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IPSA - DISCIPULADO

2017
IPSA - DISCIPULADO
Material de Apoio para Discipuladores
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SUMÁRIO
01 – Quem vai para o céu? ......................................................................................................... 4

Da queda do homem, do seu pecado e do seu castigo (CFW, Cap. VI) ......................... 4

Do arrependimento para vida (CFW – Cap. XV) ................................................................... 4

Pecado - D. M. Lloyd Jones ............................................................................................................ 4

02 – A Nova vida pela fé ............................................................................................................. 6

Das boas obras (CFW – Cap. XVI) ............................................................................................... 6

Evidências de uma verdadeira conversão – Ronaldo Mendes........................................ 6

03 – Quando alguém está convertido? ................................................................................ 10

Da liberdade cristã e da liberdade de consciência (CFW – Cap. XX) .......................... 10

Por que seguir Jesus? – Jonathan Dodson............................................................................. 10

04 – É possível ter certeza da salvação? ............................................................................. 13

Da perseverança dos santos (CFW – Cap. XVII) ................................................................. 13

Você tem certeza da sua salvação? – Joel Beeke ................................................................ 13

05 – Somente pela Graça.......................................................................................................... 17

Da vocação eficaz (CFW – Cap. X) ............................................................................................ 17

Quão firme fundamento! – Steven Lawson .......................................................................... 17

06 – Falsos meios de santificação ......................................................................................... 20

Da Santificação (CFW – Cap. XIII) ............................................................................................ 20

Sobre espiritualidade, místicos e neoliberais – Augustus Nicodemus Lopes ......... 20

07 – Meios indispensáveis de santificação ........................................................................ 24

Da fé salvadora (CFW – Cap. XIV) ............................................................................................ 24

Encorajamento para desenvolver a santidade – Joel Beeke .......................................... 24

08 – A Importância da Igreja .................................................................................................. 29

Da Igreja (CFW – Cap. XXV) ........................................................................................................ 29

Da comunhão dos santos (CFW – Cap. XXVI) ...................................................................... 29

As marcas da verdadeira Igreja – R. C. Sproul .................................................................... 30


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01 – Quem vai para o céu?

Da queda do homem, do seu pecado e do seu castigo (CFW, Cap. VI)


VI. Todo o pecado, tanto o original como o atual, sendo transgressão da justa lei de
Deus e a ela contrária, torna, pela sua própria natureza, culpado o pecador e por essa
culpa está ele sujeito à ira de Deus e à maldição da lei e, portanto, exposto à morte, com
todas as misérias espirituais, temporais e eternas.
I João 3:4; Rom. 2: 15; Rom. 3:9, 19; Ef. 2:3; Gal. 3:10; Rom. 6:23; Ef. 6:18; Lam, 3:39; Mat.
25:41; II Tess. 1:9.

Do arrependimento para vida (CFW – Cap. XV)

II. Movido pelo reconhecimento e sentimento, não só do perigo, mas também da


impureza e odiosidade do pecado como contrários à santa natureza e justa lei de Deus;
apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o
pecador pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados, que,
deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com ele em todos os
caminhos dos seus mandamentos.

Ezeq. 18:30-31 e 34:31; Sal.51:4; Jer. 31:18-19; II Cor.7:11; Sal. 119:6, 59, 106; Mat.
21:28-29.

Pecado - D. M. Lloyd Jones


Ninguém jamais terá uma concepção verdadeira do ensino bíblico sobre a
redenção, se não possuir clareza de entendimento sobre a doutrina bíblica do pecado.
E essa é a razão por que muitas pessoas, em nossos dias, são inseguras e vagas em
suas idéias a respeito da redenção. A idéia mais comum é a de que o Senhor Jesus é um
tipo de amigo ao qual todos podem recorrer em dificuldades, como se isso fosse tudo a
respeito dEle. O Senhor Jesus é esse tipo de amigo — e temos de agradecer a Deus! Mas
isso não é redenção em todo o seu escopo, em sua inteireza ou em sua essência.
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Você não pode começar a avaliar a redenção, até que compreenda o que a Bíblia
nos ensina a respeito da condição do homem no pecado e de todos os efeitos do pecado
no homem. Permita-me dizê-lo com outras palavras: você não pode entender a doutrina
da encarnação de Cristo, a menos que entenda a doutrina do pecado. A Bíblia nos ensina
que o homem estava em uma condição tão deplorável, que exigia a vinda, dos céus à terra,
da Segunda Pessoa da bendita e santíssima Trindade. Ele teve de humilhar-se e assumir
a natureza humana, nascendo como um bebê. Isso era absolutamente essencial, para que
o homem fosse redimido.
Por quê? Por causa do pecado e da sua natureza. Por conseguinte, você não pode
entender a encarnação de Jesus, a menos que tenha um entendimento claro sobre o
pecado. De maneira semelhante, considere a cruz no monte Calvário. O que ela significa?
O que a cruz nos diz? O que aconteceu lá? Digo novamente que você não pode entender a
morte de nosso Senhor e o que Ele fez na cruz, se não possui um entendimento claro sobre
a doutrina do pecado. A completa imprecisão das idéias de muitas pessoas a respeito da
morte de nosso Salvador se deve completamente a este fato: e elas não gostam da
doutrina da substituição, não gostam da doutrina do sofrimento penal.
Isso acontece porque nunca compreenderam o problema e não vêem o homem
como um criatura caída no pecado. Estas são as doutrinas fundamentais da fé cristã; não
se pode entender a redenção, exceto à luz da terrível condição do homem no pecado.
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02 – A Nova vida pela fé

Das boas obras (CFW – Cap. XVI)

I. Boas obras são somente aquelas que Deus ordena em sua santa palavra, não as
que, sem autoridade dela, são aconselhadas pelos homens movidos de um zelo cego ou
sob qualquer outro pretexto de boa intenção.

Miq. 6:8; Rom. 12:2; Heb. 13:21; Mat. I5:9; Isa. 29:13; I Ped. 1:18; João 16:2; Rom.
10:2;1 Sam. I5:22; Deut. 10:12-13; Col. 2:16, 17, 20-23.

II. Estas boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e
as evidências de uma fé viva e verdadeira; por elas os crentes manifestam a sua gratidão,
robustecem a sua confiança, edificam os seus irmãos, adornam a profissão do Evangelho,
tapam a boca aos adversários e glorificam a Deus, cuja feitura são, criados em Jesus Cristo
para isso mesmo, a fim de que, tendo o seu fruto em santificação, tenham no fim a vida
eterna.

Tiago 2:18, 22; Sal. 116-12-13; I Ped. 2:9; I João 2:3,5; II Ped. 1:5-10; II Cor. 9:2;
Mat. 5:16; I Tim. 4:12; Tito 2:5, 912; I Tim. 6:1; I Pedro. 2:12, 15; Fil. 1,11; João 15:8; Ef.
2:10; Rom. 6:22.

Evidências de uma verdadeira conversão – Ronaldo Mendes

“Seguindo ele estrada fora, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do


céu brilhou ao seu redor, e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por
que me persegues?” (Atos 9.3-4)
Numa rua de Londres, um bêbado cambaleante encontrou-se com Spurgeon.
Reconhecendo o pregador, lhe perguntou se este não o reconhecia. Quando Spurgeon
respondeu que não, o ébrio argumentou: "Mas o senhor devia conhecer-me; sou um dos
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seus convertidos". Então o veio a resposta: "Isso pode ser. Se o senhor fosse um converso
de Deus, não estaria nessas condições". Assim como este bêbado, muitos dizem serem
convertidos, mas na verdade nunca foram. A conversão de Saulo nos mostra evidências
de uma verdadeira conversão.
Esta conversão é tão significativa que Lucas registra três vezes no livro de Atos,
capítulos 9, 22 e 26. Analisando a vida de Saulo, quais são as evidências de uma
verdadeira conversão?
I) Mudança de vida
Quem era Saulo? Ele mesmo responde essa pergunta três vezes na Bíblia nos
capítulos 22 e 26 de Atos e Gálatas 1. Ele era perseguidor da igreja de Cristo, assim
perseguidor de Cristo.Saulo era judeu, contudo nasceu em Tarso da Cicília (Atos 22.3) –
A cidade de Tarso é hoje a atual Turquia – Essa cidade era famosa por suas escolas. Ele
era fariseu (At.23.6; 26.5; Fp 3.5).
O primeiro possível aparecimento do apóstolo no NT, foi no julgamento de Estevão
em Atos 6.8-15. Quando Estevão é apedrejado, encontramos Saulo (v.58). Para
entendermos melhor o que Saulo estava fazendo ali, precisamos ir até o livro de
Deuteronômio: “Por depoimento de duas ou três testemunhas, será morto o que houver
de morrer; por depoimento de uma só testemunha, não morrerá. A mão das testemunhas
será a primeira contra ele, para matá-lo; e, depois, a mão de todo o povo; assim, eliminarás
o mal do meio de ti.”(Dt 17.6,7). As testemunhas eram as primeiras a jogar pedras. No
texto de Atos as vestes daqueles que arremessavam pedras foram jogadas aos pés de
Saulo. Com isso vemos que ele consentiu na morte de Estevão (cf Atos 8.1). E sobre isto
ele confessa: “e assim procedi em Jerusalém. Havendo eu recebido autorização dos
principais sacerdotes, encerrei muitos dos santos nas prisões; e contra estes dava o meu
voto, quando os matavam.” (Atos 26.10).Veja a destruição que este homem causou à
igreja: “Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e
mulheres, encerrava-os no cárcere”. (Atos 8.3). O verbo empregado para “assolava” é o
mesmo verbo “devastar” empregado no Salmo 80.13 em relação a um animal selvagem.
Essa devastação está registrada em Atos 9.21 e Gálatas 1.13,23 – verbos como devastar,
perseguir e destruir são usados para descrever o comportamento de Saulo antes da
conversão - Ler Atos 26.9-11.
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Saulo era tão mal que os crentes não acreditaram que ele havia convertido (Atos
9.26). Este era Saulo antes de encontrar com Jesus, porém se torna de perseguidor a
pregador do evangelho.
O que é uma mudança de vida?
No grego a palavra “conversão” (metanóia), literalmente significa “mudar de
mente”, “arrependimento”. Veja o uso dessa palavra: “… O tempo está cumprido, e o reino
de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho.”(Marcos 1.5). Isso significa
abandonar o velho homem (cf Romanos 6.6). O próprio Saulo depois afirmou: “… já não
sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo
pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.”(Gálatas 2.20).
Este homem teve a sua mente mudada, os seus objetivos eram outros. Ele era um
crente!Uma mudança real de vida é evidência da verdadeira conversão.
A segunda evidência de uma verdadeira conversão na vida de Saulo foi sua…

II) Comunhão com Deus


No verso 9 lemos: “Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem
bebeu.”(Atos 9.9). Saulo teria passado três dias orando e jejuando. Ele tinha percebido
que estava perseguindo o próprio Deus. E isso deve ter causado em Saulo uma profunda
consciência do pecado. Não é sem motivo que ele depois de alguns anos se identifica como
principal pecador: “Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao
mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.” (I Timóteo. 1.15 e I
Coríntios.15. 9). E sobre esta comunhão, o próprio Senhor disse a Ananias: “… Dispõe-te,
e vai à rua que se chama Direita, e, na casa de Judas, procura por Saulo, apelidado de
Tarso; pois ele está orando.” (Atos 9.11)
O seu coração cheio de fúria e ódio foi lavado pelo sangue do Cordeiro e
preenchido pelo amor de Deus (Efésios.3.19). Em todas as suas cartas ele vai dar sinais
de alguém que anda com Deus. Veja alguns textos:“Porventura, procuro eu, agora, o favor
dos homens ou o de Deus? Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens,
não seria servo de Cristo.”(Gálatas 1.10); “tudo posso naquele que me fortalece.”
(Filipenses 4.13). Uma comunhão verdadeira com Deus é parte da verdadeira conversão.
A terceira e última evidência da verdadeira conversão na vida de Saulo foi seu…

III) Desejo de pregar o Evangelho


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Ele se torna um evangelista: “E logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que
este é o Filho de Deus.” (Atos 9.20). A partir do versículo 20, nós vamos ver em Saulo um
comportamento muito comum na vida de um convertido: pregação do evangelho.
“Estava com eles em Jerusalém, entrando e saindo, pregando ousadamente em
nome do Senhor.”(Atos 9.28) - Saulo foi mandado para Cesaréria e dali para Tarso a sua
terra natal. Lá ele ficou alguns anos, possivelmente pregando o evangelho. Depois desses
anos Barnabé foi até ele (Atos. 11.25), e encontrando-o, o levou para Antioquia, para
pregarem lá o evangelho. E assim deu-se início a história missionária do apóstolo Paulo.
“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo
aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego;”(Romanos 1.16)
“Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com
todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.” (1 Coríntios 9.22)
O exemplo de Saulo nos ensina que a conversão gera no novo discípulo de Cristo o
desejo de pregar o seu evangelho. Este é um sinal encontrado na vida de um verdadeiro
convertido.

CONCLUSÃO: Saulo (que teve o nome mudado para Paulo por estratégia
missionária) era um perseguidor implacável da igreja, mas o encontro com Cristo, tornou-
se um grande pregador da Palavra de Deus. E você? O que você era antes de encontrar
com Jesus? E o que você é agora? É tempo de analisar se há em você evidências da
verdadeira conversão. Se o evangelho não tivesse sido pregado a você, onde você estaria
agora? Como estaria a sua vida? Pense nisso e anuncie o evangelho Cristo.
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03 – Quando alguém está convertido?

Da liberdade cristã e da liberdade de consciência (CFW – Cap. XX)

III. Aqueles que, sob o pretexto de liberdade cristã, cometem qualquer pecado ou
toleram qualquer concupiscência, destroem por isso mesmo o fim da liberdade cristã; o
fim da liberdade é que, sendo livres das mãos dos nossos inimigos, sem medo sirvamos
ao Senhor em santidade e justiça, diante dele todos os dias da nossa vida.
Luc. 1:74-75; Rom. 6:15; Gal. 5:13; I Ped. 2:16; II Ped. 3: 15.

Por que seguir Jesus? – Jonathan Dodson


Na cultura de hoje, somos mais pragmáticos que reflexivos. Obcecados em saber o
que dá certo e qual o passo a passo para o sucesso, nós nos esforçamos para repetir a
fórmula. Preocupamo-nos menos com o porquê das coisas funcionarem. O discipulado
não é exceção. Muitos trocaram o porquê pelo como; a motivação pela melhor prática.
Isso é desconcertante. A questão é que a prática pode levar-nos apenas até certo ponto.
Quando chegam as dificuldades, a prática precisa de motivação para continuar.
O que te motiva a seguir Jesus? Se esta não é uma questão que você continuamente
pondera e responde, você se afastará de Jesus ao invés de segui-lo.
O discípulo pragmático
Devido à inclinação pragmática de nossa cultura, o mantra do discipulado
moderno é “faça discípulos que façam discípulos”. Esse mantra é pragmático e
reprodutivo. A reprodução pragmática é a principal preocupação de Jesus? Quando veio
proclamar o evangelho do Reino, ele transmitiu uma mensagem inspiradora e depois
passou os três pontos de ação sobre como fazer discípulos? Com certeza, o que ele fez foi
nos dar exemplo, instruir e enviar (Lucas 9-10). O Reino de Deus está incorporado a um
DNA reprodutivo (refletido em algumas das parábolas agrícolas de Jesus). Mas o Reino de
Deus também é lento e profundo. Ele se estende por períodos árduos e pelas profundezas
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do coração humano. O reinado de Cristo penetra nosso DNA, nos motivando


continuamente.
Ao invés de focar o seu treinamento no “como”, Jesus incansavelmente chegava ao
“porquê”. É por isso que muitos de seus ditos são inquietantes. Como um mestre, ele
despertava a reflexão, e não apenas a ação:
Indo eles caminho fora, alguém lhe disse: Seguir-te-ei para onde quer que fores. Mas
Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; Mas o Filho do
Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lucas 9:57-58)
Outro lhe disse: Seguir-te-ei, Senhor; mas deixa-me primeiro despedir-me dos de
casa. Mas Jesus lhe replicou: Ninguém que, tendo posto a mão no arado, olha para trás é
apto para o reino de Deus. (versículos 61-62)
Jesus nos força a refletir sobre os nossos motivos para segui-lo. Se vivemos para o
conforto e facilidade, não vamos desistir da nossa cama, dinheiro e entretenimento para
segui-lo. Se a comunidade ideal é o que motiva as nossas decisões, não vamos desistir de
amigos e familiares. Jesus é claro. Se quisermos ser seus discípulos, devemos ser
motivados por algo maior do que o conforto e a comunidade. Seu Reino deve nos motivar,
e o Reino requer sacrifícios.
Verdadeiros discípulos considerarão e assumirão o custo de segui-lo vez após vez.
Eles suportarão porque, ao encontrar o Reino, eles encontrarão um Rei digno de seu
sacrifício. Procurando o porquê de sua existência, eles descobrirão uma pérola de grande
valor. Os discípulos que são motivados pelo pragmatismo só podem considerar o custo e
abraçar a causa de fazer discípulos que fazem discípulos, mas quando chega o momento
decisivo, eles se afastam de Jesus, e não o seguem. Precisamos de mais do que os “comos”
do cumprimento da Grande Comissão para atravessarmos as adversidades que advêm
com o buscar primeiro o Reino de Deus.
O discípulo de Jesus
Quando Jesus proferiu o sermão do monte, ele o encheu de motivação do Reino. A
orientação principal para fazer discípulos é precedida pela imagem de um rei ressurreto
e radiante, com poder e autoridade no céu e na terra (Daniel 7:9-14; Mateus 28:17). Ele é
forte o suficiente para depor as nações, e glorioso o suficiente para convocá-las à sua
adoração. Somos enviados sob essa proteção. Não somos enviados na autoridade de nossa
própria experiência, mas na autoridade de seu senhorio. Nossa história não é suficiente
para “fazer um discípulo”, mas a história dele é. Por que cumprimos o ide? Para batizar
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em seu nome, não em nosso. Fazer discípulos de todas as nações não é uma causa pessoal,
é o plano redentor do próprio Deus. A nossa motivação, então, resulta de uma submersão
na graça de Deus, e não do alinhamento dos outros com a nossa maneira de fazer as coisas.
Como podemos continuar a fazer discípulos quando estamos submersos no
pecado até o pescoço? Temos que lembrar que o sucesso da nossa missão exige não só a
autoridade do Rei, mas também a misericórdia do Messias. Ele é o Discípulo que tem
sucesso onde nós falhamos, em perfeita obediência a Deus. Nós estendemos a
misericórdia que vem das misericórdias dele, as quais se renovam a cada dia.
Mas e se o campo missionário for muito difícil? Eis que ele está conosco sempre,
até o fim dos tempos. Nós dependemos não só da obediência passada do Discípulo Fiel,
mas também da atual presença do Senhor ressurreto. Fazemos discípulos na autoridade
de Jesus, imersos na graça de Jesus, permanecendo na misericórdia de Jesus, com a
promessa da presença eterna do Rei Jesus. Os discípulos precisam recuperar a motivação
única para suportar todo o custo - a suficiência infinita e o esplendor do nosso Senhor.
Por que seguimos Jesus? Por causa de quem ele é. Se tivermos Jesus, temos mais
do que o suficiente para fazermos discípulos.
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04 – É possível ter certeza da salvação?

Da perseverança dos santos (CFW – Cap. XVII)


I. Os que Deus aceitou em seu Bem-amado, os que ele chamou eficazmente e
santificou pelo seu Espírito, não podem decair do estado da graça, nem total, nem
finalmente; mas, com toda a certeza hão de perseverar nesse estado até o fim e serão
eternamente salvos.
Fil. 1: 6; João 10: 28-29; I Ped. 1:5, 9.
II. Esta perseverança dos santos não depende do livre arbítrio deles, mas da
imutabilidade do decreto da eleição, procedente do livre e imutável amor de Deus Pai, da
eficácia do mérito e intercessão de Jesus Cristo, da permanência do Espírito e da semente
de Deus neles e da natureza do pacto da graça; de todas estas coisas vêm a sua certeza e
infalibilidade. ,
II Tim. 2:19; Jer. 31:3; João 17:11, 24; Heb 7:25; Luc. 22:32; Rom. 8:33, 34, 38-39;
João 14:16-17; I João 2:27 e 3:9; Jer. 32:40; II Tess. 3:3; I João 2:19; João 10:28.

Você tem certeza da sua salvação? – Joel Beeke


Um homem e uma mulher estavam parados de mãos dadas numa praia. Por um
tempo, o único som era o das ondas quebrando. Então o homem perguntou: “De que você
tem medo?” Ela respondeu: “Eu quero casar com você mais do que qualquer coisa no
mundo. Mas fico pensando que você mudará de ideia e me abandonar assim como...”. Os
olhos dela fitaram o chão. “Assim como o seu pai abandonou a sua mãe?”, ele perguntou
gentilmente. Hesitantemente, ela concordou com a cabeça.
“Você não confia em mim?”, ele perguntou.
“Ah, sim”, ela disse. “Você é o homem mais digno de confiança que eu já conheci”.
Ela fez uma pausa, e então disse: “Mas temo que você perceba que eu não sou o que você
realmente quer”.
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A mão dele segurou a dela mais firmemente, e ele disse: “Eu conheço você desde
que éramos crianças. Eu conheço os seus defeitos, mas eu amo você. Eu escolhi você, e
não há mais ninguém que eu queira”.
“Eu confio sim em você”, ela disse a ele, “eu só preciso aprender a confiar mais em
você”.
Cristãos podem sentir-se em uma condição semelhante com relação ao Senhor.
Como crentes, confiamos em Deus e sabemos que ele é digno de confiança. Mas a dúvida,
a culpa e o medo podem devorar a nossa convicção de que somos e sempre seremos dele.
Às vezes tememos ser abandonados.
A certeza da salvação é ao mesmo tempo profundamente pessoal e profundamente
doutrinária. Ela estava no coração do debate da Reforma. A Igreja Católica Romana dizia
que um cristão não pode ter certeza sem primeiro ter uma extraordinária e direta
revelação de Deus. Os reformadores, como João Calvino, disseram que a certeza é o direito
de nascimento de todo crente, embora ele possa ser experimentado em graus variáveis.
Devemos primeiro entender o relacionamento entre fé e certeza. A certeza surge
da essência da fé, assim como maçãs crescem naturalmente em macieiras. A certeza é a
“cereja do bolo” da fé. A essência da fé é a confiança. A fé compreende o Deus da aliança e
o considera suficiente. Como diz o Salmo 18.2: “O SENHOR é o meu rochedo, e o meu lugar
forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio” (ACR).
Portanto, os crentes podem, de forma legítima, ter certeza da sua salvação. Davi
confessa: “O SENHOR é o meu pastor” (Sl 23.1). Paulo declara: “porque eu sei em quem
tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu tesouro até aquele
Dia” (2Tm 1.12).
A essência da certeza é saber que eu sou salvo — que os meus pecados estão
perdoados e que eu pertenço a Deus — e, portanto, eu conheço e experimento comunhão
com o Deus triúno. Em Efésios 3.11-12, Paulo escreve a respeito do eterno propósito de
Deus “em Cristo Jesus, nosso Senhor, pelo qual temos ousadia e acesso com confiança,
mediante a fé nele”. Ele descreve esse acesso em termos trinitarianos: “pois por meio dele
[Cristo], ambos temos acesso ao Pai no mesmo Espírito” (Ef 2.18).
Cada pessoa da Trindade está envolvida na certeza da fé. Pai, Filho e Espírito Santo
nos levam a aproximarmo-nos de Deus com ousadia como o nosso misericordioso e
glorioso “Aba, Pai” (Rm 8.15; veja também Sl 103.13; Gl 4.6). Nós temos essa ousadia para
com Deus através da obra de Cristo de morrer na cruz e nos atrair para perto de Deus em
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paz (Ef 2.13-14). O Espírito Santo nos capacita a experimentar a alegria e a paz de
sabermos que somos filhos de Deus (Rm 8.16; Gl 5.22). Conforme confiamos em Cristo, o
Deus da esperança nos enche de alegria e paz pelo poder do Espírito Santo (Rm 15.12-
13).
Contudo, certeza não é algo automático. A Confissão de Fé de Westminster nos diz
que verdadeiros cristãos podem passar por muitos conflitos sem certeza (18.3). Certeza
é o fruto da fé salvífica. Assim como uma geada fora de tempo pode evitar que uma árvore
dê frutos por uma estação, assim também a certeza pode não existir por um tempo
mesmo onde há fé verdadeira, e um crente pode, por um tempo, não ter essa certeza.
Um filho de Deus pode andar em trevas (Is 50.10). Pense em Davi, que implorou:
“Não me repreendas, SENHOR, na tua ira [...]Pois já se elevam acima de minha cabeça as
minhas iniquidades” (Sl 38.1, 4). Semelhantemente, Hemã, o ezraíta, chorou: “Sobre mim
pesa a tua ira; tu me abates com todas as tuas ondas” (88.7).
Pedro nos exorta a “nos esforçarmos cada vez mais por firmar nosso chamado e
eleição” (2Pe 1.10). As suas palavras indicam que um cristão pode encontrar certeza de
que Deus o escolheu e o chamou para a salvação em Cristo. Tal certeza é normalmente
inseparável do andar com Deus na fé.
A Confissão de Westminster diz:
Uma infalível segurança da fé [é] fundada na divina verdade das promessas de
salvação, na evidência interna daquelas graças a que são feitas essas promessas, no
testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos sermos nós filhos de
Deus (18.2).1
Examinemos cada um desses meios de alcançar essa segurança.
A maneira de buscá-la é, primeiro, procurar arduamente conhecer Deus
experimentalmente através das suas grandes e preciosas promessas (2Pe 1.2-4). O
evangelho promete que Cristo é dado gratuitamente a nós em toda a sua suficiência. Se
você vê essas promessas como o “Sim” de Deus em Cristo, você será fortalecido para dar
o seu “Amém” a elas (2Co 1.20). Anthony Burgess, que foi um dos teólogos de
Westminster, escreveu: “Confiar em Deus e em Cristo quando não sentimos nada além de
culpa e destruição dentro de nós é a maior honra que podemos dar a Deus”.
Segundo, devemos buscar crescimento espiritual ao agir a partir das promessas.
Pedro disse que Deus nos deu as suas promessas “para que por elas vos torneis
coparticipantes da natureza divina”, isto é, para que sejamos conformados à imagem de
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Deus (2Pe 1.4). Esforçar-se para crescer em virtude, conhecimento, temperança,


paciência, piedade, fraternal amabilidade e caridade (vv. 5-7) é o caminho para
“confirmar a vossa vocação e eleição” (v. 10). Conforme crescemos em nossa capacidade
de guardar os mandamentos de Deus, podemos estar seguros de que pertencemos a ele
(1Jo 2.3). Aqueles que persistem em baixos níveis de obediência experimentarão, no
máximo, baixos níveis de segurança.
A obediência leva a um aumento da certeza porque ela é a evidência de uma fé viva
e prova que não somos hipócritas (Tg 2.14). Boas obras não nos salvam (Ef 2.8-9), mas
uma vida de retidão e amor é uma forte evidência do novo nascimento (1Jo 2.29; 4.7).
William Ames escreveu: “Aquele que entende corretamente a promessa da aliança não
pode ter certeza da sua salvação a menos que perceba em si mesmo verdadeira fé
e arrependimento”.
Terceiro, quando seguimos a orientação do Espírito Santo de andar pela fé em
Cristo, experimentaremos o seu testemunho como Espírito de adoção (Rm 8.14-16).
Todos esses três meios de alcançar certeza da salvação, identificados pelos
teólogos de Westminster, são inseparáveis do ministério do Espírito. O Espírito nos leva
a abraçar as promessas de Deus, nos mostra as evidências externas da graça em nós e
testifica com os nossos espíritos de que somos filhos de Deus.
Uma mulher pode crescer em confiança no amor de seu marido ao caminhar perto
dele ao longo da vida, e ao aprender pela experiência que ela é dele e ele é dela. Que Deus
abençoe a noiva de Cristo para que ela também caminhe mais perto de seu Marido, Jesus
Cristo, e cresça na certeza do seu imutável amor por ela.
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05 – Somente pela Graça

Da vocação eficaz (CFW – Cap. X)


I. Todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no
tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu
Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por
natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus
entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a
salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne,
renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é
bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui
livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça.
João 15:16; At. 13:48; Rom. 8:28-30 e 11:7; Ef. 1:5,10; I Tess. 5:9; 11 Tess. 2:13-14;
IICor.3:3,6; Tiago 1:18; I Cor. 2:12; Rom. 5:2; II Tim. 1:9-10; At. 26:18; I Cor. 2:10, 12: Ef.
1:17-18; II Cor. 4:6; Ezeq. 36:26, e 11:19; Deut. 30:6; João 3:5; Gal. 6:15; Tito 3:5; I Ped.
1:23; João 6:44-45; Sal. 90;3; João 9:3; João6:37; Mat. 11:28; Apoc. 22:17.
II. Esta vocação eficaz é só da livre e especial graça de Deus e não provem de
qualquer coisa prevista no homem; na vocação o homem é inteiramente passivo, até que,
vivificado e renovado pelo Espírito Santo, fica habilitado a corresponder a ela e a receber
a graça nela oferecida e comunicada.
II Tim. 1:9; Tito 3:4-5; Rom. 9:11; I Cor. 2:14; Rom. 8:7-9; Ef. 2:5; João 6:37; Ezeq.
36:27; João5:25.

Quão firme fundamento! – Steven Lawson

Nenhum edifício erigido por mãos humanas pode ser e permanecer sólido e forte,
a não ser que os seus alicerces estejam bem fixos e sejam firmes. Um edifício alto não
pode ser construído sobre uma fundação tendente a fragmentar-se. Não se deve construir
um edifício sobre mero lixo ou entulho. Sem uma base sólida e sem colunas enterradas
profundamente, a estrutura superior cairá. E mais, quanto mais alto o edifício, mais
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profundas as colunas devem ser. A solidez estrutural do edifício todo repousa


completamente na firmeza do alicerce.
Em nenhum outro lugar essa verdade é mais aplicável do que na construção da
igreja, que é "uma casa espiritual" (1Pe 2.5). Jesus Cristo em pessoa é o único Edificador
da igreja, como prometeu: "Edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão
vencê-la" (Mt 16.18b). Cristo não disse "vocês edificarão a minha igreja". Tampouco disse:
"Eu edificarei a igreja de vocês". Em vez disso, afirmou: "[Eu] edificarei a minha igreja".
Cristo, pessoalmente, está construindo a sua igreja, e, como um sábio construtor, está
estabelecendo-a sobre fundação de sólidas pedras – o sólido fundamento da doutrina (Ef
2.20).
Amarras Inamovíveis da Graça Soberana
A pedra angular, a principal pedra de uma igreja construída por mãos divinas, é a
fé no senhorio de Jesus Cristo. Afinal de contas, foi essa a grande confissão de Pedro – "Tu
és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mt 16.16) – que deu azo à grande promessa de Jesus de
que construiria soberanamente a sua igreja. Há, porém, outras amarras inamovíveis da
igreja, além desta de que acabamos de falar. No processo de edificar a sua igreja, o Senhor
Jesus levanta e coloca nos respectivos lugares as fortes colunas e os fortes componentes
de tudo quanto ensinou – o completo conselho de Deus. Jesus ordenou que os seus
discípulos ensinassem "tudo o que eu lhes ordenei" (Mt 28.20, com ênfase em tudo). As
verdades que Cristo ensinou constituem a fundação sólida e segura. E no coração mesmo
do seu ensino doutrinário está um inequívoco compromisso com a soberania da graça
divina. Estas verdades centrais formam a sólida base do firme fundamento da igreja. A
igreja que é construída sobre as doutrinas da graça, é erguida sobre a inexpugnável rocha
da revelação divina. Que firme fundamento tal igreja tem!
Mas, triste é dizer, a igreja atual parece ter a intenção de retirar as doutrinas da
graça do seu alicerce. Em vez disso, prefere construir com madeira, palha e restolho sobre
areia movediça. Uma igreja assim pode ter uma impressionante aparência externa, e,
portanto, pode atrair muita gente. Mas, interiormente ela não é espiritual, é instável, e,
pior, em grande parte não é convertida. Tal igreja, construída sobre um alicerce tão frágil
não pode ter esperança de subsistir nos dias de tribulação. Mas a história registra que
quando uma igreja é edificada com o ouro, a prata e as pedras preciosas de uma
mensagem centrada em Deus, ela é fortalecida e pode resistir aos mais difíceis temporais.
Nem mesmo os ventos tempestuosos da apostasia, da perseguição e das terríveis chamas
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do martírio podem fazê-la cair. De fato, sempre que a igreja é edificada sobre a sólida
rocha da graça soberana de Deus, ela permanece inamovível, como inamovível tem
permanecido nas horas mais tenebrosas da história.
A Graça Soberana: um Firme Fundamento
As verdades da graça soberana formam o mais forte fundamento doutrinário para
qualquer igreja ou crente. As doutrinas relacionadas com a soberania de Deus na salvação
do homem lançam a mais sólida pedra angular e, assim, protegem firmemente a vida e o
ministério do povo de Deus. O culto na igreja é mais puro quando o ensino dessa igreja
sobre a graça soberana é mais claro. Seu modo de viver é mais limpo quando a sua
exposição das doutrinas da graça é mais rica. Sua comunhão é mais agradável quando a
instrução sobre a soberania de Deus é mais firme. Sua obra de evangelização no mundo é
mais forte quando a sua proclamação da teologia transcendental é mais ousada. A vida
espiritual da igreja toda é elevada quando a sua mensagem está ancorada no mais alto
conceito sobre a graça soberana de Deus. Foi nos tempos da história em que as doutrinas
da graça eram apresentadas em sua rica plenitude, que a igreja esteve melhor. Eis onde
permanece o firme fundamento da igreja: nas enriquecedoras verdades da graça
soberana.
A respeito desse sólido fundamento, Benjamin B. Warfield escreveu:
Pois bem, estes Cinco Pontos compõem uma unidade orgânica, um singular e uno
corpo da verdade. Eles estão baseados em duas pressuposições que a Escritura endossa
abundantemente. A primeira pressuposição é a completa impotência do homem, e a
segunda é a absoluta soberania de Deus em sua graça. Todos os demais pontos são
decorrências. O local de encontro desses dois fundamentos é o coração do Evangelho,
pois, se o homem é totalmente depravado, segue-se que é necessário que a graça de Deus
em salvá-lo seja soberana. De outro modo, o homem inevitavelmente a recusará em sua
depravação, e permanecerá não redimido. 1
Warfield está certo em sua avaliação. A culpa humana e a graça divina se cruzam
no Evangelho, e as doutrinas da graça soberana retratam vividamente a grandiosidade da
obra de salvação planejada e operada por Deus.
Sobre este ponto, Boice declara sucintamente: "As doutrinas da graça
permanecem ou caem juntas, e juntas apontam para uma verdade central: a salvação é
toda de graça porque é toda de Deus; e, porque é toda de Deus, é toda para a sua
glória". 2 Toda a glória seja para Deus, que supre toda a graça.
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06 – Falsos meios de santificação

Da Santificação (CFW – Cap. XIII)


I. Os que são eficazmente chamados e regenerados, tendo criado em si um novo
coração e um novo espírito, são além disso santificados real e pessoalmente, pela virtude
da morte e ressurreição de Cristo, pela sua palavra e pelo seu Espírito, que neles habita;
o domínio do corpo do pecado é neles todo destruído, as suas várias concupiscências são
mais é mais enfraquecidas e mortificadas, e eles são mais e mais vivificados e fortalecidos
em todas as graças salvadores, para a prática da verdadeira santidade, sem a qual
ninguém verá a Deus.
I Cor. 1:30; At. 20:32; Fil. 3:10; Rom. 6:5-6; João 17:17, 19; Ef. 5-26; II Tess. 2:13;
Rom. 6:6, 14; Gal. 5:24; Col., 1:10-11; Ef. 3:16-19; II Cor. 7:1; Col. 1:28, e 4:12; Heb. 12:14.
II. Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda
persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua
e irreconciliável - a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne.
I Tess. 5:23; I João 1:10; Fil. 3:12; Gal. 5:17; I Ped.2:11.
III. Nesta guerra, embora prevaleçam por algum tempo as corrupções que ficam,
contudo, pelo contínuo socorro da eficácia do santificador Espírito de Cristo, a parte
regenerada do homem novo vence, e assim os santos crescem em graça, aperfeiçoando a
santidade no temor de Deus.
Rom. 7:23, e 6:14; I João 5:4; Ef. 4:15-16; II Ped. 3:18; II Cor. 3:18, e 7: 1.

Sobre espiritualidade, místicos e neoliberais – Augustus Nicodemus


Lopes
A espiritualidade, tema antigo da praxis católica, tornou-se ultimamente um
assunto da agenda protestante. Quando ouvi pela primeira vez evangélicos propondo a
espiritualidade, fiquei curioso, embora não muito interessado. A proposta passava pelos
escritos e experiências dos místicos do período medieval (o quadro ao lado é o êxtase de
Tereza de Ávila) e eu não via o que podíamos aprender deles nessa área. As justificativas
apresentadas para a busca de uma comunhão maior com Deus pareciam ter algum
fundamento. Criticou-se a superficialidade da piedade cristã moderna, o desinteresse
atual da Igreja por exercícios espirituais como meditação e contemplação, e a influência
21

nefasta daquele tipo de teologia sistemática tradicional que faz uma abordagem
mecanicista da realidade e não dedica espaço para a oração. Mas será que os padres
místicos medievais poderiam servir de modelo para o avivamento espiritual tão
necessário em nossos dias?
Mais tarde, ouvi a mesma proposta vinda de gente que defendia o diálogo com o
catolicismo e a Igreja Ortodoxa via misticismo medieval, que funcionaria como uma
espécie de ponte para esse diálogo. Depois me inteirei que vários teólogos católicos
modernos estão afinados no mesmo discurso. E quando finalmente ouvi neoliberais se
dizendo místicos e espirituais, e defendendo a mesma coisa, fiquei de orelha em pé. Por
que neoliberais, que acreditam que a verdade evolui e muda, que são críticos ferozes de
tudo que é antigo na Igreja, agora resolveram beber no misticismo medieval?
Preciso esclarecer, de saída, que não estou dizendo que todo mundo que defende
aspectos da espiritualidade medieval para hoje é neoliberal. Preciso também esclarecer
que, a princípio, estou aberto para aprender com os cristãos do passado, ainda que sejam
católicos romanos medievais. Também quero acreditar que os atuais proponentes
evangélicos da espiritualidade estão examinando tudo e retendo apenas o que é bom. Não
sei, contudo, como conseguirão separar a mística medieval da teologia medieval, eivada
do catolicismo que foi denunciado pelos Reformadores.
Mas o meu objetivo nesse post é o interesse dos neoliberais no misticismo
medieval. Algo não está batendo direito, a não ser que tenham encontrado no misticismo
dos monges semelhanças com a espiritualidade em que acreditam.
A primeira pode ser o foco na experiência, a ausência da Bíblia e o conseqüente
esvaziamento de conteúdo teológico. Sei que alguns místicos citavam a Bíblia, mas vai
uma distância muito grande entre fazer isso e desenvolver uma espiritualidade que seja
decorrente da teologia bíblica. A piedade ascética certamente não era moldada pelas
Escrituras, a começar pelos votos de abstinência, a auto-flagelação, o isolamento social e
uma vida dedicada à contemplação. Para não falar na busca de Deus de forma direta. A
mística medieval, com raras e notáveis exceções, é voltada para a experiência interior,
para a busca do êxtase, do mistério, de uma comunhão com Deus que não tenha troca de
conteúdos, onde o homem não fala teologicamente e Deus também não responde
teologicamente. A mesma coisa ocorre com os herdeiros pós-modernos de F.
Schleiermacher, o pai do liberalismo protestante. Para ele a religião consistia no senso
interior de dependência de Deus, não na aderência a qualquer conteúdo doutrinário. Na
22

mesma linha, Paul Tillich, influenciado pelo místico Meister Eickhart, disse, “se a oração
é trazida ao nível de uma conversa entre dois seres, é blasfema e ridícula” (Teologia
Sistemática, I, 112). Os neoliberais, ao final, também concordam que o âmago da religião
é a experiência individual direta com o inefável. E assim, encontraram nos monges suas
almas-gêmeas.
Uma segunda semelhança aparente entre a espiritualidade medieval e a neoliberal
é a teologia natural. O Deus que desejam encontrar em suas experiências é aquele de
quem podem aprender pela natureza ou dentro de si mesmos. A contemplação meditativa
e a comunhão mística com a natureza, seus rios, montanhas, florestas e vales (quem não
lembra do “irmão sol” e da “irmã lua” de Francisco de Assis?) colabora para a mística
medieval, que nesse ponto não somente é similar à religiosidade neoliberal, mas também
à espiritualidade pagã, conforme post de Mauro Meister aqui no blog.
Terceira, a abertura para novas revelações. Grande parte das experiências dos
místicos medievais consistia em visões ou contemplações diretas de Deus. A famosa
mística medieval, a freira beneditina Hildegard (1098-1179), por exemplo, teve visões de
Deus desde os três anos, nas quais Deus revelou-lhe a natureza dele e do universo. Sua
obra Scivias, um clássico do misticismo medieval, relata essas visões. Já o famoso Inácio
de Loyola, depois de ler o livro Vida de Cristo do monge místico Ludolfo da Saxônia (séc.
XIV), experimentou visões místicas de Cristo e da virgem Maria. A própria Teresa de Ávila,
ícone da espiritualidade medieval, narra em Castelo Interior como, em uma série de
experiências místicas, Jesus veio a ela pessoalmente, a partir das quais ela começou a
amá-lo apaixonadamente. Neoliberais não têm visões, mas acreditam que a verdade
sempre está evoluindo, que Deus está sempre revelando coisas novas à Igreja. Em ambos
os casos, místicos e neoliberais buscam a Deus sem a mediação das Escrituras.
A quarta semelhança pode ser o messianismo não-conformista. Muitos místicos se
isolaram em protesto contra a corrupção da Igreja de sua época. Eles queriam reformá-la
e livrá-la de suas corrupções. Inconformados, retiraram-se em busca de maior comunhão
com Deus. O misticismo deles vem dessa vida de isolamento, dedicado à contemplação,
fechados em seus mosteiros ou perdidos em cavernas e desertos. Os neoliberais também
são messiânicos e se julgam comissionados a reformar por inteiro a Igreja de seus dias,
embora adotem a tática de ficar dentro dela, em vez de sair.
Uma quinta semelhança é a crença última na salvação por obras. O misticismo
medieval era ascético – algo bastante diferente da doutrina paulina da justificação pela fé
23

somente. Sua busca da espiritualidade nascia da crença medieval de que o homem


colaborava ativamente para a sua salvação e ascensão a Deus. Os neoliberais, da mesma
forma, acreditam que a salvação não será pelo sacrifício vicário de Cristo, mas pela
evolução pessoal do homem.
A última semelhança é o ateísmo lingüístico. Muitos místicos seguiram a idéia de
Plotínio de que Deus está acima da razão e das palavras e que só pode ser conhecido
quando alguém transcende esse mundo e se torna um com ele, numa união mística. Não
se pode falar sobre Deus e nem se escrever sobre ele. De maneira incrivelmente
semelhante, o neoliberalismo rejeita a proposicionalidade da revelação bíblica e insiste
que não se pode falar de Deus ou se escrever sobre ele de forma significativa (é por isso
que neoliberais acabam se tornando poetas, pois só lhes resta a poesia como forma de
comunicação). Uma linguagem onde não se pode falar sobre Deus, ou o ateísmo
lingüístico, une as duas espiritualidades.
Não me admira que os neoliberais tenham tanto interesse nos monges. Afinal, são
pássaros da mesma plumagem. E não é de estranhar que os Reformadores rejeitaram em
geral o misticismo medieval. Calvino e Lutero, tinham profundas diferenças com relação
aos conceitos dos místicos sobre Deus, o homem e a salvação.
Como reformado calvinista, ainda tenho escrúpulos quanto a buscar modelos de
espiritualidade em místicos ascetas medievais, cuja teologia estava impregnada de
conceitos errados sobre essas coisas. Se eles oravam mais, jejuavam mais e
contemplavam mais, não me impressiona. Como Calvino, digo que deveriam trabalhar
mais para não viver às custas dos outros, enquanto ficavam contemplando, meditando e
cantarolando.
Creio que o misticismo bíblico – união com Cristo realizada na sua morte, vivida
pelo Espírito, celebrada na Ceia e vivenciada pelo uso dos meios de graça – continua
sendo o padrão para os cristãos. O que falta em muitos é a disposição para vivê-lo.
24

07 – Meios indispensáveis de santificação

Da fé salvadora (CFW – Cap. XIV)


I. A graça da fé, pela qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação das suas
almas, é a obra que o Espírito de Cristo faz nos corações deles, e é ordinariamente operada
pelo ministério da palavra; por esse ministério, bem como pela administração dos
sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida.
Heb. 10:39; II Cor. 4:13; Ef. 1:17-20, e 2:8; Mat. 28:19-20; Rom. 10:14, 17: I Cor.
1:21; I Ped. 2:2; Rom. 1:16-17; Luc. 22:19; João 6:54-56; Rom. 6:11; Luc. 17:5, e 22:32.
II. Por essa fé o cristão, segundo a autoridade do mesmo Deus que fala em sua
palavra, crê ser verdade tudo quanto nela é revelado, e age de conformidade com aquilo
que cada passagem contém em particular, prestando obediência aos mandamentos,
tremendo às ameaças e abraçando as promessas de Deus para esta vida e para a futura;
porém os principais atos de fé salvadora são - aceitar e receber a Cristo e firmar-se só
nele para a justificação, santificação e vida eterna, isto em virtude do pacto da graça.
João 6:42; I Tess. 2:13; I João 5:10; At. 24:14; Mat. 22:37-40; Rom. 16:26; Isa. 66:2;
Heb. 11:13; I Tim. 6:8; João1:12; At. 16:31; Gal. 2:20; At. 15: 11.

Encorajamento para desenvolver a santidade – Joel Beeke

O desenvolvimento da santidade é uma necessidade. Thomas Watson chamou isso


de “trabalho árduo”. Felizmente, Deus nos providencia muitas motivações para a
santidade em sua Palavra. Para encorajar-nos na busca pela santidade, precisamos
focalizar as seguintes verdades bíblicas.
Deus nos chamou à santidade
“Porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação” (1
Ts 4.7). Todas as coisas às quais o Senhor nos chama são necessárias. Sua própria
chamada, assim como todos os benefícios de um viver santo que experimentamos, devem
nos induzir a buscar e praticar a santidade. A santidade aumenta o nosso bem-estar
espiritual. Deus nos assegura que “nenhum bem sonega aos que andam retamente” (Sl
84.11). “O que a saúde é para o coração”, observou John Flavel, “a santidade é para a
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alma”.1 Na obra escrita por Richard Baxter sobre a santidade, os próprios títulos dos
capítulos são esclarecedores: “Santidade é o único caminho de segurança”; “Santidade é
o caminho mais benéfico”; “Santidade é o único meio honroso”; “Santidade é o caminho
mais agradável”. Contudo, ainda mais importante, a santidade glorifica ao Deus que você
ama (Is 43.21). Como afirmou Thomas Brooks: “A santidade faz o máximo para honrar a
Deus”.
A santidade fomenta a semelhança a Cristo
Thomas Watson escreveu: “Devemos nos empenhar em sermos semelhantes a
Deus em santidade. Este empenho é um espelho nítido no qual podemos ver um rosto; é
um coração santo no qual pode ser visto algo do caráter de Deus”.4 Cristo é o padrão de
santidade para nós — o padrão de humildade santa (Fp 2.5-13), compaixão santa (Mc
1.41), perdão santo (Cl 3.13), altruísmo santo (Rm 15.3), indignação santa contra o
pecado (Mt 23) e oração santa (Hb 5.7). Desenvolver a santidade que procura
assemelhar-se a Deus e tem a Cristo como padrão nos salva de muita hipocrisia e de um
cristianismo apenas domingueiro. Esta santidade nos dá vitalidade, propósito, significado
e direcionamento no viver diário.
A santidade dá evidência da justificação e da eleição
A santificação é um fruto inevitável da justificação (1 Co 6.11). Estes dois
elementos podem ser distinguidos, mas nunca separados; o próprio Deus os uniu. A
justificação está organicamente ligada à santificação; o novo nascimento dá origem à uma
nova vida. O justificado andará no “caminho de santidade do Rei”. Em Cristo e através
dEle, a justificação dá ao filho de Deus o direito e a ousadia de entrar no céu; a santificação
dá-lhe a aptidão para o céu e a preparação necessária para chegar lá. A santificação é a
apropriação pessoal dos frutos da justificação. B. B. Warfield observa: “A santificação é
tão-somente a execução do decreto de justificação. Pois, se a santificação falhasse, a
pessoa justificada não seria liberta de acordo com sua justificação”. Conseqüentemente,
o decreto de justificação de Cristo, em João 8.11 (“Nem eu tampouco te condeno”), é
imediatamente seguido pelo chamado à santidade: “Vai e não peques mais”. A eleição é
também inseparável da santidade: “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação,
pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2.13). A santificação é a marca de
identificação das ovelhas eleitas de Cristo. Por isso, a eleição é sempre uma doutrina
confortante para o crente, pois esta é o seguro fundamento que explica a graça de Deus
operando nele. Por isso, os nossos antepassados reformados consideravam a eleição
26

como um dos maiores consolos do crente, visto que a santificação torna visível a eleição.
Calvino insistiu que a eleição não deveria desanimar ninguém, pois o crente recebe
consolo dela, e o incrédulo não é chamado a considerá-la — antes, ele é chamado ao
arrependimento. Aquele que fica desanimado pela eleição, ou confia-se à eleição sem
viver uma vida de santidade, está se tornando vítima de um mau uso satânico desta
doutrina preciosa e encorajadora (veja Dt 29.29). Como afirma J. C. Ryle: “Não é permitido
a nós, neste mundo, estudar as páginas do Livro da Vida, e ver se nossos nomes
encontram-se ali. Mas, se há algo nítido e plenamente declarado a respeito da eleição, é
isto — que os homens e mulheres eleitos serão conhecidos e distinguidos por vidas
santas”.8 A santidade é o lado visível de sua salvação. “Pelos seus frutos os conhecereis”
(Mt 7.16).
A santidade promove a segurança
“Todos podem estar seguros de sua fé por meio de seus frutos” (Catecismo
Heidelberg, Questão 86). Teólogos reformados concordam que muitas das formas e graus
de segurança experimentados por crentes genuínos — especialmente segurança diária
— são alcançados gradualmente no caminho da santificação, mediante o cuidadoso
conhecimento da Palavra de Deus, dos meios da graça e da conseqüente obediência.9 Uma
aversão crescente pelo pecado, mediante a mortificação, e um amor crescente pela
obediência a Deus, por meio da vivificação, acompanham o progresso da fé, enquanto ela
cresce em segurança. A santidade centralizada em Cristo e operada pelo Espírito é a maior
e mais sã evidência da filiação divina (Rm 8.1-16). O meio de perder um senso diário de
segurança é deixar de buscar santidade diariamente. Muitos crentes vivem de modo
relapso. Tratam o pecado despreocupadamente, ou negligenciam as devocionais diárias
e o estudo da Palavra. Outros vivem de maneira muito inativa. Não desenvolvem a
santidade, mas assumem a postura de que nada pode ser feito para nutrir a santificação,
como se esta fosse algoexterno a nós, exceto em raras ocasiões, quando algo muito
especial “acontece” interiormente. Viver de maneira descuidada e inerte é pedir por
escuridão espiritual, desalento e falta de frutos diariamente.
A santidade nos purifica
“Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes,
nada é puro” (Tt 1.15). A santidade não pode ser exercitada, quando o coração não foi
fundamentalmente transformado por meio de regeneração divina. Por meio do novo
nascimento, Satanás é destituído, a lei de Deus é escrita no coração do crente, Cristo é
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coroado Senhor e Rei e o crente é feito “disposto e pronto, conseqüentemente, para viver
em Cristo” (Catecismo Heidelberg, Questão 1). “Cristo em nós” (Christus in nobis) é um
complemento essencial para “Cristo por nós” (Christus pro nobis). O Espírito de Deus não
apenas ensina ao crente o que Cristo fez, como efetiva a santidade e a obra de Cristo em
sua vida pessoal. Por meio de Cristo, Deus santifica seu filho e faz suas orações e ações de
graças aceitáveis. Como disse Thomas Watson: “Um coração santo é o altar que santifica
a oferta; se não é por satisfação, é por aceitação”.
A santidade é essencial para um serviço efetivo a Deus
Paulo une a santificação à utilidade: “Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar
destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando
preparado para toda boa obra” (2 Tm 2.21). Deus usa a santidade para assistir aos
pregadores do evangelho, para aumentar a influência da fé cristã, a qual é desonrada pelo
descuido dos crentes e hipócritas que freqüentemente servem como os melhores aliados
de Satanás.
Nossas vidas estão sempre fazendo o bem ou o mal; elas são uma carta aberta para
que todos leiam (2 Co 3.2). Um viver santo influencia e impressiona mais do que qualquer
outra coisa; nenhum argumento pode igualar- se a uma vida santa. Ela mostra a beleza da
religião; dá credibilidade ao testemunho e ao evangelismo (Fp 2.15).13 A “santidade”,
escreve Hugh Morgan, “é o modo mais eficiente de influenciar pessoas não convertidas e
de criar nelas uma disposição para ouvir a pregação do evangelho” (Mt 5.16; 1 Pe 3.1-2).
A santidade manifesta-se em humildade e reverência a Deus. Deus procura e usa pessoas
humildes e reverentes (Is 66.2). Como observa Andrew Murray: “O maior teste para
sabermos se a santidade que professamos buscar ou possuir é verdade e vida, será
observar se ela se manifesta na crescente humildade que produz. Na criatura, a
humildade é algo necessário para permitir que a santidade de Deus habite nela e brilhe
por meio dela. Em Jesus, o Santo de Deus que nos faz santos, a humildade divina foi o
segredo de sua vida, sua morte e sua exaltação. O teste infalível para nossa santidade será
a humildade diante de Deus e dos homens, a qual nos marca. A humildade é o esplendor
e a beleza da santidade”.
A santidade nos prepara para o céu
Hebreus 12.14 diz: “Segui [literalmente: buscai]... a santificação, sem a qual
ninguém verá o Senhor”. Como escreveu John Owen: “Não há imaginação que iluda tanto
o homem, que seja mais tola e mais perniciosa do que esta: que pessoas não purificadas,
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não santificadas, que não buscam santidade em suas vidas possam depois ser levadas a
um estado de bênção, que consiste no gozo de Deus. Nem podem tais pessoas ter gozo de
Deus, nem tampouco Deus ser o galardão delas. De fato, a santidade é aperfeiçoada no
céu; contudo, o começo dela está invariavelmente restringido a este mundo. Deus leva
para o céu somente aquele que Ele santifica nesta terra. O Deus vivo não admitirá pessoas
mortas no céu”. A santidade e o mundanismo, portanto, são opostos um ao outro. Se
estivermos apegados a este mundo, não estamos preparados para o porvir.
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08 – A Importância da Igreja

Da Igreja (CFW – Cap. XXV)


I. A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos
que já foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo,
seu cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as
coisas.
Ef. 1: 10, 22-23; Col. 1: 18.
II. A Igreja Visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo
restrita a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo
inteiro professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos; é o Reino do Senhor
Jesus, a casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação.
I Cor. 1:2, e 12:12-13,; Sal .2:8; I Cor. 7 :14; At. 2:39; Gen. 17:7; Rom. 9:16; Mat. 13:3
Col. 1:13; Ef. 2:19, e 3:15; Mat. 10:32-33; At. 2:47.
III. A esta Igreja Católica Visível Cristo deu o ministério, os oráculos e as
ordenanças de Deus, para congregamento e aperfeiçoamento dos santos nesta vida, até o
fim do mundo, e pela sua própria presença e pelo seu Espírito, os torna eficazes para esse
fim, segundo a sua promessa.
Ef. 4:11-13; Isa. 59:21; Mat. 28:19-20.

Da comunhão dos santos (CFW – Cap. XXVI)


I. Todos os santos que pelo seu Espírito e pela fé estão unidos a Jesus Cristo, seu
Cabeça, têm com Ele comunhão nas suas graças, nos seus sofrimentos, na sua morte, na
sua ressurreição e na sua glória, e, estando unidos uns aos outros no amor, participam
dos mesmos dons e graças e estão obrigados ao cumprimento dos deveres públicos e
particulares que contribuem para o seu mútuo proveito, tanto no homem interior como
no exterior.
I João 1:3; Ef. 3:16-17; João 1:16; Fil. 3:10; Rom. 6:56, e8:17; Ef. 4:15-16; I
Tess.5:11, 14; Gal. 6:10.
II. Os santos são, pela sua profissão, obrigados a manter uma santa sociedade e
comunhão no culto de Deus e na observância de outros serviços espirituais que tendam
à sua mútua edificação, bem como a socorrer uns aos outros em coisas materiais, segundo
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as suas respectivas necessidades e meios; esta comunhão, conforme Deus oferecer


ocasião, deve estender-se a todos aqueles que em qualquer lugar, invocam o nome do
Senhor Jesus.
Heb.10:24-25; At.2:42,46; I João3:17; At. 11:29-30.

As marcas da verdadeira Igreja – R. C. Sproul


Textos: Mt 18.15-17; Rm 11.13-24; 1 Co 1.10-31; Ef 1.22,23; 1 Pe 2.9,10.
Visto que o mundo se acha semeado de milhares de instituições distintas
chamadas igrejas e visto ser possível que instituições, assim como indivíduos, se tornem
apóstatas, é importante sermos capazes de discernir as marcas essenciais de uma
verdadeira e legítima igreja visível. Nenhuma igreja está isenta de erros ou pecados. A
igreja só será perfeita no céu. Há, porém, uma importante diferença entre corrupção - que
afeta todas as instituições - e apostasia. Portanto, para proteger o bem-estar e
crescimento do povo de Deus, é importante definir as marcas da verdadeira igreja.
Historicamente, as marcas da verdadeira igreja têm sido definidas assim:

 a genuína pregação da Palavra de Deus,


 o uso dos sacramentos de acordo com sua instituição e
 a prática da disciplina eclesiástica.

(1) A pregação da Palavra de Deus. Embora as igrejas difiram em detalhes


teológicos e em níveis de pureza doutrinária, a verdadeira igreja afirma tudo aquilo que
é essencial à vida cristã. Semelhantemente, uma igreja é falsa ou apóstata quando nega
oficialmente um princípio essencial da fé cristã, tal como a divindade de Cristo, a
Trindade, a justificação pela fé, a expiação ou outras doutrinas essenciais à salvação. A
Reforma, por exemplo, não moveu uma guerra sobre trivialidades, mas sobre uma
doutrina fundamental da salvação.
2) A administração dos sacramentos. Negar ou difamar os sacramentos
instituídos por Cristo é falsificar a igreja. A profanação da Ceia do Senhor ou o
oferecimento deliberado dos sacramentos a pessoas notoriamente não-crentes
desqualificaria a igreja de ser reconhecida como igreja verdadeira.
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(3) A disciplina eclesiástica. Embora o exercício da disciplina na igreja às vezes


erre na direção ou da complacência ou da severidade, ele pode tornar-se tão pervertida a
ponto de não mais ser reconhecida como legítima. Por exemplo, se uma igreja - pública e
impenitentemente - endossa, pratica ou se recusa a disciplinar pecados grosseiros e
hediondos, ela deixa de exibir esta marca de verdadeira igreja.
Embora os cristãos devem ser solenemente advertidos a não nutrirem um espírito
cismático ou fomentarem divisões e conflitos, devem ser também advertidos quanto à
obrigação de se separarem da falsa comunhão e da apostasia. Toda igreja verdadeira
exibe as genuínas marcas de uma igreja, em grau maior ou menor.
A reforma da igreja é uma tarefa interminável. Buscamos mais ser fiéis à vocação
bíblica para pregar, ministrar os sacramentos e a disciplina eclesiástica.

Sumário
1. A verdadeira igreja tem marcas visíveis que a distinguem de uma igreja
falsa ou apóstata.
2. A pregação do evangelho é necessária para que uma igreja seja legítima.
3. A administração correta dos sacramentos, sem profanação, é uma marca da
igreja.
4. Disciplina contra heresias e pecados grosseiros é uma tarefa necessária da
Igreja.
5. A igreja é sempre carente de reforma de acordo com a Palavra de Deus.