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Licenciatura em História e Arqueologia

FORTIFICAÇÃO ROMANA DE
TERRUGEM
Bruno Gambinhas Leal - 41836

Trabalho académico sobre sítio arqueológico de cariz militar


para a unidade curricular de Arqueologia Militar, lecionada
pelo Prof. Jorge Oliveira, Prof. André Carneiro, Prof.
Fernando Branco Correia e pela Prof. Antónia Fialho Conde

Évora
2018
Índice
Introdução ..................................................................................................................................... 1
Enquadramento ............................................................................................................................. 2
Descrição do sítio .......................................................................................................................... 3
Tipologia ....................................................................................................................................... 4
Recintos-torre ............................................................................................................................ 5
Casas Fortes .............................................................................................................................. 5
Cronologia ..................................................................................................................................... 6
Considerações finais...................................................................................................................... 7
Anexos........................................................................................................................................... 8
Bibliografia ................................................................................................................................. 11
Webgrafia ................................................................................................................................ 12
FORTIFICAÇÃO ROMANA DE TERRUGEM Bruno Gambinhas Leal – Aluno nº 41836

Introdução

A área envolvente à povoação de Terrugem é rica em vestígios que evidenciam


uma longa ocupação romana, representada em vários sítios arqueológicos com as mais
diversas funções que vão desde áreas residenciais, passando por explorações agrícolas e
vias romanas até a estruturas de carácter defensivo.
Destes espaços fortificados destaca-se em maior escala o vicus do Monte da Nora,
situado a 1.7 Km da povoação e com uma menor dimensão e mais desconhecida a
fortificação junto ao Monte da Ordem (ou Dordem) que dista a cerca de 2.5 Km da
pequena aldeia (Fig. 1 e 2).
O sítio do Monte da Nora, descoberto e parcialmente escavado aquando da
construção da autoestrada A6, teve uma ocupação desde a Idade do Ferro que se
prolongou até ao Baixo Império, começando primeiramente como um povoado indígena
fortificado com dois fossos, e depois adquirindo um cariz mais agrícola ao longo do tempo
até à sua necropolização e abandono (Carneiro 2014, pp. 190-192). A fortificação no
Monte da Ordem terá uma ocupação mais efémera, fruto de uma utilização num contexto
específico de instabilidade temporária na região. Será sobre esta última de que falaremos
neste trabalho académico, tentando compilar a (pouca) informação que há disponível de
modo a tentar entender melhor este sítio tão desconhecido até pela população local.

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Enquadramento

O século I a.C. foi um século de grande tensão e instabilidade política nos


territórios ocupados pela República romana. Estas são o fruto da ascensão ao poder de
generais romanos ambiciosos durante o século anterior: “Desde meados do século II a.C.
registou-se um agravamento no conflito latente entre diferentes grupos políticos da
República romana. Neste contexto, foram emergindo progressivamente os chefes
militares, cujo poder se baseava no efectivo domínio que exerciam sobre os seus
exércitos.” (Fabião 1992, p. 218)
Com o eclodir da 1ª Guerra Civil em 88 a.C. que opõe Lúcio Cornélio Sula a Caio
Mário, a violência chega também à Hispânia com a tomada de partido por Quinto Sertório
a favor de Mário.
Após a derrota da fação mariana, a província conhece um breve período de paz,
que volta a ser interrompido com a nomeação em 61 a.C. de Caio Júlio César como
governador da Hispânia Ulterior. César ataca as tribos lusitanas nos chamados Montes
Hermínios, conotados com a região da atual Serra da Estrela, tendo em vista a conquista
das regiões ricas em ouro e estanho que se encontravam a norte do território republicano.
Júlio César virá também a ser o principal protagonista da 2ª Guerra Civil Romana,
quando invade a Itália à frente do seu veterano exército após a conquista da Gália. De
novo a Península Ibérica está a ferro e fogo, com César a perseguir e derrotar entre 49 e
45 a.C. os apoiantes de Cneu Pompeu Magno, seu rival. No ano seguinte acaba por ser
assassinado no Senado, o que volta a reatar as hostilidades entre romanos, desta vez entre
Octávio César Augusto, filho adotivo de Júlio César e os seus assassinos numa primeira
fase e contra Marco António no final (Alarcão 1988, pp. 23-27; Fabião 1992).
Toda esta onda de violência gera um clima de insegurança que vai obrigar a uma
reorganização da administração da província por parte de Roma e fomentar a construção
de estruturas de defesa e vigilância em pontos estratégicos da região, de forma a
providenciar um controlo colonial efectivo na região (Williams 2017, p. 41).

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Descrição do sítio

CNS: 19655
Carta Militar Portuguesa: 413
Coordenadas: N 38° 51' 28.82" / O 7° 22' 20.41" (Mataloto, comunicação pessoal)

Está estabelecida junto a um dos caminhos naturais entre o Oriente e o Ocidente


da Hispânia, perto de onde mais tarde se viria a instalar a Via XII entre Augusta Emerita,
Liberalitas Iulia Ebora e Felicitas Iulia Olisipo, facto atestado por um marco miliário
encontrado cerca de 3 km a norte na Herdade de Alcobaça (Vasconcelos 1914, Mataloto
2002, Almeida et al. 2011).
Segundo Mataloto, a fortificação estaria assente em um afloramento rochoso de
xisto, numa colina extensa e de fraca inclinação virada a Leste e na imediação da Ribeira
da Ordem que corre de Norte para Sul. A sua estrutura seria de forma quadrangular
medindo 19.5 m de comprimento e 17.5 m de largura, perfazendo uma área total de cerca
de 350 m2 isto tendo por base de cálculo o canto que estaria exposto na ruína. Seriam
visíveis apenas 60 cm de altura, no entanto existe a probabilidade de se prolongar abaixo
do solo (Mataloto 2002; Williams 2017, p. 74). Estaria construída com silhares de cerca
de 1 m de comprimento feitos de granito com talhe bem cuidado. Possuiria uma fraca
visibilidade desde a sua posição sobre os terrenos agrícolas envolventes que são
particularmente férteis (Mataloto 2002), apenas avistando a área de Leste a Sul (Fig. 3).
Aquando da sua visita ao terreno, Rui Mataloto observou uma escassez de
materiais de construção no terreno, com apenas um fragmento de terra sigillata hispânica
encontrado no local. Na Ribeira da Ordem existiriam, no entanto, no corte estratigráfico
provocado pela ribeira, vestígios de pisos em opus signinum sobrepostos entre si,
evidenciando segundo o arqueólogo, uma alteração do curso de água desde a ocupação
romana (Mataloto 2002).
Uma visita recente ao local não me permitiu localizar o monumento, mesmo com
a gentil cedência de coordenadas geográficas por parte de Rui Mataloto. Existe, contudo,
no local uma mancha de materiais cerâmicos, maioritariamente de construção, dispersos
por uma vasta área. Esta mancha de vestígios poderá muito bem ser a mesma identificada
como o sítio “Farisôa 2” por André Caneiro (Carneiro 2014, p. 188).

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Tipologia

Não podemos falar sobre a tipologia deste género de estruturas defensivas sem
antes referir o trabalho de Manuel Calado sobre recintos ciclópicos, onde este
aproveitando a onda de investigação que desperta do outro lado da fronteira com as
escavações de La Serena (Badajoz) (Rodríguez Díaz & Ortiz Romero 1986, 1990), se
lança durante os anos 80 e 90 na identificação de fortificações com aparelho defensivo
ciclópico, recorrendo à fotografia aérea vertical e a prospeções no atual território
alentejano (Calado 1994). Um destes sítios fortificados identificados por Calado foi
precisamente o de Terrugem (Mataloto 2002).
Seguindo o trabalho de Manuel Calado, Mataloto em 2002 categoriza o sítio de
Terrugem como um recinto-torre, tendo por base a dimensão da sua área, mas também a
robustez e construção bem cuidada do seu aparelho defensivo, comparando sempre com
outros casos de fortificações similares de este período ainda precoce da romanização do
Alto Alentejo (Mataloto 2002).
Já em 2004, e seguindo a corrente de pensamento de Pierre Moret, que atribui a
este tipo de construções uma função de cariz mais doméstico (Moret 1999), Rui Mataloto
vai reclassificar então o sítio de Terrugem como uma casa forte, justificando esta opção
com a localização do edifício numa posição de encosta aplanada juntamente com a
utilização de silhares na sua construção. Segundo Mataloto, esta combinação ostenta um
aspeto mais “civil” em contraste com a rudeza da arquitetura dos recintos-torre (Mataloto
2004).
De todo o modo, assistimos a dois tipos de fortificação que são em muito
semelhantes, nomeadamente na implantação em zonas de baixo relevo e consequente
reduzida visibilidade (salvo algumas exceções) e na proximidade a terrenos agrícolas
férteis. Devido a estas semelhanças, optei por adotar o termo pelo que está registado no
Portal do Arqueólogo: Fortificação. Embora este seja um termo muito generalista, a sua
utilização permite-nos não incorrer numa categorização errónea, pelo menos até que
estudos mais aprofundados nos autorizem uma classificação definitiva desta fortaleza.

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Recintos-torre

De acordo com a descrição de Rui Mataloto:


“Os recintos-torre são estruturas de planta quadrangular e área reduzida
que se caracterizam pela utilização de um aparelho de muito grande dimensão,
também designado de “ciclópico”, toscamente afeiçoado, fazendo por vezes uso
de blocos apenas remobilizados.” (Mataloto 2004, p. 33).

Mataloto compara este sítio com o recinto-torre de Vale d’El Rei de Cima (Évora)
(Fig. 4) devido ao seu aparelho granítico bem cuidado, colocando as duas fortificações
numa categoria distinta dos restantes recintos-torre (Mataloto 2002).

Casas Fortes

As casas fortes são assim descritas por Mataloto:


“Os fortins de tipo casa forte apresentam uma assinalável semelhança
com alguns edifícios conhecidos na Bética, singularizando-se por se instalarem
em áreas planas e utilizarem um aparelho de menores dimensões de aspecto mais
cuidado que os recintos-torre.” (Mataloto 2004, p. 34).

Como já acima exposto, o arqueólogo altera a classificação do fortim de Terrugem


para casa forte devido à sua implantação em zona aplanada, conjugada com a utilização
de silharia bem trabalhada e de grande dimensão, assemelhando-o no processo com uma
outra fortificação que também reclassificaria, o sítio de Santa Justa em Arraiolos (Fig. 5)
(Mataloto 2004).

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Cronologia

Em relação à sua cronologia de ocupação, devido à escassez de materiais


encontrados in situ (“apenas um fragmento de terra sigillata hispânica” (Mataloto 2002,
p. 201)), podemos apenas especular tendo como base o paralelismo com outros sítios de
construção similar, onde aí sim foram encontradas cerâmicas passíveis de situar em
período cronológico, como Hijoviejo (La Serena, Badajoz), Caladinho (Redondo) e
Soeiros (Arraiolos) que têm presentes no seu registo arqueológico materiais cerâmicos,
posicionando a ocupação de estes edifícios num intervalo cronológico que vai do Séc. I
a.C. até ao Séc. I d.C., com alguma oscilação particularmente no que toca à datação inicial
(Rodríguez Díaz & Ortiz Romero 1990, Calado 1994, Mataloto 2004).
Todavia, existe a hipótese de que a ocupação do sítio de Terrugem poderá ter sido
mais prolongada, se equipararmos com o caso de Castelinhos do Rosário (Alandroal)
(Fig. 6) que poderá ter sido modificado e adaptado posteriormente a villa rural (Williams
2017, p. 74). Esta teoria, no entanto, carece de validação que apenas poderá ser
concretizada com o recurso a uma escavação arqueológica no local e suas imediações, de
modo a descortinar se de facto existem estruturas ou outros vestígios de carácter
doméstico e/ou agrícola relacionados com a fortificação e que evidenciem uma ocupação
posterior à data acima avançada.
Mesmo assim, tudo aponta para uma correlação entre o abandono destas
fortificações e a fundação das colónias e cidades do final do séc. I a.C., demonstrando
uma mudança de paradigma na política colonial romana para a região (Mataloto 2004).

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Considerações finais

Como Rui Mataloto bem sublinha, este tipo de fortificações ainda carece de um
estudo aprofundado devido à falta de dados em geral e à ausência de escavações
arqueológicas em estruturas similares (Mataloto 2002). O facto de não me ter sido
possível localizar o sítio no terreno, possivelmente fruto da imprecisão das coordenadas
geográficas e da minha inexperiência no campo, também não ajuda na elaboração de mais
informação sobre o sítio, sendo possível apenas basear-me em dados retirados de fontes
bibliográficas. Uma visita ao local com Rui Mataloto ficou agendada para uma data
próxima, mas que infelizmente será posterior à data final para entrega deste trabalho
académico. Permanece então a promessa de voltar a este tema no futuro quando dispuser
de mais conhecimento e de dados particularmente recolhidos no terreno.

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Anexos

Figura 1 - Mapa topográfico com a localização aproximada da fortificação romana de


Terrugem. De notar a proximidade ao vicus do Monte da Nora, que chega numa fase a
ser contemporâneo deste sítio.

Figura 2 - "Fortins romanos do Alentejo Central". Nº7 - Fortificação romana de


Terrugem (aqui identificada por Mataloto como casa forte) (seg. Mataloto 2004, p. 32).

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Figura 3 – “Vestígios de estruturas no recinto-torre da Terrugem.”


(seg. Mataloto 2002, p. 201).

Figura 2 - "Vista do canto Nordeste do recinto-torre do Vale d’El Rei de Cima."


(seg. Mataloto 2002, p. 207).

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Figura 3 - "Pormenor do canto sudoeste do recinto de Santa Justa."


(seg. Mataloto 2002, p. 203).

Figura 4 - "Vista aérea, do quadrante Sul, do fortim dos Castelinhos do Rosário"


(seg. Silva 1999, p. 153)

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Bibliografia

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Webgrafia

PORTAL DO ARQUEÓLOGO (2018) – Terrugem. Consult. 5 Dezembro de 2018.


Disponível em:
http://arqueologia.patrimoniocultural.pt/index.php?sid=sitios.resultados&subsid=22646
81.

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