, aterrorizado.

— Proíbo-te de lhe tocares — disse-me ainda, com uma voz sepulcral.

Um homem com uma espingarda surgiu por trás dela. Era Krimo, o motorista
de Simon, um árabe de Orão que trabalhava num restaurante na estrada das
arribas e que o meu amigo contratara antes do casamento. A sua silhueta
desengonçada destacou-se da estrebaria e avançou prudentemente na minha
direcção.

— Acertei num. Ouvi-o gritar.

— O que se passou?

— Os fellagas. Cortaram a garganta ao Simon e atearam fogo em toda a


parte. Quando cheguei, já se tinham ido embora. Vi-os a entranharem-se na
ravina, mais abaixo. Nem sequer ripostaram, os porcos. Mas ouvi um deles
gritar.

Postou-se à minha frente. O brilho das chamas acentuava-lhe o pesar do


rosto.

— Porquê Simon? Que é que lhes fez? — perguntou-me.


EMILIE

271

— Vai-te embora! — gritou-me Émilie. — Deixa-nos com a nossa dor, e vai-


te... Tira-o da minha vista, Krimo.

Krimo apontou-me a espingarda.

— Ouviste? Põe-te a andar.

Acenei com a cabeça e dei meia volta. Tinha a impressão de não tocar no
chão, de deslizar no vazio. Atalhei caminho até à casa em chamas,
enveredei pelos pomares e cheguei à aldeia. Faróis de automóveis
contornavam o cemitério e subiam o atalho do marabuto. Atrás do cortejo,
silhuetas corriam para o sinistro; as suas vozes ofegantes chegavam-me
entrecortadas, mas a de Émilie suplantava-as, imensa como o abismo
prestes a en-golir-me.

SlMON FOI ENTERRADO NO CEMITÉRIO ISRAELITA. A aldeia toda

fez questão de o acompanhar à sua última morada. Uma multidão louca


acotovelava-se à volta de Émilie e do filho. Émilie estava vestida de
preto, o rosto tapado com um véu. Queria ser digna na sua dor. A seu
lado, os Benyamin de Rio e de outros locais rezavam. A mãe de Simon,
abatida, chorava sentada numa cadeira, surda aos cochichos do marido, um
velho caquéctico minado pela doença. Umas filas atrás, Fabrice e a mulher
estavam de mãos dadas. Jean-Christophe ocupava o seu lugar entre o clã
dos Rucil-lio, mal se vendo Isabelle à sua sombra. Eu mantinha-me no
fundo do cemitério, por trás de toda a gente, como seja tivesse sido
excluído.

Depois do enterro, a multidão dispersou em silêncio. Krimo ajudou Émilie


e o filho a entrarem num pequeno automóvel cedido pelo presidente da
câmara. Os Rucillio também se foram embora. Jean-Christophe cumprimentou
primeiro Fabrice e apressou--se a apanhar o clã. As portas fechavam-se,
os motores roncavam; a praça esvaziou-se lentamente. Apenas ficou, à
volta da campa, um grupo de membros da milícia e de agentes da ordem
fardados, visivelmente muito afectados e culpados por terem deixado que
uma tal infelicidade atingisse em cheio a localidade. Fabrice cum-
primentou-me de longe. Com um aceno. Esperava que me viesse reconfortar;
ajudou a mulher a entrar no carro e, sem um último
272

O QUE O DIA DEVE À NOITE

olhar, pegou no volante e arrancou. Quando o carro desapareceu atrás de


um edifício, dei-me conta de que já não havia ninguém, excepto eu, no
meio dos mortos.

Émilie trocou Rio por Orão.

Mas estava profundamente enraizada nos meus pensamentos. Sofria por ela.
Como a Sra. Cazenave deixara de dar sinais de vida, eu adivinhava a
extensão da sua solidão, a dor da sua viuvez prematura. Que iria
acontecer-lhe? Como recuperar numa cidade tão ruidosa como Orão, no meio
de pessoas que não a conheciam de parte alguma, onde a urbanidade
proscrevia a empatia tão corrente na aldeia, exigia relações de interesse
estritas, acrobacias perigosas e um monte de concessões antes de se poder
esperar vir a ser adoptado. Sobretudo com esta guerra que cada dia se
tornava mais amarga, com o seu quinhão de atentados cegos, de represálias
fulgurantes, os seus raptos, as suas descobertas macabras todas as
manhãs, as suas ruelas infestadas de armadilhas mortais. Não a via a
desembaraçar-se sozinha no meio de uma cidade demencial, no centro de uma
arena a ressumar sangue e lágrimas, com o filho traumatizado e nenhum
ponto de referência sólido.

Na aldeia, as coisas já não eram como dantes. Cancelou-se o baile das


vindimas por medo de que uma bomba viesse a transformar a alegria em
tragédia. Os muçulmanos já não eram tolerados nas ruas; já não tinham o
direito de sair das vinhas e dos pomares sem autorização. No dia a seguir
ao assassínio de Simon, o exército desencadeara uma vasta operação de
limpeza na região, passando a pente fino o monte Dhar el Menjel e as
matas envolventes. Helicópteros e aviões bombardearam os locais
suspeitos. Após quatro dias e três noites de perseguição, os militares
voltaram aos quartéis, esgotados e sem nada terem conseguido. A milícia
de Jaime Jiménez Sosa lançou uma vasta gama de emboscadas no sector que
acabou por render. Interccptou-se pela primeira vez um grupo âQfidayin
encarregados de reabastecer os resistentes; as mulas foram abatidas no
local, os géneros alimentares queimados e os corpos dos três fidayin
crivados de balas passeados pelas ruas numa carroça. Cerca de dez dias
depois, Krimo, que se
EMILIE

273

alistara numa unidade de harkis1, surpreendeu onze resistentes numa gruta


e matou-os, sufocando-os com fumo. Inebriado pelo seu feito, atraiu a uma
armadilha um grupo de moudjahidin2, matou sete e expôs na praça municipal
dois feridos que a multidão por um pouco não linchou.
•<;

Eu já não saía de casa.

Seguiu-se um período de acalmia.

Voltei a pensar em Émilie. Sentia-lhe a falta. Por vezes, ima-ginava-a à


minha frente e falava com ela durante horas. Ignorar o que lhe tinha
acontecido torturava-me. Acabei por ir a casa de Krimo para saber se me
podia ajudar a encontrá-la. Estava disposto a tudo para voltar a vê-la.
Krimo recebeu-me friamente. Ba-lançava-se numa cadeira de balouço à
entrada do seu casebre, com uma cartucheira a tiracolo e a espingarda
pousada nas coxas.

— Abutre! — disse-me. — Ela ainda não acabou de chorar a sua morte e já


sonhas em possuí-la.

— Preciso de lhe falar.

— De quê? Ela foi clara contigo naquela noite. Não quer ouvir falar de
ti.

— O problema não é teu.

— Aí é que te enganas, rapaz. Émilie é um problema meu. Se alguma vez a


importunares, dou-te cabo do canastro.

— Disse-te alguma coisa a meu respeito?

— Não precisava de me contar fosse o que fosse. Estava lá quando ela te


mandou para o diabo, e isso basta-me.

Não havia grande coisa a esperar do homem.

Durante meses e meses, percorri os bairros de Orão na esperança de me


cruzar com Émilie. Ia às escolas, à saída das aulas; em parte alguma me
deparei com o Michel ou com a mãe entre os pais

1 Em França, a palavra designa correntemente os militares indígenas que


serviam em milícias (ou harka), ao lado dos Franceses, tendo passado a
designar, por extensão, os argelinos muçulmanos que, durante a guerra da
Argélia, defendiam a ligação da Argélia à República Francesa. Na Argélia,
o termo tor-nou-se sinónimo de traidor e colaborador. (N. da T.)

2 Combatentes de diversos movimentos de libertação nacional do mundo


muçulmano. (N. da T.)
274

O QUE O DIA DEVE À NOITE

dos alunos. Andava em volta dos mercados, dos armazéns Prisu-nic, dos
jardins públicos, dos souks; nenhum traço de Émilie. Quando começava a
desesperar, um ano contado desde a morte de Simon, ao passar por uma
livraria, pareceu-me entrevê-la por trás da montra. Fiquei sem fôlego.
Dirigi-me ao café em frente e esperei, escondido atrás de um pilar. A
hora do fecho, Émilie saiu da livraria e apanhou um eléctrico na esquina
da rua. Não me atrevi a subir com ela. Era sábado, e tive de roer as
unhas durante todo o domingo, um domingo interminável. Na segunda-feira,
logo pela manhã, lá estava eu no café da frente, atrás do mesmo pilar.
Émilie chegou cerca das nove horas, num fato de saia e casaco antracite,
com um lenço da mesma cor na cabeça. O coração compri-miu-se no peito
como uma esponja que se aperta. Mil vezes ganhei coragem para ir ter com
ela e mil vezes tal audácia me pareceu indecente e inoportuna.

Ignoro quantas vezes passei diante da livraria para a ver atender um


cliente, subir a um escadote para retirar um livro, manusear a caixa,
arrumar os livros, sem ousar empurrar a porta e entrar. O simples facto
de me assegurar da sua presença enchia-me de uma felicidade difusa, mas
palpável. Contentava-me em vivê-la à distância; um pouco como uma
miragem, temia fazê-la desaparecer se procurasse aproximar-me. Esta
situação durou mais de um mês. Desertara da farmácia, abandonara Germaine
à qual me esquecia de telefonar e passava as noites emfondouks miseráveis
para ir, todos os dias, observar Émilie do fundo do café.

Uma tarde, antes do fecho da livraria, como um sonâmbulo, saí do meu


esconderijo, atravessei a calçada e dei comigo a empurrar a porta
envidraçada da loja.

Não havia ninguém na livraria que a luz do dia abandonara. Um silêncio


frágil deixava planar uma doce quietude sobre as prateleiras carregadas
de livros. O meu coração batia desordenadamente; suava como se estivesse
febril. O candeeiro de tecto, apagado, por cima da minha cabeça, fazia
lembrar um cutelo prestes a cair. A dúvida fulgurou no meu espírito: que
ia fazer? Que ferida me preparava para reabrir? Crispei os maxilares para
a esmagar. Tinha de me decidir. Já não suportava formular as mesmas per-
EM1L1E

275

guntas, ruminar as mesmas angústias. O meu suor descobria que tinha


unhas, cujas arranhadelas me rasgavam a pele. Respirava profundamente,
para expulsar essa toxina que me empestava por dentro. Na rua, os
passantes e os carros misturavam-se num bailado desorganizado. As buzinas
esporeavam-me de um lado e do outro, tão aceradas como espadeiradas. A
espera era demorada, demorada... Decompunha-me. Uma voz murmurava Vai-te
embora... Abanava a cabeça para a calar. A obscuridade espalhara-se pela
loja, sublinhava delicadamente a envergadura dos expositores que se
dispunham ao sabor das pilhas de livros...

— Em que posso ajudá-lo?...

Ela estava atrás de mim, frágil, fantasmagórica. Dir-se-ia que saía da


penumbra, exactamente como na noite do drama, banhada dessa mesma noite a
tal ponto o seu vestido preto, os seus cabelos pretos, os seus olhos
pretos perpetuavam o luto que um ano inteiro não atenuara nada. Tive de
franzir os olhos para a distinguir. Agora que estava a um metro de mim,
reparei que mudara, que a sua beleza de outrora se retraíra, que era
apenas a sombra de uma época, uma viúva inconsolável que decidira
desistir porque a vida lhe retirara o que não podia devolver-lhe. Tive
imediata consciência do meu erro. Não era bem-vindo. Não era mais do que
uma faca na ferida. A sua rigidez, ou antes a sua impassibilidade glacial
desconcertou-me, e avaliei a extensão do erro que estava prestes a
cometer, acreditando reparar o que destruíra com as minhas próprias mãos.
E depois havia esse tratamento na terceira pessoa, peremptório,
desarmante, insuportável, que me catapultava para longe, para muito
longe, que quase me anulava, que me vilipendiava. Émilie detestava-me.
Creio que só sobrevivera à sua infelicidade para me detestar. Não
necessitava de mo dizer. O olhar encarregava-se disso. Um olhar
inexpressivo, que parecia surgir dos antípodas, mantendo-me à distância,
pronto para me rechaçar para o fim do mundo se tentasse encará-lo.

— Que deseja?
•;<

— Eu? — disse estupidamente.

— E quem mais poderia ser?... Veio na semana passada, na semana anterior


a essa, e quase toflos os dias. Qual é o seu jogo?
276

O QUE O DIA DEVE À NOITE

A garganta contraiu-se-me. Não conseguia engolir:

— Passava por aqui... Por acaso... Pareceu-me ver-te atrás da montra, mas
não tinha a certeza. Então, vim para me assegurar de que eras tu...

— E então?

— Bom, disse para comigo... não sei... Quis cumprimentar--te... enfim,


saber se estavas bem... falar contigo. Mas não tive coragem.

— Alguma vez tivestes coragem na vida?...

Sentiu que acabava de me magoar. Algo se agitou no fundo dos olhos


repletos de noite. Como uma estrela cadente que se apaga no momento em
que se acende.

— Então recuperaste o uso da fala. Desde o tempo em que não sabias o que
dizer... Querias falar comigo a que propósito?

Só os lábios se mexiam. O rosto, as mãos magras e pálidas entrelaçadas,


todo o seu corpo permanecia inabalável. Nem sequer eram palavras, mas
tão-somente um sopro que lhe saía da boca, semelhante a um sortilégio que
ganha força.

— Acho que escolhi mal a ocasião.

— Gostaria que não houvesse mais nenhuma. Desde que acabemos com isto.
Querias falar comigo de quê?

— De nós os dois — disse, como se os meus pensamentos tivessem decidido


exprimir-se, dispensando-me.

Um leve sorriso aflorou-lhe aos lábios.

— De nós os dois? E alguma vez fomos dois?

— Não sei por onde começar.

— Imagino.

— Não podes saber quanto lamento. Estou tão, tão... descul-par-me-ás


alguma vez?

— E o que é que isso modificaria?

— Emilie... estou tão desolado.

— São só palavras, Younes. É verdade que houve uma altura em que uma
palavra tua teria mudado o destino. Mas não ousaste pronunciá-la. Tens de
compreender que acabou tudo.

— O que é que acabou, Emilie?


— O que nunca começou realmente.
EMILIE

277

Estava aniquilado. Não conseguia acreditar que ainda me aguentava de pé,


com as minhas pernas cortadas, a minha cabeça que se estilhaçava em mil
bocados; já não ouvia bater o coração nem o sangue nas minhas têmporas.

Deu um passo em frente. Foi como se saísse da parede atrás de si.

— Esperavas o quê, Younes? Que eu ficasse extasiada, que me pusesse aos


saltos?... Porquê? Ter-te-ei esperado? É evidente que não. Nem sequer me
deste tempo de sonhar contigo. Agarraste o meu primeiro voo pela garganta
e torceste-lhe o pescoço. Assim mesmo!... O meu amor por ti morreu antes
de cair ao chão.

Mantinha-me calado. Tinha medo de desatar a soluçar se abrisse a boca.


Percebia o mal que lhe infligira, os estragos que fizera nas suas
esperanças, nos seus sonhos de rapariga, na sua felicidade pura e sã,
lutadora e legítima, natural e confiante, que, na época, conferia aos
seus olhos o brilho de todos os desejos felizes, de todas as belas
ilusões.

— Posso fazer-te uma pergunta, Younes?

Com a garganta apertada, só pude acenar com a cabeça.

— Porquê?... Porque me repeliste?... Se fosse por causa de outra, ter-te-


ias casado e eu teria compreendido. Mas continuas solteiro...

Uma lágrima aproveitou um momento de desatenção e conseguiu atravessar as


minhas pestanas e cair-me no rosto. Não tive coragem nem força para a
interceptar. Nenhum músculo me obedecia.

— ...Isso obcecava-me dia e noite — prosseguiu num tom monocórdico. —


Que tinha eu de repulsivo? Que falta cometera? Dizia para comigo: ele não
gosta de ti, é tão simples quanto isso. Não é obrigado a censurar-te seja
o que for. Não sente nada por ti... Não conseguia convencer-me. Tornaste-
te tão infeliz depois do casamento. E aí pensei: Younes esconde-me alguma
coisa...

— O que é que me escondes, Younes? O que é que não me queres dizer?

O dique cedeu; as lágrimas corriam em borbotões, caíam em cascata no meu


rosto, inundavam-me o queixo e o pescoço. Cho-
278

O QUE O DIA DEVE À NOITE

rava e sentia-me a expulsar os meus tormentos, os meus remorsos, os meus


perjúrios, como um furúnculo que liberta o seu mal. Chorava como uma
caterva de miúdos de tanto que desejava não parar de chorar.

— Vês? — disse ela. — Continuas a não querer dizer-me nada.

Quando ergui a cabeça, Émilie já não estava. Como se a parede atrás dela,
como se a penumbra que a velava a tivessem tragado. Na loja, só tinha
ficado o seu cheiro, que flutuava entre o dos livros e, de pé, a uma
distância de três estantes, duas senhoras idosas que me olhavam com
compaixão. Enxuguei a cara e saí da livraria com a sensação de que uma
bruma que emanava de parte alguma estava prestes a suplantar a luz do dia
que esmorecia.
18.

Eram dezanove horas nesse fim de Abril de 1959. O céu dei-xava-se lamber
pelas chamas do pôr-do-sol enquanto uma nuvem, órfã do seu rebanho, se
lamentava por cima da aldeia, imóvel, esperando que uma brisa de passagem
a levasse na sua esteira. Estava a arrumar caixas de papelão nas
traseiras da loja e prepa-rava-me para fechar. De regresso à sala,
descobri um jovem de pé na soleira da porta. Estava nervoso, com o casaco
dobrado como se escondesse alguma coisa.

— Não te quero fazer mal — tartamudeou em árabe.

Devia ter dezasseis ou dezassete anos. O rosto estava tão lívido que eu
distinguia claramente o buço por cima do lábio. Parecia um fugitivo.
Magro com um prego, vestia umas calças rasgadas nos joelhos, borzeguins
cobertos de terra e um lenço amarrotado à roda de um pescoço negro de
gretas.

— E hora de fechar, não é?

— Que queres?

Afastou com um gesto brusco o casaco e baixou-o: tinha uma grande pistola
debaixo do cinto. A visão da arma gelou-me o sangue.

— Quem me envia é El-Jabha, a Frente. Vais baixar os estores. Não te


acontecerá nada se fizeres o que te mando.

— Mas que história é esta?

— É a história da tua pátria, doutor.

Como eu hesitava, empunhou a arma e, sem ma apontar, in-timou-me a


apressar-me. Baixei os estores, com os olhos pregados ao cano da arma.
280

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Agora recua.

O seu medo rivalizava com o meu. Temendo que o seu nervosismo se


antecipasse às suas intenções, ergui as mãos para o acalmar.

— Acende a luz e, depois, fecha as portadas da janela. Obedeci. No


silêncio da divisão, o meu coração fazia lembrar o pistão de uma máquina
descontrolada.

— Sei que a tua mãe está no primeiro andar. Há mais alguém em casa?

— Estou à espera de convidados — menti.

— Esperá-los-emos os dois.

Assoou-se às costas da mão que empunhava a arma e, com a cabeça, fez-me


sinal para subir ao primeiro andar. Ainda não tinha subido quatro degraus
quando me enterrou o cano da pistola no flanco.

— Volto a dizer-te: não te acontecerá nada se fizeres o que te mando.

— Guarda a tua arma. Prometo-te que...

— Preocupa-te com a tua vida. E não te fies na minha idade. Outros não
tiveram tempo para o lamentar. Sou o emissário da Frente de Libertação
Nacional, que pensa que tu és de confiança. Não a desiludas.

— Posso saber o que me quer?

— Estamos em guerra, advirto-te.

Encostou-me contra a parede, no patamar, e pôs-se à escuta. O barulho da


louça que vinha da cozinha desencadeou-lhe tiques na face esquerda.

— Chama-a.

— E velha e está doente. Era melhor que escondesses a arma.

— Chama-a.

Chamei Germaine. Esperava que levasse as mãos à boca ou que gritasse;


reagiu com um sangue-frio que me deixou perplexo. A visão da pistola fê-
la apenas franzir o sobrolho.

— Vi-o sair dos campos — disse.

— Venho da mata — confessou o adolescente com uma ponta de orgulho que,


na sua boca, pretendia ser peremptória. — Vocês
ÉMILIE 281

os dois vão sentar-se no banco, ali no salão. Se o telefone tocar ou


alguém bater à porta, não respondem. Não há razão para terem medo.

Com o cano da pistola, indicou-nos uma poltrona. Germaine foi a primeira


a sentar-se e cruzou os braços sobre a barriga. A sua calma anquilosava-
me. Tentava não olhar para o meu lado, esperando sem dúvida que eu
fizesse o mesmo. O adolescente acoco-rou-se à nossa frente e fixou-nos
como se fôssemos dois móveis entre os outros. Parecia não se autorizar a
respirar. Não conseguia perceber o que lhe ia na cabeça; contudo, estava
aliviado por o ver menos ansioso do que quando chegara.

A noite mergulhou o salão na obscuridade. Com a pistola pousada numa coxa


e a mão por cima dela, o rapaz não se mexia. Só os olhos brilhavam no
escuro. Propus-lhe que acendesse a luz. Não respondeu. Ao cabo de algumas
horas, Germaine começou a agi-tar-se. Não eram sinais de nervosismo ou de
cansaço; tinha de ir à casa de banho e não se atrevia a pedir autorização
ao desconhecido, por pudor. Fui eu que o fiz. O rapaz emitiu dois «chiu!»

— Estamos à espera de quê? — perguntei.

Germaine deu-me uma ligeira cotovelada para eu ficar tranquilo. Um clarão


iluminou as trevas antes de se afastar, voltando a mergulhar a aldeia
numa opacidade que me pareceu mais compacta. Sentia a transpiração gelar
nas minhas costas; oprimia-me uma vontade louca de soltar a minha camisa
colada à pele; a imobilidade do desconhecido dissuadiu-me.

Os ruídos da aldeia tornaram-se mais espaçados. Um último zumbido rugiu


algures e afastou-se, após o que um silêncio ensurdecedor se apoderou das
ruelas e dos campos. Cerca da meia--noite, um projéctil ricocheteou na
portada da janela. O rapaz apressou-se a perscrutar as trevas através dos
vidros; voltou-se para Germaine e mandou-a abrir a porta de baixo.
Enquanto Germaine descia apressadamente os degraus em direcção à loja,
encostou o cano da pistola à minha nuca e obrigou-me a avançar até à
escada.

— Minha senhora, se gritar, abato-o.

— Compreendido — retorquiu Germaine.


282

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Levantou o trinco da porta de entrada: ouviu-se imediatamente uma


confusão no rés-do-chão. Quis saber o que se passava, mas a pistola
esmagou-me a cabeça contra a parede.

Germaine voltou a subir. Eu via vagamente silhuetas vacilantes no vão da


escada. «Acende a luz, palerma!» rosnou uma voz rouca. Germaine accionou
o interruptor; a lâmpada do patamar iluminou quatro homens armados que
tentavam desajeitadamente transportar um coipo numa padiola improvisada.
Reconheci Jel-loul, o antigo criado de André. Vestia uma farda em mau
estado, trazia uma metralhadora ao ombro e botas a pingar de lama. Em-
purrou-me para o lado e ajudou os outros três a subir os degraus e a
pousar o fardo ao pé da poltrona, no salão. Sem se interessar por nós,
pediu aos companheiros que deitassem o corpo na mesa com todo o cuidado.

— Podem ir embora — ordenou-lhes. — Juntem-se à unidade. Laoufí fica


comigo. Não vale a pena virem-nos buscar. Se houver chatices, desenrasco-
me.

Os três homens desceram a escada e saíram. Em silêncio. Ig-norando-nos. O


rapaz retirou o cano da pistola da minha nuca e empurrou-me para o salão.

— Obrigado, miúdo — disse-lhe Jelloul. — Foste perfeito. Agora põe-te a


andar.

— Mantenho-me por aqui?

— Não. Volta para onde tens de ir.

O rapaz fez-lhe a continência e retirou-se. Jelloul piscou-me o olho:

— Estás bem?

Não soube o que lhe dizer.

— Torna-te útil. Vai fechar a porta à chave.

Germaine implorou-me com os olhos. Desta vez estava pálida, e o seu rosto
condensava-se em torno de um torpor tardio, mas grave. Fui fechar o
trinco. Quando voltei, Jelloul estava a despir o corpo deitado na mesa,
retirando-lhe um velho casaco de comando ensanguentado.

— Se ele morrer, quem o vai acompanhar para o outro mundo és tu —


ameaçou-me calmamente. — Este homem vale mais do
EMILIE

283

que a minha própria vida. Apanhou com uma bala no peito num recontro com
a polícia. Muito longe daqui, fica tranquilo. Trago-te para que lhe tires
essa porcaria que ele tem no corpo.

— Com quê? Não sou cirurgião. H;

— És doutor, não és?


r

— Farmacêutico.

— Estou-me nas tintas. A tua vida dependerá da dele. Não fiz todo este
caminho para ele me morrer nos braços.

Germaine travou-me com o braço.

— Deixa-me auscultá-lo. ; *-;

— Ora aí está uma pessoa sensata — disse Jelloul.

Germaine debruçou-se sobre o ferido e afastou cuidadosamente a camisa


manchada de sangue; o ponto do impacte situava--se por cima do seio
esquerdo, imperceptível sob a camada ocre e coagulada que o cercava. A
ferida era feia e complicada.

— Perdeu muito sangue.

— Nesse caso, não percamos tempo — atalhou Jelloul. — Laoufi — disse ele
ao companheiro, — vais ajudar a senhora. — Dirigindo-se a mim,
acrescentou — Laoufi é o nosso enfermeiro. Desce à farmácia com ele e
arranja o que for necessário para operar o capitão. Tens com que
desinfectar a ferida e os utensílios necessários à extracção da bala?

— Trato eu disso... — disse Germaine — Jonas não será de nenhuma


utilidade. E, faça favor, nada de armas no meu salão. Preciso de
trabalhar com serenidade... O seu enfermeiro pode ficar. Mas você e o meu
filho...

— Era exactamente o que eu contava fazer, minha senhora. Germaine


procurava defender-me. Sentia-a a revolver céus e

terra para conservar o sangue-frio, e a minha presença indispunha--a. Eu


não percebia como iria ela resolver a situação. Nunca tocara num bisturi.
Que lhe passava pela cabeça? E se o ferido morresse? Os seus olhos áridos
perturbavam-me, queriam afastar-me o mais possível do salão, custasse o
que custasse. Transmitia-me coisas que eu não conseguia descodificar.
Tinha medo por mim, era evidente, punha-se à frente para me poupar. Mais
tarde, viria a con-fessar-me que teria ressuscitado um cadáver para me
salvar.
284

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Vão para a cozinha comer qualquer coisa. Estarei mais à vontade sem
vocês nas minhas costas.

Jelloul anuiu com um aceno. Levei-o à cozinha; abriu o frigorífico,


serviu-se de uma pratada de batatas cozidas, queijo, fatias de carne
fumada, fruta, uma garrafa de leite, e pousou tudo na mesa, ao lado da
metralhadora.

— Posso comer um pedaço de pão?

— À tua direita. No armário.

Apoderou-se de um enorme cacete, deu-lhe uma dentada e esparramou-se numa


cadeira; comia com uma voracidade espantosa, saltando de uma peça de
fruta para um pedaço de queijo e de uma batata para uma fatia de carne
sem os distinguir.

— Morro de fome — disse, com um arroto sonoro. — As coisas correm-te bem,


não é?... A guerra não te diz respeito. Continuas a viver na maior
enquanto arriscamos o coiro no mato... Quando é que escolhes o teu campo?
Um dia tens mesmo de te decidir...

— Não gosto da guerra.

— Não se trata de gostar ou de não gostar. O nosso povo re-volta-se. Está


farto de comer e calar. É evidente que tu, com o cu entre duas cadeiras,
podes manobrar à vontade. Pões-te do lado que te dá jeito.

Tirou um canivete do bolso e cortou uma rodela de queijo vermelho.

— Tens visto o André?

— Nos últimos tempos, raramente.

— Dísseram-me que organizou uma milícia com o pai.

— Exacto.

— Estou ansioso por tê-lo à minha frente... Espero que saiba que fugi?

— Não sei.

— Não falaram da minha evasão cm Rio?

— Eu não estava ao corrente.

— Foi um milagre. Cortaram-me a cabeça e ela voltou a crescer. Acreditas


no destino, Jonas?

— Não sinto que tenha um destino.


ÉMILIE 285

— Eu acredito. Imagina que, durante a minha transferência para a prisão


de Orléansville, um pneu rebentou e a carrinha celular embicou para
dentro de um fosso. Quando voltei a abrir os olhos, estava estendido numa
moita. Levantei-me, caminhei e, como ninguém me perseguiu, continuei.
Belisquei-me até fazer sangue para ter a certeza de que não estava a
sonhar. É um sinal do céu, não é?

Afastou a comida, foi ver como as coisas se estavam a passar no salão,


esquecendo-se deliberadamente da metralhadora na mesa, e regressou.

— Está abalado, mas é forte. Vai safar-se. É preciso que se safe!...


Senão... —Não acabou a frase, e mediu-me antes de mudar de tom. — Tenho
fé. Quando acabámos com os guardas, não sabia para que lado me havia de
voltar com o corpo do meu responsável nos braços. E eis que o teu nome
ecoou na minha cabeça. Juro--te que o ouvi. Olhei para trás. Ninguém. Não
me esforcei por compreender. Há duas noites que atravessamos os bosques.
Até os cães se calavam quando passávamos. Não é extraordinário?

Afastou a metralhadora com um gesto falsamente distraído.

— Caí muitas vezes em emboscadas. Nem uma vez me atingiram. Acabei por me
tornar fatalista. A minha hora só chegará quando Deus decidir. Não tenho
de ter medo nem dos homens nem dos raios... E tu, de que tens medo? A
Revolução vai bem. Ganhamos em todas as frentes, incluindo no
estrangeiro, o povo apoia-nos, a opinião internacional também. O grande
dia não vai tardar. De que estás à espera para te juntares a nós?

— Vais matar-nos?

— Não sou um assassino, Jonas. Sou um combatente. Estou disposto a


sacrificar a vida pela pátria. E tu, que tens para lhe oferecer?

— A minha mãe pouco sabe de cirurgia.

— Eu tão-pouco, mas é preciso que alguém a faça. Sabes quem é o capitão?


E Sy Rachid, o «incapturável Sy Rachid» de que falam os jornais. Vi
combatentes, mas nenhum com o seu carisma. Muitas vezes nos deixámos
apanhar como ratos, mas ele aparecia como por encanto, e livrava-nos de
apuros com um estalido dos dedos. É único. Não quero que morra. A
Revolução precisa dele.
286

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— De acordo, mas se as coisas correrem mal, que farás connosco?

— Miserável! Só pensas em salvar a pele. A guerra que ceifa centenas de


vidas por dia não te atinge. Abater-te-ia como um cão, se não estivesse
em dívida para contigo... A propósito, podes ex-plicar-me porque não
consigo chamar-te Younes?

Não gritara nem batera na mesa; atingira-me com o seu desapontamento, com
simplicidade, desdenhosamente. Estava demasiado exausto para se esforçar.
Contudo, o desprezo que eu suscitava nele era incomensurável e reavivava
em mim uma cólera tão grande como a que me infligira a rejeição de Jean-
Chris-tophe.

O enfermeiro bateu à porta da cozinha antes de entrar. Estava todo suado.

— Ela conseguiu.

— Louvado seja Deus — disse Jelloul, com desenvoltura. Esticou os braços


na minha direcção. — Vês? Até o destino está do nosso lado.

Ordenou ao enfermeiro que me vigiasse e apressou-se a ir ter com o


ferido. O enfermeiro perguntou-me se havia qualquer coisa para comer.
Mostrei-lhe o frigorífico e o armário. Pediu-me que recuasse até à janela
e que não tentasse nenhuma esperteza. Era um rapaz frágil, ainda
adolescente, com a cara purpúrea e penugenta. Vestia uma camisola
desemalhada, grande demais para ele, umas calças de caça apertadas na
cintura com uma corda de cânhamo e sapateiras enormes e grotescas que lhe
davam um ar de gato das botas. Não se aproximou do frigorífico e limitou-
se a devorar os restos que estavam na mesa.

Jelloul chamou-me. O enfermeiro fez-me sinal para sair da cozinha e


seguiu-me com o olhar até eu desaparecer no corredor. Prostrada na
poltrona, Germaine tentava recuperar, com o peito a palpitar sob o
corpete inundado de saví. O ferido continuava deitado na mesa, com o
dorso nu envolto numa ligadura. A sua respiração fanhosa rangia no
silêncio da divisão. Jelloul mergulhou uma compressa numa pequena bacia
com água e começou a mo-lhar-lhe o rosto. Os seus gestos eram
respeitosos.
EMILIE

287

— Iremos ficar uns dias em vossa casa até o capitão recuperar forças —
anunciou Jelloul. —Amanhã, abrem a farmácia sem nada mudar nos vossos
hábitos. A senhora ficará connosco no primeiro andar. As compras és tu
que as fazes. Sais e entras quando quiseres. Se detectar a mínima
anomalia, não preciso de te dizer o que farei. Só pedimos hospitalidade,
entendes? Esforça-te por estar à altura agora que te ofereço a
oportunidade de servir a causa do teu povo.

— Encarrego-me da farmácia e das compras — propôs Ger-maine.

— Prefiro que seja ele... De acordo, Jonas?

— O que é que me prova que nos deixam vivos, quando se forem embora?
«;

— És francamente desesperante, Jonas. >

— Eu tenho confiança — interveio Germaine.

Jelloul sorriu. Era o mesmo sorriso que me endereçara no seu lugarejo


perdido por trás do atalho dos dois marabutos; uma mistura de esgar
desdenhoso e de piedade. Tirou um pequeno revólver do bolso das calças e
pô-lo na minha mão.

— Está carregado. Só tens de pressionar o gatilho. O frio do metal


eriçou-me as costas.

Germaine ficou verde. Os dedos agarraram-se ao vestido a ponto de o


rasgar.

— Queres que te diga o que penso, Jonas? Partes-me o coração. É preciso


ser-se um merdas para passar ao lado de um grande destino.

Pegou no revólver e voltou a guardá-lo no bolso.

O ferido gorgolejou e mexeu-se. Devia ter a minha idade, ou talvez mais


uns anos. Era louro, bastante alto, com os músculos finos e bem
desenhados. Uma barba arruivada dissimulava os traços do rosto golpeado
na testa, de sobrancelhas grossas e nariz encurvado, com a aresta tão
afiada como uma lâmina. Agitou-se novamente, estendeu uma perna e tentou
virar-se de lado; este último movimento arrancou-lhe um grito e
despertou-o. No momento em que abria os olhos, reconheci-o, apesar dos
anos e dos estragos causados pelas vicissitudes: Ouari!... Era Ouarf, o
meu «sócio» de outrora, que me
288

O QUE O DIA DEVE À NOITE

ensinara a arte da camuflagem e da caça aos pintassilgos, em Jenane Jato.


Envelhecera precocemente, mas o olhar permanecia intacto: sombrio,
metálico, impenetrável. Um olhar que eu nunca esqueceria. Ouari emergiu
de uma profunda inconsciência porquanto, como o meu rosto não lhe dizia
nada, teve um reflexo de autodefesa, agarrou-me pela garganta e puxou-me
violentamente para si, dando um golpe de rins doloroso para se erguer.

— Estás num lugar seguro, Sy Rachid — murmurou Jelloul. Ouari não pareceu
compreender. Olhou para o companheiro de armas, levou algum tempo a
reconhecê-lo e continuou a apertar-me a garganta. Germaine veio em meu
socorro. Jelloul intimou-a a voltar para onde estava e, suavemente,
explicou a situação ao seu oficial. Os dedos na minha garganta recusaram-
se a soltá-la. Comecei a ter falta de ar, aguardei pacientemente que o
ferido recuperasse o conhecimento. Quando me largou, sentia picadas nas
têmporas.

O oficial deixou-se cair na mesa. O braço tombou no vazio, balouçou uns


instantes e imobilizou-se.

— Recua — ordenou-me o enfermeiro que chegara a correr, alertado pelos


meus gemidos.

Examinou o ferido, tomou-lhe o pulso...

— Desmaiou, é tudo. Agora é preciso deitá-lo numa cama. Necessita de


descansar.

Os três resistentes ficaram em nossa casa cerca de dez dias. Eu


continuava a trabalhar como se nada se passasse. Temendo que alguém
próximo aparecesse de imprevisto, Germaine telefonou à família de Orão
para lhes anunciar que iria a Colom-Béchar, no deserto, e que lhes
voltaria a telefonar quando regressasse. Laoufi, o enfermeiro, instalara
o capitão no meu quarto e mantinha-se à sua cabeceira dia e noite. Eu
dormia no escritório do meu tio, num velho canapé. Jelloul vinha muitas
vezes troçar de mim. Sentia muito rancor, e a minha atitude para com a
guerra do nosso povo pelo acesso à independência repugnava-o. Eu sabia
que esperava uma simples palavra minha para me arrastar com ele;
portanto, ca-lava-me. Um dia, enquanto eu lia um livro, Jelloul disse-me,
depois de compreender que eu não estava disposto a conversar:
ÉMILIE

289

— A vida é como nos filmes: há actores que alimentam a história, e


figurantes que se incorporam no cenário. Esses estão lá, mas não
interessam a ninguém. Fazes parte desse grupo, Jonas. Posso não te querer
mal, mas tenho pena de ti.

O meu mutismo enervou-o; gritou:

— Como é que há pessoas que se dão ao luxo de olhar para outro lado
quando o mundo serve de espectáculo?

Levantei os olhos para ele e recomecei a ler. Arrancou-me o livro das


mãos e atirou-o contra a parede:

— Estou a falar contigo!

Apanhei o livro e voltei para o canapé. Voltou a tentar arrancá-lo das


minhas mãos; desta vez, apanhei-o pelo pulso e em-purrei-o. Surpreendido
com a minha reacção, Jelloul observou--me estupefacto e resmungou:

— És um cobarde. Não vês o que se passa nas nossas aldeias bombardeadas


com napalm, nas prisões onde se guilhotinam os nossos heróis, nas matas
onde recolhemos os pedaços dos nossos mortos, nos campos onde os nossos
militantes sobrevivem miseravelmente. Que tipo de energúmeno és, Jonas?
Não compreendeste que um povo inteiro combate pela sua redenção?

Não lhe respondi.

Bateu-me na cabeça com a palma da mão. ; • .

— Não me toques — disse-lhe.

— Uau! Vou fazer nas calças... És um cobarde, nada mais que um cobarde.
Bem podes franzir o sobrolho ou contrair as nádegas que é tudo o mesmo.
Pergunto-me o que me impede de te estrangular.

Pousei o livro, levantei-me e postei-me à sua frente.

— Que sabes tu da cobardia, Jelloul? Quem é que a incarna, em teu


entender? O homem desarmado com uma pistola na têmpora ou o que ameaça
dar-lhe um tiro?

Olhou-me com repugnância.

— Não sou cobarde, Jelloul. Não sou surdo nem cego, e não sou de pedra.
Se queres saber, nada nesta terra me entusiasma a partir de agora. Nem
sequer a espingarda que autoriza quem a empunha a tratar as pessoas com
desprezo. Não foi a humilhação que te obrigou a andares com armasT Porque
é que hoje és tu a impô-la?
290

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Estremeceu de raiva, lutou para não me agarrar pela garganta e, depois de


ter cuspido aos meus pés, saiu, batendo com a porta.

Não voltou a importunar-me. Quando nos cruzávamos no corredor, afastava-


se de mim enojado.

Durante a estadia, Jelloul impediu-me de me aproximar do capitão. Quando


eu tinha necessidade de alguma coisa, o enfermeiro encarregava-se disso.
Eu indicava-lhe o sítio onde guardava este ou aquele objecto, e ele
trazia-mo. Só uma vez, ao sair da casa de banho, pude entrever o doente
pela porta entreaberta. Estava sentado na cama, com uma ligadura limpa à
volta do tórax, de costas para mim. Lembrara-me dos anos de Jenane Jato
quando o considerava o meu protector e amigo, da sua gaiola suja de
excrementos, das nossas caçadas aos pintassilgos na mata por trás da
praça do souk, e depois, de repente, o meu coração crispara-se ao
recordar o olhar vazio que me lançara enquanto o diabo do Daho me
torturava com a sua serpente. A vontade de lhe dizer quem era, que me
queimava a ponta da língua desde que o reconhecera, es-vaiu-se
naturalmente.

No último dia, os três resistentes tomaram banho, barbearam--se,


guardaram as fardas lavadas e os sapatos limpos num saco, vestiram a
minha roupa e juntaram-se no salão. O meu fato era demasiado largo para o
enfermeiro que não parava de se olhar ao espelho, atónito com o seu
aspecto. Os três tentavam dissimular o seu nervosismo, Jelloul com o fato
que eu comprara para o casamento de Simon, o capitão com o que Germaine
me oferecera uns meses antes. Cerca do meio-dia, depois de ter almoçado,
Jelloul ordenou--me que estendesse lençóis brancos na balaustrada, ao
longo da varanda. Ao cair da noite, acendeu e apagou três vezes a luz na
divisão que dava para os pomares. Quando um clarão brilhou no fundo das
trevas, por trás do mar de vinhas, mandou-me levar o enfermeiro às
traseiras da loja e dar-lhe todos os medicamentos e embalagens de
material de que teria necessidade. Arrumámos três caixas de papelão na
bagageira do carro e voltámos ao primeiro andar onde o capitão, ainda
pálido, calcorreava o corredor, com um ar pensativo.

— Que horas são? — perguntou Jelloul.

— Dez menos um quarto — disse eu.


EMILIE

291

— Chegou o momento. Vais levar-nos de carro e seguir a direcção que te


indicarei.

Germaine, que se mantinha à distância no salão, entrecruzou os dedos numa


prece e encolheu o pescoço. Tremia. O enfermeiro aproximou-se dela e deu-
lhe uma pancadinha no ombro. «Vai tudo correr bem, minha senhora. Não se
inquiete.» Germaine encolheu--se ainda mais por trás das suas mãozinhas.

O capitão e o enfermeiro ocuparam o banco de trás, com as armas aos pés.


Jelloul instalou-se ao meu lado, sem parar de puxar pela gravata. Abri as
portas da garagem que Germaine fechou depois da nossa partida e conduzi
com todas as luzes apagadas até à cave Kraus, defronte do snack de André.
Havia muitas pessoas no bar e no pátio. Chegavam-nos aos ouvidos risos e
gritos. De repente, tive medo que Jelloul tentasse ajustar contas com o
ex--patrão. Mas ele contentou-se com um trejeito e, com o queixo,
indicou-me a saída de Rio. Acendi os faróis e mergulhei na noite.

Tomámos pela estrada asfaltada de Lourmel, bifurcámos antes de chegar à


aldeia e subimos para a praia Terga por um atalho onde se podia circular.
Uma motocicleta esperava-nos numa via de acesso. Reconheci o adolescente
que fora à farmácia no primeiro dia, com o seu revólver. Deu meia volta e
avançou à nossa frente a toda a velocidade.

— Conduz devagar — ordenou Jelloul. — E não tentes apanhá-lo. Se o vires


regressar, apaga os faróis e volta por onde vieste.

O motociclista não voltou a aparecer.

Ao cabo de uns vinte quilómetros, vi-o na berma da estrada. Jelloul


mandou-me estacionar aí e desligar o motor. Dos bosques surgiram
silhuetas armadas de espingardas, com sacos ao ombro. Uma delas puxava os
freios de uma mula muito magra. Os meus passageiros saíram do carro e
foram ao seu encontro; trocaram abraços breves. O enfermeiro voltou,
mandou-me ficar atrás do volante e apressou-se a abrir a bagageira do
carro. Carregaram as caixas de medicamentos e de material na mula. A
seguir, Jelloul mandou-me embora com um aceno. Não me mexi. Iam deixar-me
partir sem mais nem menos, são e salvo, correndo o risco de eu os
denunciar na primeira barragem? Tentei captar o olhar de Jelloul;
292

O QUE O DIA DEVE À NOITE

já tinha virado as costas e seguia atrás do capitão, a quem eu não ouvira


uma única palavra depois da noite onde por pouco não me estrangulara. A
mula trepou por um atalho, agarrou-se com dificuldade ao cimo de uma
rocha e desapareceu. Atrás dela, as silhuetas penetraram nos bosques e
deram as mãos umas às outras para escalarem um flanco da colina.
Desapareceram na natureza. Pouco tempo depois, já só ouvia a brisa a
murmurar na folhagem.

A minha mão recusava-se a pegar na chave de contacto. Tinha a certeza de


que Jelloul se escondera muito perto, com a espingarda apontada, à espera
de ouvir o barulho do motor para cobrir o seu disparo.

Precisei de uma hora para admitir que tinham mesmo partido.

Meses mais tarde, descobri uma carta sem selo e sem destinatário entre a
minha correspondência. No interior, uma folha arrancada de um caderno de
escola enumerava uma lista de medicamentos. Não havia mais nenhuma
indicação. Comprei os medicamentos em questão e arrumei-os numa caixa de
cartão. Laoufi veio buscá-los na semana seguinte. Eram três horas da
manhã quando um projéctil acertou nas portadas da minha janela. Ger-maine
ouvira-o; dei com ela no corredor, envolta no roupão. Não dissemos nada
um ao outro. Viu-me descer para as traseiras da loja. Entreguei a caixa
ao enfermeiro, voltei a fechar a porta da entrada e subi para o meu
quarto. Esperava que Germaine me viesse repreender; voltou para o quarto
e fechou a porta à chave.

Laoufi veio cinco vezes buscar caixas. Da mesma maneira: um envelope


virgem metido na minha caixa de correio durante a noite, lá dentro uma
lista de medicamentos garatujada num bocado de papel e, de vez em quando,
uma encomenda de material: seringas, algodão, compressas, tesouras,
estetoscópio, garrotes, etc. Um projéctil contra a janela. O enfermeiro
na soleira da porta. Germaine no patamar.

Uma noite recebi um telefonema. Jelloul mandava-me ir ter com ele ao


local onde o deixara com o capitão e o enfermeiro. Ao ver-me tirar o
carro da garagem de manhã cedo, Germaine fez o sinal da cruz. Dei-me
conta de que deixáramos de falar um com
ÉMILIE

293

o outro... Jelloul não estava no local do encontro. Telefonou-me quando


cheguei a casa e pediu-se que voltasse ao mesmo sítio. Desta vez, tinha
um pastor à minha espera, com uma mala cheia de notas aos pés. Ordenou-me
que escondesse o dinheiro até alguém o vir buscar. A mala ficou comigo
quinze dias. Jelloul telefonou-me um domingo a encarregar-me de
transportar a «encomenda» para Orão e de esperar, sem sair do carro,
diante de uma pequena carpintaria, por trás da cervejaria BAO. Fiz o que
me mandou. A carpintaria estava fechada. Um homem passou à minha frente,
voltou a passar, deteve-se e, mostrando-me a coronha de uma pistola
escondida debaixo do casaco, mandou-me sair do carro. «Volto dentro de
quinze minutos», disse, saltando para trás do volante. O carro foi-me
devolvido um quarto de hora depois.

Esta segunda vida continuou durante todo o Verão e todo o Outono.

A última vez que Laoufi apareceu em minha casa, estava mais nervoso do
que era habitual. Sempre a olhar de esguelha para as vinhas, atirou com
os medicamentos para uma mochila que pôs aos ombros e lançou-me um olhar
que eu não lhe conhecia. Quis dizer-me qualquer coisa, mas não conseguia
engolir; erguendo-se na ponta das sapatorras, beijou-me o alto da cabeça
em sinal de respeito. O seu corpo tremia nos meus braços. Já passara um
pouco das quatro da manhã, e o céu começava a clarear. Seria o romper do
dia que o enervava? Laoufi não estava bem, visivelmente atormentado por
um pressentimento. Saudou-me e apressou-se a desaparecer no meio dos
vinhedos. Vi-o mergulhar na escuridão, ouvi o ranger das folhas que
traíam o seu rasto decrescente. No céu, a lua fazia lembrar uma apara de
unha. Um vento hesitante soprou por intermitências antes de se deitar no
chão.

Sem acender a luz no meu quarto, sentei-me na borda da cama, com a


intuição em estado de alerta... Disparos dilaceraram o silêncio da noite
e todos os cães das redondezas se puseram a ladrar.

De madrugada, bateram-me à porta. Era Krimo, o ex-moto-rista de Simon.


Estava no passeio, com as pernas afastadas, as mãos nas ancas, a
espingarda uebaixo do ombro. O rosto irradiava
294

O QUE O DIA DEVE À NOITE

um júbilo doentio. Seis homens armados, auxiliares, estavam de pé na


calçada, à volta de um carrinho de mão com um corpo ensanguentado. O de
Laoufí. Reconheci-o pelas sapatorras grotescas e pelo saco rasgado
pousado no peito.

— Um/ê// — disse Krimo. — Um porco de um/ê// a cheirar mal... Foi o


cheiro que o traiu.

Avançou um passo.

— Interrogava-me o que andava a fazer na minha aldeia, este fell. Quem


era? De onde vinha?

Empurraram o carrinho na minha direcção. A cabeça do enfermeiro balançava


por cima da roda, com uma parte do crânio arrancada. Krimo pegou no saco
e atirou-mo aos pés; os medicamentos espalharam-se pelo passeio.

— Só há uma farmácia em Rio, Jonas, a tua. E de repente, compreendi tudo.

Juntando o gesto à palavra, espetou-me a coronha da espingarda no queixo.


Senti o rosto a despedaçar-se no uivo de Ger-maine e tombei num abismo.

Fecharam-me numa enxovia nauseabunda, no meio de ratos e baratas. Krimo


queria saber quem era o «fellaga», há quanto tempo eu o abastecia de
produtos farmacêuticos. Eu respondia que não o conhecia. Ele mergulhava-
me a cabeça num alguidar cheio de água suja, chicoteava-me com um
pingalim entrançado; eu repetia obstinadamente que o «fell» nunca fora à
minha casa. Krimo enfurecia-se, cuspia em cima de mim, dava-me pontapés.
Não me arrancava nada. Entregou-rne a um velho descarnado, com uma cara
cinzenta comprida e uns olhos penetrantes. O velho começou por me dizer
que me compreendia, que, na aldeia, tinham a certeza de que eu não tinha
nada a ver com os «terroristas», que eles me tinham forçado a colaborar.
Eu continuava a negar em bloco. Os interrogatórios encadearam-se, uns com
ciladas, outros com pancada. Krimo esperava pela noite para voltar à
carga e me torturar. Eu aguentava.

De manhã, a porta abriu-se, deixando entrar Pépé Rucillio.

Vinha acompanhado de um oficial em farda de combate.


EMILIE

295

— Ainda não acabámos com ele, senhor Rucillio.

— Está a perder o seu tempo, tenente. É um triste mal-enten-dido. Este


rapaz é vítima de uma coincidência infeliz. O seu coronel também está
convencido do mesmo. Pense bem, eu nunca protegeria um fora-da-lei.

— O problema não é esse.

— Não há problema nenhum, nem haverá — prometeu-lhe o patriarca.

Devolveram-me a roupa.

Lá fora, no pátio empedrado do que parecia ser um quartel, Krimo e os


seus homens viam-me fugir-lhes entre os dedos, despeitados, ultrajados.
Compreendiam que o patriarca venerado de Rio Salado pleiteara a minha
inocência junto das mais altas autoridades do sector militar, que se
apresentava como fiador.

Pépé Rucillio ajudou-me a entrar no carro e arrancou. Saudou o soldado de


sentinela à saída do recinto e conduziu o seu potente carro de tracção à
frente para um atalho.

— Espero não estar a cometer o erro da minha vida — disse. Não respondi.
Tinha a boca amassada e os olhos tão inchados que mal conseguia mantê-los
abertos.

Pépé não disse mais nada. Sentia-o vacilar entre a dúvida e o caso de
consciência, entre o seu empenho a meu favor e a inconsistência dos
argumentos que fornecera ao coronel para me ilibar de suspeitas e me
devolver a liberdade. Pépé Rucillio não era só um notável; era uma lenda,
uma autoridade moral, uma personagem tão imensa como a sua fortuna, mas
tinha, em relação às sumidades que colocavam a honra acima de todas as
outras considerações, a fragilidade de um monumento em porcelana. Podia
dispor de tudo como lhe aprouvesse; a sua credibilidade tinha o valor de
qualquer documento oficial. Entre os influentes da sua condição, cujo
nome bastava para acalmar os espíritos e pôr termo aos debates mais
tempestuosos, tinha-se direito a liberalidades, a loucuras ocasionais, e
beneficiava-se de impunidade em certas situações, embora não se tivesse
acesso a nenhuma circunstância atenuante quando se tratava da palavra
dada. Se alguma vez viesse a revelar-se infundada, não era possível
nenhuma margem de ma-
296

O QUE O DIA DEVE À NOITE

nobra. Agora que se apresentara como meu fiador, interrogava-se


seriamente se tinha agido bem, e isso abalava-o profundamente.

Levou-me à aldeia e largou-me em frente de casa. Não me ajudou a descer


do carro e deixou-me sair sem me prestar atenção.

—A minha reputação está em jogo, Jonas — resmungou com desdém. — Se vier


a saber que és um refinado simulador, encar-rego-me pessoalmente da tua
execução.

Ignoro onde fui buscar forças para lhe perguntar:

— Jean-Christophe?

— Isabelle!

Acenou com a cabeça e acrescentou:

— Não lhe recuso nada, mas se ela se enganou a teu respeito, renegá-la-ei
imediatamente.

Germaine veio buscar-me ao passeio. Evitou qualquer crítica.


Contentíssima de me ver vivo, apressou-se a preparar-me um banho e
comida. A seguir, tratou-me as feridas, tapou as mais graves com
compressas e meteu-me na cama.

— Foste tu que telefonaste à Isabelle? — perguntei-lhe.

— Não... Foi ela que telefonou.

— Está em Orão. Como terá sabido?

— Em Rio sabe-se tudo.

— Que lhe contaste?

— Que tu não tinhas nada a ver com esta história.

— E ela acreditou evidentemente?

— Não lhe perguntei.

As minhas perguntas tinham-na magoado. Em particular, a forma como as


fizera. A frieza do meu tom, a censura que subentendia reduziram a
alegria de me recuperar são e salvo a uma decepção difusa que não tardou
a transformar-se numa cólera surda. Lançou-me um olhar de aversão. Foi a
primeira vez que me olhou dessa maneira. Compreendi que o cordão que me
ligava a ela se estava a desfazer, que a senhora que tinha sido tudo para
mim — minha mãe, minha fada-madrinha, minha irmã, minha cúmplice, minha
confidente e minha amiga —já só via em mim um estrangeiro.
I

i 19.

O Inverno de 1960 foi tão agreste que as nossas preces gelavam; tê-las-
íamos ouvido cair do céu e despedaçar-se no chão como pedras de gelo.
Como se a monotonia envolvente não bastasse para obscurecer os nossos
pensamentos, enormes nuvens também colaboravam; lançavam-se como falcões
sobre o céu, empanturrando-se dos raros raios de luz que se esperava
fornecessem alguma aberta aos nossos espíritos entorpecidos. A atmosfera
estava carregada de tormentos; as pessoas já não tinham ilusões: a guerra
descobria uma vocação, e os cemitérios alas extorquidas.

Em casa, as coisas complicavam-se. Os silêncios de Ger-maine afligiam-me.


Não gostava de a ver passar por mim sem me olhar, partilhar a refeição
com os olhos fixos no prato, esperar que eu acabasse de comer para
levantar a mesa e retirar-se para o quarto sem dizer palavra. Fazia-me
infeliz mas, ao mesmo tempo, não sentia necessidade de me reconciliar com
ela. Não tinha forças para isso. Tudo me cansava, me repugnava. Recusava-
me a ser razoável, pouco me importava se estava errado; queria apenas o
canto obscuro no fundo do qual me proibia de reflectir no que devia
fazer, de pensar no que fizera, de saber se tinha agido mal ou bem.
Sentia-me amargo como uma raiz de loureiro-rosa, descontente e furioso
contra qualquer coisa que não desejava definir. Por momentos, as
grosserias de Krimo explodiam-me na cabeça; sur-preendia-me a imaginar as
piores sevícias para ele, depois desis-
298 O QUE O DIA DEVE À NOITE

tia e deixava que o vazio se instalasse. Não sentia ódio; já não sentia
cólera; estava persuadido de que o meu ser estava tão saturado que uma
baforada de ar em excesso o faria rebentar.

Nas minhas horas de sossego, pensava no meu tio. Não lhe sentia a falta.
Contudo, a ausência que deixara atrás de si recordava-me aquelas que me
amputavam. Sentia que não tinha nenhum apoio a que me pudesse agarrar,
que flutuava lentamente numa bolha sufocante, que eu próprio era uma
bolha à mercê do mais insignificante raminho. Precisava de reagir;
sentia-me a deslizar, a desintegrar-me lentamente. Portanto, invocava o
meu morto. A sua recordação suplantava as minhas, o seu fantasma
rechaçava as infelicidades que me tinham atingido. Far-me-ia falta,
afinal? Sentia-me tão só que estava quase a desaparecer, como uma sombra
engolida pelas trevas. Enquanto esperava que as minhas contusões se
tornassem menos evidentes, calafetava-me no seu escritório e dedicava-me
apaixonadamente à leitura dos seus escritos — uma dezena de cadernos e de
livros repletos de notas, de críticas, de citações de escritores e de
filósofos de todo o mundo. O meu tio também escrevera um diário que
descobri por acaso debaixo de um arsenal de recortes de imprensa no fundo
da sua secretária. Os seus escritos falavam da Argélia dos oprimidos, do
movimento nacionalista e das aberrações humanas que reconduziam a
essência da vida a uma vulgar relação de forças, a uma lamentável e
estúpida vontade por parte de alguns de sujeitar os outros. O meu tio era
uma pessoa de grande cultura, um erudito e um sábio. Recordava-me do
olhar que me lançava quando fechava os seus cadernos; um olhar sublime,
que irradiava uma inteligência comovente. «Queria que os meus textos
fossem úteis às gerações vindouras», tinha-me dito. «Será o teu quinhão
de posteridade», achara por bem elogiá-lo. O meu tio retorquira: «Nunca a
posteridade suavizou a opressão das campas. Tem apenas o mérito de
moderar o nosso medo da morte pois não existe terapia mais apropriada
para a nossa inexorável fínitude do que a ilusão de uma bela
eternidade... No entanto, existe uma que tem muita importância para mim:
a memória de uma nação esclarecida. É a única posteridade que me faz
sonhar.»
EMILIE

299

Quando, da minha varanda, olhava para longe e não via nada no horizonte,
interrogava-me se haveria vida depois da guerra.

André Sosa veio visitar-me uma semana depois da intervenção de Pépé


Rucillio. Estacionou o carro em frente das vinhas e fez-me sinal para
descer. Disse-lhe que não com a cabeça. Abriu a porta e saiu do carro.
Vestia um enorme casaco bege aberto sobre a barriga e botas de couro que
lhe chegavam aos joelhos. Pelo seu sorriso aberto, percebi que vinha em
paz.

— Vamos dar uma volta na minha carripana?

— Estou bem onde estou.

— Então eu subo.

Ouvi-o cumprimentar respeitosamente Germaine no vestíbulo e depois abrir


a porta do meu quarto. Antes de ir ter comigo à varanda, relanceou o
olhar pela minha cama por fazer, pelos livros empilhados na mesa-de-
cabeceira e aproximou-se da chaminé sobre a qual se empinava o cavalo de
madeira que Jean-Christophe me oferecera no dia a seguir à sova que me
dera na escola, numa vida anterior.

— Bons velhos tempos, hem, Jonas?

— O tempo não tem idade, Dédé. Nós é que envelhecemos.

— Tens razão, excepto não seguirmos o exemplo do vinho que produzimos;


não melhorámos com a passagem das estações.

Apoiou os cotovelos, ao meu lado, e passeou o olhar pelas vinhas.

— Na aldeia, ninguém pensa que estejas metido nesta história dos


fellagas. Krimo foi além das marcas. Vi-o ontem e disse--lho cara a cara.

Virou-se para mim, evitando olhar demoradamente para as nódoas negras que
me desfiguravam.

— Lamento não ter vindo mais cedo. j

— E isso teria alterado alguma coisa?

— Não sei... E que tal ires comigo a Tlemcen? Orão tornou--se inabitável
com as suas matanças quotidianas, e apetece-me mudar de ares. Em Rio,
tudo me entristece.

— Não posso.

— Não demoraremos multo. Conheço um restaurante...


300

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Não insistas, Dédé. ' Acenou com a


cabeça.

— Compreendo. Mas não aprovo. Não é bom ficares aí a ruminar o teu


rancor.

— Não sinto rancor. Tenho necessidade de estar só.

— Incomodo-te?

Voltei a olhar para longe para não responder.

— É uma loucura o que nos está a acontecer — suspirou, pousando de novo


os cotovelos na varanda. — Quem teria imaginado que o nosso país iria
descer tão baixo?

— Era previsível, Dédé. Havia um povo deitado no chão, sobre o qual se


caminhava como se de um relvado se tratasse. Mais dia, menos dia, ele
havia de se mexer. É inevitável que comecemos a perder o pé.

— É mesmo isso que pensas? <


Desta vez, fui eu que o olhei de frente:

— Dédé, até quando vamos continuar a mentir um ao outro? Levou o punho à


boca e soprou para dentro, reflectindo nas

minhas palavras.

— É verdade, havia coisas que não corriam bem, mas daí a desencadear uma
guerra tão violenta, já não concordo. Fala-se em centenas de milhares de
mortos, Jonas. É demasiado, não achas?

— É a mim que perguntas?

— Estou totalmente perdido. Não me recomponho. O que se passa em Argel


ultrapassa o entendimento. E Paris já não sabe para que lado se há-de
virar. Fala-se mesmo em autodeterminação. E o que é exactamente a
autodeterminação? Apaga-se tudo e reco-meça-se com bases equitativas? Ou
então...

Não ousou terminar a frase. A sua inquietação transformou--se em cólera;


as articulações dos dedos ficaram brancas à força de estrangular as suas
obsessões.

—Afinal, para nossa infelicidade, ele não compreendeu ponta de um corno,


esse maldito general — disse ele, aludindo ao famoso «Je vous ai compris»
lançado por de GauUe aos habitantes de Argel no dia 4 de Junho de 1958,
que entusiasmara as multidões e concedera uma prorrogação às ilusões.
EMILIE

301

Uma semana depois, no dia 9 de Dezembro de 1960, Rio Sa-lado em peso


deslocou-se a Ain Témouchent, uma cidade vizinha, onde o general tinha
uma reunião que o cura baptizara «missa da última oração». Os boatos
haviam preparado as pessoas para o pior, mas isso não lhes convinha. O
temor fazia-os cerrar fileiras, refor-çava-lhes os antolhos; recusavam-se
a ver as bermas das realidades sentenciosas, os amanhãs irremediáveis.
Ouvira-os, de madrugada, a retirarem os carros das garagens, a formarem
colunas, a interpe-larem-se aos gritos, a lançarem piadas uns aos outros,
a gritarem alto para dominar essa voz consternadora que os impedia de
dormir e que lhes repetia, sem tréguas e sem descanso, que os dados, bem
como o destino, estavam lançados. Por muito que rissem às gargalhadas,
que erguessem a voz, que fingissem ter ainda uma palavra a dizer e não
estarem dispostos a baixar os braços, via-se bem que o seu fervor não se
aguentava, que a postura que ostentavam não era credível, que o seu olhar
perdido se dissociava totalmente da segurança que exibiam. Mantendo o
moral e salvando as aparências, esperavam reconduzir o destino à razão,
forçá-lo, provocar o milagre. E esqueciam que a contagem decrescente se
iniciara e que já não havia nada a recuperar, porque era preciso ser-se
cego para continuar a avançar na noite de todas as utopias, à espera de
uma aurora que já rompera sobre uma outra era e que eles se obstinavam a
aguardar no sítio onde ela já não existia.

Fui dar uma volta nas ruas desertas. A seguir, fui ao outro lado do
cemitério israelita enfrentar as ruínas calcinadas da casa na qual tivera
a minha primeira experiência sexual. Um cavalo tasqui-nhava na erva,
perto da antiga estrebaria, nada atento às derivas humanas. Sentei-me no
muro e lá fiquei, até ao meio-dia, a reinventar a silhueta da Sra.
Cazenave: tudo o que vi foi o carro de Simon a arder e Emilie a apertar o
filho contra o seu corpo meio despido.

Os carros regressaram de Ain Témouchent. Tinham partido belicosamente, de


manhã, petardeando e buzinando, com a bandeira tricolor a adejar.
Regressavam da reunião como de uma câmara ardente, num mutismo de cortejo
fúnebre, com as bandeiras enroladas e os rostos virados para baixo. Um
manto de aço abateu-
302 O QUE O DIA DEVE À NOITE

-se sobre a aldeia. Todos os rostos exibiam o luto de uma esperança


condenada havia muito e que se tinha tentado incensar com volutas de
fumo. A Argélia será argelina.

No dia seguinte, na fachada de uma cave vitícola, uma mão triunfante


traçou, a tinta vermelha, um imenso FLN.

Orão sustinha a respiração nessa Primavera de 1962. Eu procurava Émilie.


Tinha medo por ela. Tinha necessidade dela. Amava-a e regressava para lho
provar. Sentia-me capaz de enfrentar furacões, trovões, todos os
anátemas, e as misérias do mundo inteiro. Já não suportava a sua falta.
Já não suportava estender a mão para ela e só encontrar a sua ausência na
ponta dos meus dedos. Dizia para comigo: Vai repelir-te, dizer-te
palavras muito duras, fazer com que o céu te caia na cabeça; isso não me
dissuadia. Já não temia faltar aos juramentos, esmagar a alma no aperto
do meu punho; já não temia ofender os deuses, incarnar o opróbrio até ao
fim dos tempos. Na livraria, disseram-me que Émilie saíra uma tarde e
nunca mais dera sinal de vida. Lembrara-me do número do eléctrico que ela
apanhara, aquando da minha última passagem, descera em todas as paragens,
calcorreara todas as ruas por onde o eléctrico passava. Reconhecera-a em
cada mulher na sua lide diária, em cada silhueta que desaparecia na
esquina de uma avenida, à entrada de um edifício. Perguntava por ela nas
mercearias, nas esquadras de polícia, junto dos moços de fretes, e nem
uma única vez, apesar dos meus fins de dia inglórios, pensara que estava
a perder o meu tempo. Mas onde a encontrar numa cidade em estado de
sítio, numa arena a céu aberto, no meio do caos e da fúria dos homens? A
Argélia argelina nascia a ferros numa enxurrada de lágrimas e de sangue;
a Argélia francesa morria em sangrias torrenciais. E as duas, retalhadas
por sete anos de guerra e de horror, embora completamente esgotadas,
ainda arranjavam forças para se dilacerarem uma à outra como nunca. Os
diits de barricadas, decretados em Argel em Janeiro de 1960, não tinham
abrandado o curso inflexível da História. O golpe de Estado dos generais,
lançado por um quarteirão de secessionistas em Abril de 1961, limi-tou-se
a precipitar os dois povos numa tormenta surrealista. Os mi-
EMILIE

303

litares eram ultrapassados pelos acontecimentos; disparavam sem distinção


sobre civis, rechaçando a carga de uma comunidade para cederem perante o
ímpeto da outra. Os «ludibriados» pelas manobras de Paris — isto é, os
defensores da ruptura definitiva com a mãe-pátria, a França — pegavam em
armas e juravam recuperar, palmo a palmo, a Argélia que lhes confiscavam.
As cidades e aldeias afundavam-se no pesadelo dos pesadelos. Atentados
ripostavam a atentados, represálias a assassínios, raptos a raides de
comandos. Desgraçado do europeu que fosse visto com um muçulmano,
desgraçado do muçulmano que confraternizasse com um europeu. Linhas de
demarcação dividiam as comunidades em ilhotas que, por instinto gregário,
se fechavam sobre si mesmas, de sentinela dia e noite nas suas
fronteiras, não hesitando em linchar o imprudente que se enganasse na
morada. Todas as manhãs, descobriam--se corpos sem vida contorcidos nas
calçadas; todas as noites, espectros entregavam-se a terríveis batalhas
campais. Os graffiti nas paredes evocavam epitáfios. No meio dos «Votem
sim», dos «FLN», dos «Viva a Argélia francesa», espalharam-se, sem dizer
água-vai, as três iniciais do Apocalipse: OAS, a Organização Armada
Secreta, nascida da agonia das colónias, da recusa do facto consumado,
que iria cavar um pouco mais o fosso das perdições, mesmo nas profundezas
dos infernos.

Émilie volatilizara-se, mas eu estava decidido a ir buscá-la aos confins


dos limbos. Sentia-a muito perto, ao alcance da mão; acreditava
convictamente que me bastava erguer uma cortina, empurrar uma porta,
afastar um basbaque para dar com ela. Estava como louco. Não via as poças
de sangue nos passeios nem as marcas de balas nas paredes. A desconfiança
das pessoas não me atingia. A sua hostilidade, o seu desprezo, por vezes
os seus insultos, atravessavam-me de um lado ao outro sem abrandar os
meus passos. Só pensava nela, os seus olhos eram o meu único horizonte;
ela era o destino que eu escolhera; o resto não tinha importância.

Fabrice Scamaroni surpreendeu-me a aventurar-me numa cidade que fedia a


ódio e morte. Parou o carro ao meu lado, gritou--me que entrasse depressa
e arrancou precipitadamente. «És louco ou quê? Este sítio é
perigosíssimo...» «Estou à procura de Emi-
304

O QUE O DIA DEVE À NOITE

lie...» «E como esperas encontrá-la se tu próprio não sabes em que sítio


pões os pés? Este bairro é pior que um campo minado, caramba!»

Fabrice não sabia onde estava Emilie. Nunca o fora ver ao jornal. Haviam-
se cruzado uma vez em Choupot, meses antes. Pro-meteu-me procurar pelo
seu lado.

Em Choupot, indicaram-me um edifício no boulevard Lau-rent-Guerrero. A


porteira confirmou que a senhora em questão vivera no segundo andar antes
de mudar na sequência de uma matança.

— Não deixou uma morada para onde pudessem mandar a correspondência?

— Não... Se a memória não me falha, creio que disse ao homem das mudanças
que a levasse a Saint-Hubert.

Batera a todas as portas em Saint-Hubert. Sem êxito. Onde estaria ela?


Onde se esconderia? A cidade estava de pernas para o ar. O cessar-fogo de
19 de Março de 1962 desencadeou a catástrofe nos últimos focos de
resistência. As facas lutavam com as metralhadoras; as granadas
substituíam as bombas; as balas perdidas provocavam carnificinas. E
Emilie recuava enquanto eu avançava através do fumo e do odor da
cremação. Teria sido morta? Levada por uma deflagração, pelo ricochete de
uma bala? Esvaíra-se em sangue num vão de escada? Orão não poupava
ninguém, ceifando vidas às braçadas, sem se preocupar com velhos ou
crianças, mulheres ou simples de espírito que vagabundeavam entre as suas
alucinações. Estava lá quando aqueles dois automóveis armadilhados na
Tahtaha fizeram uma centena de mortos e dezenas de mutilados entre a
população muçulmana de Médine J'dida; estava lá quando se retiraram
dezenas de cadáveres de europeus das águas poluídas do Petit Lac; estava
lá quando um comando da OAS efectuou um raide na prisão da cidade para
pôr na rua os prisioneiros da FLN e executá-los à vista da multidão;
estava lá quando sabo-tadores dinamitaram os depósitos de combustível no
porto e asfixiaram a marginal durante dias com espessas fumaradas negras;
e dizia para comigo que Emilie devia estar a ouvir as mesmas detonações,
a viver as mesmas convulsões, a sentir o mesmo medo que
EMILIE

305

eu, e não compreendia por que motivo os nossos caminhos se evitavam, por
que motivo o azar, a providência, a fatalidade — enfim, qualquer má sorte
— nos fazia talvez roçar nos ombros um do outro, no meio dessa massa de
degenerescência, sem que nos déssemos conta. Estava furioso contra os
dias que fugiam em todas as direcções, ocultando as pistas que levavam a
Emilie, furioso de desembocar em todas as espécies de cenários, de
encontrar todas as espécies de indivíduos, de atravessar barracas de
tiro, becos perigosos, matadouros, açougues, sem entrever um vestígio, um
fragmento de vestígio, uma ilusão de vestígio susceptível de me ajudar a
chegar a Emilie, de pensar que ela ainda estava viva enquanto um vento de
pânico soprava sobre a comunidade europeia. Nas caixas de correio,
encomendas estranhas lançavam o pânico nas famílias. Começara a estação
da mala ou caixão. As primeiras partidas para o exílio efectuavam-se numa
anarquia indescritível. Os carros esmagados sob as bagagens e os soluços
precipitavam-se para o porto e as aerogares, outros em direcção a
Marrocos. Os retardatários esperavam vender os bens para se irem embora;
na precipitação, cediam lojas, casas, automóveis, fábricas, sucursais por
tuta-e-meia; por vezes, já nem se esperava pelos compradores, nem sequer
havia tempo para fechar a mala.

Em Rio Salado, as portadas batiam freneticamente; as janelas estavam


abertas para casas vazias. Fardos disformes amontoa-vam-se nos passeios.
Muitos habitantes tinham partido; os restantes não sabiam para que lado
se haviam de virar. Um velhote em péssimo estado cambaleava à entrada de
sua casa, o corpo roído pelo reumatismo. Um homem novo tentava ajudá-lo a
andar enquanto o resto da família se impacientava na carrinha a
abarrotar. «Teriam podido esperar que eu morresse», dizia o velhote numa
voz trémula. «E agora onde vou morrer?» Na avenida principal, camiões,
carros, carroças evacuavam a localidade. Na estação, uma multidão
desnorteada aguardava um comboio cruelmente atrasado. As pessoas corriam
de um lado para o outro, perdidas, de olhar transtornado, como os cegos
no meio da natureza, abandonados pelos seus santos e anjos-da-guarda. A
demência, o medo, a tristeza, o naufrágio, a tragédia tinham um único
rosto: o delas.
306 O QUE O DIA DEVE À NOITE

Germaine estava sentada na soleira da farmácia, com a cabeça entre as


mãos. Os nossos vizinhos já se tinham ido embora; os cães deles andavam
às voltas por trás do gradeamento.

— Que devo fazer? — perguntou-me.

— Ficas — disse-lhe. — Ninguém levantará a mão contra ti.

Abracei-a. Teria podido agarrá-la na palma da mão, tão minúscula ela me


pareceu nesse dia. Era só tristeza e aflição, torpor e abatimento,
derrota e incerteza. Tinha os olhos vermelhos de choro e de medo. As
pernas entrechocavam-se sob o peso de mil interrogações. Beijei-a nas
faces a escorrerem lágrimas, na testa estriada de rugas, na cabeça
fracturada por tristes pensamentos. Tinha nas minhas mãos toda a
consternação do mundo... Fi-la subir ao primeiro andar e voltei a descer
a rua. A Sra. Lambert erguia as mãos para o céu e deixava-as cair nas
coxas. «Para onde hei-de ir? Para onde hei-de ir? Não tenho filhos nem
família em parte alguma do mundo.» Pedi-lhe que entrasse em sua casa. Não
me ouviu e continuou a monologar. Ao fundo da rua, os Ravirez corriam de
um lado para o outro, com as malas às costas. Na praça do município,
famílias reclamavam autocarros, com as bagagens espalhadas pelo chão. O
presidente da câmara esforçava-se por as acalmar, em vão. Por seu lado,
Pépé Rucillio mandava-as voltar para casa e esperar que as coisas se
recompusessem. «Estamos em nossa casa, aqui. Não iremos para parte
alguma.» Ninguém o ouvia.

André Sosa estava só no seu snack aberto de par em par. No meio das mesas
partidas, do balcão destruído, dos espelhos rachados. O pavimento
resplandecia de pedaços de vidro e de cacos de loiça. Os candeeiros do
tecto pendiam miseravelmente por cima da devastação, com as lâmpadas
estilhaçadas. André, jogava ao bilhar. Não me prestou atenção. Não
prestava atenção a nada. Espalhava um pouco de giz na ponta do taco,
pousava os cotovelos na beira da mesa e visava uma bola imaginária. Não
havia bolas na mesa e o forro estava rasgado. André não se importava.
Fazia pontaria à bola que só ele via, e batia com o taco nela. Depois le-
vantava-se, seguia com o olhar a trajectória da bola e, quando mar-
II

EMILIE

307

cava um ponto, brandia um punho vitorioso e ia postar-se do outro lado da


mesa. De vez em quando, aproximava-se do balcão, dava uma fumada no
cigarro, pousava-o no cinzeiro e retomava o jogo.

— Dédé — disse-lhe, — não deves ficar aqui.

— Estou em minha casa — vociferou, batendo na bola.

— Agora mesmo, ao voltar de Orão, vi quintas em chamas.

— Daqui não saio. Estou à espera deles.

— Sabes muito bem que não é sensato.

— Daqui não saio, é o que te digo.

Continuou a jogar, voltando-me as costas. O cigarro apagou--se; acendeu


outro, depois mais outro, até amachucar exasperadamente o maço vazio. O
sol punha-se; a obscuridade invadia sorrateiramente o bar. André jogou
mais uma vez, e ainda mais uma vez, antes de largar o taco e se sentar no
chão ao pé do balcão. Puxou os joelhos até ao queixo, cruzou os dedos
atrás da nuca. Deixou-se ficar assim um bom bocado, após o que se ouviu
um gemido. André chorava copiosamente, com a cabeça nos joelhos e as mãos
na nuca. Depois limpou a cara num pedaço da camisa e le-vantou-se. Foi ao
pátio buscar latas de gasolina, borrifou com elas o balcão, as mesas, as
paredes, o pavimento, acendeu um fósforo e deixou que as chamas se
espalhassem pela sala. Peguei-lhe no cotovelo e empurrei-o para fora.
Plantou-se no pátio e observou, alucinado, o seu estabelecimento a
desfazer-se em fumo.

Quando as chamas devoraram o tecto, André dirigiu-se ao carro. Sem uma


palavra. Sem me olhar. Ligou o motor, destravou e encaminhou-se
suavemente para a saída da aldeia.

No dia 4 de Julho de 1962, um Peugeot 203 parou diante da farmácia. Dois


homens de fato e óculos escuros ordenaram-me que os acompanhasse. «São só
formalidades», disse-me um em árabe com um forte sotaque cabila. Germaine
estava doente, deitada no seu quarto. «Não demorará muito tempo»,
prometeu-me o motorista. Sentei-me no banco de trás. O carro manobrou
para dar meia volta. Deixei cair a cabeça no encosto. Passara a noite à
cabeceira de Germaine; estava muito fatigado.

Rio assemelhava-se ao fim de uma época, esvaziado da sua substância,


entregue a um novo destino. A bandeira tricolor, que
308

O QUE O DIA DEVE À NOITE

ornava o frontão da câmara, havia sido retirada. Na praça, camponeses em


turbantes rodeavam um orador de pé no bocal do repuxo. Discursava-lhes em
árabe e eles escutavam-no solenemente. Alguns europeus, muito poucos,
rasavam os muros, incapazes de deixar as suas terras, os seus cemitérios,
as suas casas, o café onde se faziam e desfaziam amizades, as suas
alianças, os seus projectos, o seu pedaço de pátria onde assentava o
essencial da sua razão de ser.

O dia estava bonito, com um sol grande como a dor dos que partiam, imenso
como a alegria dos que regressavam. As cepas pareciam ondular nas
reverberações, e as miragens ao longe confundiam-se com o mar. Havia
quintas a arder em alguns locais. O silêncio que pesava sobre a estrada
dava a impressão de se recolher sobre si mesmo. Os meus dois
acompanhantes permaneciam calados. Só lhes via a nuca erecta, as mãos do
motorista no volante, e o relógio rutilante no pulso do seu vizinho.
Atravessámos Lourmel como quem atravessa um sonho indefinível. Também aí
aumentavam os ajuntamentos em torno de tribunos inspirados. Bandeiras
verdes e brancas com um crescente e uma estrela vermelho-sangue
confirmavam o nascimento de uma nova república, de uma Argélia devolvida
aos seus.

À medida que nos aproximávamos de Orão, carcaças de automóveis passaram a


balizar as bermas da estrada. Algumas calcinadas, outras pilhadas, com as
portas arrancadas e a capota aberta. Fardos, malas, cofres espalhavam-se
nas redondezas, des-ventrados, amolgados, com roupa presa nas silvas e
objectos abandonados na estrada. Também havia vestígios de agressão,
sangue na poeira, pára-brisas quebrados por barras de ferro. Muitas
famílias foram interceptadas nos caminhos do exílio e massacradas. Muitas
tinham-se metido pelos pomares e tentavam chegar à cidade a pé.

Orão estava em efervescência. Milhares de crianças perse-guiam-se nos


descampados, metralhavam com pedras os carros que passavam, cantavam a
plenos pulmões a sua própria libertação. As ruas formigavam de pessoas,
de multidões jubilosas. Os edifícios vibravam sob o ulular das mulheres
com véus como au-
EMILIE

309

riflamas e ressoavam com o ribombar de bendirs1, de tambores, de


derboukas2, de buzinas tonitruantes e de cantos patrióticos.

O Peugeot entrou na caserna Magenta onde o Exército de Libertação


Nacional, que entrara recentemente na cidade, estabelecera o seu estado-
maior. Estacionou à frente de um edifício. O motorista pediu à sentinela
que informasse o «tenente» da chegada do «seu hospedeiro».

O pátio do quartel pululava de homens fardados, de velhos em gandouras e


de civis.

— Jonas, meu bom Jonas, que prazer voltar a ver-te! Jelloul acolheu-me de
braços abertos à entrada do edifício.

O tenente era ele. Vestia uma farda de pára-quedista, um quico de mato,


óculos escuros e não tinha galões. Abraçou-me até me tirar o fôlego antes
de me afastar para me examinar da cabeça aos pés.

— Pareces mais magro... Como vão as coisas?... Pensei muito em ti nos


últimos tempos. És um homem instruído, respondeste presente quando a
pátria te chamou, e interroguei-me se gostarias de pôr o teu saber e os
teus diplomas ao serviço da nossa jovem república. Não és, obrigado a
responder imediatamente. Aliás, não te fiz vir cá por isso. Tinha uma
dívida para contigo, e decidi pagá--la hoje mesmo, pois amanhã será outro
dia, e quero renascer para o mundo livre de tudo. Senão como queres tu
que saboreie a minha liberdade absoluta, com credores no meu encalço?

— Não me deves nada, Jelloul.

— É simpático da tua parte, mas não faço tenções de te ficar a dever. Não
me esqueci do dia em que me deste dinheiro e me levaste à minha aldeia na
tua bicicleta. Para ti, talvez não tenha tido a mínima importância. Para
mim, foi uma revelação: acabava de descobrir que o Árabe, o belo Árabe, o
Árabe digno e generoso não era nem uma velha mitologia nem o que o colono
fizera dele...

1 Tambor circular, em pele de carneiro ou cabrito, com cerca de 50 cm de


diâmetro. (N. da T.)

2 Tambor do Norte de África, de pele estendida sobre um cilindro de


terracota. (N. da T.)
310

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Não tenho instrução suficiente para te explicar o que se passou na minha


cabeça nesse dia, mas mudou a minha vida. Agarrou-me no braço.

— Vem comigo.

Levou-me a uma construção revestida de portas em ferro. Percebi que se


tratava de calabouços. Jelloul meteu uma chave numa fechadura, puxou um
ferrolho exterior e disse-me:

— Foi o mais feroz militante da OAS, implicado em diversos actos


terroristas. Revolvi o céu e a terra para lhe salvar a pele. En-trego-to.
Assim, ter-te-ei pago a minha dívida... Vá, abre a porta e diz-lhe que
está livre, que pode deixar-se enforcar onde bem quiser menos aqui, no
meu país onde já não há lugar para ele.

Fez-me a continência, rodou sobre os calcanhares e regressou ao seu


gabinete.

Não percebi onde queria chegar, ignorava de quem ele estava a falar. A
minha mão pousou na maçaneta da porta e empurrou-a suavemente. Os gonzos
rangeram. A luz do dia derramou-se no interior da cela sem janela,
evacuando uma vaga de calor como quando se abre um forno. Uma sombra
agitou-se num canto. Inicialmente ofuscada, levou a mão à testa para se
proteger da luz súbita.

— Pira-te daqui — gritou-lhe um guarda no qual eu não reparara.

O prisioneiro mexeu-se penosamente, apoiou-se na parede para se levantar.


Mal conseguia ter-se nas pernas. Quando avançou para a saída, o meu
coração deu um salto no peito. Era Jean-Chris-tophe, Jean-Christophe
Lamy, ou antes o que restava dele, um homem alquebrado, esfomeado, a
tiritar na sua camisa nojenta, com as calças rotas e a cair, a braguilha
aberta, os sapatos sem atacadores. Uma barba de vários dias devorava-lhe
o rosto emagrecido e macilento como a lâmina de uma faca. Cheirava a
urina e suor, e as comissuras da boca desapareciam sob uma crosta de
saliva branca seca. Lançou-me um olhar sombrio, surpreendido de me
encontrar ali, e, superando o estado de degradação em que tombara, tentou
levantar o queixo, mas estava demasiado exausto. O guarda agarrou-o pelo
pescoço e arrancou-o da cela, encolerizado.

— Deixa-o em paz — disse eu ao guarda.


EMILIE

311

Jean-Christophe mediu-me um instante e depois, antes de se dirigir para a


saída do quartel, disse:

— Não te pedi nada.

E afastou-se. A coxear. Enquanto se afastava, eu não podia deixar de


pensar no que tínhamos partilhado, no tempo das ino-cências em flor, e
uma tristeza insuportável invadiu-me. Obser-vei-o a caminhar, de costas
curvadas, com o passo incerto; para mim, era uma vida inteira que se
extinguia debaixo dos meus olhos, e disse para comigo que, se as
histórias que a minha mãe me contava outrora me deixavam sempre um gosto
a inacabado, era porque acabavam exactamente como a época que Jean-
Christophe escolhera para sua sombra e que transportava, agora, no
arrastar plangente dos seus sapatos em direcção sabia-se lá de que
destino.

Caminhara pelas ruas em júbilo, no meio de cantos e ululos, sob as


bandeiras verdes e brancas e na confusão dos eléctricos em festa. No dia
seguinte, 5 de Julho, a Argélia teria bilhete de identidade, emblema e
hino nacional, e milhares de referências para reinventar. Nas varandas,
as mulheres entregavam-se à alegria e aos soluços. Os garotos dançavam
nas praças, tomavam de assalto esteias, repuxos, candeeiros de rua,
tejadilhos de carros, desciam as avenidas como se fossem cascatas. Os
seus gritos suplantavam fanfarras e clamores, sirenes e discursos; já
estavam no amanhã.

Fui ao porto observar a partida dos banidos. Os cais estavam inundados de


passageiros, de bagagens, de lenços de adeus. Paquetes aguardavam o
momento de levantar a âncora, vacilando sob a mágoa dos expatriados.
Havia famílias que se procuravam na balbúrdia, crianças que choravam,
velhos que dormiam em cima dos seus fardos, aterrados, pedindo no sono
para não voltar a acordar. Apoiado numa balaustrada que dava para o
porto, pensava em Émilie que talvez lá estivesse, algures na vasta massa
desamparada que se acotovelava às portas do desconhecido, ou que talvez
já tivesse partido, ou morrido, ou ainda estivesse ocupada ajuntar os
seus pertences por trás desses imóveis de aspecto marcial, e fiquei
debruçado no porto durante a noite, até ao nascer do dia, incapaz de
absorver a ideia de que aquilo que não começara realmente tinha mesmo
acabado.
>f\h

íkWé IV Aix-en-Provence (hoje)


SENHOR... O rosto angélico da hospedeira do ar sorri-me. Porque me sorri?
Onde estou?... Tinha dormitado. Após um instante de incerteza, dou-me
conta de que estou num avião branco como um bloco operatório, que as
nuvens que desfilam através do postigo não têm nada a ver com o Além. E
tudo me vem à memória: Emilie morreu. Faleceu na segunda-feira no
hospital de Aix-en-Provence. Foi Fa-brice Scamaroni que me informou, há
uma semana.

— Queira endireitar as costas do assento, senhor. Aterraremos em breve.

As palavras abafadas da hospedeira ecoam surdamente na minha cabeça. Que


assento?... O meu vizinho, um adolescente num fato de treino com as cores
da equipa argelina de futebol, mostra--me o botão em questão e ajuda-me a
ajustar as costas do assento.

— Obrigado — digo.

— De nada, tiozinho. Vive em Marselha?

— Não.

— O meu primo espera-me no aeroporto. Se quiser, podemos deixá-lo em


qualquer sítio.

— É muito simpático, mas não vale a pena. Também me esperam.

Contemplo a sua nuca rapada em conformidade com os imperativos de uma


moda louca, o tufo de cabelos poupado à volta da testa, que se mantém de
pé graças a uma espessa camada de gel.

— Tem medo de andar de avião? — pergunta-me.


316

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Nem por isso.

— O meu pai não pode ver um avião aterrar sem esconder a cara atrás das
mãos.

— A esse ponto?

— Vê-se bem que não o conhece. Vivemos num nono andar do bairro Jean de
la Fontaine, em Gambetta. Está a ver onde é, em Orão? Esses
paralelepípedos gigantescos que viram as costas ao mar. Ora bem, oito
vezes em cada dez, o meu pai prefere não apanhar o elevador. Mas já tem
idade. Tem cinquenta e oito anos, e foi operado à próstata.

— Com cinquenta e oito anos não é assim tão velho quanto isso.

— Eu sei, mas é assim lá em casa. Não dizemos o pai, dizemos o velho...


Quantos anos tem, tiozinho?

— Nasci há tanto tempo que já esqueci a idade que tenho. O avião engolfa-
se nas nuvens; breves turbulências agitam-

-no enquanto afocinha. O meu jovem vizinho dá-me palmadinhas nas costas
da mão agarrada ao encosto dos braços:

— Não é nada, tiozinho. É que estamos a sair do corredor para a pista. Os


aviões são o que há de mais seguro em matéria de transporte.

Volto-me para o postigo, vejo as nuvens penugentas tornarem--se avalanche


e a seguir bruma, adelgaçarem, regressarem em força, estenderem-se
novamente antes de diminuírem; o azul do céu reaparece, esfolado por
rastos fibrosos. Que vim procurar aqui?... A voz do meu tio cobre o
zumbido dos motores: Se queres fazer da tua vida um elo de eternidade e
manteres-te lúcido até no meio do delírio, ama... Ama com todas as tuas
forças, ama como se não soubesses fazer mais nada, ama até causares
inveja a príncipes e deuses... porque é no amor que qualquer fealdade
ostenta uma beleza própria. Foram as últimas palavras do meu tio. Tinha--
mas dito no seu leito de morte, em Rio Salado. Ainda hoje, cerca de meio
século depois, a sua voz de moribundo ecoa em mim como uma profecia: Quem
passar ao lado da mais bela história da sua vida só terá a idade dos seus
remorsos, e nem todos os suspiros do mundo poderão embalar-lhe a alma...
Será para esconjurar ou para afrontar essa verdade que me aventuro para
tão longe do meu território predilecto?... O avião inclina-se para o
lado, dando uma gui-
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

317

nada, e a terra de França aparece-me de súbito, vinda do nada. O coração


estremece-me no peito e uma mão invisível comprime--me a garganta. A
emoção é tal que sinto os meus dedos atravessarem o revestimento do
encosto de braços... As montanhas rochosas não tardam a devolver-me os
reflexos do dia. Sentinelas eternas e inflexíveis, velam a costa, nada
impressionadas com o mar agitado que se rebela a seus pés. A seguir,
depois da viragem, Marselha!... Semelhante a uma vestal a bronzear-se ao
sol. Reclinada nas colinas, refulgente de luz, com o umbigo à vista e as
ancas oferecidas aos quatro ventos, finge dormitar, falsamente desatenta
aos rumores das vagas e aos que lhe chegam do interior. Marselha, a
cidade lendária, a terra dos titãs convalescentes, o abrigo provisório
dos deuses sem Olimpo, a encruzilhada providencial dos horizontes
perdidos, múltipla porque inesgotável de generosidade; Marselha, o meu
último campo de batalha onde tive de entregar as armas, vencido pela
minha incapacidade de enfrentar desafios, de merecer a minha felicidade.
Foi aqui, nesta cidade onde o milagre é uma questão de mentalidade, onde
o sol é exímio em esclarecer as consciências quando elas estão dispostas
a dar-se ao trabalho de desa-ferrolhar os seus alçapões secretos, que
medi o mal que fiz e que nunca mais me perdoei... Há mais de quarenta e
cinco anos, passara por aqui para agarrar a sombra do meu destino,
remendar alguns dos seus farrapos; tentar juntar as suas fracturas,
fechar as rachas; reconciliar-me com a sorte que me detestava por não a
ter agarrado quando passava, por ter duvidado dela, por ter preferido a
prudência quando ela me oferecia as suas entranhas; insistir numa
absolvição difícil em nome daquilo que Deus põe acima de todas as
façanhas e todos os infortúnios: o Amor. Passara por aqui, desvairado,
inseguro, mas sincero, para solicitar uma redenção, a minha primeiro, e
depois a dos outros a quem não deixara de amar apesar do ódio que nos
esquartejara, da tristeza que nos ocultara os nossos Verões. Ainda me
lembro deste porto com luzes vacilantes que se preparava para acolher o
paquete proveniente de Orão, da noite que inundava os seus cais, das
sombras nos passadiços; revejo com nitidez o rosto do aduaneiro com
bigodes retorcidos que me convidou a esvaziar os bolsos e a erguer as
mãos como um suspeito, o
316

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Nem por isso.

— O meu pai não pode ver um avião aterrar sem esconder a cara atrás das
mãos.

— A esse ponto?

— Vê-se bem que não o conhece. Vivemos num nono andar do bairro Jean de
la Fontaine, em Gambetta. Está a ver onde é, em Orão? Esses
paralelepípedos gigantescos que viram as costas ao mar. Ora bem, oito
vezes em cada dez, o meu pai prefere não apanhar o elevador. Mas já tem
idade. Tem cinquenta e oito anos, e foi operado à próstata.

— Com cinquenta e oito anos não é assim tão velho quanto isso.

— Eu sei, mas é assim lá em casa. Não dizemos o pai, dizemos o velho...


Quantos anos tem, tiozinho?

— Nasci há tanto tempo que já esqueci a idade que tenho. O avião engolfa-
se nas nuvens; breves turbulências agitam-

-no enquanto afocinha. O meu jovem vizinho dá-me palmadinhas nas costas
da mão agarrada ao encosto dos braços:

— Não é nada, tiozinho. É que estamos a sair do corredor para a pista. Os


aviões são o que há de mais seguro em matéria de transporte.

Volto-me para o postigo, vejo as nuvens penugentas tornarem--se avalanche


e a seguir bruma, adelgaçarem, regressarem em força, estenderem-se
novamente antes de diminuírem; o azul do céu reaparece, esfolado por
rastos fibrosos. Que vim procurar aqui?... A voz do meu tio cobre o
zumbido dos motores: Se queres fazer da tua vida um elo de eternidade e
manteres-te lúcido até no meio do delírio, ama... Ama com todas as tuas
forças, ama como se não soubesses fazer mais nada, ama até causares
inveja a príncipes e deuses... porque é no amor que qualquer fealdade
ostenta uma beleza própria. Foram as últimas palavras do meu tio. Tinha--
mas dito no seu leito de morte, em Rio Salado. Ainda hoje, cerca de meio
século depois, a sua voz de moribundo ecoa em mim como uma profecia: Quem
passar ao lado da mais bela história da sua vida só terá a idade dos seus
remorsos, e nem todos os suspiros do mundo poderão embalar-lhe a alma...
Será para esconjurar ou para afrontar essa verdade que me aventuro para
tão longe do meu território predilecto?... O avião inclina-se para o
lado, dando uma gui-
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

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nada, e a terra de França aparece-me de súbito, vinda do nada. O coração


estremece-me no peito e uma mão invisível comprime--me a garganta. A
emoção é tal que sinto os meus dedos atravessarem o revestimento do
encosto de braços... As montanhas rochosas não tardam a devolver-me os
reflexos do dia. Sentinelas eternas e inflexíveis, velam a costa, nada
impressionadas com o mar agitado que se rebela a seus pés. A seguir,
depois da viragem, Marselha!... Semelhante a uma vestal a bronzear-se ao
sol. Reclinada nas colinas, refulgente de luz, com o umbigo à vista e as
ancas oferecidas aos quatro ventos, finge dormitar, falsamente desatenta
aos rumores das vagas e aos que lhe chegam do interior. Marselha, a
cidade lendária, a terra dos titãs convalescentes, o abrigo provisório
dos deuses sem Olimpo, a encruzilhada providencial dos horizontes
perdidos, múltipla porque inesgotável de generosidade; Marselha, o meu
último campo de batalha onde tive de entregar as armas, vencido pela
minha incapacidade de enfrentar desafios, de merecer a minha felicidade.
Foi aqui, nesta cidade onde o milagre é uma questão de mentalidade, onde
o sol é exímio em esclarecer as consciências quando elas estão dispostas
a dar-se ao trabalho de desa-ferrolhar os seus alçapões secretos, que
medi o mal que fiz e que nunca mais me perdoei... Há mais de quarenta e
cinco anos, passara por aqui para agarrar a sombra do meu destino,
remendar alguns dos seus farrapos; tentar juntar as suas fracturas,
fechar as rachas; reconciliar-me com a sorte que me detestava por não a
ter agarrado quando passava, por ter duvidado dela, por ter preferido a
prudência quando ela me oferecia as suas entranhas; insistir numa
absolvição difícil em nome daquilo que Deus põe acima de todas as
façanhas e todos os infortúnios: o Amor. Passara por aqui, desvairado,
inseguro, mas sincero, para solicitar uma redenção, a minha primeiro, e
depois a dos outros a quem não deixara de amar apesar do ódio que nos
esquartejara, da tristeza que nos ocultara os nossos Verões. Ainda me
lembro deste porto com luzes vacilantes que se preparava para acolher o
paquete proveniente de Orão, da noite que inundava os seus cais, das
sombras nos passadiços; revejo com nitidez o rosto do aduaneiro com
bigodes retorcidos que me convidou a esvaziar os bolsos e a erguer as
mãos como um suspeito, o
318

O QUE O DIA DEVE À NOITE

polícia que não apreciou nada o zelo do seu colega, o motorista de táxi
que me levou ao hotel vociferando contra a minha maneira excessivamente
brutal de fechar a porta, o recepcionista que me fez esperar metade da
noite para verificar se ainda havia um quarto livre porque a minha
reserva não havia sido confirmada... Era uma terrível noite de Março de
1964, com um mistral impetuoso e um céu acobreado fulminante de trovões.
O quarto não era aquecido. Apesar de me enrodilhar nas cobertas, à
procura de um pouco de calor, gelava. A janela rangia sob as rajadas de
vento. Na mesa-de-cabe-ceira, que um candeeiro anémico iluminava
parcamente, repousava a minha sacola de cabedal. No interior, havia uma
carta assinada André Sosa: «Caro Jonas, tal como me pediste, encontrei o
rasto de Emilie. Levou tempo, mas estou contente por ter conseguido
localizá-la. Para ti. Emilie trabalha como secretária de um advogado, em
Marselha. Tentei comunicar com ela pelo telefone, mas recu-sou-se a falar
comigo!!! Aliás, ignoro o motivo. Não fomos íntimos, nós os dois, pelo
menos ao ponto de nutrirmos uma qualquer mágoa. Talvez me tenha
confundido com outra pessoa. A guerra subverteu tantas referências que
épossível questionar se o que nos fez sofrer não advinha de uma
alucinação colectiva. Bom, deixemos que o tempo faça o seu luto. As
feridas ainda estão demasiado vivas para se poder exigir dos
sobreviventes um mínimo de comedimento... Eis o endereço de Emilie: rue
des Frères-Julien, 143, não longe da Canebière. Muito fácil de dar com
ele. O edifício é exactamente em frente da cervejaria Le Palmier. Muito
conhecida, a cervejaria. É uma espécie de messe dos pieds-noirs. Dás-te
conta? Agora já só nos chamam pieds-noirs. Como se tivéssemos andado toda
a vida com os pés metidos em óleo sujo de máquinas...1 Tele-

' Os pieds-noirs (à letra, «pés negros») são franceses de origem


europeia, instalados no Norte de Africa, mais particularmente na Argélia,
até à independência. As origens do termo, surgido em 1955, são obscuras:
sapatos ou botas pretas dos primeiros imigrantes, pernas dos colonos que
teriam escurecido durante os trabalhos de secagem de pântanos,
marinheiros nascidos na Argélia e habituados ao calor tórrido que teriam
sido postos a trabalhar nas caldeiras dos navios, em vez dos marinheiros
da metrópole, etc. Por extensão, o termo passou a designar «repatriados».
(N. da T.)
AIX-EN-PROVENCE (HOJE) 3 19

fona-me quando vieres a Marselha. Vou adorar encher-te o rabo de pontapés


até te fazer sair pelas orelhas o que tens na barriga. Um grande abraço.
Dédé.»

A rue des Frères-Julien ficava a cinco quarteirões de distância do meu


hotel. O motorista de táxi passeou-me durante uma boa meia hora, antes de
me largar diante da cervejaria Le Palmier. Tinha de ganhar a vida. A
praça pululava de gente. Após as tempestades da véspera, Marselha
recuperava o seu sol como se nada se tivesse passado. A luz do dia
iluminava o rosto das pessoas. En-castrado entre dois edifícios recentes,
o número 143 era um velho imóvel de um verde-esmaecido, com janelas altas
entrincheiradas por trás de portadas fechadas. Vasos de flores tentavam
compensar a vulgaridade das varandas, à sombra dos estores degradados...
Causou-me uma impressão estranha o número 143 da rue des Frères--
Julien... Como se fosse refractário à luz do dia, hostil às alegrias da
sua rua. Não imaginava Émilie a rir às gargalhadas por trás de janelas
tão aflitivas.

Sentei-me a uma mesa, por trás da parede envidraçada da cervejaria, de


modo a poder observar as entradas e saídas no edifício em frente. Era um
domingo radioso. A chuva lavara os passeios e o chão emitia fumo. A minha
volta, os ociosos construíam e destruíam o mundo num copo de tinto; todos
tinham o sotaque dos bairros argelinos, o rosto ainda queimado pelo sol
da margem sul; enrolavam os «r» como se enrola cuscuz, com deleite. Bem
podiam dar a volta aos problemas e ao mundo que regressavam
invariavelmente à Argélia. Não sabiam falar de outra coisa.

— Sabes em que estou a pensar, Juan? Na omeleta que esqueci ao lume


enquanto fazia as malas em pânico. Interrogo-me se a casa não terá ardido
depois da minha partida precipitada.

— Estás a falar a sério, Roger?

— Claro. Estás-me sempre a dar cabo dos ouvidos com todas as tretas que
deixaste para trás no bled. Não podes falar de outra coisa?

— Falar de quê, Roger? A Argélia é a minha vida.

— Nesse caso, estás à espera de quê para bateres a bota e me deixares


tranquilo? Preciso de pensar noutra coisa, vê lá.
320 O QUE O DIA DEVE À NOITE

No balcão, três bêbados encarquilhados por baixo de boinas bascas


brindavam à memória das suas mil e uma proezas em Bab el-Oued1.
Pretendiam ser discretos, mas faziam o possível para serem ouvidos na
rua. Ao meu lado, dois irmãos gémeos deixavam arrastar as vozes pastosas
pela mesa a abarrotar de garrafas de cerveja e de cinzeiros cheios. Com a
pele tisnada e a boca a salivar, faziam lembrar os pescadores do porto de
Argel, com as suas camisolas de marinheiro gastas, a beata apagada na
boca e o ar endurecido de proxenetas ordeiros.

— Tinha-te tido que ela era uma oportunista, mano. Não tem nada a ver com
as raparigas de lá de baixo, que sabem respeitar os homens e que nunca te
largariam. E depois, que é que vês nela, nesse icebergue? Fico doente só
de te imaginar a abraçá-la. Além disso, nem sequer é capaz de cozinhar um
prato com molho...

Bebi três ou quatro chávenas de café sem perder de vista o número 143. A
seguir, almocei. E nada de Émilie. Os bêbados do bar tinham-se ido
embora; os gémeos também. O zunzum diminuiu e regressou com a chegada de
um bando de amigos já alegrotes. O empregado partiu dois corpos, entornou
uma garrafa de água em cima de um cliente que aproveitou para dizer tudo
o que pensava da cervejaria, dos pieds-noirs, de Marselha, de França, da
Europa, dos Árabes, dos Judeus, dos Portugueses e da sua própria família,
«uma caterva de egoístas e de hipócritas», que não fora capaz de lhe
arranjar uma mulher quando a verdade é que ele estava prestes a
ultrapassar os quarenta anos. Deixaram-no rebentar todos os abcessos que
tinha no coração antes de lhe pedir que se pusesse a milhas.

A luz do sol enfraquecia; a noite preparava-se para cercar a cidade.

Começava a estar moído à força de esperar no meu canto quando ela


apareceu finalmente. Saía do edifício, com a cabeça descoberta e os
cabelos apanhados na nuca. Vestia um impermeável com um decote amplo e
botas até aos joelhos. Com as mãos

1 Bairro popular da cidade de Argel, essencialmente europeu, que foi um


dos bastiões da OAS. (N. da T.)
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

321

nos bolsos e o passo apressado, parecia uma estudante que ia ter com as
amigas para se divertir.

Pousei todas as moedas que tinha comigo no cestinho de pão que o


empregado se esquecera de levantar e corri atrás dela.

De repente tive medo. Teria o direito de desembarcar na vida dela sem a


prevenir? Ter-me-ia perdoado?

Para dominar a dissonância dessas perguntas, dei comigo a gritar:

— Emilie!

Parou bruscamente, como se encontrasse uma parede invisível. Devia ter


reconhecido a minha voz porque os ombros se contraíram e a nuca se
escavou sob o carrapito. Não se voltou. Depois de ter prestado atenção,
retomou o seu caminho.

— Emilie!

Desta vez, rodou sobre os calcanhares tão depressa que por pouco caía. Os
olhos cintilaram-lhe no rosto lívido; recompôs-se imediatamente,
engolindo as lágrimas... Sorri-lhe com um ar idiota, sem que me ocorresse
nada. Que ia dizer-lhe? Por onde começar? Estava tão impaciente por a
encontrar que não tinha preparado nada.

Emilie observou-me, perguntando-se se eu seria de carne e osso.

— Sou eu.

— Sim?...

O seu rosto era um pedaço de bronze, um espelho cego. Eu não conseguia


acreditar que ela pudesse acolher-me com tamanha insensibilidade.

— Procurei-te em toda a parte.

— Porquê?

A pergunta apanhou-me desprevenido. Fiquei totalmente desarmado. Como é


que ela não percebia o que entrava pelos olhos dentrol O meu entusiasmo
acusou o golpe, vacilou como um pu-gilista derrubado no meio do ringue.
Estava consternado, travado em pleno impulso.

Ouvi-me tartamudear:

— Que queres dizer com isso, porquê?... Só estou aqui por tua causa.
322 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Dissemos o que tínhamos a dizer um ao outro em Orão. No seu rosto, só


se mexeram os lábios.

— Em Orão, a situação era outra.

— Em Orão ou em Marselha, é tudo igual.

— Sabes muito bem que não é verdade, Émilie. A guerra acabou, a vida
continua.

— Para ti talvez.

Eu transpirava em bica.

— Pensava sinceramente que...

— Enganavas-te! — interrompeu-me ela.

Que frieza! Gelava-me as ideias, as palavras, a alma.

O seu olhar estava apontado contra mim, prestes a abater-me.

— Émilie... Diz-me o que tenho de fazer, mas peço-te, não me olhes assim;
daria tudo para...

— Só se dá o que se tem, e mesmo assim!... E tu não tens tudo... Além


disso, não serviria de nada. Não se refaz o mundo. No que me diz
respeito, levou-me muito mais do que me pode devolver.

— Lamento.

— São só palavras. Penso que já to tinha dito.

A minha tristeza era tão grande que ocupava todo o meu ser, não deixando
espaço nem para a cólera nem para o despeito.

Contra toda a expectativa, a tristeza do seu olhar atenuou-se e a


expressão suavizou-se. Observou-me demoradamente como se remontasse ao
passado para me encontrar. Por fim, aproximou-se de mim. A sua fragrância
perfumou-me. Segurou-me o rosto na palma das suas mãos, como fazia a
minha mãe antigamente antes de me dar um beijo na testa. Émilie não me
beijou. Nem na testa nem nas faces. Limitou-se a contemplar-me. O seu
hálito adejava em torno do meu. Teria querido que as mãos dela lá
ficassem até ao Julgamento Final.

— Não é culpa de ninguém, Younes. Não me deves nada. O mundo é assim,


pronto. E já não me tenta.

Virou-me as costas e prosseguiu o seu caminho.

Ficara plantado no passeio, desorientado da cabeça aos pés, e vira-a sair


da minha vida como uma alma gémea demasiado apertada no meu corpo para se
acomodar a ele.
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

323

Era a última vez que a via. % Nessa mesma noite, apanhei o barco para
voltar ao meu país e nunca mais, antes do dia de hoje, voltei a pôr os
pés em França. Escrevera-lhe cartas e cartões de boas festas todos os
anos... Nunca me respondera. Dissera para mim mesmo que mudara de morada,
que partira para outro sítio, o mais longe possível das recordações, e
que talvez fosse melhor assim. É verdade que o lamentara muito, sonhando
com o que teríamos podido fazer juntos, com as feridas que teríamos
cauterizado, com as infelicidades que se teriam curado por si próprias,
com os velhos demónios que teríamos exorcizado. Émilie não queria salvar
nada, virar qualquer página, fazer o luto de qualquer mágoa. Os breves
instantes que me concedera, nessa rua a desmoronar-se de sol, haviam
bastado para eu compreender que há portas que, uma vez fechadas sobre uma
dor, a transformam num abismo que nem a luz divina poderá atingir...
Sofrera bastante por causa de Émilie; sofrera a sua mágoa, a sua
renúncia, a sua escolha de viver reclusa no seu drama. Depois, tentara
esquecer, esperando dessa forma suavizar a dor que estava em nós. Tinha
de me resignar, de admitir o que o meu coração se obstinava em não
encarar de frente. A vida é um comboio que não pára em nenhuma estação.
Ou o apanhamos em andamento ou o vemos passar no cais, e não há pior
tragédia que uma estação fantasma. Terei sido feliz depois? Creio que
sim; tive alegrias, momentos inesquecíveis; cheguei a amar e a sonhar
como um miúdo extasiado. Contudo, sempre me pareceu que faltava uma peça
no meu puzzle, que algo não respondia completamente à chamada, que uma
ausência me mutilava; resumindo, que me limitava a gravitar na periferia
da felicidade.

O avião pousa lentamente no tarmac, no meio do rugido dos reactores. O


meu jovem vizinho mostra-me qualquer coisa do outro lado da fachada
envidraçada da aerogare onde, como gigantescas aves-do-paraíso, outros
aviões esperam para levantar voo, com o nariz na manga. Uma voz no
altifalante informa-nos da temperatura externa, da hora local, agradece-
nos termos escolhido a companhia Air Algérie antes de nos recomendar
vivamente que nos mantenhamos sentados, com os cintos postos, até à
paragem total do aparelho.
324

O QUE O DIA DEVE À NOITE

O jovem ajuda-me a levar o saco e devolve-mo diante dos balcões da


polícia das fronteiras. Uma vez cumpridas as formalidades, mostra-me a
saída, desculpando-se por ter de me deixar sozinho pois tem bagagem a
recuperar.

Aporta em vidro branco desliza, dando acesso ao hall exterior. Há pessoas


à espera por trás de uma linha amarela, impacientes de reconhecer um
rosto familiar no fluxo de passageiros que desembarcam. Uma menina foge
das mãos de uma familiar e atira-se nos braços de uma avozinha em
djelaba. Uma mulher nova é interceptada pelo marido; beijam-se na cara,
mas o seu olhar é tórrido.

Um quinquagenário mantém-se um pouco afastado, com um grande rectângulo


de cartolina nas mãos: Rio Solado, é o que diz. Durante um segundo, tenho
a sensação de estar a ver uma alma do outro mundo. É Simon
escarrapachado, atarracado e barrigudo, com as pernas curvas, a fronte
desguarnecida. E os olhos, meu Deus, que me encaram, que me adivinham.
Como pôde identificar--me entre todas essas pessoas quando nunca nos
encontrámos? Sorri-me ao de leve, avança e estende-me uma mão gorda e
peluda nas articulações, idêntica à do pai.

— Michel?...

— Exactamente, senhor Jonas. Muito prazer em conhecê-lo. Fez boa viagem?

— Dormitei.

— Tem bagagem?

— Só este saco.

— Muito bem. O meu carro está no parque de estacionamento — Michel


convida-me a acompanhá-lo, hbertando-me do meu fardo.

AS CALÇADAS RAMIFICAM-SE VERTIGINOSAMENTE à nossa frente.

Michel conduz depressa, com o olhar fixo. Não me atrevo a observá-lo,


limito-me a ver-lhe o perfil às escondidas. E uma loucura a sua
semelhança com Simon, o meu amigo, o seu pai. O meu coração enrosca-se em
torno de uma recordação fugaz. Tenho de respirar profundamente para
expulsar a toxina que acaba de se declarar no meu peito, concentrar-me na
estrada que foge a toda a ve-
AIX-EN-PROVENCE (HOJE) 325

locidade, no slalom resplandecente dos automóveis, nas placas que nos


sobrevoam: Salon-de-Provence, sempre em frente; Marseille, próxima saída
à direita; Vitrolles, primeira via de acesso à esquerda...

— Suponho que deseja comer qualquer coisa, senhor Jonas. Conheço um


restaurantezinho simpático...

— Não é necessário. Serviram-nos uma refeição no avião.

— Reservei-lhe um quarto no hotel 4 Dauphins, que não fica longe do Cours


Mirabeau. Tem sorte, vamos ter sol toda a semana.

— Não conto ficar mais de dois dias.

— Há muita gente à sua espera. Dois dias não bastariam.

— Tenho de regressar a Rio. O meu neto vai casar-se... Teria gostado de


vir mais cedo, de ter assistido ao funeral, mas, para obter um visto em
Argel, é o cabo dos trabalhos. Tive de recorrer a uma relação
influente...

O automóvel entra precipitadamente numa fortaleza em vidro que surge do


nada.

— É a estação Aix-TGV — explica Michel.

— Não vejo a cidade.

— É uma estação exterior. Só está operacional desde há cinco ou seis


anos. A cidade fica a quinze minutos de distância. Já tinha estado em
Aix, senhor Jonas?

— Não... Na realidade, só estive em França uma vez. Em Marselha, em Março


de 1964. Cheguei de noite e parti na noite seguinte.

— Uma visita-relâmpago?

— Num certo sentido.

— Expulsão?

— Rejeição. Michel vira-se para mim, de sobrolho franzido.

— É uma longa história — digo, para mudar de assunto.

Atravessamos uma zona comercial saturada de grandes superfícies, de


estabelecimentos e de parques de estacionamento submersos em automóveis.
Imensos anúncios de néon tentam suplantar os painéis de publicidade
enquanto uma maré humana se espalha pelos concessionários e lojas. Um
engarrafamento entope uma via de acesso, estendendo a fila 4e carros
centenas de metros.
326

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Sociedade de consumo — diz Michel. —As pessoas passam cada vez mais o
fim-de-semana nos supermercados. Terrível, não é? A minha mulher e eu
vimos aqui sábado sim, sábado não. Se nos escapa um, não ficamos bem e
andamos às turras por dá cá aquela palha.

— Há drogas para todas as épocas.

— Correctíssimo, senhor Jonas. Há drogas para todas as épocas. Chegamos a


Aix-en-Provence com cerca de vinte minutos de

atraso devido a um acidente na zona de Pont de l'Arc. Está bom tempo, e a


cidade saiu de casa para tomar de assalto o centro. Os passeios formigam
de transeuntes; o ambiente é festivo. ARotonde lança os seus jactos de
água no centro de um cruzamento, com os seus leões de pedra em sentinela
à volta. Um japonês fotografa a companheira, perdido num carrossel de
carros. Um carrossel miniaturizado junta uma caterva de catraios à roda
de algumas brincadeiras; miúdos presos a elásticos lançam-se nos ares sob
o olhar preocupado dos pais. As esplanadas inundadas de sol estão
cobertas de pessoas; não há mesas vagas; os empregados andam de um lado
para o outro, com as bandejas equilibradas na palma da mão. Michel deixa
passar um miniautocarro ecológico a abarrotar de turistas e sobe
lentamente o Cours Mirabeau que abandona um pouco adiante, perto de uma
fonte secular, para tomar a me du 4-Septembre. O meu hotel fica
relativamente perto de um repuxo irrigado por quatro golfinhos
petrificados. Uma jovem loura recebe-nos na recepção, faz-me preencher e
assinar um impresso antes de me indicar um quarto de tecto esconso no
terceiro andar. Um empregado leva-nos lá, a Michel e a mim, pousa o saco
numa mesa, abre a janela, verifica se está tudo em ordem e eclipsa-se,
desejando-me uma boa estada.

— Vou deixá-lo descansar — diz-me Michel. — Venho buscá-lo dentro de


duas horas.

— Gostaria de ir ao cemitério.

— Está previsto para amanhã. Esperam-no em minha casa hoje.

— Tenho de ir ao cemitério agora, enquanto é dia. Faço mesmo questão.

— Está bem. Vou telefonar aos nossos amigos para lhes pedir que adiem o
encontro uma hora.
AIX-EN-PtOVENCE (HOJE) 327

— Obrigado. Não preciso de me refrescar e muito menos de descansar. Vamos


já, se não vir inconveniente.

— Tenho um problema a resolver antes. Não leva muito tempo. Menos de uma
hora, está bem?

— Muito bem. Estarei lá em baixo, na recepção. Michel pega no telemóvel e


sai, fechando a porta.

^ k Vem buscar-me meia hora depois e encontra-me nas escadas do hotel à


espera. Sento-me ao seu lado no carro. Pergunta-me se descansei um pouco:
respondo-lhe que me deitei uns momentos, o que melhorou a minha
disposição. Descemos o Cours Mirabeau em festa, à sombra dos seus
plátanos.

— O que se festeja hoje? — pergunto.

— A vida, senhor Jonas. Aix festeja a vida todos os dias.

— Há sempre animação como a de hoje nesta cidade?

— Com muita frequência.

— Tem muita sorte em morar por aqui.

— Por nada deste mundo acabaria os dias noutro lugar. Aix é uma cidade
magnífica. A minha mãe dizia que o seu sol quase a consolava da ausência
do de Rio Salado.

O cemitério Saint-Pierre, onde repousa, entre outras glórias e mártires,


Paul Cézanne, está deserto. Um Memorial nacional, em pedra de Rognes,
dedicado aos franceses da Argélia e aos repatriados do ultramar, recebe-
me à entrada. «O verdadeiro túmulo dos mortos é o coração dos vivos», lê-
se em cima. Alamedas asfaltadas quadriculam lotes relvados velados por
capelas seculares. Fotografias nos túmulos recordam as pessoas que já cá
não estão: uma mãe, um marido, um irmão falecido cedo demais. As campas
estão floridas; a cintilação marmórea do seu revestimento adoça as
reverberações do dia, enche o silêncio de uma quietude campestre. Michel
guia-me através das alamedas bem desenhadas; os seus passos rangem na
gravilha; a mágoa domina-o. Detém-se diante de um túmulo em granito
antracite mosqueado de branco que uma multidão de coroas guarnece de
flores deslumbrantes. À laia de epitáfio, é possível ler:

Émilie Benyamin, Cazenave em solteira. 1931-2008


328

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Muito simplesmente.

— Suponho que queira ficar só um momento? — pergunta Michel.

— Agradeço. i ^

— Vou andar um bocado.

— Obrigado.

Michel acena com a cabeça, o lábio inferior recolhido na boca. A sua dor
é imensa. Afasta-se, com o queixo no côncavo da garganta, as mãos
entrelaçadas nas costas. Quando desaparece por trás de uma fileira de
capelas em pedra de Cassis, agacho-me diante do túmulo de Emilie, uno os
dedos à altura dos lábios e recito um versículo corânico. Não é sunita,
mas mesmo assim faço--o. Somos Uns e Outros aos olhos dos imãs e dos
papas, mas somos os mesmos diante do Senhor. Recito afatiha1, e depois
duas passagens da Sura Ya-Sin2...

A seguir, retiro do bolso interior do meu casaco uma bolsinha em algodão,


retiro o cordão para a abrir, enfio os meus dedos trémulos lá dentro e
retiro vários fragmentos de pétalas secas que atiro para o túmulo. Trata-
se da poeira de uma flor retirada de uma jarra há quase sessenta e dois
anos; os restos daquela rosa que eu metera no livro de Emilie enquanto
Germaine lhe dava a injecção nas traseiras da nossa farmácia em Rio
Salado.

Volto a pôr a bolsa vazia no meu bolso e ergo-me. As pernas tremem-me;


tenho de me apoiar na estela para recuperar forças. Desta vez, são os
meus passos que ouço ranger na gravilha. A minha cabeça está cheia de
ruídos de passos, de vozes retalhadas e de imagens fulgurantes... Emilie
sentada no portão da nossa farmácia, com a cabeça tapada pelo capucho do
casaco, os dedos a triturarem os atacadores das botinas. Tê-la-ia de bom-
grado confundido com um anjo caído do céu. Emilie folheando
distraidamente um livro encadernado. Que é que estás a ler? Um livro
ilustrado sobre Guadalupe. O que é isso? Uma grande ilha francesa nas
Caraíbas... Emilie na véspera do noivado a suplicar-me na farmácia.

1 Primeiro capítulo do Alcorão. (N. da T.)

2 Capítulo do Alcorão. (N. da T.)


A1X-EN-PROVENCE (HOJE)

329

Diz que sim e anularei tudo... As alamedas oscilam à minha frente. Não me
sinto bem. Tento andar mais depressa e não consigo; como num sonho, as
pernas recusam-se a levar-me, agarram-se ao chão... Um homem idoso está
de pé à entrada do cemitério, arvorando um uniforme carregado de medalhas
de guerra. Apoiado numa bengala, sem nada na cabeça, com a cara enrugada,
vê-me caminhar na sua direcção. Não se afasta para me deixar passar e
espera que eu chegue perto dele para me dizer:

— Os Franceses foram-se embora. Os judeus e os ciganos também. Já só


estão entre vocês. Então, porque se devoram uns aos outros?

Não compreendo a sua alusão, nem o motivo por que me fala nesse tom. O
seu rosto não me diz nada. Mas os olhos são-me familiares. De repente, um
clarão atravessa-me o espírito e ilumina--me a memória... Krimo!... É
Krimo, o harki que jurara matar-me em Rio. No momento em que o situo nas
minhas memórias, uma dor fulgurante desponta no meu maxilar: a mesma que
me abalara quando ele me batera no rosto com a coronha da sua espingarda.

— Reconheces-me agora? Vejo pela tua expressão que me reconheces


finalmente.

Afasto-o suavemente para o lado para continuar o meu caminho.

— No entanto, é verdade. Porquê esses massacres incríveis, esses


atentados que não acabam? Queriam a independência? Têm--na. Queriam
decidir sozinhos o vosso destino? Nada vos impede. Então porquê a guerra
civil? Porquê o mato infestado de radicais islâmicos? Esses militares que
dão espectáculo? Não será uma prova de que vocês só servem para destruir
e matar?

— Se fazes favor... Vim recolher-me junto de um túmulo e não remexer em


ossadas.

— Que comovente!

— Que queres, Krimo?

— Eu, nada... Só queria ver-te de perto. Quando Michel nos telefonou a


anunciar que a hora do encontro fora adiada, foi como se se tivesse
adiado o Juízo Fnial.

— Não compreendo o que estás a dizer.


330

O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Isso não me espanta, Younes. Alguma vez na tua vida compreendeste a tua
infelicidade?

— Já me estás a cansar, Krimo. Se queres a minha opinião, acho-te chato


como a morte. Não vim cá por tua causa.

— Mas eu sim. Vim de Alicante especialmente para te reafirmar que não


esqueci nem perdoei nada.

— Foi para isso que tiraste a tua farda e todas as tuas medalhas da mala
de cartão que apodrecia na tua cave?

— Deste no vinte.

— Não sou Deus e não sou a república. Não tenho méritos para reconhecer
os teus nem queixas à altura da tua dor... Sou apenas um sobrevivente que
ignora por que motivo escapou sem uma beliscadura quando já só havia
mortos à volta... Se te pode tranquilizar, sofremos todos o mesmo. Nós
traímos os nossos mártires, vocês traíram os vossos antepassados e,
depois, foram traídos na volta.

— Não traí ninguém.

— Pobre louco! Não sabes que, de uma maneira ou de outra, qualquer pessoa
que escapa de uma guerra é um traidor?

Krimo quer retorquir, com a boca retorcida de fúria interior; o regresso


de Michel trava-o. Depois de me ter olhado do alto do seu rancor,
consente em afastar-se do meu caminho e deixa-me aproximar do automóvel
estacionado um pouco mais abaixo, nas proximidades de uma feira popular.

— Vens connosco, Krimo? — pergunta Michel, abrindo a porta.

— Não... Vou apanhar um táxi. Michel não insiste.

— Lamento esta história do Krimo — diz Michel, arrancando.

— Não é grave. Terei direito ao mesmo acolhimento lá no sítio para onde


vamos?

— Vamos para minha casa. Talvez o espante mas, ainda há umas horas, Krimo
rebentava de impaciência de o ver. Não tinha o ar de quem estava à sua
espera para lhe ser desagradável. Che-
AIX-EN-PROVENCE (HOJE) 331

gou ontem de Espanha. Durante toda a noite, divertiu-se a falar dos anos
em Rio. Não sei o que lhe deu de repente.

— Há-de passar-lhe, e a mim também.

— Seria mais sensato. A minha mãe dizia que as pessoas sensatas acabam
obrigatoriamente por se reconciliar.

— A Emilie disse isso?

— Sim, porquê? Não lhe respondo.

— Tem quantos filhos, senhor Jonas?

— Dois... um rapaz e uma rapariga.

— E netos?

— Cinco... O mais pequeno que se casa na próxima semana foi sagrado


campeão da Argélia de mergulho submarino durante quatro anos seguidos.
Mas o meu orgulho e a minha esperança assentam sobretudo em Norah, a
minha neta. Aos vinte e cinco anos, dirige uma das mais importantes
editoras do país.

Michel acelera. Subimos a estrada de Avignon até um sinal de trânsito;


uma tabuleta indica a direcção de Chemin Brunet; Michel segue-a. É um
caminho às curvas que corre para o alto da cidade, bordejado de ambos os
lados ora por muros baixos atrás dos quais se abrigam belas vivendas, ora
por edifícios agradáveis protegidos por gradeamentos deslizantes. O
bairro é calmo, florido e luminoso. Não se vê uma criança a brincar nas
ruas. Só algumas pessoas idosas esperam pacientemente o autocarro, à
sombra de trepadeiras.

A casa dos Benyamin ocupa o alto de uma colina, escondida num


bosquezinho. É uma vivenda pequena pintada de branco, cercada por um muro
de pedra coberto de hera. Michel acciona um telecomando; o portão abre-se
automaticamente para um grande jardim no fundo do qual estão três homens
sentados ao ar livre.

Saio do carro. A relva abate-se sob os meus pés. Dois velhotes levantam-
se. Olhamo-nos em silêncio. Reconheço o maior, um homem alto e magro, um
pouco curvado e careca. Não me lembro do nome. Não éramos muito próximos
em Rio Salado; vizinhos, cumprimentávamo-nos na rua e ignorávamo-nos mal
virávamos as costas. O seu pai era chefe ae estação da aldeia. Ao lado
dele,
332 O QUE O DIA DEVE À NOITE

um septuagenário bem conservado, com um queixo voluntarioso e a testa


proeminente; é Bruno, o jovem polícia que adorava pa-vonear-se pela
praça, rodando o apito no dedo. Fico surpreendido por o ver ali; tinha
ouvido dizer que tinha sido morto num atentado da OAS em Orão. Aproxima-
se de mim e estende-me a mão esquerda; tem uma prótese no braço direito.

— Jonas... Que bom voltar a ver-te!

— Também estou muito contente por te ver, Bruno.

O homem alto e magro também me cumprimenta. A mão aperta a minha sem


grande vigor. Está constrangido. Suponho que estamos todos. No carro,
esperava reencontros entusiásticos, com grandes abraços e gargalhadas
cadenciando as pancadas nas costas. Via-me a abraçar alguns, a afastar
outros para os observar melhor, a recordar de repente as alcunhas e as
piadas de outrora, a voltar à infância no espaço de uma história e a
ultrapassar todas as coisas que nos ensombraram as noites durante anos,
conservando apenas o que nos dá jeito, o que é susceptível de conferir um
tom pastel às evocações. Agora que estamos finalmente juntos, ao alcance
uns dos outros, imersos em recordações e na sobrevivência, com o coração
a ceder e os olhos embaciados, um mal-estar obscuro amortece os nossos
ímpetos e ficamos constrangidos, como garotos que se encontram pela
primeira vez e que não sabem como começar a conversa.

— Não te lembras de mim, Jonas? — pergunta o magricela.

— Não tenho o teu nome na ponta da língua, mas o resto está intacto.
Moravas no número 6, atrás da Sra. Lambert. Ainda te estou a ver a
escalar o muro para lhe pilharas o pomar.

— Não era um pomar, mas apenas uma grande figueira.

— Era um pomar. Continuo a morar no número 13 e ainda me acontece ouvir a


Sra. Lambert a vociferar contra os marotos que lhe infestavam as árvores
de fruto...

— Ora essa! Nas minhas recordações, havia só uma grande figueira.

— Gustave — grito, estalando os dedos. — Já me lembro. Gustave Cusset, o


cábula ajuramentado da turma. Sempre a fazer asneiras no canto.
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

333

Gustave desata a rir a puxa-me violentamente contra si.

— E eu? — pergunta o terceiro velhote sem sair da mesa. — Lembras-te de


mim? Nunca roubei em pomares e, na aula, era muito bem-comportado.

Ele, em contrapartida, envelhecera bastante. André J. Sosa, o fanfarrão


de Rio que exibia os seus carcanhóis como o pai exibia o seu chicote.
Está enorme, obeso, com uma barriga que descai sobre os joelhos e que uns
suspensórios sólidos mal conseguem conter. Com a careca crivada de
sardas, o rosto indecifrável no meio das rugas, sorri-me mostrando a
dentadura toda.

— Dédé!

— Isso mesmo, Dédé — diz. — Tão imortal como um membro da Academia.

E empurra a cadeira de rodas na minha direcção.

— Consigo andar — faz questão de informar, — mas sou pesado demais.

Lançamo-nos nos braços um do outro. As lágrimas soltam--se e nada fazemos


para as conter. Choramos ao mesmo tempo que rimos e damos socos um ao
outro.

A noite surpreende-nos à roda da mesa a rirmos às gargalhadas e a


tossirmos desbragadamente. Krimo, que chegara uma hora antes, já não me
olha com má cara. Despejou o saco no cemitério; está sentado à minha
frente, com má consciência depois do que dissemos um ao outro. Talvez
tivesse no coração um grito que nunca tinha tido ocasião de soltar? Seja
como for, tem o ar apaziguado de alguém que acaba de ajustar contas
consigo próprio. Hesitou muito tempo antes de levantar os olhos para mim.
A seguir, pôs-se a ouvir-nos falar de Rio, dos bailes, das vindimas, das
que-cas que prolongavam as sessões de copos, de Pépé Rucillio e das suas
estroinices clandestinas, dos acampamentos ao luar; nem uma vez falou de
um acontecimento infeliz ou de uma recordação desagradável.

Martine, a mulher de Michel, uma latagona de Aoulef, metade berbere,


metade bretã, faz-nos uma bouillabaisse pantagruélica. Arouille está
suculenta e o peixe derrete-se na boca como queijo.

— Continuas a não beber? — pergunta-me André.


334 O QUE O DIA DEVE À NOITE

— Nem uma gota.

— Não sabes o que perdes.

— Se fosse só isso, Dédé.

Enche um copo, olha para ele e emborca-o de uma só vez.

— É verdade que Rio já não produz vinho?

— É verdade.

— Merda! Que desperdício. Juro-te que ainda me acontece ter no palato o


gosto milagroso desse vinho fresco e ligeiro que se fazia lá em casa,
desse bendito Alicante d'El Maleh que nos dava vontade de nos
embebedarmos ao ponto de confundir uma abóbora com o cu de uma megera.

— A reforma agrária destruiu todos os vinhedos da região.

— Que é que plantaram em seu lugar? — indigna-se Gus-tave. — Batatas?

André afasta a garrafa que nos separa para me ter só para ele.

— E o Jelloul? Que é feito dele? Sei que foi capitão no exército argelino
e que comandava um sector militar no Sara. Mas há uns anos que não sei
dele.

— Reformou-se com a patente de coronel no início dos anos noventa. Nunca


viveu em Rio. Tinha uma vivenda em Orão na qual contava acabar os seus
dias. Depois, caiu-nos em cima o terror do radicalismo islâmico e Jelloul
foi assassinado à frente de casa, abatido por uma arma de caça grossa
quando dormitava à porta de casa.

André estremece, incomodado.

— O Jelloul morreu?

— Sim.

— Abatido por um terrorista?

— Sim, um emir do GIA. E encaixa esta, Dédé: seu sobrinho!

— O assassino do Jelloul era seu sobrinho?

— Ouviste bem.

— Meu Deus! Que triste ironia do destino.

Fabrice Scamaroni junta-se a nós à noite. Por causa de uma greve de


ferroviários. Recomeçam os abraços. Entre Fabrice e eu, o cordão nunca se
rompera. Grande jornalista e escritor bem-su-cedido, via-o regularmente
nos ecrãs de televisão. Voltou várias
AIX-EN-PROVENCE (HOJE) 335

vezes à Argélia em serviço do jornal e aproveitava cada reportagem para


dar um salto a Rio Salado. Ficava em minha casa. Nessas visitas, de manhã
muito cedo, fizesse o tempo que fizesse, ia com ele ao cemitério cristão
ao túmulo do seu pai. A mãe morrera nos anos setenta, no naufrágio de um
barco de recreio ao largo da Sardenha.

: As garrafas de vinho já cobrem a mesa. Ressuscitámos os nossos mortos,


brindámos à sua memória; perguntámos aos nossos vivos o que tinha sido
feito deste, porque escolheu exilar-se na Argentina, porque é que outro
preferiu Marrocos?... André bebeu como um odre, mas aguenta. Bruno e
Gustave não param de ir e vir entre o jardim e a casa de banho.

Eu olho para o portão.

Alguém falta à chamada: Jean-Christophe Lamy.

Sei que está vivo, que, com Isabelle, está à cabeça de uma grande empresa
florescente na Cote d'Azur. Porque não está cá? Nice fica a menos de duas
horas de distância de Aix. André vem de Bastia, Bruno de Perpignan, Krimo
de Espanha, Fabrice de Paris, Gustave de Saône-et-Loire.... Ainda me quer
mal? Que lhe fiz realmente? Em retrospectiva, nada... Não lhe fiz nada.
Amei-o como um irmão e, como um irmão, chorei-o no dia em que se afastou,
com a nossa época colada aos calcanhares dos seus sapatos sem atacadores.

— Desce à terra, Jonas! — Bruno sacode-me.

— Sim?

— Estás a pensar em quê? Há uns bons cinco minutos que estou a falar
contigo.

— Desculpa. Estavas a dizer?...

— Falava do bled. Dizia que vivemos órfãos do nosso país.

— E eu órfão dos meus amigos. Ignoro qual de nós perdeu mais: não
importa, pesa da mesma maneira no coração.

— Penso que não perdeste mais do que nós com a mudança, Jonas.

— É a vida — diz André, filosoficamente. — O que ganhas com uma mão,


restituis com a outra. Mas, meu Deus! Será necessário deixar também os
dedos?... Bruno tem razão. Não é a mesma
336

O QUE O DIA DEVE À NOITE

coisa. Não, não é o mesmo perder os amigos ou perder a pátria. Di-


laceram-se-me as tripas só de pensar nisso. Aprova é que nós não dizemos
nostalgia... dizemos nostargélia.

Respira profundamente; os olhos brilham sob a luz do candeeiro do jardim.

— A Argélia cola-se-me à pele — confessa. — Por vezes, atormenta-me como


uma túnica de Nesso, por vezes perfuma-me com um aroma delicado. Tento
livrar-me dela mas não consigo. Como esquecer? Quis traçar uma cruz sobre
as minhas recordações de juventude, passar para outra coisa, voltar à
estaca zero. Esforços desperdiçados. Não sou um gato e só tenho uma vida,
e a minha vida ficou lá em baixo, no bled... Tentei juntar todos os
horrores para os vomitar. Nada a fazer. O sol, as praias, as nossas ruas,
a nossa gastronomia, as nossas belas pielas e os nossos dias felizes
suplantam as minhas cóleras, e dou comigo a sorrir quando me preparava
para morder. Nunca esqueci Rio, Jonas. Nem uma noite, nem um instante.
Lembro-me de cada tufo de erva na nossa colina, de cada piada nos nossos
cafés, e as palhaçadas do Simon chegam a esconder a sua morte, como se
Simon se recusasse a que associássemos o seu fim trágico ao fim dos
nossos sonhos argelinos. Garanto-te que também tentei esquecer. Quis,
mais que tudo no mundo, extrair uma a uma todas as minhas recordações com
um alicate, como antigamente se fazia para livrar uma pessoa de um molar
cariado. Estive em toda a parte, na América Latina, na Ásia, para me
distanciar e para me reinventar noutro sítio. Quis provar a mim próprio
que havia outros países, que se reconstrói uma pátria como se reconstrói
uma nova família; é falso. Basta-me parar um segundo para o bled voltar a
entrar dentro de mim. Só tinha de me voltar para reparar que ele estava
atrás de mim, ocupando o lugar da minha sombra.

— Se eu tivesse deixado o bled por vontade própria — queixa-se Gustave a


dois passos do coma etíiico. — Mas força-ram-nos a abandonar tudo e a
partir à pressa, com as nossas malas a abarrotar de fantasmas e de
mágoas. Tiraram-nos tudo, até a alma. Não nos deixaram nada, nada de
nada, nem sequer os olhos para chorar. Não é justo, Jonas. Nem todas as
pessoas eram colo-
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

337

nos, nem todas tinham um pingalim encostado às botas de senhor; algumas


nem sequer tinham botas, ponto. Tínhamos os nossos pobres e os nossos
bairros pobres, os nossos rejeitados e as pessoas de boa vontade, os
nossos artífices mais pequenos do que os vossos, e muitas vezes rezávamos
as mesmas orações. Porque nos meteram a todos no mesmo saco? Porque nos
fizeram arcar com as culpas de um punhado de senhores feudais? Porque nos
fizeram crer que éramos estranhos numa terra que viu nascer os nossos
pais, os nossos avós e os nossos bisavós, que éramos os usurpadores de um
país que construímos com as nossas mãos e regámos com o nosso suor e o
nosso sangue?... Enquanto não obtivermos uma resposta, a ferida não
cicatrizará.

A volta que a conversa está a ter indispõe-me. Krimo já está a engolir


copo atrás de copo; tenho medo que retome a discussão de há bocado.

— Sabes, Jonas? — diz ele de repente, quando não tinha dito uma palavra
desde a sua chegada. — Gostava que a Argélia se saísse bem.

— E vai sair-se bem — diz Fabrice. —A Argélia é um eldorado em poisio.


Basta-lhe presença de espírito. De momento, pro-cura-se, por vezes onde
não está. Terá de partir os dentes. Mas ainda é criança, e outros dentes
nascerão.

Bruno segura-me na mão e aperta-ma com força.

— Tenho vontade de voltar a Rio, nem que seja por um dia e uma noite.

— Que te impede? — diz André. — Todos os dias há um voo para Orão ou para
Tlemcen. Em menos de uma hora e meia, estás metido na merda até ao
pescoço.

Rimos a bandeiras despregadas a ponto de quase amotinar a vizinhança.

— A sério — diz Bruno.

— A sério, o quê? — digo eu. — Dédé tem razão. Entras num avião e, em
menos de duas horas, estás em casa. Por um dia ou para sempre. Rio não
mudou muito. É verdade que teve um ataque de melancolia, que as ruas
floridas secaram, que já não há caves e que restam poucas vinhas, mas**as
pessoas são formidáveis e sim-
338

O QUE O DIA DEVE À NOITE

páticas. Se vieres a minha casa, serás obrigado a ir a casa dos outros, e


uma eternidade não será suficiente.

Michel leva-me ao hotel já passa da meia-noite, sobe comigo para o quarto


e entrega-me uma caixinha metálica fechada por um minúsculo cadeado.

— Uns dias antes de morrer, a minha mãe encarregou-me de lho entregar


pessoalmente. Se não tivesse vindo cá, eu teria sido obrigado a dar um
salto a Rio.

Pego na caixinha, contemplo os velhos desenhos lascados da tampa. É uma


caixa de rebuçados muito antiga, com gravuras representando cenas de vida
palaciana, nobres nos jardins, príncipes encantados namorando com as
amadas junto de um repuxo; pelo peso, não parece conter grande coisa.

— Passo a buscá-lo amanhã às dez horas. Almoçaremos em casa da sobrinha


do Sr. André Sosa, em Manosque.

— Então até amanhã às dez horas, Michel. Obrigado.

— De nada, senhor Jonas. Boa noite. Vai-se embora.

Sento-me na beira da cama, com a caixinha entre as mãos. Que pós-escrito


de Emilie? Que sinal do além? Volto a vê-la, na rue des Frères-Julien, em
Marselha, nesse dia quente de Março de 1964; revejo o seu olhar fixo, o
seu rosto de bronze, os lábios exangues esmagando as minhas últimas
hipóteses de recuperar o tempo perdido. A mão treme-me; sinto a frieza do
metal até aos ossos. É preciso abri-la. Caixa de Pandora ou caixa de
música, que importância tem? Aos oitenta anos, o nosso futuro está atrás
de nós. Para a frente, só o passado.

Abro o cadeado, levanto a tampa: cartas!... Só há cartas dentro da caixa.


Cartas amarelecidas pelo tempo e pelo facto de estarem guardadas, algumas
inchadas de humidade, outras desajeitadamente alisadas como se se tivesse
tentado devolver-ihe o aspecto original depois de terem sido
amarfanhadas. Reconheço a minha letra na parte da frente dos envelopes,
os selos do meu país... compreendo finalmente por que motivo Emilie não
respondia ao meu correio; as minhas cartas nunca foram abertas, e os meus
cartões tão-pouco.
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

339

Deito o conteúdo da caixinha na cama, verifico os envelopes um a um na


esperança de encontrar uma carta dela... Há uma, recente, ainda firme ao
toque, sem selo nem endereço, apenas com o meu nome próprio e um pouco de
fita-cola a fechá-la.

Não ouso abri-la.

Amanhã, talvez.

Almoçámos em casa da sobrinha de André, em Manosque. Voltamos a contar


velhas histórias, mas começamos a perder o fôlego. Aparece outro pied-
noir para nos cumprimentar. Quando ouvi a voz dele, pensei que era Jean-
Christophe Lamy, o que me insuflou uma boa dose de sabe-se lá o quê que
me revigorou; essa mesma força abandonou-me no preciso instante em que me
apercebi de que não era ele. O desconhecido fez-nos companhia durante
pouco menos de uma hora antes de se eclipsar. Ao longo das histórias
cujas causas e consequências não captava, ia descobrindo que, apesar das
suas origens — natural de Lamoricière, perto de Tlemcen —, estava a
falsear algo na nossa intimidade, a perturbar uma ordem a que era
alheio... Bruno e Krimo são os primeiros a deixar-nos, primeiro para
Perpignan onde Krimo fará escala em casa do companheiro antes de
atravessar a fronteira espanhola. Cerca das dezasseis horas, abandonamos
André em casa da sobrinha e acompanhamos Fabrice à estação Aix-TGV.

— Tens mesmo de regressar ao bled amanhã? — pergunta Fabrice. — Hélène


ficaria encantada por te voltar a ver. Paris fica apenas a três horas de
distância. Podias apanhar o avião em Orly. Moro relativamente perto do
aeroporto.

— Fica para outra vez, Fabrice. Dá um beijo a Hélène por mim. Continua a
escrever?

— Reformou-se já há algum tempo.

O comboio chega, magnificamente monstruoso. Fabrice salta para o estribo,


abraça-me uma última vez e entra na carruagem. O comboio arranca,
deslizando lentamente nos trilhos. Procuro o meu amigo por trás das
grandes vidraças e vejo-o de pé, com a mão na testa num cumprimento. A
seguir, a partida do comboio arrebata-o. *•
340 O QUE O DIA DEVE À NOITE

De regresso a Aix, Gustave convida-nos para irmos aos Deux Garçons.


Depois do jantar, caminhamos pelo Cours Mirabeau em silêncio. O tempo
está bom, e as esplanadas não se esvaziam. Jovens fazem fila diante dos
cinemas. Sentado no chão no meio da esplanada, com o cão enrodilhado
encostado à anca, um músico desgrenhado afina a sua viola.

Diante do hotel, dois peões descompõem um motorista. Sem argumentos, este


último entra no carro e bate furiosamente com a porta.

Os meus companheiros entregam-me à recepcionista e reti-ram-se,


prometendo vir buscar-me no dia seguinte, às sete horas, para me levarem
ao aeroporto.

Tomo um banho a escaldar e enfio-me na cama.

Na mesa-de-cabeceira repousa a caixinha de Émilie, tão imutável como uma


urna funerária. Como se tivesse vontade própria, a minha mão retira o
cadeado mas não se atreve a levantar a tampa.

Não consigo pregar olho. Tento não pensar em nada. Abraço as almofadas,
deito-me para o lado direito, para o lado esquerdo, sobre as costas.
Sinto-me infeliz. O sono isola-me e não tenho vontade de estar só no
escuro. Um diálogo comigo próprio não me diz nada que valha a pena.
Preciso de me rodear de cortesãos, de partilhar as minhas frustrações, de
inventar bodes expiatórios. Sempre foi assim: quando não se encontra
solução para a própria infelicidade, procura-se um culpado. A minha
infelicidade é imprecisa. Sinto tristeza, mas, ao mesmo tempo, não
consigo situá-la. Émilie? Jean-Christophe? A idade? Essa carta que me
espera na caixinha?... Por que motivo Jean-Christophe não apareceu? O
rancor será mais assíduo do que o bom-senso?...

Pela janela aberta sobre um céu azulado onde a lua se apresenta como um
medalhão, preparo-me para ver desfilar, ao retardador, as minhas infâmias
e as minhas alegrias, e os rostos familiares. Ouço-os chegar num ribombar
de entulho. Que selecção preconizar? Que atitude observar? Ando às voltas
em torno ao abismo, equilibrista no fio da navalha, vulcanólogo alucinado
à beira de uma cratera em ebulição; estou às portas da memória, dessas
infinitas bobinas de rushes que nos arquivam, dessas grandes gavetas obs-
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

341

curas onde se armazenam os heróis vulgares que fomos, os mitos ca-


musianos que não soubemos incarnar, enfim os actores e figurantes que
fomos sendo alternadamente, geniais e grotescos, belos e monstruosos,
vergados sob o fardo das nossas pequenas cobardias, dos nossos feitos de
armas, das nossas mentiras, das nossas confissões, das nossas juras e das
nossas abjurações, das nossas bravuras e das nossas deserções, das nossas
certezas e das nossas dúvidas; resumindo, das nossas indomáveis ilusões.
Que conservar dessas rushes em desordem? Que rejeitar? Se só houvesse um
único instante da nossa vida para levarmos para a nossa grande viagem,
qual escolheríamos? Em detrimento de quê e de quem? E sobretudo, como re-
conhecermo-nos no meio de tantas sombras, de tantos espectros, de tantos
titãs?... Quem somos nós, ao certo? O que fomos ou que o teríamos querido
ser? A dor que causámos ou a que sofremos? Os encontros a que faltámos ou
os encontros fortuitos que desviaram o curso do nosso destino? Os
bastidores que nos preservaram da vaidade ou as luzes da ribalta que nos
serviram de piras? Somos tudo isso ao mesmo tempo, toda a vida que foi a
nossa, com os seus altos e baixos, as suas proezas e as suas
vicissitudes; somos também o conjunto dos fantasmas que nos perseguem...
somos várias personagens numa só pessoa, tão convincentes nos diferentes
papéis que assumimos que nos é impossível saber qual fomos realmente, em
qual nos transformámos, qual nos sobreviverá.

Presto atenção aos ruídos de outrora; já não estou só. Cochichos


redemoinham no meio de lembranças fragmentadas, semelhantes a fragmentos
em torno de uma fractura; frases em cifra, apelos mutilados, risos e
soluços entremeados, indissociáveis... Ouço Isabelle tocar piano — Chopin
—, vejo-lhe os dedos fuse-lados a patinarem no teclado com rara destreza,
procuro o seu rosto que imagino tenso de concentração extática; a imagem
recusa-se a deslocar-se, bloqueia-se obstinadamente nas teclas do piano
enquanto as notas explodem na minha cabeça como um bailado de fogos-de-
artifício... O meu cão surge atrás do outeiro, com as sobrancelhas em
acento circunflexo sobre o olhar melancólico; estendo a mão para o
acariciar; gesto absurdo mas que assumo. Os dedos deslizam na coberta
coTrto sobre uma pelagem. Permito que
342

O QUE O DIA DEVE À NOITE

a evocação se apodere da minha respiração, da minha insónia, de todo o


meu ser. Revejo o nosso casebre ao fundo de um caminho prestes a
desaparecer... Sou a criança perpétua... Não regressamos à infância,
nunca de lá saímos. Velho, eu? O que é um velho senão uma criança que
acumulou anos ou barriga?... A minha mãe desce o outeiro, a poeira a seus
pés como milhares de constelações... Mamã, minha doce mamã. Não é apenas
um ser, uma mãe, embora única, ou mesmo uma época; uma mãe é uma presença
que nem a erosão do tempo nem as falhas de memória podem alterar. Tenho a
prova disso todos os dias que Deus faz, todas as noites quando a latência
me encurrala no fundo da cama. Sei que ela está ali, que sempre esteve
perto de mim através dos tempos, das preces abortadas, das promessas
incumpridas, das ausências insuportáveis e dos esforços desperdiçados...
Mais longe, agachado sobre um montículo de pedras, com um chapéu de
alfafa enterrado até às orelhas, o meu pai observa a brisa a enlaçar a
esbelteza do restolho... Depois tudo acelera: o fogo a destruir os nossos
campos, a caleche do caide, a carroça que nos levava para um sítio onde o
meu cão já não tinha lugar... Jenane Jato... O barbeiro cantor, Perna-de-
Pau, El Moro, Ouari e os seus pintassilgos... Germaine abrindo-me os
braços sob o olhar enternecido do meu tio... Depois Rio, mais uma vez
Rio, sempre Rio... Fecho os olhos, para pôr fim a qualquer coisa, travar
uma história mil vezes convocada e mil vezes falsificada... Força!... As
nossas pálpebras tornam-se portas secretas; fechadas, contam-nos coisas;
abertas, levam-nos a nós próprios. Somos reféns das nossas lembranças. Os
nossos olhos deixam de nos pertencer... Procuro Fmilie através do filme
esfiapado na minha cabeça; não está em parte alguma. Impossível voltar ao
cemitério para recuperar a poeira da rosa; impossível regressar à rue des
Frères-Julien, número 143, aceder ao estatuto das pessoas sensatas, das
pessoas que acabam obrigatoriamente por se reconciliar. Debato-me na
balbúrdia imensa que inunda o porto de Orão nesse Verão de 1962; vejo
famílias estupidificadas nos cais, empilhadas na pouca bagagem que
conseguiram salvar, as crianças mortas de cansaço a dormir no chão, o
navio que se prepara para entregar os desenraizados aos trâmites do
exílio; passo
AIX-EN-PROVENCE (HOJE) 343

de um rosto a um grito, de um abraço a um lenço a acenar, mas não


encontro nenhum vestígio de Émilie... E qual o meu lugar em tudo isto?
Sou apenas um olhar que corre, corre, corre através das lacunas da
ausência e da nudez dos silêncios...

Que fazer da minha noite?

A quem me confiar?

Na realidade, não quero fazer nada da minha noite nem con-fiar-me a


ninguém. Há uma verdade que nos vinga de todas as outras: Tudo tem um
fim, e não há infelicidade que dure para sempre.

Encho-me de coragem, abro a caixinha e depois a carta. Está datada de uma


semana antes da morte de Émilie. Respiro fundo e leio:

«Caro Younes,

Esperei-te no dia a seguir ao nosso encontro em Marselha. No mesmo sítio.


Esperei-te no dia seguinte e nos outros que se seguiram. Não voltaste. O
mektoub1, como se diz na nossa terra. Basta um nada, tanto para o que é
bom como para o que não é. E preciso saber aceitar. Com o tempo, tornamo-
nos sensatos. Lamento todas as criticas que te fiz. Talvez tenha sido por
isso que não me atrevi a abrir as tuas cartas. Há silêncios que não
devemos perturbar... Como a água parada, apaziguam a nossa alma.

Perdoa-me como te perdoei.

Agora onde estou, junto de Simon e dos meus mortos queridos, pensarei
sempre em ti.

Émilie»

Foi como se, de repente, todas as estrelas do céu fossem uma só, como se
a noite, toda a noite, acabasse de entrar no meu quarto para me velar.
Sei que, doravante, nesse sítio para onde irei, dormirei em paz.

>1 O aeroporto de Marignane é tranquilo; não há multidões, e as filas


diante dos balcões de registo vão-se debulhando pacificamente. O espaço
reservado à Air Algérie está quase deserto.

1 Está escrito; É o Destino. (N. da T.)


344

O QUE O DIA DEVE À NOITE

Alguns passageiros com malas — para os iniciados, trabendistes, ou seja


contrabandistas inoxidáveis motivados pelas faltas e o instinto de
sobrevivência — negociam o excedente das bagagens, utilizando todos os
estratagemas; o seu número não impressiona o empregado do balcão. Atrás,
velhos reformados esperam pacientemente a sua vez, com os carrinhos
sobrecarregados.

— Tem bagagem, senhor? — pergunta a empregada.

— Só este saco.

— Leva-o consigo?

— Evita-me ter de esperar à chegada.

! — Tem razão — diz ela, devolvendo-me o passaporte. — Está aqui o seu


cartão de embarque. O embarque é as 9hl5, na porta 14.

O meu relógio indica 8h22. Convido Bruno e Michel para tomarem um café.
Sentamo-nos a uma mesa. Bruno tenta encontrar um tema de conversa
interessante, mas não consegue. Acabamos de beber o café em silêncio, com
os olhos no infinito. Penso em Jean-Christophe Lamy. Ontem tinha estado
quase a perguntar a Fabrice por que motivo o nosso irmão mais velho não
tinha vindo; a minha língua contraiu-se e tive de desistir. Soube por
André que Jean-Christophe assistira ao funeral de Émilie, que Isabelle,
que o acompanhava, tinha um aspecto radioso, que ambos sabiam que eu me
deslocaria a Aix... Estou triste por causa dele.

O altifalante anuncia o embarque imediato do voo AH 1069 com destino a


Orão. E o meu. Bruno dá-me um abraço, deixa-se ficar abraçado a mim.
Michel beija-me nas faces, diz-me qualquer coisa que não compreendo.
Agradeço-lhe a hospitalidade e deixo--os aos dois.

Não vou para a sala de embarque.

Encomendo um segundo café.

Espero...

A minha intuição diz-me que vai acontecer qualquer coisa, que tenho de
aguardar pacientemente, colado à cadeira onde estou sentado.

Ultima chamada para os passageiros do voo AH 1069 com destino a Orão,


grita uma voz de mulher no altifalante. Esta é a última chamada para os
passageiros do voo AH 1069.
AIX-EN-PROVENCE (HOJE) 345

A minha chávena de café está vazia. A minha cabeça está vazia. Eu estou
vazio. E esta intuição que me intima a ficar sentado e esperar. Os
minutos desfilam-me nas costas como outros tantos paquidermes. Doem-me as
costas, os joelhos, a barriga. A voz no altifalante verruma-me o cérebro,
ecoa nas minhas têmporas com rancor. Desta vez, mandam-me comparecer
imediatamente na porta 14. Pede-se ao Sr. Mahieddine Younes que se
apresente imediatamente para o embarque, na porta 14. É a última
chamada...

A minha intuição está fora de prazo, digo para mim próprio. Anda,
levanta-te, não há nada a esperar. Despacha-te se não queres perder o
avião. O teu neto casa-se dentro de três dias.

Pego no saco e dirijo-me para a zona de embarque. Mal entro na fila de


espera, uma voz vinda do fundo de não sei onde inter-pela-me:

— Jonas!

É Jean-Christophe.

Lá está ele, por trás do traço amarelo, enfiado no seu sobretudo, a


cabeça branca, os ombros descaídos, tão velho como o mundo.

— Começava a desesperar — digo-lhe, voltando para trás.

— Contudo, esforcei-me ao máximo para não vir.

— É a prova que continuas a ser a mesma mula de sempre. Mas já


ultrapassámos a idade dos orgulhozinhos, não achas? Já estamos à margem
do tempo. Poucos prazeres nos restam no crepúsculo da nossa vida, e não
há alegria maior do que rever um rosto que perdemos de vista há mais de
quarenta e cinco anos.

Lançámo-nos nos braços um do outro. Aspirados por um formidável íman.


Semelhantes a dois rios que jorram dos antípodas, transportando todas as
emoções da terra e que, depois de terem perturbado montes e vales, se
fundem subitamente num mesmo leito, no meio da espuma e dos redemoinhos.
Ouço os nossos velhos corpos encaixarem-se um no outro, o atrito da nossa
roupa confundir-se com o da nossa carne. O tempo observa uma pausa.
Estamos sós no mundo. Abraçamo-nos com muita força, como antigamente
abraçávamos os nossos sonhos, persuadidos de que nos escapariam ao mínimo
afrouxamento. As nossas carcaças gastas até à medula sustentam-se unia à
outra, mantêm-se de pé no ci-
346

O QUE O DIA DEVE À NOITE

clone dos nossos gemidos. Já só somos duas fibras em carne viva, dois
fios eléctricos descarnados que ameaçam curtocircuitar-se, dois velhos
garotos subitamente entregues a si mesmos e que soluçam descomedidamente
diante de desconhecidos.

Pede-se ao Sr. Mahieddine Younes que se apresente imediatamente para o


embarque, na porta 14, grita-nos a voz feminina no altifalante.

— Por onde andavas? — digo, afastando-o para o ver melhor.

— Estou aqui e isso é que conta.

— De acordo. Abraçamo-nos novamente.

— Estou muito contente.

— Eu também, Jonas.

— Estavas por aqui, ontem e anteontem?

— Não, estava em Nice. O Fabrice telefonou-me para me chamar todos os


nomes e mais alguns, e depois o Dédé. Disse que não viria. E esta manhã a
Isabelle quase me pôs fora de casa. Às cinco horas da manhã. Conduzi como
um louco. Na minha idade.

— Como está ela?

— Exactamente como a conheceste. Incansável e incorrigível... E tu?

— Não me queixo.

— Pareces em forma... Viste o Dédé? Está muito doente, sabes? Fez a


viagem só para te ver... Correu bem o reencontro?

— Rimos até às lágrimas e depois chorámos.

— Imagino.

Pede-se ao Sr. Mahieddine Younes que se apresente imediatamente para o


embarque, na porta 14.

— E Rio, como está?

— Só tens de ir ver com os próprios olhos.

— Perdoaram-me?

— E tu, perdoaste?

— Estou demasiado velho, Jonas. Já não me posso dar ao luxo de ser


rancoroso; a mínima cólera rebenta comigo.
— Vês?... Moro na mesma casa diante dos vinhedos. Agora vivo sozinho.
Enviuvei há mais de dez anos, tenho um filho casado
AIX-EN-PROVENCE (HOJE)

347

em Tamanrasset e uma filha professora na Universidade Concórdia em


Montreal. Espaço é coisa que não falta. Escolherás o quarto que te
convier; estão todos disponíveis. O cavalo de madeira que me ofereceste
como desculpa pela sova que me deste por causa da Isabelle continua onde
o viste pela última vez, na chaminé.

Um empregado da Air Algérie, um pouco perdido, aproxima--se de mim.

— Parte para Orão?

— Sim.

— Mahieddine Younes é o senhor?

— Sou.

— Estão à sua espera para descolar. Jean-Christophe pisca-me o olho:

— Tabqa ala khir, Jonas. Vai em paz.

Abraça-me. Sinto o seu corpo estremecer. O nosso abraço dura uma


eternidade — para grande contrariedade do empregado. Jean-Christophe é o
primeiro a afastar-se. Com a garganta apertada e os olhos vermelhos, diz-
me num fio de voz:

— Agora põe-te a andar.

— Fico à tua espera — digo-lhe.

— Hei-de ir, está prometido. Sorri-me.

Apresso~me a compensar o atraso, com o empregado da Air Argélie à minha


frente para me abrir passagem na fila, passo pelo detector e depois pela
polícia das fronteiras. No momento em que estou prestes a entrar na zona
franca, ergo mais uma vez a cabeça para encarar o que deixo para trás e
vejo-os a todos, sem faltar ninguém, os mortos e os vivos, de pé contra a
grande janela envidraçada, a acenarem-me em sinal de despedida.

Fim
Colecção Montanha Mágica

1. A Essência do Sangue

Caryl Phillips

2. O Mundo É a Casa do Amor da Morte

Harold Brodkey

3. Temor e Tremor

Amélie Nothomb

4. O Beijo

Kathryn Harrison

5. Relação Pública

Christine Deviers-Joncour

6. Metafísica dos Tubos

Amélie Nothomb

7. Com Que Sonham os Lobos

Yasmina Khadra

8. A Cadeira do Suplício

Kathryn Harrison

9. Um Jardim por Memória

Jacques Lacarriére

10.0 Que Disse Tianyi

François Cheng

12. A Eternidade Não é de Mais

François Cheng

13. A Cosmética do Inimigo

Amélie Nothomb

14. Afinidade

Sarah Waters

15. A Mulher Foca

Kathryn Harrison

16.0 Escritor
Yasmina Khadra

17Musk

Percy Kemp

18. Dona Inês contra o Esquecimento

Ana Torres

19. As Andorinhas de Cabul

Yasmina Khadra

20.0 Bailarino

Colum McCann

21.0 Ventre do Atlântico

Fatou Diome

11. A Noiva de Hermes

Clara Usón

22. La Cucina

Lily Prior
29. Dizei Uma Palavra e Serei Salvo

Niall Williams

30.0 Atentado

Yasmina Khadra

31. Inveja

Kathryn Harrison

32. Crepúsculo

Katherine Mosby

33. Cabaret

Lily Prior

34. O Vigilante

Sarah Waters

41.0 Pavilhão das Peónias

Lisa Lee

42.0 Olho de Jade

Diane Wei Liang

43. A Festa de Anos

Panos Karnezis

44. A Borboleta de Papel

Diane Wei Liang

45.0 Que o Dia Deve à Noite

Yasmina Khadra
350 O QUE O 1

23. Falsas Aparências

Sarah Waters

24. Néctar

Lily Prior

25. Os Factos da Vida

Graham Joyce

26. A Recordação da Corrida

Ron McLarty

27. Tóquio: Voo Cancelado

Rana Dasgupta

28. Os Limites do Encantamento

Graham Joyce

3VE À NOITE
^W

35. Agora ou Nunca!

Tom Spanbauer

36. A Câmara dos Perfumes

Inderjit Badhwar

37. As Sirenes de Bagdade

Yasmina Khadra

38. A Vida de Sonho de Sukhanov

Olga Grushin

39. Amizades Improváveis

Graham Joyce

40. Uma Janela para o Infinito

Denis Guedj

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