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“O niilismo, na verdade, é a destruição absoluta da tradição.

E, na medida em que
não se tem tradição, não se é nada além do que se projeta de si mesmo. Mas como não se
é nada, apenas um átomo nas cadeias infinitas de átomos, quando o ser humano resolve
acabar com a tradição — ligada à ideia profundamente religiosa de origem — e cria sem
nenhuma relação com a tradição, necessariamente ele cai no vazio, no nihil. Por isso a
modernidade, tal qual é, para Dostoiévski, só pode ser uma realização absoluta do mal, só
pode dar na escatologia absoluta, no apocalipse absoluto, é a marcha em direção ao fim, à
tragédia total, é a dissolução de tudo. O ser humano vai dissolvendo as relações, ele não
sabe mais o que ele é, apenas “inventa”. “O grande problema para nós, seres humanos
modernos, é que Deus está de fato morto e falar de sobrenatural é fazer uma simples
metáfora. Estamos querendo nos salvar à custa da nossa bondade, do conceito de
inconsciente psicológico, de valores bons que a humanidade teria construído. Então todo
esse discurso de Dostoiévski parece absolutamente estranho, pessimista. Como alguém
inteligente pode dizer que a única saída é Deus? Como um discurso racional pode sustentar
algo desse tipo?
Na obra de Dostoiévski é fundamental essa experiência da desorientação da autonomia,
essa agonia do pensamento vagando e percebendo que não é capaz de se autofundar”.