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Anotações sobre o curso online “Dialogando sobre a Lei Maria da Penha”

MÓDULO I – A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES


“No dia que for possível à mulher amar em sua força e não em sua fraqueza, não para
fugir de si mesma, mas para se encontrar, não para se renunciar, mas para se afirmar,
nesse dia o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo
mortal”.
BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo Vol. 2: A Experiência Vivida, Difusão Europeia
do Livro, 1967.

Unidade 1 – Mulheres, violência e a legislação brasileira.


A violência contra a mulher já foi vista como um acontecimento normal, em razão do
processo de naturalização da construção de uma inferioridade feminina. Normativamente,
pode se falar em um processo longo para o reconhecimento da violência contra a mulher
se tratar de uma violação aos direitos humanos.
A realidade das mulheres durante o período colonial era a invisibilidade. As mulheres
brancas e pertencentes à classe social dominante eram privadas de autonomia, sendo
subjugadas por seus pais enquanto solteiras, e logo após aos seus maridos. O seu papel
social era restringido à maternidade.
Fora da casa grande, a realidade das mulheres negras era muito mais sofrida, em razão de
sua condição como escrava: explorada e dominada duplamente. Por serem vistas como
mero objeto, onde os homens poderiam satisfazer seus desejos sexuais, elas acabavam
engravidando, gerando os chamados “bastardos”, que acabavam servindo como um
“sistema de reprodução de escravos”. As negras acabavam lutando contra isso, cortando
seus próprios seios, abortando, tentando impedir que seu corpo fosse um instrumento para
a perpetuação do sistema escravista.
A estratégia usada pelas mulheres no século XIX foi a luta pela educação. Um nome
marcante foi Nísia Floresta, que fundou no Rio de Janeiro a primeira escola para
mulheres, em 1838. Ela começa a escrever para jornais, publicando o primeiro livro
(Direitos das mulheres e injustiça dos homens).
“Se cada homem (...) fosse obrigado a declarar o que sente a respeito de nosso sexo,
encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, (...) reger uma
casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens”.
FLORESTA, Nísia. Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. São Paulo: Cortez.
1989.

Paralelamente à luta pela alfabetização, pela vida política das mulheres (direito de votar
e ser votada), por meio da imprensa da época, havia a forte crítica e oposição por parte
dos homens, em razão do machismo.
É importante destacar que a violência contra a mulher em razão do gênero também está
associada a outros marcadores de desigualdade como a raça, etnia, orientação sexual,
classe social entre outros. Na época colonial, às mulheres negras era reservado todos os
gestos e insultos mais chulos em razão de ser mulher e negra, pois eram vistas como
investidas sexuais fáceis, diferentemente das mulheres brancas. Até hoje se pode observar
a dupla exploração da mulher negra em razão do gênero e de sua raça.
Segundo Del Priore (2013, p. 6), “não importa a forma como as culturas se organizaram”,
a diferença entre masculino e feminino sempre foi hierarquizada. No Brasil colônia, a
estrutura patriarcal e hierárquica possibilitava um poder do homem sobre a mulher de tal
forma que até a legislação era influenciada, onde castigos e assassinatos de mulheres eram
autorizados.
Del Priore diz que o patriarcalismo brasileiro foi uma soma da tradição portuguesa da
mulher associada à castidade de Nossa Senhora e enclausurada, juntamente com a
colonização agrária e escravista. Era esse patriarcado que “garantia a união entre parentes,
a obediência dos escravos e a influência política de um grupo familiar sobre os demais”
(2013, p. 10).
A legislação posta em prática no Brasil antes do Código Civil (1916) foi a portuguesa,
que era constituída pelas Ordenações Filipinas. Nestas, as mulheres não eram vistas como
seres capazes de praticar atos da vida civil, tendo em vista sua inferioridade intelectual.
Quando se casava, a sua incapacidade era suprida pelo marido, que se tornava seu
representante legal. Tal legislação era totalmente misógina, principalmente na seara
criminal, por permitir que mulheres fossem castigadas, ou feridas com pau ou pedra,
isentando quem o fizesse de forma moderada.
Somente com o Código Criminal de 1830, após 350 anos de vigência das Ordenações
Filipinas, é que se obteve um freio em relação a algumas dessas normas, como é o caso
do adultério. Foi proibido matar e castigar mulheres adúlteras, substituída pela pena de
prisão. No entanto, presente ainda a desigualdade de gênero (mesmo após a Constituição
de 1824 prever igualdade formal), o Código considerava que o adultério cometido pela
mulher seria crime em qualquer circunstância. Todavia, no caso do homem, somente seria
crime se o relacionamento fora do casamento tivesse estabilidade e publicidade. Ou seja,
ao homem era permitido “trair sem compromisso”, enquanto a mulher era altamente
reprovada, independentemente do grau de envolvimento.
O advento do Código Civil de 1916 significou um retrocesso aos avanços da luta
feminina, pois mantinha a hierarquização dos sexos em seus artigos, ao instituir a
incapacidade da mulher e o pátrio poder, atribuindo as decisões sobre a família, e sobre a
própria mulher na mão dos homens. Pode-se atentar como um fator positivo, a
possibilidade da separação conjugal se houvesse tentativa de assassinato ou maus-tratos.
No entanto, prezava-se pelo matrimônio, fazendo com que fossem relevados atos de
abusos não tão danosos.
Com a vigência do Código Criminal de 1890 e 1940, duas figuras jurídicas foram criadas
pela defesa dos uxoricidas (noivos, namorados, maridos e amantes que matavam suas
companheiras): os crimes de paixão ou passionais, e a legítima defesa da honra. Os
argumentos da defesa iam de encontro à previsão do Código Criminal de que não
considerava criminosos aqueles que estivessem em estado de completa privação de
sentido e de inteligência. Defendiam que o crime era “provocado por uma paixão
eminentemente social, produzida pela ofensa à honra e à dignidade familiar”. Enquanto a
acusação denunciava que esse tipo de criminoso era antissocial.
A discussão foi tão grande que o Código de 1940 definiu que a emoção ou a paixão não
afastavam a responsabilidade penal. Mas isto, é claro, não impediu que uxoricidas
continuassem sendo absolvidos, a partir da figura da legítima defesa da honra, onde a
liberdade era possível se demonstrasse a infidelidade da mulher e a mancha à honra do
réu. Em 1991, essa figura jurídica foi afastada definitivamente por decisão do STJ, tendo
em vista o entendimento do tribunal no sentido de que a honra ferida seria a da mulher,
por ter praticado conduta reprovável, e não a do companheiro que poderia recorrer ao
divórcio ou separação.
Segundo Enunciado nº 26 (008/2015), da Comissão Permanente de Violência Doméstica
e Familiar contra a Mulher (COPEVID): “Argumentos relacionados à defesa da honra em
contexto de violência de gênero afrontam o princípio da dignidade da pessoa humana, o
disposto no art. 226, §8º, da Constituição Federal e o disposto na Convenção CEDAW da
ONU e na Convenção de Belém do Pará”.
As justificativas de tratamento desigual no âmbito jurídico vão sendo desmanteladas ao
longo do tempo, a partir da luta feminina contra o machismo sofrido, principalmente
incorporado às instituições. Os movimentos nascidos da sociedade civil, como o
feminismo, incorporam o combate à violência a partir da segunda metade do século XX,
e aos poucos, a relevância do conceito da violência contra a mulher no ideário brasileiro
começa a ser moldado a partir de 1970.
O movimento de mulheres começa a demandar reformas legais, obtendo várias
conquistas, como o afastamento do crime de adultério pela Lei nº 11.106 de 2005. Na
área cível, as advogadas Romy Martins e Orminda Bastos, ao questionarem o papel
inferior da mulher na família, conseguiram elevar a condição da mulher na família à
colaboradora do homem por meio da Lei nº 4.121/62. Um avanço também foi a Lei do
Divórcio (Lei nº6.515/77) que permitiu o dever da manutenção dos filhos por ambos os
cônjuges e nova possibilidade de separação.
A ascensão da Constituição de 1988 foi essencial para selar o passado ditatorial vivido
pela sociedade brasileiro, a partir da redemocratização, e galgar ainda mais espaço e
garantia a minorias, como as mulheres. A Carta Magna de 88 foi um grande marco para
o direito das mulheres, pois teve forte reivindicação de pautas feministas na constituinte,
que ficou conhecido como Lobby do Batom. Alguns dispositivos importantes: art. 5º, I;
art. 226, §§5º e 8º. Este último como o mais chamativo, pois definiu que o Estado teria
obrigação de intervir nas relações familiares para coibir a violência doméstica.
O Código Penal de 1940 estabelecia como circunstância agravante o cometimento do
crime prevalecendo-se das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade, mas
ignorando a aplicação aos casos de violência contra as mulheres.
A Lei nº 9.099/95, que instituiu os Juizados Especiais, acabou se tornando uma forma de
impunidade aos crimes de violência contra a mulher. A partir do momento que o Juizado
Especial Criminal poderia julgar infrações de menor potencial ofensivo, isto é, penas de
até um ano, podendo ser alterada para dois, cumulada ou não com multa, e as queixas das
mulheres, comumente, referiam-se a delitos que as penas se encaixavam nessa definição
(lesão corporal, ameaça, injúria, difamação), o agressor era condenado a pagar cestas
básicas, prestação de serviço comunitário ou pagamento de multa. Ou seja, pondo a vida
das mulheres ainda mais em risco, banalizando a violência. Essa situação levou as
mulheres lutarem por uma lei específica.
A Lei nº 10.778/03 trouxe um importante avanço para a luta da violência contra a mulher,
em razão de ter considerado esta como uma situação de notificação compulsória, de
caráter sigiloso, pelos serviços de saúde públicos e privados. A Lei acabou também
definindo a violência contra a mulher, incorporando à legislação brasileira o conceito da
violência contra a mulher como violência de gênero, em conformidade com a Convenção
de Belém do Pará.
Em 2004, alterações foram feitas no delito de lesão corporal pela Lei Maria da Penha (Lei
nº 10.886 de 2004), criando o tipo de especial de violência doméstica. As reformas
anteriores à essa lei na esfera penal não produziram o efeito esperado na responsabilização
dos agressores, quanto na prevenção e assistência às mulheres. Pode-se perceber que
muitos anos depois do artigo que trata da violência nas relações familiares, no texto
constitucional, que surgiram leis específicas contra a violência que atinge as mulheres
somente pelo seu gênero: a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio (nº 13.104/15).

Unidade 2 – Mulheres, violência e a legislação internacional de direitos humanos.


A fim de se compreender o reconhecimento da violência contra a mulher como uma
violação aos Direitos Humanos, é necessário analisar esse percurso também nas
normativas internacionais. Torna-se essencial compreender o papel da ONU e também da
OEA (Organização dos Estados Americanos), pois foi a partir desta que nasceu a
Convenção Interamericana para Prevenir e Erradicar a Violência contra a Mulher
(Convenção de Belém do Pará), onde a Maria da Penha denunciou o Estado brasileiro por
negligência em razão da morosidade do julgamento de seu ex-marido.
A ONU foi responsável por formular alguns documentos protetivos, como a Declaração
Universal de Direitos Humanos (1948). E aos poucos, um sistema de proteção
internacional foi criado e ampliado, possibilitando que indivíduos pudessem denunciar
violações por parte do Estado, como também dos particulares.
Em relação à violência contra a mulher, duas convenções ganham destaque: a Convenção
para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW –
1979), e a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra
a Mulher (Convenção de Belém do Pará – OEA – 1995).
É interessante pontuar que a CEDAW foi ratificada pelo Brasil somente em 1984 e com
reservas. Isto é, não aplicando integralmente a Convenção por discordar com a obrigação
de eliminar a discriminação no casamento e na família, tendo em vista que o Código Civil
de 1916 mantinha normas discriminatórias contra a mulher no âmbito familiar. A abolição
da reserva só ocorreu em 1994.
As Convenções que abordam a violência contra a mulher foram frutos de demandas
femininas, a partir da exposição da violência sofrida pelas mulheres no âmbito
internacional. Os primeiros documentos internacionais de direitos humanos não foram
capazes de abranger a mulher da forma que necessitava, focando no homem e na família.
Assim, quando a ONU, no ano de 1975, declarou como o Ano Internacional da Mulher,
os movimentos femininos passaram a reivindicar uma Convenção específica, a fim de
obrigar todos os Estados-parte promoverem a igualdade de gênero.
A CEDAW (Decreto nº 89.460/84) define a discriminação contra a mulher, em seu art.
1º: “Para os fins da presente Convenção, a expressão “discriminação contra a mulher”
significará toda a distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto
ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher,
independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher,
dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social,
cultural e civil ou em qualquer outro campo”.
A CEDAW foi um avanço para os direitos das mulheres, mas foi criticada por se omitir
quanto à violência contra a mulher. Omissão essa que foi sanada pela Recomendação nº
19/92. Um ano depois, em 93, a ONU adotou a Declaração sobre a Eliminação da
Violência Contra a Mulher, definida como sendo qualquer ato de violência, baseado no
gênero que resulte ou possa resultar em dano físico, sexual ou psicológico ou em
sofrimento para a mulher, inclusive as ameaças de tais atos, coerção ou privação
arbitrária da liberdade, podendo ocorrer na esfera pública ou privada. A partir dessa
declaraçãoviena, a violência contra a mulher é compreendida como uma violação de
direitos humanos.
A OEA foi instituída em 1948 e objetiva fortalecer os princípios democráticos, os direitos
humanos e o incentivo à paz, em um sistema regional, congregado por países do
continente americano. Em 1994, a organização adotou a Convenção Interamericana para
Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher. O Brasil ratificou essa
Convenção em 1995, que ficou conhecida como Convenção de Belém do Pará. A
iniciativa partiu da Comissão Interamericana de Mulheres (órgão técnico especializado
de assessoramento nas questões referentes aos direitos das mulheres na OEA), a partir das
demandas dos movimentos feministas nas Américas.
Foi a primeira vez que passou a constar de uma Convenção que a violência contra as
mulheres é uma violação de direitos humanos, obrigatório para todos os países que
ratificaram. Ela define, em seu artigo 1º que: “Para os efeitos desta Convenção, entender-
se-á por violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que
cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera
pública como na esfera privada”.
A adesão ao sistema internacional de direitos humanos é voluntária, mas uma vez
ratificada, o país se vincula à comunidade internacional, gerando a obrigação de
cumprimento das normas acordadas. Isso gera também o direito de fiscalização e
monitoramento por parte de um comitê, que pode solicitar informes aos Estados acerca
da situação dos direitos humanos no mesmo, pode buscar informações junto às ONGs ou
outras entidades da sociedade civil, realizar visitas, receber denúncias e avaliar a
implementação das normativas.
O maior exemplo disso é a história de Maria da Penha que se tornou um caso de litígio
internacional, em razão da negligência do Estado brasileiro por mais de 15 anos, tendo
em vista que Maria da Penha sofreu uma tentativa de homicídio em 1983. Em 1998, ela
com mais duas organizações (CEJIL e CLADEM) entraram com uma petição contra o
Brasil no órgão internacional. Denunciaram a tolerância do Estado com a violência
doméstica com fundamento na Convenção de Belém do Pará, artigos 3, 4, a, b, c, d, e, f,
g, 5 e 7 e outros documentos de direitos humanos. O Estado não ofereceu resposta à
denúncia. A conclusão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos foi de que o
Estado brasileiro violou os direitos às garantias judiciais e a proteção judicial em prejuízo
de Maria da Penha, fazendo algumas recomendações (Resolução 54/01).
Em 2002, o Comitê CEDAW avalia que a situação da violência doméstica não está sendo
suficientemente enfrentada e recomenda a adoção de uma legislação específica. Assim, o
sistema de proteção internacional contribuiu para mudanças no enfrentamento à violência
contra a mulher.

Unidade 3 – A construção do conceito de violência contra a mulher.


O feminismo brasileiro, que pode ser datado no final dos anos 70, possui uma
característica peculiar, pois se dá durante a ditadura militar. Inicia a partir da reunião de
grupos de mulheres universitárias, professoras, operárias e outras. A questão da violência
era muito forte, então esses grupos se organizavam para discutir isso e outros problemas.
A fim de obter uma visibilidade política, elas fizeram seminários públicos, que tinham
como proposta a defesa dos direitos a todos à democracia, a direitos reprodutivos, sexuais,
à saúde da mulher, à uma vida sem violência.
Conforme expõe Miriam Grossi, o conceito de violência contra a mulher resulta de uma
construção histórica do movimento feminista. No final da década de 70, havia indignação
por parte das mulheres da impunidade em relação aos crimes contra a vida feminina serem
justificáveis pela legítima defesa da honra, resultando em absolvição ou pena mínima.
Um grande marco foi o julgamento de Doca Street pelo assassinato de Angela Diniz, onde
as mulheres se reuniram para manifestar sobre o slogan “Quem ama não mata”, em 1979.
Assim, nesse primeiro momento, a violência contra a mulher significava homicídios de
mulheres cometidos por seus maridos, companheiros ou amantes.
A indignação levou o próprio movimento a construir uma rede de serviços de
atendimento, como o SOS Mulher, pois se acreditava que o assassinato era o último
degrau de toda uma escalada de violência conjugal. Devido a intensa procura e
nascimento de demandas, partiram para a reivindicação política a criação de delegacias
especiais de atendimento à mulher (DEAMs). A partir desses espaços novos (canal de
atendimento e DEAM) concluíram que a violência contra a mulher era somente a
violência conjugal/doméstica, tendo em vista que a procura era feita por mulheres nessa
situação.
A partir dos anos 90, outras formas de violência contra a mulher foram ascendendo, à
medida que eram visibilizadas e problematizadas, tais como o assédio sexual, a violência
contras as mulheres negras e indígenas, o abuso sexual infantil no âmbito familiar,
práticas discriminatórias no trabalho. Pesquisas qualitativas trouxeram essas formas à
tona.
A invisibilidade das formas de violência contra a mulher é usada no sentido de que há
uma ausência de reconhecimento de certos acontecimentos como um problema da
sociedade, e não estrito ao âmbito privado. Quando a violência contra a mulher é enxergada
como um problema social, que necessita da ação governamental como auxílio, ela deixa de ser
invisível.
Algumas ações que favoreceram a visibilidade da violência contra a mulher foram os serviços de
atendimento à mulher, as DEAMs, a criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres,
que expandiu os serviços de atendimento e criou o Plano Nacional de Políticas de Enfretamento
da Violência contra a Mulher, e trabalhou em parceria com os estados e municípios na
institucionalização do sistema de atendimento em rede, entre outras medidas. Pode-se também ter
a Lei Maria da Penha como um elemento favorecedor na visibilidade, em razão de deixar a
responsabilidade de punir e prevenir nas mãos do Estado.
Os agressores podem ser estranhos, como os agentes do Estado, mas também pessoas que
pertencem ao círculo familiar e afetivo das mulheres. Esse fenômeno foi explicado teoricamente
pela dominação masculina, pela dominação patriarcal e pela relacional.
A partir da inclusão da categoria de análise “Gênero”, na década de 90, os estudos deram ênfase
à questão da cidadania de mulheres, em relação ao acesso à justiça. Saffioti contribuiu para a
definição das diversas formas de violência:
• Violência familiar – aquela que envolve membros de uma mesma família extensa ou nuclear,
levando-se em conta a consanguinidade e a afinidade. Compreendida na violência de gênero, a
violência familiar pode ocorrer no interior do domicílio ou fora dele, embora seja mais frequente
o primeiro caso.
• Violência intrafamiliar – extrapola os limites do domicílio.
• Violência doméstica – apresenta ponde de sobreposição com a familiar, podendo também,
atingir pessoas que, não pertencendo à família, vivem, parcial ou integralmente, no domicílio do
agressor, como é o caso de agregados e empregadas domésticas.
Violência de Gênero > Violência contra a mulher > Violência Doméstica e Familiar contra a
mulher
A violência de gênero não era pensada como violência, e sim como castigo, correção e poder
masculino sobre as mulheres. Nos Códigos, penais e civis, poderes diferenciados eram dados aos
homens e às mulheres, onde aqueles poderiam até matar estas se viessem a praticar adultério. Por
isso hoje é importante que a lei ponha limite ao que é violência. Ela está montada em cima de
uma ideia de poder desigual.
Historicamente, o papel social das mulheres vai se modificando através das transformações
sociais, as quais, no campo dos direitos das mulheres, foram impulsionadas pelos movimentos de
mulheres e feministas, repercutindo em mudanças em todas as dimensões sociais, como no campo
legislativo, como nas expectativas sociais quanto aos papéis desempenhados por homens e
mulheres. A Constituição Federal de 1988 reflete essas mudanças ao constitucionalizar
expressamente a igualdade de direitos e obrigações a ambos os sexos.
A violência doméstica como violência de gênero tem sido compreendida como a radicalização
das desigualdades na relação entre mulheres e homens. Por ser socialmente construída, demonstra
que a desconstrução dessa ideia opressora acaba efetivando mudanças nas relações entre os
gêneros, diminuindo a violência. A Lei Maria da Penha não possui somente um carácter punitivo,
pois aposta na reeducação do autor de violência para alterar o elevado índice. Ou seja, incide
justamente no que foi construído erroneamente pelo patriarcado e machismo.
Pode-se falar em outras formas de violência doméstica reconhecidas internacionalmente:
Violência física
• Empurrar, puxar, agarrar, esbofetear, esmurrar, amarrar
• Intimidação física (bloqueando as portas, atirando objetos)
• Perseguição
• Uso de armas
Abuso sexual
• Ataque a partes sexualmente vulneráveis do corpo
• Atos sexuais forçados
• Estupro (inclusive conjugal)
Violência emocional/psicológica/abuso verbal
• Ameaças e uso de táticas coercivas
• Controle sobre o que a vítima pode ou não fazer
• Ataques que minam a autoestima da vítima
• Humilhação, menosprezo
• Ameaças contra filhos e animais
• Isolamento e afastamento da vítima de amigos e familiares
• Culpabilização da própria vítima
• Gritarias e xingamentos
• Questionamentos constantes impostos à vítima e seus filhos
Violência moral
• Ataques contra a moral da pessoa
• Falsas acusações
Violência econômica ou patrimonial
• Manutenção de controle sobre as finanças
• Proibição de acesso a dinheiro
• Imposição de dependência financeira
• Proibição de acesso a trabalho e estudo

A Lei Maria da Penha levou em conta, em seu processo de elaboração, todo esse arcabouço teórico
de quase trinta anos de estudos desses conceitos que surgiram no âmbito acadêmico e nas
normativas internacionais; além disso, teve por “pano de fundo” as Convenções CEDAW, Belém
do Pará e a previsão constitucional relativa à obrigação de o Estado criar mecanismos para coibir
a violência nas relações familiares (art. 226, §8º).
MÓDULO II – O NOVO PARADIGMA DA LEI MARIA DA PENHA
Unidade 1 – Histórico da Lei.
A atuação dos movimentos de mulheres e feministas, por meio de práticas de advocacy (defesa e
argumentação em favor de uma causa com objetivo de influir na formulação e implementação de
políticas públicas), promovem mudanças na legislação, na elaboração ou aperfeiçoamento de
convenções ou leis nacionais, com a finalidade de remover obstáculos ao pleno acesso das
mulheres aos seus direitos, dentre eles o de viver sem violência.
Os primeiros estudos visando a construção de um marco legal para os crimes de violência
doméstica contra as mulheres tiveram lugar na ONG CEPIA, em 2002, contando com
representantes de outras organizações: CFEMEA, AGENDE, ADVOCACI, CLADEM/BR e
THEMIS. Esse grupo passou a ser conhecido como Consórcio de ONGs, com objetivo de
apresentar ao Congresso Nacional uma proposta de adequação legislativa, com base na CRFB,
art. 226, §8º, e Convenção de Belém do Pará.
A metodologia do trabalho consistiu em analisar os efeitos da Lei dos Juizados Especiais sobre
os casos de violência doméstica; analisar projetos já em tramitação no Congresso e fazer o estudo
comparado de leis especiais sobre violência doméstica, já existentes nos países latino-americanos.
“No balanço dos efeitos da aplicação da Lei 9.099/95 sobre as mulheres, diversos grupos
feministas e instituições que atuavam no atendimento a vítimas de violência doméstica
constataram uma impunidade que favorecia os agressores. Cerca de 70% dos casos que
chegavam aos juizados especiais tinham como autoras mulheres vítimas de violência doméstica.
Além disso, 90% desses casos terminavam em arquivamento nas audiências de conciliação sem
que as mulheres encontrassem uma resposta efetiva do poder público à violência sofrida. Nos
poucos casos em que ocorria a punição do agressor, este era geralmente condenado a entregar
uma cesta básica a alguma instituição filantrópica.”
“Os juizados especiais, no que pese sua grande contribuição para a agilização de processos
criminais, incluíam no mesmo bojo rixas entre motoristas ou vizinhos, discussões sobre cercas
ou animais e lesões corporais em mulheres por parte dos companheiros ou maridos. Com exceção
do homicídio, do abuso sexual e das lesões corporais mais graves, todas as demais formas de
violência contra a mulher, obrigatoriamente, eram julgadas nos juizados especiais, onde, devido
a seu peculiar ritmo de julgamento, não utilizavam o contraditório, a conversa com a vítima e
não ouviam suas necessidades imediatas ou não.”
Assim, a Lei dos Juizados se mostra incompetente para resolver a situação das mulheres vítimas
de violência, sendo incompatível com a ideia exposta na Convenção de Belém do Pará, de que a
violência contra a mulher se configura em uma violação aos direitos humanos.
Havia propostas de alteração de leis no órgão legislativo, mas se tratavam de reformas pontuais.
Isto é, mudavam algo meramente penal, mas não contemplavam de fato a prevenção e proteção
das mulheres. Verificou-se que na maioria dos países latino-americanos, havia o cumprimento do
que aconselhava o Comitê CEDAW, a ONU, e a OEA, quanto à criação de uma legislação
específica para essas situações. O Brasil foi o 18º país latino-americano a elaborar uma lei
integral e específica para regular a aplicação dos delitos cometidos contra as mulheres.
A Convenção de Belém do Pará, ratificada pelo Brasil desde 1995, já falava a respeito dessa
reforma legislativa, se necessário, para proteger as mulheres e combater a violência, em seu artigo
7º. Dois anos de estudos e debates que contaram com a participação de juízes dos JECrims, foi
elaborada uma minuta de anteprojeto, que, segundo suas propositoras, era apenas o início.
O anteprojeto elaborado pelas representantes do Consórcio ONGs contou com as seguintes
propostas:
a) conceituação da violência doméstica contra a mulher com base na Convenção de Belém
do Pará, incluindo a violência patrimonial e moral;
b) criação de uma Política Nacional de combate;
c) medidas de proteção e prevenção às vítimas;
d) medidas cautelares referentes aos agressores;
e) criação de serviços públicos de atendimento multidisciplinar;
f) assistência jurídica gratuita para as mulheres;
g) criação de um Juízo Único com competência cível e criminal através de Varas
Especializadas, para julgar os casos de violência doméstica contra as mulheres e outros
relacionados;
h) afastamento da Lei 9.099/95 aos casos de violência contra a mulher.
Em 11 de novembro de 2003, a proposta do Consórcio de ONGs foi apresentada à Bancada
Feminina no seminário promovido para debater a violência doméstica contra as mulheres na
Câmara dos Deputados.
No início de 2004, o Consórcio de ONGs entregou o anteprojeto de lei à então Ministra da
Secretaria Especial de Políticas para as mulheres (SPM), que instituiu um Grupo de Trabalho pelo
Decreto nº 5.030/04, para “elaborar proposta de medida legislativa e outros instrumentos para
coibir a violência doméstica contra a mulher”. Cumprindo o compromisso arcado durante uma
sessão do Comitê da CEDAW em dar apoio aos grupos da sociedade civil que estavam elaborando
a proposta.
O objetivo do Grupo de Trabalho foi trazer à tona debates para a criação da lei específica, tendo
por base a minuta do projeto criada pelo Consórcio de ONGs. O Grupo de Trabalho foi composto
por representantes de vários Ministérios e Secretarias vinculados ao poder executivo, mas aberto
à participação de ONGs e outros órgãos ou entidades públicas.
O projeto elaborado pelo grupo interministerial contemplou grande parte das propostas do
Consórcio de ONGS, mantendo, entretanto, o julgamento dos casos no âmbito da Lei dos
Juizados. O Consórcio de ONGs previa a criação de um juizado único e específico com
competência cível e criminal, mas o projeto do Executivo mantinha a apreciação desses casos em
órgãos separados, inclusive, com previsão de criação de Varas especializadas cíveis e criminais.
A imbricação das áreas cível e criminal nas demandas de urgência trazidas pelas mulheres
(proibição de contato e aproximação – medidas penais e afastamento do lar e regulamentação de
visitas – medidas cíveis), a criação do Juizado Especial de Violência Doméstica contra a Mulher
e a determinação de competência mista para agilizar a apreciação e decisão dessas demandas era
imprescindível.
A Câmara dos Deputados recebeu o Projeto de Lei em novembro de 2004, no dia (25) em que a
ONU declarou como “Dia Internacional da Não Violência contra a mulher”. Passando pelas
Comissões, o projeto recebeu diversas inovações, como o afastamento da Lei dos Juizados,
criação do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher. Aprovado no Senado, o
projeto foi encaminhado à sanção, tornando-se a Lei nº 11.340 de 2006, denominada Lei Maria
da Penha.
Unidade 2 – Mudanças, avanços e desafios da Lei Maria da Penha.
• Ruptura com o modelo da Lei nº 9.009/95.
Antes da Lei Maria da Penha, grande parte dos crimes cometidos em situação de violência
doméstica e familiar contra a mulher era reconhecida como crime de menor potencial ofensivo,
contando com institutos despenalizadores da Lei dos Juizados, como a conciliação, transação
penal e suspensão condicional do processo. A LMP inaugurou um novo paradigma de
identificação do elevado potencial ofensivo desses tipos de ilícito, com medidas para sua
prevenção, proteção e penalização.
• Definição de violência doméstica e familiar contra a mulher baseada no gênero (art. 5º).
A LMP, além de ter definido a mulher como sujeito de proteção no ambiente doméstico e familiar,
assegura à mulher proteção contra outras formas de violência baseada no gênero. O termo gênero
foi introduzido no universo acadêmico brasileiro no final da década de 90.
• Definição de violência doméstica e familiar contra a mulher: física, psicológica, sexual,
patrimonial e moral, entre outras (art. 7º).
Os diferentes tipos de violência passaram a ser caracterizados pela LMP, o que significou o
reconhecimento dos diferentes tipos de abusos sofridos pelas mulheres. Contudo, a LMP teve o
cuidado de não exaurir as hipóteses, enumerando algumas situações, apenas a título de
exemplificação.
• Criação dos Juizados ou Varas de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher com
competência cível e criminal (art. 14).
Antes da LMP, os crimes neste âmbito eram considerados de menor potencial ofensivo, por isso
eram julgados nos Juizados Especiais Criminais. Se fossem crimes cuja pena excedia a 2 anos,
eram julgados nas Varas Criminais comuns e os crimes dolosos contra a vida eram julgados pelo
Tribunal do Júri. Atualmente, devem ser criados Juizados Especiais de Violência Doméstica e
Familiar Contra a Mulher (JEVDF) para processamento e julgamento de todos esses tipos de
crime, com exceção dos crimes dolosos contra a vida. Tais Juizados possuem competência mista
ou híbrida, isto é, podem julgar questões criminais, cíveis e de família, desde que estejam
relacionadas com a situação de violência doméstica.
Essa competência híbrida tem sido ignorada por quase todos os tribunais do país, de forma que
os JEVDF têm funcionado como verdadeiras varas criminais. Nos municípios em que não forem
instalados esses Juizados, a LMP estabelece a competência das Varas Criminais, com
competência cível e criminal, para esses delitos.
• Atendimento multidisciplinar (art. 29 a 32).
Um dos grandes avanços da LMP foi contemplar a importância das equipes multidisciplinares nas
intervenções judiciais e extrajudiciais envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher.
Essas intervenções, realizadas pelas equipes multidisciplinares de acompanhamento psicossocial,
jurídico e de saúde, têm função de subsidiar a atuação dos juízes, promotores de justiça,
advogados e defensores, muitas vezes problematizando as relações hierárquicas de gênero.
• Acompanhamento da mulher em situação de violência por advogada/o (art. 27).
Com a LMP, tornou-se obrigatória a assistência jurídica à mulher em todas as fases processuais,
o que busca garantir às mulheres maior informação acerca dos acontecimentos, o direito de se
manifestar no processo e nas audiências com acompanhamento técnico, podendo fazer perguntas
e recorrer das decisões. A ressalva diz respeito às medidas protetivas de urgência que dispensam
essa assistência (art. 19).
• A violência doméstica contra mulher independe da orientação sexual (art. 5º, parágrafo
único).
Não apenas nas relações interpessoais heterossexuais ocorre a violência, mas perpassa a
pluralidade das relações familiares, incluindo as relações homoafetivas. O TJSP e o TJSMS já
decidiram pela aplicação da LMP a mulheres transexuais que sofreram violência nas relações
doméstico-familiares ou afetivas.
• Abertura de inquérito policial composto por depoimentos da vítima, do agressor e de
provas documentais e periciais (art. 12).
Antes da LMP, os crimes submetidos à Lei dos Juizados, ao serem registrados na delegacia, eram
submetidos a um modelo simplificado de inquérito, chamado Termo Circunstanciado (TC). O TC
costuma ser muito simples e é apenas uma notícia ao judiciário daquele crime. Era comum ser
arquivado nos Juizados Especiais Criminais em razão da desistência da ofendida.
Com a LMP, independentemente do tipo de crime cometido ou contravenção penal, em situação
de violência doméstica, é feito o registro policial do episódio, tornando-se obrigatória a abertura
do inquérito, a coleta de provas documentais, periciais, a realização do exame de corpo de delito
(quando houver lesões na vítima), bem como a coleta de depoimento da ofendida, agressor e
eventuais testemunhas. Esse inquérito, mais completo, irá auxiliar o processo judicial, sobretudo,
a sua instrução (produção e análise de provas).
Com a obrigatoriedade da instauração do inquérito, a atuação policial, nos casos de violência
doméstica e familiar contra a mulher, se tornou mais relevante que antes. Além do inquérito, é
dever da polícia oferecer uma atendimento humanizado à mulher em situação de violência,
encaminhar para o IML, para a Casa-abrigo, Centro de Referência Especializado de Assistência
Social – CREAS ou para um atendimento de saúde, registrar a ocorrência, oferecer a ela as
possibilidades de medida protetiva, requerer ao Judiciário o deferimento de medidas protetivas e
de prisão preventiva, efetuar as prisões em flagrante e oferecer subsídios ao MP, quando
necessário. Ou seja, atuar como um integrante de uma rede que buscar o encaminhamento
adequado do caso concreto de violência, e assim, contribuir para a redução dos riscos à segurança
das mulheres e da impunidade desses casos.
• Prisão em flagrante e preventiva (art. 20).
Ampliaram-se também as possibilidades de prisão em flagrante e preventiva, de maneira que o
descumprimento da medida protetiva, por exemplo, já é suficiente para que o juiz decrete, por
iniciativa própria, por requerimento do MP ou por representação da autoridade policial, a prisão
cautelar do autor da violência.
• Medidas protetivas de urgência (arts. 22 a 24).
As medidas protetivas de urgência (MPUs) são consideradas medidas cautelares, diversas da
prisão, voltadas à proteção da mulher em situação de violência. Algumas medidas comumente
concedidas contra o ofensor são: proibição de contato com e aproximação da ofendida e de
testemunhas, afastamento do lar e suspensão do porte de arma. As mulheres também podem ser
submetidas a medidas protetivas, visando a assistência e proteção contra a violência, como
encaminhamento à equipe multidisciplinar, inclusão no cadastro de programas assistenciais do
governo federal, estadual e municipal, acesso prioritário a remoção, quando servidora pública,
manutenção do vínculo trabalhista quando necessário o afastamento do local de trabalho. No
entanto, para as ofendidas, não existe o caráter compulsório que existe para os ofensores. Estes,
se não cumprirem as MPUs a eles impostas, estão sujeitos à prisão preventiva.
• Possibilidade de condução do agressor a programas de reeducação e reestruturação (arts.
45 a art. 152 da Lei de Execuções Penais).
Após a condenação do autor da violência, este poderá ser submetido a programas específicos para
refletir e se reeducar sobre o tema, objetivando, com isso, diminuir a reincidência e as violências
cometidas.
• Retratação da representação em audiência (art. 16).
Inovação que visa garantir maior segurança na continuidade dos atos processuais e na proteção
das mulheres. Se, antes, sendo disponível a ação penal à vontade da ofendida, bastava ela se
manifestar pela desistência do processo (retratação) para o seu arquivamento. É o popular “dar
queixa” e “retirar a queixa”. Atualmente, só poderá desistir do processo em audiência específica
para esse fim (art. 16). Ressalta-se, entretanto, que se trata de direito subjetivo da mulher em
situação de violência. Por isso, somente ela poderá requerer a audiência. Nem mesmo o/a juíza
poderá marcar de ofício audiência para a manifestação da mulher em continuar o processo.
Nessa audiência, deverá ser avaliada a situação de risco que ela vive por magistrados/as e MP
para acatamento ou não do pedido de arquivamento. É importante ressaltar que apenas alguns
tipos de violência que dependem de representação possibilitam a aplicação do art. 16, a exemplo
do crime de ameaça.
• A lesão corporal leve é submetida à ação penal pública incondicionada.
Como a Lei 9.009/95 foi completamente afastada dos casos envolvendo violência doméstica e
familiar (art. 41), a previsão de que as lesões corporais leves dependeriam de representação das
mulheres também foi afastada pela LMP, de forma que a regra penal foi reestabelecida, sendo,
portanto, desnecessária a representação (a anuência) da mulher em situação de violência para o
processamento e prosseguimento da ação penal.
Essa questão tornou-se uniformizada após a decisão do STF na ADI 4424, que consolidou o
entendimento que não se aplica a Lei dos Juizados aos crimes da LMP e que nos crimes de lesão
corporal praticados contra a mulher no ambiente doméstico, mesmo de caráter leve, atua-se
mediante ação penal pública incondicionada.
• Proibição de pagamento de cestas básicas, multas ou quaisquer outras penas pecuniárias,
penas vazias em seu conteúdo, que leva a crer que a agressão foi barata (art. 17).
Sob a Lei dos Juizados, a violência contra as mulheres era tida como crime banal de menor
importância. Comumente, os casos de violência levados aos Juizados resultavam em pagamento
de cestas básicas, prestação de serviço comunitário ou outras formas alternativas que banalizavam
o conflito e menosprezavam os reflexos na saúde mental e física das mulheres.
Fase preliminar (inicia na Delegacia) > MP oferece a denúncia e envia ao magistrado >
Magistrado recebe ou não a denúncia > Recebida a denúncia, tem início o processo criminal.
Antes de se tornar propriamente uma ação penal, a notícia de violência demanda uma fase
preliminar, que geralmente inicia na Polícia. Após a fase preliminar, havendo elementos
suficientes, o MP oferece denúncia, que poderá ser recebida ou não pelo juiz. Se recebida, dá-se
início à ação penal conforme o rito previsto no CPP.
Alguns crimes, como injúria (art. 140, CPP) ou difamação (art. 139, CPP) dependem da iniciativa
das/os defensoras da mulher em situação de violência para serem devidamente processados. A
mulher deve ser informada de todos os atos, e deverá estar sempre acompanhada de advogada/o,
ressalvado o pedido de medidas protetivas de urgência que poderá ser feito a qualquer tempo sem
a presença de advogado (art. 27 c/c 19).
Dentro das relações afetivas, conjugais e familiares, notam-se algumas dimensões que sustentam
situações violentas:
- Intensidade e ambiguidade afetiva; ciclo de violência com intensidades diversas; dificuldade de
reflexão e de identificação da violência; dificuldade de rompimento do ciclo; silêncio e segredo;
medo; adesão rígida a papéis de gênero; culpa/disciplina como elementos justificadores; negação
da experiência violenta e necessidade de preservação da família.
Unidade 3 – A prevenção e a proteção social às mulheres em situação de violência.
A violência contra as mulheres começou a sair da invisibilidade e se tornar parte da agenda pública
no país na década de 80. Uma das primeiras estratégias de abordagem do problema foi a criação
do SOS mulher, pelos movimentos de mulheres e feminista, na cidade de SP, Campinas, BH,
Recifes e outras capitais, de caráter voluntário e solidário. Nesses locais era ofertado acolhimento,
orientação jurídica e psicológica às mulheres que chegavam em busca de apoio. A proposta atraiu
um contingente enorme de mulheres, o que levou a constatação da magnitude do problema,
crescendo a noção de que o Estado era responsável por criar políticas públicas de prevenção e
proteção.
Pode-se citar também a criação dos conselhos dos direitos das mulheres e das DEAMs. A primeira
DEAM foi criada pelo governo de SP em 1985, denominada como Delegacia de Defesa da Mulher
(DDM – foi a única com esse nome, as demais foram DEAMs). Entre 1985 e 86 foram criadas 19
delegacias especiais de atendimento à mulher. Entre as décadas de 90 a 2000, já existiam 125. A
partir a criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres, em 2003, cresceram os números de
DEAMs e de Núcleos ou Postos de Atendimento à Mulher nas delegacias comuns. Em 2011, eram
359 delegacias especiais e 111 postos. O IPEA de 2015 registra o total de 506 unidades, 381
delegacias e 125 postos.
A expansão das delegacias no território nacional se deu de forma desigual, sendo a maioria delas
concentradas na região Sudeste, com 217 unidades. A região Sul conta com 95 unidades;
Nordeste, 80; Centro-Oeste, 67 e Norte, 47. Os municípios que apresentaram os maiores números
de DEAMs foram SP, RJ e Teresina. Este tipo de serviço está presente em apenas 7,9% dos
municípios brasileiros.
http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/nota_tecnica/150302_nt_diest_13
Apesar do crescimento das DEAMs, verificou-se que elas não eram suficientes para resolver o
problema, tendo em vista que esbarravam em um poder judiciário conservador; esbarravam na
falta de uma legislação específica para a violência de gênero; na falta de capacitação de pessoal
para tratar do tema e na ausência de mecanismos para garantir a segurança e a vida das mulheres
que apresentavam as queixas, pois após os registros das ocorrências tinham que retornar para suas
casas portando intimações aos seus agressores.
A Declaração de Viena (1993) e a Convenção de Belém do Pará (1994) reforçam a
responsabilidade do Estado na prevenção e proteção das mulheres em situação de violência, pois
tanto a ação quanto a omissão, passam a ser consideradas violação de direitos humanos. Isso
contribuiu para um incremento nas políticas públicas na década de 90, mediante a criação de
outros serviços, além das DEAMs e serviços de apoio feminista. Surgiram os centros de referência
para as mulheres, vinculados ao Ministério da Justiça, Casas-Abrigo, Defensorias Públicas
especializadas, serviços universitários que incorporavam novas modalidades de acolhimento e
escuta, bem como atendimento psicológico, públicos e privados, além das diversas modalidades
de atendimento prestadas pela sociedade civil. É interessante observar o avanço lento e gradativo
de políticas voltadas às mulheres, face à ausência de uma lei específica que garantisse a prevenção
e proteção.
***
A mulher passa por uma rota crítica, que significa o caminho percorrido pela mesma, a partir de
um conjunto de decisões e ações para lidar com a situação de violência. O atendimento
fragmentado dos diversos serviços, o ciclo de violência e também os mitos acerca da violência
influenciam a qualidade do atendimento e a rota crítica percorrida pelas mulheres.
O que vem a ser o ciclo de violência?
De acordo com a psicologia de Lenore Walker, os episódios de violência são cíclicos e passam
por três fases:
1ª) Período de tensão, no qual os conflitos se exacerbam e ofensas verbais são proferidas;
2ª) Corresponde àquela em que a tensão se torna aguda, chegando a agressões físicas,
sexuais, abusos, acusações etc;
3ª) Fase da lua de mel, do arrependimento e das promessas de mudanças e de não
repetição das práticas violentas.
Conforme o ciclo venha a se repetir, os episódios podem ser cada vez mais grave, com durações
variáveis de cada fase.
O que vem a ser os mitos sociais?
São mitos que permeiam o imaginário social e que são, muitas vezes, responsáveis por sustentar
ideias equivocadas que legitimam ou que justificam a violência contra as mulheres. Eles limitam
e perpetuam o ciclo de violência.
1) A família é o local mais seguro que existe, o perigo está mesmo é nas ruas.
- 50,3% dos assassinatos das mulheres brasileiros são cometidos por um familiar direto
da mulher (7 por dia), de acordo com o Mapa da Violência de 2015. Violências são
cometidas por pessoas do círculo familiar, afetivo e dentro da própria casa.
2) Violência contra a mulher é reflexo da cultura da pobreza.
- A violência doméstica e familiar perpassa todos os grupos sociais, independente de
renda, cor, religião, orientação sexual e idade, pois é decorrente das desigualdades de
gênero e não necessariamente de classe.
3) O álcool e as drogas são a maior causa da violência.
- O álcool e as drogas são fatores de risco associados à violência, são desinibidores,
agravantes para a situação, mas não figuram condições para o surgimento da violência.
Pessoas que não bebem podem ser violentas e pessoas que bebem não necessariamente o
são.
4) Mulher gosta de apanhar.
- Mito de banalização da violência, sobretudo quando a mulher permanece no
relacionamento após um ou vários episódios de violência. Essa atitude se explica a partir
da análise do contexto de violência e muitos fatores podem contribuir para que ela
permaneça em um relacionamento abusivo, entre eles porque está inserida no ciclo de
violência, com crenças anestésicas, sob ameaça e dentro de um contexto oscilante.
5) Mulher espancada é masoquista.
- Culpar a mulher é uma estratégia banalizadora, fruto da estrutura machista
patriarcal. Ninguém deseja ou gosta de sofrer/apanhar.
6) Dito popular: “Se você não sabe por que bateu na sua esposa, não se preocupe, ela sabe”.
- A ideia de disciplina, de correção é muito utilizada para se justificar inadequadamente
a violência, que nunca possui justificativas reais. Perpetua-se a crença de que se a mulher
fez algo errado, é merecedora do abuso.
7) Homem que bate em mulher é louco.
- Há um pequeno percentual de agressores que apresentam verdadeiramente problemas
mentais ou patologias psíquicas. A violência é caracterizada por um ato consciente, com
a finalidade de obter controle e poder na relação.
8) Tapinha de amor não dói.
- Pesquisas mostram que mulheres em situação de violência passam grande parte do seu
dia/convivência, negociando a não violência.
9) Mulheres costumam mentir que foram estupradas.
- Mulheres não costumam mentir, tendem a ocultar por vergonha, medo, impunidade do
agressor. Essa crença fortalece também a tendência em se culpar e responsabilizar as
mulheres pelo abuso sofrido.
10) Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.
- Falta a internalização social da ideia de que todas e todos, inclusive e principalmente o
Estado, são responsáveis pela prevenção e erradicação da violência contra a mulher.
11) Violência contra a mulher é fenômeno raro.
- A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, registrou, de janeiro a outubro de
2015, 31.432 relatos de violência física (49,82%), 19.182 relatos de psicológica (30,40%),
4.627 de violência moral entre outras.

A Rede de Apoio e a superação da rota crítica.


A rota crítica pode ser compreendida pelas dificuldades e obstáculos enfrentados pelas mulheres
em situação de violência que desenha uma trajetória de idas e vindas, círculos, que fazem com
que o mesmo caminho seja repetido sem resultar em soluções e, sobretudo, apontam investimento
de energias e repetições que levam a desgaste emocional e revitimização (CAMARGO;
AQUINO, 2003, p. 38).
1) Rede primária – pode ser formada por aqueles parentes, amigos, conhecidos e vizinhos que
fazem diferença na vida de cada uma.
Tem importante papel na prevenção e na denúncia de situações de violência de gênero, além de
propiciar o necessário apoio emocional, material e social para o rompimento do ciclo.
2) Rede secundária – indivíduos e instituições governamentais e não, grupos e associações
comunitárias, organizações de mulheres, entre outros, que atuam em um determinado local. As
redes secundárias são constituídas por organizações que prestam atendimento especializado,
fornecendo informações e orientações a uma determinada população.
A noção de rede foi institucionalizada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres que passou a
coordenar as ações, a partir de sua criação em 2003. Significa: “atuação articulada entre as
instituições/serviços governamentais, não governamentais e a comunidade, visando ao
desenvolvimento de estratégias efetivas de prevenção e de políticas que garantam o
empoderamento e construção da autonomia das mulheres, os seus direitos humanos, a
responsabilização dos agressores e a assistência qualificada às mulheres em situação de
violência”.
O sistema de proteção da Lei Maria da Penha abrange diversas ações, entre as quais:
a) Articulação operacional entre os diversos serviços de atendimento às mulheres no âmbito da
justiça, da assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação;
b) Promoção de estudos e pesquisas, estatísticas e outras informações;
c) elaboração de campanhas educativas de prevenção e de conscientização;
d) capacitação permanente dos profissionais que atuam nos órgãos de segurança pública (Polícias
Civil e Militar, Guarda Municipal, Corpo de bombeiros), bem como no sistema de justiça quanto
às questões de gênero, raça e etnia;
e) inclusão da temática nas diretrizes curriculares nacionais, que devem abordar, de forma
transversal e interdisciplinar, os conteúdos relativos aos direitos humanos, à equidade de gênero,
raça e etnia e à violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras.

MÓDULO III – A LEI MARIA DA PENHA NA PRÁTICA


Unidade 1 – Conhecendo a Lei Maria da Penha: destinatárias, conceitos, formas de violência
Pontua Streck (2011, p. 99-100): “A LMP, por ser uma lei específica, fere a igualdade entre
homens e mulheres? (...) A LMP, votada democraticamente pelo Parlamento brasileiro, discutida
no âmbito da esfera pública, não sofre de vício de inconstitucionalidade. E isso por várias razões.
Trata-se de uma Lei que preenche um gap histórico, representado por legislações anteriores que
discriminavam as mulheres e, se não as discriminavam explicitamente, colocavam o gênero
feminino em um segundo plano. Isso pode ser visto no velho Código Penal de 1940, em que, até
há pouco tempo, o estupro era considerado “crime contra os costumes”. Somente nos últimos
anos passou-se a dignidade sexual (pode ser também “crime contra a liberdade sexual”).
O imaginário dos juristas continua a sustentar legislação de cunho discriminatório, eis que parte
da doutrina penal ainda considera que o “marido tem o direito de obrigar a mulher a praticar, em
ele, o ato sexual”. Claro que isso pode se dever ao fato de que alguns penalistas – cujos Manuais
ainda tratam desse modo a matéria – não corrigiram sua doutrina após o advento da CF/88. Mas,
de todo modo, sempre resta uma questão: o fato, inconteste, de que em algum momento, os
Tribunais brasileiros sufragaram a tese da violência institucionalizada no sexo de um casal.
Não é necessário falar da legítima defesa da honra, tese que, até há pouco tempo, vicejava no
Tribunal do Júri. Desnecessário, também, lembrar que a mulher era dispensada do serviço do júri,
em face dos afazeres domésticas. E o que dizer dos meios de comunicação, que historicamente
incentivam esse tratamento infamante à mulher? (Cristiane Torloni em Mulheres Apaixonadas,
dizendo que sua vida estava um tédio, que queria sair, levar uns tapas).
A violência contra as mulheres tem sido tema de reflexão em diversos países do mundo, inclusive
no Brasil, com ampla produção teórica e empírica, e também pelos organismos internacionais de
direitos humanos da ONU e OEA. No entanto, quando a LMP foi publicada, em 2006, causou
estranheza no mundo jurídico, em especial aos aplicadores da lei (juízes, promotorias, delegacias,
servidores (as) da justiça que lidavam com essas questões) que resistiam à adoção de um novo
paradigma aos casos de violência doméstica contra a mulher, conferindo especificidade à proteção
das mulheres e afastando definitivamente a lei dos juizados desses casos.
Essa discussão chegou ao STF por meio da AC nº 19/2012, entendendo o mesmo que: “O art. 1º
da Lei nº 11.340/06 surge, sob o ângulo do tratamento diferenciado entre os gêneros – mulheres
e homem -, harmônica com a CF, no que necessária a proteção ante as peculiaridades físicas e
moral da mulher e a cultura brasileira (...)”.
A decisão do STF traz a constitucionalidade da LMP, isto é, a sua harmonia com a CF e os
documentos internacionais de direitos humanos, pois as leis não podem discriminar a não ser
que as leis, contendo tratamento diferenciado, tenham por objeto criar mecanismos para
alcançar a efetiva igualdade.
Sendo o caso, então, da LMP, tendo em vista que a violência nas relações doméstico-familiares e
afetivas atinge, majoritariamente, as mulheres. De acordo com Schraiber et al (2005, p. 31), as
relações interpessoais são permeadas por relações desiguais de poder e a violência é expressão
máxima dessa desigualdade; nas palavras das autoras, a violência representa “a radicalização da
desigualdade entre homens e mulheres”.
As estimativas do atendimento do 180 trazem em sua maioria casos de violência contra a mulher,
e mais da metade contra mulheres negras. A violência física como a maior parte dos casos, seguida
da psicológica. Constituindo também uma maioria as relações heterossexuais, cometidas por
homens com quem as vítimas têm ou tiveram algum vínculo afetivo. A maioria das mulheres
declarou ter filhos (dados de 2015).
https://www12.senado.leg.br/institucional/omv (Observatório da Mulher contra a Violência).
***
Quem são as mulheres destinatárias da LMP?
A lei abrange a pluralidade de mulheres em seu art. 2º, ao exprimir: “toda mulher,
independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional,
idade e religião...”.
Nota-se que as destinatárias não são consideradas um grupo homogêneo, mas sim mulheres
singulares, em suas especificidades identitárias. Assim, mulheres negras, indígenas, brancas, de
qualquer outra cor ou etnia, pobre e rica, com deficiência, assalariada, lésbica, bissexual,
transexual, ciganas, ribeirinhas, lavradoras, camponesas, quilombola, prostituas etc têm direito a
viver sem violência.
É importante considerar a diversidade de mulheres para entender a magnitude do problema
combinada a outra forma de opressão, como o racismo. Como bem diz Djamila Ribeiro: “O
racismo cria uma hierarquia de gênero e quando a gente não fala de mulher negra, a gente tá
escolhendo quais vidas devem ser representadas e quais vidas são importantes. Estamos
hierarquizando vidas, né? Romper com essa tentação de universalidade é muito importante para
entender que, nós, mulheres negras, a gente tem outros pontos de partidas e outras realidades.
Se a gente for falar de aborto, quem mais tá morrendo é a mulher negra, se for falar de
mortalidade materna é a mulher negra. Se for falar de violência doméstica, as mulheres negras
são as mais atingidas. Então, como Celi Carneiro diz, quando a gente fala de mulheres, quais
mulheres estamos falando? E se quiser mais anteriormente ainda SURGI NITRUFI em 1851 na
Convenção de Direito de Ohio, fez aquele discurso famoso chamado “E eu não sou uma
mulher?”.
De acordo com o Dossiê da Violência contra as Mulheres: “(...) a situação se agrava para as
mulheres negras também ao buscar pelo apoio do Estado para enfrentar a violência vivida. Elas
são, no geral, revitimizadas – por exemplo, quando profissionais de saúde tendem a tratar suas
queixas como menores por considerá-las “mais fortes”. Muitas vezes quem atende essas
mulheres sequer tem conhecimento técnico para identificar lesões como hematomas na pele
negra.”
A violência de gênero intersecciona com outros marcadores de desigualdade, a exemplo da
questão racial, classe social, geracional, entre outros. Quanto à questão geracional, é importante
considerar que a maior incidência de violência recai sobre as jovens, principalmente em idade
reprodutiva, mas a violência alcança as mulheres em todas as faixas de idade e, portanto, também
as mulheres idosas. Nessa fase da vida, estão mais suscetíveis à violência de filhos (as) e netos.
***
A LMP traz que a violência doméstica pode ocorrer:
- no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de
pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;
- no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se
consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;
- em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a
ofendida, independentemente de coabitação.
A Lei delimita o seu âmbito de abrangência à unidade doméstica, às relações familiares ou
afetivas entre o autor e a ofendida. Dessa forma, a violência pode ocorrer fora do ambiente
doméstico, no espaço público, como no local de trabalho da mulher. Pode ser considerada
violência doméstica a agressão do irmão contra a irmã (família); genro e sogra (família, por
afinidade); entre irmãs, filhas (os) contra a mãe (família) etc;
Quando publicada a LMP, houve bastante resistência no judiciário em aceitar a aplicação da
mesma nas relações casuais, em um namoro, mas após intenso embate jurisprudencial, foi
pacificado o entendimento de que a LMP se aplica para essas relações afetivas,
independentemente do tempo de duração e se são atuais ou passadas.
Apesar do conceito ser amplo e contemplar a violência nas relações sociais entre homossexuais
(homens e homens; mulheres e mulheres), predomina a violência de gênero do homem contra a
mulher. Conforme diz Saffioti (1999, p. 83) remanesce na sociedade o poder dos homens, na
função patriarcal, “tolerado” pela sociedade para “punir o que se lhes apresenta como desvio”.
Significa dizer que, não obstante a igualdade de gênero e obrigações estabelecidas pela CF,
remanescem as hierarquias, em especial na família, o poder de correção e disciplina dos homens
sobre as mulheres.
A LMP não criou crimes novos, mas definiu as formas de violência doméstica e familiar no art.
7º, reconhecendo que outras podem ocorrer e ser objeto da proteção da lei.
- Física: conduta que ofende a integridade ou saúde corporal. Socos, facadas, empurrões,
beliscões, tapas, murros, surras, queimaduras, asfixia. Podem ser tipificadas como lesão corporal,
tortura ou feminicídio;
- Psicológica: conduta que cause danos emocionais e diminuição da autoestima ou que prejudique
e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar ações, comportamentos,
crenças e decisões. Ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância
constante, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir.
- Sexual: conduta que constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não
desejada. Mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que induza a comercializar ou
a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que impeça de usar qualquer modo contraceptivo
ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação,
chantagem, suborno; ou que limite ou anule o exercício de sues direitos sexuais e reprodutivos.
Nessa modalidade se encontram as diversas formas de estupro nas relações domésticas e
familiares, entre as quais o estupro de vulnerável, menor de 14 anos e estupro nas relações
conjugais.
- Patrimonial: qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de
seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos
econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades.
- Moral: conduta que ofenda a dignidade ou o decoro (injúria), consistente na imputação falsa de
fato criminoso (calúnia) ou divulgação de fatos que ofendam a reputação (difamação).
*A LMP funciona como um carimbo. Os crimes estão postos pelo Código Penal, e quando
ocorrem dentro de cada unidade doméstica ou relação afetiva, é carimbado que o crime foi
praticado com violência doméstica.

Unidade 2 – As Medidas Protetivas e as práticas do sistema de justiça


As medidas protetivas, conforme a LMP, são medidas cautelares de caráter satisfativo, tendo por
objetivo a proteção das mulheres em situação de violência, enquanto perdurar a situação de risco.
O caráter “satisfativo” significa que as medidas protetivas não se vinculam ao inquérito ou
processo penal; podem ser requeridas, de imediato, visando a segurança da mulher, a de seus
familiares e testemunhas ou a preservação de seus bens patrimoniais.
• Tem por objetivo cessar a violência em curso ou iminente risco à mulher, em pessoa da família
(quando as ameaças se estendem para a mãe, pai filhos (as), irmãos, etc) e patrimonial;
• Podem ser requeridas pela mulher na delegacia quando registrar o B.O e nesse caso a própria
delegacia vai encaminhar para a decisão do juiz, mas também pode ser feito pelo advogado, MP
ou determinadas pelo juiz, de ofício;
• As mulheres, nesse contexto devem ser informadas sobre as medidas previstas na LMP e a
possibilidade de que outras podem ser requeridas, se mais adequadas ao caso;
• Pelo caráter de urgência, a LMP dispensa a presença de advogado para o requerimento de
medidas protetivas; no entanto, nos demais atos, deverá estar acompanhada de advogado;
• O risco à integridade física e psicológica da mulher, que pode variar de caso a caso, orienta a
duração da medida;
• Pode ser requerida a qualquer tempo, antes, durante ou após o processo;
• Podem ser substituídas por outras que se mostrem mais adequadas, diferentes das previstas na
LMP, ou por outras mais gravosas, em caso de descumprimento de medida protetiva;
• Devem ser encaminhadas, de imediato, para o poder judiciário (Juizados Especiais de Violência
Doméstica e Familiar ou Vara Criminal), devendo, também, ser decididas, de imediato, no prazo
máximo de 48h, após recebimento;
• A decisão do juiz independe de audiência das partes (a mulher em situação de violência e o
autor) e de manifestação do MP;
• As medidas podem ser cumuladas, ou seja, mais de uma pode ser deferida, caso necessário à
preservação da integridade física e psicológica da mulher;
• A avaliação do risco, na delegacia, MP ou juízo, poderá indicar medidas protetivas adicionais,
novas ou em substituição;
• O descumprimento de medida protetiva pode resultar em decretação de prisão preventiva.

Quais são os tipos de medidas protetivas de urgência definidas pela LMP?


As medidas mais requeridas e deferidas têm sido aqueles de caráter criminal que restringem a
liberdade do autor de violência, no entanto, a competência cível e criminal é mais uma importante
inovação da LMP, para a resolução rápida das diversas questões inseridas no contexto de
violência.
Dois tipos de medidas protetivas de urgência foram previstos pela LMP: as medidas à ofendida
(arts. 23 e 24) e as medidas que obrigam ao agressor. Quanto às primeiras, elas não são
compulsórias, diferentemente daquelas que obrigam o autor.
São medidas de natureza cível, que buscam oferecer um atendimento integral e qualificado às
mulheres, a partir do contexto de violência. São elas:
a) Encaminhar a ofendida e seus dependentes a programa oficial ou comunitário de
proteção ou de atendimento;
b) Determinar a recondução da ofendida e a de seus dependentes ao respectivo
domicílio, após afastamento do agressor;
c) Determinar o afastamento da ofendida do lar, sem prejuízo dos direitos relativos a
bens, guarda dos filhos e alimentos;
d) Determinar a separação de corpos.

A Lei, portanto, tomou por base a experiência dos atendimentos das mulheres que revelavam
situações em que as mulheres permaneciam em suas casas, sob risco de novas agressões, por medo
de perder seus direitos. As medidas acima visam resguardar esses direitos, mas para a integral
proteção podem ser necessárias outras medidas, cumuladas com aquelas.

As medidas abaixo têm por objeto a proteção do patrimônio comum ou particular da mulher em
situação de violência; importante observar que para resguardar a integridade física e psicológica
das mulheres, pode ser também necessária a cumulação de medidas. No caso das medidas
previstas nos incisos "b" e "c", o juiz/a oficiará ao cartório competente para as providências.
a) Restituição de bens indevidamente subtraídos pelo agressor à ofendida;
b) Proibição temporária para a celebração de atos e contratos de compra, venda e
locação de propriedade em comum, salvo expressa autorização judicial;
c) Suspensão das procurações conferidas pela ofendida ao agressor;
d) Prestação de caução provisória, mediante depósito judicial, por perdas e danos
materiais decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a ofendida.

A integração dessas medidas, de naturezas diversas, em um mesmo procedimento judicial, com


vistas à proteção da mulher, foi um dos maiores avanços da Lei Maria da Penha. Caso contrário
teria que buscar nas Varas de Família, Cíveis e Criminais, as diversas demandas, comprometendo
a urgência que o contexto de violência requer.

E quanto às medidas que obrigam ao autor da violência?


A LMP prevê, em seu art. 22, as seguintes:

I - Suspensão da posse ou restrição do porte de armas, com comunicação ao órgão


competente, nos termos da Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003;
Essa medida visa resguardar a segurança da mulher que sofreu violência do marido, companheiro
ou namorado ou de outra pessoa que possua porte de armas, em razão da profissão, por exemplo.

II - Afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida;


A medida de afastamento do lar já era aplicada no âmbito do Direito de Família e Estatuto da
Criança e Adolescente, em caso de maus-tratos, opressão ou abuso sexual. No contexto da
violência contra as mulheres, tem por finalidade a proteção da saúde física e psicológica da
mulher, evitar a reincidência da violência, a tensão psicológica de viver sob o mesmo teto que o
autor da violência e a destruição dos bens pessoais da mulher.

III - Proibição de determinadas condutas, entre as quais:


a) Aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o
limite mínimo de distância entre estes e o agressor;
b) Contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de
comunicação;
c) Frequentação de determinados lugares a fim de preservar a integridade física e
psicológica da ofendida;

IV - Restrição ou suspensão de visitas aos dependentes menores, ouvida a equipe de


atendimento multidisciplinar ou serviço similar;

V - Prestação de alimentos provisionais ou provisórios.

No caso da medida prevista no item “a”, o afastamento é, em geral, fixado em metros, assim a
mulher que sofreu a violência preserva os espaços cotidianos de convivência. Em relação a
medida relativa às visitas dos filhos, por ser mais drástica, uma vez que atinge também os direitos
dos filhos à convivência familiar, foi prevista a manifestação da equipe de atendimento
multidisciplinar.
A medida constante do inciso V é importante para impor limites ao poder econômico do autor da
violência na família; pode ocorrer de a mulher, preocupada com o sustento dos filhos e as ameaças
de abandono material (relativas ao sustento do lar), persista na situação de violência e não
denuncie a agressão; assim a medida visa resguardar essas e outras situações assemelhadas. A
medida de proibição de contato é uma das mais comuns e pode ser requerida em conjunto com a
de proibição de afastamento. Diz respeito a qualquer forma de comunicação inclusive pelas redes
de relacionamento.

***
As medidas de proteção às mulheres não se esgotam nas imediatas e urgentes. A LMP prevê
providências relativas ao acesso a serviços de contracepção de emergência, profilaxia de Doenças
Sexualmente Transmissivas (DST) e AIDS, inclusão da vítima em programa assistencial,
remoção da servidora pública, manutenção do vínculo trabalhista por até seis meses.

Conforme Valéria Fernandes (2015), a reeducação do agressor também constitui importante


medida, pois, estudos têm mostrado que, em geral, os autores da violência contra as mulheres são
primários, de bons antecedentes, com emprego e residência fixa, o que possibilita a reeducação.
Para a autora, valores culturais patriarcais se encontram subjacentes à conduta violenta como o
sentimento de posse e superioridade, a crença no direito de exigir obediência e impor correção às
mulheres, entre outras. Os estudos de gênero mostram que esses comportamentos não são
imutáveis e decorrem de aprendizados que variam nas diferentes culturas e contextos históricos;
assim podem ser revistos em bases mais igualitárias. Valéria Fernandes (2015, p. 171-172),
entende que os conceitos errôneos incorporados pelos aplicadores do Direito a respeito da
violência contra as mulheres podem influir no processo criminal e protetivo às mulheres em
situação de violência.

No Judiciário, o rito da Medida Protetiva segue o esquema abaixo. Na fase “Distribuição ao


JVDFM", inclui-se também as Varas Criminais, nos Municípios onde não houver o Juizado
Especializado.

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