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SOBRE A ADOÇÃO DA ESCRAVIDÃO

AFRICANA NO BRASIL
Wagner Luíz de Almeida¹
José Luis Oliveira de Paula²

RESUMO
Trataremos, no presente estudo, de algumas das explicações
mais usuais para o fenômeno da adoção da escravidão africana
no Brasil a partir da segunda metade do século XVI, enfatizando
aquelas que privilegiam as discussões sobre as causas
superestruturais deste processo.
Posteriormente, faremos pequena referência a uma das formas
alternativas de resistência ao cativeiro, amplamente usada pelos
escravos africanos no Brasil, a negociação.
Palavras-chave: História do Brasil, Escravidão Africana,
Resistência.

SUMMARY
We will deal with in the present study to some the explanations
most usual for the phenomenon of the adoption of the African
slavery in Brazil from the second half of century XVI,
emphasizing those that privilege the argue on the super
structural aspects of this process. Later, we will make reference
to small one reference of the alternative forms of resistance to
the captivity, widely used for the African slaves in Brazil, the
negotiation.
Keywords: Brazil’s History, African slaver, resistance

INTRODUÇÃO

É intuito deste trabalho desenvolver uma pequena


discussão historiográfica acerca das justificativas produzidas ao
longo dos tempos, de como e por que a escravidão africana foi
introduzida no Brasil. Esperamos que esse estudo, venha nos
possibilitar uma compreensão mais abrangente a respeito deste

¹Graduando o nono período de história


251
²Mestre em história
.
Juiz de Fora 2006
fenômeno, de suma importância na formação de nosso
povo.
Faz-se necessário para tanto, indagarmos antes de
nossa análise, sobre quais seriam os fatores que poderiam ter
contribuído para que, no Brasil, a escravidão do nativo silvícola,
fosse aos poucos, sendo substituída pela do africano. E até que
ponto as dificuldades de se escravizar o indígena ou mesmo o
posicionamento do clero teriam relação com este
acontecimento? Procuraremos achar respostas para estas
questões no decorrer de nosso texto.
Nos parágrafos que antecederão as nossas
ponderações finais, apresentaremos ainda ao leitor um exemplo
clássico daquela que, na opinião de muitos autores de produção
recente, foi uma das formas de resistência ao cativeiro mais
utilizadas pelos cativos africanos no Brasil-colônia: a
negociação.
Todavia é mister observarmos previamente, que o
processo de substituição da escravidão indígena pela escravidão
africana em nosso país vem, ao longo dos tempos, sendo objeto
de múltiplas interpretações, fundamentadas em divergentes
metodologias e concepções do processo histórico, portanto,
qualquer conclusão sobre este tema sempre necessitará ser
relativizada futuramente.
A partir da segunda metade do século XX, muitos
pesquisadores brasileiros passaram a explicar a dinâmica
colonial, tendo como base à ênfase ao estudo dos fenômenos
relacionados ao tripé: plantation, monocultura e escravidão.
Este tipo de análise tem suas raízes na idéia de que é o fator
econômico o responsável principal por toda a organização
social e política de um povo, explicação baseada na ortodoxia
marxista.
Interpretando a colonização lusitana no Brasil sobre
esse prisma, tais autores acabaram, na opinião de João Fragoso
(1992, p. 48) superestimando os interesses mercantil-
metropolitanos ligados à exploração colonial e à interferência
dos mesmos no cotidiano da América portuguesa.
Daí, a questão da própria monocultura merecer da
nossa parte mais prudência, ao ser estudada, pois, embora a
252 produção e extração de gêneros revendidos no continente
europeu a altos preços fossem priorizadas, havia as atividades

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economia brasileira durante toda a sua história
colonial: a pecuária, o algodão, a produção de alimentos para o
consumo interno, um complexo sistema de crédito e agiotagem.
Tudo isto nos passaria despercebido se, de acordo com a escola
do “sentido da colonização”, concebêssemos a monocultura
assentada nas plantations como sendo o agente regulador da
vida social e econômica no Brasil-colônia.
Por fim, quando queremos ter em mente a escravidão,
relação de trabalho que vigorou em nosso país por quase
quatrocentos anos, estamos nos remetendo a um passado
riquíssimo. Rico na concepção plena do termo, nas relações
sociais, no sincretismo religioso e na fusão cultural, tão presente
em nosso dia-a-dia.
Ao escravismo coube o mérito de ter sido um dos
elementos aglutinadores de três povos distintos (índios,
portugueses e africanos) que dariam, mais tarde, à cultura
brasileira traços singulares, como bem demonstra o livro de
Giberto Freyre, Casa Grande e Senzala (1933). A leitura
imprescindível desta obra nos atenta para o fato de que o
período colonial da história brasileira dificilmente poderá ser
compreendido satisfatoriamente sem se levar em conta os
fatores culturais e ideológicos do Brasil daquela época.
Ao priorizarmos somente as questões relacionadas à
economia ou à luta de classes, como almejam alguns
pesquisadores sociais alinhados à doutrina do materialismo-
histórico, teoria empírica sistematizada por Karl Marx (1818-
1883) e Friedrich Engels (1820-1895), segundo a qual a matéria
constitui propriamente o fundamento da realidade, corremos o
risco de estarmos menosprezando uma parte significativa dessa
história, uma vez que a vida na sociedade colonial brasileira foi
sem sombra de dúvidas muito mais complexa do que teriam
demonstrado muitos destes pesquisadores . Escravos e senhores
não eram e nem podiam ser movidos apenas por interesses
imediatos, de ordem material, como veremos mais adiante.
Estudar e entender este passado riquíssimo, cremos, é tomar
conhecimento de parte do que aconteceu com aqueles
indivíduos: índios, portugueses e africanos; homens e mulheres,
livres ou cativos, ao longo da nossa história.
O que implica, inevitavelmente, em irmos mais além 253
do contato com nomes e datas ou de esquemas generalizantes

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onde portugueses, ìndios e africanos possuíam cada
um, o seu padrão de comportamento já estabelecido e
independente da realidade que os cercavam. A história "não
pode ser compreendida corretamente se for tomada como
simples narrativa sem conexão com a práxis e sem interligação
com os grupos sociais que formam a dinâmica da história..."
(MOURA, 1990, p.15-16). Só assim, conseguiremos ter maior
consciência do que fomos um dia e o quanto isto interfere em
nossa atualidade.

PEQUENO HISTÓRICO SOBRE A ESCRAVIDÃO ANTIGA E


MEDIEVAL

Na história da humanidade, seria impossível


determinarmos quem foi o primeiro homem a ser escravizado e
quando isso aconteceu. Já na Antigüidade, a escravidão atingia
proporções expressivas, povos inteiros eram subjugados graças
a derrotas militares, mas havia também sociedades onde um
homem se tornava legalmente propriedade de outro devido à
impossibilidade do pagamento de dívidas financeiras
contraídas. Esta última era uma prática muito difundida entre as
várias civilizações localizadas à margem do mar Mediterrâneo
(hebreus, mesopotâmeos, fenícios).
A escravidão sempre esteve profundamente enraizada
na cultura dos povos antigos. Possuindo até mesmo um discurso
ideológico que a justificasse. Em Atenas, na Grécia Antiga, por
exemplo, Aristóteles considerava a condição de escravo uma
prerrogativa imposta pela natureza que deveria ser
desempenhada pelos homens nascidos para a servidão.
Durante o Império Romano, o termo latino servus não
mudara muito seu significado, designava a condição social de
um indivíduo bárbaro que havia tido a vida poupada após sua
derrota em combate, em troca de sua submissão e serviço ao
vencedor.
No período de apogeu militar do Império, o trabalho
escravo foi fundamental para sustentar a expansão romana. Essa
dependência econômica em relação a práticas servis contribuiu
muito para que esta "modalidade" de trabalho fosse instituída
254 nas diversas províncias que, um dia, pertenceriam aos romanos,
inclusive a própria Península Ibérica.

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Em todo o período medieval, as disputas territoriais e
religiosas entre cristãos e bárbaros, demonstraram ser um
importante estímulo à manutenção das práticas escravistas
herdadas da Antigüidade. Na Europa do século XII, Tomás de
Aquino baseou-se nas idéias aristotélicas para formular uma
doutrina filosófica que tentava conciliar a fé cristã à razão
(Tomismo). O clero fundamentado nesta doutrina declarava a
escravidão dos povos bárbaros e infiéis (muçulmanos, asiáticos,
etc.) legítima.
Segundo os preceitos católicos da época todos aqueles
que se opusessem à fé cristã deveriam ser combatidos,
subjugados e convertidos compulsoriamente. Assim, o ato de
difusão da ideologia cristã era visto durante toda a Idade Média
como um propósito divino, uma missão a ser cumprida pelos
povos da Europa-ocidental (cristã) a qualquer custo.

ESCRAVIDÃO NO NOVO MUNDO

Mas, o que significava ser escravo no início da Idade


Moderna ? Tomemos o próprio exemplo brasileiro como
modelo: O Dicionário Histórico Brasil: Colônia e Império
(BOTELHO; REIS, 2002, p. 69), define o escravo como sendo:
“o mesmo que cativo, indivíduo que, por ser propriedade do
senhor, deveria trabalhar para ele e se sujeitar às suas ordens".
Aparentemente esta definição nada difere dos casos já citados
até aqui, porém, na prática, o tipo de escravidão que se deu na
América, posteriormente à sua descoberta, no início da era
moderna (1492), por Cristóvão Colombo, tinha um caráter
inédito em relação aos casos da Antiguidade e do período
medieval, por dois fatores:
1- O atrelamento à política mercantilista que
possibilitou a acumulação primitiva de capitais no continente
europeu, tendo como pilares principais: o comércio exclusivo
metrópole-colônia, o sistema tributário que recolhia impostos
no Novo Mundo e os transferia para Europa e ainda a
implantação de uma economia dependente na América;
2- O paradigma do domínio racial em função de um
suposto atraso cultural-religioso de negros africanos e índios
americanos em relação ao conquistador europeu. 255
A visão etnocêntrica dos lusitanos em relação aos povos

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da América e da África não diferia do consenso e era
também baseada nos parâmetros cristãos da época.
Acreditavam os portugueses, que os nativos americanos eram
povos ignorantes apenas por desconhecerem a Bíblia, "ovelhas
desgarradas" do rebanho daqueles que pertenciam à verdadeira
e única fé (católica), mas que ainda podiam ser salvos através de
conversão ao cristianismo.
Quando aqui chegaram pela primeira vez os lusitanos,
Pero Vaz de Caminha já escrevia em sua carta ao rei Dom
Manuel sobre a conversão do nativo: “... Parece-me gente de tal
inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam
logo cristãos... portanto Vossa Alteza, que tanto deseja
acrescentar a santa fé católica, deve cuidar de sua salvação" (
PEREIRA, 2001, p.66).
Já no caso dos africanos, além de muitos povos daquele
continente, serem pagãos ou adoradores de outras divindades a
exemplo dos autóctones americanos, ainda era muito difundida
na época, a tese de que pertenciam a uma raça amaldiçoada por
Deus e traziam na pele a marca dessa maldição, tanto que a sua
escravidão tinha como uma de suas explicações, a interpretação
de determinados textos bíblicos:

três interpretações diversas mas convergentes, eram


apresentadas para explicar a origem da escravidão
negra.
A primeira delas afirma que a escravidão era
conseqüência do pecado de Adão, e da maldição
divina imposta ao homem de trabalhar a terra “com o
suor" do rosto...
A segunda versão considerava os africanos como
descendentes de Caim e, portanto, traziam ainda na
carne a maldição divina, ao primeiro homicida da
humanidade... Na tradição popular, os negros eram
considerados como a raça maldita de Caim, sendo a
negritude de sua pele o sinal imposto pelo próprio
Deus.
De acordo com a terceira interpretação, os africanos
eram os descendentes de Cam, o filho de Noé,
amaldiçoado pelo pai por ter zombado de sua nudez,
quando jazia embriagado após provar o fruto da
256 videira. (AZZI, 1987, p.80)

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Vejamos agora com mais detalhes como as nações
ibéricas vieram implantar o sistema escravista em suas colônias
do Atlântico.
Logo após o período histórico comumente designado
de Grandes Navegações, época dos grandes descobrimentos
marítimos, era comum se dizer nas cortes européias que quem
não colonizasse suas terras além-mar não seria dono das
mesmas, por isso, lusitanos e castelhanos logo se apressaram em
garantir a posse de suas colônias na América por meio do
povoamento.
Portugal e Espanha, donos de vastíssimos territórios
recém encontrados, então se viram diante de um enorme
problema: como ocupar suas terras? Para os espanhóis esta
questão seria solucionada com muito mais rapidez graças ao
numeroso contingente populacional de autóctones que
habitavam seus territórios, as relações de produção já evoluídas
existentes entre os mesmos e a descoberta precoce de metais
preciosos que logo atraiu milhares de aventureiros para o Novo
Mundo.
Já a coroa lusitana, há tempos, vinha correndo sérios
riscos de perder sua colônia americana para diversas nações
inimigas, mais notadamente a França, que não se conformava
com o Tratado de Tordesilhas e, por isso, seus navios visitavam
freqüentemente nosso território para negociar pau-brasil e
produtos nativos diretamente com as tribos indígenas do litoral.
A coroa francesa alegou por muito tempo o princípio do uti
possidetis que determinava que só a ocupação efetiva do lugar
garantia o direito de propriedade.
Portugal que sofria um enorme déficit populacional
causado pela peste negra (século XIV) e pelas batalhas pela
reconquista de parte de seus territórios na península Ibérica,
durante muito tempo ocupados pelos mouros, não dispunha de
um número suficiente de colonos para enviar ao Brasil-colônia.
Além disso, havia o medo de que a abundância de terras aqui
existentes funcionasse como um estímulo para que os homens
livres vindos da Europa se tornassem pequenos proprietários
autônomos, voltando os seus esforços exclusivamente para a
constituição de lavouras de subsistência ou que visassem o
comércio local, o que, fatalmente, impulsionaria a economia 257
colonial rumo à auto-suficiência administrativa-econômica.

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Portugal, então, esforçou-se para estabelecer aqui no
Brasil atividades produtivas de gêneros primários altamente
rentáveis quando comercializados no mercado europeu. Para o
historiador Caio Prado Júnior este seria, desde o início, o sentido
fundamental da nossa colonização. (PRADO JR., 1970)
Nos primeiros trinta anos após o descobrimento do
Brasil, a coroa lusitana arrendou a extração de pau-brasil, na
época, aparentemente, nossa única riqueza, a particulares,
porém, a atividade de extrativismo predatório desta madeira
não possuía um caráter colonizador que viesse garantir a
ocupação e a posse definitiva da terra aos portugueses.
Seguindo esta lógica, compreendermos por que o
sistema de capitanias hereditárias, ou donatárias (1532), já
utilizado na ocupação das ilhas atlânticas (Ilha da Madeira e
Açores), parecia então a melhor maneira de solucionar a
questão pertinente de como dar início à empresa colonial, sem
comprometer os cofres lusitanos. As capitanias permitiram no
século XVI a formação dos primeiros povoados brasileiros e a
constituição do que em breve seria a aristocracia colonial (ainda
de origem lusitana), assentadas principalmente sobre cultivo da
cana-de-açúcar, que aqui encontrou várias condições
favoráveis: clima, solo fértil e terras abundantes; principalmente
no nordeste brasileiro.

De fato, a colonização por meio da agricultura


tropical, como a inauguraram pioneiramente os
portugueses, aparece como a solução através da qual se
tornou possível valorizar economicamente as terras
descobertas, e dessa forma garanti-lhes a posse (pelo
povoamento). (NOVAIS, 1995, p.48)

A plantation convencionou-se definir como sendo as


grandes lavouras monocultoras assentadas sobre imensos
territórios (latifúndios) que serviam de base às unidades
produtoras do nordeste açucareiro (engenhos).
A afirmação de que estas gigantescas fazendas
predominaram ao longo dos séculos XVI e XVII, leva-nos a ter a
uma visão reducionista e equivocada da realidade brasileira da
258 época e desprezarmos a existência da pequena propriedade
familiar e de uma “rica” economia de mercado interno

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impulsionada por ela.
O Brasil-colônia, em pouco tempo, se tornou o maior
produtor mundial de açúcar, tendo sua produção como pano de
fundo, toda uma gama de atividades ditas “secundárias” mas de
vital importância para o próprio sucesso da lavoura canavieira,
porém, como já dissemos antes, Portugal não dispunha de
colonos na quantidade necessária e nem podia enviá-los a
“Deus-dará” para matar a fome de braços trabalhadores da
colônia. A saída mais cômoda e econômica encontrada foi
então a adoção imediata de regimes que empregassem a mão-
de-obra dos nativos aqui encontrados através do trabalho
compulsório ou semicompulsório.
Portugal possuía vasta experiência na pratica do
escravismo. Desde as suas origens, os lusitanos valiam-se do
regime escravista para remediar a baixa densidade demográfica
e a conseqüente falta de mão-de-obra causada por ela,
principalmente na sua região setentrional.

Os intermináveis combates travados durante a


ocupação muçulmana da Península Ibérica
propiciaram ótimas condições para que cristãos e
maometanos se escravizassem mutuamente em nome
da verdadeira fé e das necessidades de braços "servis”. (
MAESTRI, 2001,p.54)

A respeito da implantação do sistema servil em nosso


país, Gilberto Freyre sugeriu, como já citamos, que, desde os
seus primeiros tempos, a vida no interior da colônia foi ditada
pela miscigenação racial de índios, portugueses e africanos,
tendo como um de seus aspectos mais marcantes o convívio
harmonioso entre essas três culturas. “harmonia racial” que na
sua opinião, teve sua expressão mais visível na benevolência e
no paternalismo por parte dos senhores de engenho para com
seus escravos negros.
Contra esta visão "paternalista" e o mito da "democracia
racial brasileira", ganharam força no Brasil, nas décadas de 1960
e 1970, as interpretações sobre a escravidão brasileira
fundamentadas na denúncia contundente dos interesses
econômicos lusitanos e na violência que permeavam todo o 259
sistema escravista em nosso país.

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Para esta corrente de pensadores em geral,
eram as relações econômicas de produção (infra-
estrutura) que determinavam a produção cultural e
ideológica do Brasil-colonia (superestrutura), por isso,
pregam em seus trabalhos ter sido a nossa economia
colonial, assentada no escravismo e ditada pelos
interesses metropolitanos, a causa principal de tudo o
que acontecia no seio de nossa sociedade colonial
durante os séculos XVI e XVII.
Cremos que a principal falha deste modelo
interpletativo, resida, no fato de que, quando este é
levado ao “pé-da-letra” leva-nos a um tipo de
determinismo, onde as estruturas econômicas são
vistas como independentes das próprias sociedades
que as produziam, ditando o modo de agir e de pensar
dos indivíduos, como se estes, fossem seres
desprovidos de qualquer capacidade de auto-
determinação.
Esta versão é até hoje em dia a mais difundida
nos currículos escolares de nível básico e fundamental,
portanto é também a mais conhecida.

ESCRAVIZANDO O NATIVO

Em algumas áreas do Brasil-colônia como em


diversas outras regiões do Novo Mundo, desde cedo e
por muito tempo o indígena chegou a ser a mais
importante mão-de-obra utilizada, constituindo o seu
apresamento e exploração do seu trabalho a base
fundamental dos primeiros esforços coloniais
portugueses, entretanto, a escravidão nativa estava
intimamente relacionada à oferta de grandes
contingentes populacionais indígenas nas diferentes
partes do continente. No caso específico da América
espanhola, por exemplo, a densidade demográfica das
comunidades nativas encontradas nas regiões dos
antigos impérios ameríndios (Astecas, Incas e Maias)
era de aproximadamente "50 hab./Km2" (PEREGALLI,
260 1994, p.6), um número elevado em relação ao Brasil-
colônia o que, explica em parte, por que ao contrário

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do que ocorrera na América Portuguesa, a escravidão
indígena na parte castelhana do continente somente em poucos
casos regionais foi superada pela escravidão africana.
Até a pouco tempo, muitos historiadores sequer
mencionavam a escravidão nativa em seus trabalhos. Outros
alegavam que um dos motivos da substituição do escravo nativo
pelo africano, no Brasil-colônia, por volta de 1550, teria sido
uma conseqüência direta de uma suposta "indisposição natural"
do índio brasileiro ao trabalho regular.
Atualmente, este raciocínio é objeto de
questionamentos. Tachar o nativo como um ser preguiçoso e
inadaptável ao trabalho, mesmo sendo este compulsório, é
julgá-lo de modo etnocêntrico, tendo como base os mesmos
valores e concepções do colonizador europeu.
Sheila de Castro Faria chega a citar que: "Em Sergipe do
Conde, por exemplo, grande engenho da Bahia, mais de 90%
dos escravos eram índios, em 1572." (FARIA, 1997, p.33) Quase
um século depois, em 1637, o bandeirante Pedro Teixeira
aprisionava milhares de índios na região do Amazonas para
vendê-los nas prósperas lavouras de algodão maranhenses.
Baseando-se nestes exemplos e em muitos outros,
pode-se concluir que a substituição do escravo nativo pelo
africano no Brasil-colônia não pode ser explicada,
satisfatoriamente, por meio da tese já ultrapassada da
inadaptação do índio ao trabalho, uma vez que os nativos
brasileiros sempre foram escravizados ao longo de toda a nossa
história colonial.
Ciro Flamarion Santana Cardoso enumera vários
obstáculos à escravidão indígena e que, para ele foram
determinantes para a "preferência" do africano como escravo.

As epidemias, a mortalidade ligada ao trabalho


forçado e ruptura da economia de subsistência
indígena tradicional, a fuga de tribos inteiras mais para o
interior, acabaram por inviabilizar uma plantation
açucareira baseada principalmente no trabalho dos
índios, seja escravo, seja livre em teoria, mas na verdade
sob compulsão na imensa maioria dos casos. Assim, as
primeiras décadas do século XVII viram a transição ao
predomínio da escravidão negra (CARDOSO, 1990,
261
p.89).

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Mesmo assim, apesar de todos esses empecilhos, por
muito tempo índios e africanos ainda foram largamente
utilizados em atividades paralelas, coabitando, inclusive, os
mesmos espaços físicos.

O CLERO E A ESCRAVIDÃO

A ação dos missionários jesuítas também era uma


importante barreira à escravidão indígena. Embora, em muitas
unidades produtoras de propriedade da Companhia de Jesus o
trabalho do indígena fosse aproveitado, "não eram utilizados
como escravos, mas exerciam tarefas simples como a da limpeza
anual da levada, cuidar do sangradouro e cortar lenha". (FELINE,
1994, p.57)
Quando chegaram ao Brasil-colônia, em 1549,
comandados pelo padre Manuel da Nóbrega, os membros da
Companhia tiveram um propósito já definido de propagação do
catolicismo no Novo Mundo, inspirados pelos ideais da reforma
católica. O projeto de conversão dos nativos brasileiros à fé
cristã, através da catequese se tornaria impossível caso esses
mesmos nativos continuassem a ser escravizados e,
conseqüentemente, dizimados pelos colonos europeus.
Este posicionamento dos religiosos deixava o rei
português em uma situação delicada, já que o regime de
padroado selava a forte aliança político-econômica entre a
coroa e a igreja Católica, por isso, uma determinação régia, de
1570, já fixava que os nativos brasileiros só pudessem ser
capturados e escravizados através de guerras justas,
solucionando parcialmente o impasse entre religiosos
catequistas e colonos apresadores de nativos.
O mesmo clero que lutava pela erradicação da
escravidão indígena, em relação ao negro africano, por muitas
vezes, só se pronunciou contra as longas jornadas de trabalho e
contra os castigos excessivos. Reforçando a idéia de que os
africanos estariam salvando suas almas da "maldição divina"
trazida em suas peles, através do sacramento do batismo que
era realizado em massa nas praias africanas antes do embarque
262 para o Brasil, e por meio do trabalho braçal, que os permitia
“expiarem seus pecados”.

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Para os jesuítas, os africanos deveriam ser gratos aos
lusitanos, por terem esses lhes dado aquela oportunidade de
"purificarem" suas almas através do cristianismo. Observemos
como esse raciocínio está claramente expresso no sermão
décimo quarto do padre Antônio Vieira: “Oh se a gente preta
tirada das brenhas da sua Etiópia, e passada ao Brasil, conhecera
bem quanto deve a Deus, e a sua santíssima Mãe por este que
pode parecer desterro, cativeiro, e desgraça, e não é senão
milagre, e grande milagre!” . (VIEIRA, 1907, p.47)
Cientes também da necessidade de trabalhadores, sem
os quais a colônia passaria caso a escravidão não fosse mantida,
como já na época, advertia o jesuíta Antonil: “Os escravos são as
mãos e pés do senhor de engenho. Sem eles no Brasil é
impossível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter
engenho.” ( ANTONIL, 1955, p. 47), os membros da
Companhia de Jesus logo se valeram de todo o aparato
ideológico cristão-medieval para apoiarem a escravidão
africana nas terras brasileiras.
É possível termos a dimensão do quanto era importante
essa opinião do clero. Basta lembrarmos que a Igreja Católica foi
à detentora do monopólio educacional durante o período
colonial brasileiro e que pensar diferente do clero era
considerado uma heresia. Toda a vida na colônia era assim
organizada e regida, tendo como parâmetros de referência os
ensinamentos e dogmas daqueles religiosos que não se furtavam
diante da necessidade de interferirem na realidade social e
política da colônia sempre que julgavam ser preciso.
Para que entendamos de forma clara e abrangente
todos os aspectos que envolveram a transição da escravidão
indígena para a escravidão africana no Brasil, é preciso que
também notemos estes fatores ideológicos e religiosos tão
fundamentais para aquele acontecimento.

SOBRE O TRÁFICO NEGREIRO

Devido à grande necessidade de mão-de-obra farta e


barata exigida pelas lavouras canavieiras, confrontadas com as
dificuldades de se escravizar o índio e a oposição dos jesuítas à
escravidão nativa, a atividade do comércio de escravos africanos 263
para o Brasil-colônia se desenvolveu e se intensificou em larga

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escala por volta da segunda metade do século XVI.
Traficar escravos para a América Portuguesa transformou-se,
rapidamente, em uma das mais rentáveis fontes de riquezas da
época tanto para os traficantes como para a coroa.
Portugal lucrava muito com este comércio, tributando
a "mercadoria" duplamente, tanto no momento do embarque
na África, quanto no seu desembarque em terras brasileiras.
Somente a partir deste momento a mão-de-obra utilizada no
Brasil-colônia passou a ser, em maior parte, provenientes deste
comércio de africanos, trazidos para trabalhar em nossas
lavouras.
Ao analisarmos este panorama brasileiro dos séculos
XVI e XVII até aqui apresentado, deparamos com uma realidade
histórica na qual o entendimento de que a introdução do
africano como escravo no Brasil-colônia possa ser justificada
apenas como sendo uma simples decorrência direta das
exigências dos traficantes de escravos, ávidos por lucros, deve
ser relativizado.
Entendemos que a adoção da escravidão africana no
Brasil-colônia foi o que determinou o início do tráfico negreiro
para nosso país e não o contrário, como assinalam muitos
pesquisadores. Vejamos o que disse um especialista no assunto,
Celso Furtado, a respeito disto:

As dificuldades maiores, encontradas na etapa inicial


advieram da escassez de mão-de-obra. O
aproveitamento do escravo indígena, em que
aparentemente se baseavam todos os planos iniciais,
resultou inviável na escala requerida pelas empresas
agrícolas de grande envergadura que eram os
engenhos... A mão-de-obra africana chegou para a
expansão da empresa, que já estava instalada. É quando
a rentabilidade do negócio está assegurada que entram
em cena, na escala necessária, os escravos africanos.
(FURTADO, 1991, p.41-42)

Atentemos ainda que, apesar de o fragmento acima


transcrito se referir apenas à lavoura canavieira, a força de
trabalho dos africanos foi empregada para suprir várias
264 necessidades já existentes por aqui. Simplesmente faltava gente
para trabalhar nas lavouras, na casa-grande, na mineração e até

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mesmo nos setores pecuários e de produção de
alimentos destinados ao consumo interno da colônia.
Ainda sobre o tráfico negreiro, uma outra afirmação
muito presente nos livros didáticos brasileiros propõe que a
escravidão indígena foi, aos poucos, sendo abandonada no
Brasil, devido ao fato de o apresamento e escravização do nativo
ser um negócio interno-colonial e que, portanto, não gerava
lucros à burguesia portuguesa, ao passo que o comércio
intercontinental de africanos possibilitava o enriquecimento
daquela aristocracia residente na metrópole e ligada
diretamente à atividade do tráfico negreiro.
A pesquisa minuciosa de nossa economia colonial, feita
pelo historiador João Fragoso (1992) , baseada na análise de
inventários pós-mortem compreendidos num período de
cinqüenta anos (1770-1820) da história brasileira, como
diversos outros estudos, confirma a fragilidade deste argumento,
demonstrando o caráter endógeno-colonial do tráfico de
escravos africanos para o Brasil-colônia.

A RESISTÊNCIA AO SISTEMA

Desde o início da expansão marítima lusitana pelo


Atlântico, os tentáculos do império ultramarino português se
fizeram presentes em diversas regiões africanas (Moçambique,
Costa do Marfim, Congo, Angola, Guiné). Essas áreas foram as
grandes fornecedoras dos trabalhadores que Portugal tanto
carecia pra enviar à sua colônia americana.
Em 1539, o donatário da capitania de Pernambuco,
Duarte Coelho, já pedia ao rei de Portugal, D. João III, que lhe
fosse concedida permissão para “comprar alguns escravos-de-
Guiné”, como eram chamados os africanos na época. Em 1559,
atendendo os apelos dos senhores de engenhos, a coroa
finalmente editou o alvará que regulamentava a introdução de
escravos africanos no Brasil.
O medo das fugas e rebeliões dos africanos recém
chegados era uma constante. Uma grande estrutura de controle,
vigilância e repressão sobre a vida dos cativos foi criada e a
própria administração colonial respaldava a prática de castigos
severos, chegando até mesmo a aplicação da pena de morte 265
para os escravos mais indisciplinados.

Juiz de Fora 2006


Quanto à resistência dos africanos a esse sistema
opressor , é preciso que notemos que as formas de luta
relacionadas unicamente a reações violentas por parte destes,
tais como: as fugas em massa para os quilombos, suicídios,
assassinatos de feitores e senhores, etc, não foram os únicos
nem os mais utilizados meios de resistência adotados pelos
africanos.
Análises mais recentes indicam ter sido a negociação
um dos recursos mais eficazes e, por isso mesmo, um dos mais
utilizados pelos cativos. Através da negociação direta com seus
senhores eram engendradas formas que pudessem amenizar as
condições adversas do cativeiro por meio de um simples
sistema de ganhos e de concessões de favores. Negociar,
naquele contexto, era resistir.
É elucidativo transcrevermos, neste instante, alguns
trechos do "curioso" tratado proposto a Manuel da Silva Ferreira
pelos seus escravos durante o tempo em que se conservaram
levantados (1789):

Meu Senhor, nós queremos paz e não queremos guerra;


se meu senhor também quiser nossa paz há de ser nessa
conformidade, se quiser estar pelo que nós quisermos,
a saber.
...Não nos há de obrigar a fazer camboas, nem mariscar,
e quando quiser fazer camboas e mariscar mandes os
seus pretos Minas
... Faça uma barca grande para quando formos para
Bahia nós metermos as nossas cargas para não
pagarmos fretes
... Na planta da mandioca, os homens querem que só
tenham tarefa de duas mãos e meia e as mulheres de
duas mãos
... Os atuais feitores não os queremos, faça eleição de
outros com a nossa aprovação.
...Poderemos plantar arroz onde quisermos, e em
qualquer brejo, sem que para isso peçamos licença
... A estar por todos artigos acima, e conceder-nos estar
sempre de posse de ferramenta, estamos prontos para o
servimos como dantes, porque não queremos seguir os
maus costumes dos mais engenho.
266 Poderemos brincar, folgar, e cantar em todos os tempos
que quisermos sem que nos empeça e nem seja preciso

CES Revista
pedir licença. ( REIS; SILVA, 1989, p.123-124)

Os escravos do senhor Manuel da Silva Ferreira, como


muitos outros no Brasil-colônia, diferiam do grupo daqueles
cativos que tinham uma atitude passiva perante o cativeiro e
foram reduzidos a meros instrumentos de trabalho de seus
proprietários (coisificados), por tanto, não se enquadram na
interpretação de Gorender que entende que, “na sua condição
de propriedade, o escravo é uma coisa, um bem objetivo".
(GORENDER, 1978, p.49)
Mas, também não se encaixavam naquele grupo de
africanos que optaram pela resistência violenta, que quase
sempre terminava de maneira desastrosa trazendo consigo
muitos transtornos (as mais variadas formas de castigos,
chegando até mesmo a pena de morte) para o cativo rebelde.
A postura daqueles cativos atesta a tese de que, o
escravo africano no Brasil, deve ser encarado como construtor
de sua história de vida. Mesmo naquele ambiente social tenso
onde concessões e adaptações ao sistema eram muitas vezes
necessárias e até mesmo admitidas.

o Zumbi, rebelde de tempo integral, herói da resistência


e o Pai-João permanentemente resignado ao papel que
lhe era reservado no interior do sistema escravista. São
estereótipos falsos, criados a partir de concepções
teóricas equivocadas. (DE PAULA, 2004, p.124)

A ação dos referidos escravos do senhor Manuel da


Silva Ferreira, durante o tempo em que se conservaram
levantados, ajuda-nos ainda, a entendermos que em cada
canto da colônia, a instituição escravocrata e suas diversas
formas de resistência tiveram suas singularidades determinadas
por vários fatores como, a lavoura predominante na região, a
grande ou reduzida oferta da mão-de-obra nativa, a demanda
interna da produção e a ação dos jesuítas.
Basta observarmos atentamente esta nova realidade
para concluirmos que escravos e senhores devem ser
compreendidos como agentes de um processo histórico onde a
diversidade (regional, econômica e cultural) foi à mola mestra
das relações sociais do universo complexo em que aqueles ou
267

Juiz de Fora 2006


indivíduos estiveram inseridos. As atitudes e maneiras
de pensar daqueles homens, livres ou cativos, de nossa era
colonial, jamais se enquadraram perfeitamente neste ou
naquele padrão de comportamento estabelecido, mesmo que
estes padrões sejam tidos como regra geral por muitos
estudiosos de hoje em dia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Durante as décadas de 1960 e 1970, estiveram em alta


no Brasil as teorias vinculadas ao materialismo histórico, como
instrumento de interpretação das relações sociais ocorridas
durante o Brasil-colônia.
Os autores ligados a essa escola, de modo geral, foram
críticos ferrenhos da visão paternalista contida na obra: Casa
Grande e Senzala, de Gilberto Freyre ,e procuraram retratar a
escravidão africana no Brasil, priorizando apontar a incessante
luta de classes entre escravos e senhores e o papel da colônia no
contexto do antigo sistema colonial. Tarefa a qual cumpriram de
forma muito rica e singular.
Muitos representantes desta linha interpretativa,
porém, apesar de possuírem o mérito de terem trazido à luz a
brutalidade e os interesses financeiros tão próprios ao regime
escravista em nosso país, não consideraram a complexidade da
dinâmica interna colonial, tendo-a sempre como mero reflexo
de interesses econômicos externos.
Esta vertente do marxismo brasileiro, que criticou a
tese de que a escravidão brasileira possuía algum traço de
benevolência, paternalismo e até mesma doçura, ao denunciar
tais mitos, acabou também criando novas visões limitadas.
Destas, podemos destacar:
1- a idéia da inexistência de uma economia interno-
colonial capaz de ditar seus próprios rumos
independentemente de Lisboa;
2- a definição dos escravos como sendo uma massa
amorfa, despolitizada, portanto, historicamente passiva,
coisificada, ou por outro lado considerar apenas as formas
violentas de resistência à escravidão.
268 Quisemos engrossar aqui o coro daqueles autores que
sugerem que a substituição da escravidão indígena pela

CES Revista
apenas de maneira parcial por muitos destes
pesquisadores, por isso, foi nossa intenção neste artigo
demonstrar que a vinda dos escravos africanos para o Brasil-
colônia, a partir do século XVI, foi parte de um processo
complexo e abrangente que não poderá ser analisado,
satisfatoriamente, através de um único viés, seja ele o
econômico (materialismo-histórico), o político ou ainda o
cultural-religioso.
Ao nosso ver, a necessidade de a coroa lusitana tomar
posse efetiva da sua colônia na América através do povoamento,
durante o século XVI, associada às dificuldades de se implantar
um sistema produtivo rentável baseado unicamente na servidão
indígena (população nativa pouco numerosa, resistência,
epidemias e oposição jesuíta), já anteriormente discutidas,
constituíram juntas um imperativo para que a falta dos
trabalhadores exigidos pela lavoura, fosse suprida pela
introdução da mão-de-obra escrava de origem africana no
Brasil-colônia. Cremos por tanto na múltipla casualidade
(política, demográfica, cultural-religiosa e econômica) deste
fenômeno.
Nossa conclusão teve como fundamento uma pesquisa
bibliográfica, durante a qual foram consultados diversos trabalhos
relacionados com o tema da escravidão indígena e africana no
Brasil-colônia. Com mais destaque àqueles produzidos nas
décadas de 1980 e 1990, que, apesar de representarem
atualmente a palavra mais recente em relação ao tema, não são
uma versão definitiva. Pois, “ Por mais que se creia Ter chegado a
verdade absoluta, é necessário que se admita que essa verdade é
sempre aproximativa e nunca total”(DAU; DAU, 2001, p.15) .
Não podemos nem devemos, portanto, esperar esquemas
generalizantes, frases feitas e nem verdades absolutas quando o
assunto é o estudo do passado e da história de um povo.

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