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Licenciatura em Música

Prática Curricular na Dimensão Político-Social

Profo. Ivan Veras Gonçalves


Governador do Estado do Maranhão Edição
Flávio Dino de Castro e Costa Universidade Estadual do Maranhão - UEMA
Núcleo de Tecnologias para Educação - UEMAnet
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Ficha catalográfica
Gonçalves, Ivan Veras

Prática curricular na dimensão político-social [ebook]. / Ivan


Veras Gonçalves. – São Luís: UEMA; UEMAnet, 2018.

64 p

ISBN:

1. Praticas curriculares. 2.Professor. 3.Sociedade. I. Título.


CDU: 371:13
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO

UNIDADE 1 Definições de Sociedade, Educação, Democracia e Currículo

1.1 Sociedade 6
1.2 Educação 11
1.3 Democracia 17
1.4 Currículo
17
Referências 20

UNIDADE 2 Educação e Sociedade

2.1 A contribuição da Teoria Crítica e da Escola de Frankfurt na esfera 25


educacional
2.2 O papel da escola em uma sociedade dividida por classes 35
2.3 A escola democrática: solução ou problema? 41
Referências
45

UNIDADE 3 O papel do educador na sociedade atual

3.1 A atividade docente clássica e as mudanças no papel do professor 50


3.2 O professor e a busca de novas perspectivas 52
3.3 A dimensão política e social do Currículo 54
3.4 Os Quatro Pilares da Educação 58
Considerações Finais
62
Referências
63
APRESENTAÇÃO

Caro (a) estudante,

O Currículo, mais do que um acervo de paradigmas representa uma


necessidade de se construir opções às práticas educacionais que são produzidas
dentro da sociedade atual, englobando assuntos sociais, políticos e pedagógicos.
Na disciplina Práticas Curriculares na Dimensão Político-Social, abordaremos a
educação e a sociedade, suas ideias e conceitos, em busca de um binômio palpável
para o futuro, onde esses dois elementos possam representar uma possibilidade de
função harmoniosa.

Nesse e-Book vamos analisar o papel do professor na sociedade


contemporânea, discutir sobre a atividade docente em face das mudanças que
estão ocorrendo no papel que hoje o professor desempenha, vamos realizar uma
série de análises, reflexões e, até mesmo, propostas acerca da educação, que é
vista como uma ferramenta importante, da qual o ser humano não pode se privar,
sob pena de comprometer o seu desenvolvimento como pessoa e o das sociedades
da qual fazem parte.

Bons Estudos!!
ÍCONES
Caro estudante,

Além do texto com as informações do conteúdo da disciplina, estamos lhe


apresentando os ícones, elementos gráficos que ampliam as formas de linguagem
e simplificam a organização e a leitura hipertextual. Você deve clicá-los para ter
acesso às informações que cada um representa. Observe os significados:

ABC ou Glossário ATENÇÃO!

define uma palavra, termo ou


destaca informações imprescindíveis
expressão utilizada no texto;
no texto, indica pontos de maior
relevância no texto;

Saiba mais
SUGESTÃO DE FILMES OU VÍDEOS
traz informações, curiosidades
filmes com temas relacionados ao
ou notícias acrescentadas ao
conteúdo do texto;
texto e relacionadas ao tema
estudado;

REFERÊNCIAS

estão relacionadas no final de


cada aula/unidade, de acordo
com as normas da ABNT.
Objetivos
• Compreender a definição de Sociedade e as contribuições
dos principais teóricos sobre esse assunto;
• Entender a relação da Educação com a Sociedade em
seus múltiplos contextos;
• Reconhecer a importância do Currículo como um elemento
central no projeto pedagógico da escola.

UNIDADE
1
Para que possamos ter compreensão ampla de tudo o que

Definições de Sociedade, Educação,


vamos tratar nesse trabalho, se faz necessário que entendamos
alguns cânones que iremos abordar.

1.1Sociedade

As definições de sociedade (neste caso nos referimos às


sociedades humanas) são descritas, muitas vezes de forma

Democracia e Currículo
distinta em alguns pontos, mas todas dizem a mesma coisa
em linhas gerais: é um conjunto de seres que vivem no mesmo
espaço de forma harmoniosa e organizada.

A palavra Sociedade deriva do latim Societate, que significa

Curso: Licenciatura em Música


“associação amistosa com outros” (FERREIRA, 1996, p.1602),
dessa forma ao constituírem essas associações a sociedade se
tornou objeto de estudo comum tanto das Ciências Humanas
como das Ciências Sociais nas mais diversas disciplinas que
as compõem. Tanto as Ciências Humanas e as Sociais veem
as sociedades como uma hierarquia organizada, onde existe
entre os indivíduos uma relação estruturada e organizada,
mas de forma semiaberta, ou seja, na maior parte das vezes
acontece com indivíduos do mesmo grupo.
6
6
Em uma visão genérica e até certo modo draconiana, podemos afirmar que a
sociedade é uma condição universal do ser humano. Mas esse universalismo é
passível de outras interpretações menos ortodoxas, pois a sociedade não é uma
exclusividade dos seres humanos (como exemplos temos macacos Bonobo e
Chimpanzés), mas pode ser classificada como um atributo básico.

Na atualidade, as mais destacadas contribuições para entendermos a teoria social


tem partido de renomados sociólogos empenhados em explicar a sociedade e suas
transformações. Para Elliot e Turner (2012, p.229):

[...] a reflexão sobre a sociedade, ou seja, o processo de sua


constituição, reprodução e transformação encontra-se no
cerne da Sociologia [...] Uma clara explicitação do conceito de
Sociedade continua desafiando a disciplina em sua fase atual.

Neste processo sociológico de entender a sociedade o primeiro grande nome


é o do sociólogo e antropólogo francês Emile Durkheim, considerado o pai da
Sociologia, que junto com Karl Marx e Max Weber, é citado como um dos criadores
das Ciências Sociais. O trabalho de Durkheim e de seus colegas da Revista L`Anée
Sociologique1, que foi desenvolvido na revista, causou fortes impactos no século XX,
principalmente no que se refere à qualificação do fato social. Já que este trabalho,

Qualificou, com efeito o fato como uma “coisa”, e preconizou que,


para estudá-lo fossem aplicados os métodos e processos, isto
é, os recursos experimentais empregados nas Ciências Exatas.
Para a explicação do fato social havia a necessidade, segundo
ele, de investigação das coisas sociais e não meramente
históricas, psicológicas e biológicas. (LAKATOS,1990, p.63-

_______________________________________
64).

1
A Revista L`Anée Sociologique é uma revista de Sociologia fundada em 1896 por E. Durkheim, foi
publicada até 1925, depois retomou a publicação como Anais Sociológicos entre 1934 e 1942. Após
a Segunda Guerra Mundial foi novamente publicada sob o primeiro nome e sua publicação persiste
até hoje. Para saber um pouco mais sobre a Revista L`Anée Sociologique acesse: <http://gallica.bnf.
fr/ark:/12148/cb34404872n/date>
7
Durkheim formulou uma definição clara e precisa do que seria esse fato social:

É fato social toda maneira de agir, fixa ou não, suscetível de


exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, que é geral
na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma
existência própria, independente das manifestações individuais
que possa ter. (DURKHEIM, 1966, p.12).

Dessa conceituação podemos inferir vários fatos sociais que nos cercam, dentre
eles a Educação.

Enquanto Émile Durkheim definiu que o fato social tem um conjunto de qualidades,
para Max Weber a Ação Social possuía caráter subjetivo estando ela baseada em
regras internas dos indivíduos:

A ação social seria a conduta humana, pública ou não, a que


o agente atribui significado subjetivo; acentua a importância
de ser a ação social uma espécie de conduta que envolve
significado para o próprio agente. (LAKATOS,1990, p.69).

As contribuições de Durkheim e Weber sobre o fato social e a ação social foram


fundamentais para entendimento de tudo o que ocorre na sociedade hoje em dia.
Muitos outros teóricos abordaram, mas em outros contextos, ampliando o que os
pioneiros da Sociologia haviam proposto, preenchendo algumas lacunas que os
primeiros trabalhos não conseguiram.

Um desses teóricos foi o historiador britânico Eric Hobsbawn que analisou a tensão
entre comunidade e sociedade exemplificados por alguns fatos da contemporaneidade
que reforçam esse argumento. Após a Segunda Guerra Mundial as angústias da
juventude dos anos 50 (sequiosa de novas emoções) tornaram-se mais evidentes, e
sendo essa a década das revoluções comportamentais e tecnológicas da segunda
metade do século XX, é também uma época marcada por uma crise de rebeldia da
juventude que para muitos teóricos ainda persiste.
8
Nessa época inicia-se um movimento chamado de Contracultura (que teve seu
apogeu na década de 1960) caracterizado pela contestação social, se valendo dos
recém-criados meios de comunicação de massas. Os jovens estavam voltados
para o antissocial, confrontando o conservadorismo das famílias, da Igreja e as
ditaduras2:
[...] era composto por grupos aparentemente heterogêneos
que procuravam viver e experimentar outros padrões de
comportamento. A procura de estados de consciência
alterados com drogas, música ou êxtase religioso, a vida
em comunidade, a preocupação ambiental, a valorização do
trabalho artesanal e o resgate de traços culturais desprezados
pelo ocidente e sua razão iluminista, como a cultura popular,
indígena e oriental caracterizou o comportamento hippies,
psicodélicos, e ecológicos e praticantes de Ioga nos anos 60 e
70. (ALBUQUERQUE,2001, p.52).

Sobre toda essa efervescência nos diz Hobsbawn:

Tais movimentos eram mais gritos de socorro que portadores


de programas – gritos pedindo um pouco de comunidade a
que pertencer num mundo anômico3, um pouco de família a
que pertencer num mundo de seres socialmente isolados; um
pouco de refúgio na selva. (HOBSBAWN,1997, p.335).

_______________________________________

2
Um exemplo claro de confrontação foi a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, realizada
em São Paulo em 19 de março de 1964. Enquanto os movimentos sociais se aproximavam do
presidente da República e suas ações em favor das reformas de base, a Marcha da Família com
Deus pela liberdade, liderada por autoridades civis e religiosas, defendiam a tradição familiar e
a propriedade privada. Para saber mais sobre a marcha acesse: <https://pt.wikipedia.org/wiki/
Marcha_da_Fam%C3%ADlia_com_Deus_pela_Liberdade>.

3
Onde há ausência generalizada de respeito a normas sociais, devido a divergências ou contradições
entre estas.
9
Todo esse processo chegou aos dias atuais extremamente radicalizado no que
chamamos de Cultura Alternativa:

Herdeira da Contracultura, porém em tempos pós-modernos, a


Cultura Alternativa se apresenta dispersa em uma infinidade de
temas: natureza, equilíbrio, respeito, reconciliação, harmonia,
comunicação, intuição, pureza, comunidade, afetividade,
integração, mistério, unidade, espontaneidade... São valores,
condutas, atributos que povoam o simbolismo da comunidade,
com os quais os alternativos se opõem ao consumismo, à
competição predatória, à negligência ética e à impunidade.
(SOARES,1994, p.38).

Atualmente, essa Cultura Alternativa representa uma grande parcela da sociedade,


desse modo, excluídos pelo poder público, de acesso a serviços de qualidade, e
aos bens culturais, passam a se opor à ideia usual de cultura patrocinada pelos
órgãos estatais (Panis et circenses), e pela mídia de massa ligada a grandes
corporações de entretenimento, focam no insípido, exibível e popular. Na televisão,
considerada uma forma de arte cênica acessível a todos, vemos atuações pouco
convincentes, em parte por uma questão de mídia onde colocam no ar “atores
bonitinhos” e/ou modelos, mas sem nenhuma qualificação mais profunda sobre as
artes cênicas, com isso acabamos tendo personagens débeis. Nesse panorama, a
Cultura Alternativa sobrevive marginalizada, em favelas e comunidades carentes,
sem contarmos a que vem surgindo nos rincões mais distantes do país como o
extremo norte.

Com o fim do século XX, o conceito de pós-modernidade vem ganhando força


não apenas no universo das artes, mas também na teoria social. A sociedade pós-
moderna vive sob o signo do momentâneo, do fugaz, com as novas tecnologias as
fronteiras se dissolveram gerando a ideia de um mundo cada vez menor. A confusão
extrema e irremediável das cidades se acentua cada vez mais com espaços
descontínuos e fragmentados. Enfim, a Sociedade atual passa por momentos não
habituais.
10
1.2 Educação

O processo de educação dos seres humanos foi fundamental para nossa evolução,
nos conduzindo à vida em sociedade. Quando o homem rompe o seu isolamento,
ele começa a tecer teias de alteridade que serão a base para o surgimento das
primeiras sociedades. Quando o homem primitivo começa a se relacionar com
outros homens ou grupos, ele começa a reconhecer e compreender as diferenças ao
mesmo tempo que faz aprender com ela. Essa rede de relacionamento se constitui
na primeira forma de educação, onde a educação dos mais jovens era condição
sine qua non para a perpetuação da espécie, do grupo, e para a transmissão da
cultura.

No período Neolítico, a raça humana fez avanços consideráveis, uma veraz


revolução da cultura. Nesse período, os homens se tornam agricultores, além
de sedentários. Agora os indivíduos se juntaram em agrupamentos humanos
(vilas, aldeias), criam animais (o cão doméstico surge nesse período), fabricam
vasos, instrumentos agrícolas e teares. Mas a revolução ocorrida no Neolítico é
também uma revolução em termos de educação, criam inúmeras divisões dentro
da sociedade, tais como: divisão entre educação e trabalho, o papel da família
na reprodução das estruturas culturais (papel sexual, papéis sociais, conjunto de
habilidades básicas e internalização da figura da autoridade), adestramento nas
práticas artesanais, nos rituais e na arte.

Essa prática educativa evoluiu e foram sendo criados locais específicos para a
aprendizagem. Com o tempo todo esse arcabouço de educação foi sintetizado em
linguagem e técnicas que passaram a constituir – de forma cada vez mais isolada-
o modelo de educação no período. Com isso podemos concluir que a educação no
Período Neolítico visava realizar algo, era uma educação prática. Ela visava atender
as necessidades do grupo, tais como vestuário, abrigo, obtenção de alimentos etc.
Nessas sociedades, embora não houvesse um local específico para o ensino, já
havia a figura do professor e do aluno.

11
Na transição da sociedade primitiva para a civilização, a educação começa a ser
pensada a nível da estratificação social4. Na sociedade do oriente as classes menos
abastadas não tinham acesso à mesma educação que as classes mais elevadas.
Com isso, instaura-se na educação um processo segregatício em que grande parte
da população é excluída da escola.

Na Grécia antiga considerada por muitos como o berço da civilização, a educação


escolar não era democrática, não era acessível a todos, ela atendia basicamente a
nobreza e aos ricos comerciantes. O ensino das letras e da matemática demorou a
se popularizar. Não havia nenhuma educação voltada para as meninas, para elas
as mães ensinavam trabalhos manuais e os ofícios domésticos.

Havia na Grécia dois modelos de educação, um baseado na resignação e


intervenção/atuação intensa do estado (Esparta), e um outro que valorizava uma
educação intelectual (Atenas). As crianças espartanas aos sete (7) anos de idade
iam para escolas-ginásios para receber uma educação que visava a formação militar
dos jovens, para eles, o intelecto não tinha grande importância. Em contrapartida,
a educação ateniense prezava a formação intelectual da criança que se iniciava
aos sete (7) anos. Uma curiosidade da educação em Atenas eram os chamados
pedagogos que acompanhavam os rapazes e as crianças em seus diversos locais,
os aprendizes sentavam-se aos seus pés para ouvir seus ensinamentos.

A educação do medievo estava estreitamente ligada à Igreja, também o modelo de


instituição escolar que conhecemos hoje é produto desse período: a conformação com
um professor em uma sala de aula ensinando a várias pessoas, e que em geral dava
contas do seu trabalho à Igreja, ou a algum poder local. “Vem de lá também, alguns
conteúdos culturais da escola moderna e até mesmo da contemporânea: o papel do latim;
o ensino gramatical e retórico da língua; a imagem da filosofia como lógica e metafísica”.
(CONCEIÇÃO, 2013, p.7). A igreja criou os padrões educacionais no período, bem como
as primeiras instituições educacionais ad hoc5 e organizou os conhecimentos necessários
para a formação dos alunos. As primeiras Universidades europeias surgiram na Idade
Média.
_______________________________________
4
É a classificação das pessoas em grupos com base em condições socioeconômicas comuns.
12
5
Expressão latina que significa “para isto”, “para um fim específico”.
Durante o Renascimento houve um recrudescimento do interesse pela cultura
Greco-romana, em especial pela arte, e um abrandamento do sectarismo religioso
sobre a sociedade. Era uma educação humanista ministrada por homens versados
na compreensão de textos e capazes de exprimir-se de forma culta sobre vários
assuntos. Eram letrados profissionais oriundos da burguesia e do clero, e tiveram
grande prestígio na sociedade.

A partir do século XVII tanto a família quanto a escola ganharam destaque na


formação dos jovens. Os pais não mais se dão por satisfeitos em apenas trazer as
crianças ao mundo, nesse novo modelo social a família se preocupa em dar a todos
os filhos (inclusive as meninas), uma preparação para a vida, e para que isso se
tornasse uma realidade, a tarefa foi conferida à escola.

Essa escola é uma nova escola moderna, ela não apenas instrui e forma o aluno,
não é mais uma transmissora de conhecimentos, aliada às famílias, ela ensina
comportamentos. Todo o trabalho agora estava articulado com base na didática,
na racionalização do aprendizado, uma escola renovada. Nessa nova conformação
escolar agora temos gradações, não se ensina a mesma coisa a todos, não há
mais uma mistura confusa em profunda desordem de seres de idades diferentes
no mesmo ambiente, a gradação aboliu a heterogeneidade na escola que gerava
uma insciência educativa que, em grande parte, se dava pela negligência dos mais
velhos atuando sobre os mais novos e pela ausência de disciplina6.

Com o surgimento dos primeiros colégios, ainda no século XVI, havia uma
reformulação curricular nas escolas, uma racionalização e um controle acerca do
que era ensinado aos jovens, para tanto, foram elaborados métodos de ensino-
aprendizagem. Desses, o mais celebre foi o Ratio Studiorum7 dos Jesuítas, uma
_______________________________________

6
É dessa época a descoberta da disciplina no seio escolar. Uma disciplina constante e orgânica,
diferente da violência e autoridade não respeitada. Era buscada por sua eficácia, como necessária
ao trabalho em comum e por seu valor próprio de edificação. A classificação das pessoas em grupos
com base em condições socioeconômicas comuns.
7
Surgiu com a necessidade de unificar o procedimento pedagógico dos Jesuítas diante do grande
número de colégios confiados à Companhia de Jesus, como base de uma expansão em sua
totalidade missionária. Constituiu-se numa sistematização da pedagogia jesuítica contendo 467
regras cobrindo todas as atividades dos agentes ligados ao ensino, e recomendava que o professor
nunca se afastasse do estilo filosófico de Aristóteles e da teologia de Santo Tomás de Aquino.
13
coletânea de experiências vividas, às quais foram acrescentadas observações
pedagógicas, era, portanto, um programa detalhado de estudos e comportamento,
além da graduação do ensino-aprendizagem. (CONCEIÇÃO, 2013).

O século XVIII pode ser considerado como a Era Pedagógica por excelência, neste
período governantes e pensadores voltaram suas preocupações para as questões
educacionais (LUZURIAGA,1983, p.149), este é o século do Iluminismo e de
grandes educadores como o filósofo Jean–Jacques Rousseau (1712-1778), cuja a
obra Emílio ou Da Educação (1762), influenciou outros educadores, revolucionou a
pedagogia, e serviu de inspiração para teorias surgidas nos dois séculos seguintes.
Influenciado pela obra de Rousseau outro grande educador construiu as bases do
seu método, Johann Heinrich Pestalozzi, cuja a proposta visava um método de
ensino prático e flexível que serviu de alicerce para a educação moderna.

A grande aspiração dos iluministas no que concerne à Educação era o


reconhecimento máximo da razão. Luzuriaga (1983, p.150-151) resumiu os ideais
iluministas da seguinte forma:

a) Desenvolvimento da educação estatal da educação do Estado, com maior


participação das autoridades oficiais no ensino;
b) Começo da educação nacional, da educação do povo pelo povo, ou por
representantes políticos;
c) Princípio da educação universal, gratuita e obrigatória, no grau da escola
primária, no que fica estabelecida em linhas gerais;
d) Iniciação do laicismo no ensino, com a substituição do ensino religioso pela
instrução moral e cívica;
e) Organização pública em unidade orgânica, da escola primária à universidade;
f) Aceitação do espírito cosmopolita, universalista, que une pensadores e
educadores de todos os países;
g) Primazia da razão, crença no poder racional na vida dos indivíduos e dos
povos;
14
h) Reconhecimento da natureza e intuição na educação.

Como podemos ver, a escola como a conhecemos, surge no século XVIII tudo o
que aconteceu nos séculos seguintes foram tentativas de aprimoramento desse
modelo. O século XIX, foi um século agitado a nível de discussões e propostas para
a educação e para a sociedade como um todo. Podemos citar duas correntes com
visões opostas diametralmente antagônicas: o Positivismo e o Socialismo.

O Positivismo buscava reafirmar o padrão burguês da educação, em contrapartida,


o movimento popular e socialista (socialismo), buscava uma ampliação do modo
educacional para todas as camadas da população. Sobre o Positivismo e o
Socialismo:

O primeiro tem em Augusto Comte (1798-1857), o seu expoente


máximo, que viria influenciar o reformador educacional brasileiro,
Caetano de Campos no final do século XIX. O segundo tem
como expoente Karl Marx (1818-1883), ambos representam
correntes de pensamento que ao lado do ideário católico e do
liberalismo, influenciarão o pensamento pedagógico brasileiro
do século XX. (PALMA FILHO, 2010, p.6).

Em 1932, um grupo de 26 educadores brasileiros elaboraram e subscreveram,


em um documento sobre a educação, o chamado Manifesto dos Pioneiros
da Educação Nova8, nele vamos encontrar influentes educadores que foram
fortemente influenciados por essas duas correntes de pensamento. Um dos
principais educadores brasileiros na época, que foi redator e o primeiro signatário
no manifesto, foi Fernando de Azevedo que era fortemente influenciado por E.
Durkheim (1858-1917) e os ideais positivistas.

Algumas ideias socialistas também foram incorporadas ao texto do manifesto. O


movimento pedagógico da escola nova foi uma grande tentativa de renovação
_______________________________________
8
Para saber mais sobre o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova acesse: <http://www.histedbr.
fe.unicamp.br/revista/edicoes/22e/doc1_22e.pdf>.

15
da educação no século XX, o filósofo norte americano John Dewey (1859-1952)
exerceu enorme influência no movimento escolanovista brasileiro na pessoa do
educador Anísio Teixeira.

Outro educador brasileiro cujo pensamento hoje é reconhecido mundialmente


foi Paulo Freire, que embora discordasse do conservadorismo político, teve forte
influência no movimento Escola Nova no Brasil.

O filósofo francês Edgar Morin assinala que:

[...] os educadores precisam refletir sobre a natureza do


conhecimento a ser trabalhado na escola, enfatizando o ensino
sobre: a condição humana, a identidade terrena, as incertezas
que cada vez mais assolaram a espécie humana, com vistas
a desenvolver uma educação voltada para a compreensão em
todos os níveis educativos em todas as idades, que pede a
reforma das mentalidades e a consideração do caráter ternário
da condição humana, que é ser ao mesmo tempo indivíduo/
sociedade/espécie. (MORIN, 2001, p.3).

Neste começo de Século XXI, a UNESCO publicou o conhecido Relatório Delors9,


explicitando que devido à globalização a preocupação agora seria por uma educação
planetária, essa preocupação do relatório está expressa nos Quatro Pilares da
Educação (UNESCO,1998,p.89-102):
a) Aprender a conhecer;
b) Aprender a fazer;
c) Aprender a viver juntos;
d) Aprender a ser.
_______________________________________

9
O Relatório Delors é a forma popular como muitas pessoas chamam o livro “Educação um Tesouro
a Descobrir: Relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI”, fruto de uma
pesquisa sob a coordenação de Jacques Delors, encomendada pela UNESCO e que aborda de forma
bastante didática e com muita propriedade os quatro pilares de uma educação para o século XXI. Para
saber mais sobre o assunto acesse: <http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.
pdf>.

16
1.3 Democracia

Tem sua gênese em duas palavras gregas demos (povo) e kratos (poder), traduzindo
é o regime em que o poder emana do povo. Art. 1º - Todo poder emana do povo,
que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos
desta constituição (Constituição Federal, 1988). Em países democráticos o povo
elege pessoas (parlamentares municipais, estaduais e federais), para que elas as
representem e falem em seu nome, na forma de elaboração de leis que visem a
melhoria de vida da população em todos os níveis.

A democracia é um sistema versátil e diversificado podendo existir tanto no sistema


republicano como no monárquico (pode-se votar no Primeiro Ministro). No Brasil
a democracia foi muito vilipendiada desde a proclamação da república. Apenas
em 1945 e 1985 houve fortes ações de redemocratização no país. A maior dessas
afrontas à nossa democracia foi, sem dúvida, a Ditadura Militar que se instaurou no
país após o Golpe de 64.

Hoje, existem várias maneiras de se ver e pensar a democracia. Partidos políticos


com tendências marxistas e que baseiam seus princípios em igualdade e justiça
social, solidariedade e liberdade são conhecidos como Social Democratas. Mas,
também, temas como igualdade racial, às vezes, usam a palavra democracia
para expressar seus princípios. A chamada Democracia Racial está diretamente
relacionada com a questão do racismo e da discriminação. Nessa esteira vamos
encontrar outras vezes a palavra democracia associada a um uma ideologia
específica, ou a uma proposta de ação.

1.4 Currículo

Quando nos referimos ao Currículo, mais que um conjunto de dados que denotam
algum tipo de relação a um tema específico, ou que enuncia e procura efetivar
intenções, neste caso, em relação às disciplinas escolares, vamos encontrar um
vasto número de interpretações. O que podemos afirmar com certeza em relação
ao Currículo é que: não existe uma determinação ímpar e infalível que possa
17
abranger tudo o que envolve o universo educacional. Levando-se em conta a
relação intrínseca entre currículo e cultura, uma discussão que ganhou destaque
no meio educacional nos últimos tempos, muitos defendem currículos centrados na
cultura, nos saberes e práticas do povo. Sobre isto, Jesus afirma:

Tanto a teoria educacional quanto a teoria crítica veem no


currículo uma forma institucionalizada de transmitir a cultura
de uma sociedade. Sem esquecer que, neste caso, há um
envolvimento político, pois, o currículo, como a Educação, está
ligada à política cultural. Todavia, são campos de produção
ativa de cultura e, por isso mesmo, passíveis de contestação.
(JESUS,2010, p.2).

Cabe destacar a importância do Currículo, um elemento central no projeto


pedagógico. Contribuindo com esta análise, Sacristán (1999, p.6 apud JESUS,
2010, p.3) afirma:

O Currículo é a ligação entre a cultura e Sociedade exterior à


escola e à educação; entre o conhecimento e cultura herdados
e a aprendizagem dos alunos; entre a teoria (ideias, suposições
e aspirações) e a prática possível, dadas determinadas
condições.

Um maior aprofundamento acerca do currículo e todas as dimensões em que o


mesmo está inserido, iremos discutir mais adiante.

18
Resumo

Nesta Unidade, estudamos as múltiplas faces da Sociedade, um elemento


vital em todo o trabalho, dado que a Educação, outro tópico que vimos aqui,
se desenvolve no seio social e é ela quem nos conduz na vida em Sociedade.

Estudamos a atuação da Educação desde o período Neolítico até os dias


atuais, como elemento essencial para o que somos enquanto espécie. Outro
elemento estudado na Unidade 1 foi a Democracia, embora existam várias
maneiras de se pensar, encarar e exercer a Democracia no meio social, no
que se refere à Educação alguns pensadores defendem que ela conduza a
uma escola democrática e libertária, onde os alunos e não os professores
sejam os sujeitos do processo de ensino-aprendizagem.

Vimos também o Currículo, sendo este, um conjunto de dados onde estão


presentes os temas relativos ao que será e como será) ensinado nas disciplinas
escolares, o currículo mantém estreita relação com os outros tópicos tratados
na Unidade, por isso muitos pensadores da educação pregam que se tenha
um currículo mais participativo, onde seria o ponto de partida para termos
uma escola democrática e plural.

19
Referências

ALBUQUERQUE, Leila M. B. de. Comunidade e Sociedade: Conceito e Utopia.


Campina Grande: Raízes, Ano XVIII, Nº 20, p. 50-53, 2001. Disponível em:< http://
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20
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Educação da Representação da UNESCO no Brasil, Editora Cortez,1998.

21
Objetivos
• Identificar práticas pedagógicas e curriculares dentro
do ambiente escolar e suas conexões com o universo
político-social;
• Compreender as influências internas e externas de
eminentes pensadores acerca da Educação;
• Analisar o papel da escola em uma sociedade desigual.
2
UNIDADE
Uma verdade inexorável quando falamos a respeito da Educação
e da Sociedade é que são indissociáveis, já que ambas se
completam. Desde os primórdios da história humana sempre
houve a necessidade de aperfeiçoamento das capacidades

Educação e Sociedade
mentais do homem através do desenvolvimento do intelecto,
para que o mesmo pudesse servir à sociedade em todos os
níveis. Essa necessidade ancorada pelo sistema econômico
denota, claramente, que havia um processo educacional em
curso.

O sistema econômico e social foi profundamente alterado com


a Revolução Industrial, essa transição para novos processos
de manufatura (produção por máquinas), se tornou muito mais

Curso: Licenciatura em Música


forte em detrimento dos métodos de produção artesanal. Essa
mudança de paradigma nos meios de produção acarretou,
também, profundas mudanças no modelo educacional da
época, fazia-se premente a necessidade de uma mão de obra
qualificada que resultaria num aumento na produção e numa
melhor qualidade nos produtos fabricados.

Em decorrência dessa urgência por um aumento no número


de trabalhadores com melhor qualificação, expandiu-se a
educação para as camadas mais pobres da população. Mas 22
essa educação era extremamente paradoxal, pois esse aumento no acesso à
escola não representava que essa educação fosse uma educação de qualidade,
que buscasse uma elevação no nível cultural e intelectual dos indivíduos menos
favorecidos da sociedade, era uma educação orientada para a formação e a
capacitação das pessoas para exercerem um ofício, já que essa era uma exigência
dos processos de produção e do capitalismo industrial emergentes. Assim esse
processo educacional:

[...] não se refere à educação compreendida como um fim


em si mesma, educação-processo, que nos permite tomar
consciência de nós mesmos, de nossa trajetória histórica
enquanto indivíduos, nação ou mundo; das contradições e
desigualdades presentes na sociedade em que vivemos;
de nossas especificidades culturais (sobretudo através do
conhecimento do outro); das profundas desigualdades sociais
existentes, concentração da terra e da renda, altas taxas de
analfabetismo ao lado de violência e não–direito à saúde,
ausência de valores éticos que sustentam a solidariedade.
(SEGNINI, 2000, p.72).

Em face de toda essa complexidade que envolveu e ainda envolve a escola e a


sua imbricação com a sociedade, vários pensadores ao longo do tempo vêm se
debruçando sobre o tema. A Revolução Industrial mudou radicalmente a face das
cidades, estas sofreram aumentos de população em larga escala, e com essa
explosão populacional os problemas aumentaram proporcionalmente. Os ambientes
de trabalho eram deletérios10, os salários ficavam muito aquém do necessário para
a subsistência, o que obrigava mulheres e crianças a trabalharem nas fábricas para
ajudar a complementar a renda das famílias. Fica evidente que isso afastava as
crianças de uma educação de qualidade, tanto nas instituições próprias para esse
fim, como no ambiente familiar.

_______________________________________

10
Nocivos à saúde, venenosos.
23
Com a jornada de trabalho de 80 horas semanais para homens, mulheres e crianças,
pensar em uma educação adequada para os jovens era impensável. Essa nova
configuração social define claramente a separação entre patrões e trabalhadores,
ricos e pobres, principalmente no nível educacional, já que os filhos dos ricos
frequentam boas escolas, enquanto as crianças pobres precisam abdicar do direito
de frequentar um sistema educacional de qualidade para ajudar no sustento da
família.

Com os avanços tecnológicos que foram ocorrendo, a jornada de trabalho foi


reduzida consideravelmente, devido à produção em larga escala, e dividida em
etapas, das 80 horas semanais para cerca de 50 horas (10 horas diárias em 5 dias
de trabalho por semana). Cabe ressaltar que, também, houve melhoria nos salários.
Segundo a teoria marxista, o salário corresponde ao custo de reprodução da força
de trabalho, significando que seria o mínimo necessário para a sobrevivência do
trabalhador.

Isso representou uma grande melhoria na educação das crianças, com o aumento
dos salários muitos jovens puderam frequentar a escola. Mas essa educação
estava longe de ser uma educação adequada, haja vista que o pouco tempo que
as crianças permaneciam na escola, na maioria das vezes não completando todo
o ciclo de estudos que as levaria da escola básica até a universidade, continuava
a ser o mínimo necessário. Só que em fins do século XIX passamos a ter uma
base sociopolítica surgida da profunda transformação das estruturas sociais que
possibilitou que os adolescentes (jovens entre 12 e 18 anos) fossem retirados do
mercado. Mas, insistimos em afirmar que era uma escola excludente, frequentada
por uma minoria de crianças, as meninas, por exemplo, raramente conseguiam
uma instrução além do ensino primário.

A escola do século XIX era uma escola conformista e que reproduzia as desigualdades
sociais. Os jovens pobres, mesmo que pudessem ser inteligentes, não tinham
condição de competir com os garotos ricos que estavam em boas instituições de
ensino. Como em outros setores sociais a profunda desigualdade estava presente
também no universo educacional.
24
A partir da metade do século XIX, questões como desigualdade, emancipação e
antagonismos de classe, passaram a ser amplamente discutidas pelas Ciências
Sociais. A sociedade encontrava-se profundamente dividida em duas classes em
confronto: Burguesia e Proletariado11. Todos os pensadores da segunda metade
do século XIX e do século XX, imbuídos na tentativa de pensar uma escola justa,
igualitária, democrática e plural, vão se debruçar nesse embate para desenvolver
suas teorias. Mais adiante vamos abordar um pouco sobre essas teorias e seus
autores.

2.1 A Contribuição da Teoria Crítica e da Escola de Frankfurt na esfera educacional

Neste momento abordaremos, a influência que os teóricos da Teoria Crítica, em


especial Adorno, Horkheimer, Marcuse, Habermas, Benjamin e outros, exerceram
grande influência no trabalho dos pensadores da educação no mundo e no Brasil,
enfatizando a importância desse movimento para o surgimento de novas teorias
educacionais, com uma citação especial sobre o trabalho do grande educador
brasileiro Paulo Freire. Nesse percurso de trabalho abordaremos os conceitos de
Formação Cultural, Semicultura e Indústria Cultural, sua importância no universo
educacional e como o ensino das artes se insere nesse contexto.

Paulo Freire (1998 apud MORAES & TERUYA, 2007) não considerava a escola
um espaço neutro, e que insistir nessa falácia é apenas uma tentativa de deter
uma reação dos injustiçados, uma atitude de rebeldia, isso vai de encontro à ideia
adorniana de emancipação. Por isso, embora o assunto já tenha sido exaustivamente
debatido por inúmeros pesquisadores, ainda cabem novas discussões acerca
dessas ideias, em face da nova configuração que a sociedade assume a cada dia:
um mundo fractalizado e complexo, onde o próprio capitalismo se reconfigura a
nível epigênico12 e, também, no nível global, ele não se exaure.
_______________________________________

11
Por Burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, donos dos meios de produção,
que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos assalariados modernos, que
vendem sua força de trabalho para viver.
12
Geração por criações sucessivas.
25
A Teoria Crítica se refere a uma corrente de pensamento surgida na primeira
metade do século XX na Alemanha, formulada por teóricos ligados ao Instituto para
Pesquisa Social, conhecida como Escola de Frankfurt13. Criada por um grupo de
intelectuais marxistas, mas que não seguiam à risca as regras ou diretrizes dos
demais defensores e/ou seguidores dessa teoria, embora tendo essa manifesta
postura heterodoxa eles estavam profundamente comprometidos com uma defesa
desse marxismo, numa época de apropriações e revisionismos do mesmo. Desde
a sua criação, o instituto se mostrou comprometido com a defesa do marxismo no
campo acadêmico, através do ponto de vista da pesquisa social engajada em vários
níveis: movimento operário, movimentos de vanguarda e as relações do homem
com a sociedade (a educação como exemplo), eram prioritários naquele momento.

A Teoria Crítica se contrapôs à Teoria Tradicional na sua forma de descrever a


sociedade e suas relações. A Teoria Tradicional tinha a pretensão de ser imparcial,
mas, positivista, ela acaba fornecendo uma análise que reproduzia uma imagem
fetichista do mundo. Já a Teoria Crítica, pelos teóricos da escola de Frankfurt, era
contextualizada, não assumia uma posição de neutralidade e estava empenhada
na transformação da sociedade.

Para eles a crítica é fundamental e tem um sentido singular:

[...] a ideia de crítica foi assumida por eles não simplesmente


como mero aspecto da teoria, mas também como verdadeira
declaração de princípios. É por meio dela e do que se pode
distinguir, escolher, julgar e apreciar por um processo de
decisão e tomada de posição que eles nos ensinaram a colocar
em suspenso, sub judice, qualquer julgamento sobre o mundo,
incluindo aí o próprio pensamento que se elabora para dar
conta dele. (SOARES,2002, apud VILELA,2006, p.13).

_______________________________________

13
Surgido como um anexo da Universidade de Frankfurt, o Instituto para Pesquisa Social (Institut
für Sozialforschung), foi o primeiro centro de pesquisa de tendência marxista afiliado a uma grande
universidade alemã. O termo “Escola de Frankfurt” surgiu de maneira informal para descrever seus
membros, fossem eles agregados ou só associados, mesmo que poucos teóricos tenham usado
esses termos.
26
Adorno, que ficou conhecido por ter escrito em parceria com Horkheimer o livro
“Dialética do Esclarecimento”, no qual pela primeira vez apresentaram o seu famoso
conceito de “Indústria Cultural”, desde o final da década de 1950 realizou uma série
de conferências e debates sobre os mais diversos assuntos, que vão desde debates
com estudantes de postura mais radical à análises sobre o chamado Cinema Novo
Alemão14. Entre 1959 a 1969, Adorno produziu vasto material acerca da educação,
grande parte dessa produção foi oriunda dos debates e conferências. Em alguns
dos debates ele discute suas ideias com o Dr. Helmut Becker15, que compartilhava
das mesmas teorias educacionais que ele. Esse ciclo de conferências e debates deu
origem a uma compilação de textos acerca do poder emancipatório da educação,
como uma possibilidade de não sucumbir à dominação.

Adorno discute como a configuração da sociedade e a organização do sistema


educacional permitiu que a barbárie ganhasse força e se perpetuasse. O papel
da educação nesse processo é bastante ousado ao ir de encontro ao modelo de
organização da cultura presente na sociedade, e com ampla aceitação. Aceitação
esta provocada pela completa incapacidade dos indivíduos resistirem a ela. Cabe
ressaltar que o que reforça essa insciência para resistir diz respeito ao prazer
momentâneo que é produzido. A educação deve evitar que tal cultura se afirme,
Adono defendia que é preciso evitar a competição no âmbito escolar, pois incentivar
essa competitividade “é um princípio no fundo contraditório a uma educação
humana”. (ADORNO,1995, p.161). Ainda segundo Adorno, era preciso

[...] desacostumar as pessoas de se darem cotoveladas.


Cotoveladas constituem sem dúvida uma expressão de barbárie
[...] o objetivo de se tornar brilhante, o que de fato não é uma
boa máxima, e que no fundo é hostil ao espírito – encontra-
se na ideia de fair play, momentos de uma boa consideração
segundo a qual a motivação desregrada da competitividade

_______________________________________

14
Produção cinematográfica alemã das décadas de 1960 e 1970 influenciada pela Nouvelle Vague
francesa e pelos movimentos de protesto de 1968.
15
Diretor do Instituto de Pesquisas Educacionais da Sociedade Max Planck em Berlim.
27
encerra algo de desumano, e nesta medida há muito sentido
em se aproveitar do ideal formativo inglês o ceticismo frente ao
saudável desejo do sucesso. (ADORNO, 1995, p.161).

Para Adorno, a reflexão deve ser trabalhada exaustivamente na formação escolar,


mas faz uma advertência:

[...] a reflexão pode servir tanto à dominação cega como o seu


oposto. As reflexões precisam, portanto, ser transparentes em
sua finalidade humana [...] de resto, acredito também, que um
ensino que se realiza em formas humanas de maneira alguma
ultima o fortalecimento do instinto de competição. Que muito é
possível educar desta maneira esportistas, mas não pessoas
desbarbarizadas. (ADORNO, 1995, p.161).

Um ponto central do pensamento adorniano se refere à função da educação no


ato de desbarbarizar os indivíduos, pois só através dela pode-se produzir algo de
decisivo no combate à barbárie. Para ele, entender a barbárie era algo muito simples,
pois “apesar da civilização estar no ápice do seu desenvolvimento tecnológico,
as pessoas em contrapartida estão atrasadas em relação a sua civilização”
(ADORNO,1995, p.154), ele atribuía esse atraso não apenas à formação dos
indivíduos, mas por estarem tomadas por uma agressividade primitiva, ou seja, um
impulso de destruição, e que para impedir que esta civilização entre em colapso é
necessário reordenar toda a estrutura educacional para este fim:

O desenvolvimento da sociedade a partir da Ilustração, em que cabe importante


papel a educação e formação cultural, conduziu inexoravelmente a barbárie. Ou,
para dizer o mesmo pelo reverso: o próprio processo que impõe a barbárie aos
homens ao mesmo tempo constitui a base de sua sobrevivência. (ADORNO,1995,
p.10-11).

Esse é o “nó górdio” que precisa ser desfeito. Para Adorno e Horkheimer a função
da teoria crítica era analisar o contexto em que tudo isso ocorre, expondo a matriz
28
desse movimento – em nada fortuito- e achando maneiras de interferir no processo.
O conceito de barbárie é bem amplo, e permeia todos os aspectos da civilização.
Uma formação cultural forte, que conduza à reflexão, e dessa forma desenvolva a
sensibilidade para que o indivíduo não veja o outro por uma relação de dominação,
violenta em todos os aspectos, mas como iguais que não podem ser tratados como
objetos, é um bom caminho para que ela (a barbárie) perca sua força. Aprofundando
mais suas reflexões sobre o papel da educação, Adorno chega à conclusão que a
função da educação é levar os indivíduos a se inserirem na nova organização e
estrutura social que está sendo construída, e essas grandes mudanças na estrutura
da sociedade, que se inserem em todas as instâncias sociais, ocorreram também
no campo educacional. Procurando inferir não apenas para quê? A educação é
necessária, mas para onde? Ela deve conduzir os indivíduos.

Em um dos debates entre Adorno e o Dr. Helmut Becker, eles já demonstravam


naquela época a preocupação com a ênfase no quantitativo em detrimento do
qualitativo:

[...] o termo planejamento educacional tem um uso sobretudo


quantitativo. Tenho a impressão que, mesmo levando
justificadamente em conta a situação de carência existente
neste âmbito, corremos o risco de discorrer repetidamente
acerca de números e necessidades materiais, esquecendo que
o planejamento educacional é também um planejamento de
conteúdo. Na verdade, não existe um planejamento quantitativo
sem aspectos de conteúdo. Toda ampliação de nossa estrutura
escolar implica imediatamente consequências qualitativas.
(ADORNO,1995, p.139).

A preocupação com o quantitativo é a inviabilização da razão emancipatória, que


era um dos pontos principais da Teoria Crítica. As contribuições da Teoria Crítica no
âmbito educacional dizem respeito primeiramente à oposição que esta fez à razão
instrumental, por achar que esta instrumentalidade da razão se dá quando um dos
acessos ao verdadeiro conhecimento deixa de ser ciência e esta, aos poucos, vai
29
se tornando um instrumento de poder, exploração e dominação, e que além da
Mass Media ela se utiliza, também, da escola nesse processo. Essa teoria condena
veementemente o irracionalismo da sociedade capitalista, ela aponta que é a razão
instrumental e a Indústria Cultural o que a torna viável. Para que se combata esse
irracionalismo e se possa situar a educação nesse ponto de vista, e que conduza à
emancipação, é preciso entender a educação:

[...] não a assim chamada modelagem de pessoas, porque não


temos o direito de modelar pessoas a partir do seu exterior, mas
também não a mera transmissão de conhecimentos [...], mas a
produção de uma consciência verdadeira. Isto seria inclusive
da maior importância política. Isto é: uma democracia com
o dever de não apenas funcionar, mas operar conforme seu
conceito demanda pessoas emancipadas. Uma democracia
efetiva só pode ser imaginada enquanto uma sociedade de
quem é emancipado. (ADORNO, 1995, p.141-142).

A força que a Teoria Crítica exerceu, e ainda exerce, sobre a filosofia da educação
é enorme, se consumando no processo de escolarização. Mesmo em sentidos
educacionais estritos, essa influência se destaca com clareza na obra de pensadores
da educação como Paulo Freire, Henry Giroux, Kathleen Weiler, entre outros.

Os mais importantes filósofos da educação foram, num primeiro momento,


influenciados pela obra de Herbert Marcuse e das primeiras formulações teóricas
de Theodor Adorno e Max Horkheimer. A Teoria Crítica teve vários estágios, numa
sequência de idas e vindas. Quando diante da crítica, que a esquerda acadêmica
lhe dirigia, ela assumiu uma postura mais apologética e acabou enveredando
por uma série de alternativas, talvez as menos aceitáveis, mas que permitiram o
desenvolvimento de teorias educacionais originais, influentes e progressistas, “mas
que não contribuíram para que fosse estabelecida uma Contra-Educação reflexiva”.
(GUR-ZE`EV,2006, p.12).

30
Essa Contra-Educação reflexiva, embora pouco discutida e comentada nos círculos
acadêmicos, é uma contestação da situação da educação atual, cuja proposta seria
formular teorias inovadoras que confrontassem as atuais teorias que se mostraram
inoperantes e obsoletas. Da mesma forma, na concepção de Adorno e Horkheimer,
a teoria crítica tinha como propósito específico buscar uma nova realidade, mais
racional e humana. A Contra-Educação reflexiva se propunha a repensar a educação
da mesma forma, julgando todos os aspectos da mesma, buscando uma práxis cujo
foco central é o indivíduo, em oposição à ideia capitalista de educação que, no
universo da sociedade de classes, continuou transmitindo valores e conhecimentos
ao indivíduo de acordo com os interesses da classe dominante.

Sendo evidente que nesse contexto havia uma enorme discrepância entre o que se
ensinava para os filhos da classe dominante, e para os da classe trabalhadora. A
educação se encarregava de manter o estamento social intacto:

[...] ao invés da liberação do sujeito à filosofia, à arte de modo


geral, à política, etc., o que se tem é um aumento sem limites
da repressão e da dominação, ou seja, todas as aptidões
intelectuais e materiais servem, na verdade, para garantir
que os tentáculos da sociedade industrial alcancem lugares
e sujeitos em todos os cantos do planeta. (MARCUSE, 1967,
apud: LOBO & SANTOS, 2010, p.6).

Para todos os pensadores educacionais, o surgimento da educação escolar se


deveu à necessidade de consolidação da sociedade capitalista e das reivindicações
dos movimentos sociais. Essa mudança de paradigma não se resume apenas em
incorporar tecnologias no universo escolar, mas principalmente proporcionar ações
críticas e reflexivas. Em face disso as teorias e o pensamento de Paulo Freire não se
restringiram apenas à escola pública ou aos programas de alfabetização de adultos.
A prática educacional de Paulo Freire já recomendava, também, que a educação,
uma educação caracterizada por uma práxis pedagógica, reflexiva e transformadora,
auxiliasse no processo de transformação da sociedade, já que, para ele, “ser professor
implicava um compromisso constante com as práticas sociais”. (FREIRE,1993,
31
apud MORAES & TERUYA,2007, p.2). Ele destacava que a identidade cultural
era extremamente importante na prática pedagógica, tanto no aprender como na
prática educativo-crítica, para que o indivíduo pudesse “assumir-se como ser social
e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de
sonhos, capaz de ter raiva porque é capaz de amar”. (FREIRE, 1996, p.46).

O educador Paulo Freire teve uma forte aproximação com a Arte/Educação,


proximidade esta que vem desde os anos 1950 do século XX, quando ele foi
presidente da Escolinha de Arte do Recife, sem deixar de lado a parceria da esposa
Elza, que foi “pioneira da Arte/Educação no ensino público por meio da alfabetização
infantil”. (SPIGOLON,2010, p.4). Essa ligação se deu a partir do conjunto de obras
elaboradas pelo artista plástico e escultor pernambucano Francisco de Paula
Brennand, feitas a pedido do educador que deu origem a uma pesquisa que
envolveu Paulo Freire e duas outras pesquisadoras que fizeram a mediação entre
Arte/Educação: Noêmia Varela16 e Ana Mae Barbosa17. O educador pernambucano,
inclusive, é sempre citado em palestras e entrevistas da Dra. Ana Mae.

É na verdade Ana Mae Barbosa que nos alerta acerca da importância do


pensamento de Freire (e também de Noêmia Varela), e a contribuição dada por
ambos intelectuais para a Arte/Educação. Segundo Freire, “fazer história é estar
presente nela e não simplesmente nela estar representado”. (FREIRE, 2005, apud
AZEVEDO, 2010, p.3). Essa afirmação de Paulo Freire é a constatação de que
compreender a história é um instrumento importante na autoidentificação pessoal
e profissional. Nota-se, sem medo de incorrer num erro, que Barbosa se mostra
filiada ao pensamento freiriano e em termos de Arte/Educação, e na teoria de
John Dewey. A arte-educadora Noêmia Varela (umas das influências de Ana Mae
Barbosa também), de certa forma se diz influenciada pelo pensamento do educador
pernambucano, tanto na sua teoria, como na sua prática.

_______________________________________

16
Criadora da Escolinha de Arte do Recife e posteriormente diretora técnica da Escolinha de Arte
do Brasil.
17
Professora da pós-graduação da USP. É a principal referência no Brasil para o ensino da arte nas
escolas, tendo sido a primeira brasileira com doutorado em Arte-Educação (Boston University).
32
Como vemos, a obra de Paulo Freire, que de certa maneira foi influenciada pelos
pensadores da Teoria Crítica, foi bastante abrangente, ele entendia a educação
como prática libertadora, e foi partindo dessa concepção que sua relação com
Noêmia Varela e Ana Mae Barbosa fez surgir no Brasil a ideia de Arte/Educação,
crítica fortemente focada no pensamento e na prática destes três educadores.
Para Adorno, o fenômeno da Semiformação (Halbbildung) se estabelece entre
aqueles indivíduos que se colocam como questionadores da sua sociedade. No
livro “Dialética do Esclarecimento” (ADORNO & HORKHEIMER, 2006), vemos pela
primeira vez a citação acerca do termo semiformação, ou semicultura em seu sentido
formativo no capítulo “Elementos do antissemitismo: limites do esclarecimento”.
Para Adorno esse fenômeno é oriundo de mudanças nas relações:

[...] é uma espontaneidade mal orientada, bem influenciada


pela menoridade kantiana, porque as pessoas pressentem
surdamente quão difícil seria para eles mudar o que pesa
sobre seus ombros. Preferem deixar-se desviar para atividades
aparentes, ilusórias, para satisfações compensatórias
institucionalizadas. (ADORNO,1995, p.78).

Quando o conceito de semiformação se relaciona com práticas pedagógicas no


Ensino das Artes, é possível o entendimento que a mesma existe na realização.
“Um louvor aos bens culturais que influenciado pela desacertada crença de que
as coisas que ele é capaz de fabricar e reproduzir podem se tornar superiores à
própria experiência (Erfahrung)”. (BENJAMIN, 2009, p.18).

Por ser uma ferramenta da Indústria Cultural, segundo Adorno, esse processo só
está presente na sociedade industrializada, caracterizada pelos produtos culturais
standard. Uma breve olhada nos currículos, principalmente da escola pública,
mostra uma enorme desigualdade cultural, onde a escola está voltada apenas para
atender às necessidades do capital. Com isso ela se torna uma ferramenta geradora
de pobreza para alguns e riqueza para outros. A escola é moldada para que cada
vez mais ajuste o indivíduo aos preceitos que regem a exploração do homem no
33
mercado de trabalho. Assim,
O projeto educacional voltado para a reprodução da ordem
vem se efetivando, de um modo geral, através da negação do
conhecimento que revela as determinações do real em suas
múltiplas dimensões, acoplada à manipulação ideológica das
consciências, com vistas à naturalização da exploração e de
seus desdobramentos no plano da desumanização crescente
do próprio homem. (RABELO, SEGUNDO, JIMENEZ, 2009,
p.4).

A semiformação não se realiza pelo conteúdo cultural, pelo conteúdo inerente à


verdadeira obra, e sim com conteúdo da semicultura, são conceitos imbricados
cuja definição de um é diretamente proporcional ao do outro. Todo esse processo
pode ser combatido com uma educação voltada para emancipação do indivíduo
(ADORNO,1995). A educação é um fenômeno da mais alta importância para que se
chegue a uma consciência emancipada dos indivíduos. Mas, como nos alertam os
pensadores da Teoria Crítica desde a década de 1930, essa educação intimamente
ligada à sociedade capitalista vem fazendo o contrário, em vez de emancipar, ela
foi e ainda é utilizada e oferecida à sociedade como um mecanismo de dominação
e submissão.

É contra essa barbárie que os teóricos da Escola de Frankfurt, em especial, como foi
abordado em todo o texto, Theodor Adorno e Max Horkheimer se mantém presentes
em vários momentos da arte e da educação contemporâneas. Na visão deles, só
a educação concebida como formadora da consciência esclarecida e emancipada,
pode combater a barbárie. O processo de mercantilização da cultura, gerando
semicultura, que transforma a obra de arte em “produto cultural”, são processos
da Indústria Cultural que reforçam a barbárie. “A cultura converteu-se totalmente
numa mercadoria, difundida como uma informação, sem penetrar nos indivíduos
dela informados”. (ADORNO & HORKEIMER, 2006, p.162).

E por fim, não podemos nos esquecer que num ambiente de democracia, educar
serve à emancipação, e para emancipar é preciso antes de tudo esclarecer. Kant
34
(1974, apud IOP, 2009, p.23) define esclarecimento como “a saída do estado
de menoridade, sendo este auto-inculpável quando sua causa não for a falta de
compreensão, mas a falta de decisão e de coragem de utilizar a compreensão, sem
ser guiado por alguém”.

Paulo Freire em uma entrevista concedida em 1991, quando a Pedagogia do


Oprimido completou 21 anos, ao ser perguntado se ela havia alcançado a maioridade,
ele respondeu que: “[...] pela idade, talvez, mas como tudo na vida ela continua
em processo”. (Acervo do Centro de Referência Paulo Freire, 2010, vd.03). Mas,
ao contrário das ideias sobre a qualidade da educação pública, o que vemos é
que a educação fornecida às classes minoritárias (que representa grande parte
da população) é uma educação ligada à racionalização técnica, “uma educação
fragmentada, racionalizada e reacionária, que aprisiona o espírito do indivíduo”.
(IOP, 2009, p.23).

Todo o universo educacional que temos atualmente, está impregnado de práticas


da Indústria Cultural, mercantilismo, dominação, aculturação, semiformação,
semicultura etc. Ela forma sujeitos que irão disseminar seus conceitos, influenciando
em nossos julgamentos e decisões, estabelecendo-se como prioridade em nossas
vidas. Mas, segundo Iop (2009), a educação vista como mecanismo que forma uma
consciência emancipada, irá livrar a sociedade da barbárie.

2.2 O papel da escola em uma sociedade dividida por classes

Era um final de fevereiro com temperaturas amenas típicas do período, é nesse


cenário que em 1848 surgiu o mais importante, controverso e debatido documento
político já escrito, estamos nos referindo ao manifesto comunista escrito pelos
filósofos e também cientistas sociais alemães Karl Marx e Friedrich Engels.
Passados 170 anos de sua publicação, alguns pontos contidos no manifesto ainda
são discutidos, um desses temas é a luta de classes discutida pela primeira vez
nesse documento. Para seus autores, de uma forma ou de outra, desde que teve
início o processo de sedentarização no período Neolítico e surgiram as primeiras
aldeias (junto com os primeiros modelos de sociedade), instalaram-se as lutas de
35
classe, que perduram até os nossos dias:
Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo,
mestre de corporação e companheiro, em resumo opressores
e oprimidos em constante oposição, tem vivido numa guerra
ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou
sempre ou por uma transformação revolucionária da sociedade
inteira ou pela destruição das duas classes em conflito. (MARX
& ENGELS, 2005, p. 40).

Segundo o manifesto comunista, a burguesia moderna se originou da decadência


da sociedade feudal e manteve no bojo os antagonismos de classe. Essa sociedade
burguesa, na verdade criou novas formas de opressão, e novas formas de luta,
sem contar o estabelecimento de novas classes. Dessa forma, não podemos
ver e compreender a luta de classes como preconizada pelos comunistas e os
movimentos operários de esquerda, dentro das novas formas de luta criadas
algumas são íntimas, personalíssimas e com características especiais, dependendo
da atividade. Nesse rol inclui-se a educação, ou seja, o ambiente escolar.

Se levarmos em conta as tantas definições de sociedade, a escola se inclui nelas,


e é, portanto, um dos palcos para as lutas de classe. Mas como esse embate se
efetiva muitas vezes passa despercebido em face de uma série de ações, eventos,
propostas, planificações, múltiplas mudanças na legislação, que encobrem o que
está acontecendo no universo educacional.

Em alguns momentos, para entendermos todo esse processo, vamos precisar fazer
algumas idas e vindas, recorrendo a antigas concepções para contextualizar o que
está acontecendo, mas como o assunto é muito amplo, temos que focar no que
está mais visível. Na sociedade atual, buscar superar velhas práticas talvez só seja
possível compilando o que de melhor cada posicionamento ideológico possua. Mas
vamos procurar evitar alguns termos muito usados nessa discussão porque não
nos interessa estar ao lado desse ou daquele teórico, mas antes de mais nada,
apreender o que de melhor eles tenham produzido. Essa nossa postura, aqui nesse
trabalho, se justifica, inclusive, pelo fato de que muitos desses termos estejam
_______________________________________
36
18
Palavra francesa que significa: fora de moda, antiquado, que não se usa mais.
completamente “démodé18”.
Falar em desigualdades no sistema educacional brasileiro, não é algo recente,
no período imperial não havia um sistema público de ensino, o que restringia a
educação apenas aos nobres e aos ricos que podiam pagar preceptores particulares
para os seus filhos (homens, cabe ressaltar), algumas famílias optavam por mandar
os filhos estudarem na Europa. A monarquia não se preocupava com a educação
da população, que nesse período era preponderantemente formada por escravos
e pessoas do campo. “A pouca escola da época atendia em torno de 10% da
população em idade escolar e ensinava apenas o básico: ler, escrever, e fazer
contas.” (ARANHA, 2008 p. 229). No final do século XIX o índice de analfabetos no
Brasil era de 67%.

Só em 1932, com o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, é que surgiram


as primeiras tentativas de uma escola não excludente, sem qualquer tipo de
discriminação, e o mais importante, que fosse obrigatória, pública e gratuita,
garantindo dessa forma o acesso a todos no sistema educacional. Em 1934 pela
primeira vez incluiu-se um capítulo voltado à educação. Mas em 1937, durante a
vigência do Estado Novo, Getúlio Vargas implanta a Pedagogia do Estado Novo,
voltada para a formação do cidadão-trabalhador. Era uma proposta que oferecia
aos mais pobres apenas o direito a sua instrução voltada para o trabalho, em
contrapartida a classe média e alta continuariam a ter uma educação propedêutica
que os conduziriam ao ensino superior.

O golpe militar de 1964 implantou inúmeras reformas (todas autoritárias) desastrosas


que levaram a termos uma educação de resultados muito ruins, devido a prepotência
dos militares, e seu extensivo combate às teorias educacionais consideradas
perigosas, “subversivas”, eles excluíram das tomadas de decisões sobre os rumos
da educação os principais interessados: diretores, professores e alunos. Algumas
políticas antigas foram retomadas, como a educação voltada exclusivamente para
o trabalho que fez surgir a escola profissionalizante, que nada mais era do que a
transformação de escolas de segundo grau em instituições voltadas para a formação
profissional. Essa política teve como efeito mais danoso, e que durou décadas, o
baixíssimo número de egressos da escola pública que conseguiam ingressar no
37
ensino superior.
Essa pedagogia da escola “voltada para o trabalho” causou enormes transtornos para
a educação pública do país, essa mudança abrupta obrigou a escola a uma rápida
adaptação dos seus currículos, seus espaços e, principalmente, dos professores. O
período entre 1969 e 1973, que ficou conhecido como milagre econômico brasileiro,
devido as elevadas taxas de nosso Produto Interno Bruto – PIB, foi a época em que
as empresas requisitaram cada vez mais, mão de obra para trabalhar nas fábricas,
isso também ocasionou um outro problema, pois a falta de infraestrutura adequada
das escolas e professores qualificados, consequentemente, começou a produzir
um grave problema que foi a colocação de profissionais com baixa qualificação no
mercado. Essa mão de obra desqualificada estava relacionada diretamente ao não
cumprimento, por parte de muitas instituições educacionais, do que se estabelecia
nos currículos adotados. Muitas escolas estavam aquém do que estava proposto,
mas a demanda exigia que se colocasse cada vez mais trabalhadores nas fábricas.

Em contrapartida, as instituições de ensino particulares não aderiram ao que havia


sido proposto para as escolas públicas, e continuaram voltadas para uma educação
que fornecesse o necessário para que o aluno entrasse na universidade. Durante
muito tempo, o percentual de alunos que chegavam ao ensino superior era quase
que exclusivamente oriundos das escolas privadas. Em tudo que estamos vendo
até aqui, a propalada luta de classes está presente, educação burlesca para a
camada mais pobre da população, escolas públicas com péssima infraestrutura nos
setores material e imobiliário, uma total discrepância em relação à educação das
camadas mais favorecidas da sociedade.

Mas como a escola atual lida com esse problema histórico da educação brasileira?
Antes de mais nada, convém lembrar que a nossa sociedade não é igualitária e
muito menos homogênea, temos sim, uma imensa massa de necessitados e uma
pequena parcela de pessoas mais favorecidas. Essa discrepância não é recente
e sempre se refletiu na educação, sendo essa utilizada como uma forma de
estratificação social, onde muitas vezes o homem é impedido de alcançar um novo
patamar social mediante sua melhoria financeira, continuando a ser um indivíduo
restrito em suas oportunidades.
38
No Brasil, a escola sempre representou um instrumento de manutenção da falta
de igualdade em relação a uma escala de valores sociais. A educação brasileira
sempre privilegiou a classe dominante (grandes empresários e políticos), a partir do
ponto em que de forma seletiva, fornece conhecimento e acesso aos bens culturais
a essa classe, para as demais camadas sociais, o sistema educacional se omite
deixando que os indivíduos dessa classe social busquem e/ou produzam os bens
culturais que irão consumir. Não vamos entrar na questão da atuação da Industria
Cultural e da mass media nesse processo, por estrita falta de espaço para abordar
um assunto tão extenso.

Mas, voltando à pergunta sobre o problema da nossa educação, revendo todas


as ações governamentais, nota-se que ainda hoje no Brasil repetimos os mesmos
comportamentos retrógados onde a educação é decidida de cima para baixo sem a
participação da sociedade, um processo autoritário (disfarçado de democrático, em
face da divulgação nos meios de comunicação) onde todo o sistema educacional
acaba subordinado ao arbítrio do estado. Nesse universo, o professor tem pouco
a fazer que vá de encontro ao estabelecido, isso se deve em parte, não apenas ao
domínio estatal, mas a completa falta de apoio às demandas que são levantadas
por setores da sociedade interessados no processo. Essa falta de apoio se explica,
primeiro numa questão quantitativa, a classe média e a classe intermediária (hoje
existente no Brasil, e que se situa entre a parcela que vive na pobreza extrema e a
classe média) representam a porção mais significativa da sociedade. A classe média
alcançou um status nas últimas três décadas que lhe possibilita abster-se do uso da
escola pública para a educação dos seus filhos, dessa forma todos os problemas
do sistema lhe são alheios. Já a classe intermediária possui uma característica
interessante, embora não esteja ainda numa faixa econômica de destaque, não
seja proprietária, nem pequenos produtores, por uma questão de vislumbre de
como vivem as classes média e alta, acabam por se tornar extremamente solidários
e até mesmo admiradores de algumas bandeiras levantadas e defendidas pela
classe burguesa, como uma tentativa de vencer a imobilidade social em que se
encontram.

39
Em relação à classe média, Marx já observava um comportamento passivo e
proditório19 no seu modo de vida:

Não são, pois, revolucionárias, mas conservadoras; mais ainda,


são reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da
história. Quando são revolucionárias é em consequência de sua
eminente passagem para o proletariado; não defendem então
seu próprio ponto de vista para se colocar no do proletariado.
(MARX & ENGELS, 2005, p.49).

Vê-se aqui, as classes buscando alternativas para conseguir ascender do seu


estágio atual ou evitar perder sua condição.

Mas a luta de classes se efetiva também de outras formas. No seio da escola,


professores pouco valorizados precisam se desdobrar para conseguir levar seus
alunos a aprenderem mais do que apenas ler, escrever e fazer contas, como querem
os responsáveis pelas políticas educacionais. Nesse processo eles se esquecem
que outras disciplinas, não apenas português e matemática, podem e devem ser
utilizadas para ajudar nessa empreitada. Mas o que se observa é que cada vez mais
os currículos relevam uma posição de segundo plano para as outras disciplinas.

A escola pública não ocupa a preocupação dos governantes no Brasil, sendo vista
como um fardo pesado e caro muitas vezes. É inadmissível que o governo corte
verbas da Educação e destine para pagamento de juros aos bancos internacionais.
Esse descaso com a educação pública, laica e gratuita escancarou uma exploração,
antes dissimulada, em algo aberto e brutal. Aqueles que podem pagar se rendem ao
sistema privado de ensino enquanto que aos mais desfavorecidos resta a educação
estatal. O que caracteriza essa eterna luta de classes é a forma como a classe
dominante vê todos aqueles que a ela não pertencem. Assim, a classe dominante

_______________________________________

19
Proditório- Desleal; Hipócrita.
40
Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu
as numerosas liberdades, conquistadas duramente, por uma
única liberdade sem escrúpulos: a do comércio [...] A burguesia
despojou de sua auréola todas as atividades até então
reputadas como dignasse encaradas com piedoso respeito.
Fez do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio
seus servidores assalariados. (MARX &ENGELS,2005, p.42).

Cada dia vemos planos governamentais que não são emancipadores do cidadão,
planos que propõem acima de tudo uma subordinação do indivíduo ao capital. Isso
ocorre tanto no meio urbano como no meio rural. O Estado, travestido de promotor
do bem comum, arruína todas as propostas acadêmicas e dos movimentos sociais
acerca da Educação, transformando-as em propostas pragmáticas que nada mais
fazem do que solidificar e aumentar o poder da classe dominante.

2.3 A escola democrática: solução ou problema?

Sempre que abordamos a questão de termos uma escola democrática, todos os


teóricos da Educação as inserem na linha da chamada Pedagogia Libertária20, cuja
tendência política, vê a Educação como transformadora da sociedade. Anteriormente,
vimos que a Educação não pode ser encarada como a única ferramenta capaz de
transformar o universo social, ou suprir suas carências. Em contrapartida, sem ela
nenhuma mudança acontecerá. Com isso as Pedagogias Progressistas (nela se
inclui a Pedagogia Libertária), passaram a instar por um novo modelo de escola,
onde o ambiente educacional deixe de ver o aluno como um mero coadjuvante e o
coloque como protagonista de todo o processo operacional da escola.

Essa proposta busca uma reinvenção do modelo escolar, uma escola que consiga
atender a pluralidade de indivíduos que a ela recorrem, uma gestão democrática

_______________________________________

20
Essa pedagogia é caracteriza por abordar a questão pedagógica por uma perspectiva que se
baseia na liberdade e na igualdade, revogando as atitudes autoritárias comuns no modelo tradicional
de educação.
41
(participativa) onde alunos, professores e funcionários tenham direitos iguais de
participação, para que se possa edificar um espaço comum, igualitário e responsável
para todos.

Uma outra premissa que se impõe nesse debate acerca da escola democrática,
é como o processo de ensino-aprendizagem se processa em sala de aula. Os
defensores da proposta pregam que o papel relevante desse processo pertença ao
aluno na obtenção de conhecimentos, enquanto os que são contra defendem que
a responsabilidade por esse conhecimento seja conduzida por uma pessoa com
saber homologado para tanto, que se preparou para a tarefa e que se apresente
aos alunos como o depositário dos conhecimentos que vai transmitir.

Os que desqualificam a pedagogia tradicional como a melhor opção para ensino no


Brasil, apontam que ela nada mais é do que um instrumento da classe dominante
para se manter, perpetuando “a desigualdade econômica entre os ‘organizadores’ e
os ‘executores’, trazendo desigualdade das respectivas educações”. (PONCE,1986,
p.25).

Ainda segundo Ponce (Idem,ibidem):

Para a manutenção da educação imposta pelas classes


dominantes, busca-se o cumprimento de três finalidades
essenciais, as quais são, em primeiro lugar a destruição dos
vestígios da tradição inimiga; a segunda finalidade está na
consolidação da classe dominante e, em terceiro, é essencial
uma educação que previna uma possível rebelião das classes
dominadas.

Os que defendem a adoção de uma escola democrática, apontam que ela é a única
alternativa possível para que se possa eliminar o autoritarismo reinante no sistema
educacional atual. Nos últimos tempos temos visto várias ações e mobilizações
estudantis contra o autoritarismo do estado em relação à educação, bem como a
participação dos estudantes em questões importantes para a sociedade como um
42
todo. Participação nos dois processos de impeachment (Collor de Melo e Dilma
Rousseff), e combate a ações governamentais de reestruturação da rede escolar
(estado de São Paulo).

Esse é um tema polêmico, pois cada educador, conforme suas convicções e suas
práticas, pode ficar ao lado de uma (Pedagogia Tradicional), ou da outra (Pedagogia
Progressista/Escola Democrática), cabe, entretanto, uma explicitação sobre o que
é realmente a escola democrática:

Na escola democrática o professor deixa de ser autoridade


ou transmissor do conhecimento para tornar-se mediador
das relações interpessoais e facilitador do descobrimento.
Os educadores são tutores responsáveis por determinados
alunos e, junto com eles, determinam quais conteúdos serão
estudados conforme a vontade do próprio aluno. Atuam como
orientadores e esclarecedores de dúvidas diferente do papel de
um professor autoritário e rígido das escolas tradicionais. A partir
deste conceito a relação professor-aluno torna-se de parceria e
ausente de qualquer tipo de autoritarismo ou inferioridade em
ambos os lados. (TOSTO, 2011, p.4).

43
Resumo

Na Unidade 2, estudamos a Educação e a Sociedade, desde os primórdios


vimos que devido a necessidade do homem de acumular e processar
conhecimentos, a Educação se tornou essencial para inserção desse homem
na sociedade.

Vimos que o advento da Revolução Industrial mudou a face da Sociedade e,


por conseguinte, a educação também sofreu com essas mudanças. Vimos
que importantes pensadores voltaram seus olhos para o sistema educacional
por reconhecerem nele uma arma contra a barbárie e a exploração do homem.

Nesta Unidade, estudamos os mais importantes importantes autores da Teoria


Crítica, defendida pelos teóricos mais representativos da Escola de Frankfurt:
Adorno, Horkheimer Benjamin e Marcuse. Vimos que os pensadores alemães
alertavam para que se evite o processo da semiformação e que se busque,
através da educação, a emancipação.

Vimos que no Brasil destacou-se a figura do educador Paulo Freire como


defensor de uma escola igualitária. Discutimos ainda a questão da luta de
classes no ambiente escolar, e a instauração de escola democrática a partir
de um novo modelo escolar.

44
Referências

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45
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46
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Adorno e sua apropriação para análise das questões atuais sobre currículo
e práticas escolares. Relatório final de pesquisa. Disponível em:<http://
www.pucminas.br/imagedb/mestrado_doutorado/publicacoes/PUA_ARQ_
ARQUI20120828100151.pdf>. Acesso em: 18.fev.2018.

47
Objetivos
• Discutir práticas pedagógicas e curriculares que
contribuam para um avanço da sociedade como um todo;
• Compreender propostas de práticas curriculares
emancipadoras e antenadas com as novas tecnologias;
• Contextualizar as novas práticas curriculares, um novo
modelo de professor que esteja em concordância com o
pressuposto para uma Educação do Século XX.

UNIDADE
3

O papel do educador na sociedade atual


Já nos demos conta que vivemos numa sociedade desigual e
estamental, onde o acesso aos serviços básicos previstos em
lei para facilitar a ascensão social e de padrões de vida são
dificultados e/ou de péssima qualidade, esse conjunto de ações
totalmente desproporcionais atingem diferentes indivíduos
dentro da sociedade, mas aqueles que possuem uma condição
econômica melhor, conseguem um arrimo mais eficaz contra
os efeitos das desigualdades do que a camada mais pobre da
sociedade, que como já dissemos não tem acesso a serviços
públicos diferenciados. Um exemplo dessa situação são as
periferias das grandes cidades. Com o crescimento urbano os

Curso: Licenciatura em Música


mais pobres foram sendo empurrados gradativamente para os
arredores dessas cidades, ficando longe do lazer, de uma efetiva
segurança, de bom atendimento de saúde e de uma educação
que produza resultados. Essa privação de certas satisfações
gerou um alto grau de necessidade (MASLOW,1962).

A Educação tem sido apontada como a ferramenta mais


importante para combater essas desigualdades, e também
como ferramenta para suprir as necessidades dos indivíduos.
Dessa forma se torna necessário, também, um professor
48
preparado para cumprir essa tarefa. Segundo Hoyle (1969 apud LIMA, 1996, p.49),
é bastante complexo definir a questão de papel dentro da sociedade, ele enumera
três aspectos que ilustram o seu conceito sociológico de papel:

a) um Status, ou seja, uma posição ocupacional específica;


b) um Padrão de Comportamentos, associado a essa posição, o qual é
independente das características dos indivíduos que a ocupam;
c) um Padrão de Expectativas Sociais, em relação ao ocupante da posição,
que tem a ver com a forma como ele deve agir.

Estabelecidas as características do papel do professor, resta dar a esse professor


e às escolas públicas condições de desenvolver plenamente suas atividades para
que ele possa obter êxito no que está proposto no currículo da escola para todas
as séries. Para o professor na atualidade os desafios são hercúleos, na tentativa
de vencer a primeira barreira que é a alfabetização das crianças, hoje os índices de
analfabetismo são imensos, principalmente em regiões mais pobres do país.

Na região mais afetada pelo problema (Região Nordeste), segundo o Censo de


201021, houve uma redução no número total de pessoas analfabetas, mas os
índices são alarmantes ainda. As faixas etárias mais afetadas são as que vão de
5 a 9 anos, e a faixa entre 15 e 59 anos. Embora tenha havido uma melhoria nos
números, o Indicador de Analfabetismo Funcional - INAF22, aponta que esse grupo
de pessoas representa uma parcela mais preocupante do que os considerados
analfabetos absolutos.

Mas como nos propomos no início a discutir qual o papel do professor na sociedade
atual, é necessário enfatizar algumas políticas de governo implementadas ao longo

_______________________________________

21
SAIBA MAIS SOBRE O CENSO 2010. Acesse : https://censo2010.ibge.gov.br
22
Disponível in: <https://www.todospelaeducacao.org.br/biblioteca/1087/inaf---indicador-de-
analfabetismo-funcional/>.
49
do tempo para resolver o problema do analfabetismo. Programas do passado como
o MOBRAL23 e atuais como o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), tem um ponto
em comum: fracasso.

Essa possibilidade de fracasso se explica pelo seguinte fato, como vimos temos
crianças entre 5 a 9 anos que não leem e não escrevem, em outro ponto do índice
vemos jovens de 15 anos que também não fazem uso da leitura e da escrita.
Ao serem inseridos no sistema escolar, como uma tentativa de erradicar esse
problema, passam pelo problema da adaptação à rotina de estudos pela falta de
“costume” (isso é mais grave nos jovens a partir dos 15 anos), sem contar que a
probabilidade de que existam outros analfabetos no seio da família que não ajudam
e/ou incentivam os jovens nessa nova rotina é grande.

O “Relatório Delors” (DELORS, UNESCO/CORTEZ,1998) enfatiza que um dos


pontos chave para o sucesso da escola e do trabalho dos educadores é o culto da
educação ao longo da vida como uma das metas da escola do século XXI, com o
mundo em vertiginosa mudança essa se tornou uma exigência premente, e para
superá-la impõem-se que cada um aprenda a aprender. Essa injunção é válida para
alunos e professores, sendo que esses últimos precisam passar por um processo
de formação continuada à medida que se faça necessária.

3.1 A atividade docente clássica e as mudanças no papel do professor

Em relação à formação continuada do professor, esta tem sido uma constante no


trabalho de pesquisadores e nos planos governamentais. Mas a verdade é que
ainda faltam ações que contribuam e auxiliem o professor na construção de suas
práticas. Segundo PIAGET (1988, p.25 apud MOREIRA & ALMEIDA, 2002, p.4):

A preparação do professor constitui a questão primordial de


todas as reformas pedagógicas pois enquanto não for resolvida
de forma satisfatória, será totalmente inútil organizar belos
programas ou construir belas teorias a respeito do que deveria
_______________________________________

23
Movimento Brasileiro de Alfabetização 50
ser realizado [...] A única solução racional: uma formação
universitária completa para os mestres de todos os níveis.

No passado, com uma menor exigência devido a uma sociedade menos complexa
em termos de transformações sociais, os currículos eram bem menos exigentes
e com um menor número de disciplinas, a formação pessoal do professor era
suficiente para a sua prática docente, era também uma escola excludente onde os
seus membros já traziam do ambiente familiar uma pré-educação iniciada pelos
pais, babás ou preceptores contratados para esse fim, muitas crianças ao chegar à
escola já sabiam ler e escrever. As que não se encaixavam nesse perfil não eram
aceitas.

Algumas mudanças foram acontecendo na sociedade ao longo do tempo e a


educação familiar foi substituída pela pré-escola (jardim da infância), nesse momento
aumentaram as responsabilidades dos educadores que agora recebiam “tábulas
rasas” com a incumbência de alfabetizá-las e prepará-las para as séries futuras.
As cobranças sobre os educadores atuais envolvem não apenas uma formação
adequada, mas principalmente que eles se assumam como um profissional múltiplo,
que não seja negligente e não assuma posições de neutralidade frente às forças
em constante conflito no ambiente educativo atual. Esse antagonismo de forças é
sempre de natureza política-ideológica, uma prática muito comum nas escolas hoje
e que, de certa forma, afeta o que não deveria: o trabalho pedagógico.

Nessa disputa ideológica temos de um lado os sindicatos, os movimentos sociais


com questões de conscientização política, questões de gênero, questões sociais,
questões raciais, religiosas etc., do outro temos a ideologia do estado, com currículos
decididos de cima para baixo em que todas essas questões são apresentadas sob
uma outra ótica daquelas que a sociedade demanda. Frente a tudo isso, o professor
na atualidade precisa assumir uma posição de humanista, focado na realidade
social da escola, dos alunos e do entorno onde a escola se encontra, afinal, esse
entorno é responsável por uma educação incidental que a escola formal não pode
fechar os olhos. É necessário que esse educador do século XXI se posicione
politicamente, não uma política partidária, mas uma a favor dos alunos visando seu
51
bem maior. Esse posicionamento começa pela elaboração de um currículo que seja
inter e transdisciplinar para que envolva vários setores da escola, envolva os pais e
outros setores da sociedade civil que possam contribuir para o processo de ensino–
aprendizagem dos jovens. As profundas transformações culturais, comportamentais
e históricas pelas quais passa a sociedade do século XXI, em decorrência de novos
meios de produção e novas conformações sociais, exigem que tenhamos currículos
diferenciados em detrimento dos currículos comuns adotados pelas secretarias de
educação. Nesse sentido:
Educadores e educadoras precisam engajar-se politicamente,
percebendo as possibilidades de ação social e cultural na luta
pela transformação das estruturas opressivas da sociedade
classista. Para isso, antes de tudo necessitam conhecer a
sociedade em que atuam, e o nível social, econômico e cultural
de seus alunos e alunas. (FERREIRA, 2003, p.56).

Os educadores do século XXI precisam desenvolver a característica de acreditar


(sem serem cândidos) no processo e no sistema educacional como um todo,
mas tendo em mente que a educação não é a solução para as necessidades da
sociedade, mas que sem ela dificilmente teremos uma profunda transformação no
que temos hoje.

Por último cabe destacar que como não há autonomia docente, os reformadores
precisam evitar a prolixidade em seus projetos e a profusão dos mesmos, bem
como adotar uma postura mais equilibrada, sem radicalismos teóricos em suas
propostas, que na maioria das vezes causam uma sensação de desamparo nos
professores, e uma insegurança nos pais e alunos em relação às reformas.

3.2 O professor e a busca de novas perspectivas

No final do século passado já experimentávamos uma rápida evolução sem


precedentes em todos os sentidos, a tecnologia fez desaparecer as distâncias
e a cada ciclo vemos novos avanços surgindo. Nesse sentido, velhos sistemas
educativos já não oferecem mais um modelo satisfatório, um que nos garanta
52
um certo grau de conforto para romper com antigos padrões que continuam a
obstaculizar nossa percepção sobre os fenômenos próprios da existência.

Uma forma de começar a combater tudo isso é termos professores interessados


e dispostos a usar todo o conjunto de “métodos pedagógicos mais modernos,
inovadores e interativos” (SINGH,1998, p.244), visando criar um projeto de Educação
do século XXI. Mas em um mundo multicultural os desafios são enormes, é preciso
escolas bem equipadas e um investimento em reciclagem do material humano, no
caso os professores, para que eles possam usar todos os recursos tecnológicos
e os Gadgets disponíveis. A vertiginosa expansão dos meios de comunicação,
em especial os audiovisuais, pode ser um diferencial na hora de se elaborar um
currículo amplo, diverso e muito próximo do universo incidental dos alunos.

O professor tem que estar propenso a sempre utilizar os recursos que objetivam
facilitar o seu trabalho pedagógico. Das enciclopédias aos sites de busca, do quadro
negro à lousa eletrônica e computadores, todas essas mudanças foram avanços
que possibilitam ao professor um novo modo através do qual ele pode ampliar
os horizontes de suas aulas, uma nova perspectiva para se trabalhar conteúdos
dos mais diversos com os alunos, e nos mais variados formatos: fotos, vídeos,
música, infográficos (estáticos e/ou animados). Todos esses recursos possibilitam
uma mudança de cena em sala de aula, sai aquela figura estática, parada em frente
aos alunos e entra o conteúdo (o que mais importa), acompanhado por uma voz em
off apenas referenciando, destacando as dúvidas e agregando informações ao que
estiver sendo apresentado.

Essas novas tecnologias permitem que o conteúdo seja apresentado por mais de
um professor, dependendo do formato que estiver sendo apresentado (vídeo, filme,
show etc.), num trabalho interdisciplinar, fluído, eficaz e de fácil assimilação. Em
2011, o Senado Federal aprovou o projeto de nº504/2011, que prevê que o número
máximo de alunos por turma na pré-escola, ensino Fundamental e ensino Médio,
seja de 25 alunos. Essas modificações são uma tentativa de romper com o modelo
tradicional de ensino onde temos um professor como o centro das atenções e um
grupo de alunos sentados passivamente apenas ouvindo a aula, ministrada em
métodos repetitivos e antiquados. 53
Os professores que conseguem ver além, logo percebem que quando se instaura
a desmotivação, todo o processo de ensino-aprendizagem fica comprometido. É
preciso que na hora de planejar, o professor esteja atento a todas as nuances que
determinada série apresenta, identificar com clareza as necessidades dos alunos, e
assim planejar suas aulas sempre visando motivá-los. A desmotivação, entretanto,
não significa que o professor não possua o conhecimento e o aprofundamento para
o trabalho, ela é fruto da estrutura antiquada, estrutura em que ele é obrigado a
apresentar as matérias constantes do currículo. Falar e ouvir por horas se torna
enfadonho tanto para o emissor como para o receptor, e dessa forma o aluno perde
o entusiasmo pelas aulas, a falta de vontade com as aulas acaba por se transformar
na falta de vontade de aprender, e essa falta de empenho é o que podemos chamar
de desmotivação, uma perda total do interesse pela aprendizagem.

Em 2013, o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da


Informação (CETIC)24 , realizou a pesquisa TIC Kids Online, e constatou que 77%
dos brasileiros com idade entre 9 e 17 anos são usuários da Internet, sendo que 80%
destes tem perfil em rede social, e 87% usaram a rede para auxiliar em pesquisas
para trabalho escolar. Dados como esses não podem ser desprezados e obrigam
tanto as escolas, como os professores, a buscar um novo modo de conceber suas
práticas para captar a atenção dos alunos.

3.3 A dimensão política e social do Currículo

Na sociedade contemporânea, as enormes mudanças na economia, na política, e


as grandes transformações sociais provocaram um efeito muito forte na Educação,
e tudo isso torna inevitável que os educadores reavaliem suas práticas e seus
paradigmas para se acomodar nesse novo cenário. Embora a escola não seja a
única força motora das grandes mudanças da sociedade, não resta dúvidas que o
crescimento do setor de serviços em franco antagonismo ao setor manufatureiro,
e um rápido aumento da tecnologia, conhecimento e criatividade, se tornaram de
extrema importância para a sociedade moderna.
_______________________________________

23
Para saber mais sobre o CETIC. Acesse: http://cetic.br/ 54
Nesse cenário, a Educação tem um papel essencial como formadora das futuras
gerações:
A escola tem, pois, o compromisso de reduzir a distância entre
a ciência cada vez mais complexa e a cultura da base produzida
no cotidiano, e a provida pela escolarização. Junto a isso tem,
também, o compromisso de ajudar os alunos a tornarem-se
sujeitos pensantes, capazes de construir elementos, categorias
de compreensão e apropriação crítica da realidade [...]
Diante dessas exigências a escola precisa oferecer serviços
de qualidade e um produto de qualidade, de modo que os
alunos que passam por ela ganhem melhores e mais efetivas
condições de exercício da liberdade política e intelectual. É
este o desafio que se põe à educação escolar neste final de
século. (LIBÂNEO, 2007, p.4).

Para alcançarmos a qualidade necessária é preciso reformular o modelo atual, que


se mostrou defasado e obsoleto, situação que pode ser comprovada nos índices do
Censo Escolar25 em relação ao conhecimento demonstrado pelos alunos. Portanto,
para que a escola consiga atender adequadamente os jovens, precisamos de
professores capazes de se adaptar à nova realidade social, didática e cultural da
sociedade:
O novo professor precisaria, no mínimo, de uma cultura
geral mais ampliada, capacidade de aprender a aprender,
competência para saber agir na sala de aula, habilidades
comunicativas, domínio da linguagem informacional, saber
usar meios de comunicação e articular as aulas com as mídias
e multimídias. (Ibidem, p.4).

Outro elemento fundamental nesse processo é o Currículo. Surgido em meados


do século XIX, a partir da tentativa de organização e da escolha de conteúdos
adequados para atender às necessidades dos alunos. Ao longo de todo esse
_______________________________________

25
SAIBA MAIS SOBRE O CENSO ESCOLAR.Acesse: http://portal.inep.gov.br/censo-escolar/
55
tempo, o currículo passou por uma série de modificações e usos, visando atender
às mais diversas situações e pontos de vista, um desses pontos visava transformar
rapidamente e a baixo custo o processo de escolarização, a industrialização do
período exigia um processo rápido de educação das massas. Os responsáveis
pela elaboração dos currículos acreditavam, seguindo uma visão taylorista26, que
a eficácia seria alcançada tendo-se uma planificação precisa que possibilitasse
atingir objetivos claros e medíveis.

O mais importante pressuposto teórico sobre o currículo, foi desenvolvido por


um professor da Universidade de Chicago chamado Ralph Tyler para ser usado
na disciplina, que ele ministrava, Educação 36027. Suas teorias passaram a ser
conhecidas como “princípios Tyler”, esses princípios acabaram por se tornar um
dogma adotado pela maioria dos autores na década de 1960. Sua teoria gira
em torno de quatro interrogações principais, que ele apontava que deveriam ser
respondidas antes que a elaboração do Currículo se iniciasse:

1 Que objetivos educacionais deve a escola procurar atingir?


2 Que experiências educacionais podem ser oferecidas que possibilitem a
consecução desses objetivos?
3 Como podem essas experiências educacionais ser organizadas de modo
eficiente?
4 Como podemos determinar se esses objetivos estão sendo alcançados
(TYLER, 1950 apud KLIEBARD, 2011, p.24).

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26
O Taylorismo foi o sistema de organização do trabalho concebido pelo engenheiro norte-americano
Frederick Winslow Taylor, com o qual se pretende alcançar o máximo de produção e rendimento
com o mínimo de tempo e de esforço.
27
No Brasil ocorre um evento promovido pelo Jornal O Globo e pelo Jornal Extra, que já está na sua
4ª edição, chamado Educação 360. Esse encontro reúne palestrantes do Brasil e do exterior para
discutir, vivenciar e pensar a educação sob diferentes e novos pontos de vista e põem em prática
iniciativas transformadoras. Esse evento é inspirado e uma homenagem às teorias de Ralph Tyler.

56
Ainda segundo Kliebard:

Essas perguntas podem ser formuladas no processo de quatro fases através do qual
o Currículo é elaborado: enunciar objetivos, selecionar “experiências”, organizar
“experiências” e avaliar. Os princípios de Tyler são, em essência, uma elaboração
e explicitação dessas fases. A fase mais crítica, nessa doutrina, é, obviamente, a
primeira, já que todas as demais decorrem e se fundamentam no enunciado dos
objetivos. (KLIEBARD, 2011, p.24).

Para Tyler, o objetivo da Educação tem sua origem na obtenção de conhecimentos


acerca dos alunos, sobre o modo de vida atual e nas propostas de especialistas.
Foram muitos os pressupostos teóricos de vários especialistas, e todas foram
acolhidas por Tyler, alguns teóricos defendem que decorre daí a popularidade do
seu trabalho até os dias atuais.

Mas não podemos nos levar só por propostas teóricas importantes e válidas, mesmo
que a proposta de Tyler esteja enxertada pelo pensamento de inúmeros pensadores
da Educação, por focar em objetivos, ela afasta o professor da sua formulação. Os
objetivos, é preciso não esquecer, seriam sempre o grande leitmotiv28 que iria animar
todo o planejamento didático nas décadas seguintes (SOUSA, 2002). A realidade é
que os currículos ainda são decididos de forma pouco participativa, e para contornar
tudo isso e se colocar como parte do processo, o professor precisará, muitas vezes,
ter um posicionamento para resolver e conter as situações que possam ocorrer
em sala de aula, sejam elas pedagógicas, políticas, ou de socialização. Ao aceitar
tacitamente o que é imposto através do currículo, o professor se omite com relação
às situações inesperadas que acontecem, a sala de aula é um universo complexo e
múltiplo. Um espaço onde as mudanças só ocorrem quando o professor se propõe a
recusar o que lhe é exigido, e demonstra inconformismo com as diretrizes impostas
pelo instrumento curricular.

_______________________________________

28
É uma técnica de composição introduzida por Richard Wagner em suas óperas, que consiste
no uso de um ou mais temas que se repetem sempre que se encena uma passagem da ópera
relacionada a uma personagem ou a um assunto.
57
Adorno (1995) defendia a escola que conduzisse à responsabilidade. A ideia de
responsabilidade, proposta por Adorno, visava libertar o indivíduo da sua condição
de apadrinhado, que pensa estar sendo protegido. A sala de aula não pode continuar
sendo um lugar de conformismo, que aceite um currículo insuficiente que conduz à
semiformação, uma prática ultrapassada que não condiz com a educação que se
quer no século XXI. O currículo não pode ser visto apenas como um instrumento
técnico, elaborado de forma científica por quem conhece os princípios do mesmo ou
como um documento apolítico. Não deve ser visto com neutralidade como apenas
um organizador do conhecimento.

O Currículo, da forma como os órgãos estatais o concebem, é uma peça política


antes de tudo, com a função de compartilhar ideias com a ideologia dominante,
sendo uma forma de controlar a Sociedade e a Cultura, um apêndice das estruturas
de poder. Elaborado exclusivamente por instituições estatais (Ministério, Secretarias
e Autarquias) fica clara a dimensão política subjacente que o currículo possui.

3.4 Os Quatro Pilares da Educação

As inúmeras tecnologias surgidas no fim do século XX nos conduziram a um novo


patamar no que se refere à interação, hoje as informações mais atuais chegam até
nós quase ao mesmo tempo em que são produzidas, e ficam à disposição de quem
delas quiser fazer uso. É uma informação em mão dupla, porque ao mesmo tempo
em que recebemos, transmitimos, discutimos e também, nos tornamos produtores
de conteúdo. Essa Era da Comunicação está moldando a sociedade do futuro, o
local e o global, hoje, convivem no mesmo espaço.

Frente aos inúmeros desafios que a pós-modernidade nos apresenta, a UNESCO


preocupada com a situação da Educação, vista como um “algo mais”, para que
a sociedade possa executar projetos visando fazer recuar a pobreza, a exclusão
social, as guerras, o preconceito em todas as suas formas, o xenofobismo (interno e
externo), a opressão etc., instalou em 1993 uma comissão (Comissão Internacional
sobre a Educação para o Século XXI29), onde reuniu especialistas dos seis
continentes em Paris para discutir os rumos da Educação no novo século. Em face
58
disso, doravante vamos nos referir ao texto que foi elaborado a partir das discussões
da comissão, como o Relatório Delors, e nos interessa aqui neste espaço o capítulo
4 do relatório intitulado: Os Quatro Pilares da Educação. O relatório afirma que:

A Educação deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz,


cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados
à civilização cognitiva, pois são as bases das competências
do futuro [...] à Educação cabe fornecer, de algum modo, os
mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e,
ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele.
(UNESCO,1998, p.89).

O relatório aponta que a educação, para corresponder a tudo que se espera


dela, que possa cumprir as suas missões, deve se estruturar em torno de quatro
aprendizagens que serão os pilares do conhecimento do indivíduo:

• Aprender a conhecer

Trata da conquista dos instrumentos necessários para a aquisição de conhecimento,


da compreensão. O aprender a conhecer é um meio e um fim que deve ocorrer ao
longo da vida, despertando no aluno a capacidade de aprender cada vez mais e
melhor.

• Aprender a fazer

Trata da capacidade de ação no meio que nos envolve. Com o advento da


Revolução Industrial as máquinas substituíram o homem no trabalho, isso tornou a
atividade laboral mais intelectual. Esse pilar deve ser visto com cuidado sob pena
de transformar a educação em uma tarefa banal. Uma mera educação técnico-
profissional.
_______________________________________

29
Trata-se do Relatório para a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura) da Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI. Elaborado com
a contribuição de especialistas do mundo todo, iniciado em março de 1993 e concluído em setembro
de 1996, o documento ficou conhecido pelo nome de seu coordenador Jacques Delors.
59
• Aprender a viver com os outros

Este pilar é um dos maiores desafios para os professores e para os elaboradores


dos currículos. Ele foca na questão das atitudes e valores. Nele incluiu-se os
preconceitos de todas as formas, os conflitos étnicos, religiosos, ideológicos, de
gênero etc., muito embora o relatório não avance em propor estratégias claras
para superar o problema, ele sugere que: “a descoberta gradual do outro e a
participação em projetos comuns que surge como veículo para a dissolução de
atritos”. (UNESCO, 1998, p.96-99).

• Aprender a ser

Este pilar é a porta de integração entre todos os pilares, ele depende diretamente
dos outros para se efetivar. Nesse ponto, o relatório diz que os pilares na prática
representam um só, pois há pontos de convergência e de permuta entre eles. Esses
quatro pilares só poderão acontecer na presença de um currículo inovador, isento
de influências políticas, caso contrário ele se resumirá apenas aos dois primeiros
que já podem ser encontrados nos currículos obsoletos que temos hoje em dia.

Para os membros da comissão, para enfrentar os grandes desafios do século XXI


é preciso mudar a ideia que se tem da educação hoje em dia, e indicar novos
objetivos, uma nova concepção de educação que possa revelar todo o potencial
escondido em cada indivíduo:
[...] supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da
educação, considerada como a via obrigatória para obter certos
resultados (saber-fazer, aquisição de capacidades diversas,
fins de ordem econômica), e se passe a considerá-la em toda
a sua plenitude: realização da pessoa que, na sua totalidade,
aprende a ser. (UNESCO,1998,p.90).

60
Resumo

Nesta Unidade, vimos que numa sociedade desigual, com um alto grau de
necessidades, a educação tem sido apontada como uma ferramenta para
supri-las. Vimos o drama da educação no Brasil em relação ao grande número
de analfabetos completos e funcionais;

Vimos também que para conseguir vencer essa guerra, uma preparação
adequada do professor é primordial, e deve ser a meta das todas as reformas
pedagógicas. Outro elemento estudado na Unidade 3 diz respeito à formação
adequada do professor, que para tanto tem que estar disposto a usar todos
os recursos possíveis.

Também vimos na Unidade, que a adoção de um currículo amplo, diversificado


e que seja próximo da realidade dos alunos é uma ferramenta importante.
Vimos ainda que o Relatório Delors (UNESCO) traça alguns pilares que são
a base para que se tenha uma Educação adequada para o Século XXI.

61
Considerações Finais

Ao longo desse e-Book buscamos apontar o pensamento de grandes pensadores da


política, da Educação e das Ciências Sociais que em suas teorias tentaram mostrar
a influência da política, da ideologia e do poder econômico sobre a Sociedade e seus
reflexos na educação, principalmente na forma de organizar conhecimentos no seio
da escola buscando antes de mais nada a manutenção do poder de dominação
dos mais ricos sobre os mais pobres. O Banco Mundial através do seu World
Development Report (WDR)30, prevê que o Brasil deve levar 260 anos para chegar
ao mesmo estágio das nações mais ricas em Leitura e 75 anos em Matemática. Em
pleno século XXI continuamos a ver políticas estatais semelhantes às que existiam
no século XIX e primeira metade do século XX, e pode-se constar que a luta de
classes ainda persiste e, numa visão mais realista, até recrudesceu.

Por fim, se faz necessário leituras complementares para um maior aprofundamento


acerca do assunto que se configura extremamente complexo e multifacetado em
suas teorias e usos.

_______________________________________

30
O Relatório de Desenvolvimento Mundial (WDR) do Banco Mundial, publicado anualmente desde
1978, é um guia inestimável para o estado econômico, social e ambiental do mundo de hoje. Em
2018 foi a primeira edição totalmente dedicada a Educação, com o título “Aprender a realizar a
promessa da educação”.

62
Referências

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FERREIRA, M. J. O Papel social do professor: uma contribuição da filosofia da


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LIMA, Jorge M. Ávila de. O Papel de Professor nas Sociedades Contemporâneas.


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– UMA VIDA QUE FAZ EDUCAÇÃO. (RE-SIGNIFICANDO A HISTÓRIA
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64